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Histórias da Índia

Eunice de Souza
Tradução Isa Mesquita
Ilustrações Maurício Negro
Temas Gratidão • Desprendimento • Celebração • Perspicácia • Sabedoria
Justiça • Autenticidade • Veracidade • Merecimento • Determinação
Guia de leitura
para o professor

64 páginas

apresentação A autora Eunice de Souza nasceu em Poona,


Índia. Doutora pela Universidade de Bombaim e
mestre em Literatura Inglesa pela Universidade
As dez histórias presentes em Histórias da Índia têm pro- Marquette, Estados Unidos, lecionou no
St. Xavier’s College, Bombaim, por dez anos.
veniências distintas e representam bem a diversidade cul-
Publicou os livros de poesia Fix (1979),
tural do país. Fazem parte de repertórios regionais e tradi- Women in Dutch painting (1988), Ways of
cionais cujas origens muitas vezes não podem ser traçadas, belonging (1990) e Selected and new poems
devido à antiguidade de suas fontes e também por serem, (1994); organizou com Adil Jussawalla
em sua maioria, contos típicos da tradição oral. antologia de prosa indiana (em inglês);
As narrativas tratam dos mitos de criação (“O dia em publicou Talking poets, livro de entrevistas
com poetas indianos; organizou a antologia
que o Sol se recusou a brilhar”, “Como os homens muda-
Nine Indian women poets; e escreveu diversos
ram” e “Como surgiu a cócega”), apresentam o tema da har- livros para crianças. Poemas seus têm sido
monia permanente no mundo (“O falso faquir”, “A filha do incluídos em antologias em vários países.
sábio”, “A galinha roubada” e “O agente de casamento e o O ilustrador Maurício Negro nasceu em 1968,
leopardo”) e trazem episódios que valorizam a sagacidade em São Paulo, capital. Designer gráfico, ilustrador
(“Gopal e o nababo”, “Os príncipes transformados em e escritor, formado em Comunicação pela Escola
pedra” e “Um garoto cego faz um pedido”). Superior de Propaganda e Marketing (ESPM),
Assim categorizadas – e situadas para além de qualquer ilustrou mais de uma centena de livros, muitos dos
categorização, por possibilitarem que cada leitor vivencie seu quais premiados, e participou de várias exposições
e catálogos, no Brasil e no exterior. É autor, entre
conteúdo de forma particular –, as histórias constituem rico outros títulos, de Mundo cão (São Paulo: Global,
material para mediar nosso contato com a cultura indiana
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1999), Balaio de gato (São Paulo: Global, 2000)


e, ao mesmo tempo, um ponto de referência para nos vol- e Quem não gosta de fruta é xarope (São Paulo:
tarmos, com nova perspectiva, para nossa própria cultura e Global, 2006), e integra o conselho da Sociedade
tradições narrativas. dos Ilustradores do Brasil (SIB).
Histórias da Índia Eunice de Souza

Panorama histórico da civilização indiana


Sistema social O período mais antigo da civilização indiana de que temos no-
O sistema social da Índia é bastante tícia remonta a um numeroso conjunto de ruínas localizadas na
complexo, pois o país é composto região noroeste do país, escombros de cidades que permaneceram
de muitas etnias, culturas regionais habitadas até aproximadamente o século XV a.C. Não há informações
e história milenar de influência sobre a origem da sociedade que construiu essas cidades, conhecidas
estrangeira. Chama a atenção o como civilização do vale do rio Indo, mas estima-se que ela tenha se
princípio de organização social estabelecido naquela região por cerca de dois milênios. Só é possível
conhecido como sistema de castas. A obter informações sobre a cultura do vale do Indo por meio das ruí-
palavra “casta” remete, em português, nas e dos objetos ali encontrados, nos quais figuram muitas tabuletas
à ideia de pureza e, por essa razão, com símbolos que até hoje não foram coerentemente decifrados.
os estudiosos não a consideram boa Outra importante cultura que constituiu a Antiguidade in-
tradução para o termo sânscrito que diana é a civilização védica. Ela também floresceu no espaço geo-
dá nome a esse sistema social. A gráfico do vale do Indo e se formou provavelmente a partir do
sociedade é dividida em grupos sociais intercâmbio cultural feito entre os povos aborígines indianos e os
que são chamados, em sânscrito, de nômades provenientes da região do Cáucaso. A civilização védi-
varna, que significa “cor”, devido tanto ca surgiu em torno do século XV a.C. e permaneceu fortemente
a elementos étnicos envolvidos na instituída até cerca de VIII a.C., sem nunca desaparecer por com-
história social da Índia como ao fato pleto, pois se manteve, ao longo dos milênios, como uma espé-
de que cada um possui uma cor que cie de prática ortodoxa do hinduísmo. Os brâmanes, sacerdotes
o simboliza. São eles os brâmanes, dessa cultura, propagavam a execução de rituais como elemen-
os xátrias, os vaixás e os sudras. Os to central no cotidiano dessa sociedade. E no cerne dos rituais
brâmanes são os encarregados da estavam as coleções de textos compostos em língua sânscrita, em
sabedoria, sacerdotal e filosófica. grande parte poéticos, chamados de Veda, que significa “sabedo-
Os xátrias são responsáveis pela ria”. Essas obras, preservadas em manuscritos e na tradição oral,
manutenção e pela defesa do território. são tratadas com grande reverência pelos hinduístas.
Os vaixás ocupam-se da produção No século VIII a.C., começaram a se consolidar os valores que
mercantil e agropastoril. E os sudras caracterizam o hinduísmo, com os conceitos de transmigração da
realizam os trabalhos pesados e alma, carma e libertação dos ciclos de reencarnação. Nesse perío-
considerados indignos pelos demais, do, um movimento cultural se expandiu pelo norte do território
além de artesanato e produção manual. indiano, nos arredores do rio Ganges, e difundiu as primeiras for-
Na história da Índia antiga, mulações historicamente documentadas a respeito da ioga. Desse
percebe-se certa mobilidade entre movimento cultural também surgiram os princípios do budismo
as funções sociais, tendo havido, e do jainismo, que renegam a tradição textual védica e, por essa
por exemplo, dinastias de reis razão, não são considerados religiões hinduístas, ainda que sejam
provenientes do grupo dos sudras. A indianos na origem. Nesse período, as escolas de pensamento pas-
Constituição indiana, que data de sua saram a difundir as práticas meditativas, as reflexões sobre a inter-
independência do domínio inglês, dependência da fisiologia e da consciência e as concepções de “mi-
proíbe qualquer tipo de discriminação crocosmo” e “macrocosmo”, que veem o ser humano e o universo
embasada nesse antigo sistema de como espelhos um do outro.
divisões sociais. No século III a.C., com um rei conhecido como Ashoka, que
governou entre 270 e 232 a.C., ocorreu pela primeira vez a unifi-
cação dos vários reinos que existiam autonomamente no territó-
rio indiano. Costuma-se dizer que foi nesse período que a Índia
assumiu uma feição territorial parecida com a que tem hoje. Essa

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unidade territorial foi mantida apenas até o final da dinastia à


qual o rei Ashoka pertencia, chamada de dinastia Maurya, cujo
fim se deu por volta de 183 a.C.
A partir desse período, a civilização indiana passou por gran-
des ebulições culturais, com a difusão do budismo e a propaga-
ção das formas populares do hinduísmo, caracteristicamente de-
vocionais. No início da era cristã, o culto devocional aos deuses,
sob o fundamento de doutrinas bastante complexas, expandiu-se
intensamente e figurou nas artes literárias e visuais com numero-
sas representações de um igualmente numeroso panteão.
No primeiro milênio da era cristã, o hinduísmo se consolidou
como amplo conjunto de práticas e doutrinas religiosas, unifica-
do pelo bramanismo e diversificado pelos elementos das culturas
regionais, as quais mantiveram muitas de suas peculiaridades,
tanto nos costumes, na língua e na música como em outras ma-
nifestações culturais.
No início do século XIII d.C., após séculos de presença islâ-
mica na Índia, assistiu-se a um verdadeiro domínio muçulmano,
que passou, a influenciar fortemente a política, a economia e as
práticas sociais. No século XVIII, a presença britânica sucedeu o
império muçulmano, levando a Índia, dessa vez, ao estatuto de
colônia por cerca de dois séculos.
No início do século XX, as demandas pela independência con-
seguiram ampliar o poder local diante do império britânico, sendo
propagadas entre a população como uma questão urgente. Na luta
interna e na divulgação internacional da causa indiana, Mohandas
Karamchand Gandhi (1869-1948) destacou-se como a perso-
nalidade mais influente no processo pacífico de independên-
cia, ecoando, em sua voz, os anseios coletivos de milhões de
pessoas que se viam sem condições mínimas de subsistência.
Gandhi assumiu papel de liderança com um posicionamento ético
embasado em valores antigos do hinduísmo, concentrando em si
mesmo e em seu discurso os ideais da ahimsa e do satya-graha
– “não violência” e “veracidade”, respectivamente. Os ideais de
Gandhi propunham uma forma pacífica de resistência, por meio
da desobediência civil, contra o autoritarismo imperial.
Em 11 de junho de 1947, a Índia libertou-se do domínio inglês
e, em 15 de agosto do mesmo ano, ocorreu uma divisão territo-
rial, estabelecendo limites de fronteira entre Índia e Paquistão,
mais como fruto do confronto do que como solução para os se-
culares conflitos vividos entres hinduístas e muçulmanos. Desde
então a Índia é uma democracia e uma república livre.

O universal e o regional na civilização indiana


A importância dada ao sânscrito fez com que se tornasse uma
língua de cultura, isto é, que ultrapassa as fronteiras regionais

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Histórias da Índia Eunice de Souza

das variadas tradições presentes na civilização indiana. Em meio às


Mitologia muitas tradições que se desenvolveram paralelamente, o sânscrito
A Índia, como toda cultura tradicional, tornou-se a língua de composição daqueles que pretendiam ter suas
sempre fez, e ainda faz, intenso uso obras compreendidas além dos limites de sua localidade de origem.
das histórias como fonte de sabedoria, Há, com isso, na milenar história da Índia, duas tendências
não como conhecimento técnico, culturais opostas, mas que sempre se estimularam reciproca-
mas como forma de instrução para a mente: uma, de origem sânscrita, universalizadora; a outra,
relação do ser humano com o mundo representada pelo conjunto das centenas de línguas e dialetos in-
natural e com seus semelhantes. dianos, de caráter regional.
Por essa razão, as narrativas que O conjunto das dez narrativas de Histórias da Índia repre-
classificamos como mitos e contos senta uma amostra bastante expressiva da pluralidade regional
populares são tratadas com grande da cultura indiana. Cada uma delas provém de uma cultura e
respeito pelos indianos. A oposição região e remete, dessa forma, a tradições específicas. Apenas “A
que o senso comum costuma fazer filha do sábio” deriva de uma obra composta em língua sânscri-
entre “mito” e “verdade”, nesse ta, conhecida como Panchatantra. As demais nos fazem sentir
sentido, é somente uma percepção quanto cada região, mesmo que interligada às demais áreas do
pouco aprofundada da função da território nacional, possui uma tradição específica, que se revela
atividade narrativa. O mito não se nos contos passados de pais para filhos, na culinária, nas práticas
propõe como uma “verdade” na religiosas, nas festas populares, na música, na dança etc.
mesma categoria que os conceitos
científicos; ele trata dos sentimentos, Mitologia, contos populares e sabedoria
das relações dinâmicas entre o Na Índia antiga, a mitologia e o conhecimento que entende-
sujeito, que percebe, e o mundo, mos hoje como científico eram tratados com reverência e respei-
que é percebido. A ciência tem to. Sabemos que o povo indiano desenvolveu, além do extenso
como meta aproximar-se o máximo repertório de temas mitológicos, vasto conhecimento das prá-
possível da descrição objetiva do ticas médicas (incluindo pequenas cirurgias), das ciências as-
mundo. Em outras palavras, ciência trais, das descrições linguísticas, bem como das artes dramáticas,
e mito estabelecem suas respectivas musicais e literárias. Nota-se, com isso, que mito, ciência e arte
sabedorias de modo particular. não são elementos que necessariamente se opõem em uma so-
ciedade. No caso da Índia, essas várias formas de construção e
transmissão de conhecimento foram se fortalecendo de maneira
recíproca durante séculos.
Por essa razão, pode-se buscar sabedoria nas histórias não sim-
plesmente como dado científico ou como orientação “moral” que
procura encerrar em poucas palavras “o que o autor queria dizer”,
mas como um ponto de partida para reflexões sobre a vida, a morte,
o amor – em suma, sobre o significado da existência humana.
As histórias “O dia em que o Sol se recusou a brilhar”, “Como
os homens mudaram” e “Como surgiu a cócega” possuem estrutu-
ras mitológicas semelhantes. Elas descrevem a origem de fatos ou
fenômenos naturais com os quais estamos acostumados – o canto
do galo para o nascer do Sol, a ausência de rabo no corpo humano
e a sensação física da cócega. Nessas narrativas, não há preocupação
apenas com a descrição do mundo natural, mas, sobretudo, com os
sentimentos diante do nascimento do dia, do corpo humano e de
uma experiência tátil.

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A virtude pessoal e a lei universal


Panchatantra É uma atribuição bastante comum das narrativas indianas o
O Panchatantra consiste num repertório ensinamento de como o indivíduo deve comportar-se diante da
inestimável de fábulas que foram vida social. Segundo muitas vertentes filosóficas da Índia antiga,
transmitidas aos povos europeus por a virtude pessoal e a lei universal dependem uma da outra, e sem
meio da cultura árabe. Em sua origem, uma perfeita harmonia entre as duas a sociedade entra em declí-
a coleção de histórias do Panchatantra nio. Por essa razão, cada um deve conhecer a si mesmo e vincu-
tinha como função o ensino da lar-se com muita naturalidade a seu lugar no mundo, social e
conduta social àqueles destinados a se religiosamente. Existe uma palavra, em sânscrito, que sintetiza
ocupar dos assuntos de Estado, fossem essa ideia: dharma. O dharma é, ao mesmo tempo, virtude pes-
reis, príncipes ou administradores. soal e lei universal; graças a ele, os ciclos biológicos (de nascimento,
Os enredos dessas fábulas trazem a desenvolvimento, maturidade e declínio) e os cósmicos e naturais
personificação de animais que, em (sucessão das estações do ano, os movimentos planetários, a renova-
seus atos, ilustram situações vividas ção das águas etc.) acontecem de maneira harmoniosa. Nesse senti-
nas relações humanas. Seus conteúdos do, o indivíduo, quando executa virtuosamente seu papel em meio à
remetem ao século II a.C., mas a forma dinâmica da sociedade, está agindo de acordo com o dharma.
de composição que foi preservada é As histórias “O falso faquir”, “A galinha roubada” e “O agente de
posterior e data da metade do primeiro casamento e o leopardo” exemplificam bem a harmonia da sucessão
milênio da era cristã. dos fatos que leva os personagens a experimentar o dharma. Em
“O falso faquir” e “A galinha roubada”, as pessoas que agiram de
forma não virtuosa respondem pelas consequências de seus atos. Na
história “O agente de casamento e o leopardo”, o agente continuou
cumprindo sua função, unindo mais um casal, até mesmo quando
pretendia livrar-se de um animal que lhe dava medo.
O ensinamento do dharma almeja, em última instância,
mostrar para as pessoas que o indivíduo é parte de um todo e
que, quanto mais ele se aproxima desse ideal, mais natural se
torna a virtude em sua vida. Trata-se de uma postura ativa de
confiança em relação à vida e ao mundo, nunca abrindo mão
da ação e sempre levando em conta que esta deve ser realizada
segundo princípios mais amplos do que o interesse individual.
Um caso à parte é o da história “A filha do sábio”, em que
a menina que um dia já foi rato abnega o casamento com o Sol,
com a nuvem, com o vento e com a montanha, para, ao final desse
percurso, ver no rato o esposo ideal. Nessa narrativa, estão embutidas
duas concepções importantes: as pessoas devem manter-se fiéis aos
lugares que ocupam no mundo, e a materialidade dos objetos que
dominam os sentidos deve ser ultrapassada para o ser humano al-
cançar a própria essência. Os quatro pretendentes são feitos dos
quatro elementos mais densos da constituição da matéria: fogo,
água, ar e terra. Eles são substância de todo corpo material e objetos
primordiais que podem escravizar os sentidos. Negar o casamento
com os quatro pretendentes sugere um percurso de superação dos
sentidos e uma busca por estado existencial mais elevado, o qual a
ioga e a alquimia indiana (rasayana) tinham como grande meta.

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Desafios na literatura oral e nos contos populares


Mahabharata É bastante comum na literatura popular a prática do desafio, em
O Mahabharata é uma das obras mais que alguém é incitado a dar respostas rápidas sobre determinado
conhecidas da literatura sânscrita. tema. Nesse exercício poético, os autores populares devem ser
Os estudiosos europeus o classificam ligeiros, tanto na composição, apelando ao improviso, como em
como literatura épica, e a tradição sua elocução, rimando e versificando com maestria. Na literatura
indiana como itihasa. O termo itihasa oral, cada performance equivale a um momento criativo único, visto
significa “assim (iti) de fato (ha) que aquilo que o contador sabe de cor são fórmulas que podem ser
ocorreu (asa)” e indica que o relato desenvolvidas e reformuladas e não textos fechados. O cantador
presente no Mahabharata constitui adapta as histórias de seu repertório às circunstâncias do momento
um acontecimento de fato ocorrido, em que está narrando ou versificando.
entendido da mesma forma que Existe aí um paralelismo: os desafios se apresentam aos perso-
entendemos, por exemplo, a história. nagens da mesma forma que aparecem aos poetas da literatura oral,
Seu enredo traz o relato de uma guerra quando dois deles se encontram. Na vida, os recitadores precisam
de proporções mundiais que envolve mostrar sua competência em superar os requintes de composição
dois reinos. Apesar de inimigos, os dois de seu oponente. Nas histórias, os personagens devem responder
lados estão intimamente relacionados, rapidamente às questões com que deparam e utilizar a linguagem
pois há parentes, mestres e amigos de maneira engenhosa para colher bons frutos das circunstâncias
separados no campo de batalha. No em que se encontram.
instante em que a batalha deve ser As histórias “Gopal e o nababo”, “Os príncipes transformados
iniciada, o herói chamado Arjuna em pedra” e “Um garoto cego faz um pedido” trazem situações em
inquieta-se com a ideia de ter de lutar que os personagens devem ser sagazes. Em “Gopal e o nababo”
contra pessoas queridas. Essa situação essa virtude provém da simplicidade de um barbeiro. Em “Os
dá início a um diálogo que tratará dos príncipes transformados em pedra” falta sagacidade aos príncipes,
deveres sociais e do verdadeiro sentido mas sobra ao rei, que se dispõe a ensiná-los. E em “Um garoto cego
da vida. Esse diálogo, que consiste faz um pedido” o menino procura satisfazer, com um único pedido,
em 18 capítulos do Mahabharata, todos seus desejos e necessidades. As histórias demonstram o uso
é chamado de Bhagavadgita. O bem articulado da expressão verbal com o pensamento rápido,
Bhagavadgita tem sido transmitido de improvisado, mas preciso, tal como faziam, e ainda fazem, seus
forma independente, ao longo dos narradores.
séculos, como escritura sagrada do
hinduísmo. O Mahabharata, incluindo
o Bhagavadgita, é uma obra coletiva
que foi composta entre os séculos
III a.C. e III d.C.

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Dialogando com os alunos


Antes da leitura
1. Estimular os alunos a comentar sobre os conhecimentos que pos-
suem em relação à Índia. Questionar acerca da culinária, da religião,
da literatura, da história, das personalidades indianas etc.
2. Informar aos alunos que as versões escritas das histórias do
livro são em geral posteriores às versões orais e que as pessoas
as transmitem de forma oral e não escrita. Comentar sobre a
importância da oralidade e da escrita, cada uma com qualidades
distintas. Estimular os alunos a lembrar histórias que tenham
ouvido dos membros da família. Pedir-lhes que contem as
histórias que já ouviram. Procurar destacar, caso haja mais do
que uma versão da mesma história, a importância de preservar
diferentes versões, como representativas de tradições paralelas,
uma fortemente oral e caracterizada pela recriação incessante,
outra formalizada pela escrita e estabelecida na história literária.
Sugerir que entrevistem pessoas mais velhas, conhecidas, sobre as
histórias que elas ouviam quando eram crianças.
3. Lembrar que o Brasil, assim como a Índia, também possui rica
diversidade cultural. Apresentar as diferenças como possibilidades
paralelas, trazendo a ideia de que não existem culturas melhores
ou piores. Motivar os alunos a descrever o que caracteriza
cada região brasileira. Chamar a atenção para manifestações
variadas da vida cotidiana: histórias, música, culinária, religião,
regionalismos linguísticos etc. Procurar integrar as experiências
particulares, decorrentes de viagens ou de origem familiar. Depois,
estimular os alunos à observação inversa, questionando sobre as
características que unificam a cultura do Brasil, a começar pelas
unidades linguística, territorial e política.

Depois da leitura
1. Destacar os aspectos mitológicos das histórias “O dia em que o
Sol se recusou a brilhar”, “Como os homens mudaram” e “Como
surgiu a cócega”. Explicar aos alunos o que é “mito de origem”.
Mostrar que as narrativas míticas do livro falam da origem de um
fenômeno e, ao mesmo tempo, traduzem sentimentos em relação
a ele, apresentando o canto do galo como forma de reverência,
a ausência do rabo como fator de dificuldade para os humanos
(e não como sinal de evolução) e a cócega como estímulo à alegria,
entre outras interpretações. Procurar narrativas no repertório
da cultura brasileira (nas tradições judaico-cristã, africana
ou ameríndia) que expliquem a origem de algum fato social ou
fenômeno natural. Solicitar que criem, individualmente ou em
grupo, uma história que sirva de “mito de origem” (propor, por
exemplo, um fenômeno natural a ser explicado).
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Histórias da Índia Eunice de Souza

2. Observar nas histórias “O falso faquir”, “A galinha roubada” e “O


agente de casamento e o leopardo” o modo como os acontecimentos
se encadeiam nas trajetórias dos protagonistas, procurando refletir
sobre as consequências dos atos executados pelos personagens. Na
medida do possível, diminuir a importância das ideias de castigo ou
recompensa, para dar relevo não aos percursos individuais, mas à
harmonia presente no mundo. Estabelecer paralelos com problemas
contemporâneos: um bom estímulo é tratar dos desequilíbrios
ambientais decorrentes de intervenções do ser humano na natureza.
Essa reflexão pode ajudar os alunos a perceber o ser humano como
parte da natureza e não como elemento exterior a ela; em nível mais
amplo, vale estimular a percepção sobre a harmonia e a desarmonia
das ações dos próprios alunos.
3. Observar o tema do desafio nas histórias “Gopal e o nababo”, “Os
príncipes transformados em pedra” e “Um garoto cego faz um
pedido”. Propor aos alunos que imaginem o que responderiam
se estivessem diante das mesmas circunstâncias dos personagens
nas três histórias. Um bom exercício é solicitar que se lembrem
dos jogos de desafios verbais que conhecem, fazendo com que
interajam nas perguntas e respostas dadas pelos colegas. Estimulá-
-los a memorizar e a contar histórias. De início, pode ser necessário
solicitar a eles com antecedência que preparem as histórias a serem
narradas, mas, com o estímulo reiterado, a habilidade certamente
será desenvolvida de forma surpreendente.

Sugestões de leitura
Para o professor
Canção do venerável: Bhagavadgita. Traduzido do sânscrito para o
português por Carlos Alberto da Fonseca. São Paulo: Globo, 2009.

Para o aluno
Mahabharata pelos olhos de uma criança. Recontado por Samhita
Arni. São Paulo: Conrad, 2004.

Para ambos
Pañcatantra: fábulas indianas, v. I, II e III. Traduzido do sânscrito
para o português por Maria da Graça Tesheiner et al. São Paulo:
Humanitas, 2008.
Elaboração do guia João Carlos Barbosa Internet
Gonçalves (professor de Língua Sânscrita
Yoga com Histórias – Site de um trabalho que desenvolve
e Cultura Indiana e doutorando pelo

Departamento de Linguística da Faculdade de


atividades destinadas a crianças, no qual se utilizam narrativas,
Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH; especialmente as de origem indiana, em conjunto com as práticas
– USP); Preparação Bruno Zeni; éticas e corporais da ioga.
Revisão Márcia Menin e Carla Mello Moreira. http://www.yogacomhistorias.com.br

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