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Se Crítica da Faculdade

do Juízo

de
Immanuel Kant

Introdução de
   António Marques 
Tradução e notas de
   António Marques e
   Valério Rohden

Publicação em 10 volumes

S. C. da Misericórdia 
do Porto
_c_p_a_c ­ Edições Braille
R. do Instituto de S.
Manuel
4050 __porto

1997

Primeiro Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade
do Juízo

Introdução de
   António Marques 

Tradução e notas de
 António Marques 
e
 Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
da Moeda

Estudos Gerais
   Série Universitária ­ 
   Clássicos de Filosofia
Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

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PREF¡CIO

:__a terceira crítica como culminação
da filosofia transcendental __kantiana

A terceira Crítica de Kant faz parte de um todo a que ele chamou "sistema 
crítico" e explicitamente representará o derradeiro esforço na constituição 
daquela parte da Filosofia em que os limites e perfil definitivos da nossa 
faculdade de conhecer deverão ficar definitivamente marcados. Mas se os domínios
em que a reflexão racional se exerce são claramente dois, o teórico e o prático­
moral e se simultaneamente os respectivos usos, teórico e prático, da razão já 
haviam sido convenientemente criticados, como justificar ainda uma outra e 
terceira obra crítica? Terá Kant deixado problemas em aberto nas duas anteriores
grandes obras, de que só mais tarde se terá apercebido?

Pode parecer estranho falar­se em problemas deixados em aberto por obras que 
lançaram de forma bastante radical novos fundamentos da experiência, quer de um 
ponto de vista estritamente teórico, quer do ponto de vista da teoria moral. Na 
verdade, tanto a *_crítica da Razão Pura* (*_c_r_p*), como a *_crítica da Razão 
Prática* (**_c_r_pr**) representam, cada uma a seu modo, uma nova definição dos 
limites em que o saber teórico ou o prático se podem e devem desenvolver e dessa
perspectiva o programa crítico pareceria ter chegado ao seu fim. Por outro lado 
aquilo a que a *_c_r_p* não poderia responder, isto é o conhecimento objectivo 
das coisas consideradas em si mesmas, foi alcançado pela *_c_r_p*r, ainda que 
não por uma via estritamente teórica. ¿ primeira vista o chamado programa 
crítico estaria pois completo.

No entanto e talvez porque, como lembra Gerhard Lehmann, "para o filosofar de 
Kant não existe praticamente um traço tão :, característico como a tendência 
para a sistematização" (1), permaneceram aos seus olhos algumas lacunas 
essenciais que não terão tanto a ver com a completude de cada uma das anteriores
Críticas, tomadas cada uma *per si*, mas mais precisamente com a completude do 
sistema a que aquelas pertencem (2), A situação a que Kant chegou no fim das 
duas críticas da razão (a teórica e a prática), e que se caracterizava por um 
dualismo no que respeita ‡ legislação e aos respectivos domínios da razão, só 
não ofereceria dificuldades a uma filosofia fortemente monista que assumisse um 
princípio de que se pudessem deduzir todos os outros. Mas para um filósofo como 
Kant, sempre preocupado com a relativa autonomia das faculdades e dos diferentes
tipos de experiência que se lhes associam, a introdução de um princípio de 
unidade de tal maneira forte só poderia realizar­se dogmaticamente.

Assim e pouco antes da primeira edição da *_c_r_p*r, Kant anuncia numa carta a 
Carl Leonhard Reinhold de 28­31 de Dezembro de 1787 que se ocupa de uma "crítica
do gosto" e justifica esse novo trabalho com a necessidade de encontrar os 
princípios que regem aquela parte do animo (*_gemuet*) que precisamente se situa
entre as duas outras grandes faculdades já estudadas nas anteriores Críticas, 
isto é as faculdades do conhecimento (*_erkenntnisvermoegen*) na *_c_r_p* e as 
faculdades de apetição (*_begehrunsvermoegen*) na *_c_r_p*r. A essa terceira 
faculdade mediadora chama ele *sentimento de prazer e desprazer* (*_gefuehl der 
Lust und Unlust*) e reserva­lhe desde logo um significado sistemático óbvio. 
Nessa carta Kant explica aliás como foi o próprio impulso para a sistematização 
que o conduziu, agora como noutras ocasiões, ‡ descoberta desta estrutura 
mediadora: "Na verdade as faculdades do animo são três: a faculdade do 
conhecimento, sentimento de prazer e desprazer e faculdade de apetição. Para a 
primeira encontrei princípios a prior) na Crítica da Razão Pura (teórica), para 
a terceira na Crítica da Razão Prática. Procurei­os também para o segundo e, 
ainda que na verdade considerasse impossível encontrar princípios desse tipo, o 
elemento sistemático (*das Systemathische*) ­­ o qual me tinha permitido 
descobrir, no animo humano, a decomposição das faculdades anteriormente 
consideradas e que me há­de fornecer ainda matéria suficiente de admiração e 
porventura de investigação para o resto :, da minha vida ­­ trouxe­me para este 
caminho, de modo que eu agora reconheço três partes da filosofia, das quais cada
uma possui os seus princípios *a prior*" (3).
Ora esta preocupação pelo carácter sistemático desse "conhecimento racional por 
conceitos" (4) que é para Kant a filosofia desembocaria num artificialismo no 
caso de se limitar a descobrir, de forma mais ou menos *ad hoc*, elementos 
mediadores para esconder os efeitos de uma pulsão dualista que atravessa 
claramente o seu pensamento, como as célebres divisões entre entendimento e 
sensibilidade, entre entendimento e razão, entre razão prática e razão teórica, 
etc. A verdade é que foi sempre sua convicção que não basta invocar uma só razão
para resolver os problemas deixados por um dualismo que em si pode não ser 
inquietante, mas que começa a sê­lo quando se pensa por exemplo que entre aquele
domínio em que se exerce a razão teórica e aquele sobre que se exerce a razão 
prática parece não se vislumbrar nenhuma ponte, qualquer tipo de continuidade. A
questão, colocada a este nível parece demasiado abstracta e no entanto ela 
exprime já um interesse muito real da razão humana: a natureza (entendida aqui 
num sentido muito amplo) não deve encontrar­se irremediavelmente afastada da 
forma como o homem exerce a sua liberdade, quer do ponto de vista da sua 
organização, quer do ponto de vista da sua capacidade própria, enquanto 
natureza, para nele despertar certas ideias e sentimentos de qualidade superior.
Será precisamente isto que Kant tem em mente ao referir na Crítica da Faculdade 
do Juízo (*_c_f_j*), parág. 42, que "visto que ‡ razão também interessa que as 
ideias (pelas quais ela produz um interesse imediato no sentimento moral) tenham
por sua vez realidade objectiva, isto é que a natureza pelo menos mostre um 
vestígio ou nos avise que ela contém em si algum fundamento [...]" (5). Parece 
pois que a temática donde arranca toda a *_c_f_j* tem a ver com esta espécie de 
*adequação* da natureza ‡ razão humana em função daquilo que a ela sobretudo lhe
interessa, isto é a liberdade e os princípios racionais que esta determinam. 
Verifica­se pois que o problema da aproximação entre os domínios da natureza e 
da liberdade traduz­se num *interesse renovado pela própria natureza* e 
particularmente este vai ter a ver desde logo com a situação herdada da primeira
Crítica. :,

Pode dizer­se pois que é a exigência experimentada pelo Kant da *_c_f_j*, no 
sentido de renovar a imagem da natureza resultante da primeira Crítica, que vai 
ter um significado primordial na economia de toda a obra e permanecerá como um 
modelo de inteligibilidade da natureza radicalmente diferente que hoje se pode 
contrapor com maior credibilidade ‡quele que pode ser designado como 
simplesmente mecanicista. Trata­se no fundo da distinção entre duas formas 
básicas de explicação fundamentais, distinção que aparece explorada na segunda 
parte da *_c_f_j*, sobre o juízo teleológico. Esta natureza tornada adequada ‡s 
exigências racionais de um sujeito, que procura ver nela muito mais do que um 
mero agregado de formas ou um amontoado de leis particulares que explicam este 
ou aquele fenómeno isoladamente, terá que ser julgada de uma outra perspectiva 
substancialmente diferente daquela que correspondia ao uso das categorias (que 
era afinal uma aplicação destas ao m˙ltiplo empírico) próprio da *_c_r_p* (6).

Na verdade aparece como muito clara aos olhos do Kant da terceira Critica uma 
situação que é insuportável para quem não desistira de procurar conexões entre a
natureza e a liberdade (7). Como já se referiu essa conexão passa sobretudo pela
descoberta de um princípio ou regra pelo qual os nossos juízos sobre a natureza 
não se confinem a uma espécie de subsunção automática dos casos particulares nos
nossos conceitos mais gerais (as categorias como a causalidade, a substancia, a 
possibilidade e necessidade, etc.). Pelo contrário é possível, até tendo em 
conta que entre os numerosos produtos da natureza "podemos esperar que sejam 
possíveis alguns contendo formas específicas como se afinal estivessem dispostas
para a nossa faculdade do juízo" (8), desenvolver formas de *avaliar* ou 
*ajuizar* (o verbo empregue por Kant para esta espécie de juízo é *beurteilen*, 
supondo­se que a diferença relativamente ao mero *urteilen*, julgar, consista na
introdução de um elemento de ponderação ou avaliação) as coisas da natureza 
bastante diferentes. Sobretudo é de exigir que não se proceda a uma absorção 
imediata dos particulares nos conceitos que de antemão possuímos. Esta fuga a um
automatismo no juízo é outro motivo maior da *_c_f_j* e pressente­se facilmente 
que Kant terá aqui realizado um trabalho sobre a sua estrutura que complexifica 
substancialmente as suas próprias anteriores concepções de :, sujeito 
transcendental. Existe por isso justificação, como veremos melhor a seguir, para
falar na *_c_f_j* de um alargamento da célebre "revolução copernicana".

Esta revisão da faculdade do juízo tem como consequência óbvia uma maior 
liberdade na avaliação dos objectos (ou de certos objectos), mas tal liberdade 
deve exercer­se segundo parâmetros que não ponham em causa o perfil geral do 
sujeito construído anteriormente. Pode efectivamente falar­se em relação ‡ 
terceira Crítica do "preenchimento" por parte de um sujeito transcendental 
demasiadamente formalista ou esquemático, pois tanto as categorias deduzidas na 
*_c_r_p*, como a lei moral deduzida na *_c_r_p*r, configuravam um sujeito ainda 
muito afastado da dinâmica da vida sensível e afectiva. De facto assim é. No 
entanto a terceira Crítica, reconhecendo esse facto não faz quaisquer concessões
a uma filosofia do sentimento ou da afectividade fora do alcance dos 
pressupostos críticos já adquiridos. A este propósito deve dizer­se que uma das 
operações geniais de Kant foi a de ter aumentado os factores de produção de 
inteligibilidade do sujeito transcendental, mediante a introdução de componentes
afectivo/vivenciais, sem cair num subjectivismo a­conceptual e redutor. Foi 
sobretudo ‡ volta de uma teoria do *_gemuet* (traduzido por nós por animo, tendo
em conta o equivalente latino invocado algumas vezes pelo próprio Kant) (9) que 
surgiu a oportunidade para articular a faculdade do juízo com as grandes 
faculdades que constituem aquele e a que já fizemos referência. … sintomático 
que a faculdade do juízo agora descoberta, que recusa o automatismo ou a simples
operação de absorção do caso particular na generalidade dos conceitos, apareça 
nesse novo quadro do animo como o instrumento do sentimento de prazer e 
desprazer e que adquira um valor mediador central, bastando observar a tabela 
introduzida por Kant no fim da Introdução ‡ *_c_f_j*.

… na natureza e forma de actuação desta nova faculdade do juízo, por um lado 
espécie de instrumento conceptual do sentimento e por outro faculdade cognitiva 
sistematizadora, que se vai decidir a solução para o problema das conexões entre
natureza e liberdade, problema maior da terceira Crítica. A faculdade do juízo 
passa a ter um comportamento reflexivo e não simplesmente determinante, para 
usar a terminologia de Kant. Isto é, segundo este ˙ltimo modo de actuar "a 
lei :, é­lhe indicada *a prior*) e por isso não sente necessidade de pensar uma 
lei para si mesma, de modo a poder subordinar o particular na natureza ao 
universal. Só que existem tantas formas m˙ltiplas da natureza, como se fossem 
outras tantas modificações dos conceitos da natureza universais e 
transcendentais, que serão deixadas indeterminadas por aquelas leis dadas a 
prior) pelo entendimento puro" (10). Ora a nova forma de *ajuizar sente 
necessidade de pensar uma lei para si mesma* e esta talvez tenha sido na ˙ltima 
Crítica a decisiva e mais inovadora opção de Kant: criar para essa capacidade de
avaliação um espaço próprio, de tal modo que é como se ela possuísse a exemplo 
das faculdades especificamente intelectuais (razão, entendimento) um conjunto de
regras ou uma regra que só a ela pertence e só ela poderia exercer.

Se pensarmos nós próprios em exemplos que Kant fornece, ao analisar este 
trabalho mais "livre" da nova faculdade do juízo, são m˙ltiplas as modalidades 
segundo as quais se pode passar a abordar a natureza: como se ela possuísse uma 
*técnica* que a diferencie, nos seus produtos, em géneros e espécies, como se 
possuísse princípios de unidade nas suas m˙ltiplas leis adequadas ‡s faculdades 
do sujeito, como se algumas das suas formas possuíssem qualidades tais que nos 
provocam um sentimento de prazer (estético), etc. Mas esta diversidade de modos 
de situar a natureza, introduzidas todas elas com a prevenção ficcional do *como
se*, são ainda modos de ajuizar que indiciam uma regra ou princípio no cerne da 
faculdade do juízo. Trata­se precisamente do princípio da "especificação da 
natureza" a favor da nossa faculdade de ajuizar. Este princípio a que Kant dá um
valor transcendental e não meramente lógico é algo que a faculdade do juízo dá a
si própria. No entanto parecerá que este princípio não é mais do que a repetição
de um uso lógico­hipotético de regras sistematizadoras da racionalidade no que 
respeita ‡ natureza, teoria que Kant já havia desenvolvido na *_c_r_p*, 
nomeadamente no *_apêndice ‡ Dialéctica Transcendental*. Ai já vem mencionado 
que esse uso lógico "não teria sentido nem aplicação se não se fundasse sobre 
uma lei transcendental da especificação" (11). Terão pois que ser dados a este 
princípio da faculdade de ajuizar uma qualidade ou estatuto tais que tornem 
possível uma diferença e que salvaguardem uma certa autonomia da própria 
faculdade. Se provavelmente :, a descoberta maior da *_c_f_j* é a autonomização 
de um espaço em aquela faculdade *evolui* pelas novas relações construídas, pela
união do que parecia estranho e pela separação do que aparentava ser familiar, é
preciso encontrar um claro princípio transcendental que não se confunda 
minimamente nem com as categorias do entendimento, nem com a lei moral da razão 
prática. Alguns comentadores encontraram precisamente neste ponto da 
argumentação de Kant uma dificuldade incontornável: para além destes princípios 
transcendentais não existiriam mais nenhuns ‡ luz da filosofia de Kant (12). 
Como admitir agora um outro, ou outros princípios, para além das categorias do 
entendimento e da lei moral da razão prática?

Uma forma de contornar esta eventual aporia é tomar a sério o tal fio 
sistemático a que Kant se refere na já citada carta a Reinhold e procurar pela 
via aberta por essa estrutura que surge cada vez com maior importância no ˙ltimo
Kant que é o *sentimento de prazer e desprazer*. Por aí é­se conduzido a uma 
nova associação de que Kant não suspeitara ou que pelo menos não tinha ainda 
tematizado: a do *prazer com o próprio juízo*. Na verdade certos juízos, certas 
formas de ajuizar ou avaliar algumas formas de objectos encontram­se de tal modo
ligados a um sentimento de prazer que parece até que não seriam possíveis sem 
este. Concretamente é naqueles juízos em que a regra (lei, categoria ou 
princípio) que vai subsumir o particular tem de ser descoberta ­­ e a que Kant 
chamou *reflexivos* (*reflektierend*) por oposição ‡queles em que a regra já 
está dada ‡ partida, isto é os *determinantes* ­­ que intervém o elemento do 
prazer. Verifica­se ainda que esse sentimento é conceptualizável: Kant define­o 
como uma *conformidade a fins* (*_zweckmaessigkeit*) da natureza. Este será pois
o princípio ou a regra que faltava ao quadro dos princípios transcendentais da 
filosofia de Kant, aquela regra que de algum modo completa a topologia 
fundamental do sujeito transcendental.

Mas Kant, pensador de diferenças dentro de uma intenção sistemática sempre 
presente, consegue ainda no interior desse ponto de vista geral que é a 
conformidade a fins realizar uma distinção essencial, consoante essa 
conformidade possua ou não um interesse cognitivo. E assim que é possível falar 
ainda de uma conformidade a fins, tanto de um ponto de vista estético, como de 
um ponto de vista teleológico, ou noutros termos de :, uma *conformidade a fins 
subjectiva* e de uma *conformidade a fins objectiva*. Muitas vezes, ao 
estabelecer a distinção entre as duas espécies de conformidade, Kant recusa a 
intervenção do elemento de prazer na ˙ltima. Com isso pretenderá ele vincar a 
natureza autónoma e meramente reflexiva da faculdade de ajuizar, a qual não deve
estar ao serviço de interesses cognitivos estritos. Este "desinteresse" só se 
exprime, em toda a sua pureza no ajuizar estético e é por isso que "numa crítica
da faculdade de juízo a parte que contém a faculdade do juízo estética é aquela 
que lhe é essencial, porque apenas esta contém um princípio inteiramente a 
prior) na sua reflexão sobre a natureza [... ]" (13).

No entanto essa nova ligação tão fundamental, agora descoberta na terceira 
Crítica, entre o sentimento de prazer e desprazer e a conformidade a fins da 
natureza revela­se de tal modo um pressuposto de todo o julgamento reflexivo 
(não automático ou categoria! no sentido da *_c_r_p*) que mesmo no juízo 
teleológico ele faz a sua intervenção. Com a *introdução do elemento do prazer*,
não somente na experiência estética, mas também na experiência propriamente 
cognitiva da construção teleológica da natureza, Kant quis certamente dar uma 
unidade maior ‡s modalidades do ajuizar reflexivo sobre aquela, aproximando a 
experiência estética da teleológica na base de um mesmo sentimento de prazer. Se
numa primeira Introdução escrita para a *_c_f_j* as duas modalidades de juízo 
aparecem ainda demasiado desligadas, sublinhando Kant a ausência de prazer no 
julgamento teleológico da natureza, dados os seus interesses eminentemente 
objectivistas, já numa segunda Introdução ­­ afinal aquela que foi publicada ­­ 
preocupa­se explicitamente com o papel essencial do prazer, até mesmo no caso 
daquela ˙ltima forma de juízo. Num parágrafo (VI) totalmente novo do ponto de 
vista temático relativamente a essa primeira Introdução, intitulado *_da ligação
do sentimento de prazer com o conceito de conformidade a fins da natureza*, o 
elemento do prazer é extensível ‡ experiência teleológica. … um facto que "não 
encontramos em nós o mínimo efeito sobre o sentimento de prazer, resultante do 
encontro das percepções com as leis, segundo conceitos da natureza universais 
(as categorias) e não podemos encontrar, porque o entendimento procede nesse 
caso sem intenção e necessariamente" (14). :, No entanto se abandonarmos este 
ponto de vista da aplicação automática das categorias, como era explicado na 
primeira Crítica, e actuarmos *intencionalmente*, tal como é próprio da 
experiência teleológica, então a "descoberta da possibilidade de união de duas 
ou de várias leis da natureza empíricas, sob um princípio que integre a ambas, é
razão para um prazer digno de nota, muitas vezes até de uma admiração sem fim, 
ainda que o objecto desta nos seja bastante familiar" (15). O que nos "seria 
completamente desagradável" era uma "representação da natureza, na qual 
antecipadamente nos dissessem que na mínima das investigações da natureza, para 
lá da experiência mais comum, nós haveríamos de deparar com uma heterogeneidade 
das suas leis, que tornaria impossível para o nosso entendimento a união das 
suas leis específicas sob leis empíricas universais" (16).

A *_c_f_j* determina pois o princípio que exprime conceptualmente essa faculdade
do animo mediadora que é o sentimento de prazer e desprazer e que é o princípio 
de uma *conformidade* a fins da natureza. Kant entende­o não como uma outra 
categoria do entendimento (*_verstand*) que aplicamos "sem intenção" ‡ 
multiplicidade da intuição sensível, mas sim como uma *regra de reflexão* sobre 
certas formas da natureza (as belas formas e os seres orgânicos). … por isso que
a "faculdade de juízo estética é uma faculdade particular de ajuizar as coisas 
segundo uma regra, mas não segundo conceitos" (17). Nesse novo tipo de reflexão 
e de experiência, estética e também cognitiva (18), vê ele a ˙nica mediação 
possível entre os domínios já delimitados: *a liberdade e a natureza*. … de 
supor, e esse parece­nos ser uma das fundamentais hipóteses da *_c_f_j*, que 
essa actividade reflexiva não se esgota numa função mediadora *strictu sensu*. 
Até que ponto a moralidade, isto é para Kant o exercício da liberdade como 
autonomia, estará dependente na sua concretização das formas de liberdade que 
por exemplo a experiência estética contém? A resposta parece só poder ser 
negativa, na medida em que Kant salvaguarda sempre a plena autonomia do reino 
dos fins morais e não condiciona a sua realização a não ser ao exercício da 
razão prática. Ainda nas ˙ltimas páginas da *_c_f_j* ele lembrava isso mesmo: "…
possível pensar que seres racionais se vissem rodeados por uma tal natureza que 
não mostrasse qualquer traço claro de :, organização, mas efeitos de um simples 
mecanismo da matéria bruta e de tal modo que, por ocasião da mudança de algumas 
formas e relações conformes a fins simplesmente contingentes, não pareça existir
qualquer fundamento para inferir um autor do mundo inteligente. Não haveria 
nesse caso qualquer oportunidade para uma teologia física e mesmo assim a razão 
­­ que não recebe neste caso qualquer orientação através de conceitos da 
natureza ­­ encontraria, na liberdade e nas ideias morais que nela se fundam, um
fundamento prático suficiente para postular o conceito de ser original a si 
adequado [...]" (19).

No entanto esta parece ser uma hipótese hiperbólica, uma espécie de 
*_gedankenexperiment* com o objectivo simplesmente de sublinhar a qualidade 
perfeitamente autónoma e *a prior* do primeiro princípio da razão prática, a 
liberdade. A necessidade de outro *_gedankenexperiment* poderia aqui ser 
invocada: como realizariam os homens a liberdade numa natureza "que não 
mostrasse qualquer traço claro de organização"? A verdade é que sem pretender 
conhecer objectivamente qualquer intenção final da natureza, dever­se­á 
reconhecer nela uma certa "apetência conforme a fins 
(*ein zweckmaessiges Streben*) que nos torna receptivos para uma formação que 
nos pode fornecer fins mais elevados do que a própria natureza" (20). Naquilo 
que é do domínio do natural sempre se encontra uma *ambiguidade*, pois tanto se 
pode verificar um simples trabalho mecânico e cego, como a fáctica presença de 
qualidades e processos que indiciam uma espécie de *ast˙cia da natureza* tantas 
vezes e tão desvairadamente interpretada pelos filósofos. A proposta de Kant vai
ser a de adequar *de forma racional* os princípios estruturadores da razão a uma
natureza que variados indícios mostra de "colaboração" ou "apoio" a tais 
princípios.

O método não pode consistir para Kant em antropomorfizar aquilo que afinal 
funciona perfeitamente segundo as simples leis mecânicas da Física (o que foi 
aliás uma irresistível tendência de alguns sistemas filosóficos pós­kantianos), 
mas sim em escolher os melhores indícios ou formas naturais, assim como os tipos
de experiência mais marcantes e situados nesse espaço de charneira entre o que 
pertence objectivamente ‡ pura conformidade a fins, a moralidade, e o que é do 
domínio da sensibilidade. Ora é um facto que a natureza apresenta um sem n˙mero 
de formas que legitimam aproximações desse teor :, e a extensão de uma 
legislação supra­sensível ao seu domínio. Convém no entanto esclarecer a que é 
que concretamente essas formas "obrigam" o sujeito. Elas (as belas formas e as 
formas orgânicas) exercem, diríamos, uma *pressão para a reflexão*. Por outras 
palavras obrigam ‡ escolha de pontos de vista que implicam da parte do sujeito 
*um alargamento das perspectivas* fundamentais herdadas da primeira Crítica, 
isto é do sistema ou tópica das categorias. … assim que é possível para alguns 
falar da continuação da "viragem copernicana" começada na *_c_r_p* (21).

A terceira Crítica poderá pois ser vista como um prolongamento e até mesmo um 
aprofundamento da famosa "viragem copernicana" operada pela *_c_r_p*. O que quer
isto dizer? Se nos lembrarmos da conhecida passagem do Prefácio ‡ 2.a edição 
dessa obra, verificamos que Kant propõe uma mudança radical no método até então 
usado pela metafísica: fazer depender o conhecimento dos objectos das condições 
do nosso próprio conhecimento e não pretender por isso regular o conhecimento 
destes por aquilo que eles seriam considerados em si mesmos. "Trata­se aqui de 
uma semelhança com a primeira ideia de Copérnico; não podendo prosseguir na 
explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de 
estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor resultado 
fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis. Ora, na metafísica, 
pode­se tentar o mesmo, no que diz respeito ‡ *intuição* dos objectos. Se a 
intuição tivesse de se guiar pela natureza dos objectos, não vejo como deles se 
poderia conhecer algo *a prior*; se, pelo contrário, o objecto (enquanto objecto
dos sentidos) se guiar pela natureza da nossa faculdade de intuição, posso 
perfeitamente representar essa possibilidade" (22). A primeira vista Kant propõe
aqui um método que mais parecerá uma "regressão" a um modelo pré­copernicano, já
que quando muito substitui um centro fixo por um outro, ou seja onde estava um 
objecto fixo, com as suas qualidades, passa a estar o sujeito também com as sua 
capacidades bem pré­determinadas (23).

Do ponto de vista do método e dos procedimentos técnicos pode dizer­se que a 
*_c_r_p* consuma de uma vez por todas a viragem copernicana em filosofia. O 
essencial do programa crítico­ ­transcendental consistirá em demonstrar quais 
são os :, lugares mais determinantes desse espaço inter­perspectivista que o 
sujeito começou a delinear ao começar o seu movimento. Nesse sentido poderá 
dizer­se que de um ponto de vista estético e esquemático aquela demonstração 
gera uma *tópica* como aliás o próprio Kant designa o sistema das categorias do 
entendimento (24). Mas para além da descrição dessa tópica de pontos de vista 
fundamentais, Kant preocupou­se também com o seu uso, isto é, não só com o 
*lugar* a partir donde conhecemos os objectos (cada categoria é um desses pontos
de vista supramos), mas também com a *forma geral* como cada um deles determina 
os objectos, dando­lhes uma *posição, um aspecto*. Este é um ponto decisivo para
compreendermos os limites do espaço ou da tópica perspectivista que interessaram
ao Kant da primeira Crítica. Insisto na importância deste específico uso das 
categorias que mais não é do que a *forma geral*, a qual determina o aspecto com
que o objecto é determinado desse ou daquele ponto de vista categoria!. Na 
terminologia de Kant, *os objectos só são determinados como objectos quando 
subsumidos neste ou naquele ponto de vista, adquirindo então apenas o aspecto 
que ‡ partida essa perspectiva lhe impõe*. Precisamente porque os pontos de 
vista a que neste contexto nos referimos, as categorias, são formas sumamente 
gerais de encarar o objecto, qualquer que ele seja, acontece que a sua 
integração nesse ponto de vista não obedece a qualquer interesse ou lógica 
imanente ao objecto ou ‡ *natura naturans* que o produz. Pelo contrário pode­se 
dizer que a perspectiva categorial da *_c_r_p* se desinteresse pela 
*particularidade do particular*, sendo a principal causa desse desinteresse um 
outro interesse concorrencial, isto é, o de *definir apenas os lugares 
essenciais de uma tópica geral e completa do entendimento*.

Essa geografia do entendimento que a experiência copernicana do sujeito em 
movimento permitiu descobrir tem as características de uma tópica fundamental, 
mas não deixa de ser relativamente pobre, se pensarmos nos infinitos pontos de 
vista que uma maior e mais rica informação sobre os objectos como particulares 
nos poderia fornecer. Intimamente associado com estas características encontra­
se outro facto relevante. Para que cada categoria pudesse determinar ou 
subsumir na sua suprema perspectiva o objecto, Kant reservou a uma faculdade 
específica do animo, ‡ faculdade da *imaginação*, a tarefa de :, por assim dizer
"desenhar" em função do significado de cada categoria uma espécie de figura do 
tempo a que Kant num capítulo decisivo da *_c_r_p* chamou o *esquema* da 
categoria, sem o qual nenhum objecto nela poderá ser subsumido. A função dessa 
faculdade na primeira Crítica, restringe­se a desenhar o aspecto geral sob que 
cada objecto é conhecido como objecto. Sobre a *particularidade* deste nada lhe 
cabe mostrar ou sequer sugerir.

… pois fácil perceber que a constituição da "tópica sistemática" que o movimento
livre do sujeito permitiu, cria *duas situações* que a nosso ver são a 
problemática principal que estimulam a *_c_f_j*, isto é uma distancia sem 
mediações entre a singularidade dos particulares e o interesse dos pontos de 
vista categoriais, por um lado, e, por outro, a actividade de uma imaginação 
cuja actividade se esgota nas operações de subsunção do particular no geral.

Por exemplo, decido determinar o objecto *a* do ponto de vista da causalidade e 
vou relacioná­lo no tempo a outro, *b*, segundo uma regra, ou seja a *forma 
geral* que é esse próprio ponto de vista. Ora não é relativamente a tal forma 
que o objecto *a* é realmente determinado na sua particularidade, ainda que só 
seja pela *aplicação deste que ele adquire uma posição efectiva*, a qual 
possibilite a relação com um objecto *b* em geral. Assim dito a aplicação da 
regra de causalidade *c* a *a* não especifica directamente conte˙dos de *a* = 
(a1, a2, a3, etc.), mas permite­o *indirectamente*, através da descoberta de 
relações empíricas possíveis com conte˙dos de *b* = (b1, b2, b3, etc.). Tomado 
em si mesmo o ponto de vista da determinação causal permanece sumamente formal e
não contém, nem poderia conter, qualquer princípio de determinação sistemática 
de conte˙dos(25). Isso significa que estes, como posições ou determinações 
sempre particulares, possuem sempre um grau de *contingência irredutível* face 
ao ponto de vista categoria!.

No parág. 77 da *_c_f_j*, Kant explora o sentido desta *contingência* como um 
problema maior da filosofia transcendental (lembremo­nos que, na *_c_r_p*, é na 
secção da "Analítica dos Princípios" sobre "Os Postulados do Pensamento Empírico
em Geral" que Kant desenvolve de forma mais autónoma o seu pensamento sobre as 
categorias de contingência, possibilidade :, e necessidade), problema que 
*necessitará ser resolvido com os próprios meios dessa mesma filosofia*. 
Voltaremos a este ponto, mas agora será ˙til lembrar como o próprio Kant exprime
essa nova consciência da *_c_f_j*, na sua peculiar linguagem filosófica. 
"Nomeadamente encontramos certamente nos princípios da possibilidade de uma 
experiência, em primeiro lugar, algo de necessário, isto é, as leis universais, 
sem as quais a natureza em geral (como objecto dos sentidos) não pode ser 
pensada; e estas assentam em categorias, aplicadas ‡s condições formais de toda 
a nossa intuição possível, na medida em que esta é de igual modo dada *a prior*.
Sob estas leis a faculdade de julgar é determinante, pois esta nada mais faz do 
que subsumir em leis dadas. Por exemplo o entendimento diz: toda a mudança tem a
sua causa (lei da natureza universal); a faculdade de julgar transcendental não 
tem mais que fazer então do que indicar *a prior* a condição da subsunção no 
conceito do entendimento apresentado [...]. Porém os objectos do conhecimento 
empírico são ainda determinados de muitos modos, fora daquela condição do tempo 
formal, ou [...] susceptíveis de ser determinados" (26). Ora aquilo que vai 
permitir romper com esse horizonte muito geral e até redutor que é o da 
perspectiva categorial (a quantidade, a qualidade, a relação, a modalidade) vai 
ser sem d˙vida uma outra disposição e operacionalidade das faculdades cognitivas
em particular e uma mais ampla concepção do animo em geral. O que sejam essas 
novas disposição e operacionalidade está contido certamente no conceito de 
*reflexão* próprio da faculdade de *juízo reflexiva* (*reflektierende 
Urteilskraft*) (27).
Não se pense que na *_c_f_j* se está perante um conceito unívoco de reflexão. … 
verdade que a forma como Kant a explica no parág. IV da Introdução (: Da 
faculdade do juízo como uma faculdade legisladora *a prior*) parece obedecer a 
uma estrutura ˙nica, por oposição ‡ faculdade de *juízo determinante*. De facto 
enquanto nesta modalidade de juízo, a regra, a lei ou categoria está dada de 
antemão e todo o julgamento se reduz a um acto mais ou menos automático de 
"subsumir" o particular nessa regra dada, o julgamento de reflexão terá de a 
procurar, sem porventura ter qualquer pista ou indício que a oriente, a não ser 
o próprio particular. Mas ao Kant da terceira Crítica interessam os processos de
reflexão que conduzam :, a operações de sistematização segundo o princípio 
orientador de uma "técnica da natureza" e os que conduzam a uma experiência 
estética expressa em primeiro lugar num sentimento a que chamou *_wohlgefallen*,
comprazimento (28).

Não nos vamos agora ocupar com a especificidade de cada um destes processos de 
reflexão que correspondem ao julgamento estético e ao teleológico e que são 
aliás os temas das duas partes em que se divide a obra. Sem anular pois a 
particularidade de cada um dos processos e também sem entrar numa análise 
demasiado técnica (29), é possível defender que o cerne da teoria da reflexão na
terceira Crítica se encontra numa diferente mobilidade dada ‡ *faculdade de 
imaginação* (*_einbildungskraft*) no conjunto das outras faculdades. Já foi 
referida a actividade da imaginação na produção dos esquemas para as categorias 
do entendimento, um dos principais capítulos da *_c_r_p*.

Trata­se agora de compreender, percorrendo os grandes temas da *_c_f_j*, como 
essa faculdade passa a actuar noutro tipo de relações. Note­se desde já que 
seria totalmente erróneo apontar aqui para uma actuação plenamente livre do 
imaginar, como se o julgamento reflexivo praticamente se lhe reduzisse. "Todavia
o facto que a *faculdade da imaginação seja livre e apesar disso por si mesma 
conforme a leis*, isto é que ela contenha uma autonomia, é uma contradição. 
Unicamente o entendimento fornece a lei" (30), lembra Kant. O que sucede é que a
imaginação entra, segundo as palavras do próprio Kant, num jogo com as outras 
faculdades intelectuais, isto é, a razão e o entendimento, situação que até aqui
não fora tematizada (31).

Por exemplo, quando Kant se defronta com o problema da comunicabilidade dos 
juízos estéticos, é nesse livre jogo entre faculdade de imaginação e 
entendimento supostamente existente em todos os sujeitos que ele vai procurar a 
solução mais adequada. "A comunicabilidade universal subjectiva do modo de 
representação num juízo de gosto, visto que ela deve ocorrer sem pressupor um 
conceito determinado, não pode ser outra coisa senão o estado de animo no jogo 
livre da faculdade de imaginação e do entendimento [...]" (32). Importante é 
aqui notar que tanto a comunicação, como a validade universal do juízo de gosto 
pressupõem o facto decisivo de um :, "distanciamento" daquele que julga 
relativamente a todas as determinações (pelo menos num sentido de uma primazia) 
de tipo puramente intelectuais. Este distanciamento pura e simplesmente 
significa que do ponto de vista da motivação e até da estrutura do juízo o 
objectivo cognitivo deixa de ser o mais relevante. O conceito de *jogo* passa a 
estar na primeira linha (33), sublinhando certamente a presença do anímico, do 
inventivo e até do inesperado que caracteriza afinal a experiência estética.

A este propósito Kant fala de uma "vivicação" (*_belebung) das próprias 
faculdades produzida por tal jogo, no qual é fácil perceber um contínuo e 
recíproco estímulo, assim como uma permuta incessante de representações, quer do
foro da sensibilidade, quer do do intelecto. Tal teoria conduz Kant na *_c_f_j* 
a valorizar aspectos que ‡ primeira vista tinham sido esquecidos nas anteriores 
Críticas. Concretamente as referências ‡ vivicação das forças ou faculdades do 
animo recobrem explicitamente o conceito de *vida* ­­ "porque o animo é por si 
só inteiramente vida (o próprio princípio de vida)" (34), o mesmo acontecendo 
com o conceito de "sa˙de" (*_gesundheit*) também provocado por esse sentimento 
de um jogo a ocorrer entre as forças do animo (35).

Parece termos vindo só a referir­nos a um conceito de jogo e de actividade da 
imaginação apenas nos limites da experiência estética. … verdade que é nesse 
âmbito que a imaginação encontra o seu espaço mais genuíno de liberdade e 
permuta com as representações claramente intelectuais. No entanto em todo o 
processo reflexivo dos juízos sobre a natureza, quer se trate das belas formas, 
quer se trate dos sistemas orgânicos naturais, é possível olhar para um certo 
jogo das faculdades, com destaque para a imaginação. O facto é que o julgamento 
reflexivo é um juízo de liberdade por oposição ao juízo *determinante*, onde 
nada mais há a fazer do que "aplicar" a categoria.

Este é um aspecto decisivo que coloca aquilo que na terceira Crítica se entende 
por *reflexão* como um sensível reforço do perfil do sujeito, ao permitir­lhe, 
como já acima foi referido, escolher outros pontos de vista que não s6 os 
correspondentes ‡s categorias supremas do entendimento. Se pensarmos que em 
princípio toda a relação possível com a natureza :, e toda a forma de 
compreensão que aí pretendessemos introduzir poderia ser formulada através das 
categorias do entendimento, torna­se ainda mais claro que novos pontos de vista,
*para lá* da explicação categorial, só podem resultar de uma autonomia do 
sujeito, de uma selecção dentro dos seus interesses.

Voltemos ao *papel preponderante da imaginação*. No *jogo* em que entra com 
qualquer das faculdades intelectuais (o entendimento ou a razão) é de facto a 
faculdade da imaginação que marca a especificidade do jogo. Deve­se aqui ter em 
conta que o jogo estético (que para Kant se processa paradigmaticamente entre 
entendimento e imaginação, por ocasião do julgamento de uma forma bela) não 
designa uma figura específica ou uma ordenação particular dos objectos 
considerados. Designa sim a forma sempre mutável de figuras e de sensações que a
imaginação sugere ao entendimento e reciprocamente. E assim que "toda a forma 
dos objectos dos sentidos (dos externos assim como mediatamente do interno) é ou
*figura* ou *jogo*" (36). Por outro lado a primazia do jogo sobre eventuais 
qualidades intrínsecas dos objectos estéticos ­­ como a perfeição geométrica, 
certo tipo de disposição das partes ou ainda o seu carácter atractivo ­­ é uma 
afirmação sempre reiterada pelo Kant da terceira Crítica. O que significa que 
numa estética coincidente com as teses defendidas na *_c_f_j* não haverá lugar 
para uma teoria de supostas qualidades estéticas *objectivas*. Por isso "onde 
somente deve ser entretido um jogo livre das faculdades de representação 
(contudo sob a condição de que o entendimento não sofra aí nenhuma afronta), em 
parques, decoração de aposentos, toda a espécie de utensílios de bom gosto, 
etc., a conformidade a regras, que se enuncia como coerção (*als Zwang*), é 
tanto quanto possível evitada" (37). Mas o que parece ser decisivo na concepção 
da experiência estética como *jogo* é a *liberdade* irredutível de uma 
imaginação movida por mais nada que não seja um determinado tipo de prazer. 
*_força anímica, sa˙de e desejo de comunicar são outras tantas formas de referir
essa irredutibilidade*.

A experiência estética do sublime será porventura a que corresponde ao jogo 
entre faculdades onde mais claramente se verifica o trabalho em primeiro plano 
da imaginação. Ou pelo menos aquele tipo de jogo em que a imaginação se 
surpreende :, numa vã tentativa, por assim dizer não legal, de afrontar os 
limites do entendimento e da sensibilidade. Nesse caso o objecto estético por 
ser "absolutamente grande" não é exprimível em qualquer figura, ele é por 
definição *informe* (*formlos*). Tal situação obriga a faculdade de imaginar a 
um esforço inglório no sentido de conseguir representar uma efectiva figura para
a ideia que a razão lhe apresenta. No que respeita ao sublime falamos de uma 
grandeza "que só é idêntica a si mesma", para a qual não é possível apresentar 
um critério de medida e por isso mesmo "não há que procurar nas coisas da 
natureza, mas sim somente nas nossas ideias" (38). Ora nesta circunstância a 
imaginação como que cai numa contradição: toma penosamente consciência das suas 
drásticas limitações e ao mesmo tempo alarga­se a si mesma como lugar próprio da
experiência do sublime, (nota: B 83). Este não é mais na estética kantiana do 
que outra *posição* da faculdade da imaginação na economia do jogo que sempre 
entretece com as faculdades intelectuais. Estamos mesmo em presença, através 
deste alargamento da imaginação, de um conceito de experiência estética 
invulgarmente amplo, sobretudo se pensarmos no contexto de um séc. XVIII. As 
referências que Kant faz, a propósito do sublime, a uma imaginação que se 
dilacera: [ela pretende "alcançar o seu máximo e nesse esforço para se estender,
mergulha em si mesma" (N 88)], a um abismo (*_abgrund*) em que imerge na própria
apreensão do sublime: ("O excessivo para a faculdade de imaginação ­­ até ao 
qual ela é impelida na apreensão da intuição ­­ é por assim dizer um abismo, no 
qual ela própria teme perder­se") (39), constituem claramente uma via de acesso 
a uma *estética que não se confina a uma mera teoria do belo*, entendido este 
quase sempre como o objecto de uma estética do apolíneo e da harmonia entre 
formas e entre estas e o sujeito. Agora de algum modo o prazer é visto como 
*desprazer*, o belo como o assustador ou pelo menos 0 que não é racionalmente 
concebível. E no entanto a experiência continua a ser por excelência *estética* 
e a ser ainda representável, nas palavras de Kant como uma "conformidade a fins 
sem fim" (*_zweckmaessigkeit ohne Zweck*). Ou na formulação aparentemente 
contraditbria de Kant aquilo que é esteticamente sublime "é assumido como 
sublime com um prazer que somente é possível através de um desprazer" (40). :,

Assim a teoria do sublime da primeira parte da *_c_f_j*, ‡ qual Kant dedica uma 
Analítica com a mesma importância na economia da obra da Analítica do juízo 
reflexivo do belo, confere ‡ fundamentação da estética um alcance por assim 
dizer prospectivo. As mudanças profundas ocorridas a partir da segunda metade do
séc. XIX sobre o próprio conceito de *estético* encontram uma antecipação (e 
justificação) importante.

… pois perfeitamente legítimo o renascer do interesse que a filosofia sobre a 
estética das ˙ltimas décadas tem dedicado ‡ teoria kantiana do sublime da 
terceira Crítica. Em Adorno o seu conceito de *negativo*, ou seja a força 
crítica que habita a obra de arte no desmascaramento das formas de domínio 
impostas no real, é uma herança do conceito de *sublime* da *_c_f_j*. Para 
Adorno o "sublime, que Kant reservava ‡ natureza, tornou­se depois dele 
constituinte histórico da própria arte. O sublime traça a linha de demarcação em
relação ao que mais tarde se chamou artesanato" (41). No entanto Adorno vê no 
sublime da arte contemporânea mais um sucedâneo de categorias tradicionais como 
o mesquinho e o cómico e é nessa orientação que ele realiza o seu poder de 
negatividade. … que se na versão kantiana o animo, no sentido técnico do 
*_gemuet* "é reduzido ‡ sua dimensão natural, o aniquilamento do indivíduo deixa
de ser nele positivamente suprimido. Mediante o triunfo do inteligível no 
indivíduo que resiste espiritualmente ‡ morte, este empertiga­se como se, 
portador do espírito, fosse apesar de tudo absoluto. Fica assim entregue ao 
cómico" (42). Assim embora a categoria de sublime contenha ‡ partida uma enorme 
carga de negatividade, pois na verdade nessa experiência a finitude absoluta 
confronta­se com poderes absolutos, o facto é que na perspectiva de Adorno ela 
não representa uma nova e autêntica categoria de uma teoria estética que 
pretende dar conta da inserção da arte no nosso mundo onde imperam as forças da 
dominação. Mas mais recentemente é Jean­François Lyotard que tem uma concepção 
mais positiva do sublime, desde logo no sentido em que este revelará 
virtualidades imprescindíveis para a compreensão das novas formas de produção 
estética englobáveis no conceito de vanguarda. Num texto de 1984, reproduzido 
num n˙mero da revista *_merkur* do mesmo ano, com o título *_das Erhabene und 
afie Avantgarde* (*_o Sublime e a Vanguarda)*, Lyotard coloca no centro da 
moderna :, experiência estética a categoria de *acontecimento* (*évenement, 
Ereignis*). O sublime caracteriza tão bem as estéticas do nosso mundo porque 
nele, não é o elemento da inteligência ou o conceptual que detém a primazia. O 
elemento ameaçador contido no sublime ­­ a que Kant se refere numa passagem do 
fundamental parág. 29 (43) ­­ é o sinal mais apropriado que o sujeito está 
perante um objecto que lhe "ocorre", como um *pathos* que na verdade lhe 
acontece sem que tenha sido previsto ou pretendido. No sublime algo ocorre e 
irrompe onde a inteligência já não domina. *_o sublime acontece neste 
momento*... (*_das Erhabene geschiet nun* ...): "Que aqui e agora este quadro 
exista, e nada mais do que isso, é o sublime. A incapacidade da inteligência, 
que procura apreender, em apreender, o seu desarme, o reconhecimento que isto, 
esta ocorrência da pintura não era necessária, nem sequer era previsível; a sua 
nudez (*_bloesse*) perante o *acontece*, a protecção do que ocorre "perante" 
toda a defesa, toda a ilustração, todo o comentário, a protecção face a todo o 
olhar sob a égide do *_now*, tal é o *rigueur* do que vai ‡ frente, da 
vanguarda" (44). Lyotard está sobretudo interessado em sublinhar o carácter 
incontrolável, "imprevisível" de uma categoria estética que foge por completo ‡ 
lógica da planificação/dominação. Neste aspecto as suas análises encontram­se 
com as de Adorno: "Está fora de d˙vida que a estética do sublime era e 
continuará a ser uma reacção contra o positivismo e o cálculo realista do 
mercado" (45). No entanto, para o filósofo francês, a vanguarda que incorpora 
esta categoria, não só nega, mas também exprime o tipo de domínio que é o 
capitalismo e desse modo vive no seu seio de uma forma não simplesmente 
negativa. De facto "existe algo de sublime na economia capitalista. Ela não é 
académica, não é fisiocrata, ela não admite qualquer espécie de natureza" (46). 
A relação do sublime com o tempo, ou melhor a temporalidade é, por sua vez, 
singular: modifica­lhe completamente o regime, ao introduzir a dimensão do 
acontecimento e do agora. O novo regime de temporalidade que a categoria de 
sublime inaugura não é o de um *suceder*, nem sequer o de um *inovar*, mas sim o
do *acontecer*, Lyotard não deixa de ter razão ao escolher como maximamente 
relevante este carácter temporal do sublime. No entanto resta ver se esta 
suspensão dos outros regimes de temporalidade não será uma qualidade da 
experiência estética :, globalmente considerada, sem que especifique o sublime 
por si só. 0 próprio conceito de uma *conformidade a fins sem fim* 
(*_zweckmaessigkeit ohne Zweck*) que para Kant singulariza o estético poderá 
incluir já por si essa referência a um *agora* que tem no seu próprio acontecer 
o seu *telos*. Por outro lado se é certo que o sublime irrompe como uma potência
ameaçadora e no limite destrutiva do sujeito, também é verdade que *na 
globalidade da experiência estética o que é irredutível é a consciência que se 
está sempre face a uma experimentação com a imaginação*. O mesmo é dizer que 
encontramos no estético como sua própria condição de possibilidade (por isso *a 
prior*) uma *componente perspectivista* que se reconhece precisamente nessa 
incontornável experiência da liberdade da imaginação nas suas relações com a 
ordem do conceptual. De tal modo que "o comprazimento (*das Wohlgefallen*) no 
objecto depende da relação na qual queremos colocar a faculdade de imaginação, 
desde que ela entretenha por si própria o animo em livre ocupação" (47). O 
sublime, no sentido da terceira Crítica, não deverá certamente deixar de ser 
valorizado como categoria estética que, tal como Adorno e Lyotard bem lembram, 
marca o imaginário artístico contemporâneo. Não só do ponto de vista de uma 
função hermenêutica, como do agente criador. Não que os grandes criadores deste 
século tenham lido a obra de Kant ou particularmente a sua "Analítica do 
Sublime". O que acontece é que nesta, Kant descobre (para o que é fundamental 
ter em conta a sua leitura da obra de Burke, *_philosophical Enquiry into the 
Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful*, 1757) uma relação 
substancialmente nova do sujeito com a natureza ou com a materialidade exterior 
de uma forma geral conversível em objecto estético. Nomeadamente uma forma de 
inserção que o carácter estético revelado no *belo* não indiciava, já que este 
fortalecia o sentimento de pertença, os vínculos familiares. A estética do 
sublime vai abrir pela primeira vez no pensamento ocidental a possibilidade de 
conceber uma outra relação com a referida materialidade, assente na ruptura, na 
estranheza e no desprazer. No entanto, paradoxalmente, não se abandona o domínio
do estético, pelo contrário este sairá até reforçado e alargado.
… tendo tudo isto em conta, e particularmente o lugar da "Analítica do Sublime" 
na economia da globalidade da *_c_f_j*, :, que se pode dizer que esta inclui os 
seguintes elementos decisivos para a compreensão contemporânea do estético:

1 ­­ a abertura ao belo como familiaridade e pertença, assim como ao sublime 
como estranho e incontrolável, aquilo que em grande parte corresponde ao 
conceito freudiano de *unheimlich*;
2 ­­ a abertura ‡ representatibilidade do sem­forma, quer através do simbólico, 
quer pela persistência no elemento da ausência de forma;

3 ­­ a abertura ao artefactual e ao ficcional como materiais preponderantes de 
uma estética que em grande parte abandona o desejo de *mimésis* para explorar os
domínios do acontecimento sem referência objectivante.

… neste sentido que Lyotard diz do artista de vanguarda que ele "experimenta 
combinações que permitem o acontecimento" (48).
Convirá desfazer neste ponto um outro equívoco bastante divulgado acerca da 
terceira Crítica e que tem a ver com a sua ligação ao romantismo. O que acabamos
de verificar parece fazer alinhar a *_c_f_j* com as teses dos fundadores do 
romantismo. Ora parece indesmentível que se nomeadamente teorias como as do 
sublime e do génio parecem aproximar as duas filosofias, é sempre a já referida 
consciência *perspectivista* que afasta as duas concepções. Para o romantismo o 
elemento do sublime, entendido como dominação transcendente ou simplesmente como
*outro*, adquire uma autonomia tal que acaba por aniquilar qualquer posição com 
carácter transcendental (isto é de um sujeito que encontre nele próprio as 
regras). Ora é sempre máxima preocupação de Kant não deixar que a primazia do 
sujeito transcendental seja posto em causa. Neste sentido no que respeita ‡ 
*estética* a *_c_f_j* qualificará como dogmática toda a tentativa de fundar o 
juízo estético em supostas características objectivas (por ex. qualidades da 
forma como a simetria, ou outras que envolvam certas concepções de harmonia, 
perfeição, etc.) do objecto. Tese fundamental de Kant é que a *conformidade a 
fins* deve ser entendida sempre num sentido idealista e não realista (ver a este
respeito sobretudo o parág. 58), apesar de ser notório que as "belas formações 
no reino da natureza organizada intervêm muito favoravelmente ao realismo da 
conformidade a fins estética da natureza". Mais :, precisamente gostaríamos de 
"admitir que na geração do belo se tenha colocado como fundamento uma ideia do 
mesmo na causa produtora e favorecendo nomeadamente a nossa faculdade de 
imaginação" (49). Na *_aesthetica* (1750­1758) de Baumgarten podia Kant 
encontrar óbvios exemplos desse realismo dos fins que a tradição leibniziano­
wolffiana estabelecera. No parág. 14 daquela obra define Baumgarten como 
objectivo da Estética "a perfeição do conhecimento sensível (*perfectio 
cognitionis sensitivae*) como tal; porém com isto significa­se a beleza" (50). …
assim também que, como é esclarecido pelo mesmo Baumgarten (parág. 19), "A 
beleza universal do conhecimento (*_pulchritudo cognitionis sensitivae 
universalis*) é ­­ já que não existe nenhuma perfeição sem ordem ­­ o consenso 
da ordem, em que meditamos as coisas belas pensadas, consigo mesma e com as 
coisas, na medida em que essa ordem aparece como fenómeno, isto é enquanto 
beleza da ordem e da disposição" (51). A revolução copernicana extensível ‡ 
estética tem certamente como consequência maior e imediata a 
erradicação de todo o critério realista apoiado no uso de categorias 
(a de perfeição é apenas um exemplo, ainda que pertinente aos olhos de Kant, 
dado o peso da escola wolffiana) que conduzirá inevitavelmente ‡ dialéctica do 
juízo estético. Neste ponto será imprescindível ver como Kant representa, no 
parág. 56, a *antinomia do gosto* e qual a solução que no parágrafo seguinte 
encontra para esta.

A inequívoca posição transcendental que estabelece um limite firme ao julgamento
estético terá pois que respeitar antes de mais aquilo a que Kant chama um 
"princípio da *idealidade* da conformidade a fins". As referências exteriores, 
no sentido das qualidades objectivas que inequivocamente se oferecem a qualquer 
sujeito ou comunidade cultural como especificamente estéticas, desaparecem. Mas 
a verdade é que se neste como noutros domínios não quisermos dogmatizar, devemos
considerar que estamos sempre perante um "princípio que nós mesmos sempre pomos 
no fundamento do juízo estético, e que não nos permite utilizar nenhum realismo 
de um fim da natureza" (52).

A *_c_f_j* é uma obra surpreendente e inesgotável, não só para aqueles que a 
estudem no contexto da filosofia kantiana, mas também para os que o façam com a 
preocupação de a aplicar :, ‡s perplexidades da nossa experiência contemporânea.
A forma irresistível como a terceira Crítica projectou para as épocas futuras 
temas que são elementos indestrutíveis dessa experiência, tais como a relação 
entre vida e arte, entre estética e moral, a especificidade do estético e o 
valor da sua m˙ltipla expressão nas artes, a historicidade destas ou a crítica 
‡s teleologias dogmáticas, não tem paralelo nas obras filosóficas que fundam a 
nossa modernidade.

António Marques

BIBLIOGRAFIA

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NOTAS DO PREF¡CIO

(1) G. Lehmann, *_system und Geschichte in Kants Philosophie in Beitraege zur 
Geschichte und Interpretation Kants*, Berlin, 1969, pp. 152 e segs.

(2) *_sistem*a e *arquitectónica* são conceitos reversíveis em Kant e cuja 
teorização aparece já bastante desenvolvida na *_c_r_p*, precisamente na 
terceira secção da sua segunda parte, *_doutrina Transcendental do Método*, 
intitulada: *_a Arquitectónica da Razão Pura*, B 860 e segs. Será de notar que o
conceito de *arquitectónica* transfere para o de *sistema* um sinal de abertura 
e incompletude permanentes.

Apesar de Kant aí explicar que "ao esboçar simplesmente a arquitectónica de todo
o conhecimento proveniente da *razão pura*", vai começar "a partir do ponto em 
que se divide a raiz comum da nossa faculdade de conhecer, para formar dois 
ramos, um dos quais é a *razão*" B 863 (as citações da *_c_r_p* serão sempre a 
partir da tradução portuguesa de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique 
Morujão, Lisboa, 1985), a verdade é que vão permanecer como problemáticos os 
próprios conceitos de unidade, de tronco comum ou o próprio conceito de 
actividade da razão que a metafórica da árvore do saber afinal ajuda a encobrir.
O principal motivo que fica com consequências para a terceira Crítica vem já 
claramente referido no texto da *_arquitectónica*: as diferentes e aparentemente
incomunicáveis legislações da razão e os seus dois objectos, a *natureza* e a 
*liberdade* (conf. B 868).
(3) Kant, *_carta a C. L. Reinhold*, 28­31.12.1787 in Immanuel Kant, 
Briefwechsel, Hamburg, 1986, pp. 333­336.

(4) Forma como Kant define em várias ocasiões o conhecimento filosófico. Por 
exemplo na *_c_r_p*, em B 741: "O conhecimento *filosófico é o conhecimento 
racional de conceitos*". Acrescentar­se­á que estes devem ser considerados como 
possuindo um valor *a prior*.

(5) *_c_f_j*, B 169. Já quase no fim da *_c_f_j* Kant repete esta ideia de que a
liberdade e as exigências da razão prática em geral serão melhor "confirmadas" 
por uma natureza contendo ela própria determinados traços de inteligência e que 
por isso se mostre "adequada" aos fins do homem: "o facto de haver, no mundo 
efectivo, para os seres racionais uma rica matéria para a teleologia física (o 
que não seria até necessário), serve ao argumento moral para a confirmação 
desejada, na medida em que a natureza pode apresentar algo de análogo ‡s ideias 
(morais) da razão" (*_c_f_j*), B 474.

(6) Acerca da génese no sistema crítico kantiano desta nova imagem da natureza, 
que no entanto não se pode confundir com a metafísica da natureza mais tarde 
teorizada pelos principais autores do idealismo e 
do :, romantismo alemães, ver nosso *_organismo e Sistema*, Lisboa, 1987, espec.
1.a e 4.a Secções.

(7) O problema da mediação entre os dois domínios heterogéneos é o grande 
problema sistemático da ˙ltima Crítica e que tinha ficado em aberto. "Ainda que 
na verdade susbsista um abismo intransponível entre o domínio do conceito de 
natureza, enquanto sensível, e o do conceito de liberdade, como supra­sensível, 
de tal modo que nenhuma passagem é possível do primeiro para o segundo (por isso
mediante o uso teórico da razão), como se se tratassem de outros tantos mundos 
diferentes, em que o primeiro não deve poder ter qualquer influência no segundo,
contudo este ˙ltimo deve ter uma influência sobre aquele, isto é o conceito de 
liberdade deve tornar efectivo no mundo dos sentidos o fim colocado pelas suas 
leis e a natureza tem em consequência que ser pensada de tal modo que a 
conformidade a leis da sua forma concorde pelo menos com a possibilidade dos 
fins que nela actuam segundo leis da liberdade" (*_c_f_j*, B __xxix­__xx).

(8) *_c_f_j*, B 267.

(9) Por exemplo na Antropologia: "Der Affekt ist Ueberraschung durch Empfindung,
wodurch afie Fassung des Gemuets (*animus sui compos*) aufgehoben wird", (B 
203/_a 204) e no *_opus Postumum*/, Ak. Ausg. XXII, 484: "Erfahrung wovon haben 
ist ein Akt des Gemuets (*animus ohne anima zu heissen*) wo empirische 
Vorstellung eines Objekts, d. i. Wahrnehmung nach einem Gewissen Prinzip 
aggregirt wird".

(10) *_c_f_j*, B XXVI.
(11) *_c_r_p*, B 684. Que Kant tenha dado claramente um valor transcendental ao 
seu hipotético e regulativo da razão na primeira Crítica é a nosso ver 
inquestionável.

(12) Conf. por exemplo o ensaio de Rolf­_peter Horstmann, *_why Must There Be a 
Transcendental Deduction in Kant's Critique of Judgement*? in *_kant's 
Transcendental Deductions*, ed. E. Foerster, Stanford, 1989, pp. 157­176.

(13) *_c_f_j*, B L.

(14) *_c_f_j*, B XL. 

(15) *_c_f_j*, B XL.

(16) *_c_f_j*, B XLI.

(17) *_c_f_j*, B LII.

(18) Não nos parecerá desajustado defender que na *_c_f_j* de um certo modo, e 
apesar das frequentes passagens em que Kant mantém uma :, dicotomia estrita, 
tanto o julgamento estético, como o teleológico (sobre conformidade a fins 
objectiva nos seres orgânicos) envolvem processos de reflexão em que o elemento 
cognitivo e o do prazer sempre interagem. De algum modo o juízo estético é 
cognitivo, assim como o teleo ógico conterá em parte prazer. Ver a este 
propósito Frisdrich Kaulbach, *_aesthetische Welterkenutnis bei Kant*, 
Wuerzburg, 1984. Para Kaulbach a perspectiva da conformidade a fins 
(*_zweckmaessigkeit*) em que o sujeito se coloca equivale sempre a uma 
determinação de uma *verdade de sentido* (Sinnwahrheit). Até na experiência 
estética "aparece" essa verdade. "Esteticamente, isto é no sentimento reflexivo 
é reconhecida a verdade de sentido da perspectiva do mundo própria da 
conformidade a fins, na medida em que se revela a sua aptidão para o 
preenchimento do nosso interesse na liberdade estética" (p. 121). Obra 
importante para se compreender a articulação do estético e do cognitivo na 
*_c_f_j* é a de O. Chédin, *_sur L'_esthétique de Kant* ­­ et la théorie 
critique de la représentation* (Vrin, Paris, 1982). Para este autor a reflexão 
estética revela, no acordo e jogo das faculdades do conhecimento que lhe é 
específico, uma antecedência em relação aos procedimentos cognitivos, mostrando 
simultaneamente na sua actividade, por assim dizer, indeterminada aquelas 
faculdades no seu estado mais puro: "Enquanto que uma *_crítica da razão pura* 
se esforça por estabelecer uma "constituição" doa poderes de conhecer. Uma 
Crítica do juízo* estético descobre que estes poderes tiveram que ser capazes de
se "auto­constituir" antes de toda a instituição", O. Chédin, op. cit., p 122.

(19) *_c_f_j*, B 473.

(20) *_c_f_j*, B 394.
(21) Desde logo a mencionada "viragem" é bastante nítida quando comparamos os 
modos como Kant e filósofos de uma linha leibniziana e wolfiana, por exemplo 
Baumgarten, encaram o juízo estético. Este para Kant tem de assentar 
forçosamente, como é dito no início do parág. __vii da Introdução, naquilo "que 
na representação estética de um objecto é meramente subjectivo", ou seja naquilo
"que constitui a sua relação com o sujeito e não com o objecto". Foi sempre um 
dos maiores cuidados de Kant retirar do registo do objecto (qualidades 
estéticas, forma objectiva, auréola e características atractivas) o fundamento 
de determinação da experiência estética. Em Baumgarten podíamos encontrar uma 
estética que ainda repousava, por exemplo, em fórmulas como a seguinte: "a 
beleza universal do conhecimento sensível é ­­ já que nenhuma perfeição existe 
sem ordem ­­ o acordo (*consensus*) da ordem, na qual meditamos nas coisas 
belas" ou ainda "a beleza universal do conhecimento sensível é [...] o acordo 
dos sinais (meios de expressão) entre si e com a ordem e as coisas", (A. G. 
Baumgarten, *_theoretische Aesthetik ­­ Die grundlegenden Abschnitte aus der 
"Aesthetica*" (1750­1758), Hamburg, 1983, p. 12. Sobre as relações da estética 
kantiana com a da escola de Wolf/_baumgarten ver o recente artigo de Manfred 
Frank, Kants "*_reflexionen zur Aesthetik" ­­ Zur Werigeschichte :, der "Kritik 
der aesthetischen Urteilskraft*" in *_revue Internationale de Philosophie*, 44, 
1990, pp. 552­580.

(22) *_c_r_p*, B XVI­__XVII.

(23) Foi assim que Bertrand Russell interpretou a "viragem copernicana" de Kant:
"Kant falou de si mesmo como efectuado uma "revolução copernicana", mas teria 
sido mais rigoroso se tivesse falado numa "contra­revolução ptolomaica", a 
partir do momento em que voltou a colocar o homem no centro donde Copérnico o 
tinha destronado", *_human Knowlwdge­_its Scope and Limits*, London, 1966, p. 9.

(24) Cf. *_c_r_p*, B 109 onde Kant se refere aos conceitos puros precisamente 
como lugares de uma "tópica sistemática": ...numa tópica sistemática, como a 
presente, é difícil errar a colocação adequada de cada conceito, ao mesmo tempo 
que facilmente se descobrem os lugares ainda vagos."

(25) Seria um erro considerar o ponto de vista formal da categoria e a procura 
de um ponto de vista sistemático relativamente aos conte˙dos como 
contraditórios. Eles são sobretudo complementares, assim como numa gramática o 
ponto de vista sintáctico e o ponto de vista 
semântico também o são. Conf. a este propósito: Josef Simon, *_teleologisches 
Reflektieren und Kausales Bestimmen*, Zeitschrift fuer Philosophisches 
Forschung, 30, 1976, pp. 380 e segs.

(26) *_c_f_j* XXXII.

(27) Em texto sobre a relação dos conceitos de *dedução* e *reflexão* no âmbito 
de uma problemática da dedução transcendental, Dieter Henrich expõe assim a 
especificidade desse conceito em Kant: "A teoria kantiana da reflexão (a qual 
tem um significado completamente diferente do da "reflexão" que se tornou 
corrente na filosofia pós­kantiana) é o seguinte: (a) As nossas capacidades 
cognitivas encontram­se numa "teia intrincada". Elas não podem ser reduzidas a 
uma ˙nica forma de operação inteligente fundamental; 
(b) Cada uma destas capacidades espontaneamente operativa e 
relaciona­se com o seu domínio apropriado; (c) Para chegar a um conhecimento 
genuíno torna­se necessário controlar e estabilizar estas operações e contê­las 
dentro dos limites dos seus domínios próprios [...]. Com vista a este propósito 
o animo tem que implicitamente conhecer aquilo que é específico de cada uma das 
suas actividades particulares. Isto implica, além disso, que os princípios sobre
os quais uma actividade é fundada deva ser conhecida por contraste com as outras
actividades. A reflexão consiste precisamente neste conhecimento. Sem ele 
confundiríamos, por exemplo, o contar com o calcular, análise com composição e 
assim por diante [...]; (d) Assim a reflexão tem sempre lugar" (D. Henrich, 
*_kant's Notion of a Deduction and the Methodological Background of the First 
Critique* in *_kant's Transcendental Deductions*, ed. E. Foerster, Stanford, 
1989, p. 42. Veja­se também sobre o :, conceito de *reflexão* na *_c_r_p* e na 
*_c_f_j*, o artigo de Jean­François Lyotard, *_la Réflexion dans l'_esthétique 
Kantienne in Reoue Internationale de Philosophie, 44, 1990, Paris, pp. 507­542.

(28) No parág. 5 da *_c_f_j* Kant distingue três formas diferentes de 
*comprazimento* correspondentes ‡quilo que é *agradável*, ao que é *belo* e ao 
que é *bom*. "O agradável, o belo, o bom designam, portanto, três relações 
diversas das representações ao sentimento de prazer e desprazer, com referência 
ao qual distinguimos entre si objectos ou modos de representação. Também não são
idênticas as expressões que convêm a cada um e com as quais se designa a 
complacência (Komplazenz) nos mesmos. *_agradável* para alguém aquilo que o 
*deleita* (vergnuet); *belo*, aquilo que meramente lhe apraz (gefaellt); bom, 
aquilo que é *estimado* (geschaetzt), *aprovado* (gebilligt)" (*_c_f_j*, B 15).

(29) Sobre as diferenças entre a reflexão estética e a teleológica ver nosso 
*_organismo e Sistema em Kant*, ed. cit., espec. pp. 184 e segs.

(30) *_c_f_j*, B 69. A este propósito ver o livro de Paul Crowther, *_the 
Kantian ­­ From Morality to Art*, Oxford, 1989, pp. 55 e sege.: "Contudo se Kant
sugere que uma imaginação livre esquematiza sem *um* conceito, não quer dizer 
que ela esquematize sem referência ‡ *faculdade* de conceitos como tal."

(31) … assim que Kant pode falar numa "esquematização sem conceitos", tese ‡ 
primeira vista impossível no quadro da *_c_r_p*: "...visto que a liberdade da 
faculdade de imaginação consiste no facto que esta esquematiza sem conceitos, 
assim o juízo de gosto tem que assentar sobre uma simples sensação das 
faculdades reciprocamente vivificantes da imaginação na sua *liberdade* e do 
entendimento com a sua *conformidade a leis* (wechselseitig belebenden 
Einbildungkraft in ihrer *_freiheit* und des Verstandes mit seiner 
*_gesetzmaessigheit*)" (B 146).

(32) *_c_f_j*, B 29.
(33) Por exemplo Ingeborg Heidemann no seu *_der Begriff des Spieles* encontra 
na *_c_f_j* quatro sentidos para o termo jogo: jogo como *acção*, como *forma do
sensível*, como *coordenação* e como *princípio de ordenação de acontecimentos*.
… assim que nesta obra as relações entre jogo e belo são investigadas segundo a 
estes quatro sentidos maiores daquele conceito. Conf. op. cit., Berlin, 1968, 
pp. 156 e segs.

(34) *_c_f_j*, B 129: "weil das Gemuet fuer sich allein ganz Leben (das 
Lebensprinzip selbst) ist."

(35) Sobre o conceito de "sa˙de" na *_c_f_j* e a sua relação com o "jogo" ver 
espec. parág. 54, B 225 e segs. :,

(36) *_c_f_j*, B 42.

(37) *_c_f_j*, B 71. Um pouco mais ‡ frente (B 72) afasta toda a estrutura 
rigidamente­regular (Steif­_regelmaessige) como critério do belo, sobretudo 
porque, ao produzir tédio, impede a faculdade de imaginação de poder "jogar 
naturalmente e de modo conforme a fins. (B 72).

(38) *_c_f_j*, B 84.

(39) *_c_f_j*, B 89.

(40) *_c_f_j*, B 102.

(41) Theodor W. Adorno, *_teoria Estética*, trad. portuguesa de A. Morão, 
Lisboa, 1988, p. 222.

(42) Th. Adorno, *_teoria Estética*, ed. cit., p. 224.

(43) *_c_f_j*, B 119.

(44) J.­_f. Lyotard, art. cit., p. 154.

(45) J.­_f. Lyotard, art. cit., p. 163.

(46) *_ibid*.

(47) *_c_f_j*, B 119.

(48) J.­_f. Lyotard, art. cit., p. 160. Especificamente sobre a temática do 
sublime na *_c_f_j*, veja­se o importante estudo deste autor, *_leçons sur 
l'_analytique du Sublime*, Galilée, Paris, 1991.

(49) *_c_f_j*, B 247.
(50) A. G. Baumgarten, *_theoretische Aesthetik ­­ Die grundlegende Abschnitte 
aus der "Aesthetica", lat./deut., Felix Meiner, Hamburg, 1988.

(51) A. G. Baumgarten, *ibid*.

(52) *_c_f_j*, B 252.

Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997

Segundo Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques
Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­
Clássicos de Filosofia

Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d.21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

isbn 972­27­0506­7

NOTA DOS TRADUTORES

A *_crítica da Faculdade do Juízo* foi originalmente publicada sob o título de 
*_critik der rteilskraft von Immanuel Kant*. Berlin und Libau, bey Lagarde und 
Friedrich 1790. LVIII e 477 páginas. A segunda edição, com o mesmo título, 
apareceu em Berlin, bey F. T. Lagarde 1793. LX e 482 páginas. A terceira e 
˙ltima edição em vida de Kant apareceu em 1799. Sobre as correcções introduzidas
nesta ˙ltima edição não há informações de que Kant tenha tomado conhecimento 
delas. O próprio Kant introduziu diversas correcções na segunda edição, ainda 
que não ao ponto de se justificar que constasse no seu título "segunda edição 
melhorada", acrescento de que ele discordou, conforme as suas cartas a F. T. 
Lagarde.

A presente tradução baseou­se no texto da segunda edição de 1793, reeditado no 
vol. v da *_kants Werke*, Akademie­Textausgabe, Berlin, Walter de Gruyter & Co. 
1968, Hrsg. von der Koeniglich Preussischen Akademie der Wissenschaften, Band V,
Berlin 1908­1913, S. 165­485. Os n˙meros ‡ margem (a) trazem a indicação das 
páginas correspondentes ‡quela segunda edição original, extraída do texto da 
Academia.

Trouxemos nas notas as principais variantes das três edições originais, 
referidas como "A" ( 1.a edição), "B" (2.a edição), "C" (3.a edição). Omitimo­
las quando afectavam mais a forma gramatical e a expressão alemã do que o 
conte˙do, a ponto de na tradução as diferenças se tornarem pouco visíveis. O 
leitor zeloso dessas min˙cias poderá verificá­las no próprio texto original. As 
notas ao pé da página: a), b), etc., dizem respeito ‡s referidas variantes e aos
comentários dos tradutores. As notas com algarismos árabes, no fim de cada uma 
das partes principais da obra ("Introdução", "Crítica da Faculdade do Juízo 
Estética" e "Crítica da Faculdade do Juízo Teleológica") são as do próprio  
Kant. :,

Esta tradução dá lugar a duas edições, a que aqui se apresenta e outra 
brasileira 
(Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro/_são Paulo). As diferenças são 
sobretudo as ortográficas e outras que têm a ver com as diferentes 
sensibilidades 
do português falado e escrito: contracções, lugar das formas e partículas 
reflexas 
e pronominais em relação ao verbo, substituição de um ou outro termo caído em 
desuso para o português de Portugal, mas usual no português do Brasil, etc. 
Entretanto o glossário técnico é o mesmo, a não ser em dois casos em que se 
achou que a solução encontrada para a edição brasileira violentava em demasia a 
prática e sensibilidade linguísticas do português de Portugal: *_wohlgefallen* e
*_beurteilung*, isto é comprazimento em vez de complacência e julgamento em vez 
de ajuizamento.

Uma palavra relativamente aos limites de qualquer tradução. Toda a tradução, 
face aos frequentes obstáculos ‡ compreensão de termos e de frases e ‡ possível 
pluralidade dos seus sentidos, constitui a adopção de uma perspectiva 
interpretativa. No entanto a componente interpretativa, diríamos mais 
subjectiva, deve entrar sempre em jogo e em tensão com aquilo a que poderíamos 
chamar o sentido próprio do texto, o qual os tradutores deverão procurar *como 
se* este persistisse objectivamente e em si, para lá de propostas de 
interpretação algo pessoais. Ora neste caso seguimos essencialmente uma linha de
tradução que nos aproximasse do sentido kantiano do texto. Assim, por exemplo 
relativamente ao título da obra, preferimos traduzir *_urteilshraft*, de acordo 
com o constante no alemão, por "faculdade do juízo", evitando o título "Crítica 
do Juízo", porque nela não se trata primordialmente do juízo, mas sim da sua 
faculdade. O artifício de escrever "Juízo" (com letra mai˙scula), sempre que se 
trate de *_urteilskraft* e não simplesmente *_urteil* (juízo), favorece a 
ambiguidade que o texto não tem e uma visão distorcida da obra. Na mesma linha 
traduzimos o termo técnico *_eildungskraft* or faculdade da imaginação, como 
*_enntniskraft*por faculdade do conhecimento. Aliás Kant identificou 
*_uilskraft* e *_uilsuermoegen, Erkenntniskraefte*  e *_erkenntnisvermoegen*. A 
opção pela tradução de termos como *_wohlgefallen* por comprazimento (no sentido
de prazer partilhado), *_gemuet* por animo (apesar da nossa tendência a :,
traduzi­lo por mente), *_zweckmaessigkeit* por conformidade a fins, 
*_beurteilung* por julgamento, *_begehrungsvermoegen* por faculdade de apetição,
*_endaweck*  por fim terminal, etc., decorreu em grande parte da observância dos
correspondentes termos latinos usados em vários casos por Kant, mas também da 
opção por uma linguagem mais filosófica, em vez de uma linguagem que só 
atendesse ao seu uso vigente. Uso a que no entanto se torna por vezes impossível
fugir e que alguns embaraços nos causou. Exemplos são o caso da tradução de 
*_vorurteil* por preconceito, termo que se impÙs mas que constitui um 
empobrecimento do sentido judicativo, tanto do termo alemão como do latino 
*praeiudicium*, e também, mas somente na edição portuguesa, o caso de 
*_wohlgefallen* por comprazimento, quando o termo complacência seria a opção 
mais correcta, dado o correspondente latino indicado por Kant, *complacentia*. 
No entanto a edição brasileira decidiu­se por complacência, apesar do seu 
significado entre nós se ligar actualmente mais a tolerância.

Em contrapartida a remissão pelo próprio Kant a fontes latinas do seu pensamento
animou­nos ‡ introdução de um termo novo em português, como para *_einsicht*, 
perspiciência (no sentido complexo de *perspicere* e *scientia*; ver a nota 
correspondente).

A opção por uma linguagem em parte normativa é tanto mais importante em 
português, porque nele uma linguagem filosófica ainda se encontra em vias de 
constituição. … o próprio Kant que no Prólogo ‡ *_metafísica dos Costumes* 
(1797) nos recomenda a proceder deste modo: "O sistema de uma crítica da 
faculdade da razão, assim como em geral qualquer metafísica formal, jamais se 
pode tornar popular, apesar dos seus resultados poderem ser tornados claros ‡ sã
razão (de um metafísico que se ignora). Aqui não se pode pensar em nenhuma 
popularidade (linguagem popular), mas tem que se insistir em *exactidão* 
académica, mesmo que ela seja desaprovada pelo seu carácter penoso (pois se 
trata de uma 
linguagem académica), porque só por ela a razão precipitada pode pela primeira 
vez ser levada a compreender­se a si própria face ‡s suas afirmações dogmáticas"
(Ak.­_ausg., VI, 206).

Cabe aqui notar que a já mencionada recuperação desse sentido original do texto,
talvez somente uma ideia regulativa :, na acepção kantiana, obrigou­nos a 
investigar o significado próprio dos termos alemães, não só pela consideração 
dos termos em si, mas também indirectamente, através do correspondente latino 
que frequentemente o próprio Kant indica, quer nesta, quer noutras obras.
Esta tradução a quatro mãos consumiu alguns anos de trabalho e pesquisa. A 
autonomia com que procurámos realizá­la, tomando as traduções existentes nas 
demais línguas como outras tantas tentativas de êxito neste empreendimento, 
constituiu para nós uma fonte de satisfação constante. Satisfação semelhante 
causou­nos ouvir a Pablo Oyarzun Robles (Santiago do Chile) que a sua nova 
tradução espanhola *_crítica de la facultad de juzgar*, a sair em breve na 
Venezuela, coincide com a nossa ­­ sem nenhum anterior conhecimento recíproco ­­
na maioria dos pontos de vista e dos resultados alcançados.

A nossa experiência conjunta Portugal­_brasil constitui a primeira tradução 
completa da terceira Crítica de Kant em português. Não incluímos nela a primeira
versão da Introdução que Kant abandonou devido ‡ sua extensão, mas cujo 
original remeteu posteriormente a J. S. Beck, conforme carta de 4­12­1792, em 
virtude da sua maior elucidação do conceito de *_zweckmaessigkeit* (conformidade
a fins). Não a fornecemos em apêndice, até porque já possuímos a tradução 
exemplar de Rubens Rodrigues Torres Filho no "Kant II" da colecção "Os 
Pensadores" da Abril Cultural.

A inspiração do projecto desta tradução deveu­se ao convite de Roberto Machado 
que desde logo acolheu com simpatia a ideia deste trabalho. Os nossos mais 
sinceros agradecimentos a Diogo Pires Aurélio pelo interesse e apoio que sempre 
nos manifestou no respeitante ‡ edição portuguesa. A sua realização conjunta 
viabilizou­se graças ‡s bolsas de pós­doutoramento e pesquisa, concedidas 
simultaneamente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e 
Tecnológico ‡ parte brasileira e pela Alexander von Humboldt Stiftung ‡ parte 
portuguesa, na Universidade de Muenster. Os nossos agradecimentos pelos diálogos
lá mantidos com vista a esta tradução dirigem­se aos professores Volker 
Gerhardt, Birgit Recki, Ursula Franke, Georg Meggle, Peter Rohs e seus alunos, 
ao seu assistente Axel Wustehube e ao doutor Mário Gonzalez :, Porta. Também 
agradecemos as sugestões dos professores Friedrich Kaulbach, Reinhard Brandt e 
Konrad Kramer. Uma palavra de reconhecimento a Elisabeth Fernandes pela troca de
impressões que connosco manteve em Muenster.

Uma tradução da terceira Crítica de Kant é um desafio intelectual tão penoso 
como estimulante e no fim resta a clara consciência de estarmos perante um 
trabalho que não pode dispensar a contínua auto­correcção e as sugestões do 
p˙blico leitor.

Os tradutores

Prólogo 

_‡ Primeira Edição, 1790 (a)

(a) A: Prólogo.
A faculdade do conhecimento a partir de princípios *a priori* pode ser chamada 
*razão pura*, e a investigação da sua possibilidade e dos seus limites em geral,
crítica da razão pura, embora se entenda por essa faculdade somente a razão no 
seu uso teórico, como também ocorreu na primeira obra sob aquela denominação, 
sem querer ainda incluir na investigação a sua faculdade como razão prática, 
segundo os seus princípios peculiares. Aquela crítica concerne então 
simplesmente ‡ nossa faculdade de conhecer *a priori* coisas e ocupa­se portanto
só com a *faculdade do conhecimento*, com exclusão do sentimento de prazer e 
desprazer e da faculdade da apetição; e entre as faculdades de conhecimento 
ocupa­se com o *entendimento* segundo seus princípios *a priori*, com exclusão 
da *faculdade do juízo* e da *razão* (enquanto
_o__iv faculdades igualmente pertencentes ao conhecimento
teórico), porque se verá a seguir que nenhuma outra
faculdade do conhecimento, além do entendimento, pode
fornecer *a priori* princípios de conhecimento constitutivos. Portanto a crítica
que examina as faculdades em conjunto, segundo a participação que cada uma das 
outras, por virtude própria, poderia pretender ter na posse efectiva do 
conhecimento, não retém senão o que o *entendimento* prescreve *a priori* como 
lei para a natureza, enquanto complexo de fenómenos (cuja forma é igualmente 
dada *a priori*); mas relega todos os outros conceitos puros ‡s ideias, que para
a nossa faculdade :, de conhecimento teórica são transcendentes, os quais nem 
por isso são in˙teis ou dispensáveis, mas servem (a) como princípios 
regulativos. Fá­lo, em parte, para refrear as preocupantes pretensões do 
entendimento, como se ele (enquanto é capaz de indicar *a priori* as condições a
possibilidade de todas as coisas que ele pode conhecer) tivesse também assim 
determinado, dentro desses limites, a possibilidade de todas as coisas em geral,
em parte para o guiar a ele mesmo na consideração da natureza segundo um 
princípio de completude, embora _ov jamais possa alcançá­la e deste modo 
promover o objectivo final de todo o conhecimento.

Logo, era propriamente o entendimento ­­ que possui o seu próprio domínio, e na 
verdade na *faculdade do conhecimento*, na medida em que ele contém *a priori* 
princípios de conhecimento constitutivos ­­ que deveria ser posto em terreno 
seguro e ˙nico (b) pela em geral chamada Crítica da razão pura contra todos os 
outros competidores. Do mesmo modo foi determinado ‡ *razão*, que não contém *a 
priori* princípios constitutivos senão com respeito ‡ *faculdade da apetição* 
(c), o seu terreno na Crítica da razão prática.

Ora, saber se a *faculdade do juízo*, que na ordem das nossas faculdades de 
conhecimento constitui um termo médio entre o entendimento e a razão, 
também tem por si princípios *a priori*; se estes são constitutivos ou 
simplesmente regulativos (e por isso não provam nenhum domínio próprio), 
e se ela fornece *a priori* a regra ao sentimento de prazer e desprazer enquanto
termo médio entre a faculdade do conhecimento e a  :,

(a) "servem" é acrescento de B.
(b) De acordo com Windelband; Kant: uma.

(c) A tradução de *_begehrungsvermõgen* por faculdade de
apetição concorda com a utilização por Kant da sua correspondente
expressão latina, muito frequente por exemplo nas *_reflexões* do
vol. XV, como aliás no texto de Baumgarten aí reproduzido. Na
Reflexão 1015 Kant afirma: *_facultas appetitionis practicae est
arbitrium*. Essa denominação permite uma melhor distinção entre
*_wille* (vontade), *_willk¸r* (arbítrio) e *_wunsch* (desejo).

faculdade da apetição (do mesmo modo como o entendimento _oVI prescreve 
*a priori* leis ‡ primeira, a razão porém ‡ segunda): eis com o que se ocupa a 
presente crítica da faculdade do juízo.

Uma Crítica da razão pura, isto é da nossa faculdade de julgar segundo 
princípios *a priori*, estaria incompleta se a faculdade do juízo, que por si, 
enquanto faculdade do conhecimento, também a reivindica, não fosse tratada 
como uma sua parte especial. Não obstante, os seus princípios não devem 
constituir, num sistema da filosofia pura, nenhuma parte especial entre a 
filosofia 
teórica e a prática, mas em caso de necessidade devem poder ser ocasionalmente 
ajustados a cada parte de ambas. Pois se um tal sistema sob o nome geral de 
Metafísica alguma vez deve realizar­se (cuja execução completa é em todos os 
sentidos possível e sumamente importante para o uso da razão pura): então 
a crítica tem que ter investigado antes o solo para este edifício, tão 
profundamente quanto jaz a primeira base da faculdade de princípios
 independentes da experiência, para que não se afunde em parte alguma, 
o que _o__vii inevitavelmente acarretaria o desabamento do todo.

Mas pode­se facilmente concluir da natureza da faculdade do juízo (cujo uso 
correcto é tão necessário e universalmente requerido que, por isso, sob o 
nome de são entendimento não se tem em mente nenhuma outra faculdade 
senão precisamente essa) que comporta grandes dificuldades descobrir um 
princípio peculiar dela (pois algum ela terá de conter *a priori*, porque de 
contrário ela não se exporia, como uma faculdade de conhecimento especial, 
mesmo ‡ crítica mais comum), que todavia não tem de ser deduzido de 
conceitos *a priori*; pois estes pertencem ao entendimento e a faculdade 
do juízo concerne somente ‡ sua aplicação. Portanto ela própria deve indicar
 um conceito pelo qual propriamente nenhuma coisa é conhecida, mas que
 serve de regra somente a si mesma, não porém como uma regra objectiva
 ‡ qual ela possa ajustar o seu juízo, pois então se requeriria por sua vez uma 
outra faculdade para poder distinguir se se trata do caso da regra ou não. :,

Este embaraço devido a um princípio (seja ele subjectivo ou objectivo) 
encontra­se principalmente naqueles julgamentos que se chamam estéticos e 
dizem respeito _o__viii ao belo e ao sublime da natureza ou da arte. E contudo 
a investigação crítica de um princípio da faculdade do juízo nos mesmos é a
 parte mais importante de uma crítica desta faculdade. Pois embora eles por
 si só em nada contribuam para o conhecimento das coisas, apesar disso 
pertencem unicamente ‡ faculdade do conhecimento e provam uma referência
 imediata dessa faculdade ao sentimento de prazer e desprazer segundo 
algum princípio *a priori*, sem o misturar com o que pode ser fundamento 
de determinação da faculdade da apetição, porque esta tem os seus princípios 
*a priori* em conceitos da razão. ­­ Mas no que concerne ao julgamento
 lógico (a) da natureza, lá onde a experiência apresenta uma conformidade 
a leis em coisas para cuja compreensão ou explicação o universal conceito
 intelectual do sensível já não basta e a faculdade do juízo pode tirar de 
si própria um princípio da referência da coisa natural ao suprassensível
 incognoscível, tendo que utilizá­lo, para o conhecimento da natureza, 
somente com vista a si própria, aí na verdade um tal princípio *a priori* 
pode _o__ix e tem que ser aplicado ao *conhecimento* dos entes mundanos
 e ao mesmo tempo abre perspectivas que são vantajosas para a razão
 prática; mas ele não tem nenhuma referência imediata ao sentimento 
de prazer e desprazer, que é precisamente o enigmático no princípio 
da faculdade do juízo e que torna necessária uma divisão especial na 
crítica desta faculdade, já que o julgamento lógico segundo conceitos
 (dos quais jamais pode ser deduzida uma consequência imediata sobre 
o sentimento de prazer e desprazer), teria podido, em todo caso, ser
 atribuído ‡ parte teórica da filosofia juntamente com uma delimitação
 crítica dos mesmos.

(a) Rosenkranz: "teleológico".

Visto que a investigação da faculdade do gosto, enquanto faculdade
 de juízo estética, não é aqui empreendida para a formação e cultura do 
gosto (pois esta :, seguirá como até agora o seu caminho, mesmo sem
 todas aquelas perquisições), mas simplesmente com um propósito transcendental, 
assim me lisonjeio de pensar que ela será também ajuizada com indulgência a 
respeito da insuficiência daquele fim. Mas no que concerne ao ˙ltimo objectivo, 
ela tem que preparar­se para o mais rigoroso exame. Mesmo
 aí, porém, espero que a grande dificuldade em resolver um problema 
que a natureza _o_x complicou tanto possa servir como desculpa para
alguma obscuridade não inteiramente evitável na sua solução, contento
que seja demonstrado de modo suficientemente claro que o princípio 
foi indicado correctamente; isto na suposição de que o modo de deduzir
dele o fenómeno da faculdade do juízo não possua toda a clareza que
com justiça se pode exigir algures, a saber, de um conhecimento segundo 
conceitos que na segunda parte desta obra creio ter também alcançado.

Com isto termino, portanto, a minha inteira tarefa crítica. Passarei sem 
demora ‡ doutrinal, a fim de que sempre que possível, retirar de minha
 crescente velhice o tempo em certa medida ainda para tanto favorável.
 … óbvio que não haverá aí nenhuma parte especial para a faculdade do
 juízo, pois com respeito a ela a crítica toma o lugar da teoria; e que porém, 
segundo a divisão da Filosofia em teórica e prática e da filosofia pura nas 
mesmas partes, a metafísica da natureza e a dos costumes constituirão
 aquela tarefa.

INTRODU«?O

I. Da divisão da Filosofia _o__xi

Se dividirmos a Filosofia, na medida em que esta contém princípios do 
conhecimento racional das coisas mediante conceitos (e não simplesmente, 
como a Lógica, princípios da (a) forma do pensamento em geral sem atender ‡ 
diferença dos objectos), como é usual em *teórica* e *prática*,
procederemos com total correcção. Mas então os conceitos que indicam 
aos princípios deste conhecimento da razão qual é o seu objecto, têm
também que ser especificamente diferentes, porque doutro modo não 
conseguiriam justificar qualquer divisão, a qual sempre pressupõe uma
oposição entre os princípios do conhecimento da razão que pertencem
ás diferentes partes de uma ciência.

(a) A: "não, como faz a Lógica, os da".

Todavia existem somente duas espécies de conceitos que precisamente 
permitem outros tantos princípios da possibilidade dos seus objectos. 
Referimo­nos aos *conceitos de natureza* e ao da *liberdade*. _o __xii 
Ora como os primeiros tornam possível um conhecimento *teórico* 
segundo princípios *a priori*, e o segundo em relação a estes comporta 
já em si mesmo somente um princípio negativo (de simples oposição) e 
todavia em contrapartida institui para a determinação da vontade princípios
que lhe conferem uma maior extensão, então a Filosofia é correctamente 
dividida em duas partes completamente diferentes segundo os princípios,
isto é em teórica, como *filosofia da natureza*, e em prática, 
como *filosofia da moral* :, (na verdade é assim que se designa a legislação 
prática da razão segundo o conceito da liberdade). Até agora porém reinou um 
uso deficiente destas expressões que servem para a divisão dos diferentes 
princípios e com eles também da Filosofia; na medida em que se considerou como 
uma só coisa o prático segundo conceitos de natureza e o prático segundo o 
conceito da liberdade e desse modo se procedeu a uma divisão, sob os mesmos 
nomes de uma filosofia teórica e prática, nada na verdade era dividido (já que 
ambas as partes podiam ter os mesmos princípios).

A vontade, como faculdade de apetição, é nomeadamente uma de entre muitas causas
da natureza no mundo, nomeadamente aquela que actua segundo conceitos e tudo o 
que é representado como possível (ou como necessário) mediante uma vontade, 
chama­se de um ponto de vista prático possível (ou necessário). _o__xiii 
Diferencia­se assim da possibilidade ou necessidade física de um efeito, para o 
qual a causa não é determinada na sua causalidade mediante conceitos (mas sim 
como acontece com a matéria inanimada mediante o mecanismo e, no caso dos 
animais, mediante o instinto). ­­ Ora aqui ainda permanece indeterminado no que 
respeita ao prático, se o conceito que dá a regra ‡ causalidade da vontade é um 
conceito de natureza, ou de liberdade.
A ˙ltima diferença é todavia essencial. Na verdade, se o conceito que determina 
a causalidade é um conceito de natureza, então os princípios são *práticos de um
ponto de vista técnico*, mas se ele fÙr um conceito de liberdade, nesse caso 
*são práticos de um ponto de vista mora*l, e porque na divisão de uma ciência 
racional tudo depende daquela diferença dos objectos, para cujo conhecimento se 
necessita de diferentes princípios, pertencerão os primeiros ‡ filosofia teórica
(como teoria da natureza), porém os outros (a) constituem apenas a segunda 
parte, nomeadamente (como teoria da moral) a filosofia prática.

(a) A: "os segundos".

Todas as regras práticas de um ponto de vista técnico (isto é as da arte e da 
habilidade em geral, ou :, também da inteligência, como habilidade para influir 
sobre s homens e a sua vontade), na medida em que os seus princípios assentem em
conceitos, somente podem ser contados como corolários para a filosofia teórica. 
… que eles só dizem respeito ‡ possibilidade das coisas segundo
conceitos da natureza, para o que são precisos não somente os meios que para 
tanto se devem encontrar na natureza, mas também a própria vontade (como _o__xiv
faculdade de apetição e por conseguinte da natureza), na medida em que pode ser 
determinada mediante tendências da natureza de acordo com aquelas regras. Porém 
regras práticas desta espécie não se chamam leis (mais ou menos como as leis 
físicas), mas sim prescrições. Na verdade assim é porque a vontade não se 
encontra simplesmente sob o conceito da natureza, mas sim também sob o da 
liberdade, em relação ao qual os princípios da mesma se chamam leis e 
constituem, com as respectivas consequências, a segunda parte da Filosofia, isto
é, a parte prática.

Por isso tão pouco como a solução dos problemas da geometria pura pertence a uma
parte especial daquela, ou a agrimensura merece o nome de uma geometria prática,
diferenciando­se da pura como uma Segunda parte da geometria em geral, assim 
também ainda menos o merecem a arte mecânica ou química das 
experiências ou das observações para uma parte prática da teoria da natureza, e 
finalmente a economia doméstica, regional ou política, a arte das relações 
sociais, a receita da dietética, até a teoria geral da felicidade e mesmo o 
domínio das inclinações e a domesticação dos afectos em proveito destes, não 
podem ser contados na parte prática da Filosofia, nem podem estas ˙ltimas de 
modo nenhum constituir a segunda parte da Filosofia em geral. A verdade é que no
seu conjunto somente contêm regras da habilidade que por conseguinte são apenas 
práticas de um ponto de vista técnico, cujo objectivo é produzir um efeito, o 
qual é possível segundo conceitos naturais das causas e efeitos, os quais, já 
que pertencem ‡ filosofia _o__xv teórica, estão subordinados ‡quelas 
prescrições, na qualidade 
de simples corolários provenientes da mesma :, (da ciência da natureza) e por 
isso (a) não podem exigir qualquer lugar numa filosofia particular que tenha o 
nome de prática. Pelo contrário, as prescrições práticas de um ponto de vista 
moral, que se fundam por completo no conceito de liberdade, excluindo totalmente
os princípios de determinação da vontade a partir da natureza, constituem uma 
espécie absolutamente particular de prescrições, as quais, por semelhança com as
regras a que a natureza obedece, se chamam pura e simplesmente leis. No 
entanto não assentam como estas em condições sensíveis, mas sim num princípio 
supra­sensível e exigem a par da parte teórica da Filosofia, exclusivamente para
si, uma outra parte com o nome de filosofia prática.

Por aqui se vê que uma globalidade de prescrições práticas, fornecidas pela 
Filosofia, não constitui, pelo facto de serem prescrições práticas, uma parte 
colocada ao lado da parte teórica daquela. Na verdade, poderiam sê­lo, ainda que
os seus princípios tivessem sido retirados por completo do conhecimento teórico 
da natureza (como regras práticas de um ponto de vista técnico). Mas porque o 
princípio dessas prescrições não é de modo nenhum retirado do conceito da 
natureza (o qual é sempre condicionado sensivelmente) assenta por conseguinte 
_o__xvi no supra­sensível, que apenas o conceito de liberdade dá a conhecer 
mediante leis formais. Elas são por isso prescrições práticas de um ponto de 
vista moral, isto é, não são simples prescrições e regras, segundo esta ou 
aquela intenção, mas sim leis que não se referem previamente, seja a fins, seja 
a intenções.

(a) "estão subordinados... e por isso" falta em A".

II. Do domínio da Filosofia em geral

O uso da nossa faculdade de conhecimento segundo princípios, assim como a 
Filosofia, vão tão longe quão longe for a aplicação de conceitos *a priori*. :,

Contudo a globalidade de todos os objectos a que estão ligados aqueles 
conceitos, para constituir, onde tal for possível, um conhecimento desses 
objectos, só pode ser dividida, segundo a diferente suficiência ou insuficiência
das nossas faculdades, no que respeita a esse objectivo. 

Os conceitos, na medida em que podem ser relacionados com os seus objectos e 
independentemente de saber se é ou não possível um conhecimento dos mesmos, têm 
o seu campa \kFeld_, o qual é determinado simplesmente segundo a relação que 
possui o seu objecto com a nossa faculdade de conhecimento. ­­ A parte deste 
campo, em que para nós é possível um conhecimento, é um território \k*_boden*_, 
(*territorium*) para estes conceitos e para a faculdade de conhecimento 
correspondente. A parte desse campo a que eles ditam as suas leis, é o 
domínio \k*_gebiet*_, (*ditio*) destes conceitos e das faculdades de 
conhecimento que lhes cabem. Por isso conceitos de experiência possuem na 
verdade o seu território na natureza, _oXVII enquanto globalidade de todos os 
objectos dos sentidos, mas não possuem qualquer domínio (pelo contrário 
somente o seu domicílio \k*_aupenthalt_,, *domicilium*), porque realmente 
são produzidos por uma legislação, mas não são legisladores, sendo empíricas, 
e por conseguinte contingentes, as regras que sobre eles se fundam.
Toda a nossa faculdade de conhecimento possui dois domínios, o dos conceitos de 
natureza e o do conceito de liberdade; na verdade, nos dois, ela é legisladora 
*a priori*. Ora de acordo com isto, também a Filosofia se divide em teórica e 
prática, mas o território em que o seu domínio é erigido e a sua legislação 
*exercida*, é sempre só a globalidade dos objectos de toda a experiência 
possível, na medida em que forem tomados simplesmente como simples fenómenos; é 
que sem isso não poderia ser pensada qualquer legislação do entendimento 
relativamente ‡queles.

A legislação mediante conceitos da natureza ocorre mediante o entendimento 
e é teórica. A legislação mediante o conceito de liberdade acontece pela razão 
e é simplesmente prática. Apenas no plano prático :, \k*im  Praktischen_, pode a
razão ser legisladora; a respeito do conhecimento teórico (da natureza) ela 
somente pode retirar conclusões, através de inferências, a partir de leis dadas 
(enquanto tomando conhecimento de leis me diante o entendimento), conclusões que
porém permanecem circunscritas ‡ natureza. Mas ao invés, onde as regras são 
práticas, não é por isso que imediatamente _oXVIII a razão passa a ser 
*legisladora*, porque aquelas também podem ser práticas de um ponto de vista 
técnico. 

A razão e o entendimento possuem por isso duas legislações diferentes num e 
mesmo território da experiência, sem que seja permitido a uma interferir na 
outra. Na verdade o conceito da natureza tem tão pouca influência sobre a 
legislação mediante o conceito de liberdade, quão pouco este perturba a 
legislação da natureza. A Crítica da Razão Pura demonstrou a possibilidade de 
pensar, ao menos sem contradição, a convivência de ambas as legislações e das 
faculdades que lhes pertencem no mesmo sujeito, na medida em que eliminou as 
objecções que aí se levantavam, pela descoberta nelas da aparência dialéctica.

Mas o facto destes dois diferentes domínios ­­ que, na verdade, não na sua 
legislação, porém nos seus efeitos, se limitam permanentemente ao mundo sensível
­­ não constituírem *um só*, tem origem em que na verdade o conceito de natureza
representa os seus objectos na intuição, não como coisas em si mesmas, mas na 
qualidade de simples fenómenos; em contrapartida o conceito
de liberdade representa no seu objecto uma coisa em si mesma, mas não na 
intuição. Por conseguinte nenhuma das duas pode fornecer um conhecimento teórico
do seu objecto (e até do sujeito pensante) como coisa em _o__xix si, o que seria
o supra­sensível, cuja ideia na verdade se tem que colocar na base de todos 
aqueles objectos da experiência, não se podendo todavia nunca elevá­la e alargá­
la a um conhecimento.

Existe por isso um campo ilimitado, mas também inacessível para o conjunto da 
nossa faculdade de conhecimento, nomeadamente o campo do supra­sensível, no qual
não encontramos para nós qualquer território e no :, qual por isso, nem para os 
conceitos do entendimento, nem da razão possuímos um domínio para o 
conhecimento teórico. Um campo que na verdade temos que ocupar com ideias em 
favor do uso da razão, tanto teórico, como prático, mas ‡s quais contudo não 
podemos, no que respeita ‡s leis provenientes do conceito de liberdade, fornecer
nenhuma outra realidade que não seja prática, pelo que assim o nosso 
conhecimento teórico não é alargado no mínimo em direcção ao supra­sensível.

Ainda que na verdade subsista um abismo intransponível entre o domínio do 
conceito de natureza, enquanto sensível, e o do conceito de liberdade, como 
supra­sensível, de tal modo que nenhuma passagem é possível do primeiro para o 
segundo (por isso mediante o uso teórico da razão), como se se tratassem de 
outros tantos mundos diferentes, em que o primeiro não pode ter qualquer 
influência no segundo, contudo este ˙ltimo *deve* ter uma influência sobre 
aquele, isto é o conceito de liberdade deve (a) tornar efectivo no mundo dos 
sentidos o fim colocado pelas suas leis e a natureza em _o__xx consequência tem 
que ser pensada de tal modo que a conformidade a leis da sua forma concorde pelo
menos com a possibilidade dos fins que nela actuam segundo
leis da liberdade. ­­ Mas por isso tem que existir um fundamento da *unidade*
do supra­sensível que esteja na base da natureza, com aquilo que o conceito de 
liberdade contém de modo prático e ainda que o conceito desse fundamento não 
consiga, nem de um ponto de vista teórico, nem de um ponto de vista prático, um 
conhecimento deste e por conseguinte não possua qualquer domínio específico, 
mesmo assim torna possível a passagem da maneira de pensar segundo os princípios
de um para a maneira de pensar segundo os princípios de outro.

(a) "deve", acrescento de B. :,

III. Da critica da faculdade do juízo, como meio de ligação das duas partes da 
Filosofia num todo

A crítica das faculdades do conhecimento a respeito daquilo que elas podem 
realizar *a priori*, não possui no fundo qualquer domínio relativamente a 
objectos. A razão é que ela não é uma doutrina \k*_doctrin*_,, mas somente tem 
que investigar se e como é possível uma doutrina, em função da condição das 
nossas faculdades e através delas. O seu campo estende­se a todas as pretensões 
daquelas para as colocar nos limites da sua correcta 
medida. Mas aquilo que não pode aparecer na divisão da _o__xxi
_filosofia, pode todavia aparecer como uma parte principal na crítica da 
faculdade do conhecimento em geral, no caso nomeadamente de conter princípios 
que por si não são ˙teis, nem para o uso teórico, nem para o uso prático. Os 
conceitos de natureza, que contêm *a priori* o fundamento para todo o 
conhecimento teórico, assentavam
na legislação do entendimento. ­­ O conceito de liberdade, que continha *a 
priori* o fundamento para todas as prescrições práticas sensivelmente 
incondicionadas, assentava na legislação da razão. Por isso ambas as faculdades,
para além do facto de, segundo a forma
lógica, poderem ser aplicadas a princípios, qualquer que possa ser a origem 
destes, possuem cada uma a sua própria legislação segundo o conte˙do, sobre a 
qual nenhuma outra (*a priori*) existe e por isso justifica a divisão da 
Filosofia em teórica e prática.

Só que na família das faculdades de conhecimento superiores existe ainda um 
termo médio entre o entendimento e a razão. Este é a *faculdade do juízo*, da 
qual se tem razões para supor, segundo a analogia, que também poderia 
precisamente conter em si *a priori*, se bem que não uma legislação própria, 
todavia um princípio
próprio para procurar leis; em todo o caso um princípio simplesmente subjectivo,
o qual, mesmo que não lhe convenha um campo de objectos como seu domínio, pode 
_o__xxi todavia possuir um território próprio e uma certa característica deste 
para o que precisamente só este princípio poderia ser válido. :,

Mas é ainda possível (para julgar segundo a analogia) acrescentar uma nova razão
que nos leva a conectar a faculdade do juízo com uma outra ordem das nossas 
faculdades de representação e que parece ser ainda de maior importância que o 
parentesco com a família das faculdades do conhecimento. Na verdade todas as 
faculdades da alma ou capacidades podem ser reduzidas ‡quelas três, que não se 
deixam, para além disso, deduzir de um princípio comum: a *faculdade de 
_o__xxiii conhecimento, o sentimento de prazer e desprazer* e a *faculdade de 
apetição* (1). Para a faculdade de conhecimento apenas o entendimento é 
legislador, no caso _o__xxiv daquela (como terá de acontecer, se for considerada
em si, sem se misturar com a faculdade de apetição) como faculdade de um 
*conhecimento teórico*, ser relacionada com a natureza, a respeito da qual 
apenas (como fenómeno) nos é possível dar leis, mediante conceitos de natureza 
*a priori*, os quais no fundo são conceitos do entendimento puros. ­­ Para a 
faculdade de apetição, como uma faculdade superior segundo o conceito de 
liberdade, apenas a razão (na qual somente se encontra este conceito) é 
legisladora *a priori*. ­­ Ora entre a faculdade de conhecimento e a de apetição
está o sentimento de prazer, assim como a faculdade do juízo está comida entre o
entendimento e a razão. Por isso, pelo menos provisoriamente, é de supor que a 
faculdade do juízo, exactamente do mesmo modo contenha por si um princípio *a 
priori* e, como com a faculdade de apetição está necessariamente ligado o prazer
ou o desprazer _o__xxv (quer ela anteceda, como no caso da faculdade de apetição
inferior, o princípio dessa faculdade, quer, como no caso da superior, surja 
somente a partir da determinação da mesma mediante a lei moral), produza do 
mesmo modo uma passagem da faculdade de conhecimento pura, isto é do domínio dos
conceitos de natureza, para o domínio do conceito de liberdade, quando no uso 
lógico torna possível a passagem do entendimento para a razão.

Por isso ainda que a Filosofia somente possa ser dividida em duas partes 
principais, a teórica e a prática; :, ainda que tudo aquilo que pudéssemos dizer
dos princípios próprios da faculdade do juízo, tivesse que nela ser incluída na 
parte teórica, isto é, no conhecimento racional segundo conceitos de natureza, 
porém, ainda assim a critica da razão pura, que tem que constituir tudo isto 
antes de empreender aquele sistema em favor da sua possibilidade, consiste em 
três partes: a critica do entendimento puro, da faculdade do juízo pura e da 
razão pura, faculdades que por isso são designadas puras porque legislam *a 
priori*.

IV. Da faculdade do juízo como uma faculdade legisladora *a priori*

A faculdade do juízo em geral é a faculdade de pensar o particular como contido 
no universal. No caso deste _o__xxvi (a regra, o principio, a lei) ser dado, a 
faculdade do juízo, que nele subsume o particular, é *determinante* (o mesmo 
acontece se ela, enquanto faculdade de juízo transcendental, indica *a priori* 
as condições de acordo com as quais apenas naquele universal é possível 
subsumir). Porém se só o particular for dado, para o qual ela deve encontrar o 
universal, então a faculdade do juízo é simplesmente *reflexiva*.

A faculdade de juízo determinante, sob leis transcendentais universais dadas 
pelo entendimento, somente subsume; a lei é­lhe indicada *a priori* e por isso 
não sente necessidade de pensar uma lei para si mesma, de modo a poder 
subordinar o particular na natureza ao universal. ­­ Só que existem tantas 
formas m˙ltiplas da natureza, como se fossem outras tantas modificações dos 
conceitos da natureza universais e transcendentais que serão deixados 
indeterminados por aquelas leis, dadas *a priori* pelo entendimento puro ­­ já 
que as mesmas só dizem respeito ‡ possibilidade de uma natureza em geral (como 
objecto dos sentidos) ­­ que para tal multiplicidade têm que existir leis, as 
quais na verdade, enquanto empíricas, podem ser contingentes, segundo a 
*nossa* :,
perspiciência (a) intelectual. Porém se merecem o nome de leis (como também é 
exigido pelo conceito de uma natureza), têm que ser consideradas necessárias e 
provenientes de um princípio da unidade do m˙ltiplo, ainda _o__xxvii que 
desconhecido.  ­­ A faculdade de juízo reflexiva, que tem a obrigação de elevar­
se do particular na natureza

(a) Tanto por falta de linguagem filosófica, como de clareza conceptual, o termo
*_einsehen/_einsicht* (inglês: *insight*) não encontrou também no português até 
agora uma tradução aceitável. Adoptou­se ora discernir/discernimento (Santos 
/_morujão), intelecção (Heck) ou entrever/introvisão (Rohden). … curioso que a 
própria língua inglesa, que possui em  *insight* um consagrado termo 
equivalente, não tenha feito uso dele na tradução da *_critic of Judgment* de 
Meredith, onde encontramos para *einsehen* (orig. p. 37): *to look with the eye 
of reason*, e para *_einsicht: Understanding*. Noutras tentativas de tradução 
encontramos *saisir/juger* (Philonenko), *comprendre/examen* (Delamarre), 
*riguardare/sapere* (Gargiulo/_verra), *considerar/investigación* (Morente). 
*_insight* também tem sido traduzido para o alemão por *_durchblick* 
(perspectiva). Outros termos que lhe convêm são os latinos *inspicere/inspectio*
(inspeccionar, inspecção) e também
*perspicere/perspicatia* (ver através, perspicácia), como o grego *frónesis*. 
Ligado ‡ percepção visual, o termo *_einsicht* significa uma apreensão de 
estruturas ou de um todo dotado de sentido. Psicologicamente o fenómeno é assim 
descrito: "Uma pessoa vê­se confrontada com um estado de coisas inicialmente 
opaco \k*undurschaubar*_,, fechado, indistinto, confuso e tenta então, mediante 
a escolha de uma posição ou ângulo visual, apreender melhor opticamente esses 
estados de coisas e conhecê­los nas suas interconexões [K. M¸ller, in: J. Ritter
(ed.), *_hist. Wõrtb. d. Phil.*, 1972(1):415. Vale atentar para a versão 
kantiana dos termos da *_psychologia empírica* de Baumgarten, no vol. __xv da 
Acad., *_kants handschriftlicher Nachlass*]. Na secção V: *_perspicacia*, 
observa Baumgarten que o hábito de observar a identidade das coisas chama­se 
engenho em sentido estrito" \k*_witz*_, e que o "hábito de observar a 
diversidade das coisas chama­se *acumen*": \k*_sharfsinnigheit_, (agudeza, 
penetração, sagacidade). Donde a reunião de agudeza e engenho se chama 
(perspicácia = uma *feine Einsicht*). *_einsicht* liga­se aí ‡ capacidade de, na
apreensão das diferenças, perceber a sua identidade. Dai que o termo 
"discernimento", do latim *discernere*, distinguir, seja desse ponto de vista 
menos adequado para traduzir Einsicht. Mas segundo Kant tão pouco "compreensão",
"intelecção" e "saber" lhe são adequados, de acordo com a seguinte Reflexão: 
"Representar algo (*representatio*); perceber algo (*perceptio*) (com 
consciência); conhecer (*cognitio*) (distinguir de outro); saber (*scientia*) :,
[diverso de admitir (crer)]; entender (*intellectio*) (conhecer pelo 
entendimento); *perspiscientia Einsehen* (pela razão); *comprehensio*: conceber 
[suficiente segundo a grandeza (o grau)]" (*_reflexão* 426, vol. __xv, p. 171). 
Por essa vinculação de *_einsicht* ‡ razão, Kant estabelece mais adiante para 
esse tipo de conhecimento princípios diferentes dos do entendimento, 
identificando­o a uma faculdade de julgar *a priori*: "*_principia* des 
Einsehens sina von denen des Verstehens unterschieden. Das Vermõgen *a priori* 
zu urteilen (schliessen), ist Vernunft: Einsehen." (*_reflexão* 437, p. 180). 
Nesse mesmo sentido parece que a abordagem mais extensa sobre o termo 
*_einsicht* se encontra na carta de Kant ao príncipe Alexander von Beloselsky 
(esboço), do Verão de 1792. Aí a *_einsehen, perspicere*, como um ver através, é
dado um sentido racional dedutivo: a esfera do *_einsehen, perspicere* é a da 
"dedução do particular do universal, isto é a esfera da razão" (Acad., vol. VI, 
P. 345), tendo também o sentido de uma faculdade de inventar princípios para as 
m˙ltiplas regras. Por fim, "a esfera da *perspicacité* é a da perspiciência 
(*_einsicht*) sistemática da interconexão da razão dos conceitos num sistema" 
(p. 346). ­­ Na medida pois em que, por um lado, o alemão traduz do latim 
*inspicere* por *einsehen/durchblicken* (examinar, ver com atenção, ver através)
e, por outro, o termo kantiano é ligado explicitamente a 
*perspicere/perspicatia*, do qual também provem perspectiva, encontramos alguns 
equivalentes a *_einsicht* em inspecção, introvisão, perspectiva, perspicácia. 
Mas unicamente satisfatória parece­nos a adopção em português do próprio termo 
latino proposto por Kant para este tipo de saber racional: "*perspiciência*" 
cujo latino *perspicientia* o dicionário latino­alemão *_georges* traduz por 
*_durchschauung = die in etwas erlangte vollstãndige Einsicht*, remetendo­o ao 
*_de Officiis* 1,15 de Cícero. 

ao universal, necessita por isso de um princípio que ela não pode retirar da 
experiência, porque este precisamente deve fundamentar a unidade de todos os 
princípios empíricos sob outros igualmente empíricos, mas superiores e por isso 
fundamentar a possibilidade da subordinação sistemática dos mesmos entre si. Por
isso só a faculdade de juízo reflexiva pode dar a si mesma um tal princípio como
lei e não retirá­lo de outro lugar (porque então seria faculdade de juízo 
determinante), nem prescrevê­lo ‡ natureza, porque a reflexão sobre as leis da 
natureza orienta­se em função desta, enquanto a natureza não se orienta em 
função das condições, segundo as quais nós pretendemos adquirir um conceito seu,
completamente contingente no que lhe diz respeito. :,

Ora este princípio não pode ser senão este: assim como as leis universais têm o 
seu fundamento no nosso entendimento, que as prescreve ‡ natureza (ainda que 
somente segundo o conceito universal dela como natureza) assim têm as leis 
empíricas particulares, a respeito daquilo que nelas é deixado indeterminado por
aquelas leis, que ser consideradas segundo uma tal unidade, como se igualmente 
um entendimento (ainda que não o nosso) as tivesse dado em favor da nossa 
faculdade de conhecimento, para tornar possível um sistema da experiência 
segundo leis da natureza particulares. Não como se deste modo tivéssemos que 
admitir efectivamente um tal entendimento (pois é somente ‡ faculdade 
_o__xxviii de juízo reflexiva que esta ideia serve de princípio, mas para 
reflectir, não para determinar); pelo contrário, desse modo, esta faculdade dá 
uma lei somente a si mesma e não ‡ natureza.

Ora porque o conceito de um objecto, na medida em que ele ao mesmo tempo contém 
o fundamento da efectividade deste objecto, se chama fim e o acordo de uma coisa
com aquela constituição das coisas, que somente é possível segundo fins, se 
chama *conformidade a fins* \k*_kweckmãssigkeit_, da forma dessa coisa, o 
princípio da faculdade do juízo é então, no que respeita ‡ forma das coisas da 
natureza sob leis empíricas em geral, a conformidade a fins da natureza na sua 
multiplicidade. O que quer dizer que a natureza é representada por este 
conceito, como se um entendimento contivesse o fundamento da unidade do m˙ltiplo
das suas leis empíricas.

A conformidade a fins da natureza é por isso um particular conceito *a priori*, 
que tem a sua origem meramente na faculdade de juízo reflexiva. Na verdade não 
se pode acrescentar aos produtos da natureza algo como uma relação da natureza a
fins neles visível, mas sim somente utilizar este conceito, para reflectir sobre
eles no respeitante ‡ conexão dos fenómenos na natureza, conexão que é dada 
segundo leis empíricas. Este conceito também é completamente diferente da 
conformidade a fins prática (da arte humana ou também dos :, costumes), ainda 
que seja pensado a partir de uma analogia com aquela.

_o__xxix V. O princípio da conformidade a fins formal
da natureza é um princípio transcendental da faculdade do juízo

Um princípio transcendental é aquele pelo qual é representada *a priori* a 
condição universal, sob a qual apenas as coisas podem ser objectos do nosso 
conhecimento em geral. Em contrapartida um princípio chama­se metafísico, se 
representa *a priori* a condição, sob a qual somente os objectos, cujo conceito 
tem que ser dado
empiricamente, podem ser ainda determinados *a priori*.
Assim é transcendental o princípio do conhecimento dos
corpos como substancial e como substancial susceptíveis de mudança, se com isso 
se quer dizer que a sua mudança tem que ter uma causa; é porém metafísico, se 
com isso se significar que a sua mudança tem que ter uma causa *exterior*. A 
razão é que, no primeiro caso, para se conhecer a proposição *a priori*, o corpo
só pode ser pensado mediante predicados ontológicos (conceitos do
entendimento puros), por exemplo como substancia; porém no segundo, o conceito 
empírico de um corpo (como de uma coisa que se move no espaço) tem que ser 
colocado como princípio dessa proposição, embora então possa ser compreendido 
completamente *a priori* que o ˙ltimo predicado (do movimento somente mediante 
_o__xxx causas externas) convém ao corpo. ­­ Assim, como já a seguir vou 
mostrar, o princípio da conformidade a fins da natureza (na multiplicidade das 
suas leis empíricas) é um princípio transcendental. Na verdade o conceito dos 
objectos, na medida em que os pensamos existindo sob este princípio, é apenas o 
conceito puro de objectos do conhecimento de experiência possível em geral e 
nada contém de empírico. Pelo contrário, o princípio da 
conformidade a fins prática, que tem que ser pensado na
ideia da determinação de uma *vontade* livre, é um princípio metafísico, porque 
o conceito de uma faculdade de :, apetição, enquanto conceito de uma vontade, 
tem que ser dado empiricamente (não pertence aos predicados transcendentais). 
Contudo ambos os princípios não são empíricos, mas sim princípios *a priori*. E 
que não é necessária uma ulterior experiência para a ligação do predicado com o 
conceito empírico do sujeito dos seus juízos, mas pelo contrário tal ligação 
pode ser descortinada completamente *a priori*.

O facto de o conceito de uma conformidade a fins da natureza pertencer a 
princípios transcendentais é bastante compreensível a partir das máximas da 
faculdade do juízo que são postas *a priori* como fundamento da investigação da 
natureza e que todavia a nada mais se reportam do que ‡ possibilidade da 
experiência, por conseguinte do conhecimento da natureza, embora não 
simplesmente como natureza em geral, mas sim como natureza determinada por uma 
multiplicidade de leis particulares. ­­ Elas aparecem com muita frequência, 
embora de modo disperso, no desenvolvimento desta _o__xxxi ciência, na qualidade
de aforismos \k*_sentenzen*_, da sabedoria metafísica e a par de muitas regras, 
cuja necessidade não se prova a partir de conceitos. "A natureza toma o caminho 
mais curto (*lex parsimoniae*); de igual modo não dá saltos, nem na sequência 
das suas mudanças, nem na articulação de formas específicas diferentes (*lex 
continui in natura*); a sua grande multiplicidade em leis empíricas é igualmente
unidade sob poucos princípios (*principia praeter necessitatem non sunt 
multiplicanda*)", etc.

Mas se tentarmos a via da Psicologia para darmos a origem destes princípios, 
contrariamos completamente o seu sentido. … que eles não dizem aquilo que 
acontece, isto é segundo que regras é que as nossas faculdades de conhecimento 
estimulam efectivamente o seu jogo e como é que se julga, mas sim como é que 
deve ser julgado. Ora esta necessidade lógica e objectiva não aparece, se os 
princípios forem simplesmente empíricos. Por isso a conformidade a fins da 
natureza para as nossas faculdades de conhecimento e o respectivo uso, 
conformidade que se manifesta naqueles, é um princípio :,
transcendental dos juízos e necessita por isso também de uma dedução 
transcendental, por meio da qual o fundamento para assim julgar tenha que ser 
procurado *a priori* nas fontes do conhecimento.

Nomeadamente encontramos certamente nos princípios da possibilidade de uma 
experiência, em primeiro _o__xxxii lugar, algo de necessário, isto é as leis 
universais, sem as quais a natureza em geral (como objecto dos sentidos) não 
pode ser pensada; e estas assentam em categorias, aplicadas ‡s condições formais
de toda a nossa intuição possível, na medida em que esta é de igual modo dada *a
priori*. Sob estas leis a faculdade de juízo é determinante, pois esta nada mais
faz do que subsumir em leis dadas. Por exemplo o entendimento diz: toda a 
mudança tem a sua causa (lei da natureza universal); a faculdade de juízo 
transcendental não tem mais que fazer então que indicar *a priori* a condição da
subsunção no conceito do entendimento apresentado: esta é a sucessão das 
determinações de uma e mesma coisa. Ora para a natureza em geral (como objecto 
de experiência possível) aquela lei é reconhecida pura e simplesmente como 
necessária. ­­ Porém os objectos do conhecimento empírico são ainda determinados
de muitos modos, fora daquela condição de tempo formal, ou, tanto quanto é 
possível julgar *a priori*, susceptíveis de ser determinados; de modo que 
naturezas especificamente diferentes, para além daquilo que em comum as torna 
pertencentes ‡ natureza em geral, podem ainda ser causa de infinitas maneiras. E
cada uma dessas maneiras tem que possuir (segundo o conceito de uma causa em 
geral) a sua regra, que é lei, e por conseguinte acarreta consigo necessidade, 
ainda que nós, de acordo com a constituição e os limites das nossas faculdades 
de conhecimento, _oxxxiii de modo nenhum descortinamos esta necessidade. Por 
isso temos que pensar na natureza uma possibilidade de uma multiplicidade sem 
fim de leis empíricas, em relação ‡s suas leis simplesmente empíricas, leis que 
no entanto são contingentes para a nossa perspiciência (não podem ser conhecidas
*a priori*). E quando as tomamos em consideração ajuizamos a unidade da natureza
:, segundo leis empíricas e a possibilidade da unidade da experiência (como de 
um sistema segundo leis empíricas) como contingente. Porém como uma tal unidade 
tem que ser necessariamente pressuposta e admitida, pois de outro modo não 
existiria qualquer articulação completa de conhecimentos empíricos para um todo 
da experiência, na medida em que na verdade as leis da natureza universais 
sugerem uma tal articulação entre as coisas segundo o seu género, como coisas da
natureza em geral, mas não de forma específica, como seres da natureza 
particulares, a faculdade do juízo terá que admitir *a priori* como princípio 
que aqui o que é contingente para a perspiciência humana nas leis da natureza 
particulares (empíricas), contém mesmo assim para nós uma unidade legítima, não 
para ser sondada, mas pensável na ligação do seu m˙ltiplo \k*ihres 
MannigLaltigen*_, para uma experiência em si possível. Em consequência e porque 
a unidade legítima numa ligação, que na verdade reconhecemos como adequada a uma
intenção necessária (a uma necessidade do entendimento), mas ao mesmo tempo como
contingente em si, é _o__xxxiv representada como conformidade a fins dos 
objectos (aqui da natureza), a faculdade do juízo, que no que diz respeito ‡s 
coisas sob leis empíricas possíveis (ainda por descobrir) é simplesmente 
reflexiva, tem que pensar a natureza relativamente ‡quelas leis, segundo um 
*princípio da conformidade a fins* para a nossa faculdade do juízo, o que então 
é expresso nas citadas máximas da faculdade do juízo. Ora este conceito 
transcendental de uma conformidade a fins da natureza não é, nem um conceito de 
natureza, nem de liberdade, porque não acrescenta nada ao objecto (da natureza),
mas representa somente a ˙nica forma, segundo a qual nós temos que proceder na 
reflexão sobre os objectos da natureza com o objectivo de uma experiência 
completamente consistente, por conseguinte é um princípio subjectivo (máxima) da
faculdade do juízo. Daí que nós também nos regozijemos (no fundo porque nos 
libertamos de uma necessidade), como se fosse um acaso favorável ‡s nossas 
intenções, quando encontramos uma tal unidade sistemática sob simples :,
leis empíricas, ainda que tenhamos necessariamente que admitir que uma tal 
necessidade existe, sem que contudo a possamos descortinar e demonstrar.

Para nos convencermos da correcção desta dedução do presente conceito e da 
necessidade de o aceitar como princípio de conhecimento transcendental, 
consideremos só a grandeza da tarefa: realizar uma experi8ncia articulada a 
partir de percepções dadas de uma natureza contendo uma multiplicidade 
eventualmente infinita de
_o__xxxv leis empíricas. Tal é uma tarefa que existe *a priori* no nosso 
entendimento. Na verdade o entendimento possui *a priori* leis universais da 
natureza, sem as quais esta não seria de modo nenhum objecto de uma experiência.
Mas para além disso ele necessita também de uma certa ordem da natureza nas 
regras particulares da mesma, as quais para ele só empiricamente podem ser 
conhecidas e que em relação ‡s suas são contingentes. Estas regras, sem as quais
não haveria qualquer progressão da analogia universal de uma experiência 
possível em geral para a analogia particular, tem o entendimento que pensá­las 
como leis (isto é como necessárias), porque doutro modo não constituiriam 
qualquer ordem da natureza, ainda que ele não conheça a sua necessidade ou 
jamais a pudesse descortinar. Por isso, se bem que no que respeita a estes 
(objectos) ele nada possa determinar *a priori*, no entanto, para investigar as 
chamadas leis empíricas, tem que colocar um princípio *a priori* como fundamento
de toda a reflexão sobre as mesmas, isto é, segundo tais leis, é possível uma 
ordem reconhecível da natureza. As seguintes proposições exprimem esse mesmo 
princípio: que nela existe uma subordinação de géneros e espécies para nós 
compreensível; que por sua vez aqueles se aproximam segundo um princípio comum, 
de modo a ser possível uma passagem de um para o outro e assim para um género 
superior; que, já que parece inevitável para o nosso entendimento ter que 
começar por admitir para a diversidade específica dos efeitos da natureza, 
precisamente outras tantas espécies diferentes da causalidade, _oxxxvi
mesmo assim eles podem existir sob um pequeno :, n˙mero de princípios, a cuja 
investigação temos que proceder, etc. Esta concordância da natureza com a nossa 
faculdade de conhecimento é pressuposta *a priori* pela faculdade do juízo em 
favor da sua reflexão sobre a mesma, segundo as suas leis empíricas, na medida 
em que o entendimento a reconhece ao mesmo tempo como 
contingente e a faculdade do juízo simplesmente a atribui ‡ natureza como 
conformidade a fins transcendental (em relação ‡ faculdade de conhecimento do 
sujeito). … que sem pressupormos isto, não teríamos qualquer ordem da natureza 
segundo leis empíricas e por conseguinte nenhum fio condutor para uma 
experiência e uma 
investigação das mesmas que funcione com elas segundo toda a sua multiplicidade.

Na verdade é perfeitamente possível pensar que, independentemente de toda a 
uniformidade das coisas da natureza segundo as leis universais, sem as quais a 
forma de um conhecimento de experiência de modo nenhum existiria, a diversidade 
específica das leis empíricas da natureza, com os respectivos efeitos poderia 
ser no entanto tão grande que seria impossível para o nosso entendimento 
descobrir nela uma ordem susceptível de ser compreendida, dividir os seus 
produtos em géneros e espécies para utilizar os princípios de explicação e da 
compreensão de um também para a explicação e conceptualização do outro e 
constituir uma experiência _o__xxxvii articulada a partir de uma matéria 
\k*_stoff_, para nó; tão confusa (no fundo uma matéria infinitamente m˙ltipla 
que não se adequa ‡ nossa faculdade de apreensão).

Por isso a faculdade do juízo possui um princípio *a priori* para a 
possibilidade da natureza, mas só do ponto de vista de uma consideração 
subjectiva de si própria, pela qual ela prescreve uma lei, não ‡ natureza (como 
autonomia), mas sim a si própria (como heautonomia) para a reflexão sobre 
aquela, lei a que se poderia chamar *da especificação da natureza*, a respeito 
das suas leis empíricas e que aquela faculdade não conhece nela *a priori*, mas 
que admite em favor de uma ordem daquelas leis, susceptível de ser conhecida 
pelo nosso entendimento, na divisão que ela faz das suas leis universais, :, no 
caso de pretender subordinar­lhes uma multiplicidade das leis particulares. … 
por isso que, quando se diz que a natureza especifica as suas leis universais, 
segundo o princípio da conformidade a fins para a nossa faculdade de 
conhecimento, isto é para a adequação ao nosso entendimento humano na sua 
necessária actividade, que consiste em encontrar o universal para o particular, 
que a percepção lhe oferece e por sua vez em encontrar a conexão na unidade do 
princípio para aquilo que é diverso (na verdade, o universal para cada espécie),
desse modo, nem se prescreve ‡ natureza uma lei, nem dela se apreende alguma 
mediante a observação (ainda que _o__xxxviii aquele princípio possa ser 
confirmado por esta). Na verdade não se trata de um princípio da faculdade de 
juízo determinante, mas simplesmente da reflexiva. Apenas se pretende ­­ possa a
natureza organizar­se segundo as suas leis universais do modo como ela quiser ­­
que se tenha que seguir inteiramente o rasto das suas leis particulares, segundo
aquele princípio, e das máximas que sobre este se fundam, pois só na medida em 
que aquele exista, nos é possível progredir, utilizando o nosso entendimento na 
experiência, e adquirir conhecimento.

VI. Da ligação do sentimento de prazer com o conceito
da conformidade a fins da natureza

A concebida concordância da natureza na multiplicidade das suas leis 
particulares com a nossa necessidade de encontrar para ela a universalidade dos 
princípios, tem que ser ajuizada, segundo toda a nossa de perspiciência como 
contingente, mas igualmente como imprescindível para as nossas necessidades 
intelectuais, por conseguinte como conformidade a fins, pela qual a natureza 
concorda com a nossa intenção, mas somente enquanto orientada para o 
conhecimento. ­­ As leis universais do entendimento, que são ao mesmo tempo leis
da natureza, são para aquela tão necessárias (ainda que nasçam da 
espontaneidade), como as leis do movimento da matéria e a sua produção não 
pressupõe :, qualquer intenção das nossas faculdades de conhecimento, porque é 
só através dessas leis que obtemos um conceito daquilo que é o conhecimento das 
coisas (da natureza) _o__xxxix e que elas pertencem necessariamente ‡ natureza 
como objecto do nosso conhecimento. Só que, tanto quanto nos é possível 
descortinar, é contingente o facto da ordem
da natureza segundo as suas leis particulares, com toda a, pelo menos possível, 
multiplicidade e heterogeneidade que ultrapassa a nossa faculdade de apreensão, 
ser no entanto adequada a esta faculdade. A descoberta de tal ordem é uma 
actividade do entendimento, o qual é conduzido com a intenção de um fim 
necessário do mesmo, isto é a intenção de introduzir nela a unidade dos 
princípios. Tal princípio tem então que ser atribuído ‡ natureza pela faculdade 
do juízo, porque aqui o entendimento não lhe pode prescrever qualquer lei.

A realização de toda e qualquer intenção está ligada com o sentimento do prazer 
e sendo condição daquela primeira uma representação *a priori* ­­ como aqui um 
princípio para a faculdade de juízo reflexiva em geral ­­ também o sentimento de
prazer é determinado, mediante um princípio *a priori* e legítimo para todos. Na
verdade isso acontece através da relação do objecto com
a faculdade de conhecimento, sem que o conceito da conformidade a fins se 
relacione aqui minimamente com a faculdade de apetição, diferenciando­se por 
isso inteiramente de toda a conformidade a fins prática da natureza.

De facto, não encontramos em nós o mínimo efeito _o__xl sobre o sentimento do 
prazer, resultante do encontro das percepções com as leis, segundo conceitos da 
natureza universais (as categorias) e não podemos encontrar, porque o 
entendimento procede nesse caso sem intenção e necessariamente, em função da sua
natureza. Por sua
vez a descoberta da possibilidade de união de duas ou de várias leis da natureza
empíricas, sob um princípio que integre ambas, é razão para um prazer digno de 
nota, muitas vezes até de uma admiração sem fim, ainda que o objecto desta nos 
seja bastante familiar. Na verdade nós já não pressentimos mais qualquer 
prazer :, notável ao apreendermos a natureza e. a sua unidade da divisão em 
géneros e espécies, coisa mediante a qual apenas são possíveis conceitos 
empíricos, pelos quais a conhecemos segundo as suas leis particulares. Mas 
certamente esse prazer já existiu noutros tempos e somente porque a experiência 
mais comum não seria possível sem
ele, foi­se gradualmente misturando com o mero conhecimento, sem se tornar mais 
especialmente notado. ­ Por isso faz falta algo que, no julgamento da natureza, 
torne o nosso entendimento atento ‡ conformidade a fins desta, um estudo que 
conduza as leis heterogéneas da natureza, onde tal for possível, sob outras leis
superiores, ainda que continuem a ser empíricas, para que sintamos prazer, por 
ocasião desta sua concordância em relação ‡s nossas faculdades de conhecimento, 
concordância que consideramos como simplesmente contingente. Pelo contrário ser­
nos­ia completamente desagradável uma representação da natureza na qual 
antecipadamente nos dissessem que na mínima das _o__xli investigações sobre ela,
para lá da experiência mais comum, nós haveríamos de deparar com uma 
heterogeneidade das suas leis, que tornaria impossível para o nosso entendimento
a união das suas leis específicas sob leis empíricas universais. … que isto 
contraria o
princípio da especificação da natureza subjectivamente conforme a fins, nos seus
géneros, e o princípio da nossa faculdade de juízo reflexiva no respeitante 
‡queles.

Esta pressuposição da faculdade do juízo é não obstante em relação a este 
problema tão indeterminada, no respeitante a saber quão longe se deve estender 
aquela conformidade a fins ideal da natureza para a nossa faculdade de 
conhecimento, que se nos disserem que um conhecimento mais profundo ou mais 
alargado da natureza através da observação terá que finalmente deparar com uma 
multiplicidade de leis que nenhum entendimento humano é capaz de reduzir a um 
princípio, ficaremos mesmo assim satisfeitos, ainda que
preferíssemos que outros nos transmitissem a seguinte esperança: quanto mais 
conhecermos a natureza no seu interior, ou a pudermos comparar com partes 
exteriores:, por ora desconhecidas, tanto mais nós a acharíamos simples nos seus
princípios e concordante na aparente heterogeneidade das suas leis empíricas, ‡ 
medida que a nossa experiência progride. Na verdade é um imperativo da nossa 
faculdade do juízo proceder segundo o princípio da adequação da natureza ‡ nossa
faculdade de conhecimento, tão longe quanto for possível, sem (pois que não se 
trata de uma faculdade de juízo _o__xlii determinante, que nos dê esta regra) 
descobrir se em qualquer lugar existem ou não limites. … que na verdade podemos 
determinar limites a respeito do uso racional das nossas faculdades de 
conhecimento, mas no campo do empírico nenhuma definição de limites é possível.

Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden
Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997
Primeiro Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia

Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d.21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

isbn 972­27­0506­7

VII. Da representação estética da conformidade a fins da natureza

Aquilo que na representação de um objecto é meramente subjectivo, isto é aquilo 
que constitui a sua relação com o sujeito e não com o objecto é a natureza 
estética dessa representação; mas aquilo que nela pode servir ou é utilizado 
para a determinação do objecto (para o conhecimento) é a sua validade lógica. No
conhecimento de um objecto dos sentidos aparecem ambas as relações. Na 
representação sensível das coisas fora de mim a qualidade do espaço, no qual nós
as intuímos, é aquilo que é simplesmente subjectivo na minha representação das 
mesmas (pelo que permanece incerto o que eles possam ser como objectos em si), 
razão pela qual o objecto também é pensado simplesmente como fenómeno; todavia, 
e independentemente da sua qualidade subjectiva, o espaço é uma parte do 
conhecimento das coisas como fenómenos. A *sensação* (neste caso a externa) 
exprime precisamente o que é simplesmente subjectivo XLIII das nossas 
representações das coisas fora de nós mas, no fundo, o material \k*das 
Materielle*_, (real) das mesmas (pelo que algo existente é dado), assim como o 
espaço exprime a simples forma *a prioir* da possibilidade da sua intuição; e 
não obstante a sensação é também utilizada para o conhecimento dos objectos fora
de nós. :,

Porém aquele elemento subjectivo numa representação *que não pode de modo nenhum
ser uma parte do conhecimento é o prazer ou desprazer*, ligados ‡quela 
representação; na verdade através deles nada conheço no objecto da 
representação, ainda que eles possam ser até o efeito de um conhecimento 
qualquer. Ora a conformidade a fins de uma coisa, na medida em que é 
representada na percepção, também não é uma característica do próprio objecto 
(pois esta não pode ser percebida), ainda que possa ser deduzida a partir de um 
conhecimento das coisas. Por isso a conformidade a fins, que precede o 
conhecimento de um objecto, até mesmo sem pretender utilizar a sua representação
para um conhecimento e não obstante estando imediatamente ligada ‡quela, é o 
elemento subjectivo \k*das Subjective*_, da mesma, não podendo ser uma parte do 
conhecimento. Por isso o objecto só 
pode ser designado conforme a fins, porque a sua representação está 
imediatamente ligada ao sentimento do prazer; e esta representação é ela própria
uma representação estética da conformidade _õXLIV a fins. ­
 Só que agora surge a pergunta: existe em geral uma tal representação da 
conformidade a fins?

Se o prazer estiver ligado ‡ simples apreensão (*apprehensio*) da forma de um 
objecto da intuição, sem relação da mesma com um conceito destinado a um certo 
conhecimento, nesse caso a representação não se liga ao objecto, mas sim 
apenas ao sujeito; e o prazer não pode mais do que exprimir a adequação desse 
objecto ‡s faculdades de conhecimento que estão em jogo na faculdade de juízo 
reflexiva e por isso, na medida em que elas aí se encontram, exprimem 
simplesmente uma subjectiva e formal conformidade a fins do objecto. Na verdade 
aquela apreensão das formas na faculdade da imaginação (a) nunca pode suceder, 
sem que a faculdade :,

(a) *_einbildungshraft* é em alemão um termo técnico, usado sobretudo por Kant 
no sentido de faculdade. Cf. p. ex. *_anthropologie*, ß 28, Ak. Aueg., Vll, P. 
167. Assim traduzimos *_einbildung* por imaginação e *_einbildungshraft* por 
faculdade da imaginação, do mesmo modo que *_urteilshraft* por faculdade do 
juízo.

de juízo reflexiva, também sem intenção, pelo menos a possa comparar com a sua 
faculdade de relacionar intuições com conceitos. Ora se nesta comparação a 
faculdade da imaginação (como faculdade das intuições *a prioir*) é sem intenção
posta de acordo com o entendimento (como faculdade dos conceitos) mediante uma 
dada representação e, desse modo, se desperta um sentimento de prazer, nesse 
caso o objecto tem que então ser considerado como conforme a fins para a 
faculdade de juízo reflexiva. Um tal juízo é um juízo estético sobre a 
conformidade a fins do objecto, que não se fundamenta em qualquer conceito 
existente de objecto e nenhum conceito é por ele criado. No caso de se ajuizar a
forma do _õ__xlv objecto (não o material da sua representação, como sensação) na
simples reflexão sobre a mesma (sem ter a intenção de obter um conceito dele), 
como o fundamento de um prazer na representação de um tal objecto, 
então nesta mesma representação, este prazer é julgado como estando­lhe 
necessariamente ligado. Por consequência, não simplesmente para o sujeito que 
apreende esta forma, mas sim para todo aquele que julga em geral. O objecto 
chama­se então belo e a faculdade de julgar mediante um tal prazer (por 
conseguinte também universalmente válido), chama­se gosto. Na verdade, como o 
fundamento do prazer é colocado simplesmente na forma do objecto para a reflexão
em geral, por conseguinte em nenhuma sensação do objecto, e também é colocado 
sem relação a um conceito que contenha uma intenção qualquer, é apenas com a 
conformidade a leis no uso empírico da faculdade do juízo em geral (unidade da 
faculdade de imaginação com o entendimento) no sujeito que a representação do 
objecto na reflexão concorda. As condições dessa reflexão são válidas *a prioir*
de forma universal. E como esta concordância do objecto com as faculdades do 
sujeito é contingente, ela própria efectua a representação de uma conformidade a
fins desse mesmo objecto no que respeita ‡s faculdades de conhecimento do 
sujeito.
Ora aqui estamos na presença de um prazer, que como todo o prazer ou desprazer 
que não são :, dos pelo conceito de liberdade (isto é pela determinação 
precedente da faculdade de apetição superior através da _õXLVI razão pura), 
nunca pode ser compreendido como provindo de conceitos, necessariamente ligados 
‡ representação de um objecto, mas pelo contrário tem sempre que ser reconhecido
através da percepção reflectida e ligada a esta. Por conseguinte não pode, tal 
como todos os juízos empíricos, anunciar qualquer necessidade objectiva e exigir
uma validade *a prioir*. Todavia o juízo de gosto exige somente ser válido para 
toda a gente, tal como todos os outros juízos empíricos, o que é sempre 
possível, independentemente da sua contingência interna. O que é estranho e 
invulgar é somente o facto dele não ser um conceito empírico, mas sim um 
sentimento do prazer (por conseguinte nenhum conceito), o qual todavia, mediante
o juízo de gosto deve ser exigido a cada um e conectado com a representação 
daquele, como se fosse um predicado ligado a um conhecimento do objecto.

Um juízo de experiência singular, por ex. um juízo daquele que percepciona uma 
gota movendo­se num cristal, exige com razão que qualquer outro o tenha que 
considerar precisamente assim, porque pronunciou este juízo segundo as condições
universais da faculdade de juízo determinante, sob as leis de uma experiência 
possível em geral. Precisamente assim acontece com aquele que sente prazer na 
simples reflexão sobre a forma de um objecto sem considerar um conceito, ao 
exigir o acordo universal, ainda que este seja um juízo empírico _õXLVII e 
singular. A razão é que o fundamento para este prazer se encontra na condição 
universal, ainda que subjectiva, dos juízos reflexivos, nomeadamente na 
concordância conforme a fins de um objecto (seja produto da natureza ou da arte)
com a relação das faculdades de 
conhecimento entre si, as quais são exigidas para todo o 
conhecimento empírico (da faculdade de imaginação e do entendimento). O prazer 
está por isso no juízo de gosto verdadeiramente dependente de uma representação 
empírica e não pode estar ligado *a prioir* a nenhum conceito (não se pode 
determinar *a prioir* que tipo de objecto será ou não conforme ao gosto; será 
necessário experimentá­lo); porém ele é o fundamento de determinação deste juízo
somente pelo facto de estarmos conscientes que ele assenta simplesmente na 
reflexão e nas condições universais, ainda que subjectivas, do seu acordo com o 
conhecimento dos objectos em geral, para os quais a forma do objecto é conforme 
a fins.

Esta é a razão pela qual os juízos do gosto, segundo a sua possibilidade, já que
esta pressupõe um principio *a prioir*, também estão subordinados a uma critica,
ainda que este princípio não seja nem um principio de conhecimento para o 
entendimento, nem um princípio prático para a vontade e por isso não seja de 
modo nenhum determinante *a prioir*.

A receptividade de um prazer a partir da reflexão _õ__xlviii sobre as formas das
coisas (da natureza, assim como da arte) não assinala porém apenas uma 
conformidade a fins dos objectos, na relação com a faculdade de juízo no 
sujeito, conforme ao conceito de natureza, mas também e inversamente assinala 
uma conformidade a fins do sujeito em relação aos objectos, segundo a respectiva
forma e mesmo segundo o seu carácter informe \k*ihrer Unform*_,, de acordo com o
conceito de liberdade. Deste modo sucede que o juízo estético está ligado ao 
belo, não simplesmente como juízo de gosto, mas também ao *sublime*, enquanto 
nasce de um sentimento do espírito e deste modo aquela crítica da faculdade de 
juízo estética tem que se decompor em duas partes principais conformes ‡queles.

VIII. Da representação lógica da conformidade
a fins da natureza

Num objecto dado numa experiência, a conformidade a fins pode ser representada, 
quer a partir de um princípio simplesmente subjectivo, como concordância da sua 
forma com as faculdades de conhecimento na *apreensão* (*apprehensio*) do mesmo,
antes de qualquer conceito, para unir a intuição com conceitos a favor de um 
conhecimento em geral, quer a partir de um princípio objectivo, enquanto 
concordância da sua forma com a 
possibilidade da própria coisa, segundo um conceito desse
_õXLIX objecto que antecede e contém o fundamento desta 
forma. Já vimos que a representação da conformidade a fins da primeira espécie 
assenta no prazer imediato na forma do objecto na simples reflexão sobre ela; 
por isso a representação da conformidade a fins da segunda espécie, já que 
relaciona a forma do objecto, não com as faculdades de conhecimento do sujeito 
na apreensão do mesmo, mas sim com um conhecimento determinado do objecto sob um
conceito dado, nada tem a ver com um sentimento do prazer nas coisas, mas sim 
com o 
entendimento no julgamento das mesmas. Se o conceito de um objecto é dado, nesse
caso a actividade da faculdade do juízo, no seu uso com vista ao conhecimento, 
consiste na *apresentação* \k*_darstellung*_, (*exhibitio*), isto é no facto de 
colocar ao lado do conceito uma intuição correspondente, quer no caso disto 
acontecer através da nossa própria faculdade da imaginação, como na arte, quando
realizamos \k*realisieren*_, um conceito de um objecto antecipadamente concebido
que é para nós fim, quer mediante a natureza na técnica da mesma (como acontece 
nos corpos organizados), quando lhe atribuímos o nosso conceito do fim para o 
julgamento dos seus produtos. Neste caso representa­se não simplesmente a 
*conformidade a fins* da natureza na forma da coisa, mas este seu produto é 
representado como *fim da natureza*. ­­ Ainda que o nosso conceito de uma 
conformidade a fins subjectiva da natureza, nas suas formas segundo leis 
empíricas, não seja de modo nenhum um conceito do objecto, _õ_l mas sim somente 
um princípio da faculdade do juízo para arranjarmos conceitos nesta 
multiplicidade desmedida (para nos podermos orientar nela), nós consideramos 
todavia a natureza como que numa relação ‡s nossas faculdades de conhecimento 
segundo a analogia de um fim; e assim nos é possível considerar a *beleza da 
natureza* como *apresentação* do conceito da conformidade a fins formal 
(simplesmente subjectiva) e os *fins da natureza* como apresentação do conceito 
de uma :,
conformidade a fins real (objectiva). Uma delas nós ajuizamos mediante o gosto 
(esteticamente, pelo sentimento do prazer) e a outra mediante o entendimento e a
razão (logicamente, segundo conceitos).

… sobre isto que se funda a divisão da crítica da faculdade do juízo na da 
faculdade do juízo *estética* e *teleológica*: enquanto que pela primeira 
entendemos a faculdade de ajuizar a conformidade a fins formal (também chamada 
subjectiva), mediante o sentimento do prazer ou desprazer, pela segunda 
entendemos a faculdade de ajuizar a conformidade a fins real (objectiva) da 
natureza mediante o entendimento e a razão.

Numa crítica da faculdade do juízo a parte que contém a faculdade do juízo 
estética é aquela que lhe é essencial, porque apenas esta contém um princípio 
que a faculdade do juízo coloca como princípio inteiramente *a prioir* na sua 
reflexão sobre a natureza, nomeadamente o princípio de uma conformidade a fins 
formal da natureza segundo as suas leis particulares (empíricas) para a nossa 
capacidade de conhecimento, conformidade sem a qual o entendimento não se_õ__li 
orientaria naquelas. Em contrapartida pelo facto de não poder ser dado *a 
prioir* absolutamente nenhum princípio, nem mesmo a possibilidade deste, a 
partir do conceito de uma natureza, como objecto da experiência, tanto no 
universal como no particular, decorre daí que terá que haver fins objectivos da 
natureza, isto é coisas que somente são possíveis como fins da natureza; mas só 
a faculdade do juízo, sem conter em si para isso *a prioir* um princípio, contém
em certos casos (em certos produtos) a regra para fazer uso do conceito dos 
fins, em favor da razão, depois que aquele princípio transcendental já preparou 
o entendimento para este aplicar ‡ natureza o conceito de um fim (pelo menos 
segundo a forma).

Mas o princípio transcendental que consiste em representar uma conformidade a 
fins da natureza, na relação subjectiva ‡s nossas faculdades de conhecimento, na
forma de uma coisa, enquanto princípio do julgamento da mesma, deixa 
completamente indeterminado, onde e em que casos é que eu tenho que empregar o 
julgamento, como julgamento de um produto segundo um princípio da conformidade a
fins e não antes simplesmente segundo leis da natureza universais, deixando ao 
critério da faculdade de juízo *estética* a tarefa de constituir no gosto a 
adequação desse produto (da sua forma) ‡s nossas faculdades de conhecimento (na 
medida em que esta faculdade decide, não através da concordância com conceitos, 
mas sim através do sentimento). _õ__lii Pelo contrário a faculdade do juízo 
usada teleologicamente indica de forma precisa as condições sob as quais algo 
(por exemplo um corpo organizado) deve ser ajuizado segundo a ideia de um fim da
natureza; no entanto ela não pode aduzir qualquer princípio a partir do conceito
da natureza como objecto da experiência que autorize atribuir ‡quela *a prioir* 
uma referência a fins e que leve a admitir, ainda que de forma indeterminada, 
esses fins a partir da experiência efectiva desses produtos. A razão para isso é
que muitas experiências particulares têm que ser examinadas e consideradas sob a
unidade do seu princípio, para poder conhecer de forma somente empírica, num 
certo objecto, uma conformidade a fins objectiva. ­­ A faculdade de juízo 
estética é por isso uma faculdade particular de ajuizar as coisas segundo uma 
regra, mas não segundo conceitos. A teleológica não é uma faculdade particular, 
mas sim somente
a faculdade de juízo reflexiva em geral na medida em que ela procede, como 
sempre acontece no conhecimento teórico, segundo conceitos, mas atendendo a 
certos objectos da natureza segundo princípios particulares, isto é os de uma 
faculdade de juízo simplesmente reflexiva e não determinante dos objectos. Por 
isso, e segundo a sua aplicação, pertence ‡ parte teórica da filosofia e por 
causa dos princípios particulares que não são determinantes ­­ tal como tem que 
acontecer numa doutrina ­­ tem
também que constituir uma parte particular da crítica; em vez isso a faculdade 
de juízo estética nada _õ__liii acrescenta ao conhecimento dos seus objectos e 
por isso *apenas* tem que ser incluída na crítica do sujeito que julga e das 
faculdades de conhecimento do mesmo, uma vez que aquelas são capazes *a prioir* 
de princípios, qualquer :, que possa de resto ser o seu uso (quer teórico, quer 
prático). Esta crítica é a propedêutica de toda a Filosofia.

IX. Da conexão das legislações do entendimento
e da razão mediante a faculdade do juízo

O entendimento é legislador *a prioir* em relação ‡ natureza, enquanto objecto 
dos sentidos, para um conhecimento teórico da mesma numa experiência possível. A
razão é legisladora *a prioir* em relação ‡ liberdade e ‡ causalidade que é 
própria desta (como aquilo que é supra­sensível no sujeito) para um conhecimento
incondicionado prático. O domínio do conceito de natureza, sob a primeira e o 
domínio do conceito de liberdade sob a segunda legislação, estão completamente 
separados através do grande abismo que separa o supra­sensível dos fenómenos, 
apesar de toda a influência recíproca que cada um deles por si (cada um segundo 
as respectivas leis fundamentais) poderia ter sobre o outro. O conceito de 
liberdade nada determina no respeitante ao conhecimento teórico da natureza; 
precisamente do mesmo modo o conceito de natureza nada determina ‡s leis _õ__liv
práticas da liberdade. Desse modo não é possível lançar uma ponte de um domínio 
para o outro. ­­ Mas se bem que os fundamentos de determinação da causalidade 
segundo o conceito de liberdade (e da regra prática que ele envolve) não se 
possam testemunhar na natureza e o sensível não possa determinar o supra­
sensível no sujeito, porém é possível o inverso (não de facto no que respeita ao
conhecimento da natureza, mas sim ‡s consequências do primeiro sobre a segunda) 
e é o que já está contido no conceito de uma causalidade mediante a liberdade, 
cujo *efeito* deve acontecer no mundo de acordo com estas suas leis formais, 
ainda que a palavra *causa*, usada no sentido do supra­sensível, signifique 
somente o *fundamento* para determinar em concordância a causalidade das coisas 
da natureza no sentido de um efeito, de acordo com as suas próprias leis da 
natureza, mas ao mesmo tempo de acordo com o princípio :, formal das leis da 
razão. A possibilidade disto não é descortinável, mas a objecção segundo a qual 
aí se encontra uma pretensa contradição pode ser suficientemente refutada (2). 0
efeito segundo o conceito de liberdade é o fim terminal \k*_endzweck*_,, o qual 
(ou a sua manifestação no mundo dos sentidos) deve existir, para o que
se pressupõe a condição da possibilidade do mesmo na
natureza (do sujeito como ser sensível, isto é como ser
humano). A faculdade do juízo que pressupõe *a prioir*
essa condição, sem tomar em consideração o prático, dá
o conceito mediador entre os conceitos de natureza e o
conceito de liberdade que torna possível, no conceito de
uma *conformidade a fins* da natureza, a passagem da
razão pura teórica para a razão pura prática, isto é, da
conformidade a leis segundo a primeira para o fim terminal segundo aquele ˙ltimo
conceito. Na verdade desse modo é conhecida a possibilidade do fim terminal, que
apenas na natureza e com a concordância das suas leis se pode tornar efectivo.
O entendimento fornece, mediante a possibilidade das
suas leis *a prioir* para a natureza, uma demonstração
de que somente conhecemos esta como fenómeno, por
conseguinte simultaneamente a indicação de um _õ__lvi 
substracto supra­sensível da mesma, deixando­o no entanto completamente 
*indeterminado*. Através do seu princípio *a prioir* do julgamento da natureza 
segundo leis particulares possíveis da mesma, a faculdade do juízo fornece ao 
substracto supra­sensível daquela (tanto em nós, como fora de nós) *a 
possibilidade de determinação* \k/_bestimmbarkeit*_, *mediante a faculdade 
intelectual*. Porém a razão dá precisamente a esse mesmo substracto, mediante a 
sua lei prática *a prioir*, a *determinação*; e desse modo a faculdade do juízo 
torna possível a passagem do domínio do conceito de natureza para o de
liberdade.
No que respeita ‡s faculdades da alma \k*_seelenvermogen*_, em geral, na 
medida em que elas são consideradas como faculdades superiores, isto é como 
aquelas que contêm uma autonomia, o entendimento é para a *faculdade do 
conhecimento* (o conhecimento teórico da :, natureza) aquilo que contém *a 
prioir* os princípios *constitutivos; para o sentimento do prazer e desprazer* 
é­o a faculdade do juízo, independentemente de conceitos e de sensações, as 
quais poderiam referir­se ‡ determinação da faculdade de apetição e desse modo 
ser imediatamente práticas; para a *faculdade de apetição* é­o a razão, que é 
prática, sem mediação de qualquer prazer, venha este donde vier e que determina 
‡quela faculdade, na qualidade de faculdade superior, o fim terminal, o qual se 
faz acompanhar ao mesmo tempo de um comprazimento intelectual puro no objecto. 
­­ O conceito da faculdade do juízo de uma conformidade a fins da 
natureza pertence ainda aos conceitos desta, mas somente como _õ__lvii  
princípio regulativo da faculdade de conhecimento, se bem que o juízo estético 
sobre certos objectos (da natureza ou da arte), que ocasiona tal conceito, seja 
um princípio constitutivo com respeito ao sentimento do prazer ou desprazer. A 
espontaneidade no jogo das faculdades de conhecimento, cujo acordo contém o 
fundamento deste prazer, torna adequado o conceito pensado para uma mediação da 
conexão dos domínios do conceito de natureza com o conceito de liberdade nas 
suas
 consequências, na medida em que este acordo promove ao mesmo tempo a 
receptividade do ânimo ao sentimento moral. ­­ O seguinte quadro pode facilitar­
nos uma perspectiva sinóptica de todas as faculdades superiores, segundo a sua 
unidade sistemática (3).
:::::
:__faculdades gerais do __ânimo

­­ Faculdade de conhecimento
­­ Sentimento de prazer e desprazer
­­ Faculdade de apetição

FACULDADES DE CONHECIMENTO
­­ Entendimento
­­ Faculdade do Juízo
­­ Razão

PRINCÕPIOS *A PRIORI*
­­ Conformidade a leis
­­ Conformidade a fins
­­ Fim terminal

APLICA«?O ¿
­­ Natureza
­­ Arte
­­ Liberdade
:::::::::

Divisão da Totalidade da Obra

PRIMEIRA PARTE
Crítica da Faculdade de Juízo Estética

Primeira secção
Analítica da Faculdade de Juízo Estética

Primeiro livro:
Analítica do Belo

Segundo livro:
Analítica do _sublime

Segunda secção
Dialéctica da Faculdade de Juízo Estética

SEGUNDA PARTE
Crítica da Faculdade de Juízo Teleológica

Primeira divisão:
Analítica da Faculdade de Juízo Teleológica
Segunda divisão:
Dialéctica da Faculdade de Juízo Teleológica

AP NDICE:
Doutrina do Método da Faculdade de Juízo
Teleológica

Notas da Introdução

(1) Relativamente a conceitos que são utilizados como princípios empíricos, 
quando se tem uma causa para supor que eles possuem um parentesco com a 
faculdade de conhecimento pura, é de toda a utilidade, por causa desta relação, 
uma definição transcendental, isto é mediante categorias puras, na medida em que
estas apenas indicam de uma forma suficiente a diferença do presente conceito em
relação a outros. Segue­se neste caso o exemplo do matemático que deixa 
indeterminados os dados empíricos do seu problema e somente coloca a relação 
destes, na síntese pura daquelas categorias, sob os conceitos da aritmética pura
e desse modo universaliza a sua solução.  ­­ A propósito de um procedimento 
semelhante (Crít. da R. Prát., p. 16 \k9_, do Prefácio) fizeram­me uma objecção 
e censuraram a definição da faculdade de apetição, *como a faculdade de ser, 
através das suas representações, a causa da efectividade dos objectos destas 
representações*. … que, diziam, simples desejos \k_w¸nsche_, seriam então também
apetições \k_begehrungen_,, em relação ‡s quais toda a gente se resigna a que só
através delas não se pode produzir o respectivo objecto. ­­ Porém isto não 
demonstra outra coisa senão que existem também apetições no ser humano, pelas 
quais este se encontra em contradição consigo mesmo, na medida em que apenas 
através da sua representação esboça a produção do objecto, relativamente ao que 
ele não pode esperar qualquer sucesso, já que está consciente que as suas 
faculdades mecânicas (se é que posso assim designar aquelas que não são 
psicológicas) que teriam que ser determinadas através daquela representação, 
para efectuar o objecto (por conseguinte de forma mediata), ou não são 
suficientes, ou então procedem a algo impossível, p. ex. tornar não acontecido 
aquilo que acontece (*_o mihi praeteritos*, etc.) ou poder aniquilar, através de
uma expectativa impaciente, o tempo que se estende até ao momento desejado. ­­ 
Ainda que em tais fantásticas apetições estejamos conscientes da insuficiência 
das nossas representações (ou antes da sua inaptidão) para serem *causa* dos 
seus objectos, todavia a relação das mesmas como causa, por conseguinte a 
representação da sua *causalidade*, está comida em todo o desejo e é 
particularmente visível quando este é um afecto, isto é, ânsia \k_*sehnsucht*_,.
Na verdade estas demonstram assim que alargam e enfraquecem o coração, esgotando
deste modo as faculdades e que estas mesmas são repetidamente postas em tensão 
mediante representações e nos deixam o ânimo cair de novo e incessantemente em 
esmorecimento, quando se dão conta dessa impossibilidade. Mesmo as preces para 
afastar grandes e, tanto quanto é possível descortinar, inevitáveis males e 
muitos métodos supersticiosos para alcançar fins impossíveis, demonstram a 
relação causal das representações com os seus objectos, a qual, até mediante a 
consciência da sua insuficiência para produzir o efeito, não pode ser separada 
do esforço para tal objectivo. ­­ Mas trata­se de uma questão antropológico­
teleológica saber por que razão foi colocado na nossa natureza o pendor para as 
apetições vazias conscientemente assumidas \k*mit Bemusstsein*_,. Ao que parece,
se nós não fossemos levados a aplicar as nossas faculdades antes de nos 
termos :, certificado da suficiência da nossa capacidade para a produção de um 
objecto, essa aplicação permaneceria em grande parte sem utilização. … que 
geralmente só ficamos a conhecer as nossas faculdades pelo facto de as 
experimentarmos. Esta ilusão dos desejos vazios é por isso somente a 
consequência de uma disposição benfazeja na nossa natureza. (Nota da 2.. edição,
N. do T.)

(2) Uma das várias contradições supostas em toda esta distinção entre a 
causalidade da natureza e a causalidade mediante a liberdade ocasiona a censura:
quando eu falo de *obstáculos* que a natureza coloca ‡ causalidade segundo leis 
da liberdade (leis morais) ou da sua *promoção* através dessa liberdade, admito 
todavia uma influência da primeira sobre a ˙ltima. Mas se se quiser compreender 
o que dissémos, tal equívoco é fácil de evitar. A resistência ou a promoção não 
é entre a natureza e a liberdade, mas sim entre a primeira como fenómeno e os 
*efeitos* da ˙ltima como fenómenos no mundo sensível; e mesmo a causalidade da 
liberdade (da razão pura e prática) é a *causalidade* de uma causa da natureza 
que lhe é subordinada (do sujeito como ser humano, por conseguinte considerado 
como fenómeno) de cuja *determinação* o inteligível, que é pensado segundo a 
liberdade, contém o fundamento de um modo afinal inexplicável (precisamente o 
mesmo acontece com aquilo que constitui o substracto supra­sensível da 
natureza).

(3) Levantaram­se d˙vidas ao facto das minhas divisões na filosofia pura 
acabarem quase sempre por ser tripartidas. No entanto isso tem a ver com a 
natureza da problemática. No caso de uma divisão acontecer *a prioir*, ela será 
ou *analítica*, segundo o princípio da contradição. Então ela é sempre bipartida
(*quadlibet ens est aut A aut non A*). Ou ela é *sintética* e, se neste caso 
deve ser feita a partir de conceitos *a prioir* (não como na matemática a partir
da intuição que corresponde *a prioir* ao conceito), então a divisão tem que ser
necessariamente uma tricotomia, segundo aquilo que se deve exigir para a unidade
sintética em geral, isto é 1) condição, 2) um condicionado, 3) o conceito que 
nasce da união do condicionado com a sua condição. 

PRIMEIRA PARTE

DA

:__crítica da faculdade do __juízo

::::
:__crítica da faculdade de juízo __estética

Primeira Secção

Analítica da Faculdade de Juízo Estética

_õ3  Primeiro Livro
Analítica do Belo

Primeiro momento do juízo de gosto (1) segundo a qualidade

ß 1. O juízo de gosto é estético

Para distinguir se algo é belo ou não, referimos a representação, não pelo 
entendimento ao objecto com vista ao conhecimento, mas pela faculdade da 
imaginação (talvez ligada ao entendimento) ao sujeito e ao seu _õ4 sentimento de
prazer ou desprazer. O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento,
por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo 
fundamento de determinação *não* pode ser *senão* *subjectivo*. Toda a 
referência das representações, mesmo a das sensações, pode porém ser objectiva 
(e ela significa então o real de uma representação empírica); somente não pode 
sê­lo a referência ao sentimento de prazer e desprazer, pelo qual não é 
designado absolutamente nada no objecto, mas no qual o sujeito se sente a si 
próprio do modo como ele é afectado pela sensação.

Apreender pela sua faculdade de conhecimento (seja num modo de representação 
claro ou confuso) um edifício regular e conforme a fins, é algo totalmente 
diverso do que ser consciente desta representação com a sensação de 
comprazimento \k*_wohlgefallen*_,. Aqui a representação :,
é referida inteiramente ao sujeito e na verdade ao seu sentimento de vida, sob o
nome de sentimento de prazer ou desprazer; o qual funda uma faculdade de 
distinção e _õ6 julgamento inteiramente peculiar, que em nada contribui para o 
conhecimento, mas somente mantém a representação dada no sujeito em relação com 
a inteira faculdade de representações, da qual o ânimo se torna consciente no 
sentimento de seu estado (a). Representações dadas
num juízo podem ser empíricas (por conseguinte estéticas); mas o juízo que é 
proferido através delas é lógico se elas são referidas ao objecto somente no 
juízo. Inversamente, porém, mesmo que as representações dadas fossem racionais, 
mas num juízo fossem referidas meramente ao sujeito (ao seu sentimento), elas 
são sempre estéticas.
(a) Kant adopta o termo *_gem¸t*, do qual fornece em ocasiões
diversas equivalentes latinos *animus* e *mens*, para designar o todo das 
faculdades de sentir, apetecer e pensar (cf. tb. _c_f_j, B LVIII) e jamais só 
unilateralmente, como se fez depois dele, a unidade do sentimento (equivalente a
*_herz* e *timós*). Ele adopta *_gem¸t* preferencialmente a *_seele* (*anima*) 
pela sua neutralidade face ao sentido metafísico desta ˙ltima. A tradução deste 
termo por "ânimo" e não por "mente" oferece a vantagem de não o reduzir, por 
outro lado, nem ‡s faculdades cognitivas nem ‡ actual "philosophy of mina", 
entendida como filosofia analítica do espírito. Em muitas traduções e 
principalmente entre os franceses prevalece a tendência a confundir *_gem¸t* 
(ânimo, faculdade geral transcendental) com *_geist* (espírito, faculdade 
estética produtiva) e *_seele* (alma, substancia metafísica; cf. _c_f_j, ß 49). 
Segundo Kant, o próprio *esprit* francês situa­se mais do lado do *_geschmack* 
(gosto), enquanto *_geist* situa­se mais do lado do génio (cf. *_reflexões* 930 
e 944, vol. XV). O termo "ânimo", que em português tem menor tradição no seu 
sentido especializado, tendendo a confundir­se com disposição e coragem 
(*_mut*), tem também o sentido de vida (seu sentido estético). Originalmente em 
latim (cf. o dicionário latim­alemão *_georges*) ele teve o mesmo sentido de 
complexo de faculdades do *_gem¸t*, o qual contudo o termo alemão expressa 
melhor: *muot* no *ahd* (antigo alto alemão) significou já faculdade de pensar, 
querer e sentir; o *ge* é por sua vez uma partícula integradora que remete ‡s 
partes de um todo; dai que *gem¸te* tenha tomado no *mhd* médio alto alemão) 
esse sentido originário de totalidade das faculdades (cf. o dicionário 
*_wahrig*). A perplexidade causada pelo abuso do sentido desse termo, já 
denunciado por Goethe, deve­se em grande parte ao facto de o próprio Kant pouco 
se ter preocupado em aclará­lo.

ß 2. 0 comprazimento que determina o juízo de gosto
é independente de todo o interesse
Chama­se interesse ao comprazimento (a) que ligamos
‡ representação da existência de um objecto. Por isso um
tal interesse sempre envolve ao mesmo tempo referência
‡ faculdade da apetição, quer como seu fundamento de
determinação, quer como vinculando­se necessariamente
ao seu fundamento de determinação. Agora, se a questão
é saber se algo é belo, então não se quer saber se a nós
ou a qualquer um importa ou sequer possa importar algo
da existência da coisa, mas sim como a ajuíza nos na
_õ6 simples contemplação (intuição ou reflexão). Se alguém
e pergunta se acho belo o palácio que vejo ante mim, então posso na verdade 
dizer: não gosto desta espécie de coisas que são feitas simplesmente para 
embasbacar, ou, como aquele chefe iroquês, a quem em Paris nada lhe agrada mais 
do que as tabernas; posso além disso em bom estilo *rousseauniano* recriminar a 
vaidade dos grandes, que se servem do suor do povo para coisas tão supérfluas; 
finalmente, posso convencer­me facilmente de que, se me encontrasse numa ilha 
inabitada, sem esperança de algum
dia retornar aos homens, e se pelo meu simples desejo
pudesse produzir por encanto um tal edifício sumptuoso,
nem por isso me daria uma vez sequer esse trabalho, se :,
(a) Sobre a tradução de *_wohlgefallen* por "comprazimento" veja­se no próprio 
Kant _c_f_j, ß 5, B 15 a utilização por K. do equivalente *_komplazenz*; e na 
*_anthropologie*, ß 69, Akad. Ausg.: "*_der Geschmack... enthãlt eine 
Empfãnglichkeit, durch diese Mitteilung selbst mit Lust affiziert, ein 
Wohlgefallen (complacentia) daran gemeins chaftlich mit Anderen 
(gesellschaftlich) zu empfinden*" [O gosto contém uma receptividade ­­ afectada 
por prazer mediante essa própria comunicação, de ter em sociedade a sensação de 
um *comprazimento* (*complacentia*)/˙. No sentido pois de comprazer, do latim 
*complacere = cum alio placere*, a tradução proposta expressa o pensamento 
original de Kant. Ao género do comprazimento equivalente, *_lust = prazer, 
pertencem as espécies chamadas *_geschmack* = gosto (um prazer reflectido, em 
parte sensível e em parte intelectual) e *_vergn¸gen* = deleite (que, tendo o 
seu par negativo em *_schmerz* = dor, seria mais precisamente traduzido pela 
expressão "prazer­da­sensacão, e do qual Kant fornece o equivalente latino 
*voluptas*).
já tivesse uma cabana que me fosse suficientemente
cómoda. Pode­se conceder­me e aprovar tudo isto; só que
agora não se trata disso. Quer­se saber somente se esta
simples representação do objecto em mim é acompanhada
de comprazimento, por indiferente que sempre eu possa
ser com respeito ‡ existência do objecto desta representação. Vê­se facilmente 
que se trata do que faço dessa representação em mim mesmo, não daquilo em que 
dependo da existência do objecto, para dizer que ele é *belo* e para provar que 
tenho gosto. Cada um tem que reconhecer que aquele juízo sobre a beleza, ao qual
se mescla o mínimo interesse é muito faccioso e não é nenhum juízo de gosto 
puro. Não se tem que simpatizar minimamente com a existência da coisa, mas pelo 
contrário ser a esse _õ7 respeito completamente indiferente, para em matéria de
gosto desempenhar o papel de juiz.

Mas não podemos elucidar melhor essa proposição,
que é de importância primordial, do que se contrapomos
ao comprazimento desinteressado (2) puro no juízo de gosto
aquele que é ligado a interesse; principalmente se ao
mesmo tempo podemos estar certos de que não há mais
espécies de interesse do que as que precisamente agora
devem ser nomeadas.
ß 3. 0 comprazimento no *agradável* é ligado a interesse
*_agradável é o que apraz aos sentidos na sensação*.
Ora aqui se mostra de imediato a ocasião para censurar
uma confusão bem usual e chamar atenção para ela, relativamente ao duplo 
significado que a palavra sensação pode ter. Todo o comprazimento (diz­se ou 
pensa­se) é ele próprio sensação (de um prazer). Portanto tudo o que _õ8 apraz 
é, precisamente pelo facto de que apra , agradável (e, segundo os diferentes 
graus ou também relações com outras sensações agradáveis, *gracioso, encantador,
deleitável, alegre*, etc.). Se isto porém for concedido, então as impressões dos
sentidos, que determinam a inclinação, ou princípios da razão, que determinam a 
vontade, ou
simples formas reflectidas da intuição, que determinam :,
a faculdade do juízo, são, no que concerne ao. efeito sobre
o sentimento de prazer, inteiramente a mesma coisa. Pois
este efeito seria o agrado na sensação do nosso estado; e
já que enfim todo o cultivo das nossas faculdades tem que
ter em vista o prático e unificar­se nele como seu objectivo, assim não se 
poderia pretender delas nenhuma outra avaliação das coisas e do seu valor do que
a que consiste no deleite que elas prometem. O modo como elas o conseguem não 
importa enfim absolutamente; e como unicamente a escolha dos meios pode 
introduzir aí uma diferença, assim os homens poderiam culpar­se reciprocamente 
de tolice e de insensatez, jamais porém de vileza
e maldade; porque todos eles, cada um segundo o seu
modo de ver as coisas, correm para um objectivo que é,
para qualquer um, o deleite.
Se uma determinação do sentimento de prazer ou desprazer é denominada 
sensação, então esta expressão significa algo totalmente diverso do que quando 
denomino a _õ9 representação de uma coisa (pelos sentidos, como uma 
receptividade pertencente ‡ faculdade do conhecimento) (a), sensação. Pois no 
˙ltimo caso a representação é referida ao objecto, no primeiro, porém, meramente
ao sujeito, e não serve absolutamente para nenhum
conhecimento, tão pouco para aquele pelo qual o próprio
sujeito se *conhece*.
Na definição acima, entendemos contudo pela palavra
sensação uma representação objectiva dos sentidos; e, para não corrermos sempre 
perigo de ser falsamente interpretados, queremos chamar aquilo que sempre tem 
que permanecer simplesmente subjectivo, e que absolutamente não pode constituir 
nenhuma representação de um objecto, pelo nome aliás usual de sentimento. A cor 
verde dos prados pertence ‡ sensação *objectiva*, como percepção de um objecto 
dos sentidos; o seu agrado, porém, pertence ‡ sensação *subjectiva*, pela qual 
nenhum objecto é representado: isto é, ao sentimento pelo qual o objecto 
\k*_gegenstand*_, é considerado como objecto \k*_objekt_, do :,
(a) A: "conhecimento".

comprazimento (o qual não é nenhum conhecimento do mesmo).

Ora, que o meu juízo sobre um objecto, pelo qual o declaro agradável, expresse 
um interesse pelo mesmo, já resulta claro, do facto que mediante a sensação ele 
suscita um desejo por tais objectos, por conseguinte o comprazimento pressupõe 
não o simples juízo sobre ele, mas a referência da sua existência ao meu estado,
na medida em que ele é afectado por um tal objecto. Por isso do agradável não se
diz apenas: ele *apraz/, mas: ele *deleita*. _õ10 Não é uma simples aprovação 
que lhe dedico, mas através dele é gerada inclinação; e ao que é agradável do 
modo mais vivo, não pertence a tal ponto nenhum juízo sobre a natureza do 
objecto, que até aqueles que sempre têm em vista o gozar (pois esta é a palavra 
com que se designa o íntimo do deleite) de bom grado se dispensam de todo o 
julgar.

ß 4. 0 comprazimento no *bom* está ligado ao interesse
*_bom* é o que apraz mediante a razão pelo simples conceito. Denominamos *bom* 
para \k*wozu gut_, (o ˙til) algo que apraz somente como meio; outra coisa, 
porém, que apraz por si mesma denominamos *bom em si*. Em ambos está contido o 
conceito de um fim, portanto a relação da razão ao (pelo menos possível) querer,
consequentemente um comprazimento na *existência* de um objecto ou de uma acção,
isto é, um interesse qualquer.

Para considerar algo bom preciso saber sempre que tipo de coisa o objecto deva 
ser, isto é, ter um conceito do mesmo. Para encontrar nele beleza, não o 
necessito. Flores, desenhos livres, linhas entrelaçadas sem intenção _õ11 sob o 
nome de folhagem, não significam nada, não dependem de nenhum conceito 
determinado e contudo aprazem. O comprazimento no belo tem que depender da 
reflexão sobre um objecto, que conduz a um conceito qualquer (sem determinar 
qual), e desta maneira distingue­se também do agradável, que assenta 
inteiramente na sensação.

Na verdade o agradável parece ser em muitos casos idêntico ao bom. Assim se dirá
comummente: todo o :, deleite (nomeadamente o duradouro) é em si mesmo bom; o 
que aproximadamente significa; ser duradouramente agradável ou bom é o mesmo. 
Todavia pode­se notar logo que isto é simplesmente uma confusão falsificadora de
palavras, já que os conceitos que propriamente são atribuídos a estas expressões
de nenhum modo podem ser intercambiados. O agradável, visto que, como tal, 
representa o objecto meramente em referência ao sentido, precisa ser primeiro 
submetido pelo conceito de um fim a princípios da razão, para que se o denomine 
bom, como objecto da vontade. Mas que então se trata de uma referência 
inteiramente diversa ao comprazimento, se denomino o que deleite ao mesmo tempo 
*bom*, conclui­se do facto que em relação ao bom sempre se pergunta se é _õ12 só
mediatamente­bom ou imediatamente­bom (se é ˙til ou bom em si); enquanto em 
relação ao agradável, contrariamente, essa questão não pode ser posta, porque a 
palavra sempre significa algo que apraz imediatamente. (O mesmo se passa também 
com o que denomino belo).

Mesmo nas conversações mais comuns distingue­se o agradável do bom. De um prato 
que realça o gosto com recurso a temperos e outros ingredientes diz­se sem 
hesitar que é agradável e confessa­se ao mesmo tempo que não é bom; porque ele 
na verdade *agrada* imediatamente aos sentidos, mas mediatamente, isto é, pela 
razão que olha para as consequências, ele desagrada. Mesmo no julgamento da 
sa˙de pode­se ainda notar esta diferença. Ela é imediatamente agradável para 
todo aquele que a possui (pelo menos negativamente, isto é, enquanto afastamento
de todas as dores corporais). Mas para dizer que ela é boa, temos que ainda 
dirigi­la a fins pela razão, ou seja como um estado que nos dispõe para todas as
nossas ocupações. Com vista ‡ felicidade, finalmente, qualquer um crê contudo 
poder chamar ‡ soma máxima (tanto pela quantidade como pela duração) dos agrados
da vida um verdadeiro bom até mesmo o bom supremo. No entanto, também a isso a 
razão se opõe. Amenidades são gozo. Mas se apenas este contasse, seria tolo ser 
escrupuloso com respeito aos meios que no­lo proporcionam, quer ele fosse obtido
passivamente a partir da liberalidade da natureza, :,
_õ13 quer por actividade própria e por nossa própria actuação. A razão porém 
jamais se deixará persuadir de que tenha em si (a) um valor a existência de um 
homem, que vive simplesmente *para gozar* (e seja até muito diligente a este 
propósito) mesmo que ele, para o conseguir, fosse o mais ˙til possível a outros,
que visem igualmente o gozo, e na medida em que ele pela simpatia gozasse em 
conjunto de todo o deleite. Somente através do que o homem faz sem consideração 
do gozo, em inteira liberdade e independentemente do que a natureza também 
passivamente poderia proporcionar­lhe, confere ele um valor absoluto (b) ‡ sua 
existência \k*_dasein*_,, enquanto existência \k*_existenz*_, de uma pessoa; e a
felicidade com a inteira plenitude das suas amenidades não é de modo nenhum um 
bom incondicionado (3).

Mas a despeito de toda esta diversidade entre o agradável e o bom, ambos 
concordam em que eles sempre estão ligados com interesse ao seu objecto, não só 
o agradável (ß 3), e o mediatamente bom (o ˙til), que apraz como meio para 
qualquer amenidade, mas também o absolutamente e em todos os sentidos bom, a 
saber o bom moral, que comporta o máximo interesse. Pois o bom é o objecto da 
vontade (isto é, de uma faculdade da apetição _õ14 determinada pela razão). 
Todavia querer alguma coisa e ter comprazimento na sua existência, isto é tomar 
um interesse por ela, é idêntico.

ß 6. Comparação dos três modos especificamente diversos de comprazimento

O agradável e o bom têm ambos uma referência ‡ faculdade de apetição e nesta 
medida trazem consigo, aquele um comprazimento patologicamente condicionado (por
estímulos), este um comprazimento prático, o qual não é determinado simplesmente
pela representação do objecto, mas ao mesmo tempo pela representada conexão do 
sujeito com a existência do mesmo. Não simplesmente :,

(a) "em si", falta em A.
(b) "absoluto", acréscimo de B.

o objecto apraz, mas também a sua existência (a). Contrariamente (b), o juízo de
gosto é meramente *contemplativo*, isto é, um juízo que, indiferente em relação 
‡ existência de um objecto, só considera a sua natureza em comparação com o 
sentimento de prazer e desprazer. Mas esta própria contemplação é tão pouco 
dirigida a conceitos: pois o juízo de gosto não é nenhum juízo de conhecimento 
(nem teórico, nem prático) e por isso tão pouco é *fundado* em conceitos, nem os
*tem por fim*.

O agradável, o belo, o bom designam, portanto, três relações diversas das 
representações ao sentimento de _õ15 prazer e desprazer, com referência ao qual 
distinguimos entre si objectos ou modos de representação. Também não são 
idênticas as expressões que convêm a cada um e com as quais se designa o 
comprazimento \k/_komplazenz*_, nos mesmos. *_agradável* significa para alguém 
aquilo que o *deleita; belo*, aquilo que meramente lhe *apraz; bom*, aquilo que 
é *estimado, aprovado* (c), isto é, onde é posto por ele um valor objectivo. 
Amenidade vale também para animais irracionais; beleza somente para homens; isto
é, entes animais, contudo racionais, mas não meramente como tal (por ex. 
espíritos), porém ao mesmo tempo como animais (d); o bom, porém, vale para todo 
o ente racional em geral; uma proposição que somente no que se segue pode obter 
a sua completa justificação e elucidação: pode­se dizer que entre todos estes 
modos de comprazimento, ˙nica e exclusivamente o do gosto pelo belo é 
desinteressado e *livre*; pois nenhum interesse, quer o dos sentidos, quer o da 
razão, arranca aplauso. Por isso poder­se­ia dizer do comprazimento que ele, nos
três casos mencionados, refere­se a *inclinação* ou *favor*, ou *respeito*. Pois
*favor* é o ˙nico comprazimento livre. Um objecto da inclinação e um que nos é 
imposto ao desejo mediante uma lei da razão, não nos deixam nenhuma liberdade 
para fazer de qualquer coisa um objecto de prazer para nós :,

(a) "Não simplesmente... apraz". Acrescento de B. 

(b) Kant: "Por isso"; correcção de Rosenkranz. 

(c) "aprovado". Acrescento de B. 

(d) "mas também ... como animais" falta em A.

mesmos. Todo o interesse pressupõe necessidade ou a _õ16 
produz; e, enquanto fundamento determinante da aprovação, ele já não deixa o 
juízo sobre o objecto ser livre.

No que concerne ao interesse da inclinação pelo agradável, qualquer um diz que a
fome é o melhor cozinheiro e que pessoas de apetite saudável gostam de tudo, 
desde que se possa comê­lo; consequentemente um tal comprazimento não prova 
nenhuma escolha pelo gosto. Somente quando a necessidade está saciada se pode 
distinguir quem entre muitos tem gosto ou não. Do mesmo modo há costumes 
(conduta) sem virtude, cortesia sem benevolência, decência sem honradez, etc. 
Pois onde a lei moral fala, não há objectivamente (a) mais nenhuma livre escolha
com respeito ao que deva ser feito; e mostrar gosto em sua conduta (ou no 
julgamento sobre a de outros) é algo totalmente diverso do que exteriorizar a 
sua maneira de pensar moral: pois esta contém um mandamento e produz uma 
necessidade, já que contrariamente o gosto moral somente joga com os objectos do
comprazimento, sem se afeiçoar a um deles.

Explicação (b) do Belo
Inferida do Primeiro Momento

*_gosto* é a faculdade de julgamento de um objecto ou de um modo de 
representação mediante um comprazimento ou descomprazimento (*independente de 
todo interesse*). O objecto de um tal comprazimento chama­se *belo*. :,

(a) A: "também" (em vez de "objectivamente").
(b) Diferentemente de outros tradutores, que adoptaram para *_erklãrung* o termo
"definição", preferimos traduzi­lo mais literalmente por "explicação". Sobre a 
equivocidade e o limite do uso desses termos cf. *_crítica da Razão Pura*, B 
756­8.

_õ17  Segundo momento do juízo de gosto,
a saber segundo a sua quantidade

ß 6. 0 belo é o que é representado sem conceitos como objecto de um 
comprazimento *universal*

Esta explicação do belo pode ser inferida da sua explicação anterior, como um 
objecto do comprazimento independente de todo o interesse. Pois aquilo, a 
respeito de cujo comprazimento alguém é consciente de que é nele pr6prio 
independente de todo o interesse, isso não pode ele ajuizar de outro modo senão 
que tem de conter um fundamento do comprazimento para qualquer um. Pois, visto 
que não se funda sobre qualquer inclinação do sujeito (nem sobre qualquer outro 
interesse deliberado), mas, visto que aquele que julga se sente inteiramente 
*livre* com respeito ao comprazimento que dedica ao objecto: assim ele não pode 
descobrir nenhuma condição privada como fundamento do comprazimento ‡ qual, 
unicamente, ele como sujeito se afeiçoasse e por isso tem que considerá­lo como 
fundado naquilo que ele também pode pressupor em todo o outro; consequentemente,
tem que crer que possui razão para pretender de qualquer um, um comprazimento 
_õ18 semelhante. Ele falará, pois, do belo como se a beleza fosse uma qualidade 
do objecto e o juízo fosse lógico (constituindo através de conceitos do objecto 
um conhecimento do mesmo); conquanto ele seja somente estético e contenha 
simplesmente uma referência da representação do objecto ao sujeito; já que ele 
contudo possui semelhança com o lógico, pode­se pressupor a sua validade para 
qualquer um. Mas essa universalidade tão pouco pode surgir de conceitos. Pois 
conceitos não oferecem nenhuma passagem ao sentimento de prazer ou desprazer 
(exceptuando leis práticas puras, que porém levam consigo um interesse, 
semelhante ao qual não se encontra nenhum ligado ao juízo de gosto puro). 
Consequentemente, tem que se atribuir ao juízo de gosto, com a consciência da 
separação nele de todo o interesse, uma reivindicação de validade para qualquer 
um, sem universalidade fundada :, sobre objectos, isto é, uma reivindicação de 
universalidade subjectiva tem que estar ligada a esse juízo.

ß 7. Comparação do belo com o agradável e o bom através da característica acima 
referida

Com respeito ao *agradável* cada um resigna­se com o facto de que o seu juízo, 
que ele funda sobre um sentimento privado e mediante o qual diz de um objecto 
_õ19 que este lhe apraz, limita­se também simplesmente ‡ sua pessoa. Por isso de
bom grado contenta­se com o facto de que, se ele diz "O vinho espumante das 
canárias é agradável", um outro corrige­lhe a expressão e recorda­lhe que deve 
dizer "ele é­me agradável"; e assim não somente no gosto da língua, do céu da 
boca e da garganta, mas também no que possa ser agradável aos olhos e ouvidos de
cada um. Pois a um a cor violeta é suave e amena, a outro morta e fenecida. Um 
ama o som dos instrumentos de sopro, outro o dos instrumentos de corda. Altercar
sobre isso, com o objectivo de censurar como incorrecto o juízo de outros, que é
diverso do nosso, como se fosse logicamente oposto a este, seria tolice; 
portanto, acerca do agradável vale o princípio: *cada um tem seu próprio (a) 
gosto* (dos sentidos).

Com o belo passa­se de modo totalmente diverso. Seria (precisamente ao 
contrário) ridículo se alguém que se gabasse do seu gosto, pensasse justificar­
se com isto: este objecto (o edifício que vemos, o traje que aquele veste, o 
concerto que ouvimos, o poema que é apresentado ao julgamento) é *para mim* 
belo. Pois ele não tem que denominá­lo *belo* se meramente lhe apraz. Muita 
coisa pode ter atractivo e agrado para si, com isso ninguém se preocupa; se 
porém, toma algo por belo, então atribui a outros precisamente o mesmo 
comprazimento: ele não julga simplesmente por si, mas por qualquer um e neste
_õ20 caso fala da beleza como se ela fosse uma propriedade das :,

(a) A: "particular".

coisas. Por isso diz: a *coisa/ é bela, e não conta com o acordo unanime de 
outros no seu juízo de comprazimento porque ele a tenha considerado mais vezes 
em acordo com o seu juízo, mas *exige­o* deles. Censura­os se julgam 
diversamente e nega­lhes o gosto pretendendo todavia que eles devam possui­lo; e
nesta medida não se pode dizer: cada um possui o seu gosto particular. Isto 
equivaleria a dizer: não existe absolutamente gosto algum, isto é, um juízo 
estético que pudesse legitimamente reinvindicar o assentimento de qualquer um.

Contudo descobre­se também a respeito do agradável, que no seu julgamento pode 
ser encontrada unanimidade entre pessoas, com vista ‡ qual se nega a alguns o 
gosto e a outros se o concede, e na verdade não no significado de órgão do 
sentido, mas de faculdade de julgamento com respeito ao agradável em geral. 
Assim se diz de alguém que sabe entreter os seus hóspedes com amenidades (do 
gozo através de todos os sentidos) de modo tal que apraz a todos: ele tem gosto.
Mas aqui a universalidade é tomada só comparativamente; e então há somente 
regras *gerais* (como o são todas as empíricas) (a) não *universais*, como as 
que o juízo de gosto sobre o belo toma a seu _õ21 encargo ou reivindica. Trata­
se de um juízo em referência ‡ sociabilidade, na medida em que ela se baseia em 
regras empíricas. Com respeito ao bom, os juízos na verdade, também reivindicam 
com razão validade para qualquer um; todavia o bom é representado somente por um
conceito como objecto de um comprazimento universal, o que não é o caso nem do 
agradável nem do belo. 
ß 8. A universalidade do comprazimento é representada num juízo de gosto somente
como subjectiva

Esta particular determinação da universalidade de um juízo estético, que pode 
ser encontrada num juízo de gosto, é na verdade digna de nota não para o lógico,
mas sim :,

(a) As palavras entre parêntesis faltam em A.

para o filósofo transcendental; ela desafia o seu não pequeno esforço para 
descobrir a origem da mesma, mas em compensação desvela também uma propriedade 
da nossa faculdade de conhecimento, a qual sem este desmembramento teria ficado 
desconhecida.

Antes de tudo é preciso convencer­se inteiramente de que pelo juízo de gosto 
(sobre o belo) imputa­se a *qualquer* um o comprazimento no objecto, sem contudo
se fundar sobre um conceito (pois então se trataria do bom); e que esta 
reivindicação de universalidade pertence tão _õ22 essencialmente a um juízo pelo
qual declaramos algo *belo*, que sem aí pensar aquela universalidade, ninguém 
teria ideia de usar essa expressão, mas tudo o que apraz sem conceito seria 
computado como agradável, com respeito ao qual se deixa a cada um seguir a sua 
pr6pria cabeça e nenhum presume ao outro adesão ao seu juízo de gosto, o que 
entretanto sempre ocorre no juízo de gosto sobre a beleza. Posso denominar o 
primeiro de gosto dos sentidos, o segundo de gosto da reflexão: enquanto o 
primeiro profere meramente juízos privados, o segundo por sua vez profere 
pretensos juízos comummente válidos (p˙blicos), de ambos os lados, porém, juízos
estéticos (não práticos) sobre um objecto simplesmente com respeito ‡ relação da
sua representação com o sentimento de prazer e desprazer. Ora, é contudo 
estranho que ­­ visto que a respeito do gosto dos sentidos não apenas a 
experiência mostra que o nosso juízo (de prazer ou desprazer em qualquer coisa) 
­­ não vale universalmente, mas qualquer um também é por si tão despretensioso 
que precisamente não imputa a outros este acordo unanime (se bem que efectiva e 
frequentemente se encontre uma unanimidade muito ampla também nestes juízos) ­­ 
o gosto de reflexão que, como o ensina a experiência, também é frequentemente 
rejeitado com a sua reivindicação de validade universal do seu juízo (sobre o 
belo) para qualquer um, não obstante os possa considerar possível (o que ele 
também faz efectivamente) representar juízos que pudessem exigir universalmente 
este acordo unanime e de facto presume­o para cada um dos seus juízos de gosto, 
sem que aqueles que julgam estejam em conflito quanto ‡ possibilidade de uma :, 
tal reivindicação, mas somente em casos particulares não podem unir­se a 
propósito do emprego correcto desta faculdade.

Ora, aqui se deve notar antes de tudo que uma universalidade que não se baseia 
em conceitos de objectos (ainda que somente empíricos) não é absolutamente 
lógica, mas estética, isto é, não contém nenhuma quantidade objectiva do juízo, 
mas somente uma subjectiva, para a qual também utilizo a expressão *validade 
comum* \k*_gemeing¸ltigkeit*_,, a qual designa a validade não da referência de 
uma representação ‡ faculdade de conhecimento, mas ao sentimento de prazer e 
desprazer para cada sujeito. (Podemos, porém, servir­nos também da mesma 
expressão para a quantidade lógica do juízo, desde que acrescentemos: validade 
universal *objectiva*, diversamente da simplesmente subjectiva, que é sempre 
estética).

Ora, um *juízo objectivo e universalmente válido* também é sempre subjectivo, 
isto é, se o juízo vale para tudo o que está contido sob um conceito dado, então
ele vale também para qualquer um que se representa um objecto através deste 
conceito. Mas de uma *validade universal _õ24 subjectiva*, isto é, estética, que
não se baseia em nenhum conceito, não se pode deduzir a validade universal 
lógica, porque aquela espécie de juízos não remete absolutamente ao objecto. 
Justamente por isso, todavia, a universalidade estética, que é conferida a um 
juízo, também tem que ser de índole peculiar, porque ela (a) não conecta o 
predicado da beleza ao conceito do *objecto*, considerado em sua inteira esfera 
lógica (b), e no entanto estende o mesmo sobre a esfera inteira *dos que 
julgam*.

No que concerne ‡ quantidade lógica, todos os juízos de gosto são, juízos 
*singulares*. Pois, porque tenho de ater o objecto imediatamente ao meu 
sentimento de prazer e desprazer, e contudo não através de conceitos, assim 
aqueles não podem ter a quantidade de um juízo objectiva e comummente válido 
(c); se bem que, se a representação :,

(a) B: "se".

(b) "lógica" falta em A.

(c) C: juízos objectiva e comummente válidos.

singular do objecto do juízo de gosto, segundo as condições que determinam o 
˙ltimo, for por comparação convertida num conceito, poderá resultar disso um 
juízo lógico universal: por ex. a rosa, que contemplo, declaro­a bela mediante 
um juízo de gosto. Contrariamente, o juízo que surge por comparação de vários 
singulares ­­ as rosas em geral, são belas ­­ não é desde então enunciado 
simplesmente como estético, mas como um juízo lógico fundado sobre um juízo 
estético. Ora, o juízo "a rosa é (de odor) agradável" na verdade é também um 
juízo estético e singular, mas nenhum juízo de gosto e sim dos _õ25 sentidos. 
Ele distingue­se do primeiro no facto de que o juízo de gosto traz consigo uma 
*quantidade estética* da universalidade, isto é, da validade para qualquer um, a
qual não pode ser encontrada no juízo sobre o agradável. Só e unicamente os 
juízos sobre o bom, ainda que determinem também o comprazimento num objecto, 
possuem universalidade lógica, não meramente estética; pois eles valem em 
relação ato objecto, como conhecimento do mesmo, e por isso para qualquer um.

Quando se julgam objectos simplesmente segundo conceitos, toda a representação 
da beleza é perdida. Logo não pode haver tão pouco uma regra, segundo a qual 
alguém devesse ser coagido a reconhecer algo como belo. Se um vestido, uma casa,
uma flor é bela: disso não deixa o nosso juízo persuadir­se por nenhuma razão ou
princípio. Queremos submeter o objecto aos nossos próprios olhos, como se o 
nosso comprazimento dependesse da sensação; e contudo, se então chamamos ao 
objecto, belo, cremos ter em nosso favor uma voz universal e reivindicamos a 
adesão de qualquer um, já que de contrário cada sensação privada decidiria só e 
unicamente para o observador e o seu comprazimento.

Ora, aqui se trata de ver que no juízo de gosto nada é postulado, a não ser uma 
tal voz *universal* com vista _õ26 ao comprazimento sem mediação dos conceitos; 
por conseguinte a *possibilidade* de um juízo estético, que ao mesmo tempo possa
ser considerado como válido para qualquer um. O próprio juízo de gosto não 
*postul0a* o acordo unânime de qualquer um (pois isto só pode fazê­lo um :, 
juízo lógico­universal, porque ele pode alegar razões); somente imputa a 
qualquer um este acordo como um caso da regra, com vista ao qual espera a 
confirmação, não de conceitos, mas da adesão de outros. A voz universal é, 
portanto, somente uma ideia (no que é que ela se baseia, não será ainda 
investigado aqui). Que aquele que crê proferir um juízo de gosto, de facto 
julgue conformemente a essa ideia, pode ser incerto; mas que ele, o refira a 
ela, consequentemente que ele deva ser um juízo de gosto, anuncia­o através da 
expressão de beleza. Por si próprio, porém, ele pode estar certo disso pela 
simples consciência da separação de tudo o que pertence ao agradável e ao bom, 
do comprazimento que ainda lhe fica; e isto é tudo para o que ele a si próprio 
promete o assentimento de qualquer um; uma pretensão para a qual sob estas 
condições ele também estaria autorizado, se não incorresse frequentemente em 
falta contra elas e por isso proferisse um juízo de gosto erróneo.

_õ27  ß 9. Investigação da questão, se no juízo de gosto o sentimento de prazer 
precede o julgamento do objecto, ou
se este julgamento precede o prazer

A solução deste problema é a chave da crítica do gosto e por isso digna de toda 
a atenção.

Se o prazer no objecto dado fosse o que antecede e no juízo de gosto somente a 
comunicabilidade universal desse prazer devesse ser concedida ‡ representação do
objecto, então um tal procedimento estaria em contradição consigo mesmo. Pois 
tal prazer não seria nenhum outro que o simples agrado na sensação sensorial 
\k/_sinnenempfindung*_, e por isso, de acordo com a sua natureza, somente 
poderia ter validade privada, porque dependeria imediatamente da representação 
pela qual o objecto *é dado*.

Logo, é a capacidade universal de comunicação do estado do ânimo na 
representação dada que como condição subjectiva do juízo de gosto tem de residir
no fundamento do mesmo e ter como consequência o prazer no objecto. Nada, porém,
pode ser comunicado universalmente, a não :, ser conhecimento e representação, 
na medida em que esta pertence ao conhecimento. Pois só e unicamente nesta 
medida aquela ˙ltima é objectiva e só através disso tem um ponto de referência 
universal, com o qual a faculdade de _õ28 representação de todos é coagida a 
concordar. Ora, se o princípio de determinação do juízo sobre essa 
comunicabilidade universal da representação deve ser pensado apenas 
subjectivamente, ou seja, sem um conceito do objecto, então ele não pode ser 
nenhum outro senão o estado de ânimo, que é encontrado na relação recíproca das 
faculdades de representação, na medida em que elas referem uma representação 
dada ao *conhecimento em geral*.

As faculdades de conhecimento, que através desta representação são postas em 
jogo, estão com isto num livre jogo porque nenhum conceito determinado as limita
a uma regra particular de conhecimento. Portanto, o estado do ânimo nesta 
representação tem que ser o de um sentimento do jogo livre das faculdades de 
representação numa representação dada para um conhecimento em geral. Ora, a uma 
representação pela qual um objecto é dado, para que disso resulte em geral 
conhecimento, pertencem *a faculdade da imaginação*, para a composição do 
m˙ltiplo da intuição, e o *entendimento* para a unidade do conceito, que unifica
as representações. Este estado de um *jogo livre* das faculdades de conhecimento
numa representação, pela qual um objecto é dado, tem que poder comunicar­se 
universalmente; porque o conhecimento como determinação do objecto, com o qual 
representações dadas (seja em que sujeito for) devem concordar é o ˙nico modo de
_õ29 representação que vale para qualquer um.

A comunicabilidade universal subjectiva do modo de representação num juízo de 
gosto, visto que ela deve ocorrer sem pressupor um conceito determinado, não 
pode ser outra coisa senão o estado do ânimo no jogo livre da faculdade da 
imaginação e do entendimento (na medida em que concordam entre si, como é 
requerido para um *conhecimento em geral*), enquanto somos conscientes de que 
esta relação subjectiva própria do conhecimento em geral tem de valer também 
para todos e consequentemente ser :, universalmente comunicável, como o é cada 
conhecimento determinado, que pois sempre se baseia naquela relação como 
condição subjectiva.

Este julgamento simplesmente subjectivo (estético) do objecto ou da 
representação, pela qual ele é dado, precede pois o prazer no mesmo objecto e é 
o fundamento deste prazer na harmonia das faculdades de conhecimento; mas esta 
validade universal subjectiva do comprazimento, que ligamos ‡ representação do 
objecto que denominamos belo, funda­se unicamente sobre aquela universalidade 
das condições subjectivas do julgamento dos objectos.

O facto de poder comunicar o nosso estado de ânimo, embora somente com vista ‡s 
faculdades cognitivas, trazer consigo um prazer, poder­se­ia demonstrar 
facilmente _õ30 (empírica e psicologicamente) a partir da tendência natural do 
homem ‡ sociabilidade. Isto porém não é suficiente para o nosso objectivo. Se 
denominamos algo belo, imputamos o prazer que sentimos a todo o outro como 
necessário, no juízo de gosto, como se devesse ser considerado uma qualidade do 
objecto, a qual é determinada nele segundo conceitos; pois a beleza, sem 
referência ao sentimento do sujeito, por si não é nada. Mas temos que reservar a
discussão desta questão até ‡ resposta ‡quela outra: se e como juízos estéticos 
*a prioir* são possíveis.
Agora ocupamo­nos ainda com a questão menor: de que modo nos tornamos 
conscientes de uma concordância subjectiva recíproca das faculdades de 
conhecimento entre si no juízo de gosto? Esteticamente pelo simples sentido 
interno e sensação ou intelectualmente pela consciência de nossa actividade 
intencional com que pomos aquelas em jogo?

Se a representação dada, que ocasiona o juízo de gosto, fosse um conceito, que 
unificasse entendimento e imaginação no julgamento do objecto 
\k*_gegenstandes*_, para um conhecimento do mesmo \k*_objekts*_,, então a 
consciência desta relação seria intelectual (como no esquematismo objectivo da 
faculdade do juízo, do qual a crítica trata). Mas o juízo tão pouco seria 
proferido em referência a prazer e desprazer, portanto não seria nenhum juízo de
gosto. Ora, o juízo de gosto contudo determina, :, independentemente de 
conceitos, o objecto com respeito ao comprazimento e ao predicado da beleza. 
Logo, aquela unidade subjectiva da relação somente pode fazer­se cognoscível 
através da sensação. A vivificação de ambas as faculdades (da imaginação e do 
entendimento) para uma actividade indeterminada (a), mas contudo unanime através
da iniciativa da representação dada, a saber daquela actividade que pertence a 
um conhecimento em geral, é a sensação, cuja comunicabilidade universal o juízo 
de gosto postura. Na verdade, uma relação objectiva somente pode ser pensada, 
mas, na medida em que de acordo com suas condições é subjectiva, pode todavia 
ser sentida no efeito sobre o ânimo; e numa relação que não põe como fundamento 
nenhum conceito (como o das faculdades de representação para uma faculdade de 
conhecimento, em geral) tão pouco é possível um outra consciência da mesma senão
por sensação do efeito que consiste no jogo facilitado de ambas as faculdades do
ânimo (da imaginação e do entendimento) vivificadas pela concordância recíproca.
Uma representação, que sendo singular e sem comparação com outras, todavia 
possui uma concordância com as condições da universalidade, a qual constitui a 
tarefa do entendimento em geral, conduz a faculdade do conhecimento ‡ 
consonância proporcionada, que exigimos para todo o conhecimento e por isso 
também consideramos válida para qualquer um que está _õ32 destinado a julgar 
através do entendimento e sentidos coligados (para todo homem).

Explicação do Belo
Inferida do Segundo Momento

*_belo* é o que apraz universalmente sem conceito. :,

(a) C: determinada.

Terceiro momento do juízo de gosto, segundo
a relação dos fins que neles é considerada

ß 10. Da conformidade a fins em geral
Se quisermos explicar o que seja um fim, segundo suas determinações 
transcendentais (sem pressupor algo empírico, como é o caso do sentimento de 
prazer), então fim é o objecto de um conceito, na medida em que este for 
considerado como a causa daquele (o fundamento real de sua possibilidade); e a 
causalidade de um *conceito* com respeito ao seu *objecto* é a conformidade a 
fins (forma finalis). Onde pois não é porventura pensado simplesmente o 
conhecimento de um objecto mas o próprio objecto (a forma ou existência do 
mesmo) como efeito, enquanto possível somente mediante um conceito do ˙ltimo, aí
se pensa um fim. A representação do efeito é aqui o _õ33 fundamento determinante
da sua causa e precede­a. A consciência da causalidade de uma representação com 
vista ao estado do sujeito para o *conservar* nele pode aqui de modo geral 
designar aquilo que se chama prazer; contrariamente, desprazer é aquela 
representação que possui o fundamento para determinar o estado das 
representações no seu próprio oposto (para impedi­las ou eliminá­las) (a).

A faculdade da apetição, na medida em que é determinável somente por conceitos, 
isto é, a agir conformemente ‡ representação de um fim, seria a vontade. 
Conforme a fins porém chama­se um objecto ou um estado do ânimo ou também uma 
acção, ainda que a sua possibilidade não pressuponha necessariamente a 
possibilidade da representação de um fim, simplesmente porque a sua 
possibilidade somente pode ser explicada ou concebida por nós na medida em que 
admitimos no fundamento da mesma uma causalidade segundo fins, isto é uma 
vontade, que a tivesse ordenado desse modo segundo a representação de uma certa 
regra. A conformidade a fins pode pois ser sem fim, na medida em que não pomos 
as causas :,

(a) "impedi­las ou eliminá­las" falta em A.

desta forma numa vontade, e contudo somente podemos
tornar compreensível para nós a explicação da sua
possibilidade enquanto a deduzimos de uma vontade. Ora,
não temos sempre necessidade de descortinar pela razão
(segundo a sua possibilidade) aquilo que observamos. Logo,
podemos pelo menos observar uma conformidade a fins
_õ34 segundo a forma ­­ mesmo que não lhe ponhamos no 
fundamento um fim (como matéria do *nexus finalis* ­­ e
notá­la em objectos, embora de nenhum outro modo senão
por reflexão.
ß 11. O juízo de gosto não tem por fundamento senão
a forma da conformidade a fins de um objecto (ou do
seu modo de representação)
Todo o fim, se é considerado como fundamento do comprazimento, traz 
sempre consigo um interesse como fundamento de determinação do juízo sobre o 
objecto do prazer. Logo, nenhum fim subjectivo pode situar­se no fundamento do 
juízo de gosto. Mas também nenhuma representação de um fim objectivo, isto é da 
possibilidade do próprio objecto segundo princípios da ligação a fins, por 
conseguinte nenhum conceito de bom pode determinar o juízo de gosto; porque ele 
é um juízo estético e nenhum juízo de conhecimento, o qual, pois, não concerne a
nenhum *conceito* da natureza e possibilidade interna ou
externa do objecto através desta ou daquela causa, mas
simplesmente ‡ relação das faculdades de representação
entre si, na medida em que elas são determinadas por uma
representação.
_õ35 Ora, é esta relação na determinação de um objecto,
como um objecto belo ligado ao sentimento de prazer, que é ao mesmo tempo 
declarada pelo juízo de gosto como válida para todos; consequentemente nem um 
agrado que acompanha a representação, nem a representação (a) da perfeição do 
objecto e o conceito de bom podem conter esse fundamento de determinação. Logo 
nenhuma outra coisa :, senão a conformidade a fins subjectiva na representação 
de um objecto sem qualquer fim (objectivo ou subjectivo), consequentemente a 
simples forma da conformidade a fins na representação, pela qual um objecto nos 
*é dado*, pode, na medida em que somos conscientes dela, constituir o 
comprazimento que julgamos como comunicável universalmente sem conceito, por 
conseguinte o fundamento determinante do juízo de gosto.

(a) "representação da" falta em A.
­

Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997
Quarto Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­
Clássicos de Filosofia

Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d.21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

isbn 972­27­0506­7
$ó12. 0 juízo de gosto repousa sobre fundamentos *a
priori*

Estipular *a priori* a conexão do sentimento de um prazer ou desprazer, como um 
efeito, com qualquer representação (sensação ou conceito), como sua causa, é 
absolutamente impossível; pois esta seria uma relação de causalidade (a), que 
(entre objectos da experiência) sempre pode ser conhecida somente *a posteriori*
e através da _õ36 própria experiência. Na verdade, na *_crítica da razão 
prática*, efectivamente deduzimos *a priori*, de conceitos morais universais, o 
sentimento de respeito (como uma modificação particular e peculiar deste 
sentimento, que justamente não quer concordar nem como o prazer nem com o 
desprazer que obtemos de objectos empíricos. Mas ali nós podemos também 
ultrapassar os limites da experiência e invocar uma causalidade, ou seja a da 
liberdade, que repousava sobre uma qualidade supra­sensível do sujeito. 
Entretanto mesmo aí propriamente não deduzimos esse *sentimento* da ideia do 
moral como causa, mas simplesmente a determinação da vontade foi daí deduzida. 
Porém o estado de ânimo de uma vontade determinada por qualquer coisa é em si já
um sentimento de prazer e idêntico a ele, logo não resulta dele como efeito: o 
que somente teria que ser admitido se o conceito do moral como um bem precedesse
a determinação da vontade pela lei; pois então o prazer, que fosse ligado ao 
conceito, em vão seria deduzido deste como um mero conhecimento. :,

(a) A: "uma relação de causalidade particular."

Ora, de modo semelhante se passa com o prazer no juízo estético: só que aqui ele
é simplesmente contemplativo e sem produzir um interesse no objecto, enquanto no
juízo moral ao contrário ele é prático. A consciência da conformidade a fins 
meramente formal no jogo das _õ37 faculdades de conhecimento do sujeito numa 
representação, pela qual um objecto é dado, é o próprio prazer, porque ela 
contém um fundamento determinante da actividade do sujeito com vista ‡ 
vivificação das faculdades de conhecimento do mesmo, logo é uma causalidade 
interna (que é conforme a fins) com vista ao conhecimento em geral, mas sem ser 
limitada a um conhecimento determinado, por conseguinte é uma simples forma da 
conformidade a fins subjectiva de uma representação num juízo estético. Tão 
pouco este prazer é de modo algum prático, nem como prazer proveniente do 
fundamento patológico da amenidade, nem como o proveniente do fundamento 
intelectual do bom representado. Apesar disso ele possui em si causalidade, a 
saber a de *manter* sem objectivo ulterior o estado da própria representação e a
ocupação das faculdades de conhecimento. Nós *demoramo­nos* na contemplação do 
belo, porque esta contemplação fortalece e reproduz­se a si própria: este caso é
análogo (mas de modo algum idêntico) ‡quela demora na qual um atractivo na 
representação do objecto desperta continuamente a atenção enquanto o ânimo é 
passivo.
$ó13. O juízo de gosto puro é independente de atractivo e 
comoção (a)

(a) O termo *_r¸hrung*, ligado ao sentimento do sublime, significa uma emoção 
violenta, isto é uma comoção. Grimm (no seu *_wõrterbuch* sob a variante 4), ao 
conferir a *_r¸hrung* o sentido de "mover interiormente, *commovere*, remete ao 
próprio Kant, a propósito da sua afirmação de que o sublime comove enquanto o 
belo atrai (*_das Erhabene r¸hrt, das Schõne reitz*). A maioria das traduções, 
contrariamente, usou no caso apenas o termo "emoção".

_õ38 Todo o interesse vicia o juízo de gosto e tira­lhe a imparcialidade, 
principalmente se ele, diversamente do :, interesse da razão, não antepõe a 
conformidade a fins ao sentimento de prazer, mas a funda sobre ele; o que ocorre
no juízo estético sobre algo todas as vezes em que ele deleita ou causa dor. Por
isso juízos que são afectados deste modo não podem reivindicar absolutamente 
nenhum comprazimento universalmente válido, ou podem­no tanto menos quanto 
sensações dessa espécie se encontram entre os fundamentos determinantes do 
gosto. O gosto é ainda bárbaro sempre que ele precisa da mistura de *atractivos*
e *comoções* para o comprazimento, ao ponto até de tornar estes os padrões de 
medida da sua aprovação.

Não obstante, atractivos frequentemente são, não apenas contados como beleza 
(que todavia deveria concernir propriamente só ‡ forma) como contribuição para o
comprazimento estético universal, mas até são feitos passar em si mesmos por 
belezas, por conseguinte a matéria do comprazimento é feita passar pela forma; 
um equívoco que, como muitos outros ­­ que entretanto sempre ainda tem algo 
verdadeiro por fundamento ­­ deixa­se remover mediante cuidadosa determinação 
destes conceitos.

Um juízo de gosto, sobre o qual atractivo e comoção não têm nenhuma influência 
(conquanto se deixem ligar ao comprazimento no belo), e que portanto tem como 
fundamento de determinação simplesmente a conformidade a fins da forma, é um 
*juízo de gosto puro*.

_õ39  $ó14. Elucidação através de exemplos

Juízos estéticos podem, assim como os teóricos (lógicos), ser divididos em 
empíricos e puros. Os primeiros são os que afirmam agrado ou desagrado, os 
segundos os que afirmam beleza de um objecto ou do modo de representação do 
mesmo; aqueles são juízos dos sentidos (juízos estéticos materiais), estes (como
formais) (a) unicamente autênticos juízos de gosto.

(a) "(como formais)" falta em A.
Portanto um juízo de gosto é puro somente na medida em que nenhum comprazimento 
meramente empírico é :, misturado ao fundamento de determinação do mesmo. Isto 
porém ocorre todas as vezes em que atractivo ou comoção tem uma participação no 
juízo pelo qual algo deve ser declarado belo.

Aqui de novo se evidenciam muitas objecções, que por fim simulam o atractivo não
meramente como ingrediente necessário da beleza, mas até como por si só 
suficiente para ser denominado belo. Uma simples cor, por exemplo a cor da 
relva, um simples som (‡ diferença do eco e do ruído), como porventura o de um 
violino, é em si declarado belo pela maioria das pessoas, se bem que ambos 
pareçam ter por fundamento simplesmente a matéria das representações, a saber 
pura e simplesmente a sensação e por isso mereceram ser chamados somente 
agradáveis. _õ40 Entretanto ao mesmo tempo se observará que as sensações da cor 
como as do som somente se consideram no direito de valer como belas na medida em
que ambos são *puras*; o que é uma determinação que já concerne ‡ forma e ao 
˙nico dessas representações que com certeza pode comunicar­se universalmente: 
porque a qualidade das próprias sensações não pode ser admitida como unanime em 
todos os sujeitos e o agrado de uma cor, superior ao de outra, ou do tom de um 
instrumento musical, superior ao de um outro, dificilmente pode ser admitido 
como ajuizado em qualquer um da mesma maneira.

Se com *_euler* (a) se admite que as cores sejam simultaneamente pulsações 
(*pulsus*) do éter sucessivas umas ‡s outras, como sons do ar vibrado na 
ressonância e, o que é o mais nobre, que o ânimo perceba (do que absolutamente 
não duvido) (b) não meramente pelo sentido o efeito disso sobre a vivificação do
órgão, mas também pela reflexão o jogo regular das impressões (por conseguinte a
forma na ligação de representações diversas): então cor e som não seriam simples
sensações, mas já determinações formais da unidade de um m˙ltiplo :, dos mesmos 
e neste caso poderiam ser também contados por si como belezas.

(a) Leonhard *_euler*, famoso matemático e físico alemão 
(1707­1783).

(b) A, B: "do que até duvido muito". Windelband Ak.­Ausg. V. p. 527) afirma que 
é a variante da 3.a edição (C) que corresponde ao pensamento de Kant.

Mas o elemento puro de um modo simples de sensação significa que a uniformidade 
da mesma não é perturbada e interrompida por nenhum modo estranho de sensação 
_õ41 e pertence meramente ‡ forma; porque neste caso se abstrai da qualidade 
daquele modo de sensação (seja que cor ou som ele represente). Por isso todas as
cores simples, na medida em que são puras, são consideradas belas; as mescladas 
não têm esta prerrogativa precisamente porque, já que não são simples, não 
possuímos nenhum padrão de medida para o julgamento sobre se devemos chamá­las 
puras ou impuras.
… um erro comum e muito prejudicial ao gosto autêntico, incorrompido e sólido, 
supor que a beleza atribuída ao objecto em virtude da sua forma, pudesse até ser
aumentada pelo atractivo, se bem que certamente possam ainda acrescentar­se 
atractivos ‡ beleza para interessar o ânimo, além do seco comprazimento, pela 
representação do objecto e assim servir de recomendação ao gosto e ‡ sua 
cultura, principalmente se ele é ainda rude e não exercitado. Mas eles 
prejudicam efectivamente o juízo de gosto, se chamam a atenção sobre si como 
fundamentos do julgamento da beleza. Pois estão tão distantes de contribuir para
a beleza, que eles como estranhos, somente têm que ser admitidos com 
indulgência, na medida em que não perturbem aquela forma bela quando o gosto é 
ainda fraco e não exercitado.

_õ42 Na pintura, na escultura, enfim em todas as artes plásticas, na 
arquitectura, na jardinagem, na medida em que são belas­artes, o *desenho* é o 
essencial, no qual não é o que deleite na sensação, mas simplesmente o que apraz
pela sua forma que constitui o fundamento de toda a disposição para o gosto. As 
cores que iluminam o esboço pertencem ao atractivo; elas na verdade podem 
vivificar o objecto em si para a sensação, mas não o tornar digno de intuição e 
belo; antes, elas até em grande parte são limitadas muito por aquilo que a forma
bela requer, e mesmo lá onde o atractivo é admitido são enobrecidas unicamente 
por ela. :,

Toda a forma dos objectos dos sentidos (dos externos assim como mediatamente 
do interno) é ou *figura* ou *jogo*; no ˙ltimo caso, ou jogo das figuras (no 
espaço:  a mímica e a dança); ou simples (a) jogo das sensações (no tempo).
O *atractivo* das cores ou de tons agradáveis do instrumento pode ser­lhe 
acrescido, mas o *desenho* na primeira e a composição no ˙ltimo constitui o 
verdadeiro objecto do juízo de gosto puro; e o facto que a pureza das cores 
assim como a dos sons, mas também a multiplicidade dos mesmos e o seu contraste,
pareçam contribuir para a beleza, não quer significar que é como se produzissem 
um _õ43 acréscimo homogéneo ao comprazimento na forma, porque são por si 
agradáveis, mas somente porque elas tornam esta ˙ltima mais exacta, determinada 
e completamente intuível, e além disso vivificam pelo seu atractivo as 
representações, enquanto despertam e mantêm a atenção sobre o próprio objecto 
(b).

(a) "simples" falta em A.

(b) A: "e além disso pelo seu atractivo despertam e elevam a atenção sobre o 
próprio objecto."

Mesmo aquilo a que se chama *ornamentos* (*parerga*) (c) isto é, que não 
pertence ‡ inteira representação do objecto como parte integrante internamente, 
mas só externamente como acréscimo e que aumenta o comprazimento do gosto, 
também o faz, mas somente pela sua forma, como as molduras dos quadros, ou as 
vestes em estátuas, ou as arcadas em torno de edifícios sumptuosos. Mas se o 
próprio ornamento não consiste na forma bela, e se ele é como a moldura dourada,
adequado simplesmente para recomendar, pelo seu atractivo, o quadro ao aplauso, 
então chama­se *adorno* \k*_schmuck*_, e rompe com a autêntica beleza.

(c) "(parerga)", acrescento de B e C.

*_comoção*, uma sensação em que o agrado é produzido somente através de inibição
momentânea e subsequente efusão mais forte da força vital, não pertence 
absolutamente ‡ beleza. Sublimidade (com a qual o sentimento de comoção está 
ligado) requer, porém, um critério de julgamento diverso daquele que o gosto põe
no seu :, fundamento; e assim um juízo de gosto puro não possui nem atractivo 
nem comoção como princípio determinante, numa palavra, nenhuma sensação enquanto
matéria do juízo estético.

_õ44 $ó15. 0 juízo de gosto é totalmente independente do conceito de perfeição

A conformidade a fins *objectiva* somente pode ser conhecida através da 
referência do m˙ltiplo a um fim determinado, logo somente por um conceito. 
Disso, todavia, já resulta que o belo, cujo julgamento tem por fundamento uma 
conformidade a fins meramente formal, isto é uma conformidade a fins sem fim, é 
totalmente independente da representação do bom, porque o ˙ltimo pressupõe uma 
conformidade a fins objectiva, isto é a referência do objecto a um fim 
determinado.

A conformidade a fins objectiva é ou externa, isto é a *utilidade*, ou interna, 
isto é a *perfeição* do objecto. O facto de que o comprazimento num objecto, em 
virtude do qual lhe chamamos belo, não pode basear­se sobre a representação de 
sua utilidade, pode concluir­se suficientemente dos dois capítulos anteriores: 
porque em tal caso ele não seria um comprazimento imediato no objecto, a qual é 
a condição essencial do juízo sobre a beleza. Mas uma conformidade a fins 
interna objectiva, isto é a perfeição, já se aproxima mais do predicado da 
beleza e por isso foi tomada também por filósofos ilustres ­­ todavia com o 
aposto *se ela for pensada confusamente* ­­ como _õ45 idêntica ‡ beleza. … da 
máxima importância decidir numa crítica do gosto se também a beleza pode 
efectivamente
dissolver­se no conceito de perfeição.

Para ajuizar a conformidade a fins objectiva, precisamos sempre do conceito de 
um fim e (se aquela conformidade a fins não deve ser uma utilidade externa, mas 
interna) o conceito de um fim interno que contenha o fundamento da possibilidade
interna do objecto. Ora, assim como fim em geral é aquilo cujo *conceito* pode 
ser considerado como o fundamento da possibilidade do :,
próprio objecto, assim, para nos representarmos uma conformidade a fins 
objectiva numa coisa, o conceito *do que esta coisa deva ser precedê­la­‡*; e a 
concordância do m˙ltiplo, na mesma coisa, com esse conceito (o qual fornece nele
a regra da ligação do mesmo) é a *perfeição qualitativa* de uma coisa. Disso é 
totalmente distinta a *perfeição quantitativa*, como a completude de cada coisa 
em sua espécie, e simples conceito de quantidade (da totalidade), no qual já é 
antecipadamente pensado como determinado *o que a coisa deva ser* e somente é 
perguntado se *todo* o requerido para isso está nele. O formal na representação 
de uma coisa, isto é a concordância do m˙ltiplo com o uno (seja qual for), de 
modo nenhum _õ46 dá por si a conhecer uma conformidade a fins objectiva; pois 
uma vez que se abstrai desta unidade *como fim* (o que a coisa deva ser), não 
resta senão a conformidade a fins subjectiva das representações no ânimo do que 
intui; essa conformidade presumivelmente fornece certa conformidade a fins do 
estado da representação no sujeito, e neste uma satisfação para captar uma forma
dada na faculdade da imaginação, mas nenhuma perfeição de qualquer objecto, que 
aqui não é pensado por nenhum conceito de fim. Como, por exemplo, quando na 
floresta encontro um relvado, em torno do qual as árvores estão em círculo e não
me represento aí um fim, ou seja que ele deva porventura servir para a dança 
campestre, não sendo dado pela simples forma o mínimo conceito de perfeição. 
Representar­se uma conformidade a fins 
*objectiva* formal mas sem fim, isto é a simples forma de uma perfeição (sem 
toda matéria e *conceito* daquilo com o que se é posto de acordo, mesmo que 
fosse meramente a ideia de uma legalidade) (a), é uma verdadeira contradição.

(a) "(mesmo que fosse... em geral)" falta em A.

Ora, o juízo de gosto é um juízo estético, isto é, que se baseia sobre 
fundamentos subjectivos e cujo fundamento de determinação não pode ser nenhum 
conceito, por conseguinte tão pouco o de um fim determinado. Logo, através da 
beleza como uma conformidade a fins :, _õ47 subjectiva formal de modo nenhum é 
pensada uma perfeição do objecto, como pretensamente formal, e contudo uma 
conformidade a fins objectiva; e é sem valor a diferença entre os conceitos do 
belo e bom, como se ambos fossem diferentes apenas quanto a forma lógica, sendo 
o primeiro simplesmente um conceito confuso e o segundo um conceito claro de 
perfeição, afora isso porém iguais quanto ao conte˙do e ‡ origem. … que então 
não haveria entre eles nenhuma diferença *específica*, mas um juízo de gosto 
seria tanto um juízo de conhecimento, como o juízo pelo qual algo é declarado 
bom; assim como porventura o homem comum, quando diz que a fraude é injusta, 
funda o seu juízo sobre princípios confusos, o filósofo sobre princípios claros,
no fundo porém ambos sobre os mesmos princípios da razão. Eu porém já mencionei 
que um juízo estético é ˙nico em sua espécie e não fornece absolutamente 
conhecimento algum (e tão pouco um confuso) do objecto: este ˙ltimo ocorre 
somente mediante um juízo lógico; já aquele ao contrário refere a representação,
pela qual um objecto é dado, simplesmente ao sujeito e não dá a perceber nenhuma
qualidade do objecto, mas só a forma conforme a um fim na determinação (a) das 
faculdades de representação que se ocupam com aquele. O juízo chama­se estético 
também precisamente porque o seu fundamento de determinação não é nenhum 
conceito, mas sim o sentimento (do sentido interno) daquela unanimidade no jogo 
das faculdades do ânimo, na medida em que ela pode ser somente sentida. 
Contrariamente, se se quisesse denominar estéticos conceitos confusos e o juízo 
objectivo que aquela unanimidade tem por fundamento, ter­se­ia um entendimento 
que julga sensivelmente, ou um sentido que representaria os seus objectos 
mediante conceitos, o que se contradiz (b). A faculdade dos conceitos, quer 
sejam eles confusos ou claros, é o entendimento; e conquanto ao juízo de gosto, 
como juízo estético, também pertença entendimento (como a todos os juízos), 
contudo pertence­lhe, não como faculdade do conhecimento de um :,

(a) na determinação", acrescento de B e C. 

(b) "o que se contradiz,>, acrescento de B e C.

objecto, mas como faculdade da determinação do juízo e da sua representação (sem
conceito) segundo a relação da mesma ao sujeito e seu entendimento interno, e na
verdade na medida em que este juízo é possível segundo uma regra universal.

$ó16. O juízo de gosta, pelo qual um objecto é declarado belo sob a condição de 
um conceito determinado, não é puro

Há duas espécies de beleza: a beleza livre (*pulchritudo vaga*) e a beleza 
simplesmente aderente (*pulchritudo adhaerens*). A primeira não pressupõe nenhum
conceito do que o objecto deva ser; a segunda pressupõe um tal conceito e a 
perfeição do objecto segundo o mesmo. Os _õ49 modos da primeira chamam­se 
belezas (por si subsistentes) desta ou daquela coisa; a outra, como aderente a 
um conceito (beleza condicionada), é atribuída a objectos que se encontram sob o
conceito de um fim particular.

Flores são belezas naturais livres. Que espécie de coisa uma flor deva ser, 
dificilmente o saberá alguém além do botânico; e mesmo este, que no caso conhece
o órgão de fecundação da planta, se julga a este respeito através do gosto, não 
toma em consideração este fim da natureza. Logo, nenhuma perfeição de qualquer 
espécie, nenhuma conformidade a fins interna, ‡ qual se refira a composição do 
m˙ltiplo, é posta no fundamento deste juízo. Muitos pássaros 
(o papagaio, o colibri, a ave do paraíso), uma porção de crustáceos do mar são 
belezas por si, que absolutamente não convêm a nenhum objecto determinado 
segundo conceitos com respeito ao seu fim, mas aprazem livremente e por si. 
Assim os desenhos *‡ la grecque*, a folhagem para molduras ou sobre papel de 
parede etc., por si não significam nada: não representam nada, nenhum objecto 
sob um conceito determinado, e são belezas livres. Também se pode contar como da
mesma espécie o que na m˙sica se denomina fantasias (sem tema), e até toda a 
m˙sica sem texto.

No julgamento de uma beleza livre (segundo a mera forma) o juízo de gosto é 
puro. Não é pressuposto :, nenhum conceito de qualquer fim, para o qual o 
m˙ltiplo _õ50 deva servir ao objecto dado e o qual este ˙ltimo deva representar,
mediante o que unicamente seria limitada a liberdade da faculdade da imaginação,
que joga por assim dizer na observação da figura.

No entanto a beleza de um ser humano (e dentro desta espécie a de um homem ou 
uma mulher ou uma criança), a beleza de um cavalo, de um edifício (como igreja, 
palácio, arsenal ou casa de campo) pressupõe um conceito do fim que determina o 
que a coisa deve ser, por conseguinte um conceito da sua perfeição, e é portanto
beleza simplesmente aderente. Ora assim como a ligação do agradável (da 
sensação) ‡ beleza que propriamente só cor cerne ‡ forma, impedia a pureza do 
juízo de gosto, assim a ligação do bom (para o qual nomeadamente o m˙ltiplo é 
bom com respeito ‡ própria coisa segundo o seu fim) ‡ beleza prejudica a pureza 
do mesmo.

Poder­se­ia colocar num edifício muita coisa de aprazível imediatamente na 
intuição, desde que não se tratasse de uma igreja: poder­se­ia embelezar uma 
figura com toda a sorte de floreados e com linhas leves porém regulares, assim 
como o fazem os neozelandezes com a sua tatuagem, desde que não se tratasse de 
um homem; e este poderia ter traços muito mais finos e uma fisionomia com um 
perfil mais aprazível e suave, desde que não devesse representar um homem ou 
mesmo um guerreiro.

Ora, o comprazimento no m˙ltiplo numa coisa, em _õ51 referência ao fim interno 
que determina a sua possibilidade, é fundado sobre um conceito; o comprazimento 
na beleza é porém tal que não pressupõe nenhum conceito, mas está ligado 
imediatamente ‡ representação pela qual o objecto é dado (não pela qual ele é 
pensado). Ora se o juízo de gosto a respeito do ˙ltimo comprazimento se torna 
dependente do fim no primeiro, enquanto juízo da razão, e assim é limitado, 
então aquele deixa de ser um juízo de gosto livre e puro.

Na verdade o gosto lucra por essa ligação do comprazimento estético ao 
comprazimento intelectual, no facto de que ele é fixo; com certeza ele não é 
universal, não obstante podem ser­lhe prescritas regras com respeito a 
:, certos objectos determinados conformemente a fins. Mas estas por sua vez tão 
pouco são regras de gosto, mas sim meramente do acordo do gosto com a razão, 
isto é do belo com o bom, pelo qual o belo é utilizável como instrumento da 
intenção com respeito ao bom, para submeter aquela disposição do ânimo ­­ que se
mantém a si própria e é de validade universal subjectiva ­­ ‡quela maneira de 
pensar que somente pode ser mantida através de penoso _õ52 esforço mas é válida 
universal ­­ objectivamente. Propriamente, porém, nem a perfeição lucra através 
da beleza, nem a beleza através da perfeição; mas visto que, quando mediante um 
conceito comparamos a representação, pela qual um objecto nos é dado, com o 
objecto (com respeito ao que ele deva ser) não se pode evitar de ao mesmo tempo 
compará­la com a sensação no sujeito e assim, quando ambos os estados do ânimo 
concordam entre si, lucra a *inteira faculdade* de representação.

Um juízo de gosto seria puro com respeito a um objecto com fim interno 
determinado somente se aquele que julga não tivesse nenhum conceito desse fim ou
se abstraísse dele em seu juízo. Mas este então, conquanto proferisse um juízo 
de gosto correcto, enquanto ajuizasse o objecto como beleza livre, seria contudo
censurado e culpado de um juízo falso pelo outro que contempla a beleza nele 
somente como qualidade aderente (presta atenção ao fim do objecto), se bem que 
ambos julguem correctamente a seu modo: um, segundo o que ele tem diante dos 
sentidos, o outro, segundo o que ele tem no pensamento. Através desta distinção 
pode­se dissipar muita dissensão dos juízos do gosto sobre a beleza, enquanto se
lhes mostra que um considera a beleza livre, o outro a beleza aderente, o 
primeiro profere um juízo de gosto puro, o segundo um juízo de gosto aplicado.
_õ53  ß 17. Do ideal da beleza

Não pode haver nenhuma regra de gosto objectiva, que determine através de 
conceitos o que seja belo. Pois todo juízo proveniente desta fonte é estético; 
isto é, o :, sentimento do sujeito e não o conceito de um objecto é o seu 
fundamento determinante. Procurar um princípio do gosto, que fornecesse o 
critério universal do belo através de conceitos determinados, é um esforço 
infrutífero, porque o que é procurado é impossível e em si mesmo contraditório. 
A comunicabilidade universal da sensação (do comprazimento ou descomprazimento),
e na verdade uma tal que ocorre sem conceito, a unanimidade, tanto quanto 
possível, de todos os tempos e povos com respeito a este sentimento na 
representação de certos objectos é o critério empírico, se bem que fraco e 
suficiente apenas para a suposição da derivação de um gosto, tão confirmado por 
exemplos, do profundamente oculto fundamento comum \k*_gemeinschaftlichen*_, a 
toda a humanidade no julgamento das formas sob as quais lhes são dados objectos.

Por isso se consideram alguns produtos de gosto como *exemplares*: não como se o
gosto pudesse ser adquirido _õ54 enquanto imita outros. Pois o gosto tem que ser
uma faculdade com uma especificidade própria; quem porém imita um modelo, na 
verdade mostra, na medida em que o consegue, habilidade, mas gosto mostra 
somente na medida em que ele mesmo pode ajuizar este modelo(4). Disso segue­se, 
porém, que o modelo mais elevado, o original \k*_urbild*_, do gosto é uma 
simples ideia que cada um tem de produzir em si próprio e segundo a qual ele tem
que ajuizar tudo o que é objecto do gosto, o que é exemplo do julgamento pelo 
gosto e mesmo o gosto de qualquer um. *_ideia* significa propriamente um 
conceito da razão, e *ideal* a representação de um ente individual como adequado
a uma ideia. Por isso aquele original do gosto ­­ que certamente repousando 
sobre a ideia indeterminada da razão de um máximo, não pode no entanto ser 
representado mediante conceitos, mas somente por apresentação individual ­­ pode
ser melhor chamado o ideal do belo, de modo que, se não estamos imediatamente de
posse dele, contudo aspiramos produzi­lo em nós. Ele, porém, será _õ55 
simplesmente um ideal da faculdade da imaginação, justamente porque não repousa 
sobre conceitos, mas sobre a apresentação; a faculdade de apresentação porém, é 
a imaginação. ­­ Ora, como chegamos a um tal ideal da beleza? :, *_a priori* ou 
empiricamente? E do mesmo modo, que género de belo é capaz de um ideal?

Em primeiro lugar cabe observar que a beleza, para a qual deve ser procurado um 
ideal, não tem que ser nenhuma beleza *vaga*, mas uma beleza *fixada* por um 
conceito de conformidade a fins objectiva, consequentemente não tem que 
pertencer a nenhum objecto de um juízo de gosto totalmente puro, mas ao de um 
juízo de gosto em parte intelectualizado. Isto é, seja em que espécie de 
fundamentos do julgamento um ideal deve ocorrer, aí tem que se encontrar alguma 
ideia da razão segundo conceitos determinados, que determina *a priori* o fim 
sobre o qual a possibilidade interna do objecto repousa. Um ideal de flores 
belas, de um mobiliário belo, de um belo panorama não pode ser pensado. Mas tão 
pouco se pode representar o ideal de uma beleza aderente a fins determinados, 
por exemplo de uma bela residência, de uma bela árvore, de um belo jardim, etc.;
presumivelmente porque os fins não são suficientemente determinados e fixados 
pelo seu conceito, consequentemente a conformidade a fins é quase tão livre como
na beleza *vaga*. Somente aquilo que tem o fim da sua existência em si próprio, 
*o homem*, que pode determinar ele próprio os seus fins pela razão, ou, onde 
necessita tomá­los da percepção externa, pode todavia compará­los aos fins 
essenciais e universais e pode então ajuizar também esteticamente a concordância
com esses fins: somente este *homem* é pois capaz de um ideal da *beleza*, assim
como a humanidade na sua pessoa, enquanto inteligência, é, entre todos os 
objectos do mundo, a ˙nica capaz do ideal da *perfeição*.

A isso porém pertencem, dois elementos: *primeiro*, a *ideia normal* estética, a
qual é uma intuição singular (da faculdade da imaginação), que representa o 
padrão de medida do seu julgamento, como de uma coisa pertencente a uma 
espécie \k*_spezies*_, animal particular; *segundo*, a *ideia da razão*, que faz
dos fins da humanidade, na medida em que não podem ser representados 
sensivelmente, o princípio do julgamento da sua (a) figura, através da :,

(a) Kant: "de uma"; correc. Erdmam.

qual aqueles se revelam como sem efeito no fenómeno. A ideia normal tem que 
tomar da experiência os seus elementos, para a figura de um animal de espécie 
\k*_gattung*_, particular; mas a máxima conformidade a fins na construção da 
figura, que seria apta para padrão de medida universal do julgamento estético de
cada individuo desta espécie, a imagem que se situou por assim dizer 
intencionalmente no fundamento da técnica da natureza, e ‡ qual somente a 
espécie no seu todo, mas nenhum indivíduo separadamente, é adequada, situa­se 
contudo simplesmente na ideia dos (a) que julgam, a qual porém com as suas 
proporções como ideia estética pode ser apresentada _õ57 inteiramente *in 
concreto* num modelo \k*_musterbild*_,. Para tornar em certa medida 
compreensível como isso se passa (pois quem pode sacar totalmente da natureza o 
seu segredo?), vamos tentar uma explicação psicológica.

(a) A: "do".

Deve­se observar que a faculdade da imaginação sabe, de um modo totalmente 
incompreensível para nós, não somente revocar os sinais de conceitos, mesmo de 
tempos atrás, mas também reproduzir a imagem e a figura do objecto a partir de 
um n˙mero indizível de objectos de diversas espécies ou também de uma e mesma 
espécie; e igualmente, se o ânimo visa comparações, de acordo com toda a 
verosimilhança, se bem que não suficientemente para a consciência, sabe 
efectivamente como que (b) deixar cair uma imagem sobre outra, e pela 
congruência das diversas imagens da mesma espécie extrair uma intermediária, que
serve a todas como medida comum. Alguém viu mil pessoas adultas do sexo 
masculino. Ora se ele quer julgar sobre a estatura normal avaliável 
comparativamente, então (na minha opinião) a faculdade da imaginação sobrepõe um
grande n˙mero de imagens (talvez todas aquelas mil); e, se me for permitido 
utilizar neste caso a analogia da apresentação óptica, é no espaço, onde a maior
parte delas se re˙ne, e dentro do contorno, onde o lugar é iluminado pela mais 
forte concentração de luz, que se torna cognoscível a *grandeza média*, que está
:, igualmente afastada, tanto segundo a altura quanto ‡ largura, _õ58 dos 
limites extremos das estaturas máximas e mínimas; e esta é a estatura de um 
homem belo.

 (b) A: "para a consciência, para reproduzir, ...como que uma imagem".

 (Poder­se­ia descobrir a mesma coisa mecanicamente se se medissem todos os mil,
somassem entre si as suas altura e largura (e espessura) e dividisse a soma por 
mil. Todavia a faculdade da imaginação faz precisamente isto mediante um efeito 
dinâmico, que se origina da impressão variada de tais figuras sobre o órgão dos 
sentidos. Ora, se agora de modo semelhante se procurar para este homem médio a 
cabeça média, para esta o nariz médio etc., então esta figura encontra­se no 
fundamento da ideia normal do homem belo no país onde essa comparação for feita;
por isso, sob essas condições empíricas (a), um negro necessariamente terá uma 
ideia normal da beleza da figura, diversa da do branco e o chinês uma diversa da
do europeu. Precisamente o mesmo se passaria com o *modelo* de um belo cavalo ou
cão (de certa raça). ­­ Esta *ideia normal* não é derivada de proporções tiradas
da experiência *como regras determinadas*; mas é de acordo com ela que regras de
julgamento se tornam pela primeira vez possíveis. Ela é para a espécie inteira a
imagem flutuante entre todas as intuições singulares e de muitos modos diversos 
dos indivíduos e que a natureza colocou na mesma espécie como protótipo das suas
produções, mas parece não o ter conseguido inteiramente em nenhum _õ59 
indivíduo. Ela não é de modo algum o inteiro (b) *protótipo* da *beleza* nesta 
espécie, mas somente a forma, que constitui a condição imprescindível de toda a 
beleza, por conseguinte simplesmente a correcção na exposição da espécie. Ela é 
como se denominava o famoso *doríforo* de *_policleto*, a *regra* (precisamente 
para isso também podia ser utilizada na sua espécie a vaca de *_miro*). 
Precisamente por isso ela também não pode conter nada especificamente 
característico; pois de contrário não seria *ideia normal* para a espécie. A sua
apresentação tão pouco apraz pela beleza, mas simplesmente porque não 
contradiz :, nenhuma condição, sob a qual unicamente uma coisa desta espécie 
pode ser bela. A apresentação é apenas academicamente correcta (5).

(a) "sob essas condições empíricas,, falta em A. 
(b) "inteiro" (*ganze*) falta em A.

Da *ideia normal* do belo, todavia se distingue ainda o *ideal*, que se pode 
esperar unicamente na *figura humana* pelas razões já apresentadas. Ora, nesta, 
o *ideal* consiste na expressão do *moral*, sem o qual o objecto não _õ60 
aprazeria universalmente e além disso positivamente (não apenas negativamente 
numa apresentação academicamente correcta). A expressão visível de ideias 
morais, que dominam internamente o homem, na verdade somente pode ser tirada da 
experiência; mas como que tornar visível na expressão corporal (como efeito do 
interior) a sua ligação a tudo o que a nossa razão liga ao moralmente bom na 
ideia da suprema conformidade a fins ­­ a benevolência ou pureza ou fortaleza ou
serenidade, etc. ­­ requer ideias puras da razão e grande poder da faculdade da 
imaginação, reunidos naquele que quer apenas ajuizá­las e muito mais ainda 
naquele que quer apresentá­las. A correcção de um tal ideal da beleza prova­se 
no facto de que *ele* não permite a nenhum atractivo dos sentidos 
misturar­se ao comprazimento no seu objecto e não obstante possui um grande 
interesse nele; o que então prova que o julgamento segundo um tal padrão de 
medida jamais _õ61 pode ser puramente estético e o julgamento segundo um ideal 
da beleza não é nenhum simples juízo de gosto.

Explicação do belo deduzida deste terceiro momento

*_beleza* é forma da *conformidade a fins* de um objecto, na medida em que ela é
percebida nele *sem representação de um fim* (6).

_õ62  Quarto momento do juízo de gosto segundo
a modalidade do comprazimento no objecto

$ó18. 0 que é a modalidade de um juízo de gosto

De cada representação posso dizer que é pelo menos *possível* que ela (como 
conhecimento) seja ligada a um :, prazer. Daquilo que denomino *agradável* digo 
que *efectivamente* produz prazer em mim. Do *belo*, porém, se pensa que ele 
tenha uma referência *necessária* ao comprazimento. Ora, esta necessidade é de 
uma modalidade peculiar: ela não é uma necessidade objectiva teórica na qual 
pode ser conhecido *a priori* que qualquer um sentirá este comprazimento no 
objecto que denomino belo; nem será uma necessidade prática, na qual através de 
conceitos de uma vontade racional pura, a qual serve de regra a entes que agem 
livremente, este comprazimento é a consequência necessária de uma lei objectiva 
e não significa senão que simplesmente (sem intenção ulterior) se deve agir de 
um certo modo. Mas, como necessidade que é pensada num juízo estético, ela só 
pode ser _õ63 denominada *exemplar*, isto é uma necessidade do assentimento de 
todos a um juízo que é considerado como exemplo de uma regra universal que não 
se pode indicar. Visto que um juízo estético não é nenhum juízo objectivo e de 
conhecimento, esta necessidade não pode ser deduzida de conceitos determinados e
não é pois apodítica. Muito menos pode ela ser inferida da universalidade da 
experiência (de uma unanimidade universal dos juízos sobre a beleza de um certo 
objecto). Pois, não só pelo facto que a experiência dificilmente conseguiria 
documentos suficientemente numerosos, nenhum conceito de necessidade pode 
fundamentar­se sobre juízos empíricos.

$ó19. A necessidade subjectiva que atribuímos ao juízo 
de gosto é condicionada
O juízo de gosto postura o assentimento de qualquer um; e, quem declara algo 
belo quer que qualquer um *deva* aprovar o objecto em apreço e igualmente 
declará­lo belo. O *dever* no juízo estético, segundo todos os dados que são 
requeridos para o julgamento, é portanto expresso só condicionadamente. Procura­
se ganhar o assentimento de todos os outros, porque se tem para isso um 
fundamento que é comum a todos; com esse assentimento (a) também :,

(a) "assentimento" falta em A.

se poderia contar se apenas se estivesse sempre _õ64 seguro de que o caso seria 
subsumido correctamente sob aquele fundamento como regra da aprovação.

$ó20. A condição da necessidade que um juízo de 
gosto pretende é a ideia de um sentido comum

Se juízos de gosto, (como acontece com os juízos de conhecimento), tivessem um 
princípio objectivo determinado, então aquele que os profere segundo esse 
princípio reivindicaria a necessidade incondicionada do seu juízo. Se eles 
fossem desprovidos de todo o princípio, como os do simples gosto dos sentidos, 
então ninguém absolutamente teria a ideia de alguma necessidade dos mesmos. 
Logo, eles têm que possuir um princípio subjectivo, o qual determine, somente 
através de sentimento e não de conceitos, e contudo de modo universalmente 
válido, o que apraz ou desapraz. Um tal princípio porém somente poderia ser 
considerado como um *sentido comum*, o qual é essencialmente distinto do 
entendimento comum, que ‡s vezes também se chama senso comum (*sensus 
communis*): neste caso ele não julga segundo o sentimento mas sempre segundo 
conceitos, se bem que habitualmente somente ao modo de princípios obscuramente 
representados.

Portanto, somente sob a pressuposição de que exista um sentido comum (pelo qual 
porém não entendemos nenhum sentido externo, mas o efeito decorrente do jogo 
_õ65 livre das nossas faculdades de conhecimento), somente sob a pressuposição, 
digo eu, de um tal sentido comum o juízo de gosto pode ser proferido.

$ó21. Se se pode pressupor com razão um sentido
comum

Conhecimentos e juízos, juntamente com a convicção que os acompanha, têm que 
poder comunicar­se universalmente; pois de contrário eles não alcançariam 
nenhuma concordância com o objecto: eles seriam em suma um jogo :,
simplesmente subjectivo das faculdades de representação, precisamente como o 
cepticismo o reclama. Se, porém, conhecimentos devem poder comunicar­se, então 
também o estado do ânimo, isto é a disposição das faculdades de conhecimento 
para um conhecimento em geral, e na verdade aquela proporção que se presta a uma
representação (pela qual um objecto nos é dado), para fazer dela um 
conhecimento, tem que poder comunicar­se universalmente; porque sem esta 
condição subjectiva do conhecer o conhecimento como efeito não poderia surgir. 
Isto também acontece efectivamente sempre que um objecto dado leve através dos 
sentidos a faculdade da imaginação ‡ composição do m˙ltiplo e esta por sua vez 
põe em movimento o entendimento para a unidade do mesmo em conceitos. Mas esta 
disposição das faculdades de conhecimento tem uma proporção diversa de acordo 
com a diversidade dos objectos _õ66 que são dados. Todavia tem que haver uma 
proporção, na qual esta relação interna para a vivificação (de uma pela outra) é
a mais propícia para ambas as faculdades do ânimo com vista ao conhecimento (de 
objectos dados) em geral; e esta disposição não pode ser determinada de outro 
modo senão pelo sentimento (não segundo conceitos). Ora, visto que esta própria 
disposição tem que poder comunicar­se universalmente e, por conseguinte também o
sentimento da mesma (numa representação dada), mas visto que a comunicabilidade 
universal de um sentimento pressupõe um sentido comum: assim este poderá ser 
admitido com razão, e na verdade sem neste caso se apoiar em observações 
psicológicas, mas como a condição necessária da comunicabilidade universal do 
nosso 
conhecimento, a qual é pressuposta em toda lógica e em todo o princípio dos 
conhecimentos que não seja céptico.

$ó22. A necessidade do assentimento universal que é pensada num juízo de gosto, 
é uma necessidade subjectiva, que sob a pressuposição de um sentido comum é 
representada como objectiva

Em todos os juízos pelos quais declaramos algo belo, não permitimos a ninguém 
ser de outra opinião sem com :, isso fundarmos o nosso juízo sobre conceitos, 
mas somente _õ67 sobre o nosso sentimento: o qual, pois colocamos no fundamento 
não como sentimento privado mas como um sentimento comunitário 
\k*gemeinschaftliches*_,. Ora, este sentido comum não pode para este fim ser 
fundado sobre a experiência; pois ele quer dar direito a juízos que contêm um 
dever: ele não diz que qualquer um *irá* concordar com o nosso juízo, mas que 
*deve* concordar com este. Logo o sentido comum, de cujo juízo indico aqui o meu
juízo de gosto como um exemplo e por cujo motivo eu lhe confiro validade 
*exemplar*, é uma simples norma ideal, sob cuja pressuposição se poderia com 
direito tornar um juízo ­­ que com ela concorde e um comprazimento num objecto, 
expressa nesse juízo ­­ regra para qualquer um: porque o princípio na verdade 
somente subjectivo, mas contudo admitido como subjectivo­universal (uma ideia 
necessária para qualquer um) poderia, no que concerne ‡ unanimidade de julgantes
diversos, identicamente a um princípio objectivo, exigir assentimento universal,
sob a condição apenas que se estivesse seguro de ter feito a subsunção correcta.

Esta norma indeterminada de um sentido comum é efectivamente pressuposta por 
nós, o que prova a nossa presunção de proferir juízos de gosto. Se de facto 
existe um tal sentido comum como princípio constitutivo da possibilidade da 
experiência ou se um princípio ainda _õ68 superior da razão no­lo torna somente 
princípio regulativo, antes de mais para produzir em nós um sentido comum para 
fins superiores; se portanto o gosto é uma faculdade original e natural ou 
somente a ideia de uma faculdade fictícia e a ser ainda adquirida, de modo que 
um juízo de gosto com a sua pretensão a um assentimento universal de facto seja 
somente uma exigência da razão de produzir uma tal unanimidade do modo de 
sentir, e que o dever, isto é a necessidade objectiva da confluência do 
sentimento de qualquer um com o sentimento particular de cada um, signifique 
somente a possibilidade dessa unanimidade e o juízo de gosto forneça um exemplo 
somente de aplicação deste princípio: aqui não queremos e não podemos ainda 
investigar isso; por ora cabe­nos somente :, desagregar a faculdade do gosto nos
seus elementos e (a) tini­la finalmente na ideia de um sentido comum.

(a) C: "para".

Explicação do belo inferida
do quarto momento

*_belo* é o que é conhecido sem conceito como objecto de um comprazimento 
*necessário*.

Observação geral sobre a primeira secção da Analítica

Se se extrai o resultado das análises precedentes, descobre­se que tudo decorre 
do conceito de gosto: que ele é uma faculdade de julgamento de um objecto em 
_õ69 referência ‡ *livre conformidade a leis* da faculdade da imaginação. Ora, 
se no juízo de gosto tiver que ser considerada a faculdade da imaginação na sua 
liberdade, então ela será tomada em primeiro lugar não reprodutivamente, tal 
como ela é submetida ‡s leis de associação, mas como produtiva e espontânea 
(como autora de formas voluntárias de intuições possíveis); e embora na 
apreensão de um dado objecto dos sentidos ela na verdade esteja vinculada a uma 
forma determinada deste objecto e nesta medida não possua nenhum jogo livre 
(como na poesia), todavia ainda se pode compreender bem que precisamente o 
objecto pode fornecer­lhe uma tal forma, que contém uma composição do m˙ltiplo, 
tal como a faculdade da imaginação ­­ se fosse entregue livremente a si própria 
­­ a projectaria em concordância com a *legalidade do entendimento* em geral. 
Todavia o facto que a *faculdade da imaginação seja livre* e apesar disso por si
mesma conforme a leis, isto é que ela contenha uma autonomia, é uma contradição.
Unicamente o entendimento fornece a lei. Se porém a faculdade da imaginação é 
coagida a proceder segundo uma lei determinada, então o seu produto é, quanto ‡ 
forma, determinado por conceitos de como ele deve ser; mas em :, tal caso, como 
foi mostrado acima, o comprazimento não o é no belo e sim no bom (da perfeição, 
em todo caso simplesmente do formal), e o juízo não é nenhum juízo pelo gosto. 
Portanto unicamente uma conformidade a leis sem lei e uma concordância 
subjectiva da faculdade da imaginação com o entendimento sem uma concordância 
objectiva, já que a representação é referida a um conceito determinado de um 
objecto, pode coexistir com a livre conformidade a leis do entendimento (a qual 
também foi denominada conformidade a fins sem fim) e com a peculiaridade de um 
juízo de gosto.

_õ70Ora, figuras geométrico­regulares, a figura de um círculo, de um quadrado, 
de um cubo, etc., são comummente citadas por críticos do gosto como os exemplos 
mais simples e indubitáveis da beleza; e contudo são denominadas regulares 
exactamente porque não se pode representá­las de outro modo que pelo facto de 
serem consideradas simples apresentações de um conceito determinado, que 
prescreve ‡quela figura a regra (segundo a qual ela unicamente é possível). 
Portanto um dos dois tem de estar errado: ou aquele juízo dos críticos, de 
atribuir beleza ‡s sobreditas figuras; ou o nosso, que considera a conformidade 
a fins sem conceito necessária ‡ beleza.

Ninguém admitirá facilmente que seja necessário um homem de gosto para encontrar
na figura de um círculo mais comprazimento do que num perfil rabiscado, num 
quadrilátero equilátero e equiangular mais do num quadrilátero oblíquo, de lados
desiguais e por assim dizer deformado; pois isso concerne somente ao 
entendimento comum e de modo algum ao gosto. Onde for percebida (a) uma 
intenção, por exemplo de ajuizar a magnitude de um lugar ou de tornar 
compreensível a relação das partes entre si e com o todo numa divisão: aí são 
necessárias figuras regulares e na verdade aquelas da espécie mais simples; e o 
comprazimento não assenta imediatamente na visão da figura, mas da utilidade da 
mesma para toda espécie de intenção possível. Um quarto, cujas paredes :,

(a) A: "onde há uma intenção".

formam ângulos oblíquos; uma praça de jardim da mesma espécie, e mesmo toda a 
violação da simetria tanto na figura dos animais (por exemplo, ter um olho) como
nas dos edifícios ou dos canteiros de flores desapraz porque contraria o fim, 
não apenas praticamente com respeito a um uso determinado desta coisa, mas 
também _õ71 para o julgamento em toda espécie de intenção possível; o que não é 
o caso no juízo de gosto, que se é puro, liga imediatamente, e sem consideração 
do uso ou de um fim, comprazimento ou descomprazimento ‡ simples *contemplação* 
do objecto.

A conformidade a regras que conduz ao conceito de um objecto é na verdade a 
condição indispensável (*conditio sine qua non*) para captar o objecto numa 
˙nica representação e determinar o m˙ltiplo da forma do mesmo. Esta determinação
é um fim com respeito ao conhecimento; e em referência a este ela também está 
sempre ligada a comprazimento (o qual acompanha a efectuação de cada intenção 
mesmo simplesmente problemática). Mas em tal caso trata­se simplesmente da 
aprovação da solução que satisfaz a uma questão, e não de um entretimento livre,
e indeterminadamente conforme a um fim, das faculdades do ânimo com o que 
denominamos belo, e onde o entendimento está ao serviço da faculdade da 
imaginação e não esta ao serviço daquele.
Numa coisa que é possível somente através de uma intenção, num edifício, mesmo 
num animal, a conformidade a regras que consiste na simetria tem que expressar a
unidade da intuição que acompanha o conceito de fim, e co­pertence ao 
conhecimento. Mas onde somente deve ser entretido um jogo livre das faculdades 
de representação (contudo sob a condição de que o entendimento não sofra aí 
nenhuma afronta), em parques, decoração de aposentos, toda a espécie de 
utensílios de bom gosto, etc., a conformidade a regras, que se anuncia como 
coerção, é tanto quanto possível evitada; por isso o gosto inglês por jardins, o
gosto barroco por móveis impulsionam a liberdade da faculdade da imaginação até 
perto do grotesco e nesta abstracção de toda a coerção da regra precisamente 
admitem que o gosto pode mostrar a sua :, _õ72 máxima perfeição em projectos da 
faculdade da imaginação.

Todo o rigidamente­regular (o que se aproxima da regularidade matemática) tem em
si o mau gosto de não proporcionar nenhum longo entretimento com a sua 
contemplação, mas na medida em que ele não tem expressamente por intenção o 
conhecimento ou um determinado fim prático, produz tédio. Contrariamente aquilo 
com que a faculdade da imaginação pode jogar naturalmente e conformemente a fins
é­nos sempre novo e não se fica enfastiado com sua visão. Marsden (a) na sua 
descrição de Sumatra faz a observação de que nesse lugar as belezas livres da 
natureza circundam por toda a parte o observador e por isso já têm pouco 
atractivo para ele; contrariamente se encontrasse no meio de uma floresta um 
jardim de pimenta, onde as hastes, nas quais este vegetal se enrola, formam 
entre si alamedas em linhas paralelas, teria para ele muita atracção; e conclui 
disso que beleza selvagem, irregular na aparência, somente apraz como variação 
‡quele que se cansou de olhar para a beleza conforme a regras. Todavia ele 
poderia somente fazer a tentativa de um dia se deter junto ao seu jardim de 
pimenta para perceber que, se o entendimento pela conformidade a regras se 
transpÙs para a disposição ‡ ordem, que ele sempre necessita, o objecto não o 
entretém mais, mas antes força importunamente a faculdade da imaginação; contra 
o que a natureza, aí pródiga em variedades até ‡ exuberância e que não é 
submetida a nenhuma coerção de regras artificiais, pode constantemente dar 
alimento ao seu gosto. ­­ Mesmo o canto dos pássaros, que nós não podemos 
submeter a nenhuma regra musical, parece conter mais liberdade e por isso conter
_õ73 mais para o gosto do que mesmo um canto humano, que é executado segundo 
todas as regras da m˙sica; porque enfadamo­nos antes muito com o ˙ltimo, se ele 
é repetido frequentemente e por longo tempo. Entretanto aqui 

(a) *_marsden*, linguísta e etnólogo inglês (1754­1836), autor de *_history of 
Sumatra*, que Kant utilizou também na *_metafísica dos Costumes*.

confundimos :, presumivelmente a nossa participação na alegria de um pequeno e 
estimado animalzinho com a beleza de um canto que, se é imitado mesmo 
exactamente pelo homem (como ocorre ‡s vezes com o cantar do rouxinol), parece 
ao nosso ouvido ser totalmente sem gosto.

Ainda devem distinguir­se objectos belos de belas vistas sobre objectos (que 
frequentemente devido ‡ distancia deixam de ser reconhecidos distintamente). Nas
˙ltimas o gosto parece ater­se não tanto no que a faculdade da imaginação 
*apreende* nesse campo, mas muito mais no que com isso lhe dá motivo para 
*compor poeticamente*, isto é, nas verdadeiras fantasias com as quais o ânimo se
entretém enquanto é continuamente despertado pela multiplicidade na qual o olho 
choca; como é talvez o caso na visão das figuras mutáveis de um fogo de lareira 
ou de um riacho murmurejante, as quais não constituem nenhuma beleza, todavia 
comportam um atractivo para a faculdade da imaginação, porque entretêm o seu 
livre jogo.

Segundo Livro
Analítica do Sublime

_õ74  $ó23. Passagem da faculdade de julgamento do belo
‡ faculdade de julgamento do sublime

O belo concorda com o sublime no facto de que ambos aprazem por si próprios; 
ulteriormente no facto de que ambos não pressupõem nenhum juízo dos sentidos, 
nem um juízo lógico­determinante, mas um juízo de reflexão; por consequência o 
comprazimento não se prende a uma sensação como a sensação do agradável, nem a 
um conceito determinado como o comprazimento no bem, e contudo é referida a 
conceitos, se bem que sem determinar quais; por conseguinte o comprazimento está
vinculado ‡ simples *apresentação* ou ‡ faculdade de *apresentação*, de modo que
esta faculdade ou a faculdade da imaginação é considerada, numa intuição dada, 
em concordância com a *faculdade dos conceitos* do entendimento ou da razão, 
como promoção desta ˙ltima. Por isso também ambas as espécies de juízos são 
*singulares* e contudo juízos que se anunciam como universalmente válidos com 
respeito a cada sujeito, se bem que na verdade reivindiquem simplesmente o 
sentimento de prazer e não o conhecimento do objecto.

Entretanto saltam também aos olhos consideráveis _õ75 diferenças entre ambos. O 
belo da natureza concerne ‡ forma do objecto, que consiste na limitação; o 
sublime, contrariamente, pode também ser encontrado num objecto sem forma, na 
medida em que seja representada nele uma *ilimitação* ou por ocasião desta e 
pensada além disso na sua totalidade; de modo que o belo parece ser 
considerado :, como apresentação de um conceito indeterminado do entendimento, 
enquanto o sublime como apresentação de um conceito semelhante da razão. 
Portanto o comprazimento é ligado ali ‡ representação da *qualidade*, aqui porém
‡ da *quantidade*. O ˙ltimo comprazimento também se distingue muito do primeiro 
quanto ‡ espécie: enquanto o belo (a) comporta directamente consigo um 
sentimento de promoção da vida e por isso é vinculável a atractivos e a uma 
faculdade de imaginação l˙dica, o sentimento do sublime (b) é um prazer que 
surge só indirectamente, ou seja ele é produzido pelo sentimento de uma 
momentânea inibição das forças vitais e pela efusão imediatamente 
consecutiva e tanto mais forte das mesmas; por conseguinte enquanto comoção não 
parece ser nenhum jogo, mas sim seriedade na ocupação da faculdade da 
imaginação. Por isso também é incompatível com atractivos, e enquanto o ânimo 
não é simplesmente atraído pelo objecto, mas _õ76 alternadamente também sempre 
repelido de novo por ele, o comprazimento no sublime contém não tanto prazer 
positivo, mas muito mais admiração ou respeito, isto é merece ser chamado prazer
negativo.

Mas a diferença mais importante e mais intrínseca entre o sublime e o belo é 
antes esta: se, como é justo, aqui consideramos antes de mais nada somente o 
sublime em objectos da natureza (pois o sublime da arte é sempre limitado ‡s 
condições da concordância com a natureza), a beleza da natureza (auto­
subsistente) inclui uma conformidade a fins na sua forma, pela qual o objecto, 
por assim dizer, parece predeterminado para a nossa faculdade de juízo, e assim 
constitui em si um objecto de comprazimento, pelo contrário aquilo que, sem 
raciocínio, produz em nós, e simplesmente na apreensão, o sentimento do sublime,
na verdade pode quanto ‡ forma aparecer contrário a fins para a nossa faculdade 
de juízo, inadequado ‡ nossa faculdade de apresentação e por assim dizer 
violento para a faculdade da imaginação, mas apesar disso e só por isso é 
julgado ser tanto mais sublime. :,

(a) "o belo", acrescento de B e C.

(b) "o sentimento do sublime", acrescento de B e C.

Daí, porém, se vê imediatamente que em geral nos expressamos incorrectamente 
quando denominamos qualquer *objecto da natureza* de sublime, embora na verdade 
possamos de modo inteiramente correcto denominar belos muitíssimos dos mesmos; 
pois como pode ser caracterizado com uma expressão de aprovação o que em si é 
apreendido como contrário a fins? Não podemos dizer mais, senão que o objecto é 
apto ‡ exposição de uma sublimidade que pode _õ77 ser encontrada no ânimo; pois 
o verdadeiro sublime não pode estar contido em nenhuma forma sensível, mas 
concerne somente a ideias da razão, as quais, se bem que não lhes seja possível 
nenhuma apresentação adequada, precisamente por esta inadequação, que deixa 
apresentar­se sensivelmente, são activadas e chamadas ao ânimo. Assim o extenso 
oceano, revolto por tempestades, não pode ser denominado sublime. A sua 
contemplação é horrível; e já se tem que ter preenchido o ânimo com muitas 
ideias se através de uma tal intuição nos devemos dispor a um sentimento, o qual
é ele mesmo sublime, enquanto o ânimo é incitado a abandonar a sensibilidade e 
ocupar­se com ideias que possuem uma conformidade a fins superior.

A beleza auto­subsistente da natureza descobre­nos uma técnica da natureza, que 
a torna representável como um sistema segundo leis, cujo princípio não 
encontramos na nossa inteira faculdade do entendimento, ou seja segundo uma 
conformidade a fins respectivamente ao uso da faculdade do juízo com vista aos 
fenómenos, de modo que estes têm de ser ajuizados como pertencentes não 
simplesmente ‡ natureza no seu mecanismo sem fim, mas também ‡ analogia com a 
arte (a). Portanto ela, na verdade, e efectivamente alarga, não o nosso 
conhecimento dos objectos da natureza, mas sim o nosso conceito da natureza, 
enquanto simples mecanismo, ao conceito da mesma como arte; o que convida a 
profundas investigações _õ78 sobre a possibilidade de uma tal forma. Mas naquilo
que nela costumamos denominar sublime não há absolutamente nada que conduzisse a
princípios objectivos especiais e a formas da natureza conformes a estes, de :,

(a) A: "também pelo contrário como arte".

modo que a natureza, antes pelo contrário, no seu caos ou na sua desordem e 
devastação mais selvagem e desregrada é que suscita as ideias do sublime, quando
somente magnitude e poder se (a) deixam ver. Daí vemos que o conceito do sublime
da natureza não é de longe tão importante e rico em consequências como o 
conceito do belo na mesma; e que ele em geral não d nota nada que seja conforme 
a fins na própria natureza, mas somente no *uso* possível das suas intuições, 
para suscitar em nós próprios o sentimento de conformidade a fins totalmente 
independente da natureza. Para o belo da natureza temos que procurar um 
fundamento fora de nós, para o sublime porém simplesmente em nós e na maneira de
pensar que introduz sublimidade; ‡ representação da primeira esta é uma 
observação provisória muito necessária, que separa totalmente as ideias do 
sublime da ideia de uma conformidade a fins da *natureza* e torna a teoria do 
mesmo um simples apêndice ao julgamento estético da conformidade a fins da 
natureza, porque assim não é representada nenhuma forma particular na natureza, 
mas somente é desenvolvido um uso conforme a fins, que a faculdade da imaginação
faz da sua representação.

_õ79 $ó24. Da divisão de uma investigação do sentimento
do sublime

No que concerne ‡ divisão dos momentos do julgamento estético dos objectos 
relativamente ao sentimento do sublime, a Analítica poderá seguir o mesmo 
princípio ocorrido na análise dos juízos de gosto. Pois enquanto
juízo da faculdade de juízo estético­reflexiva, o comprazimento no sublime, 
assim como no belo, tem que ser, segundo a *quantidade*, de modo universalmente 
válido, segundo a *qualidade* sem  *interesse*, segundo a *relação* tem
que representar a conformidade a fins como subjectiva e segundo a *modalidade*, 
representá­la como necessária. Nisso portanto o método não diferirá do método da
secção anterior, pois se teria que tomar em conta o facto que onde :,

(a) A: "a".

o juízo estético dizia respeito ‡ forma do objecto, começamos a partir da 
investigação da qualidade; aqui, porém, no caso da ausência de forma, que pode 
convir ao que denominamos sublime, começaremos da quantidade como o primeiro 
momento do juízo estético sobre o sublime; a razão deste procedimento pode ser 
deduzida do parágrafo precedente.
Mas a análise do sublime tem necessidade de uma divisão da qual a análise do 
belo não precisava, a saber, em *matematicamente sublime* e em *dinamicamente 
sublime*.

_õ80 Na verdade, visto que o sentimento do sublime comporta, como seu carácter, 
um *movimento* do ânimo ligado ao julgamento do objecto, ao passo que o gosto no
belo pressupõe e mantém o ânimo em *serena* contemplação mas que este movimento 
deve ser ajuizado como subjectivamente conforme a fins (porque Ú sublime apraz),
assim ele é referido pela faculdade da imaginação ou ‡ *faculdade do 
conhecimento* ou ‡ *faculdade da apetição*, mas em ambos os casos a conformidade
a fins da representação dada é ajuizada somente com vista a estas *faculdades* 
sem fim ou interesse; nesse caso então a primeira é atribuída ao objecto como 
disposição *matemática*, a segunda como disposição dinâmica da faculdade da 
imaginação e por isso esse objecto é representado como sublime dos dois modos 
mencionados.

A. Do matemático­sublime

$ó25. Definição nominal do sublime

Denominamos *sublime* o que é *absolutamente grande*. Mas ser grande e ser uma 
grandeza são conceitos totalmente distintos (*magnitudo e quantitas*). Do mesmo 
modo _õ81 *dizer simplesmente* (*simpliciter*) que algo é grande é também 
totalmente diverso de dizer que ele seja *absolutamente grande* (*absoluta, non 
comparativa magnum*). O ˙ltimo é *o que é grande acima de toda a comparação*. ­­
Ora, que quer dizer a expressão que algo é grande ou :,
pequeno ou médio? Não é um conceito puro do entendimento que é denotado através 
disso; menos ainda (a) uma intuição dos sentidos; e tão pouco um conceito da 
razão, porque não comporta absolutamente nenhum princípio do conhecimento. Logo,
tem que tratar­se de um conceito da faculdade do juízo, ou derivar de um tal 
conceito e pÙr como fundamento uma conformidade a fins subjectiva da 
representação em referência ‡ faculdade do juízo. Que algo seja uma grandeza 
(*quantum*) pode­se reconhecer a partir da própria coisa sem nenhuma comparação 
com outras, a saber quando a pluralidade do homogéneo constitui conjuntamente a 
unidade. *_quão grande* porém o seja requer sempre para sua medida algo diverso 
que também seja uma grandeza. Visto porém que no julgamento da grandeza não se 
trata simplesmente da pluralidade (n˙mero), mas também da grandeza da unidade 
(da medida) e a grandeza desta ˙ltima sempre precisa, por sua vez, de algo 
diverso como medida, com a qual ela possa ser comparada, assim vemos que toda a 
determinação de grandeza dos fenómenos simplesmente não pode fornecer nenhum 
conceito absoluto daquela grandeza, mas sempre somente um conceito de 
comparação.

Ora, se eu digo simplesmente que algo é grande, então parece que eu 
absolutamente não tenho em vista _õ82 nenhuma comparação, pelo menos com alguma 
medida objectiva, porque desse modo não é absolutamente determinado quão grande 
o objecto seja. Mas se bem que o padrão de medida da comparação seja meramente 
subjectivo, o juízo nem por isso reclama assentimento (b) universal; os juízos: 
o homem é belo, e: ele é grande, não se restringem meramente ao sujeito que 
julga mas reivindicam, como os juízos teóricos, o assentimento de qualquer um.

Mas porque num juízo, pelo qual algo é denotado simplesmente como grande, não se
quer meramente dizer que o objecto tenha uma grandeza, e sim que esta ao mesmo 
tempo lhe é atribuída de preferência a muitas outras da :,

(a) "que é denotado através disso", falta em A.

(b) Kant: "determinação" (Bestimmung); correc. Hartenstein e Rosenkranz.

mesma espécie, sem contudo indicar determinadamente esta preferência, assim 
certamente é posto no fundamento da mesma um padrão de medida que se pressupõe 
poder admitir como o mesmo para qualquer um, que porém não é utilizável para 
nenhum julgamento lógico (matematicamente­determinado), mas somente estético, da
grandeza, porque ele é um padrão de medida que se encontra só subjectivamente no
fundamento do juízo reflexivo sobre a grandeza. Ele pode aliás ser empírico, 
como por assim dizer a grandeza média dos homens que conhecemos, animais de 
certa espécie, árvores, casas, montes, etc., ou um padrão de medida dado *a 
priori*, que pelas deficiências do sujeito que ajuíza (a) é limitado ‡s 
condições subjectivas da apresentação *in concreto*, como no domínio prático a 
grandeza de uma certa virtude ou da liberdade e justiça _õ83 p˙blicas num país; 
ou no domínio teórico a grandeza da correcção ou incorrecção de uma observação 
ou mensuração feita, etc.

Ora, é aqui digno de nota que, conquanto não tenhamos absolutamente nenhum 
interesse no objecto, isto é ainda que a existência do mesmo nos seja 
indiferente, todavia a simples grandeza do mesmo, até quando ele é observado 
como não tendo forma, pode comportar um comprazimento que é comunicável 
universalmente e por conseguinte contenha consciência de uma conformidade a fins
subjectiva no uso de nossa faculdade de conhecimento; mas não por assim dizer um
comprazimento no objecto, como no belo (porque ele pode ser sem forma), em cujo 
caso a faculdade de juízo reflexiva se encontra disposta conformemente a fins em
referência ao conhecimento em geral, mas sim na ampliação da faculdade da 
imaginação em si mesma.

Se (sob a limitação mencionada acima) dizemos simplesmente de um objecto que ele
é grande, então este não é nenhum juízo matematicamente determinante, mas um 
simples juízo de reflexão sobre a sua representação, que é subjectivamente 
conforme aos fins de um certo uso de nossas faculdades de conhecimento na 
apreciação da :,

(a) "que ajuíza", acréscimo de B e C.

grandeza; e nós então ligamos sempre ‡ representação uma espécie de respeito, 
assim como ao que denominamos simplesmente pequeno, um desrespeito. Aliás o
_õ84 julgamento das coisas como grandes ou pequenas concerne a tudo, mesmo a 
todas as propriedades das coisas; por isso nós próprios denominamos a beleza 
grande ou pequena; a razão disto deve ser procurada no facto que tudo aquilo 
que, segundo a prescrição da faculdade do juízo, possamos expor na intuição (por
conseguinte representar esteticamente) é em suma fenómeno, por conseguinte 
também um *quantum*.

Se porém denominamos algo não somente grande, mas simplesmente, absolutamente e 
em todos os sentidos (acima de toda a comparação) grande, isto é sublime, então 
compreende­se imediatamente que não permitimos procurar para isso mesmo nenhum 
padrão de medida que lhe seja adequado fora dele, mas simplesmente nele. Trata­
se de uma grandeza que é igual simplesmente a si mesma. Daí se segue portanto 
que o sublime não deve ser procurado nas coisas da natureza, mas unicamente nas 
nossas ideias; em quais delas porém ele se situa é algo que tem que ser 
reservado para a dedução.

A definição acima também pode ser expressa assim: *sublime é aquilo em 
comparação com o qual tudo o mais é pequeno*. Aqui se vê facilmente que na 
natureza nada pode ser dado, por maior que isso também seja ajuizado por nós e 
que, considerado numa outra relação, não pudesse ser degradado até ao 
infinitamente pequeno; e inversamente nada tão pequeno que em comparação com 
padrões de medida, ainda menores para a nossa faculdade de imaginação, não se 
deixasse ampliar até uma grandeza cósmica. Os telescópios forneceram­nos rico 
material para fazer a primeira observação, os microscópios para fazer a ˙ltima. 
Nada portanto que pode ser objecto dos sentidos, visto nessa base, deve 
denominar­se sublime. Mas _õ86 precisamente pelo facto que na nossa faculdade da
imaginação se encontra uma aspiração ao progresso até o infinito, e na nossa 
razão, porém, uma pretensão ‡ totalidade absoluta como pretensão a uma ideia 
real, mesmo aquela inadequação da nossa faculdade de avaliação da grandeza :, 
das coisas do mundo dos sentidos a esta ideia, desperta o sentimento de uma 
faculdade supra­sensível em nós; e o que é absolutamente grande não é porém o 
objecto dos sentidos, mas sim o uso que a faculdade do juízo naturalmente faz de
certos objectos para o fim daquele (sentimento), com respeito ao qual todavia 
todo e qualquer outro uso é pequeno. Por conseguinte, o que deve denominar­se 
sublime não é o objecto, mas sim a disposição de espírito através de uma certa 
representação que ocupa a faculdade de juízo reflexiva.
Podemos pois acrescentar ‡s fórmulas precedentes de definição do sublime ainda 
esta: *sublime é o que somente pelo facto de poder também pensá­lo prova uma 
faculdade do ânimo que ultrapassa todo o padrão de medida dos sentidos*.

$ó26. Da avaliação da grandeza das coisas da natureza, que é requerida para a 
ideia do sublime

A avaliação das grandezas através de conceitos numéricos (ou os seus sinais na 
álgebra) é matemática, mas a avaliação na simples intuição (segundo a medida 
_õ86 ocular) é estética. Ora, na verdade somente (a) através de n˙meros podemos 
obter determinados conceitos de quão *grande* seja algo (quando muito, 
aproximações através de séries numéricas prosseguindo até o infinito), cuja 
unidade é a medida; e deste modo toda a avaliação de grandezas lógica é 
matemática. Todavia, visto que a grandeza da medida tem que ser admitida como 
conhecida, assim, se esta então tivesse que ser avaliada de novo somente por 
n˙meros, cuja unidade tivesse que ser uma outra medida, isto é devesse ser 
avaliada matematicamente, jamais poderíamos ter uma medida primeira ou 
fundamental, isto é tão pouco algum conceito determinado de uma grandeza dada. 
Logo a avaliação da grandeza da medida fundamental tem que consistir 
simplesmente no facto que se pode captá­la imediatamente numa intuição e 
utilizá­la pela faculdade da imaginação para a :, apresentação dos conceitos 
numéricos; isto é, toda avaliação das grandezas dos objectos da natureza é por 
fim estética (isto é determinada subjectivamente e não objectivamente).

(a) "somente" falta em A.

Ora, para a avaliação matemática das grandezas, na verdade não existe nenhuma 
coisa maximamente grande (pois o poder dos n˙meros vai até o infinito); mas para
a avaliação estética das grandezas certamente existe uma coisa maximamente 
grande; e desta digo que, se ela é ajuizada como medida absoluta, para além da 
qual subjectivamente (ao sujeito que ajuíza) nenhuma maior é possível, então ela
comporta a ideia do sublime e produz aquela comoção que nenhuma avaliação 
matemática das _õ87 grandezas pode efectuar através de n˙meros (a não ser que 
enquanto aquela medida­fundamental estética presente ‡ faculdade da imaginação 
seja mantida viva), porque esta ˙ltima avaliação sempre apresenta somente a 
grandeza relativa por comparação com outras da mesma espécie, a primeira porém 
apresenta a grandeza simplesmente, na medida em que o animo pode captá­la numa 
intuição.

Admitir intuitivamente um *quantum* na faculdade da imaginação, para poder 
utilizá­lo como medida ou como unidade para a avaliação da grandeza por n˙meros,
implica duas acções desta faculdade: *_apreensão (apprehensio) e compreensão 
(comprehensio aesthetica*) (a). Com a apreensão isso não é difícil, pois com ela
pode­se ir até o infinito; mas a compreensão torna­se sempre mais difícil quanto
mais a apreensão avança, e atinge logo o seu máximo, a saber a medida 
fundamental esteticamente­máxima da avaliação das grandezas. Pois quando a 
apreensão chegou tão longe, a ponto de as representações parciais da intuição 
dos sentidos primeiramente apreendidas na faculdade da imaginação já começarem a
extinguir­se, enquanto esta avança para a apreensão de várias, então perde de um
lado tanto quanto ganha de outro e na compreensão há um máximo que ela não pode 
exceder.

(a) Para os termos "apreensão" e "compreensão" Kant usa respectivamente 
*_auffassung* e *_zusammenfassung*, seguidos de seus correspondentes latinos. 
(N. do T.)
Isto permite explicar o que *_savary* (a), nas suas notícias do Egipto, observa:
que não se tem de chegar _õ88 muito perto das pirâmides e tão pouco se tem de 
estar muito longe delas para se obter a inteira comoção da sua grandeza. Pois se
ocorre o ˙ltimo caso, então as partes, que são apreendidas (as pedras das mesmas
umas sobre as outras), são representadas só obscuramente e a sua representação 
não produz nenhum efeito sobre o sentimento estético do sujeito. Se porém ocorre
o primeiro, então os olhos precisam de algum tempo para completar a apreensão da
base até ao ápice; neste porém sempre se dissolvem em parte as primeiras 
representações, antes que a faculdade da imaginação tenha acolhido as ˙ltimas e 
a compreensão jamais é completa. ­­ O mesmo pode também bastar para explicar a 
estupefacção ou espécie de perplexidade que, como se conta, acomete o observador
por ocasião da primeira entrada na basílica de São Pedro em Roma. … que se trata
aqui de um sentimento da inadequação da sua faculdade da imaginação ‡ exposição 
da ideia de um todo, situação em que a faculdade da imaginação atinge o seu 
máximo e, na ânsia de ampliá­lo, recai em si, mas desta maneira é transposta 
para um comovedor comprazimento.

(a) *_savary*, Nicolau (1750­1785), viajante e autor de *_lettres sur 
l'_egipte*, Paris 1788­1789. A informação de Vorlânder (p. 96) a seu respeito é 
visivelmente incorrecta, pois não se coaduna com a data da edição da *_crítica 
da Faculdade do Juízo*.

Por enquanto não quero apresentar nada acerca do fundamento deste comprazimento,
que está ligado a uma representação da qual ele menos se deveria esperar, 
representação que nomeadamente nos dá a perceber a inadequação e por 
consequência também a não conformidade a fins subjectiva da representação para a
_õ89 faculdade do juízo na avaliação da grandeza; mas observo apenas que, se o 
juízo estético deve ser *puro* (não *misturado* com *nenhum* juízo *teleológico*
como juízo da razão), e disso deve ser dado um exemplo inteiramente adequado ‡ 
crítica da faculdade de juízo *estética*, não se tem que apresentar o sublime em
produtos da arte :, (por ex. edifícios, colunas, etc.), onde um fim humano 
determina tanto a forma como a grandeza, nem em coisas da natureza, *cujo 
conceito já comporta um fim determinado* (por ex. animais de conhecida 
determinação natural), mas na natureza bruta (e nesta inclusive somente enquanto
ela não comporta nenhum atractivo ou comoção por perigo efectivo), simplesmente 
enquanto ela contém grandeza. Pois nesta espécie de representação a natureza não
contém nada que fosse monstruoso (nem o que fosse sumptuoso ou horrível); a 
grandeza que é apreendida pode ser aumentada tanto quanto se queira, desde que, 
somente, possa ser compreendida pela imaginação num todo. Um objecto é 
*monstruoso* se ele, pela sua grandeza, anula o fim que constitui o seu 
conceito. *_colossal*, porém, é denominada a simples exposição de um conceito, o
qual é para toda a exposição quase grande demais (confina com o relativamente 
monstruoso); porque o fim da exposição de um conceito é dificultado pelo facto 
da intuição do objecto ser quase grande demais para a nossa faculdade de 
apreensão. ­­ Um juízo puro sobre o sublime, porém, não tem que ter como 
fundamento de determinação absolutamente nenhum fim do objecto, se é que ele 
deve ser estético e não mesclado com qualquer juízo do entendimento ou da razão.
Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997
Quinto Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia
Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

_e_d. 21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

__isbn 972­27­0506­7

_õ_õ_õ

Visto que tudo o que deve aprazer sem interesse ‡ faculdade do juízo meramente 
reflexiva tem de comportar, na sua representação, uma conformidade a fins 
subjectiva e como tal universalmente válida, se bem que aqui não se situe no 
fundamento nenhuma conformidade a fins da forma do objecto (como no belo), 
pergunta­se: qual é esta conformidade a fins subjectiva? E através de que é ela 
prescrita como norma, para na simples apreciação da grandeza ­­ e na verdade 
daquela que foi levada até ‡ inadequação da nossa faculdade da imaginação na 
exposição do conceito de uma grandeza ­­ fornecer um fundamento para o 
comprazimento universalmente válido? :,

Na composição (a) que é requerida para a representação da grandeza, a faculdade 
da imaginação avança por si, sem qualquer impeditivo, no infinito; o 
entendimento porém guia­a através de conceitos numéricos, para os quais ela tem 
de fornecer o esquema; e neste procedimento, enquanto pertencente ‡ avaliação 
lógica da grandeza, há na verdade algo objectivamente conforme a fins, segundo o
conceito de um fim (tal como toda medição o é), mas nada conforme a fins e 
aprazível ‡ faculdade de _õ91 juízo estética. Nesta conformidade a fins 
intencional tão­pouco há algo que forçasse a impulsionar a grandeza da medida, 
por conseguinte a *compreensão* do muito \k*des Vielen*_, numa intuição, até o 
limite da faculdade da imaginação e tão longe quanto esta em apresentações 
sempre possa alcançar. Pois na avaliação intelectual das grandezas (da 
aritmética) chega­se igualmente tão longe, quer se leve a compreensão das 
unidades até o n˙mero 10 (na escala decimal) ou somente até 4 (na quaternária); 
mas a ulterior produção de grandezas no compor, ou, se o *quantum* é dado na 
intuição, no apreender, realiza­se apenas progressivamente (não 
compreensivamente) segundo um princípio de progressão admitido. Nessa avaliação 
matemática da grandeza o entendimento é igualmente bem servido e satisfeito, 
quer a faculdade da imaginação escolha para unidade uma grandeza que se pode 
captar de uma olhada, por exemplo um pé ou uma vara, quer uma milha alemã, ou 
até um diâmetro da terra, cuja apreensão na verdade é possível, mas não a sua 
compreensão numa intuição da faculdade da imaginação (não pela *comprehensio 
aesthetica*, embora perfeitamente bem por *comprehensio logica* num conceito 
numérico). Em ambos os casos a avaliação lógica da grandeza vai sem impedimento 
até o infinito.

(a) Corrigido por Erdmann: Kant: "Zusammenfassung", 
(compreensão).

Ora, o ânimo escuta em si a voz da razão, a qual exige a totalidade para todas 
as grandezas dadas, mesmo para aquelas que na verdade jamais podem ser 
apreendidas _õ92 inteiramente, embora sejam julgadas como inteiramente :, dadas 
(na representação sensível), por conseguinte reivindica compreensão *numa* 
intuição, e *apresentação* para todos os membros de uma série numérica 
progressivamente crescente e não exclui desta exigência nem mesmo o infinito 
(espaço e tempo decorrido), mas antes torna inevitável pensá­lo no juízo da 
razão comum como *inteiramente dado* (segundo sua totalidade).

O infinito porém é absolutamente (não apenas comparativamente) grande. Comparado
com ele, tudo o mais (da mesma espécie de grandezas) é pequeno. Mas, o que é 
mais notável, tão só poder pensá­lo *como um todo* denota uma faculdade do ânimo
que excede todo o padrão de medida. Pois para isso requerer­se­ia uma 
compreensão que fornecesse como unidade um padrão de medida que tivesse uma 
suposta relação determinada e numérica com o infinito; tal é impossível. No 
entanto para *tão só poder pensar* sem contradição o infinito dado (a) requer­se
no ânimo humano uma faculdade que seja ela própria supra­sensível. Pois somente 
através desta e da sua ideia de um n˙mero ­­ que não permite ele mesmo nenhuma 
intuição e contudo é submetido como substracto ‡ intuição do mundo enquanto 
simples fenómeno ­­ é compreendido *totalmente sob* um conceito na avaliação 
pura e intelectual _õ93 da grandeza o infinito do mundo dos sentidos, conquanto 
na avaliação matemática *através de conceitos numéricos* jamais possa ser 
totalmente pensado. Mesmo uma faculdade de poder pensar o infinito da intuição 
supra­sensível como dado (no seu substracto inteligível) excede todo o padrão de
medida da sensibilidade e é grande, acima de toda a comparação, mesmo com a 
faculdade da avaliação matemática; certamente não de um ponto de vista teórico 
para o fim da faculdade do conhecimento, mas sim como ampliação do ânimo, que de
um outro ponto de vista (o prático) se sente apto a ultrapassar as barreiras da 
sensibilidade.

(a) "dado" falta em A.
A natureza é portanto sublime naquele entre os seus fenómenos cuja intuição 
comporta a ideia da sua infinitude. Isto não pode ocorrer senão pela própria :, 
inadequação do máximo esforço da nossa faculdade da imaginação na avaliação da 
grandeza de um objecto. Ora bem, a imaginação é capaz da avaliação matemática da
grandeza de cada objecto, com o fito de fornecer uma medida suficiente para a 
mesma, porque os conceitos numéricos do entendimento podem através de progressão
tornar toda a medida adequada a cada grandeza dada (a). Portanto tem que ser na 
avaliação *estética* da grandeza que o esforço de compreensão ­­ que ultrapassa 
a faculdade da imaginação de conceber a apreensão progressiva num todo das 
intuições ­­ é sentido e onde ao mesmo tempo é percebida a inadequação desta 
faculdade, ilimitada no progredir, para com o mínimo esforço do entendimento 
captar uma medida fundamental apta ‡ avaliação da grandeza e usá­la para esta 
avaliação. Ora a verdadeira e invariável medida fundamental da natureza é o todo
absoluto da mesma, o qual é nela, como fenómeno, infinitude compreendida. Visto 
que porém esta medida fundamental é um conceito que se contradiz a si próprio 
(devido ‡ impossibilidade da totalidade absoluta de um progresso sem fim), assim
aquela grandeza de um objecto da natureza, na qual a faculdade da imaginação 
aplica infrutiferamente a sua inteira faculdade de compreensão, tem que conduzir
o conceito da natureza a um substracto supra­sensível (o qual fica no fundamento
dela e, ao mesmo tempo, da nossa faculdade de pensar), o qual é grande acima de 
todo o padrão de medida dos sentidos e por isso permite ajuizar como *sublime*, 
não tanto o objecto, mas muito mais a disposição do ânimo na avaliação do mesmo.

(a) "dada" falta em A.

Portanto, do mesmo modo como a faculdade de juízo estética no julgamento do belo
refere a faculdade da imaginação, em seu jogo livre, ao entendimento para 
concordar com os seus *conceitos* em geral (sem determinação dos mesmos) assim 
também, no julgamento de uma _õ95 coisa como sublime, a mesma faculdade refere­
se *‡ razão* para concordar subjectivamente com as suas ideias (sem determinar 
quais), isto é para produzir uma 
disposição :, do ânimo, que é conforme e compatível com aquela que a influência 
de determinadas ideias (práticas) efectuaria sobre o sentimento.

Daí vê­se também que a verdadeira sublimidade tenha que ser procurada só no 
ânimo daquele que julga e não no objecto da natureza, cujo julgamento permite 
essa disposição do ânimo. Quem quereria denominar sublimes também massas 
informes de cordilheiras amontoadas umas sobre outras em desordem selvagem, com 
as suas pirâmides de gelo, ou o sombrio mar furioso, etc.? Mas o ânimo sente­se 
elevado no seu próprio julgamento quando na contemplação dessas coisas, sem 
consideração da sua forma, se entrega ao cuidado da faculdade da imaginação e de
uma razão meramente ampliadora daquela, conquanto posta totalmente em ligação 
com ela sem fim determinado e no entanto considera o poder inteiro da faculdade 
da imaginação inadequado ‡s ideias da razão.

Exemplos do matematicamente ­­ sublime da natureza na simples intuição, 
fornecem­nos a todos nós os casos em que nos é dado, não tanto um conceito de 
n˙mero maior, mas mais uma grande unidade como medida (para abreviação das 
séries numéricas) para a faculdade da imaginação. Uma árvore, que avaliamos 
segundo a altura do homem, fornece em todo caso um padrão de medida para um 
monte; e este, se por acaso for da altura de uma milha, pode servir de medida 
para o n˙mero que expressa _õ96 o diâmetro da terra para o tornar intuível; o 
diâmetro da terra, para o sistema de planetas conhecido por nós; este, para o da
via­láctea; e a quantidade incomensurável de tais sistemas de via­láctea; sob o 
nome de nebulosas, as quais presumivelmente constituem por sua vez um semelhante
sistema entre si, não nos permitem esperar aqui nenhum limite. Ora, no 
julgamento estético de um todo tão incomensurável, o sublime situa­se menos na 
grandeza do n˙mero do que no facto de que, progredindo, chegamos sempre a 
unidades cada vez maiores; para o que contribui a divisão sistemática do 
universo, a qual nos representa toda a grandeza na natureza sempre, por sua vez,
como pequena, porém no fundo representa a nossa faculdade da imaginação na sua 
total ilimitação e com ela a :,
natureza como a dissipar­se contra as ideias da razão, desde que esta lhes deva 
proporcionar uma apresentação adequada.

$ó27. Da qualidade do comprazimento no julgamento do sublime

O sentimento da inadequação da nossa faculdade para alcançar uma ideia, *que é 
lei para nós*, é *respeito*. Ora, a ideia da compreensão de cada fenómeno 
susceptível de nos ser dado na intuição de um todo é uma ideia que nos é imposta
por uma lei da razão que não conhece nenhuma _õ97 outra medida determinada, 
válida e invariável (a) para qualquer um, senão o todo absoluto. A nossa 
faculdade da imaginação porém demonstra, mesmo no seu máximo esforço com 
respeito ‡ compreensão por ela reclamada de um objecto dado num todo da intuição
(por conseguinte para a exposição da ideia da razão), as suas barreiras e 
inadequação, contudo ao mesmo tempo demonstra a sua determinação para a 
efectuação da adequação ‡ mesma como uma lei. Portanto o sentimento do sublime 
na natureza é respeito pela nossa própria determinação, que comprovamos num 
objecto da natureza por uma certa subrepção (confusão de um respeito pelo 
objecto como respeito pela ideia da humanidade no nosso sujeito), o que por 
assim dizer nos torna intuível a superioridade da determinação racional das 
nossas faculdades de conhecimento sobre a faculdade máxima da sensibilidade.

(a) A: "variável".

O sentimento do sublime é portanto um sentimento do desprazer a partir da 
inadequação da faculdade da imaginação, na avaliação estética da grandeza, ‡ 
avaliação pela razão e, neste caso, ao mesmo tempo um prazer despertado a partir
da concordância, precisamente deste juízo da inadequação da máxima faculdade 
sensível, com ideias racionais, na medida em que o esforço em direcção ‡s mesmas
é lei para nós. Ou seja, é para n6s lei (da razão) e pertence ‡ nossa 
determinação avaliar como pequeno, em comparação com ideias da razão, tudo o que
:, a natureza como objecto dos sentidos contém de grande _õ98 para nós; e o que 
activa em nós o sentimento desta determinação supra­sensível concorda com aquela
lei. Ora, o esforço máximo da faculdade da imaginação na exposição da unidade 
para a avaliação da grandeza é uma referência a algo *absolutamente grande*, 
consequentemente é também uma referência ‡ lei da razão de admitir unicamente 
esta lei como medida suprema das grandezas. Portanto a percepção interna da 
inadequação de todo o padrão de medida sensível para a avaliação de grandeza da 
razão é uma concordância com leis da mesma e é um desprazer que activa em nós o 
sentimento da nossa determinação supra­sensível, segundo a qual esse sentimento 
é conforme a fins, por conseguinte é prazer, isto é considerar todo o padrão de 
medida da sensibilidade inadequado ‡s ideias da razão.

Na representação do sublime na natureza o ânimo sente­se *movido*, já que no seu
juízo estético sobre o belo ele está em *tranquila* contemplação. Este movimento
pode ser comparado (principalmente no seu inicio) a um abalo, isto é a um 
repelir rapidamente variável e a um atrair do mesmo objecto. O excessivo para a 
faculdade da imaginação (ao qual ela é impelida na apreensão da intuição) é por 
assim dizer um abismo, no qual ela própria teme perder­se; contudo para a ideia 
da razão do 
supra­sensível não é igualmente excessivo, mas conforme ‡s leis
_õ99 produzir um tal esforço da faculdade da imaginação: por conseguinte é por 
sua vez atraente precisamente na medida em que era repulsivo para a simples 
sensibilidade. Mas o próprio juízo permanece aqui sempre somente estético, 
porque, sem ter no fundamento um conceito determinado do objecto, representa 
como harmónico apenas o jogo subjectivo das faculdades do ânimo (imaginação e 
razão), mesmo através do seu contraste. Pois assim como faculdade da imaginação 
e *entendimento* no julgamento do belo, através da sua unanimidade, assim 
faculdade da imaginação e *razão* produzem aqui (a), através do seu conflito, a 
conformidade 

(a) "aqui", acrescento de B e C.

a fins subjectiva :, das faculdades do ânimo: ou seja um sentimento de que nós 
possuímos uma razão pura e independente, ou (a) uma faculdade da avaliação da 
grandeza, cuja excelência não se pode tornar intuível através de nada a não ser 
da insuficiência daquela faculdade que na apresentação das grandezas (objectos 
sensíveis) é ela própria ilimitada.

(a) "ou", acrescento de B e C.

A medição de um espaço (como apreensão) é ao mesmo tempo descrição do mesmo, por
conseguinte movimento objectivo na imaginação \k*_einbildung*_, e um progresso, 
a compreensão da pluralidade na unidade, não do pensamento mas da intuição, por 
conseguinte do sucessivamente apreendido num instante é contrariamente um 
regresso, que de novo anula a condição temporal no progresso da faculdade da 
imaginação e torna intuível a *simultaneidade*. Ela é pois (já que a sucessão 
temporal é uma condição do sentido interno e de uma intuição) _õ100 um movimento
subjectivo da faculdade da imaginação, pelo qual faz violência ao sentido 
interno, a qual é tanto mais perceptível quanto maior é o *quantum* que a 
faculdade da imaginação compreende numa intuição. O esforço portanto de acolher 
numa ˙nica intuição uma medida para grandezas, cuja apreensão requer um tempo 
notável, é um modo de representação que, considerado subjectivamente, é 
contrário a fins, objectivamente porém é necessário ‡ avaliação da grandeza, por
conseguinte conforme a fins: aí contudo precisamente a mesma violência que 
ocorre ao sujeito através da faculdade da imaginação é ajuizada como conforme a 
fins *com respeito* a toda a determinação do ânimo.

A *qualidade* do sentimento do sublime consiste em que ela é, relativamente ‡ 
faculdade de julgamento estética, um sentimento de desprazer num objecto e 
contudo representado ao mesmo tempo como conforme a fins; o que é possível pelo 
facto que a incapacidade \k*_unuermõgen*_, própria descobre a consciência de uma
faculdade \k*_vermogen*_, ilimitada do mesmo sujeito, e que o ânimo só pode 
ajuizar esteticamente a ˙ltima através da primeira. :,

Na avaliação lógica da grandeza, a impossibilidade de jamais chegar ‡ totalidade
absoluta através do progresso da medição das coisas do mundo dos sentidos no 
tempo e no espaço, foi reconhecida como objectiva, isto é como _õ101 uma 
impossibilidade de pensar o infinito enquanto simplesmente dado (a) e não como 
meramente subjectiva, isto é como incapacidade de *captá­lo*, porque aí não se 
presta, de modo nenhum, atenção ao grau da compreensão numa intuição como 
medida, mas tudo tem a ver com um conceito de n˙mero. Todavia numa avaliação 
estética da grandeza o conceito de n˙mero tem que ser suprimido ou modificado e 
a compreensão da faculdade da imaginação é unicamente para ela conforme a fins 
relativamente ‡ unidade da medida (por conseguinte evitando os conceitos de uma 
lei da geração sucessiva dos conceitos de grandeza). ­­ Se pois uma grandeza 
quase atinge numa intuição o extremo da nossa faculdade de compreensão e a 
faculdade da imaginação é contudo desafiada, através de grandezas numéricas (em 
relação ‡s quais somos 
conscientes da nossa faculdade como ilimitada), ‡ compreensão estética numa 
unidade maior, então sentimo­nos no ânimo como esteticamente encerrados dentro 
de limites; e contudo o desprazer é representado como conforme a fins com 
respeito ‡ ampliação necessária da faculdade da imaginação para a adequação ao 
que na nossa faculdade da razão é ilimitado, ou seja ‡ ideia do todo absoluto; 
por conseguinte a desconformidade a fins da faculdade da imaginação a ideias da 
razão e ao seu suscitar é efectivamente representada como conforme a fins. Mas 
justamente por isso o próprio juízo estético torna­se subjectivamente conforme a
fins para a razão como fonte das _õ102 ideias, isto é de uma tal compreensão 
intelectual, para a qual toda a compreensão estética é pequena; e o objecto é 
admitido como sublime com um prazer que só é possível mediante um desprazer. :,

(a) A: "como completamente \kganz_, dado".

B. Do dinâmico­sublime da natureza

$ó28. Da natureza como um poder
*_poder* é uma faculdade que se sobrepõe a grandes obstáculos. O mesmo chama­se 
*força* quando se sobrepõe também ‡ resistência daquilo que possui ele próprio 
poder. A natureza considerada no juízo estético como poder que não possui 
nenhuma força sobre nós, é *dinamicamente­sublime*.

Se a natureza deve ser julgada por nós dinamicamente como sublime, então ela tem
que ser representada como suscitando medo (embora inversamente nem todo o 
objecto que suscita medo seja considerado sublime no nosso juízo estético). Pois
no julgamento estético (sem conceito) a superioridade sobre obstáculos pode ser 
ajuizada somente segundo a grandeza da resistência. Ora, aquilo ao qual nos 
esforçamos por resistir é um mal e, se não consideramos a nossa faculdade ‡ 
altura dele, é um objecto de medo. Portanto para a faculdade de juízo estética a
natureza somente pode valer como poder, por conseguinte como dinamicamente­
sublime, na medida em _õ103 que ela é considerada como objecto do medo.

Pode­se porém considerar um objecto *temível*, sem o temermos na sua presença 
nomeadamente quando o ajuizamos *imaginando* simplesmente o caso em que 
porventura quiséssemos opor­lhe resistência e que em tal caso toda resistência 
seria perfeitamente vã. Assim o virtuoso teme a Deus sem temer diante dele, 
porque querer resistir a Deus e aos seus mandamentos não é um caso que ele 
considere preocupá­lo, mas em cada um desses casos, que ele não considera como 
em si impossível, reconhece­o como temível.

Quem teme não pode absolutamente julgar sobre o sublime da natureza e tão­pouco 
pode julgar sobre o belo quem é tomado de inclinação e apetite. Aquele foge da 
contemplação de um objecto que lhe incute medo; e é impossível encontrar 
comprazimento num terror que fosse tomado a sério. Por isso o agrado resultante 
da cessação de uma situação penosa é o *contentamento*. Este 
porém, :, devido ‡ libertação de um perigo, é um contentamento com o propósito 
de jamais nos expormos de novo a ele; não gostamos de recordar uma vez sequer 
aquela sensação, quanto mais procurar a ocasião para tanto.

Rochedos audazes e proeminentes, por assim dizer _õ104 ameaçadores, nuvens de 
trovões acumulando­se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões na 
sua inteira força destruidora, furacões deixando para trás devastação, o 
ilimitado oceano revolto, uma alta queda d'água de um rio poderoso, etc., tornam
a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação 
com o seu poder. Mas o seu espectáculo só se torna tanto mais atraente, quanto 
mais terrível ele é, contento que, somente, nos encontremos em segurança; e de 
bom grado denominamos estes objectos sublimes, porque eles elevam as forças da 
alma sobre a sua medida média e permitem descobrir em nós uma faculdade de 
resistência de espécie totalmente diversa, a qual nos encoraja a medir­nos com a
aparente omnipotência da natureza.

Pois, assim como na verdade encontramos a nossa própria limitação na 
incomensurabilidade da natureza e na insuficiência da nossa faculdade para tomar
um padrão de medida proporcionado ‡ avaliação estética da grandeza do seu 
*domínio*, e contudo também ao mesmo tempo encontramos na nossa faculdade da 
razão um outro padrão de medida não sensível, que tem em si como unidade aquela 
própria infinitude e em confronto com o qual tudo na natureza é pequeno, por 
conseguinte encontramos no nosso ânimo uma superioridade sobre a própria 
natureza na sua incomensurabilidade: assim também a irresistibilidade do seu 
poder nos dá a conhecer, considerados como entes da natureza, a nossa _õ105 
impotência física (a), mas descobre ao mesmo tempo uma faculdade de ajuizar­nos 
como independentes dela e uma superioridade sobre a natureza, sobre a qual se 
funda uma autoconservação de espécie totalmente diversa daquela que pode ser 

(a) "física", acrescento de B e C.

atacada e posta em perigo pela natureza fora :, de nós, com o que a humanidade 
em nossa pessoa não fica rebaixada, mesmo que o homem tivesse que sucumbir 
‡quela força. Dessa maneira a natureza não é ajuizada como sublime, no nosso 
juízo estético, enquanto provocadora de medo, porque ela convoca em nós a nossa 
força (que não é natureza) para considerar como pequeno aquilo que nos preocupa 
(bens, sa˙de e vida) e por isso contudo não considerar o seu poder (ao qual sem 
d˙vida estamos submetidos com respeito a essas coisas) absolutamente como uma 
tal (a) força para nós e para a nossa personalidade, e sob a qual tivéssemos que
nos curvar, quando se tratasse dos nossos mais altos princípios da sua afirmação
ou seu abandono. Portanto a natureza aqui chama­se sublime simplesmente porque 
ela eleva a faculdade da imaginação ‡ apresentação daqueles casos nos quais o 
ânimo pode tornar capaz de ser sentida a sublimidade própria do seu destino, 
mesmo acima da natureza.

(a) "tal" falta em A.

Esta auto­estima não perde nada pelo facto de termos de nos sentir seguros para 
poder sentir este comprazimento entusiasmante; por conseguinte o facto de o 
perigo não ser tomado a sério não implica que (como poderia parecer) tão­pouco 
se tomaria a sério a sublimidade da nossa faculdade espiritual. Pois o _õ106 
comprazimento concerne aqui somente ao *destino* \k*_bestimmung*_, da nossa 
faculdade que se descobre em tal caso, do mesmo modo que a disposição a esta se 
encontra na nossa natureza, enquanto o desenvolvimento e exercício dessa 
faculdade nos é confiado e permanece obrigação nossa. E isto é verdadeiro, por 
mais que o homem, quando estende a sua reflexão até aí, possa ser consciente da 
sua efectiva impotência momentânea.

Este princípio na verdade parece ser demasiadamente pouco convincente e 
demasiadamente racionalizado, por conseguinte exagerado para um juízo estético; 
todavia a observação do homem prova o contrário, isto é que ele pode estar no 
fundamento nos julgamentos mais comuns, embora não se seja sempre consciente do 
mesmo. Pois que é isto que mesmo para o selvagem é um objecto da :, máxima 
admiração? Um homem que não se apavora, que não teme, portanto que não cede ao 
perigo, mas ao mesmo tempo procede energicamente com inteira reflexão. Até no 
estado maximamente civilizado prevalece este apreço superior pelo guerreiro; só 
que ainda se exige, além disso, que ele ao mesmo tempo comprove possuir todas as
virtudes da paz, mansidão, compaixão e até conveniente cuidado pela sua própria 
pessoa: justamente porque nisso é conhecida a invencibilidade do seu ânimo pelo 
perigo. Por isso se pode ainda polemizar tanto quanto se queira na comparação do
estadista com o general sobre a 
superioridade do respeito que um merece perante o outro; o juízo
_õ107 estético decide em favor do ˙ltimo. Mesmo a guerra, se é conduzida com 
ordem e com sagrado respeito pelos direitos civis, tem em si algo de sublime e 
ao mesmo tempo torna a maneira de pensar do povo que a conduz assim, tanto mais 
sublime quanto mais numerosos eram os perigos a que ele estava exposto e sob os 
quais tenha podido afirmar­se valentemente. Contrariamente uma paz longa 
encarrega­se de fazer prevalecer o mero espírito empreendedor 
\k*_handlungsgeist*_,, porém com ele o baixo interesse pessoal, a covardia e 
moleza, e *ainda* de humilhar a maneira de pensar do povo.

Parece entrar em conflito com esta análise do conceito de sublime, na medida em 
que este é atribuído ao poder, o facto de que nas intempéries, na tempestade, no
terramoto, etc., costumamos representar Deus em estado de cólera, mas também 
apresentando­se na sua sublimidade. Contudo a imaginação de uma superioridade do
nosso ânimo sobre os efeitos e, como parece, até sobre as intenções de um tal 
poder, seria tolice e ultraje ao mesmo tempo. Aqui nenhum sentimento da 
sublimidade da nossa própria natureza, mas muito mais submissão, anulação e 
sentimento da total impotência parece ser a disposição do ânimo que convém ao 
fenómeno de um tal objecto, e que também usualmente se esforça por estar ligada 
‡ __õ108 ideia do mesmo em semelhante evento da natureza. Na religião em geral 
parece que prosternação, adoração com cabeça inclinada, com gestos e vozes 
contritos cheios de temor, são o ˙nico comportamento conveniente em :, presença 
da divindade, que por isso também a maioria dos povos adoptou e ainda observa. 
Todavia tão­pouco esta disposição do ânimo está em si e necessariamente ligada ‡
*ideia da sublimidade* de uma religião e do seu objecto. O homem que 
efectivamente teme, porque ele encontra em si razão para tal, enquanto é 
autoconsciente de com a sua condenável atitude ofender um poder, cuja vontade é 
irresistível e ao mesmo tempo justa, não se encontra absolutamente na postura 
mental para admirar a grandeza divina, para o que são requeridos uma disposição 
‡ calma, contemplação e um juízo totalmente livre. Somente quando ele é 
autoconsciente de sua atitude sincera e agradável a Deus, aqueles efeitos do 
poder servem para despertar nele a ideia da sublimidade deste ente, na medida em
que ele reconhece em si próprio uma sublimidade da atitude conforme ‡quela 
vontade e deste modo é elevado acima do medo face a tais efeitos da natureza, 
que ele não considera como expressões da sua cólera. Mesmo a humildade, como o 
julgamento não conveniente das suas falhas, que na consciência de boas atitudes 
_õ109 facilmente poderiam ser encobertas com a fragilidade da tos natureza 
humana, é uma disposição mental sublime de submissão espontânea ‡ dor da auto­
repreensão para eliminar pouco a pouco a sua causa. Unicamente deste modo se 
distingue internamente religião de superstição, a qual não funda no ânimo 
veneração pelo sublime, mas medo e ang˙stia diante do ente todo poderoso, a cuja
vontade o homem aterrorizado se vê submetido, sem contudo a apreciar muito; 
donde certamente não pode surgir nada senão grangeamento de favor e de simpatia 
em vez de uma religião da vida recta.
Portanto a sublimidade não está comida em nenhuma coisa da natureza, mas só no 
nosso ânimo, na medida em que podemos ser conscientes de ser superiores ‡ 
natureza em nós e através disso também ‡ natureza que nos é exterior (na medida 
em que influi sobre nós). Tudo o que suscita este sentimento em nós, a que 
pertence o *poder* da natureza que desafia as nossas forças, chama­se então 
(ainda que impropriamente) sublime; e somente sob a pressuposição desta ideia em
nós, e em referência a ela, :,
somos capazes de chegar ‡ ideia da sublimidade daquele ente, que nos provoca 
íntimo respeito não simplesmente através do seu poder, que ele demonstra na 
natureza, mas ainda mais através da faculdade, que em nós está colocada, de 
ajuizar sem medo esse poder e pensar o nosso destino como sublime acima dele.

_õ110  $ó29. Da modalidade do juízo sobre o sublime da
natureza

Há in˙meras coisas da bela natureza, sobre as quais podemos imputar, e também 
sem errar muito, podemos esperar directamente de qualquer um, unanimidade do 
juízo com o nosso; mas com os nossos juízos sobre o sublime na natureza não 
podemos iludir­nos tão facilmente sobre a adesão de outros. Pois parece 
exigível uma cultura de longe mais vasta, não só da faculdade de juízo estética,
mas também da faculdade do conhecimento, que lhe estão no fundamento, para poder
proferir um juízo sobre esta excelência dos objectos da natureza.

A disposição do ânimo para o sentimento do sublime exige uma receptividade do 
mesmo para ideias; pois precisamente na  inadequação da natureza ‡s ˙ltimas, por
conseguinte só sob a pressuposição das mesmas e do esforço da faculdade da 
imaginação em tratar a natureza como um esquema para as ideias, consiste o 
terrificante para a sensibilidade, o qual contudo é ao mesmo tempo
atraente: porque ele é uma violência que a razão exerce sobre a faculdade da 
imaginação somente para ampliá­la convenientemente para o seu domínio próprio (o
prático) e propiciar­lhe uma perspectiva para o infinito, _õ111 o qual para ela 
é um abismo. Na verdade aquilo que nós, preparados pela cultura, chamamos 
sublime, sem desenvolvimento de ideias morais, apresentar­se­á ao homem inculto 
simplesmente de um modo terrificante. Ele verá,
nas demonstrações de violência da natureza em sua destruição e na grande medida 
do poder desta, contra o qual o seu é anulado, puro sofrimento, perigo e 
privação, que envolveria o homem que para lá fosse banido. Assim o bom camponês 
savoiano, aliás dotado de bom senso :, (como narra o Sr. de *_saussure* (a), sem
hesitar chamava loucos a todos os amantes das montanhas de gelo. Quem sabe 
também se de facto não teria tido toda a razão, se aquele observador tivesse 
assumido os perigos aos quais se expunha, simplesmente, como o costuma a maioria
dos viajantes, por capricho ou para algum dia poder fornecer descrições 
patéticas a seu respeito. A sua intenção com isso era porém instruir os homens; 
e esse homem excelente tinha as sensações que transportam a alma e além disso as
oferecia aos leitores das suas viagens.
(a) *_de Saussure*, H. B. (1709­1790), de Genebra, aos 78 anos um dos primeiros 
escaladores do Montblanc e autor de *_voyages dans les Alpes* (4 vols.) 1779 e 
segs.

O juízo sobre o sublime da natureza, embora necessite cultura (mais do que o 
juízo sobre o belo), nem por isso foi primeiro produzido precisamente pela 
cultura e como que introduzido simplesmente por convenção na sociedade; pelo 
contrário ele tem o seu fundamento na _õ112 natureza humana e, na verdade, 
naquela que com o são entendimento se pode ao mesmo tempo imputar e exigir de 
qualquer um, a saber na disposição ao sentimento para ideias (práticas), isto é 
ao sentimento moral.

Sobre isso funda­se então a necessidade do assentimento do juízo de outros com o
nosso acerca do sublime, a qual ao mesmo tempo incluímos neste juízo. Pois assim
como censuramos de carência de *gosto* aquele que é indiferente ao julgamento de
um objecto da natureza que achamos belo, assim dizemos que não tem nenhum 
*sentimento* aquele que permanece insensível junto ao que julgamos ser sublime. 
Exigimos, porém, ambas as qualidades a cada homem e também as pressupomos nele 
se é que tem alguma cultura; com a diferença apenas de que exigimos a primeira 
terminantemente de qualquer um, porque a faculdade do juízo aí refere a 
imaginação meramente ao entendimento como faculdade dos conceitos, a segunda 
porém, porque ela nesse caso refere a faculdade da imaginação ‡ razão como 
faculdade das ideias, exigimo­la somente sob uma pressuposição subjectiva (que 
porém nos cremos autorizados a poder postular de qualquer um) :,
ou seja a do sentimento moral no homem (a), e com isso também atribuímos 
necessidade a este juízo estético.

(a) "no homem" falta em A.

Nesta modalidade dos juízos estéticos, a saber da necessidade a eles atribuída, 
situa­se um momento capital da crítica da faculdade do juízo. Pois aquela torna 
_õ113 precisamente conhecido neles um principio *a priori* e eleva­os da 
psicologia empírica, onde de contrário ficariam sepultados sob os sentimentos do
deleite e da dor (a) (somente com o epíteto, que nada diz, de um sentimento 
*mais fino*), para os colocar, e mediante eles a faculdade do juízo, na classe 
daqueles que possuem no seu fundamento princípios *a priori* e como tais então 
fazê­los passar para a filosofia transcendental.

(a) A oposição *_vergn¸gen und Schmerz* (deleite e dor) é uma espécie do género 
*_lust und Unlust* (prazer e desprazer). Essa diferença é explicitada na 
*_antropologia* (I parte do livro __ii, A, ed. Acad., pp. 230 e segs.). Aí o 
belo é considerado um prazer, mediante a faculdade da imaginação, em parte 
sensível e em parte intelectual na intuição reflectida.

Observação geral sobre a exposição dos juízos reflexivos estéticos
Em referência ao sentimento de prazer um objecto deve contar­se como pertencente
ao *agradável*, ou ao *belo*, ou ao *sublime*, ou ao *bom* (absolutamente) 
(*iucundum, pulchrum, sublime, honestum*).

O *agradável* é, como mola propulsora dos apetites, universalmente da mesma 
espécie, seja de onde ele possa vir e quão especificamente­diversa também possa 
ser a representação (do sentido e da sensação, objectivamente considerada). Por 
isso no julgamento da influência do mesmo sobre o ânimo importa somente o n˙mero
dos estímulos (simultâneos e sucessivos) e por assim dizer somente a massa da 
sensação agradável; e esta não pode tornar­se compreensível senão pela 
*quantidade*. Ele tão­pouco cultiva, mas pertence ao simples gozo. ­­ O belo 
contrariamente reclama a representação de uma certa *qualidade* do objecto, que 
também pode tornar­se :, compreensível e conduzir a conceitos (conquanto no 
juízo estético não seja conduzido a eles), e cultiva enquanto ao mesmo tempo 
ensina a prestar atenção ‡ conformidade _õ114 a fins no sentimento de prazer. ­­
O *sublime* consiste simplesmente na *relação* em que o sensível, na 
representação da natureza, é ajuizado como apto a um possível uso supra­sensível
do mesmo. ­­ O *absolutamente­bom*, ajuizado subjectivamente segundo o 
sentimento que ele inspira (o objecto do sentimento moral), enquanto 
determinabilidade das forças do sujeito pela representação de uma lei *que 
obriga absolutamente*, distingue­se principalmente pela *modalidade* de uma 
necessidade que assenta em conceitos *a priori* e que contém em si não 
simplesmente *pretensão*, mas também um *mandamento* de aprovação para qualquer 
um, e em si na verdade não pertence ‡ faculdade de juízo estética, mas ‡ 
faculdade de juízo intelectual pura; tão­pouco é atribuído a um juízo meramente 
reflexivo mas determinante, não ‡ natureza mas ‡ liberdade. Porém a 
*determinabilidade do sujeito* por esta ideia, e na verdade de um sujeito que em
si pode na sensibilidade ter a sensação de *obstáculos*, mas ao mesmo tempo de 
superioridade sobre a sensibilidade pela superacção dos mesmos, como 
*modificação do seu estado*, isto é o sentimento moral, é contudo aparentada ‡ 
faculdade de juízo estética e ‡s suas *condições formais*, na medida em que pode
servir para representar a conformidade a leis da acção por dever ao mesmo tempo 
como estética, isto é como sublime, ou também como bela, sem prejuízo da sua 
pureza; o que não ocorreria se se quisesse pÙ­la em ligação natural com o 
sentimento do agradável.

Se se extrai o resultado da exposição precedente das duas espécies de juízos 
estéticos, decorrerão as seguintes breves definições:

*_belo* é o que apraz no simples julgamento (logo, não mediante a sensação do 
sentido \k*_empfindung des Sinnes*_, _õ115 segundo um conceito do entendimento).
Disso resulta espontaneamente que ele tem de comprazer sem nenhum interesse.

*_sublime* é o que apraz imediatamente pela sua resistência contra o interesse 
dos sentidos. :,

Ambos, como explicações do julgamento estético universalmente válido, referem­se
a fundamentos subjectivos, por um lado da sensibilidade, enquanto favorecem o 
entendimento contemplativo, por outro lado, em oposição ‡ sensibilidade para os 
fins da razão prática e contudo unidos no mesmo sujeito, são conformes a fins em
referência ao sentimento moral. O belo prepara­nos para amar sem interesse algo,
até mesmo a natureza; o sublime, para estimá­lo, mesmo contra o nosso interesse 
(sensível).

Pode­se descrever o sublime da seguinte maneira: ele é um objecto (da natureza),
*cuja representação determina o ânimo a imaginar o carácter inalcançável da 
natureza como apresentação de ideias*.

Tomadas literalmente e consideradas logicamente, as ideias não podem ser 
apresentadas. Mas se ampliamos matemática ou dinamicamente a nossa faculdade 
empírica de representação para a intuição da natureza, então inevitavelmente se 
juntará a ela a razão como faculdade da independência da totalidade absoluta e 
produz o esforço do ânimo, se bem que vão, de lhes tornar adequada a 
representação dos sentidos. Este esforço e o sentimento da inacessibilidade da 
ideia pela faculdade da imaginação são eles mesmos uma apresentação da 
conformidade a fins subjectiva do nosso ânimo no uso da faculdade da _õ116 
imaginação para o seu destino supra­sensível e obrigam­nos a *pensar* 
subjectivamente a própria natureza, na sua totalidade, como apresentação de algo
supra­sensível, sem poder realizar *objectivamente* essa apresentação.

Com efeito, em seguida damos­nos conta de que o incondicionado ­­ por 
conseguinte também a grandeza absoluta, que no entanto é reivindicada pela razão
mais comum ­­ afasta­se totalmente da natureza no espaço e no tempo. 
Precisamente deste modo somos também lembrados de que somente temos a ver com 
uma natureza enquanto fenómeno, e que esta mesma ainda tem que ser considerada 
como simples apresentação de uma natureza em si (que a razão tem na ideia). Mas 
esta ideia do supra­sensível, que na verdade não determinamos ulteriormente ­­ 
por conseguinte não *conhecemos* mas de :, que só podemos *pensar* a natureza 
como sua apresentação ­­ é despertada em nós por um objecto, cujo 
julgamento estético aplica até aos seus limites a faculdade da imaginação, seja 
‡ ampliação (matematicamente) ou ao seu poder sobre o ânimo (dinamicamente), 
enquanto se funda sobre o sentimento de um destino deste, que ultrapassa 
totalmente o domínio da faculdade da imaginação (quanto ao sentimento moral), 
com respeito ao qual a representação do objecto é ajuizada subjectivamente 
conforme a fins.

De facto não se pode muito bem pensar um sentimento para com o sublime da 
natureza sem ligar a isso uma disposição do ânimo, que é semelhante ‡ disposição
para o sentimento moral; e embora o prazer imediato no belo da natureza 
igualmente pressuponha e cultive uma certa *liberalidade* da maneira de pensar, 
isto é independência do comprazimento do simples gozo dos sentidos, ainda assim 
a liberdade é representada mais em *jogo* do que sob uma *ocupação* legal, a 
qual constitui o mais autêntico carácter da moralidade do homem, onde a razão 
tem de _õ117 fazer violência ‡ sensibilidade. Só que no juízo estético sobre o 
sublime esta violência é representada como exercida pela própria faculdade da 
imaginação, em vez de ser exercida por um instrumento da razão.
O comprazimento no sublime da natureza é por isso também somente *negativo* (ao 
invés no belo é *positivo*), ou seja um sentimento da faculdade da imaginação de
privar­se por si própria da liberdade, na medida em que ela é determinada 
conformemente a fins segundo uma lei diversa da do uso empírico. Desse modo a 
faculdade da imaginação obtém uma ampliação e um poder maior do que aquele que 
ela sacrifica e cujo fundamento porém é oculto a ela própria; em vez disso ela 
*sente* o sacrifício ou a privação e ao mesmo tempo a causa ‡ qual ela é 
submetida. A *estupefacção* ­­ que confina com o pavor, o horror e o 
estremecimento sagrado que apanha o observador ‡ vista de cordilheiras que se 
elevam aos céus, de gargantas profundas e águas que irrompem nelas, de solidões 
cobertas por sombras profundas que convidam ‡ meditação melancólica, etc. ­­ não
é, na segurança em que :, o observador se sente, um medo efectivo, mas somente 
uma tentativa de nos abandonarmos a ela com a imaginação, para sentir o poder da
mesma faculdade, ligar o assim suscitado movimento do ânimo com o seu estado de 
repouso e deste modo ser superior ‡ natureza em nós próprios, por conseguinte 
também ‡ natureza fora de nós, numa medida em que ela pode ter influência sobre 
o sentimento de nosso bem­estar. … que a faculdade da imaginação, quando opera 
segundo a lei da associação, torna o nosso estado de contentamento fisicamente 
dependente; mas a mesma, quando opera segundo princípios do esquematismo da 
faculdade do juízo (consequentemente enquanto subordinada ‡ liberdade), é 
instrumento da razão e das suas ideias, como tal porém é um poder de afirmar a 
nossa independência contra as influências _õ118 da natureza, de rebaixar como 
pequeno o que de acordo com e a natureza é grande e deste modo erigir o 
absolutamente grande somente em seu próprio destino (isto é, do sujeito). Esta 
reflexão da faculdade de juízo estética para elevar­se ‡ adequação ‡ razão 
(embora sem um conceito determinado da mesma), representa contudo o objecto como
subjectivamente conforme a fins, mesmo através da inadequação objectiva da 
faculdade da imaginação na sua máxima ampliação em relação ‡ razão (enquanto 
faculdade das ideias).

Aqui em geral se tem que prestar atenção ao facto, já recordado acima, de que na
estética transcendental da faculdade do juízo se tem que falar unicamente de 
juízos estéticos puros, consequentemente os exemplos não podem ser extraídos de 
tais objectos belos ou sublimes da natureza que pressupõem o conceito de um fim;
pois então se trataria ou de conformidade a fins 
teleológica ou de conformidade a fins fundando­se sobre simples sensações de um 
objecto (deleite ou dor), por conseguinte no primeiro caso não se trataria de 
conformidade a fins estética, no segundo não se trataria de simples conformidade
a fins formal. Se pois se chama *sublime* ‡ vista do céu estrelado, então não se
tem que pÙr no fundamento do seu julgamento conceitos de mundos habitados por 
entes racionais e a seguir os pontos luminosos, dos quais vemos repleto :, o 
espaço sobre nós, como os seus sóis movidos em órbitas para eles bem dispostas 
em conformidade a fins, mas tem­se que considerá­lo simplesmente, como o vemos, 
como uma vasta abóboda que tudo engloba; e simplesmente a esta representação 
temos que submeter a sublimidade que um juízo estético puro atribui a este 
objecto. Do mesmo modo não temos que considerar a vista do oceano como *o 
pensamos*, enriquecido com toda a espécie de conhecimentos (que porém não estão 
contidos na intuição _õ119 imediata), por assim dizer como um vasto reino de 
criaturas aquáticas, como o grande reservatório de água para os vapores que 
impregnam o ar com nuvens em benefício das terras, ou também como um elemento 
que na verdade separa entre si partes do mundo, conquanto porém torne possível a
máxima comunidade entre elas: pois isto fornece puros juízos teleológicos; mas 
tem­se que poder considerar o oceano simplesmente, como o fazem os poetas, 
segundo o que a vista mostra, por assim dizer se ele é contemplado em repouso, 
como um claro espelho de água que é limitado apenas pelo céu, mas no caso de 
estar agitado, como um abismo que ameaça tragar tudo, e no entanto sublime. O 
mesmo precisa ser dito do sublime e do belo na figura humana, onde não temos que
recorrer a conceitos de fins, como fundamentos determinantes do juízo e *em 
vista dos quais* todos os seus membros existem, nem deixar a concordância com 
esses conceitos *influir* sobre o nosso (então não mais puro) juízo estético, 
embora o facto de que não os contradigam, certamente seja também uma condição 
necessária do comprazimento estético. A conformidade a fins estética é a 
conformidade a leis da faculdade do juízo na sua *liberdade*. O comprazimento no
objecto depende da relação na qual queremos colocar a faculdade da imaginação, 
desde que ela entretenha por si própria o ânimo em livre ocupação. Se 
contrariamente alguma outra coisa, seja ela sensação dos sentidos ou conceito do
entendimento, determina o juízo, então ela é na verdade conforme a leis, mas não
o juízo de uma *livre* faculdade do juízo.

Portanto, se se fala da beleza ou sublimidade intelectual, então, *em primeiro 
lugar*, essas expressões não :, são totalmente correctas, porque são maneiras de
representação estéticas as quais, se fÙssemos simplesmente inteligências puras 
(ou também nos transmutássemos em pensamento nessa qualidade), não se 
encontrariam _õ120 absolutamente em nós; *em segundo lugar*, embora ambas, como 
objectos de um comprazimento intelectual (moral), na verdade sejam conciliáveis 
com o comprazimento estético na medida em que não *repousam* sobre nenhum 
interesse, a sua unificação com aquele é porém difícil, porque devem produzir um
interesse que, se é verdade que a apresentação deve concordar com o 
comprazimento no julgamento estético, jamais ocorreria neste senão por um 
interesse sensível conjunto na apresentação, ao preço porém de uma ruptura com a
conformidade a fins intelectual e de uma perda de pureza.

O objecto de um comprazimento intelectual puro e incondicionado é a lei moral no
seu poder, o qual ela exerce em nós e sobre todos e cada um dos motivos mentais 
*que a antecedem*; e visto que este poder propriamente só se dá a conhecer 
esteticamente por sacrifícios (o que é uma privação, embora em favor da 
liberdade interna e que em compensação descobre em nós uma profundidade 
imperscrutável desta faculdade supra­sensível com as suas consequências que se 
estendem até o imprevisível): assim o comprazimento do lado estético (em 
referência ‡ sensibilidade), é negativo, isto é, contrário a esse interesse, 
porém do lado intelectual é considerado positivo e ligado a um interesse. Disso 
segue­se que o (moralmente) bom intelectual e em si mesmo conforme a fins, se 
ajuizado esteticamente, tem que ser representado não tanto como belo, mas antes 
como sublime, de modo que ele desperta mais o sentimento de respeito (o qual 
despreza o atractivo) do que o de amor e da inclinação íntima; porque a natureza
humana *não concorda* com aquele bom assim espontaneamente, mas somente mediante
a violência que a razão exerce sobre a sensibilidade. Inversamente também aquilo
que denominamos sublime na natureza fora de nós ou também em nós (por exemplo 
certos afectos) é representado, e assim _õ121
pode tornar­se interessante, somente como um poder do :,
ânimo de elevar­se sobre *certos* obstáculos (a) da sensibilidade através de 
princípios morais.

(a) A: "os obstáculos".

Vou deter­me um pouco sobre o ˙ltimo aspecto. A ideia do bom com afecto chama­se
*entusiasmo*. Este estado do ânimo parece ser a tal ponto sublime, que 
comummente se afirma que sem ele nada de grande pode ser feito. Ora bem, todo o 
afecto (7) é cego, quer na escolha de um fim, quer na execução, mesmo que este 
tenha sido dado pela razão; pois ele é aquele movimento do ânimo que torna 
incapaz de promover uma reflexão livre sobre princípios, para se determinar 
segundo essa reflexão (b). Portanto ele não pode de maneira alguma merecer um 
comprazimento da razão. Esteticamente contudo o entusiasmo é sublime, porque ele
é uma tensão das forças mediante ideias, que dão ao ânimo um ímpeto que actua 
bem mais poderosa e duradouramente que o impulso por representações dos 
sentidos. Mas (o que parece estranho) mesmo a *ausência de afecto* (*apatheia, 
phlegma in significatu bono*) de um _õ122 ânimo que segue enfaticamente os seus 
princípios imutáveis é sublime, e na verdade de um modo muito mais excelente, 
porque ela ao mesmo tempo tem do seu lado o comprazimento da razão pura. 
Unicamente um tal modo de ser do ânimo se chama nobre, expressão que 
posteriormente também é aplicada a coisas, por exemplo edifícios, um vestido, um
estilo de escrever, decoro corporal, etc., quando ele provoca não tanto 
*estupefacção* 
\k*_verwunderung*_,, afecto na representação da novidade que ultrapassa a 
expectativa) quanto *admiração* \k*_bewunderung*_,, uma estupefacção que não 
cessa com a perda da novidade), o que ocorre quando ideias na sua apresentação 
concordam sem intenção e sem arte com o comprazimento estético.

(b) A: "torna incapaz de se determinar segundo reflexão livre mediante 
princípios".

Cada afecto do *género vigoroso* (*animi strenui* ­­ ou seja, que desperta a 
consciência das nossas forças a vencer toda a resistência) é *esteticamente 
sublime*, por exemplo a cólera e mesmo o desespero (ou seja, o *indignado*, 
não :,
o *desencorajado*). Mas o afecto do género *lânguido* (*animum languidum* ­­ o 
qual faz mesmo do esforço para resistir um objecto de desprazer, não contém nada
de *nobre*, mas pode ser contado como belo do tipo sensível. Por isso as 
*comoções*, que podem tornar­se fortes até ao afecto, são também muito diversas.
Têm­se comoções *fortes* e comoções *ternas*. As ˙ltimas, quando se elevam até 
ao afecto, não valem nada; a tendência para elas chama­se *sentimentalismo*. Uma
dor participante e que não quer ser consolada, ou ‡ qual nos entregamos 
premeditadamente quando concerne a males fictícios até a ilusão pela fantasia, 
como se fossem efectivos, demonstra e constitui uma alma doce, mas ao mesmo 
tempo fraca, que mostra um lado belo e na verdade pode ser denominada 
fantástica, mas nem uma vez sequer entusiástica. _õ123 Romances, espectáculos 
chorosos, insípidos preceitos morais que brincam com as chamadas (embora 
falsamente) atitudes nobres, e que de facto tornam antes o coração seco e 
insensível ‡ prescrição rigorosa do dever, incapaz de todo o respeito pela honra
da humanidade em nossa pessoa e pelo direito dos homens (o qual é algo 
totalmente diverso da sua felicidade) e em geral de todos os princípios sólidos;
mesmo um discurso religioso, que recomenda um rastejante e vil granjeamento de 
favor e simpatia, que abandona toda a confiança na capacidade própria de 
resistência contra o mal em nas, em vez da vigorosa resolução de tentar todas as
forças que apesar de toda a nossa fragilidade ainda nos restam para a superação 
das inclinações; a falsa humildade, que põe no desprezo de si, no arrependimento
lamentoso e fingido e numa postura meramente sofredora do ânimo a maneira como 
unicamente se pode ser agradável ao ente supremo: não se conciliam uma vez 
sequer com aquilo que pode ser contado como beleza, e muito menos ainda com o 
que pode ser contado como sublimidade do carácter \k*_gem¸tsart*_,.

Mas também emoções turbulentas, quer sejam ligadas, sob o nome de edificação, a 
ideias da religião ou a ideias pertencentes simplesmente ‡ cultura, possuidoras 
de um interesse em sociedade, por mais que elas também coloquem em tensão a 
faculdade da imaginação, de modo :, nenhum podem reclamar a honra de uma 
apresentação *sublime* se não abandonam uma disposição de ânimo que, conquanto 
só indirectamente, tenha influência sobre a consciência da sua força e decisão 
em relação ao que uma conformidade a fins pura e intelectual comporta (ao supra­
sensível). Pois de contrário todas estas comoções pertencem somente ao 
*movimento* \k*_motion*_, que graças ‡ sa˙de _õ124 de bom grado se exercita. A 
agradável fadiga, que se segue a uma tal agitação pelo jogo dos afectos é um 
gozo do bem­estar proveniente do restabelecido equilíbrio das diversas forças 
vitais em nós e que no fim culmina em algo idêntico ao gozo que os libertinos do
Oriente consideram tão deleitoso, quando eles por assim dizer massageiam os seus
corpos e suavemente pressionam e deixam vergar todos os seus m˙sculos e 
artérias; só que ali o princípio motor encontra­se em grande parte em nós, aqui 
ao contrário totalmente fora de nós. Lá crê­se edificado por um sermão, no qual 
(a) contudo nada é construído (nenhum sistema de máximas boas), ou ter­se 
tornado melhor por uma tragédia, enquanto simplesmente se está contente por um 
tédio felizmente eliminado. Portanto o sublime sempre tem que se referir ‡ 
*maneira de pensar*, isto é a máximas, para conseguir o domínio do intelectual e
das ideias da razão sobre a sensibilidade.

(a) Kant: *indem* (enquanto), corrigido por Erdmann para *in dem* (no qual).

Não se deve recear que o sentimento do sublime venha a perder­se por um tal modo
de apresentação abstracto, que em confronto com a sensibilidade é inteiramente 
negativo; pois a faculdade da imaginação, embora ela acima do sensível não 
encontre nada sobre o que possa apoiar­se, precisamente por esta eliminação das 
barreiras da mesma sente­se também ilimitada; e aquela abstracção é pois uma 
representação do infinito, a qual na verdade, precisamente por isso, jamais pode
ser outra coisa que uma apresentação meramente negativa, que no entanto alarga a
alma. Talvez não haja no código civil dos judeus nenhuma passagem mais sublime 
que o mandamento: não deves fazer­te nenhuma efígie nem qualquer símil, quer :, 
do que está no céu ou na terra ou sob a terra, etc. Este mandamento por si só 
pode explicar o entusiasmo que o povo judeu na sua época civilizada sentia pela 
sua religião _õ125 quando se comparava com outros povos, ou aquele orgulho que o
maometanismo inspirava. Precisamente o mesmo vale também da representação da lei
moral e da disposição ‡ moralidade em nós. … uma preocupação totalmente errónea 
supor que, a gente se priva de tudo o que ela pode recomendar aos sentidos, e 
que então não comporte senão uma aprovação fria e sem vida e nenhuma força 
motriz ou comoção. Trata­se exactamente do contrário, pois lá onde agora os 
sentidos nada mais vêem diante de si e contudo a inconfundível e inextinguível 
ideia da moralidade permanece, seria antes preciso moderar o *élan* de uma 
faculdade da imaginação ilimitada, para não o deixar elevar­se até ao 
entusiasmo, o qual como que por medo da debilidade dessas ideias, procuraria 
ajuda para elas em imagens e num aparato infantil. Por isso também governos 
permitiram de bom grado que se provesse ricamente a religião com os ˙ltimos 
apetrechos, e assim procuraram tirar ao s˙bdito o esforço, mas ao mesmo tempo 
também a faculdade de estender as suas forças da alma para além das barreiras 
que se lhe colocam arbitrariamente e através das quais se pode mais facilmente 
manejá­lo como meramente passivo.

Esta apresentação pura, elevadora da alma e meramente negativa da moralidade não
oferece ao contrário, nenhum perigo de *exaltação* \k*_schwãrmerei*_,, a qual *é
uma ilusão de ver algo para além de todos os limites da sensibilidade* (a), isto
é de *querer* sonhar segundo princípios (delirar com a razão), precisamente 
porque a apresentação é naquela meramente negativa. Na verdade a 
*imperscrutabilidade da ideia da liberdade* impede completamente toda a 
apresentação positiva; a lei moral porém é, em si mesma, suficiente e 
originariamente determinante em nós, de modo que ela não permite uma vez _õ126 
sequer procurar­nos um fundamento de 

(a) A: "moralidade".

determinação fora :, dela. Se o entusiasmo pode comparar­se ‡ *demência*, a 
*exaltação* pode comparar­se ao *desvario*, entre os quais o ˙ltimo é o que 
menos de todos se concilia com o sublime, porque ele é devaneadoramente 
ridículo. No entusiasmo como afecto a faculdade da imaginação é desenfreada; na 
exaltação, como paixão arreigada e cismadora, é desregrada. O primeiro é um 
acidente passageiro, que ‡s vezes pode atingir o entendimento mais sacio, a 
segunda é uma doença que o destroça.

*_simplicidade* (conformidade a fins sem arte) é como que o estilo da natureza 
no sublime, e assim também da moralidade, que é uma segunda natureza (supra­
sensível), da qual conhecemos somente as leis sem a faculdade supra­sensível em 
nós próprios de poder alcançar por intuição aquilo que contém o fundamento dessa
legislação.
Deve­se observar ainda que embora o comprazimento no belo como no sublime seja 
nitidamente distinto dos demais julgamentos estéticos, não somente pela 
*comunicabilidade* universal, mas que também por esta propriedade ele adquire um
interesse em relação ‡ sociedade (na qual ele se deixa comunicar), todavia 
também o *isolamento de toda a sociedade* é considerado algo sublime se repousar
em ideias que não fazem caso de nenhum interesse sensível. Ser auto­suficiente a
si próprio, por conseguinte não precisar da sociedade, sem ser com isso 
insociável, isto é fugir dela, é algo que se aproxima do sublime, assim como 
toda a dispensa de necessidades. Contrariamente fugir dos homens por 
*misantropia*, porque se os hostiliza, ou por *antropofobia* (timidez) porque se
os teme como inimigos, é em parte odioso, e em parte desprezível. Todavia existe
uma (muito impropriamente chamada) misantropia, cuja disposição costuma 
aparecer, com a idade, no ânimo de muitos homens bem­pensantes, a qual na 
verdade, no que concerne ‡ _õ127 *benevolência*, é suficientemente filantrópica,
mas por uma experiência longa e triste desviou­se muito do comprazimento nos 
homens: disso dá testemunho a tendência ‡ refracção, o desejo fantástico de uma 
quinta distante, ou também (em pessoas jovens) a felicidade imaginária de poder 
passar com a sua pequena família :,
o tempo da sua vida sobre uma ilha desconhecida do resto do mundo, a qual os 
escritores de romances ou os poetas das robinsonadas tão bem sabem usar. 
Falsidade, ingratidão, injustiça, o infantil nos fins por nós próprios 
considerados importantes e grandes, em cuja persecução os homens cometem mesmo 
entre si todos os males imagináveis, estão a tal ponto em contradição com a 
ideia daquilo que eles poderiam ser se quisessem e são tão contrários ao desejo 
vivo de vê­los melhor, que, para não os odiar, já que não se pode amá­los, a 
ren˙ncia a todas as alegrias em sociedade parece ser somente um sacrifício 
pequeno. Esta tristeza, não pelos males que o destino inflige a outros homens 
(da qual a simpatia é a causa), mas pelos que eles se cometem a si próprios (a 
qual repousa sobre a antipatia em questões de princípios) é sublime porque 
repousa sobre ideias, enquanto a primeira somente pode valer, quando muito, como
bela. ­­ O tanto engenhoso quanto profundo *_saussure* diz, na descrição de suas
viagens aos Alpes, de *_bonhomme*, uma das cordilheiras da Sabóia: "Reina aí uma
certa *tristeza insípida*". Por isso ele conhecia também uma tristeza  _õ128 
*interessante*, que a vista de um deserto inspira, e para o qual os homens 
gostariam de retirar­se para não ouvir nem experimentar mais nada do mundo, 
deserto que contudo não tem de ser tão inóspito que oferecesse somente uma 
estadia altamente penosa para os homens. Faço esta observação somente com a 
intenção de recordar que também a desolação (não a tristeza deprimente) pode ser
contada entre os afectos *vigorosos*, se tiver o seu fundamento em ideias 
morais; se porém é fundada em simpatia e como tal também é amável, ela pertence 
meramente aos afectos *ternos*, para desse modo chamar atenção para a disposição
do ânimo, que somente no primeiro caso é *sublime*.

_õ_õ_õ

Ora pode­se comparar também com a recém­concluída exposição transcendental dos 
juízos estéticos a :, fisiológica (a), como um *_burke* e muitos homens 
perspicazes entre nós a elaboraram, para ver aonde leva uma exposição meramente 
empírica do sublime e do belo. *_burke* (b), que nesta espécie de abordagem, 
merece ser chamado o autor mais notável descobre por esta via (p. 223 da sua 
obra) "que o sentimento do sublime fundamenta­se sobre o instinto de 
autoconservação e sobre o *medo*, isto é sobre uma dor que, pelo facto de ela 
não chegar até ‡ destruição efectiva das partes corporais, produz movimentos 
que, por purificarem os vasos mais finos ou mais grossos de _õ129 obstruções 
perigosas e incómodas, são capazes de provocar sensações agradáveis, na verdade 
não um prazer, mas uma espécie de calafrio comprazente, uma certa calma 

(a) A: "psicológica".

(b) *_burke*, Edmund (1729­1797), citado por Kant segundo a tradução alemã de 
Chr. Garve (Riga, bei Hartknoch, 1773) de seu escrito: *_investigações 
filosóficas sobre a origem de nossos conceitos do belo e do sublime*.

que é mesclada com terror". Ele remete (pp. 251­252) o belo, que funda sobre o 
amor (e do qual contudo quer distinguimos desejos), "ao relaxamento, ‡ distensão
e ao adormecimento das fibras do corpo, por conseguinte a um amolecimento, 
desagregação, esmorecimento, desfalecimento, a uma morte, um desaparecimento 
progressivo por deleite". E ele então confirma este modo de explicação, não 
unicamente através de casos, nos quais a faculdade da imaginação em ligação com 
o entendimento e até com a sensação sensorial \k*_sinnesempfindung*_,, pode 
provocar em nós o sentimento tanto do belo como do sublime. Como observações 
psicológicas essas análises dos fenómenos do nosso ânimo são extremamente belas 
e fornecem rico material para as pesquisas mais populares da antropologia 
empírica. Tão­pouco se pode negar que todas as representações em nós, quer sejam
objectivamente apenas sensíveis ou totalmente intelectuais, possam contudo estar
ligadas subjectivamente a deleite ou dor, por imperceptíveis que ambos sejam 
(porque elas em suma afectam o sentimento da vida e nenhuma, enquanto é 
modificação do sujeito, pode ser indiferente); não se pode sequer negar, :, como
Epicuro afirmava, que *deleite* e *dor* sejam sempre em ˙ltima análise 
corporais, quer comecem da imaginação ou até de representações do entendimento, 
porque a vida sem o sentimento do 6rgão corporal é simplesmente consciência da 
sua existência, mas nenhum sentimento de bem­estar ou mal­estar, isto é da 
promoção ou inibição das forças vitais; porque o ânimo é por si só totalmente 
vida, e obstáculos ou promoções têm que ser procurados fora dela e contudo no 
próprio homem, por conseguinte na ligação com o seu corpo.

Se porém se puser o comprazimento no objecto, total
_õ130 e absolutamente, no facto que este deleite por atractivo ou comoção, então
não se tem que pretender também de nenhum *outro* que ele dê seu assentimento ao
juízo estético que *nós* proferimos; pois sobre isso interroga cada um 
legitimamente somente o seu sentido particular. Em tal caso porém cessa também 
completamente toda a censura do gosto; pois se teria que tornar o exemplo, que 
outros dão pela concordância acidental dos seus juízos, um *mandamento* de 
aprovação para nós, a cujo princípio nós contudo presumivelmente nos oporíamos e
recorreríamos ao direito natural de submeter o juízo, que repousa sobre o 
sentimento imediato do próprio bem­estar, ao nosso próprio sentido e não o juízo
de outros ao sentido deles.

Se portanto o juízo de gosto não tiver que valer *egoisticamente*, mas, de 
acordo com a sua natureza interna, isto é por ele próprio e não em virtude dos 
exemplos que outros dão do seu gosto, tiver que valer necessariamente como 
*plural*, se a gente o reconhece como algo que, ao mesmo tempo, pode reclamar 
que qualquer um deva dar­lhe a sua adesão, então no seu fundamento tem que 
situar­se algum princípio *a priori* (seja ele objectivo ou subjectivo), ao qual
jamais se pode chegar por reconhecimento de leis empíricas das mudanças do 
ânimo; porque estas somente dão a conhecer como se julga, mas não ordenam como 
se deve julgar, e na verdade de tal modo que o mandamento seja *incondicionado*;
os juízos de gosto pressupõem isso, na medida em que querem ver o comprazimento 
conectado *imediatamente* 
com uma :, representação. Portanto a exposição empírica dos juízos estéticos 
pode sempre constituir o início, com o fim de arranjar a matéria para uma 
investigação superior; uma exposição transcendental desta faculdade é contudo 
possível e pertencente essencialmente ‡ crítica do _õ131 gosto (a). Pois sem que
este mesmo tenha principios *a priori*, ser­lhe­ia impossível dirigir os juízos 
de outros e, com pelo menos alguma aparência de direito, apresentar pretensões 
(b) de aprovação ou rejeição a respeito deles.

O resto, pertencente ‡ analítica da faculdade de juízo estética, contém antes 
mais nada a (c).

Dedução dos juízos estéticos puros (d)

(a) A: "assim pois uma exposição transcendental desta faculdade pertence 
essencialmente ‡ crítica do gosto; pois sem que este..."

(b) A: juízos.

(c) Esta frase faltou na 1.a edição. A dedução que se segue foi aí assinalada 
como *terceiro livro*. Segundo correspondência de Kant a Kiesewetter, de 20 de 
Abril de 1790, e também segundo Vorlãnder 
(p. 127), tratou­se de uma inserção de Kiesewetter, em vez da equivocadamente 
escrita por Kant "*terceira secção* da analítica da faculdade de juízo 
estética". Kant considerou adequada a alteração, e mesmo assim preferiu a sua 
eliminação pura e simples, pedindo que constasse na errata.

(d) "puros" falta em A.

$ó30. A dedução dos juízos estéticos sobre os objectos da natureza não pode ser 
dirigida ‡quilo que nesta chamamos sublime, mas somente ao belo
A pretensão de um juízo estético ‡ validade universal para todo o 
sujeito carece, como um juízo que tem de apoiar­se sobre algum princípio 
*a priori*, de uma dedução (isto é, de uma legitimação da sua presunção) 
que tem de ser acrescida ainda ‡ sua exposição sempre que um comprazimento ou 
desagrado concerne ‡ *forma do objecto*. Tal é o caso dos juízos de gosto 
sobre o belo da natureza. Pois a conformidade a fins tem então o seu 
fundamento :, no objecto e na sua figura, conquanto ela não indique a _õ132 
relação do mesmo 
a outros objectos segundo conceitos (para o juízo de conhecimento), mas
cor cerne simplesmente em geral ‡ apreensão desta forma, enquanto ela
no ânimo se mostra conforme ‡ *faculdade*, tanto dos conceitos como da 
apresentação dos mesmos (que é idêntica ‡ faculdade de apreensão). Por
isso também a respeito do belo da natureza pode­se levantar diversas 
questões, que concernem ‡ causa desta conformidade a fins da sua forma:
por exemplo, como explicar que a natureza tenha disseminado a beleza 
tão prodigamente por toda a parte, mesmo no fundo do oceano, onde 
só raramente chega o olho humano (para o qual contudo aquela é 
unicamente conforme a fins) etc.

Todavia o sublime da natureza ­­ se proferimos a seu respeito um juízo 
estético puro, que não é mesclado com conceitos de perfeição, enquanto
conformidade a fins objectiva, em cujo caso ele seria um juízo teleológico 
­­ pode ser considerado totalmente como sem forma ou sem figura, contudo
como objecto de um comprazimento puro, e mostrar conformidade a fins 
subjectiva da representação dada; e então se pergunta se para o juízo estético 
desta espécie, além da exposição daquilo que é pensado nele, também pode
ser reclamada ainda uma dedução da sua pretensão a algum princípio 
*a priori* (subjectivo).

A isso responde­se que o sublime da natureza só impropriamente
é chamado assim e propriamente só tem que ser atribuído ‡ maneira
de pensar, ou muito antes ao fundamento da mesma na natureza humana.
A apreensão _õ133 de um objecto, aliás sem forma e não conforme a fins, 
dá meramente motivo para nos tornarmos conscientes deste fundamento, 
e o objecto é deste modo *usado* subjectivamente conforme a fins, mas não 
é ajuizado como tal por si e em virtude da sua forma (por assim dizer 
*species finalis accepta, non data*). Por isso a nossa exposição dos juízos 
sobre o sublime da natureza era ao mesmo tempo a sua dedução. Pois quando 
decompusemos nos mesmos a reflexão da faculdade do juízo, encontramos neles uma 
relação conforme a fins das faculdades do conhecimento, que tem de ser posta *a 
priori* no fundamento da :, faculdade dos fins (a vontade) e por isso é ela 
mesma *a priori* conforme a fins; o que contém (a) pois imediatamente a dedução,
isto é a justificação da pretensão de um semelhante juízo ‡ validade 
universalmente necessária.

(a) A: "é".
Portanto devemos procurar somente a dedução dos juízos de gosto, isto é dos 
juízos sobre a beleza das coisas da natureza e assim resolver no seu todo o 
problema da inteira faculdade de juízo estética.

$ó31. Do método da dedução dos juízos de gosto

A incumbência de uma dedução, isto é da garantia da legitimidade de uma espécie 
de juízos, somente se _õ134 apresenta quando o juízo reivindica necessidade; o 
que é também o caso quando ele exige universalidade subjectiva, isto é o 
assentimento de qualquer um. Apesar disso ele não é nenhum juízo de 
conhecimento, mas somente do prazer ou desprazer num objecto dado, isto é a 
presunção de uma conformidade a fins subjectiva e válida para qualquer um sem 
excepção e que não deve fundar­se sobre nenhum conceito da coisa, porque se 
trata um juízo de gosto.

Já que no ˙ltimo caso não deparamos com nenhum juízo de conhecimento, nem 
teórico, que pelo entendimento põe no fundamento o conceito de uma *natureza* em
geral, nem prático (puro), que põe no fundamento a ideia da *liberdade* como 
dada *a priori* pela razão; e portanto não temos que justificar segundo a sua 
validade *a priori*, nem um juízo que representa o que uma coisa é, nem o que eu
tenha de fazer para produzi­la: *assim* deve ser demonstrado para a faculdade do
juízo em geral *simplesmente a validade universal* de um juízo *singular*, que 
expressa a conformidade a fins subjectiva de uma representação empírica da forma
de um objecto, para explicar como é possível que algo pode aprazer _õ135 
simplesmente no julgamento (sem sensação ou conceito) e ­­ tal como o julgamento
de um objecto com vista a um *conhecimento* em geral tem regras universais ­­ 
como também :,
o comprazimento de cada um pode ser proclamado como regra para qualquer outro.

Se pois esta validade universal não deve fundamentar­se sobre uma reunião de 
votos e uma recolha de informações junto a outros acerca do seu modo de ter 
sensações \k*emppinden_,, mas deve assentar, por assim dizer, sobre uma 
autonomia do sujeito que julga sobre o sentimento de prazer (na representação 
dada), isto é sobre o seu gosto próprio, conquanto não deva tão­pouco ser 
derivada de conceitos; assim um tal juízo ­­ como o juízo de gosto de facto é ­­
tem uma peculiaridade dupla e na verdade lógica: ou seja, *primeiramente* 
validade universal *a priori*, ainda que não seja uma universalidade lógica 
segundo conceitos mas a universalidade de um juízo singular; *em segundo lugar* 
uma necessidade (que sempre tem de assentar em fundamentos *a priori*), que 
porém não depende de nenhum argumento *a priori*, através de cuja representação 
a aprovação, que o juízo de gosto postura de qualquer um, pudesse ser imposta.

A resolução destas peculiaridades lógicas, em que um juízo de gosto se distingue
de todos os juízos de conhecimento, se aqui inicialmente abstraímos de todo o 
conte˙do do mesmo, ou seja do sentimento de prazer, e comparamos simplesmente a 
forma estética com a forma _õ136 dos juízos objectivos, como a lógica os 
prescreve, será por si só suficiente para a dedução desta singular faculdade. 
Queremos portanto expor antes, elucidadas através de exemplos, estas 
propriedades características do gosto.

$ó32. Primeira peculiaridade do juízo de gosto

O juízo de gosto determina o seu objecto com respeito ao comprazimento (como 
beleza) com uma pretensão do assentimento de *qualquer um*, como se fosse 
objectivo.

Dizer "esta flor é bela" significa apenas o mesmo que dizer dela a sua própria 
pretensão ao comprazimento de qualquer um. A amenidade de seu odor não lhe 
propicia absolutamente nenhuma pretensão. A um, este odor deleite, a outro 
incomoda. Ora que outra coisa dai se :, deveria presumir, senão que a beleza tem
que ser tomada como uma propriedade da própria flor, a qual não se guia pela 
diversidade das cabeças e de tantos sentidos, mas pela qual estes têm que se 
guiar se querem julgar esse respeito? E todavia as coisas não se passam assim. …
que o juízo de gosto consiste precisamente no facto que ele chama a uma coisa 
bela somente segundo aquela qualidade, na qual ela se ajusta ao nosso modo de 
acolhê­la.

Além disso, de cada juízo que deve provar o gosto do sujeito, é reclamado que o 
sujeito deva julgar por si, sem ter necessidade de, pela experiência, andar ‡s 
apalpadelas _õ137 entre os juízos de outros e através dela instruir­se 
previamente sobre o comprazimento ou descomprazimento deles no mesmo objecto, 
por conseguinte deve proferir o seu juízo de modo *a priori* e não por imitação,
porque uma coisa talvez apraza efectivamente de um modo geral. Dever­se­ia porém
pensar que um juízo *a priori* tem de conter um conceito do objecto para cujo 
conhecimento ele contém o princípio; o juízo de gosto porém não se funda 
absolutamente sobre conceitos e não é em caso algum um conhecimento, mas somente
um juízo estético.

Por isso um jovem poeta não se deixa demover, nem pelo juízo do p˙blico nem pelo
dos seus amigos, da persuasão de que sua poesia seja bela; e se ele lhes der 
ouvidos, tal não ocorre porque agora a ajuíza diversamente, mas porque ele 
encontra no seu desejo de aprovação uma razão para contudo se acomodar (mesmo 
contra seu juízo) ‡ ilusão comum, mesmo que (do seu ponto de vista) todo o 
p˙blico tivesse um gosto falso. Só mais tarde, quando a sua faculdade do juízo 
tiver sido mais aguçada pelo exercício, ele se distancia espontaneamente do seu 
juízo anterior, procedendo do mesmo modo com os seus juízos que assentam 
totalmente na razão. O gosto reivindica simplesmente autonomia. Fazer de juízos 
estranhos os fundamentos de determinação do seu seria heteronomia.

_õ138 Que a gente enalteça com razão como modelos as obras dos antigos e chame 
clássicos aos seus autores, como uma espécie de nobreza entre os escritores que 
pelo seu exemplo dá leis ao povo, parece indicar fontes *a posteriori* :, do 
gosto e refutar a autonomia do mesmo em cada sujeito. Todavia poder­se­ia dizer 
do mesmo modo que os antigos matemáticos, que até agora são considerados modelos
propriamente indispensáveis da mais alta solidez e elegância do método 
sintético, também provaram da nossa parte uma razão imitadora e uma incapacidade
desta de produzir a partir de si mesma demonstrações rigorosas com a máxima 
intuição, mediante construção de conceitos. Não há absolutamente nenhum uso das 
nossas forças, por livre que ele possa ser, e mesmo da razão [que tem de haurir 
todos os seus juízos da fonte comum (*gemeinschafiliche) a priori*] que não 
incidiria em falsas tentativas se cada sujeito sempre devesse começar totalmente
da disposição bruta da sua índole, se outros não o tivessem precedido com as 
suas tentativas, não para fazer dos seus sucessores simples imitadores, mas para
pÙr outros a caminho pelo seu procedimento, afim de procurarem em si próprios os
princípios e assim tomarem o seu caminho próprio e frequentemente melhor. Mesmo 
na religião, onde certamente cada um tem que tomar de si mesmo a regra do seu 
comportamento, porque ele próprio também _õ139 permanece responsável por si e 
não pode atribuir a outros enquanto mestres ou predecessores a culpa das suas 
faltas, jamais se conseguirá tanto mediante preceitos gerais, que se podem 
conseguir de padres ou filósofos ou que também se pode ter tomado de si próprio,
quanto mediante um exemplo de virtude ou santidade, o qual, estabelecido na 
história, não torna dispensável a autonomia da virtude a partir da ideia própria
e originária da moralidade (*a priori*) ou então transforma esta num mecanismo 
de imitação. Sucessão, que se refere a um precedente, e não imitação é a 
expressão correcta para toda a influência que produtos de um autor original 
podem ter sobre outros; o que somente significa: haurir das mesmas fontes das 
quais aquele próprio hauriu e apreender do seu predecessor somente a maneira de 
proceder nesse caso. Mas entre todas as faculdades e talentos o gosto é aquele 
que, porque o seu juízo não é determinável mediante conceitos e preceitos, 
maximamente precisa de exemplos daquilo que na evolução da cultura :, durante 
maior tempo recebeu aprovação, para não se tornar logo de novo grosseiro e 
recair na rudeza das primeiras tentativas.

_õ140  $ó33. Segunda peculiaridade do juízo de gosto

O juízo de gosto não é absolutamente determinável por argumentos, como se ele 
fosse simplesmente *subjectivo*.

Se alguém não considera belo um edifício, uma vista, uma poesia, então ele, *em 
primeiro lugar*, não deixa impor­se­lhe interiormente a aprovação por cem vozes,
as quais todas o louvam em alto grau. Ele, na verdade, pode apresentar­se como 
se essas coisas também lhe 
aprouvessem, para não ser considerado sem gosto; pode até começar a duvidar se 
também formou suficientemente o seu gosto pelo conhecimento de um n˙mero 
satisfatório de objectos de uma certa espécie (como alguém que ‡ distancia crê 
reconhecer como uma floresta algo que todos os outros consideram uma cidade, 
duvida do juízo de sua própria vista). No entanto tem a clara perspiciência que 
a aprovação de outros não fornece absolutamente nenhuma prova válida para o 
julgamento da beleza; que outros quando muito podem ver e observar por ele, e o 
que vários viram da mesma maneira pode servir para o juízo teórico, por 
conseguinte lógico, como um argumento suficiente a ele, que acreditou sê­lo 
visto diferentemente, jamais porém o que aprouve a outros pode servir como 
fundamento de um juízo estético. O juízo de outros que nos é desfavorável _õ141 
na verdade pode com razão tornar­nos hesitantes com respeito ao nosso, jamais 
porém pode convencer­nos da sua incorrecção. Portanto, não existe nenhum 
*argumento* empírico capaz de impor um juízo de gosto a alguém.

*_em segundo lugar*, uma prova *a priori* segundo regras determinadas pode menos
ainda determinar o juízo sobre a beleza. Se alguém me lê a sua poesia ou me leva
a um espectáculo que no final não satisfará o meu gosto, então ele pode invocar 
*_batteux* (a) ou *_lessing* ou críticos do gosto :, ainda mais antigos e mais 

(a) *_batteux*, Charles (1713­1780), estético francês.

famosos e todas as regras estabelecidas por eles como prova de que a sua poesia 
é bela; também certas passagens que precisamente não me aprazem podem 
perfeitamente concordar com regras da beleza (assim como lá são dadas e 
reconhecidas universalmente): tapo os meus ouvidos, posso não ouvir nenhuma 
razão e nenhum raciocínio, e de preferência admitirei que aquelas regras dos 
críticos são falsas, ou que pelo menos aqui não é o caso da sua aplicação, a 
dever eu deixar determinar o meu juízo por argumentos *a priori*, já que este 
deve ser um juízo de gosto e não do entendimento ou da razão.

Parece que esta é uma das razões principais pelas quais se reservou a esta 
faculdade de juízo estética precisamente o nome de gosto. Pois alguém pode 
enumerar­me todos os ingredientes de uma comida e _õ142 observar sobre cada um 
que ele até me é agradável, além disso pode com razão elogiar o carácter 
saudável dessa comida; todavia sou surdo a todos esses argumentos, eu provo o 
prato com a *minha* língua e o meu paladar, e de acordo com isso (não segundo 
principios universais) profiro o meu juízo.

De facto o juízo de gosto é sempre proferido como um juízo singular sobre o 
objecto. O entendimento pode, pela comparação do objecto sob o aspecto do 
comprazimento com o juízo de outros, formar um juízo universal: por exemplo, 
"todas as tulipas são belas"; mas este então não é nenhum juízo de gosto e sim 
um juízo lógico, que faz da relação de um objecto ao gosto o predicado das 
coisas de uma certa espécie em geral. Porém unicamente aquilo pelo qual 
considero uma dada tulipa singular bela, isto é, pelo que considero o meu 
comprazimento nela válido universalmente, é um juízo de gosto. A sua 
peculiaridade porém consiste em que, embora ele tenha validade meramente 
subjectiva, contudo estende a sua pretensão a *todos* os sujeitos, como se 
pudesse ocorrer sempre, caso fosse um juízo objectivo que assenta sobre 
fundamentos cognitivos e pudesse ser imposto mediante uma prova.

Crítica da Faculdade 
do Juízo
de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997

Sexto Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia
Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d. 21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

__isbn 972­27­0506­7

_õ143  $ó34. Não é possível nenhum princípio objectivo de gosto

Por um princípio do gosto entender­se­ia uma premissa sob cuja condição se 
pudesse subsumir o conceito de um objecto e então por uma inferência descobrir 
que ele é belo. Mas isto é absolutamente impossível. Pois eu tenho que sentir o 
prazer imediatamente na representação do objecto, e ele não pode ser­me 
impingido por nenhum argumento. … que embora os críticos, como diz *_hume*, 
possam raciocinar mais plausivelmente do que os cozinheiros, possuem contudo 
destino idêntico a estes. Eles não podem esperar o fundamento de determinação do
seu juízo da força de argumentos, mas somente da reflexão do sujeito sobre o seu
próprio estado (de prazer ou desprazer), com rejeição de todos os preceitos e 
regras.

Aquilo porém sobre o que os críticos podem e devem raciocinar, de modo que se 
alcance a correcção e ampliação dos nossos juízos de gosto, não consiste na 
apresentação _õ144 numa forma universal e aplicável do fundamento da 
determinação desta espécie de juízos estéticos, o que é impossível, mas na 
investigação da faculdade de conhecimento e sua função nestes juízos e na 
decomposição em exemplos da recíproca conformidade a fins subjectiva, acerca da 
qual foi mostrado acima que a sua forma numa representação dada é a beleza do 
seu objecto. Portanto a própria crítica do gosto é somente subjectiva com 
respeito ‡ representação pela qual um objecto nos é dado; ou seja, ela é a arte 
de uma ciência de submeter a regras a relação recíproca do entendimento e da 
sensibilidade na representação dada (sem referência ‡ sensação ou conceito 
precedentes), por conseguinte a unanimidade ou não unanimidade de ambos, e de 
determiná­los com respeito ‡s suas condições. Ela é *arte* se mostra isso 
somente em exemplos; ela é ciência, se deduz a possibilidade de um tal 
julgamento a partir da natureza desta faculdade, como faculdade de conhecimento 
em geral. Aqui só temos a ver com a ˙ltima enquanto crítica transcendental. Ela 
deve desenvolver e justificar o princípio subjectivo do gosto como um princípio 
*a priori* da faculdade do juízo. A crítica :, como arte procura meramente 
aplicar as regras fisiológicas (aqui psicológicas), por conseguinte empíricas, 
segundo as quais o gosto efectivamente procede (sem reflectir sobre a sua 
possibilidade), ao julgamento dos seus objectos e critica os produtos da bela 
arte, assim como *aquela crítica transcendental* critica a própria faculdade de 
ajuizá­los.

_õ145  $ó35. 0 princípio do gosto é o princípio subjectivo da
faculdade do juízo em geral

O juízo de gosto distingue­se do juízo lógico no facto de que o ˙ltimo subsume 
uma representação em conceitos do objecto, enquanto o primeiro não subsume 
absolutamente num conceito, porque de contrário a necessária aprovação universal
poderia ser imposta através de provas. Não obstante ele é semelhante ao juízo 
lógico no facto de afirmar uma universalidade e necessidade, mas não segundo 
conceitos do objecto, consequentemente apenas subjectiva. Ora, visto que num 
juízo os conceitos formam o seu conte˙do (o que pertence ao conhecimento do 
objecto), e que porém o juízo de gosto não é determinável por conceitos, assim 
este funda­se somente sobre a condição formal subjectiva de um juízo em geral. A
condição subjectiva de todos os juízos é a própria faculdade de julgar ou a 
faculdade do juízo. Utilizada com respeito a uma representação pela qual um 
objecto é dado, esta faculdade requer a concordância de duas faculdades de 
representação, a saber da faculdade da imaginação (para a intuição e a 
composição do m˙ltiplo da mesma) e do entendimento (para o conceito como 
representação _õ146 da unidade desta compreensão). Ora, visto que aqui nenhum 
conceito de objecto se situa no fundamento do juízo, ele somente pode consistir 
na subsunção da própria faculdade da imaginação (numa representação pela qual um
objecto é dado) na condição (a) de o entendimento em geral chegar da intuição a 

(a) Kant: "condições que", correc. Windelband. Erdmann: "condições pelas quais".

conceitos. Isto é, visto que a :, liberdade da faculdade da imaginação consiste 
no facto que esta esquematiza sem conceitos, assim o juízo de gosto tem que 
assentar numa simples sensação das faculdades reciprocamente vivificantes da 
imaginação na sua *liberdade* e do entendimento com a sua *conformidade a leis*,
portanto num sentimento que permite ajuizar o objecto segundo a conformidade 
final da representação (pela qual um objecto é dado) ‡ promoção da faculdade de 
conhecimento no seu livre jogo; e o gosto enquanto faculdade de juízo subjectiva
contém um princípio da subsunção, não das intuições em *conceitos*, mas sim da 
*faculdade* das intuições ou apresentações (isto é da faculdade da imaginação) 
na *faculdade* dos conceitos (isto é o entendimento), na medida em que a 
primeira na *sua liberdade* concorda com a segunda *na sua conformidade a leis*.

Para agora descobrir, mediante uma dedução dos juízos de gosto, este fundamento 
de direito, somente podem servir­nos de fio condutor as peculiaridades formais 
desta espécie de juízos, por conseguinte na medida em que seja considerada neles
simplesmente a forma lógica.

_õ147  $ó36. Do problema de uma dedução dos juízos de
gosto

Pode­se ligar imediatamente ‡ percepção de um objecto, para um juízo de 
conhecimento, o conceito de um objecto em geral, do qual aquela contém os 
predicados empíricos, e deste modo produzir um juízo de experiência. Ora, no 
fundamento deste juízo situam­se conceitos *a priori* da unidade sintética do 
m˙ltiplo da intuição para pensá­lo como determinação de um objecto; e estes 
conceitos (as categorias) requerem uma dedução, que também foi fornecida na 
*_crítica da Razão Pura*, pela qual, pois também pÙde efectuar­se a solução do 
problema: como são possíveis juízos de conhecimento sintéticos *a priori*? 
Portanto este problema disse respeito aos princípios *a priori* do entendimento 
puro e dos seus juízos teóricos. :,

Mas pode­se também ligar imediatamente a uma percepção um sentimento de prazer 
(ou desprazer) e um comprazimento que acompanha a representação do objecto e lhe
serve de predicado, e assim pode surgir um juízo estético que não é nenhum juízo
de conhecimento. Se um _õ148 tal juízo não é um simples juízo de sensação, mas 
um juízo formal de reflexão, que imputa este comprazimento como necessário a 
qualquer um, tem que situar­se no seu fundamento algo como princípio *a priori*,
o qual todavia pode ser um princípio simplesmente subjectivo (na suposição de 
que um princípio objectivo devesse ser impossível em tal espécie de juízos), mas
também, como tal, precisa de uma dedução, para que se compreenda como um juízo 
estético possa reivindicar necessidade. Ora sobre isso funda­se o problema com o
qual nos ocupamos agora: como são possíveis juízos de gosto? Portanto, este 
problema concerne aos princípios *a priori* da faculdade de juízo pura em juízos
estéticos, isto é naqueles em que ela não tem que simplesmente subsumir (como 
nos teóricos) em conceitos objectivos do entendimento e não está sob uma lei, 
mas em que ela é, ela própria, subjectivamente tanto objecto como lei.

Este problema também pode ser representado do seguinte modo: como é possível um 
juízo que, simplesmente a partir do sentimento *próprio* de prazer num objecto, 
independentemente de seu conceito, ajuíze *a priori*, isto é sem precisar 
esperar por assentimento estranho, este prazer como unido ‡ representação do 
mesmo objecto *em todos os outros sujeitos*?
O facto de que juízos de gosto são sintéticos é facilmente descortinável, porque
eles ultrapassam o conceito e mesmo a intuição do objecto e acrescentam a esta, 
como predicado, algo que absolutamente jamais é conhecimento, _õ149 a saber o 
sentimento de prazer (ou desprazer). 

Mas que, apesar do predicado (do prazer *próprio* ligado ‡ representação) ser 
empírico, contudo esses juízos no que concerne ao requerido assentimento *de 
qualquer* um, sejam *a priori* ou queiram ser considerados como tais, já está 
igualmente contido nas expressões da sua pretensão; e assim este  problema da 
*_crítica da faculdade do juízo* pertence ao :, problema geral da filosofia 
transcendental: como são possíveis juízos sintéticos *a priori*?

$ó37. Que é propriamente afirmado *a priori* de um objecto
 num juízo de gosto?

O facto de que a representação de um objecto seja ligada imediatamente a um 
prazer somente pode ser percebido internamente e, se não se quisesse denotar 
nada além disso, forneceria um simples juízo empírico. Pois não posso 
ligar *a priori* um conceito determinado (de prazer ou desprazer) a nenhuma 
representação, a não ser onde um princípio *a priori* determinante da vontade se
situar como fundamento na razão. Já que pois o prazer (em sentido moral) é a 
consequência desta determinação, ele não pode ser de modo algum comparado com o 
prazer no gosto, porque requer um conceito determinado 
de uma lei; contrariamente o prazer no gosto deve ser ligado 
imediatamente ao simples julgamento antes de todo o _õ150 conceito. Por isso 
também todos os juízos de gosto são juízos singulares, pois eles ligam o seu 
predicado do comprazimento, não a um conceito, mas a uma representação empírica
singular dada.

Portanto não é o prazer, mas a *validade universal deste prazer* que é percebida
como ligada no ânimo ao simples julgamento de um objecto, e que é representada 
*a priori* num juízo de gosto como regra universal para a faculdade do juízo e 
válida para qualquer um. … um juízo empírico o facto que eu perceba e ajuíze um 
objecto com prazer. … porém um juízo *a priori* que eu o considere belo, isto é 
que eu deva postular aquele comprazimento em qualquer um como necessário.

$ó38. Dedução dos juízos de gosto

Se se admite que num puro juízo de gosto o comprazimento no objecto esteja 
ligado ao simples julgamento da sua forma, então não resta senão a conformidade 
a fins subjectiva desta com respeito ‡ faculdade do juízo, a qual temos a 
sensação de estar ligada no ânimo ‡ :, representação do objecto. Ora, visto que 
a faculdade do juízo com respeito ‡s regras formais do julgamento e sem nenhuma 
matéria (nem sensação dos sentidos nem conceito), somente pode estar dirigida ‡s
condições _õ151 subjectivas do uso da faculdade do juízo em geral (que não está 
ordenada (a), nem ao particular modo de ser do sentido, nem a um particular 
conceito do entendimento), e consequentemente ‡quela condição subjectiva que se 
pode pressupor em todos os homens (como requerido para o conhecimento possível 
em geral):  assim a concordância de uma representação com estas condições da 
faculdade do juízo tem que poder ser admitida *a priori* como válida para 
qualquer um. Isto é, o prazer ou a conformidade a fins subjectiva da 
representação com respeito ‡ relação das faculdades de conhecimento no 
julgamento de um objecto sensível em geral pode ser com razão postulada a 
qualquer um (8).

(a) A: "limitada".

_õ152  Observação

Esta dedução é tão fácil porque ela não tem necessidade de justificar nenhuma 
realidade objectiva de um conceito; pois a beleza não é nenhum conceito do 
objecto e o juízo de gosto não é nenhum juízo de conhecimento. Ele afirma 
somente que estamos autorizados a pressupor universalmente em cada homem as 
mesmas condições subjectivas da faculdade do juízo que encontramos em nós, e 
ainda, que sob estas condições subsumimos correctamente o objecto dado. Ora, 
conquanto este ˙ltimo ponto contenha dificuldades inevitáveis, que não são 
inerentes ‡ faculdade de juízo lógica (porque nesta se subsume em conceitos, 
enquanto na faculdade de juízo estética se subsume numa relação 
­­ que meramente pode ser sentida ­­ da faculdade da imaginação e do 
entendimento reciprocamente concordantes entre si na forma representada do 
objecto, em cujo caso a subsunção facilmente pode enganar), porém com isso não 
se retira nada da legitimidade da pretensão da faculdade do juízo de contar 
com :, um assentimento universal, pretensão que semente decorre de julgar de um 
modo válido a correcção do princípio a partir de fundamentos subjectivos para 
qualquer um. Pois no que concerne ‡ dificuldade e ‡ d˙vida quanto ‡ correcção da
subsunção naquele princípio, ela torna tão­pouco duvidosa a legitimidade da 
pretensão a esta validade de um juízo estético em geral, por conseguinte o 
próprio princípio, quanto a igualmente errónea (embora não tão frequente e 
fácil) subsunção da faculdade de juízo lógica no seu princípio pode tornar 
duvidoso este princípio, que é objectivo. Se porém a questão fosse: como é 
possível admitir *a priori* a natureza como um complexo de objectos do gosto, 
então este problema _õ153 teria que ser considerado em relação ‡ teleologia 
porque teria que ser encarado como um fim da natureza ­­ que seria 
essencialmente inerente ao seu conceito ­­ o facto de apresentar formas 
conformes a fins para a nossa faculdade do juízo. Mas a correcção desta 
suposição é ainda muito duvidosa, enquanto a efectividade das belezas da 
natureza permanece aberta ‡ experiência.

$ó39. Da comunicabilidade de uma sensação

Quando a sensação, como o real da percepção, é referida ao conhecimento, ela 
chama­se sensação sensorial e o específico da sua qualidade pode ser 
representado como universalmente comunicável da mesma maneira, desde que se 
admita que qualquer um tenha um sentido igual ao nosso; mas isto não se pode 
absolutamente 
pressupor de uma sensação dos sentidos. Assim esta espécie de sensação não pode 
ser comunicada ‡quele a quem falta o sentido do olfacto; e mesmo quando este não
lhe falta não se pode contudo estar seguro de que ele tenha de uma flor 
exactamente a mesma sensação que nós temos. Mas mais diferentes ainda temos que 
nos representar os homens com respeito ao *agrado* ou *desagrado* na sensação do
mesmo objecto dos sentidos, e não se pode absolutamente pretender que o prazer 
em semelhantes objectos seja reconhecido por qualquer um. Pode­se chamar a esta 
espécie de prazer, o prazer do *gozo*, porque ele nos advém :, ao ânimo pelo 
sentido 
e nós neste caso somos portanto _õ154 passivos.

O comprazimento numa acção com vista ‡ natureza moral não é, contrariamente, 
nenhum prazer do gozo, mas da autoactividade e da sua conformidade ‡ ideia do
seu destino. Este sentimento que se chama moral, requer porém conceitos e não 
apresenta nenhuma conformidade a fins livre, mas sim legal, portanto não permite
também comunicar­se universalmente senão pela razão, isto é, se o prazer deve 
ser idêntico em qualquer um, por bem determinados conceitos práticos da razão.

O prazer no sublime da natureza, enquanto prazer da contemplação raciocinante, 
na verdade, reivindica também participação universal, mas já pressupõe um outro 
sentimento, a saber o do seu destino supra­sensível, o qual, por mais obscuro 
que possa ser, tem uma base moral. Não estou absolutamente autorizado a 
pressupor que outros homens tomem esse sentimento em consideração e encontrem na
contemplação da grandeza selvagem da natureza um comprazimento (que 
verdadeiramente não pode ser atribuído ao seu aspecto e que é antes 
aterrorizante). Todavia, considerando que em cada ocasião propícia se devesse 
ter em vista aquelas disposições morais, posso também postular em qualquer um 
aquele comprazimento, mas somente através da lei moral, que é por sua vez _õ155 
fundada sobre conceitos da razão.

Contrariamente, o prazer no belo não é um prazer do gozo, nem de uma
actividade legal, tão­pouco da contemplação raciocinante segundo ideias, 
mas um prazer da simples reflexão. Sem ter por guia qualquer fim ou princípio, 
este prazer acompanha a apreensão comum de um objecto pela faculdade da
imaginação enquanto faculdade da intuição, em relação com o entendimento como 
faculdade dos conceitos, mediante um procedimento da faculdade do juízo, o qual 
esta tem de exercer também com vista ‡ experiência mais comum; só que aqui 
ela é obrigada a fazê­lo para perceber um conceito objectivo empírico, lá porém 
(no julgamento estético) simplesmente para perceber a conveniência da 
representação com a ocupação harmónica (subjectivamente conforme a fins) 
de :, ambas as faculdades de conhecimento em sua liberdade, isto é ter a 
sensação de prazer do estado da representação. Em qualquer pessoa este 
prazer necessariamente tem que assentar sobre idênticas condições, porque 
elas são condições subjectivas da possibilidade de um 
conhecimento em geral, e a proporção destas faculdades de conhecimento, 
que é requerida para o gosto, também é exigida para o são e comum 
entendimento que se pode pressupor em qualquer. Justamente por isso 
também aquele que _õ156 julga com gosto (contanto que ele não se engane nesta 
consciência e não tome a matéria pela forma, o atractivo pela beleza)
pode postular em todo o outro a conformidade a fins subjectiva, isto é o
seu comprazimento no objecto, e admitir o seu sentimento como 
universalmente comunicável e na verdade sem mediação dos conceitos.

$ó 40. Do gosto como uma espécie de *sensus communis*

Frequentemente se dá ‡ faculdade do juízo, quando é perceptível, não tanto a sua
reflexão mas muito mais o seu resultado, o nome de um sentido, e fala­se de um 
sentido de verdade, de um sentido de conveniência, de justiça, etc.; conquanto 
sem d˙vida se saiba, pelo menos razoavelmente se deveria saber, que não é num 
sentido que estes conceitos podem ter a sua sede e menos ainda que um sentido 
tenha a mínima capacidade de se pronunciar sobre regras universais, mas que uma 
representação desta espécie sobre verdade, conveniência, beleza ou justiça 
jamais poderia vir­nos ao pensamento, se não pudéssemos elevar­nos sobre os 
sentidos até faculdades de conhecimento superiores. *_o sentimento humano 
comum*, que como entendimento simplesmente são (ainda não cultivado), é 
considerado o mínimo que sempre se pode esperar de alguém que pretende o nome de
homem, tem por isso também a honra humilhante de ser cunhado _õ157 com o nome de
senso comum (*sensus communis*); e na verdade (a) de tal modo que pelo termo 
comum (não é meramente na nossa língua, que isso efectivamente :,

(a) "na verdade" falta em A.

contém uma ambiguidade, mas também em várias outras) entende­se algo como o 
*vulgare*, que se encontra por toda a parte, e cuja posse absolutamente não é 
nenhum mérito ou vantagem.

Por *sensus communis*, porém, tem que se entender a ideia de um sentido 
*comunitário* \k*gemeinschaptlichen*_,, isto é de uma faculdade de julgamento, 
que na sua reflexão considera em pensamento (*a priori*) o modo de representação
de todo o outro, *como que* para ater o seu juízo ‡ inteira razão humana e assim
escapar ‡ ilusão que ­­ a partir de condições privadas subjectivas, as quais 
facilmente poderiam ser tomadas por objectivas ­­ teria influência prejudicial 
sobre o juízo. Ora, isso acontece pelo facto que atemos o nosso juízo a outros 
juízos não tanto efectivos e quanto muito antes meramente possíveis e transpomo­
nos para o lugar do outro, na medida em que simplesmente abstraímos das 
limitações que acidentalmente aderem ao nosso próprio julgamento: o que é por 
sua vez produzido pelo facto que na medida do possível se elimina aquilo que no 
(a) estado da representação é matéria, isto é sensação, e presta­se atenção pura
e simplesmente ‡s peculiaridades formais da sua representação ou do seu estado 
de representação. Ora, esta operação da reflexão talvez pareça ser 
demasiadamente _õ158 artificial para atribuí­la ‡ faculdade a que chamamos 
sentido *comum*; ela todavia só se parece assim se a expressarmos em fórmulas 
abstractas; em si nada é mais natural do que abstrair do atractivo e da comoção 
se se procura um juízo que deve servir de regra universal.

(a) A: "no nosso".

As seguintes máximas do entendimento humano comum na verdade não contam aqui 
como partes da crítica do gosto, e contudo podem servir para a elucidação dos 
seus princípios: 1. Pensar por si; 2. Pensar no lugar de todo o outro; 3. Pensar
sempre de acordo consigo próprio. A primeira é a máxima da maneira de pensar 
*livre de preconceito* (*_vorurteil*) (b), a segunda a 

(b) Em português, com a tradução do termo alemão *_vorarteil* (estruturalmente 
idêntico ao latino *prae­iudicium*) por "preconceito",
a referência ao juízo fica perdida. O dicionário alemão *_wabrig* define 
*_vorurtei*l como "uma opinião antecipada sem exame dos factos", o que nós 
poderíamos chamar juízo acrítico ou irreflectido ­­ um pré­juízo. Em português, 
"prejuízo" tem o sentido dominante, por assim dizer exclusivo, de dano, quando, 
ao invés em latim (cf. o grande dicionário latim­alemão *_georges*), este ˙ltimo
é apenas secundariamente o sentido do resultado (da desvantagem) de uma decisão 
preconcebida, isto é de um *prae­iudicium*. Querer reformar no português a 
tradução desse termo, tanto mais insatisfatória quanto se insere no âmbito de 
uma teoria do juízo, parece nesta altura como pretender remar contra a maré. E 
no entanto uma língua não deveria constituir­se somente a partir do uso, mas 
também da razão. Uma língua desprovida de razão, de acordo com Kant, cede ‡ 
heteronomia, isto é ao preconceito.

da maneira de :, pensar *alargada*, a terceira a da maneira de pensar 
*consequente*. A primeira é a máxima de uma razão jamais *passiva*. A tendência 
a esta, por conseguinte a heteronomia da razão, chama­se *preconceito*; e o 
maior de todos eles é representar a natureza como não submetida a regras que o 
entendimento pela sua própria lei essencial _õ159 lhe põe no fundamento, isto é 
a *superstição*. Libertação da superstição chama­se *_esclarecimento* (9), 
porque embora esta denominação também convenha ‡ libertação de preconceitos em 
geral, aquela contudo merece preferentemente (*in sensu eminenti*) ser 
denominada um preconceito, na medida em que a cegueira, em que a superstição 
coloca alguém e que até exige como obrigação, dá a conhecer principalmente a 
necessidade de ser guiado por outros, por conseguinte o estado de uma razão 
passiva. No que concerne ‡ segunda máxima da maneira de pensar, estamos até bem 
acostumados a chamar limitado (estreito, o contrário de *alargado*) ‡queles 
cujos talentos não alcançam nenhum grande uso (principalmente intensivo). 
Todavia aqui não se trata da faculdade de conhecimento, mas da *maneira de 
pensar*, fazendo dessa faculdade um uso conforme a fins \k*zweckmãssi*_,; a 
qual, por pequeno que também seja o âmbito e o grau que o dom natural do homem 
atinja, mesmo assim denota uma pessoa com *maneira de pensar alargada* quando 
ela não se importa com as condições privadas subjectivas do juízo, dentro das 
quais tantos outros estão como que postos entre :, parênteses, e reflecte sobre 
o seu juízo desde um ponto de *vista universal* (que ele somente pode determinar
enquanto se
_õ160 transpõe para o ponto de vista de outros). A terceira máxima, ou seja a da
maneira de pensar *consequente*, é a mais difícil de se alcançar e também só o 
pode pela ligação das duas primeiras e segundo uma observância reiterada da 
mesma, convertida em perfeição. Pode­se dizer: a primeira dessas máximas é a 
máxima do entendimento, a segunda a da faculdade do juízo, a terceira a da 
razão.

Eu retomo o fio abandonado por este episódio e digo que o gosto pode ser 
chamado, com maior direito que o são entendimento, *sensus communis*; e que a 
faculdade de juízo estética, de preferência ‡ intelectual, pode usar o nome de 
um sentido comunitário (10), se se quiser empregar o termo "sentido" como um 
efeito da simples reflexão sobre o ânimo, pois então se entende por sentido o 
sentimento de prazer. Poder­se­ia até definir o gosto pela faculdade de 
julgamento daquilo que torna o nosso sentimento, numa representação dada, 
*universalmente comunicável*, sem mediação de um conceito.

A aptidão do homem a comunicar os seus _õ161 pensamentos requer também uma 
relação da faculdade da imaginação e do entendimento, para remeter intuições a 
conceitos e por sua vez conceitos a intuições, que confluem num conhecimento; 
mas em tal caso a consonância de ambas as faculdades do ânimo é *legal*, sob a 
coerção de conceitos determinados. Somente onde a faculdade da imaginação em sua
liberdade desperta o entendimento e este sem conceitos transpõe a faculdade da 
imaginação para um jogo conforme a regras só aí a representação se comunica, não
como pensamento, mas como sentimento interno de um estado do ânimo conforme a 
fins.

Portanto o gosto é a faculdade de ajuizar *a priori* a comunicabilidade dos 
sentimentos que são ligados a uma representação dada (sem mediação de um 
conceito).

Se se pudesse admitir que a simples comunicabilidade universal do nosso 
sentimento já tem de comportar em si um interesse para nós (o que porém não se 
está autorizado a concluir a partir da natureza de uma :, faculdade de juízo 
meramente reflexiva), então poderíamos explicar a nós próprios a partir do que é
que o sentimento no juízo de gosto é atribuído como que um dever a qualquer um.

$ó41. Do interesse empírico pelo belo

Foi demonstrado suficientemente acima que o juízo de gosto, pelo qual algo é 
declarado belo, não tem que _õ162 possuir como *fundamento determinante* nenhum 
interesse. Mas disso não se segue que depois da sua apresentação como juízo 
estético não se possa ligar a ele nenhum interesse. Esta ligação porém sempre 
poderá ser somente indirecta, isto é o gosto tem que ser representado antes de 
mais nada como ligado a alguma outra coisa, para poder conectar­se ainda com o 
comprazimento da simples reflexão sobre um objecto um *prazer na existência* do 
mesmo (no qual consiste todo o interesse). Pois aqui no juízo estético vale algo
que é dito no juízo de conhecimento (sobre coisas em geral): *a posse ad esse 
non valet consequentia*. Ora esta outra coisa pode ser algo empírico, a saber 
uma inclinação que é própria da natureza humana, ou algo intelectual como 
propriedade da vontade de poder ser determinada *a priori* pela razão. Ambas 
contêm um comprazimento na existência de um objecto e assim podem colocar o 
fundamento de um interesse naquilo que já aprouve por si sem consideração de 
qualquer interesse.

Empiricamente o belo interessa somente em *sociedade*; e se se admite o instinto
‡ sociedade como natural ao homem, mas a aptidão e a propensão a ela, isto é a 
*sociabilidade*, como requisito do homem enquanto criatura destinada ‡ 
sociedade, portanto como propriedade _õ163 pertencente ‡ *humanidade*, então não
se pode também deixar de considerar o gosto como uma faculdade de julgamento de 
tudo aquilo pelo qual se pode comunicar até o seu *sentimento* a todos os 
outros, por conseguinte como meio de promoção daquilo que a inclinação natural 
de cada um 
reivindica. :,

Um homem abandonado numa ilha deserta não adornaria para si só, nem a sua 
choupana, nem a si próprio, nem procuraria flores, e muito menos as plantaria 
para se enfeitar com elas; mas só em sociedade lhe ocorre ser não simplesmente 
homem, mas também um homem fino ‡ sua maneira (o começo da civilização); pois 
como tal se ajuíza aquele que é inclinado e apto a comunicar o seu prazer a 
outros e ao qual um objecto não satisfaz, se não pode sentir o comprazimento no 
mesmo em comunidade com outros. Cada um também espera e exige de qualquer outro 
a consideração pela comunicação universal, como que a partir de um contrato 
originário que é ditado pela própria humanidade. E assim certamente de início 
somente atractivos, por exemplo cores para se pintar (*rocou* entre os 
caraibenhos e cinabre entre os iroqueses), ou flores, conchas, penas de pássaros
belamente coloridas, com o tempo porém também belas formas (como em canoas, 
vestidos, etc.), que não comportam absolutamente _õ164 nenhum deleite, isto é, 
comprazimento do gozo, em sociedade tornam­se importantes e ligados a grande 
interesse; até que finalmente a civilização, chegada ao ponto mais alto, faz 
disso quase a obra­prima da inclinação refinada, e sensações serão somente 
consideradas tão mais valiosas quanto elas permitem comunicar universalmente. 
Neste estádio, conquanto o prazer que cada um tem num tal objecto seja 
irrelevante e por si sem interesse visível, todavia a ideia da sua 
comunicabilidade universal aumenta quase infinitamente o seu valor.

Este interesse indirectamente aderente ao belo, mediante inclinação ‡ sociedade,
e por conseguinte empírico, não tem contudo aqui para nós nenhuma importância, a
qual somente vemos naquilo que possa referir­se *a priori*, embora só 
indirectamente, ao juízo de gosto. Pois se se devesse descobrir também nessa 
forma um interesse ligado ao belo, então o gosto descobriria uma passagem da 
nossa faculdade de julgamento do gozo dos sentidos ao sentimento moral; e desse 
modo não somente se estaria melhor orientado para cultivar o gosto conformemente
a fins, mas também se apresentaria um termo médio da cadeia das faculdades 
humanas *a priori*, das quais tem :, de depender toda a legislação. Pode­se 
dizer do interesse empírico por objectos do gosto e pelo próprio gosto que, pelo
facto de que este se entrega ‡ inclinação, por refinada _õ166 que ela ainda 
possa ser, deixa­se de bom grado confundir com todas as inclinações e paixões 
que alcançam na sociedade a sua máxima diversidade e o seu mais alto grau, e o 
interesse pelo belo, quando está fundado sobre ele, pode fornecer somente uma 
passagem muito equívoca do agradável ao bom. Temos razão para investigar se esta
passagem não pode ser contudo promovida pelo gosto, quando ele é tomado na sua 
pureza.

$ó42. Do interesse intelectual pelo belo

Foi com as melhores intenções que aqueles que de bom grado quiseram dirigir 
todas as ocupações dos homens para o fim ˙ltimo da humanidade, ou seja o 
moralmente bom, ‡s quais a disposição interna da natureza os impele, 
consideraram um sinal de um carácter moral bom tomar um interesse pelo belo em 
geral. Não sem razão foi­lhes todavia contestado por outros, que apelam ao facto
da experiência, que virtuosos do gosto são não só mais vezes, mas até 
habitualmente vaidosos, caprichosos, entregues a perniciosas paixões, e talvez 
pudessem ainda menos que outros reivindicar o privilégio da afeição a princípios
morais; e assim parece que o sentimento pelo belo é não apenas especificamente 
(como também de facto) distinto _õ166do sentimento moral, mas que ainda o 
interesse que se pode ligar ‡quele é dificilmente compatível com o interesse 
moral e de modo algum compatível por afinidade interna.

Ora, na verdade concedo de bom grado que o interesse pelo *belo da arte* (entre 
o qual conto também o uso artificial das belezas da natureza para o adorno, por 
conseguinte para a vaidade), não fornece absolutamente nenhuma prova de uma 
maneira de pensar afeiçoada ao moralmente bom ou sequer inclinada a ele. 
Contrariamente porém afirmo que tomar um *interesse imediato* pela beleza da 
natureza (não simplesmente ter gosto para ajuizá­la) é sempre um sinal de uma 
alma boa; e que se este interesse é habitual e se liga de bom grado ‡ 
*contemplação :, da natureza*, ele denota pelo menos uma disposição do ânimo 
favorável ao sentimento moral. Mas é preciso recordar­se bem que aqui 
propriamente tenho em mente as *formas* belas da natureza, e contrariamente, 
ponho ainda de lado *os atractivos* que ela também cuida de ligar tão ricamente 
‡quelas, porque o interesse por eles na verdade é também imediato, mas contudo 
empírico.

Aquele que contempla solitariamente (e sem intenção de comunicar a outros as 
suas observações) a figura bela de uma flor selvagem, de um pássaro, de um 
insecto, etc., para admirá­los, amá­los, sem querer privar­se deles na natureza 
em geral, mesmo que isso lhe implicasse algum dano e, muito menos, se 
distinguisse nisso uma vantagem para ele, toma um interesse imediato e na 
verdade _õ167 intelectual pela beleza da natureza. Isto é, não apenas o seu 
produto lhe apraz segundo a forma, mas também a sua existência, sem que um 
atractivo dos sentidos tivesse participação nisso ou também ligasse a isso 
qualquer fim.
… todavia digno de nota, que se alguém tivesse enganado secretamente esse amante
do belo e tivesse espetado na terra flores artificiais (que se podem 
confeccionar bem parecidas ‡s naturais), ou se tivesse posto sobre ramos de 
árvores pássaros entalhados artificialmente, e ele então descobrisse a fraude, o
interesse imediato que antes tomava por esse objectos logo desapareceria, mas 
talvez se apresentasse em seu lugar um outro, ou seja o interesse da vaidade de 
decorar com eles o seu quarto para olhos estranhos. O pensamento de que a 
natureza produziu aquela beleza, tem que acompanhar a intuição e a reflexão; e 
unicamente sobre ele se funda o interesse imediato que nisso se toma. De 
contrário resta ou um simples juízo de gosto sem nenhum interesse, ou somente um
juízo ligado a um interesse mediato, ou seja referido ‡ sociedade, o qual não 
fornece nenhuma indicação segura de uma maneira de pensar moralmente boa.

Esta prerrogativa da beleza da natureza face ‡ beleza da arte (embora aquela até
fosse sobrepujada por esta _õ168 quanto ‡ forma) de todavia despertar sozinha um
interesse imediato, concorda com a purificada e profunda :,
maneira de pensar de todos os homens que cultivaram o seu sentimento moral. Se 
uma pessoa que tem gosto suficiente para julgar sobre produtos da arte bela com 
a máxima correcção e finura, de bom grado abandona o quarto no qual se encontram
aquelas belezas que entretêm a vaidade e quando muito as alegrias de ordem 
social, e se volta para o belo da natureza para encontrar aqui como que vol˙pia 
para o seu espírito num curso de pensamento que ele jamais pode desenvolver 
completamente para si, então nós próprios contemplaremos essa sua escolha com 
veneração e pressuporemos nela uma alma bela, a qual nenhum versado em arte e 
seu amante pode reclamar com vista ao interesse que ele toma pelos seus 
objectos. ­­ Qual é pois a diferença desta avaliação tão diversa de duas 
espécies de objectos, que no juízo do simples gosto mal disputariam entre si a 
vantagem?

Nós temos uma faculdade de juízo simplesmente estética, de julgar sem conceitos 
sobre formas e encontrar no simples julgamento das mesmas um comprazimento que 
ao mesmo tempo tornamos regra para qualquer um, sem que este juízo se funde 
sobre um interesse nem o produza. ­­ Por outro lado temos também uma faculdade 
de juízo intelectual, de determinar *a priori* para _õ169 simples formas de 
máximas práticas (enquanto elas se qualificam espontaneamente a uma legislação 
universal) um comprazimento que tornamos lei para qualquer um, sem que o nosso 
juízo se funde sobre qualquer interesse, *mas contudo produz um tal interesse*. 
O prazer ou desprazer no primeiro juízo chama­se o prazer do gosto, o segundo o 
do sentimento moral.

Mas visto que ‡ razão também interessa que as ideias (pelas quais ela produz um 
interesse imediato no sentimento moral) tenham por sua vez realidade objectiva, 
isto é que a natureza pelo menos mostre um vestígio ou nos avise que ela contém 
em si algum fundamento para admitir uma concordância legal dos seus produtos com
o nosso comprazimento, independente de todo o interesse (o qual reconhecemos *a 
priori* como lei para qualquer um, sem poder fundar esta sobre provas), assim a 
razão tem que tomar um interesse por toda a manifestação da :, natureza acerca 
de uma semelhante concordância; em consequência disso o ânimo não pode reflectir
sobre a beleza da *natureza*, sem se encontrar ao mesmo tempo interessada a esse
propósito. Este interesse porém é, pela sua afinidade, moral; e aquele que toma 
um tal interesse pelo belo da natureza somente pode tomá­lo na medida em que já 
tenha fundado solidamente o seu interesse no moralmente bom. Portanto naquele a 
quem a beleza da natureza interessa imediatamente temos motivo para supor _õ170 
pelo menos uma disposição para a atitude moral boa.

Dir­se­á que esta interpretação dos juízos estéticos sobre a base de um 
parentesco com o sentimento moral parece demasiado estudada para 
considerá­la a verdadeira exegese da linguagem cifrada pela qual a natureza em 
suas belas formas nos fala figuradamente. Em primeiro lugar, contudo, este 
interesse imediato pelo belo da natureza não é efectivamente comum, mas somente 
próprio daqueles cuja maneira de pensar já foi treinada para o bem, ou é 
eminentemente receptiva a esse treinamento; e a seguir a analogia entre o juízo 
de gosto puro, que sem depender de qualquer interesse permite sentir um 
comprazimento e ao mesmo tempo a representa *a priori* como conveniente ‡ 
humanidade em geral, e o juízo moral, que faz o mesmo a partir de conceitos, 
conduz, mesmo sem uma reflexão clara, subtil e deliberada, a um igual interesse 
imediato pelo objecto de ambos; só que aquele é um interesse livre e este um 
interesse fundado sobre leis objectivas. A isso se acresce a admiração da 
natureza, que se mostra em seus belos produtos como arte, não simplesmente por 
acaso, mas por assim dizer intencionalmente, segundo uma ordenação conforme a 
leis e como conformidade a fins sem fim; este, como não o encontramos 
exteriormente em lugar nenhum, _õ171 procuramo­lo naturalmente em nós próprios e
na verdade naquilo que constitui o fim ˙ltimo da nossa existência, a saber o 
destino moral (mas a investigação do fundamento da possibilidade de uma tal 
conformidade a fins da natureza somente será tratada na teleologia).

O facto de no juízo de gosto puro o comprazimento na bela arte não estar ligado 
a um interesse imediato do :, mesmo modo que o comprazimento na natureza bela, é
também fácil de explicar. Pois a arte bela ou é uma imitação desta a ponto de 
chegar ao engano: e então ela produz o efeito de (ser tida por) uma beleza da 
natureza; ou ela é uma arte visível e intencionalmente dirigida ao nosso 
comprazimento: mas neste caso o comprazimento nesse produto na verdade ocorreria
através do gosto, e não despertaria senão um interesse mediato pela causa que se
situaria no fundamento, a saber por uma arte que somente pode interessar pelo 
seu fim, jamais em si mesma. Dir­se­á talvez que este também é o caso quando um 
objecto da natureza interessa pela sua beleza somente na medida em que lhe é 
associada um ideia moral; mas não é isto que interessa imediatamente, mas sim a 
natureza dela em si mesma, o facto que ela se qualifica para uma tal associação 
que por isso lhe convém internamente.

Os atractivos na natureza bela, que tão _õ172 frequentemente são encontrados 
como que amalgamados com a forma bela, pertencem ou ‡s modificações da luz (na 
coloração) ou ‡s do som (em tons). Pois estas são as ˙nicas sensações que não 
permitem simplesmente um sentimento sensorial \k/_sinnengef¸hl*_,, mas também 
reflexão sobre a forma destas modificações dos sentidos, e assim contêm com que 
uma linguagem que a natureza nos dirige e que parece ter um sentido superior. 
Assim a cor branca dos lírios parece dispor o ânimo para ideias de inocência e, 
segundo a ordem das sete cores da vermelha até a violeta: 1. ‡ ideia da 
sublimidade; 2. da audácia; 3. da franqueza; 4. da amabilidade; 5. da modéstia; 
6. da constância; e 7. da ternura. O canto dos pássaros anuncia alegria e 
contentamento com a sua existência. Pelo menos interpretamos assim a natureza, 
quer seja essa a sua intenção quer não. Mas este interesse que aqui tomamos pela
beleza necessita absolutamente que se trate de beleza da natureza, e ele 
desaparece completamente tão logo se note que se é enganado e que se trata 
somente de arte, a ponto que mesmo o gosto em tal caso não pode encontrar nisso 
mais nada de belo, ou a vista mais nada de atraente. Que é mais altamente 
apreciado pelos poetas do que o :, fascinantemente belo canto do rouxinol em 
bosques solitários, numa plácida noite de Verão ‡ luz suave da lua? No entanto 
tem­se exemplos de que, onde nenhum desses _õ173 cantores é encontrado, algum 
jocoso hospedeiro, para contentar maximamente os hóspedes por si alojados, para 
o gozo dos ares do campo, os tenha iludido escondendo numa moita um rapaz 
travesso que sabia imitar de modo totalmente semelhante ‡ natureza esse canto 
(com um junco ou tubo na boca). Tão logo porém a gente se dê conta que se trata 
de fraude, ninguém suportará ouvir por longo tempo esse canto antes tido por tão
atraente, e o mesmo se passa com qualquer outra ave canora. Tem que tratar­se da
natureza, ou ser tida por nós como tal, para que possamos tomar um *interesse* 
imediato no belo enquanto tal; tanto mais assim é porém se pretendermos que 
outros devam interessar­se por ele; o que na verdade ocorre na medida em que 
consideramos grosseira e vulgar a maneira de pensar daqueles que não têm nenhum 
*sentimento* pela natureza bela (pois assim denominamos a receptividade de um 
interesse pela sua contemplação) e que ‡ refeição ou na bebida se atêm ao gozo 
de simples sensações dos sentidos.

$ó43. Da arte em geral

1) A arte distingue­se da *natureza*, como o fazer _õ174 (*facere*) se distingue
do agir ou actuar em geral (*agere*), e o produto ou a consequência da primeira,
enquanto *obra* (*opus*), distingue­se da ˙ltima como efeito (a) (*effectus*).

(a) Kant joga aqui com os termos *wirken* (actuar), *_werk* (obra) e *_wirkung* 
(efeito).

De direito dever­se­ia chamar arte somente ‡ produção mediante liberdade, isto é
mediante um arbítrio que põe a razão no fundamento das suas acções. Pois embora 
nos agrade denominar o produto das abelhas (os favos de cera construídos 
regularmente) uma obra de arte, isto contudo ocorre somente devido ‡ analogia 
com esta; tão logo nos recordemos que elas não fundam o seu trabalho sobre 
nenhuma ponderação racional própria, dizemos :,
imediatamente que se trata de um produto da sua natureza (do instinto), enquanto
a arte é atribuída somente ao seu criador.
Se na escavação de um poço pantanoso se encontra, como ‡s vezes já ocorreu, um 
pedaço de madeira talhada, então não se diz que ele é um produto da natureza, 
mas da arte; a sua causa produtora imaginou um fim ao qual isso deve a sua 
forma. Além disso se vê também de bom grado uma arte em tudo o que é feito de 
modo que uma representação do mesmo tenha que ter precedido, na sua causa, a sua
realidade efectiva (como até entre as abelhas), sem que contudo o efeito 
justamente devesse ter sido *pensado* pela causa; se porém se denomina algo 
absolutamente uma obra de arte, para distingui­la de um efeito da natureza, 
então entende­se _õ175 sempre por isso uma obra dos homens.

2) A *arte* enquanto habilidade do homem também se distingue da *ciência* (*o 
poder* \kKõnnen_, distingue­se do *saber*), assim como a faculdade prática se 
distingue da faculdade teórica e como a técnica se distingue da teoria (como a 
agrimensura se distingue da geometria). E neste caso também não é precisamente 
denominado arte aquilo que se *pode*, tão logo apenas se *saiba* o que deva ser 
feito e portanto se conheça suficientemente apenas o efeito desejado. Nesta 
medida somente pertence ‡ arte aquilo que, embora o conheçamos da maneira mais 
completa, todavia nem por isso possuímos imediatamente a habilidade de fazê­lo. 
*_camper* (a) descreve muito precisamente de que modo o melhor sapato teria de 
ser confeccionado, mas ele com certeza não podia fazer nenhum (11).

(a) *_camper*, Petrus (1722­1789), anatomista holandês.

3) A arte distingue­se também do *ofício*; a primeira chama­se *arte livre*, a 
outra pode também chamar­se *arte remunerada*. Olha­se a primeira como se ela 
puder ter êxito (ser bem sucedida) conforme a um fim somente enquanto jogo, isto
é ocupação que é agradável por si própria; olha­se a segunda enquanto trabalho, 
isto é :, ocupação que por si própria é desagradável (penosa) e é _õ176 atraente
somente pelo seu efeito (por exemplo pela remuneração), que por conseguinte pode
ser imposta coercivamente. A questão, se na escala das profissões os relojoeiros
devem ser considerados como artistas e contrariamente os ferreiro s como arte 
sãos , requer um ponto de vista do julgamento diverso daquele que tomamos aqui, 
a saber a proporção dos talentos que têm de situar­se no fundamento de uma ou 
outra destas profissões. Sobre a questão se entre as chamadas sete artes livres 
não teriam podido ser contadas também algumas que são atribuíveis ‡s ciências e 
algumas outras que são comparáveis a ofícios, não quero aqui referir. Não é 
inoportuno lembrar que em todas as artes livres se requer todavia algo coercivo 
ou, como se diz, um *mecanismo*, sem o qual o *espírito*, que na arte tem de ser
*livre* e o qual *unicamente* vivifica a obra, não teria absolutamente nenhum 
corpo e volatilizar­se­ia integralmente (por exemplo na poesia a correcção e a 
riqueza da linguagem, igualmente a prosódia e a métrica), já que alguns mais 
recentes pedagogos crêem promover da melhor maneira uma arte livre quando 
eliminam dela toda a coerção e a convertem de trabalho em simples jogo.

$ó44. Da bela arte
Não há nem uma ciência do belo, mas somente crítica, _õ177 nem uma ciência bela,
mas somente bela arte. Pois no que concerne ‡ primeira, deveria então ser 
decidido nela cientificamente, isto é por argumentos, se algo deve ser tido por 
belo ou não; portanto se o juízo sobre a beleza pertencesse ‡ ciência, ele não 
seria nenhum juízo de gosto. No que concerne ao segundo aspecto, uma ciência que
como tal deve ser bela é um contra­senso. Pois se nela como ciência se 
perguntasse por razões e provas, ser­se­ia despachado com frases de bom gosto 
(*bon­mots*). ­­ O que ocasionou a expressão habitual *ciências belas* não foi 
sem d˙vida outra coisa que o ter­se observado bem correctamente que para a bela 
arte em sua inteira perfeição se requer muita ciência, como por exemplo o 
conhecimento :,
de línguas antigas, conhecimento literário de autores que são considerados 
clássicos, história, conhecimento das antiguidades, etc., e por isso estas 
ciências históricas, pelo facto de constituírem a preparação necessária e a base
para a bela arte, em parte também porque nesse conceito foi compreendido mesmo o
conhecimento dos produtos da mesma (oratória e poesia), por um equívoco 
terminológico foram mesmo chamadas ciências belas.

Se a arte, de um modo adequado ao *conhecimento* de um objecto possível, 
simplesmente executa as acções requeridas para torná­lo efectivo, é arte 
*mecânica*; se porém ela tem por intenção imediata o sentimento de _õ178 prazer,
chama­se arte *estética*. Esta é ou arte *agradáve*l ou *bela* arte. Ela é a 
primeira se o seu fim é que o prazer acompanhe as representações enquanto 
simples *sensações*; é a segunda, se o seu fim é que o prazer as acompanhe 
enquanto *modos de conhecimento*.

Artes agradáveis são aquelas que têm em vista simplesmente o gozo; são de tal 
espécie todos os atractivos que podem deleitar a sociedade ‡ mesa: narrar 
entretendo, levar os comensais a uma conversação franca e viva, dispÙ­la pelo 
chiste e o riso a um certo tom de jovialidade no qual, como se diz, se pode 
tagarelar a torto e a direito e ninguém quer ser responsável sobre o que fala, 
porque se está disposto somente para o entretimento momentâneo e não para uma 
matéria sobre a qual se deva demorar para reflectir ou repetir. (A isto pertence
também a maneira como a mesa está arranjada para o gozo, ou em grandes banquetes
a m˙sica de mesa: uma coisa singular, que deve entreter, somente como um rumor 
agradável, a disposição dos ânimos ‡ alegria e, sem que alguém conceda ‡ sua 
composição a mínima atenção, favorece a livre conversação entre um vizinho e 
outro). A isso pertencem ulteriormente todos os jogos que não comportam nenhum 
interesse para além de deixar passar imperceptivelmente o tempo.

Bela arte ao contrário é um modo de representação que é por si própria conforme 
a fins e, embora sem fim, todavia promove a cultura das faculdades do ânimo ‡ 
_õ179 comunicação em sociedade. :,

A comunicabilidade universal de um prazer já envolve no seu conceito que o 
prazer não tem que ser um prazer do gozo a partir de simples sensação, mas um 
prazer da reflexão; e assim a arte estética é, enquanto arte bela, uma arte que 
tem por padrão de medida a faculdade de juízo reflexiva e não a sensação 
sensorial.

$ó45. Bela arte e uma arte enquanto ao mesmo tempo parece ser natureza

Face a um produto da bela arte temos que tomar consciência que ele é arte e não 
natureza. Todavia a conformidade a fins na forma do mesmo tem que parecer tão 
livre de toda a coerção de regras arbitrárias, como se ele fosse um produto da 
simples natureza. Sobre este sentimento de liberdade no jogo das nossas 
faculdades de conhecimento, que tem que ser pois ao mesmo tempo conforme a fins,
assenta aquele prazer que unicamente é universalmente comunicável, sem contudo 
se fundar sobre conceitos. A natureza era bela se ela ao mesmo tempo parecia ser
arte; e a arte somente pode ser denominada bela se temos consciência de que ela 
é arte e que _õ180 ela apesar disso nos parece ser natureza.

Com efeito quer se trate da beleza da natureza ou da arte, podemos dizer de um 
modo geral: *belo é aquilo que apraz no simples julgamento* (não na sensação 
sensorial nem mediante um conceito). Ora, a arte tem sempre uma determinada 
intenção de produzir algo. Se este porém fosse uma simples sensação (algo 
simplesmente subjectivo) que devesse ser acompanhada de prazer, então este 
produto somente agradaria no julgamento mediante o sentimento dos sentidos. Se a
intenção estivesse voltada para a produção de um determinado objecto, então, no 
caso de ela ser alcançada pela arte, o objecto aprazeria somente através de 
conceitos. Em ambos os casos porém a arte não aprazeria *no simples julgamento*,
isto é não enquanto arte bela mas como arte mecânica.

Portanto, embora a conformidade a fins no produto da arte bela na verdade seja 
intencional, ela contudo não :, tem que parecer intencional; isto é a bela arte 
tem que *passar por natureza*, conquanto na verdade tenhamos consciência dela 
como arte. Um produto de arte porém aparece como natureza pelo facto que na 
verdade foi encontrada toda a *exactidão* no acordo com regras segundo as quais 
unicamente o produto pode tornar­se aquilo que ele deve ser, mas sem *esforço*, 
sem que transpareça (a) a forma escolástica, isto é sem mostrar um vestígio de 
que a regra tenha pairado diante do artista e tenha algemado as faculdades do 
ânimo.

(a) "sem que transpareça a forma escolástica", acréscimo de B.

_õ181  $ó46. Bela arte é arte do génio

*_génio* é o talento (dom natural) que dá a regra ‡ arte. Já que o próprio 
talento enquanto faculdade produtiva inata do artista pertence ‡ natureza, 
também se poderia expressar assim: *_génio* é a inata disposição do ânimo 
(*ingenium*), *pela qual* a natureza dá a regra ‡ arte.
Seja o que se passe com esta definição e quer seja ela simplesmente arbitrária 
ou adequada ao conceito que se está habituado a ligar ‡ palavra *génio* (o que 
deve ser discutido no próximo parágrafo), pode­se não obstante demonstrar já de 
antemão que, segundo a aqui admitida significação da palavra, belas­artes 
necessariamente têm que ser consideradas como artes do *génio*.

Pois cada arte pressupõe regras, através de cuja fundamentação pela primeira vez
um produto, se ele deve chamar­se artístico, é representado como possível. O 
conceito de bela arte porém não permite que o juízo sobre a beleza do seu 
produto seja deduzido de qualquer regra que tenha um *conceito* como fundamento 
determinante, _õ182 por conseguinte que ponha no fundamento um conceito te: da 
maneira como ele é possível. Portanto a própria bela arte não pode ter ideia da 
regra segundo a qual ela deva realizar o seu produto. Ora, visto que contudo sem
uma regra precedente um produto jamais se pode chamar arte, assim a natureza do 
sujeito (e pela disposição da :, faculdade do mesmo) tem que dar a regra ‡ arte,
isto é a bela arte é possível somente como produto do génio.
Daqui se vê que o génio: 1) é um *talento* para produzir aquilo para o qual não 
se pode fornecer nenhuma regra determinada, e não uma disposição de habilidade 
para o que possa ser aprendido segundo qualquer regra; 
consequentemente que a *originalidade* tem que ser a sua primeira propriedade; 
2) que, visto que também pode haver uma extravagância original, os seus produtos
têm que ser ao mesmo tempo modelos, isto é *exemplares*; por conseguinte eles 
próprios não surgiram por imitação e, têm que servir a outros como padrão de 
medida ou regra de julgamento; 
3) que ele próprio não pode descrever ou (a) indicar cientificamente como 
realiza o seu produto, mas que, como *natureza*, fornece a regra; e por isso o 
próprio autor de um produto, que ele deve ao seu génio, não sabe como para isso 
as ideias se encontram nele e tão­pouco tem em seu poder imaginá­las arbitrária 
ou planeadamente e comunicá­las a outros em tais prescrições, que as põem em 
condição de produzir produtos homogéneos. (Eis porque presumivelmente a palavra 
génio foi _õ183 derivada de *genius*, o espírito peculiar, protector e guia, 
dado conjuntamente a um homem por ocasião do nascimento, e de cuja inspiração 
aquelas ideias originais procedem); 4) que a natureza através do génio prescreve
a regra não ‡ ciência, mas ‡ arte, e isto também somente na medida em que esta 
˙ltima deve ser bela arte.

(a) "descrever ou", acréscimo de B.

$ó47. Elucidação e confirmação da precedente explicação do génio

Qualquer um concorda que o génio se opõe totalmente ao *espírito de imitação*. 
Ora, visto que aprender não é senão imitar, assim a máxima aptidão ou docilidade
em aprender (capacidade) enquanto tal não pode absolutamente ser considerada 
génio. Se porém nós mesmos também pensamos ou imaginamos e não simplesmente 
apreendemos o que outros pensaram, e até descobrimos :, algo no campo da arte e 
ciência, esta contudo não é ainda a razão correcta para chamar *génio* a uma tal
(frequentemente grande) *cabeça* [em oposição ‡quela que, pelo facto (a) de 
jamais poder algo mais que simplesmente aprender e imitar, se denomina um 
*pateta*].

(a) Forma dada por Kiesewetter ‡ frase de Kant, na correcção das provas da 
primeira edição, conforme sua carta a Kant de 03­03­1790. Vorlãnder, na sua 
edição da *_kd_u*, reintroduziu a forma menos clara do manuscrito de Kant (v. p.
162).

Pois justamente isso também teria *podido* ser aprendido e portanto situa­se no 
caminho natural do investigar e reflectir segundo regras e não se distingue 
especificamente do que com aplicação pode ser adquirido mediante a imitação. 
Assim se pode bem aprender tudo o _õ184 que *_newton* expÙs na sua obra imortal 
*_princípios da Filosofia Natural*, por grande que fosse a cabeça que a 
descoberta de tais coisas exigia; mas não se pode aprender a escrever com 
engenho, por mais minuciosos que possam ser todos os preceitos da arte poética e
por mais excelentes que possam ser os meus modelos. A razão é que Newton poderia
mostrar, não somente a si próprio mas a qualquer outro e seus sucessores, de 
modo totalmente intuitivo e determinado, todos os passos que ele tinha a dar 
desde os primeiros elementos da geometria até ‡s suas grandes e profundas 
descobertas; mas nenhum *_homero* ou *_wieland* pode indicar como as suas ideias
imaginosas, e contudo ao mesmo tempo cheias de pensamento, surgem e se re˙nem na
sua cabeça, porque ele mesmo não o sabe e portanto também não o pode ensinar a 
nenhum outro. No campo científico, portanto, o maior descobridor distingue­se 
somente em grau do mais laborioso imitador e aprendiz, contrariamente distingue­
se especificamente daquele que a natureza dotou para a arte bela. Entretanto não
há nisso nenhuma depreciação daqueles grandes homens, aos quais o género humano 
tanto deve, em confronto com os preferidos pela natureza relativamente ao seu 
talento para a arte bela. Justamente no facto que aquele talento é feito para 
a :,
perfeição sempre maior e crescente dos conhecimentos e de toda a utilidade, que 
deles depende, e igualmente para a instalação de outros nos mesmos 
conhecimentos, reside uma grande vantagem dos primeiros face ‡queles que
_õ185 merecem a honra de chamar­se génios; porque para estes a arte cessa em 
qualquer parte, na medida em que lhe é posto um limite além do qual ela não pode
avançar e que presumivelmente também já foi alcançado há tempo e não pode mais 
ser ampliado; e além disso uma tal habilidade tão­pouco se deixa comunicar, mas 
ao querer ser outorgada a cada um imediatamente pela mão da natureza, morre 
portanto com ele, até que a natureza em contrapartida dote igualmente um outro, 
que não necessite mais que um exemplo para deixar actuar de modo semelhante o 
talento do qual ele é consciente.

Já que o dom natural tem de dar a regra ‡ arte (enquanto arte bela), de que 
espécie é pois esta regra? Ela não pode ser surpreendida numa fórmula e servir 
como preceito; pois de contrário o juízo sobre o belo seria determinável segundo
conceitos; mas a regra tem que ser abstraída do acto, isto é do produto, no qual
outros queiram testar o seu próprio talento, para deixarem servir­se daquele 
enquanto modelo, não da *cópia*, mas da *imitação* (a). … difícil explicar como 
isto seja possível. As ideias do artista provocam ideias semelhantes no 
aprendiz, se a natureza o proveu com uma proporção semelhante de faculdades do 
ânimo. Os modelos da arte bela são por isto os ˙nicos meios de orientação para 
conduzir a arte ‡ posteridade; o que não poderia ocorrer por simples _õ186 
descrições (principalmente no ramo das artes do discurso) e também nestas 
somente podem tornar­se clássicos os modelos em línguas antigas, mortas e agora 
conservadas apenas como línguas cultas.

(a) "Cópia" e "imitação" são expressões devidas a Kiesewetter na sua aludida 
revisão. No manuscrito de Kant constou Nachahmuag ... Nachahmung (imitação ... 
imitação). Kant teria querido escrever Nachahmung ... Nachfolge (imitação ... 
sucessão).

Conquanto arte mecânica e arte bela sejam muito distintas entre si, a primeira 
enquanto simples arte da :, diligência e da aprendizagem, a segunda enquanto 
arte do génio, não há nenhuma arte bela na qual algo mecânico, que pode ser 
captado e seguido segundo regras, e portanto algo *escolástico*, não constitua a
condição essencial da arte. Pois neste caso algo tem que ser pensado como fim, 
de contrário não se pode atribuir o seu produto a absolutamente nenhuma arte; 
seria um simples produto do acaso. Mas para pÙr um fim em acção são requeridas 
determinadas regras, das quais não se pode dispensar­se. Ora, visto que a 
originalidade do talento constitui um (mas não o ˙nico) aspecto essencial do 
carácter do génio, pessoas superficiais crêem que não poderiam mostrar melhor 
que seriam génios florescentes do que quando renunciam ‡ coerção escolar de 
todas as regras e acreditam que se desfile melhor sobre um cavalo desvairado do 
que sobre um cavalo treinado. O génio pode somente fornecer uma *matéria* rica 
para produtos da arte bela; a elaboração da mesma e a *forma* requerem um 
talento moldado pela escola, para fazer dele uso que possa ser justificado 
perante a faculdade do juízo. Se porém _õ187 alguém fala e decide como um génio 
até em assuntos da mais cuidadosa investigação da razão, então torna­se 
completamente ridículo; não se sabe bem se se deve rir mais do impostor que 
difunde tanto fumo em torno de si e em que não se pode ajuizar nada claramente, 
mas muito mais se imagina, ou se se deve rir mais do p˙blico, que candidamente 
imagina que a sua incapacidade de reconhecer e captar claramente a obra­prima da
perspiciência provem de que verdades novas lhe são lançadas ‡s mãos cheias e 
contra o que a min˙cia (através de explicações pontuais e exame sistemático dos 
princípios) lhe parece ser somente obra de ignorante.

$ó48. Da relação do génio com o gosto

Para o julgamento de objectos belos enquanto tais requer­se *gosto*, mas para a 
própria arte, isto é para a *produção* de tais objectos, requer­se *génio*.
Se se considera o génio como o talento para a arte bela (que a significação 
peculiar da palavra implica) e em :, vista disso se quer desmembrá­lo nas 
faculdades que têm que convergir para constituir um tal talento, é necessário 
determinar antes com exactidão a distinção entre a beleza _õ188 da natureza, 
cujo julgamento requer somente gosto, e a beleza da arte, cuja possibilidade 
(que também tem que ser considerada no julgamento de um tal objecto) requer 
génio.

Um beleza da natureza é uma *coisa bela*; a beleza da arte é uma *representação 
bela* de uma coisa.

Para ajuizar uma beleza da natureza enquanto tal não preciso ter antes um 
conceito daquilo que um objecto deva ser; isto é, não preciso conhecer a 
conformidade a fins material (o fim), pelo contrário a simples forma, sem 
conhecimento do fim, apraz por si própria no julgamento. Se porém o objecto é 
dado como um produto da arte e como tal deve ser declarado belo, então tem que 
ser posto antes no fundamento um conceito daquilo que a coisa deva ser, porque a
arte sempre pressupõe um fim na causa (e na sua causalidade); e visto que a 
consonância do m˙ltiplo numa coisa com vista a uma determinação interna da mesma
enquanto fim é a perfeição da coisa, assim no julgamento da beleza da arte tem 
que ser tida em conta ao mesmo tempo a perfeição da coisa, que no julgamento de 
uma beleza da natureza (enquanto tal) não entra absolutamente em questão. ­­ Na 
verdade, no julgamento _õ189 principalmente dos objectos animados da natureza, 
por exemplo do homem ou de um cavalo, é habitualmente tomada também em 
consideração a conformidade a fins objectiva para julgar sobre a beleza dos 
mesmos; porém então o juízo também deixa de ser puramente estético, isto é um 
simples juízo de gosto. A natureza não é mais ajuizada como ela aparece enquanto
arte, mas na medida em que ela *é* efectivamente arte (embora sobre­humana); e o
juízo teleológico serve ao juízo estético como fundamento e condição que este 
tem que tomar em consideração. Num tal caso ­­ por exemplo quando se diz: "esta 
é uma mulher bonita" ­­também não se pensa senão isto: a natureza representa 
belamente na sua figura os fins na estatura feminina; com efeito tem que se 
estender a vista para além da simples forma até um conceito, :, para que o 
objecto seja desta maneira pensado através de um juízo estético logicamente 
condicionado.

A arte bela mostra a sua preeminência precisamente no facto que ela descreve 
belamente as coisas que na natureza seriam feias ou desaprazíveis. As f˙rias, 
doenças, devastações da guerra, etc., enquanto coisas danosas (a) podem ser 
descritas muito belamente, até mesmo ser representadas em pinturas; somente uma 
espécie de feiura não pode ser representada de acordo com a natureza sem deitar 
por terra todo o comprazimento estético, por conseguinte a beleza da arte: a 
saber, a _õ190 fealdade que desperta *asco*. Pois, porque nesta sensação 
peculiar, que assenta na mera imaginação, o objecto é representado como se ele 
se impusesse ao gozo, ao qual contudo resistimos com violência, assim a 
representação artística do objecto não se distingue mais, na nossa sensação, da 
natureza deste próprio objecto, e então é impossível que aquela seja tomada como
bela. Também a escultura exclui das suas figurações a representação imediata de 
objectos feios, porque nos seus produtos a arte é como que confundida com a 
natureza, e em vez disso permite representar por exemplo a morte (num belo ando 
tutelar), o valor guerreiro (em Marte), por uma alegoria ou atributos que se 
apresentam prazenteiramente, por conseguinte só indirectamente mediante uma 
interpretação da razão e não por uma faculdade de juízo meramente estética.
(a) "enquanto coisas danosas", acréscimo de B.

Tanto basta acerca da representação bela de um objecto, a qual é propriamente só
a forma da apresentação de um conceito, pela qual este é comunicado 
universalmente. ­­ Mas para dar esta forma ao produto da arte bela requer­se 
simplesmente gosto, ao qual o artista, depois de o ter exercitado e corrigido 
através de diversos exemplos da arte ou da natureza, atém a sua obra e para o 
qual encontra, depois de muitas tentativas frequentemente laboriosas para 
satisfazê­lo, aquela forma que o contenta: por isso esta não é como que uma 
questão de inspiração ou de um ímpeto livre das faculdades do ânimo, :, _õ191 
mas de uma remodelação lenta e até mesmo penosa para torná­la adequada ao 
pensamento, sem todavia prejudicar a liberdade no jogo daquelas faculdades.

O gosto é porém simplesmente uma faculdade de julgamento e não uma faculdade 
produtiva, e o que lhe é conforme nem por isso é uma obra de arte bela; pode ser
um produto pertencente ‡ arte ˙til e mecânica ou até mesmo ‡ ciência segundo 
determinadas regras que podem ser aprendidas e têm que ser rigorosamente 
seguidas. Mas a forma prazenteira que se lhe dá é somente o veículo da 
comunicação e uma maneira por assim dizer da exposição, com respeito ‡ qual em 
certa medida ainda se permanece livre, embora ela de resto esteja comprometida 
com um determinado fim. Assim se reivindica que o serviço de mesa ou também um 
tratado moral e mesmo um sermão tenha que conter esta forma da arte bela, sem 
entretanto parecer *procurada*; mas nem por isso a elas se chamará obras da arte
bela. Entre estas porém se conta uma poesia, uma m˙sica, uma galeria de pinturas
e outras; e assim se pode perceber, numa obra que deve ser de arte bela, 
frequentemente um génio sem gosto, e numa outra um gosto sem génio.

_õ192  $ó49. Das faculdades do ânimo que constituem o génio

Diz­se de certos produtos, dos quais se esperaria que devessem pelo menos em 
parte mostrar­se como arte bela: eles são sem *espírito*, embora no que concerne
ao gosto não se encontre neles nada censurável. Uma poesia pode ser 
verdadeiramente graciosa e elegante, mas é sem espírito. Uma história é precisa 
e ordenada, mas sem espírito. Um discurso festivo é profundo e requintado, mas 
sem espírito. Muita conversação não carece de entretimento, mas é contudo sem 
espírito; até de uma mulher se diz: ela é bonita, comunicativa e correcta, mas 
sem espírito. Que é, pois que se entende aqui por espírito?

*_espírito*, num sentido estético significa o princípio vivificante no ânimo. 
Aquilo porém pelo qual este princípio vivifica a alma, o material que ele 
utiliza para isso, é o que conformemente a fins, põe em movimento :,
as faculdades do ânimo, isto é um jogo que se mantém por si próprio e fortalece 
ainda as faculdades para o mesmo.

Ora, eu afirmo que este princípio não é nada mais que a faculdade da 
apresentação de *ideias estéticas*; por uma ideia estética entendo porém aquela 
representação da faculdade da imaginação que dá muito que pensar, sem que 
contudo qualquer pensamento determinado, isto é _õ193 *conceito*, possa ser­lhe 
adequado, representação que consequentemente nenhuma linguagem alcança 
inteiramente nem pode tornar compreensível. ­­ Vê­se facilmente que ela é a 
contrapartida \k*_pendant*_, de uma *ideia da razão*, que inversamente é um 
conceito ao qual nenhuma *intuição* (representação da faculdade da imaginação) 
pode ser adequada.

A faculdade da imaginação (enquanto faculdade de conhecimento produtiva), é 
mesmo muito poderosa na criação como que de uma outra natureza a partir da 
matéria que a natureza efectiva lhe dá. Nós entretemo­nos com ela sempre que a 
experiência nos pareça demasiadamente trivial; também a remodelamos de bom 
grado; na verdade sempre ainda segundo leis analógicas, mas contudo também 
segundo princípios, que se situam mais acima na razão (e que nos são tão 
naturais como aqueles segundo os quais o entendimento apreende a natureza 
empírica); neste caso sentimos a nossa liberdade da lei da associação (a qual é 
inerente ao uso empírico daquela faculdade), de modo que segundo essa lei na 
verdade tomamos emprestada da natureza a matéria, a qual porém pode ser 
reelaborada por nós para algo diverso (a), a saber para aquilo que ultrapassa a 
natureza.

(a) A: "para algo totalmente diverso e que ultrapassa a natureza". A edição da 
Academia optou pela manutenção desta versão da 1.a edição.

Tais representações da faculdade da imaginação podem chamar­se *ideias*, em 
parte porque elas pelo menos aspiram a algo situado acima dos limites da 
experiência _õ194 e assim procuram aproximar­se de uma apresentação dos 
conceitos da razão (das ideias intelectuais), o que lhes dá :, a aparência de 
uma realidade objectiva; por outro lado, e na verdade principalmente, porque 
nenhum conceito lhes pode ser plenamente adequado enquanto intuições internas. O
poeta ousa tornar sensíveis ideias racionais de entes invisíveis, o reino dos 
bem­aventurados, o reino do inferno, a eternidade, a criação, etc.; ou também 
aquilo que na verdade encontra exemplos na experiência, por exemplo a morte, a 
inveja e todos os vícios, do mesmo modo o amor, a glória, etc., transcendendo as
barreiras da experiência, mediante uma faculdade da imaginação que procura 
competir com o jogo \k*_vorspiel*_, da razão no alcance de um máximo, ele 
procura tornar sensível numa completude para a qual não se encontra nenhum 
exemplo na natureza; e é propriamente na poesia que a faculdade de ideias 
estéticas pode mostrar­se na sua inteira medida. Esta faculdade, porém, 
considerada somente em si mesma é propriamente só um talento (da faculdade da 
imaginação).

Ora, se for submetida a um conceito uma representação da faculdade da 
imaginação, que pertence ‡ sua apresentação, mas por si só dá tanto que pensar 
que jamais deixa compreender­se num conceito determinado e por conseguinte 
amplia esteticamente o próprio conceito de maneira ilimitada, então a faculdade 
da imaginação é criadora e põe em movimento a faculdade de ideias intelectuais 
(a razão), ou seja para pensar, por ocasião de
_õ195 uma representação (o que na verdade pertence ao conceito do objecto), mais
do que nela pode ser apreendido e tornado (a) claro.

(a) A: "pensado".

Aquelas formas que não constituem a apresentação de um dado conceito, ele mesmo,
mas somente expressam, enquanto representações secundárias da faculdade da 
imaginação, as consequências conectadas com elas e o parentesco do conceito com 
outros, são chamados *atributos* (estéticos) de um objecto, cujo conceito 
enquanto ideia da razão não pode ser apresentado adequadamente. Assim a águia de
J˙piter com o relâmpago nas garras é um atributo do poderoso rei do céu, e o 
pavão da esplêndida :, rainha do céu. Eles não representam, como os *atributos 
lógicos*, aquilo que se situa nos nossos conceitos da sublimidade e majestade da
criação, mas algo diverso, que dá ensejo ‡ faculdade da imaginação de alastrar­
se por um grande n˙mero de representações afins, que permitem pensar mais do que
se pode expressar num conceito determinado por palavras; e fornecem uma *ideia 
estética*, que substitui a apresentação lógica para aquela ideia da razão, no 
fundo porém para vivificar o ânimo, enquanto o abre a esta a perspectiva de um 
campo incalculável de representações afins. A arte bela porém não procede deste 
modo somente na pintura ou na escultura (onde se usa habitualmente o nome dos 
atributos); a poesia e a retórica também retiram o espírito, que vivifica a suas
obras, _õ196unicamente dos atributos estéticos dos objectos que acompanham os 
atributos lógicos e impulsionam a faculdade da imaginação a, nesse caso, pensar,
embora de modo não desenvolvido, mais do que se deixa compreender num conceito, 
por conseguinte numa expressão linguística determinada. ­­ Para ser breve tenho 
que me limitar a somente poucos exemplos.

Quando o grande rei assim se expressa numa poesia:

Oui, finissons sans trouble, et mourons sans regrets,
En laissant l'_univers comblé de nos bienhaits.
Ainsi l'_astre du jour, au bout de sa carriËre,
Repand sur l'horizan une douce lumiËre.
Et les derniers royons qu'il darde dans les airs,
Sont les deraiers soupirs qu'il doune ‡ l'_univers. (a)

(a) Kant apresentou no texto uma tradução alemã desses versos franceses de 
Frederico II (*_oeuvres de Frédéric le Grand*, x, 203).

­­ então ele vivifica ainda, ao fim da vida, a sua ideia racional de intenção 
cosmopolita mediante um atributo que a faculdade da imaginação (na recordação de
todas as amenidades de um passado belo dia de Verão, que um sereno entardecer 
evoca ao nosso ânimo) associa ‡quela representação e que provoca um grande 
n˙mero de sensações e representações secundárias, para as quais não se encontra 
nenhuma expressão. Por outro lado, até um :,
conceito intelectual pode inversamente servir como atributo de uma representação
dos sentidos e assim vivificar esta ˙ltima através da ideia do supra­sensível, 
mas somente mediante o uso do elemento estético, que é _õ197 subjectivamente 
inerente ‡ consciência do supra­sensível. Assim diz por exemplo um certo poeta 
na descrição de uma bela manhã: "Nascia o sol, como a tranquilidade nasce da 
virtude" (a). A consciência da virtude, se a gente se põe, mesmo que só em 
pensamento, no lugar de uma pessoa virtuosa, difunde no ânimo um grande n˙mero 
de sentimentos sublimes e tranquilizantes e uma visão ilimitada de um futuro 
feliz, que nenhuma expressão que seja adequada a um conceito determinado alcança
inteiramente (12).

(a) Verso proveniente das *_akademischen Gedichten* de J. Ph. Withof (Leipzig, 
1782).

Numa palavra, a ideia estética é uma representação da faculdade da imaginação 
associada a um conceito dado, a qual se liga a uma tal multiplicidade de 
representações parciais no uso livre das mesmas, que não se pode encontrar para 
ela nenhuma expressão que denote um conceito determinado, que portanto permite 
pensar de um conceito muita coisa inexprimível, cujo sentimento vivifica as 
faculdades de conhecimento, e insufla espírito ‡ _õ198 linguagem enquanto 
simples letra.

Portanto, as faculdades do ânimo, cuja reunião (em certas relações) constitui o 
*génio*, são as da imaginação e do entendimento. Só que, visto que no seu uso 
para o conhecimento a faculdade da imaginação está submetida ‡ coerção do 
entendimento e ‡ limitação de ser adequada ao conceito do mesmo, e que do ponto 
de vista estético contrariamente a faculdade da imaginação é livre para 
fornecer, além daquela concordância com o conceito, ainda espontaneamente, uma 
matéria rica e não elaborada para o entendimento, a qual este no seu conceito 
não considerou e a qual ele porém emprega, não tanto objectivamente para o 
conhecimento, mas mais subjectivamente para a vivificação das faculdades de 
conhecimento, indirectamente portanto também para conhecimentos; assim :, o 
génio consiste na feliz relação, que nenhuma ciência pode ensinar e nenhuma 
diligência pode aprender, de encontrar ideias para um conceito dado e por outro 
lado de encontrar para elas a *expressão* pela qual a disposição subjectiva do 
ânimo daí resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser 
comunicada a outros. O ˙ltimo talento é propriamente aquilo que se denomina 
espírito; pois expressar o inefável, no estado do ânimo por ocasião de uma certa
representação, e torná­lo universalmente comunicável ­­ quer a expressão 
consista na linguagem; na pintura ou na arte plástica ­­ requer uma faculdade de
_õ199 apreender o jogo fugaz da faculdade da imaginação e reuni­lo num conceito 
que permite comunicar­se sem coerção de regras (a) (justamente por isso é 
original e ao mesmo tempo inaugura uma nova regra, que não pÙde ser inferida de 
quaisquer princípios ou exemplos anteriores).

(a) "de regras" falta em A.
_õ_õ_õ

Se depois destas análises lançamos um olhar retrospectivo sobre a explicação 
dada acima acerca do que se denomina *génio*, encontramos: *primeiro* que ele é 
um talento para a arte, não para a ciência, a qual tem que ser precedida por 
regras claramente conhecidas que têm que determinar o seu procedimento; 
*segundo* que como talento artístico ele pressupõe um conceito determinado do 
produto como fim, por conseguinte entendimento, mas também uma representação (se
bem que indeterminada) da matéria, isto é da intuição, para a apresentação deste
conceito, por conseguinte uma relação da faculdade da imaginação ao 
entendimento; *terceiro* que ele se mostra não tanto na realização do fim 
proposto na exibição de um *conceito* determinado, mas muito mais na exposição 
ou expressão de *ideias estéticas*, que contêm uma rica matéria para aquele fim,
por conseguinte ele representa a faculdade da imaginação na sua liberdade 
relativamente a toda a instrução das regras e no entanto como conforme a fins :,
para a exibição do conceito dado; finalmente, *quarto*, que a subjectiva 
conformidade a fins espontânea e não _õ200 intencional, na concordância livre da
faculdade da imaginação com a legalidade do entendimento, pressupõe uma tal 
proporção e disposição destas faculdades, como nenhuma observância de regras, 
seja da ciência ou da imitação mecânica, pode efectuar, mas simplesmente a 
natureza do sujeito pode produzir.

De acordo com estes pressupostos, o génio é a originalidade exemplar do dom 
natural de um sujeito no uso *livre* das suas faculdades de conhecimento. Deste 
modo o produto de um génio (de acordo com o que nele é atribuível ao génio e não
ao possível aprendizado ou ‡ escola) é um exemplo não para a imitação (pois 
neste caso o que aí é génio e constitui o espírito da obra perder­se­ia), mas 
para sucessão por um outro génio, que por este meio é despertado para o 
sentimento da sua própria originalidade, exercitando na arte uma tal liberdade 
em relação ‡ coerção de regras, que a própria arte obtém por este meio uma nova 
regra, pela qual o talento se mostra como exemplar. Mas, visto que o génio é um 
favorito da natureza, que somente se pode considerar como aparição rara, assim o
seu exemplo produz para outras boas cabeças uma escola, isto é um ensinamento 
metódico segundo regras, na medida em que se tenha podido extrai­lo daqueles 
produtos do espírito e da sua peculiaridade; e nesta medida a arte bela é para 
estes uma imitação para _õ201 a qual a natureza deu, através de um génio, a 
regra. Mas aquela imitação torna­se *macaquice*, se o aluno *copia* tudo, até 
aquilo que enquanto deformidade o génio somente teve que conceder, porque não 
podia eliminá­la sem enfraquecer a ideia. Unicamente num génio esta coragem é 
mérito; e uma certa audácia na expressão e em geral algum desvio da regra comum 
fica­lhe bem, mas de nenhum modo é digno de imitação, permanecendo em si sempre 
um erro que se tem que procurar extirpar, para o qual porém o génio é como que 
privilegiado, já que o inimitável do seu ímpeto espiritual sofreria sob uma 
precaução receosa. O *maneirismo* é uma outra espécie de macaquice, ou seja da 
simples *peculiaridade* :, (originalidade) em geral, para distanciar­se o mais 
possível dos imitadores, sem contudo possuir o talento para ser ao mesmo tempo 
*exemplar*. ­­ Na verdade há na exposição dois modos (*modus*) em geral de 
composição dos seus pensamentos, um dos quais chama­se maneira (*modus 
aestheticus*) e o outro, *método* (*modus logicus*), que se distinguem entre si 
no facto que o primeiro modo não possui nenhum outro padrão que o *sentimento* 
da unidade na apresentação, enquanto que o outro segue *princípios* 
determinados; para a arte bela vale portanto só o primeiro modo. Um produto de 
arte chama­se *amaneirado* _õ202 unicamente se a apresentação da sua ideia 
*visar* nele a singularidade e não for adequada ‡ ideia. O ostentoso (precioso),
o forçado e o afectado, somente para se distinguirem do comum (mas sem 
espírito), são semelhantes ao comportamento daquele, do qual se diz que se ouve 
a si próprio ou que pára e anda como se estivesse sobre um palco para ser olhado
boquiaberto, o que sempre trai um charlatão.

Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997
Primeiro Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo
Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia

Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d. 21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

__isbn 972­27­0506­7

$ó50. Da ligação do gosto com o génio em produtos da bela arte

Perguntar­se o que importa mais em assuntos da bela arte, que neles se mostre 
génio ou se mostre gosto, equivaleria a perguntar­se se neles importa mais a 
imaginação do que a faculdade do juízo. Ora, visto que uma arte em relação ao 
génio merece ser antes chamada uma arte *rica de espírito*, mas unicamente em 
relação ao gosto ela merece ser chamada uma bela arte, assim este ˙ltimo é, pelo
menos, enquanto condição indispensável (*conditio sine qua non*), o mais 
importante que se tem de considerar no julgamento da arte como bela arte. Ser 
rico e original em ideias não é tão necessário para a beleza quanto a 
conformidade daquela faculdade da imaginação, _õ203 em sua liberdade, ‡ 
legalidade do entendimento. Pois toda a riqueza da primeira faculdade não 
produz, na sua liberdade sem leis, senão disparates; a faculdade do juízo ao 
contrário é a faculdade de ajustá­la ao entendimento. :,

O gosto é, assim como a faculdade do juízo em geral, a disciplina (ou educação) 
do génio; corta­lhe muito as asas e torna­o morejado e polido; ao mesmo tempo, 
porém, dá­lhe uma direcção sobre o que e até onde ele deve estender­se para 
permanecer conforme a fins; e na medida em que ele introduz clareza e ordem na 
profusão de pensamentos, torna as ideias consistentes, capazes de uma aprovação 
duradoura e ao mesmo tempo universal, da sucessão de outros e de uma cultura 
sempre crescente. Se portanto no conflito de ambas as espécies de propriedades 
algo deve ser sacrificado num produto, então isto terá que ocorrer antes do lado
do génio; e a faculdade do juízo, que sobre assuntos da bela arte profere a 
sentença a partir de princípios próprios, permitirá prejudicar antes a liberdade
e a riqueza da faculdade da imaginação do que o entendimento.

Portanto, para a arte bela requerer­se­iam *faculdade da imaginação, 
entendimento, espírito* e *gosto­* (13).

_õ204 $ó51. Da divisão das belas­artes

Pode­se em geral denominar a beleza (quer ela seja beleza da natureza ou da 
arte) de *expressão* de ideias estéticas, só que na bela arte esta ideia tem que
ser ocasionada por um conceito do objecto, na natureza bela porém a simples 
reflexão sobre uma intuição dada, sem conceito do que o objecto deva ser, é 
suficiente para despertar e comunicar a ideia, da qual aquele objecto é 
considerado a *expressão*.

Portanto, se queremos dividir as belas­artes, não podemos pelo menos como 
tentativa escolher para isso nenhum princípio mais cómodo do que o da analogia 
da arte com o modo de expressão, da qual os homens se servem no falar para se 
comunicarem entre si tão perfeitamente quanto possível, isto é não simplesmente 
segundo _õ205 conceitos mas também segundo as suas sensações (14). ­­ Este modo 
de expressão consiste na *palavra*, no *gesto*, e no *tom* (articulação, 
gesticulação e modulação). Somente a ligação deste três modos de expressão 
constitui a comunicação :, completa do falante. Pois pensamento, intuição e 
sensação são simultânea e unificadamente transmitidos aos outros.

Há pois somente três espécies de belas­artes: as *elocutivas*, as *figurativas* 
e a arte do *jogo das sensações* (enquanto impressões externas dos sentidos). 
Poder­se­ia ordenar esta divisão também dicotomicamente, de modo que a bela arte
seria dividida na da expressão dos pensamentos ou das intuições, e esta por sua 
vez simplesmente segundo a sua forma ou sua matéria (da sensação). Todavia ela 
pareceria então demasiado abstracta e não tão adequada aos conceitos comuns.

1) As artes *elocutivas* são *eloquência* e *poesia*. *_eloquência* é a arte de 
exercer um ofício do entendimento como um jogo livre da faculdade da imaginação;
poesia é a arte de executar um jogo livre da faculdade da imaginação como um 
ofício do entendimento.

O *orador* portanto anuncia um ofício e executa­o como se fosse simplesmente um 
*jogo* com ideias para entreter os ouvintes. O *poeta* simplesmente anuncia um 
*jogo* que entretém com ideias e do qual contudo se manifesta tanta _õ206 coisa 
para o entendimento, como se ele tivesse simplesmente tido a intenção de 
estimular o seu ofício. A ligação e harmonia de ambas as faculdades de 
conhecimento, da sensibilidade e do entendimento, que na verdade não podem 
dispensar­se uma ‡ outra, mas tão­pouco permitem de bom grado unificar­se sem 
coerção e ruptura recíproca, tem que parecer não­intencional e assim parecer 
conformar­se espontaneamente; de contrário não é *bela* arte. Por isso todo o 
afectado e penoso tem que ser aí evitado, pois a bela arte tem que ser arte 
livre num duplo sentido: tanto no sentido de que ela não seja um trabalho 
enquanto actividade remunerada, cuja magnitude possa ser julgada, imposta ou 
paga segundo um determinado padrão de medida, como também no sentido de que o 
ânimo na verdade se sinta ocupado, mas, sem com isso ter em vista um outro fim, 
se sinta pois (independentemente de remuneração) satisfeito e despertado.

Portanto, o orador na verdade dá algo que ele não promete, a saber um jogo que 
entretém a imaginação; mas ele também rompe com algo que ele promete e que é 
pois :, o seu anunciado ofício, a saber ocupar convenientemente o entendimento. 
O poeta, ao contrário, promete pouco e anuncia um simples jogo com ideias, porém
realiza algo que é digno de um ofício, ou seja proporcionar ludicamente alimento
para o entendimento e mediante a faculdade da imaginação dar vida aos seus 
conceitos: por conseguinte aquele no fundo realiza menos, e este mais do que 
_õ207 promete (a).

(a) "por conseguinte ... promete" falta em A.

2) As artes *figurativas* ou as da expressão por ideias na *intuição dos 
sentidos* (não por representações da simples faculdade da imaginação, que são 
excitadas por palavras) são ou as da *verdade dos sentidos* ou as da *aparência 
dos sentidos*. A primeira chama­se *plástica*, a segunda *pintura*. Ambas formam
figuras no espaço para a expressão para ideias: aquela dá a conhecer figuras por
dois sentidos, a vista e o tacto (embora pelo ˙ltimo não com vista ‡ beleza), a 
pintura somente pela vista. A ideia estética (*archetypon*, modelo) encontra­se 
no fundamento de ambas na faculdade da imaginação; porém a figura que constitui 
a expressão das mesmas (*ektypon*, cópia) é dada ou na sua extensão corporal 
(como o próprio objecto existe) ou segundo o modo como esta se pinta no olho 
(segundo a sua aparência numa superfície); ou, então, embora se trate também do 
primeiro caso, ou a referência a um fim efectivo ou somente a aparência dele é 
tornada condição da reflexão.
*_‡ plástica*, como primeira espécie de artes belas figurativas, pertencem a 
*escultura* e a *arquitectura*. A *primeira* é aquela que apresenta 
corporalmente conceitos de coisas como elas *poderiam existir na natureza* 
(todavia enquanto bela arte com vista ‡ conformidade a fins estética); a 
*segunda* é a arte de apresentar conceitos de
_õ208 coisas que *somente são possíveis pela arte*, e cuja forma não tem como 
fundamento determinante a natureza mas um fim arbitrário, com este propósito 
contudo ao mesmo tempo esteticamente conforme a fins. Na ˙ltima o principal é um
certo *uso* do objecto artístico a cuja condição as ideias estéticas são 
limitadas. Na primeira, o objectivo :,
principal é a simples expressão de ideias *estéticas*. Assim estátuas de homens,
deuses, animais, etc., são da primeira espécie; mas templos ou edifícios 
sumptuosos para fins de assembleias p˙blicas, ou também casas, arcos 
honoríficos, colunas, mausoléus, etc., erigidos como monumentos comemorativos 
pertencem ‡ arquitectura. Com efeito, todo os utensílios caseiros (o trabalho do
marceneiro e outras coisas semelhantes para o uso) podem ser aí contados, porque
a conformidade do produto a um certo uso constitui o essencial de uma obra de 
*construção*; contrariamente uma simples *obra de figuração* que é feita apenas 
para ser olhada e deve aprazer por si própria, enquanto apresentação corporal é 
simples imitação da natureza, atendendo porém a ideias estéticas: então a 
*verdade dos sentidos* não pode ir tão longe ao ponto de deixar de aparecer como
arte e produto do arbítrio.

A arte *pictórica*, como segunda espécie de artes _õ209 figurativas que 
apresenta a *aparência dos sentidos* como artisticamente ligada a ideias, eu 
dividi­la­ia em arte da *descrição* bela *da natureza* e em arte da *composição*
bela dos seus *produtos*. A primeira seria a *verdadeira pintura*, a segunda a 
*jardinagem*. Pois a primeira dá só a aparência da extensão corporal; a segunda,
sem d˙vida a dá de acordo com a verdade, mas dá somente a aparência de 
utilização e uso para outros fins, enquanto simplesmente destinada ao jogo da 
imaginação na contemplação de suas formas (15). A ˙ltima não é outra coisa que a
decoração do solo com a mesma variedade (relvas, flores, arbustos _õ210 e 
árvores, mesmo riachos, colinas e vales) com que a natureza o expõe ao olhar, 
somente composto de modo diverso e conformemente a certas ideias. Mas a bela 
composição de coisas corporais também é dada somente para o olho, como a 
pintura; o sentido do tacto não pode obter nenhuma representação intuitiva de 
tal forma. Na pintura em sentido amplo eu incluiria ainda a ornamentação dos 
aposentos com tapeçarias, adereços e toda a bela mobilação, que serve só para *a
vista*; do mesmo modo, a arte da indumentária segundo o gosto (anéis, 
tabaqueiras, etc.). Pois um canteiro com toda a espécie de flores, um aposento 
com toda a espécie de adornos :,  (compreendido entre eles mesmo o luxo das 
senhoras), constituem numa festa sumptuosa uma espécie de pintura, que, como a 
propriamente dita (que por assim dizer não tem a intenção de *ensinar* história 
ou conhecimento da natureza), está ai simplesmente para ser vista, para entreter
a faculdade da imaginação no jogo livre com ideias e ocupar a faculdade do juízo
estética sem um fim determinado. O saber técnico em todo esse ornamento pode ser
mecânicamente muito distinto e requerer artistas totalmente diversos; todavia o 
juízo de gosto sobre o que nessa arte é belo é sob esse aspecto determinado 
uniformemente: a saber, ajuizar somente as formas (sem consideração de um fim) 
da maneira como se oferecem ao olho, individualmente ou na sua composição 
segundo o efeito que elas produzem sobre a faculdade da imaginação. ­­ O modo 
porém como a arte figurativa possa ser computada como _õ211 gesticulação numa 
linguagem (segundo a analogia) é justificado pelo facto que o espírito do 
artista dá através dessas figuras uma expressão corporal daquilo que pensou e 
como ele pensou e faz a própria coisa como que falar mimicamente; o que é um 
jogo muito habitual da nossa fantasia, que atribui a coisas sem vida, em 
conformidade ‡ sua forma, um espírito que fala a partir delas.

3) A arte do *belo jogo das sensações* (as quais são geradas externamente e que 
contudo tem que poder comunicar­se universalmente) não pode respeitar senão ‡ 
proporção dos diversos graus da disposição (tensão) do sentido ao qual a 
sensação pertence, isto é ao seu som; e nesta significação ampla do termo ela 
pode ser dividida no jogo artístico das sensações (a), do ouvido e da vista, por
conseguinte em *m˙sica* e *arte das cores*. ­­ … digno de nota que estes dois 
sentidos, com excepção da receptividade para sensações, na medida do que é 
requerido para obter por intermédio delas conceitos de objectos exteriores, são 
ainda capazes de uma sensação particular ligada a eles, sobre a qual não se pode
decidir com certeza se ela tem por fundamento o sentido ou a reflexão; e que 
esta afectibilidade não 

(a) A: "jogo com o tom da sensação".

obstante pode por vezes faltar :, embora de resto o sentido, no que concerne ao 
seu uso para o conhecimento dos objectos, não é absolutamente falho, mas até 
especialmente fino. Isto é, não se pode dizer _õ212 com certeza se uma cor ou um
tom (som) são simplesmente sensações agradáveis, ou se já é em si um jogo belo 
de sensações e se como tal traz consigo, no julgamento estético, um 
comprazimento na forma. Se se considera a rapidez das vibrações da luz ou, na 
segunda espécie, das vibrações do ar, que ultrapassa de longe toda a nossa 
faculdade de ajuizar imediatamente na percepção a proporção da divisão do tempo 
por elas, então dever­se­ia acreditar que somente o *efeito* desses 
estremecimentos sobre as partes elásticas de nosso corpo é sentido, mas que a 
*divisão do tempo* pelos mesmos não é notada e trazida a julgamento, por 
conseguinte que com cores e tons só se liga o agrado e não a beleza da sua 
composição. Mas se, contrariamente, se considera, *primeiro*, o matemático que 
na m˙sica e no seu julgamento se deixa expressar sobre a proporção dessas 
vibrações, e se ajuíza o contraste das cores, como é justo, segundo a analogia 
com a ˙ltima; segundo, se se consultam os exemplos, conquanto raros, de homens 
que com a melhor vista não puderam distinguir as cores do mundo e com o ouvido 
mais apurado não puderam distinguir os sons, do mesmo modo como, para aqueles 
que o podem, a percepção de _õ213 uma qualidade alterada (não simplesmente do 
grau de sensação) nas diversas intensidades da escala de cores ou sons, e além 
disso o facto que o n˙mero das mesmas é determinado para diferenças concebíveis:
assim poderíamos ver­nos coagidos a não considerar as sensações de ambos como 
simples impressão dos sentidos, mas como efeito de um julgamento da forma no 
jogo de muitas sensações. A diferença que uma ou outra opinião oferece no 
julgamento do fundamento da m˙sica somente mudaria a definição no facto de que a
explicamos ou, como nós fizemos, como o jogo belo das sensações (pelo ouvido) ou
como sensações agradáveis. Somente de acordo com o primeiro modo de explicação a
m˙sica é representada inteiramente como bela arte, de acordo com o segundo, 
porém, como arte agradável (pelo menos em parte). :,

$ó52. Da ligação das belas­artes num e mesmo produto

A eloquência pode ligar­se a uma apresentação pictórica dos seus tipos, assim 
também como dos seus objectos num *espectáculo*, a poesia pode ligar­se ‡ m˙sica
no *canto*, este porém ao mesmo tempo ‡ apresentação pictórica (teatral) numa 
*ópera*, o *jogo* das sensações numa m˙sica pode ligar­se ao jogo das figuras na
*dança*, etc. Também a apresentação do sublime, na medida em que pertence ‡ bela
arte, pode unificar­se com a beleza numa _õ214 *tragédia rimada*, num *poema 
didáctico*, num *oratório*; e nessas ligações a bela arte é ainda mais 
artística: se porém também mais bela (já que se entrecruzam espécies diversas 
tão variadas de comprazimento) pode nalguns desses casos ser posto em d˙vida. 
Pois em toda a bela arte o essencial consiste na forma, que convém ‡ observação 
e ao julgamento e cujo prazer é ao mesmo tempo cultura e dispõe o espírito para 
ideias, por conseguinte o torna receptivo a prazeres e entretimentos diversos; 
não consiste na matéria da sensação (no atractivo ou na comoção), disposta 
apenas para o gozo, o qual não deixa nada ‡ ideia, torna o espírito embotado, o 
objecto pouco a pouco (a) repugnante e o ânimo insatisfeito consigo e instável, 
pela consciência da sua disposição adversa a fins no juízo da razão.

(a) "pouco a pouco* falta em A.

Se as belas­artes não forem próxima ou remotamente postas em ligação com ideias 
morais, que unicamente comportam um comprazimento independente, então o seu 
destino final é este ˙ltimo. Elas então servem somente para a dispersão, da qual
sempre nos tornamos tanto mais carentes quanto mais nos servimos dela para 
afugentar o descontentamento do ânimo consigo próprio, pelo facto de tornar­nos 
sempre ainda mais in˙teis e descontentes connosco próprios. Em geral as belezas 
da natureza são o mais profícuo para o primeiro objectivo, se cedo nos _õ215 
habituamos a observá­las, ajuizá­las e admirá­las. :,

$ó53. Comparação do valor estético das belas­artes entre si

Entre todas as artes a *poesia* (que deve sua origem quase totalmente ao génio e
é a que menos quer ser guiada por prescrição ou exemplos) ocupa a posição mais 
alta. Ela alarga o ânimo pelo facto de pÙr em liberdade a faculdade da 
imaginação e de oferecer dentro dos limites de um conceito dado, sob a 
multiplicidade ilimitada de formas possíveis concordantes com ele, aquela que 
conecta a apresentação daquele com uma profusão de pensamentos, ‡ qual nenhuma 
expressão linguística é inteiramente adequada, e portanto se eleva esteticamente
‡s ideias. Ela fortalece o ânimo enquanto permite sentir a sua faculdade livre, 
espontânea e independente da determinação da natureza, para contemplar e ajuizar
a natureza como fenómeno segundo pontos de vista que ela não oferece por si na 
experiência nem ao sentido nem ao entendimento, e portanto para utilizá­la com 
vista e por assim dizer como esquema do supra­sensível. Ela joga com a aparência
que produz _õ216 ‡ vontade, sem contudo por isso enganar, pois declara a sua 
própria ocupação como simples jogo, que no entanto pode ser utilizado em 
conformidade a fins pelo entendimento e seu ofício. ­­ A eloquência, na medida 
em que por ela se entende a arte de persuadir, isto é de iludir pela bela 
aparência (como *ars oratoria*), e não um simples falar bem (eloquência e 
estilo), é uma dialéctica, que somente toma emprestado da poesia o quanto seja 
necessário para, antes do julgamento, ganhar os ânimos para o orador e em seu 
benefício, tirando­lhe a liberdade; portanto não pode ser recomendada nem para o
tribunal nem para os p˙lpitos. Pois, se se trata de leis civis, do direito de 
pessoas individuais ou de ensinamento duradouro e determinação dos ânimos ao 
conhecimento correcto e ‡ observância conscienciosa do seu dever, então está 
aquém da dignidade de um ofício tão importante deixar ver sequer um vestígio de 
exuberância do engenho e da faculdade da imaginação, mas mais ainda da arte de 
persuadir e de tirar proveito para quem quer que seja (a).

(a) A: "para o seu".

Pois embora :, ela por vezes possa ser empregada para objectivos em si legítimos
e louváveis, torna­se contudo censurável pelo facto que desse modo as máximas e 
disposições são subjectivamente pervertidas embora o acto seja objectivamente 
conforme ‡ lei; nesta medida não basta fazer o que
_õ217 é justo, mas executá­lo unicamente pela razão de que é justo. Já o simples
conceito claro destas espécies de assuntos humanos, ligado a uma apresentação 
viva através de exemplos e sem infracção das regras de eufonia da língua ou da 
conveniência da expressão para ideias da razão (que conjuntamente constituem a 
arte de falar bem), já possui em si (a) influência suficiente sobre os ânimos 
humanos, para que ainda fosse preciso instalar aí as máquinas da persuasão, que,
uma vez que podem ser usadas tanto para o embelezamento como para o encobrimento
do vício e do erro, não podem eliminar completamente a secreta suspeita de um 
ardil da arte. Na poesia tudo se passa honrada e lealmente. Ela declara querer 
estimular um simples jogo de entretimento com a faculdade da imaginação, e na 
verdade formalmente de acordo com as leis do entendimento; e não pretende colher
de surpresa e enredar o entendimento através da exposição _õ218 sensível (16).

(a) A: "por si".

Depois da poesia, *se o que importa é o movimento do ânimo*, eu poria aquela que
entre as artes elocutivas, mais se lhe aproxima e assim também permite unir­se­
lhe muito naturalmente, a saber a *arte do som*. Pois embora ela fale por meras 
sensações sem conceitos, por conseguinte não deixa, como a poesia, sobrar algo 
para a reflexão, contudo ela move o ânimo de modo mais variado e, embora só 
passageiramente, no entanto mais intimamente; mas ela é certamente mais gozo que
cultura (o jogo de pensamento, que incidentemente é com isso suscitado, é 
simplesmente o efeito de uma associação por assim dizer mecânica). Ajuizada pela
razão, possui valor menor que qualquer outra das belas­artes. Por isso ela 
reivindica, como todo o gozo, alternância mais frequente e não suporta a 
repetição reiterada sem produzir tédio. :,

O seu atractivo, que se deixa comunicar tão universalmente, parece repousar 
sobre o facto que cada expressão da linguagem possui no conjunto um som que é 
adequado ao seu sentido; que este som mais ou menos denota um afecto do que fala
e reciprocamente também o produz no ouvinte, que então inversamente incita 
também neste a ideia que é expressa na linguagem com tal som; e que assim como a
modulação é por assim dizer uma linguagem universal das sensações compreensível 
a cada homem, a arte do som exerce por si só esta linguagem no seu inteiro 
ênfase, a saber como linguagem dos afectos, e assim comunica universalmente 
segundo a lei da associação as ideias estéticas naturalmente ligadas a elas; mas
que, pelo facto de aquelas ideias estéticas não serem nenhum conceito e 
pensamento determinado, a forma da composição destas sensações (harmonia e 
melodia) serve somente, como forma de uma linguagem, para, mediante uma 
disposição proporcionada das mesmas (a qual pode ser submetida matematicamente a
certas regras, porque nos sons ela assenta sobre a relação do n˙mero das 
vibrações de ar, ao mesmo tempo, na medida em que os sons são ligados simultânea
ou também sucessivamente), expressar a ideia estética de um todo interconectado 
de uma inominável profusão de pensamentos, _õ220 em conformidade a um certo 
tema, que constitui na peça o afecto dominante. A esta forma matemática, embora 
não representada por conceitos determinados, unicamente se prende o 
comprazimento que a simples reflexão ­­ acerca de um tão grande n˙mero de 
sensações que se acompanham ou sucedem umas ‡s outras ­­ conecta com este jogo 
das mesmas como condição da sua beleza, válida para qualquer um; e somente 
segundo tal forma o gosto pode arrogar­se um direito de pronunciar­se 
antecipadamente sobre o juízo de qualquer um.

Mas no atractivo e no movimento do ânimo, que a m˙sica produz, a matemática não 
tem certamente a mínima participação; ela é somente a condição indispensável 
(*conditio sine qua non*) daquela proporção das impressões, tanto na sua ligação
como na sua mudança, pela qual se torna possível compreendê­las e impedir que :,
elas se destruam mutuamente, mas concordem com um movimento contínuo e uma 
vivificação do ânimo através de afectos consonantes com ele, e assim concordem 
numa agradável autofruição.

Se contrariamente se apreciar o valor das belas­artes segundo a cultura que elas
alcançam para o ânimo e tomarmos como padrão de medida o alargamento das 
faculdades que na faculdade do juízo têm de concorrer para o conhecimento, então
a m˙sica possui entre as artes
_õ221 belas o ˙ltimo lugar (assim como talvez o primeiro entre aquelas que são 
apreciadas simultaneamente segundo o seu agrado), porque ela joga simplesmente 
com sensações. Sob este aspecto, portanto, as artes figurativas precedem­na de 
longe; pois enquanto elas transpõem a faculdade da imaginação para um jogo livre
e contudo ao mesmo tempo conforme ao entendimento, incitam ao mesmo tempo a um 
ofício na medida em que realizam um produto que serve aos conceitos do 
entendimento como um veículo duradouro e por si mesmo recomendável para promover
a unificação dos mesmos com a sensibilidade e assim como que promover a 
urbanidade das faculdades de conhecimento superiores. Ambas as espécies de artes
tomam um curso totalmente diverso: a primeira, de sensações a ideias 
indeterminadas; a segunda, porém, de ideias determinadas a sensações. As ˙ltimas
causam uma impressão *duradoura*, as primeiras só uma impressão *transitória*. A
faculdade da imaginação pode reevocar aquelas para se entreter agradavelmente 
com elas; estas porém extinguem­se completamente, ou, quando são 
inadvertidamente repetidas pela faculdade da imaginação, são mais enfadonhas que
agradáveis. Além disso (a) é inerente ‡ m˙sica uma certa falta de urbanidade, 
pelo facto que principalmente de acordo com a natureza dos instrumentos ela 
estende a sua influência além do que dela se pretende (‡ vizinhança) e assim 
como que se impõe, por conseguinte causa dano ‡ liberdade de outros, estranhos ‡
sociedade _õ222 musical; as artes que falam aos olhos não fazem isto, :,

(a) Daqui, "Além disso" até "... já está fora de moda", 
incluindo a nota (17) que se segue, é um acréscimo da segunda edição.

enquanto se pode apenas desviá­los quando não se quer aceitar a sua influência. 
Quase o mesmo se passa com a fruição de uma fragrância que se propaga 
amplamente. Aquele que tira do bolso o seu perfumado lenço de assoar trata a 
todos em seu redor contrariamente ‡ vontade deles e coage­os, quando querem 
respirar, a ao mesmo tempo frui­lo; por isso também já está fora de moda (17), 
­­ Entre as artes figurativas eu daria a preferência *‡ pintura*, em parte 
porque como arte do desenho ela está na base de todas as demais artes 
figurativas, em parte porque ela pode penetrar muito mais na região das ideias e
também pode estender, de acordo com estas, o campo da intuição mais do que é 
permitido ‡s demais artes.

$ó54. Observação

Entre *o que apraz simplesmente no julgamento* e o que *deleita* (apraz na 
sensação) há, como o mostrámos frequentemente, uma diferença essencial. O ˙ltimo
é algo que não se pode postular em qualquer um do mesmo modo como o primeiro. O 
deleite (por mais que a sua causa possa encontrar­se também em ideias) parece 
consistir sempre num sentimento de promoção da vida inteira do _õ223 homem, por 
conseguinte também do bem­estar corporal, isto é da sa˙de; de modo que 
*_epicuro*, que fazia todo o deleite passar basicamente por sensação corporal, 
sob este aspecto talvez não deixasse de ter razão e se equivocasse apenas quando
considerava o comprazimento intelectual e mesmo o prático como deleite. Se se 
tem a ˙ltima diferença diante dos olhos, pode­se explicar a si próprio como um 
deleite possa desaprazer mesmo ‡quele que tem a sensação dele (como a alegria de
um homem necessitado, mas bem­pensante, sobre a herança do pai que ama mas que é
avarento), ou como uma dor profunda possa contudo aprazer ‡quele que a padece (a
tristeza de uma vi˙va em relação ‡ morte do seu benemérito marido), ou como um 
deleite de mais e mais aprazimento (como o das ciências ‡s quais nos dedicamos),
ou como uma dor (por exemplo ódio, inveja e sede de vingança), possa além disso 
desaprazer­nos. O comprazimento ou descomprazimento :, assenta aqui sobre a 
razão e identifica­se ‡ *aprovação* ou *desaprovação*; mas deleite e dor podem 
assentar somente sobre o sentimento ou a perspectiva de um *bem­estar* ou *mal­
estar* (seja qual for a sua razão).

Todo o cambiante jogo livre das sensações (que não têm por fundamento nenhuma 
intenção) deleita, porque ele promove o sentimento de sa˙de, quer tenhamos ou 
não, no julgamento da razão, um comprazimento no seu objecto e mesmo nesse 
deleite; e esse deleite pode elevar­se até ao afecto, embora não tomemos pelo 
objecto nenhum interesse, pelo menos um que fosse proporcional ao grau desse 
afecto. Podemos dividi­lo em *jogo de azar, jogo de sons* e *jogo de 
pensamentos*. O *primeiro* exige um *interesse*, quer da vaidade ou do egoísmo, 
que nem de _õ224 longe é tão grande como o interesse pelo modo como procuramos 
consegui­lo; o *segundo* exige simplesmente a alternância das *sensações*, cada 
uma das quais tem a sua relação com o afecto, mas sem o grau de um afecto, e 
desperta ideias estéticas; o *terceiro* surge simplesmente da alternância de 
representações na faculdade do juízo, pela qual na verdade não é produzido 
nenhum pensamento que comportasse qualquer interesse e contudo o ânimo é 
vivificado.

Quão deleitáveis os jogos tenham que ser, sem que se tivesse necessidade de lhes
colocar no fundamento uma intenção interessada, mostram­no todos os nossos 
saraus sociais; pois sem jogo nenhum deles pode propriamente entreter­se. Mas os
afectos da esperança, do medo, da alegria, da raiva, do escárnio estão aí em 
jogo, na medida em que a todo o momento trocam de papel (a), e são tão vivos que
através deles parece promover­se no corpo como uma moção interna, a inteira 
função da vida, como o prova uma vivacidade do ânimo engendrada por eles, embora
não se tenha ganho ou aprendido algo com isso. Mas já que o jogo de azar não é 
nenhum jogo que comporte a beleza queremos aqui pÙ­lo de lado. Contrariamente a 
m˙sica e a matéria para o riso são duas espécies de jogo com ideias estéticas, 
ou 

(a) A: "trocam todo o momento"

também com representações do :, entendimento, pelas quais enfim nada é pensado e
as quais só podem deleitar pela sua alternância, contudo (a) vivamente; através 
desta dão a conhecer bastante claramente que a vivificação em ambas é 
simplesmente corporal, embora elas sejam suscitadas por ideias do ânimo, e que o
sentimento de sa˙de constitui, por um movimento das vísceras correspondente 
‡quele jogo, todo o deleite tão fino e espirituoso de uma sociedade para ele 
despertada. Não é o julgamento da harmonia de sons ou ocorrências espirituosas, 
que com a sua beleza servem somente de veículo necessário, mas é a função vital 
promovida no _õ225 corpo, o afecto, que move as vísceras e o diafragma, numa 
palavra o sentimento de sa˙de (que sem aquela ocasião não se deixaria, 
contrariamente, sentir), que constituem o deleite que se encontra em poder 
chegar ao corpo também pela alma e utilizar esta como médico daquele.

(a) "e contudo", acrescento de B e C.
Na m˙sica este jogo vai da sensação do corpo a ideias estéticas (dos objectos 
para afectos), e destas então de volta ao corpo, mas com forças conjugadas. No 
gracejo (que como aquela merece ser contado antes como arte agradável do que 
como bela arte) o jogo começa a partir de pensamentos, que todos juntos, na 
medida em que querem expressar­se sensivelmente, ocupam também o corpo; e, na 
medida em que o entendimento subitamente cede nesta apresentação em que não 
encontra o esperado, sente­se no corpo o efeito desse enfraquecimento pela 
pulsação dos órgãos, a qual promove o estabelecimento do seu equilíbrio e tem um
efeito benéfico sobre a sa˙de.

Em tudo o que pode suscitar um riso vivo e abalador tem que haver algo absurdo 
(em que portanto o entendimento não pode em si encontrar nenhum comprazimento). 
*_o riso é um afecto resultante da s˙bita transformação em nada de uma tensa 
expectativa*. Precisamente esta transformação, que certamente não alegra o 
entendimento, alegra contudo indirectamente, por um momento, de modo muito vivo.
Portanto a sua causa tem que residir na influência da representação sobre o 
corpo e na sua acção recíproca sobre o ânimo; e na verdade não na :, medida em 
que a representação é objectivamente um _õ226 objecto do deleite (a) (pois como 
pode uma expectativa frustrada deleitar?), mas meramente pelo facto que ela 
enquanto simples jogo das representações produz um equilíbrio das forças vitais.

(a) Na primeira edição segue­se aqui ainda: "como porventura de alguém que 
recebe a notícia de um grande ganho comercial".

Se alguém conta que um índio ­­ que ‡ mesa de um inglês em Surate viu abrirem 
uma garrafa de cerveja e toda ela, transformada em espuma, derramar­se ­­ 
mostrava com muitas exclamações a sua grande estupefacção, e ‡ pergunta do 
inglês ­­ "que há aqui para tanta admiração?" ­­ respondeu: "eu também não me 
admiro de que isso saia, mas de como vocês conseguiram metê­lo aí dentro", então
rimos e sentimos um afectuoso prazer, não porque porventura nos consideremos 
mais inteligentes que esse néscio, ou por algo comprazente que o entendimento 
nos tenha permitido observar aí; mas a nossa expectativa era de tensão e 
subitamente dissipa­se em nada. Ou se o herdeiro de um parente rico lhe quer dar
um funeral realmente solene, mas lamenta que não o consegue, pois (diz ele): 
"quanto mais dinheiro eu dou ‡s minhas carpideiras para parecerem tristes, tanto
mais divertidas elas parecem", então rimos ruidosamente e a razão reside em que 
uma expectativa se converte subitamente em nada. … preciso observar que ela não 
tem que se converter no oposto positivo (b) de um objecto esperado ­­ pois este 
é sempre algo e frequentemente pode entristecer ­­ mas converter­se sim em nada.
Pois se com a narração de uma história alguém nos suscita grande expectativa e 
nós no final já descortinamos a sua falsidade, então isto causa­nos 
descomprazimento; como por exemplo a falsidade de que pessoas, face a grande 
desgosto devam ter obtido numa noite cabelos grisalhos. Se contrariamente, como
_õ227 réplica a uma semelhante narração, um finório conta muito 
circunstanciadamente o desgosto de um comerciante, que retornando da Õndia ‡ 
Europa com todo o seu capital em mercadorias, foi coagido, no 

(b) "positivo" falta em A.
meio de uma forte :, tempestade, a deitar tudo ao mar e que se entristeceu a tal
ponto que além disso a sua *peruca* na mesma noite se tornou grisalha, então 
rimos e deleitamo­nos com isso, porque jogamos ainda por um tempo com o nosso 
próprio desacerto em relação a um objecto, de mais a mais que nos é indiferente,
ou ainda antes com a ideia por nós perseguida, como uma bola que atiramos para 
um lado e outro, enquanto simplesmente temos em mente pegar nela ou segurá­la. 
Aqui não é o desconcerto de um mentiroso ou de um tonto que desperta o deleite, 
pois a ˙ltima história contada com suposta seriedade também por si levaria uma 
sociedade a um sonoro riso; e a primeira não seria habitualmente sequer digna de
atenção (a).

(a) A: "do esforço".

… digno de nota que em todos esses casos o chiste tem de conter sempre algo que 
num momento pode enganar; daí que se a aparência termina em nada, o ânimo 
rememora­o para tentá­lo ainda uma vez, e assim através de uma rápida sucessão 
de tensão e distensão ricocheteia de um lado para o outro e é posto a oscilar; 
este movimento, pelo facto que o desprendimento daquilo que por assim dizer 
esticava a corda ocorreu subitamente, tem que dar origem a um movimento do ânimo
e a um movimento do corpo harmonizando­se internamente com ele, que perdura 
involuntariamente e produz fadiga, mas também divertimento (os efeitos de uma 
moção proveitosa ‡ sa˙de).

Pois se se admite que a todos os nossos pensamentos se liga harmonicamente ao 
mesmo tempo algum movimento nos órgãos do corpo, compreender­se­á razoavelmente 
_õ228 como ‡quela s˙bita transposição do ânimo ora a um ponto de vista ora a 
outro para contemplar o seu objecto pode corresponder uma recíproca tensão e 
distensão das partes elásticas das nossas vísceras, que se comunica ao diafragma
(idêntica ‡ que sentem 
pessoas que têm cócegas), de modo que o pulmão expele o ar a intervalos 
rapidamente sucessivos e assim efectua um movimento favorável ‡ sa˙de, o qual 
unicamente e não o que ocorre no ânimo é a verdadeira causa do deleite num 
pensamento, que no fundo não representa nada. :,

­­ Voltaire dizia que o céu nos deu duas coisas como contrapeso ‡s muitas 
misérias da vida: a *esperança* e o *sono*. Ele teria ainda podido acrescentar­
lhe o *riso*, contanto que os meios para suscitá­lo entre pessoas racionais 
estivessem tão facilmente ‡ mão e o engenho ou a originalidade do humor 
requerida para ele não fossem justamente tão raros como frequentemente o é o 
talento de escrever, *quebrando a cabeça* \k*kopfbrechend*_, como o fazem 
sonhadores místicos, *arriscando o pescoço* \k*halsbrechend*_, como os génios, 
ou *pungentes* \k*herabrechend*_, como os romancistas sentimentais (e também 
moralistas dessa espécie).

Portanto pode­se como me parece, conceder a Epicuro que todo o deleite, mesmo 
que seja ocasionado por conceitos que despertam ideias estéticas, é sensação 
*animal*, isto é corporal, sem com isso prejudicar minimamente o sentimento 
*espiritual* de respeito por ideias morais, o qual não é nenhum deleite, mas uma
autoapreciação (da humanidade em nós), que nos eleva sobre as nossas 
necessidades, sem mesmo prejudicar uma ˙nica vez o sentimento menos nobre do 
*gosto*.

Algo composto de ambos encontra­se na *ingenuidade*, que é a erupção da 
franqueza originariamente natural em _õ229 oposição ‡ arte da dissimulação 
tornada uma outra natureza. Nós rimo­nos da simplicidade que ainda não sabe 
dissimular­se e contudo regozijamo­nos também com a simplicidade da natureza, 
que aqui prega um revez ‡quela arte. Esperávamos pelo hábito quotidiano da 
expressão artificial e cuidadosamente voltada para a bela aparência; e veja­se 
só! Trata­se da natureza íntegra, inocente, que absolutamente não esperávamos 
encontrar e que aquele que permitiu vê­la tão­pouco pensava despir. O facto que 
a bela, porém falsa, aparência, que habitualmente significa muitíssimo no nosso 
juízo, aqui subitamente se transforma em nada, e que o finório por assim dizer é
posto a nu em nós próprios, produz o movimento do ânimo sucessivamente em duas 
direcções opostas, o qual ao mesmo tempo agita salutarmente o corpo. Mas o facto
que algo que é infinitamente melhor do que todo o admitido hábito, a pureza da 
maneira de pensar (pelo menos 
a :, disposição para ela) não se ter extinguido totalmente na natureza humana, 
mistura seriedade e veneração nesse jogo da faculdade do juízo. Como porém se 
trata de um fenómeno que se evidencia somente por curto tempo e o manto da arte 
da dissimulação é logo estendido de novo, assim ao mesmo tempo se mescla a isso 
um pesar, que é uma emoção de ternura, que como jogo se deixa ligar de muito bom
grado a um tal riso cordial, e também efectivamente se liga habitualmente a ele,
tratando ao mesmo tempo de compensar aquele que fornece a matéria para o riso 
pelo embaraço, que consiste em ainda não ser experimentado nas convenções 
humanas. ­­ Por isso uma arte de ser *ingénuo*, é uma contradição; no entanto 
representar a ingenuidade numa pessoa fictícia é certamente possível e é uma 
arte bela, embora também rara. Não se tem que _õ230 confundir com a ingenuidade 
a simplicidade sincera que a natureza não artificializa, meramente porque ela 
não sabe o que é a arte da convivência.

Entre aquilo que, alegrando, é bastante afim ao deleite proveniente do riso e 
pertence ‡ originalidade do espírito, mas não precisamente ao talento da bela 
arte, pode­se contar também a maneira \k*_manier*_, humorística. *_humor* no bom
sentido significa o talento de poder arbitrariamente transpor­se para uma certa 
disposição mental, em que todas as coisas são ajuizadas de modo inteiramente 
diverso do habitual (até inversamente a ele) e contudo em conformidade a certos 
princípios da razão numa tal disposição. Quem é involuntariamente submetido a 
tais mudanças chama­se *caprichoso*; quem porém é capaz de admiti­las arbitrária
e conformemente a fins (com vista a uma apresentação viva, através de um 
contraste que suscite riso), chama­se ­­ ele e o seu modo de falar ­­ 
humorístico. Esta maneira pertence, contudo, mais ‡ arte agradável do que ‡ arte
bela, porque o objecto da ˙ltima sempre tem que mostrar em si alguma dignidade e
por isso requer uma certa seriedade na apresentação, assim como o gosto no 
julgamento. :,
_õ231  SEGUNDA SEC«?O

Crítica da Faculdade de Juízo Estética.

Dialéctica da Faculdade de Juízo Estética

$ó55.

Uma faculdade do juízo que deva ser dialéctica tem que ser antes de mais nada 
raciocinante \k*vern¸nftelad*_,, isto é os seus juízos têm que reivindicar 
universalidade, e na verdade *a priori* (18); de facto, a dialéctica consiste na
contraposição de tais juízos. Por isso a incompatibilidade de juízos estéticos 
do sentido (sobre o agradável e desagradável) não é dialéctica. Tão­pouco o 
conflito dos_õ232  juízos de gosto, na medida em que cada um se refere 
simplesmente ao seu próprio gosto, constitui uma dialéctica do gosto, porque 
ninguém pensa em tornar o seu juízo uma regra universal. Portanto não resta 
nenhum conceito de uma dialéctica que pudesse dizer respeito ao gosto senão o de
uma dialéctica da *crítica* do gosto (não do próprio gosto) com vista aos seus 
*princípios*, já que sobre o fundamento da possibilidade dos juízos de gosto em 
geral surgem natural e inevitavelmente conceitos em conflito. Nesta medida, 
portanto, uma crítica transcendental do gosto conterá somente uma parte, que 
poderá levar o nome de uma dialéctica da faculdade de juízo estética, se se 
encontrar uma antinomia dos princípios desta faculdade que ponha em d˙vida a sua
conformidade a leis, por conseguinte também a sua possibilidade interna.

$ó56. Representação da antinomia do gosto

O primeiro lugar­comum do gosto está contido na proposição com a qual cada 
pessoa sem gosto pensa precaver­se contra a censura: *cada um tem o seu próprio 
gosto*. Isto equivale a dizer que o princípio determinante deste juízo é 
simplesmente subjectivo (deleite ou dor) e que o juízo :,não tem nenhum direito 
ao necessário assentimento de _õ233 outros.

O segundo lugar­comum do gosto, que também é usado até por aqueles que concedem 
ao juízo de gosto o direito de expressar­se validamente por qualquer um, é: *não
se pode disputar sobre o gosto*. O que equivale a dizer que o princípio 
determinante de um juízo de gosto na verdade pode ser também objectivo, mas que 
ele não se deixa conduzir a conceitos determinados; por conseguinte que nada 
pode ser *decidido* sobre o próprio juízo através de provas, conquanto se possa 
perfeitamente e com direito *discutir* a esse respeito. Pois *discutir* 
\k*_streiten*_, e *disputar* \k*_disputieren*_, são na verdade idênticos no 
facto que procuram produzir a sua unanimidade através da oposição recíproca dos 
juízos, são porém diferentes no facto que o ˙ltimo espera produzir essa oposição
segundo conceitos determinados, enquanto argumentos, por conseguinte admite 
*conceitos objectivos* como fundamentos do juízo. Onde isso porém não for 
considerado factível, aí tão­pouco o *disputar* será ajuizado como factível.

Vê­se facilmente que entre esses dois lugares­comuns falta uma proposição, que 
na verdade não está proverbialmente em voga, mas todavia está contida no sentido
de qualquer um, nomeadamente: *pode­se discutir sobre o gosto* (embora não 
disputar). Esta proposição contém porém o oposto da primeira. Pois sobre o que 
deva ser permitido discutir tem que haver esperança de chegar a um acordo entre 
as partes; por conseguinte tem que se poder contar com fundamentos do juízo que 
não tenham validade simplesmente privada e portanto não sejam simplesmente 
subjectivos; ao que se contrapõe precisamente aquela proposição fundamental: 
*cada um tem o seu próprio gosto*.

_õ234 Portanto mostra­se a seguinte antinomia com vista ao princípio do gosto:

1) *_tese*: o juízo de gosto não, se funda sobre conceitos, pois de contrário 
poder­se­ia disputar sobre ele (decidir mediante demonstrações).

2) *_antítese: o juízo de gosto funda­se sobre conceitos, pois de contrário não 
se poderia, não obstante a :, diversidade do mesmo, discutir sequer uma vez 
sobre ele (pretender a necessária concordância de outros com este juízo).

$ó57. Resolução da antinomia do gosto

Não há nenhuma possibilidade de eliminar o conflito daqueles princípios 
subjacentes a cada juízo de gosto (os quais não são senão as duas peculiaridades
do juízo de gosto representados acima na Analítica), a não ser que mostremos que
o conceito, ao qual referimos o objecto nesta espécie de juízos, não é tomado em
sentido idêntico em ambas as máximas da faculdade de juízo estética; que este 
duplo sentido ou ponto de vista do julgamento é necessário ‡ faculdade de juízo 
transcendental; mas que
também a aparência na confusão de um com o outro é inevitável como ilusão 
natural.

_õ235 A algum conceito o juízo de gosto tem que se referir,
pois de contrário ele não poderia absolutamente reivindicar validade necessária 
para qualquer um. Mas ele precisamente não deve ser demonstrável *a partir de* 
um conceito porque um conceito pode ser ou determinável ou também em si ser 
indeterminado e ao mesmo tempo 
indeterminável. Da primeira espécie é o conceito do entendimento, que é 
determinável por predicados da intuição sensível, que lhe correspondem; da 
Segunda espécie porém é o conceito racional transcendental do
supra­sensível, que jaz no fundamento de toda aquela intuição, o qual não pode 
pois ser ulteriormente determinado teoricamente (a).

(a) "teoricamente" falta em A.
Ora, o juízo de gosto tem a ver com objectos dos sentidos, mas não com o fim de 
determinar um *conceito* dos mesmos para o entendimento. Por isso enquanto 
representação singular intuitiva referida ao sentimento de
prazer ele é somente um juízo privado; e nesta medida ele seria limitado, quanto
‡ sua validade, unicamente ao indivíduo que julga: o objecto é 
*para mim* um objecto de :, comprazimento, para outros pode ocorrer 
diversamente;  ­­ cada um tem o seu gosto.

Todavia no juízo de gosto está sem d˙vida contida uma referência ampliada ‡ 
representação do objecto (ao mesmo tempo também do sujeito), sobre a qual 
fundamos uma extensão desta espécie de juízos como necessária para qualquer um, 
em cujo fundamento pois tem que se _õ236 situar algum conceito; mas trata­se de 
um conceito que não se pode absolutamente determinar por intuição, e pelo qual 
não se pode conhecer nada, por conseguinte também não *permite apresentar 
nenhuma prova* para o juízo de gosto. Um conceito dessa espécie é porém o 
simples conceito racional puro do supra­sensível que se situa no fundamento do 
objecto (e também do sujeito que julga) enquanto objecto dos sentidos, por 
conseguinte enquanto fenómeno. Pois se não se tomasse isso em consideração, a 
pretensão do juízo de gosto ‡ validade universal não se salvaria; se o conceito 
sobre o qual ele se funda fosse apenas um simples conceito intelectual confuso 
como o de perfeição, ao qual se pudesse respectivamente associar (a) a intuição 
sensível do belo, então seria pelo menos em si possível fundar o juízo de gosto 
sobre provas; o que contradiz a tese.

(a) A: "dar".

Ora, toda a contradição porém desaparece se eu digo: o juízo de gosto funda­se 
sobre um conceito (de um fundamento em geral da conformidade a fins subjectiva 
da natureza para a faculdade do juízo), a partir do qual porém nada pode ser 
conhecido e provado acerca do objecto, porque esse conceito é em si 
indeterminável e inapropriado para o conhecimento; mas o juízo ao mesmo tempo 
alcança justamente por esse conceito validade para qualquer um (em cada um na 
verdade como juízo _õ237 singular que acompanha imediatamente a intuição), 
porque o seu princípio determinante talvez se situe no conceito daquilo que pode
ser considerado como o substracto supra­sensível da humanidade.

Na resolução de uma antinomia trata­se somente da possibilidade de que duas 
proposições, aparentemente :, contraditórias entre si, de facto não se 
contradigam, mas possam coexistir uma ao lado da outra, mesmo que a explicação 
da possibilidade do seu conceito ultrapasse a nossa faculdade de conhecimento. 
Daí pode também tornar­se compreensível que essa aparência também seja natural e
inevitável ‡ razão humana, seja qual for a razão por que ela assim o seja e 
persista e conquanto após a resolução da aparente contradição ela não engane.

Ou seja, em ambos os juízos em conflito nós tomamos o conceito sobre o qual a 
validade universal de um juízo tem de fundamentar­se, em significação idêntica, 
e contudo afirmamos dele dois predicados opostos. Por isso na tese dever­se­ia 
dizer: o juízo de gosto não se fundamenta sobre conceitos *determinados*; na 
antítese, porém: o juízo de gosto contudo funda­se sobre um conceito, conquanto 
*indeterminado* (nomeadamente do substracto supra­sensível dos fenómenos); e 
então não haveria entre eles nenhum conflito.

Não podemos mais do que pÙr termo a este conflito nas pretensões e contra­
pretensões do gosto. … absolutamente _õ238 impossível fornecer um determinado 
princípio objectivo do gosto, de acordo com o qual os nossos juízos pudessem ser
guiados, examinados e provados, pois senão não se trataria de um juízo de gosto.
O princípio subjectivo, ou seja a ideia indeterminada do supra­sensível em nós, 
somente pode ser­nos indicado como a ˙nica chave para a decifração desta 
faculdade oculta a nós próprios nas suas fontes, mas por nada pode ser tornada 
mais compreensível.

No fundamento da antinomia aqui exposta e resolvida situa­se o conceito correcto
de gosto, ou seja enquanto uma faculdade de juízo estética simplesmente 
reflexiva; e com isso ambos os princípios aparentemente em conflito foram 
compatibilizados entre si, na medida em que *ambos podem ser verdadeiros*, o que
também basta. Se contrariamente fosse admitido como princípio determinante do 
gosto (em virtude da singularidade da representação que se situa no fundamento 
do juízo de gosto) o *agrado*, como ocorre a alguns, ou o princípio da 
*perfeição* (em virtude de sua validade universal), como o querem outros, e a 
definição :, do gosto fosse estabelecida de acordo com ele, então surgiria disso
uma antinomia, que não seria absolutamente resolvida, a não ser que se mostrasse
que *ambas as proposições* contrapostas (mas não apenas contraditoriamente) *são
falsas*; o que então prova que o conceito sobre o qual cada um está fundado se 
contradiz _õ239 a si próprio. Vê­se portanto que a eliminação da antinomia da 
faculdade de juízo estética toma um caminho semelhante aos que a Crítica segue 
na solução das antinomias da razão teórica pura; Ë que aqui, do mesmo modo que 
Crítica da Razão Prática, as antinomias coagem a contragosto a olhar para além 
do sensível e a procurar no supra­sensível o ponto de convergência de todas as 
nossas faculdades *a priori*; pois não resta nenhuma outra saída para fazer a 
razão concordar consigo mesma.

Observação I

Visto que na filosofia transcendental encontramos tão frequentemente ocasião 
para distinguir ideias de conceitos do entendimento, pode ser ˙til introduzir 
termos técnicos correspondentes ‡ sua diferença. Creio que não se terá nada 
contra se eu propuser alguns. ­­ Ideias, na significação mais geral, são 
representações referidas a um objecto de acordo com um certo princípio 
(subjectivo ou objectivo), na medida contudo em que elas jamais podem tornar­se 
um conhecimento desse objecto. São referidas ou a uma intuição segundo um 
princípio simplesmente subjectivo da concordância das faculdades de conhecimento
entre si (da imaginação e do entendimento), e então chamam­se *ideias 
estéticas*, ou a um conceito segundo um princípio objectivo, sem contudo poderem
jamais fornecer um conhecimento do objecto, e chamam­se _õ240 *ideias da razão*;
neste caso o conceito é um conceito *transcendente*, que se distingue do 
conceito do entendimento, ao qual sempre pode ser atribuída uma experiência que 
lhe corresponda adequadamente e que por isso se chama *imanente*.

Uma *ideia estética* não pode tornar­se um conhecimento porque ela é uma 
*intuição* (da faculdade da :, imaginação), para a qual jamais pode encontrar­se
adequadamente um conceito. Uma *ideia da razão* jamais pode tornar­se 
conhecimento, porque ela contém um *conceito* (do supra­sensível), ao qual uma 
intuição jamais pode ser convenientemente dada.

Ora, eu creio que se pode denominar a ideia estética uma representação 
*inexponível* da faculdade da imaginação, a ideia da razão porém um conceito 
*indemonstrável* \k*indemonstrabelen*_, da razão. De ambas pressupõe­se que não 
sejam geradas como que infundadamente, mas (de acordo com a explicação anterior 
de uma ideia em geral) conformemente a certos princípios das faculdades de 
conhecimento, ‡s quais elas pertencem (aquela aos princípios subjectivos, esta 
aos objectivos).

*_conceitos do entendimento*, enquanto tais, têm que ser sempre demonstráveis 
(se por demonstrar se entender, como na anatomia, simplesmente o *exibir*) (a); 
isto é o objecto correspondente a eles tem que poder ser sempre dado na intuição
(pura ou empírica), pois unicamente através dela eles podem tornar­se 
conhecimentos. O conceito de *grandeza* pode ser dado na intuição espacial *a 
priori*, por exemplo de uma linha recta; o conceito de *causa*, na 
impenetrabilidade, no choque dos corpos, etc. Por conseguinte ambos podem ser 
provados por uma intuição empírica, isto é o pensamento respectivo pode ser 
mostrado (demonstrado, apresentado) num exemplo; e este tem que poder ocorrer, 
de contrário não se está seguro se o pensamento não é vazio, isto é carente de 
qualquer *objecto*.

(a) ("se por demonstrar... exibir") é acréscimo de B.

_õ241 Lógica servimo­nos comummente dos termos
demonstrável ou indemonstrável somente com respeito ‡s
*proposições*, já que os primeiros poderiam ser designados
melhor pela denominação de proposições só mediatamente
*certas*, e os segundos de proposições *imediatamente certas*;
pois a Filosofia pura também tem proposições de ambas
as espécies, se por elas se entenderem proposições capazes
de prova e proposições incapazes de prova. Na verdade
enquanto Filosofia ela pode unicamente provar a partir :,
de fundamentos *a priori*, mas não demonstrar; desde que não se queira 
prescindir inteiramente da significação do termo, segundo o qual demonstrar 
(*ostendere, exhibere*) equivale a (quer no provar ou também simplesmente no 
definir) apresentar ao mesmo tempo o seu conceito na intuição; a qual, se é 
intuição *a priori*, se chama o construir do conceito, mas se é também empírica,
permanece contudo a apresentação do objecto, pela qual é assegurada ao conceito 
a realidade objectiva. Assim se diz de um anatomista: ele demonstra o olho 
humano se torna intuível, mediante a análise desse órgão, o conceito que ele 
antes expÙs discursivamente.

Em consequência disso o conceito racional de substracto supra­sensível de todos 
os fenómenos em geral ou também daquilo que deve ser posto no fundamento do 
nosso arbítrio em referência a leis morais, ou seja da liberdade transcendental,
é já, quanto ‡ espécie, um conceito indemonstrável e uma ideia da razão, mas a 
virtude é­o segundo o grau, porque ao primeiro não pode em si ser dado na 
experiência absolutamente nada que lhe corresponda quanto ‡ qualidade, mas na 
segunda nenhum produto da experiência daquela causalidade alcança o grau que a 
ideia da razão prescreve como regra.

_õ242 Assim como numa ideia da razão a *faculdade da imaginação* não alcança com
as suas intuições o conceito dado, assim numa ideia estética o *entendimento* 
jamais alcança através dos seus conceitos a inteira intuição interna da 
faculdade da imaginação, que ela liga a uma representação dada. Ora, visto que 
conduzir a conceitos uma representação da faculdade da imaginação equivale a 
*expÙ­los*, assim a ideia pode denominar­se uma representação *inexponível* da 
mesma (em seu jogo livre). Ainda terei ocasião de dizer a seguir algo sobre esta
espécie de ideias; agora observo apenas que ambas, tanto as ideias da razão como
as ideias estéticas, têm que possuir os seus princípios, e na verdade ambas na 
razão, aquelas nos princípios objectivos, estas nos princípios subjectivos do 
seu uso.

Em consequência disso podemos explicar o *génio* também pela faculdade de 
*ideias estéticas*, com o que é :, ao mesmo tempo indicada a razão pela qual, em
produtos do génio, a natureza (do sujeito) e não um fim reflectido dá a regra ‡ 
arte (‡ produção do belo). Pois, visto que o belo não tem que ser ajuizado 
segundo conceitos, mas segundo a disposição, conformemente a fins, da faculdade 
da imaginação ‡ concordância com a faculdade dos conceitos em geral: assim regra
e prescrição não podem servir de padrão de medida subjectivo ‡quela conformidade
a fins estética porém incondicionada na arte bela, que legitimamente deve 
reivindicar ter de aprazer a qualquer um, mas somente o pode aquilo que no 
sujeito é simples natureza e não pode ser captado sob regras ou conceitos, isto 
é o substracto supra­sensível de todas as suas faculdades (o qual nenhum 
conceito do entendimento a _õ243 alcança), consequentemente aquilo em referência
ao qual o fim ˙ltimo dado pelo inteligível ‡ nossa natureza é tornar 
concordantes todas as nossas faculdades de conhecimento. Somente assim é também 
possível que um princípio subjectivo, e contudo universalmente válido, se 
encontre no fundamento dessa conformidade a fins, ‡ qual não se pode prescrever 
nenhum princípio objectivo.

Observação II

A seguinte importante observação mostra­se aqui por si própria, ou seja que há 
*três espécies de antinomia* da razão pura, as quais porém concordam no facto de
a coagirem a abandonar o pressuposto, de resto muito natural, de tomar os 
objectos dos sentidos pelas coisas em si mesmas, e antes fazê­los valer 
simplesmente como fenómenos e atribuir­lhes um substracto inteligível (algo 
supra­sensível, do qual o conceito é somente ideia e que não admite nenhum 
autêntico conhecimento). Sem uma tal antinomia a razão jamais se decidiria pela 
aceitação de um tal princípio que tanto estreita o campo da sua especulação e a 
sacrifícios em que tantas esperanças, aliás muito brilhantes, têm que 
desaparecer totalmente; pois mesmo agora que, para reparação das suas perdas, se
lhe abre um uso tanto maior do ponto de vista prático, ela :, parece não poder 
separar­se sem dor daquelas esperanças e livrar­se da antiga dependência.

Que haja três espécies de antinomia tem o seu fundamento no facto de que há três
faculdades de conhecimento: entendimento, faculdade do juízo e razão, cada uma 
das quais (enquanto faculdade de conhecimento superior) tem de possuir os seus 
princípios *a priori*; pois então a razão, na medida em que ela julga sobre 
esses _õ244 mesmos princípios e o seu uso, exige incessantemente o 
incondicionado para todo o condicionado, com respeito a todos eles. Aquele 
jamais pode ser encontrado se se considera o sensível como pertencente ‡s coisas
em si mesmas e, mais ainda, não se lhe atribui, enquanto simples fenómeno, algo 
supra­sensível (o substracto inteligível da natureza fora de nós e em nós) 
enquanto coisa em si mesma. Há pois: 1) uma antinomia da razão para a *faculdade
de conhecimento*, com respeito ao uso teórico do entendimento até ao 
incondicionado; 2) uma antinomia da razão para o *sentimento de prazer e 
desprazer*, com respeito ao uso estético da faculdade do juízo; 3) uma antinomia
para a *faculdade de apetição*, com respeito ao uso prático da razão em si mesma
legisladora; nessa medida todas essas faculdades possuem os seus princípios 
superiores *a priori* e, conformemente a uma exigência incontornável da razão, 
também têm que poder julgar *incondicionalmente* e determinar (a) o seu objecto 
segundo esses princípios.

(a) A: devem poder determinar.

Com respeito a duas antinomias, a do uso teórico e a do uso prático, daquelas 
faculdades de conhecimento superiores, mostrámos já noutro lugar a sua 
*inevitabilidade* quando tais juízos não remetem a um substracto supra­sensível 
dos objectos dados enquanto fenómenos, mas inversamente também a sua 
*resolubilidade*, tão logo ocorra o uso prático. Ora no que concerne ‡ antinomia
no uso da faculdade do juízo conformemente ‡ exigência da razão e sua resolução 
aqui dada, não existe nenhum outro meio de esquivar­se dela senco ou negando que
qualquer princípio *a priori* se situe no fundamento do juízo de gosto :, 
estético, de modo que toda a reivindicação de necessidade de assentimento 
universal seja ilusão infundada e vazia e que um juízo de gosto somente merece 
ser considerado correcto porque sucede que muitos concordam com ele, e isto 
também propriamente não em virtude de que se *presuma* um princípio *a priori* 
por trás desta _õ245 concordância, mas (como no gosto do paladar) porque os 
sujeitos casualmente estejam uniformemente organizados; ou se teria que admitir 
que o juízo de gosto é propriamente um oculto juízo da razão sobre a descoberta 
perfeição de uma coisa e a referência do m˙ltiplo nele a um fim, por conseguinte
somente é denominado estético em virtude da confusão que é inerente a esta nossa
reflexão, embora no fundo ele seja teleológico; neste caso poder­se­ia declarar 
desnecessária e nula a solução da antinomia por ideias transcendentais e assim 
se poderiam unificar aquelas leis do gosto com os objectos dos sentidos, não 
enquanto simples fenómenos, mas também enquanto coisas em si mesmas. Mas quão 
pouco um ou outro subterf˙gio importa, mostrou­se em diversas passagens da 
exposição dos juízos de gosto.

Se porém se conceder ‡ nossa dedução pelo menos que ela procede no caminho 
correcto, conquanto ainda não tenha sido tornada suficientemente clara em todas 
as partes, então evidenciam­se três ideias: *primeiro* do supra­sensível em 
geral, sem ulterior determinação, enquanto substracto da natureza; *segundo*, do
mesmo enquanto princípio da conformidade a fins subjectiva da natureza para a 
nossa faculdade de conhecimento; terceiro do mesmo enquanto princípio dos fins 
da liberdade e princípio da concordância desses fins com a liberdade no campo 
moral.

_õ246  $ó 58. Do idealismo da conformidade a fins tanto da natureza como da 
arte, como o ˙nico princípio da faculdade de juízo estética

Pode­se pÙr o princípio do gosto antes de mais, ou no facto de que este sempre 
julga segundo fundamentos de :, determinação empíricos, que só são dados *a 
posterior*i pelos sentidos, ou pode­se conceder que ele julgue a partir de um 
fundamento *a priori*. O primeiro consistiria no *empirismo* da crítica do 
gosto, o segundo no seu *racionalismo*. De acordo com o primeiro, o objecto do 
nosso comprazimento não seria distinto do agradável, e de acordo com o segundo, 
se o juízo assentasse sobre conceitos determinados, não seria distinto do *bom*;
e assim toda a *beleza* seria banida do mundo e restaria em seu lugar somente um
nome particular, talvez para uma certa mistura das duas espécies de 
comprazimento antes mencionadas. Todavia mostrámos que há também fundamentos do 
comprazimento *a priori*, que podem pois coexistir com o princípio do 
racionalismo, apesar de não poderem ser captados em *conceitos determinados*.

O racionalismo do princípio do gosto é, contrariamente, ou o do *realismo* da 
conformidade a fins, ou do _õ247 *idealismo* da mesma. Ora, visto que, 
considerados em si, nem um juízo de gosto é um juízo de conhecimento, nem a 
beleza é uma qualidade do objecto, assim o racionalismo do princípio de gosto 
jamais pode ser posto no facto de que nesse juízo a conformidade a fins seja 
pensada como objectiva, isto é que o juízo tenha a ver teoricamente, por 
conseguinte também logicamente (se bem que somente num julgamento confuso), com 
a perfeição do objecto, mas *só esteticamente*, no sujeito, com a concordância 
da sua representação na faculdade da imaginação com os princípios essenciais da 
faculdade do juízo em geral. Consequentemente e mesmo de acordo com o princípio 
do racionalismo, o juízo de gosto e a diferença entre o seu realismo e o 
idealismo somente podem ser postos no facto de que ou, no primeiro caso, aquela 
conformidade a fins subjectiva seja admitida como *fim* efectivo (intencional) 
da natureza (ou da arte) para concordar com a nossa faculdade do juízo, ou, no 
segundo caso, (a) somente com uma concordância fina e sem fim ­­ que sobressai 
por si mesma espontânea e 

(a) "no segundo caso" é acréscimo de B.

acidentalmente ­­ com a necessidade da :, faculdade do juízo, com vista ‡ 
natureza e ‡s suas formas produzidas segundo leis particulares.

As belas formações no reino da natureza organizada intervêm muito favoravelmente
no que respeita ao _õ248 realismo da conformidade a fins estética da natureza, 
já que se poderia admitir que na produção do belo uma ideia do mesmo tenha sido 
colocado na causa produtora, ou seja um *fim* a favor da nossa faculdade da 
imaginação. As flores, as florações e até as figuras de plantas inteiras, a 
elegância das formações animais de vários géneros desnecessária ao próprio uso, 
mas por assim dizer escolhida para o nosso gosto; principalmente a 
multiplicidade das cores, tão comprazedora e atraente aos nossos olhos, e a sua 
composição harmónica (no faisão, em crustáceos, insectos e até nas flores mais 
comuns), que, enquanto respeitam simplesmente ‡ superfície e também nesta nem 
sequer ‡ figura das criaturas ­­ a qual contudo ainda poderia ser requerida para
os fins internos das mesmas ­­ parecem visar inteiramente a contemplação 
externa: conferem um grande peso ao modo de explicação mediante adopção de fins 
efectivos da natureza para a nossa faculdade de juízo estética.

Por outro lado opõe­se a essa admissão não somente a razão, pelas suas máximas 
de evitar na medida do possível a desnecessária multiplicação dos princípios por
toda parte, mas ainda a natureza mostra em suas livres formações por toda a 
parte uma tão grande tendência mecânica ‡ produção de formas, que por assim 
dizer parecem ter sido feitas para o uso estético da nossa faculdade do juízo, 
sem sugerirem a menor razão para a suposição de que para isso seja preciso ainda
algo mais do que o seu mecanismo, simplesmente como natureza, de acordo com o 
qual essas formas, mesmo independentemente de toda a ideia subjacente a elas 
como _õ249 
fundamento, podem ser conformes a fins para a nossa faculdade de juízo. Eu porém
entendo por uma *formação livre* da natureza aquela pela qual, a partir de um 
*luido em repouso* e por volatilização ou separação de uma de suas partes (‡s 
vezes simplesmente da matéria calórica) a parte restante assume pela 
solidificação uma figura ou textura :, determinada, que é diferente de acordo 
com a diversidade específica das matérias, mas que é exactamente idêntica na 
mesma matéria. Para isso porém se pressupõe o que sempre se entende por um 
verdadeiro fluido, ou seja, que a matéria nele se dissolve inteiramente, isto é 
não é considerada uma simples mescla de partes sólidas e meramente flutuantes 
nele.

A formação ocorre pois por uma *união repentina*, isto é, por uma solidificação 
rápida e não por uma passagem progressiva do estado fluido ao sólido, mas como 
que por um salto, cuja passagem é também denominada *cristalização*. O exemplo 
mais comum desta espécie de formação é a água que se congela, na qual se 
produzem primeiro pequenas agulhas rectas de gelo, que se juntam em ângulos de 
60 graus, enquanto outras igualmente se fixam a elas em cada ponto, até que tudo
se tenha tornado gelo; é assim que durante esse período a água entre as agulhas 
de gelo não se torna progressivamente mais resistente, mas está tão 
completamente líquida como o estaria durante um calor muito maior e contudo 
possui todo o frio _õ250 do gelo. A matéria que se separa e que escapa 
rapidamente no instante da solidificação, é um *quantam* considerável de matéria
calórica, cuja perda, pelo facto de que ela era requerida meramente para a 
fluidez, não deixa este gelo actual minimamente mais frio do que a água pouco 
antes líquida.

Muitos sais e igualmente pedras que têm uma figura cristalina, são também 
produzidos, sabe­se lá por que mediação, através de uma substância terrosa 
dissolvida na água. Do mesmo modo se formam as configurações adenóides de muitos
minerais, da galena c˙bica, da prata vermelha, etc., presumivelmente também na 
água e por união repentina das partes, na medida em que são coagidas por alguma 
causa a abandonar este veículo e a reunir­se entre si em determinadas figuras 
exteriores.

Mas também internamente todas as matérias, que eram fluidas simplesmente pelo 
calor e obtiveram solidez por resfriamento, mostram, ao romperem­se, uma textura
determinada e permitem julgar a partir disso que, se o seu próprio peso ou o 
contacto com o ar não o tivesse :, impedido, elas teriam revelado também 
externamente a sua figura especificamente peculiar: a mesma coisa foi observada 
nalguns metais, que depois da fusão estavam exteriormente endurecidos mas 
interiormente ainda fluidos, pelo decantamento da parte interna ainda fluida e 
_õ251 pela solidificação agora em repouso da parte restante que remanesceu 
interiormente. Muitas dessas cristalizações minerais, como as drusas de espato, 
a hematite, a aragonite oferecem frequentemente figuras extremamente belas, como
a arte sempre poderia apenas imaginar; e a estalactite na caverna de Antíparos é
simplesmente o produto da água que perpassa assentamentos de gesso.

Tudo indica que o fluido é em geral mais antigo que o sólido e que tanto as 
plantas como os corpos animais são formados a partir de matéria nutritiva 
líquida, enquanto se forma em repouso, nesta ˙ltima certamente segundo uma certa
disposição originária dirigida a fins (que, como será mostrado na segunda parte,
não tem que ser ajuizada esteticamente mas teleologicamente segundo o princípio 
do realismo), mas além disso talvez também enquanto solidificando­se e formando­
se livremente segundo a lei universal da afinidade das matérias. Ora, assim como
os líquidos aquosos diluídos numa atmosfera, que é um misto de diversas espécies
de ar, se eles pela queda do calor se separam destas, geram figuras de neve que,
segundo a diversidade da anterior mistura de ar, frequentemente possuem figura 
que parece muito artística e extremamente bela, do mesmo modo, sem subtrair algo
ao princípio teleológico do julgamento da organização, pode­se perfeitamente 
pensar que, no que concerne ‡ beleza das flores, das penas dos pássaros, das 
conchas, _õ252 relativamente ‡ sua figura e ‡ sua cor, ela possa ser atribuída ‡
natureza e ‡ sua faculdade de livremente se formar também estético­
finalisticamente, sem fins particulares e segundo leis químicas, por acumulação 
da matéria requerida para a sua organização.
O que porém o princípio da *idealidade* da conformidade a fins no belo da 
natureza directamente prova, enquanto princípio que nós mesmos sempre pomos no 
fundamento do juízo estético, e que não nos permite :,
utilizar nenhum realismo de um fim da natureza como princípio explicativo para a
nossa faculdade de representação, é que no julgamento da beleza em geral 
procuramos o seu padrão de medida em nós mesmos *a priori* e a faculdade de 
juízo estética é ela mesma legisladora com respeito ao juízo se algo é belo ou 
não, o que na admissão do realismo da conformidade a fins da natureza, não pode 
ocorrer; pois neste caso teríamos que aprender da natureza o que deveríamos 
considerar belo e o juízo de gosto seria submetido a princípios empíricos. Com 
efeito num tal julgamento não se trata de saber o que a natureza é, ou tão­pouco
o que ela é como fim para nós, mas como a acolhemos. Se ela tivesse constituído 
as suas formas para o nosso comprazimento, tratar­se­ia sempre de uma _õ263 
conformidade a fins objectiva da natureza, e não de uma conformidade a fins 
subjectiva, que repousasse sobre o jogo da faculdade da imaginação na sua 
liberdade, onde há um favor no modo pelo qual acolhemos a natureza, e não um 
favor que ela nos mostre. A propriedade da natureza, de conter para nós a 
ocasião de perceber a conformidade a fins interna na relação de nossas 
faculdades anímicas no julgamento de certos produtos da mesma, e na verdade 
enquanto uma conformidade que deve ser explicada como necessária e 
universalmente válida a partir de um fundamento supra­sensível, não pode ser fim
da natureza ou, muito menos, ser ajuizada por nós como um tal fim, porque de 
contrário o juízo, que seria determinado através deles seria uma heteronomia e 
não seria livre nem teria a autonomia por fundamento, como convém a um juízo de 
gosto.

Na arte bela o princípio do idealismo da conformidade a fins pode ser conhecido 
ainda mais claramente. Na verdade ela tem em comum com a bela natureza o facto 
que aqui não pode ser admitido um realismo estético seu mediante sensações (em 
cujo caso ela seria, ao invés de arte bela, simplesmente arte agradável). 
Todavia o facto que o comprazimento mediante ideias estéticas não tem que 
depender do alcance de fins determinados (enquanto arte mecanicamente 
intencional), que consequentemente mesmo no racionalismo do princípio se 
encontra no 
:, fundamento uma idealidade dos fins e nso uma realidade dos mesmos, salta aos 
olhos já pelo facto que a arte bela enquanto tal não tem que ser considerada um 
produto do entendimento e da ciência, mas do génio, e portanto obtém _õ254 a sua
regra através de ideias estéticas, que são 
essencialmente distintas de ideias racionais de fins determinados.

Assim como a *idealidade* dos objectos dos sentidos enquanto fenómenos, é a 
˙nica maneira de explicar a possibilidade de que as suas formas venham a ser 
determinadas *a priori*, do mesmo modo também o *idealismo*
da conformidade a fins no julgamento do belo da natureza e da arte é o ˙nico 
pressuposto sob o qual a crítica pode explicar a possibilidade de um juízo de 
gosto, o qual exige *a priori* validade para qualquer um (sem contudo fundar 
sobre conceitos a conformidade a fins que é representada
no objecto).

$ó59. Da beleza como símbolo da moralidade

A prova da realidade dos nossos conceitos requer sempre intuições. Se se trata 
de conceitos empíricos, as intuições chamam­se *exemplos*. Se aqueles são 
conceitos de entendimento puros, elas chamam­se *esquemas*. Se além disso se 
pretende que seja provada a realidade objectiva dos conceitos da razão, isto é 
das ideias, e na verdade com vista ao conhecimento teórico das mesmas, então 
deseja­se algo impossível, porque absolutamente nenhuma intuição pode ser­lhes 
dada adequadamente.

_õ255 Toda a *hipotipose* (apresentação, *subjectio subadspectum*) enquanto 
sensificação é dupla: ou *esquemática*, em cujo caso a intuição correspondente a
um conceito que o entendimento capta é dada *a priori*; ou *simbólica*, em cujo 
caso é submetida a um conceito, que somente a razão pode pensar e ao qual 
nenhuma intuição sensível pode ser
adequada, uma intuição tal que o procedimento da faculdade do juízo é 
simplesmente analógico ao que ela observa no esquematismo, isto é concorda com 
ele simplesmente segundo a regra deste procedimento e não da própria :, 
intuição, por conseguinte simplesmente segundo a forma da reflexão, não do 
conte˙do.

Trata­se de um uso na verdade admitido pelos novos lógicos, mas incorrecto e 
subversor do sentido da palavra *simbólico* quando se a opõe ao modo de 
representação *intuitivo*; pois o modo de representação simbólico é somente uma 
espécie do modo de representação intuitivo. Ou seja, este (o intuitivo) pode ser
dividido no modo de representação *esquemático* e no modo de representação 
*simbólico*. Ambos são hipotiposes, isto é apresentações (*exhibitiones*); não 
são simples *caracterismos*, isto é denotações dos conceitos por sinais 
sensíveis que os acompanham e que não contêm absolutamente nada pertencente ‡ 
intuição do objecto, mas somente servem a esses segundo a lei da associação da 
faculdade da imaginação, por _õ256 conseguinte como meio de reprodução de um 
ponto de vista subjectivo; tais sinais são ou palavras ou sinais visíveis 
(algébricos e mesmo numéricos), enquanto simples *expressão* de conceitos (19).

Todas as intuições que submetemos a conceitos *a priori* são ou *esquemas* ou 
*símbolos*, cujos primeiros contém apresentações directas e os segundos 
apresentações indirectas do conceito. Os primeiros fazem isto 
demonstrativamente, e os segundos mediante uma analogia (para a qual nos 
servimos também de intuições empíricas), na qual a faculdade do juízo cumpre uma
dupla função: primeiro de aplicar o conceito ao objecto de uma intuição sensível
e então, segundo, de aplicar a simples regra da reflexão sobre aquela intuição a
um objecto totalmente diverso, do qual o primeiro é somente o símbolo. Assim um 
estado monárquico é representado por um corpo animado, se ele é governado 
segundo leis populares internas, mas por uma simples máquina (como porventura um
moinho), se ele é governado por uma ˙nica vontade absoluta, em ambos os casos 
porém só *simbolicamente*. Pois entre um estado despótico e um moinho não há na 
verdade nenhuma semelhança, mas certamente ela existe entre as regras de 
reflectir sobre ambos e a sua _õ257 causalidade. Este assunto até agora ainda 
foi pouco analisado, por mais que ele também mereça uma :,
investigação mais profunda; só que este não é o lugar para nos atermos a ele. A 
nossa linguagem está repleta de semelhantes exposições indirectas segundo uma 
analogia, pela qual a expressão não contém o esquema próprio para o conceito, 
mas simplesmente um símbolo para a reflexão. Assim as palavras *fundamento* 
(apoio, base), *depender* (ser segurado por cima), *fluir* de algo (ao invés de 
suceder), substância (como Locke se expressa: o portador dos acidentes) e 
inumeráveis outras hipotiposes e expressões não esquemáticas, mas simbólicas 
para conceitos, não mediante uma intuição directa mas semente segundo uma 
analogia com ela, isto é segundo a transferência da reflexão sobre um objecto da
intuição para um conceito totalmente diverso, ao qual talvez uma intuição jamais
poderá corresponder directamente. Se um simples modo de representação já pode 
ser denominado conhecimento (o que é perfeitamente permitido se aquele modo é um
princípio não da determinação teórica do objecto, do que ele é em si, mas da 
determinação prática, do que a ideia dele deve ser para nós e para o uso dela 
conforme a fins), assim todo o nosso conhecimento de Deus é simplesmente 
simbólico; e aquele que o toma por esquemático, com as propriedades de 
entendimento, vontade, etc., que provam
_õ258 unicamente a realidade objectiva de entes mundanos, cai no 
antropomorfismo, assim como, se ele se abandona a todo o intuitivo 
\k*_intuitive*_,, no deísmo, pelos quais em parte alguma é conhecido algo, nem 
mesmo em sentido prático.

Ora, eu digo: o belo é o símbolo do moralmente bom; e também somente sob este 
aspecto (uma referência que é natural a qualquer um e que também se exige de 
qualquer outro como dever) ele apraz com uma pretensão ao assentimento de todo o
outro, em cujo caso o ânimo é ao mesmo tempo consciente de um certo 
enobrecimento e elevação sobre a simples receptividade de um prazer através de 
impressões dos sentidos e aprecia também o valor de outros segundo uma máxima 
semelhante da sua faculdade do juízo. … o *inteligível*, que, como o parágrafo 
anterior indicou, o gosto tem em mira, com o qual concordam mesmo as nossas 
faculdades de conhecimento :, superiores e sem o qual cresceriam meras 
contradições entre a sua natureza e as pretensões do gosto. Nesta faculdade, o 
juízo \k*die Urteilskrapt*_, não se vê submetido a uma heteronomia das leis da 
experiência, como de mais a mais ocorre no julgamento empírico: ela dá a si 
própria a lei com respeito aos objectos de um comprazimento tão puro, assim como
a razão o faz com respeito ‡ faculdade de apetição; e ela vê­se referida, quer 
devido a esta _õ259 possibilidade interna no sujeito, quer devido ‡ 
possibilidade externa de uma natureza concordante com ela, a algo no próprio 
sujeito e fora dele, que não é natureza e tão­pouco liberdade, mas que contudo 
está conectado com o fundamento desta, ou seja o supra­sensível no qual a 
faculdade teórica está ligada, em vista da unidade, com a faculdade prática de 
um modo comum
\k*gemeinschaptlichen*_, e desconhecido. Queremos apresentar alguns elementos 
desta analogia, sem ao mesmo tempo deixar de observar a sua diferença.
1) O belo apraz *imediatamente* (mas somente na intuição reflexiva, não como a 
moralidade no conceito). 2) Ele apraz *independentemente de todo o interesse* (o
moralmente bom na verdade apraz necessariamente ligado a um interesse, mas não a
um interesse que preceda o juízo sobre o comprazimento, mas sim que pela 
primeira vez é produzido através dele). 3) *_a liberdade* da faculdade da 
imaginação (portanto da sensibilidade de nossa faculdade) é representada no 
julgamento do belo como concordante com a legalidade do entendimento (no juízo 
moral a liberdade da vontade é pensada como concordância da vontade consigo 
própria segundo leis universais da razão). 4) O princípio subjectivo do 
julgamento do belo é representado como *universal*, isto é como válido para 
qualquer um, mas não como cognoscível por algum conceito universal (o princípio 
objectivo da moralidade é também declarado universal, isto é como cognoscível 
por todos os sujeitos, _õ260 ao mesmo tempo por todas as acções do mesmo 
sujeito, e isso através de um conceito universal). Por isso o juízo moral não é 
capaz unicamente de determinados princípios constitutivos, mas *somente* é 
possível pela fundação de máximas sobre os mesmos e sobre a sua 
universalidade. :,

A consideração desta analogia é também habitual ao entendimento comum; e nós, 
frequentemente, damos a objectos belos da natureza ou da arte nomes que parecem 
pÙr no fundamento um julgamento moral. Chamamos, a edifícios ou a árvores, 
majestosos ou sumptuosos, ou a campos, risonhos e alegres, mesmo cores são 
chamadas inocentes, modestas, ternas, porque elas suscitam sensações que contêm 
algo analógico ‡ consciência de um estado do ânimo produzido por juízos morais. 
O gosto torna por assim dizer possível a passagem do atractivo dos sentidos ao 
interesse moral habitual sem um salto demasiado violento, na medida em que 
representa a faculdade da imaginação também na sua liberdade enquanto 
determinável como conforme a fins para o entendimento e ensina a encontrar um 
comprazimento livre mesmo em objectos dos sentidos e sem atractivo destes.

_õ261  $ó60. *_apêndice*. Da doutrina do método do gosto

A divisão de uma crítica em doutrina elementar e em doutrina do método, que 
precede a ciência, não se deixa aplicar ‡ crítica de gosto, porque não há nem 
pode haver uma ciência do belo e o juízo de gosto não é determinável por 
princípios. Na verdade em cada arte o científico, que se refere *‡ verdade* na 
apresentação de seu objecto, é com efeito a condição indispensável (*conditio 
sine qua non*) da arte bela, mas não a própria arte. Portanto, há somente uma 
*maneira* (*modus*) e não um *método* (*methodus*) da arte bela. O mestre tem 
que mostrar o que e como o discípulo deve realizar; e as regras universais, ‡s 
quais ele em ˙ltima análise submete o seu procedimento, podem servir mais para 
ocasionalmente recordar os seus momentos principais do que para lhos prescrever.
Com isso contudo se tem que tomar em consideração um certo ideal, que a arte tem
de ter em vista, embora no seu exercício jamais o alcance inteiramente. Somente 
pelo _õ262 despertar da faculdade da imaginação do discípulo para a conformidade
com um conceito dado, pela observada insuficiência da expressão para a ideia, 
que o próprio :, conceito não alcança porque ela é estética, e pela crítica 
penetrante pode ser evitado que os exemplos que lhe são apresentados não sejam 
tomados por ele imediatamente como protótipos e como modelos de imitação, 
porventura submetidos a uma norma ainda superior e a um julgamento próprio, e 
assim seja asfixiado o génio, mas com ele também a própria liberdade da 
faculdade da imaginação na sua conformidade a leis, sem a qual não é possível 
nenhuma arte bela, nem sequer um gosto próprio correcto que a ajuíze.

A propedêutica a toda arte bela, na medida em que está disposta para o mais alto
grau da sua perfeição, não parece encontrar­se em preceitos, mas na cultura das 
faculdades do ânimo através daqueles conhecimentos prévios que se chamam 
*humaniora*, presumivelmente porque *humanidade* \k*_humanitãt*_, significa por 
um lado o universal *sentimento de participação*, e por outro a faculdade de 
poder comunicar­se íntima e universalmente; estas propriedades coligadas 
constituem a felicidade conveniente ‡ humanidade \k*_menschheit*_, pela qual ela
se distingue da limitação animal. A época e os povos, nos quais o activo impulso
‡ sociabilidade *legal*, pela qual um povo constitui uma duradoura essência 
comum, lutou com _õ263 as grandes dificuldades que envolvem a difícil tarefa de 
unir liberdade (e portanto também igualdade) ‡ coerção (mais do respeito e da 
submissão por dever do que por medo): uma tal época e um tal povo teriam que 
inventar primeiro a arte da comunicação recíproca das ideias da parte mais culta
com a mais inculta, a sintonização do alargamento e do refinamento das primeiras
com a natural simplicidade e originalidade da ˙ltima e deste modo inventar 
primeiro aquele meio entre a cultura superior e a despretensiosa natureza, o 
qual constitui também para o gosto, enquanto sentido humano universal, o padrão 
de medida correcto, que não pode ser indicado por nenhuma regra universal.

Será difícil numa época posterior tornar aqueles modelos dispensáveis, porque 
ela estará sempre menos próxima da natureza e finalmente sem ter exemplos 
permanentes dela, não poderia estar em condição de formar sequer um :, conceito 
da unificação feliz, num e mesmo povo, da coerção legal da mais elevada cultura 
com a força e correcção da natureza livre que sente o seu próprio valor.

Mas visto que o gosto é no fundo uma faculdade de julgamento da sensificação 
\k*_versinalichung*_, de ideias morais (mediante uma certa analogia da reflexão 
sobre ambas as coisas), e também a partir da qual, e da grande receptividade ­­ 
que se funda sobre ela ­­ para o sentimento a partir daquelas ideias (que se 
chama _õ264 sentimento moral), se deduz aquele prazer que o gosto declara válido
para a humanidade em geral, e não simplesmente para o sentimento privado de cada
um: assim parece evidente que a verdadeira propedêutica para a fundação do gosto
seja o desenvolvimento de ideias morais e a cultura do sentimento moral, já que 
somente se a sensibilidade concordar com ele pode o verdadeiro gosto tomar uma 
forma determinada e imutável.

:__notas da primeira __parte

(1) A definição do gosto, posta aqui como fundamento, é de que ele é a faculdade
de julgamento \k*_beurteilung*_, (*) do belo. O que porém é requerido para 
denominar um objecto belo tem que a análise dos juízos de gosto descobri­lo. 
Investiguei os momentos, aos quais esta faculdade do juízo em sua reflexão 
presta atenção, segundo orientação das funções lógicas para julgar (pois no 
juízo de gosto está sempre contida ainda uma referência ao entendimento). Tomei 
em consideração primeiro os da qualidade, porque o juízo sobre o belo encara 
estes em primeiro lugar.

(*) A tradução de *_urtei*l por juízo e *_beurteilung* por julgamento teve em 
vista marcar mais uma diferença terminológica que conceptual, não explicitada em
Kant. A diferença de sentido entre ambos os termos foi modernamente elaborada 
por W. Windelband (*_prãludien*, 1884, pp. 52 
e segs.), para quem *_urteil* expressa a união de dois conte˙dos 
representacionais, e *_beurteilung* a relação da consciência ajuizante com o 
objecto representado, não ampliando o conhecimento mas expressando aprovação ou 
desaprovação (nota do trad.).

(2) Um juízo sobre um objecto do comprazimento pode ser totalmente 
*desinteressado* e ser contudo muito *interessante*, isto é, ele não se funda 
sobre nenhum interesse; tais são todos os juízos morais puros. Mas em ai os 
juízos de gosto também não fundam absolutamente interesse algum. Somente em 
sociedade torna­se *interessante* ter gosto, e a razão disso é indicada no que 
se segue.

(3) Uma obrigatoriedade do gozo é uma manifesta absurdidade. Precisamente isto 
tem que ser pois uma pretensa obrigatoriedade de todas as acções que têm por 
objectivo simplesmente o gozo: este pode ser imaginado (ou debruado) tão 
espiritualmente como se queira, e mesmo que se tratasse de um gozo místico, 
chamado celestial.

(4) Modelos do gosto com respeito ‡s artes elocutivas \k*redenden K¸nste*_, têm 
que ser compostos numa língua morta e culta: primeiro, para não ter que sofrer 
uma alteração, a qual atinge inevitavelmente as línguas vivas, de modo que 
expressões habituais tornam­se arcaicas e expressões recriadas são postas em 
circulação por somente um curto período de tempo; segundo, para que ela tenha 
uma gramática que não seja submetida a nenhuma mudança caprichosa da moda, mas 
possua a sua regra imutável.

(5) Achar­se­á que um rosto perfeitamente regular, que o pintor gostaria de 
pedir como modelo para pousar, geralmente não diz nada, porque não contém 
específico de uma pessoa. O característico desta espécie, quando é exagerado, 
isto é prejudica a própria ideia normal (da conformidade a fina da espécie), 
chama­se *caricatura*. Também a experiência mostra que aqueles rostos totalmente
regulares geralmente traem também somente um homem medíocre no interior; 
presumivelmente (se se pode admitir que a natureza expresse no exterior as 
proporções do interior) porque, se nenhuma das disposições do ânimo é saliente 
sobre aquela proporção que é requerida para constituir simplesmente um homem 
livre de defeitos, nada se pode esperar :, daquilo que se denomina *génio*, no 
qual a natureza parece afastar­se das relações normais das faculdades do ânimo 
em benefício de uma faculdade só.

(6) Poder­se­ia alegar, como instância contra essa explicação, que existem 
coisas nas quais se vê uma forma conforme a fins, sem reconhecer nelas um fim; 
por exemplo, os utensílios de pedra, frequentemente retirados de antigos 
t˙mulos, dotados de um orifício como se fosse para um cabo, conquanto em sua 
figura denunciem claramente uma conformidade a fins, para a qual não se conhece 
o fim, e nem por isso são declarados belos. Todavia o facto de que se os 
considera uma obra de arte é já suficiente para ter que admitir que a gente 
refere a sua figura a alguma intenção qualquer e a um fim determinado. Daí 
também a absoluta ausência de qualquer comprazimento imediato na sua intuição. 
Ao contrário uma flor, por exemplo uma tulipa, é tida por bela porque na sua 
percepção é encontrada uma certa conformidade a fins, que do modo como a 
ajuizamos não é referida a absolutamente nenhum fim.

(7) *_afectos* são especificamente distintos de *paixões*. Aqueles referem­se 
meramente ao sentimento; estas pertencem ‡ faculdade de apetição e são 
inclinações que dificultam ou tornam impossível toda a determinabilidade do 
arbítrio por princípios. Aqueles são impetuosos e impremeditados; estas 
duradouras e reflectidas; assim a indignação como cólera é um afecto; porém como
ódio (sede de vingança) é uma paixão. A ˙ltima não pode jamais e em nenhuma 
relação ser denominada sublime, porque no afecto, em verdade, a liberdade do 
ânimo é *inibido*, na paixão porém é suprimida.

(8) Para ter direito a reivindicar um assentimento universal num juízo da 
faculdade de juízo estética, baseado simplesmente sobre fundamentos subjectivos,
é suficiente que se conceda: 1) que em todos os homens as condições subjectivas 
desta faculdade são idênticas com respeito ‡ relação das faculdades de 
conhecimento aí postas em actividade com vista a um conhecimento em geral; o que
tem de ser verdadeiro, pois de contrário os homens não poderiam comunicar entre 
si as suas representações e mesmo o conhecimento; 2) que o juízo tomou em 
consideração simplesmente esta relação (por conseguinte a *condição formal* da 
faculdade do juízo) e é puro, isto é não está mesclado nem com conceitos do 
objecto nem com sensações enquanto razões determinantes. Se também a respeito 
deste ˙ltimo ponto foi cometido algum erro, então ele concerne somente ‡ 
aplicação incorrecta a um caso particular da autorização que uma lei nos dá; mas
com isso a autorização em geral não é suprimida.

(9) Vê­se logo que o Esclarecimento \k*_aufklãrung*_, na verdade *in thesi* é 
fácil, *in hypothesi* porém é um coisa difícil e lentamente realizável, porque 
não ser passivo com a sua razão, mas sempre de si próprio legislador, na verdade
é algo totalmente fácil ao homem que queira ser conforme apenas ao seu fim 
essencial e não pretende conhecer o que está acima de seu :, entendimento. Mas 
visto que a aspiração ao ˙ltimo não é sequer evitável e que jamais faltarão 
outros que prometem com muita segurança poder satisfazer esse apetite de saber, 
assim tem que ser muito difícil conservar ou produzir na maneira de pensar 
(tanto mais na p˙blica) o simplesmente negativo (que constitui o verdadeiro 
esclarecimento).

(10) Pode­se designar o gosto como *sensus communis aestheticus* e o 
entendimento humano comum como *sensus communis logicus*.

(11) Na minha região diz o homem comum, quando se lhe propõe um problema como o 
do ovo de Colombo: *isto não é nenhuma arte, é somente uma ciência*. Isto é, 
quando se *sabe* algo, *pode­se* fazê­lo; e justamente isto ele diz de todas as 
pretensas artes do prestidigitador. Contrariamente, ele não hesitará em chamar 
arte ‡ arte do funâmbulo.

(12) Talvez jamais tenha sido dito algo mais sublime do que naquela inscrição 
sobre o templo de *_ísis* (a mãe natureza): "Eu sou tudo o que é, que foi e que 
será e nenhum mortal descerrou meu véu". Segner (*) utilizou esta ideia através 
de uma vinheta significativa colocada no frontispício de sua doutrina da 
natureza, para antes encher o seu discípulo, que ele estava prestes a introduzir
nesse templo, do estremecimento sagrado que deve dispor o ânimo para uma atenção
solene.

(*) Segner foi um matemático contemporâneo de Kant (nota do trad.).

(13) As três primeiras faculdades obtêm a sua *unificação* antes de tudo pela 
quarta. Na sua História (*), _hume dá a entender aos ingleses que, embora em 
suas obras eles não se deixassem vencer por nenhum povo no mundo com respeito ‡s
demonstrações das três primeiras qualidades consideradas *separadamente*, 
todavia naquela que as unifica eles teriam de ficar atrás de seus vizinhos, os 
franceses.

(*) *_history of England*, 6 vols., Londres, 1763, traduzida para o alemão em 
1767­1771 (nota do trad.).

(14) O leitor não ajuizará este projecto de uma possível divisão das artes belas
como uma propositada teoria. Trata­se apenas de uma das muitas tentativas que 
ainda se podem e devam empreender.

(15) Parece estranho que a jardinagem, embora apresente corporalmente as suas 
formas, possa ser considerada uma espécie de arte pictórica; visto porém que ela
toma as suas formas efectivamente da natureza (as árvores, os arbustos, as 
gramíneas e flores do mato e do campo, pelo menos originalmente), e na medida em
que por assim dizer não é arte como a plástica, também não tem como condição da 
sua composição nenhum conceito do objecto e do seu fim (como talvez a 
arquitectura), mas simplesmente o jogo livre da faculdade da imaginação na 
contemplação: assim e nesta medida esta concorda com a pintura simplesmente 
estética, que não tem nenhum tema determinado (combina ar, terra e água, 
entretendo através de luz e :,
sombra). ­­ De modo geral o leitor ajuizará isto somente como uma tentativa de 
ligação das artes belas sob um princípio, que desta vez deve ser o da expressão 
de ideias estéticas [segundo a analogia (*) de uma linguagem] e não deve 
considerá­lo como uma dedução da mesma tida por decidida.

(*) A disposição.

(16) Tenho de confessar que uma bela poesia sempre me produziu um deleite puro, 
enquanto a melhor leitura de um discurso de um orador popular romano ou de um 
actual orador do parlamento ou p˙lpito estava sempre mesclado do sentimento 
desagradável de desaprovação de uma arte insidiosa, que em coisas importantes 
entende mover os homens como máquinas a um juízo que na reflexão serena perderia
nelas todo o peso. Eloquência e bem­falar (em conjunto a retórica) pertencem ‡ 
arte bela; mas arte retórica (*ars oratoria*), enquanto arte de servir­se das 
fraquezas doa homens para seus propósitos (estes podem ser tão bem­intencionados
ou efectivamente bons quanto quiserem) não é absolutamente digna de nenhum 
*apreço* \k*_achtung*_,. Tanto em Atenas como em Roma ela só se elevou ao mais 
alto grau porque o Estado caminhava para a sua ruína e a verdadeira maneira de 
pensar patriótica estava extinta. Quem, na clara perspiciência das matérias, tem
em seu poder a linguagem na sua riqueza e pureza e, com uma fecunda faculdade da
imaginação apta ‡ apresentação das suas ideias, participa vivamente e com o 
coração do verdadeiro bem, é o *vir bonus dicendi peritus*, o orador sem arte, 
porem cheio de ênfase, como o quer ter *_cícero* (*), sem contudo ter ele mesmo 
permanecido sempre fiel a este ideal.

(*) O texto citado é em realidade de *_catão: M. Catonis fragmenta* et. Jordan, 
1860, p. 80 (nota do trad.).

(17) Aqueles que recomendaram entoar cânticos espirituais por ocasião das 
devoções domésticas não pensaram que através de um tal culto *ruidoso* 
(justamente por isso habitualmente farisaico) infligem um grande incómodo ao 
p˙blico, coagem a vizinhança a cantar em conjunto ou a abdicar da sua actividade
pensante.

(18) Pode ser chamado juízo raciocinante (*iudiciun ratiocinans*) todo aquele 
que se proclama universal, pois nesta medida ele pode servir como premissa maior
num silogismo. Contrariamente, só pode ser denominado juízo da razão (*iudicium 
ratiocinatam*), aquele que é pensado como conclusão de um silogismo, 
consequentemente como fundado *a priori*.

(19) O intuitivo do conhecimento tem que ser oposto ao discursivo (não ao 
simbólico). Ora, o primeiro é ou *esquemático* por *demonstração*, ou 
*simbólico*, enquanto representação segundo uma simples *analogia*.

Crítica da Faculdade 
do Juízo
de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997

Oitavo Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda

Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia
Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d. 21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

__isbn 972­27­0506­7

SEGUNDA PARTE

:__da
crítica da faculdade do __juízo

:::

:__crítica da faculdade
de juízo __teleológica

_õ267  $61. Da conformidade a fins objectiva da natureza 

Temos boas razões para aceitar, segundo princípios transcendentais, uma 
conformidade a fins subjectiva da natureza nas suas leis particulares, 
relativamente ‡ sua compreensão para a faculdade do juízo humana e ‡ 
possibilidade da conexão das experiências particulares num sistema dessa mesma 
natureza; é assim que entre os seus muitos produtos podemos esperar que sejam 
possíveis alguns contendo formas específicas que lhe são adequadas, como se 
afinal estivessem dispostas para a nossa faculdade do juízo. Tais formas, 
através da sua multiplicidade e unidade, servem para simultaneamente fortalecer 
e entreter as faculdades do ânimo (que estão em jogo por ocasião do uso desta 
faculdade) e ‡s quais por isso atribuímos o nome de formas belas.

Mas que as coisas da natureza sirvam umas ‡s outras como meios para fins e que a
sua possibilidade só seja suficientemente compreensível mediante esta espécie de
causalidade, é coisa para que não temos nenhuma razão na ideia universal da 
natureza, enquanto globalidade dos _õ268 objectos dos sentidos. Na verdade neste
caso a representação das coisas podia ser perfeitamente pensada *a priori* como 
conveniente e ˙til ‡ disposição interiormente conforme a fins das nossas 
faculdades de conhecimento, já que essa representação é algo em nós. Mas de que 
modo fins que não são os nossos e que também não cabem ‡ natureza (a qual não 
admitimos como um ser inteligente) podem ou devem todavia constituir uma espécie
determinada de causalidade ou, pelo menos, uma legislação própria, eis o que não
é possível *a priori* presumir com nenhum fundamento. Mais ainda, a própria 
experiência não pode assim demonstrar a efectividade desses fins; para tanto 
seria necessário previamente um sofisma que :, introduzisse sem seriedade o 
conceito do fim na natureza das coisas, mas que não o retirava dos objectos e do
seu conhecimento de experiência, usando­o sim, mais para nos tornar 
compreensível a natureza segundo a analogia com um fundamento subjectivo da 
conexão das representações em nós, do que para a conhecer a partir de 
fundamentos objectivos.

Além disso a conformidade a fins objectiva, como princípio da possibilidade das 
coisas da natureza, está tão longe de se articular *necessariamente* com o 
conceito dessa mesma natureza que ela é precisamente o que mais se invoca para 
demonstrar a contingência daquela (da natureza) e das suas formas. Na verdade 
quando, por exemplo, _õ269 mencionamos a anatomia de um pássaro, o oco dos seus 
ossos, a posição das asas com vista ao vÙo e da cauda para a direcção, etc., 
dizemos, sem termos que recorrer ainda a um tipo especial da causalidade, isto é
‡ dos fins, (nexus finalis) que tudo isto é altamente contingente segundo o mero
nexus effectivus na natureza. Isso quer dizer que a natureza, considerada como 
simples mecanismo, poderia ter formado as coisas de mil outras maneiras, sem 
precisamente ter encontrado a unidade segundo um tal princípio e por isso não 
seria de esperar encontrar para aquela a menor razão *a priori* no conceito de 
natureza, mas somente fora deste.

Contudo o julgamento teleológico pode, ao menos de uma forma problemática, ser 
usado correctamente na investigação da natureza; mas somente para a submeter a 
princípios da observação e da investigação da natureza segundo a *analogia* com 
a causalidade segundo fins, sem _õ270 por isso pretender *explicá­lo* através 
daqueles. Esse julgamento pertence por isso ‡ faculdade reflexiva do juízo e não
‡ faculdade determinante. O conceito das ligações e das formas da natureza 
segundo fins é pois pelo menos *um princípio mais*, para submeter os fenómenos 
da mesma a regras, onde as leis da causalidade segundo o mero mecanismo da mesma
não chegam. Então nós introduzimos um fundamento teleológico quando atribuímos, 
a um conceito de objecto, causalidade a respeito de um objecto, como se ele se 
encontrasse na natureza (não em :, nós), ou representamos até a possibilidade do
objecto segundo a analogia com uma tal causalidade (semelhante ‡ que encontramos
em nós) e por conseguinte pensamos a natureza *tecnicamente*, mediante a sua 
própria faculdade. … por isso que se não lhe atribuirmos uma tal forma de 
actuar, a sua causalidade teria que ser representada como um mecanismo cego. No 
caso de, pelo contrário, atribuirmos causas actuantes com *intencionalidade*, 
por conseguinte no caso de colocarmos no fundamento da teleologia, não meramente
um princípio *regulativo* para o simples julgamento dos fenómenos ­­ aos quais a
natureza, segundo as suas leis particulares, deve ser pensada como estando 
subordinada ­­ mas também um princípio constitutivo de dedução dos seus produtos
a partir das suas causas, então, nesse caso, o conceito de um fim natural já não
pertenceria ‡ faculdade do juízo reflexiva, mas sim ‡ determinante. Não seria 
então, na verdade, especifico da faculdade do juízo (como o conceito do belo 
enquanto finalidade subjectiva formal), mas, enquanto conceito da razão, 
introduziria uma nova causalidade na ciência da natureza, a qual no entanto 
retiramos de nós próprios e atribuímos a outros seres, sem contudo admitir que 
nos são semelhantes.

_õ271  PRIMEIRA DIVIS?O

:__analítica da faculdade de juízo __teleológica

$ó62. Da conformidade a fins objectiva, a qual é meramente formal, e da sua 
diferença relativamente ‡ material

Todas as figuras geométricas que são desenhadas segundo um princípio, mostram 
uma conformidade a fins m˙ltipla e objectiva que é muitas vezes digna de 
admiração. … o que acontece com a aptidão para a resolução de tantos problemas 
segundo um ˙nico princípio e também de cada um deles por si de modo 
infinitamente variado. … claro que aqui a conformidade a fins é objectiva e 
intelectual e não simplesmente subjectiva e estética. … que ela exprime a 
adequação da figura ‡ produção de muitas formas finais e é conhecida pela razão.
Só que a conformidade a fins não torna o conceito de um objecto por si mesmo 
possível, isto é não é considerado possível simplesmente por relação a este uso.

_õ272 Numa figura tão simples como é o círculo encontramos o princípio para a 
resolução de uma imensidade de problemas, os quais, cada um por si, exigiria 
numerosos preparativos, solução que aparece como que por si mesma, na qualidade 
de uma das muitas notáveis propriedades desta figura. … por exemplo
 o que acontece quando se constrói um triângulo a partir da base e do angulo 
oposto. Neste caso o exercício é indeterminado, isto é, é possível resolvê­lo de
infinitas maneiras. Só o círculo contém todas as soluções na sua globalidade, na
medida em que é o lugar geométrico para todos os triângulos que satisfazem esta 
condição. Ou, por exemplo, duas linhas devem :, cortar­se 
de tal modo que o rectângulo formado pelos dois segmentos seja igual ao formado 
pelos dois segmentos do outro. Assim a solução do problema parece apresentar 
muitas dificuldades. Mas todas as linhas que se cortam no interior do círculo, 
cuja circunferência limita cada uma delas, dividem­se por si mesmas 
nesta proporção. As outras linhas curvas fornecem por sua vez outras soluções 
finais, em que não se tinha pensado, por ocasião da regra da sua construção. 
Todas as secções cónicas, consideradas em si e em comparação com outras são 
ricas em princípios para a resolução de uma quantidade enorme de problemas 
possíveis, por mais simples que seja a definição que determina o seu conceito. 
­­ … um verdadeiro prazer observar o fervor com que os antigos geómetras 
investigavam estas propriedades desta espécie _õ273 de linhas, sem deixar­se 
influenciar por perguntas próprias de espíritos limitados, como por exemplo: 
para que servirá afinal este conhecimento? Por
exemplo, as propriedades da parábola eram por eles estudadas, sem conhecerem a 
lei da gravidade terrestre, lei que lhes teria dado a aplicação da mesma ‡ 
trajectória dos graves (cuja direcção pode ser considerada paralela ‡ dos graves
no respectivo movimento). Ou as propriedades da elipse, sem supor que também 
existe uma gravidade dos corpos celestes e sem conhecer a sua lei em diversas 
distancias do ponto de atracção, pelo qual eles descrevem esta linha num 
movimento livre. Trabalhando deste modo inconscientemente para a posteridade, 
deleitavam­se com uma conformidade a fins na essência 
das coisas que poderiam expor *a priori* na sua necessidade. Platão, ele próprio
mestre nesta ciência ­­ ao deparar com um tal constituição original das coisas 
(a qual para ser descoberta implica que possamos afastar toda a experiência) e 
ao deparar também com a faculdade do ânimo que consiste em poder criar a 
harmonia dos seres a partir do seu princípio supra­sensível (ao que ainda se 
acrescentam as propriedades dos n˙meros com os quais o ânimo joga na m˙sica) ­­ 
entrou num entusiasmo que o elevou, por cima dos conceitos de experiência, a 
ideias que lhe pareceram somente explicar­se mediante uma comunidade intelectual
:, _õ274 com a origem de todos os seres. Não é pois de admirar que ele tenha 
expulso da sua escola os  desconhecedores da arte de medir, na medida em que 
pensava deduzir da intuição pura que habita o íntimo do espírito humano, aquilo 
que Anaxágoras deduziu dos objectos da experiência e da respectiva ligação 
final. Na verdade é na necessidade daquilo que é conforme a fins e constituído 
como se fosse preparado intencionalmente para o nosso uso, parecendo no entanto 
convir originalmente ao ser das coisas sem se referir a esse uso, que 
precisamente se encontra a razão da grande admiração pela natureza, não tanto 
fora de nós quanto na nossa própria razão; pelo que é perdoável que esta 
admiração, por um mal entendido, se tenha pouco a pouco transformado em 
entusiasmo.

Contudo esta conformidade a fins intelectual, ainda que seja objectiva (e não 
subjectiva, como a estética) é no entanto compreensível, segundo a sua 
possibilidade, como simplesmente formal (e não real), isto é, como conformidade 
a fins, sem que porém se lhe deva colocar um fim como fundamento, por 
conseguinte sem que uma teleologia seja para tanto necessária. Isto é bem 
compreensível, mas somente se deixa apreender em geral. A figura do círculo é 
uma intuição que foi determinada mediante o entendimento segundo um princípio. A
unidade deste princípio, o qual livremente admito e coloco como fundamento 
enquanto conceito, aplicado a uma forma da intuição (o espaço) ­­ forma que de 
igual modo se encontra em mim como representação e até *a priori* ­­ torna 
compreensível a unidade de muitas regras _õ275 resultantes da construção daquele
conceito, as quais são conformes a fins sob muitos pontos de vista, sem que 
tenhamos de atribuir a esta conformidade a fins um fim ou qualquer outro 
fundamento da mesma. Outra coisa se passa quando eu encontro numa globalidade de
coisas fora de mim, encerrada em certos limites, como por exemplo num jardim, a 
ordenação e a regularidade das árvores, dos canteiros, dos passeios, etc. Não 
posso esperar deduzi­las *a priori* a partir da minha própria :, delimitação (a)
de um espaço segundo uma qualquer regra. … que são coisas existentes que devem 
ser dadas empiricamente para poderem ser conhecidas e não uma simples 
representação determinada em mim *a priori*. Por isso esta ˙ltima (empírica) 
conformidade a fins, enquanto *real*, é dependente do conceito de um fim.

(a) A edição A tem simplesmente: "de uma minha delimitação qualquer".

Mas também é perfeitamente compreensível e na verdade justificável a razão da 
admiração de uma conformidade a fins, ainda que percepcionada no ser das coisas 
(na medida em que os seus conceitos possam ser construídos). As m˙ltiplas 
regras, cuja unidade (obtida a partir de um princípio) provoca esta admiração, 
são no seu conjunto, sintéticas e não se seguem de um *conceito* do objecto, por
exemplo do círculo, mas pelo contrário exigem que este objecto seja dado na 
intuição. Mas por isso é como se esta unidade parecesse ter empiricamente um 
princípio das regras exterior e diferente da nossa
_õ276 faculdade de representar e por isso o acordo do objecto com a necessidade 
das regras, necessidade que é própria do entendimento, é em si contingente e por
conseguinte somente possível através de um fim possível expressamente dirigido 
nesse sentido. Ora justamente porque esta harmonia, já que ela, 
independentemente de toda esta conformidade a fins, não é todavia conhecível 
empiricamente, mas sim *a priori*, deveria levar­nos por si mesma a saber que o 
espaço ­­ mediante a determinação do qual (através da faculdade da imaginação 
segundo um conceito) o objecto somente é possível ­­ não é uma qualidade das 
coisas fora de mim, mas sim em mim um simples modo de representação. Por isso 
sou eu que *introduzo a conformidade a fins* na figura que desenho *de acordo 
com um conceito*, isto é no meu modo de representação daquilo que me é 
exteriormente dado, seja o que isso for em si. Não é o que me é exterior que me 
ensina empiricamente o que seja essa conformidade e por isso para aquela figura 
não necessito de nenhum conceito fora de mim, no objecto. Mas porque esta 
reflexão já exige um uso crítico da razão :, e desse modo não pode ser de 
imediato envolvida no 
julgamento do objecto segundo as suas qualidades, aquele somente dá a unificação
de regras heterogéneas (e até no que elas possuem de diferente entre si) num 
princípio que _õ277 é reconhecido por mim *a priori* como verdadeiro, sem exigir
para tanto um fundamento particular *a priori*, exterior ao meu conceito e 
sobretudo ‡ minha representação. Ora a estupefacção \k*_verwunderung*_, é um 
impulso do ânimo produzido pela impossibilidade de unificação de uma 
representação, e da regra por ela dada, com os princípios que já lhe servem de 
fundamento, enquanto ânimo. Tal impulso produz sempre assim uma d˙vida em 
relação a saber se vimos ou ajuizámos bem. Contudo a admiração 
\k*_bewunderung*_, é uma estupefacção que constantemente retorna apesar do 
desaparecimento dessa d˙vida. Por consequência a admiração é um efeito 
perfeitamente natural daquela conformidade a fins observada na essência das 
coisas (enquanto fenómenos) e que não pode desse modo ser censurada, pois que a 
possibilidade de unificar aquela forma da intuição sensível (a que chamamos 
espaço) com a faculdade dos conceitos (o entendimento) não só nos é inexplicável
pelo facto daquela forma ser precisamente esta e não outra, mas para lá disso é 
ainda um alargamento para o ânimo, como que para este pressentir algo que se 
situa acima daquelas representações sensíveis, algo em que se pode encontrar, 
ainda que nos seja desconhecido, o fundamento ˙ltimo deste acordo. Na verdade, 
se se trata simplesmente da conformidade a fins formal das nossas representações
*a priori*, não temos necessidade de conhecer aquele fundamento. No entanto só o
facto de o termos que visar inspira­nos de imediato a admiração relativamente ao
objecto que a isso mesmo nos obriga.

Habitualmente damos o nome de *beleza*, tanto ‡s propriedades mencionadas das 
figuras geométricas, como também dos n˙meros, por causa de uma certa e _õ278 
inesperada conformidade a fins *a priori* dos mesmos para todo o uso do 
conhecimento, proveniente da simplicidade da sua construção. Falamos por exemplo
desta ou daquela propriedade *bela* do círculo que teria sido descoberta 
desta :, ou daquela maneira. Só que não é um julgamento estético aquele que nos 
permite achar tais propriedades conformes a fins, nem tão pouco um julgamento 
sem conceito que evidencia (a) somente uma mera conformidade a fins *subjectiva*
no livre jogo das nossas faculdades cognitivas; pelo contrário, é um julgamento 
intelectual segundo conceitos, o qual dá claramente a conhecer uma conformidade 
a fins objectiva, isto é a adequação a uma diversidade sem limite de fins. 
Deveria chamar­se­lhe antes uma *perfeição relativa* em vez de beleza das 
figuras matemáticas. A designação, *beleza intelectual*, não deve ser entendida 
como a correcta em geral, pois que desse modo a palavra beleza teria que perder 
todo o significado determinado e o mesmo aconteceria com o comprazimento 
intelectual que perderia toda a vantagem em relação ao sensível. … sobretudo uma
*demonstração* de tais propriedades que podemos designar como bela, já que 
através desta, o entendimento, como faculdade dos conceitos, e a imaginação, 
como faculdade da apresentação daqueles *a priori*, se sentem fortalecidos (o 
que juntamente com a precisão que a razão introduz se chama elegância da 
demonstração). Aqui ao menos todavia o comprazimento é subjectivo (ainda que o 
seu fundamento se encontre em
_õ279 conceitos) já que a perfeição arrasta consigo uma satisfação objectiva.

$ó63. Da conformidade a fins relativa da natureza e da sua diferença 
relativamente ‡ conformidade a fins interna

A experiência conduz a nossa faculdade do juízo ao conceito de uma conformidade 
a fins objectiva e material, isto é ao conceito de um fim da natureza, somente 
quando se tem que ajuizar (1) uma relação da causa com o efeito, a qual só 
conseguimos descortinar como legitima pelo facto de colocarmos a ideia do efeito
da causalidade da sua causa como a condição da possibilidade dessa causalidade 
que se encontra no fundamento da própria causa. :,

(a) A: "evidenciava".

No entanto isto pode acontecer de duas maneiras: ou consoante consideramos o 
efeito imediatamente como produto da arte ou somente como material para a arte 
de outros possíveis seres naturais, por conseguinte quer como fim, quer como 
meio para o uso conforme a fins de outras causas. A ˙ltima conformidade a fins 
chama­se utilidade _õ280 (para os homens) ou também conveniência 
\k*_kutrãglichkeit*_, (em relação a qualquer outra criatura) e ela é 
simplesmente relativa, enquanto a primeira é uma conformidade a fins interna do 
ser natural.

Os rios acarretam consigo, por exemplo, toda a espécie de terras ˙teis para o 
crescimento das plantas, que eles depositam em terra firme ou muitas vezes 
também nos respectivos estuários. A corrente conduz esta lama para junto de 
muitas costas, passando pelas terras, ou deposita­as nas margens daquelas e no 
caso dos homens até providenciarem no sentido do refluxo não desviar essa lama, 
então a terra fecunda aumenta e o reino das plantas ganha (a) lugar onde antes 
tinham habitado peixes e crustáceos. A maior parte destas extensões de terras 
foi realizada pela própria natureza e é um processo que continua, ainda que 
lentamente. ­­ Perguntamo­nos então se isto deve ser ajuizado como um fim da 
natureza, pois que contém uma utilidade para o homem; na verdade a utilidade 
para o reino vegetal não pode ser invocada, pois, pelo contrário, tanto foi o 
retirado ‡s criaturas marítimas, como a vantagem para as terras aumenta.

(a) A: "toma".

Ou, para dar um exemplo da conveniência de certas coisas da natureza como meios 
para outras criaturas (quando as pressupomos como fins): não há solo onde o 
pinheiro se dê melhor do que num solo arenoso. Ora o antigo mar, antes de se ter
retirado das terras, deixou tantos bancos de areia nas nossas regiões do norte 
que neste solo impróprio para qualquer cultura foi possível _õ281 plantar­se 
extensos campos de pinheiros de cujo extermínio insensato frequentemente 
censuramos os nossos antepassados. Pode­se então perguntar se este depósito 
primitivo de bancos de areia foi um fim da natureza a :,
favor dos campos de pinheiros que poderiam aí crescer. A verdade é que quando se
aceita este de depósito como fim da natureza, deve­se também considerar como tal
aquela areia, mas somente como fim relativo, para o que, por sua vez, a antiga 
costa marítima e o respectivo recuo foi o meio. Com efeito, na série dos membros
subordinados uns aos outros de uma ligação de fins, cada membro intermédio tem 
que ser considerado como fim (ainda que não como fim terminal \k*_endzweck*_,), 
para o qual é meio a sua causa mais próxima. … assim que pelo facto de existir 
no mundo gado, ovelhas, cavalos, etc., então deveria existir erva na terra e 
seria também necessário que existissem ervas salgadas na areia dos desertos, 
para que os camelos pudessem desenvolver­se ou deveria encontrar­se estas e 
aquelas espécies herbívoras em quantidade, para que existam lobos, tigres e 
leões. Por conseguinte, a conformidade a fins objectiva que se fundamenta na 
conveniência, não é uma conformidade a fins das coisas em si mesmas, como se a 
areia tomada em si como efeito da sua causa, o mar, não pudesse ser concebida 
sem atribuir um fim a este ˙ltimo e sem considerar o efeito, a areia, como _õ282
obra da arte. Ela é uma conformidade a fins puramente relativa e contingente 
relativamente ‡ própria coisa a que é atribuída e ainda que de entre os exemplos
apresentados, as espécies herbívoras devam ser ajuizadas em si mesmas como 
produtos organizados da natureza, por conseguinte como pertencendo ao reino das 
coisas produzidas com arte \k*kunstreich*_,, a verdade é que devem ser 
consideradas em relacão a animais que delas se alimentam como simples matéria 
bruta.

Contudo se o homem através da liberdade da sua causalidade acha convenientes 
(frequentemente) *em relação aos seus propósitos* arbitrários (penas de pássaros
coloridas para ornamento dos seus vestidos, as terras de cor ou sucos vegetais 
para se arrebicar) as coisas naturais ou, muitas vezes também, com propósitos 
razoáveis, acha convenientes o cavalo para se deslocar, o touro e em Minorca até
o burro e (a) o porco para lavrar,  :,

(a) Em A falta "o burro e".

então também não se pode aceitar um fim natural relativo (a este uso). … que a 
razão humana sabe dar ‡s coisas um acordo com as suas ideias arbitrárias, para o
que o próprio homem não estava predestinado pela natureza. Somente se aceitamos 
que os homens têm que viver na terra, é que então não podem faltar ao menos os 
meios sem os quais os homens, como animais, e mesmo como animais racionais, 
(mesmo que seja num grau tão baixo quanto se queira) não poderiam subsistir. 
Donde se segue porém que aquelas coisas naturais, que para este propósito são 
indispensáveis, deveriam também ser considerados como fins naturais.

Descortina­se então facilmente que a conformidade a fins externa (conveniência 
de uma coisa para outras), _õ283 somente sob a condição que a existência 
daquilo, em relação a que a coisa é conveniente imediatamente ou de modo 
afastado, seja para si mesma fim da natureza, é que pode ser considerada, como 
um fim natural externo. Mas porque isso nunca será descoberto mediante a simples
observação da natureza, daí se segue porém que a conformidade a fins relativa, 
ainda que forneça hipoteticamente indicações sobre fins naturais, não legitima 
nenhum juízo teleológico absoluto.

Nas terras frias a neve protege as sementes contra a geada; facilita a 
sociabilidade humana (por meio dos trenós); o habitante da Lapónia encontra aí 
animais que tornam possível tal sociabilidade (as renas), as quais acham 
suficiente alimento num musgo seco que elas próprias tiveram que descobrir sob a
neve e não obstante deixam­se facilmente domesticar e roubar a liberdade que bem
poderiam preservar. Para outros povos das mesmas zonas geladas o mar contém uma 
rica provisão de animais que, para além da alimentação e do vestuário que lhes 
fornecem, e da madeira que o mar de igual modo lhes oferece para as habitações, 
fornecem­lhes ainda os materiais combustíveis para aquecer as suas cabanas. Ora 
aqui existe um concurso admirável produzido artisticamente por tantas relações 
da natureza relativamente a um fim; e ele é o habitante da Gronelândia, da 
Lapónia, da Samoa, da Jacua, etc., ... Mas não se vê por que razão :, teriam em 
geral de aí viver homens. Dizer que a razão _õ284 pela qual os vapores caem do 
ar sob a forma de neve, pela qual o mar tem as suas correntes que conduzem a 
madeira que cresceu nos países quentes, existindo ali grandes animais marinhos 
ricos em óleo, já que no fundamento da causa que arranja todos os produtos da 
natureza existe a ideia de uma vantagem para certas criaturas mais desprovidas 
de inteligência, seria um juízo arbitrário e temerário. Com efeito se todas 
estas coisas ˙teis não existissem, não lamentaríamos nada no que respeita ‡ 
conformidade das causas naturais relativamente a este modo de ser das coisas. 
Exigir uma tal disposição e atribuir ‡ natureza um tal fim (já que somente a 
maior incompatibilidade dos homens entre si é que pode remetê­los para regiões 
tão inóspitas) parecer­nos­ia até desmedido e irreflectido.

$ó64. Do carácter específico das coisas como fins naturais

Para perceber que uma coisa somente é possível como fim, isto é para devermos 
procurar a causalidade da sua origem não no mecanismo da natureza, mas numa 
causa cuja faculdade de actuar é determinada por conceitos, torna­se necessário 
que a respectiva forma não seja possível segundo simples leis da natureza, isto 
é aquelas leis que podem ser por nós conhecidas somente através do entendimento,
aplicado aos objectos dos sentidos. Pelo _õ285 contrário, é exigido que mesmo o 
seu conhecimento empírico, nas suas causas e efeitos, pressuponha conceitos da 
razão. Esta *contingência* da sua forma no que diz respeito a todas as leis 
empíricas da natureza no respeitante ‡ razão, é ela própria um princípio para 
aceitar a causalidade do mesmo (objecto) como se essa forma fosse precisamente 
somente possível através da razão, já que esta em qualquer forma de um produto 
natural também tem que reconhecer a necessidade daquela, se é que ela deseja 
descortinar as condições que estão ligadas ‡ produção desse produto, não 
obstante não poder aceitar naquela dada forma esta necessidade. Mas a razão é :,
assim a faculdade de actuar segundo fins (uma vontade); e o objecto que somente 
é representado como possível a partir desta faculdade, seria somente 
representado como possível enquanto fim.

Se alguém, numa terra que lhe pareça desabitada, percebesse desenhada na areia 
uma figura geométrica, por exemplo um hexágono regular, então quanto muito a sua
reflexão captaria por meio da razão, na medida em que trabalhasse num conceito 
daquela mesma figura, a unidade do princípio da produção da mesma, ainda que de 
modo obscuro e assim não ajuizaria, segundo esta unidade, a areia, o vizinho 
mar, os ventos ou também os animais com as pegadas que ele conhece, ou ainda 
outra qualquer causa desprovida de razão, como um fundamento da possibilidade de
uma tal figura. … que a contingência de um acordo dessa figura com um tal 
conceito, que somente é possível na razão, lhe pareceria tão infinitamente 
grande que seria indiferente que, nesse caso, houvesse ou não qualquer lei da 
natureza. Por conseguinte também nenhuma causa na natureza, actuante de modo 
simplesmente mecânico, mas somente o conceito de um tal objecto como conceito ­­
o qual somente a razão pode dar e com o qual pode comparar o objecto ­­ poderá 
conter a causalidade para um tal efeito, e assim este pode ser considerado 
inteiramente como fim, mas não como fim natural, isto é como produto da arte 
(vestigium hominis video).

Para contudo ajuizar aquilo que se conhece como produto natural como se fosse 
fim, por conseguinte como fim natural ­­ se é que aqui não se esconde uma 
contradição ­­ algo mais se deve exigir. Diria provisoriamente o seguinte: uma 
coisa existe como fim natural quando (ainda que num duplo sentido) *é causa e 
efeito de si mesma*; com efeito aqui jaz uma causalidade tal que não pode estar 
ligada ao simples conceito de uma natureza, sem que se lhe dê como fundamento um
fim, mas que pode na verdade ser pensada, mas não conceptualizada sem 
contradição. Vamos esclarecer a definição desta ideia de fim natural, antes de 
mais nada através de um exemplo e antes de a analisarmos completamente. :,

Uma árvore produz em primeiro lugar uma outra árvore segundo uma conhecida lei 
da natureza. A árvore contudo que ela produz é da mesma espécie; e assim _õ287  
produz­se a si mesma segundo a espécie na qual ela se conserva firmemente como 
tal, quer como efeito, quer ainda como causa, produzida incessantemente a partir
de si mesma e do mesmo modo produzindo­se muitas vezes a si mesma.

Em segundo lugar uma árvore produz­se também a si mesma como *indivíduo*. Na 
verdade, esta espécie de efeito designamo­la somente crescimento; mas isto deve 
ser tomado num sentido tal que seja completamente distinto de qualquer outro 
aumento segundo leis 
mecânicas e deve ser visto como uma geração \k*_zeugung*_,, se
bem que com outro nome. Esta planta elabora previamente a matéria que ela 
assimila numa qualidade sua específica que o mecanismo da natureza que lhe é 
exterior não pode fornecer, e continua a formar­se através desta substância que 
na respectiva composição é o seu próprio produto. Com efeito, se bem que no que 
respeita ‡s partes constituintes que ela recebe da natureza 
exterior só possa ser considerada como educação (*als Educt*),
pode­se contudo encontrar uma tal originalidade na faculdade de decomposição e 
de recomposição desta substância bruta nesta espécie de seres naturais, que toda
a arte fica infinitamente longe dela se pretender reconstituir aqueles produtos 
do reino vegetal a partir dos elementos que obtém (a) através da divisão destes 
ou a partir da substância que a natureza fornece para a sua alimentação.

(a) Em A falta: "obtém".

_õ288 Em terceiro lugar uma parte desta criatura produz­se também a si mesma do 
seguinte modo: a preservação de uma parte depende da preservação da outra e 
reciprocamente. O olho, numa folha de árvore, implantado no ramo de uma outra 
traz a um pé de planta estranho uma
planta da sua própria espécie e desse modo o enxerto num outro tronco. Daí que 
se possa, na mesma árvore, também ver qualquer ramo ou folha como simplesmente 
enxertado :, ou inoculado, por conseguinte como uma árvore subsistindo por si 
mesma, que somente depende de uma outra e dela parasitariamente se alimenta. De 
igual modo as folhas são verdadeiramente produtos da árvore, porém, por sua vez 
preservam­na; com efeito uma desfolhagem repetida matá­la­ia e o seu crescimento
depende da acção das folhas (a) no tronco. O auxílio que a natureza dá a si 
própria por ocasião de uma lesão das suas criaturas, em que a falta de uma 
parte, pertencente ‡ preservação de partes vizinhas, é completada pelas outras 
partes; o mau crescimento ou má formação no crescimento em que certas partes por
causa de certas deficiências ou obstáculos se formam de um modo totalmente novo 
e isso para preservar e produzir uma criatura anómala, tudo isto apenas desejo 
mencionar de passagem, tendo em conta que estas são algumas de entre as mais 
admiráveis propriedades dos seres organizados.

(a) A: "desta acção daquelas folhas".

_õ29  $ó65. As coisas como fins naturais são seres 
organizados

Segundo o carácter introduzido no parágrafo precedente, uma coisa que deve ser 
reconhecida possível como produto natural e porém, de igual modo, como fim 
natural, tem que se comportar em relação a si mesma reciprocamente como causa e 
como efeito, o que é uma expressão de algum modo desapropriada e indefinida que 
exige uma dedução a partir de um conceito determinado.

A ligação causal, na medida em que ela é simplesmente pensada mediante o 
entendimento, é uma conexão que constitui uma série (de causas e efeitos) que 
vai sempre no sentido descendente; e as próprias coisas que, enquanto efeitos, 
pressupõem as outras como causas, não podem reciprocamente e ao mesmo tempo ser 
causa daquelas. A esta ligação causal chamamos a das causas eficientes (*nexus 
effectivus*). Porém também se pode, em sentido contrário, pensar uma ligação 
causal segundo um conceito da razão (de fins), ligação que, se a :, 
considerarmos como uma série, conteria tanto no sentido descendente, como no 
ascendente uma forma de dependência, na qual a coisa, que uma vez foi assinalada
como efeito, passa então no sentido ascendente a merecer o nome de uma causa 
daquela coisa de que ela fora o efeito. No domínio prático (nomeadamente no da 
arte) encontra­se facilmente uma conexão semelhante, como por exemplo _õ290 a 
casa que na verdade é a causa dos rendimentos que são recebidos pelo respectivo 
aluguer, porém também inversamente foi a representação deste possível rendimento
a causa da construção da casa. A uma tal conexão causal chamamos a das causas 
finais (*nexas finalis*). Poder­se­ia talvez chamar ‡ primeira, talvez de uma 
forma mais apropriada, a conexão das causas reais, ‡s segundas a das causas 
ideais, porque com esta designação é de igual modo compreendido que não podia 
haver mais do que estas duas espécies de causalidade.

Para uma coisa ser considerada como fim natural é pois *em primeiro lugar* 
necessário que as partes (segundo a sua existência e a sua forma) somente sejam 
possíveis mediante a sua relação ao todo. Com efeito a própria coisa é um fim, 
por conseguinte apreendida sob um conceito ou uma ideia que tem que determinar 
*a priori* tudo o que nela deve estar contido. Mas na medida em que uma coisa 
somente é pensada como possível deste modo, é meramente uma obra de arte, isto é
o produto de uma causa racional distinta da matéria (das partes) daquela mesma 
obra, cuja causalidade (na constituição e ligação das partes) é determinada 
através da sua ideia de um todo tornado assim possível (por conseguinte não 
mediante a natureza fora de si).

Contudo se uma coisa como produto natural deve conter em si mesma e na sua 
necessidade interna uma relação a fins, isto é ser somente possível como fim 
natural e sem a causalidade dos conceitos de seres racionais fora dela, então 
para tanto deve exigir­se em *segundo lugar* _õ291 que as partes dessa mesma 
coisa se liguem para a unidade de um todo e que elas sejam reciprocamente causa 
e efeito da sua forma. Então só assim é possível que inversamente 
(reciprocamente) a ideia do todo, por :, sua vez, determine a forma e a ligação 
de todas as partes: não como causa ­­ pois que assim seria um produto da arte, 
mas sim com fundamento de conhecimento da unidade sistemática da forma e ligação
de todo o m˙ltiplo que está contido na matéria dada, para aquele que ajuíza essa
coisa.

Por isso, para um corpo dever ser ajuizado em si e segundo a sua forma interna, 
é necessário que as partes do mesmo se produzam umas ‡s outras reciprocamente e 
em conjunto, tanto segundo a sua forma como na sua ligação e assim produzam um 
todo a partir da sua própria causalidade, cujo conceito por sua vez e 
inversamente (num ser que possuísse a causalidade adequada a um tal produto) 
poderia ser causa dele mesmo, segundo um princípio e em consequência a conexão 
das *causas eficientes* poderia ser ajuizada simultaneamente como efeito 
*mediante causas finais*.

Num tal produto da natureza cada uma das partes, assim como só existe *mediante*
as restantes, também é pensada *em função das outras* e por causa do todo, isto 
é como instrumento (órgão). No entanto isto ainda não basta (pois que ela também
poderia ser instrumento da _õ292 arte e desse modo ser representada em geral 
somente como fim). Pelo contrário, quando um órgão *produz* as outras partes 
(por consequência cada uma produzindo reciprocamente as outras) não pode ser 
instrumento da arte, mas somente da natureza, a qual fornece toda a matéria aos 
instrumentos (mesmo aos da arte). Somente então e por isso poderemos chamar a um
tal produto, enquanto ser *organizado* e *organizando­se a si mesmo*, um *fim 
natural*.

Num relógio uma parte é o instrumento do movimento das outras, mas uma roda (a) 
não é causa eficiente da produção da outra (b); uma parte existe na verdade em 
função doutra, mas não é através dessa outra que ela existe. Daí também que a 
causa produtora da mesma e da sua forma não esteja contida 

(a) A: "das outras".

(b) "uma roda" falta em A.
na natureza (desta :, matéria) mas fora dela, num ser que pode actuar segundo 
ideias de um todo possível mediante a sua causalidade. Daí também que tal como 
uma roda (a) no relógio não produza a outra, muito menos um rel6gio produz outro
relógio, de forma que para tanto utilizasse outra matéria (a organizasse). Por 
isso ele também não substitui pelos seus próprios meios, as partes que lhe são 
retiradas ou corrige sequer a sua falta na construção original pela intervenção 
das restantes, ou se corrige a si mesmo depois de ter entrado em desordem. Ora, 
pelo contrário, podemos esperar tudo isto da natureza organizada. ­­ Um ser 
organizado é por isso não simplesmente máquina: esta _õ293 possui apenas força 
*motora* \k*bewegende*_,; pelo contrário ele possui em si força *formadora* 
\k*bildende*_, e na verdade uma tal força que ele a comunica aos materiais que 
não a possuem (ela organiza). Trata­se pois de uma força formadora que se 
propaga a si própria, a qual não é explicável só através da faculdade motora (o 
mecanismo).

(a) A: "Dai que uma roda também nso produz".

Diz­se muito pouco da natureza e da sua faculdade nos produtos organizados, 
quando designamos esta como *analogon da arte*; pois ai se pensa o artífice (um 
ser racional) fora dela. Sobretudo ela organiza­se a si própria e em cada 
espécie dos seus produtos organizados, na verdade segundo um ˙nico modelo no 
todo, mas porém de igual modo com modificações bem urdidas que a autopreservação
segundo as circunstancias exige. Talvez adquiramos uma perspectiva mais correcta
desta propriedade impenetrável se a designarmos como um *analogon da vida*. Mas 
então ou temos que dotar a matéria, enquanto simples matéria, com uma 
propriedade (hilozoismo) que contradiz a sua essência, ou a animamos com um 
princípio que com ela *se encontra em comunidade* e de diferente espécie (uma 
alma). Contudo para tanto, se é que um tal produto deve ser um produto natural, 
a matéria organizada como instrumento daquela alma, ou já tem que ser 
pressuposta e então não torna essa matéria mais compreensível, ou temos que 
fazer da alma uma artífice desta construção, tendo assim que retirar o :, _õ294 
produto ‡ natureza (ao corpóreo). Para falar com rigor, a organização da 
natureza não tem por isso nada de analógico com qualquer causalidade que 
conheçamos (2). A beleza da natureza pode com razão ser designada como um 
*analogon* da arte, já que ela é atribuída aos objectos somente em relação ‡ 
reflexão sobre a intuição externa dos mesmos, por conseguinte somente por causa 
das formas superficiais. Mas a *perfeição natural interna* \k*ianere 
Naturvollkommenheit*_,, tal como a possuem aquelas coisas que somente são 
possíveis enquanto *fins naturais* e por isso se chamam seres organizados, não 
pode ser pensada e explicada segundo nenhuma analogia com qualquer faculdade 
física, isto é natural, que nos seja conhecida e nem mesmo através de uma 
analogia perfeitamente adequada ‡ arte humana, já que nós próprios pertencemos ‡
natureza no mais amplo sentido.

O conceito de uma coisa, enquanto fim natural em si, não é por isso um conceito 
constitutivo do entendimento ou da razão, mas no entanto pode ser um conceito 
_õ295 regulativo para a faculdade de juízo reflexiva para orientar a 
investigação sobre objectos desta espécie, segundo uma analogia remota com a 
nossa causalidade segundo fins em geral, e reflectir sobre o seu mais alto 
fundamento, o que não serviria para o conhecimento da natureza ou do seu 
fundamento originário, mas muito mais para o conhecimento daquela nossa 
faculdade racional prática com a qual, por analogia, nós considerávamos a causa 
daquela conformidade a fins.

Por isso os seres organizados são os ˙nicos na natureza que, ainda que também só
se considerem por si e sem uma relação com outras coisas, têm porém que ser 
pensados como possíveis, enquanto fins daquela mesma natureza e por isso como 
aqueles que primeiramente proporcionam uma realidade objectiva ao conceito de um
fim que não é um fim prático, mas sim um fim da *natureza* e, desse modo, ‡ 
ciência da natureza o fundamento para uma teleologia, isto é, um modo de 
julgamento dos seus objectos segundo um princípio particular que doutro modo não
estaríamos autorizados a nela introduzir (porque não se pode de maneira nenhuma 
descortinar :,
*a priori* a possibilidade de uma tal espécie de causalidade).

$ó66. Do princípio do julgamento da conformidade a fins interna em seres 
organizados

Este princípio, que é ao mesmo tempo a definição dos seres organizados, é o 
seguinte: *_um produto organizado da natureza é aquele em que tudo é fim e 
reciprocamente _õ296 meio*. Nele nada é em vão, sem fim ou atribuível a um 
mecanismo natural cego.

Este princípio, segundo o modo como ocorre, é deduzível da experiência, 
nomeadamente daquela que é metodicamente estabelecida e que se chama 
observação \k*_beobachtung*_,. Mas por causa da universalidade e da necessidade 
que esse princípio afirma de uma tal conformidade a fins, não pode simplesmente 
assentar na experiência, mas pelo contrário tem como fundamento algum princípio 
*a priori* qualquer, ainda que seja meramente regulativo e aqueles fins 
existissem somente na ideia daquele que julga e em nenhuma outra causa 
eficiente. Daí que se possa chamar ao princípio acima mencionado uma *máxima* do
julgamento da conformidade a fins interna de seres organizados.

… conhecido como aqueles que praticam a dissecação de vegetais e animais, para 
pesquisar a sua estrutura e poder descortinar as razões, pelas quais, e com que 
fim, lhes foram dadas, uma tal disposição e ligação das partes e precisamente 
esta forma interna, aceitam como absolutamente necessária aquela máxima, segundo
a qual nada é *em vão* numa tal criatura e assim lhe dão validade como sendo o 
princípio da doutrina universal da natureza *nada acontece por acaso*. Na 
verdade tão pouco podem renunciar a este princípio teleológico, quanto o podem 
fazer em relação ao físico­universal porque, assim como _õ297 se se abandonasse 
(a) este ˙ltimo não ficaria nenhuma 

(a) Em A: "bei Veranlassung": "por ocasião de".
experiência em geral, assim também não restaria nenhum :, fio orientador para a 
observação desta espécie de coisas da natureza que já havíamos pensado 
teleologicamente sob o conceito de fim natural.

Na verdade este conceito conduz a razão numa ordem das coisas completamente 
diferente daquela ordem de um simples mecanismo da natureza, que aqui já não é 
suficiente. Uma ideia deve servir de fundamento ‡ possibilidade do produto da 
natureza. Mas porque aquela é uma unidade absoluta da representação ­­ sendo por
seu lado a matéria uma pluralidade das coisas, a qual por si não pode fornecer 
nenhuma unidade determinada da composição ­­ deve o fim da natureza ser 
estendido a *tudo* o que se encontra naquilo que é seu produto, se é que aquela 
unidade da ideia deve até servir como fundamento de determinação *a priori* de 
uma lei da natureza para a causalidade de uma tal forma de composição. De facto 
se nós atribuirmos uma tal efeito no seu *todo* a um fundamento de determinação 
supra­sensível, para além do mecanismo cego da natureza, temos que também 
ajuizá­lo segundo este princípio e não existe nenhuma razão para aceitar a forma
de uma tal coisa como parcialmente independente daquele princípio, pois então 
com a mistura de princípios heterogéneos não restaria nenhuma regra segura do 
julgamento.

_õ298 Pode sempre acontecer que, por exemplo, num corpo animal muitas partes 
pudessem ser compreendidas como concreções segundo leis simplesmente mecânicas 
(como peles, ossos, cabelos). Porém a causa que aí arranjou a matéria adequada 
modifica­a, forma­a e coloca­a nos respectivos lugares, de tal maneira que tem 
que ser sempre ajuizada teleclogicamente, de tal modo que tudo nele tem que ser 
considerado como organizado e tudo também, por sua vez, é órgão dentro de uma 
certa relação com a coisa ela mesma.

$ó67. Do princípio do julgamento teleológico da natureza em geral como sistema 
dos fins

Já dissémos acima, sobre a conformidade a fins externa das coisas da natureza 
que ela não fornecia :, qualquer justificação suficiente para a utilizarmos como
fim da natureza, para a fundamentação da explicação da sua existência, e ao 
mesmo tempo os efeitos casualmente conformes a fins da mesma natureza, 
idealmente, para a fundamentação da sua existência segundo o princípio das 
causas finais. Assim não se podem considerar imediatamente fins naturais os 
*rios* por promoverem a comunidade entre povos no interior das terras, as 
*montanhas* por conterem as fontes para aqueles e a provisão de neve para a sua 
manutenção em épocas sem chuva, nem do mesmo modo o declive das terras que 
transporta estas águas e torna seca a terra. … que não obstante esta forma das 
superfícies da terra fosse muito *necessária* para a génese e manutenção dos 
reinos vegetal e animal, nada possui porém em si cuja possibilidade tornasse 
necessário admitir uma causalidade segundo fins. Isto mesmo é igualmente válido 
para as plantas que o homem utiliza para as suas necessidades ou divertimento, 
para os animais como o camelo, o boi, o cavalo, o cão, etc., os quais, umas 
vezes, para sua alimentação, outras, para o seu serviço ele pode utilizar de tão
variadas formas e sem o que ele em grande parte não pode passar. A relação 
externa das coisas, das quais não há razão para considerar nenhuma por si como 
fim, pode ser ajuizada só hipoteticamente como conforme a fins.

Ajuizar uma coisa, em razão da sua forma interna, como fim natural, é algo 
completamente diferente do que tomar a existência dessa coisa por fim da 
natureza. Para esta ˙ltima afirmação não necessitamos simplesmente do conceito 
de um possível fim, mas do conhecimento do fim terminal \k*_endzweck*_, 
(*scopus*) da natureza, o qual precisa de uma referência da mesma a algo de 
supra­sensível, a qual ultrapassa em muito todo o nosso conhecimento da natureza
teleológico. A forma interna de uma simples ervinha pode provar de maneira 
suficiente, para a nossa faculdade de julgamento humano, a sua possível origem 
simplesmente segundo a regra dos fins. Mas se partirmos _õ300 desse ponto de 
vista, e se olharmos para o uso que disso fazem os outros seres da natureza, 
abandonamos a consideração da organização interna e olhamos somente :, para as 
relações finais externas ­­ como a erva para o gado, como este é necessário ao 
homem enquanto meio para a sua existência e não é então visível por que razão 
será necessário que existem homens (ao que não seria tão fácil de responder se 
pensarmos mais ou menos nos habitantes da Nova­_holanda ou das Ilhas do Fogo). E
deste modo não se chega a nenhum fim categórico, mas pelo contrário toda esta 
relação final assenta numa condição sempre a colocar posteriormente que, como 
incondicionado (a existência de uma coisa como fim terminal), fica completamente
fora do mundo físico­teleológico. Mas também uma coisa assim não é um fim 
natural, pois não deve ser considerado (ou toda a sua espécie) como produto da 
natureza.

Por isso somente a matéria, enquanto matéria organizada, necessariamente e por 
si mesma conduz ao conceito de si como um fim natural, porque esta sua forma 
específica é simultaneamente produto da natureza. Mas este conceito conduz 
então, necessariamente, ‡ ideia da natureza no seu todo como um sistema segundo 
a regra dos fins, ideia a que deve então subordinar­se todo o mecanismo da 
natureza segundo princípios da razão (ao menos para assim experimentar os 
fenómenos da natureza). O princípio da razão cabe­lhe então de modo somente 
subjectivo, isto é como máxima: tudo no mundo _õ301 é bom para alguma coisa; 
nada nele é em vão; e temos o direito, e mesmo o dever, através do exemplo que a
natureza nos dá nos seus produtos orgânicos, de nada esperar dela e das suas 
leis senão aquilo que é conforme a fins no seu todo.

Compreende­se que isto não seja um princípio para a faculdade de juízo 
determinante, mas sim para a reflexiva, que seja um princípio regulativo e não 
constitutivo e por ele somente recebamos um fio orientador para considerar, 
segundo uma nova ordem legisladora, as coisas da natureza relativamente a um 
fundamento de determinação que já foi dado, e alargar o conhecimento da natureza
segundo um outro princípio, nomeadamente o das causas finais, porém sem 
danificarmos o princípio do mecanismo da sua causalidade. De resto não se :, 
pretende assim de modo nenhum que qualquer coisa que ajuizemos segundo este 
princípio seja *intencionalmente* fim da natureza, isto é, que as ervas existem 
para o boi ou a ovelha e que isto e as restantes coisas da natureza existem para
o homem. … bom considerar também deste ponto de vista as coisas que nos são 
desagradáveis e inoportunas sob certos aspectos. Poder­se­ia então dizer, por 
exemplo, que os bichos que atormentam o homem na sua roupa, no cabelo ou mobília
são, segundo uma sábia disposição da natureza, um estímulo para a limpeza que, 
por si mesma, é já um meio importante da conservação da sa˙de. Ou que os 
mosquitos e outros insectos _õ302 mordedores, que tornam os desertos da América 
tão insuportáveis para os selvagens, são outros tantos aguilhões da actividade 
para estas pessoas incipientes, de modo a que sequem os pântanos e possam dar 
claridade ‡s florestas que impedem a corrente do ar e assim, mediante a cultura 
do solo, tornem simultaneamente mais sãs as suas habitações. Mesmo aquilo que 
parece na sua organização interna ser antinatural para o homem, se é encarado 
deste modo, fornece uma perspectiva interessante e por vezes instrutiva para uma
ordem teleológica das coisas, ‡ qual, sem um tal princípio, a simples 
consideração física só por si não nos conduziria. Assim como alguns julgam que a
ténia é dada ao homem e aos animais onde habita, como que para substituir uma 
certa carência dos seus órgãos vitais, assim eu perguntaria se os sonhos (que 
sempre existem no sono ainda que raramente deles nos lembremos) podem ser uma 
disposição conforme a fins da natureza, na medida em que servem, por ocasião do 
relaxamento de todas as forças motoras do corpo, para movimentar interiormente 
os órgãos vitais, através da faculdade da imaginação e da sua grande actividade 
(que nesta situação vai frequentemente até a afectos emocionais); assim como 
também a faculdade da imaginação quando o estÙmago está demasiado pesado, e este
movimento é por isso tanto mais necessário, desenvolve no sono nocturno uma 
actividade tanto maior. Pelo que sem esta força motora interna e esta fatigante 
perturbação ­­ por causa das quais nós nos queixamos dos :, _õ303 sonhos (que 
porém de facto são curativos) ­­ o próprio sono seria, até mesmo num estado de 
boa sa˙de, um completo apagamento da vida.

Também a beleza da natureza, isto é a sua concordância com o livre jogo das 
nossas faculdades de conhecimento na apreensão e julgamento da sua manifestação,
pode ser considerada como conformidade a fins objectiva da natureza no seu todo 
enquanto sistema, no qual o homem é um membro. Isto é possível uma vez que o 
julgamento teleológico da natureza, mediante os fins naturais que os seres 
organizados nos apresentam, nos dê a justificação da ideia de um grande sistema 
de fins da natureza. Podemos considerá­lo como uma graça (3) que a natureza teve
para nós o facto de ela ter distribuído com tanta abundância, para além do que é
˙til, ainda a beleza e o encanto e por isso a amamos, tal como a contemplamos 
_õ304 com respeito por causa da sua imensidão e nos sentimos a nós próprios 
enobrecidos nesta contemplação. … como se precisamente a natureza tivesse no 
fundo armado e ornamentado com esta intenção o seu soberbo palco.

O que afinal queremos dizer neste parágrafo é que, uma vez descoberta na 
natureza uma faculdade de fabricar produtos que somente podem ser pensados por 
nós segundo o conceito das causas finais, vamos mais longe e também podemos 
ajuizar que aqueles (ou a respectiva relação, ainda que conforme a fins) que não
levam necessariamente a procurar um outro princípio para a sua possibilidade 
para lá do mecanismo das causas eficientes, pertencem mesmo assim a um sistema 
dos fins. … que a primeira ideia já nos leva para lá do mundo dos sentidos no 
que concerne ao seu fundamento. … por isso que a unidade do princípio supra­
sensível deve ser considerada válida, não simplesmente para certas espécies dos 
seres naturais, mas também para o todo da natureza como sistema.

$ó68. Do princípio da teleologia como princípio interno da ciência da natureza

Os princípios de uma ciência ou lhe são internos e chamam­se domésticos 
(principia domestica), ou são fundados :,  _õ305 em conceitos que só fora dela 
encontram o seu lugar e são princípios *forasteiros* (*peregrina*). As ciências 
que contêm estes ˙ltimos colocam lemas (*lemmata*) no fundamento das respectivas
teorias; isto é, pedem emprestado de uma outra ciência um conceito e com ele um 
fundamento da ordenação.

Cada ciência é para si mesma um sistema e não basta nela construir segundo 
princípios e por isso agir de modo técnico, mas pelo contrário temos que também 
operar nela de forma arquitectónica, como um edifício por si subsistente e não a
tratar como um anexo e como uma parte de outro edifício, mas sim como um todo 
existindo para si, mesmo que depois se possa estabelecer uma passagem deste para
aquele ou reciprocamente. Quando por isso se traz o conceito de Deus para a 
ciência da natureza e para o seu contexto, com o objectivo de explicar a 
conformidade a fins na natureza e seguidamente se utiliza esta conformidade para
provar que existe um Deus, então não há consistência interna em nenhuma destas 
ciências e um dialelo enganador envolve­as em incerteza pelo facto de deixarem 
confundir as respectivas fronteiras.

A expressão, um fim da natureza, já evita suficientemente esta confusão, para 
que a ciência da natureza e a ocasião que ela oferece ao julgamento 
*teleológico* dos seus objectos não se confundam com o estudo de Deus e por isso
com uma dedução *teológica*. E não se deve _õ306 considerar como pouco 
significativo, se essa expressão se confundir com a de um fim divino na 
ordenação da natureza, ou que se apresente esta ˙ltima expressão como mais 
conveniente e adequada para uma alma piedosa, porque teria decerto que 
finalmente deduzir aquelas formas conformes a fins na natureza de um demiurgo 
sábio. Pelo contrário temos que, de forma cuidadosa e modesta, limitar­nos ‡ 
expressão que precisamente só afirma tanto quanto sabemos, isto é ‡ de um fim da
natureza. Pois antes ainda de nos interrogarmos sobre as causas da própria 
natureza, encontramos nesta e no decorrer da sua produção, produtos tais que são
nela gerados segundo leis da experiência conhecidas e segundo as quais a ciência
da natureza ajuíza os seus produtos. Por :, conseguinte também tem que procurar 
a causalidade destes nela própria, segundo a regra dos fins. Daí que ela não 
deva saltar por cima das suas fronteiras para trazer a si mesma, como princípio 
doméstico, aquilo cujo conceito não se adequa a absolutamente nenhuma 
experiência e a que só podemos ousar depois da realização plena da ciência da 
natureza.

As propriedades da natureza que se deixam demonstrar *a priori*, e por isso, 
segundo a sua possibilidade, se deixam descortinar segundo princípios universais
sem qualquer contribuição da experiência, não podem de modo nenhum, se bem que 
tragam consigo uma conformidade a fins técnica, porque são simplesmente 
necessários, entrar mesmo assim na conta da teleologia da natureza como um 
método pertencente ‡ Física para a resolução dos problemas desta. Analogias 
matemáticas e _õ307 geométricas e do mesmo modo leis mecânicas universais, por 
muito surpreendente e digno de admiração que também nos possa aparecer a 
unificação de tantas regras aparentemente independentes uma das outras num 
princípio, não exigem por esse facto que as consideremos na Física como 
princípios de explicações teleológicas. E ainda que mereçam ser tomadas em 
consideração na teoria geral da conformidade a fins das coisas da natureza em 
geral, teria no entanto esta conformidade um outro lugar, nomeadamente na 
Metafísica e não constituiria qualquer princípio da ciência da natureza. No que 
toca ‡s leis empíricas dos fins naturais nos seres organizados, é não só 
permitido, mas até inevitável utilizar o *modo de julgamento* teleológico para 
princípio da doutrina da natureza no respeitante a uma classe específica dos 
seus objectos.

Para que a Física assim permaneça rigorosamente nos seus limites, abstrai­se da 
questão de saber se os fins naturais são intencionais ou não intencionais, pois 
isso seria uma intromissão num assunto que não lhe diz respeito (nomeadamente o 
da metafísica). Basta que existam objectos, explicáveis ˙nica e exclusivamente 
segundo leis da natureza, que somente podemos pensar sob a ideia dos fins como 
princípio, e simplesmente desta _õ308 maneira cognoscíveis, segundo a sua forma 
interna, e :, mesmo só internamente. Para que deste modo também não se incorra 
na menor suspeita de pretendermos misturar algo, nos nossos fundamentos de 
conhecimento, que não pertence em absoluto ‡ Física, isto é uma causa 
sobrenatural, falamos então na teleologia da natureza, como se a conformidade a 
fins nela fosse intencional, mas todavia simultaneamente de forma a atribuir 
também esta intenção ‡ natureza, isto é, ‡ matéria. Através disto pretende­se 
indicar (porque aqui não há lugar para nenhum mal entendido, na medida em que 
ninguém pode decerto atribuir intenção no sentido próprio do termo a uma matéria
inanimada) que esta palavra aqui somente significa um princípio da faculdade de 
juiz ) reflexiva, não da determinante e por isso não deve introduzir nenhum 
fundamento especial da causalidade. Pelo contrário ela acrescenta somente para o
uso da razão uma outra espécie de investigação, diferente daquela que é feita 
segundo leis mecânicas, com o objectivo de completar a insuficiência destas 
˙ltimas, até mesmo em relação ‡ pesquisa empírica de todas as leis particulares 
da natureza. Dai que na teleologia se fale com propriedade, contanto que ela se 
ligue ‡ Física, da sabedoria, da economia, da previdência, da beneficiência da 
natureza, sem desse modo fazer dela um ser inteligente (o que não teria 
sentido); mas também sem nos atrevermos a querer colocar por cima dela um ser 
_õ309 inteligente como construtor (*_werkmeister*) porque isso seria temerário 
(4). Ao contrário o que se pretende é somente indicar desse modo uma espécie da 
causalidade da natureza, segundo uma analogia com a nossa razão no uso técnico, 
para ter presente a regra pela qual têm que ser investigados certos produtos da 
natureza.
Mas por que razão é que a teleologia não constitui geralmente qualquer parte 
própria da ciência natural teórica, mas pelo contrário está relacionada com a 
teleologia como propedêutica ou como passagem \k/_¸bergang*_, para esta? Tal 
acontece para conter firmemente o estudo da natureza, segundo o seu mecanismo, 
naquilo que podemos submeter ‡ nossa observação ou ‡s experimentações de tal 
modo que nós próprios pudéssemos produzi­lo ‡ semelhança da natureza ou pelo 
menos por semelhança com :, as suas leis. Na verdade só se descortina plenamente
aquilo que nós próprios podemos fazer com conceitos e por nós próprios 
estabelecer. Contudo a organização, como _õ310 fim interno da natureza, excede 
infinitamente toda a faculdade de uma apresentação semelhante através da arte; e
no que respeita ‡s disposições naturais externas \k*ãussere 
Natureinrichtungen*_,, tidas como conformes a fins (por exemplo ventos, chuva e 
coisas semelhantes), a Física considera certamente o mecanismo das mesmas. No 
entanto a sua relação a fins, na medida em que esta deva ser uma condição 
pertencendo necessariamente ‡ causa, não pode ela de modo nenhum apresentar, 
porque esta necessidade da conexão concerne inteiramente ‡ ligação dos nossos 
conceitos e não ‡ natureza \k*_beschaffenheit> das coisas. 

_õ311  Segunda Divisão

Dialéctica da Faculdade de Juízo Teleológica

$ó69. 0 que é uma antinomia da faculdade do juízo

A faculdade de juízo *determinante* não possui por si quaisquer princípios que 
fundamentem *conceitos de objectos*. Não é uma autonomia, pois que somente 
*subsume* sob dadas leis ou conceitos, enquanto princípios. Precisamente por 
isso não está exposta a qualquer perigo de uma antinomia que lhe seja específica
e a qualquer conflito dos seus princípios. … assim que a faculdade de juízo 
transcendental, que continha as condições para subsumir sob categorias, não era 
por si *nomotética*, mas pelo contrário ela designava somente as condições da 
intuição sensível, sob as quais pode ser dada realidade (aplicação) a um 
conceito dado como lei do entendimento: acerca do que ela nunca poderia entrar 
em desunião consigo mesma (ao
menos segundo os princípios).

_õ312 Contudo a faculdade de juízo *reflexiva* deve subsumir sob uma lei que 
ainda não está dada e por isso é na verdade somente um princípio da reflexão 
sobre objectos, para os quais e de um modo objectivo nos falta totalmente uma 
lei ou um conceito de objecto que fosse suficiente, como princípio, para os 
casos que ocorrem. Mas como não pode ser permitido qualquer uso das faculdades 
do conhecimento sem princípios, então a faculdade de juízo reflexiva terá em 
tais casos que servir de princípio a si mesma: este ­­ já que não é objectivo e 
não pode apresentar um fundamento de conhecimento suficiente para a intenção ­­ 
deve servir como mero princípio subjectivo para o uso conforme a fins das 
faculdades de :,
conhecimento, nomeadamente para reflectir sobre uma espécie de objectos. Por 
isso a faculdade de juízo reflexiva possui, relativamente a tais casos, as suas 
máximas e na verdade elas são necessárias em prol do conhecimento das leis da 
natureza na experiência, para através dessas mesmas leis, chegarmos a conceitos,
mesmo que estes devam também ser conceitos da razão, se é que aquela faculdade 
necessita destes inteiramente para conhecer a natureza segundo as suas leis 
empíricas. ­­ Entre estas máximas necessárias da faculdade de juízo reflexiva 
pode aparecer um conflito, por conseguinte uma antinomia, na qual se funda uma 
dialéctica, a qual pode chamar­se uma dialéctica natural, quando cada uma das 
duas máximas que entram em conflito tem o respectivo fundamento na natureza das 
faculdades do conhecimento, tratando­se de _õ313 uma aparência inevitável que se
tem que desocultar e resolver, para que não engane.

$ó70. Representação desta antinomia

Na medida em que a razão tem a ver com a natureza, enquanto globalidade dos 
objectos dos sentidos externos, pode fundar­se em leis que o entendimento em 
parte prescreve *a priori* ele próprio ‡ natureza e que em parte ele pode 
alargar ilimitadamente, mediante as determinações empíricas que ocorrem na 
experiência. A faculdade do juízo não usa qualquer princípio especial da 
reflexão para a aplicação da primeira espécie de leis ­­ nomeadamente das leis 
*universais* da natureza material em geral. … que nesse caso ela é determinante,
já que lhe é dado um princípio objectivo através do entendimento. Mas no que 
respeita ‡s leis particulares que nos podem ser dadas através da experiência, 
pode nelas existir uma tão grande multiplicidade e heterogeneidade que a 
faculdade do juízo deve servir­se dela própria como princípio, nem que seja para
procurar uma lei nos fenómenos da natureza e observá­la, já que necessita de um 
tal fio condutor, mesmo que somente deva esperar um conhecimento de experiência 
interligado, segundo uma conformidade geral a leis da natureza, por 
conseguinte :, 
a unidade da mesma segundo leis empíricas. Nesta _õ314 unidade contingente das 
leis particulares pode suceder que a faculdade do juízo parta, na sua reflexão, 
de duas máximas, das quais uma lhe é dada *a priori* pelo simples entendimento, 
porém a outra ocorre através de experiências particulares que desafiam a razão 
ao julgamento da natureza corpórea e das respectivas leis segundo um princípio 
particular. Acontece então que estas duas espécies de máximas não podem bem 
subsistir conjuntamente e por conseguinte parecem provocar uma dialéctica que 
engana a faculdade do juízo no princípio da sua reflexão.

*_a primeira máxima* é a *tese* \k*_satz*_,: toda a geração das coisas materiais
e das respectivas formas tem que ser ajuizada como possível segundo simples leis
mecânicas.

*_a segunda máxima* é a *antítese* \k*_gegensatz*_,: alguns produtos da natureza
material não podem ser ajuizados como possíveis segundo leis simplesmente 
mecânicas (o seu julgamento exige uma lei completamente diferente da 
causalidade, nomeadamente a das causas finais).
Se transformássemos estes princípios \k*_grundsãtze*_, regulativos para a 
investigação da natureza em princípios constitutivos da possibilidade dos 
próprios objectos, então seriam os seguintes:

*_tese*: toda a produção de coisas materiais é possível segundo leis 
simplesmente mecânicas.

*_antítese*: alguma produção dessas mesmas coisas não _õ315 é possível segundo 
leis simplesmente mecânicas.

Nesta ˙ltima qualidade, enquanto princípios objectivos para a faculdade de juízo
determinante, eles entrariam em contradição entre si e por conseguinte uma das 
duas máximas seria necessariamente falsa, mas então tal seria na verdade uma 
antinomia, não da faculdade do juízo, mas sim um conflito na legislação da 
razão. Porém a razão não pode demonstrar nem um nem outro destes princípios, 
pois que não podemos possuir *a priori* nenhum princípio determinante da 
possibilidade das coisas segundo simples leis empíricas da natureza.

No que, pelo contrário, toca ‡ primeira máxima que expusemos de uma faculdade de
juízo reflexiva, não se :, encontra nela na verdade nenhuma contradição. Pois 
quando eu digo: tenho que *ajuizar* segundo simples leis mecânicas todos os 
acontecimentos na natureza material, por conseguinte também todas as formas como
produtos da mesma segundo a respectiva possibilidade, não quero com isso 
significar: elas *apenas são possíveis segundo tais leis* (excluindo toda e 
qualquer outra espécie de causalidade); pelo contrário, isso quer simplesmente 
dizer que eu *devo reflectir* sempre nelas, *segundo o princípio* do simples 
mecanismo da natureza e por conseguinte investigá­lo tão longe quanto possível, 
pois que sem o colocarmos como fundamento da investigação não pode existir um 
verdadeiro conhecimento da natureza. Isto não impede todavia de seguir, segundo 
um princípio, a _õ316 segunda máxima e sobre esta reflectir em ocasião propicia,
nomeadamente por ocasião de algumas formas naturais (e por ocasião destas e até 
da natureza no seu todo). Isso é completamente diferente da explicação segundo o
mecanismo da natureza. … assim que realmente a reflexão segundo a primeira 
máxima não é superada, mas sobretudo somos requeridos a prossegui­la tão longe 
quanto se possa; também não é desse modo dito que aquelas formas da natureza não
seriam possíveis segundo o mecanismo da natureza. Somente é afirmado que a 
*razão humana*, ao seguir essa máxima e deste modo, nunca poderá encontrar o 
menor fundamento daquilo que constitui o carácter especifico de um fim natural, 
embora certamente possa encontrar outros conhecimentos sobre leis da natureza; 
então ai fica sem resposta, saber se a ligação de fins e a físico­mecânica, no 
fundamento interno da natureza que nos é desconhecido, não poderiam interligar­
se nas mesmas coisas, na base de um princípio. Só que a nossa razão não tem 
capacidade para as unir num tal princípio e por isso a faculdade do juízo, 
enquanto *reflexiva* (a partir de um fundamento subjectivo), não como faculdade 
de juízo determinante (segundo um princípio objectivo da possibilidade das 
coisas em si) necessita pensar para certas formas na natureza um outro 
princípio, enquanto princípio do mecanismo da natureza, como fundamento da sua 
possibilidade. :,

_õ317  $ó71. Preparação para a solução da antinomia mencionada

Não podemos de modo nenhum demonstrar a impossibilidade da produção dos produtos
naturais organizados através do simples mecanismo da natureza, porque não somos 
capazes de descortinar a infinita multiplicidade das leis particulares da 
natureza, segundo o seu primeiro fundamento interno, as quais são para nós 
contingentes, já que somente podem ser conhecidas empiricamente, e assim 
alcançar simplesmente e de modo absoluto o princípio suficiente interno da 
possibilidade de uma natureza (o qual se encontra no supra­sensível). Por isso 
saber se a faculdade produtiva da natureza não será suficiente, não só para 
aquilo que nós ajuizamos como sendo formado ou ligado segundo a ideia de fins, 
como também precisamente para aquilo que nos parece necessitar de uma simples 
essência mecânica da natureza; e saber se na verdade para coisas enquanto 
verdadeiros fins naturais (como nós temos que necessariamente ajuizá­las) não 
existe como fundamento uma outra espécie completamente diferente de causalidade 
original, a qual não pode de forma nenhuma estar contida na natureza material ou
no seu substracto inteligível, nomeadamente um entendimento arquitectónico, 
saber tudo isto, eis sobre o que a nossa muito limitada razão a respeito do 
conceito da causalidade, sempre que ele deve ser especificado *a priori*, não 
nos pode dar simplesmente qualquer _õ318 informação. ­­ Mas que a respeito das 
nossas faculdades cognitivas sobre o mero mecanismo da natureza não possa também
ser fornecido nenhum fundamento da explicação para a produção de seres 
organizados, tal é certamente indubitável. Por isso *para a faculdade de juízo 
reflexiva* o princípio seguinte é absolutamente correcto: tem que ser pensada, 
para a conexão tão manifesta das coisas segundo causas finais, uma causalidade 
diferente do mecanismo, nomeadamente a de uma causa do mundo actuante 
(inteligente) segundo fins, ainda que este princípio seja também demasiado 
precipitado e indemonstrável *para a faculdade de juízo determinante*. No 
primeiro caso :, ele é uma simples máxima da faculdade do juízo, em que o 
conceito daquela causalidade é uma simples ideia ‡ qual não se pretende de modo 
nenhum conferir realidade, mas pelo contrário se utiliza somente como fio 
condutor da reflexão que então permanece sempre aberto para todos os princípios 
de explicação mecanicista e não se perde fora do mundo sensível. No segundo caso
o princípio seria um princípio objectivo que a razão prescreve e ao qual, ao 
determinar, a faculdade do juízo se teria que submeter, em cujo caso ela todavia
se perde no excesso, fora do mundo sensível e é talvez induzida a erro.

Toda a aparência de uma antinomia entre as máximas da autêntica forma de 
explicação física (mecânica) e da teleológica (técnica) repousa assim na 
confusão de um princípio da faculdade de juízo reflexiva com o determinante, e 
da *autonomia* da primeira (que possui validade _õ319 meramente subjectiva para 
o nosso uso da razão a respeito das leis particulares da experiência) com a 
heteronomia da outra, a qual se tem que orientar segundo as leis (universais ou 
particulares) dadas pelo entendimento.
Crítica da Faculdade 
do Juízo

de 
Immanuel Kant

Introdução de
António Marques 

Tradução e notas de 

António Marques e
Valério Rohden

Publicação em 10 volumes 
 
S. C. da Misericórdia 
do Porto 
_c_p_a_c ­­ Edições Braille 
R. do Instituto de S. 
Manuel 
4050 Porto

1997
Primeiro Volume

Immanuel Kant

Crítica da Faculdade 
do Juízo

Introdução 
de
António Marques

Tradução e notas de 
António Marques
e
Valério Rohden

Imprensa Nacional ­­ Casa
 da Moeda
Estudos Gerais
Série Universitária ­­
Clássicos de Filosofia

Composto e impresso
para Imprensa Nacional
­­ Casa da Moeda
por Tipografia Lousa­
nense, Lda., Lousã
com uma tiragem de dois
mil exemplares

Capa de Armando Alves

Acabou de imprimir­se em
Março de mil novecentos e
noventa e dois

 
_e_d. 21.100.666 
_c_o_d. 215.032.000

Dep. Legal n.o 40984/90

__isbn 972­27­0506­7

$ó72. Dos diversos sistemas sobre a conformidade a fins da natureza

Ninguém ainda duvidou da correcção do princípio segundo o qual se terá que 
ajuizar sobre certas coisas da natureza (seres organizados), e da respectiva 
possibilidade segundo conceitos das causas finais, mesmo se somente se exige um 
fio condutor para conhecer as suas características através da observação, sem 
que nos elevemos a uma investigação sobre a sua primeira origem. A questão pode 
por isso consistir somente em saber se este princípio é apenas subjectivamente 
válido, isto é simplesmente uma máxima da nossa faculdade do juízo, ou se é um 
princípio objectivo da natureza, segundo o qual para lá do seu mecanismo 
(segundo meras leis do movimento) ainda lhe pertence uma outra espécie de 
causalidade, concretamente a das causas finais, na dependência das quais aquelas
(as forças motoras) somente podem existir como causas mediadoras. :,
Ora, poder­se­ia deixar esta questão ou tarefa completamente encerrada e não 
resolvida para a especulação, pois se nos contentarmos em ficar no interior dos 
limites do simples conhecimento da natureza, tais máximas são _õ320 suficientes 
para a estudar e perseguir os seus segredos escondidos, tão longe quanto 
alcançam as forças humanas. Trata­se por isso de um certo pressentimento da 
nossa razão ou por assim dizer de um aceno que a natureza nos faz, de forma a 
que mediante aquele conceito de causas finais pudéssemos até ultrapassá­la e 
ligarmo­nos a ela própria no ponto mais alto na série das causas, se 
abandonarmos a investigação da natureza (ainda que não tenhamos avançado aí 
muito) ou ao menos se a deixarmos de lado por algum tempo e tentarmos sondar 
antes onde conduz este elemento estranho na ciência da natureza, isto é o 
conceito de fins da natureza.

Ora aqui aquela máxima incontestada teria na verdade que transformar­se num 
problema que abre para um vasto campo de discussões: saber se a conexão de fins 
na natureza demonstra uma espécie particular de causalidade para a mesma, ou se 
essa conexão, considerada em si e segundo princípios objectivos, não será antes 
idêntica ao mecanismo da natureza, ou se assenta num e mesmo fundamento. Só que 
nós o experimentamos com um princípio subjectivo, mais concretamente o da arte, 
isto é o da causalidade segundo ideias, para as atribuir ‡ natureza segundo a 
analogia, já que aquele fundamento se encontra frequentemente, em muitos 
produtos da natureza, escondido de modo demasiado profundo para a nossa 
investigação. Tal recurso dá resultado em muitos casos, noutros, porém, parece 
de facto falhar. Em todo o caso não autoriza introduzir na ciência da natureza 
uma _õ321 espécie de acção particular, diferente da causalidade segundo simples 
leis mecânicas da própria natureza. Chamaremos técnica ao procedimento da 
natureza (a causalidade) em razão da semelhança com fins, a qual encontramos nos
seus produtos. Aquela técnica por sua vez divide­se em *intencional* (*technica 
intentionalis*) e em *não intencional* (*technica naturalis*). A primeira 
significará que a faculdade produtora da natureza segundo causas :, finais teria
que ser considerada como uma espécie particular de causalidade; a segunda 
significará que ela é em absoluto idêntica, quanto ao fundamento, ao mecanismo 
da natureza, e que ajuizar a sua conjunção contingente com os nossos conceitos 
de arte e com as respectivas regras, como simples condição subjectiva para a 
ajuizar, será falsamente interpretada como uma espécie particular de produção 
natural.

Se agora falarmos dos sistemas de explicação da natureza em relação ‡s causas 
finais teremos então que notar o seguinte: estão todos entre si em desacordo de 
forma dogmática sobre os princípios objectivos da possibilidade das coisas, seja
mediante causas actuando intencionalmente, seja por causas actuando claramente 
de modo não intencional, não sendo o desacordo sobre a máxima subjectiva para 
julgar simplesmente as causas de tais produtos conformes a fins. Neste ˙ltimo 
caso princípios discordantes poderiam ainda ser unidos, 
_õ322 enquanto que no primeiro caso princípios *opostos contraditoriamente* 
suprimem­se e não podem subsistir ao lado um do outro.
Os sistemas são, a respeito da técnica da natureza, isto é da sua faculdade 
produtiva segundo a regra dos fins, de duas espécies: o do *idealismo* ou do 
*realismo* dos fins naturais. O primeiro afirma que toda a conformidade a fins 
da natureza é *não intencional*; o segundo que alguma conformidade a fins (em 
seres organizados) é *intencional*. Do que se poderia retirar também a 
consequência, que é fundada como hipótese, de que a técnica da natureza é também
intencional, isto é fim, no que respeita a todos os seus produtos relativamente 
ao todo da natureza.

1) O *idealismo* da conformidade a fins (entendo aqui sempre a objectiva) é 
então ou o da *casualidade* (*_Kasualitãt*) ou da *fatalidade* da determinação 
da natureza na forma conforme a fins dos seus produtos. O primeiro princípio diz
respeito ‡ relação da matéria com o fundamento físico da sua forma, nomeadamente
as leis do movimento; o segundo diz respeito ao fundamento *hiperfísico* de toda
a natureza. O sistema da *casualidade*, que é atribuído a Epicuro ou Demócrito, 
tomado ‡ letra :, é tão evidentemente disparatado que não justifica que com ele 
percamos tempo; pelo contrário o sistema da fatalidade (do qual Espinosa é 
apresentado como autor, ainda que, tudo leve a crer que ele seja muito mais 
antigo) que se refere a algo supra­sensível (que por isso a nossa _õ323 
perspiciência não atinge) não é tão facilmente refutável. No entanto é claro que
neste sistema a ligação de fins no mundo tem que ser vista como não intencional 
(porque aquela ligação é deduzida de um ser original, mas não do seu 
entendimento, por conseguinte de nenhuma intenção do mesmo, mas sim da 
necessidade da sua natureza e da unidade do mundo que daí resulta). Em 
consequência o fatalismo da conformidade a fins é de igual modo um idealismo da 
finalidade.

2) O *realismo* da conformidade a fins da natureza é também ou físico ou 
hiperfísico. O *primeiro* fundamenta os fins na natureza sobre o *analogon* de 
uma faculdade actuando segundo uma intenção, sobre *a vida da matéria* (uma alma
do mundo nela, ou também mediante um princípio interno animado) e chama­se 
*hilazoísmo*. O segundo deriva aquela conformidade do fundamento originário do 
todo do mundo, como se se tratasse de um ser inteligente que produz com intenção
(vivendo originariamente) e é o *teísmo* (5).

_õ324  $ó73. Nenhum dos sistemas citados realiza aquilo que afirma

O que pretendem todos aqueles sistemas? Esclarecer os nossos juízos teleológicos
sobre a natureza e de tal modo deitam mãos ‡ obra que uma parte nega a verdade 
desse juízos, por conseguinte explica­os como um idealismo da natureza 
(representada como arte); a outra parte reconhece­os como verdadeiros e promete 
expor a possibilidade de uma natureza segundo a ideia das causas finais.

1) Os sistemas que lutam pelo idealismo das causas finais na natureza admitem 
por um lado, na verdade, no princípio desta, uma causalidade segundo leis do 
movimento (pelas quais as coisas naturais existem de um :, modo conforme a 
fins); mas negam nela a *intencionalidade*, isto é que ela seja determinada 
relativamente a esta sua produção conforme a fins, ou por outras palavras que um
fim seja a causa. Este é o tipo de explicação de *_epicuro*, segundo a qual a 
diferença entre a técnica da natureza e a mera mecânica deve ser completamente 
negada e não só em relação ao acordo dos _õ325 produtos gerados com os nossos 
conceitos de fins, por conseguinte em relação ‡ técnica, mas mesmo relativamente
‡ determinação das causas desta geração segundo leis do movimento, por 
conseguinte aceita a sua mecânica do acaso cego como fundamento de explicação, 
pelo que nem sequer é explicada a aparência no nosso juízo teleológico e desse 
modo o idealismo afirmado nesse sistema não é de modo nenhum exposto.

Por outro lado *_espinosa* pretende­nos dispensar de qualquer investigação a 
propósito do fundamento da possibilidade dos fins da natureza e assim retira a 
esta ideia toda a realidade, de modo que ele a atribui sobretudo, não a produtos
mas a acidentes pertencentes a um ser original e dá a este ser, enquanto 
substracto destas coisas naturais e no que diz respeito a esse produtos não a 
causalidade mas sim a simples subsistência e (por causa da necessidade 
incondicionada deste ser originário, juntamente com todas as coisas naturais 
consideradas seus acidentes) assegura na verdade ‡s formas da natureza a unidade
do fundamento que é exigível a toda a conformidade a fins, mas ao mesmo tempo 
retira­lhes a contingência, sem a qual nenhuma *unidade quanto ao fim* 
\k*_aweckeinheit*_, pode ser pensada, e com ela toda a intencionalidade, assim 
como retira toda a inteligência ao fundamento originário das coisas naturais.

No entanto o espinosismo não consegue realizar aquilo que pretende. Quer 
fornecer um fundamento explicativo da conexão final (que ele não nega) das 
coisas da natureza e refere simplesmente a unidade do sujeito, ao qual todas 
elas são inerentes. Mas se lhe concedemos também esta _õ326 espécie de 
existência para os seres do mundo, aquela unidade ontológica não é por esse 
facto todavia imediatamente *unidade final* e não torna esta de forma :, nenhum 
compreensível. Esta ˙ltima é precisamente uma espécie completamente particular 
dessa mesma unidade que não decorre em absoluto da conexão das coisas (seres do 
mundo) num sujeito (o ser original) mas implica sim inteiramente a referência a 
uma *causa*, possuindo inteligência e, mesmo se unificarmos todas estas coisas 
num sujeito simples, jamais apresenta todavia uma referência a um fim. A não ser
que elas se pensem em primeiro lugar como *efeitos* internos da substância, 
enquanto *causa*, e em segundo lugar como efeitos da mesma enquanto causa 
*mediante a sua inteligência*. Sem estas condições formais toda a unidade é mera
necessidade da natureza e, não obstante ela ser atribuída ‡s coisas que 
representamos como exteriores umas ‡s outras, é necessidade cega. No entanto se 
pretendermos chamar conformidade a fins da natureza ‡quilo a que a escola chama 
a perfeição transcendental das coisas (em referência ao seu próprio ser), 
segundo a qual todas as coisas possuem em si tudo de que necessitam para que uma
coisa seja assim mesmo e não outra coisa, então estamos perante um infantil jogo
de palavras em vez de conceitos. E que se todas as coisas tivessem que ser 
pensadas como fins, ser uma coisa e ser fim seriam uma e a mesma coisa e então 
não há nada no fundo que mereça ser representado como fim.
_õ327 Torna­se então fácil ver que Espinosa, pelo facto de reduzir os nossos 
conceitos da conformidade a fins na natureza ‡ consciência do nosso próprio ser,
num ser que tudo abrange (porém ao mesmo tempo simples), e por procurar aquela 
forma simplesmente na unidade deste ˙ltimo ser, teria que ter a intenção de 
afirmar, não o realismo, mas sim meramente o idealismo da conformidade a fins da
mesma. Não podia no entanto realizar essa intenção porque a simples 
representação da unidade do substracto não pode efectuar sequer a ideia de uma 
conformidade a fins, ainda que somente não intencional.

2) Aqueles que não afirmam simplesmente o realismo dos fins naturais, mas também
o pretendem explicar, acreditam poder compreender uma espécie particular da 
causalidade, nomeadamente de causas actuando :, intencionalmente, ao menos 
segundo a respectiva possibilidade; de outro modo não poderiam ter a pretensão 
de explicá­la. Com efeito, mesmo para a autorização da hipótese mais ousada, 
deve ser ao menos certa a *possibilidade* daquilo que se aceita como fundamento 
e tem que se poder assegurar ao conceito daquele a sua realidade objectiva.

Mas a possibilidade de uma matéria viva (cujo conceito contém uma contradição, 
porque a ausência de vida, *inertia*, constitui o carácter essencial da mesma) 
não se deixa sequer pensar; a possibilidade de uma matéria animada e da natureza
na sua globalidade, como se de um animal se tratasse, só pode, quando muito, ser
utilizada de maneira pobre (a favor de uma hipótese da
_õ328 conformidade a fins da natureza em ponto grande) se ela nos for revelada 
na organização daquela em ponto pequeno, mas de modo nenhum pode ser 
descortinada *a priori* segundo a sua possibilidade. Deve por isso ser 
percorrido um círculo na explicação, se quisermos deduzir da vida da matéria a 
conformidade a fins da natureza nos seres organizados e por outro lado conhecer 
apenas esta vida nos seres organizados. Por isso não se pode fazer, sem 
experiência dos mesmos, nenhum conceito da sua possibilidade. O hilozoismo não 
realiza aquilo que promete.

Por fim o *teísmo* não é capaz tão pouco de fundamentar dogmaticamente a 
possibilidade dos fins naturais, como uma chave para a teleologia, ainda que ele
na verdade, tenha vantagem sobre qualquer outro fundamento de explicação, pelo 
facto de melhor retirar ao idealismo a conformidade a fins da natureza e 
introduzir uma causalidade intencional para a geração da mesma, através de uma 
inteligência que ele atribui ao ser original.

… que em primeiro lugar teria que ser provado de modo satisfatório para a 
faculdade de juízo determinante a impossibilidade, na matéria, da unidade quanto
ao fim através do simples mecanismo daquela, para nos permitirmos colocar­lhe o 
fundamento de uma maneira determinada para lá da natureza. No entanto nada mais 
podemos dizer a não ser que, segundo a constituição e os limites das nossas 
faculdades de conhecimento (na medida em que não descortinamos o primeiro 
fundamento interno :, _õ329 deste mecanismo) não temos que procurar de nenhum 
modo na matéria um princípio de relações finais determinadas, pelo contrário não
nos resta mais nenhuma espécie de julgamento da geração dos seus produtos senão 
aquela que se faz, mediante um entendimento superior como causa do mundo. Mas é 
somente um fundamento para a faculdade de juízo reflexiva, não para a 
determinante e não pode justificar simplesmente nenhuma afirmação objectiva.

$ó74. A causa da impossibilidade de tratar dogmaticamente o conceito de uma 
técnica da natureza é o carácter inexplicável de um fim natural

Procedemos com um conceito dogmaticamente (ainda que ele devesse ser 
empiricamente condicionado) quando o consideramos contido sob um outro conceito 
do objecto, que constitui um princípio da razão e o determinamos de acordo com 
este. Todavia procedemos com ele de modo meramente crítico quando o consideramos
somente em relação ‡s nossas faculdades de conhecimento, por conseguinte em 
relação ‡s condições subjectivas para o pensar, sem a pretensão de decidir algo 
sobre o seu objecto. O procedimento dogmático com um conceito é pois aquele que 
é conforme a leis para a faculdade de juízo determinante, o procedimento crítico
aquele que o é _õ330 simplesmente para a faculdade do juízo reflexiva.

Ora o conceito de uma coisa como fim natural é aquele que subsume a natureza sob
uma causalidade que somente é pensável através da razão, para segundo este 
conceito julgar sobre aquilo que do objecto é dado na experiência. No entanto 
para o utilizar dogmaticamente para a faculdade de juízo determinante, teríamos 
que de antemão nos assegurar da realidade objectiva deste conceito, porque de 
outro modo não poderíamos nele subsumir qualquer coisa da natureza. Porém o 
conceito de uma coisa como fim natural é na verdade empiricamente condicionado, 
isto é somente possível sob certas condições dadas na experiência e não 
abstraível destas. … sim um conceito possível somente segundo um princípio :, da
razão no julgamento do objecto. Não pode por isso, enquanto princípio desta 
espécie, de forma nenhuma ser compreendido e dogmaticamente fundamentado segundo
a sua realidade objectiva (isto é, que um objecto que lhe é conforme seja 
possível); e nós não sabemos se ele é simplesmente um conceito meramente ideado 
e objectivamente vazio (*conceptus ratiocinans*), ou um conceito de razão 
fundador de conhecimento e confirmado pela razão (*conceptus ratincinatus*). Por
isso ele não pode ser tratado dogmaticamente para a faculdade de juízo 
determinante, isto é não se pode saber se coisas da natureza, consideradas como 
fins naturais, exigem ou não para a respectiva geração uma causalidade de uma 
espécie completamente particular (ou seja segundo intenções); pelo contrário 
_õ331 não podemos sequer interrogar­nos sobre isso (a), porque o conceito de um 
fim natural não é em absoluto comprovável mediante a razão segundo a sua 
realidade objectiva (isto é não é constitutivo para a faculdade de juízo 
determinante, mas meramente regulativo para a reflexiva).

(a) "sobre isso" falta em A.

Que ele não o seja é claro porque, como conceito de um *produto natural* 
compreende em si necessidade natural e no entanto, ao mesmo tempo, uma 
contingência da forma do objecto (em relação a meras leis da natureza) numa 
mesma coisa como fim em si; em consequência, se não deve existir aqui qualquer 
contradição, tem que encerrar um fundamento para a possibilidade da coisa na 
natureza e porém também um fundamento da possibilidade desta mesma natureza e da
sua relação a algo que não é a natureza conhecível empiricamente (supra­
sensível), por conseguinte não conhecível por nós em absoluto, para que o 
ajuizemos segundo uma outra espécie de causalidade que a do mecanismo da 
natureza, se queremos saber a sua possibilidade. Como por isso o conceito de uma
coisa como fim natural é transcendente *para a faculdade de juízo determinante*,
quando se considera o objecto através da razão (ainda que ele possa ser na 
verdade imanente para a faculdade de juízo reflexiva a :, respeito dos objectos 
da experiência) e desse modo não lhe pode ser dada a realidade objectiva para a 
faculdade de juízo determinante; daqui se pode compreender como todos os 
sistemas que se podem projectar para o 
_õ332 trata­as mento dogmático do conceito de fins naturais e da natureza como 
um todo interdependente mediante causas finais, não podem ser decisivos nem na 
afirmação, nem na negação objectiva de algo. … que quando as coisas são 
subsumidas sob um conceito que é simplesmente problemático, os seus predicados 
sintéticos (por exemplo aqui, se o fim da natureza que pensamos para a geração 
das coisas é ou não intencional) têm que fornecer precisamente tais juízos 
(problemáticos) do objecto, possam eles ser ora afirmativos, ora negativos, na 
medida em que não se sabe se julgamos algo ou nada. O conceito de uma 
causalidade mediante fins (da arte) possui sem d˙vida realidade objectiva, tal 
como precisamente o de uma causalidade segundo o mecanismo da natureza. Mas o 
conceito de uma causalidade da natureza, segundo a regra dos fins, e ainda mais 
a causalidade de um ser do qual não nos pode ser dada nenhum experiência, 
nomeadamente de um ser como fundamento originário da natureza, pode na verdade 
ser pensado sem contradição, porém não se adequa
a definições dogmáticas, já que a sua realidade objectiva não lhe pode ser 
assegurada por coisa alguma, pois que esse ser não pode ser retirado da 
experiência e também não se exige para a possibilidade desta. Mas mesmo que isto
fosse possível, como posso eu ainda considerar coisas que precisamente são dadas
por produtos da arte divina como fazendo ainda parte dos _õ333 produtos da 
natureza, cuja incapacidade para os produzir asa segundo as suas leis, tornava 
necessário precisamente invocar uma causa diferente de si?

$ó75. 0 conceito de uma conformidade a fins objectiva da natureza é um princípio
crítico da razoo para a faculdade de juízo reflexiva

Porém o caso é completamente diferente se eu digo: a produção de certas coisas 
da natureza ou também da :, natureza no seu todo só é possível através de uma 
causa que se determina a si própria a agir segundo intenções; ou se digo: 
*segundo a constituição específica das minhas faculdades do conhecimento* não 
posso julgar de outro modo a possibilidade daquelas coisas e a respectiva 
produção, senão na medida em que penso para aquelas uma causa que actua 
intencionalmente, a qual é produtiva segundo a analogia com a causalidade de um 
entendimento. No primeiro caso quero descobrir algo sobre o objecto e vejo­me 
obrigado a provar a realidade objectiva de um conceito admitido. No segundo caso
a razão determina somente o uso das minhas faculdades do conhecimento adequadas 
‡ sua especificidade e ‡s condições essenciais do respectivo âmbito, assim como 
dos seus limites. Por isso o primeiro princípio \k*_prinzip*_, é um princípio 
\k*_grundsatz*_, *objectivo* para a faculdade de juízo _õ334 determinante, 
enquanto o segundo é simplesmente um princípio subjectivo para a faculdade de 
juízo reflexiva, por conseguinte uma máxima da mesma que a razão lhe impõe.

… para nós inevitável até atribuir ‡ natureza o conceito de uma intenção, se é 
que pretendemos tão somente investigar os seus produtos organizados mediante uma
observação continuada e este conceito é por isso já uma simples e necessária 
máxima para o uso experiencial da nossa razão. … claro que, uma vez que 
concordamos em aceitar e confirmar um tal fio condutor para estudar a natureza, 
temos também que ao menos experimentar a máxima pensada pela faculdade do juízo 
na totalidade da natureza, porque segundo essa máxima ainda é possível descobrir
muitas leis daquela, as quais de outro modo nos ficariam ocultas, dadas as 
limitações da nossa perspiciência no interior do seu mecanismo. Mas em relação a
este ˙ltimo uso aquela máxima da faculdade do juízo é na verdade ˙til, mas não 
indispensável, pois a natureza no seu todo não nos é dada enquanto natureza 
organizada (ou no significado mais estrito da palavra, já mencionado). Pelo 
contrário, no que respeita aos produtos da mesma, os quais somente têm que ser 
ajuizados como sendo formados intencionalmente assim e não de outro modo, 
para :, que a respectiva constituição interna seja objecto de um conhecimento de
experiência, aquela máxima da faculdade de juízo reflexiva é essencialmente 
necessária, já que até mesmo pensarmos esses produtos como coisas organizadas 
_õ335 é impossível, sem que se ligue a isso o pensamento de uma produção 
intencional (a).

(a) A: "sem os de uma produção".

Ora o conceito de uma coisa, cuja existência ou forma nós representamos como 
possível, sob a condição de um fim, está intrinsecamente ligado ao conceito de 
uma contingência dessa mesma coisa (segundo leis da natureza). … por isso que as
coisas da natureza, as quais somente achamos possíveis como fins, constituem a 
demonstração mais clara da contingência do todo do mundo e são o ˙nico 
fundamento de demonstração com validade para o entendimento comum, assim como 
para o filósofo, da dependência e da origem daquele relativamente a um ser 
existindo fora do mundo e inteligente (por causa daquela forma final): prova por
isso de que a teleologia não encontra nenhuma conclusão perfeita para as suas 
pesquisas senão numa teologia.

Mas o que demonstra então finalmente a teleologia mais completa? Que existirá um
tal ser inteligente? Não, nada mais que nós, pelo tipo de constituição das 
nossas faculdades de conhecimento ­­ por conseguinte na ligação da experiência 
com os princípios superiores da razão ­­ não somos capazes de fazer qualquer 
conceito da possibilidade de um tal mundo a não ser que pensemos (b) uma causa 
suprema, actuando segundo intenções. Por isso _õ336 não podemos demonstrar de 
forma objectiva a proposição: existe um ser original inteligente; só o podemos 
de modo subjectivo, para o uso da nossa faculdade de juízo, na sua reflexão 
sobre os fins na natureza, os quais não são pensáveis segundo qualquer outro 
princípio a não ser o de uma causalidade de uma causa suprema.
(b) A: "podemos pensar".

Se quiséssemos demonstrar de forma dogmática o princípio supremo, a partir de 
fundamentos teleológicos, seríamos enredados em dificuldades das quais não 
os :, poderíamos libertar. Com efeito a seguinte premissa teria que ser colocada
como fundamento destas conclusões: no mundo os seres organizados não são 
possíveis doutro modo senão através de uma causa actuante de forma intencional. 
Mas já que somente procuramos estas coisas subordinando­nos ‡ ideia dos fins, na
sua ligação causal e só podemos conhecer esta segundo a sua conformidade a leis,
teríamos também justificação para supor o mesmo em relação a todo o ser pensante
e cognoscente, como condição necessária inerente ao objecto e não apenas a nós, 
sujeitos. Mas com uma afirmação deste tipo acabaríamos por nada resolver. Na 
verdade, como afinal não *observamos* os fins na natureza enquanto fins 
intencionais, mas pelo contrário, é somente na reflexão sobre os seus produtos 
que pensamos ainda este conceito como um fio condutor da faculdade do juízo, 
esses mesmos fins não nos são dados através do objecto. Até é impossível para 
nós justificar *a priori* um tal conceito segundo a sua realidade _õ337 
objectiva. Por isso ele permanece simplesmente um princípio que se apoia somente
em condições subjectivas, isto é da faculdade de juízo reflexiva adequada ‡s 
nossas faculdades cognitivas. Esse princípio teria a seguinte forma se o 
exprimíssemos como válido, de modo objectivo e dogmático: existe um Deus. 
Contudo para nós, seres humanos (a), somente a fórmula limitada é possível: não 
podemos pensar de outro modo e conceptualizar a conformidade a fins, a qual tem 
ela mesma que ser colocada na base do nosso conhecimento da possibilidade 
interna de muitas coisas da natureza, a não ser na medida em que a 
representarmos, e ao mundo em geral, como um produto de uma causa inteligente 
(de um Deus).

(a) A: "para nós como seres humanos".

Ora se este princípio, fundado numa máxima inevitavelmente necessária da nossa 
faculdade de juízo, é em absoluto suficiente para todo o uso, tanto especulativo
como prático da nossa razão, no que respeita a toda a intencionalidade *humana*,
então gostaria de saber o que nos poderá importar o facto de não podermos 
demonstrá­lo como válido também para seres superiores, :, nomeadamente a partir 
de fundamentos puros objectivos (que infelizmente ultrapassam as nossa 
faculdades). Até é bem certo que não chegamos a conhecer suficientemente os 
seres organizados a partir de princípios da natureza simplesmente mecânicos e 
ainda menos explicá­los. E isso é tão certo que se pode afirmar sem temer que é 
absurdo para o ser humano, nem que seja colocar uma tal hipótese _õ338 ou 
esperar que um Newton possa ainda ressurgir para explicar só que seja a geração 
de uma folha de erva, a partir de leis da natureza, as quais nenhuma intenção 
organizou. Pelo contrário, deve­se pura e simplesmente negar este tipo de 
perspiciência ao ser humano. Por outro lado julgaríamos despropositado que na 
natureza ­­ se pudéssemos penetrar até ao princípio da mesma na especificação 
das respectivas leis universais por nós conhecidas ­­ *possa* permanecer oculto 
um fundamento suficiente da possibilidade de seres organizados, sem colocar uma 
intenção na base da respectiva geração (por isso no simples mecanismo da mesma).
Na verdade donde poderíamos nós sabê­lo? Não há que tomar em conta conjecturas 
onde o que está em causa são juízos da razão pura. ­­ Por isso não podemos 
julgar objectivamente de modo nenhum, nem afirmativa, nem negativamente o 
princípio pelo qual um ser agindo intencionalmente enquanto causa do mundo (por 
conseguinte enquanto autor \k*_urheber*_, existe no fundamento daquilo a que 
justamente chamamos fim da natureza. Porém o certo é que, se devemos ao menos 
julgar segundo o que nos é dado descortinar mediante a nossa própria natureza 
(segundo as condições e os limites da nossa razão) não podemos nada mais que 
colocar um ser inteligente como fundamento da possibilidade daqueles fins da 
natureza, o qual _õ339 é adequado ‡ máxima da nossa faculdade de juízo 
reflexiva e por consequência adequado a um fundamento subjectivo, mas 
intrinsecamente ligado ‡ espécie humana.

$ó76. Observação

Esta consideração que muito merece ser desenvolvida com pormenor na filosofia 
transcendental, pode aparecer :, aqui de modo episódico a título de 
esclarecimento (não como demonstração do que até aqui foi exposto).

A razão é uma faculdade dos princípios e caminha para o incondicionado na sua 
exigência mais extrema. Em contraposição o entendimento está ao serviço daquela 
sempre sob uma certa condição, a qual deve ser dada. Contudo sem conceitos do 
entendimento, aos quais deve ser dada realidade objectiva, a razão não pode 
julgar de modo objectivo (sintético) e não contém por si, enquanto razão teórica
absolutamente nenhum princípio constitutivo, mas simplesmente princípios 
regulativos. Rapidamente nos damos conta que onde o entendimento não pode 
prosseguir, a razão torna­se transcendente \k*¸berschwenglich*_, e manifesta­se 
verdadeiramente em ideias fundamentadas (enquanto princípios regulativos), mas 
não em conceitos válidos objectivamente. Contudo o entendimento, que não lhe 
consegue igualar o passo, mas que todavia seria necessário para os objectos, no 
respeitante ‡ sua validade, limita a validade daquelas ideias da razão somente 
ao sujeito, mas de forma universal para todos os sujeitos deste género. Isto é 
limita­as ‡ condição: segundo a natureza da nossa faculdade de conhecimento 
(humano) ou segundo o conceito *que podemos fazer* da faculdade de um ser 
racional finito em geral, não se pode
_õ340 e não se deve pensar doutro modo, sem afirmar que o fundamento de um tal 
juízo permanece no objecto. Vamos apresentar exemplos que na verdade são 
demasiado importantes e também dificuldade (a) para os impor aqui imediatamente 
ao leitor como princípios demonstrados. Porém fornecem­lhe matéria para 
reflectir e podem servir de esclarecimento para o assunto específico que aqui 
nos ocupa.

(a) "e também dificuldade": "auch Schwierigkeit haben", falta em A.

… absolutamente necessário ao entendimento humano distinguir entre a 
possibilidade e a efectividade das coisas. A razão desta distinção encontra­se 
no sujeito e na natureza das suas faculdades de conhecimento. Na verdade se não 
existissem para o seu :, exercício duas partes completamente heterogéneas, o 
entendimento para conceitos e a intuição sensível para objectos que lhes 
correspondem, não existiria qualquer distinção daquele tipo (entre o possível e 
o efectivo). Nomeadamente se o nosso entendimento fosse intuinte, não possuiria 
qualquer objecto que não fosse o efectivo \k*das Wirkliche*_,. Tanto os 
conceitos (que dizem respeito simplesmente ‡ possibilidade de um objecto) como 
as instituições sensíveis (que nos dão algo, sem todavia nos darem a conhecer 
isso como objecto) desapareceriam em conjunto. Ora toda a distinção por nós 
realizada entre o simplesmente possível e o efectivo repousa no facto do 
primeiro significar somente a posição da representação de uma coisa 
relativamente ao nosso conceito e em geral ‡ faculdade de pensar, enquanto o 
segundo significa a colocação da coisa em si mesma (fora desse conceito). Por 
isso a distinção entre coisas possíveis e efectivas é tal, que é válida 
simplesmente para o entendimento humano, pois que na verdade sempre conseguimos 
pensar alguma coisa, mesmo que não exista ou representar­nos algo como dado, 
mesmo que disso, não tenhamos qualquer conceito. Assim as seguintes proposições:
as coisas podem ser possíveis sem ser efectivas, da mera possibilidade não se 
pode por isso de modo nenhum concluir a efectividade, são _õ341 perfeitamente 
válidas para a razão humana, sem que com isso se demonstre que esta distinção se
situe ela própria nas próprias coisas. Com efeito que isto não possa decorrer do
que foi dito, por consequência que aquelas proposições sejam na verdade também 
válidas em relação a objectos, na medida em que a nossa faculdade de 
conhecimento, enquanto faculdade sensivelmente condicionada também se ocupa com 
objectos dos sentidos, mas não com coisas em geral, eis o que decorre da 
incessante (a) exigência da razão em aceitar algo (o fundamento originário) como
existindo necessariamente incondicionado, no qual, possibilidade e efectividade 
não devem ser distinguidas. O nosso entendimento não possui qualquer conceito 
para esta ideia, isto é não pode 

(a) A: "sempre atenta".

encontrar nenhuma forma que lhe :, indique como deve representar uma tal coisa e
o respectivo modo de existência. … que quando o entendimento a *pensa* (pode 
pensá­la como quiser) representa­a somente como possível. Se é consciente dessa 
coisa como sendo dada na intuição, então ela é efectiva sem se pensar nesse caso
em qualquer tipo de possibilidade. Por isso é que o conceito de um ser 
absolutamente necessário é na verdade uma inevitável ideia da razão, mas também 
um conceito problemático inalcançável para o entendimento humano. Contudo tal 
conceito é válido para o uso da nossa faculdade de conhecimento, segundo a 
constituição particular da mesma e por conseguinte não para o objecto, nem desse
modo para todo e qualquer ser cognoscente. … que eu não posso pressupor naquele 
o pensamento e a intuição como duas condições diferentes do exercício das 
respectivas faculdades cognitivas e desse modo da possibilidade e da 
efectividade das coisas. Para um entendimento em que não prevalecesse esta 
diferença aconteceria que todos os objectos que conheço, *são* (existem): e a 
possibilidade de alguns que todavia não existiam, isto é a contingência dos 
mesmos, no caso de existirem, e por isso também a necessidade distinta daquela 
contingência, não poderia de modo nenhum fazer parte da _õ342 representação de 
um tal ser. Porém o que se afigura tão penoso ao nosso entendimento: como fazer 
aqui com os seus conceitos o mesmo que a razão, reside simplesmente no facto que
para ele, enquanto entendimento humano, é transcendente (isto é impossível para 
as condições subjectivas do seu conhecimento) aquilo que todavia a razão 
institui como princípio, como pertencendo ao objecto. ­­ Ora neste caso é sempre
válida a máxima segundo a qual nós pensamos todos os objectos segundo as 
condições subjectivas do exercício das nossas faculdades, condições 
necessariamente inerentes ‡ nossa (isto é, humana) natureza. E se os juízos 
ocorridos deste modo (como também não pode deixar de acontecer no que respeita a
conceitos transcendentes) não podem ser princípios constitutivos que definem o 
objecto tal como ele é, permanecerão todavia na prática princípios regulativos 
imanentes e seguros, adequados ‡s intenções humanas. :,

Assim como a razão, na consideração teórica da natureza, tem que aceitar a ideia
de uma necessidade incondicionada do seu fundamento originário, assim também ela
pressupõe, na consideração prática, a sua própria (a respeito da natureza) 
causalidade incondicionada, isto é a liberdade, na medida em que está consciente
do seu mandamento \k*_gebot*_, moral. Mas porque aqui a necessidade objectiva da
acção como dever, se opõe ‡quela que ela teria como acontecimento, se o seu 
fundamento se encontrasse na natureza e não na liberdade (i. é na causalidade da
razão), e como a acção simplesmente necessária do ponto de vista moral é 
considerada fisicamente como completamente contingente (i. é que aquilo que 
*deveria* necessariamente acontecer, não acontece todavia frequentemente), 
torna­se então evidente que decorre somente da constituição subjectiva da nossa 
faculdade prática que as leis morais devem ser representadas como mandamentos (e
as acções que lhes são adequadas _õ343 como deveres). A razão exprime esta 
necessidade, não através de um *ser* (acontecer), mas sim de um dever ser. Tal 
não aconteceria se a razão, sem sensibilidade, (como condição subjectiva da sua 
aplicação a objectos da natureza) segundo a sua causalidade, por conseguinte 
como causa, fosse considerada, num mundo inteligível, completamente concordante 
com a lei moral, mundo em que não existisse nenhuma diferença entre dever e 
fazer, entre uma lei prática daquilo que por nós é possível, e uma lei teórica 
daquilo que por nós é efectivo. Ora ainda que um mundo inteligível, no qual tudo
fosse por isso efectivo simplesmente porque é possível (como algo bom) e até 
mesmo a liberdade, como condição formal daquele mundo, seja para nós um conceito
transcendente, que não é próprio para qualquer princípio constitutivo definir um
objecto e a respectiva realidade objectiva, todavia aquela serve­nos como 
*princípio regulativo*, segundo a constituição (em parte sensível) da nossa 
natureza e faculdade, a nós e a todos os seres racionais que estão ligados ao 
mundo sensível, na medida em que a podemos representar, segundo a constituição 
da nossa razão. Tal princípio não determina objectivamente a constituição da 
liberdade :,  transforma em imperativo \k*_gebot*_, para todos a regra das 
acções segundo aquela ideia e na verdade com não menor validade, como se tal 
acontecesse de facto.

Do mesmo modo, no que diz respeito ao caso que temos vindo a tratar, pode­se 
aceitar que não encontraríamos qualquer diferença entre o mecanismo da natureza 
e a técnica da natureza, isto é a conexão de fins na mesma, se o nosso 
entendimento não fosse de molde a ter que ir a _õ344 do universal para o 
particular. Por isso a faculdade do juízo não pode conhecer qualquer 
conformidade a fins a respeito do particular e em consequência não pode realizar
quaisquer juízos determinantes, sem possuir uma lei universal sob a qual possa 
subsumir aquela. Mas porque o particular, como tal, contém algo de contingente 
relativamente ao universal, exige não obstante unidade na ligação de leis 
particulares e em consequência legalidade (legalidade essa do contingente a que 
chamamos conformidade a fins) e já que a dedução das leis particulares a partir 
das universais, a respeito daquilo que aquelas contêm em si de contingente, é 
impossível *a priori* através da definição do conceito do objecto, então o 
conceito da conformidade a fins da natureza nos seus produtos torna­se 
necessário para a faculdade de juízo humana, em relação ‡ natureza, mas não um 
conceito dizendo respeito ‡ determinação dos próprios objectos. Torna­se por 
isso é um princípio subjectivo da razão para a faculdade do juízo, o qual, na 
qualidade de regulativo (não constitutivo), é válido do mesmo modo 
necessariamente para a nossa *faculdade de juízo humana*, como se se tratasse de
um princípio objectivo.

$ó77. Sobre a especificidade do entendimento humano, pelo qual nos é possível o 
conceito de um fim natural

Na observação \kanterior_, apresentámos especificidades da nossa faculdade de 
conhecimento (mesmo da superior) que facilmente seremos levados a transferir, 
como predicados objectivos, para as coisas próprias. :, Contudo elas concernem a
ideias, ‡s quais não pode ser _õ345 dado na experiência qualquer objecto 
adequado e que então somente podiam servir como princípios regulativos no 
prosseguimento daquela ˙ltima. O mesmo se passa precisamente com o conceito de 
um fim natural, no que se refere ‡ causa da possibilidade de um tal predicado, a
qual só pode estar na ideia; mas a consequência que lhe é adequada (o próprio 
produto) é porém dado na natureza e o conceito de uma causalidade desta, 
enquanto causalidade de um ser actuante segundo fins, parece fazer da ideia de 
fim natural um princípio constitutivo desse fim e é nisso que ela possui algo 
diferente de todas as outras ideias.

O que a diferencia consiste porém no seguinte: a ideia mencionada não é um 
princípio da razão para o entendimento, mas sim para a faculdade do juízo, por 
conseguinte apenas a aplicação de um entendimento em geral a possíveis objectos 
da experiência e na verdade naquela situação em que o juízo não é determinante, 
mas sim meramente reflexivo. E desse modo, embora o objecto possa ser dado na 
experiência, não se pode julgá­lo, de forma nenhuma, de modo *determinado* (para
nem falar de modo adequado) mas somente é possível reflectir sobre ele.

Trata­se por isso de uma especificidade do *nosso* entendimento (humano) a 
respeito da faculdade do juízo na reflexão da mesma sobre coisas da natureza. 
Mas se é assim, então a ideia de um outro entendimento possível diferente do 
humano tem que se encontrar aqui como _õ346 fundamento (tal como na Crítica da 
Razão Pura tínhamos que pensar uma outra intuição possível, se é que a nossa 
devia ser mantida como uma intuição de uma espécie particular, nomeadamente a 
intuição para a qual os objectos são válidos unicamente como fenómenos) para que
se possa dizer: certos produtos naturais *têm que ser considerados* por nós como
produzidos intencionalmente e como fins segundo a sua possibilidade, tendo em 
conta a constituição particular do nosso entendimento, sem todavia por isso se 
exigir que efectivamente exista uma 
causa particular que possua a representação de um fim :, como seu fundamento de 
determinação, por conseguinte sem negar que um outro entendimento (mais elevado)
possa, tal como o humano, encontrar também no mecanismo da natureza o fundamento
da possibilidade de tais produtos da natureza, isto é, numa ligação causal, para
a qual um entendimento não é admitido exclusivamente como causa.

Trata­se por isso neste caso do comportamento do *nosso* entendimento 
relativamente ‡ faculdade do juízo, de modo a procurarmos aí uma certa 
contingência da sua constituição, para notar esta especificidade do nosso 
entendimento na respectiva diferença em relação a outros possíveis.

Esta contingência encontra­se muito naturalmente no *particular*, o qual deve 
ser trazido pela faculdade do juízo sob o *universal* dos conceitos do 
entendimento. Pois o _õ347 particular não é determinado através do universal do 
*nosso* entendimento (humano), e é contingente a variedade de formas sob as 
quais coisas diferentes podem ser percebidas, as quais todavia são reunidas sob 
um traço comum. O nosso entendimento é uma faculdade dos conceitos, isto é um 
entendimento discursivo, para o qual tem que ser certamente contingente o tipo e
a variedade do particular que lhe pode ser dado na natureza e trazido sob os 
seus conceitos. Mas porque ao conhecimento também pertence a intuição e porque 
uma faculdade de uma *completa espontaneidade da intuição* seria uma faculdade 
de conhecimento distinta da sensibilidade e absolutamente independente desta, 
por conseguinte seria um entendimento no sentido mais geral, assim também é 
possível pensarmos um entendimento *intuitivo* (negativamente, isto é 
simplesmente como não discursivo) o qual não vai do universal para o particular 
e desse modo para o singular (mediante conceitos), para o qual não se encontra 
aquela contingência do acordo da natureza nos seus produtos, segundo leis 
*particulares*, com o entendimento, contingência que torna a este tão difícil 
levar a multiplicidade daquelas ‡ unidade do conhecimento. Trata­se de uma 
tarefa que o nosso entendimento só é capaz de realizar mediante o acordo ­­ que 
é muito contingente ­­ dos traços distintos naturais :,  \k*_naturmerkmale*_, 
com a nossa faculdade dos conceitos, a qual no entanto não é requerida por um 
entendimento intuitivo.

_õ348 O nosso entendimento possui por isso algo que lhe é próprio para a 
faculdade do juízo: por si mesmo, no conhecimento, o particular não é 
determinado pelo universal e por isso este não pode ser deduzido unicamente 
daquele. Não obstante este particular deve entrar na multiplicidade da natureza 
em acordo com o universal (através de conceitos e de leis) e poder ser subsumido
neste. Tal acordo tem que ser muito contingente sob tais 
circunstancias e sem um princípio definido para a faculdade do juízo.
Ora para ao menos podermos pensar a possibilidade de um tal acordo das coisas da
natureza com a faculdade do juízo (o qual representamos de modo contingente e 
por consequência somente como possível mediante um fim a ele referente) temos 
que simultaneamente pensar um outro entendimento, em relação ao qual, e na 
verdade antes de qualquer fim que lhe atribuamos, nós possamos representar como 
*necessário* aquele acordo das leis da natureza com a nossa faculdade do juízo, 
que é pensável para o nosso entendimento somente pelo meio da ligação dos fins.

O nosso entendimento possui mesmo a propriedade que consiste em ter que ir, no 
seu conhecimento, por exemplo, na causa de um produto, do *universal­analítico* 
(de conceitos) para o particular (para a intuição empiricamente dada); é assim 
que, nesse caso, ele nada determina a respeito da multiplicidade do ˙ltimo, mas 
tem que esperar esta determinação para a faculdade do juízo, _õ349 da subsunção 
da intuição empírica (se o objecto é um 
produto natural) sob o conceito. Ora nós podemos também pensar um entendimento 
que ­­ já que ele não é como o nosso, discursivo, mas sim intuitivo ­­ vai do 
*universal­sintético* (da intuição de um todo como tal) para o particular, isto 
é do todo para as partes. Entendimento que, por isso, não contém em si ­­ do 
mesmo modo que a representação do todo ­­ a *contingência* da ligação das 
partes, para tornar possível uma forma determinada do :, todo, a qual é exigida 
pelo nosso entendimento que tem que prosseguir das partes, como princípios 
pensados de forma universal, para diversas formas possíveis que naqueles têm que
ser subsumidas como consequências. Em contrapartida, segundo a constituição do 
nosso entendimento, um todo real da natureza deve ser considerado somente como 
efeito das forças motoras concorrentes das partes. Assim no caso de não 
querermos representar a possibilidade do todo como dependente das partes, tal 
como é apropriado ao nosso entendimento discursivo, mas pelo contrário, segundo 
o critério de medida do entendimento intuitivo (arquetípico), se quisermos 
representar a possibilidade das partes (segundo as respectivas constituição e 
ligação) como dependendo do todo, então não pode acontecer precisamente segundo 
a mesma qualidade do nosso entendimento que o todo contenha o fundamento da 
possibilidade da conexão das partes (o que no caso do tipo de conhecimento 
discursivo seria uma contradição) mas _õ350 somente que a *representação* de um 
todo contenha o fundamento da possibilidade da forma do mesmo e da conexão das 
partes que lhe pertencem. Ora, como o todo seria então um efeito, um *produto*, 
cuja *representação* é encarada como a *causa* da sua possibilidade, mas se 
chamamos fim o produto de uma causa, cujo fundamento de determinação é 
simplesmente a representação do respectivo efeito, segue­se que é simplesmente 
uma consequência da constituição particular do nosso entendimento, se 
representamos como possíveis produtos da natureza segundo uma outra espécie da 
causalidade diferente das leis da natureza da matéria, nomeadamente somente 
segundo a dos fins e das causas finais. Também se segue que este princípio não 
concerne ‡ possibilidade de tais coisas elas mesmas (mesmo consideradas como 
fenómenos) segundo esta espécie de produção, mas sim e unicamente ao julgamento 
possível destas coisas para o nosso entendimento. Pelo que compreendemos de 
igual modo a razão por que não nos satisfazemos, nos estudos naturais, com a 
explicação dos seus produtos mediante a causalidade segundo fins. … que nesse 
caso exigimos simplesmente ajuizar a produção da natureza de acordo com :, a 
nossa faculdade, isto é com a faculdade de juízo reflexivo e não de acordo com 
as mesmas coisas a favor da faculdade de juízo determinante. Não é aqui de modo 
nenhum necessário demonstrar que seja possível um tal *intellectus archetypus*, 
mas simplesmente que nós somos _õ351 conduzidos ‡quela ideia (de um *intellectus
archetypus*) pelo contraste com o nosso entendimento discursivo, que necessita 
de imagens (*intellectus ectypus*) e com a contingência de uma tal constituição.
Tão­pouco tal ideia contém contradição alguma.

Ora se consideramos um todo da matéria segundo a sua forma, como um produto das 
partes e das respectivas forças e da faculdade de se ligarem espontaneamente 
(acrescentadas outras matérias que se juntam umas ‡s outras), nesse caso 
representamo­nos uma forma de geração mecânica. Mas desse modo não se obtém 
qualquer conceito de um todo como fim, cuja possibilidade interna pressupõe 
completamente a ideia de um todo, da qual depende até a constituição e o modo de
acção das partes, tal como nós porém temos que representar um corpo orgânico. 
Daqui não se segue contudo, como precisamente se demonstrou, que a geração 
mecânica de um tal corpo é impossível, pois isso equivaleria a dizer que é 
impossível (i. é contraditório) representar uma tal unidade na conexão do 
m˙ltiplo *para qualquer entendimento*, sem que simultaneamente a ideia daquela 
unidade seja a causa geradora da mesma, isto é sem produção intencional. No 
entanto é o que de facto aconteceria se estivéssemos legitimados a considerar 
seres materiais como coisas em si mesmas. … que então a unidade, que constitui o
fundamento da possibilidade das formações naturais seria _õ352 simplesmente a 
unidade do espaço, o qual não é todavia qualquer fundamento real das produções, 
mas tão somente a condição formal das mesmas, ainda que o espaço tenha com o 
fundamento real que procuramos uma semelhança que consiste no facto de nele 
nenhuma parte poder ser determinada, sem ser em relação com o todo (cuja 
representação subjaz por isso ‡ possibilidade das partes). Mas como é ao menos 
possível considerar o mundo material como simples fenómeno e pensar algo como 
coisa :,  em si mesma (a qual não é fenómeno) como substracto e todavia colocar 
na sua base uma intuição intelectual correspondente (ainda que não seja a 
nossa), então encontrar­se­ia um fundamento real para a natureza, ainda que para
nós incognoscível e supra­sensível, natureza ‡ qual nós próprios co­pertencemos 
e na qual nós consideraríamos segundo leis mecânicas aquilo que é necessário 
como objecto dos sentidos. Porém consideraríamos, segundo leis teleológicas, a 
concordância e a unidade das leis particulares e das formas na natureza de 
acordo com estas mesmas leis ­­ as quais, em relação ‡s leis mecânicas, temos 
que ajuizar como contingentes ­­ como objectivos da razão (por certo o todo da 
natureza como sistema), e ajuizá­las­íamos segundo um duplo princípio, sem que o
modo de explicação mecânico seja excluído pelo teleológico, como se se 
excluíssem um ao outro.

… assim também possível descortinar aquilo que na verdade era fácil supor, ainda
que dificilmente se pudesse _õ353 afirmar e demonstrar com certeza: de facto o 
princípio de uma dedução mecânica de produtos naturais conformes a fins poderia 
permanecer ao lado do teleológico, contudo não o poderia de modo nenhum tornar 
supérfluo. O mesmo é dizer que temos que experimentar, em relação a uma coisa 
que temos que ajuizar como fim natural (um ser organizado), todas as leis da 
geração mecânica conhecidas e ainda a descobrir e esperar assim ter progressos 
apreciáveis, embora jamais seja dispensável a invocação de um fundamento da 
geração completamente diferente, nomeadamente o da causalidade mediante fins, 
para a possibilidade de um tal produto. De modo nenhum uma razão humana (nem 
qualquer outra finita que quanto ‡ qualidade fosse semelhante ‡ nossa, mas que 
do ponto de vista do grau a ultrapassasse em muito) pode esperar compreender a 
geração; nem mesmo de uma folhinha de erva a partir de causas simplesmente 
mecânicas. Se pois a conexão teleológica das causas e efeitos é para a faculdade
do juízo absolutamente imprescindível no que respeita ‡ possibilidade de um tal 
objecto, mesmo para o estudar segundo o fio condutor da experiência; se não é de
modo nenhum possível encontrar um fundamento :, suficiente e referente a fins 
para os objectos externos enquanto fenómenos, mas pelo contrário aquele (que se 
encontra também na natureza) tem que ser procurado somente no substracto supra­
sensível da mesma, do qual _õ254 porém nos está vedada toda a perspiciência 
possível, então é­nos completamente impossível retirar da própria natureza 
princípios de explicação para as ligações finais e é necessário, segundo a 
constituição da faculdade de conhecimento humana, procurar para isso o 
fundamento supremo num entendimento originário como causa do mundo.

$ó78. Da união do princípio do mecanismo universal da matéria com o teleológico 
na técnica da natureza

Interessa infinitamente ‡ razão não afastar o mecanismo da natureza nas suas 
produções e não passar ao seu lado na explicação das mesmas, já que sem ele não 
se consegue qualquer perspiciência da natureza das coisas. Ainda que se nos 
conceda que um arquitecto supremo tenha criado de imediato as formas da 
natureza, tal como elas desde sempre existem, ou que tenha predeterminado 
aquelas que se formam continuamente no seu curso, segundo precisamente o mesmo 
padrão, o nosso conhecimento da natureza não aumenta todavia por isso o mínimo. 
… que nós não conhecemos absolutamente nada do modo de actuação daquele ser, nem
as suas ideias, as quais devem conter os princípios da possibilidade dos seres 
da natureza e não podemos explicar a natureza a partir desse mesmo ser, isto é 
de cima para baixo (*a priori*). Porém se quisermos, a partir das formas dos 
objectos da experiência, por isso de baixo para cima _õ355 (*a posteriori*), 
invocar uma causa actuante segundo fins, já que acreditamos encontrar 
conformidade a fins nestas, a fim de a explicar, nesse caso explicaríamos de 
modo absolutamente tautológico e enganaríamos a razão com palavras, sem que 
referíssemos que desse modo, lá onde nos perdemos no transcendente com esta 
forma de explicação, numa direcção em que o conhecimento da natureza não nos 
pode acompanhar, a razão é desviada :,
para uma exaltação de tipo poético, quando precisamente a sua principal missão é
evitá­la.

Por outro lado é de igual modo uma máxima necessária da razão não passar ao lado
do princípio dos fins nos produtos da natureza, já que, ainda que não nos torne 
mais compreensível o tipo de geração dos mesmos, ele é todavia um princípio 
heurístico para investigar as leis particulares da natureza, posto que não se 
queira fazer disso qualquer uso para assim a explicar e na medida em que se lhes
quiser ainda somente chamar fins da natureza, ainda que elas apresentem 
visivelmente uma unidade intencional de fins, isto é sem procurar o fundamento 
da possibilidade das mesmas para além da natureza. Mas porque finalmente se tem 
que colocar a questão daquela possibilidade, é precisamente tão necessário 
pensar para esta uma espécie particular da causalidade que não se encontra na 
natureza, como o mecanismo das causas da natureza possui a sua própria, na 
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