UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
LICENCIATURA EM HISTÓRIA
SEMINÁRIO DE HISTÓRIA ANTIGA II
PROFESSORA: AIRAN BORGES
ALUNA: EVELYNE JOYCE DANTAS LUCENA
O GÊNERO PARA JOAN SCOTT
A escrita da história e as definições de como se deve escrever a história
eram feitas por homens, e refletiam as características de sua sociedade
androcêntrica e etnocentrica. Consciente ou inconscientemente a constituição dessa
história que pretendia ser científica e se desenvolveu mais especificamente no
século XIX, tinha como figura central o homem, branco, geralmente detentor de
poder: rei, governante, dono de terras, proprietário de indústrias, colonizador.
Essa história defendia seus pontos de vista, reproduzia seus valores, negava
a importância de narrativas e personagens históricos que fugiam desse estereótipo
de sujeito supostamente universal, mas que tinha suas características bem
definidas. Durante o século XX , a escola dos Annales e o Marxismo tiveram
influência no aparecimento de outros tipos de história, histórias que privilegiavam
outro ponto de vista, e outros personagens históricos.
Os estudos de mulheres também surgiram com esse mesmo objetivo,
evidenciar a experiência de mulheres que não eram contempladas tanto pelas
histórias tradicionais, chamadas de “oficiais”, quanto por alguns trabalhos
infuenciados pela história nova. Tais estudos tinham forte influência dos movimentos
feministas e forte ligação política.
A palavra “gênero” passou a ser usada na academia e na atuação política de
mulheres feministas dentro desse contexto, e depois foi adotada pela produção
acadêmica. O uso de gênero ajudou os estudos com ênfase nas distinções sociais
baseadas no sexo (SCOTT, 1999) a vencer o isolamento da “história das mulheres”
escrita parelamente à “história oficial”, através de uma abordagem que priorizasse
as relações entre os sexos. Além de parecer mais neutra, menos politizada ou
menos militante a história escrita utilizando o conceito “gênero”.
Esses estudos foram desenvolvidos inicialmente através de uma abordagem
puramente descritiva, mas os historiadores perceberam a necessidade do
desenvolvimento e da aplicação de teorias nos estudos de gênero. Joan Scott define
o gênero, a partir do qual desenvolve sua teoria, como “elemento constitutivo de
relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos” e “uma forma
primeira de significar as relações de poder” (grifo da autora, SCOTT, 1999, p. 21). A
teorização dos estudos de gênero vêm para se integrar à metodologia histórica
tradicional, seja complementando-a ou contestando-a, como uma nova forma de
enxergar a produção do conhecimento histórico e suas categorias tradicionais, e
substituindo os trabalhos puramente descritivos que “impede a análise do
funcionamento do sistema e de sua historicidade; ao invés, reproduz seus termos”,
como afirma a própria Scott (1999, p. 27) sobre a prática historiográfica que muitas
vezes se compromete em “tornar a experiência visível”.
É importante destacar que apesar de gênero ter constituído uma importante
categoria de análise, não era a única. Scott (1989, p. 4) sugere que desde o início do
uso do gênero como categoria de análise, raça e classe, eram utilizadas junto com o
gênero nos estudos sobre a mulher por pesquisadores que “tinham uma visão
política mais global”. Tal interesse “levava em consideração o fato de que a
desigualdades de poder estão organizadas segundo, no mínimo, estes três eixos”
(SCOTT, 1989, p. 4).
Os grupos nos quais estão organizadas estas desigualdades de poder são
organizados segundo noções de igualdade e diferença. Tais noções são
historicamente definidas e não podem ser definidas a priori. Raça, classe,
sexualidade, etnia ou nacionalidade dentre outras podem ser utilizadas de forma
integrada para desenvolver análises históricas e sociais baseadas em relações de
poder. Em cada contexto de análise uma ou outra categoria pode ter mais ou menos
peso no estabelecimento de grupos minoritários ou oprimidos.
Num primeiro momento entre o reconhecimento dos grupos não
representados na historiografia e sua inserção, a primeira forma encontrada para se
fazer isso foi a descritiva, como já citado. “(…) vem sendo, há muito tempo, a missão
dos historiadores que documentam as vidas daqueles esquecidos e apagados dos
relatos sobre o passado” (SCOTT, 1999, p. 24). Porém, quando o objetivo desses
historiadores se torna a documentação dessas experiências dos “esquecidos e
apagados”, o trabalho dos historiadores se torna limitado, visto que, primeiro, tomam
a evidência como reflexo do real, “ao invés de uma maneira de explorar como se
estabelece a diferença, como ela opera, como e de que forma ela constitui sujeitos
que vêem e agem no mundo” (SCOTT, 1999, p. 26).
A proposta de Scott (e de outras pesquisadoras feministas) “que o estudo
das mulheres acrescentaria não só novos temas como também iria impor uma
reavaliação crítica das premissas e critérios do trabalho científico existente” (SCOTT,
1989, p. 3) estaria comprometida, segundo a própria, quando o objetivo de um
trabalho historiográfico limita-se a documentar experiências por inserir este trabalho
dentro do arcabouço teórico da história tradicional. Um trabalho está inserido nesse
arcabouço teórico quando considera a evidência como uma verdade pré-discursiva,
sem considerar a forma como os indivíduos são formados e como o próprio discurso
está na formação da experiência impede a reavaliação anteriormente citada das
premissas e critérios do trabalho científico existente. É preciso considerar a
linguagem como fator constitutivo da própria experiência, e não tomar como dadas
as categorias nas quais a experiência se baseiam. Metodológicamente, é preciso
ignorar a existências de tais categorias, se o objetivo for examinar de que forma elas
surgem e operam.
Essa postura também é utilizada pela autora quando ela amplia sua área de
análise no artigo “O enigma da igualdade”, tratando tanto de outras minorias quanto
dos conceitos de igualdade e diferença. O artigo é uma exposição de como
igualdade e diferença são conceitos interdependentes, históricos e mesmo
localizados espacial e temporalmente não podem ser definidos tão facilmente.
Debates públicos em torno das desigualdades se tornam “a questão de onde e como
reconhecer grupos de identidade” (SCOTT, 2005, p. 12) não pode ser resolvida
optando apenas por um lado, de forma definitiva ou dogmática, quando se
estabelece uma disputa polarizada.
Scott no referido artigo trabalha com as questões de igualdade e diferença
em forma de paradoxos, e que são falsos e verdadeiros ao mesmo tempo. No
primeiro a autora reconhece que a igualdade é uma prática historicamente
contingente, visto que é historicamente que ela é praticada, porém quando uma
diferença é reconhecida e levada ou não em consideração, é em nome de uma
igualdade que é também, absoluta. No segundo paradoxo “Identidades de grupo
definem indivíduos e renegam a expressão plena de sua individualidade”, citando
como exemplo a identidade dos movimentos trabalhista, que podia não satisfazer
muitos dos trabalhadores, mas era a identidade através da qual seu movimento de
luta se estruturava.
E articulado fortemente ao anterior, “reivindicações de igualdade envolvem a
aceitação e a rejeição da identidade de grupo atribuída pela discriminação”. Mesmo
sendo rotuladas de forma pejorativa, as mulheres, por exemplo, em busca de
direitos civis não podiam deixar de se colocar no lugar de mulheres para fazerem
suas reivindicações. Podemos perceber então, que na atuação política,
diferentemente da metodologia defendida por Scott, era indispensável a utilização
das categorias sociais nas quais as pessoas eram “enquadradas”, quase sempre
pejorativamente e através de discriminação, a partir do momento que utilizadas para
a mudança social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SCOTT, J. W. Experiência. (Trad. Ana Cecília Adoli Lima). In.: SILVA, A.L.; LAGO,
M.C.S. & RAMOS, T.O.R. (Orgs.) Falas de Gênero. Santa Catarina: Editora
Mulheres, 1999, Pp. 21-55.
SCOTT, J. W. Gender: a useful category of historical analyses. In: ___. Gender and
the politics of history. New York, Columbia University Press, 1989. (Tradução feita
por Christine Rufino Dabat Maria Betânia Ávila, 1999).
SCOTT, J. W. O enigma da igualdade. Revista Estudos Feministas, Florianópolis,
13(1): 216, janeiro-abril/2005.