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EDIÇÃO 07 - ANO 03

MAN magazine
A REVISTA DA MAN LATIN AMERICA

CAFEZAL ARGENTINA TOM JOBIM


Uma viagem pelos aromas Veículos MAN aceleram Disco que flertou com a
da mais brasileira das bebidas no ritmo tango música americana faz 50 anos

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sumário

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NA ROTA DO CAFÉ:
DO CERRADO ATÉ A
XÍCARA, UMA VIAGEM
DE SABORES

FOTO: SIMON PLESTENJAK


18
OS 50 ANOS DO DISCO
QUE FEZ OS AMERICANOS
CORTEJAREM
A BOSSA NOVA
FOTO: PAULO JARES / ACERVO EDITORA ABRIL

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22
FOTO: SIMON PLESTENJAK

CARNES, VINHOS, PEÇAS,


FOTO: MARIANA DAVID

ALIMENTOS. CABE DE TUDO NOS

FOTO: GILSON ABREU


CAMINHÕES VOLKSWAGEN QUE
CIRCULAM PELA ARGENTINA

38
FOTO: ZÉ PAIVA

A CANTINA DO DÉLIO É
32 UMA DAS LEMBRANÇAS
BLUMENAU: DE INFÂNCIA DA ATRIZ
CLIMA DE ADRIANA BIROLLI NA RUA
OKTOBERFEST ITUPAVA, EM CURITIBA
E SOTAQUE
ALEMÃO O
ANO TODO

08 REDUZIDAS: EXPOSIÇÃO, PESQUISA,


TREINAMENTO E FACEBOOK
30 KULTUR TOUR: UM PASSEIO PELA ARTE,
LITERATURA E RITMOS DA ALEMANHA
40 CRÔNICA: VIAGEM MÍSTICA AO HIMALAIA
42 FAROL: 2014 JÁ DESPONTA NO PARA-BRISA

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largada

NO EMBALO DO CAMINHÃO
>>> Pelo segundo ano consecutivo a MAN Latin America foi eleita
a Empresa mais Admirada do Brasil pela revista Carta Capital, no
segmento de montadoras e importadoras de caminhões. Entre as
indicações de mais de 2 mil executivos do Brasil e da América Lati-
na, a MAN angariou quase 30% dos votos. É óbvio que um prêmio
como esse é motivo de grande orgulho, afinal trabalhamos todos
os dias para levar o melhor em tecnologia, inovação, qualidade e
segurança aos nossos clientes. E ser lembrado por esses atributos
é uma recompensa e tanto.
Mas o que nós da MAN realmente gostamos é de ajudar
o país a caminhar, ou melhor, a rodar. Basta pegar uma estrada
para constatar que a nossa economia anda mesmo é de cami-
nhão. Nas próprias páginas da MANmagazine há vários exemplos
desse movimento, a começar pelo café. Como se sabe, o Brasil é
o maior produtor de café do mundo há mais de 150 anos. Nesta
edição, monitoramos toda a safra, do plantio ao beneficiamento
dos grãos, passando pelas etapas de torra e industrialização até
chegar às prateleiras de supermercados e cafeterias. Para cumprir
a longa jornada, o café sobe pelo menos três vezes na caçamba de
um caminhão. Se colocarmos na balança as viagens até o porto, no
caso do produto para exportação, o número pode chegar a cinco.
Uma cidade como Blumenau, que passa a maior parte do
ano se preparando para a tradicional Oktoberfest, também se mo-
vimenta sobre rodas. Afinal, não é fácil abastecer lojas, restaurantes,
supermercados e pavilhões com embutidos, aves, cervejas, condi-
mentos, doces, entre outras delícias da culinária alemã, para dar
conta de tanto consumo.
O bom é que não é só em solo brasileiro que o caminhão
funciona como engrenagem do progresso. Após 15 anos de pre-
sença da MAN na Argentina, fomos conferir de perto onde e como
os nossos produtos estavam sendo utilizados. Vinhos, carnes,
combustíveis, automóveis, bebidas, chocolates... tudo gira na ve-
locidade do caminhão, às vezes um pouco mais rápido quando a
economia está aquecida outras vezes em marcha lenta, pegando
impulso para crescer novamente. O importante é que tanto no
Brasil quanto na Argentina o caminhão nunca para. <

Roberto Cortes,
Presidente da MAN Latin America

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colaboradores
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>>> MARINA MOTA


A jornalista cearense mora em Buenos Aires há
dois anos. Vasculhou a Argentina para mostrar
as aplicações dos produtos MAN fora do Brasil.
Quando ainda era estudante, fez estágio na CNN
FOTOS: ACERVO PESSOAL
Internacional, em Atlanta. De Buenos Aires,
colabora para vários veículos de comunicação
brasileiros, como Valor Econômico, DCI e Diário
do Nordeste.

EXPEDIENTE
MANmagazine é uma publicação da MAN Latin >>> ARTHUR VERÍSSIMO
America com edições em português e espanhol.
Distribuição gratuita para toda a América Latina.
O autor da crônica desta edição é
Edição 7, novembro/2013 considerado um dos jornalistas mais
“gonzos” do Brasil. Colaborador cativo
COMUNICAÇÃO MAN LATIN AMERICA
da revista Trip e repórter de TV e rádio,
Marcos Brito (gerente), Maria Carolina Gonçalves
(editorial), Danielle Ritton, Larissa Rodrigues, Karina Veríssimo é capaz de se colocar nas
Ushimaru, Heloísa Tunoda (estagiária) e experiências mais bizarras apenas para
Wander Gartner (aux. administrativo) contar boas histórias. Escritor e DJ acidental,
Rua Volkswagen, 291, 7º andar
é o protagonista da série Na Fé, em cartaz
04344-901 – São Paulo – SP
www.man-la.com no Discovery Channel. Aqui relata uma das
muitas viagens que já fez à Índia.
EDIÇÃO Parágrafo Editora Ltda.
EDITORA Rosiane Moro MTb 21.082
DIRETORA DE REDAÇÃO
Raquel Alves MTb 16.103
REVISÃO Daniela Lima >>> SIMON PLESTENJAK
PROJETO GRÁFICO ORIGINAL Há três anos no país, o fotógrafo esloveno
MAN Group AG
já é considerado mais brasileiro do que
DIREÇÃO DE ARTE Daniel das Neves
TRATAMENTO DE IMAGEM muitos por aqui. Adora viajar atrás
Luciano Bernardes das autênticas raízes brasileiras. Suas
IMPRESSÃO LEOGRAF fotorreportagens já foram parar nas
www.leograf.com.br
TIRAGEM 8.500 exemplares
páginas da National Geographic, Marie
PERIODICIDADE quadrimestral Claire, Época São Paulo, entre outras.
CAPA Simon Plestenjak Nesta edição, foi conferir a produção de
café no interior de Minas Gerais, aos pés
da serra da Canastra.

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reduzidas

ARRIBA!
Considerada uma das mais impor-
tantes feiras de veículos comer-
ciais da América Latina, a Expo
Transporte 2013, realizada a cada
dois anos em Guadalajara, México,
comemorou seus 15 anos no últi-
FOTO: WAGNER MALAGRINE

mo mês de novembro, com pú-


blico recorde de 25 mil visitantes.
Mais uma vez o estande da MAN
foi um dos mais concorridos da
mostra, com a apresentação, ver-
são Euro V, das linhas Constella-

MISSÃO CUMPRIDA tion, Worker, Volksbus e MAN,


produzidos na fábrica mexicana
Roberto Cortes, presidente da MAN Latin America, reafirmou ao governador de Querétaro e em Resende (RJ). O
do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, investimento de R$ 1 bilhão no estado flumi- país tem a segunda maior linha de
nense entre 2012 e 2016. O ciclo de investimentos foi confirmado em cerimô- montagem da MAN Latin America
nia na fábrica da montadora em Resende (RJ), ocorrida no último dia 22 de e do mundo. Além da fábrica em
outubro. Cortes e Cabral assinaram um acordo para o desenvolvimento de Resende, no Brasil, a empresa pos-
novos produtos e ampliação da capacidade produtiva na fábrica MAN. “Nossa sui acordos para montagem dos
proposta é aumentar a geração de renda na região, uma ação que promove- seus produtos em Bogotá, na Co-
mos desde 1996, quando inauguramos nossa fábrica no estado”, disse Cortes. lômbia, Nairóbi, no Quênia e em
Port Elizabeth, na África do Sul.

DIESEL DE CANA
Com 15% a menos nas emissões de NOx, 77% de redução nas emis-
sões de material particulado e diminuição em 42% na temível fu-
maça preta, o diesel de cana-de-açúcar tem tudo para se tornar o
combustível do futuro. É o que apontam os testes pioneiros com
motor Euro V, comandados pela MAN em bancada dinamométrica.
Com mais de 500 horas de testes, os resultados de potência, torque,
consumo e durabilidade provaram as vantagens do biocombustí-
FOTO: WAGNER MALAGRINE

vel, associadas à tecnologia dos motores Euro V. Testes em estrada


já estão em curso. A primeira fase envolveu caminhões Constella-
tion Euro V da Coca-Cola Andina Brasil. Quatro caminhões 17.190 e
dois 24.280 cumprem rotina normal de operação abastecidos ex-
clusivamente com o diesel de cana.

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SÓ DE SOB MEDIDA
CURTIÇÃO Produto sob medida não é apenas um jogo de
palavras, mas um compromisso da MAN La-
Uma foto curtida 5 mil vezes, tin America. Logo no início da sua operação, a
em poucas horas. Tudo bem empresa entendeu que a aplicação é que deve
que o Constellation 25.420 exi- definir as características do veículo, afinal uma
bia seu melhor ângulo para mudança simples no projeto pode significar um
apresentar o novo motor de uso mais racional, seguro ou até muito mais
420 cavalos. Mas, mesmo com o econômico do produto. Para isso existe o BMB
peso da novidade, impressiona Mode Center. A unidade dispõe de técnicos e de
o fato de tantos internautas fre- todo ferramental para que as soluções persona-
quentarem habitualmente a página da MAN lizadas sejam incorporadas no caminhão ou ôni-
no Facebook e ainda fazerem questão de co- bus, antes que deixem a fábrica, preservando a
mentar, curtir, manifestar opiniões. São co- condição de originalidade. Entre os mais de 110
muns fotos e mensagens postadas pela mar- mil pedidos atendidos no BMB está o caminhão
ca passarem dos 10 mil “views”. A relação com segundo eixo direcional, que permite ao
amigável que se estabeleceu entre a MAN e frotista ganhar mais 5 mil quilos de carga útil. A
seus clientes desde os primeiros posts abriu empresa também está apta para montar quinta
caminho para outras mídias como Youtube, roda nos cavalos mecânicos, terceiro eixo ante-
Linkedin, Instagram e Google Plus, com ex- rior (caminhão de lixo), terceiro eixo auxiliar
celentes índices de participação em todas. A (caminhão “trucado”), ônibus com piso baixo
MAN mapeia os interesses e impressões do (low entry), escape vertical, ajuste de entre-eixos,
público para antecipar tendências e novas ar-condicionado, tomada de força, freio retarder,
demandas do mercado. instalação de volksnet e climatizador.

SHOW DE BOLA
Transportar um time com a importância do Bayern de Munique, do
Borussia Dortmund, do VfL Wolfsburg ou do Hannover é tarefa que
exige padrões extremos de segurança e conforto. Pensando nisso, a
MAN convidou os motoristas de ônibus dessas e de outras equipes do
campeonato alemão para uma rodada de treinamento. Pelas contas
da montadora, os 13 principais clubes circulam em média 60 mil qui-
lômetros/ano pelas rodovias europeias. Agendas apertadas, distâncias
longas, ruas estreitas das cidades históricas estão entre os principais
desafios encontrados pelos motoristas. Para ajudá-los a chegar ao des-
tino com tranquilidade, a MAN desenvolveu um programa que des-
mistifica a tecnologia de bordo e inclui aulas práticas para situações
extremas, como enchentes e perigos que exigem resposta rápida e
manuseio correto do veículo.

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Ponto a ponto

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GOSTINHO BRASILEIRO
“Aceitam um café?” É assim que o diretor Ramiro Júlio Ferreira
Neto nos recebe na sede da empresa Café Barão. É o início da
nossa viagem, que começa na fazenda Lagoa, em Piumhi, no
centro-oeste mineiro, e vai até a mesa da barista Eliana Relvas

Por Denilson Vasconcelos Fotos Simon Plestenjak

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Na moderna lavoura de café, o trabalho manual ficou no passado. O que se ouve


agora é o ranger das colheitadeiras. O que resta de poesia fica na mão calejada
do trabalhador ao mostrar o fruto maduro chamado de cereja

“Café com pão, café com pão, café com pão.” En- atingem a maturidade. Colhidos e beneficiados, os
quanto estamos na estrada a caminho da pequena grãos são selecionados e levados a um criterioso pro-
Piumhi, no interior mineiro, o poema ferroviário do cesso de torrefação e moagem. É o início da linha de
pernambucano Manoel Bandeira ecoa nos ouvidos, produtos com a marca Café Barão.
sobe serra, transpõe rios e nos baldeia no ritmo do O cheiro do café parece motivar o compasso
trenzinho do caipira. dessa lavoura tão presente na cultura e nos cos-
Do Mirante da Cruz do Monte temos uma tumes brasileiros. Um produto que, há um bom
visão panorâmica da cidade. O que se vê mais pró- tempo, sobe no caminhão para ir do campo para a
ximo, depois da escadaria de acesso ao local, é a cidade, da fábrica até o comerciante varejista para,
unidade administrativa e industrial da Sociedade enfim, chegar à xícara do brasileiro – na mesa de
Mogyana Exportadora Ltda. Dali também se avista casa, no balcão da mais simples padaria ou no re-
parte dos chapadões da mítica serra da Canastra, quinte das cafeterias.
onde nasce o rio São Francisco. O povo do local se O café, todos sabemos, tem dessas coisas. Ani-
orgulha de dizer que a cidade é o Portal da Canastra. ma a prosa. Aquece as aventuras literárias e as telas
Estamos em 2013, porém o ponto de partida do cinema. E dali pula diretamente para o cafezal,
desta viagem está bem mais pra trás, em torno de três que pulsa na modernidade ruidosa das colheitadei-
décadas, quando o Grupo Mogyana, especializado na ras, uma realidade que, do último quartel do século
produção de arroz, enxerga no boom econômico dos passado para cá, esquenta a economia da região com
grãos no país o grande potencial do café arábica. E as- a forte presença do tipo arábica de alta qualidade.
sim, na segunda metade da década de 1980, os primei- Nas fazendas, as colheitadeiras substituem 150
ros frutos das mudas plantadas nas fazendas mineiras pessoas por turno de operação. Mas são utilizadas ape-

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nas nas lavouras a partir da segunda safra. Naquelas de


primeira safra, a colheita ainda é feita manualmente.
“Agora começou a chover, é época de floração”, observa
Ramiro Neto, diretor da Mogyana. Segundo ele, o mo-
mento ideal para a colheita é na “fase cereja”, quando o
fruto está maduro.

PÉS NO CHÃO, PÉ NA ESTRADA


Ramiro Neto nos fala do produto, velho conhecido da
família, já dos tempos do avô, que ganha novos con-
tornos sob a chancela da empresa, cada vez mais co-
nhecida pelo Café Barão. E nos leva à fazenda Lagoa, a
mais antiga das seis unidades agrícolas do grupo – es-
palhadas pelos municípios de Vargem Bonita, Piumhi
e Formiga. Lá, temos noção do processo que se desen-
rola no campo – plantação, colheita, lavagem e seca-
gem dos grãos – até o momento em que o produto é RETA DE CHEGADA
embarcado no caminhão, que roda cerca de 50 quilô- “Café com pão, café com pão, café com pão.” A poesia
metros até a fábrica. No pico, faz esse percurso várias de Bandeira baila na mente enquanto observamos a
vezes por semana. sequência, quando os grãos despedem-se dessa condi-
O Constellation 24.250 6x2, dirigido por Antônio ção ao caírem nos moinhos. Reduzidos a pó, vão para
Carlos Faria, chega, passa pela balança e descarrega na as caixas de armazenamento e dali para as máquinas
moega. Os grãos caem na esteira. Tem início a viagem de empacotamento. O café embalado é acondicionado
até as caixas. Descascados, saem dali em sacas de 60 em caixas colocadas em pallets, estrechadas (tal e qual
quilos ou nos chamados big bags, de 1,5 tonelada, e se- fazemos com malas e bagagens nos aeroportos para
guem para a etapa de classificação. protegê-las) e levadas ao depósito.
A análise sensorial permite a padronização do Entra em cena outro modelo de caminhão, o
produto e a criação de lotes. Seguindo os parâmetros 9.160 Delivery. Com carroçaria tipo baú, esses veículos
estabelecidos pela empresa, grãos de diferentes ori- levam o Café Barão para o mercado. Carregados no pe-
gens e tipos de preparo são combinados para chegar ríodo matinal, passam a semana fazendo entregas num
ao blend, ou liga, que é o segredo da marca, responsável raio de 100 quilômetros da empresa. Na filial de Belo
pela característica e qualidade do café e pela fidelidade Horizonte, seguem rotinas parecidas.
do consumidor ao produto. A partir daí são emitidas Dos grãos que saem das fazendas, parte é uti-
as ordens que orientam o encaminhamento dos grãos lizada na industrialização do Café Barão. Nesse busca
para o processamento industrial. e leva de café arábica de produção própria e também
Sem contato humano, os grãos entram em du- de grãos provenientes de outros produtores, os cami-
tos por elevadores e são levados até o torrador. Ali, ou- nhões cumprem papel relevante. Por isso, não raras ve-
tro sistema de classificação determina como será feita zes o Constellation 24.250 6x2 deixa a rotina fazenda/
a “torra”. Um cheirinho danado de bom toma conta do indústria, em Piumhi, e percorre distâncias de até 700
ambiente. Torrados, são transportados até as caixas de quilômetros, chegando ao norte de Minas, por exem-
armazenamento, onde descansam 12 horas, para a ne- plo, como lembra o motorista Antônio Carlos, que trata
cessária liberação de gás carbônico. o bruto com os cuidados que teria com o próprio carro.

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OURO AMARRONZADO
Maior produtor mundial de café, respondendo por 30%
do mercado internacional, o Brasil é o segundo consu-
midor, atrás apenas dos Estados Unidos. E caminha
para assumir o primeiro posto. A meta da Associação
Brasileira da Indústria do Café (Abic) para o consumo
interno é atingir 21 milhões de sacas em 2013. Para isso
contribui o consumo fora do lar, com o número cres-
cente de cafeterias e restaurantes oferecendo café de
melhor qualidade.
A relação com o café vem do século XVIII, des-
de que o sargento-mor Francisco de Melo Palheta fez
a planta entrar no país pelo norte, passando por Mara-
nhão, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Minas,
e se consolidar a partir de meados do século XIX. Hoje,
praticamente a lavoura se estende por todos os estados,
mas firma-se em regiões de São Paulo, Minas, Paraná,
Espírito Santo, Bahia e Rondônia.
Mais importante parque cafeeiro do país, Minas
Gerais planta café em 1.236,9 mil hectares – mais da
metade dos 2.312.152 hectares de área cultivada nacio-
nalmente. O sabor de novidade está no cerrado, onde o
cultivo da espécie arábica ganha mais e mais espaço nas
últimas quatro décadas.

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Na área industrial, o Constellation manobra para a descarga dos grãos.


Adiante a “torra” enche o ambiente daquele cheirinho gostoso de café, presente
no dia a dia de Jorge Elias Ferreira (centro) e dos filhos Ramiro e Vanessa

O arábica (Coffea arabica), espécie originária do no ranking das cem maiores indústrias associadas,
Oriente, produz café de melhor qualidade, mais fino e encerrou 2012 na 17ª posição. Com fôlego de sobra,
requintado, e é cultivado em regiões com altitude na pois, como diz o presidente da Mogyana, Jorge Elias
faixa dos 800 metros. Já o Robusta (Conillon), originário Ferreira, “nosso objetivo é gerar um crescimento sus-
da África, tem um trato mais rude e pode ser cultivado tentável, promovendo o sucesso de nossos acionistas
ao nível do mar. Claro, cada espécie tem um grande nú- e parceiros e, principalmente, sempre superando as
mero de variedades e linhagens. expectativas de nossos consumidores”.
Na região onde se situa Piumhi, o solo caracterís- Juntamente com os filhos Ramiro Júlio Ferreira
tico é o de “cerrado em transição”, cujas terras são tidas Neto (diretor executivo industrial e comercial), Vanessa
como, no mínimo, de média fertilidade, ou seja, de fácil Paschoa Ferreira Lemos Marques (diretora financeira) e
correção para se tornarem de alta fertilidade sem gran- Patrícia Paschoa Ferreira Coelho (diretora comercial BH
des esforços técnicos. Não faltam, por ali, ribeirões e cór- e região metropolitana), Jorge Elias não só acredita na
regos com abundantes mananciais. consolidação de produtos tradicionais da empresa, por
Em Piumhi, a Mogyana aposta na qualida- exemplo o Café Barão, como também vê forte poten-
de do arábica para a produção do melhor café. Em cial de expansão do Espresso (grãos torrados), que só
pouco mais de duas décadas e meia, firma-se nesse utiliza o café cereja descascado das próprias fazendas.
mercado com enorme poder de crescimento. Segun- Nos demais, são processados grãos de café arábica de
do dados da Abic, a empresa, que em 2008 era a 39ª produtores do sul de Minas e do cerrado..

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ESPECIAIS EM ALTA
Movida a café, a barista Eliana Relva não para. Mal chega
de Belo Horizonte, onde participou de um evento inter-
nacional do setor cafeeiro, desembarca na cafeteria de
um supermercado da Vila Mariana, na zona sul de São
Paulo, para um workshop sobre cafés especiais e uma
feira de cafés orgânicos de dez procedências distintas,
produtos que estão nas gôndolas. Na plateia, gente co-
Após a embalagem, o café está pronto mum, cliente da loja, interessada em saber um pouco
para consumo, não sem antes passar mais sobre as novidades gastronômicas e os apetre-
chos para quem aprecia tirar um café diferenciado.
por um rigoroso teste de degustação Essa vida agitada a engenheira de alimentos leva
de sabores e aromas desde meados dos anos 1990, quando foi convidada a
participar da montagem do primeiro centro de café do
Brasil, para o Sindicato da Indústria de Café do Estado
de São Paulo. Gostou do sabor e dali para cá ministra
cursos de formação de barista e de classificação e de-
gustação de café. E ainda encontra tempo para integrar
júris de concursos de profissionais.
“Eu acho que o barista acabou virando uma ne-
cessidade”, diz Eliana. “Afinal, quem atende precisa, pelo
menos, conhecer o produto para indicar essa ou aquela
opção ao cliente da cafeteria ou do restaurante.”
Para ela, o importante é que tenhamos a possibi-
lidade de experimentar, sem receio, com um mínimo de
orientação. O brasileiro parece pensar assim, pois, segun-
do a Abic, o consumo de cafés especiais, os chamados ca-
fés gourmet, cresceu 15% anualmente de três anos para
cá, contra a evolução de 3% do produto tradicional.
Contudo, tradicional ou especial, o café não acei-
ta desaforo. Em casa, aberta a embalagem, devemos
guardar na geladeira não mais do que 15 dias. No pre-
paro, água mineral ou, pelo menos, filtrada. Depois de
pronta a bebida, consumir em até uma hora.
Eliana reconhece que o consumidor precisa ter
um mínimo de orientação. Mas reforça que há neces-
sidade de arriscar. “Se ficar fraco, tente fazer de novo. Se
sair forte, dilua com água quente.” As dicas principais
estão em seu site www.elianarelvas.com.br, que tam-
bém traz informações sobre cursos e organização de
eventos. Agora é só colocar a água no fogo e apreciar a
bebida mais tradicional do país.<

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Expert na arte de ser


barista, Eliane Relvas
prega que fazer um
bom café não combina
com acanhamento.
Requer um mínimo de
informação e uma boa
dose de criatividade

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retrato

Capa do The Composer of Desafinado Plays,


SEMPRE NO TOM
lançado em 1963 (acima); show beneficente
de 1991 para arrecadar fundos para o No ano que marca o cinquentenário de The Composer
carnaval da Mangueira (página ao lado)
of Desafinado Plays, Tom Jobim tem sua obra revisitada.
Voltamos no tempo para remontar a história do primeiro
disco brasileiro gravado em solo americano
Por Tom Cardoso

>>> É sabido que, além de compor as mais belas can- do a se adaptar rapidamente ao caos de Nova York e
ções de nossa música, Tom Jobim era um grande fra- praticamente sem falar inglês. Mas ele foi literalmente
sista. Dos melhores – e dos mais ácidos. Duas frases abraçado pelos músicos locais. Convidado a tocar de
ficaram famosas: “Viver nos Estados Unidos é bom, madrugada na boate Village Gate, um dos primeiros
mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas shows em solo americano, não tinha nem roupa para
é bom” e “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Ambos encarar o tenebroso inverno nova-iorquino. “Descobri
os aforismos têm a mesma origem e são fundamen- naquele país muita generosidade. Sem roupa certa
tais para entender o quanto o autor de “Garota de para o frio, vi um crioulo da orquestra colocar seu so-
Ipanema” e “Insensatez” era apaixonado por seu país, bretudo sobre as minhas costas e continuar seu traba-
devoção que nem sempre foi correspondida à altura. lho”, afirmou Tom, em entrevista. Da leva de músicos
Em 2013, completam-se 50 anos do lançamento de que foi para os Estados Unidos, no embalo do sucesso
The Composer of Desafinado Plays, o primeiro disco da bossa nova, Jobim foi um dos poucos a não voltar,
solo em território americano, que lhe trouxe fama muito por conta da sua amizade com o saxofonista
internacional e um punhado de aporrinhações. Sim, Stan Getz, uma das lendas do jazz americano.
Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso Tudo porque os americanos, os que apreciavam
mais genial e brasileiro dos compositores, foi acusa- o jazz de alta qualidade e reconheciam o valor da
do por parte da crítica – e por alguns colegas – de se música brasileira, veneravam Tom Jobim. Assim
render à música americana e fugir de suas origens. que The Composer of Desafinado Plays foi lança-
Logo ele, o autor de “Matita Perê”, que só tinha medo do, em 1963, as portas do mercado americano se
de uma coisa: “morrer em inglês”: “Quero morrer em abriram. E não foi apenas Jobim que entrou: uma
português. Como é que vou dizer para o médico grin- legião de músicos, inclusive João Gilberto (que um
go que estou com uma dor no peito que responde na ano depois gravaria o histórico Getz & Gilberto ao
cacunda?”. Não teve jeito. Morreu em Nova York, em lado de Stan Getz), beneficiou-se da boa aceitação
1994, aos 67 anos. da bossa nova, que logo virou febre entre os ameri-
Há muitas histórias envolvendo os bastidores do canos. O auge desse intercâmbio, como se sabe, se
lançamento do hoje “cinquentão” The Composer of deu em 1967, quando Frank Sinatra, o mais popular
Desafinado Plays. Não foi fácil para Tom deixar o Rio. cantor de todos os tempos, convidou Tom Jobim
Nascido na Tijuca, mas criado em Ipanema, foi obriga- para gravar um disco inteiro em parceria.

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FOTO: PAULO JARES / ACERVO EDITORA ABRIL MANmagazine 07/2013 19

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FOTO: REPRODUÇÃO LIVRO BOSSA NOVA HISTÓRIA SOM E IMAGEM


Na época, Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jo- nhos no Jardim Botânico. “The Composer of Desafi-
bim só perdeu em críticas elogiosas para Sgt. Pepper’s nado Plays é ao mesmo tempo a estreia solo de Tom
Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, considerado Jobim, já aos 36 anos de idade, e sua afirmação como
até hoje o disco que mudou a cara da banda inglesa. extraordinário compositor e intérprete econômico,
Mas Tom recusou-se a fazer o jogo das grava- a bordo de uma marca pessoal, o ‘one finger piano’”,
doras americanas. Anos depois, ele declarou: “Meu afirma Tárik. “Se a bossa nova tivesse produzido ape-
contato com as gravadoras americanas havia sido di- nas este disco já estaria plenamente justificada”, es-
fícil, mais por questão de temperamento do que ou- creveu na época um crítico da severa revista ameri-
tra coisa. Nunca fui homem de cair na estrada, pro- cana de jazz Down Beat. Para quem dizia que Jobim
pagar minhas músicas, discutir minha participação copiava o jazz, foi um tapa na cara. Com luvas de pe-
(...). Meu inglês foi aprendido no colégio, nos filmes lica, como era seu estilo.
de cowboy, e o pessoal lá queria colocar letras absur-
das nas minhas músicas, falando de café, banana e Crise do “amor com flor”
coco. Uma vez cheguei até chorar. Comecei, então, a Enquanto nos Estados Unidos Jobim gravava com Si-
lutar pela preservação do que era meu, brasileiro, ori- natra – e era gravado por ases do jazz como Quincy
ginal”. Acolhido pelos músicos americanos, mas se Jones e Dizzy Gillespie –, no Brasil, a bossa nova, gê-
recusando a ser a versão masculina de “Carmen Mi- nero criado por Jobim e João Gilberto, andava em
randa”, Jobim bateu o pé – contra a vontade da mu- crise. Uma crise de identidade, sofrida por parte da
lher, Thereza, que insistia em voltar ao Rio. Aprendeu classe bossa-novista, que não via mais sentido rimar
inglês por conta própria, de um jeito pouco conven- amor com flor em tempos de regime militar. Essa
cional: usando o dicionário. dissidência era liderada por Nara Leão e Carlos Lyra.
Para o crítico de música Tárik de Souza, Tom Jobim, O fogo amigo atingiu Tom Jobim, que já vinha
se quisesse, já podia encerrar a carreira naquele mo- sofrendo duras críticas da patrulha ideológica, turma
mento e voltar ao Rio para curtir o som dos passari- que tinha como alvo os tropicalistas Caetano Veloso

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Cena do filme Copacabana Palace, com Luís


Bonfá, Glória Paul, Sylvia Koscina, João Gilberto,
Tom Jobim e Mylene Demongeot, (esq.); e
parceria com Sinatra colocou a bossa nova na
rota dos músicos americanos (dir.)

e Gilberto Gil e que também pegou no pé de Jobim


quando ele passou a morar nos Estados Unidos e gra-
var com jazzistas. O tempo passou, o regime militar
acabou, o Brasil passou a viver uma democracia ple-
na e a patrulha ideológica passou a ser tão démodé
quanto a calça boca de sino.
Entre as matérias publicadas sobre The Composer of
Desafinado Plays, um dos maiores críticos de música
do país, José Ramos Tinhorão, considerado – por ele
próprio – o “inimigo número 1 da bossa nova”, classi-
ficou o disco como um sinal claro de que Jobim ha-

FOTO: REPRODUÇÃO REVISTA MANCHETE


via, como ele alertara, se “vendido aos americanos”.
O crítico chegou até a implicar com o mocassim
sem meia usado pelo músico brasileiro, outra “pro-
va inconteste” de sua conversão à cultura america-
na. A MANmagazine procurou Tinhorão para saber
sua opinião sobre os 50 anos do primeiro disco de
Tom nos Estados Unidos. Aos 85 anos, o crítico anda
tão ranzinza quanto antes – e não mudou, em nada,
sua opinião sobre o maior compositor brasileiro de Até a turma da bossa nova, companheira de
todos os tempos. “Meu filho, por que você acha que
tantas jornadas musicais, começou a pegar
Sinatra quis gravar um disco com Tom Jobim? Sim-
ples: porque o que o Tom fazia era jazz. Ou você acha no pé de Tom Jobim por passar tanto tempo
que o Sinatra convidaria a Clementina de Jesus para em território americano
gravar um disco em parceria?”, resmunga Tinhorão.
Jobim costumava se vingar de Tinhorão à sua
maneira, aproveitando a imensa fauna à disposição
na casa, nos altos do Jardim Botânico, cercada pelos
mais variados tipos de vegetação, inclusive por uma portanto, se as gravadoras brasileiras permitissem,
planta famosa pela beleza de suas grandes folhas, ba- viver de música apenas no Brasil. Uma prova disso
tizada pelos botânicos de “Tinhorão”, que Jobim fazia são as dezenas de canções compostas por ele e que
questão de regar de um jeito diferente, dispensando fizeram parte de trilhas de novelas. Foi assistindo aos
os serviços do jardineiro. “O meu último xixi do dia folhetins da TV Globo que uma garota de Alto Garças,
é sempre no Tinhorão”, dizia, nas entrevistas. Tinho- no Mato Grosso, se apaixonou por Tom Jobim no co-
rão nunca foi páreo para Jobim, mas o Brasil nunca o meço dos anos 1980 e 30 anos depois, já consagrada
acolheu da maneira que ele merecia, o que talvez o como Vanessa da Mata, foi convidada para fazer um
tenha motivado a dizer que morar nos Estados Uni- show apenas com canções do autor de “Wave”. “Para
dos era bom, mas uma merda... mim, Tom Jobim sempre foi pop. E o que mais me
O que pouco se sabe é que a música composta intriga é um artista tão brasileiro, que se identifica
por Tom Jobim era muito mais popular, mais palatá- tanto com o seu país, ser acusado justamente do con-
vel ao gosto comum do que se imagina, e ele poderia, trário. O Brasil tem dessas coisas, né?”, diz Vanessa. <

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22

Na estrada

MI
ARGENTINA
QUERIDA
Há 15 anos, caminhões Volkswagen circulam
pelas carreteras argentinas, fazendo girar uma das
economias mais promissoras da América Latina

Por Marina Mota Fotos Mariana David

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Na guerra para estar nas gôndolas e balcões antes da concorrência, vale


apostar na agilidade de veículos talhados para uma rotina estressante
>>> Grãos, carnes, turismo, automóveis. Parece que margens do delta do rio Paraná com destino à capital
a economia argentina pegou embalo em 2013. Ape- para pegar a carga de bebidas em grandes centros de
sar das controvérsias entre os números oficiais e o distribuição. A corrida leva meia hora, se muito. De
que é de fato percebido por vários setores da ativi- lá a frota retorna a Tigre para distribuir a mercadoria
dade econômica, a perspectiva de crescimento me- em 2.700 pontos de venda, como quiosques, lojas de
rece crédito. É o que explica o aumento da produção conveniência, restaurantes e padarias.
interna e das importações, sobretudo de veículos. Na guerra para estar em gôndolas e balcões an-
E, já que uma coisa leva a outra, mais consumo traz tes da concorrência, vale apostar na agilidade de veícu-
mais investimento, que chama por mais produção, los talhados para uma rotina estressante. Para aguentar
por maior capacidade instalada e, de novo, por mais o vaivém entre fornecedor e clientes, é preciso boa dose
mercado, mais escala, num efeito ciranda que pa- de robustez. “Necessito de um caminhão que resista a
rece estar apenas começando. Nessa velocidade, as abrir e fechar a porta cem vezes ao dia”, explica Cesar
empresas que mantêm o termômetro na tempera- Krompolcas, sócio e gerente da Geocargo. Mecânica
tura do varejo aceleram o passo. Quem passar de e bom valor de revenda foram os dois fatores que
madrugada pela garagem da transportadora levaram o empresário a optar por caminhões
Geocargo, em Tigre, região metropolitana de Volkswagen para a toda a sua frota de 13 veícu-
Buenos Aires, vai ficar impressionado com los, modelos Worker 13.180 e 17.220, há qua-
o entra e sai de caminhões. O trabalho nes- se dez anos, quando a empresa passou por
sa distribuidora da Coca-Cola pega fogo uma reformulação. “Meu negócio é vender
antes mesmo das três da manhã. Em ge- bebida e não caminhão. Na Volkswagen,
ral são caminhões deixando a garagem às pagam melhor no meu usado e oferecem

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Para abastecer mais de 2.700 pontos, o trabalho na Geocargo, distribuidora


da Coca-Cola, começa logo cedo (abaixo). Em Buenos Aires, a Transportes
Masotta é responsável pelas entregas das lojas Carrefour e precisa seguir à
vantagens para renovar a frota”, disse Krompolcas, clien- risca a legislação para circular pelo centro da cidade
te da concessionária Andecam, na Grande Buenos Aires.
Com cerca de 400 mil habitantes, Tigre tem a
cara do novo momento da economia argentina. É a
cidade que mais cresce no país, de acordo com o cen-
so de 2010. Por ali, espalham-se condomínios de luxo
(conhecidos na Argentina como countries) e casas de
veraneio, onde algumas vezes só é possível chegar de
barco. Rota preferencial de turistas que querem co-
nhecer os arredores de Buenos Aires, a cidade tornou-
-se famosa por atrações como o Mercado de Frutos e o
delta do Paraná.
É a logística em torno do varejo dinâmico das
grandes e médias cidades argentinas, como Tigre, que
justifica o ritmo acelerado dos pesados Volkswagen.
Há 15 anos no mercado, a MAN Latin America colecio-
na clientes satisfeitos, como a Geocargo e a Transpor-
tes Masotta. A segunda é responsável por abastecer as
lojas do Carrefour, uma das principais redes de super-
mercados presentes no país.
Em 2004, a empresa comprou os primeiros
veículos da marca e hoje metade da frota de 48 cami-
nhões é da montadora. “Resolvemos testar os veículos
por conta do bom atendimento e das facilidades de
compra. O desempenho e a manutenção nos levaram
a comprar mais”, justifica Walter Masotta, um dos do-
nos da transportadora.

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Os caminhões são carregados durante a noite Como em todas as grandes cidades do mun-
nos centros de distribuição em cidades da região me- do, Buenos Aires também restringe o trânsito de ca-
tropolitana de Buenos Aires, como Estevam Echever- minhões. Os veículos com mais de 12 toneladas não
ria, Malvinas Argentinas e La Matanza, e, a partir das circulam nas avenidas que fazem parte da chamada
seis da manhã, dão início às entregas, principalmente “rede de trânsito pesado”. Nos feriados prolongados,
na capital. Para o transporte urbano, a opção é pelos as restrições são ampliadas para as vias de entrada e
modelos Worker 13.180 e 17.220, que carregam cerca saída da cidade.
de 12 toneladas e fazem de duas a três viagens por dia.
Transportam de eletrodomésticos a itens da cesta bá- DAS PROVÍNCIAS AOS ANDES
sica dos argentinos, incluindo aí delícias típicas como Nas viagens de longa distância, os caminhões chegam a
doce de leite, alfajor e erva-mate. levar até 20 toneladas de carga, em uma ou duas viagens
A empresa dispõe de caminhões refrigerados semanais, segundo Masotta. Os modelos usados são o
para distribuir também um dos maiores orgulhos da Constellation 17.250 e o 19.320. A maior rota da empresa,
mesa nacional: a carne. Num país onde o consumo de com cerca de 1.700 quilômetros, é a que vai da capital a
carne bovina é de cerca de 62 quilos por habitante/ Bariloche, na região dos Andes da Patagônia argentina e
ano – bem acima da média brasileira, que não chega a principal centro turístico do país para a prática de esqui.
40 quilos –, ter o produto na hora certa e na condição A viagem pode levar até três dias, sendo 24 horas de di-
de consumo ideal faz toda a diferença. reção, divididas em trechos de no máximo oito a nove
horas diárias, já que os caminhoneiros viajam sozinhos.
No trajeto de pouco mais de 1.100 quilôme-
tros até a cidade de Neuquén – capital da província
de mesmo nome –, a estrada é plana e pouco sinuosa.

O clima frio e a
neve pedem atenção
redobrada dos motoristas,
principalmente na região
da cordilheira dos Andes,
onde as estradas são
mais sinuosas

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Mas desse ponto até Bariloche a viagem se torna

FOTO: DIVULGAÇÃO
mais difícil, com trechos montanhosos, pelas encos-
tas dos Andes. Outro desafio é o clima frio. “Muitas
vezes os motoristas enfrentam gelo e neve na estra-
da. Por isso, optamos por não fazer esse percurso no
inverno, quando as condições climáticas são ainda Na época da colheita, os caminhões da Bodega Los Toneles carregam
as uvas in natura. Depois de meses de envelhecimento em tonéis de
piores”, explica Masotta.
carvalho, a empresa assume a distribuição dos vinhos já engarrafados
Na estrada há 26 anos e há dois trabalhando
para a Transportes Masotta, o caminhoneiro Victor
Ávila, 50 anos, viaja semanalmente em um Volkswa-
gen Constellation 17.250 para províncias do nordeste
da Argentina como Corrientes, Chaco e Formosa, le-
vando, por vez, cerca de 16 toneladas de carga para as
lojas do Carrefour. “As estradas da região, no geral, não
são duplicadas e têm muito tráfego de caminhões. Por
isso, preciso dirigir sempre na defensiva”, conta Ávila.
Segundo ele, a qualidade de conservação muitas vezes
também deixa a desejar. A Argentina tem mais de 231
mil quilômetros de vias, sendo apenas 69 mil quilô-
metros pavimentados.

PELOS VINHEDOS
São comuns os caminhões na paisagem dos princi-
pais vinhedos, na região do Cuyo no oeste do país, cuja

FOTO: SHUTTERSTOCK
cidade mais conhecida é Mendoza. Na tradicional Bo- ratura e impedir que a ação dos raios solares altere
dega Los Toneles, de 1922, toda a frota de cerca de 120 a qualidade dos vinhos”, explica Jose Millan, dono
caminhões é da Volkswagen. da Bodega.
Na época da colheita, nos meses de março e Os veículos da frota levam as garrafas para di-
abril, são 15 veículos da marca que levam as uvas desde versas regiões argentinas, sobretudo Buenos Aires,
os vinhedos até a vinícola, percorrendo distâncias que maior centro consumidor do país. A região produto-
vão de 50 a 200 quilômetros. Depois da fermentação ra é distante das zonas de consumo. Assim como as
e do envelhecimento em tonéis de carvalho, chega a estradas do nordeste argentino, as do oeste também
hora de a própria empresa fazer a distribuição dos vi- são bem diferentes das autopistas das regiões mais
nhos já engarrafados. povoadas e, além disso, o relevo não é plano. Parte da
A vinícola produz vinhos premiados, como o carga chega à região sul do Brasil e ao Paraguai.
Tonel 46 malbec – vencedor de sete prêmios, den- Segundo Millan, a empresa começou a com-
tre eles, o China Awards na categoria de melhor vi- prar os veículos Volkswagen em 1998, ano de entra-
nho argentino. Para manter as características dos da de caminhões da marca na Argentina, e, cinco
vinhos, o cuidado com a logística é extremo. Por anos depois, já havia renovado toda a frota. A opção
isso, a empresa opta por fazer a distribuição e uti- se deve à resistência mecânica e à atenção na venda
liza caminhões com baús térmicos. “O transporte é e pós-venda por parte da concessionária em Men-
feito principalmente à noite, para manter a tempe- doza, a Yacopini.

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FOTO: DIVULGAÇÃO

Brasil. O país conta com 8,3 milhões de automóveis


particulares, ou um para cinco habitantes; enquanto
no Brasil existem 27,4 milhões de carros em circula-
Com o aquecimento da indústria ção, ou um para sete habitantes.
A principal rota da Trans Tony é a que vai de
automobilística argentina, a Trans Tony, Buenos Aires a Córdoba, percorrendo cerca de 700
especializada no transporte de autopeças, quilômetros. A viagem, que começa em rodovia nova
e duplicada, requer mais atenção a partir de Rosário, a
já planeja expansão dos negócios cerca de 300 quilômetros de Buenos Aires, em razão
da grande quantidade de veículos de carga pesada até
Córdoba e das mudanças de relevo.
Com 1,5 milhão de habitantes, Córdoba é um
A Argentina é o quinto maior produtor mundial polo industrial do setor automotivo, um dos mais di-
de vinhos, com 25 mil vinhedos e quase mil vinícolas. nâmicos da economia argentina e que responde por
No último agosto, foi promulgada uma lei que decla- 40% do intercâmbio comercial com o Brasil. Por cau-
rou o vinho argentino “bebida nacional”. O consumo sa do relevo montanhoso e da herança colonial – seu
per capita é de 26 litros por habitante/ano, enquanto conjunto de igrejas jesuítas foi tombado pela Unesco
no Brasil não passa de dois litros anuais por habitante. como patrimônio da humanidade –, Córdoba é cha-
mada por argentinos conhecedores do Brasil de Minas
UM POUCO DE HISTÓRIA Gerais argentina. As terras altas da cidade fizeram com
Com mais de 15 anos em atuação em serviços logísti- que a família do revolucionário Ernesto “Che” Guevara
cos, a Trans Tony tem como principal negócio trans- optasse por viver na cidade de Alta Gracia, próxima à
portar autopeças para indústrias de automóvel. A capital regional, para atenuar as frequentes crises de
empresa passou a comprar caminhões Volkswagen asma de “Che”, quando criança.
em 2004, num momento de expansão da empresa, e Para lidar com os riscos da estrada, a empresa
hoje 35 caminhões da frota de 50 veículos são Cons- realiza capacitações regulares em direção defensi-
tellation 17.250. va – são quatro por ano – e mantém um comitê de
O recente aquecimento do setor automobi- segurança. A jornada nesse caso é de no máximo 12
lístico no país já coloca nos planos do empresário horas de direção, seguida de 12 horas de descanso, de
Eduardo De Vincenti uma nova expansão. “Vamos acordo com o limite previsto na legislação argentina.
construir um depósito logístico e aumentar a frota “Enquanto os motoristas que viajaram descansam,
para atender à demanda das montadoras na região”, outros trabalham na distribuição das peças na cidade”,
afirma. O crescimento da produção de veículos na explica De Vincenti.
Argentina foi de 12%, de janeiro a agosto deste ano,
o que alavancou todo o setor industrial, motivado TRÂNSITO URBANO
principalmente pela demanda brasileira de automó- O desafio é outro para a distribuidora de gás City Gas,
veis, para onde vai cerca de metade da fabricação, da na Grande Buenos Aires. Os motoristas não percor-
ordem de 800 mil veículos por ano. rem distâncias longas, mas uma grande gama de cida-
Embora com a população cinco vezes menor des na região metropolitana da capital, que reúne 14
que a brasileira, a Argentina é proporcionalmente um milhões de habitantes. Enfrentam muitas vezes ruas
país mais motorizado: são 2,7 milhões de veículos co- pequenas, sem asfalto, e áreas rurais com acesso difí-
merciais em circulação, ante 7,2 milhões rodando no cil, levando botijões.

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A empresa tem 40 anos. Em 2000, começou


a comprar caminhões da Volkswagen e atualmente a
maior parte da frota de 45 veículos é da marca. O mo-
delo usado é o Delivery 8.150. “É um veículo que aten-
de bem à nossa necessidade, ideal para o nosso traba-
lho, que exige uso muito intenso”, explica o dono da
empresa, Javier Azar.
O “uso muito intenso” pode ser traduzido pela
distância percorrida em um ano pelos trabalhadores
da empresa: 1,5 milhão de quilômetros, para cerca de
200 mil entregas domiciliares, 700 mil visitas a clien-
tes comerciais e 18 mil a clientes industriais. “A renova-
ção de frota precisa ser constante”, diz Azar.
De janeiro a agosto deste ano, as vendas de veí-
culos de carga MAN aumentaram no país 23%, em re-
lação ao mesmo período do ano passado. A MAN acaba
de lançar novos produtos na Argentina, como o TGX
28.440 6x2, um caminhão de carga pesada já comercia-
lizado no Brasil, origem de todos os caminhões impor-
tados pela Argentina.
A Man Latin America também comercializa
ônibus na Argentina, como o modelo VW 18.320 EOT
em versão fretamento, escolhido pela Asociación del
Fútbol Argentino (AFA) para levar os jogadores da sele- Circulando pela Grande Buenos Aires, a frota da City Gas percorre curtas
ção aos jogos em território nacional.< distâncias, mas enfrenta ruas sem asfalto e áreas de difícil acesso

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cultura

ALEMANHA SOBRE RODAS


Caminhão equipado com atrações culturais vai percorrer
17 cidades brasileiras até 2014

Texto Mariana Filgueiras

>>> Um caminhão pode levar frutas pelo Brasil, quando ideias se encontram”, realizado pelo Minis-
transportar animais, combustível, água a regiões tério das Relações Exteriores da Alemanha em con-
áridas, remédios a cidades do interior. Um cami- junto com o Instituto Goethe. O objetivo é estrei-
nhão pode fazer mudanças, carregar de um lado tar a relação entre os dois países e mostrar a faceta
para o outro equipamentos industriais, flores, do- artística e dinâmica da cultura germânica em áreas
cumentos, material de construção e o que mais cou- como música, literatura, meio ambiente, economia,
ber na carroceria. Um caminhão pode transportar tecnologia, educação, ciências, entre outras.
até cultura. É o que faz o Volkswagen Constellation Para atrair o maior número de visitantes pos-
19.390, com 15 metros de carroceria, fabricado pela sível, o caminhão estaciona em praça pública ou al-
MAN Latin America. Desde o último dia 13 de maio, gum outro lugar com vasta circulação de pessoas.
o caminhão é o veículo da Kultur Tour, uma espécie Com nove profissionais, sendo oito alemães, abrem
de turnê cultural apoiada pelo governo alemão, em o palco retrátil, que transforma o caminhão em uma
parceria com a Man Latin America, a Volkswagen do espécie de usina cultural. Todo grafitado por dois ar-
Brasil e o Banco Volkswagen, que até maio de 2014 tistas plásticos (o brasileiro Carlos Dias e o alemão
terá percorrido 17 cidades brasileiras promovendo a Jim Avignon), o veículo não passa despercebido. É
cultura germânica pelo país. só chegar e aproveitar a programação gratuita: são
A Kultur Tour é um dos destaques da progra- oficinas de teatro, música ao vivo, biblioteca, instala-
mação do projeto “Alemanha + Brasil 2013/2014: ções de arte, jogos e contação de histórias.

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FOTOS: DIVULGAÇÃO MANmagazine 07/2013 31

Música, arte, cinema, literatura. Cabe de tudo na


caçamba do Constellation, preparado para levar a
cultura alemã aos brasileiros

“O resultado é excelente. As pessoas são atraí- com jogos interativos, trechos de filmes e poemas que
das pela curiosidade que a cultura germânica desperta. facilitam a compreensão da língua; também puderam
Chegam aqui, pegam um livro, descobrem uma palavra ter acesso a mais de mil livros na sala de leitura monta-
nova, querem saber que música está tocando, assistem da com pufes e mesas dentro do caminhão.
às peças de teatro”, comenta o produtor cultural Holger Era lá que estavam as estudantes Bianca Bento
Beier, curador do projeto. “E não estamos só trazendo Lebre e Lidiane Dias Sella, ambas de 15 anos, que deram
ícones da cultura clássica alemã, não. Há muita coisa uma escapada da visita oficial que fizeram com a escola
contemporânea também, principalmente em relação a à Bienal para explorar o caminhão colorido da Kultur
música, literatura e cinema.” Tour. “Eu aprendi que a maioria dos contos de fadas
que conhecemos na infância é de escritores alemães,
BIENAL DO LIVRO não sabia disso”, observa Bianca, antes de colocar um
A Kultur Tour já passou por cidades como Vinhedo, fone de ouvido e aprender algumas palavras de sauda-
em São Paulo, Londrina, no Paraná, e Três de Maio, no ção na língua dos Irmãos Grimm.
Rio Grande do Sul. Em setembro marcou presença na Lidiane gostou da seleção de músicas que o DJ
Bienal do Livro, no Rio de Janeiro. Em meio a estandes Thomas Haferlach montou, intercalando hits contem-
e atrações da maior feira de livros da America Latina, lá porâneos brasileiros e alemães. “Acho que é a primeira
estava Holger, entre oito instrutores culturais alemães, vez que estou ouvindo um hip hop alemão!”, espantou-
divulgando a cultura do país aos brasileiros. “Fazemos -se a menina, que admitiu que os jovens de sua idade
muito sucesso principalmente com as crianças”, come- conhecem muito pouco a cultura germânica atual.
mora Holger, lembrando que o fato de o caminhão ficar “Trabalho em oficinas de arte e educação há
estacionado sempre ao ar livre dá um caráter circense muito tempo e confio muito no poder de conexão
à atração, o que chama muito a atenção dos pequenos. cultural que a música desperta. O futebol também.
Naquela tarde de sábado, por exemplo, quem Juntando as duas coisas, criei essa instalação, que
estava na Bienal teve a chance de assistir à sessão de ci- chama muita atenção pelos mecanismos simples
nema ao ar livre com curtas-metragens sobre sustenta- de funcionamento”, diz o artista plástico Carsten
bilidade, arte urbana e futebol; à exposição “Alemanha Galle, criador da instalação a “Bola de Futebol Mu-
na Mala”, sobre expressões básicas do idioma alemão, sical”, que dependendo do lance toca uma canção.<

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Viagem

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A VOLTA POR CIMA


Exatamente 30 anos depois de uma devastadora enchente,
Blumenau mostra que superação é uma das especialidades da
terra, assim como a boa cerveja e o faro para negócios duradouros

Por Raquel Alves Fotos Zé Paiva

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>>> Todo brasileiro deveria ter orgulho e até uma in- Famílias alemãs reviraram seus baús em bus-
vejinha boa de Blumenau. A cidade catarinense que se ca de objetos, referências e histórias para remontar
espalha em construções enxaimel ao longo do rio Ita- a música, a dança, as bandas, os quitutes típicos
jaí Açu está no primeiro pelotão entre os municípios trazidos pelos primeiros imigrantes. Inspirada no
brasileiros com maior expectativa de vida, segundo grande festival de Munique, a festança voltou no
o IDH-M. Ali nasceram e prosperam grandes marcas ano seguinte com mais desfiles pela cidade, mais
brasileiras, como a Cia. Hering, e pelas ruas arboriza- música, mais chopp e o dobro de convidados. Em
das anda um povo elegante, de olhos azuis e sobreno- pouco tempo, virou mania nacional. A Oktober-
mes cheios de consoantes. A cidade é também ponto fest não só ensinou a lavar a alma em grande estilo,
de partida da mais charmosa rota da cerveja. Mas tal- como deu projeção turística à região. Num passeio
vez a capacidade de superação seja a mais importante pela cidade, MANmagazine constatou que, muito
característica de sua gente. Basta ver a história: devas- mais que um festejo, Oktoberfest é o jeito de viver e
tada por uma enchente que durou 32 dias, chegou à ser da cidade o ano inteiro.
copa das árvores e varreu a cidade com violência em O tour tem ponto certo para começar, a Vila
1983, Blumenau arregaçou as mangas e trabalhou Germânica. O espaço pega fogo no mês de outubro e
duro. Para levantar o ânimo geral, já no ano seguinte se mantém ativo em boa parte do ano, recebendo even-
lançou a primeira edição de sua Oktoberfest. tos e feiras locais. O acesso aos grandes pavilhões, uma

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MANmagazine 07/2013 35

Caminhão Rodalog na entrada da Vila Germânica, à esquerda.


Nesta página, o marreco recheado, carro-chefe no cardápio alemão

réplica de uma típica rua de Munique, não para nunca,


vendendo comida típica, cervejas artesanais, conservas,
suvenires e roupas do Fritz e da Frida, como são chama-
dos os mascotes do folclore alemão. Quem quiser um
modelito mais customizado basta atravessar a rua e
encomendar no ateliê da dona Odete. Mas isso de no-
vembro a março. Nos demais meses 100% da produ-
ção é dedicada à Oktoberfest, já que 25% dos convivas
fazem questão de comparecer a caráter. No ateliê seis
costureiras dão duro em jornadas que vão até tarde da
Choppmotorrad, criação de Ingo Penz, virou
noite. “Comecei com as roupas da rainha e da princesa. nome de banda, disco, DVD, festa e um show
Depois vieram as bandas, os grupos folclóricos, hoje é o de alegria que encanta o sul brasileiro
grande público quem compra quase toda a produção”,
contabiliza Odete Cugik, uma descendente de polone-
ses que se recusa a dar números, mas garante que tam-
bém manda suas roupas para todo o Brasil e também
exterior.
Rodalog também não param. Dois novos VW 24.220
VAIVÉM DOS PESADOS foram adquiridos neste ano para dar conta do pico
O movimento de caminhões também é constante na no consumo. “No período de alto volume operamos
Vila Germânica. Durante a festa uma logística bem com 22 caminhões”, calcula Paulo Afonso Prebian-
azeitada mantém os pavilhões abastecidos com comi- ca, gerente da Rodalog, que responde pela operação
da fresca e bebida gelada. A Rodalog conhece bem a no centro da Ambev. Os veículos transportam em
operação em torno do espaço. Parceira da Ambev no média 3 milhões de litros/mês, considerando cer-
transporte de bebidas, a empresa faz o corre-corre en- veja, refrigerante e afins, embalagens descartáveis e
tre a fábrica da cervejaria, em Lages, o centro de dis- retornáveis. Isso equivale a aproximadamente 230
tribuição da Ambev, em Blumenau, e a entrega em mil engradados de cerveja. Haja caneco!
pontos de venda por todo o Vale do Itajaí. Na época da A festa que resgatou a autoestima da cidade
festa, para que nenhum visitante fique sem encher a acrescentou mais sabor às mesas dos restaurantes,
caneca, a Rodalog opera com dois caminhões-tanque afinal, embutidos e defumados não podem faltar
da Ambev, iguais aos que transportam gasolina, com no carnaval alemão. O sabor da Oktoberfest conso-
capacidade entre 8 e 20 mil litros de chopp. lidou o nome de frigoríficos, como o Olho, o Ipom
Como o consumo em toda cidade aumenta e o Villa Germania, especializado na produção de
na temporada da Oktoberfest, os 13 caminhões da aves, que tem como carro-chefe o marreco recheado.

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Rótulos de cervejas e refrescos da fábrica dos


Feldmann sobrevivem nas lembranças e no quadro
de dona Ella. Na página ao lado, Fábio Steinbach,
mestre cervejeiro da Wunder Bier

mia e Stela Artois convivem pacificamente com as


cervejarias locais, como Wunder, Das Bier, Eisenbahn
e outras que seguem à risca a lei de pureza alemã. Na
cidade que tem um museu dedicado à bebida, todo
mundo entende um pouco do assunto: do proces-
so de fabricação às variedades de aromas e sabores.
“Não faz muito tempo, as famílias tinham suas pró-
prias cervejarias em casa. Agora a nova geração está
redescobrindo as panelas e as ferramentas, e o hábito
de fabricar em pequena escala está voltando,” analisa
o mestre-cervejeiro Fábio Steinbach, bisneto de ale-
mães e autodidata no tema.
No bairro de Itoupava, a porção mais alemã
de Blumenau, a antiga sede da cervejaria Feldman,
uma das pioneiras, foi transformada em oficina de
cultura. Nem por isso a família arredou pé. No mes-
mo terreno, a casa de madeira da dona Ella Feldman
segue firme, emprestando um clima ainda mais
bucólico à paisagem. Aos 80 anos, a brasileira dona
Ella conta, num português impregnado de sotaque,
que divide os amplos cômodos com os dois filhos
adultos. Há muito a família deixou de produzir
cervejas e refrescos, a fábrica foi varrida pela onda
das grandes indústrias. Mas aqui e ali ainda se pode
A empresa de pouco mais de 15 anos exporta para encontrar vestígios dos bons tempos, como uma
22 países parte da produção diária de 8 mil aves. máquina de rolhar garrafas e um quadro com os
Só para atender à Oktoberfest deste ano, Roberval rótulos das bebidas produzidas pelos Feldman, que
Zimmermann, gerente de vendas, solicitou um extra dona Ella exibe com orgulho.
de 250 toneladas de aves. Isso sem contar a quantida-
de de hambúrgueres de pato e marreco, uma criação ESQUENTA
do fabricante especialmente para a festa. Ainda que outubro seja o mês oficial, eventos meno-
res dedicados à arte de fabricar, degustar e até mes-
LOIRA E GELADA mo consumir cerveja em grande escala pipocam o
Um pouco pela herança genética e muito por in- ano todo. Antes de a primavera raiar já tem o festi-
fluência da festa, a cultura cervejeira está instalada val dos botecos e na sequência o agito liderado por
entre os blumenauenses. Isso explica por que nos um dos personagens mais emblemáticos da festa,
pavilhões marcas consagradas como Brahma, Bohe- o fotógrafo, músico, escritor e figuraça Ingo Penz.

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“Não faz muito tempo, as famílias tinham


Gente da terra
suas próprias cervejarias em casa. Agora
a nova geração está redescobrindo o Jean Zonta, proprietário da W. Breitkopf Caminhões e

ferramental e o hábito de fabricar em Ônibus de Blumenau dá a dica:

pequena escala”, analisa Fábio Steinbach O MELHOR PÔR DE SOL: Na Avenida Presidente
Castelo Branco, mais conhecida como Beira-Rio, com
a Ponte de Ferro ao fundo. O reflexo do sol sobre o
rio é lindo.

O MELHOR STRUDEL : Confeitaria Cafehaus Glória,


na rua Sete de Setembro, 1213, Centro. Não esquecer
de pedir o creme (nata) para acompanhar.

O MELHOR CHOPP: Indico três lugares: EISEN-


BAHN, rua Bahia, 5181, Salto Weissbach, onde é
possível fazer uma degustação que inclui canapé
com linguiça Blumenau, que é ótima. BIERLAND, rua
Gustavo Zimmermann, 5361, Itoupava Central. DAS
BIER, na vizinha Gaspar, rua Bonifácio Haendchen,
5311, Belchior Alto.

A MELHOR ÉPOCA PARA VISITAR A CIDADE: Se-


tembro tem clima agradável e a cidade anda no seu
ritmo normal. Em outubro você verá o agito e a deco-
ração para a Oktoberfest.

O QUE SÓ TEM EM BLUMENAU: As delícias ale-


Ele organiza anualmente a Choppmotorrad Fest, mãs do Restaurante Moinho do Vale, rua Porto Rico,
uma espécie de “esquenta” da Oktoberfest, que já 66, Ponta Aguda. Outra opção é o Abendbrothaus, rua
está na quarta edição e atrai visitantes das cidades vi- Henrique Conrad, 1194. Josefa Jensen lidera uma bri-
zinhas e até de outros estados. Isso porque Penz – que gada que prepara o único prato servido na casa de
também é um promotor da cultura cervejeira alemã nome alemão, estilo enxaimel e cozinha de forte so-
– é a versão melhorada e motorizada de um abre- taque germânico: o marreco recheado. É servido com
-alas. Todos os anos ele e sua moto saem distribuindo chucrute, repolho roxo, aipim frito com bacon, purê e
chopp e simpatia nos desfiles oficiais da festa. Ficou salada de batata, mais um delicado e saboroso purê
tão popular que acabou levando seus barris e sua ale- de maçã - a fórmula é secreta, não insista. Apenas
gria para todo o sul brasileiro e até numa festa alemã nos almoços de domingo e com reserva.
em Córdoba, na Argentina. Além de outros eventos
ligados à gastronomia e à cultura alemãs, Penz lidera PARA JOVENS: The Basement Pub, rua Paul Hering,
uma banda com o mesmo nome complicado de seu 35, Centro) funciona no porão de um prédio tombado
festival. A Choppmotorrad reúne músicos de várias pelo patrimônio histórico. É um pub que, além da boa
gerações, tem repertório alemão de raiz e transforma carta de cervejas, vinhos e destilados, oferece uma
qualquer encontro num festão, exatamente como gastronomia bem executada.
manda a tradição de Blumenau. <

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uma rua

Movimentos da
rua Itupava: acima
à direita, a vitrine
onde tudo começou.
À esquerda, o
charme da Cantina
do Délio; o Colégio
Positivo (abaixo) e
a fachada florida
do restaurante
preferido da atriz

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PONTO CHIC
Adriana Birolli descobriu os encantos da
rua Itupava através da vitrine da Garota Chic.
E passou muitas tardes na pracinha
em frente ao colégio onde estudava,
apreciando o vaivém curitibano

Por Adriana Birolli Fotos Gilson Abreu

>>> Das muitas lembranças que trago da minha infância em Curitiba, a rua Itupava
ocupa um cantinho especial. A minha história de amor com essa rua começou com a
loja de roupas infantis da minha mãe, a Garota Chic, que fica no PolloShop.

>>> Quando o movimento apertava, eu corria lá para ajudar a atender os clientes. Até
recentemente, quando estive em Curitiba, participei de um mutirão da família, com
meu pai no comando, para reformar o espaço. O trabalho rolou a madrugada inteira
porque a loja fica dentro de um shopping e não pode passar por serviços durante o dia.

>>> Logo ao lado do shopping há um restaurante incrível, a Cantina do Délio, uma


construção de madeira cheia de antiguidades. O cardápio é delicioso e o atendimento
de primeira, com direito sempre à visita do chef à mesa. Já beirando o Jardim Ambiental,
uma sequência de praças onde passei muitas tardes fazendo trabalhos da escola e me
divertindo com os amigos do Positivo, onde fiz o ensino médio.

>>> Na frente do colégio, não poderia faltar a Padoka, onde praticamente todos os
dias tomávamos nosso café da manhã, à base de pão de queijo e refrigerante. Boas
recordações de uma época áurea da vida! Sempre que passo por ali me lembro de
tudo isso com muitas saudades.<

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crônica

A CAMINHO DE SHANGRI-LÁ
Rasgar o norte da Índia e vencer 4 mil mil metros de altitude do Himalaia de ônibus,
para o encontro sagrado com o Dalai Lama. Só mesmo no diário de Arthur Veríssimo,
o jornalista-explorador-místico, poderia caber uma viagem tão cheia de descobertas.
Pegue carona nesta aventura

Por Arthur Veríssimo Ilustração Catarina Bessell

>>> Chegar à paisagem lunar de Spiti, Índia, já era Em Simla, ex-capital de verão dos vice-reis
uma conquista e tanto. Isolada do mundo por sécu- britânicos, troquei de ônibus, por um modelo bem
los, a região tinha sido aberta ao turismo há menos de mais despojado e muito mais lotado de gente e leva-
três anos e lá estava eu, em uma missão peregrina no mos mais de um dia de viagem para chegar ao desti-
meio do povo budista e cercado por dezenas de mo- no. Meu objetivo seria acompanhar a comemoração
nastérios e stupas (monumento budista) espalhados dos mil anos do monastério de Tabo e participar da
pelo vale. No passado, Spiti já fez parte do Tibete. Hoje, celebração do Kalachakra, a mais alta iniciação do bu-
encontra-se na fronteira com a China, no estado india- dismo tibetano aberta ao público. O complexo ritual
no de Himachal Pradesh. A região é conhecida como seria ministrado por nada mais nada menos que Sua
Trans-Himalaia, e seus vilarejos encontram-se entre 3 Santidade O 14 Dalai-Lama, Tenzin Gyatso.
mil e 4.500 metros de altitude. O busão parecia gemer a cada curva fechada
A odisseia até o enigmático Vale de Spiti foi da Hindustan-Tibetan Road. A rodovia, extrema-
uma experiência surreal em que realizei no ano de mente perigosa, foi construída em 1962, na época da
1996. Primeiro foi necessário obter uma permissão guerra indochinesa. É uma autêntica obra-prima da
em Nova Delhi. engenharia. Serpenteamos durante dois dias as en-
Durante os dias em que aguardei a auto- costas e os contrafortes do Himalaia. Da janela po-
rização (burocracia indiana) pesquisava de qual dia ver montanhas e vales, que se assemelhavam ao
forma iria ao Shangri-lá. Alugar um veículo esta- cenário lunar. A paisagem é de uma solidão absoluta.
va fora do meu orçamento. A única possibilidade Assim que entramos no vale de Spiti o sufoco diminuiu.
seria viajar de ônibus, rasgando o norte da Índia.
Meu ponto de partida era a caótica estação de Nova
Delhi, um mar de plataformas, gente e ônibus de
todos os estilos, dos sofisticados double-decks
até as inseguras jardineiras. Embarquei em um
busão, digamos, decente, sem muita firula, mas
com certo padrão de conforto e seguimos por uns
400 quilômetros até Simla.

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Ao longo da estrada centenas de barracas e milhares


de pessoas peregrinando. Quando chegamos ao mo-
nastério meu espírito apaziguou e entrei na atmosfe-
ra do Kalachakra. O complexo monástico, construído
em 996, consiste de nove templos rodeados por mon-
tanhas e cavernas que já serviram de moradia para
monges e peregrinos.
Recordo-me que a falta de tibetanos entriste-
ceu o Dalai Lama. Dezenas de milhares foram bar-
rados na fronteira entre Índia e China. No vilarejo, a
segurança em torno do Dalai Lama era rigorosa. Mi-
lhares de militares indianos estavam de prontidão
com fuzis, metralhadoras, tanques e helicópteros.
Mesmo com tanta paranoia bélica, o Kalachakra ro-
lou na tranquilidade. O ritual, consiste no mito do
Eterno Retorno, que direciona os pensamentos da
humanidade para um futuro inspirador, sem guer-
ras, degenerações e um contínuo esforço para a paz.
Os textos do Kalachakra foram redigidos numa lin-
guagem dificílima. Uma tarefa impossível é explicar
o conteúdo dos rituais detalhadamente. No primeiro
dia, assisti a diversas danças, do Ritual da Terra ao
esboço do desenho de uma imensa mandala. Ela só
foi construída pelos monges, a partir do quarto dia.
No oitavo dia diversos grupos celebraram a dança
das oferendas. No dia seguinte, sob uma imensa lua
cheia, juntamente com peregrinos e leigos, fomos
instruídos para as iniciações. O processo é multi-
facetado. Há uma distribuição de ervas e cordões
abençoados. Com compaixão o Dalai Lama explica-
va pacientemente a forma de absorver os benefícios
dos ensinamentos. Participei de diversos punjas
(equivalente a missa) e da oferenda à Longa Vida. O
grand finale foi exuberante. Tive o privilégio de uma
audiência de 20 minutos com Sua Santidade O Dalai
Lama, mas isso já outra história.<

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farol

ADEUS 2013.
QUE VENHA 2014
Recentemente, realizei uma palestra para os
executivos da MAN Latin America sobre o que
acredito ser o ambiente econômico do Brasil
em 2014 e nos próximos anos. Vamos a ela
>>> Para começar prepare-se para mais um ano de baixo crescimento do PIB,
provavelmente na faixa de 2% a 3%. Desde 2011, esgotaram-se dois fatores que
permitiram o crescimento acelerado no período de 2004 a 2010: a incorpora-
ção de mão de obra ao mercado de trabalho e maior utilização de infraestrutu-
ra já existente. Como esse cenário não deve se repetir em 2014, o crescimento
vai andar em ritmo lento. Quem sabe após as eleições, somente no final do
próximo ano...
Prepare-se também para um dólar em queda. Dificilmente, o Banco Central
americano (Fed) terá condições de suspender os estímulos monetários nos
próximos trimestres. Enquanto o Fed continuar a aumentar a oferta de dóla-
res no mundo, a moeda só perderá valor. Aliás, as perspectivas para o euro, o
iene, o franco suíço e a libra esterlina são parecidas.
A inflação deve continuar pressionada, exigindo altas adicionais da taxa de ju-
ros, porém, como a inadimplência parou de subir e até parece estar caindo e o
próprio BNDES deve continuar a ser capitalizado pelo governo, uma expansão
da disponibilidade de crédito para o setor de caminhões e ônibus deve permi-
tir que ele cresça mais do que o PIB em 2014, chegando possivelmente a taxas
de dois dígitos.
Outro fator a impulsionar o setor deve ser um crescimento mais acelerado no
interior do país em função de boas perspectivas para o agronegócio. Sem uma
expansão das malhas ferroviária e hidroviária a curto prazo, a única possibili-
dade logística para o interior do país é a rodoviária. Setores de serviços, comér-
cio e imobiliário também devem superar o PIB. Por outro lado, pelo 11º ano
consecutivo, a produção industrial deve ser menor do que as vendas no varejo.
Enquanto não reduzirmos a carga tributária e os entraves a negócios, melho-
rarmos a infraestrutura e qualificarmos a mão de obra, o cenário não passará
por grandes transformações.
Que venha 2014.

Ricardo Amorim é economista, palestrante, apresentador do programa Manhattan


FOTO: DANIEL ARATANGY

Connection, colunista da revista IstoÉ e presidente da Ricam Consultoria


(www.ricamconsultoria.com.br)

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