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2017-5-25 A crítica marxista ao conceito de identidade perante a concepção pós-moderna - Sociologia - Âmbito Jurídico

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Sociologia
 

A crítica marxista ao conceito de identidade perante a concepção pós‐moderna


Leonardo Prado Kantorski, Ricardo Rojas Fabres, Bruno de Souza Garcia

Resumo: Este artigo visa analisar como a teoria marxista debateu o conceito de identidade no contexto da globalização, especificamente, dentro da ótica pós‐moderna.
Discutiu‐se nesse estudo as transformações do mundo, verificando como essas mudanças afetaram as identidades das populações entorno do globo, buscando entender de
que forma a identidade é discutida e visualizada pela pós‐modernidade, e como a crítica marxista compreende tal fenômeno. A metodologia utilizada no estudo foi analise
bibliográfica dos principais estudiosos da teoria marxista, da concepção de identidade e da questão da pós‐modernidade. Por fim, sabe‐se que na sociedade contemporânea
capitalista, a realidade não é a ideal, longe disso. A destacada socialização da informação apresentada muitas vezes como beneficio do mundo globalizado, fica cada vez
mais distante da população com menor capital. Assim, a abrangência deste novo sistema de informação dirigida, torna‐se cada vez maior devido à sua política de acúmulo e
relação estreita e dependente de um modo de capital global e fragmenta a grande maioria da população (JAMESON, 1996). Desenvolvendo um condicionamento massivo por
parte da indústria cultural vigente e os valores da acumulação de capital se sobressaindo aos de igualdade. Contudo, mesmo ainda vivendo os efeitos de um sistema
conservador, a teoria marxista apresenta‐se como notável ponto de partida para a crítica necessária a pós‐modernidade ou a identidade pós‐moderna. O debate está dado, e
propor a superação do sistema capitalista e de suas formas de manifestação é um grande desafio para os pesquisadores marxistas.

Palavras‐chave: Marxismo. Pós‐Modernidade. Identidade.

Sumário: Introdução . 1. A Identidade Pós‐Moderna. 2. O Marxismo em resposta a Ideologia Pós‐Moderna. 3. Considerações Finais. Referências Bibliográficas.

INTRODUÇÃO

Os sistemas de representação, assim como a própria concepção de identidade, enquanto parte de um processo cultural, articulam‐se com o estágio alcançado pelas forças
produtivas da sociedade. Ao encontro desta afirmação, deve‐se problematizar o termo pós‐modernismo, que, segundo Lyotard (1993), seria a expressão de uma sociedade
“pós‐industrial”. Aqui, ao contrário, entende‐se o pós‐modernismo como a “lógica cultural do capitalismo avançado (ou tardio)”, segundo a premissa de Jameson (1996).
Assim sendo, entende‐se que o capitalismo não se tornou obsoleto com a “suposta” superação da modernidade (GIDDENS, 1991), pelo contrário, como afirma Evangelista
(2003), “a produção cultural foi assimilada pela produção de mercadorias em geral”. Neste sentido, a concepção de pós‐modernismo abordada neste trabalho refere‐se a
uma concepção histórica e não estilística (JAMESON, 1996).

A pós‐modernidade para Giddens (1997) “refere‐se às mudanças institucionais que afetam o atualmente o mundo social”, por isso a importância de diferenciar a ruptura
instaurada pela modernidade em relação aos tipos tradicionais de ordem social (GIDDENS, 1991) e a posição da pós‐modernidade em relação à modernidade. Isto é, embora
sejamos tentados a admitir que a pós‐modernidade instaura uma mudança de hábitos e costumes e que a identidade do sujeito pós‐moderno, como mostra Hall (2000, p.12),
torna‐se “provisória, variável e problemática”, sendo assim necessário afirmar perceber que as peculiaridades pós‐modernas, de maneira alguma, transformam o modo de
produção hegemônico.

Evidentemente, o avanço tecnológico, fruto do desenvolvimento das forças produtivas de uma sociedade em determinado período histórico, representa, intrinsecamente, a
ressocialização dos sujeitos, de forma a harmonizar produção e consumo. Portanto, a produção contínua e sedutora de informações, que Lyotard (1993) denomina
“sociedade da informação”, torna‐se, primeiramente, uma exigência da expansão do capital, devido à difusão de novas tecnologias e, em segundo lugar, um processo
cultural que se ergue sobre a infra‐estrutura material da sociedade. Em síntese, podemos afirmar que, antes de uma ruptura com a modernidade e com a sociedade
industrial, a pós‐modernidade apresenta‐se como conseqüência imediata da atual fase histórica.

Considerando, assim, que a sociedade contemporânea insere‐se em um processo dialético de transformação no qual as mudanças das últimas décadas transformaram a
economia e a política, redefine‐se muito dos processos sociais que formulam a vida cotidiana[1]; o pensamento pós‐moderno surge, nos países industrializados, inicialmente,
como aponta João Emanuel Evangelista, “dirigindo a temática das questões estéticas e arquitetônicas, tendo, desde então, uma crescente repercussão no mundo da cultura
e incidindo amplamente na elaboração da teoria social (EVANGELISTA, 2001, p. 30)”.

Desta forma, a teoria social desenvolveu‐se como um campo de investigações e debates em busca de explicações para uma variada gama de fenômenos sociais resultantes
dessas transformações. Atualmente, percebe‐se que a perspectiva marxista[2] deixou de ser alvo do pós‐modernismo[3] para fazer uma crítica contundente ao mesmo. O
presente artigo objetiva demonstrar por meio do debate sobre o conceito de identidade na perspectiva da pós‐modernidade, que, o marxismo experimentou uma
surpreendente renovação teórica e seus postulados continuam vivos dentro da teoria social. Conseguindo assim, recuperar seu lugar proeminente na crítica social ao observar
as transformações do sistema capitalista contemporâneo.

Percebe‐se que, como objeto implícito das críticas pós‐modernas, o marxismo abandonou a posição inicial de saco de pancadas teóricas e ideológicas e retomou a sua
tradição crítica e análise. Revelando‐se “um instrumental altamente inserido nas transformações societárias contemporâneas” (EVANGELISTA, 2006, p. 276).

O debate da pós‐modernidade está presente no cerne do sistema de ideias da atualidade. Parte‐se da proposta que, em qualquer sociedade, os interesses de uns contrariam
os de outros, que a vida social possui inúmeras contradições, busca‐se utilizando do referencial do materialismo histórico, debater a identidade pós‐moderna e seu papel no
conjunto dos processos contemporâneos. Baseando‐se em algumas preposições do marxismo‐leninismo, entende‐se o proletariado[4] como agente físico da transformação
social.

Neste sentido adota‐se como ponto de partida, a proposta aprimorada por Lênin (1979), na qual o proletário é educado pelo próprio capitalismo, compreende‐se a
contingência, a fragmentação do individuo, a descentralização, propostas por estudiosos do pós‐modernismo, como um elemento justificador de contradições sociais e
mantenedor do sistema capitalista Eangleton (1993)[5].

Compreende‐se como primordial notar que ocorre a crítica e a ruptura com a acepção moderna, sem romper com a essência capitalista. O confronto teórico com o
pensamento pós‐moderno propiciou ao marxismo pensar a realidade contemporânea a partir de uma perspectiva intelectual que combina a análise crítica da cultura e a
crítica da economia política.

1. A IDENTIDADE PÓS‐MODERNA

Etimologicamente, o termo identidade deriva do latim “identitas”, que se refere ao “idêntico”, ou seja, um antônimo geral de “diferente”. Analisando o significado das duas
palavras, no entanto, e sem deixar de lado um contexto específico, percebe‐se que a identidade é, antes de tudo, construída a partir da diferença. Isto é, não existe
identidade sem diferença. A afirmação de uma determinada identidade só é necessária, e de certa forma possível, pois existe a necessidade de diferenciá‐la de outras
identidades. Como exemplifica Silva (2000):

“Quando digo "sou brasileiro" parece que estou fazendo referência a uma identidade que se esgota em si mesma. "Sou brasileiro" ‐ ponto. Entretanto, eu só preciso fazer
essa afirmação porque existem outros seres humanos que não são brasileiros.” (SILVA, 2000, p. 35)

Ambas, identidade e diferença, não se esgotam em si mesmas. Não são coisas dadas naturalmente, eternizadas pela natureza, mas sim construções simbólicas em constante
processo de transformação. A identidade, portanto, não é apenas um conceito senão um produto, que nasce e se desenvolve em um contexto social específico, determinante
para sua definição. Quer dizer, a identidade não pode ser concebida fora das relações sociais, pois desta forma perde o seu significado. Indo um pouco além, Silva (2000)
afirma que “na disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da sociedade”. É o que afirma Quijano (1992):

“Ligada a entidades histórico‐sociais, a identidade é uma categoria relacional, intersubjetiva e histórica. E uma parte e um modo das relações que na história se
estabelecem, se modificam ou se cancelam, entre as diversas formas organizadas de existência social.” (QUIJANO: 1992, p. 4)

Partindo‐se dessa premissa Giddens (1997) entende que a identidade pressupõe um significado, concomitantemente, sendo um processo continuo de recapitulação e
interpretação, ou seja, para o autor a identidade é a criação da constância por meio do tempo, a verdadeira união do passado com um futuro antecipado. Portanto,
percebe‐se que as identidades não são dadas naturalmente, isto é, não representam o simples ato de afirmar “algo” sobre “alguém”. Ou seja, por trás da afirmação “sou
brasileiro” existe também uma espécie de afirmação do tipo “não sou argentino”, por exemplo.

Além disso, neste caso, ao estabelecer a identidade brasileira, carrega‐se junto um processo histórico e político representado pela reprodução de uma identidade europeia e
colonial. Continuando neste sentido, nos valemos da afirmação de Silva (2000): “a afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem o desejo dos diferentes
grupos sociais, assimetricamente situados, de garantir o acesso privilegiado aos bens sociais”. Aqui acrescentaremos a ideia de que a conquista pela legitimidade de afirmar
ou negar identidades, a partir de uma disputa no interior dos aparelhos de hegemonia do estado, garante, também, a legitimação da ideologia de um ou mais grupos
dominantes.

A possibilidade de definir o que “é” (identidade) e “não é” (diferença) garante, em primeira instância, a possibilidade de definir, também, o que “deve ser” e o que “não
deve ser”, o que se traduz em uma direção concreta no campo das ideias. Assim, por exemplo, torna‐se interessante destacar a afirmação de Quijano (2002). Como mostra o
autor, a questão da “colonialidade do poder”, juntamente ao “eurocentrismo”, traduz as experiências coloniais e reflete a dominação global de uma espécie de identidade‐

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padrão, capaz de relegar o “outro colonizado” ao inverso da razão. Segundo ele, a globalização, que Hall (2000) define como “processos, atuantes numa escala global, que
atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço‐tempo”, atualmente favorece a hegemonia cultural
e econômica do colonialismo europeu e do imperialismo norte‐americano.

Em sua analise Giddens (1991, p.150) aponta que a pós‐modernidade apresenta uma série de concepções dentre elas, “enfoca as tendências centrífugas das transformações
sociais correntes e de seu caráter de deslocamento; afirma a contextualidade das reivindicações de verdade ou as vê como histórica; visualiza o eu como dissolvido ou
desfragmentado pela fragmentação da experiência; ao mesmo tempo teoriza a falta de poder que os indivíduos sentem em face das tendências globalizantes”. A pós‐
modernidade, como vimos, instaura uma mudança de hábitos e costumes nos indivíduos. A sociedade, desta forma, entra em um processo de mudança constante,
acompanhado pelas novas identidades surgidas a partir da ressocialização dos sujeitos.

“A assim chamada ‘crise de identidade’, é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades
modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (HALL: 2000, P. 7)

Ou seja, como afirma Hall, “as identidades culturais provêm de alguma parte, têm histórias. Mas como tudo o que é histórico, sofre transformação constante. Longe de um
passado essencializado, estão sujeitas ao contínuo jogo da história, da cultura e do poder” (HALL, 2000). Segundo o autor, no contexto pós‐moderno os próprios sujeitos
estão mudando, fruto, inclusive, de transformações estruturais e institucionais. Assim, a forma como os indivíduos representam‐se e são representados também muda,
fazendo com que a identidade torne‐se “uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou
interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (p. 13).

Neste sentido, como explica Hall (2000), “à medida em que os sistemas de significação e representação se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade
desconcertante e cambiante de identidades possíveis”. Ou seja, exclui‐se a possibilidade de caracterizar o sujeito como algo permanente, mas sim em constante
transformação. Assim, a identidade nacional acompanha estas modificações ao passo que as diferenças de classe, gênero ou raça são unificadas numa cultura nacional “para
representá‐los todos como à mesma e grande família nacional” (HALL, 2000, p. 59).

Neste processo, vida societária foi completamente tomada e saturada “por todo o tipo de imagens que permeiam o conjunto das relações sociais e são uma mediação
necessária da sociabilidade humana no mundo contemporâneo” (EVANGELISTA, 2001, p. 36) fazendo com que “o pensamento pós‐moderno seja a expressão teórica e
cultural de uma nova situação sócio histórica: a condição pós‐moderna (EVANGELISTA, 2001, p. 30)”. Percebe‐se uma enorme dificuldade de sentir e representar o mundo
contemporâneo, pois a sensação vigente é de irrealidade, de vazio e de confusão o pensamento coletivo não faz parte da agenda pós‐moderna. No novo paradigma pós‐
moderno, como destaca João Emanuel Evangelista:

“Tudo parece sofrer a influência da enfermidade, da fragmentação, da indeterminação, da descontinuidade e da heterogeneidade (...) o pós‐modernismo é a expressão
mais típica dessa sensibilidade emergente e afirma‐se como um novo padrão cultural dominante” (Ibdem, 2006, p. 274).

Nesse sentido, o pós‐modernismo adota como componente político primordial, um sentimento de impotência, desalento e apatia coletivos, que seriam fruto da derrota das
forças progressivas e ideológicas empenhadas em transformações sociais Anderson (1999)[6].

Retomando Stuart Hall, percebe‐se a concepção de identidade como mutável, transitória e contraditória, definida como fruto das relações sociais entre os sujeitos (HALL,
2005). Sendo a última característica muito interessante e também um ponto nodal com a percepção de Denis Cuchê (1999, p. 182), que defende “a construção da identidade
se faz nos sentir no interior de contextos sociais que determinam a posição dos agentes sociais e por isso mesmo orientam suas representações e suas escolhas”.

Stuart Hall parte do pressuposto que “as sociedades modernas, são portanto, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente (HALL, 2005, p.14)”,
mudanças que como aponta João Emanuel Evangelista (2006, p. 273) se processaram “atingindo todas as dimensões da vida social, ocorreram dentro de um ambiente
político e ideológico profundamente conservador”.

Deixando assim de atentar‐se para a reestruturação produtiva e as novas formas de acumulação de capital, presentes na sociedade contemporânea e deixada de lado pelo
neoliberalismo e no pós‐modernismo (EVANGELISTA, 2006). Uma das principais características da era pós‐moderna é a sua intrínseca relação com o advento das novas
tecnologias, ou seja, quase todo o sistema funcional e intelectual, que possa fazer parte do cotidiano humano:

“O ambiente pós‐moderno significa basicamente isso: entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação, ou seja, de simulação. Eles não informam sobre o
mundo; eles o refletem à sua maneira, hiper‐realizam o mundo, transformando‐o num espetáculo” (SANTOS, 2001, p.13).

O contexto pós‐moderno pode ser aproximado a um contexto de informação[7]. Poderia ser o que Manuel Castells (2001), apesar de suas críticas à pós‐modernidade, chama
de “a era de informação”. No centro deste processo encontra‐se o indivíduo, disposto ou não a receber estas informações. Parece pouco importar saber como o indivíduo irá
acessá‐la, processá‐la, transmiti‐la e retransmiti‐la.

Dentro do processo social, percebe‐se como positiva as afirmações de Denis Cuchê e Manuel Castells[8], sendo que para um “identidade é uma construção que se elabora em
uma relação que opõe um grupo aos outros grupos com os quais está em contato (CUCHÊ, 1999, p.182)” e o segundo observa a identidade como fonte de significado e
experiência de um povo, povo que para ele baseia‐se em atributos culturais relacionados, esses atributos que prevaleciam sobre outras fontes (CASTELLS, 2001)[9]. Nesse
sentido, simpatiza‐se com estas considerações desde que a cultura, construída ou não, seja vista dentro de recorte de classes. Para isso destacamos que “a identidade é
então o que está em jogo nas lutas sociais (CUCHÊ, 1999, p.185)”.

Vejamos, portanto, que no momento em que já estabelecemos uma clara relação de interdependência entre “identidade” e “diferença”, e agora somamos elementos
históricos à discussão, parece apropriado dizer que a identidade nos países não hegemônicos, como os latino‐americanos, ainda é definida preponderantemente a partir da
diferença, isto é, pelo fato de ser “não‐europeu” ou “não‐norte‐americano” antes de ser “latino‐americano”. Neste ponto, o processo de imitação e reprodução cultural
torna‐se mais evidente, tendo em vista a origem colonial das culturas nacionais na América Latina. Quijano (1992) mostra que, historicamente, o não reconhecimento de
elementos culturais específicos e a reprodução de uma cultura desconhecida resultaram, inclusive, em um violento processo de imposição cultural.

“O modelo europeu de nação como coletividade étnica, racial e culturalmente homogênea levou as oligarquias da Argentina e do Chile, paralelamente aos Estados Unidos,
a tentar homogeneizar sua população, exterminando fisicamente os aborígenes, em lugar de praticar a descolonização da sociedade” (QUIJANO, 1992).

Neste sentido, uma colocação interessante de Cuchê (1999, p. 192) parece bastante esclarecedora:

“Na medida em que a identidade resulta de uma construção social, ela faz parte da complexidade do social. Querer reduzir cada identidade cultural a uma definição
simples, “pura”, seria não levar em conta a heterogeneidade de todo grupo social” (CUCHÊ, 1999, p.192).

Nos apontamentos de Denis Cuchê e Stuart Hall, percebe‐se a disposição de destacar que as transformações associadas à modernidade libertam o indivíduo de seus apoios
estáveis nas tradições ou nas estruturas (HALL, 2006; CUCHÊ, 1999). Entretanto, o indivíduo fragmentado realmente existe? Já entre Manuel Castells e Stuart Hall o ponto de
encontro é a identidade como algo formado ao longo do tempo (HALL, 2005; CASTELLS, 2001) sendo essa uma consideração a qual aqui compartilha‐se. Stuart Hall aponta
que:

“As identidades nacionais permanecem fortes, especialmente com respeito a coisas como direitos legais e de cidadania, mas identidades locais, regionais e comunitárias
tem se tornado mais importantes. Colocadas acima do nível da cultura nacional, as identificações “globais” começam a deslocar e, algumas vezes, a apagar, as identidades
nacionais” (HALL, 2005, p. 73).

Stuart Hall continua:

“Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelo sistema de
comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas‐ desalojadas‐ de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem flutuar
livremente” (HALL, 2005, p.75).

Observa‐se, no entanto, como consequência da padronização incentivada pela lógica do global, novas formas de resistência cultural que priorizam o local (EVANGELISTA,
2006). Nota‐se que a intensidade e profundidade das mudanças são características do capitalismo contemporâneo, algo que atinge a totalidade das relações de produção,
não apenas a esfera cultural, como Stuart Hall e outros autores dos “estudos culturais” demonstram.

Manuel Castells remete que para os atores sociais excluídos ou resistentes é a rede global de riqueza que individualiza a identidade. Em sua interpretação, as transformações
da sociedade em rede[10] está relacionada principalmente a falta de força, ou melhor, de uma ligação, entre o estado e a sociedade. Acrescenta‐se, que para ele as novas
tecnologias de informação está presente nas discussões políticas e na busca pelo poder (CASTELLS, 2001).

2. O MARXISMO EM RESPOSTA A IDEOLOGIA PÓS‐MODERNA[11]

O fato de não analisar a pós‐modernidade a partir de uma periodização do capitalismo, mas sim compreender a mesma como uma máscara ou uma metamorfose do sistema,
permite tirar a sua apresentação fatídica de situação histórica dada. Entende‐se a pós‐modernidade como sujeita a mudança e à ação política, como o fazem David Harvey
(1992) e Fredric Jameson (1996). É imprescindível tratá‐la como uma “agenda”, composta por uma vasta gama de tendências intelectuais e políticas que surgiram em anos
recentes (WOOD, 1999).

Como destacado anteriormente, deixando de ser alvo preferencial das críticas teóricas de pós‐modernismo, o marxismo demonstrou vitalidade intelectual suficiente para
virar a mesa. Assumindo assim o pós‐modernismo como objeto da sua reflexão crítica tornando‐o como ponto para pensar a contemporaneidade capitalista e as relações
sociais[12].

Parte‐se do pensamento definido por Fredric Jameson (1996), no livro Pós‐modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, no qual argumenta que nunca é demasiado
reafirmar que o pós‐modernismo exprime a lógica cultural adquirida pelo capitalismo contemporâneo (JAMESON, 1996). Entende‐se que Jameson constrói uma operação
conceitual sobre identidade, baseando sua significação em uma periodização do capitalismo.

Nesse sentido, para entender o lugar do marxismo no debate da pós‐modernidade compartilha‐se da ideia de David Harvey (1992), autor que segundo aponta João Emanuel
Evangelista: “Encara as mudanças culturais contemporâneas como resultado de um complexo processo de transformações na estrutura das sociedades capitalistas
(EVANGELISTA, 2006, p. 277)”.

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Para Ellen Wood “o pós‐modernismo atual descende, acima de tudo, da geração de 1960 e de seus estudantes (WOOD, 1999, p. 10‐11)”. Neste debate, Terry Eagleton
complementa o caráter dessa descendência defendendo que “quase todos os aspectos fundamentais da teoria pós‐moderna podem ser deduzidos, extraídos, por assim dizer,
do pressuposto de uma grande derrota política (EAGLETON, 1999, p. 29)”, vinculada ao esmorecimento da militância da classe operária e dos movimentos de libertação
nacional.

A sociedade em que vivemos está “enredada numa trama cultural marcada por um amálgama de elementos aparentemente dispares”, onde o indivíduo cada vez mais sente
dificuldades de se firmar em algo que seja minimamente estável e lhe assegure “alguma sensação de tranquilidade e bem‐estar íntimos”. Estamos imersos num tempo em
que “os valores dominantes estão polarizados em torno do consumismo, do individualismo (EVANGELISTA, 2001, p. 35)”. O referido autor defende que:

“Os teóricos do pós‐moderno trabalham a partir da premissa, nem sempre explicada, de que teria havido uma ruptura econômica fundamental entre as antigas sociedades
industriais e as sociedades contemporâneas, Nessas sociedades pós‐industriais, o Estado e as formas políticas teriam também sofrido uma profunda mudança. Com a
fragmentação da sociedade e a desmaterialização da produção, desapareceriam as antigas contradições sociais de natureza estrutural e os sujeitos políticos universais,
como as classes sociais, que atuavam com o objetivo de conquistar ou de manter o poder político centralizado no Estado moderno” (EVANGELISTA, 2001, p. 32).

Boaventura de Sousa Santos (1997), em sua obra Pela mão de Alice: o Social e o Político da pós‐modernidade, destaca pontos importantes, como a concepção de uma
identidade não rígida e sendo resultado de um processo segundo ele fugaz, ideia próxima ao que Stuart Hall e Denis Cuchê apresentam:

“Sabemos hoje que as identidades culturais não são rígidas nem, muito menos, imutáveis. São resultados sempre transitórios e fugazes de processos de identificação.
Mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como a da mulher, homem, país africano, país latino‐americano ou país europeu, escondem negociações de sentido,
jogos de polissemia, choques de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas
que de época para época dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso” (SANTOS, 1997, p.135).

Um apontamento destacável de Boaventura Santos é que:

“A identidade proposta pelo marxismo contra o individualismo e o estatismo abstratos é feita através do enfoque nas relações sociais de produção, no papel constitutivo
destas, nas idéias e nas práticas dos indivíduos concretos e nas relações assimétricas e diferenciadas destes com o estado” (SANTOS, 1997, p. 140).

A questão da identidade é “semifictícia” e “seminecessária” para Boaventura de Sousa Santos, segundo o autor é “crucial conhecer quem pergunta pela identidade, em que
condições, contra quem, com que propósito e com que resultados”, pois para ele a identidade se traduz sempre em uma reinterpretação fundadora (SANTOS, 1997, p.135‐
136) ligada às relações sociais.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O pós‐modernismo mantém uma relação intrínseca junto ao mercado, constituindo uma forma de consciência social que lhe é perfeitamente funcional. Em certa medida, no
debate contemporâneo, ele aparece como uma expressão cultural de nova sensibilidade na agenda intelectual. Os autores que adotam o referencial teórico do marxismo
fortalecem sua vertente ao buscar responder aos desafios apresentados pelo pós‐modernismo, que na sociedade contemporânea é visto por boa parte da teoria social como o
principal meio interpretativo da sociedade.

No entendimento de Giddens (1991) num mundo pós‐moderno o tempo e o espaço já não seriam ordenados em sua interpelação pela historicidade, logo a transitoriedade
pós‐moderna, inclusive, dificulta a percepção do sentido de continuidade histórica, que somente pode ser descoberto com a inserção nesse turbilhão de mudança
permanente. Ao incorporar as novas problemáticas à crítica da exploração e da dominação capitalista, propicia‐se uma oportunidade para catalisar e impulsionar novas
formas de contestação e protesto social.

Sabe‐se que na sociedade contemporânea capitalista, a realidade não é a ideal, longe disso. A destacada socialização da informação apresentada muitas vezes como
beneficio do mundo globalizado, fica cada vez mais distante da população com menor capital.

Assim, a abrangência deste novo sistema de informação dirigida, torna‐se cada vez maior devido à sua política de acúmulo e relação estreita e dependente de um modo de
capital global e fragmenta a grande maioria da população (JAMESON, 1996). Desenvolvendo um condicionamento massivo por parte da indústria cultural vigente e os valores
da acumulação de capital se sobressaindo aos de igualdade.

Contudo, mesmo ainda vivendo os efeitos de um sistema conservador, a teoria marxista apresenta‐se como notável ponto de partida para a crítica necessária a pós‐
modernidade ou a identidade pós‐moderna. O debate está dado, e propor a superação do sistema capitalista e de suas formas de manifestação é um grande desafio para os
pesquisadores marxistas.

Referências
ANDERSON, Perry. As origens da pós‐modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
CATELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
COSTA, Iná Camargo. & CEVASCO, Maria Elisa. Terry Eagleton: Uma Apresentação. Revista Critica Marxista, São Paulo, v.1, n.2, p. 53‐59, 1996.
CUCHÊ, Denys. A Noção de Cultura em Ciências Sociais. Bauru: EDUSC, 1999.
EAGLETON, Terry. As ilusões do pós‐modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
EAGLETON, Terry. De onde vêm os pós‐modernistas? In: WOOD, Ellen Meiksins. & FOSTER, John Bellamy (Orgs). Em defesa da história: marxismo e pós‐marxismo. Rio de
Janeiro: Zahar, 1999. P. 23‐32.
EVANGELISTA, João Emanuel. Elementos para uma Crítica da Cultura Pós‐moderna. Revista Novos Rumos, São Paulo, ano 15, n. 34, 2001.
EVANGELISTA, João Emanuel. Teoria social e pós‐modernismo: a resposta do marxismo aos enigmas teóricos contemporâneos. Revista Cronos, Natal, v. 7, p. 271‐281,
2006.
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Ed. UNESP, 1991.
GIDDENS, Anthony, BECK, Ulrich, LASH, Scott. Modernização reflexiva. São Paulo: Editora UNESP, 1997.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós‐Modernidade. DP&A Editora, 2005.
HARVEY, David. A condição pós‐moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições: Loyola, 1992.
JAMESON, Fredric. Pós‐modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.
LÊNIN, Vladimir Ilichy. Obras escolhidas. São Paulo, Alfa‐ômega, 1979.
LYOTARD, Jean‐François. A condição pós‐moderna. Rio de Janeiro, José Olympio, 1998.
PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social‐Democracia. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
SANTOS, Boaventura de Souza. Pela Mão de Alice: O social e o político na pós‐modernidade. São Paulo: Cortez,1997.
SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós‐moderno. São Paulo: Brasiliense, 2001.
WOOD, Ellen Meiksins. & FOSTER, John Bellamy (Orgs.). Em defesa da história: marxismo e pós‐modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
 
Notas:
[1] É importante considerar que as modificações sociais não ficariam somente ligadas às esferas política e socioeconômica. Como aponta João Emanuel Evangelista “poucas
vezes em sua história, as sociedades modernas sofreram transformações tão rápidas e profundas (EVANGELISTA, 2006, p. 273)”.
[2] Considerando que: “o marxismo é uma teoria que toma como ponto de partida para a compreensão da história as relações sociais “objetivas”, ou seja, relações que são,
nas palavras de Marx indispensáveis e independentes da vontade de qualquer pessoa (PRZEWORSKI, 1989, p. 114)”.
[3] Como aponta Perry Anderson, consideramos que o alvo da crítica pós‐moderna é o marxismo e a esquerda (ANDERSON, 1999).
[4]Destacada por Adam Przeworski, a nota de rodapé da edição inglesa do Manifesto Comunista do ano de 1888: “Por proletários [entende‐se] a classe dos atuais
trabalhadores assalariados que, não possuindo meios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho para viver (PRZEWORSKI, 1389, p. 76)”.
[5]As observações de Terry Eangleton, nesse sentido, sobre os limites do pós‐modernismo são de enorme importância.
[6]Considera‐se aqui a proposição de Perry Anderson na qual “não podia haver nada mais que o capitalismo. O pós‐moderno foi uma sentença contra as ilusões alternativas
(ANDERSON, 1999, p. 54)”.
[7]O próprio Castells afirma que o capitalismo continua existindo, o que muda é a relevância e o papel que a informação assume como matéria prima das transformações.
[8]O autor analisa a relação entre a identidade de um povo com o Estado, exemplifica utilizando o caso dos Curdos, os catalães na Espanha, o Estado fundamentalista no Islã,
a URRSS (CASTELLS, 2001).
[9]Na obra de Castells (2001), a construção da identidade depende da matéria prima proveniente da cultura obtida, processada e reorganizada de acordo com a sociedade o
que na minha percepção, não significa que o sujeito deixaria de conduzir a construção da realidade a qual está inserido.
[10]Como destaca João Emanuel Evangelista as estruturas sociais, adquiriram uma nova morfologia social, esta que para ele, fica recoberta por uma inusitada forma de rede
mundial, reduzindo as antigas clivagens políticas e culturais. Segundo Evangelista (2006, p. 273): “Jameson (1996) e Castells apresentam enfoques diferenciados na análise e
nas implicações políticas na estrutura da sociedade contemporânea como uma rede mundial descentrada”.
[11]O conceito de “ideologia pós‐moderna” é utilizado no sentido de “agenda pós‐moderna” apresentado por Ellen Wood (1999).
[12]Adam Przeworski define: As relações sociais são dadas para um sujeito histórico, individual ou coletivo, como esferas de possibilidades, estruturas de escolhas
(PRZEWORSKI, 1989, p.92). Ainda “As relações sociais constituem as estruturas base nas quais os agentes, individuais e coletivos, deliberam sobre objetivos, percebem e
avaliam alternativas e selecionam linhas de ação (PRZEWORSKI, 1989, p.118)”.

Leonardo Prado Kantorski


Doutorando em História pela UFRGS

Ricardo Rojas Fabres


Mestrando em Filosofia pela UFPEL

Bruno de Souza Garcia

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2017-5-25 A crítica marxista ao conceito de identidade perante a concepção pós-moderna - Sociologia - Âmbito Jurídico
Mestrando em Ciências Sociais UFPEL, formado em História – Licenciatura FURG e acadêmico do Curso de Direito ‐ FURG

Informações Bibliográficas
 

KANTORSKI, Leonardo Prado; FABRES, Ricardo Rojas; GARCIA, Bruno de Souza. A crítica marxista ao conceito de identidade perante a concepção pós‐moderna. In: Âmbito
Jurídico, Rio Grande, XVII, n. 121, fev 2014. Disponível em: <
http://www.ambito‐juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=14465
>. Acesso em maio 2017.

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