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KARINA REIS REZENDE DE FREITAS

DIREITO DO TRABALHO
CONTRATO DE JORNADA INTERMITENTE
A LEGALIZAÇÃO DA JORNADA INTERMITENTE E OS
REFLEXOS NO DIA A DIA NA VIDA DO TRABALHADOR

Campinas
2018
KARINA REIS REZENDE DE FREITAS
RA: 142892911380

Campinas

2018
CONTRATO DE TRABALHO INTERMITENTE
A LEGALIZAÇÃO DA JORNADA INTERMITENTE E OS
REFLEXOS NO DIA A DIA NA VIDA DO TRABALHADOR

Trabalho de Conclusão de Curso Faculdade


NOME Anhanguera
DO AUTORde Campinas, apresentado à
como requisito parcial para a obtenção do
(Caixa alta, fontetítulo
Arial de
14,graduado
centralizado)
em DIREITO

Orientador: Heloisa Medeiros

TÍTULO DO TRABALHO:
SUBTÍTULO DO TRABALHO, SE HOUVER
(Título em caixa alta, fonte Arial 14, em negrito; subtítulo em caixa alta, fonte Arial
16, sem negrito)

CAMPINAS

2018
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à
Faculdade Anhanguera de Campinas, como
requisito parcial para a obtenção do título de
graduado em Direito

BANCA EXAMINADORA

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

CAMPINAS____ DE ___________ DE 2018


Dedico este trabalho ao meu marido
Rafael e meus filhos André, Larissa e
Lorenzo
FREITAS, Karina Reis Rezende de. Contrato de Trabalho Intermitente: A
Legalização da Jornada Intermitente e os reflexos no dia a dia na vida do
trabalhador.2018. folhas Trabalho de Conclusão do Curso de Direito - Faculdades
Anhanguera de Campinas,2018.

RESUMO

O presente estudo abordará a nova modalidade de contrato de trabalho, inserida na


CLT, através da Reforma Trabalhista, a Jornada Intermitente, com enfoque nos
possíveis danos à saúde física, mental e financeira do trabalhador, à luz da
Constituição Federal e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Palavras-chave: Contrato; Jornada Intermitente; Saúde; Constituição; CLT


.
FREITAS, Karina Reis Rezende de. INTERMITTENT WORK CONTRACT, The
legalization of the intermittent day and the reflections day-to-day in the life of the
worker.2018.folhas .Trabalho de Conclusão do Curso de Direito – Faculdades
Anhanguera de Campinas,2018.

ABSTRACT

The present study will address the new modality of employment contract, inserted in
the CLT, through the Labor Reform, The Intermittent Journey, focusing on possible
damages to the physical, mental and financial health of the worker, in light of the
Federal Constitution and the Consolidation of Laws of Labor (CLT).

Keywords: Contract; Intermittent Journey; Cheers; Constitution; CLT


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CLT Consolidação das Leis do Trabalho no Brasil

OIT Organização Internacional do Trabalho


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 13
2. O CONTEXTO HISTÓRICO E O DIREITO DO TRABALHO NO BRASIL.........15
2.2 CONTRATOS 16
3. JORNADA INTERMITENTE .............................................................................. 18
4. A REALIDADE DA APLICAÇÃO DA JORNADA INTERMITENTE .................. 23
5. A QUEDA DA MEDIDA PROVISÓRIA..................................................................26
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................28
7.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................29
13

1. INTRODUÇÃO
O objeto do presente estudo fora a nova modalidade de contrato, inserida
através da Reforma Trabalhista na Consolidação das Leis do Trabalho, a jornada
intermitente, à luz da Constituição Federal e da CLT. Com a aprovação da Reforma
Trabalhista (Lei nº 13.467 de 13 de julho de 2017), a Consolidação das Leis de
Trabalho (CLT) foi alterada consideravelmente, trazendo polêmicas e muitas
discussões jurídicas. E uma das inovações trazidas, foi a legalização da jornada
intermitente.
A sociedade brasileira tem um grande histórico de exploração de
trabalhadores por parte dos empregadores, a relação entre empregador e empregado
sempre foi e ainda continua sendo muita delicada, mas, na grande maioria das vezes
os beneficiados nessa relação sempre foram os empregadores, e a legalização da
jornada intermitente colocará empregos em risco, pois o que o pode vir a acontecer é
uma migração de contratos protegidos em contratos precários
Outra questão que foi levantada nesse estudo, fora, quais os efeitos que a
legalização da jornada intermitente trará para vida do trabalhador? Até que ponto o
excesso de empoderamento do empregador não prejudicará a condição de
hipossuficiente do empregado?
Investigou-se nesta pesquisa acadêmica qual a importância da legalização
do contrato de jornada intermitente, na vida diária do trabalhador, contrato esse que
fora criado e defendido pelos seus legisladores, através da Reforma Trabalhista como
uma “modernização sem precarização”, mas que na realidade irá apenas legalizar o
popularmente conhecido “bico”.
Fora analisado que as condições de trabalho nas quais os trabalhadores
serão submetidos, como excesso de jornada, para poder ter uma renda em que ele e
sua família possa sobreviver poderá trazer vários problemas de saúde, e que também,
a dificuldade de locomoção de um emprego ao outro poderá afetar não somente a
sua saúde física, e sim a mental, o que poderá trazer grandes reflexos para a
sociedade, como mais afastamentos por motivos de doença e um aumento maior de
reclamações na justiça do trabalho.
Restou claro que a imprevisibilidade e a expectativa de prestação de serviço
e recebimento de salário poderão afetar a saúde física, mental e financeira do
trabalhador, como consequência ele precisará de ter mais empregos para se manter,
estudado será como ficará a condição de locomoção de um emprego a outro.
14

Compreender se direitos básicos contidos da Constituição Federal e na CLT, como a


irredutibilidade de salário, jornada no máximo de 8 horas e proteção à saúde do
trabalhador, serão violados ante a legalização da jornada intermitente
Pretendeu-se discorrer sobre a legalização da Jornada Intermitente e seus
reflexos na vida e saúde do trabalhador, inicialmente, foi contado um pouco da história
do Direito do Trabalho no Brasil, posteriormente foi feita uma referência aos contratos
e suas teorias, e logo na sequência fora elaborado uma explicação sobre o que é a
Jornada Intermitente, as suas implicações na vida do trabalhador, e abordado será o
posicionamento de alguns especialistas no assunto. Outro importante passo nesse
estudo, fora os questionamentos em relação a legalidade, todo o passo a passo na
elaboração dessa pesquisa, será fundamentado com pesquisas em livros, artigos de
internet, na própria legislação vigente e na Reforma Trabalhista.
15

2. O CONTEXTO HISTÓRICO E O DIREITO DO TRABALHO NO BRASIL

2.1 HISTÓRICO
A História do direito do trabalho no Brasil, está marcada por um contexto de
exploração de trabalhadores, com condições precárias que ficaram mais visíveis ainda
durante a Revolução Industrial, momento em que movimentos sociais passaram a
questionar essa relação de trabalho tão arcaica.
Os marcos históricos que culminaram para a construção do Direito do
Trabalho no Brasil, começaram através de movimentos operários grevistas entre os
anos de 1800 e 1900, a Constituição Brasileira de 1824, decretou o fim das
corporações de oficio, garantindo a liberdade no exercício das profissões.
A Lei Áurea de 13 de maio de 1888, aboliu a escravidão no Brasil, esse foi um
grande momento em nossa história de transformação de nossa sociedade. O fim da
primeira guerra mundial, trouxe grandes mudanças na Europa, que acabou por
influenciar o Brasil à ingressar na OIT (Organização Internacional do Trabalho), criada
pela Tratado de Versalhes em 1919.
A Revolução Industrial trazida pós primeira guerra, foi com toda certeza o
maior influenciador de leis trabalhistas esparsas, devido a grande exploração dos
trabalhadores escravos por trabalho assalariado, com péssimas condições de
trabalho, jornadas excessivas e exploração do trabalho da mulher e do menor, o que
culminou com uma questão social gravíssima, então os trabalhadores começaram a
se organizar exigindo melhorias na condição de trabalho, tudo através de Sindicatos.
A primeira Constituição Brasileira a ter previsão expressa sobre as relações
de trabalho, foi a de 1934. A Constituição de 1937, se inspirou na CARTA DEL
LAVORO de 1927, da Itália, que tinha como característica principal, o corporativismo,
na qual o Estado intervinha nas relações entre empregado e empregador, nesse
modelo os sindicatos não tinham nenhuma autonomia.
Foi nesse contexto, na década de 1930 e 1940, que surgiram legislações que
passaram a reger a relação de emprego no Brasil. Delgado nos explica:
“O Direito do Trabalho é, pois, produto cultural do século XIX e das
transformações econômico-sociais e políticas ali vivenciadas.
Transformações todas que colocam a relação de trabalho subordinado como
núcleo motor do processo produtivo característico daquela sociedade. Em
fins do século XVIII e durante o curso do século XIX é que se maturaram, na
Europa e Estados Unidos, todas as condições fundamentais de formação do
16

trabalho livre, mas subordinado e de concentração proletária, que propiciaram


a emergência do Direito do Trabalho.”1

Mas, havia uma necessidade de unificar as diversas leis esparsas trabalhistas


que existia no Brasil, então através do Decreto 5452 de 1º de maio de 1943, foi criada
a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
A Constituição de 1946, passou a prever o direito de greve, trazendo um rool
de direitos trabalhistas e autonomia aos sindicatos, rompendo de uma certa forma
com o corporativismo de 1937. As Constituições de 1967 e 1969, não alteraram os
direitos trabalhistas das Constituições anteriores.
A Constituição Federal de 1988, conhecida com Constituição Cidadã, regulou
a Legislação Trabalhista em seus artigos 7º à 11º, confirmando as previsões contidas
na CLT.
Será abordado adiante a força dos contratos de trabalho e suas espécies.

2.2 CONTRATOS
No Brasil, a primeira vez que se ouviu a denominação contrato de trabalho, foi
na lei n. 62 de 1935. A primeira Constituição Brasileira que a tratar sobre a relação de
emprego no Brasil é de 1934, a Consolidação das Leis do Trabalho de 1943, traz a
expressão “contrato individual de trabalho é o acordo tácito ou expresso,
correspondente à relação de emprego”.2
A expressão “contrato” é muito utilizado e conhecida no ramo do direito civil,
porém no âmbito das relações de trabalho, ela também é usada e está presente em
inúmeros artigos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), e para ter validade
esse contrato de trabalho, é necessário preencher alguns requisitos necessários
presentes código civil em seu artigo 104.
Assim contrato de trabalho é um negócio jurídico, bilateral, que determina a
relação de trabalho de uma pessoa, o trabalhador, em favor de outra, o empregador,
e as contraprestações deste para aquele.
As relações de trabalho são várias, mas, as mais conhecidas são, as de trabalho
temporário, avulso, voluntário, estagiário e eventual, este último, é considerado por

2.http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452compilado.htm. Acesso em 17/03/2018


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muitos juristas, como o a modalidade de jornada intermitente, que será o tema


abordado durante esse estudo mais adiante.
Ao longo da história do Direito do Trabalho existiram algumas teorias em
relação a natureza jurídica do contrato de trabalho, as mais importantes foram a
contratualista e anticontratualista.
A anticontratualista, nega a natureza contratual, basta apenas a pessoa colocar
os pés para trabalhar, independente do motivo que deu causa e o que vale é regime
estatutário. Marcelo Moura ensina: “Segundo os anticontratualistas, a prestação de
serviços, independentemente da manifestação de vontade, é o traço característico
da relação de emprego.”3
A contratualista é a que tem manifestação de vontade, o que fora pactuado
entre as partes, que vai se aprimorando com o tempo. Nos ensina Gustavo Filipe
Barbosa Garcia:
“A teoria contratualista indica a natureza contratual da relação
entre empregado e empregador. Prevalece na doutrina a
orientação de que se trata de vínculo de natureza contratual,
pois a manifestação de vontade, dando origem ao vínculo de
trabalho, e possibilitando a sua manutenção, pode se
apresentar de forma expressa ou mesmo tácita.”4
Faz-se necessário salientar que nem todos os trabalhadores estão protegidos
pela Égide do Direito do Trabalho, mais somente os empregados, a Consolidação das
Leis do Trabalho, em seus artigos 2º e 3º, faz essa diferenciação e define os requisitos
para ser considerado empregado: a prestação de serviço tem que ser por pessoa
física ou natural, com pessoalidade, de forma não eventual, sob subordinação e com
onerosidade.
O requisito “não eventualidade” é o que traz bastante discussão entre doutrina
e jurisprudência, a respeito do que vem a ser não eventualidade, e o que define essa
diferenciação.
Pretende-se adentrar nessa modalidade de trabalho intermitente, sendo essa
espécie de trabalhador que mais se aproximava da figura do empregado, tanto que a
Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467 de 13 de julho de 2017), inseriu o trabalhador
intermitente como empregado na Consolidação das Leis do Trabalho.

3 MOURA, Marcelo. Curso de direito do trabalho. 1ª Edição. Saraiva, 12/2013. VitalSource Bookshelf Online. P. 123
4 GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Manual de Direito do Trabalho. 7º Edição. Gen.2015.pag 60.
18

3. A JORNADA INTERMITENTE
O contrato de trabalho pode ser firmado de forma expressa ou tácita, sendo
que o primeiro não deixa nenhum tipo de dúvida entre o que as partes pactuaram, e
pode ser verbal ou escrito, agora o tácito decorre de um comportamento entre as
partes envolvidas.
O contrato pode ser firmado por prazo determinado, que é a exceção ou
indeterminado que é a regra, a primeira modalidade trás muitas vantagens ao
Empregador, como: a impossibilidade de se adquirir estabilidade, em regra não
precisa conceder aviso prévio, e não precisa depositar a multa dos 40% sobre o FGTS.
O artigo 443 § 3º prevê três hipóteses em que se pode firmar contrato de
trabalho por praz determinado; serviços, atividades empresariais de caráter transitório
e contrato de experiência. A Reforma Trabalhista (Lei 13.467/2017) inseriu um novo
parágrafo nesse mesmo artigo, o contrato de trabalho intermitente:
“Considera-se como intermitente o contrato de trabalho no qual a prestação
de serviços, com subordinação, não é continua ocorrendo com alternância de
períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas,
dias ou meses, independentemente do tipo de atividade do empregado e do
empregador, exceto para aeronautas, regidos por legislação própria”. 5

O texto já vem alguns vícios, o art. 443 § 3º, faz a habitualidade desaparecer
aos poucos, pois a alternância de prestação de serviço, a imprevisibilidade de quando
terá que comparecer para trabalhar e o tempo de inatividade, colabora com o
desparecimento desse requisito essencial para a relação de trabalho.
Na Jornada Intermitente, a prestação de serviços se dá com subordinação, mas
não é continua, tem alternâncias de períodos de labor e de inatividade podendo
ocorrer em horas, dias ou meses.
A Lei 13.467, da Reforma Trabalhista, em seu artigo 452-A, determina que o
contrato de jornada intermitente deve ser celebrado por escrito, devendo conter o valor
da hora de trabalho, e essa quantia não deve ser inferior ao salário mínimo ou o
mesmo valor pago aos demais empregados que exerce a mesma função no
estabelecimento.
Mas logo na sequência, a medida provisória 808/2017, acrescentou alguns
artigos e parágrafos no dispositivo que regula a jornada, como: além do ser contrato
ser escrito, tem que ser registrado na ctps, com identificação, assinatura e domicílio

5 SCALÉRCIO, Marcos; Pinto, Tulio Martinez..CLT comparada com a Reforma Trabalhista. LTR,2017.
19

ou sede das partes, o local e prazo para pagamento da remuneração, e assegurado


o pagamento com adicional noturno superior ao diurno.
A convocação do trabalhador intermitente, se dará com três dias corridos de
antecedência, por qualquer meio de comunicação eficaz, recebida a convocação o
empregado terá 24 horas para responde se irá ou não trabalhar, antes da MP
808/2017, o prazo era de um dia útil, ausência de manifestação será considerada
como recusa, e ela não descaracteriza a subordinação.
Durante o período de inatividade, o trabalhador intermitente poderá prestar
serviço a outra empresa, incluindo até aquelas que são do mesmo ramo de atividade,
o período em que o trabalhador recebeu a convocação, não será considerado tempo
a disposição do empregador.
Em relação as verbas devidas a MP 808/2017 em nada mudou, mas, a data
para pagamento antes da medida provisória, era para ser paga ao final de cada
período, agora as partes poderão acordar uma data que seja melhor para ambos, e o
recibo de pagamento deverá constar a discriminação dos valores pagos.
As verbas que deverão serem pagas no dia do pagamento são: “I-
Remuneração; II – Férias proporcionais com acréscimo de 1/3; III- Décimo terceiro
salário proporcional; IV – Repouso semanal remunerado; e V – Adicionais legais.6
As férias serão devidas ao trabalhador intermitente de forma igual a qualquer
outro trabalhador, a partir do momento em que completar o período aquisitivo de 12
meses, ele terá o direito de 30 dias de descanso, portanto, conforme Henrique Correia,
em Comentários à MP 808/2017 diz “Durante o gozo de férias não terá direito a
nenhum pagamento, dificultando que descanse efetivamente”7.
A crítica é muito grande em relação as férias do trabalhador intermitente, pois,
a cada jornada ele irá receber todos os direitos trabalhistas e quando chegar o
momento das férias, ele não terá nada a receber.
A Reforma Trabalhista passou a regular o fracionamento das férias, o que inclui
o trabalhador intermitente, com os mesmos direitos, que para ser válido precisa
cumprir os requisitos: concordância do empregado, fracionamento em até 3 períodos,
um dos períodos não pode ser inferior à 14 dias corridos e os demais não podem ser
inferiores a 5 dias corridos.

6 SCALÉRCIO, Marcos; Pinto, Tulio Martinez..CLT comparada com a Reforma Trabalhista. LTR,2017.
7 Correia, Henrique. Comentários a MP 808/2017. Editora Juspodivim,2017.
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O texto legal não disciplinou como ficaria a situação dos empregados


intermitentes afastados por auxílio doença e das mulheres com salário maternidade,
então foi necessário incluir essa situação na Medida Provisória 808/2017, que traz em
seu art. 452-A, § 13 e 14:
“§ 13. Para fins do disposto neste artigo, o auxílio-doença será devido ao
segurado da Previdência Social a partir da data do início da incapacidade,
vedada a aplicação do disposto § 3º do art. 60 da Lei nº 8.213, de 1991.”8
§ 14. O salário maternidade será pago diretamente pela Previdência Social,
nos termos do disposto no § 3º do art. 72 da Lei nº 8.213, de 1991”9.
Nos primeiros 30 dias o salário será pago pelo empregador, e o salário
maternidade será pago diretamente pela Previdência Social.
A MP 808, em seu art. 452-D, passou a prever o término de contrato do
empregado intermitente por ausência de convocação, completando 1 ano sem ser
chamado, o contrato será rescindido de pleno direito.
E mais uma vez a Reforma foi omissa, em não prever, como ficaria a rescisão
do contrato de trabalho do trabalhador intermitente, então veio a MP 808 para suprir
essa lacuna, previsto no art. 452-E.
Se ele foi dispensado por justa causa, o empregado receberá as verbas que
tenha adquirido e não gozado, como saldo de salário, férias e decido terceiro salário
proporcional.
Se a rescisão foi indireta, aquela prevista no art. 483 da CLT, ele receberá a
totalidade das verbas, como saldo de salário, décimo terceiro proporcional, férias
vencidas mais 1/3, férias mais 1/3 proporcionais, aviso prévio, fgts mais os 40%, e
seguro desemprego. O fgts do trabalhador intermitente, será movimentado somente
80%, o restante ficará a disposição para outras hipóteses de movimentação.
Nas demais hipóteses de rescisão do contrato de trabalho intermitente, serão
devidas as verbas seguintes: “ 50% do aviso prévio indenizado, 20% de multa sobre
os depósitos do fgts, saldo de salário (dias efetivamente trabalhados), décimo terceiro
proporcional, férias vencidas mais 1/3, se houver, férias mais 1/3 proporcionais.
Para o trabalhador intermitente, o aviso prévio será de forma obrigatória
indenizado.

8 SCALÉRCIO, Marcos; Pinto, Tulio Martinez..CLT comparada com a Reforma Trabalhista. LTR,2017.
9 SCALÉRCIO, Marcos; Pinto, Tulio Martinez..CLT comparada com a Reforma Trabalhista. LTR,2017.
21

O art. 452-G, inserido pela MP 808/2017, prevê uma quarentena para o


trabalhador intermitente, aquele empregado que é contratado por prazo
indeterminado, não poderá prestar serviço para o mesmo empregador pelo período
de 18 meses.
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4. A REALIDADE DA APLICAÇÃO DA JORNADA INTERMITENTE


O nosso modelo de lei, foi baseado no “zero-hour contract” do direito inglês. A
expressão “contrato de zero hora” — tradução livre do artigo 27A do Employment
Rights Act 1996.10 O modelo inglês é tido pela doutrina estrangeira como a
precarização da mão de obra, que tem como principal característica a não garantia de
prestação de serviço e recebimento de salário, situação que pode afetar a saúde
mental e financeira de maneira prejudicial, causando sérios danos.
Fernanda abras, Jornalista que viveu na Inglaterra descreve com exatidão
como esse contrato zero hora é visto na Inglaterra: "A crítica a esse tipo de trabalho é
essa: o uso indiscriminado por empregadores, que deveriam ter funcionários efetivos
e acabam tendo funcionários eventuais, porque é mais barato pra eles".11
No parecer da Câmara, o trabalho intermitente foi apresentado como:
“modernização sem precarização, que poderá gerar nos próximos 10 anos, 14 milhões
de empregos,”12 o texto é realmente inspirador, mas, do ponto de vista da realidade
não está sendo vista desse assim, o ex Presidente do TST, Pazzianotto, critica “ela
fará apenas a regulamentação do bico, uma realidade já existe...”13
O contrato de trabalho intermitente prevê a possibilidade do empregado laborar
por horas, dias ou meses, mas não haverá nenhum tipo de fiscalização em relação a
quantidade horas que ele trabalhará por dia, isso deixará um leque de possibilidade
para haver uma maior exploração desse trabalhador, e o excesso de carga horária é
sabido por todos, que afeta a saúde física, mental desse empregado.
Esse trabalhador se sentirá na obrigação de aceitar as condições que forem
impostas a ele, pois a renda dele dependerá da quantidade horas que ele labora, e
sendo bem provável que ao final de 30 dias ele não tenha obtido uma renda acima do
salário mínimo, para que seja contabilizada a sua contribuição a Previdência Social.
Além de ficar na expectativa de trabalho, o empregado intermitente deverá se
atentar em relação às regras da Previdência Social, pois se ele receber durante o mês
de trabalho valor inferior ao mínimo legal, ele mesmo deverá recolher esse valor a
parte, e se não o fizer, aquele empregado não será considerado como segurado da

10 INGLATERRA. Employment Rights Act 1996.


11 Abras, Fernanda. O trabalho no mundo. Conheça o contrato zero hora na Inglaterra. 2016
12 FERRAÇO, Ricardo. Parecer da Comissão de Assuntos Econômicos sobre o Projeto de Lei da Câmara nº 38, de 2017 [...],
p. 71-72.
13 GONDIM, Abnor. Reforma trabalhista regulamenta o 'bico'. DCI – Diário, Comércio, Indústria e Serviços. 13 abr.2017.
Acesso em 08/10/2017
23

Previdência e também não poderá requerer os benefícios a ela atinentes, como


aposentadoria e licença médica, mas se o trabalhador receber menos que o mínimo
legal, provavelmente ele não terá condições de fazer esse recolhimento, pois resta
claro que o salário mínimo não atende nem de longe as necessidades mínimas de
qualquer trabalhador, o que resultará em um trabalhador com registro em carteira de
trabalho, mas que não existe para a Previdência, ou seja, praticamente ele estará na
informalidade.
A OIT (Organização Internacional do Trabalho), divulgou uma pesquisa em
relação as mudanças trabalhistas no mundo, e chegou a conclusão que a jornada
intermitente precisa proteger o trabalhador, um dos trechos explicam: “Empregados
sob jornada intermitente podem apresentar dificuldade em balancear o trabalho com
a vida pessoal em razão da potencial alta variabilidade do cronograma de trabalho”14
Os setores de serviços e varejo são os maiores apoiadores da Jornada
Intermitente, esse tipo de contrato vai de encontro com os interesses dos grandes
empresários do setor, ou seja, mais, lucro e mais exploração de trabalhadores, pois
eles contratam mais pessoas, por menos tempo de trabalho, o que acaba por gerar
uma expectativa para o trabalhador, que mesmo com contratos por tempo
indeterminado já em sua maioria não é remunerado para atender suas necessidades
básicas, afrontando diretamente direitos constitucionais, imagina em contratos
precários com esse.
A rede Magazine Luiza, uma gigante do varejo, na última black Friday
contratou 1700 empregados por alguns dias, o grupo Pão de açúcar e supermercados
Extra, também seguiram o mesmo caminho, inclusive no natal.
A Reforma Trabalhista representa um atraso gigante em relação à direitos
básicos, na grande maioria das mudanças na CLT, o trabalhador será prejudicado, e
o contrato de jornada intermitente veio somente para atender interesses de
empresários, os únicos beneficiados nessa situação, é um contrato precário, que trás
prejuízos na saúde física, emocional e social.
São 70 anos de história do direito do trabalho, de proteção ao trabalhador,
sendo afrontados, o Professor da Unicamp, José Dari Krein define bem a Reforma:

14 OIT. Jornada intermitente tem de prever proteção ao trabalhador. Jornal o Globo. 2017
24

"Trata-se de um grupo de regras que tem pura e exclusivamente


o objetivo de atender às necessidades empresariais de
remanejar a força de trabalho de acordo com a necessidade do
curto prazo. Isso ignora qualquer perspectiva de construção de
uma sociedade civilizada e decente".15
O contrato de Trabalho intermitente veio junto com o pacote de prejuízos que é
a Reforma, uma precarização da mão de obra, mas de forma legal, dentro de uma
Legislação, como a CLT, que veio para proteger o trabalhador e atualmente está
sendo usada como ferramenta de exploração da parte mais fraca nessa relação.

15 Capital, Carta. Reforma Trabalhista joga contra qualquer projeto de desenvolvimento.2017


25

5. A QUEDA DA MEDIDA PROVISÓRIA

O trâmite para a aprovação da Reforma Trabalhista, foi extremamente rápido


e tumultuado, uma lei que impactaria diretamente a vida milhões de Brasileiros não
poderia ter sido aprovada desta maneira, com apenas 7 meses de discussão, alias se
for analisar friamente, não houve nem discussão, pois a sociedade não foi ouvida.
A lei foi aprovada no dia 11 de julho de 2017, entrando em vigor no dia 11 de
novembro do mesmo ano, e quatro dias depois, surgiu a Medida Provisória nº
808/2017, mas conhecida como MP 808.
O Presidente da câmara, Rodrigo Maia, já vinha se posicionando que nada
que fosse aprovada pela Reforma, seria mudado, deixando claro que era totalmente
contra a instituição da Medida Provisória.
A MP 808, então caiu no dia 24 de abril de 2018, sem ser votada
regulamentava alguns pontos tido muito profissionais do Direito, como
inconstitucionais, com por exemplo: a regulamentação do trabalho das gestantes em
ambiente insalubre.
A Jornada Intermitente, foi afetada diretamente com essa queda, pois quando
ela entrou em vigor com a Reforma, ficou muito vaga, com artigos que prejudicava
diretamente o trabalhador, como por exemplo: multa para o trabalhador que aceitasse
a oferta para trabalhar e não comparecia no dia, no valor de 50% da remuneração que
seria devida.
Outro prejuízo para a grávida trabalhadora intermitente é que na Reforma não
havia nenhum artigo que regulamentava o afastamento por salário maternidade, a MP
trazia claramente essa disposição. Em relação ao afastamento por motivos de doença,
também não tem previsão na Reforma, mas tinha na MP 808.
Com a MP era possível pactuar o dia em que o salário seria pago, respeitando
os 30 dias no máximo para pagamento, a carteira de trabalho deveria ter todos os
dados preenchidos, a resilição do contrato de trabalho, que o trabalhador não poderia
ser demitido de um contrato estável para migrar para o contrato intermitente, sem
cumprir o período de carência, que as férias poderiam ser fracionadas, o empregador
era obrigado a entregar os comprovantes de pagamentos de INSS e FGTS, dentre
outros.
Será um prejuízo enorme para o trabalhador essa queda da MP, era um
pequeno ajuste no meio de tantas inconstitucionalidades e afrontas a direitos básicos,
26

que aliás foi feita de propósito pelo Congresso, agiram com total descaso, mais ainda
do que eles costumam ter com a população, a MP era a esperança que se tinha de
não haver tantos direitos tolhidos.
O Presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho
( ANAMATRA), juiz Guilherme Feliciano avaliou que :
“A caducidade da MP por decurso de prazo representa claro descaso para
com a preservação do patrimônio jurídico social legado pela Constituição
Federal de 1988 e confirma o epílogo funesto do processo de desconstrução
do Estado Social que segue caminhando, agora com braços abertos para a
própria tese do ‘enxugamento’ da Justiça do Trabalho, que já volta a ser
entoado por parte da grande mídia. O cidadão deve estar alerta para isto”. 16
O que essa situação trás para o cenário atual é insegurança jurídica e
incertezas ao empregado, e em relação a Jornada Intermitente ficará um grande
vácuo, pois a Reforma é uma Lei muito malfeita e mal-acabada.

16Anamatra. Reforma trabalhista: queda da MP 808 indica descaso com o legado social da
Constituição e traz insegurança jurídica
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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo fora feito para trazer a tona a situação do trabalhador brasileiro, um
povo sofrido, que lutou muito para conseguir chegar a ter leis que o protejam, tem um
passado de muita exploração de mão de obra de homens, mulheres e crianças, não
foi nada fácil chegar a ser um povo que tenha leis que funcionem, como a nossa carta
máxima, que é a Constituição Federal, e a CLT, a nossa Consolidação das Leis do
Trabalho.
Fora feito questionamentos em relação a saúde física e mental do trabalhador, o
que ficou demonstrado que a imprevisibilidade de ser convocado ou não para
trabalhar, o valor recebido servirá para garantir uma vida digna para o trabalhador e
sua família, isso gerará muitas expectativas, que afetará diretamente a vida de todos.
Essa situação acabou ficando clara com esse estudo, que não há condições
dignas de trabalho. O trabalhador se verá em uma situação de desrespeito a normas
trabalhistas e direitos garantidos pela Constituição Federal, e sem saber para quem
recorrer, pois até nossos representantes, que nós elegemos fazem leis que vai contra
toda a população. A solução é buscar o Judiciário para tentar mudanças em relação
a isso.
A Reforma Trabalhista fora criada não para ser uma modernização, mas sim, um
retrocesso total a sociedade, um desrespeito a nossa história, e para tentar modificar
um pouco esse cenário, o Presidente da República editou uma Medida Provisória, que
regulava situações de violação a Constituição Federal, como o trabalho das gestantes
em lugar insalubre, e deixava claro as regras em relação a Jornada Intermitente, que
era vazia e sem contexto. E o quando era para ela virar uma lei o congresso virou as
costas e não quis fazer aquilo no qual eles se comprometeram, que era deixar mais
clara a Reforma Trabalhista com a Medida Provisória.
Os objetivos elencados no início desse estudo foram alcançados, o que se
percebeu foi, é que realmente a Jornada Intermitente não fora criada para beneficiar
o trabalhador, ela causará muitos prejuízos a sua saúde financeira, física, mental e
social. Esse tema precisa ser mais debatido e questionado pela sociedade, pelos
especialistas e com mais estudos em relação a essa matéria, pois só com debates e
discussão é que poderemos ter uma sociedade evoluída e que garanta e proteja
aqueles que precisa de proteção.
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REFERÊNCIAS

GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Manual de Direito do Trabalho.7º Edição.


Gen.2015.pag 60

MOURA, Marcelo. Curso de direito do trabalho. 1º Edição.Saraiva,12/2013.


VitalSource Bookshelf Online.P.123

Artigos de internet:

Jurisway, Evolução histórica do Direito do trabalho, geral e no Brasil. Disponível


em: https://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=4553. Acesso em 17/03/2018

Info Escola, Tratado de Versalhes. Disponível em:


https://www.infoescola.com/historia/tratado-de-versalhes/. Acesso em 17/03/2018

Planalto, site. Decreto Lei 5452 Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452compilado.htm. Acesso em
17/03/2018.

Abras, Fernanda. O trabalho no mundo. Conheça o contrato zero hora na


Inglaterra. 2016.Disponível em:

http://www.tst.jus.br/pmnoticias/-/asset_publisher/89Dk/content/id/22614834.

Acesso em 17/04/2018.

Paulo, o Estado de São. Com a nova lei, trabalhador intermitente pode ficar sem
os benefícios do INSS. Disponível em:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,com-nova-lei-trabalhador-intermitente-
pode-ficar-sem-beneficios-do-inss,70002085933. Acesso em 17/04/2018.

Capital, Carta. Após trabalho intermitente, varejo começa a testar jornada de 12


horas.2017. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/apos-
trabalho-intermitente-varejo-comeca-a-testar-jornada-de-12-horas. Acesso em
17/04/2018.
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Capital, Carta. Reforma Trabalhista joga contra qualquer projeto de


desenvolvimento. Disponível em:

https://www.cartacapital.com.br/economia/reforma-trabalhista-joga-contra-qualquer-
projeto-de-desenvolvimento . Acesso em 17/04/2018

Anamatra. Reforma trabalhista: queda da MP 808 indica descaso com o legado


social da Constituição e traz insegurança jurídica. Disponível em:

https://www.anamatra.org.br/imprensa/noticias/26384-reforma-trabalhista-
caducidade-da-medida-provisoria-808-2017-indica-descaso-com-legado-social-da-
constituicao. Acesso em 10/05/2018.