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Técnicas Composicionais do Séc.

XX nas Canções de Frederico Richter


Carla Domingues Batista, Marcos Tadeu Holler
Universidade do Estado de Santa Catarina
carladom@gmail.com,
1 2 marcosholler@yahoo.com.br
Palavras-Chave
Frerídio, canção erudita brasileira, música do século XX

RESUMO da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA, na


qual permaneceu por 20 anos. De 1979 a 1981
Na obra vocal do compositor Frederico Richter
(1932), ou “Frerídio”, podem ser encontradas cursou Pós-doutorado na McGill University, no
grande parte das técnicas pós-tonais surgidas no Canadá, e neste período desenvolveu a maioria de
século XX, desde o atonalismo até o tonalismo sua obra eletrônica e eletroacústica, tendo composto
livre, passando pela pantonalidade e por incursões cerca de 45 obras. Como docente atuou no então
seriais. As canções com acompanhamento de piano
estão presentes em todas suas fases, e por meio Conservatório Municipal de Pelotas, hoje
deste gênero é possível identificar estas técnicas e Conservatório de Música da Universidade Federal
exemplificá-las, contribuindo assim para o de Pelotas. Também foi docente na Universidade
panorama da pesquisa da música de câmara
brasileira. Federal de Santa Maria, onde em 1966 criou a
Orquestra da Universidade Federal de Santa Maria,
da qual foi diretor até 1998.
I. INTRODUÇÃO
Frederico Richter é compositor de mais de 200
O presente artigo apresenta um panorama da obra obras para diferentes formações, nas quais se
vocal do compositor Frederico Richter (1932) com observa uma constante renovação, visto que
especial enfoque no gênero canção (que representa procurou experimentar diversificadas técnicas de
a grande maioria de sua obra), buscando visualizar composição surgidas no século XX, mesmo que não
o uso de diferentes técnicas composicionais as tenha incorporado em definitivo em sua obra
surgidas no século XX. O artigo divide-se em duas como um todo, como é o caso do serialismo e do
partes: na primeira são apresentados uma pequena dodecafonismo. Isto fundamenta-se nas palavras do
biografia do compositor e dados sobre sua trajetória próprio Richter:
artística e docente, e na segunda são descritas as [...] eu não seguia nenhum
suas fases composicionais, usando-se canções como modelo já existente mas,
exemplo de cada uma delas. criava com as minhas idéias
sem maiores preocupações.
II. DADOS BIOGRÁFICOSi Se eu tinha algum modelo
O compositor Frederico Richter é natural de ocasional na cabeça eu o
Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Nascido em evitava deliberadamente: as
06 de fevereiro de 1932, filho de imigrantes antinomias e a rebeldia
austríacos, desde muito cedo teve contato com a contra “trilhos” me
música, e compôs sua primeira obra por volta dos conduziam. Mas, a junção
12 ou 13 anos de idade. É também conhecido como do antigo com o novo
Frerídio, como se autodenominou, buscando sempre me atraiu.
ressaltar sua nacionalidade brasileira tantas vezes (RICHTER,2000)
contestada e desacreditada devido à origem Richter se autodenomina um compositor vocal
austríaca de seu sobrenome. (1993), e isso se comprova através de suas canções,
A formação acadêmica de Richter deu-se que são cerca de 100 e que representam a grande
inicialmente em Porto Alegre, onde, em 1951, maioria de sua obra. Através delas podemos
graduou-se em violino pela Escola de Artes da vislumbrar seis décadas de atuação do compositor,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - nas quais experimentou técnicas de composição e
UFRGS, e nesta época passou a atuar como Spalla
aprimorou tendências. Compôs ainda obras para O texto a seguir apresenta uma descrição mais
coro misto, sendo que algumas foram reunidas no pormenorizada de cada fase, utilizando-se trechos
Livro de Corais (1978), dentre as quais se destaca de canções como exemplos de cada uma delas.
Bacanal, obra para coro misto, composta com Algumas das análises foram contribuição do próprio
técnica mista, atonalismo e modalismo e, segundo o compositor, em entrevista recente (2008).
compositor “um certo serialismo
inconsciente”(RICHTER, 2000). De suas A. 1ª Fase
experiências com música eletrônica e eletroacústica
apenas uma obra envolve voz recitada e não canto Suplício Tantálico é uma canção que foi
em linha melódica, Meantime – Far away (1979) composta em 1949, mas que já faz parte da fase
foi composta utilizando voz modulada e tonal-atonal, uma vez que, como mencionado
improvisação no Sintetizador Lecaine, no Estúdio anteriormente, estas datas são apenas aproximadas.
Eletroacústico da McGill University. Com versos de Alceu Wamosy, Suplício Tantálico
é parte integrante do ciclo Coroa de Sonho.
Segundo Frederico Richter esta canção é pantonal,
III. AS FASES DA OBRA DE FREDERICO
começa com uma dissonância e a melodia evolui
RICHTER
em diversas outras dissonâncias, constituindo-se em
No artigo A new aesthetic derived from science modulações. Segundo Antenor Ferreira Corrêa
and technology: Chaos and Fractal (1993) (2005, p. 168), pantonalidade seria a tonalidade de
Frederico Richter divide sua obra em 4 fases. Cabe forma indireta, “engendrada pela percepção da
observar que o próprio compositor, em entrevista de audição dos fenômenos sonoros”. De fato, no
2009, afirmou que a divisão entre as fases não é Exemplo 1 pode-se perceber a ênfase que o
rígida, já que existem intersecções entre elas, e que compositor dá na terça menor Sol – Si enquanto a
as datas são aproximadas. As fases seriam as
voz intermediária faz cromatismo Mi – Ré – Dó
seguintes:
sustentada por um baixo em Fá , material este que
1. Fase tonal-atonal, de 1950 a 1965, da qual
será reapresentado no compasso 36.
fazem parte obras como Três cantos, com
versos de Casemiro de Abreu (1952) – para
canto e piano e Pequenas Peças Fáceis (1964).
2. Fase serial-atonal, de 1966 até 1979, da qual se
destacam Três Canções sobre uma Série (1969),
com versos de Manuel Bandeira e a atonal Som
(1971), com versos de Cecília Meireles.
3. Fase de música eletrônica e concreta, de 1979
até 1989. Chamada de Fase McGill e na qual
Richter compôs Sonhos e Fantasia (1980) e
Estudo Eletrônico (1980).
4. Fase de experiências com música fractal, de
1989 até 1993, da qual se salienta Monumenta Figura 1 - Suplício Tantálico (1949), compassos 1
Fractalis- Thomas (1991). a 11. ii
Com a concordância de Richter, pode-se afirmar Durante toda a peça têm-se a impressão de que
que de 1993 em diante existe uma 5ª fase que tonalidade é Ré menor, mas esta não é apresentada
poderia ser definida como tonal-livre e pós- de maneira clara em nenhum momento, o que fica
moderna, uma vez que as composições apresentam, ainda mais complexo quando a tonalidade de Lá
em geral, um centro tonal, mas não necessariamente menor parece encerrar a peça (Figura 2).
uma tonalidade pré-definida, como é o caso da
canção Inania Verba (2008), com versos de Olavo
Bilac. Esta ausência de uma tonalidade pré-
definida, contrastando com o centro tonal é o que
difere a primeira fase da atual.
Som (1971), com versos de Cecília Meireles. Esta
peça não apresenta barras de compasso e utiliza
ainda alguns recursos de técnicas expandidas, como
por exemplo a indicação com relação à última frase:
“Cantar para dentro do para dentro do piano para
vibrar as cordas.”

Figura 2 – Suplício Tantálico (1949), compassos C. 3ª e 4ª Fases


finais. A única canção escrita na 3ª fase composicional
Uma das canções que talvez melhor represente a de Richter é a peça Meantime – Far away (1979)
primeira fase composicional de Frederico Richter é composta durante seu pós-doutoramento na McGill
Amor Obscuro (1962), também com versos de University, no Canadá. Até o momento a partitura
Alceu Wamosy. Inicia-se em Ré menor e termina não pôde ser obtida, por isso não se entrará em
no V grau (Ex. 3) e utiliza-se de interessante ponte maiores detalhes aqui sobre essa fase. Da quarta
modulante para retornar ao Ré menor. fase composicional de Frederico Richter, período de
seus estudos com a teoria dos fractais e música
concreta, não há registro de nenhuma canção.

D. 5ª Fase
É somente a partir de 1995 que Richter recomeça
a compor canções e desde então tem se dedicado
bastante ao gênero, tendo composto mais de 100
canções sobre textos de poetas norte- e sul-
americanos, sobretudo brasileiros. Nesta quinta e
Figura 3 - Amor Obscuro (1962), compassos atual fase o tonalismo livre tem sido um
finais da seção central. procedimento bastante utilizado pelo compositor.
Na canção Inania Verba (2008) nota-se que a
B. 2ª Fase tonalidade está expressa na armadura de clave,
A segunda fase composicional de Richter tem diferentemente de grande parte das canções das
como destaque suas experiências com o fases anteriores, e que o compositor dedica-se mais
dodecafonismo, e o ciclo Três Canções sobre uma ao material rítmico, como podemos constatar na
Série (1969) merece ser citado como exemplo. As Figura 5.
canções, sobre poemas de Manuel Bandeira, são
Madrigal, A Estrela e O Anel de Vidro. Na Figura 4
nota-se a maneira através da qual o compositor
apresenta a série original na voz superior e
retrógrada na voz inferior, designadas no exemplo
sob a ótica da Teoria dos Conjuntos (STRAUS,
2000).
Figura 5 - Inania Verba (2008), compassos 1 a 3.
Edição do compositor.

IV. CONCLUSÃO
Por meio dos exemplos apresentados é possível
Figura 4 - Madrigal, (do ciclo Três Canções sobre perceber que várias técnicas composicionais
uma Série), compassos 1 e 2. Edição de Cláudio surgidas no século XX encontram-se presentes na
Thompson. obra vocal de Frederico Richter, a qual consiste em
Neste período Frederico Richter compôs também vasto acervo para a canção de câmara brasileira. O
algumas obras atonais, dentre as quais destaca-se estudo das canções compostas por Richter
evidenciam ainda em sua obra uma importante
fonte de pesquisa musicológica para o país,
colaborando para ampliar a visibilidade do Rio
Grande do Sul no cenário da música erudita
nacional, e assim amenizar a imagem periférica que
esta, assim como outras regiões do país, ainda
ocupam na historiografia brasileira. Este artigo é
parte de uma pesquisa ainda em andamento
desenvolvida dentro do Programa de Pós-graduação
em Música da Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC). Cabe ressaltar que os resultados
apresentados aqui são preliminares, e que
posteriormente análises mais aprofundadas poderão
levar a ulteriores conclusões.

1. REFERÊNCIAS
CORRÊA, Antenor Ferreira. Polinômio: definição
de alguns termos relativos aos procedimentos
harmônicos pós-tonais. Opus – Revista
Eletrônica da ANPPOM, n. 11, dez. 2005.
RICHTER, Frederico. A new aesthetic derived from
science and technology: Chaos and Fractal.
Montreal/Canadá, 1993. Não publicado.
_________________. Minha obra, vivências e
influências. Palestra. Academia Brasileira de
Música, Rio de Janeiro/ RJ, 2000. Não
Publicado.
_________________. Entrevista concedida a Carla
Domingues Batista, por e-mail, 2008.
_________________ . Entrevista concedida a Carla
Domingues Batista, por e-mail, 2009.
STRAUS, Joseph N. Introduction to Post-tonal
Theory. Prentice-Hall, Inc. New Jersey, 2000.

Partituras
RICHTER, Frederico. A Coroa de Sonho – Ciclo de
Canções para voz solista, piano e coro misto.
Goldberg Edições Musicais, Porto Alegre, 1997.
i
Extraídos de texto não publicado, apresentado pelo compositor em palestra na Academia Brasileira de Música, no Rio
de Janeiro, em 2000.

ii
Os exemplos 1 a 4 foram extraídos da edição do ciclo de canções Coroa de Sonho de 1997 (Edições Goldberg).