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Não existe pior prisão do que uma mente


fechada
Por Provocações Filosóficas - 16/09/2017

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Carl Jung disse certa vez que “Todos nós nascemos originais e morremos cópias”. Ao analisar a
frase de Jung à luz da contemporaneidade, poderíamos encontrar um enorme problema, uma vez
que vivemos em um mundo regido sumariamente pela liberdade. Isto é, o fundamento maior da
nossa sociedade é a liberdade, que se ramifica em diversos aspectos, desde o econômico até o
comportamental. Entretanto, se olharmos com profundidade, perceberemos que essa estrutura de
mundo “livre” existe tão somente no plano teórico e, assim, somos só reprodutores da ordem
vigente ou simplesmente cópias, como argumenta Jung.

Obviamente, a nossa cosmovisão sofre influências externas, esse é um processo natural. Da


mesma maneira que a vida em sociedade necessita de regras a fim de manter o convívio social
dentro de certos limites éticos. Sendo assim, pensar no exercício da liberdade como algo ilimitado
é impossível, já que todas as coisas possuem o seu contraponto e limitações. Apesar disso, a
existência de pontos limitadores não implica a inexistência da liberdade e o condicionamento
irrestrito a valores passados por uma ordem “superior”.

Todavia, é isso que tem acontecido, temos sido escravizados ou, lembrando o João Neto Pitta,
“colonizados pelo pensamento alheio”. E pior, por uma ideologia extremamente nociva para nós
enquanto seres humanos. Fomos reduzidos a estatística, na qual somos divididos entres os
condicionados e os condicionáveis. Ou seja, não existe nessa estrutura a concepção de um ser
livre, que exerce a capacidade de raciocínio e afeto para discernir sobre o que quer e deseja.
Todos são domesticáveis em potencial.

Esse controle é feito por meio da conversão à sociedade de consumo e seus valores fundamentais,
que reduz tudo a um valor mercadológico precário, rotativo e obsoleto. A mídia com todos os seus
tentáculos está a serviço do grande capital, que não visa outra coisa a não ser a conversão de
mais pessoas, contemplando o deus consumo em seu templo maior: os shoppings centers. Lugar
de alegria, satisfação, preenchimento de vazios e liberdade irrestrita, pelo menos teoricamente ou
midiaticamente. Mas, em um mundo regido também pelas aparências, pelo espetáculo, o
importante não é o que é, e sim, o que aparenta ser, sobretudo, aos olhos dos outros.

Aliás, nesse esquema, não basta ter, é necessário parecer que tenha, expor, mostrar, iludir,
ganhar aplausos, tapinhas nas costas, sorrisos falsos e olhar invejosos. Em outras palavras, é
preciso confessar ao mundo que você é um vencedor, que é um bom filho de “Deus”, que é
recompensado por seguir os seus preceitos, ir ao seu templo e contemplá-lo 24 horas por dia. E
existem ferramentas muito úteis para isso, as redes sociais que o digam.

Toda essa teatralidade da vida cotidiana, montada com cortinas que nunca se fecham, é
apresentada como verdade e nós — com nossa psique altamente fragilizada — a compramos com
extrema facilidade. Para os mais duros na queda, nada que mil repetições não sejam capazes de
construir, afinal, como disse Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha Nazista:
“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

Apesar disso, a grande maioria de nós não está revoltada com a sua condição, pelo contrário,
aceitamos o jugo de bom grado. Ou pior, o buscamos. É claro que não possuímos o domínio das
relações de força na sociedade, não controlamos as leis, o sistema jurídico, tampouco, a mídia.
Somos “apenas” espectadores vorazes de uma batalha desigual e opressora. Entretanto, será que
não há o que ser feito? Será que não existem alguns pontos de luz que tentam nos iluminar? Eu
sei o quanto é difícil se libertar e quão alto é o preço que se paga pela liberdade. Mas de que
adianta ter o conforto de uma vida “segura”, se é por meio dessa “segurança” que a servidão e os
males decorrentes desta se tornam possíveis?

Como disse Rosa Luxemburgo: “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o
prendem”. É preciso, então, se movimentar, correr, gesticular, falar, até que o som das correntes
seja insuportável e nós consigamos despertar de um sonho ridículo que apresenta um espetáculo
celestial em meio a um inferno cercado de grades manchadas com sangue, suor e sofrimento. Se
uma mente que se abre jamais volta ao tamanho original, a que se liberta jamais aceita retornar à
prisão; porque por mais que as condições sejam adversas, o princípio da autonomia está dentro de
nós, quando decidimos romper o medo de abrir os olhos e passamos a enxergar. Sendo assim, o
cárcere não é criado do lado de fora, é criado do lado de dentro, já que a chave que prende é a
mesma que liberta, pois não existe pior prisão do que uma mente fechada.

Por Erick Morais

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