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Artilharia de Campanha: principais

tendências mundiais e sistemas de


armas de tubo em uso

Cezar Carriel Benetti,


Major de artilharia; Aluno do 2º ano do
Curso de Comando e Estado-Maior da
ECEME; Mestre em Operações Militares
(EsAO) e especialista em Política e
Estratégia (ADESG) e Ciência Política e
Estratégia (AEDB).
benetti92@bol.com.br

Neste artigo serão abordadas as principais tendências mundiais no que


diz respeito ao apoio de fogo prestado pela artilharia de campanha de tubo,
bem como serão apresentados alguns sistemas de armas operacionais em
outros exércitos a fim de respaldar as propostas de alterações para o
armamento da artilharia de campanha brasileira.
Quanto ás mencionadas tendências, faz necessário destacar que serão
colhidos ensinamentos de relatos sobre conflitos recentes, além de explorar as
demandas operacionais dos principais exércitos ocidentais. Cabe uma análise
crítica a fim de verificar a aplicabilidade dos conceitos extraídos á realidade do
ambiente operacional vislumbrado pelo Exército Brasileiro, às ameaças e
também ao cenário político e econômico da nação.
No que tange ao armamento, há que se salientar que não há pretensão
de se estudar todo o material de artilharia empregado na atualidade, mas uma
pequena amostra, selecionada com critério, a fim de servir como referência do
que há de moderno na atualidade.
Desta forma o presente artigo poderá fornecer um panorama do atual
estágio da artilharia de campanha empregado em conflitos contemporâneos
bem como de sua evolução em um futuro próximo.

1. PRINCIPAIS TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA ARTILHARIA DE CAMPANHA

O IV Seminário do Sistema Operacional Apoio de Fogo, ocorrido na


Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em 2006, aponta como sendo
as principais tendências mundiais para as forças armadas e, em particular,
para a artilharia de campanha, os seguintes aspectos:

− Grandes unidades leves, com maior mobilidade tática e estratégica;


− Consolidação dos calibres 105 mm e 155 mm como padrão, mesmo por
países não-ocidentais;
− Preponderância do calibre 155 mm perante o 105 mm, devido á maior
tecnologia da munição, maior letalidade e alcance.
− Constante aperfeiçoamento da munição e material de calibre 155, com
“base bleed” (BB), munição assistida e guiada1;
− Aumento dos tubos, com peças de até 52 calibres2;
− Utilização de Obuseiros Autopropulsados Sobre Rodas;
− Aumento da automatização nas tarefas e ampliação das cadências de
tiro; e
− Busca por modernização dos subsistemas de armas, particularmente no
aumento do alcance.

1
Munição de base bleed tem emite gases pelo culote, reduzindo o arrasto. Munição assistida possui uma carga extra
de propelente na base da granada que é acionada durante a trajetória no espaço. Munição guiada possui sistema que
lhe permite alterar sua trajetória mesmo após lançada.

2
O conceito do número de calibres é definido pelo quociente entre o comprimento do tubo da peça e o seu calibre. O
Ob 155 mm M 114 AR, por exemplo, tem um tubo de 3,78 m ou 3.780 mm, que dividido por 155 mm resulta 24. Este
armamento tem, portanto, 24 calibres. Tal conceito avulta de importância atualmente, visto que está relacionado com a
dimensão relativa do tubo, fato que definirá a possibilidade ou não do uso de munições mais modernas. Em última
analise o número de calibres tem relação direta com o alcance e letalidade do armamento.
As tendências supracitadas apontam o rumo que a artilharia dos
exércitos mais avançados está tomando. Serão apresentadas considerações a
respeito de tais aspectos.

1.1 Grandes Unidades Leves e emprego de obuseiros autopropulsados


sobre rodas

Os conflitos modernos têm apresentado uma feição totalmente inédita


aos planejadores militares. Na constante de busca de adequar os meios de
combate aos novos cenários ou mesmo anteciparem-se às novas realidades
antigas estruturas organizacionais incapazes de atender às demandas
presentes são modificadas. Nesse contexto o exército americano criou no início
do século XXI a brigada “Striker”. Essa grande unidade, que ainda está
sofrendo modificações tanto em sua doutrina quanto na dotação do material, é
provida de equipamento tecnologicamente avançado. Seus meios de combate
são leves e as viaturas sobre rodas. Conforme reporta GOURE (2002) “a
criação da brigada Striker causou um choque em todo o exército, ao substituir
viaturas sobre lagartas por rodas”. O autor ainda aponta como aspectos
positivos o fato de a GU “mover-se tão rapidamente quanto às unidades sobre
lagartas, consumir menos combustível, empregar menor efetivo e poder ser
aerotransportada”.
O Major General Virgil Packett, comandante da Força de Estabilização
da OTAN na Bósnia, comentou em um artigo de 2004 que:

[...] Bósnia, Kosovo e as Op em ambientes urbanos no Iraque,


recentemente, demonstraram a limitação de poderosas armas
blindadas sobre lagartas nesse ambiente operacional: excesso
de peso e de consumo de combustível, grande silhueta e
incompatibilidade com a mobilidade estratégica.
n A necessidade de blindados mais leves, ágeis, com
menor silhueta e consumo, em condições de serem
rapidamente mobilizados, por navio, aeronave, trem ou mesmo
rodando em estradas, de uma parte a outra de vastos
territórios, tem levado importantes exércitos no mundo a
incrementar o emprego de blindados sobre rodas.”
Cabe destacar que os exércitos não têm aberto mão de suas unidades
blindadas, contudo têm transformado algumas de suas tropas em unidades
mecanizadas com maior mobilidade, adequadas a determinados ambientes e
situações operacionais.

1.2 Aumento do alcance, desenvolvimento de munição especial e


aumento do número de calibres

Segundo TIBONI (2002), “as novas gerações de munição de artilharia


são capazes de reunir a letalidade de inúmeras baterias de obuses em uma
única peça”. Conforme o mesmo autor há, nos Estados Unidos, cerca de doze
projetos de desenvolvimento de munições inteligentes, quer com guiamento por
GPS ou por sistemas inerciais, quer com alcances estendidos. Na Europa o
cenário se repete.
Inúmeras indústrias oficialmente atuam no segmento de produção e
desenvolvimento de munições especiais de artilharia. Dentre elas citam-se as
seguintes empresas: Bofors Defence (Suécia); Israel Military Industries (Israel);
France's GIAT Industries (França); Raytheon (Estados Unidos); e Germany's
Rheinmetall DeTec AG (Alemanha).
Outros aspectos, tais quais a necessidade de reduzir efeitos colaterais,
aumentando a precisão da artilharia de campanha; o aumento de combates em
áreas edificadas e cidades; e a necessidade de furtar-se dos meios de busca
de alvos, obtendo a precisão na primeira rajada, apontam para o
desenvolvimento de munições com maior tecnologia a fim de que os exércitos
contem com um apoio de fogo adequado.
O uso desse tipo de munição esbarra em uma necessidade técnica: o
tubo da peça de artilharia deve comportar a queima do propelente especial, ou
seja, deve ser longo o suficiente para permitir o emprego de munição “base
bleed” ou assistida. Assim atualmente são comuns peças de 39, 45 e até 52
calibres.
1.2 Consolidação do calibre 155 mm

Os avanços tecnológicos consolidaram, mesmo nos exércitos não-


ocidentais, o calibre 105 mm e 155 mm como o padrão para a artilharia de
campanha.
Em meados do século XX havia uma definição bem clara que o material
de 105 mm prestaria o apoio cerrado às unidades de manobra e os obuses de
155 mm forneceriam o fogo adicional. Com a evolução da doutrina esse
conceito foi tornando-se difuso. A maior letalidade do 155 mm preponderou,
levando-o ao apoio cerrado.
Um aspecto relevante sobre a questão do calibre é que “a munição de
105 mm não foi alvo de grandes investimentos a nível internacional, devido a
sua ineficácia contra blindados.” (HALLWASS, 1990, p. 84)
O debate sobre prós e contras de cada calibre ainda persiste, mas como
tendência nota-se que o calibre 155 mm passou a ser o padrão tanto para o
apoio cerrado quanto para o reforço dos fogos. O 105 mm continua a ser
empregado para o apoio à unidades com características específicas, tais como
pára-quedistas, aeromóveis e, no Brasil, de selva.
Observa-se que a munição de 155 mm é a que tem recebido o maior
número de incrementos tecnológicos, e a que mais se desenvolve tornando-se
a base do apoio de fogo na maioria dos exércitos.

1.4 Automatização de tarefas

A necessidade de aumentar a cadência de tiro dos obuses levou à


automatização das tarefas. O carregamento de manual de um obuseiro 155
mm M 114 com a granada padrão de 42 Kg exige ao menos três homens e a
peça tem uma cadência de cerca de 1 tiro por minuto. Com o carregamento
automático a cadência aumenta para até 8 tiros por minuto. Há um ganho na
letalidade, visto que no mesmo tempo um único obuseiro despeja sobre o alvo
a mesma quantidade de munição de 8 peças, além de aumentar a
sobrevivência em combate, ao ser possível neutralizar o alvo e sair de posição
em menos tempo.
A empresa espanhola General Dynamics, fabricante do obuseiro de 155
mm Santa Bárbara, propõe a modernização de peças por meio de um
acessório denominado FIRS – Fully Integrated Ramming System (Sistema
Plenamente Integrado de Carregamento), o que, segundo a companhia,
aumentaria a cadência de tiro de um obuseiro autopropulsado M 109 para 9
tiros por minuto e dos obuseiros auto rebocados para 10 tiros por minuto,
“provendo uma solução efetiva para artilharia de campanha, aumentando a
cadência de tiro e melhorando dramaticamente a performance e a
sobrevivência no campo de batalha.” (FIRS, 2007)

2 SISTEMAS DE ARTILHARIA DE CAMPANHA EM USO

Na presente seção serão explicitados os principais sistemas de armas


de artilharia de campanha de tubo empregados em outros exércitos ou em
desenvolvimento. Foram selecionados a fim de demonstrar o que de avançado
existe atualmente em operação ou desenvolvimento. Fica evidente que se trata
de uma amostra, cuja finalidade é apontar as principais tendências no avanço
constante dos meios de apoio de fogo.

2.1 Obuseiros auto rebocados

Os obuseiros auto rebocados são, ainda, uma opção de muitos


exércitos. Conforme o emprego a que se destinam, são os mais adequados.
Algumas versões são dotadas de avanços tecnológicos que facilitam a pontaria
bem como a entrada e saída de posição.

2.1.1 Obuseiro 155 mm M 198 AR

O M 198 é o obuseiro auto rebocado de 155 mm padrão do exército


americano, que, juntamente com os “Marines” possuem 1293 peças em
serviço.
O alcance máximo desse material é de 18.100 m com a munição
comum, chegando aos 30.000 m com munição assistida. O M 198 está sendo
substituído gradativamente pelo M 777, cujas características serão apontadas
em seguida.
Cabe ressaltar que na América Latina, o Equador conta com 12 peças
do M 198 em serviço.

Obuseiro 155 mm M 198 AR


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.1.2 Obuseiro 155 mm G5 AR

A origem do G5 é sul-africana, fabricado pela empresa Denel Ordnance.


Com 13.750 Kg, este obuseiro de 155 mm opera nos exércitos da África do Sul,
com 72 peças; do Irã, com 100 peças; da Malásia, com 22 peças e do Qatar,
com 12 peças.
O destaque é o seu alcance de 32.000 m, com a munição comum;
41.000 m, com munição de base dupla e chegando aos 52.500 m com a
munição assistida.

Obuseiro 155 mm G 5 AR
Fonte: Arquivo fotográfico do autor
2.1.3 Obuseiro 155 mm M 777 AR

O obuseiro M 777 foi projetado e é fabricado pela empresa inglesa BAE


Systems, associada à RO Defense. Seu desenvolvimento decorre da
necessidade de as forças norte-americanas substituírem os obuses M 198 por
uma versão mais moderna e leve. A proposta vitoriosa foi a do M 777, que vem
entrando em operação com sucesso.
Seu peso de apenas 4.281 Kg é um diferencial considerável em relação
a outros materiais congêneres. Tem um alcance máximo de 24.000 m com a
munição comum, chegando a 30.000 com munição assistida.
Atualmente está operacional na Itália, que conta com 32 peças, na
Inglaterra, que possui 70 obuses e nos Estados Unidos, que têm 273 peças no
exército e 377 com os “Marines”.

Obuseiro 155 mm M 777 AR


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.1.4 Obuseiro 155 mm Santa Barbara UPA

O Santa Barbara é um obuseiro espanhol, operacional naquele exército,


de calibre 155 mm e com um tubo de 52 calibres.
Com 13.500 Kg, tem um alcance máximo de 31.700 m, chegando a
41.000 com munição assistida.
Destaca-se sua unidade propulsora auxiliar (UPA) que permite
deslocamentos a 18 Km/h, facilitando a entrada e saída de posição, mesmo
com seu peso elevado. Equipamentos como o giroscópio e sistema de
carregamento automático possibilitam rapidez na pontaria e elevada cadência
de tiro.

Obuseiro 155 mm Santa Barbara UPA


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.2 Obuseiros autopropulsados sobre lagartas

O desenvolvimento dos obuseiros autopropulsados sobre lagartas teve


seu início na 2ª Guerra Mundial. A elevada mobilidade dada à artilharia pelos
AP melhorou muito o apoio de fogo às operações de movimento. A proteção
blindada é outro aspecto positivo desse tipo de obuseiro. Pesa contra eles o
elevado consumo de combustível e a pouca capacidade de transportar
munição.

2.2.1 Obuseiro 155 mm M 109 AP A6 Paladin

O Paladin é a versão mais moderna do obuseiro M 109, sendo da série


A6, o que significa que é o sétimo aperfeiçoamento deste material. Sua
eficiência é respaldada pelo emprego nos recentes conflitos no Oriente Médio,
onde proveu um apoio de fogo adequado sob condições adversas.
Dentre as tecnologias incorporadas a este material, destacam-se o
automatismo das operações e o uso de giroscópios e de sistema de
posicionamento global (GPS).
O alcance máximo do Paladin é de 30.000 m, podendo utilizar todas as
munições tecnologicamente avançadas, tais quais Coperhead e Excalibur.3,
chegando, com munição assistida ao alcance de 40.000 m.
Os Estados Unidos possuem 2.568 Obuses M 109 em operação, dos
quais cerca de 40% são da série A6.

Obuseiro 155 mm M 109 AP A6


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.2.2 Obuseiro 155 mm PzH 2000 AP

O PzH 2000 é um obuseiro autopropulsado de 155 mm, fabricado pela


companhia alemã Krauss-Maffei Wegmann GmbH and Co Kg. Com um tubo de
52 calibres, pesa 55.300 Kg, sendo adotado pelo exército alemão, que conta
com 185 peças; pela Itália, que opera 70 obuseiros e ainda por Grácia e
Holanda, com 24 e 57 bocas de fogo, respectivamente.
O alcance máximo é de 39.600 m, sendo dotado de sistemas de
navegação inercial e de carregamento automático.

Obuseiro 155 mm PzH 2000 AP


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

3
Copperhead é uma munição guiada a laser pelo observador que “ilumina” o alvo. Excalibur é uma munição fabricada pela empresa
Raytheon e possui guiamento por GPS, que corrige a trajetória. No Ob 155 M109 A6 a munição Excalibur tem alcance de 40.000m.
2.2.3 Obuseiro 155 mm AS 90 AP

O exército inglês optou por desenvolver seu próprio autopropulsado,


adotando o AS 90 como material padrão. Com calibre de 155 mm, há duas
versões para o tubo, com 39 ou 52 calibres. O alcance máximo com munição
comum, na versão de 39 calibres, é de 24.700 m. Com o tubo de 52 calibres o
alcance passa para 40.000 m

Obuseiro 155 mm AS 90 AP
Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.3 Obuseiros autopropulsados sobre rodas

Os autopropulsados sobre rodas são uma tendência recente da


artilharia. Conseguem aliar vantagens dos autopropulsados sobre lagartas a
maior mobilidade estratégica. Não tem, contudo, a mesma mobilidade tática em
terrenos acidentados.

2.3.1 Obuseiro 155 mm G6 AP

O G6 é uma evolução do obuseiro G5, anteriormente mostrado. A


empresa sul-africana Denel baseou-se no G5 para desenvolver um
autopropulsado sobre rodas, de baixo peso (22 toneladas).
Com o tubo de 45 calibres, opera nos exércitos da própria África do Sul,
com 43 obuseiros, de Omã e dos Emirados Árabes, com 24 e 78 peças,
respectivamente.
Tem capacidade de transportar 50 tiros completos e seu alcance
máximo é de 30.000 m com munição comum, 39.000, com munição de base
dupla e 50.000 com a munição assistida. No dia 11 de abril de 2006, uma
versão experimental desse obuseiro, dotado de um tubo de 52 calibres,
realizou um disparo que atingiu o maior alcance já obtido pela artilharia de
tubo, com impressionantes 75.000 m.

Obuseiro 155 mm AP G6
Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.3.2 Obuseiro 155 mm Caesar AP

O Caesar é um protótipo desenvolvido pela francesa GIAT. Há 5 desses


obuseiros em operação no exército francês desde 2003. O material foi
aprovado e o estado-maior já encomendou mais um lote de 72 peças, cujo
fornecimento está previsto para ocorrer a partir de 2008.
Com peso de apenas 17 toneladas e um tubo de 52 calibres, tem um
alcance máximo de 42.000 m.

Obuseiro 155 mm Caesar AP


Fonte: Arquivo fotográfico do autor
2.3.3 Obuseiro 155 mm FH 77 Bofors AP

O FH 77 é um protótipo, ainda não operacional, projetado pela


tradicional empresa sueca Bofors. Será dotado de um tubo de 52 calibres,
tendo alcance máximo de 40.000 m e um peso de 30 toneladas.

Obuseiro 155 mm FH 77 AP
Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.3.4 Obuseiro 155 mm LW SP

Com a evolução da doutrina no exército americano, criou-se a brigada


“Strike”, dotada de meios de combate potentes, modernos, leves e sobre rodas.
Assim surgiu a demanda de um novo obuseiro, com características similares. A
empresa inglesa BAE Systems, associada à RO Defense propôs um projeto
que poderá ser adotado, de uma peça autopropulsada sobre rodas, provida de
tubo de 52 ou 39 calibres, cujo alcance máximo será de 40.000 m e o peso de
cerca de 20 toneladas, tudo baseado no chassi do carro de combate Piranha.

Obuseiro 155 mm LW SP
Fonte: Arquivo fotográfico do autor
2.4 Modernizações

As modernizações foram soluções intermediárias dos exércitos que


necessitam aperfeiçoar seus meios de apoio de fogo, contudo têm grandes
excedentes de determinado material, não dispõem dos recursos necessários à
aquisição de obuseiros de última geração, ou mesmo não têm indústrias
capacitadas para desenvolvê-los. Serão apresentados alguns exemplos bem-
sucedidos desse processo, que podem ter valia para o Exército Brasileiro.

2.4.1 Modernização para Ob 105 mm M 101 AR

A RDM Tec, subsidiária da BAE/RO, empresa inglesa, realiza com


sucesso a modernização dos Ob 105 mm M 101 AR, por meio da troca do tubo
e de mais alguns componentes. Dessa forma, o tubo original, de 23 calibres, é
substituído por um de 33 calibres, maior e com um freio-de-boca.4
Esta versão, operacional no Chile e no Canadá, que conta com 96
peças, possibilita que o alcance máximo do veterano M 101 passe de 11.500 m
para 15.200 m, com a munição comum. O maior ganho, contudo, é a
possibilidade de utilizar munição especial. Dessa forma o alcance máximo com
a munição assistida passa a ser de 19.200 m. Há viabilidade, segundo a
empresa, de empregar tubos de 30 ou 37 calibres.
A francesa GIAT também desenvolve este tipo de modernização, com
um tubo de 30 calibres. Sua versão tem características técnicas semelhantes à
da RDM Tec. Já opera na Tailândia, que tem 285 obuses aperfeiçoados pela
GIAT, e nas Filipinas, com um lote inicial de 12 peças. Cabe destacar que essa
versão emprega o tubo LG1 Mk II Light Gun, que é o mesmo de outros obuses
da GIAT em operação na Bélgica, Canadá, Indonésia, Singapura e Tailândia.

4
Freio de boca é um dispositivo na extremidade do tubo destinado a possibilitar maior dispersão dos gases e do clarão durante os
disparos dos obuseiros.
Obuseiro 105 mm modernizado pela GIAT
Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2.4.2 MOBAT

O MOBAT (Mobily Artillery) é um projeto interessante, levado a cabo


pela inglesa RDM Tec, que transforma o calejado M 101 em uma versão
revitalizada, com maior alcance e autopropulsada sobre rodas.
As características técnicas são similares às anteriormente apresentadas.
Há troca do tubo por um de 33 calibres e o ganho no alcance (19.200 m com
munição assistida). O diferencial é que o obuseiro é montado sobre o chassi de
uma viatura 4 x 4, ficando com cerca de 10 toneladas de peso (conforme a
viatura) e transportando 40 tiros. Esta versão opera com sucesso na Jordânia.

Obuseiro 105 mm MOBAT AP


Fonte: Arquivo fotográfico do autor
2.4.4 Modernização para Ob 155 mm M 114 AR

Como para o M 101, há modernizações para os obuses 155 mm M 114


AR. A RDM Tec propõe uma alteração com troca do tubo de 25 para 39
calibres. Dessa forma é possível o emprego das munições especiais e o
alcance passa dos 30.000 m. Esta versão da RDM Tec é operacional na
Noruega (48 obuseiros), Dinamarca (96 obuseiros), e Holanda (82 obuseiros).

Obuseiro 155 mm modernizado pela GIAT


Fonte: Arquivo fotográfico do autor

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se verificar que as peças de artilharia mais modernas em operação


ou em desenvolvimento reúnem certas características comuns, tais como:
alcance máximo de cerca de 30 Km; tubos com mais de 30 calibres,
possibilitando o uso de munições especiais; automatização das tarefas;
agilidade para entrar e sair em posição, aumento da cadência de tiro e
amplitude do setor de tiro.
Os quadros abaixo apresentam um resumo de alguns aspectos técnicos
médios dos materiais de artilharia apresentados, comparados com os
obuseiros de 155 mm em operação no Exército Brasileiro.
50000
40000
30000
Alc Max Mun
20000
Esp
10000 Alc Max Mun
0 Comum

15 d..

.
d.
M ...

M ...
O dia

ia
5

5
éd
15

é
b

b
O

Quadro 1 – Comparativo de alcance máximo elaborado pelo autor.

Nr de Calibres
60
40
20
0
Ob 155
Média
M dosMédia
Ob dos Ob
114 AR AR AP
apresentados
apresentados

Quadro 2 – Comparativo de Nr de calibres elaborado pelo autor

Cadência de Tiro

8
6
4
2
0
AR R

AP 3
..

..
15 Ob 4 A

A
a.

a.
AP
O do s 1 1

do 09
M

b
O
1
éd 5 5

s
1

5
b
ia

ia
O

éd
b
M

Quadro 3 – Comparativo de cadência de tiros por minuto elaborado pelo autor.


Tais aspectos apontam para o que deve buscar a artilharia brasileira,
respeitadas as peculiaridades operacionais do AOC e do emprego dos
escalões da Força Terrestre. Fica nítida a grande defasagem existente na
atualidade quando se compara os meios de apoio de fogo a disposição do
Exército Brasileiro com outros meios empregados. Há uma acintosa
vulnerabilidade que pode ter conseqüências desastrosas.
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