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DIRETOR GERAL Frederic Zoghaib Kachar

DIRETOR DE AUDIÊNCIA Luciano Touguinha de Castro


DIRETORA DE MERCADO ANUNCIANTE Virginia Any

E dição 995 I 17 de julho de 2017

Diretor de Redação: João Gabriel de Lima epocadir@edglobo.com.br

PRIMEIRO PLANO
Editor-Chefe: Diego Escosteguy
46 Diretor de Arte Multiplataforma: Alexandre Lucas
OBSERVADOR DA INTOLERÂNCIA . . . . Editores Executivos: Alexandre Mansur, Guilherme Evelin,
Leandro Loyola, Marcos Coronato
Se o objetivo do debate é só vencer Editores-Colunistas: Bruno Astuto, Murilo Ramos
6
DA REDAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o debate, a democracia já perdeu Editores: Bruno Ferrari, Flávia Tavares, Flávia Yuri Oshima,
Liuca Yonaha, Marcela Buscato, Marcelo Moura
Editores Assistentes: Isabela Kiesel, Bruno Calixto
9 48
PERSONAGEM DA SEMANA . . . . . . . . . . CENAS BRASILEIRAS . . . . . . . . . . . . . . . . . Repórteres Especiais: Aline Ribeiro, Cristiane Segatto
Colunistas: Eugênio Bucci, Guilherme Fiuza, Gustavo Cerbasi, Helio Gurovitz,
Raquel Dogde, a nova A volta da violência frustra a esperança Ivan Martins, Jairo Bouer, Marcio Atalla, Ruth de Aquino, Walcyr Carrasco
Repórteres: Gabriela Varella, Luís Lima, Nina Finco, Paula Soprana,
comandante da Lava Jato de uma vida melhor no Morro Rafael Ciscati, Rodrigo Capelo, Ruan de Sousa Gabriel, Teresa Perosa
da Providência, no Rio de Janeiro Vídeo: Pedro Schimidt; Web Designer: Giovana Tarakdjian;
14 Consultora de Marketing: Cássia Christe
A SEMANA EM NOTAS . . . . . . . . . . . . . . . . Estagiários: Anaís Motta, Daniela Simões, Daniele Amorim, Giovanna Wolf Tadini,
52
CARTA DA COLÔMBIA . . . . . . . . . . . . . . . . Guilherme Caetano, Nelson Niero Neto
SUCURSAIS l RIO DE JANEIRO: epocasuc_rj@edglobo.com.br
16
A SEMANA EM FRASES . . . . . . . . . . . . . . . Camponeses colombianos se preparam Rua Marquês de Pombal, 25 – 5o andar – Cidade Nova – Rio de Janeiro – CEP 20.230-240
Editor: Sérgio Garcia;
para abandonar o cultivo de coca Repórteres: Acyr Méra Júnior, Guilherme Scarpa, Marcelo Bortoloti;
18
EUGÊNIO BUCCI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Repórteres Especiais: Hudson Corrêa, Samantha Lima;
l BRASÍLIA: epocasuc_bsb@edglobo.com.br
Uma namoradinha bandida SRTVS 701 – Centro Empresarial Assis Chateaubriand – Bloco 2 –
Salas 701/716 – Asa Sul
para um Brasil despedaçado
EXPRESSO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
IDEIAS Diretor: Luiz Alberto Weber; Repórteres: Aguirre Talento, Marcelo Rocha,
Mateus Coutinho, Nonato Viegas, Patrik Camporez;
FOTOGRAFIA l Editor: André Sarmento;
Assistente: Sidinei Lopes
Temer vai pressionar deputados para votarem 60
OBSERVADOR DA AMÉRICA LATINA . . . DESIGN E INFOGRAFIA l Editor: Daniel Pastori;
Editora Assistente: Aline Chica;
contra a possibilidade de ele ser investigado O que esperar das eleições quando Designers: Cristina Ayumi Kashima, Daniel Graf, Renato Tanigawa;
Estagiária: Thais Solano Valério
22
os eleitores estão com ódio dos políticos? Editor de Infografia: Marco Vergotti
SUA OPINIÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . SECRETARIA EDITORIAL l Coordenador: Marco Antonio Rangel
REVISÃOl Coordenadora:AracidosReis Galvão de França; Revisores: Alice Rejaili Augusto,

24
HELIO GUROVITZ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 Elizabeth Tasiro, Silvana Marli de Souza Fernandes, Verginia Helena Costa Rodrigues
NOSSA OPINIÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . A enigmática morte do procurador argentino CARTAS À REDAÇÃO l epoca@edglobo.com.br;
Assistente Executiva: Jaqueline Damasceno;
Alberto Nisman, que investigava o maior ESTRATÉGIA DE CONTEÚDO DIGITAL l Gerente: Silvia Balieiro;
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO l Diretor de TI: Rodrigo Gosling;
atentado terrorista da América Latina ESTRATÉGIA DIGITAL l Coordenador: Santiago Carrilho;
Desenvolvedores: Fabio Alessandro Marciano, Fernando Raatz, Fred Campos,

TEMPO OBSERVADOR DA ECONOMIA . . . . . . . . 64


Leandro Paixão, Murilo Amendola, Thiago Previero, William Antunes;
Automação Editorial: Ewerton Paes, Ronaldo Nascimento

A reforma trabalhista embute riscos, MERCADO ANUNCIANTE l Segmentos – Financeiro, Imobiliário, TI, Comércio e Varejo
l Diretor de negócios multiplataforma: Emiliano Morad Hansenn; Gerente de negócios
TEATRO DA POLÍTICA mas é legítima e democrática multiplataforma: Ciro Hashimoto; Executivos multiplataforma: Cristiane Paggi, Milton Luiz
26
A sentença que macula a história de Lula . . . Abrantes, Roberto Loz Junior, Christian Lopes Hamburg; Segmentos – Moda, Beleza e Higiene
Pessoal l Diretora de negócios multiplataforma: Selma Souto; Executivas multiplataforma:
68
ENTREVISTA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Eliana Lima Fagundes, Giovana Sellan Perez, Selma Teixeira da Costa, Soraya Mazerino Sobral;
Segmentos – Casa, Construção, Alimentos e Bebidas, Higiene Doméstica e Saúde l
Os outros casos em O senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES), Diretora de negócios multiplataforma: Luciana Menezes; Executivos multiplataforma:
Fatima Ottaviani, Paula Santos; Segmentos – Mobilidade, Serviços Públicos e Sociais,
30
que Lula pode ser condenado . . . . . . . . . . . relator da reforma trabalhista Agro e Indústria l Diretor de negócios multiplataforma: Renato Augusto Cassis Siniscalco;
Executivos multiplataforma: Diego Fabiano, Cristiane Soares Nogueira, Jessica de Carvalho
Dias, João Carlos Meyer, Priscila Ferreira da Silva; l Segmentos – Educação, Cultura, Lazer,
Esporte, Turismo, Mídia, Telecom e Outros l Diretora de negócios multiplataforma:
Com dinheiro público e ameaças, Sandra Regina de Melo Pepe; Executivos multiplataforma: Ana Silvia Costa, Lilian de Marche
38
Temer vence na CCJ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Noffs, Dominique Petroni de Freitas; l Unidades de Negócio – Rio de Janeiro – Gerente

ENTREVISTA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
VIDA multiplataforma: Rogerio Pereira Ponce de Leon; Executivos multiplataforma: Daniela
Nunes Lopes Chahim, Juliane Ribeiro Silva, Maria Cristina Machado, Pedro Paulo Rios Vieira
dos Santos; l Unidades de Negócio – Brasília – Gerente multiplataforma: Barbara Costa
Freitas Silva; Executivos multiplataforma: Camilla Amaral da Silva, Jorge Bicalho Felix Junior;
l Escritórios Regionais l Gerente multiplataforma: Larissa Ortiz; Executiva multiplataforma:
O filósofo Ruy Fausto propõe MENTE ABERTA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72 Babila Garcia Chagas Arantes; Gerente de Eventos: Daniela Valente; Opec Off-Line:
Carlos Roberto de Sá, Douglas Costa, Bruno Granja; Opec On-Line: Danilo Panzarini,
soluções para os dilemas da esquerda Como os memes transformaram Gretchen, Higor Chabes, Rodrigo Pecoschi; l EGCN – Consultora de marcas EGCN: Olivia
Cipolla Bolonha; l G.Lab – Diretor de Desenvolvimento Comercial e Digital: Tiago
a Rainha do Bumbum, em Rainha da Internet Joaquim Afonso / Caio Henrique Caprioli, Guilherme Inegawa Sugio, Lucas Fernandes,

26
Luiz Claudio dos Santos Faria, Rodrigo Girodo Andrade, Vera Ligia Rangel Cavalieri
76
BRUNO ASTUTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . AUDIÊNCIA l Diretor de Marketing: Cristiano Augusto Soares Santos;
Diretor de Planejamento e Desenvolvimento Comercial: Ednei Zampese;
A atriz e modelo Carol Marra faz Coordenadores de Marketing: Eduardo Roccato Almeida, Patricia Aparecida Fachetti

a cirurgia de redesignação sexual


79
WALCYR CARRASCO . . . . . . . . . . . . . . . . . ÉPOCA é uma publicação semanal da EDITORA GLOBO S.A. – Avenida 9 de Julho, 5229, São Paulo (SP),
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80
12 HORAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O Bureau Veritas Certification, com base nos processos e procedimentos descritos no seu Relatório de Verifi-
cação, adotando um nível de confiança razoável, declara que o Inventário de Gases de Efeito Estufa - Ano 2012,
da Editora Globo S .A ., é preciso, confiável e livre de erro ou distorção e é uma representação equitativa dos
82
RUTH DE AQUINO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . dados e informações de GEE sobre o período de referência, para o escopo definido; foi elaborado em conformi-
dade com a NBR ISO 14064-1:2007 e Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol .
Temer e Lula, os irmãos camaradas
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Para se corresponder com a Redação: Endereçar cartas ao Diretor de Redação, ÉPOCA. Caixa Postal 66260, CEP 05315-999 – São Paulo, SP. Fax: 11 3767-7003 – E-mail: epoca@edglobo.com.br
As cartas devem ser encaminhadas com assinatura, endereço e telefone do remetente. ÉPOCA reserva-se o direito de selecioná-las e resumi-las para publicação.
Só podem ser incluídas na edição da mesma semana as cartas que chegarem à Redação até as 12 horas da quarta-feira.

4 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


Duas notícias ruins –
e uma boa
A frase que se tornou bordão do ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva – “nunca antes neste país” – re-
flete com precisão uma era de vários ineditismos. Há duas
Lima e Eliseu Padilha. Acabou tragado, ele próprio, pelo
vórtice das delações – e neste momento o Congresso de-
cide se aceita ou não uma denúncia contra ele.
semanas, pela primeira vez um presidente da República – Não há o que festejar. Nos dois casos, apesar das imensas
Michel Temer – foi denunciado por corrupção no exercício diferenças históricas, trata-se de líderes em quem o Brasil,
do cargo. Na quarta-feira, dia 12, a novidade absoluta era em algum momento, depositou esperanças. O “nunca antes
um ex-presidente da República – o próprio Lula – conde- neste país”, no entanto, pode ser visto de outra forma. Em
nado por corrupção. seu clássico Os donos do poder, o jurista Raymundo Faoro
Não há o que festejar. Quan- mostra como o patrimonialis-
do chegou ao poder, em 2003, mo – pessoas privadas que se
Lula era o primeiro operário apropriam do bem público –
eleito presidente no Brasil. A existe no Brasil desde os tem-
revista britânica The Econo- pos da dominação portuguesa.
mist, de corte liberal, festejava Tal praga se agravou nos gover-
o avanço democrático no país. nos petistas com a “nova ma-
Lula começou muito bem seu triz econômica”, em que o go-
governo, seguindo as linhas verno distribuía subsídios em
gerais da administração ante- troca de financiamento de
rior – uma combinação entre campanha. A diferença é que,
responsabilidade fiscal e pro- agora, os favores que os “donos
gramas sociais. Em algum mo- do poder” pagam aos gover-
mento do segundo mandato a nantes são condenados pela
administração Lula perdeu o PATRIMONIALISMO E CORRUPÇÃO Justiça. Lula está sendo inves-
prumo, ressuscitando ideias Capas de ÉPOCA sobre Lula e Temer. Nunca tigado por algumas situações
econômicas da ditadura de Er- antes neste país presidentes foram investigados desse tipo. Da mesma forma, o
nesto Geisel. A aproximação esquema de compra e venda de
com grandes empresários de leis no Congresso há muito vi-
olho em subsídios e a corrupção que resultou dessa relação cia nossa democracia. Ninguém era punido. A denúncia
perigosa – ambas aprofundadas no governo Dilma – se contra Temer está associada a um esquema do gênero.
tornaram a marca triste das administrações petistas. Um presidente e um ex-presidente envolvidos com
Quando assumiu o governo, em 31 de agosto de 2016, corrupção constituem duas notícias ruins. Que o patrimo-
depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, nialismo e os esquemas espúrios do Congresso sejam, fi-
Michel Temer tinha um enorme desafio nas mãos: colocar nalmente, investigados, e que nem presidentes e ex-presi-
o país nos trilhos, como ele próprio dizia. Temer herdou dentes fiquem impunes – isso, sim, pode ser considerado
uma economia em plena recessão, que prostrava a popu- uma notícia boa.
lação – principalmente a mais pobre – com um desempre-
go de quase 12 milhões de pessoas. Temer começou bem
ao escolher nomes adequados para postos-chave: Henrique
Meirelles na área econômica, Pedro Parente na Petrobras,
Maria Silvia Bastos Marques na presidência do BNDES. A
economia mostrou uma ligeira melhora. Temer, no entan-
to, manteve a sua volta vários nomes de seu partido acu- João Gabriel de Lima
sados de corrupção, como Romero Jucá, Geddel Vieira Diretor de Redação

6 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


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PRIMEIRO
PLANO RAQUEL DODGE

A ESCOLHIDA
DE TODOS
A nova comandante
da Operação Lava Jato
conquista os senadores
com pouca conversa
e muita frieza

Foto: Mateus Bonomi / AGIF 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 9


PE R SO NAG E M DA S E MANA

N
Mateus Coutinho
o final da manhã da quarta-feira, dia 12, o
ex-procurador-geral da República Roberto
Gurgel rangia os dentes, visivelmente irrita-
do, sentado na penúltima fileira da sala da
Comissão de Constituição e Justiça do Sena-
do. Hoje aposentado, Gurgel estava ali no que achava que
seria a confortável função de amigo, a acompanhar a saba-
tina de Raquel Dodge, indicada pelo presidente Michel
Temer ao cargo de procuradora-geral da República. Gurgel
já passara por teste parecido e, depois, participou do julga-
mento do mensalão no Supremo Tribunal Federal e viu o
início da Operação Lava Jato. Sabia, portanto, bastante
sobre alguns dos parlamentares que ali estavam para ques-
tionar Raquel. Já eram transcorridas mais de três horas da
sessão na qual os senadores questionavam Raquel, quando
a fala de um deles o deixou bravo. ORADOR
Em sua vez de perguntar, o ex-presidente do Senado O senador Renan
Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas – 12 inquéritos no Calheiros na
sabatina de
Supremo –, fez um discurso. “Certa vez eu me candidatei Raquel Dodge.
à presidência do Senado, depois de um episódio que tu- Investigado, réu
multuou durante 200 dias a vida do país. Eis que, para e denunciado
minha surpresa, na véspera da eleição, uma investigação pela PGR, ele
aproveitou para
que estava havia oito anos na Procuradoria-Geral da Re- reclamar dos
pública, de um excesso pessoal que não tinha dinheiro pú- antecessores
blico, recebeu uma denúncia”, disse.“Mais do que isso, com
o PGR de então falando, comunicando o fato que tramita-
va em sigilo. Quando o Senado no dia seguinte teria uma
eleição onde eu disputava circunstancialmente com um que tanto incomoda o mundo político. Em quase uma hora
procurador da República. Eu acho que isso significa extra- de conversa, ela disse que a ideia de criar uma lei de abuso
polar. Na medida em que se usa uma instituição, tem de ter de autoridade – a arma de Renan contra investigadores – era
muito cuidado para não ser utilizada nessas condições.” O boa, mas que a proposta precisava de ajustes.
procurador era Gurgel – que, conhecedor da biografia de O amigo Roberto Gurgel pode ter sofrido calado ao
Renan pelas investigações na PGR, teve de se segurar. ouvir a provocação de Renan, mas Raquel Dodge foi apro-
Renan passeou por esse episódio – a denúncia por des- vada por unanimidade (27 votos a 0) na Comissão de
vio de dinheiro público e falsidade ideológica no pagamen- Constituição e Justiça, após oito horas de sabatina. Logo
to da pensão da filha que teve fora do casamento – e por depois, sua indicação ao cargo foi aprovada por 74 votos
outros mais, como o pedido de prisão dele feito pelo atual a 1 no plenário do Senado. A partir de 17 de setembro ela
procurador-geral, Rodrigo Janot. Seu discurso, porém, não sucederá a Rodrigo Janot, de quem é adversária, à frente
teve nenhuma crítica ou mesmo questionamento a Raquel, do Ministério Público Federal – o que significa comandar
tratada na fala de Renan como se já estivesse ocupando o a parte mais sensível da Operação Lava Jato. Assim como
cargo de procuradora-geral da República. Raquel Dodge Renan, outros senadores se surpreenderam com a frieza
ouvia tudo sem demonstrar reação. Reagia da mesma for- de Raquel nas conversas. “Você não sabe o que ela está
ma que fizera um dia antes, ao visitar o senador em seu pensando”, diz um senador.
gabinete. No périplo obrigatório a todos os sabatinados, O perfil discreto foi uma surpresa que agradou aos se-
ela esteve no 15o andar do Anexo 1 do Senado em busca de nadores. Em meio à ofensiva aberta de Janot, que não
apoio para ser chancelada pela Casa. Ouviu Renan reclamar poupa o mundo político em seus duros discursos, os par-
das ofensivas recentes de Janot e seus reiterados pedidos lamentares buscam alguém diferente. Raquel foi escolhida
para que a PGR tivesse mais cautela nas investigações. A pelo presidente Michel Temer não apenas por ser adver-
frieza de Raquel surpreendeu Renan. Sem manifestar sim- sária de seu inimigo Rodrigo Janot, mas também por seu
patia ou contrariedade, ela afirmou que iria analisar e cor- perfil profissional. Rigorosa e centralizadora, Raquel não
rigir eventuais excessos praticados por seu antecessor e é o tipo de procuradora que vai engavetar investigações.
deixou claro que não iria ceder no combate à corrupção Contudo, seu excesso de rigor pode travar novos acordos

10 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Foto: Walterson Rosa/Framephoto


Raquel Dodge

de delação premiada. Ela já disse em debates que a imuni-


dade dada aos delatores tem de ser proporcional ao alcan-
ce do que eles podem entregar. Nos bastidores, colegas
afirmam que fez críticas ao acordo de delação fechado por
Janot com o grupo J&F, na qual se destaca a do empresário
Joesley Batista – justamente a que mais incomoda Temer
e porque pode tirar-lhe o cargo. O caso mais conhecido de
Raquel na área criminal foi a Operação Caixa de Pandora,
em 2009, que levou à prisão o então governador do Dis-
trito Federal, José Roberto Arruda (ex-DEM, atualmente
sem partido). A Caixa de Pandora ficou famosa pelas di-
versas ações controladas, que registraram em vídeo episó-
dios de corrupção explícita, como aquele em que Arruda
recebe um maço de dinheiro de propina. Entretanto, a
investigação perdeu ritmo quando chegou à mesa de Ra-
quel e não resultou nas condenações esperadas.
Em seu périplo pelo Senado ao longo das últimas sema-
nas, Raquel contou com a companhia dos procuradores
regionais da República José Alfredo, Alexandre Espinosa e
Raquel Branquinho, que se revezavam nas visitas aos gabi-
netes com a subprocuradora. Todos atuam na Procurado-
ria Regional da República da 1a Região, em Brasília, e, entre
eles, José Alfredo foi quem ficou em uma cadeira ao lado
da mesa da comissão onde Raquel estava durante as oito
horas de sabatina na quarta-feira. Seu nome, inclusive, está
entre os cotados para atuar no Grupo de Trabalho da Lava
Jato na nova gestão da PGR. Parte da turma que hoje atua
com Janot já avisou que vai deixar os postos na investigação,
pois não pretende trabalhar com Raquel. Além das visitas
aos gabinetes políticos, Raquel se aprofundou nos temas
que poderiam ser abordados na sabatina. No domingo, dia
9, ela almoçou com a família e depois foi para sua sala no

0s senadores prédio redondo espelhado da PGR, onde se debruçou sobre


uma seleção de 50 perguntas que poderiam lhe ser feitas

investigados
na sabatina. Os questionamentos foram elaborados por
colegas e tomaram uma tarde de estudo e preparação.
Apesar de algumas provocações e críticas à PGR, a saba-

pela Lava Jato tina foi tranquila. Nem os senadores investigados pela Lava
Jato fizeram perguntas delicadas para Raquel. O senador

alimentam a
José Serra, do PSDB de São Paulo, alvo de dois inquéritos
no Supremo, dedicou seu tempo a fazer uma pergunta so-
bre processos judiciais que levam os governos a pagar por

esperança de que medicamentos e tratamentos médicos. Agripino Maia, do


DEM do Rio Grande do Norte, também investigado peran-

Raquel Dodge
te o Supremo, apenas disse que Raquel está “preparada para
o exercício da função”, e não para “brigas pessoais”, em
referência a Janot. As senadoras, por sua vez, comemoraram

seja menos dura o fato de Raquel ser a primeira mulher indicada para che-
fiar a PGR. “A (senadora) Vanessa (Grazziotin, do PCdoB)
diz que a senhora fala suave, baixo, é meiga. Essas é que são
as mais bravas”, brincou a senadora Kátia Abreu, do PMDB.
Espera-se que assim seja. u

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 11


JULHO I 2017

Seg Ter Qua Qui Sex Sáb Dom


QUE RESUMEM A SEMANA 10 11 12 13 14 15 16

Inversão de papéis
Na segunda-feira, dia 10,
13 policiais foram presos
temporariamente por suspeita
de envolvimento no assassinato
de dez trabalhadores em uma
fazenda em Pau d’Arco, no
sudeste do Pará, em maio. O
crime ocorreu quando 28 policiais
foram até a fazenda para cumprir
mandados de busca relacionados
à morte de um segurança da
propriedade. A promotoria
trabalha com suspeita de execução.

Volta para casa


O desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional
Federal, autorizou na quarta-feira, dia 12, que SAIDA À...
o ex-ministro Geddel Vieira Lima cumpra O Google
prisão domiciliar. Lima foi preso no dia 3 de se livrou da
dívida de
julho por suspeita de obstrução da Justiça. Ele é
acusado de agir para atrapalhar as investigações Traição à pátria
da Operação Cui Bono, que apura fraudes na O sargento americano Ikaika Kang
liberação de crédito da Caixa Econômica Federal. foi preso em uma ação conjunta
O ex-ministro foi vice-presidente da Caixa entre do FBI e da Swat no sábado, dia 8,
2011 e 2013. Na falta de tornozeleiras eletrônicas acusado de fornecer documentos
em Brasília, onde estava preso, Lima só receberá militares e treinamento para
o equipamento em sua casa, em Salvador. membros do Estado Islâmico. Ele
é investigado pelas autoridades
Nada maluco americanas há pelo menos um
ano. O FBI acredita que Kang agia
Em depoimento na segunda- sozinho ao repassar informações.
feira, dia 10, o ex-governador
do Rio de Janeiro Sérgio
Cabral (PMDB) reconheceu ter que deveria pagar
recebido caixa dois, mas negou de impostos
ter aceitado propina. Segundo à França. A
inquéritos da Lava Jato, Cabral Justiça afirmou
cobrava 5% de propina em que a empresa
todos os contratos de grandes não deve ser
responsabilizada
obras no estado. “Que 5% é pela multa por
esse? Que maluquice é essa?”, não ter um
afirmou ao juiz Marcelo “estabelecimento
Bretas, da 7a Vara Federal estável” no país.
Criminal do Rio de Janeiro.
UM DISTRITO FEDERAL DE GELO Um iceberg de 1 trilhão de toneladas e tamanho similar ao da
capital do Brasil se desprendeu de uma plataforma de gelo na Antártica. Segundo especialista da Universidade de
Swansea, no Reino Unido, o fenômeno aconteceu entre 10 e 12 de julho. O bloco de gelo não aumentará o nível do mar.

O mais ameaçador
O Brasil lidera o triste ranking dos países onde mais se matam ambientalistas,
segundo o novo relatório do Global Witness divulgado na quinta-feira, dia
13. Segundo o estudo, pelo menos 200 pessoas foram assassinadas em 24
países no último ano enquanto protegiam suas terras, florestas e seus rios
de empresas de mineração, de madeira e de produtos agrícolas no mundo.

Casos de homicídios de ambientalistas por país em 2016

China
Irlanda

Não sei de nada México Irã Mianmar


Honduras Paquistão Vietnã
Na quarta-feira, dia 12, o presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, Colômbia Índia
disse que soube pela mídia dos Guatemala Bangladesh
Camarões Filipinas
contatos de seu filho com pessoas Nicarágua República Uganda Tailândia
ligadas ao governo da Rússia na Peru Democrática Tanzânia Malásia
do Congo
campanha eleitoral de 2016. Um Zimbábue
Número de casos
dia antes, foi divulgado que Trump
Jr. se reuniu com uma advogada 49 BRASIL
28
russa que lhe ofereceu informações 11 África do Sul
1
comprometedoras sobre a candidata
democrata Hillary Clinton. Fonte: Global Witness

Fotos: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo, Reuters/Lunae Parracho, AFP Photo / Nasa / John 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 15
Sonntag, Bruce Asato/The Star-Advertiser via AP, Fábio Motta/Estadão Conteúdo
QUE RESUMEM A SEMANA

“Eu vendo meu


apartamento,
mas não faço
acordo com
esse homem”
Monica Iozzi,
atriz, no programa de Pedro Bial, na TV
Globo. Ela foi processada pelo ministro
do STF Gilmar Mendes, após criticar
a libertação do médico Roger
Abdelmassih. Monica foi condenada
a pagar indenização de R$ 30 mil

16 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


“Não importa “Antes da eleição, “Temer é um homem
quão alto você todos esses honesto, probo,
esteja, a lei ainda processos serão correto e decente,
está acima de você” julgados” que está sendo
Sergio Moro,
juiz federal, após condenar o ex-presidente
Thompson Flores,
presidente do Tribunal Regional Federal
acusado de maneira
Lula a nove anos e meio de prisão, por
crimes de corrupção passiva e lavagem de
da 4a Região, instância de recurso absolutamente
dinheiro, pela posse do tríplex de Guarujá
à condenação de Lula. Se a sentença
de Moro for confirmada pela segunda instância, imprópria”
Lula irá preso e não poderá se candidatar Paulo Maluf (PP-SP),
deputado federal, sobre Temer
“Infelizmente, “Essa possibilidade
foi uma ação contra não passa pela nossa “Conheço o Lula mais
o maior líder popular cabeça. Nós só temos do que ninguém. Ele
que tivemos na um plano, o plano A” não fez nada e nem
história deste país” Paulo Okamotto, crime nenhum para
Lula, presidente do Instituto Lula, sobre
ex-presidente, falando de sua condenação Lula não concorrer à Presidência ser condenado a nove
anos de prisão. Isso
“As garras dos “Pau que mata é uma injustiça!”
golpistas tentam Michel mata Lula! Paulo Maluf (PP-SP),
deputado federal, sobre Lula
rasgar a história Pau que matou Lula
de um herói do pode matar Michel!” “Eu não tenho de ter
povo brasileiro” Antonio Cláudio Mariz de Oliveira,
advogado do presidente Michel Temer, ao proposta. O único que
Dilma Rousseff,
ex-presidente
pedir apoio de deputados do PT na votação da
denúncia na Comissão de Constituição e Justiça tem de ter proposta
é o presidente
Michel Temer”
Paulo Rabello de Castro,
DE D O NA CAR A presidente do BNDES. Depois de criticar a Taxa
de Longo Prazo, proposta pelo governo, ele recuou
“Eu respeitarei “Usar dinheiro público para
qualquer que seja que deputados venham, “Médico tem de parar
o resultado através de emendas e de fingir que trabalha”
da votação” cargos, votar a favor do Ricardo Barros,
Michel Temer, arquivamento é inadequado” ministro da Saúde
presidente, sobre a votação da
Sergio Zveiter (PMDB-RJ),
denúncia contra ele pela Comissão de
autor do relatório a favor da denúncia.
Constituição e Justiça da Câmara
O texto foi derrotado na CCJ “Hóstias
completamente
co
liv
vres de glúten
sãão impróprias
paara a celebração
daa Eucaristia”
Conngregação para o Culto Divino
eaD Disciplina dos Sacramentos,
resp
ponsável por regulamentar a liturgia da
Igrejja Católica. O Vaticano proibiu hóstias
de tapioca, farinha de milho ou de arroz

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 17


EUGÊNIO BUCCI

A namorada bandida
do Brasil despedaçado
A esta altura, ninguém mais pode alegar que ela é inocen-
te. Não há mais desculpas para adorá-la sem restrições.
Antes, a moça de sorriso luminoso e lábios cor de açaí era só
sua namoradinha tem uma queda vertiginosa pelo crime.
Enquanto as reservas éticas da nação vão caindo, uma a
uma, a namoradinha nacional vira as costas (sublimes)
perdão, como se habitasse um samba preguiçoso de Vinicius para a lei e vai beijar seu escolhido numa boca de fumo
de Moraes. Agora, é cúmplice de traficante; está mais para no morro mais próximo.
o funk que para a Bossa Nova. Ateia fogo no escritório de A atriz é tudo. É na transformação de moça virtuosa em
um restaurante para incinerar o computador que poderia musa chave de cadeia que Juliana Paes deixa ver o tracejado
incriminar seu criminoso querido. Ela o ama – eis sua jus- genial de sua arte. Ela consegue fazer crispar (esse verbo
tificativa (mais melodramática, impossível). É casada com de que Nelson Rodrigues tanto gostava) as linhas do rosto,
ele. Toda dele. Quando o marido escapa da penitenciária, inaugurando um esgar demoníaco onde antes imperava nada
vira foragida ao lado dele. Ela é Bibi, estrela maior da no- mais que um ar de paz gozosa. Juliana tem esse dom de en-
vela das 9, A força do querer. Ela é a nova namoradinha treabrir num relance de sobrancelhas a visão do mal atroz por
do Brasil, uma bandida jambo que mexe com as cadeiras, trás da candura transcendente. Sua expressão sinaliza algo
com as cadeias e com o juízo do homem que vai trabalhar. de ameaçador enquanto sussurra o nome de seu homem:
Interpretada com laivos de genialidade por Juliana Paes, “Rubinho”. (E desde quando Rubinho é nome de meliante?)
Bibi roubou totalmente a cena da nove- A personagem também é tudo. Bibi des-
la – menos por ser ladra, e mais por ser liza com sua silhueta de órbitas elípticas a
inesperada e fatal, como a aparição de uma nos convencer não de que o crime com-
santa no céu do meio-dia ou um tiro de BIBI, INTERPRETADA pensa, pois ela sabe que não compensa,
fuzil no meio da noite. mas de que o crime é a única saída. Até
No começo da trama, Juliana Paes en-
GENIALMENTE POR quando o Brasil vai segui-la com olhos de-
cantava por suas virtudes, com seus me- JULIANA PAES, VÊ O sejantes e complacentes? O Brasil ainda
neios luxuriantes e sua honestidade con- CRIME COMO ÚNICA se importa em saber se as condutas são
tente. Estudava Direito, queria progredir ilibadas ou não? A ver.
com retidão e dominava o espaço cênico SAÍDA. O PÚBLICO Bibi, que de tão arrebatadora não pre-
no embalo de seus quadris exatos, vigoro- ROMPERÁ COM ELA? cisava ter serventia alguma, terá essa utili-
sos, cadenciados e suburbanos. Como se dade essencial: ela nos ajudará a descobrir
brincasse com o contraste entre seu pesco- até onde vai a resiliência nacional em ma-
ço delicado e suas operosas pernas quase opressoras, ela se téria de criminalidade. Ela já destruiu provas, já obstruiu a
largava em risadas que ondulavam seu colo sem máculas, Justiça, já se aliou a um foragido. Nos próximos capítulos,
as saboneteiras desamparadas. Outras vezes, fazia escorrer vai violar outros artigos do Código Penal. Em que ponto
lágrimas em cascatas tropicalistas de seus olhos à Di Ca- o público romperá com ela? Ou vai de Bibi até o fim?
valcanti. Foi bom aquele começo de novela, quando Bibi A ver. As plateias sempre gostaram de médicos que viram
era o ideal do amor demais. Depois, metamorfoseada em monstros, como na série americana Breaking bad, sempre
uma fora da lei instintiva, embaralhou a história. Os vícios se deleitaram com a mística de liberdade extrema que só
de Bibi são mais arrebatadores que suas virtudes. os marginais conseguem acender, como Bonnie e Clyde.
O Brasil anda órfão de suas referências morais, afogado Agora, com a Bibi de Juliana Paes, a coisa é mais séria e
numa torrente de delinquência crônica, catatônica e poli- mais íntima. Bibi é mais que a donzela que se deixa beijar
fônica. O ilícito assedia a todos e a cada um, lançando seus por Drácula e se torna vampira, mais que a adolescente
tentáculos insidiosos para dentro da garagem da residência certinha que se apaixona pelo terrorista. Bibi é o desvio e
do presidente da República, das cúpulas das empresas mais a esperança, a manifestação mais bela do dilema brasileiro
endinheiradas, dos escaninhos mais recônditos do Congresso entre sobreviver e não ceder. u
Nacional, das igrejas, das escolas, das obras superfaturadas
da Copa do Mundo e da Olimpíada, da padaria da esquina
e, por fim, da aura das mais carismáticas heroínas da TV.
O Brasil já foi feliz com namoradinhas recatadas. Agora, Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP

18 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


INFORME PUBLICITÁRIO

USINA DE
CAMPEÕÕESS
O MAIOR PROJETO DE ARTES
MARCIAIS DO RIO DE JANEIRO Ronaldo Jacaré e José Aldo
são padrinhos do projeto

A Refinaria de Manguinhos retomou no ano passado


seu projeto social, que ensina o valor da disciplina através
do esporte para e jovens crianças carentes. Preparações para
as primeiras lutas, equipamentos de ponta e aulas diárias de jiu-
jitsu, luta olímpica, muay thai, capoeira e judô com professores
capacitados fazem do nosso time vencedor na luta e na cidadania.

@USINADECAMPEOES USINADECAMPEOES

REFINARIA DE PETRÓLEOS DE MANGUINHOS


RESULTADO COM RESPONSABILIDADE SÓCIO-AMBIENTAL
E RESPEITO AO CONSUMIDOR
POR MURILO RAMOS expresso@edglobo.com.br

Delação-família
Para mostrar que negocia de boa-fé,
a PGR topou oferecer imunidade à
mulher e a uma das filhas de Cunha.
Em qualquer cenário, no entanto, o
ex-deputado terá de cumprir mais
tempo de prisão no regime fechado.

Minha vez
A frustração com Cunha aumentou
as chances do doleiro Lúcio Funaro,
que também negocia uma delação.
Ele apresentará uma segunda
proposta. Se for suficientemente
forte, será aceita – o que deixará
Cunha numa situação difícil. “Por
Entrega mais essa porta só passa um”, dizem os

Primeira página procuradores. É a porta que destrói


o presidente Michel Temer, ministros
próximos e o PMDB da Câmara.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está irritado com a


má qualidade das propostas de delação que recebeu recentemente.
Esses candidatos são chamados de “bate-fofo”. Um “bate-fofo” em especial Blitzkrieg
incomoda Janot: Eduardo Cunha. Ele recusou a primeira proposta feita pelo A PGR conta com a delação de Cunha
ex-deputado. “Está muito ruim”, foi a frase mais repetida por Janot e pelos ou de Funaro para “robustecer” as
demais procuradores da Lava Jato – toda a força-tarefa em Brasília analisou duas próximas denúncias contra
o material. Não se trata de técnica de negociação para pressionar Cunha; os Temer. A PGR deverá apresentar a
procuradores, até então entusiasmados com o arsenal do ex-deputado, estão segunda denúncia contra Temer, por
de fato decepcionados. Nem as histórias sobre Temer animaram. obstrução da Justiça, antes da votação
da primeira na Câmara. A terceira,
por organização criminosa, será
Jogo duplo? oferecida até o início de setembro.

Os procuradores ficaram intrigados


com algumas ausências de nomes Cascateiro
grandes da política na proposta de A delação de Palocci está sob sério
Cunha. E, igualmente, com a presença risco. A PGR e os procuradores de
de outros delatores, com quem o Curitiba estão exasperados com a
ex-deputado parece querer acertar falta de objetividade e os rompantes
contas. Os investigadores suspeitam do petista. Outro dia, ele mandou
que Cunha esteja negociando a dizer que entregaria seis ministros
inclusão e a exclusão de nomes na do Supremo. Janot despachou
delação – só isso, dizem, pode explicar dois procuradores imediatamente
os anexos apresentados. Estão atentos ao Paraná. Perderam a viagem.
a possíveis contatos de pessoas Palocci misturou fofocas com
próximas ao ex-deputado com fatos conhecidos. Não deu um
investigados. Cobraram de Cunha mísero elemento para sustentar
uma segunda proposta, à altura do tão graves acusações. Esse episódio
que ele prometeu – e sem vinganças. pode custar ao petista a delação.

20 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Fotos: AFP Photo / Yasuyoshi Chiba, Aloisio Mauricio /Fotoarena/Folhapress,
Dida Sampaio/Estadão Conteúdo, Ailton De Freitas /Agência O Globo
Com Bárbara Lobato e Nonato Viegas e reportagem
de Aguirre Talento e Guilherme Caetano

Choque de memória Geld


A Mendes Júnior bateu à porta da Os investigadores da Lava Jato,
PGR na esperança de fechar uma frustrados com a dificuldade em
delação. Os donos da empresa provar a ligação de Renan com
finalmente admitiram, nas tratativas, a propina nos órgãos públicos,
que a famosa mesada paga pela localizaram quatro contas secretas
empreiteira ao senador Renan de um dos principais operadores do
Calheiros era propina. Um deles, senador. Recebiam dinheiro sujo.
que negara a mesada, disse que havia
“esquecido” os pagamentos. Renan é
réu no Supremo por esse caso. Mas Bola da vez
a delação da Mendes Júnior, mesmo Por falar em Cui Bono, depois de
que seja fechada, ainda pode demorar. destrinchar operações do grupo J&F,
as investigações do Ministério Público
Ventos de setembro Perdeu
e da Polícia Federal agora avançam
sobre a Marfrig. Há documentação
Estão em estágio avançado duas
denúncias que prometem abalar Brasília Nem todas detalhada da Caixa sobre os
empréstimos concedidos ao grupo.
no segundo semestre: uma contra Liberado para cumprir prisão
Renan e outra contra o presidente do
Senado, Eunício Oliveira, ambos do
domiciliar na semana passada,
o ex-ministro Geddel Vieira Penas
PMDB. A PGR reuniu elementos para Lima não teve a mesma sorte ao A paciência do governador de São
acusar Eunício de receber propina da pedir a nulidade do mandado Paulo, Geraldo Alckmin, com as
Hypermarcas, em troca de ajuda à de busca e apreensão da tentativas do prefeito de São Paulo,
empresa numa Medida Provisória. Operação Cui Bono, que apura João Doria, de se lançar candidato à
fraudes em financiamentos Presidência da República está perto do
Tique-taque da Caixa Econômica Federal.
A Terceira Turma do Tribunal
fim. Alckmin é cada dia mais candidato.

A PF apreendeu durante a Operação


Cui Bono, que apura fraudes em
Regional Federal (TRF) da
1a Região, seguindo voto do Não foge
financiamento da Caixa, uma coleção desembargador Ney Bello, negou O ministro Moreira Franco tentou
de 36 relógios na casa do dono do o pedido por unanimidade. escapar de prestar depoimento como
grupo Marfrig, Antônio Molina dos Quem advoga para Geddel no testemunha de defesa do ex-deputado
Santos. São peças de marcas como TRF é Fernando Tourinho Neto, Eduardo Cunha. Avisou ao juiz
Rolex, H. Stern, Omega e Montblanc. ex-desembargador do tribunal. Vallisney Oliveira que não sabe nada
sobre corrupção no FI-FGTS, mas a
defesa de Cunha insistiu. Vallisney
mandou o ministro reservar uma data.
Ops
Custou mais do que milhões GPS
em emendas o apoio do PSD O ministro da Agricultura, Blairo
de Gilberto Kassab a Temer Maggi, pediu que a Aeronáutica
na CCJ. Num acordo secreto, puna o responsável por divulgar
Temer ofereceu – e Kassab a informação de que um avião
aceitou – o Ministério das interceptado com 500 toneladas
Cidades, hoje ocupado por de cocaína, no final de junho,
Bruno Araújo, do PSDB. decolara de uma de suas fazendas.
Kassab assumiria a Pasta no Segundo o ministro, a Aeronáutica
dia 5 de agosto, caso o PSD não se preocupou em checar
ajudasse Temer a vencer o dado fornecido pelo piloto
a primeira denúncia no antes de divulgá-lo. Foi a Polícia
plenário da Câmara – e o Federal quem desmentiu a notícia.
acerto não vazasse antes... Maggi diz que o episódio causou
danos a ele e suas empresas.
Leia a coluna Expresso em epoca.com.br
17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 21
(QUASE) TODOS CONTRA UM Eles votam pelo filho, pela mulher,
“Eles confirmaram presença” (994/2017) pela família, pelo partido. Votam
traz um levantamento realizado pela por interesse próprio. Existem as exce-
redação de ÉPOCA que mostrou que ções que votam pelo crescimento e de-
334 parlamentares irão à sessão que senvolvimento sadio do país. Que essas
definirá o destino de Michel Temer exceções nos surpreendam, para que
possamos sair do buraco que entramos
Lutei pela saída do PT do poder por por conta própria, por meio de escolhas
corrupção e farei o mesmo pela saída erradas. Que votem visando a uma na-
de Temer, pois as provas contra o presiden- ção menos corrupta e impune, onde a
te são graves. Independentemente de par- riqueza pode chegar a todos sem distin-
tido, ideologia e crenças, não podemos ter ção, de forma honesta e transparente,
partidos e políticos de estimação. Se for fazendo com que cada brasileiro tenha
Escreva para: corrupto e não pensar no bem da coletivi- orgulho de viver aqui.
epoca@edglobo.com.br dade, está fora, ponto. Vamos acompanhar Mônica Delfraro David,
os políticos dos nossos estados e cobrar Campinas, SP
uma posição clara sobre a votação da de-
núncia de Temer. Está clara a intenção do O PR e o PTB trocaram deputados
governo de atacar, dificultar e atrapalhar na Comissão de Constituição e Jus-
não só a Lava Jato, como também outras tiça. Se Temer não tivesse cometido ne-
frentes contra a corrupção. Isso é inaceitá- nhum crime ao conversar com o empre-
vel, absurdo. Se Temer, o PMDB e os que sário Joesley Batista, na noite do dia 7 de
estão articulando esse ataque e interven- março, no Palácio do Jaburu, então ne-
ções não devessem, não temeriam a aber- nhuma manobra maliciosa teria ocorrido
tura de investigação contra o presidente. na CCJ. A tentativa de obter a vitória a
Marcos Antonio Honório, qualquer custo ficou explícita e a possi-
via Facebook bilidade de derrota no plenário da Câma-
ra dos Deputados está cada vez mais per-
to de Temer.
José Carlos Saraiva da Costa,
Belo Horizonte, MG

Ficamos estupefatos ao tomarmos


conhecimento da abrangência dos
COM E N TÁ R IO DA S E MA NA atos corruptivos praticados por gestores
públicos mancomunados com lideranças
da iniciativa privada. Precisamos ter ma-
turidade para apoiar as apurações em
Se o povo pensar um pouco, temos andamento e determinação para fazer
candidatos para 2018, tanto para a esquerda escolhas mais cuidadosas nos próximos
pleitos eleitorais, escolhendo lideranças
como para a direita: Cristovam Buarque políticas não contaminadas, para que
e Ronaldo Caiado. Nos livraríamos possamos sair desta crise o mais rapida-
mente possível, rumo à construção da
dos candidatos lixões de sempre e grande nação que tanto sonhamos – e
teríamos dois bons representantes” temos condições de – ser.
Roberto Moreira da Silva, José de Anchieta
São Paulo, SP Nobre de Almeida,
Rio de Janeiro, RJ

22 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


CRIME SEM FRONTEIRAS
“A guerra sem fim e sem êxito” (994/2017)
contou a dificuldade das autoridades para
combater os esquemas dos traficantes
de drogas na divisa com o Paraguai

Faz muitos anos que é uma bagun-


ça total. Sem fiscalização e sem es-
trutura. São governos e governos de bra-
ços cruzados...
Ana Bravo,
via Twitter

Há uma necessidade imperiosa e


imediata de dialogar e, posterior-
mente, adotar a legalização dos entorpe-
centes. Porque a maneira com a qual os
estados têm tentado lidar com eles não
tem sido muito eficiente. A criminalização
está se adequando às particularidades da
globalização e desestabilizando sociedades
de diferentes localidades.
Fernando Valasco Ramos,
via Facebook

EM AÇÃO
Policiais do
A DELAÇÃO DE JOESLEY imprópria com executivos ou sócios da Departamento
Na nota “VIPs”, a coluna EXPRESSO JBS. A revista, por sua vez, sequer procu- de Operações de
(994/2017) informou que o senador rou ouvir o outro lado antes de publicar Fronteira, numa
patrulha na estrada
Eunício Oliveira aparecerá em suposta informação injuriosa e caluniosa. na madrugada.
informações fornecidas pelo J&F Nunca se deu o ali relatado. Reparações Os traficantes
serão buscadas nos devidos foros. têm múltiplas
É falsa a informação contida na nota Assessoria de imprensa estratégias para
burlar a vigilância
“VIPs” da coluna EXPRESSO desta do senador Eunício Oliveira
semana. Jamais, em tempo algum, o se-
nador Eunício Oliveira manteve relação Nota da Redação: ÉPOCA mantém o que publicou

MA I S COM E NTADAS M AIS L I DA S M A I S COM PA RT I L HADA S


Lula viajará pelo Nordeste Decisão de juiz resulta em As provas contra Lula: 3 mil
1 a partir de agosto 1 paralisação de investigação... 1 evidências, 13 casos e R$ 80
EXPRESSO EXPRESSO milhões em propina
Novo presidente da Traficante diz que tinha Vídeo mostra novo
2 juventude do PSDB é... 2 US$ 3,4 mi em casa para 2 desmatamento ilegal...
EXPRESSO sustentar família caso... Blog do Planeta
Em meio à possibilidade de Justiça brasileira manda Decisão de juiz resulta em
3 suceder a Temer, Maia... 3 Athina Onassis devolver... 3 paralisação de investigação...
EXPRESSO Bruno Astuto EXPRESSO
Senadores são só elogios para PF acaba com grupo de Maia acha que Temer
4 a provável procuradora... 4 trabalho da Lava Jato em 4 “já caiu”
EXPRESSO Curitiba EXPRESSO
As provas contra Lula: 3 mil Sucesso lá fora, modelo plus Ação de senador tenta
5 evidências, 13 casos e R$ 80 5 size brasileira lança linha... 5 impedir fim de grupo de
milhões em propina Bruno Astuto trabalho da Lava Jato

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 23


Política
à moda antiga
O presidente Michel Temer fez manobras velhas
para se defender na primeira votação na Câmara.
Funcionou, mas foi um espetáculo feio de ver

do decoro no cargo. Em plena crise econômi-


ca e fiscal, que ele minimiza mas que deveria
exigir seu total empenho, Temer embrenhou-
se numa agenda intensiva de autodefesa. En-
controu-se com deputados, em sequências de
reuniões –pequenas tanto na duração quanto
nos interesses defendidos. Manobrou para
mudar a composição da CCJ, a fim de torná-
la mais amigável.
O saldo final foi de 13 deputados trocados,
entre os 66 da comissão, mais uma lista de be-
nesses entregue às pressas. Entraram no rol de
presentes as promessas de R$ 103 bilhões de
financiamento para a próxima safra, de R$ 5,7
bilhões em investimentos em infraestrutura ur-
bana, R$ 2 bilhões em crédito para educação,
saúde e outros fins, parcelamento de dívidas de
prefeituras e adiantamento de repasses do Fun-
GANHOU A

E
PRIMEIRA deb, de verba para a educação básica. Temer
O presidente stá prevista para 2 de agosto a votação também sancionou a Medida Provisória 759, de
Michel Temer no plenário da Câmara que definirá se regularização fundiária, que agrada à bancada
no Palácio do uma denúncia criminal contra o presi- ruralista. “A negociata funciona desta forma:
Planalto, no
dia da votação. dente Michel Temer será enviada ou não ao você dá votos, você tem ministérios ou cargos,
Ele enfrentará Supremo Tribunal Federal. O plenário receberá se não der, pescoço cortado, guilhotina”, afirmou
outro teste um relatório da Comissão de Constituição e ao programa de TV Bom dia Brasil o deputado
no plenário Justiça (CCJ) que recomenda o arquivamento Delegado Waldir (PR-GO). Importante notar
da Câmara
da denúncia, como foi votado na quinta-feira, que o PR do deputado integra a base governista.
dia 13. O conjunto dos deputados poderá apro- Cada uma das promessas feitas por Temer
var o relatório da comissão (numa decisão fa- pode ter mérito individual e todas deverão aten-
vorável ao presidente) ou rejeitá-lo, o que colo- der ao crivo da equipe econômica, para que o
cará o destino de Temer nas mãos do Judiciário país persista no caminho esburacado do ajuste
e prolongará sua agonia. A descrição objetiva de contas públicas. Muitos dos gastos pretendi-
do rito nos faz crer que as instituições no Brasil dos serão barrados na boca do caixa pela Secre-
seguem funcionando, o que é ótimo. Mas, nas taria do Tesouro Nacional. Ainda assim, as ma-
últimas semanas, Temer não contribuiu em nobras ofendem o cidadão comum, que gostaria
nada para esse funcionamento. de ver um presidente mais comprometido com
Diante da iminência da votação da denún- seu trabalho – além de deputados com opiniões
cia na CCJ, o presidente testou a elasticidade que não estejam à venda. u

24 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Foto: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo


Família Santos
A filha vai começar
sua própria história
e a casa ficou grande
para os pais.

Família Barreto
Vai escrever os seus próximos
capítulos. Com a ajuda de mais
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Plus 15414.900995/2016-91. A aprovação deste título pela SUSEP não implica, por parte da Autarquia, em incentivo ou recomendação as suas aquisições, representando, exclusivamente, suas
adequações às normas em vigor. Os percentuais das quotas destinadas ao sorteio e à capitalização estão descritos nas Condições Gerais. Sorteio para o título Cap Fiador 12 Plus ocorre 1 (uma)
vez por semana e 1 (uma) vez por mês. Para os títulos Cap Fiador 15 meses e Cap Fiador 30 meses, ocorre na primeira quarta-feira de cada mês. O saldo para resgate antecipado ou final será
proporcional ao valor pago pelo título, respeitando o percentual previsto na tabela de resgate das Condições Gerais. O consumidor poderá consultar a situação cadastral de seu corretor de
capitalização no sítio www.susep.gov.br, por meio do número de seu registro na SUSEP, nome completo, CNPJ ou CPF. Para mais informações, consulte as Condições Gerais em www.brasilcap.
com.br, onde consta a tabela de resgate dos títulos originados e da constituição de suas reservas de capitalização, assim como os percentuais das quotas destinadas ao sorteio e à capitalização.
O juiz Sergio Moro condena Lula por
corrupção e lavagem de dinheiro
e acrescenta à trajetória do sindicalista
nordestino alçado a presidente
da República um novo e triste capítulo
Flávia Tavares
TEMPO
T E AT R O D A
POLÍTICA
T E AT R O D A P O L Í T I C A

ram 13h59 da quarta-feira, dia 12 de julho, quando o juiz Sergio Moro, da Justiça
Federal do Paraná, publicou sua histórica decisão. Nunca antes no Brasil um presidente
ou ex-presidente da República havia sido condenado criminalmente. Luiz Inácio Lula
da Silva foi o primeiro. Lula foi considerado culpado de corrupção passiva e lavagem
de dinheiro. Condenado a nove anos e seis meses de prisão. A admirável trajetória do
sindicalista nordestino eleito presidente e líder da esquerda latino-americana ganha
um novo e simbólico capítulo: a de primeiro ex-presidente condenado por corrupção.
(Enquanto, infeliz coincidência para o Brasil, o primeiro presidente denunciado por
corrupção está no Palácio do Planalto.) A sentença de Moro é no caso do tríplex de
Guarujá. O juiz concluiu que o apartamento e as obras de personalização do imóvel foram dados
pela empreiteira OAS como propina. Em troca, a construtora fechou contratos bilionários com a
Petrobras. Ao apresentar sua decisão, Moro mostrou-se ciente da dimensão histórica de seu juízo.
Ponderou sobre o tamanho da figura de Lula. Sobre a gravidade de condenar um ex-presidente.
Mas sopesou que, envolvendo o crime do tríplex, está o esquema maior, o escândalo de corrupção
que sangrou a Petrobras em R$ 6 bilhões. “Prevalece, enfim, o ditado ‘não importa o quão alto
você esteja, a lei ainda está acima de você’”, escreve Moro. Lula voou alto. A lei o alcançou.
A decisão de Moro, detalhada em 218 cessão pelo Grupo OAS a ele de um feitas a pedido da família de Lula – o
páginas, é baseada em provas colhidas benefício patrimonial considerável, elevador instalado, a cozinha Kitchens,
em diferentes etapas da Lava Jato e no estimado em R$ 2.424.991,00 e para o entre outros itens. Ao confrontar essas
depoimento de várias testemunhas, in- qual não haveria uma causa ou explica- provas com o depoimento que Lula
cluindo o de Léo Pinheiro, executivo da ção lícita”. Embora a defesa de Lula diga prestou em maio, em Curitiba, Moro
OAS e amigo de Lula. O principal argu- que a sentença é baseada tão somente escreve que “a única explicação dispo-
mento da defesa do ex-presidente era no depoimento de Léo Pinheiro, por 45 nível para as inconsistências e a ausên-
que não se poderia comprovar que Lula páginas Moro analisa provas, depoi- cia de esclarecimentos concretos é que,
era o proprietário do tríplex, já que o mentos de outras testemunhas e o de- infelizmente, o ex-presidente faltou
imóvel está registrado em cartório em poimento do próprio ex-presidente com a verdade dos fatos em seu depoi-
nome da OAS. Moro refuta esse racio- Lula para atestar suas conclusões. mento acerca do apartamento 164-A,
cínio, evocando a própria natureza dos O juiz recorre a uma série de papéis tríplex, no Guarujá”. É só aí que o juiz
crimes de corrupção e de lavagem de para concluir que o tríplex estava “re- passa a considerar o gravíssimo teste-
dinheiro, que implicam a ocultação de servado” a Lula e sua família. Moro munho de Léo Pinheiro.
patrimônio. Para o juiz, “não se está, descreve os três termos de adesão da O empresário relata como o aparta-
enfim, discutindo questões de Direito família Lula da Silva ao empreendimen- mento e sua reforma foram abatidos
Civil, ou seja, a titularidade formal do to em Guarujá, mostrando que, inicial- “nesse encontro de contas que eu tive
imóvel, mas questão criminal, a carac- mente, a intenção era a aquisição de um com o João Vaccari”. Isso quer dizer que
terização ou não de crimes de corrup- apartamento bem mais simples e, quan- a propina materializada no tríplex foi
ção e lavagem”. Demonstrar que o imó- do a OAS entra no negócio, o imóvel descontada da conta-corrente de propinas
vel era destinado a Lula desde que a pretendido passa a ser o tríplex. O juiz que a OAS (assim como a Odebrecht)
OAS assumiu a construção do prédio também percorre documentos e trocas mantinha com o PT. Pinheiro ainda re-
em Guarujá era, para Moro, “questão de mensagens que mostram como as latou ao juiz como Lula lhe pediu para
crucial”, porque seria a “prova da con- obras realizadas no apartamento foram destruir provas da transação criminosa.

28 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


Diz Léo Pinheiro que Lula lhe pergun-
tou: “Você tem algum registro de algum
encontro de contas, de alguma coisa fei-
Alguns trechos da sentença histórica do juiz da Lava Jato ta com o João Vaccari com você? Se tiver,
destrua”. Diante desse compilado de
provas e depoimentos que as corrobo-
ram, Moro conclui: “Definido que o
apartamento 164-A, tríplex, era de fato
do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Sil-
va e que as reformas o beneficiavam, não
há no álibi do acusado Luiz Inácio Lula
da Silva o apontamento de uma causa
lícita para a concessão a ele de tais bene-
fícios materiais pela OAS Empreendi-
mentos, restando nos autos, como expli-
cação única, somente o acerto de
Moro encerra sua peça de condenação corrupção decorrente em parte dos con-
citando o ditado do tratos com a Petrobras. Provado, portan-
historiador e religioso britânico Thomas Fuller to, o crime de corrupção”. Moro calcula
as penas, usando como agravante o fato
de que Lula foi presidente. “A responsa-
bilidade de um Presidente da República
é enorme e, por conseguinte, também a
sua culpabilidade quando pratica cri-
mes.” Mas justamente o fato de Lula ter
sido presidente é usado como razão para
deixá-lo recorrer em liberdade – para
evitar “traumas”, diz Moro.
Ao longo da sentença, o juiz também
descreve e lamenta o fato de que a de-
fesa de Lula o acusou de parcialidade e
chegou a pedir sua retirada do caso.
“Essas condutas são inapropriadas e
O juiz aponta como agravante para definir as revelam tentativa de intimidação da
penas o fato de que Lula foi presidente. Usa o mesmo fato, Justiça, dos agentes da lei e até da im-
porém, para autorizar que ele recorra em liberdade prensa para que não cumpram seu de-
ver”, diz Moro. O juiz elogia os esforços
empreendidos por Lula em seus gover-
nos para aprimorar os instrumentos de
combate à corrupção. “Não será ele o
primeiro governante que subestimou a
possibilidade de que o incremento dos
meios de controle pudessem levar à des-
coberta de seus próprios crimes”, com-
plementa. Ciente de que Lula construiu
uma narrativa em que é perseguido pelo
juiz, Moro explica que não tem qual-
quer “satisfação pessoal” em condenar
Lula. Pelo contrário. “É de todo lamen-
tável que um ex-presidente da Repúbli-
ca seja condenado criminalmente, mas
a causa disso são os crimes por ele pra-
ticados e a culpa não é da regular apli-
Moro aponta que a defesa de Lula e o próprio
cação da lei.” É nesse tom que Moro
ex-presidente erraram ao acusá-lo encerra sua sentença: com um lamento,
de parcialidade e ao tentar retirá-lo do caso mas com a força da lei em sua pena. u

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 29


T E AT R O D A P O L Í T I C A

Lula repete o mantra de que não há provas contra ele. Ele está errado. E sua re
30 I ÉPOCA I 00 de janeiro de 2017
DEFESA
O ex-presidente
Lula, na sede do
PT. Para todas
as acusações,
sempre a mesma
resposta: a da
falta de provas

tórica política pode não salvá-lo do imbróglio jurídico em que ele está metido
00 de janeiro de 2017 I ÉPOCA I 31
T E AT R O D A P O L Í T I C A

Diego Escosteguy
á algumas verdades incontes- não há provas em qualquer acusação
táveis sobre Luiz Inácio Lula contra ele.“Se alguém tiver alguma pro-
da Silva. Lula é espirituoso. va contra mim, mande para a Justiça,
Carismático. Não se pode ti- para a Suprema Corte, para a imprensa.
rar isso do homem que foi o Eu ficaria mais feliz se eu fosse conde-
presidente mais popular da nado com base em alguma prova. Se
história do Brasil. Quando eles me desmascarassem.” Lula prosse-
Lula se põe a comentar sua histórica guiu com seu mantra. “Não sei como
condenação por corrupção e lavagem alguém consegue escrever quase 300
de dinheiro, portanto, sua fala não vai páginas para não dizer absolutamente
ser monótona, embora seja previsível. nada de prova contra a pessoa que ele
Lula convocou uma coletiva de impren- quer acusar. Não estou desafiando, não.
sa – ou um pronunciamento, já que re- Mas eu queria desafiar, não desafian-
pórteres não puderam fazer perguntas do, que os meus inimigos, sobretudo
– na sede nacional do PT na manhã da os donos dos meios de comunicação,
quinta-feira, dia 13. Discursou por 29 fizessem um esforço incomensurável
minutos. O auditório estava apinhado para apresentar uma única prova, um
e havia ainda gente do lado de fora, único papel assinado.” E, preparando
acompanhando a fala por um telão. o terreno para plantar esse mesmo ar-
Lula começou com uma piada, como de gumento num futuro próximo, avisou:
hábito. Disse que o juiz Sergio Moro é “Vocês vão ouvir falar muito de proces-
otimista com relação a sua saúde, já que sos iguaizinhos a esse”.
o condena a ficar fora da vida pública O ex-presidente Lula está errado.
por 19 anos. “Só posso voltar em 2036! Nas outras quatro ações penais em que
Isso significa que eu vou viver e vocês já é réu (uma em Curitiba e três em Bra-
vão ter que me suportar.” A plateia es- sília), há evidências robustas e difíceis
pera de Lula seu bom humor e aplaude de refutar reunidas pela Polícia Federal
quando as anedotas vêm. Ele entregou e pelo Ministério Público Federal. Lula
mais uma. Justificou a demora em se responde a processos por obstrução da
pronunciar sobre a sentença de Moro Justiça, organização criminosa, tráfi-
com um compromisso inadiável que ti- co de influência, corrupção e lavagem MÉTODO
O juiz Sergio Moro,
vera na véspera.“Primeiro, vamos ver o de dinheiro (leia o quadro nas páginas de Curitiba. Os três
Corinthians resolver os problemas com 34 e 35). O andamento dos processos processos sob sua
o Palmeiras”, disse Lula, referindo-se ao sugere que, nos próximos meses, o ex- pena têm o mesmo
dérbi da noite anterior. Lula partiu para presidente vai enfrentar uma série de mecanismo de
pagamento de
o conteúdo mais sério de sua defesa. Re- decisões de diferentes juízes. O discur- propinas via imóveis
petiu, como vem fazendo desde o início so de Lula sugere que ele vai respondê- que o caso do tríplex
da Operação Lava Jato, a ideia de que las sempre com o mesmo argumento: o

Os advogados do O relator da Lava Jato no TRF4 é o Lula pode recorrer


ex-presidente devem desembargador João Pedro Gebran da decisão dos
O ex-presidente já apresentar recurso da Neto. Ao receber o parecer da desembargadores no
declarou que vai decisão de Sergio Moro nos Procuradoria Regional da República, próprio TRF4 e, em
recorrer da decisão próximos dias. Depois da ele elabora seu relatório e voto, que seguida, no Superior
de Moro no caso do manifestação do Ministério serão analisados pelo desembargador- Tribunal de Justiça e no
Público, o processo segue revisor, Leandro Paulsen. Os votos dos Supremo Tribunal Federal
tríplex de Guarujá. para o Tribunal Regional dois seguem para o desembargador
Eis o que pode Federal da 4a Região, o Victor Laus. O julgamento na segunda
acontecer: TRF4, em Porto Alegre instância pode, então, ser marcado

32 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


da falta de provas. O passo estratégico
seguinte é insistir que toda e qualquer
acusação contra ele faz parte de uma
grande conspiração para tirá-lo do
jogo político. Ele mesmo reconheceu,
na quinta-feira, que não sabe debater
os detalhes jurídicos da condenação de
Moro ou de qualquer outro caso em
que está envolvido. Que sua vocação
é o debate político. Ninguém duvida
disso. Mas com os sucessivos processos
a que Lula responde chegando à eta-
pa de decisões, que podem condená-
lo ou absolvê-lo, a discussão jurídica
é obrigatória e antecede a discussão
político-eleitoral. Por mais que Lula
se esforce para misturar os dois, uma
coisa independe da outra, ainda que
o resultado de uma afete na outra. Na
quinta-feira, por exemplo, Lula tentou
contaminar a opinião pública contra
as instituições que ele mesmo ajudou
a fortalecer. Disse que a Polícia Federal
mentiu, o Ministério Público mentiu.
“Quero instituições fortes. Não falo da
instituição, mas dos procuradores e dos
agentes da força-tarefa da Lava Jato.” É
uma retórica falaciosa. Sem derrubar
com argumentos ou contraprovas uma
prova sequer apresentada pela PF ou
pelo MP, Lula busca enfraquecer a Lava
Jato e minar os efeitos da maior opera-
ção de combate à corrupção da história
do país e as instituições por trás dela.
Mais que isso. Lula tenta enganar
a plateia sobre o que é crime e o que é
prova para confundi-la. Faz isso não
fiado em seu próprio desconhecimen-
to, mas como tática. A tradição de s

De acordo com Antes da diplomação de Depois da


decisão do Supremo Lula, caso ele seja eleito diplomação
Tribunal Federal, de As eleições acontecem em outubro e de Lula, caso
que um condenado novembro, caso haja segundo turno. ele seja eleito
em segunda instância A diplomação do eleito só acontece Lula é confirmado
deve começar a em meados de dezembro. Caso a presidente e seu foro
cumprir sua pena, Lula decisão do TRF4 saia nesse intervalo, passa a ser o Supremo
pode ser preso. Além há controvérsia entre especialistas Tribunal Federal.
disso, o ex-presidente em Direito Eleitoral sobre o que pode Pelo ineditismo da
fica impedido de acontecer. Alguns dizem que Lula situação, os ministros
concorrer na eleição pode assumir o cargo recorrendo a do STF devem
presidencial, porque liminares em instâncias superiores. debater se a ação tem
passa a ser ficha suja Outros, que sua posse fica impedida prosseguimento

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 33


T E AT R O D A P O L Í T I C A

investigação e julgamento criminal em 2013 que o Congresso aprovou a


no Brasil é assentada nos crimes co- lei que melhor oferece instrumentos
muns contra a vida, como homicídio, NÃO EXISTE para desbaratá-las. Na essência desse
e contra o patrimônio, como roubo. “BALA DE PRATA” crime, está o segredo. Uma organiza-
A doutrina, a experiência histórica, os ção criminosa como a que sangrou a
códigos, todo o sistema jurídico brasi- EM UM CRIME Petrobras, ou a que o presidente Michel
leiro esteve, até coisa de 20 anos atrás, COMPLEXO, Temer e o senador Aécio Neves são acu-
voltado para esse tipo de processo e ao sados de integrar, precisa de sigilo para
tipo de prova que surge desses crimes. SÓ OS CARTUCHOS funcionar. Segredo sobre sua existência.
Afinal, o que imperava era a impuni- USADOS Sobre seus membros. Segredo sobre sua
dade para políticos e empresários que hierarquia. Sobre a divisão de tarefas.
praticavam crimes de colarinho branco Segredo sobre o modo de delinquir. So-
e contra a administração pública, como existe a chamada “bala de prata” num bre a forma de ganhar dinheiro ilicita-
a corrupção, a obstrução da Justiça e a crime complexo; existem somente, mente e lavar esse dinheiro. A principal
lavagem de dinheiro. Esses crimes são para ficar nessa analogia, os cartuchos medida para quebrar essa corrente de
chamados de crimes complexos. Não é usados e os vestígios de pólvora. Nem segredos é a colaboração premiada. É
difícil deduzir que as provas que decor- mesmo uma confissão, considerada basicamente a partir do depoimento
rem de crimes complexos são, também, a rainha das provas, é suficiente para de alguém de dentro da organização
mais intrincadas, menos óbvias. Provar desvendar um crime complexo. Quan- criminosa que ela começa a desmoro-
que uma vítima foi esfaqueada por um do Lula se fia no senso comum de que nar. A delação é um instrumento legal
ladrão é, por óbvio, mais simples que é preciso uma assinatura, uma digital, e uma técnica de investigação utilizada
demonstrar que um agente público e uma prova impossível para condená-lo, amplamente em países como Estados
um empresário se uniram para des- ele está sendo, no mínimo, ardiloso. Unidos e Inglaterra, assim como em
viar dinheiro dos cofres públicos para Entre os crimes complexos mais países com tradição jurídica mais pa-
offshores no exterior por meio de la- difíceis de comprovar está o da orga- recida com a brasileira, como a Alema-
ranjas. A construção do conjunto pro- nização criminosa. Tanto é assim que, nha, a Holanda e a Itália. Desqualificar
batório de um crime complexo exige depois de diversas experiências malsu- a validade e a legitimidade das delações
sofisticação investigativa, inteligência cedidas e sob forte pressão de parte do como meio de desbaratar uma orga-
policial, aparatos tecnológicos. Não Judiciário e da sociedade, foi somente nização criminosa é, novamente, de-

Seis casos que podem gerar processos – e condenações – contra

Segundo a denúncia, Lula se Lula é acusado de receber da Odebrecht Lula é acusado de comandar a
beneficiou de R$ 1 milhão em um terreno para a nova sede do compra do silêncio do ex-diretor
benfeitorias no sítio, pagas pelas Instituto Lula e o apartamento onde da Petrobras Nestor Cerveró para
empreiteiras Odebrecht e OAS mora, em São Bernardo do Campo evitar sua delação premiada

corrupção e lavagem de dinheiro corrupção e lavagem de dinheiro obstrução da Justiça

réu réu réu

oitiva de testemunhas perante instrução penal e oitiva de testemunhas alegações finais


o juiz Sergio Moro

Justiça Federal em Curitiba Justiça Federal em Curitiba Justiça Federal em Brasília

34 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


sonestidade intelectual de Lula – e faz logias coerentes de crimes complexos.
parte da estratégia de seus defensores. Todos apontam para o fato de que, di-
Para construir esse quebra-cabeça AS MINÚCIAS DOS ferentemente do que brada ao garantir
que demonstre a existência de crimes CASOS EM QUE LULA que é o homem mais honesto do país,
complexos executados por uma orga- Lula recebeu propina depois que dei-
nização criminosa, os investigadores ESTÁ ENVOLVIDO xou a Presidência da República. Como
colhem provas diretas e provas indire- REVELAM UMA ÉPOCA revelou em maio e Sergio Moro
tas. Numa analogia rasa com um crime confirmou em sua sentença, foram mais
comum, a prova direta é o testemunho HISTÓRIA COESA E de R$ 80 milhões que Lula recebeu das
de uma pessoa que tenha visto alguém MÉTODOS COERENTES empreiteiras do cartel que depenou a
ser assassinado, ali, na sua frente. A pro- Petrobras. Os pagamentos, debitados
va indireta é o testemunho de alguém das contas-correntes de propina que o
que viu duas pessoas entrando em uma Pinheiro, da OAS, e de Renato Duque, PT mantinha com Odebrecht e OAS,
casa, ouviu o grito de uma delas e viu ex-diretor de Serviços da Petrobras, foram por meio de imóveis, reformas
a outra saindo da casa com uma faca ambos testemunhas de fatos crimino- e dinheiro para empresas próprias ou
coberta de sangue. A testemunha não sos combinados diretamente com Lula. de parentes. Os episódios na Justiça de
assistiu ao assassinato. Mas as circuns- Quando o ex-presidente nega que haja Curitiba têm em comum o método de
tâncias do que ela viu tornam seu tes- provas contra ele ou quando o pre- pagamento de propina, fundamental-
temunho tão forte quanto o de alguém sidente Temer nega a validade do áudio mente o mesmo constatado no caso
que tivesse visto. É importante ressaltar: de Joesley Batista, da JBS, eles estão jo- do tríplex. Empreiteiras amplamente
uma prova indireta não é necessaria- gando com o imaginário do povo bra- beneficiadas com contratos bilionários
mente menos relevante que uma direta, sileiro de que não há provas possíveis na Petrobras retribuem as benesses com
especialmente em crimes complexos. em crimes de colarinho branco. Estão imóveis para o ex-presidente, tentando,
No caso de Lula, a faca ensanguentada jogando o Brasil para o atraso. a todo custo, escamotear a proprieda-
é o apartamento em Guarujá. É o sítio A eloquência de Lula não será sufi- de real dos imóveis. No caso do tríplex,
em Atibaia. São os bens que ele recebeu ciente para substituir as explicações que isso já foi provado e Lula condenado.
em troca de sua atuação na organiza- ele tem a dar. As minúcias dos casos em Em outro processo em que já é réu,
ção criminosa. As provas diretas são, que ele está envolvido contam uma his- Lula é acusado de receber propina da
por exemplo, os depoimentos de Léo tória coesa, revelam métodos e crono- Odebrecht na forma de um terreno s

Lula nos próximos anos

Lula é acusado de atuar para que o BNDES Lula é acusado de receber dinheiro, A partir da delação dos executivos do
liberasse recursos para a Odebrecht em nome de um dos filhos, em troca J&F a Procuradoria da República no DF
em Angola em troca da contratação de ajuda no governo para favorecer as investiga pagamento de US$ 80 milhões
de uma empresa de seu sobrinho empresas MMC, grupo Caoa e Saab do grupo a Lula e Dilma Rousseff

organização criminosa, corrupção tráfico de influência ainda não há


passiva e tráfico de influência
réu réu investigado

denúncia foi aceita, mas ainda não oitiva de testemunhas inquérito


começou a oitiva de testemunhas

Justiça Federal em Brasília Justiça Federal em Brasília Justiça Federal em Brasília

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 35


T E AT R O D A P O L Í T I C A

para o Instituto Lula e do apartamento


em que o ex-presidente mora, em São
Bernardo do Campo. O juiz desse pro-
cesso também é Sergio Moro. A docu-
mentação que comprova a transação do
apartamento é farta. Enquanto Lula foi
presidente, o imóvel era alugado para
a Presidência da República. No fim de
2010, a Odebrecht comprou e repassou
o apartamento a Glauco Costamarques,
primo de José Carlos Bumlai, pecuarista
amigo de Lula. No entendimento dos
procuradores, Costamarques é laranja
de Lula. A defesa do ex-presidente diz
que ele seguiu pagando aluguel pelo
imóvel. Mas não apresentou provas
disso. Há provas diretas: e-mails entre
executivos da Odebrecht e operadores
de Lula; extratos bancários; certidões do
imóvel; e outros papéis que corroboram
com a acusação. Há também provas in-
diretas, como depoimentos. Bem como
no caso da compra do terreno para a
construção da nova sede do Instituto
Lula, que ainda é reforçada pelos depoi-
mentos de executivos da Odebrecht, in-
cluindo o próprio Marcelo Odebrecht. A
transação acabou não se concretizando
porque, segundo os delatores, Lula não
gostou do terreno. Mas, para Moro, isso
não impede que tenha havido o crime
de corrupção, que consiste na oferta e
na solicitação de propina. O terceiro
caso sob a pena de Moro é o do sítio de
Atibaia, oferecido como propina pela
OAS e pela Odebrecht, também ampla-
mente corroborado por provas diretas
e indiretas. Lula ainda não é réu nesse
processo, mas é altamente provável que
Moro acolha a denúncia do MP e Lula brasileiro de caças Gripen, da empresa
se torne réu em breve. sueca Saab, e na prorrogação, até 2020,
Há outros dois mecanismos de paga- dos incentivos fiscais para montadoras,
mento de propinas já detectados em in- pela Medida Provisória 627, favorecen-
vestigações envolvendo o ex-presidente: do as empresas MMC e Caoa. Em troca
via contratação de palestras e de servi- de sua atuação nos dois episódios, Lula
ços de sua empresa, a LILS; e via benefí- recebeu dinheiro por meio das empre-
cios para parentes de Lula. Em Brasília, sas do filho Luís Cláudio: entre junho
Lula é réu em três processos. Em dois de 2014 e março de 2015, o patrimônio
deles, esses métodos são identificados. OS CAMINHOS das empresas de Luís Cláudio cresceu
No caso sob a Operação Zelotes, os cri- DO DINHEIRO DA 770%. Foram nove repasses que tota-
mes de que Lula é acusado são tráfico lizaram R$ 2,5 milhões. O Ministério
de influência e lavagem de dinheiro. CORRUPÇÃO VÃO Público diz que todo o esquema foi
Para os investigadores, Lula usou sua FICAR MAIS CLAROS combinado entre Lula, seu filho e o ca-
influência em associação com os lobistas sal de lobistas em encontros no Instituto
Mauro Marcondes e sua mulher, Cris-
COM AS DELAÇÕES DE Lula. Tudo documentado com compro-
tina Mautoni, na compra pelo governo PALOCCI E DUQUE vantes bancários, e-mails entre os en-

36 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


em que Lula é réu por obstrução da Jus-
tiça, derivado da delação premiada do
ex-senador petista Delcídio do Amaral.
O ex-presidente é acusado de articular
e financiar a compra do silêncio do ex-
diretor de Internacional da Petrobras
Nestor Cerveró, que estava preso na
época. Quando incluiu Lula na denún-
cia, o procurador-geral da República,
Rodrigo Janot, ressaltou que “embora
afastado formalmente do governo, o
ex-presidente Lula mantém o controle
das decisões mais relevantes, inclusive
no que concerne às articulações espúrias
para influenciar o andamento da Ope-
ração Lava Jato, a sua nomeação ao pri-
meiro escalão, à articulação do PT com
o PMDB, o que perpassa o próprio rela-
cionamento mantido entre os membros
desses partidos para o funcionamento da
organização criminosa ora investigada”.
Os caminhos do dinheiro da corrup-
ção na Petrobras até Lula e sua família
vão ficar mais claros com as delações
premiadas que devem ser fechadas nos
próximos meses. A que tem o maior
potencial explosivo é do ex-ministro
Antonio Palocci, acusado de ser o
administrador das propinas para o ex-
presidente. O ex-diretor de Serviços
da Petrobras Renato Duque, indicado
pelo PT, também tem muito a dizer e
já deu alguns depoimentos altamente
danosos a Lula. O mesmo acontece
com Léo Pinheiro, da OAS. Somadas,
as três colaborações vão instruir o caso
a que Lula responde no Supremo Tri-
bunal Federal, por ser investigado ao
TRIBUNAL
Os desembargadores lado de dezenas de políticos com foro
volvidos e depoimentos. Na Operação do TRF4, que julgarão privilegiado acusados de ser parte da
Janus, Lula é acusado de ser parte de o recurso de Lula no organização criminosa que assaltou a
uma organização criminosa e de tráfico caso do tríplex. Se a Petrobras. Os três delatores corrobo-
condenação for
de influência. O ex-presidente é acusado confirmada, Lula ram a posição de chefia de Lula nessa
de atuar para que o BNDES liberasse poderá ficar inelegível quadrilha. Há ainda uma investigação
recursos para uma obra da Odebrecht em estágio inicial sobre o que relatou
em Angola. Em troca, uma empresa o empresário Joesley Batista, da JBS,
de seu sobrinho Taiguara Rodrigues em sua delação premiada – Joesley diz
foi subcontratada pela Odebrecht e que a propina que pagava por favores no
recebeu R$ 20 milhões. Além disso, a BNDES era destinada a Lula e à ex-pre-
Odebrecht retribuiu contratando pa- sidente Dilma Rousseff. O ex-presidente
lestras de Lula – assim como fizeram Lula concluiu seu discurso, na quinta-
outras empreiteiras do cartel. Aqui, feira, dizendo que “somente na política
novamente, as provas foram robuste- quem tem direito de decretar o meu fim
cidas com as delações da Odebrecht, é o povo brasileiro”. Antes, Lula precisa
especialmente a de Marcelo Odebrecht. solucionar a dificílima situação jurídica
Também está em Brasília o processo em que está metido. u

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 37


T E AT R O D A P O L Í T I C A

R$ 128 milhões
para não perder
Intervenção e dinheiro para emendas de parlamentares
evitam que o governo seja derrotado em comissão que
examina denúncia de corrupção contra Michel Temer
Patrik Camporez e Aguirre Talento

T oda festa tem um custo. A come-


moração registrada pela foto ao
lado, protagonizada pelos alia-
dos do presidente Michel Temer na noi-
ta da quinta-feira, dia 13, no plenário da
devido julgamento seria ampliar perigo-
samente o abismo entre a sociedade e as
instituições”, disse. A oposição chegou a
contar 40 votos favoráveis ao ponto de
vista de Zveiter. Sem qualquer discrição
Comissão de Constituição e Justiça da ou pudor, o Palácio do Planalto inter-
Câmara, já está orçada e com pagamen- veio. Pressionou, e os líderes de partidos
to comprometido no orçamento do go- aliados trocaram 13 integrantes da co-
verno federal.Vai custar R$ 128 milhões, missão que votariam contra Temer.
a ser distribuídos, não de forma igualitá- “Dois anos e meio nessa comissão como
ria, para ações recomendadas por 40 titular e aí eu tomo consciência pela im-
deputados. Fazem parte de uma fatia do prensa que eu não presto. Eu não vendo
orçamento federal, que cada parlamentar meu voto”, disse o deputado Delegado
tem o direito de sugerir no que a União Waldir, do PR de Goiás.“Eu sei que hou-
A SOLUÇÃO
deve gastar. Esse dinheiro será liberado ve um caminhão de liberação de emen- Deputados
para os 40 que votaram contra a Câmara das. Não é assim que se faz um governo.” comemoram a
dar continuidade à denúncia na qual o Só nos 13 primeiros dias de julho, o vitória do governo
procurador-geral da República, Rodrigo governo se comprometeu a gastar R$ na CCJ. Emendas
são injeção de
Janot, acusa o presidente Michel Temer 1,9 bilhão com emendas, segundo os fidelidade política
de cometer crime de corrupção, ao rece- dados do Siafi, o sistema de contabili-
ber indiretamente R$ 500 mil do grupo dade do governo federal (leia o quadro
J&F. Votaram para salvar Temer. A cru- na pág. 40). É uma explosão de gastan-
zada do presidente para manter-se no ça sem precedentes no ano. De janeiro
poder custa – e os brasileiros pagam. a maio, o governo havia empenhado
Com esse artifício, em três dias na apenas R$ 102,5 milhões nas emendas
semana passada o governo Temer virou de deputados e senadores. Em junho, o
um jogo que esteve perdido do ponto de valor explodiu para exorbitante R$ 1,8
vista político. Na segunda-feira, dia 10, bilhão. Era muito, mas pouco perto do
o deputado Sergio Zveiter, do PMDB de que viria em julho.
Temer, leu um relatório contundente, no Lido no dia 10, o relatório de Zveiter
qual recomendava voto favorável à tra- acelerou o ritmo do caixa num governo
mitação da denúncia contra Temer.“Im- que luta para não romper a meta de não
pedir o avanço das investigações e seu ter um déficit maior de R$ 139 bilhões.

38 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


Só nos dias 12 e 13 de julho, respecti- Dinheiro para emendas é uma inje- apresentou um relatório do deputado
vamente a véspera e o dia da votação, ção de fidelidade política na veia. Cien- tucano Paulo Abi-Ackel, que defendia
foram empenhados R$ 19 milhões a tes disso, por volta das 16h15 da quinta- o contrário: a rejeição da denúncia con-
esse mesmo grupo de parlamentares, feira, dia 13, dois dos principais articu- tra Temer. “De onde extraiu o eminen-
que retribuíram os pagamentos com os ladores do governo, os deputados Pau- te procurador-geral da República, dou-
votos favoráveis na comissão. Na quar- derney Avelino (DEM-AM) e Beto tor Rodrigo Janot, a convicção que
ta-feira, dia 12, o discreto deputado Mansur (PRB-SP), sorriam e circula- ligue, envolva, inclua o presidente Mi-
Paulo Maluf, do PP de São Paulo, dis- vam no plenário da comissão uma lista chel Temer no recebimento, pelo senhor
cursou por Temer. “Conheço Temer há com a contabilidade dos parlamentares Rocha Loures, da importância de R$
35 anos e em 35 anos de convivência que votariam a favor do presidente Mi- 500 mil, por ordem de Joesley Batista?”,
não dá para a gente se enganar: Temer chel Temer. O clima era de tranquilida- disse Abi-Ackel. “A denúncia é unica-
é um homem honesto, probo, correto e de, ânimos serenos, um contraste fla- mente baseada em uma suposição.”
decente que está sendo acusado de ma- grante em relação às sessões anteriores, Dias antes, o governo agraciara Abi-
neira absolutamente imprópria”, decla- quando as discussões entre aliados do Ackel com R$ 5 milhões para suas
rou Maluf, condenado na França e no governo e oposição atingiram os deci- emendas, com recursos dos ministérios
Brasil por lavagem de dinheiro. Até o béis de um pancadão. O relatório de das Cidades, Esportes, Agricultura e do
dia 13, o governo havia empenhado R$ Zveiter foi rejeitado por 40 votos a 25. Fundo Nacional de Saúde. O relatório
4 milhões para emendas de Maluf. Ato imediato, a turma do governo foi aprovado com tranquilidade. s

Foto: Andre Coelho/Ag. O Globo 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 39


T E AT R O D A P O L Í T I C A

O governo gastou os tubos em capital


O COFRE FOI 0,01 0,01 0,05 0,05 0,08 1,80 1,9
90
financeiro e político para alcançar uma
ESCANCARADO vitória de pouco efeito prático, já que a
Após denúncia contra decisão final sobre a denúncia contra
Temer, o governo gastou Temer caberá ao plenário. O esforço foi
quase R$ 4 bilhões em feito para evitar uma derrota de forte
agrados a parlamentares simbolismo, que poderia contaminar o
Em R$ bilhões
esforço futuro para angariar 172 votos no
plenário contra a denúncia. Mas as fragi-
lidades ficaram expostas. Temer investiu
jan. fev. mar. abr. maio jun. jul.(1) em conversas diretas com três líderes par-
tidários importantes quando a política

R$ 3,9 BILHÕES
precisa daquelas negociações mais diretas.
Total empenhado em
emendas parlamentares
Conversou pessoalmente com o ministro
Gilberto Kassab, do PSD, o senador Ciro
Nogueira, do PP – dois investigados pela
VOTOU EM TEMER, RECEBEU Lava Jato –, e o ex-deputado Valdemar
Os deputados que ajudaram Temer na CCJ levaram R$ 128 milhões(2) Costa Neto, controlador do PR e conde-
Em R$ milhões nado no mensalão. Após a conversa, os
três partidos obrigaram seus deputados
Alceu Moreira PMDB I RS 3,1
André Moura PSC I SE 4,9
a votar por Temer. Nos próximos dias,
Antonio Bulhões PRB I SP 3,1 no entanto, o trio vai apanhar da Lava
Arthur Lira PP I AL 1,1 Jato, o que pode prejudicar sua capacida-
Beto Mansur PRB I SP 4,7 de de controlar suas bancadas.
Bilac Pinto PR I MG 4,9 Contudo, o governo não conseguiu
Carlos Bezerra PMDB I MT 1,5
Carlos Marun PMDB I MS 0,7
seu objetivo maior, que era fazer a Câ-
Carlos Melles DEM I MG 1,9 mara votar a denúncia na semana pas-
Cleber Verde PRB I MA 4,3 sada, antes do recesso. Na noite de quin-
Cristiane Brasil PTB I RJ 0 ta-feira, após o encerramento da sessão
Daniel Vilela PMDB I GO 0 na comissão, o presidente da Câmara,
Danilo Forte PSB I CE 2,8
Darcísio Perondi PMDB I RS 2,2
Rodrigo Maia, reuniu-se com líderes
Delegado Éder Mauro PSD I PA 4,0 partidários e combinou que a votação
Domingos Neto PSD I CE 10,7 da denúncia contra Temer no plenário
Edio Lopes PR I RR 2,9 ocorrerá em 2 de agosto, após o recesso
Elizeu Dionizio PSDB I MS 2,6
parlamentar. A votação será nominal e
Evandro Gussi PV I SP 0,2
Evandro Roman PSD I PR 0,6 aberta – cada parlamentar terá de ir ao
Fabio Garcia PSB I MT 5,9 microfone declarar seu voto. Será neces-
Fausto Pinato PP I SP 4,2 sário um número mínimo de 342 depu-
Genecias Noronha SD I CE 4,0 tados para que a sessão ocorra.
Hildo Rocha PMDB I MA 5,3
José Carlos Aleluia DEM I BA 0,3
A oposição trabalha para que a ses-
Juscelino Filho DEM I MA 5,8 são ocorra com quórum máximo, o que
Laerte Bessa PR I DF 2,3 é ruim para Temer. Levantamento feito
Luiz Fernando Faria PP I MG 3,6 por ÉPOCA – e atualizado em epoca.
Magda Mofatto PR I GO 2,0 com.br – mostra que mais de 330 de-
Maia Filho PP I PI 0
Marcelo Aro PHS I MG 4,1
putados já se comprometem a compa-
Milton Monti PR I SP 4,7 recer. Até agosto, Temer estará exposto
Nelson Marquezelli PTB I SP 3,8 às intempéries de deputados sendo co-
Paes Landim PTB I PI 3,7 brados em suas bases a votar contra um
Paulo Abi-Ackel PSDB I MG 5,0
presidente impopular. Estará exposto
Paulo Maluf PP I SP 4,0
Rogério Rosso PSD I DF 4,0 às conversas de seu antigo aliado, o ex-
Ronaldo Fonseca PROS I DF 0,7 deputado Eduardo Cunha, e seu opera-
Thiago Peixoto PSD I GO 3,3 dor financeiro, Lúcio Funaro, com a
Toninho Pinheiro PP I MG 5,4 turma da Lava Jato, além do ex-minis-
tro Geddel Vieira Lima e do ex-assessor
(1) Até o dia 13
(2) Valor empenhado em emendas pelo governo entre 1o e 13 de julho Rodrigo Rocha Loures. Esses não há
Fonte: Siafi emenda que alcance. u

40 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


E N T R E V I S TA

R U Y FAU S T O

“O PT não defende a causa


da esquerda. Nem a do país”
O filósofo afirma que, para se renovar, a esquerda precisa
rejeitar o populismo, comprometer-se com a democracia
e encontrar um candidato que não seja Lula
Ruan de Sousa Gabriel

O filósofo Ruy Fausto, professor emérito do Depar-


tamento de Filosofia da Universidade de São Pau-
lo (USP), é um dos mais renomados estudiosos
do pensamento de Karl Marx no Brasil e autor de clássicos
como Marx: lógica e política. Em seu último livro, Caminhos
coloração política. A atitude da direção do PT é muito
criticável. Em seu congresso, o partido se eximiu de toda
autocrítica no que se refere a suas “práticas administra-
tivas”. Ainda por cima, se arrependeu do apoio dado ao
Ministério Público e à Polícia Federal nos governos Lula
da esquerda: elementos para uma reconstrução (Companhia e Dilma Rousseff. Defendeu o pior, condenou o melhor.
das Letras, 216 páginas, R$ 39,90), o filósofo apresenta um Se a direção do PT tivesse feito o contrário, hoje o partido
projeto teórico e político para ajudar a esquerda brasileira teria todas as condições para fazer uma grande campanha
a sair do buraco onde se enfiou. Esse projeto exige o exor- em defesa de Lula. Entende-se que se lute pela absolvição
cismo do autoritarismo e do populismo, que ainda tentam de Lula, mas quem acreditará num partido que diz não
a esquerda brasileira, e compromissos reais com a demo- ter culpa no capítulo das jogadas ilícitas e que, ao mesmo
cracia, o meio ambiente e as demandas das classes médias. tempo, condena sua política de respeito à autonomia do
Fausto conversou com ÉPOCA sobre a condenação do ex- MP e da PF? O congresso do PT defendeu a causa dos
presidente Lula, os dilemas da esquerda, o petismo como burocratas do partido, não a causa da esquerda ou do
patologia e o lugar do velho Marx nessa história toda. país. Por isso, não devemos apostar no PT, embora o PT
não esteja morto.
ÉPOCA – Como vê a condenação de Lula?
Ruy Fausto – Espero que Lula seja absolvido em segunda ÉPOCA – Se Lula não concorrer à Presidência em 2018,
instância. O PT fez muitas coisas más. Quanto à respon- isso facilitará a renovação da esquerda?
sabilidade de Lula, é preciso ver. As razões da condenação Fausto – Insisto que não quero que Lula seja condenado em
neste primeiro processo são duvidosas. Certamente houve segunda instância. Já disse e repito que quero que ele possa
promiscuidade ilegítima entre o poder e as empresas. De ser candidato. Mas não creio que a candidatura de Lula seja
qualquer modo, há bastante assimetria em todos esses a melhor solução. Acho que deveríamos partir para outra.
processos da Lava Jato. No início, só o PT era culpado.
Não sou defensor do PT, mas é evidente para qualquer ÉPOCA – Quem melhor representaria a esquerda?
observador bem-intencionado que a corrupção era geral. Fausto – Dois nomes me parecem razoáveis: Fernando Had-
A diferença é que, se todos os partidos enveredaram pela dad, do PT, e Marcelo Freixo, do PSOL. Sou favorável a
corrupção, o PT distribuiu renda como os outros não fi- escolher um desses candidatos jovens para compor uma
zeram. Isso inocenta o PT? Não. Isso nos leva a apostar no chapa com um nome da chamada “sociedade civil”. Talvez
PT? Também não. A condenação de Lula tem uma forte uma mulher. Não sei. Estou apenas especulando. Não é s

42 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


CAPITAL
POLÍTICO
O filósofo Ruy
Fausto. Ele
propõe uma
nova esquerda
democrática
e antipopulista

Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 43


E N T R E V I S TA Ruy Fausto

certo que essa chapa ganhe, mas, se for possível fazer uma Fausto – Em primeiro lugar, é importante denunciar o que
boa campanha, falar umas verdades, já seria ótimo. Será aconteceu de errado, sem poupar o PT. Houve muita cor-
preciso fazer uma campanha inteligente contra o liberalis- rupção. A política econômica de Dilma Rousseff foi um
mo que corre solto por aí, contra a ideia de que o mercado desastre. O mais grave não foi o “intervencionismo”, mas a
é solução para tudo. Há dois grandes perigos: a extrema- forma errada que ele tomou, com congelamento arbitrário
direita, representada por Jair Bolsonaro, e o discurso hiper- de preços, grandes facilidades concedidas a certas empresas.
liberal, encarnado por João Doria. É preciso enfrentá-los. Tratava-se de medidas econômicas erradas e que abriam as
portas para todo tipo de corrupção. Precisamos substituir
ÉPOCA – Em Caminhos da esquerda, o senhor expõe esse tipo de política não por uma outra neoliberal, mas
o projeto de uma nova esquerda antitotalitária, antica- por um neokeynesianismo inteligente. Em segundo lugar,
pitalista, antipopulista e ecológica. Faz isso mais pela é importante apoiar bons candidatos em 2018: gente com
negação, ao diferenciá-la do socialismo soviético e dos uma postura de crítica ao sistema, com uma exigência cla-
governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, do que ramente democrática e com uma atitude antipopulista, que
pela afirmação. Como seria, afinal, essa nova esquerda? implique recusa absoluta das práticas de corrupção. Em
Fausto – Nosso projeto não é mais aquele antigo programa terceiro lugar, é importante uma reforma política que limite
marxista de fim do Estado ou da propriedade privada. o poder econômico abusivo nas eleições. Se tudo isso for
Vivemos numa sociedade de mercado, com capital hege- feito, os costumes políticos vão mudar e o círculo vicioso
mônico. Precisamos estudar como setores não capitalistas, da concessão de subsídios em troca do financiamento de
como as cooperativas, podem se tornar hegemônicas no campanhas será superado.
interior de uma sociedade de mercado. Um projeto desses
não é nenhum absurdo do ponto de vista antropológico. ÉPOCA – Recentemente, a França, país que o senhor co-
Do ponto de vista econômico, é praticá- nhece bem, elegeu à Presidência Emma-
vel. A curto prazo, o projeto é desenvolver nuel Macron. Um político que, ao afirmar
já as formas cooperativas e defender as não ser nem de direita nem de esquerda,
conquistas do Estado de Bem-Estar So- venceu o populismo de extrema-direita
cial, que está ameaçado por todo lado. Há Não creio que de Marine Le Pen. Como o senhor inter-
também um trabalho a ser feito quanto a candidatura preta o fenômeno Macron?
à democracia. Não se trata de lutar con- Fausto – Macron é um fenômeno interes-
tra a democracia representativa, mas de de Lula seja a sante e curioso. Ele representa uma tec-
desenvolver também outras formas de melhor solução. nocracia jovem que conseguiu se impor
democracia e impedir que a política vire
um métier.
Devemos partir com um programa liberal moderado, se
comparado ao de brasileiros como Doria
para outra” e companhia. Com Macron, a direita ga-
ÉPOCA – O senhor critica o “adesismo” nhou uma nova cara. A cara da direita era
dos partidos de esquerda que, uma vez a de um velho corrupto e incompetente.
no poder, convergem para o centro e promovem um pro- Hoje é a de um jovem “de centro”, honesto e competente
grama liberal. No entanto, o que o senhor chama de ade- – ao modo deles, é claro. Muita gente do governo Macron
sismo é, em geral, resultado de alianças com o centro e veio do Partido Socialista e era próxima ao Dominique
com a direita, em nome da governabilidade. Como deve Strauss-Kahn (ex-direitor do Fundo Monetário Internacio-
ser a política de alianças dessa “nova esquerda”? nal). É uma esquerda que aderiu ao sistema.
Fausto – Isso é complicado. Um partido tem de ter flexibi-
lidade para fazer alianças. Mas há alianças e alianças. Há ÉPOCA – O senhor é um grande leitor de Marx. Que papel
coisas que um partido de esquerda não deveria fazer de Marx desempenha na formação dessa “nova esquerda”?
jeito nenhum. Não deveria participar da corrupção, como Fausto – Marx era um grande teórico, que leu toda a litera-
o PT participou. O PT pagou um preço alto pelas alianças tura econômica de sua época. Ele era muito forte na teoria,
que escolheu fazer. Aliança se faz com o centro, não com a o que não quer dizer que acertasse sempre na política – até
direita ou com corruptos. Na política atual, se faz aliança na teoria, ele às vezes errava. O esquema político de Marx,
com qualquer um. No início, o PT tinha uma política de com ideias de revolução violenta e ditadura do proletariado,
alianças muito exigente, inflexível e intransigente. Era até envelheceu. O núcleo da obra dele precisa ser revisto. Há
duro demais. É preciso ter algum jogo de cintura na política. problemas sérios ali, que afetam os fundamentos, mas há
também muitas coisas boas. Precisamos fazer uma nova
ÉPOCA – O governo do PT é acusado de facilitar o patri- crítica da economia política, que passa por uma leitura crí-
monialismo com a política de “campeões nacionais”, que tica. Como filósofo, eu fiz um trabalho adjetivo com a obra
potencializou a troca de favores entre grandes empresá- de Marx. Hoje, o que se impõe é um trabalho substantivo,
rios e o governo. Como evitar que isso volte a acontecer uma crítica interna da obra. Eu ainda tenho o sonho de me
no futuro, em qualquer governo? associar a um economista para fazer essa crítica. u

44 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


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Direita e esquerda,
unidas pelo fanatismo
O país está mais interessado por política, o que é bom. Mas, quando o
interesse vira fanatismo, o objetivo se perde. Viver em democracia é
ceder, fazer compromissos, selar acordos – e, principalmente, dialogar
Joel Pinheiro da Fonseca

V ivemos tempos de polarização. Você já


deve ter percebido. Na mesa de jantar,
no trabalho, nos táxis, o futebol vai per-
dendo espaço para outro tipo de discussão: Lula,
Temer, reformas, eleições. Não é que as pessoas
formas permanecem. Um lado se veste de verme-
lho e o outro de verde e amarelo, mas coxinhas e
petralhas são, na verdade, muito próximos.
Para começar, nenhum dos dois tolera a im-
prensa. A esquerda jura que a mídia tradicional é
estejam apenas mais interessadas na política; golpista. A direita, imitando seu ídolo internacio-
elas têm opiniões mais fortes também. nal Donald Trump, fala em “fake news”. Ambas
Em algum momento, alguém acreditou que a têm seus blogs e sites de qualidade duvidosa para
internet e as redes sociais poderiam servir para reafirmar todas as suas crenças preestabelecidas.
unir as pessoas e solucionar discordâncias. Ocor- Tudo o que vem do mainstream está contaminado
reu o contrário. Confrontados com a opinião pela ideologia rival. Como justificar que a socieda-
alheia que nos desagrada, reafirmamos ainda de esteja tão equivocada? Aí não faltam teorias da
mais nossa convicção. A quantidade de infor- conspiração. Para a esquerda, é o capital financeiro
mação circulando na rede é tamanha que dá para que propaga o neoliberalismo pelo mundo em
cada grupo encontrar os fatos e os dados de que desenvolvimento. Para a direita, o mesmo capital
precisa para montar sua própria narrativa. financia a ideologia do globalismo, que quer abolir
As pessoas estão cada vez mais distantes em os países e as culturas tradicionais. De um lado,
suas escolhas políticas; o meio vai aos poucos se irmãos Koch; de outro, George Soros.
esvaziando (ainda que, num país como o Brasil, A briga se estende às salas de aula. O Proje-
ainda seja a franca maioria). Ao mesmo tempo, to de Lei Escola sem Partido busca agir como
não consigo deixar de notar semelhanças entre uma lei da mordaça para todos os professores,
os lados opostos; entre a esquerda e a direita que impedindo-os de se posicionar e, a bem da ver-
cada vez mais dominam as ruas e as redes sociais. dade, de tratar de temas políticos, religiosos e
Por trás de ideologias tão díspares, vemos com- ideológicos em sala de aula. A proposta de lei
portamentos e atitudes estranhamente similares, inviabiliza qualquer boa aula (ao menos da área
o que me indica que, talvez, as diferenças no cam- de humanas) e, se aplicada, deixaria os alunos
po das ideias não sejam o fator mais importante. completamente alheios a importantes discussões.
Estamos acostumados a olhar para as divisões Mas dá para entender de onde ela vem. É uma
políticas antes de tudo do ponto de vista da ideolo- reação direta a um enorme número de professo-
gia. Proponho uma outra hipótese: as ideias são res de esquerda que encaram como sua missão na
elementos secundários de uma dinâmica social escola converter os jovens a sua própria visão de
que consiste principalmente na identificação mundo. Falam em ensinar “pensamento crítico”,
do indivíduo com um grupo: sua grande tribo. mas com isso não querem passar um ferramental
Joel Pinheiro
da Fonseca
Sendo assim, não importa muito o conteúdo das cognitivo para permitir aos alunos pensarem por
é economista e ideias de cada lado: eles acabarão se comportando si mesmos e questionarem tudo; e sim aceitarem,
mestre em filosofia de maneiras muito parecidas. As cores mudam, as sem questionamento algum, as críticas que os

46 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


FLA E FLU
Manifestações
professores fazem ao sistema. Em ambos os casos, real de trabalhar pelo país: um Congresso de cada a favor e contra
o principal é impedir que a ideologia do outro vez mais Bolsonaros e Jean Wyllys. a condenação
lado chegue aos ouvidos das crianças. Para nossa política, o saldo geral é lastimável. de Lula, em
São Paulo. Um
Por trás dessas posturas está uma mesma ati- Estamos perdendo a capacidade de dialogar e grupo hostilizou
tude fundamental: ambos os lados encaram tudo chegar a acordos. O statu quo brasileiro sempre integrantes
na sociedade como nada mais do que uma guerra foi corrupto. Radicais de direita tanto quanto os do outro – e
vice-versa
pelo poder. Não existe objetividade ou imparcia- de esquerda não toleram mais a corrupção, o que
lidade: devo em todos os atos ajudar meu time. é bom. O problema é que eles também acabam
Ao me manifestar em público, não procuro a rejeitando, como corrompidas, características da
verdade, mas apenas uma narrativa conveniente nossa política que são, antes, virtudes. Verdadei-
para o meu lado, ou seja, que persuada as pessoas ras necessidades num país democrático.
que me ouvem. Não há nenhum interesse em Saber ceder, fazer compromissos, encontrar
cooperar para, quem sabe, produzir uma socie- um meio-termo; longe de serem “traições” de
dade melhor. O outro lado não quer o bem da uma agenda santa, são justamente o que permite
sociedade; ele é maléfico e deve ser extirpado. que vivamos em uma mesma sociedade sem ma-
São comunistas ou fascistas, gente que, na me- tar uns aos outros. Não é preciso dizer que, se esse
lhor das hipóteses, podemos tolerar (enquanto tipo de mentalidade intolerante se alastrar pelo
não temos a força para esmagá-los), mas jamais país, a sociedade acaba; caímos na guerra civil.
aceitar como pares legítimos na construção da so- É bom que as pessoas se interessem mais por
ciedade. Nosso lado tem o monopólio da virtude. questões políticas. Sem isso, a roubalheira con-
Nesse cenário de conflito tribal, os participan- tinuaria a comer solta e totalmente impune. Es-
tes preferem vitórias simbólicas à capacidade de tamos mudando isso. Entretanto, na medida em
realizar algo de fato. Os atos que servem apenas que se politizar signifique também participar de
para manifestar seu amor ou repúdio a algo falam forma mais fanática dessa guerra pelo poder, nos
mais alto. Até expressões verbais parecidas foram tornamos pessoas piores. Pessoas menos dispos-
desenvolvidas: esquerda “lacra”, a direita “mita”. É tas a ouvir e aprender, menos dispostas a ceder,
o jeito de se referir a uma resposta que suposta- menos dispostas a cooperar. Se não soubermos
mente fecha o debate, deixando o outro lado hu- transcender esse tribalismo, o interesse renovado
milhado e sem resposta. Os representantes valem na política terá sido em vão ou até nocivo; melhor
pelo que simbolizam, e não por sua capacidade seria ter continuado a falar só de futebol. u

Fotos: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto (2) 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 47


CENAS BRASILEIRAS

Só a Providência
divina salva
A calmaria que ensaiou se instalar, sumiu. Um morro
símbolo do Rio de Janeiro vive de prejuízos, frustração
e medo com a volta dos conflitos entre polícia e bandidos
48 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017
Sérgio Garcia e Hudson Corrêa

M isto de beco e escadaria, um gigantesca da Lua. Era um bom passeio.


corredor estreito que margeia A Unidade de Polícia Pacificadora
a beira do morro leva a uma (UPP) da Providência foi inaugurada em
casa onde funciona o restaurante Sabor abril de 2010 numa solenidade em que o
das Louras. Na varanda do 2o andar, duas então governador Sérgio Cabral – hoje
mesas proporcionam uma vista da Baía preso por corrupção numa cela a poucos
de Guanabara e de um pedaço da Estação quilômetros dali – prometeu mudanças
Central do Brasil, um privilégio que des- “extraordinárias”. A unidade era tida
fruta quem acessa aquela área do Morro como exemplar pelo ex-secretário de Se-
da Providência, no centro do Rio de Ja- gurança José Mariano Beltrame, entre
neiro. Outras 13 mesas ficam na laje da outros motivos por oferecer cursos pro-
casa, espaço de mirante mais amplo. Fo- fissionalizantes aos moradores. O primei-
tos e certificados de prêmios cobrem ro chefe da UPP foi até a um baile de
uma das paredes. Rosana Damasceno, a debutantes no morro, com farda branca
proprietária, prepara os pratos numa de gala e tudo. Dentro da política de apro-
cozinha pequenina, bem cuidada, com ximação com moradores, um andar in-
enormes panelas na prateleira. O carro- teiro da sede virou uma academia de artes
chefe do elogiado cardápio é a carne- marciais, com instrutores da PM. Ali
seca com nhoque de abóbora. É meio- Gabriel Monteiro aprimorou os golpes
dia, mas um pano verde cobre o fogão. até se sagrar campeão mundial de jiu-
Rosana o levanta e -jítsu em 2015. Suélen
volta a estendê-lo. Desterro, de 20 anos,
“Hoje não virão clien- destaque atual, fatu-
tes”, diz. Rosana che- A CIRCULAÇÃO rou mais de 80 meda-
gou a servir 300 refei- DE TURISTAS FOI lhas em torneios esta-
ções por dia, a maior duais e nacionais.
parte para a clientela SUBSTITUÍDA PELA Rosana, Cosme,
egressa do “asfalto”, VOLTA DE TRAFICANTES Gabriel e Suélen caí-
cariocas e turistas em- ram na lorota prome-
polgados em comer
PELAS RUAS E tida por Cabral em
bem e conhecer um VIELAS DO MORRO discursos durante seu
local antes interditado reinado de joias e pro-
pelos constantes con- pinas. A freguesia de
frontos entre polícia e traficantes. Rosana desapareceu, e as vendas despen-
Os clientes de Rosana movimentavam caram para cerca de dez refeições por dia.
o negócio de Cosme Felippsen, de 27 Sua primeira medida foi reduzir o horá-
anos, guia turístico profissional e cria da rio de funcionamento; agora, decidiu
Providência. Nenhum outro morro pos- passar o ponto no morro onde nasceu.“A
sui tanto apelo histórico quanto a Provi- maioria do comércio daqui fechou as
dência, que completou em maio 120 anos portas”, diz. Ela vai se dedicar apenas à
MESAS VAZIAS
Rosana Damasceno e é sempre acompanhada do epíteto A barraca que abriu na região portuária,
em seu restaurante Primeira Favela da Cidade. Sua ocupação curiosamente, em decorrência do suces-
no alto do Morro começou em 1897, com soldados que so do restaurante no morro. Ficou difícil
da Providência. voltavam da Guerra de Canudos. Como chegar ao restaurante de Rosana para
As 300 refeições
por dia sumiram, o promontório carioca se parecia com o quem não é morador. Por orientação da
e ela vai fechá-lo Morro da Favela, no sertão baiano, eles polícia, a equipe de ÉPOCA usou coletes
adotaram o nome, dando origem ao subs- à prova de balas para subir o morro.“Não
tantivo que identifica esse tipo de aglo- dá para subir de peito aberto”, diz um
merado residencial popular. O giro de policial. Como turistas não sobem mor-
Cosme contemplava a Igreja Nossa Se- ros em busca de uma diversão ao estilo
nhora da Penha, no cocuruto do morro, Tropa de Elite, os clientes rarearam e o
um oratório do século XIX, mirantes com guia Felippsen deu um tempo nos pas-
paisagens raras da Baía de Guanabara, seios. Na academia de jiu-jítsu, os 300
uma galeria de arte e a Casa Amarela, cen- alunos caíram pela metade – afinal, não
tro cultural onde assoma uma escultura há muita defesa contra o medo causado s

Foto: André Arruda/ÉPOCA 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 49


CENAS BRASILEIRAS

por fuzis. “Muitas vezes tive de ficar fora ção do teleférico instalado no morro, cau- escuro a cerca de 100 metros, enquanto
dos treinos por causa da violência”, diz sando um estrago no concreto do tama- os PMs estavam em uma área iluminada.
Suellen. Gabriel, o campeão, se mudou nho de um abacaxi. Estilhaços do artefato O confronto se estendeu por uma hora e
da Providência faz pouco tempo. caseiro – um tubo de PVC recheado de meia, até que os traficantes recuaram e
A falência da segurança pública no Rio pólvora e pedaços de pregos e lâminas – fugiram no breu. Na Providência, de 2015
de Janeiro reativou o passado na Provi- feriram três dos dez PMs que estavam no para cá dois policiais foram mortos em
dência. Como no Complexo do Alemão e local. Atordoados com o estrondo, eles confrontos com traficantes.
na Cidade de Deus, os criminosos volta- ainda foram alvos de outras duas grana- O Morro da Providência é estratégi-
ram a circular em bandos. Recorrem a das. “Ficamos surdos, e no meio daquela co. É vizinho da Central do Brasil, de
táticas de guerrilha contra a polícia. Às adrenalina toda não sabíamos direito o onde partem os trens para os bairros
3h10 da madrugada de 13 de junho, os que estava acontecendo”, diz um dos po- suburbanos e os municípios da Baixada
policiais que montavam guarda no alto do liciais. Enquanto pediam reforço, os poli- Fluminense e se faz a conexão com o
morro foram surpreendidos com tiros. ciais – mesmo os feridos – sustentaram a metrô. Todo o sopé do morro tem in-
Simultaneamente, foi arremessada uma troca de tiros para evitar o avanço do ini- tensa movimentação e vira terreno fér-
granada, que estourou na parede da esta- migo.Os criminosos atiravam de um beco til para o comércio de drogas. Outra

50 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


EM GUERRA
O guia turístico Cosme
Felippsen (na página à
esq.) e o major Cláudio
Cares (ao lado). O
turismo desapareceu
com a volta dos
conflitos no morro

ciais forjando a cena de um crime. Eles


colocaram uma arma na mão de um
jovem já morto e fizeram dois disparos.
A falência financeira do Rio de Janeiro
reduziu os investimentos em segurança
pública e em todos os benefícios que se
instalariam sem a guerra. A reforma ur-
bana da área portuária ali perto prometia
a instalação de um teleférico que ligaria a
Central do Brasil ao alto do morro. Faci-
litaria a subida de turistas para o restau-
rante de Rosana ou para os passeios de
Cosme. Em julho de 2014, o sistema co-
meçou a funcionar, mas desde dezembro
está parado por falta de dinheiro. A esta-
ção está abandonada, o portão foi arrom-
bado e o vigia expulso. A estação que fa-
cilitaria a circulação de pessoas virou um
ponto estratégico de combate. A Provi-
dência tem policiamento 24 horas em seis
pontos, reforçado por 30 agentes a cada
turno – o efetivo total não é revelado.
Desde 2008, as UPPs pouparam vidas
de moradores e policiais nas 38 comu-
nidades onde foram instaladas. Em 2007,
esse conjunto de favelas registrara 179
assassinatos, outros 180 homicídios em
confrontos com a polícia e um PM mor-
to. No auge da pacificação, em 2011, os
assassinatos caíram para 75, a polícia
matou menos – 38 pessoas – e nenhum
policial foi morto. Desde que o progra-
característica geográfica é que ele se dor da Polícia Pacificadora. “Isso vai au- ma das UPPs se enfraqueceu, a violência
localiza próximo à Baía de Guanabara, mentar nosso domínio territorial e di- cresceu. Em 2015, foram 109 homicídios
algo que, segundo as autoridades, faci- minuir a vitimização de policiais e e 38 mortes decorrentes de ação policial.
lita a entrada de armas num morro que moradores.” O major Cláudio Cares, no Doze PMs em serviço morreram em
tem ao menos uma dezena de acessos. comando da UPP da Providência há dois áreas pacificadas. O guia Cosme Felippsen
O sossego que se ensaiou com a UPP, meses, foi alçado à função após trafican- conhece bem o que isso significa. Um de
em 2010, ficou para trás. A rotina voltou tes terem feito um arrastão de madruga- seus irmãos, envolvido com o tráfico, foi
a ser de alta tensão. Um conflito armado da em lojas da região, numa retaliação a morto num confronto com a polícia em
está sempre na iminência de eclodir, comerciantes que se recusavam a pagar outra comunidade.“Se em vez de apenas
como vem acontecendo em outras favelas, uma taxa de proteção.“Se damos um pas- policiais a pacificação trouxesse também
o que leva a polícia a adaptar sua estraté- so para trás, o tráfico se aproveita e dá um médicos, professores e agentes culturais,
gia. “Estamos buscando aumentar o nú- passo à frente. É como uma dança”, diz. haveria uma evolução maior”, afirma,
mero de operações, o efetivo e implantar Mesmo assim, a relação da polícia com a ecoando um bordão do ex-secretário
novas bases blindadas avançadas”, afirma população não é fácil. Há dois anos, uma José Mariano Beltrame. Do jeito que
o coronel André Luiz Belloni, coordena- filmagem de celular mostrou cinco poli- está, vai demorar. u

Foto: André Arruda/ÉPOCA 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 51


C A R TA D A C O L Ô M B I A

LA RASPA
Raspachines,
os coletores
de coca, fazem
a colheita em
uma finca. O
subsídio do
governo para os
meninos ainda
não está definido

I I
A ÚLTIMA
COLHEITA
DE COCA
Na Colômbia, camponeses
se preparam para
abandonar cultivos de
folha de coca como parte
do acordo de paz entre
o governo e as Farc –
um desafio complexo
Teresa Perosa (texto) e Federico Rios
Escobar (fotos), de Briceño, na Colômbia

I I
C A R TA D A C O L Ô M B I A

SOBREVIVÊNCIA Beatriz Jaramilla, líder de uma junta de cultivadores


de coca. “Graças aos pés de coca, nossa vida melhorou muito”, diz ela

C aía uma chuva gelada e constan-


te na vereda de Pueblo Nuevo,
na Colômbia, numa noite de
uma segunda-feira de junho. No norte
da Antioquia, departamento ao noroeste
“Essa coca tem de acabar... Veja o monte
de advogados, médicos, que usam e estão
embaixo das pontes nas cidades”, diz ele,
ressoando preocupações alheias. “Bom,
o governo tem de cumprir com sua pala-
para executar um plano piloto de subs-
tituição voluntária de cultivos ilícitos. A
economia da área depende do plantio da
coca, ali mesmo convertida em pasta-
-base e vendida a intermediários, que
do país, quando começa a anoitecer, a ne- vra. Não gostamos de fazer greve, mas, se alimentam as redes de narcotráfico. Até
blina toma os vales montanhosos e verdes não há alternativa, é isso que vamos fazer”, junho do ano passado, os compradores
como um mar branco – e a temperatura, acrescenta outro camponês. Menos alar- eram as Farc, que dominavam a região
agradável durante o dia, cai junto com deada que a entrega de armas pelas Farc, desde a década de 1980. Como parte do
a chuva. Reunidos para o jantar servido ocorrida em junho, a substituição vo- processo de paz, a guerrilha anunciou
na varanda da casa de um dos líderes lo- luntária da coca em comunidades como que não compraria mais o produto, agora
cais, os camponeses debatiam a esperada Pueblo Nuevo trata de dois pontos fun- vendido para “piratas”, assim chamados
chegada, em dois dias, da primeira par- damentais do acordo de paz: o que prevê pelos plantadores locais.
cela do subsídio em dinheiro prometido uma reforma no campo colombiano e Em dez estados da Colômbia, 90 mil
pelo governo colombiano. Pelo histórico o que dispõe sobre as drogas ilícitas. Se famílias estão envolvidas em pactos co-
acordo de paz, celebrado em 2016 pelo implementado como planejado, o acordo letivos para a substituição voluntária da
governo com as Forças Revolucionárias fornecerá meios para que comunidades coca.“O plano de substituição de cultivos
da Colômbia (Farc), os agricultores que rurais em rincões do país se desenvolvam ilícitos foi a medida do acordo de paz que
concordarem voluntariamente em aban- sem precisar recorrer a cultivos ilegais. chegou mais rápido aos territórios. Mas a
donar o plantio de coca receberão ajuda Pueblo Nuevo é uma das 35 veredas substituição da coca não terá êxito se não
oficial para começar plantações legais. (a menor unidade administrativa na Co- for atrelada ao desenvolvimento rural”,
“Meu sonho é ver essa vereda produ- lômbia, o equivalente a um povoado) de diz Pedro Arenas, diretor do Observató-
zindo de tudo, do mais variado. Flores, Briceño, município no norte da Antio- rio de Cultivos e Cultivadores Declarados
frutos...”, diz dona Ofélia, a cozinheira da quia. A cidadezinha de 8.700 habitantes Ilícitos, uma organização internacional
noite. “Sabia que a papoula dá uma flor – em sua maioria pequenos agricultores e que acompanha a substituição do plantio
bonita?”, brinca um dos presentes, ao fa- suas famílias – foi um dos cinco municí- de coca nas veredas de Briceño. É nessas
lar da planta que dá origem à heroína. pios escolhidos pelo governo colombiano comunidades da Colômbia profunda, as

54 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


RASPACHIN S., de 14 anos, começou na colheita de coca aos 10.
Ele comprou a moto com o dinheiro do trabalho. “O ruim é a violência”

mais afetadas pela violência do conflito, der público.“Nos últimos 20 anos, nosso que antes cozinhávamos só com lenha.”A
que a paz no país precisará ser construída. sustento saiu da coca. Claro que cultiva- renda obtida com a coca e a desconfiança
A tarefa, recém-iniciada, é complexa mos feijão, mandioca, banana, milho e em relação ao Estado são os principais
porque a implantação do acordo enfren- tudo isso, para nossa subsistência, mas motivos para o ceticismo dos campone-
ta pressões em várias frentes. Num refe- o principal está na coca”, diz Beatriz Ja- ses em relação às promessas do governo
rendo em outubro, 50,2% dos eleitores ramilla, de 30 anos. Na cozinha de sua de que receberão apoio como compen-
o rejeitaram. Uma segunda versão do casa, de chão batido e cimento, a dona de sação pelo abandono do cultivo. Beatriz
acordo pulou a votação popular para ser casa prepara o almoço em um fogareiro também diz que muitos dos plantadores
aprovada no Congresso. Além de não ter a gás de duas bocas e um forno a lenha não têm terra própria, são arrendatários,
obtido o respaldo das urnas para o pro- improvisado. Pratos e copos levam o selo e têm medo de perder sua única fonte
cesso, o presidente Juan Manuel Santos, do Departamento de Responsabilidade de renda. “As pessoas pensam que va-
prêmio Nobel da Paz de 2016, conta com Social do governo colombiano. Beatriz é mos voltar ao tempo de antes, quando se
a aprovação de apenas 25% dos colom- a líder da junta de cultivadores de Roblal, arrancarem esses pés. Os habitantes das
bianos. Outros 25%, de acordo com as uma das veredas de Briceño. Seu marido, veredas desconfiam porque os políticos
pesquisas, pretendem votar nas eleições pai de seus quatro filhos, cultiva 10 mil sempre nos prometeram coisas e nunca
presidenciais de 2018 no candidato, ain- pés de coca em um terreno arrendado. cumpriram. As pessoas dizem agora: ‘Se
da indefinido, do Centro Democrático, o Foi com o dinheiro do plantio de coca não cumprirem, voltaremos a cultivar,
partido de direita liderado pelo ex-presi- que compraram o pequeno terreno onde porque não podemos morrer de fome’.”
dente Álvaro Uribe, a principal voz contra hoje têm sua casa.Ali, plantam mandioca, Na estrada de acesso a Roblal, em um
o acordo, por considerá-lo leniente com laranja, manga, maracujás e mantêm um casebre abandonado, se lê a pichação:
as Farc. Fernando Londoño, ex-ministro chiqueiro, com um único porco. “Farc-EP, Frente 36 – Presente”, vestígio
da Justiça e aliado de Uribe, diz que o CD “Graças aos pés de coca, nossa vida dos mais de 30 anos de comando da guer-
“triturará o acordo” se chegar ao poder. melhorou muito. Temos nossas casas, rilha na região. Segundo Beatriz, as Farc
Outro desafio para a implantação do podemos comprar no mercado na cida- desempenhavam o papel de legislador,
acordo de paz é o estabelecimento de um de. Sem os pés de coca, nós só comíamos juiz e polícia.“Como eram a autoridade,
diálogo com comunidades rurais pobres, feijão e arroz, bananas e laranja. Agora, porque aqui não havia outra, tínhamos
estigmatizadas e abandonadas pelo po- torramos nossa carne. Temos o gás, por- de obedecer. Eles controlavam o roubo, s

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 55


C A R TA D A C O L Ô M B I A

EX-GUERRILHEIRO Julián Subverso (nome que usava na guerrilha) é o representante das Farc que
acompanha o processo de substituição da coca em Briceño. “Nós cumprimos tudo até agora”

as brigas, o vício em drogas... Se as pessoas Em 1997, o então governador da An- tare de terreno, podem-se retirar até 20
ficavam bêbadas e se metiam em brigas, tioquia, Álvaro Uribe, deu o pontapé ini- arrobas (240 quilos) de folha, que geram
tinham de pagar multas.As pessoas, para cial ao projeto da hidrelétrica. Um ano quase 1 quilo de pasta-base. Na região, o
não pagar, não brigavam.” antes, contam os moradores, os paramili- quilo da pasta-base tem um preço médio
Diferentemente de outras regiões da tares chegaram à região. O enfrentamento de 2,5 milhões de pesos, o equivalente
Colômbia, em que a coca tem vínculos com a guerrilha detonou os piores anos a R$ 2.600. Descontados os custos com
culturais, relacionados à tradição indí- da violência na área. “Era normal ouvir mão de obra e insumos, são mais ou me-
gena, o cultivo em Briceño é recente e falar de matanças quase diárias”, diz um nos R$ 990 de lucro, por hectare.A maio-
motivado por questões econômicas. Os morador. Com o início da construção da ria dos camponeses de Briceño trabalha
moradores calculam que os cultivos de hidrelétrica, em 2010, com a participação em terrenos pequenos, de menos de 1
coca na região têm pouco mais que 20 da construtora brasileira Camargo Cor- hectare. Mas trata-se de dinheiro seguro,
anos. Foram introduzidos quando o cul- rêa, o Exército colombiano passou a ter que entra a cada dois meses para quem
tivo de café e o garimpo, outras formas maior presença na região, com o objetivo planta, para quem colhe e para quem vive
de subsistência local, sofreram duros de restabelecer a ordem. Para combater as de pequenos negócios na região.
golpes. O cultivo de café rende, no má- tropas da ordem, a guerrilha se valeu de
ximo, duas colheitas por ano e é de baixa minas terrestres, proibidas pelo Direito ***
rentabilidade numa região sem boas es- internacional. Criaram-se assim zonas Às 5 e meia da manhã em Pueblo Nue-
tradas, em que o custo de tentar vender a inabitáveis e incultiváveis, que chegaram vo, o sol nem saiu e S., de 14 anos, monta
produção supera, em muito, os eventuais a se estender por cerca de 12.000 quilô- em sua moto com outros dois amigos. S.
ganhos. Nas veredas de Briceño, próxi- metros quadrados.Até 2015, a Colômbia tem trabalho marcado. Vai fazer a ras-
mas ao Rio Cauca, também se praticava só perdia para o Afeganistão em número pagem final: colher as folhas de coca em
o garimpo artesanal, em busca de ouro. de incidentes com minas terrestres. uma finca (terreno) próxima. Os raspa-
Nessa área, iniciou-se a construção da Com a decadência das outras formas chines, como são chamados os coletores
maior usina hidrelétrica da Colômbia, a de subsistência, chegou a coca. Sua atra- de coca, são mais um elo na cadeia de
Hidroituango, que terminou por expul- tividade é fácil de entender. A colheita produção em torno da planta. Em geral,
sar os pequenos mineiros que tiravam da folha, chamada de raspagem, ocorre são meninos que começam a trabalhar
seu sustento do leito do Cauca. a cada dois meses. Em menos de 1 hec- para conseguir o próprio dinheiro. S. diz

56 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


PROJETO COLETIVO Dom Jairo Muñoz, dono de uma finca, que pretende
transformar em uma cooperativa. “Por aqui, as coisas ainda são feitas na unha”

que começou aos 10 anos para ajudar nas com sal nas feridas. “A coca era boa por- pagamentos posteriores serão suspensos.
contas da casa. O pai deixou a família há que tínhamos dinheiro e podíamos cui- Sem uma solução para os raspachines, o
dois anos e S. e seus três irmãos ajudam dar das nossas coisas”, diz. A parte ruim cronograma pode ser afetado.
a mãe. Em um dia bom, um raspachin não é difícil de responder. É “a violência”. “Até pagarem os raspachines, não va-
consegue colher entre 8 e 10 arrobas de Ele aponta para uma casa no fim da la- mos arrancar os pés de coca. Dois mi-
folha de coca, o que lhe rende mais ou deira onde diz ter morado. Conta que, lhões de pesos (valor da primeira parcela
menos 46 mil pesos – o equivalente a num dos enfrentamentos entre as Farc e o do subsídio) não pagam os custos de ar-
R$ 50. Foi com o dinheiro da raspagem Exército, achou que fosse morrer.“Parecia rancar os pés de meio hectare”, diz Luis
que S. comprou a moto, que ele usa todo que o mundo ia cair.” Sobre a substitui- Peres, de 39 anos, dono da finca onde os
fim de semana para deixar o povoado e ção dos pés de coca em Pueblo Nuevo, S. garotos trabalhavam naquela manhã. A
ir a uma escola noturna em uma cidade fala com cautela. “Se o governo cumprir propriedade, herdada do pai, é uma das
próxima. “Eu quero estudar para ser ve- e nos ajudar, poderemos viver melhor.” maiores de Pueblo Nuevo, com 6 hecta-
terinário. Ou técnico mecânico. Mas eu Uma das preocupações das comuni- res. O pai de Luis foi expulso pelas Farc
gosto muito de animais.” dades de Briceño é que, dentro do plano da região, acusado de fazer negócios com
Por volta das 7 horas, já são dez os ras- de substituição da coca, ainda não há os paramilitares. “Não era verdade, mas
pachines que se equilibram habilmente previsão de quando chegará o pagamen- não podíamos fazer nada.”Hoje, ele mora
numa ladeira íngreme da vereda, “ras- to para os raspachines. Sem esse subsídio, em Medellín, um dos milhares de deslo-
pando” os pés de coca – com os dedos os garotos, que seriam os responsáveis cados pelo conflito. Luis espera, com os
envolvidos com trapos, os meninos pu- por arrancar os pés de coca, não podem subsídios, plantar pasto para gado, ba-
xam os ramos da planta em velocidade começar o trabalho. O governo espera nana, mandioca e abacate, para vender.
impressionante, retirando as folhas e que em até 60 dias depois do primeiro Tem também planos para um projeto de
colocando-as em sacos metidos entre as pagamento aos cultivadores, feito na pri- piscicultura, canalizando águas do Rio
pernas. Quase todos têm fones de ouvido meira quinzena de junho, os cultivos de Cauca.“A gente sempre tem planos, mas
conectados a celulares, onde o reggaeton coca já tenham sido erradicados. A ava- não sabemos se vamos conseguir.”
e a salsa soam alto. Ao fim do dia, explica liação será feita por uma missão das Na-
o garoto, os dedos ficam tão queimados ções Unidas. Caso encontrem pés de coca ***
do trabalho que é preciso passar água em terrenos que receberam dinheiro, os A violência política é um dos marcos s

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 57


C A R TA D A C O L Ô M B I A

ESPERA Camponeses aguardam a chegada do dinheiro do governo


em Briceño. Os subsídios são o incentivo oficial para o abandono da coca

da história colombiana do século XX. As povo e das Farc.Nós cumprimos com tudo de avanço. No começo foi complicado, as
Farc surgiram em 1964, em meio à dis- até agora, mas houve uma resistência por três partes (governo, comunidade e Farc)
puta por terra no interior do país, depois parte do governo na implementação do não estavam falando a mesma língua. Já
do período conhecido como A Violên- acordo”, diz Julián Subverso (nome que conseguimos uma sincronia”, diz Nata-
cia, na década de 1950, quando o embate usava na guerrilha), de 32 anos, um dos lia Escobar, de 37 anos, representante
partidário ganhou contornos de guerra representantes da guerrilha, que acom- da Direção Nacional de Substituição de
civil.Até o final da década de 1980, o con- panha a substituição dos cultivos em Cultivos Ilícitos em Briceño. “Em todos
texto da Guerra Fria opunha o governo Briceño. “Não estamos satisfeitos com a os processos, há falhas, mas isso é um pro-
colombiano à guerrilha comunista. Com forma como o processo está sendo levado jeto-piloto. A ideia é replicá-lo. O maior
o passar dos anos, novos grupos armados adiante. Cada passo aqui foi uma luta.” A avanço é que a comunidade nos reconhe-
surgiram: outras guerrilhas de esquerda, casa em Pueblo Nuevo destinada às reu- ça, dê entrada e respaldo ao governo.”
como o Exército de Libertação Nacional, niões entre comunidade, governo e Farc
e os paramilitares, milícias de autodefe- tem funcionado como abrigo temporá- ***
sa de extrema-direita organizadas por rio dos dois representantes da guerrilha Às 6h30 da quarta-feira, dia 15 de
proprietários de terra. A esse cenário de na vereda. Numa chuvosa terça-feira de junho, 98 cultivadores de Roblal e Guri-
violência, somou-se o desenvolvimento junho,a TV da casa,sintonizada na novela mán abordaram as chivas, os coloridos
do narcotráfico no país a partir dos anos colombiana Não olvidarás mi nombre, faz paus de arara colombianos, para descer
1980. Na década de 1990, as Farc se en- companhia aos presentes.“Historicamen- a estrada de terra até Briceño e receber a
volveram com o negócio das drogas e se- te na Colômbia, o governo tem praticado primeira parcela do subsídio do governo.
questros. O acordo de paz, celebrado de- ações unilaterais de erradicação forçada, As duas veredas foram as primeiras a re-
pois de quatro anos de negociações entre militarização e punição aos cultivadores. ceber o benefício. Nos dias posteriores,
governo e guerrilha, se propôs a encerrar Para evitar que voltem ao cultivo de coca, os cultivadores de outras nove comuni-
esse capítulo da história colombiana que temos de entrar com saúde,educação,com dades fariam o mesmo caminho.
se arrastou por 51 anos, deixando mais de acesso e formalização da terra”, diz Julián. Os camponeses chegaram antes das
200 mil mortos, 25 mil desaparecidos e 5 Os representantes do governo dizem 9 horas e se amontoaram na lateral da
milhões de deslocados forçados. que as lições do passado estão sendo prefeitura, onde Beatriz tentava orga-
“O governo exige muitas coisas, do aprendidas.“O processo já teve um gran- nizar o tumulto com uma lista na mão

58 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


A CHEGADA O dinheiro do governo chega à cidade de helicóptero.
A segunda parcela só será paga aos cultivadores que arrancarem pés de coca

com os nomes dos camponeses com di- Dom Jairo Muñoz, de 61 anos, que ar- e fazer avicultura em comum.A terra aqui
reito ao benefício. Logo cedo, uma tenda rendava partes de sua terra para o plantio é excelente. Quero seguir produzindo.”
de uma popular loja de departamentos de coca. Com uma das maiores fincas da Em locais como as veredas de Bri-
expunha produtos em promoção na região, com 125 hectares, Dom Jairo sus- ceño, em que predominam as pequenas
praça central da cidade. Uma geladei- tentou a família de sete filhos com pecuária propriedades e a agricultura familiar,
ra saía por 770 mil pesos (R$ 800); um e cana, além dos 30 hectares de terra ar- organizar projetos coletivos é uma das
alto-falante, por 380 mil (R$ 400). rendada para o cultivo de coca. Parte dos alternativas para assegurar que o dinhei-
O dinheiro chegou às 10h20, de heli- filhos usa a terra para ter seus próprios ro recebido do governo não se perca em
cóptero. Da praça central, os cultivadores pés da folha. Jairo herdou o terreno como ações restritas. “Agora vão nos dar 12
apertaram os olhos para ver saltar da ae- espólio trabalhista da mina em que traba- milhões. Esse dinheiro é para comer, ba-
ronave um homem com um saco de sarja lhava e é dono da terra há quase 20 anos. sicamente. Mas vamos melhorar a finca
verde, cheio de pesos, que depois entrou Na finca de Dom Jairo, que toma toda também, impulsionar os cultivos que
correndo pelas escadas da prefeitura, le- uma ladeira de montanha, se vê coca até a estamos começando. Se chegar o gover-
vando nas costas o que todos esperavam. curva do precipício que dá no rio abaixo. no com a força econômica, iremos além.
O primeiro pagamento, de 2 milhões de “A coca trazia geralmente a violência. Mas Para a cana, precisamos de trator e de boa
pesos, foi entregue mediante confirma- não havia outra coisa além da coca.A agri- estrada para escoar. Por aqui, as coisas
ção do nome na lista e comprovante de cultura só dava para o que a pessoa comia, ainda são feitas na unha.”
cadastro. O segundo pagamento virá em porque ninguém comprava. E aí falavam: Os ambiciosos planos de Dom Jai-
dois meses, depois que a missão da ONU ‘Mas a coca vai te matar’. E respondiam: ro, assim, dependem de ajuda técnica
averiguar se de fato os pés de coca da área ‘Pelo menos morreremos cheios’.” e da continuidade dos subsídios. Ele se
foram arrancados. No total, cada família No meio do mar de folhas de coca, ele mantém esperançoso. “O governo aqui
receberá 12 milhões de pesos (cerca de aponta para as partes do terreno onde se atrasou muito. Mas estamos otimis-
R$ 12.800) em um ano, como subsídio começou novos cultivos: abacate, cacau, tas porque começaram a cumprir o que
para deixar a coca. Daqui a 12 meses, re- mais cana e café. Sua ideia é formar uma prometeram. O conflito acontece quando
ceberão subsídios adicionais para iniciar cooperativa com outros cultivadores.“Já não respeitam os direitos dos outros”, diz.
culturas legais em suas terras. consegui dez famílias. Quero dar aos que “A miséria foi a principal causa da guerra.
Entre os camponeses da fila estava não têm terra a oportunidade de cultivar Isso não ajuda a paz.” u

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 59


IDEIAS
O B S E R VA D O R D A
A M É R I C A L AT I N A

O presidente
Enrique Peña
Nieto, do México,
arrasta um governo
com baixo índice
de aprovação
C E N Á R I O S

Eleições moldadas
pelo ódio
Não é só no Brasil. Os eleitores da América Latina estão
fartos de corrupção e serviços públicos ruins. O que
esperar da raiva generalizada contra a classe política?

O s ventos políticos na América Latina apoiaram mudanças. Isso também pode criar
mudaram sensivelmente nos últimos problemas para as agendas reformistas que co-
dois anos à medida que governos de meçam a ganhar força na região.
esquerda perderam o poder para administra- O primeiro indicador de que os eleitores não
ções mais conservadoras. A tendência começou estão felizes vem de um olhar rápido aos índices
com a eleição de Mauricio Macri na Argentina, de aprovação na região. No Brasil, o presidente
que encerrou um longo reinado de 20 anos dos Temer tem índices baixos. O país está saindo de
Kirchners. Estendeu-se pelo impeachment de uma recessão e o governo é alvo de escândalos
Dilma Rousseff em 2016. A tendência provavel- de corrupção. Mas o surpreendente é que Temer
mente continuará no Chile no final deste ano. não está sozinho. O presidente Enrique Peña Daniel Kerner
Mesmo onde as administrações de esquerda Nieto, do México, tem índices de aprovação de é cientista político
sobreviveram, como no Equador, a movimen- 12%, Michelle Bachelet, do Chile, fica com 20% formado pela
Universidade de
tação para políticas mais conservadoras e ami- e Juan Manuel Santos, da Colômbia, chega a Buenos Aires. Lidera
gáveis aos investidores está clara. 26%. Nenhum dos três países passou por crise a divisão de América
Muitos concluíram que os eleitores estão re- econômica agora. Na Argentina, Macri ainda é Latina da Eurasia
jeitando as políticas da esquerda, que levaram popular, mas seu apoio vem caindo.
a grandes desequilíbrios fiscais e baixo cres- Se a desaceleração econômica ajuda a expli-
cimento nos últimos anos. Mas a verdadeira car parte do ódio, pesquisas nesses países tam-
prova para mostrar se essa mudança é mesmo bém mostram que a corrupção está virando
sustentável virá do pesado ca- um tema cada vez mais relevante.
lendário eleitoral dos próximos O CENÁRIO E que os eleitores estão cada vez
meses. Argentina, Chile, Co- Os eleitores mais insatisfeitos com a qualidade
lômbia, México, Brasil e muito latino-americanos dos serviços públicos, como segu-
provavelmente a Venezuela vão estão com ódio rança, educação e saúde. Mas junto
encarar eleições. Com exceção dos políticos pela com isso vem uma descrença cres-
corrupção e pelo
do México, e talvez da Colôm- baixo crescimento cente na classe política. Segundo
bia, a onda conservadora deve econômico um estudo global da Ipsos Public
se manter. Mas isso não é porque Affairs, os países latino-america-
o eleitorado esteja se mudando A A P O S TA nos têm índices de desconfiança e Christopher Garman
para a direita. Os eleitores estão é Com esquerdas em raiva dos políticos superiores aos é cientista político
com raiva da classe política. En- baixa e governos dos Estados Unidos e da Europa. americano, diretor
conservadores executivo de risco e
quanto isso funcionou contra as desgastados, há espaço
A verdadeira questão é quais analista-chefe do Eurasia
administrações de esquerda nos para “antipolíticos” candidatos estão mais bem posi- Group, consultoria
últimos dois anos, os eleitores imprevisíveis cionados para surfar nesse ódio. s política internacional

Foto: Manuel Velasquez/Anadolu Agency 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 61


O B S E R VA D O R D A A M É R I C A L AT I N A

PT e dos Kirchners. Mas o bom desempenho nas


REJEIÇÃO GENERALIZADA pesquisas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Cristina
Na comparação de março de 2017, a maioria dos países Kirchner sugerem que nem tudo está seguro.
tinha presidentes com baixos índices de aprovação Para a Argentina, o foco estará nas eleições
parlamentares de outubro, com as primárias em
50 50 agosto servindo de indicador importante dos
46 prospectos para o governo. Com a mudança de
paradigma econômico imposta por Macri, o go-
verno busca crescimento econômico e baixa in-
flação para aumentar as chances de ganhar mais
40 Em % 40 poder no congresso. Uma vitória dará ao governo
mais margem para continuar com os ajustes. Mas,
se Cristina ganhar as eleições para Buenos Aires –
algo improvável, mas não impossível –, Macri se
32
arrastará para uma segunda metade dramática do
30 30
mandato, com incertezas para as eleições gerais
de 2019. Os políticos interpretarão os resultados
26 como rejeição aos ajustes de Macri.
24 No Brasil, a crise política é uma ameaça para
23
22 Temer. Mas ele pode permanecer no cargo ape-
20 sar dos perigos. O escândalo dificulta a aprova-
20 20 ção até de uma versão esmaecida da reforma da
Previdência. Mas sua principal consequência é
aprofundar os sentimentos contra a classe po-
12 lítica para as eleições de 2018. Isso torna essa
eleição mais imprevisível. A condenação de Lula
10 10 por Sergio Moro (leia mais a partir da página 30)
é um golpe contra sua candidatura, mas não está
claro se ele estará impossibilitado de concorrer.
Mesmo que possa, a rejeição alta significa que
não será competitivo no segundo turno. A maior
0 0 questão não é se Lula pode concorrer ou ganhar,
mas qual candidato pode surgir como “antipolí-
MÉDIA

tico”. O prefeito de São Paulo, João Doria, pode


México
Argentina

Peru

Colômbia

Chile

Venezuela

BRASIL

servir. Mas outros candidatos podem emergir,


não necessariamente alinhados com as reformas
boas para o mercado.
No Chile, o ex-presidente Sebastián Piñera
Fonte: Eurasia deve, aparentemente, vencer as eleições no fim
do ano. Mas o ódio aos políticos pode puxar
Alejandro Guiller, candidato independente
Em geral, esperamos a subida de nomes do cen- mais à esquerda. Na Colômbia, o desconten-
tro ou da direita. Mas isso tem menos a ver com tamento com a corrupção pode abrir a porta
as políticas que defendem e mais com a falta para um candidato surpresa, principalmente
de candidatos viáveis da esquerda capazes de se os escândalos envolvendo a Odebrecht de-
representar esses eleitores descontentes. sestabilizarem os candidatos de centro-direita.
A exceção a esse cenário é o México. A desilu- Tudo isso sugere que as próximas eleições
são dos eleitores com a corrupção e a violência provavelmente não trarão de volta as políticas
no país deve corroer a popularidade de Peña econômicas populistas da esquerda. É bom lem-
Nieto. Isso vai impulsionar o candidato de es- brar que a região provavelmente verá a queda do
querda Andres Manuel Lopez Obrador, que é o chavismo na Venezuela. Mas a questão impor-
líder da corrida presidencial para 2018. tante é que os eleitores estão insatisfeitos com a
Na Argentina e no Brasil, as chances de um corrupção, com o baixo crescimento e com os
candidato de esquerda emergir em 2018 são me- serviços públicos. E que a rejeição aos políticos
nores, em grande medida por causa do dano re- não é equivalente a um movimento consistente
putacional provocado pelo final dos governos do rumo a escolhas econômicas associadas à direita. u

62 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


HELIO GUROVITZ

Quando um procurador
denuncia um presidente
N a próxima terça-feira, 18 de julho, faz 23 anos que um
terrorista detonou um carro-bomba na Associação Mu-
tual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, matando 85
tores do atentado. Arquivada ainda em 2015, a denúncia
de Nisman foi então reaberta à luz das novas evidências.
O atual juiz responsável pelo caso, Claudio Bonadio, deu a
pessoas. Foi o maior ataque de jihadistas na América Latina. entender, segundo publicou na semana passada o jornal La
Até hoje, ninguém foi preso, julgado ou condenado pelo cri- Nación, que poderá aceitar, antes das eleições legislativas de
me. E, até hoje, a sigla Amia paira como assombração sobre outubro, uma nova denúncia contra Cristina pelos crimes
os governos de Carlos Menem, Néstor e, sobretudo, Cristina imputados por Nisman, acrescidos de traição à pátria e
Kirchner. No início de 2015,Alberto Nisman, procurador que prevaricação. Nas eleições, Cristina concorre ao Senado.
assumira o caso havia pouco mais de dez anos, após a contur- Como o Brasil, a Argentina tenta se reerguer sobre os es-
bada destituição do juiz e dois outros procuradores envolvidos combros de quase 13 anos de gestão temerária do patrimônio
numa denúncia de compra de depoimento, decidiu voltar de público. Em nosso caso, os governos petistas; no deles, a era
suas férias na Europa para apresentar denúncia por obstru- K. O noticiário local é tomado por denúncias de corrupção
ção da Justiça contra Cristina, então presidente em série contra remanescentes dos governos Kirch-
da República, e seu chanceler, Héctor Timerman. ner, como o ex-ministro do Planejamento Julio de
Nisman baseava a acusação em provas contunden- Vido (também envolvido nas negociações com o
tes de que o memorando firmado com o Irã para Irã) ou a procuradora-geral da República, Alejandra
permitir o interrogatório de suspeitos de ligação Gils Garbó (desafeta de Nisman). A exemplo do
com o atentado não passava de uma fachada para ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do atual
encobrir um acordo paralelo. Pelo acerto, em troca presidente, Michel Temer, respectivamente recém-
de petróleo, a Argentina cederia ao Irã carne, armas -condenado e recém-denunciado por corrupção, a
e tecnologia nuclear para produzir água pesada, Argentina também já teve sua cota de escândalos
essencial ao reator de plutônio mantido em Arak às LIVRO DA SEMANA
presidenciais. Um ex-presidente já foi condenado
escondidas dos inspetores internacionais. O acor- (Menem); Cristina foi denunciada por obstrução da
do, iniciado pela intermediação da Venezuela de Nisman debe morir Justiça enquanto estava no cargo – e enfrenta ainda
Daniel Santoro
Hugo Chávez, incluía ainda impunidade para os denúncias de corrupção descritas noutro livro de
suspeitos iranianos. Quatro dias depois de apresen- Ediciones B Santoro, La ruta del dinero K (A rota do dinheiro K).
2015
tar sua denúncia, Nisman foi encontrado morto no 352 páginas Há, contudo, duas diferenças essenciais entre
apartamento que alugava no 13 andar da luxuosa
o
400 pesos a situação no Brasil e na Argentina. A primeira é
torre Le Parc, em Puerto Madero.A cena do crime econômica. Lá, a inflação oficial foi de 12% ape-
foi violada, de modo a tornar impossível concluir se ele se nas no primeiro semestre, sem sinal de que o governo
matou, foi forçado a se matar – ou foi assassinado. Macri tenha conseguido desfazer a armadilha populista
As reviravoltas convolutas do caso Amia e o enigma dei- que torna insustentáveis os gastos públicos. Aqui, a bom-
xado pela morte de Nisman são os eixos centrais de Nisman ba inflacionária foi desarmada e a economia recupera o
debe morir, lançado há dois anos por Daniel Santoro, um fôlego. A segunda diferença é que, por lá, a Justiça tem se
dos mais respeitados jornalistas investigativos argentinos, demonstrado incapaz de desfazer os laços de compadrio
hoje na equipe do Clarín. Sem omitir o lado controverso de que mantêm o poder refém da aliança entre corruptos e
Nisman – além de mulherengo inveterado, ele foi acusado corruptores. Nada há de parecido com a Operação Lava
de receber dinheiro não declarado numa conta secreta de Jato. Os principais postos na Justiça e no Ministério Pú-
sua família nos Estados Unidos –, Santoro confirma as prin- blico continuam a ser operados por interesses políticos.
cipais acusações contra Cristina. Revela detalhes sobre as Também há aqui quem questione a motivação de juízes e
negociações com o Irã que acabaram por levar à reiteração, procuradores. Mas ainda não foi encontrada conta secreta
pela Justiça argentina, da inconstitucionalidade do famige- ligada a nenhum – e as mortes misteriosas só existem no
rado memorando – cancelado no primeiro dia do governo universo das teorias conspiratórias. u
do presidente Mauricio Macri. Áudios interceptados com
autorização judicial, que Nisman nem mesmo incluíra na
denúncia, demonstraram que o chanceler Timerman de- Helio Gurovitz é jornalista hgurovitz@edglobo.com.br (e-mail)
clarava saber que os iranianos eram os verdadeiros men- @gurovitz (Twitter) http://g1.globo.com/mundo/blog/helio-gurovitz/ (web)

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 63


O B S E R VA D O R D A E C O N O M I A

Um ajuste mental
ao novo século
A liberdade econômica tem sido ignorada como valor
em nossa cultura política. Com a reforma trabalhista,
a conversa foi diferente. Algo está mudando no país
Fernando Schüler

A era Vargas não termina, vai terminan-


do. O ex-presidente Fernando Hen-
rique Cardoso sugeriu ter feito uma
parte do trabalho, com a quebra do monopólio
do petróleo. Seu antecessor, Itamar Franco, já
forma, foi um pequeno passo em um caminho
que não termina: o ajuste de instituições velhas
a novas tecnologias. E ao aprendizado da vida.
Quando o então presidente Getúlio Vargas as-
sinou a CLT, em 1943, dois terços da população
havia dado um pequeno empurrão, com a pri- viviam no campo e 55% dos brasileiros eram
vatização da Companhia Siderúrgica Nacional. analfabetos. Fazia sentido uma legislação rígida
Agora, é a vez de Michel Temer. Sua reforma e ultraprotetora? Cada um pode julgar. Em 2017,
altera uma centena de artigos da Consolidação em um país 85% urbano, com acesso universal
das Leis do Trabalho (CLT), eleva a segurança à educação e em meio a uma revolução tecno-
jurídica nessa área e cria modelos novos de lógica, faz sentido seguir com a mesma rigidez?
contratação, como o trabalho intermitente. Seu Alguém ainda acha que cabe ao Estado regular
lugar nos livros de história, goste-se ou não de o tempo de almoço ou a distribuição dos dias
suas mesóclises, está garantido. de férias dos funcionários das empresas? A re-
A reforma trabalhista é, em primeiro lugar, forma não retira o Estado tutor de cena, mas
perfeitamente legítima. A CLT foi criada por abre espaços para que empregados e emprega-
decreto, em meio a uma ditadura. A atual re- dores atuem com um pouco mais de autonomia.
forma é produto da democracia, de um grande Criam-se figuras como a “demissão em comum
debate e uma votação amplamente majoritária acordo” ou o trabalho autônomo, mesmo que
em um Congresso eleito. No dia da votação ha- feito apenas para uma empresa.
via duas ou três centenas de pessoas protestando Há riscos nesse processo. O que contará como
à frente do Congresso. Tentou-se fechar uma “remuneração de qualquer natureza” para o
via pública em São Paulo, sem grande sucesso. trabalho no campo, em regiões mais pobres e
Algumas senadoras tentaram uma performance, isoladas no país? Em que circunstâncias um
ocupando na marra a mesa do Senado por sete “médico de confiança” dará um atestado para
longas horas. Ninguém deu muita bola. que a gestante possa trabalhar em locais de
Vamos lá: não se fez nenhuma revolução. “insalubridade média”? Em situações extremas,
Ninguém mexeu no que se habituou chamar falar em “livre negociação” pode não passar de
de “direitos fundamentais do trabalhador”, truque retórico. Daí a necessidade de regras e da
como o salário mínimo, o seguro-desemprego vigilância social. O ponto é que não há evidên-
ou o 13o salário. A lista de direitos está toda cias de que uma legislação rígida, como a que
Fernando Schüler lá, chancelada pela reforma e não passível de temos hoje, efetivamente proteja os mais pobres.
é professor do Insper, negociação coletiva. Ninguém fez o país voltar Conforme observou o economista José Márcio
titular da cátedra Insper
Palavra Aberta e curador
aos “tempos da escravidão”, como se escutou de Camargo, 60% dos trabalhadores na faixa dos
do projeto Fronteiras gente bacana nos debates da semana. 20% mais pobres atuam na informalidade. “A
do Pensamento O que esteve realmente em jogo, nesta re- CLT exclui os mais pobres”, diz. Talvez por isso

64 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


O DITADOR
PATERNAL
não se tenham visto grandes manifestações nas uma espécie de não valor em nossa cultura po- O presidente
ruas em sua defesa, nestes meses todos. lítica. Temos sido um país viciado em razões Getúlio Vargas
A CLT se tornou, desde há muito, um exemplo de “utilidade”: queremos saber se uma norma após voltar
ao poder por
acabado do argumento das “consequências inde- pública traz desenvolvimento ou gera empre- eleição, em 1951.
sejadas”. O termo foi popularizado pelo soció- gos. Ou qualquer coisa que possa ser vista como A CLT havia sido
logo americano Robert Merton e diz o seguinte: “objetiva” em uma reunião de gente grande em aprovada em
uma regra pode ser muito generosa, na teoria, Brasília. Liberdade fica para o mundo dos filó- 1943, quando
ele era ditador
mas produzir, na prática, péssimos resultados. A sofos. Talvez seja mesmo o caso.
CLT obrigava as empresas a contar como hora Desta vez a conversa foi diferente. Demos de
trabalhada o tempo de transporte dado aos fun- cara com uma lei falando em liberdade para
cionários. Na prática, servia como desincentivo contratos “não contínuos”, para o sujeito ne-
para oferecer o transporte. Empresas deixam de gociar seu banco de horas e decidir se paga ou
contratar serviços de firmas individuais ou tra- não o sindicato. Alguma coisa mudou, ou anda
balhadores autônomos, ou mesmo proíbem o mudando, em Pindorama.
home office, com medo de configurar o vínculo Ainda estamos diante de uma legislação
trabalhista. Viramos o país da “proteção de pa- imensamente paternalista. Ainda achamos cru-
pel”, na feliz expressão do presidente do Tribunal cial que a lei determine que cabe ao funcionário
Superior do Trabalho, Ives Gandra Filho. a “higienização” de seu uniforme de trabalho
A reforma é um passo ainda tímido em um ou minúcias metafísicas, como a permissão de
terreno nebuloso da vida pública brasileira: o dividir as férias em três períodos, “sendo um
da liberdade individual. Nunca entendi direito deles não inferior a 14 dias corridos”. Eu, que
por que, mas sempre gera um mal-estar falar sempre gostei de férias de uma semana, vejo
em autonomia e liberdade individual, quando agora quanto sempre andei, ao menos em espí-
se pensa em políticas públicas, no Brasil. Talvez rito, como um “fora da lei”.
pela formação ibérica ou pela raiz tupi-guarani, No quesito paternalismo x liberdade, a refor-
a liberdade “econômica” tem funcionado como ma cria uma interessante distinção entre duas s

Foto: Leonard Mccombe/The LIFE Images Collection/Getty Images 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 65
O B S E R VA D O R D A E C O N O M I A

IMPOPULAR
Protesto contra
o governo Temer classes de brasileiros. De um lado, os que têm seus votos”. O vezo autoritário parece ecoar do
no Dia do Trabalho. curso superior e renda duas vezes e meia o teto fundo da história republicana. Na democracia,
A reforma da Previdência Social, ou R$ 11.052,62. Seriam é inexorável, os políticos farão a festa. A tese foi
trabalhista segue
provocando brasileiros hipersuficientes. A eles é facultado, retomada em grande estilo no ciclo militar ini-
polêmica pelo que se depreende do texto da reforma, cui- ciado em 1964. O curioso é que muita gente
dar de seu próprio nariz. A legislação lhes per- boa, em nossa historiografia, comprou essa ideia
mite negociar os termos do próprio contrato vaga. O autoritarismo, desde ao menos os anos
de trabalho. Direito negado aos demais. Nossos 1930, teria sido o preço a pagar pela moderni-
conterrâneos mais pobres prosseguem hipossu- zação do Estado brasileiro. Com Júlio Prestes,
ficientes, aos olhos da lei. Chegamos ao curioso estaríamos condenados a uma eterna República
paradoxo: quanto menos liberdade dispomos, Velha, como num museu de cera. O reformismo
mais direitos imaginamos assegurar. Lembrei- gradualista seria inviável no Brasil.
me de Rousseau, segundo quem subordinar o Nossa história recente coloca em xeque essa
homem à vontade geral nada mais significava suposição. A democracia brasileira tem se mos-
do que “obrigá-lo a ser livre”. Certos paradoxos trado capaz de modernizar o país. Foi assim com
sempre me incomodam. Prefiro imaginar um o Real, a Lei da Responsabilidade Fiscal, a PEC
país em que a presunção da autossuficiência ou o do gasto público e, agora, a reforma trabalhista.
direito de aprender em liberdade alcance a todos. Ok, há em tudo isso uma lentidão exasperante.
Tempos atrás, li uma entrevista do ex-presi- Resta uma enorme agenda pela frente. Ainda
dente da Fundação Getulio Vargas Luís Simões somos o país que gera 3 milhões de processos
Lopes, dada no início dos anos 1990. Lopes foi trabalhistas todo ano e andamos entre os dez
homem de confiança de Vargas e criador do an- piores países do planeta em complexidade tri-
tigo Dasp, o Departamento Administrativo do butária, no ranking do Banco Mundial. Mas o
Serviço Público, instituído na Constituição de recado está dado: quem sabe os políticos se-
1937. Na entrevista, ele chama a ditadura do jam capazes, ao contrário do que imaginava
Estado Novo de “recesso parlamentar” e mostra Simões Lopes, de tomar decisões difíceis e pen-
como foi possível, graças ao estado de exceção, sar, mesmo em um ano complicado como este,
modernizar o Estado brasileiro. “Os políticos”, para além das próximas eleições. E quem sabe
diz, nunca pensam no futuro do país, “só em pensar no futuro do país renda, sim, votos. u

66 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Foto: Reuters/Nacho Doce


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RICARDO FERRAÇO

“Não inventamos nenhuma


‘jabuticaba’ na reforma”
O relator da reforma trabalhista diz que essas mudanças
estão em andamento mundo afora – e corrigem problemas
que há décadas desorganizam o mercado no país
Luís Lima

A tacada por centrais sindicais e exaltada por em-


presários e terceirizados, a reforma trabalhista,
sancionada na última quinta-feira, dia 13, é tema
de um debate interminável. Quem a critica fala em preca-
rização e quem a defende em modernização. A polarização
nenhuma “jabuticaba”, mas corrigindo problemas que
desorganizam o mercado de trabalho há decadas. Não re-
solveremos de uma vez só o desemprego, a informalidade,
a rotatividade, a baixa produtividade. Mas, seguramente,
(a reforma) dialoga com essa possibilidade.
dificulta uma análise racional de um projeto complexo,
que altera mais de 100 pontos da Consolidação das Leis ÉPOCA – A reforma ataca diretamente algum desses
do Trabalho (CLT). Em quatro meses, a legislação atual, problemas?
que remonta aos idos da ditadura getulista, passará a in- Ferraço – O primeiro é a informalidade. A legislação dos
cluir modalidades de trabalho comuns hoje, que não eram anos 1940, rígida, como não há no mundo, era um estímulo
concebidas décadas atrás, como o home office. Além disso, à contratação informal. Temos 140 milhões de brasileiros
dará poder de negociação sobre a lei em temas específicos, em idade laboral, sendo 50 milhões protegidos pela CLT
que não atropelem a Constituição. O relator da proposta e 90 milhões desempregados ou empregados pelas regras
no Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), a resume em duas mais primitivas nas relações de trabalho. As pessoas são
palavras: flexibilização e proteção. Diz que não é a bala de convidadas à informalidade em função da megarrigidez das
prata que resolverá todos os problemas do mercado de tra- leis trabalhistas. É um absurdo a insegurança jurídica para
balho, mas contribuirá para diminuí-los. “Estamos virando quem contrata e é contratado. Também estamos acabando
uma página de uma visão patrimonialista de Estado para com a questão ideológica de discriminar entre atividade
dar poder de resolução às pessoas”, afirma. meio e fim na terceirização. Isso já havia sido aprovado,
mas agora foi reforçado e regulamentado na CLT.
ÉPOCA – Quais são os principais objetivos da reforma
trabalhista? ÉPOCA – Centrais sindicais e a oposição criticam a essên-
Ricardo Ferraço – É uma estratégica reforma microeconô- cia da reforma – o negociado sobre o legislado. Conside-
mica para dinamizar e dar eficiência ao mercado de tra- rando que o trabalhador é a parte mais fraca da relação
balho. Nossa legislação estava com o olho no retrovisor, empregador e empregado, por que isso seria um avanço?
estimulando deformações perversas. As duas palavras que Ferraço – O negociado sobre o legislado não vale para tudo.
marcam o projeto são flexibilização e proteção. As mudan- A reforma define com precisão o que é lícito negociar. Estão
ças contribuirão para a geração de empregos, transparên- resguardados os 34 incisos da Constituição, que são os direi-
cia e segurança jurídica. Mundo afora, essas experiências tos fundamentais de trabalhadores urbanos e rurais, como
produziram bons resultados. Não estamos inventando 13o e seguro-desemprego. A oposição faz luta de classes e s

68 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


FORMALIDADE
Ricardo Ferraço
em seu gabinete.
Ele crê que a
reforma reduzirá
a informalidade
no trabalho

Foto: Sérgio Lima/ÉPOCA 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 69


E N T R E V I S TA Ricardo Ferraço

mente ao afirmar que estamos admitindo o acordado sobre conseguiremos o apoio do deputado Rodrigo Maia e essa
a lei para tudo. Em casos específicos, em que for da vontade MP vai tramitar logo no Congresso.
da negociação entre as partes, e que não violar a lei, vale o
negociado sobre o legislado. Na prática, a reforma liberta os ÉPOCA – A MP também incluirá um fim gradual para o
trabalhadores da tutela de corporações sindicais. pagamento obrigatório da contribuição sindical?
Ferraço – Não há negociação para a manutenção da con-
ÉPOCA – A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tribuição sindical obrigatória. Isso não constará em nossa
afirma que a reforma trabalhista viola diversas conven- pauta. Uma das mais importantes conquistas da reforma
ções internacionais de que o Brasil é signatário. A princi- é o fim da obrigatoriedade. Nesse caso, o que foi aprovado
pal crítica é que não houve diálogo suficiente. no Congresso é definitivo. A contribuição obrigatória é do
Ferraço – Isso é falso e absolutamente improcedente. Há tempo em que o Estado tutelava a vontade das pessoas. De-
décadas o país debate o necessário aperfeiçoamento de cidimos que elas precisam ser ouvidas, se autorizam ou não a
nossas leis trabalhistas. Não faltou debate. O que estamos contribuição. O Estado não tem o direito de decidir por elas.
fazendo é um pouco do que já foi feito há anos no mundo
que prospera. Não inventamos nada novo. Estamos virando ÉPOCA – Qual será o novo papel dos sindicatos?
uma página de uma visão patrimonialista de Estado para Ferraço – A reforma pune os maus sindicatos e fortalece os
dar poder de resolução às pessoas. É a troca da cultura de bons. Os sindicatos, até então, trabalhavam com reserva de
conflito para a de negociação. Ao fazer isso, nos aproxima- mercado. De forma compulsória, as pessoas contribuem.
mos do mundo civilizado, de países da Europa Ocidental Qualquer coisa que não tenha competição, prestação de
e da América do Norte. E nos distanciamos dos poucos contas, causa distanciamento entre representantes e re-
países que insistem com a visão intervencionista, como a presentados. Com a contribuição opcional, essas entidades
Venezuela. A Argentina pratica a jornada terão de mostrar desempenho e ter poder
intermitente, que é um dos pontos de nos- de convencimento.
sa reforma, há décadas.
ÉPOCA – E o papel da Justiça do Traba-
ÉPOCA – Críticos dizem que, com a As decisões da lho também muda?
formalização do trabalho intermitente, Justiça do Trabalho Ferraço – Sim. Nossa Justiça do Trabalho
empresas poderão demitir empregados é produto de um ambiente da cultura do
hoje contratados pela CLT e substituí-los variam de cidade conflito, e não da negociação e da conci-
por contratações na nova modalidade. O para cidade. Virou liação. Na prática, tem ultrapassado seus
senhor avaliou esse risco? uma Disneylândia limites. Invade prerrogativas que não são
Ferraço – Estamos trabalhando na edição de seu ofício. Cada juiz do trabalho resol-
de uma Medida Provisória (MP) que defina ideológica” veu ser uma instituição. As decisões são
marcos bem específicos para a jornada in- as mais controversas em cada cidade, em
termitente. Da forma que veio da Câmara, cada região do país. Virou uma espécie de
está muito aberta. Estamos debatendo como balizar limites. A Disneylândia ideológica. A reforma uniformiza padrões e
jornada intermitente não pode ser regra, mas exceção. É uma limites. Nenhum de nós está acima da lei, inclusive os juízes.
condição especial de realidades que se impõem. A grande
escolha que precisamos fazer é se vamos continuar fingindo ÉPOCA – A votação da proposta foi bastante tumultuada.
que milhões de pessoas não são contratadas informalmente Senadoras ocuparam a mesa da presidência por sete
ou se vamos garantir segurança jurídica e direitos a elas. horas. O que o senhor achou dessa manifestação?
Ferraço – Bizarra e primitiva. É natural que haja o duro
ÉPOCA – Essa MP é a mesma que o presidente Michel debate, o conflito de ideias e divergências no limite do
Temer negociou com senadores para aprovar a reforma, estresse. Mas essa ocupação remete ao estágio não civi-
e que incluirá outros pontos, como regras mais rígidas lizatório. É como estabelecer sua vontade pela força ou
para as empresas tratarem grávidas e lactantes? Em um pela condição de gênero. Esses instrumentos remetem à
primeiro momento, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia Venezuela, onde há ocupações no Parlamento. O Brasil
(DEM-RJ), disse que não pautaria a matéria... não é a Venezuela. Essas pessoas precisam tomar um ba-
Ferraço – A MP trata de pontos específicos, como o trabalho nho no oceano da democracia.
da mulher grávida e lactantes em locais insalubres, a jorna-
da de 12 por 36 horas por acordo coletivo, e não individual, ÉPOCA – A aprovação da reforma trabalhista significa
danos materiais, entre outros. Esses pontos constarão, sim, uma vitória de Temer?
nessa MP que está sendo trabalhada a muitas mãos. O tra- Ferraço – Esse tema não é de governo ou de oposição. Foi
balho que a Câmara fez foi extraordinário, mas nada é tão uma vitória do Brasil. Abandonamos o retrovisor e passa-
bom que não possa melhorar. A questão dos marcos para o mos a olhar para a frente. Não podemos reduzi-la a uma
trabalho intermitente será incluída nessa MP. Com diálogo, questão de luta política conjuntural. u

70 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


VIDA
MENTE
A B E R TA

DO REBOLADO
AOS MEMES
Depois de amargar anos no limbo
da cultura nacional, Gretchen é
redimida pelos memes e ascende ao
patamar de estrela internacional
72 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017
gramas de auditório nacionais e con-
seguiu estender sua fama como can-
tora e dançarina até o início dos anos
2000, mas não passou disso. Em 2012,
participou do reality show A fazenda
– conhecido por recrutar artistas que
estão fora do radar –, mas desistiu na
sexta semana e deixou o programa por
conta própria. Sua carreira estava fa-
dada a desaparecer, não fosse alguma
mente criativa que resolveu usar cenas
do programa para criar gifs (formato
de imagens de baixa qualidade) ani-
mados e fotos que simulam reações
zombeteiras. Por exemplo, um vídeo
com Gretchen discutindo com alguém
perde o áudio e ganha legendas que
apresentam um diálogo muito mais
engraçado do que o original. Ou uma
MELÔ DA WEB
Gretchen em imagem dela bufando vem acompa-
cenas do clipe nhada dos dizeres “quando sua tia
da cantora pop pergunta dos namoradinhos durante
Katy Perry. a ceia de Natal”.
A participação
da brasileira Com o compartilhamento incessan-
bombou na te, essas imagens recebem a alcunha de
internet e a “memes” – tudo o que os usuários da
trouxe de volta internet reproduzem enlouquecida-
ao estrelato
mente. Pode ser um vídeo, uma foto
ou uma frase. A ideia se espalha por
meio das redes sociais e se torna “viral”,
uma verdadeira compulsão. Os jovens
encontraram em Gretchen uma fonte
rica de memes. Sua personalidade ex-
pansiva rende caras e bocas que podem
ser usadas nas mais diversas situações.
Eles surfaram os arquivos da internet e
recuperaram cenas dos anos dourados
da cantora em entrevistas, programas
de auditório e shows, buscando ainda
Nina Finco

“H
mais material para se divertir. “Até eu
aters gonna hate.” A frase é re- da, a Gretchen, vem experimentando entender o que era essa linguagem, foi
petida à exaustão na internet. essa viagem para o alto no elevador muito complicado”, afirma Gretchen.
Em tradução livre, significa da fama. Graças aos ascensoristas da “Achava que estavam usando minha
“‘odiadores’ odiarão de qualquer jei- rede mundial de computadores, a rai- imagem sem minha autorização e pe-
to”. Faz sentido. Protegidos pela segu- nha brasileira do rebolado tornou-se jorativamente. Mas com o tempo aca-
rança que uma tela de distância pode assunto de manchete lá fora e ostenta, bei achando muito engraçado. Com-
proporcionar, internautas não pou- neste momento, a coroa de rainha in- partilho meus próprios memes.” Em
pam os dedos para criticar, ofender e ternacional da internet. outubro do ano passado, ela lançou
perseguir. Ironicamente, quanto mais Apesar de ter começado sua carrei- seu próprio canal no YouTube, com
pessoas digitam seu desgosto, mais ra cantando músicas em línguas es- vídeos que mostram seu cotidiano em
atenção um assunto recebe. O que es- trangeiras, misturando inglês, francês Mônaco (onde vive atualmente com o
tava no limbo pode experimentar uma e espanhol (como “Dance with me” e marido, um empresário português, e os
ascensão estratosférica – e “haters gon- “Freak le boom boom”), a imagem de filhos) e que só aumentam a fonte de
na hate” pode se tornar “lovers gonna Gretchen não reverberou muito além cenas engraçadas para gifs divertidos.
love” num só clique. Nas últimas se- do Brasil. Nos anos 1970, ela chamou Como os brasileiros são grandes en-
manas, Maria Odete Brito de Miran- a atenção sob os holofotes dos pro- tusiastas da tecnologia, não demorou s

Fotos: reprodução 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 73


M E N T E A B E R TA

tre dançarinos vestidos com roupas


inspiradas na era disco. Em menos de
24 horas, “Swish swish” chegou a 4,6
milhões de visualizações – dez dias
depois, soma mais de 21 milhões. Em
um vídeo para Vogue Brasil, Katy afir-
mou: “Ela é maravilhosa, ela é icônica,
ela é a internet”.
Um meme pode dizer muito sobre
um país. De forma sutil e debochada,
representa um recorte da cultura local.
Somos bombardeados diariamente
com memes americanos, mas, de vez
em quando, outros países se destacam.
Em 2012, o clipe de “Gangnam style” do
cantor Psy colocou a Coreia do Sul no
mapa musical. No ano seguinte, “The
fox” e seu refrão irritante “what does
the fox say?” mostraram que na No-
ruega havia comediantes carismáticos.
Ambos os vídeos receberam prêmios
de Melhor Clipe do Ano em cerimô-
nias musicais pop, como da MTV e da
Disney, e foram destaques no YouTube.
“Esses casos ilustram a natureza global
da cultura da internet e podem colocar
países no centro das atenções”, afirma
Joel Penney, professor de comunica-
ção da Universidade Montclair State e
especialista em novas mídias. “Para a
indústria cultural nacional, há possi-
bilidade real de fazer dinheiro com as
viralizações”, diz o especialista.
Segundo Penney, é comum que os
memes sejam interpretados como pi-
lhéria, mas, ao mesmo tempo, a ima-
gem dos países passa a ser pesquisada e
conhecida por pessoas que, em outra
situação, não iriam atrás dessa infor-
mação. “Vi diversos artigos explicando
O PRIMEIRO
quem era a Gretchen, todos incluindo
BOOM BOOM as palavras ‘Brasil’ ou ‘brasileira’. O nome
para a rainha do rebolado chegar a ter- Gretchen num baile do país está lá fora e ganha conhecimen-
ritório estrangeiro. Em fevereiro, um fã de Carnaval no to. Mostra para as pessoas que há memes
da cantora pop Katy Perry respondeu a Rio de Janeiro em e cultura sendo criados em outras partes
1984. Os programas
uma postagem dela em sua conta ofi- de auditório a do mundo”, afirma. Numa era em que
cial no Twitter com um dos memes de tornaram famosa os millennials (geração que nasceu ou
Gretchen. Katy entrou na brincadeira, muito antes, chegou à adolescência perto da virada do
nos anos 1970
atiçando a animação dos fãs brasileiros. milênio e cresceu com a internet) ditam
Cinco meses depois, em 3 de julho, ela como se comportar e o que consumir,
lançou o clipe do single “Swish swish” os memes se tornam uma forma de ex-
na internet, estrelado por ninguém portar a cultura nacional tão expressiva
menos que Gretchen. Gravado numa quanto a produção cinematográfica e te-
quadra de basquete em Salvador, com levisiva. Gretchen afirma que a parceria
coreografia do grupo FitDance, o vídeo com a Katy Perry não acabou por aí.
traz a rainha remexendo os quadris en- Não gostou? Aceita que dói menos. u

74 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Foto: Manoel Pires/Folhapress


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Se estivesse vivo, Chacri-
nha completaria 100 anos
no dia 30 setembro. “Para

linda
celebrar, a Globo fará um
especial sobre ele. Nós, da
família, já gravamos nossa

mulher
participação na atração,
que terá vários números
musicais da época”, conta a
blogueira Dandynha Bar-
Depois de muita luta, a bosa, uma das netas do
atriz e modelo transexual saudoso Velho Guerreiro.
Carol Marra fez, há Ela segue os passos do avô
pouco mais de um mês, na TV e estreia no dia 19
a tão sonhada cirurgia o reality Alto Leblon, que
de redesignação sexual. conta o dia a dia de cinco
“É uma cirurgia muito influenciadores digitais. “O
delicada, sei de muitos programa mostra que nem
casos que deram errado. tudo é glamour como ve-
Mas estou ótima, ficou mos nas redes sociais”, diz
perfeito, como eu queria, Dandynha. Ela tem 178 mil
sem nenhuma cicatriz. seguidores no Instagram
Estou apenas com um e cerca de 250 mil acessos
pequeno inchaço”, mensais em seu blog. “É
afirma ela, que, dois uma oportunidade de as
dias depois de receber pessoas me conhecerem
alta, já estava passando um pouco mais. Não sou
aspirador de pó em casa. patricinha como acham.”
“Minha faxineira faltou,
então tive de me virar
eu mesma.” Apesar da
felicidade, Carol, que
foi escalada para uma
novela na Globo, diz
que não se sente uma
nova mulher. “Não é a
genitália que reafirma
o gênero de ninguém,
ser mulher é algo muito
maior. Ainda não tive
minha primeira relação
depois da cirurgia, tenho
de esperar. Mas não vai
ser com qualquer um.
Lutei muito para chegar
até aqui. Terá de ser
com alguém especial.”

76 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


Com Acyr Méra Júnior e Guilherme Scarpa

A bruxinha toda boa


Recém-separada do empresário ita-
liano Filippo Adorno, que namorava
havia três anos, Mariana Ximenes
está em Madri para fazer um curso
de interpretação com o argentino
Juan Carlos Corazza, coach de Javier
Bardem e Penélope Cruz. Antes disso,
curtiu férias em Paris, onde assistiu
aos desfiles de alta-costura, e em Ibiza,
onde esbanjou sua boa forma, aos 35
anos, em fotos de biquíni nas redes
sociais. “É que levo uma vida regra-
dinha e tento ter uma alimentação
saudável, apesar de gostar de comer
bem. Faço bicicleta, stand up paddle,
ioga e agora comecei a me aventurar
no surfe”, conta a atriz. A partir do
dia 20, Mariana poderá ser vista nos
cinemas como uma bruxinha boa, em
D.P.A. – O filme, baseado no suces-
so do canal infantil Gloob. “Minhas
afilhadas estão superfelizes, nunca
tinha feito algo assim para criança.”

Sozinha
no palco
Para comemorar os
30 anos de carreira,
Deborah Secco acaba
de estrear seu primeiro
monólogo, Uma noite
dessas. Em cartaz em
Campinas até o dia 23,
o espetáculo chegará ao
Rio de Janeiro e a São
Paulo em 2018. “Sou
precoce, comecei aos 8
A volta do Didi
anos. Já fiz muita coisa, Renato Aragão conta que ficou emociona-
então precisava de algo do assim que pisou no estúdio para voltar a
que me desafiasse”, encarnar o lendário Didi Mocó no remake de
diz a atriz. Deborah Os Trapalhões, que estreia no Canal Viva no
recrutou o premiado dia 17 para celebrar os 40 anos da formação
Hamilton Vaz Pereira do quarteto. Além de Dedé Santana, os nove
para escrever e dirigir episódios contam com novos integrantes.
a peça. “Foi muito rá- “No início, fiquei meio cabreiro. Mas já no
pido: ele escreveu tudo primeiro dia de gravação fui tomado por
em 20 dias e tive mais uma emoção enorme e tive a certeza de que
20 para ensaiar”, conta. daria certo”, diz Renato, de 82 anos. “É claro
Ela está reservada para que Mussum e Zacarias são insubstituíveis e,
voltar ao ar no início modéstia à parte, Dedé e eu também. O que
do ano que vem, numa queremos com esta volta, mesmo que breve, é
novela das 7 na Globo. não deixar a história dos Trapalhões morrer.”

Fotos: Valério Trabanco, E! Entertainment Television, 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 77


Daniel Chiacos, Elvis Moreira e Monica Imbuzeiro/Ag. O Globo
BRUNO ASTUTO Leia a coluna diária de Bruno Astuto em epoca.com.br

E N T R E V I S TA Modo avião
Pedro Andrade vai voltar
N E Y M AT O G R O S S O a carimbar o passaporte
C A N TOR
freneticamente – foram 30
países visitados nos últimos

“Nada foi premeditado” três anos – para a terceira


temporada de seu programa
de viagens no GNT, o Pedro
pelo mundo. “É mais do que
uma atração com destinos

P restes a completar 76 anos em 1o de


agosto, Ney Matogrosso será o gran-
de homenageado do Prêmio da Música
óbvios, que mostra a melhor
pizza de Roma e conta qual
o melhor guacamole do
Brasileira, no dia 19, no Theatro Municipal México. Mostro pessoas
do Rio de Janeiro. “O prêmio é uma malu- que desvendam a alma de
quice, é muita coragem fazer algo assim cada região”, afirma ele, que
nestes tempos”, diz o cantor, referindo-se acaba de voltar da Bulgária,
ao quase cancelamento da premiação onde gravou uma web série
por falta de patrocínio. Com 45 anos de para a marca de perfumes
carreira, Ney acaba de fazer um dueto O Boticário. “Meus destinos
póstumo com Cazuza, gravando virtual- favoritos são Cairo, México
mente a música “Dia dos namorados”. e Botsuana, lugares com
altos e baixos, mas reais. E
ÉPOCA – Acha que contribuiu para não recomendo Cingapura.
diminuir a caretice no país? Para se tornarem uma
Ney Matogrosso – Queria me liberar, fa- grande potência, abriram
zer o que desse na cabeça. Nada foi pre- mão de sua personalidade,
meditado. Diziam que artista não podia EX-TÍMIDO viraram só um grande centro
andar na rua, então inventei as másca- Ney Matogrosso, cantor. “Não deixava econômico. Não gosto de
ras. Me defendia: batiam palmas e eu me ninguém me ver sem camisa” lugares sem autenticidade.”
fechava. Hoje, quando batem, me abro.
Vi que era melhor ser mais acessível.
Mesmo pintado, de batom, colar e mi- ÉPOCA – Gravar virtualmente com
çanga, eu era uma pessoa, não um bicho. Cazuza trouxe boas recordações?
Não sei se era coragem ou insensatez. Ney – Sabia que era provocação e
a admiti. Fiquei feliz de gravar. Gos-
ÉPOCA – Passou aperto na ditadura? tei do resultado. Conheci Cazuza em
Ney – Antes dos Secos e Molhados, 1979. De início, não dei muita bola para
fui preso por ser hippie e não tinha di- ele. Achava que, por ser filho do João
nheiro para dar à polícia. Fomos uma (Araújo), daria trabalho. Mas ali come-
prostituta, um bicheiro e eu. Ela chorou çamos nossa história.
e foi liberada. O bicheiro pagou. Eu não
tinha nada, passei a noite na prisão. A ÉPOCA – Há artistas que devem a fama
história da corrupção é antiga mesmo... às redes sociais. Como lida com elas?
Ney – Quase não uso, prefiro rádio.
ÉPOCA – Já teve pudor com o corpo? Ouço música no carro para me atuali-
Ney – Quando adolescente. Não deixa- zar. Antes, era mais interessante, por-
va ninguém me ver sem camisa. Eu tinha que se ouviam Amália Rodrigues, Edith
vergonha do pé, da mão. Depois, nunca Piaf. Hoje, está muito restrito às músi-
tive problemas com nudez. Houve o ano cas americana e brasileira. Mas, mes-
em que era moda os homens nadarem mo sem internet, os Secos e Molhados
pelados no Posto 9, em Ipanema. Entra- balançaram o coreto, com repercussão
va no mar e botava a sunga no pescoço. internacional. Até saímos em revista
O escritório de todo mundo era na praia, americana. Empresários dos Estados
fumava-se muita maconha lá. Unidos queriam me levar para lá.

78 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017 Fotos: Camila Marchon/ÉPOCA e divulgação


WA L C Y R C A R R A S C O

As surpresas
da era de Aquário
T enho 65 anos. Olho em torno e descubro que objetos
comuns na minha infância ou adolescência sumiram
do cotidiano. Pior. Vou a uma feira de antiguidades e des-
Quantas mil coisas deixaram de existir, como o bambo-
lê, um enorme círculo de plástico que se rodava com a
cintura? Antes as meninas conversavam com as bonecas.
cubro um brinquedo da minha infância, vendido a preço Hoje as bonecas falam com as meninas! A ideia de comida
de ouro. Susto! saudável, com propriedades curativas, começou com a ma-
Quando eu era adolescente, fez sucesso a primeira versão crobiótica, nos meus tempos. À base de arroz integral, man-
do musical Hair. A certa altura, todos os atores ficavam dou muita gente ao hospital, por anemia. Hoje, imperam
pelados. Um escândalo. Mas o grande momento era o que os veganos, que não ingerem nada de origem animal. En-
anunciava a era de Aquário. Os astrólogos haviam anun- tretanto, comer tornou-se temerário. Há uma medicaliza-
ciado que, após mais de 2 mil anos na era de Peixes, seria ção dos alimentos. Todos fazem mal de alguma maneira.
iniciada a de Aquário, com total transformação na socie- Minha avó morreu quase aos 90, comendo banha de porco
dade. A música “Aquarius” era o tema de Hair. Não é que até o fim da vida. Se fosse uma velha budista, eu teria es-
os astrólogos estavam certos? O mundo sofreu uma guina- crito um livro sobre a sabedoria da banha de porco. Sendo
da radical, tecnológica. Como previsto. É o que sempre ela uma imigrante espanhola, melhor ficar quieto. Peixe
digo: “No creo en las brujas, pero que las hay, hay...”. frito na banha é uma delícia. Mas, se ofereço a meus amigos,
Quando o filho de 3 anos da minha empregada pega um é sem revelar. Dentadura, dessas de botar no copo d’água
celular na mão e faz coisas que nunca ima- durante a noite, acabou. Hoje, é implante.
ginei, sinto um arrepio. Sou da época da Pode ser que alguém ainda use, mas não
máquina de escrever. Barulhenta. O escri- ouvi falar. Perdoe-me a referência escato-
tor era um tormento para os vizinhos. HOJE, SÓ SE USA lógica, mas o que é feito do penico? Antes
Ainda mais um como eu, que gosta de toda casa, mesmo elegante, tinha alguns
criar à noite. Telefone era um bem inatin-
CHAPÉU POR CHARME. espalhados sob as camas. Atualmente, há
gível para muitos. Na minha infância, era A GRAVATA VAI PELO mais banheiros. Suítes. O pobre penico, de
preciso se inscrever e aguardar uns cinco MESMO CAMINHO. extrema necessidade nas noites frias, foi
anos pela instalação. Uma vizinha tinha para o beleléu. Beleléu? Também não se
telefone. Muito constrangida, às vezes mi- PARA QUE USAR ESSE sabe mais o que é. Procurem no Google,
nha mãe pedia para fazer uma ligação. Só LAÇO NO PESCOÇO? que acabou com as enciclopédias. Quando
em caso de extrema necessidade. Mais tar- eu era criança, toda família de classe média
de, quando era jovem, comprei uma linha comprava uma, em prestações, para ajudar
no mercado negro. Caríssima. Conheci gente que vivia de... nos trabalhos de escola. Hoje, basta um clique.
alugar telefone! Hoje até o telefone fixo, sabe-se, vai desa- Um mundo inteiro se transformou aos poucos, devagar,
parecer. A primeira vez em que vi um telefone celular foi à medida que os objetos foram sumindo. Foram substituídos
em Miami. Chegou ao Brasil após a privatização feita no ou trocados. Imagino que o homem da Idade Média deve
governo Fernando Henrique Cardoso. Era um caixotão. ter sofrido a mesma surpresa com os descobrimentos da
Como imaginar seu futuro papel em nossas vidas? Eu mes- Moderna. Então o mundo não era só aquele pedacinho de
mo não consigo lembrar como era o mundo antes do ce- terra? Agora encaro a Revolução Digital. Vivo uma mu-
lular. Meu pai era telegrafista. Quem ainda manda telegra- dança de era. Daqui a 60 anos, como será o mundo? Eu
ma hoje em dia, se tem e-mail, Facebook, Twitter, Instagram? não verei. Muita gente de hoje em dia sim, pois a expecta-
Quando menino, tive aulas de caligrafia com caneta a tiva de vida aumenta com os avanços da medicina.
tinteiro. Hoje, caneta a tinteiro, só por charme. Chapéu O mundo que conheci na infância já acabou.
idem. Bengala, por necessidade. Eram fundamentais no Se sentar em um antiquário, é capaz que alguém me
traje masculino. A gravata resiste, mas vai pelo mesmo ca- leve por engano. u
minho. Para que usar esse laço esquisito no pescoço? E o
relógio? Ainda há uma campanha forte para nos convencer
de que é a joia masculina. As grifes resistem. Mas logo serão
substituídos pelos novos, digitais, que têm mil funções. Walcyr Carrasco é jornalista, autor de livros,
Horas? Qualquer um vê as horas no celular. peças teatrais e novelas de televisão

17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 79


T E M P O L I V R E ? E S Q U E Ç A . E I S O Q U E V O C Ê P R E C I S A FA Z E R N E S TA S E M A N A

LIVRO
2 horas

Guerra Fria
nas estrelas
Há décadas, a
escritora americana
Ursula Le Guin
recorre à ficção
científica para
elaborar críticas
sociais. O romance
Os despossuídos,
publicado
originalmente
em 1974, é uma
metáfora da Guerra
Fria que opunha
americanos a
soviéticos. Urras e
Anarres são dois
planetas irmãos
que não podiam
ser mais diferentes.
Urras tem ricos e
pobres e se divide
em estados rivais;
em Anarres não
existe sequer
propriedade privada.
Shevek, um físico
anarresti, sonha em
derrubar o muro de
ódio que separa os
dois planetas por
meio da “Teoria da
Simultaneidade”.
Aleph, 384 páginas,
R$ 49,90.
FESTIVAL
4 horas

Aquele rio era como um cão sem plumas


Neoclássico, clássico de repertório, contemporâneo, jazz, sapateado, danças populares e danças urbanas.
Esses são os sete gêneros de dança que embalarão as 240 horas de apresentações do 35o Festival
de Dança de Joinville. Serão 1.327 coreografias interpretadas por 408 grupos de dança de 17 estados
brasileiros, do Distrito Federal e também do Paraguai e da Argentina. Na noite de abertura (19/7), a Cia. de
Dança Deborah Colker apresenta o espetáculo Cão sem plumas, baseado no poema do pernambucano
João Cabral de Melo Neto (1920-1999) – uma obra-prima –, que descreve a paisagem miserável das margens
do Rio Capibaribe. A coreografia mistura ritmos populares como o maracatu e o jongo. De 18/7 a 29/7.

80 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


Por Nina Finco, mfinco@edglobo.com.br,
e Ruan de Sousa Gabriel, rsgabriel@edglobo.com.br

CINEMA
2 horas

Harmonia dissonante
No novo filme do cineasta americano Terrence
Malick não se vê aquela natureza exuberante
que tirava o fôlego dos espectadores de A árvore
da vida, de 2011. Em De canção em canção, a
câmera passeia pela dureza arquitetônica de
Austin, no Texas, e pela barulheira dos famosos
festivais de música na cidade. Aquela luz quase
LIVRO
1 hora divina, assinatura de Malick e do diretor de
fotografia mexicano Emmanuel “Chivo” Lubezki,
Elas são revolucionárias inunda o filme, que acompanha a confusa vida
A escritora feminista Kate Schatz e a ilustradora Miriam Klein Stahl sentimental de Faye (Rooney Mara), dividida entre
reúnem no livro Mulheres incríveis 44 histórias de mulheres Cook (Michael Fassbender), um magnata sinuoso
extraordinárias e transgressoras que subverteram leis e lutaram da indústria musical, e BV (Ryan Gosling), um
pelo fim da desigualdade de gênero. As figuras vão desde a grande compositor auspicioso. Às vezes, o filme descamba
rainha-faraó Hatshepsut até a ativista Malala Yousafzai. Para a edição para o tédio, como um clipe de uma banda indie
nacional, a jornalista Juliana de Faria (fundadora da campanha “Chega tentando flertar com o pop, mas Malick constrói
de fiu fiu”) foi convidada a escrever o perfil de duas brasileiras: Maria um final cheio de compaixão, que se sobrepõe a
da Penha e Elza Soares. Astral Cultural, 126 páginas, R$ 39,90. essas notas dissonantes. Estreia no dia 20/7.

STREAMING
1 hora

Tchau, arranha-céus
No drama Ozark, a família
Byrde parece ter uma vida
comum. Isso se não levarmos
em conta o segundo trabalho
de Marty (Jason Bateman),
que, além atuar como consultor
financeiro em Chicago,
lava dinheiro para um dos
maiores cartéis de droga do
CINEMA
México. Quando as coisas
2 horas dão errado, Marty precisa
tirar sua família da cidade
O soldado e o poeta grande e mudar-se para uma
O escritor português António Lobo região bucólica do Missouri,
Antunes atuou como médico militar no Centro-Oeste americano.
durante a Guerra Colonial Portuguesa, Netflix, estreia no dia 21/7.
entre 1972 e 1973. Das trincheiras de
Angola, enviou cartas para sua mulher
grávida. Essas correspondências
resultaram no livro D’este viver aqui
neste papel descripto, adaptado agora
para os cinemas. Cartas de guerra é
um filme poético, em preto e branco, que
mostra a experiência do autor no serviço
militar. Vozes femininas e masculinas,
num delicioso sotaque lusitano de
cadência calma e saudosa, narram
os dizeres das cartas. Em cartaz.

Fotos: divulgação 17 de julho de 2017 I ÉPOCA I 81


RUTH DE AQUINO

Temer e Lula,
os irmãos camaradas
“V ocê meu amigo de fé, meu irmão camarada (...)/Me
lembro de todas as lutas, meu bom companheiro/Você
tantas vezes provou que é um grande guerreiro/O seu coração
nheiro a favores – desmoraliza a Lava Jato. Mas nossos re-
presentantes nem estão aí.
A camaradagem entre o PT e Temer já havia sido selada
é uma casa de portas abertas/Amigo, você é o mais certo das por Dilma Rousseff, quando o peemedebista foi escolhido para
horas incertas/Às vezes em certos momentos difíceis da vida/ vice em 2014. Vale a pena ver de novo os vídeos de Dilma no
Em que precisamos de alguém pra ajudar na saída/A sua palanque:“Eu tenho um companheiro de chapa, um vice que
palavra de força, de fé e de carinho/Me dá a certeza de que é uma pessoa experiente, séria (abraços, sorrisos, aplausos de
eu nunca estive sozinho.” todos e de Lula), que tem uma tradição política, que eu tenho
Essa letra de Roberto Carlos, composta há 40 anos em certeza que saberá somar e me substituir à altura quando nós
homenagem a Erasmo Carlos, me lembrou a camaradagem tivermos de viajar para fora do Brasil. O meu vice não caiu do
recente e de ocasião entre Lula e Temer. No fim de junho, céu, não é um vice improvisado. É uma pessoa competente e
Lula defendeu Temer para uma rádio do Acre: “Se o procu- um homem capaz”. Lula ergue o punho, Temer também, jun-
rador-geral da República tem uma denúncia contra o presi- to com Dilma. “Um homem capaz de dialogar, de fazer con-
dente da República, ele primeiro precisa provar. Tem de ter senso, sobretudo um homem leal, um grande brasileiro.Agra-
provas materiais. Falo isso porque já cansei de ser achinca- deço a meu parceiro de todas as horas, meu vice Michel Temer.”
lhado sem ninguém apresentar nenhuma Quem estava colado a Lula nesse palan-
prova. Não adianta dizer que a pessoa co- que? Sérgio Cabral, outro amigo de fé e
meteu um erro. Até agora Temer é inocen- irmão camarada, rindo e fazendo coração-
te. O Janot não provou nada”. zinho para a plateia. O mesmo que, agora,
O ex-presidente Lula acaba de ser conde- LULA ACHA TEMER preso, enfrenta mais uma acusação, de
nado por corrupção passiva a nove anos e INOCENTE. AMBOS chegar a ter US$ 120 milhões numa conta
meio de prisão e vai recorrer. O atual presi- SE ACHAM VÍTIMAS DE no exterior. Em depoimento formal à Jus-
dente Temer acaba de comandar manobras tiça, chamou de “uma maluquice essa his-
imorais na Comissão de Constituição e Jus- PERSEGUIÇÃO POLÍTICA tória de 5%” de comissão em cima de
tiça (CCJ) para tentar se livrar da investigação E JUDICIÁRIA. AMBOS obras no Rio de Janeiro.
mais grave já aberta contra um governante na O “perseguido” Cabral disse ao juiz
história do Brasil.Ambos se consideram víti- SONHAM COM 2018 Marcelo Bretas, em tom de deboche: “Eu
mas inocentes de delações ilícitas e mentiro- não matei Odete Roitman”. Uma alusão à
sas.Ambos se sentem vítimas de conspirações novela da TV Globo Vale tudo, que con-
políticas e judiciárias, sem provas materiais. quistou o Brasil em 1988 e 1989. A morte de Odete Roitman
Os brasileiros, no íntimo, não acreditam que a conde- (a vilã interpretada por Beatriz Segall) registrou 81 pontos
nação de Lula pelo tríplex do Guarujá – ou futuramente no Ibope. A trama abordou “até que ponto valia ser hones-
pelo sítio de Atibaia – acabe resultando em prisão, mesmo to no Brasil”, disse um de seus autores, Gilberto Braga.
que ele seja impedido de, como réu, se candidatar em 2018. Continua valendo tudo, menos ser honesto.
Nem o juiz Sergio Moro ousou decretar prisão preventiva. Todos os personagens do nosso presidencialismo de coop-
E Lula já se prepara para sair em caravana no Nordeste. Os tação – e que se incluam aí Aécio Neves, seu relator de es-
documentos sobre o tríplex e o sítio continuam a ser pou- timação da CCJ Abi-Ackel e o resto dos tucanos, bichos em
ca coisa diante da corrupção na Petrobras e da escandalo- extinção em cima do muro –, amigos de fé, irmãos cama-
sa promiscuidade com empreiteiras como a Odebrecht e a radas, todos eles mataram Odete Roitman.
OAS, envolvendo valores muito mais altos. Mataram nossa crença em algum resquício de ética po-
Os brasileiros, no íntimo, também não acreditam que o lítica. Se a Justiça, com suas instâncias e seus braços, da
plenário da Câmara, no dia 2 de agosto, contrarie a CCJ e Procuradoria ao Supremo, não punir de verdade os ladrões
acabe mandando a denúncia contra Temer para o Supremo de verba pública, que as urnas façam a limpeza em 2018.
Tribunal Federal. É que, no íntimo, não se acredita mais em Que espanem a velha política do conchavo e da propina
nada. São necessários 342 votos de deputados a favor de ao institucionalizada. Que a camaradagem passe a ser do bem. u
menos se investigar Temer. Ignorar a delação de Joesley Ba-
tista e tudo que circundou esse encontro – de malas de di- Ruth de Aquino é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br

82 I ÉPOCA I 17 de julho de 2017


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