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O PSICÓLOGO HOSPITALAR NO PROCESSO PRÉ E PÓS-OPERATÓRIO DE


AMPUTAÇÃO DE MEMBROS EM PACIENTES DIABÉTICOS

Jennifer Mylena Teixeira da Silva 1


Márcia Freitas dos Santos2
Sandra Regina Guimarães Silva3

RESUMO

O presente artigo discute o contexto da Psicologia como ciência no processo do pré e pós-
operatório de amputação de membros em pacientes diabéticos, tendo em vista as implicações
e sentimentos experimentados por pacientes e familiares nesta situação. Buscou-se, através da
revisão de literatura concernente a temática em questão, compreender esse fenômeno. Trata-
se, portanto, de uma pesquisa bibliográfica. Desse modo, foi possível desvelar algumas
facetas do fenômeno amputação à luz do referencial fenomenológico, além de compreender a
pessoa amputada em sua situacionalidade, tal como ela se mostra em si mesma, em sua
essência. A ansiedade e o estado emocional do paciente podem facilitar ou dificultar o
processo. Assim sendo, um programa eficaz e efetivo de abordagem psicológico pré e pós-
operatório deve considerar a individualidade e singularidade do paciente, para reduzir a
ansiedade e aumentar a adesão ao tratamento, podendo diminuir o tempo de convalescença,
reduzir as sequelas e oferecer ao paciente um novo olhar para sua realidade.

Palavras-chave: Amputação; Psicologia; Reabilitação.

ABSTRACT

This article discusses the context of Psychology as a science in the pre and post-operative
process of limb amputation in diabetic patients, considering the implications and feelings
experienced by patients and families in this situation. It was sought, through the literature
review concerning the subject in question, to understand this phenomenon. It is, therefore, a
bibliographical research. In this way, it was possible to reveal some facets of the amputation
phenomenon in the light of the phenomenological referential, in addition to understanding the
person amputated in his situationality, as it shows itself in its essence. Anxiety and the
patient's emotional state can make it easier or more difficult. Thus, an effective and effective
program of pre and post-operative psychological approach should consider the patient's
individuality and uniqueness, to reduce anxiety and increase adherence to treatment, reducing
convalescence time, reducing sequelae, and giving the patient a new look at their reality.

Keywords: Amputation; Psychology; Rehabilitation.

1
Graduanda em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Maceió (CESMAC)
2
Graduanda em Psicologia pelo Centro de Ensino Superior de Maceió (CESMAC)
3
Professora Especialista do Centro de Ensino Superior de Maceió (CESMAC)
2

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo propõe a reflexão sobre a vivência da amputação no paciente, sua


família, bem como seus reflexos na Instituição Hospitalar. Discutir como se dá esse processo
de perda de membros torna-se importante para a Psicologia à medida que é vislumbrado o
sofrimento psicológico que todos os envolvidos com o paciente sofrem. Dessa maneira, o
artigo discute o processo cirúrgico, suas interfaces psicológicas, o psicólogo hospitalar neste
contexto e o processo de reabilitação desse paciente amputado.
A amputação é classificada como uma deficiência física, já que deficiência física se
refere a uma alteração que impossibilita o desempenho esperado e adequado da função física
de uma determinada parte do corpo afetada. De acordo com o Censo realizado no Brasil em
2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 24% da
população brasileira possuem alguma deficiência. Desse número, cerca de 7% possui
deficiência motora, o que representa aproximadamente 3 milhões de brasileiros.
A Constituição Federal e os Princípios e Diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS)
viabilizaram o surgimento de decretos e leis de apoio às pessoas com deficiência, a sua
integração social, prioridades ao atendimento e critérios de promoção da acessibilidade. O
Capítulo II da Constituição Federal, artigo 23, discorre que “é competência comum da União,
Estados, Distrito Federal e Municípios, cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e
garantia das pessoas portadoras de deficiências”.
Cotidianamente, os profissionais de saúde enfrentam dilemas éticos, como as
desigualdades de condições de vida, o acesso aos serviços pelos usuários do sistema e a falta
de preparo/qualificação dos recursos humanos em saúde. Nesta perspectiva, o presente artigo
propõe a discussão a partir de reflexões sobre a importância da intervenção do psicólogo
hospitalar no processo pré e pós-operatório de amputação de membros em pacientes
diabéticos, que deveria ser uma realidade já presente na efetividade das políticas públicas.

2. O PROCESSO CIRÚRGICO E SUAS INTERFACES PSICOLÓGICAS

De acordo com Luccia et al (1996), as cirurgias fazem parte dos procedimentos mais
antigos da medicina e seus avanços são consideráveis, visto que, em outros tempos,
considerava-se uma vitória sobreviver a uma operação.

Em geral uma cirurgia implica grande impacto sobre o bem-estar físico, social e
emocional do paciente, com aumento dos níveis de ansiedade e stress e pelo
3

distanciamento, mesmo que temporário, da rede de apoio social e familiar. Os


sentimentos de ansiedade e medo decorrem de qualquer evento novo ou
desconhecido, portanto são reações frente à ameaça de perigo ou ao perigo
eminente. Quando se trata dos procedimentos cirúrgicos isto não é diferente. Pode-
se supor que a antecipação desse evento gere sentimentos potencialmente negativos
pautados na avaliação cognitiva de cada indivíduo (TESSER e PREBIANCHI, 2014,
p. 1).

Relatos dos escritos de Tesser e Prebianchi (2014) de pacientes expostos a


procedimentos cirúrgicos apontam que os principais fatores desencadeantes de ansiedade
incluem: percepção antecipada de dor e desconforto; espera passiva pelo início do
procedimento; separação da família e sentimentos de abandono; possível perda, mesmo que
temporária, de autonomia; medo da morte, de sequelas, do procedimento de anestesia e do
risco de alta prematura e o procedimento cirúrgico como um todo.
Percebeu-se que com a evolução da medicina e das tecnologias biológicas, houve uma
modernização no que tange a instrumentação cirúrgica, nas técnicas operatórias, na formação
dos médicos e nas condições gerais dos centros cirúrgicos. Dessa maneira o procedimento
cirúrgico passou a ser planejado conforme as necessidades de cada pessoa, considerando a
capacidade de cicatrização e tratamento das estruturas comprometidas, visando o
aprimoramento e a melhora na qualidade de vida.
O sujeito submetido a uma cirurgia sente-se fragilizado e emocionalmente instável,
possui uma falta de controle da situação além da incerteza de como será o procedimento
cirúrgico, dúvidas sobre o pós-operatório, medo de sentir dor, de se tornar incapacitado, de
morrer, de “não voltar” da anestesia e fantasias sobre como ficará seu corpo (SEBASTIANI e
MAIA, 2005).
Tais fatores ansiogênicos podem interferir de modo adverso sobre a aquisição de
estratégias de enfrentamento em relação ao procedimento cirúrgico e sobre o
processo de recuperação do paciente, gerando, ainda, maior probabilidade de
episódios de elevação da pressão sanguínea, sangramentos mais intensos nas
cirurgias, redução de resistência imunológica e transtornos psicossomáticos
(TESSER e PREBIANCHI, 2014, p. 1).

Ismael e Oliveira (2008) debatem a ansiedade e medos do pré-operatório como


sintomas esperados, tendo em vista que o paciente se depara com uma circunstância
desconhecida e necessita confiar seu corpo aos cuidados dos profissionais de saúde. Esses
autores discorrem ainda pontuando que a dor pós-operatória, a sensação de incapacitação, a
perda da independência, a separação da família, o afastamento do trabalho e a ferida cirúrgica
são citados como fatores desencadeantes da ansiedade pré-operatória.
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Quando os aspectos psicológicos não são considerados na situação de tratamento


cirúrgico, poderá haver aumento da predisposição para complicações emocionais
que prejudicam a convalescença, chegando a intensificar, em algumas situações, a
morbidade no período pós-operatório (TESSER e PREBIANCHI, 2014, p. 2).

Segundo Costa e Leite (2009) um programa pré-operatório adequado fará diminuir o


nível de ansiedade, o estresse cirúrgico e a possibilidade de sequelas pós-operatórias, atuando
como um caminho seguro para enfrentar as ansiedades do paciente e suas respostas
psicológicas antes e depois da cirurgia.
As diferentes ferramentas usadas para preparar psicologicamente o paciente são
construídas com foco na redução dos níveis de ansiedade, auxiliando o conforto, assim como
ampliando a participação no tratamento com a formação de uma base eficiente no
enfrentamento dos procedimentos cirúrgicos, no intuito de alcançar uma recuperação pré-
operatória mais célere e humanizada.
Porém, destaca-se que a ansiedade e o medo quando em graus elevados podem
dificultar a recuperação pós-cirúrgica, afetando seu conforto, qualidade de vida, medicação
utilizada e posterior adesão ao tratamento (MARQUES, VARGAS e Cols, 2014).
Estudos apontam que as efetividades das intervenções dos profissionais de saúde se
relacionam a um perfil comportamental e cognitivo dos pacientes. Por exemplo: disponibilizar
adequado nível de informação às necessidades do paciente, que devem ser identificadas
previamente pelos profissionais de saúde; promover modificações na estrutura física dos
ambientes pré e pós - operatório, tornando os espaços acolhedores, privativos, calmos e
relaxantes; disponibilizar suporte espiritual e atender às necessidades psicossociais dos
pacientes, viabilizando estratégias de enfrentamento cognitivo, baseadas no problema a ser
enfrentado (TESSER e PREBIANCHI, 2014).
Botega (2006) nos mostra que durante o pré-operatório o paciente vivencia a
ambiguidade de sentimentos, pois esse momento da vida em que a pessoa está prestes a
assumir um novo modo de ser - no - mundo, desperta uma infinidade de sentimentos,
verbalizados ou não. Perder uma parte do corpo é ter alterada toda uma existência, é viver
uma incompletude que traz consigo uma série de alterações no existir. É ter que se
adaptar/readaptar, aprender a viver novamente, agora assumindo outra perspectiva no mundo
para si.
A ambiguidade de sentimentos que vem à tona na pessoa que será amputada abarca
uma instabilidade emocional que necessita ser assistida por um profissional de psicologia que
pode oferecer suporte emocional e apresentar-lhe não somente as situações negativas do
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cotidiano desse novo ser no mundo, mas também a compreensão de que a readaptação poderá
trazer sentimentos de autonomia em seu dia-a-dia, consequentemente um estado emocional
mais favorável a mudanças.
A experiência cirúrgica se mostra ao paciente em suas possibilidades, pois torna
possível uma existência de modo diferente. Pode-se ver a perspectiva de uma existência
incompleta, pois há perda de parte do corpo, ou pode ser simplesmente a perspectiva de
abertura a novas vivências, livre da dor, da parte deformada, da parte orgânica que também
traz sofrimento e que, muitas vezes, modifica o movimento do ser - no - mundo
(CAVALCANTE, 1994).
No tocante a essa nova existência, percebe-se a necessidade de um olhar diferente às
necessidades de um sujeito amputado, pois quem apresenta alguma necessidade física pode
sentir-se fragilizado diante de algum obstáculo que antes não se apresentava para ele. É o seu
existir tendo a concepção de se readaptar por muitas vezes em seu cotidiano para realizar ou
participar de alguma atividade diária.
Ainda para Cavalcante (1994) vivenciar uma amputação implica em experiência
marcada por alterações biopsicossociais, espirituais e culturais, repleta de estigmas,
decorrentes da deficiência instalada e de sentimentos diversos, convergentes e divergentes,
que se entrelaçam e se une formando um todo. É uma vivência constituída por sentimentos
que se confundem, sendo permeada pela razão, que visualiza a cirurgia como necessária e a
emoção que não aceita a perda.
Constituindo assim para o paciente um momento de ruptura com sua autonomia e
liberdade de ir e vir, no que implica sua dependência física para as atividades mais simples do
cotidiano, pelo menos a princípio. A percepção afetada pela perda e toda dinâmica envolvida
nesse processo impede o paciente de ver um futuro próspero.

3. A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE PSICOLOGIA NO SEGUIMENTO PRÉ E PÓS-


CIRÚRGICO

O preparo psicológico do paciente está condicionado às causas determinantes da


amputação. Nas cirurgias programadas, o médico explicará ao paciente e família as razões
desta conduta extrema e os recursos que poderão ser utilizados no futuro. Esta é uma das fases
de grande sofrimento para o paciente e família, que precisam compreender e aceitar, como
último recurso. Eles acham que é a única forma de eliminar a enfermidade e iniciar uma nova
etapa da vida. (CANESQUI, 2017).
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Ainda para Canesqui (2017), é muito penoso para o paciente aceitar a substituição de
uma parte do seu corpo por uma peça mecânica. A forma de reação diante de tais fatos varia
de pessoa para pessoa e na sua maioria é crise de choro convulsivo; apatia aparente,
sentimento de menos-valia, agressividade e até idéia de autodestruição. No entanto, há
pacientes que desesperados pelo longo período de dor e incapacidade, aceitam a amputação
com certa resignação e objetividade.
O Psicólogo deverá assistir o paciente, procurando identificar cada uma das suas
reações e ajudá-lo nesta fase tão difícil. É essencial que ele acredite que da sua atitude
profissional dependerá o progresso do amputado. O profissional de psicologia estará
conquistando a confiança do doente ao ouvir suas queixas, conhecer seus medos e
proporcionar meios para elucidar suas dúvidas (FRUTUOSO, 2017).
A forma adequada de transmitir segurança é indispensável ao êxito do tratamento.
Sendo possível, junto com trabalho dos profissionais de enfermagem, levar o paciente a
conhecer outro paciente amputado, de idade equivalente, em fase de treinamento com prótese
e que possa transmitir suas experiências. Este contato tem como objetivo ajudar o paciente a
aceitar a nova situação e reformular alguns aspectos de sua vida.
A atuação do psicólogo pode ocorrer antes, durante e depois da cirurgia. Sendo a
última dividida em pós-operatório imediato e tardio e que cada um destes momentos possui
peculiaridades. As possibilidades de intervenção psicológica variam conforme a
especificidade do paciente e de sua família, da doença, da equipe médica, da estrutura
hospitalar – centro cirúrgico, unidade de terapia intensiva, equipamentos e medicações
disponíveis (ISMAEL e OLIVEIRA, 2008). Estes autores explicitam fatores que precisam ser
considerados na prática psicológica: o tipo da doença, a possibilidade cirúrgica, os riscos
relativos a esta, a dimensão do órgão ou membro atingido, a escolha do anestésico, a idade do
paciente, a existência de outras patologias, a experiência de cirurgias anteriores, adoecimentos
e perdas.
Com toda a dinâmica envolvida desde o pré até o pós-operatório o psicólogo terá que
recorrer a todos os recursos e informações necessárias a respeito do paciente, da família e do
círculo social no qual o paciente está inserido, para com esses dados reconhecer seus pontos
fracos e pontos fortes utilizando-os para a evolução do paciente.
Cavalcanti (1994) pontua que a indicação da intervenção do psicólogo deve ser
pautada nas necessidades individuais de cada paciente. Neste sentido, o autor coloca que o
trabalho é complexo ao englobar questões sociais, psíquicas e biológicas, necessitando da
cooperação dos diversos especialistas envolvidos no processo cirúrgico.
7

A atuação da psicologia na equipe interdisciplinar é considerada importante para


interagir com o paciente, sua rede de apoio e com a equipe de saúde, visando à minimização
de sofrimentos decorrentes da hospitalização, do adoecimento e do procedimento cirúrgico,
proporcionando desenvolvimento da autonomia e co-responsabilização no processo de
tratamento (SEBASTIANI e MAIA, 2005).
Percebe-se o quão atuante deve ser o profissional de psicologia na procura de conhecer
o sujeito como um todo, em seu contexto pré e pós - cirúrgico, buscando identificar em todo
ambiente do paciente inserido o que pode lhe causar sofrimento, trabalhando as inseguranças
apresentadas a família e ao paciente, contribuindo para a construção de um novo ser - no -
mundo.
A atuação da psicologia com pessoas amputadas tornou-se uma demanda crescente em
virtude das condições de saúde da população. O aumento da perspectiva de vida, advento da
modernização da medicina, da biotecnologia e das condições sócio - históricas atuais
acarretaram a incidência de doenças crônicas e de comorbidades.
Neste contexto, as doenças vasculares, o diabetes mellitus 4, o fumo, a hipertensão,
entre outros são fatores de risco para a amputação de membros. O número de amputações vem
crescendo nos países ocidentais devido principalmente à doença arterial periférica 5, que
ocasionam a obstrução arteriosclerótica 6, dificultando o fluxo sanguíneo distal7
(SEBASTIANI e MAIA, 2005).
A amputação engloba uma serie de diversidades de fenômenos psicológicos e de
relacionamento entre o paciente, família e os profissionais envolvidos. Neste cenário, esse
artigo trata de uma revisão de literatura sobre os aspectos emociona presentes na vida de
pacientes submetidos à amputação de membros.

4. O PROCESSO DE REABILITAÇÃO DO PACIENTE AMPUTADO


Numa perspectiva fenomenológica, entende-se que há necessidade de um olhar multi e
interdisciplinar que ajude a pessoa a ressignificar seu existir, abrindo-se para novos projetos

4
Uma doença cuja principal característica é o aumento de açúcar no sangue. Ela altera o metabolismo do açúcar,
da gordura e das proteínas (In: https://www.infoescola.com/doencas/diabetes-mellitus/).
5
É uma condição em que ocorre o estreitamento e endurecimento das artérias que transportam o sangue para os
membros inferiores do corpo, como as pernas e os pés (In:http://www.minhavida.com.br/saude/temas/doenca-
arterial-periferica)
6
Doença cardíaca arteriosclerótica ou aterosclerose coronariana é a causa mais comum subjacente de eventos
cardiovasculares e morte. (In: http://medicos-especiaistas.blogsport.com.br/2013/01/doença-cardiaca-
arterosclerotica.html).
7
Pequenos ramos arteriais que regulam a resistência ao fluxo sanguíneo. Estruturalmente suas paredes são ricas
em fibras musculares e também são conhecidos como vasos de resistência, pois quando se contraem aumentam a
pressão arterial do sangue (In:http://www.hemodinamica.com.br/glossario.htm).
8

de vida que os contemple nesse novo modo de ser - no - mundo. Receber cuidados
individualizados e planejados é essencial para que o processo de reabilitação se dê de forma
mais adequada possível e consiga atingir os objetivos almejados (COMARÚ e CAMARGO,
2014).
De acordo com Marques, Vargas e Cols (2014), a reabilitação deve ser considerada
como mais uma etapa do tratamento, pois permite que a pessoa continue a lançar-se no mundo
e a viver novas experiências. O retorno às atividades traz consigo uma sensação de bem-estar,
onde as possibilidades tornam-se concretas e deixam de fazer parte de um mundo desejado
para um mundo vivenciado.
Com a realização deste estudo foi possível desvelar algumas facetas do fenômeno
amputação num momento de transição na vida do paciente, na passagem da possibilidade de
um vir - a - ser à concretude dessa possibilidade com a realização da cirurgia. Há uma
infinidade de sentimentos envolvidos no processo de alteração do corpo e, portanto, de todo o
existir, já que este corpo tem importância vital como meio de inserção e relação com o
mundo, através da percepção.
De acordo com os autores citados acima, Marques, Vargas e Cols (2014) acrescentam
ainda, que o preparo para a independência deve ser iniciado o mais precoce possível, já nos
primeiros dias de pós-operatório, e progredir de tal forma, que a dependência para a
realização de cuidados pessoais seja mínima. Quando se aproxima a época da alta e o paciente
já atingiu ao máximo a sua independência, outras medidas de enfermagem deverão ser
adotadas. Será convocado um familiar ou a pessoa que irá conviver com o paciente, para
aprender com o profissional de enfermagem alguns aspectos essenciais para a continuidade de
sua assistência no lar.
A ocasião do preparo para a alta, os cuidados específicos com a pele do coto deverão
ser executados pelo paciente, na presença do familiar e da enfermeira, que reforçará
os pontos importantes. O familiar deverá aprender a lavar, secar, massagear e fazer a
verificação da pele do coto. A atenção zelosa com a prótese aumenta a sua
durabilidade é garante seu funcionamento. É essencial que o familiar · veja o
paciente executando todas as atividades comuns com destreza, para não assumir
atitudes de superproteção. O paciente sente-se valorizado quando as pessoas
reconhecem seu esforço. (REVISTA BRASILEIRA DE ENFERMAGEM, 2014,
p.173).

Dessa maneira através da análise da autora acima citada, fica evidente que o
profissional da área de saúde, especificamente no processo de recuperação, do pós-operatório
por amputação de membro por complicação com a diabetes, deve exercitar neste paciente
amputado e em sua família o processo de ressignificação e resgate de autonomia do sujeito
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operado. Tendo em vista que este externamente ao ambiente hospitalar vai enfrentar a
realidade que lhe será apresentada a partir do convívio sem o membro que lhe foi amputado.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A amputação é dotada de sentimentos ambíguos que interagem entre si e permanecem


unidos, permeando a existência, no pré-operatório, durante a hospitalização e, possivelmente,
após a alta. Perder parte do corpo é doloroso e impõe um novo modo de viver, de estar - no -
mundo e no seu convívio com ele. Exige do amputado um redimensionar, pois o corpo foi
afetado e, consequentemente, a sua percepção do mundo. Por mais que seja difícil ou doloroso
ser uma pessoa amputada, o paciente se rende à situação limite/limitante em que se encontra
na doença crônica, e opta pela realização da cirurgia, com esperança de acabar com a dor
física ou de se manter no mundo, afastando a ideia de morte próxima. A cirurgia é
incorporada ao existir e, como parte dele, é aceita, mas não desejada.
Na relação com o mundo, ao se questionar uma parte do corpo que não mais existe,
haverá uma resposta real e não mais idealizadora. Essa nova realidade gera medo, dor,
angústia, pois ter que se adaptar a um novo modo de existir e transpor barreiras em direção às
possibilidades reais é, num primeiro momento, algo complexo e difícil. Enquanto o paciente
não visualiza claramente as possibilidades que se apresentam, que requerem
redimensionamentos sofre pela falta de perspectivas e a dependência ganha amplitude na
vivência. O amputado passa a preocupar-se com a dependência, vislumbrando-a como um
futuro marcado por sofrimento.
A vista disso torna-se fundamental a importância do processo harmônico no
desenvolvimento de reabilitação, pois reabilitar um paciente não é só devolvê-lo à sociedade
como uma pessoa independente, apesar da deficiência. A reabilitação deve ser capaz de levar
ao paciente a perspectiva de um fazer cotidiano ideal, de um existir modificado, que permita
manter a abertura ao mundo. Viver uma amputação é triste, difícil e doloroso. Porém, apesar
de todas as dificuldades e sofrimento, podem encontrar no outro, integrante da família ou
mesmo outra pessoa com a mesma dificuldade física, a coragem e estímulo que precisa para
superar esse novo desafio. A expectativa de uma nova vida é motivo de felicidade e desejo de
querer continuar vivendo.
Entender esse período é essencial para que o profissional de saúde desenvolva suas
atividades de modo mais efetivo e amplo. Olhar a pessoa amputada a partir da sua ótica
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permite um cuidar direcionado à singularidade da pessoa e à particularidade da experiência


por ela vivida
Na perspectiva destes desafios, neste intuito, disponibilizamos uma produção
acadêmica que analisa para além de um processo cirúrgico, os transtornos psicológicos que
esta intervenção demanda na vida do sujeito amputado e de sua dinâmica familiar. O
cotidiano da pessoa em processo de pós-operatório de amputação de membro requer olhar
diversificado e cuidados psicológicos para a reabilitação.
O estudo procurou apontar aspetos hospitalares como uma expressão do cuidado em
saúde e psicologia. Os autores pesquisados destacam que a hospitalidade é imperativa para a
adaptação dos indivíduos no contexto hospitalar ou em qualquer área onde se realiza
atendimento à saúde. As temáticas relacionadas com a Sistematização da Assistência
Psicológica em unidades de reabilitação e a contribuição brasileira para a Classificação
Internacional da Prática de Hospitais ainda enfrentam entraves que só a discussão científica
incansável poderá mudar. Esperamos que os artigos selecionados proporcionem a atualização
e aperfeiçoamento de todos os leitores.
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6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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