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MARX, Karl. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo.

In: O Capital – Crítica da


Economia Política, Vol. I. São Paulo: Ed. Abril, s/ ano, pp. 197-208. [Edição d´Os
Economistas]

Apresentação do texto: Primeiro pensador a tratar a economia política em método dialético –


indo do abstrato ao concreto para captar a matéria social -, Karl Marx compreende n’O Capital
uma das grandes obras de sua maturidade. Publicado em 14 de Setembro de 1867, o primeiro
volume d’O Capital configura uma ampla crítica à teoria econômica de Smith, Ricardo e Mill,
enquanto se inspira na metodologia dialética hegeliana.

Acerca do subcapítulo, “O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo” foi


originalmente publicado como apêndice do primeiro volume do Capital, junto com a seção 3, e
somente situado na localização atual dentro a obra a partir da segunda edição (HARVEY,
David. A Companion to Marx’s Capital). Tratamento estilístico recorrente nessa obra marxiana,
do aspecto preciso e escrita rígida da seção anterior, denota-se uma transição para uma escrita
corrente, fluída e metafórica. Não menos densa e complexa, no entanto. Segundo Harvey, essa
transição revelaria as duas áreas centrais: a política econômica em crítica e o substrato do
pensamento teórico marxiano.

[Inserir definições do verbete do priberam/HOUAISS/Aurelio]

Problemática: Subcapítulo clássico do Capital, n’O caráter fetichista da mercadoria e seu


segredo’ é aprofundada a concepção estrutural da mercadoria enquanto central subjetiva e
objetivamente na sociedade do capitalismo moderno. Explorado e esmiuçado pela teoria crítica
da Escola de Frankfurt nas décadas posteriores, desse trecho seria absorvida a tese central da
mercadoria como aspecto material através do qual se estabelece a relação entre os homens na
modernidade, enquanto uma interpretação marxista das relações econômicas intrinsecamente
ligadas às relações sociais.

Citações e comentários:

HARVEY, David. Section 4: The Fetishism of the Commodity and Its Secret. In: A Companion
to Marx’s Capital, Volume 1. pp. 38-47;
Partindo da análise de Harvey, enquanto comentador da obra marxiana, o fetiche da
mercadoria configura um meandro tácito dentro d’O Capital – sua recorrência tange as
contradições e parte fundamental da compreensão da abordagem política econômica e os
alicerces do argumento marxiano. (p. 38)

Na quarta subseção do primeiro capítulo d’O Capital, a análise de Marx percorre dois
eixos centrais: a identificação do fetiche e sua função enquanto aspecto do capitalismo, em
primeira via, e a revelação de sua má representação na sociedade burguesa na literatura clássica,
em segunda via.

“Marx’s point is not, however, about the moral implications. His concern is to show
how the market system and the money-forms disguise real social relations through the exchange
of things. He is not saying that this disguise, which he calls ‘fetishism (165) (and please note
that Marx’s use of this term is technical and quite different from other common usages), is a
mere illusion, that it is a made-up construction that can be dismantled if only we care to try. No,
in fact, what you see is the lettuce, what you see is your money, you see how much, and you
make tangible decisions based on that information. This is the significance of the phrase ‘appear
as what they are’: it really is this way in the supermarket, and we can observe it so, even as it
masks social relations.”

Condição inescapável do modo de produção capitalista, o fetiche da mercadoria permeia


disfarçadamente as relações humanas transpostas enquando relações de troca da mercadoria
ocultadas em valor.

Na parte seguinte é iniciada a segunda via e a crítica marxiana à literatura econômica


clássica na má compreensão do fetiche da mercadoria. “Thus Marx begins his attack on the
liberal concept of freedom. The freedom of the market is not freedom at all. It is a fetishistic
illusion. (…) And part of what Marx wants to do in Capital is talk about this regulatory power
that occurs even ‘in the midst of the accidental and ever-fluctuating exchange relations between
the products.’ Supply and demand fluctuations generate price fluctuations around some norm
but cannot explain why a pair of shoes on average trades for four shirts.” (p. 42) Metáfora sobre
gravidade e a mercadoria como paralelo entre uma conceituação imaterial, ainda que objetiva.

A desconstrução dos economistas políticos clássicos segue a própria desconstrução da


economia de mercado. O caso trabalhado por Marx é a ode dedicada pelos economistas à
Robison Crusoé e como, através das concepções mentais exemplificadas pela prática da escrita e
da organização, a prática da burguesia emergente não é natural, senão uma perversão da
economia política. “Plainly, the classical political economists preferred the Robinson Crusoe
myth because it naturalized capitalism. But as Marx insists, capitalism is a historical construct,
not a natural object.” (p. 44)

Construção histórica, ao contrário de natural, o capitalism alcançou o estágio


transfiguração das relações sociais através da mercadoria por um longo processo de
transformação. Na análise marxiana, a transição para o período medieval emana como forma de
distinção do teor fetichista entre o capitalismo moderno burguês e o estágio pré-capitalista. Para
Marx, o período medieval pode ser sombrio (o que é uma falácia, mas se trata do XIX afinal),
mas suas relações são objetivas – isto é, as relações são transparentes e o camponês inserido na
produção patriarcal rural sabe que o produto do seu trabalho não está mascarado na relação
social.

“This is what the bourgeois political economists have done: they have treated value as a
fact of nature, not a social construction arising out of a particular mode of production. What
Marx is interested in is a revolutionary transformation of society, and that means an overthrow
of the capitalist value-form, the construction of an alternative value-structure, an alternative
value-system that does not have the specific character of that achieved under capitalism.” (p. 46)
Para Harvey, a teoria de valor em Marx não é uma norma universal temente aos tempos, senão
um produto social do desenvolvimento histórico a ser substituído para atingir uma imagem
distinta e estruturante da sociedade. “By introducing the concept of fetishism, Marx shows how
the naturalized value of classical political economy dictates a norm; we foreclose on
revolutionary possibilities if we blindly follow that norm and replicate commodity fetishism.
Our task is to question it.” (ibid.)

Em concomitância ao materialismo histórico marxista, Harvey conclui sobre a visão


política econômica burguesa: “Burgeois political economy looks at the surface appearance.
Insofar as it had a labor theory of value, it never probed deeply into its meaning or the historical
circumstances of its emergence. This leaves us with the task of getting beyond the fetishism, not
by treating it as an illusion, but by addressing its objective reality.” Atrás das estruturas do
Capital e da mercadoria, das características claras da sociedade capitalista e da economia
burguesa, dos fantoches e distintas camadas de relação, reside uma estrutura profunda do capital
e uma relação com o valor cuja forma deve ser substituída em projetos distintos de relação
social e material.

“Marx’s mission in Capital, though, is to define a science beyond the immediate


fetishism without denying its reality. He has already laid a lot of the groundwork for this in the
critique of bourgeois political economy. He has also already revealed the extent to which we are
governed in what we do by abstract forces of the market and how we are perpetually at risk of
being ruled by fetishistic constructs that blind us to what is actually happening. To what degree
can you say that this is a free society characterized by true individual liberty? The illusions of a
liberal utopian order, in Marx’s view, have to be debunked for what they are: a replication of
that fetishism that displaces social relations between people into material relations between
people and social relations between things.” (p. 47) BINGOOOOOO!!!

4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo

Fruto de uma estilística marxiana própria, as três primeiras frases constituem o


enunciado da questão do fetiche: “À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial,
evidente. Analisando-a, vê-se que ela é uma coisa muito complicada, cheia de sutileza
metafísica e manhas teológicas. Como valor de uso, não há nada misterioso nela, quer eu a
observe sob o ponto de vista de que satisfaz necessidades humanas pelas suas propriedades, ou
que ela somente recebe essas propriedade, como produto do trabalho humano.” (p. 197)

Segundo Marx, a transformação do objeto em mercadoria o transforma em “coisa


fisicamente metafísica”, cujo caráter místico, todavia, não provém do valor de uso ou do
conteúdo das determinações de valor – provém, sim, das figurações e alegorias. Não obstante,
ele não deve se restringir ao sentido figurativo, este não condensa a interpretação analítica
marxista.