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As origens sociais das hegemonias mundiais: A contribuição de Beverly

J Silver a Giovanni Arrighi na Obra “Caos e governabilidade no


moderno sistema mundial”

Edivan de O. Fulgencio
Mestrando em Geografia, PPGEO-UERJ
edifull@yahoo.com

A partir de uma análise braudeliana1 dos ciclos de expansão financeira, contraposto


com o esquema sistêmico dos ciclos hegemônicos de Walerstein e uma historiografia
baseada em Hobsbawn, Govanni Arrighi e Beverly, J. Silver com a contribuição de
sociólogos da com a c propõe que as expansões financeiras são historicamente fator de
impulso para as crises hegemônicas, as quais levaram a colapsos e ao caos sistêmico que
levaram às rupturas destas hegemonias: Países Baixos (séc. XVIII), Grã-Bretanha (Final
Séc. XIX) e atualmente Estados Unidos (será?). Os sinais de que os Estados Unidos estão
atravessando uma crise hegemônica, segundo os autores são:

 Uma bifurcação entre poderio militar americano e poderio econômico,


diferentemente da realidade na Guerra fria, quando o poder econômico e militar
estadunidense andavam lado a lado, um referenciando o outro. O Alto
endividamento americano seria a consequência deste momento, principalmente
devido aos gastos após a “Disciplina Bush” de Guerra ao Terror.
 Multinacionais americanas apropriam-se do capital financeiro e “solapam” renda
das famílias e finanças do governo, sem darem retorno à altura do apoio americano
aos seus negócios e interesses, ameaçando o “american way of life”, o estilo de
vida americano, reduzindo o consumo e o padrão de vida da classe média.
 Perda da capacidade reguladora dos EUA (declínio da governabilidade mundial)

Qual o novo ator hegemônico surgiria, caso se configure esta ruptura no modelo
estadunidense?

1
O esquema braudeliano (BRAUDEL, 1996) mostra que os ciclos de expansão financeira do sistema
capitalista moderno são repetitivos e remontam desde as cidades-Estados da Itália renascentistas [...]
Para Braudel essa expansão é um sinal de fim de um ciclo hegemônico (MORAIS,2011).
Na tentativa de responder a estas questões Arrighi e Silver propõem que existem
atualmente quatro controvérsias sobre o futuro da Economia Política Mundial:

1. Mudança no equilíbrio de poder entre as nações:


Vai surgir um novo Estado hegemônico?
2. Equilíbrio entre Estados e Corporações
A Globalização “solapou” os EUA?
O tamanho e volume dos capitais empresariais em circulação nas bolsas em
contraste ao PIB dos países, principalmente se comparados na visão Norte x Sul.
3. Poder dos grupos subalternos
Chegamos ao fundo do poço nas condições de trabalho e vida?
O acelerado desenvolvimento tecnológico no campo levando ao praticamente
desaparecimento da classe campesina.
O caos da violência urbana e das condições de vida nos países periféricos e a
preocupação com o inchaço populacional causado pelas crises humanitárias de
refugiados.
A escassez do trabalho como se conhecia antes da revolução técnico científica
aliada à entrada no mercado de trabalho de mulheres, principalmente nos países
centrais e nas zonas de centro dos países periféricos, gerando crises de machismo,
xenofobia, racismo e outros riscos de conflitos sociais, gerados a partir das
rivalidades entre Estados e corporações.
4. Equilíbrio Ocidente x Oriente
Com o surgimento de novos atores a partir sobretudo do Leste Asiático, está em
andamento o fim do domínio econômico ocidental?

A contribuição da Beverly J. Silver

A socióloga especializada no mundo do trabalho e suas transformações, escreve o


capítulo 3, “As origens sociais das hegemonias mundiais”, usando uma metodologia do
modelo sistêmico, de cuja escola é seguidora, comparando as crises e impulsos do Sistema
Capitalista que dinamizam as sucessões hegemônicas nomeando-as como, ciclos
virtuosos (paz social e expansão financeira) e ciclos viciosos (caos sistêmicos sociais
resultantes das rivalidades intra e interestatais e interempresariais), identificando-os em
manifestações sociais como:

 as greves operárias dos operários navais holandeses (séc. XVIII);


 as revoltas das classes baixas contra os burgueses, os capitalistas e a cooptada
classe média inglesa (séc. XIX);
 as revoluções dos negros no Haiti e as revoltas que levaram às independências nas
Américas e à descolonização na África e Ásia ao final do século XIX e início do
XX;
 bem como, a chegada e tomada de posição no mercado de trabalho, das mulheres
do século XX, frente ao capitalismo machista patriarcal.

Além disso, Silver vai reportar a mudança na localização geográfica das crises e
conflitos sociais, entre as derrocadas hegemônicas. Estas se deslocam do contexto do
Atlântico (primeiras crises hegemônicas) para o cenário mundial. Aponta ainda, as crises
sociais como sendo consequências diretas das rivalidades interempresariais e
interestatais: desde os confrontos imperialistas anteriores às guerras mundiais (guerra
hispano-americana, confronto russo-nipônico) até os embates da Guerra fria, movimentos
separatistas e conflitos do mundo globalizado.

Estes contrapontos, ou pontos de inflexão, interrompendo os ciclos virtuosos de


acumulação capitalista baseada nos acordos sociais aderentes ao sistema vigente, podem
acelerar as derrocadas dos ciclos hegemônicos, se configurando como ciclos viciosos de
erupção de crises que estabelecem o caos no sistema vigente, causando a ruptura e quebra
do status quo atual e inaugurando um novo momento de arranjo capitalista. Até então, os
processos do capitalismo têm conseguido aplacar estes movimentos sociais como riscos
e consequência de quebras de compromissos históricos, através de repressão, cooptação
e reformas da própria forma de acumulação. Nestes momentos históricos característicos
das rupturas hegemônicas, o capitalismo acaba por se rearranjar, gerando nas últimas duas
vezes em que estes eventos ocorreram, como resposta espacial aos acontecimentos
históricos o surgimento de um novo Estado capitalista hegemônico. Segundo a análise de
Silver, este Estado hegemônico só consegue efetivar sua liderança diante do novo modelo
resultante do colapso anterior, se trouxer como solução um pacto social novo que
conforme as questões sociais levantadas nas revoluções e conflitos sociais responsáveis
pela intensificação da competição interempresarial e interestatal culminantes da crise
hegemônica anterior.

Este pacto social, deverá assim, ser o molde das novas relações sociais que gerarão
o ciclo virtuoso de crescimento econômico e acumulação capitalista no novo ciclo
hegemônico. Vide figuras 1 e 22, comparando os ciclos hegemônicos de Wallerstein e a
dinâmica das transições hegemônicas, conforme proposto neste estudo de Arrighi e
Silver.

2
Figuras extraídas da obra em resenha.
São exemplos destes rodízios sistêmicos dos ciclos virtuosos e viciosos analisados
por Beverly J. Silver: Na Holanda a Oligarquia suplantando e eliminando burocratas da
monarquia, inaugura uma forma de governo que se imita em toda a Europa. Porém os
nobres abastados se beneficiam da expansão financeira, enquanto os operários navais das
Companhias das Índias Ocidentais se viam cada vez mais empobrecidos (p.165). As
revoltas inauguram o ciclo vicioso e a hegemonia capitalista se transfere para a Inglaterra.
O ciclo virtuoso inglês se dá na constituição de uma classe média dos dois lados do
Atlântico (p.167), cooptadas pelas benesses de produtos baratos gerados pelos tratados
comerciais e a exploração da mão de obra escrava, estimulada e liderada pela metrópole.
O ciclo vicioso que rompe a hegemonia inglesa vai se dar com os ideais revolucionários
que surgem nas Américas a partir dos negros libertos querendo fazer parte das classes
médias no Caribe e na América do Norte, contrapondo-se à negativa dos colonos brancos
de classe média. A oportunidade de fazer uma nova nação de homens libertos impulsiona
ideais revolucionários americanos. A cisão nas classes médias (p.168) deixam o Reino
Britânico dividido na tarefa de lutar contra a independência por um lado, contra a
escravidão por outro e em meio ao caos (p.169), ainda tendo de se proteger contra o
crescimento econômico dos vizinhos europeus (p.181), aos quais apela para a união em
nome dos ideais comuns e temendo a queda total dos antigos regimes (p.182). A união
contra as revoltas dos negros e contra a insurgência dos operários no continente europeu
era o único fator que poderia unificar as elites. Era necessário resolver os conflitos
interestatais, pois estes estavam influenciando e inflando os conflitos intraestatais (p.188).
Porém a esta altura, os conflitos do ponto de vista geográfico já se expandiam do Atlântico
para o espaço mundial. Esta crise gera a ruptura do modelo Inglês e surge os Estados
Unidos com o potencial hegemônico desenvolvidos a partir do nacionalismo e patriotismo
exercitados durante a revolução (p.199).

Ao longo do século XX a hegemonia americana vai travar o embate desde a


revolução russa com a ameaça sempre presente dos ideais revolucionários alimentando
de esperanças de melhores oportunidade as classes operárias sempre relegadas nas
diversas fases de crescimento ou retração capitalista. O período entre guerras ampliou o
ciclo vicioso do risco da revolução proletária (p.203) e no pós-guerra a expansão
industrial não foi suficiente para diminuir as tensões entre imigrantes e locais, homens e
mulheres, negros e brancos alimentadas pelo solapamento das rendas enquanto a classe
dominante enriquecia a olhos vistos. A solução Keynesiana (p.214) e a cooptação de
trabalhadores e classe média por benefícios sociais e arranjos capitalistas financiados
pelas grandes corporações capitalistas esvaziaram os sentimentos revolucionários
(p.215). Porém, o sonho americano não foi globalizado por igual e os estágios de
crescimento econômico nunca chegaram aos países pobres (p.217 e 218).

Encerrando sua colaboração com Arrighi, Beverly J. Silver propõe como reflexão
sobre uma possível nova hegemonia mundial surgida a partir do Leste Asiático não seria
a resposta histórica ao confronto de influencias Ocidente x Oriente, assim como o
confronto econômico Norte x Sul se traduz em revoltas e conflitos sociais, como as
revoluções que derrocaram os últimos ciclos capitalistas, como por exemplo: as revoltas
dos negros, camponeses, mulheres e imigrantes ao longo da história. Diz a autora:
“Podemos esperar que o futuro conflito de classes se misture com a mudança do equilíbrio
de poder entre mundo ocidental e não ocidental” (SILVER, 2001, p.225).

Referências

ARRIGHI, Giovanni & SILVER, Beverly J. Caos e governabilidade no moderno sistema


mundial. Rio de Janeiro: UFRJ-Contraponto. 2001.

MORAIS, Isabela Nogueira de. Depois da ruptura hegemônica. Rev. Sociol.


Polit. n.21 Curitiba nov. 2003. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-
44782003000200016 , acesso em: 22/04/2019