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O Jardim da Emuná – Introdução

Durante a minha trajetória profissional, e por meio do meu contato direto


com pessoas de todo o mundo que procuram o meu conselho e a minha
ajuda, cheguei à clara conclusão de que a raiz de todo sofrimento humano
não é nada mais que falta de emuná (emuná — a fé pura e inabalável no
Todo-Poderoso).

Em muitas ocasiões, fui testemunha de como as pessoas superam


problemas pessoais aparentemente insuperáveis por meio do fortalecimento
de sua fé.
Essa foi a minha motivação para escrever um livro que tratasse
exclusivamente de emuná.
Se meu único desejo fosse escrever um livro que definisse emuná e
enaltecesse suas virtudes, eu não me daria ao trabalho.
Graças a D'us, há vários livros no mercado que já fazem isso, melhor do
que eu poderia fazer.
Mas todo meu objetivo neste modesto estudo é levar o leitor à inequívoca
conclusão de que é preciso fortalecer a emuná e, ao fazê-lo, ele pode
vislumbrar uma vida nova, mais feliz e gratificante — neste mundo e no
próximo.

Por exemplo, você tem problemas financeiros?


Sua emuná precisa ser reforçada!
Você nem precisa rezar por uma renda melhor; reze por emuná e sua renda
aumentará automaticamente.
Seu casamento está em perigo?
Reze por emuná e você conseguirá felicidade conjugal também.
Você sofre com problemas emocionais?
Fortalecer a emuná é a maior garantia para a saúde emocional.
O mesmo vale para todos os outros problemas da vida.
A emuná é a chave-mestra que abre qualquer porta na vida; quem sabe
disso dedica o momento mais importante do dia e seus principais esforços
para conseguir emuná.
Com emuná, você verá como o estresse e o desespero dão lugar a uma vida
de satisfação, desafio e conquista.
Mais que tudo, a emuná lhe garantirá felicidade e paz interior.
O que poderia ser melhor?

Meu humilde pedido é que você leia este estudo com atenção e tente ao
máximo aplicar os conselhos à sua rotina.
Tenho certeza de que este estudo o ajudará a conquistar uma medida maior
de emuná em sua vida.
Se assim for, todos os meus esforços terão valido a pena.

Dei o título O jardim da emuná a este estudo aludindo ao fato de que a


emuná leva a uma vida tão bela quanto um passeio pelos caminhos
encantados de um jardim suntuoso e exótico.
De fato, a emuná tem o poder de nos fazer desabrochar para o que temos
de melhor.
O Rebe Nachman de Breslav chama a emuná de "poder de crescimento";
nada no mundo é mais conducente ao crescimento pessoal do que a emuná.
Dedico este estudo ao meu honrado pai, Machluf Arush, de abençoada
memória, cuja fé pura e simples e cujo caráter impecável serão para
sempre um farol que ilumina o meu caminho.
Meus sinceros agradecimentos ao meu estimado professor e guia espiritual,
Rabino Eliezer Burland, de cujo espírito magnífico eu tiro a força para
divulgar a mensagem do kiruv (programas judaicos educacionais de
aproximação) pelo mundo.

A sabedoria deste estudo está diretamente ligada aos ensinamentos


fenomenais do Rabino Burland.
Que Hashem lhe conceda uma vida longa e feliz.

Uma nota especial de gratidão à minha esposa — Miriam Varda, que


Hashem a abençoe com uma vida longa, feliz e saudável; que ela tenha
muita alegria dos filhos e sucesso em todas as suas atividades.
Ela está sempre ao meu lado e merece todo o crédito por minhas
conquistas.
Sua dedicação ao kiruv não conhece limites e, certamente, suas
recompensas serão maravilhosas, neste mundo e no próximo.
Que nós tenhamos alegria de nossos filhos, e que eles, seus filhos e os
filhos de seus filhos dediquem sinceramente a vida à Torá e à emuná até o
final dos dias, amém.

Rezo para que D'us realize meu desejo: que todos que leiam este estudo se
esforcem para obter emuná.
Abençoo todos vocês, queridos leitores; que vocês possam se conectar a
Hashem com a ajuda desse estudo.
Que seus problemas desapareçam e que vocês mereçam uma redenção
pessoal de corpo e alma, assim como uma vida longa e feliz.
Que possamos presenciar a reunião de todos os exilados e a reconstrução
do Templo Sagrado em Jerusalém, em breve e em nossos dias, amém.

Shalom Arush
O Jardim da Emuná – Parte 1

Capítulo 1 - Fundações da Emuná

Os enigmas da vida
O mundo está repleto de questões:
Qual o significado da vida?
Aonde estou indo?
O que será no final?
Como devo viver minha vida?
Serei feliz um dia?

A lista é interminável...
As diferenças drásticas e aparentemente injustas entre a vida de duas
pessoas nos deixam perplexos.
Enquanto alguns se conduzem suavemente pela vida, outros passam uma
vida inteira de sofrimentos.
Alguns nascem com força e saúde perfeita; outros são fracos e
incapacitados.
Alguns são ricos; outros são pobres.
Uma pessoa boa que nunca feriu sequer uma mosca morre jovem, ao passo
que um tirano cruel fica no poder até a velhice.
Por quê?
Aqueles que fazem mais perguntas são os que mais sofrem.
A pessoa que ganha pouco pergunta: "Por que tal pessoa tem tanto dinheiro
enquanto eu, mesmo trabalhando tão duro quanto ela, quase enlouqueço
tentando pagar as contas?"
O pai de uma criança adoentada pergunta: "Por que todos têm filhos fortes
e saudáveis e eu tive a má sorte de criar uma criança que precisa de
cuidados médicos vinte e quatro horas por dia?"
O deficiente físico pergunta: "Por que todo mundo é livre e ágil e eu sou tão
limitado e debilitado?"
O pobre olha para o rico e pergunta: "Por que ele mereceu ter nascido em
berço de ouro enquanto a minha vida é uma guerra sem fim contra a
pobreza e a privação?"
O solitário que não consegue encontrar uma companheira pergunta: "Por
que eu — com todas as minhas qualidades — não consigo me casar
enquanto outros, com todos os seus defeitos, encontram, ainda jovens,
esposas perfeitas?"
Isso não é tudo...

Tempos de mudança
Há ainda um leque adicional de questões sobre as mudanças que ocorrem
de um dia para o outro.
Eis alguns exemplos familiares:
- Por que ontem foi um dia tão esplêndido, em que tudo correu como
planejado, enquanto hoje — sem nenhuma razão aparente — tudo é um
desastre e não sinto nada a não ser dor e sofrimento?

- Por que eu tinha dinheiro na semana passada, mas os gastos inesperados


desta semana não me deixaram o suficiente nem para comprar pão?
- Por que ontem meus filhos me fizeram sentir muita alegria, sendo o
epítome do respeito e do bom comportamento, mas hoje eles estão se
comportando como terroristas em miniatura, me fazendo subir pelas
paredes?

A lista é interminável, como todos sabemos.

A resposta universal
Todas as questões da vida têm uma resposta universal — Emuná.
A emuná é como uma chave-mestra para os dilemas da vida.
Emuná é o termo em hebraico bíblico original para a crença firme em um
único, supremo, onisciente, benevolente, espiritual, sobrenatural e
onipotente Criador do universo, ao qual nos referimos como Deus (ou
Hashem, que literalmente significa "o nome", para que não nos arrisquemos
a usar o nome de Deus em vão).
Ele sozinho cuida de cada um de nós de maneira única e personalizada,
conforme nossas necessidades individuais.
Como veremos no decorrer deste estudo, tudo o que acontece conosco é o
resultado da vontade de Hashem e da Sua intervenção em nossa vida,
fenômeno que muitas vezes chamaremos de Providência Divina.
A Providência Divina existe para nos ajudar a cumprir nossa missão.
A Providência Divina não apenas determina acontecimentos numa escala
global, como também dita os menores detalhes do universo, como o jantar
de uma minhoca.
Toda a nossa vida — incluindo cada momento — é o resultado das decisões
de Hashem realizadas pela Providência Divina.
Hashem decide quando prosperamos e quando fracassamos, quando os
tempos são fáceis e quando são difíceis.
De acordo com a Cabalá, o pensamento esotérico judaico, completar a
retificação da alma, ou ticún, é a realização mais elevada que se pode
alcançar neste mundo material.
Muitas vezes, precisamos sofrer ou passar por dificuldades para conseguir
um nível espiritual mais elevado ou a retificação da alma, assim como um
atleta campeão precisa suportar sessões excruciantes de treino para chegar
ao seu melhor desempenho.
Uma vez que desenvolvemos um senso profundo de emuná segundo o qual
Hashem, por meio da Providência Divina, faz tudo para o nosso benefício,
para nos conduzir pelo caminho da necessária retificação da alma, então as
peças do quebra-cabeça da vida se juntam, formando uma imagem de
espantosa clareza.
Com esses princípios em mente, a emuná se torna a resposta universal
para todas as perguntas da vida.

Conhecendo Hashem
Basicamente, Hashem nos faz apenas um simples pedido — que nós O
conheçamos.
Segundo o sagrado Zohar (interpretação esotérica da Torá do século II da
e.c., do Rebe Shimon Bar Iochai e seus discípulos), Hashem nos criou para
o único propósito de O conhecermos.
Assim sendo, as experiências e os acontecimentos diários de nossa vida não
são mais que mensagens particulares de Hashem, criadas para motivar em
nós a emuná, para nos encorajar a falar com Ele, facilitando, assim, os
nossos esforços de aproximação.
Por quê?
Quanto mais próximo alguém chega de Hashem, melhor O conhece.
Conseguir uma aproximação de Hashem e conhecê-Lo é a retificação
máxima da alma, nosso objetivo individual e missão na Terra.
Hashem, em seu ilimitado amor por todos nós, dirige a nossa vida para nos
ajudar a alcançar com êxito esse objetivo.
Compreender que tudo na vida é para o nosso bem, isto é, para nos ajudar
a alcançar a retificação da alma, nos capacita a lidar com todas as situações
— sejam boas ou aparentemente más — com alegria e sem estresse,
preocupação ou ansiedade.
Consequentemente, quando as pessoas ignoram as mensagens de Hashem,
Ele manda mensagens ainda mais "altas" - situações mais difíceis.
Aqueles que fracassam em conhecer Hashem nos bons momentos se
arriscam ter problemas sem qualquer "solução natural ou lógica", em que a
única alternativa é clamar a Hashem.
Desta maneira, Hashem — em sua bondade infinita — nos ajuda a contatá-
Lo e a alcançar a máxima retificação da alma.
Quanto mais cooperamos, mais fácil fica a nossa vida.

Hashem repreende aquele a quem ama


O Zohar (Bechucotai, 114) declara:
"Como são amados os filhos de Israel perante o Santíssimo! Ele deseja
repreendê-los e guiá-los pelo caminho reto, como um pai amoroso que
conduz com uma vara em punho para manter o filho no caminho reto, para
que ele não se vire para a direita ou para a esquerda, como está escrito
(Provérbios, 3:12): ‘Hashem repreende aquele a quem ama, e, como um
pai, tranquiliza Seus filhos.'”

Reflita sobre o provérbio acima por um momento.


Se Hashem repreende aquele a quem ama, Ele não repreende aquele a
quem odeia!
Se assim for, uma vida destituída de testes e atribulações não é um bom
sinal!
Os sábios talmúdicos nos advertiram (TB, Tratados de Berachót, Arachin,
16b) de que se uma pessoa passa quarenta dias consecutivos livre de
atribulações, ela perde o direito à sua porção no mundo vindouro!
Eles também afirmaram especificamente (TB, Tratados de Berachót,
Kidushin, 40b) que os justos recebem atribulações para merecer um lugar
elevado no mundo vindouro.
Então, quando passamos por dificuldades na vida, é um sinal claro de que
somos filhos queridos de Hashem.
Saber que Hashem nos ama e faz tudo para o nosso bem torna a vida não
apenas suportável, mas gratificante.
O contrário também é verdade — ignorar o fato de que Hashem nos ama e
nos ajuda a alcançar o nosso ticún é a raiz de toda preocupação, ansiedade
e sofrimento.
Quem tem emuná, portanto, direciona seus esforços para conseguir o ticún
e conhecer Hashem.
Essas pessoas estão constantemente procurando Hashem.
Como resultado, Hashem não precisa lhes mandar alertas que se
manifestam em forma de atribulações extremas.
As "pessoas de fé", portanto, têm a vida feliz e tranquila, apesar de seus
testes e desafios.
Muitas pessoas mantêm a insensatez de achar que controlam, sozinhas, o
seu próprio destino; pessoas assim são mais predispostas a passar por
sofrimentos e aflições emocionais.
Hashem — nosso Pai amoroso — usa as atribulações como expressões de
amor, para nos ensinar que não somos nós que "damos as cartas" - somos
subordinados a uma autoridade mais elevada.
Ademais, para despertar Seus queridos filhos do sono espiritual, muitas
vezes Hashem nos dá uma "sacudida", representada como alguma
dificuldade ou algum desafio que nos faz procurar a Sua ajuda.
Como dito anteriormente, Hashem não manda dificuldades àqueles a quem
desdenha.

O chamado de Hashem
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Licutei Moharan 1: 206) que Hashem
imediatamente chama a pessoa que se desvia do caminho correto,
mandando sinais para que ela retorne.
Hashem chama a cada um de acordo com suas necessidades e de maneira
individualizada.
Para alguns, o chamado de Hashem pode ser uma sugestão sutil, mas, para
outros, pode ser uma forte reprimenda.
Um chamado "em voz alta" pode assumir a forma de punição física; no
jargão dos nossos sábios (Midrash Mishli, 22), "um sussurro é suficiente
para o sábio, mas o tolo precisa de flagelo".
Até mesmo as deficiências extremas existem para o próprio bem da pessoa.
Somente Hashem sabe o que uma alma precisa corrigir e, portanto, coloca
cada uma nas circunstâncias que levarão ao ticún necessário.
Como geralmente não estamos cientes do ticún de que precisamos, às
vezes fazemos escolhas erradas ou mantemos aspirações inúteis; Hashem
nos ajuda a modificar nossos planos para evitar que desperdicemos nossa
vida com tolices e fantasias.
Por exemplo, vamos supor que um homem — conforme a própria vontade
— deseje ser cantor profissional.
Mas, como cantor, ele não alcançaria seu ticún.
Assim, Hashem o faz nascer com a voz rouca.
Mesmo assim, a rouquidão não o impede de se tornar um professor
excepcional ou um líder espiritual que inspira milhares de pessoas (a chegar
a seus verdadeiros ticunim!).
Hashem fecha as portas que não são benéficas para a nossa alma, mas
abre as que mostram a melhor direção para cada um de nós, para nos
manter em um caminho focado e direcionado.
Sem a Sua orientação Divina, estaríamos completamente perdidos.
Neste ponto, as pessoas geralmente perguntam: "Se tudo está nas mãos de
Hashem, qual o meu trabalho na Terra?"
Boa pergunta.
Nossa tarefa é desenvolver as nossas antenas espirituais e discernir — ao
processar corretamente as mensagens de Hashem — o que Hashem quer de
nós.
Hashem se comunica conosco constantemente por meio do nosso ambiente,
dizendo aonde Ele deseja nos levar e com qual objetivo.
E embora essas "sugestões" — ou mensagens celestes — venham
frequentemente em forma de tristeza, sofrimento e privação, elas são o
epítome da perfeita benevolência.
Como?
Tristeza, sofrimento e privação representam a benevolência perfeita quando
são agentes que possibilitam um ticún — a retificação e o aperfeiçoamento
da alma.
Quando aceitamos as dificuldades da vida com emuná — com tranquilidade
e felicidade, sabendo que Hashem está fazendo tudo para nos ajudar a
alcançar a mais elevada das aspirações -, nos tornamos candidatos e
experimentar a paz interior e a felicidade eterna, neste mundo e no
próximo.
Um atleta está preparado para executar tarefas exaustivas ordenadas por
um treinador aparentemente impiedoso.
Como se isso não bastasse, ele geralmente ama e respeita seu treinador.
Por quê?
O atleta conhece o treinador e acredita que ele queira torná-lo campeão.
Devemos ter o mesmo conhecimento e a mesma confiança em Hashem.
Imagine que estamos dirigindo e queremos virar à direita, mas Hashem
bloqueou o caminho; decidimos então virar à esquerda, mas Hashem
colocou um obstáculo para bloquear também essa opção.
Sem emuná, estaríamos sujeitos aos sentimentos de raiva, frustração e
decepção.
No entanto, com emuná, acreditamos que obstáculos, barreiras e
impedimentos são agentes da Providência Divina de Hashem.
Não afundamos em frustração, raiva e depressão quando temos o
conhecimento de que as contrariedades da vida são na verdade marcos,
luzes condutoras e presentes pessoais de Hashem.
Imagine que o agente no aeroporto lhe informa que houve overbooking no
seu voo e que você tem de esperar o próximo.
Então você se pergunta: "Por que eu — você não pode tirar alguma das
outras trezentas pessoas da lista?"
O agente não cede; ele nem se digna a ouvir a sua reclamação.
Você reage com raiva; o coração bate mais rápido, você fecha os punhos e
sente o sangue subir à cabeça.
Estressado e desnorteado, não sabe se liga para um advogado, se bate no
balcão ou se faz uma cena.
Espere um minuto!
Suponha que o voo decolou — sem você — e o avião teve um problema na
turbina, caindo no mar sem deixar sobreviventes.
Você ainda estaria bravo porque perdeu o voo?
É claro que não!
Com a percepção depois do ocorrido, você entenderia que Hashem fez algo
que pareceu cruel na hora, mas que foi para o seu bem — para salvar a sua
vida.
A emuná transforma a percepção tardia, como no exemplo anterior, no
conhecimento antecipado de que Hashem está conduzindo cada um de nós
pelo melhor caminho.
Com emuná, podemos rir dos tombos da vida, sabendo que dificuldades —
até mesmo fracassos — são expressões de amor da Providência Divina que
nos ajudam a conseguir a perfeição da alma.
Sem emuná, estaríamos condenados a uma vida de confusão, frustração e
erros graves, que podem ser evitados se as mensagens de Hashem são
ouvidas.
A emuná é a melhor ferramenta — ou a única ferramenta — para
alcançarmos a correção da alma, complementando a nossa missão na vida.

Falta de comunicação
Quando ignoramos as mensagens de Hashem, ocorre uma "falta de
comunicação" com Ele.
A mão amorosa de Hashem tenta conduzir o indivíduo confuso pelo caminho
certo — para o seu próprio bem -, mas o cabeça-oca teimosamente insiste
em pegar outra estrada, um caminho prejudicial.
As pessoas teimosas que não têm emuná forçam Hashem a lhes mandar
todos os tipos de obstáculos - para impedir que desperdicem a vida ou que
se prejudiquem.
Geralmente, os cabeças-ocas continuam a ignorar as mensagens de
Hashem, adicionando mais amargura e frustração à vida, o que muitas
vezes faz com que eles precisem de pílulas e psiquiatras.
E o mais alarmante é que eles não entendem por que vivem com tanta dor
e amargura.
Aqueles que desperdiçam o dia tentando satisfazer apetites físicos —
enquanto ignoram os mandamentos de Hashem — podem esperar um
destino de sofrimento e dureza.
Por quê?
Um ser humano guiado por luxúria e pelos desejos do corpo é inferior a um
animal.
A essas pessoas falta o refinamento espiritual para discernir os delicados
sinais de Hashem, que dizem: "Meu filho, você está seguindo um caminho
perigoso!"
Quando as pessoas ignoram os sinais, Hashem é forçado a chamar a
atenção com sinais mais ruidosos e severos.
Em suma, quando não ouvem o suspiro gentil, se arriscam a escutar o
barulho ensurdecedor de uma sirene.
O Rei David nos ensina a seguir a orientação de Hashem, quando roga
(Salmos, 25:5): "Orienta-me a seguir Tua verdade."
A Tua verdade e não a minha, pois apenas Tu, Hashem, sabes o que é
melhor para mim.
Ele também diz (ibid. 73:24): "Tu me guias com Teu conselho."
O Teu conselho, Hashem, e não o conselho da minha limitada mente
humana.
Talvez você esteja se perguntando: "Como reconheço as mensagens de
Hashem? Como saber o que Ele realmente quer de mim?"
Com a ajuda amorosa de Hashem, este estudo responderá a essas questões
e lhe ajudará a realizar com sucesso a sua missão na Terra.
Além disso, este estudo o poupará de dores de cabeça e de sofrimentos e
lhe ajudará a alcançar a commodity mais rara da vida — a verdadeira
felicidade.
Uma razão para viver
Sem emuná, qual o propósito da vida?
Se os mortais estão destinados a morrer, então toda a sua vida de esforço,
sofrimento e aspirações mostra-se sem sentido.
Mesmo se uma pessoa consegue realizar um sonho ou um objetivo, ela não
aproveitará os resultados por muito tempo, porque a última parada do trem
da vida é o cemitério.
A maioria das pessoas deixa a Terra antes de completar o que se propôs a
fazer.
Então, para que serve uma vida cheia de sofrimentos, testes e atribulações?
A mulher de um mendigo teve um acesso de raiva por causa da preguiça do
marido.
Ela lhe atirou uma frigideira e gritou: "Vá arrumar um trabalho decente, seu
inútil!"
O mendigo se esquivou a tempo, e a frigideira quebrou a única janela da
cabana, que já estava caindo aos pedaços.
Com um sorriso, ele levantou a cabeça e disse: "Para que o seu próximo
marido herde a minha riqueza conseguida a duras penas? De jeito
nenhum!"
Olhe à sua volta; assim que você enxerga além da "máscara", dos sorrisos
plásticos e da fachada cosmética atrás dos quais as pessoas se escondem,
quase sempre descobre que seus vizinhos, amigos e parentes, todos trazem
consigo uma porção generosa de sofrimento e dor.
Mesmo os muito bem-sucedidos — os glamorosos, ricos e famosos —
podem ter uma vida obscura que muitas vezes acaba em falência,
casamento fracassado, vícios e suicídio.
Toda fama e fortuna do mundo — quando destituídas de emuná — não são
nada mais que um caminho sombrio e sem saída.
A emuná propicia uma razão para tudo na Terra.
Ela é o único consolo eficaz para a dor e tristeza que todos enfrentamos de
vez em quando.
Hashem não quer nos atormentar, D'us nos livre, mas sim estimular a
busca espiritual e a teshuvá — para o nosso próprio bem.
Desse modo, conferimos sentido à vida e realizamos a retificação da alma.
Com uma razão verdadeira para viver, a vida ganha uma dimensão
totalmente nova de propósito e de recompensa duradoura.
Com a alma retificada, podemos alcançar a verdadeira felicidade.

Paz e tranquilidade
O mundo exterior é um palco de tensão, estresse e raiva.
O homem moderno está sempre com pressa e sob pressão; ele não
encontra alívio para a agitação emocional, insegurança financeira e
competição acirrada, resultados de uma sociedade carente de emuná.
Se as pessoas tivessem emuná, viveriam relaxadas e contentes.
Sentimentos como ansiedade, preocupação e estresse se tornam supérfluos
se sabemos que a vida está nas mãos de um Criador amoroso.
Uma população guiada pela emuná faz do Mundo um porto-seguro celestial
de paz, justiça e compaixão.
Essencialmente, esse é o mundo que esperamos quando cultivamos a
expectativa da Geulá e do Mashiach - a redenção do nosso povo e a
chegada do messias.
Guerra e discórdia entre nações seriam coisas impossíveis em um mundo de
emuná, pois cada nação perceberia que tem sua própria missão no
esquema global dos acontecimentos.
Assim como o carpinteiro não compete com o açougueiro — ao
contrário, um precisa dos serviços do outro -, as nações do mundo
cooperariam em paz em vez de estar em constante conflito.
O profeta fala da era messiânica de emuná (Isaías, 11:6-9): "E o lobo
habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará com o cabrito... Eles não
causarão dano nem destruição, pois a Terra estará plena do conhecimento
de D'us, da mesma maneira que as águas cobrem os oceanos."
Somente a emuná leva ao conhecimento de Hashem que abrirá o caminho
para um maravilhoso mundo de paz e tranquilidade.
O Rebe Nachman de Breslav escreveu (Licutei Moharan II:8): "No futuro, à
medida que o conhecimento de Hashem aumentar, não haverá mais dano
nem crueldade. A misericórdia e a compaixão se espalharão, já que são
resultam do nosso conhecimento de Hashem."

Impedindo o dia do juízo final


Sem emuná, alguém pode se perguntar: "Por que eu tenho de ser
bonzinho? Por que não posso me divertir? Por que me casar se posso ter o
que eu quiser na hora que eu quiser? Quem precisa de ética e moral? Vou
morrer de qualquer jeito, por que não buscar prazer enquanto estou aqui?"
Somente o medo de ser descoberto e punido impede tal pessoa de roubar,
fraudar, matar e cometer adultério.
A emuná — a fé e o conhecimento de que o Criador enxerga tudo,
recompensa e pune — tira o ser humano da condição de monstro cruel e
bárbaro.
Onde não há emuná, há corrupção e anarquia.
A injustiça se torna a norma e o ser humano fica sem coração.
Um homem sem emuná pode desejar a mulher do melhor amigo sem
receios, ou pode mentir, matar e roubar por interesse pessoal.
Apenas a emuná nos controla e nos refina ao nos ensinar a ser feliz com a
porção que nos cabe e a não cobiçar o que Hashem dá ao nosso vizinho.
Pessoas sem emuná desenvolvem ideologias estranhas, distorcidas e
destrutivas.
Os nazistas, por exemplo, tinham leis rígidas sobre a crueldade para com os
animais, mas assassinaram milhões de pessoas sem remorso.
A sociedade até glorifica o pensamento distorcido, como o de transformar
em herói o lendário ladrão Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos
pobres.
Com emuná, o roubo, em qualquer forma, nunca teria sido idealizado.
Por quê?
Somente Hashem decide quem será rico e quem será pobre, e ninguém tem
o direito de inventar leis que neguem os mandamentos de Hashem, como a
proibição de roubar.
Um mundo destituído de emuná é repleto de noções e ideologias
distorcidas.
Uma longa lista de falsas "verdades" ameaça a continuidade da existência
do mundo.
Essas "verdades" — fascismo, comunismo, socialismo, capitalismo, ou
qualquer "ismo" que uma determinada sociedade escolha — são apenas
mentiras em diferentes formatos.
Até as revoluções e as contra revoluções são apenas substituições de uma
mentira por outra.
A emuná conecta uma pessoa, uma nação ou uma sociedade à verdade
única e absoluta de Hashem.
A verdade, como Hashem, é eterna — ela nunca muda.
O mundo só pode continuar baseado na verdade; sem essa verdade, temos
apenas as perspectivas mais desoladoras de um Armagedon nuclear e de
destruição em massa.
Uma vez que a verdade previne o conflito e a destruição em massa, e as
pessoas podem alcançar a verdade apenas por meio da emuná, a emuná é
a condição necessária para a continuidade do mundo.

O poder da emuná
A emuná não apenas nos ajuda a entender o mundo à nossa volta, como é
basicamente o nosso bem mais poderoso.
Ela nos instila uma poderosa força interior e nos permite superar com êxito
todos os testes e desafios da vida, quaisquer que sejam.
Altos e baixos, períodos de transição e tempos de turbulência ficam mais
fáceis quando a pessoa conta com a emuná.
Colapsos nervosos e desespero resultam de falta de emuná.
A vida é intolerável quando se perde e esperança.
A rua sem saída a que a pessoa chega quando não consegue acreditar que
há uma solução para os seus problemas é como ter o pé na cova — uma
morte em vida.
Com emuná, sabemos que não há situação — por mais obscura que pareça
— em que Hashem não possa vir ao nosso socorro.
Isaías, o profeta, informou ao Rei Ezekias que este havia sido condenado à
morte por um decreto celestial.
O rei respondeu ao profeta: "Ben Amotz — pare com suas profecias e saia!
Tenho uma tradição, do meu bisavô, o Rei David, de que mesmo que uma
espada afiada esteja na garganta de uma pessoa, ela não deve perder a
esperança da misericórdia Divina” (Tb, Tratados de Berachat, 10a).
O Rebe Nachman de Breslav ensinou: "Aquele que tem emuná está
realmente vivo e seus dias estão sempre repletos de coisas boas”.
É muito bom quando as coisas dão certo. Mas também 'é bom' quando
alguém tem um problema porque Hashem eventualmente terá compaixão e
trará um bom desfecho para a situação. Como tudo vem de Hashem, tudo
definitivamente acontece para o bem. Um homem sem fé, porém, não está
realmente vivo. O mal o assola e ele perde toda a esperança.
Não há nada para alegrá-lo ou confortá-lo, pois ele não tem emuná.
Ele está fora da providência de Hashem e não vive nada de bom.
Mas com emuná, a vida é boa e agradável”. (Sichot Haran, 53).

Todos têm emuná


Na realidade, todos nós temos emuná.
A maioria das pessoas simplesmente não "vive" a sua emuná, ou seja, não
sabe como aplicar o poderoso conceito de emuná ao cotidiano.
Tocamos nossas fontes de emuná quando começamos a falar com Hashem e
a pedir para que Ele atenda todas as nossas necessidades.
A emuná não é totalmente ativada até que se comece um diálogo diário e
pessoal com Hashem.
Assim sendo, sempre que falamos de emuná, nos referimos,
essencialmente, à reza.
Vamos analisar agora cinco princípios que nos impedem de "viver" a nossa
emuná.

• Dúvida de que Hashem esteja constantemente entre nós, nos olhando e


conduzindo todos os detalhes de nossa vida: se não acreditamos em
Hashem, ou se acreditamos que Ele criou o mundo mas deixa tudo a cargo
da natureza, não consideramos a opção de nos dirigirmos a Ele com relação
a todas as nossas necessidades.
• Dúvida de que realmente temos o poder e privilégio de falar com Hashem
— em nossa própria língua e com nossas próprias palavras — sempre que
quiseimos.
• Dúvida de que Hashem nos escute, dê atenção às nossas orações e às
orações de cada criação.
• Dúvida de que Hashem ame cada um de nós e deseje nos ajudar,
especialmente àqueles que se voltam a Ele e falam com Ele.
• Dúvida de que o poder, a misericórdia e a compaixão de Hashem sejam
ilimitados e de que Ele tenha habilidade e recursos para nos ajudar em
qualquer situação, mesmo quando não merecemos a Sua ajuda.

O poder da reza
Internalize esta regra de ouro: Com a verdadeira emuná, qualquer pessoa
— por meio de simples reza pessoal e diálogo com Hashem — pode
transcender qualquer limitação natural e fazer maravilhas!
A reza tem o poder de alterar a natureza.
Como Hashem está acima da natureza, aqueles que se voltam a Ele ficam
acima das limitações da natureza.
A tradição judaica é repleta de histórias sobre como nossos sábios iniciaram
milagres que desafiavam a natureza com o poder de suas orações.
A lista é longa.
Nunca se esqueça de que Hashem escuta, vê e pessoalmente provê às
criaturas mais baixas e simples do universo.
Portanto, não é preciso dizer que Hashem está sempre pronto a ajudar um
de seus queridos filhos, a classe mais elevada da Criação.
Assim que ativamos nossa emuná e nos voltamos a Hashem com nossas
próprias palavras, como quando falamos com um parente querido ou com
um amigo —, podemos conseguir literalmente qualquer coisa, como
remédios para nossas mazelas, ou a superação das nossas necessidades.
O Rabino Natan de Breslav, principal discípulo do Rebe Nachman, sempre
dizia: "Onde quer que eu veja carência, ou não houve reza, ou não houve
reza suficiente."
Portanto, um nível suficiente de reza pode trazer solução para qualquer
problema.
Segundo uma efetiva lei espiritual, cada reza tem o seu poder e cada
pedido requer uma certa quantidade de reza — ou poder espiritual — para
realizar a sua manifestação.
Assim como 28 gramas de dinamite são o suficiente para fazer um buraco
em uma mesa de laboratório, é necessária uma tonelada de dinamite para
se abrir um buraco em uma montanha.
Do mesmo modo, quanto mais importante o pedido, mais reza — ou
dinamite espiritual — é preciso.
Lembre-se, um nível suficiente de reza pode trazer solução para qualquer
problema.
Quando acreditamos no poder da reza, somos capazes de continuar rezando
até que o nosso pedido seja realizado.
O Talmud declara (TB, Tratados de Berachót, 32b): "O Rabino Chanina diz
que qualquer um que reza o tempo suficiente não sai de mãos vazias!"
O Midrash explica (Yalkut Shimoni, 31) que quando Hashem decretou que
Moisés não poderia entrar em Israel, ele fez 515 orações, até que Hashem
ordenou que ele parasse de rezar! Por quê? Com mais uma oração, Hashem
teria sido obrigado a anular o decreto.
Aprendemos com o Midrash acima que quando atingimos a cota de reza
para um determinado pedido, o pedido é realizado!
Enquanto Hashem não nos manda parar de rezar, nós podemos — e
devemos — continuar a rezar até que a nossa oração seja atendida!

Hashem favorece aqueles que O procuram


Obviamente, as pessoas não tiram proveito da emuná e da reza — do
tremendo poder que está sempre à sua disposição — simplesmente porque
não estão conscientes do seu próprio potencial.
Alguns acreditam em um Criador distante, ou em um Criador que possui
uma influência indefinida, remota ou secundária em nossa vida.
Poucos conectam totalmente os pequenos e mundanos detalhes do
cotidiano à emuná e à Providência Divina.
Emuná shelemá, ou emuná completa, significa que a pessoa relaciona todo
acontecimento à Vontade e Providência Divina.
Por exemplo, quando uma mulher repreende o marido, ele — com a emuná
apropriada — não perde a cabeça porque sabe que Hashem decretou que
ela o repreendesse.
O mesmo vale para situações mais difíceis, como problemas de saúde e
financeiros.
Emuná significa que aceitamos tudo o que nos acontece como sendo a
vontade de Hashem.
E, quando precisamos de ajuda, de uma solução para um problema, para as
nossas necessidades diárias, ou para o que quer que seja, falamos com
Hashem.

Caro leitor, sei que você acredita em Hashem.


Então, por que não fala com Ele?
Se você não fala com Ele, é um sinal de que não acredita que Hashem
possa ajudá-lo.
Neste caso, você deve fortalecer a sua emuná.
Hashem quer que nos voltemos a Ele para todas as nossas necessidades,
grandes ou pequenas.
Ele não liga para quanto poder, dinheiro ou influência nós temos.
Ele ama cada um de nós, quer tenhamos um diploma universitário ou não, e
Ele realmente não se importa com o grupo universitário a que pertencemos.
O Rei David disse (Salmos 147:10 -11): "Não se compraz nos que confiam
apenas na força dos cavalos ou na marcha dos guerreiros; agradam-Lhe,
sim, os que O reverenciem e que em Sua misericórdia confiam."
Hashem não precisa de exibição - poderio militar, empreendimentos
tecnológicos ou uma conta bancária na Suíça.
Ele também não se impressiona com as coxas que desenvolvemos com
levantamento de peso, aulas de aeróbica ou de judô.
Ele quer a nossa reza, que sejamos um dos que "em Sua misericórdia
confiam".
Quando nos acostumamos a rezar em toda situação, desenvolvemos uma
sensibilidade espiritual que nos conduz a sentir a constante presença de
Hashem.
Quando sentimos a Sua presença, agradecemos, falamos com Ele e
rezamos para Ele o tempo todo.
Se constantemente procuramos Hashem, Ele não precisa nos mandar
alertas em forma de problemas, testes e atribulações.

Além do mundo material


O Zohar explica que o nível inicial de emuná é o reconhecimento de um
mundo vindouro, muito além do limitado mundo material.
Uma pessoa emocionalmente saudável não está preparada para fazer
qualquer coisa que não seja benéfica ou que não tenha um propósito.
Por exemplo, se você pede para uma pessoa ficar levantando e abaixando a
mão por sessenta minutos sem nenhum motivo aparente, ela certamente
não o fará.
Mesmo se você lhe oferecer um salário razoável, ela pode não concordar se
não encontrar um propósito naquilo que está fazendo.
Se o ser humano só age com um propósito, então fique tranquilo, porque
Hashem não faz nada sem um propósito específico e muito bom.
Hashem criou um universo tão magnífico — da minúscula ameba unicelular
até as grandes galáxias — apenas para se divertir?
É claro que não!
Cada mineral, planta, animal e ser humano tem uma tarefa importante no
esquema geral da Criação.
Hashem deu ao ser humano componentes fabulosamente sofisticados —
potencial intelectual, capacidades físicas e poder espiritual — para um
propósito definido.
Portanto, devemos nos perguntar: "Estou aqui pela satisfação do meu
corpo? O corpo está destinado à decomposição no túmulo! Por que Hashem
teria me criado com um sistema espiritual e emocional tão sofisticado se eu
existisse apenas para trabalhar feito uma mula a vida inteira, depois morrer
e virar janta de vermes? O meu corpo, com tudo o que investi nele — spa,
cabeleireiro, massagens, tratamentos de beleza — acaba virando fertilizante
para flores. É uma conclusão dura, mas é a verdade. Isso é tudo o que há
na vida?"
Certamente não.
Hashem não nos teria dado uma alma — o nosso eu espiritual — sem um
propósito.
Podemos então presumir que deve haver uma continuação da vida espiritual
muito além da morte física.
Trabalhamos neste mundo e colhemos os frutos no mundo vindouro.
Recompensa e punição também se manifestam neste mundo.
Alcançamos uma sensação de contento, realização e paz interior quando
fazemos a vontade de Hashem.
Ao contrário, as transgressões à vontade de Hashem levam a problemas na
vida — não como punições em si, mas como estímulos para uma busca
espiritual e para nos ajudar a fazer as escolhas certas — para o benefício
máximo e eterno da nossa alma.
Sem um mundo pós-físico, um grande esquema de recompensa e punição
seria supérfluo.

Ticunim: retificações da alma


A crença em um mundo vindouro é a base da verdadeira emuná, e oferece
uma explicação para muitas das dificuldades da vida.
Nosso poder de compreensão e percepção se intensifica quando
percebemos que a vida começa bem antes do nascimento e continua por
muito tempo depois da morte.
Eis uma história verdadeira sobre uma tragédia que estremeceu a própria
fundação da emuná em Hashem de toda uma comunidade judaica:
Uma bela jovem — filha de uma das famílias mais respeitadas da
comunidade — se casou com um justo comerciante, um homem caridoso e
compassivo.
Os primeiros anos do casamento foram abençoados com felicidade,
abundância e filhos.
A esposa modesta se tornou uma mãe maravilhosa, que usava cada minuto
livre do seu dia atarefado para recitar salmos ou para cuidar dos pobres e
desprivilegiados da comunidade.
O marido, cujo comércio de sucesso o levava a cidades e vilas vizinhas,
nunca deixou de cumprir uma rígida cota diária de reza e estudo de Torá.
Ademais, ele doava quantias enormes para caridades de todo o país,
suavizando o sofrimento de milhares de pessoas empobrecidas.
Mas, de súbito, uma tragédia aconteceu.
A casa da família — uma luz de caridade, boas ações e bondade — se
transformou em uma cena de agonia.
Um soldado bêbado molestou, mutilou e assassinou o filho de três anos do
casal!
A comunidade inteira ficou aterrorizada.
Milhares de pessoas se juntaram ao luto, inclusive os sábios e líderes
espirituais do país.
Ninguém entendia.
Muitos pronunciaram suas dúvidas em público: "Esta é a recompensa que
um casal tão justo merece? Por que Hashem fez algo tão horrível com eles?
Por que a pobre criança tinha de sofrer tanto?"
Outros cultivavam sentimentos contra Hashem, o que enfraquecia a emuná
e os distanciava da Torá.
O casal reagiu com emuná total, resignação e aceitação do decreto Divino.
Eles continuaram com seu estilo de vida honrado, como se nada tivesse
mudado — a esposa com seus atos de bondade e o marido com seu estudo
de Torá e grande caridade.
Pouco tempo depois, outra tragédia se abateu sobre eles.
Espalhou-se rapidamente a notícia de que o íntegro comerciante estava
doente em estado terminal
Todas as sinagogas locais mobilizaram seus membros para vigílias de
orações vinte e quatro horas por dia.
Todos amavam o comerciante.
A sua generosidade beneficiara quase todos na cidade.
Compreensivelmente, os lamentos da comunidade ultrapassaram os portões
dos céus.
Um dos homens da comunidade entrou correndo na principal sinagoga da
cidade, onde o rabino-chefe rezava, e gritou: "Os médicos nos deram
esperança! Eles disseram que o fim está próximo!"
O rabino-chefe, ele mesmo um pilar de retidão e mestre da lei talmúdica,
declarou vigorosamente, mas com calma: "Isto não acontecerá! Nenhum
mal recairá sobre nosso irmão, o justo comerciante!"
A dor e o espanto de toda a cidade chegaram a novos patamares quando a
notícia da morte do comerciante se tomou assunto comum entre todos.
Um homem tão jovem, no auge da vida — ele já não tinha sofrido o
bastante?
Ele fez apenas boas ações durante toda a vida; é isso o que ele merecia?
As lágrimas da jovem viúva de 35 anos feriam o coração da já perplexa
comunidade.
Alguns anos se passaram.
Em uma sexta-feira à tarde, o filho recém-casado da jovem viúva veio
desejar "Shabat shalom" à mãe; ela tentou sorrir, mas não conseguiu e
desatou a chorar.
"Mãe", disse o jovem, "já se passaram três anos. Você já chorou o
suficiente! Os nossos sábios estabeleceram períodos determinados para o
luto. Se alguém chora mais do que deve, a tristeza nunca vai embora!
Temos emuná e nenhum de nós pode saber os motivos de Hashem. Tudo o
que Ele faz é para o nosso bem! Mãe, o seu pranto não apenas nos
entristece — a seus filhos —, mas também entristece a alma do papai.
As casamenteiras a procuram com várias boas propostas, mas você as
evita. Mãe, por favor, você precisa seguir a sua vida."
A jovens viúva respirou fundo.
Basta! Ela tomou a decisão de superar a tristeza.
Um pensamento encorajador passou por sua mente: "Serei eu mais
compassiva do que Hashem? É claro que não! Sempre confiei em Hashem,
por que não posso ser feliz?"
Para o alívio de seus filhos preocupados — naquele Shabat aquela mãe se
tornou uma nova pessoa.
Pela primeira vez em anos, a viúva dormiu profundamente e em paz.
Ela compreendeu que a falta de emuná — e não a ausência do marido —
era responsável pelo vazio em seu coração.
Agora, aquele vazio estava preenchido novamente.
Ela teve um sonho... Ela se viu em um jardim exótico de beleza
sobrenatural, e entendeu que aquele devia ser o mundo vindouro.
Parada em meio a árvores de flores aromáticas, ela viu a imagem radiante
de um velho com uma longa barba.
Ele se aproximou e perguntou se ela gostaria de ver seu falecido marido.
Ela concordou com a cabeça.
Ele a levou a um magnifico palácio onde um jovem dava aula de Torá para
milhares de almas de justos anciões.
Quando a aula terminou, o professor se aproximou — era o seu marido!
"Meu querido marido! Por que você me abandonou tão cedo? Como se
tornou professor de tantos tsadikim? Você era comerciante e um homem
honesto, mas nunca foi um sábio”.
O marido sorriu: "Em minha vida passada, eu era um grande sábio, mas
não me casei. Quando morri, me disseram que eu não poderia assumir o
meu lugar nos palácios superiores do céu porque eu não havia cumprido o
primeiro mandamento da Torá — frutifique e se multiplique. Por isso,
reencarnei com o único propósito de me casar, ter filhos e criá-los no
caminho da Torá. Foi exatamente isso o que fiz. Assim que completei meu
ticún — a retificação da minha alma e a minha missão na Terra -, eu não
precisava permanecer lá embaixo. Agora, como pode ver, tenho uma vida
de eterno êxtase..."
"Então por que nosso filhinho morreu?", perguntou a mulher.
O marido respondeu: "Ele é a elevada alma de um santo tsadik, um
indivíduo extremamente justo. Em sua vida passada, ele foi sequestrado
logo após o nascimento, sendo alimentado com o leite de uma "mãe
substituta" não-judia. Finalmente, aos três anos, ele foi resgatado pela
comunidade judaica e depois se tomou um sábio de grande proporção
espiritual. Depois da morte, negaram-lhe seu legítimo lugar no céu, já que
sua infância havia deixado uma pequena mácula em sua alma. Seu único
ticún era retornar à Terra, nascer e ser amamentado e criado durante três
anos por uma mulher judia honrada; você, querida esposa, teve o privilégio
de ser esta mulher!"
"Mas por que a morte dele foi tão horrível?"
"Quando nosso filho completou seu ticún," continuou o marido, "ele estava
destinado a morrer de qualquer jeito. Ao mesmo tempo, a Corte Celeste
havia decretado — por causa dos grandes pecados entre o homem e seu
próximo na nossa cidade — que todos os habitantes da cidade seriam
destruídos em um massacre catastrófico. A justa alma do nosso pequeno se
ofereceu a passar por uma morte terrível para redimir toda a cidade. Ele se
tornou um sagrado mártir e se santificou como sacrifício público. Ninguém
pode chegar à sua elevada morada, exceto eu, que fui seu pai. Quando sua
hora chegar, você — como mãe dele — também poderá entrar Você não
pode imaginar o êxtase de luz Divina que cerca o nosso filho..."
O marido despareceu.
Antes de partir sua voz reverberou: "Apenas em virtude da sua emuná
reforçada eu me revelei para você! Enquanto você estava em uma nuvem
de tristeza, quase perdeu outro filho. Todos os meus pedidos de me revelar
para você foram negados... o meu ticún acabou, mas você ainda tem muito
a fazer. Vá, case-se novamente e leve uma vida de emuná e alegria. Vá
com a minha bênção... adeus!"
E a imagem dele desapareceu completamente.
A viúva acordou.
Ela sentia como se tivesse nascido de novo.
Ela entendeu que suas questões — assim como as questões do resto da
cidade — eram desnecessárias.
Se a Torá ensina que Hashem é bom e justo, não há necessidade de
pensarmos por que motivo Hashem faz o que faz.

Aqueles de nós que não merecem revelações durante o sono devem se


esforçar para fortalecer a emuná.
O conhecimento de que Hashem faz tudo para o nosso benefício deve estar
gravado no coração e na mente

A missão
Cada um de nós vem a este mundo com o propósito expresso de cumprir
uma missão.
A longevidade depende da tarefa que temos de completar.
A morte — mesmo em decorrência de uma tragédia ou um de um acidente
repentino — é sempre o resultado da decisão de Hashem.
Alguns vivem vinte anos, outros vivem cem, mas todos eventualmente
deixaremos este mundo no exato momento em que Hashem decidir.
Um conjunto complexo de considerações Divinas influencia as circunstâncias
da vida e da longevidade de uma pessoa — ações, vidas passadas, leis
públicas e outros critérios que desafiam o nosso entendimento.
Algumas almas vêm à Terra para cumprir um ticún breve e específico e
depois retornam aos mundos superiores.
Essas almas são geralmente pessoas extraordinariamente especiais, gentis,
boas e agradáveis, com pouca ou nenhuma inclinação para o mal.
Portanto, não se surpreenda quando ouvir sobre pessoas jovens e justas
que morreram repentinamente.
Elas simplesmente completaram o ticún — a retificação de sua alma e a sua
missão na Terra.
O Rabino Isaac Luria Ashkenazi, o famoso pai da cabalá, o "Arizal" — da
cidade de Tsfat do século 17 -, ensina que encontramos mais resistência
com relação à nossa missão na Terra, já que o ietser hará — a inclinação
para o mal — não quer que completemos a nossa missão com êxito.
Isso significa que quanto mais o ietser hará nos impede, mais temos o que
realizar na Terra.

Uma breve visita


Às vezes, uma alma faz uma breve visita a este mundo.
Conta uma história que certa vez o Arizal foi o sandek (pessoa que segura o
bebê durante a circuncisão) em um brit milá.
Logo após a circuncisão, o bebê morreu.
Quando os amigos e os parentes do bebê lamentavam como animais
feridos, o Arizal disse: "Por que vocês choram? Vocês tiveram o mérito de
receber a alma do nosso mestre, Rebe Yossef Karo (um contemporâneo do
Arizal e autor do Shulchan Aruch, Código da Lei Judaica)!"
Com seu espírito elevado, o Arizal viu que o Rabino Yossef Karo morreu e
chegou aos portões do céu.
O Rabino Yossef havia cumprido todos os mandamentos de Hashem com
precisão, exceto um — a circuncisão.
Quando ele nasceu, teve icterícia e, portanto, foi circuncidado depois dos
oito dias de idade.
Todo o seu ticún consistia em retornar à Terra e ser circuncidado no oitavo
dia de vida.
Ele não tinha outros motivos para permanecer aqui.
O Arizal conhecia cada alma, sua história e missão na Terra.
O seu testemunho mostra como a falta de até mesmo um pequeno (mas
crucial) detalhe faz a bondade de Hashem parecer crueldade, D'us nos livre.
Como em um quebra-cabeça, se uma peça está faltando, toda a imagem
parece incompleta.
A emuná - nossa confiança e crença inabalável em Hashem - preenche os
espaços das peças que faltam, criadas pela nossa visão limitada.

Depósito
O Midrash (Mishli, 31) conta uma história comovente sobre o sagrado Tana
(sábio da Mishná, século II da e.c.) da cidade de Tibéria, o Rebe Meir Baal
Haness:
Em um Shabat, o Rebe Meir estava na casa de estudos, sem saber que seus
dois filhos haviam morrido.
Bruria, sua mulher, omitiu a má notícia, cobriu os dois corpos com um
lençol e os colocou no sótão.
Naquela noite, depois de terminado o Shabat, o Rebe Meir voltou para casa
e perguntou: "Onde estão os meninos?"
Bruria mudou de assunto e lhe serviu o jantar.
Quando o Rebe Meir terminou a reza após a refeição, sua esposa disse:
"Rebe, tenho uma pergunta."
"Fique à vontade para perguntar."
"Se uma pessoa me deu uma quantia para que eu guardasse e agora quer
tomá-la de volta, o que devo fazer?"
"Simples," respondeu o Rebe, "você deve devolver o depósito."
Bruria pegou o Rebe pela mão, levou-o ao sótão e mostrou-lhe seus dois
filhos sem vida.
O Rebe Meir começou a chorar, lamentando sua dolorosa perda.
"Rebe," disse sua mulher, "você não acabou de me dizer que devemos
devolver o 'depósito' quando o dono pedir?"
O Rebe Meir parou de chorar imediatamente e citou (Job, 1:21): "Hashem
deu, Hashem tirou, bendito seja o nome de Hashem!"
O Rebe Chanina, outro santo sábio e contemporâneo do Rebe Meir, elogiou
Bruria e seu pungente consolo que aliviou a dor do marido com tanta
eficácia.
Ele disse (Provérbios, 31:10): "Uma mulher de valor, quem poderá
encontrar?"
O Talmud (TB, Tratados de Berachót, 5b) conta sobre o renomado sábio
Rebe Yochanan, que perdeu os dez filhos e andava com o dente de seu
décimo filho no bolso, dizendo: "Este é o osso do meu décimo filho, que
morreu. Veja como eu perdi dez filhos, mas ainda estou feliz e sorrindo!
Percebi que este mundo não é o nosso interesse principal, e as almas
sagradas que eram meus filhos simplesmente terminaram os seus
respectivos ticúnim e missões neste mundo. Então por que eu deveria estar
triste? Eles estão agora em um mundo de êxtase eterno, enquanto nós
ainda sofremos nesta Terra."
O Rebe Nachman de Breslav perdeu os dois filhos, sua primeira mulher, e
deixou este mundo ainda jovem, aos 38 anos.
Muitos tsadikim enterraram entes queridos e passaram por sofrimentos
cruéis, mas todos sabiam que eles eram pilares de retidão.
Muitas vezes, não há conexão entre longevidade e boas ações.
Estremecemos ao ouvir sobre a perda de uma pessoa jovem.
Na verdade, a ideia da morte de um idoso deveria nos impactar ainda mais,
já que mostra que a morte é inevitável.

Não se esqueça do mundo vindouro


Muitas vezes, a pessoa dá os primeiros passos como um judeu
espiritualmente desperto, um baal teshuvá, e sofre alguma forma de dano
— físico, financeiro ou outro.
A questão geralmente é a seguinte: "Por que agora, que escolhi o caminho
da Torá e comecei a cumprir o Shabat, mereço esta punição? Esta é a
recompensa da Torá?"
E, outras vezes, um novo baal teshuvá morre de forma repentina e trágica.
As pessoas perguntam: "Como isso é possível? O que está acontecendo?
Um novo baal teshuvá, que deixou uma vida de brilho e diversão para
devotá-la a Hashem... ele deveria ter vivido para sempre! Por que Hashem
o levou tão rápido?"
A questão mais famosa dos perplexos é: "E o Holocausto? Por que Hashem
permitiu que seis milhões de judeus — muitos deles sagrados estudiosos de
Torá — morressem em câmaras de gás e em campos de concentração?"
As pessoas esquecem que este mundo é um lugar de importância
temporária, em que uma alma assume uma forma corporal para executar
uma missão e alcançar o ticún necessário.
Mas se elas lembrassem que a vida e a saúde da alma — e não a do corpo -
é o nosso interesse primordial, não teriam mais o que perguntar.

Homem mortal
Não podemos saber quando completamos nosso ticún.
Ninguém sabe como irá deixar este mundo.
Ainda assim, devemos sempre lembrar que somos mortais, destinados a
morrer algum dia.
O Rei Salomão, o mais sábio de todos os homens, aconselhou (Eclesiastes
7:2): "É melhor frequentar a casa do luto do que a casa do banquete, pois
aquela representa o fim de todo homem — e os vivos devem refletir (sobre
isso) em seu coração."
Aparentemente, o conselho de comparecer a funerais e visitar enlutados é
simples: quando visitamos os enlutados, lembramos que, um dia, a nossa
vida também chegará ao fim.
No entanto, é surpreendente que, para certos profissionais, como médicos,
enfermeiras e acompanhantes de idosos, a morte seja algo corriqueiro...
mas quantos deles fazem teshuvá?
Muitos continuam atolados na busca de posses materiais por toda a vida.
Por isso o Rei Salomão ressaltou: "... e os vivos devem refletir!"
Todos nós devemos lembrar que somos apenas mortais; se esquecemos,
podemos cair em sono espiritual.
O medo e a reverência com relação ao nosso dia final na Terra e o dia
seguinte do ajuste de contas são sentimentos que nos ajudam a monitorar
pensamentos, falas e as ações.
Quando estabelecemos nossa lista de prioridades, precisamos lembrar que
fama e fortuna não valem nada no túmulo; os confortos deste mundo não
valem nada no mundo vindouro.
Nosso objetivo supremo é o mundo vindouro e a emuná nos levará até lá.

Verdade
Agora que temos uma melhor compreensão sobre o nosso propósito na
Terra, fica a pergunta: é lógico que Hashem nos mande para cá sem nos
dar uma indicação do que devemos fazer?
Ele distribuiria recompensas e punições sem nos informar o que é e o que
não é permitido?
Hashem nos deixaria tateando no escuro sem direção?
É claro que não.

Hashem deu à humanidade, e ao povo judeu em particular, instruções


claras sobre o propósito da vida.
Não apenas temos a Torá sagrada e seus mandamentos; temos os grandes
tsadikim — os sábios e líderes espirituais que nos conduzem pelo caminho
da verdade.
Esse caminho leva à verdadeira emuná.
Por outro lado, não esperaríamos internalizar a verdadeira emuná sem Torá,
pois, sem ela, o homem — subjetivamente dominado por seus próprios
interesses e vontades — decide a sua própria verdade.
Como mencionado anteriormente, nações e sociedades podem chegar a
conclusões distorcidas, tais como o genocídio de outro povo, quando estão
formando as suas próprias "verdades".

O caminho de ouro
Sem Torá, a vida é um labirinto de caos absoluto, em que pessoas confusas
levam uma vida de insensatez e fantasia.
Olhe à sua volta: o vizinho A está em uma busca maluca por mais dinheiro.
O vizinho B deseja fama e reconhecimento.
O vizinho C nunca para de seduzir a mulher do vizinho D.
O vizinho E não aguenta o vizinho F, que tem inveja do carro novo do
vizinho G.
Sem Torá, o mundo é uma estufa intolerável e cruel de discórdia, ódio,
competição, difamação, roubo, vingança, crueldade, adultério e injustiça.
O mundo pode ser encantador, agradável e tranquilo.
Uma vida de Torá é como um passeio suave em um carro novo quando o
dono segue todas as instruções do manual do proprietário.
A Torá — manual do Criador para o nosso bem-estar material e espiritual —
nos mostra como ser feliz, respeitar o próximo e educar nossas crianças.
Um verdadeiro cumpridor da Torá negocia honestamente, ajuda os outros e
se alegra quando os outros estão felizes.
Pessoas assim nem sonhariam tocar em algo que não lhes pertencesse.
Elas levam uma vida digna e realizada, tomando o mundo um lugar melhor.
Em suma, a Torá é o caminho de ouro para uma vida boa e significativa.
Infelizmente, se uma pessoa estuda Torá sem tentar conseguir emuná, o
poder da Torá se toma prejudicial e até letal.
Por exemplo, sem emuná, D'us nos livre, um simples ladrão pode utilizar a
sabedoria da Torá para se tomar um ladrão mais perigoso e sofisticado.
Sem a orientação dos tsadikim de cada geração —nossos guias espirituais
—, não se pode alcançar a verdade nem a emuná.
Assim, muitos podem ser religiosos, mas permanecer distantes da verdade
e da verdadeira emuná.
Em vez de pedir a Hashem por todas as suas necessidades, as pessoas
colocam suas esperanças nas mãos de gente de carne e osso, ficam
facilmente preocupadas e brigam umas com as outras.

Um homem de espírito
Uma corrente ininterrupta se estende desde Moisés até esta nossa geração.
Os tsadikim nos ajudam a entender a Torá, seus mandamentos e nosso
propósito individual na vida.
Cada um de nós deve procurar um tsadik genuíno, de verdadeira estatura
espiritual, que possa nos ajudar a encontrar o caminho para aplicarmos a
Torá ao nosso cotidiano.
Uma pessoa justa qualquer, que não tenha sido orientada por um guia
espiritual virtuoso, não é suficiente.
O guia espiritual expert — a quem a Torá chama de "homem no qual há
este espírito" (Números 27:18), sabe como aplicar as leis da Torá para o
benefício do espírito de cada pessoa.
Por exemplo, uma autoridade rabínica qualificada que também seja um
"homem de espírito" pode permitir certa ação sob uma determinada
circunstância, mas proibi-la completamente em outra situação.
Ele enxerga as necessidades únicas de cada indivíduo, assim como um
pastor conhece as necessidades de cada cordeiro ou ovelha.
Tal rabino, tsadik e guia espiritual sabe como despertar a pessoa de um
sono espiritual, fortalecer sua alma e mostrar-lhe o caminho de Hashem.
Sem um guia espiritual qualificado e justo, a pessoa pode aprender Torá por
toda a vida e, mesmo assim, cometer erros trágicos na caminhada
espiritual, nunca alcançando o seu ticún.
Dois grupos de pessoas têm dificuldade em encontrar seu caminho no
mundo — aqueles sem nenhuma Torá e aqueles sem um guia espiritual.
"Bendito seja Ele, que nos separa dos equivocados" (kedusha D'sidra, reza
matinal); todos os dias, pedimos a Hashem que nos salve dos dois grupos.

O Rebe Nachman de Breslav declara (Licutei Moharan 1: 123):


"O fundamento e princípio mais importante é a conexão de cada um ao
tsadik da geração, aceitar seus ensinamentos acima de tudo, grandes ou
pequenos, sem se desviar para a esquerda ou para a direita, D'us nos livre,
como nossos sábios nos instruíram (Sifri, parashat Shoftim): 'Mesmo que
lhe digam que direita é esquerda...', a pessoa deve deixar de lado sua
própria sabedoria, lógica e opinião, como se não houvesse outra orientação
fora aquela recebida do tsadik da geração, pois enquanto a pessoa depende
do próprio intelecto, ela está em estado de imperfeição, não conectada
integralmente ao tsadik."
O Rebe Nachman também afirma (Licutei Moharan II: 8): "A pessoa deve
procurar e rezar com empenho por um verdadeiro guia espiritual, e
insistentemente pedir a Hashem para ter o mérito de encontrar um
verdadeiro líder, para que possa conseguir a emuná completa. Quando a
pessoa se conecta — D'us nos livre — a um falso líder, ela se expõe a falsas
crenças... portanto, devemos procurar e rezar por um verdadeiro líder."

Cuidado!
Podemos encontrar um verdadeiro guia e líder espiritual apenas por meio da
reza, porque a maioria de nós não tem as ferramentas necessárias para
discernir entre um tsadik autêntico e uma boa imitação.
Ademais, podemos encontrar um tsadik que não seja o guia espiritual certo
para nós, ou um indivíduo de estatura espiritual insuficiente para nos guiar
no verdadeiro caminho da emuná e do ticún.
Devemos, portanto, ter muito cuidado para evitar a armadilha de criticar
um líder, ou seu grupo, que não pareça ser o líder certo para nós.
Por quê?
Diminuir um judeu — ainda mais um grupo inteiro e seu líder — é uma
transgressão severa da Lei da Torá.
Aqueles que se fiam apenas em sua própria aptidão para procurar um líder
espiritual adequado estão sujeitos a cometer erros.
Por isso, devemos rezar para encontrar o verdadeiro tsadik que possa nos
mostrar o caminho da verdadeira emuná.
Agora que aprendemos os fundamentos da emuná, estamos prontos para
seguir ao próximo capítulo e aprender os níveis da emuná.

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 2

Capítulo 2 - Os níveis de emuná

Depois de aprender sobre as fundações da emuná no primeiro capítulo,


estamos prontos para aprender sobre os diferentes níveis de fé.
A emuná pode ser dividida em três níveis principais:

1. Nível básico de emuná: É a crença firme de que tudo vem de Hashem por
meio da perfeita Providência Divina, até mesmo o menor e aparentemente
insignificante acontecimento.

2. Nível intermediário de emuná: Além de ter uma perfeita emuná básica, a


pessoa no nível intermediário acredita que tudo o que Hashem faz é para o
bem.

3. Nível superior de emuná: Além da sólida emuná de nível básico e


intermediário, o indivíduo no nível superior acredita que Hashem faz tudo
com um propósito específico e tenta entender a mensagem de tudo o que
Ele faz.

Os níveis acima constituem um conjunto, e a emuná é a crença de que não


há outro senão Hashem, cuja Providência Divina é a raiz de todas as coisas
e de todos os acontecimentos.
Visto que a principal razão pela qual Hashem criou o mundo é conceder Sua
bondade a toda criação, tudo o que Ele faz é para o nosso bem-estar
máximo.
Hashem não faz nada ao acaso; todo o Seu trabalho tem uma razão e um
propósito específicos.
Este capítulo discutirá cada nível individualmente e nos ajudará a aplicar
seus princípios ao nosso dia-a-dia.

Seção um - nível básico de emuná:


Crença na Providência Divina
É Isso que Hashem quer!
Conforme o nível básico de emuná, Hashem é o único soberano do
universo, e Sua Providência Divina de precisão cirúrgica é responsável por
cada acontecimento no mundo, pequeno ou grande.
O primeiro dos treze princípios de nossa fé — escritos por Maimônides e que
aparecem na maioria dos livros de reza no final de Shacharit, a reza da
manhã - declara: "Creio com plena emuná que D'us é o Criador de todas as
criaturas e as dirige. Só Ele fez, faz e fará tudo."
Basicamente, tudo que acontece no mundo — da multiplicação de uma
ameba unicelular aos eventos avassaladores que afetam continentes
inteiros — vem de Hashem.
Vamos trazer esse princípio a um nível mais pessoal.

Tudo o que nos acontece — espiritual, material, acidental ou


intencionalmente, não importa o que ou quem seja o mensageiro da ação —
vem exclusivamente de Hashem.

Deixe a emuná ter precedência sobre o intelecto


A seguinte regra geral nos permite começar a aplicar a emuná ao nosso
cotidiano: toda vez que algo triste acontece, temos de deixar a emuná
preceder o intelecto.
A emuná deve ser o nosso pensamento inicial!
Antes que o cérebro e o intelecto comecem a atribuir nossos problemas a
forças e fenômenos "naturais", a outras pessoas, ou a nós mesmos, a
emuná nos diz que o problema é exatamente o que Hashem quer, senão
não teria acontecido.
Hashem sozinho junta a enorme quantidade de "peças de quebra-cabeça"-
pessoas, acontecimentos e fatores importantes — para criar certa situação
em nossa vida ou no mundo.
Para usar nosso poder intelectual efetivamente, devemos primeiro lembrar
que qualquer um ou qualquer coisa que influencie nossa vida — para o bem
ou para o mal — é apenas um mensageiro de Hashem, um agente da
vontade Divina.
Se acreditamos firmemente nesse princípio de emuná, estamos prontos
para ativar nossa capacidade intelectual — conforme a Torá, é claro — e
tentar entender as mensagens de Hashem ocultas nos acontecimentos.
Por exemplo, alguém que se esquece de deixar a emuná preceder o
intelecto pode atribuir sua dor no pé ao "fenômeno natural" de um par de
sapatos de má qualidade.
Outros podem atribuir a falta de sucesso na carreira a um chefe tirano, ou
podem se atormentar por perder dinheiro em um mau investimento.
Embora os sapatos realmente sejam malfeitos, o chefe seja mesmo um
tirano, ou o investimento tenha sido certamente um erro, Hashem estava
logo ali, escondido por trás de todos os acontecimentos que Ele causa para
criar certa situação.
As situações da vida não são nada além de mensagens pessoais para o
nosso bem.
Deixar a emuná preceder o intelecto é a maneira adequada de reagir em
qualquer situação.
Dizemos a nós mesmos: "Hashem está me fazendo perder dinheiro;
Hashem está impedindo o meu avanço profissional; Hashem me deu estes
sapatos incômodos!"
Quando nos lembramos de que os "problemas" vêm de Hashem, nos
sentimos confortados, sabendo que tudo que Ele faz é para o bem, como
veremos na segunda parte deste capítulo.
Quando a emuná precede o intelecto, podemos utilizar nossa inteligência
para entender o que Hashem quer de nós.

O mensageiro e a vara
Precisamos agora aprender duas importantes leis da espiritualidade:

Lei #1: Hashem é a causa de todo mensageiro:


Conta a história que um senhor usava uma vara para açoitar seu escravo; o
infeliz escravo certamente não culpava a vara pelos seus problemas; não
ficava com raiva, nem tentava acalmar a vara.
Será que temos menos bom-senso que o escravo da história?
Como podemos esquecer que cada situação, pessoa, objeto ou animal que
nos entristece não é nada mais que uma "vara" nas mãos de Hashem?
Tentaríamos, talvez, negociar com a vara?
É claro que não!
Assim como o escravo se volta a seu senhor, devemos nos voltar a Hashem
sempre que procuramos entender o que está acontecendo em nossa vida.
Então, com a história do escravo e da vara em mente, estamos prontos
para aprender a segunda lei.

Lei #2: Toda situação de tensão, estresse ou tristeza é um teste de fé.


Assim sendo, precisamos colocar o intelecto na prateleira pelos seguintes
motivos:
• O intelecto não tem a emuná de que tudo vem de Hashem.
• O intelecto tenta compreender a base lógica do que nos leva à tristeza,
raiva e frustração — sentimentos que causam depressão e desespero.
• O intelecto procura um "culpado" e, por isso, nos conduz a sentimentos de
ressentimento e vingança.
Sentimentos negativos literalmente destroem a vida de uma pessoa.
Para evitá-los, temos de deixar nosso intelecto de lado temporariamente e
reforçar a emuná de que tudo vem de Hashem!
Não há outro senão Hashem!
Tudo o que nos acontece é por Sua vontade Divina!
O homem e a natureza não são nada mais que simples mensageiros, varas
nas mãos de Hashem.
Em vez de olhar para a vara, devemos sempre nos lembrar de olhar para
quem a movimenta — Hashem!
Recorrer a Hashem é a única maneira de resolver um problema.

Livre arbítrio
A maioria das coisas que nos entristece pertence a uma das três categorias
a seguir:
• Natureza, como um vírus ou uma bactéria;
• O próximo e seu livre-arbítrio;
• Nós mesmos; os nossos próprios erros.

As pessoas geralmente entendem que os problemas de causas naturais —


como doença, D'us nos livre — vêm de Hashem.
Às vezes, essas mesmas pessoas equivocadamente depositam toda sua
confiança em médicos e remédios.
Quando estes fracassam, os doentes e seus entes queridos acabam se
voltando a Hashem para conseguir ajuda.
Você nunca viu ou ouviu alguém pedir piedade a um vírus ou a uma
bactéria, não é?
Sabemos que Hashem dá aos seres humanos o livre-arbítrio para fazer o
bem ou o mal e, por isso, muitos de nós pensam que as ações do homem
estão além do controle de Hashem.
Nosso intelecto nos pede para tomar satisfação com a pessoa que nos
atormenta e tentar provocar uma mudança em seu comportamento.
À primeira vista, o intelecto está certo: para que rezar a Hashem quando
aqui, na minha frente, está a pessoa que me faz sofrer?
Essa pessoa tem livre-arbítrio, então por que não pedir a ela?
Talvez eu deva apenas dar-lhe um tapa na cara!
Quem precisa de reza?
A verdade é que todos precisamos de reza, pois tudo o que nos acontece
vem de Hashem.
Só Ele fez, faz e fará tudo.
Lembre-se deste princípio muito importante: A Providência Divina de
Hashem em nossa vida é responsável por qualquer pessoa que nos traga
dor ou prazer.
Eis como: Sim, a pessoa que nos causa dor possui livre-arbítrio.
Mesmo assim, a pessoa que atormenta ou entristece outra — seja física,
verbal ou emocionalmente — é punida no final.
Agora, imagine que Hashem decidiu que você deve ser ofendido hoje; Ele
simplesmente utiliza o livre-arbítrio de uma pessoa grosseira, que seria
punida de qualquer forma, para fazer o "trabalho sujo" de insultá-lo.
A pessoa na sua frente é apenas uma vara nas mãos de Hashem.
O livre-arbítrio dos outros não é da nossa conta!
Sempre que Hashem os manipula para nos causar dor, nos saímos melhor
se recorremos a Hashem.
A maioria das vítimas sofre tremenda angústia quando tenta lidar por conta
própria com quem as faz sofrer.
Culpar os outros pelos nossos sofrimentos é o erro mais trágico do mundo.
Aquele que culpa o outro — não importa a quem — não apenas enfraquece
sua emuná, como também perde a intervenção Divina que receberia se
tivesse rezado a Hashem.
Sem receber a intervenção Divina, a vítima cai nas mãos de seu algoz.
Qualquer purgatório é um paraíso se comparado a cair nas mãos de um ser
humano cruel.
Quando você percebe que está sofrendo porque não roga a Hashem e
começa, então, um processo de reza, busca espiritual e teshuvá, muitas
vezes vê milagres.
Não apenas o algoz para de lhe causar sofrimento, como ele se torna um
amigo leal.
Difícil imaginar?
O Rei Salomão, o mais sábio de todos os homens, disse (Provérbios, 16:7):
"Quando Hashem favorece os caminhos do homem, até seus inimigos
ficarão em paz com ele"
Aqueles que se consideram mártires que sofrem sem motivo são os
principais candidatos a continuar sofrendo.
Aqueles que sofrem mas não ativam a emuná se enquadram em uma das
três categorias seguintes:
1. Os desamparados — são pessoas que têm de lidar com elementos mais
"poderosos", como policiais, juízes, autoridades fiscais, gerentes bancários
ou chefes.
A falta de emuná as faz acreditar que são vítimas desamparadas e elas
ficam, portanto, mais vulneráveis à frustração, desespero e depressão.
Em casos extremos, podem até pensar em suicídio.
2. Os iguais — são vítimas que se consideram iguais a seus algozes.
Em casos assim, o ódio ocupa o pensamento da vítima constantemente, dia
e noite.
Essas pessoas podem perder o sono por dias, semanas e até meses
planejando vingança.
Em outros casos, elas se humilham, se rastejando ou adulando quem as
atormenta.
3. Os da conversa fiada — são as pessoas que dizem a Hashem, "Eu
acredito que tudo vem de Hashem, mas não mereço isso", e assim por
diante.
Ficamos realmente desamparados até que internalizamos o fato de que não
há outro senão Hashem!
Quando entendemos que temos a livre escolha de pedir ajuda a Hashem,
pegamos o destino com as nossas próprias mãos, em vez de continuar a
sofrer nas mãos insensíveis e muitas vezes cruéis de outras pessoas.

Que eu não caia nas mãos dos outros!


O Rei David, quando tinha de fazer a escolha entre cair nas mãos de um ser
humano com livre-arbítrio e depender da misericórdia de Hashem, dizia
(Samuel 1 124:14): "Que fiquemos nas mãos de Hashem, pois Sua
misericórdia é abundante; mas que eu não caia nas mãos do ser humano."
O Rei David não queria depender, de jeito nenhum, de outras pessoas.
Ele colocou toda sua vida nas mãos de Hashem.
Quando nos guiamos com emuná completa, nos apoiamos apenas em
Hashem e imploramos a Ele do fundo de nossa alma para que nos eleve
muito além das limitações da natureza.
Milagrosamente, muitas vezes repentina e inesperadamente, enxergamos
uma solução para o que poderia ter sido — sem emuná, D'us nos livre —
uma situação impossível.
Infelizes são aqueles que se voltam a alguém de carne e osso em busca de
alívio!
Se confiamos em qualquer coisa ou em qualquer pessoa e não em Hashem,
Ele nos dá as costas, nos deixando à mercê de nosso fútil objeto de
confiança.
Assim é que realmente ficamos em apuros!

Pessoas ou cobras venenosas?


Os irmãos de José o desprezavam, guardavam rancor dele e decidiram
matá-lo (veja Gênesis, 37: 18-24).
Quando Rubem, o irmão mais velho, viu que os outros irmãos estavam
firmes na decisão, ele salvou José ao sugerir que eles desistissem do
assassinato e jogassem o irmão em um poço com escorpiões e cobras
venenosas.
Estranho.
Como isso pode ser chamado de "salvar José"?
Um poço cheio de cobras venenosas e escorpiões é morte certa!
Que tipo de favor Rubem fez a seu irmão José?
Ficar nas mãos dos irmãos não seria melhor do que o pesadelo das criaturas
mortíferas mais horripilantes da natureza?
A resposta para o dilema acima é surpreendentemente simples: Rubem
sabia que José era um tsadik com emuná completa.
Ele sabia que, no instante em que José fosse exposto a cobras venenosas e
escorpiões, suas orações atravessariam os céus.
Rubem sabia que José rezaria com toda sua força física, emocional e
espiritual.
Ele também sabia que Hashem sempre responde a orações desse tipo e que
certamente José seria socorrido.
O Rebe Natan de Breslav explica (Licutei Halachot, Bircát Hashachar, 5) que
Hashem projetou o universo de tal maneira que a reza pode provocar uma
mudança na natureza.
Quando os filhos de Israel clamaram a Hashem, o Mar Vermelho foi
ordenado a separar suas águas (Êxodo, 14:10).
Quando Josué estava perseguindo seus inimigos, ele mandou o sol parar de
orbitar (veja Josué, 10: 6-16).
As orações dos tsadikim podem esfriar o intenso calor do fogo (veja Daniel,
3: 10-26), ou apaziguar leões famintos (ibid. 6: 17-24).
Em toda geração, os verdadeiros tsadikim recebem o poder de alterar o
curso da natureza por meio de suas rezas.
Esse poder é uma condição que o Criador instilou em toda a criação.
Ainda assim, Rubem não estava totalmente confiante quanto ao modo como
seu irmão José, o tsadik, se sairia em um teste de emuná envolvendo um
ser humano com livre-arbítrio, como no teste pelo qual passaria com seus
irmãos.
Rubem sabia como esses testes de emuná podem ser difíceis.
Será que José se dobraria com a pressão, imploraria e se rebaixaria diante
de seus irmãos?
Ele imploraria por sua vida, como se os irmãos fossem responsáveis pelo
seu destino?
Rubem estava preocupado; se José fosse depender de raciocínio lógico e
apelasse à misericórdia de seus irmãos, sua emuná completa em Hashem
poderia ficar comprometida.
Como a emuná completa aumenta as chances de uma pessoa ser salva de
qualquer perigo, uma brecha na emuná é o perigo mais grave de todos.
A inquietação de Rubem era bem-fundamentada.
No final, José implorou por misericórdia, como testemunharam os irmãos
(Gênesis, 42:21): "E disse cada homem a seu irmão: De certo somos
culpados por nosso irmão, pois vimos a angústia de sua alma ao rogar por
nós, e não o escutamos."
Rubem estava certo ao deixar José à mercê da completa misericórdia de
Hashem.
José implorou por ajuda e Hashem o socorreu.

Foco em Hashem
Vamos colocar essas lições em termos práticos.
De tempos em tempos, todos nós nos deparamos com um ser humano de
livre-arbítrio que nos causa dor e sofrimento, como um policial que nos
para, um companheiro que nos repreende ou um filho que não se comporta
bem.
Quando outra pessoa nos magoa, devemos nos concentrar em Hashem e
não em quem está nos causando dor e sofrimento.
Quando confiamos em Hashem, não precisamos agradar ou suplicar a outra
pessoa.
Não temos de nos ajoelhar ou falar até perder o fôlego para tentar
convencer alguém a não nos ferir e com certeza não precisamos reagir
violentamente.
Emuná significa que focamos o Mestre — Hashem — e não a vara em Sua
mão.
Há vários tipos de falha em emuná, que variam das mais escancaradas às
mais sutis, com vários níveis intermediários.
Por exemplo, aquele que sofre por causa de outra pessoa pode aceitar a má
situação com emuná, falar com Hashem, fazer uma séria busca espiritual e
teshuvá e, mesmo assim, no final, apelar ao algoz e pedir-lhe misericórdia
ou consideração.
Essa tentativa é uma falha em emuná, pois a vítima dá importância —
mesmo que muito pouca — à "vara" de carne e osso, e não à mão do Todo-
Poderoso que a controla.
Aqueles que colocam seu destino nas mãos do homem afetam a Providência
Divina criada para protegê-los.
Por outro lado, quanto mais nos colocamos nas mãos de Hashem, mais
ampliamos a Providência Divina que nos liberta do mal.

"Sou um fracasso" é uma declaração arrogante


Às vezes, as pessoas sofrem com erros e fracassos que parecem ser culpa
delas mesmas.
Nesse caso, precisamos nos lembrar de outra regra importante: Antes de
cometer um erro, temos o aparente livre-arbítrio de não errar.
Mas, depois do ato, devemos acreditar que o erro era da vontade de
Hashem!
Se sabemos que Hashem quis o erro, não temos motivo para ficar
decepcionados, depressivos, desanimados e certamente não devemos nos
martirizar ou nos culpar.
Com emuná, atribuímos nossos sucessos à assistência Divina de Hashem.
Aquele que não reconhece a assistência de Hashem é arrogante, pois diz
"eu consegui!".
A fim de evitar a arrogância, usamos expressões como "se D'us quiser" ou
"com a ajuda de D'us".
Então, se nossos sucessos são o resultado da intervenção de Hashem ,
nossos fracassos também o são.
Como Hashem sabe o que é melhor para nós, deveríamos aceitar nossos
fracassos com emuná, do mesmo modo como aceitamos nossos sucessos.
Em tempos difíceis, aquele que não aceita erros e contrariedades fica
furioso e decepcionado consigo mesmo; e, em tempos de bonança, orgulha-
se de seus sucessos.
Qualquer uma dessas situações demonstra arrogância, já que a pessoa
atribui seu destino a si mesma.
O fracasso é um verdadeiro teste de emuná; por meio da emuná,
reconhecemos que um erro de julgamento, uma má decisão ou qualquer
outro impedimento representa a vontade de Hashem.
Com emuná, deixamos de nos perseguir dia e noite e, portanto, nos
livramos de desgastes emocionais.
Podemos nos consolar com o fato de que Hashem não quis que
ganhássemos a medalha de ouro ou a partida semifinal.
Mas podemos sempre ter em conta que, depois de qualquer queda, tudo o
que temos de fazer é colocar um sorriso no rosto, sacudir a poeira, dar a
volta por cima e recomeçar com mais empenho, como veremos mais
adiante neste estudo.
Temos de acreditar que qualquer tristeza ou fracasso na vida é o produto
exclusivo da vontade de Hashem!

Por quê?
Aquele que alcança o nível básico de emuná — a crença na Providência
Divina — está no caminho de uma vida feliz.
No entanto, a limitada emuná de nível básico é insuficiente.
Embora a pessoa de fé de nível básico atribua tudo a Hashem, ela ainda é
suscetível a questões e reclamações sobre como Hashem comanda o
mundo.
É provável que ela se pergunte: "Por que Hashem fez isso comigo? Eu não
mereço! Por que tenho de sofrer?"
A lista de mágoas é longa.
Qualquer questão ou mágoa contra Hashem é uma falha escandalosa em
emuná.
A verdadeira crença de que tudo vem de Hashem deve caminhar de mãos
dadas com o próximo nível de emuná, segundo o qual Hashem faz tudo
para o bem.
O Rei David disse (Salmos, 145:9): "Ele é bom para com todos e o
manifesta através de todos os Seus feitos"
Já que tudo o que Hashem faz é bom, ninguém pode ao mesmo tempo
reclamar da vida e dizer que acredita em Hashem — isso seria uma
contradição.
Portanto, para atingir a emuná completa, devemos passar para o próximo
nível.

Seção dois - nível intermediário de emuná:


Tudo o que Hashem faz é para o bem
A emuná de nível intermediário é a crença de que tudo o que Hashem faz é
para o bem, mesmo que pareça o contrário.
Muitos são os casos em que vemos como situações aparentemente ruins
acabam sendo boas no final.
Todos temos experiências assim.
Por exemplo, alguém está muito apressado para chegar ao trabalho ou à
escola pontualmente.
Ele corre em direção ao ponto de ônibus e, ao ver que o ônibus já está
saindo, começa a gritar para o motorista deixá-lo entrar.
O motorista o ignora.
No episódio acima, a pessoa pode ceder à raiva, humilhada pela falta de
consideração do motorista ou frustrada pelo atraso.
Vamos adicionar a parte que falta a essa imagem incompleta.
Suponha que nós perdemos o ônibus; um minuto depois, ouvimos uma
forte explosão e descobrimos que aquele ônibus se envolveu em um
acidente fatal ou em um ataque terrorista, deixando vários de seus
passageiros mutilados ou feridos.
Ainda estaríamos com raiva do motorista por nos deixar para trás?
Ainda teríamos reclamações contra Hashem?
A resposta é um óbvio não.
Um mortal não pode enxergar ou entender todas as variantes que Hashem
leva em consideração.
Assim como um juiz não pode julgar um caso baseado em fatos incompletos
ou insuficientes — ou chegará a um veredito equivocado —, nenhum de nós
pode concluir que uma situação específica é ruim sem poder ver o que o
futuro nos reserva.
Frequentemente, depois de um tempo, vemos em retrospectiva como uma
situação aparentemente ruim resultou numa coisa boa.
Outras vezes, não ficamos a par das considerações, dos cálculos e dos
motivos que Hashem teve para nos fazer passar por um determinado teste.
Essas coisas permanecerão ocultas para nós até Mashiach chegar; até lá, a
emuná nos dá a força e a tranquilidade de saber que tudo o que Ele faz é
para o nosso bem.
Somente Hashem conhece o caminho perfeito para cada indivíduo.
Às vezes enxergamos o propósito de nosso sofrimento; outras vezes não.
Quando não entendemos por que sofremos, os altos e baixos da vida
podem ser uma montanha-russa insuportável; só a emuná pode colocar a
vida em terreno plano.
"Sob fogo cruzado" — no meio de uma situação difícil —, não podemos ver
como o problema existe para o nosso próprio bem.
Mas, com emuná, acreditamos que o problema existe para o nosso próprio
bem.
A nossa fé nos dá força para lutar e agir da melhor maneira possível em
qualquer situação.

Tudo, não "quase" tudo


A emuná de nível intermediário não está separada da emuná de nível
básico; ela é apenas um reconhecimento mais forte de que tudo vem da
Providência Divina de Hashem; tudo é para o bem, não "quase" tudo.
Tudo é para o bem — esse nível de emuná não é um estado espiritual que
poucos podem alcançar.
Conforme o Código da Lei Judaica (Shulchan Aruch, Orach Chaim, 230:5),
temos de acreditar que tudo que Hashem faz é para o melhor desfecho da
situação.
Assim como o judeu tem a obrigação de comer comida casher, cumprir o
Shabat e todas as outras leis do Código, ele também deve cumprir a lei
acima.
A lei judaica em geral, e a crença de que Hashem faz tudo para o bem em
particular, vale para todos.
Hashem não dá ordens que não podemos cumprir.
O Código da Lei Judaica é preciso em cada sílaba; uma análise mais
detalhada revela que a cláusula mencionada declara que tudo que Hashem
faz é para o bem, não "quase" tudo.
Mesmo se um soldado for cercado, atacado e bombardeado por todos os
lados, ele não deve dizer "acredito que Hashem faz tudo para o bem, exceto
isso".
"Quase tudo" é o erro que a maioria das pessoas comete, mesmo que
aceite, a princípio, a noção de que tudo que Hashem faz é para o bem.
A "quase emuná" de algumas pessoas "funciona" bem enquanto não é
colocada à prova, além da sua zona de conforto.
Quando um problema mexe com o prestígio ou com a renda, arruína os
planos ou torna a vida desagradável, a emuná completa se desfaz.
Uma emuná de 99% é, na verdade, 100% de falta de emuná, já que tudo
vem de Hashem — sem exceções e para o bem —, e não quase tudo.

Quando o intelecto sai de cena


Entender que uma determinada situação existe para o bem não é a emuná
de que tudo é para o bem.
Do ponto de vista espiritual, a compreensão representa um nível muito
inferior ao nível da emuná.
Quando o intelecto não mais entende como Hashem faz tudo para o bem,
surge a emuná.
Ou seja, a emuná entra em ação quando o intelecto sai de cena.
Em tempos difíceis, sempre que a mente reclama que uma situação é ruim,
fazemos um grande favor a nós mesmos se a deixamos de lado e ativamos
a emuná de que tudo que Hashem faz é para o bem.
Com emuná, nos alegramos em vez de sucumbir ao desespero e à
depressão.
Quando estamos felizes, nosso cérebro opera com muito mais eficácia.
Portanto, a emuná aumenta o nosso poder mental e a nossa capacidade de
enfrentar qualquer situação.
Mesmo quando uma coisa desagradável nos acontece, e desejamos que a
vida fosse diferente, temos de subjugar a nossa vontade à vontade de
Hashem.
Aceitar a vontade de Hashem é praticamente impossível sem emuná, pois
se não acreditamos que Ele faz tudo para o bem, então por que aceitar a
Sua vontade?
Quem quer uma vida de "coisas ruins"?
A emuná ilumina o coração com a confiança de que Hashem tem uma boa
razão para tudo que faz - a estrada atualmente esburacada um dia levará a
caminhos suaves e tranquilos.
Se deixamos a emuná dominar a mente, podemos prontamente encarar
qualquer desafio que a vida colocar em nosso caminho.
Os sábios ensinam que quando uma pessoa agradece a llashem e está feliz
em qualquer circunstância — contando com a emuná de que tudo o que
Hashem faz é para o bem —, ela vê os momentos mais difíceis da vida
mudarem completamente para melhor.
A emuná é, então, a melhor saída para qualquer dificuldade.
O Rebe Natan de Breslav escreveu (Licutei Halachot, Choshem Mishpat,
Hilchos Prika V'taina 4): "Se as pessoas realmente ouvissem os tsadikim e
sempre acreditassem em Hashem, que tudo acontece para o bem, e se elas
sempre agradecessem a Hashem e O glorificassem, em bons e maus
momentos, todos os problemas e todo o sofrimento da diáspora se
anulariam completamente; e nosso povo seria redimido."

Uma reviravolta para melhor


A pessoa que não cumpre todas as leis da Torá é provavelmente
responsável por um grande número de transgressões.
Uma transgressão acarreta dívidas espirituais que nossos sábios chamam
de "julgamentos severos", causa de muito do sofrimento na vida.
Mas se acreditamos que Hashem faz tudo para o bem e Lhe agradecemos
em qualquer circunstância, provavelmente somos poupados de julgamentos
mais severos.
Como?
A emuná pura e simples neutraliza julgamentos, assim como o alcalino
neutraliza o ácido.
Se a emuná de uma pessoa que não cumpre os mandamentos tem o poder
de neutralizar, ou "adoçar", julgamentos severos, certamente a emuná
completa e simples de uma pessoa que tenta o melhor para cumprir as leis
da Torá resulta em uma vida doce e gratificante.
Certa vez, um jovem não-religioso compareceu a uma palestra ministrada
pelo autor deste estudo.
Após a palestra, ele se aproximou do autor e contou o seguinte: "Por acaso,
eu acabei obtendo o CD do rabino Arush sobre emuná e agradeci a Hashem.
Eu gostaria de conhecer o autor pessoalmente só para dizer — da minha
experiência pessoal — que cada palavra é verdade!"
O jovem continuou: "Um dia após a palestra, eu abri uma Bíblia no Livro de
Job. Li a parte em que a esposa dele tenta incitá-lo contra Hashem por
todos os seus problemas, ao que Job responde: "Você fala como uma
mulher incrédula; devemos aceitar de Hashem o bem e não o mal?" Essas
palavras penetraram em meu coração; eu sabia que estava lendo a pura
verdade. Decidi que sempre agradecerei a Hashem tudo em minha vida, o
bom e o ruim, e bingo!, minha vida deu uma reviravolta para melhor!"
Animado, o jovem narrou uma série de soluções milagrosas que encontrou -
por Providência Divina, e não por seus próprios esforços — para alguns
problemas aparentemente impossíveis que tomavam a sua vida intolerável.
A emuná havia iniciado uma melhora de 180 graus em seu casamento
instável e em sua carreira desajeitada.
Ele experimentou felicidade e otimismo pela primeira vez.
"Só quero agradecer ao rabino Arush e reforçar seus ensinamentos",
concluiu o jovem.
"A emuná de que Hashem faz tudo para o bem realmente mudou a minha
vida!"

Um judeu infeliz?!
O mesmo jovem não-religioso participou de outra palestra do autor, mas
dessa vez levou o irmão, um judeu religioso que estuda Torá o dia todo.
O jovem era otimista, ao passo que o irmão se mostrava deprimido e
reclamava de uma longa lista de preocupações e problemas.
"Nada dá certo em minha vida. Se não fosse pelo meu irmão, que
ultimamente tem sido uma fonte de força e encorajamento, não sei o que
seria de mim!"
O irmão melancólico reclamou do modo "ilógico" e "injusto" como Hashem
comanda o mundo.
"Eu cumpro todos os mandamentos e estudo Torá o dia inteiro. Por que
minha vida é tão amarga? Já para meu irmão, que não cumpre nada,
parece que tudo está bom. O que está acontecendo?"
O autor citou um trecho do Talmud (TB, Tratado Shabat 55a) segundo o
qual o pecado causa atribulações, sugerindo que o irmão fizesse uma auto
avaliação e teshuvá.
"Por que eu tenho de fazer teshuvá?", contestou o irmão, "Eu cumpro o
Shabat, como comida casher, faço caridade, mando meus filhos a uma
escola religiosa e tenho uma vida de pobreza e privação. O que há de
errado comigo? Entendo que até mesmo o maior dos tsadikim pode cometer
um pequeno pecado de vez em quando; mas me diga — como é que eu
posso merecer problemas tão insuportáveis?".
O autor respondeu: "Você obviamente pensa que, desde que não infrinja
nenhuma lei, não merece nenhum problema na vida. Mas você está
perdendo de vista a questão principal: a Torá e as mitsvót deveriam estar
lhe trazendo emuná. Você deveria agradecer a Hashem pelo que tem —
como esposa e filhos — e aceitar o resto da Providência Divina com amor e
alegria. O contrário provoca julgamentos severos que se manifestam por
meio de sofrimentos e atribulações. Hashem não se alegra com a Torá e as
mitsvót de uma pessoa amarga."
"Olhe para o seu irmão", continuou o autor, "Apesar de seu estilo de vida
não-religioso, ele está sempre sorrindo, mas você não. Ele agradece a
Hashem pelo que tem, e você não. Ele se tomou um vencedor, ao passo
que sua vida é insuportável. A emuná sozinha já é o suficiente para adoçar
a vida de uma pessoa. E sabe o quê?", concluiu o autor, "O seu irmão, com
todos seus defeitos, traz muito mais alegria a Hashem do que você com
toda sua Torá. A emuná pesa na balança a favor do seu irmão!"
"Como pode ser?", protestou o irmão religioso, "Meu irmão infringe quase
todas as leis da Torá!".
O autor retirou um livro de sua pasta, o clássico comentário do Ramban
acerca da Torá, e o abriu na porção Bó.
Ele leu em voz alta: "O propósito de todas as mitsvót é que acreditemos em
Hashem e Lhe agradeçamos por ser nosso Criador; esse é o propósito de
toda criação. O único pedido dos mundos superiores para os mundos
inferiores é que o homem deve agradecer e conhecer seu Criador."
O Rabino BenTzion Halevi Bamberger, autor do Ginzei Shaarei Tzion,
acrescenta ao comentário do Ramban: "Conhecer o Criador, aceitar com
emuná o seu domínio e agradecer a Hashem é o propósito da Criação. Sem
isso, toda a Criação é supérflua."

Uma nova luz


O irmão religioso ficou atordoado.
Ele compreendeu que estava mais longe da verdade do que seu irmão não-
religioso, a quem ele antes desprezava.
Ele percebeu que o estudo da Torá e o cumprimento das mitsvót sozinhos
são extremamente incompletos sem emuná.
O autor continuou: "Agora você entende como o seu irmão — que você
pensou estar tão distante de Hashem — está na verdade mais próximo de
Hashem, mesmo que você seja o religioso! Ele acredita que tudo acontece
para o bem e aceita tudo o que Hashem faz. Ele agradece a Hashem pelo
que tem e, assim, cumpre um dos principais objetivos da criação —
reconhecer o Criador! Você pode ser um judeu ortodoxo, mas não vive sua
emuná como seu irmão. Sempre que as coisas não acontecem a seu modo,
você reclama e fica deprimido. Mesmo que você esteja acostumado a dizer
"graças a Deus", nunca está feliz com o que lhe cabe na vida. Como
resultado, você não está vendo a questão central da Criação — reconhecer
e agradecer ao Criador - e por isso é que você tem dinim, julgamentos
severos, sobre a sua cabeça o tempo todo."
Como se uma forte luz iluminasse a escuridão, o irmão religioso começou a
ver um novo mundo revelado diante de seus olhos.
Ele perguntou: "Rav Arush, por favor, me ajude a entender. E quanto a
desrespeitar o Shabat, não rezar ou não colocar tefilin e todas as
transgressões às mitsvót? Não são as mitsvót que formam a fundação da
emuná? Entendo que os agradecimentos do meu irmão a Hashem são
importantes, mas e o resto das mitsvót? Como alguém pode ignorar o fato
de que ele vai contra a vontade de Hashem quase o dia inteiro?"
"Hashem é paciente", respondeu o autor. "Como seu irmão despertou para
a dimensão mais profunda da emuná — agradecer a Hashem e aceitar com
amor tudo o que Ele faz —, ele um dia alcançará a dimensão exterior da
emuná; cumprir as mitsvót. Hashem não espera que uma pessoa se torne
Moisés em um dia. Ele tem paciência, e vale a pena esperar pelo retomo do
seu irmão ao judaísmo ortodoxo. Em breve você verá como a emuná do seu
irmão o conduzirá ao alegre cumprimento da Torá. Visto que seus primeiros
passos se baseiam em emuná e gratidão — e não em medo de punição ou
outro motivo interesseiro —, seus próximos passos de retorno a Hashem o
levarão ao cumprimento das mitsvót e à sua completa teshuvá."
"Mas você", adicionou o autor, falando diretamente ao coração do irmão
religioso, "como judeu ortodoxo, poderia facilmente ter alcançado um alto
nível de emuná, já que as mitsvót iluminam a alma com a luz da fé. A falta
de emuná de um religioso mostra que seu cumprimento das mitsvót é
mecânico, pois seguir as leis da Torá com a intenção apropriada conecta a
pessoa à luz da fé. É como alguém que dispõe de um carro da companhia
mas não o usa e, consequentemente, não chega ao seu destino. Por outro
lado, seu irmão é como alguém que chegou ao destino sem o benefício do
carro. Qualquer patrão puniria o empregado que não usa o carro. Do
mesmo modo, você vem passando por momentos difíceis na vida - para
despertá-lo de seus conceitos equivocados. Se você adiciona emuná ao seu
estudo de Torá e à prática das mitsvót e agradece a Hashem por tudo, verá
como sua vida passará de amarga a superdoce, quase imediatamente!"

A história dos dois irmãos pode nos ajudar a restabelecer prioridades e a


entender que a emuná é o objetivo da nossa jornada na Terra.
Aprendemos também que não podemos julgar o próximo com base em
aparências superficiais.
Por outro lado, algumas pessoas cometem o grave erro de acreditar que,
com emuná, não precisam cumprir as mitsvót.
A emuná não pode ser completa sem o cumprimento das mitsvót.
Devemos, então, cumprir as mitsvót e estudar Torá com a intenção de
reforçar nossa emuná; assim, usamos o "carro da companhia" com a
finalidade correta.

Mantendo uma perspectiva clara e otimista


A fim de alcançar o nível de emuná segundo o qual tudo é para o bem,
devemos aprender que nosso caminho na vida é predeterminado por
Hashem.
Viemos a este mundo para cumprir uma missão e realizar um ticún.
Se reconhecemos o fato de que cada acontecimento na vida é o resultado
da Providência Divina — intervenção e orientação pessoal de Hashem
podemos sempre estar felizes com a nossa porção, seja ela aparentemente
boa ou ruim.
Quando a vida é um mar de rosas, certamente temos um grande motivo
para nos alegrar com a Providência Divina de Hashem e para agradecer-
Lhe, pois Ele é a fonte de todas as nossas bênçãos.
Entretanto, quando a vida parece triste e tudo parece dar errado,
precisamos lembrar que nossas dificuldades são o produto da mesma
Providência Divina amorosa do Criador.
As dificuldades da vida são degraus que nos levam ao destino que Hashem
predeterminou para o beneficio de cada um de nós.
Em várias etapas da vida, passamos por testes e atribulações.
Às vezes, nosso caminho personalizado nos coloca em contato prolongado
com certas pessoas que nos causam dor e sofrimento, como um patrão,
professor, vizinho, chefe ou sogro desagradável.
Muitas vezes não há a possibilidade de evitar o indesejável.
Contra a nossa própria vontade e por nenhuma razão aparente, nos
deparamos periodicamente com cruéis desafios físicos, emocionais,
interpessoais e financeiros.
As dificuldades e os testes da vida muitas vezes nos pegam despreparados
e desprevenidos, atrasando e alterando completamente nossos planos.
Como não conhecemos nosso ticún, as dificuldades da vida são
responsáveis por nos confundir, deixando a falsa impressão de que a vida
está acabada.
Porém, sempre que confiamos na emuná de que nenhum acontecimento é
casual - mas sim o resultado da Providência Divina de Hashem e da Sua
supervisão pessoal da nossa vida -, mantemos uma perspectiva clara e
otimista, não importa a dureza dos nossos testes.
Com emuná, nunca ficamos confusos ou desorientados.
Compreendemos que Hashem está fazendo tudo para o nosso bem, para
facilitar o desenvolvimento de uma relação mais próxima e significativa
entre nós e Ele.

Ninguém lhe perguntou


Se precisamos superar testes em tempos difíceis, também podemos aceitá-
los com a emuná de que tudo acontece para melhor.
A emuná nos faz ser feliz e nos permite entender a mensagem particular de
Hashem a cada um de nós.
Mesmo quando não conseguimos entender a mensagem de Hashem,
devemos aceitar as circunstâncias atuais alegremente, pois essa aceitação
é, em si, um elevado serviço a Hashem.
O Código da Lei Judaica determina (Shulchan Aruch, O.H. 222:3):
"É obrigatória a recitação de uma bênção sobre uma coisa ruim de modo
sincero e intencional da mesma maneira como se recita uma bênção sobre
uma coisa boa, já que, para os servos de Hashem, o "ruim" é para seu
beneficio e alegria, para fazê-los aceitar com amor tudo o que Hashem
determina."
Não podemos nos esconder das dificuldades da vida; ninguém nos pergunta
se estamos preparados para passar por testes e atribulações — eles
aparecem de qualquer modo.
No entanto, temos a livre escolha de como lidar com situações difíceis.
Feliz é a pessoa que aceita os testes da vida com emuná, pois eles existem
para o nosso bem.
Essa perspectiva positiva garante que a situação difícil brevemente se
reverta.
Sem emuná, a pessoa fica amarga, deprimida e praticamente derrotada.
Amargura e mau-humor são como ímãs para atrair mais problemas, D'us
nos livre.

Tranquilidade genuína
A Torá exalta a tribo de Issachar (Gênesis 49:15): "E viu que o descanso
era bom e a terra deleitosa. E sujeitou seu ombro à carga, servindo como
tributo."
O santo Rebe Yitzchak de Varka comentou sobre o versículo acima: "E
sujeitou seu ombro à carga — o termo "sujeitar" neste trecho tem uma
conotação positiva, significa tolerância, como quando alguém
pacientemente suporta tudo o que acontece na vida - o oposto de
impaciência e intolerância."
Somos capazes de suportar pacientemente qualquer dificuldade quando
acreditamos que tudo vem de Hashem e que tudo é para o bem.
Uma resistência paciente, derivada da emuná, abre o caminho para a
verdadeira tranquilidade, que por sua vez significa uma existência
despreocupada, serena e feliz.
Com emuná, evitamos incontáveis desgastes emocionais.
Sem emuná, este mundo se torna um purgatório pior que o próprio
purgatório.
Nossos sábios nos ensinam que os perversos são testados por doze meses
no purgatório; quem não tem emuná, porém, se condena a décadas de
tortura em vida.
Amargura, desespero e descontentamento são como queimaduras na alma;
em muitos aspectos, uma queimadura na alma é muito mais aguda que
uma queimadura no corpo.
Queimaduras corporais se curam com o tempo, ao passo que queimaduras
emocionais e espirituais levam a discussões e brigas, raiva, preocupação,
desespero e depressão — tudo por causa de falta de emuná!

Felicidade — o início da escolha


Deparamo-nos com escolhas em todos os momentos da vida.
A maioria das pessoas pensa que o processo de escolha começa ao se medir
as vantagens das opções disponíveis.
Na verdade, a escolha começa com algo muito mais básico: escolher se
seremos felizes com o que nos cabe na vida ou não.
O processo de escolha é composto de dois estágios: primeiro, escolhe-se
entre ser feliz e não ser feliz.
Ao escolher a felicidade, passa-se ao segundo estágio, que é pesar as
vantagens das opções disponíveis, o que fazer, como fazer e assim por
diante.
Escolher a felicidade?
Sim, a escolha - se queremos ser felizes ou não - é mesmo nossa.
Surpreso?
Não fique.
Se não fazemos a escolha inicial de ser feliz com a nossa porção na vida,
não podemos analisar as opções com clareza.
Por quê?
Tristeza e depressão destroem a clareza de pensamento e, portanto, nos
roubam a livre escolha.
Pessoas deprimidas são letárgicas e ineficientes, e realizam com muita
dificuldade as mais simples tarefas.
Hashem não concede Sua Presença Divina a pessoas depressivas e
desesperadas.
Perder a assistência Divina torna praticamente impossível o poder de tomar
boas decisões.

Felicidade no cotidiano
Quando estamos felizes com o que recebemos da vida, podemos nos
assegurar de que pelo menos o primeiro estágio de nossas escolhas é bem-
sucedido.
Vemos vários exemplos de pessoas à nossa volta que, por nenhum motivo
aparente, não estão felizes com sua porção na vida.
Se você lhes perguntar por que não estão felizes, elas provavelmente não
conseguirão dar uma resposta conclusiva.
Na maioria dos casos, essas pessoas não estão certas sobre seu caminho e
cultivam um sentimento inoportuno e constante de que algo está faltando.
Basicamente, pessoas assim não têm certeza de que estão fazendo as
escolhas certas.
Conforme o que dissemos até agora, quando alguém não está satisfeito
com a vida, fica propenso a fazer escolhas erradas constantemente.
Escolhas adequadas decorrem de uma mente clara, o que por sua vez é
consequência da felicidade.
Por isso, o pré-requisito para uma vida direcionada e significativa, livre de
erros desastrosos, é a escolha de sermos felizes com a nossa porção.
Uma vez que essa opção inicial é feita, aumentamos as chances de sucesso
quanto às nossas escolhas nos campos espiritual e material.
Não importa o que estamos fazendo — no trabalho, na escola ou em casa -,
se decidimos ser feliz, dominamos os inoportunos pensamentos de
descontentamento, de que algo nos falta.
Se estamos felizes com a nossa situação atual, repelimos a depressão e a
confusão.
A inclinação para o mal constantemente tenta introduzir pensamentos de
arrependimento e descontentamento em nosso coração, como por exemplo:
• "Como eu gostaria de ter um trabalho diferente..."
• "Como eu gostaria de ter me casado com outra pessoa..."
• "Como eu gostaria de morar em outra cidade..."
A lista de exemplos é interminável, como você sabe a partir da própria
experiência.
Porém, ao escolhermos ser feliz, evitamos as armadilhas da confusão,
decepção e depressão.
Mantemos a clareza de pensamento que nos permite fazer as boas escolhas
que depois aumentarão a nossa satisfação na vida.

Aspirações — a fórmula para o sucesso


Desejar uma mudança de vida, como um novo trabalho ou uma casa nova,
mas não ter a possibilidade de colocar em prática essas decisões, é um sinal
claro de que Hashem quer que continuemos em nossa situação atual por
enquanto.
Nesse tipo de circunstância, devemos aceitar a vontade de Hashem com
alegria, sabendo que a condição atual será para o nosso bem no final das
contas.
No entanto, devemos expressar todas as nossas aspirações por meio de
reza e devotar uma hora especial para contar a Hashem nossas metas,
desejos e o curso de nossa vida.
Quando passamos uma hora por dia desabafando com Hashem, podemos
passar o resto do dia em estado de alegria.
Se você tem a opção de melhorar a vida, sem dúvida siga em frente!
Mas se você vê que não tem opções agora e não pode implementar o que
gostaria, acredite que Hashem quer que você continue com a sua estrutura
atual.
Aceite a orientação de Hashem com alegria, com a emuná completa de que
Ele está fazendo o melhor por você.
Por outro lado, continue rezando pelo que você quer.
Mesmo com relação a aspirações espirituais, devemos aceitar a nossa
porção alegremente!
Então, quando não avançamos espiritualmente o quanto gostaríamos,
devemos pedir ajuda a Hashem e contar-Lhe nossas aspirações.
Enquanto isso, precisamos aceitar nossa situação atual.
Eventualmente, por meio de reza constante, Hashem nos concederá o nosso
desejo.
Portanto, não fique desanimado quando procura aprender mais e não
consegue, ou quando tem dificuldade de superar um hábito, um traço
negativo de personalidade ou um desejo material.
Tente o melhor e peça a assistência Divina de Hashem.
Em suma, aqui está a fórmula para o sucesso:
1. Fale com Hashem diariamente e peça-Lhe ajuda para realizar as suas
aspirações.
2. Tente o melhor no que estiver fazendo.
3. Aceite sua situação atual alegremente e com amor.
Você ficará surpreso em ver como pode realizar seus desejos rápida e
completamente — muitas vezes além das suas melhores expectativas —
implementando a fórmula acima em todos os aspectos de sua vida.

Por que Hashem não me deixa prosperar?


Muita gente, especialmente os que estão ficando religiosos, faz a seguinte
pergunta: "Por que Hashem não me deixa prosperar? Quero me aproximar
Dele. Quero aprender mais Torá e entender o que estudo. Quero abandonar
um mau hábito, como comer em excesso. Quero rezar com concentração,
livre de todo tipo de pensamentos alheios. Não estou conseguindo! Por que
o ganho espiritual é tão difícil?"
Não alcançar nossos objetivos espirituais é um tipo de atribulação, já que
nossa vida é certamente mais agradável quando sentimos o gosto do
sucesso, quando entendemos o estudo da Torá, superamos maus hábitos e
rezamos com fervor.
O sofrimento temporário de não cumprirmos nossas aspirações espirituais
também existe para o bem da alma, pelos seguintes motivos:
1. A falta de sucesso espiritual, não obstante nossos melhores esforços,
repara o período em que nos empenhamos pouco para servir Hashem.
2. Hashem demora em nos conceder sucesso espiritual, ou seja, em nos
elevar a outro nível, se nossa alma não é ainda forte o suficiente para
receber a intensa luz Divina do nível mais elevado.
3. Hashem atrasa nosso sucesso espiritual até que possamos
adequadamente anular nosso ego, para que o sucesso não leve à
arrogância.
4. Hashem muitas vezes atrasa o sucesso para nos encorajar a fazer um
segundo esforço, mais concentrado.
5. Sucesso espiritual atrasado é um teste de emuná.
Quando aceitamos nossa situação temporária com alegria e amor, sempre
fazendo teshuvá e esforço, rezando e estudando, nos tornamos recipientes
espirituais apropriados para receber a luz Divina de sucesso espiritual.

Caixa de banco ou sábio do Talmud?


Um conhecido estudioso contemporâneo do Talmud, pessoa virtuosa e de
caráter impecável que devotou a vida ao estudo do Talmud, de repente se
viu forçado a aceitar um emprego de caixa de banco.
Uma série de circunstâncias literalmente o coagiram a trocar sua cadeira
(no sagrado hall — talvez tirar) de estudo de Torá por uma cadeira giratória
atrás de um vidro.
Em seu primeiro dia de trabalho, o sábio analisou o estranho e impessoal
ambiente à sua volta, esfregando os olhos, perplexo: "Como vim parar
aqui? O que estou fazendo aqui? Por que estou cumprindo uma tarefa tão
mundana e pouco satisfatória, em vez de estar estudando a minha querida
Torá?"
Ele deixou as questões de lado e decidiu pensar positivo a todo custo.
Logo ele descobriu que podia facilmente cumprir suas obrigações e ao
mesmo tempo fazer uma introspecção espiritual.
"Não estou aqui por acaso" ele refletiu, "Hashem certamente projetou essa
mudança em minha vida pelo meu próprio bem. Ou eu tenho uma
retificação espiritual a fazer, ou alguma missão especial a cumprir aqui no
banco - ou as duas coisas!"
O caixa/sábio não se permitiria cair no desespero, embora não estivesse
fazendo o que queria fazer.
Ele não tentou evitar ou negar sua realidade, nem ficou com raiva de
Hashem ou de si mesmo.
Ele fez o que tinha de fazer, e da melhor maneira possível.
No horário de almoço, em vez de socializar com seus colegas de trabalho,
ele encontrava um canto silencioso na sala dos empregados para comer um
sanduíche trazido de casa e estudar uma página do Talmud.
Nos minutos finais do intervalo, ele fazia, em prantos, uma oração a
Hashem, pedindo Sua compaixão e a possibilidade de retornar ao estudo de
Talmud em tempo integral.
Após desabafar por alguns minutos, ele podia realizar seus deveres
alegremente pelo resto do dia.
Semanas e meses se passaram.
O caixa/sábio estava firme em sua emuná, resignação e reza.
Milagrosamente, os problemas e as circunstâncias que o fizeram aceitar o
emprego de caixa se reverteram e ele logo conseguiu reassumir seu lugar
no estudo da Torá.

O motorista de ônibus
Aqueles que vivem com a emuná de que tudo é para o bem são felizes e
confiantes.
Essas pessoas não suspeitam que Hashem as esteja levando pelo caminho
errado.
É como se fizessem uma viagem interestadual de ônibus.
Elas têm certeza de que o motorista sabe dirigir o ônibus e irá escolher a
melhor rota.
Sem nada com o que se preocupar, ficam livres para relaxar, olhar pela
janela e aproveitar cada minuto da viagem.
Elas chegam alegremente ao destino e realizam suas tarefas com vigor.
Aqueles que não têm emuná são como os passageiros nervosos daquele
ônibus.
Como "motoristas do banco de trás", eles pensam que podem dirigir o
ônibus melhor que o verdadeiro motorista.
Eles também pensam que são capazes de escolher uma rota mais rápida e
curta.
Frustrados, eles tentam dirigir o ônibus sentados na fileira 12.
Cada minuto passa com amargura e frustração, pois eles têm certeza de
que o motorista não sabe o que está fazendo ou aonde está indo.
Preocupam-se se o ônibus está indo para o oeste em vez de ir para o leste.
Pensam que o motorista está indo muito rápido, ou muito devagar.
Esses mesmos passageiros preocupados sofrem um grande estresse
emocional porque não têm fé no motorista.
Chegam ao destino atormentados e completamente desgastados.

Vamos parar por um instante e ponderar a profunda diferença entre os dois


tipos de passageiros do exemplo do ônibus.
Ambos pagam o mesmo preço pela passagem, viajam no mesmo ônibus e
chegam ao mesmo destino ao mesmo tempo.
Porém, o primeiro tipo de passageiro chega ao destino com alegria e com a
saúde emocional perfeita, ao passo que o segundo tipo está uma pilha de
nervos.
Que tipo de passageiro você prefere ser?
Com emuná, chegamos ao nosso destino na vida com tranquilidade,
segurança e felicidade, preparados para encarar qualquer desafio que
apareça em nosso caminho.
Sem emuná, sempre que uma pessoa pensa estar dirigindo o ônibus — ou
seja, no controle do próprio destino -, fica propensa a sofrer de estresse,
ansiedade, frustração, desespero e colapsos nervosos.
Algumas pessoas se recusam a aceitar o fato de que todos temos de passar
por ticunim, as retificações da alma que Hashem cria para o nosso
beneficio.
Pessoas assim estão sempre reclamando sobre seu sofrimento insuportável.
E elas estão certas, pois, sem emuná, a vida é certamente amarga e
intolerável.
Ninguém pode escapar do fato de que a vida nem sempre segue os
contornos de nossos planos e expectativas pessoais.
As inconstâncias inesperadas com as quais cada um de nós deve lidar nos
conduzem ao nosso caminho de ticún.
Para que reclamar, chorar e esbravejar quando podemos facilmente nos
fortalecer com emuná e ter uma vida agradável?
Tudo o que temos de fazer é confiar no "motorista do ônibus", nosso
querido Criador, que habilmente conduz o universo como um todo e cada
um de nós em particular.
Assim como o passageiro confiante, quanto mais fortalecemos nossa emuná
de que Hashem faz tudo para o nosso bem, mais felizes chegaremos ao
nosso destino.

Paciência vale a pena!


Quem tem uma forte emuná e vive grandes dificuldades soa algo assim:
"É desse jeito que Hashem quer as coisas! Tudo acontece para o bem!"
Enquanto isso, essa pessoa mantém um olhar positivo e lida com seus
problemas da melhor maneira possível, usando as ferramentas que lhe
estão disponíveis e continuando a rezar e a expressar suas esperanças e
aspirações.
Quando estamos insatisfeitos, temos de fazer um esforço de alta prioridade
para fortalecer nossa emuná.
Por quê?
Se reforçamos a emuná e internalizamos a crença de que Hashem governa
o mundo e faz tudo para o bem, a vida se torna um céu na Terra.
O contrário também vale: o purgatório é a amargura do descontentamento
que corrói a alma como ácido espiritual — e é o resultado da falta de
emuná.
Surpreendentemente, a falta de emuná se torna a pior punição em vida.
O Rabino Menachem Rekanati, famoso cabalista italiano do século 14 da
e.c., era um simples comerciante até os 80 anos.
Ele sonhava dedicar a vida ao estudo da Torá, mas nunca teve a
oportunidade.
Apesar das circunstâncias, ele continuava a clamar diariamente a Hashem
por meio de reza pessoal.
Por décadas, ele implorou a Ele pelo privilégio de poder imergir-se
totalmente no mar da Torá.
Depois de seu aniversário de 80 anos, um tsadik o visitou em sonho e lhe
deu um cálice dourado para beber.
Quando acordou, ele descobriu que a sabedoria da Torá lhe havia sido
revelada; durante os próximos dois anos, ele escreveu cerca de quarenta
textos de complexos comentários sobre a Torá e a Cabalá!
Se precisamos dispor de uma grande dose de emuná em períodos de
insatisfação — quando não temos nenhuma grande dificuldade -,
certamente temos de contar com a emuná para superarmos momentos de
crise.
Se buscamos sentido em nossa situação atual e cimentamos a crença de
que tudo é para o melhor, não apenas transformamos a tristeza em
contentamento, como apressamos a chegada de tempos mais felizes.
Só conseguimos alcançar a verdadeira emuná por meio da introspecção de
uma hora por dia, em que confessamos nossas más ações a Hashem e
avaliamos nossa emuná.
Devemos nos analisar e perguntar: "Estou colocando minha emuná em
prática em todas as etapas da minha rotina?"
Com perseverança, chegaremos ao nível de emuná segundo o qual tudo é
para o bem, como veremos detalhadamente mais adiante neste estudo.

Liberdade da mente
A mente de uma pessoa feliz é livre para procurar e entender as mensagens
que Hashem instila em todo nosso ambiente.
Sem as reclamações das emoções negativas, podemos discernir mais
facilmente aonde Hashem está nos levando.
Mesmo que não entendamos completamente o que nos acontece, com
emuná podemos rezar e pedir a Hashem que nos abra os olhos e nos ajude
a fazer as escolhas certas.
Compreender as mensagens de Hashem - realizando um despertar
espiritual - e aprender a corrigir o que precisa ser corrigido são resultados
da emuná de nível superior, o terceiro estágio da nossa busca por emuná.
Mas não podemos passar ao próximo estágio até termos solidificado nossa
posição no segundo estágio - a emuná de nível intermediário.
Não podemos fazer boas escolhas a partir da emuná de nível superior até
que internalizemos primeiro a nossa emuná de nível intermediário, isto é, a
crença de que tudo o que Hashem faz é para o bem.
Neste nível, devemos aceitar os desafios da vida com alegria.
Só então estaremos prontos para entender a mensagem contida em cada
desafio.
Não se deve tentar entender as mensagens de Hashem sem uma boa
prática da emuná de nível intermediário.
Sem acreditar que Hashem faz tudo para o bem, não se pode chegar a uma
conclusão verdadeira.
A verdade vem da mente livre e clara, que por sua vez vem da felicidade de
saber que Hashem faz tudo para o bem.
Portanto, precisamos da emuná de nível intermediário para evitar
conclusões equivocadas sobre as mensagens Divinas.
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Licutei Moharan 11:10) que felicidade
e despreocupação levam à liberdade (da mente) que facilita a verdadeira
tranquilidade mental.

Resumo da seção dois


Com a emuná de nível intermediário — a fé de que Hashem faz tudo para o
bem combinada com o constante agradecimento a Hashem — aproveitamos
uma existência agradável e tranquila.
Sem aproveitar os acontecimentos da vida como oportunidades para o
crescimento espiritual e pessoal, e sem introspecção constante, manter a
emuná de que Hashem faz tudo para o bem é complicado.
Somente uma firme emuná de nível intermediário pode garantir felicidade,
serenidade e superação dos momentos difíceis da vida.
O aspecto positivo de cada atribulação é que as dificuldades nos motivam a
procurar Hashem.
Nosso propósito na vida é busca-Lo e conhecê-Lo com todas as nossas
faculdades mentais e espirituais.
Espero que aprender sobre a emuná de nível superior nos leve à completa
emuná, o que nos permitirá cumprir nossa missão na Terra e alcançar a
retificação de nossa alma neste mundo e no próximo.

Seção três - Emuná de nível superior:


Tudo o que Hashem faz tem um propósito específico
O que Hashem quer de mim?
O terceiro nível de emuná é a crença de que Hashem faz tudo com uma
finalidade específica e que cada ação Dele contém uma mensagem especial,
para nos ajudar a cumprir nossa tarefa no mundo.
Ademais, a emuná de nível superior mostra que Hashem constantemente
nos manda estímulos, oportunidades de fortalecermos nossa conexão com
Ele.
Tudo o que Hashem faz tem um propósito.
Portanto, quem tem a emuná de nível superior está sempre se
perguntando: "O que Hashem quer de mim?"
O raciocínio é lógico e direto, do seguinte modo:
• Observação: Hashem me expõe a um certo acontecimento ou experiência
para transmitir uma mensagem ou me ensinar algo.
• Interpretação: Devo fazer o melhor para relacionar a mensagem de
Hashem a algo em minha vida que precise de reforço ou aperfeiçoamento.
• Execução: Ou eu preciso corrigir um mau-hábito, ou me redimir por uma
transgressão, ou fortalecer meu serviço a Hashem em uma determinada
área, ou acordar do meu sono espiritual, e assim por diante.
Os três estágios - observação, interpretação e execução - podem ajudar
qualquer um — cada pessoa conforme seu próprio nível espiritual — a
compreender as mensagens de Hashem e a ajustar o que precisa ser
melhorado.
A emuná é a mensagem geral que conecta todos os eventos, experiências e
estímulos da vida.
O desejo fundamental de Hashem em Seu universo é nos levar a ter
emuná.
Suas ações, portanto, nos induzem a aprender a ter emuná.
Devemos procurar a mensagem — a "sabedoria Divina" — contida nas
experiências, criadas para nos aproximar da completa emuná.
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Licutei Moharan 11:1) que todos
devemos fazer um esforço contínuo para encontrar a sabedoria Divina em
todas as coisas e para nos conectarmos a ela.
Assim, a sabedoria Divina de uma criação ou de um evento ilumina nossa
mente e nossa alma, nos aproximando de Hashem.
Aquele que não observa nem se conecta à sabedoria Divina dos
acontecimentos se assemelha a Esaú, que desprezou seu direito de
primogenitura.
O Rei Salomão zombou do fracasso do tolo em enxergar a sabedoria Divina
em tudo (Provérbios 18:2): "O tolo não deseja entendimento."
Ou seja, o tolo não assimila nenhuma das mensagens de Hashem e, por
isso, pensa que os acontecimentos de sua vida são ocasionais, sem nenhum
significado específico.
Não enxergar a sabedoria Divina é a pior forma de cegueira.
Basicamente, todo este estudo gira em torno do princípio da busca pela
sabedoria, ou mensagem, Divina em tudo o que nos cerca e em tudo que
nos acontece.
Como primeiro passo em direção à observação efetiva que constitui a
emuná de nível superior, precisamos internalizar o seguinte princípio
talmúdico (TB, Tratado Shabat 55a): "Não há atribulação sem
transgressão."

Não há atribulação sem transgressão


Esse princípio é a base da emuná, do judaísmo e de todo o mundo.
Nachmânides, o conhecido cabalista e sábio do século 13 da e.c., escreve
em seu comentário da Torá (parashat 130: "A pessoa não ganha uma
porção na Torá até acreditar que tudo na vida é um milagre! Nada é
produto da natureza ou do curso natural das coisas, seja em casos
particulares ou em geral. A recompensa para quem cumpre as mitsvót é o
sucesso no final, enquanto a punição para o transgressor é a eventual
condenação, tudo por meio da lei Divina."
Basicamente, devemos primeiro acreditar que tudo na vida é resultado da
ordem do Criador para depois podermos acreditar que não há atribulação
sem transgressão.
Sem essa emuná, perdemos a conexão autêntica com o verdadeiro
judaísmo.
Aqueles que têm uma crença geral na Providência Divina, mas não atribuem
os seus problemas — mesmo os menores — a uma transgressão, cometem
um dos erros a seguir:
1. Pensar que Hashem atormenta Suas criações por nenhuma razão, ou que
Hashem criou o mundo para que Suas criações sofressem, D'us no livre.
O Rei David afirmou (Salmos 145:17): "Justos são todos os caminhos do
Eterno e repletos de magnanimidade todos os Seus atos".
Ele também declarou (ibid. 92:16): "para proclamar que reto é o Eterno.
Ele é a minha Rocha, que não dá lugar à injustiça"
Aquele que acredita que Hashem atormenta Suas criações tem uma noção
distorcida da emuná.
2. Não acreditar realmente na Providência Divina, mas pensar que os
problemas são frutos do destino ou do curso natural das coisas e, muitas
vezes, culpar ou outros ou a si mesmo pelas dificuldades na vida.
Essa concepção é contrária à emuná.
Podemos concluir logicamente que a pessoa que realmente acredita na
Providência Divina — ou seja, que tudo vem de Hashem — deve acreditar
que toda tristeza, problema, dificuldade e deficiência na vida vem de
Hashem!
Saber que Hashem faz tudo com um propósito específico — e que Ele é
bondoso, justo e compassivo — nos leva à categórica conclusão de que as
nossas transgressões são os motivos do nosso sofrimento.
Neste ponto, você provavelmente quer perguntar: "Se Hashem é tão bom e
compassivo, por que me pune por minhas transgressões?"
Boa pergunta; Hashem sabe que as transgressões prejudicam terrivelmente
a alma.
Uma alma maculada diminui a habilidade de a pessoa receber a luz Divina
de Hashem e a previne de herdar o seu lugar ideal no mundo vindouro.
Por isso, Hashem nos manda as atribulações que são capazes de purificar
nossa alma.
As dificuldades da vida não são punições, mas retificações da alma vindas
de um Pai amoroso e criadas para o nosso benefício e para estimular
ganhos espirituais.
A crença de que não há atribulação sem transgressão nos conduz à
felicidade, especialmente quando aproveitamos a oportunidade das
dificuldades da vida para iniciar um processo de busca espiritual que leva a
uma espiritualidade melhorada e uma maior aproximação de Hashem.
Alcançamos a verdadeira e completa emuná se enxergamos as dificuldades
da vida como oportunidades de crescimento.

Chefe ou empregado?
Uma pessoa dedicada realiza introspecções espirituais e confessa suas más
ações diariamente a Hashem.
Quem não se preocupa com buscas espirituais não pode ser chamado de
servo de Hashem, já que vive com a sensação de estar no comando.
Um chefe não precisa fazer relatório de suas ações a ninguém.
Ele faz o que quer na hora que quer.
Não se pode ser chefe e subalterno simultaneamente.
O amor e a devoção motivam o servo mais louvável.
O medo de punição motiva o servo menos louvável.
Se o "chefe" pensa que pode fazer o que quiser sempre que quiser, ele não
sente que há alguém por perto que possa puni-lo.
Sem temer punição, ele nem chega a atingir o nível espiritual do pior
empregado.
Mesmo que tenhamos apenas o mínimo de temor à punição, tememos as
consequências de nossos erros e, por isso, fazemos um relatório diário de
nossas transgressões, confessamos a Hashem e pedimos o Seu perdão.
Também rezamos por assistência Divina para evitar cometer erros no
futuro.
Um discípulo principiante ainda não desenvolveu o amor e o respeito pelo
mestre que levam ao serviço dedicado.
Ainda assim, ele sabe que será recompensado por bom comportamento e
punido por preguiça e negligência.
Do mesmo modo, a emuná inicial começa com a crença em recompensa e
punição: tudo o que acontece na vida — bem ou mal, sucesso ou fracasso,
prazer ou dor — vem de Hashem.
A emuná de nível inicial começa com a crença em recompensa e punição,
que por sua vez é o resultado do reconhecimento de que não há atribulação
sem transgressão.
E este último é o pré-requisito da emuná básica.
Todos desejam ter sucesso e uma vida prazerosa.
As transgressões desequilibram o jogo da felicidade, já que criam
problemas e sofrimento.
Portanto, uma dose diária de busca espiritual, confissão de erros e esforços
para melhorar nos poupa de muita tristeza.
Se permanecemos em estado de sono espiritual e agimos como chefe e não
como servo, as dificuldades da vida — resultado de nossas próprias
transgressões — tornam-se ainda mais insuportáveis.
Aquele que atribui as dificuldades da vida a algo ou alguém e não às suas
próprias transgressões está a anos luz de distância da mínima fé em
Hashem!
Pessoas assim não se responsabilizam por suas ações, nunca fazem
teshuvá, aprofundam-se no sono espiritual e estão, portanto, bem distantes
de Hashem.
Irát Shamaim, o temor a Hashem, começa com o reconhecimento espiritual
básico de que os problemas resultam de erros.
O medo básico de punição leva ao elevado medo de decepcionar nosso
querido e compassivo Pai quando fazemos algo contra a Sua vontade, D'us
no livre.
O Rebe Nachman de Breslav explica (Licutei Moharan 1:15) que os medos
de uma pessoa decorrem de suas transgressões, que se materializam em
vários estímulos que as amedrontam, provocando, assim, buscas espirituais
e arrependimento.
Quem teme Hashem não precisa temer mais nada.

As causas do sofrimento

Tristeza
A primeira e mais comum causa de sofrimento é a tristeza.
Nada chama julgamentos severos como as reclamações e a insatisfação de
alguém com relação ao que lhe cabe nessa vida.
A Torá cita enfaticamente a tristeza como a causa das maldições da vida
(Deuteronômio 28:47): "Em troca de não teres servido ao Eterno, teu Deus,
com alegria e com bondade de coração..."
Os tristonhos protestam: "Abundância? Do que você está falando? Olhe os
meus problemas!"
Eles desconsideram os milhares de bênçãos diárias da vida e se concentram
nas dificuldades, tornando a vida ainda mais sofrida.
Hashem sempre trata as pessoas com compaixão e misericórdia.
Pessoas insatisfeitas negam que a Providência Divina de Hashem seja
compassiva e misericordiosa.
Rejeitar Hashem, ou não ter emuná, é um grande antecedente de
sofrimento e fracasso.
Por quê?
Quando uma pessoa fica insatisfeita com a justiça de Hashem, o tribunal
celeste abre o dossiê da sua vida para analisar de perto se ela realmente
merece as atuais dificuldades.
A inspeção das dívidas e dos créditos de uma pessoa sempre mostra que
ela na verdade merece problemas piores e menos bênçãos do que tem.
Hashem é sempre "pego" por Sua compaixão excessiva e misericórdia -
muito mais do que requer a justiça.
As reclamações da pessoa não são apenas desconsideradas, como
provocam novas necessidades de julgamento.
O Rei David passou por inúmeras dificuldades e, não obstante, reconheceu
a misericórdia e a compaixão de Hashem em cada etapa da sua vida.
Ele implorou (salmos 143:2): "Contra Teu servo não ponderes em
julgamento, pois criatura não há que diante de Ti se justifique."
O sofrimento deveria provocar uma busca espiritual, já que não há
atribulação sem transgressão.
Ainda assim, antes da busca espiritual, nos perguntamos se estamos
contentes com a nossa porção na vida.
A agonia prolongada é muitas vezes resultado de transgressões cometidas
contra outro ser humano.
Aquele que causa dor a outra pessoa não pode ser perdoado pelos pecados
até que implore pelo perdão de sua vítima.
Enquanto as injustiças contra o próximo não são corrigidas, os julgamentos
severos continuam.

Não cumprir as mitsvót


Situações difíceis são muitas vezes indicações de que ou estamos fazendo
algo proibido pela Torá, ou não estamos cumprindo alguma das ações
obrigatórias da Torá.

Arrogância
As atribulações também podem ser um indício de que não se acredita que
"não há outro que não Hashem" (Deuteronômio 4:35).
Hashem muitas vezes usa o sofrimento para desinflar egos inflados.
Frequentemente, a queda de uma pessoa é o resultado de sua própria
arrogância.
O Rei Salomão, o mais sábio de todos os homens, disse (Provérbios 16:18):
"O orgulho precede a destruição, e a arrogância vem antes do fracasso."
Geralmente, podemos encontrar um sinal de arrogância e complacência
antes de uma crise.
Hashem é particularmente compassivo quando "diminui" nosso ego, pois
uma pessoa arrogante não pode se aproximar Dele.
Os sábios do Talmud afirmam (TB, Tratado Sotá 5a): "O Santíssimo diz: 'O
arrogante e Eu não podemos viver no mesmo mundo.'"
Como resultado, Hashem retira Sua Presença Divina de onde há arrogância
e pessoas arrogantes.
De onde Hashem retira Sua Presença Divina, o sofrimento toma se
estabelece.
Olho por olho, dente por dente
Hashem frequentemente nos manda problemas que refletem as nossas
transgressões para nos mostrar por que estamos sofrendo.
Por exemplo, um motorista de taxi que violou o Shabat acabou com os dois
pneus furados e uma multa por excesso de velocidade no domingo de
manhã, fazendo com que ele perdesse a quantia exata que havia ganhado
naquele Shabat.
Ou o caso de um patrão que acusou injustamente um empregado de roubo
e que depois foi acusado pelas autoridades fiscais de fraudar seu imposto
de renda.
A política Divina do "olho por olho" certamente não é punição; é um método
Divino de educação.
Segundo nossos sábios, (ibid. 8b) "Uma pessoa é avaliada da maneira como
ela avalia os outros. Sansão perseguiu o desejo de seus olhos e, portanto,
perdeu os próprios olhos pelas mãos dos filisteus'; Absalão tinha muito
orgulho do próprio cabelo e acabou pendurado, preso pelos cabelos. Miriam
esperou uma hora por Moisés e, portanto, todo o povo de Israel esperou
uma semana por ela".
[Veja Juizes, capítulo 16. Sansão seguiu o desejo de seus olhos e escolheu
Dalila — uma adoradora de ídolos, traiçoeira e filha de uma nação inimiga
— e acabou perdendo os olhos pelas mãos do povo dela.]
[Veja Samuel II, capítulo 18. Absalão era vaidoso com seu cabelo, entre
outras coisas. Ele também se revoltou contra seu pai, o Rei David. Certa
vez, quando andava de mula, seu cabelo se enrolou nos galhos de um
carvalho. A mula continuou trotando e Absalão ficou pendurado pelo couro
cabeludo até a morte.]
[Veja Êxodo 2:4. Miriam se escondeu perto do Nilo para vigiar seu irmão
Moisés, que havia sido colocado dentro de uma cesta no rio e acabou sendo
descoberto pela filha do Faraó. Depois, quando Miriam contraiu lepra (veja
Números, capítulo 12), todo o povo de Israel esperou uma semana até que
ela se curasse]

Os sábios também ensinam (TB, Tratado Shabat 33a) que a difteria — uma
doença terrível que começa com uma bactéria gram-positiva no intestino e
culmina em na liberação da toxina que bloqueia a garganta — é resultado
da prática da difamação.
Em outro trecho (TB, Tratado Berachót 5b), O Talmud conta a história do
Rav Huna, cujos 400 barris de vinho azedaram: Os colegas do Rav Huna lhe
aconselharam a fazer uma busca espiritual e a ponderar por que Hashem
havia transformado seu vinho em vinagre.
Ele reagiu: "O que foi? Para vocês, sou suspeito de ter cometido algum
erro?"
Eles responderam: "O que foi? Hashem é suspeito de punir sem motivo?"
O Rav Huna respondeu: "Se alguém escutou que eu cometi um erro, que
ele venha e me diga!"
"Ouvimos falar que você não tem sido justo com seu inquilino fazendeiro, e
que você não lhe deu uma porção justa da colheita das uvas."
O Rav Huna protestou: "Meu inquilino me rouba! Então eu tomo essas
porções para mim."
Os rabinos comentaram: "Diz o ditado que 'ladrão que rouba ladrão tem
cem anos de prisão.'”
O Rav Huna reconheceu o erro e disse: "Tomo para mim a obrigação de me
redimir e devolver a justa parte do inquilino sobre a colheita."
O Rav Huna se comprometeu a fazer teshuvá e a retificar a injustiça, então
Hashem fez um milagre e transformou o vinagre em vinho novamente.
Segundo outra opinião do Talmud, o vinagre não voltou a ser vinho, mas o
preço do vinagre de vinho disparou e o Rav Huna teve um bom lucro.
De qualquer modo, vemos como a aceitação da justiça Divina reverte uma
situação de julgamento rigoroso à compaixão milagrosa.
O Rav Huna transgrediu com uma colheita de uvas e foi punido em seguida
por meio do próprio vinho.
Com mensagens assim, Hashem nos ajuda a entender o que precisamos
corrigir.
Rashi explica (Gênesis 37:2) como o episódio de José ilustra esse aspecto
da justiça Divina.
José contou ao pai três histórias difamatórias sobre seus irmãos.
Em cada caso, ele foi punido com medidas "olho por olho, dente por dente":
1. José disse que seus irmãos tinham comido a carne de um animal vivo;
em troca, os irmãos mergulharam a túnica de José no sangue de um
cordeiro abatido.
2. José disse que os filhos de Lea estavam chamando seus meios-irmãos, os
filhos de Bilcha e Zilpa, de escravos.
Em troca, ele foi vendido como escravo.
3. José disse que seus irmãos eram suspeitos de haver praticado sexo
proibido.
Em troca, ele mesmo foi acusado de manter relações proibidas com a
esposa do ministro egípcio Potifar.
Jacob ficou 22 anos fora de casa.
Sua ausência causava dor a seus pais, Isaac e Rebeca.
Jacob foi punido quando seu querido filho José desapareceu e foi dado como
morto por exatamente 22 anos!
Judá enganou seu pai, Jacob, ao mergulhar a túnica de José no sangue de
um cordeiro, dizendo que o irmão havia sido devorado por um animal
selvagem.
Em troca, a nora de Judá, Tamar, o enganou com um cabrito (veja Gênesis,
capítulo 38).
Simão aconselhou os irmãos a jogar José em um poço.
Consequentemente, Simão foi mantido preso no Egito
Os irmãos de José lhe causaram muito sofrimento.
Por sua vez, eles sofreram extremamente no Egito.

Pensamento, fala e ação


Segundo o Baal Shem Tov, a tristeza causada pelos filhos é proveniente de
uma mácula na neshamá, a parte da alma que corresponde ao pensamento.
Portanto, quando uma pessoa sofre por causa dos filhos, trata-se de uma
mensagem "olho por olho" que lhe ajuda a perceber que algo em seus
pensamentos precisa ser retificado.
Problemas com a esposa indicam uma mácula em ruach, a parte de alma
que corresponde à fala.
Portanto, quando um homem sofre com a esposa, trata-se de uma
mensagem que lhe ajuda a perceber que ele deve corrigir algo em sua fala.
Dificuldades financeiras indicam uma mácula em nefesh, a parte da alma
que corresponde à ação.
Portanto, quando uma pessoa sofre com problemas financeiros, trata-se de
uma mensagem que lhe ajuda a perceber que suas ações precisam ser
retificadas.

Os filhos de Hashem
Como Hashem nos chama "Seus filhos", problemas relacionados aos nossos
próprios filhos são provavelmente uma medida "olho por olho" que resulta
de alguma dor que causamos a Hashem, D'us nos livre.
Por exemplo, quando o filho de uma pessoa é desobediente, essa pessoa
provavelmente desobedeceu a Hashem.
Crianças insolentes são indícios de pais atrevidos e insolentes.
Em nossa busca espiritual, devemos atentar a como nossos próprios filhos
nos tratam, pois essa é uma indicação de como tratamos Hashem.
Ademais, devemos fazer um esforço concentrado para nos redimirmos de
nossos pecados contra nossos pais.
Como diz o velho ditado, "a maça não cai longe da árvore".
No final das contas, nossos próprios filhos nos tratam da mesma maneira
como tratamos nossos pais.

Contra ou complementar?
A palavra bíblica que descreve a esposa como parceira na vida é “kenegdo”
(veja Gênesis, 2:18).
Essa palavra significa "contra" e também "complementar".
A nação de Israel é como se fosse a "esposa" de Hashem.
Assim sendo, o modo como a esposa trata o marido é reflexo do modo
como o marido trata Hashem.
Uma esposa desrespeitosa é sinal de que o marido não respeita Hashem.
Uma esposa preguiçosa é sinal de que o marido é negligente quanto às suas
obrigações para com Hashem, e assim por diante.
De acordo com os sábios, quando um marido merece, sua mulher é uma
ajudante "complementar".
Mas quando ele não merece, ela fica "contra" ele — uma inimiga!
As ações do marido ditam o comportamento da esposa.
Segundo o pensamento judaico esotérico, a esposa é um espelho do marido
— nela, ele pode ver a si mesmo, seus traços de personalidade, seus pontos
fortes, suas fraquezas etc.
Além disso, o marido é como o sol e a mulher é como a lua — ela reflete a
luz dele.
Portanto, se ela é "pavio curto", ele deve corrigir seu problema com a raiva.
Quando ela não cumpre direito suas obrigações, ele com certeza não está
cumprindo suas obrigações para com Hashem.
Muitas das dificuldades de um casamento são indicações da falta de emuná,
da arrogância e do comportamento inapropriado do marido.

A "vida fácil" do mal


Hashem usa a política do "olho por olho" como uma ferramenta
educacional.
Desse modo, Ele ensina àqueles a quem ama que eles precisam se corrigir.
Conforme o Talmud (TB, Tratado Berachót, 5a), Hashem manda sofrimento
àqueles a quem ama porque deseja purificar-lhes a alma neste mundo, para
que possam ganhar um lugar elevado no mundo vindouro.
Algumas pessoas estão tão mergulhadas no mal que Hashem nem chega a
se incomodar com elas.
Em vez de lhes mandar atribulações às quais elas não dariam atenção e
com as quais não aprenderiam, Hashem lhes dá suas recompensas neste
mundo e elas perdem qualquer recompensa no mundo vindouro.
Os justos passam por rigorosas retificações da alma neste mundo e são
recompensados com êxtase eterno e gratificação no mundo vindouro.
As pessoas más que parecem ter uma vida fácil frequentemente desfrutam
de dinheiro, poder, fama ou outros confortos neste mundo, mas pagam caro
no outro mundo.
Não inveje pessoas que vivem despreocupadas.
Espiritualmente, elas estão se afundando em dívidas.
Este mundo é como um grande restaurante — depois que você come, tem
de pagar a conta.
Se você não paga neste mundo, será cobrada uma conta muito mais cara
no próximo.

Problemas de amor
Os problemas de amor são um tipo adicional de sofrimento criado
especialmente para os justos e devotos.
Dizem os sábios que se uma pessoa sofre, ela deve iniciar uma séria auto
avaliação e fazer teshuvá.
Se a auto avaliação tem um bom resultado, ela provavelmente foi
negligente quanto ao estudo de Torá.
Se foi diligente em seu estudo de Torá, seus sofrimentos são problemas de
amor.

O caminho do meio
A maioria das pessoas não pertence à "vida fácil" do mal, nem ao caminho
de atribulações dos justos.
A grande maioria de nós, "viajantes do caminho do meio", deveria se
lembrar de que não há tribulação sem transgressão.
Portanto, devemos nos treinar para enxergar o "olho por olho" em nossos
problemas para saber o que corrigir.
Quando percebemos o que fizemos de errado, podemos começar o processo
de teshuvá, que é dividido em quatro etapas: confissão a Hashem, remorso,
pedido de desculpas pelos erros e decisão de melhorar a partir daquele
momento.
Se entendemos a mensagem de Hashem e agimos, Ele não precisa mais
falar conosco em linguagem de atribulações!
Ninguém quer testes e atribulações.
Mas, quando eles chegam, são um bom sinal de que Hashem se importa
muito conosco.
Problemas são um sinal de que Hashem está nos chamando para chegar
mais perto.
Todos queremos retificar a alma, mas às vezes não sabemos
especificamente o que temos de fazer.
Por isso, devemos falar com Hashem e pedir que Ele ilumine nossa mente e
nossos olhos, assim: "Hashem, por favor me ajude a entender o que fiz de
errado. Tenha piedade e me explique por que estou sofrendo. Quero me
aproximar, melhorar e fazer com que o Você tenha orgulho de mim. Por
favor, me ajude!"
Orações sinceras e persistentes — falar com Hashem com as nossas
próprias palavras — raramente ficam sem resposta.
Eventualmente, Hashem nos mostrará exatamente o que temos de corrigir.
Se tentamos ao máximo entender as mensagens de Hashem, mas ainda
não entendemos por que passamos pelos problemas que temos atualmente,
precisamos recorrer à emuná e lembrar que Hashem faz tudo com um
propósito.
Eis uma sugestão de como falar com Hashem numa situação dessas:
"Hashem, meus problemas certamente não são casuais ou injustos. Acredito
e confio em Você com todo meu coração, mas, infelizmente, não entendo o
que fiz de errado para provocar isso (conte aqui o seu problema) e,
portanto, não sei como me redimir. Hashem, querido Pai, por favor, me
ajude a entender por que estou sofrendo. Por favor, me perdoe e tenha
compaixão. Não me afaste de Você! Por favor, me conceda a Sua graça
Divina e ilumine minha alma dolorida. Ajude-me a fazer a Sua vontade e a
corrigir o que precisa ser corrigido..."

Se apesar das rezas os problemas não desaparecem, devemos deixar nosso


intelecto de lado e confiar exclusivamente na avançada emuná de que
Hashem não apenas faz tudo para o bem, como age com propósitos
específicos, mesmo que não entendamos o que está acontecendo.
Aceitar nossas atribulações com amor e com o coração subjugado (em
oposição a um coração insolente e reclamador) invoca uma tremenda
compaixão Divina.
Muitas vezes, assim que realmente nos conformamos com nossos
problemas, eles desaparecem!
Aceitar nossos problemas com amor e com um coração subjugado é o
epítome da emuná completa.

Obstáculos
Há dois obstáculos que nos previnem de vencer com emuná as atribulações:
Primeiro, quando dizemos: "Não sou forte o suficiente para aguentar! Isso
vai me derrubar!"
Esse sentimento reflete uma falta de crença na nossa força interior e na
capacidade de tolerar o estresse.
A fim de superar esse obstáculo, devemos internalizar a vital lei espiritual
segundo a qual Hashem não nos dá testes e atribulações que não podemos
aguentar.
Segundo, quando dizemos: "Deixe-me viver em paz!" ou "Não quero lidar
com isso."
Esse é um pedido para viver sem teshuvá, retificações da alma, altos e
baixos ou tempestades.
Hashem quer que fortaleçamos nossa alma, mas não podemos fazer isso
sem passar por testes de vez em quando.
Apenas por meio dos testes e problemas que fundamentam a nossa emuná
é que conseguimos a verdadeira paz de espírito.
Tentar escapar das dificuldades da vida em vez de enfrentá-las as torna
ainda mais intoleráveis.
Hashem não desiste; Ele sabe o que temos de corrigir.
O fato de que não queremos nos retificar não significa que Hashem vai se
esquecer de aplicar o ticún necessário, seja nessa vida ou em uma outra
encarnação.
Os sábios advertem que qualquer dificuldade nessa vida é preferível a uma
outra encarnação.
Não podemos viver em estado de calma imaginária e alcançar as
retificações da alma ao mesmo tempo.
Todo nosso propósito na Terra é conseguir realizar o ticún.
Portanto, altos e baixos, dificuldades, testes e atribulações fazem parte da
batalha.
Não podemos decidir ficar do lado de fora deste mundo.
Quando nascemos, já entramos na "quadra".
Isso significa que temos de pegar a bola dos desafios da vida e correr com
ela em direção ao nosso objetivo.
Com emuná, retificaremos nossa alma e ganharemos o jogo.
A recompensa e o sucesso verdadeiros, tanto em esforços materiais como
em espirituais, vêm da emuná.
Aqueles que não estão dispostos a se empenhar para retificar a alma
sofrerão, no final, um conjunto pior de testes e atribulações.
Portanto, sempre que nos fortalecemos com emuná, reza e temor a
Hashem, tornamos a vida muito mais fácil.
Com a ajuda de Hashem, os próximos capítulos lhe mostrarão como aplicar
a emuná à nossa vida diária.

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 3

Capítulo 3 - Testes de emuná

Este mundo é uma "sala de aula" de emuná.


Visto que todo o propósito da vida é aprender a ter emuná, então
literalmente tudo que nos acontece ao longo do dia é um teste de emuná.
Este capítulo apresenta vários dos acontecimentos típicos e aparentemente
naturais que não são nada mais que testes personalizados — de origem
Divina - de emuná.
Com a ajuda de Hashem, aprenderemos a avaliar nosso desempenho e a
passar nesses testes com a nota máxima.

Vá para o acostamento!
Ouvimos o barulho de uma sirene.
Olhamos pelo espelho retrovisor e vemos as luzes azuis e vermelhas de um
carro de polícia.
Um policial "durão" gesticula para que paremos no acostamento.
Se infringimos a lei ou não é agora irrelevante; trata-se de um teste
inesperado de emuná.
Agora é a hora de colocar em prática as lições que aprendemos no capítulo
anterior:

1. Devemos acreditar que nosso problema atual vem de Hashem e é


exatamente o que Ele quer.
Portanto, não há a necessidade de nos culparmos (por que não fui mais
cuidadoso?), de culpar o outro motorista (ele estava muito lento — eu tive
de fazer a ultrapassagem!), ou de culpar a esposa (o) (querido (a), você
não pode ir mais rápido? Vamos nos atrasar...).
Certamente não devemos cultivar rancor contra o policial, mesmo se
pensamos que ele nos parou injustamente.
De acordo com as leis de trânsito, podemos até ser inocentes.
Mas conforme as leis da emuná, merecemos ser parados.
O policial nesse caso é um oficial do sistema absolutamente justo de
Hashem.

2. Devemos acreditar que o que nos acontece agora é para o nosso próprio
bem.
Portanto, precisamos deixar de lado os pensamentos inoportunos de que o
que acontece não é bom.
Ademais, devemos agradecer a Hashem por ter nos mandado o policial, já
que essa situação certamente existe para o nosso benefício.

3. Devemos acreditar que tudo na vida tem uma razão e um propósito, e


que não há atribulação sem transgressão.
O policial não passa de um agente de Hashem que desencadeia um
processo de busca espiritual e teshuvá por algo que, talvez por distração,
fizemos de errado.
Embora tenhamos sido parados por uma aparente violação das leis de
trânsito, essa "circunstância natural" é apenas um veículo da justiça Divina
criado para nos despertar.
Fale com Hashem
Antes de falar qualquer coisa para o policial, devemos fazer uma rápida
análise espiritual, pensar em fazer teshuvá e falar com Hashem da seguinte
maneira: "Hashem, Você sabe por que me mandou esse problema. Por
favor, me perdoe por meus erros e me ajude a corrigir o que fiz de errado.
Por favor, tenha misericórdia e não use esse policial para me punir. Ajude-
me a identificar e corrigir o motivo pelo qual mereço ser punido."
Não devemos usar o policial para reclamar ou protestar.
A raiva é um sentimento completamente desnecessário, e a bajulação é
igualmente ruim.
Se conseguimos nos lembrar das três lições de emuná e nos concentramos
em Hashem, além de evitarmos a armadilha da raiva, da culpa e das
emoções negativas, tiramos nota dez em emuná.
Passar no teste da emuná traz as recompensas de felicidade e saúde
emocional neste mundo e um êxtase indescritível no mundo vindouro.
Com emuná, enxergamos qualquer desfecho como bom: se o policial nos
libera com uma advertência, com certeza pulamos de alegria.
E, mesmo que ele nos dê uma multa, ativamos nossa emuná para lembrar
que Hashem está fazendo isso para o nosso bem.
A multa é provavelmente uma pechincha em troca de algo muito pior que
mereceríamos.
De qualquer modo, com emuná, estamos sempre felizes!
Por outro lado, quem não tem emuná pensa que o destino está nas mãos do
policial e considera a situação como casual ou natural, e não como
resultado da Providência Divina.
Pessoas assim tentam jogar uma conversa para cima do policial e acabam
se metendo numa encrenca ainda maior.
Segundo uma determinada lei espiritual, sempre que confiamos em alguém
que não Hashem, caímos nas mãos do objeto de nossa confiança.
Isso é ruim, já que nenhum ser humano tem misericórdia e compaixão
como Hashem.
Geralmente, quando alguém tenta bajular um policial, este se torna ainda
mais rigoroso.
Frustrado, o bajulador muitas vezes fica com raiva e recorre a insultos,
acusando injustamente o policial (você está apenas tentando cumprir a sua
cota às minhas custas; muita gente está indo muito mais rápido do que eu;
por que você está implicando comigo etc. A lista é longa), complicando
ainda mais uma situação já desastrosa.
Em vez de retificar o erro que levou a essa atribulação, quem não tem
emuná comete mais transgressões ao insultar e acusar o policial.
Neste ponto, tocamos um importante princípio subjacente a qualquer teste
de fé.
Sem emuná, as pessoas facilmente insultam, cultivam maus sentimentos,
machucam ou se vingam contra aqueles que supostamente lhes
prejudicaram — todos pecados sérios de acordo com a Torá.
Enquanto os pecados entre os homens não são corrigidos, julgamentos
severos pairam no ar tornando a vida ainda mais insuportável.
A emuná nos poupa de muito sofrimento, pois aceitamos os julgamentos de
Hashem com alegria e não ficamos descontando nossas frustrações nos
outros.
Além disso, aqueles que facilmente prejudicam outras pessoas terão de
fazer longos e duros esforços para pedir perdão por todas as suas vítimas,
uma vez ao ano em Kipur.
Caso contrário, Hashem não ouvirá suas orações.
Com emuná, não atribuímos nossos problemas aos outros, não
prejudicamos ninguém, nem precisamos implorar por perdão e nos livramos
de julgamentos severos.
A emuná torna a vida muito mais fácil.
Quanto mais poder atribuímos ao policial, menos "pontos de emuná"
ganhamos.
A carência de emuná agrava ainda mais a situação, pois quanto menos
emuná temos, mais difícil o nosso problema.
Portanto, é extremamente importante concentrarmos nosso pensamento
em Hashem, e não no policial.

A caridade previne punições


Muitas punições e outras formas de perda financeira ocorrem quando uma
pessoa não faz caridade o suficiente.
Segundo o Talmud (TB, Tratado Bava Basra 10a), a renda e as perdas
financeiras de uma pessoa são predeterminadas em Rosh Hashaná.
Se a pessoa merece, o dinheiro doado à caridade toma o lugar de perdas
financeiras.
Quando a pessoa não tem o mérito da caridade, as perdas financeiras se
manifestam em impostos, multas (como as de trânsito ou estacionamento),
contas médicas, aparelhos domésticos quebrados e assim por diante.
Portanto, a caridade previne punições.
O Rebe Iochanan Ben Zacai teve um sonho na noite seguinte ao Iom Kipur:
seu sobrinho estava destinado a perder setecentos dinares naquele ano.
O Rebe Iochanan então perseguiu seu sobrinho durante todo o ano pedindo
doações a inúmeros projetos de caridade.
Ao final do ano, o Rebe Iochanan conseguira de seu sobrinho 683 dinares
em doações.
Na véspera de lom Kipur, um cobrador de impostos apareceu à porta do
sobrinho e exigiu um valor de 17 dinares em impostos adicionais.
O sobrinho e sua família continuaram tremendo mesmo depois de o
cobrador ter ido embora, preocupados com a possibilidade de estar sob
investigação pelo cruel governo de ocupação de César
Quando transmitiram seus medos ao santo Rebe Iochanan, ele disse: "Não
se preocupem! Os 17 dinares são tudo que vocês devem — vocês não terão
de pagar nem mais um 'agora' (centavo)!"
"Como você sabe?", perguntou o sobrinho. "Você tem conexões com as
autoridades fiscais, ou talvez seja um profeta?"
"Não tenho conexão nenhuma com as autoridades, nem sou profeta ou filho
de profeta. Mas tenho conexões com o soberano supremo — Hashem! No
começo deste ano, Ele me mostrou quanto você deveria perder — 700
dinares. Eu quase consegui que você desse toda a quantia para caridade.
Mas como você ainda devia 17 dinares, o cobrador serviu como mensageiro
para completar a sua perda predestinada. Se você não tivesse doado os 683
dinares, teria perdido todos os 700 dinares em cobranças de impostos,
recebendo em troca apenas mágoa. Porém, como agora você tem o mérito
da caridade, terá bênçãos e sucesso em tudo o que fizer!"
"Querido tio", disse o sobrinho, envergonhado por todo o esforço que o
Rebe lez em seu nome durante todo o ano, “por que você não nos explicou
isso no começo do ano? Se soubéssemos que a perda, financeira estava
predeterminada, e que a caridade substitui a punição, teríamos dado com
alegria toda a quantia para caridade!"
"Eu queria que você doasse o dinheiro sem segundas intenções, e não para
se salvar de um decreto celestial."
Depois de aprender sobre o poder dessa elevada mitsvá, o sobrinho e a
família agradeceram ao Rebe lochanan e se comprometeram a fazer o
máximo possível de caridade.

Muitas vezes, as perdas financeiras são apenas a conclusão do pagamento


de uma punição predeterminada para o ano.
A contabilidade celestial é precisa até nos centavos.
Mas quando tomamos a iniciativa e intencionalmente doamos a causas de
caridade, evitamos a angústia de perder dinheiro em todo tipo de situação
negativa.

Redenção pelos pecados


As perdas financeiras predeterminadas não são as únicas causas de perda
de dinheiro.
Transgressões podem provocar perdas financeiras adicionais, pois as posses
mais valiosas — saúde, dinheiro, etc — podem servir de reparação por um
pecado.
A caridade antecipada previne punições também nessa área.
A pessoa que de boa vontade doa para caridade não apenas purifica-se de
um pecado, como colhe os maravilhosos benefícios dessa importante
mitsvá.
Sem caridade, nos tornamos triplamente perdedores: primeiro, temos de
nos separar de nosso dinheiro involuntariamente.
Segundo, temos de sofrer a dor, agonia e irritação relacionadas a uma
perda financeira específica.
Terceiro, perdemos os benefícios que teríamos ganhado se tivéssemos
doado à caridade.
A fim de evitar essa perda tripla, precisamos nos acostumar a doar à
caridade regularmente.
A satisfação de doar ao pobre, ao doente, aos necessitados (material ou
espiritualmente) e ao avanço do estudo da Torá é infinitamente preferível a
perder dinheiro com contas médicas, aparelhos domésticos quebrados,
consertos de automóvel, impostos e multas.
Enquanto estes últimos trazem apenas aborrecimento, a caridade serve
como um bilhete de primeira classe para o sucesso neste mundo e para a
felicidade eterna no próximo.
Vamos voltar agora ao policial que nos parou: nossa rápida autoavaliação
deve ser se demos ou não dinheiro suficiente para caridade.
Sem pensar duas vezes, devemos prometer uma quantia adicional e dizer
sinceramente: "Eu me comprometo a doar (certa quantia) para (a sua
caridade favorita)!"
A caridade é uma empreitada que vale a pena.
Se a falta de caridade foi o motivo pelo qual fomos parados pelo policial, a
promessa de caridade pode quase que instantaneamente pesar a balança
dos julgamentos severos para o outro lado.
Hashem pode mudar o coração do policial e transformar uma multa de 400
reais com direito a quatro pontos na carteira em uma simples advertência
verbal.
Com caridade, todo o problema pode acabar acontecendo para o nosso
bem.

O promotor vira advogado de defesa


Um processo judicial é um teste clássico de emuná.
Como em qualquer outra situação difícil, lembrar as três leis básicas da
emuná é a chave do sucesso.
Se uma pessoa é ou não culpada de uma má ação segundo leis contratuais,
federais ou estaduais é algo secundário.
O fato de que ela enfrenta um tribunal é um sinal celeste de dívidas
espirituais pendentes que precisam de retificação.
O resultado de um julgamento é determinado no céu.
A pessoa que comparece perante um juiz e/ou um júri está sendo julgada
simultaneamente pelo tribunal celeste, que avalia seus créditos e débitos.
Quando sai o veredito celeste, Hashem instila o julgamento do "andar de
cima" no coração do juiz do tribunal do "andar de baixo".
Uma pessoa de fé sabe que não se pode enganar o Tribunal Celeste, mesmo
contratando o melhor advogado, buscando as melhores testemunhas e
evidências e preparando seus argumentos cuidadosamente.
Nenhum advogado de "fala rápida" pode alterar a verdade das ações ou dos
erros anotados nos registros do Tribunal Celeste.
O veredito de cima dita o veredito de baixo.
Portanto, para se vencer um julgamento, a contestação deve ser dirigida
principalmente, e em primeiro lugar, a Hashem.
Às vezes sentimos que o caso é óbvio e que o sucesso absoluto está
garantido.
Outras vezes sentimos que não há chances de vencer.
Ambos os sentimentos são falsos — Hashem decide o resultado de todos os
casos.
Portanto, a melhor preparação para qualquer dia no tribunal é realizar uma
auto avaliação cuidadosa, confessar qualquer erro a Hashem, expressar
remorso pelos pecados, pedir perdão a Hashem, retificar más ações e
assumir o compromisso de melhora daquele momento em diante.
Mesmo quando uma pessoa faz um sincero esforço de teshuvá — algo que
sem dúvida irá ajuda-la —, ela deve estar emocionalmente preparada para
aceitar um desfecho desfavorável.
Os esforços de teshuvá nem sempre são suficientes para limpar toda a lista
de dívidas espirituais.
A emuná passa por um teste especial em caso de resultado ou julgamento
negativo, quando a pessoa é declarada culpada ou responsável; essa é a
hora de invocar o poder da emuná.
A decisão desfavorável não é resultado do grande advogado do outro lado,
de preparação insuficiente ou de testemunhos falsos.
O juiz e o júri também não são culpados.
Julgamentos negativos em um litígio são o resultado exclusivo de teshuvá
insuficiente.
Nesse caso é preciso aceitar a decisão do tribunal (celeste e terrestre) com
amor e emuná, aumentando os esforços de teshuvá e reza até que o
problema acabe.
Quando fazemos teshuvá de coração, testemunhamos como Hashem
transforma um promotor em advogado de defesa.
A pessoa que faz teshuvá em preparação para um dia de julgamento
desfruta os resultados de seus esforços mesmo neste mundo:
1. Ela é poupada de julgamentos negativos
2. Ao fortalecer a emuná, merece uma maior aproximação de Hashem
3. Evita difamação, frustração, amargura e blasfêmia, e ganha recompensas
de felicidade e emuná.
As consequências acima são recompensas imediatas neste mundo.
Ademais, os enormes dividendos de teshuvá e emuná garantem o nosso
êxtase eterno no mundo vindouro.
Nada nos aproxima mais de Hashem do que passar por difíceis testes de fé
neste mundo material baixo e muitas vezes confuso.
Por outro lado... As pessoas que não têm emuná pensam que os juízes, o
júri, os advogados e as testemunhas de carne e osso ditam o resultado de
um processo.
Essas pessoas cultivam centenas de medos e reclamações sobre os juízes,
seus próprios advogados de defesa e sobre o outro lado.
Elas prontamente se afastam da verdade para melhorar sua defesa.
Quando depositam sua confiança nos advogados, estes se tornam a razão
do seu fracasso no tribunal.
Conforme certa lei espiritual, sempre que as pessoas confiam em qualquer
um que não Hashem, elas caem nas mãos de quem confiaram — o que
geralmente acaba sendo uma experiência lamentável.
Confiar em outro que não Hashem é um fracasso total no teste de emuná.
Não pense que ganhar um dia no tribunal por meio de teshuvá e emuná é
fantasia.
Dezenas de pessoas que implementaram o conselho do autor descobriram
que até mesmo juízes hostis as ajudaram.
Muitos relataram os incríveis resultados que as preparações de teshuvá e
reza trouxeram para a sala de julgamento.

Libertação do preso
A prisão é um teste extremo de fé.
Uma pessoa na cadeia não pode culpar ninguém pelo seu problema — juiz,
promotor ou testemunhas.
Hashem coloca as pessoas atrás das grades para expiá-las de seus pecados.
Às vezes, pessoas inocentes são julgadas, culpadas e condenadas.
Geralmente elas sofrem com sentimentos de raiva, frustração e amargura
por causa da injustiça pela qual estão passando.
Mas se elas analisassem a própria alma e avaliassem suas ações
objetivamente e sob a luz dos mandamentos da Torá, se julgariam culpadas
de erros graves.
Por quê?
O Tribunal Celeste não decreta prisão sem motivo.
Então, mesmo que a pessoa seja inocente das acusações, pode ser culpada
de outra má ação, que levou ao veredito Celeste da prisão.
Portanto, quem está preso deve aceitar a situação e usá-la como uma
oportunidade de fazer teshuvá e retificar a alma.
A rotina na prisão deve girar em torno de teshuvá, reza e ações de
caridade.
O preso deve falar com Hashem o máximo possível por meio de orações
pessoais, pedindo a Hashem força, orientação, redução da sentença e uma
rápida soltura.
Confessar a Hashem é vital para o bem-estar espiritual e emocional do
preso, assim como os outros atos de teshuvá, como expressar remorso
pelas transgressões e decidir melhorar dali em diante.
Para merecer a verdadeira e completa teshuvá, o preso deve também rezar
constantemente pela assistência e orientação de Hashem, para ser
conduzido pelo caminho correto.
Ele precisa rezar também para que Hashem o proteja de influências e
amigos negativos e para que Ele mande bons mensageiros que ajudem na
retificação da alma.
Quanto mais reza — em sua própria língua —, melhor!

José, o tsadik, dançava na prisão


Qualquer pessoa que esteja enfrentando um teste tão difícil de fé pode se
assegurar de que tem consigo a emuná e a força interior para aceitar a
situação com amor.
E provavelmente todo o problema trará resultados benéficos no final.
José foi preso devido a acusações forjadas (veja Gênesis, capítulo 39).
Mesmo assim, ele aceitou sua condição com alegria.
Conta o Midrash (Yalkut Shinzoni, Vaieshev 145) que José era "saltitante",
ou seja, ele estava acostumado a cantar e dançar o dia todo na prisão.
Como ele podia agir assim, sendo um solitário preso hebreu em uma cruel
prisão egípcia?
Ele simplesmente confiava em Hashem e acreditava que tudo acontecia
para melhor.
Graças à alegre disposição de José, o carcereiro passou a gostar dele e o
tornou responsável pelos outros presos.
José literalmente fazia o que queria na hora que queria.
No minuto que sua sentença Celestial terminou, ele praticamente "saiu
correndo" da prisão para se tornar o segundo homem mais poderoso do
Egito — o maior poder do mundo naquela época — da noite para o dia!
Vamos supor que José não tivesse emuná e vagasse pela cela com a cara
azeda, reclamando de sua sorte na vida.
A Presença Divina de Hashem se afasta de ambientes depressivos.
Sem a intervenção de Hashem, José certamente não teria se tomado o
favorito do carcereiro.
Como um prisioneiro hebreu solitário e triste, ele poderia ter passado por
todo tipo de sofrimento imposto pelos outros presos — assassinos, ladrões e
estupradores da categoria mais baixa e cruel.
Ele poderia ter apodrecido na cadeia por anos, nem ousando sonhar com
liberdade, muito menos com o meteórico sucesso de ser vice-rei do Egito!
Em suma, sem emuná, ele teria sofrido uma morte em vida.
Muitos tsadikim - incluindo o Rebe Schneur Zalman de Liadi, o Rebe Israel
de Ruzhin, o Rebe Natan de Breslav e o Rabino Chaim ben Attar - passaram
um tempo na prisão, todos devido a falsas acusações.
Mas eles aproveitaram a situação difícil para dedicar todo o tempo e energia
à reza, ao estudo da Torá e ao serviço a Hashem.
Muitos até escreveram obras clássicas de Torá e pensamento religioso atrás
das grades.
Não importa quão insuportável uma situação possa parecer, a pessoa pode
se consolar em saber que sua vida está nas mãos de Hashem e sob Seus
cuidados pessoais.
Em retrospectiva, sempre vemos como Hashem faz tudo para o nosso bem.
Se José e os tsadikim mencionados aceitaram a prisão com alegria, apesar
de terem sido falsamente acusados e condenados, uma pessoa menos justa
deve certamente fazer o mesmo.
O preso deve lembrar também que a cadeia é frequentemente um
substituto para uma punição ou para uma atribulação muito mais severa.
Portanto, ele deveria agradecer a Hashem por estar na prisão.

Hashem repreende aqueles a quem ama


Um preso nunca deve esquecer que Hashem o ama, que Ele ouve as suas
preces em qualquer lugar e a qualquer hora e que Ele quer a sua teshuvá.
Se ele é esperto o suficiente para dedicar seu tempo para reza, teshuvá e
qualquer boa ação que possa fazer atrás das grades, Hashem certamente o
ajudará a ganhar a simpatia dos guardas, dos carcereiros e do conselho de
liberdade condicional.
Ele deve manter a fé de que Hashem tem inúmeras maneiras de livrá-lo da
cadeia.
O Tribunal Celeste tem uma grave queixa contra a pessoa que não
aproveita a prisão para estudar Torá, rezar e fazer teshuvá.
Na cadeia, o preso não tem de se preocupar com ganhar salário, pagar
contas ou ir a reuniões de pais e professores.
A maioria dos presos dispõe de bastante tempo livre; Hashem lhes dá as
condições para introspecção e teshuvá.
Logicamente, e com emuná, o preso deve ser bem-disciplinado e respeitar
os guardas e as autoridades carcerárias, além de ser gentil com seus
colegas de prisão.
O comportamento nobre atrás das grades provoca a admiração de todos,
assim como a compaixão Divina.
A emuná toma uma sentença de prisão muito mais tolerável.
Muitos ex-presidiários já disseram que sua pena na cadeia foi um ponto de
virada na vida, e que saíram da prisão emocional e espiritualmente mais
fortes e saudáveis.

"Curarei as tuas chagas" (Jeremias 30:17)


Doenças são testes rigorosos de emuná.
Uma pessoa doente deve reconhecer os três princípios de emuná:

1. Hashem nos faz adoecer.


Devemos evitar atribuir doenças a causas naturais ou a erros humanos.

2. Hashem nos manda uma doença para o nosso benefício final.

3. Hashem quer que iniciemos um processo de auto avaliação para tentar


identificar qualquer possível erro que possa ter levado à doença.
Então, devemos fazer a teshuvá apropriada.

O doente que age de acordo conforme os três princípios fortalece sua


emuná, consegue uma rápida recuperação física e um importante ganho
espiritual.
Por outro lado, quem não tem emuná fica desanimado, deprimido e muitas
vezes complica seu sofrimento físico com aflições emocionais.
Para doentes assim, os médicos são decepcionantes.
E ainda pior, eles não conseguem corrigir a causa espiritual da doença.

Licença Divina para curar


Aparentemente, a medicina é uma ciência aplicada assim como algumas
outras ciências.
Os pesquisadores se aprofundam nas causas de uma doença, fazem
experimentos com vários agentes inibidores e convertem descobertas de
laboratório em remédios e tratamentos.
A pesquisa na área médica parece ser direta e lógica.
O Todo-Poderoso nos deu inteligência para observar, investigar e resolver
problemas para o bem da humanidade.
Não apenas isso, mas é nossa obrigação dedicar nossas capacidades
mentais a empreendimentos que beneficiem a sociedade.
Eletricidade, tecnologia de computação e aparelhos que economizam
trabalho são bons exemplos.
O homem, portanto, deve investir o poder da inteligência para curar
doenças e aliviar o sofrimento humano.
Os sábios reforçam essa perspectiva e interpretam o trecho (Êxodo 21:19)
"e ele deve providenciar a cura" como uma "licença Divina" para curar as
pessoas.
De fato, muitos dos grandes sábios entendiam bastante de medicina, como
o Maimônides e o Baal Shem Tov.
Então, a lógica parece nos dizer que a medicina é uma ciência aplicada
assim como todas as outras, e quanto mais nos dedicamos à pesquisa
médica, mais conseguimos superar doenças e sofrimentos.

O homem e a Providência Divina


A medicina seria uma ciência simples e direta se seu único desafio fosse
curar o corpo físico.
O corpo não tem vida sem sua faísca vital/espiritual, a alma.
Tratamentos físicos e remédios não podem curar uma alma doente.
Como a alma e o corpo são conectados, a saúde e o bem-estar de ambos
dependem de algo além da natureza e suas leis.
A saúde do ser humano depende da Providência Divina, a intervenção
pessoal de Hashem em nossa vida.
Como toda a criação foi feita de forma a ser um agente que facilita o livre-
arbítrio do homem na Terra, podemos entender como o homem se beneficia
da atenção pessoal do Todo-Poderoso ao menor detalhe de sua vida em
geral e de sua saúde em particular.
A natureza opera de acordo com a vontade Divina, mesmo que isso não
seja sempre aparente.
Quanto mais distante uma criação está do homem e quanto menos ela afeta
a sua vida, menos aparente é a Providência Divina.
Por isso, parece que as estrelas e as galáxias seguem seus caminhos nas
claras e predefinidas pistas celestiais conforme as leis da natureza e
aparentemente sem nenhuma interferência Divina.
Essa ilusão acontece porque as galáxias não parecem ter nada a ver com a
nossa vida diária.
Mas, na verdade, suas órbitas no espaço são o resultado de decreto Divino;
elas simplesmente têm uma tarefa estática e imutável.
Ao contrário das estrelas e de outras criações longínquas, a dinâmica
mudança diária é uma indicação de Providência Divina.
Observe como nossa vida muda drasticamente de um dia para o outro: um
dia temos problemas de renda.
No outro, nossos filhos se comportam mal.
Então, surge uma crise de saúde.
Nenhum dia é o mesmo, pois Hashem está constantemente mandando a
cada pessoa as mensagens de que ela precisa para estimular a retificação
da alma.

Seu corpo é querido para ele


A Providência Divina desempenha um papel mais importante na saúde do
que em qualquer outra área da nossa vida.
Dores e aflições do corpo e da alma são as principais ferramentas de
Hashem para nos impulsionar a corrigir o que precisa ser corrigido.
Isso acontece por várias razões:
Primeiro, a pessoa pode permanecer apática frente a vários outros testes e
problemas.
Ela não irá necessariamente começar uma séria introspecção após perder
cem reais.
Mas poucos são capazes de ignorar algo que afeta diretamente o próprio
corpo, como doenças ou graves emoções negativas.
Foi isso que aconteceu com Joh.
Primeiro Hashem deu a Satã licença para testar e atormentar Joh, mas não
para derrubá-lo com doenças.
Embora Joh tenha perdido todo o seu dinheiro e enterrado os próprios
filhos, ele não leve um colapso com as cicatrizes emocionais.
Satã disse a Hashem (veja Job, capítulo 2): "A pessoa dá tudo para salvar a
própria pele. Atormente a sua carne e veremos se ele continuará a
abençoa-Lo."
Satã alegava que nenhum teste de fé é tão difícil quanto um ferimento ou
uma doença.
A firme fé de Job foi abalada quando todo o seu corpo foi acometido de
bolhas infectadas.
Aprendemos com o Livro de Job que sofrimentos corporais são as
atribulações mais difíceis.
Quando uma pessoa fica doente, dinheiro e outros confortos não servem de
consolo.
Ao contrário, eles aumentam a sensação de miséria porque o doente não
pode aproveita-los.
De que adianta ter uma gorda conta bancária, diamantes e joias, se a
pessoa tem úlcera, diabetes e um quadro cardíaco que a obriga a uma dieta
extremamente limitada, não podendo nem desfrutar uma boa refeição?
E de que adianta ter um corpo saudável se a pessoa com uma alma
atormentada?
É por isso que “seja saudável” (tihie bari) é a bênção mais comum do
hebraico.
Já que nos preocupamos tanto com a nossa saúde, Hashem pode usa-la
para nos despertar.
Há também outro motivo pelo qual a saúde é uma das principais
ferramentas de Hashem para despertar as pessoas: o corpo lembra a Torá.
O corpo tem 613 partes — 248 membros e 365 tendões.
Analogamente, a Torá tem 613 mitsvót — 248 mitsvót positivas (faça) e
365 mitsvót negativas (não faça).
Cada um dos membros corresponde a uma mitsvá positiva, e cada um dos
tendões a uma mitsvá negativa.
Portanto, quando a pessoa transgride uma mitsvá, Hashem a desperta para
teshuvá afligindo o membro ou o tendão que corresponde àquela mitsvá
específica.
Assim sendo, ela pode entender o que fez de errado e corrigir o seu erro.
O santo Baal Shem Tov certa vez visitou um doente terminal.
Ao lado da cama, o Baal Shem Tov discutiu o quadro com o médico
responsável.
O médico disse que não havia esperança de que o paciente vivesse mais
que algumas horas, pois a doença havia destruído todos os seus tendões.
O Baal Shem Tov pediu que o médico esperasse um momento, pois queria
se aproximar do doente, que estava deitado inconsciente na cama.
Um ou dois minutos depois, o paciente abriu os olhos e pediu uma colher de
sopa.
Gradualmente, seu rosto foi recobrando a cor.
O médico não podia crer nos próprios olhos.
Ele disse ao Baal Shem Tov: "Não posso acreditar no que estou vendo! O
corpo inteiro deste homem estava acabado — nenhum tendão estava
intacto. Ele não tinha chance de sobreviver. O que você fez?"
O Baal Shem Tov respondeu: "Você está certo. E não apenas isso; você é
realmente um médico muito hábil. Você não cometeu erro nenhum — todos
os tendões do paciente estavam destruídos. Essa pessoa transgrediu
repetidamente tantos mandamentos negativos que seus tendões se
deterioraram. Agora há pouco eu falei à sua alma e ele concordou em se
redimir de seus pecados. Ele se comprometeu a fazer teshuvá, e seus
tendões recuperaram a vitalidade."

Considerações Divinas
Segundo o Ticunei Zohar (Patach Eliahu, Introdução, seção 17), Hashem
governa o mundo de acordo com nossas ações.
Hashem criou o mundo para nos mostrar sua magnitude, e pode comandá-
lo misericordiosa ou severamente conforme nossas ações.
Quando as pessoas se comportam corretamente, o mundo se torna um
lugar de harmonia e bondade.
Por outro lado, injustiça, imoralidade e crueldade invocam julgamentos
severos e calamidades.
As doenças estão diretamente enraizadas nas más ações das pessoas.
Portanto, a medicina e seus profissionais — por mais avançados e hábeis
que sejam — não podem levar em consideração essas razões Divinas, tais
como as dívidas espirituais e os méritos do paciente, seus esforços para se
redimir e assim por diante.
Nenhum profissional — por mais talentoso que seja — pode anular um
decreto Divino.
Se Hashem decreta que a pessoa tem de ficar doente por uma semana,
nenhum tratamento no mundo irá ajudá-la a melhorar mais rápido.
O contrário também é verdade — se Hashem decreta que uma pessoa irá se
recuperar — apesar de desafiar a lógica médica -, ela começa a se
recuperar imediatamente.
Imagine dois gêmeos idênticos que cresceram juntos na mesma casa,
comeram a mesma comida etc.
Eles pareciam ser igualmente saudáveis quando eram pequenos.
Mas cada um desenvolveu seus próprios problemas de saúde ao longo do
tempo.
Isso é prova de que a saúde de uma pessoa não é determinada pela
natureza, mas pelas próprias ações da pessoa.
Se a natureza fosse o fator determinante, então ambos os gêmeos, que
nasceram e cresceram em circunstâncias idênticas, deveriam ter o mesmo
perfil de saúde.

Milagres e maravilhas
O princípio de que a natureza não influencia a cura se torna ainda mais
evidente quando vemos que assim que a pessoa corrige a causa espiritual
de sua doença, esta desaparece sem qualquer intervenção natural.
Se a natureza determinasse a cura, o doente continuaria a sofrer apesar de
seus esforços para fazer teshuvá.
E nada ajudaria nos casos em que danos aparentemente irreversíveis são
causados.
Como a natureza não determina a saúde - e vemos com nossos próprios
olhos que pessoas sinceramente arrependidas se recuperaram
milagrosamente até mesmo de doenças terminais -, podemos concluir que a
saúde e a cura desafiam as leis naturais. [Muito embora a saúde desafie a
natureza, a Torá nos ordena a fazer todos os esforços para cuidar da saúde.
Isso inclui dieta adequada, exercícios e o não consumo de tabaco e álcool.
As leis judaicas sobre a saúde podem ser encontradas em Rambam, Hilehót
Deot.]
Eu pude observar esse princípio em ação inúmeras vezes.
Centenas de pessoas, que seguiram minhas orientações de como retificar
erros que levam a doenças, foram abençoadas com uma melhora drástica
na saúde assim que fizeram teshuvá e melhoraram seus modos.
Até mesmo em minha experiência pessoal, vi como meus próprios
problemas foram resolvidos assim que percebi o que eu precisava corrigir.
Compartilharei com você uma das minhas experiências pessoais.

Certa vez, num Shabat, eu sofria com uma tremenda dor de dente.
Toda a minha mandíbula estava inchada e infectada — a dor era
excruciante.
Eu disse à minha família que precisava fazer um "tratamento de raiz"
imediatamente. [Em hebraico, diz-se "tratamento de raiz", e não
"tratamento de canal". O autor fez um jogo de palavras, se referindo à
solução central (raiz) de seu problema, e não ao tratamento dentário.]
Todos ficaram surpresos.
"Desde quando se pode ir ao dentista no Shabat?"
"Mas eu preciso fazer um „tratamento de raiz'”, respondi. "A dor está
insuportável e não é mitsvá sofrer no Shabat. Vou ao melhor dos dentistas
fazer um tratamento — para Hashem, bendito seja o Seu nome."
Fui a um campo vizinho e pedi a Hashem que me iluminasse quanto à raiz
espiritual da minha doença, ou seja, que me mostrasse o que fiz de errado
para merecer a dor de dente, a infecção e o inchaço.
Fiz uma intensa busca espiritual até que encontrei algo que eu não deveria
ter feito.
Pedi perdão por esse erro e fiz a teshuvá mais completa que consegui.
Após alguns minutos, o inchaço cedeu e a dor desapareceu, sem
antibióticos ou outra explicação natural.
Compreendi que a dor de dente era apenas um alerta e, assim que retifiquei
minha conduta, Hashem não precisava mais "me alertar".

A natureza não importa!


Nossas palavras de encorajamento ao doente devem ser "não se desespere
— a natureza não importa!".
Quem escolher a opção da teshuvá e da reza verá grandes milagres.
Quando o Criador decide curar alguém, Ele não precisa de ajuda.
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Licutei Moharan 1:62): "A falsa noção
daqueles que estão distantes da emuná em Hashem é que eles visivelmente
veem um mundo governado pelas estrelas. Cada um tem a sua própria
noção equivocada: alguns pensam que o mundo é governado pela natureza,
e que se conduz de acordo com leis naturais. Outros acreditam que há um
Criador, mas que é preciso idolatrar um intermediário, como no pecado do
bezerro de ouro. Muitos caem na armadilha do intermediário, ou seja,
acreditam em Hashem, mas também acreditam que o intermediário lhes
determina o destino, como o trabalho ou o sustento. Então essas pessoas
investem suas esperanças e seus esforços nos negócios, já que acreditam
que as atividades nos negócios é que determinam seu sustento e que, sem
elas, Hashem não pode prover. O mesmo vale para assuntos médicos,
quando as pessoas depositam sua fé no intermediário em vez de confiar em
Hashem, como se, D'us nos livre, Hashem não pudesse curá-las sem
médicos e remédios. Não é assim! Hashem é a causa de toda causa e a
razão de toda razão. Devemos acreditar somente em Hashem, e não em
qualquer Intermediário ou em outra causa."

Milagres Diretos
Como provas adicionais sobre o que falamos, eis dois acontecimentos do
passado que muitos testemunharam (veja Rebe Nachman Discourses, 187):

Certa vez, um dos seguidores do Rebe o visitou.


Ele tinha um ferimento grave no braço e sentia tanta dor que não podia
mover o braço de jeito nenhum.
Ele usava uma tipoia e não podia abaixar o braço.
Os seguidores do Rebe lhe disseram que aquele homem era muito pobre e
não podia pagar pelos caros sais e outros remédios de que precisava.
O homem estava sentado à mesa do Rebe para um almoço de Shabat.
O Rebe notou que aquele era um homem de fé.
Todos concordaram.
O Rebe discutiu sobre isso por um tempo e se repetiu, perguntando
novamente se aquele homem tinha fé.
Mais uma vez, os presentes responderam que sim.
De repente, o Rebe ordenou ao homem: "Abaixe o braço!"
O homem ficou ali, pasmo, e todos os outros convidados também ficaram
muito surpresos.
O que o Rebe estava dizendo?
Aquele homem sofria com aquilo havia muito tempo e era absolutamente
impossível mexer o braço.
Por que o Rebe lhe mandava fazer o impossível?
No entanto, assim que o Rebe deu a ordem, "ele decretou, falou e foi
cumprido" (Job 22:28).
Um dos convidados ajudou a retirar a apoia e o homem imediatamente
abaixou o braço.
Ele foi completamente curado por um milagre.
Ele recobrou todas as funções do braço, que permaneceu saudável pelo
resto de sua vida.
Muitas pessoas estavam à mesa de Shabat do Rebe Nachman naquela
ocasião, e todas presenciaram o acontecimento, que mostra que a cura está
acima da natureza.
Os músculos e os tendões daquele homem estavam muito degenerados e
nada explica como ele instantaneamente conseguiu usar novamente o
braço.
Poderíamos acreditar que fibras musculares degeneradas podem ser
revitalizadas depois de longos tratamentos, mas instantaneamente?
Quem pode fazer algo assim?
Somente Hashem — Médico de toda carne — pode fazer tal milagre.
O doente mereceu uma recuperação total e instantânea graças à sua
emuná.

O segundo caso aconteceu em Israel há cerca de trinta de anos.


O Rabino Israel Abuchatzera de Netivot, carinhosamente conhecido como o
"Baba Sali", de santa e abençoada memória, ordenou que um paraplégico
se levantasse de sua cadeira de rodas na presença de várias testemunhas.
Essa é mais uma prova de que a natureza não importa.
Como tecidos e nervos degenerados que não são usados há anos podem de
repente voltar à vida?
Só Hashem é capaz de fazer algo assim.
Nesse caso, as rezas fervorosas e a firme crença do tsadik em Hashem
foram as causas que possibilitaram o aleijado a ficar em pé novamente.

O professor de Anipoli
Hashem é o médico de toda carne e só Ele pode curar.
Certa vez, um judeu visitou o renomado tsadik Rebe Mordechai de Neschiz
e reclamou de uma doença grave.
O tsadik perguntou: "Você já visitou o famoso professor de Anipoli?"
O doente respondeu que nunca ouviu falar desse professor.
"Nesse caso, vá", disse o tsadik. "Ele certamente poderá ajudar em sua
cura!"
O judeu doente seguiu o conselho do Rebe Mordechai e fez uma viagem
dura e difícil de carroça a Anipoli.
Quando ele chegou ao distrito municipal, perguntou ao primeiro judeu que
encontrou onde morava o famoso professor.
O morador da cidade encolheu os ombros e disse que não havia doutores ou
médicos em Anipoli, muito menos um famoso professor.
O coração do doente se partiu leria ele feito toda essa jornada excruciante
para nada?
"O que vocês fazem quando ficam doentes, sem médicos na cidade?",
perguntou o doente.
O judeu local respondeu: "Sempre que as pessoas aqui ficam doentes, elas
fazem teshuvá, rezam para Hashem, pedem que Hashem as cure. E então
elas melhoram."
O doente, de coração partido, virou sua carroça e seu cavalo na direção
oposta e fez a longa e dificil viagem pelo caminho acidentado de volta a
Neschiz.
Ele tinha uma séria reclamação a fazer para o Rebe Mordechai, o tsadik:
"Você sabe como estou doente e fraco, Rebe! Por que me mandou a Anipoli
para nada? Não há nenhum médico naquele pequeno povoado!"
O Rebe Mordechai sorriu pacientemente: "Ninguém lhe explicou o que eles
fazem em caso de doença se não há médicos?"
O doente respondeu: "Sim. Alguém me deu a simples resposta que eles
rezam, fazem teshuvá e melhoram."
"Esse é o professor de Anipoli", respondeu o tsadik. "É Hashem! Sempre
que as pessoas se voltam a Ele, Ele as cura! Ele é o professor para o qual
as pessoas de Anipoli se voltam. Ele está disponível 24 horas por dia e não
cobra por visitas a domicílio. Ele pode até transformar pão e água em
remédios milagrosos, como está escrito (Êxodo 24): "E servireis ao Eterno,
vosso Deus, e Ele abençoará o teu pão e a tua água e Eu tirarei toda
doença de ti."

O filho do famoso Chafetz Chaim, de santa memória, contou que sua mãe
raramente procurava os serviços de um médico durante os anos em que
criou os filhos.
Sempre que alguém ficava doente, o Chafetz Chaim a instruía a distribuir
dezoito quilos de pão aos pobres, e ele próprio rezava por várias horas no
sótão.
Pouco depois, a criança doente se recuperava.

Só Hashem sabe
Segundo o Talmud (TB, Tratado Avodá Zará 55a), "imediatamente antes de
doença e sofrimento serem lançados sobre uma pessoa, eles juram irão
embora num dia e numa hora determinados, por meio de uma certa pessoa
e de um certo agente medicinal".
O Rebe Nachman de Breslav ensina que (Licutei Moharan 11:3) todas as
condições acima deve ser cumpridas para que um doente se cure.
Se assim for, como um médico pode curar alguém?
Um médico não pode curar uma pessoa a menos que ele seja o mensageiro
Celeste eleito para levar a cura apropriada na hora apropriada.
Ademais, como um doente procura a ajuda de um médico se ele não sabe
se aquele médico é o mensageiro escolhido?
Assim, ir ao médico é como apostar nos cavalos — talvez você ganhe,
talvez não.

Pidion nefesh: redenção da alma


Contudo, podemos fazer alguma coisa sobre a ordem Celeste que limita a
cura a "um dia e uma hora determinados, por meio de uma certa pessoa e
de um certo agente medicinal".
Quando o decreto é anulado, qualquer médico com qualquer tratamento
padrão pode trazer uma cura.
Há três passos para se revogar uma lei Celeste — teshuvá, reza de tsadikim
pelo doente e pidion nefesh, como escreveu o Rebe Nachman (ibid.):
"Quando uma pessoa faz um pidion, julgamentos severos são amenizados e
o decreto Celeste é revogado. Então, um médico pode curar por meio de
seus remédios, pois não há mais julgamentos negativos e a pessoa não
precisa mais do médico, da hora e do remédio específicos. Assim sendo,
nenhum médico pode realmente curar a não ser que a pessoa faça um
pidion, pois o pidion é necessário para abrandar julgamentos severos. Só
então o médico recebe licença para curar."
[Pidion nefesh significa literalmente "redenção da alma". Uma quantia
equivalente ao valor numérico do nome da pessoa serve para abrandar
julgamentos severos. Por exemplo, se o nome do doente é Ari, soletrado
em hebraico alef-resh-iud, o valor numérico equivalente seria 211 (alef=1 +
resh=200 + iud=10). Espiritualmente, 211 reais seria o pidion, ou a
redenção, apropriado para Ari. Ele dá o dinheiro a um tsadik que sabe fazer
um pidion adequadamente, e o tsadik usa esse dinheiro para caridade.]

Consequentemente, quando uma pessoa dá dinheiro a tsadikim para um


pidion nefesh, seus esforços para procurar a assistência de um médico
valerão a pena.
Preferivelmente, deve-se dar o pidion a um rabino justo que saiba o texto
correto do pidion nefesh, como os rabinos de Breslev.
Não se deve ser mesquinho, como escreve o Rebe Natan em Licutei Tefilót,
123: "Por favor, tenha piedade para que a pessoa que traga o pidion não
seja mesquinha e dê o necessário para suavizar os julgamentos severos."
O pidion nefesh é extremamente eficaz.
Já testemunhamos em primeira mão dezenas de milagres, quando um
pidion nefesh praticamente redimiu a alma do doador, que foi salvo de um
sério perigo ou de uma grave doença.
Um doente certa vez me perguntou se deveria ir ao médico.
Perguntei-lhe por que tinha tanta pressa de ir ao médico.
"O médico o fez ficar doente? Hashem fez você ficar doente, então primeiro
você deve perguntar a Ele por que você está doente. Realize uma busca
espiritual adequada e faça a teshuvá necessária."
A medicina e os procedimentos médicos podem ser efetivos apenas depois
que a pessoa faz o esforço apropriado para suavizar os severos julgamentos
contra si e depois que roga a Hashem, o Médico de toda carne, por uma
cura.
Ir ao médico sem um esforço espiritual anterior prévio demonstra falta de
emuná.
Um médico não pode adicionar ou subtrair da longevidade de uma pessoa.
Portanto, o melhor conselho é investir esforços para conseguirmos uma boa
saúde a partir d‟Aquele que nos dá a vida — Hashem!

Agradeça a Hashem e seja curado


A emuná, mais que qualquer coisa, conduz à cura.
Portanto, o primeiro passo que um doente deve dar é agradecer a Hashem
pela doença.
É claro que isso parece extremamente estranho, mas, de fato, nada pode
ser mais lógico.
Eis o porquê: Hashem fez a pessoa ficar doente para seu próprio bem.
A consciência desse fato básico de emuná capacita o doente a agradecer a
Hashem.
A atitude positiva da pessoa torna a recuperação muito mais rápida e fácil.
Agradecer a Hashem por uma aparente calamidade, como uma doença
grave, é a expressão mais elevada de emuná, já que se reconhece que até
mesmo os problemas vêm de Hashem e fazem parte da Providência Divina
magnífica e pessoal de que tudo é para o bem.

Um dos novos estudantes da nossa yeshivá sofreu anos com uma doença
crônica.
Nenhum médico ou tratamento ajudava; nem mesmo suas próprias rezas e
esforços para retificar seus pecados.
Até que um dia ele ouviu uma lição de emuná segundo a qual tudo é para o
bem e a pessoa deve agradecer a Hashem mesmo por suas deficiências e
problemas na vida.
Esse aluno decidiu dedicar sua hora diária de reza pessoal para agradecer a
Hashem.
Por vários dias, ele agradecia a Hashem por deixá-lo doente e por toda a
dor e sofrimento.
Ele refletia sobre como Hashem certamente faz tudo para o bem e se
consolava com o fato de que sua dor era uma expiação por seus pecados.
Ele percebeu que Hashem, como um Pai amoroso, estava pessoalmente
purificando-lhe a alma.
Com lágrimas nos olhos — lágrimas de alegria -, o estudante agradecia a
Hashem sinceramente por sua saúde fraca.
Ele nem pedia por uma cura.
Em duas semanas, a doença havia desaparecido completamente, sem a
ajuda de tratamentos ou remédios.
A doença crônica que o acometeu por anos passou a ser coisa do passado,
tudo graças ao seu agradecimento a Hashem.
A gratidão a Hashem é o auge da emuná e conduz à boa saúde.
O contrário também é verdade, pois a falta de emuná é muitas vezes a
causa/raiz de uma doença.
O fortalecimento da emuná, portanto, contribui para a boa saúde.
Se temos emuná, não sofremos.
Enquanto nos apegamos à crença de que tudo o que Hashem faz é para o
bem, não sentimos ter qualquer problema.
Portanto, podemos abrandar julgamentos severos se reforçamos nossa
emuná de que tudo o que Hashem faz é para o nosso máximo bem e se Lhe
agradecemos por tudo.
Essa é a atitude que uma pessoa doente deve ter.
Quando ela começa a agradecer a Hashem, a vida dá uma volta dramática
para melhor.

O principal é a emuná
O Rebe Nachman ensina (Licutei Moharan 11:5) que há certas doenças que
resultam de falta de emuná.
Tais doenças não podem ser curadas por meios físicos, mas apenas por reza
intensa, teshuvá e emuná reforçada.
Povo compassivo
Qualquer um da área médica deve saber que realiza uma tarefa elevada no
mundo.
Geralmente, quem escolhe uma carreira em medicina é uma pessoa
compassiva.
As características de misericórdia e compaixão combinadas ao desejo de
ajudar a humanidade são incentivos maravilhosos para se estudar medicina.
Entretanto, os médicos devem evitar a armadilha da arrogância e lembrar
que são apenas mensageiros da cura, pois Hashem sozinho decide quem irá
viver e quem irá morrer.
Hashem também decide o quanto ã pessoa sofrerá e se ela irá ou não se
curar.
O médico deve rezar diariamente antes de começar o trabalho para que
Hashem o ajude a ser um emissário digno de Sua confiança.
Suas orações também devem incluir um pedido especial de que ele mereça
ser agente da cura, e não da morte, D'us no livre - o erro de um médico
pode ter consequências trágicas ou fatais.
Portanto, os profissionais da saúde devem sempre rogar a Hashem que
tenham assistência Divina em tudo o que fazem.
Eles também precisam pedir por paciência, compreensão e sensibilidade
frente a seus pacientes.

Não há desespero!
Dizem os sábios que os médicos têm uma licença Divina para curar.
Isso não lhes dá licença para desencorajar ou desanimar pacientes.
Em muitos casos, os médicos dão aos pacientes e aos seus familiares uma
perspectiva pessimista e uma sensação de desesperança.
Dizer a um paciente que ele tem pouco tempo de vida é um erro terrível.
Pesquisas médicas mostram que otimismo e alegria desempenham um
papel importante na cura, recuperação e resistência a doenças.
Sutilezas como a terapia do riso ajudariam em algumas doenças.
Não é de admirar que o Rebe Nachman ressaltasse a importância de se
manter a felicidade e se evitar a tristeza e a depressão a todo custo.
O Rebe Nachman enfatiza que uma doença é resultado de uma "quebra" na
felicidade (veja Licutei Moharan 11:24).
Já que a emuná leva à felicidade, ela também facilita a recuperação de
doenças e indisposições.
O médico, portanto, deve evitar entristecer ou desencorajar pacientes.
De fato, uma de suas tarefas mais importantes é justamente encorajá-los.
Uma palavra de alento do médico pesa muito mais que o consolo do leigo.
O médico deve usar também sua boa influência para ajudar a fortalecer a
emuná do paciente.
Esse apoio emocional e espiritual é inestimavelmente benéfico para todos.

O prognóstico
A afirmação de que o médico deve dar ao paciente avaliações verdadeiras
sobre seu quadro clínico é uma falácia.
Não se deve roubar do paciente a esperança de recuperação.
E mesmo que o doente esteja destinado a morrer, ele deve, mesmo assim,
estar cercado de otimismo e encorajamento.
Os médicos que desencorajam e assustam seus pacientes, particularmente
os que preveem quanto tempo de vida resta a um paciente aparentemente
terminal, estão na verdade lhes roubando qualquer chance de recuperação.
Hashem não nos revela o dia da morte porque tal conhecimento poderia ser
prejudicial.
Se Hashem oculta o dia da morte, como pode um mortal ser tão presunçoso
a ponto de achar que sabe quando será essa data?
Prognósticos negativos às vezes são completamente incorretos.
Até mesmo em casos aparentemente terminais, um prognóstico pessimista
rouba do paciente o direito de morrer com otimismo e fé no coração.
O prognóstico de condenação leva a uma morte mais amarga,
acompanhada de sentimentos de desespero, confusão e até mesmo raiva de
Hashem, D'us nos livre.
Quando os médicos dizem que o fim está próximo e "selam" o destino do
paciente, negam a ele sua única tábua de salvação — a emuná.
Pare e pense um pouco: quem disse que o quadro do paciente não
apresentará uma melhora repentina?
Todos já ouvimos falar de pessoas clinicamente mortas que voltaram à
vida!
Os médicos são Deus para saber o que foi decretado a cada paciente?
Hashem pode mudar qualquer coisa no mundo de uma hora para a outra.
Portanto, um doente pode se recuperar apesar de todas as previsões
negativas dos médicos.
Assumir um compromisso, por menor que seja, de fazer teshuvá, melhorar
a si mesmo ou cumprir uma mitsvá, como doar dinheiro para caridade,
pode levar o paciente à recuperação não conseguida por métodos naturais.
Mas sejamos justos com os médicos; às vezes a família do paciente faz uma
grande pressão, exigindo a "verdade".
Em tais situações, o médico deve ter cuidado e dizer que de acordo com as
circunstâncias naturais, a situação parece grave, mas que a experiência
prova que a intervenção de Hashem pode alterar a situação de uma hora
para a outra, desconsiderando qualquer lei natural.

O melhor conselho
O médico que tem emuná sabe que o quadro do paciente pode mudar de
uma hora para a outra.
É suficiente que a família dê o nome do paciente a um tsadik e que ele
comece a rezar ou que faça um pidion nefesh pelo paciente.
Porém, o paciente pode se sentir melhor e depois ter uma recaída por
descumprir uma promessa ou deixar de ter emuná.
De qualquer modo, o médico deve evitar dar previsões sombrias, pois, se
Hashem decide reanimar o paciente, o médico pode acabar manchando sua
reputação.
Por outro lado, se o médico estiver correto, o que se ganha?
Se ele assusta o paciente — mesmo que sinceramente —, o médico é
culpado de onaat devarim, a transgressão da Torá de causar sofrimento a
outro ser humano.
A "verdade" pode fazer o paciente sofrer ainda mais com desespero e
desesperança.
O melhor conselho para os médicos é, portanto, evitar dizer qualquer coisa
comprometedora, mesmo se a família do paciente fizer muita pressão.
Há várias rotas verbais de saída, como "é muito cedo para dizer" ou "não
temos informação suficiente para fazer um prognóstico exato".
Há situações em que o médico força sua opinião com relação a um
determinado tratamento, remédio ou operação.
Isso também é um erro.
Mesmo que o médico esteja convencido de que as suas recomendações
estão certas, o paciente não deve ser privado de seu livre-arbítrio.
E mesmo que o médico queira ajudar o paciente, ele não deve pressioná-lo,
dramatizando as próprias opiniões.
Em suma, somente Hashem decide o destino de cada paciente.
A missão do médico é ser um emissário da Vontade e da Providência
Divinas, além de rezar para que seja afortunado o bastante para ser um
agente da cura e não da morte.
Portanto, o médico deve dizer ao paciente: "Farei o melhor que puder, mas
saiba que a sua saúde não depende de mim; por isso você deve fazer a sua
parte — fortaleça sua emuná em Hashem! Não importa o que dizem os
resultados dos testes, há muitas surpresas em medicina e Hashem pode
anular qualquer circunstância natural, por mais difícil que ela possa parecer.
Rezo para que Hashem me dê o melhor conselho com relação ao seu caso,
mas você pode contribuir muito para a sua própria recuperação por meio de
reza, caridade, teshuvá e emuná. Espero que, se trabalharmos juntos,
Hashem lhe conceda uma recuperação rápida e completa."

O principal — não tenha medo


O paciente não deve ter medo de médicos e suas previsões porque tudo
depende de Hashem.
Uma confiança cega em médicos e na medicina é em si uma forma de
idolatria.
Muitas pessoas têm medo de ferir sua dependência para com médicos e
remédios, como se sua vida dependesse do homem com o estetoscópio em
volta do pescoço.
Portanto, devemos temer apenas Hashem, e não os médicos e suas
advertências..

Salmos
Os Salmos têm um poder enorme, equivalente a uma infusão intravenosa
de fé em Hashem.
A confiança em Hashem contribui muito para a recuperação rápida e
completa de um paciente.
Há dezenas de histórias sobre pessoas que mereceram recuperações
milagrosas por terem recitado os Salmos.

O melhor amigo de um garotinho ficou muito doente e parecia que os


médicos haviam perdido as esperanças.
O garotinho pegou seu livro de salmos e, com uma comovente inocência,
recitou salmos por um hora em nome de seu amigo.
Ele fechou o livro, correu para a casa do amigo e perguntou se havia
alguma melhora.
A mãe de seu amigo, com lágrimas nos olhos, acenou que não com a
cabeça.
O garotinho correu para casa e recitou salmos por mais uma hora.
Mais uma vez, ele correu para a casa do amigo e perguntou sobre alguma
mudança.
Novamente, a resposta foi não.
O garotinho correu de lá para cá durante grande parte da noite, até que os
pais de seu amigo lhe disseram que a febre do filho havia baixado e ele
dormia em paz...

Nomes dos tsadikim


Segundo o Rebe Nachman (Sefer Hamidót), recitar os nomes dos tsadikim
pode provocar uma mudança na natureza.
Uma mulher veio me visitar depois que foi detectado um crescimento em
seu útero, e disse que os médicos estavam exigindo fazer uma operação
imediata que a deixaria estéril.
Ela seguiu o meu conselho e recitou os nomes dos tsadikim.
Pouco tempo depois, o crescimento desapareceu e a mulher recebeu um
atestado de boa saúde.
Desde então, ela deu à luz mais filhos.

Licutei Tefilót
Um homem sofria com graves dores nas costas, ao ponto de não poder
erguer nem coisas leves.
Ele perguntou a um dos tsadikim de sua geração o que fazer.
O tsadik lhe recomendou recitar todas as rezas para cura da clássica
coleção de orações do Rebe Natan de Breslav, Licutei Tefilót.
Ele seguiu o conselho do tsadik ao pé da letra.
Em pouco tempo, ele estava completamente curado.

Tudo dará certo no final


Nunca se esqueça de que Hashem é D'us.
Qualquer decreto Divino pode ser derrubado por meio de reza, teshuvá e
caridade.
Segundo nossos sábios, mesmo que uma espada afiada descanse no
pescoço de uma pessoa, ela não deve perder as esperanças.
"Esperança" significa reza, e a reza mais convincente é a do doente que
reza por si mesmo (veja o comentário de Rashi sobre o versículo no Gênesis
21:17).
Embora fazer o pidion nefesh e recitar nomes de tsadikim seja importante,
nada invoca mais a compaixão Divina para um doente do que a sua própria
reza — falar com Hashem em suas próprias palavras.
A pessoa deve pedir tudo o que precisa, especialmente cura e boa saúde.
O Rei David disse (Salmos 30:3): "Eterno, Deus meu, a Ti clamei e Tu me
curaste."
Um dos meus alunos sofreu um acidente quase fatal, que lhe causou uma
fratura exposta na coluna até o rim.
O ferimento ficou infeccionado e os médicos perderam as esperanças.
Meu aluno estava consciente e sabia da gravidade da sua condição.
Não havia procedimento racional para a cura.
Até o acidente, meu aluno dedicava alguns minutos ocasionais à reza, nada
mais.
Então, eu lhe pedi que se comprometesse a falar com Hashem duas horas
por dia — ele aceitou.
Toda noite, quando quase todo mundo dormia, ele ia de cadeira de rodas ao
terraço do hospital.
Por horas, ele implorava que Hashem estimulasse um novo crescimento de
tecido em suas costas.
Pouco a pouco, para a surpresa dos médicos, o novo tecido começou a
crescer até que o ferimento estivesse completamente curado.
O Rebe Noach de Lachovitch costumava dizer que quando os médicos dizem
ao paciente que não há cura e o paciente se fortalece com completa fé em
Hashem, todos os portões de salvação e cura se abrem...
Não devemos esperar por médicos ou doenças para nos voltarmos a
Hashem.
Confiar completamente em Hashem não apenas facilita a cura, como
também mantém saudáveis as pessoas saudáveis.

Não perca tempo!


Assim como o preso, o doente deve utilizar seu tempo livre para fazer uma
auto avaliação e uma busca espiritual.
Muitos pacientes ficam deitados sem fazer nada na cama por horas; livres
das exigências de uma rotina normalmente atarefada, o doente acamado
deve aproveitar seu tempo.
Muitas vezes, os desejos materiais de um doente diminuem
consideravelmente, o que o capacita a olhar o mundo objetivamente.
Quando isso ocorre, a delicada voz da alma pode ser ouvida.
Muitas pessoas saudáveis deixam o corpo sufocar a voz da alma.
Como é trágico quando os "entes queridos" conseguem uma televisão para
um doente!
Em vez de usar o tempo disponível para o tipo de busca espiritual que leva
à cura, ele desperdiça o tempo com bobagens.
Hashem tem uma enorme satisfação quando a pessoa passa no teste de fé
que acompanha a atribulação.
Reforçar a fé é uma ótima maneira de garantir boa saúde e uma completa
recuperação do corpo, da mente e da alma.

Saúde mental e emocional


O Rebe Nachman de Breslav escreveu (Licutei Moharan 1:173) que a alma e
a emuná são um único aspecto.
Consequentemente, a saúde emocional está diretamente relacionada ao
nível de emuná da pessoa.
Podemos concluir, portanto, que os distúrbios emocionais resultam de falta
de emuná.
Fraqueza emocional é resultado de fraqueza de emuná.
Essa é uma regra geral para todas as doenças mentais.
Deixe-me esclarecer: não estou me referindo a doenças mentais de
nascença, como autismo ou síndrome de Down.
Estas são o resultado de considerações Divinas e reencarnações, coisas que
não somos capazes de entender.
Porém, quando uma pessoa nasce saudável, mas depois sucumbe ao medo,
ansiedade, depressão e até mesmo esquizofrenia - ou qualquer outra
dificuldade mental ou emocional - a raiz do problema é uma emuná
maculada.
Mas aqui está a boa notícia: se uma pessoa emocionalmente perturbada
aprende sobre emuná e reza para ter emuná, ela consegue superar seu
problema.
Quanto mais a pessoa corrige e fortalece a emuná, mais terá saúde mental
e emocional.
Todos — até mesmo quem é considerado "normal"- sofrem com problemas
emocionais.
Além de medo, ansiedade e depressão, sofre-se com tédio, falta de
satisfação, raiva, preocupação, nervosismo e oscilações de humor, só para
citar alguns.
A emuná cura todos esses problemas.

Você tem medo de quê?


As pessoas se paralisam de medo.
Elas temem outras pessoas, seus chefes, a receita federal, terroristas,
outros motoristas — a lista é longa.
Se sofrem um espasmo muscular, já enxergam uma incapacitação iminente
ou uma doença terminal.
Todos esses medos são expressões de falta de emuná, particularmente a
falta de emuná de que tudo o que Hashem faz é para o nosso bem.
A pessoa que tem emuná não teme nada, pois sabe que está sob os
cuidados de Hashem.
Essa postura nos poupa muito desgaste emocional.
Já que Hashem faz tudo para o bem, não precisamos nos preocupar.
A pessoa que dedica uma hora por dia para auto avaliação, teshuvá e reza
pessoal não tem nada com o que se preocupar.
Se ela está fazendo seu melhor esforço para melhorar, por que Hashem
deveria puni-la?
Ela não precisa de "chamadas para despertar" porque se levanta
diariamente para fazer teshuvá e melhorar a si mesma.
O resultado de uma hora por dia de reza pessoal é mais felicidade e menos
estresse e preocupação

Seja feliz!
O rigor no cumprimento da religião é uma loucura; ninguém deve ser
demasiado exigente consigo mesmo.
Não se preocupe se o seu cumprimento de uma mitzvá é perfeito ou não,
apenas faça o que puder com inocência e boa intenção.
Lembre-se de que a Torá não foi dada aos anjos, mas a seres humanos
limitados.
Aqueles que exigem um comportamento angelical de si mesmos ficam
propensos à frustração, tristeza e decepção, que resultam do sentimento
arrogante de que tudo deve ser feito de modo perfeito.
A pessoa conectada à verdade é feliz servindo Hashem da melhor maneira
possível sem se impor uma rigidez de arrancar os cabelos.

Acreditar no sábio
O Rebe Nachman ensina que (veja Rebe Nachman's Discourses, 67)
"ignorar o sábio pode causar insanidade. A pessoa age de maneira insana
apenas porque ignora o conselho de outros. Se seguisse conselhos
racionais, agiria normalmente. Seu estado mental pode justificar sua
necessidade de fazer coisas como rasgar a própria roupa ou rolar no lixo.
Mas um homem mais sábio lhe diz para não fazer isso. Se o insano
subjugasse sua vontade à do sábio, suas ações se tornariam
completamente racionais. Comportamento insano, portanto, é resultado
apenas de ignorar os sábios. Entenda bem isso".
O ensinamento acima obriga qualquer pessoa racional a dar atenção às
palavras do sábio, especialmente aos nossos renomados líderes.
A crença em suas palavras, juntamente à emuná em Hashem, é o segredo
para a boa saúde mental.
A Torá louva os filhos de Israel durante sua fuga da escravidão no Egito
(Êxodo 14:31): "E viu Israel o grande poder que exerceu o Eterno sobre os
Egípcios e temeu o povo ao Eterno, e creram no Eterno e em Moisés, seu
servo."

Estudo da Torá
O Rebe Nachman de Breslav, provavelmente o melhor médico da alma que
já viveu, também ensina (Licutei Moharan abridged 1:1) que "quando
estuda Torá, a pessoa se salva da loucura".
O ietser hará - a inclinação para o mal - quer nos levar à loucura.
De acordo com os nossos sábios, a pessoa não peca a não ser que o espírito
da insanidade entre em seu cérebro.
Como a inclinação para o mal quer que as pessoas pequem, ela lhes instila
uma dose de insanidade.
O ietser hará conhece todos os tipos de armadilha e usa várias tentações e
confusões diferentes para distorcer o julgamento de uma pessoa.
A única maneira de se resguardar dessas armadilhas é fortalecer a emuná e
o estudar Torá.

Pensamentos
"Maus pensamentos e expectativas de luxúria deixam as pessoas loucas."
(Licutei Moharan 1:60).
Há uma relação muito forte entre elevação espiritual pessoal e saúde
mental.
O contrário também é verdade (além de ser triste): quanto mais a pessoa
sucumbe a pensamentos baixos e de luxúria, menos sã ela fica.
As pessoas cometem loucuras para satisfazer seus desejos, seja
desperdiçando dinheiro suado, arriscando-se a enfurecer o marido da
mulher cobiçada ou destruindo a própria casa, arruinando a própria vida e a
da família.
Isso sem falar em pornografia, que é mais uma insanidade.
Portanto, resguardar os olhos e a mente da luxúria e das coisas proibidas é
tão importante quanto resguardar a boca de engolir veneno.
De fato, é mais fácil envenenar a mente do que envenenar o corpo.
É muito importante estudar Torá, aprender a ter emuná, fazer teshuvá
sincera, rezar intensamente e resguardar os olhos, especialmente de livros,
filmes, revistas e websites impuros.
Isso tudo nos leva a escapar das armadilhas dos maus pensamentos e das
contemplações de luxúria que deixam maluca uma pessoa normal.
Devemos rezar por felicidade.
Felicidade e boa saúde mental andam de mãos dadas.
A verdadeira felicidade vem da emuná reforçada.

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 4

Capítulo 3 - Testes de emuná (continuação)

Sustento.
A qualidade do nosso sustento depende de nossa confiança em Hashem,
conseguida por meio da emuná.
Portanto, os esforços para reforçar a emuná e a confiança em Hashem são
capazes de melhorar nosso sustento.
A emuná nos ensina que quem mantém todas as criações, da ameba
unicelular às galáxias magníficas, é Hashem.
De acordo com os nossos sábios, aquele que dá a vida também dá o
sustento.
Ou seja, se acreditamos que Hashem é o Criador que dá a vida, devemos
acreditar também que o Criador sustenta todas as Suas criações.
A confiança completa em Hashem inclui a crença de que o sustento faz
parte da Providência Divina sobre cada criação.
O sustento é preocupação do Criador, não da criação individual.
Por isso, aquele que confia em Hashem fica livre da inquietação sobre seu
sustento e aclara a mente para se concentrar em sua tarefa específica na
Terra.
Pessoas assim sabem que Hashem irá cumprir Suas obrigações fielmente.
Os pensamentos não focados em dinheiro são um sinal de confiança em
Hashem.
Aqueles que confiam em Hashem não se preocupam em saber de onde virá
a próxima refeição.
Mesmo quando a "situação aperta", sabemos que nossos problemas
financeiros vêm de Hashem.
Portanto, não nos culpamos ou a mais ninguém por nossas dificuldades.
Quando sofrer uma perda financeira, seja em forma de roubo, perda ou
acidente, você deve se voltar aos três princípios de emuná:
1. Tudo vem de Hashem, assim como esta perda em particular.
Não apenas tudo vem de Hashem, como isso é exatamente o que Ele quer.
2. Essa perda particular é para o bem, assim como tudo o que Hashem faz.
3. A perda é uma mensagem de Hashem para estimular a auto avaliação e
a busca espiritual com relação a algo que precisa ser corrigido, pois não há
atribulação sem transgressão.
Pessoas com emuná sabem que Hashem é O Provedor.
Portanto, quando encontram dificuldades financeiras, reagem colocando a
emuná para trabalhar, como no processo tripartite de pensamento baseado
nos princípios da emuná apresentado acima.
A melhor maneira de se compensar a falta de dinheiro é fazer teshuvá, ou
seja, retificar os erros que a princípio causaram a carência.
Com teshuvá e reza pela compaixão de Hashem, a pessoa pode literalmente
deslizar sobre suas dificuldades financeiras.

Pelo suor do próprio rosto


Por outro lado, aqueles que não confiam em Hashem, D'us nos livre,
atribuem suas dificuldades financeiras a uma longa lista de "vilãos".
Ou eles se culpam ou culpam os outros (e também a sua falta de sorte), ou
fazem uma caça às bruxas em busca de maus sinais, olho gordo e outras
tolices.
Às vezes, eles lamentam e se ressentem de Hashem por achar que Ele não
os ama ou que não cuida deles.
Eles pensam em centenas de planos diferentes para conseguir dinheiro ou
para obter o que querem, incluindo meios ilegais, como sonegar impostos
ou roubar.
Eles tentam de tudo, mas não fazem o que deveriam — se voltar a Hashem
e rezar.
Eles quebram a cabeça decidindo se devem pedir, emprestar ou roubar.
Trabalham hora extra às custas da família e da própria saúde.
Não têm paz interior neste mundo nem no próximo.
Sem emuná, a pessoa amplia a maldição de viver pelo suor do próprio rosto
(veja Gênesis 3:19).
A emuná é a bênção que cancela a maldição.

Não roubarás
Quanto menos emuná, mais a pessoa fica vulnerável a contemplar meios
ilegais de conseguir dinheiro.
A desonestidade e a falta de emuná são parceiras.
Mas, com emuná, entendemos que Hashem provê o sustento dentro da
estrutura dos mandamentos da Torá.
Qualquer quantia destinada a uma pessoa chegará a ela de modo
permissível e por meios honestos.
Lembre-se desta importante regra espiritual: O dinheiro que se obtém ao
transgredir as leis da Torá (mentir, trapacear, não pagar o salário de
alguém, fraudar e roubar, para mencionar apenas alguns) é não apenas
amaldiçoado, como prejudica o dinheiro conseguido de modo "casher"
(assim como uma maça podre estraga as maçãs boas da mesma cesta).
Dinheiro desonesto invoca uma torrente de problemas e atribulações.

Confiança
O melhor conselho para se resolver um problema de renda é fortalecer a
confiança em Hashem.
Um ótimo método de se fortalecer a emuná em Hashem é aprender o
capítulo intitulado O portão da confiança, do clássico livro de ética Os
deveres do coração, do Rabenu Bachia.
O melhor modo de aprender é o seguinte:
1. Aprenda um pequeno trecho todo dia, não mais que quinze linhas.
Revise esse trecho três vezes ao longo do dia.
2. No dia seguinte, aprenda o próximo trecho de quinze linhas e o revise
três vezes.
3. Quando terminar o capítulo seguindo esse método, repita todo o
processo até que você internalize os princípios de confiança em Hashem.

As pessoas que seguiram esse conselho viram seu sustento melhorar


consideravelmente.

Rezar e estudar
Os Portões da Confiança formam um extraordinário conjunto para melhorar
a renda.
Aqueles que desejam resolver seus problemas financeiros de uma vez por
todas devem realizar um "tratamento de raiz" espiritual e não usar a reza
para pedir dinheiro; em vez disso, eles devem pedir emuná e confiança a
Hashem.
Por quê?
Quando rezamos por dinheiro, a reza serve como solução temporária, como
um remendo numa calça jeans rasgada.
Orações por dinheiro não resolvem a essência das dificuldades financeiras.
Uma crise financeira leva à outra caso não reforcemos nossa confiança em
Hashem.
Mas quando fortalecemos a emuná, nossos problemas de renda se
resolvem!
Hashem quer que aprendamos a confiar Nele.
Quando o fazemos, Ele não precisa nos incomodar com problemas
financeiros.
Com emuná e fé, merecemos uma vida agradável e um sustento suficiente
para toda a vida.
Aqueles que estão atolados em dívida devem passar ao menos uma hora
por dia rezando, procurando a ajuda de Hashem, fazendo teshuvá e
tentando corrigir os erros que geraram as dívidas.
Eles devem pedir a Hashem emuná e confiança, criando assim um forte
recipiente espiritual que poderá receber bênçãos Divinas de abundância.

Preocupação e confiança se excluem mutuamente


Um jovem reclamava de dificuldades financeiras a seu rabino, que lhe
aconselhou a rezar a Hashem e pedir emuná.
O jovem protestou, dizendo que não havia nada de errado com sua emuná.
"Eu tenho emuná!", ele exclamou, "mas estou preocupado com minhas
velhas dívidas, minhas novas contas, alimentação e educação de meus
filhos..."
O rabino sorriu.
"Que seus ouvidos ouçam o que a sua boca acaba de dizer! Você diz ter
emuná e no mesmo suspiro diz estar preocupado — essas coisas não
andam juntas, elas se excluem mutuamente! Uma pessoa que realmente
acredita em Hashem não fica preocupada. Ela sabe que Hashem sempre
alimentará e vestirá a sua família. Aqui está a prova..."
O rabino mostrou ao jovem uma foto de seu neto, um garoto risonho de
bochechas rosadas brincando em uma caixa de areia.
"Você já viu uma criança de três anos preocupada? Não! Uma criança não
tem de se preocupar — a mamãe e o papai são responsáveis por trazer o
pão para casa! Ele continua brincando na caixa de areia — sua tarefa nesse
estágio da vida — e não se preocupa. Ele não perdeu nenhuma refeição até
hoje, e confia que não vai deixar de comer no futuro. Do mesmo modo,
você deve confiar em seu Pai no Céu enquanto se concentra em sua própria
tarefa na vida, sem se preocupar também. Hashem não permitirá que você
perca uma refeição!"
O jovem respirou fundo e refletiu sobre as palavras do rabino.
"A sua missão na vida", continuou o rabino, "é servir Hashem. Deixe
Hashem tomar conta da sua situação e preocupação financeiras. Fale com
Ele da seguinte maneira: "Mestre do universo, não há ninguém para quem
eu possa me voltar senão a Você, pois o universo, e tudo o que ele contém,
é Seu. Você mantém todas as Suas criações como melhor Lhe parece. O
meu sustento está em Suas mãos e não nas minhas. Por favor, querido Pai,
mande-me o meu sustento como Lhe parecer mais adequado e me ensine a
reforçar minha fé, para que eu possa Lhe servir com alegria e confiar
totalmente em Você e nos modos como Você conduz as coisas. Ajude-me a
ser sempre fiel a Você.”"
O jovem seguiu o conselho do rabino.
Quanto mais ele rezava, mais fortalecia sua emuná.
Quanto mais ele fortalecia sua emuná, menos dificuldades financeiras ele
tinha.
Quando acreditamos com fé completa que Hashem é o único capaz de
resolver problemas de renda, nosso coração se enche de alegria e
confiança, sabendo no fundo que Ele não abandona um querido filho.
Assim como Hashem não deixou de prover sustento no passado, Ele
continuará a fazê-lo no futuro.
"... aquele que confia em Hashem, a benevolência o envolve."
(Salmos 32:10)
Hashem provê o sustento de uma pessoa independentemente de suas
habilidades ou de sua retidão.
Pense no exemplo de uma criança pequena: quando ela não se comporta,
os pais lhe negam comida, roupa, abrigo ou atenção médica?
É claro que não!
Se assim é com os seres humanos — e Hashem é infinitamente mais
compassivo e misericordioso do que o homem —, certamente também é
com Hashem!
Ele provê às Suas criações não obstante a retidão de seu caráter.
Na oração de Amidá que recitamos três vezes ao dia, dizemos que Hashem
"mantém toda vida com benevolência" — não dizemos que Ele mantém toda
vida com justiça.
Ou seja, Hashem provê sustento a todos nós graças à Sua incrível
benevolência — e não pelo julgamento de nosso mérito.
Aquele que dá a vida também dá o sustento.
Dificuldades financeiras podem ser uma mensagem de Hashem para que
comecemos uma busca espiritual.
Nossos sábios apontam para certas transgressões que são diretamente
prejudiciais para se ganhar a vida, como fraude, roubo, desonestidade,
infidelidade, raiva, tristeza, preocupação, emissão de sêmen em vão, uso de
métodos contraceptivos sem permissão rabínica e violação da pureza
familiar.
Essas transgressões são rupturas sérias de emuná; se a pessoa sofre com
problemas financeiros e é culpada de uma ou mais dessas transgressões,
ela deve confessar a Hashem e fazer teshuvá, o que certamente levará a
uma renda melhor.
Se a pessoa não é culpada de uma ou mais transgressões das mencionadas
no parágrafo anterior, então suas dificuldades financeiras são mensagens
celestes de que ela tem de reforçar sua emuná.
Portanto, para aliviar as dificuldades financeiras, devemos concentrar
nossos esforços espirituais em fortalecer todo aspecto de nossa fé em
Hashem — aprender sobre emuná, rezar por emuná, realizar uma avaliação
pessoal diária da própria emuná e fazer teshuvá por qualquer brecha na
emuná.
O sustento é a principal "pista de testes" de emuná.
Aqui não se pode "fingir", porque os resultados da emuná se refletem na
paz interior, ou na falta dela.
Ou você acredita que Hashem provê o seu sustento, ou fica dando voltas
num pensamento delirante de que você é a única fonte de seu sustento.

Rebe Yitschak Breiter, de santa e abençoada memória: uma lição de


confiança
O Rebe Yitschak Breiter foi um mártir virtuoso, a quem os nazistas
assassinaram durante o Holocausto.
Antes da Segunda Guerra Mundial, ele tinha uma posição bem remunerada
como contador de uma grande fábrica de Varsóvia, o que lhe permitia
dedicar bastante tempo ao estudo da Torá e ao serviço a Hashem.
Quando a crise econômica anterior à guerra atingiu a Polônia, o Rebe
Yitschak perdeu o emprego.
A notícia da demissão atingiu sua família como um raio em dia ensolarado,
mas o Rebe Yitschak manteve a calma.
Quando ele viu que literalmente não havia mais trabalho em lugar nenhum,
ele foi para a casa de estudos e se imergiu em Torá e reza.
Quanto mais a economia nacional piorava, mais o Rebe Yitschak
permanecia grudado ao seu Talmud.
Sua confiança em Hashem nunca vacilou.
Outras pessoas vagavam pelas ruas à procura de um pouco de trabalho ou
de um pedaço de pão.
Mas a família Breiter sempre tinha o suficiente para comer.
Milagrosamente, eles recebiam seu sustento de todo tipo de fonte
inesperada.
Um dia, o Rebe Yitschak estava na casa de estudos, absorto em uma
complicada questão de lei talmúdica.
Um total estranho se aproximou e lhe deu uma boa doação.
O Rebe Yitschak não se mostrou surpreso nem alegre, educadamente
agradeceu ao homem, abençoou-o e voltou a estudar.
O doador começou a ir embora, mas mudou de ideia quando chegou à
porta.
"Desculpe-me, rabino, mas há uma certa questão que está me
incomodando", disse o doador "O Rei David disse (Salmos 37:25): ‘Fui
moço e também envelheci, e nunca vi o justo em abandono, nem a sua
descendência implorar por pão.' Se assim for, como pode um justo como o
senhor, que estuda Torá e serve Hashem dia e noite, ter de apelar a outros
por seu sustento?"
O Rebe Yitschak ponderou a questão por um momento e respondeu: "Vá
para o mercado, para a loja do rico tal e tal e veja como seu filho fica na
calçada em frente à loja caçando clientes. O garoto já está rouco quando
consegue convencer alguém a entrar e comprar algo de seu pai. Então, não
está a descendência de tal e tal implorando por pão? Eu fico aqui estudando
Torá e rezando a Hashem; você me viu chamar alguém? Eu lhe pedi um
centavo sequer? Você veio a mim por iniciativa própria e me deu
exatamente o que eu precisava para o sustento da minha família."
De acordo com os sábios, assim que as pessoas acreditam que Hashem
provê seu sustento, ganham uma porção no mundo vindouro.
O Talmud explica (TB, Tratados de Berachót 4b) que qualquer um que recite
o salmo 145 três vezes ao dia merece uma porção no mundo vindouro, já
que esse salmo em particular leva à emuná e à confiança em Hashem,
como declara o versículo 16: "Abres Tua mão e satisfazes os desejos de
todos os seres."
A emuná e a confiança aumentam a renda; a preocupação a destrói.
O Rebe Nachman de Breslav cita vários conceitos talmúdicos que ligam o
sustento à emuná (veja Sefer Hamidot, emuná).
Por exemplo, qualquer um que tenha emuná está destinado a ser rico; a
emuná invoca uma renda melhor; a felicidade que vem da emuná traz o
sucesso; aquele que inclui o nome de Hashem (i.e reza) merece ganhar em
dobro; a emuná leva ao sustento etc...
Consequentemente, o principal esforço para se ganhar a vida deve ser o
constante fortalecimento da emuná e confiança em Hashem.
Com emuná, todas as nossas necessidades são supridas.

Negócios
Um empresário sem emuná é infeliz.
Um comerciante deprimido foi visitar seu rabino.
O prognóstico espiritual imediato feito pelo rabino foi: "Seus problemas
empresariais e financeiros ocorrem porque você pensa ser o chefe e,
portanto, todas as preocupações estão em seus ombros. Você depende do
seu cérebro, da sua perspicácia e do seu talento, e por isso sofre decepções
amargas quando as coisas não ocorrem do modo como você queria. Até
pior, você deposita sua confiança em pessoas — clientes, fornecedores,
bancos e assim por diante — e elas mentem e enganam e o decepcionam."
O rabino deixou o homem refletir um pouco e continuou: "Se você
percebesse que Hashem conduz os seus negócios e que você é apenas um
'administrador’ seu trabalho seria muito mais simples; você não precisaria
se preocupar nem sofrer, e não teria de perder a cabeça. Como funcionário,
você pode se concentrar em fazer o seu trabalho, deixando que o Grande
Chefe — Hashem — Se preocupe com o resto. Toneladas de pressão sairiam
de seus ombros."
"Como eu faço Hashem ser o chefe? ", perguntou o empresário.
"Simples. Você diz a Hashem: 'Mestre do Universo, quero que Você controle
os meus negócios. Não tenho como saber se os bancos e os fornecedores
estão sendo honestos ou se meus clientes pretendem pagar suas contas.
Você enxerga tudo, até mesmo os pensamentos mais profundos do coração
de uma pessoa. Você sabe se uma transação futura será lucrativa ou não.
Quero que Você tome as decisões. Por favor, Pai, ajude-me a confiar
apenas em Você. Se um acordo não é bom, não deixe que ele seja
concluído. Mas se um negócio vale a pena, por favor, faça-o acontecer!"
O empresário arregalou os olhos, pasmo.
"Rabino, você está dizendo que Hashem intervém toda vez que uma dona
de casa entra em minha loja?"
"É melhor você acreditar!", respondeu o rabino. "Hashem coloca o desejo
em seu coração para comprar exatamente o produto que está à mostra na
vitrine de sua loja. Hashem também pode avaliar um futuro empregado ou
pode dar a você a sabedoria para expandir ou limitar o negócio de maneira
lucrativa. Se você consulta Hashem antes de cada transação, deposita toda
a sua confiança Nele e pede a Sua orientação, você prosperará."

O empresário que reza por uma emuná mais forte aprende a administrar
seus negócios sem estresse nem ansiedade.
Quando deposita sua fé em Hashem, nada pode assustá-lo ou entristecê-
lo.
Basicamente, podemos escolher entre dois caminhos na vida empresarial
(ou em qualquer outra fase da vida): Ou nomeamos Hashem o CEO da
nossa companhia — e aproveitamos uma vida suave e tranquila -, ou
carregamos os problemas sozinhos, com o estresse, as preocupações, os
nervos e os problemas de saúde que eles nos trazem.

Fazendo malabarismo com dinheiro


"Financiar" é uma doença.
Hashem decide quanto dinheiro temos.
Hashem também dá a cada um de nós o capital necessário para o que quer
que Ele considere que nos seja necessário.
Suponha que você queira um carro novo, mas agora não tenha condições
de comprá-lo.
Esse é um sinal claro de que Hashem julga que o carro novo não seja
necessário nesse momento.
Muitas pessoas sem dinheiro pensam que podem "passar a perna" em
Hashem, financiando ou usando o "dinheiro de plástico".
Elas frequentemente redistribuem o dinheiro ao pegar emprestado de uma
fonte para poder pagar à outra.
Dívidas de financiamento e de cartão de crédito crescem rapidamente por
causa de seus enormes juros.
Então, ao tentar "enganar" Hashem e comprar coisas usando crédito ou
empréstimo, as pessoas cavam poços financeiros nos quais eventualmente
irão cair.
A maioria dos empréstimos e das compras a prazo indica uma falta de
emuná.
Com emuná, ficamos satisfeitos com o que Hashem nos dá.
Se não há dinheiro para o carro novo, significa que Hashem quer que
continuemos a dirigir o carro velho por enquanto.
Quem tem emuná não cai na armadilha do "zero de entrada e juros
baixíssimos".
Não falta capital a Hashem; se Ele quer que tenhamos o carro novo, Ele nos
dará os recursos.
Suponha que você queira abrir um negócio e tenha R$ 50.000,00 à sua
disposição.
Nesse caso, você deve procurar um pequeno negócio — uma loja de doces
ou uma banca de jornal, por exemplo — e começar a trabalhar!
Hashem não quer que você pegue emprestado mais R$ 500.000,00 para um
negócio maior.
Quem disse que você irá conseguir pagar esse empréstimo?
As pessoas que não têm emuná tendem a ter egos inflados.
"O quê? Eu vou vender doce ou caneta?"
Elas acham que devem ser grandes empresárias e que podem ter sucesso
apenas lidando com altas somas de dinheiro.
Se não temos um grande capital, é sinal de que Hashem não quer que o
tenhamos.
Algumas pessoas pensam que ganharão muito ao trabalhar com dinheiro
emprestado.
Se elas avaliassem cuidadosamente, veriam que o custo do financiamento
engole todos os lucros.
Ademais, esses "malabaristas financeiros" dependem da misericórdia de
instituições cruéis como bancos e companhias de financiamento.
Assim que um banco ou uma financiadora desliga a fonte de empréstimo, o
cliente quebra a cara.
Histórias de falência assim são muito comuns.
A maioria dos "malabaristas financeiros" tem mania de grandeza.
Se tivessem emuná, entenderiam que Hashem decide quanto dinheiro eles
ganharão diária, semanal, mensal ou anualmente.
Vamos supor que Hashem dê ao "malabarista" R$ 100.000,00 por ano, mas
ele queira o dobro.
Ele acaba desperdiçando dinheiro contratando mais funcionários do que
precisa, gastando em publicidade ou desproporcionalmente tentando
aumentar os negócios.
Com emuná, a pessoa para de fazer malabarismo e faz o melhor que pode
com os recursos disponíveis.
Pessoas de emuná não são malabaristas; são econômicas, dirigem os
negócios em pequena escala e estão satisfeitas com o que têm.
O Rei Salomão disse de modo tão brilhante (Provérbios 28:20): "O homem
de fé aumentará suas bênçãos, mas o que se apressa a enriquecer não
ficará impune."
Ou seja, As pessoas de fé estão satisfeitas com a bênção de Hashem e,
graças ao seu contentamento, recebem bênçãos ainda maiores.
São cuidadosas com o próprio dinheiro, não gastam desnecessariamente e
não ficam endividadas.
Mesmo que as pessoas com emuná procurem a opinião de experts como
corretores de investimentos, contadores ou outros consultores financeiros,
elas pedem sucesso a Hashem da seguinte maneira: "Hashem, obrigado por
prover minhas necessidades diárias. Guie meus investimentos e/ou
negócios de modo que eu tenha lucro, para que eu possa dar quantias
generosas à caridade e cumprir Seus mandamentos. Por favor, me ajude a
aceitar qualquer resultado — lucro ou prejuízo — com completa fé."
Disse o profeta (Jeremias 17:7): "Bendito é o homem que confia em
Hashem, e Hashem será a sua garantia."
O Rei David prometeu que aqueles que confiarem em Hashem estarão
sempre cercados de compaixão Divina (veja salmo 32).
Por outro lado, quem não tem emuná e confia cegamente em consultores
financeiros, como se o mortal do qual a pessoa depende lhe garantisse o
sustento, se decepciona quase sempre.
O profeta também disse (Jeremias 17:5): "Maldito é o homem que confia
nas pessoas e faz da carne e osso a sua força."
Confiar em alguém ou em qualquer coisa que não Hashem é a fórmula do
fracasso.
O Rebe Menachem Mendel de Kotsk interpreta o Midrash (Mechilta,
Beshalach 17) que diz "a Torá foi dada àqueles que comem o maná".
O maná era o doce pão caído do céu que Hashem dava aos Filhos de Israel
durante os quarenta anos que passaram no deserto.
O maná caía do céu diariamente e era o suficiente para as necessidades de
cada família.
Ou seja, a pessoa que confia em Hashem é como quem come pão enviado
do céu.
Já que tal pessoa tem a convicção de que Hashem lhe mandará um
sustento sem ela ter de trabalhar vinte e quatro horas por dia, ela tem
tempo para se dedicar ao estudo da Torá.
Assim, a Torá se torna a herança daqueles que confiam em Hashem,
aqueles que se assemelham a quem comia o maná.
Com emuná, entendemos que Hashem continua a prover nossas
necessidades diárias até hoje.
A emuná libera a energia desperdiçada em correr atrás de dinheiro para ser
usada no estudo da Torá!

O empresário bem-sucedido
Um princípio fundamental da emuná com relação ao esforço para se ganhar
dinheiro é que nosso sustento é determinado em Rosh Hashaná.
Nosso nível de confiança em Hashem é a manifestação prática da emuná
em nossa vida.
A confiança inclui a consciência de que Hashem mantém todas as Suas
criações e que Ele faz o Seu trabalho de forma confiável.
Quando confiamos em Hashem, não nos preocupamos com a próxima
refeição; sabemos que Aquele que alimentou no passado continuará a fazê-
lo no futuro.
Também sabemos que nosso sustento não depende da nossa habilidade ou
esperteza — depende somente de Hashem.
Ninguém pode subtrair da renda que Hashem destina a uma pessoa.
O Talmud afirma enfaticamente (TB, Tratado Yoma 38b) que um ser
humano é incapaz de tocar a porção destinada a outro ser humano.
Sabendo desse fato, nunca precisamos nos preocupar ou temer algo ou
alguém.
A confiança em Hashem — internalizar o princípio fundamental de emuná
segundo o qual o nosso sustento é predeterminado e vem exclusivamente
de Hashem — nos capacita a conduzir os negócios com convicção e lucidez.
Estresse, ansiedade e preocupação ficam de fora.
Quando confiamos em Hashem, vivemos com paz interior, evitando as
armadilhas das loucas jogadas e negócios em busca de dinheiro à custa de
nossa saúde física, emocional e espiritual.
Parece exagero?
Eis o que a busca fútil por dinheiro faz com uma pessoa:
• Danos emocionais — preocupação, raiva, estresse e ansiedade que
também podem resultar em depressão e oscilações bruscas de humor.
• Danos físicos — as dificuldades emocionais acima aumentam as chances
de ataques cardíacos, distúrbios digestivos, derrames e problemas
cardiovasculares, D'us nos livre.
Ademais, elas servem de trampolim para vícios como álcool, tabaco e
outras drogas.
• Danos espirituais — os caçadores de dinheiro se esquecem das leis da
Torá e muitas vezes valem-se de desonestidade, fraude, roubo e outras
transgressões que causam máculas severas na alma.
Com confiança em Hashem, não pensamos em dinheiro o dia todo.
A paz de espírito está apenas a duas palavras de distância — Hashem
provê.
Ter um negócio é um teste contínuo de fé.
Empresários são testados a cada segundo: se eles acreditam que seu
sustento vem de Hashem, ficam tranquilos e conduzem suas obrigações
honestamente.
Se acreditam no contrário — em que sua renda depende de seu próprio
esforço e aptidão — então provavelmente estão trabalhando duro demais e
desperdiçando energia em toda sorte de planos para ganhar mais dinheiro.
Toda a vida de uma pessoa depende da emuná de que Hashem provê para
toda criação.
A emuná cria um cano espiritual limpo pelo qual a abundância corre,
diretamente do céu para a conta bancária ou para a mesa de jantar.
Beber do "cano da emuná" é como beber de um cálice de prata.
Sem emuná, bebe-se do equivalente a um cano de esgoto, em que a renda
é contaminada com emoções negativas, má saúde e danos à alma.
Decida qual opção de vida você prefere, pois, basicamente, há apenas
duas:
Primeira: você pode acreditar que Hashem predetermina a sua renda e que
cada centavo destinado a você irá chegar na hora certa.
Se não vier de uma determinada fonte, virá de outra.
Se não hoje, então amanhã.
Consequentemente, você fica sereno e evita os transtornos causados por
negócios ilegais e desonestos, hipertensão, úlceras e ataques cardíacos.

Segunda: você não acredita em Hashem ou em Sua capacidade de mantê-


lo.
Você dá cabeçadas na parede tentando ganhar a vida e fica bravo e irritado
na maior parte do tempo porque a existência se tornou uma morte em vida.
Você se afunda em dívidas, fica confuso e não consegue pensar com clareza
por causa das tensões e do estresse que pesam em sua mente.
Muitas vezes você se pega no limite da honestidade tentando ganhar um
real a mais.
Lembre-se!
As pessoas recebem seu "salário celeste" com exatidão.
Não é possível ganhar sequer um real a mais com enganações, mentiras ou
negócios desonestos.
Temos o seguinte exemplo:
Joe e Harry são donos de loja.
Cada um deles está destinado a ganhar R$ 100.000,00 neste ano.
Joe ganha seu dinheiro honestamente e com boa fé e, portanto, o aprecia.
Harry quer muito mais dinheiro do que o que Hashem lhe dá, então faz
jogadas, negociatas, mente e rouba, conseguindo um rendimento bruto de
mais quinze mil reais.
Harry agora irá sofrer doenças, acidentes, estragos na casa, investigações
da receita federal, processos e inúmeros outros aborrecimentos.
No final, ele acaba perdendo os quinze mil que não lhe eram destinados e
não aproveita os cem mil iniciais, já que estará ocupado em médicos,
advogados e assim por diante.

A história de Yossele
O Baal Shem Tov tinha um discípulo chamado Yossele.
Seu ietser hará o instigava a roubar.
Sem conseguir superar seu desejo, Yossele decidiu tentar roubar à noite,
quando toda a cidade estaria dormindo.
Ele estava de olho na mansão de Lady Sara, a ampla residência de três
andares que ficava no bairro onde todas as solteironas ricas viviam.
Sara era a única filha de um rico comerciante que havia morrido e deixado
para ela toda sua fortuna.
Yossele chegou sorrateiramente à mansão e, para a sua alegria, o guarda
do portão roncava em sono profundo.
Dois cachorros bem alimentados estavam sentados balançando o rabo ao
lado do guarda.
Yossele mal podia acreditar na sorte.
Até a porta de entrada da mansão estava destrancada e não havia nenhum
empregado à vista!
Em silêncio, como se pisasse em ovos, Yossele entrou na mansão.
Ele nunca tinha visto tanta abundância - tapetes persas, lustres de cristal
de Viena, quadros de famosas galerias de Paris e Amsterdã.
Ele foi, na ponta dos pés, da sala de estar ao ateliê de pintura.
Yossele já havia estado ali para receber uma doação do pai de Sara, que
não fez esforço algum para esconder a localização do cofre.
Ele moveu a pintura da cachoeira e ali estava o cofre.
Yossele girou o disco e a porta se abriu.
Diamantes, ouro e pilhas de dinheiro guardados bem na sua frente.
Yossele estava surpreso com o fato de que tudo havia corrido tão bem; o
guarda dormia, os cachorros não latiram, a porta da frente estava aberta,
todos os empregados haviam desaparecido e até o cofre estava
destrancado!
Por mais estranho que parecesse, Yossele sentia que contava com
aprovação Divina!
"Por que Hashem está deixando isso tão fácil para mim?", Yossele se
perguntou. "Estranho. Parece que todas essas riquezas estão esperando por
mim."
Quanto mais ele olhava as riquezas, mais seu coração batia com culpa.
Ele se lembrou de uma passagem talmúdica segundo a qual o sustento de
uma pessoa é predeterminado.
"Se assim for", ele argumentou consigo mesmo, "por que devo tocar em
algo que não me pertence?"
Mas os diamantes e as pilhas de dinheiro pareciam estar lhe chamando -
"Yossele, nos leve daqui..."
O conhecimento de Torá, a consciência e a inclinação para o bem de Yossele
estavam vencendo essa batalha interna.
Uma faísca de emuná acendeu um fogo de fé em seu coração.
"Se todas essas riquezas são realmente minhas, elas virão a mim por meios
honestos. Certamente não há motivos para eu roubar e transgredir os
mandamentos de Hashem."
De repente, à beira de cometer um crime terrível, Yossele passou a sentir
um maravilhoso temor a Hashem.
"Hashem, me salve!", ele gritou e saiu correndo sem levar nada.
No dia seguinte, à tarde, depois de ter derramado um mar de lágrimas e ter
se inundado em remorso implorando pelo perdão de Hashem, Yossele
recebeu um chamado do Baal Shem Tov.
Obedientemente, ele foi ao encontro de seu mestre.
"Sente-se, Yossele", disse cordialmente o Baal Shem Tov. "Como você está
se sentindo?"
"B-bem, b-baruch Hashem", gaguejou Yossele, esperando a pior bronca
possível.
"Yossele, recebi uma mensagem de Lady Sara -você sabe de quem estou
falando?"
Yossele parecia ter engolido uma bola; ele mal podia respirar, muito menos
falar.
Ele tossiu várias vezes enquanto seu rosto mudava de cor, de rosado a
amarelo pálido a branco acinzentado. Ele tinha certeza de que Lady Sara
relatara ao Baal Shem Tov a tentativa de assalto.
E mesmo se ela não tivesse contado, nada escapava à ilimitada visão
espiritual do tsadik.
Yossele queria pular num buraco e ser devorado pela terra.
Ele estava tão envergonhado...
"Yossele", continuou o Baal Shem Tov, "Lady Sara, como órfã e filha única,
me pediu que eu fosse seu protetor e que eu a aconselhasse e a ajudasse a
conduzir seus negócios..."
O Baal Shem Tov parou de falar e seus celestiais olhos azuis pareciam
penetrar as fibras da alma de Yossele.
"... Lady Sara me pediu para encontrar um chatan adequado; ela quer se
casar. Ela quer um marido devoto, que passa todo momento estudando
Torá e servindo a Hashem. Ela não quer um homem de negócios para
administrar sua fortuna, pois isso ela mesma pode fazer. Seu pai a treinou e
ela está adaptada ao mundo empresarial. Ela quer um marido que se isole
do mundo exterior e cujas energias e aspirações sejam canalizadas para a
Torá."
Yossele quase caiu da cadeira; ele esperava ser consumindo por um raio a
qualquer segundo, mas em vez disso...
O Baal Shem Tov sorriu ternamente.
"Sabe, Yossele, quando Lady Sara veio a mim algumas semanas atrás, eu
não consegui pensar em um candidato apropriado. Depois, Hashem me deu
a ideia de que chegou a hora de você se casar e que você e Sara formariam
um belo casal. Quero que você se prepare para o casamento. As festas
estão chegando, então acho que você e Sara devem se casar sem demora."
Qualquer bomba - mesmo uma bomba de chocolate - requer tempo para
ser digerida.
Com a cabeça girando, Yossele saiu da casa do tsadik pelas ruas
ensolaradas do verão ucraniano.
Ele se sentou à beira do rio e contemplou a grandeza da Providência Divina
frente aos mínimos detalhes, pensando sobre a misericórdia e a
benevolência fenomenais de Hashem.
"E se eu não tivesse passado no teste?", ele se perguntou e quase
desmaiou quando considerou as consequências de um possível fracasso.
Se ele tivesse roubado, teria pegado um dinheiro que chegaria a ele de
qualquer maneira por meios permissíveis!
Em vez de ser o noivo de Lady Sara e um devoto estudante de Torá com
todas as necessidades supridas, ele seria um ladrão solitário e comum
vagando pelas ruas.
Yossele enxergava a vida como uma corda bamba - uma linha tênue
separava o bem do mal, a felicidade do desespero, o sucesso magnífico do
fracasso máximo.
Ele agradeceu a Hashem por ter lhe dado forças para resistir à tentação e
passar no teste de fé.
Ele também compreendeu que, mesmo sem "forçar a barra", sorte e
abundância podem ocorrer repentinamente.
Para que o dinheiro — ou qualquer outra coisa — traga bênçãos, ele deve
chegar às pessoas por meios permissíveis.
Quando alguém prematura ou ilegalmente pega algo que não é seu, arrisca-
se a perder o que conseguiu e a perder também o que lhe era destinado.
Muitos não visualizam de maneira tão clara a abundância que lhes é
reservada como aconteceu com Yossele.
E poucos percebem que as necessidades do futuro já estão garantidas.
Nossos esforços para ganhar dinheiro são apenas testes sobre como vamos
ganhar o sustento = de maneira direta e honesta ou por meio de negócios
duvidosos, fraudes, trapaças etc.
Essencialmente, somos todos como Yossele — com emuná e paciência,
receberemos tudo de que precisamos.
Talvez você esteja pensando sobre a boa sorte de Yossele ter se casado
com uma mulher rica.
Saiba que mesmo se Yossele não se casasse com Lady Sara, ele receberia a
fortuna de qualquer modo, por meio de qualquer outra maneira.
Para Hashem não há limites quanto às maneiras pelas quais Ele manda o
sustento das pessoas.

Tudo tem a sua hora


Um comerciante com emuná precisa saber que cada produto de seu estoque
está sob a influência absoluta da Providência Divina.
Hashem decide quando um certo objeto — uma mansão de vinte quartos ou
um tubo de pasta de dente — será vendido, para quem e a que preço.
Segundo o pensamento cabalístico, cada objeto possui centelhas espirituais
que pertencem a uma certa alma.
Aquela alma um dia irá adquirir o objeto como forma de retificação, tanto
para si mesma quanto para o próprio objeto.
Discorrendo sobre esse conceito, o Rebe Nachman de Breslav escreve
(Licutei Moharan 1:52) que tudo tem a sua hora, quando finalmente as
coisas retornam à sua raiz espiritual.
Por exemplo, se as centelhas espirituais de uma cenoura estão enraizadas
na alma de um tsadik, a esposa deste tsadik um dia irá a uma certa banca
de verduras e pagará um certo preço por uma certa quantidade de
cenouras.
Ela então irá para casa e servirá ao marido a cenoura cujas centelhas
espirituais estão ligadas à alma dele.
Quando o tsadik faz a bênção sobre a cenoura e a come, a cenoura atinge
uma elevada correção espiritual.
No caso da cenoura, ou de outro alimento, ela fisicamente se toma parte do
tsadik!
Tendo em conta o exemplo anterior (que não passa de um pingo d'água em
um imenso oceano - o assunto de retificações da alma precisaria de um
livro inteiro), qualquer transação comercial — troca, compra ou venda —
ocorre somente onde e quando Hashem decidir.
Quando chega a hora de um certo produto alcançar o âmbito de uma alma
particular, a transação se completa — nem antes, nem depois.
Se um comprador e um objeto não têm um denominador espiritual comum,
eles não se juntam por preço nenhum, em nenhuma circunstância.
Por isso, não faz sentido um vendedor ou comerciante tentar forçar algo a
um cliente se este não quiser comprar.
Muitos empresários já relataram histórias sobre mercadorias aparentemente
inúteis vendidas com um tremendo lucro, ou sobre produtos que eles
pensaram ser best-sellers, mas que acabaram juntando poeira nas
prateleiras.
Muitos corretores já tiveram compradores potenciais que fizeram cara feia
para uma certa casa e, três meses depois, acabaram comprando
exatamente aquela propriedade.
Toda área comercial tem seus próprios exemplos de Providência Divina.
Tudo tem a sua hora.

Negociando com fé
De acordo com o Talmud (TB, Tratado Shabat 31a), a primeira pergunta
que o Tribunal Celeste faz a uma pessoa quando ela deixa este mundo é:
"Você negociou com fé?"
Aqueles que incorporam emuná em todas as suas negociações poderão
responder com orgulho, "sim!".
Emuná nos negócios significa que a pessoa é justa, honesta e cumpre a sua
palavra.
Com a emuná de que o sustento vem de Hashem, a pessoa não recorre a
meios criminosos ou imorais de ganhar dinheiro.
Um comerciante com emuná não faz declarações falsas sobre sua
mercadoria, pois sabe que cada produto tem seu comprador, que pagará o
preço certo na hora certa.
Ele não pressiona nem tenta agradar a um possível cliente porque sabe que
o sustento vem de Hashem, e não do consumidor.
Mesmo assim, ele é educado e respeita o cliente, pois esse também é o
desejo de Hashem.
Ele não tenta forçar uma venda, pois sabe que o consumidor pode se
arrepender, reclamar ou devolver a mercadoria, ou pode até mesmo falar
mal do comerciante e de sua loja.
Um comerciante sem emuná — quando força uma compra — se torna um
perdedor a longo prazo.
Nada assusta uma pessoa de negócios que tem emuná.
Ela não se decepciona quando um consumidor potencial vai embora.
Com emuná, sabemos que se o lucro não se materializa com o fechamento
do negócio A, ele se materializará com o negócio B.
As pessoas frequentemente obtém dinheiro de fontes que não têm nada a
ver com o seu campo de atuação; todos já ouvimos histórias como as do
não tão bem-sucedido dentista que fez muito dinheiro na bolsa de valores,
ou da simples dona de casa que transformou uma boa ideia em um
próspero negócio online.

A pessoa de negócios que tem emuná tem uma vida agradável e


despreocupada não apenas neste mundo; sua integridade e emuná lhe
garantem um lugar elevado no mundo vindouro.
Pessoas que tem emuná não ficam por aí mentindo, trapaceando e
prejudicando outras pessoas, sendo, portanto, poupadas de muita angústia
em ambos os mundos.
Por outro lado, as pessoas de negócio que não têm emuná pensam que seu
sustento depende do cliente.
Pessoas assim acham que dinheiro e sucesso dependem de sua própria
perspicácia e prontamente moldam a verdade ou "ajustam" seus princípios
num esforço exagerado para ganhar a vida.
Elas muitas vezes fazem promessas que não podem cumprir ou falam mal
de seus concorrentes, o que vai contra a recomendação da Torá de se
manter um discurso honesto.
Sem saber, elas acumulam uma longa lista de dívidas espirituais, o que leva
ao sofrimento nos dois mundos.
Empresários ou outros profissionais que não têm emuná são quase sempre
arrogantes e egoístas.
Quando Hashem lhes garante sucesso, eles se glorificam, dizendo a si
mesmos como são talentosos e inteligentes.
Quando conseguem mais dinheiro do que merecem ao se desviar do campo
da integridade e da justiça, eles se orgulham da habilidade de "fazer
dinheiro".
Mas dinheiro ganho de tal maneira acaba azedando.
Dinheiro desonesto é veneno espiritual e material.
Você já viu uma pessoa arrogante não conseguir completar a transação que
estava tentando fazer?
Alguns descarregam a tensão com ataques de raiva, palavrões e
reclamações.
Outros se consomem por dentro.
Só Hashem sabe o número de derrames, ataques cardíacos, úlceras e
instabilidades emocionais que surgem de uma simples falta de emuná.

A escolha
Este assunto ainda pode dar margem à confusão; muitos empresários de
sucesso não se importam com emuná.
Muitos deles são extremamente desonestos e, ainda assim, conseguem
"vender gelo a esquimó" e fechar inúmeros negócios graças aos seus
poderes de persuasão.
Onde está a Providência Divina?
Todos sabemos que há pessoas que ganham milhões com transações
criminosas ou corrupção, riem-se por dentro a caminho do banco e estão
tomando sol nas ilhas Bermudas neste exato momento.
O que está acontecendo?
Onde está Hashem?
Nossos sábios têm a resposta: Hashem nos concede livre-arbítrio para
fazermos o bem ou o mal.
Imagine se Hashem mandasse um raio atingir uma pessoa cada vez que ela
mentisse, ou se Ele mandasse um cheque de dez mil reais a uma pessoa
cada vez que ela dissesse a verdade.
Ninguém mais mentiria e todos passariam a dizer apenas a verdade.
Mas isso não é livre escolha — é coerção!
Um sistema de punição e recompensa não faz sentido fora do contexto da
livre escolha.
Por isso, Hashem oculta Sua Providência Divina para poder deixar às
pessoas a livre escolha de fazer o bem ou o mal.
Quando as pessoas escolhem o caminho da emuná, o sustento chega a elas
sem esforço, honestamente, sem que elas precisem quebrar a cabeça ou
bajular os outros.
Mas se elas escolhem o caminho da arrogância e falta de emuná, Hashem
as deixa acreditar que estão controlando seu próprio destino.
Na verdade, elas recebem exatamente o que Hashem planeja.
Muitas vezes, um empresário desonesto é apenas a "vara" nas mãos de
Hashem, roubando ou enganando a pessoa que estava destinada a sofrer
uma perda.
Pessoas com severas dívidas espirituais são usadas por Hashem para
concretizar um mau decreto.
Essas pessoas, porém, também serão punidas.

Espere a hora certa


Todos sabem que frutas ainda não maduras, além de terem um gosto ruim,
causam dor de estômago.
Nós também sofremos quando tentamos fechar um negócio ou ganhar
dinheiro antes que o tempo e as circunstâncias estejam "maduros".
Imagine que um comerciante force a venda de um produto a um
consumidor que não quer comprá-lo.
Como o produto não estava destinado ao cliente, este não ficará satisfeito,
nem terá beneficio algum com a mercadoria.
Por exemplo, ou o item não irá funcionar adequadamente, ou se estragará
nas mãos do consumidor, que por sua vez poderá reclamar ou processar o
comerciante, causando sofrimento e perda financeira.
Assim, muitas perdas podem ser associadas à falta de emuná.
Forçar um resultado ou ganhar dinheiro desonestamente pode trazer
resultados desastrosos para futuras gerações.
Imagine que um homem obteve muito dinheiro de modo fraudulento.
Esse dinheiro teria chegado às suas mãos e às mãos de seus descendentes
das próximas três gerações honestamente.
Mas como ele trapaceou para conseguir fundos que ainda não estavam
"maduros", ele debulhou a árvore financeira cujos frutos estavam
destinados aos seus filhos, netos e tataranetos.
As três seguintes tragédias acontecem:
1. O dinheiro "verde" do trapaceiro vai apodrecer em suas mãos — ou ele
será afastado do dinheiro, ou o dinheiro será afastado dele.
2. Os filhos, netos e tataranetos do trapaceiro provavelmente serão
terrivelmente pobres ou sofrerão enormes problemas financeiros.
3. O trapaceiro terá de passar por penosas retificações da alma no mundo
vindouro.
Lembre-se da seguinte regra de ouro: O que é seu virá em boa hora.
Você não tem de pegar à força aquilo que está destinado a você de
qualquer modo.
Quando você acredita que Hashem proverá, sua vida fica calma, agradável
e produtiva.
Se você acha que seu destino e seu sustento estão em suas mãos, sua vida
será um inferno de pressão e decepção, combinado a inúmeros obstáculos,
inclusive a tentação de conseguir dinheiro desonestamente.
A escolha é sua.

Jogos de azar
Os jogos de azar são uma doença terrível e viciam mais que álcool, tabaco e
drogas.
Eles literalmente enterram as pessoas, reduzindo-as a uma condição
subumana.
Jogo e emuná não se misturam.
A cobiça por dinheiro é a causa do vício no jogo, que não apenas deixa a
pessoa maluca, como a faz esquecer Hashem, a verdade e a emuná na
Providência Divina, D'us nos livre.
Jogar parece um caminho para o dinheiro fácil; mas o brilho do "caminho
fácil" não é nada mais que uma avenida ilusória em direção a uma vida de
amargura, lares desfeitos, dívidas, agiotas e máximo desespero.
Os jogos de azar fazem a cabeça girar.
O ietser hará tem um modelo padrão para fazer as pessoas caírem em sua
armadilha: ele mostra a uma pessoa alguém que conseguiu a sorte no
cassino; a pessoa pensa que é a próxima na fila para pegar o pote de ouro.
Com a fantasia da riqueza fantástica que alimenta a sua imaginação, o
jogador desperdiça todo seu dinheiro em busca do arco-íris de riquezas.
Um jogador pode vender seu negócio, sua casa e seu carro para continuar
jogando os dados.
Ele se esquece da esposa e dos filhos; se pudesse, ele os venderia também.

O lucro que não passa de prejuízo


De acordo com a lei judaica, dinheiro ganho em jogo é considerado uma
aquisição ilegal; o jogador é considerado um indivíduo não-confiável, cujo
testemunho é inaceitável em um tribunal religioso (Shulchan Aruch,
Choshen Mishpat 34:16).
Dinheiro ganho em jogo não tem bênção.
O jogador não receberá nenhum benefício de tal ganho, pois dinheiro de
jogo é espiritualmente podre.

O jogador sempre perde


Em Rosh Hashaná, um decreto Celeste determina quanto cada pessoa terá
de lucro ou de prejuízo durante o ano.
Por exemplo, suponha que John Doe esteja destinado a ganhar
R$150.000,00 este ano e a perder R$30.000,00.
Mesmo que John Doe tente todos os truques do mundo e contrate um
exército de estatísticos e analistas de sistemas para aconselhá-lo a como
apostar nos dados, ele não ganhará mais do que sua original porção anual.
Mas se ele persiste na reza, doa generosas quantias para a caridade e sai
de seu caminho para ajudar a quem precisa e para educar seus filhos em
Torá, ele pode acabar recebendo até mais do que a porção inicial.
Mas — preste bastante atenção — se ele joga, pode perder mais do que iria
perder originalmente — pode perder até mesmo todos os seus bens.
John Doe, o jogador, coloca em perigo sua casa, suas possessões e todo
seu dinheiro, ou provavelmente cairá em um poço fundo de dívidas que o
escravizará para o resto da vida.
De qualquer modo, o jogador é um perdedor.
Seu ganho é dinheiro amaldiçoado e ele não ganhará nem um centavo a
mais do que o que lhe era destinado sem o jogo.
Mas suas perdas podem ser ilimitadas.
Vale a pena?

Cruel como um corvo


Os corvos são conhecidos por serem cruéis; eles só se preocupam consigo
mesmos e não alimentam seus filhos.
O incrível cuidado de Hashem para com os ninhos de corvos é um dos
milagrosos fenômenos da Criação (veja Job 38:41, Salmos 147:9, Midrash
Tanchuma, Ekev, b).
Caso contrário, os filhotes morreriam de inanição.
Hashem não dá dinheiro a uma pessoa para ela usar exclusivamente
consigo mesma; a porção de cada um inclui a quantia para as necessidades
do(a) companheiro(a) e de seus filhos.
Assim sendo, a maior parte do dinheiro de uma pessoa está designada para
o sustento de seus dependentes.
Se ela fosse solteira, provavelmente ganharia bem menos.
O jogador não tem o direito de arriscar a comida dos filhos ou a roupa da
esposa.
Quando o faz, fica pior que um corvo.
O corvo não provê, mas não tira comida da boca de seus filhotes.
No âmbito espiritual, o jogador será punido pela dor e agonia que causou a
seus entes queridos.
Mais uma vez, ele é um perdedor duplo — neste mundo e no próximo.

O jogador ganha com o sofrimento dos outros


Moralmente, o jogo de azar é mais que problemático.
Na maioria dos casos, os ganhos de uma pessoa são as perdas de outra.
Não pode haver bênçãos em dinheiro ganho com a tristeza de outro ser
humano.
Mesmo que um jogador ganhe, como ele pode se alegrar com o dinheiro
destinado para comprar roupa e comida para a família do perdedor?
Quem acredita no Todo-Poderoso evita qualquer contato com o jogo.
O desejo de jogar está enraizado na negação de Hashem.
Portanto, um jogador que quer deixar o vício deve rezar a Hashem por
emuná.
Ele deve implorar para que Hashem o ajude a confiar que todo o seu
sustento e todas as suas necessidades vêm de Hashem por meio da
magnífica Providência Divina.
Jogar, assim como outras maneiras moralmente questionáveis de se obter
dinheiro, enferruja os límpidos canos pelos quais passam a abundância.
Hashem não precisa da ajuda do jogador para mandar a ele sua renda
predeterminada.

Bilhetes de loteria
De acordo com a Lei Judaica, os ganhos da loteria são permitidos porque
não representam a perda de ninguém.
Entretanto, comprar bilhetes de loteria não é 100% compatível com o
espírito da emuná.
Se a pessoa quer comprar um bilhete de loteria, deve comprar apenas um.
Se Hashem quer que a pessoa ganhe o prêmio, Ele dá um jeito de o bilhete
ter o número vencedor.
Quem compra muitos bilhetes de loteria mostra que confia em estatísticas
ou chances aumentadas, e não em Hashem, além de desperdiçar um
dinheiro que seria alocado para necessidades básicas.
Os bilhetes de loteria são, portanto, um teste de fé.
Quem acredita na Providência Divina de Hashem não compra mais que um
único bilhete.
Se ganhar, parabéns!
Se perder, a pessoa sabe que Hashem não queria que ela ganhasse e que o
dinheiro teria sido prejudicial.
Aceitar o resultado de um bilhete perdedor sem se decepcionar dá nota dez
em emuná.
Sem emuná, as pessoas compram vários bilhetes para aumentar as chances
de ganhar.
Quem deposita a fé em probabilidade e sorte não apenas desperdiça
dinheiro, como fracassa no teste da emuná.
Por quê?
A maioria das pessoas não possui os meios espirituais para conviver com
muito mais do que o habitual, o que causa confusão e arrogância.
De repente, o novo marido rico não quer mais a esposa, e vice-versa.
Muita gente alimenta fantasias de glamour e grandeza, como se isso fosse
consequência direta do dinheiro.
Muitos usam o dinheiro de maneira imprudente, esbanjam ou fazem
investimentos insensatos e acabam caindo nas mãos de golpistas, parentes
gananciosos, "novos amigos" ou bandidos de "colarinho branco" como
advogados, contadores ou corretores antiéticos.
Nesses casos, a nova riqueza é uma grande dor de cabeça.
A emuná é o recipiente espiritual adequado para a riqueza.
O rico que tem emuná sabe que o dinheiro pertence a Hashem.
O dinheiro não passa de um depósito temporário em nossas mãos para que
possamos cumprir os mandamentos de Hashem.
Quem sabe disso não fica arrogante.
Se sabemos que Hashem pode nos tomar o dinheiro num instante, então
para que ostentar?
Os ricos nos níveis mais altos de emuná doam 20% de seus ganhos para

a caridade.
Eles são eternamente gratos a Hashem e mostram sua gratidão ajudando
instituições de estudo da Torá e projetos de caridade pelo mundo.
Com emuná, passamos no "teste do dinheiro" com notas altas.
O contrário é verdade quando não se tem emuná.
Os ricos, especialmente os novos ricos, são consumidos pelo medo de
perder dinheiro.
Eles ficam arrogantes e confusos.
Seu sonho de riqueza se torna um pesadelo, pois eles não têm em quem
confiar.
Eles não passam no teste da emuná.

Felicidade ou riqueza
O desejo de fazer dinheiro rápido demonstra falta de emuná.
Aqueles que acreditam em Hashem sabem que sua qualidade de sua vida
não depende do dinheiro, mas sim da importância que atribuem à emuná e
de como conseguem realizar a vontade de Hashem.
Reza, caridade e teshuvá são as únicas soluções para dificuldades
financeiras.
Se Hashem nos dá problemas financeiros, não é o dinheiro que resolverá a
situação.
A única maneira de acabar com os problemas é a teshuvá, já que não há
atribulação sem transgressão.
Enquanto a pessoa se abstém de fazer teshuvá — mesmo com todo o
dinheiro do mundo —, ela sofrerá por causa de suas transgressões
pendentes e não corrigidas.
Mas com teshuvá e um saldo espiritual positivo, pode-se viver uma vida
doce e agradável mesmo sem um centavo no bolso.

O Rebe Aaron de Kiblitsh era extremamente pobre, mas incrivelmente feliz


o tempo todo.
Certa vez, um amigo rico do Rebe disse que o invejava.
O homem rico disse que estava sempre comprando presentes para sua
esposa e para seus filhos, mas eles nunca estavam satisfeitos e sempre
reclamavam.
A família do Rebe Aaron, porém, era sempre feliz apesar da carência
material.
Isso porque ele estava sempre disposto a sorrir.
As pessoas devem estar contentes com sua porção na vida e não devem
lutar por riqueza.
Nossos sábios dizem que quanto mais temos, mais nos preocupamos.
De qualquer modo, a melhor maneira de conseguirmos suprir nossas
necessidades é rezar, apelando ao nosso Pai Misericordioso por sua
compaixão e bênção Divina.

Shalom Bait — paz no lar

O teste principal
Os principais testes de fé estão em casa.
Involuntariamente, a(o) esposa(o) e os filhos testam nossa fé o dia todo.
Eles têm demandas de tempo, dinheiro e atenção.
Às vezes, eles nos frustram e nos humilham, e nunca parecem estar
satisfeitos.
A emuná é o único jeito de passar por esses testes.
Os desafios de um relacionamento conjugal requerem um nível maior de
emuná do que as dificuldades encontradas fora de casa.
Muitas vezes é possível evitar conflitos na rua, mas é difícil se escapar de
situações desafiadoras dentro casa.
Ademais, podemos trocar de amigos e colegas muito mais facilmente do
que trocar de esposa(o), já que um relacionamento conjugal implica muito
mais obrigações.
O verdadeiro ticún, ou retificação da alma, começa apenas quando saímos
de casa.
Os solteiros geralmente vivem sem precisar de muito esforço para adquirir
emuná.
Mas as demandas de se ter esposa(o) e filhos tornam a vida praticamente
intolerável sem emuná.
Por exemplo, os solteiros podem evitar a convivência com quem eles não se
dão bem, pois na maioria dos casos eles não são obrigados a manter
contato.
Se podemos nos afastar de situações difíceis, nossa emuná não é testada.
Onde não há a necessidade de enfrentar uma dificuldade, não há teste
nenhum!
Por outro lado, uma pessoa casada e responsável simplesmente não pode
abandonar sua família.
Esposa(o) e filhos sãos testes diagnósticos de emuná.
Na estrutura do meio familiar, podemos saber se realmente temos emuná
ou não.
Por exemplo: Roberto é solteiro e trabalha como representante de
marketing de uma grande companhia.
Se um de seus colegas de trabalho o insulta ou o incomoda, ele responde e
muda de humor rapidamente; ele está mais que pronto para destilar uma
dose dupla de veneno para qualquer um que pise no seu pé.
Às vezes, porém, Roberto se desvia de um soco verbal para preservar uma
imagem que ele quer criar para seus clientes.
É de seu interesse parecer ser uma pessoa distinta e de caráter impecável,
especialmente se isso o ajuda a fechar um negócio.
Na verdade, Roberto é mal-humorado e egocêntrico.
Se enfrentasse um problema conjugal, ou ele destruiria sua mulher e seus
filhos, ou acabaria se divorciando.
A fim de evitar qualquer um dos dois tristes destinos, ele deve aprender a
ter emuná.
Caso contrário, ele nunca passará nos testes do ambiente familiar.
Uma pessoa casada deve dar, e não apenas receber.
Devemos constantemente prover as necessidades de nossos dependentes,
ouvir seus problemas e dar-lhes tempo, atenção e compreensão.
Para cumprir essas tarefas, temos de ser calmos e serenos — sem emuná,
paz interior e serenidade são coisas totalmente impossíveis.
Uma pessoa não casada pode ter um sorriso artificial e convencer o mundo
de que ela é feliz e satisfeita.
Mas depois do casamento, a verdadeira medida da felicidade se revela,
especialmente quando é preciso abrilhantar o lar com alegria e confiança.
Um marido não pode fazer sua mulher e filhos felizes quando ele próprio é
infeliz.
A verdadeira felicidade é impossível sem emuná, e a vida em família é uma
importante pista de testes de emuná.
Relacionamentos extrafamiliares, especialmente segundo as normas da
sociedade moderna, se baseiam em vantagens mútuas.
"Coce as minhas costas e eu coçarei as suas" é o tipo de pensamento que
indica relacionamentos interesseiros feitos para se conseguir dinheiro, fama,
dignidade, status social, avanço e reconhecimento.
Mas em casa, a pessoa tira a máscara da diplomacia interesseira e age
naturalmente.
Se ela não tem emuná, odiará dar sem receber — uma pessoa assim
certamente terá tensão em casa, para dizer o mínimo.
Se desejamos shalom bait — paz no lar — temos de aprender a ter emuná.

Emuná e shalom bait são diretamente proporcionais


Eis uma importante regra geral: A shalom bait de um casal é diretamente
proporcional à sua medida de emuná.
Quanto mais emuná, mais pacífico é o lar.
Quando uma pessoa se casa, ela pode realmente conseguir uma emuná
duradoura.
Um casal deve aprender, desde o início de seu relacionamento, a olhar da
perspectiva da emuná tudo o que acontece em casa.
Quase todos os acontecimentos diários entre um casal e seus filhos,
membros familiares ou colegas de trabalho são testes de emuná.
Portanto, é preciso um constante sistema de apoio dos três níveis de
emuná.
Emuná, teshuvá e submissão à vontade de Hashem não são apenas as
melhores ferramentas, mas sim as únicas ferramentas para se resolver
problemas em casa.

Seja feliz com o que lhe cabe na vida


O Talmud (TB, Tratado Taanit 23b) conta uma história encantadora:
O Rabino Mani foi ao Rebe Yitzchak ben Elyashiv e reclamou: "Não aguento
a minha esposa — ela não é nem um pouco bonita."
O Rebe Yitzchak ben Elyashiv perguntou: "Qual o nome dela?"
O Rabino Mani respondeu que seu nome é Hanna.
"Então que Hanna seja bonita!", declarou o Rebe, um tsadik — tudo o que
ele dizia era certamente uma bênção.
Hanna ficou linda.
Pouco tempo depois, o Rabino Mani voltou ao Rebe com uma nova
reclamação: "Desde que você abençoou minha esposa, ela se tornou cada
vez mais bonita. Mas quanto mais bonita, mais arrogante!"
"Se é assim", disse o Rebe, "então que Hanna retorne ao seu estado
anterior"
O Rabino Mani voltou para casa e foi recebido por uma Hanna sorridente e
agradável, mas bem feia.
O Rabino Mani adorou sua mais nova esposa "enfeiada" porque ela era
humilde, agradável e completamente sua!
Esse caso talmúdico exemplifica como Hashem sabe o que é melhor para
cada um de nós.
A emuná na Providência Divina é a fé de que tudo o que Hashem faz é para
o bem e para o nosso máximo benefício individual.
Com esse tipo de emuná, estamos sempre felizes com nossa porção na
vida, sabendo inequivocamente que mesmo as carências da vida são o
resultado da intervenção pessoal de Hashem para o nosso beneficio.
Hashem dá a cada um de nós o que precisamos para alcançar nossa
retificação da alma e para cumprirmos nossa missão na Terra.
Por outro lado, uma pessoa sem emuná tem listas intermináveis de
reclamações.
A esposa culpa o marido por todos os seus problemas; o marido só cultiva
reclamações e críticas sobre sua mulher e está certo de que ela é a causa
de seu sofrimento.
É de se entender que um lar assim seja uma panela de pressão; os filhos
sem dúvida cultivam uma variedade de distúrbios emocionais.
Um casal nesse estado é reprovado no teste de emuná.
Sustento, felicidade e bem-estar dependem de emuná.

Divórcio
Esta seção é obrigatória para aqueles que desejam a verdadeira paz no lar
assim como para aqueles que estão pensando em divórcio ou estão quase
se divorciando.
Se você já é divorciado, então esta seção o ajudará a planejar e administrar
sua vida de agora em diante.
Um dos líderes mais sábios desta geração disse que o alto número de
divórcios atualmente é resultado de uma geração mimada que não percebe
que o sucesso conjugal requer trabalho duro.
"Também tivemos nossa quota de dificuldades, mal-entendidos e brigas,
mas nunca consideramos a opção de acabar com o casamento", ele disse.
"Nosso objetivo era construir um relacionamento de sucesso; portanto,
estávamos preparados para investir esforços e alcançar nosso objetivo. Se
não tivéssemos a paciência e a perseverança necessárias a um casamento,
não teríamos colhido os frutos de filhos, netos e bisnetos que enchem a
nossa vida de alegria."
Esta seção tem como objetivo corrigir o conceito equivocado segundo o qual
um casamento bom é algo automático.
Casais com problemas olham para casais felizes como se estes
simplesmente tivessem sorte — o que está longe de ser a verdade.
Mesmo um casamento entre duas pessoas justas e de caráter impecável
sofre com tensão e divergências.
Para conviver em paz com alguém, devemos aprender a ceder e a
renunciar.
Muitos terapeutas de casais ensinam que casamento é "dar e receber".
De acordo com os pensamentos chassídico e judaico-esotérico, casamento é
apenas doação.
Visto que o propósito da criação é a emuná - e o Criador quer que cada um
de nós cumpra nosso propósito -, Hashem nos apresenta oportunidades
para desenvolver nossa emuná.
O casamento é a principal pista de testes de emuná.
Portanto, ao aprender os princípios da emuná, as chances de sucesso no
casamento são elevadas.
A falta de emuná é a principal causa de divórcio.
Com emuná, podemos superar a discórdia conjugal por meio de teshuvá e
reza.
Aqueles que não têm treinamento em emuná muitas vezes recorrem ao
divórcio como a solução final para seus problemas.
Geralmente, o divórcio não zera o saldo de problemas de um casal.
O antigo conjunto de problemas (tensão, brigas etc) é simplesmente
substituído por um novo (advogados, audiências desagradáveis, pensão
alimentícia, batalhas por bens e dinheiro e assim por diante).
Frequentemente, os problemas do divórcio são piores do que os antigos
problemas conjugais.
Sem emuná, casais infelizes atribuem seus problemas a uma longa lista, da
casamenteira mentirosa a sogros horríveis e má sorte.
Mas com emuná na Providência Divina de Hashem, a pessoa compreende
que suas próprias transgressões são a causa de seu sofrimento, pois não há
atribulação sem transgressão.
Então, com teshuvá e um treinamento básico em relacionamentos conjugais
segundo a Torá, qualquer um é capaz de ter sucesso no casamento.
Se a pessoa não faz teshuvá nem retifica os erros do passado, o sofrimento
conjugal é perpetuado.
A melhor das terapias para casais não ajudará uma pessoa que não faz
teshuvá.
É como colocar um bom vinho em um copo sujo.
Sem teshuvá, o divórcio não traz alívio.
Ninguém pode escapar de Hashem.
Portanto, divórcio sem teshuvá só toma a vida ainda mais insuportável.

O Rebe Nachman de Breslav certa vez notou que se uma pessoa não está
preparada para sofrer um pouco, ela sofre bastante.
Problemas conjugais são testes de fé.
Um casal deve saber que uma vez juntos sob a chupá, eles são almas
gêmeas com uma retificação em comum.
Por meio de esforços adequados, eles podem chegar à perfeição.
Mas a estrada rumo ao êxtase matrimonial às vezes é esburacada.
Sem emuná, muitos casados querem saltar do trem assim que a viagem
passa a não ser 100% suave — não existe erro maior!

Aconselhamento matrimonial adequado


Enquanto duas pessoas ainda estão casadas, quase qualquer problema pode
ser resolvido.
Se se divorciam, nada se resolve.
O aconselhamento apropriado tem salvado milhares de casais.
Os CDs do autor sobre conselhos para maridos e mulheres já salvaram
centenas de casais, mesmo aqueles que já haviam iniciado procedimentos
de divórcio.
Essas lições são tão categóricas que o autor se recusa a ouvir os problemas
conjugais das pessoas até que elas tenham escutado suas lições sobre o
assunto.
Sem um aconselhamento adequado, os problemas se tornam recorrentes.
Com esclarecimentos sobre emuná, teshuvá e o casamento judaico, muitos
casais abandonam a ideia de divórcio.
A reação padrão ao nosso método de aconselhamento é: "Que pena eu não
ter ouvido essas coisas antes! Teria me poupado de tanto sofrimento..."

Fim ou começo da guerra?


As pessoas imaginam que o divórcio seja a solução mágica para os seus
problemas.
Vamos ver se é assim mesmo: O divórcio não é o fim da guerra, como
muitos pensam: é apenas o início de uma luta que dura a vida toda.
Novos problemas e novas tensões surgem continuamente, especialmente
quanto à educação dos filhos.
Eventos familiares, como casamentos e bar-mitsvas, se tornam pesadelos.
Ex-maridos ou ex-esposas se colocam em situações embaraçosas com ex-
sogros hostis, além de terem que socializar com os novos cônjuges de seus
ex-parceiros.
Assim sendo, os divorciados geralmente temem as ocasiões que os casados
ansiosamente esperam.
Toda vez que um casal divorciado tem de se encontrar novamente, como na
formatura de um filho, velhas feridas se abrem; memórias esquecidas
voltam a assombrar.
Quando alguém vê o "ex" com uma nova pessoa, ciúmes e amargura
dominam seu coração; sentimentos mistos de raiva e vingança lhes roubam
a felicidade.
Os interesses contraditórios de um casal divorciado com relação a seus
filhos é um campo minado de problemas.
Mesmo com acordos e ordens judiciais, as visitas sempre trazem problemas
práticos e se tornam o pomo de discórdia da relação.
Dinheiro e pensão alimentícia são ainda piores.
Sempre surgem novos problemas que não foram contemplados no acordo
de divórcio, como quem pagará pelas colônias de férias ou aulas de
natação.
Ninguém fica feliz.
Muitos divorciados manipulam os filhos como armas.
Todos na família sofrem.
As pessoas que estão em contato com divorciados — como conselheiros
rabínicos — sabem exatamente como eles sofrem.
Casais divorciados têm uma grande dificuldade em lidar com os problemas
rotineiros — como problemas de saúde ou dificuldades de aprendizado de
um filho — que as pessoas casadas encaram com naturalidade.
Tais desafios também provocam discussões e acusações, em que um lado
acusa o outro de não cuidar dos filhos, de não amá-los etc.
Em suma, enquanto a pessoa é casada — não importa quão difícil seja a
situação -, ainda é possível corrigir as coisas.
Quando não há mais um lar, não há amor, união ou base em que se possa
construir.
Os problemas crescem e ficam piores.

Coração ferido
Os divorciados muitas vezes só acordam depois do fato consumado.
Quando o divórcio se completa, muitos casais sentem uma ferida aberta no
coração.
Eles têm dificuldades de se adaptar à nova situação.
A aflição da saudade e da solidão não lhes dá descanso.
Quando baixa a poeira da batalha do divórcio, os envolvidos ficam mais
tristes sem seus parceiros do que quando ainda eram casados.
A Torá chama o documento de divórcio de guet critót, que quer dizer
"registro de separação".
Essa denominação é bastante adequada, já que, segundo o pensamento
espiritual judaico, as almas de duas pessoas casadas são na verdade as
metades de um todo.
Então, quando duas pessoas se divorciam, suas almas são "separadas" uma
da outra, o que equivale a fazer uma cirurgia cardíaca sem anestesia — é
uma tortura!
E a solidão se estabelece.
Antes do divórcio, as pessoas tendem a imaginar todos os tipos de fantasias
sobre o futuro de rosas e sobre o casamento dos sonhos que as espera.
Quando o divórcio se completa, elas descobrem que seu valor no
"mercado de casamento" é bem mais baixo do que pensavam.
Não existe uma fila de homens esperando mulheres divorciadas,
especialmente as que têm filhos.
Do mesmo modo, as mulheres são cautelosas com homens separados.
O divórcio é um sério estigma que complica a busca por um novo parceiro.
Os divorciados não admitem, mas muitos deles se arrependem e, se
pudessem, voltariam no tempo.

Elimine a raiva de seu coração


As feridas emocionais de vários divorciados se manifestam em raiva,
insultos e sentimentos obsessivos de vingança.
O ódio e a raiva que eles cultivam com relação a seus ex-parceiros
funcionam como ácido emocional que corrói as paredes do coração.
Enquanto um dos lados guardar rancor, os dois lados sofrerão.
Ódio e raiva invocam julgamentos severos tanto para a pessoa que odeia
como para o odiado.
Portanto, do ponto de vista espiritual, um divórcio não resolve nada quando
o ressentimento continua.
É muito mais fácil fazer as pazes quando ainda se é casado.
Depois de um divórcio, perdoar e esquecer — uma obrigação para os dois
lados poderem reconstruir a vida — é praticamente impossível.

A solução real
Antes de dar o passo irreversível do divórcio, pare e pense: com um
aconselhamento básico e boa vontade, é possível salvar a própria vida e
também a dos filhos.
Pode-se também salvar centenas, senão milhares, de dólares.
Para isso, é preciso engolir um pouco de orgulho e expressar a disposição
de recomeçar.
Os CDs de aconselhamento matrimonial do autor, que já salvaram centenas
de vidas em Israel, estão agora disponíveis mundialmente em inglês.
Essas gravações devem ser ouvidas várias vezes até que os princípios de
um casamento feliz se tornem uma segunda natureza.

Ignorância
A maioria dos divórcios é causada pela ignorância do marido quanto aos
princípios de paz no lar.
Por exemplo, um marido que não apresenta um comportamento extremo —
não bate na mulher nem é criminoso, ganha um salário razoável e é fiel —
ainda pode se dar mal no casamento se está constantemente criticando e
culpando a esposa.
Mesmo com apenas o mínimo de aconselhamento sobre sucesso
matrimonial, o marido aprende que a primeira regra de paz no lar é evitar
criticar a esposa, mesmo quando a situação é perfeitamente justificável.
As mulheres querem se sentir amadas e respeitadas; críticas — mesmo as
mais sutis —tem o resultado oposto.
Até pior, elas fazem com que a mulher fique nervosa e destroem sua
autoconfiança.
Com criticismo e atribuição de culpa, o marido destrói seu casamento e sua
vida com as próprias mãos.
O autor salvou inúmeros casamentos aconselhando maridos sobre esse
exato ponto.
Depois do criticismo, o segundo culpado por casamentos infelizes é a
indisposição e/ou impaciência do marido de ouvir sua esposa.
Sem um parceiro com quem conversar e dividir as cargas pesadas de seu
coração, a esposa fica frustrada e infeliz.
Quando ela vê que o marido animadamente dá atenção a outras pessoas,
ela fica magoada e insultada.
Todas as suas aspirações de casamento eram encontrar uma alma gêmea
que a faria feliz e iluminaria a sua alma.
Com um marido que não a respeita nem a aprecia o suficiente para lhe dar
o mínimo de atenção, ela perde toda a vontade de estar casada.
Os filhos não são um consolo para uma mulher que se sente não-amada,
esquecida e desrespeitada.
Mesmo que ela tenha um grande medo de divórcio, ela o exigirá a todo
custo se visualizar um futuro sem esperança.
As mulheres preferem a solidão ao purgatório de constante critica e
humilhação.
Depois que a bomba estoura, o perplexo e ignorante marido sacode os
ombros com inocência e pergunta: "O que fiz de errado?"
Ele não pode saber que quebrou as regras de shalom bait se nunca as
aprendeu.
Mas a boa notícia é que nunca é tarde para aprender.
Agora é a hora de adicionar emuná à nossa vida.
Este capítulo não pretende cobrir todas as situações-teste que existem.
No entanto, estaremos certamente preparados para encarar todo e qualquer
desafio da vida se aplicarmos os princípios de emuná explicados neste
capítulo.

Os vários testes
Até aqui, definimos alguns dos vários tipos de desafios de emuná.
As lições que aprendemos podem ser aplicadas a todas as áreas da vida.
Por exemplo:
Comprar ou vender uma casa ou um apartamento — mesmo quando a
negociação ocorre sem problemas, não é um processo fácil.
É preciso bastante paciência e emuná, pois vários obstáculos podem surgir
no caminho.
Às vezes a assinatura do contrato é adiada ou completamente cancelada.
Enquanto isso, outra pessoa já pode ter conseguido comprar, vender ou
alugar uma casa ou um apartamento.
Pode ser que o outro lado atrase um pagamento, fazendo com que você
também atrase seu esquema de pagamento.
O número de coisas que pode dar errado é altíssimo.
Devemos acreditar que todas as dificuldades representam exatamente o
que Hashem quer.
Portanto, precisamos evitar ficar nervosos ou deprimidos.
Hashem manda dificuldades como uma indicação de que temos algo a
corrigir, por isso devemos usar nossa energia — reza pessoal e introspecção
- para tentar entender as mensagens de Hashem.
Fortalecer a emuná também nos poupa de cair em batalhas legais
desnecessárias que irão apenas esgotar nosso tempo e dinheiro.
Assim que percebemos que as dificuldades vêm de Hashem e reagimos com
reza e teshuvá, as dificuldades se resolvem.

Brigas com vizinhos — Relacionamentos com vizinhos podem ser


catastróficos quando são baseados em poder e não em emuná.
Algumas rixas duram anos.
Mas com emuná, os vizinhos acabam cedendo e resolvendo seus problemas.

Divergências — O Rebe Nachman de Breslav ensina (veja Licutei Moharan


1:258) que quando uma pessoa é perseguida por outras, ela pode cair de
seu nível espiritual e ter sua emuná destruída, D'us nos livre.
É nesse sentido que o Rei David disse, no salmo 119: "Muitos me
perseguiram, mas eu não hesitei quanto a Teus estatutos."
Apesar de seus adversários e inimigos, o Rei David nunca se desviou do
serviço a Hashem.
Os inimigos são um difícil teste de fé.
Uma pessoa com emuná fraca sucumbe a sentimentos de raiva, vingança e
retaliação.
Essas emoções negativas só nos distanciam de Hashem.
Com emuná, rezamos a Hashem e deixamos que Ele lute as nossas
batalhas.
Eventualmente, os inimigos vão ficando pelo caminho.

Busca por trabalho — Esse é um desafio muitas vezes acompanhado por


frustração, decepção, insulto e amargura.
Mas quando procuramos um trabalho com emuná, o processo fica simples e
agradável.
Sabemos que qualquer rejeição vem de Hashem e que aquele emprego
específico nos seria prejudicial de alguma forma.

Em geral — A vida coloca vários testes de emuná em nosso caminho.


De fato, cada dificuldade na vida é um teste de emuná.
Não é preciso culpa ou sentimentos de inadequação.
Portanto, não há a necessidade de se atormentar.
Aceite que suas dificuldades vêm todas de Hashem e servem para estimular
e facilitar seu crescimento espiritual, tudo para o bem.
Toda vez que uma pessoa passa em um teste de emuná com sucesso, ela
sobe mais um degrau na escada espiritual, garantindo uma vida melhor
neste mundo e no próximo.

Os quatro filhos
Há uma maneira de aliviar ou de neutralizar nossos sofrimentos e
problemas neste mundo, como veremos no próximo exemplo:
Um pai pune seu filho.
Se o filho for estúpido, ele guardará rancor e passará a odiar o pai.
Se esse filho tem bom senso, ele entende que foi castigado por uma razão,
mesmo que não tenha gostado da punição.
Quando compreende o que fez de errado, ele admite seu erro, expressa seu
remorso, pede desculpa e promete melhorar.
E mesmo que ele não entenda exatamente o que fez de errado, pede
perdão ao pai e diz: "Desculpe-me por tê-lo aborrecido, pai. Ajude-me a
evitar o mesmo erro no futuro."
Um filho realmente inteligente compreende que seu pai o ama e que a
punição aconteceu para o seu próprio bem.
Então ele aceita sua punição e diz: "Pai, sei que sua intenção era me
despertar para que eu me aproximasse de você. Obrigado por me dar tanta
atenção — isso significa muito para mim. Pai, por favor, me explique o que
fiz de errado e me ajude a melhorar..."
Quando o pai mostra o erro ao filho, este expressa remorso, admite o erro,
pede perdão e decide agir melhor no futuro.
O terceiro filho do nosso exemplo está em um elevado nível de consciência
espiritual.
Ele aprecia seus problemas, pois reconhece ter imperfeições que precisam
de correção.
E ainda há o quarto filho, que ultrapassa os três irmãos.
Ele não espera punição para melhorar.
Todo dia, ele faz uma checagem completa, uma auto avaliação em que
analisa tudo o que fez naquele dia e se pergunta se suas ações foram
mesmo corretas segundo os pedidos e padrões de seu pai.
Ele fala com o pai todo dia: "Pai, graças à maravilhosa educação que você
me deu, tive a felicidade de fazer tal e tal ação. Muito obrigado. Por outro
lado, acho que meu comportamento hoje em outra ocasião não foi do modo
como você esperava. Sinto muito. Vou fazer o melhor para fortalecer
minhas fraquezas."
O pai de um filho assim fica radiante de satisfação e alegria.
"Que ser humano bonito! Que filho sensível, atencioso e humilde! Ele não
espera que eu o castigue — está sempre tentando melhorar. E mesmo se
ele fizesse algo gravemente errado, como eu poderia puni-lo? Ele está
sempre se auto avaliando; está sempre tentando cumprir as minhas
vontades. Então, se um dia ele cometer um erro, eu lhe darei uma dica
sutil. Com sua sensibilidade, ele certamente entenderá."
O pai não vai querer nada mais que realizar os desejos desse filho
maravilhoso.
Ao refletir sobre seus outros três filhos, o pai diz: "Gostaria que meus
outros filhos falassem comigo por iniciativa própria todo dia. Se eles
percebessem como eu os amo, eles pediriam o que quisessem e eu ficaria
feliz em dar. Mesmo o filho que guarda rancor de mim saberia do meu amor
se falasse comigo todo dia."

O filho amoroso
Imagine um filho amoroso que agradece ao pai todo dia por todas as coisas
que recebe.
Imagine que o mesmo filho sempre confessa seus erros sem precisar ser
repreendido.
Se isso não bastasse, o filho está sempre buscando, cada vez mais, o amor
do pai.
Se esse fosse o seu filho, como você poderia puni-lo?
Agora sabemos como ser os queridos filhos e filhas de Hashem.
Tudo o que temos de fazer é dedicar uma hora por dia à reza, sozinhos,
seja em um campo, no escritório ou na cozinha, e falar com Hashem —
nosso querido Pai — com as nossas próprias palavras.
Analisamos tudo que fizemos nas últimas vinte e quatro horas desde a
última sessão de hitbodedut, nossa reza pessoal solitária.
Julgamo-nos em três níveis — pensamento, fala e ação.
Corrigimos nossos erros e decidimos melhorar.
Pedimos a Hashem que nos aproxime Dele.
Esse processo de reza pessoal nos liberta de estresse, preocupação, tristeza
e de todas as outras emoções negativas.
Ainda melhor, quando nos julgamos, Hashem não deixa o Tribunal Celeste
nos julgar, e nos poupamos de muito sofrimento e de julgamentos severos.

Preste atenção
Aquele que dedica uma hora por dia à reza pessoal está em um nível
espiritual ainda mais elevado do que a pessoa que aceita seus problemas
com alegria, pois o primeiro não espera até ser despertado por uma
atribulação; por vontade própria, ele busca servir a Hashem cada vez mais.
Segundo o Talmud (TB, Tratados de Berachót, 7), um ato de autodisciplina
é mais eficaz que cem chicotadas.
Assim sendo, a pessoa autodisciplinada se poupa de inúmeros problemas na
vida.
Caro leitor, pare e pense sobre o maravilhoso presente de Hashem que é a
possibilidade de falarmos com Ele sempre que quisermos, a qualquer hora
do dia ou da noite.
Agora podemos entender o que o Rebe Nachman quis dizer quando afirmou
que hitbodedut é algo mais virtuoso que qualquer outra coisa!

O poder da reza simples


Uma hora de hitbodedut e busca espiritual é tão importante que pode
proteger o mundo todo.
O Rebe Nachman de Breslav disse certa vez (Sichot Haran 70): "Como
permitimos que Hashem traga decretos severos para o mundo? Devemos
afastar Hashem de todas as Suas outras tarefas. Devemos afastá-Lo dos
decretos severos para o mundo. Devemos dizer a Ele que deixe tudo de
lado e nos escute, pois queremos pedir que Ele nos deixe chegar mais
perto. Quando uma pessoa deseja falar com Hashem, Ele deixa todo o resto
de lado. Até os maus decretos são colocados em segundo plano nessa hora.
Hashem deixa tudo de lado para ouvir a pessoa que busca a Sua presença."
O significado desse trecho é que qualquer pessoa (homem, mulher ou
criança, independente de seu nível espiritual atual, até mesmo a pessoa
mais baixa e desprezível da Terra) — tem o direito de se aproximar de D'us
e de falar com Ele!
E não apenas isso, Hashem escuta!
E quem sabe, talvez neste exato minuto, os planos perversos de um tirano
ou de um terrorista estão sendo anulados porque o limpador de rua local
está falando com Hashem.
Se houvesse pessoas falando com Hashem vinte e quatro horas por dia, não
poderia haver maus decretos no mundo.

Um grupo de estudantes da Lubliner Yeshiva na Polônia mantinha uma


vigília de reza vinte e quatro horas por dia.
Um dos jovens sempre estava em hitbodedut.
Por alguma razão, a polícia deteve um dos jovens e a corrente de reza
pessoal contínua foi quebrada.
Naquele dia, o Holocausto começou.

Caro leitor, hitbodedut é agradável e gratificante.


E não é difícil.
Pode haver algo mais ideal do que falar com o Rei todo-poderoso, que pode
lhe dar o que você quiser?
Suponha que a melhor e mais respeitada casamenteira da vizinhança ligue
para um homem solteiro para marcar uma hora de conversa.
Quem recusaria tal encontro?
Imagine você poder se reunir por uma hora com um Bronfman, um
Rothschild, ou com algum outro multimilionário que possa ajudá-lo
financeiramente.
Quem teria preguiça de ir encontrar tal pessoa?
Imagine dar a um doente a oportunidade de pedir a opinião do melhor
médico do mundo.
Que maluco não aproveitaria uma chance dessas?
A nossa hora de reza solitária é uma hora com o poderoso Rei e Mestre do
Universo, Médico de toda carne, em cujas mãos amorosas estão nossa vida,
sustento, alma gêmea e qualquer outra coisa de que precisemos!
Falar com Hashem é poder conseguir todas as nossas aspirações,
necessidades e desejos do coração em um só lugar.
Para o leitor que ainda não experimentou a alegria da reza pessoal solitária,
gostaríamos de enfatizar que ela é pessoal.
Você pode falar em qualquer lugar, a qualquer hora e em qualquer língua.
Você pode até usar a gíria local e falar de qualquer modo que o faça sentir
confortável.
Você pode se levantar ou se sentar, ou mesmo deitar na cama debaixo das
cobertas.
Sinta-se à vontade e fale de coração.
Você pode dizer qualquer coisa a Hashem.

Largue tudo
Se é assim que funciona, então por que não estão todos falando com
Hashem?
Por que há tantos obstáculos para algo tão bonito e natural?
A resposta é que o ietser hará sabe o valor da reza pessoal.
Ele sabe que ela é a expressão máxima de emuná e a realização do nosso
propósito neste mundo!
Ele sabe que a pessoa que faz hitbodedut diariamente alcançará uma
retificação completa da alma e superará os obstáculos e as dificuldades da
vida.
Por esse motivo, o ietser hará faz o máximo para enfraquecer a pessoa e
para desencorajá-la de rezar.
Ele diz: "Você está louco? O que pensa que vai conseguir desperdiçando
uma hora para conversar com as árvores? Ademais, desde quando você tem
uma hora livre?"
O iester hará lhe dá centenas de razões diferentes para você não falar com
Hashem por meio de reza pessoal.
Nossos sábios leitores certamente concluirão que precisamos dar um jeito
de dedicar uma hora por dia para a reza pessoal.
A reza pessoa diária é um recomeço de vida, uma doçura especial.
Como no exemplo anterior dos quatro filhos, a grande satisfação de
Hashem ocorre quando seus queridos filhos se aproximam Dele diariamente
por meio de reza pessoal, auto avaliação e pedidos.
Mesmo que Seus queridos filhos não consigam corrigir tudo, Hashem espera
pacientemente e não os pune.
Um dos itens mais importantes da nossa reza pessoal diária é pedir a
Hashem que nos ajude a fortalecer nossa emuná, como no seguinte
exemplo:
Por favor, Hashem, conceda-me emuná completa.
Ajude-me a acreditar que não há mal no mundo, que tudo está em Suas
mãos e que tudo é para o bem.
Dê-me a emuná de que Você me ama como eu sou e de que Você está
satisfeito comigo.
Dê-me a emuná completa de que não há outro senão Você, ou seja,
qualquer coisa que me aborrece é apenas uma "vara" em Suas mãos que
serve para me fazer procurar uma aproximação.
Dê-me a completa emuná de que não há ninguém que eu possa culpar
pelos meus problemas — esposa, sogros, chefe... .
Meus momentos de desgosto na vida são todos chamados Seus, querido
Pai.
Dê-me a completa emuná de que não preciso me torturar ou me derrubar.
Ajude-me a dirigir minhas energias para a atividade positiva da reza, e me
ajude a acreditar no poder das minhas rezas.
Querido Pai, me ajude a sentir que Você está comigo. — não há melhor
presente ou sentimento.
Ajude-me a abandonar maus hábitos e a fazer a Sua vontade.
Dê-me a vontade de rezar e me ajude a compreender que todas as minhas
carências materiais e espirituais são apenas o resultado de reza insuficiente.
Dê-me a emuná de que tudo está em Suas mãos, Hashem.
Deixe que meus esforços principais sejam canalizados para a reza, e me
deixe depender de Tua magnifica benevolência e não de minhas habilidades
limitadas.
Que as orações fluam de meu coração...

O Rabino Levi Yitzchak Binder, de abençoada e santa memória, me disse


que quando uma pessoa ascende ao Tribunal Celeste depois de sua jornada
de cento e vinte anos na Terra, os Juízes Celestes abrem o grande livro da
história da vida daquela pessoa, em que cada pensamento, palavra e ato
estão registrados.
Cada página representa um dia de vida.
As páginas em que consta reza pessoal são viradas e a pessoa não é
julgada por nada que tenha feito de errado naqueles dias.
Mas nos dias em que não houve hitbodedut, a pessoa é meticulosamente
julgada por cada pensamento, fala e ação.
Agora sabemos por que o ietser hará arma tamanha briga contra a reza
pessoal.
Cada dia é uma nova guerra pela hora de hitbodedut.
Por isso, temos de ser corajosos e não desistir.
Hitbodedut é o portão de entrada para nos conectarmos a Hashem!

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 5

Capítulo 4 - As virtudes da emuná

As virtudes da emuná são tantas que fica difícil descrevê-las.


A emuná é a raiz e fundação de nossas tarefas neste mundo.
Assim, cada um de nós precisa reforçar sua emuná.
Aperfeiçoamos nosso caráter à medida que fortalecemos nossa emuná.
De acordo com o Rebe Nachman de Breslav, a emuná é a base de
sustentação do mundo.
A emuná é o recipiente espiritual para a abundância Divina e invoca as
melhores bênçãos de saúde, bem-estar e sustento.
A emuná é uma força espiritual poderosa.
Com emuná simples e pura, desejamos uma conexão maior com Hashem e
nos elevamos a níveis espirituais mais altos.
A emuná é a base da elevação espiritual.
Quem consegue emuná, alcança a purificação da alma.
A emuná nos leva ao nível da paciência pura, serenidade e paz interior.
Nessa atmosfera emocional, maximizamos nosso potencial funcional e
intelectual.
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Sefer Hamidot, emuná) que a emuná
traz bênçãos à nossa vida.
Ela nos dá uma consciência espiritual mais intensa, nos fazendo entender
melhor a análise racional por trás dos acontecimentos que nos rodeiam.
Graças à emuná, somos perdoados por todas as transgressões e os
decretos severos são derrubados.
Segundo o Rebe Nachman de Breslav (Licutei Moharan 1:7), a falta de
emuná faz perpetuar a Diáspora e o exílio.
Ao contrário, a emuná fortalecida acelera a completa redenção do nosso
povo.

A descida da alma a este mundo


A alma é uma minúscula centelha de Hashem em cada um de nós.
Nos mundos intangíveis e superiores de espiritualidade pura, a alma pode
se aquecer junto à iluminação Divina, um prazer indescritível que faz
qualquer prazer físico parecer escuridão e desgosto.
Superficialmente, a alma, em seu estado original incorpóreo, parece estar
mais perto de Hashem.
Mas, na verdade, ela está distante porque ainda não adquiriu conhecimento
sobre Ele.
A alma — antes da descida ao mundo material — apenas sabe da existência
dessa iluminação espiritual maravilhosa e indescritivelmente prazerosa, mas
não conhece nada sobre a fonte ou natureza dessa luz.
Imagine que você conheceu uma pessoa maravilhosa que reflete bondade,
sabedoria, calma e compaixão.
Mesmo que você não saiba nada sobre essa pessoa, você certamente se
interessaria em conhecê-la melhor.
No campo espiritual, não há inclinação para o mal, dificuldades ou testes.
A alma se aquece junto à agradável luz Divina — e não precisa de nada
mais.
A alma nesse estado não pede misericórdia, compaixão Divina, ajuda ou
perdão.
Ela não tem necessidades, portanto não tem a oportunidade de conhecer os
atributos de Hashem.
Todo o propósito por trás da criação do mundo é revelar a compaixão Divina
de Hashem por Suas criações.
Está escrito (Licutei Moharan 1:64): "Hashem criou o mundo graças à Sua
compaixão, pois Ele desejava revelá-la. Sem a Criação, para quem ele
mostraria Sua compaixão infinita? Por esse motivo, Ele criou o universo —
do campo espiritual mais elevado à mais baixa condição material —, para
revelar Sua compaixão."
Como o propósito da Criação é revelar a compaixão de Hashem, só
podemos conhecê-Lo se descemos a este mundo.
Aqui, precisamos de Sua compaixão Divina a cada segundo; devemos
buscá-la, reconhecê-la e, assim, cumprir o propósito da Criação.

Prazer em conhecê-lo!
Vamos esclarecer esse conceito com uma história:
O Rabino de Tulchin um dia reclamou ao seu professor e guia espiritual, o
Rebe Natan de Breslav: "Sinto muito não ter tido o privilégio de conhecer o
Rebe Nachman de Breslav pessoalmente."
O Rebe Natan respondeu austeramente: "E quem tem a audácia de pensar
que 'conhece' o seu Rebe? Yossef Frunick?"
Yossef Frunick era um homem simples que conduzia uma balsa.
Durante todo o dia, ele levava as pessoas de um lado ao outro do rio.
O Rebe Nachman de Breslav usava frequentemente os serviços de Yossef
Frunick.
Yossef se orgulhava: "Eu costumava passar bastante tempo com o Rebe
Nachman — eu o conhecia muito bem!"
O Rebe Natan quis enfatizar que conhecer alguém superficialmente não
significa nada.
Yossef Frunick conhecia a aparência física do Rebe, mas não fazia a menor
ideia de sua enorme importância espiritual.
Para começarmos a conhecer o Rebe Nachman, explicou o Rebe Natan,
devemos conhecer e praticar seus ensinamentos.
Portanto, um discípulo de uma geração posterior pode conhecer um tsadik
melhor do que um contemporâneo que o tenha visto em carne e osso.
Yossef Frunick não apenas viu o Rebe Nachman, como também o tocou
várias vezes enquanto o ajudava a subir e a descer da balsa.
A proximidade física, porém, não tem nada a ver com consciência espiritual.
De fato, o simples balseiro estava extremamente distante do tsadik.
Ele não tinha noção da elevação espiritual, da sabedoria, dos ensinamentos,
das capacidades e da amplitude da santa alma do Rebe Nachman.
Ele apenas o ajudava a atravessar o rio.
O mesmo princípio se aplica ao conhecimento de Hashem.
A alma nos mundos superiores tem prazer na luz de Hashem mesmo sem
saber nada sobre Ele.
Ela lembra o balseiro que se gabava de conhecer o Rebe Nachman embora,
na verdade, ele não conhecesse nada mais que a cor de sua barba.
O próprio Rebe Nachman define "proximidade" como consciência espiritual
(veja Licutei Moharan 1:21): "Por meio da consciência espiritual —
conhecimento de Hashem - podemos alcançar uma união com Hashem."
Portanto, quando buscamos uma conexão com Hashem no mundo físico,
podemos chegar a conhecê-Lo melhor do que por meio de uma mera
aproximação no mundo espiritual.
Pode não ser aparente, mas a presença de Hashem está em todo lugar.
A vantagem do mundo material é que ele possibilita um ganho espiritual, ao
passo que o mundo espiritual não nos permite isso.
Essa é uma contradição aparente, mas um princípio primordial de
espiritualidade.
No mundo material, precisamos da constante assistência de Hashem,
especialmente para superar os testes e problemas deste mundo.
Este é o ambiente em que nossa alma pode realmente dizer a Hashem:
"Prazer em conhecê-Lo!"

Pelo suor do seu rosto


Ninguém gosta de se sentir como um pedinte.
Temos satisfação em saber que merecemos o que temos.
Por isso, a alma "deseja" descer à "zona de guerra" do mundo material para
conquistar legitimamente um lugar elevado próximo a Hashem, onde ela
possa se aquecer junto à luz Divina.
Como a alma inexperiente tem um prazer não merecido no mundo
espiritual, ela fica extremamente "envergonhada" frente às almas que
conquistaram seus lugares.
Visto que Hashem quer que a alma tenha prazer completo, Ele lhe dá a
oportunidade de alcançar a condição que deseja.

Ocultação
Quando a alma desce a este mundo, ela cai em um abismo de escuridão
espiritual, onde a luz Divina está encoberta em camadas de ocultação.
Uma pessoa racional pergunta: "Como a alma pode encontrar e se
aproximar de Hashem em um ambiente onde tudo parece esconder ou
negar Sua própria existência?"
Vemos com nossos próprios olhos que algumas pessoas conseguem
"atravessar" as camadas de escuridão e revelar a esplêndida luz de
Hashem.
Procuraremos uma resposta analisando as várias camadas de ocultação:

Primeira ocultação — natureza: As leis da natureza parecem absolutas e,


portanto, ocultam a Providência Divina individual de cada criação.
Poderíamos pensar que se Hashem quisesse tornar Sua presença aparente
no mundo material, Ele faria muito mais milagres para que ninguém se
enganasse quanto à Sua existência e soberania.

Segunda ocultação — ser humano: O ser humano obstrui (impede, dificulta)


a emuná e a iluminação de Hashem.
Como tem livre-arbítrio, o homem pode fazer o que quiser, quando quiser.
Quando ele mente ou rouba, não cai um raio do céu na sua cabeça.
Quando ajuda um cego ou um incapacitado a atravessar a rua, um anjo não
desce à Terra para colocar em seu bolso um cheque de cem reais.
Superficialmente, Hashem não reage ao bem ou ao mal que as pessoas
fazem.
Então, onde está Hashem?
E, ainda pior, já que a maioria das pessoas não faz ideia do que seja
emuná, sua fala e perspectiva reflete heresia e agnosticismo.
Por que Hashem não faz com que seja mais fácil acreditarmos Nele?

Terceira ocultação — o corpo: O corpo físico que hospeda a alma é a forma


mais grosseira de matéria, com suas necessidades e desejos que puxam na
direção oposta da espiritualidade e da Divindade.
O corpo é vigorosamente atraído por confortos físicos, o que oculta ainda
mais da alma a luz Divina de Hashem.
Por que o corpo tem de ser tão estúpido?
Hashem não poderia ter criado um corpo mais receptivo e refinado
espiritualmente para que fosse mais fácil reconhecer Hashem?

Quarta ocultação — testes e problemas: A vida neste mundo oculta a


presença de Hashem de várias maneiras.
A palavra hebraica para mundo, olam, é derivada da palavra he'elem, que
significa ocultação.
Os testes e problemas da vida cotidiana — dificuldades financeiras,
doenças, crimes, discórdia internacional, pressões emocionais etc. —
ocultam a benevolência de Hashem.
Terror, acidentes fatais, crianças incapacitadas e outras injustiças aparentes
fazem com que a emuná seja quase impossível.
Onde está Hashem?
Hashem não poderia deixar a vida mais fácil, sem holocaustos, tsunamis ou
ataques terroristas?

Quinta ocultação — Torá e mitsvót: A Torá e as mitsvót são as mais difíceis


ocultações da luz de Hashem.
Isso porque, superficialmente, muitos mandamentos dificultam a vida neste
mundo.
Por exemplo, mesmo que precisemos de dinheiro, não podemos trabalhar
no Shabat.
Temos de jejuar em alguns dias, mesmo quando o tempo está quente e
seco.
Nas primeiras horas da manhã — o melhor e mais produtivo horário de
trabalho —, os homens têm de colocar tefilin e talit e rezar.
Mesmo que tenhamos de cuidar de negócios imprescindíveis, precisamos
também dedicar um tempo ao estudo da Torá.
Parece que a Torá e as mitsvót são totalmente incompatíveis com a vida
neste mundo.
De uma perspectiva mundana, elas simplesmente nos limitam, tomando
uma vida dura ainda mais difícil.
Por que Hashem não adaptou a Torá à vida neste mundo?
Da perspectiva da emuná, a Torá e as mitsvót facilitam a felicidade e o
sucesso.
No entanto, a maioria das pessoas é incapaz de olhar o mundo do ponto de
vista da emuná.
Por que Hashem deixa espaço para confusão e erro?
A maior ocultação está na falta de uma definição exata do desejo de
Hashem e do estilo de vida conforme a Torá.
Até os rabinos divergem sobre o que Hashem quer de nós.
E ainda pior, entre os que escolhem uma vida de Torá, poucos realmente
conseguem se aproximar de Hashem.
Você sente vontade de gritar?
Isso tudo parece injusto?
Tudo parece correr contra a nossa busca por Hashem e emuná.
As portas das dificuldades se fecham em nossa cara e parece que o mundo
todo está contra nós para nos prevenir de sentir a presença de Hashem.
Somos bombardeados por estímulos agnósticos e ateus o dia todo.
Nós nos voltamos à Torá para consolo e parece que até ela nos está
afastando.
Por que a Torá tem de ser são confusa e aberta a um leque tão grande de
argumentos e interpretações?
O que devemos fazer?
Se o propósito da descida da alma ao mundo material é conhecer Hashem,
então por que essa é uma tarefa tão difícil?
A vida não poderia ser mais fácil?
Parece que a alma luta uma batalha perdida.
Por quê?

Descoberta
A constante luta da vida neste mundo material é exatamente o que faz uma
pessoa procurar Hashem.
Assim que percebemos a futilidade da nossa luta contra todas as forças do
mundo, ficamos mais modestos.
A modéstia é um importante pré-requisito para se ter emuná - já que o
modesto sabe que não pode navegar os mares bravios deste mundo sem a
ajuda de Hashem.
Portanto, nos voltamos a Hashem e cultivamos um forte desejo de sentir
Sua influência reconfortante em nossa vida.
Modéstia, emuná e desejo formam basicamente uma única entidade.
O reconhecimento de nossas limitações leva à modéstia, que por sua vez
leva à emuná.
E a emuná invoca um forte desejo de buscar Hashem.
Quando nossa emuná se desenvolve e chega ao ponto em que efetivamente
procuramos Hashem, a vida fica doce e gratificante, apesar dos problemas.
Para que esperar tempos difíceis?
Quanto mais procuramos Hashem, melhor a nossa qualidade de vida.
Devemos nos voltar a Hashem regularmente, mesmo se não sofremos
nenhuma dificuldade extrema.
Segundo os sábios talmúdicos, devemos agradecer a Hashem
constantemente pelo passado e rogar pelo futuro (TB, Tratados de
Berachót, 54a).
Se falamos regularmente com Hashem, - agradecendo o passado e pedindo
pelo futuro, mesmo quando as coisas estão dando certo —, podemos sentir
a Providência Divina de Hashem e Sua compaixão magnífica a cada
momento.

Vamos supor que você seja 100% saudável, rico e bem-sucedido e que as
pessoas o admirem.
Você faz o que quiser na hora que quiser.
Parece uma bênção?
Pois não é — ao contrário, é uma maldição.
Muitos famosos, ricos e bem-sucedidos sucumbiram ao desespero, vazio,
abuso de drogas e até mesmo suicídio porque não procuraram Hashem.
A existência mais solitária é uma vida sem Hashem, D'us nos livre.
Então, quando Hashem nos manda problemas como lembretes para que O
procuremos, Ele está nos fazendo um grande favor.
Mas se somos espertos o suficiente para buscar Hashem quando nossa vida
está progredindo de modo positivo, Ele não precisa recorrer a testes e
problemas para nos despertar do sono espiritual.
Assim que compreendemos o propósito da vida e percebemos que a corrida
por recompensas materiais não leva a nada, podemos canalizar nossos
desejos e energias para satisfazer as necessidades da alma e procurar uma
proximidade com Hashem.
Com olhos espirituais que fitam o objetivo máximo da vida, problemas
aparentes neste mundo subitamente se tornam valiosas oportunidades de
crescimento espiritual.
Quando descobrimos que nosso propósito é conhecer Hashem, a vida fica
doce, gratificante e significativa.
Atribuir tudo a Hashem aplana as estradas esburacadas da vida —
agradecemos a Hashem os sucessos e não nos desesperamos com os
fracassos.
Aproveitamos os testes da vida para fortalecer nossa relação com Hashem.
De repente descobrimos que cada estímulo em nosso meio é uma pequena
mensagem que nos chama para mais perto Dele.
Nada é mais doce que receber uma mensagem pessoal do nosso Pai
glorioso e compassivo.
Ficamos mais atentos ao nosso redor quando desenvolvemos a consciência
de que nosso meio consiste numa maneira de Hashem falar conosco.
Uma pessoa receptiva às mensagens de Hashem sempre reage ao que Ele
está "transmitindo".
Por exemplo, ela entende certo evento como uma mensagem para corrigir
uma falha, ou outro acontecimento como uma chamada para fazer teshuvá.
A vida se torna uma história harmoniosa de constante ganho espiritual.
Situações difíceis demandam reforços de emuná.
Quando lembramos que testes e atribulações são criados para nos
aproximar de Hashem, e não para nos afastar, lidamos com eles com muito
mais facilidade e sucesso.
Hashem criou o mundo para revelar sua ilimitada compaixão.
Ao nos aproximarmos dEle, entendemos melhor Sua vasta bondade.
Então quando lembramos que nossas lutas e sofrimentos existem para nos
aproximar de Hashem, evitamos cair na armadilha da raiva, da ansiedade e
do desespero.
Ao contrário, corremos mais rápido em direção a Hashem.

Devagar e sempre
"Se Hashem quer que eu me aproxime, por que Ele não se revela para
mim?"
Imagine que uma companhia elétrica, querendo economizar dinheiro,
desligue os transformadores e estações transmissoras de sinais e ligasse
um cabo direto do gerador principal até a sua casa.
Quando você ligasse o interruptor da lâmpada de 100 watts da sala, 50.000
watts de energia passariam pelo cabo.
A lâmpada explodiria em menos de um segundo.
Os cabos dentro das paredes também explodiriam e a casa inteira poderia
pegar fogo.
Por isso, a eletricidade não pode chegar à sua casa sem uma série de
transformadores, disjuntores e estações que reduzem a energia principal da
eletricidade gerada a uma medida que você pode usar com segurança.
Do mesmo modo, a luz Divina de Hashem é infinita e ilimitada.
Para o nosso próprio bem, Hashem não nos transmite uma iluminação mais
forte que aguentamos, senão a nossa "lâmpada" queimaria — morreríamos,
ficaríamos loucos ou perderíamos a fé de vez, D'us nos livre.
Portanto, Hashem — como um bom treinador — nos dá oportunidades para
fortalecer nosso eu espiritual, para que nos tornemos recipientes fortes o
suficiente para receber uma porção maior de luz Divina.
Toda vez que uma pessoa passa por um teste de fé, supera um obstáculo
para fazer uma mitsvá ou luta contra tentação e desejos do corpo, ela
fortalece sua alma e se torna um recipiente adequado para mais luz Divina.
Quanto mais forte a iluminação, mais perto se chega de Hashem, e vice-
versa.
À medida que nos aproximamos de Hashem, a vida fica muito mais doce.
O Talmud conta a história (Tratado Chagiga, 14b) de quatro sábios que
entraram no "pomar de frutas cítricas", uma alusão aos mundos espirituais
superiores.
Um morreu, um ficou louco e outro perdeu toda a fé.
Somente o Rabi Akiva entrou e saiu em paz. Os três primeiros não haviam
se tornado um recipiente espiritual adequado para tamanha exposição da
luz Divina.
O Rabi Akiva, por outro lado, havia fortalecido seu eu espiritual de tal
maneira que a iluminação não o prejudicou - ela lhe era gratificante, já que
ele era um recipiente apropriado para aquele nível de luz Divina.
O Rabi Akiva era filho de convertidos pobres.
Ele fez um tremendo esforço para se refinar, passando de camponês
comum a grande sábio da Torá com milhares de discípulos.
O Rabi Akiva não tinha sangue azul, nem um pai que fosse um grande
rabino.
Espiritualmente, ele foi um homem que se fez sozinho.
Aos quarenta anos, ele começou o longo caminho de Torá e teshuvá,
obstruído por dificuldades indescritíveis, pobreza e capacidade natural de
aprendizagem limitada.
Conta o Talmud que ele derramou rios de lágrimas implorando a Hashem
que o ajudasse a estudar Torá.
Ele era tão pobre que dormia num celeiro.
Mas as desvantagens de sua vida aumentaram seu desejo de se aproximar
de Hashem.
Durante anos de esforço, privação e sofrimento nas mãos dos romanos,
além de ter sido rejeitado pelo próprio sogro, o Rabi Akiva continuou,
devagar e sempre, com seus esforços obstinados e implacáveis para
aprender Torá e refinar sua alma.
Assim, ele se tornou um extraordinário recipiente de espiritualidade que
ultrapassava seus contemporâneos.
Os três "colegas" do Rabi Akiva tinham uma vida mais fácil.
Cada um deles vinha de uma família de alto padrão social e todos eram
grandes estudiosos de Torá.
Mas a eles faltava a profundidade da força espiritual do Rabi Akiva.
Eles acabaram sendo, portanto, prejudicados pelo excesso de luz Divina.
Quando compreendemos que dificuldades são veículos que fortalecem a
alma e nos aproximam de Hashem, temos força para lidar com qualquer
situação.
Que motivação seria maior do que saber que Hashem quer nos levar para
mais perto dEle?
Quando olhamos a vida com olhos de emuná, ficamos instantaneamente
mais fortes e felizes.
Não tenha inveja de quem tem a vida fácil — isso não é um prêmio.
Qualquer atleta sabe que sem esforço não há vitória.
Pessoas que nunca foram testadas têm pouca capacidade de entender a fé
e de se aproximar de Hashem.
Agora que compreendemos os benefícios das dificuldades da vida, podemos
entender por que Hashem mandou nossa alma a este baixo mundo
material.

O seu caminho
As dificuldades da vida têm também outro propósito importante — elas nos
ajudam pelo caminho da nossa missão individual na Terra.
Se não entendemos a mensagem subjacente às situações difíceis que
encontramos, tudo o que temos de fazer é pedir a Hashem que nos guie e
nos ajude a entender.
Quando rezamos constantemente, temos a garantia de que vamos
encontrar nosso caminho no mundo.

Procurando a luz
Toda vez que usamos o poder da reza para superar uma situação difícil,
aumentamos nossa consciência da magnitude de Hashem.
Estresse e ansiedade resultam de falta de consciência espiritual, o que é
equivalente à escuridão.
Reconhecer Hashem é a luz que ilumina a escuridão.
Portanto, o desespero se torna esperança quando "procuramos a luz", ou
seja, quando buscamos a mensagem Divina nos problemas e percebemos
que Hashem os usa para motivar nosso crescimento pessoal e espiritual.
Os acontecimentos opressivos (overwhelming) da vida se tornam desafios
que estamos prontos a enfrentar quando buscamos a luz na escuridão.

Minha alma deseja


Vivemos em um mundo que diminui e oculta a luz de Hashem.
Nosso corpo reduz - ou reprime - a iluminação Divina de nossa alma.
Mas os períodos de teste da vida são o que fazem a alma desejar Seu
Criador.
Como a alma é espiritual, ela deseja Divindade.
Nada pode satisfazer esse desejo a não ser a luz Divina de Hashem, como
escreveu o Rei David (Salmos 42:3): "Ela [a alma] está sedenta de Ti, ó
Deus vivo"
A alma não deriva praticamente nenhuma satisfação de coisas materiais.
Uma longa lista de celebridades que tiveram tudo o que uma pessoa pode
sonhar — dinheiro, casas de férias, piscinas e quadras de tênis no quintal,
fama e literalmente tudo o que o dinheiro pode comprar — enlouqueceram
e cometeram suicídio.
Elas tinham tudo, mas não tinham nada.
Quando a alma se sente no escuro, fica "indócil".
A busca da alma por Hashem traz sensações de inquietação, vazio e
"borboletas no estômago".
Hashem ilumina a escuridão da alma, ajudando a alma a superar suas
dificuldades.
Como resultado, a alma conhece, ama e aprecia Hashem cada vez mais.

Uma saga contínua de dificuldades


A busca por Hashem costuma ser proporcional à quantidade de problemas
que uma pessoa tem.
É como o instinto de buscar a luz no escuro.
Mesmo que uma pessoa procure Hashem apenas para conseguir alívio, e
não pelo motivo mais elevado de trazer Divindade à sua vida, ela ainda
assim descobre a misericórdia e a compaixão infinitas de Hashem.
O Talmud (TB, Tratado Nedarim, 81a) declara: "Os filhos do pobre se
tornarão sábios da Torá."
As dificuldades pelas quais passa a família de um jovem pobre o motivam,
desde cedo, a procurar Hashem — o que faz com que ele tenha forte emuná
e sede de estudar Torá.
O Rei David passava por inúmeras dificuldades desde pequeno e, por isso,
buscava Hashem constantemente.
Ao final, ele alcançou o nível de profeta e escolhido de Hashem.
Ele compôs o Livro dos Salmos, a principal coleção de rezas pessoais do
mundo.
Os sábios ensinam que as nossas matriarcas, Sara, Rebeca e Raquel, eram
estéreis porque Hashem queria ouvir suas rezas.
Se elas tivessem tido filhos sem dificuldades, certamente teriam rezado
bem menos, em quantidade e intensidade.
Se analisamos a vida dos grandes tsadikim, quase sempre vemos que eles
estavam numa saga contínua - uma dificuldade após a outra.
As dificuldades da vida são um claro sinal de que Hashem quer nos levar
para mais perto dEle.

Obstáculos aumentam o desejo


De acordo com o Rebe Nachman de Breslav (Licutei Moharan 1:66), "o grau
de desejo aumenta de acordo com os obstáculos que dificultam a chegada
ao objetivo, pois quando uma pessoa é impedida de realizar seu desejo,
este se intensifica".
Com o princípio acima em mente, podemos enxergar dificuldades, testes e
problemas de maneira positiva.
Assim que encontramos uma dificuldade, devemos reforçar nosso desejo de
buscar Hashem, pois o propósito dos desafios é nos aproximar dEle.
Jeremias, o profeta, disse (Jeremias 30:7): "Será um período de problema
para Jacob, mas disto ele será salvo."
Ou seja, a mesma situação terrível da qual Hashem salva Israel é o agente
que leva o povo judeu para perto de Hashem.
O problema estimula a reza profunda e a busca de Hashem.
Assim, o desafio é, ao final, uma pedra preciosa de valor incomensurável.
Hashem disse (Ezequiel 33:11): "Não desejo a morte do fraco, mas que ele
retorne de seus modos perversos e viva."
Hashem não quer que a gente sofra.
Ele quer que sejamos honestos e felizes.
As dificuldades da vida são chamados para motivar em nós a teshuvá e o
desenvolvimento de bom caráter.
Se fôssemos sempre bem-sucedidos, ficaríamos presunçosos e arrogantes;
nunca procuraríamos Hashem, nem tentaríamos corrigir falhas de caráter.
Se tivéssemos tudo, não teríamos nada.

Alegria de viver
Vida é alegria e felicidade.
Apenas uma pessoa feliz pode dizer que está realmente "viva".
"Vida" e "felicidade" são sinônimos - a palavra vida alude a um estado de
alegria (assim como a palavra morte alude a um estado de abandono).
Muita gente tem o coração batendo e os pulmões funcionando, mas não
tem alegria de viver porque não tem emuná.
Segundo o Rebe Nachman de Breslav, a vida sem emuná não vale a pena;
todas as dificuldades, por menores que sejam, fazem quem não tem fé se
afundar em tristeza, depressão e desespero.
O Rebe Nachman explica que quem não tem fé é incapaz e de entender ou
de lidar com situações que não estejam de acordo com seus planos ou
desejos.
Pessoas assim se sentem desamparadas, nas mãos do "destino" ou da
"natureza" que os tortura sem motivo.
Por outro lado, quem tem emuná raramente perde a serenidade porque
sabe que os períodos difíceis da vida ao final existem para o bem.
A vida passa a ser alegre e doce, neste mundo e no próximo.
Agnósticos e ateus não têm vida neste mundo nem no próximo.
Se analisamos melhor, vemos que por trás do sorriso artificial, eles são
ansiosos, preocupados e estressados.
Sua vida é repleta de dificuldades inexplicáveis, lutas diárias por
sobrevivência e uma busca interminável por confortos materiais que quase
sempre os ilude (frustra, elude).
A pessoa de fé, por outro lado, sabe o que está fazendo no mundo e
entende que os desafios da vida são marcos de crescimento pessoal e
espiritual que existem para que alcancemos um objetivo claramente
definido.
É preciso emuná para se experimentar a alegria da vida.
Saber que tudo é um presente eterno do nosso querido Pai nos dá a alegria
de viver que ativa nossa força interior.
Com emuná, conseguimos colocar as dificuldades em perspectiva,
especialmente quando contemplamos o objetivo máximo do êxtase eterno
na próxima vida.

A guerra contra Amalek


Amalek é o símbolo do mal e um "apelido" do ietser hará.
Sua maior arma é o veneno da dúvida; ele instila a dúvida sobre emuná em
nossa mente e em nosso coração.
Assim que começamos a duvidar de Hashem, imediatamente nos
deparamos com dificuldades criadas para nos fazer ansiar e buscar por Ele.
Conta a Torá (Êxodo, capítulo 17) que os filhos de Israel derrotaram o povo
de Amalek graças à emuná.
Quando as mãos de Moisés estavam levantadas aos Céus em reza, Israel
ganhava a batalha.
Quando Moisés abaixava as mãos, Amalek ganhava a batalha.
A Mishná, no Tratado Rosh Hashaná, pergunta hipoteticamente: "As mãos
de Moisés podiam ganhar e perder uma guerra?"
A Mishná responde à própria pergunta: "Enquanto o povo de Israel olhava
para cima e subjugava seu coração a seu Pai, vencia o inimigo — senão,
eles eram derrotados."
Portanto, pode-se concluir que Amalek ganha quando esquecemos Hashem,
D'us nos livre.

Olhando para cima


Amalek — a inclinação para o mal — luta para destruir a emuná, para que
não olhemos para o céu.
Com emuná, a pessoa está protegida contra o ietser hará.
Quando a parede de emuná desmorona — D'us nos livre -, ficamos expostos
e indefesos.
Amalek é desarmado quando olhamos para cima e nos lembramos de
Hashem.
Sempre que sofremos, podemos olhar para cima, chamar Hashem por meio
de reza pessoal e pedir ajuda.
Nenhuma oração fica sem resposta, pois Hashem está perto daqueles que O
chamam fervorosamente.
A emuná, cuja manifestação prática é a reza, é a única arma garantida
contra a inclinação para o mal.
Por isso, todos devemos nos esforçar para aumentar constantemente nossa
emuná e nossos poderes de reza.

O propósito da Torá e das mitsvót


O propósito do estudo da Torá é nos fazer ter emuná.
Uma emuná reforçada leva a uma iluminação mais forte da alma.
Quanto mais a alma é iluminada, mais é capaz de reconhecer seu Criador.
Assim, estudar Torá e fazer mitsvót — com o objetivo de conhecer Hashem
e não com segundas intenções, como ganho pessoal, prestígio e assim por
diante — constituem o propósito expresso da existência neste mundo.

Nível espiritual
O Talmud (Tratado Pessachim, 50a) conta sobre o Rav. Yosef, filho do
Rabino Yehoshua ben Levi, que ficou tão doente a ponto de ter a "morte
clínica" declarada.
Pela graça de Hashem, o Rav. Yosef se recuperou depois que sua alma
havia estado no limiar do mundo vindouro.
Seu pai lhe perguntou: "O que você viu no mundo espiritual?"
O Rav. Yosef respondeu: "Vi um mundo de cabeça para baixo; o alto era
baixo e o baixo era alto."
Analisemos esse pensamento simples, mas profundo.
Muita gente neste mundo goza de riqueza e prestígio, sendo considerada da
"alta sociedade".
Mas no mundo espiritual, essa gente está no patamar mais baixo.
O contrário também vale; certas pessoas neste mundo são humilhadas,
ridicularizadas ou perseguidas.
Porém, no outro mundo elas passam a uma posição mais elevada.
Nosso nível espiritual é determinado pelo grau de desenvolvimento da
nossa emuná e pelo sucesso nos vários testes de fé realizados durante
nosso período no mundo material.
A emuná é a fundação da vida.
Disse o profeta (Habacuque 2:4): "E o justo viverá pela emuná."
Com emuná, temos garantida uma vida boa, gratificante e significativa
neste mundo e no próximo.
O nível espiritual aumenta proporcionalmente à emuná.

Grandeza e insignificância
Diz o profeta (Samuel 1, 16:7): "A pessoa vê os olhos e Hashem vê o
coração."
Em outras palavras, não temos as ferramentas certas para julgar a
verdadeira posição de outra pessoa.
Temos a tendência de avaliar a importância dos outros de acordo com
dinheiro, sabedoria, beleza ou origem social.
Esses padrões de medida são imprecisos e enganosos.
Eles muitas vezes mostram uma grande pessoa como se fosse
insignificante, e vice-versa.
Um iletrado pode ser mais nobre que um professor, especialmente se
aquele sabe reconhecer sua missão no mundo e este não sabe.
Quem tem um grande conhecimento sobre Hashem ultrapassa a pessoa que
não faz ideia de quem criou o mundo e para qual propósito, mesmo que o
primeiro seja limpador de rua e o último um físico nuclear.
Isaías, o profeta, (Isaías 1:3), quando pune Israel por renunciar à emuná,
ensina que a pessoa que não tem consciência de Hashem está em um nível
espiritual mais baixo que o de um boi: "O boi conhece seu criador e o burro
conhece seu Mestre. Israel não conhecia porque não observou."
Ou seja, o boi e o burro estão cientes de que Hashem os mantém, ao passo
que aquele que cegamente busca uma vida de prazeres físicos nunca
encontra Hashem.

Emuná — a melhor mercadoria


Considerando tudo o que discutimos neste capítulo, é preciso investir a
maior parte de nossos esforços para desenvolver a emuná.
A emuná é a commodity mais importante do mundo.
O Talmud ensina (TB, Tratado Shabat, 31a) que, quando a pessoa deixa
este mundo, a primeira pergunta que ouve é "você negociou com fé?".
A interpretação simples dessa questão é se a pessoa conduziu seus
negócios justa e honestamente.
Mas, metaforicamente, a pergunta é se a pessoa negociou para adquirir a
commodity da fé — emuná — ao estudar emuná, falar de emuná, praticar
emuná e lutar por emuná.
Segundo o Zohar, Hashem manipula mundos inteiros para que duas
pessoas se juntem e conversem sobre emuná.
A emuná é a chave da verdadeira felicidade neste mundo e é a única
garantia de sucesso no próximo mundo.
Este capítulo tocou brevemente os benefícios da emuná, mas, basicamente,
não há limites para as suas virtudes.
Feliz é a pessoa que possui uma emuná verdadeira e duradoura.

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 6

Capítulo 5 - Emuná e emoções

A emuná é a fundação da saúde emocional.


Este capítulo se aprofunda na conexão entre a emuná e as emoções para
ilustrar o importante papel que a emuná tem em nossa vida diária e em
nosso bem-estar geral.

Parte 1: Tristeza
A tristeza é um sentimento que resulta diretamente da falta de emuná.
De acordo com um importante princípio de emuná, Hashem concede
Providência Divina a cada criação.
Ele dá ao ser humano — Sua criação mais sofisticada — as condições
específicas que cada um precisa para desenvolver a fé e conhecer Hashem.
Essas características são personalizadas para cada um de nós.
Geralmente, os problemas são agentes criados para estimular nosso
crescimento espiritual.
Algumas pessoas sofrem de doenças físicas; outras têm problemas
financeiros.
Alguns se decepcionam com os filhos; outros têm problemas conjugais.
Essas atribulações nos motivam a procurar Hashem.
Sem elas, pode ser que nunca levantaríamos a voz para rezar.
Com emuná, nunca caímos em tristeza ou desespero, pois ela nos ensina
que Hashem faz tudo para o nosso bem.
Aprendemos que nossas dificuldades na vida existem para o nosso bem,
para nos aproximar de Hashem.
Sem emuná, porém, a vida nos apresenta vários motivos para tristeza e
depressão.
Como o estado de carência e imperfeição é inerente à Criação, a vida nunca
é exatamente como queríamos que fosse.
Sem emuná, ficaríamos tristes e decepcionados várias vezes ao dia, sempre
que as coisas não dessem certo.
Um soldado numa tropa de elite ou um atleta campeão encaram a dureza
de seus treinamentos como uma oportunidade de crescimento para alcançar
a excelência.
Um integrante do time olímpico de boxe não chora se leva um soco no
treino.
Ao contrário, ele usa sua dor como uma oportunidade de aprendizado para
melhorar seu desempenho.
Do mesmo modo, quem tem emuná não se entristece com as dificuldades
da vida, mas faz com elas sejam trampolins para o crescimento espiritual.
Quando as pessoas sem emuná não conseguem o que querem, começam a
se culpar ou a quem estiver por perto.
E ficam tristes.
Mesmo que tenham uma crença geral em Hashem, elas O acusam de
torturá-las e persegui-las sem motivo.
Com a consciência espiritual de que as dificuldades da vida são a maneira
de Hashem nos aproximar Dele, nunca afundamos em tristeza ou em
desespero.
Aproveitamos a situação "ruim" para reza e teshuvá, superando as
dificuldades e chegando, ao final, mais perto de Hashem.
Testes e problemas são os recipientes espirituais ideais para uma
aproximação com Hashem.
Eles são como o fogo; quando controlado adequadamente, o fogo é uma
excelente fonte de energia para cozinhar, aquecer e curar.
Do mesmo modo, testes e atribulações dão a energia espiritual que pode
nos impulsionar para mais perto de Hashem.
Não há comparação entre uma pessoa que conseguiu força espiritual e
emocional e se aproximou de Hashem por meio de testes e atribulações e
uma pessoa acostumada a uma vida fácil.
Enquanto a primeira possui uma forte defesa espiritual e emocional e pode
lidar com as mais difíceis situações, a última fica estressada e ansiosa em
vista da menor dificuldade.
É por isso que as companhias de remédios estão fazendo bilhões de dólares
com uma geração estragada que não tem emuná.

Falhas e desejos
Levemos nosso raciocínio um passo adiante: às vezes, a pessoa sofre com
um mau hábito ou um desejo que é um obstáculo direto para servir
Hashem.
Nesse caso, a pessoa aparentemente tem o "direito" de estar triste.
Ela se pergunta: "Como posso ser feliz se tenho esse desejo por certas
coisas que vão contra a vontade de Hashem?"
Alguns sentem vontade de fumar no Shabat; outros desejam um
cheeseburger.
Pessoas assim se sentem tristes e culpadas por não conseguir superar seus
desejos.
A boa notícia é: Hashem criou a vontade de cheeseburger, cigarros no
Shabat ou qualquer outra coisa que o corpo deseje.
A emuná nos ensina que apetites físicos — como tudo na vida — vêm de
Hashem.
Ele coloca um desejo específico em uma pessoa para direcioná-la na
retificação necessária de sua alma.
Por exemplo, se em uma vida passada a pessoa não cumpriu o
mandamento de não cozinhar ou comer carne com leite, nesta encarnação
ela pode ter um grande desejo de comer cheeseburger.
Por quê?
Superar a vontade de comer cheeseburger — ou qualquer outra combinação
de carne com leite — é a missão de sua alma na Terra.
Com emuná, ela fica feliz pela oportunidade de se retificar!
Hashem nos dá nossos defeitos, desejos e maus hábitos para o nosso bem,
para facilitar a retificação de nossa alma.
Esse é um grande motivo para comemoração, e não para tristeza!
Se permanecemos serenos, rezamos e fazemos auto avaliações constantes,
descobrimos que nossos aparentes defeitos não são realmente falhas, mas
agentes pelos quais podemos realizar crescimento e retificação espiritual.
Sem emuná, as dificuldades da vida e as falhas pessoais são motivos de
confusão e desespero.
Não conseguimos nada quando estamos tristes, especialmente a retificação
da alma.
Somente a emuná pode nos salvar de tristeza e desespero.
A desvantagem é na verdade uma vantagem
Quando contemplamos a Torá e as gloriosas histórias do povo judeu, vemos
como os líderes de nossa história sofreram com desvantagens
intransponíveis.
Moisés era gago e foi criado na casa de um não judeu — o Faraó, rei do
Egito.
Ele não recebeu uma educação judaica formal, mas se tornou o mais
sagrado dos profetas de todos os tempos, além de ser o mensageiro de
Hashem que conduziu o povo judeu na fuga do Egito.
Sansão ficou cego, mas se tornou um dos homens mais poderosos da
história, aterrorizando o coração dos inimigos, mesmo após a morte!
David foi exilado e perseguido; seu próprio pai e seus próprios irmãos
pensavam que ele era um filho ilegítimo.
Mas, apesar da baixa estatura, ele venceu o gigante Golias.
Além disso, foi escolhido para substituir Saul — um homem de qualidades
perfeitas — como Rei de Israel e escolhido de Hashem.
Uma mulher fraca e insignificante — Yael, esposa de Heber, o queneu —
salvou Israel das mãos do poderoso Sisera.
O Magid de Mezeritch tinha um problema no pé esquerdo, mas se tornou o
tsadik da sua geração e o sucessor do santo Baal Shem Tov.
Abaye — o sábio talmúdico cujo nome está escrito em quase todas as
páginas do Talmud — era órfão.
Seu pai morreu antes de ele nascer e sua mãe morreu no parto.
Essas dificuldades tão duras não o impediram de se tornar um dos
principais sábios de Israel de todos os tempos.
A continuação dessa lista é longa e exaustiva.
Poucos são os nascidos em "berço de ouro" na história judaica.
Os exemplos anteriores nos ensinam que desvantagens pessoais não
impedem o nível de conquista de uma pessoa.
Ao contrário, aqueles que passam por dificuldades desenvolvem uma
capacidade mais forte de perceber o seu potencial.
Esse conceito fica claro quando observamos um levantador de peso — seus
músculos são o resultado de uma exposição extrema a estresse e esforço.
No plano espiritual, pessoas com desvantagens são humildes.
Elas têm de rogar a Hashem por assistência para superar suas falhas.
Ao incluir Hashem em sua vida, elas têm um progresso muito maior do que
as pessoas que, mesmo sem falhas, não O incluem.
Portanto, a desvantagem é na verdade uma vantagem porque serve de
agente para nos aproximar de Hashem.

Supliquei das profundezas


Uma pessoa com problemas, que esteja sofrendo, oprimida ou perseguida,
deve se apoiar em sua emuná para continuar seguindo em frente.
Em física, toda ação provoca uma reação proporcional e inversa.
Em espiritualidade vale o mesmo.
Quanto maiores as dificuldades da vida, mais precisamos nos apegar a
Hashem.
Quanto mais nos fiamos em Hashem, maior o ganho espiritual.
Sofrimentos e atribulações são como portais para o ganho espiritual.
Se uma pessoa fosse sempre bem-sucedida em tudo, sem nenhum
problema na vida, provavelmente nunca procuraria Hashem.
Pessoas assim facilmente ficam arrogantes, e a arrogância é uma barreira
de ferro que nos separa totalmente da luz de Hashem.
Por outro lado, quanto mais anulamos nosso ego, mais nos tornamos
recipientes adequados para a iluminação Divina.
A emuná se manifesta por meio de coragem; quanto mais sentimos a
presença de Hashem, menos tememos algo ou alguém.
O Rei David expressa lindamente esse conceito no salmo 23, quando diz:
"Ainda que eu siga pelo vale das sombras da morte, nada temerei, pois Tu
estarás comigo."
Situações difíceis são uma tortura sem emuná.
Aqueles sem nada em que se fiar facilmente caem em tristeza, desespero e
depressão.
Eles estão constantemente irritados e amargurados .
Em casos extremos, perdem a vontade de viver.

Pensamento positivo
A primeira escolha de uma pessoa pressionada é se ela vai se entregar a
pensamentos negativos e acreditar neles, ou se vai se fortalecer com
emuná e substituir a tristeza por otimismo e felicidade, confiando em
Hashem.
Neste último caso, os problemas sempre se revertem para melhor.
Pensamento positivo significa pensamento de emuná - Hashem pode nos
resgatar de qualquer situação.
Com emuná, não há desespero.
Hashem pode reverter qualquer problema.
Quem tem emuná está ciente de que tempos difíceis são oportunidades de
crescimento que nos permitem fortalecer nossa relação com Hashem.
Tomemos como exemplo uma pessoa que esteja há muito tempo buscando
sua alma gêmea.
Não é um teste fácil: o ietser hará se aproveita de oportunidades como essa
para instilar desespero e depressão no coração da pessoa e destruir sua
emuná.
Mas, com emuná, a pessoa se volta a Hashem por meio de reza, assim:
"Hashem, por favor, me perdoe por qualquer transgressão que eu tenha
cometido e que esteja dificultando a busca pela minha alma gêmea. Por
favor, me ajude a corrigir o que precisa ser corrigido. Você mesmo sabe que
não se pode retificar a alma sem se estar casado. Por isso, por favor me
ajude a encontrar a minha cara-metade na vida."
Pensamentos positivos vêm do ietser hatov, a inclinação para o bem (ou
para o sagrado).
Pensamentos e emoções negativas são frutos do ietser hará, o obscuro lado
do mal.

Emuná versus heresia


Vamos analisar agora a diferença entre emuná e heresia durante uma crise
pessoal.
A linha de pensamento da emuná é refletida pelo ietser hatov e a linha de
pensamento herética é refletida pelo ietser hará.
O quadro a seguir mostra o modo contrastante como cada um fala no
coração e na cabeça das pessoas:
Repare que, nesse quadro, o ietser hará diz "eu" o tempo todo, ao passo
que o ietser tov fala de Hashem.
O ietser hará infla a pessoa com egoísmo, desespero e heresia, enquanto o
ietser tov dá emuná, motivação e otimismo.
Use esse quadro para colocar seus próprios pensamentos sobre os desafios
que você está encarando no momento e veja qual é a força dominante em
sua vida.

Tristeza — uma inimiga


Sempre que superamos um problema com emuná e otimismo — saber que
tudo vem de Hashem e que tudo é para o bem -, facilmente vencemos
sentimentos de tristeza, depressão e preocupação, que servem apenas para
piorar as coisas.
Tomemos como exemplo um casal.
O marido tem de fazer sua esposa feliz.
Se ele vê que ela está para baixo e por isso ele também fica deprimido, o
problema se agrava.
Se o marido fica melancólico, a Presença Divina vai embora e ele perde a
ajuda de Hashem.
O lar se torna uma área de desastre.
Mas quando o marido enxerga uma situação delicada como um teste de fé,
que o fará crescer em teshuvá e emuná, ele não se permite cair na
armadilha do desespero.
Ele destrói a tristeza — sua inimiga — pedindo a ajuda de Hashem,
fortalecendo sua emuná e sorrindo para a esposa com otimismo.
O sorriso, além de motivador, é contagiante.

Mágoas ou emuná
O Rebe Nachman de Breslav descreve a tristeza como a reclamação de
quem está com raiva de Hashem porque não conseguiu o que queria.
A raiva expressa falta de emuná, quando não reconhecemos que a
Providência Divina de Hashem existe para o nosso bem.
Quem tem emuná não reclama nem guarda rancor contra Hashem e sabe
que tudo o que Ele faz é para o seu beneficio.
Quando alguém se esquece de Hashem, passa a ter medo de forças
naturais percebidas como obstáculos.
Quanto mais a pessoa se esquece de Hashem, mais ela teme essas forças e
se entrega à raiva, ansiedade e impaciência.
Até pior, quando as pessoas atribuem seus problemas a si mesmas, ficam
deprimidas e desesperadas.
Quando não aceitam o que lhes cabe na vida com alegria — ou seja, quando
não têm emuná -, significa que estão magoadas com Hashem.

Grandes ganhos x pequenas perdas


Um dos principais planos do ietser hará é aumentar nossas falhas e ocultar
nossos pontos fortes.
Desse modo, ele nos rouba muitas das alegrias da vida.
Não há uma pessoa sequer no mundo que não tenha pontos fortes.
Imagine que um corretor de investimentos tenha conseguido, em um dia,
um lucro líquido de cem milhões de dólares no mercado de commodities.
No entanto, ele teve um prejuízo de cinco mil dólares em uma pequena
transação.
E alguém chega e grita: "Seu perdedor! Você não sabe nada de
investimentos? Seu futuro está acabado! Quando todo mundo descobrir
sobre os cinco mil que você perdeu, você não vai ter mais nenhum cliente.
Sua profissão está indo por água abaixo!"
Esse alguém é o ietser hará — o epítome de todo mal que destrói a pessoa
por dentro.
Se o corretor tiver emuná, ele jogará o ietser hará pela janela; se não tiver,
irá correndo ao psiquiatra.
Para ser feliz, é importante focar os pontos fortes — seus lucros milionários.
Não deixe que as pequenas perdas o derrubem.

Autoperseguição
A autoperseguição é uma das principais causas de tristeza e depressão.
Trata-se de outra manifestação de uma emuná incompleta, que faz a
pessoa se culpar por suas falhas.
Podemos nos perguntar: "Como posso ser feliz quando fracasso?"
A resposta é simples: com emuná, encaramos uma dificuldade dizendo que
isso é o que Hashem quer e que tudo é para o bem!
Vamos analisar um exemplo: Uma mulher está casada há oito anos, mas
ainda não foi abençoada com filhos.
Sem emuná, ela começa a se perseguir de todos os modos, como: "Não sou
normal, não mereço filhos. Hashem não quer nada comigo. Nasci com má
sorte..."
Esses pensamentos são decorrentes de falta de emuná, pois ela pensa que
ter filhos é algo que depende só dela quando, na verdade, ela tem pouco
poder de decisão no caso.
Filhos, como tudo na vida, vêm de Hashem.
Então o que a mulher sem filhos deve fazer?
O melhor conselho é rezar a Hashem, assim: "Hashem, Você pode me
ajudar. Mostre-me por que não tenho filhos e o que falta em mim. Se me
falta emuná, me dê emuná! Se não rezei o suficiente, me ajude a rezar
mais! Ensine-me a pedir o que preciso. Sei que tudo que Você faz é para o
bem e que Você quer nossas orações assim como quis as orações dos
nossos patriarcas. Acredito que um dia Você me fará mãe também."

Eis uma regra importante: A maioria das pessoas está triste e deprimida
porque se sente fracassada e sem esperança.
Isso é o resultado de pensamentos negativos e autoperseguição.
Autoperseguição decorre de falta de emuná.
A emuná diz: "Hashem pode me ajudar neste minuto. E mesmo que Ele
decida não me ajudar, sei que é para o meu bem."
Emuná e tristeza se excluem mutuamente.
A fim de quebrar o ciclo de tristeza, a pessoa deve parar de se perseguir a
si mesma.
Para acabar com a autoperseguição, é preciso emuná.
Para conseguir emuná, é preciso conversar com Hashem por meio de reza
pessoal e pedir-Lhe emuná.
Assim sendo, falar com Hashem em oração pode literalmente levantar a
pessoa das profundezas da tristeza e depressão.
A autoperseguição começa assim que a pessoa diz "eu fracassei".
Essa é a maneira errada de pensar.
O correto a se dizer é "Hashem não quer que eu prospere agora e com
certeza isso é para o bem. Ele quer eu aprenda algo ou que eu reforce
minha emuná. Farei isso e pedirei para Ele me ajudar!".
Se nos concentramos em Hashem e não em nós mesmos, quebramos o
ciclo de autoperseguição.
A consciência de que todo acontecimento na vida vem de Hashem e existe
para o nosso bem é a base da emuná e a chave do bom-humor, aconteça o
que acontecer.

Poder de crescimento
Basicamente, emuná é poder de crescimento.
É a força que nos ajuda a alcançar ganhos pessoais mais do que qualquer
outra força no mundo.
A emuná nos dá vontade de viver e o poder não apenas de aguentar
tempos difíceis, mas de melhorar com eles.
A emuná é como as raízes profundas que fazem a árvore aguentar ventos
fortes, tempestades e períodos de seca.
O poder da emuná é enorme.
Quem tem emuná não teme nada, mantém a serenidade em situações de
estresse e encara desafios com um sorriso.
Com emuná, confiamos que Hashem escuta cada reza e nunca nos
abandona.
Saber que podemos sempre nos voltar a Hashem, em qualquer
circunstância, nos faz sempre feliz.

Parte 2: Raiva
A raiva destrói vidas.
Ela pode variar de uma brasa no coração a uma expressão externa de fúria
e violência.
A raiva pode ser infundada, baseada em um motivo imaginário, ou
aparentemente justificada.
Como nossos sábios condenam a raiva do tipo aparentemente justificado,
todas as suas outras formas devem ser evitadas.
Todos desejam se libertar das algemas da raiva, mas poucos realmente
conseguem.
O segredo para eliminar esse sentimento de nossa vida é a emuná.

Vivendo nossa emuná


O controle da raiva e outras soluções parciais, como exercícios de
autocontrole, não conseguem erradicar a raiva.
Apenas a emuná pode extingui-la do coração.
Pessoas com alto nível de emuná não se afetam pela raiva.
Como viemos a este mundo com o propósito de retificar a alma, é
praticamente impossível evitar situações que motivem sentimentos de
raiva.
Hashem nos coloca em contato com todo tipo de pessoas, em várias
situações das quais não gostamos.
Com emuná, percebemos que tudo vem de Hashem e é para o bem.
Sem emuná, ficamos perigosamente suscetíveis à raiva.
Quando vivemos nossa emuná, evitamos a raiva.
Mesmo quando os outros nos tratam injustamente ou nos insultam, não
cedemos à raiva se nos concentramos em Hashem e lembramos que tudo
que Ele faz é para o nosso benefício.
Mesmo quando nos decepcionamos, ou quando as coisas não ocorrem como
queríamos, não nos entristecemos se temos emuná; percebemos que
superar as nossas falhas e as dificuldades da vida é a razão pela qual
estamos vivos, então não ficamos com raiva.
Em vez disso, simplesmente arregaçamos as mangas e vamos trabalhar!
Quando encaramos as dificuldades da vida como mensagens pessoais de
Hashem, não apenas evitamos a raiva, como alcançamos um alto nível de
satisfação.
Nada é mais gratificante do que receber e entender uma mensagem de
Hashem e poder agir de acordo com ela.

Consciência espiritual
Com emuná, erradicamos a raiva; com consciência espiritual, adquirimos
emuná.
Portanto, para eliminar a raiva de nossa vida, temos de implorar a Hashem
que nos ajude a ter consciência espiritual, que é o reconhecimento de que
Hashem comanda o mundo e faz tudo com um propósito específico.
Nada no mundo é coincidência ou acontece por acaso.
O Rei Salomão disse (Eclesiastes 7:10): "A raiva permanece no coração dos
tolos."
Tolice é ignorância, e ignorância é o oposto de consciência.
Assim, quanto mais a pessoa espiritualmente reconhece Hashem, menos ela
está sujeita à raiva.
As crianças, por exemplo, se chateiam facilmente quando não conseguem o
que querem porque ainda não desenvolveram consciência espiritual.
A maturidade, portanto, é principalmente uma questão de consciência
espiritual, e não uma função da idade cronológica.
A pessoa que tem uma forte emuná e a consciência espiritual altamente
desenvolvida não fica triste mesmo quando sofre um insulto ou passa por
uma humilhação, pois ela sabe que sua atribulação vem de Hashem para
lhe facilitar a retificação da alma.

Um falso deus
A raiva tem mais efeito negativo no corpo e na alma que todas as
transgressões à Torá.
Segundo o Zohar, mesmo que estudemos Torá extensivamente e façamos
boas ações, perdemos todo o mérito se sucumbimos à raiva.
A raiva é como um ácido espiritual que corrói a alma.
O Zohar se refere à raiva como um "falso deus" que espanta o aspecto
sagrado da alma.
Pessoas enfurecidas perdem toda sua conexão com Hashem; sua alma se
"afasta" e forças obscuras do mal tomam o controle preenchendo o vazio
deixado pela "saída" da alma.
É preciso trabalhar duro para se conseguir escapar desse abismo espiritual.
A teshuvá só é eficaz quando acompanhada pelo aprendizado da emuná e
pela superação da raiva.
Devemos erradicar a raiva para ganhar novamente a aspecto sagrado da
alma.

A solução para os enigmas da vida


Muitas vezes ouvimos fenômenos inexplicáveis e inesperados,
como:
• O casal tinha um ótimo casamento e agora, subitamente, a esposa está
pedindo o divórcio.
• Dois parceiros montaram um negócio próspero e agora um deles exige
que o outro saia ou que venda a sua parte.
• Uma pessoa estava ganhando bem e subitamente não consegue mais
pagar as contas.
• Um homem sensato de repente passa a agir como um selvagem.

A lista é longa.
Há um elemento essencial que desvenda todos esses enigmas — a raiva.
A vida pode dar uma virada súbita para pior se ficamos com raiva e
perdemos o aspecto sagrado da alma.
A mulher não quer mais viver com o marido cujas ações sejam governadas
pelo seu lado obscuro, por exemplo.
Não vale a pena, por nada nesse mundo, perder o sagrado da alma.
A raiva é pior que a história da pessoa que vende a alma por algum bem
material, pois, com raiva, não se ganha nada em troca.
Ao contrário, até mesmo este mundo vira um purgatório.

Pureza do coração
A única maneira de se purificar um coração furioso é aprender e reaprender
os princípios da emuná.
Feito isso, deve-se rezar a Hashem e pedir que a emuná se torne uma
segunda natureza, como respirar e enxergar.
Quanto mais emuná se tem, mais a raiva se afasta e mais o coração se
purifica.

Com raiva de Hashem


Os princípios a seguir podem ser difíceis de aceitar, mas quanto mais
pensamos neles, mais percebemos como são verdadeiros:
• A pessoa furiosa está na verdade com raiva de Hashem!
• A pessoa furiosa está com raiva do modo como Hashem faz as coisas!

Não é nenhum piquenique


As dificuldades da vida — como tudo mais — vêm de Hashem para motivar
a teshuvá, a correção de um traço negativo ou mau hábito, ou para nos
fazer procurar Hashem.
Muitas pessoas buscam uma vida de prazer e, portanto, ficam nervosas
quando encontram dificuldades.
Elas não fazem ideia de que sua missão é retificar a alma.
Retificar a alma — como qualquer outra conquista — requer dedicação e
trabalho duro.
A vida não é nenhum piquenique, mas um piquenique não retifica uma
alma.
Com base no que foi explicado, podemos concluir que a raiva é
frequentemente o resultado de preguiça moral e espiritual, quando a pessoa
não está disposta a encarar os desafios que Hashem lhe apresenta para o
seu próprio bem.

Parte 3: Inveja
Com emuná, sabemos que temos uma alma única, com sua própria tarefa e
retificação neste mundo.
Hashem, por meio de sua Providência Divina compassiva, dá a cada alma as
qualidades e as condições de que ela precisa para alcançar seus objetivos.
Assim, quem tem uma emuná forte nunca cai na armadilha da inveja.
Imagine que a sua correção de alma e missão nesta vida seja ser piloto de
avião.
Hashem lhe dá um conjunto específico de talentos e aptidões que lhe
ajudam a ganhar asas.
Seu caminho personalizado na vida o leva à cabine de um F16, onde você
alcança importância e seu objetivo de vida - voar a Mach 1 acima das
nuvens.
Você teria inveja de quem possui um iate?
É claro que não!

Uma vida significativa


A inveja é um sinal de que uma vida significativa ainda não começou.
A fama, a fortuna ou o sucesso de outra pessoa não nos ajuda a alcançar a
retificação da alma; portanto, quando damos muita atenção às dádivas da
vida de outras pessoas, não desenvolvemos os nossos próprios dons, as
ferramentas necessárias para conseguirmos o que nós precisamos fazer
neste mundo.
Para Helen Keller, a cegueira não era uma deficiência — era uma
importante ferramenta para a retificação de sua alma; caso contrário, ela
não teria sido tão útil para a implementação do uso do Braile.
A deficiência de uma pessoa pode ser o trampolim de outra pessoa para o
sucesso.
Se Helen Keller tivesse sido triste e amarga, e se tivesse inveja dos que
podem ver, ela certamente não teria realizado sua missão de vida.
O Talmud, no Tratado Taanit, conta a história do mais importante sábio da
geração, o Rebe Yehoshua Ben Chananya:
O Rebe Yehoshua era extremamente feio.
A filha de César certa vez o chamou e lhe perguntou: "Como pode uma
sabedoria tão magnífica estar em um recipiente tão feio?"
Ele sorriu e perguntou à filha de César como seu pai guardava os bons
vinhos.
"Em jarros simples de cerâmica", ela respondeu.
Ele riu e disse que era ridículo que César, o homem mais rico do mundo,
guardasse seu vinho em simples jarros de cerâmica.
Ela concordou e transferiu os melhores vinhos do pai para recipientes de
ouro.
Um ou dois dias depois, César pediu uma taça de seu Cabernet favorito.
O vinho estava completamente azedo.
Ele então chamou o conhecedor de vinhos real e exigiu uma explicação.
"Vossa Majestade, a princesa ordenou que eu colocasse todo o Cabernet em
jarros de ouro!"
César chamou a filha e exigiu uma explicação.
"Não é culpa minha", ela disse, "Rebe Yehoshua Ben Chananya me disse
para fazer isso."
Os guardas de César buscaram Rebe Yehoshua Ben Chananya e o levaram à
corte real.
Destemido, ele disse: "Sua filha não gosta de recipientes feios, Vossa
Majestade; mas a sabedoria e o bom vinho são parecidos. Ambos são
preservados em recipientes feios."
O Rebe Yehoshua ben Chananya comunicou uma mensagem importante —
assim como o vinho é mais bem conservado em um recipiente de cerâmica,
também a Torá é mais bem conservada em um indivíduo simples e não tão
bonito.
Tal pessoa fica longe do orgulho, da arrogância e da vaidade.
O ouro — indicador de orgulho — azeda o bom vinho.
Rebe Yehosua ben Chananya era um homem de emuná completa.
Ele sabia que sua feiura não era um defeito, mas uma importante qualidade
necessária para a realização de sua missão neste mundo.
A deficiência de uma pessoa pode ser uma ferramenta valiosa para a
retificação da alma de outra pessoa.
Se Rebe Yehoshua ben Chananya tivesse inveja de pessoas bonitas, e se
tivesse desperdiçado seu tempo em busca de perfeição física, ele teria se
tornado um indivíduo amargo e frustrado, e teria perdido a oportunidade de
se tornar uma das grandes mentes de todos os tempos.
Quando seguimos nosso verdadeiro propósito na vida, não há espaço para a
inveja!

Concentre-se em sua missão


Concentre-se em sua missão na vida.
Use suas ferramentas completamente.
Se você nasceu baixo, não tenha inveja dos jogadores da NBA — não é seu
trabalho jogar basquete profissional!
Olhe atentamente o que você faz melhor e desenvolva as ferramentas
especiais que Hashem lhe deu.
Se você tem inveja de alguém, não está se concentrando na sua tarefa
específica.
Volte ao trabalho!

O teste da pobreza
Frequentemente surge a pergunta "por que Hashem faz uma pessoa ser
pobre".
Provavelmente o pobre precisa de uma retificação que envolva humildade,
emuná, confiança em Hashem e reza constante.
A pobreza é a condição certa que ajuda algumas pessoas a adquirir essas
características maravilhosas.
Se fossem ricas, essas pessoas provavelmente nunca rezariam.
E depositariam sua confiança nos bens materiais, e não em Hashem.
O teste da pobreza não é fácil.
No entanto, ser pobre é um sinal claro de que a pobreza é o caminho
pessoal para uma aproximação a Hashem.
Com emuná, a pessoa não tem inveja da riqueza dos outros, nem recorre a
transgressões para tentar obter mais dinheiro.
Com emuná, o pobre sabe que sua situação atual é para o seu próprio bem.
Quando o pobre fica com inveja do vizinho rico, ele não se concentra em
sua missão de vida.
Se fosse rico, provavelmente sentiria um enorme vazio espiritual porque
não estaria realizando a retificação de sua alma com emuná, confiança em
Hashem e reza constante.

O teste da riqueza
O desafio do rico é desenvolver generosidade, humildade e confiança em
Hashem apesar de seu poder e riqueza.
Assim, a riqueza constitui um teste mais difícil que a pobreza.
É muito mais fácil para o pobre ter esperança em Hashem.
O rico deve compreender que Hashem não lhe deu dinheiro e poder para
que ele apenas alimente seus próprios desejos materiais.
Hashem espera que ele supere o egoísmo e a mesquinharia naturais ao ser
humano e faça atos de caridade e benevolência; essa não é uma tarefa
fácil.
Espera-se que o rico apoie causas nobres como o estudo da Torá e projetos
judaicos de kiruv, e não que use os presentes de Hashem para satisfazer
seus próprios prazeres egoístas.
Algumas pessoas ricas conseguiram dinheiro ilegalmente em uma vida
passada.
Nesta vida, elas têm a oportunidade de se corrigir ajudando os
necessitados.
É provável que elas estejam apenas devolvendo a um pobre o que
injustamente lhe roubaram em uma vida passada.
Portanto, o rico deve se acostumar a doar o máximo possível.

A escolha não é nossa


É ridículo ter inveja do sucesso de outra pessoa.
O sucesso material e profissional está nas mãos de Hashem, e não no
campo de nossas escolhas.
Então, por que ter inveja de alguém?
Nossa única escolha é se cumprimos os mandamentos de Hashem ou não,
se fazemos ou bem ou não.
O Rabi Yossef Chaim de Bagdá conta a história do rico que era invejado por
toda a cidade.
O rico temia que alguém lhe colocasse "olho gordo", então decidiu fazer um
investimento ridículo que lhe causaria perdas subsequentes, para que os
outros não tivessem mais inveja.
Mas ele lucrava independentemente do modo como investia seu dinheiro.
O rico reclamou a seu rabino, que respondeu: "Não é você que decide se vai
ter sucesso ou fracasso. É Hashem que decide!"
O contrário também é verdade.
O grande sábio espanhol Ibn Ezra tentou de tudo para ganhar dinheiro, mas
independente do que fazia, ele sempre fracassava.
"Se eu tenho de ser pobre a vida toda, para que trabalhar? É melhor ir
estudar Torá!"
Ibn Ezra dedicou sua vida à Tora.
Ele estava destinado a escrever alguns dos comentários bíblicos mais
importantes da história.
Se tivesse dedicado a vida ao comércio, as gerações seguintes não se
beneficiariam da profundidade de sua sabedoria.

Não sabemos nada!


Por que olhar para os outros com inveja?
Você pode estar muito mais próximo a alcançar a retificação de sua alma.
O filho de um simples motorista de táxi foi aceito em uma yeshivá de
prestígio após anos de sacrifício e trabalho duro.
Lá, ele era colega de classe do filho do rosh yeshivá.
Enquanto o filho do motorista lutava para entender as difíceis lições
talmúdicas, o filho do rosh yeshivá absorvia o material sem fazer muito
esforço.
O filho do motorista desabafou a um sábio.
E o sábio lhe disse: "Não tenha inveja dele. Você está cumprindo o seu
propósito na vida, enquanto ele não está nem arranhando a superfície de
seu potencial. Seja feliz com o que lhe cabe na vida — suas realizações são
muito maiores que as dele!"
Não sabemos o que Hashem sabe.
Portanto, não podemos avaliar a situação de outra pessoa, pois não
sabemos praticamente nada sobre sua missão de vida.
Quando não olhamos os outros, não ficamos com inveja.

O verdadeiro sucesso
O verdadeiro sucesso é estar contente com o que temos.
O Rebe Nachman de Breslav ilustra esse princípio em seu famoso conto
"O inteligente e o simples".

Era uma vez dois amigos, um muito inteligente e o outro muito simples.
Eis como o Rebe Nachman os descreve: O simples aprendeu o oficio de
sapateiro.
Porque era simples, teve de praticar por muito tempo até poder aceitar
trabalhos, mas mesmo assim não se tornou expert.
Ele se casou e viveu de seu trabalho.
Mas como ele era simples e não tinha muito talento, ganhava pouco.
Ele não tinha nem tempo para comer porque trabalhava constantemente, já
que não era um perito em sapataria.
Então, enquanto trabalhava, enquanto martelava e costurava, ele dava uma
mordida num sanduíche.
E ele tinha o costume de estar feliz o tempo todo — ele estava sempre
muito alegre.
Ele tinha todo tipo de comida, bebida e roupa.
Ele dizia à esposa, "quero comer!", e ela lhe dava um pedaço de pão.
Depois de comer o pão, ele dizia, "agora quero feijão com molho!".
Ela então cortava mais um pedaço de pão e ele comia e elogiava, "como
estava gostoso esse molho!".
E ele lhe pedia carne e outros pratos requintados.
Mas no lugar de cada coisa que ele pedia, ela lhe dava um pedaço de pão,
com o qual ele se deliciava.
Ele elogiava cada "prato", dizendo como estava gostoso e bem preparado,
como se estivesse realmente comendo o que imaginava.
Ele realmente sentia no pão o gosto de cada comida que queria, graças à
sua simplicidade e à sua grande felicidade.
Do mesmo modo, ele pedia à esposa, "me traga cerveja!".
Ela lhe dava água e ele elogiava a qualidade da cerveja.
"Agora quero mel!"
Ela lhe trazia água e ele mais uma vez elogiava.
"Quero vinho!" e assim por diante.
Toda vez ela lhe trazia água e ele apreciava a bebida como se estivesse
bebendo o que desejava.
E o mesmo se passava com seu vestuário.
Ele dividia com a esposa um único casaco de pelos.
Ele pedia a ela o casaco quando precisava sair, para ir ao mercado por
exemplo.
Mas quando precisava de um terno para eventos formais, ele pedia para a
esposa buscar "o terno" e ela lhe dava o casaco.
"Como é elegante este terno!", ele dizia.
Quando ele precisava de uma capota para ir à sinagoga, ele pedia uma à
mulher.
Ela novamente lhe dava o casaco de pelos e ele elogiava, "como este capota
é vistosa!"
Do mesmo modo, quando precisava de um sobretudo formal, ela lhe dava o
velho casaco e ele se admirava, "como é elegante e bonito este sobretudo",
e assim por diante.
E ele sempre estava pleno de alegria e satisfação.
Quando ele terminava de fazer um sapato (e pode-se assumir que não
ficava muito bem feito, pois ele não dominava bem o oficio), ele o pegava e
o elogiava bastante.
"Como este sapato é belo! Este sapato é doce como mel e açúcar!"
E a mulher lhe perguntava: "Se é assim, por que todos os outros sapateiros
cobram três pedaços de ouro por um par de sapatos e você ganha apenas
uma pedaço e meio?"
Ele respondeu: "O que me importa? Aquilo é o que ele deve ganhar; isto é o
que eu devo ganhar! Por que temos de falar dos outros? Por que não
fazemos uma estimativa do lucro direto que eu faço com um par de
sapatos? O couro custa tanto, o cadarço custa tanto e os outros materiais
custam tanto. Eu tenho um lucro direto de dez moedas. Para que reclamar
com um lucro desses?"

E ele era feliz e satisfeito o tempo todo.


Não pense que o homem simples era estúpido.
Ele era realista, completamente consciente de suas imperfeições e
limitações.
Ele sabia que os sapatos que fazia estavam longe da perfeição, mas em sua
total confiança em Hashem, era feliz com sua porção nesta vida.
Ele não tinha inveja de ninguém.
Quando sua mulher mencionou outro sapateiro que ganhava mais dinheiro,
o homem simples respondeu sem mágoa nenhuma, "aquilo é o que ele deve
ganhar, isto é o que eu devo ganhar!".
Ele sabia que seu trabalho era cumprir suas obrigações da melhor maneira
possível e ser feliz com isso — nada mais!
Por outro lado, seu companheiro inteligente era exatamente o oposto.
Eis como o Rebe Nachman o descreve: O inteligente estava sempre
sofrendo.
Todos sabiam que ele era um homem incrivelmente inteligente; era artesão
e médico.
Um nobre certa vez lhe pediu que fizesse um anel de ouro.
O artesão fez um anel maravilhoso, em que esculpiu desenhos que
mostravam uma habilidade extraordinária.
Ele fez no anel uma bela ilustração de uma árvore.
O nobre não ficou satisfeito com o anel.
O inteligente sofreu muito com isso, pois sabia que se aquele anel com o
desenho da árvore fosse visto na Espanha, seria exaltado e glorificado.
Algum tempo depois, outro nobre foi até ele levando uma caríssima pedra
preciosa e uma outra pedra com uma gravura.
Ele pediu ao artesão que copiasse a imagem da pedra ilustrada na pedra
preciosa.
Ele conseguiu copiar a imagem exata, cometendo apenas um erro que
ninguém detectaria a não ser ele mesmo.
O nobre ficou muito satisfeito com o trabalho final.
Mas o inteligente sofria intensamente com o erro.
"Minha sabedoria é tão grande, como pude cometer um erro como este?!"
Ele também sofria com seu trabalho de médico.
Às vezes, ele recomendava um tratamento a um doente e sabia que, se o
doente sobrevivesse, ficaria completamente curado pois o tratamento era
muito bom.
Mas se o doente morresse, todos diriam que a culpa era do médico, e ele
sofria imensamente com isso.
E ainda havia casos em que ele curava alguém, mas todos diziam que "foi
coincidência".
O inteligente estava sempre sofrendo.
Certa vez, o inteligente precisava de um fraque e chamou um alfaiate.
Ele trabalhou com o alfaiate até que este entendesse como fazer a roupa
conforme seu desejo e estilo.
O alfaiate se empenhou para fazer o fraque conforme as instruções e
conseguiu, com exceção de uma lapela.
O inteligente sofreu muito com isso, pois sabia que mesmo que estivesse
atraente o bastante onde morava, pois as pessoas da cidade não eram
conhecedoras de moda, se ele estivesse na Espanha com aquela lapela,
seria visto como um palhaço.
Nesse ponto da história, o Rebe Nachman narra a conversa entre o
inteligente e o simples:
E o simples o visitava com alegria, mas sempre o encontrava aflito e
sofrendo.
"Alguém tão sábio e rico como você... por que você está sempre sofrendo?
Eu estou feliz o tempo todo."
No entanto, para o inteligente, o simples era uma piada, um lunático.
O simples lhe disse: "Veja bem, o medíocre que me humilha é um tolo, pois
se fosse mais sábio que eu, ele não me rebaixaria. E tanto mais um homem
tão inteligente como você. O que você seria se fosse mais sábio que eu? O
que eu não daria para que você chegasse ao meu nível..."
O inteligente lhe respondeu: "É possível que eu chegue ao seu nível se eu
perder minha inteligência, ou se ficar doente e louco, D'us me livre. Pois o
que é você? Um maluco! Mas você alcançar o meu nível é algo impossível —
você não se tornaria sábio como eu."
O simples lhe respondeu: "Para o Santíssimo, tudo é possível. Pode
acontecer que, num piscar de olhos, eu chegue ao seu nível."
O inteligente riu-se um bocado...
Na continuação da história, o Rebe Nachman relata a virada que resultou na
nomeação do homem simples para governador.
Mais adiante, ele se tornou um dos ministros mais próximos do rei.
Tudo isso graças à sua modéstia, honestidade e caráter impecável.
"Para o Santíssimo, tudo é possível."

Com a história do Rebe Nachman aprendemos como a emuná - e não


atributos e aptidões - é a segredo do sucesso na vida.
Quanto mais somos felizes com a nossa porção na vida, mais sucesso
temos, neste mundo e no próximo.

Parte 4: Mesquinharia
A mesquinharia é um péssimo traço de personalidade, além de ser um sinal
de crueldade.
O amor de uma pessoa mesquinha por dinheiro a impede de enxergar as
necessidades do próximo, até mesmo da própria família.
Por isso, o mesquinho é desprezado pelos outros e raramente tem paz no
lar.
Há vários tipos de mesquinho:
• Mesquinho com os outros mas generoso com a própria família;
• Mesquinho com a própria família e generoso com estranhos — esse é o
tipo de pessoa que faz caridade por prestígio e publicidade;
• Mesquinho com todos, mas generoso consigo mesmo;
• Mesquinho com todos, inclusive com ele mesmo — esse é o tipo de pessoa
que acumula dinheiro e acaba perdendo tudo ou deixando tudo aos outros.

O bom marido
Um dos exemplos mais trágicos de mesquinharia é o do marido avarento.
A mesquinharia é uma expressão dupla de crueldade e insensibilidade.
O marido mesquinho é cruel com a esposa e com os filhos e é insensível às
suas necessidades e sentimentos.
Qualquer gasto na casa desperta a sua fúria.
Não há maior tristeza para uma esposa do que um marido mesquinho.
De acordo com a Cabalá, a saúde da alma de uma mulher depende de como
o marido a trata.
Quando o marido é pobre e não tem recursos para prover à esposa com
fartura, ela se entristece.
Mas quando ele dispõe de recursos e mesmo assim não é generoso, ela
"murcha" como uma planta não regada.
E quando ele diz "não" às necessidades da esposa, mas compra o que
deseja para si próprio, ela se torna sua inimiga.
Segundo o Talmud (Tratado Bava Metzia, 59a), o marido que honra a
esposa enriquece.
Se o homem é esperto, ele aprecia a mulher, compra para ela o que puder
e nunca a critica por seus gastos.
Assim como honrar a esposa traz riqueza, ficar com raiva dela traz prejuízo.
Os sábios também ensinam (flulin, 84b) que um homem deve comer e
beber menos do que pode gastar, vestir-se conforme o que pode gastar e
honrar a esposa com mais do que pode gastar.
Essa é a única mitsvá na Torá que requer que a pessoa gaste mais do que
tem.
Até mesmo em uma mitsvá tão importante como honrar o Shabat, o
Talmud diz que se deve evitar esbanjar na comida se isso significa pegar
dinheiro emprestado (TB, Tratado Pesachim 112a)!
Se o homem não pode comprar o que a mulher deseja, ele deve rezar e
pedir a Hashem que o ajude a suprir as necessidades da esposa e a fazê-la
feliz.
Se um homem reza pela felicidade da esposa como reza pela própria saúde,
Hashem certamente lhe dará os recursos para satisfazê-la.
Se a esposa pede algo ao marido e ele não pode atender ao pedido, ele
nunca deve dizer não.
Em vez disso, deve prometer que, com a ajuda de Hashem, ele se esforçará
ao máximo para atender ao pedido assim que puder.
O marido deve completar seus esforços com reza — quanto mais, melhor.
Quando Hashem vê que o marido é sincero quanto ao desejo de honrar a
esposa, Ele responde às suas orações.

Dinheiro não dura


Não se pode depender do dinheiro.
Todos conhecemos histórias de gente rica que acabou morrendo miserável;
depois de uma vida acumulando dinheiro, tudo foi perdido.
Por outro lado, há muitos casos de ricos que ficaram tão doentes a ponto de
não poder aproveitar o dinheiro.
Um ditado popular em hebraico caçoa daqueles que sacrificam a saúde em
busca de dinheiro, e então acabam sacrificando o dinheiro em busca de
saúde.
De qualquer modo, o dinheiro não dura.

Todas as despesas pagas


Com emuná, acreditamos que Hashem irá suprir todas as nossas
necessidades em nosso serviço a Hashem — roupa, comida, moradia etc.
Com emuná, sabemos que enquanto Hashem nos quiser vivendo neste
mundo, Ele irá cobrir nossas despesas.
Hashem é o chefe que provê todas as despesas pagas.

Hashem se alegra quando você está feliz


A pessoa que tem emuná acredita que, assim como Hashem supre às suas
necessidades hoje, Ele continuará a prover amanhã.
Por isso, ela usa o dinheiro que Hashem lhe dá, especialmente no serviço a
Hashem.
Com emuná, sabemos que Hashem nos deu dinheiro para educar nossos
filhos em escolas de Torá, comprar um belo par de tefilin e comprar para a
esposa roupas novas para as festas.
Hashem não nos manda dinheiro para ficar acumulando juros no banco.
Com emuná, não temos medo de botar a mão no bolso para um gasto
extra, principalmente para mitsvót como caridade, apoio a instituições de
Torá e programas judaicos de kiruv.
Sem emuná, sofremos cada vez que gastamos um centavo.
Hashem, como um pai amoroso, alegra-Se quando Seus filhos gastam
dinheiro com generosos pratos para o Shabat ou com a construção de uma
sucá bem feita e decorada.
Quando Hashem vê que seus filhos confiam Nele e usam o dinheiro para o
cumprimento de Suas mitsvót, Ele dá mais e mais.
Mas quando Hashem vê que Seus filhos sofrem cada vez que gastam um
centavo, Ele também fica decepcionado.

Despesas reembolsáveis
As despesas com mitsvót são "reembolsáveis".
Nossos sábios ensinam que mesmo que uma quantia anual nos seja pré-
designada, despesas com Shabat, feriados e educação em Torá para nossos
filhos são incluídas nos "bônus".
Gastos com mitsvót são como tirar leite de vaca — quanto mais se ordenha,
mais leite sai.
Assim, Hashem "devolve" o dinheiro que gastamos com mitsvót.
Ademais, o Talmud afirma (TB, Tratado Shabat, 119a) que aquele que dá o
dízimo à caridade ficará rico.
Hashem tem compaixão por aqueles que têm compaixão pelos outros.

Um procurador leal
Com emuná, sabemos que nosso dinheiro não é nosso, mas de Hashem.
Hashem nos deixa investir o dinheiro que Ele nos dá para render
dividendos.
Por exemplo, quando convertemos nosso dinheiro em mitsvót e estudo de
Torá, ele se eleva do estado material para o espiritual.
Hashem considera isso um bom uso do dinheiro e fica feliz em nos dar
mais, já que agimos como um procurador leal que sabe como investir
adequadamente.
Hashem não tem satisfação em ver a pessoa mesquinha juntar e não usar o
dinheiro.
Ele também se decepciona quando alguém esbanja dinheiro com coisas
desnecessárias ou o usa para transgredir os mandamentos da Torá.

Certa vez, um pobre foi visitar o famoso mestre chassídico do século 18, o
Rebe Avraham Yehoshua Heschel de Afta, conhecido carinhosamente como
o "Afta Rav".
O pobre precisava de um dote para casar a filha, mas não tinha nenhum
centavo em seu nome.
Ele pediu ajuda ao Rebe, que escreveu uma carta, colocou num envelope e
disse ao pobre que a levasse a um certo homem rico da cidade grande.
O pobre chegou à mansão do rico e lhe apresentou a carta do Rebe.
O rico leu a carta, franziu a sobrancelha, resmungou algo entre os dentes e
rasgou a carta.
"Quem esse Rebe pensa que é? Que atrevimento! Eu nunca ouvi falar dele e
ele tem a ousadia de mandá-lo aqui para pedir três mil rublos? Desde
quando ele tem o direito de colocar a mão no meu bolso? Por que ele acha
que eu tenho de ouvi-lo?"
Humilhado, o pobre deixou a mansão de mãos vazias.
Ele voltou ao Afta e lhe contou sobre sua fracassada jornada à cidade
grande.
O Rebe soltou um suspiro e disse: "Vá visitar o Avremel — ele é um
discípulo meu que mora em uma cabana de palha na periferia da cidade.
Diga-lhe que eu pedi para ele lhe dar 500 rublos."
Quinhentos rublos eram bem menos que três mil, mas para o pobre
Avremel — um dedicado estudioso do Talmud —, é como se essa quantia
equivalesse a cinco milhões.
O pobre encontrou a cabana de Avremel e repetiu o pedido do Rebe.
Avremel rapidamente vestiu seu casaco desfiado e disse alegremente:
"Certamente, meu amigo. Sente-se aqui e descanse da viagem. Minha
esposa lhe trará comida e bebida. Volto em uma ou duas horas."
Avremel trocou algumas palavras com a esposa.
Com um sorriso no rosto, ela pegou todas as suas joias e as colocou num
saco de pano.
Ela desejou sucesso ao marido e ele partiu em direção ao centro da cidade.
Avremel empenhou as joias da mulher, seu candelabro de Chanucá e alguns
pertences de prata - o copo de kidush, sua caixinha de rapé e as velas da
esposa.
Ao todo, ele conseguiu juntar 320 rublos.
Então ele foi de porta em porta pedir uma quantia urgente para um homem
pobre poder casar a filha.
Em uma hora, ele arrecadou os 180 rublos restantes.
Com o coração cheio de alegria, ele correu para casa para dar ao homem os
500 rublos.
Todos estavam muito contentes.
O pobre abraçou e abençoou Avremel e agradeceu à esposa dele.
Avremel e a esposa agradeceram a Hashem por lhes permitir fazer uma
mitsvá tão elevada.
Nos meses seguintes, a sorte de Avremel deu uma virada brusca para
melhor.
Ele era praticamente forçado a participar de bons investimentos.
Ele começou a ganhar mais dinheiro que nunca, mesmo sem quase levantar
a cabeça dos estudos talmúdicos.
Ele se tornou rapidamente um dos homens mais ricos da vizinhança.
O rico da cidade grande não teve tanta sorte — seus negócios afundaram
até ele perder quase tudo que possuía.
Sua esposa sentiu que havia uma conexão entre a má sorte do marido e
sua recusa em ajudar o Rebe de Afta.
Ela insistiu que o marido fosse imediatamente a Afia e implorasse pelo
perdão do Rebe.
E ele foi...
O "ex-rico" foi conduzido ao Rebe.
"Rebe, por favor perdoe-me por minha insolência!", o homem chorou.
"Que insolência?", perguntou o Rebe.
"Eu ridicularizei a palavra do Rebe e me recusei a ajudar o pobre, conforme
o Rebe havia pedido."
"Ahã", o Rebe concordou com a cabeça. "Não há nada para perdoar,você
tinha uma tarefa e fracassou."
"Como assim? ", perguntou o homem.
"Deixe-me explicar", disse o Rebe. "A minha alma estava destinada a vir a
este mundo como uma pessoa rica. Eu argumentei diante do trono Celeste
que a riqueza só me distrairia de devotar minha vida ao estudo da Torá e ao
serviço a Hashem. Meu apelo foi aceito com a condição de que eu
encontrasse outra alma disposta a ser "guardiã" de minha fortuna. Eu
escolhi você. A sua fortuna na verdade é minha. Então, quando eu lhe pedi
para dar ao pobre homem os três mil rublos, para que ele tivesse recursos
para casar a filha, eu estava lhe pedindo o meu próprio dinheiro. A sua
recusa mostrou que você não era mais confiável para guardar o meu
dinheiro, então você o perdeu. Meu discípulo Avremel se tornou o guardião
em seu lugar"
"Rebe, por favor, tenha dó de mim", implorou o ex-rico. "Por favor, me
consiga uma quantia mínima para que eu e minha esposa não morramos de
fome!"
Avremel ficou mais que feliz em atender ao pedido do Rebe de mandar uma
quantia mensal ao ex-rico da cidade grande.
"Afinal", Avremel disse a si mesmo, "o dinheiro não é meu; sou apenas um
guardião!"

Em suma: outros sentimentos


A mesquinharia é resultado direto de falta de emuná.
A emuná é a única maneira de se extinguir a raiva, tristeza, depressão e
inveja.
Do mesmo modo, a emuná tem o poder de superar qualquer traço ou
comportamento negativo.
Veja como, em poucas palavras:

Arrogância — com emuná, não podemos ser arrogantes; sabemos que todo
nosso sucesso vem de Hashem.

Gula — com a emuná de que Hashem nos sustenta, não comemos mais do
que precisamos.

Confiança — com emuná, temos a confiança de que Hashem sempre


proverá.

Adulação— com emuná, não é preciso temer ou adular nenhum outro ser
humano no mundo, não importa quão aparentemente poderoso ou influente
ele possa ser.

Difamação — com emuná, não dizemos uma palavra sequer sobre outra
pessoa.
Deixamos o julgamento dos outros a cargo de Hashem.

Argumentação — se acreditamos que todos os nossos testes e problemas


vêm de Hashem, não perdemos tempo com discussões.

Paciência — com emuná, temos paciência conosco e com os outros, pois


sabemos que tudo acontece conforme a Providência Divina de Hashem.

Este capítulo serve de base para o desenvolvimento e aperfeiçoamento de


caráter.
Os princípios relativos aos sentimentos de tristeza, raiva, inveja e
mesquinharia que discutimos detalhadamente são capazes de nos ajudar a
superar qualquer outro traço negativo.
Quando nos livramos de emoções negativas, podemos ter uma vida doce e
gratificante, neste mundo e no próximo.

Continua
O Jardim da Emuná – Parte 7

Capítulo 6 - O processo de se desenvolver emuná

Com a amorosa orientação de Hashem, este capítulo nos ensinará a


desenvolver a emuná.
Devemos pedir emuná a Hashem.

Certa vez, um soldado reclamou de medos e preocupações ao autor, e este


lhe recomendou fortalecer a emuná.
O soldado respondeu que já tinha uma forte emuná.
O autor explicou: "Você acredita que há um Criador do mundo, mas não
acredita que Ele cuida de você pessoalmente. Quando temos emuná na
Providência Divina e reconhecemos que tudo o que Hashem faz é para o
nosso melhor, não nos preocupamos."
E o soldado perguntou: "Nesse caso, como eu desenvolvo a emuná?"
O autor respondeu: "Peça a Hashem que lhe dê emuná e que o ajude a
acreditar que tudo que Ele faz é para o seu bem. Reze pela consciência de
que não há atribulação sem transgressão. Peça a Hashem para que não
decrete retificações severas enquanto você estiver tentando ao máximo se
corrigir."
"O quê? Posso pedir emuná a Hashem?"
"Você conhece um destinatário melhor?", perguntou o autor. "Pedimos
todas as nossas necessidades materiais a Hashem, então por que não pedir
nossas necessidades espirituais também? Hashem não nos dá coisas
materiais desnecessárias ou que nos sejam prejudiciais, mas Ele sempre
nos dá o que nossa alma precisa. Se você pedir emuná, com certeza será
atendido! Peça a Hashem que o ajude a acreditar que Ele é o destinatário
de todos os pedidos — saúde, sustento, coisas materiais, segurança e
necessidades espirituais."

Cada criação possui uma centelha de emuná.


A reza, especialmente a reza pessoal — falar com Hashem usando as
próprias palavras —, pode transformar essa centelha em uma chama acesa
e radiante.
O Rebe Natan de Breslav compôs uma coleção inteira de rezas pessoais.
Uma análise mais profunda dessas rezas mostra que todas elas giram em
torno de um tema central, o pedido por emuná.
Quando se desenvolve a emuná, todas as rezas são atendidas.
Ainda mais notável é o fato de que o Rebe Natan era estudioso, rabino,
cabalista e extremamente devoto.
Apesar de sua notável elevação espiritual, ele nunca deixou de pedir emuná
a Hashem.

Reza pessoal
A reza pessoal é o nosso discurso individual direcionado a Hashem, em
nossa própria língua e com as nossas próprias palavras.
Uma das maravilhosas qualidades da reza pessoal é que não é preciso
texto, horário ou lugar determinado para se falar com Hashem.
Qualquer lugar (exceto em lugares expressamente proibidos pela lei
judaica, como no banheiro ou no chuveiro) e qualquer hora são propícios
para a reza pessoal.
A reza pessoal é fundamental para se desenvolver a emuná:
1. Falar com Hashem diariamente instila emuná no coração.
2. Ter a reza pessoal atendida reforça imensamente a emuná.
3. A reza pessoal é uma importante ferramenta para o crescimento pessoal.
Construímos emuná quando superamos nossos próprios traços negativos, e
vice-versa.
4. Hashem irradia verdade e emuná no coração daqueles que Lhe
agradecem diariamente.
5. Se confessamos nossas transgressões diariamente a Hashem por meio de
reza pessoal, conseguimos o reconhecimento de que tudo o que Hashem faz
é para o nosso melhor.

Emuná tangível
De acordo com o Rabino Avraham Yeshayahu Karelitz, o famoso Chazon
Ish, de santa e abençoada memória, conseguimos uma emuná tangível
quando pedimos a Hashem tudo o que precisamos, do grande ao pequeno,
até mesmo o mais mundano dos pedidos.
Por exemplo, você está a caminho da loja de sapatos.
Fale com Hashem enquanto está andando ou dirigindo e diga: "Hashem, por
favor, me ajude a encontrar o par de sapatos certo por um preço que posso
pagar. Que eles calcem bem e sejam confortáveis. Que também sejam
bonitos, para que eu possa usá-los no Shabat e nos feriados."
Você ficará surpreso de ver que encontrará exatamente o que quer!
Tal reza toma a emuná tangível.
O Chafetz Chaim, de santa e abençoada memória, ensina que devemos falar
com Hashem como uma criança fala com um pai amoroso; de modo simples
e sincero, e com as próprias palavras.
Essas rezas — pedidos sinceros por misericórdia, compreensão e assistência
Divina — são sempre ouvidas.
O Rebe Natan de Breslav escreve (Sichot Haran, 233) que certa vez o Rebe
Nachman falou sobre roupas com um de seus discípulos: "Você deve rezar
por tudo. Se sua roupa rasgou e você precisa de outra, reze a D'us por uma
peça nova. Faça isso para tudo. Faça com que a reza pelas suas
necessidades se torne um hábito. Suas rezas principais devem ser para as
necessidades fundamentais (da alma) — que D'us o ajude em sua devoção,
que você mereça se aproximar Dele. E reze também pelas coisas triviais."
O Rebe Nachman enfatiza: "D'us pode lhe dar comida, roupa e todas as
coisas de que você precisa, mesmo que você não peça por elas. Mas, assim,
você vive como um animal. D'us dá pão a todo ser vivo. Ele pode agir da
mesma maneira com você. Mas se você não estabelece suas necessidades
por meio da reza, o seu sustento é como o de um animal. O ser humano
deve retirar de D'us todas as necessidades da vida por meio da reza."
Uma vez o Rebe Natan precisou de um botão para seu casaco.
O Rebe Nachman lhe disse: "Reze a D'us por isso."
O Rebe Natan ficou surpreso de aprender que deve rezar a Hashem até
mesmo pelas coisas mais triviais.
Vendo sua surpresa, o Rebe Nachman perguntou: "Rezar a D'us por algo
tão pequeno como um botão está abaixo da sua dignidade?"
A fim de desenvolver a emuná, devemos rezar por tudo, até pelas coisas
mais banais.
Ao rezar pelas pequenas coisas da vida, aprendemos a não contar tudo
como garantido e a desenvolver a emuná de que tudo vem de Hashem.
A base da emuná é o reconhecimento de que Hashem é a fonte de tudo e
de que dependemos Dele para tudo — cada respiração e cada batida do
coração —, em cada momento de toda nossa vida.
Quando as pessoas insistem em acreditar em seu próprio poder, se expõem
a problemas feitos para mostrar sua futilidade.
Muitas vezes, sentimentos de complacência invocam problemas quase que
imediatamente.
Eis um exemplo: um homem está cheio de si dirigindo uma nova Mercedes,
sentindo como se fosse dono do mundo quando, de repente, um dos pneus
fura.
Quando ele tenta trocar o pneu, descobre que o estepe está murcho.
Agora ele precisa chamar o guincho, perder tempo e dinheiro.
Tudo por causa de um pequeno prego na estrada — que não é nada mais
que um mensageiro inanimado de Hashem para mostrar ao homem da
Mercedes a sua futilidade inata.

Uma parada para as compras


A principal manifestação da emuná é a reza.
A emuná nos leva à reza.
Rezar a Hashem é como fazer todas as compras em um lugar só — tudo
que você quer debaixo do mesmo teto.
Hashem é o endereço certo para pedidos de saúde, sustento, sucesso ou
solução de um problema.
Quanto mais rezamos, mais vemos como as orações são atendidas.
Hashem não atende a pedidos por bens e posses materiais a não ser que
sejam benéficos à pessoa.
Mas pedidos por riqueza espiritual — mais emuná, mais compreensão da
Torá ou ajuda para cumprir uma mitsvá — são praticamente sempre
atendidos.
Grande parte das nossas rezas deve focar nossas necessidades espirituais,
o alimento de nossa alma.

O recipiente da abundância
A reza é o recipiente da abundância Divina.
Devemos ser específicos na reza e explicar a Hashem o que queremos ou
precisamos.
Muita gente se pergunta por que precisamos de reza se Hashem lê nossa
mente e nosso coração e sabe exatamente o que precisamos!
Verdade, mas Hashem nos dá o poder da reza para desenvolvermos emuná.
Se nossas necessidades se suprissem automaticamente, sem que nunca
precisássemos pedir nada, nunca buscaríamos Hashem ou emuná, e nossa
alma se enfraqueceria.
Para saber como rezar, devemos aprender sobre o que estamos rezando.
Quanto mais específica a reza, melhor recipiente para a abundância Divina
ela se torna.
Quando aprendemos sobre emuná, precisamos pedir a Hashem que nos
ajude a internalizar cada etapa do aprendizado.
Após aprender o primeiro nível de emuná, ou seja, que tudo no mundo é
produto da vontade Divina, devemos incorporar isso em nossas orações,
assim: "Hashem, ajude-me a acreditar que tudo vem de Você. Ajude-me a
enxergar que os gritos da minha mulher não passam de uma reprimenda
Sua, para que eu não perca a cabeça e arruíne a paz do meu lar. Ajude-me
a ver que meu sucesso no trabalho hoje foi uma bênção Sua, para que eu
Lhe agradeça o tempo todo..."
E assim por diante.
Após aprender o segundo nível de emuná, ou seja, que tudo o que Hashem
faz é para o bem, podemos criar um novo recipiente para a abundância
Divina, rezando para realizar isso também.
Um exemplo de reza nesse caso seria: "Hashem, ajude-me a ver que tudo
que Você faz é para o bem, e seu eu não entendo como ou por que, ajude-
me a acreditar firmemente que tudo que está acontecendo em minha vida é
para o meu bem."
Esse princípio também se aplica quando aprendemos o terceiro nível de
emuná, segundo o qual tudo é uma mensagem de Hashem para
cumprirmos um propósito específico.
A reza criada para colocar em prática o nosso aprendizado é um potente
recipiente espiritual.
Hashem ama as orações que decorrem do estudo da Torá, pois elas
mostram que internalizamos os seus princípios e os aplicamos em nosso
cotidiano.
Viver conforme a Torá é a motivação mais elevada para o seu estudo.
Hashem sempre responde às rezas que pedem para concretizarmos o que
aprendemos.
Segundo o Rebe Nachman de Breslav (Licutei Moharan 11:25), nos
empenhamos em converter nosso estudo de Torá em reza e imploramos
para que Ele nos ensine a implementar corretamente o que aprendemos.
Quando uma pessoa deseja realmente aplicar e internalizar as lições da
Torá, Hashem responde prontamente.
Ademais, Hashem tem bastante alegria das rezas que resultam do estudo
da Torá.
De acordo com o ensinamento do Rebe Nachman, quando compreendemos
a emuná e então transformamos nosso aprendizado em reza, conseguimos
mais e mais emuná - o segredo do sucesso e da felicidade neste mundo e
no próximo!

Modos adicionais de se desenvolver a emuná

Clamar a Hashem
O Rebe Nachman de Breslav ensina (Rebbe Nachman 's Discourses, 146)
que quando nos falta emuná, devemos clamar a Hashem.
Tal clamor não precisa ser em voz alta; um grito silencioso do fundo do
coração já é muito bom.
O fato de que alguém clama a Hashem é prova da existência da centelha de
emuná, que, por sua vez, se torna uma ardente chama de fé.

Palavras de emuná
Qualquer um pode se recuperar de um colapso de emuná recitando palavras
de emuná.
Quando a pessoa sente que está envolvida em escuridão e tem dificuldade
de sentir a presença de Hashem, deve falar palavras de emuná em voz alta,
como: "Eu acredito em Hashem, Ele é o Único D'us. Ele me protege e cuida
de mim a cada minuto do dia, por toda a minha vida, e Ele sempre escuta
as minhas preces. Hashem me ama e se preocupa comigo."
Devemos continuar a dizer palavras de emuná em qualquer área que
precisemos de ajuda, assim: "Acredito que Hashem sustenta todas as Suas
criações. Ele certamente me mandará o meu sustento."
Ou: "Acredito que Hashem é o médico de toda carne. Ele com certeza me
mandará uma cura."
Antes de um teste importante ou de uma negociação, aumentamos nossas
chances de sucesso dizendo: "Acredito que o sucesso vem de Hashem. Fiz o
meu melhor para me preparar. Por favor, Hashem, me ajude a prosperar!"
Quando dizemos palavras de emuná, despertamos nossa centelha de fé que
acende uma chama de emuná.
Essa chama não apenas nos aquece a alma e ilumina a escuridão dentro de
nós, como invoca a compaixão Divina.
Visto que falar de emuná faz maravilhas à alma, devemos, então, ter o
cuidado de evitar dizer qualquer coisa que contenha a mais sutil alusão à
heresia, mesmo em uma piada.
Palavras heréticas ou agnósticas extinguem a centelha de emuná e deixam
a alma fria e escura, D'us nos livre.

Auto avaliação
Se nos avaliamos todos os dias, nos lembramos de nossa relação com
Hashem.
Quatro coisas maravilhosas acontecem quando nos julgamos diariamente:
1. Lembramo-nos de Hashem e de Seus mandamentos;
2. Tomamos decisões de corrigir o que precisa ser corrigido e, portanto, não
acumulamos dívidas espirituais que levam a julgamentos severos;
3. Como Hashem não permite julgamentos duplos, o Tribunal Celeste não
pode nos julgar quando nós mesmos nos julgamos;
4. A auto avaliação diária nos lembra de que há um Criador no mundo.
Quando pensamos se nossas ações estão de acordo com a Sua vontade, nós
O contemplamos.
Pensar em Hashem aumenta a emuná.

Evite ler livros de filosofia e obras heréticas


Comparamos muitas vezes a emuná a uma chama ou a uma vela acesa no
coração.
É difícil cultivar a emuná, mas é muito simples destruí-la.
A emuná também lembra um lustre de cristal feito à mão em meses de
trabalho tedioso.
Com um movimento brusco, o lustre pode ser derrubado da mesa do
artesão e, em alguns segundos, ele se espatifa em milhares de pedacinhos.
Um velho ditado judaico diz que um tolo atira uma pedra num poço e cem
sábios não podem retirá-la.
O poder da palavra escrita, especialmente da palavra herética escrita, é que
ela penetra o coração mais rápido que uma espada para destruir a emuná.
Quando a pessoa se volta à filosofia ou procura em livros argumentos
lógicos e provas da existência de Hashem, o resultado é confusão e uma
eventual quebra na emuná.
Quando a emuná depende da força do intelecto, ficamos perigosamente
expostos aos pensamentos e opiniões daqueles que sabem como apresentar
argumentos mais fortes do que nós, e nossa emuná corre o risco de ser
destruída, D'us nos livre.
Por isso, o caminho da emuná judaica é o caminho de nossos patriarcas — a
crença simples e direta em Hashem que passou de geração a geração em
uma corrente ininterrupta, de Abrahão, Isaac e Jabob para nós.
Devemos evitar a absorção de heresias de todos os modos — não apenas
evitando a leitura de livros que enfraquecem a emuná, mas evitando
também rádio, televisão, internet e jornais, editados e publicados por quem
espalha conceitos agnósticos e ateus.
Heresia é como comida não-casher para a alma; pensamentos proibidos
chegam à alma por meio dos ouvidos, dos olhos e do cérebro muito mais
rápido do que a comida proibida entra no corpo.

Estudar Torá
A luz da Torá destrói a escuridão da heresia.
As pessoas veem a heresia, ou epicorsis, como uma negação total de
Hashem; isso não é verdade.
Muitas vezes, pessoas tidas como religiosas cultivam ideias heréticas, como
ervas daninhas num jardim.
Estudar Torá erradica essas ervas.
A Torá leva à emuná somente quando é adquirida para que possamos
cumprir a vontade de Hashem e não para ganho pessoal.
A luz da Torá limpa e ilumina o coração e a alma, e os faz recipientes
adequados para a emuná.
Com emuná, a alma é o recipiente ideal da luz Divina.

Shmirat Habrit - cumprindo o pacto sagrado


Nada destrói a emuná como a luxúria e a libertinagem.
A Torá conta sobre Êr (veja Gênesis 38:7), chamando-o de "perverso aos
olhos de D'us".
Rashi explica que Êr derramava sêmen em vão para que sua esposa não
engravidasse, o que conservaria sua beleza.
O Código da Lei Judaica declara (Shulchan Aruch, Eve Haezer 23:1):
"É proibido derramar sêmen em vão. Esta transgressão é pior que todos os
pecados da Torá. A pessoa que se masturba e derrama sêmen em vão não
apenas comete uma violação abominável, como está sujeita à
excomunhão."
Embora os tribunais religiosos atuais não mais decretem excomunhões,
quando a pessoa comete uma transgressão passível de excomunhão,
Hashem fica surdo para suas rezas.
O pacto sagrado significa que usamos nosso aparelho reprodutor apenas
para fazer mitsvót; nesse caso procriar, garantir o êxtase conjugal, ou
ambos.
O cumprimento do pacto sagrado, ou shmirat habrit, é provavelmente o
fator que mais contribui para se alcançar e preservar a emuná.
Kedushá, ou santidade em pensamento, fala e ação, é a melhor maneira de
preservar o pacto sagrado.
Quanto mais mergulhamos em Torá e quanto menos nos expomos às
influências dessa sociedade luxuriosa e permissiva, melhor cumprimos o
pacto sagrado.
Basicamente, o homem deve se casar o mais cedo possível, evitar olhar
para outras mulheres e procurar não assistir à "mídia".
Visto que os olhos são as janelas da alma, atentar à luxúria e imagens
proibidas imediatamente "suja" a alma.
Por isso, a Torá e o Código da Lei Judaica específica e enfaticamente
recomendam aos homens que não olhem para nenhuma mulher (exceto
mãe, esposa e filhas).
Segundo nossos sábios (veja Rambam, Leis de Teshuvá, 4:4),
simplesmente pensar na imagem de uma mulher estranha equivale a
adultério mental.
Pensamentos de luxúria e fala suja levam a transgressões do pacto
sagrado, já que corrompem o cérebro e a boca.
O cérebro foi criado para contemplar Hashem e a Torá, e a boca foi criada
para rezar e falar de Torá.
A boca contaminada com um discurso impuro não pode rezar
apropriadamente.
Usar tal boca para rezar equivale a usar uma privada como tigela de sopa.
Mesmo que a privada esteja limpa e desinfetada, quem gostaria de comer
de uma privada?
Do mesmo modo, Hashem não quer escutar as orações de uma boca usada
para luxúria e discursos proibidos.
Masturbar-se e derramar o sêmen levam a um bloqueio do coração e do
cérebro para a luz Divina.
É por isso que emuná e devassidão se excluem mutuamente.
Como aprendemos anteriormente neste estudo, a emuná contribui mais do
que qualquer outra coisa para uma boa renda.
Portanto, a libertinagem — oposto de shmirat habrit — causa dificuldades
financeiras.
Todos os maravilhosos benefícios da emuná são destruídos quando não
cumprimos o pacto sagrado.
Por exemplo, a emuná nos leva à consciência espiritual e à felicidade.
Uma eventual quebra do pacto sagrado destrói a emuná e nos conduz
diretamente à tristeza, à depressão e a outros problemas emocionais.
O adultério, uma violação flagrante do pacto sagrado, vai contra todos os
princípios do judaísmo e da emuná.
Nada afasta alguém de Hashem mais rápido do que o adultério.
Assim sendo, o perverso Bilam aconselhou Balak, o rei de Moav, que se ele
não conseguia vencer Israel por meios militares, tudo o que tinha a fazer
era tentá-los com libertinagem.
Segundo o Zohar, nosso principal teste no mundo é superar o desejo de
adultério.
Do ponto de vista espiritual, o adultério começa bem antes do ato proibido
— assim que alguém olha para a (o) esposa (o) de outro (a) ou contempla o
adultério de qualquer maneira, os olhos e a mente se tornam
espiritualmente contaminados.
Tal contaminação destrói a alma, D'us nos livre.
De acordo com os sábios, o que os olhos veem o coração deseja.
Portanto, preservando nossa visão e limitando o olhar ao permissível, nos
protegemos de cair na armadilha dos desejos luxuriosos, os quais, sozinhos,
conseguem arruinar a alma.
Esse tipo de desejo é o oposto do amor a Hashem — não se pode ter os
dois.
Pare e pense — um pensamento ou desejo luxurioso vale o afastamento de
Hashem?
A terra de Israel
Segundo o Talmud, não se pode alcançar a emuná completa fora do
ambiente da terra de Israel.
Portanto, quem realmente deseja ter emuná deve rezar a Hashem pelo
privilégio de poder ir a Éreis Israel e, enquanto isso, deve desejar estar na
terra de Israel.

Aproximando-se de Hashem
O Talmud pergunta: aproximar-se de Hashem é uma mitsvá, mas Hashem é
como um fogo ardente; então, quem pode se aproximar dEle?
O Talmud responde à própria pergunta e diz que, se nos aproximamos dos
estudiosos de Torá e dos tsadikim, que nos ensinam o caminho de Hashem,
nos aproximamos de Hashem.
A lei judaica determina que devemos nos aproximar dos nossos sábios e dar
atenção às suas palavras.
Grande parte da Torá é classificada como "Torá Oral", aquela que vem
sendo passada de professor a discípulo de geração em geração, em uma
corrente ininterrupta que data de Moisés, que recebeu a explicação oral da
Torá diretamente de Hashem.
Portanto, não devemos pensar que é suficiente estudarmos Torá sozinhos —
há muito espaço para erro.
Evitamos o erro se nos aproximamos de um estudioso justo e aprendermos
com ele.
Do mesmo modo, não podemos conseguir a emuná completa sem nos
aproximarmos dos líderes espirituais da geração, o que chamamos de
emunat chachamim, ou fé nos sábios.
Sem emunat chachamim, não podemos desenvolver corretamente a emuná
em Hashem.
Estudar obras de verdadeiros tsadikim é algo altamente conducente à
emuná, pois os escritos de um verdadeiro tsadik despertam o coração para
procurar Hashem.
Como todos os outros livros sagrados, devemos aprender os ensinamentos
de um tsadik com a ajuda de um de seus discípulos instruídos, para evitar
confusões e equívocos.
Ao estabelecer uma relação com os discípulos do tsadik, podemos nos
aproximar dele e posteriormente melhorar nossa emuná.
O Rebe Nachman de Breslav escreve no Sefer Hamidót (sob o título
"tsadikim"):
• O principal aperfeiçoamento da alma depende de nos aproximarmos dos
tsadikim.
• A nossa aproximação com os tsadikim é benéfica neste mundo e no
próximo.
• A chegada do Mashiach depende de nossa aproximação com os tsadikim.
• Quem é próximo a um tsadik durante a vida ficará próximo a ele depois
da morte.
• O que se escuta da boca de um tsadik é mais benéfico do que o que se
aprende em livros.
• É bom investir bastante tempo para merecer uma hora de aproximação
com um tsadik.
Por todas as razões mencionadas, devemos procurar um tsadik e guia
espiritual genuíno e justo.
Assim, se lhe ficamos próximos e aprendemos com ele, conseguimos mais
emuná.

Fortalecer a emuná
O Rebe Natan de Breslav escreve (Rebe Naclnan's Discourses, 222): "Ouvi
que o Rebe certa vez estava encorajando um homem muito confuso sobre
emuná. O Rebe lhe disse: 'Está escrito que toda a Criação surgiu apenas
por causa de gente como você. D'us viu que haveria pessoas que se
apegariam à nossa fé sagrada, sofrendo imensamente por confusões e
dúvidas que constantemente os atormentariam. Ele viu que essas pessoas
superariam as dúvidas e permaneceriam fortes em suas crenças. Foi por
isso que D'us deu origem a toda a Criação.”
O Rebe Natan adiciona: "Então esse homem passou a ficar extremamente
fortalecido e tranquilo sempre que tinha esses pensamentos confusos.
O Rebe disse várias vezes que a Criação foi principalmente em nome da fé.
Está escrito (Salmos 33:4): 'pois perfeita é a palavra do Eterno, e fidelidade
marca tudo o que Ele faz.'"

Há mais de duzentos anos, o Rebe Nachman de Breslav advertiu sobre a


grande inundação de ateísmo que afogaria as pessoas nos riscos espirituais
e emocionais contra os quais lutamos hoje em dia.
De acordo com suas palavras, a única maneira de nos salvarmos do
perigoso mar de negação e descrença da sociedade moderna é aprender o
máximo que conseguimos sobre emuná, reforçando-a sempre.
Mais que tudo, devemos constantemente rezar a Hashem para ter cada vez
mais emuná e investir nossos esforços principais para conseguir e fortalecer
a emuná.
Nossa vida neste mundo e no próximo depende de emuná.

Coleção de pensamentos do Sefer Hamidót sobre emuná

Fatores prejudiciais à emuná


• Endurecer o coração
• Transgredir as leis da Torá
• Inveja, raiva e cobiça
• Desprezo por estudiosos da Torá
• Desonestidade e bajulação

Fatores que conduzem à emuná


• Modéstia e humildade
• Reza sentimental
• Silêncio
• Caridade
• Adormecer com pensamentos elevados

Continua
O Jardim da Emuná – Parte Final

Capítulo 7 - Retificação de si mesmo

O pré-requisito mais importante para a retificação da própria alma é a


consciência de si mesmo.
A primeira coisa que devemos saber é que cada um de nós tem um ietser
hará, ou inclinação para o mal.
Muita gente fica frustrada ou assustada com essa inclinação.
Muitas vezes ouvimos: "Se eu não tivesse um ietser hará tão forte..." ou
"Por que Hashem me puxa para baixo com uma inclinação para o mal?"
O ietser hará é uma parte necessária da nossa constituição espiritual assim
como dois braços e duas pernas são partes integrantes da nossa anatomia
física.
Nossa principal tarefa neste mundo é nos corrigirmos por meio da
canalização da energia negativa do ietser hará para esforços positivos,
como estudo da Torá e cumprimento das mitsvót.
Teshuvá, que literalmente significa "retorno", é o processo de elevar nossos
desejos animais e transformá-los em poder espiritual.
Nenhuma outra criação na Terra é capaz de transformar o material em
espiritual.
Assim sendo, o judeu tem uma tarefa única — com um corpo animal, ele é
capaz de ultrapassar os anjos e atingir elevados campos espirituais.
A retificação de si mesmo, o refinamento do ietser hará, é uma guerra com
altos e baixos constantes.
Como numa guerra, ganhamos algumas batalhas e perdemos outras.
Quanto mais forte ficamos, mais forte nosso ietser hará.
Mas a inclinação para o mal não deveria se enfraquecer com o tempo?
A resposta é não.
Quando conseguimos ganho espiritual, encontramos uma oposição ainda
mais forte; isso acontece para o nosso próprio bem, para que sejamos
capazes de alcançar futuros ganhos espirituais, o que aumenta nossa
recompensa no mundo vindouro.
O mesmo princípio se aplica ao atletismo profissional — quanto melhor um
atleta fica, mais difícil a competição!
Não devemos nunca nos deixar desencorajar pelo ietser hará; continuemos
lutando!
Um jogador de futebol campeão da segunda divisão pode driblar todos os
seus adversários, mas perde alguns jogos quando passa para a primeira
divisão.
Todos sabem que um empate em jogos da primeira divisão é um resultado
muito mais admirável do que uma vitória na segunda divisão.
Nossos retrocessos nos lembram de que temos um trabalho a fazer e que
lutamos contra fortes adversários.
Ao encontrar uma grande resistência, refinamos a alma e conseguimos um
ganho espiritual formidável.

Hashem ajuda
Depois que ficamos conscientes de que temos um ietser hará, a segunda
coisa que temos de saber é que somos incapazes de superá-lo sem a ajuda
de Hashem.
Isso nos faz procurar a Sua ajuda.
A principal maneira de vencer o ietser hará e fortalecer a espiritualidade é
rezar a Hashem e pedir-Lhe ajuda e orientação para conseguirmos evitar
pecados e fazer as escolhas certas.
Hashem ajuda aqueles que buscam a Sua ajuda.
Algumas pessoas se punem, se castigam ou ficam totalmente
decepcionadas consigo mesmas quando fazem algo errado.
Esse é um modo autodestrutivo, que leva apenas à depressão e ao
desespero.
Se um boxeador ficasse deprimido cada vez que levasse um golpe do
adversário, ele logo sofreria um nocaute geral.
Cada um de nós, mesmo os grandes tsadikim, se depara com obstáculos de
vez em quando.
Ficar decepcionado consigo mesmo não serve para nada.
É preciso pedir ajuda a Hashem!

Conheça o seu ietser hará


Depois de reconhecer que temos um ietser hará, devemos aprender a lutar
contra ele.
Seu objetivo é contaminar nossa alma com dúvida e heresia, pois, assim
que nossa emuná é enfraquecida, nos tornamos escravos do ietser hará.
Por outro lado, se reforçamos nossa emuná constantemente, o ietser hará
não tem controle sobre nós.
Essa é a verdadeira liberdade.
O ietser hará é um bom estrategista.
Em vez de seguir um padrão comum, ele usa diferentes métodos com
diferentes pessoas.
Ele instila em uma pessoa total heresia e negação de Hashem, D'us nos
livre.
Ele ataca outra pessoa com heresia parcial, como a negação da Torá Oral e
da lei rabínica.
O ietser hará de uma terceira pessoa a faz ser seletiva com relação às
mistvót — ela cumpre o que lhe parece lógico, mas transgride qualquer
mitsvá que não entende ou não aprova.
Uma quarta pessoa pode até ser um rabino ortodoxo, mas o ietser hará
tentará lhe contaminar a alma com uma descrença nos verdadeiros
tsadikim.
E há uma quinta pessoa, que consegue se defender dos ataques do
parágrafo anterior.
Essa pessoa tem uma forte crença em Hashem e na Torá e se empenha em
viver conforme a vontade de Hashem.
Então, o que o ietser hará pode fazer com ela?
A resposta é simples: o ietser hará ataca as pessoas que desejam a emuná
completa com arrogância, autoperseguição, ou ambos.
Vamos aprender agora a combater esse tipo de ietser hará.

O Rebe Nachman de Breslav nos ensina um importante princípio de vida


(veja Licutei Moharan 11: no): "Temos uma escolha simples: se queremos,
fazemos. Se não queremos, não fazemos."
Essa noção é incrivelmente simples, mas muito profunda.
Quando temos opções, devemos tentar fazer a melhor escolha.
Pessoas bem-sucedidas usam todas as ferramentas que Hashem coloca à
sua disposição: Primeiro, essas pessoas têm um forte desejo de fazer a
escolha certa.
Segundo, elas se apegam à emuná de que Hashem lhes ajudará a fazer a
escolha certa.
Terceiro, elas aprendem o máximo possível, buscando o conselho da Torá e
dos grandes tsadikim para tomar a decisão certa.
Quarto, elas rezam copiosamente a Hashem, pedindo que Ele as ajude a
fazer a escolha certa.
As quatro ferramentas acima se resumem em uma palavra — emuná.
Temos um aparente livre-arbítrio antes de escolher, mas, após a escolha,
precisamos saber que fizemos aquela escolha específica porque Hashem
queria que fizéssemos aquela escolha.
Lembre-se do primeiro princípio de fé do Rambam — "Hashem fez, faz e
fará tudo."
Portanto, não devemos ostentar os sucessos que Hashem nos permitiu ter.
Por outro lado, não precisamos nos perseguir por causa de fracassos, pois é
Hashem que os arquiteta.
Temos aqui um ietser hará bem esperto que nos ilude e nos convence a
atribuir mérito a nós mesmos pelos sucessos e a nos culparmos por nossos
fracassos, tirando Hashem da jogada.
Essa situação é, em si, um outro tipo de escolha, pois devemos nos apegar
à emuná tanto "depois do fato" como "antes do fato".
A emuná a priori nos ajuda a tomar as decisões certas, e a emuná post
facto nos poupa da arrogância que pode seguir um sucesso e da
autoperseguição que pode suceder um fracasso.
Lembre-se: antes do fato, tente ao máximo fazer a melhor escolha.
Depois do fato, acredite que esse é o desejo de Hashem e que tudo é para o
bem.

Onisciência e livre-arbítrio
O clássico dilema da fé judaica é a aparente diferença entre a onisciência de
Hashem e o livre-arbítrio.
Se Hashem sabe o que vamos fazer, como podemos ter livre-arbítrio?
Se Hashem "fez, faz e fará tudo", como dito anteriormente, isso tornaria
Hashem responsável por nossos pecados também.
Se a pessoa não pode levantar um dedo sem que Hashem o permita, onde
está o livre-arbítrio?
Vamos recordar o ensinamento do Rebe Nachman: "Temos uma escolha
simples: se queremos, fazemos. Se não queremos, não fazemos."
Mesmo que Hashem saiba o que vamos escolher, Ele não nos força a fazer
uma determinada escolha.
Se fôssemos robôs, não haveria um contexto para um sistema de
recompensa e punição.
Hashem nos deixa escolher entre o bem e o mal.
Apesar disso, o Rebe Nachman explica que o intelecto humano é incapaz de
compreender completamente o conceito de onisciência e livre-arbítrio
(Licutei Moharan 1:21).
Quem consegue abarcar completamente essa noção não é uma pessoa, mas
sim um ser espiritual muito mais elevado.
Os seres espirituais elevados não têm livre arbítrio, pois a verdade de
Hashem lhes é perfeitamente clara.
Somente o homem, um ser mortal, tem livre-arbítrio, mas ele não pode
compreender totalmente o conceito de onisciência e livre-arbítrio e a
compatibilidade entre os dois.
Se insistimos em entender, podemos ficar totalmente confusos.
Até pior, podemos cair no poço da heresia, D'us nos livre.
O Rei Salomão disse (Provérbios 2:19): "Alguns nunca voltam, e não
conseguem compreender os caminhos da vida."
Ou seja, devemos reconhecer que há leis espirituais que governam o
universo e que transcendem o entendimento humano.
Onde termina o entendimento começa a emuná.
Quando falamos de livre escolha, o melhor conselho é deixar o conceito da
onisciência de Hashem de lado.
A onisciência de Hashem e o livre-arbítrio são dois conceitos que utilizamos
em ocasiões diferentes, mas, como leite e carne, nunca os misturamos.
Antes do fato, usamos o poder do livre-arbítrio.
Depois do fato, confiamos na onisciência de Hashem, pois todos os dias
estão em Suas mãos.
Mais uma vez, isso nos salva de duas armas do ietser hará: a arrogância e a
autoperseguição.
Quando você tem de fazer uma escolha, não pense na onisciência de
Hashem.
Use as ferramentas à sua disposição para fazer a melhor escolha que puder.
Tente o seu melhor e confie no seu desejo de fazer o que é certo, no seu
estudo de Torá, na sua emuná e nos conselhos dos tsadikim.
Acima de tudo, invista bastante tempo e esforço em rezar para que Hashem
o guie na direção correta; quanto mais rezamos, maiores as chances de
sucesso.

Fazendo as escolhas certas


Não devemos pensar que "as cartas estão na mesa", ou seja, que já que
tudo é predestinado, não importa o que fazemos.
Alguns dizem: "Se Hashem quer que eu seja uma pessoa justa, que Ele me
faça justo! Até lá, farei o que eu quiser..."
"Farei o que eu quiser..." — tal pessoa tem uma decisão a tomar
(Deuteronômio 30:15): "Vê que, hoje, pus diante de ti a vida e o bem, a
morte e o mal."
A Torá nos manda fazer uma escolha.
Ela nos dá a opção de escolher emuná e elevação espiritual, que garantem
a vida neste mundo e no próximo, ou temos a opção de escolher cigarro,
álcool, uso de drogas e promiscuidade, coisas que destroem o corpo e a
alma, D'us nos livre.
O Rei Salomão, o mais sábio de todos os homens, disse que apenas o tolo
faz escolhas estúpidas e depois culpa Hashem (veja Provérbios 19:3).
Devemos, então, fazer o máximo para tomar as decisões corretas e evitar
transgredir a todo custo.
Todos têm de sofrer as consequências e assumir a responsabilidade por
más escolhas.
Se não tivéssemos livre-arbítrio, não seríamos julgados no Tribunal Celeste
por tudo o que fazemos.
É preciso enfatizar, porém, que mesmo que uma pessoa tenha cometido o
pior erro ou a pior transgressão do mundo, depois do "fato consumado" ela
deve saber que aquela era a vontade de Hashem — e para melhor!
Caro leitor, você deve estar se perguntando como um pecado pode
possivelmente ser para o seu bem.
Entenda que Hashem ajuda cada um a conseguir a retificação de sua alma.
Suponha que uma pessoa tenha de superar uma compulsão por comida,
especialmente por doces.
Talvez Hashem permita que essa pessoa coma algo não casher, por
exemplo:
Yankele tem um fraco por chocolate e pega uma barra de chocolate de leite
pensando que não é de leite.
A esposa dele o vê e diz: "O que você está fazendo? Você acabou de comer
um prato de carne!", e ela lhe mostra que o chocolate tem ingredientes de
leite.
O coração dele se parte.
Ele percebe que se seu desejo por doces não fosse tão forte, ele certamente
teria sido mais cuidadoso e teria checado o rótulo antes de colocar o
chocolate na boca.
Ele não teria transgredido a lei que requer seis horas de espera depois de
se comer carne para poder comer algo derivado do leite.
Visto que Yankele tem emuná, ele sabe que Hashem arquitetou o erro ao
tirar vantagem de seu próprio livre-arbítrio - tudo com o propósito de
ajudá-lo a perceber o que ele deve corrigir, ou seja, sua compulsão por
comida e por doces.
Tudo que Hashem faz é com uma Providência Divina precisa e personalizada
para as necessidades individuais de cada alma - para facilitar sua
retificação.
Assim, tudo é para o nosso bem!
Nossas falhas são criadas para nos guiar no caminho correto rumo à nossa
retificação individual.

Neutralizando o ietser hará


Quando depois de um obstáculo melhoramos e buscamos Hashem com mais
esforço, neutralizamos o ietser hará.
O ietser hará não é nada mais que heresia, então quando percebemos que
até mesmo um obstáculo temporário vem de Hashem e existe
definitivamente para o nosso bem, usamos o poder da emuná que destrói o
ietser hará.
Com emuná, não nos atormentamos nem ficamos deprimidos ou
desesperados depois de um fracasso.
Simplesmente analisamos os problemas, tiramos conclusões e tomamos
atitudes positivas para melhorar.
Esse é um processo de observação, avaliação e ação.
Conseguimos um crescimento constante usando as ferramentas que
Hashem nos dá para subir cada vez mais alto.
Se estamos sempre conectados a Hashem — observando Suas mensagens,
nos avaliando e implementando as lições que aprendemos com outros
problemas — superamos o ietser hará.
Assim, ele não tem poder sobre nós.
Com emuná, usamos os problemas para melhorar.
Os obstáculos nos impedem de ficar arrogantes e nos despertam para fazer
ainda mais esforço em nosso serviço a Hashem.
Por isso, pessoas com emuná agradecem a Hashem do fundo do coração
por seus problemas.
Eis um exemplo de uma reza de agradecimento: Mestre do universo,
querido Pai, obrigado por Sua maravilhosa intervenção pessoal em minha
vida. Obrigado por me mostrar minhas fraquezas ao me deixar cometer um
erro. Obrigado por me despertar para fazer um esforço maior para me
aproximar de Você. Eu não teria feito esse esforço se não tivesse passado
por aquele problema. Se entendemos que nossos problemas existem para o
nosso benefício, podemos cumprir uma lei do judaísmo que muita gente
tem dificuldade de cumprir: temos de agradecer a Hashem pelo que é
aparentemente mal assim como Lhe agradecemos pelo bom (veja Talmud,
TB, Tratados de Berachót 33b e Shulchan Aruch, Orach Chaim 222:3).
Tentamos ao máximo fazer as melhores escolhas na vida.
Antes do fato, fazemos o melhor para prosperar.
Mas depois do fato, sabemos que nossos problemas são também resultado
da perfeita e precisa Providência Divina, e que tudo o que Hashem faz é
para o nosso bem.

A teshuvá que vem do amor


A pessoa que agradece a Hashem por suas falhas e problemas fica imune à
tristeza, à depressão e ao desespero.
Ela sabe que Hashem faz tudo para o bem, para lhe ajudar a alcançar seu
potencial e a atingir campos espirituais ainda mais elevados.
De acordo com o Talmud (TB, Tratado Yoma 86b), se a pessoa faz teshuvá
motivada por amor (o oposto de teshuvá por medo de castigo), então suas
más ações intencionais contadas como dívidas espirituais se tornam méritos
espirituais.
Como assim?
A resposta é simples: quando a pessoa usa seus erros para ver quão longe
de Hashem ela está, esses mesmos erros se tomam instrumentos para
teshuvá.
Quando provocam observação, auto avaliação e teshuvá, as más ações se
tornam méritos espirituais.
Ademais, nossos sábios disseram que não entendemos completamente uma
lei da Torá até nos depararmos com essa lei.
A razão é que podemos aprender muito com um erro se temos emuná o
suficiente para não perder a cabeça com ele.
Erros são estímulos para fazermos um segundo esforço muito mais forte.
Eles também são barreiras para a arrogância e nos encorajam a aumentar
nossas rezas em quantidade e qualidade.
Com emuná, podemos ver que nossos problemas na vida são na verdade
coisas boas, "há males que vêm para o bem".

Verdade
Continuamos a fracassar se não nos conformamos com nossas fraquezas e
não entendemos que os problemas são uma parte necessária do nosso
crescimento pessoal e espiritual.
Se a arrogância não nos deixa reconhecer e aceitar nossas falhas, nunca
enxergaremos a verdade.
O Rebe Menachem Mendel de Kotsk comenta sobre o episódio do fruto
proibido da porção Bereshit da Torá.
Hashem pergunta a Adão (Gêneses, capítulo 3): "Onde estás? (...) Acaso da
árvore de que te ordenei não comer dela, comeste?"
O que a primeira pergunta tem a ver com a segunda?
O Rebe de Kotsk explica que Hashem está dizendo a Adão: "Olha onde
caíste. Em vez de aprender com teu erro, culpaste Eva!"
Hashem sabe que somos seres humanos.
Ele também sabe que, apesar de nossos melhores esforços, caímos de vez
em quando.
Hashem não está nos pedindo para sermos perfeitos.
Tudo que Ele quer é que usemos nossos problemas e fracassos como
instrumentos de avaliação e aperfeiçoamento.

Dizer obrigado
Não podemos realmente fazer teshuvá até construirmos emuná o suficiente
para agradecer a Hashem por nossos problemas.
Viver sem emuná significa viver sem Hashem.
Como alguém pode fazer teshuvá se vive sem Hashem?
Agradecer a Hashem por nossos problemas e falhas é uma verdadeira
indicação de emuná e um trampolim para reza e aperfeiçoamento pessoal.

Conheça seu Criador


Lembre-se: Hashem o conhece profundamente.
Ele sabe que você tem um ietser hará e que, para superá-lo, a Sua ajuda é
necessária.
Mesmo que você tenha feito uma coisa horrível, Hashem não quer que você
fique revisitando o passado.
Siga em frente!
Você não será capaz até que aprenda a ver o lado positivo das coisas.
Não se esqueça de que Hashem o ama sempre.
Ele está sempre pronto a ajudar.
Ele o criou para poder conceder Sua misericórdia e benevolência, mais do
que você possa imaginar.
Sua misericórdia e benevolência são infinitas e estão sempre à sua
disposição, principalmente nas horas mais difíceis.
O que Hashem quer de nós?
O Talmud diz (TB, Tratado Avodá Zará 3a): "Hashem não reclama de Suas
criações."
Isso significa que Hashem não faz exigências que a pessoa não seja capaz
de cumprir.
Hashem sabe exatamente o que cada um de nós é e o que somos capazes
de realizar neste mundo.
Caro leitor, não é possível exigir que, de agora em diante, você pare de
pecar, pois neste estágio da vida deve haver certas leis que são difíceis para
você cumprir.
Mas você deve pelo menos pedir o perdão de Hashem por ainda não
cumpri-las!
Se você não se esforça para cumprir os mandamentos da Torá, nunca vai
conseguir!
Hashem quer que demos o primeiro passo de nosso aperfeiçoamento.
Quando fazemos o esforço, Ele vem nos ajudar.

Teshuvá é felicidade
Uma pessoa triste e deprimida não controla seu próprio raciocínio.
Sem serenidade mental, não é possível obter emuná nem fazer teshuvá.
Uma pessoa triste e deprimida é como um prisioneiro de guerra, capturado
pela implacável inclinação para o mal.
Depressão e elevação espiritual se excluem mutuamente.
Por isso, o ietser hará quer que estejamos sempre no fundo do poço.
E nos perguntamos, "como posso ser feliz?".
A resposta é surpreendentemente simples: somos felizes quando nossa
alma é recompensada, e a alma é recompensada quando cumprimos a
vontade de Hashem.
Visto que a teshuvá leva a pessoa a cumprir a vontade de Hashem, ela
também leva à gratificação da alma e à felicidade.

Os 24 Tribunais Celestes
Há 24 Tribunais Celestes que nos julgam a cada hora de cada dia.
Quem faz boas ações recebe um bom veredito; a alma reage
imediatamente a um julgamento positivo de um Tribunal Celeste com
otimismo e felicidade.
O oposto também é verdade; quem tem um veredito desfavorável
proveniente de uma ação negativa sente tristeza, pessimismo e uma
"angústia de espírito".
Rosh Hashaná, o ano novo do calendário judaico, é o Dia do Julgamento
anual que determina se a pessoa irá viver ou morrer, qual será sua renda
anual, entre outras coisas.
Isso não contradiz o fato de que somos julgados de hora em hora.
Por exemplo, em Rosh Hashaná foi determinado que uma pessoa ganharia
dois mil dólares no dia oito de janeiro; na manhã do dia oito, é decidido
como essa pessoa ganhará o dinheiro, se com alegria ou tristeza.
A seguinte história chassídica explica o conceito dos julgamentos diário e
anual.
O Baal Shem Tov encontrou um velho carregador de água no caminho e
perguntou com ele estava.
O carregador de água deu um sorriso desdentado e louvou a Deus por ter
lhe dado mais uma vez a força para ganhar o sustento do dia de forma
respeitável.
Alguns dias depois, o Baal Shem Tov encontrou o mesmo carregador de
água.
Dessa vez, o velho homem mal podia carregar seu jugo e seus dois baldes,
como se estivesse carregando o mundo todo nos ombros.
Ele reclamou ao Baal Shem Tov como sua vida era difícil.
A extrema mudança de humor do ancião surpreendeu o Baal Shem Tov.
Depois de pensar por um momento, o Baal Shem Tov sorriu e agradeceu ao
carregador de água.
"Meu amigo, você acaba de responder a uma difícil questão que eu tinha
enquanto estudava o tratado Rosh Hashaná. A Mishná diz que somos
julgados em Rosh Hashaná, mas o Talmud diz que somos julgados todo dia
e toda hora. A minha questão era, se somos julgados em Rosh Hashaná
para o destino do ano inteiro, por que somos julgados novamente todo dia e
toda hora? Então o Baal Shem Tov explicou que o julgamento de cada hora
e o de cada dia determinam o modo como vamos receber o que foi
predeterminado no começo do ano; se nossas ações são favoráveis,
recebemos nossa porção alegremente naquela hora. Caso contrário,
recebemos o que merecemos com tristeza, depressão ou aborrecimento.
O dia em que o carregador de água estava feliz e otimista foi um dia em
que suas ações receberam um julgamento favorável no Tribunal Celeste.
Ele não ganhou mais do que costumava ganhar nos outros dias, nem
trabalhou menos.
No entanto, ele sentiu gratidão a Hashem e alegria no coração.
Alguns dias depois, tendo recebido aparentemente um julgamento
desfavorável do Tribunal Celeste devido a ações não muito desejáveis, seu
humor despencou e o trabalho se tornou uma tortura.

De qualquer modo, podemos mudar o que foi predeterminado em Rosh


Hashaná por meio de teshuvá, reza e caridade.

Enxergando as mensagens
A história do "Baal Shem Tov e o carregador de água" explica como o
humor e as circunstâncias podem mudar de uma hora para outra.
Você já deve ter passado por isso: uma hora você está se dando super bem
com sua (seu) esposa (o) ou com seu chefe e, de súbito, do nada, ele (ou
ela) começa a gritar com você de uma maneira que não faz sentido
nenhum.
Mas quando você leva em consideração os julgamentos de cada hora, tudo
faz sentido.
O julgamento favorável da hora anterior simplesmente se tornou o
julgamento severo desta hora.
Tudo que nos entristece, até mesmo uma pequena irritação, como uma
coceira, decorre de uma decisão do Tribunal Celeste.
Segundo o Talmud (TB, Tratado Arachin 16b), cada pequeno sofrimento na
vida faz parte das atribulações enviadas do Céu — coisas como
experimentar uma roupa que não serve direito ou colocar a mão no bolso e
pegar uma moeda de 25 centavos quando na verdade você queria uma de
10 centavos.
Quando internalizamos o conhecimento de que esse tipo de acontecimento
é o resultado de julgamentos do Tribunal Celeste, aumentamos nossa
consciência espiritual, emuná e conexão com Hashem.

Hashem é justo
Imagine que um filho se comporta mal e recebe uma punição do pai.
O filho travesso então atribui a sua má sorte ao irmão mais novo e começa
uma briga com ele.
O pai fica duplamente preocupado: não só o filho mais velho não corrigiu
seu comportamento, como iniciou uma briga com o irmão mais novo, que
não tinha nada a ver com a punição!
Muitos de nós agem como o filho travesso.
Em vez de atribuir nossos problemas a Hashem e às nossas próprias ações,
buscamos um terceiro elemento o qual podemos culpar, ou o usamos para
desabafar.
Em vez de tomar a decisão correta — teshuvá, a única solução real para os
nossos problemas — caímos nas armadilhas da raiva, da frustração e do
desespero.
É lamentável...
E, ainda pior, não reconhecemos que Hashem é justo.
O sentimento de que os julgamentos de Hashem são inadequados é o que o
Rebe Natan de Breslav chama de "justiça corrompida".
Aquele que sente que os julgamentos de Hashem são injustos desenvolve
um senso distorcido de justiça que prejudica a auto avaliação e a busca
espiritual honesta.
O Rebe Natan de Breslav escreve (Licutei Halachot, Choshen Mishpat,
Nezikin 5): "Desenvolve-se um senso distorcido de justiça a partir de
noções equivocadas do mundo. Muitas pessoas reclamam que Hashem não
as trata justamente, e que suas atribulações estão além de sua capacidade
de resistência. Essas pessoas também dizem que não têm tempo para
servir Hashem por causa das exigências de se ganhar um sustento. Elas
acreditam, então, que Hashem faz pedidos impossíveis."
A verdade é que Hashem não pede nada que não possamos fazer.
O segredo da paz interior é a internalização do fato de que Hashem é justo
e que Suas decisões são justas.
Conseguimos isso revisando constantemente os princípios de emuná, ou
seja, que Hashem comanda o mundo, faz tudo para o melhor e tem um
propósito específico para tudo que faz.
Assim como acreditamos que tudo vem de Hashem, devemos acreditar que
todos os Seus julgamentos não são apenas justos, mas também
misericordiosos e compassivos.
E, assim sendo — mesmo que às vezes isso não seja aparente —, os
julgamentos Divinos são sempre para o nosso beneficio pessoal.
Os testes e as atribulações que Ele nos manda são criados para nos
aproximar Dele.

A magnífica misericórdia de Hashem


Não é possível tonar-se tsadik da noite para o dia.
No entanto, muita gente evita fazer teshuvá por temer "pagar o preço" por
pecados do passado.
Cedo ou tarde, todos farão teshuvá; isso quer dizer que todos passarão por
uma odisseia de tortura como processo de retificação?
A resposta é não.
Há uma maneira de se contornar a situação.
Hashem não permite perigo duplo.
Portanto, quando nos julgamos, O tribunal Celeste não pode nos julgar.
Conforme o Zohar, quando há julgamento embaixo, não pode haver
julgamento em cima.
Ou seja, quando nos julgamos, o Tribunal Celeste não pode nos julgar.
Basicamente, isso significa que se estamos sempre confessando nossos
erros a Hashem, pedindo perdão e decidindo melhorar, Hashem não permite
que o Tribunal Celeste nos julgue; Hashem mesmo nos julga.
Há uma grande diferença entre os julgamentos de Hashem e os do Tribunal
Celeste — enquanto o Tribunal julga com precisão "cirúrgica", à letra da lei,
os julgamentos de Hashem são misericordiosos e compassivos.
Quando o Tribunal Celeste investiga um caso, o réu é quase sempre
considerado culpado.
Quando Hashem investiga um caso, o réu é sempre declarado inocente.
Portanto, se queremos evitar sofrimentos e problemas, devemos separar
sessenta minutos por dia para auto avaliação e reza pessoal, momentos em
que nos julgamos diante de Hashem.
Se nos consideramos culpados de más ações, tudo o que temos a fazer é
confessar, pedir perdão e assumir o compromisso de melhorar.
O Tribunal Celeste, então, não pode tocar o caso nem nos investigar, nem
mesmo pelo pior crime, contanto que tenhamos confessado a Hashem e
estejamos realmente fazendo teshuvá por iniciativa própria.
Quando há julgamento embaixo, não pode haver julgamento em cima.

Servir Hashem com um sorriso


Quem passa uma hora por dia rezando e se auto avaliando certamente
receberá um veredito favorável no Dia do Julgamento anual de Rosh
Hashaná.
Nossos sábios ensinam que devemos fazer teshuvá pelo menos um dia
antes de morrer.
O Midrash pergunta: "Quem sabe quando vai morrer?"
A resposta lógica é que devemos fazer teshuvá agora, pois hoje pode ser o
nosso último dia.
Desse modo, fazemos teshuvá por toda a vida.
Imagine que um homem foi pego em flagrante cometendo um crime.
A polícia o leva diante de um juiz, que diz estar disposto a dar ao criminoso
a oportunidade de ele se julgar a si mesmo antes que o tribunal o julgue.
O criminoso sabe que se o caso chegar ao tribunal, ele pode ser punido com
anos de prisão.
Mas se ele se julgar, será absolvido!
Parece fantasia, não é?
Que juiz deixaria um criminoso se julgar?
Hashem.
Hashem, em Sua indescritível misericórdia, nos deixa julgar a nós mesmos
antes que nosso caso chegue ao Tribunal Celeste.
Não apenas evitamos punição, como somos recompensados por nossa
teshuvá!
Eis outro exemplo que ilustra o conceito em questão: um motorista avança
o sinal vermelho.
Pelo retrovisor, ele vê luzes azuis e vermelhas piscando.
Uma alta sirene começa a tocar e um policial com queixo de ferro e olhar de
aço faz sinal para que o motorista pare no acostamento.
O policial sai do cano, vai até a janela do motorista e se prepara para
aplicar a sanção máxima.
Ao se aproximar, o policial ouve o motorista murmurando: "Hashem, eu
violei as leis de trânsito intencionalmente ao avançar um sinal vermelho.
Desculpe-me por ter sido tão irresponsável, colocando outros motoristas e a
mim mesmo em perigo. Por favor, me perdoe. Prometo fazer o máximo
para que isso nunca mais aconteça enquanto eu viver."
O policial ouve a confissão, o remorso, o pedido de desculpa e a decisão de
melhorar, e seu olhar duro se transforma em sorriso.
"Eu ia levá-lo ao tribunal, pedir a suspensão da sua carteira de motorista e
pedir ao juiz que lhe aplicasse a pena máxima. Mas ouvi que você está se
recuperando. Você não precisa perder a licença nem pagar a multa de 600
dólares. Espere um minuto..."
O policial pega um talão de cheque em que está inscrito "Estado de Nova
Jersey", faz um cheque de cem mil dólares ao motorista, deseja-lhe boa
viagem e o deixa partir!
Se o mundo físico funcionasse conforme os padrões desse policial, haveria
alguém na Terra que não gostaria de fazer teshuvá?
Seríamos totalmente loucos ao deixar nossos erros sem correção!
O mundo espiritual funciona exatamente como o modelo do policial; quando
fazemos teshuvá por uma má ação, não somente evitamos punição, como
somos belamente recompensados!
De acordo com o exposto, uma hora por dia de reza pessoal e auto
avaliação é a maior oportunidade da vida.
A teshuvá é o melhor presente que um D'us amoroso pode conceder à
humanidade.
Qualquer um que passe sessenta minutos por dia em reza pessoal e auto
avaliação mantém seu "registro espiritual" livre de dívidas.
Com apenas créditos em seu nome, você se torna um recipiente apropriado
para a luz Divina.
Quando Hashem ilumina a nossa alma com Sua esplêndida luz Divina, nos
sentimos profundamente felizes.
Assim, com uma hora por dia de reza pessoal e autoa valiação, podemos
servir Hashem com alegria.

A reza pessoal na prática


Cada um de nós, homem ou mulher, jovem ou velho, deve passar uma hora
por dia fazendo teshuvá - basicamente reza pessoal e auto avaliação.
Escolha a hora que lhe for mais conveniente; muitos preferem de manhã ou
tarde da noite.
De preferência, escolha um lugar vazio, como um quarto, um parque ou um
campo.
O mais importante é que, sem nenhuma interferência exterior, você se sinta
confortável e livre para desabafar com Hashem.
Um bom "aquecimento" é começar agradecendo a Hashem pelas bênçãos
maravilhosas que Ele lhe dá — sua saúde, seu sustento e as roupas que
você veste.
Não pense que tudo isso dura para sempre.
Depois, conte a Hashem tudo que aconteceu em sua vida desde a última
vez que você falou com Ele — não omita nenhum detalhe, especialmente as
coisas que o alegraram e as que o entristeceram.
Agradeça a Hashem por Ele tê-lo ajudado em suas boas ações, confesse
seus erros e se julgue.
Realize um processo de teshuvá de quatro partes: confissão, remorso,
pedido de perdão e compromisso para melhorar.
Ao final, peça a Hashem tudo o que você quiser.
A reza pessoal é garantia de uma vida feliz e significativa.

Os quatro passos da teshuvá


O processo de teshuvá é muito importante para que a breve referência
acima seja suficiente.
É vital memorizar e internalizar os quatro passos do processo; se erramos e
precisamos fazer teshuvá "imediatamente", não precisamos esperar até a
nossa hora diária de reza pessoal.
Pode-se fazer teshuvá em qualquer lugar, exceto no banheiro, no chuveiro
ou em algum outro lugar impuro.
Pode-se realizar os quatro passos da teshuvá no escritório, no metrô ou
enquanto se descasca batatas na cozinha.
Os quatro passos da teshuvá são:
1. Confissão — dizemos a Hashem o que fizemos de errado.
2. Remorso — devemos ficar arrependidos por ter ido contra a vontade de
Hashem.
3. Pedido de perdão — pedimos o perdão de Hashem assim como uma
criança pede o perdão dos pais.
4. Compromisso — nos comprometemos ao máximo a melhorar no futuro e
a não voltar aos velhos hábitos.
A teshuvá diária é o melhor remédio preventivo para sofrimentos e
atribulações, além de ser garantia de felicidade.
Lembre-se desta regra importante: O ietser hará está mais interessado na
tristeza e na depressão que nos imobilizam depois da transgressão do que
na transgressão propriamente dita.
Com teshuvá, desarmamos e neutralizamos o ietser hará.
Em vez de cair em desespero, usamos nosso erro como matéria prima a ser
refinada com teshuvá e o transformamos num degrau que nos aproxima de
Hashem.

Quatro princípios para o julgamento de si mesmo


Há quatro princípios importantes que nos mostram como fazer as nossas
autoavaliações serem mais proveitosas. Hashem quer teshuvá, não
depressão. Devemos nos perguntar sempre: o que Hashem quer? Será que
eu tenho de me desesperar e ficar deprimido porque cometi um pecado? Ele
não preferiria que eu reforçasse meu lado espiritual e fizesse teshuvá? É
claro que sim!
1. Hashem quer que realizemos os quatro passos da teshuvá, como listados
anteriormente.
2. Hashem não nos dá um teste que não possamos superar.
Portanto, não podemos atribuir nossos erros a outra coisa ou a outra
pessoa.
3. Com reza, conseguimos qualquer coisa.
Então, mesmo que seja difícil assumir um compromisso para melhorar,
devemos rezar a Hashem para que Ele nos ajude a ter mais força e a
cumprir a mitsvá com a qual temos problemas.
4. Lembre-se, não merecemos nada!
Não podemos dar como garantido o perdão de Hashem, mas podemos
literalmente implorar que Ele nos perdoe por nossos erros e que nos ajude
no futuro.

Vamos fazer teshuvá!


Os quatro princípios da auto avaliação formam um modelo para o processo
de teshuvá.
Muitas pessoas tentam fazer teshuvá e se decepcionam porque seus
esforços não as tornam tsadikim da noite para o dia.
Então, elas ficam desanimadas e desiludidas e podem acabar no fundo do
poço.
Se seguimos as quatro regras da auto avaliação, chegamos ao progresso
espiritual constante, gradual e seguro que nos levará à nossa completa
felicidade e retificação da alma, neste mundo e no próximo.
Às vezes, um traço negativo de caráter, como o mau-humor, dificulta a
teshuvá.
E quando começamos a fazer teshuvá, nossos maus hábitos e traços
negativos de personalidade vêm à tona.
Isso é na verdade um presente de Hashem, que nos mostra o que
precisamos corrigir.
Com a ajuda dos quatro princípios da auto avaliação, podemos retificar e
melhorar hábitos e traços negativos.
Na explicação a seguir, usaremos o mau-humor como exemplo, mas você
pode aplicar as regras para melhorar o que quiser.

1. Hashem quer teshuvá, não depressão — Toda vez que a nossa


característica ruim nos causa problemas, nos perguntamos: Hashem quer
que eu fique deprimido porque me descontrolei (ou por outra coisa que você
tenha feito de errado)?
Não seria melhor se eu reforçasse meu eu espiritual e fizesse teshuvá?
É claro que sim!
O fato de que estou ciente do meu problema e estou tentando corrigi-lo já é
50% da solução!

2. Hashem não nos dá um teste que não podemos superar — Se Hashem


está testando meu temperamento, isso significa que tenho a capacidade de
melhorá-lo.
Como?

3. Com reza, podemos conseguir tudo — Visto que já estou ciente do


problema, se me volto a Hashem e peço a Sua ajuda, certamente farei
avanços importantes.
Quanto mais eu rezo, mais aprendo sobre emuná; e quanto mais eu tento,
mais conseguirei superar meu mau-humor (ou qualquer outro traço
negativo).

4. Lembre-se, não merecemos nada — Devemos abordar Hashem com


humildade, e não com exigências de recompensas imediatas.
Quando falamos com Hashem modestamente e Lhe pedimos um presente,
nossas orações se tornam muito mais convincentes.
Por exemplo: "Hashem, meu terrível mau-humor é uma barreira que me
impede de servi-Lo adequadamente e cumprir Seus mandamentos; por
favor, me dê a emuná para perceber que tudo vem de Você e tudo é para o
meu bem-estar no final. Então nada no mundo me aborrecerá. Sei que não
mereço esse presente, mas quero servi-Lo melhor, de todo o coração."
Rezas assim não demoram muito a ser atendidas.

Comece a andar!
Um grupo de amigos certa vez fez uma viagem.
No caminho, eles viram um mochileiro parado num cruzamento deserto.
Sete dias depois, a caminho de casa, eles encontraram a mesma pessoa
parada no mesmo cruzamento deserto sob o sol quente.
O grupo de amigos perguntou ao mochileiro: "Por que você está parado
aqui?"
"Quero ir a Jerusalém", respondeu o mochileiro. "Estou esperando uma
carona."
"Há quanto tempo você está esperando?", eles perguntaram.
"Mais de uma semana", ele respondeu.
Os amigos riram.
"Jerusalém está apenas a dois dias de caminhada daqui. Se você tivesse
caminhado, poderia ter ido e voltado quatro vezes!"
Muitos de nós queremos mudar, mas esperamos que isso aconteça
automaticamente, sem esforço de nossa parte.
A vida não é assim.
Um velho ditado hebraico diz: "Até mesmo uma jornada de mil quilômetros
começa com o primeiro passo."
O primeiro passo rumo à teshuvá, à retificação e ao aperfeiçoamento de
caráter é estabelecer uma sessão diária de sessenta minutos de reza
pessoal e auto avaliação.
Quando damos o primeiro passo na estrada do ganho espiritual, Hashem
nos ajuda por todo o caminho.
O Rei David descreve a constante orientação de Hashem na jornada do
aperfeiçoamento pessoal quando diz a Ele (Salmos 73:23): "Estou sempre
Contigo e minha destra sustentas."
Em nossas rezas pessoais mais importantes, pedimos por uma emuná
fortalecida e que Hashem nos faça ver o que precisamos corrigir.
Esses pedidos, juntamente com auto avaliação e teshuvá diárias, invocam
uma iluminação maravilhosa da alma que nos leva à verdadeira felicidade e
paz interior.

Rezando por reza


A reza, especialmente a reza pessoal, não vem facilmente.
Como a reza nos leva para tão perto de Hashem, e toda à retificação da
alma depende da reza, o ietser hará tenta de tudo para impedi-la.
Quando decidimos investir em nossos 60 minutos diários de reza, o ietser
hará nos apresenta uma longa lista de obstáculos e impedimentos.
Portanto, devemos rezar a Hashem para que Ele nos ajude a rezar, para
que nos permita falar com Ele por meio de reza pessoal todos os dias.
Depois que conseguimos estabelecer nossa sessão de reza pessoal, é uma
boa ideia dedicar os primeiros minutos de reza para a reza, assim:
"Hashem, por favor, me dê as palavras com as quais eu possa me
expressar. Ajude-me a pensar com clareza e a verbalizar meus
pensamentos. Ajude-me a agradecê-Lo pelos maravilhosos presentes que o
Você me dá diariamente, e me ajude a me avaliar a mim mesmo e a fazer
teshuvá corretamente. Mais que tudo, por favor, me dê a fé de que o
Senhor está comigo e que o Senhor escuta as minhas rezas."
Qualquer atividade importante começa com reza.
Rezar antes de tudo o que fazemos dá à vida uma doçura indescritível.
Com reza, ganhamos um passaporte para o sucesso.

O segredo da boa vida


O Rebe Natan de Breslav disse: "Onde quer que eu veja imperfeição, vejo
falta de reza!"
A consideração do Rebe Natan é o segredo da boa vida: Visto que a falta de
reza é a causa de nossas falhas, com reza podemos literalmente conseguir
tudo e suprir todas nossas necessidades, materiais e espirituais.
Ainda assim, surpreendentemente, a maioria das pessoas não reza porque
"não têm tempo" para rezar, como na história do príncipe desalinhado e
esfarrapado que dormia no banco de um parque.
Quando um dos ministros do rei o encontrou e perguntou por que ele não
pedia ajuda a seu pai todo-poderoso, o príncipe respondeu que não tinha
tempo...
A pessoa afortunada que descobre o segredo da boa vida não passa um dia
sequer sem rezar.
De fato, aqueles que descobrem o poder da reza não passam algumas horas
sem sentir uma sede de reza.
Quanto mais rezamos, mais próximos de Hashem ficamos.
Quanto mais próximos de Hashem, mais Ele ilumina nossa alma.
Quanto mais Ele ilumina nossa alma, mais felizes nos sentimos.
Esse é o segredo, em suma, da boa vida.

Conclusão
A prática faz a perfeição.
Agora que você leu este estudo uma primeira vez, tente revisá-lo, do
começo ao fim.
Quanto mais você internaliza os princípios da emuná, mais fácil aplicá-los
na vida diária.
A emuná é o eixo em torno do qual o mundo gira.
Quando fortalecemos nosso reconhecimento de que Hashem comanda o
universo, faz tudo para o nosso bem e tem um propósito específico em tudo
que faz - ou seja, Ele nos ajuda a retificar a alma e a nos aproximarmos
dEle -, ficamos mais felizes e temos mais sucesso em tudo o que fazemos.

Que Hashem o abençoe sempre e o ajude a alcançar todos os desejos de


seu coração, amém.

Por: Shalom Arush