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Projeto “ Gestão Transparente de Recursos Sustentáveis” - Reforço de Capacidades da

Sociedade Civil para a Monitorização da exploração dos Recursos Naturais na Guiné-


Bissau.

Diagnóstico da Situação Atual da Gestão de Prospecção e Exploração dos


Recursos Minerais na Guiné-Bissau
Relatório Final

Populares de Varela em protesto Areias Pesadas de Varela

Pedreira de Xitole Sítio de Prospeção de fosfato de Farim

CONSULTOR NACIONAL: Eng.º/MsC. Alexandre Cabral

Financiamento: União Europeia

Bissau, Agosto de 2016

Índice Pag.
Siglas e Abreviaturas..............................................................................................................4
1
Resumo Executivo:.................................................................................................................7
1. Introdução:.......................................................................................................................11
2. Contexto e Justificação:...................................................................................................12
2.1. Contexto Mundial..........................................................................................................12
2.2. Caracterização Sucinta da Evolução da Indústria Mineira Mundial.............................12
3. A Importância dos Minerais no Desenvolvimento Económico-Social de Qualquer País,
sobretudo nos países em desenvolvimento...........................................................................14
4. Contexto Nacional...........................................................................................................14
4.1. Contexto Político do Estudo.........................................................................................15
4.2. Contexto socio-económico............................................................................................16
5. Objectivos:.......................................................................................................................17
5.1. Objetivo do Diagnóstico do sector mineiro encomendado pelo contratante é de:........17
6.Metodologia de Trabalho:.................................................................................................17
7. Analise Estratégica das Opiniões e Avaliação Global do Sector Mineiro.......................18
9. Quadro jurídico e regulamentar em matéria do ambiental:.............................................23
10. População-Alvo nas zonas de incidências dos projetos de mineração ao nível do país:
.24
11. Os Principais Problemas Encontrados:.........................................................................25
12. Luta contra a Pobreza:...................................................................................................25
13. Perspectiva da exploração mineira na Guiné-Bissau....................................................27
14.Perfil Socioeconómico e Localização Geográfica de Cada Zona de Incidência de
Projetos de Mineração..........................................................................................................28
14. 1. Jazigos de Fosfato de Farim:......................................................................................28
14. 2. Identificação do proponente do projeto......................................................................29
15. Condições Socioeconómicas no Local...........................................................................30
16. Situação atual e perspetivas de implementação do projeto fosfato de Farim:................35
17. Areias Pesadas de Varela................................................................................................36
17. 1. Localização Geográfica:.............................................................................................36
18. Quadro Geral:.................................................................................................................38
19. A Zona de Influência do Projeto:....................................................................................38
20. Petróleo..........................................................................................................................45
_Toc463008767
21.1. A exploração e o desenvolvimento de campos petrolíferos – segurança operacional
e impacto ambiental..............................................................................................................46
22. Situação actual de prospecção e eventual exploração de petróleo e gás na Guiné–
Bissau.……………………………………………………………………………………..49

2
23. Pedreiras de Cuntabane e Xitole...................................................................................51
23.1. Pedreira de Cuntabane..............................................................................................51
24. Pedreira de Xitole..........................................................................................................54
25. CAIA: Entidade Promissora Para o Controlo da Aplicação de Leis, Regulamentos,
Acordos Internacionais e Regras de Exploração dos Recursos Minerais............................56
26. A confirmação da relevância das questões relacionadas com o ambiente e a saúde
pública no processo da mineração........................................................................................58
27. A emergência das questões do período post-mina (minas abandonadas e áreas mineiras
desativadas)..........................................................................................................................58
28. Resultado de Análise das Opiniões e Avaliação Global do Sector................................58
29. Responsabilidade...........................................................................................................58
29.1. Transparência nos processos de tomada de decisão sobre a exploração dos recursos
mineiros................................................................................................................................58
29.2 Transparência na gestão das receitas provenientes da exploração dos recursos
mineiros................................................................................................................................58
29.3 No domínio legislativo e regulamentar: a gestão de resíduos sólidos..........................58
30. Conclusões:...................................................................................................................58
31. Recomendações e Propostas de Medidas de Atenuação...............................................58
30.1 Recomendações:...........................................................................................................58
31.1. Principais recomendações:.......................................................................................58
31.2. Propostas de Medidas de Atenuação dos Riscos da parte do Estado e das..............58
32. Exercício prospectivo e de tendências futuras..............................................................58
32.1 No domínio do ordenamento do Território: Legislar, definir áreas de atuação conjunta
e criar ferramentas tais como:..............................................................................................58
32.2 No domínio da prospecção e pesquisa:........................................................................58
32.3 No domínio da atividade económica post-mina: Requalificação para criar novas
utilidades aos sítios explorados:...........................................................................................58
32.4. No domínio ambiental: Mudança do paradigma de abastecimento, para o da
sustentabilidade e aumento da participação cívica:..............................................................58
32.5 No domínio da fiscalidade e incentivos:......................................................................58
33. Bibliografia Consultada……………………………………………………………... 58

Siglas e Abreviaturas

AA -Avaliação Ambiental
3
AAAAC – Alta Autoridade de Avaliação Ambiental Competente
AIAS - avaliação de impacto ambiental e social
ANP – Assembleia Nacional Popular
BM - Banco Mundial
CAIA – Célula de Avaliação de Impacto Ambiental
CCA- Certificado de Conformidade Ambiental
CEDEAO – Comunidade de Estados da Africa Ocidental
CPLP – Comunidade dos países da língua Portuguesa
DCA - Declaração de Conformidade Ambienta
DENARP - Documento de Estrateé gia Nacional de Reduçaã o da Pobreza
EX-URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
FMI – Fundo Monetário Internacional
GTP-IE V – Grupo de Trabalho Petróleo – Indústrias Extrativas
HSE – Saúde e segurança e Ambiente
IBAP – Instituto da Biodiversidade das Aéreas Protegidas
ICMM - Conselho Internacional sobre os minerais e metais
IRC - imposto sobre o rendimento das pessoas colectivas
ITIE - Iniciativa para a Transparência nas Industrias Extrativas
LA - Licenciamento Ambiental
ODM - Objectivos do Desenvolvimento do Milénio
OSC- Organizações da Sociedade Civil
PF- Ponto Focal
PGBZC-GB-Projeto Gestão da Biodiversidade da Zona Costeira da Guiné-Bissau
PNLC – Parque Nacional de Lagoas de Cufada
PNTC - Parque Nacional de Tarrafes de Cacheu
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
RGPH – Recenseamento Geral da população Habitação
RSE -Responsabilidade Societal das Empresas
SEA – Secretaria do Estado do Ambiente
SWISSAID _Fundação Suíça para o Desenvolvimento
UEMOA - União Econômica e Monetária do Oeste Africano
UICN – União Internacional da Conservação da Natureza

4
Listas de Quadros
Quadro n.º: 01-Um mundo em mudança!...........................................................................13
Quadro n.º: 02-Matriz SWOT.............................................................................................18
Quadro n.º : 03-Leis e Decretos pertinentes....................................................................... 23
Quadro n.º: 04-Identificação do proprietário do projeto.................................................... 29

Responsabilidades

«Este documento foi elaborado com a participação financeira da União


Europeia. O seu conteúdo é da responsabilidade exclusiva da Tiniguena, não
podendo, em caso algum, considerar-se que reflete a posição da União
Europeia».

5
Lista de Figuras
Figura n.º: 01- Mapa de Localização do Projeto…………………………………………28
Figura nº: 02-Zona de influência do Projecto…………………………………………….29
Figura n.º : 03-Área do local do porto e estrada de acesso.................................................29
Figura n.º : 04- Mapa de Localização da Parcela 12.......................................................... 37
Figura n.º:05-Localização Autorizada……………………………………………………34
Figura N.º : 06 - Guiné-Bissau, está vivendo ainda o início da sua economia mineira......43
Figura N.º: 07- Reunião de Sensibilização com população de setor de Boé......................44
Figura N.º: 08 - Mapa Físico do Arquipélagos dos Bijagós................................................46
Figura n.º : 09 – Mapa de Sector de Quebo........................................................................51
Figura n.º :10- Mapa de Situação Antes do projeto .……………………………………54
Figura n.º :11 -Situação atual de Exploração……………………………………………..54
Figura n.º:12 - Mapa de Localização da Pedreira Guinepedra…………...………………55

6
Resumo Executivo:

A economia da Guiné-Bissau é baseada no sector primário (agricultura, silvicultura,


pesca, etc.). O país tem uma variedade de ecossistemas ricos em biodiversidade que
contribuem para o bem-estar da sua população, em que 70% vive em áreas rurais. Durante
dez últimos anos, as autoridades nacionais procuram desenvolver projetos de exploração
offshore do petróleo nos diferentes blocos da ZEE e outros minérios tais como: fosfato,
bauxite, areias pesadas de varela (ilmenite etc.) e pedreiras). O desenvolvimento da
mineração criou um monte de expectativas e é um dos temas da atualidade, como um meio
para lutar contra a pobreza relativa de 62% da população. Uma das soluções propostas nas
políticas públicas por meio do Plano Estratégico “Terra Ranca” 2015-2020 do Governo
da República da Guiné - Bissau, apresentado na mesa redonda em Bruxelas em Março de
2015, onde a mineração é considerada como uma alavanca para o crescimento económico e
luta contra a pobreza e constitui o quarto motor de crescimento económico do país. No
entanto, a mineração como tal, levanta sérias ameaças aos ecossistemas ricos e
diversificados do país. O equilíbrio entre a exploração dos recursos naturais (minerais)
para sustentar o crescimento económico e a preservação do que pode ser encontrado e
garantido através de um aprofundamento do conhecimento sobre os impactos ambientais
potenciais resultantes de suas operações. O quadro regulamentar está ainda incompleto no
país e o acesso à informação muito limitado.

Decisões políticas tais como: integração em redes internacionais que lidam com o uso
criterioso do petróleo; organizando muitos cursos de formação para as comunidades locais,
organização duma conferência nacional e reconhecimento oficial do GTP-IE, OSC e
eventual abertura de um Guichet/ Comissão da boa vontade entre os principais atores
junto á CAIA através da assinatura de um Memorando de Entendimento ou protocolo de
acordo entre as partes envolvidas(1), podem melhorar sobre maneira a aplicação do quadro
legal e regulamentar do sector de minas e facilitar a monitorização (seguimento e
avaliação) dos processos de mineração por parte das Organizações da Sociedade Civil
Guineense (OSC).
No entanto, ainda há muito a fazer para enfrentar o lobby junto ao poder político, por
forma a sensibilizar os políticos, governantes e as empresas estrangeiras. Assim, as
metas para esta nova fase são: o reforço das capacidades dos atores locais, o reforço da
interface entre as organizações da sociedade civil guineense e o Estado para permitir
um diálogo mais construtivo e transparente. O aprofundamento do conhecimento sobre
as indústrias de mineração e ou extrativas, um maior envolvimento dos políticos,
1
- (GTP-IE com o Ministério dos Recursos Naturais e com a estrutura governamental encarregue do ambiente)
7
parlamentares, atores concernentes e comunidades locais diretamente afetadas ou
através das suas representações, sinergias e estabelecimento de intercâmbio sobre boas
práticas entre os diferentes atores na sub-região africana e melhoria do quadro legal e
regulamentar para o sector mineiro 2.
O desenvolvimento do sector mineiro durável, deve basear – se fundamentalmente e em
partes, em alguns princípios fundamentais da Responsabilidade Social e Societal das
Empresas, que devem ser aplicados em todos os segmentos da sociedade, para todos os
seus atores, se queremos realmente, ir em direção de uma emergência económica no nosso
país e em particular, rumo a um desenvolvimento do sector minero durável.
Temos que desenvolver programas nacionais de promoção da Responsabilidade Societal
das Empresas (RSE) e do Desenvolvimento Durável, que terá como públicos-alvo, todos
os atores sócio – económicos da nossa sociedade, em particular e as partes concernentes
das Empresas. Estes programas nacionais, visarão a apropriação por parte destes atores,
dos princípios seguintes:

1º - O princípio de transparência. É de louvar as diligências de alguns países da nossa Sub


– Região pela implementação no sector mineiro, de um secretariado dedicado á Iniciativa
para a Transparência nas Industrias Extrativas (ITIE);
2º - O princípio de respeito pelos interesses e daquilo que as partes concernentes esperam
do processo, o que necessariamente implica a melhoria da qualidade do diálogo
multidisciplinar, particularmente no sector mineiro ou conquistar uma confiança das
comunidades locais (populações locais) em relação as Empresas mineiras;
3º - Terminarei com um princíp-io que me toca no fundo do meu coração, que é
particularmente, as perdas de valores constatadas na sociedade. Trata – se da ética nos
comportamentos individual e colectivo, que tem sempre um impacto negativo nos sistemas
de governança pública e privada.
Em segundo lugar, é preciso partilhar dentro do quadro dos dispositivos que devem ser
criados, ao longo do processo de mineração, que são: a RSE e DD. Esta iniciativa privada
já criada em vários países da nossa Sub – Região africana em 2008 e gravita, a volta de
uma visão e de valores a saber:
 A visão de uma África Ocidental que não se desenvolve e nem desenvolverá, sem
uma valorização de seus recursos locais, a saber uma valorização do capital
humano e sobretudo uma transformação industrial local de suas riquezas naturais,
particularmente a agroalimentar, agro -florestas e igualmente mineral;
2
- Fonte: Promotion des Bonnes Pratiques sociales et environnementales dans les secteurs pétrolier et
minier en Guinée Bissau - GTP-IE V – SWISSAID

8
 Os valores partilhados, exigem a durabilidade e a perenidade de uma parceria
ativa e dinâmica entre as empresas e as partes concernentes.
Empresas e organizações internacionais fizeram estudos e prospeção dos recursos mineiros
do país durante os últimos 40 anos. Desde os anos 2000, investidores estrangeiros
assinaram contratos de prospeção com o governo guineense.

a) Petróleo Offshore no Arquipélago: As empresas estrangeiras estão em diferentes fases


de desenvolvimento dos projetos petrolíferos desde uma fase inicial de negociação dos
termos de colaboração com o Governo guineense, a uma fase intermédia de algumas
empresas que já fizeram levantamentos e estão a analisar os dados e até a uma fase
mais avançada de preparação dos primeiros furos. A Petroguin acredita que é possível
fazer uma exploração responsável do petróleo e está preocupada com os impactos
potenciais. Segundo a CAIA, a empresa Kesnad está a preparar um estudo de
referência e já entregou uma proposta de TDR para esse estudo para validação na
CAIA.

b) Jazigo de Fosfato Farim: o potencial é estimado em cerca de 100 milhões de


toneladas com teor de fosfato 30%. A empresa GB Minerals SA (com sede na Suíça)
tenta reiniciar o projeto e está a considerar a exploração de fosfato muito em breve.
Um estudo de impacto ambiental está em andamento, no entanto, os TDR já foram
discutidos com o governo e aprovados. A exploração de fosfato é a priori complexa
dado que as reservas do minério se encontram em zonas húmidas e saturadas com água
de extração difícil, do ponto de vista técnico. O fosfato está a 40 metros de
profundidade. Pela primeira vez, uma parte das receitas da licença de arrendamento
mineiro foi afetado pelo Ministério dos Recursos Naturais para o desenvolvimento da
Região de Oio num montante de 57 milhões de FCFA.
c) Jazigo de bauxite Boe: o potencial é estimado em cerca de 113 milhões de toneladas de
bauxite com teor de alumínio de 44,9%. A empresa Bauxite Angola está atualmente em
fase de paralisação temporária. A faixa foi inaugurada recentemente entre a aldeia de
Beli e o local da futura mina. Um projeto para construir um porto em águas profundas
no Rio Grande de Buba também é preparado para permitir a exportação de bauxite. A
exploração e a exportação da bauxite suscitam várias preocupações ligadas às
consequências para as áreas protegidas terrestres de Boé e Dulombi em processo de
criação e o Parque Natural das Lagoas de Cufada (PNLC) onde está previsto construir o
porto de águas profunda no rio Buba.
Depósito ilmenite Varela (mineral composto de óxido de ferro e titânio): Estas areias
ricas em metais, pesados, são atualmente prospetadas por uma empresa SARL POTO
russa que ordenou um estudo de impacto ambiental e social e obteve em 2013 uma
licença de exploração, com a condição de que os planos de gestão ambiental e social
devem ser elaborados e implementados como tal, conforme recomendado no relatório
de EIA. A declaração de conformidade ambiental (DCA) que foi atribuída a empresa
9
tinha autorizado a instalação dessa empresa para um prazo inicial de um ano, com a
condição de elaboração/preparação e implementação dos 14 programas identificados
no Plano de Gestão ambiental e Social e, consequentemente, implementar as medidas
de atenuação de impactos negativos, compensação e/ou indemnização e de
acompanhamento previstas no plano. Entretanto, a licença inicial de um ano tinha
expirado em 19/04/ 2014, a empresa não voltou a receber a 2ª declaração de
conformidade ambiental visto que não cumpriu as condições impostas nessa DCA
relacionadas com as medidas de atenuação constantes no plano de gestão ambiental e
social, apesar de ter iniciado a exploração do mineral, em 2016, tendo declarado a
exportação de 500 toneladas, para além de tantas outras quantidades retidas em
contentores pelas autoridades.
Consta, porém, que, até a data da elaboração do presente relatório da Tiniguena (Maio
de 2016), a empresa já tem na sua posse a segunda DCA, As operações foram de novo
suspensas devido a ação judicial a que a empresa foi alvo no mesmo ano por
incumprimento dos procedimentos legais exigido pela lei guineense.

Estes projetos de mineração e petróleo estão em diferentes graus de desenvolvimento.

10
1. Introdução:

No quadro de implementação do Projeto “ Gestão Transparente – Recursos


Sustentáveis” - Reforço de Capacidades da Sociedade Civil para a Monitorização da
Gestão de Prospecção e Exploração dos Recursos Naturais, gerido pela Tiniguena e
financiado pela EU, foi realizado este diagnóstico sobre estado atual da situação de
prospecção e exploração dos recursos minerais e petróleo do país. O referido diagnóstico,
foi realizado particularmente nas regiões de Cacheu, Oio, Bafatá, Gabú, Tombali e Bolama
Bijagós, incluído a cidade de Bissau com as instituições públicas, privadas e algumas
organizações da Sociedade Civil e personalidades independentes diretamente implicadas,
nas questões ligadas a: Areias Pesadas, Fosfato, Bauxite, Pedreiras e Petróleo.

A mineração é um dos sectores importante e que pode sustentar a economia de


qualquer país, sobretudo os mais pobres, contribuindo de forma decisiva para o bem-
estar e a melhoria da qualidade de vida das populações e em particular das
populações locais, na perspetiva de construção de um desenvolvimento local
equânime, desde que seja operada com responsabilidade ambiental e social, estando
sempre presente os preceitos do desenvolvimento sustentável.

Para isso, deve haver instrumentos técnicos e jurídicos que possam orientar a exploração
dos mineiros, incentivando o uso das Boas Práticas na exploração das indústrias extrativas
e também, através do respeito e cumprimento rigoroso das leis, regulamentos, convenções
internacionais e protocolos que versam sobre a exploração responsável e duradoura dos
recursos extrativos.

Também é verdade que o método de exploração a céu aberto causa evidentemente impactos
consideráveis no ambiente biótico e abiótico, altera intensamente as áreas de exploração e
as zonas de influências, onde são feitos os depósitos de estéreis e de rejectos/resíduos.
Pode-se agravar mais, quando se utiliza substâncias químicas nocivas nas fases de
exploração e transformação do minério. Daí que é urgente estudar as diferentes fontes de
emissão dos impactos e propor medidas de atenuação/mitigação, compensação e de
acompanhamento e ainda, um efetivo programa de monitorização sistemático com vista a
reduzir as incidências dos impactos na qualidade do ambiente e na saúde humana.
Entretanto, as empresas, enquanto detentoras do direito de prospectar e explorar os
recursos minerais, devem respeitar escrupulosamente o quadro jurídico e legal guineense
e só nestas condições, podem implementar os projetos de prospecção e exploração de

11
jazigos de fosfato, Bauxite, Petróleo, Pedreiras, Areias Pesadas e outros mineiros na Guiné-
Bissau.

Com efeito, no presente trabalho de diagnóstico, pretende - se analisar a situação atual e as


formas como estão sendo geridos os processos de prospecção e de exploração dos recursos
minerais, no país, tendo em vista a necessidade de facilitar a participação das organizações
da sociedade civil (OSC) nos processos de seguimento e avaliação da prospecção e
exploração dos recursos naturais extrativos em geral, particularmente os minerais,
pedreiras e petróleo no presente caso.

2. Contexto e Justificação:
2.1. Contexto Mundial
2.2. Caracterização Sucinta da Evolução da Indústria Mineira Mundial

A globalização repercutiu-se na indústria mineira mundial, que teve que acompanhar a


mudança que se verificava nas relações económicas e geopolíticas internacionais. No
Ocidente, embora a indústria mineira tivesse já uma longa tradição de operação em
mercados abertos, a liberalização económica veio tornar acessíveis ao investimento
mineiro muitos novos países e regiões, quer na prospecção, quer na exploração de recursos
minerais, embora a ausência de infraestruturas, a rigidez administrativa e a insuficiência
das garantias jurídicas dos direitos mineiros, constituam sérios obstáculos à rápida
concretização destas oportunidades. A globalização das comunicações e da informação
veio acelerar espetacularmente a velocidade de difusão das atividades e experiências,
mesmo em áreas remotas. A emergência de valores globais, de certo modo consequência
dessa globalização das comunicações e da informação, veio estabelecer uma densa rede de
interdependências e a percepção de que qualquer mudança num país pode ter implicações
económicas, sociais e ambientais em todos os outros. Contudo, foi a consolidação dos
valores ambientais aquela que teve maior impacte na indústria, embora alguns admitam
que a recente emergência de valores socioculturais possa ter, ainda, um maior impacte no
futuro. A generalidade dos países que consideram os recursos minerais um elemento
relevante do seu modelo de desenvolvimento sentiu a necessidade de modernizar e tornar
mais competitivas as suas economias o que desencadeou a nível mundial uma onda de
modernização do enquadramento legislativo e regulamentar, de grande amplitude, e cujos
efeitos se irão fazer sentir por um período dilatado.
Como tendências dominantes na atração do investimento, assistimos ao crescimento do
interesse pela América Latina, em resultado de um processo generalizado de abertura das
suas economias e à "desnacionalização" e privatização da sua indústria mineira,
enquanto que no Canadá, Austrália e Estados Unidos, os regulamentos ambientais e os
direitos dos povos autóctones constituíam, cada vez mais, um fator condicionante das
12
decisões e repulsivo do investimento, elevando o limiar do jazigo economicamente
explorável. Alguns começam já a olhar para a África como o continente da próxima
década. Este processo desenvolveu-se também no plano europeu e traduziu-se no
encerramento de inúmeras minas metálicas e na reestruturação do sector carbonífero,
iniciado ainda na década de oitenta. Como consequência deste processo a produção mineira
metálica encontra-se reduzida a alguns países com mais forte vocação e potencial mineiro,
caso da Suécia, Finlândia, Irlanda, Espanha, Grécia e, claro, Portugal. Contudo, a produção
não metálica não parou de crescer, revelando mesmo uma dinâmica económica muito
apreciável.

Também a reciclagem de metais e outros produtos minerais, guiado por razões ambientais
ou de simples competitividade económica, tem vindo a alterar consideravelmente o quadro
de evolução da indústria, pois reduz a procura de matérias-primas primárias e altera os
padrões de produção e consumo.

A alteração das condições do exercício da atividade pode sintetizar-se do seguinte modo.

Quadro n.º: 01-Um mundo em mudança!


Anos 80 Anos 90 F
Globalização/hegemonia da economia de on
Liberalização mercado te:

Macroeconomia
Desestatização da economia
Privatização
Descentralização

Papel dos Governos Operador Regulador


no sector mineiro Detentor de ativos Administrador de direitos
Sector Privado Observador nas economias emergentes Principal investidor
Importância crescente das ONG´s
Ambiente Emergência/aceitação
Integração
Aspetos sociais Pouco ou nada relevante Emergência/aceitação
Adaptado de van der Veen, Peter, 1999, "Attracting Private Sector Investment in Mining: what Governments can do",
intervenção do representante do Banco Mundial na EU-Russia Workshop on Restructuring and Inprovement of the
Investment Climate in the Mining and Raw Materials Sector, Bruxelas.

13
2.3. A Importância dos Minerais no Desenvolvimento Económico-Social de Qualquer
País, sobretudo nos países em desenvolvimento.

A extração e transformação de substâncias minerais é essencial ao desenvolvimento e bem-


estar das sociedades contemporâneas. Nomeadamente, a atividade de determinados
sectores da indústria transformadora de um país depende da capacidade de obtenção de
matérias-primas minerais, seja pela sua aquisição no mercado internacional, seja pela
utilização dos recursos do território nacional. Se tivermos presente que determinadas
matérias-primas têm limitado valor unitário e, por esta circunstância, as indústrias suas
utilizadoras têm a sua competitividade condicionada pelos custos de transporte,
concluímos que a estrutura industrial pode estar fortemente influenciada pelos recursos
minerais disponíveis, determinando padrões de especialização produtiva que tendem a
manter-se, mesmo quando se verificam alterações substanciais na oferta de matérias-
primas.

Como modelo global é reconhecida a maior importância dos recursos minerais metálicos
nos países menos desenvolvidos, os quais são predominantemente exportados para os
países industrializados. À medida que o país se desenvolve e o seu tecido produtivo
industrial se diversifica, a necessidade de minerais não metálicos aumenta, ultrapassando
em valor absoluto a dos minerais metálicos. Nos anos mais recentes tem-se, contudo,
assistido à tendência crescente para a deslocalização das metalurgias para os países
detentores das matérias-primas primárias, seja por efeito da banalização das tecnologias,
seja por pressão económica decorrente da necessidade de respeitar padrões ambientais
crescentemente exigentes e com impacte direto na economia das operações.3

2.4 Contexto Nacional

Guiné-Bissau é um país costeiro na África Ocidental com uma área de 36.125 km2. De
acordo com o Recenseamento Geral da População e Habitação de 2009, a população
estimada é de 1.449.230 habitantes. A taxa de crescimento da população é de 2,54%. A
economia do país é baseada na agricultura e exploração dos ecossistemas naturais (pesca,
madeira, produtos florestais lenhosos e não lenhosos, mangrove/mangal, etc.). O sector
agrícola ainda é dominado por monocultura de caju e uma produção ínfima do algodão,
amendoim, arroz e tubérculos.

Numa lógica de diversificação económica e o desenvolvimento do potencial de mineração,


mas também o crescimento económico, os sucessivos governos desde a década de 2.000
3
Fonte: Adaptado de van der Veen, Peter, 1999

14
lançaram as bases para incentivar a exploração de recursos minerais e do petróleo como
forma para sustentar as receitas fiscais e criar empregos. Assim sendo, vários projetos de
prospecção e exploração de recursos minerais e do petróleo estão previstos e alguns estão
em vários estágios de desenvolvimento.
No âmbito da globalização e da integração regional, a Guiné – Bissau é obrigada a aceitar
as regras do jogo a favor da conservação e utilização durável dos recursos do ambiente,
para um desenvolvimento económico e social sustentável. Portanto, o licenciamento
ambiental, torna – se cada vez mais uma necessidade obrigatória para os projetos de grande
envergadura, em toda a humanidade, a favor da durabilidade ou sustentabilidade da vida no
planeta Terra. Ele é um processo administrativo no qual, a autoridade pública competente,
na gestão ambiental, controla as ações antrópicas sujeitas a acarretar os efeitos negativos
no ambiente e consequentemente na saúde pública.

3.7 Contexto Político do Estudo


Da ascensão à Independência a esta parte, o país conheceu sempre momentos mistos de paz
de pouca duração e de instabilidade quase permanentes. O mais marcante dos períodos
difíceis da sua história é a paralisação registada na segunda metade da década de noventa
do século transacto devido ao conflito político-militar. Não obstante, e decorridos já um
pouco mais de uma década, o país não foi capaz de superar a instabilidade política gerada
pelo referido conflito. O permanente clima de incerteza política, a sucessão de governos
com período de vida que não excedia dois anos, resultaram na incapacidade de dar
continuidade às políticas e aos programas do Governo. Um dos principais problemas
resulta do facto de que o poder político não consegue exercer as suas funções em pleno
porque o estado democrático, que nasce das urnas, é tutelado pelo poder militar e
caracterizado por renhidas disputas de interesses pessoais que desembocam em profundas
crises internas e externas dos partidos no poder.
Enquanto esta amarga realidade perdurar não há garantias da continuidade do exercício
efetivo do sistema político e, por conseguinte, da consolidação das bases do Estado
democrático, pleno e credível, que se quer construir.
A realização do recenseamento (RGPH3) ocorre durante o intervalo que separa duas
eleições – as eleições Legislativas e as Presidenciais que tiveram lugar em 2008 e no
segundo semestre de 2009, respectivamente.
Por conseguinte estes actos são, a tradução inequívoca do percurso democrático que visa o
resgatar das instituições e, através disso, dar passos com vista a consolidação da ordem
administrativa e constitucional. Contudo, a leveza e fragilidade do contexto político
continuam a ser uma realidade aparente.

15
Apesar desses acontecimentos de ordem política, os países da nossa comunidade assente na
língua, a CPLP e demais parceiros, nomeadamente os da CEDEAO e internacionais, quiçá
relutantes pelo impacto dos efeitos corrosivos dos acontecimentos internos, aliados aos
grandes problemas que afectam negativamente o mundo (crises económico-financeira e
ambiental e que marcam a agenda política internacional), não deixaram de encorajar as
autoridades e de exercer ações de apoio em áreas e domínios onde as dificuldades mais se
fazem sentir para que o pais possa, de forma efectiva, retomar a normalidade constitucional
e democrática.

2.6. Contexto socio-económico


A fase que se vive teve o seu início em 1986 após o abandono daquela marcada por
políticas de economia centralizada, em que o Estado era, concomitantemente, o regulador e
o principal agente económico do sistema.
Decorridas quase duas décadas que, na memória colectiva, ficaram sobretudo gravadas
pelo acumular de insucessos das políticas económicas, o país parece capitalizar os
elementos positivos das experiências vividas. Assim, e após um longo período de recessão
no inicio da década, seguido de uma ligeira recuperação em 2006, a economia do país entra
numa nova dinâmica de crescimento a partir de 2008. Por conseguinte, apesar do ambiente
interno e externo desfavorável, comparativamente aos anos 2006 e 2007, a taxa de
crescimento foi de 3.2% em 2008 e 2009. Porém, ela fica abaixo de 5% inicialmente fixada
como meta pelo 1º DENARP.
Por o contributo de determinados sectores da economia na formação do PIB ser pouco
expressivo, este crescimento da economia (3.2%) foi impulsionado, duma forma
acentuada, pela Agricultura que cresceu em 6.3% em 2009. Deste ramo de atividade
destaca-se a produção de castanha de caju, cuja exportação, apesar da sua queda do seu
preço no mercado internacional, sofreu aumento significativo. Ainda sobre o caju, deve
referir-se que o país é o seu 5º produtor mundial, o que lhe confere benefícios financeiros e
consequentemente a melhoria da sua situação interna e externa.
À par da razoável performance de ordem macroeconómica, o país, socialmente visto,
apresenta um quadro negro. A maioria da sua população vive na pobreza. Aliada a esta
realidade, e apesar de todos os apoios e esforços despendidos com vista a melhoria do seu
quadro social e humano, o mesmo dá sinais claras de que, em 2015, não ia atingir nenhum
dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODM).
O apoio dos parceiros, nomeadamente das instituições financeiras no quadro da UEMOA,
BM, FMI e outros, permitiu ao Governo dar início o programa de relançamento de
investimentos públicos e ao pagamento dos atrasados de dívida ao sector privado. O
16
exercício destas ações de investimento, ao permitir determinadas realizações,
designadamente reabilitação e extensão da rede eléctrica, construção e reabilitação de
estradas e pistas que dão acesso as zonas de produção e aos países limítrofes, tem
repercussões sociais diretas. Ou seja, todas essas ações podem, seguindo a lógica de que os
cidadãos é que fazem o país real, servir para potenciar a população para que o seu acesso à
atividades geradoras de rendimentos seja, cada vez mais, uma realidade e, por conseguinte,
a base do seu conforto e bem-estar.4

3. Objectivos:

3.1. Objetivo do Diagnóstico do sector mineiro encomendado pelo contratante é de:


Contribuir para o maior conhecimento da situação atual do sector, quanto a aplicação das
leis, regras, regulamentos, aplicação de boas práticas, cumprimento rigoroso da
interdependência institucional e a montagem de uma estratégia de monitoramento e
seguimento por parte das organizações da sociedade civil.

3.2. Objetivo Específico: Facilitar o processo de elaboração de estratégia da intervenção


das Organizações da Sociedade Civil em monitoria e seguimento da implementação efetiva
das políticas públicas e das Leis no sector minério.

4.Metodologia de Trabalho:

O consultor nacional encarregue de realizar o diagnóstico no sector mineiro, no âmbito do


Projeto acima referenciado, utilizou uma abordagem metodológica fundamentada nos
critérios dos trabalhos científicos, que contempla uma revisão bibliográfica aprofundada
nos estudos de caso e de levantamentos no terreno (entrevistas semiestruturadas e captação
de imagens). O levantamento foi efetuado com o recurso às fontes primárias e secundárias.
Portanto, nas fontes primárias procedeu-se aplicação de entrevistas semiestruturadas com
as OSC, empresas privadas, ANP, Governo Central e Regional, comunidades locais por
forma a confrontar e cruzar opiniões de diferentes atores.
Nas fontes secundárias o levantamento abrange a consulta documental, normas
internacionais e pesquisas em diferentes endereços da internet (web sites).

Os dados e informações recolhidos no terreno foram organizados e tratados nos textos do


relatório preliminar portanto, não é apenas um diagnóstico descritivo, mas também
analítico com uma combinação de critérios qualitativos e quantitativos na perspetiva de
levantar com exatidão os principais constrangimentos e propor medidas eficazes e

4
Fonte: CENSO de (RGPH-2009) - INE

17
exequíveis para a sustentabilidade ambiental e social na exploração das minas. Foi possível
produzir fotografias e mapas em escalas adequadas para ilustrar de forma efetiva as
componentes que caracterizam o ambiente abiótico e biótico.

1 Diagnóstico Participativo:

O diagnóstico foi feito na base dos seguintes critérios:


O consultor desenhou uma fase de diagnóstico participativo e inclusivo de acordo com as
possibilidades e os recursos disponíveis. Decidiu visitar as bases das Empresas/projetos
mineiros em todo o território nacional, donde falou com alguns técnicos dos projetos e
representantes das comunidades locais, considerando os seguintes aspetos cruciais:

 Culturas e as tabancas que compõem a área de incidência do projeto;


 Representnates de jovens e homens grandes (sobre projeto de
prospecção/exploração).
 Com as ONGs e as associações comunitárias locais.
 Com o poder tradicional e político instalado.
Com associação das mulheres.

5. Analise Estratégica das Opiniões e Avaliação Global do Sector Mineiro.

Quadro n.º: 02-Matriz SWOT


 Infraestruturas rodoviárias em péssimas
 Florestas condições ou inexistentes;
 Comunidades locais  Falta de uma boa sintonia entre Empresa/
predisponíveis projeto, a população e governos regionais;
Força  Infraestruturas locais em  Não aplicação das normas, leis, regulamentos e
estado avançado de políticas públicas;
s: Fraquezas:
degradação  Falta de controlo, seguimento e avaliação
 Existência de um técnica dos processos de mineração;
potencial mineiro  Falta de informação e sensibilização das
 Existência atores e comunidades locais;
parceiros  Falta de transparência no processo de
 Recursos humanos mineração;
disponíveis mal preparados,  Falta de recursos humanos preparados para
neste caso específicos de assumir suas responsabilidades no processo;
mineração  Contractos pouco claros etc…
 Insuficiência de infraestruturas sociais e em
mau estado físico em todos sectores, onde
ocorrem as prospecções/exploração de minas

18
 Emprego jovem;
 Desastres ambientais e  Construção de infraestruturas hospitalares;
sociais;  Construção de infraestruturas de
Amea
 Riscos de inviabilidade Educação;
ças ou dos projetos; Oportunid  Construção de Pistas Rurais;
Barrei  Incapacidade do ades:  Construção de furos melhorados de água que
Governo central poder funcionará a base de painéis solares
ras:
controlar o processo de  Melhoria de qualidade de vida das populações
mineração; locais e das áreas circundantes;
 Potenciais Conflitos  Melhoraria das condições económicas do
generalizados; país;
 Pobreza absoluta no país;  Desenvolvimento Sustentável do país.
 Subdesenvolvimento
permanente.

Matriz SWOT Forças Fraquezas


MAX - MAX MAX – MIN
Ter as oportunidades a partir de
Oportunidades ajuda de força
Compensar as fraquezas com apoio do
projeto/comunidade local através da
aplicação do pacote legislativo e
regulamentar
MAX - MIN MIN – MIN
Superar as ameaças com ajuda da Contornar as ameaças, compensando as
Ameaças ou Barreiras do projeto/comunidade local e fraquezas na zona de incidência do
aplicação das regras, leis e projeto e nas comunidades locais
regulamentos

MAX - máximo
MIN - mínimo

6. Panorama Atual de Atividade de Mineração no País:


6.1. Problemáticas e desafios da exploração responsável dos recursos mineiros

A Guiné-Bissau possui vários recursos mineiros entre os quais se destacam o jazigo de


fosfato em Farim, o jazigo de bauxite em Boé, as areias pesadas (ilmenite, zircão e rutilo)
de Varela e o petróleo offshore nos diferentes blocos da ZEE. Empresas e organizações
internacionais fizeram estudos e prospecção dos recursos mineiros do país durante os
últimos 40 anos. Desde os anos 2000, investidores estrangeiros assinaram contratos de
prospecção com o governo guineense. As perspectivas de exploração dos recursos mineiros
criam muitas expectativas positivas para a economia do país em termos de receitas
públicas, de dinamização da economia e de criação de emprego. Ao mesmo tempo a
conclusão da avaliação das indústrias extrativas realizada em 2004 ao nível internacional

19
pelo Banco Mundial merecem ser consideradas quando se pretende começar a exploração
dos recursos mineiros da Guiné-Bissau:

“O petróleo, o gás e as minas falharam na maioria dos casos em ajudar as pessoas mais
pobres dos países em desenvolvimento, e muitas vezes essas indústrias tornaram pior ainda
a vida das pessoas mais vulneráveis. Muitos estudos confirmam que os países que
dependem em primeiro lugar das industrias extrativas têm tendência de ter níveis
superiores de pobreza, mortalidade infantil, guerra civil, corrupção e ditadura do que os
países que têm uma economia mais diversificada. Será que isso significa que as indústrias
extractivas nunca podem jogar um papel positivo na economia de um país? Claro que não;
isso somente significa que existência de um efeito positivo é unicamente possível quando a
Governança democrática de um país desenvolveu-se de uma forma suficiente para que os
mais pobres possam beneficiar do aparecimento desse sector. Estudos demostram que o
desenvolvimento das industrias extrativas piora as condições de vida dos mais pobres
quando não há uma boa Governança baseada numa liberdade de imprensa, de uma justiça
funcional, do respeito dos direitos humanos, da realização de eleições justas e
transparentes, do respeito do estado de direito...” 5

Essas lições tiradas do desenvolvimento das industrias extractivas em outros países


explicam em parte porque muitos atores estão preocupados com os projetos de exploração
mineira e petrolífera na Guiné-Bissau. A falta de circulação de informação e de
transparência sobre esse sector também alimentam a desconfiança e as especulações das
partes.

Muitos atores encontrados e sobretudo as populações vivendo nas zonas onde está prevista
a exploração mineira, estão particularmente preocupadas com a gestão dos impactos
sociais e ambientais e com a forma que os benefícios e as receitas serão geridos e
investidos.

No que concerne os impactos ambientais e sociais, os projetos de exploração mineira e


petrolífera são normalmente obrigados a respeitar a lei e a realizar estudos independentes
de avaliação de impacto ambiental e social (AIAS) sob a supervisão da Célula de
Avaliação de Impacto Ambiental – CAIA – que depende da Secretaria de Estado do
Ambiente. A obtenção de uma licença ambiental está sujeita à aprovação do estudo de
AIAS, à realização de Audiências publicas e ao engajamento do promotor do projeto em

5
Fonte: Apresentado no "1º Colóquio de Jazigos minerais metálicos de Portugal",
Academia das Ciências de Lisboa, 26 de Outubro de 1999.
20
implementar o Plano de Gestão Ambiental e Social (composto de medidas de atenuação,
compensação e indemnização). A abertura de uma mina implica muitas vezes a deslocação
de populações, a destruição da cobertura vegetal e das formações florestais, o
desaparecimento da fauna selvagem, a perda de terras agrícolas e por vezes a degradação
do ambiente com a diminuição dos recursos hídricos ou mesmo a poluição do ar, das águas
e dos solos.

No que concerne a gestão das receitas das industrias extractivas, a geração que terá
oportunidade de explorar os recursos mineiros da Guiné-Bissau terá uma enorme
responsabilidade perante as gerações vindouras porque esses recursos não são renováveis
(a contrario dos recursos florestais e haliêuticos por exemplo) e só será possível explorar
essas reservas uma vez (durante 30, 50 ou mesmo 100 anos até esgotar) e as receitas
deverão ser bem investidas para o bem-estar das gerações atuais e sobretudo as vindouras.
Uma boa governança dos recursos mineiros implica a adesão aos princípios de
transparência e rastreabilidade dos fundos proveniente das industrias extractivas para que a
população seja capaz de saber os montantes recebidos e os investimentos realizados com
esses fundos. Todos os projetos mineiros estão ainda ao nível da prospecção e o único sítio
onde a exploração já começou concerne as areias pesadas de Varela.

As areias pesadas (ilmenite, zircão e rutilo) de Varela são exploradas pela empresa russa
POTO Sarl. A empresa conseguiu obter uma declaração de conformidade ambiental depois
de ter realizado uma avaliação de impacto ambiental e social (AIAS) com audiências
publicas. Essa declaração de conformidade ambiental autoriza a instalação da empresa para
um prazo de um ano com a condição de implementar as medidas de atenuação e de
compensação previstas no Plano de Gestão Ambiental e Social. A CAIA lamenta o facto
que até hoje nenhuma medida prevista no Plano de Gestão Ambiental e Social foi realizada
o que invalida a licença ambiental para a exploração desse sitio mineiro.

O projeto de exploração de fosfato de Farim está numa nova fase de desenvolvimento e a


empresa GB Minerals espera que a exploração possa começar o mais cedo possível.
Trabalhos preliminares de avaliação de impactos (AIA) foram realizados pelos gabinetes
de estudo Trópico e Golden mas a empresa não finalizou ainda o processo de avaliação de
impacto ambiental e social. A GB Minerals garante que colabora com o SEA e a CAIA
para que o processo de AIA seja concluído o mais cedo possível. As populações locais
estão muito preocupadas e queixam-se da falta de informação sobre o desenvolvimento do
projeto mineiro e da falta de transparência sobre as modalidades de indemnização e de
21
compensação em caso de deslocação de tabancas e de perda de terras agrícolas. A
exploração de fosfato poderá talvez ter consequências sobre os lençóis freáticos e a
empresa GB Minerals pretende fazer um seguimento regular dos níveis de água. Para o
processo técnico de extração de fosfato, será necessário bombear a água subterrânea para
poder extrair o fosfato. Fora dos impactos locais sobre o ambiente e os meios de existência
das populações, a exploração do fosfato de Farim comporta riscos de poluição do Rio
Farim/Cacheu onde se encontra o maior bloco de mangal da África Ocidental e que joga
um papel fundamental na durabilidade dos recursos haliêuticos e dos camarões em
particular. A exportação do fosfato está prevista com uma ponte “tapete rolante” por cima
do rio Farim e depois um transporte por camiões até ao porto de exportação mineira a ser
construído no estuário do rio Geba (junto a povoação de Tchúgue). A nova direção
executiva da GB Minerals exprimiu a sua vontade de bem gerir o ambiente, a saúde e a
segurança e insistiu sobre a vontade de cuidar do ambiente e de trabalhar com a
comunidade. Está previsto criar um fundo de desenvolvimento social. Pela primeira vez,
uma parte das receitas da licença de arrendamento mineiro foi afetado pelo Ministério dos
Recursos Naturais para o desenvolvimento da Região de Oio; o montante de 57 milhões de
FCFA desbloqueados foi investido na reparação da sede do Governo Regional e em obras
de abastecimento em energia e água da cidade de Farim. Os procedimentos utilizados estão
ser objeto de críticas da parte das comunidades locais, por as suas aldeias não terem sido
beneficiadas diretamente com parte do fundo.

O projeto de exploração de bauxite de Boé pela empresa angolana Bauxite Angola prevê a
construção de uma estrada e de um porto em Buba para permitir a exportação dos minérios
extraídos. Nenhum estudo de avaliação de impacto ambiental e social foi realizado ainda e
o projeto está em “stand by” desde 2012 por razões de ordem política. A exploração e a
exportação de bauxite suscitam várias preocupações ligadas às consequências para as áreas
protegidas terrestres de Boé e Dulombi em processo de criação e o Parque Natural das
Lagoas de Cufada (PNLC) onde está previsto construir o porto de águas profunda no rio
Buba (mais de 100 ha de floresta já foram cortados dentro do PNLC sem que haja nenhum
AIA). O IBAP já esta a fazer estudos para expandir o PNLC na outra margem do rio
Corubal de forma a compensar uma eventual desclassificação da área protegida no caso da
construção do porto mineiro nas margens do Rio Grande de Buba.

22
A exploração do petróleo offshore não começou ainda. O governo já assinou contratos de
prospecção com 12 empresas estrangeiras. Não se sabe ainda se há efetivamente reservas
de petróleo interessante de ponto de vista económico. Não se sabe ainda quando começará
a exploração de petróleo mas há a esperança que haja petróleo explorável no território
guineense. Até ao fim de 2015, a Petroguin espera que seja finalizada uma interpretação
dos dados de prospecção 3D que poderá confirmar ou não a presença de petróleo. A
Direção Geral da Petroguin considera que há perspectivas positivas sobretudo com a
descoberta recente de petróleo no Senegal. As empresas estrangeiras estão em diferentes
fases de desenvolvimento dos projetos petrolíferos desde uma fase inicial de negociação
dos termos de colaboração com o Governo guineense (caso das empresas Pespetium e
Porsplas), a uma fase intermédia de algumas empresas que já fizeram levantamentos e
estão a analisar os dados (caso das empresas Kesnad e Supernova) e até a uma fase mais
avançada de preparação dos primeiros furos (caso da empresa Svenska que está a preparar
a construção do primeiro furo); e das outras empresas Lime e Larsen). Ainda não foram
realizados estudos de AIA. A Petroguin acredita que é possível fazer uma exploração
responsável do petróleo e está preocupada com os impactos potenciais. Segundo a CAIA, a
empresa Kesnad está a preparar um estudo de referência – baseline – e já entregou uma
proposta de TDR para esse estudo para validação na CAIA. 6

7. Quadro jurídico e regulamentar em matéria do ambiental:

No quadro jurídico e regulamentar, a Guiné-Bissau tem implementado texto com força da


lei em matéria ambiental e social. Nota-se contudo, a falta de aplicabilidade com rigor das
mesmas. Assim, segundo os estudos levados a cabo no âmbito da Prática das Industrias
Extrativas em África Ocidental, a Guiné-Bissau apresenta por enquanto um arsenal jurídico
importante em relação à muitos países da sub-região. Entretanto, todos os países da sub-
região tomaram disposições relativas à proteção do ambiente através de códigos e textos
relativos aos estudos de impacto ambiental e social. Quanto a aplicação dos referidos
textos, fraquezas enormes foram notadas no nosso país. A aplicação e o respeito pelo
quadro legislativo local no momento do desenvolvimento de projetos mineiros constituem
uma prioridade no contexto nacional mas, infelizmente ainda muito marcado por lacunas
em termos de governação.

Quadro n.º : 03 - Leis e Decretos pertinentes


6
Relatório sobre a Avaliação da Governança Ambiental na Guiné-Bissau – 2015, DGDD/PNUD
23
Pais Guiné Bissau
Código mineiro e pedreiras Sim
Código do ambiente Sim
Regime jurídico das instalações classificadas Informação não disponível
Regulamentação de estudos de impactos sobre o ambiente Sim
Regulamentação sobre o conteúdo, metodologia e processo do estudo de impacto sobre ambiente Sim
Regulamentação da gestão e controlo de substâncias químicas nocivas e perigosas Sim
Regulamentação criando a nomenclatura técnica das instalações classificadas Informação não disponível
Regulamentação da taxa aplicável aos estabelecimentos classificados Informação não disponível
Fundo de Mineração Sim
Código florestal Sim
Código da água Sim
Código da proteção da fauna selvagem Sim
Lei Quadro das Áreas Protegidas Sim
Código mineiro uniformizado da CEDEAO Sim
Fonte: Adaptado do Relatório dos estudos sobre A prática das industriais Extrativas na África ocidental
Obs: Todos estes códigos são pertinentes e necessários, apenas alguns não são disponíveis (ver o quadro em cima)

8. População-Alvo nas zonas de incidências dos projetos de mineração ao nível do


país:
A população-alvo consiste, em comunidades locais que vivem nas áreas de Farim
(fosfato), Boé (bauxite), Varela (areia pesada), Buba (porto de águas profundas à
construir no âmbito do projeto bauxite Angola) e no arquipélago dos bijagós
(petróleo). Em termos de subsistência, as populações-alvo dependem
fundamentalmente da agricultura/pecuária, das pescas e da exploração do
ecossistema florestal. As suas áreas geográficas situam-se em territórios ricos em
recursos minerais, cujos processos de prospecção e extração, produzem impactos
negativos significantes sobre os ecossistemas naturais. Em Varela e Farim por
exemplo, os espaços de produção agrícola comunitários estão situados nos locais de
mineração. Esses mesmos espaços, são também potenciais áreas que poderiam ser
usadas ou exploradas para fins de turismo responsável ou agrícola. Portanto, se o
petróleo e a exploração de fosfato em Farim, não levarem em conta os aspetos sociais
e ambientais, de ponto de vista aplicação de boas práticas, podem agravar ainda mais a
pobreza nestas áreas geográficas. Esta situação poderá ser mais dramática se as
medidas de acompanhamento não forem tomadas a favor das populações afetadas.
Além das populações-alvo, os projetos terão beneficiários indiretos, tais como serviços
técnicos, os governos locais, deputados da zona (Rede Ambiental e Desenvolvimento
Sustentável), alunos, estudantes, organizações da sociedade civil. Este grupo de
beneficiários, refere – se as camadas que trabalham diretamente com as comunidades
locais das regiões envolvidas nos projetos. No entanto, para essas organizações, faltam
algumas habilidades, especialmente na área de advocacia e de lobby. A causa principal
é o fraco acesso à informação científica sobre a mineração, abordagens e métodos,
para tomar em consideração nos aspectos sociais e ambientais neste sector em
particular.
24
9. Os Principais Problemas Encontrados:
O ambiente político e socioeconómico, relacionados com a exploração dos recursos
minerais na Guiné-Bissau são muito complexos. O GTP-IE e algumas OSC são dos
atores envolvidos no domínio do lobbying, advocacy, no reforço das capacitação de
atores locais, com o objectivo de promover a transparência na gestão deste
importante sector de extração mineira, apoiam também com ações concretas que
influenciam as decisões políticas, visando a aplicação das leis, regulamentos, normas e
de boas práticas. No entanto, os problemas identificados neste diagnóstico, que serão
abordados ainda nessa fase são:

 Falta de informações e transparência nos contratos de concessão de espaços físicos;


 Falta de envolvimento das organizações da sociedade civil na qualidade de parceiros
incontornáveis do Estado;
 Insuficiência do diálogo e da concertação entre várias partes interessadas, tais como:
(governos, empresas de mineração, as comunidades locais, organizações da sociedade
civil etc...);
 A existência de uma Legislação lacónica, e a aplicação fraca das leis e regulamentos e
não-cumprimento da legislação ambiental no processo de mineração em especial;
 Não há articulação entre estruturas dos governos regionais e estas com as do governo
central;
 Falta de conhecimentos dos reais impactos negativos e positivos por parte das
comunidades locais;
 Fraco ou falta de conhecimento sobre as medidas de compensação ou
mitigação/atenuação dos impactos sociais e ambientais nos locais de mineração;
 O fraco acesso as informações relevantes sobre a compreensão das questões sobre a
sustentabilidade social e ambiental;
 Limitada capacidade de negociação por parte das populações locais etc..;

10. Luta contra a Pobreza:

É preciso que se faça algo a favor das comunidades locais, de modo a permitir–lhes
conhecer e poder reivindicar seus direitos junto ás empresas de mineração, governos
central e local. As comunidades locais poderão, por exemplo, negociar as compensações
para as suas reinstalações involuntárias e reinserções sociais, procurar emprego jovem
junto ás empresas, e beneficiar-se das infraestruturas sociais de base (acesso à água
potável, saúde, educação, pistas rurais etc..). Tudo isso, enquadra – se no âmbito do
princípio da responsabilidade social e societal das empresas, etc. através de ação de
formação e de reforço de capacidade das estruturas locais nos domínios da educação,
25
sensibilização/informação, lobby e advocacia. Assim, os grupos locais, serão melhor
organizados e preparados para defender os seus direitos, interesses sociais e económicos.
Oio, Bafatá, Gabú, Tombali, Cacheu e Bolama Bijagós, são regiões com maior potencial e
reservas de recursos naturais minerais e com melhores condições para a instalação, das
indústrias extrativas minerais, nomeadamente: em Farim, reservas de fosfato, em Boé
reservas de bauxite e outros minerais como o petróleo, etc...

Entretanto, de modo geral, as organizações da sociedade civil (OSC) e a Tiniguena,


partilham a mesma visão segundo a qual, se registam, no país, situações de carência de
transparência e ineficácia na gestão dos recursos naturais/minerais, particularmente no que
diz respeito aos seguintes aspetos: na aplicação rigorosa da legislação sobre recursos
naturais/minerais (Lei Base do Ambiente, Código das Minas e Pedreiras e Lei de
Avaliação Ambiental/Social e lei de petróleo); na política de concessão de licenças de
exploração de recursos minerais; nas condições de assinatura de contractos de prospecção e
exploração desses mesmos recursos com entidades estrageiras; falta de ação de
conformidade com as leis e respeito de regras de proteção ambiental e da biodiversidade;
falta de participação e inclusão das comunidades locais nas negociações de contractos de
prospecção e exploração de recursos minerais, entre outros, a falta de informação pública
sobre os impactos da prospecção e exploração dos recursos naturais na economia nacional,
na biodiversidade e na sociedade guineense em geral.

A criação de mecanismos de seguimento e avaliação de políticas de gestão da prospecção e


exploração dos recursos naturais minerais, por parte da sociedade civil guineense; a
influência das políticas públicas, promoção da transparência na gestão e melhor capacidade
de intervenção dos grupos alvos da ação a nível da gestão dos recursos naturais minerais
que afetam diretamente o quotidiano dos guineense.

Os Projetos de "Prospecção e Eventual Exploração dos jazigos de minerais (projetos de


fosfato de Farim; bauxite angola de Boé e areias pesadas de Varela), concebidos e
executados pelas empresas estrageiras que atualmente operam na Guiné-Bissau, incluem a
prospecção, extração e o processamento do minério principalmente, mas contempla
também, a construção de edifícios e instalações para sustentar estas atividades de
produção. (ver projetos de execução de cada empresa).

No âmbito da Lei de Avaliação Ambiental (Lei Nº10/2010 de 24 de Setembro), estes


tipos de projetos de exploração mineira, enquadram-se na Categoria A, devendo portanto,
ser objeto de um cuidadoso Estudo de Impactos Ambientais e Sociais (EIAS). As zonas

26
geográficas do país abrangidas pelos projetos (projeto da exploração das areias pesadas de
Varela com a Empesa Russa POTO-SARL), detêm importantes recursos naturais, em
particular os florestais, localizados às vezes nas extensões das Áreas Protegidas (como por
ex.: Norte do Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu).

Embora haja expectativa quanto aos consideráveis efeitos positivos de um projeto de


mineração dessa índole, em particular na esfera económica (nacional e local), não é menos
verdade que, nas condições descritas acima, um projeto qualquer de mineração, terá sem
dúvida impactos sobre o meio ambiente natural e sobre a vida das comunidades locais.
Assim, para maximizar os benefícios deste, será necessário colocar o projeto numa
perspetiva de sustentabilidade ambiental e social, o que implica a integração destas
considerações nas várias fases do projeto. Aliás, é esta a visão que norteia a
obrigatoriedade de realização de um Estudo do Impacto ambiental e Social (EIAS)
profundo e com rigor científico, a todos os projetos de mineração em geral, pois, fazem
parte dos projetos da categoria A.
Esta visão, vai ao encontro das preocupações expressas na lei de mina e pedreiras sobre
contracto de exploração mineira (Artigo 24), que obriga as empresas nacionais e
estrageiras a "respeitarem as normas nacionais e internacionais de gestão ambiental
em todas as fases do projeto" e a "desenvolver um plano de gestão ambiental em
cooperação/colaboração com o Estado".

Por outro lado, a lei base do meio ambiente na Guiné-Bissau e o seu decreto de aplicação
obrigam o promotor de qualquer projeto desta natureza, fazer uma avaliação ambiental de
conformidade com os procedimentos bem definidos pelas leis: Lei de Minas e Pedreiras e
Lei de Avaliação Ambiental e Social.7

11. Perspectiva da exploração mineira na Guiné-Bissau

Comparada aos três outros países vizinhos da sub-região (Senegal, Guiné–Conakry e Serra
Leoa), a Guiné-Bissau, está vivendo ainda o início da sua experiência em economia
mineira. Quanto às potencialidades em recursos mineiros que poderão existir no seu
subsolo, pesquisas foram empreendidas através do financiamento de fundos da cooperação
bilateral e multilateral (EX-URSS, França, Portugal, PNUD, etc.), e desembocaram na
identificação preliminar de recursos minerais apresentando uma certa potencialidade
económica nos domínios de pedras preciosas (pedreiras), bauxite (alumínio), fosfato

7
Fonte: Promotion des Bonnes Pratiques sociales et environnementales dans les secteurs pétrolier et minier en Guinée-Bissau -
GTP-IE V – SWISSAID

27
(estrumes fosfatados), minerais industriais, minerais de construção, metais preciosos
e petróleo.
A situação atual da exploração deste recurso mineiro na Guiné-Bissau limita-se unicamente
às atividades de prospecção dos metais preciosos, bauxite, fosfato de Farim e do petróleo e
a exploração de materiais de construção, regida pela lei de pedreiras (Lei n.º 4/86 de 29
de Março) e o seu Decreto Regulamentar (n.°33/87) ainda que o código mineiro esteja
na fase de revisão. Recentemente, contudo, duas licenças de concessão por arrendamento
mineiro foram concedidas à empresa GB Minerals.

12. Perfil Socioeconómico e Localização Geográfica de Cada Zona de Incidência de


Projetos de Mineração.
12. 1. Jazigos de Fosfato de Farim:
O projeto de fosfato de Farim é uma proposta de um projeto de mineração de fosfato
localizada na parte central norte da Guiné-Bissau, mais concretamente no Sector
Administrativo de Farim, região de Oio (figura 1.1). A zona específica de jazigos de fosfato
abrange direta e indiretamente 10 tabancas do Sector de Farim, a saber: Canicó Tumane, Urqui,
Salquenhe Ba, Salquenhe Porto, Ufudi, Tambato Mandinga, Sandjal 1 e 2, Canico-Lenque
Curoto, Ponta Cabsseki, Demba Baio, e duas tabancas do Sector de Mansoa: Dúgal e
Tchúgue, por onde será escoado o produto pelo mar.

Figura n.º: 01- Mapa de Localização do projeto

Fonte: GB - Minerals

Na zona de Farim, o projeto consiste em três


fases principais: terraplanagem/construção,
operação e encerramento de uma operação de mineração de poço a céu aberto para
explorar o minério fosfato de Farim, numa instalação de processamento no local da mina
para beneficiar o minério e o transformar num concentrado de fosfato. E na zona de Dúgal
e Tchúgue, o projeto vai construir da estrada terra batida, no troço que liga Dúgal e
Tchúgue e uma instalação portuária associada, para exportar o produto bruto ao

28
estrangeiro. As três principais componentes do projeto (local da mina, via de transporte
do produto e local do porto) e a zona antecipada de influência do projeto são
apresentadas na Figura 1.2. A zona de influência do projeto inclui as comunidades da área
e locais em volta destas componentes do projeto, bem como o ambiente socioeconómico
regional e nacional numa escala mais alargada.

12. 2. Identificação do proponente do projeto

Quadro n.º: 04-Identificação do proprietário do projeto


Nome Projeto de Fosfato de Farim
Promotor GB Minerals Ltd.
Data de constituição A GB Minerals Ltd. foi constituída em 24 de julho de 2007 como Resource Hunter
Capital Corp.
Setor de atividade Mineração
Capacidade nominal de Taxa de mineração de 1,75 Mt/a com uma produção de 1,32 Mt/a de fosfato natural
produção
Vida do projeto 26 anos
Data de início da construção 2016
Data de início da produção 4.º trimestre de 2017
Sede Suite 1500, 701 West Georgia Street, Vancouver, B.C., Canada, V7Y 1C6
Endereço das instalações Farim e Ponta TChuguê, Guiné-Bissau
Qualidades do minério e 34,0% de P2O5; o preço à vista para fosfato natural em 20 de junho de 2015 era de
taxa de preço USD 115/t
Nome da primeira alteração Luis da Silva - Presidente, Diretor Executivo e Diretor
Diretores da empresa Presidente - Owen Ryan
Diretores - Luis da Silva; Kirill Zimin; Walter Davidson; Brent de Jong; Robert
Edwards
Diretor do ambiente Olga Kovalik, Diretora do projeto
Logótipo da empresa

Fonte: GB – Minerals

Figura nº: 02-Zona de influência do Projeto

Fonte: GB – Minerals

Figura n.º : 03-Área da estrada de acesso e do


local do porto de Tchúgue.

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Fonte: GB – Minerals

13. Condições Socioeconómicas no Local


As condições no local da mina e do porto de Tchúgue são similares, exceto pelo facto de as
atividades piscatórias na zona da mina estarem centradas no rio Cacheu e no local do porto, no
rio Geba. O rio Cacheu é considerado como uma zona com recurso piscatório mais importante
do que no rio Geba com base em conversas com pescadores locais e com o Departamento das
Pescas ao nível da região. Em conjunto, estes dois sistemas fluviais contribuem apenas para
uma pequena parte dos volumes obtidos das atividades de pesca ao largo desses importantes
rios. As condições sociais na área da mina são sintetizadas da seguinte forma:
Classificação étnica - A área do local da mina inclui oito grupos étnicos; os Mandingas (66%
da população); os Mansoancas (17%); os Fula (7,6%); e os Balantas (6%). Os grupos
minoritários incluem os Manjacos, os Pepel e os Mancanhas. As famílias na área do Sector de
Farim são predominantemente constituídas por Mandingas (40%), seguindo-se os Fulas
(27,6%) e os Balantas (21,5%). A área do local do porto de Tchúgue, pelo contrário, é
predominantemente ocupada pelos Balantas.

Habitação - As habitações estão localizadas em grupos que constituem aldeias rurais e não
desfasadamente distribuídas. As habitações podem ser o lar de uma única família com uma
única estrutura residencial ou ser um conjunto constituído por vários edifícios que albergam
membros familiares multigeracionais. A dimensão das famílias varia entre quatro membros e
mais de 25 membros, sendo a sua dimensão média de 10 membros. As habitações são
predominantemente feitas de argila, com telhados de zinco com entre quatro a sete divisões. No
que se refere à propriedade, 25% das famílias são proprietárias de terrenos, 11% têm uma
licença de ocupação, enquanto mais de metade (55%), obedecem ao sistema de ocupação
tradicional.
Mobilidade - Em Farim e nas aldeias circundantes, em especial entre a população jovem adulta,

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verifica-se uma mobilidade considerável. A mobilidade é em grande medida motivada pela
procura de emprego em Bissau, nos países vizinhos (p. ex., para o Senegal, Gâmbia e Cabo
Verde) e na Europa (Portugal e França). As aldeias de Tambato, Canico, Tumana, Saliquenhé e
a cidade de Farim são sobretudo afetadas pela migração.
Religião - O islamismo é a religião predominante (71% da população) na área e é praticada
pelos Mandingas e os Fulas. Os católicos representam 25% da população, ao passo que
animismo é seguido por 4%. Estas últimas religiões são praticadas sobretudo pelos Balantas.
Organização social - As habitações, compostas por várias áreas bem definidas, são em geral
partilhadas por várias famílias nucleares, sujeitas a um “chefe” que é o pai ou avô comum a
todas elas. As famílias também partilham a terra destinada à agricultura. Nas tabancas
abrangidas pelas zonas de fosfato, a monogamia é mais comum (51,8% dos inquiridos) do que
a poligamia. Em geral, a responsabilidade pelas tarefas domésticas recai sobre as mulheres e
jovens.
Tomada de decisões - A tomada de decisões é realizada sobretudo através de consensos
facilitados pelos chefes de aldeia ou concelhos de aldeãos. Quando é necessário discutir algum
assunto ou tomar uma decisão, o chefe da aldeia (ou o concelho de aldeãos) convoca os chefes
de família e os representantes dos jovens e, em determinadas situações, representantes das
mulheres. As decisões só são tomadas depois de discutir suficientemente os assuntos e de cada
um ter tido a oportunidade de exprimir a sua opinião. Os chefes das aldeias estão sob a
autoridade do administrador do Sector, a quem reportam. O estatuto de chefe de aldeia é
normalmente do domínio da família que fundou a aldeia e é transmitido de geração em geração.
Infraestrutura/utilidades sociais - Existe um hospital básico em Farim que tem sido apoiado
pelo projeto no sentido de melhorar as instalações. A cidade dispõe também de uma igreja
católica e uma mesquita, para além de tantas outras pequenas mesquitas espalhadas pelas
tabancas periféricas. Na área em estudo verifica-se a falta de escolas. Quando existem escolas,
tratam-se sobretudo de abrigos temporários.
Estradas - As estradas na área do estudo são, em geral, estradas de terra não pavimentadas.
Farim atrai diariamente visitantes das aldeias próximas devido aos serviços que oferece
(mesquitas, igrejas, cuidados de saúde, educação, lazer) e comércio, como a compra e venda no
mercado. A maioria das deslocações é realizada a pé, de bicicleta ou motocicleta, sendo esta
última a forma motorizada de deslocação mais comum.
Atividades económicas - As condições económicas na área da mina são sintetizadas a seguir,
em alguns domínios de maior destaque:
Acesso à terra - A terra é administrada pelas autoridades consuetudinárias, segundo a lei
tradicional. A maioria das famílias na área da mina (93% das famílias inquiridas em 2012)
cultiva ativamente a terra. Destas, somente 13% afirmaram dispor de registo da propriedade

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que cultivam, ao passo que 55% dispõe do acesso à terra pelos sistemas tradicionais e 3%
cultivam os campos sem qualquer autorização formal.
Agricultura de subsistência – Milho bacil, milho preto, sorgo, arroz e fundo são normalmente
cultivados na área para consumo próprio ou venda. O milho é a cultura mais importante,
cultivada por mais de 51% das famílias. No entanto, o cultivo das plantações de caju é
fundamental para a geração de rendimento. As fortes ligações do mercado na região apoiam
consideravelmente o investimento local na plantação de árvores de caju e o processamento do
caju. Em termos de ocupação de terras, as plantações de caju são a forma dominante de
utilização local da terra. A proporção de famílias envolvidas no cultivo de outras culturas (p.
ex., milho preto e feijão) situa-se entre 3% e 15%. O arroz, embora seja um alimento de
primeira necessidade, é cultivado por apenas 12% das famílias. Existem hortas de legumes em
muitas aldeias, cuidadas por mulheres que as cultivam na proximidade de fontes de água
(lagoas, poços ou poços artesianos) ou no seu próprio quintal. Os legumes como o quiabo e os
tomates são plantados intercalados com outras culturas principais nos campos.
Segurança alimentar e geração de rendimento - O défice alimentar foi relatado por muitas
famílias apesar da disponibilidade de terra arável. A escassez alimentar é demonstrada pelo
acesso limitado a equipamentos agrícolas e fertilizantes, má qualidade dos solos e impactos na
produtividade devido à intrusão de água salgada do rio Cachéu. Alguns dos produtos cultivados
nos campos e hortas particulares são consumidos por quem os cultiva e o remanescente é
vendido. Amendoins, cajus, mandioca e feijão são culturas particularmente importantes. A área
do projeto é uma das regiões de produção de amendoim mais importantes do país, sendo
vendido sobretudo ao Senegal através de uma complexa rede de operadores.
Produção de sal - Quase todas as mulheres na área da mina estão envolvidas na produção de
sal durante a estação seca, a partir das areias retiradas das planícies inundadas por água salgada.
Gado - Quase 93% das famílias inquiridas possui gado (bovino, ovino e caprino). Com uma
média de dez animais por família Pesca - A pesca na área de Farim é praticada por 31% das
famílias. Diariamente são pescados entre 10 kg e 15 kg por indivíduo e entre 400 kg e 450 kg
por grupo que sai para a pesca. Existem cerca de 43 pescadores agrupados numa associação em
Farim, com uma frota constituída por 15 canoas. No rio Geba e na proximidade do local do
porto proposto para o escoamento do fosfato, os resultados preliminares indicam que os grupos
de pesca local estão divididos pelas áreas de pesca em função da localização da sua aldeia e do
porto. O porto proposto está localizado dentro da área de pesca da comunidade de Tchúgue,
utilizado para pesca principalmente entre agosto e abril usando linhas com 100 a 200 m de
comprimento e iscas de pequenos peixes comprados noutros locais. Devido à natureza rochosa
do leito do rio diretamente adjacente à orla costeira de Tchúgue, os pescadores preferem
colocar as suas redes na margem oposta próximo a Jabada, que dista 10 a 11 km do local

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proposto para o porto. Nos restantes meses (maio a julho), todas as atividades de pesca são
suspensas devido às correntes fortes e à presença de um grande número de tubarões que
danificam as longas redes. Estas comunidades dedicam-se então à produção/apanha de caju. A
comunidade de Tchúgue também produz arroz. Pequenas redes são utilizadas quando os
arrozais estão inundados para apanhar pequenos peixes presos nas áreas de pantanal/arrozal
adjacentes. Utilização de recursos naturais - Os produtos florestais são utilizados como
produtos alimentares, como materiais de construção e produtos medicinais. Os frutos
comestíveis (frutos de cabaceira, da palmeira, da foroba, fole, etc.) são recolhidos na sua
estação, bem como as fibras, folhas (folha de cabaceira), extratos de seiva (vinho de palma),
madeira (90% da energia para as necessidades domésticas), mel e várias plantas medicinais. Os
produtos utilizados e comercializados incluem o carvão vegetal, o fruto do baobá, o vinho de
palma e o fruto da palmeira. As casas são construídas utilizando materiais recolhidos
diretamente da Natureza envolvente (p. ex., colmo, folhas de palmeira e estacas de madeira).
Património cultural - Foi identificada uma série de elementos de património cultural na área da
mina, incluindo sítios arqueológicos, cemitérios e locais espirituais (património cultural
vivo/intangível). Os elementos de património cultural foram identificados na proximidade do
local do porto, mas para além da pegada proposta. Os achados arqueológicos foram
predominantemente cacos de cerâmica e outros fragmentos de importância baixa a moderada
em termos de património cultural. Estudos no terreno confirmaram a presença de três
cemitérios muçulmanos na área de estudo da mina. Um destes cemitérios é de alta sensibilidade
e está localizado na proximidade da aldeia de Salquenhe Ba. Contém o túmulo de um
conhecido imã que viveu há mais de 100 e é por vezes visitado por pessoas da e de fora da
região durante um festival anual. Além disso, um bosque sagrado (ou floresta sagrada) está
localizado a sul de Salquenhe Ba e é de importância local a regional.

Os principais espaços religiosos consagrados e formalmente reconhecidos na zona de influência


do jazigo de fosfato são representados pelas mesquitas, igrejas e cemitérios. Deste modo, em 12
tabancas (directa e indirectamente atingidas), foram identificadas 20 mesquitas e capelas
muçulmanas, 4 igrejas e capelas católicas, protestantes e nova-apostólicas e vários cemitérios.

Escutando os sentimentos dos habitantes locais, aquando de um estudo antropológico da Eco


Progresso, em 2016 (8), a fé em Deus, nas virtudes e poderes das almas dos antepassados e das
forças sobrenaturais que habitam as tabancas e as matas, constituem valores sagrados herdados
ao longo dos séculos e que estão profundamente enraizados na cultura desses habitantes e, por
8
- Idem: Estudo sobre Heranças Culturais das Comunidades das Zonas de Intervenção Directa e
Adjacente do Projecto de Fosfato de Farim: Quade, P., Eco Progresso, Maio de 2015.

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isso, fazem parte das suas histórias e riquezas, influem nos comportamentos, atitudes e práticas
no dia-a-dia dos moradores locais. Relativamente aos problemas levantados pela população
local, o assunto prende – se com as expectativas sobres os ganhos imediatos provenientes do
projeto de fosfato, casos de postos de trabalhos que o mesmo vai permitir aos jovens de Farim,
que a cidade de Farim vai transformar-se numa grande cidade com importantes infraestruturas
etc, enfim há muita espectativa no sentido de que com o projeto, a vida das populações locais
vai melhorar bastante.

No concernente a proposta de reassentamento involuntário de populações de algumas tabancas


da área de incidência direta do projeto, suscita muitas preocupações por parte das comunidades
afectadas no que se refere a compensação e a forma como o processo vai ser conduzido. De
modo geral, há muita espectativa no sentido positivo por parte de uma boa parte da população
local. Muitos acreditam, alguns não. Entretanto, o processo de reassentamento involuntário e
reinserção social local está muito bem estudado e preparado pelo projeto, na base de um estudo
feito sobre a sócio economia das áreas afectadas. De modo que no meu entendimento, o
processo vai surtir efeitos benéficos a favor das populações locais. Os estudos que conducentes
ao processo de reassentamento involuntário realista e consequente das populações locais já
foram feitos e as condições básicas para o inicio do processo já estão criadas. Falta a execução.

Fonte: IUCN, Dakar, Senegal: ASAN, Bissau, Guinea Bissau

14. Situação atual e perspetivas de implementação do projeto fosfato de Farim:

A prospecção de fosfato de Farim está numa nova fase de desenvolvimento e a empresa GB


Mineral espera que a exploração venha a começar com maior brevidade possível. Trabalhos
preliminares da Avaliação de Impacto Ambiental (AIAS) foram realizados pelos gabinetes de
estudo estrangeiros (Tropico, Golden e outros…) e, em colaboração com um gabinete
nacional (Eco Progresso), um EIAS foi realizado, faltando ainda a sua aprovação oficial.

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Está prevista a criação de um fundo de desenvolvimento social. Sabe-se também que uma parte
de receitas da licença de arrendamento do projeto foi afetada pelo Ministério dos Recursos
Naturais para o desenvolvimento da Região de Oio, num montante de 57 milhões de FCFA, no
entanto, investido na reparação da sede do Governo Regional e em obras de abastecimento de
energia e água potável para a cidade de Farim

A exploração de fosfato poderá, eventualmente, ter alguns efeitos sobre os lençóis freáticos,
bem como nas águas do Rio Farim (prolongamento do Rio Cachéu, depositário do maior bloco
de floresta mangal da África Ocidental, com uma função fundamental na durabilidade dos
recursos haliêuticos e dos camarões em particular). A empresa GB Minerals compromete-se a
fazer um seguimento regular dos níveis de água e das medidas de atenuação de impactos
negativos.

As populações locais estão preocupadas e queixam-se da falta de informações detalhadas sobre


a forma como o desenvolvimento das operações será articulada com os direitos das
comunidades que forem atingidas, particularmente sobre as modalidades de indemnização e de
compensações em caso de transferência de tabancas e de perda de terrenos agrícolas, silvícolas,
pesqueiras, de plantações frutícolas e de espaços e sítios sagrados.

As expectativas da parte das populações locais são de um misto de dúvidas, crispações e, entre
alguns, de um rasgo de esperanças ainda por se confirmar. Essa base cultural do apego às
crenças nos valores das heranças históricas das populações acima mencionadas, faz com que
lhes custe acreditar que um dia terão que abandonar as suas plantações, riquezas, casas, as
tabancas, os cemitérios e as terras onde nasceram os seus avós e pais e onde eles hoje não são
nada mais que continuadores dos valores, memórias que lhes foram deixados pelos seus
antepassados.

Entre os velhos, as mulheres e os jovens daquelas povoações, uns são indiferentes desde que as
vantagens comparativas venham a ser favoráveis, mas a maioria discorda com a ideia de saída
de todos das tabancas. Para estes, se tiverem que o fazer, “a responsabilidade face as
consequências da ação será do Estado, porque a terra é do Estado”9.

15. Areias Pesadas de Varela


15. 1. Localização Geográfica:
9
- Idem: Estudo sobre Heranças Culturais das Comunidades das Zonas de Intervenção Directa e
Adjacente do Projecto de Fosfato de Farim: Quade, P., Eco Progresso, Maio de 2015.

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O perímetro 12 descrito em baixo, Fig.1, se situa na costa noroeste da Guiné-Bissau, na área da
Varela, zona fronteiriça com a região sul do Senegal, abrange uma área de 3,5 km ². A vila de
Varela é o centro da zona do projeto. Outras aldeias também estão nessa área de influência do
projeto. Sendo as aldeias mais próximas do local do projeto as de Nhiquim, Madina Varéla,
Basseor e Tenhate, são também localizadas respetivamente no sudoeste, no sul e no norte da
parcela 12. Os jazigos de arias pesadas de Varela são estimados em cerca de 86.000 toneladas.
No entanto, é de salientar que Nhiquim se situa dentro do mesmo lote e é a parcela indicada
para o início da exploração das areias pesadas de Varela, por ser a primeira, no conjunto das
parcelas identificadas na zona. Não se falou de nenhum conflito neste sítio de forma isolada
mas, sim de um conflito por falta de informação e esclarecimentos de factos como é que as
coisas vão acontecer na realidade. Por isso, a população começou a opor – se através de atos de
sabotagens as reuniões com a empresa e com as autoridades locais e até avançaram com atos
tradicionais com uma cerimónia de proibição do uso do espaço para os estrangeiros da zona
(mandjidura), para qualquer atividade de extração mineral.

Imagem do momento de protesto, com o sinal de proibição (mandjidura) colocado no centro.

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Figura n.º : 04- Mapa de Localização da Parcela 12

Fonte: INEP/Projet Exploitation Sables Lourds à Varela

Figura n.º: 05-Localização Autorizada

Fonte: Projet Exploitation Sables Lourds à Varela

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15.2. Quadro Geral:
A Região de Cacheu, onde está localizada a zona incidência do projeto situa-se na costa
noroeste. Ela representa 14% da área terrestre nacional o que corresponde um pouco mais
de que 5.000 km ², tornando-se a quarta maior região entre as oito regiões que compõem o
território nacional, mais o Sector Autónomo de Bissau. A população regional é estimada
em 199. 674 habitantes, quase 13% da população nacional, é distribuída em seis (06)
sectores, incluindo São Domingos, onde se encontra a área de Varela que abriga os
depósitos de minerais (areias pesadas). Cacheu é também a região mais pobre do país com
mais de 80% da população afetada por este fenómeno, quase 15% da mesma vive em
extrema pobreza. No plano socioeconómico, a agricultura itinerante representa em
conjunto com a exploração de palmares e da pesca artesanal dos principais sectores de
atividades económicas da população. No plano ambiental, a região tem uma área protegida
“Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu (PNTC) com cerca de 886,15 quilômetros
quadrados de território ou seja 17,01% do total da região (INEC 2005).

15.3 A Zona de Influência do Projeto:

A área de estudo pode ser dividida em duas partes: a zona que vai abrigar a exploração
mineira e que se encontra em Varela e a área que vai ser percorrida ao transportar o minério
até o porto de Bissau.

A zona de Varela ou da Mina: É aquela que abriga a mina. Esta é uma área típica da zona
costeira da Guiné-Bissau, tem uma praia com uma extensão de cerca de 7 km, que se
estende até a embocadura da baía do Sucudjaque.

A zona é fortemente afetada pela erosão costeira, um fenômeno proveniente de um lado do


processo natural (ventos, correntes, nível do mar, etc.). No entanto, as obras civis e de
terraplanagem realizadas na zona, contribuíram para o seu valor acentuado. È de
mencionar que na gestão estratégica da zona costeira, o Gabinete de Planificação Costeira
iniciou um projeto de zoneamento na zona costeira de Varela. A grande parte da parcela 12
se encontra nas zonas de conservação ou zona tampão (proposta de zonagem ecológica de
Varela/GPC).
A zona do corredor de transporte: trata-se de um troço entre Bissau e Varela. Seu
reconhecimento permitiu uma subdivisão deste eixo em duas áreas: uma área rural de
Valera à São-Domingos com uma estrada de terra batida e uma zona urbana de São
Domingos à Bissau com uma estrada asfaltada.

38
Condições Socioeconómicas:
Além de Madina Varela, todos os locais que se encontram na área, datam de mais de 100
anos e são formados como resultado do deslocamento de pessoas que fogem de guerras
étnicas, uma vez generalizada no território da Guiné-Bissau nesta altura.
Demografia:
De acordo com o último censo populacional, a região de Cachéu tem uma população de
185.431 habitantes, enquanto que o sector de São Domingos que abriga o projeto tem uma
população estimada em 29.127 que é quase 16% da população da região.

Nenhuma das aldeias da área do projeto ultrapassa uma população de 1.000 habitantes
onde a própria Aldeia de Varela tem menos de 1000 habitantes ( INEC 2005). Estes
são na sua maioria Felupes animistas, os poucos muçulmanos que lá vivem são
principalmente Fulas da Guiné-Conakry, Mandingas e pescadores senegaleses. A
população nestas localidades é constituída principalmente de jovens e mulheres que muitas
vezes não têm oportunidade de frequentar o ensino secundário e para eles é mais fácil
emigrar para a sub-região em busca de trabalho.

Organização Social e Dinâmica Associativa face à extração de areias


A organização social nessa área gira em torno do régulo, que é cercado de representantes
de “ balobas''' que estão sob a sua tutela. As cerimónias rituais são realizadas anualmente
nas comunidades locais de Iale e Nhiquim. Durante as entrevistas no local, as pessoas
destas aldeias, informaram-nos sobre algumas destruições provocadas pela atividade de
terraplanagem, por parte de tratoristas do projeto.
Além das questões que se predem com aspetos sagrados, uma abordagem participativa é
enfatizada a discutir tudo relacionado com à vida das comunidades locais.

Aparentemente, a dinâmica associativa é muito fraca nessas comunidades, porque os raros


embriões das associações identificadas são das mulheres. Não obstante, existe uma
organização muito bem estruturada de filhos e amigos de Suzana e Varela cujos membros
da direção estão sediados em Bissau e que representam os interesses das comunidades
locais.

A empresa POTO SARL tinha inicialmente conseguido o direito a uma declaração de


conformidade ambiental depois de ter realizado uma avaliação de impacto ambiental e
social (AIAS) em 19/04/ 2013 (consultor senegalês), seguido da consulta pública e
audiências públicas. Essa declaração de conformidade ambiental autorizou a instalação da

39
empresa para um prazo inicial de um ano, com a condição de elaboração/preparação e
implementação dos 14 programas identificados no Plano de Gestão ambiental e Social e,
consequentemente, implementar as medidas de atenuação de impactos negativos,
compensação e/ou indemnização e de acompanhamento previstas no plano. Entretanto, a
licença inicial de um ano tinha expirado em 19/04/ 2014, a empresa não recebeu, no devido
tempo, a 2ª declaração de conformidade ambiental visto que não cumpriu as condições
impostas nessa DCA relacionadas com as medidas de atenuação constantes no plano de
gestão ambiental e social, apesar de ter iniciado a exploração do mineral, tendo declarado a
exportação, em 2016, de 500 toneladas, para além de tantas outras quantidades retidas em
contentores pelas autoridades.

Consta, porém, que, até a data da elaboração do presente relatório para a Tiniguena, a
empresa já tem na sua posse a segunda DCA. Embora as atividades de escavações
estivessem teoricamente paralisadas, o transporte, em camiões, das areias já escavadas
estava em curso. Consta, porém, que, até a data da elaboração do presente relatório da
Tiniguena (Maio de 2016), a empresa já tem na sua posse a segunda DCA, As operações
foram de novo suspensas devido a ação judicial a que a empresa foi alvo no mesmo ano
por incumprimento dos procedimentos legais exigido pela lei guineense.

Um outro problema não menos importante com que se deparam a empresa, as autoridades
locais e central é a questão da falta da implicação de Associação dos intelectuais filhos e
amigos da Secção de Suzana e Varela residentes em Bissau que sempre reclamam a sua
participação no processo de extração de areias pesadas de Varela, na qualidade de
representantes legítimos desse povo felupe. Muitos alegam que deixaram lá familiares e
entes queridos e que eles têm o direito de os defender enquanto filhos e amigos da zona em
questão. Portanto, uma grande dificuldade encontrada é a falta de implicação no processo
de extração, nem das comunidades locais e muito menos dos seus representantes
associativos. Nesta situação, declararam publicamente através de conferência de imprensa
e cartas abertas aos sucessivos governos deste país a falta de transparência do processo de
extração das areias pesadas de Varela.

Atividades Económicas e Fontes de Renda:


A economia na área do projeto é predominantemente rural, com uma clara predominância
da agricultura de Bas Fonds e bolanhas de águas salgadas e da exploração dos recursos
das pescas que são a base da produção de alimentos e as principais fontes de renda da
zona.

40
Com exceção de Madina e Varela, onde as atividades de pescas ultrapassa as de
agricultura, esta última e seus sectores conexos mobilizam toda a população ativa da zona
dos jazigos das areias pesadas.
Devido ao baixo investimento público e apesar da diminuição das precipitações nos
últimos anos e consequente infertilidade do solo devido aos impactos das mudanças
climáticas, a agricultura local, continua sendo a principal atividade de subsistência, mas
não satisfaz totalmente as necessidades das populações locais. A produção de alimentos é
dominada principalmente pela produção de arroz altamente diminuta. Os 125 habitantes
da aldeia de Nhiquim, que está situada no coração da zona de incidência do projeto
exploram as terras de mesma forma que os de Varela, Iale e a redores da aldeia.
A plantação de caju é praticada na área, mas ainda não atingiu a mesma magnitude que em
outras regiões da Guiné-Bissau.
A Pecuária: Em Nhiquim onde há o maior número de gado (cerca de 200 cabeças),
enquanto que, em outras aldeias, o gado raramente atinge 100 cabeças, a suinocultura é
quase generalizada entre as comunidades Felupes e Balantas. Na realidade, o gado nesta
comunidade constitui uma forma de poupança e é vendido em caso de emergência para
lidar com problemas específicos, animal de estimação também é utilizado para cerimónias
tradicionais e sacrifícios.

- As Atividades Haliêuticas: A pesca é uma das fontes de renda mais importantes nas
aldeias de área de diagnóstico. A maioria das canoas motorizadas é propriedade de
estrangeiros, principalmente provenientes do Senegal enquanto que os residentes praticam
a pesca de subsistência com equipamentos tradicionais não adequados (pirogas a remo).

Pobreza e Acesso às Infraestruturas Básicas:


A pobreza é uma realidade nas comunidades onde a insuficiência dos alimentos constitui
um grande problema. As reservas (culturas) são muitas vezes abundante a partir do mês de
março. O acesso às infraestruturas sociais básicas (água, saúde) é difícil para a maioria das
pessoas dessas comunidades. As Infraestruturas da escola não são suficientes, obrigando
crianças de certas aldeias a percorrerem vários quilômetros diáriamente para chegar as suas
escolas.
Restrições das Populações:

Apesar do enorme potencial em termos dos recursos naturais da área (as areias pesadas, a
pesca, a agricultura e o turismo), as pessoas enfrentam muitas limitações e os desafios que
impedem a economia local a crescer. As restrições levantadas pelas pessoas dessas

41
comunidades estão relacionadas com os vários sectores desde a falta dos equipamentos
para a agricultura e pescas, bem como o acesso a algumas infraestruturas básicas.
Nos últimos tempos, em consequência do agravamento do modo de relacionamento entre o
projeto e os residentes descontentes, grande parte das possibilidades do diálogo está a ser
condicionada pelas exigências do reconhecimento dessa associação como interlocutora
incontornável entre os empresários, o poder administrativo local e as comunidades
afectadas pela exploração das areias pesadas, no sentido do respeito dos seus pontos de
vista em relação aos impactos da exploração sobre o destino e a vida dos habitantes locais.
Segundo os representantes da Associação dos Filhos de Varela, não tem havido
transparência na forma como o processo foi conduzido e, por isso, as reuniões de
audiências públicas não foram reconhecidas por esses representantes das comunidades
locais.

Assim sendo as Restrições São:


 A falta de equipamentos adequados para efetivamente realizar atividades
económicas, especialmente a agricultura e a pesca que são as principais fontes de
consumo das populações;

 Dificuldade de acesso ao crédito e insumos para melhorar os rendimentos quer


agrícola quer das pescas;
 Falta de rendimentos agrícolas e mesmo de acesso às terras (para populações de
Madina Varela);
 Falta de formação e emprego para jovens e mulheres;
 Falta de infraestruturas sociais básicas (saúde, educação, água, estradas e
transporte);
 O isolamento é agravado pelo mau estado das estradas existentes;
 A erosão costeira, a salinização, acidificação de solos e a diminuição das terras
aráveis são consequências evidentes dos impactos negativos das mudanças
climáticas que assolam o país nos anos, porque a zona em questão está situada na
zona costeira que é muito baixa em relação ao nível médio das águas do mar. Por
isso, a perda de terras aráveis é evidente e vai agravando se as medidas adaptativas
não forem tomadas urgentemente;
 Falta de transparência e de envolvimento dos representantes associativos locais na
discussão sobre medidas de atenuação dos impactos negativos e no processo de
extração mineira em geral.
Portanto, no entendimento do consultor, é possível ainda, mesmo nestas
condições difíceis acima referenciadas, conciliar a exploração dos recursos
minerais e a conservação, respeitando todos os preceitos do desenvolvimento

42
durável e as tecnologias de ponta disponíveis, como condição “sine qua non”
para o exercício da mineração.

Figura N.º : 06 - Guiné-Bissau, está vivendo ainda o início da sua economia mineira.

Fonte: Adaptado do Relatório dos estudos sobre a Prática das industriais Extrativas na Africa ocidental
Autor: Mamadou Salliou DIALLO – Guinéen – Ecologie September 2010

16. Jazigos de Bauxite


O sector de Boé possui nove jazigos de bauxite dos quais seis revestem – se de uma
importância capital, quanto à quantidade das suas reservas constatadas após aferição e dos
altos teores em alumínio. Os estudos realizados provaram a existência de 113 milhões de
toneladas de bauxite e mais do que 100 milhões de toneladas de reservas de segunda
categoria.

Estimando uma produção de cerca de 2 milhões de toneladas por ano, a duração de


vida das reservas provadas seria de ordem de 56 anos. Também, foi constatado que as
infraestruturas (estradas e porto de águas profundas em Buba) prometidas pela Empresa
Bauxite Angola não dispõem nem de projetos nem de planos de implementação, além do
mais, não preveem pelo menos a realização de estudos de impactos ambientais e sociais.
Os termos de acordos assinados com governo da Guiné-Bissau não foram, até hoje, postos
à disposição do público. As operações que estão previstas no projeto estão paradas desde
Abril de 2012, por razões de ordem política. A exploração e exportação da bauxite
suscitam várias preocupações ligadas às potenciais consequências que daí poderão advir
relativamente às áreas protegidas terrestres do Parque de Boé e Dulombi e o Parque
Natural das Lagoas de Cufada, onde está prevista a construção de um gigantesco
porto de águas profundas no Rio Buba.

Características ambientais e sociais das zonas estudadas:

43
As operações geológicas e mineiras na Guiné-Bissau ligadas a bauxite concentram-se
atualmente na zona de Boé (região de Gabu), situada no Sudeste do país a cerca de 240km
de Bissau e onde a Companhia mineira Bauxite Angola, S.A., prospeta para explorar o
bauxite que será tratada na Guiné-Bissau, antes da sua exportação para o estrangeiro. É
nessa zona de Boé, onde também existe um projeto de criação de novas áreas protegidas
terrestres (Complexo Dulombi-Boé, com as suas duas áreas protegidas terrestres e
três corredores de fauna ligando as áreas protegidas existentes de florestas de
Cantanhez e Lagoas de Cufada). A zona reveste-se de uma importância particular em
termos da biodiversidade terrestre. A cobertura vegetal é constituída por florestas
abertas e florestas densas (de pequeno porte), florestas secundária em regeneração ou
florestas galarias, vastas superfícies de savanas abertas e savanas herbáceas
(clareiras). As florestas-galarias servem de coberturas às margens de vários rios e
afluentes, ao passo que as florestas secas, densas e dispersas servem de coberturas aos
vales (entre as colinas) ou os cumes de várias colinas desta região.

Boé e Cufada - Sítios de refúgio de aves e animais emblemáticos:


As matas de Boé servem de lugares de refúgio e de alimentação às espécies mais diversas
e variadas, tais como primatas nomeadamente chimpanzés, uma espécie ameaçada e muito
frequente nestas florestas e elefantes (Loxodonta africana), uma espécie que,
antigamente, foi considerada desaparecida na Guiné-Bissau.

Quanto ao sítio do Parque Natural de Lagoas de Cufada (no Sudoeste do país) está previsto
construir a termo um porto comercial permitindo a exportação do bauxite que será
explorada em Boé. O Parque Natural de Lagoas de Cufada (PNLC) é um dos lugares mais
interessantes do país no que diz respeito à biodiversidade. Com efeito, é um lugar que
retém as maiores massas superficiais de água doce parada (Cufada, Badasse e Bionra) da
sub-região da Africa Ocidental. O local é também conhecido pela sua importância
ornitológica acolhendo várias aves migradoras, a presença de antílopes, populações de
espécies raras e/ou emblemáticas protegidas (à semelhança do Chimpanzé), classificada
espécie rara devido a sua importância notória à escala internacional.

Figura N.º: 07- Reunião de Sensibilização com população de sector de Boé

Fonte: Adaptado do
Relatório dos estudos
sobre A prática das
industriais Extrativas na
Africa ocidental
Autor: Mamadou
Salliou DIALLO –
Guinéen – Ecologie
September 2010

É precisamente no
interior deste
parque natural que
está previsto
construir o futuro porto mineiro e comercial de Buba, em suma, na zona de proteção
integral em que se encontra o maior grande número de espécies protegidas de fauna e flora.
Uma gigantesca obra portuária sem precedente na história da Guiné-Bissau que, com as

44
suas plantas arquitetónicas ocupará 7.000ha, ou seja 7,9% dos 89.000 km² da superfície
total do PNLC, se tomarmos em conta o facto de que o parque só possui 13.546ha de
florestas sub-húmidas, e que o porto de Buba será plenamente construído numa zona
de floresta sub-húmida, pode-se chegar a conclusão de que é uma taxa de 52,7% da
superfície de floresta sub-húmida do parque que será inteiramente destruída.

Riqueza faunística da zona projetada pelo projeto Bauxite Angola:


A floresta local é aquela que abriga a maior riqueza ao nível da macrofauna, e que constitui
uma das razões essenciais do interesse científico e turístico acordado a este parque de
Cufada.

Segundo os dados saídos do recenseamento efetuado neste sítio (INE ANO 2009), há 203
espécies de aves, das quais se juntam 37 espécies aquáticas, 53 espécies de mamíferas e 11
espécies de répteisis. Exceptuadas as florestas de Cantanhez, o PNLC é, um dos parques
mais ricos em termos de floresta seca e semi-seca, de um lado e, por outro lado, sub-
húmida, com 22.000 e 13.500ha, respectivamente (segundo o Plano de Gestão do Parque
Natural de Lagoas de Cufada, 2008). Em suma, a zona prevista para o porto de Buba é
unicamente considerada pelos técnicos do parque como sendo o lugar de refúgio da
maioria da macrofauna do parque, dado a ausência de aldeias e a profusão de nascentes
inesgotáveis de água doce.
O futuro porto de Buba se situa igualmente na beira do Rio Grande de Buba, sítio de
predileção para reprodução de barracudas (Sphyraena guachancho e Sphyraena afra),
espécies cujos stocks são co-geridos de uma forma responsável pelos pescadores desde os
anos 1990 (respeito pelo repouso biológico durante períodos de reprodução e utilização de
técnicas de pesca durável). Além disso, a importância da zona húmida acima referida deu
lugar à classificação internacional de uma parte do parque como Sítio Ramsar, conforme
aos preceitos da lei internacional, relativa à Conservação das zonas húmidas e aves
migradoras.

17. Jazigos de Petróleo


De acordo com o princípio universalmente consagrado pela Carta das Nações Unidas, são
domínio originário, direito inalienável e imprescritível de um determinado território, todos
os recursos minerais e naturais vivos ou fósseis que se encontram no solo e subsolo, na sua
plataforma continental e sua zona económica doravante designada de território nacional, e,
assim sendo, constituem propriedade do Estado da Guiné-Bissau os jazigos de
hidrocarbonetos líquidos ou gasosos que se encontram na zona marítima do arquipélago
dos bijagós e na fronteira marítima norte.
Empresas e organizações internacionais fizeram estudos e prospecções dos recursos
mineiros do país durante os últimos 40 anos. Desde os anos 2000, investidores estrangeiros
assinaram contratos de prospecção com a Guiné-Bissau. Não houve ainda um
pronunciamento categórico e definitivo sobre se há ou não reservas de petróleo que
quantidades suficientemente interessantes que garantam e justifiquem uma viabilidade
económica e comercial para a sua exploração efetiva. Contudo, existem esperanças de que
existe petróleo explorável. Até ao fim de 2015, a Petroguin (empresa do estado
responsável pelo seguimento dos dossiers do petróleo) espera que seja finalizada a
interpretação dos dados de prospecção de tipo 3D que poderá confirmar ou não a sua
existência suficiente. (10)

Por um lado, as perspectivas de exploração dos recursos mineiros criam, habitualmente,


muitas espectativas positivas (por vezes não menos rodeadas de ilusões) para a economia
10
Relatório sobre a Avaliação da Governança Ambiental na Guiné-Bissau – 2015, DGDD/PNUD, (pág, 95/96)
45
do país em termos de receitas públicas, da dinamização da economia e de criação de
empregos. Mas, por outro lado, as avaliações feitas a nível internacional sobre as indústrias
extractivas indicam que“o petróleo, o gás e as minas falharam na maioria dos casos e em
muitos países pobres, em ajudar as pessoas mais pobres dos países em desenvolvimento, e
muitas vezes essas indústrias pioraram ainda a vida das pessoas mais vulneráveis. Isso
significa que de um efeito positivo é unicamente possível quando a Governança
democrática de um país desenvolve-se de uma forma suficiente para que os mais pobres
possam beneficiar do aparecimento deste sector” (Banco Mundial, 2004).

Essas lições tiradas do desenvolvimento das indústrias extractivas em outros países


explicam em parte porque muitos atores estão preocupados com os projetos de exploração
mineira e petrolífera na Guiné-Bissau. A falta de circulação de informação e da
transparência sobre este sector também alimentam a desconfiança e as especulações das
partes.

Localização Geografia
O arquipélago dos bijagós tem uma área total de 2. 624 Km² e uma população de cerca de
30.000 habitantes (Censo de 2009). Apenas 21 das 82 ilhas têm populações significativas,
já que a maioria ou são desabitadas ou têm populações muito reduzidas. A população fala
maioritariamente o bijagó e professa religiões animistas: são profundamente crentes e
dedicam cerca de cem dias por ano a rituais religiosos.

Figura N.º: 08 - Mapa Físico do Arquipélagos dos Bijagós

Fonte: Adaptado do Relatório dos


estudos sobre A prática das industriais
Extrativas na África ocidental

17.1 Aspectos Ambientais na Pesquisa e na Produção de Petróleo:


17.1.1 A exploração e o desenvolvimento de campos petrolíferos –
segurança operacional e impacto ambiental.

A segurança e o impacto ambiental constituem dois dos aspetos mais importantes de


qualquer operação industrial. Conhecidos por HSE (do inglês bealtb, safety and
environment), são uma preocupação fundamental de qualquer indústria. No entanto, a
história do petróleo, bem como as dificuldades inerentes aos projetos de
pesquisa/prospecção, exploração e produção, torna esta indústria muito mais conceptível a
problemas e questões que devem ser levantados por Governos, Autoridades Locais e
Grupos Ambientalistas.

46
De tal modo se desenvolveu a componente HSE nos projetos petrolíferos que a política e
os procedimentos nesta área se tornaram parte integrante da gestão das melhores
companhias/ empresas. É habitualmente aceite que as companhias/empresas petrolíferas
com melhores níveis de HSE são também as que apresentam melhores resultados
económicos.

Vale a pena desenvolver este ponto, dado ser um aspeto fundamental das políticas
implementadas pelas companhias/empresas petrolíferas. Os projetos de exploração e
produção, com os seus poços, plataformas e outras instalações, ocupam normalmente áreas
grandes e envolvem grandes quantidades de equipamento. Para além disso, a história desta
indústria não ajuda. As imagens que temos dos primeiros projetos de exploração e
produção nos Estados Unidos e no Azerbaijão, de há quase um século, são de um impacto
ambiental enorme. Estas imagens mantêm–se vivas no passado mais recente, apoiadas por
exemplos como os problemas ambientais nos campos petrolíferos da Sibéria Ocidental
durante o regime soviético, a contaminação de aquíferos no Equador causada por resíduos
impregnados de petróleo que não foram corretamente isolados dos solos em operações
conduzidas nos anos 70 ou os derrames dos petroleiros nos mares e nas costas marítimas. É
impossível esquecer a saga do naufrágio do Prestigie e o consequente derrame junto às
costas portuguesa e espanhola em 2002. Igualmente trágico, embora não tanto do ponto de
vista ecológico, foi o acidente ocorrido na plataforma Piper Alpha no mar do Norte,
operada pela ocidental Oil, a qual explodiu no dia 6 de Julho de 1988, foi considerado o
maior acidente da indústria petrolífera no mar, tendo desaparecido 167 pessoas.

Olhando para estes exemplos, a primeira questão que se coloca é: de quem é a culpa?
Provavelmente das Companhias/Empresas, por não terem implementado processos capazes
de evitar os problemas. Como entidades conhecedoras de todos os detalhes das operações,
não há dúvida de que estão numa posição privilegiada para pôr em prática as ações
necessárias. Mas também dos Governos, que têm a obrigação de zelar pelo bem–estar das
populações e garantir um desenvolvimento sustentável para as gerações futuras. São os
Governos que não têm normalmente as capacidades necessárias para definir e impor
políticas de fiscalização eficazes e por vezes não têm mesmo vontade de fiscalizar, pois
conseguir um negócio com impacto imediato é quase sempre o grande objectivo. Talvez
também das entidades e autoridades locais que, apesar de diretamente relacionadas com um
projeto implementado na sua área geográfica, não têm força nem vontade para interferir.
São muitas vezes as organizações ambientalistas não-governamentais e a imprensa que
funcionam como observadores mais atentos. Estes agem com boas intenções, embora, por
vezes, misturam, de um lado, o seu papel de cidadania ativa no quadro do princípio da
participação para influenciar os decisores na utilização de boas práticas e pela
transparência na gestão da coisa pública, e do outro lado, com o sensacionalismo no
tratamento de questões técnicas e delicadas. Todos os intervenientes contam e todos
devem ser responsabilizados.

Deve dizer–se que apesar de tudo, é cada vez mais prática comum dos Governos fazer
depender a atribuição de concessões de prospecção/exploração ou licenças de produção ás
companhias/Empresas petrolíferas de apresentação de um estudo detalhado de impacto
ambiental e social e de um plano de atividades global cuja componente HSE cumpra, no
mínimo, os requisitos impostos pelo Governo.

Deve notar–se que a natureza dos projetos petrolíferos impõe exigências a vários níveis e
que o progresso nesta área tem sido enorme nas últimas décadas, embora, em muitos
países, haja ainda um longo caminho a percorrer até atingir níveis aceitáveis de garantias
de desenvolvimento sustentável para as comunidades locais.

47
Em súmula, ao implementar uma gestão de HSE, as companhias/Empresas devem ter
em vista não só os seus interesses económicos, mas também as pessoas, as
comunidades e o ambiente. Quando uma companhia/Empresa toma em consideração
aspetos éticos e morais, para além dos aspetos económicos, comerciais e legais, está a
investir na sua reputação.
Cabe aos Governos saber tomar partido do que as companhias/Empresas podem oferecer.

17.2 Aspecto do impacto ambiental nas operações da indústria petrolífera:

Sem dúvida, este é um dos aspetos que dá maior visibilidade á indústria do petróleo, do gás
e de outros minérios. Já neste capítulo se referiram exemplos de acidentes com impacto
ambiental sério. Podemos agrupá-los em três categorias principais:
 Alterações na superfícies terrestre, desde as florestas tropicais até aos desertos,
passando pela zonas habitadas;
 Os derrames de petróleo, tanto em terra como no mar (contaminação dos solos e
dos rios e mares);
 As emissões das poeiras e de gases para a atmosfera etc.

O impacto de uma ação ou um acidente sério pode estender – se ao longo de anos, décadas
ou mesmo séculos. Com a importância crescente da indústria petrolífera no panorama
energético mundial, foi fundamental atacar os problemas ambiental e social de uma forma
sistemática e transformar esta indústria num contribuinte efetivo para o desenvolvimento
sustentável do mundo em que vivemos, tal como o define Brundtland no seu relatório,
OUR COMMON FUTURE DE 1987:” Desenvolvimento que satisfaz as necessidades
do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras para satisfazerem
as suas próprias necessidades” ou é um conceito de três pilares assente em três
pilares: Crescimento Económico, Equilíbrio Ecológico e Progresso Social.

É do próprio interesse das companhias/empresas minerais e petrolíferas contribuir


decisivamente para o desenvolvimento sustentável, dado isso vir a resultar num maior
prestígio junto das autoridades, outras entidades e populações e, consequentemente, em
mais oportunidades de negócio.

Estudos de Impacto Ambiental:


Como foi dito anteriormente, a preservação do ambiente que nos rodeia é cada vez mais
uma preocupação constante da humanidade. É neste sentido que os estudos de impacto
ambiental (environmental impacts assessment) – EIAS subjacentes a qualquer projecto
minério e petrolífero merecem cada vez mais atenção das companhias/empresas, dos
Governos e do público em geral. Hoje em dia, esses estudos não são feitos só para cumprir
obrigações legais do país em causa, mas porque fazem sentido no contexto de uma política
ambiental a nível global. Para além disso, podem trazer vantagens económicas para ambas
(Empresa e País).

Um estudo de impacto ambiental tem como objectivo documentar os potenciais efeitos


físicos, biológicos, sociais e de saúde que as atividades em causa poderão ter na
região/zona/área de incidência do projeto. O estudo fornecerá informações necessárias para
que os especialistas e gestores decidam sobre a viabilidade do projeto ou se será necessário
escolher alternativas ou fazer modificações ao mesmo. Num projeto petrolífero, desde as
48
fases iniciais de prospeção e de exploração/ produção, são necessários o Estudo de Impacto
Ambiental e Social – EIAS rigoroso por parte das Empresas.

Resumindo, os estudos de impacto ambiental e social têm importância pelos seguintes


motivos de (11):
 Identificar os impactos e riscos no ser humano, no ambiente, nas propriedades,
na reputação e nos aspetos económicos;
 Reduzir os impactos a níveis mínimos de aceitação ou eliminar os mesmos se
possível;
 Dar cumprimento aos regulamentos das agências governamentais de cada país;
 Obedecer aos sistemas de gestão de HSE (HSE management system);
 Melhorar as práticas operacionais;
 Comunicar e estabelecer metas indicadoras de performance (KPI – key
performance indicators);
 Ajustar o orçamento operacional;
 Divulgar a importância das questões ambientais.

17.3 Situação actual de prospecção e eventual exploração de petróleo e gás na


Guiné–Bissau.

Ouvido um dos alto funcionários da empresa guineense de petróleo e gás – Petroguin -


sobre a actual situação de prospecção e eventual exploração de petróleo e gás na Guiné –
Bissau, eis a situação:

Que neste momento atual, a Empresa Petroguin é pública isto é do Estado da Guiné –
Bissau e representa o Estado em qualquer processo negocial com as empresas estrangeiras
quanto aos contractos de prospecção sísmica no alto mar. Participa nos trabalhos técnicos
da prospecção sísmica e ao mesmo tempo na fiscalização e negociações das parcelas ou
blocos para fins de pesquisa científica. Esta situação vai continuar de acordo com o
estabelecido na Lei do Petróleo (Lei 4/2014, de 15 de Abril e o seu Decreto), até quando a
situação mudar da fase de prospecção para a fase de exploração, altura em que a empresa
pública nacional estará em condições financeiras para suportar ela própria as despesas que
se prendem com os trabalhos da prospecção sísmica e entre outros.

11
Indútrias de Petroleo de A a Z, Gulbenkian
49
Fonte: PETROGUIN- EP

Fonte: PETROGUIN- EP

50
Nota–se também que, considerando a possível dinâmica que a Empresa Petroguin pode
vir a ter com a descoberta física dos hidrocarbonetos, um problema sério de falta de
quadros qualificados nas diferentes áreas que compõem a empresa.

Por isso, recomenda–se a atualização da política, formando mais quadros jovens nos
domínios da empresa (fiscalização, negociações internacionais no domínio dos
petróleos, geologia, geofísica etc..) para que num futuro próximo o País possa dispor de
nacionais jovens para a continuidade do processo, separar e transferir as funções e
competências as outras estruturas estatais competentes por ex: a fiscalização e negociação.
Desde que começaram as atividades sísmicas de prospecção com vista a encontrar o
petróleo e gás nas águas territoriais da Guiné – Bissau, nunca se observou em nenhum
caso, os estudos de impactos ambiental e social exigido pela Lei de Avaliação Ambiental e
Social e demais Leis e Regulamentos da República da Guiné – Bissau e da CEDEAO no
domínio ambiental. Portanto, é muito grave, se tivermos em conta o descrito sobre no
capítulo dos petróleos e seus impactos negativos no ambiente circundante, na saúde
humana e nos ecossistemas marinhos em caso de acidentes tais como: derrames e
explosões no alto etc..

Um outro problema não menos importante, é a implicação direta das comunidades locais
das áreas envolventes, das autoridades locais e demais atores diretamente concernentes nas
zonas de incidência dos projetos de prospecção e exploração do petróleo e gás. Apesar do
Estado da Guiné – Bissau não contribuir com fundos próprios e programados em quaisquer
atividades de pesquisa de petróleo e gás, estando numa total dependência das grandes
multinacionais de petróleo em termos de financiamento das ações de prospecção sísmica,
os trabalhos de avaliação dos impactos ambientais e sociais são obrigatórios. Em
concordância com o acima exposto, na percepção do consultor, neste particular, não se
pode falar da transparência do processo e muito menos da efetiva cumprimento das Leis,
Regulamento do país sobre a matéria, acordos internacionais que regulam as atividades da
prospecção e exploração do petróleo, relativamente a conservação e proteção do ambiente
e a proteção da vida de uma maneira geral. Portanto, é preciso enveredar – se pelo
cumprimento escrupuloso das Leis, normas, procedimentos legais e boa prática conducente
a conduzir o país e os territórios vizinhos a um desenvolvimento harmonioso e sustentável.

18 Pedreiras de Cuntabane e Xitole


18.1 Pedreira de Cuntabane

Localização da Pedreira:
A localização do jazigo de doleritos é na Região de Tombali, Sector de Quebo,
concretamente na Povoação de Cuntabane, nas margens do leito do rio gunoba. A distância
de sector de Quebo à capital Bissau é de aproximadamente 200km.
Reservas Geológicas de Pedreiras:
O total do Bloco I+II, Prospecto de Gunoba é de 2.136.000 M3, correspondente a
potencialidade produtiva da pedreira.
A superfície do jazigo é de: Bloco I 14.800M2
Bloco II 36.400M2

51
Figura n.º : 09 – Mapa de Sector de Quebo

Fonte: ECO-PROGRESSO, 2013.

Ambiente Humano
Situação Administrativa:

A zona do projeto e da sua influência, estão situadas no sector de Quebo, a nordeste da região
administrativa de Tombali, Sul do país, especificamente na s ação de Cuntabane. A referida
região está constituída administrativamente por quatro (4) sectores (Catió, Bedanda, Cacine
e Quebo). E cobre uma superfície total de 3.737 km2.

O sector de Quebo que alberga o Projeto de exploração da pedreira, cobre uma superfície de
960km2, com as seguintes secções: Sintchã Sambel, Cuntabane, Quebo, Mampata-forea,
Cunibodja, Unal, Balana e Candembel. Hoje, só quatro destas secções pertencem ao sector,
são elas: Balana, Unal, Cuntabane e Quebo.

Demografia:

Segundo os dados de censo da população, feito em 2009, o país tem 1.500,000 habitantes.
A região tem uma população de 30.174 habitantes. O sector de Québo, onde se situa a
pedreira, tem 15.372 habitantes. Esse número equivale a 16,9% da população residente de
Região de Tombali, segundo o censo de 2009 (RGPH, 2009). Na zona do projeto, existem
um mosaico étnico complexo, apesar da predominância dos mandingas e fulas, praticantes
da religião muçulmana.

52
Modo de Vida:
O agregado familiar ou a família é uma realidade sociocultural na medida em que constitui
um fator de influência da vida dos seus membros, tanto do ponto de vista do modo de
pensar, como de ser e de agir. Nas zonas de intervenções do projeto da exploração de
pedreira de Cuntabane, as habitações são na sua grande maioria, de estilo precário e
caracterizam-se por espaço físico bastante exíguo, notavelmente verifica-se número
elevados de filhos e outros familiares.

Na maioria dos agregados familiares, constata-se a coabitação de oito (8) ou mais elementos
em habitação de 2 divisões.

As características das habitações em termos étnicos – fula, mandingas (as mais predominantes
do sector), não possuem cozinhas nem espaços sanitários. As cozinhas existentes ficam em
frente a cada casa, geralmente, em péssimas condições de higiene.

A pedreira de Quebo, concretamente em Cuntabane pertencia uma empresa portuguesa de


nome Afrostone SARL que inaugurou sítio com o estudo de viabilidade técnica e financeira
do seu projeto de execução, com o apoio da CAIA, desde do ano 2011.

Após os estudos acima referidos, chegou – se a conclusão que a área escolhida tinha um
potencial enorme de doleritos quer em termos de quantidade, quer em termos de qualidade.
Estas pedras em estado bruto (matéria prima) podem ser transformadas em cascalhos de
qualidade que podem ser utilizados nas obras de construção civil ou ainda transformados em
mármores e outros derivados de extrema importância para a finalização das obras da
construção civil e podem ser exportados para a Europa do Leste e outros países do mundo. Na
verdade, a empresa Afrostone foi mal implantada aqui na Guiné – Bissau, sem respeitar os
procedimentos legais exigidos pela Lei de AA da República da Guiné – Bissau. Todos os
trabalhos de legalização no início, foram feitos a pressa e no final de tudo, a empresa
começou a explorar as minas de pedras em Cuntabane sem qualquer estudo de impacto
ambiental e social exigido pela Lei. Neste caso concreto, na altura, em que as autoridades
retomaram o processo de exploração da pedreira de Cuntabane, sector de Québo, região de
Tombali, já era tarde com a exploração bem avançada. No entanto, o que se devia fazer era
mandar encerrar as portas da empresa e aplicar uma multa dura pela infração cometida, pela
falta de aplicação dos procedimentos legais, quanto a legalização e respeito as regras do jogo
no domínio das minas e pedreiras. Logo após esta situação no início do processo, devia
proceder-se a uma auditoria ambiental antes de permitir que a empresa avançasse com
qualquer que seja atividade no terreno mas, isso não aconteceu e a empresa continuava a
produzir para os mercados internos, do Senegal e da Gambia.

53
Nesta situação anómala em que se encontrava a empresa portuguesa Afrostone, sem estudos
de impacto ambiental concluído e com alguns problemas de ordem financeira e
administrativa, a empresa foi obrigada abandonar o país rumo a Portugal, deixando por de
trás, muitas dívidas com as empresa nacionais e com a própria CAIA e nunca teve acesso a
uma Licença Ambiental para exploração da pedreira. Perante estes factos, pode – se
considerar que não houve transparência nenhuma no processo da empresa Afrostone e antes
pelo contrário, houve conflito entre a empresa, comunidades locais e a autoridades locais, no
que tange a questão relacionada com pagamentos de licenças de exploração e outras despesas
exigidas pelas populações locais.

Agora, a empresa deixou de existir e no seu lugar veio uma outra e desta vez é um nacional
que quer comprar mas, está descapitalizado.

A superfície já explorada até altura em que a lavra foi abandonada é desconhecida.

Não houve nem informação/ sensibilização as comunidades residentes e muito menos a


consulta e audiência públicas. Portanto, neste caso particular, não se pode falar da
transparência, nem da implicação das comunidades afectadas.
As pequenas contribuições que a empresa tinha, serviam apenas para aliciar o chefe da
tabanca e o comité de tabanca (com cumplicidade de alguém na Administração local), em
detrimento da maioria esmagadora da população.

Este tipo de comportamento que a empresa teve e a falta de organização do Estado da Guiné –
Bissau, prejudicou, prejudica e prejudicará as economias locais e nacional e com impactos
negativos no ambiente e na saúde pública.

19. Pedreira de Xitole

Localização da Pedreira:
A exploração da pedreira objeto do presente diagnóstico da situação atual, situa-se no
Sector de Xitole, Região de Bafatá, aproximadamente a 1,2 Km da Sede do sector, tendo a
seguinte localização geográfica, segundo a delimitação do perímetro da área de concessão:

Figura n.º : 10- Mapa de Situação Antes do projeto Figura n.º : 11 -Situação atual de Exploração

54
Fonte: Eco Progresso

Figura n.º: 12 - Mapa de Localização da Pedreira Guinepedra

Fonte: Eco
Progresso

Ambiente Socioeconómico
Caraterização Demográfica:
O recenseamento geral da população e habitação de 2009 revelou que a população total do
sector de Xítole é de 16.928 pessoas. Onde a população masculina representa 8.216 e
população feminina representa maior número 8.712.
A empresa que explora pedra nesta localiodade é espanhola e pertence ao grupo de
Guinepedra SARL com residência fixa aqui em Bissau, Bairro de Missira, Guiné –
Bissau.

Agregação Social:

Xítole caracteriza-se por predominância das etnias balantas e fulas, embora haja outras
etnias residentes. No sector, há duas associações de jovens e de mulheres, sendo que a de
jovens ainda não está completamente legalizada. No tocante às autoridades locais, o sector
de Xitole tem um régulo, chefe de tabanca, um administrador de sector e identidades
religiosas.

O potencial de produção é de 2.136.000,00M3 e a qualidade de produto é boa.


O caso da empresa Guinepedra é idêntica com o de empresa portuguesa Afrostone,
Também sem estudos de impacto ambiental concluído por razões que se prendem com a
corrupção, nem o do processo de Licenciamento Ambiental.

As instituições do Estado, como por exemplo o Ministério dos Recursos Naturais (Direção
Geral da Geologias e Minas) e a Secretaria de Estado do Ambiente (CAIA), não se
entendem entre si quanto ao procedimento de Licenciamento Ambiental. Portanto, não há
nenhuma coordenação e muito menos a cooperação institucional por forma a permitir o
cumprimento integral do procedimento legal e a normal aplicação das leis, normas,
regulamentos etc...., de modo a salvaguardar a sustentabilidade Ambiental e Social na

55
exploração da pedreira de Xitole. Apesar da continuidade das atividades de exploração da
pedreira até a data presente por parte da empresa, a situação se mantem intacta. Sem EIAS
concluído e sem respeitar as condições impostas para que uma lavra possa ser explorada,
isto é, respeitar as profundidades nos limites aceitáveis pela Leia das pedradas. Não há
nenhuma transparência no processo e muito menos a implicação da comunidade.

Nesta pedreira de Xitole, nota–se também, os indícios de conflitos entre a empresa,


autoridades locais e as populações quanto ao pagamento de licença cobrada localmente.
Portanto, nestas duas empresas de pedreiras, está bem patente que os processos são
viciados e com muita corrupção e sem nenhuma fiscalização.

Estes factos são perigosos e estranguladores e até podem conduzir o país a desastres
ambientais/ecológicos sem precedentes. Por isso, em qualquer processo de mineração, é
imperativo a aplicação das Leis, Regulamentos e Procedimentos Legais durante todo o
processo.

O tempo útil de exploração desta pedreira é de 25 anos ou mais, de acordo com a


capacidade da reserva Geológica. Em relação as outras pedreiras em actividades no país,
todas elas funcionam sem qualquer documentação legal de boas práticas.

20. AAAC/CAIA: Entidade Promissora para o Controlo da Aplicação de Leis,


Regulamentos, Acordos Internacionais e Regras de Exploração dos Recursos
Minerais.
Ao nível nacional, criou-se em 16 de Dezembro de 2004, a Célula de Avaliação de Impacte
Ambiental (CAIA), atual AAAAC (Alta Autoridade de Avaliação Ambiental
Competente), ao abrigo da Lei n.º 10/2010 datado de 24/09, do então Primeiro-ministro,
com o objectivo de apoiar o Executivo na tomada de decisões em matéria de avaliação
ambiental aplicada aos planos, projetos, programas e políticas de desenvolvimento
susceptíveis de provocarem impactos negativos no ambiente físico e na saúde pública, com
base em critérios científicos.
É bom lembrar que a CAIA emergiu no quadro do Projeto de Gestão da Biodiversidade e
da Zona Costeira da Guiné-Bissau (PGBZC-GB). A sua missão consistia, em criar um
quadro jurídico e institucional em matéria de avaliação ambiental e social no país, com
vista a iniciar o processo de Avaliação Ambiental (AA) à todos os projetos de
desenvolvimento, correlacionando-os com as diretivas internacionais, nomeadamente do
Banco Mundial, União Europeia, e entre outros, enquanto o país não tinha legislação
própria.
Agora o País já dispõe da Lei de Avaliação Ambiental, lei n.º 10/2010 de 24 de Setembro.
Esta lei, constitui o principal instrumento de trabalho da Célula, na sua luta pelo
desenvolvimento da cultura de avaliação ambiental no País. A Lei de Avaliação Ambiental
(LAA) é um instrumento preventivo fundamental para execução de uma política de
conservação do meio ambiente, e se encontra referenciada em quase todas as leis sectoriais,
nomeadamente Lei Quadro das Áreas Protegidas, Lei das Minas e Pedreiras, Lei Florestal,
etc.
No que concerne a exploração dos recursos naturais, a LAA assegura a obrigatoriedade dos
Promotores submeterem-se ao processo de Licenciamento Ambiental (LA), para obtenção
da Declaração de Conformidade Ambiental (DCA) e só depois o Certificado de
Conformidade Ambiental (CCA). Este último é mediante a realização da auditoria
ambiental e/ou dos resultados das atividades de seguimento da implementação das medidas
recomendadas na DCA.

56
A DCA é um documento que proporciona inúmeros benefícios tanto ao Promotor assim
como a Autoridade de Avaliação Ambiental Competente. Para este último, demostra o
respeito a legislação nacional, compromisso com o desenvolvimento limpo,
reconhecimento dos impactos negativos e preposição de medidas de atenuação/mitigação,
de bonificação e de acompanhamento com vista a redução dos efeitos adversos do projeto
no ambiente biofísico (Ar, Mar Terra) e humano. Para o promotor, constitui um mecanismo
de proteção de investimentos, de obtenção de financiamento, entre outros. Convêm
sublinhar que os parceiros estratégicos e financiadores dos grandes projetos do País, como
União Europeia, Banco Mundial, Banco Oeste Africano para o Desenvolvimento, Governo
de Japão, entre outros, têm exigido apresentação de Licença Ambiental como condição
para obtenção de financiamento.
O processo de licenciamento ambiental na Guiné é participativo e qualquer pessoa pode
tomar parte no mesmo. Prova disso é que, os Artigos 14º e 24º asseguram a participação
pública em todas as etapas do processo. O art. 24º assegura a obrigatoriedade de realização
de sessões de Audiência Pública nas zonas abrangidas pelo projeto. As reuniões são
previamente divulgadas nos órgãos de comunicação social acessível e de maior audiência.
Infelizmente, não tem havido resposta a altura da parte das comunidades locais e
organizações da sociedade civil, por falta de informação/sensibilização a vários níveis e
esperamos que vamos amadurecer juntos nesse processo.
A CAIA funciona hoje com 8 (oito) técnicos de diferentes especialidades. Paralelamente
conta com representação em quase todos os ministérios técnicos do Governo. Ao nível
central temos os Pontos Focais (PF) e ao nível regional, existem as Antenas Setoriais (AS).
Tanto os PF’s como as AS’s, são técnicos capacitados na matéria de AA, e que devem
servir de elementos de ligação do local para central mediante ações de fiscalização dos
projetos e qualquer outra forma de investimentos impactantes no ambiente. Infelizmente
não tem funcionado por falta de meios (financeiros, logísticos, políticos, etc).

A Célula é uma instituição extremamente importante para consolidação de uma politica de


conservação dos recursos naturais no País. Por isso, o Governo deveria acarinhá-la, criando
condições efetivas para o seu pleno funcionamento. Se isso não acontecer, estaremos sob
ameaça de criar só por criar ou criá-la e submetê-la a mando dos Governantes e de
interesses particulares e mesquinhos (tráfico de influência, corrupção etc…), sem respeitar
os pressupostos legais, atribuição anárquica de Licenças Ambientais e não realização de
Estudos de Impacto Ambiental e social.
Temos que admitir que muitos empreendimentos foram erguidos neste País sem respeitar a
LAA, e nem o Plano Diretor das Cidades, entre outros documentos orientadores. Mas,
segundo os responsáveis do CAIA, não é porque não têm sido avisados. Simplesmente, por
MOTIVOS DE FORÇA MAIOR muitos empreendedores não o tem feito.. Neste cenário é
um risco enorme ter uma instituição como a CAIA e que pode perder o respeito ao nível
sub-regional, nacional e internacional.

Também não podemos dar ao luxo de pensar que autonomizando a CAIA, a influência
politica e outras formas de pressões vão acabar. Mas, acredito que tenderão a diminuir. O
que pode efetivamente acabar com isso, é pautarmos pela legalidade, afim de construírmos
uma relação homem-natureza equilibrada rumo ao desenvolvimento sustentável. Por outro
lado, os Promotores não devem ver AA como um gasto de dinheiro. É um mecanismo
cientifico, de prevenção e que protege (investidor, ambiente e comunidade).
Também é verdade que a sustentabilidade da Célula passa pela cobrança de taxas
administrativas oriundos do processo de LA. Neste momento não se aplica taxas, porque
não existe um diploma especifico que regulamenta esta prática. Apenas um orçamento que

57
cobre os custos com deslocação dos técnicos, etc. Este orçamento é ilusório, se
compararmos com os países da sub-região, é insignificante.
Na opinião dos dirigentes da CAIA, o mecanismo de sustentabilidade financeira para
Célula foi muito bem pensado, mas a sua execução não tem sido eficaz. Por exemplo, diz-
se que a CAIA vai sobreviver de cobranças de taxas administrativas oriundas do processo
de LA. Acontece que a LAA, não traz no seu corpo a forma de aplicação dessas taxas,
remetendo-as para um regulamento complementar já elaborado com apoio de um projeto
de PNUD. Diz-se também que a Célula poderá receber doações, subvenções e outros...
mas, a verdade é que a Célula foi criada através de um simples Despacho que tem apenas
peso politico e sem fundamento jurídico.

Para sair desta situação, Os dirigentes da CAIA, submeteram há muito, a proposta de


transformação da CAIA numa Agência Nacional de Avaliação Ambiental, com respectivo
Decreto de criação, assim como Decreto que define a cobrança das Taxas. Todos esses
documentos se encontram na posse dos últimos Secretários de Estado do Ambiente,
aguardando até hoje a sua discussão e aprovação no conselho de Ministro.(12)

Quanto a passagem da CAIA para AAAAC (Alta Autoridade de Avaliação Ambiental


Competente), ainda está em discussão técnica e por enquanto sem consenso, razão pela
qual a sigla CAIA continua em vigor.

21. A confirmação da relevância das questões relacionadas com o ambiente e a saúde


pública no processo da mineração.

A década passada confirmou plenamente a relevância das questões ambientais e sociais na


atividade industrial, colocando a indústria mineira perante problemas e desafios novos e
enormes. Esta nova conjuntura veio alterar profundamente as características dos projetos
mineiros, primeiramente ao introduzir um novo fator de risco, que se veio adicionar aos
clássicos riscos geológicos, tecnológicos e de mercado, ao fazer depender a decisão de
autorização administrativa para a prospecção/exploração, da aprovação de um estudo de
impacto ambiental e social (AIAS). Embora a validade deste requisito seja inquestionável,
constatamos que não se atingiu ainda a fase de maturidade suficiente e na qual os seus
objectivos estejam claros e consensualmente reconhecidos por todos os intervenientes no
processo de avaliação ambiental. Esta fonte de incerteza da viabilidade de um projeto
aparece, frequentemente, associada a tomadas de posição das comunidades locais,
particularmente quando são estimuladas e amplificadas por grupos de pressão
ambientalista e quando a percepção dos impactes positivos e negativos do projeto não é
tratada com a devida cautela, podendo gerar fortes reações negativas que dificilmente são
ultrapassadas ou conduzem mesmo à inviabilização do projeto. Pode dizer-se que se trata
de circunstância idêntica à de qualquer outra atividade económica, contudo, no caso da
indústria mineira, o projeto ou se realiza naquele local ou não se realiza.

12
- Fonte: Edinilson da Silva, Ambientalista e Ex – funcionário da CAIA

58
Mas também a necessidade do encerramento e abandono do sítio da exploração ter que ser
feito em moldes que assegurem a sua reabilitação e devolução à comunidade para
utilizações alternativas, veio introduzir um perfil particular nos fluxos financeiros do
projeto, com a realização de despesas, geralmente de montante elevado, após a sua vida
útil, quando o volume de receitas já diminuiu muito ou cessou mesmo, o que implica que
os meios necessários têm que ser acumulados ao longo da vida útil da mina. A legislação
fiscal de muitos países da nossa sub-região e do mundo, reconhece a especificidade desta
situação e possibilita a constituição de provisões, isentas de IRC, para a realização das
despesas de recuperação previstas no plano de encerramento aprovado pelos organismos
oficiais.

A indústria mineira tem, reconhecidamente, apreciáveis impactes ambientais, embora


existam tecnologias disponíveis para que aqueles se mantenham dentro dos valores
regulamentares, ainda que a sua utilização implique, geralmente, custos de produção mais
elevados. A opção por estas tecnologias eleva os limiares de explorabilidade económica,
refletindo afinal o princípio da "internalização dos custos ambientais". No caso das minas
metálicas e afins, o principal problema ambiental relaciona-se com resíduos de exploração,
muito particularmente quando são radioativos ou a sua paragénese contem sulfuretos
metálicos, os quais, se não forem convenientemente depositados, podem originar águas
ácidas, a contaminação de solos e aquíferos por elementos metálicos e radioativos. O
problema dos resíduos assume hoje um carácter universal e está na agenda política das
questões ambientais, tendo sido tornado ainda mais atual pelo acidente ambiental da rotura
da barragem da mina de Aznalcollar (Espanha), nele se jogando um ponto decisivo dos
moldes em que a atividade se irá desenvolver no futuro.

A experiência nacional é limitada, pois somente um número muito restrito de projetos


mineiros foi submetido a avaliação de impacte ambiental e social (ex: projeto de fosfato de
Farim e o projeto de extração das areias pesadas de Varela). Do resto, ou o estudo EIAS
não está concluído ou nunca foi feito (casos de Bauxite Angola e de prospecção de
petróleo Offshor). Sendo bastante maior no caso de pedreiras (ex: empresas Afrostone
portuguesa, a Guinepedra Espanhola e entre outras pedreiras exploradas por nacionais. A
primeira constatação é a de que se trata de assunto em rápida mutação, com um número
crescente de novos atores, particularmente, organizações ou simples grupos de cidadãos.
Esta importância não tem cessado de aumentar e não se atingiu ainda um novo equilíbrio
entre os valores e os protagonistas em presença, embora se procurem novos quadros de
compatibilização indústria-ambiente.

59
Na caracterização que se faz do estado do ambiente na Guiné-Bissau, relativamente aos
diversos sectores industriais, constata-se que a indústria extrativa não integra os sectores
mais críticos, tais como: sector de resíduos sólidos - sacos plásticos, produção de
aguardente etc. Contudo, o facto de as operações assumirem, frequentemente, aspetos
fáceis e imediatamente visíveis e perceptíveis pela opinião pública, particularmente nas
áreas de concentração de grandes prospecção/explorações a céu aberto, isso tem
contribuído para a maior intervenção das partes interessadas, tendo, por vezes, criado
imagem desproporcionalmente negativa, ao associarem as operações às práticas ambientais
menos corretas, lá onde a ação comporta riscos menores. Mais recentemente, a divulgação
pela imprensa da situação de alguns sítios de minas abandonados sem a devida recuperação
do espaço como manda a lei do impacto ambiental e sem uma explicação justificável (ex:
Varela e Farim), favoreceu a frequente adopção de tendências sensacionalistas sobre o
assunto. Por conseguinte, tornar pública essas problemáticas, tem ampliado a sensibilidade
da opinião pública para as práticas da indústria extractiva, despertando a atenção na
necessidade de todos assumirem as suas responsabilidades, a medida dos estatutos de cada
um. Pensamos que a execução do programa de recuperação de espaços de minas
abandonadas pode ter um impacto muito positivo na correção da imagem negativa da
indústria mineira, ao devolver à comunidade, devidamente requalificados, sítios que eram
exemplo de degradação ambiental, paisagística e humana.

60
22. A emergência das questões do período post-mina (minas abandonadas e áreas
mineiras desativadas)

O encerramento de uma mina coloca sempre delicados problemas sociais, técnicos,


ambientais, financeiros e jurídicos, suscitando a necessidade de uma maior integração e
abrangência na sua análise, a qual deve contemplar a interligação entre as diversas fases
do projeto mineiro: prospecção/pesquisa, extração, recuperação ambiental do sítio em
abandono. Analisado numa perspetiva distinta, podemos considerar três períodos de atividade:
do ante-mina, da mina e do post-mina.

Os dois primeiros são clássicos e relativamente bem conhecidos, enquanto a importância do


período post-mina se tem vindo a impor pelo reconhecimento da existência de sítios mineiros
abandonados e nos quais se desenvolvem processos naturais causadores de impactos nocivos no
ambiente, necessitando de intervenções de requalificação ambiental (caso das minas de
prospecção de fosfato em Farim e das areias pesadas de Varela, como as mais destacáveis).
Contudo, se estas situações constituem um passivo ambiental, por vezes muito elevado,
também é frequente a existência de ativos potenciais de aproveitamento, habitualmente
associados à valorização arqueo-museológica dos sítios, numa perspetiva cultural e turística ou
à simples preservação de valores de identidade e referências das comunidades onde se
integram. Esta perspetiva é merecedora de atenta consideração em qualquer estratégia de
desenvolvimento endógeno das regiões onde se situem as minas abandonadas.

Contudo, a maior tarefa que enfrentamos, aliás condição necessária para a consideração da
oportunidade que se referiu, é a já referida a requalificação ambiental dos sítios mineiros
abandonados, caracterizando a natureza dos impactes e efetuando as intervenções
necessárias à sua correção ou simples mitigação. Os próximos programas operacionais, a
vigorar a partir deste momento para frente, devem contemplar medidas específicas neste
domínio, com intervenções em todos os sítios, para responder a que está prevista com
apreciável dotação financeira.

Por outro lado, a mina abandonada ou simplesmente inativa pode também ser encarada como
futuro repositório para deposição final de resíduos tratados (inertizados), aproveitando para tal
as cavidades de exploração, quer estas sejam subterrâneas quer a céu aberto. Embora não exista
ainda na Guiné-Bissau nenhum projeto consistente neste domínio, pensamos que não existem
condições para, num futuro não muito distante, esta possibilidade vir a ser cuidadosamente

61
encarada em ligação com a criação do Sistema de Tratamento de Resíduos Industriais (STRI),
particularmente para a deposição de resíduos industriais tratados ou a deposição de resíduos
radioativos de baixo nível de atividade (potencialmente susceptíveis de estarem ligadas à
exploração de jazigos dos minérios metálicos e não metálicos, para a qual as formações salinas
reúnem, geralmente, condições favoráveis pela sua capacidade de confinamento e
impermeabilidade.

23. Resultado de Análise das Opiniões e Avaliação Global do Sector

Constatações durante a auscultação in situ:

Ao longo do trabalho de recolha de dados no terreno, durante o qual entrevistamos os


representantes e simples técnicos das diferentes entidades públicas, privadas, OSC e demais
personalidades da nossa praça pública que estão ligadas direta ou indiretamente com a
prospecção e extração de mineiros, sintetizamos, a seguir, os principais constrangimentos
detectados:

a. Maiores Constrangimentos (Problemas Encontrados)


 Falta de transparência no processo de mineração referente a situação de aplicação do
pacote Legislativo, Regulamentar e de procedimentos;
 Falta de informação da parte das entidades do Estado e das empresas privadas para o
público e para as comunidades;
 Contractos entre as partes pouco claros (entidade competente do estado e as empresas);
 Falta de sintonia entre os governos central e regional;
 Falta da organização administrativa (a nível central e regional) para o envolvimento de
todas as partes interessadas;
 Acordos e contratos entre as partes considerados “tabu” e não de acesso público;
 Falta de implicação das comunidades locais;
 Falta da sintonia e respeito pelas regras administrativas mínimas entre o governo central
e regionais e estes em relação aos sectores, secções e comunidades;
 Falta de arquivos documentais nas regiões, sectores e secções relativamente a
mineração;
 Falta da implicação dos parlamentares, sector privado, políticos em geral e das
organizações da sociedade civil no seguimento dos processos de prospecção/exploração
de minas e petróleo;
 Falta de formação e capacitação dos quadros nacionais no domínio das indústrias
extrativas;
 Falta de recursos humanos em quantidade e em qualidade nos departamentos
administrativos sectoriais e regionais do país, capazes de acompanharem os processos;
 Falta de meios materiais e financeiros nos diferentes serviços administrativos nas
regiões;
 Falta de comunicação entre os principais atores do processo da mineração;
62
 Falta de um diálogo institucional sério entre as principais entidades públicas e privadas
e as organizações da sociedade civil em relação ao processo de mineração na Guiné –
Bissau;
 A elevada ignorância da dimensão social e ambiental no processo de extração de minas
e petróleo, por partes dos atores principais do processo e da juventude em geral;
 Falta de aplicação das leis internas, regulamentos e regras em matéria de boas práticas
na gestão de processos de prospecção/exploração mineira;
 Falta da fiscalidade dos processos;
 Falta de seguimento e avaliação técnica desde o início do processo (prospecção,
exploração e desativação);
 Falta de recursos humanos preparados ao nível das entidades públicas, privadas e
mesmo nas organizações da sociedade civil para a sua melhor participação em cada
processo;
 Falta de recursos humanos em quantidade e qualidade na Autoridade de Avaliação
Ambiental – AAAC (ex CAIA);
 Falta de especialização de quadros nacionais em algumas instituições diretamente
implicadas no processo de mineração;
 Falta de apropriação mínima por parte dos governos regionais e suas estruturas locais do
processo;
 Falta de cumprimento dos procedimentos legais para o processo de Licenciamento
Ambiental completo e rigoroso;
 Processo de mineração (nas pedreiras) completamente viciado devido à corrupção e
fraca autoridade do Estado;
 Não há um relacionamento são entre as Empresas, Governos Regionais e as
Comunidades Locais devido ao baixo índice de transparência;
 Falta de justiça social em relação as obrigações de aplicação do princípio de
responsabilidade social e societal das empresas;
 Há fortes probabilidades de conflitos sociais locais no futuro entre as comunidades e
dentro das comunidades;
 Há constante violação dos procedimentos legais por parte dos governantes guineenses;
 Verifica–se frequentemente pressões políticas para o avanço de actividades,
desrespeitando as etapas exigidas pela lei no âmbito do processo de mineração;
 Falta de participação pública em consequência da falta de informação e sensibilização;
 Desobediência completa das normas e leis por parte das Empresas, motivada pela
corrupção ao alto nível do poder político regional e sectorial ex: Empresa Guinepedra
(de espanhóis) e entre outras;
 Falta da logística para uma verdadeira campanha de informação e sensibilização das
comunidades diretamente implicadas;
 Falta da regulamentação das contrapartidas das empresas face às suas responsabilidades
sociais e ambientais;
 Há muita pirataria entre as empresas e os nacionais no processo de mineração (Caso
areias pesadas e pedreiras);
 Falta de fiscalização Ambiental;
63
 Falta das garantias bancárias nos bancos nacionais por parte de algumas empresas
estrangeiras sedeadas na Guiné–Bissau;
 Em muitos dos casos, a estrutura do Estado competente para a Avaliação Ambiental não
tem acesso aos contratos entre o governo central (Ministério dos Recursos Naturais) e as
Empresas;
 Falta de envolvimento dos governantes regionais no processo;
 Falta de cópias dos processos ou dossiers de prospecção/exploração nos serviços
administrativos das regiões;
 Conivência de certos governantes através de interferência a favor das empresas
mineiras;
 Falta de responsabilização dos atores do processo;
 Falta de articulação entre as estruturas regionais;
 Não há respeito rigoroso pelas leis, regras e normas sobre esta matéria;
 Falta de cumprimento e respeito aos engajamentos internacionais;
 Não há aposta nem em ciência e muito menos no saber e saber fazer tradicional;
 Falta de definição clara e da aplicação das políticas sectoriais;
 Falta de sinergias e complementaridade entre as instituições diretamente implicadas;
 Falta de formação/capacidade dos políticos, dos parlamentares e da sociedade civil em
matéria de indústrias extrativas e seus procedimentos legais e as boas práticas;
 Falta de capacidade negocial;
 Falta da presença do Estado nos locais para informar as comunidades locais;

Falta de aplicação das regras e normas da Iniciativa de Transparência nas Industrias


Extrativas de Paris, enquanto membro de pleno direito.

24. Responsabilidade
24.1. Transparência nos processos de tomada de decisão sobre a exploração dos
recursos mineiros.

As tomadas de decisões sobre a exploração dos recursos mineiros, sofre de uma falta de
comunicação e de engajamento de todas as partes interessadas, nomeadamente, os
governos regionais e locais, comunidades locais, e organizações da sociedade civil. Nesse
contexto, não podemos considerar que as tomadas de decisões sejam transparentes.

24.2 Transparência na gestão das receitas provenientes da exploração dos recursos


mineiros.

A Direção – Geral de Geologia e Minas, aplica a chave de repartição seguinte para as


receitas provenientes da exploração dos recursos mineiros:

 50% para o Tesouro Público


 25% para o Fundo de Mineração
 25% para as Comunidades Locais

64
Podemos considerar como muito positivo que pela primeira vez, desde o início da
prospecção mineira de fosfato, a Região de Oio, recebeu os 25% da contrapartida do
contrato da mineração. No entanto, alguns atores não entendem o porquê que só agora é
que, as contrapartidas locais foram revertidas a favor das Regiões e questionam qual seria
o destino dessas receitas até hoje. Não se sabe, qual era o destino desses fundos no passado
e lamenta – se a falta de transparência sobre esses assuntos.

24.3 No domínio legislativo e regulamentar: a gestão de resíduos sólidos

A importância das questões relacionadas com a gestão dos resíduos da indústria mineira,
particularmente os não inertes, coloca na primeira linha de necessidades a aprovação de
uma regulamentação específica.

No atual ponto de preparação da diretiva para elaboração e aprovação de uma


regulamentação específica, excluem-se, expressamente, o solo não poluído e os inertes não
perigosos resultantes da prospecção, extração, tratamento e armazenagem de minérios,
contudo os resíduos não inertes e não perigosos estão a ter um tratamento excessivamente
rigoroso, nos Jazigos por ex: areias pesadas de Varela e fosfato de Farim.

25. Conclusões:
Como resultado de análise das opiniões e sugestões proporcionadas pelos entrevistados de
modo geral, relativamente ao sector minério nacional ao longo das entrevistas
semiestruturadas em quase todo o país, conclui-se que:

A Guiné – Bissau tem um potencial enorme dos recursos naturais mineiros e petróleo, um
pacote legislativo e regulamentar invejável, recursos humanos em potencial mas, não
qualificados, enquanto a sua população vive numa pobreza absoluta.
O país neste momento, não tem capacidade nem técnica, nem humana e muito menos
condições materiais e financeira para fazer aplicar as leis, regulamentos, convenções
internacionais de que dispõe para acompanhar, seguindo e monitorizando o processo
da mineração, por falta de organização, planificação e priorização das ações de
desenvolvimento.
Falta ainda muita coisa a fazer sobretudo em matéria de organização, planificação,
formação/informação/sensibilização/capacitação dos seus recursos humanos neste domínio.

É possível conciliar a exploração dos recursos naturais minerais com a conservação,


passando pela formação permanente do homem novo guineense para que de facto esses

65
recursos possam alavancar a economia nacional, reduzindo a pobreza e o sub
desenvolvimento na base do respeito escrupuloso dos preceitos de um desenvolvimento
sustentável.

Se é evidente que a Guiné-Bissau dispõe de um potencial mineiro importante, não é menos


verdade que o país está confrontado com grandes desafios, a saber: conservar a
biodiversidade, ecossistemas naturais e melhorar o nível de vida das populações locais.
No entanto, os benefícios da exploração mineira esperados pelas populações não estão sendo
sentidos pelas mesmas, e as ameaças e as pressões sobre a diversidade biológica são
evidentes, o que pode colocar em perigo os serviços dos ecossistemas indispensáveis ao
desenvolvimento económico e à qualidade de vida das populações.

Pois é tempo não de acionar o sinal de alarme, mas sim reter lições aprendidas na sub-região
que é preciso convidar e fazer todas as partes envolvidas (Governo, Companhias/Empresas
mineiras – Populações locais – OSC) para se concordarem sobre os princípios a adotar e as
ações a empreender para inverter as tendências e conseguir conciliar melhor as três
dimensões que são: a exploração mineira, a conservação da biodiversidade e o
desenvolvimento económico e social do país.

26. Recomendações e Propostas de Medidas de Atenuação

26.1 Recomendações:

Considerando a importância inegável que esses recursos podem vir a ter para o Estado da
Guiné-Bissau no que concerne ao seu aproveitamento para a implementação dos seus
planos de desenvolvimento socioeconómico;
Tendo em atenção a necessidade de contratar sociedades comerciais para desenvolver este
sector com alto nível de risco financeiro, e por isso de estabelecer um quadro legal
equitativo em que se desenvolverão conjuntamente as sociedades comerciais no domínio
da pesquisa e exploração de hidrocarbonetos;
Tendo em conta ainda a necessidade de proteger o meio ambiente marinho e terrestre,
como parte da riqueza nacional e elemento capital na subsistência da população local;
Por haver necessidade de não só exprimir e regulamentar a política nacional sobre os
hidrocarbonetos, mas também, de proporcionar as empresas e sociedades comerciais o
conhecimento prévio das condições em que podem desenvolver as suas atividades no país,
sem que tal, contudo, afete o reafirmado princípio da soberania nacional ou se traduza
na alienação de qualquer parcela ou direito da República da Guiné-Bissau,
66
a. Principais recomendações:

 Realizar uma Avaliação Ambiental Estratégica das indústrias extrativas para dispor de uma
ferramenta de apoio à tomada de decisão técnica e política.
 Obrigar todos projetos a realizar uma avaliação de impacto ambiental independente e em
conformidade com os procedimentos definidos no quadro legal.
 Obrigar as empresas que obtiveram uma licença ambiental a implementar o Plano de
gestão ambiental e social utilizando medidas de pressão e sanções tal como previsto na Lei
de avaliação ambiental.
 Criar espaços de concertação e de negociação entre as partes para cada projeto de
exploração dos recursos mineiros (fosfato, bauxite, areias pesadas, petróleo, etc.): 1/
Governo central e local, 2/ Empresa mineira ou petrolífera e 3/ Representantes das
populações e da sociedade civil para a discussão de todos os aspetos e assuntos ligados aos
projetos.
 Melhorar a comunicação e a informação de todas partes, da sociedade civil e do grande
público sobre as preceptivas, as oportunidades, os riscos e os desafios ligados ao
desenvolvimento das indústrias extrativas.
 Criar mecanismos para garantir a transparência na gestão das receitas provenientes das
indústrias extrativas através da adesão do país à ITIE.
 Garantir que as receitas proveniente da exploração dos recursos mineiros estarão
investidos, ao nível nacional e local, para implementar os planos de desenvolvimento
socioeconómico e beneficiarão para o crescimento económico e a luta contra pobreza.
Exortar as partes envolvidas (Estado, Empresas mineiras, Populações locais, sector
privado nacional e Organizações da sociedade civil) a reforçarem a sua colaboraçaã o para
melhor tomada em conta da gestão dos recursos naturais, da biodiversidade em
particular, e uma mais ampla implicação das populações locais quanto à dimensão
social e ambiental dos impactos das indústrias extrativas.
 Criar um quadro de concertaçaã o e de diaé logo entre os diferentes atores (Administraçaã o,
Empresas e Comunidades locais com a participaçaã o das organizaçoã es da sociedade civil );
 Comunicar e transmitir o máximo de informações disponíveis às comunidades locais
(informações sobre o quadro jurídico, os impactos, os seus direitos, as suas
reivindicações legítimas etc..);
 Formar e reforçar capacidades técnicas e institucionais e das populações locais para
favorecer a sua melhor participação nos processos de concertação e negociação;
 Velar pelo respeito à regulamentação ambiental e outras leis conexas, principalmente
aquelas relativas à avaliação dos impactos sobre o meio ambiente, condição prévia para o
início de qualquer atividade e às auditorias ambientais para os sítios já em atividades;

67
 Encorajar as empresas mineiras em apoiarem os esforços de conservação nas áreas
protegidas próximas dos seus sítios de exploração;
 Divulgar massivamente o «Guia de Boas Praticas do sector mineiro para preservar a
biodiversidade e a qualidade de vida das comunidades locais», elaborado no quadro
do diálogo entre a UICN e o ICMM (Conselho Internacional sobre os minerais e
metais);
 Que nos contratos, seja exigida a inclusão da obrigatoriedade da
reabilitação/requalificação dos sítios mineiros, pelas empresas no fim da sua exploração,
como condição prévia para à atribuição de nova licença (rearborização, restauração de
terras agrícolas etc..);
 Promover a maior transparência na partilha dos benefícios do sector mineiro, encorajando
o país a engajar-se nos processos como a iniciativa sobre a transparência nas indústrias
extrativas;
 Reforçar e apetrechar a rede de intercâmbio e partilha de informações já existente sobre
as boas práticas nas indústrias extrativas capitalizadas ao nível regional capaz de
proporcionar ações de lobbying mais eficazes;
 Aplicar o princípio da responsabilidade Social e Societal a favor das Comunidades
Locais nas zonas de incidência de projetos de mineração.

b. Propostas de Medidas de Atenuação dos Riscos da parte do Estado e


das Empresas:

Criar uma comissão de boa vontade, com envolvimento obrigatório dos Diretores
Gerais da CAIA/AAAAC, Geologia e Minas, do Ambiente, Representante do
Sector Privado, OSC e Representante das Comunidades Locais, que velasse
pela confirmação de que os documentos técnicos a validar, estão preparados para
serem analisados pelo grupo Ad hoc ou pela comissão científica de aprovação dos
TdRFª.s e EIAS dos projetos de mineração;
Exigir que todas as empresas do domínio mineiro, quer nacionais quer estrangeiras
devem apresentar o seu capital de investimento depositado num dos bancos da
República da Guiné-Bissau;
É imperativo a apresentação de projeto de execução de qualquer mina logo no início
dos trabalhos para a realização de estudos de impacto ambiental e social;
A tutela política da CAIA/AAAAC deve ser a Presidência da República ou
Prematura, não obstante a sua autonomia técnica, científica, administrativa e

68
financeira (evitando pressão política e garantindo a transparência e uma verdadeira
independência institucional;
Promover a transparência em todo o processo da mineração;
Informar, formar e sensibilizar todos os atores concernentes do processo da
mineração;
Tornar público todos os contratos e promover a boa gestão da coisa pública através
dos mecanismos legais;
Formar/capacitar os principais atores em matéria de negociação dos contratos entre
as empresas e o Estado da Guiné – Bissau;
Informar, formar e sensibilizar os parlamentares, políticos e governantes sobre os
procedimentos, legislação e a regulamentação do processo da mineração,
Criar mecanismos de seguimento e avaliação de todos os projetos mineiros;
Promover uma fiscalização rigorosa e permanente de todos os projetos mineiros, com
toda a logística necessária;
Formar e especializar os quadros nacionais das instituições diretamente implicadas
no processo da mineração;
Reforçar a capacidade institucional das entidades concernentes, em termos de
atualização dos pacotes legais, legislativos e seus decretos da aplicação em relação
a este sector;
Exigir o respeito e cumprimento escrupuloso das leis, normas, acordos e convenções
internacionais às quais o país aderiu;
Incentivar a participação pública do processo da mineração, através de
informação/sensibilização dos órgãos de comunicação social;
Promover abordagem participativa e inclusiva em todas as etapas do processo de
mineração;
Implicação obrigatória dos principais atores do processo;
Apoiar a organização administrativa dos governos regionais concernentes, a fim de
melhorar o acesso às informações e comunicação entre estruturas regionais,
sectoriais e empresas (relação de funcionamento entre o governo central, e as
estruturas da região e do sector e destes em relação às empresas e ao governo
central);
Respeitar o código mineiro uniformizado da CEDEAO, no seu capítulo de boas
práticas.

27. Exercício prospectivo e de tendências futuras

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Realizar um exercício de previsão sobre a possível evolução de qualquer sector da
economia é tarefa de insucesso assegurado. A indústria mineira não foge a esta evidência.
Contudo, pode sempre ensaiar-se um exercício prospetivo, tentando identificar quais são os
principais fatores atuantes na evolução da atividade e tendências do seu comportamento
atual, para, partindo desta análise, conduzir um processo de observação permanente e
sistemática que nos permita manter uma atualizada visão estratégica, orientadora de
políticas, tanto públicas como empresariais. Apontando pistas das condições prévias
necessárias para tal exercício prospectivo, é o que procuraremos fazer seguidamente,
concluindo com a referência a algumas ações institucionais que julgamos adequadas às
tendências identificadas.

27.1 No domínio do ordenamento do Território: Legislar, definir áreas de atuação


conjunta e criar ferramentas tais como:
 Elaboração da Política Nacional de Ordenamento do Território;
 Elaboração da Lei de Base do Ordenamento do Território (LBOT) e respectivo
regulamento de aplicação;
 Elaboração de um plano sectorial – instrumento de política sectorial com incidência
territorial no domínio dos recursos geológicos;
 Definir áreas para exploração, entendida como os espaços para industrias extrativas,
onde existam explorações ou, inserindo-se em áreas potenciais, que possam vir a ser
licenciadas para estas atividades.

27.2 No domínio da prospecção e pesquisa:

A prática ausência de iniciativa privada nacional no domínio pesquisa e prospecção


mineira obriga a que o investimento para esta finalidade seja estrangeiro, devendo o País
oferecer condições favoráveis à sua aplicação. O País tem demonstrado capacidade para a
captura e acolhimento de investimento direto estrangeiro para esta e outras atividades, mas
penso que estas podem ainda ser melhoradas (Código de investimento nacional).

27.3 No domínio da atividade económica post-mina: Requalificação para criar novas


utilidades aos sítios explorados:

Como se referiu, havendo um programa de requalificação de minas terminadas, conjugada


com a mudança da oferta turística, vai criar condições para a multiplicação de projetos de
valorização dos sítios, podendo induzir o aparecimento de novas atividades económicas.
Esta atividade irá também contribuir para a alteração da percepção pública do impacto
paisagístico da atividade de mineração e criar condições favoráveis ao aparecimento de
franjas de opinião que reconhece a importância económica e social da atividade mineira,
particularmente se a sua promoção se orientar para as camadas mais jovens, embora que
70
não ponha em causa o crescimento da exigência na qual a atividade se desenvolva com
elevados padrões ambientais.

27.4. No domínio ambiental: Mudança do paradigma de abastecimento, para o da


sustentabilidade e aumento da participação cívica:

Os próximos anos continuarão a reclamar da indústria mineira a continuada melhoria do


seu desempenho ambiental e social. A opinião pública estará cada vez mais sensível aos
impactos ambiental e social das práticas industriais inadequadas à preservação do ambiente
e à qualidade de vida. No caso da Guiné-Bissau, o impacto paisagístico é particularmente
sensível num país que se assume, crescentemente, utilizar as condições naturais favoráveis
como destino turístico de qualidade, no qual os valores do património natural e cultural
terão uma importância crescente. Existe hoje a percepção generalizada por parte dos
operadores industriais que a adaptação ambiental da indústria mineira é um fator
fundamental da sua sustentabilidade pelo que, numa perspetiva moderna e atual, a
atividade mineira tem que integrar a proteção ambiental, através de métodos e processos
que conduzam a um padrão de atuação compatível com os princípios do desenvolvimento
sustentável, embora o conceito não esteja ainda plenamente operacionalizado na sua
aplicação à generalidade das atividades industriais. Entretanto, devem selecionar-se as
metodologias de planeamento e controlo que assegurem a adoção das melhores alternativas
técnico-económicas e respeitem o quadro regulamentar aplicável. O Plano de Lavra, a
Avaliação do Impacte Ambiental, o Sistema de Gestão Ambiental e o Plano de
Encerramento de um projeto mineiro surgem, assim, como os instrumentos
indispensáveis à exploração dos recursos minerais, num compromisso entre os
benefícios económicos e sociais resultantes do seu aproveitamento e a preservação da
qualidade dos sistemas ambientais de que dependem as gerações atuais e futuras. Quanto
a nós, esta alteração marca a mudança do paradigma do abastecimento, que vigorou no
passado, para o da sustentabilidade, que assumirá uma importância cada vez maior no
futuro, e no qual a clarificação e estabilização das exigências ambientais são fatores
decisivas da atividade e são promotores fortes do desenvolvimento sustentável que
deverão ser rigorosamente acauteladas.

No domínio da imagem da indústria deverão ser executadas ações de informação e


sensibilização que promovam a sua aceitação pública, particularmente divulgando as boas
práticas. Este será, aliás, um dos aspetos da importância dos fatores psico - sociais no
desenvolvimento da atividade, muito particularmente no estabelecimento de novas
operações. As formas de crescente participação pública no processo de decisão de

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licenciamento das operações (caso da audição pública na AIA) tenderão a aprofundar-se e a
ganhar uma importância crescente, não se reduzindo aos casos de extremismos nas
manifestações cívica.

Também o círculo de análise e debate das questões ambientais da indústria deve ser
alargado, evitando-se a sua redução ao tradicional âmbito das geociências, o que
possibilitará uma melhor compreensão dos processos e das posições em presença. Na
realidade, para que este tipo de ações seja plenamente efetiva teremos que conhecer
corretamente a percepção que os outros intervenientes têm da atividade mineira.

27.5 No domínio da fiscalidade e incentivos:

A fiscalidade constitui, hoje em dia, um importante factor da competitividade de um país


relativamente ao investimento mineiro, seja na exploração, seja na prospecção e pesquisa.

No caso da Guiné – Bissau, a capacidade de controlo e de fiscalização da prospecção e


exploração dos recursos mineiros, pela Administração é difícil ser avaliada até agora, visto
que as prospecções foram e são feitas em condições de estabilidade institucional difícil e
complexa, em que a exploração mineira propriamente dita, ainda não começou na maioria
parte dos locais.

No caso do petróleo offshore, a capacidade de controlo parece extremamente limitada visto


que o país não possui ainda um plano de contingência, para fazer face a um eventual
acidente, que provoque um derrame de petróleo no mar e não tendo meios para controlar o
seu território marítimo.

____________

Agradecimentos:
O consultor nacional é plena e exclusivamente responsável pelas opiniões expostas,
contudo não pode deixar de se referir e agradecer a todos os que, de algum modo, direta ou
indiretamente, ajudaram á preparação deste trabalho, nomeadamente o coordenador do
projeto, pelas contribuições pertinentes feitas tanto durante o diagnóstico como na
melhoria do documento final, e todos os entrevistados (ver a lista dos entrevistados em
anexo).

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28. Bibliografia Consultada

 "1º Colóquio de Jazigos minerais metálicos de Portugal". Academia das Ciências de


Lisboa, 26 de Outubro de 1999.
 Diallo, M.S. (2010). Praticas das indústrias extractivas na Africa ocidental Síntese
comparativa de quatro estudos de casos (Guiné-Bissau, Guinée, Senegal, Serra
Leoa). Gland, Switzerland: IUCN, Dakar, Senegal: ASAN, Bissau, Guinea Bissau:
AD, Conakry, Guinea: GUINÉE ECOLOGIE, Freetown, Sierra Leone: EFA. 34pp.
 Relatório de consultoria sobre Avaliação da Governação Ambiental na Guiné –
Bissau /SEA/PNUD – Bissau
 ``Estudo sobre Heranças Culturais das Comunidades das Zonas de Intervenção
Directa e Adjacente do Projecto de Fosfato de Farim”: Quade, P., Eco Progresso,
Maio de 2015.
 Plano de Gestão do Parque Natural de Lagoas de Cufada, 2008.
 O Universo da Industria petrolífera - da Pesquisa a Refinaria – Gulbenkian
 Rapports finaux GTP-IE III GB 2 11 04.
 VII Projet Phase Proposal GTP-IE V Oct 2015_à_soumettre_CAP_Final
29.10.015.
 Indútrias de Petróleo de A a Z,- Gulbenkian.

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