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DESEJO SEXUAL

SCRUTON
RO G E R S C RU TO N

DESEJO SEXUAL
Uma investigação filosófica

Tradução de Marcelo Gonzaga de Oliveira


Desejo sexual: uma investigação filosófica
Roger Scruton
1ª edição – junho de 2016
Copyright © by Roger Scruton, 2006.
Esta tradução é publicada em acordo com a Bloomsbury Publishing Plc.
Os direitos desta edição pertencem ao
CEDET – Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico
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Telefone: 19-3249-0580
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Editor:
Diogo Chiuso
Editor-assistente:
Thomaz Perroni
Tradução:
Marcelo Gonzaga de Oliveira
Revisão:
Gustavo Nogy
Capa:
J. Ontivero
Diagramação:
Maurício Amaral

FICHA CATALOGRÁFICA

Scruton, Roger
Desejo sexual: uma investigação filosófica / Roger Scruton; tradução de Marcelo Gonzaga de
Oliveira – Campinas, SP: VIDE Editorial, 2016.
ISBN: 978-85-67394-93-0
1. Filosofia moderna: ensaios 2. Ensaios e estudos filosóficos 3. Ética no sexo e reprodução
I. Autor II. Título
CDD – 190.2 / 501.01 / 176
ÍNDICE PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO
1. Filosofia moderna: ensaios – 190.2
2. Ensaios e estudos filosóficos – 501.01
3. Ética no sexo e reprodução – 176

Conselho editorial
Adelice Godoy
César Kyn d’Ávila
Diogo Chiuso
Silvio Grimaldo de Camargo
VIDE Editorial – www.videeditorial.com.br
Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição
por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer
meio.
SUMÁRIO

PREFÁCIO....................................................................................................................... 9
CONSELHO AO LEITOR........................................................................................... 13

Capítulo 1
O PROBLEMA............................................................................................................... 15

Capítulo 2
EXCITAÇÃO................................................................................................................. 37

Capítulo 3
PESSOAS........................................................................................................................ 61

Capítulo 4
DESEJO........................................................................................................................... 93
A perspectiva de primeira-pessoa e a excitação........................................................ 95
Revelação involuntária.................................................................................................. 98
Encarnação...................................................................................................................104
Pessoas desencarnadas................................................................................................108
A natureza pessoal do objeto de desejo....................................................................112
A fenomenologia dos nomes próprios......................................................................115
Pensamento individualizante.....................................................................................117
A perspectiva da primeira-pessoa no desejo...........................................................123
Ética kantiana – uma digressão.................................................................................124
O curso do desejo........................................................................................................127
O objetivo do desejo...................................................................................................130

Capítulo 5
O OBJETIVO INDIVIDUAL.....................................................................................139
Distinções entre atitudes............................................................................................142
O universal e o particular............................................................................................142
O fundado em razões, o livre de razões e o que envolve razões...............................143
A atenção e a desatenção.............................................................................................147
O propositado e o despropositado...............................................................................149
O transferível e o intransferível...................................................................................151
Mediato e imediato......................................................................................................157
As características formais do desejo.........................................................................159
O objeto individual.....................................................................................................162
A “essência subjetiva”..................................................................................................170
Pensamentos individualizantes..................................................................................172
O paradoxo de Sartre..................................................................................................174
O objetivo do desejo...................................................................................................180
Pecado original............................................................................................................187
Animal e pessoa...........................................................................................................193

Capítulo 6
FENÔMENOS SEXUAIS...........................................................................................197
Obscenidade.................................................................................................................197
Modéstia e vergonha...................................................................................................200
O significado dos órgãos sexuais...............................................................................211
Prostituição..................................................................................................................220
Enamoramento............................................................................................................226
Ciúme............................................................................................................................228
Dom-juanismo.............................................................................................................234
Tristanismo...................................................................................................................237
Sadomasoquismo........................................................................................................242

Capítulo 7
A CIÊNCIA DO SEXO...............................................................................................251
A biologia do sexo.......................................................................................................251
Sociobiologia................................................................................................................255
Uma nota sobre Schopenhauer..................................................................................266
O inconsciente.............................................................................................................270
Psicologia freudiana: o problema geral....................................................................272
Freud: a teoria específica............................................................................................276
Crítica: a libido............................................................................................................281
Crítica: a zona erógena...............................................................................................284
A voz freudiana............................................................................................................288
Capítulo 8
AMOR...........................................................................................................................295
A questão de Platão.....................................................................................................298
Níveis de amizade........................................................................................................302
Amizade e estima........................................................................................................306
A intencionalidade da amizade.................................................................................314
Amor e amizade...........................................................................................................315
O amor erótico.............................................................................................................318
Tensões no amor..........................................................................................................323
Amor e indolência.......................................................................................................329
O curso do amor..........................................................................................................331
A expressão do amor no desejo.................................................................................336
Beleza............................................................................................................................343
Novos problemas.........................................................................................................346

Capítulo 9
SEXO E GÊNERO.......................................................................................................347
Sexo e gênero...............................................................................................................348
Construção de gênero.................................................................................................352
Feminismo kantiano...................................................................................................353
O papel do gênero.......................................................................................................355
Homem e mulher........................................................................................................356
Encarnação...................................................................................................................361
Encarnação e construção de gênero..........................................................................365
Tipos pessoais..............................................................................................................372
A questão de Platão e a raiz do desejo......................................................................377
Beleza e gênero............................................................................................................379
Homossexualidade e gênero......................................................................................382

Capítulo 10
PERVERSÃO...............................................................................................................387
Bestialidade..................................................................................................................396
Necrofilia......................................................................................................................399
Pedofilia........................................................................................................................402
Sadomasoquismo........................................................................................................405
Homossexualidade......................................................................................................414
Incesto...........................................................................................................................422
Fetichismo....................................................................................................................427
Masturbação.................................................................................................................430
Castidade......................................................................................................................433

Capítulo 11
MORALIDADE SEXUAL..........................................................................................435

Capítulo 12
A POLÍTICA DO SEXO.............................................................................................471

EPÍLOGO.....................................................................................................................491

Apêndices
I. A PRIMEIRA PESSOA...........................................................................................493
II. INTENCIONALIDADE........................................................................................515

ÍNDICE ONOMÁSTICO..........................................................................................541

ÍNDICE REMISSIVO.................................................................................................551
PREFÁCIO

O assunto do desejo sexual tem sido amplamente ignorado


pela filosofia moderna, e as biografias dos grandes filósofos mo-
dernos sugerem que eles evitaram a experiência do desejo tão
escrupulosamente como têm evitado a sua análise. Deixo para
outros a tarefa de explicar por que isso é assim. Mas o assunto
exige que eu faça uma observação geral sobre o problema que a
filosofia encontra quando entra neste domínio.
Até o final do século XIX, era quase impossível discutir o
desejo sexual, exceto como parte do amor erótico, e ainda assim
a convenção exigia que as peculiaridades do desejo permane-
cessem ocultas. Esta negligência deliberada também afetou a
discussão do amor erótico, que foi feito para parecer ainda mais
misterioso do que é, precisamente porque tinha sido privado de
seu principal motivo. Quando a interdição finalmente acabou –
graças a escritores como Krafft-Ebing, Charles Féré e Havelock
Ellis – foi em virtude de uma abordagem supostamente “cientí-
fica”, tornando-se um fenômeno natural generalizado.
Tal era o prestígio da ciência que qualquer investigação con-
duzida em seu nome poderia invocar poderosas correntes de
aprovação social, que foram suficientes para superar a relutân-
cia – de outra forma incapacitante – para enfrentar as realida-
des da experiência sexual. No entanto, foi precisamente essa
dependência do prestígio da ciência que levou à contínua ne-
gligência do assunto. Tornou-se necessário assumir que o com-
portamento sexual é um aspecto da condição de ‘animal’ do
homem – um “instinto” cuja expressão exibe as leis ocultas de
um complexo processo biológico. Mas, como exponho nas pá-
ginas a seguir, nenhuma taxonomia biológica poderia apreender
as especificidades do desejo sexual. O desejo é de fato um fenô-
meno natural, mas está além do alcance de qualquer “ciência
natural” do homem.
9
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Quando Freud apresentou suas revelações chocantes – dis-


farçadas mais uma vez como verdades neutras, “científicas”,
sobre um impulso universal – a linguagem consolidou-se na-
quela em que os detalhes da sexualidade humana são agora ha-
bitualmente apresentados. Freud descreveu o objetivo de desejo
sexual como:
a união dos órgãos genitais no ato conhecido como cópula, que leva
a uma liberação da tensão sexual e a uma extinção temporária do
instinto sexual – uma satisfação análoga à saciação da fome.


Essa linguagem – que mostra certo ódio do ato sexual e de
tudo que diz respeito a ele – não pode abarcar o que é distintivo
na experiência sexual. Sua adoção universal por “sexólogos” le-
vou, no entanto, a uma “ciência” notável, que pretende explicar
o que sequer tem linguagem para descrever. O Relatório Kin-
sey, assim como a literatura pseudocientífica seguinte, apenas
continua, de forma mais vulgar e vigorosa, o empreendimento
moralizante de Krafft-Ebing: o trabalho de confrontar nossos
sentimentos morais com uma descrição supostamente “científi-
ca” dos fatos que os ameaçam. O resultado foi a criação do “re-
latório do sexólogo” como um novo gênero literário. O estilo
é exemplificado pelo Masters and Johnson Report, com as suas
repetidas referências ao “bom funcionamento”, “adequação” e
“frequência” do “desempenho sexual”, e sua abordagem pseu-
do-experimental para questões que só podemos ver em termos
neutros se não as entendermos: “O indivíduo C vocalizou um
desejo de retornar ao programa acompanhado de sua esposa
como uma unidade familiar colaborativa.” O efeito dessa “des-
mistificação” do impulso sexual tem sido o aumento de supers-
tições novas e inéditas e o crescimento de um novo tipo de mis-
tério pseudocientífico, cuja dissipação é um dos objetivos deste
livro.
Apenas ocasionalmente um escritor dirigiu-se para a questão
crucial que esta literatura “científica” se esforçou por ignorar: a
questão do que uma pessoa experimenta quando deseja outra.
O desejo não é idêntico nem ao “instinto” que se expressa nele
nem ao amor que o preenche. É, conforme mostrarei, um fenô-
meno exclusivamente humano, e que nos impele precisamente
àquela noção restritiva de “decência” que proibiu sua discus-

10
prefácio

são. Neste livro, farei uma defesa da decência; mas, ao fazer


isso, ilustro a verdade da observação de Bernard Shaw, de que
é impossível explicar a decência sem ser indecente. Só espero
que o benefício, em termos de compreensão moral, exceda o
seu custo.
As primeiras versões do texto foram lidas por Joanna North,
John Casey, Bill Newton-Smith, Robert Grant, David Levy e
Sally Shreir, e sou muito grato a todos eles por suas inúmeras
críticas e sugestões. Estou particularmente grato a Ian McFe-
tridge, cuja meticulosa análise do primeiro projeto deu o indis-
pensável apoio sem o qual este livro não teria sido concluído
satisfatoriamente. Graças a sua generosidade, mente aberta e
penetração filosófica, este trabalho foi salvo de muitos erros e
obscuridades; só espero que ele não fique muito angustiado por
aqueles que permanecem.

11
CONSELHO AO LEITOR

1. Neste livro, sigo a prática tradicional no uso do pronome


masculino para referir-me indistintamente a homens e mulheres,
exceto quando o contexto exigir que o gênero esteja explícito.
Há duas razões para isso: em primeiro lugar, é estilisticamente
correto; em segundo, é a forma mais eficaz de deixar o sexo fora
disso – na medida em que se deve deixar o sexo fora da discus-
são do desejo. O que quero dizer com esta segunda razão pode
ser entendido somente no curso da minha exposição.
2. Como se trata de uma obra de filosofia, contém passagens
argumentativas um tanto difíceis, projetadas para fornecer ba-
ses para a discussão central. A maioria dessas passagens ocorre
no Capítulo 3 e nos dois apêndices. Apesar disso, o leitor que
ignorar estas seções será capaz de entender o argumento e apre-
ciar minhas questões principais. Quem encontrar dificuldade
em avançar no Capítulo 3 deve passar imediatamente para o
Capítulo 4, onde continuo a discussão do desejo sexual.

13
CAPÍTULO 1
O PROBLEMA

Filósofos modernos têm descrito o desejo sexual e o amor


erótico de maneiras surpreendentes e paradoxais. Para Kant, o
desejo sexual pode ser entendido apenas como parte da “pato-
logia” da condição humana.1 Para Hegel, o amor erótico envol-
ve uma contradição; para Sartre, a mesma contradição está pre-
sente no desejo.2 Schopenhauer considera o desejo sexual como
parte de uma ilusão – ilusão, simplificando, do indivíduo que
é sujeito e objeto em nossos empreendimentos sexuais.3 Esses
pontos de vista românticos e pós-românticos exibem um mes-
mo pessimismo, e cada um contrasta com as discussões sobre o
assunto que chegaram até nós de pensadores antigos.
Talvez o mais famoso desses pensadores tenha sido Platão,
que introduziu (em seus próprios termos) uma distinção que
causou grande confusão no debate que se seguiu: a distinção
entre amor erótico e desejo sexual. Platão é o ancestral intelec-
tual de um ponto de vista que persiste até hoje e que condiciona
muito do nosso pensamento moral. De acordo com esta pers-
pectiva, nossa natureza animal é o principal veículo do desejo
sexual, e oferece a sua principal motivação. No desejo, agimos

1 I. Kant, Lectures on Ethics, tr. L. Infield, new edn, Nova York, 1963, pp. 164 et seq., e
Foundations of the Metaphysic of Morals, Prussian Academy edition, p. 399 (tr. L. W.
Beck, Nova York, 1959, p. 15). Ver também Kant's Philosophical Correspondence: 1759-
99, ed. and tr. Arnulf Zweig, Chicago, 1967, p. 235, onde Kant se refere ao casamento
como um acordo entre duas pessoas para o “uso recíproco dos órgãos sexuais um do
outro”. As posições de Kant serão discutidas no Capítulo 4.
2 G. W. F. Hegel, The Philosophy of Right, tr. and ed. T. M. Knox, Oxford, 1942, addition
to. 158. J. P. Sartre, Being and Nothingness, tr. Hazel E. Barnes, Nova York, 1956, livro
III, Capítulo 3. As posições de Sartre serão discutidas no Capítulo 5.
3 Arthur Schopenhauer, The World as Will and Representation, tr. E. J. F. Payne, Indian
Hills, Colorado, 1958, vol. II, pp. 549 et seq. As posições de Schopenhauer serão
discutidas no Capítulo 7.
15
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

e sentimos como animais; de fato, o desejo é um motivo que


todos os seres sexuais – incluindo a maioria dos animais – com-
partilham. No amor erótico, no entanto, é a nossa natureza en-
quanto seres racionais que se envolve principalmente e, no exer-
cício dessa paixão, impulsos mais finos e mais duráveis ​​buscam
reconhecimento e satisfação.
Para Platão, parecia que os dois impulsos eram tão radical-
mente opostos que não poderiam coexistir alegremente em uma
única consciência. Assim, a fim de permitir o pleno florescimen-
to do amor erótico, seria necessário refinar, e eventualmente
abandonar, o elemento do desejo. O amor resultante – o amor
“platônico” – seria, ao mesmo tempo, intrinsecamente racional
e moralmente puro. Este amor puro tem, para Platão, um va-
lor diferenciado, comparável ao valor da própria Filosofia. Ele
fornece um elo com a realidade transcendente, uma etapa no
caminho para a emancipação e realização espirituais, que ocor-
rem apenas com a liberação final da alma para aquele mundo
de idéias de que ela desceu e em que tem sua eterna morada.
Assim, o tema do erótico adquiriu, para Platão, uma seriedade e
um pathos raramente expressos nos escritos de filósofos poste-
riores. Tão seriamente ele o considerava que permitia que seus
personagens o discutissem plenamente apenas quando bêbados,
em um diálogo que é justamente considerado como uma das
grandes realizações literárias da antiguidade.4
Vestígios da visão platônica podem ser encontrados em mui-
tos pensadores posteriores – nos neoplatônicos, em Santo Agos-
tinho, em Tomás de Aquino e no filósofo-poeta romano Boécio,
cuja filosofia do amor teve um efeito tão profundo na literatura
da Europa medieval e em especial sobre Chaucer, os trovadores,
Cavalcanti, Boccaccio e Dante.5 Ela sobrevive na idéia popular –

4 Platão, Banquete. As posições de Platão serão discutidas no Capítulo 8. É importante


reconhecer que o próprio Platão mudou de idéia sobre muitas questões fundamentais
ao longo de sua vida, e, apesar de o Banquete ser um trabalho relativamente maduro,
não é a última palavra de Platão sobre amor e desejo.
5 As visões de Agostinho sobre o erótico estão espalhadas nas Confissões, De Nuptiis et
Concupiscentia e na Cidade de Deus (esp. livros XIV, caps 16-26). A afirmação mais
conhecida de Boécio sobre a filosofia do amor está na Consolação da Filosofia. As fontes
medievais são: Chaucer, O Parlamento das Aves e O conto do Cavaleiro; Cavalcanti,
Canzone e Sonetos; Dante, La Vita Nuova e o Convivio; Boccaccio, La Visione Amorosa
e a Teseida; e o trovador Arnault Daniel, cujos poemas principais foram coletados em
Hugh Kenner (ed.), The Translations of Ezra Pound, London, 1953.

16
capítulo 1 - o problema

fundada na mais duvidosa das distinções metafísicas – de que o


desejo sexual é essencialmente “físico”, enquanto o amor sempre
tem um lado “espiritual”. Sobrevive, também, na teoria de Kant,
apesar da enorme distância moral e emocional que separa Kant
de Platão, e a despeito do pessimismo sem remorsos de Kant so-
bre a vida erótica da humanidade. É um dos objetivos principais
deste trabalho combater a teoria platônica. Não vou contestar a
distinção entre o animal e o racional (de fato, vou defender essa
distinção como crucial para a compreensão da nossa condição),
mas o impulso moral e filosófico que nos leva a atribuir desejo
sexual à parte animal da natureza humana.
No decorrer da exposição, tentarei explicar por que o dese-
jo sexual tem sido tão frequentemente considerado como mis-
terioso ou paradoxal; e vou mostrar que há mais verdade do
que pensamos nestas descrições. Também darei a base filosófica
para uma moralidade sexual, e demonstrarei que a considera-
ção moral não pode ser subtraída do ato sexual sem que, ao
mesmo tempo, destrua seu caráter distintivo. Existe um precon-
ceito moderno (embora não seja mais do que um preconceito)
de que não pode existir algo como uma moralidade especifica-
mente sexual. A moralidade, acredita-se, não está ligada ao ato
sexual, mas sempre a outra coisa, com a qual possa ser con-
junta. Podemos razoavelmente proibir a violência sexual, por
exemplo, mas isso é por causa da violência; considerado em si
e para si, e separado de circunstâncias fortuitas, o ato sexual
não é nem certo nem errado, mas apenas ‘natural’. Tal ponto de
vista pode parecer pouco plausível quando contrastado com a
imoralidade óbvia do abuso sexual de crianças ou do estupro
– crimes que parecem ameaçar a própria existência dos outros
como seres sexuais, e ameaçar também a vida sexual de seu
agressor. Mas a razão exata para rejeitar o preconceito moder-
no é difícil de descobrir, e não será antes do final deste livro que
o leitor vai conhecer as minhas razões para pensar que o ato
sexual é, e deve ser sempre, limitado por escrúpulos morais. E,
apesar de eu ser brando nas minhas conclusões morais – não
tendo nem o espaço nem a inclinação para considerar tudo o
que deve ser considerado a fim de apresentar uma ética sexual
abrangente – espero que pelo menos algumas das idéias de mo-
ralidade “tradicional” já não pareçam tão estranhas depois de
ler este livro como pareciam a muitos dos autores que estudei
17
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

no trabalho escrevê-lo. Quer o leitor concorde com as minhas


conclusões particulares ou não, ele vai, espero, concordar que
não é necessariamente um absurdo condenar relações homosse-
xuais, fornicação, masturbação, ou o que quer que seja, mesmo
que tenhamos um apelo em fazer essas coisas, e mesmo que não
haja nenhum Deus que as proíba.
Começar uma investigação filosófica sobre o desejo sexual
não é fácil. Além de o assunto sofrer mil preconceitos conflitan-
tes, o método que nos permite abordá-lo é incerto. Devemos nos
engajar na “análise conceitual”, separando as conexões intrin-
cadas de uso, e as conexões profundas de significado, que ligam
termos como “desejo”, “excitação”, “amor” e “prazer”? Ou de-
veríamos nos envolver em um exercício de “fenomenologia”,
tentando dar uma especificação que se adeque às experiências
sexuais de quem as têm? Ou ainda, devemos tentar localizar e
resolver os quebra-cabeças específicos, na ética e na filosofia
da mente, a que a reflexão sobre nossa experiência sexual dá
origem? Finalmente, devemos preparar o terreno para a ciência,
removendo as confusões iniciais que se interpõem no caminho
de uma investigação científica adequada sobre um dos fenôme-
nos vitais mais importantes e mais mal compreendidos?
Eu acredito que é necessário fazer todas essas coisas, e que
na verdade são todas partes de um único empreendimento filo-
sófico. O principal problema é de descrição – descrição no nível
mais raso possível. É necessário localizar o fenômeno do desejo
sexual para dizer o que ele é como uma experiência humana. É
essa busca por uma descrição superficial que tem sido chamada,
em vários momentos e para vários fins, tanto de “Fenomenolo-
gia” quanto de “Filosofia Analítica”.6
Como muitos filósofos “analíticos”, estou desconfiado da fe-
nomenologia. Desconfio, em particular, do método “cartesiano”
de Husserl: a suposição de que a experiência deve ser descrita
a partir do ponto de vista de primeira-pessoa. (Minhas razões
para esta suspeita constam do Apêndice 1.) Ao mesmo tempo,
estou muito agradecido a outra idéia de suma importância na
fenomenologia, e que só tardiamente está ganhando reconhe-

6 Sobre as possíveis fontes de conflito entre a Fenomenologia e a Filosofia Analítica, ver


Apêndice 1.

18
capítulo 1 - o problema

cimento entre os praticantes da “análise conceitual”. A idéia é


mais velha do que a fenomenologia – talvez tão antiga quanto
Aristóteles, e certamente tão antiga quanto Kant. Ela sustenta
que é preciso distinguir o mundo da experiência humana do
mundo da observação científica. No primeiro existimos como
agentes, assumindo o comando do nosso destino e nos relacio-
nando uns com os outros através de concepções que não têm lu-
gar na visão científica do universo. No segundo, existimos como
organismos, impulsionados por uma causalidade arcana e nos
relacionando uns com os outros através das leis de movimento
que nos governam e tanto quanto regulam todas as outras coi-
sas. Kant descreveu o primeiro mundo como “transcendental”,
o segundo como “empírico”, e traçou um caminho brilhante
entre duas visões exaustivas, incompatíveis entre si e, para ele,
igualmente impossíveis de sua relação. Em uma delas, o mundo
transcendental é um reino de existência independente do mun-
do empírico, de modo que os objetos pertencentes a um não
existem no outro. Na outra, os dois mundos não são distintos,
mas sim duas maneiras diferentes de ver o mesmo objeto: po-
demos vê-lo a partir da perspectiva “transcendental” do agente
humano ou pela perspectiva “empírica” ​​do observador científi-
co. Neste livro, defenderei uma versão da segunda idéia, e esta
defesa me coloca em débito com o discípulo de Kant – Dilthey
–, um pouco com Husserl, e um pouco com o trabalho recen-
te na filosofia analítica da ciência, mas que tem pouca relação
direta com Kant.7 Eu acredito que é preciso distinguir não dois
mundos, mas duas maneiras de entender o mundo e, em espe-
cial, dois empreendimentos conceituais distintos que formam
nosso entendimento.
O mundo é mais do que um objeto de curiosidade científica.
É benevolente aos nossos propósitos: em todos os lugares nos
deparamos com a ocasião para a ação e os meios pelos quais re-

7 Ver especialmente os fragmentos do trabalho reunidos como o volume VII dos Collected
Works de Dilthey (ed. B. Groethuysen, Leipzig, 1914), cujos excertos estão disponíveis
(sob o título 'The Construction of the Historical World in the Human Studies'), tr. e ed.
H. P. Rickman, em Dilthey, Selected Writings, Cambridge, 1976, pp. 168-245. A obra a
que me refiro sobre a filosofia da ciência moderna é focado na discussão dos conceitos
naturais (ver H. Putnam, 'The Meaning of "Meaning" ', em Philosophical Papers, vol.
II: Mind, Language and Reality, Cambridge, 1975, e S. Kripke, Naming and Necessity,
Oxford, 1978.)

19
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

alizá-la. O mundo é também diversificado, apresentando objetos


variados de desejo e contrastando obstáculos à nossa vontade.
Como seres práticos, instintivamente desenvolvemos categorias
que irão gravar e facilitar nossa interação com nosso meio, e
essas categorias levam a dupla marca da finalidade humana e
de variedade material – o que corresponde, por um lado, aos
nossos usos e, por outro, à condição natural dos objetos descri-
tos. Algumas categorias não fazem mais do que gravar o pro-
pósito para o qual um objeto pode ser usado: categorias como
“descanso”, “balanço” e “abrigo”. Outras descrevem alguma
característica recorrente do meio ambiente, e, talvez, simulta-
neamente postulam uma explicação de sua aparência unificada:
categorias como “animal”, “vegetal” e “rocha”. Outras catego-
rias parecem se encaixar em qualquer classe, combinando signi-
ficado funcional e poder explicativo. Quando descrevemos algo
tão difícil, o situamos na rede de fins humanos – é algo que vai
resistir a nossas tentativas de transformá-lo, e que pode também
nos ferir. Ao mesmo tempo, atribuímos um caráter físico, uma
constituição que o aliam a uma série de substâncias afins no
mundo da natureza.
Recentemente, os filósofos têm prestado muita atenção na
existência desses tipos contrastantes de categoria e, em particu-
lar, para a divisão entre tipos funcionais e naturais.8 Como se-
res duais, seres ativos e contemplativos, é natural nos valermos

8 Ver Putnam, 'The Meaning of "Meaning"', e Kripke, Naming and Necessity. O termo
“espécie natural” procede indiretamente de J. S. Mill, A System of Logic (Sistema de
Lógica Dedutiva e Indutiva), 10ª ed., Londres, 1879, livro I, capítulo VII. Mill se refere
a Espécies, que possuem uma existência objetiva, e, assim sendo, mantêm o “E”
maiúsculo para assinalar esse tipo de espécie. A observação de que nossas classificações
são frequentemente funcionais ou analíticas e, portanto, distorcem a natureza das coisas
a que se referem é muito mais antiga do que Mill, inspirando a distinção entre essência
“real” e “nominal” de Locke (Ensaios Sobre o Entendimento Humano, livro III, Capítulo
3, § 13), e o método de Buffon na Histoire Naturelle, em que ele explicitamente rejeita
nossos hábitos costumeiros de classificação, já que eles tentam “dividir a natureza onde
ela é indivisível.”
Sobre a distinção entre espécies naturais e funcionais, ver David Wiggins, Sameness
and Substance, Oxford, 1980, pp. 171 et seq. Talvez a idéia de uma espécie funcional
seja menos familiar do que uma espécie natural; esta idéia, entretanto, é necessária
para entender o “funcionalismo” como uma teoria de dementes. O Funcionalismo
foi detalhadamente explicado por D. C. Dennett nos artigos reunidos em seu livro
Brainstorms, Brighton, 1978.

20
capítulo 1 - o problema

das duas espécies de conceitos, e que existem tantas nuances


situadas na zona nebulosa entre o “duro” e o “macio”. Procu-
ramos tanto compreender o mundo e alterá-lo; e, geralmente,
fazemos ambos. Logo, nos munimos de categorias permeáveis ​​à
explicação (tipos naturais) e categorias permeáveis ao propósi-
to (tipos funcionais). Mas nossa relação com o mundo é muito
mais complexa do que isso faz parecer: além de propósito e
conhecimento, temos experiências, valores, emoções e crença
religiosa. Cada um deles também dita suas próprias trajetórias
conceituais, suas tentativas distintas de ordenar o mundo como
um objeto de nossos interesses.
A classificação pode ser comparada ao talho, em que um ob-
jeto é dividido, por vezes, de acordo com a sua natureza e, por
vezes, em desafio a ela. O açougueiro inglês, motivado por um
zeloso desdém ao cadáver diante dele, e também ao homem que
comerá essa carne, fatia a criatura selvagemente em blocos tos-
cos, com pouco mais do que um tradicional fair-play ao separá
-los. Um “pedaço de carne” inglês pode consistir de um pedaço
de músculo dorsal, um pedaço da espinha dorsal, um fragmento
de rim, um pouco de pele e medula, alguns cabelos, e a marca
indelével com que Jones, o fazendeiro, marcou seu cordeiro. Às
vezes – como na fatia de rim – a combinação de sabores resul-
tante dá origem a uma interessante “espécie gustativa”. Mas
isso não fazia parte da intenção. O açougueiro francês, movido
por um respeito nativo a les nourritures terrestres, esforça-se
em separar cada textura e sabor naturais de seus concorrentes,
destacando um filé completo do osso, gordura, rins e pele que o
envolvem. Ele divide a natureza mais perto das articulações do
que seu colega inglês; mas sua fidelidade à natureza é o resulta-
do de interesses que não têm nenhuma relação necessária com
as leis da natureza. Ele ainda não se compara ao anatomista,
que abandonando todo o interesse na aparência, explora os se-
gredos da natureza na ordem em que a natureza os concebeu.
Para o anatomista, a verdadeira ordem da carcaça é o que expli-
ca não só o seu sabor, mas também a sua estrutura, seus antigos
movimentos, seu falecimento e sua concepção.
Na classificação, como no açougue, normalmente estamos
mais interessados na​​ relação dos objetos conosco do que em
sua causalidade e constituição. Porque buscamos não apenas as

21
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

causas dos acontecimentos, mas também seu significado – mes-


mo quando eles não têm significado algum. Por exemplo, agru-
pamos as estrelas em constelações de acordo com nossas pró-
prias ficções, e ao fazê-lo, cometemos um ultraje astronômico.
Para o astrônomo, nossa idéia de “constelação” não exibe nada
além da emoção supersticiosa daqueles que primeiro a concebe-
ram. Para o astrólogo, transmite a visão mais profunda sobre o
mistério das coisas. Para o resto de nós, esta classificação é um
registro de nossa familiaridade com o mundo, uma homenagem
ao rosto humano que a abrange. Thomas Hardy nos apresenta
uma situação muito triste quando escreve que o jovem baterista
Hodge, morto na guerra dos Bôeres, “nunca conheceu... / O
significado do grande Karoo”: morrer em ambientes alheios à
nossa busca de sentido é morrer sem consolação. Daí a deso-
lação das “constelações estranhas aos olhos” a “oeste / Cada
noite acima de seu túmulo”.9
O exemplo das constelações trata de assuntos a que voltarei
no capítulo final. Mais útil para nós no momento é uma catego-
ria baseada em nosso interesse no belo: a categoria do ornamen-
tal. Consideremos, então, a classe de “mármores ornamentais”.
O objetivo desta classificação – de grande importância para es-
cultores, pedreiros e arquitetos sérios – é assimilar as pedras que

9 Drummer Hodge:
They throw in Drummer Hodge, to rest
Uncoffined - just as found:
His landmark is a kopje-crest
That breaks the veldt around;
And foreign constellations west
Each night above his mound.
Young Hodge the Drummer never knew -
Fresh from his Wessex home -
The meaning of the broad Karoo,
The Bush, the dusty loam,
And why uprose to nightly view
Strange stars amid the gloam.
Yet portion of that unknown plain
Will Hodge forever be;
His homely Northern breast and brain
Grow to some Southern tree,
And strange-eyed constellations reign
His stars eternally – NT.

22
capítulo 1 - o problema

são objeto de preocupação estética. Um mármore ornamental


pode ser polido; ele tem um padrão, uma cor, uma profundida-
de e uma translucidez superficial que o tornam adequado aos
nossos fins decorativos. A classificação inclui o ônix, o pórfiro e
o próprio mármore. Cientificamente falando, essa classificação
é um absurdo total: o ônix é um óxido, o pórfiro, um silicato,
o mármore, um carbonato, enquanto o calcário – um isótopo
do mármore – foi expressamente excluído da classe. Uma ciên-
cia das pedras deve ter por objetivo substituir todas essas clas-
sificações – cuja subserviência aos propósitos humanos limita
seu poder explicativo completo – por outras classificações mais
precisas, projetadas para apreender as semelhanças reais entre
os objetos subsumidos por elas. A Ciência busca, em outras pa-
lavras, descobrir os tipos naturais, pois apenas uma divisão do
mundo em espécies naturais pode permitir-nos ultrapassar as
aparências e chegar às “leis” subjacentes que as explicam.
Por esse motivo, uma ciência das pedras agruparia mármore
e calcário, formas cristalinas diferentes do carbonato de cálcio
geradas pela decomposição pressurizada de seres vivos. Tal ci-
ência provavelmente não encontraria nenhuma explicação para
o fato de a aparência e utilidade do mármore serem tão pró-
ximas da aparência e utilidade do ônix e do pórfiro. Por isso,
provavelmente não traria nenhuma classificação corresponden-
te à nossa idéia de um mármore ornamental. Pelo contrário, é
provável que dispense todas essas classificações, que tendem a
dissolver-se tão logo ultrapassamos a superfície da experiência
humana e chegamos à ordem física subjacente que a explica e
sustenta.
Alguns conceitos, portanto, incluindo os conceitos da ciência
natural, têm uma função explicativa. Não somente fornecem
os termos em que as explicações são formuladas; eles próprios
são explicativos, e subsumir um objeto a si já é fornecer uma
explicação de seu caráter empiricamente detectável.10 Outros
conceitos, incluindo muitos conceitos de bom-senso e compre-
ensão intuitiva, não são (ou não primariamente) explicativos.

10 Este ponto de vista – em que descrição e explicação são partes contínuas de um único
processo – tem sido sustentado por muitos escritores, incluindo W. V. Quine, Word
and Object, Cambridge, Mass., 1960, e Wilfred Sellars, Science, Perception and Reality,
Londres, 1963.

23
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Sua função é dividir o mundo de acordo com os nossos interes-


ses, marcar possibilidades de ação, emoção e experiência que
podem muito bem ser dificultadas pela demasiada atenção à
ordem subjacente das coisas. Conceitos desse tipo muitas vezes
tendem a ceder perante a pressão da inovação científica. Nós
sentimos essa pressão de muitas maneiras, mas quase imediata-
mente como uma espécie de instabilidade em nossas descrições
comuns. Parece que mesas e cadeiras não são realmente como
as descrevemos. Elas não são realmente coloridas, não são re-
almente sólidas, e assim por diante. Isso porque a melhor ex-
plicação para esses fenômenos indeléveis não faz menção à cor
(na melhor das hipóteses só à experiência da cor), e postula, no
lugar da mesa “sólida”, uma multidão descontínua de molécu-
las, cada uma separada de sua vizinha por uma distância maior
do que seu próprio diâmetro.
Não há necessidade de investigarmos agora o significado da
palavra “realmente” na boca da pessoa que diz que nenhuma
mesa é realmente colorida. (Trato desse ponto no Apêndice 2.)
O que é importante é o contraste entre a “fragilidade” de nos-
sas descrições comuns e a solidez “pétrea” das explicações que
parecem ameaçá-las, e somente se rendem, se chegarem a isso, a
explicações melhores do que elas mesmas. Ao mesmo tempo, as
descrições do pensamento e da ação comuns não podem ser re-
nunciadas. Sem elas, não temos um instrumento essencial para
a compreensão do nosso mundo. A classificação das pedras em
mármores ornamentais indica não uma similaridade estrutural,
mas uma similaridade parte fenomênica, parte funcional entre
as substâncias às quais ela é aplicada. E o propósito de marcar
essa semelhança é consagrar em uma classificação o propósito
comum a que podem servir tais objetos.
Como nosso exemplo mostra, a classificação em relação à
finalidade (classificação em termos de “tipos funcionais”) não é
o único caso de descrições “frágeis” geradas pela vida humana
cotidiana. Há também a classificação em relação à experiência
sensorial imediata – o tipo de classificação que registra “quali-
dades secundárias”.11 E há exemplos ainda mais elusivos: clas-

11 A distinção entre qualidades primárias e secundárias é pelo menos tão antiga quanto
Pierre Gassendi; no entanto, nunca deixou de ser problemática: para ter um vislumbre
das discussões modernas, veja o Apêndice 2.

24
capítulo 1 - o problema

sificações relativas às emoções (o amedrontador, o amável, o


nojento), e classificações relativas ao interesse estético (o orna-
mental, o sereno, o elegante e o harmonioso). Tais classificações
registram não as variedades de objetos materiais, mas as va-
riedades de “intencionalidade” humana – pegando emprestada
uma tecnicalidade conveniente dos fenomenólogos.
Quando digo “intencionalidade”, quero dizer a qualidade de
“fazer referência a algo” que está contida na consciência huma-
na: a qualidade de apontar para, e delinear, um objeto de pensa-
mento. A “consciência do mundo” que está no cerne da minha
experiência – e que parece constantemente projetar meus pensa-
mentos para uma realidade maior do que eu – existe em muitas
formas: crença, percepção, imaginação, emoção e desejo. Cada
um destes estados mentais marca um tipo de espaço ante mim
– uma abertura na qual um objeto pode ser encaixado. Meu
medo é o medo de alguma coisa, a minha percepção, percepção
de alguma coisa, e assim por diante. Às vezes eu sou o próprio
objeto de meus pensamentos; com mais frequência, no entanto,
o objeto é algo diferente de mim, algo que pertence ao “mundo
circundante” da minha experiência. (Para uma definição exata
do termo “intencionalidade”, ver Apêndice 2.)
Vou descrever este “mundo circundante” como Lebenswelt
(“mundo da vida”), um termo popular entre os fenomenólogos,
embora não exclusivo deles.12 O Lebenswelt não é um mundo
separado do mundo da ciência natural, mas um mundo dife-

12 Husserl se refere ao mundo da experiência humana como o "mundo natural"


(Naturwelt), um termo herdado por vários de seus discípulos (por exemplo, Patočka,
em Pfirozeny Svet jako Filosoficky Problem [O Mundo Natural como Problema
Filosófico], Praga, 1933 – três livros que posteriormente se mostraram férteis ao sugerir
uma função para a filosofia na interpretação da experiência humana de forma distinta
do papel da ciência). As denominações posteriores escolhidas por Husserl – Umwelt
(“mundo circundante”) e Lebenswelt – indicam um reconhecimento tardio de que é
precisamente pelo contraste com certa visão da “natureza” que o mundo da experiência
humana deve ser caracterizado. O termo Lebenswelt tem maior antiguidade. Aparece
em Dilthey e nas obras de certos teóricos da Einfühlung (como Lipps); também ocorre
em sociólogos fenomenológicos como Alfred Schutz, e está relacionado ao vocabulário
dos historiadores da arte hegelianos (como Wölfflin). (Ver Dilthey, Collected Works, vol.
VII. A expressão escolhida por Dilthey é, no entanto, mais hegeliana: “Objetificações da
vida”. Ver também Alfred Schutz, The Phenomenology of the Social World, tr. G. Walsh
e F. Lehnert, Portland, EUA, 1967; Heinrich Wolfflin, Renaissance and Barroque, tr. K.
Simon, Londres, 1964, pp. 77 et seq.)

25
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

rentemente descrito – descrito com os conceitos que designam


os objetos intencionais da experiência humana. Intencionalida-
de implica que a minha consciência é também uma forma de
representação: a minha consciência me mostra um mundo, e
também me coloca em relação a ele. Mas nem todas as formas
de representação são transparentes. As descrições usadas pela
ciência supõem que a natureza dos objetos identificados através
delas é ser descoberta. A representação identifica um objeto:
mas sua natureza deve ser determinada por maiores investiga-
ções. O mesmo não se aplica ao Lebenswelt, cujos objetos são
identificados por descrições que são, ou pretendem ser, transpa-
rentes para nossa experiência e propósitos. Os objetos do Le-
benswelt são concebidos sob classificações que refletem nosso
próprio interesse prático e contemplativo neles. Essas classifi-
cações tentam dividir o mundo de acordo com as exigências
das razões teórica e prática cotidianas.13 As classificações que
definem os “tipos fenomenológicos” do Lebenswelt são apenas
parcialmente responsivas ao empreendimento da previsão. Eles
por vezes se dissolvem sob o impacto da explicação científica;
não porque necessariamente conflitam com a visão de mundo
científica, mas porque eles não se sustentam diante do ponto de
vista do observador curioso, que não olha para os interesses das
pessoas, mas para a estrutura subjacente da realidade.
Além disso, a ciência pode não fornecer nenhum substituto
para os conceitos que ordenam e dirigem nossa experiência co-
tidiana. Um escultor armado com as teorias da química, geolo-
gia e cristalografia, mas sem o conceito (alheio a essas ciências)
de um mármore ornamental, não vai ter aquela noção imedia-
ta de similaridade de uso que permite que o seu colega menos
erudito relacione espontaneamente ônix e pórfiro. Sua própria
percepção será diferente, pois estará privada de um conceito em
função de que essas pedras seriam vistas.
Pode-se argumentar que a penetração científica na profundi-
dade das coisas pode tornar a superfície ininteligível – ou pelo
menos lenta e dolorosamente inteligível, e com uma hesitação
que mina as necessidades imediatas da ação humana. (E esse é

13 Cf. a idéia de Heidegger de que, para mim, as "coisas" existem essencialmente “para
serem usadas”: Being and Time, tr. J. Macquarrie e E. S. Robinson, Nova York, 1962, pp.
96 et seq.

26
capítulo 1 - o problema

exatamente o caso, devo dizer, com o fenômeno crucial do dese-


jo sexual humano.) Como agentes, pertencemos à superfície do
mundo, e entramos em relação imediata com ele. Os conceitos
por meio dos quais o representamos formam um elo vital com
a realidade, e sem esta ligação, ação e resposta adequadas não
poderiam surgir com a rapidez e competência necessárias para
garantir a nossa felicidade e sobrevivência. Não podemos subs-
tituir nossos conceitos cotidianos mais básicos por algo melhor
do que eles, pois eles evoluíram precisamente sob a pressão das
circunstâncias humanas e em resposta às necessidades das ge-
rações. Qualquer “reconstrução racional” – por mais obedien-
te que seja à verdade subjacente das coisas e às exigências da
objetividade científica – corre o risco de romper a ligação vital
que liga a nossa resposta para o mundo, e o mundo à nossa
resposta, em uma cadeia de competência humana espontânea.14
Não obstante, muitos de nossos conceitos cotidianos vaci-
lam precariamente sob o impacto do pensamento científico, e
um deles – o conceito de agente humano, ou de pessoa – será o
assunto de muito do que se segue. É o dever da filosofia, assim
como a necessidade da religião, sustentar e validar tais concei-
tos e a intencionalidade humana a que dão sentido e direção.
Estamos bastante familiarizados com os perigos que acompa-
nham a visão científica da condição humana – o ponto de vista
que nos representa, talvez verdadeiramente, como organismos
complexos, fustigados pelo funcionamento de uma causalidade
sobre a qual não exercemos nenhum controle. Mas é impor-
tante não nos apressarmos com essas soluções, não procurar
negar as verdades da ciência – tendo refúgio, por exemplo, em
alguma metafísica ilusória da liberdade humana – nem correr
impetuosamente para o santuário de proteção da fé religiosa,
buscando obter apoio dogmático para concepções que são, na
verdade, uma invenção nossa e que somente nós temos obriga-
ção de reparar. Precisamos mostrar detalhadamente que nossas
descrições espontâneas do Lebenswelt – descrições que tornam
a ação humana o recurso mais importante do nosso mundo
circundante – não estão suplantadas pelas verdades da ciência,

14 Cf. os argumentos distintos, mas complementares, apresentados contra o “racionalismo”


na política, por Michael Oakeshott (Rationalism in Politics, Londres, 1968) e F. A. von
Hayek (Studies in Philosophy, Politics and Economics, Londres, 1967).

27
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

mas têm a sua própria verdade que, por não competir com o
propósito da explicação definitiva, não é abalada pelas expli-
cações que parecem, à primeira vista, entrar em conflito com
ela. A Filosofia, arte da revisão e reflexão, está encarregada de
uma grande tarefa de restituição. A ciência tem-nos afastado do
mundo, fazendo com desconfiemos dos conceitos por meio dos
quais lidamos com ele. Tentarei restaurar o conceito do desejo
sexual ao seu legítimo lugar na descrição do Lebenswelt e mos-
trar em detalhes por que uma ciência do sexo não pode nem
suplantar esse conceito nem iluminar o fenômeno humano que
ele descreve.
O conceito crucial para qualquer tentativa filosófica de
fornecer a base para o entendimento humano é o conceito de
pessoa. É uma tese bem conhecida da filosofia – expressa em
inúmeros idiomas e em inúmeros tons de voz – que os seres
humanos podem ser descritos sob duas óticas contrastantes (e,
para alguns, conflitantes): como organismos obedientes às leis
da natureza, e como pessoas, às vezes, obedientes, às vezes deso-
bedientes, à lei moral. As pessoas são agentes morais; suas ações
não têm apenas causas, mas também razões. Elas tomam deci-
sões para o futuro, e por isso têm, além de desejos, intenções.
Elas não se permitem ser sempre arrastadas por seus impulsos,
mas ocasionalmente resistem e os subjugam. Em tudo, o agente
moral é tanto ativo como passivo, e aparece como uma espécie
de legislador entre suas próprias emoções. Ele também é um ob-
jeto não só de carinho e amor (que podemos estender a toda a
natureza), mas também de louvor e de culpa, raiva e estima. Em
todas essas distinções intuitivas – entre razão e causa, intenção e
desejo, ação e paixão, estima e afeto – encontramos aspectos da
distinção vital subjacente a eles e ao esclarecimento daquilo a
que Kant dedicou alguns de seus maiores capítulos: a distinção
entre pessoa e coisa. Apenas uma pessoa tem direitos, deveres e
obrigações; apenas uma pessoa age por razões além das causas;
apenas uma pessoa merece nosso louvor, censura ou raiva. E é
como pessoas que percebemos e atuamos um sobre o outro, me-
diando todas as nossas respostas mútuas com o conceito obscu-
ro, mas indispensável, do agente moral livre.
Eu não acredito que possamos aceitar a majestosa teoria de
Kant, que atribui às pessoas um núcleo metafísico, o “eu trans-

28
capítulo 1 - o problema

cendental”, que se encontra para além da natureza e está eter-


namente livre de suas restrições. No entanto, sua teoria derivou
de idéias sobre a ação humana que não devemos rejeitar, e uma
das minhas maiores preocupações no que se segue será defender
o que é defensável na perspectiva de Kant, evitando a metafísi-
ca intolerável que ele – e, na mesma linha, Husserl, Heidegger,
Patočka e muitos outros – colocou no centro de uma teoria
do homem. Ao mesmo tempo, vou rejeitar qualquer tentativa
de dar uma teoria da natureza humana em termos meramente
científicos: nos termos da “melhor explicação” do que somos.
Porque nós somos meras aparências, e a melhor explicação da
nossa natureza provavelmente não irá empregar o conceito de
pessoa, mesmo que esse conceito defina o que somos uns para
os outros e para nós mesmos. Se esta idéia parece paradoxal, es-
pero que pareça menos paradoxal depois – ou, pelo menos, não
mais paradoxal do que a própria experiência humana.
Vou contrastar dois modos de compreensão: a compreensão
científica, que visa explicar o mundo, e ado “entendimento inten-
cional”, como vou chamá-la, que visa descrever, criticar e justifi-
car o Lebenswelt. O segundo é uma tentativa de compreender o
mundo através de conceitos com que experimentamos e agimos
sobre ele: esses conceitos identificam o “objeto intencional” de
nossos estados de espírito cotidianos. Uma compreensão inten-
cional, portanto, preenche o mundo com os significados implíci-
tos em nossos objetivos e emoções. A idéia de tal entendimento
é um donnée familiar da sociologia kantiana, subjacente à idéia
de que o mundo social em que agimos deve ser entendido de for-
ma diferente do mundo do observador desprendido por meio de
um ato de Verstehen.15 Não só essa “entendimento intencional”
é indispensável para nós como agentes racionais, mas também
pode não ser substituível por qualquer entendimento derivado
da ciência natural. A compreensão intencional não visa explicar
o mundo, mas familiarizar-se com ele, reconhecendo as ocasiões
para a ação, os objetos de simpatia e os locais de descanso.
Inevitavelmente nossa compreensão intencional deve conter
muitos elementos explicativos – pois não se pode agir adequa-

15 Dilthey, Collected Works, vol. VII; Max Weber, 'The Nature of Social Action', em W.
G. Runciman (ed.), Weber, Selections in Translation, Cambridge, 1978. Ver Capítulo 7,
nota 10.

29
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

damente sem um sistema de crenças. E possuir uma crença é


estar comprometido com a busca da verdade e, portanto, com
a construção de teorias científicas, e à conseqüente classifica-
ção do mundo em termos de espécies naturais. No entanto, não
há nenhuma razão para supor que tal classificação irá fornecer
base suficiente para a nossa conduta racional, assim como não
há nenhuma razão para pensar que a classificação química das
pedras servirá de base para a atividade do escultor. Em particu-
lar, este ponto de vista neutro e científico das coisas pode estar
bem adaptado para descrever os meios para cumprir nossos ob-
jetivos, mas deve permanecer permanentemente incapaz de des-
crever os fins a que aspiramos. As finalidades da vida também
são os significados de nossas experiências pessoais, e o mundo
da ciência é um mundo sem sentido.16
Considere as relações humanas mais elementares. As pessoas
individuais que encontro são membros de um tipo natural – o
tipo “ser humano” – e se comportam de acordo com as leis des-
se tipo. No entanto, eu submeto as pessoas e suas ações a con-
ceitos que não figuram na formulação dessas leis. Na verdade,
a alucinação dessas leis (pois é assim que deve ser descrita em
nosso atual estado de ignorância) parece freqüentemente afas-
tar as pessoas do relacionamento humano genuíno. Se os fatos
fundamentais sobre João são, para mim, a sua constituição bio-
lógica, a sua essência científica, sua estrutura neurológica, então
acho difícil responder-lhe com carinho, raiva, amor, desprezo
ou tristeza. Assim descrito, ele torna-se um mistério para mim,
uma vez que essas classificações não apreendem o objeto inten-
cional de emoção interpessoal.
O ponto é geral: a tentativa científica de penetrar “nas profun-
dezas” das coisas humanas é quase que universalmente acompa-
nhada por uma perda de resposta à “superfície”. Apesar disso,
é na superfície que vivemos e agimos: é lá que somos criados,
como aparências complexas sustentadas pela interação social

16 Eu voltarei a este ponto no Capítulo 12, onde explico mais sobre o que quero dizer
com “sentido” e sua conexão com o ponto de vista humano, que está sempre, no fim
das contas, em guerra com a "impessoalidade" da ciência. Para algumas interessantes
especulações checas sobre este tema, ver V. Belohradsky, Krize Eschatologie Neosobnosti,
Munique, 1981, e o penetrante e doutoral discurso de Vaclav Havel enviado para a
Universidade de Toulouse, "Politics and Conscience", Salisbury Review, 3 (2), 1985.

30
capítulo 1 - o problema

que nós, como aparências, também criamos. O mesmo “misté-


rio” que esconde a personalidade humana do neurofisiologista
também esconde a história humana do determinista marxista e a
moralidade humana do sociobiólogo. O encanto dessas ciências
é um encanto de desmistificação; mas elas acabam mistificando
mais profundamente o que pretendem explicar, justamente por
nos deixar esquecer o propósito de explicá-lo. (Como Wittgens-
tein disse, “o que está oculto não nos interessa”.)
No entanto, os conceitos da nossa compreensão intencional
não são fáceis de analisar. Sua imersão no sentimento e na ação
torna difícil precisá-los. O mundo humano pode não ser “pro-
fundo” cientificamente falando, mas é denso.17 Por isso, mui-
tas vezes é mais fácil falar da intencionalidade de uma emoção
como se fosse uma questão de percepção ao invés de pensamen-
to: o objeto do ódio é percebido com ódio. Entender o conceito
de pessoa pode também nos obrigar a entender um tipo de per-
cepção: entender o que é ver os seres humanos como pessoas. E
essa percepção, por sua vez, pode não ser facilmente desemba-
raçada da cultura construída sobre ela, ou dos fins últimos de
conduta de que se serve para focar.
Isso não significa que nosso entendimento intencional gere
uma “mera ideologia” no sentido marxista – um sistema de
crenças com nenhum atrativo além da sua capacidade para mis-
tificar o mundo de forma a apoiar os nossos empreendimentos
(“burgueses”).18 Os marxistas estão certos em diferenciar cren-
ças nos termos de sua explicação, e apontar para o estatuto
epistemológico desviado de uma crença, que pode sempre ser
explicado em função de algum interesse humano que não seja o
interesse na verdade. No entanto, embora muitos de nossos con-
ceitos devam ser explicados em termos funcionais, não se segue
que uma explicação funcional seja apropriada para as crenças
em que esses conceitos figuram. Assim, a existência do conceito
de “mármore ornamental” deve ser explicada em função de sua

17 Ver R. A. D. Grant, na crítica de S. R. Letwin, The Gentleman in Trollope, Salisbury


Review, 1 (1), 1982, p. 41–2.
18 A teoria marxista da ideologia tem suas origens em K. Marx e F. Engels, A ideologia
alemã, 1846. O contraste entre ideologia e ciência – vital para a teoria marxista da
história e à crítica marxista da filosofia – está tão bem estabelecido que um comentarista
foi capaz de dizer que “é uma característica definitória da ideologia não ser científica”
(G. A. Cohen, Karl Marx's Theory of History, a Defence, Princeton, 1978, p. 46).

31
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

utilidade ao focar nossos propósitos esculturais. Por outro lado,


o escultor que julga algum pedaço de pedra um mármore orna-
mental adquire essa crença como resultado de evidências. Tais
crenças “frágeis” não são científicas, já que empregam conceitos
que são alheios ao método científico. Ainda assim podem ser
verdadeiros ou falsos, e razoáveis ou não, pois são normalmente
causados não por nossas necessidades, mas pela nossa percep-
ção de como as coisas são.
O mesmo é genericamente válido para os conceitos que de-
finem o Lebenswelt. Em particular, há conceitos importantes
que informam a nossa experiência sexual, e que existem porque
servem a um interesse humano diverso do interesse na verda-
de científica (por exemplo, os conceitos de inocência e culpa,
normalidade e perversão, sagrado e profano). No entanto, a
funcionalidade desses conceitos não implica a funcionalidade
das crenças que os empregam. A objetividade dessas crenças
pode ser tão segura quanto a objetividade da ciência, mesmo
que se refiram não à estrutura subjacente da realidade, mas ao
Lebenswelt. Se o Lebenswelt é uma invenção burguesa, então
devemos louvar e emular a mente burguesa, que é mais bem
equipada para perceber a realidade humana do que a consciên-
cia ordenada do crítico “desmistificador”.
Há verdades genuínas e objetivas sobre o Lebenswelt a serem
compreendidas pela análise filosófica. A filosofia pode, portan-
to, realmente dar esclarecimentos sobre a condição humana,
precisamente através dessa “análise de conceitos” que parecia,
nos últimos anos, freqüentemente amortecer nossas percepções
humanas. Uma análise dos conceitos é o que está envolvido na
tentativa de alargar e aprofundar o reino da “compreensão in-
tencional”. Nada é capaz de iluminar a intencionalidade das
nossas respostas humanas naturais, salvo a análise dos conceitos
que estão envolvidos nisso. Esta tentativa de aprofundar nossa
compreensão intencional é uma tentativa de explorar o reino do
“dado”, mas não o do subjetivamente dado. Não estamos pre-
ocupados com o conhecimento subjetivo da experiência, mas
com as práticas compartilhadas pelas quais uma linguagem pú-
blica está ligada tanto ao mundo quanto à vida daqueles que
o descrevem. Esta é a idéia apreendida no slogan de Wittgens-
tein, que “o aceito, o dado, são formas de vida”, e no próprio
reconhecimento de Husserl (que não conseguiu convencê-lo a

32
capítulo 1 - o problema

rejeitar a desastrosa “psicologia transcendental” com o que se


onerou) de que o Lebenswelt é dado “intersubjetivamente”.19
A base do nosso entendimento do mundo humano encon-
tra-se em práticas partilhadas e acessíveis ao público, dentre
as quais a linguagem – que define os modos de representação
através dos quais percebemos o mundo – é o mais importante.
Não farei, então, nenhuma outra distinção entre as conclusões
“analítica” e “fenomenológica”. Dois idiomas estão igualmente
disponíveis para mim, e não há necessidade de nenhum deles ter
o monopólio da verdade, uma vez que, assim que nós aceitamos
a importação do argumento da “linguagem privada” (uma ver-
são dela aparece no Apêndice 1), não há como existir conflito
real entre eles.
Como, então, devemos enfrentar o problema do desejo se-
xual? Não é preciso muita observação para reconhecer que
nossa civilização sofreu uma profunda crise no comportamento
sexual e na moralidade sexual. Como já observei, parece-me
inevitável que a conduta sexual seja sobrecarregada com escrú-
pulos morais. Eu também acredito que muitos desses escrúpulos
são justificáveis, e que a incapacidade de ver isso decorre de
uma concepção errada da natureza do desejo. Por isso, minha
primeira tarefa será descritiva: o que é o desejo sexual como
um fenômeno da experiência humana? Tentarei, então, esboçar
uma moralidade sexual, cuja base será localizada não na cren-
ça religiosa, mas na natureza humana, e vou confiar no esque-
ma geral explorado por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco,
a fim de passar dos fatos da natureza humana à moralidade
que eles implicam. Em muitos dos pontos que se seguem, minha
abordagem tocará na religião, não só porque – como tem sido
freqüentemente observado – sentimentos eróticos e religiosos
mostram um isomorfismo peculiar, mas também porque a expe-
riência religiosa fornece o pano de fundo cotidiano mais seguro
à moralidade sexual. Do ponto de vista do sujeito, a questão
complexa e dificilmente controlável da conduta sexual é escla-
recida e simplificada pelas concepções profundas da fé religiosa,
que dão às verdades filosóficas que vou elaborar uma realidade

19 E. Husserl, Die Krisis der europaischen Wissenschaften und die trans-zendentale


Phanomenologie, ed. W. Biemel, Haia, 1976, parte 2.

33
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

concreta, prática e imediata. A religião resgata conceitos como


pessoa, liberdade, responsabilidade, confiança e compromisso,
posse, entrega, união e separação pessoais, de todo o ceticismo,
menos daquele ligado ao próprio Deus. Infelizmente, esse últi-
mo ceticismo é, para o filósofo, o mais difícil de vencer. É, por-
tanto, uma desvantagem singular da filosofia dever ignorar o
apelo à fé, privando-se dos símbolos mais vívidos em que nosso
entendimento intencional está focado. A fé, que enche o mun-
do de significados, inclina-se muito precariamente sobre uma
tese metafísica injustificável. Para justificar esses significados,
o filósofo deve distanciar-se da fé e investigar a condição hu-
mana com o olhar descompromissado do antropólogo filosófi-
co. Ele deve dar atenção, como os fenomenologistas dizem, “às
coisas em si”.
Mas que coisas? Considerarei os três fenômenos básicos da
sensação sexual humana: excitação, desejo e amor. Defenderei
que são todos fenômenos puramente humanos, ou melhor, que
pertencem a esse reino de resposta recíproca que é mediado pelo
conceito de pessoa, e que está disponível apenas para os seres
que possuem e são motivados por esse conceito. Ver-se-á que as
implicações disto serão enormes.
Além dos fenômenos básicos, há a condição de que derivam:
a condição de existência sexual, com sua associada distinção
entre homem e mulher. Há também o que pode ser chamado
de “reino da experiência sexual”: um reino de emoções e per-
cepções que só estão disponíveis para nós por causa da nossa
suscetibilidade ao desejo sexual. Grande parte desse reino é mis-
terioso para nós. Considere, por exemplo, o ciúme sexual. É im-
possível negar o poder catastrófico desta emoção, que nos leva
para o comportamento mais desesperado, e que, no entanto, se
inicia da menor das circunstâncias. Como explicar essa catás-
trofe? O que há no ciúme que se mostra tão destrutivo para a
pessoa que sofre dele, e por que o ciúme é tão difícil de superar?
Veremos que a resposta a essas perguntas toca em um dos mais
profundos e surpreendentes fatos sobre a nossa natureza como
agentes racionais.
Vou considerar as importantes expressões do sentimento se-
xual: olhares, carícias e o próprio ato de amor. Tentarei explicar
o lugar e o valor das disposições – castidade, modéstia e vergo-

34
capítulo 1 - o problema

nha – que apresentaram um obstáculo exclusivamente humano


à indulgência sexual, e também descreverei algumas variações
do esforço sexual humano: as diversas “perversões” e as sempre
notáveis metas e estratégias de que a união sexual pode fazer
parte. Vou explorar as importantes diferenças entre desejo ho-
mossexual e heterossexual, e entre a sexualidade dos homens
e das mulheres. Em conclusão, procurarei dizer alguma coisa
sobre as instituições pelas quais o desejo sexual encontra seu
caminho seguro, e cuja construção é importantíssima na criação
das condições de realização sexual.
O desejo sexual, como a pessoa humana, é um artefato so-
cial, e pode ser construído de muitas maneiras. Mas para ser
construído corretamente, de modo que sua realização esteja
disponível para todos aqueles que experimentam suas formas
normais, então devem ser dadas as condições institucionais que
intrinsecamente exige. O problema do desejo sexual torna-se,
no final, um problema político, e as conclusões morais algo con-
servadoras que vou defender devem ser vistas como parte do
conservadorismo político maior que elas já implicam, e para
quem provêem, de fato, uma das mais importantes justificações
– uma justificação que decorre da qualidade interna da mais
privada das experiências humanas.

35
CAPÍTULO 2
EXCITAÇÃO

Os seres humanos conversam e cooperam, constroem e pro-


duzem, trabalham para acumular e trocam, formam sociedades,
leis e instituições, e em todas estas coisas o fenômeno da razão –
como um princípio distintivo de atividade – parece dominante.
De fato, há teorias do ser humano que descrevem esta ou aquela
atividade como central – a fala, por exemplo, o trabalho pro-
dutivo (Marx), ou a existência política (Aristóteles). Mas nós
sentimos que o poder persuasivo de tais teorias depende de se a
atividade em questão é uma expressão da essência mais profun-
da, a própria razão, que todo comportamento humano mostra.
Não devemos concluir, contudo, que é apenas como um ser
ativo que o homem mostra sua causalidade distintiva. Os homens
são distinguidos igualmente pela qualidade de suas experiências
e por uma receptividade – exibida na sua forma mais completa
na experiência estética – em que a sua natureza pode ser total-
mente absorvida no gozo atencioso. Aqueles que vêem as marcas
distintivas humanas em atividade podem tentar descobrir os fe-
nômenos radicais da sexualidade humana nos estratagemas do
desejo. Creio, no entanto, que só podemos entender o desejo se
exibirmos primeiro o esboço de um estado mais passivo da mente
– o estado de excitação, em que o corpo de uma pessoa desperta
para a presença ou pensamento de outro. A excitação fornece a
circunstância subjacente ao prazer sexual, e contém as sementes
de tudo o que é distintivo na sexualidade do ser racional.
A excitação sexual – considerada, por exemplo, nos termos
do Relatório Kinsey,20 e por outras tais práticas reducionistas –

20 Alfred C. Kinsey, W. B. Pomery, C. E. Martin et al., Sexual Behaviour in the Human


Male, Londres e Filadélfia, 1949; Sexual Behaviour in the Human Female, Londres e
Filadélfia, 1953.
37
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

é muitas vezes representada como um estado corporal, comum a


homens e animais, que incomoda os sujeitos a ela de modo que
só podem encontrar alívio no ato sexual. O ato sexual, pensa-
se, “descarrega” ou “libera” as tensões da excitação, acalman-
do-a. Deste ponto de vista, a ereção do pênis ou o relaxamento
vagina são os fenômenos radicais da excitação, e podem ser
observados em todo o reino animal. A sua função de agitar os
animais para a cópula é ilustrada também pela espécie humana.
Dessa forma, o prazer sexual é o prazer, sentido majoritaria-
mente nos órgãos sexuais, que acompanha o ato sexual e que
constantemente se acumula até o ponto de descarga e liberação.
O atrativo dessa operação está, em parte, em nos permitir
compreender a precisa natureza de tanto prazer sexual. Pois o
prazer sexual não é simplesmente o prazer de “obter o que você
deseja” – pelo contrário, ele é precisamente uma parte do que
você deseja. E é inegável que efeitos fisiológicos similares, e sen-
sações, podem ocorrer no ato de masturbação e no ato de amor:
talvez ocorram ao montar um cavalo, ou em todas essas cir-
cunstâncias fortuitas de contato a que os freudianos se referem
na sua teoria da “zona erógena”.21 Pode parecer razoável, por-
tanto, sugerir que o prazer sexual é fundamentalmente um pra-
zer sensível experimentado nas partes sexuais. Por outro lado,
se as coisas fossem tão simples, deveríamos nos admirar pela
ocorrência generalizada de frustração sexual. Seria natural, nes-
te caso, supor que o desejo sexual é o desejo pelo prazer sexual:
um desejo que poderia ser tão bem satisfeito pela masturbação
como pelos estratagemas que consomem tempo de cortejo e se-
dução. (Assim temos a irônica recomendação de Wilde: “mais
limpa, mais eficiente, e com uma pessoa bem melhor”.)
Além disso, o que quer que se diga sobre o prazer da mas-
turbação, é preciso reconhecer que há muito mais no ato sexual
do que seu estágio final: há um desejo de beijar e acariciar, e
prazeres associados a essas atividades. Um beijo apaixonado
é tanto uma expressão de desejo quanto uma fonte de prazer
sexual. Mais uma vez, alguém pode dizer que o prazer aqui não
é mais do que o prazer nos lábios ou na boca – dando assim

21 Essa teoria é discutida adiante, no Capítulo 7, em que são dadas as fontes freudianas e
pré-freudianas.

38
capítulo 2 - excitação

credibilidade à idéia da boca como uma “zona erógena”. Mas


tal sugestão é, para dizer o mínimo, incompleta. Apenas em cer-
tas circunstâncias o prazer “nos” lábios é considerado prazer
sexual ou parte dele. Considere dois atores se beijando – ou, de
certa maneira, não ir “até o fim”, como Pinter teria dito (“Joey:
Eu fui até o fim muitas vezes. Às vezes... você pode ficar feliz...
e não ir até o fim. De vez em quando... você pode ficar feliz...
sem ir nem um pouco” – The Homecoming).22 É concebível que
esses atores possam sentir prazer nas partes afetadas – por que
não? Descartar essa possibilidade seria um apriorismo injustifi-
cável. Mas certamente não seria o prazer sexual. Para ser prazer
sexual, deve ser uma parte integrante da excitação sexual. E é
precisamente isso o que é posto em dúvida pela suposição de
que os dois participantes estão representando.
O que é, então, a excitação, e que diferença isso faz para o
beijo? Devemos comparar os atores se beijando com uma pes-
soa que beija sua amiga afetuosamente. É verdade que, nesse
caso, há fortes propriedades agindo, derivadas do nosso senso
de permissão nas relações sexuais. Nas sociedades a que eu e
meus leitores pertencemos, o beijo tornou-se um símbolo mui-
to forte do ato sexual para ser considerado em outros termos.
Considere, no entanto, uma sociedade islâmica, em que qual-
quer tipo de demonstração de sentimento sexual seria chocante;
tão chocante que isso sequer apareceria como uma interpreta-
ção possível. Em tal sociedade, como se sabe, os amigos se bei-
jam livremente, e com evidente prazer. E o prazer não tem nada
a ver com qualquer “sensação prazerosa” localizado na boca ou
na bochecha, nas mãos ou na testa. Esses prazeres localizados
têm pouco significado diante do ato de atenção com que o beijo
é realizado. Embora possamos pensar no prazer do beijo como
algo focado na boca, isso se deve em grande parte ao fato de os
pensamentos de quem beija estarem focados em seu gesto, em
seu significado carinhoso, e, portanto, na boca apenas na me-
dida em que ela própria está representada nos pensamentos de
quem beija. O beijo é um reconhecimento da estima do outro,
e seu prazer está na alegria do outro nisso. Nesse caso, toda a
idéia de uma “sensação de prazer” parece evaporar. Pode haver

22 O termo usado é “part hog”, inspirado na expressão “going the whole hog”, presente na
mencionada peça de Harold Pinter – NT.

39
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

tal coisa, mas é de menor importância na explicação do ato, ou


na avaliação de sua qualidade agradável.
A excitação transforma esse prazer em um prazer sexual.
Mas é o prazer de beijar – o prazer que uma pessoa leva da ou-
tra ao expressar seu afeto – que se transforma. Não é o “prazer
físico” (seja ele qual for) sentido na boca ou na bochecha, mas
o que chamarei de “prazer intencional” envolvido no reconhe-
cimento do significado de um gesto. A excitação parece afetar
não tanto a sensação de beijar, mas seu “conteúdo intencional”,
mesmo que a própria sensação não seja de forma alguma isola-
da do pensamento que fornece seu contexto.
Devemos sempre distinguir os prazeres intencionais dos não
-intencionais. Alguns prazeres são essencialmente prazeres em
ou sobre um objeto; outros (como o prazer de um banho quen-
te) são meramente prazeres da sensação. Não está claro se os
prazeres do primeiro tipo podem ser atribuídos aos animais in-
feriores: talvez possam. Um cão pode sentir prazer, supostamen-
te, com a perspectiva de uma caminhada ou com o retorno de
seu dono. Há, naturalmente, problemas extremamente compli-
cados aqui, e não é suficiente sermos guiados por nossos hábitos
comuns da linguagem. A descrição da vida mental dos animais
deve depender de uma teoria global das capacidades animais,
e seria inadequado, nesta fase, fazer suposições injustificadas.
Um leão cochilando ao sol sente prazer no calor do sol, mas
o “no” aqui significa apenas “por causa do”. Evidentemente,
é um caso bastante diferente dos prazeres múltiplos que esta
situação pode inspirar em um ser humano. E é também evidente
que não poderíamos começar a entender a estrutura do prazer
humano se não reconhecermos o predomínio do componente
intencional: do prazer dirigido para um objeto, sobre o qual o
sujeito, em seu prazer, está interessado. Esse é certamente o pra-
zer que se expressa no beijo de afeto. O mesmo pode ser dito do
prazer que se expressa, e do prazer posterior que se antecipa, no
beijo de desejo?
Os prazeres não-intencionais (“prazeres da sensação”) com-
partilham as propriedades que definem a sensação: estão loca-
lizados no corpo, em um determinado lugar (mesmo que esse
lugar possa ocasionalmente ser o corpo todo). Eles têm inten-
sidade e duração; aumentam e diminuem; e como as sensações

40
capítulo 2 - excitação

que se encontram fora do domínio da vontade – um prazer


nunca é algo que fazemos, mesmo que façamos coisas para ob-
tê-lo.23 Como eu disse acima, o ato sexual, e muito do que o
precede, envolve tais prazeres – ou, pelo menos, envolve no caso
normal. E eles formam uma parte importante da experiência;
em particular sua capacidade de “superar” o sujeito, de modo
que ele está “dominado” por eles, adquire um papel importante
na intencionalidade do desejo. Para os freudianos, esses praze-
res são a verdadeira fonte de deleite sexual, que está inteiramen-
te focado em ocorrências nas zonas “erógenas”. E a tentativa
de Freud de basear a sexualidade na sensação tem um motivo
filosófico importante: é uma tentativa de incorporar o corpo
nos estratagemas do desejo – exatamente para mostrar por que
nossa existência como criaturas corpóreas é central para o fe-
nômeno da sexualidade. No entanto, é inegavelmente parado-
xal considerar os prazeres localizados do ato sexual como a
finalidade ou o objeto de desejo: de modo que considerá-los é
ignorar o drama do sentimento sexual e, em particular, ignorar
o fato do outro que é desejado. Muitas sensações prazerosas
acompanham espirros, por exemplo, ou, mais apropriadamen-
te, o aumento raivoso do tom de voz e o esforço na busca de
uma briga. Neste último caso, elas claramente não constituem o
objetivo, ou mesmo a gratificação, e menos ainda, a satisfação
ou resolução da raiva.24
Procópio, em sua História Secreta, diz muitas coisas escan-
dalosas sobre a imperatriz Teodora, esposa de Justiniano. Um
incidente em particular é interessante para nós. Teodora, de
acordo com Procópio, tinha o hábito de deitar nua em um sofá
com sementes de milheto polvilhado sobre suas coxas e órgãos
sexuais. Gansos seriam colocados sobre seu corpo e os pássaros
mordiscavam as sementes, dando brutos ósculos em sua carne.
O contato com seus bicos aparentemente causava êxtases em
Teodora (ou pelo menos fingia esses êxtases, já que ela estava
no palco nesse momento).25 Suponha que disséssemos que Teo-

23 Sobre a classificação dos estados mentais, nos termos dessas distinções formais, ver
meu livro Art and Imagination, Londres, 1974, Parte II.
24 A possibilidade de distinguir objetivo, gratificação, satisfação e resolução para um
único estado mental é um ponto que discuto mais detalhadamente no Capítulo 4.
25 Procópio, História Secreta, Livro IX, 20.

41
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

dora sentiu um prazer intenso com as bicadas dos gansos. Isso


certamente implica que o prazer dela dependia de alguma forma
do pensamento de que eram gansos a bicá-la, em vez de, diga-
mos, autômatos cuidadosamente simulados, ou qualquer outro
dispositivo que possa aplicar a pressão suave de uma cartilagem
em sua carne. Poderia ser assim, mas certamente devemos achar
tal prazer intrigante. Ela sente prazer nas bicadas dos gansos,
pelas bicadas ou sobre elas? (Que não são necessariamente as
mesmas coisas.) Mas então, por que diabos? A descrição corre-
ta, creio, é em termos de prazer não-intencional. Ela sente uma
sensação de prazer – uma série de sensações de prazer – que
por acaso são causadas por gansos. Isso não é necessariamente
anormal, nem é pervertido, a menos que suponhamos que ela
fique excitada com a experiência.
Mas é precisamente a suposição de excitação que nos in-
trigaria, pois pareceria que os gansos desempenham um papel
constitutivo em seu prazer, que eles são um tipo de objeto de
prazer. Assim, no caso normal de excitação sexual, o estímulo
físico não pode ser mentalmente afastado do senso de “o que
está acontecendo”: de uma noção de quem está fazendo o que
a quem. Tomi Ungerer produziu gravuras de “máquinas sexu-
ais” – máquinas destinadas a aplicar estímulos adequados às
“zonas erógenas” daqueles que “copulariam” com elas. Eu não
conheço o propósito de Ungerer, mas é inegável que o resultado
é uma sátira viva de uma visão da sexualidade – a visão que
vê o prazer sexual e a excitação sexual como respostas pura-
mente “físicas”, ou seja, respostas não-intencionais. Tal visão
corresponde à imagem da sexualidade infantil dada por mui-
tos psicanalistas, e na verdade as teorias da sexualidade infantil
oferecidas por Melanie Klein foram descritas favoravelmente
por dois de seus seguidores como o reconhecimento da natureza
da criança como uma “machine désirante”.26 A reflexão sobre o
caso de Teodora, e a idéia de excitação que seria necessária para
descrevê-lo, deve nos afastar de tais descrições, que só podem
ser aplicáveis após eliminar todas as referências ao objeto inten-
cional da experiência. Elas são, em outras palavras, necessaria-
mente falácias, cujo charme advém apenas do reconhecimento
secreto de que isto é assim, do seu caráter de “desmistificação”.

26 G. Deleuze and F. Guattari, L'Anti-Oedipe, Paris, 1972.

42
capítulo 2 - excitação

Assim, no caso normal de excitação sexual, seria bastante


extraordinário se as carícias de uma das partes fossem conside-
radas pela outra como as causas acidentais de uma sensação de
prazer, que poderia ter sido causada ​​de alguma outra forma. A
excitação sexual é uma resposta, mas não uma resposta a um
estímulo que poderia ser perfeitamente descrito como a mera
causa de uma sensação. É uma resposta, pelo menos em parte,
a um pensamento, onde o pensamento se refere a “o que está
acontecendo” entre mim e o outro. É claro, o prazer sexual não
é meramente prazer em ser tocado: isso poderia ocorrer quan-
do um amigo toca em outro, ou quando uma criança toca em
seu pai. (Existem inúmeras maneiras de ficarmos contentes com
contato humano.) No entanto, é um prazer intencional (pelo
menos em parte), e se houver dificuldade em especificar seu ob-
jeto, isso se deve em grande parte devido à complexidade do
pensamento em que está fundado.
O pensamento envolve a seguinte idéia: É ele quem está deli-
beradamente me tocando, pretendendo o meu reconhecimento
de seu ato (ou quem está deliberadamente me beijando, com
uma intenção similar). A sensação de prazer do sujeito é total-
mente arrebatada por este pensamento e, por assim dizer, pro-
jetada por meio dela em direção à outra pessoa. Isto é vivida-
mente demonstrado pela possibilidade de engano. Alguém pode
descobrir que os dedos que o estão tocando não são, como ele
pensou, os de sua amante, mas os de um intruso. Seu prazer (no
caso normal) transforma-se instantaneamente em desgosto; ele
sofre o mesmo tipo de inversão que uma emoção, quando fica
evidente que a crença sobre a qual se funda é falsa. Assim, o
prazer sexual, como uma emoção, pode estar em conflito com
os fatos. O homem que sente prazer, confundindo o toque de
outro com o de sua amante, deve ser comparado ao pai que sen-
te orgulho, confundindo o garoto que chega em primeiro lugar
com seu filho. Não sentimos menos estranheza na excitação de
um amante ser extinta pela descoberta de dedos desconhecidos
sobre seu corpo do que num sentimento de triunfo ser extinto
pela descoberta de que seu filho não ganhou o prêmio, afinal.
Da mesma forma, a descoberta de que estes dedos, mesmo sen-
do os dedos da minha amante, não estão deliberadamente em-
pregados em solicitar a minha atenção – pois ela está dormindo,

43
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

inconsciente ou morta, por exemplo – extinguirá o meu prazer,


mesmo que isso não mude o caráter de minhas sensações.
Até certo ponto, todos os prazeres – mesmo os prazeres não
-intencionais – podem ser prejudicados ou comprometidos por
uma mudança de entendimento. A carne adquire um gosto dife-
rente quando descubro que pertencia ao meu cão favorito. Mas
é importante perceber que a dependência do prazer na crença
é aqui muito mais flexível. Eu poderia ter pensado que estava
comendo carne de carneiro, e descobri que era alce ou canguru.
Isso não altera automaticamente o prazer físico de comê-la; pelo
contrário, o prazer vai, em um ser racional, reconciliá-lo com as
virtudes (muito deturpadas, se dependermos dos jornais) do alce
ou do canguru. Da mesma forma, embora seja uma enorme to-
lice não sair do banho relaxante após revelarem não se tratar de
água, mas ácido, isso não ocorre porque as sensações de prazer
na minha pele cessaram imediatamente. No caso do prazer se-
xual, o conhecimento de que uma mão indesejada me toca extin-
gue de uma vez o meu prazer. O prazer não poderia ser tomado
como uma confirmação posterior das virtudes sexuais até ago-
ra não reconhecidas de alguma pessoa anteriormente rejeitada.
Jacó, por exemplo, não descobriu atrativos previamente ignora-
dos em Lia: o seu prazer, na verdade, era com Raquel, quem ele
erroneamente pensou ser a destinatária de seus abraços (Gênesis
29, 25 – e veja a soberba realização desta cena em José e Seus
Irmãos de Thomas Mann). Se se muda a crença, é a persistência
do prazer, e não sua mudança, que precisa ser explicada.
Teodora pode ter fantasiado que as bicadas dos gansos fos-
sem os beijos violentos de algum amante imaginário. E quando
se tenta imaginar um estado “puro” de excitação autoinduzi-
da – combinado com prazer sexual desgovernado, ou aparente-
mente desgovernado – é realmente o caso que se está imaginan-
do. Se for assim, no entanto, ou a excitação sexual, ou o prazer
sexual (ou ambos), devem ser intencionais. A função da fantasia
é fornecer um objeto para nossos estados de espírito e, ao fazer
esse objeto subserviente à vontade, nos permite desfrutar de um
poder mágico que nós freqüentemente buscamos, mas não po-
demos ter. (A fantasia sexual, então, não é menos “desgoverna-
da” que o medo sentido em resposta à imagem de perigo – como
em um devaneio.)

44
capítulo 2 - excitação

Claro que, como eu já havia reconhecido, há prazeres não-in-


tencionais relacionados com o ato sexual, e que formam uma
parte importante do que procuramos no ato sexual. Mas eles
devem sua importância para nós em parte porque podem ser ele-
vados, por assim dizer, num estado de excitação, tomando em-
prestada a intencionalidade da excitação e se incorporando no
drama do encontro sexual. É razoavelmente concebível que esses
prazeres ocorram – até mesmo o prazer do orgasmo – sem a ex-
citação. A excitação é uma “tendência para” o outro, um movi-
mento na direção do ato sexual, que não pode ser separada nem
do pensamento sobre o qual se baseia, nem do desejo a que ela
leva. Isto pode soar mera especulação; mas, como veremos, há
sólidas considerações a favor de tal conceito de excitação. Para
entender esse conceito, precisamos analisar em primeiro lugar o
pensamento, e em segundo lugar o desejo a que ele se refere.
Ao falar em “pensamento”, estou ciente de parecer um pou-
co vago. A natureza “representativa” dos nossos estados men-
tais nem sempre pode ser confortavelmente descrita por este
termo: ou melhor, não se pode presumir que qualquer teoria
particular de “pensamento” (como a dada por Frege, que defen-
de que a identidade de um pensamento é dada pelas condições
da verdade de uma frase que o expressa) será suficiente para
cobrir todos os exemplos de intencionalidade. No entanto, para
os fins do presente capítulo, será suficiente tentar descrever, pelo
menos, alguns dos pensamentos que compõem a intencionalida-
de da excitação, uma vez que, embora o modo de representação
que é intrínseco à excitação não ser exaustivamente abrangido
por esta análise, ela fornecerá o que é necessário para uma com-
preensão do desejo.
O primeiro componente importante na intencionalidade da
excitação deve estar evidente a partir da discussão acima. A
excitação é uma resposta ao pensamento do outro, como um
agente autoconsciente, que está alerta para mim, e que é capaz
de ter “propósitos” para mim. A presença deste pensamento é
evidente a partir de nossa compreensão dessas duas expressões
muito importantes de interesse sexual: a carícia e o olhar.27 Uma

27 Veja as discussões sobre o olhar em Being and Nothingness [O Ser e o Nada], de J. P.


Sartre (tr. Hazel E. Barnes, Nova York, 1956, pp. 379 et seq.), e em “Sexual Perversion”,
no Mortal Questions, de T. Nagel (Cambridge, 1979).

45
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

carícia, quando vista sob o aspecto de excitação, tem o caráter


de descoberta – de uma “revelação”, para usar uma expressão
um tanto heideggeriana. Uma carícia de afeto é um gesto de tran-
quilização – uma tentativa de colocar na consciência do outro
uma imagem de sua própria preocupação por ele. Não é assim,
porém, a carícia de desejo, que percorre o corpo do receptor;
sua gentileza não é a de tranquilidade apenas, mas de explora-
ção. Destina-se a preencher a superfície do corpo do outro com
a consciência de seu interesse – interesse não só em seu corpo,
mas também nele enquanto corpo, em seu corpo como parte
integrante de sua identidade como um indivíduo. Essa consci-
ência é o ponto focal do prazer do destinatário. Do ponto de
vista do destinatário, a excitação, nestas circunstâncias, é uma
forma de permissão, uma elocução silenciosa do pensamento:
“Vá em frente! Familiarize-se com o que você quer conhecer”.
Sartre – no que talvez seja a análise filosófica mais penetrante
do desejo28 – fala da carícia como “encarnar” o outro: como
se, por minha ação, eu fizesse da sua alma carne, tornando-a
palpável. A metáfora não é de forma alguma despropositada.
No entanto, é importante acrescentar que tal “encarnação” não
significaria nada se não fosse o elemento de familiaridade, que é
tanto oferecida quanto procurada por quem acaricia.
A carícia é dada e recebida com a mesma consciência com
que o olhar é dado e recebido. Cada um deles tem, por assim
dizer, um componente epistêmico (um componente de expecta-
tiva e descoberta), que também é um importante foco de exci-
tação e desejo. Não é de surpreender, tendo isso em vista, que
o rosto deva ter uma importância tão suprema e imperiosa na
transação do desejo. E, no entanto, em alguns pontos de vista
do desejo, incluindo a visão freudiana, é muito estranho que
isso deva ser assim – estranho que o rosto tenha o poder de
determinar se vamos ou não ser atraídos para um ato que dá
prazer em outra parte bem diferente. Por que olhos, boca, nariz
e testa nos mesmerizam, quando têm tão pouca relação com a
proeza sexual e perfeição corporal de seu portador? A resposta
é simples: o rosto é a principal expressão da consciência, e ver
no rosto o objeto de atração sexual é encontrar o foco que toda

28 O Ser e o Nada, livro III, Capítulo 3. A teoria de Sartre é discutida no Capítulo 5.

46
capítulo 2 - excitação

a atração requer – o foco em outra existência, como um ser


que pode estar ciente de mim. Muito foi escrito sobre o olhar
do amor, que parece tão imperioso ao discriminar seu objeto e
tão peremptório para confrontá-lo com uma escolha intolerá-
vel. Na verdade, é o olhar de interesse sexual que precipita o
movimento da alma, pelo qual duas pessoas saem da multidão
em que estão presentes, ligados por um conhecimento que não
pode ser expresso em palavras, e oferecem um ao outro uma
comunicação silenciosa que ignora tudo, a não ser eles mesmos.
Assim como acontece com o olhar de desejo, o olhar de amor
concentra em si toda a vida do ser humano, sendo um apelo
direto ao outro para reconhecer minha existência encarnada. A
experiência foi bem descrita por Robert Grant:
[O “olhar do amor”] pode ser qualquer coisa, desde um sorriso
desanuviado e aberto a um olhar sério e preocupado, mas é
instantaneamente reconhecível para um destinatário compatível.
Ele difere completamente da careta ortodôntica da Miss Mundo, do
olhar malicioso e cativante da coquete, do olhar fechado, ressentido
da modelo (o que sugere nada mais do que um delinqüente juvenil
interrompido no ato de autoabuso). É completamente involuntário,
mais óbvio quanto mais travado pela modéstia (o processo é descrito
de forma ímpar e comovente por Shakespeare na corte de Ferdinando
e Miranda). O que ele anuncia é o fato da encarnação: eu estou aqui,
meu interior mais íntimo, no meu rosto. O resto do meu corpo, ele diz,
minhas partes íntimas, e, portanto, eu mesmo, tudo é vosso, se você
o quiser isso. Sendo desarmado, como o corpo nu cuja descoberta
ele prenuncia, é uma promessa de inocência, uma inocência não
posteriormente destruída, mas realizada no ato sexual.29

É uma tese familiar da filosofia da linguagem – que, graças ao


trabalho de Grice, Searle e Lewis,30 já não pode ser facilmente
contestada – que o ato de significar algo é essencialmente inter-
pessoal. Trata-se de uma intenção de se comunicar, e também
uma intenção de que esta seja eficaz em revelar o conteúdo do
que é dito. Trata-se, em suma, de um projeto elaborado sobre
a consciência do outro, numa tentativa de conseguir sua par-
ticipação em um ato cooperativo. Thomas Nagel sugere que a

29 R. A. D. Grant, “The Politics of Sex”, Salisbury Review, i (2.), 1983, p. 5. 10 H. P. Grice,


'Meaning', Phil. Rev., vol. 66 (1957), pp. 377-88; J. R. Searle, Speech Acts, Cambridge,
1970; D. K. Lewis, Convention, Cambridge, Mass., 1969.
30 Nagel, 'Sexual Perversion'.

47
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

complexa intencionalidade exemplificada pelo significado pode


ser encontrada também nos olhares de desejo, de modo que se
falarmos daqueles olhares como “significativos”, isso não deve
ser considerado uma metáfora. Se a sugestão de Nagel esti-
ver certa, então, seguindo a teoria do significado apresentada
por Grice, devemos esperar que o olhar de desejo envolva, em
primeiro lugar, a intenção de despertar o interesse sexual; em
segundo lugar, a intenção de que esta primeira intenção seja
reconhecida; em terceiro lugar, a intenção de que, ao ser reco-
nhecida, desempenhe um papel no que se pretende precipitar.
No entanto, embora existam motivos para pensar que a estrutu-
ra intencional de significado pode, por vezes, existir nos olhares
de desejo, a reciprocidade é normalmente de ordem inferior. No
caso normal, a intenção é que o desejo do outro seja precipita-
do, não por um reconhecimento da minha intenção, mas por
um reconhecimento do meu desejo. A reciprocidade pretendida
aqui talvez seja suficientemente semelhante a usar o significado
como uma metáfora conveniente para a excitação, desde que
não imaginemos que os gestos sexuais são expressões totalmen-
te “articuladas” de estados mentais cognitivos – desde que lem-
bremos, em outras palavras, que os gestos sexuais não podem
ser “traduzidos”.
A experiência da excitação pode, então, ser explicada pela
analogia com a compreensão linguística: assim como entendo
sua expressão por vinculá-la às intenções que você me ofereceu,
então respondo ao seu olhar ou carícia reconhecendo o desejo
por trás deles, e vendo, através do desejo, a possibilidade que
poderia ter permanecido escondida. Uma carícia pode ser acei-
ta ou rejeitada: em ambos os casos, é porque foi “lida” como
transmissora da mensagem “vamos fazer amor”. Ao descobrir
esta mensagem através da linguagem do seu carinho, eu a rece-
bo não como uma imagem crua, uma apresentação chocante de
uma possibilidade estranha, mas como um pensamento escon-
dido dentro de seu gesto, que você também está descobrindo
no próprio ato de me descobrir. As instruções de Ovídio para o
sedutor (Ars Amatoria, livro I) são finamente cientes desta in-
tencionalidade recíproca. Elas ilustram a idéia de que a carícia
e o olhar não devem revelar premeditação: que a conduta ver-
dadeiramente excitante é aquela em que o despertar da mulher
seduzida é feito de forma a parecer uma autodescoberta mútua,
48
capítulo 2 - excitação

de modo que ela pareça, aos seus próprios olhos, ser responsá-
vel por aquilo que ele sente.
A estrutura intencional que acabamos de descrever, enquan-
to claramente distinta da estrutura de sentido (linguística), tem
muito em comum com ela. Mas deturparíamos a intencionali-
dade da excitação se a víssemos simplesmente nestes termos,
sem considerar o elemento crucial do “despertar corporal”, que
cada participante tanto sente em si mesmo quanto busca no
outro. Esta experiência é um aspecto crucial da nossa experiên-
cia de encarnação – e da nossa natureza como seres corpóreos.
Ela pode ser ilustrada por um exemplo, que também ajudará
a enfatizar o tipo peculiar de representação que é intrínseca à
excitação. Considere o caso de uma mulher, que se abre para
explorações de seu amante:
Um bosque serei eu, e um cervo serás tu:
Alimenta-te onde quer, na montanha ou no vale nu;
Pasta em meus lábios, e se água te faltar,
Ruma ao sul, onde prazerosas fontes a devem dar.31
[Vênus e Adonis]

Esta abertura (nas linhas acima, um apelo) é um gesto funda-


mental da excitação, e seria inconcebível sem a idéia de que ele,
o amante, tenha um interesse por ela como ela tem por seu cor-
po. O incômodo de Vênus deriva diretamente de sua percepção
de que essa idéia não é nada mais que uma ilusão apaixonada –
tendo-se exposto demais, deve destruir a testemunha insensível
de sua humilhação. É parte integrante de pensamento da mu-
lher que seu amante é um ser consciente, e também consciente
de si mesmo como agente e paciente na transação sexual. Além
disso, ela pensa nele como alguém que tem uma concepção do
corpo dela, e dela no corpo. A sensação da carícia dele é um
convite: ela o experimenta como fundamentalmente dirigido a
ela através de seu corpo, e em seu corpo. A excitação está funda-
da em primeiro lugar no pensamento da presença corporal dele,

31 I’ll be a park, and thou shalt be my deer;


Feed where thou wilt, on mountain or in dale:
Graze on my lips, and if those hills be dry,
Stray lower, where the pleasant fountains lie – NT.

49
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

como uma fonte de interesse por ela, e em segundo lugar em um


desejo de dirigir a ele o equivalente do que ele dirige a ela.
No primeiro impulso da excitação, por conseguinte, há o co-
meço da referida cadeia de reciprocidade que é fundamental às
atitudes interpessoais. Ela imagina seu amante a imaginando a
imaginá-lo... (Sartre argumentou que tais cadeias infinitas de
respostas mostram que o desejo sexual é impossível. No en-
tanto, a regressão é indefinida, não infinita, e certamente não é
viciosa. É tal a cadeia de respostas envolvida sempre que uma
pessoa compreende o significado da outra.)32 Existe também
uma experiência específica de encarnação. Meu senso de unida-
de com o meu corpo, e da sua unidade com o seu são elemen-
tos cruciais no objetivo e na recepção da carícia excitante. Eu
desperto em meu corpo para a sua encarnação. Subjacente ao
estado de excitação da mulher está o pensamento: “Eu, no meu
corpo, sou algo para ele”, e a resposta dela – a “abertura” para
as abordagens dele, e tudo o que está implicado nisso – deve ser
entendida, em parte, como uma expressão desse pensamento, e
da intencionalidade interpessoal construída sobre ele.
Embora eu seja um com o meu corpo, minha experiência de
encarnação deve ser claramente distinguida da minha experi-
ência corporal. Na excitação, a unidade entre corpo e pessoa é
imediatamente experimentada, e constitui o foco vital de uma
resposta interpessoal. Mas o corpo não é o objeto dessa res-
posta – como é objeto de um exame do patologista ou de uma
exposição do anatomista. A excitação atravessa o corpo até o
espírito, que anima cada parte sua. De fato, há inclinações “bes-
tiais”, que procuram romper a ligação do corpo com o espírito
e apresentar o corpo como único foco de interesse sexual. Mas
a interpretação dessas inclinações é uma questão difícil, preci-
samente porque sua intencionalidade escapa ao nosso entendi-
mento. Considere novamente a experiência feminina. No caso
“normal” de bestialidade feminina, o animal em questão (um
cão favorito, por exemplo) é tratado como se fosse uma pessoa.
Não uma pessoa muito desenvolvida, e nem mesmo uma pes-
soa totalmente responsável. Mas, no entanto, uma criatura com

32 Ver Grice, “Meaning”, e a defesa de P. F. Strawson no “Intention and Convention in


Speech Acts”, Phil. Rev., 1964, rebublicada em Logico-Linguistic Papers, Londres, 1971.

50
capítulo 2 - excitação

pelo menos um dos atributos que distinguem pessoas: o atribu-


to do “ponto de vista subjetivo”, o que lhe permite ver o mundo
como algo diferente de si mesmo e ter interesse nele, não apenas
como o repositório de objetos quentes e aconchegantes, mas
também como o campo de ação de outros seres como ele. Pois
é essa noção da perspectiva do cão – uma noção que, mesmo
que errônea, é natural ao nosso modo antropomórfico de ver
as coisas – que permite os gestos da excitação. O cão também é
percebido como uma pessoa encarnada.
Não estou dizendo que não há bestialidade genuína nas mu-
lheres – um interesse no corpo do animal como tal. A descri-
ção de John Aubrey33 da condessa voyeurista de Pembroke, que
assistia ao acasalamento de cavalos para se preparar para os
amantes que estavam prestes a montá-la, é talvez um desses ca-
sos – embora se possa ver quão grande é a sombra projetada em
seu desejo por sua própria perspectiva autoconsciente. Talvez
a condessa desejasse ver seus amantes como animais, ficando
excitada diante da perspectiva de enxergar a si mesma como
tal, indiferente aos atributos humanos e demandas interpessoais
da criatura que a está montando. Este é um caso refinado de
verdadeira bestialidade, em que o outro é visto como – e é – um
animal de fato. A verdadeira bestialidade é pervertida. “Perverti-
da” significa desviada de algum objetivo “normal”. Neste caso,
a excitação é desviada de uma pessoa para a caricatura de uma
pessoa – para uma criatura que não possui, ou presume-se que
não, a perspectiva subjetiva que dá sentido à intencionalidade da
excitação. O ato bestial, que anula a responsabilidade do objeto,
anula também a responsabilidade do sujeito – e esse é seu ponto.
É uma tentativa do sujeito de fugir da carga de interpessoalidade
para ser apenas um animal num encontro que, de outra forma,
não poderia acontecer sem uma repugnância intolerável.
Claro, uma pessoa pode ter um prazer distintamente pessoal
nisto – no espetáculo de sua própria degradação. Mas que é
uma degradação não deve ser posto em dúvida. Trata-se de um
afastamento da condição normal de excitação, e uma rejeição
da responsabilidade pessoal. Sem dúvida ocorrem sensações fí-
sicas e transformações glandulares igualmente na excitação hu-

33 John Aubrey, Brief Lives, ed. V. L. Dick, Londres, 1949, p. 138.

51
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

mana normal e na sua contrapartida pervertida (ou então não


haveria nenhum motivo para a idéia de “perversão”). E se a
única diferença estivesse no fato de que, no primeiro caso, o
objeto é concebido como uma pessoa, e no segundo caso, como
algo essencialmente não-pessoal, e não houvesse mais nenhuma
diferença além desta, então a distinção seria arbitrária. Mas as
diferenças entre as atitudes, os estratagemas e as satisfações que
surgem da excitação sexual normal daquelas que surgem de sua
perversão são tão grandes que justificam o contraste entre eles.
Deixado fora do contexto, pode-se sempre dar argumentos para
assimilar estados de espírito, por mais diferentes que sejam. Po-
der-se-ia, por exemplo, assimilar o amor ao ódio com base em
um fascínio comum pelo bem-estar do outro, ou a corrida à
natação com base em seus movimentos comuns. Meu raciocí-
nio implica que as transformações glandulares e sensações físi-
cas que acompanham a excitação estão para a excitação tanto
quanto os movimentos das pernas estão para a corrida. Elas são
uma parte essencial da excitação, mas podem ocorrer igualmen-
te sem ela. E, como no caso da corrida, o que as torna o que são
é a intencionalidade do estado de espírito que se exprime nelas.
Além disso, os órgãos sexuais não aparecem, por assim di-
zer, de forma neutra para nós nos momentos de excitação. O
órgão sexual sofre uma transformação que não é meramente
fisiológica, mas essencialmente dramática. Tanto aos próprios
olhos quanto aos olhos do outro, o órgão sexual se torna o
próprio indivíduo. Ser penetrada pelo pênis de um homem é ser
penetrada por ele (ser envolvido pela vagina de uma mulher é
ser envolvido por ela). Suponha que houvesse tais órgãos. Ou
suponhamos que um homem pudesse afivelar sua “ferramen-
ta”, removê-la, substituí-la e trocá-la. Neste caso, há um tipo
de despersonalização do falo: está, usando o utilíssimo termo
de Hannah Arendt, “instrumentalizado”.34 Ele começa a per-
der seu interesse pessoal intrínseco, e começa a parecer, em vez
disso, como os escabrosos consolos exibidos em sex shops, que
devem o seu apelo precisamente ao fato de não estarem ligados
a nenhum corpo humano e a nenhuma vontade humana (e que,
portanto, não têm absolutamente nenhum apelo sexual à pes-

34 Hannah Arendt, A Condição Humana, Chicago, 1958.

52
capítulo 2 - excitação

soa de inclinações normais). Mesmo que, por algum milagre,


fosse possível sentir sensações prazerosas ​​na ferramenta, ao in-
vés de por meio dela, ela deixaria de ser a destinatária do tipo
de atenção individualizada a que o amante almeja normalmen-
te. As carícias seriam dirigidas não à ferramenta em si, mas ao
corpo ao qual está conectada, talvez no ponto de ligação, que
começaria a reunir para si um pouco da magia do falo e algo de
sua dialética constante de modéstia e orgulho. (Não haveria ne-
nhum motivo em esconder ou revelar a coisa em si, mas muito
em “dramatizar” seu modo de ligação.)
Ser excitado pelo outro é incorporar esse outro em um pro-
jeto sexual, o projeto de fazer amor. Nós sentimos que há algo
pervertido, e talvez inexplicável, sobre o homem que alega que,
estando excitado por uma pessoa, é capaz de realizar o ato se-
xual com outra. Claro que existem muitos casos aqui – sendo a
imperatriz Messalina, talvez, o exemplo extremo; descrita por
Juvenal (Sátira VI), diz-se que era vítima de um apetite insaciá-
vel por sexo, e que, uma vez excitada por um homem, esse ape-
tite exigia que passasse para outro, e outro, e assim por diante,
ad infinitum. Mas note que um novo elemento importante foi
trazido para a investigação: o “apetite”. O objetivo é justa-
mente tirar o fenômeno do reino de excitação sexual normal, e
atribuir-lhe um caráter e uma explicação que não são de outra
forma exemplificados. Há algo muito importante em comum
entre o desejo da Imperatriz Messalina e o de qualquer outro
ser humano normal envolvido no ato sexual. Mas há também
algo muito diferente. A diferença está no conteúdo intencional,
e é, em parte, esta diferença de intencionalidade que é assinala-
da pela idéia de “apetite”.
Certamente há casos menos graves do que a ninfomania: o
caso mais normal é o de alguém que, excitado por uma pessoa,
procura conter a excitação a fim de se envolver no ato sexual
com outra. Aqui há, de fato, dois estados de excitação que po-
dem estar intimamente próximos, mas nunca poderão ser um
só. A primeira excitação não aponta para a segunda; não há
uma história natural dos acontecimentos de que a segunda é
um episódio. A antecipação invocada não é para o ato a que
se destina, mas para outro em que é negada. O caso deve ser
comparado com o de um homem que estimula seu “apetite”
por pinturas contemplando, por exemplo, o Bezerro de Ouro

53
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

de Poussin. Pode ser que, após um período de “fome” visual,


tal projeto seja muito recomendável. Mas sabemos muito bem
que os termos “apetite” e “fome” estão sendo usados metafori-
camente. Não podemos concluir que o interesse real desse ho-
mem em estudar o Poussin seria igualmente satisfeito por um
Velásquez, um Gauguin, ou qualquer objeto que ele possa tam-
bém desfrutar. Pelo contrário, ele estava tentando reavivar em
si mesmo precisamente esse tipo de interesse pela pintura, que
o obriga a tratar cada exemplar individualmente. Em outras
palavras, seu interesse no Poussin não poderia ser satisfeito por
um Velásquez, digamos; se pudesse, isso só mostraria que não
era o Poussin que o interessava, mas qualquer pintura que fosse
“igualmente boa”. Nesse caso poderíamos realmente falar de
“apetite”, mas que tipo de apetite é esse, qual seu significado,
valor e lógica – tudo isso seria muito misterioso. Igualmente
no caso da excitação sexual. A excitação deverá ser entendida
como uma resposta a uma determinada pessoa. Mesmo que seja
possível “estimular o apetite” para tais respostas, não significa
que são “transferíveis” de objeto a objeto, como o desejo por
vinho que leva a saborear assiduamente de cada garrafa.
À intencionalidade da excitação deve ser acrescentada a da
animação. A intencionalidade “epistêmica” que encontrei na
excitação sexual tem um caráter intrinsecamente cumulativo,
e leva o sujeito constantemente avante com um efeito de des-
coberta. Cada fase de excitação contém uma antecipação da
próxima. A animação pode existir em ambas as formas não-in-
tencionais e intencionais – como um estado geral de resposta
exacerbada, e como um estado particular de animação sobre
algum assunto de interesse. Neste último caso, o elemento de
antecipação e descoberta – a “estrutura epistêmica” – é sempre
primordial. A animação é parte do caráter dinâmico da exci-
tação: e este caráter dinâmico marca mais uma diferença entre
a excitação sexual e a fome física. Em cada ponto há uma ex-
pectativa de prazer e antecipação que leva o sujeito adiante, e
que também faz parte do que é prazeroso agora. A animação
sexual é responsável pela qualidade “magistral” e “urgente” do
desejo. Isso leva à sensação de que o desejo “supera” o agente,
e o priva de sua liberdade. (E, portanto, de acordo com alguns
filósofos, nomeadamente Schopenhauer, leva à ilusão de que o
desejo é um exercício da vontade, e uma particularmente in-
frutífera, destinada à decepção pós-coito.) A animação envolve

54
capítulo 2 - excitação

o pensamento de que algo acontece, e não apenas uma sensa-


ção física – não estou animado desse jeito pela perspectiva de
um charuto, um copo de cerveja ou um banho quente. Estou
animado justamente por este empreendimento cooperativo, em
que eu e o outro evoluímos gradualmente nas perspectivas um
do outro, mudando para o outro e através do outro, com uma
antecipação constante e recíproca das nossas intenções mútuas.
Sobre o que, no entanto, estamos animados? Apesar de a ani-
mação sexual ser um caso especial (um caso muito especial) da
animação observada em toda a conversa amigável, ela tem um
foco que falta à conversa normal. Este foco é a nossa encarna-
ção mútua, o outro “estar em” seu corpo e eu no meu. Em nossa
animação, sentimos a agitação do outro, e nos familiarizamos
com o pulsar do espírito na carne, que enche o corpo com um
penetrante “eu”, e o transformamos em algo estranho, precioso
e passível de posse. O pênis que enrijece e a vagina que amacia
ao ansiado toque transmitem toda a pessoa, assim como ele
é transmitido em seu riso e seu sorriso. (Assim, mesmo sendo
possível “possuir” o outro em seu corpo, você não pode possuir
o corpo sozinho: a necrofilia, como o estupro, não envolve ne-
nhuma fruição do desejo.)
A excitação sexual tem, então, uma intencionalidade epis-
têmica: é uma resposta a outro indivíduo, com base na reve-
lação e na descoberta, e envolve uma intensificação recíproca
e cooperativa da experiência comum de encarnação. Ela não é
direcionada para além do indivíduo, para o mundo em geral, e
não é transferível a outro “igualmente bom”. Claro, a excitação
pode ter sua origem em pensamentos altamente generalizados,
que esvoaçam libidinosamente de objeto a objeto. Mas quando
esses pensamentos se concentram na experiência da excitação,
sua generalidade é posta de lado; é, então, o outro que conta, e
a sua forma encarnada em particular. Não só o outro, mas eu
mesmo, e o sentido da minha realidade física para ele. Nas pa-
lavras de Molly Bloom:
e como ele me beijou sob a parede mourisca e eu pensei, bem, tão
bom quanto qualquer outro, e então eu pedi-lhe com meus olhos
para que pedisse novamente sim, e então ele me perguntou se eu
sim para dizer sim a minha flor da montanha e primeiro eu coloquei
meus braços em torno dele sim e o puxei para mim para que ele
pudesse sentir meus seios todo o perfume sim e seu coração estava
batendo como louco e sim eu disse sim eu vou Sim!

55
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Pode ser facilmente visto porque é que, em muitos casos, a


excitação procura reclusão – reclusão com o outro em um lugar
privado, onde somente ele e sua perspectiva são relevantes para
a minha intenção. Além disso, a excitação normalmente tenta
abolir o que não é privado – em particular, abolir a perspectiva
do espectador, da “terceira pessoa” que não é nem você, nem
eu. Milan Kundera descreve uma orgia em que dois dos partici-
pantes vêem um ao outro na sala. A passagem mostra que um
grande esforço é necessário para manter a verdadeira excitação
sexual quando o véu da privacidade foi descartado. Com efeito,
a consciência da observação destrói a intencionalidade do ato:
Os dois casais estavam na mesma situação. As duas mulheres
inclinavam-se do mesmo jeito e faziam as mesmas coisas. Pareciam
dedicadas jardineiras trabalhando em um canteiro de flores,
jardineiras gêmeas, uma o reflexo da outra. Os olhares dos homens
se encontraram, e Jan viu que o corpo do homem careca estremecia
de tanto rir. Eles estavam unidos, como um objeto à sua imagem no
espelho: se um estremecia, o outro estremecia também (...). Esses
homens estavam unidos por comunicação telepática. Não só cada
um sabia o que o outro estava pensando; ambos sabiam que o outro
sabia. [O Livro do Riso e do Esquecimento]

Por fim, ambos acabam rindo, e sua anfitriã, companheira de


um dos homens, fica profundamente ofendida. O riso, porém, é
a expressão de uma percepção particular do ato sexual. Quando
visto a partir de uma perspectiva distante, em terceira-pessoa,
o foco do ato não é mais a encarnação dos participantes, mas
seus corpos. Esse testemunho alheio tende a matar a excitação
no sujeito. Claramente, nenhum dos homens está respondendo
à mulher diante de si – apenas ao contato de seu corpo. As duas
mulheres poderiam ser bonecas mecânicas; e, na verdade, elas se
tornaram tais nos olhos sorridentes dos alvos de suas atenções.
O riso expressa a incongruência do ato, quando ele é divorciado
do sentimento de excitação. O pessoal foi tornado público, e no
ato de reconhecimento público, tornou-se impessoal e rotineiro.
O frenesi da orgia pode ser visto, de fato, como uma reação à
futilidade da experiência sexual, quando o impulso para a im-
pessoalidade é elevado a único objetivo (ver Aldous Huxley, O
Macaco e a Essência).
A aversão ao público que é característica à excitação poderia
também ser descrita como um “medo do obsceno”. O obsceno
56
capítulo 2 - excitação

é a representação ou exibição do ato sexual de tal forma que


ameace ou ridicularize sua intencionalidade individualizante,
colocando o corpo em primeiro lugar nos pensamentos daque-
les que o exercem. Se o desejo por estimulo sexual for represen-
tado como dirigido indiferentemente, digamos, ao pênis, ou a
qualquer coisa que possua um pênis, ou a um corpo humano
considerado independentemente de sua ação, perspectiva e von-
tade – se, em outras palavras, a excitação sexual é representada
como um impulso ou apetite, focado em determinadas partes
do corpo, e indiferentemente satisfeito por qualquer coisa que
tenha o equipamento certo – então o resultado (como na bala-
da Nine Inch Will Please a Lady”, atribuída a Robert Burns) é
normalmente obsceno.
A obscenidade é semelhante à bestialidade. Ela basicamen-
te envolve a tentativa de separar o ato sexual de sua intencio-
nalidade interpessoal; de seu “direcionamento” epistêmico que
está contido na excitação sexual. Mas o divórcio provoca uma
mudança peculiar de atenção. Na obscenidade, a atenção é des-
viada da encarnação em relação ao corpo; o corpo se eleva e
inunda a nossa percepção, e neste pesadelo o espírito afunda,
assim como acontece na morte. Dessa forma, certas percep-
ções corporais – aquelas que crianças inglesas expressam no
som “ugh” e as americanas de influência ídiche no som “yuk”35
– desempenham um papel destacado na experiência da obsce-
nidade. A sensação do corpo como podre, pegajoso, grudento
– tudo aquilo a que Sartre se refere em sua análise célebre de le
visqueux36 – pode dominar nossas percepções, e em nenhum lu-
gar com mais insistência do que na nossa experiência sexual, em
que os corpos se juntam por meio de suas partes viscosas e gru-
dentas. Na experiência do obsceno, a pessoa é, por assim dizer,
eclipsada por seu corpo, o que, justamente porque ele se encaixa
exatamente à sua forma e movimento, cria uma ausência, uma
escuridão, onde ele deveria estar. Eu já não encontro a pessoa
cuja encarnação me seduziu: só o corpo que, em sua dissolução
assustadora, me fascina e também me repele.
Aos olhos de um observador, alguém que não é parte dessa
excitação, nossos corpos encorajam uma percepção obscena.

35 No Brasil, a expressão mais comum para expressar essa mesma sensação é “eca” – NT.
36 O Ser e o Nada, livro IV, cap. 2, III, especialmente p. 605-12.

57
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

(Daí a possibilidade de haver interpretações obscenas de atos


sexuais totalmente inocentes.) O observador não está envolvi-
do nas negociações delicadas em que nós persuadimos uns aos
outros a nossos corpos de modo a experimentar essa emoção
intensa que transforma a união sexual em uma união de pesso-
as. O espectador de nossas travessuras vê, em primeiro lugar, os
corpos aglutinados. A mera idéia de interesse seu é precisamente
um pensamento obsceno, em que a nossa forma de encarnação
é obliterada por nossos corpos, e transformada em algo estra-
nho, impessoal, presa da curiosidade fascinada da criança eno-
jada. Vemo-nos, por assim dizer, sob o aspecto do “eca!” (Esse
é um dos possíveis motivos para a visão de que, o que quer que
sejam, a masturbação e o voyeurismo do tipo experimentado na
cabine de vídeo não envolvam a liberação e a satisfação dos im-
pulsos que os seres mais afortunados podem liberar e satisfazer
no ato sexual.)
A excitação sexual só pode ocorrer entre pessoas, e é um
artefato de sua condição social. Um imenso trabalho moral tem
sido feito para a construção da intencionalidade da excitação, e
apesar de ser um trabalho voluntário, constantemente renovado
por cada geração consentida de adultos, poderia não ter ocor-
rido. O estado de espírito que descrevi é uma dessas conquistas
da civilização que seria tolice descartar, e que pode, como a mo-
ralidade, ser descartada a qualquer momento. Há, no entanto,
uma tentação conflitante com a excitação: a tentação de liberar
o ato sexual dos estratagemas exigentes de comunicação pesso-
al, e apresentar como apetite aquilo que só o pode ser ao perder
a sua intencionalidade característica.
Antes de dizer mais sobre essa intencionalidade, é necessário
esclarecer a questão do método. Questões sobre a natureza de
componentes mentais serão respondidas, não por investigação
científica, mas pela análise filosófica (que pode significar igual-
mente “fenomenológica” ou “conceitual”). Claro, a investigação
científica dos fenômenos mentais também é possível. Poderia ha-
ver uma ciência do comportamento sexual, que pode mostrar
semelhanças importantes entre os seres humanos e os animais
inferiores. É provável que existam tais semelhanças, uma vez que
o comportamento sexual é explicado, em ambos os casos, por
uma função reprodutiva. Mas tal investigação não responde as

58
capítulo 2 - excitação

perguntas que trouxe à tona. Estas questões dizem respeito à


superfície percebida das coisas, da qual nossos conceitos mentais
ganham sentido. Eu acredito que há um fenômeno significativo,
a que dei o nome de excitação, e que discriminamos este fenôme-
no – seja referindo-se a ele, ou, mais normalmente, ao responder
seletivamente a ele – em grande parte do nosso comportamento
social comum. Pode haver outras coisas que alguém pode que-
rer chamar pelo mesmo nome – a prontidão sexual de animais,
ou as cócegas que ocorrem no banho. Mas, no nível superficial
(que é o nível que interessa), estes devem ser distinguidos da
excitação, na medida em que eles não têm a intencionalidade da
excitação. Discuto um problema fenomenológico: o problema
da intencionalidade de um estado de espírito. Que tais proble-
mas sejam (cientificamente falando) superficiais não deve nos
levar a descartá-los; menos ainda deve nos levar a procurar uma
solução nos resultados da ciência. Pois as pessoas também são
superficiais, como são os seus valores, seus projetos, suas triste-
zas e seus desejos. É melhor, no entanto, a superficialidade das
pessoas do que a incompreensibilidade das coisas.
Como toda coisa rasa, no entanto, a excitação tem uma his-
tória. É a descendente de experiências que agora apenas vaga-
mente imaginamos, e a ancestral de outras que não temos como
saber. Muito teatro foi feito sobre nossa natureza “histórica”.
Nenhuma experiência humana, diz-se, e nenhuma concepção
do ser humano, faz sentido fora do contexto cultural que a gera
e a completa. A análise conceitual, que abstrai a partir desse
contexto, apenas descasca a pele verbal, e a preserva no for-
maldeído da lógica. Se o resultado é sempiterno, é porque não
há vida humana. O que a lógica preserva não é a realidade his-
tórica, mas apenas nossas tentativas fugazes de descrevê-la: ele
nos dá não o “real”, mas a essência “nominal.” Pode ser uma
verdade atemporal que os solteiros não têm esposas, mas isso se
tornou um obstáculo ao casamento?
No nível mais profundo, conforme nos dizem, não existe
uma verdade atemporal sobre sexo, somente a reconstituição
interminável de nossa experiência sexual da matéria flutuante
da história humana. O que podemos concluir, por conseguinte,
a partir de um exame do entendimento intencional contido em
algum fenômeno qualquer? De que forma isso pode levar ou à

59
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

descrição completa da realidade humana ou a uma prescrição


coerente a que todos possamos nos curvar? Uma verdadeira
“genealogia da moral” não reconheceria nenhuma experiência
sexual “natural”, nem nenhuma norma universal.
É com esses argumentos que Michel Foucault, em sua recente
História da Sexualidade,37 nos convenceria de que não há “ver-
dade” atemporal da experiência sexual, e que a moral sexual
é o produto de condições culturais que foram devorados pelo
verme do tempo. Não estou convencido por essas alegações, e
espero dar motivos suficientes para rejeitá-las. Quando sofrer
qualquer tentação intelectual, o leitor deve se lembrar de duas
importantes observações. Em primeiro lugar, uma experiência
pode ser determinada historicamente e ainda assim parte da na-
tureza humana; a natureza humana também é historicamente
determinada, e uma experiência que pertence à época da perso-
nalidade pertence à essência humana. Em segundo lugar, uma
descrição da experiência humana – mesmo com tudo o que foi
escrito sobre a “falácia naturalista” e o problema do “ser-dever
ser” – pode ter implicações normativas. O leitor pode duvidar
disso, mas deve reconhecer que sua dúvida é dogmática. Seu
dever é manter a mente aberta pelo tempo necessário para que
apresente minha defesa.
Está aí o necessário sobre o método. Para o presente, po-
demos tirar uma conclusão importante, que uma característica
normalmente considerada distintiva entre o amor erótico (que
a possui) do desejo sexual (que não a tem), está, de fato, pre-
sente não só no desejo, mas também na excitação, que é a cir-
cunstância em torno do ato sexual. Esta é a característica da
“intencionalidade interpessoal”. O problema que preocupava
Platão não existe: não existe qualquer conflito ou contradição
do tipo que ele imaginava entre desejo sexual e amor erótico, e
nem o primeiro pertence a alguma parte “mais baixa” da nossa
natureza do que o segundo. Na verdade, como vou apresentar,
apenas um ser racional pode experimentar desejo, e os senti-
mentos que são muitas vezes desprezados, indicativos de nossa
natureza “animal”, são sentimentos que nenhum mero animal
jamais sentiu.

37 Michel Foucault, História da Sexualidade, 3 vol. Paris, 1976, 1984.

60
CAPÍTULO 3
PESSOAS

Ao escolher o tema da excitação sexual, que não é nem a


origem nem a finalidade do desejo sexual, entrei no assunto in
mediis rebus.38 Minha intenção era descrever o fenômeno sexu-
al mais distintivo, e aquele que mais facilmente parece prestar-
se à teoria de que o desejo é um fato “biológico”, enraizado
na vida que compartilhamos com os animais. Defendi que a
excitação sexual é de fato uma resposta interpessoal, fundada
em uma intencionalidade epistêmica. Daí que só pessoas po-
dem experimentar a excitação, e somente pessoas – ou pessoas
imaginárias – podem ser objeto de excitação. Isso não significa
que devemos descartar imediatamente as semelhanças entre o
comportamento sexual dos animais e dos seres humanos. Como
animais, sentimos impulsos sexuais; como animais, nos repro-
duzimos sexualmente; como animais, sentimos uma necessida-
de de união por meio de nossos órgãos sexuais; e como animais,
experimentamos um prazer físico irresistível quando o fazemos.
Mas quase todas as comparações além dessas estão equivoca-
das. Os animais nunca estão sexualmente excitados; eles não
sentem desejo sexual, nem têm satisfação sexual. Quase tudo o
que importa na experiência sexual encontra-se fora de suas ca-
pacidades, não porque buscam esses objetivos e não conseguem
obtê-lo, mas porque não podem sequer buscá-los.
Colocar a tese tão cruamente é convidar ao ceticismo. No
mínimo, devo dizer algo mais sobre o significado de “animal”

38 Há duas expressões latinas que significam “no meio das coisas”: “in medias res” e “in
mediis rebus”. A primeira é um recurso literário em que a narrativa começa no meio da
história, e não no início. A segunda, usada no presente caso, indica o ponto a partir do
qual a investigação será conduzida – NT.
61
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

e “pessoa”. O conceito de animal pertence ao senso comum e


à ciência; o de pessoa é confinado ao senso comum. Ele denota
uma parte do Lebenswelt que é mais importante para nós do
que qualquer outra; no entanto, é uma parte que se desintegra
sob os olhos inquisidores da ciência.
Não é certo que todas as pessoas sejam animais (já que, em
alguns pontos de vista, Deus enquanto pessoa não pode ser um
animal). Mas o fato de que nós somos animais afeta todos os
conceitos – incluindo o de pessoa – por meio dos quais ten-
tamos atingir um entendimento ordinário da nossa condição.
Temos de começar, portanto, com algumas observações sobre a
idéia de animalidade.
Um animal é uma coisa viva, e tem uma vida individual: nas-
ce, floresce, declina e morre. Nossa percepção desse processo
e nossa familiaridade interior com ele como a raiz da nossa
própria experiência jazem profundamente enraizadas em nos-
so esquema conceitual. Nós percebemos de forma diferente as
coisas vivas e as sem vida, e reconhecemos nelas um princípio
de autogoverno que as destaca de seus arredores. E os animais
se destacam do resto da natureza como entidades que não estão
apenas vivendo, mas também estão ativos de uma forma muito
especial. Sua atividade resulta de sua vida, e é una com ele; e, em-
bora tenhamos apenas recentemente adquirido qualquer com-
preensão científica do processo orgânico, a vida e atividade de
um animal são instantaneamente reconhecíveis para nós. Nosso
conhecimento de que algum acontecimento – uma agitação em
uma cerca viva, um tamborilar em um telhado – é o resultado
da atividade dos animais nos fornece uma visão extremamente
concentrada nela, e uma rara capacidade de prever a sequência
mais complicada. O conceito “animal”, portanto, adquire um
lugar de honra em nossa compreensão intencional, que contém
tanto uma visão poderosa e um estímulo para a ação.
Há outra característica da existência animal que marcou o
Lebenswelt. Os animais são indivíduos paradigmáticos. O espí-
rito vital que gera a atividade dos animais e torna seres estabele-
ce uma unidade e harmonia singulares entre suas partes. É uma
parte inseparável de nossa percepção da atividade animal que o
animal aparece-nos como um só e inteiro. E isso tem consequ-
ências importantes, reveladas em nossas maneiras de descrever,
perceber e contar de animais.

62
capítulo 3 - pessoas

A pergunta “Quantos?” pressupõe um “típico”39 ou “subs-


tantivo contável”: uma descrição que responde à pergunta
“Quantos o quê?” O coelho diante de mim é um animal, dois
meio-animais, 1270 centímetros cúbicos de partes de coelho, e
assim por diante. O coelho pode ser desmembrado no espaço e
no tempo, em partes e “fatias temporais”, e os filósofos quine-
anos tiram conclusões substanciais e interessantes disso sobre
a relatividade ontológica e a impossibilidade de tradução radi-
cal.40 No entanto, vale a pena apontar uma distinção entre os
substantivos contáveis que
​​ o quineanos julgam artificiais, mas
que, aos olhos do senso comum, é de profunda importância.
Alguns substantivos contáveis atribuem uma unidade real, in-
dependente a suas instâncias, enquanto outros atribuem uma
unidade que é meramente relativa aos nossos interesses passa-
geiros. Assim, existem inúmeros indivíduos inorgânicos, que
existem como unidades dentro do limite da nossa percepção.
Este campo, este rio, esta pedra – todos são unidades: não dois
campos, mas um só; não dois rios, mas um só; e assim por dian-
te. Mas, de certa maneira, sua unidade é frágil, pois é um arte-
fato de nossa concepção. O que acontece é que, por qualquer
motivo, escolhemos considerar este campo como um. Mas po-
deríamos, sem dificuldade, contá-lo como dois ou três: as priori-
dades legais podem nos forçar a fazer tal escolha. O rio também
é um, ou dois, ou três, dependendo de nossas convenções terri-
toriais. Se a pedra parece ser mais naturalmente uma unidade,
é em parte porque – ao contrário do campo ou do rio – suas
partes podem ser removidas e separadas umas das outras, de
modo que o fato de estarem juntas em um só lugar, presas por
sua coesão cristalina, é um elemento interessante e adicional, a
que nos referimos obliquamente ao identificarmos esse objeto
como uma única pedra. Mas a unidade da pedra, enquanto mais
firme, por assim dizer, do que a unidade do campo ou do rio,
é menos substancial do que a unidade de um gato ou um cão.
A pedra pode ser dividida em partes, não apenas no processo
de contagem, mas também fisicamente. E quando é assim di-

39 Termo usado por Locke em seu Ensaio Acerca do Entendimento Humano (livro III,
cap. III, 15) – NT.
40 W. V. Quine, Word and Object, Cambridge, Mass., 1960, cap. 1; Ontological Relativity
and Other Essays, Nova York, 1969.

63
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

vidida, cada peça é em si uma pedra, existindo separadamente


do conjunto de que foi rompida. A pedra removida do bloco é
um indivíduo da mesma espécie do bloco de que veio. No nível
macroscópico, o substantivo “pedra” aparece na ciência das pe-
dras não como um substantivo contável, mas como um “subs-
tantivo incontável” ou genérico. A ciência das pedras não fala
de indivíduos macroscópicos, mas do material a partir do qual
são compostos – de pórfiro, ônix e calcário. É uma ciência que
emprega, em primeira instância, apenas substantivos incontá-
veis – substantivos que respondem a pergunta “Quanto?”, mas
não a pergunta “Quantos?”41 Uma pedra é, na realidade (quero
dizer, cientificamente), um pedaço de pedra.
Unidades reais são aquelas em que o todo é algo mais do
que a soma de suas partes, da mesma forma que um coelho é
mais do que uma coleção de frações de coelho, ou um carro é
algo mais do que uma coleção de componentes mecânicos. A
física moderna reconhece unidades reais no nível microscópico:
átomos e moléculas têm uma espécie de “unidade substancial”.
Mas, na experiência comum (macroscópica), apenas “sistemas”
se apresentam com tal unidade real. E entre os sistemas dois ti-
pos predominam: o natural e o funcional, ilustrado, respectiva-
mente, pelos coelhos e carros. As partes de um carro não são um
carro, uma vez que não têm a função definitória de um carro.
Esta função só surge quando as peças estão devidamente com-
binadas. Nossa contagem de carros, portanto, é limitada por
algo mais do que conveniência espacial e temporal. A função
que este conceito articula determina o número exato de indiví-
duos que são subsumidos por ela. Cada um destes indivíduos
é uma unidade substancial e indivisível, como um membro de
seu tipo funcional. Ao mesmo tempo, a unidade em questão é
um artefato. Carros existem pelo decreto humano, e possuem a
sua unidade apenas enquanto nós os mantivermos. Este tipo de
unidade é, em certo sentido, dependente de nossos propósitos.
Para encontrar a unidade natural, e a individualidade natural,
devemos procurar em outro lugar. Em particular, devemos olhar
para o reino animal.

41 Essa distinção, muito sutil em português, é apresentada nas perguntas “How much” e
“How many”, respectivamente – NT.

64
capítulo 3 - pessoas

A Biologia, ao contrário de Geologia, não pode prescindir de


substantivos contáveis ​​que abrangem objetos macroscópicos, já
que está preocupada com objetos cuja individualidade é, em
certo sentido, o fato mais fundamental sobre eles. Isto é, em cer-
ta medida, verdadeiro a respeito dos vegetais. Mas é muito mais
obviamente verdadeiro sobre os animais, cuja individualidade é
também uma forma de atividade. Um animal está ligado à sua
atividade, não só em substância, mas em seu comportamento.
Um animal não é um pedaço de carne, e não pode, via de re-
gra, ser dividido em partes que exemplificam cada uma delas o
mesmo tipo natural de onde vieram.42 Claro, as partes de uma
pedra não são elas próprias pedras. Mas uma pedra pode ser
fisicamente dividida em pedras, enquanto que a tentativa de di-
vidir um animal leva à cessação da atividade que constitui a sua
existência. Uma parte viva pode ser arrancada de um organismo
apenas quando suas leis de desenvolvimento permitam a divi-
são (como no caso de uma ameba). No caso normal, as partes
cortadas de um animal deixam de ser pedaços de matéria viva,
e um animal, quando dividido, certamente morrerá. Apenas en-
quanto indiviso continua a agir, e isso é o fundamento da nossa
crença na sua indivisibilidade.
A individualidade dos animais não é, portanto, nenhuma dis-
posição arbitrária. Não é uma jaula que impomos a eles para
nossos próprios fins. Encontra-se na natureza das coisas. Para
colocar a questão de outra forma: há um poder explicativo na
idéia de que Fido43 é uma coisa que não pode ser reproduzido
por qualquer outra forma. A individualidade de Fido não é, em
nenhum sentido, um artefato, mas encontra-se na essência de
Fido. Mesmo que as duas metades de Fido sejam posteriormen-
te unidas, reparando a unidade física, o objeto original de refe-
rência – o próprio Fido, a quem eu amava ou temia – não existe
mais nesse mundo.
Pode-se ver, apesar de serem comentários um tanto esboça-
dos, que os animais estão em conformidade com alguns dos

42 Este pode ser um dos motivos por trás afirmação de Aristóteles de que a palavra “carne”
apenas é usada homonimamente de carne morta – de carne cuja psyche se foi: De
Generatione et Corruptione, 3903; De Generatione Animalium, 734b; e em outros lugares.
43 Nome genérico para cachorros comumente usado pelos ingleses (mais ou menos
equivalente ao nosso “Totó”) – NE.

65
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

requisitos contidos na idéia de substância do filósofo raciona-


lista.44 E há outro interessante ponto de contato com o racio-
nalismo. Pois Fido, enquanto vive, age de modo a conservar a
sua vida, evitar lesões, sustentar sua força. Sua continuidade
individual vem de dentro, da mesma força vital que comanda
toda a sua atividade. Ele tem uma grande dose do que Espinoza
chama de conatus – a capacidade inata para a autopreservação
que, na opinião de Espinoza, era o único fundamento para essa
noção parcial da existência individual (substancialidade), que é
o melhor que nós (como meros tipos do único e verdadeiro indi-
víduo), em nossas vidas finitas, podemos mostrar.45 Os animais,
portanto, fornecem um dos mais vívidos exemplos da natureza
do indivíduo, autopreservação indivíduo, cuja individualidade
não é a consequência arbitrária de nossos modos de contagem e
classificação, mas uma parte profunda e imóvel de sua condição
natural, que deve ser reconhecida em qualquer verdadeira ex-
plicação da sua natureza. Um animal é uma entidade individual,
não de dicto, mas de re.
Estou me detendo neste ponto, já que será de alguma impor-
tância mais tarde, quando tratarei da individualidade do objeto
sexual. A questão será se o objeto individual do desejo é deseja-
do como animal ou como pessoa. Será crucial para decidir esta
questão a idéia da individualidade que está contido na intencio-
nalidade do desejo.
Os seres humanos são animais. Eles também são pessoas. A
questão que se apresenta é se a idéia de “pessoa” é meramente
uma qualificação de “animal” – denotando uma subclasse bio-
logicamente reconhecível da vida animal – ou se se trata de um
conceito de outro tipo, com algum propósito contrastante por
trás da sua aplicação. Em outras palavras, as pessoas são algo
como uma espécie biológica? Ou são uma classe, em que todos
os membros pertencem a uma única espécie, mas que deve ser
definida nos termos de algum outro propósito classificatório do
que a explicação das peculiaridades animais? Vou defender o úl-

44 Quero dizer, a idéia de substância que parece estar por trás do uso desse termo por
Descartes, Espinoza e Leibniz, segundo a qual uma substância é tanto a portadora de
atributos e quanto uma entidade capaz de existência independente. Ver W. Kneale,
“The Notion of a Substance”, Proceedings of the Aristotelian Society, vol. XL (1939-40).
45 Ética, livro III, prop. 7.

66
capítulo 3 - pessoas

timo ponto de vista – embora o fato de sermos animais de uma


determinada espécie desempenhe um papel crucial no desenvol-
vimento do conceito de pessoa. Considere a música dramática:
é um tipo particular de música, com uma importância musico-
lógica comparável às classificações “instrumental”, “sinfônica”
e “operística”? A resposta é “não”, porque embora a música
dramática seja certamente um tipo musical, não pode ser defini-
da nos termos das características intrínsecas – instrumentação
e estrutura musical – que formam a base da classificação musi-
cológica. Ela deve ser definida nos termos de uma resposta ge-
neralizada ao som musical. A música dramática pode pertencer
a qualquer categoria musicológica. Poder-se-ia dizer, também,
que pertence apenas a uma – digamos, à ária operística. A clas-
sificação não é musicológica: ela alinha seu objeto, mas não a
estruturas musicais semelhantes, e sim a uma resposta humana
semelhante a estruturas que podem, por si só, ser extremamente
díspares. Da mesma forma, o conceito de pessoa alinha os que
são absorvidos por ele a outros objetos de resposta semelhante.
Não é por acaso que os objetos desta resposta tendem a perten-
cer a uma única espécie biológica, mas isso é um dado sobre a
resposta, e não sobre a classificação.
Não deve passar em branco que o termo “pessoa” vem do
direito romano, que, por sua vez, veio emprestado do teatro.
Uma persona era uma máscara e, portanto, o termo passou a
designar a idéia de um “caráter” ou “personalidade” teatral.
Posteriormente, ele foi usado de modo mais geral, para se re-
ferir à representação (em todos os sentidos) do ser humano,
seu caráter, vida e interesses. Para o direito, uma persona sig-
nifica a coletânea de direitos e obrigações que os tribunais po-
dem julgar em nome do sujeito que aparece diante deles. Para
o direito romano, o sujeito humano individual não era nada
mais nada menos do que o conjunto de direitos e deveres li-
gados a ele: a pessoa que aparecia perante a lei era, em certo
sentido, uma criação dessa mesma lei.46 Poderiam ser pessoas,
portanto, seres humanos individuais ou corporações, uma vez
que uma corporação pode ter também direitos e deveres legais,
e a ação e responsabilidade que lhes permitem ser confrontadas
e compelidas.

46 Sir Ernest Barker, Principles of Social and Political Theory, Oxford, 1951, livro IV.

67
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Se nosso conceito de pessoa não fosse mais do que uma ex-


tensão e aperfeiçoamento da idéia desenvolvida no direito ro-
mano, então é claro que seria impossível pensar nele como base
de nossa rota principal para a compreensão do indivíduo hu-
mano. No sentido pretendido, no entanto, os homens se viam
como pessoas muito antes da invenção do direito romano, e
– por mais insuperável que a realização do direito tenha sido
na construção de instituições governamentais adaptadas à vida
individual – não é nem um pouco plausível supor que o con-
ceito de personalidade jurídica pode ser usado para captar as
particularidades reais que nos separam do resto do mundo ani-
mal. Devemos ter a idéia de personalidade jurídica em mente,
no entanto, uma vez que não é por acaso que os seres humanos
a exemplifiquem – não é por acaso que tenham direitos e obri-
gações, e que poderão ser responsabilizados ou prejudicados
perante um tribunal de direito. Muitas vezes ainda apontare-
mos esta circunstância familiar, mas, na verdade, extremamente
misteriosa.
Tradicionalmente, a distinção entre o indivíduo humano e o
animal foi elaborada em termos de uma idéia de razão. Somente
o homem, tem-se dito, é um animal racional, e a idéia de racio-
nalidade é necessária, e talvez também suficiente, para descrever
o que lhe é peculiar. Dentro de certos limites, creio eu, esta an-
tiga idéia está correta. Mas os limites são graves. O conceito de
racionalidade em si não é claro de modo algum, e – no final das
contas – só pode ser plenamente compreendido em função do
repertório de pensamento, sentimento e ação disponível ao in-
divíduo humano. Como Aristóteles percebeu, a razão existe em
duas formas complementares – a teórica e a prática. Os homens
raciocinam sobre o que acreditar, mas também sobre o que fa-
zer – e, talvez, até mesmo sobre o que sentir. Isto significa que a
transformação introduzida em sua natureza pela razão permeia
todo o seu pensamento, toda a sua atividade e toda a sua vida
emocional. No entanto, vale a pena explorar a sugestão antiga
um pouco mais. Veremos que isso nos leva diretamente ao nos-
so tema.
Um cão pode ter crenças. Mas ele não forma e altera suas
crenças através do raciocínio, nem consegue formular as im-
portantes idéias de possibilidade, necessidade, probabilidade

68
capítulo 3 - pessoas

e validade, que estruturam os processos mentais do ser total-


mente racional. Da mesma forma, um cão pode ter desejos, e
nesse sentido ele tem razões para sua conduta. Mas, em outro
sentido, ele age sem razão, em que o raciocínio não é um fator
causal adicional na explicação de seu comportamento. Ele não
delibera, faz planos, pesa alternativas ou toma resoluções; ele
simplesmente, e espontaneamente, faz o que lhe é solicitado por
seus desejos presentes. No caso do agente humano, parece-me
que (embora haja filósofos que neguem isso)47 crença e desejo
não são suficientes para explicar o seu repertório de conduta. O
ser racional existe e atua em outro plano, formando intenções,
fazendo planos, talvez com um prazo um pouco longo e de pers-
pectiva improvável. Ele pode contrariar seus próprios desejos e,
em tudo o que ele faz, é motivado – ou acredita estar motivado,
o que é, em si, ter uma espécie de motivo – não apenas por inte-
resse próprio, mas por uma concepção do que é bom.
Esses fatos – que, pelo menos para mim, são evidentes – exi-
gem cuidadosa exegese. O que os explica, e como se manifestam
nos detalhes da conduta humana? Alguns filósofos defendem
que nós, no limite, não precisamos procurar em outro lugar para
uma explicação que não a existência da linguagem, um disposi-
tivo sistemático para representar o mundo. O ser racional é um
ser linguístico. Ele é capaz de armazenar informações sobre o
mundo de forma simbólica, e recuperar essa informação para
uso posterior. O cavalo que se assustou com um tiro durante
a passagem pelo território do Mestre Gil pode não passar por
lá novamente.48 Neste sentido (de “resposta condicionada”),
ele tem uma memória de seu passado – mas só nesse sentido.
Nós dizemos que seu comportamento foi modificado, mas não
a ponto de desenvolver algum pensamento, da forma “Ontem
algo desagradável aconteceu aqui”. Acredita-se que essa capa-
cidade particular – a capacidade de cogitar pensamentos para

47 Ver, por exemplo, os ensaios sobre as razões para ações e intenções no trabalho de
Donald Davidson, Essays on Actions and Events, Oxford, 1980, seção I, e no trabalho de
Davidson, “Rational Animals”, Dialectica, 36 (1982).
48 Mestre Gil de Ham é uma narrativa de J.R.R. Tolkien publicada em 1949; uma edição
brasileira foi publicada pela Martins Fontes em 2012. Conta a história de Mestre Gil, um
fazendeiro desprovido de heroísmo, mas que, graças à boa sorte e à ajuda do cachorro
Garm, da égua cinzenta e da espada mágica Caudimordax (ou Morde-cauda), amansa
o dragão Chrysophylax e ganha enorme fortuna – NT.

69
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

além do conteúdo da experiência imediata, para o passado e o


futuro, a generalidades, particularidades, possibilidades e ne-
cessidades – é a prerrogativa do ser linguístico, que pode re-
presentar para si mesmo estados de coisas com as quais não se
depara imediatamente.49 Aceitar tal argumento não significa ne-
cessariamente negar a possibilidade de representação mental em
criaturas não-lingüísticas, mas simplesmente apontar os limites
de tal representação, argumentando que os processos mentais
distintivos dos seres racionais podem ser disponibilizados ape-
nas pela implantação de um sistema de símbolos.
Essa alegação é certamente plausível. Mas não precisamos
aceitá-la para reconhecer a importância da linguagem como um
índice de nossa atividade mental. Também não precisamos dis-
cutir as intrincadas questões levantadas pelas teorias do signifi-
cado, ou as reivindicações concorrentes das teorias representa-
cionais e expressivas de compreensão lingüística.50 No entanto,
há uma questão na filosofia da linguagem que deve ser levanta-
da aqui para que crie obstáculos à nossa discussão subseqüente.
Existem duas grandes abordagens para a filosofia da linguagem.
De acordo com a primeira abordagem, a característica distintiva
da criatura linguística é a própria linguagem, e é em função da
linguagem que as complexidades da sua vida mental – incluindo
características extremamente importantes como intencionalida-
de – devem ser explicadas.51 Ela tem intenções (além de meros
desejos) porque tem a linguagem para formular seus projetos.
Ela tem crenças sobre o passado e o futuro porque tem capa-
cidades para representar tempos passados e futuros – e assim
por diante. De acordo com a segunda abordagem, a linguagem
em si não é nada mais que um sistema inerte de sinais, que só
tem sentido porque é usado. E o que confere sentido a ele é o

49 Ver, por exemplo, Rationality, Londres, 1964, de J. F. Bennett. A tese é apresentada em


outro trabalho do mesmo autor, Linguistic Behaviour, Cambridge, 1976.
50 O conflito (real ou aparente) entre as teorias expressivas e de representação de
compreensão linguística concentra-se nos méritos rivais da teoria da “intenção e uso”
de H. P. Grice (“Meaning”, Phil. Rev., vol. 66 (1957), pp. 377-88), e a teoria da “análise
semântica” de Donald Davidson (“Truth and Meaning”, Synthese, VII (1967) pp. 304-
323). A visão de que as duas abordagens são incompatíveis é cada vez mais posta em
dúvida. Mas ver J. R. Searle, Speech-Acts, Cambridge, 1970.
51 Essa seria a abordagem de Davidson; ver “Thought and Talk”, em S. Guttenplan (ed.),
Mind and Language, Oxford, 1975.

70
capítulo 3 - pessoas

complexo sistema de representação mental (pensamento, cren-


ça, julgamento e intenção) que é usado para expressar.52 Uma
frase significa que a neve é branca,
​​ segundo essa visão, porque
é usada para expressar o pensamento de que a neve é ​​branca.
De acordo com a primeira abordagem, a posse da linguagem é
o fato básico, anterior à posse de estados racionais da mente.
De acordo com a segunda abordagem, são os estados mentais
que são anteriores, e que por si só podem explicar a existência
de um sistema de sinais como a linguagem.
Parece-me que não devemos decidir entre esses dois pontos
de vista, e que talvez nem pudéssemos fazê-lo. De cada ponto
de vista, no entanto, à linguagem é atribuída uma importância
especial em nossa compreensão das pessoas, como o principal
critério de racionalidade. Se a linguagem é a causa ou a conse-
quência de estados racionais da mente pode ser indiscernível; a
linguagem e os estados de espírito expressos por ela são partes
inseparáveis de
​​ um único “momento de consciência”, usando
a linguagem hegeliana. Se vamos estudar o que é distintivo na
constituição mental das pessoas, devemos estudar a expressão
desse conteúdo na forma linguística. Mesmo que haja seres ra-
cionais sem linguagem, somente poderíamos entendê-los pos-
tulando uma linguagem que seria a deles se tivessem alguma
(e, na verdade, é assim que compreendemos os pensamentos e
desígnios do bebê pré-lingüístico).
A aplicação mais básica da racionalidade é o raciocínio em si,
a expressão lingüística da que assume a forma de argumentação.
A lógica, que dita as formas do argumento válido, certamente
não é nada que não uma parte – talvez a parte mais fundamen-
tal – da linguagem. E a lógica dá uma visão sobre o pensamen-
to racional mostrando as relações entre proposições, o que nos
permite entender a distinção real entre a inferência válida e a
inválida. Podemos explicar o raciocínio tácito do dedutor ágil,
demonstrando-o como uma série de sentenças. Supomos, então,
que as relações lógicas entre essas sentenças são (não sabemos
como) causalmente eficazes na geração de seu comportamento.
Se não foram eficazes, ele não seria racional, mesmo que se, por
algum milagre, estivesse certo.

52 Essa é a abordagem de J. R. Searle, e.g., em Intentionality, Cambridge, 1982.

71
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Neste livro, estou preocupado com manifestações muito


mais recônditas da racionalidade –recônditas porque, à primei-
ra vista, não parecem ter nada a ver com o poder do racio-
cínio, nem podem ser evidentemente concentradas em hábitos
linguísticos evidentes. É minha convicção (que espero vindicar)
que a racionalidade não pode ser concebida como uma simples
adição à vida mental de um animal, o que deixa o restante da
mente inalterado. Pelo contrário, a racionalidade é, por assim
dizer, uma condição de existência, que informa o conteúdo total
da mentalidade do sujeito. Ou, pelo menos, informa todos os
estados de espírito que contêm um pouco de compreensão do
mundo. (Pode ser que as sensações dos homens sejam como as
sensações de cães, uma vez que as sensações não têm intencio-
nalidade. Mesmo assim, nenhum homem reage a uma sensação
como os cães reagem.)
Eu não nego que os animais tenham estados mentais; na ver-
dade, é essencial para a nossa idéia de atividade animal que
consideremos os animais como sensíveis de várias maneiras, ca-
pazes de ver coisas, ouvir coisas, sofrer impulsos de prazer e dor,
e motivar-se pela crença e desejo. Além disso, é essencial para
a nossa idéia de nós mesmos considerarmos nossa vida mental
como permeada por experiências animais, embebidas na fonte
da vida orgânica, e que não são meros aspectos do pensamento
racional que as engloba e às vezes as incorpora. No entanto, a
nossa vida mental é completamente diferente da vida mental de
animais, e não só os nossos pensamentos e projetos, mas nossas
emoções mais inescrutáveis e​​ aparentemente irracionais trazem
a marca da nossa racionalidade. Na verdade, é apenas um ser
racional que pode sofrer as dores de um sentimento irracional:
nada dentro do repertório mental de um animal pode alcançar
tal dignidade.
O que poderia nos levar a supor que não são apenas os pen-
samentos e ações, mas também as emoções e experiências do
ser racional que são distintas dos animais não-racionais? A
parte mais importante da resposta deve ser encontrada em um
conceito em que a racionalidade forçosamente esteja no centro
do nosso pensamento, e que será, em certo sentido, o principal
tema dos capítulos posteriores: o conceito de indivíduo. O ser
racional é também um ser autoconsciente, e esta autoconsciên-

72
capítulo 3 - pessoas

cia está na raiz de sua existência como pessoa. É esta caracterís-


tica que nos permite adotar, em relação a ele (e ele em relação a
si mesmo), a postura peculiar que inspira nosso uso do conceito
de pessoa. Claro, há um uso para o conceito de indivíduo ao
descrever o comportamento dos animais. Um cão distingue-se
de outros cães, e os seus próprios interesses daqueles de seus
companheiros. Mas ele não se distingue como um indivíduo,
uma vez que ele não tem o que eu chamo de “perspectiva em
primeira-pessoa” – uma característica da consciência que é dis-
tintiva dos seres que usam linguagem. Este ponto é de grande
complexidade, mas deve ser entendido o quanto antes se quiser-
mos fazer algum progresso na análise do desejo sexual.
Uma das características observadas do nosso uso da lingua-
gem é o surgimento do “caso em primeira-pessoa”. Eu sei sobre
você e seu estado de espírito, porque eu o observo; eu também
sei sobre mim e meu próprio estado de espírito, mas não atra-
vés de qualquer ato de observação. O caso em primeira-pessoa
é caracterizado por certas características altamente intrigantes.
Quando eu estou com dor, eu sei que eu estou com dor, sem ter
que observar a mim mesmo ou qualquer outra forma de desco-
berta. Isso é algo que eu simplesmente sei, e chega a ser absur-
do sugerir que eu posso não saber. Da mesma forma, quando
eu acredito que eu estou com dor, minha crença é, em certo
sentido, incorrigível: nada que você possa fazer, e nada que eu
possa descobrir, torna-la-á falsa. Claro, eu posso não ser sincero
ao afirmar estar com dor, e há áreas cinzentas onde a falta de
sinceridade beira o autoengano, e onde minha própria mente é
semeada com as sementes da confusão epistêmica. Mas, no caso
normal, e salvo acidentes de uso, minha sincera adoção da pro-
posição “Eu estou com dor” é suficiente para garantir a verdade
dessa proposição. Esta não é uma consequência trivial do meu
uso da linguagem. Pelo contrário, é a causa de grande parte da
filosofia e do mistério que cerca a condição humana. É precisa-
mente este “acesso privilegiado” que tenho na minha própria
mente o que dá origem à sensação de que o meu conhecimento
do mundo está para sempre condenado à imperfeição. Minhas
crenças sobre o mundo exterior parecem imperfeitas porque há
outra coisa – a consciência individual e suficiente da minha pró-
pria condição interna – com que posso contrastá-las. E, derivan-
do disso, temos o conhecido pensamento cartesiano, que o que
73
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

eu sou essencialmente é revelado para mim – não para você – no


ato de consciência em que agarro minha realidade interior, um
ego automotivado e consciente de si. O pensamento (seguindo
o argumentar) baseia-se em ilusão, mas tem uma importante
consequência – que a criatura linguística pode ser identificada,
tanto por si mesmo e pelos outros, não apenas como um animal,
mas também como si mesma.
Devemos resistir à idéia de que a mente pode ser entendida
em função da consciência em primeira-pessoa. É particularmen-
te importante evitar a perspectiva em primeira-pessoa quando
ela própria é objeto de discussão, pois os privilégios que essa
perspectiva contém são condicionados pela sua vacuidade.
Como vou discutir no Apêndice 1, a incorrigibilidade da minha
consciência em primeira-pessoa é uma indicação não do seu ca-
ráter fundacional, mas de sua fragilidade, de sua incapacidade
de sustentar qualquer conclusão objetiva e substancial sobre o
que eu sou.53 Se quisermos compreender a perspectiva em pri-
meira-pessoa, então temos de vê-la do ponto de vista em tercei-
ra-pessoa. Temos que pedir uma explicação não do meu autoco-
nhecimento, mas do seu. Temos de explicar como é que, quando
você profere sinceramente as palavras “eu estou com dor”, sua
declaração é verdadeira. Por que é que aqui, como disse Witt-
genstein, a verdade e a veracidade coincidem, de modo que os
critérios de sinceridade estabelecem a verdade do que é dito?
A visão cartesiana da consciência, que é baseada neste fato,
não faz nada para explicá-lo. A idéia de um acesso especial “pri-
vado” aos meus próprios estados mentais não pode fornecer
nenhuma explicação sobre minha consciência privilegiada. Na
melhor das hipóteses, fornece um retrato deste privilégio. A me-
táfora de um estado “interior” nos leva a pensar no autoconhe-
cimento como uma espécie de autorrevelação permanente de
cada item mental para seu dono. As sensações, crenças, desejos
e emoções ficariam brilhando na mente como jóias em um es-
tojo, cada uma visível à consciência inquiridora em virtude de

53 Poder-se-ia dizer que esta tese foi uma das principais conclusões de Kant em “Os
Paralogismos da Razão Pura”, na Crítica da Razão Pura, (1781, 1787), tr. Norman Kemp
Smith, Londres, 1929, em que Kant critica a inferência a partir da unidade puramente
“formal” pressuposta na autoconsciência (a “unidade transcendental da apercepção”) à
“unidade substancial” necessária para a teoria racionalista da alma.

74
capítulo 3 - pessoas

seu próprio brilho peculiar. Essa imagem pode parecer se encai-


xar nas sensações: certamente não se encaixa nas crenças, que
não são permanentemente “presentes” para a mente. E ainda é
debatível que as crenças sejam objetos de conhecimento incor-
rigível. Se eu lhe perguntar se você acredita que a França é uma
monarquia, em condições normais, você pode responder com
autoridade; mas até o momento da pergunta, você pode nunca
ter pensado nisso. (Qualquer dúvida diz respeito ao fato em si,
e não se você acredita.) Um erro tem de ser explicado não como
um engano (como se, olhando interiormente para sua crença,
você momentaneamente tivesse confundido a crença de que a
França é uma monarquia com a crença muito semelhante de
que a França é uma diarquia), mas em função de alguma falha
mental radical, como o autoengano. Não é o menor dos as-
pectos objetáveis da​​ imagem cartesiana o que faz o “privilégio
epistemológico” de um estado mental em uma característica in-
trínseca do mesmo. Torna-se um fato sobre a dor a vítima estar
consciente dela, de forma que sempre que haja dor, haverá tam-
bém a consciência da dor. Torna-se, então, impossível sugerir, o
que é verdadeiro, que possa haver criaturas com sensações, mas
sem o conhecimento incorrigível: não porque eles têm sensações
inconscientes, mas porque (sendo meramente animais) carecem
completamente da autoconsciência.
Temos de explicar, o que nenhum estudo meramente feno-
menológico (ou seja, em primeira-pessoa) pode explicar, o fato
de que quem diz sinceramente “Eu estou com dor” fala a ver-
dade – desde que, é claro, ele entenda o que ele diz. Estamos
lidando aqui com necessidades; o tipo particular de absurdo
envolvido na sugestão de que se eu estiver enganado, na mi-
nha crença presente de que eu estou com dor, isso não poderia
ser representado de nenhuma outra maneira. É o mesmo tipo
de absurdo atribuído à sugestão de que possa haver um objeto
físico não-espacial, ou um experiência não-temporal.54 Nenhu-
ma investigação em primeira-pessoa pode explicar uma verdade
tão necessária, uma vez que é uma verdade que é expressa em
uma linguagem pública, e garantida – se é que há uma garantia
– quer pelas regras da linguagem, quer pela “essência real” dos​​

54 Estes dois absurdos são discutidos e explicados por Kant na primeira parte extrema-
mente insatisfatória da Crítica da Razão Pura, a “Estética Transcendental”.

75
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

objetos aos quais a linguagem se refere, objetos que (pelo argu-


mento do Apêndice 1) devem ser publicamente identificáveis se
houver qualquer referência a eles.
Temos de explicar o que chamo de “regra de autoridade”.
Significa que quem pronunciar “Eu estou com dor” sinceramen-
te, e compreender essas palavras, está com dor: ele é uma auto-
ridade a respeito de seus próprios conteúdos mentais. A partir
desta regra, deriva-se que quem profere “Eu estou com dor”
sinceramente, mas não está com dor, não entende o que diz. O
privilégio epistemológico acaba por ser uma regra da linguagem
– uma condição na compreensão da frase “Eu estou com dor”.
A pessoa compreende tal sentença apenas se seus usos dela são
(com algumas exceções) verdadeiros. Nós podemos facilmente
prever a aplicação desta regra: observando o comportamento
de uma criança, nós a ensinamos a dizer “Eu estou com dor”
só quando está com dor. Quando ela passa a acertar, admitimos
que entende o que diz.55 Daí podemos explicar, em primeiro
lugar, como pode ser uma verdade necessária uma pessoa com
dor saber que está com dor; e, em segundo lugar, como o auto-
conhecimento é uma característica do desempenho linguístico.
De forma semelhante, podemos explicar a “autossugestão”
– o fato de que, quando eu estou com dor, eu sei que estou.56 A
falha em reconhecer a verdade, em tais circunstâncias, é uma in-
capacidade de compreender as palavras que a expressam – é por
isso que a observação da senhora Gradgrind (Tempos Difíceis,
Parte II, cap. 9), de que há dor em algum lugar na sala, mas não
perceber imediatamente que a dor é dela, é tão estranha. Pois ou
não foi essa sua intenção, ou então não sabe isso que significa.
O enunciado “Eu estou com dor” contém quatro palavras;
qual foi mal interpretada pela pessoa que a usa para fazer uma
afirmação falsa? Suponha que ela atribua a dor com precisão
nos outros: isto é evidência suficiente de que certamente ela en-
tende a palavra “dor” – assumindo que aceitamos a tese (ver
o Apêndice 1) de que tais palavras ganham seu sentido de seu

55 Fui influenciado nesse ponto pelo trabalho de Douglas Gasking, “Avowals”, em R. J.


Butler (ed.), Analytical Philosophy, First Series, Oxford, 1968, e pelo trabalho inédito de
M. J. Budd.
56 O termo “autossugestão” vem de Gilbert Ryle, The Concept of Mind, Londres, 1955.

76
capítulo 3 - pessoas

uso em terceira-pessoa. É assim com a incômoda palavra “eu”?


Alguém entende essa palavra assim como compreende uma de-
terminada aplicação dos predicados como “...está pensando”,
“...está com dor”, com certeza? Por que o erro ocasional mos-
traria que ele não entende, mesmo tendo plena capacidade de
compreender, uma “instância de substituição” de uma sentença
aberta cujo significado ele sabe?
Alguns filósofos defendem que “eu estou com dor” não deve
ser considerado simplesmente como uma “instância de substi-
tuição” onde “x está com dor” – ou seja, como uma aplicação
direta do predicado “...está com dor”. Elizabeth Anscombe, por
exemplo, argumentou que o sentido do “eu” não é o de um
termo de “referência”: de fato, esse “eu” não se refere a todos,57
de forma que “Eu sou RS” não é uma declaração de identidade.
Assim, embora seja verdade que, se RS estiver com dor, eu estou
com dor, essa verdade não é derivada de “RS está com dor”
pela mera substituição de termos com referência equivalente.
Essa tese tem sido objeto de algumas críticas bastante fortes;58
mas mesmo aqueles que a rejeitam reconhecem que a função do
“eu” não é como a de um nome próprio. Tem-se defendido, por
exemplo, que “eu” é um “dêitico”, como “agora” ou “aqui”,
cuja função é indicar algo no campo de referência marcando
sua relação com o interlocutor. Se isto é assim, então devemos
esperar precisamente o que encontramos: a autorreferência é
“imune a erros de identificação”.59 Da mesma forma que não
posso identificar erroneamente o lugar em que estou como aqui,
não posso me identificar equivocadamente como eu. E essa imu-
nidade ao erro pode ligar-se ao “eu”, mesmo que o termo tem
um uso referencial.
Essas especulações são inegavelmente importantes, e prome-
tem explicar certos tipos de incorrigibilidade (ou “imunidade
do erro”) no caso em primeira-pessoa. Mas elas não fornecem

57 G. E. M. Anscombe, “The First Person”, em Guttenplan, Mind and Language.


58 Ver, por exemplo, os ensaios de Anthony Kenny e Norman Malcolm em C. Diamond e
J. Teichman (eds.), Intention and Intentionality, Brighton, 1979.
59 A frase vem de S. Shoemaker, “Self-Reference and Self-Awareness”, Journal of Philosophy,
vol. LXV (1968), pp. 555-67. Ver também a discussão deste assunto em Gareth Evans,
The Varieties of Reference, ed. J. McDowell, Oxford, 1981, p. 179-92, em que Evans altera
a expressão ligeiramente.

77
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

uma explicação satisfatória do que aqui nos interessa, que é a


certeza do conhecimento em primeira-pessoa dos estados men-
tais atuais. Na melhor das hipóteses, explicam a certeza da au-
toidentificação: da minha crença de que eu estou me referin-
do a esta pessoa, e não àquela. Mas como poderiam explicar a
minha certeza sobre as propriedades mentais desta pessoa, eu
não sei. Ao mesmo tempo, parece-me que, mesmo nesse tipo
posterior de certeza, é o conceito de indivíduo que explica meu
privilégio epistemológico. Uma compreensão imperfeita da re-
gra de autoridade equivale a uma compreensão imperfeita da
individualidade. Tanto a palavra “eu” quanto, por implicação, a
palavra “ele” serão utilizadas incorretamente. Como isso pode
acontecer? Como pode uma regra tão absoluta e aparentemente
tão arbitrária como a nossa “regra de autoridade” ser utilizadas
por falíveis mortais? A resposta é esta: justificar a regra é justi-
ficar os conceitos com os quais ela nos oferece, e as funções que
esses conceitos cumprem. O propósito do conceito que estamos
considerando – o de pessoa, e seu subsidiário, o indivíduo – é
identificar o objeto das “reações interpessoais”. Ele pode cum-
prir essa finalidade somente na suposição de que aqueles que o
usam também obedeçam a regra de autoridade que determina
o seu sentido. Pois é somente nesta hipótese que nós podemos
“acreditar na sua palavra”, quando falam o que passa em suas
mentes. É isso que é a pedra angular das relações interpessoais.
Wittgenstein afirma que, se um leão pudesse falar, ainda as-
sim não o entenderíamos.60 Considere o que aconteceria se ti-
véssemos de aceitar o discurso emitido pela boca do leão como
uma expressão de sua mentalidade. Reconhecemos duas possi-
bilidades desde o início. Ou o orador é o leão, ou não é. Se não
for, pode ainda parecer possuir uma identidade mental própria.
Em tal caso, falaria por meio do leão, habitando o leão como
uma dríade habita uma árvore. Nós prontamente imaginamos
tais espíritos nos objetos que nos cercam, e é natural que os po-
vos primitivos realmente acreditem neles, os temam e adorem.
Isso não quer dizer que haja qualquer possibilidade real, de dic-
to ou de re, de que exista um espírito no leão ou na árvore. Mas
é uma idéia que podemos conceber e elaborar, e se não houves-

60 L. Wittgenstein, Investigações Filosóficas, tr. G. E. M; Anscombe, Oxford, 1952, parte I,


seção 244, e parte II, seção XI, p. 223.

78
capítulo 3 - pessoas

se nenhum lucro emocional considerável ao fazê-lo, metade da


nossa literatura não teria sentido.
Agora, o leão, ao contrário da árvore, tem uma mentalidade
própria independente. Seja a voz dele ou não, o leão ainda tem
seus próprios desejos, sensações e satisfações leoninos. Portan-
to, faz sentido nos perguntarmos o que seria verdadeiro se o
discurso dito por ele fosse uma expressão da mentalidade do
leão, ao invés de algum espírito que o possui. Considere o leão
de Androcles. Ele ruge, e uma voz sai da sua boca dizendo: “Eu
rujo. Além disso, há um espinho na minha pata. Eu não sou
capaz de me apoiar na dita pata. De fato, meu comportamento
exibe o padrão de desorganização característico da dor. Portan-
to, parece que estou com dor”. Suponhamos também que todas
as “autoatribuições” do leão sejam dessa natureza, e imagine-
mos também que muitas delas estejam simplesmente erradas,
mesmo quando enfaticamente afirmadas. Em tal caso, a voz está
claramente descrevendo o estado mental do leão assim como
descreveria o estado mental de qualquer outra coisa, usando a
base pública comum, nem exigindo nem alcançando qualquer
imunidade especial de erro ou dúvida. A voz do leão é, portan-
to, a voz de um “observador” do comportamento do leão, com
a única reserva de que o observador usaria “ele”, e a voz usa
“eu”. Mas então, se é assim, o “eu” neste caso na verdade quer
dizer “ele” – a distinção entre as duas idéias (de si e do outro)
foi quebrada. As atribuições da voz para o leão não são autoa-
tribuições do leão, mas as atribuições de algum outro ser. O leão
está possuído, mas não inspirado.
Como podemos combinar o leão com sua “voz”? Devemos
conceder à voz apenas os poderes de autoatribuição privilegia-
da de que tenho falado. A voz deve ter um tipo especial de au-
toridade. Não pode, exceto ocasionalmente e por razões mui-
to especiais, cometer erros sobre a mentalidade do leão. E seu
conhecimento deve ser “imediato”, sem depender de nenhuma
observação. Em outras palavras, a voz deve obedecer a regra de
autoridade. Esta não é apenas uma regra que a voz segue; tam-
bém é uma regra que ela obedece. É assim que a voz deve enten-
der suas próprias “autoatribuições”. Deve tomar como absurda
a sugestão de que ela possa estar errada. Assim que começa a
fazê-lo, corpo e alma estão unidos. A voz está começando a

79
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

expressar um indivíduo – ela mesma – e não apenas para se


referir a um organismo animal com o qual não tem nenhuma
relação “interior”. Ela agora entende a palavra “eu”: na verda-
de, apenas um indivíduo pode entender essa palavra: somente
um indivíduo conseguiria entender não apenas o que é referido
por “eu”, mas também o uso do “eu” como um instrumento de
comunicação.
Claro, é óbvio que quando a voz diz “Eu estou com dor”,
só o faz quando o leão está com dor. Os relatos das sensações
podem ser incorrigíveis, mas mesmo quando verdadeiros, não
são necessariamente verdades. Somente quando a voz do leão,
de fato, obedece a regra de autoridade, podemos conceder que
ele entenda o conceito de indivíduo. Sobre o tipo de “fato” que
estamos falando, também é uma importante questão filosófica.
Daremos um relato detalhado de como as coisas devem ser se é
que há conhecimento incorrigível e imediato.61 Mas essa não é
minha presente preocupação. Prefiro considerar a regra de au-
toridade que repousa sobre este fato. Como é possível tal regra?
Como podemos impedir a possibilidade de erros? Certamen-
te deve haver um ponto em que uma criança quer dizer o que
nós queremos dizer com a expressão “eu estou com dor”. Como
podemos, então, insistir que, daqui em diante, ele não comete-
rá nenhum erro no uso essa frase? Uma das observações mais
célebres de Wittgenstein é uma referência bastante útil para o
momento.62 Nenhum comportamento linguístico pode determi-
nar logicamente a sua própria sequência, uma vez que o tempo
passado não pode determinar logicamente o futuro. Um homem
pode “seguir uma regra” assim como nós, e ainda assim, em al-
gum momento futuro, divergir de nós, insistindo o tempo todo
que o que ele está fazendo é o mesmo que sempre fez. Não po-
demos estabelecer, de uma vez por todas, e sem qualquer possi-
bilidade de dúvida, que o outro realmente entende uma palavra
assim como nós – seja essa palavra “ele” ou “eu”. A questão é
que, se ele começa a cometer enganos no uso do “eu”, isso mos-
tra ou que deixou de compreender a palavra (como ocorre com

61 Houve uma tentativa, feita de duas formas contrastantes, por D. C. Dennett, Content and
Consciousness, Londres, 1969, e por H. P. Grice, “Method in Philosophical Psychology”,
Presidential Address to the American Philosophical Association, 1974-5.
62 Ver Investigações Filosóficas, parte I, seções 172 et seq.

80
capítulo 3 - pessoas

alguns psicóticos) ou que sempre entendeu essa palavra errone-


amente (uma possibilidade mais preocupante). O problema da
distinção entre essas alternativas é grave: mas é um problema
geral na teoria do significado, e não tem nenhuma relação espe-
cial com o “eu”.63
Além disso, nada na regra da autoridade de primeira-pessoa
exige que, sempre que alguém diz que está com dor, seja verdade
que esteja com dor. Implica somente que, se o enunciado não é
verdadeiro, isso não ocorre por um engano, mas por falta de
sinceridade. Há muita controvérsia sobre o conceito de since-
ridade. Teremos que ter cuidado para não criar mais uma vez
a dicotomia absoluta entre interno e externo, sujeito e objeto,
que alimenta a ilusão cartesiana. Mais adiante neste capítulo,
e no Capítulo 11, vou introduzir um conceito de “integridade”
que contém, creio eu, as sementes de uma teoria da sinceridade.
Uma consequência da ênfase na sinceridade é que, se alguém diz
falsamente que está com dor, nós podemos censurá-lo. Ele não
pode mais retirar o que disse alegando ignorância: sua única
desculpa é que não quis dizer isso. Nós o fizemos, com efeito,
responsável por sua declaração.
Dir-se-á, no entanto, que o problema original – ou, pelo me-
nos, grande parte dele – permanece. Como podemos responsa-
bilizar o outro por suas declarações em primeira-pessoa? Não é
esta a mesma pergunta com que começamos: por que, quando
falamos sinceramente, tais declarações são verdadeiras? Encon-
traremos uma resposta simplesmente por mostrar que temos
certo conceito – o conceito de indivíduo – em que o privilégio
de primeira-pessoa está consagrado de forma inabalável?
Alguém pode dizer que eu realmente ofereci uma resposta
para a questão do privilégio de primeira-pessoa. É preciso re-
conhecer, no entanto, que até agora dei apenas uma descrição
– ao invés de uma explicação – do caso em primeira-pessoa. Se
eu estiver certo, o privilégio de primeira-pessoa está incorpora-
do na nossa concepção de pessoa. Para entender esse conceito,
devemos examinar as formas de compreensão intencional que

63 Alguns filósofos extraíram conclusões radicais da generalidade dos argumentos de


Wittgenstein; ver, por exemplo, S. Kripke, Wittgenstein on Rule-Following and Private
Languages, Oxford, 1982.

81
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

medeia e que têm os seres humanos como seu foco. É em tal


sentido, creio eu, que a resposta completa para o problema da
primeira-pessoa será encontrada.
Esse sentido ficará mais claro se nos voltarmos a outro con-
ceito fundamental para as relações interpessoais – o conceito de
intenção. Nossas expressões de intenção também são dotadas
de uma forma de certeza da primeira-pessoa – a certeza do que
vamos fazer. Se um homem diz que vai fazer alguma coisa, en-
tendendo o que diz e dizendo isso sinceramente, então – desde
que isso seja uma expressão de intenção – ele realmente vai
fazer a coisa em questão, ou pelo menos tentar fazê-la, quan-
do surgir a ocasião. Ou, se ele não a fizer, é porque mudou de
idéia. A regra de autoridade aqui é, naturalmente, muito mais
complicada do que aquela dada pelas sensações. Ela pode ser
vista como uma espécie de limitação elaborada sobre as expli-
cações que podem ser dadas para a falsidade das declarações
em primeira-pessoa sobre o futuro. Elas podem não ser since-
ras; podem ser mal interpretadas; podem não ser decisões, mas
previsões; podem ser substituídas por uma mudança de idéia.
Talvez “fraqueza de vontade” seja uma quinta “rota de fuga”;
talvez autoengano seja uma sexta. O que não é permitido, no
entanto, é uma expressão sincera de intenção que não seja nem
cancelada nem cumprida.
Vou me concentrar na terceira “rota de fuga” – a distinção
bem conhecida entre previsão e decisão64 – uma vez que ela
proporciona uma ilustração vívida do porquê de um conceito
responder à regra de autoridade é tão útil para nós. Para formar
uma intenção, é necessário considerar o futuro, e ver a si mes-
mo desempenhar um papel ativo e determinante nesse futuro. É
preciso, simplificando, “identificar-se” com o seu futuro eu. Essa
atitude contrasta com outra – a de “alienação” em relação ao
seu próprio futuro – em que se vê a si mesmo não como ativo
e determinante, mas como a vítima passiva de forças externas
e do próprio passado, conduzido sob o impulso de causas que
estão fora do seu controle.

64 Ver, por exemplo, o ensaio seminal de S. Hampshire e H. L. A. Hart, “Decision,


Intention, and Uncertainty”, Mind, vol; LXVII (1958), p. 1-12. Também ver outro
trabalho de Hampshire, Thought and Action, Londres, 1956, cap. 2.

82
capítulo 3 - pessoas

O que está envolvido no primeiro tipo de atitude – a atitude


de identificação com um agente futuro? A intenção envolve uma
crença sobre o futuro,65 mas uma expressão sincera de intenção
não pode ser apenas o resultado do raciocínio indutivo. Nas pa-
lavras de Elizabeth Anscombe, a intenção e a previsão diferem
em sua “direção de ajuste”66 com a realidade. Ao dizer “eu vou
fazer isso”, eu estou assumindo a responsabilidade de garantir
que isso será feito; na previsão de que hei de fazer isso, eu es-
tou, caracteristicamente, propondo uma hipótese sobre como o
mundo será, sem assumir qualquer responsabilidade por isso.
No primeiro caso, devo tentar fazer o que eu digo e, na medida
em que apoio minha afirmação, o faço com razões práticas. Por
isso eu tenho uma certeza peculiar de que eu devo mesmo tentar
fazer o que digo: não ter essa certeza é ser hipócrita. É em virtu-
de deste tipo particular de certeza que as expressões de intenção
podem ser entendidas como obedientes à sua própria regra de
autoridade de primeira-pessoa.
Segue-se que, se eu tiver intenções, também terei alguma me-
dida da razão prática. Suponha que alguém expresse a intenção
de fazer x, e perceba que a única maneira de fazer x é através de
y, mas mesmo assim negue a intenção de fazer y. Ele deve se con-
siderar comprometido à veracidade das seguintes proposições:
“eu faço x”; “Eu faço x somente se fizer y”; “Eu não faço y”.
Em outras palavras, ele está comprometido com crenças contra-
ditórias. De modo que, se ele tem razão teórica – que o leva a
rejeitar essas contradições – ele tem razão prática também. Ele
é capaz de raciocinar sobre os meios para seus fins. Uma vez
que a capacidade de entender as inferências normais é essen-
cial para a compreensão da linguagem, podemos ver que uma
conexão foi criada entre a posse da expressividade e a posse de
ação racional. Esta é apenas uma parte dessa cadeia de conexão
que une intenção, ação racional, linguagem, a autoconsciência
e a perspectiva em primeira-pessoa em uma única idéia, e que
constitui a elaboração plena do conceito de pessoa.
O conceito de intenção, como já o caracterizei, só pode ser
aplicado para certos fatos a respeito do animal humano. É um

65 Ver as justificativas em H. P. Grice, “Intention and Uncertainty”, Proc. Brit. Acad.,1974.


66 Direction of fit – NT.

83
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

fato que essas afirmações sobre o futuro, apontadas como ma-


nifestações de intenção, são geralmente acompanhadas pela
tentativa do agente de realizar o que elas representam. Mas um
fato repousa uma prática importante. Dada a verdade geral de
que uma pessoa, em algum momento, tentará realizar suas ex-
pressões sinceras de intenção, essas expressões nos fornecerão
um meio peculiar de acesso ao seu comportamento futuro. Po-
demos agora, com efeito, argumentar contra o que ele pretende
fazer. Como Anscombe demonstrou, é precisamente a possibili-
dade de “argumentar contra” que é a marca distintiva não ape-
nas das intenções para o futuro, mas também da ação intencio-
nal.67 Nós podemos mudar o comportamento de uma pessoa
persuadindo-a a alterar suas declarações de intenção, e ela vai
mudá-las na medida em que for racional e que nossas razões
forem boas. Assim, temos um meio direto de acesso, através
da razão, àquele núcleo de atividade que é a fonte do seu com-
portamento. Quando este meio de acesso falha – ou porque o
agente é incapaz de aceitar razões (caso de irracionalidade), ou
porque a conexão factual entre a declaração e o desempenho é
rompida (caso de insanidade) – não temos nenhuma maneira de
lidar com a pessoa, exceto através das manipulações da ciência
preditiva. O agente tornou-se paciente.
Supondo que alguém expresse intenções, nos permitimos
confiar em sua palavra, tanto agora como no futuro. Mais uma
vez, o estamos responsabilizando – desta vez por seus atos. Se-
gue-se que as razões dadas para mudar o que ele diz também
mudarão o que ele faz, e a linguagem se torna um meio de aces-
so tanto ao seu presente estado mental quanto à sua atividade
futura. Nossa atitude em relação a ele pode agora destacá-lo
como o ponto focal de uma rede de intenções, como um agente
capaz de se comprometer com o seu futuro, e assumindo a res-
ponsabilidade por seu passado, como uma criatura com uma
perene “autoidentidade”. Diante de tal ser, posso razoavelmente
sentir gratidão e ressentimento, admiração e raiva. Ele é o obje-
to possível de toda uma variedade de respostas “interpessoais”,
através das quais nossas vidas como seres morais são principal-
mente realizadas.

67 G. E. M. Anscombe, Intention, Oxford, 1957.

84
capítulo 3 - pessoas

Quando estou interessado em alguém como pessoa, então


suas próprias concepções, suas razões para a ação e suas de-
clarações de vontade são de extrema importância para mim.
Na tentativa de mudar sua conduta, eu procuro antes de tudo
mudar estas coisas, e aceito que ele, por sua vez, possa ter razão.
Se eu não estiver interessado nele como pessoa, no entanto; se,
para mim, ele é um mero objeto humano que, para o bem ou
para o mal, jaz em meu caminho, não terei nenhuma considera-
ção especial por suas razões e decisões. Se eu tentar mudar seu
comportamento, eu devo (se eu for racional) tomar o caminho
mais eficiente. Por exemplo, se uma droga é mais eficaz do que
o cansativo processo de persuasão, vou usar uma droga. Tudo
depende da base disponível para a previsão. Para colocar na
linguagem que Kant tornou famosa: eu vou tratá-lo como um
meio, e não como um fim. Pois seus fins, suas razões, não têm
mais soberania para ditar as maneiras com que eu ajo em re-
lação a ele. Eu estou alienado dele como um agente racional, e
não me importo se ele está alienado de mim.
Assim como podemos tomar uma atitude com outra pessoa
que não envolva dar prioridade especial às suas atribuições in-
dividuais, podemos tomar essa mesma atitude com nosso pró-
prio “eu” futuro. Eu posso deixar de considerar minhas próprias
considerações sobre o futuro como tendo qualquer autoridade
especial na determinação de como as coisas serão. Nesse caso,
eu não posso dizer realmente que tenho intenções: todas as mi-
nhas declarações sobre o futuro se tornam previsões ao invés
de decisões. Elas se baseiam na, e são refutáveis pela, evidência
disponível. E é assim que eu as considero. Mas se eu não tenho
intenções para o futuro, parece que a minha atitude para com o
meu passado deve ser semelhantemente indiferente. Pois como
eu posso assumir a responsabilidade por qualquer coisa se eu
não tenho nenhuma intenção de consertá-la, nem nenhum sen-
tido de que procedeu de qualquer atividade planejada originada
em mim? Atitudes como remorso, autocomplacência e orgulho
não se tornam apenas irracionais, mas impossíveis. Dificilmen-
te é desejável ser assim, pois, como vou defender no Capítulo
11, esta erosão constante da vontade priva-nos da própria ca-
pacidade de valorizar o que possuímos atualmente. E como se
pode desejar racionalmente um estado em que algo não pode
ser desejável quando obtido? Parece, então, que não podemos,
85
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

de forma consistente com a nossa natureza racional, rejeitar os


hábitos de autoatribuição que estão consagrados nas regras de
autoridade da primeira-pessoa.
O resultado da discussão acima é o seguinte:
1. Não pode haver uso verdadeiro da linguagem sem os pri-
vilégios do caso em primeira-pessoa.
2. Em virtude do privilégio da primeira pessoa, um homem
torna-se não apenas um ser racional, mas também um agente
racional, cujo comportamento é alterado quando lhe oferecem
razões para a ação (desde que as razões sejam boas, e ele seja
racional).
3. Por conseguinte, há uma prática pública, entre seres auto-
conscientes, de dar e receber razões, que o agente incorpora em
sua própria concepção do que é e faz. Ele se vê como um agente
entre muitos, responsável por suas ações e convidado a agir por
razões que também possam justificar sua conduta. Ele trata a si
mesmo como pessoa, e exige que os outros o façam, que signifi-
ca aceitar suas razões e suas autoconfissões – seu “consentimen-
to” – como a principal via para sua conduta e emoções. É sobre
nessa prática pública de dar e receber razões – que poderíamos
ser chamar (no espírito de Oakeshott)68 de conversa moral –
que nossas formas de lidar com as pessoas estão fundadas.
O mundo contém, então, uma classe de entidades a que nós
mesmos pertencemos, e que são os possíveis objetos de um com-
plicado padrão de resposta. Elas podem ser persuadidas, edu-
cadas e criticadas; podem ser atendidas em igualdade de con-
dições; e cada uma possui uma “esfera de responsabilidade”,
dentro da qual é responsável por aquilo que ocorre. Vou usar
o termo “responsabilidade” para indicar o fato de que um ser
racional é tanto responsável quanto persuasível. Eu vou ignorar
as complexidades que seriam necessárias para demonstrar – o
que eu acredito, no entanto, ser verdade – que essa idéia é a raiz
das concepções morais e legais de responsabilidade.69 Também

68 Michael Oakeshott, “The Voice of Poetry in the Conversation of Mankind”, em


Rationalism and Politics, Londres, 1968; e On Human Conduct, Londres, 1974.
69 A crescente ênfase sobre o conceito de responsabilidade, em vez do conceito de
liberdade, tem sido bastante útil na compreensão da atribuição de responsabilidade
legal. Ver os ensaios de H. L. A. Hart em Punishment and Responsability, Oxford, 1968.

86
capítulo 3 - pessoas

vou ignorar os argumentos que dizem que para o conceito de


liberdade ter qualquer significado real, deve ser explicado em
função da responsabilidade. No que se segue, no entanto, vou
usar muitas vezes a palavra “liberdade”: ela vividamente capta
o fato de que pensamos sobre o ser responsável e respondemos
a ele de maneiras que o distinguem do resto da natureza, e que
o coroam com um halo metafísico. Ressentimento, raiva, admi-
ração e estima – todos atribuem “liberdade” a seu objeto. Na
verdade, em relação ao ser livre, podemos sentir respostas que
nunca sentiríamos, salvo pela imaginação antropomórfica, em
relação aos animais. O conceito de “pessoa” é usado para des-
tacar os objetos dessas respostas e outras similares.
“Pessoa” não denota um tipo funcional, uma vez que não
existe um conjunto especificável de propósitos que orienta e li-
mita o emprego deste conceito. Também não denota uma espé-
cie natural, apesar de todas as pessoas terrenas serem, de fato,
membros da espécie natural “ser humano”. A pessoa entra em
nosso Lebenswelt como o alvo das respostas interpessoais. Uma
descrição científica de tribo pode muito bem prescindir de tal
idéia, assim como a descrição científica da mesa dispensa a idéia
de cor. Mas isso não altera o fato de que percebemos o mundo
em termos pessoais, e que nossa felicidade depende totalmente
disso. Claro, eu disse pouco sobre as muitas respostas de que as
pessoas são alvo. Basta dizer que são tão abrangentes quanto a
idéia de responsabilidade – como a idéia de que um ser pode ser
responsável por algo dito ou feito. Como veremos, elas incluem
muitas emoções que podemos, em nossa generosidade natural
em relação à criação, instintivamente imaginar que comparti-
lhamos com os animais.
A “atitude interpessoal” lança, no entanto, uma estranha
sombra metafísica, que aparece em todos os nossos pensamen-
tos sobre o outro, e que gera a idéia de uma individualidade
completamente irrefutável. Como resultado do hábito de autor-
referência, e do uso autoritário do “eu”, instintivamente acredi-
to que estou usando o termo para me referir, não a este animal
de cujos lábios minha voz emerge, mas a outra coisa. Eu sou eu

Meu argumento, de que os conceitos legais e morais podem ser entendidos em função
da idéia mais básica de responsabilidade que invoco nesta seção, é provavelmente tão
antigo quanto o Ética a Nicômaco de Aristóteles.

87
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

mesmo, e o que eu sou essencialmente, conforme acredito, é o


indivíduo que eu sou. É fácil detectar a ilusão gramatical nessa
idéia – a ilusão de que o pronome “eu”70 refere-se a uma “indi-
vidualidade” que é “minha” – mas não é mera ilusão gramatical
que nos leva a subscrevê-la. (Na verdade, é nos falantes de lín-
guas latinas e eslavas que essa ilusão teve seu efeito mais devas-
tador, já que para essas pessoas o pronome reflexivo é metafisi-
camente inocente.) A idéia é, de fato, um irresistível subproduto
da compreensão diária da ação racional. Como Kant mostrou
de forma bastante perspicaz, é uma “idéia da razão”, gerada au-
tomaticamente por nossa necessidade de constantemente trans-
cender os limites do pensamento legitimado.71 Porque o “eu”
parece transparente para si mesmo, completamente desvelado a
si mesmo, e porque todos os meus projetos, todos os meus direi-
tos e responsabilidades, e todas as minhas crenças e sentimentos
são atribuídas a essa coisa, surge irresistivelmente a idéia de que
eu sou, essencialmente, esse eu que conhece a si mesmo, este
sujeito que se esconde dentro, atrás ou além do organismo, mas
que não pode ser idêntico com o organismo pela simples razão
de que os estados corporais e a substância deste organismo per-
manecem obscuros para mim, enquanto minha vida mental é
completa e totalmente conhecida.
Além disso, é como se me fosse apresentado, na minha ex-
periência interior, um exemplo de individualidade pura que é
tanto mais imediata e mais metafisicamente firme até mesmo
do que a apresentada pelo organismo animal. O eu não pode
ser dividido, nem pode ser constituído de qualquer outra for-
ma a partir de outros indivíduos. Isso é mostrado de maneira
bastante clara nos casos de dupla personalidade, que rapida-
mente obrigam-nos a falar não de um eu composto de várias
partes, mas ou de um único eu em um estado de perturbação,
ou de uma pluralidade de eus encarcerados um único invólucro
animal.72 O eu é um átomo puro, cuja existência individual me

70 O pronome reflexivo aqui usado é myself – eu mesmo – NT.


71 Ver Kant, “Os Paralogismos da Razão Pura”.
72 Ver, no entanto, os casos discutidos por T. Nagel, “Brain Bisection and the Unity of
Consciousness”, em Mortal Questions, Cambridge, 1979, em que Nagel apresenta razões
para duvidar da qualidade “atomística” do indivíduo, mas não o suficiente para pensar
que poderíamos supri-la por algo mais convincente.

88
capítulo 3 - pessoas

é totalmente familiar, uma vez que em nenhum momento eu


tenho que descobrir nada sobre ele para conhecê-lo como ele é.
Foi de tais pensamentos que nasceu a idéia de Leibniz da môna-
da – a substância anímica que é o único indivíduo verdadeiro, e
que nunca poderia ser dividida ou destruída.
Mais ainda; este eu é uma coisa ativa. Sou eu quem toma re-
soluções, com base em argumentos e interesses que são também
meus. Parece, portanto, que a ação brota de mim, e não do cor-
po através do qual eu ajo – pois ele não ouve razões mais do que
um carro ou uma vaca. Assim, junto com a idéia metafísica do
indivíduo como o verdadeiro locus da minha individualidade,
vem a idéia de vontade e sua liberdade. Eu sou essencialmente
um sujeito livre, cuja individualidade e liberdade são aspectos
complementares de uma única condição.
Essas idéias tiveram uma história distinta, começando em
Kant, passando por Fichte, Hegel e Schopenhauer, até Heideg-
ger e Sartre. Nenhuma discussão posterior foi além da brilhante
exposição de Kant, em que ele mostra que tal imagem metafí-
sica está implícita não só no nosso conhecimento de primeira
-pessoa, mas também em todos os nossos pensamentos morais.
Assim como Descartes tentou proporcionar um fundamento
metafísico para o conhecimento em primeira-pessoa ao postu-
lar a existência de um indivíduo imaterial e indivisível – talvez
até mesmo indestrutível –, Kant (que absolutamente rejeitou o
raciocínio de Descartes) tentou fornecer um fundamento me-
tafísico para a visão em primeira-pessoa da ação ao postular a
existência de um “eu transcendental” cuja liberdade está além
do alcance das leis da natureza. Como Kant reconheceu, essa
idéia está cheia de dificuldades insuperáveis. Como, por exem-
plo, esse eu transcendental pode agir no mundo empírico, que é
a sua única esfera de ação? Como uma liberdade transcenden-
tal pode lidar com as responsabilidades “imanentes” com que,
através de nossa presença física em um mundo físico, estamos
sobrecarregados por todos os lados? Assim como o ego carte-
siano se mostra impotente para explicar o autoconhecimento
que supostamente justifica a sua introdução, o mesmo acontece
com o eu transcendental, que se mostra incapaz de justificar a
razão prática que nos leva de forma indelével a imaginar sua
existência.

89
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Devemos aprender algo com Kant. O eu transcendental é


uma idéia inevitável. Nossa autoimagem como seres racionais
inflige essa idéia em nós. Ao mesmo tempo, a idéia é impotente
para resolver as ansiedades metafísicas que nos levam a invocá
-la, ou para nos mostrar o que a liberdade humana pode real-
mente querer dizer. Devemos olhar para a questão assim: somos
animais, e nossa individualidade não está mais assegurada do
que a dos animais. Também não estamos fora da natureza, nem
possuímos qualquer tipo de liberdade dos laços de causalidade
negada aos animais. No entanto, a linguagem nos impõe duas
idéias indispensáveis, a de autorreferência, que lança a sombra
do eu metafísico, e a de responsabilidade, que lança a sombra
da liberdade metafísica. Podemos tentar justificar essas som-
bras, para defender a crença de que elas são o que nós realmen-
te somos – e o primeiro passo para isso é defender (com Kant e
Sartre) que as duas sombras são realmente uma e a mesma coi-
sa, que eu sou minha liberdade, algo como este pedaço de cera
é a cera que o compõe. Alternativamente, podemos permanecer
céticos, como farei neste trabalho, e tratar essas sombras como
nada mais do que sombras. Elas nos acompanham a todos os
lugares, e a ausência delas seria de fato uma tragédia terrível,
muito pior do que a perda de uma sombra real (embora isso,
como von Chamisso mostra na história de Peter Schlemihl, tam-
bém seja bastante ruim), mas elas têm apenas uma existência
ilusória. Essas sombras têm grande alcance, e determinam nos-
sas atitudes interpessoais de inúmeras maneiras. Elas fornecem
o foco de muitas coisas que são extremamente reais na exis-
tência humana – incluindo amor, saudade e desejo – enquanto
permanecem irreais. Através de sua própria irrealidade, prome-
tem trair os anseios que norteiam sempre e a qualquer momen-
to. Pouca coisa é mais terrível do que a descoberta de que seu
amado não é um ser transcendental – que, mesmo no que mais
importa, ele possa ser superado.
Nossos pensamentos a respeito do “eu”, e nossos pensamen-
tos a respeito dos “eus” alheios, contêm, com isso, uma nova
idéia de unidade além e acima da idéia de individualidade ani-
mal. Esta unidade é imediatamente dada na experiência presen-
te. Supomos que ela se estique inquebrável ao longo do tempo,
uma vez que o próprio processo pelo qual o agente racional as-
sume a responsabilidade pelo seu passado e futuro parece gra-
90
capítulo 3 - pessoas

var um vínculo indissolúvel de unidade entre eles. Talvez não


haja necessidade metafísica subjacente à idéia de uma ação res-
ponsável. Somos, como Strindberg expressou, “conglomerados
de um estágio anterior da civilização e um presente, sucatas de
livros e jornais, pedaços de humanidade, farrapos arrancados de
roupas de férias que se desintegraram e viraram trapos – exata-
mente como a alma é costurada” (Prefácio de Miss Julie). Nos-
sos projetos e resoluções não precisam ter o tipo de coerência
implícito na idéia de um “eu” duradouro. Também foi dito que
não há absurdo lógico na idéia de uma fragmentação tempo-
ral completa do “eu” ao longo do tempo,73 um prazo constante
do sujeito e seus motivos. Nesse caso, sugere-se, seria absurdo
responsabilizar meu eu presente por algo que este corpo, sob
algum governo anterior, tenha feito. (A analogia com a mudan-
ça de governos pode nos dar a melhor forma de compreender
a nossa situação.) Não obstante, existe um ideal de integridade
pessoal que nos obriga a garantir a continuidade entre passado,
presente e futuro. Sem essa integridade, a conversação moral a
que me referi fica comprometida, assim como nossa existência
pessoal. Em todas as nossas relações interpessoais, portanto,
nós nos obrigamos a um ideal de “ação integral”, que é para
ser algo mais do que uma mera unidade animal – algo santifica-
do dentro da, e gerado pela, perspectiva de primeira-pessoa do
agente. É essa idéia de individualidade que serve para concen-
trar nossas emoções mais “sinceras”, e que eu considerarei mais
adiante no Capítulo 5.
Esses pensamentos da primeira-pessoa podem, como já disse,
ser ilusões. Mas eles são (imitando Leibniz) ilusões “bem fun-
damentadas”, que só podemos expor como tais do ponto de
vista da terceira-pessoa, e nunca a partir da absorção inalienada
da perspectiva da primeira-pessoa, que é a condição natural do
agente racional. As pessoas são caracterizadas por um ponto
de vista subjetivo, e também pela responsabilidade individual.
Mas, desde que não saiam desse ponto de vista ou deixem de
responder espontaneamente à demanda de ser completamente
responsáveis por aquilo que fazem, elas não podem renunciar
à ilusão transcendental que as inspira. Elas se vêem como indi-

73 Ver as considerações feitas por Derek Parfit em Reasons and Persons, Oxford, 1984,
parte III.

91
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

víduos unos, puros, paraísos de possibilidades, localizados fora


dos limites da causalidade natural, capazes de agir livremente e
integralmente, de modo a serem responsáveis pela ação presente
em qualquer tempo futuro. Esta imagem pode não ter nenhum
fundamento metafísico. Mas é ressurgente em nossa consciên-
cia, e em nenhuma outra circunstância é mais dominante do que
nos arrebatamentos do desejo sexual.

92
CAPÍTULO 4
DESEJO

Pode parecer estranho dizer que um animal pode sentir im-


pulsos sexuais, e não ficar excitado sexualmente. Mas isso é
em grande parte porque vemos nos estados mentais dos ani-
mais aquelas disposições sociais complexas que geram as nossas
ações. Vemos a agressividade do touro como uma espécie de
irascibilidade, embora seja evidente que a raiva – a disposição
de cobrar a retribuição para uma injustiça – é uma emoção que
nenhum touro pode sentir. Nenhum touro possui o conceito
fundamental (o de justiça) sobre o qual a raiva é fundada. A
raiva pode ser sentida apenas por pessoas, de outras pessoas,
ou de coisas consideradas como pessoas. De modo semelhante,
podemos ver a excitação de um cão como uma espécie de luxú-
ria, ou o ritual de acasalamento de um pássaro como uma espé-
cie de namoro, mesmo que não haja nenhuma possibilidade de
atribuir a tais criaturas o equipamento mental que justificaria
uma descrição tão densa do seu comportamento. Para aqueles
filósofos – como Mary Midgley74 – que repetem que temos de
olhar para as semelhanças, eu digo que temos de olhar para as
diferenças. E o lugar onde essas diferenças são mais reveladoras
é na esfera da existência pessoal e interpessoal, onde os animais
inferiores não podem invadir. Mesmo a descrição dos animais
de pastoreio como “sociais”, na medida em que implica certa
concepção do “eu” e do “outro” através da qual as relações
são mediadas, é uma falsa designação de seu comportamento. É
óbvio que a organização de um clã de gorilas pareça social; mas
onde estão as leis e instituições, as adjudicações, a alienação de
direitos, privilégios e deveres que compõem a consciência social

74 Mary Midgley, Beast and Man, Londres, 1979.


93
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

do homem? Sem a racionalidade, tais coisas nunca poderiam


existir, e mesmo que um macaco pareça possuí-las, ele apenas
as está imitando. Da mesma forma, todas essas atitudes que
envolvem uma “retroalimentação” da atividade social na expe-
riência individual, que criam o nosso senso do “eu”, estão além
da competência do gorila – incluindo o desejo sexual.
Referi-me no último capítulo a um par de atributos que penso
estarem estreitamente relacionados, e são particulares às pesso-
as: a perspectiva da primeira-pessoa e a responsabilidade. Cada
um teve muitos nomes na história da filosofia, e cada nome
reflete uma ambição teórica diferente, uma maneira diferente,
mas geralmente igualmente ousada e tendenciosa, de deduzir a
partir da linguagem autorreferencial uma teoria metafísica do
agente humano. O ego cartesiano, a apercepção de Leibniz, a
“unidade transcendental da consciência” e o “eu transcenden-
tal” kantiano, o Fürsichsein hegeliano, e o sartreano “pour-soi”
– são todas maneiras diferentes de descrever e desenvolver o
fato de que eu posso atribuir aos meus estados mentais atuais
algum tipo de autoridade epistemológica sobre mim mesmo.
Uma conseqüência dessa autoridade – uma teoria que apre-
sentei no Capítulo 3 e no Apêndice 1 – é que podemos, em geral,
fazer a distinção entre ser e parecer. Sobre algumas coisas – apa-
rências – temos o privilégio epistemológico: elas são imunes a
certos tipos de erro. Sobre outras coisas – seres – não temos esse
privilégio. A distinção não existe dentro da esfera da consciên-
cia da primeira-pessoa. Meus estados mentais atuais são como
parecem (ou, se não forem, isso é algo que requer um tipo muito
especial de explicação, como a proposta por Freud – uma expli-
cação que preserve minha “imunidade contra o erro”). Também
faz parte da autoconsciência estar ciente da distinção genérica,
para reconhecer que, sempre que temos de descobrir a verdade
presente, a verdade não é “parte de nós mesmos”. Em cada pon-
to da minha existência, eu sou capaz de propor uma distinção
entre como as coisas me parecem e como elas são. Ao fazer esta
distinção, estou identificando dentro de mim uma perspectiva
sobre o mundo, e a estou identificando como o minha.
O mesmo acontece com você. Eu não posso considerá-lo uma
pessoa sem também atribuir-lhe tal perspectiva, e uma consciên-
cia dessa perspectiva como sua. Além disso, sua perspectiva tem

94
capítulo 4 - desejo

um papel crucial na mediação das nossas relações. É através


dela que eu me aproximo de você, esperando cooperar ajustan-
do como o mundo lhe parece: esse é o passo crucial na conces-
são de razão, e, como argumentei no Capítulo 3, é o elemento
que transforma as nossas respostas ao outro de reação animal a
compreensão interpessoal. Pois ele fornece a base para todas es-
sas concepções – como responsabilidade, livre-arbítrio, direito,
dever e valor – através das quais os seres humanos percebem e
agem um em relação ao outro.
Assim, as pessoas também se distinguem do resto da natu-
reza pelo fato de sua responsabilidade. Elas não só mudam o
mundo, como podem ser premiadas ou criticadas por fazê-lo.
Esta característica das pessoas está intimamente ligada à sua
racionalidade: com o fato de que sabem por que fazem as coi-
sas, e que não precisam de nada mais substancial do que uma
razão para serem dissuadidas ou persuadidas. Elas podem deci-
dir fazer as coisas, e essas coisas, que mostram “como elas são
decididas”, também são coisas presas a elas e para quem devem
responder no fórum da conversa moral que os seres racionais
criam espontaneamente entre si. (Assim, somos culpados não
só por nossas ações intencionais, mas pelas coisas que resultam
da nossa negligência, ou por qualquer outra coisa que mostre
um defeito de caráter que podemos, em algum momento, ser
convencidos a mudar.)
Há muitas razões, algumas das quais já descritas, para acre-
ditar que a perspectiva da primeira-pessoa e a responsabilidade
estejam sistematicamente ligadas. E há muitas interpretações
metafísicas que tentam identificá-las – geralmente através de al-
guma variante da idéia de Kant de que o “eu transcendental”
também é “transcendentalmente livre”. Tratarei dessas teorias
mais tarde, uma vez que elas tentam apreender e solidificar uma
sombra metafísica dominante. Essa sombra encontra-se em
toda a nossa perspectiva interior, e também atravessa o campo
do desejo sexual.

A perspectiva de primeira-pessoa e a excitação


Na excitação sexual, o outro me parece não apenas como
algo afetado por mim, mas como uma perspectiva sobre mim.
Eu sou algo para ele, e ele para mim, e esse pensamento é parte

95
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

da fundação do que eu sinto. Mas é preciso distinguir dois ca-


sos. Pode ser que alguma parte de mim, alguma qualidade mi-
nha, ou algum aspecto meu apareça em sua perspectiva. Ou
pode ser que eu apareça. Minha mão, meu braço, ou mesmo
todo o meu corpo podem aparecer-lhe de forma visível ou tátil,
e ainda assim eu não apareço para ele, porque ele não ligou esta
aparência a uma pessoa em particular – a um sujeito determina-
do, como ele mesmo. Suponha que você acorde ao lado de um
corpo estranho. Você o sente, vê sua forma, ouve sua respiração,
mas por um bom tempo não é ninguém em particular para você,
nem mesmo a pessoa a que esse corpo pertence. Pode começar
a exibir as mudanças físicas que indicam excitação; e ao mesmo
tempo você pode não saber quem está sendo excitado – você
não atribui esta excitação a nenhuma pessoa em particular. E
quando você vê este corpo como uma pessoa em particular
(você pode até se lembrar de que pessoa), há uma súbita e esma-
gadora mudança. Só então é que esta excitação tem significado
para você, pois só assim é que se torna possível responder a ele
como outra pessoa. Agora você está vendo a condição do corpo
como expressão de uma perspectiva particular, e você pode pro-
curar ser um objeto dentro dessa perspectiva, e o recipiente de
gestos que são expressivos de outro “eu”.
Na peça Bent de Martin Sherman, dois homens confinados
em um campo de concentração nazista estão carregando pedras,
em um ritual cansativo, sob o olhar dos guardas. Eles não podem
se tocar ou ser vistos se comunicando. Mas eles são ordenados
a prestar continência de tempos em tempos a algumas jardas de
distância. Um deles, olhando à sua frente, começa a descrever
para o outro um ato imaginário de amor entre eles, represen-
tando os abraços que daria – se pudesse – em seu companheiro,
e evocando a excitação mais apaixonada. Desta forma, de for-
ma patética, mas convincente, os dois prisioneiros consumam
seu desejo. A chave para sua emoção reside na capacidade de
representação. Cada homem, através de suas palavras, é capaz
de representar a si mesmo na consciência do outro, como uma
“consciência representada”, centrada na perspectiva do outro.
O desejo que eles experimentam não pode ser separado de sua
compreensão mútua, e cada um figura na perspectiva do outro
não apenas como um corpo, mas como a encarnação de outro
ponto de vista. Assim, excitação sexual e desejo sexual podem
96
capítulo 4 - desejo

existir e ser consumados, desde que haja a interação recíproca


adequada entre duas perspectivas encarnadas da primeira-pes-
soa. A encarnação é necessária, mas não o contato corporal.
Nem é o contato corporal contato suficiente. Suponha que dois
corpos deitados dormindo em contato passem por todas essas
transformações físicas que são característicos do “sonho mo-
lhado”: este não é caso de excitação nem de desejo. O que faria
um dos dois casos é o caráter do sonho, e o papel desempenha-
do dentro do sonho pela presença encarnada do outro. Claro,
não poderia haver desejo entre duas mentes desencarnadas: o
desejo requer pensamentos do corpo, e de si mesmo e do outro
como criaturas vivas e encarnadas. O desejo é completamente
saturado, por assim dizer, pela vida. Mas a vida não seria nada
para nós sem a perspectiva que nos leva a refletir sobre isso. E
o desejo sexual, que expressa vida, também nos obriga a refletir
sobre a vida, e tomar uma parte autoconsciente em seu drama.
É em parte por força da proeminência da perspectiva da
primeira-pessoa, como um componente no sujeito e no obje-
to da excitação, que o desejo adquire o seu caráter “compro-
metedor”. Eu não posso experimentar a excitação sem querer
aparecer de determinada forma na perspectiva do outro. E a
premonição da excitação está presente no primeiro impulso do
desejo. O olhar do desejo projeta a existência de uma pessoa na
consciência do outro. E este olhar é comprometedor, pois busca
uma resposta de um ser livre, que pode sustentá-lo indignado,
ou que pode devolver um olhar. E devolver o olhar é aquiescer.
O olhar pede a você que responda para mim. Eu sou inevitavel-
mente responsabilizado por isso, e embora possa me desculpar
por conta da força da minha paixão, a última coisa que eu que-
ro é que você leve a sério essa desculpa, que me veja subjugado
pelo desejo como por uma força estranha, ao invés de andar
em sua direção triunfante sobre uma torrente de sentimentos
que eu também controlo. Minha própria ambição em relação
a você me faz “assumir responsabilidade” pelo meu desejo, e a
torná-lo parte de mim. Então, vemos – o que também podemos
ver por todo o reino da emoção interpessoal – que a perspectiva
da primeira-pessoa entra na intencionalidade de um sentimento
fazendo o sujeito responsável pelo que sente. Tão logo sofro de
uma emoção interpessoal desse tipo, minhas responsabilidades
se envolvem. Não importa que a emoção não seja algo que eu
97
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

faço – o que importa é apenas que tenha o tipo de intenciona-


lidade interpessoal que me leva a “ter propósitos em relação a”
outrem.

Revelação involuntária
Nossa existência como seres responsáveis ​​está intimamente
ligada com nossa capacidade de formar intenções – com o que os
filósofos por vezes chamam de “vontade”. E pode-se pensar que
esse fato basta para explicar todo o caráter “comprometedor” e
envolvente do desejo sexual. O desejo se expressa por padrões
de atividade deliberada, pelos quais podemos ser premiados ou
criticados. No entanto, apesar de ser, naturalmente, uma parte
da verdade, seria errado pensar que a atividade voluntária tem
aqui o tipo de importância suprema que tem em outras esferas
da comunicação interpessoal, ou que o que não é voluntária é,
em certo sentido, apenas uma expressão secundária e derivada
do eu. Pelo contrário, só podemos entender o desejo sexual se re-
conhecermos a importância central do aspecto involuntário do
comportamento humano, tanto como uma expressão de nossos
estados mentais como um momento crucial no que chamo de
“encarnação” do sujeito.75 É uma conseqüência infeliz da tenta-
tiva filosófica para conectar o “eu” com a “vontade” – ou com
sua liberdade – que muitas vezes não se viu a conexão entre o eu
e o que não é voluntário, uma conexão que é, de fato, igualmen-
te constitutiva de nossa natureza. Assim, um filósofo – no que
talvez seja o restabelecimento recente mais profundo da tese da
centralidade da vontade – defendeu que a “ação corporal é por
excelência um fenômeno do ego”, pois é através da ação que
“um homem pode sentir que ele próprio, como uma entidade
distinta está... fazendo com que sua presença seja sentida no
mundo”. Dessa forma, um homem pode “legitimamente sentir
que está representado neste evento – diferente de seus suores e
rubores, e até mesmo de seu riso”. Pelo contrário, no entanto,
nunca um homem é tão representado à perspectiva de outro
como quando fica envergonhado ou ri. A expressão em um ros-

75 Sobre a teoria da “encarnação”, ver Maurice Merleau-Ponty, The Phenomenology of


Perception, tr. C. Smith, Londres, 1962, parte I. O livro de Merleau-Ponty tem um
capítulo sobre “O Corpo em seu Ser Sexual” [“The Body in its Sexual Being”], que é, no
entanto, surpreendentemente inútil em relação às questões que levanto.

98
capítulo 4 - desejo

to é amplamente determinada por movimentos involuntários; e


ainda assim é a imagem viva da perspectiva de que “se esgueira”
dele, sendo então a imagem verdadeira e dominante do “eu”.
Seus olhares, sorrisos e rubores são as marcas involuntárias de
uma percepção autoconsciente. Eles revelam a perspectiva do
outro, em parte porque ele não os controla totalmente, e nós o
desejamos através deles precisamente quando seus movimentos
são mais involuntários – como no fechamento dos olhos e na
abertura da boca no beijo apaixonado.
Aqui devemos notar um fato peculiar: há movimentos que
são essencialmente involuntários, mas estão reservados às pes-
soas – a criaturas com uma perspectiva autoconsciente. Sorrisos
e rubores são os dois exemplos mais proeminentes. Milton co-
loca o ponto finamente in Paraíso Perdido:
pois os sorrisos da Razão fluem,
Aos brutos negados, e do amor alimento.76

Esses movimentos fisionômicos devem sua rica intenciona-


lidade a este caráter involuntário, pois é isso o que sugere que
mostram o outro “como ele realmente é”. Conseqüentemente,
eles se tornam o pivô e o foco das nossas respostas interpesso-
ais, e não menos do desejo sexual. O sorriso voluntário não é
um sorriso em absoluto, mas uma espécie de careta que, embora
possa ter suas próprias espécies de sinceridade – como no sorri-
so da realeza, que funciona como um tipo de serviço pago à boa
vontade – não é estimado como uma expressão da alma. Pelo
contrário, é percebido como uma máscara, que oculta o “ser
real” da pessoa que o usa. O sorriso deve ser entendido como
uma resposta a outra pessoa, a um pensamento ou percepção
da sua presença, e tem sua própria intencionalidade. Sorrir é
sorrir para alguém ou alguma coisa, e, portanto, quando vemos
alguém sorrindo na rua pensamos que ele está “sorrindo para
si mesmo”, o que significa que existe algum objeto escondido
em seu pensamento e sentimento presentes. O sorriso de amor é
uma espécie de reconhecimento e aceitação íntimos da presença
do outro – um reconhecimento involuntário de que sua existên-
cia lhe dá prazer.

76 For smiles from Reason flow / To brute denied, and are of love the food – NT.

99
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

O sorriso da amada não é de carne, mas uma espécie de esta-


se no movimento da carne. É um paradigma da “encarnação”:
do outro feito carne, e transformando, assim, a carne de que é
feito. Dessa forma, o sorriso de Beatriz transmite sua realidade
espiritual; Dante deve se fortalecer para suportá-lo, pois olhar
para ele é olhar para o sol (Paraíso, XXIII, 47-8):
tu já viste tantas coisas, que forte
te tornaste para meu sorriso suportar.77

É o sorriso de Beatriz que chama o poeta de volta a seu pro-


pósito celestial, e quando Beatriz o deixa com um sorriso, ela
dá lugar a Maria, que aparece num mesmo sorriso duradouro
(Paraíso, XXXI, 92, e 133-5). O simbolismo de Dante não é
forçado; pelo contrário, ele apreende o local exato do sorriso na
percepção de uma pessoa amada.
Um elemento ainda mais interessante (embora cada vez mais
raro) no drama sexual é o rubor. Isso também está fora do al-
cance da mentalidade animal. Charles Darwin escreveu78 que “o
rubor é a mais peculiar e mais humana de todas as expressões.
Os macacos ficam vermelhos de paixão, mas exigir-se-ia uma
quantidade esmagadora de evidências para nos fazer acreditar
que qualquer animal possa corar”. Por que esmagadora? A res-
posta é óbvia: não há evidência que se refira apenas à mudança
do semblante do animal que seja suficiente. A evidência teria que
nos persuadir a rever nossa descrição da mentalidade do animal,
de modo a abrir espaço para embaraço, vergonha, inocência,
culpa e – é claro – desejo sexual. Em outras palavras, ela teria
que ser suficiente para provar o animal é uma pessoa. Daí a ve-
racidade da perspicaz observação de Christopher Ricks de que:
é [a] calma e calmante falta de vergonha nos animais que os torna
uma figura tão freqüente e agradável em pinturas de nus, onde
contemplam a nudez bem-humorados nua ou olham para qualquer
outro lugar; em ambos os casos sem o menor constrangimento,
tornando mais fácil e certo para nós olhar para o nu e para eles com
a mesma equanimidade.79

77 Tu hai vedute cose, che possente / se’ fatto a sostener lo riso mio – NT.
78 Charles Darwin, The Expression of the Emotions in Man and Animals, Londres, 1872, p.
310.
79 Christopher Ricks, Keats and Embarrassment, Oxford, 1976, p. 50.

100
capítulo 4 - desejo

O rubor é uma resposta intimamente ligada com o nosso


senso de como aparecemos na perspectiva do outro. Portanto,
não é necessário que o sujeito seja observado por outro: apenas
que ele próprio acredite ser avaliado e julgado por outro. O
ponto é bem expressado por Mandeville (A Fábula das Abelhas,
Observação (C)):
deixe-os falar tantas indecências quanto quiserem no quarto ao lado
dessa virtuosa jovem, onde ficará certa de não ser descoberta, e ela
vai ouvir, até mesmo atentamente, sem corar em absoluto, porque ela,
então, não se enxerga como alguém envolvido... mas, se na mesma
circunstância, ela ouvir algo sobre si mesma que pareça desgraçá-
la, ou qualquer outra menção, de que seja secretamente culpada,
aposto de dez para um que ela vai se envergonhar e corar, mesmo
sem ninguém por perto; porque ela tem o que temer, de que ela seja,
ou, se tudo viesse à tona, fosse vista como alguém desprezível.

Precisamente porque envolve tais pensamentos da perspecti-


va do outro sobre mim, meu rubor serve como um índice crucial
de mim mesmo. É uma espécie de reconhecimento involuntário
de minha responsabilidade diante de você pelo que sou e sinto.
O pensamento do ruborizado é: “Eu, como um ser responsável,
estou representado em sua perspectiva”. É por esta razão que
os rubores são índices tão importantes não só de culpa, mas
também de inocência:
Como coraria, assim, sendo pega a brincar
Em plena inocência de pensar.
[Keats, “Eu estava na ponta-dos-pés”]80

E no rubor de modéstia, o sujeito mostra-se responsável por


sua própria inclinação sexual, tornando sua expressão, por as-
sim dizer, uma questão de política, uma negociação com o ou-
tro, e não uma questão de instinto ou liberação.
Christopher Ricks argumenta, em outro contexto, que “não
é só a associação óbvia do corar com a atração sexual ou a
fisicalidade da sensação, mas também sua estranha relação ao
involuntário que faz o rubor tão importante para a arte eróti-
ca... pois tanto o amor quanto o desejo têm uma estranha re-

80 How she would start, and blush, thus to be caught / Playing in all her innocence of thought
[Keats, “I Stood Tip-toe”] – NT.

101
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

lação com o involuntário”.81 Ricks tocou em algo que nos diz


respeito com frequência no que se segue – o papel crucial da
mudança involuntária como expressão e também como foco
do desejo. Essa mudança deve sua natureza de condutora do
desejo aos pensamentos do “eu” em que se funda. Um rubor é
atraente porque serve para “encarnar” a perspectiva do outro,
e ao mesmo tempo para exibir essa perspectiva como algo es-
sencialmente sensível para mim. O rubor de Maria ao encontrar
João, sendo involuntário, o impressiona pela sensação de que
ele o convocou – que foi, em certo sentido, causado por ele,
assim como causa o sorriso dela. Seu rubor é um fragmento de
sua perspectiva de primeira-pessoa, invocado de quaisquer regi-
ões cartesianas que possa por ventura habitar, e tornado visível
na superfície de seu rosto. Ao corar e sorrir, o outro é revelado
na vida de seu corpo. Em nossa experiência destas coisas, nossa
noção de unidade animal do outro combina com nossa noção
de sua unidade como uma pessoa, e nós percebemos essas duas
unidades como um todo indissociável. Essa experiência, eu afir-
mo, é o fundamento da nossa forma de vida.
A ereção já foi chamada de “um rubor do pênis”.82 De certa
maneira a descrição é inepta – pois o significado dos rubores
depende inteiramente do fato deles se alastrarem no rosto. Num
outro sentido, no entanto, a descrição é apropriada. Ela nos
lembra que as transformações dos órgãos sexuais são excitantes
apenas na medida em que são entendidas como involuntárias.
Quando Santo Agostinho se queixou de que o pênis é o úni-
co órgão do corpo que parece ter uma vontade própria,83 ele
estava, em parte, referindo-se à natureza involuntária da ere-
ção. Muitos dos que sofrem de impotência foram submetidos
à “prótese peniana”, que lhes permite gerar uma ereção pela
operação de uma discreta bomba.84 (Talvez se deva falar aqui
de uma ereção simulada, como se fala de um sorriso simulado.)
Nesse caso, uma ereção não é mais uma resposta sem mediação

81 Ibid., p. 54.
82 Ver Havelock Ellis, Studies in the Psychology of Sex, vol. I: On Modesty, 3ª ed., Filadélfia,
1923, p. 23.
83 Santo Agostinho, Cidade de Deus, livro XIV, cap. 23.
84 A operação e suas consequências emocionais são discutidas por Thomas Szasz, Sex:
Facts, Frauds and Follies, Londres, 1981, p. 84.

102
capítulo 4 - desejo

em relação ao outro, mas um ato deliberado. Um homem ergue


seu próprio pênis, e surge imediatamente a questão de perdas e
ganhos. Vale a pena? Será que vou apreciar? Será que ela vai?
Mais importante; existe um risco de ela descobrir o meu se-
gredo? Pois uma coisa é certa: este processo artificial deve ser
escondido – a minha ereção provoca a excitação dela somente
enquanto ela acreditar que ela seja sua causa, e não eu.
Tais exemplos, apesar de ilustrarem a importância geral das
transformações involuntários nas operações do desejo, desviam
nossa atenção das transformações mais importantes, que ocor-
rem no rosto. Embora os olhares sejam normalmente voluntá-
rios, e são, em todo caso, ações – realmente “ações básicas”,
no sentido de Danto85 – também participam desse padrão de
intercâmbio involuntário pelo qual uma pessoa é “revelada” em
seu corpo por quem a observa. Virar meus olhos para você é
de fato um ato voluntário; mas o que eu, em seguida, recebo
de você não é causado por mim. Como o símbolo de toda a
percepção, o olho significa aquela “transparência epistêmica”,
que permite que a pessoa humana seja revelada à outra em seu
corpo – “olhar para fora” de seu corpo – e, no ato da revelação,
invoque a perspectiva do outro sob a forma de rubores, sor-
risos ou um olhar recíproco. Michelangelo pede à sua amada
que faça de seu corpo um só olho, de modo que ele possa ser
totalmente transparente para si mesmo, enquanto se regozija
completamente nela:
faze de meu corpo todo um único olho
E não confia na parte de mim que de ti não gosta.86
[Soneto XXIII]

Esse anseio por transparência epistêmica envolve um dese-


jo não de tornar todas as expressões voluntárias, mas de fazer
com que os elementos voluntários e involuntários se misturem
intimamente na superfície percebida do corpo. A união de pers-
pectivas que é iniciada quando um olhar é respondido com um
rubor ou um sorriso encontra realização final em olhares com-

85 Ver A. Danto, “Ações Básicas”, em A. R. White (ed.), The Philosophy of Action, Oxford,
1968.
86 Fa del mio corpo tutto un occhio solo / Ne fia poi parte in me che non ti goda – NT.

103
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

pletamente recíprocos: a profunda atenção do “eu vendo você


me vendo”, em que nenhum de nós pode se dizer agente ou
paciente do que acontece:
Nossos olhares torcidos, amarrando
Nossos olhos numa dupla linha;
E entrelaçar nossas mãos, era ainda
O único meio para nos tornarmos um,
E as imagens buscadas em nossos olhos
Eram nossa única propagação.87

Essas linhas de Donne transmitem um dos pensamentos fun-


damentais do desejo que, nessa presente experiência do seu cor-
po, eu de alguma forma apreendi sua perspectiva e a uni com a
minha. As imagens que recebo em meus olhos, recebo dos seus,
e aquelas dos seus olhos vêm, igualmente, dos meus. Se há um
propósito coerente aqui – um que seja capaz de cumprimento –
é uma questão a que ainda voltarei.

Encarnação
Parece, então, que certas mudanças involuntárias no corpo
de outra pessoa são elementos importantes na geração e dire-
cionamento do desejo. Descrevi uma característica crucial da
intencionalidade interpessoal: a disposição de encontrar as
marcas da perspectiva do outro exibidas na superfície de seu
corpo. Um fenomenologista pode se referir a isso como o pen-
samento da “encarnação” (Sartre) ou “incorporação” do outro;
um hegeliano poderia descrevê-la como a percepção do “corpo
como espírito” – o corpo transparente, por assim dizer, à inter-
pretação mental. Tais descrições não acrescentam uma teoria
genuína para o que eu indiquei. Na verdade, se as observações
do Capítulo 1 estão certas, não pode haver nenhuma teoria des-
ses dados que não corra o risco de aboli-las – o risco de subs-

87 Our eye-beams twisted, and did thred


Our eyes, upon one double string;
So to’entergraft our hands, as yet
Was all the meanes to make us one,
And pictures in our eyes to get
Was all our propagation – NT.

104
capítulo 4 - desejo

tituir os conceitos através dos quais experimentamos o mundo


pelas idéias mais robustas que os irão explicar. A dificuldade
que nos aparece agora é a de “ficar na superfície”, por assim di-
zer: dar uma descrição do desejo sexual que seja suficientemen-
te rasa para captar o que é desejado pelo sujeito. Para alcan-
çar este resultado, será necessário nos abstermos da teoria (de
qualquer tentativa de explicar a causalidade do que é descrito)
pelo maior tempo possível. No Capítulo 7 vou enfrentar certas
questões que já podem ter ocorrido ao leitor, a fim de mostrar
os erros que surgem neste assunto quando o método científico é
invocado prematuramente.
A encarnação humana não é uma característica necessária
das pessoas – pois há pessoas sem corpos humanos e sem identi-
dade corporal de qualquer tipo, tais como empresas comerciais
identificáveis apenas
​​ por seus documentos. (Ironicamente, essas
pessoas incorpóreas são chamadas de “corporações” pela lei.)
No entanto, se há pessoas em absoluto, é necessário que haja
pessoas encarnadas. Pois como podemos identificar a ação e
a responsabilidade que atribuem a empresas se não pudermos
identificar as ações físicas das pessoas encarnadas que as repre-
sentam? Além disso, a encarnação é uma propriedade essencial
de tudo o que a possui – uma propriedade que uma pessoa não
pode deixar de ter sem também deixar de ser. Na verdade, é
possível argumentar que, do ponto de vista material (científico),
uma pessoa é idêntica ao seu corpo.88 Todas essas características
que constituem sua existência pessoal – ação, pensamento, fala
e resposta – são redescritas pelos cientistas como estados, movi-
mentos e mudanças no corpo e no cérebro. Qualquer metafísica
tolerável da pessoa humana deve levar a sério a sugestão de que,
por todos os nossos padrões normais de identidade, a “substân-
cia” a partir da qual pensamento e ação humanos emanam e a
que devem ser atribuídos é o corpo humano. Do ponto de vista
da compreensão material – a compreensão da estrutura objetiva
e da causalidade dos eventos – o eu e o corpo são uma e mesma
coisa.

88 Essa tese, uma sutil variação do que Aristóteles expôs em uma de suas mais grandiosas
passagens (De Anima, 403 a-b), foi defendida de inúmeras maneiras por filósofos
recentes. Ver especialmente Bernard Williams, “Are Persons Bodies?”, em Problems of
the Self, Cambridge, 1973.

105
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Do ponto de vista da compreensão intencional, no entan-


to, esta identidade parece fugir de nosso alcance. Identifico-me
constantemente sem referência a meu corpo, e de maneiras que
parecem excluí-lo. Além disso, eu sempre reajo a você como se
você não fosse seu corpo, mas em certo sentido, como se você
operasse através de seu corpo, que é um instrumento de seu
sofrimento e vontade. Surge, em nossas transações mútuas, a
impressão inevitável de que cada um de nós tem um centro de
existência que não é o corpo, mas o eu. Ao mesmo tempo, você
é cognoscível a mim somente através de seu corpo e seus efeitos,
e quando eu me dirijo a você, eu me dirijo diretamente e sem
hesitação a ele.
Em consequência, nossa experiência de encarnação é inci-
pientemente dualista. Em um estudo valioso, Helmuth Plessner
defende que minha relação com meu corpo é ao mesmo tempo
instrumental e constitutiva: Eu tenho o meu corpo, mas eu tam-
bém sou o meu corpo.89 Como resultado, eu vivo em um estado
de tensão no que diz respeito à minha existência física, sendo ao
mesmo tempo total e completamente ligado a ela.
A encarnação é um conceito de compreensão intencional; ex-
pressa uma característica do mundo humano que imediatamen-
te reconhecemos e respondemos, e todas as nossas referências
um do outro são também, direta ou indiretamente, referências
à encarnação. É duvidoso, porém, que qualquer idéia equiva-
lente possa figurar na compreensão material de nossa condição.
Uma ciência do homem referir-se-ia ao corpo humano como um
organismo biológico particular. E muitas vezes precisamos ver
nossos corpos dessa forma – quando feridos, digamos, quando
especulamos sobre dieta e exercício, ou como parte de nossa
contemplação da morte. Mas, ao fazê-lo, nos tornamos aliena-
dos de nossa carne, que deixa de aparecer para nós como algo
saturado com uma perspectiva de primeira-pessoa. Há uma ten-
são entre a compreensão científica do corpo humano e o enten-
dimento intencional de encarnação, que endossa a tensão ime-
diata contida na própria experiência da encarnação. Sentimos
que estamos “em casa” em nossos corpos, mas apenas porque

89 Helmuth Plessner, Lachen und Weinen, 3ª ed., Bern, 1961; tr. James Spencer Churchill
e Marjorie Grene, Laughing and Crying: A Study of the Limits of Human Behaviour,
Evanston, 1970.

106
capítulo 4 - desejo

temos a contínua suspeita de que poderíamos estar em algum


outro lugar.
A idéia de encarnação nos ajuda a entender por que trans-
formações involuntárias – “expressões” – têm uma função tão
importante na mediação de nossas atitudes interpessoais. Sorrir,
corar, rir e chorar; é precisamente a minha perda de controle
sobre o meu corpo, e seu controle sobre mim, que criam a expe-
riência imediata de uma pessoa encarnada. O corpo cessa, nes-
ses momentos, de ser um instrumento, e reafirma seus direitos
naturais como pessoa. Em tais expressões, o rosto não funciona
apenas como uma parte do corpo, mas como a pessoa inteira: o
eu se espalha em toda a sua superfície, e é “feito carne”.
Schopenhauer – cujo ponto de vista sobre estas questões é
um bom exemplo do caos que se segue da tentativa prematura
de explicá-los – diz que o rosto é o menos importante de todos
os índices de beleza, uma vez que é o menos relevante para a
função reprodutiva que subjaz e explica o desejo.90 Isso é quase
o inverso da verdade. Apesar de uma cara bonita dificilmente
superar um corpo deformado ou mutilado no despertar do inte-
resse sexual, é bem sabido que um rosto bonito pode compen-
sar muita feiúra corporal. (Considere a aleijada femme fatale,
Signora Neroni, brilhantemente representada por Trollope em
As Torres de Barchester, ou os olhos da cobra Serpentina em
O Vaso de Ouro, de Hoffman.) Um corpo bonito, no entanto,
sempre vai ser tornado repulsivo por uma cara feia, e certa-
mente nunca compensará isso. É no rosto que a nossa vida é
revelada – e revelada precisamente no que é mais involuntário.
Além disso, sendo a beleza facial em grande parte uma questão
de expressão, sua atratividade é a atratividade da própria vida.
Ao referir-se à “vontade”, Santo Agostinho também estava
chamando atenção a uma distinção real entre as mudanças in-
voluntárias que desempenham um papel na expressão da pers-
pectiva de primeira-pessoa (e, portanto, da coisa que tem von-
tade) e aquelas que não o fazem. A ereção do pênis (como o
relaxamento da vagina) é do último tipo: só pode ser entendida
no contexto de outras transformações, e é ela própria opaca a

90 A. Schopenhauer, The World as Will and Representation, tr. E. J. F. Payne, Indian Hills,
Colorado, 1958, vol. II, p. 543.

107
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

interpretação interpessoal. Suas ações estão fora de nossa aten-


ção, até que se liguem a algum drama interpessoal. (Por isso,
apesar de eu poder me apaixonar ao ver o retrato do outro, eu
não poderia ter a mesma reação a uma fotografia de seus órgãos
sexuais.) Uma excitação focada nos órgãos sexuais, sejam de
homem ou de mulher, que busca contornar o interesse prelimi-
nar no rosto, mãos, voz e postura, é pervertida. Ela pretende
focar o ato culminante de gratificação, enquanto anula nesse
ato sua distintiva intencionalidade – de sua direção para a in-
corporação da perspectiva do outro.
A razão tolera o mistério e não procura escondê-lo ou aboli-lo,
mas viver em paz com ele em uma relação de influência mútua.
Pois a razão reconhece, no final, que os mistérios surgem por
causa de sua própria criação assídua das condições em que eles
se desenvolvem, e que só pode aboli-los arriscando sua própria
capacidade de sobrevivência. (Assim, nas suas formas perverti-
das – racionalismo e Iluminismo – a razão luta contra o mistério,
preparando as condições para o seu próprio eclipse.) A encar-
nação é um mistério para nós precisamente porque, como seres
racionais, entendemos a nós mesmos a partir de um ponto de
vista da primeira-pessoa. Por consequência, a razão se estende
em uma tentativa de atenuar o estranho fato da existência corpo-
ral e conceder a ela a aparência de um papel social. Nós brinca-
mos com nossa encarnação; desenvolvemos normas sociais que
a expandem e limitam. Nós nos vestimos, disciplinamos o nosso
comportamento de acordo com uma idéia de boas maneiras, e
constantemente refinamos as ásperas demandas do corpo, confi-
nando-as a um reino secreto de imperativos sombrios e inescru-
táveis. Um desses estratagemas da razão, em seu contato próximo
com o corpo, é a transformação do sexo em gênero; ao discutir
este estratagema no Capítulo 9, tentarei mostrar como o mistério
da encarnação foi tanto acomodado quanto neutralizado no ato
sexual, e o corpo transformado, em nosso pensar, de uma prisão
para uma casa. Tal transformação do corpo é o Heimkehr do eu,
e o objetivo final da moralidade sexual.

Pessoas desencarnadas
Nem todas as nossas atitudes interpessoais exigem ou focam
na encarnação de seu objeto – um fato que precisa ser reconhe-
108
capítulo 4 - desejo

cido, se quisermos entender o papel especial da encarnação no


desejo. Nós somos animais políticos, e vivemos em circunstân-
cias de atividade coletiva, cercados e apoiados por “pessoas ar-
tificiais” que também criamos. Eu faço contratos com empresas,
tenho direitos contra eles e deveres para com eles. Eu tomo o
partido de um clube contra outro. Eu reconheço de mil manei-
ras a atividade corporativa das instituições e os direitos e deve-
res que são engendrados por ela. E esses direitos e deveres não
são meramente jurídicos. Eu posso estar sob a obrigação moral
de uma empresa que cuidou dos meus interesses, assim como
a empresa pode estar sob uma obrigação moral em relação a
mim. Claro, a identidade moral da empresa só é possível porque
os seres humanos individuais tomam decisões em seu nome e,
assim, assumem a responsabilidade por suas ações. Mas essas
decisões não são intrusões humanas arbitrárias na vida da em-
presa. Em vez disso, elas são produtos naturais – até mesmo
inevitáveis – produtos de sua própria energia e poder intrínse-
cos. Não tomar a decisão de dar um presente de despedida a
um velho e leal empregado é uma omissão pela qual a empresa
é justamente responsabilizada. A escolha moral está diante da
empresa, que, através de suas ações, tornou-se responsável pelo
destino de seus funcionários.
Eu posso estender para pessoas jurídicas muitas das atitudes
de indivíduos humanos. Eu posso amar, odiar, admirar, estimar,
desprezar e ressentir de qualquer tipo de entidade, incluindo
firmas, clubes, estados e nações. Também não precisa ser uma
“pessoa jurídica” em sentido legal. É um princípio do direito
inglês, por exemplo, que as associações sem personalidade jurí-
dica não são legalmente pessoas; no entanto, parecem ter obri-
gações e direitos, por mais difícil que seja julgar esses direitos e
obrigações.91
É um ponto fraco humano bem conhecido que entidades co-
letivas possam se tornar objetos de atitudes interpessoais, mes-
mo que não tenham qualquer ação corporativa, nem qualquer
tipo de personalidade. Assim, raças e classes podem ser objetos
de amor e de ódio, mesmo que não realizem ações intencionais,

91 Ver Salmond on Jurisprudence, 12 ed., ed. P. J. Fitzgerald, Londres, 1966, cap. 10, seção
esp. 73.

109
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

não tenham deveres, responsabilidades e direitos coletivos; mes-


mo que não sejam agentes. Nossa disposição de estender nossas
respostas interpessoais ultrapassa aqui sua competência. Onde
não há nenhuma ação, não há nenhuma pessoa – nem mesmo
uma pessoa jurídica. É o primeiro requisito de existência polí-
tica que as pessoas devam se submeter a um reinado de justiça
imparcial, em que direitos e obrigações são atribuídos apenas
aos agentes, que podem ser responsabilizados por seus atos. A
transição da vida pré-política da tribo à vida aberta e pública
da polis é a transição de idéias confusas de culpa a idéias claras
de responsabilidade – a transição, por exemplo, do juramento
de morte para o julgamento por assassinato. Há muito a ser
dito sobre essa transição – mais até do que Ésquilo expressa na
Oresteia. Mas terei de contar com uma compreensão intuitiva.
O objetivo da política é a construção de um fórum de ação res-
ponsável no terreno fervilhante do amor e ódio aglutinantes. O
século XX viu o colapso parcial desse objetivo, com partidos
tentando ganhar ou manter o seu poder através de ódio racial,
ódio de classe e amor ou ódio por idéias abstratas. Essa condi-
ção patológica contém, no entanto, uma clara indicação da nor-
malidade que ela trai: a normalidade de um Estado fundado na
ação e responsabilidade coletivas. Só tal Estado é uma pessoa
verdadeira, apto a conceder e reconhecer os direitos dos outros,
e a reivindicar a obrigação de seus cidadãos.
As pessoas coletivas podem alcançar uma espécie de “encar-
nação”. Um Estado puramente jurídico pode ter um aspecto
mais cordial, mais atraente, mais amável quando incorporado
em um povo que está vinculado por laços não formulados: la-
ços de raça, língua, cultura e história, laços que são, na nossa
percepção, feitos da carne. O Estado-nação é realmente a pessoa
artificial mais próxima, tanto na sua ação quanto em sua quase
encarnação, à pessoa humana individual, e não é surpreendente
que seja amado e odiado tão freqüentemente. No entanto, é
claro que a “encarnação” aqui alcançada não é a encarnação da
pessoa humana, mesmo que seja esta última sua principal fonte
de apelo. De um modo geral, nossos sentimentos em relação a
pessoas coletivas não exigem uma encarnação individualizada.
Por isso, seria absurdo sentir desejo sexual por uma empresa,
um clube, um escritório, um Estado ou uma nação. Embora

110
capítulo 4 - desejo

todas essas coisas possam ser amadas, nenhuma pode ser dese-
jada, pela simples razão de que nenhuma delas têm um corpo
humano que seja exclusivamente seu.
Na opinião de muitos, há também pessoas desencarnadas
que são indivíduos verdadeiros. Deus é o exemplo mais impor-
tante. Os cristãos acreditam que somente um Deus encarnado
pode inspirar o amor sincero e natural que seja a fonte da paz
terrena. No entanto, o amor dos muçulmanos por seu Deus de-
sencarnado é de um fervor incomparável. Dizem que o fervor
dirigido a Deus é, neste caso, menor do que o fervor contra seus
inimigos, e que é apenas no sufismo – que se dirige a Deus com
tanta ternura que parece um reconhecimento secreto de Sua en-
carnação – que o calor do verdadeiro amor humano entra na te-
ologia do Islã. Mas são especulações; na superfície, pelo menos,
Deus pode ser amado não apesar de, mas também por causa de,
sua desencarnação, e não apenas com um amor intellectualis. E,
se nós estendermos nossa imaginação para o reino dos diabos,
espíritos, anjos e gênios, reconheceremos de imediato que cada
atitude pessoal, com uma ou duas exceções, foram e continuam
a ser dirigidas a pessoas desencarnadas. Uma exceção impor-
tante, no entanto, é o desejo.
As pessoas nos interessam principalmente como agentes, e
é à sua ação que normalmente respondemos. Mas vemos que
esta ação emana não só de corpos humanos, mas também de
empresas, de instituições, e (estamos aptos a acreditar) de di-
vindades e poderes ocultos. Se não houvesse a encarnação hu-
mana, não haveria nenhum problema especial da identidade
pessoal. Trataríamos as pessoas como fazemos com outras fon-
tes duradouras de mudança, e determinaríamos sua identidade
de acordo com a sua continuidade. (Esta é a conclusão a que
chegou Derek Parfit, que poderia ser reprovado precisamente
por ignorar a realidade intencional de encarnação.92) No de-
sejo, no entanto, eu quero encontrar uma unidade entre seu
corpo e sua identidade pessoal, e manter em seu corpo a alma
que fala e olha a partir dele.
Embora as pessoas sejam essencialmente encarnadas para nós,
e embora nós sempre respondamos a elas enquanto encarnadas,

92 Ver Derek Parfit, Reasons and Persons, Oxford, 1983.

111
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

é apenas ocasionalmente que sua encarnação é em si o objeto


de nosso interesse, assim como é apenas ocasionalmente que
me interesso pelos edifícios da minha universidade, ao invés de
seu procedimento institucional. É só no desejo, em certas for-
mas carinhosas de amor e no ódio carinhoso do sadismo, que
você deve ser, para mim, plenamente revelado na carne que lhe
abriga.

A natureza pessoal do objeto de desejo


Ao nos referirmos à encarnação como o foco do desejo, iden-
tificamos uma importante característica distintiva – embora seja
compartilhada com outros estados de espírito. Para distinguir
o desejo desses outros estados, é necessário dizer mais sobre o
seu objetivo: o que se quer da pessoa encarnada no desejo? O
que, para colocar de forma técnica, é a intencionalidade do de-
sejo sexual? Uma imagem simples, comum a Freud, aos autores
do Relatório Kinsey e a outros volumes de um absurdo que já
esteve na moda, representa o desejo sexual da seguinte maneira.
A excitação sexual é um fenômeno localizado, um inchaço das
glândulas. Esta alteração física permite estímulo prazeroso e o
eventual clímax (orgasmo). Estes são, de acordo com a imagem,
os fenômenos radicais da sexualidade humana, e os principais
fenômenos que qualquer investigação científica deve examinar
e explicar. O mais simplório dos proponentes da imagem (por
exemplo, os autores do Kinsey)93 vê o orgasmo como algo pa-
recido com o objetivo do desejo, e a presença da outra pessoa
como a ocasião. A imagem pode, então, tornar-se completa da
seguinte forma: uma pessoa encontra outra. Isso provoca a ex-
citação, que leva ao desejo de estímulo da glândula, o que leva
à busca do outro, e ao agarramento que coloca o sujeito na
estrada para o orgasmo. Acontece que é a visão de outro ser hu-
mano que coloca este processo em movimento, geralmente um
ser humano do sexo oposto. Mas poderia ter sido um do mesmo
sexo; ou um cão, ou uma lagarta, ou uma extensão de água. A

93 The Kinsey Report (Alfred C. Kinsey, W. B. Pomery, C. E. Martin et al., Sexual Behaviour
in the Human Male, Londres e Filadélfia, 1949; Sexual Behaviour in the Human Female,
Londres e Filadélfia, 1953); mas essa visão é no mínima tão antiga quanto Freud: veja a
citação de Freud no prefácio.

112
capítulo 4 - desejo

vantagem de canalizar a resposta para os seres humanos é que


às vezes você pode convencê-los a cooperar.
Deve ser evidente, à luz de tudo o que foi dito no segundo
capítulo, que tal ponto de vista é inaceitável. Como Nagel e
Sartre defenderam, a tentativa de assimilar o desejo sexual ao
apetite ignora o componente interpessoal das respostas sexuais
humanas.94 Além disso, não é simplesmente que o objeto do
desejo – sobre este ponto de vista – não seja mais uma pessoa. É
também que a pessoa em particular só entra acidentalmente na
estrutura intencional do desejo que ocasiona. Nesse caso, ela foi
a responsável, mas poderia ter sido outra pessoa. Esta é uma das
razões porque é tão fácil de extrair dessa imagem uma idéia de
gosto sexual: alguns são “excitados” por mulheres, outros por
homens, outros por crianças, outros por porcos, cartuchos, cai-
xas de sorvete ou beterrabas. A outra pessoa pode, então, nem
ser levada em consideração. Quando o desejo sexual é repre-
sentado como “desejo de um orgasmo” ou “desejo de sensações
agradáveis nas
​​ glândulas sexuais”, o papel da outra pessoa tor-
na-se totalmente misterioso, assim como, virtualmente, todos os
complexos estratagemas da união sexual humana.
Se prestarmos atenção por um momento na linguagem co-
mum (embora seja um guia vacilante), não podemos deixar de
perceber um fenômeno singular: o objeto do desejo sexual é
identificado como a própria pessoa. O que você quer não é esta
ou aquela atividade, sensação ou liberação, abstratamente des-
critos; você quer Alberto, ou Maria, ou Titânia, ou Bottom. Há,
creio eu, uma verdade transmitida por esta expressão comum
que a análise filosófica deve reconhecer e defender. A comédia
do desejo de Titânia depende do fato de que Bottom foi trans-
formado em algo inadequado, de modo que seu desejo por ele a
leva a dar atenção ao objeto físico mais incongruente – estando,
ao mesmo tempo, bastante inconsciente do traje ridículo de seu
amante:

94 T. Nagel, “Sexual Perversion” em Mortal Questions, Cambridge, 1979; Nagel critica o


que ele chama de “visão radical adquirida” da experiência sexual – aproximadamente
a visão que expus no parágrafo anterior – enquanto Sartre (Being and Nothingness, tr.
Hazel E. Barnes, Nova York, 1956) critica de forma mais genérica a assimilação do
desejo sexual no apetite.

113
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Senta-te aqui, amado, neste leito florido,


Enquanto tento tuas amáveis faces corar,
E de rosas almíscar tua sedosa cabeça enfeitar,
E beijar tuas belas e grandes orelhas, querido.95

Titânia não ficou “excitada” por um membro da espécie burro,


mas despertou um desejo por Bottom, que é, no caso, um burro.
Pode-se dizer que este hábito de identificar a outra pessoa
como objeto do desejo não é mais que uma maneira de falar,
uma maneira conveniente de resumir as estratégias necessá-
rias para o cumprimento do objetivo de gratificação sexual.
Na verdade, porém, está muito longe disso. Isto é confirmado
por várias observações. Por exemplo, é muito difícil expressar
o desejo sexual como uma “atitude proposicional” (um “querer
algo”) sem deturpá-lo seriamente. Normalmente, qualquer fra-
se da forma “A quer B” pode ser representada como “A deseja
p” onde ‘p’ descreve uma mudança sofrida por B. “João quer o
copo de vinho” é equivalente a algo como: “João quer beber o
copo de vinho.” Esta tradução é muito difícil de fazer no caso
do desejo sexual. Enquanto há ocasiões em que se poderia de-
sejar traduzir “João quer Maria” como “João quer fazer amor
com Maria”, existem outros casos em que isso está longe de
ser óbvio. Maria poderia objetar sincera e apaixonadamente a
essa tradução da proposição de que Maria quer João. Há duas
razões para isso. Em primeiro lugar, o desejo sexual parece mais
com um vetor que ganha ímpeto do que com um projeto exato.
O sujeito pode estar extremamente confuso, a princípio, sobre
o que ele quer, e é aos poucos e através de um processo de des-
coberta que também é uma autodescoberta que seu desejo foca
em um objetivo específico. (Cf. Daphnis e Chloë, Livro I, §22:
ēthelon ti, ēgnooun ho ti thelousi).
Em segundo lugar, e mais importante, independentemente do
que se queira fazer com o objeto do desejo, o seu “ser quem ele
é” (numa aplicação individualizante dessa frase) entra essen-
cialmente em uma descrição do que é desejado. Elizabete ou
Alberto que são desejados, e não qualquer pessoa, respondendo

95 Come sit thee down upon this flowry bed,


While I try thy amiable cheeks to coy,
And stick muske roses in thy sleeke smoothe head,
And kiss thy fair large eares, my gentle joy – NT.

114
capítulo 4 - desejo

a qualquer descrição. Se João se frustra na tentativa de con-


quistar Maria, o conselho “Fique com Elizabete, ela é tão boa
quanto Maria” é bastante inadequado. Claro, Elizabete pode
consolar João. Mas a consolação consiste precisamente na ex-
tinção do desejo presente de João pela invasão de outro. Da
mesma forma, João pode fazer amor com Elizabete, pensando
o tempo todo em Maria, a quem ele abraça em sua imaginação.
Mas este “congresso de amor transferido”, como o Kama Sutra
chama,96 não é um caso de desejo transferido: o desejo era, e é,
por Maria, e Elizabete serve como um “instrumento” para sua
expressão. Independente do que Maria teria “feito para” João
(qualquer coisa que seja fiel à intencionalidade de seu desejo), o
termo “Maria” (ou algum termo de igual referência) designa o
objeto individual do desejo. Sua função é escolher uma pessoa
individual, expressando um pensamento individualizante. Po-
de-se argumentar que nenhum nome próprio realmente possa
transmitir um pensamento individualizante, e mesmo essa refe-
rência individualizante nunca está garantida apenas pelo con-
teúdo do nosso pensamento.97 Os nomes, como já foi dito, são
“designadores rígidos”, cuja referência não é determinada por
um conteúdo mental, mas pelo mundo ao qual nos referimos.
Ao mesmo tempo, no entanto, tentamos empregar nomes como
se a singularidade de seus referentes fosse o produto do pensa-
mento – como se nós mesmos, pela nossa concentração interior,
dotássemos aos nomes sua rigidez. O desejo sexual envolve um
tipo de luta mental contra o designador flácido: e a tragédia é
que é uma luta que estamos logicamente compelidos a perder.

A fenomenologia dos nomes próprios


Eu toquei em uma questão profunda e difícil na filosofia da
lógica, e antes de continuar esse assunto, vale a pena refletir

96 The Kama Sutra of Vatsyayana, tr. Sir R. Burton e F. F. Arbuthnot, Londres, 1963, p.
168-9.
97 As várias concepções sobre nomes, em que todas implicam que a referência
individualizante é alcançada de outra forma que não pela virtude do conteúdo do nosso
pensamento, são discutidas no Apêndice 2. A visão de Kripke sobre os nomes como
“designadores rígidos” está exposta em Naming and Necessity, Oxford, 1978. De uma
forma contrastante, Michael Dummett chega a conclusões parcialmente similares em
Frege: Philosophy of Language, Londres, 1973, apêndice ao cap. 5.

115
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

sobre a base fenomenológica para o que eu já disse: a base que


me leva a entender que é dada uma interpretação peculiarmente
individualizante aos nomes nos pensamentos de desejoso. Isto é
mais claramente revelado na poesia de nomes que adquirem um
papel na literatura erótica que não adquirem em outros lugares.
Romeu, Julieta, Manon, Helena, Tristão, Isolda – estes famosos
objetos de desejo erótico estão indissociavelmente ligados a seus
nomes, que são os estigmas do nosso desejo imaginário por eles.
Versos que atuam sobre o nome de um objeto desejado sempre
buscam reforçar a noção de que no nome está oculta uma qüi-
didade, uma individualidade insubstituível, e que este é o objeto
do desejo. O que é ocorre em tais versos não é o pensamento
do próprio nome (que denota um milhão de Marias, Julietas ou
Chloés), mas a misteriosa relação de referência, que permite ao
escritor ver nesse nome o único indivíduo escolhido por ele. Isso
explica a pungência da situação de Julieta quando, depois de ter
percebido que Romeu leva o nome odiado de Montecchio, ela
tenta separá-lo em pensamento do seu nome:
O que há em um nome? Isso que nós chamamos Rosa,
Por qualquer outra palavra seria igualmente doce,
Assim como Romeu, se não fosse de Romeu chamado,
Manteria essa adorada perfeição de que é senhor
Sem esse título. Romeu, abandona teu nome,
E em teu nome, que não é parte de ti,
Toma todo o meu ser.98

Como mostra a tragédia, é precisamente isso o que Romeu


não pode fazer. Abandonar seu nome é abandonar sua identida-
de, como filho desses pais particulares, herdeiro dessa particular
dívida de vingança. Como os dois amantes são apanhados na
teia do desastre, seus nomes começam a reunir para si a resso-
nância de sua paixão, e justamente o que se esforçam tanto para

98 What’s in a name? That which we call a Rose,


By any other word would smell as sweete,
So Romeo would, were he not Romeo call’d,
Retaine that dear perfection which he owes
Without that title. Romeo, doffe thy name,
And for thy name which is no part of thee,
Take all my self – NT.

116
capítulo 4 - desejo

abandonar é finalmente gravado em mármore em sua tumba


comum. Assim, antes do final da cena, Julieta já está dizendo:
A escravidão é rouca, e não pode ser dita em voz alta,
Ou então eu arrasaria a caverna onde Eco reside,
E faria sua aérea língua mais rouca do que a minha,
Com a repetição do meu Romeu.99

No Ato II, cena iii, a rejeição das reivindicações de Rosalina


é expressa por Romeu no esquecimento de seu nome, e quando
ele próprio depois se irrita contra o seu nome,
Ó, diga-me, frade, diga-me
Em que parte desta vil Anatomia
Porventura meu nome se oculta? Diga-me para que eu possa
saquear
O esconderijo do inimigo100
[III. iii]

suas palavras mostram a futilidade de seus esforços para re-


mover de sua consciência o ponto focal do amor de Julieta. Em
toda esta peça sobre a idéia de nomeação, vemos o registro de
intencionalidade sexual, que pode ser satisfeita sem a descrição
de seu objeto além da que o torna insubstituível. “No nome”,
defende Hegel, “o indivíduo como indivíduo puro é ‘avaliado,’
não só na ‘sua’ consciência, mas na consciência de todos” (Fe-
nomenologia do Espírito).

Pensamento individualizante
A intencionalidade individualizante do desejo talvez não
nos surpreenda, já que o desejo sexual é tanto uma resposta
interpessoal quanto a excitação sexual, e é parte de nossa per-

99 Bondage is hoarse, and may not speake aloud,


Else would I teare the Cave where Eccho lies,
And make her airie tongue more hoarse than myne,
With repetition of my Romeo – NT.
100 O tell me, friar, tell me
In what vile part of this Anatomie
Doth my name lodge: Tell me that I may sack
The hateful mansion – NT.

117
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

cepção do outro como uma pessoa que não vemos, por assim
dizer, apenas como um exemplo de sua espécie, substituível por
qualquer outro. Em todas as nossas relações com as pessoas,
a atitude de “respeito pelas pessoas” – a injunção, em termos
kantianos, de tratar os outros como fins em si mesmos, e nun-
ca como meio simplesmente – nos leva a atribuir um valor in-
substituível àqueles com quem nos relacionamos. Um contraste
óbvio pode ser feito aqui entre o desejo sexual e o apetite por
comida.101 Meu apetite por um prato de cenouras é acalmado
pela posse de qualquer prato de cenouras (organizado adequa-
damente). Alguém que proteste dizendo “Não, eu quero Elspeth
(nome de um prato especial de cenouras)”, protesta demais, e
incoerentemente.
No entanto, uma exceção importante ocorre aqui. Como o
Bispo Butler argumentou em seu ataque sobre o hedonismo,102
o que eu quero enquanto está diante de mim é este prato de
cenouras. Eu poderia realmente aceitar um substituto – mas en-
tão eu passaria a querer o substituto. Então, por que esse caso
é diferente do desejo sexual? Será que não é meramente uma
convenção que nos leva a dizer que quando transfiro o meu
apetite deste prato de cenouras para aquele há apenas um ape-
tite com dois objetos sucessivos, enquanto que quando transfiro
minhas atenções de Elizabete para Jane, há dois desejos, dife-
renciados precisamente por seus objetos sucessivos? Em ambos
os casos, com certeza, eu poderia dizer tanto que há um desejo,
e que existem dois – tudo vai depender do propósito da minha
contagem.
A resposta a essa objeção é longa e complexa, e vai nos ocu-
par ainda mais no próximo capítulo. Mas duas coisas devem
ser ditas o quanto antes para dissipar sua força imediata. Em
primeiro lugar, o desejo sexual é diferente do meu apetite por
estas cenouras, pois está fundado sobre um pensamento indi-
vidualizante. É parte do próprio direcionamento do desejo que
uma pessoa em particular seja concebida como seu objeto. As-
sim, surge a possibilidade – já discutida em relação à excitação

101 Meu argumento aqui é paralelo ao de Nagel (“Sexual Perversion”, p. 42-3).


102 Bispo [Bishop] Butler, Sermons, Londres, 1726, sermão I, “On the Social Nature of
Man”.

118
capítulo 4 - desejo

– de erros de identidade. O desejo de Jacó por Raquel parecia


satisfeito por sua noite com Lia, apenas na medida em que, e
durante o tempo em que, Jacó imaginou ser Raquel a mulher
com quem ele estava se deitando. Da mesma forma, eu poderia
razoavelmente pedir desculpas à gêmea de minha amante por
confundi-la com sua irmã, não apenas no ato de acariciá-la, mas
também no impulso de desejá-la. Pois em um sentido funda-
mental eu não a desejava, mas outra a quem ela se assemelha. O
desejo por um prato de cenouras não é igualmente dependente
de um pensamento individualizante, e, portanto, não dá origem
a erros de identidade. Comer o prato errado de cenouras pode
ser um mico, mas não é uma expressão equivocada do desejo –
eu realmente desejo o prato de cenouras que eu consumi. Claro
que eu posso cometer outros erros em meus apetites: posso des-
cobrir que não são cenouras, por exemplo, ou que são cenouras
de um tipo particularmente desagradável. Mas, no sentido rele-
vante, estes não são erros de identidade.
Há um contraste interessante no comportamento sexual dos
animais. Etólogos incansavelmente nos lembram dos hábitos
monogâmicos de lobos, cisnes e primatas.103 Por que isso é di-
ferente, dizem eles, do caso da fidelidade humana, e o que é
que nos leva a descrever esse comportamento em termos menos
elevados do que os que se aplicam a um casamento humano?
A resposta principal, creio eu, está na falta de pensamentos in-
dividualizantes genuínos na mentalidade animal. Mesmo que
um lobo possa ficar com sua companheira através de todas as
contingências, não é o mesmo que fidelidade ao companheiro
com base em uma concepção de quem ela é. Outra companheira
suficientemente semelhante à já existente pode ser encontrada e
aceita no lugar dela. Será que dizemos, então, que o lobo conti-
nua sua vida baseado em um engano? Ou vamos dizer, sim, que
ele continua exatamente como antes, e na mesma relação cogni-
tiva com o mundo? Se não podemos (e não podemos) fazer essa
distinção, então devemos, creio eu, aceitar a segunda descrição,
uma vez que é teoricamente mais simples: ela faz uma reivindi-
cação menos aventureira do que a primeira sobre as capacida-

103 Para uma crítica interessante, mas parcial, da tese dos etologistas, ver Konrad Lorenz,
On Agression (1963), tr. M. Latzke, Londres, 1966, cap. IX. A tese criticada pode ser
encontrada em Beast and Man, de Mary Midgley.

119
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

des intelectuais do lobo. Ela nos permite ver a “fidelidade” do


lobo como – por assim dizer – fidelidade de re. Ela não precisa
ser considerada “fidelidade de dicto”, em que as disposições de
uma criatura estão focados em um indivíduo em virtude da ten-
dência individualizante de seus pensamentos.
Como já sugeri, no entanto, a idéia de um pensamento indi-
vidualizante está longe de ser clara. Se um pensamento se con-
centra sobre um indivíduo, será certo que isso é em virtude das
circunstâncias? Os nomes realmente focam nossos pensamentos
nos indivíduos; mas isso é porque eles são designadores rígi-
dos. Sua referência determina o seu sentido, e a singularidade
de sua referência é um fato sobre o mundo, em vez de um resul-
tado dos pensamentos em que eles ocorrem. Não é justamente o
caso, portanto, do lobo, cujas emoções estão ligadas a sua com-
panheira não em virtude de sua estrutura intencional somente,
mas também porque há apenas uma loba que serve como seu
objeto?
A resposta a essa objeção está em nossa discussão sobre a
poesia dos nomes. É verdade que os nomes de adquirem o seu
sentido de sua referência. Eles são, no entanto, tratados – no
amor e desejo – como se sua referência fosse determinada pelo
seu sentido. Eles estão ligados, em pensamento, a uma idéia de
individualidade, e resumem nossas tentativas para concentrar
nosso pensamento na qüididade do outro, e no “sentido” inde-
finível de sua presença moral e emocional. Nossos pensamen-
tos interpessoais voltam-nos constantemente para o indivíduo
e para a necessidade de compreender a sua individualidade em
um ato de referência. Mesmo nossos pronomes – e, especial-
mente, o pronome “você” – adquirem esta penumbra. Daí o
desejo impotente de vingança contra um perdido e quase esque-
cido pai encontra expressão persuasiva no uso de Sylvia Plath
do pronome alemão:
Papai, eu tive que matá-lo.
Você morreu antes que eu tivesse tempo –
Peso marmóreo, um saco cheio de Deus,
Estátua medonha com um dedo do pé cinza
Grande como uma foca de São Francisco
E uma cabeça no bizarro Atlântico

120
capítulo 4 - desejo

Onde se misturam o verde leguminoso e o azul


Nas águas ao largo da bela Nauset.
Eu costumava rezar para recuperar você.
Ach, du [Ah, você].104

A natureza precisa do pensamento individualizante contido


nessa última palavra e da empresa (impossível) a que se com-
promete a autora serão o tema do capítulo seguinte.
No presente, vou oferecer uma compreensão intuitiva do
“pensamento individualizante”, a fim de considerar o seu papel
na intencionalidade do desejo sexual. Considere o seguinte: o
desejo de visitar um lugar particular; o desejo de visitar minha
antiga escola; o desejo de contemplar uma obra de arte em par-
ticular. Não são todas formas de se concentrar num indivíduo
insubstituível? Suponha que alguém me pergunte por que eu
desejo visitar Nuremberg. Duas respostas amplas podem sur-
gir. Na primeira, posso apresentar o interesse por Nuremberg
por conta de alguma propriedade que pode igualmente ter sido
exemplificada em algum outro lugar – a sua atmosfera de cida-
de provincial alemã, por exemplo. A segunda apresenta o inte-
resse por Nuremberg por si só – por conta de ser Nuremberg,
com uma história, cultura e identidade política particulares, ne-
nhuma das quais pode ser destacada da cidade. No primeiro
caso, pode-se legitimamente referir a alguma outra cidade que
iria “ser tão boa quanto”. No segundo caso, no entanto, tal
referência é, no mínimo, problemática. A frase crucial aqui é
“por si só”: um dispositivo que serve para bloquear a passagem
para o propósito, e concentrar todo o raciocínio sobre a coisa
em si. Como veremos no próximo capítulo, esta frase, que se
aplica igualmente ao objeto do desejo e ao objeto do interes-

104 Daddy, I have had to kill you.


You died before I had time –
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one grey toe
Big as a Frisco seal
And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du – NT.

121
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

se estético, contém uma pista para a idéia de um “pensamento


individualizante”.
Não há necessidade de nos determos no segundo exemplo.
Estou interessado nesta escola porque é a minha escola; nenhu-
ma outra escola seria “tão boa quanto”, já que nenhuma outra
escola seria a minha. Mas podemos imaginar, aqui, uma espécie
de substituição irreal. Se fosse outra a minha escola, então seria
esta o objeto deste exato interesse. É apenas o elemento dêitico
da identificação original – a identificação da escola como minha
– que bloqueia a substituição. É evidente que a atenção indivi-
duante para sua amada precedeu a capacidade do poeta dizer
“Die geliebte Müllerin ist mein, ist mein!” Como vou mostrar,
o desejo sexual, a contemplação estética e certa forma de amor
são caracterizados pelo fato de que até mesmo essa substituição
irreal está descartada. Qualquer objeto que “teria sido tão bom
quanto” o objeto da contemplação estética ou do desejo tam-
bém seria idêntico ao objeto. Não existe nenhum mundo possí-
vel em que outro objeto é o objeto desse exato ato de atenção.
O estudo desses exemplos, espero, será o suficiente para in-
troduzir a compreensão intuitiva do “pensamento individuali-
zante” sobre a qual eu mantenho que o desejo sexual é a expres-
são de tal pensamento. Para defender essa sugestão, no entanto,
uma observação geral precisa ser feita, e o ponto novamente diz
respeito à relação entre o desejo e a fome. Pode-se dizer que o
desejo sexual ganha sua intencionalidade individualizante do
fato de ter um objeto pessoal. É simplesmente uma caracterís-
tica das pessoas exigir certo tipo de tratamento: o respeito que
nos proíbe de olhar para elas como passíveis de substituição. O
que distingue o desejo de fome não é, portanto, a estrutura do
impulso em si, mas um recurso independente dessas entidades a
que se dirigem. Suponha que as pessoas fossem as únicas coisas
comestíveis. Suponha também que elas não sentissem dor ao se-
rem comidas e que fossem reconstituídas prontamente. Quantas
formalidades e desculpas seriam agora necessárias para satisfa-
zer a fome! As pessoas aprenderiam a esconder o seu apetite, e
a não presumir o consentimento daqueles que observam com
olhares famintos. Tornar-se-ia um crime terrível fazer uma re-
feição sem o consentimento da mesma. Talvez, no final, o casa-
mento pudesse ser considerado como a única solução decente
para uma situação moral de outra forma intolerável. Por que é

122
capítulo 4 - desejo

que este não é um caso de fome – fome física normal – dentro


de um projeto individualizante? E, neste caso, qual é a diferença
entre este tipo de fome e o desejo?
A resposta é evidente. Em tais circunstâncias, a fome cer-
tamente geraria as cortesias que atualmente associamos com
desejo. Mas isso é devido à ausência de uma alimentação mais
adequada. Se houvesse qualquer coisa não-humana para comer,
nós certamente a comeríamos. As cortesias não vêm da estru-
tura interna de fome, mas da demanda moral inalienável que
as pessoas fazem umas das outras. Em contraste, o ser humano
é o objeto normal do desejo. O objeto do desejo deve ter não
apenas carne humana, mas também a perspectiva em primeira
-pessoa que serve para individualizá-lo em seus próprios olhos e
nos olhos de seu admirador. Colocando de outra forma: ao con-
trário da fome, o desejo sexual está interessado na encarnação
do outro, e não em seu corpo. A intencionalidade interpessoal
encontra-se, portanto, no próprio desejo, e não é imposta pelas
privações acidentais de nossa existência.

A perspectiva da primeira-pessoa no desejo


Podemos agora unir nossas duas observações principais: em
primeiro lugar, que o desejo é dirigido para a encarnação do ou-
tro, no sentido especial deste termo que venho tentando definir.
Em segundo lugar, que tem uma intencionalidade individualizan-
te inerente. Ambas apontam na mesma direção: ambas nos con-
vidam a ver a perspectiva do outro como uma parte fundamental
do objeto de desejo. É a perspectiva do outro que se torna real
para nós na sua encarnação, e que provê a imagem mais imediata
de sua individualidade insubstituível. Como as coisas parecem
para ele – estamos aptos a sentir – eles só podem parecer para
ele. Pois apenas a perspectiva dele expressa o seu verdadeiro eu.
Daí que o desejo sexual esteja alerta para cada sinal em que a
perspectiva do outro é revelada: daí decorre o caráter “compro-
metedor” do desejo que Sartre comentou.105 O desejo não é uma
ação; ainda assim, se revela nos gestos – voluntários e involun-
tários – através dos quais o eu se apresenta à observação. No
desejo, você está comprometido nos olhos do objeto do desejo,

105 Sartre, O Ser e o Nada, pp. 387 et seq.

123
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

já que você mostrou que tem projetos vulneráveis ​​a suas inten-
ções. Seu desejo não desculpa, mas culpa. “Eu queria tanto!”
pode ser uma desculpa para tocar num bolo; mas nunca é uma
desculpa para tocar numa dama. Pelo contrário, é a condenação
final. “Então era isso! Ele me queria. Que nojento!” Um toque
acidental teria sido irrepreensível, mesmo que a “sensação fosse
a mesma”. Assim como um toque celebrado no curso normal da
comunicação. É a expressão do desejo na ponta dos dedos que
compromete. Da mesma forma, quando uma mulher está re-
voltada com olhar desejoso de um homem, em seu pensamento
há algo do tipo “Como ele se atreve!” – ela tem raiva daquele
homem, que aparece para ela como responsável pelo desejo que
se revela em seus olhos. (É inegável, porém, que existem diferen-
ças significativas entre a experiência masculina e feminina. No
Capítulo 6 voltarei a essas diferenças, de modo a mostrar que a
minha ênfase nas experiências femininas não é arbitrária.)
Este senso da responsabilidade do outro pode parecer estra-
nho e injusto. Mas não se limita ao destinatário de atenções
sexuais. Ele está lá no primeiro impulso do desejo. O amante
frustrado sente que foi desprezado. Sua recusa não é apenas
um fato, como o bolo que se encontra fora de alcance. Ela é
sentida como uma reação ao desejo, que por sua vez carrega as
marcas do seu compromisso. É “injusto” que o objeto de desejo
deva ser responsabilizado por sua recusa. No entanto, todos
nós devemos aprender as delicadas negociações pelas quais a
nos desembaraçamos das atenções não solicitadas dos outros
sem ofender sua autoestima, e uma das características mais im-
portantes da educação moral consiste na aquisição do controlo
implícito nesta transação.

Ética kantiana – uma digressão


Nem todos os filósofos estavam preparados para reconhe-
cer a natureza pessoal do objeto de desejo. Kant, por exemplo,
insistiu que “o desejo sexual não é uma inclinação que um ser
humano tem para o outro como tal, mas é uma inclinação para
o sexo do outro”, tendo previamente defendido o seguinte:
O amor sexual faz da pessoa amada um objeto de apetite; tão logo
o apetite tenha acalmado, a pessoa é posta de lado como se faz com
um limão já sugado. [Comparação curiosa!] O amor sexual pode,

124
capítulo 4 - desejo

naturalmente, ser combinado com o amor humano e assim levar com


ele as características deste último, mas tomado por si e para si, não
é nada mais do que apetite. Tomado por si só, é uma degradação da
natureza humana; pois assim que uma pessoa se torna um objeto do
apetite de outra, todos os motivos de relacionamento moral deixam
de funcionar, porque, como um objeto do apetite, a outra pessoa se
torna uma coisa e pode ser tratado como tal por qualquer um.106

Obviamente o argumento de Kant está um tanto vago nesta


passagem, embora o pensamento seja o pensamento central –
reformulada na terminologia vívida do imperativo categórico
– de uma tradição que começa com Platão. A consequência da
visão de Kant é que o desejo nunca é uma forma de amor, mas
na melhor das hipóteses apenas “se combina com” amor, assim
como um interesse na figura de alguém pode ser combinada com
amor. Mas se, tomado em si mesmo, o desejo é uma degradação
da natureza humana, por que isso deve deixar de ser quando
conjugado com um estado de espírito totalmente diferente? O
amor não é um apetite, e tem a intencionalidade muito especial
das atitudes interpessoais. O apetite por carne humana é pouco
redimido pelo amor em relação à pessoa que é comida; então
por que o amor redimiria o desejo? Essa forma de pensamento
é característica da incapacidade de Kant de ver que a nossa na-
tureza animal não está apenas conjugada com – mas também
inteiramente transformado por – o aspecto da autoconsciência
que ele chama de “razão prática”, e cujo funcionamento ele lo-
caliza (em última instância) no eu transcendental. Ou melhor,
não é que ele não consiga ver, pois ele vê, ou pelo menos vê a
necessidade de um conceito de “‘encarnação”:
o corpo é parte do eu; na sua união com o eu constitui a pessoa;
uma pessoa não pode fazer de sua pessoa uma coisa.

Mas ele não consegue ver todas as consequências de tal pen-


samento, como é evidente na frase final dessa sentença: “e é
exatamente isso o que acontece na vaga libido.”107 O que é im-
possível não pode ser exatamente o que acontece.
O pensamento de Kant é parte da tentativa de criticar, do
ponto de vista do imperativo categórico, os motivos do forni-

106 I. Kant, Lectures on Ethics, tr. L. Infield, Nova York, 1963, p. 164.
107 Ibidem, p. 166.

125
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

cador. Ele quer mostrar que o fornicador está usando o outro,


e ele próprio, como uma coisa (ou seja, desafiando a segunda
formulação do imperativo categórico, que proíbe a abordagem
instrumental da natureza humana). O fornicador usa sua pessoa
como sua ferramenta, por assim dizer. (Na linguagem jurídica
tradicional, fazia parte da decência se referir à ferramenta de um
homem como sua “pessoa”.108 A perda da decência tem andado
de mãos dadas com a “instrumentalização” de Hannah Arendt,
um fato ilustrado pelo uso vulgar da “ferramenta”. É muito fácil
ver as conexões que um kantiano desejaria fazer aqui.)
Os argumentos de Kant ficam aquém do alvo; mas curiosa-
mente eles exemplificam a mesma concepção injustificada da
sexualidade humana que rejeitei anteriormente. Para Kant, o
desejo sexual é um tipo de apetite – encontra-se fora da esfera
do sentimento interpessoal, e não leva as marcas intrínsecas de
responsabilidade ou amor. Kant descarta o desejo como degra-
dado, porque acredita que seja um resíduo animal (quando na
verdade os animais não podem e não sentem isso). Basta apenas
afastar o estigma da “bestialidade” – defender, diante da per-
missiva moralidade moderna, a reabilitação de nossa natureza
“animal” – para que a moralidade libertária recebida tenha o
mesmo destino: o desejo sexual, considerado em si, está fora da
esfera da avaliação moral. A moralidade está ligada não ao ato
sexual, mas somente às suas circunstâncias secundárias. Assim,
pode-se ver a base filosófica para uma observação que tem sido
freqüentemente feita: a permissividade e o puritanismo (do tipo
exemplificado no menosprezo de Kant pela sexualidade) são os
dois lados de uma mesma moeda.
O próprio Kant não teve essa conclusão. Mas muitos dos
seus discípulos a tiveram, incluindo o sociólogo Roberto Mi-
chels (mais conhecido por sua “lei de ferro da oligarquia” do
que por suas reflexões imaturas sobre a natureza da experiência
sexual):109
o impulso sexual é claramente distinto da fome por uma questão
de importância... O objeto da fome é de origem animal ou mesmo
vegetal. A origem do impulso sexual, por outro lado, está na posse de

108 Ver, por exemplo, o caso de Fairclough v. Whipp (1951) 35 Cr. App. R. 138.
109 Sobre a “lei de ferro da oligarquia”, ver o trabalho de Roberto Michels, Political Parties,
Basle, 1915, tr. Eden e Cedar Paul, Londres, 1921.

126
capítulo 4 - desejo

outro ser humano. Abstratamente considerado, o instinto sexual não


tem valor moral, positivo ou negativo... Mas tomado concretamente,
o amor sexual tem de ser justificado nos termos do imperativo
categórico. Em outras palavras, o amor sexual, envolvendo, como lhe
é próprio, a atividade mútua de dois indivíduos, não deve consistir
no uso de uma das partes simplesmente para satisfazer a outra –
considerando que um ato sexual que não fere ninguém é indiferente,
eticamente falando e, portanto, não pode ser imoral.110

Michels deixa claro, creio eu, o fracasso da ética kantiana,


quando separada de uma teoria satisfatória do desejo sexual.
E, já que a ética kantiana é, ou se tornou, a ética predominante
de nossa civilização, o exemplo é ameaçador. Dois fatores estão
faltando na avaliação kantiana do desejo: sua intencionalidade
individualizante e seu foco na “encarnação”. É a restauração
desses fatores, como vou mostrar, que permite aos kantianos,
finalmente, apresentar um código sexual persuasivo.

O curso do desejo
Vamos retornar à discussão da intencionalidade do desejo.
O que é buscado pela pessoa que deseja a outra? Já comentei
sobre a dificuldade em afirmar o objetivo de desejo de forma
proposicional. Embora o desejo envolva uma forte ânsia pelo
outro, não há nenhuma maneira fácil de separar esse anseio da
pessoa individual que é desejada – nenhuma maneira fácil de
descrever, em termos abstratos, apenas o que o outro suposta-
mente deve fazer para me satisfazer. O outro é o meu desejo –
esse é o pensamento imediato, apreendido no poema de Rückert
“Du bist die Ruh”:
Essa ânsia por você
É o que a faz cessar.111

Até certo ponto, esta impressão é um produto composto de


coisas mais simples: da reciprocidade integral à excitação, e
dos momentos dramáticos que estão implícitos nisso. O aman-
te busca subjugar o objeto do desejo, e tenta obrigá-lo a dar
seu consentimento obrigando o seu desejo. Este é o primeiro

110 Robert Michels, Sexual Ethics, a Study of Borderland Questions, Nova York, 1914, p. 34.
111 Die Sehnsucht du / Und was sie stillt – NT.

127
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

movimento em direção à reciprocidade sexual. Na comédia de


Maquiavel, Mandrágora, Lucrécia é “seduzida” por um estrata-
gema complexo, envolvendo mentiras consideráveis, a acreditar
que deve dormir com um estranho. O “sedutor”, movido pelo
desejo por ela, apresenta a si mesmo como o estranho em ques-
tão. O detalhe que transforma esse absurdo em drama ocorre
com a descrição retrospectiva dada pelo amante (Calímaco) de
seu sucesso. Ele se revela, implora a ela com a força do seu dese-
jo, e provoca uma confissão do desejo recíproco. Só então ela se
rende, e fica claro que Calímaco não queria dormir com Lucré-
cia a qualquer custo, mas ter a oportunidade de fazer Lucrécia
se submeter voluntariamente à sua própria emoção, e à dele.
É parcialmente porque o sujeito do desejo se coloca à dis-
posição do consentimento do outro que, em um sentido muito
importante, o seu desejo tem “seu próprio curso”: ele cresce
fora da atividade mútua dos participantes, e – mesmo que pos-
sa tender nesta ou naquela direção – seu propósito permanece
parcialmente encoberto no início, pela opacidade da pessoa que
é desejada. O objeto de desejo se torna transparente para mim
apenas “no curso do” desejo.
Ao mesmo tempo, o desejo tem um reconhecível foco sexu-
al – um foco na natureza sexual, e nas partes sexuais, de outra
pessoa. Embora o outro seja tratado como uma pessoa no ato
de amor, ele é desejado como um homem, ou como uma mulher.
Isto é tão verdadeiro para o sentimento homossexual quanto
é para o heterossexual, e é uma parte ineliminável da emoção
e do drama do ato sexual. Este ato de união pode ter ocorrido
com outra pessoa do mesmo sexo, e eu me aproximo da outra
parcialmente como representante do seu sexo.
Isso não significa que eu necessariamente tenha uma concep-
ção muito clara do sexo como categoria biológica. Posso não
estar ciente do papel do sexo na reprodução, ou de qualquer
outro fato científico sobre o assunto. Posso até não ter consciên-
cia de que existam dois sexos. Suponha que Jane foi criada em
uma ilha habitada apenas por mulheres. Ainda é o caso quando,
ao olhar para Miriam com olhos de desejo, a enxerga como um
membro de um conjunto. Miriam começa a ser apreciada por
suas partes do corpo – os olhos, a boca, sua maneira de se mo-
ver ou de ficar parada. Essas são características “carregadas da

128
capítulo 4 - desejo

espécie”, e trazem a marca de uma espécie biológica, embora o


interesse de Jane nelas seja um interesse no indivíduo Miriam,
e mesmo que falte a Jane o conceito de espécie ou de sexualida-
de. Quando o desejo começa a ter foco, foca nessas coisas: ele
as escolhe, e as separa do pensamento de que os olhos, a boca
ou a postura de qualquer outra pessoa poderiam ser tão bons
quanto. No primeiríssimo movimento do desejo há, portanto,
um tipo de paradoxo: o corpo do outro é interessante porque é
um exemplo de um tipo corporal; mas o próprio interesse que
incide sobre ele insiste que não existe tal coisa, que é ele único,
insubstituível, o único objeto da presente emoção. Isto é outro
aspecto da tensão que está presente no nosso entendimento in-
tencional de encarnação.
O interesse sexual no outro tem uma tendência natural para
gravitar, no “curso de desejo”, para suas partes distintamente
sexuais: as peças que têm um papel especial na transmissão do
prazer sexual. Devemos distinguir duas formas em que essa gra-
vitação de interesse pode ocorrer: o caminho do prazer curioso,
como vou chamá-lo, e o caminho do desejo. A curiosidade sexu-
al é totalmente diferente da maior parte da curiosidade normal.
Se eu estou curioso para saber a anatomia do peixe-agulha, por
exemplo, a minha curiosidade pode ser satisfeita por uma expe-
riência de dissecação ou pela leitura de um livro – por qualquer
coisa, em suma, que transmita as informações necessárias. A
informação que satisfaz a minha curiosidade aqui também lhe
dá fim. A curiosidade sexual, pelo contrário, se renova incessan-
temente; pois o objeto da curiosidade não é a região do corpo
em si, mas a região “enquanto habitada por uma consciência
agradável”, e o prazer é uma coisa dinâmica, que tem um signi-
ficado constantemente mutável na experiência da pessoa que o
sente. A curiosidade está em parte dirigida para seu sentimento,
e, portanto, sempre avança conforme seu sentimento evolui.
O “prazer curioso” está fixado nesta experiência: é a essência
da sexualidade infantil e dos estratagemas sexuais dos pedófilos,
para quem o importantíssimo episódio sexual é de “exposição”
da parte prazerosa enquanto solicita um interesse inexperiente
nela. O “segredinho sujo” dos freudianos, no entanto, não tem
significado algum no desejo, em que a parte sexual é interessan-
te apenas levando em conta o seu papel dramático. A mulher

129
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

está interessada nas partes sexuais de seu amante, porque ela


deseja ser penetrada por ele, e senti-lo sentir prazer dentro dela.
O pênis é o avatar de sua presença, e o espaço que percorre ao
entrar nela é imediatamente invadido e ocupado pelo próprio
homem. Toda mera curiosidade é dissolvida nesta experiência;
a excitação diz respeito a toda a ação dos participantes e a tudo
o que são e significam um ao outro. A intencionalidade da ex-
citação vence e elimina a da curiosidade, direcionando a res-
posta da mulher para o outro, como o objeto completo de uma
preocupação pessoal. Ao mesmo tempo, porém, características
cruciais de sua encarnação – como o movimento penetrante de
seus órgãos sexuais – se destacam no campo de sua atenção,
nitidamente gravadas e imóveis na nuvem envolvente do prazer.

O objetivo do desejo
Qual, então, é o objetivo do desejo? A fim de responder a
esta pergunta, devemos distinguir os vários componentes da es-
trutura intencional de desejo. Os desejos dos animais têm uma
intencionalidade relativamente simples, apreendida na atitude
proposicional que denota o objetivo ou direção do desejo. Os
desejos que são indicativos de nossa natureza racional são mui-
to diferentes, e não seguem a regra da simples intencionalidade
dirigida a objetivos do desejo animal, mesmo quando há um ob-
jetivo reconhecível. Considere uma atividade humana dirigida a
objetivos – o futebol. Aqui o objetivo do jogador muda de um
momento para outro, mas geralmente pode ser resumido como
o objetivo de marcar gols. Ao mesmo tempo, existe um projeto
superior – o de ganhar – que pode não ser alcançado sem tornar
o jogo um fracasso. Os jogadores jogam não apenas para marcar
gols ou ganhar, mas pelo prazer de jogar – um prazer de trabalho
de equipe, exercício e participação envolvente em um empre-
endimento comum. Finalmente, há uma “satisfação” global que
pode ou não existir: o “bom jogo”, no qual gozo, realização e
exercício benéfico se reúnem, proporcionando uma experiência
que está cheia de significado para quem a vivencia. Se alguém
perguntasse, “Qual é o objetivo do futebol?”, a resposta poderia
ser dada em qualquer uma dessas quatro formas: há o objetivo
imediato (pontuar), o projeto mais longínquo (vencer), o motivo
(diversão) e a satisfação (uma experiência “significativa”).

130
capítulo 4 - desejo

O futebol é uma atividade sofisticada e orientada por regras,


e sua estrutura não é a mesma do ato sexual, nem mesmo do ato
realizado pelo atleta sexual, ansioso apenas por “pontuar”. No
entanto, as respostas interpessoais tendem a apresentar o mes-
mo tipo de intencionalidade em múltiplas camadas das ativida-
des sociais – o que não é surpreendente, pois são atividades so-
ciais. Considere a raiva. Ela tem como objetivo inicial a punição
– ferir quem o tenha prejudicado. A raiva de muitas pessoas não
passa dessa fase. Ao mesmo tempo, está implícito nas próprias
capacidades racionais que tornam possível a raiva que quem
está sujeito à raiva tenderá a prosseguir no caminho que a raiva
definiu para ele. Do objetivo inicial de raiva surge, como uma
continuação racional, o projeto de longo prazo de vingança e
arrependimento. O homem irritado que pode vindicar sua cau-
sa e assegurar o arrependimento do infrator não só expressou
sua raiva; ele também, num sentido importante, a cumpriu. Ele
a trabalhou até seu triunfo, e deu a ela a forma que ela natural-
mente exige. Este projeto de longo prazo exige a cooperação do
objeto. O homem irritado deve persuadir o outro a se ver pela
mesma ótica sob a qual ele é visto por aquele que está com raiva
e, assim, vir a lamentar o que fez. Uma descrição completa da
intencionalidade da raiva iria mais longe ainda, e tentaria des-
crever a raiva “satisfatória” – a raiva que, devidamente dirigida,
e devidamente processada, assegura para o sujeito os melhores
benefícios que a raiva pode conferir. Pois isso também, num ser
racional, é uma parte do objetivo da raiva, mesmo que seja um
objetivo que raramente pode ser atingido.
Voltemos, no entanto, ao desejo sexual. A teoria completa da
sua intencionalidade não será finalizada antes da conclusão des-
te livro, onde tentarei descrever o cumprimento do desejo. Mas
agora estamos em posição para descrever o objetivo inicial, e
indicar alguns dos projetos de longo prazo que esse objetivo
implica. No verdadeiro desejo sexual, o objetivo é “união com
o outro”, onde “o outro” denota uma pessoa em particular, com
uma perspectiva particular sobre minhas ações. A reciprocidade
que está envolvida nesse objetivo é alcançada no estado de ex-
citação mútua, e o caráter interpessoal da excitação determina
a natureza da “união” que é procurada. Resumindo: o objetivo
inicial do desejo é o contato físico com o outro, do tipo que é
o objeto e a causa da excitação. Nenhuma busca por excitação
131
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

entra na amizade normal ou na terna afeição em relação a uma


criança, mesmo quando estejam focadas na encarnação do ob-
jeto. A excitação é, por conseguinte, o diferencial mais impor-
tante do desejo.
À luz de nosso estudo anterior da encarnação e da intencio-
nalidade individualizante do desejo, podemos ver que o objeti-
vo do desejo, assim descrito, deve envolver o outro essencial-
mente. Ele não pode se deixar usar pelo meu propósito sexual,
sem os meus propósitos estarem focados nele como a pessoa
em particular que ele é. É ele que está encarnado na criatura a
quem eu acaricio, e é a sua perspectiva que está presa no drama
comprometedor da excitação.
Isso não proíbe a possibilidade de uma sexualidade que pula
de um objeto a outro com o prazer orgástico de novidade – a
Aphrodite pandemos da luxúria desenfreada. Só para salientar,
o que é evidentemente verdadeiro, que a “novidade” procurada
não é a de “novas sensações”, “novas posições”, “novas contor-
ções” ou qualquer coisa do tipo – mas a de novas pessoas. Em
outras palavras, o que se busca é uma renovação do objetivo
do desejo, com outra pessoa. E renovar o objetivo do desejo é
começar de novo, com um novo desejo. Até que ponto isso pode
ser feito é outra questão. Quaisquer que sejam as peculiaridades
do desejo orgástico, não é nenhuma exceção à regra de que a
outra pessoa entra essencialmente no objetivo do desejo.
Da mesma forma com a excitação, o estado do marinheiro
quando desembarca com o único pensamento “mulher” em seu
corpo. Sua condição pode ser descrita como desejo por uma
mulher, mas por nenhuma mulher em particular. Tal descrição,
no entanto, deturpa seriamente a transição que ocorre quando
a mulher é encontrada e ele se coloca resoluto no caminho da
satisfação. Pois agora ele encontrou a mulher que quer, a quem
ele pretende excitar e sobre a qual seus pensamentos e energias
estão focados. Seria melhor dizer que, até aquele momento, ele
não desejou nenhuma mulher. Sua condição era de desejar o
desejo. E tal era a sua necessidade que ele tomou a primeira
oportunidade para satisfazer o seu desejo: trocar o desejo de
desejo por desejo. É uma característica importante do desejo
sexual surgir desta forma a partir de um impulso generalizado.
No entanto, o desejo é tão distinto do impulso que o compele

132
capítulo 4 - desejo

como a raiva do excesso de adrenalina. Deve-se pensar em


“fome sexual” como se pensa a fome de conversa; não como
um apetite, mas como uma predisposição para uma resposta
individualizante.
O objetivo do desejo sexual não para na “união”. Existe ain-
da o projeto adicional e em desenvolvimento do prazer sexual.
Agora, a excitação pode ser alcançada sem prazer sexual, em-
bora o prazer requeira a excitação, tanto no sujeito quanto no
objeto. O prazer sexual é dirigido à excitação do outro, e um
prazer que não requeira a excitação do outro – como quando
um homem realiza o ato sexual num corpo de uma testemu-
nha frígida – é pervertido. O caso extremo de tal prazer é o do
necrófilo, e um homem que seja indiferente ao prazer de sua
parceira é, em certo sentido, um necrófilo disfarçado: se o seu
entusiasmo é de fato realçado pela frigidez dela, é porque ele só
pode desfrutá-la sob o aspecto da morte. Pelo seu comporta-
mento sexual, em certo sentido, ele deseja vê-la morta.
O prazer sexual carrega o sujeito ainda fundo no caminho
da excitação. Envolve-o ainda mais profundamente com o ob-
jeto de seu prazer, reforçando a sua necessidade pela resposta
do outro e pelo aumento da autoidentificação do outro com o
ato sexual. Mas, alguém poderia objetar, aonde isso tudo leva,
senão ao orgasmo ou a algum desses eventos prazerosos? E por
que, então, o orgasmo não tem aparece como finalidade última
deste desejo, o gratificante episódio final? Por que quereríamos
investigar mais sobre a satisfação sexual?
Considere novamente o caso da raiva. O homem que explo-
de em ira certamente alivia seus sentimentos, e pode depois ter
agradáveis sensações de ​​ relaxamento conforme a adrenalina es-
coa de seu sistema. Mas esta explosão temporária não faz parte
da intencionalidade da sua ira, uma vez que não tem relação
com os pensamentos que a motivam. Se isso é o que ele quer,
ele ficaria satisfeito com uma injeção de adrenalina; por que se
preocupar em perder tempo buscando uma ocasião apropriada
para isso e o risco do insulto alheio? Além disso, não é injusto
procurar obter alívio perseguindo o outro, quando uma injeção
teria sido tão boa quanto? Claramente, o prazer do relaxamento
não tem nenhuma relação com o projeto da raiva, mesmo que
possa aparecer em uma explicação científica “do que se passa”.

133
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

O mesmo acontece com o orgasmo. Embora a experiência seja


muito importante, não é parte do objetivo ou projeto do de-
sejo. Ela não tem raiz no pensamento sobre o qual o desejo
está fundado, e não desempenha nenhum papel na continuação
do objetivo da união. Em um sentido muito importante, é uma
interrupção do congresso, do qual o sujeito deve se recuperar,
como e quando puder.
Ver o orgasmo como o objetivo do desejo é tão equivocado
quanto ver a exultação experimentada por um jogador após
marcar um gol como o objetivo do futebol, e não como um des-
dobramento prazeroso de um objetivo cumprido. Mas há mais
sobre a adoração do orgasmo do que isso: não é apenas o re-
sultado de uma falsa assimilação do desejo ao apetite. Espiritu-
almente falando, é também o sinal de uma superstição peculiar
e predominante: a crença de que, para cada atividade humana
deve haver alguma experiência única e evidente que constitui
o seu sucesso e que pode ser obtida não pela virtude, mas pela
habilidade (para usar uma dicotomia aristotélica). Em outras
palavras, ela resulta da idéia de que a gratificação sexual está
disponível para todos, qualquer que seja o seu caráter moral, e
que pode ser alcançada pela técnica. As raízes dessa superstição
não precisam nos preocupar – embora a análise da democracia
americana de Tocqueville sugira que elas podem não ser difíceis
de rastrear.112 Mas suas consequências são de alguma importân-
cia. Para serem vistos como questões de técnica, os objetivos hu-
manos devem ser suficientemente específicos, e suficientemente
circunscritos, a serem objetos de conselho, em que fins e meios
possam ser separados adequadamente. A outra pessoa, neste
ponto de vista, não pode ser descrita como fim do desejo: ela,
portanto, figura como meio, um substituto para o que quer que
um aparelho sofisticado (machine désirante) possa cumprir suas
funções melhor do que ele mesmo. Esse é o preço do ethos de
“sucesso disponível” – o ethos que vê cada projeto humano em
termos de uma realização igualmente distribuída.
O orgasmo não poderia ser o objetivo do desejo sexual,
mesmo que seja por vezes o objetivo do que chamei de “prazer
curioso”. A outra pessoa não é o meio para satisfazer o desejo,

112 Alexis de Tocqueville, De la démocratie en Amérique, Paris, 1835.

134
capítulo 4 - desejo

mas parte da finalidade do desejo. Suponha que um homem,


ao se masturbar, pense num fluxo de fantasias desconexas, oca-
sionalmente divagando sobre o imposto que deve pagar, sobre
o futuro de seu filho e sobre o comportamento escandaloso do
gato do vizinho. O processo pode levar ao orgasmo e, presumi-
velmente, tem o orgasmo como objetivo; mas não é uma expres-
são do desejo. Imaginem agora o mesmo homem executando os
mesmos movimentos, mas com os olhos fixos na mulher que se
despe na janela vizinha. Agora há um objeto fantasioso de de-
sejo. O que nos permite dizer que o homem realmente deseja a
mulher? O mínimo é que ele deveria procurar ganhar o interesse
e cumplicidade dela em seu ato, ou que tenha fantasias em que
ela participe. Ele não apenas fazer isso, mas envolvê-la também.
É claro que ninguém com bom senso imaginaria que ele pudesse
alcançar seu propósito desta forma; provavelmente seu motivo
não é o desejo, mas o prazer curioso, e a própria mulher entra
como um mero instrumento na fantasia que o ajuda a alcançar
seu objetivo. Na verdade, é uma característica de todo esse tipo
de imodéstia a conduta sexual que tende a considerar o outro
como o instrumento, e não como o objeto da libertação sexual,
de forma que o outro não pode ser objeto de desejo. Ao ser tra-
tado dessa forma, o outro se sente ultrajado e degradado, e na
maioria dos sistemas de direito penal, a exposição indecente é
tratada como uma grave agressão pessoal.
Há duas outras etapas no caminho do desejo que temos de
mencionar: o projeto da intimidade, e a realização do desejo
no amor erótico. A intimidade é o ponto para o qual os gestos
inaugurais da corte amorosa são dirigidos, e é um projeto re-
velado já nos primeiros olhares de desejo. O olhar que afasta
os amantes da multidão fala em voz baixa de coisas que estão
fora da esfera de conhecimento dos outros. O projeto da intimi-
dade surge automaticamente, embora não inevitavelmente, do
vínculo do desejo. É o ponto para o qual o desejo naturalmente
conduz por seus próprios artifícios. A luxúria generalizada só
pode ser sustentada por complexas estratégias de substituição,
tais como as da orgia, que impedem a passagem do prazer para
a intimidade – que impedem o “conhecimento” carnal do outro.
Mas é uma continuação natural do prazer sexual buscar esses
conhecimentos – atingir pelas palavras, carícias e olhares, por

135
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

assim dizer, o coração do outro, e conhecê-lo de dentro, como


uma criatura que é parte de si mesmo.
Assim como o prazer sexual tende à intimidade, a intimi-
dade tende ao amor – a uma noção de compromisso fundada
na reciprocidade do desejo. A pessoa que está comprometida
por seu desejo por outra adquiriu uma vulnerabilidade crucial:
a vulnerabilidade de alguém que tenha foi subjugado em seu
corpo pela presença encarnada do outro. Esta vulnerabilidade
só é finalmente apaziguada no amor (como Gilda, no Rigoletto,
alivia seu breve momento de excitação nos braços do duque
de Mântua sacrificando sua vida por ele). É através do estudo
do amor erótico, portanto, que seremos capazes de caracterizar
integralmente a intencionalidade do desejo.
Essas observações serão justificadas em capítulos posterio-
res. Antes de deixar a presente discussão, no entanto, é impor-
tante ver no que elas não implicam. Ao fazer do amor erótico
a realização do desejo, não estou implicando que todo desejo
sexual leve ao amor mais do que quando digo que toda a raiva
leva à vindicação e ao arrependimento, ou que todo jogo de
futebol seja um “bom jogo”, simplesmente pela identificação
dessas condições como o cumprimento das duas respectivas ati-
vidades. A intencionalidade das emoções interpessoais varia de
lugar para lugar e de tempos em tempos. A realização que re-
conhecemos na vindicação pode ser atribuída em alguma outra
cultura à vingança. Nesses casos complexos, a intencionalidade
é um vetor que pode ser estendido de inúmeras maneiras pela
mistura de outras preocupações. Até certo ponto, ela se tornará
uma questão de discussão moral em que deveríamos criar as
condições que restringem uma direção do desejo em prol de
outra. Ao utilizar o termo “realização”, já estou insinuando que
a estrutura intencional que identifico como uma continuação
natural da finalidade e do projeto do desejo – a estrutura que
leva primeiro à intimidade e, em seguida, ao amor – é também
a recomendada. Até o final do livro, devo deixar claras (ou tão
claras quanto puder) as minhas razões.
Essa ênfase na intimidade não implica que todo desejo se-
xual é aconchegante, suave ou fiel. Longe disso. No entanto,
cada forma desenvolvida do desejo sexual tenderá a ir além do
encontro presente a um projeto de união íntima com seu objeto.

136
capítulo 4 - desejo

Para alguns, esta união só pode ser assegurada pela dissolução


do objeto, por sua conversão no destinatário sofrido de nossa
vontade: assim era o Marquês de Sade. Para outros, só pode ser
assegurada pela sedução, em que todo o eu está concentrado
no ato inicial de amor que é, em seguida, retido: assim era Don
Juan. Para outros ainda, só pode ser assegurada pela total dedi-
cação do eu para o outro, de modo a procurar a posse absoluta
e a remoção do outro do convívio da vida diária: assim era
Tristão. Discutirei esses arquétipos do desejo com mais detalhes
no Capítulo 6.
Defendi que o desejo se concentra na encarnação do outro, e
na perspectiva em primeira-pessoa que essa encarnação revela.
Cheguei inclusive a sugerir que, como resultado disso, a indi-
vidualidade do outro – sua individualidade não como animal,
mas como “eu” – torna-se inextricavelmente entrelaçada com a
intencionalidade do desejo. Então, esbocei brevemente o objeti-
vo do desejo – o objetivo da “união” com o outro – e os vários
“momentos” que esse objetivo contém. No entanto, antes de
preencher esse esboço e apresentar as razões necessárias para
identificar a realização do desejo nos termos nupciais em que
me aventurei, faremos uma pausa para confrontar a difícil idéia
da individualidade. Pois esta idéia está na raiz do mistério uni-
versalmente reconhecido da experiência sexual.

137
CAPÍTULO 5
O OBJETIVO INDIVIDUAL

No capítulo anterior, dei um esboço preliminar do objetivo


do desejo, que é a “união com o outro” fundada na resposta
à sua encarnação individual. Poetas e filósofos têm pensado
neste objetivo como irrealizável, porque é paradoxal. A na-
tureza desse paradoxo, no entanto, é uma questão disputada.
Lucrécio, consciente de sua metafísica materialista, acredita
que reside no desejo de unidade entre dois corpos separados.
Como alguém pode se sentir tentado a concordar com Yeats
sobre a tradução de Dryden dessa relevante passagem do livro
IV ser a descrição mais fina da relação sexual na língua ingle-
sa, penso ser apropriado usá-la como um lembrete da experi-
ência familiar:
Então, o amor com fantasmas engana nossos olhos ansiosos,
Que mesmo a visão contínua nunca satisfaz;
Nossas mãos puxam o nada das partes que agarram,
Perdidas sobre os encantadores membros, em vão:
Nem quando o par juvenil mais perto estava,
Quando as mãos se entrelaçam, e as coxas se enroscam
Apenas na espuma furiosa do desejo completo,
Quando ambos forçavam, ambos murmuravam, ambos expiravam,
Eles apertam, torcem, e suas línguas úmidas dardejavam,
Como se cada um forçasse seu caminho para o coração do outro:
Em vão; eles só cruzam a costa,
Pois os corpos, não podem perfurar, nem estar nos corpos perdidos:
Mas procuram ter certeza de si, quando ambos se envolvem,
Nessa momentânea raiva tumultuada,

139
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Tão emaranhado nas redes do amor,


Até que o homem se dissolve nesse excesso de alegria.
Então, quando o recipiente estoura,
E vazantes marés os nervos adormecidos traem,
Uma pausa se segue; e a Natureza concorda por um tempo,
Até que com renovada raiva novos espíritos fervem;
E, em seguida, a mesma vã violência volta,
Com chamas revitalizadas queimam os fornos erguidos.
O tempo um no outro se perde,
Mas permanecem trancados por barras adamantinas;
Todas as maneiras que tentam, sem sucesso se mostram,
Para curar a ferida secreta do amor saudoso.113

Muitos não notaram o paradoxo em Lucrécio, que toma a


idéia de “união” literalmente, e sugere um projeto em que nin-
guém em sã consciência jamais embarcaria. O paradoxo usual-
mente deriva de uma tensão entre duas coisas: entre o interesse

113 So Love with fantomes cheats our longing eyes,


Which hourly seeing never satisfies;
Our hands pull nothing from the parts they strain,
But wonder o’er the lovely limbs in vain:
Nor when the Youthful pair more closely join,
When hands in hands they lock, and thighs in thighs they twine
Just in the raging foam of full desire,
When both press on, both murmur, both expire,
They grip, they squeeze, their humid tongues they dart,
As each wou’d force their way to t’other’s heart:
In vain; they only cruze about the coast,
For bodies cannot pierce, nor be in bodies lost:
As sure they strive to be, when both engage,
In that tumultuous momentary rage,
So ‘tangled in the nets of love they lie,
Till man dissolves in that excess of joy.
Then, when the gather’d bag has burst its way,
And ebbing tides the slacken’d nerves betray,
A pause ensues; and Nature nods a while,
Till with recruited rage new spirits boil;
And then the same vain violence returns,
With flames renew’d the erected furnace burns.
Agen they in each other wou’d be lost,
But still by adamantine bars are crossed;
All ways they try, successless all they prove,
To cure the secret sore of lingring love – NT.

140
capítulo 5 - o objetivo individual

do sujeito na individualidade do outro e sua tentativa de “apre-


ender” essa individualidade em uma atividade de contato “físi-
co”. Um brilho grandiloqüente dessa idéia é a versão de Sartre
do paradoxo. De acordo com Sartre, o desejo tem o objetivo de
possuir o outro em sua liberdade – e, portanto, manter como
objeto aquilo que só pode existir como sujeito. Neste ponto de
vista, o conflito entre o interesse na identidade subjetiva do ou-
tro e a atenção ao seu corpo é glosado em termos da incomen-
surabilidade metafísica entre o eu e o outro. Formas similares de
frasear o paradoxo podem ser encontradas em Schopenhauer,114
Hegel115 e Kierkegaard.116 Às vezes, o pensamento dominante é
este: você pode desejar outro apenas como um indivíduo e, por-
tanto, apenas como um sujeito. E mesmo assim, você somente
pode possuí-lo como um membro de sua espécie – já que você
só o pode possuir como um objeto. Às vezes, o paradoxo é ex-
presso nos termos de uma idéia de liberdade: Eu sou desejado
apenas como um ser livre, mas desfrutado somente em um ato
que me torna prisioneiro. É um encanto singular à teoria de
Sartre tornar esses dois paradoxos em um só.
O paradoxo só pode começar a parecer convincente, no en-
tanto, se pudermos sustentar a primeira premissa: que eu desejo
o outro como um indivíduo e que a individualidade do outro
reside em sua natureza como um sujeito. A premissa tem duas
partes: uma relativa ao objeto intencional do desejo, e outra à
idéia metafísica da individualidade. Alega-se que vejo o outro
como um indivíduo, e também que a sua “individualidade” re-
side em sua natureza enquanto sujeito. Pode ser que a tese me-
tafísica seja falsa, mesmo que capte o sentido de individualidade
que está envolvido na intencionalidade do desejo. Nesse caso,
o paradoxo nos aparece imediatamente sob a forma de uma
ilusão metafísica que está no coração do desejo sexual. A fim

114 Schopenhauer: “A paixão individual e muito especial de dois amantes é tão inexplicável
quanto a individualidade, também bastante especial, de qualquer pessoa, que lhe é
exclusivamente peculiar: de fato, são uma única e mesma coisa; a última tem explícito o
que na primeira está implícito” (The World as Will and Representation, tr. E. J. F. Payne,
Indian Hills, Colorado, 1958, vol. II, p. 536).
115 Ver o paradoxo de Hegel sobre o mestre e o escravo, que será discutido adiante, no
Capítulo 10.
116 S. Kierkegaard, Either/Or, tr. W. Lowrie Nova York, 1959, vol. II: The Aesthetic Validity
of Marriage, p. 111-14.

141
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

de esclarecer esta questão, é necessário começar destacando al-


gumas características das atitudes interpessoais que podem nos
levar a falar da “individualidade” de seu objeto. Considerarei
seis dessas características, correspondentes a seis distinções en-
tre atitudes.

Distinções entre atitudes


O universal e o particular
Algumas atitudes interpessoais são tais que um universal (no
sentido de um predicado n qualquer) entra em seu objeto inten-
cional e fornece o verdadeiro objeto de atenção. Tais atitudes
são direcionadas para o indivíduo apenas como um exemplo de
uma classe. Entre essas atitudes “universais”, as emoções mo-
rais – indignação, admiração, desprezo e assim por diante – são
fundamentais. Se eu sentir desprezo por James, é por causa de
alguma característica de James: Se William tivesse essa carac-
terística, eu sentiria desprezo por William também. O objeto
do desprezo é o particular – James – como um caso do univer-
sal (covarde, imbecil, egoísta ou qualquer outro). Claro que,
para recriar um ponto a partir da discussão da “universalidade”
de Hare, o universal pode ser tão específico que, no final das
contas, somente James o exemplifique. Mas deve ser possível
caracterizá-lo sem fazer nenhuma “referência identificadora” a
James. O que eu desprezo é a covardia ou o egoísmo de James, e
eu me sentiria exatamente da mesma forma em relação a qual-
quer outra pessoa que mostre o mesmo defeito. Se eu não senti
exatamente o mesmo, é porque alguma coisa foi deixada de
fora da “descrição segundo a qual” James é desprezado, algo
que faria a distinção entre James e aqueles outros contra quem
reagi de forma diferente.
A idéia da universalidade deve ser separada da do “objeto
formal” de uma emoção, explicada no Apêndice 2. O objeto
formal é dado por uma descrição que o objeto intencional deve
satisfazer se for o objeto da sensação dada. Por exemplo, João
só pode ser objeto de desprezo se for considerado inferior de
alguma forma. Esta restrição “formal” apresenta uma condição
necessária sobre o objeto de desprezo, mas não fornece a com-
pleta “descrição segundo a qual” qualquer pessoa é desprezada.

142
capítulo 5 - o objetivo individual

Atitudes como amor, ódio e desejo sexual têm objetos par-


ticulares. Elas não impõem obrigação alguma sobre o sujeito
para que responda de formas similares a situações similares.
Embora haja, sem dúvida, alguma característica de James que
seja uma razão (talvez até mesmo a razão) para que eu o ame,
não sou obrigado a amar William também, só porque ele com-
partilha essa característica. (Imagine, se não fosse assim, a vida
amorosa impossível de gêmeos idênticos.) Aqui temos um refle-
xo da distinção de Kant entre amor e estima, e os princípios de
uma explicação do por que ele escolheu separar o “patológico”
do “racional” dessa forma.117

O fundado em razões, o livre de razões e o que envolve razões


O último parágrafo chama a atenção para uma segunda dis-
tinção. Algumas atitudes só podem ser consideradas com base
em “pensamentos justificantes” – isto é, com base em razões
que parecem apoiá-las. Outras atitudes são, conforme vou cha-
má-las, “livres de razões”, pois embora possam haver razões
para elas, sua existência não depende que o sujeito tenha razões.
Atitudes que são universais são automaticamente fundadas em
razões. Sua própria natureza admite graus, e é uma marca das
atitudes morais que a crença do sujeito na existência de razões
seja aqui ilimitada.118
Atitudes particulares também podem ser fundadas em razões.
Um exemplo é fornecido pelo ressentimento. Meu ressentimen-
to de vocês depende da relação particular entre nós: eu posso,
portanto, me ressentir de você por algum ato ou qualidade de
que não me ressentiria em qualquer outra pessoa. No entanto,
o ressentimento é baseado em razões. Se eu me ressinto de você

117 Sobre a distinção entre amor e estima, ver I. Kant, Foundations of the Metaphysics of
Morals, Prussian Academy edition, p. 395 et seq. Para a distinção entre o racional e
o patológico, ver ibid., 399. Kant também defende, entretanto, que “o amor (...) é um
suplemento indispensável à imperfeição da natureza humana como uma livre assunção
da vontade de outrem sob as próprias máximas”: Das Ende aller Dinge, Prussian
Academy edition, vol. VIII, p. 337.
118 Já defendi em outros lugares a visão de que no julgamento moral, precisamente porque
o componente crucial não é uma crença, mas uma atitude, a crença em razões é
inexaurível: “Attitudes, Beliefs and Reasons”, em John Casey (ed.), Morality and Moral
Reasoning, Londres, 1971.

143
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

é por causa de alguma característica, que eu também acredito


que justifique o meu sentimento. Existem, no entanto, atitudes
particulares que não são de modo nenhum fundadas em razões.
Eu posso apenas querer algo, sem razão alguma (mas talvez
não um pires de lama).119 Alguns desejos animais, nesse sentido,
também não têm razões. Um cão só quer cheirar o outro – por
nenhuma razão (embora, é claro, possa haver uma excelente
racionalização evolutiva de seu ato). As pessoas se cheiram de
forma semelhante (uma criança e sua mãe, um homem e sua es-
posa). Os filósofos que defendem (com Elizabeth Anscombe)120
que todo desejo depende de uma “caracterização de desejabili-
dade” de seu objeto ignoram o fato de que o conceito de dese-
jabilidade pertence apenas à explicação do comportamento dos
seres racionais. O conceito de desejo, no entanto, pode ser utili-
zado na descrição e explicação do comportamento meramente
animal. Essa é uma razão a priori para pensar que pode haver
desejo que não se baseia em uma concepção de desejabilidade.
O leitor não deve ter nenhuma dificuldade para aceitar o que é
de fato a descrição mais natural do desejo de cheirar.
Afirmei que o amor não é universal. Mas é baseado em ra-
zões? Alguns filósofos duvidaram de que fosse ou pudesse ser.121
No entanto, parece haver uma tendência definitiva no amor de
encontrar um fundamento em seu objeto. Eu acredito que haja
uma razão pela qual eu amo James, e que, se eu não posso agora
encontrar essa razão, é por um lapso de memória, uma falha
de expressão ou uma falha epistemológica. Não está claro, no
entanto, que o amor realmente seja baseado em razões que são
oferecidas por ele. Talvez seja melhor dizer que o amor busca
basear-se em razões, e é suscetível de sofrer reversões quando
os seus motivos são destruídos. Uma atitude verdadeiramente
fundada em razões – como o ressentimento – é passível de re-
futação por uma demonstração de que o objeto não possui a
característica pela qual se está ressentido. O amor parece susce-
tível de ser enfraquecido, e de sofrer todo tipo de reversão catas-

119 G. E. M. Anscombe, Intention, Oxford, 1957, seção 37.


120 Ibid.
121 Por exemplo, D. W. Hamlyn, “The Phenomena of Love and Hate”, em Perception,
Learning and the Self, Londres, 1983.

144
capítulo 5 - o objetivo individual

trófica, mas não exatamente de ser refutado. Poderia ser melhor,


portanto, descrever o amor como o que “envolve razões”, de
modo a não obscurecer as distinções reais entre os estados de
espírito que estamos aqui considerando.
É possível ver com certo ceticismo a opinião de que uma
atitude possa ser fundada em razões ou mesmo que somente
envolva razões e ainda deixe de ser universal. Pascal sustentou
que o amor é fundado em razões, e concluiu que ele não pode-
ria, portanto, ser interpretado (exceto paradoxalmente) como o
amor do indivíduo:
O homem que ama uma mulher por sua beleza, a ama de verdade?
Não; pois a varíola, que remove sua beleza sem matar a pessoa,
fará com que ele não a ame mais. E se alguém me ama pelo meu
juízo ou minha memória, ele realmente me ama? Não; pois eu posso
perder essas qualidades sem deixar de ser. Onde, então, está o eu,
se não no corpo ou na alma? E como se pode amar o corpo e a
alma, a menos que por conta de qualidades que não são de forma
alguma constitutivas do eu, uma vez que são perecíveis? Dever-
se-ia amar a substância anímica de uma pessoa abstratamente, e
quaisquer qualidades que possam residir nela? Isso só poderia ser,
e seria, injusto. Nunca, portanto, se ama a pessoa, mas apenas as
qualidades; ou, se se ama a pessoa, deve-se dizer que é o conjunto de
qualidades que constituem a pessoa.122

Condillac critica, com razão, este argumento por sua depen-


dência da natureza “perecível” das qualidades: como se eu fosse
a dizer ao homem cujo pé cortei: “Como você sobreviveu sem
o pé, então não foi você quem eu feri”.123 Mas observe as im-
portantes implicações metafísicas que Pascal extrai do que, de
fato, não é nada mais do que um argumento sobre a intencio-
nalidade do amor. O argumento entra em colapso tão logo se vê
que a dependência de razões e a universalidade são logicamente
distintas.
A diferença é evidenciada mais claramente pelo importante
caso das atitudes estéticas. O interesse estético é o interesse no

122 Blaise Pascal, Pensées (n. 306 das traduções Penguin por J. M. Cohen, Harmondsworth,
1961).
123 E. B. de Condillac, Traité des sensations et des animaux, em Ouevres completes, Paris,
1821, vol. 3, p. 90.

145
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

objeto individual, não como exemplo de um universal, mas como


o objeto particular que é.124 Uma obra de arte pode ser um tipo
com muitos símbolos – como um romance ou uma sinfonia. Mas
identificar o tipo é identificar o indivíduo, e qualquer interesse
no tipo é o interesse no indivíduo que o exemplifica. Meu amor
pelo Concerto para Violino de Beethoven pode coexistir com a
aversão a todas as outras obras musicais sem que, por isso, seja
inconsistente consigo mesmo. O interesse estético é, não obstan-
te, fundado em razões.125 Tem que haver algo que possa ser dito
ou apontado em resposta à pergunta “Por que você está interes-
sado nisso?” Se não houvesse resposta, deveríamos estar lidando
com um caso de torpor, e não de interesse estético.
Pode-se argumentar que os exemplos – amor pessoal e in-
teresse estético – foram criados artificialmente: não fiz nada
mais do que estipular que eles são estados de espírito que são
particulares, seja quando estão fundados em razões, seja quan-
do envolvem razões. É verdade que não precisa haver qualquer
estado mental correspondente às minhas duas descrições. Mas
também é verdade que as características que descrevi pertencem
à verdadeira essência de tudo o que os possui. Eles definem ti-
pos de intencionalidade; mais do que isso, é nos termos da sua
intencionalidade que os estados de espírito são distinguidos por
aqueles os gozam ou sofrem. Realmente há uma coisa como o
amor pessoal, e seu envolvimento com a razão é parte do que
significa para nós, e explica por que devemos ter notado a sua
existência desde o princípio.
O aprofundamento teórico sobre a distinção entre o funda-
do em razões, o livre de razões e o que envolve razões é uma
questão de considerável dificuldade. Vale a pena ressaltar, con-
tudo, que a distinção em três partes pode ser abordada com o
mesmo espírito com que Elizabeth Anscombe lida com a ação

124 Essa visão aparece de muitas formas: especialmente nas versões decorrentes de Kant
(Critique of Judgement, 1790, tr. J. H. Bernard, Nova York, 1951), e nas decorrentes
de Croce (Aesthetic, 2ª ed., tr. D. Ainslee, Londres, 1923). Para uma discussão dessas
visões, e uma defesa em particular de uma delas, ver meu livre Art and Imagination,
Londres, 1974, cap. 9.
125 Defendo esse ponto em Art and Imagination e em The Aesthetics of Architecture,
Londres, 1979, cap. 5.

146
capítulo 5 - o objetivo individual

intencional e a não-intencional.126 Poderíamos dizer, como um


primeiro passo (mas não seria mais do que um primeiro passo),
que uma atitude é fundada em razões se admite a aplicação da
(ou de certo sentido da) pergunta “Por que você sente isso?” E
aqui a resposta pode ser uma espécie de variável, como no caso
da ação intencional: “Eu não tenho certeza” (diferente daquilo
que Anscombe chama de “uma rejeição da questão”). Quanto
mais se tem de procurar por uma razão – quanto mais se tem
de “descobrir o porquê”, por exemplo, de se amar uma pessoa,
mesmo quando se está firme na crença de que, amando-o, tem-
se uma razão – mais deveríamos falar de amor como algo que
envolve razões, e não fundado em razões.
Se escolhêssemos essa abordagem, tornar-se-ia tão difícil
atribuir atitudes fundadas e que envolvem razões às criaturas
sem palavras quanto é difícil, na visão de Anscombe, descrever
suas ações como intencionais. Deve-se notar, no entanto, que,
para os fins do meu argumento, é completamente desnecessário
decidir essas complexas questões de psicologia filosófica.

A atenção e a desatenção
Algumas atitudes se concentram em características específi-
cas de seu objeto, e ignoram outras. O medo, por exemplo, con-
centra-se sobre o perigo atual e tudo o que o causa, ignorando
as características do objeto ameaçador que poderiam ter sido
consideradas prazerosas ou admiráveis. Tal atitude é “desaten-
ta”, no sentido de que deve necessariamente ignorar alguma
parte do que é apresentado. Em contrapartida, as atitudes aten-
tas não ignoram nada: nenhuma característica de seu objeto
é descontada, e nenhuma característica pode ganhar destaque
com a exclusão total das outras sem mudar de atitude. O exem-
plo mais conhecido de uma atitude atenta é o interesse estético;
cada característica do dito objeto é relevante para a atenção que
o abraça. Mas também se deve reconhecer que certos tipos de
amor – o amor erótico entre eles – são semelhantes. O amante
para quem cada fio de cabelo de sua amada possui um significa-
do individual é como o esteta que pondera cada nota da parti-
tura. Este tipo de luxúria para o detalhe é uma continuação dra-

126 G. E. M. Anscombe, Intention.

147
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

mática inevitável do interesse atencioso que, justamente porque


considera tudo como relevante, tenta também não considerar
nada insignificante.127
A atenção do interesse estético já foi descrita diversas vezes;
mas de uma forma ou outra, foi reconhecida pela maioria das
teorias estéticas pós-kantianas. E isso deu origem a um mal-en-
tendido perigoso. Já que todas as características de uma obra de
arte são relevantes para meu interesse nela, estou naturalmen-
te disposto a procurar ligações entre as características que me
permitam captá-las como uma unidade em minha mente. Se eu
conseguir alcançar essa unidade, isso é um fato sobre mim: eu
sou capaz de captar em minha atenção a totalidade do objeto
diante de mim. Claro, é apenas em virtude da obra de arte que
eu sou capaz de fazer isso. Mas não se deve deduzir disso que
a própria obra de arte possui algum tipo de unidade (orgânica
ou não), e que, ao apreciá-la esteticamente, é essa unidade que
percebo. Saber quais características de uma obra de arte facili-
tam o empreendimento da percepção unificada é outra questão.
Talvez não exista uma única resposta para esta pergunta. Talvez
a pergunta deva ser respondida separadamente para cada obra.
Talvez, em suma, seja uma questão para o crítico, e não para o
filósofo. E, no entanto, quantos filósofos foram tentados a ob-
ter, a partir da premissa de que a resposta estética é atenciosa,
a conclusão de que as obras de arte são objetos peculiarmente
unificados, talvez com um tipo especial de individualidade me-
tafísica que os diferencia do resto da criação do homem?128
É como uma falácia, e uma que teremos que considerar com
frequência, que o objeto do amor é dotado de uma unidade
peculiar – uma unidade que liga todas as suas características
em uma totalidade que pode ser apreendida em um único ato
intuitivo. E, uma vez que sua presença física se apresenta tão

127 Ver Art and Imagination, cap. 1, e também “Photography and Representation” em The
Aesthetic Understanding, Londres, 1983.
128 Essa falácia é fundamental à teoria da arte de Croce, como mostrado em seu Aesthetic, e
também à visão decorrente apresentada por R. G. Collingwood em seu Principles of Art,
Oxford, 1937. Os filósofos analíticos não estão imunes a esse erro. Ver especialmente
o trabalho de P. F. Strawson, “Aesthetic Appraisal and Works of Art”, em Freedom and
Resentment and Other Essays, Londres, 1974, em que Strawson defende que as obras
de arte são distinguidas por um critério particular de identidade – que torna todas as
características esteticamente relevantes em propriedades essenciais.

148
capítulo 5 - o objetivo individual

manifestamente sem essa unidade – pois fisicamente ele tem a


unidade de um animal, de quem podemos remover cabelos e
unhas dos pés sem prejuízo para o todo – surge a idéia de que
sua unidade é de outro tipo e tem alguma outra fonte. Surge, de
fato, a grande ilusão metafísica do amor: a ilusão de que, ao ver
o outro sob o aspecto do amor, eu sou confrontado com a uni-
dade “transcendental” subjacente a partir da qual fluem todas
as suas ações. Há outras fontes dessa ilusão. Mas é instrutivo
reconhecer sua analogia com um grande erro da estética pós
-kantiana – a falácia de acreditar que a “unidade intencional”
de uma atitude é também a percepção de uma “unidade mate-
rial” em seu objeto. Este é um lapso intelectual de que nenhum
ser humano pode, em sua existência cotidiana, ser curado.

O propositado e o despropositado
A última distinção é algumas vezes confundida com outra; no
entanto, não são idênticas. Algumas atitudes se aproximam (ou
recuam) de seu objeto com um “fim em vista;” outras não. Ao
primeiro tipo pertencem todas as nossas emoções mais práticas,
tais como a agressão (que tem o objetivo de ferir) e o medo (que
visa evitar). Outras atitudes – o interesse estético novamente
fornece um paradigma – não têm nenhum “fim em vista”. Elas
são, na utilíssima expressão de Kant, “desinteressada” (ohne In-
teresse), divorciadas de interesses práticos imediatos. Quando
me aproximo de um objeto com um determinado fim em vista,
o meu propósito determina um critério de relevância – algumas
características do objeto têm uma influência sobre ele, outros
não. Portanto, há uma tendência na filosofia da arte de explicar
a atenção do interesse estético nos termos de seu caráter despro-
positado, que nos priva da capacidade de distinguir o relevante
do redundante.129
É, no entanto, muito simples reduzir as duas distinções em
uma, pois poderia haver atitudes que são atentas e também pro-
positais. O amor é uma delas, mas um exemplo mais vívido é
dado pelo desejo sexual. Não podemos negar que o desejo tem
um objetivo; no entanto, parece ter – ou, pelo menos, tender a –

129 Ver, por exemplo, S. Hampshire, “Logic and Appreciation”, em W. Elton (ed.) Aesthetic
and Language, Oxford, 1954.

149
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

o caráter atencioso do amor: todas as características do objeto


podem fortalecer ou ameaçar o desejo, e nada pode ser descar-
tado a priori como irrelevante para o interesse do observador.
Pode-se considerar que, se isso é assim, o desejo deve ser algo
que envolve razões – e talvez até mesmo fundado em razões.
Mas essa conclusão é muito precipitada. Ser ou não uma ati-
tude que envolva razões depende do tipo de ameaça que novas
descobertas oferecem a ela. Uma descoberta que destrói uma
crença sobre a qual a atitude está fundada envolve a refutação
de uma razão; ela ameaça a atitude ameaçando a sua fundação
intelectual. Uma descoberta que simplesmente chama a atenção
para alguma característica nova e despercebida, e sobre a qual
não havia nenhuma crença ou descrença anterior, não ameaça o
fundamento intelectual, mas o foco imediato do estado de espí-
rito do sujeito. A diferença aqui pode não parecer imediatamen-
te óbvia. Mas tornar-se-á evidente no curso de nossa discussão.
A distinção entre o propositado e o despropositado está lon-
ge de terminada. Considere a amizade. Em certo sentido, é des-
propositada: não há “fim em vista” que motiva o amigo quando
ele procura a companhia de seu companheiro. No entanto, seria
errado dizer que a amizade é despropositada, se queremos dizer
que não há objetivos ou projetos que são próprios de um amigo.
Um “verdadeiro amigo” procura o bem-estar do outro e perse-
gue esse fim ativamente sempre que possível. No entanto, se há
alguma finalidade ulterior – por exemplo, se procura o bem-es-
tar do outro para ganhar o favor ou buscar alguma recompensa
– então devemos dizer que ele não está motivado pela amizade.
Além disso, pode-se desejar o bem-estar do outro por carida-
de, pela preocupação desinteressada por um universo bem or-
denado, por dever religioso ou simplesmente “por si mesmo”,
sem estar motivado pelo afeto humano. A preocupação com o
bem-estar de um amigo é um tipo particular de preocupação, e
não é destacável do motivo da amizade. A tentativa de separar
o propósito da amizade da prática da amizade está, portanto,
repleta de dificuldades peculiares.
Nesse ponto, alguém pode tomar uma esquecida tecnicali-
dade da teologia e descrever os propósitos da amizade como
imanentes. Ou seja, eles se encontram na própria prática da
amizade, e nunca poderiam ser alcançados por outros meios

150
capítulo 5 - o objetivo individual

ou motivos. Em certo sentido, isso faz da amizade desproposi-


tada – já que não tem nenhum propósito destacável. Em outro
sentido, faz da amizade profundamente propositada, uma vez
que todas as amizades podem agora ser incluídas dentro de um
único objetivo principal. A amizade, dito de outra forma, é a
descrição de um objetivo. Ela denota uma atividade que é uma
finalidade em si mesma.
Na maioria das atitudes interpessoais, o despropositado, o
propositado e o “imanentemente propositado” se cruzam e qua-
lificam um ao outro. Quando eu entro em uma loja e começo
minha transação com o assistente, minha atitude é uma mistura
inextricável destes três componentes. O propósito imanente da
conversa agradável se mistura com a contemplação despropo-
sitada de produtos que não tenho vontade de comprar, e com
as negociações propositadas da presente compra, para produ-
zir essa “prontidão contratual” espontânea que é a condição
normal da existência econômica. Podem-se ver muitas defesas
elegantes da economia de mercado, tratando do “entendimen-
to tácito” que é parte integrante da cooperação humana como
um apelo pela manutenção dos acordos em que os fins econô-
micos são sempre acompanhados pelos fins imanentes da exis-
tência social, não representando, portanto, uma ameaça para
eles. Uma reflexão sobre tais discussões – e, em particular, as de
Hayek e Polanyi130 – certamente deve nos fazer perceber quão
difícil é efetuar uma divisão entre o propositado e o despropo-
sitado na conduta humana. No entanto, essa distinção (que vi-
mos ser uma tripla distinção) pode ser efetivamente empregada
quando se discute o núcleo fundamental da intencionalidade
humana. Sempre fará sentido perguntar, de alguma estrutura
básica intencional – medo, digamos, ou raiva, ou desejo sexual
– a que categoria pertence.

O transferível e o intransferível
A distinção acima nos leva, por etapas naturais, a uma quin-
ta, e é uma que já teve destaque nos argumentos dos capítulos
anteriores: a distinção entre o transferível e o intransferível. Fa-

130 Ver F. A. Hayek, Studies in Philosophy, Politics and Economics, Londres, 1967, e Michael
Polanyi, Personal Knowledge, Londres, 1958, cap. 7.

151
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

ria sentido dizer a alguém que estava pegando um copo de água,


“Tome isto, é tão bom quanto isso”, e entregar-lhe um copo de
cerveja ou suco de laranja, ou qualquer outra coisa para saciar
sua sede. Aqui, o desejo pode ser transferido de um objeto a
outro; ou, se preferir, os objetos podem ser substituídos um pelo
outro, sem precipitar uma mudança de atitude mental.
Algumas atitudes interpessoais são transferíveis. Suponha
que alguém, em um acesso de raiva contra a humanidade, ataca
outra pessoa na rua. Ele deseja bater nessa pessoa em particu-
lar; mas seu desejo poderia ser transferido para outro. Faria
sentido (embora ele não fosse sensato) dizer: “Bata neste aqui,
ele é tão bom quanto esse”. A transmissibilidade é aqui uma
consequência da natureza generalizada da agressão subjacente
ao desejo original. Claro, um homem ficar enlouquecido, como
o Ajax de Sófocles, sob a ilusão de que cada destinatário de seus
golpes o ofendeu pessoalmente. Mas o pathos de Ajax reside no
fato de que sua fúria, embora não transferível, foi humilhante-
mente desviada por desígnios divinos.
Pode-se pensar que, sempre que a outra pessoa entra especi-
ficamente na intencionalidade da minha atitude, a atitude não é
transferível. Mas há uma variedade de casos a considerar. Supo-
nha que eu esteja procurando uma companhia para ir comigo
a uma apresentação de O Pato Selvagem. “Eu estava contando
com Paulo, mas ele está ocupado”. “Talvez João possa; ele gos-
ta de Ibsen. Ele seria tão bom quanto Paulo”. O contraste óbvio
com esse exemplo é o caso do amor. Parece absurdo responder
à observação “João, meu amado, me deixou; o que devo fazer?”
dessa forma: “Vou ficar com Paulo; ele será tão bom quanto
João”. Eu digo que parece absurdo, porque mais tarde terei de
examinar os argumentos que sugerem que essa sensação de ab-
surdo não é mais que uma ilusão bem fundada, para usar nova-
mente o idioma de Leibniz.
Qual é (se é que há) a diferença relevante entre os dois casos?
No primeiro caso, há um propósito definido e não-imanente
pelo qual eu preciso de um companheiro. É esta a diferença?
Não é óbvio que seja. Há atitudes que são aparentemente in-
transferíveis, mas que ainda possuem objetivos definidos: o de-
sejo sexual é o exemplo óbvio. Queiramos ou não dizer que o
objetivo é, em tais casos, sempre imanente até certo ponto é

152
capítulo 5 - o objetivo individual

outra questão. Voltando à discussão de Kant do desejo sexu-


al, podemos ver uma tendência clara (manifesta em toda a sua
filosofia moral) em explicar a intransferibilidade das atitudes
interpessoais com base no fato de que seu objeto é visto “não
apenas como um meio, mas como um fim”. (Precisamente a
mesma tendência pode ser vista na tentativa de Kant de expli-
car a individualidade do objeto estético nos termos da natureza
“desinteressada” da atitude que nós dirigimos a ela.) Presumi-
velmente, ver alguém como um fim é ter apenas fins imanentes
para ele (fins para os quais ele entra essencialmente).
No entanto, deve ser dito de uma vez que a abordagem
de Kant destas questões – embora louvável pela sua percep-
ção dominante, de que as relações interpessoais em geral, e em
particular a moralidade, fundamentam-se na individualidade
insubstituível das pessoas – é demasiado radical. Considere a
curiosidade. Esta é uma atitude completamente transferível. Um
homem curioso sobre vacas pode passar bastante livremente de
uma para outra, satisfazendo sua curiosidade em cada uma. E
ainda assim sua curiosidade não precisa ter nenhum outro pro-
pósito do que ela própria, e certamente não possui uma finali-
dade específica comparável a uma visita ao teatro. O objeto da
curiosidade é tratado não como um meio, mas como um fim em
si mesmo.
Penso ser melhor abordar o exemplo dado através da idéia
de relevância. O objetivo do freqüentador do teatro resolve o
que é “relevante” a seu interesse. Ele é bem servido por alguém
com as propriedades relevantes, e mal servido por alguém sem
elas. Sua atitude é transferível porque há propriedades relevan-
tes que servem para concentrá-la, mesmo que ele precise de um
companheiro (isto é, uma instância individual dessas proprie-
dades), e não apenas de um conjunto de instâncias qualitativas
bradleyanas131 (algo que seria muito desconfortável de levar ao
teatro). Claro que você ficaria insultado ao saber que você foi
quisto como companheiro apenas como a instanciação de um
universal. É muito importante que eu esconda de você (e de
mim) a idéia de que outra pessoa possa “ser tão boa quanto”.
(Quase toda cortesia comum pode ser vista como um estratage-

131 Francis Herbert Bradley, filósofo inglês – NT.

153
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

ma para esconder esse pensamento.) Mas a idéia é, no entanto,


convincente. (Assim nós somos entretidos, ou entristecidos, pelo
anúncio no The New York Review of Books, que diz: “homem
bonito, próspero, bissexual, 39, procura mãe judia que goste
de teatro, música (não pop), autorrealização, 30-35, na área
da Filadélfia, com carro próprio e compromissos, para relação
erótica significativa”. Imagine a discussão posterior, em que a
mulher diz: “Mas eu me encaixo perfeitamente na descrição;
que direito você tem de se queixar?” Talvez ela deva procurar
um advogado.)
Devemos distinguir aqui dois tipos de transferência: a fac-
tual e a contrafactual. É a último que realmente nos interessa.
Minha raiva por Alfredo pode ser intransferível, simplesmente
porque está ligada à coisa específica que Alfredo fez, e ninguém
mais. Neste caso, não é o fato de Alfredo ser uma pessoa que
faz da minha atitude intransferível. De maneira semelhante eu
poderia ficar angustiado com um meteorito em particular que
abriu uma cratera em meu jardim. Seria absurdo tomar outra
catástrofe, não importa o quão semelhante, e dizer: “Fique com
esta, é praticamente igual à outra”. Foi este meteorito, que cau-
sou esta catástrofe, que me aborreceu. Em ambos os casos, a
identificação de um objeto individual entra na intencionalidade
da atitude. No entanto, em outro sentido, a intransferibilida-
de da atitude é aqui uma questão trivial, dadas as razões em
que podemos identificar aspectos relevantes do objeto que são
o foco do que eu sinto. Se João tivesse feito o que Alfredo fez, eu
teria ficado igualmente zangado com João; se outro meteorito
tivesse devastado meu jardim, eu teria sido tão aborrecido com
isso. Essas atitudes são factualmente, mas não contrafactual-
mente, intransferíveis.
Os casos interessantes são os de intransferibilidade contra-
factual. Eu não posso dizer quais propriedades da minha Eli-
zabeth teriam de ser possuídas por outra mulher para ela ser
um objeto deste desejo presente. Se isso é uma ilusão, é uma
ilusão que levamos bastante a sério, e pela qual vivemos. Se o
exemplo do desejo sexual não parece plausível, então considere
o amor erótico, o drama que se concentra quase exclusivamente
em um pensamento contrafactual: o pensamento de que outra
pessoa não poderia ter sido o que esta pessoa é para mim. Esse

154
capítulo 5 - o objetivo individual

pensamento está na base de toda dor, toda felicidade erótica e


todo suicídio de amor. (Veja a cena III do teatro de bonecos de
Chikamatsu, Os Suicídios de Amor em Sonezaki.)
A explicação que pode ser dada imediatamente é que todas
essas atitudes devem sua intransferibilidade contrafactual ao
simples fato de que seus objetos são (ou são considerados como)
pessoas. Nunca seria o caso de eu me tornar tão apegado a, ou
repelido por, uma mera coisa de forma a ser incapaz de encarar
a situação contrafactual que despertaria em mim uma emoção
semelhante. Eu poderia ser tão apegado ao meu piano que se
tornaria impossível dizer algum outro seria tão bom quanto?
Mais uma vez o exemplo do interesse estético nos faz hesi-
tar. Nós podemos ter interesse estético em algo que não é uma
pessoa, e ao fazê-lo, o consideramos “por ele mesmo”, e sem
tolerar a idéia de que algum outro objeto poderia ter sido “tão
bom quanto”. Não deve passar despercebido que nós elogiamos
igualmente como belos o objeto do prazer estético, o objeto do
desejo sexual e o objeto do amor. E é uma hipótese plausível
que esta linguagem indique uma estrutura intencional comum,
o que explica a enorme importância destas atitudes em concen-
trar nossas mentes sobre o aqui e agora. Alguns filósofos ten-
taram explicar a experiência estética em termos quase-pessoais.
Tomando sua sugestão da idéia de Kant de que o objeto estético
é visto como intencional (embora despropositado), eles supõem
que nós o vemos como a expressão de uma intenção, uma idéia
ou uma característica. A intencionalidade individualizante da
atitude estética é, portanto, apenas um caso especial da inten-
cionalidade individualizante da interpessoal.
Mas tais sugestões são o resultado de teoria, e os fenômenos
que são invocados para explicar podem ser entendidos sem elas.
Podemos, portanto, sugerir que a intransferibilidade contrafac-
tual é uma propriedade atitudinal separada da interpessoalidade.
O desejo sexual é intransferível? Sugeri que sim, e para de-
fender essa sugestão é necessário dissipar certos mal-entendidos
possíveis. Dizer que o desejo é intransferível não quer dizer que
seja exclusivo. Alguém pode desejar várias pessoas, mas não
com o mesmo desejo. Também não decorre que o desejo não
se baseia em outros estados da mente (instintos, necessidades
e assim por diante) que são transferíveis. Considere Don Juan.

155
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

A essência de sua personalidade é a sedução, e a sedução é uma


empresa interpessoal. Você não poderia seduzir uma maçã, um
cão ou um cadáver, nem mesmo uma criança (um caso proble-
mático sobre o qual terei algo a dizer mais adiante), embora to-
dos possam ter usos sexuais. Seduzir é provocar o consentimen-
to de alguém representando a si mesmo de certa maneira. Don
Juan é sedutor porque sente paixão por todas as mulheres que
conhece, e ainda assim sua paixão não é transferível. Seria ab-
surdo interromper sua sedução de Zerlina dizendo: “Fique com
esta, ela é tão boa quanto essa” (daí o pathos da interrupção de
Donna Elvira). A característica extraordinária do Don (como
Mozart o descreve) não é transferir uma única paixão a uma
sucessão de objetos, mas fazer com que sua paixão constante-
mente ressurja sob novas formas. O ato sexual é suficiente para
anular (ou até satisfazer) o desejo anterior, e preparar o terreno
para outro. Assim, quando Leporello lê de sua lista, e nos diz
que “in Espagna, son’ già mill’ e tre”, ele não está contando os
objetos de uma única paixão, mas as diversas paixões que ins-
piraram. Essa é a fonte de mania de Don Juan, o “demonismo”
que Mozart capta tão brilhantemente em “Fin’ caldo vino”.
Esse tipo de desejo não é mais “transferível” do que é o de Tris-
tão por Isolda: ele simplesmente ressurge de infinitas formas.
Como todos os pecados, é uma forma de ansiedade infatigável.
Do ponto de vista objetivo (fora do escopo da intencionalida-
de humana), temos de reconhecer que o desejo sexual e o amor
erótico são ambos manifestações de outras coisas – de necessi-
dades animais e hábitos emocionais. Essas outras coisas podem
ser transferidas de um objeto a outro e ainda assim permanece-
rem as mesmas. A transferibilidade é essencial à idéia biológica
de uma necessidade, uma vez que a necessidade é relativa a uma
função, e uma função pode ser cumprida por qualquer objeto
que tenha a característica em questão. No entanto, apesar de
um amante poder expressar seus sentimentos nas palavras “Eu
preciso de você”, ele não quer dizer “Eu tenho uma necessidade
que você pode satisfazer”. A ênfase está no insubstituível você.
A necessidade de estímulo sexual e a necessidade de companhei-
rismo podem ser satisfeitas por um número infinito de coisas.
Mas isso não nos diz nada sobre a intencionalidade do desejo.
Um estado de espírito pode não ter a intencionalidade da con-
dição biológica que a subjaz e explica. Pensar de outra maneira
156
capítulo 5 - o objetivo individual

é imaginar que você poderia extrair a idéia legal do direito de


propriedade de uma descrição do instinto territorial, ou o con-
ceito de autoridade de uma descrição da disposição da criança
a obedecer.

Mediato e imediato
Há outra distinção que serve para alinhar o sexual e o estéti-
co e separá-los da moral. É a distinção entre as atitudes que são
fundadas na percepção de seu objeto (atitudes que chamarei de
“imediatas”) e atitudes que dependem apenas do pensamento.
Considere a admiração moral. Isso é algo que eu posso sentir
em relação a uma pessoa que nunca conheci, simplesmente com
base no que eu acredito ser verdade sobre ela. Eu posso admirar
Cicero ou Marco Aurélio, sem a menor experiência, seja lite-
ral ou imaginativa, dos próprios homens. É uma idéia recebida
da estética (desde que Baumgarten inventou a palavra)132 que a
apreciação estética se baseia na percepção de seu objeto, e não
pode ser baseada apenas no pensamento. Esse ponto foi apre-
sentado de várias maneiras. Alguns falam da natureza “sensual”
do interesse estético; outros se referem a seu caráter “concreto”
ou “imediato;” outros dizem que o julgamento estético é dis-
tinguido pelo fato de que você deve “ver o objeto por si mes-
mo”.133 Todas essas expressões sugerem diferentes formas de
teorizar uma única observação.
É evidente que algumas atitudes, como o interesse estético,
estão enraizadas na experiência real de seu objeto e não podem
existir sem essa experiência, enquanto outras (especialmente
aquelas que são “universais”) podem ser separado da experi-
ência, já que sua intencionalidade é construída a partir do pen-
samento exclusivamente. O desejo sexual pertence à primeira
categoria. Ele é despertado por uma experiência de encarnação
– pela visão, som ou cheiro de seu objeto. E é tão difícil imagi-
nar um desejo sexual que começa de uma mera descrição, quan-

132 A. G. Baumgarten, Reflections on Poetry, 1735.


133 Essa tese já foi sustentada de inúmeras formas. Veja, por exemplo, a seção 32 da Crítica
do Juízo de Kant, e, para uma retomada moderna particularmente influente, F. N.
Sibley, “Aesthetic Concepts”, Phil. Rev., 1957, e “Aesthetic and Non-Aesthetic”, Phil. Rev.
1965.

157
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

to é difícil imaginar apreciação estética “em segunda mão”. Nós


realmente podemos imaginar uma descrição tão convincente
que serve para completar a lacuna, por assim dizer, entre pen-
samento e experiência – uma espécie de equivalente sexual das
descrições que Thomas Mann nos dá (em Doutor Fausto) das
obras de Adrian Leverkühn. Mas essa descrição forneceria um
objeto para o desejo só porque permitiria que o sujeito “imagi-
nasse como seria” experimentar a encarnação da pessoa descri-
ta. O exemplo, portanto, apenas confirma o ponto: que o desejo
é dependente da experiência que o produz. Assim, os exemplos
mais plausíveis de “desejo vicário” são aqueles em que o sujeito
é movido por uma representação que lhe permite criar na ima-
ginação a forma encarnada do objeto de desejo. Tal exemplo é
dado pela Flauta Mágica de Mozart, em que Tamino apaixona
por Pamina ao ver o seu retrato.
O imediatismo do desejo contribui de uma forma a sua inten-
cionalidade individualizante. Parece sempre haver uma espécie
de halo de indicialidade em torno do objeto do desejo: uma sen-
sação de “aqui e agora”. O objeto do desejo é identificado por
uma presença física que, mesmo quando meramente imaginária,
como a presença de Pamina em seu retrato, é essencialmente
“percebida por mim”. O amado se apresenta para mim em uma
relação indicial. Ou, para falar em fenomenologês, ele é sempre
um “isto” para mim. E esse elemento indexical serve para con-
centrar meus pensamentos individualizantes dentro do quadro
de uma percepção imediata. Parece que eu estou presente, aqui
e agora, dentro do imediatismo da minha experiência, com o
outro indivíduo, cuja natureza nunca poderia ser apreendida
em uma descrição, porque nunca poderia ser traduzida de sua
forma sensorial “dada”.
Tais pensamentos são inebriantes, e é bom estar ciente das
consequências de ceder a eles. Mais importante ainda, o mis-
tério da “substância” que está por trás de suas propriedades
se agrava com o mistério da própria experiência. Uma experi-
ência permanece para sempre fora dos conceitos que a conte-
nham. Assim, supõe-se, a irredutibilidade de uma substância a
suas propriedades (a implausibilidade de uma descrição “sem
propriedade”) é semelhante à irredutibilidade de uma experi-
ência aos pensamentos que tentam transmiti-la. Essa confusão

158
capítulo 5 - o objetivo individual

de mistérios pode ser observada tanto na experiência estética


quanto no desejo sexual. Ela motiva a teoria neoplatônica do
amor (veja abaixo), as teorias expressionistas e idealistas da arte
e grande parte da filosofia hindu do desejo. Também está por
trás da, de outro modo inexplicável, disposição de Kant para
confundir, na Crítica da Razão Pura, a distinção entre indivíduo
e propriedade com a distinção entre intuição e conceito.134 Não
me proponho a desvendar tais confusões na sua totalidade. Em
vez disso, vou permitir-lhes, que cuidadosamente desvendem a
si mesmas. Mas, mesmo sem elas, podemos notar fortes moti-
vos para supor que nossa disposição de descrever o objeto do
desejo e o objeto do interesse estético nos mesmos termos não
é acidental. O “belo” é o próprio objeto de atitudes que são
atentas, intransferíveis e imediatas, e quando alguém se refere
ao objeto de alguma outra atitude nestes termos – quando ele se
refere, por exemplo, a uma bela máquina, uma bela prova, um
belo caso jurídico – é porque se rendeu à experiência imediata
de algo, encontrando ordem e significado nela.

As características formais do desejo


O objetivo de delinear as seis distinções a que me referi é
em parte para desagregar a alegação altamente complexa que
algumas de nossas atitudes são direcionadas aos indivíduos en-
quanto indivíduos, e outras aos indivíduos somente enquanto
membros de alguma classe. Há um sentido em que as atitudes
universais podem ainda ser direcionadas aos indivíduos enquan-
to indivíduos – pois elas podem existir sem propósito (ou com
um propósito meramente “imanente”), e neste sentido bastante
estreito, portanto, podem envolver um interesse no indivíduo
como um fim em si mesmo. Na verdade, este é exatamente o que
está envolvido nas atitudes morais, tais como estima e desprezo.
No entanto, nenhuma tem o caráter atencioso do amor, nem
tem a intransferibilidade contrafactual do interesse estético ou
do desejo. Descobrimos, portanto, um ninho de distinções dife-
rentes dentro da única distinção sobre a qual Kant tentou fun-
dar a moralidade do “respeito pelas pessoas”. E não devemos

134 A confusão já foi bastante esclarecida e criticada por P. F. Strawson em The Bound of
Sense, Londres, 1966, e também por R. Walker, Kant, Londres, 1978, cap. IV.

159
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

nos surpreender, portanto, se falarmos tanto de amor quanto


de desejo de maneiras que seriam proibidas para Kant por sua
própria ambição metafísica.
O desejo sexual é especial: não há “objeto universal” que seja
o seu verdadeiro foco, mas apenas o objeto particular da busca.
Vou discutir este característica com mais detalhes mais tarde, a
fim de considerar tanto a sua explicação quanto suas consequ-
ências reais ou imaginárias.
O desejo não é baseado em razões, embora possa, de vez
em quando, ser justificado, seja a partir do ponto de vista da
primeira-pessoa, seja da terceira-pessoa. Esta questão de justifi-
cação será retomada no Capítulo 11. Por enquanto basta reco-
nhecer que, embora seja possível argumentar contra a busca de
um dado objeto sexual, há algo estranho na tentativa de argu-
mentar contra desejá-lo. O melhor que eu posso fazer, para de-
sencorajar o seu desejo por Felipe, é chamar a sua atenção para
características que você pode não ter notado, e que você pode
achar repulsivas: “Como você pode desejar um homem que pas-
sa óleo no cabelo e cutuca o nariz?” Mas o desejo, assim como
o amor, envolve razões? O desejo tenta encontrar o fundamento
que também irá justificá-lo? A pergunta é difícil de responder.
Pois parece haver dois tipos de desejo. Um é bastante indiferen-
te às exigências da razão, e o outro tenta – muitas vezes sem
sucesso – obedecê-las. O segundo tipo de desejo, no entanto,
já está caminhando na direção do amor, e se envolve razões, as
envolve da mesma maneira que o amor. Este é o desejo apreen-
dido por Schumann, em Frauenliebe und Leben, em que não há
realidade além da necessidade de amar. Normalmente, quando
nos referimos ao desejo sexual, é precisamente para separá-lo
do amor de que pode ser componente. Assim identificado, ele
deixa de ser uma parte do desejo, devendo “envolver razões”.
O desejo tem um propósito, embora esse propósito seja par-
cialmente imanente, inseparável do objeto particular de busca.
Eu descrevi este propósito como “união”, e dei uma caracteri-
zação parcial do mesmo no objetivo da excitação mútua. Com
o andamento do livro continuarei a desenvolver essa descrição,
até demonstrar a intencionalidade completa do desejo.
O desejo é atencioso: qualquer característica de seu objeto
pode ser introduzida em seu foco, e todas são relevantes para a

160
capítulo 5 - o objetivo individual

sua história e drama. O desejo se assemelha ao interesse estético


não só nesse aspecto, mas também em sua imediação: como a
experiência estética, o desejo encontra o seu objeto na maté-
ria imediata da experiência – na forma encarnada do outro, tal
como aparece. Portanto, não pode haver tal coisa como “desejo
por ouvir dizer” ou “desejo por reputação”. Finalmente, e mais
importante ainda, o desejo é intransferível, e assim, nas palavras
de Blake, “amarra o outro para o seu prazer”.135
O amor é distinto de desejo, em primeiro lugar, no conteúdo
real do seu objetivo – que é imanente, mas menos específico
do que o objetivo do desejo – e em segundo lugar, no fato de
somente envolver razões. Todo amor pode ser ameaçado pelos
novos conhecimentos que destruirão a crença vital. O resulta-
do desse conhecimento pode ser catastrófico. O desejo também
tem suas catástrofes – a maior delas, o ciúme, está intimamente
relacionada com a sua intencionalidade individualizante – mas
pelo menos está desta. E, no entanto, nessa liberdade está ou-
tra catástrofe. Pois o desejo sobrevive à demonstração de que
seu objeto é indigno – e, portanto, tem o poder de degradar o
sujeito, forçando-o a ter relações íntimas com uma pessoa que
ele não consegue estimar. Mais tarde vou levantar a questão a
respeito do amor; se, ao contrário do desejo, é mediato, capaz
de viver só à base de pensamento.
Agora é possível corrigir alguns dos mal-entendidos, e defen-
der alguns insights, contidos em dois contrastes de Kant – entre
amor e estima, e entre amor e desejo.136 A estima é universal,
despropositada, desatenciosa, fundada em razões, mediata e
transferível. É, portanto, diferente do amor em todos os aspec-
tos, salvo, talvez, seu fundamento em razões e (talvez) seu cará-
ter mediato. O desejo difere da estima em cada uma das carac-
terísticas formais que discutimos. No entanto, paradoxalmente,
são o amor e o desejo que envolvem o pleno reconhecimento da
individualidade do outro. A estima, por sua qualidade universal
e transferível, ignora a circunstância individual, e fica contente
com qualquer um que mostre as qualidades necessárias. Colo-
cando mais imediatamente: a estima, ao contrário do amor ou

135 “Bind another to its delight” – NT.


136 Ver nota 114.

161
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

do desejo, não é uma forma de “interesse”. É difícil ver como


poderia existir uma moralidade plausível que coloca o indiví-
duo antes de cada abstração, que não reconhece nenhum valor
equivalente ao valor infinito da pessoa humana, mas que con-
sidera o interesse como nada mais do que parte da “patologia”
do homem. Só quando virmos amor e desejo como abrangidos
por nossas percepções morais que vamos ser capazes de realizar
o que Kant procurou realizar. Só então que seremos capazes de
dar as bases para uma moralidade secular, em que o indivíduo
é a última fonte de valor. Kant erroneamente considerou que a
distinção entre ver o outro como um indivíduo ou como uma
instância, um “exemplo”, deve ser feita nos termos da distinção
de o ver como um fim ou como um meio. Por isso, ele imaginou
que o caráter despropositado da estima garantiria sua centrali-
dade moral. Pelo contrário; a estima é despropositada porque,
em parte, abstraiu do objeto individual de interesse, e desemba-
raçou seu valor moral de sua existência individual. É somente
em atitudes propositadas, intencionais, como amor, amizade e
desejo, que ele se torna, enquanto um indivíduo, insubstituível.

O objeto individual
Como o desejo pode possuir a estrutura intencional que des-
crevemos? Como, em particular, ele pode ser intransferível? A
resposta óbvia – que o desejo é dirigido ao indivíduo, e não ao
tipo – não é mais clara do que a conceito de “pessoa singular”
que é invocado nela. É nos termos desse conceito que devemos
procurar entender, primeiro, os paradoxos do desejo, e, em se-
guida, a satisfação do desejo.
Individuum est ineffabile, dizem os escolásticos. Muitas coi-
sas são sugeridas por esse enunciado. Aqui vai uma delas: obri-
gados pela necessidade metafísica, nós fazemos uma distinção
entre o indivíduo e as propriedades atribuídas a ele. Mas como
podemos fazer essa distinção? Como separamos, em pensamen-
to, o indivíduo de suas propriedades? (Eu uso o termo “pro-
priedade” vagamente, de modo a incluir relações: a proprieda-
de é determinada por cada predicado significativo.) Parece que
precisamos de alguma característica definitória que constitua
o indivíduo como o que ele é. Mas essa característica é uma
propriedade, e como pode uma propriedade ser idêntica ao in-
162
capítulo 5 - o objetivo individual

divíduo que a carrega? Propriedades essenciais ainda são pro-


priedades, distintas apenas pelo fato de que seu possuidor não
pode deixar de tê-las sem também deixar de ser.
Tentou-se contornar essa dificuldade através da idéia de uma
essência individual – o haecceitas de Duns Scotus.137 Isso é con-
siderado uma propriedade essencial, ou uma lista de proprieda-
des essenciais, que somente pode ser instanciado por um único
indivíduo de um determinado tipo, de modo que, ao identificá
-lo, identifica-se também o indivíduo que o possui. Não preciso
dizer que a idéia de uma essência individual está repleta de difi-
culdades. Como pode haver uma propriedade que, por sua pró-
pria natureza, é instanciada apenas uma vez? Os exemplos mais
plausíveis estão comprometidos pelos paradoxos da teologia (a
propriedade de ser um deus, por exemplo, que parece ter no má-
ximo uma única instância, mas talvez apenas porque tenha me-
nos do que uma). Outros exemplos ou contrabandeiam alguma
referência secreta para o indivíduo singular que as instanciam
– a propriedade de ser idêntico a João, por exemplo – ou então
dependem, por sua instanciação única, de alguma circunstância
acidental.
Considere, por exemplo, a propriedade de ser o homem mais
alto que existe. Realmente pode-se dizer que esta propriedade
só pode ser instanciada por um único objeto: ao mesmo tempo,
no entanto, ela nunca poderia ser uma característica essencial
de qualquer objeto que a possua. Pode-se sempre dizer, do mais
alto, do mais gordo, do homem mais inteligente, que eles pode-
riam ter sido de outro modo. A “essência individual”, interpre-
tada tão vagamente, nem sequer é uma propriedade essencial
– neste caso, a idéia de que, ao compreender a essência individu-
al, compreende-se verdadeiramente o indivíduo é um absurdo.
Portanto, isso só pode ser afirmado de algumas propriedades
comparativas: o mais perfeito, o mais poderoso, o mais expe-
riente. E, repetindo, porque esses são os atributos de Deus.138

137 Sobre o caráter “pernicioso” dessa idéia, ver D. Wiggins, Sameness and Substance,
Oxford, 1980, p. 120.
138 Não devemos ficar surpresos, portanto, com o fato de que a maior das tentativas
de dar sentido à idéia de uma essência individual – a tentativa de Espinoza – tende
naturalmente à conclusão de que só há uma coisa, e essa coisa é Deus.

163
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Os exemplos putativos mais plausíveis de essências individu-


ais são “pontos coordenados”. Considere o universo da Física
moderna. Ele consiste em pontos e regiões espaço-temporais,
variadamente modificados pela distribuição de energia. Os in-
divíduos aqui são caracterizados exclusivamente pelas coorde-
nadas espaço-temporais que lhes foram atribuídas. Mas o que
é possuir uma posição dentro de um sistema de coordenadas?
É possuir uma propriedade relacional complexa. Como é que
a mera posse de tal propriedade é suficiente para individuali-
zar alguma coisa? Certamente, só porque temos uma idéia in-
dependente do seja ocupar uma posição espaço-temporal. Nós
individualizamos pontos do espaço-tempo relacionando-os aos
objetos que se encontram neles. Um ponto não é, para nós, um
verdadeiro indivíduo, mas um lugar onde os indivíduos podem
ser encontrados. E apesar de um indivíduo poder ser identifica-
do exclusivamente por seu lugar e tempo, não tem uma posição
essencialmente, e poderia estar em outro lugar e em outro mo-
mento. É, de toda forma, uma decepção ouvir que as “substân-
cias” últimas de nosso mundo têm todas as suas propriedades
acidentalmente, exceto sua localização espaço-temporal.
A resposta padrão para essas dificuldades é rejeitar toda
a idéia de uma essência individual. Diz-se que não podemos
encontrar a idéia da individualidade em uma lista de proprie-
dades, pois tal lista não pode ser ligada essencialmente a uma
única coisa. Isso não pode nem mesmo ser dito da descrição
completa (a noção completa) dessa coisa. Qualquer tentativa de
encontrar tal propriedade descritiva é uma tentativa de eliminar
a distinção entre referência e predicação, entre o “isto” e o “tal
qual”.139 Um conjunto de argumentos filosóficos, que remonta
pelo menos ao Individuals de Strawson,140 e tendo seus ances-
trais nas discussões de lógicos medievais, nos convence de que
a “ecceidade” não é descritiva, mas indexical, e não pode haver
um equivalente puramente descritivo de um indexical. Se um
sistema de coordenadas parece nos dar uma maneira respeitável
de identificar indivíduos genuínos dentro dele, é porque o em-
prego de tal sistema é inerentemente indexical. Nenhum lugar
foi individualizado dentro de qualquer sistema desse tipo para

139 Wiggins, Sameness and Substance.


140 P. F. Strawson, Individuals, an Essay in Descriptive Metaphysics, Londres, 1959.

164
capítulo 5 - o objetivo individual

mim, até que um “aqui” e um “agora” (ou, no caso do sistema


de coordenadas de Kripke para pessoas, um “eu” ou um “ele”)
tenham sido escolhidos como pertencentes a ele. Tendo identifi-
cado um ponto como aqui e agora, o resto se encaixa. Mas até
o momento dessa identificação, nós literalmente não sabemos
do que estamos falando.
Mas o que é identificado por tais índices de “referência iden-
tificadora”? Um velho problema de Descartes – o da passagem
do sujeito ao objeto – ressurge aqui como um problema de re-
ferência. Quando eu escolho um lugar no esquema espaço-tem-
poral, estou escolhendo como um ser, ou como algo que tem
alguma relação com o “lugar onde eu sou”? Nesse caso, cada
ato de identificação não pressupõe algum ato prévio de identi-
ficação do meu “ponto de vista”? Mas então, por que minha
conseqüente descrição dos conteúdos do mundo é uma descri-
ção do mundo, e não o meu ponto de vista sobre ela? A filo-
sofia racionalista – e, em particular, os sistemas de Espinoza e
Leibniz – pode ser vista como algo que envolve a tentativa de
dar uma descrição do mundo que envolve a individuação de
nenhum ponto de vista.141 A individuação seria, então, do que
existe objetivamente, e não apenas do que aparece num ponto
de vista que é meu.
Esses pensamentos nos levam a um conceito central e perene
do “indivíduo humano”. É amplamente suposto que, no meu
caso, eu tenho, em virtude da consciência privilegiada da mi-
nha própria condição subjetiva, uma espécie de “conhecimento
direto” de um indivíduo puro, cuja “ecceidade” está incorrigi-
velmente e imediatamente apresentada à consciência cuja iden-
tidade ela compartilha. Em suma, uma penumbra da “essência
individual” se liga à perspectiva da primeira-pessoa. Como ar-
gumentei no Capítulo 2, há algo sobre a base da autorreferência
que dá origem à idéia do eu como um paradigma individual: eu
naturalmente acredito que tenho contato, no meu próprio caso,
como um donnée imediato da consciência, com uma “unida-
de pura”. Esta unidade é o “ponto de vista” leibniziano, que é

141 Ver especialmente Bernard Williams, Descartes, The Project of Pure Enquiry, Londres,
1978, sobre o conceito cartesiano “absolute” do mundo. Críticas pertinentes a essa
concepção, em uma versão atribuída a Leibniz, podem ser encontradas em Strawson,
Individuals, cap. 4.

165
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

tanto um estado mental em desenvolvimento meu quanto um


espelho do mundo objetivo que me contém. É este algo que eu
identifico automaticamente ao usar a palavra “eu”.
Argumentou-se muito contra essa ilusão – a ilusão de que os
privilégios da autorreferência dão alguma garantia especial da
minha existência como uma “substância” individual. O argu-
mento de Kant, presente nos “Paralogismos da Razão Pura”,142
foi feito para mostrar que, ao identificar a “mim mesmo”, não
estou identificando nada mais do que um ponto de vista sobre
o mundo, e não uma entidade dentro dele. Seja qual for o co-
nhecimento privilegiado que pode estar associado com a minha
autoidentificação, ele não fornece qualquer razão para a cren-
ça de que eu existo como uma substância individual. O “eu” é
transcendental; ele não pode ser um objeto de sua própria cons-
ciência e manter a sua identidade como o sujeito que está cons-
ciente. Como, portanto, pode a minha consciência transparente
como um sujeito me dar qualquer pista sobre o que eu sou ob-
jetivamente? Kant defendeu – com considerável plausibilidade
– que o privilégio da autoconsciência (a “unidade transcenden-
tal da apercepção”) é compatível com praticamente qualquer
teoria filosófica da natureza humana. Eu poderia muito bem ser
tanto uma propriedade como uma substância, de acordo com
tudo o que minha consciência mostra.
Alguns filósofos resistiram a tais argumentos. Outros aceita-
ram sua amplitude, mas insistindo que há, no entanto, alguma
verdade sobre o “eu” que é verdade para mim enquanto sujeito
e que resiste à passagem para o ponto de vista da terceira-pes-
soa. Fichte, por exemplo, aceitou o argumento de Kant de que
o eu não é idêntico a nenhum indivíduo no mundo. Ao mes-
mo tempo, ele acreditava que isso simplesmente mostrou que
o mundo era “posto” pelo eu como um reino de objetos cuja
natureza é totalmente subserviente ao ponto de vista subjetivo.
O eu se torna, para Fichte, o verdadeiro objeto de investigação
filosófica, uma coisa-em-si-mesma, uma entidade na qual a li-
berdade e a intelecção estão conjugadas, um item com uma es-
trutura e desenvolvimento que precede cada processo objetivo

142 “Dialética Transcendental”, Crítica da Razão Pura (1781, 1787), tr. Norman Kemp
Smith, Londres, 1929.

166
capítulo 5 - o objetivo individual

– em suma, a verdadeira substância metafísica, mas uma a que


a categoria de “substância” não pode ser aplicada.143
A filosofia do “eu” de Fichte é um paradigma de todas essas
tentativas de elevar a perspectiva da primeira-pessoa a um princí-
pio metafísico. Uma visão mais modesta, mas não menos rica em
implicações metafísicas, é a visão moderna de que há verdades
em primeira-pessoa, que não podem ser expressas de nenhuma
outra forma. Thomas Nagel disse, por exemplo,144 que qualquer
visão do mundo puramente “sem perspectiva” necessariamente
deixaria de fora um fato importante sobre ele. Pois ela deixará de
fora qualquer referência ao eu – o ponto de vista a partir do que
o mundo é identificado. Daí que toda identificação dos objetos
no universo “sem perspectiva” será crucialmente incompleta. Os
objetos serão identificados apenas um em relação ao outro, mas
não em relação ao orador que os descreve. Como vou mostrar,
esses pontos de vista tiram conclusões inadequadas a partir do
que é, de fato, uma simples premissa de referência indexical.
De acordo com a visão de que estamos considerando, a in-
dividualidade da pessoa está conectada com a perspectiva da
primeira-pessoa. A intimidade da minha consciência desta pers-
pectiva pode ser expressa como uma “unidade transcendental”
obtida dentro dela. Eu não preciso descobrir que essa dor, essa
percepção e este pensamento pertencem a uma única consciên-
cia: o fato é “dado” para mim no próprio ato de consciência.
Nem é possível imaginar o que seria desta unidade se fosse se-
parada. Não poderia haver “ponto de vista” numa “consciên-
cia dividida” a partir do qual sua natureza dividida pudesse ser
observada. De “fora” é vista não como uma única consciência
que foi dividida, mas como duas “unidades” separadas e mis-
teriosamente relacionadas. De “dentro”, rigorosamente não é
observável. Se eu estou numa posição de atribuir um estado
mental “dado” a uma ou outra das duas “unidades”, isso só
pode acontecer porque o estado mental é apresentado a mim
como “meu;” portanto, sei imediatamente que ele pertence a
uma única unidade que inclui as outras duas.

143 J. G. Fichte, The Science of Knowledge, tr. e ed. P. Heath e J. Lachs, Cambridge, 1982, 2ª
Introdução.
144 T. Nagel, “Subjective and Objective”, em Mortal Questions, Cambridge, 1979.

167
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Tais fatos podem tentar um filósofo a concluir que a perspec-


tiva da primeira-pessoa fornece um modelo para a individuali-
dade da pessoa indivisa, e também para a identidade da pessoa,
como a coisa particular que ela é. Pode-se pensar que você não
pode ter minha perspectiva sem ser eu, de modo que, se você
vê as coisas exatamente como eu as vejo, então você é eu: você
está olhando pelos meus olhos, por assim dizer, para um mundo
que se abre para mim precisamente no ponto de observação que
você ocupa. Tais conclusões não têm fundamento. A menos que
adotemos o princípio de Leibniz da identidade dos indiscerní-
veis, não há nada que impeça a conclusão de que possa haver
dois pontos de vista indiscerníveis sobre o mesmo universo de
objetos. No entanto, a ênfase na perspectiva da primeira-pessoa
contém uma adoção oculta de indexicalidade, e isso dá uma
espécie de credibilidade espúria à visão de que isso basta para
individualizá-la àquilo a que pertence.
“Como o mundo aparece” não é o único objeto de minha
consciência presente. O mesmo se aplica aos meus estados men-
tais atuais em geral (“como o mundo aparece” é apenas um
estado mental entre outros). Como mostrei anteriormente, uma
maneira de resumir essa consciência privilegiada é dizer que, na
perspectiva da primeira-pessoa sobre minha própria mentalida-
de, a distinção entre a aparência e a realidade se decompõe. (Esta
é a idéia de subjetividade: a ausência de uma distinção entre o
ser e o parecer. E é precisamente isso que caracteriza a posição
do sujeito. Colocando a questão na linguagem hegeliana: o rei-
no do sujeito e o reino da subjetividade são uma única e mesma
coisa.) Seria absurdo pensar que poderíamos transportar esta
distinção para a perspectiva da primeira-pessoa. Pois “como as
coisas aparecem” é igualmente uma descrição do meu estado
mental. Se eu posso duvidar de sua veracidade, eu posso apenas
saber como as coisas “parecem aparecer”, o que também pode
ser, por sua vez, posto em dúvida. O sujeito se dissolve em uma
regressão pirrônica de incerteza.
Outra pessoa pode ter conhecimento de como as coisas apa-
recem para mim. E esse conhecimento poderia ser completo.
Presumivelmente, Deus tem completo conhecimento de como
as coisas aparecem para mim. Mas ele não tem o meu ponto de
vista, ou mesmo qualquer ponto de vista (expressando a idéia

168
capítulo 5 - o objetivo individual

em termos leibnizianos). Ele sabe isso como ele sabe todas as


coisas, nem mediata nem imediatamente, mas como o exercício
de sua própria vontade imutável. (Assim, Kant argumentou que
o conhecimento de Deus do mundo é como o nosso conheci-
mento de como as coisas são (é intelectual), mas ainda tem o
caráter certo de nosso conhecimento de como as coisas parecem
(é “intuitivo”). No entanto, não podemos compreender a idéia
de uma “intuição intelectual”, exceto negativamente.)145 A dife-
rença não está no que eu sei, mas em como eu sei disso. Quando
você sabe que eu estou com dor, você sabe, assim como eu, que
alguém está com dor. Se qualquer um de nós está com a van-
tagem aqui, é você; pois você não poderia saber disso sem ter
alguma idéia de quem eu sou – isto é, de quem tem essa dor. Por
outro lado, eu poderia saber que eu estou com dor sem saber
nada sobre quem eu sou. Mesmo ao despertar de uma opera-
ção de transferência de cérebro que deixa minha identidade em
dúvida, eu ainda posso saber com absoluta autoridade que eu
(quem quer que eu seja) estou com dor.146
Voltemos agora ao nosso problema. A perspectiva em primei-
ra-pessoa é uma genuína “essência individual”? Ela é, em outras
palavras, uma propriedade que é ao mesmo tempo essencial a,
e instanciada exclusivamente por, qualquer um que a possua?
É difícil acreditar que a minha perspectiva é uma propriedade
essencial minha. É essencial que eu tenha uma perspectiva: sem
ela eu não seria uma pessoa e, portanto, não deveria existir. Mas
é essencial que eu tenha a perspectiva particular que eu tenho?
Certamente não. Eu poderia ter visto o mundo a partir de outro
ponto de vista. Além disso, não está claro que a perspectiva da
primeira-pessoa é individuante do jeito certo. Ela contém, em
sua descrição, um elemento ineliminável de indexicalidade. É a
“minha” perspectiva, precisamente por ser definitiva do “ponto
de vista” que é meu. Ao identificá-lo, não estou fazendo mais do
que reafirmar o “eu” como um ponto de partida para identificar

145 I. Kant, Lectures on Philosophical Theology, tr. Allen J. Wood, R. Gertrude, M. Clark,
Ithaca e Londres, 1978, p. 150. A noção de uma “intuição intellectual” foi considerada
de grande importância nessa conexão por vários seguidores de Kant, e notadamente
por Fichte em The Science of Knowledge.
146 Ver Z. Vendler, “A Note on the Paralogisms”, em G. Ryle (ed.), Contemporary Aspects of
Philosophy, Stocksfield, 1976.

169
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

todo o resto. É uma fraude pensar nessa identificação como a


descrição de uma propriedade minha, assim como seria conside-
rar a sentença “a coisa que está aqui agora” como identificadora
de um objeto por suas propriedades. Os pensamentos do “eu”,
como os pensamentos do “aqui”, são pensamentos indexicais,
e devem o seu estatuto referencial a isso. Alguns filósofos vão
mais longe e defendem que a “imunidade a erros de identifica-
ção”147 que caracteriza o conhecimento em primeira-pessoa é
do mesmo tipo que a imunidade semelhante exemplificada por
pensamentos sobre o aqui e agora. As minhas habilidades de me
referir a um lugar como “aqui”, e a um momento como “ago-
ra”, são similarmente imunes a certos tipos de erro.148 Qualquer
privilégio epistemológico atribuído a eles é atribuído em virtude
da posição especial do orador. Já que ele não precisa de um ato
de identificação para se referir a si mesmo, isso simplesmente
reforça a conclusão de que ele não sabe nada de especial sobre
si mesmo e, em particular, que ele nem conhece, nem se refere
a qualquer componente especial da realidade, como um “eu”
sobre o qual fundamente sua certeza fortuita.

A “essência subjetiva”
Como sugeri no Capítulo 3, tais argumentos, independente-
mente da sua força, não podem explicar inteiramente o fenô-
meno do privilégio da primeira-pessoa. No entanto, além dessa
sugestão, eles devem inevitavelmente nos levar a rejeitar a no-
ção de uma “essência subjetiva”. Ao mesmo tempo, há algo em
nossas atitudes interpessoais que nos leva a pensar desta forma
sobre os outros, de modo que ainda pode ser o caso da “es-
sência subjetiva” aparecer como o objeto intencional de certos
estados mentais. Nós tendemos a pensar nas pessoas como indi-
víduos quintessenciais, constituídos por suas perspectivas sub-
jetivas invioláveis, que estão enclausuradas dentro deles como
uma noz sob a carne. O pensamento parece ser confirmado em
cada uso do “eu”; em cada declaração de sentimento, intenção
e compromisso. E já que eu reajo a você como pessoa em gran-
de parte com base em seus pensamentos do “eu”, eu não posso

147 Ver as referências a Shoemaker e Evans na nota 57.


148 G. Evans, The Varieties of Reference, ed. J. McDowell, Oxford, 1982, caps. 6 e 7.

170
capítulo 5 - o objetivo individual

evitar a impressão de que é com seu “eu” que me relaciono, e


que contém o tesouro oculto do seu ser. Ao conceder a auto-
ridade da primeira-pessoa a você, eu atribuo à sua perspecti-
va um estatuto especial de mediador entre nós. Embora não
haja nenhum fundamento metafísico para o pensamento de que
essa perspectiva seja essencialmente o que você é, não é menos
verdade que eu exijo que você a mantenha existindo como o
verdadeiro foco invariável da minha atitude em relação a você.
A prática de dar e buscar razões, por meio de que toda a nos-
sa comunicação interpessoal é realizada, exige que assumamos
uma responsabilidade ilimitada pelos nossos atos, opiniões e
expressões, e também por nossos atos e manifestações passa-
dos e futuros. Assim, aos olhos dos outros, a minha unidade
atual de consciência está associada inevitavelmente à idéia da
minha continuidade temporal ininterrupta como um agente. Eu
apareço como um “centro de responsabilidade” e um “iniciador
da mudança” duradouro. Eu vivo através dos meus atos, e em
meus atos minha perspectiva ininterrupta encontra a realidade
externa. Tudo isso é incorporada na idéia do que eu sou, não só
por mim, mas também pelos outros que me obrigam a ser “fiel
a mim mesmo” se quiserem se relacionar comigo. É assim que
nossas atitudes interpessoais tornam-se estruturadas por uma
idéia metafísica peculiar.
Aos olhos “sem perspectiva” da ciência, não somos mais do
que animais (embora, é claro, animais altamente sofisticados),
com a individualidade limitada que isso implica. Em nossos
próprios olhos, somos “pontos de vista”, e o que somos para
nós mesmos, somos para qualquer outra criatura com um “eu”
como o nosso. Assim, a estrutura intencional de nossas atitudes
interpessoais é construída sobre uma concepção do indivíduo
que não tem correspondência no mundo dos animais. Somos,
como Kant persuasivamente defendeu, as vítimas de ilusões
transcendentais, e de nenhuma mais persistente do que esta, a
mônada de Leibniz, que abriga os nossos sofrimentos e nossas
alegrias.149 Se tivéssemos que descrever o mundo objetivamente,
de nenhum ponto de vista dentro dele, o “eu” e todos os seus
mistérios desapareceriam – como desapareceram da metafísica

149 “Os Paralogismos da Razão Pura”, e também “A Anfibologia dos Conceitos da Razão
Pura” em A Crítica da Razão Pura.

171
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

impessoal de Espinoza.150 Se, por outro lado, tentamos construir


o mundo, como Leibniz fez, a partir de uma idéia de existência
individual que tem o eu como seu modelo, então vamos efeti-
vamente nos privar dessa única ordem objetiva em que os indi-
víduos podem entrar como partes componentes. Os “pontos de
vista” leibnizianos não mantêm nenhuma relação real entre si,
mas apenas refletem, ad infinitum, os espaços despovoados que
sempre os rompem.
Devemos, portanto, levar a idéia da individualidade meta-
física do eu menos a sério do que os filósofos que a apoiariam
– pois é uma idéia que não tem lugar na descrição científica
do mundo – e mais a sério do que aqueles que a rejeitariam
de antemão – pois ela denota uma característica indispensável
do entendimento intencional pelo qual vivemos. É uma “ilu-
são bem fundamentada”, que só poderíamos remover da nossa
consciência ao custo da própria consciência.

Pensamentos individualizantes
O que, então, poderíamos dizer sobre a “intencionalidade in-
dividualizante” do desejo? Este tipo de intencionalidade não é
de nenhuma maneira a coisa simples que à primeira vista parece
ser. Como vimos, ela pode ser “desagregada” em componentes
logicamente independentes, dos quais o mais importante para os
nossos propósitos é a “intransferibilidade”, que o desejo com-
partilha com o amor e o interesse estético. A intransferibilidade
não requer que seja atribuída ao objeto nem uma individuali-
dade não-arbitrária, nem uma perspectiva da primeira-pessoa.
Isto se dá pelo caso do interesse estético em um amontoado
de coisas. É claro que, tratando-se de indivíduos, amontoados
são bastante arbitrários: eles podem ser divididos, destruídos e

150 A “ausência do eu” na metafísica de Espinoza é uma de suas características mais


admiráveis. Não há proposição remotamente equivalente ao cogito de Descartes até o
livro 2, proposição XI da Ética, em que afirma que “a primeira coisa que constitui o ser
real da mente humana não é nada mais do que a idéia de uma coisa individual existir de
fato” – uma proposição que faz da existência individual da mente humana dependente
de um idéia de individualidade. E a teoria detalhada da individualidade humana de
Espinoza no livro 3 deixa claro que não há identidade do eu que não a que pode ser
atribuída ao corpo; o que for destacável do corpo não é o eu individual, mas o atributo
eterno da razão que participa da natureza de Deus.

172
capítulo 5 - o objetivo individual

reconstituídos à vontade; e eles podem ser entendidos por al-


guém que se abstém de tomar qualquer decisão rígida e rápida
a respeito de como eles devem ser contados (como um ou como
muitos). E, claro, seria absurdo pensar em um amontoado como
possuidor uma perspectiva em primeira-pessoa.
Ao mesmo tempo, o interesse estético projeta sobre seu ob-
jeto uma unidade e integridade que, materialmente falando, ele
pode não possuir. Como mostrei anteriormente, a descrição fi-
losófica imprecisa dessa tendência é a raiz de uma falácia pre-
valecente. É erroneamente suposto que a obra de arte possui,
como uma propriedade peculiar metafísica, a individualidade
com que nossa atitude a dota. Como assinalei, esta falácia é
paralela à “ilusão bem fundamentada” contida em nossas res-
postas interpessoais. Assim, um amontoado esteticamente bem
sucedido, como a Mesquita Süleymaniye em Istambul, é vista
como possuidora de uma individualidade que coincide com a
atitude dirigida a ela. Nenhuma pedra pode ser removida, acre-
dita-se, sem destruir a sua unidade.
Eu poderia manter esta atitude, entretanto, sem ter ilusões
quanto à realidade metafísica do Süleymaniye. Eu sei que ele é
um amontoado de pedras que não tem mais unidade do que eu
sou capaz de impor-lhe. Algo semelhante pode também ocorrer
interpessoalmente. Eu posso olhar para o meu vizinho, e até
mesmo para meu amigo, com olhos desencantados, conscien-
te de que ele não corresponde, em seu coração metafísico, aos
exigentes requisitos da minha atitude. No entanto, há uma ten-
dência inevitável de vê-lo como uma unidade transcendental. E
essa percepção do outro será dominante em toda “conversação
moral” bem sucedida. Além disso, temos uma base para essa
atitude que não temos para a nossa atitude em relação à arte.
A outra pessoa exibe a mesma unidade de consciência que eu
descubro em mim mesmo. Eu o vejo como um outro “eu”, e
nesse “eu” está resumido todo o sua potencial para me apoiar
e me prejudicar. Seria impossível para ele aparecer na minha
Lebenswelt como o objeto dessas respostas que eu não posso
negar-lhe racionalmente, sem também aparecer como um indi-
víduo metafísico.
No caso do interesse estético, estou freqüentemente ciente
do fato de que o objeto deve sua individualidade especial à mi-

173
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

nha maneira de vê-lo. Alguns chegam a defender que é parte


integrante do significado da resposta estética permitir essa per-
cepção. Nós, então, retrocedemos da experiência cotidiana para
ver que o mundo está de acordo com uma ordem consoladora,
e que a origem desta ordem está em nós.151
Em contrapartida, a intencionalidade individualizante das
atitudes interpessoais surge de uma crença sobre seu objeto. É
algo nele – notadamente sua posse de uma perspectiva em pri-
meira-pessoa – que dá base à minha atenção individualizan-
te. Esta atenção é invocada de mim automaticamente no curso
de minhas relações com ele. Eu não tenho de tomar nenhuma
atitude que não coordenaria espontaneamente nossa relação.
A visão freqüentemente sustentada de que desejo e prazer es-
tético estão intimamente relacionados – talvez espécies de um
mesmo gênero – tem algum fundamento, como vou mostrar.
Mas eles diferem especificamente no fato do primeiro, diferente
do segundo, extrair a sua intencionalidade individualizante do
pensamento de que está concentrado em um indivíduo real e
metafisicamente integrado, que pode também ser identificado
e tomado em forma corpórea. Temos agora de nos perguntar
como este pensamento entra no objetivo do desejo, e como, se
é que isso ocorre, ele dá origem à noção familiar do paradoxo.

O paradoxo de Sartre
Vamos começar com uma observação sobre a teoria de Sar-
tre.152 Sartre reconhece que o principal problema para qualquer
teoria do desejo é explicar a sua intencionalidade individualizan-
te;153 ele também reconhece que nenhuma teoria do desejo que
o representa como um instinto, com o prazer sexual (prazer nos
órgãos de procriação) como seu objetivo, poderia possivelmente
explicar a realidade fenomenológica, pois não explicaria como
outro ser pode ser um componente essencial no projeto do desejo.

151 Assim temos Kant, que defende (na Crítica do Juízo) que no julgamento da beleza nós
entendemos a harmonia entre nossas próprias faculdades e o mundo dos objetos, e em
consequência vemos nas obras da natureza uma idéia de finalidade que é entendida a
partir de nossa atividade e natureza.
152 Being and Nothingness, tr. Hazel E. Barnes, Nova York, 1956, livro III, cap. 3.
153 Ibid., p. 384-5.

174
capítulo 5 - o objetivo individual

Ao mesmo tempo, é evidente que a encarnação do outro é de


interesse fundamental no desejo: em um ponto, Sartre afirma
que “a pressão carnal de duas pessoas, uma contra a outra, é o
verdadeiro objetivo do desejo”.154 No entanto, as palavras “car-
nal” e “pessoas” precisam de interpretação. Eu não quero me
pressionar contra a sua carne por qualquer sensação confortável
que isso pode fornecer, mas por causa da consciência que satura
sua carne. Em minhas carícias, diz Sartre, eu “encarno” você:
ou seja, eu invoco a sua consciência (o seu “por si mesmo”) em
sua carne, para ser capaz de possuí-lo. Ao explicar essa idéia,
Sartre se refere à importância do comportamento “involuntário”
(comportamento que pode ser “invocado”) como um índice da
consciência do outro. Assim, ele oferece uma teoria dos fenô-
menos para os quais chamei a atenção nos capítulos 2 e 4 – os
fenômenos da excitação e da transparência corporal. O objetivo
do desejo é primeiro encarnar na perspectiva da primeira-pessoa
(o “por si mesmo”) do outro; e, depois, se unir a ela como carne.
Parece haver duas formas de consumar essa união: o dese-
jo sexual normal e o sadomasoquismo. Sartre escreve como se
a primeira desabasse na segunda, e como se fosse impossível,
justamente da maneira que a segunda é impossível. No desejo
sexual normal, eu quero que o outro apareça em sua carne, e
quero que ele me deseje da mesma forma. Nossas energias são
gastas nessa empreitada de “encarnação” mútua. E, desde que a
mutualidade do desejo seja sustentada, cada um convocando o
outro para a superfície de sua carne, o objetivo do desejo pode
ser pelo menos perseguido, se não cumprido. (O orgasmo, na
visão de Sartre, assim como na visão defendida no Capítulo 4,
é pouco melhor do que uma interrupção do desejo, e certamen-
te não faz parte do seu objetivo.) Em um sentido importante,
no entanto, eu não posso realmente me unir com a sua pers-
pectiva de primeira-pessoa. Tudo que posso fazer é invocá-la e,
da mesma forma, me entregar. Nós não fazemos mais do que
aparecer uns aos outros, tornando a nossa carne transparente,
como acontece num olhar desejoso. No desejo, aparecemos na
superfície de nossos corpos como peixes nas bordas de reser-
vatórios vizinhos, espreitando desesperançosamente o elemento
inatingível onde o outro tem seu ser.

154 Ibid., p. 396.

175
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

O verdadeiro significado desta condição inamenizável é reve-


lado nos “dois recifes em que o desejo pode encalhar” – sadis-
mo e masoquismo. O sadismo, de acordo com Sartre, é “como
uma semente no próprio desejo, como a derrota do desejo; de
fato, assim que procuro tomar o corpo do Outro, que através
da minha encarnação eu induzi a se encarnar, eu quebro a reci-
procidade da encarnação, supero meu corpo em suas próprias
possibilidades, e me dirijo ao sadismo”.155 No sadismo, o corpo
do outro é usado como um instrumento; ele está cheio de tor-
mento, para que o “por si mesmo” do outro, finalmente, iden-
tifique-se com o seu corpo, revelando sua liberdade em um ato
de autotraição. O sádico, no entanto, se recusa a ser encarnado:
ele fica distante do processo que humilha o corpo de seu com-
panheiro, pois ele pretende manter o poder de se “apropriar da
encarnação do outro”.156
O pensamento do desejo é mais ou menos este: em minha
encarnação eu sou vulnerável, pois fui invocado por sua ação
para a superfície da minha carne. Para manter a posse da minha
vontade, eu devo recusar ou “transcender” esta encarnação. A
primeira resposta é frigidez, a segunda, sadismo. No sadismo,
eu supero meu desejo tornando-o um instrumento de domínio
sobre você. Eu embarco em um projeto, que é possuir (se apro-
priar) o “por si mesmo” que eu compeli na superfície do seu
corpo. Mas eu nunca posso ter sucesso nisso. Se conseguir com-
pelir algo de você, o que estou compelindo não é a expressão
de sua liberdade: e mesmo que eu obtenha o olhar que expressa
a sua liberdade, é um olhar de alienação pura, em que sou re-
velado como um instrumento de sofrimento, com o qual você
nunca vai se unir livremente. (Estou usando minhas próprias
palavras, uma vez que a linguagem de Sartre é obscura e até
contraditória.)
Se olharmos para trás, para o objetivo do desejo sexual “nor-
mal”, descobriremos que ele se assemelha significativamente
ao objetivo do sadismo, e é igualmente irrealizável. O que eu
desejo possuir ao possuir você é precisamente essa perspectiva
em primeira-pessoa que eu obrigo, com minha encarnação, a

155 Ibid., p. 404.


156 Ibid., p. 399.

176
capítulo 5 - o objetivo individual

se encarnar. Essa perspectiva não é nada mais do que a sua li-


berdade, que eu não posso possuir ou me apropriar, mas que só
posso observar. Eu posso me envolver com você em um esforço
cooperativo – o esforço de “encarnação” mútua. Mas eu nunca
posso “tomar posse” da liberdade que é sua, nem me unir, de
forma alguma, com o você quintessencial.
O paradoxo do desejo sexual é, de acordo com Sartre, exem-
plificado também pelo amor e ódio. Na verdade, Sartre o con-
sidera uma aflição fundamental, que lança uma sombra de im-
possibilidade sobre cada tentativa de se unir ao outro e o outro
a si. Todas as relações humanas exemplificam o paradoxo da li-
berdade. Sartre adapta a famosa máxima de Rousseau: eu sem-
pre devo “forçar o outro a ser livre”. A estrutura intelectual de
seu argumento não vem de Rousseau, mas de Hegel, cuja pará-
bola do senhor e do escravo é o ancestral da invocação poética
do sadomasoquismo de Sartre.157 De acordo com uma versão
da imagem hegeliana, não é o desejo sexual que está repleto de
contradições, mas a luxúria. A luxúria é a forma de bestialida-
de que tem o corpo humano como objeto: sua versão extrema
é o estupro, mas é sempre, em alguma medida, equivalente ao
estupro, uma vez que vê o outro instrumentalmente, e procura
obrigá-lo a aceitar o que quer que lhe seja imposto. O parado-
xo pode, então, ser formulado da seguinte forma. O outro, ao
se tornar um instrumento do meu prazer, torna-se uma coisa.
Mas a força da minha paixão surge apenas porque eu o con-
sidero como uma pessoa, que vai responder à minha violação
de sua liberdade com ódio e dor. Ao mesmo tempo, eu fantasio
que ele consente com minha ação, e que responde com o mes-
mo impulso lascivo que eu tenho. É somente nesta suposição
que eu o quis. Portanto, eu o privo de sua natureza pessoal em
pensamento e a devolvo em forma de fantasia. De uma forma
profunda eu estou em desacordo comigo mesmo, desejando que
ele seja pessoa e coisa simultaneamente.
O “paradoxo da luxúria” irá nos preocupar em vários pon-
tos nos capítulos seguintes. Mas claramente não dá base sufi-
ciente para a teoria do desejo de Sartre. Essa teoria envolve a
tentativa de provar que a intencionalidade individualizante do

157 Ver o argumento sobre sadismo no Cap. 10.

177
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

desejo contém as sementes de paradoxo. É verdade que – em al-


gum nível metafísico – Hegel quis afirmar que o amor e o desejo
são contraditórios. “O amor”, escreveu, “é uma tremenda con-
tradição; o entendimento não pode resolvê-la”.158 Pois o amor
impõe entrega total do que é totalmente livre, e unidade absolu-
ta do que é totalmente diverso. Ao mesmo tempo, essa contra-
dição nas relações interpessoais era, para Hegel, um elemento
na natureza “dialética” da realidade; e é a essência das con-
tradições dialéticas serem “transcendidas” (aufgehoben). Sartre,
pelo contrário, pretende retratar as contradições do amor e do
desejo como insolúveis. Chegou, portanto, a comparar o de-
sejo ao danoso sadomasoquismo, em que o corpo do outro é
“instrumentalizado”.
Mesmo sem aceitar a teoria de Sartre sobre a liberdade, po-
demos discernir um certo paradoxo no sadismo. O desejo é di-
recionado à individualidade do outro. E ainda assim, tentando
se “apropriar” do outro para seus próprios fins, o desejo não o
trata mais como um indivíduo. Essa “apropriação” parece ser
parte do objetivo do sádico. Daí que o desejo sádico envolva o
paradoxo em que todos cairemos, de acordo com Kant, quando
o imperativo categórico é violado: o paradoxo de tratar como
um meio o que só pode ser tratado como um fim.
Mas, mesmo que isso seja uma consequência do sadismo, só
é uma conseqüência do desejo na suposição de que o desejo leva
naturalmente ao sadismo. Como vimos, a distinção kantiana en-
tre tratar como um fim e tratar como um meio não é a simples
distinção que Kant imaginou que fosse. É de fato uma distinção
composta, que deve ser entendida nos termos das seis divisões
entre atitudes que apresentei na primeira parte deste capítulo.
Na medida em que o meu propósito com o desejo é imanente,
e na medida em que busco o seu consentimento, eu o trato com
tanto respeito como em qualquer outra transação. O desejo na-
tural não está em conflito nem com a estima nem com o amor, e
não leva ao sadomasoquismo, mas ao “trabalho mútuo”. Apenas
uma teoria metafísica da liberdade dá plausibilidade à afirmação
de Sartre que, porque eu quero você, eu também quero me apro-

158 G. W. F. Hegel, The Philosophy of Right, tr. e ed. T. M. Knox, Oxford, 1942, complemento
ao parágrafo 158.

178
capítulo 5 - o objetivo individual

priar de sua liberdade, anulando de seu corpo a perspectiva que


eu também gostaria de possuir através dele.
No Capítulo 3, sugeri uma teoria da liberdade mais plausível.
A “liberdade”, como disse, é uma metáfora através da qual em-
belezamos o fato da nossa responsabilidade. A capacidade das
pessoas de declarar e assumir responsabilidade por suas ações
futuras dá crédito à nossa “conversa moral”: é para significar
as ocasiões proveitosas ​​de conversa em que anunciamos que
os homens são livres. Os homens são livres porque agem e são
influenciados por razões. Ao solicitar o consentimento do outro
para o meu desejo por ele, eu respeito sua liberdade, mesmo
no contato final, em que ambos somos dominados pelo prazer.
Assim entendido, o conceito de liberdade é metafisicamente ino-
cente. E assim entendido, não dá nenhuma base para a teoria de
que existe um “paradoxo do desejo”.
A teoria de Sartre faz contato com um idioma, e as implica-
ções disso são agora freqüentemente questionadas – o idioma da
posse. O homem desejoso se expressa em termos que implicam
um “direito de propriedade” sobre o objeto desejado. Esta lin-
guagem lembra a tendência bem conhecida entre os guerreiros
de reivindicar tanto a terra e as mulheres que nela habitavam.
Mas seria errado pensar que a linguagem da “posse” aplica-se
apenas às atividades do macho humano. Há um egoísmo intole-
rável no coração de todo desejo, que corresponde, e prenuncia,
o egoísmo do amor:
O amor só busca o próprio agrado,
Amarrar o outro para o seu prazer;
Alegra-se quando é o outro prejudicado,
E um inferno no céu acaba por fazer.159

Tais observações são questões de sabedoria, e não de análise


filosófica. O desejo de “possuir” pode ser uma característica do
amor: pode até mesmo ser uma característica do desejo. Mas
não é uma característica essencial de nenhum deles.

159 Love seeketh only self to please,


To bind another to its delight;
Joys in another’s loss of ease,
And builds a Hell in Heaven’s despite – NT.

179
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Devemos ser cuidadosos ao distinguir entre a ilusão meta-


física cotidiana gerada pela perspectiva da primeira-pessoa e
o brilho metafísico que endossa suas reivindicações. A teoria
de Sartre é esse brilho: como a teoria do eu transcendental de
Kant – de onde vem, em última análise – ela ultrapassa o que é
“dado” na compreensão intencional. Ela propõe uma teoria da
essência individual (que eu sou a minha liberdade) e, em segui-
da, sugere que essa teoria capta o que é pensado pelo homem
que vê a si mesmo ou o outro como uma pessoa. No entanto,
nossa compreensão interpessoal nunca poderia chegar tão lon-
ge. Ela depende apenas do sentido que as autoatribuições pro-
cedem do núcleo da individualidade humana, e têm uma auto-
ridade epistêmica peculiar. Essa idéia está muito aquém de uma
teoria da alma. Certamente, isso não implica que a liberdade é
a substância da alma. Implica apenas que cada pessoa é indivi-
dualizada dentro de sua própria perspectiva, e que a autoridade
de sua perspectiva se estende para o passado e para o futuro,
determinando suas responsabilidades.
Assim, embora seja verdade que a perspectiva da primeira
-pessoa nos permite subsumir as ações do outro sob o conceito
da responsabilidade e, assim, estender a ele atitudes fundadas
nas idéias de direito, dever, obrigação e privilégio, isso não im-
plica que devemos pensar nele como transcendentalmente livre,
à maneira de Kant ou Sartre. No máximo, implica apenas que
devemos ver a sua “essência” como residente em um “ponto de
vista” distinto. Se há um paradoxo nas nossas atitudes interpes-
soais não é a consequência de uma idéia metafísica de liberdade,
mas de outra idéia metafísica, a da individualidade absoluta que
é “dada” para o indivíduo em sua consciência de si.

O objetivo do desejo
É claro que é impossível para mim “estar unido” com sua
perspectiva em primeira-pessoa – o que simplesmente me tor-
naria você, abolindo a separação subjacente ao desejo. Se fosse
esse o objetivo do desejo sexual, poderíamos explicar a inten-
cionalidade individualizante do desejo em termos que também
mostram o seu objetivo repleto de paradoxos. Mas por mais
convincente que a descrição possa ser, certamente não é mais
do que metafórica, exatamente da maneira que a descrição de
180
capítulo 5 - o objetivo individual

Lucrécio é metafórica. Não é isso que buscamos no desejo, mes-


mo se o que buscamos possa ser sugestivamente descrito nestes
termos.
Nossa primeira tarefa, portanto, deve ser descrever a “união
sexual” em termos mais literais. O leitor deve se lembrar de que
uma das principais dificuldades encontradas na descrição do
objetivo do desejo está no fato de que o desejo, porque depen-
de minuciosamente das reações do outro, “segue o seu próprio
rumo”. Precisamos, portanto, saber exatamente como o outro é
concebido “no rumo do” desejo; e em especial, se a ilusão bem-
fundada de sua individualidade metafísica impede – de alguma
forma análoga à sugerida por Sartre – a formação de um obje-
tivo verdadeiramente coerente.
Nós devemos voltar nossa atenção mais uma vez para a “re-
ciprocidade” de desejo. A “reciprocidade” que é buscada no
desejo não distingue em si o desejo de inúmeras outras atitu-
des humanas. A cooperação é o cerne da existência social, e
baseia-se na mutualidade – na disposição humana para desejar
que nossos desejos coincidam, de modo que nossas transações
possam ser governadas pelo consentimento, e não pela coerção.
Nas relações de negócios do dia-a-dia, esta mutualidade pode
ser materializada em contratos implícitos ou explícitos; mas
isso não deve nos cegar para o fato de que é apenas a condição
normal da existência social entre seres autoconscientes, que vi-
sam regulamentar a conduta um do outro pela persuasão, e que,
portanto, têm um motivo anterior de se alinharem às práticas
que comandam a seu consentimento comum.
A reciprocidade exemplificada pelo significado, a que me re-
feri no Capítulo 2, é mais concentrada do que a reciprocidade
da cooperação normal. Ela não decorre de um desejo por um
propósito comum, mas de uma “intenção reflexiva” – uma in-
tenção de que a própria intenção seja reconhecida pelo outro.
Quando a estrutura intencional característica do significado
surge, surge também a possibilidade de, e a tendência para, uma
“escalada” progressiva das intenções reflexivas. A enorme con-
centração de emoção humana que cada símbolo contém pode
ser vista como o resultado do convite que oferece ao observador
para reconhecer as intenções manifestas que estão por trás dela,
e para entender o símbolo através da compreensão delas.

181
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

No Capítulo 2, referi-me à visão de Thomas Nagel que o


olhar do desejo contém um núcleo desta reciprocidade inten-
sificada – a reciprocidade envolvida quando o outro vem com-
partilhar o meu estado de espírito, precisamente através do re-
conhecimento da minha intenção de que ele deveria fazê-lo. Eu
não acho que essa idéia capte a reciprocidade que está envolvi-
da na condução do desejo. O olhar desejoso tem essa qualidade
em parte porque é um caso que significa algo – assim como o
olhar de cumplicidade e o olhar de raiva. É um convite simbóli-
co, e até mesmo parcialmente convencional, oferecido ao outro.
No ardor do desejo, no entanto, outra forma de reciprocidade
governa as intenções dos participantes. E é isso que está na raiz
da intencionalidade individualizante do desejo.
Esta nova reciprocidade envolve os corpos dos participantes,
e é conhecida popularmente, mas pertinentemente, como o ato
de “fazer amor”. Ele começa com olhares e carícias, passa para
beijos, e culmina no ato sexual. Como disse, ele é mais bem des-
crito como um vetor do que como um simples objetivo. Pode ser
difícil desviar o desejo de sua tendência natural; mas isso não
significa que a relação sexual é o objetivo do desejo. O objetivo
é dado pelo teor intencional do desejo que, inicialmente pelo
menos, reside na excitação mútua. No entanto, escondida den-
tro deste esforço inicial, está uma noção distinta e crescente do
que eu quero do outro. Eu quero que ele tenha conhecimento
de mim no meu corpo, e tenha prazer em mim lá, assim como
eu tenho prazer nele. É igualmente crucial para a minha atitude
que sua atenção esteja focada em mim (como um indivíduo)
quanto a minha esteja focada nele. Em todo desejo natural há,
em realidade, um elemento de narcisismo. Pois eu me esforço
para me ver através dos olhos dele. Eu gostaria de aparecer em
sua consciência de forma esmagadora, e eu respondo a tudo
nele que transmite essa impressão.
Há, claramente, mais nisso do que na reciprocidade do inter-
câmbio amigável, e mais do que na reciprocidade de significado.
Há o desejo de estar “presente como corpo” para o outro, e
observar a própria presença através dos seus olhos. Há também
o desejo de que ele deseje o mesmo: pois ele deve responder a
cada um dos meus desejos com uma afirmação mental corres-
pondente. No ardor pleno do desejo, cada participante está se

182
capítulo 5 - o objetivo individual

esforçando para estar presente em seu corpo, e se esforçando


também para ver seu próprio esforço a partir de um ponto de
vista fora dele. Parte da excitação resulta da interação desses
dois atos de atenção.
Pode parecer que encontramos tanto o paradoxo quanto sua
solução. Pois é claro que eu não posso de fato ver a minha pre-
sença com seus olhos; na medida em que estou tentando fazê-lo,
o meu objetivo deve permanecer sempre frustrado. No entanto,
embora eu esteja realmente “faminto” por você e por essa pro-
ximidade suprema de você que é satisfeita apenas em um ato
de identificação mental, apenas um erro imaginativo me levaria
a pensar que eu realmente devo compartilhar sua perspectiva
antes que eu consiga me ver como você me vê – o tipo de erro
que leva algumas pessoas a fazer amor com a ajuda de espelhos.
Toda intimidade humana requer um ato de simpatia, um “como
se”, que projeta o participante na paisagem mental de seu com-
panheiro. É difícil descrever tal ato: mas isso não deve nos levar
a considerá-lo paradoxal. Pois devemos reconhecer que ele exis-
te, e que constitui o fundamento não só da intimidade pessoal,
mas também da arte representacional.160
Este paradoxo em particular, portanto, foi declarado e resol-
vido num só ato. Mas outro paradoxo mais profundo se escon-
de por trás dele. Pois é neste ponto – o ponto de identificação
imaginativa – que a ilusão bem-fundada da emoção interpessoal
começa a assumir o controle. Nossos esforços estão concentra-
dos em nos fazer presentes e perceptíveis em forma corpórea. O
corpo é tangível, apreensível: eu posso tocá-lo, apertá-lo, mordê
-lo. Ele responde como uma unidade à minha presença, e o pra-
zer ou a dor em qualquer parte dele também são prazer ou dor
na criatura como um todo. Eu me regozijo nesta unidade e no
fato de que eu tenho em minhas mãos a coisa única que é você.
(Imagine algum dispositivo astuto que permita que um homem
penetre Joana enquanto beija o rosto de Maria, escondendo
dele o fato de que são dois corpos que recebem suas atenções.
Se ele viesse a descobrir a verdade, então, independentemente
do prazer expresso por Joana e Maria, ele deve se considerar
enganado. Ele não estava, como havia pensado, fazendo amor

160 Ver meu trabalho Art and Imagination, cap. 11.

183
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

com outra pessoa, mas estava sendo, estranha e prazerosamen-


te, abusado.)
A unidade corporal que está ao meu alcance é identificada no
meu pensamento com outra unidade, a da perspectiva que “se
esgueira” de seu rosto. É no poço dessa perspectiva que todos
os meus gestos desejosos são lançados, e eu procuro em sua su-
perfície corporal pelos sinais do meu próprio significado. Assim
surge, dentro do núcleo da excitação recíproca que é o “curso”’
natural do desejo, um pensamento peculiar, e que é peculiar a
essas atitudes interpessoais que incidem sobre a “encarnação”
do objeto. Eu procuro uni-lo com seu corpo. Eu procuro invo-
car a sua perspectiva em sua carne, para que se torne idêntico
à sua carne; assim, eu finalmente descubro sua verdadeira indi-
vidualidade (o seu eu) como um constituinte do mundo físico
em que eu me movo e ajo. Eu desejo que você seja o seu corpo,
não no sentido direto, em que isto é sempre verdadeiro, mas
no sentido metafísico em que isso nunca pode ser verdade, no
sentido de uma identidade entre a sua “unidade de consciência”
e a unidade animal do seu corpo.
Esse, creio eu, é o verdadeiro mistério da encarnação. É parte
do gênio do cristianismo que nos convida a compreender a re-
lação entre Deus e sua criação nos termos de um mistério que
temos, por assim dizer, continuamente em nossas mãos. O mis-
tério com que nos confrontamos no ato sexual, não podemos
nem resolver nem abjurar. Nenhuma perspectiva de primeira
-pessoa pode suportar a identidade de uma pessoa, nem pode
ser unida à única coisa – o corpo – em que a individualidade
nos é revelada. No entanto, o paroxismo de desejo é tão pode-
roso que me parece é como se a própria transparência do seu eu
fosse, por um momento, revelada na superfície do seu corpo em
uma união misteriosa que pode ser tocada, mas nunca compre-
endida. As partes do corpo que permanecem escuras para mim
estão escuras apenas pela sombra projetada pela chama do seu
eu. Essa queima da alma na carne – a llama de amor viva de
São João da Cruz – é o símbolo de todas as uniões místicas, e o
verdadeiro motivo para a identidade das imagens entre a poesia
de desejo e da poesia de adoração.
A unidade que eu me esforço para extrair de você é uma que
busco também para impor em mim. Nós estamos envolvidos

184
capítulo 5 - o objetivo individual

em uma empresa impossível, mas necessária. Estamos tentando


unir nossos corpos com um “proprietário” inexistente, que é
incapaz de possuir a individualidade por que anseia, mas que
sustenta a ilusão de sua própria existência, como um reflexo
no olho do outro. É nisso que reside o verdadeiro significado
das autoexpressões “involuntárias”, que, como disse, formam o
foco inicial do desejo. O sorriso que me atrai é de carne e osso.
O desejo de beijá-lo é o desejo de plantar meus lábios nesse sor-
riso, e não numa boca: numa parte do corpo em que invoquei
a perspectiva do outro. Um sorriso é realmente o alimento do
amor, enquanto uma boca pode ser o alimento do amor apenas
para alguém cujo furor transformou desejo em apetite – alguém
que, como a Pentesileia de Kleist, procura saciar seu anelo into-
lerável na carne morta de seu amado antagonista. No celebrado
relato de Dante do destino eterno do amor carnal, Francesca
não recorda a boca, mas o sorriso de Guinevere, desejado e bei-
jado por Lancelot:
Ao lermos que na boca beijara
O riso ansiado de tal namorado,
Este, que de mim não se separa,
Minha boca trêmula havia beijado.161
[Inferno, V, 133-6]

Numa sutil transição, ela se lembra de Paolo beijando não


seu sorriso, mas sua boca, pois ela foi subjugada por ele e não
é, em seus próprios olhos, nada mais do que carne para ele.
Francesca é uma vítima do paradoxo do desejo. Atraída por um
sorriso, ela se torna uma boca. Procurando unir sua perspectiva
com seu corpo, ela se perde em seu corpo. Aquilo que ela queria,
ela não pode ter. E o que ela consegue não é mais do que a cin-
za de seu propósito perdido. Este processo – o “Untergang da
pessoa no desejo”, como descrito por um fenomenólogo162 – é
uma expressão direta da disparidade que existe entre o objetivo
transcendente do desejo e os meios meramente imanentes atra-
vés dos quais podemos tentar alcançá-lo. A punição de Paolo e

161 Quando leggero il disiato riso / esser baciato da cotanto amante, / questi, che esteira da me
non fia diviso, / la bocca mi baciò tutto tremante.
162 Aurel Kolnai, Sexualethik, Sinn und Grundlagen der Geschlechtsmoral, Paderborn, 1930,
p. 66.

185
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Francesca é que eles devem ser arrastados pelo primeiro círculo


do Inferno, seus corpos para sempre inseparáveis, suas almas
para sempre divididas pelo remorso que seus corpos causaram.
O paradoxo só poderia ser resolvido pela abolição da ilusão
bem-fundada de que provém: a ilusão de que eu sou essencial-
mente o que sou “por mim mesmo;” que a minha perspectiva
de primeira-pessoa contém a “essência individual” que sou eu.
Somente poderíamos abandonar essa ilusão perdendo a capaci-
dade de conversação moral. Pois é a nossa confiança nesta ima-
gem que gera nossos compromissos. Apenas aqueles que sofrem
de ilusões transcendentais podem ser francos no diálogo, pois o
diálogo nos obriga a construir a nossa visão do outro a partir
dos dados de suas declarações em primeira-pessoa.
Em comparação com o amor, a estima e a admiração, o de-
sejo tem uma qualidade “problemática”. O problema deriva da
tentativa de unir a individualidade ilusória do eu do outro com
a individualidade real, mas resistente, do animal de que ele é
idêntico. É como corpo que eu sou capaz de perceber e compre-
ender sua individualidade. O “ponto de vista” leibniziano está
permanentemente além da minha compreensão; para mim isso
não é mais real, mais substancial, do que um ocupante da reali-
dade como o número 2. O “projeto” de longo prazo do desejo
pode, portanto, ser interpretado em função de um “problema”
que todos os seres racionais têm razão para superar – o proble-
ma de tentar apreender no corpo do outro a perspectiva que se
esgueira dele e que nunca pode ser apreendida.
Se essas reflexões estão corretas, podemos tirar as seguintes
conclusões:
(1) As propriedades formais do desejo – e em particular a
sua intransferibilidade – têm um fundamento real no
objetivo do desejo.
(2) O objetivo do desejo é individualizante, na medida em
que envolve pensamentos individualizantes sobre seu
objeto.
(3) Esses pensamentos individualizantes identificam o ob-
jeto de duas formas: em função de sua individualida-
de verdadeira como um corpo humano, e em função de
sua individualidade ilusória como uma perspectiva de
primeira-pessoa.

186
capítulo 5 - o objetivo individual

(4) O desejo envolve a tentativa de unir esses dois padrões


de individualização em um pensamento que é inerente-
mente paradoxal.
Dessa forma, mesmo que o termo “união” não seja mais do
que uma metáfora para o objetivo do desejo, ele capta o ele-
mento do paradoxo envolvido na estratégia que visa invocar
a perspectiva do outro à superfície de sua carne. O objetivo
inicial do desejo, que é a excitação mútua, está muito longe
de ser paradoxal. Pois envolve o desejo de superar o outro, de
levá-lo a revelar-se naquelas transformações involuntárias que
me transmitem a imagem de seu interesse em mim. Ao mesmo
tempo, essas transformações – que são o alimento do amor –
devem deixar o desejo insatisfeito. Elas são sempre menores do
que a revelação plena da alteridade individual que eu procuro
compreender. No meu desejo, sou tomado pela ilusão de uma
unidade transcendental subjacente à opacidade da carne, o re-
positório de infinitas possibilidades morais e a promessa daque-
la perfeita presença envolvente que justificaria – se pudesse ser
obtida – a turbulência da busca sexual.

Pecado original
Eu listei quatro características do desejo que, juntas, entram
no paradoxo de Sartre. Mas essas características – pode-se dizer
– também estão presentes em outros sentimentos, tais como a
ternura em relação a uma criança. Por que esses outros senti-
mentos não são paradoxais também? A proximidade do desejo
com o amor de uma criança – e sua ênfase comum na encar-
nação – é um tema bem conhecido da literatura. E a teoria da
transcendência neoplatônica foi aplicada a ambos. No poema
do inglês medieval Pearl, ao poeta é concedida, através da visão
sagrada de sua falecida filha, a mesma revelação concedida a
Dante através da visão de Beatriz: e os termos de referência são
quase os mesmos. Então o que é que na visão de Dante traz a
marca do desejo?
Devemos aqui voltar para a idéia de encarnação. É verdade
que a minha preocupação terna por uma criança se concentra
em sua forma encarnação, e é totalmente dependente do sentido
de seu corpo frágil como o veículo de uma consciência nascente,
a roupa translúcida de um espírito que, porque ainda se desen-

187
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

volve no ritmo de um corpo humano, parece-nos inseparável


do corpo em que cresce. Eu quero tocar nesse corpo, segurá-lo,
beijá-lo, para pressioná-lo contra mim – e ao mesmo tempo não
há nada de desejo nisto, pois não há nada de excitação.
Por que então a excitação faz tanta diferença? A resposta
está no lugar particular ocupado pelo corpo na excitação sexu-
al. Na excitação, eu sou, de alguma forma, vencido pelo meu
corpo, que por sua vez é vencido pelo seu (ou por você no seu).
(Essa é a lição que Francesca aprendeu tão vividamente.) Não é
que eu simplesmente atenda à sua encarnação e tenha carinho
por você nela. Nossos corpos estão em primeiro lugar em nos-
sos pensamentos, e nos dominam através das transformações
involuntárias de suas partes aglutinantes. Eu me esforço para
uni-lo ao seu corpo na excitação, induzindo apenas essa “sub-
jugação” de sua vontade. Eu não recorro apenas a sorrisos ou a
gestos ternos de amizade e confiança. Eu também gostaria que
você se envolvesse em um ato em que o seu eu é desestabilizado,
que fuja ante a violência do corpo, e que seja incapaz de convo-
car seus recursos habituais. A experiência da sua encarnação na
excitação é também a experiência de sua subjugação ao corpo.
É a prova final, oferecida a mim no momento exato da minha
tentativa de me unir à sua perspectiva, de que a sua perspec-
tiva realmente não o define. (Por este motivo muitas pessoas
acham difícil desejar aqueles a quem respeitam, e direcionam
suas atenções apenas àqueles em quem a desordem do espíri-
to não é uma ameaça a suas “queridas ilusões”.) Sua unidade
“transcendental” me escapa no exato momento da nossa con-
junção, e eu mantenho apenas as cinzas do que foi queimado.
Minha tentativa de uni-lo ao seu corpo, e de mantê-lo enquanto
encarnado, é ameaçada pela própria experiência que a requer.
O paradoxo não está ausente do amor por uma criança, nem
está ausente das ternas formas de sadismo. Mas é só no desejo
que ele também me ameaça. Apenas no desejo eu estou expos-
to à humilhação pelo corpo. É de tal maneira, creio eu, que se
deve ter em conta o tradicional horror paulino e agostiniano da
“concupiscência.”163 Os primeiros moralistas cristãos claramen-

163 Ver Santo Agostinho, De Nuptiis et Concupiscentia, e a encíclica do Papa Inocêncio III,
De Miseria Humanae Conditionis. As visões do atual pontífice, apesar de seguirem a
tradição agostiniana, mostram uma notável influência kantiana, que as aproxima das
teorias tratadas nesta obra: “A troca do dom da pessoa constitui a verdadeira fonte

188
capítulo 5 - o objetivo individual

te quiseram que este termo se referisse ao curso do desejo na


excitação, condição que repudiaram como um afastamento da
nossa realização espiritual, uma brincadeira perigosa no limiar
da perdição. É a sua visão da sexualidade que moldou a lingua-
gem moral de nossa civilização, e que continua a espreitar som-
bria e pesarosamente de baixo da superfície brilhante da prosa
de Sartre. E é uma visão que devemos levar a sério.
Gregório de Nissa afirmou que, se Adão e Eva não tivessem
pecado, eles teriam permanecido virgens, e a raça humana teria
se multiplicado pelo método que é usado pelos anjos, e não
por “aquele método animal e irracional pelo qual eles agora se
sucedem”.164 Para esse ponto de vista, o efeito mais lamentável
do fruto proibido do conhecimento não é o fato de vermos o
desejo de formas impuras e egotistas (embora isso também seja
verdade), mas o de sentirmos esse desejo. Não há dúvida sobre
a estranheza teológica da visão de Gregório. (Ele é forçado a
admitir, por exemplo, que Deus distinguiu os sexos apenas por
antecipação da Queda.) Ao mesmo tempo, Gregório não fala
só por toda uma tradição de ensino cristão, mas também pela
moralidade que cintila mais sombriamente nas palavras dos
profetas do Antigo Testamento, e nas palavras do profeta do
Islã, que nos exortam repetidamente, a todo custo, a esconder
nossas partes íntimas. Para esta moralidade, é na experiência
da excitação que nossa condição caída fica presente para nós, e
é também sempre renovada por nós. É a excitação que inspira
o escritor da homilia anglo-saxã, Hali Meidhad (Holy Maiden-
hood ou Santa Virgindade):
Esse vício que te gerou em tua mãe, o mesmo
Que queima indecente a carne, a coceira ardente
Dessa emoção carnal ante o repugnante trabalho,

da experiência da inocência... [Por contraste] a extorsão da mulher pelo homem, e


vice-versa, reduzindo-os mentalmente a um mero objeto, marca exatamente o início
da vergonha” (Papa João Paulo II (Karól Woytila), Love and Responsability, 1960,
tr. H. J. Willetts, Londres, 1981, citado em Paul Johnson, Pope John Paul II and the
Catholic Restoration, Londres, 1982. A passagem tinha a intenção de ser um comentário
ao Gênesis 2:25 – “E estavam ambos nus, o homem e a mulher, e não estavam
envergonhados” – um verso que é crucial para as teorias cristãs da encarnação).
164 De Hominis Opificio, cap. 17, tr. H A. Wilson, em Gregory of Nyssa, Dogmatic Treatises
etc., Oxford, 1893.

189
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Dessa relação animal, dessa união sem vergonha,


Desse ato sujo, fedorento e devasso.165

O casamento, insiste o autor monástico, não nos pode salvar,


nem pode qualquer outra companhia, da imundície da excita-
ção sexual. Pois nessa condição estamos vinculados à nossa car-
ne de um modo que nenhum amor ou apego pode reproduzir. A
excitação nos contamina com a mortalidade, e alimenta nossas
almas com as venenosas iguarias do pecado.
Esse pensamento encontra sua expressão mais clara em A
Cidade de Deus de Santo Agostinho, que afirma explicitamente
que devemos ver no fenômeno da excitação o sinal do pecado
original. Sozinhos dentre os órgãos externos que nos implicam
à ação, os órgãos sexuais se encontram além de nossa vontade.
(Agostinho evidentemente não estava pensando na ação em si,
mas nas ações pelas quais podemos ser elogiados ou recrimina-
dos). Esses órgãos impõem suas transformações sobre nós, e nos
arrastam junto com eles em um projeto que nos amarra ao des-
tino mortal de nossa carne. Mesmo que nós nos excitemos vo-
luntariamente, não somos nós os autores da ação conseqüente,
mas a luxúria carnal invocamos.166 É por esta razão, argumenta
Agostinho, que desejamos esconder nossos órgãos sexuais, que
são o testemunho vivo da nossa escravização. Ao mesmo tem-
po, nós cercamos o ato sexual com vergonha e hesitação. De
fato, “um homem que está em injustamente furioso com seu
próximo preferiria ter mil olhos sobre ele a um único quando
está na cópula carnal com sua esposa”.167
Nesses termos Agostinho explicou tanto a primazia das
transformações involuntárias na transação do desejo quanto os
intrigantes fenômenos da conduta sexual – vergonha, modéstia,
compulsão sexual e a gênese da castidade. Em todos esses fe-
nômenos, ele viu os sinais da nossa guerra contra a carne. Pois

165 Bella Millett (ed.), Hali Meidhad, Oxford (Early English Text Society), 1982, p. 4. Minha
tradução não apreende a vigorosa aliteração do original. [Segue a tradução feita por
Roger Scruton: “That vice that begot thee of thy mother, that same / Improper burning
of the flesh, that fiery itch of / That carnal excitement before that digusting work, /
That animal intercourse, that shameless togetherness, / That filthy, stinking and wanton
deed” – NT].
166 Santo Agostinho, A Cidade de Deus, livro XIV, cap. 19.
167 Ibid.

190
capítulo 5 - o objetivo individual

a carne é o veículo de mortalidade e, portanto, a verdadeira


portadora do contágio do pecado original. Ele resumiu seu pen-
samento em uma passagem de grande sutileza:
Esta disputa, luta, briga entre a luxúria e a vontade, esta
necessidade da luxúria contra a suficiência da vontade, não tinha
o matrimônio no paraíso, a menos que a desobediência tenha se
tornado a punição pelo pecado da desobediência. Caso contrário,
esses membros teriam obedecido à vontade, assim como o resto.168

Colocando de forma ligeiramente diferente: nossa carne de-


sobedientemente nos prende à sua vontade, porque nossos pais
desobedientes tentaram restringir a vontade de Deus. E a vonta-
de da carne é a morte.
É inegável que você possa ver a excitação dessa forma, dife-
rente do que você pode em qualquer outra atitude interpessoal.
A excitação é uma interrupção crítica de nossa união pessoal,
em que somos forçados, contra a lógica da nossa conduta ra-
cional, a nos manter e a nos render ao fato incompreensível da
encarnação. A estrutura intencional do desejo sexual representa
um grande trabalho moral, por meio do qual o homem tem
procurado superar o problema de sua própria encarnação. Mas
o desejo é assombrado, se não pela consciência do pecado ori-
ginal, pelo menos pelo que chamei de “medo do obsceno”: o
medo de que a experiência da encarnação pode ser superada e
eclipsada pela experiência do corpo.
Nós não devemos ficar surpresos ao descobrir que o sentido
do pecado original no sexo está associado, por escritores judai-
co-cristãos e islâmicos, precisamente aos mesmos aspectos da
excitação sexual que as representações obscenas dominantes: o
caráter dissolutivo, corruptor e “viscoso” desse “feito imundo,
fedorento e devasso”. A fusão da carne na excitação sexual é
uma premonição de nossa fusão final na morte, e – por uma
lógica convincente – o escritor cristão encontra no ato sexual
a vívida lembrança da morte e da decadência, que são os casti-
gos de Deus por nossa transgressão original. (Marvell explora
esse modo de pensar, e também o sustenta quando adverte sua
amante tímida de que “os vermes vão provar / Essa preserva-

168 Ibid, cap. 23.

191
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

da virgindade”.169) Refletindo sobre isso, vemos o significado


emocional do horror de Sartre à viscosidade, do sentido de Le-
opardi de que seu eu e suas “queridas ilusões” não são nada
além de lama, e da confissão negativa de Iago (no Otello de
Boito), em que todas as alegrias humanas são reduzidas a fango
originale: o limo primordial. O esforço espiritual da humanida-
de – de se ver como dotada de uma identidade transcendental
e uma liberdade transcendental – é constantemente ameaçado
pela revelação da carne. O indivíduo não é o observador puro
que deseja ser. Ele só existe porque nasce no mundo, do lodo
mesmo da “alteridade” que ele vaidosamente recusa. O eu está
irreversivelmente contaminado e corrompido por um encontro
“original” com o lodo. Pois foi de um dos disfarces do lodo – o
da mãe – que o eu nasceu. “O homem nascido da mulher” passa
a existir através do pecado original, que é, como diz Schope-
nhauer, o “crime da própria existência”.170
Swift é por vezes repreendido por se manter tão assiduamen-
te no excremento nocivo dos Yahoos (em comparação com os
Houyhnhnms, abençoados com a capacidade de emitir somen-
te excreções perfumadas, que parecem apreciar a encarnação
que a razão demanda: uma encarnação que não é uma forma
visível de decadência). Mas o propósito de Swift era renovar a
experiência do pecado original, em face da constante tentação
do homem de esquecê-la. Esta tentação é ela mesma um sinal
do que ela procura negar. Não deve ser nenhuma surpresa des-
cobrir que as sociedades utópicas de nosso século, fundadas na
negação do pecado original, invariavelmente têm campos esta-
belecidos para a produção de sofrimento humano, em que os
“inimigos da sociedade” são forçados a passar por todo tipo
de humilhação até que – sua identidade com sua carne sofrida
finalmente se tornando repugnantemente aparente – possam ser
despachados para a eternidade sem nenhum senso de pertenci-
mento à ordem imaculada que os expulsou. Em face deste gran-
de crime, temos de reconhecer a necessidade da visão de Swift
de nossa natureza. Mesmo que hesitemos em adotar o sentido
monástico da vileza da procriação, devemos reconhecer os peri-
gos implícitos de uma moralidade que ignora o corpo, e que não

169 “Worms shall try / That long-preserved virginity” – NT.


170 O Mundo como Vontade e Representação, vol. I, livro 3, seção 51.

192
capítulo 5 - o objetivo individual

oferece nenhuma resposta à questão de saber se o corpo deve


ser disciplinado e, se sim, como. A mesmíssima moral kantiana
que nos deixa impotentes diante do desejo sexual é fundamen-
tal à visão de um “comunismo completo”, em que toda a vida
será conduzida de acordo com as exigências transcendentais de
uma liberdade metafísica. Em ambos os casos, a negação do pe-
cado original envolve uma tentativa de rivalizar a obra de Deus.
E em ambos os casos o pecado original retorna para exigir sua
pena terrível.

Animal e pessoa
Ao longo da discussão posterior, encontraremos novamente
a experiência do pecado original como uma falha moral dentro
da estrutura do desejo. O significado desta experiência é preci-
samente o mistério da nossa encarnação: é “original” já que não
podemos escapar disso mais do que podemos fugir da nossa
carne. E ainda assim o mistério sempre escapa ao nosso alcance,
e nos leva a distinguir nossa natureza racional de nossa natu-
reza animal de maneiras que oferecem alguma redenção final
de uma escravidão que só podemos fingir aceitar, mas que nun-
ca aceitamos de verdade. Em O Parlamento das Aves, Chaucer
apresenta um vívido contraste entre o acasalamento de animais
e o de pessoas. Os vários pássaros são reunidos para o seu rito
diurno de acasalamento, e a deusa Natureza preside o agrupa-
mento conforme eles, um a um, se apresentam para declarar
sua vontade irresistível. No caráter das águias, Chaucer (inspi-
rado no Songe Saincte Valentin de Grandson) representa o que
é distintamente humano na atração sexual, enquanto que os
outros pássaros dão voz ao instinto animal.171 As aves inferiores
se unem apenas como espécie, e acasalam apenas como espécie,
com aquela paixão transferível que mostra a estrutura de uma
necessidade biológica. As águias, porém, se reúnem e acasalam
como indivíduos. Os três que desejam a fêmea a desejam, e es-
tão em competindo. Aqui há mais do que um instinto de união;

171 Para uma interpretação desse poema, ver J. A. Bennett, The Parliament of Fowls, an
Interpretation, Oxford, 1957. Eu estou particularmente endividado à obra de Victoria
Rothschild, “The Parliament of Fowls, Chaucer’s Mirror up to Nature?”, The Review of
English Studies, vol. XXXV, (1984), pp. 164-84.

193
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

há também uma escolha, e a escolha se torna uma opção de


amor. A Natureza ordena que só aquele que for escolhido pela
fêmea, por sua “escolha al fre”, terá o prazer de tê-la. E para
dar melhores razões para esta escolha, ela ordena que seja adia-
da por um ano, enquanto as partes envolvidas permanecem em
castidade voluntária. Assim, o fervor do desejo é incorporado
em um projeto racional, e unificado com as responsabilidades
do indivíduo.
Chaucer não foi o único a separar desta maneira o “governo”
da natureza dos animais do “estatuto” pelo qual governa as vi-
das livres de indivíduos racionais. A imagem do Parlamento ba-
seia-se numa vital tradição neoplatônica, desde Boécio a Alain
de L’lsle (a quem Chaucer se refere explicitamente), que tenta
dar uma resolução metafísica para o problema da sexualidade
humana. Para o neoplatônico, a sexualidade é elevada pela ra-
zão do reino do apetite corporal ao reino da escolha. Ao fazer a
escolha, uma pessoa faz um voto, ou o que equivale a um voto.
O significado dos votos é eterno, já que envolvem a parte eterna
da nossa natureza. Assim, na escolha sexual, eu estou preso a
uma lealdade eterna. Mas o que leva à minha escolha? É uma
escolha de união com outro indivíduo, e a individualidade do
outro pode ser compreendida apenas com o tempo, através de
sua encarnação sensorial (que, porque o desejo é imediato, pode
ser o objeto do desejo). A ocasião da minha escolha atemporal
é, portanto, o momento presente. Minha liberdade suprema do
cativeiro da mortalidade é tornada real para mim na aparente
falta de liberdade com que, confrontado com o rosto do outro,
eu me atrelo a ele de uma vez e para sempre no amor. O que me
prende é a parte eterna dele: a alma que me confronta através
de suas características, e que pode se retrair ou se entregar por
seu próprio arbítrio. O momento do desejo é o “ponto de inter-
secção do atemporal com o temporal”, a exibição de um espí-
rito eterno num traje terreno, e uma ocasião para uma escolha
que, embora eternamente cogente, acontece aqui e agora. Nesta
visão, os enigmas do desejo sexual estão explicitamente repre-
sentados como casos especiais do mistério da encarnação. Um
teólogo neoplatônico poderia argumentar que a nossa encarna-
ção é necessária por causa de suas oportunidades epistemológi-
cas; pois ela nos apresenta a oportunidade de conhecermos nós
mesmos e os outros como indivíduos, e assim a sentir o pathos
194
capítulo 5 - o objetivo individual

das lealdades eternas. Da mesma forma, ele pode justificar o


ardor do desejo como o momento mais importante da nossa
necessidade de nos unirmos como indivíduos e de reconhecer a
imensidão do voto que brota da nossa união.
Nós, que não temos essa visão serena, devemos lidar com o
problema do desejo de outras maneiras. Ou, se não podemos
lidar com ele, temos de tomar medidas para superá-lo, de re-
mover o desejo do lugar central que ocupa em nossas vidas.
Algumas sociedades limitam o congresso sexual a atos ritualís-
ticos da relação sexual; neste estratagema particular podem ser
discernidos o medo do desejo e a conseqüente necessidade de
afastar a sexualidade da esfera das relações pessoais. De forma
semelhante, os gracejos emancipados dos anos 60, que procu-
raram alívio da pressão das relações íntimas na partouze172 e
na orgia, podem ser vistos como estratégias para a eliminação
do desejo. Há aqueles que vêem esse comportamento como “in-
fantil” ou “imaturo”. Mais significativamente, porém, envolve
cortar uma atitude humana fundamental da sua intencionalida-
de característica, de modo a destruir a mais poderosa forma de
união pessoal. Este pode ser um passo no caminho para outra
forma, menos exclusiva, de vínculo social; ou pode ser apenas
mais um exemplo do solipsismo que ameaça a vida do homem
excessivamente emancipado.
Nós nos consideramos uns aos outros como insubstituíveis
na excitação, assim como fazemos no amor, e os pensamentos
individualizantes são, em ambos os casos, centrais para nosso
esforço. Como afirmei, esses pensamentos têm um grande com-
ponente ilusório. Além disso, mesmo na sua interpretação mais
metafisicamente inocente, eles são, de certa maneira, falsos. Ou,
pelo menos, eles não correspondem a nenhum “fato da matéria”
cientificamente determinável. Mesmo que pudéssemos fazer um
relato explicativo do que uma pessoa ganha de outra no amor
e no desejo, é claro que ele poderia ser igualmente beneficiado
por alguém que não seja a pessoa a quem ele dirige suas aten-
ções. Mas é imperativo que não pensemos nisto. Se o fizermos,
nosso empreendimento estará comprometido. Com esses pensa-

172 Um tipo de festa encenada por jovens da esquerda em Paris durante a década de 60, em
que cada pessoa tinha que levar um parceiro para ter o direito de ter relações sexuais
com qualquer um presente.

195
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

mentos, ameaçamos a possibilidade de qualquer apego humano


duradouro e, portanto, ameaçamos a condição que por si só
pode nos salvar da ansiedade do sentimento falso e da luxúria.
Os pensamentos individualizantes são, em certo sentido, mis-
tificações. Mas é por essas mistificações que vivemos. Elas são
o bálsamo necessário para a dor da encarnação: a dor que nos
é imposta por nossa dupla natureza, em que vemos o eu e seus
projetos sendo constantemente arrastados pelo corpo e suas ne-
cessidades. Eu procuro pelo outro em seu corpo, pois nenhuma
outra atitude pode aplacar o medo de sua alteridade, o medo de
que ele voe para longe do meu alcance, e o medo de que, se eu
apertá-lo, ele se torne como a sombra de Dido para os braços
de Enéias.
Conforme ascendemos para o território do amor, veremos
mais claramente que este confronto com a nossa encarnação é
inevitável, e que, além da renúncia, não há outro remédio que
não o amor e o desejo. Ao mesmo tempo, veremos mais cla-
ramente por que é o desejo, e não o amor, que nos obriga a
apostar a nós mesmos no resultado desse confronto. Vamos ver
por que há uma moralidade que pode proibir o desejo, mas ne-
nhuma moralidade que proíba o amor.
Antes de passar a esse ponto, no entanto, há ainda duas ta-
refas para completar a análise do desejo sexual. Primeiro, é ne-
cessário rever alguns dos fenômenos da sexualidade, e mostrar
sua conformidade ao conteúdo intencional que descrevi. Em se-
gundo lugar, é necessário responder à persistente – e até agora
negligenciada – pergunta do cientista, a questão do lugar do
desejo sexual (que decorre e se concentra de nossos corpos ani-
mais) em nossa vida como animais.

196
CAPÍTULO 6
FENÔMENOS SEXUAIS

A descrição que dei de intencionalidade sexual é a descrição


de uma norma. No devido tempo, o conceito da sexualmente
normal deve ser examinado, e não somente por causa da crítica
generalizada dessa idéia como arbitrária ou veladamente “ideo-
lógica”. Vou tentar extrair uma teoria da normalidade sexual a
partir do conceito de pessoa, respondendo a essas críticas. Neste
capítulo, no entanto, eu examino a complexidade e a variedade
da intencionalidade sexual, para mostrar que as características
que identifiquei estão na raiz da experiência sexual comum.
Vou, portanto, examinar alguns dos fenômenos do desejo – pre-
liminares, estratagemas, variedades e obsessões. A análise será
seletiva, e vou adiar qualquer tentativa de apresentar uma psy-
chopathia sexualis até o Capítulo 10. O meu objetivo principal
será mostrar que minha teoria da intencionalidade individuali-
zante do desejo pode explicar o que vivemos.

Obscenidade
Há uma teoria do obsceno no que eu já escrevi. A obscenida-
de não diz respeito às coisas em si, mas a um modo de vê-las ou
representá-las. Se dissermos que certas partes do corpo humano
são obscenas, queremos dizer somente que, por algum motivo,
somos levados a vê-las assim: sua natureza ou função nos faz
focar em sua realidade carnal, eclipsando a encarnação da pes-
soa individual. (Daí a idéia de “partes íntimas”, que devem ser
escondidas simplesmente porque eles provocam uma percepção
obscena.) A obscenidade envolve uma percepção “despersona-
lizada” da sexualidade humana, em que o corpo e sua função
sexual aparecem em primeiro lugar em nossos pensamentos,

197
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

obliterando todos os outros. A cópula dos animais freqüente-


mente nos parece obscena; o mesmo acontece com a cópula dos
seres humanos, quando vista a partir de um ponto de vista fora
da perspectiva de primeira-pessoa dos envolvidos. Assim, na re-
presentação literária, a distinção entre o genuinamente erótico
e o licencioso não é uma distinção de assunto, mas de perspec-
tiva. A obra genuinamente erótica é aquele que convida o leitor
a recriar na imaginação o ponto de vista em primeira-pessoa
de alguém em um encontro erótico. A obra pornográfica, como
regra, mantém a perspectiva em terceira-pessoa do observador
voyeurista. No voyeurismo, um casal é visto de um ponto de
vista que, por assim dizer, alarga seus corpos: o ponto de vista
do buraco da fechadura, como o utilizado por Cleland em Fan-
ny Hill. O artifício de Cleland não deve ser confundido com a
técnica genuinamente erótica e infinitamente mais emocionante
de Laclos em Les Liaisons dangereuses, onde o ponto de vista
é sempre o do participante do ato, e os órgãos sexuais não são
mais do que instrumentos em um jogo de domínio psicológico.
Um leitor de Cleland pode até concordar com Lawrence Sterne,
quando diz que “há mais pecado e maldade entrando no mundo
através de buracos de fechadura do que através de todos os ou-
tros buracos juntos”. Um leitor de Laclos, por outro lado, sabe
que não é bem assim – talvez seja bem pior.
Qualquer parte do corpo humano pode ser representada sem
obscenidade: até mesmo os órgãos genitais. No entanto, existe
uma grande diferença entre a representação de um pénis flácido
(e talvez diminuto) e a representação de um vigoroso e alarga-
do. A característica importante da obscenidade é normalmente
o “estado de interesse” das partes do corpo, que dão um teste-
munho vibrante da excitação. Da mesma forma, todo o corpo
pode aparecer como obsceno: como acontece com o corpo do
tentador Basini para o Törless de Musil. Tendo sido apresenta-
do a ele em sua disponibilidade sexual, o corpo de Basini ame-
aça a compostura de Törless com sua carne saturada de prazer.
Uma percepção semelhante do corpo pode ocorrer na vio-
lência e na doença. É apenas um pequeno abuso de linguagem
descrever certas manifestações de violência como obscenas. Pois
elas também podem encontrar morada no corpo pela exclusão
da pessoa encarnada. O corpo é mostrado em triunfo, desinte-

198
capítulo 6 - fenômenos sexuais

grando-se sob sua própria dinâmica, o espírito em desordem


pela dor que o assalta, substituído pela contorção, despedaça-
mento, dissolução da carne. Novamente enfrentamos aqui o
mistério da encarnação, e novamente passamos por essa perigo-
sa mudança de atenção que é a marca do pecado original – da
pessoa encarnada ao corpo dominante e dissolvente.
Outras situações também despertam respostas análogas. Uma
pessoa escorrega numa casca de banana: observando a maneira
em que, por um momento, ela é só corpo, eu sinto um estranho
embaraço. Fico magoado e confuso; na minha confusão eu rio,
me distanciando do destino do outro.173 O riso, em tais casos,
envolve o reconhecimento de que uma pessoa decaiu, derrota-
da pelas leis impessoais do movimento do corpo (cf. a idéia já
tratada do Untergang da pessoa no desejo). Há, naturalmente,
uma diferença entre isso e a verdadeira obscenidade: pois aqui
eu não me concentro na carne enquanto carne, e não aprecio o
pensamento de sua operação autônoma. Uma vez recuperado
deste embaraço, estendo uma mão amiga ao objeto de minha
confusão, restitui-o ao mundo humano de que foi momentane-
amente expulso.
O medo do obsceno é o medo da qualidade depersonalizante
da curiosidade sexual. Esta tendência é uma parte integrante
do nosso interesse um no outro. Ao mesmo tempo, é limitada
pelos movimentos do desejo, que incidem sobre o indivíduo e se
recusam a considerá-lo apenas como um membro de seu sexo,
ou a submetê-lo à “concentração nos detalhes”, que é a marca
da curiosidade sexual. Peter Porter expressa esse ponto com cui-
dadosas ambiguidades (“Conventions of Death”):
O que eu quero é um corpo específico,
E que os detalhes sejam obscenos
Por definição.174

A curiosidade e seus prazeres podem dominar o desejo.


Quando isso acontece, percebemos de repente que somos irre-

173 Esse tipo de riso – apesar de que não todos os tipos – foi razoavelmente caracterizado
por Henri Bergson, Le Rire, 23 ed. Paris, 1924; Laughter, Filadélfia, 1970.
174 “What I want is a particular body, / The further particulars being obscene / By
definition” – NT.

199
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

levantes um para o outro, precisamente no momento em que


nos esforçamos para estarmos unidos. Um colapso ocorre no
coração do desejo, e todas as suas façanhas e perigos parecem
inúteis e até mesmo vergonhosos quando o prazer se esvai. Este
é o fenômeno para o qual os romanos conceberam a frase omne
animal post coitum triste, que implica que o coito entristece ao
nos lembrar de nossa natureza animal. (Pois a atenção obscena
só enxerga o animal, e nunca o eu.) Vou defender em capítulos
posteriores que é intrínseco ao desejo ser sujeito a tal debilita-
mento. Alguns são gratos a este fato, acreditando que temos de
“liberar” nossos espíritos animais reprimidos. Mas não deve-
mos supor, porque os nossos desejos sexuais estão construídos
sobre uma base de impulso animal, que é o impulso animal que
precisamos, e buscamos, satisfazer.

Modéstia e vergonha
Certas emoções interpessoais altamente complexas – cons-
trangimento, vergonha e nojo – têm um lugar obviamente im-
portante na conduta sexual das pessoas, e franqueza absoluta
geralmente não é recomendada ou valorizada nas questões se-
xuais. Além disso, o recente declínio na prática da modéstia e a
disposição de falar abertamente sobre o ato sexual não foram
acompanhados da intensificação da paixão sexual, mas, pelo
contrário, por um relaxamento – um “declínio”, como Henry
James certa vez disse, “no sentimento do sexo”.175 No entanto,
é evidente que o embaraço não é nenhuma consequência aci-
dental do desejo. Pois o sujeito do desejo está, em seu próprio
impulso, buscando uma resposta recíproca; ele está, portanto,
possuído pelo pensamento de si mesmo como um possível ob-
jeto de desejo, e envergonhado pela inevitável conclusão de que
talvez ele não o seja. Além disso, ele está tentando obter do
outro uma resposta profundamente comprometedora. Apenas
em circunstâncias especiais é embaraçoso demonstrar amizade
por alguém, ou recebê-la de outrem. O inverso é verdadeiro no
desejo: apenas em circunstâncias especiais esta emoção não é
embaraçosa para ambas as partes. (E cf. a comparação de Santo
Agostinho entre excitação e raiva.)

175 Henry James, Notebooks, ed. T. Matthieson, p. 124, e o prefácio ao The Bostonians.

200
capítulo 6 - fenômenos sexuais

Sugiro a seguinte análise da estrutura intencional do cons-


trangimento: o sujeito acredita que corre o risco de desprezo, in-
dignação, reprovação ou outra avaliação negativa do outro. Ele
teme esta situação, e acredita que só pode evitá-la mediante sua
própria conduta. Tudo depende do que faz e de como se mostra.
O constrangimento é a expressão desse medo, e seu sinal natu-
ral é a hesitação – cuja forma extrema é a paralisia diante dos
olhos inquisitivos do outro. O constrangimento envolve o meu
duplo sentido; inteiramente individual e inteiramente social. No
constrangimento, eu apareço ante o outro como um indivíduo,
e sou compreendido, questionado, elogiado e condenado como
tal, sendo completamente responsável para os outros.
A vergonha é um caso especial de constrangimento. O ho-
mem que está “com vergonha de si mesmo” partilha da atitude
que teme. Ele vê sua própria natureza com desprezo, indignação
ou desaprovação, ou, de alguma outra forma, julga a si mes-
mo negativamente. Seu medo do julgamento do outro se torna
medo de ser descoberto, medo de que o outro o conheça como
ele conhece a si mesmo. Assim, enquanto alguém pode viver
com um embaraço normal, confortável diante da perspectiva
de que ele pode persuadir o outro a vê-lo de forma diferente,
é muito difícil viver com vergonha. Pois a vergonha não tem
remédio. Você não pode desfazer uma descoberta, nem desmen-
tir uma verdade conhecida. O primeiro recurso, portanto, é se
esconder, e é uma manifestação instintiva da vergonha o sujeito
tentar – como o Adão de Masaccio quando é expulso do Pa-
raíso – ocultar o rosto em suas mãos, cobrindo essa parte dele
onde sua perspectiva está exposta, por assim dizer, ao olhar te-
mível do julgamento de outro.176
É um toque humano que leva Masaccio a descrever Eva cobrin-
do não seu rosto, mas seu sexo e seios. Pois, para Eva, a vergonha
não é a vergonha moral de um erro descoberto, mas vergonha se-

176 Havelock Ellis tem um estudo interessante a respeito da cobertura do rosto na vergonha.
Ver Studies in the Psychology of Sex, vol. I: On Modesty, 3ª ed., Filadélfia, 1923, p. 58-
9. O hábito muçulmano do véu é um índice de vergonha e modéstia. Conforme as
mulheres islâmicas, quanto mais você esconde, mais vulnerável se torna o resquício
de superfície ainda descoberta. Os olhos, mãos e tornozelos das mulheres cobertas
se tornam particularmente excitantes, e também particularmente vulneráveis a
qualquer olhar concupiscente. Frequentemente parece que as mãos da mulher reagem
espontaneamente ao olhar focado nelas, mesmo que o homem não tenha sido visto.

201
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

xual. A vergonha moral é a forma de culpa peculiarmente social,


mas a vergonha sexual é outra coisa – o sinal, de inocência sexu-
al, não de culpa. Ao usarmos a palavra “vergonha” para denotar
esse estranho recuo do corpo, estamos falando metaforicamente,
e o que temos em mente não tem nada a ver com a idéia de jul-
gamento adverso. No entanto, esta conclusão, embora seja tenta-
dora, há muito tem sido considerada insatisfatória. Embora haja
algo estranho e até mesmo um pouco patológico em uma pessoa
que sente que seus órgãos e funções sexuais são desprezíveis ou
maus em si, sentimos que este horror moral do corpo é apenas
uma expressão exagerada de uma reticência e até mesmo repug-
nância que parecem estar presentes em todos, a não ser nas pes-
soas mais lascivas da humanidade. Em seu clássico estudo sobre
a modéstia,177 Havelock Ellis reuniu evidências impressionantes
para mostrar que a disposição para esconder os órgãos genitais
e as funções sexuais dos olhares curiosos e atenções indesejadas
de outros é uma característica humana quase universal, por mais
que esteja sobrecarregada de convenções e indumentárias sociais.
Além disso, em todos os lugares ocorre a disposição de desviar-se
do olhar do outro – ocultar o rosto com as mãos, e corar quando
não se está tendo sucesso. O próprio Ellis ofereceu várias explica-
ções para a vergonha, vendo-a em parte como uma sobrevivente
do instinto animal de evitar a relação sexual não desejada, e em
parte como um produto social, o principal elemento do “medo de
ser nojento”. A primeira explicação não nos interessa, uma vez
que, mesmo verdadeira, não diz nada sobre a intencionalidade
da vergonha sexual. A segunda, no entanto, é mais interessante,
já que é uma explicação em função da compreensão intencional
do sujeito. Se for verdade, estabeleceria que a vergonha sexual é
uma espécie genuína de vergonha – o resultado de uma crença
anterior no caráter repugnante da própria sexualidade e o medo
do nojo alheio ao exibi-la.
Naturalmente, não podemos rejeitar tal análise da vergonha
fora de pronto. Havelock Ellis não era o único a pensar que a
situação dos órgãos sexuais inter urinam et faeces desempenha
um papel determinante em nossos pensamentos sobre eles. Há
um impulso humano de evitar a sujeira, e em especial a sujeira
dos excrementos humanos. Nós não precisamos especular sobre

177 Ibid., vol I.

202
capítulo 6 - fenômenos sexuais

a origem desse impulso – se é inato ou adquirido, se é a conti-


nuação ou a inversão de algum sentimento infantil, e assim por
diante – para reconhecer a sua grande importância no mundo
da criança. A criança pensa que seu corpo tem partes “sujas”.
Ela também aprende a esconder essas partes e, através do uso
de roupas, a submeter seu corpo ao drama do revelado e do
oculto. As roupas são tão importantes que muitos escritores as
quiseram ver como a origem da vergonha sexual, criada a partir
do hábito de esconder o que também pode ser sedutoramente
revelado. “Vergonha, vergonha divina”, escreveu Carlyle, “sur-
giu misteriosamente sob as Roupas”.178 A que se pode adicionar
o comentário de Montaigne, de que “há certas coisas que estão
escondidas para serem mostradas”.
A explicação é, no entanto, improvável. A evidência antro-
pológica sugere que mesmo as pessoas que não têm qualquer
disposição para esconder os seus órgãos sexuais sentem vergo-
nha quando essas partes estão expostas à atenção indesejada.179
No entanto, há muito charme, para a inteligência moderna, na
teoria freudiana, que combina a explicação escatológica e a in-
dumentária. Para Freud, a vergonha é a sobrevivente da idéia
infantil de um “segredinho sujo” que cada um de nós carrega
sobre si, e que nos fala não apenas da sujeira escondida, mas
também de prazeres proibidos.
A hipótese é confirmada pelo amplo uso de palavras que de-
notam sujeira (“imundície”, por exemplo180) para descrever a
literatura obscena e o comportamento lascivo (isto é, sem ver-
gonha). Aurel Kolnai defendeu, em um trabalho que se baseia
mais na fenomenologia do que em fatos antropológicos, que a
“sujeira” é a categoria principal da moral sexual, e que a dico-
tomia “puro / impuro” está no coração de todos os nossos sen-
timentos morais relativos ao ato sexual.181 Embora os tempos

178 T. Carlyle, Sartor Resartus, Everyman Edition, 1908, p. 30.


179 A evidência está convenientemente reunida na obra de Ellis, Studies in the Psychology
of Sex, vol I.
180 Filth pode significar imundície e imoralidade – NT.
181 Aurel Kolnai, Sexualethik, sinn und Grundlagen der Geschlechtsmoral, Paderborn, 1930,
p. 13: “Die Kategorie der Schmutzer kommt primar und unmittelbar nur in sexuellen
Bezirk der Ethos vor; nur hier ist ‘moralisch unsauberer Ding’ als wirklich dinglicher,
massiver Realitätsbestandteil vorhanden.” Eu faço uma defesa dessa observação no
Capítulo 11.

203
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

tenham mudado de forma a tornar essa hipótese menos do que


completamente persuasivo, não se pode negar que ela contém
uma verdade importante, e que os pensamentos de “pureza” são
prioritários na mente de uma pessoa sujeita à sensação ardente
da vergonha sexual.
Por outro lado, a teoria escatológica da vergonha sexual está
particularmente invertida. A pessoa modesta não pensa em seus
órgãos sexuais como “sujos”. Pelo contrário, é parte da modés-
tia fazer com que tais pensamentos – que são os pensamentos
de uma criança – sejam vencidos ou afastados. (Os freudianos
argumentam, no entanto, que esses pensamentos não são afas-
tados, mas reprimidos, sugerindo assim que continuam a exer-
cer sua influência, mas de uma forma secreta.) Além disso, uma
mulher modesta pode sentir vergonha a respeito de seus seios.
Eles não são “sujos” de modo algum nem mesmo para uma
criança; mas compartilham com os órgãos genitais o fato de
serem recipientes de prazer sexual e foco de interesse sexual.
As ocasiões normais de vergonha são as do olhar lúbrico, do
gesto obsceno ou da pronunciação lasciva. Eles causam vergo-
nha porque sujam o que, em si, não é sujo. O pensamento do
sujeito é algo do tipo “eu estou contaminado pelos seus olha-
res”. O sujeito é levado a sentir vergonha, porque se sente “de-
gradado” pelo interesse do outro, pelo tom de sua conversa ou
pelas implicações de seu gesto. Não é o desgosto do outro pelo
meu corpo que provoca esta resposta, mas, pelo contrário, o seu
prazer. A mulher que supõe que está sendo despida na imagina-
ção do homem que a observa não sente que ele está pensando
em algo que é sujo por si só, mas que ele está pensando em seu
corpo de uma maneira que o perverte. Ele é testemunha da pre-
sença viva e corrosiva de um pensamento obsceno. A resposta
dela contém uma pequena premonição de estupro, a vítima que
pode, como Lucrécia, se sentir tão contaminada pelo contato de
seu agressor que é incapaz de viver consigo mesma. Sua “con-
dição ontológica” muda sem esperança de remédio. Ela nunca
mais estará limpa. Ela, contra sua vontade, foi forçada a se ver
como comparsa num crime, e a vítima deste crime é seu próprio
corpo, “contaminado”, “poluído” e “revirado”182 – para usar as

182 Defiled, polluted, rifled – NT.

204
capítulo 6 - fenômenos sexuais

palavras que ocorrem com mais frequência em Shakespeare, em


sua descrição insuperável da angústia mental de Lucrécia.
Qual é a natureza do pensamento degradante que induz à
vergonha? É necessário distinguir duas possibilidades. No pri-
meiro caso, o homem que olha para ela pode elaborar certa
crença sobre a mulher, uma crença que a constrange. (Ele pode
acreditar que ela seja uma prostituta, por exemplo). Ela pode
ficar ofendida por essa crença, mas, ao refutá-la, ela pode su-
perar seu embaraço e reafirmar seu direito à consideração dele.
No segundo caso, o que nos interessa, o pensamento do homem
não é uma crença sobre a mulher, mas uma maneira de vê-la.
Esta “maneira de ver” é degradante em alguma medida por ser
infecciosa. Ao reconhecer o pensamento dele, a mulher o com-
partilha; sua percepção de si mesma é transformada de uma
forma que a degrada. Ela não pode recuperar sua equanimidade
refutando uma acusação injusta, pois não há nenhuma acusa-
ção. O pensamento em si a desonra, e ela se afasta do homem
que o transmite com um movimento instintivo de repugnância.
Não é difícil descrever este pensamento, que se intromete in-
devidamente na vida mental da vítima, assim como não é criar a
condição do que isso também a acusa. O que é difícil é separá-lo
dos outros pensamentos que o compõem, e que reforçam a sua
pena. Há um elemento na análise freudiana que eu já descartei,
mas que deve ser mencionado aqui, mesmo que seja só porque
corresponde ao que tem sido a principal explicação rival à es-
catológica e à indumentária: o elemento do “prazer proibido”.
Costuma-se dizer que o pensamento dominante da vergonha é a
idéia do ato sexual – realizado, talvez, com o homem cujo olhar
dá ensejo à crise atual – na mente de alguém que acredita que o
ato seja proibido. Os freudianos estendem o conceito de “tabu”
para descrever esta noção poderosa do sexualmente proibido,
o que significa que é algo que é ao mesmo tempo mais forte e
menos questionável do que qualquer injunção moral normal.
Pensando em si mesma como partícipe do ato proibido, a mu-
lher tem vergonha de descobrir (óbvio que “inconscientemen-
te”) que ela também o quer. Assim, Restif de la Bretonne (uma
autoridade indiscutível, apesar de horrível, sobre estas questões)
escreveu que “é a garota mais modesta quem cora mais, a que

205
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

está mais disposta aos prazeres do amor”.183 Por conta disso, o


caráter degradante do pensamento reside inteiramente na idéia
de estar disposto a fazer o que é proibido.
Mas a teoria certamente está errada. A mulher no meu exem-
plo se sente mais envergonhada diante dos olhares desejosos
do homem a quem ela menos quer. (Há uma razão, que em
breve aparecerá, para concentrar-me na experiência da mulher.)
É o seu desgosto pelo outro que desperta a aversão sexual em
relação a si mesma: não porque ela percebe que ela o deseja,
mas justamente porque ela percebe o quanto ela não quer fazer
isso com ele. Por que esse pensamento é degradante? É aqui
que encontramos o componente central da intencionalidade da
vergonha. A mulher é obrigada por seu pensamento a ver a si
mesma como uma “criatura sexual”: como uma criatura que
pode realizar o ato sexual com “homens” e, talvez, até mesmo
com um homem que ela não conhece. Em outras palavras, ela
vê sua sexualidade divorciada da intencionalidade individuali-
zante do desejo, e reformulada como um impulso corporal, um
apetite animal em que ela está à mercê de seu corpo. Este pen-
samento a degrada, porque ele a representa como subserviente
a seu corpo, sem referência à sua singularidade como um objeto
de desejo, ou à comparável singularidade de quem ela, por sua
vez, poderia desejar. Em outras palavras, ela se torna o objeto
de um pensamento obsceno. O olhar lascivo a convida a pensar
de uma forma que ameaça a natureza interpessoal de sua vida
sexual, e seu amor-próprio – respeito pelo seu próprio eu, e pelo
eu em geral, como o objeto imanente de desejo – faz com que
ela evite o pensamento. Ela se afasta do seu significado corrosi-
vo e dos olhos do homem que “compartilha” desse pensamento
com ela, e que, portanto, “conhece” sua angústia.
Assim, a ocasião para a vergonha não é nem o pensamento
de “prazer proibido”, nem a exposição dos órgãos sexuais. É,
ao contrário, a exposição aos pensamentos desejosos daquele
que não é desejado, e que obrigam, através de seu interesse, à
degradante percepção de si mesmo como parceira de uma obs-
cenidade. Esta é a verdadeira substância da queixa da mulher,
de que ela é tratada como um “objeto sexual” pelos homens. A.

183 Nicolas Restif de la Bretonne, M. Nicolas, Paris, 1827, vol. I, p. 94.

206
capítulo 6 - fenômenos sexuais

Duval, um aluno de Ingres, contou que certa vez uma modelo


posava nua e desinibida na École des Beaux Arts quando, de
repente, ela gritou e correu para suas roupas. Ela tinha visto um
operário no telhado, que olhou lascivamente para ela através da
claraboia.184
Essa teoria aponta para uma ocasião curiosa da vergonha:
não o tirar, mas o colocar das roupas após o ato sexual. Mais
uma vez, a experiência é característica da mulher, que não se sen-
te mais vista com olhos de desejo e nem fortalecida pela emoção
da exposição. De repente, tudo parece sem graça, arbitrário e
mundano; o que era há apenas um momento um corpo brilhan-
te, oferecido e aceito como uma vida individual, é agora apenas
um pedaço de carne humana, prestes a ser reembalado e pre-
servado para outra ocasião. Em nenhum momento a mulher se
sente mais desvalorizada ou dispensável ​​do que este e, portanto,
por vergonha, ela vai querer ficar parada com seu amante, nua,
falando de sua nudez, até que a aceite novamente como parte
dela. (Sei Shōnagon protesta, em O Livro de Cabeceira, contra
a vulgaridade intolerável do homem que se levanta muito cedo
depois do amor, e a força do desprezo dela por ele é um espelho
de sua vergonha. Em um sentido, seu desprezo é por si mesma, e
é induzido pela percepção obscena de sua própria encarnação).
Nem todo olhar desejoso inspira vergonha. Pelo contrário,
desde que um gesto não transgrida a divisão tênue entre o inte-
resse sexual e a representação obscena, uma mulher vai recebê
-lo bem. Pois o gesto desejoso é um símbolo de seu poder e das
múltiplas possibilidades sexuais que reforçam esse poder, desde
que ela se recuse a cumpri-las. A mudança ocorre quando, por
alguma palavra ou gesto, o homem revela uma percepção obs-
cena de seu corpo e a obriga a vislumbrar imaginativamente o
que seu interesse realmente significa. (Camille Mélinaud expres-
sa esse ponto com uma bela definição da modéstia: “o pudor é
a vergonha do animal que existe em nós”.)185
Os homens recebem bem os olhares desejosos das mulheres,
que raramente mostram percepção obscena, mesmo quando fo-

184 A história está em L. Lombroso e G. Ferrero, La Femme prostituée, Paris, 1893, p. 590.
185 “La pudeur c'est la honte de l'animalite qui est en nous.” Camille Mélinaud, “La
Psychologie de la pudeur”, La Revue, nº 10, p. 397.

207
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

cados no corpo. Mas só os homens homossexuais acolhem bem


os olhares desejosos de homens. Para o heterossexual, os olhares
desejosos do homossexual já são, em muitos casos, obscenos,
convidando-o a atos que o repelem, e colocando-o subitamente
dentro da perspectiva predatória do homem – a perspectiva que
uma mulher tem de enfrentar diariamente, mas contra o que um
homem tem poucas defesas sociais.
A vergonha sexual é um caso especial de um fenômeno mais
amplo: a vergonha do corpo – a vergonha induzida pela percep-
ção do próprio corpo a partir de um ponto de vista fora dele,
como um item curioso em si. Essa vergonha é uma experiên-
cia avassaladora durante a infância, quando o poder do adulto,
que controla o mundo objetivo, dá autoridade adicional para a
percepção do adulto. A criança vê seu corpo como um “objeto
aos olhos dos adultos”. No encontro desigual entre seu próprio
senso de unidade com o seu corpo e a distância moralizante do
adulto em relação a ele, a criança experimenta a tensão da en-
carnação na sua forma mais aguda. Daí a disposição da criança
de se esconder dos olhares adultos: uma espécie de pudor que,
porque tem o corpo como seu objeto principal, prefigura a mo-
déstia sexual do ser humano maduro.
Não devemos lamentar esta modéstia nas crianças. Pelo con-
trário, é a consequência necessária do desenvolvimento de uma
perspectiva em primeira-pessoa, e de um crescente sentimento
de responsabilidade em relação ao mundo humano. É a crian-
ça desavergonhada que deve despertar nosso desagrado. Se ela
não sentir a tensão de sua encarnação é porque lhe falta uma
capacidade mental crucial: a capacidade de sustentar, em um
único pensamento, as visões subjetiva e objetiva de sua própria
condição. Ela não adquiriu o que os moralistas do século XVIII
chamaram de “senso moral”.
Existem, portanto, várias formas de vergonha: vergonha mo-
ral, que nos faz recuar ante o julgamento adverso; vergonha
corporal, que nos faz recuar diante da lascívia e da curiosidade;
e vergonha sexual, através da qual evitamos a percepção obsce-
na inerente ao desejo indesejado do outro. Em cada uma delas
há o mesmo pensamento fundamental que estrutura o constran-
gimento: o pensamento de que me apresento diante do outro, e
sou julgado, como um indivíduo. A vergonha do corpo, portan-

208
capítulo 6 - fenômenos sexuais

to, mostra o profundo reconhecimento de que eu, enquanto in-


divíduo, estou presente na individualidade do meu corpo, e que
sou, de uma forma estranha, responsável por isso. Max Scheler
viu todas as formas de vergonha como um “sentimento proteti-
vo [Schutzgefühl] do indivíduo e de seu valor individual contra
a totalidade da esfera pública”,186 e derivou disso a conexão
entre vergonha e honra – uma conexão que, segundo ele, é mais
próxima nas mulheres do que nos homens. Com tal teoria – que
Scheler desenvolve durante algum tempo – podemos concordar,
e observar quão significativo é o testemunho da vergonha cor-
poral para o nosso senso de que o eu e o corpo são idênticos, e
de que a individualidade e o distanciamento do eu não são nada
mais do que a individualidade e distanciamento do corpo.
Um fenômeno acessório interessante é a “vergonha verbal”
– a disposição humana universal para descrever o ato de amor
em termos exemplificados por esta sentença. Tal disposição não
é nem pudor nem eufemismo, mas apenas uma reserva modesta.
É parte da disposição de evitar a ocasião da vergonha sexual. A
frase “fazer amor”, que usa a linguagem das relações pessoais,
evita a implicação de que os participantes estão envolvidos ape-
nas como corpos no ato que os excita. A disposição para falar
em “amor” e “fazer amor” ao descrever os fenômenos do dese-
jo é tão difundida que ninguém tem a menor dificuldade para
compreender, sem mais explicações, o verdadeiro significado de
uma frase como faire l’amour. Ocasionalmente, o imaginário é
diversificado; ocasionalmente, qualquer sugestão de um ato é
omitida, como no turco sevişmek (literalmente: “amar-se mu-
tuamente”); ou a palavra para beijo pode ser estendida para
designar o ato sexual, como no francês baiser. Algumas línguas
descrevem o beijo em si na língua do amor, como no grego mo-
derno phili, ou no checo polibek (do libit se, gostar). A pala-
vra polida para o ato sexual pode também ser uma variante de
“estar junto”, como no antigo grego sunousiazo (curiosamente
transformado no grego moderno sunousiazomai – como se ape-
nas a voz passiva pudesse apreender o grau exato de reticência).
O grego antigo também recorreu à teologia, descrevendo o ato
sexual por meio do verbo aphrodisiazein (ou, para as mulheres,

186 Max Scheler, Über Scham und Schamgefühl, em Schriften aus dem Nachlass, 2ª edição,
ed. Maria Scheler, Bern, 1957, p. 80.

209
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

aphrodisiasthenai), uma descrição que também é aplicada por


Aristóteles à cópula dos animais.187 Algumas línguas africanas
têm vários “níveis” diferentes de referência sexual, desde o ex-
tremamente protelatório ao obscenamente direto – a utilização
de cada um depende do contexto social específico. Mas em to-
dos os casos há uma distinção clara entre a referência “educada”
ao sexo, relativa à relação pessoal, e a ênfase obscena no corpo
e em seu papel. Aquelas palavras que pretendem designar o ato
“diretamente”, sem maiores implicações sobre a relação espe-
cial entre os participantes, são evitadas como obscenas. Mais
uma vez, os freudianos tentam explicar isso como uma espécie
de “tabu”, mas a explicação não é mais do que uma repetição
do fato a ser explicado. Além disso, é bastante incompreensível
que a palavra “foda” seja utilizada sem constrangimento como
palavrão, mas é com imensa relutância, mesmo por aqueles
para quem estas palavras são uma parte familiar do vocabu-
lário cotidiano, que é usada para se referir ao ato de amor. A
tentativa de D. H. Lawrence de redimi-las (em O Amante de
Lady Chatterley), acabando com a “hipocrisia” que nos protege
das verdades do sexo, é parcialmente responsável por um dos
mais marcantes de seus muitos desastres literários. O resultado
é insuportavelmente recatado, e estranhamente muito mais “eu-
femístico” do que a honrada linguagem do amor que pretendeu
substituir. Lawrence está certo em uma coisa: o uso desemba-
raçado dessas palavras está reservado para situações de intimi-
dade sexual; o que ofende em seu livro é a sensação de que essa
intimidade é observada muito perto e de forma muito lúbrica.
Com aqueles que não são nossos amantes, nós quase invaria-
velmente descrevemos o ato de amor por meio de circunlóquios
(a não ser para ressaltar o efeito). Aristide Bruant comenta que
“quase todas as expressões para se referir ao ‘coito’ são obsce-
nas”,188 o que significa que, enquanto a maioria delas é circun-
locutória (battre le beurre, être sous presse, faire la bête à deux
dos, manger de la soupe à la quequette, voire la feuille à I’envers
e assim por diante189), sua circunlocução leva-nos precisamente

187 De Generatione Animalium, 725b, por exemplo.


188 Aristide Bruant, Dictionnaire français-argot, Paris, 1901, vocábulo coït.
189 Essas expressões idiomáticas correspondem, por exemplo, ao “molhar o biscoito”,
“afogar o ganso” e assim por diante – NT.

210
capítulo 6 - fenômenos sexuais

a uma percepção corporal e despersonalizada da relação sexual.


(Talvez o melhor exemplo disso seja a descrição do punk inglês
do ato de fazer amor como “amasso”.190) Os termos “médicos”,
pelo contrário, não são obscenos. Mas eles podem ser usados​​
apenas por sua complexa afetação de “neutralidade”, de estar
completamente fora da intencionalidade humana; ao usar tais
termos, observamos nossas ações de um ponto de vista que as
torna “alheias à nossa preocupação”. A “modéstia verbal”, que
governa a maior parte de nossa referência ao ato sexual, foi des-
crita por Wayland Young como parte da “negação de Eros”.191
Na verdade, é um sinal de nosso respeito por Eros descrever o
ato sexual não na linguagem obscena do prazer curioso, mas na
linguagem do desejo.

O significado dos órgãos sexuais


Por que, afinal, a vergonha e a obscenidade se focam tão vivi-
damente nas partes sexuais – nos órgãos e nas regiões do corpo
ativadas na circunstância da excitação? As teorias escatológica
e indumentária pretendem explicar esse fato, mas nenhuma foi
bem-sucedida. A primeira não explica a atitude de uma mulher
em relação aos seus seios; a segunda falha em reconhecer que
a vergonha das partes sexuais, ao contrário das roupas, é uma
característica humana universal. Isso nos leva a uma pergunta
difícil: a do lugar dos órgãos sexuais no desejo. De um ponto de
vista, é claro, é fácil descrever esse lugar. Do ponto de vista da
biologia, o desejo sexual requer contato entre os órgãos sexuais,
que são os loci do prazer e os canais de reprodução. Mas de ou-
tro ponto de vista – o da compreensão intencional – o papel dos
órgãos sexuais é obscuro. Como nós os vemos, e como devemos
vê-los, nos “pensamentos desejosos” que motivam nossos es-
tratagemas sexuais? Por que as experiências de base biológica
que são “dadas” a nós por nossos órgãos sexuais devem ser
incorporadas à intencionalidade de uma resposta interpessoal?
Esta última questão é uma das mais difíceis, e não serei capaz
de enfrentá-la até o Capítulo 9. Mas anunciarei a solução que
vou propor mais tarde.

190 Squelching – NT.


191 Wayland Young, Eros Denied, Londres, 1965, cap. 1.

211
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Em uma passagem marcante, Sartre observa que “nenhum


órgão fino e preênsil constituído de músculos estriados pode ser
um órgão sexual, um sexo”.192 Ele não quer dizer que nenhum
órgão assim descrito poderia tomar o papel desempenhado pe-
los órgãos sexuais na atividade de reprodução biológica, mas
que tal órgão nunca seria percebido da forma que percebemos
os órgãos do sexo. Ele comenta enigmaticamente que “se o sexo
aparecesse como um órgão, seria apenas uma manifestação da
vida vegetativa”, mas seu ponto é mais abrangente do que isso
implica, e sua referência posterior à “passividade orgânica do
sexo no coito” mostra que ele não está preocupado com a dis-
tinção entre o ativo e o vegetativo. Mais uma vez, o pensamen-
to de Sartre é profundamente agostiniano. O desejo sexual nos
obriga a unir através de órgãos que estão, de uma forma impor-
tante, fora de nossa vontade. Estes órgãos não são órgãos do
“fazer”, mesmo que passem por transformações surpreendentes
(como a ereção) como consequência das coisas feitas.
Somos impelidos a distinguir entre os órgãos que são inte-
ressantes para nós o tempo todo, em virtude da sua capacidade
de mudar as coisas ao seu redor, e os órgãos que são interessan-
tes apenas ocasionalmente, e não por causa de sua capacidade
de iniciar a mudança, mas por sua capacidade de passar por
ela – de “responder” à influência externa. As mãos, que explo-
ram, agarram e manipulam, têm um papel vital a desempenhar
na relação sexual. Através delas, vamos em direção ao outro,
e quando apertamos as mãos, expressamos nossa vontade de
estar unidos. Mas esses órgãos que nos unem estão cheios de
movimento, e de prontidão para partir em outra missão. Eles
permanecem presos no contato, e não por uma agradável sensa-
ção que os compele, mas por uma determinação voluntária em
nós, de que nossas mãos são os avatares. Nossas mãos repou-
sam juntas, mas seu repouso é algo que fazemos com elas.
Como já discuti no último capítulo, nossos órgãos sexuais
não são os fornecedores ativos de intenção. Eles são endureci-
dos ou amolecidos, mas não porque queremos que isso acon-
teça. (Frank Harris alega (Minha Vida, Meus Amores) que
Maupassant foi capaz de “ordenar” uma ereção; se a história

192 J. P. Sartre, Being and Nothingness, tr. Hazel E. Barnes, Nova York, 1956, p. 397.

212
capítulo 6 - fenômenos sexuais

é verdadeira, Maupassant deve ser comparado a alguém que


“ordena” uma dor de cabeça – ou seja, quem realiza alguma
operação mental que “ocasiona” o que é desejado.) A trans-
formação dos órgãos sexuais é essencialmente uma resposta,
algo que acontece a eles e neles. E nós, neles, somos vencidos.
O prazer do seu contato nos cimenta com uma força que não é
de nossa própria invenção. Este prazer não é algo que fazemos,
nem é a expressão da nossa vontade, embora seja sensível aos
nossos pensamentos e sentimentos.
Que as relações sexuais devam culminar na união desses ór-
gãos “passivos”, em vez de na união das mãos ou olhares, é de
extrema importância espiritual para nós. Pois somos “derrota-
dos” nesses órgãos; sua transformação representa a conquista
da vontade, e a absorção do autogoverno pouco a pouco. É só
quando entendermos este ponto que veremos o que está certo e
o que está errado na teoria escatológico da vergonha sexual, e
quão perto estão as idéias de “pureza” sexual das de “limpeza”
fecal.
Yeats lamentou que “o amor armou sua mansão / Na casa
dos excrementos”.193 Mas seu pesar é incoerente. Pois o amor
não poderia (fenomenologicamente falando) ter escolhido uma
residência melhor. As partes sexuais possuem uma função vi-
tal e regularmente exercida, que nós podemos controlar, mas
que se encontra importantemente fora do alcance de nossas in-
tenções. É nossa observação constante dessa função, e eventual
familiaridade com ela, que nos prepara para o drama do ato
sexual. Eu vejo minhas partes sexuais me vencendo, em obedi-
ência ao ritmo natural e legítimo do meu corpo. O que acontece
com elas acontece comigo e como resultado do que fiz – o que
comi ou bebi. Elas são, portanto, um símbolo do triunfo final
do corpo sobre a vontade; da sua capacidade infinita de “ter a
última palavra” em todas as nossas operações alimentares. Esta
habilidade – que é mais pronunciada na morte, quando o cor-
po finalmente extingue toda a nossa resistência – é aquela que
aprendemos a incorporar em nosso sentido do que somos. É
precisamente a dedicação obstinada do corpo na tarefa de nos
superar, de impor sua lei férrea do movimento, que nos obriga

193 “Love has pitched his mansion / In the house of excrement” – NT.

213
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

a reconhecer nossa unidade com ele. A excreção é o “não” final


a todas as nossas ilusões transcendentais – para o cari inganni
do poeta que imagina com Leopardi, que “sè stesso” é algo di-
ferente de “fango”, algo diferente de lama ou lodo.194 Ela nos
prepara, portanto, para a única união disponível ou concebível
– a união dos eus dentro e através de seus corpos.
Quando eu urino, minha vida e atividade são interrompidas
por um momento. (Diferente da respiração ou do bater do cora-
ção). Eu permito que o corpo “faça como preferir”, consciente
de que não posso resistir muito tempo a seu império, e de que
ele não faz mais do que me comprometer com as consequên-
cias da minha ação anterior, quando levantei meu copo em um
momento de hilaridade. Por isso, vejo meu órgão sexual como
o conduíte das ordens do corpo, o instrumento de seu domínio.
Aconteça o que acontecer comigo através dele, é uma expressão
do comando do corpo. A excreção tem uma tarefa diária de me
subjugar e, portanto, os órgãos excretores adquirem o nimbus
de autoridade que é o tributo final do corpo. Inevitavelmente,
portanto, eles transformam a excitação sexual em um impera-
tivo corporal. O próprio fato de que eles estão me convocan-
do lembra-me que, na presente excitação, eu sou superado pelo
meu corpo. Também não posso lamentar esse fato, porque eu
sou o meu corpo, e nada me lembra disso mais vividamente do
que os órgãos através dos quais o corpo expressa o seu senho-
rio. Assim, Rochester se sente traído por seu pênis, que – apesar
de seus hábitos notórios – torna-se impotente diante da mulher
que ele ama. Ele, portanto, deseja todas as doenças do corpo, e
conclui:
Não mijes tu, quem recusou-se a funcionar,
Quando todas as minhas alegrias, por ti, vieram a desmoronar.195

Em outras palavras, ele quer que seu pênis perca a capaci-


dade pela qual se afirma, e através da qual ele constantemente
lembra Rochester de sua conexão inseparável. O senso da au-
toridade do corpo na paixão sexual cresce a partir do chamado

194 Leopardi, “A sè stesso.” Eu discuto o sentido desse poema em The Aesthetic Understanding,
Londres, 1983, p. 237-40.
195 “May’st thou not piss, who did’st refuse to spend, / When all my joys did on false thee
depend” – NT.

214
capítulo 6 - fenômenos sexuais

familiar da necessidade corporal que, como um desfile diário,


lembra-nos da autoridade duradoura do soberano. Se não fosse
por isso, a ilusão transcendental do desejo – a ilusão de que eu
me uno ao outro como um eu transcendental – ameaçaria todos
os projetos de intimidade atualmente possíveis. Isso constante-
mente incutiria em mim a disparidade absoluta entre a minha
resposta a você e a resposta do meu corpo ao seu corpo. Do
jeito que é, no entanto, o ato sexual é apresentado a mim como
a conclusão inevitável de um processo progressivo de “encarna-
ção”, em que a soberania do corpo é afirmada, e em que eu es-
tou ciente do fato de que eu sou o meu corpo, e que sou tornado
real para você através dele.
No caso da mulher, há uma função semelhante ainda mais
imperativa, que é dada pelo conduíte sexual, mas desta vez é
uma que não pode ser controlada: a menstruação. Isso a cria
sensação de estar mais à mercê de seu corpo do que um homem
poderia estar, de estar sujeito a uma autocracia adicional de sua
parte sexual. Embora este fato já tenha sido lamentado, e às
vezes até infrutiferamente contrariado, é um fato não obstante,
e nenhuma moralidade sexual pode ignorá-lo, assim como ne-
nhuma moralidade sexual pode ignorar o outro, e maior, fato
de que ele é o lembrete regular: o fato da gravidez. Não se deve
supor nem que o esboço acima do entendimento intencional
dos excrementos serve para resumir completamente a sensação
percebida do domínio corporal através dos órgãos sexuais, nem
que a percepção é a mesma para ambos os sexos. Pelo contrá-
rio, homens e mulheres percebem seus corpos de forma dife-
rente. Isso tem sido recentemente evidenciado na reivindicação
feminista de que as mulheres têm alguma necessidade especial,
e algum direito especial, de “controlar seus próprios corpos”
como único meio de estabelecer a igualdade com os homens.
No entanto, em nenhum dos sexos o papel excremental dos ór-
gãos sexuais é causa de arrependimento ou grandes embaraços.
Na verdade, o processo de educação em que deixamos de com-
partilhar a fascinação, ou o horror, infantil por seu excremento
é exatamente o que parece ser: um processo de compreensão e
repúdio. Nós percebemos que, se há uma distinção entre nossas
ações, entre puro e impuro, não tem absolutamente nada a ver
com os excrementos. A coprofilia e a coprofobia são perversões
semelhantes; pois ambas vinculam o ato sexual a um prurido
215
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

infantil, e ao mesmo tempo procuram substituir sua intenciona-


lidade interpessoal com algo animal. A insistência mesma de in-
terpretar a vergonha sexual como uma espécie de desgosto clo-
acal está impregnada dessa perversão: pois mostra a disposição
infantil para interpretar um relacionamento moral em termos
meramente animais. Aquilo que parecia tão trágico para Yeats
não é nada além de um dos dons da natureza, que nos permite
embarcar em um elaborado projeto social: a construção coope-
rativa do desejo sexual.
Ao mesmo tempo, por trás da teoria escatológica da vergo-
nha e do nojo, esconde-se a emoção indelével que identifiquei
no último capítulo como o sentimento do pecado original. Os
órgãos sexuais não são apenas exemplos claros do domínio do
corpo; eles são também fendas, cujas emissões úmidas e odores
amoníacos atestam a misteriosa putrefação do corpo. Daí a des-
crição deliberadamente satânica de Verlaine:
Veja! Tudo é nada, putas ao preço de seus
Cus e bucetas das quais o olhar e o gosto e o fedor
E o tocar fazem dos eleitos devotos seus.
Tabernáculos e Santos dos Santos do despudor.196

O fato de sermos superados por essas partes aumenta a ten-


são da encarnação e, portanto, nos impõe – como nenhum ou-
tro contato corporal poderia nos impor – a tarefa de abolir a
separação que experimentamos entre o corpo e a alma.
Se combinarmos essas observações com nossos apontamen-
tos anteriores sobre a excitação sexual, podemos tirar uma con-
clusão moral simples, mas importante. Defendi que a excitação
tem um componente epistêmico – é uma resposta a uma ativi-
dade de descoberta ou revelação. Os fatos observáveis sobre
​​
a anatomia do outro são facilmente apreciados, e não têm ne-
nhum interesse especial, razão pela qual as pessoas podem estar
nuas e não ficar envergonhadas. Mas há outro tipo de familia-
ridade que é buscada na experiência da excitação. Nesta expe-
riência, o que é normalmente recusado (talvez não da visão ou

196 Mais quoi! Tout n’est rien, putains, aux pris de vos / Cuts et cons dont la vue et le gout
et l’odeur / Et le toucher font des elus de vos devots, / Tabernacles et Saint des Saints de
l’impudeur.

216
capítulo 6 - fenômenos sexuais

do tato, mas de um tipo de “exploração”) é agora “oferecido”.


A disposição de oferta requer a disposição de recusar. Só porque
os órgãos sexuais são recusados (porque não lhes é permitido
exibir abertamente os sintomas da excitação) é possível abri-los
à experiência da excitação. Isso não é motivo de vergonha; no
entanto, é um resultado da vergonha que devemos obedecer ao
edito que nos diz para conter a nós mesmos. Assim, na medida
em que nós valorizamos o desejo, devemos também valorizar
a vergonha que salvaguarda sua experiência nuclear – a expe-
riência da excitação. Um antropólogo funcionalista pode apo-
derar-se disto como uma explicação da instituição universal da
vergonha sexual; mais tarde, vou mostrar que, quer explique
quer não, certamente justifica a nossa reticência sexual habitual.
O que faz da modéstia uma virtude é que a modéstia é a pré-
condição do desejo.
Os órgãos sexuais são como o rosto, porquanto ambos es-
tão sujeitos a enormes transformações involuntárias que não
falham em revelar e comprometer o sujeito. Mas aqueles não
têm e não podem ter a função individualizante do rosto: o pa-
pel de apresentar o meu índice perceptível aqui e agora. Você
pode reconhecer alguém por seu pênis, mas não no seu pênis. O
rosto, como o locus da perspectiva do outro, é o foco natural
de toda a atenção individualizante, e é para a representação do
rosto que a arte erótica se dirige principalmente, retratando os
sentimentos sexuais do sujeito como um tipo de radiação no seu
ponto de vista.
Uma arte que se concentra nos órgãos sexuais não será eró-
tica, mas obscena: ela será, portanto, uma arte que nega a in-
tencionalidade interpessoal do desejo. É uma marca da obsce-
nidade ao longo dos tempos focar nos órgãos e mecanismos
do encontro sexual, excluindo toda a representação individuali-
zante dos próprios sujeitos. A ladainha é familiar. Em primeiro
lugar, há a concentração exclusiva nos órgãos, e um interesse
absorto em suas particularidades físicas; em segundo lugar, a
tentativa de concentrar a experiência sexual nos órgãos sexu-
ais para torná-la numa sensação peculiar, fortalecendo, assim, a
idéia dos órgãos genitais como “fruto proibido” (o fruto da ár-
vore do conhecimento, cuja degustação trouxe vergonha, folhas
de figueira e também – se Gregório de Nissa estiver certo – dese-

217
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

jo). Esta segunda característica da obscenidade é usada contra si


mesma, condenando a exiguidade da luxúria, na grande crítica
do conde de Rochester contra seu pênis:
Pior parte de mim, e portanto mais odiada,
Por toda a cidade conhecida vara hasteada
Em que toda miserável sua boceta ardente alivia,
Como um porco ao se esfregar num portão faria.197

A imagem de Rochester nesta passagem lembra outra conde-


nação da luxúria, atribuído por Xenofonte a Sócrates (Mem. i
229f.):
Diz-se, então, que Sócrates, na presença de Eutidemo e de muitas
outras pessoas, comparou Crítias a um porco, se a intenção deste era
a de esfregar-se em Eutidemo como os leitões fazem com uma pedra.

A consequência imediata dessas duas obsessões – com os


próprios órgãos e com os prazeres da sensação – é um colapso
do sentimento erótico. Essa é, na verdade, é a intenção oculta
da obscenidade. O resultado é “masturbatório”, uma vez que
localizou o interesse sexual ali, e o afastou da intencionalidade
que lhe dá sentido.
Na verdadeira arte erótica, geralmente é o rosto, e não o ór-
gão sexual, que fornece o foco de atenção. A Vênus reclinada
olha para fora da imagem ou em direção a seu amante, e o inte-
resse por seus membros se move sempre para cima, para o rosto
que os supera. Uma pintura que esconde o rosto, mas expõe
os órgãos genitais beira inevitavelmente o obsceno. (Courbet
pintou um famoso “retrato inferior” – que pertence agora a
uma coleção particular.)198 Ao mesmo tempo, o “vaguear” da
atenção, dos olhares individualizantes dos olhos aos contornos
das partes inferiores em que o corpo tem precedência sobre o
espírito encarnado, é uma parte natural do drama do desejo.
A fina arte do erotismo deve incentivar a atenção a se desviar,
mas sem romper a intencionalidade interpessoal que faz com

197 Worst part of me, and henceforth hated most,


Through all the town the common rubbing post
On whom each wretch relieves her tingling cunt,
As hogs on gates do rub themselves and grunt – NT.
198 A imagem é parcialmente descrita em Wayland Young, Eros Denied, p. 95-6.

218
capítulo 6 - fenômenos sexuais

que as nossas emoções se envolvam, assim como percebemos o


conjunto ideal da beleza que é o objeto de interesse estético e a
beleza que é o objeto de desejo. É assim que Velásquez, em sua
transformação familiar da Vênus reclinada, distancia sua mode-
lo de nós, em uma postura que expõe suas ancas voluptuosas e
esconde seu rosto. Uma imagem obscura de seu rosto aparece,
no entanto, no espelho que Cupido sustenta. A atenção do es-
pectador é mantida entre o corpo real e sexual, e o rosto dis-
tante, que não é nada mais do que a idéia abstrata de um rosto,
esboçado, sem corpo e sem expressão. Somos trazidos de volta,
no meio de nosso interesse sexual despersonalizado, à presença
individual neste corpo, embora apenas a percebamos levemente,
e não possamos nos envolver com ela como nos envolvemos
com o olhar da Vênus de Urbino. Nossos sentimentos chegam à
beira do orgíaco, e ainda assim se voltam para a mulher, e para
o rosto, que estão parcialmente escondidos. (A imagem já foi
danificada por uma sufragista pudica, que cutucou a nádega da
Vênus com seu guarda-chuva. Instada a se explicar, a agressora
disse que ela atacou a nádega “porque ela é estúpida!”)
A modéstia é a disposição de sentir vergonha corporal (in-
cluindo vergonha sexual), e de modo a evitar a sua ocasião. É
algo mais do que o desejo de cobrir a si mesmo, ou de esconder
as partes privadas, caso contrário concordaríamos com a excla-
mação de Madame d’Épinay (Mémoires, vol. I), “Bela virtude!
presa por alfinetes!”199 Nós valorizamos a modéstia em parte
porque valorizamos o desejo, e olhamos com desconfiança os
hábitos que desatam o nó da ligação individual. Havelock Ellis
apresentou esse ponto de forma tendenciosa, mas correta (como
vou mostrar), quando escreveu:
Na arte do amor (...) [a modéstia] é mais do que uma graça; ela
deve ser sempre fundamental. A modéstia não é, de fato, a última
palavra do amor, mas é a base necessária para todas as audácias
mais requintadas do amor, a fundação que sozinha dá valor e doçura
ao que Senancour chama de “delicioso atrevimento”. Sem modéstia,
não poderíamos ter, nem avaliar com justiça seu verdadeiro valor,
aquele candor corajoso e puro que é, ao mesmo tempo, a revelação
final do amor e o selo de sua sinceridade.200

199 “Belle vertu! qu’on attaché sur soi avec des épingles!” – NT.
200 Havelock Ellis, Studies in the Psychology of Sex, vol. I, p. 82.

219
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

O nome usual para o desejo imodesto – o desejo que atro-


pela a reticência dos outros, e trata cada novo objeto como um
equivalente do último – é luxúria. A análise anterior sobre a
vergonha contém uma explicação do que é vergonhoso na lu-
xúria. Ela também nos permite ver por que a modéstia mascu-
lina e a feminina foram tradicionalmente vistas como virtudes
distintas (e talvez desiguais). Os homens tradicionalmente são
os iniciadores da união sexual, e as mulheres as destinatárias
de suas atenções. A modéstia deles consiste no ardor – numa
concentração flamejante sobre a mulher individual, de um tipo
que não seja lascivo, mas dependente. Este ardor modesto foi
criado para minar a resistência da mulher, e não por inspirar
pensamentos lascivos – que, na verdade, apenas aumentariam a
sua vergonha e, portanto, sua relutância – mas por convencê-la
a não se sentir humilhada, e sim valorizada como a destinatária
das atenções de seu amante. A própria mulher irá, então (como
defendem Senancour e Stendhal),201 reagir em conformidade.
Sua resposta, despertada pela noção do seu valor para o outro,
concentrar-se-á nele, encontrando todos os argumentos em seu
favor, até que ela se sinta injusta por prejudicá-lo com sua resis-
tência, e possa, portanto, somente considerando os pensamen-
tos morais, se entregar àquilo que ela deseja.
O esboço do drama é familiar, e ensaiado em cada obra de li-
teratura erótica, cortês, cerimonial ou profana. O que é familiar
na experiência ou na literatura pode, no entanto, permanecer fi-
losoficamente impenetrável. Nos próximos capítulos, portanto,
vou me esforçar para traçar com mais precisão o percurso do
amor, e as consequências morais e políticas do conflito entre o
foco corporal da luxúria e os vínculos concentrados do desejo.
Uma característica particular deste conflito já foi discutida: o
“medo do obsceno”.

Prostituição
Esse “medo do obsceno” anima a visão comum de que a
prostituição é inerentemente vergonhosa. Consideremos pri-
meiro a prostituição de mercado (para distingui-la da “prosti-
tuição sagrada” e da “prostituição de comando” – ver abaixo).

201 E. P. de Senancour, De l’amour, Paris, 1834, vol. I, p. 209.

220
capítulo 6 - fenômenos sexuais

A essência do bem de mercado é ser transferível – cambiável a


qualquer momento pelo seu preço (ou “valor de troca”, como
os economistas clássicos chamavam). Por isso, é substituível por
qualquer simulacro que seja “tão bom quanto”. Se a prostituta
fica humilhada, é porque ela divorciou o ato sexual do seu pro-
jeto de união sexual. Ela não é o objeto do desejo de seu cliente,
mas a mercadoria que satisfaz sua necessidade. Mesmo que ela
responda com algum tipo de excitação, não pode envolver o
florescimento da reciprocidade que é parte integrante do “cami-
nho do desejo”. Desejar seu cliente seria tornar-se intensamente
consciente de sua transferibilidade – do fato de que ela, como
mercadoria, não é desejada. A perpetuação de seu desejo, então,
tomaria de uma vez um aspecto pervertido, como o desejo do
estuprador, que não busca nenhuma reciprocidade, e que inclu-
sive procura matar a reciprocidade, para que isso não se mostre
uma invasão demasiado poderosa de sua perspectiva egocên-
trica. Por isso, a prostituta deve abster-se de desejar seu cliente,
ou então inventar para si um objeto fantasioso de desejo. Em
qualquer um dos casos, o cliente também é utilizado como um
meio: quer como um meio de ganhar dinheiro, quer como um
meio para satisfazer seu anseio pelo outro. A mulher que “vende
seu corpo” é, então, forçada a também ver seu parceiro em ter-
mos monetários, como alguém que não tem nenhum valor além
daquele do mercado. Qualquer um que fornecesse o dinheiro
seria “tão bom quanto”.
Vale a pena fazer uma pausa para perceber o poder que o
dinheiro tem de reconstituir as relações humanas à sua própria
imagem: um poder que é o tema de infinitas discussões morais.
O dinheiro representa uma transação quantificável: uma transa-
ção cujo objetivo pode ser expresso em termos exatos e finitos.
Todas as obrigações monetárias são, portanto, obrigações que
podem ser quitadas. Como já indiquei, as obrigações que sur-
gem no decorrer do desejo não são simplesmente “quitáveis”.
O dinheiro é útil para a prostituta, por representar o ato sexual
como uma transação fugaz e por acabar com qualquer dúvida
a respeito do cumprimento de suas obrigações. Inevitavelmente,
porém, o ato é transformado pelo dinheiro, que impõe a “inten-
cionalidade do mercado” numa conduta que não a pode susten-
tar. Assim, em seu impressionante trabalho, The Philosophy of
Money, Simmel apresenta o seguinte argumento:
221
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

O dinheiro nunca é um mediador adequado das relações pessoais


– tais como a relação do amor verdadeiro, por mais abrupta que
possa ter sido sua interrupção – que se destinam a ser permanentes e
fundadas na sinceridade das forças de sua ligação. O dinheiro serve
melhor, objetiva e simbolicamente, àquela satisfação comprável que
rejeita qualquer relação que continue para além do impulso sexual
momentâneo, porque é absolutamente independente da pessoa e
corta completamente quaisquer outras consequências desde o início.
Na medida em que se paga com dinheiro, está-se completamente
resolvido com qualquer objeto. (...) Já que na prostituição a relação
entre os sexos está especificamente confinada ao ato sexual, ele é
reduzido ao seu conteúdo puramente genérico. Ele consiste no
que qualquer membro da espécie pode executar e experimentar. É
um relacionamento em que as personalidades mais contrastantes
tornam-se iguais e as diferenças individuais são eliminadas. Dessa
forma, a contrapartida econômica deste tipo de relacionamento é o
dinheiro, que também, transcendendo todas as distinções individuais,
representa a espécie-tipo dos valores econômicos. Por outro lado,
nós experimentamos na natureza do próprio dinheiro algo da
essência da prostituição. (...) O imperativo moral de Kant de nunca
usar seres humanos como um simples meio e, ao mesmo tempo,
de aceitá-los e tratá-los sempre como fins em si, é flagrantemente
ignorado por ambas as partes no caso da prostituição. De todos os
relacionamentos humanos, a prostituição talvez seja o exemplo mais
marcante da degradação mútua em um simples meio, e este pode ser
o fator mais forte e mais fundamental para colocar a prostituição
em uma relação histórica tão estreita com a economia monetária, a
economia dos “meios” no sentido mais estrito.202

Citei o argumento inteiro, porque a passagem de Simmel dá


voz às intuições fundamentais sobre a natureza do desejo. Mas
também sugere um paradoxo. Pois como pode ser dado à tran-
sação sexual um “equivalente monetário”? Como pode haver
desejo que considera o dinheiro como parte de seu objetivo?
Claramente, não pode haver tal desejo; daí o velho ditado espa-
nhol: el cuerpo de una mujer no es pagadero – o corpo de uma
mulher não é mercadoria. O que é desejado de uma mulher é
precisamente aquilo que não pode ser comprado, e o dinheiro
dado deve ser visto como uma oblação à sacerdotisa de Vênus,

202 Georg Simmel, The Philosophy of Money, tr. T. Bottomore, D. Frisby e K. Maengelberg,
Londres, 1978, p. 376-7.

222
capítulo 6 - fenômenos sexuais

que ela paga por sua proteção:203 daí a instituição do bordel,


em que, através do pagamento a um terceiro, o cliente se liberta
da consciência do que está fazendo com a mulher que ele es-
colhe. Para o sexo ser um verdadeiro “produto consumível”, a
prostituta deve ser substituída por um objeto impessoal – uma
boneca, por exemplo – para que o sexo possa ser produzido
como uma mercadoria. Em uma “sociedade de consumo”, po-
de-se esperar que o ideal de beleza se torne “bonecalizado” e
“fetichizado” – como, aliás, vemos nas modelos de passarela de
hoje e na própria aparência da prostituta moderna.204
O paradoxo é também ilustrado pelo amor por riquezas. En-
quanto um homem pode ser desejado por sua aparência, suas
virtudes, seu poder, é difícil ver sentido em ser desejado por
suas riquezas. O paradoxo está consagrado no mito de Dânae,
de quem se diz ter desejado Zeus como parte de seu desejo por
dinheiro, de maneira que ela acolheu o deus em seus abraços
quando ele apareceu para ela na forma de uma chuva de ouro.
Um dístico de Parmênio da Antologia Grega (Amatory Epi-
grams, nº 33) tenta dar sentido a isso, referindo-se não ao uso
do dinheiro na compra, mas à sua forma simbólica como um
presente:
Você choveu como ouro sobre Dânae, olímpico Zeus,
Para a criança receber um presente, e não tremer diante do filho
de Cronos.

Mas isso também confirma o paradoxo: pois o que foi dado


a Zeus não foi dado pelo dinheiro, e não poderia ser dado como
dinheiro.
É precisamente esta distância entre a transação monetária e
a transação do desejo que é mais libertadora para a prostituta.
A prostituição de mercado liberta a mulher de todo laço moral
com seu cliente, justamente da maneira que o mercado desfaz os
laços da “economia moral” que vinculam o servo ao senhor feu-

203 Bernardo de Quiros y Llanas Aguilaniedo, La Mala Vida en Madrid, Madri, 1901,
p. 204.
204 Nesse exame do ethos do consumismo, Jean Baudrillard tem pouco a dizer sobre a
prostituição, mas muito sobre o significado sexual das bonecas e a “fetichização” do
corpo, tornando-o “embonecado” e, portanto, sujeito ao processo de “simulação e
restituição”: La Société de consommation, Paris, 1970, p. 235 et seq.

223
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

dal.205 Deve-se comparar a prostituição de mercado com a pros-


tituição de comando –que está para aquela como a escravidão
está para a economia capitalista nos “tipos ideais” que devemos
a Marx.206 A representação clássica desta condição, que tam-
bém mostra que é parte de uma estratégia “depersonalisante”
por parte do escravizador, é dada no notório História de O. A
heroína é escravizada por uma confraria de homens violentos,
que a enche de ordens. O que se segue não é de estranhar:
Quando usamos o traje que vestimos à noite, como o que estou
vestindo agora, e nosso sexo fica descoberto, não é uma questão
de conveniência; isso poderia ser feito de outra forma. É por uma
questão de insolência, para que seus olhos fiquem fixos lá, e não em
qualquer outro lugar; para que você saiba que este é o seu mestre, a
que, acima de tudo, os seus lábios estão destinados. Durante o dia,
quando estamos vestidos normalmente, quando você estiver vestida
como está agora, você vai seguir as mesmas regras, e seu único dever
será o de abrir nossas roupas, se isso lhe for ordenado, e fechá-las
novamente quando terminarmos com você.207

O extraordinário sucesso desse livro obsceno mostra que ele


captou uma fantasia fundamental. A fantasia é a de uma prosti-
tuição supremamente atingida, em que a mulher não tem nem a
liberdade de recusa – em que a economia de mercado é substitu-
ída por uma economia de comando. Neste tipo de prostituição,
o espírito da mulher está totalmente superado pela força da
autocracia masculina. Ao mesmo tempo, no entanto, o coman-
do destrói a base da relação pessoal, e a obriga a ligar seus inte-
resses e alegrias ao pênis abstrato, não importando quem é seu
dono ou por que ele busca sua submissão a isso. Esta é a fanta-
sia radical da obscenidade, e descreve o conteúdo do medo que
está subjacente ao paroxismo de vergonha. Conforme implica,
sua execução envolve a revogação de todo o sentimento indi-
vidualizado na mulher; sua escravidão é meramente, para usar

205 A frase “economia moral” é usada por E. P. Thompson em “The Peculiarities of the
English” (em The Poverty of the Theory, Londres, 1978) para descrever os acordos que,
em seu entender, foram varridos pela Revolução Industrial e pela evacuação do campo.
206 Eu me refiro aqui aos tipos ideais de “comunismo primitivo”, “escravidão”, “feudalismo”,
“capitalismo”, “socialismo”, e “comunismo (total)” conforme descritos no Capital e em
outros lugares. Uso a expressão “tipo ideal” no sentido dado por Weber: ver a entrada
ideal type no meu Dictionary of Political Thought, Londres, 1982.
207 Pauline Réage, Histoire d’O, Sceaux, 1954.

224
capítulo 6 - fenômenos sexuais

a linguagem marxista, a forma “realizada” e “objetiva” dessa


alienação “subjetiva”.
A prostituição de comando está no outro extremo da pros-
tituição do mercado. Entre elas está o sistema “feudal”, repre-
sentado pelo harém. Aqui, a restauração da “economia moral”
remove o paradoxo do desejo da prostituta. Na verdade, ela não
é mais uma prostituta, já que está vinculada a um “único senhor
absoluto da vida e do amor”. Quaisquer que sejam as deficiências
de sua circunstância, ela está restaurada para o reino do erótico,
por ser obrigada a realizar o ato sexual somente com alguém a
quem também está ligada por um laço moral inteligível.
“A prostituição existente de fato” nunca tem seus motivos
tão puros como os três casos que considerei. Como defende Wi-
cksteed, as relações econômicas têm uma tendência natural para
gerar relações não-econômicas,208 e do solo da prostituição de
“mercado”, portanto, podem brotar amizade mútua e preocu-
pação. (Considerem também a gueixa e a cortesã.) No entanto, a
prostituição fornece “tipos ideais” da transação sexual, do sexo
removido do reino da relação pessoal e transformado em um
“trabalho alienado”. Os dois principais tipos que dei envolvem
a exploração dos outros – a sua utilização como um meio. Eles
fornecem paradigmas contra os quais é possível definir um ideal
de amor sexual. No amor, o outro não é tratado como meio,
mas como fim; seus desejos e prazeres são meus, e os meus, es-
pero, são dele. O desejo por amor, e o desejo por dinheiro; cada
um deles penetra em nossas vidas, transformando a qualidade
de todas as relações humanas, incluindo aquelas fundadas no
desejo. O amor e o dinheiro são sentidos como forças cósmicas,
e por esta razão a prostituta aparece-nos como um símbolo de
transgressão – da possibilidade de que, a qualquer momento,
podemos nos entregar a uma força que guerreia com o amor.
(Wagner distingue o poder de Wotan do poder de Alberich, que,
tendo renunciado ao amor, só podia obter as mulheres pagando
por elas. O mundo de Alberich está envenenado pela ausência
de amor e, ao tomar o produto do trabalho de Alberich, Wotan
se identifica com ele, e se vê derrotado, descobrindo que seu
próprio mundo também está envenenado.)

208 P. H. Wicksteed, An Introduction to Political Economy, Londres, 1910.

225
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Enamoramento
Vou explorar mais elaboradamente o fenômeno do amor eró-
tico no Capítulo 8. Mas é novamente necessário antecipar obser-
vações posteriores se quisermos ter uma visão clara dos proble-
mas que se apresentam a nós. A característica mais intrigante do
amor erótico é que você pode se apaixonar e, além disso, com um
contato mínimo com o objeto, não mais do que Tamino teve ao
contemplar o retrato de Pamina. A imagem recorrente da “poção
do amor” expressa a convicção de que esse tipo de amor é uma
compulsão, que não é de forma alguma como a estima, e não
requer nenhum conhecimento do caráter do outro.
Para entender o “enamoramento” é preciso perceber que sua
intencionalidade é um caso especial de intencionalidade do dese-
jo. A pessoa que ama vê a personalidade de seu amado em todos
os seus atos e gestos, e fica, por assim dizer, encantada por eles.
A pessoa que se apaixona faz a assimilação inversa: ela vê gestos
e características que despertam seu desejo e, a fim de que o dese-
jo justifique o esforço a que instantaneamente se comprometeu,
imagina uma personalidade que se encaixe no que ela vê. Esta é a
“idealização” do objeto do desejo. Depois disso, tudo é descober-
ta e decepção, ou, se sua imaginação triunfar, a confirmação do
desejo inicial. Inicialmente, não há distinção entre amor e “pai-
xão”: a diferença é revelada quando o amante é submetido a um
“teste” – e é por isso que o amor verdadeiro exige um período
de namoro, e o amor de Tamino por Pamina deve ser submetido
à provação. A pessoa que se apaixona quer que o sorriso, as pa-
lavras, os atos do outro sejam “para ele”, que sejam feitos sem-
pre, em alguma medida, por causa dela. Ela sente, ao perceber
o outro, uma premonição do “lar”: do que é “meu por direito”.
Garibaldi descreve assim seu primeiro encontro com Anita:
Ficamos em silêncio e extasiados, olhando um para o outro, como
duas pessoas que não se vêem pela primeira vez, e que buscam nas
características do outro algo que ative a memória.
Enfim, eu a cumprimentei, e disse: “Você precisa ser minha”.
Eu falava pouco português, e pronunciei as ousadas palavras em
italiano. No entanto, fui magnético na minha insolência. Eu tinha
feito um nó que só a morte poderia desatar.209

209 G. Garibaldi, Memorie autobiografiche, 7ª ed., Florença, 1888, p. 56.

226
capítulo 6 - fenômenos sexuais

O egoísmo de Garibaldi nessa passagem é essencial para esse


tipo de amor. Ele, que se apaixona, quer um reconhecimento
elaborado de si mesmo. Ele precisa que a personalidade do ou-
tro atenda suas expectativas – expectativas que ele próprio mal
compreende, a não ser por intermédio da intimação contida no
rosto que ele encara. O sujeito “se apaixona” quando deseja, e
reconhece no desejo a possibilidade do amor. Ele antecipa, em
seguida, o consolo final que justificará seu trabalho, e imagina
a personalidade que irá fornecê-lo. O amor, aqui, é verdadeira-
mente um palpite inspirado: e aguarda o que Stendhal chama de
momento de “cristalização”.210
Há uma experiência primitiva em que o amante freqüente-
mente evoca ao entrar neste reino “mágico”. Ele se lembra de
alguma criatura humana que já cuidou dele, cujas mãos e ca-
racterísticas ficaram marcadas com a impressão de segurança,
intimidade e familiaridade. Assim, muitas faces vistas no decor-
rer da vida parecem já prefigurar alguma intimidade futura, e
vemos nela, com ou sem razão, não apenas a presença de certa
perspectiva, mas também a trajetória dos nossos dias dentro de
sua visão. Esta experiência se combina com o desejo sexual para
superar os obstáculos naturais à paixão – o constrangimento
e desconfiança que acompanham o pensamento de tão íntima
união. Ela nos liberta para a união e para as consolações que
nossa memória secreta nos leva imediatamente a buscar. Daí a
natureza “irresistível” do enamoramento, que, ao nos apresen-
tar à sensação de algo totalmente novo e esmagador, apenas
nos coloca num caminho já percorrido, em que trilhamos com
antigas e indeléveis expectativas.
O esboço da gênese do amor nos permite ver que há uma de-
pendência ontológica peculiar que surge no decurso do mesmo,
e que essa dependência é ensaiada através de um desejo com-
pletamente individualizado. O medo dessa dependência, aliada
a um sonho de liberdade sexual inalcançável, leva ao flerte e à
coqueteria. No olho semicerrado da coquete, o eu é oferecido
e negado. A coqueteria é o gozo vicário de uma operação que
não pode ser realizada sem catástrofe; ela só pode chegar a uma
conclusão abolindo-se. Por isso, defende Simmel em um ensaio

210 Stendhal, De l’amour, Paris, 1891.

227
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

marcante, a coqueteria é uma expressão da “Zweckmäβigkeit


ohne Zweck” – “intencionalidade sem intenção” – o que, para
Kant, é o núcleo da experiência estética.211 Nela, o objetivo do
desejo nunca é perseguido; todos os gestos pairam no ar, incom-
pletos, e são extintos antes que qualquer finalidade possa ha-
bitá-los. A coqueteria, portanto, é uma forma de jogo: mas en-
quanto só joga com a realidade, é com a realidade que ele joga.
A coqueteria é um reconhecimento oblíquo da dependência que
se arrisca no desejo, e um sinal de que a coquete, menos honesta
do que a prostituta, é mais sexualmente alerta. Pois a coquete
se detém precisamente porque seu impulso pertence ao desejo:
é um impulso que só pode se tornar uma “transação” no jogo.

Ciúme
A dependência ontológica que se encontra no laço erótico é
agudamente exibida pelo mais misterioso dos fenômenos sexu-
ais: a condição do ciúme. A experiência do ciúme é uma expe-
riência de rejeição: não apenas a rejeição por outra pessoa, mas
a rejeição pelo mundo a que se tinha entrado ao juntar-se com
o outro. A vítima do ciúme encontrou uma divisão ontológica.
Ela deixou de pertencer ao mundo que a continha, e entrou em
uma espécie de pesadelo, presa de pensamentos horríveis e fan-
tasias de que não consegue se livrar. Dryden descreve o ciúme
como o “tirano da mente”, mas sua tirania não tem paralelo
real no mundo da política: é antes a tirania exercida pelo tenta-
dor sobre a mente de Santo Antônio. (Seu equivalente político
mais próximo, portanto, não é tirania, mas a inveja ardente do
inferior: que nada mais é do que uma tirania negativa.)
O ciúme começa na descoberta – a descoberta de um rival.
Logo após, a vítima cai, como o herói trágico, em um abismo
de sofrimento solitário. Ele só conhece uma consolação, que é a
descoberta inversa. Ele precisa descobrir que isso não é verdade.
Existem graus de ciúme. Em sua forma extrema (como o ciúme
de Otelo), pode tornar sua vítima irreconhecível para si mesmo
e para os outros. Na sua forma mais branda, permanece oculto,
como uma falha geológica que, não obstante, cede sob a menor

211 Georg Simmel, “Die Koketterie”, em Philosophiche Kultur, Gesammelte Essais, ed. J.
Habermas, Berlim, 1983 (original, Potsdam, 1923).

228
capítulo 6 - fenômenos sexuais

pressão. Assim é o ciúme de Swann ou do próprio Marcel, que


vive assombrado pela suspeita. Mas em todas as suas formas, o
ciúme é catastrófico. Por quê?
A pessoa ciumenta tipicamente não deseja possuir o que seu
rival possui, mas aboli-lo – abolir o prazer e o triunfo que exis-
tem sem ele. Ele é em grande parte indiferente a quaisquer van-
tagens e benefícios que possa obter, e abnegadamente persegue
a destruição da alegria do outro. Até que essa destruição seja re-
alizada, seu mundo está fora do lugar. É quase como se ele agis-
se por um senso de justiça – consigo mesmo e com o esquema
das coisas que ele via anteriormente. Esta “fúria pela ordem”
impessoal torna a inveja repulsiva. Ao mesmo tempo, o ciúme
sexual pode mover nossa compaixão, uma vez que a vítima do
ciúme sexual é também vítima do amor.
A primeira característica do ciúme, portanto, é envolver cer-
to grau de amor. E quanto maior o amor, maior será a inveja.
O ciúme é uma catástrofe sofrida apenas por aqueles que en-
traram na condição de “dependência ontológica” que existe no
amor erótico – a dependência de quem procurou, dentro e atra-
vés do desejo sexual, as consolações de uma intimidade perfeita.
Mas a causa da catástrofe não é a descoberta de que o amado
ama o outro, mas que deseja o outro. O desejo sexual do amado
é a característica fundamental do interesse da pessoa ciumenta,
e ele pode tolerar qualquer favorecimento concedido a seu rival,
salvo este. É possível ter ciúme até mesmo do encontro mais
casual (e, na verdade, especialmente do encontro mais casual)
bastando ter sido a ocasião do desejo. Não importa que seu
rival não seja amado. Também não importa que ele não exista,
que não seja mais do que a fantasia em cujo corpo os braços
do amado apertam na imaginação, quando fecham a realidade
sobre si mesmos. Claro que há um elemento de insanidade neste
ciúme de fantasmas. Mas não é mais do que um ponto distante
ao longo da estrada em que cada amante embarca, até que o
“monstro de olhos verdes” o aviste.
A explicação da catástrofe reside, creio eu, na mesma região
moral que explorei nas discussões anteriores sobre vergonha e
obscenidade: no confronto entre os elementos individualizantes
e os universalizantes do desejo. Embora o desejo sexual tenha
um objeto individualizado, ele está ligado ao interesse no sexo

229
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

do outro. No ato sexual, deixamos de ser meramente João ou


Maria, e nos tornamos os representantes dos atributos comuns
do nosso sexo. Além disso, isto é o que queremos. É verdade que
aquele que ama deseja que sua amada o queira como o indiví-
duo insubstituível e único que ele é, e ele deseja que este seja o
pensamento determinante que subjaz ao movimento do desejo
de sua amada. Ao mesmo tempo, porém, ele quer que sua ama-
da se foque em seu corpo, de forma a querê-lo como homem, ou
como mulher, como um exemplo de seu sexo: não como alguém
que poderia ter sido substituído neste ato por outro, mas sim
como primus inter pares, o melhor do grupo. Não é que seu
desejo seja transferível, mas sim que ele provoca um interesse
sexual que, pelo menos potencialmente, pode alcançar outros
objetos. Este elemento é essencial para a excitação sexual, e é
parte do que permite que João veja Maria “se entregar” à pai-
xão, “submetendo” sua individualidade ao seu impulso sexual,
que a “derrota”.
O curso feliz do amor limita esse conflito à noite, e assim o
esconde. O ciúme, por outro lado, revela-o à luz do dia, e assim
destrói o mundo do amante destruindo o mito de sua singula-
ridade. É ao ato de amor que ele recorre para a confirmação de
ser insubstituível; e quando o ato é envenenado pelo pensamen-
to de generalidades, sua existência fica comprometida. Aquilo
que é dado a ele poderia ter sido dado a outro exatamente da
mesma forma – até mesmo, o pensamento mais terrível de to-
dos, para outro que não seja amado. Pois quando o elemento do
desejo é superior, a traição é obsessora e repugnante. A ausência
de amor entre o casal culpado é uma das características mais
provocantes na gênese do ciúme, precisamente porque concen-
tra os pensamentos da vítima no corpo de seu rival. Quando o
Dr. Jivago descobre a verdade sobre a relação de Lara com o vil
Komarovsky, reconhece: “Eu só posso ter muito ciúme – ciúme
apaixonado, mortal – de alguém que eu desprezo e não tenho
nada em comum”. Tal ciúme – ao contrário do ciúme inspirado
por um amor rival – é naturalmente retrospectivo, ponderando
fervorosamente os episódios que precederam o presente caso.
Alguém com um “passado” entra em uma relação com as con-
dições para o ciúme já cumpridas, e seu caminho mais sensato é
freqüentemente o da ocultação. (A situação é comovente e con-
vincentemente descrita por Alphonse Daudet em Sapho.) Reve-
230
capítulo 6 - fenômenos sexuais

lar o passado, como Levin fez com Kitty quando lhe mostrou
seu diário (Anna Karenina, Parte IV, cap. 16), é presumir uma
tolerância rara no parceiro, e uma capacidade de suportar uma
dor terrível. (Deve-se dizer, no entanto, que existem diferenças
cruciais entre o ciúme sentido por homens e por mulheres. Vou
mostrar algumas dessas diferenças no Capítulo 9.)
Esta ascensão do desejo sexual nos pensamentos de ciúme
tem consequências importantes. Inclusive, através do ciúme, um
amante pode ficar repentinamente muito sensível à base física
de seu desejo. Milan Kundera, em A Valsa dos Adeuses, descre-
ve uma experiência familiar:
Ele tinha que olhar para o rosto de seu algoz, ele tinha que olhar
para o seu corpo, porque sua união com o corpo de Ruzena parecia
inimaginável e inacreditável. Ele tinha que olhar, como se seus olhos
pudessem dizer-lhe se os corpos deles eram de fato capazes de união.

No Ato II da Götterdämmerung, Brünnhilde encontra o in-


fiel, sem reconhecer Siegfried. Ele jura diante de todos que não
se aproveitou durante a noite que passou ao lado dela, e men-
ciona a espada que estava entre seus corpos. Enfurecida, Brün-
nhilde se volta contra ele:
Tu, mentiroso,
Herói enganoso,
Chama tua espada
Em palavra desonrada!
Conheço bem o corte que traz
E também a bainha em que jaz
Onde tão mansa
Na parede descansa.212

“Chama tua espada (...) / Conheço bem o corte que traz e


também a bainha em que jaz”. Suas palavras se referem à espada

212 Du listiger Held


Sieh’ wie du lüg'st!
Wie auf dein Schwert
du schlecht dich beruf’st!
Wohl kenn’ ich sein Scharfe,
doch kenn’ auch die Scheide,
darin so wonig ruh't an der Wand – NT.

231
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

de Siegmund, e a música reforça a referência, lembrando-nos


que Siegmund e Siegfried (e, de outra maneira, Brünnhilde tam-
bém) são parentes de sangue. Foi Siegmund quem atentou pela
primeira de sua condição divina com a imagem de um amor
carnal; e é Siegfried quem ela deseja, a reencarnação de uma
devoção passada. E agora, vítima do amor mortal, ela une sua
admiração pela virilidade de Siegmund com sua submissão à de
seu filho, em uma imagem inconfundível do ato sexual. É a pro-
va final da condição mortal de Brünnhilde sentir a dor do amor
justamente em sua parte sexual.
Entre os filósofos que escreveram sobre o desejo, só Espinosa
parece ter atribuído importância ao fato de que os pensamentos
ciumentos sempre se voltam ao ato sexual, e permanecem mor-
bidamente nele. Em sua tentativa de explicar isso, usa palavras
que lembram a teoria escatológica da vergonha:
aquele que imagina que a mulher que ama se prostitui com outro,
não fica só entristecido pelo fato de que seu próprio desejo estar
prejudicado, mas, por ser forçado a unir a imagem da coisa amada
com as partes vergonhosas e de excrementos de seu rival, ele também
a rejeita.213

A teoria, é claro, não é mais plausível agora do que era na


discussão da vergonha. Mas tem o mérito de reconhecer o fenô-
meno nuclear do ciúme sexual, e sua característica mais difícil
de explicar.
Devido a esta característica, pensamentos ciumentos são fre-
qüentemente emocionantes. O amante ciumento vê constante-
mente revelada ante sua imaginação a cena de uma fantasia
sexual, em que a amada está cheia de desejo e, em seguida, se
entrega a outro. Ele prostitui sua amada em seus pensamentos,
que são invadidos, como os de Otelo, por uma sensação obs-
cena – pela percepção do ato sexual em seus termos corporais,
livres da circunstância do amor. O tormento de ciúme é também
emocionante. A fim de aumentar a fantasia, o amante ciumento
pode se tornar implacavelmente curioso. Ele pode querer saber
cada detalhe, até mesmo “qual foi a sensação”. Proust escreve
sobre Albertine: “Eu não queria saber apenas com que mulher
ela tinha passado a noite, mas que prazer específico isso repre-

213 Ética, livro 3, proposição XXXV.

232
capítulo 6 - fenômenos sexuais

sentava, o que se passava neste momento com ela”.214 E, depois


de um parágrafo de ruminações obsessivas sobre esse tema, ele
conclui:
No ciúme, precisamos provar alguns tipos e intensidades
diferentes de sofrimento antes de pararmos diante daquele que
nos parece conveniente. E o maior desafio quando se trata de um
sofrimento como esse é o de sentir que aquele de quem gostamos
prova do prazer com outros além de nós, dando a sensação de que
não somos capazes de dar, ou pelo menos não do jeito, imagem ou
atitude aquilo que, para ele, representa tudo, menos nós mesmos!215

É significativo que, no paroxismo do ciúme, Marcel tenha


chegado a pensar no ato sexual nestes termos universalizantes
– como uma questão de “sensações”, que podem ser mais bem
fornecidas por outro do que por ele mesmo. Isto não é mórbido.
É, antes, um reflexo das maquinações secretas do desejo, que o
ciúme desvia automaticamente na direção que nós tememos – a
direção do obsceno.
A referência a Albertine deixa clara a maior fonte da impos-
tura de Proust. Pois a experiência que ele acaba de descrever
não é a de ciúme do interesse de uma mulher em outra mulher,
mas sim o ciúme do interesse de um homem em outro homem.
Este é um tema a que devo retornar no Capítulo 10. Mas deve-
mos assinalar que o ciúme de um homem de relações lésbicas,
precisamente porque não envolve pensamentos “fálicos”, evita
muito da dor aflitiva do ciúme normal. Muitas vezes, é mais
fácil viver com o fato de sua esposa desejar uma mulher do que
com o fato de desejar um homem. O primeiro, ao contrário do
último, não o aflige com o pensamento de que justamente você
seja dispensável no seu papel sexual. Além disso, as diferenças
na estrutura do desejo do macho e da fêmea implicam diferenças
na estrutura do ciúme do macho e da fêmea. O paradigma que
estou descrevendo não deve, portanto, ser considerado como
uma representação exaustiva desse fenômeno complexo. Se o
ciúme fosse uma coisa simples e unitária, idêntico para ambos
os sexos, não seria possível Proust se entregar tão facilmente.

214 “Je n’aurais pas voulu savoir seulement avec quelle femme elle avait passé cette nuit-là, mais
quel plaisir particulier cela lui representait, ce qui se passait à ce moment-là en elle” – NT.
215 La Fugitive, Pléiade ed., p. 545-6.

233
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Em sua forma extrema, o ciúme leva ao assassinato. Mas


não o assassinato do rival como regra – e sim o da amada. O
rival é o mero instrumento substituível de um sacrilégio que
acontece dentro do corpo da amada. (Esses fatos são novamen-
te assinalados por Espinosa.)216 É para a amada que o amante
olha para confirmar sua existência, como o único representante
do objeto de desejo. Ao abolir a amada, ele abole a refutação
de si mesmo. Ele remove do mundo a prova secreta de sua ir-
realidade. Por isso, a vingança pelo ciúme (mesmo do ciúme
retrospectiva, como no Effi Briest de Theodor Fontane) muitas
vezes foi considerada uma questão de honra. Essa necessidade
está presente nas punições bárbaras por adultério em alguns
países mediterrânicos e islâmicos, e também, de forma sutil, na
desculpa legalmente sancionada de crime passionel. Não deve-
mos imaginar que essas punições, e essa desculpa (que aprova,
no final das contas, o empreendimento privado da punição), são
meramente arbitrárias. Pelo contrário, elas refletem a natureza
do ciúme sexual. É como se, no tormento da insegurança abso-
luta, o amante ciumento preferisse a certeza do luto aos terrores
flutuantes constantes de um amor ciumento. Assim a Hermione
de Racine convence Orestes a matar seu amado Pirro como a
única cura para um ciúme sufocante. E imediatamente cede à
tristeza, e a uma ira terrível contra o infeliz assassino, que não
tinha previsto que a indiferença de Hermione em relação a ele
nunca se transformaria em amor, mas em ódio.
Como vou apresentar no Capítulo 11, o poder do ciúme é
um dos fatos mais importantes a ter em conta na derivação da
moralidade sexual. Em um mundo onde as proibições sexuais
têm pouca força, não devemos nos surpreender que tantas pes-
soas se refugiem do ciúme evitando o amor. Pois onde existe
amor, a liberdade sexual paga o preço.

Dom-juanismo
Vou terminar este capítulo com um breve exame de três va-
riantes importantes na intencionalidade do desejo, todas fa-
miliares: dom-juanismo, tristanismo (como vou chamá-la) e
sadomasoquismo. É necessário fazer um levantamento desses

216 Ética, livro 3, proposição XXXV.

234
capítulo 6 - fenômenos sexuais

fenômenos, mesmo que só para mostrar que a análise feita da


intencionalidade sexual até então não é prescritiva, mas sim-
plesmente descritiva daquilo com que todos estamos familia-
rizados. Há fenômenos importantes – tais como as perversões
sexuais e a homossexualidade – que discutirei mais tarde, quan-
do tiver estabelecido um contexto mais amplo necessário para
abordá-las.
A divisão da paixão erótica na fidelidade que anseia pela
morte e no deleite inconstante de conquistas sucessivas é uma
prática literária comum. Stendhal identificou os dois polos como
Werther e Don Juan: Denis de Rougemont alterou esse pensa-
mento quando, sob a influência de Wagner, trocou Werther por
Tristão.217 Mas ambos os escritores estavam se referindo a va-
riedades de amor erótico. No que se segue, não descreverei o
amor, mas o desejo. Se existe uma divisão semelhante no amor,
deve ser descrito de forma independente.
O dom-juanismo é um fenômeno generalizado, cuja existên-
cia pode lançar dúvidas sobre muito do que eu disse a respeito
da intencionalidade individualizante do desejo. Ao descrever o
fenômeno, no entanto, devemos tomar cuidado com uma des-
crição muito simplista. O dom-juanismo não é satiromania –
não envolve a necessidade de constantemente saciar o “pilão
ardente” da luxúria. De acordo com Kierkegaard (seguindo
Mozart), o personagem de Don Juan é genuinamente erótico,
e não porque ele transfere suas atenções de indivíduo a indiví-
duo, mas, ao contrário, porque as concentra completamente no
indivíduo específico que está tentando seduzir.218 Seu persona-
gem está concentrado no ato de sedução, e é isso o que lhe dá o
encanto que desperta o desejo. O satiromaníaco, pelo contrário,
extingue o fogo que atiça, e não deseja tanto mulheres como
busca se masturbar em sua presença. (A satiromania envolve
uma falha grave da imaginação.) O dom-juanismo é, portanto,
o que mais consome tempo e o mais debilitante de todos os ví-
cios sexuais; ele requer a constante recriação da paixão, e com
ela as estratégias de sedução para um número ilimitado de obje-

217 Stendhal, De l’amour, livro II, cap. 59; Denis de Rougemont, Passion and Society, tr. M.
Belgion, ed. rev., Londres, 1956.
218 Søren Kierkegaard, “The Immediate Stages of the Erotic”, em Either/Or, tr. W. Lowrie,
Nova York, 1959, vol. I.

235
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

tos. O satiromaníaco, que se dirige a cada mulher concretamen-


te, mas apenas como um membro de sua espécie, é, portanto, o
oposto de Don Juan, que, embora deseje em certo sentido toda
feminilidade, somente a deseja como e quando concentrada na
forma e personalidade de cada mulher insubstituível.
Mas o que é essa força, então, pela qual Don Juan seduz? É o
desejo, a energia do desejo sensual. Ele deseja em cada mulher toda
a feminilidade, e é aí que reside o poder sensualmente idealizante
com que ele imediatamente embeleza e vence sua presa. A reação a
essa paixão gigantesca embeleza e desenvolve a mulher desejada, que
resplandece com uma beleza reforçada por reflexão. Como o fogo do
entusiasta, com um esplendor sedutor que ilumina mesmo aqueles
que estão em uma relação casual com ele, Don Juan transfigura em
um sentido muito mais profundo cada mulher, já que sua relação
com ela é essencial.219

Kierkegaard não entende o Don Juan como o repositório de


alguma irritação orgânica, mas como uma grande força espiri-
tual, uma energia sensual sem limites, uma criatura pródiga de
desejo. No entanto, cada mulher se dirige a ele como o objeto
presente de um impulso individualizante. Ele não é hipócrita
quando se dirige a Zerlina, por exemplo, com uma promessa de
casamento. No entanto, sua compreensão de casamento é um
produto excêntrico de seu atual frenesi. Seu desejo por Zerlina
é um movimento instintivo de simpatia, que o faz ver com os
olhos dela, e responder com a resposta dela, aceitando, por um
momento, o valor absoluto de um casamento que se consumará
e validará seu acesso ao desejo. É claro que, depois da sedução,
ele seguirá seu caminho. Mas, no momento, ele não sabe disso
– ele está embriagado, atencioso, totalmente focado nesta pes-
soa individual, cujo mundo se encontra aberto à sua frente. O
coração de Don Juan não é dividido ou enganoso, mas incons-
tante. Sua atenção está absolutamente envolvida, mas sempre
renovada por cada mulher com quem ele se depara, e seu obje-
tivo não é a excitação sexual ou o prazer físico, mas a conquista
– a invasão apaixonada de outro ponto de vista, obrigando-o a
submeter a sua encarnação à sua própria proeza corporal.
A vivacidade de Don Juan é uma parte do equipamento ne-
cessário do sedutor: sua imoralidade reside na sua capacidade

219 Ibid. p. 98-9.

236
capítulo 6 - fenômenos sexuais

de persuadir a vítima que a imoralidade não é nada mais do


que um pecadilho. (A mesma imoralidade é discernida por Se-
nancour na obscenidade.)220 Ao mesmo tempo, sua vivacidade
esconde uma profunda ansiedade, uma incapacidade para des-
cansar ou ser consolado, algo que é sugerido por Byron em uma
carta:
O meu tempo foi gasto violenta e agradavelmente; aos trinta e um,
tão poucos anos, meses, dias permanecem, que “carpe diem” não é
suficiente. Tenho sido obrigado a cortar até mesmo os segundos, pois
quem pode confiar no dia seguinte? Dia seguinte!? Hora seguinte,
minuto seguinte. Eu não posso me arrepender (apesar de tentar
freqüentemente) muito de nada que eu tenha feito, ou que eu tenha
deixado de fazer – Ai de mim! Estive ocioso, e com a perspectiva de
uma morte precoce, sem ter aproveitado cada instante disponível de
nossos agradáveis anos. Este é um pensamento amargo, e será difícil
me recuperar [do] desânimo a que esta idéia me lançou.221

O pensamento amargo contra o qual Don Juan irremediavel-


mente se rebela é o mesmo pensamento que contém a promessa
da consolação de Tristão: o pensamento da morte. Dom-juanis-
mo e tristanismo são respostas extremas a uma percepção de
que está na raiz da atração e do amor humanos: o pensamento
de nossa mortalidade. As medidas linhas de Herrick mostram
a verdadeira conexão entre a morte e o desejo. Elas também
mostram o erro pelo qual Don Juan e Tristão são igualmente
condenados:
Assim, enquanto o tempo passa, e nós apodrecemos,
Venha, Corinna minha, venha festejar; aproveitemos.

Tristanismo
O tristanismo é um dos mais intrigantes fenômenos sexu-
ais, e uma bela ilustração da catástrofe a que um ser racional
pode ser conduzido por sua racionalidade, e pelo conseqüente
compromisso a uma forma pessoal de união sexual. O amor de
Tristão por Isolda é implausível e obsessivo. Ele está preso pelas
garras de um feitiço que o liga a esta mulher e de que não pode

220 De l’amour, vol. II, p. 229-30.


221 Letters of Lord Byron, ed. Leslie Marchand, vol. 6, Londres, 1976.

237
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

se libertar. Ao mesmo tempo, parece não haver qualquer consu-


mação de seu desejo de morte – só isto lhe trará paz, pois (tal é
o entendimento) só isto fará com que Isolda seja sua. Claro, seu
amor por Isolda é um amor proibido e, portanto, não poderia
usufruir das formas normais de união. Mas Tristão ama Isolda
por essa mesma razão: é o caráter proibido de Isolda que faz
com que ele fique encantado. Mas este caráter proibido não é,
em si, mais do que um “objetivo correlativo”, por assim dizer,222
daquela noção de “pecado original” que, conforme mostrei, fre-
qüentemente jaz dormente no desejo. Tristão é, portanto, o tipo
de todos aqueles amantes para quem o reino do desejo sexual
é o reino do proibido. Embora seja necessário fornecer uma
expressão dramática disso no estado civil de Isolda, Tristão está
tão obrigado quanto Werther a uma situação que justifica o de-
sespero e futilidade que ele sentiria de qualquer forma. Outro
tipo de amor proibido foi descrito por Chikamatsu, nos Suicí-
dios de Amor em Sonezaki, e aqui também se pode ver que a
proibição amorosa não é senão um pretexto para o amor, e que
o obstáculo institucional à união não é mais que a representa-
ção dramática de um obstáculo que é parte integrante do dese-
jo. Tristão procura a morte, finalmente, pois seu desejo procura
a morte. E a morte é a realização do desejo, porque é o último
obstáculo à realização do desejo. Nas palavras de Freud, Tristão
está possuído por um élan mortel.
Tristão é a vítima de um projeto autodestrutivo, e busca sua
própria derrota. Como um projeto como este poderia ter sua
gênese no desejo sexual? Podemos entender facilmente como é
que o amante procura provar-se insubstituível aos olhos de sua
amada, e tenta subsumir seus pensamentos desejosos sob uma
idéia dominante de si mesmo como um centro transcendental
de atenção. Ao mesmo tempo, porém, ele experimenta seu pró-
prio desejo como uma esmagadora subordinação de si mesmo a
um imperativo corporal. E ele deseja o mesmo efeito em quem
ele ama. O significado erótico do ato sexual reside no seu aban-
dono. A ligação dos nossos órgãos sexuais com o domínio do
corpo dá uma pungência peculiar a esta experiência, em que
eu pareço ser superado pelo meu corpo, precisamente naquele

222 A expressão “objetivo correlativo” foi tirada de um ensaio de T. S. Elliot sobre Hamlet
(“Hamlet and his Problems”.), em The Sacred Wood, Londres, 1920.

238
capítulo 6 - fenômenos sexuais

momento que eu sou superado e invadido por você. É como se


você estivesse presente para mim no meu corpo, e me vencendo
justamente através do meu corpo.
Mas é claro que você não é o meu corpo, nem poderia ser.
O processo da minha superação tem todo o mistério e a ines-
crutabilidade do próprio corpo: é uma escuridão que brota de
dentro de mim e extingue a perspectiva que você se esforça para
entender. Eu desapareço, e você desaparece, no ponto de união.
Esta é a origem desse problema a que Francesca dá pungente
expressão no Inferno de Dante. E Francesca, como Tristão, está
envolvida em um amor proibido.
O exemplo de Francesca nos ajuda a discernir a verdadeira
fonte do projeto de Tristão. Seu desejo não é proibido por seu
caráter adúltero (que, como sugeri, é apenas o símbolo externo
de uma transgressão interna), mas porque comprometeu tudo
ao ato sexual. Ele se divorciou de todas as normas sociais, de
todas as formas de companheirismo que não esta, da união cor-
poral no “ato da escuridão”. O projeto do desejo ficou concen-
trado no ato sexual. Mas no ato sexual, o sujeito tristaniano
não encontra nada além do domínio do corpo, que o escraviza
exatamente quando ele seria mais livre. Ele começa a ansiar por
outra união mais completa, mais possessiva, com o objeto de
desejo. Ao mesmo tempo, porque o sujeito não olha para nada
além do ato sexual por sua idéia de uma união mais perfeita,
ele antecipa o cumprimento de seu desejo com outra supera-
ção, mas maior e irreversível, do eu pelo corpo. Por isso os seus
pensamentos tendem no sentido da morte. Na morte, o corpo
assume inteiramente e para sempre, seguindo um imperativo
material que não posso controlar. E ainda assim, eu que estou
morrendo.
Para entender esse pensamento, devemos refletir sobre como
uma pessoa é concebida após a morte. Ela permanece conosco
em pensamento; enterramos seu corpo, respeitamos tudo o que
pertence a ela, e honramos a sua memória. O triunfo do corpo
na morte parece, portanto, também uma espécie de vitória da
alma. O corpo é escondido e se deteriora, enquanto o eu perma-
nece inalterado como um objeto de sentimento interpessoal. O
amor é preservado no luto, e todas as outras atitudes interpes-
soais sobrevivem até, eventualmente, diminuírem com a lenta

239
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

subsidência da memória. Mas o eu persiste apenas como uma


idéia na mente do espectador. Após a morte, eu sou um objeto
intencional sem realidade material. E é esta existência imaterial,
está existência como uma mera “idéia”, que era minha antes do
nascimento, quando eu repousava, por assim dizer, escondido
no útero do tempo. Assim Tristão, afundando no torpor da sua
ferida, encontra consolo na escuridão que o oprime. Ele está
momentaneamente na condição de que veio, e para a qual deve
retornar:
Eu estava onde estive pela eternidade,
E pela eternidade estarei:
No vasto reino da noite universal.
Mas há um conhecimento que nos pertence:
Esquecimento divino, eterno, completo!223
[III.I]

A harmonia aqui está baseada em uma versão de tom menor


dos dois primeiros compassos da Liebestod: somente na impla-
cável cadência maior da Liebestod, quando este movimento em
direção à morte tornou-se mútuo, ele pode ser uma afirmação,
uma vez que só então faz a coisa que supera Tristão – sua morte
– também supera Isolda, e com o mesmo fim. Essa morte, que
os une espiritualmente, é o triunfo da alma sobre o corpo, ao
mesmo tempo em que é um triunfo do corpo sobre a alma, a
superação definitiva de tudo o que os amantes são individual-
mente. Assim, vemos que o objetivo sexual, uma vez separado
de todo projeto social de longo prazo, limitando-se, portanto,
ao ato sexual, deve ter lugar fora do fórum do eu, que agora
desaparece para sempre, trocando a realidade material da ação
por uma persistência ilusória enquanto memória.
De um único sentimento conturbado, surgem os dois con-
trastantes projetos de dom-juanismo e tristanismo. No primei-
ro, todo o esforço da imaginação é dedicado ao ato sexual, re-

223 Ich war, wo ich von je gewesen,


wohin auf je ich geh’:
im weiten Reich der Weltennacht.
Nu rein Wissen dort uns eigen:
göttlich ew’ges Urvergessen! – NT.

240
capítulo 6 - fenômenos sexuais

presentado como uma conquista. Eu me coloco no processo de


sedução, e o próprio ato sexual, quando alcançado, é o culmi-
nar desse processo, que a supera e, ao fazê-lo, remove o objetivo
do meu desejo. Eu não tenho mais uso para você. Qualquer
desejo posterior não será mais por você, mas por sua sucessora
e, se acontecer de você ser a sucessora (como num ponto Donna
Elvira, por um engano de identidade, torna-se sucessora de si
mesma), isso não é mais do que um acidente, como o refazer de
meus passos em um labirinto. Eu fujo da cena de conquista, evi-
tando a pergunta do que eu sou para você e você para mim no
ato sexual – pois essa pergunta, e sua resposta, pertencem ape-
nas ao processo de sedução que é o prelúdio para o meu retiro.
No tristanismo, o esforço da imaginação está similarmente
concentrado no ato sexual, mas é agora concebido como o úni-
co veículo de uma união espiritual na qual os participantes são
mutuamente superados. Eu procuro extinguir a luz que diferen-
cia nossas formas distintas, e que por isso nos divide. Apenas a
renúncia da existência corpórea pode cumprir um projeto que
não deseja nada mais do que a posse mútua no ato de amor. Só
então a sua individualidade deixa de me incomodar, quando
deixo de ser incomodado para sempre.
Tristão é um Don Juan mórbido – alguém que tenha perce-
beu a catástrofe de um desejo que não pode olhar ir além do ato
sexual. Ao invés de separar-se do objeto de desejo pela busca
constante de novidades, Tristão procura realizar no próprio ato
sexual o que não pode ser realizado sem renunciar aos requisi-
tos absolutos de desejo. Ele está obcecado com o conhecimento
de que seu desejo é pecaminoso (pois sua noção de que seu de-
sejo é proibido é uma premonição de sua natureza catastrófica),
e ainda assim não pode fazer nada para defender-se contra a
visão moral que corrói sua imaginação. Don Juan, que afas-
ta toda a moralidade – ou melhor, que adia seu encontro final
com a lei moral, até que ela finalmente o confronta na forma
inflexível de uma estátua224 – é capaz de cortar o seu desejo de
todo apego a longo prazo, e de transformar sua obsessão pelo
ato sexual em uma obsessão pela mulher. Para Tristão, há ape-

224 Cf. a caracterização freudiana desse episódio feita por Pierre-Jean Jouve, Le Don Juan
de Mozart, Paris, 1952.

241
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

nas uma mulher, e ela tem a característica da extinção total da


própria morte. Para Don Juan, existem infinitas mulheres, e em
cada uma delas, no entanto, ocorre a mesma ocasião de desejo.

Sadomasoquismo
Volto-me agora ao sadomasoquismo. A principal tarefa de
qualquer teoria do desejo deve ser explicar a presença no de-
sejo comum (ou seja, não pervertido) desses componentes que
foram descritos como “sadomasoquistas”. Devemos examinar
o sadomasoquismo como examinamos o dom-juanismo e o tris-
tanismo, com vista que mostre que partilha da intencionalidade
do desejo normal. Claro que, levados ao extremo, sadismo e
masoquismo podem destruir seu próprio conteúdo intencional,
e se tornarem pervertidos, à maneira da bestialidade. Mas o
comportamento que é pervertido somente quando levado ao
extremo não é, em si, pervertido. Quanto à forma pervertida de
sadomasoquismo, vou discutir isso com mais detalhes no Capí-
tulo 10.
Desde Krafft-Ebing, em sua célebre Psychopathia Sexualis, é
sugerido que o sadismo e o masoquismo estão intimamente re-
lacionados, tornando-se um lugar-comum adotar o termo “sa-
domasoquismo” para se referir a ambos os fenômenos. Houve
também uma tendência de procurar por algum instinto biológi-
co que os explicasse. Assim, Havelock Ellis, com sua erudição
característica, acumulou evidências dos rituais de “acasalamen-
to” de animais e do comportamento de corte dos povos primi-
tivos para sugerir que a origem do sadomasoquismo reside na
própria estrutura do impulso sexual.225 Para Ellis, o exemplo
paradigmático é a prática do “casamento por captura” – em
que uma mulher é perseguida por seus pretendentes e forçada a
ceder ao mais forte. Ele defende, com efeito, que tais “casamen-
tos” são parcialmente organizados pela “vítima” (como quando
a donzela quirguiz, armada com um chicote, foge a cavalo antes
de seus perseguidores). A garota, portanto, se submete apenas a
essa força que ela também deseja. A agressão do macho, e a sub-
missão da fêmea, aqui se combinam para cumprir um arquétipo
do encontro sexual: e a forma do arquétipo é o sadomasoquis-

225 Elis, Studies in the Psychology of Sex, vol. III.

242
capítulo 6 - fenômenos sexuais

mo. Ellis, Féré e outros fundadores da sexologia concordam na


idéia de que é a dor, e não a crueldade, que atua como o estímu-
lo ao sentimento sadomasoquista, e citam exemplos de animais
cuja atividade sexual permanece dormente até que seja estimu-
lada pela violência física.226 (Cornevin fala de um garanhão que
não ficava potente, mesmo quando diante de uma égua no cio,
a não ser que um chicote estalasse.)227 Tudo isso pode parecer
sugerir que estamos lidando com um tipo de proximidade sen-
sorial. E, de fato, a idéia apresentada por Ellis – que a dor é
em si um estimulante para a emoção sexual – depende de uma
análise do sentimento sexual como um impulso sensorial – uma
análise que não pode ser aceita, pelas muitas razões já expostas.
Na verdade, o próprio Ellis admite:
O masoquista deseja experimentar a dor, mas ele geralmente
deseja que seja infligida por amor; o sádico deseja infligir dor, mas,
em alguns casos, se não na maioria, ele deseja que ela seja sentida
como amor.228 [Por “amor”, aqui, leia “desejo”.]

Em outras palavras, o sadomasoquismo parece invadir e ex-


trair o seu carácter do âmbito das relações morais, e não do cam-
po da sensação física. Isto é surpreendentemente ilustrado pelos
estudos de casos coletados por Krafft-Ebing, em que todos envol-
vem um pensamento distintamente moral como o ponto focal do
desejo sádico ou masoquista: um pensamento de dominação ou
submissão.229 A própria iniciação de Sacher-Masoch talvez sirva
para ilustrar o que quero dizer. Um dia, quando criança, ele esta-
va brincando no quarto de uma condessa, uma parenta em cuja
casa estava. De repente, a condessa entrou com seu amante, e o
menino se escondeu em um armário, testemunhando os abraços
apaixonados do casal adulto. Dentro de instantes, o conde, se-
guido por dois amigos, entrou indignado no quarto, confrontou
o casal culpado e, avançando com raiva, hesitou quanto a quem
deveria agredir. Naquele momento, a condessa, com um golpe

226 Ibid., p. 137 et seq.; C. Féré, Revue de Medecine, 1900.


227 Charles Cornevin, Archives d’anthropologie criminelle, 1896, apud Elis, Studies in the
Psychology of Sex, vol. III, p. 137-8.
228 Ibid., p. 160.
229 Richard Freiherr von Krafft-Ebing, Psychopathia Sexualis, tr. (com o título The
Aberrations of Sexual Life) A. V. Burbury, Londres, 1951.

243
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

certeiro, fê-lo cambalear para trás, com sangue escorrendo de seu


rosto; tomando de um chicote, ela começou a expulsar todos os
três intrusos de seu quarto, criando uma oportunidade para a
fuga de seu amante. O conde voltou e, ao implorar de joelhos
pelo perdão de sua esposa, o menino se revelou. Ele foi arrastado
do armário e violentamente espancado pela Condessa, e expe-
rimentou um prazer que ele nunca mais conseguiu dissociar da
visão de seu poder majestoso, da sensação de seu casaco de pele,
e do cheiro de sua raiva. A partir desta experiência, derivaram
todas as paixões ardentes de A Vênus das Peles.
Nesse exemplo está encapsulada uma experiência familiar.
Uma pessoa se intromete no meu campo de relação com uma
súbita autoridade esmagadora, focando sobre si toda a força
da minha sexualidade. De repente, este é o objeto preferido; é
a ela que eu devo me render; ela é a única que merece minha
escravidão. E assim por diante. Certamente não é a dor ou a
crueldade, mas o que poderia, em outros contextos, ser visto
como crueldade, que é o fator operatório. E esta “crueldade”
não é outra coisa que não a punição – a mão viva de uma auto-
ridade cobiçada.
Ao mesmo tempo, há um desejo estranho de provocar e rece-
ber dor física, o que não pode ser explicado apenas em termos
morais. O masoquista não se limita a querer ser punido ou hu-
milhado; nem quer isso sempre. Para entender sua atitude em
relação à dor física, devemos olhar para a emoção do sádico.
Que faz o sádico ao infligir dor? (Uma pergunta sobre intencio-
nalidade.) Considere o torturador. Normalmente, supõe-se que
o torturador inflige dor porque gosta não apenas do espetáculo
do sofrimento do outro, mas também o fato de ser o responsá-
vel por isso. Sua atitude é essencialmente a de “eu estou fazen-
do isso a você”. Além disso, a vítima deve estar ciente da ação
do torturador. Não há alegria – ou pelo menos não a mesma
alegria – em torturar um animal, porque um animal não tem
noção do que está acontecendo com ele é um processo delibe-
rado causado por um ser responsável. O torturador quer que
sua vítima compreenda não só o que está acontecendo com ela,
mas a intenção com que é feito e o fato de que seu sofrimento é
desejado e apreciado pela pessoa que o inflige.

244
capítulo 6 - fenômenos sexuais

A tortura é, então, uma atitude interpessoal. O torturador vê


sua vítima como uma pessoa, deseja ser visto como tal, e procu-
ra aparecer na perspectiva de sua vítima de uma forma domina-
dora. A tortura é, portanto, particular aos seres racionais, e tem
uma profunda semelhança (não-intencional) com a brincadeira
de gato e rato. Não surpreende, portanto, que a tortura possa
assumir significado simbólico; ela pode ser usada como punição
e como moralidade gráfica.230
A pura tortura, no entanto, não é apenas uma punição. É
a tentativa deliberada de reduzir o outro através da dor, de
vencê-lo em seu corpo, de forçá-lo a renunciar a si mesmo por
amor ao seu corpo, e, assim, de persuadi-lo de sua encarnação.
Aqui está uma parte da descrição incomparável de Sartre do
fenômeno:
O espetáculo que é oferecido ao [torturador] é o de uma liberdade
que luta contra a expansão da carne, e que livremente escolhe ser
submersa na carne. No momento da abjuração, o resultado desejado
é atingido: o corpo é inteiramente carne, ofegante e obsceno; ele
mantém a posição que os torturadores deram a ele, não a que ele teria
assumido por si só; seus ligamentos o mantém como uma coisa inerte,
e, assim, ele deixou de ser o objeto que se move espontaneamente.
Na abjuração, a liberdade opta por ser inteiramente identificada
com este corpo; este corpo distorcido e decadente é a imagem mesma
de uma liberdade quebrada e escravizada.231

Temos que “o momento de prazer para o torturador é aquele


em que a vítima trai ou humilha a si mesma”.232 O desejo do
torturador é representar para si mesmo o espetáculo de uma
tragédia humana: mostrar a facilidade com que a perspectiva do
outro pode ser invadida e subjugada pela dor, humilhar o outro
obrigando o eu a se identificar com o que é não-eu, “decair” no
fluxo do sofrimento corporal. Cristo teve de ser crucificado, já
que era necessário superar seu espírito. Sua morte real teve de
ser precedida por outra morte, em que o espírito se rende à car-
ne e se identifica com sua humilhação, sob o olhar zombeteiro
daqueles que assistem suas contorções. Cristo ter gritado: “Meu

230 Ver M. Foucault, Surveiller et punir, Paris, 1975.


231 Sartre, Being and Nothingness, p. 404.
232 Ibid., p. 403.

245
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” não desacredita


mais Sua divindade do que a Sua morte. Para ser totalmente
humano, totalmente encarnado, o espírito teve que se sujeitar a
tal “superação” final.
Na citação de Sartre, a palavra “torturador” não existe no
original; o termo usado é “sádico”. Para Sartre, o sadismo se-
xual é contínuo à tortura da cela prisional. Eu duvido que isso
seja necessariamente assim. No entanto, há uma espécie de sa-
dismo que é semelhante à tortura, em que o sujeito deseja apa-
recer como responsável pela dor nos olhos de uma vítima in-
defesa. Existiria algo no desejo sexual que criasse tal ambição?
Ao discutir os sorrisos e rubores, salientei que o papel destas
transformações como um foco de desejo deriva de sua capaci-
dade de transmitir a natureza corpórea de uma perspectiva au-
toconsciente. Nessas reações, o sujeito é totalmente ele mesmo
e também, no mesmo instante, idêntico ao seu corpo. Elas são,
portanto, os símbolos do “outro que foi convocado”. A dor é
semelhante em um aspecto: seus sintomas são involuntários, e
parecem “mostrar a verdade” sobre o outro que os sofre. Emily
Dickinson escreve:
Eu gosto de um olhar de agonia
Porque eu sei que é verdadeiro;
Os homens não fingem convulsão,
Nem simulam emoção.233

Obter a resposta da dor, e ao mesmo tempo aparecer dentro


da perspectiva do outro como o agente de seu sofrimento – isto
pode parecer um substituto para a troca de sorrisos de amantes.
Este pode ser o melhor que eu posso fazer, convencendo sua
perspectiva a mostrar-se na superfície do seu corpo, e lá tomar
conhecimento de mim. No ato de infligir dor, portanto, o sá-
dico também pode ansiar por aquele mesmo reconhecimento
corporal de sua própria encarnação que está no cerne do desejo
sexual. Ele “supera” o outro através da dor, e extorque o reco-
nhecimento que ele não pode obter por um sorriso. (Deve-se

233 I like a look of agony


Because I know it’s true;
Men do not sham convulsion,
Nor simulate a throe.

246
capítulo 6 - fenômenos sexuais

mencionar aqui que os sinais visíveis de agonia são difíceis de


distinguir dos de êxtase – um fato explorado por Bernini em sua
escultura de Santa Teresa. Ao criar estes sinais, o sádico lison-
jeia a si mesmo com um simulacro perfeito do Untergang sexual
de seu parceiro.)
Se o sadismo fosse só isso, dificilmente poderíamos escapar à
conclusão de que o sadismo é profundamente perverso: pois ele
parece indiferente ao prazer e à responsabilidade do outro, mal
reconhecendo sua existência como algo além de um “sofredor
de dor”. Mas é preciso distinguir o torturador do sádico. O
segundo aproveita os motivos do primeiro, mas só porque eles
se encaixam em uma estratégia de relação sexual. O verdadeiro
sádico não quer a dor do outro simpliciter. Ele quer que o outro
queira a dor infligida, e seja excitado por ela. Em outras pala-
vras, ele vê a dor como um intermediário no processo de exci-
tação mútua, e não como uma gratificação em si. Seu impulso
é uma versão estendida da mordida de amor, em que uma parte
causa à outra uma ferida que é tanto um sinal de afeição quanto
um convite ao desejo.
O masoquista, de maneira semelhante, deseja que a dor seja
vista como um elemento sexual, cujo fim é a excitação mútua.
O masoquista, por sua vez (supondo que ele tenha essa sorte),
deseja a dor, mas só porque este é um sinal de interesse do outro
nele, e porque, respondendo a esse interesse, ele se vê rumando
em direção ao desejo. (Cf. Antônio e Cleópatra: “como o belisco
de um amante, que dói, mas é desejado”.) A dor deve ser enten-
dida como um intermediário no processo de excitação. E ela
cumpre esse papel não só por causa de sua relação crucial com
o corpo, mas também porque é um veículo de idéias morais:
as idéias de dominação e submissão. Essas idéias formam uma
parte fundamental da compreensão comum do desempenho se-
xual. Por isso, o sádico e o masoquista, deixados aos cuidados
um do outro, por assim dizer, alcançam a excitação, não apesar
da dor, mas por causa dela.
Essa breve descrição do impulso sadomasoquista mostra que
é um caso especial do desejo sexual. Mas não explica por que
desejo escolheria tal canal. Várias explicações podem ser dadas
em função da necessidade biológica subjacente: essas explica-
ções estão sempre presente em Féré, Krafft-Ebing e Havelock

247
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Ellis. Mas fornecer uma explicação intencional – uma explica-


ção em função dos pensamentos dos participantes – é muito
mais difícil. O ponto de partida para qualquer explicação desse
fenômeno deve, creio eu, mencionar a idéia de inibição. A dor
permite ao casal sadomasoquista atravessar a barreira da inibi-
ção. Ela permite que eles façam o que de outra forma seria mui-
to embaraçoso: superar o outro, no ato do contato físico. A dor
torna-se o primeiro passo naquilo que é, eventualmente, uma
atividade de cooperação bastante normal, que, uma vez inicia-
da, começa a fluir nos canais familiares da satisfação sexual.
Assim, a propensão para a imposição e sofrimento da dor
física no ato de amor é raramente considerada perversa, en-
quanto a tendência para infligir e sofrer humilhação sexual é
quase universalmente condenada. O desejo de Von Sacher-Ma-
soch de ser espezinhado por senhoras vestindo peles não des-
perta mais do que uma leve curiosidade; diferente disso, sua
tentativa ardente (e eventualmente bem-sucedida) de convencer
sua esposa que ela deve, contra sua vontade, traí-lo com um
estranho (ocasião em que ele se dedicou com atenção especial
ao toalete dela, antecipando as deliciosas dores do ciúme que
se seguiriam a este ato proxenético) evoca os sentimentos mais
vívidos de desgosto. A busca da dor física no congresso sexual
em si não é uma perversão do desejo. Freqüentemente, não é
mais do que uma tentativa de construir a intencionalidade do
desejo em circunstâncias dificultadas pela inibição – pela bar-
reira que impede uma pessoa de ser “superada” por seu corpo
e, portanto, pelo outro que causa isto. Quando Sade descreve
o desejo pela dissolução do outro como o principal impulso
sexual, ele pode estar pensando em termos exagerados do pri-
meiro movimento do sadismo: a noção de que, já que não posso
confiar no seu sorriso, vou confiar no seu gemido. No entanto,
existe, na obsessão particular de Sade pela dissolução, algo mais
do que isso. Ele quer que o corpo do outro se dissolva em dor e
mutilação – e muitas das cenas horríveis descritas no Justine e
em outros lugares são cenas de simples assassinato.234 O motivo
aqui não é o desejo frustrado de manter o outro em, e através
de, seu corpo, mas a percepção obscena do corpo como carne

234 De Sade, La Nouvelle Justine, cap. I, é suficiente para demonstrar o ponto.

248
capítulo 6 - fenômenos sexuais

corrompida. A abolição do outro, ao invés de seu envolvimento


em um projeto cooperativo de desejo – esta é a intenção real
que supura nas páginas terríveis de Sade (cuja reputação literá-
ria é o resultado de nada mais do que a sua qualidade “proibi-
da”). O sadismo de Sade permanece bloqueado no momento da
dissolução, buscando sempre melhorá-la, embelezá-la com mais
novidades, para chegar lá, na aniquilação da vontade e prazer
do outro, a glória da liberação sexual. Por trás deste projeto
pervertido existe também um remanescente de tristanismo – no
sentido de que a união final requer a dissolução definitiva na
morte. Mas ele difere do tristanismo em sua postura obscena e
solitária: o outro é reduzido ao seu corpo, tornando-se o mero
instrumento do meu prazer; apesar de sua morte ser necessária,
eu sobrevivo a ele, vangloriando-me na liberação que a minha
violência me permitiu. Há uma completa indiferença em relação
ao outro, ou, se não indiferença, então terror de sua existência,
de sua capacidade de confrontar-me com suas exigências e com
a realidade moral de sua encarnação. Logo, eu devo aboli-lo.
O sadismo de Sade, portanto, é o sadismo mais deturpado, e
tem pouco ou nada em comum com os estratagemas sadomaso-
quistas anteriormente descritos. Apesar das tentativas de pensa-
dores como Bataille235 para encontrar a experiência nuclear da
sexualidade com este foco na dissolução (que Bataille descobre
justamente na vergonha e obscenidade), parece-me óbvio que a
sexualidade de Sade é totalmente desviada. Ela não tem nada
a nos dizer sobre os elementos do sadomasoquismo normal, e
muito menos sobre os elementos do desejo.
Neste capítulo, abordei alguns dos fenômenos e variantes do
desejo. Meu objetivo foi mostrar que a análise até agora feita
da intencionalidade do desejo mostra a unidade e a variedade
destes fenômenos, e os associa a uma condição humana comum.
Não há necessidade de olhar abaixo da superfície da consciên-
cia humana para entender a vergonha sexual, modéstia sexual,
obscenidade e ciúme, ou para entender como o desejo sexual
pode criar projetos tão peculiares como os do dom-juanismo,
tristanismo e sadomasoquismo. Tudo isso pode ser facilmente
explicado em função da estrutura consciente do desejo, como

235 Georges Bataille, L’Érotisme, Paris, 1957.

249
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

uma emoção interpessoal. Ao mesmo tempo, não podemos du-


vidar que o desejo está enraizado em instintos que compartilha-
mos com os animais, e agora temos de enfrentar o preconceito
moderno predominante, de que é através de uma teoria do ins-
tinto sexual que vamos entender todos os fenômenos a que me
referi. Também devemos considerar a teoria freudiana, que vê o
desejo adulto em função da sexualidade da criança. Ambas as
teorias têm pretensões científicas, e ambas apresentam um de-
safio feroz a tudo o que eu disse. Pois ambas tentam identificar
o fenômeno radical do desejo sexual fora do que é “dado” ao
sujeito, e ambas mostram-se corrosivas à idéia – que eu acredito
ser fundamental para a moralidade sexual – de que o desejo não
existe fora da experiência das pessoas.

250
CAPÍTULO 7
A CIÊNCIA DO SEXO

O tema deste capítulo é o sexo, concebido como um problema


científico. Até agora, a minha discussão manteve-se (cientifica-
mente falando) muito na superfície. Eu tentei descrever os fenô-
menos, mas não dei nenhuma explicação para eles. Poder-se-ia
pensar que pouco do que eu disse tem algum valor duradouro,
uma vez que não só precisa ser completado por um repertório
adequado de fatos científicos, mas também deve permanecer
vulnerável à redescrição – e, portanto, refutação – nas mãos de
qualquer ciência sexual desenvolvida. No Capítulo 1, dei razões
para ser cético diante de tal objeção. Mas agora devo lidar com
ela de forma mais completa. Examinarei duas abordagens que,
quer sucedam em ser científicas, quer não, pelo menos preten-
dem ser; quaisquer que sejam seus méritos, servem para nos
lembrar das tendências que uma ciência do sexo deve mostrar.
Discutirei a Sociobiologia e a psicologia freudiana, cada uma
das quais goza do privilégio de ter revolucionado o nosso pen-
samento sobre o comportamento sexual, e – justificadamente
ou não – de ter provocado uma revisão mais impactante em
nossas atitudes morais do que qualquer convulsão social ou
cruzada religiosa conseguiu acompanhar.

A biologia do sexo
Os homens são animais, e nenhuma de suas funções está
mais profundamente enraizada em sua natureza animal do que
a da reprodução sexual. É precisamente na experiência diária de
conduta sexual que a idéia de nossa “animalidade” aparece com
proeminência em nossos pensamentos. Nós podemos condenar
este ou aquele ato como “bestiais”, mas ao fazê-lo, geralmente

251
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

estamos cientes de sua semelhança esmagadora (pelo menos


quando julgados a partir de certo ponto de vista) com outros
atos que formam a modalidade comum de expressão sexual. E
quem poderia negar que, julgando do ponto de vista evolutivo,
o motor de base de todo esse elaborado ritual é a reprodução,
de um tipo que ocorre em todo o reino animal, e de acordo com
um ritmo que é comum a quase todas as criaturas que se envol-
vem nisto? É salutar refletir sobre as palavras de Montaigne:
Por um lado, a natureza nos conduz para isso, já que ela ligou
àquele desejo o mais nobre, útil e agradável de todos os seus atos;
mas por outro, ela nos permite fugir disso e difamá-lo como insolente
e de má reputação, a corar por ele e elogiar sua abstinência. Somos
ou não brutos por chamar o ato que nos torna brutais?236

Refletindo sobre essas observações, somos naturalmente ten-


tados a concluir que a nossa sexualidade (quando explorada no
nível “profundo” da ciência biológica) realmente “não é nada
além de” um fenômeno animal, obediente às leis exemplificadas
por cães, gatos e cavalos, modificada apenas pelo status evo-
lutivo particular da espécie humana. Dirão que o que descrevi
não é a realidade da conduta humana, mas apenas, por assim
dizer, uma auréola de pensamento e de ilusão que a cerca, e que
serve talvez para esconder dos ingênuos os fatos desconcertan-
tes da “verdadeira natureza humana”. E pensar que as minhas
descrições representam a natureza do desejo sexual é confundir
aparência com realidade, e ilusão prática com verdade teórica.
É impossível negar que há analogias estreitas entre o com-
portamento de animais e de humanos. Todos os movimentos da
sexualidade humana, desde cortejo e rivalidade, passando pela
modéstia, ciúme e união sexual, até a fidelidade conjugal e a dor,
têm seus análogos no reino animal, e a tentação de descrever o
comportamento animal antropomorficamente muitas vezes leva
à enorme sensação de identidade entre o nosso mundo e o mun-
do das espécies “inferiores”. Considere a seguinte descrição do
cortejo de aranhas (G. W. de Peckham):
Em 24 de maio, encontramos uma fêmea madura, e a colocamos
em uma das caixas maiores; no dia seguinte, colocamos um macho
com ela. Ele a viu enquanto ela estava perfeitamente imóvel, a doze

236 Montaigne, “Upon Some Verses of Virgil”, em Essays, tr. J. Florio, vol. 3, p. 192.

252
capítulo 7 - a ciência do sexo

polegadas de distância; o olhar parecia excitá-lo, e ele imediatamente


moveu-se na direção dela; quando distava cerca de quatro polegadas
dela, estacou, e então começou o mais notável espetáculo que
um macho amoroso poderia oferecer a uma fêmea admirada. Ela
olhou-o ansiosamente, mudando de posição de tempos em tempos
para que ele estivesse sempre a vista. Ele, levantando todo o seu
corpo de um lado endireitando as pernas, e baixando-o do outro,
dobrando os dois primeiros pares de pernas para cima e abaixo,
inclinou-se até quase perder o equilíbrio, que só pode manter
deslizando rapidamente para o lado rebaixado. O palpo, também,
deste lado foi girado para trás para corresponder à direção das
pernas mais próximas. Ele se moveu em um semicírculo por cerca
de duas polegadas e, em seguida, inverteu instantaneamente a
posição das pernas e circulou na direção oposta, gradualmente se
aproximando cada vez mais da fêmea. Ela, agora, corre em direção a
ele, enquanto ele, levantando seu primeiro par de pernas, estende-as
para cima e para frente como se tentasse segurá-la, mas, além disto,
recua lentamente. Uma e outra vez ele circula de um lado para o
outro, com ela olhando para ele com uma disposição mais suave,
evidentemente admirando a graça de suas travessuras. Isto é repetido
até que tenhamos contado cento e onze círculos feitos pelo pequeno
macho ardoroso. Agora ele se aproxima cada vez mais, e quando
está quase ao alcance gira loucamente ao redor dela, e ela se junta
e girar com ele em um labirinto vertiginoso. Mais uma vez, ele cai
para trás e retoma seus movimentos semicirculares, com o corpo
inclinado para cima; ela, cheia de emoção, abaixa a cabeça e levanta
seu corpo quase verticalmente; ambos se aproximam; ela se move
lentamente sob ele, ele rasteja sobre sua cabeça, e o acasalamento é
realizado.237

A descrição é encantadora. Também é, no sentido de Weber,


“encantada”: é uma descrição do mundo como parece para
aquele que ainda vê todo movimento em função das suas pró-
prias e internas apreensões do espírito humano. Mas por que
isso seria menos correto? E se precisamos – em prol da ciência
– submetê-la a um Entzauberung frio e cruel, por que não fa-
zer o mesmo com o comportamento humano? Na medida em
que é correto falar em “olhares”, “emoção”, “olhares meigos”,
“admiração”, “ardor”, “amorosidade”, e assim por diante, ao
descrever o cortejo de seres humanos, também, pode-se dizer, é

237 G. W. Peckham, apud Havelock Ellis, Studies in the Psychology of Sex, 3ª ed., Filadélfia,
1923, vol. III, p. 35.

253
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

correto usar esses termos para descrever o cortejo de aranhas.


Por outro lado, se não devemos usá-los para aranhas, também
não devemos (ao descrever outras variedades dos mesmos fatos
sociobiológicos) usá-los para humanos.
Mais tarde terei motivos para comparar a descrição “antro-
pomórfica” acima com o que poderíamos chamar de descrições
“simiomórficas”, ou mesmo “entomórficas”, do comportamen-
to humano oferecidas por sociobiólogos como E. O. Wilson e
Desmond Morris. E veremos, espero, a partir dessa compara-
ção, o elemento de falsidade de cada uma. Mas primeiro deve-
mos nos lembrar de que ponto minhas conclusões serão defen-
didas. A superfície das coisas humanas não é menos real por ser
superfície: o Lebenswelt é o mundo em que estamos situados,
e a forma com que nós o percebemos determina a natureza,
direção e razoabilidade de todos os nossos projetos. Mostrar
que esta ou aquela característica do Lebenswelt não sobrevive
à tradução no idioma de alguma ciência ainda não prova a sua
irrealidade – não mais, pelo menos, do que nós provamos a irre-
alidade das cores mostrando que elas podem ser explicadas em
função de uma teoria física que não se refere a elas.238 A direção
para a qual eu tenho me dirigido é a seguinte: o desejo sexual
e seus fenômenos concomitantes, apesar de estarem em impor-
tantemente enraizados em nossa condição biológica enquanto
seres que se reproduzem sexualmente, não são redutíveis a ne-
nhum aspecto da conduta humana que seja compartilhado com
os animais “inferiores”. O desejo, tal como o descrevi, é uma
espécie de artefato social, um padrão de resposta que é alcança-
do de forma cooperativa e, no caso normal, cooperativamente
apreciado. Poderia haver seres humanos sem essa resposta. Mas
se eles também seriam seres sociais pode ser posto em dúvida.
Na verdade, como vou mostrar, uma raça de seres sem desejo
sexual não teria uma vasta gama de respostas interpessoais. Eles
realmente seriam animais, pois não teriam o recurso (persona-
lidade) que faz com que nós descrevamos a nós mesmos como
mais do que simples animais. O esforço coletivo que transforma
os seres humanos em pessoas (que, por assim dizer, pinta esse
rosto no espaço em branco da natureza) também gera as condi-

238 Ver o Apêndice 2.

254
capítulo 7 - a ciência do sexo

ções para o desejo sexual. Eles fazem parte do mesmo processo,


sob dois aspectos distintos. A construção social do desejo, que
existe no nível da interação pessoal, deve ser descrita em pri-
meiríssimo lugar como o objeto de um entendimento intencio-
nal familiar e recorrente. A busca por profundos determinantes
biológicos daquilo que nós descrevemos pode nos afastar da
realidade fenomenal a ponto de perdermos o que ele se propu-
nha a explicar.
Essa declaração não vai silenciar o ativista científico, para
quem o primeiro passo significativo em qualquer investigação
científica é a redescrição dos fenômenos em termos que perten-
cem, ou se prestam, à teoria.239 Ele será rápido em apontar a in-
suficiência teórica de nossas descrições intencionais: na verdade,
chegamos perto de admitir algo metafisicamente duvidoso no
conceito que, em última análise, os inspira; o conceito do eu.
E ele vai defender que devemos, em qualquer caso, enfrentar a
“verdade real” da condição humana, sem as ilusões distrativas
do entendimento pessoal corriqueiro. Ele é o equivalente mar-
xista (na política) em relação à compreensão social como um
todo, que desnuda o véu da “ideologia” e revela (ou pelo menos
pensa que revela) a essência oculta da sociedade, que é a sua
base “material”. Ele vai declarar que o ônus é sempre do outro
lado, para mostrar que a superfície da conduta humana, como
revelada pela compreensão interpessoal, é algo mais do que uma
ilusão coletiva, algo mais do que uma mistificação dos fatos que
devem ser entendidos a partir de um ponto de vista fora deles.

Sociobiologia
A mais radical de todas as tentativas de ciência da conduta
sexual é a Sociobiologia, que, embora reconheça a existência de
fenômenos distintamente sociais, procura explicá-los em termos
evolutivos, mostrando sua relação funcional com a sobrevivên-
cia da espécie. Considere o ritual de acasalamento das aranhas,

239 Este é simplesmente um aspecto do que é por vezes conhecido como a teoria de “Quine-
Duhen”, que diz que observação e teoria são interdependentes; o que você observa só
é genuinamente observado quando a teoria garante essa observação. (Ver P. M. M.
Duhem, The Aim and Structure of Physical Theory, tr. P. P. Wiener, Princeton, 1954, e W.
V. Quine, Word and Object, Cambridge, Mass., 1975, p. 320.

255
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

descrito acima. Como poderíamos explicar tal fenômeno? Exis-


tem duas respostas para a pergunta. A primeira – a mecânica –
descreve como esse estímulo específico (a visão da fêmea) opera
para produzir esta resposta específica. A segunda – a etológica
– explica como as aranhas adquiriram e mantiveram um meca-
nismo desse tipo. As duas explicações são logicamente indepen-
dentes, apesar de que há esperança de serem complementares.
A primeira não é iminente: a ciência neurológica simplesmente
não avançou tanto. A segunda, no entanto, é mais fácil de prover
– ou, pelo menos, é mais fácil de começar. A teoria da evolução
darwiniana nos permite arriscar uma explicação geral de todos
esses fenômenos nos termos de sua funcionalidade. Nós explica-
mos a dança de acasalamento mostrando a função que ele exe-
cuta, no sentido de garantir a sobrevivência dos genes da aranha.
A teoria geral da seleção sexual emerge desse empreendimento.
A aranha capaz de dançar como a de Peckham é claramente
apta e ativa fisicamente; seus genes, preservados em sua prole,
contribuirão para a saúde e atividade de sua raça. Uma fêmea
que evita o fracote, portanto, melhora a dotação genética de seus
filhos. Tal idéia explica os combates entre machos que ocorrem
no momento do acasalamento, juntamente com uma série de
outros fatos bastante complexos. Nas palavras de E. O. Wilson:
A pura exibição epigâmica pode ser vista como uma disputa
entre a arte de vender e a resistência a ela. O sexo que corteja –
normalmente o macho – planeja investir menos esforço reprodutivo
na prole. O que ele oferece para a fêmea é majoritariamente a
evidência de que é totalmente normal e fisiologicamente apto. Mas
esta garantia consiste apenas em uma breve performance, de modo
que existem fortes pressões seletivas para que os indivíduos menos
aptos apresentem uma imagem falsa. O sexo cortejado – geralmente
a fêmea – vai, portanto, considerar fortemente vantajoso distinguir
entre o verdadeiro e o falso apto. Conseqüentemente, haverá uma
forte tendência para o sexo cortejado desenvolver timidez. Ou
seja, suas respostas serão hesitantes e cautelosas de uma forma que
exige ainda mais demonstrações, fazendo com que seja mais fácil
discriminá-los corretamente.240

240 Edward O. Wilson, Sociobiology, the New Synthesis, Cambridge, Mass., 1975, p. 320.
Um sumário legível das teorias sociobiológicas do sexo e da reprodução pode ser
encontrado em D. P. Barash, Sociobiology and Behaviour, 2ª ed., Londres, 1982, caps. 10
e 11.

256
capítulo 7 - a ciência do sexo

Dificilmente um exemplo tranquilizador para os cientistas


que desejam libertar suas descrições da linguagem antropo-
mórfica. E a fraqueza da explicação está mal disfarçada no uso
repetido da palavra “forte”. No entanto, o princípio é razoa-
velmente claro. Não só podemos explicar o ato sexual; tam-
bém podemos explicar fenômenos tão extraordinários como o
cortejo, a modéstia, o ciúme e a monogamia nos termos de sua
relação funcional com a necessidade impessoal do gene de se
perpetuar. O ciúme, por exemplo, garante que um animal esteja
menos propenso a dedicar sua vida pela perpetuação dos genes
do outro. E assim por diante. Um pequeno salto de imaginação
(ou melhor, o salto de uma pequena imaginação) nos leva para
o mundo humano. Quando o orgulho da juventude grega inu-
tilmente derrama seu sangue diante das muralhas de Tróia por
causa de uma mulher, não é o “mesmo” fenômeno do choque
de galhadas na disputa de uma fêmea? Se rejeitar a analogia en-
volve negar a aplicação da teoria darwiniana da evolução para
a sociedade, o filósofo pode estar relutante em cruzar espadas
com o sociobiólogo.
A Sociobiologia, no entanto, não esteve imune a críticas.
Por exemplo, há aqueles que se opõem à sua falta de rigor, e
em particular a sua incapacidade de dirigir-se à questão funda-
mental da Etnobiologia – a questão da determinação genética.
Até entendermos o mecanismo da evolução, dizem, devemos
ser cautelosos ao estender a teoria darwiniana a fatos cada vez
mais complexos. Sem uma resposta clara à pergunta “como?”,
essa extensão só nos compromete com explicações funcionais
cujo conteúdo talvez permaneça totalmente indeterminado. É
bastante evidente – sendo a generalidade da teoria darwiniana
verdadeira – que o comportamento disfuncional tenderá a desa-
parecer. Mas, dada como uma explicação da infinita variedade
de comportamentos que sobram, isso é trivial. Precisamos saber
que fatores adicionais encaminham o desenvolvimento nessa
direção ao invés daquela. No caso do comportamento social,
é uma grande e, até agora, indevida assunção que esses fatores
adicionais sejam genéticos.241

241 A incompletude inerente à explicação darwinista tem consequências importantes para


a filosofia de evolução: em particular, não está claro o que precisa ser adicionado à
análise darwiniana para fazer previsões não-triviais sobre a evolução das espécies. A

257
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Há também aqueles que criticam a Sociobiologia (e os antro-


pólogos sociais estão entre os mais veementes) por sua impetu-
osa descrição da sociedade humana, e por sua falta de sensibili-
dade em relação às diferenças entre a vida “social” dos animais
e a vida social do homem.242 Em particular, a conduta social hu-
mana não pode ser sensatamente comparada ao comportamen-
to de abelhas na colméia ou formigas no formigueiro porque ela
é mediada por, e responde a, uma concepção de si mesma.
Tais críticas, às quais retornarei em breve, não condenam o
empreendimento da Sociobiologia, mas a maneira impetuosa
com que saltou para suas conclusões. Afinal, nós somos seres
biologicamente determinados, cujos estados surgem dos pro-
cessos orgânicos que foram iniciados em nós na concepção e
que continuam a governar o que somos e fazemos. A atividade
mental é a atividade do cérebro, e o cérebro é tão obediente às
leis biológicas como todas as outras partes do corpo humano.
Como, então, podemos supor que a nossa mentalidade distin-
tamente humana nos isenta das leis que governam o resto da
natureza? A teoria da evolução e a ciência da genética podem
ainda estar em seus estágios infantis. Mas seu sucesso não pode
ser negado. Suponha que nós tenhamos que explicar uma carac-
terística complexa da sociedade humana – a monogamia, por
exemplo. Certamente, o primeiro passo será identificar sua fun-
ção etnológica. Feito isso, estamos pelo menos uma etapa mais
perto de fornecer a explicação mais satisfatória da sua existên-
cia (que será uma teoria da sua gênese). Aqui, novamente, está

maneira mais fácil de completar a explicação darwiniana é adicionar uma teoria do


desenvolvimento genético, e assumir que todos os recursos que contribuem para a
sobrevivência da espécie são eles próprios geneticamente determinados. Isto pode
ser expresso contenciosamente dizendo que o que importa não é a sobrevivência
da espécie, mas a sobrevivência do gene. O sociobiólogo normalmente toma esta
posição, e argumenta que o comportamento social, já que se adapta para assegurar a
sobrevivência da espécie, deve, portanto, ser determinado geneticamente. A conclusão é
totalmente injustificada por si só, e geralmente é sustentada por uma analogia de lógica
circular entre a sociedade humana e as “sociedades” de insetos, que não exibe nada
da adaptabilidade do comportamento humano. (Veja, por exemplo, E. O. Wilson, The
Insect Societies, Cambridge, Mass., 1971.) No mundo dos insetos, tudo é geneticamente
programado. E um cientista honesto falaria de pronto: e veja como é diferente do nosso
mundo!
242 Essa objeção foi feita, por exemplo, por Sir Edmund Leach em Social Anthropology,
Londres, 1982.

258
capítulo 7 - a ciência do sexo

o esboço especial de E. O. Wilson de como a parte funcional da


explicação pode proceder:
Os seres humanos, como grandes primatas típicos, se reproduzem
lentamente. As mães carregam os fetos por nove meses e depois são
sobrecarregadas com bebês e crianças pequenas que necessitam
de leite em intervalos freqüentes ao longo do dia. É vantajoso
que cada mulher do bando caçador-coletor garanta a lealdade de
homens que irão contribuir com carne e peles e compartilhar o
trabalho de criação dos filhos. É reciprocamente vantajoso que cada
homem obtenha direitos sexuais sobre as mulheres e monopolize
sua produtividade econômica. Se as evidências da vida da caça e
coleta foram corretamente interpretadas, o intercâmbio resultou na
quase universalidade da ligação em pares e a prevalência de famílias
extensas, com os homens e suas esposas formando o núcleo. Pode-se
razoavelmente postular que o amor sexual e a satisfação emocional
da vida familiar se fundamentam em mecanismos habilitadores na
fisiologia do cérebro que foram programados, em certa medida,
através do fortalecimento genético deste compromisso. E porque
os homens podem se reproduzir em intervalos mais curtos do que
as mulheres, a ligação em pares tem sido atenuada um pouco pela
prática comum da poligamia – a tomada de várias esposas.243

Embora possamos deplorar a imensa simplificação nessa des-


crição dos fatos (uma simplificação necessária, no entanto, para
o objetivo polêmico do autor), seria tão impetuoso argumentar
que tais explicações não podem ser verdade quanto assumir,
com o autor, que elas devem ser. Pois o comportamento sexual,
de que a sobrevivência da espécie depende, não pode ser deixa-
do aos caprichos da escolha individual. Qual o problema dessa
explicação ser verdadeira?
Em primeiro lugar, devemos reconhecer que a própria ge-
neralidade da explicação a torna insensível às diferenças reais
entre os fenômenos explicados. Não se pode duvidar de que
o nosso comportamento é – em linhas gerais – geneticamente
determinado. Também não se pode duvidar de que o compor-
tamento geneticamente determinado sobrevive apenas quando
não é disfuncional. Se esses fatos fossem suficientes para resol-
ver os problemas filosóficos colocados pela natureza humana,
então esses problemas seriam resolvidos rapidamente. Mas

243 E. O. Wilson, On Human Nature, Cambridge, Mass., 1978, p. 139-40.

259
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

tudo o que podemos concluir é que o que quer que exista, existe
porque não é disfuncional: porém, o que faz com que isso seja
verdade, que este tipo de comportamento exista, aqui e agora?
A teoria não tem resposta.
Além disso, a teoria não consegue tocar no que é mais intri-
gante no comportamento humano. No mundo da natureza não
-humana, eventos e processos raramente apresentam problemas
para a nossa compreensão que não sejam resolvidos pela ex-
plicação científica – uma explicação em termos de causas. Mas
o mundo humano é rico em fenômenos que não podem ser in-
teiramente compreendidos apenas ao explicá-los, porque eles
próprios são formas de entendimento. Considere a matemática
– uma prática social que sem dúvida tem sua explicação genéti-
ca. O entendimento matemático não poderia ser gerado através
da Sociobiologia da matemática. Certas práticas matemáticas
(por exemplo, a de derivar cinco da soma de dois e dois) são
de fato geneticamente disfuncionais, e devem, portanto, desa-
parecer na prensa da competição evolutiva. Mas esse fato não
lança nenhuma luz sobre a natureza da verdade matemática.
Ele não mostra o que entendemos quando entendemos que dois
mais dois é igual a quatro. A explicação evolutiva de nossos
hábitos matemáticos depende do nosso entendimento prévio de
que dois mais dois é igual a quatro, e, portanto, não os elu-
cidam. Podemos explicar por que devemos ter adquirido esse
entendimento matemático; mas a explicação não nos diz o que
adquirimos. Para entender isso, devemos nos voltar para a ló-
gica e os fundamentos da matemática, que estão preocupados
com razões, e não causas, e que tentam estabelecer um padrão
de validade independente das leis empíricas.
Claro, a conduta sexual não é o mesmo tipo de coisa que o
raciocínio matemático. Mas é como a matemática ao envolver
um tipo de entendimento que não pode ser reduzido à explica-
ção causal, e que não é, por conseguinte, necessariamente ele-
vado pela explicação causal de sua própria existência. Nossa
compreensão interpessoal pode ser afetada pelo nosso conheci-
mento da Sociobiologia. Mas isso é um fato peculiar, que não
decorre simplesmente da Sociobiologia explicar o que somos.
Mais amplamente, não devemos aceitar que o termo “so-
cial”, usado por vezes para descrever o comportamento coo-

260
capítulo 7 - a ciência do sexo

perativo dos seres humanos, ou então a aglomeração instintiva


do rebanho, e até mesmo a unidade totalmente cimentada da
colmeia, seja usado de forma inequívoca. Como eu já observei,
o comportamento social dos seres humanos é mediado e trans-
formado por uma concepção de si mesmo. Ele pode estar enrai-
zado no instinto, mas não é redutível ao instinto, não só porque
exemplifica a aprendizagem, mas também porque envolve res-
posta racional. Em particular, envolve a cooperação, quando
uma pessoa se junta com outra, e age a partir de uma concepção
de si mesmo e do outro como reciprocamente envolvidos e mu-
tuamente responsáveis. A diferença entre a cooperação racional
e coesão instintiva – entre o homem e a formiga – é tão grande
que é bastante questionável que um único padrão de explicação
possa ser aplicado a ambos.244 Racionalidade, mesmo quando
vista em termos evolutivos, é a capacidade de inventar soluções
para problemas, de trabalhar individualmente uma resposta
que pode não estar contida na herança da espécie. O ser racio-
nal, portanto, adquire comportamento e crenças que não são
propriedade comum da espécie, e nem poderiam ser: em parti-
cular, ele adquire uma cultura, e sua individualidade e vontade
são mais sensíveis a esta cultura do que a qualquer imperativo
da espécie. Sem dúvida, a teoria da evolução pode explicar por
que temos essa capacidade (isto é, por que nos tornamos melhor
equipados para sobreviver com sua aquisição). Em virtude de a
possuirmos, nos elevamos acima do nível de “espécimes”, e gera-
mos uma nova ordem de comportamento, a ordem da História.

244 O sentido da diferença entre os dois padrões de atividade – o imposto por um programa
genético e o derivado dos atos criativos de cooperação racional – é responsável
pela distinção de Henri Bergson entre instinto e intelecto: Creative Evolution, tr. A.
Mitchell, Londres, 1911. Uma descrição impressionante dos complexos hábitos sociais
de abelhas foi apresentada por Karl von Frisch, The Dancing Bees, an Account of the
Life and Senses of the Honey Bee, tr. D. Ilse, Londres, 1954. O relato de Von Frisch
é discutido proveitosamente por Jonathan Bennett em Rationality, Londres, 1964.
Bennett mostra que a complexidade do comportamento das abelhas, apesar de notável,
não pode justificar sua descrição como uma linguagem; e sem linguagem não há nem
racionalidade, nem “cooperação” genuína, do tipo familiar no mundo humano.
É importante ressaltar que o comportamento dos animais superiores é diferente
dos insetos por exibir aprendizagem, e é, portanto, infinitamente adaptável para o
recebimento de novas informações. Os bergsonianos, que usam o termo “instinto” para
abranger tanto o comportamento dos insetos quanto certos tipos de comportamento
em animais superiores, ignoram esta distinção vital.

261
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

A História é a ordem coletiva que nós mesmos fazemos, e que


traz a marca de nossa própria autoconcepção.
O comportamento racional, como todo comportamento, é
biologicamente causado. Mas isso não significa que ele tem de
ser explicado em termos de composição evolutiva da espécie. A
racionalidade nos dá a capacidade de modificar nossos dotes da
espécie, de maneiras que só podem ser previstas pelas leis que
governam a própria racionalidade. O erro principal da Socio-
biologia é considerar a sociedade como uma formação da espé-
cie: considerar que, por que somos, como espécie, socialmente
organizados, as sociedades humanas devem suas características
dominantes à implantação genética. Pelo contrário, a estrutura
da sociedade precisamente não é a da espécie. A sociedade é
o resultado da cooperação, e a cooperação é um ato racional,
mediada por um senso do eu e do outro enquanto seres respon-
sáveis e que atribuem razões. Ao explicar o comportamento so-
cial, estamos explicando as formas de entendimento intencional.
Alguns sociólogos acompanham Weber na crença de que essa
explicação deve ser de um tipo especial: ela deve envolver um
ato de participação no entendimento intencional que procura
explicar (um ato de Verstehen).245 Nesse caso, é difícil ver como
a teoria da evolução poderia ser alargada para abranger o com-
portamento social. No entanto, não é nada óbvio que Weber
tenha razão: o fato de que uma forma de comportamento é um
modo de entendimento não significa que ele deve ser explicado
por meio da própria compreensão que ele exemplifica. (Poderia
haver uma explicação causal do entendimento matemático, e
isso certamente não seria um pedaço da matemática.) Ao mes-
mo tempo, é evidente que uma teoria do comportamento social
deva incluir o entendimento intencional entre os seus dados.
E isso é precisamente o que a Sociobiologia parece incapaz de
fazer. Pois a Sociobiologia pretende explicar o comportamento
social como o resultado de processos que se manifestam em
toda a ordem evolutiva, mesmo por espécies que não têm enten-

245 Esse termo, introduzido às ciências sociais por Dilthey, e adotado por Weber, tem
o propósito de apreender um ato intelectual familiar, mas elusivo, por meio do
que compreendemos o comportamento e pensamentos dos outros através de uma
identificação parcial com seu ponto de vista. Ver o verbete Verstehen em meu Dictionary
of Political Thought, Londres, 1982.

262
capítulo 7 - a ciência do sexo

dimento intencional. Em outras palavras, ela pretende colocar o


entendimento intencional de lado, como uma mera adição a um
comportamento que pode existir sem ele e que pode ser explica-
do sem explicá-lo. Isto é para negligenciar o fato de que a com-
preensão intencional é constitutiva do comportamento social.
Para disfarçar esta dificuldade, a Sociobiologia iniciou uma
elaborada redescrição do comportamento humano, procurando
anular seu conteúdo intencional. As explicações oferecidas por
sociobiólogos invariavelmente começam a partir de um equí-
voco do que deve ser explicado. O “simiomorfismo” resultante
não é visto sem interesse: nas mãos de demagogos como Des-
mond Morris e Alex Comfort, revelou-se altamente destrutivo
das percepções morais humanas.246 Antes de considerar a socio-
biologia do sexo, é instrutivo nos referirmos à análise do socio-
biólogo de outra instituição social fundamental – a instituição
da propriedade. E. O. Wilson afirma que “a fórmula biológica
do territorialismo se traduz facilmente para os rituais da pro-
priedade moderna. Quando descrito por meio de generalizações
ausentes de ornamentos emocionais e fictícios, esse comporta-
mento adquire um novo aspecto” (grifo meu).247 Ele passa a dar
provas, sob a forma de uma citação do sociólogo Pierre van den
Berghe, cuja descrição de rituais de propriedade em Seattle mos-
tra exatamente o que esta “ausência de ornamentos emocionais
e fictícios” quer dizer – a ausência de tudo o que é distintamente
humano, de tudo o que faz com que o comportamento humano
seja difícil para um sociobiólogo explicar:
Antes de entrar em território familiar, convidados e visitantes,
especialmente se inesperados, passam regularmente por um ritual
de identificação, chamando a atenção, saudando os presentes e
pedindo desculpas por eventuais perturbações. Este intercâmbio
comportamental ocorre ao ar livre se o proprietário for encontrado
lá primeiramente, e é preferencialmente dirigido a adultos. Os filhos
dos proprietários, se encontrados primeiro, são questionados sobre
o paradeiro de seus pais. Quando nenhum proprietário adulto é

246 Estou me referindo a Desmond Morris, The Naked Ape, A Zoologist’s Study of the
Human Animal, Londres, 1967, e também a Alex Comfort, Sex in Society, 1950, ed.
Revisada em 1963, Londres, em que uma descrição completamente revista do ato
sexual é apresentada para mostrar seus prazeres em termos apetitivos.
247 On Human Nature, p. 109.

263
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

encontrado ao ar livre, o visitante normalmente vai até a porta da


habitação, onde ele faz um barulho identificador, quer batendo à
porta ou tocando um sino se a porta estiver fechada, ou, se a porta
estiver aberta, simplesmente usa a voz. O limiar normalmente só é
transposto após o reconhecimento e convite do proprietário. Mesmo
assim, os convidados só estão livres para entrar na sala de estar,
e costumam fazer pedidos adicionais para acessar outras partes da
casa, como um banheiro ou quarto.
Quando um visitante está presente, ele é tratado pelos outros
membros do clube [residência de férias] como uma extensão de seu
anfitrião. Ou seja, os seus privilégios limitados de ocupação territorial
abrangem apenas o território de seu anfitrião, e ele será responsável
por quaisquer transgressões territoriais dos hóspedes. (...) As crianças
também não são tratadas como agentes independentes, mas como
extensões de seus pais ou de um adulto “responsável” por eles, e as
transgressões territoriais de crianças, especialmente se repetidas, são
assumidas pelos pais ou responsáveis.
A estrada de terra que atravessa o terreno é livremente acessível a
todos os membros do clube, que podem usá-la para ter acesso a seus
lotes e para fazer caminhadas. A etiqueta obriga os proprietários a
cumprimentar uns aos outros quando se veem ao ar livre, mas os
proprietários não se sentem à vontade para entrar no lote do outro
sem algum ritual de reconhecimento. Este ritual é, no entanto, menos
formal e elaborado para entrar na parte aberta do que para entrar
nas casas.248

Uma bolsa de pesquisa que permite que alguém passe o verão


em um clube de férias e chame o diário resultante de “sociolo-
gia” claramente não deve ser menosprezada. É evidente, no en-
tanto, que o observador ou não tem humor ou é um alienado. A
realização da cortesia, pela qual uma pessoa entra em uma casa
apenas quando convidada pelo ocupante, é descrita em uma lin-
guagem apropriada para o ritual territorial das aves: “o limiar
normalmente só é transposto após o reconhecimento e convite
do proprietário”. O fato de as pessoas pedirem permissão antes
de usar o banheiro torna-se um aspecto peculiar da necessidade
de “pedidos adicionais para acessar outras partes da casa”. Al-
guns dos comportamentos só podem ser descritos em função de
um conceito moral que informa o entendimento intencional dos
participantes. O conceito é, então, colocado entre aspas para

248 Pierre van den Berghe, citado em Wilson, ibid., p. 109-10.

264
capítulo 7 - a ciência do sexo

indicar que, com o inevitável avanço da ciência sociológica, se-


remos capazes de dispensá-lo em breve. Assim, um adulto não é
responsável por uma criança, mas apenas “responsável.” A con-
versa é um “intercâmbio comportamental”, um discurso edu-
cado é um “ritual de reconhecimento”, um homem anunciando
a si mesmo “faz um barulho identificador”, e assim por diante.
Ao mesmo tempo, a descrição dada é tão reveladora do que
está acontecendo quanto uma descrição de uma conversa dada
por alguém que desconhece a língua e observa os interlocutores
pelo lado errado de um telescópio. Não é mais do que um olhar
superficial de um comportamento que, avaliado do ponto de
vista do significado, é inteligível para qualquer pessoa, embora
inteligível em outros termos que não esses – em termos de in-
tenção, cortesia, amizade, responsabilidade, reconhecimento de
si e do outro; em suma, em termos que, embora familiares ao
nosso entendimento intencional do mundo humano, resistem à
“tradução” para a língua da Sociobiologia.
Nada disso teria importância se os sociobiólogos simples-
mente admitissem sua ignorância. No entanto, eles não de-
monstraram qualquer disposição em fazê-lo. E. O. Wilson, por
exemplo, não hesita em tirar conclusões morais que, apesar do
distanciamento de tudo o que sabemos sobre a condição hu-
mana, são feitas com a plena confiança de alguém que está fi-
nalmente trazendo clareza científica a um mundo de confusão
atávica. Ele defende que “tudo o que podemos deduzir da histó-
ria genética do homem indica uma moralidade sexual mais libe-
ral, em que as práticas sexuais devem ser consideradas primeiro
como dispositivos unitivos e apenas em segundo lugar como
meio de procriação”. 249 Ele não só secretamente admite que a
conduta sexual não é determinada geneticamente e, portanto,
inexplicável por seu método; ele também mostra a extensão de
seu desrespeito à “ciência” que o orienta. Se for verdade que as
práticas sexuais são principalmente dispositivos unitivos, elas
devem inevitavelmente ser circunscritas por todos os medos e
ciúmes da afeição humana – e, portanto, atrairão para si uma
moralidade sexual “iliberal”, que vê valor na fidelidade, na mo-
déstia e na contenção, e perigo na dissipação promíscua. Se,

249 Ibid., p. 142.

265
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

por outro lado, as práticas sexuais são principalmente disposi-


tivos reprodutivos, poderíamos liberá-los de vez, simplesmente
desenvolvendo formas eficazes de criação impessoal, talvez no
modelo do Admirável Mundo Novo. O fato de que Wilson possa
extrair, de forma tão natural, precisamente a conclusão oposta
das implicações de suas observações “científicas” mostra, creio
eu, a natureza leviana da “ciência” de que ele as deriva.

Uma nota sobre Schopenhauer


A idéia de que o desejo sexual deve ser entendido em função
de estratégia impessoal e de longo prazo das espécies não é,
de modo algum, uma invenção da Sociobiologia. Schopenhauer,
em um ensaio espetacular anexado a O Mundo como Vonta-
de e Representação,250 deu voz à teoria com uma franqueza e
penetração psicológica que nenhum sociobiólogo foi capaz de
corresponder. Schopenhauer é interessante, também, em sua
tentativa de conciliar uma teoria “da espécie” de desejo sexual
com o reconhecimento da individualidade do objeto sexual. Ele
distingue amor de “impulso sexual”, argumentando que a “pai-
xão de estar apaixonado”
é dirigida a um objeto individual, e só a ele, e parece, por assim
dizer, como uma hierarquia especial da espécie. Pela razão oposta,
o mero impulso sexual é vil e ignóbil, porque se dirige a todos, sem
individualização, e se esforça por manter a espécies em função da
quantidade, com pouca consideração para a qualidade. [Cf. a teoria
dos rituais de acasalamento dos sociobiólogos dada anteriormente.]
Mas a individualização, e com ela a intensidade de estar apaixonado,
pode chegar a tão alto grau que, sem a sua satisfação, todas as coisas
boas do mundo – e até a própria vida – perdem seu valor.251

Como é que esta individualização pode ser explicada em ter-


mos das necessidades da espécie? Schopenhauer oferece uma
variedade de respostas. Em um ponto, ele parece sugerir que a
individualização do objeto de desejo é provocada pela individu-
alidade do seu produto – o novo eu que vai nascer a partir do
ato de união sexual. A união dos pais traz “precisamente esse

250 A. Schopenhauer, The World as Will and Representation, tr. E. J. F. Payne, Indian Hills,
Colorado, 1958, vol. II, cap. 44, “The Metaphysics of Sexual Love.”
251 Ibid., p. 549.

266
capítulo 7 - a ciência do sexo

indivíduo pelo qual a vontade-de-viver em geral, exibida em


toda a espécie, anseia”.252 Em outros pontos, claramente insa-
tisfeito com essa explicação fantástica e praticamente ininteli-
gível, Schopenhauer tenta dar uma caracterização funcional da
individualidade do objeto sexual. A paixão, diz ele, será “mais
poderosa quanto mais individualizada for;” 253 assim, centran-
do-se no indivíduo, a paixão ganha uma maior chance de re-
alizar os projetos da espécie. Ela supera a resistência que nós
(em nosso desgosto bastante razoável da idéia de que todo esse
negócio miserável seguirá de geração em geração) naturalmente
tendemos a oferecer às maquinações do desejo. (Novamente,
há uma analogia com a explicação do sociobiólogo do cortejo
e competição.) No entanto, é também uma idéia da metafísica
de Schopenhauer que o indivíduo é uma aparência efêmera e,
em certo sentido, ilusória. O que eu realmente sou não é o eu
individual, mas a vontade universal, que, embora se manifeste
em mim, sobrevive à minha destruição individual. E, uma vez
que o desejo sexual é uma manifestação da vontade, ele decorre,
em última instância, daquilo em mim que não é individualizado.
É, conforme Schopenhauer, a parte imortal em mim que anseia
se unir a você, e essa parte imortal é a vontade da espécie que,
como “coisa em si”, “livre do principium individuationis”,254 é
a soma e a dissolução de todos os agentes individuais.
O significado de Schopenhauer não é totalmente explicável
fora do contexto do seu sistema metafísico. No entanto, apesar
de suas vacilações, podemos ver aqui uma corajosa tentativa de
conciliar os fatos do desejo sexual – em particular, o fato de sua
intencionalidade individualizante – com uma teoria que dá o
devido destaque à natureza da nossa espécie e ao fato óbvio de
que a espécie tem interesses que podem ser frustrados por uma
ênfase exagerada sobre a santidade da alma individual. Além
disso, por trás da referência de Schopenhauer ao principium in-
dividuationis reside uma interessante teoria da individualidade.
De acordo com Schopenhauer, a idéia de existência individu-
al pertence exclusivamente ao mundo da “representação:” esta
é a forma como vemos o mundo, mas não como o mundo é

252 Ibid., p. 537.


253 Ibid., p. 537.
254 Ibid., p. 559.

267
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

“em si”. É precisamente quando eu olho para mim mesmo,


e tento compreender a individualidade que sou eu, que tomo
consciência da realidade interior, da coisa-em-si, que não é a
aparência, mas vontade. Isto, no entanto, não é, e não pode
ser, individualizado. Eu conheço isso em mim, mas o que eu
conheço não sou eu, nem você, nem ninguém. Somente no ato
de conhecer que parece ser, por um momento, um eu individual,
mas, em seguida, nem o conhecedor nem o conhecido podem,
mesmo naquele momento, reivindicar o título de forma inteligí-
vel. Daí que a ânsia pelo indivíduo, que se manifesta no desejo,
seja o surgimento de uma força ao mesmo tempo universal e im-
pessoal, que rege as nossas vidas com a lei imparcial da espécie
e dissolve nossa individualidade no próprio ato de união pelo
qual individualmente almejamos.
A Sociobiologia de Schopenhauer, que pretende ser fiel à fe-
nomenologia do desejo, apenas se salva por entrar nessas tur-
bulentas águas metafísicas. E mesmo que exista uma moralida-
de que flutua como uma névoa acima delas (uma moralidade
muito em desacordo com os entusiasmos de Edward Wilson e
Desmond Morris), sua correnteza metafísica é tão perturbada
que poucos podem se aventurar nela. Schopenhauer nunca hesi-
tou em pagar o preço mais alto possível por seus “insights” – o
preço de uma metafísica ininteligível. Mas não podemos arcar
com o custo, e nenhuma “ciência” do sexo, por mais sofisticada,
poderia seguir os passos de Schopenhauer. É salutar, portanto,
ver que preço foi pago pelas conclusões a que visa o sociobiólo-
go, e o que ele precisa atingir pela aplicação paciente da ciência
empírica.
Há, no entanto, duas lições a serem aprendidas com a So-
ciobiologia. Em primeiro lugar, não podemos ignorar o fato de
que somos animais, e que em nossa conduta sexual nos confor-
mamos às leis genéticas que governam a reprodução animal.
Por mais rude que a literatura existente da Sociobiologia seja,
a tese fundamental não pode ser rejeitada, e qualquer teoria do
desejo incompatível com ela deve ser imediatamente colocada
sob suspeita.
Em segundo lugar, a verdade científica da hipótese evolutiva
tem implicações relativas à intencionalidade do desejo. Agora que
sabemos os fatos da reprodução humana, o impulso irresistível

268
capítulo 7 - a ciência do sexo

do desejo parece-nos uma convocação: a demanda imperiosa


da futura geração a nascer se faz conhecida para nós no desejo.
Quando olhamos para nossos filhos, e quando olhamos para a
pessoa a quem desejamos, ouvimos a mesma exigência impla-
cável, e nos submetemos, no final, a um tipo de tirania impes-
soal. Em cada momento de nossas relações com aqueles a quem
amamos ou desejamos, somos abordados por algo além de nós
mesmos, como as multidões que pairam no limiar da existência
nos chamam com vozes confusas e suplicantes.
Na National Gallery, em Washington, há uma pintura de
Poussin da amamentação do infante Júpiter, em que a energia
inflada, imperiosa, egoísta do recém-nascido é retratada como
uma qualidade da carne. A criança suga o leite de cabra por
um chifre, e absorve, junto com ele, a energia de todos os que o
cercam. O rosto ansioso, confuso, da ninfa que segura o chifre
aos lábios do deus; a atenção fervorosa do pastor ordenha da
cabra; a fixidez vitrificada de seu companheiro, estupidificado
pela completa concentração do recém-nascido: tudo expressa
a tirania absoluta de uma nova vida sobre a vida existente,
do Deus que é todo futuro sobre o presente humano, que ab-
negadamente se exaure na nutrição de um poder que nunca
vai recompensar sua devoção. A ânsia que nos leva a submeter
à tirania de uma criança está prefigurada no desejo. Também
aqui somos altruístas, absortos, estupidificados por uma for-
ça que nos atrai inexoravelmente para outro ser humano. Na
convocação para o sacrifício, sentimos a premonição da morte;
pois só temos isto a fazer, a fim de nos tornarmos dispensáveis.
Estes aspectos da nossa situação “biológica” alimentam nossa
compreensão intencional, e – por mais que possamos embele-
zar nosso desejo com contos de fada kantianos – nós sabemos,
em nossos corações, que a coisa que nos supera em desejo fun-
ciona através do outro, mas não provém inteiramente dele. Por
isso, como Schopenhauer reconheceu, traímos a nós mesmos
no desejo e, se nos tornarmos furtiva, talvez seja para escapar
da nossa própria percepção.
Wagner alegou que a filosofia de Tristan und Isolde vem de
Schopenhauer. E podemos ver nas observações acima (por mais
afastadas que possam ser do ponto de vista de Schopenhauer que
influenciou Wagner) um canal para a explicação da melancolia

269
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

de Tristão. Tristão ama uma mulher de quem seus filhos não


podem nascer. Em sua “escolha amorosa”, que é também um
destino, Tristão e Isolda se afastam da “vida da espécie”. Nada
justifica ou cumpre sua união, salvo a intensidade que a obriga.
Nenhuma nova vida zomba da apreensão mortal do desejo, e
o eu de Tristão perde-se olhando o eu de Isolda como se fosse
um poço sem fundo. A raça de Tristão morre com ele, extinta
pelo seu próprio desejo. O trabalho de sua autocriação foi em
vão, e quando ele fala em seu delírio ao Urvergessen255 a que sua
alma está destinada, não é Tristão quem fala, mas a semente de
Tristão, condenada por sua própria individualidade infrutífera
ao perpétuo nada.

O inconsciente
A Sociobiologia oferece uma explicação para a “escuridão”
do desejo – para o fato de que eu estou preso por esta paixão
e conduzido por uma força que é mais forte do que eu, maior
do que eu, e de alguma forma misteriosa alheia a mim. Não é a
única explicação que foi dada para o fato de que o desejo sem-
pre parece exagerar o seu objetivo. Em O Banquete, Aristófanes
descreve a situação da seguinte forma:
Os parceiros não podem sequer dizer o que esperam um do
outro. Ninguém poderia imaginar que isto seja apenas uma relação
sexual, ou que só isso seria a razão pela qual cada um se alegra tão
avidamente na companhia do outro: obviamente, a alma de cada um
deseja algo mais que não pode expressar, e só revela o que deseja por
adivinhações ou obscuras insinuações.256

Aristófanes oferece sua famosa explicação cômica da natu-


reza enigmática do desejo: cada um de nós, diz ele, é corporal-
mente separado da sua outra metade, e é conduzido misteriosa-
mente por seu corpo a se unir com seu parceiro em falta.
A lenda de Aristófanes ilustra um dos temas perenes do dis-
curso erótico. Porque o objetivo do desejo é tão opaco para nós,

255 Neologismo cunhado por R. Wagner no seu Tristão e Isolda (Ato III). O prefixo “ur”
significa “antigo”, “original;” “vergessen” é um verbo que se traduz por “esquecer.”
“Esquecimento primitivo”, “desconhecimento primordial” e “desaparecimento” não são
traduções exatas, mas se aproximam da idéia que encerra o vocábulo – NT.
256 Platão, Banquete, 192c.

270
capítulo 7 - a ciência do sexo

e porque a satisfação imediata do desejo parece, em retrospecto,


uma recompensa tão inadequada pelo trabalho de persegui-lo, é
dado ao desejo um motivo inconsciente – um motivo que se ori-
gina fora do eu, na escuridão de natureza orgânica. O primeiro
tratado importante dedicado ao “inconsciente” – Philosophy of
the Unconscious de Eduard von Hartmann – também aborda a
questão de Aristófanes, perguntando “por que o instinto sexual
se concentra exclusivamente neste indivíduo e não em naquele”,
que é, de acordo com Hartmann, “a questão dos motivos deter-
minantes desta exigente seleção sexual”.257
Hartmann, baseando-se nos argumentos de Schopenhauer,
alega que a questão não pode ser respondida apenas por referên-
cia ao objetivo consciente do desejo: não há nada na intenciona-
lidade consciente que explique o “percurso do desejo” na união
e no amor. Portanto, Hartmann propõe uma intencionalidade in-
consciente como a única resposta possível à pergunta metafísica:
A natureza ilimitada da ânsia e do esforço surge, então,
precisamente da inefabilidade e incompreensibilidade de um
objetivo consciente, o que seria absurdo, não fosse um propósito
inconsciente a mola invisível deste poderoso aparelho de sentimento
– um propósito inconsciente de que só podemos dizer que a união
sexual desses indivíduos particulares deve ser o meio para a sua
realização. 258

Hartmann oferece uma descrição sagaz e vigorosa do desejo;


mas ele não é mais bem-sucedido do que Aristófanes ou Scho-
penhauer para explicar a sua intencionalidade. Sua conclusão
– que o propósito oculto de desejo é “fazer nascer tal indivíduo
que mais completamente represente a idéia da raça”259 – é tam-
bém a de Schopenhauer, e não promete uma explicação nem da
intencionalidade individualizante do desejo, nem de sua força
avassaladora. É amplamente instrutivo para nós porque mostra
a gênese de uma idéia moderna importante. Para Hartmann, o
inconsciente é um repositório de motivos que são constituídos
organicamente, e também, ao mesmo tempo, dotados de uma
intencionalidade distintamente pessoal.

257 Eduard von Hartmann, Phylosophy of the Unconscious, tr. W. C. Coupland, Londres,
1884, p. 223.
258 Ibid., p. 232.
259 Ibid., p. 238.

271
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Psicologia freudiana: o problema geral


O expoente mais importante dessa idéia foi Freud, que, como
os sociobiólogos, tinha esperança de fornecer uma teoria da na-
tureza humana e da sexualidade humana que poderia, eventual-
mente, receber uma base biológica. Essa inclinação para a biolo-
gia determinou grande parte do imaginário e da linguagem que
ele usou para formular suas idéias. As afirmações científicas das
teorias de Freud foram freqüentemente questionadas, e é justo
dizer que poucos as aceitariam agora nos termos em que foram
inicialmente propostas. No entanto, as teorias de Freud conti-
nuam a ser extremamente influentes, e são aceitas como algo
mais do que uma descrição fantasiosa. Quaisquer que sejam os
defeitos da apresentação do próprio Freud – que é amplamente
tida como flutuante, assistemática e cheia de metáforas – consi-
dera-se que suas teorias representam descobertas e explicações
genuínas de fatos outrora misteriosos. É importante examinar
essas alegações. Enquanto faço essas considerações, considera-
rei Freud não só pelo que ele mesmo escreveu, mas também por
sua influência. E apesar da falta de espaço para considerar os
escritos de seus discípulos, acredito que a substância de minhas
críticas será igualmente contrária às teorias sexuais de Melanie
Klein e, até certo ponto, às de Wilhelm Reich – possivelmente
os dois escritores psicanalíticos pós-freudianos mais influentes
sobre sexo.260 Freud e o freudismo adentraram de tal maneira
as formas modernas de pensar em sexo que o leitor pode ficar
pasmo ante minha afirmação de que Freud não era nem um
observador preciso nem um teórico plausível. No entanto, creio
que esta pretensão tanto seja verdadeira como de esmagadora
importância para qualquer pessoa preocupada em resgatar a
moralidade sexual do pântano para o qual as formas modernas
de pensar a seduziram.
A análise de Freud da sexualidade humana – feita de múltiplas
maneiras em vários períodos diferentes de sua vida – é fundada
numa metáfora da mente humana. Para Freud, a consciência é
um mero compartimento da mente, e a divisão entre processos

260 Melanie Klein, Envy and Gratitude, a Study of Unconscious Sources, Londres, 1957;
Wilhelm Reich, The Function of the Orgasm, 1968, tr. V. R. Carfagno, Nova York, 1973,
Londres, 1983.

272
capítulo 7 - a ciência do sexo

mentais conscientes e inconscientes é explicada em termos de


uma analogia dinâmica. A mente é estruturada por forças e bar-
reiras: estados mentais são empurrados para o inconsciente pela
repressão, e mantidos lá por defesa; ou então eles rompem essa
defesa e são elevados em uma crista de libido para o mundo da
ação. O consciente e o inconsciente denotam diferentes regiões
de um espaço interno, uma iluminada, a outra escura, e dentro
deste espaço grandes forças psíquicas lutam pela ascendência. A
região de luz é dominada pelo ego, ativamente engajada em se
defender do conteúdo do id. Nos ombros do ego, pouco visível,
mas sempre presente, está o “superego”, que é ao mesmo tempo
mestre e criação do ego que ele atormenta.
O valor científico da imagem depende se ela pode ser tradu-
zida em uma teoria da mente literal e explicativa. Os fenômenos
mentais poderiam ser atribuídos a uma explicação causal, de
forma que tornem tal descrição adequada (ou talvez um pouco
fantasiosa)? Alguém poderia, por exemplo, imaginar uma ver-
são neurofisiológica da teoria, que identifique as “forças”, “bar-
reiras” e “espaços interiores” em termos acessíveis à investiga-
ção empírica? É provável que Freud esperasse eventualmente
por tal tradução,261 e, de qualquer modo, não teria sido avesso a
isso. Ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que o próprio imagi-
nário – de ego e id, de “força psíquica” e “resistência psíquica”
– desde a sua principal inspiração e seus freqüentes referências
a uma “química” subjacente da psique humana não foi acom-
panhada por nenhuma teoria séria. Quando confrontado com a
tarefa de dar sentido a algum fenômeno psicológico particular,
Freud usava o imaginário, e não como uma explicação provisó-
ria para alguma teoria que seria fornecida, mas como uma re-
presentação literal dos fatos. Por conseguinte, poder-se-ia dizer
(e de fato foi dito) que a metáfora de Freud não serve como te-
oria, mas como mito, e não dá sentido aos fenômenos humanos
da maneira que a ciência faz, mas da maneira que o mito faz:
contando histórias que revelam uma lógica consoladora no que
nos parece estranho e incontrolável.

261 O tipo exato de teoria por que esperava é matéria de disputa. Um candidato possível é
dado por Richard Wollheim, Sigmund Freud, Modern Masters, Londres e Nova York,
1971.

273
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Além disso, é duvidoso que a metáfora freudiana possa ser


traduzida e ainda manter o seu poder. Como mito, ela pertence
ao reino da compreensão intencional, proporcionando-nos uma
redescrição dos nossos estados mentais, em termos que ajustem
e corrijam nossas atitudes em relação a eles. Como teoria cien-
tífica, no entanto, ela deve sair do reino intencional, e assistir ao
que lhe está subjacente. Mas como ela poderia fazer isso e ainda
manter a idéia dominante de uma disputa entre ego, superego e
id? Ao mesmo tempo, essa idéia é altamente antropomórfica, e
retê-la é abrir a teoria para uma objeção séria. O ego é interpre-
tado como “observador interno” de seus estados mentais, um
inspetor cartesiano, protegendo-se do que ele não quer saber, e
examinando o que é permitido. A menos que ele aja para impedi
-los, os estados mentais são impulsionados das profundezas da
escuridão para o reino da visão. O ego, portanto, é visto como
uma espécie de agente, para quem o pronome “eu” é realmente
apropriado. Nós só podemos entender a idéia de um único e
mesmo estado mental que está ora “no” consciente, ora “no” in-
consciente por meio de alguma teoria do “observador interno”,
para quem as coisas são alternadamente reveladas e ocultas.
Os estados do inconsciente, não sendo observados por ele, não
são realmente seus – eles não estão “em sua mente”. A menos
que ele também seja dividido em uma seção consciente e outra
inconsciente, abrindo assim a perspectiva de um eterno mis en
abîme, sem nenhum observador final e, portanto, sem sujeito
da experiência em absoluto – deve ser verdadeiro, pelo menos,
que sua consciência e sua mentalidade são uma única e a mesma
coisa. Mas, então, imediatamente pode-se entender que tudo o
que nos leva a dizer que os estados mentais do ego são todos ne-
cessariamente conscientes pode nos levar a dizer o mesmo dos
nossos. Pois ele é uma reprodução exata da pessoa humana –
ele é o “homenzinho interior”, o verdadeiro agente de todos os
nossos atos e o destinatário real de todas as nossas impressões.
Não há outra maneira de manter a metáfora freudiana. Deve-
mos assumir que o ego seja uma pessoa, em guerra com alguém
que ele nunca pode ver, e que ele conhece apenas através do
efeito dessas “forças” pelas quais o id tenta subvertê-lo. Apenas
nesta hipótese é que podemos pensar nos processos inconscien-
tes como processos mentais: são mentais, porque podem a qual-
quer momento se tornar conscientes, no ego. Se descartarmos

274
capítulo 7 - a ciência do sexo

a metáfora, e dissermos que o “ego” não é um tipo de pessoa,


mas simplesmente uma “região” do espaço mental, perderemos
todas as razões para pensar que as forças “inconscientes” são
realmente mentais. Por que não dizer, agora, que eles são as
forças que influenciam o reino mental, embora não pertençam
a ele? Em particular, por que assumir (como Freud assume) que
eles mantêm, em sua forma “inconsciente”, a intencionalidade
particular da mente? Só se o fizerem que a explicação freudiana
tratar do que pretende explicar; pois a influência do inconscien-
te é (supostamente) a influência de um conteúdo intencional. E
ainda assim não há motivos para pensar que um conteúdo pos-
sa ser mantido nas regiões mais obscuras. Dado o fato evidente
de que nem eu nem o meu “id” podem se confessar a um estado
inconsciente, é difícil ver como tal conteúdo intencional poderia
ser atribuído de forma confiável.
Se nós descrevermos os processos “inconscientes” sem usar
idéias de conteúdo, a teoria de Freud deixa de resistir à tra-
dução para o idioma empírico. Ela dá lugar a uma idéia mais
comum e (pela perspectiva intencional) menos esclarecedora,
de que a mente responde a eventos e processos de que não tem
conhecimento, e que alguns desses processos podem ser cau-
sados por
​​ experiências que foram esquecidas. Para retornar
esta explicação ao seu esquema freudiano, devemos dizer que
o esquecimento era ao mesmo tempo “intencional” e, em certo
sentido, irreal (uma vez que pelo menos o id se lembra). Em
outras palavras, devemos ressuscitar a metáfora. Um relato ver-
dadeiramente científico – um que elimine a metáfora por com-
pleto – teria de dispensar toda essa linguagem. Mas também
dispensaria qualquer referência ao “inconsciente” e a qualquer
tentativa de atribuir intencionalidade a estados cujo conteúdo
não é representado no comportamento que os expressa.
Evidentemente, o conteúdo intencional pode ser atribuído a
processos, mesmo quando este conteúdo não puder ser expresso
pela coisa na qual ocorrem os processos (os estados mentais dos
animais, por exemplo). Mas a atribuição de conteúdo a eventos
no mundo natural é um exercício de entendimento intencional,
a que devemos naturalmente renunciar em favor de explica-
ções mecanicistas, se compreendermos a verdadeira causalida-
de das coisas. A explicação científica coloca todas as idéias de

275
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

conteúdo em perigo, e uma explicação que depende de tais


idéias não pertence à ciência, mas à compreensão intencional.
Freud tentou complicar a idéia do “eu”, já que isso ocorre em
nossos pensamentos diários sobre nós mesmos, a fim de trazer
para dentro da esfera da autocompreensão eventos e ações que
outrora estavam além dela. A teoria que justifica esta extensão
não é científica, mas mitológica. Talvez, por isso, o verdadeiro
critério de seu sucesso não seja explicativo, mas prático – em
que medida, por exemplo, alcança o sucesso terapêutico a que
se destina?262

Freud: a teoria específica


Suponhamos, porém, que podemos evitar essas acusações e
reconstruir a teoria freudiana eliminando todos os componen-
tes metafóricos. Tal empreendimento pode ser possível para as
partes da teoria que nos interessam – as partes que tratam da
psicologia do sexo. De qualquer forma, vale a pena examinar a
teoria da sexualidade de Freud em seus próprios termos, a fim
de descobrir se, curada de suas dificuldades filosóficas, pode,
pelo menos, fornecer uma descrição correta – talvez até mesmo
uma explicação – dos fenômenos sexuais. Vou mostrar que ela
não pode fazer nenhuma das duas coisas.
Os elementos da teoria de Freud não são fáceis de montar, e
a teoria mudou ao longo do tempo. Presumo que o seguinte es-
boço não seja uma distorção muito grande: as experiências se-
xuais estão enraizadas em um instinto, e “o instinto sexual é, em
primeira instância, independente de seu objeto”.263 Este instinto
é posteriormente identificado como uma força (a “libido”), re-
presentada como um princípio em desenvolvimento, que estru-
tura o comportamento sexual e o caráter emocional do sujeito.
O instinto sexual gradualmente adquire seus objetos, por um
processo de “fixação”, começando por várias excitações do cor-

262 Essa idéia funcionalista de mito é familiar aos escritos de Georges Sorel (especialmente
Réflexions sur la violence, Paris, 1908); sua aplicação à psicanálise parece estar implícita
na discussão de Wittgenstein em Lectures and Conversations on Aesthetics, Freud, and
Religious Belief, ed. C. Barret, Oxford, 1966.
263 “Three Essays on Sexuality” (1905), republicado pela Penguin Freud Library, vol. 7: On
Sexuality, ed. J. Strachey e A. Richards, Harmondsworth, 1977, p. 60.

276
capítulo 7 - a ciência do sexo

po, e passando para as circunstâncias que elas despertam. Entre


estas excitações estão as experiências sensoriais nas chamadas
zonas “erógenas” (ou “erotogênicas”), e as principais circuns-
tâncias de sua excitação precoce estão conectadas ao drama
familiar. A libido se desenvolve juntamente com uma resposta
em desenvolvimento às relações familiares, e os sentimentos de
uma criança em relação a seus pais exerce uma influência de-
terminante sobre o seu instinto natural pela gratificação sexual.
O “objetivo sexual” normal resultante do desenvolvimento da
libido é “a união dos órgãos genitais no ato conhecido como có-
pula, que leva a uma liberação da tensão sexual e a uma extin-
ção temporária do instinto sexual – uma satisfação”, acrescenta
Freud, “análoga à satisfação da fome”. 264 Às vezes, o instinto
vai “catexizar” outros objetos (como no fetichismo), ou vai ser
“sublimado”, que, para Freud, significa isolado por completo
do ato sexual, e transformado em uma atitude contemplativa
que dota o seu objeto com um nimbo moral. A perversão sexual
envolve dirigir o instinto sexual para um objetivo anormal.
Por vezes Freud tentou vincular sua teoria da libido e seu
desenvolvimento com uma teoria biológica geral dos instintos.
Assim, em um ponto que ele define um instinto como uma “re-
presentação psíquica de uma fonte de estímulo endossomática
que flui continuamente”,265 enquanto “a fonte de um instinto
é um processo de excitação que ocorre em um órgão, e o ob-
jetivo imediato do instinto reside na remoção desse estímulo
orgânico”.266 A excitação sexual é o resultado de “alterações
químicas”’ nas “zonas erógenas”,267 e o objetivo da atividade
sexual é, portanto, um regresso à normalidade pela reversão
dessas alterações (um exemplo do “princípio homeostático”).
Dois outros aspectos da teoria devem ser mencionados: o
conceito de repressão e a idéia da sexualidade infantil. Parece
implícito na abordagem de Freud que o desenvolvimento sexual
humano, não fosse pela repressão, seria semelhante ao desen-
volvimento sexual dos animais. Ou seja, ele rumaria em direção

264 Ibid., p. 61.


265 Ibid., p. 83.
266 Ibid., p. 83.
267 Vou discutir o significado desse termo adiante. Ver também a nota 273.

277
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

a um instinto reprodutivo generalizável, uma necessidade de co-


pular que poderia ser satisfeita como a fome, sem evocar qual-
quer emoção interpessoal. Com imagens caracteristicamente
hidráulicas, Freud fala que o instinto sexual é obstruído por
certas “represas mentais”; esses obstáculos ao livre fluxo do
instinto sexual são “aversão, vergonha e moralidade”268 – e ele
trata os três fenômenos como se fossem, de um ponto de vista
psicológico, pareados, diferentes espécies de inibição. Cada um
deles deve ser distinguido, no entanto, da força mais fundamen-
tal que os explicam – a repressão.
A idéia de repressão é complexa, e faz parte de uma teoria
que o próprio Freud nunca expôs de forma sistemática, e que só
recentemente começou a adquirir uma forma canônica.269 Deve-
mos distinguir a repressão primária (que ocorre na infância) da
repressão propriamente dita (o que ocorre mais tarde na vida).
A primeira garante que certas experiências infantis e traumas
submerjam no id; a segunda assegura que permaneçam lá. A
primeira é um processo, a segunda uma força. Ambas podem
ter mais ou menos sucesso, e ambas podem ser mais ou menos
fortes. Ao discutir a teoria, Freud tende a variar a metáfora,
misturando o hidráulico e o manifestamente biológico. Ele fala
do escudo “protetor”, que a “vesícula viva” erige contra estímu-
los externos, e a necessidade adicional de tal vesícula (o córtex)
se proteger dos estímulos destrutivos que a assaltam de dentro:
Um evento como um trauma externo obrigatoriamente provoca
uma perturbação em grande escala no funcionamento da energia
do organismo e coloca em movimento todas as medidas de defesa
possíveis. Ao mesmo tempo, o princípio do prazer é momentaneamente
silenciado. Não há mais qualquer possibilidade de impedir que
o aparelho mental seja inundado com grandes quantidades de
estímulo, e surge, então, outro problema – o problema de dominar
esses estímulos que invadiram o aparelho mental e aprisioná-los, no
sentido psíquico, para que possam ser eliminados.270

268 “Three Essays”, p. 94.


269 Ver especialmente a dolorosa reconstrução em Peter Madison, Freud’s Concept of
Repression and Defense, its Theoretical and Observational Language, Minneapolis, 1961.
270 S. Freud, Beyond the Pleasure Principle, edição padrão das obras de Freud, ed. J.
Strachey, Londres, 1955, vol. XVIII, p. 29-30.

278
capítulo 7 - a ciência do sexo

Assim ocorre a grande força “anticatexial” da repressão,


que serve para prender o estímulo invasor e forçá-lo para fora
da consciência. A citação mostra a extensão em que a teoria
manteve-se ligada à metáfora. Nós podemos aceitar, no entan-
to, que tem forte conteúdo empírico, e implica “sentenças de
observação” testáveis. (A teoria implica, por exemplo, que de-
terminados assuntos serão silenciados, ou “tabus”, e que certos
impulsos, nomeadamente o impulso sexual, serão sufocados
por hesitações.) Alguns filósofos (como Karl Popper e Ernst
Nagel)271 defenderam que a teoria freudiana não tem poder pre-
ditivo genuíno, uma vez que não implica qualquer observação
testável: mas eu não acho que essa objeção se sustente. A teoria
freudiana tem tanto termos teóricos quanto conteúdo empírico.
O problema é que a transição da primeira para a segunda passa
por uma metáfora ineliminável. Nisto ela difere de todas as te-
orias científicas genuínas, que contêm um núcleo de significado
que nos diz literalmente como as coisas são (apesar de modelos
e metáforas muitas vezes serem necessários para compreendê
-las). As forças e contra-forças, catexias e anticatexias da teoria
freudiana são descritas em termos irredutivelmente “psíquicos”
– não como processos fisiológicos, mas como ações mentais.
(Isto é o que se entende pela idéia de Freud de que as forças in-
vasoras devem ser “aprisionadas, no sentido psíquico, para que
possam ser eliminadas”.) Os conteúdos da mente são descritos
em linguagem intencional, na linguagem das aparências, embo-
ra denotem eventos e processos que (por causa da repressão)
não podem aparecer. Se tentarmos encontrar uma descrição
“mecânica” dessas forças – como as correntes, por exemplo, no
sistema nervoso – descobrimos que não podemos mais explicar
o que nos propúnhamos, referindo-nos a elas. As idéias funda-
mentais de “ego”, “id” e “superego” agora desaparecem. Tais
idéias não sobrevivem à tradução do idioma intencional para
a língua da ciência investigativa. Entre os processos fisiológi-
cos há organização, mas não há ego; força e contra-força, mas
nenhuma ação. As idéias de “defesa” e “repressão”, portanto,

271 Sir Karl Popper, Conjectures and Refutations, Londres, 1963, cap. 1, p. 34-5; Ernest Nagel,
“Methodological Issues in Psychoanalytic Theory”, em S. Hook (ed.): Psychoanalysis,
Scientific Method, and Philosophy, Nova York, 1959, p. 38-56.

279
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

desaparecem, e com elas a teoria que nos obrigou a ver essas


forças em termos mentais como respostas a uma ameaça.
Mais uma vez, podemos colocar a objeção de lado e assumir
que a teoria da repressão e da defesa tem todo o poder expli-
cativo que afirma. A fim de examinar a imagem resultante da
estrutura interna do desejo sexual, é preciso combiná-la com
a teoria freudiana da sexualidade infantil. Para Freud, a vida
sexual humana começa no peito e, a menos que impedida, apre-
senta um desenvolvimento contínuo durante toda a infância às
formas maduras de união sexual. Existem duas correntes neste
desenvolvimento – a “corrente afetiva da infância” e a “corrente
sensual da puberdade”. A sexualidade do adulto é um resul-
tado dos dois movimentos, de modo que se eles falharem em
convergir, “o resultado freqüente é que um dos ideais da vida
sexual, a focalização de todo desejo sobre um único objeto, será
inatingível”.272
Como essa observação indica, Freud estava ciente dos fatos
da sexualidade madura, e em vários ensaios (nomeadamente em
“The Tendency to Debasement in Love”)273 ele arriscou expli-
cações sobre alguns dos aspectos mais sutis da resposta sexual
humana, em termos que são nitidamente interpessoais, e que
estão ligados à teoria da sexualidade infantil por dogmas. No
entanto, Freud continuou convencido de que os fatos sociais do
apego sexual poderiam, em última instância, ser vistos como
consequências naturais de uma força instintiva.
As idéias centrais da teoria são duas: a libido e a zona eróge-
na. A libido é concebida como uma força que pode se juntar a
vários objetos, e que também tem um objetivo definido. A zona
erógena efetua o processo de ligação entre desejo e objeto, asso-
ciando o objeto com o alívio localizado que a libido tem como
objetivo. Obviamente a teoria resultante é uma caricatura do
desejo sexual conforme descrevi. No entanto, pode ainda ser
um relato preciso da base fisiológica subjacente do desejo; se as-
sim for, terá, obviamente, importantes consequências tanto para
a teoria do desejo quanto para a teoria da moralidade sexual.

272 Freud, “Three Essays” p. 119.


273 “On the Universal Tendency to Debasement in the Sphere of Love” (1912), em On
Sexuality, p. 243-60.

280
capítulo 7 - a ciência do sexo

Crítica: a libido
Parece-me que ambas as idéias centrais de Freud são incoe-
rentes. Devemos compreender a libido como instinto, que busca
a liberação da “tensão sexual” acumulada através de estímulos
sensoriais de alguma “zona erógena”, e ao mesmo tempo como
uma paixão, dirigida para um objeto, cujos objetivo e gratifica-
ção são inseparáveis ​​da concepção do sujeito de si mesmo, do
outro e da relação que os une. (Pois de que outra forma a proi-
bição do incesto seria vista como uma proibição da “liberação
sexual” com a mãe?) Freud menciona a analogia com a fome –
mas ou ele nunca passou fome, ou então (como ele certa vez ad-
mitiu parcialmente), nunca esteve familiarizado com o desejo.
Eu posso querer me sentar para jantar apenas com aqueles cuja
companhia eu aprecio, e isso certamente dará uma característi-
ca moral importante para os meus hábitos alimentares, e uma
razão para me abster até o momento certo. Mas minha atitude
em relação ao meu amigo, e em relação ao meu bife, são duas
coisas completamente distintas. Eu não busco a companhia do
meu amigo por fome, ou o bife por amizade; nem o meu prazer
pela companhia de meu amigo contém, como componente, o
meu prazer pelo bife. Estas duas atitudes díspares nunca pode-
riam se combinar em uma só, uma vez que suas estruturas in-
tencionais não são congruentes. A amizade é fundada nos pen-
samentos e crenças sobre meu amigo, e se manifesta no desejo
pela sua companhia. É uma atitude interpessoal que visa funda-
mentalmente a reciprocidade, e em que os pensamentos do eu
e do outro são integrantes ao objetivo. Por outro lado, o desejo
pelo bife não precisa envolver nenhuma concepção especial do
eu ou do bife (de que outra forma os animais sentiriam fome?).
Não é interpessoal; nem está fundado em qualquer pensamen-
to além do “aqui, diante de mim, está a comida”. O apetite
acalmado pelo bife poderia ter sido igualmente satisfeito por
qualquer outro objeto relevantemente semelhante, e o prazer de
comê-lo está em sensações localizadas que podem ser experi-
mentadas sem pensar. É inconcebível que esta estrutura inten-
cional possa realmente ser incorporada dentro daquela outra
estrutura que descrevi como amizade – nem mesmo no caso
imaginário, descrito no Capítulo 4, quando nada pode ser co-
mido além dos amigos.

281
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

Para Freud, no entanto, a libido deve possuir ambas as for-


mas de intencionalidade. É inicialmente concebida no modelo
da fome – a busca de satisfações corporais que compartilhamos
com criaturas que não são pessoas, e que não tem nenhum ob-
jetivo que não a gratificação local. É esta “força” que, acredita
Freud, “invade” nossa vida pessoal, e ressurge na pessoa ma-
dura como desejo sexual. Mas como essa força pode adquirir a
estrutura intencional do desejo? Mais uma vez, Freud recorre à
metáfora, argumentando que a libido “catexiza” (besetze) um
determinado objeto, e por isso concentra a sua energia em uma
determinada direção. Às vezes, esse apego da libido ao objeto
é descrito como uma “incorporação” do objeto;274 por vezes,
diz-se que a libido é especialmente “adesiva”.275 Metáforas se-
melhantes foram utilizadas pelos discípulos de Freud, nomea-
damente por Melanie Klein em sua teoria do “objeto parcial”,
pelo qual a criança atribui suas inclinações sexuais ao peito.276
Mas o que essas metáforas significam? O que significa a libido
estar “apegada” a um objeto? É precisamente isto o que uma
teoria do desejo deve explicar.
Freud lida com o problema da seguinte maneira. Ele vê que a
tarefa principal da sua teoria é explicar como a libido generali-
zada (a “libido do ego”) da criança se transforma na “libido do
objeto” do verdadeiro desejo sexual.277 Isso acontece, de acordo
com Freud, quando “se concentra nos objetos, apegando-se a
eles ou abandonando-os, passando de um objeto para outro e, a
partir dessas situações, dirigindo a atividade sexual do sujeito,
que leva à satisfação, ou seja, à extinção parcial e temporária,
da libido”.278
Podemos ver nessa passagem a medida com que, quando
Freud deseja promover uma conclusão, ele começa por assumi
-la. Ele assume que a satisfação da libido consiste na extinção,
como na extinção da fome – e, assim, o objetivo da libido é
comparável ao da fome. E ele assume igualmente que a inten-

274 Por exemplo, na edição de 1915 dos “Three Essays”.


275 Ver, por exemplo, “Analysis Terminable and Interminable” (1937), em Collected Papers,
tr. J. Riviere, Nova York e Londres, 1924-50, Vol. V, p. 344.
276 Melanie Klein, Envy and Gratitude.
277 “Three Essays”, p. 139.
278 Ibid.

282
capítulo 7 - a ciência do sexo

cionalidade da libido é uma forma de “concentração” sobre um


objeto, e que “dirige a atividade sexual do sujeito”. Mas a ques-
tão era precisamente como ambas poderiam ser verdade. Como
é que uma força com a primeira característica (um objetivo ape-
titivo) também pode ter a segunda (uma intencionalidade eró-
tica)? Freud, sob o pretexto de uma teoria, contrabandeou sua
conclusão: que a libido – essa força essencialmente instintiva
– também pode ser exemplificada como um desejo por esta pes-
soa, e numa procura por esta pessoa. Mas isso é precisamente
o que os movimentos básicos da teoria de Freud nos dão razão
para duvidar. Pois aqueles movimentos situam a libido fora do
reino das atitudes interpessoais; permanece totalmente inexpli-
cável como essa força apetitiva poderia adquirir a intencionali-
dade de tal atitude, ou mesmo alguma outra forma de genuíno
direcionamento ao objeto, sem se desnaturalizar.
Se voltarmos agora para nossas críticas anteriores, podemos
ver mais claramente por que as metáforas de Freud eram neces-
sárias, se sua teoria aparentasse explicar o que se propõe expli-
car. A relação da libido ao seu objeto, enquanto concebida em
termos de uma idéia química de “adesão” ou “catexia”, deveria
explicar a intencionalidade sexual. Ela parece explicar a inten-
cionalidade sexual, no entanto, só porque a metáfora da “ade-
são” não é literal – só porque assumimos que seja uma idéia
de intencionalidade. Parece que podemos explicar a fixação de
um homem por essa mulher, que é como sua mãe, referindo-se
a uma libido que se desvinculou de um objeto e, em seguida,
“catexizou” outro. Mas no sentido “intencional” de “objeto”,
nenhum estado do desejo poderia fazer tal coisa. E se houver al-
gum impulso subjacente que “adere” agora a isso, depois àqui-
lo, então, a coisa aderida não é, por esta única razão, o objeto
intencional de qualquer estado particular da mente. (Pensar o
contrário é confundir relações materiais com intencionais: vide
Apêndice 2.) A maneira mais óbvia de tornar a metáfora da “ca-
texia” literal, em função da ativação imediata de centros nervo-
sos, priva-nos de todos os motivos para acreditar que a teoria
da adesão é também uma teoria da transferência intencional.
Mesmo que pudesse ser demonstrado que uma força instin-
tiva, respondendo à “libido” de Freud, anima a vida sexual das
pessoas, o próprio fato de que a estrutura intencional do desejo

283
desejo sexual - uma investigação filosófica roger scruton

impede que essa força a possua é suficiente para afastá-la da


eminência moral a que recentemente foi elevada. Em particular,
a metáfora hidráulica – a metáfora de uma maré ou onda de
sentimento, que é “represada”, “engarrafadas”, “bloqueada” e
“liberada” – este, o pensamento central da moralidade liber-
tária moderna (como exemplificado, por exemplo, na obra de
Reich e Norman O. Brown),279 deixa de ter qualquer influência
sobre a questão da conduta sexual. O fato de a minha libido
estar “engarrafada” não tem mais relevância para a questão se
é certo fazer amor com esta mulher diante de mim do que o
fato da minha adrenalina estar “engarrafada” para a questão
de saber se eu deveria estar zangado com ela. Pensar no desejo
sexual nestes termos é construir uma moralidade de desculpas,
mas sem uma lei moral.

Crítica: a zona erógena


Consideremos agora a segunda idéia dominante da teoria
da sexualidade infantil de Freud – a idéia da “zona erógena”.
O termo é tomado do francês – zones ér