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Peter A.B. Schulz A bilionésima parte ocorrem em outras escalas de tama-


Instituto de Física, UNICAMP nho. Em outras palavras, não esta-

O
e-mail: pschulz@ifi.unicamp.br prefixo nano, seguido de al- mos falando simplesmente de minia-
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ guma outra palavra, aparece turização de algo grande para algo
com freqüência cada vez muito pequeno. O tema, embora re-
maior no nosso dia-a-dia. Por en- cente, não pode ser esgotado em um
quanto essa presença dá-se principal- espaço tão pequeno (sem trocadilho)
mente através dos meios de comuni- como o desse artigo. Na medida do
cação (no instante em que estou possível, referências a outros artigos
revisando esse artigo, em janeiro de impressos e, principalmente, artigos
2005, o termo “nanotecnologia” apa- na internet, tentam complementar a
rece 33.400 vezes no Google, apenas história contada aqui [1-2].
em páginas brasileiras). Muitas das
notícias parecem prometer que essa O relógio como exemplo
presença será mais efetiva em algum Um exemplo fantástico de minia-
futuro mais ou menos distante, turização é dado pelos antigos reló-
embora aplicações de “nano-isso” ou gios mecânicos, aqueles que precisa-
“nano-aquilo” já estejam disponíveis vam de corda, lembram-se? Os pri-
e melhorando a nossa qualidade de meiros relógios com engrenagens e
vida. O Ano Internacional da Física em pêndulos ficavam no alto das torres
2005 representa um ótimo pretexto das igrejas medievais e as peças ti-
para olhar com bastante atenção para nham que ser medidas em metros. Al-
essa verdadeira “nano-mania”. Acho guns séculos se passaram e essas peças
que vale a pena até compará-la a uma foram miniaturizadas e os relógios
também verdadeira passaram a ser
“micro-mania”, que Nos primeiros relógios
usados nos pulsos
existia há exata- mecânicos as engrenagens e
das pessoas e as pe-
mente um século, pêndulos eram medidos em
ças passaram a ter
ou seja, por volta do metros. Em alguns séculos
dimensões de milí-
“ano miraculoso” as peças foram miniaturiza-
metros. É uma his-
da Física. das e passaram a ter dimen-
tória fascinante,
O prefixo nano sões de milímetros, mas o
pois estamos falan-
descreve uma ordem princípio físico para medir o
do de uma dimi-
de grandeza, vem do tempo continuou o mesmo
nuição de tamanho
grego e quer dizer essencialmente um de mil vezes! No entanto, o antigo e
bilionésimo de alguma coisa. No caso enorme relógio da torre da igreja é
atual estamos interessados em um essencialmente o mesmo dispositivo
bilionésimo de metro, o nanômetro. de engrenagens e alavancas do relógio
Nanociência e nanotecnologia são, de pulso (à corda, com rubis, etc.). O
A partir da miniaturização, outros vários as- portanto, ciência e tecnologia que princípio físico para medir o tempo
pectos da nanociência e nanotecnologia são acontecem ou são feitas nessa escala continuou o mesmo. Nos relógios a
discutidos. Apesar de característica desse
começo de século, a história da nanociência
de comprimento, mas de maneira quartzo temos uma mudança funda-
comemora também, de certa forma, seu cente- controlável e reprodutível, envolvendo mental no princípio para medir o
nário em 2005. fenômenos que muitas vezes não tempo, que leva a um dispositivo

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muito menor e mais preciso. Estamos nosso tema, ou seja, a eletrônica! Co- dade e velocidade inimagináveis para
falando de um cristal de quartzo de mo era a nossa vida no início do século os antigos “racks” de válvulas. Mas
dimensões de milésimos de milímetro XX? Bem, a invenção do diodo de vál- ainda estamos no micrômetro e não
de comprimento. Diminuímos o dis- vula ocorreu em 1904 - por isso 2005 no nanômetro e, portanto, vale a pena
positivo novamente em mil vezes, pode ser quase considerado o ano voltar ao ano de 1959 e falar de uma
mas o relógio de pulso é para que as internacional da eletrônica também! profética palestra de Richard Feyn-
pessoas possam ver as horas, portan- No alvorecer do século passado podía- man: “Está cheio de espaço lá embai-
to um dispositivo tão pequeno tem mos ler à noite com iluminação elé- xo” (There is plenty of room at the bot-
que ser acoplado a ponteiros e mos- trica. Era possível ir ao cinema, tele- tom), proferida em um encontro da
tradores grandes o suficiente para fonar ou ouvir música em casa com American Physical Society em 29 de de-
serem vistos, resultando em algo do a ajuda dos gramofones. A eletrônica zembro de 1959 [7]. Nessa palestra
mesmo tamanho dos antigos relógios certamente aperfeiçoou todos esses ele abordou a miniaturização de regis-
de pulso, que precisavam de corda. aspectos do nosso cotidiano, mas não tros de memória como letras impres-
Então qual foi a vantagem, além de foi necessária para a criação de todos sas (mas hoje em dia podemos falar
saber as horas com uma precisão esses inventos. Herbert Kroemer, diretamente de bits e suas dimensões).
maior do que a necessária? Simples- prêmio Nobel de Física de 2000, pela Um bit (0 ou 1) é a unidade de infor-
mente eles são muito mais leves e invenção do laser de semicondutores mação binária e um caracter do nosso
baratos e o relógio [6], salientou em sistema de lingüagem precisa de uns
deixou de ser um A invenção do diodo de recente palestra que oito bits para ser representado, mas
objeto exclusivo válvula ocorreu em 1904 - uma tecnologia não vamos arredondar para dez, pois só
para virar brinde por isso 2005 pode ser é criada para sim- falaremos de estimativas. Até o ponto
na compra de san- quase considerado o ano plesmente “fazer anterior a essa frase, esse texto soma
dálias. Mas isso já internacional da eletrônica melhor o que é feito aproximadamente 5.700 caracteres.
é nanociência, ou também! Depois dele a com as tecnologias Quanto espaço pode ocupar essa
melhor, nanotec- invenção do transistor, em já existentes”. E o quantidade de informação? A palestra
nologia? Ainda 1947, e a do circuito que as tecnologias de Feynman pode ser vista como uma
não! Temos que integrado, em 1959, anteriores à eletrô- “resposta especulativa” a essa pergun-
pensar em dimi- propiciaram outros passos nica não foram ca- ta. Hoje em dia um bit gravado em
nuir as dimensões para a miniaturização de pazes de criar? A um CD tem uma dimensão típica de
em outras mil ve- componentes eletrönicos resposta é a comu- 0,5 microm. Portanto os cerca de
zes, além de outras nicação sem fio, o 6000 caracteres são traduzidos em
coisas, mas as potenciais conseqüên- rádio. A transmissão e recepção de da- 60.000 bits que ocupariam uma tri-
cias sobre a sociedade, envolvendo o dos complexos (som e depois imagem)
controle de novos fenômenos físicos, a longas distâncias.
nessa viagem ao muito pequeno é bem
ilustrado por essa breve e leiga digres- A origem da nanociência e
são sobre o relógio [3]. Por outro lado, seu profeta
para ser sincero, essa história do reló- Não demorou muito e a eletrônica
gio atravessou só umas 3 ou 4 ordens seguiu o exemplo dos relógios, ou seja,
de magnitude. O conhecimento a busca da miniaturização. Dois fo-
humano consegue vislumbrar até 39 ram os passos fundamentais para tor-
ordens de grandeza, como ilustrado nar essa miniaturização efetiva: a in-
no tema “Potências de 10” [4]. venção do transistor em 1947 [7] e a
do circuito integrado em 1959. Eram
Sobre a necessidade de novas
novas tecnologias, baseadas em mate-
tecnologias riais semicondutores e não mais em
O exemplo da sofisticação do reló- bulbos de vidro com filamentos. Com
gio é também um motivador para isso foi possível chegar à microele-
uma pergunta importante: para que trônica, também um novo, digamos,
novos paradigmas tecnológicos? No paradigma tecnológico, como o foi a
caso do relógio, a possibilidade de uma eletrônica 50 anos antes. Novamente Luz de nanofios: um nanofio de sílica
medição precisa do tempo tornou devemos nos lembrar que a micro- transporta um feixe de luz em volta de
um cabelo humano. Os nanofios são
possível a navegação (medição de lon- eletrônica não se desenvolveu para fa-
flexíveis e podem ter apenas 50 nanôme-
gitude) e mais recentemente relógios zer melhor o que a “macroeletrônica” tros de diâmetro, cerca de um milésimo
atômicos são necessários nos satélites já fazia e sim para dar origem a algo da espessura de um fio de cabelo (http://
de navegação por GPS [5]. Vamos pen- novo: o processamento em grande vo- www.fas.harvard.edu/home/news_and_
sar em um outro paradigma tecnoló- lume e velocidade de dados e a possi- events/releases/nanowire_
gico, no caso algo mais próximo ao bilidade de transmiti-los em quanti- 12172003.html)

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desafio passou a ser levado a sério nos de alta resolução. O desenho todo é
últimos 20 anos e é parte importante transferido para um fotograma de 35
do que chamamos de nanociência. O mm x 25 mm, que será a máscara.
porque de que só em 1960 começou- Um traço de um milímetro de espes-
se a pensar em mover nessa direção sura na tela é diminuído de uma escala
tem uma resposta razoavelmente de 100 vezes, ou seja, no fotograma
simples: foi nessa época que foram in- ele terá apenas 10 microns. Bem, já
ventados os circuitos integrados e deu para chegar na microeletrônica,
dispositivos opto-eletrônicos que per- mas ainda não é suficiente. Como
mitiram os primeiros passos nesse ca- fazer desenhos menores? Atualmente
Um nanofio de prata de 50 nm de altura,
minho. são utilizados feixes de elétrons, que
100 nm de largura e 1 microm de com-
primento está conectado a dois reserva- podem ser focalizados em pontos de
O caminho de cima para até 0,05 microm. Essa “caneta” pode
tórios supercondutores constituídos de fil-
mes de alumínio de 400 nm de espessura.
baixo (top-down) ser guiada com grande precisão e gra-
A densidade de estados eletrônicos no fio O problema é como trabalhar nes- var o circuito diretamente sobre o ma-
é medida pelos dois dedos de prata conec- sas dimensões. Uma maneira já tra- terial foto sensível mencionado acima.
tados no meio do caminho. Esse disposi- dicional, chamada de abordagem “de Agora a dimensão característica de
tivo foi fabricado por meio de nanolito- cima para baixo” (top-down), consis- 10 microns foi reduzida 200 vezes e
grafia de feixe eletrônico e evaporação do te em “esculpir” circuitos cada vez chegamos à escala de 50 nanômetros.
material através de máscaras (vide texto)
menores nos chips de silício, por exem- Na verdade, hoje em dia é utilizada a
(http://www-drecam.cea.fr/drecam/
spec/Pres/Quantro/Qsite/gallery/ plo. Uma maneira é por ataque quí- chamada tecnologia de 0,07 microm
nanowire.htm). mico. Receita simples (os detalhes de (dimensão característica de detalhes
protocolo e a “cozinha” são extrema- do circuito integrado) na fabricação
lha de 30.000 micra, ou seja, 3 enor- mente sofisticados): cubra o tablete de microprocessadores. Pode-se dizer
mes centímetros, de comprimento e wafer de silício com um material foto que de certa forma a atual eletrônica
0,5 microm de largura, que corres- sensível que se modifica quimica- já está mais para “nano” do que para
ponde a uma área menor que o pingo mente quando exposto à luz e cubra “micro”.
desse i. Parece impressionante, mas esse material com uma máscara com Vamos especular sobre um dos
ainda pouco ousado para Feynman. o esquema do microcircuito que deve desafios dessa nanoeletrônica. O silício
Afinal o que repre- ser formado no para fins eletrônicos tem cerca de 1018
senta 0,5 microm? Uma caixinha de 0,1 microm chip. Depois ilumine elétrons por centímetro cúbico. Do
Já sabemos que é a de aresta pode ser o conjunto, retire a ponto de vista físico, um bit é uma
aresta de um “cu- carregada por 1000 máscara e “revele” “caixinha” de silício vazia, represen-
bo” gravado em elétrons, para a densidade com um ácido (es- tando o 0, ou carregada de elétrons,
um CD que repre- dada.Diminuindo a aresta pecial), que elimina representando o 1. Uma caixinha de
senta um bit. para 0,01 microm a caixinha apenas o material 0,1 microm de aresta seria carregada
Quantos átomos seria carregada com um foto sensível não por 1000 elétrons, para a densidade
cabem nesse cubo? único elétron! Não é iluminado junto dada. Se diminuirmos a aresta para
São cerca de 10 10 possível diminuirmos mais com o material se- 0,01 microm a caixinha seria carre-
(dez bilhões). Su- do que isso, e já estamos micondutor embai- gada com um único elétron! Não é
pondo que só fos- chegando perto desse limite xo. Pronto: cria- possível diminuirmos mais do que
sem necessários 10 nos “transistores de elétron ram-se canais e isso, e já estamos chegando perto
átomos para regis- único” ligações no silício, desse limite. Aliás, os “transistores de
trar um bit, o pingo que deverão ser pre- elétron único” (single electron transis-
daquele i poderia armazenar 6 x 1012 enchidos com outros materiais. Esse tor) já existem como protótipos expe-
caracteres, um bilhão de vezes mais processo é repetido várias vezes e o rimentais e são utilizados como sen-
do que na estimativa anterior. Imag- “bolo” acaba tendo muitas camadas. sores [10].
ine que até agora esse texto chegou a Uma idéia da complexidade do proces- Apesar de tudo isso ser fantástico,
cerca de 6.500 caracteres: No pingo so de fabricação de um componente devemos ter em mente a profecia de
do i seriamos capazes de guardar a desses é bem descrita por simulações Feynman: quantos átomos de silício
informação contida em um texto 1 disponíveis livremente na internet [9]. existem nesse cubo de 0,01 microm
bilhão de vezes maior que esse! Onde está o nano nessa história? Está de lado? Cerca de 60.000, e se pudés-
Feynman lançou então esse desafio e no tamanho dos detalhes do desenho semos realizar a profecia (registrar
previu que no ano 2000 as pessoas se na máscara. Uma maneira é desenhar um bit em apenas 10 átomos) ainda
perguntariam porque apenas em o circuito em escala gigante em uma poderíamos avançar entre 3 e 4 ordens
1960 a humanidade começou a pen- tela de 3,5 x 2,5 m. Essa tela é de grandeza! Isso, no entanto, é
sar nessa possibilidade. Feynman é enquadrada por uma máquina foto- impossível de cima para baixo. Temos
uma espécie de profeta, pois esse gráfica e fotografada com um filme que ir de baixo para cima.

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cional” tem milhões de se: uns poucos átomos para represen-
componentes, que são tar um bit [18]).
construídos simultanea-
mente. Construir um Uma outra origem: Einstein, os
objeto com essa comple- colóides e as nanopartículas
xidade, movendo uma Partículas suspensas em líqüidos
peça (no caso um átomo) são consideradas coloidais se seu tama-
Artistas quase sempre precisaram de mecenas (cientistas de cada vez torna o pro- nho varia de alguns nanômetros até
também!). Aqui o artista , logo após a descoberta de como cesso extremamente len- centenas de microns. O limite inferior
mover átomos com um microscópio de tunelamento, en- to. Essa tecnologia aproxima-se de dimensões moleculares.
controu uma maneira de retribuir à corporação que lhe parece, por enquanto, O limite superior indica uma situação
deu emprego, quando precisou, e os meios necessários limitada a situações nas na qual as forças externas (como a
para que fosse bem sucedido (http://www.almaden.ibm.
quais alguns protótipos atração gravitacional) passam a deter-
com/vis/stm/atomo.html#stm10).
são necessários, não sen- minar a dinâmica no lugar do movi-
A vereda de baixo para cima do factível para uma “produção em mento Browniano, descrito por Eins-
série”. A aposta para uma “produção tein em um dos artigos do ano
(bottom-up)
em série” aparece no conceito de auto- miraculoso [19]. Essa história é fasci-
Registrar e ler bits em escala de organização. nante e constitui um dos marcos his-
poucos átomos não é possível, como tóricos da nanociência. Uma questão
vimos, na eletrônica “tradicional”. Átomos que se auto-organizam fundamental no início do século XX era
Uma nova tecnologia torna-se neces- Se nos convencemos de que a na- a determinação da carga do elétron,
sária. Essa tecnologia, chamada de nociência teve um profeta, é justo que bem como a determinação precisa do
microscopia de sonda por varredura possamos falar também de um guru número de Avogadro. Os dois proble-
(scanning probe microscopy) passou a da nanotecnologia. Esse papel pode ser mas eram correlacionados: tanto a
ser desenvolvida nos anos 80 do sé- atribuído a K.E. Drexler, autor do livro matéria quanto a carga elétrica têm
culo passado com a invenção do mi- Engenhos da Criação: O advento da Era unidades fundamentais, átomos e elé-
croscópio de tunelamento (prêmio da Nanotecnologia de 1990 [15]. A trons, respectivamente. Esse aspecto
Nobel de 1986) e o posterior desenvol- idéia, audaciosa sem dúvida, baseia- não-contínuo da natureza ainda sofria
vimento do mi- se na possibilidade forte oposição de cientistas importantes
croscópio de força Sabemos há um bom tempo de que os próprios da época: “fazer dos átomos objeto de
atômica [11]. Uma que todas as coisas são “nano objetos” se pesquisa, fosse na Física ou na Química,
ponta extrema- feitas de átomos e agora organizassem e era considerado pelos adeptos de Ernst
mente fina, cons- estamos aprendendo a fazer construíssem os dis- Mach (1838-1916) como uma hipótese
tituída de poucos as coisas a partir dos positivos para os metafísica falsa e até mesmo perigosa”
átomos, pode ser átomos quais as máquinas [19]. Essa corrente de uma física
aproximada, afas- exteriores (como os fenomenológica praticamente caiu por
tada e varrida ao longo de uma super- microscópios) tornaram-se incapazes. terra com a determinação da carga do
fície com precisão de até 0,1 Angstron. A natureza fornece pelo menos dois elétron por Millikan (1868-1953) [19]
É uma das maneiras para se “ver” exemplos muito úteis: os átomos e a medida do número de Avogadro por
átomos individualmente [12], mas o organizam-se em arranjos periódicos J. Perrin (1870-1942) [20], sem falar
que nos interessa principalmente é que (cristais) quase que por si só, desde na descrição do movimento Browniano
essa ponta, sob certas tensões elétri- que algumas condições sejam satis-
cas, é capaz de arrancar um único feitas (não é necessário enfileirá-los
átomo e depois depositá-lo em outro um a um via agente externo), como
ponto da superfície. É, portanto, uma no caso do átomo de carbono. A pro-
ferramenta para manipular átomo a pósito, duas formas de organização
átomo, como um pedreiro consegue dos átomos de carbono foram desco-
fazer com tijolos. Sabemos há um bom bertas nas últimas décadas: o fulereno
tempo que todas as coisas são feitas de e o nanotubo de carbono. São grandes
átomos e agora estamos aprendendo a estrelas da nanociência e mereceriam
fazer as coisas a partir dos átomos [13]. um capítulo à parte. Esse lapso certa-
Esse talvez seja o conceito essencial da mente é sanado pelas notas de aula
nanociência. Existem vários protóti- do Prof. Rodrigo Capaz da UFRJ [16].
pos de nano objetos construídos áto- Um outro exemplo de auto-organi-
mo a átomo e podemos formar toda zação e auto-montagem é o DNA,
uma galeria de imagens com eles [14]. cujas características estão sendo
Problemas? Pelo menos um bem exploradas como opção para uma Outro exemplo de arte com átomos (http:/
grande: um microprocessador “tradi- eletrônica molecular [17] (lembrem- /www.almaden.ibm. com)

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por Einstein. Estamos falando, por-
tanto, de duas experiências funda-
mentais e que tinham em comum a
necessidade de partículas muito peque-
nas e homogêneas. Vale lembrar que
as gotículas de óleo na experiência de
Millikan tinham um raio médio de 2,8
micra (2800 nm), enquanto as peque-
nas esferas da experiência de Perrin,
apenas 0,2 microm (200 nm!). Esses
estudos fundamentais tornavam mais
acessível o mundo do colóides, que ti-
nha também um guru, o químico
Wolfgang Ostwald (1883-1943), que
escreveu um livro chamado O Mundo
das Dimensões Esquecidas (1914, mas
publicado apenas depois da 1ª Guerra
Mundial). Acreditava-se que a ciência
dos colóides teria grandes aplicações
com promessas para a indústria e para Os cálices de Licurgo, exemplo de “nanoartesanato” do século IV D.C. (http://lilt.ilstu.edu
e http://www.cambridge2000.com).
a Medicina.
É interessante nesse Ano Interna-
cional da Física comparar a ciência dos rugas [24]. de diâmetro [25]! Isso foi provavel-
colóides com a nanociência, que ga- mente obtido por acidente, de modo que
nharam destaques nos extremos Algumas aplicações são mais é um exemplo de “nano artesanato” e
opostos do século XX. Vale lembrar antigas ainda não de tecnologia, que se baseia em
uma vez mais que partículas coloidais O produto mais antigo da nano- protocolos que podem ser reprodu-
são nanopartículas, cujo negócio é tecnologia conhecido é o cálice de Lycur- zidos. Nada impede que o leitor se aven-
estimado em mais de US$ 40 bilhões gus, que remonta ao século IV D.C. e ture um pouco com a nanociência
anuais. E as promessas de aplicações se encontra no museu britânico. Esse usando poucos recursos [26], ou mes-
em Medicina estão se realizando com cálice romano é feito de um vidro que mo muito poucos recursos: basta um
a utilização de nanopartículas mag- parece verde sob luz refletida, mas é lápis e uma folha de papel. Você sabe a
néticas no diagnóstico e tratamento vermelho translúcido sob luz trans- espessura de um traço de lápis sobre o
do câncer [22], entrega inteligente de mitida através dele. Esse efeito óptico é papel? Uma estimativa [27] por me-
remédios no interior do corpo huma- causado por nanopartículas compos- dida de resistência elétrica leva ao incrí-
no [23] e até mesmo cremes contra tas de ouro e prata de apenas 70 nm vel valor de... 17 nm(!)

Referências e Notas [11] http://www.scielo.br/scielo.php? [20] G. Holton, in Subelétrons, Pressupostos e


pid=S0366-69131998000600002 a Polêmica Millikan-Ehrenhaft, editado
[1] http://www.thenanotechnologygroup. &script=sci_arttext. por Zahar editores A Imaginação Cientí-
org/id46.htm. [12] Caio Mário Castro de Castilho, Quando e fica.
[2] http://www.comciencia.br/reportagens/ como o Homem começou a “ver” os áto- [21] A. Bebeachibuli, L.H. Libardi e V.S.
framereport.htm. mos! RBEF 25 25, 364 (2003). Bagnato, Determinando o número de
[3] http://www.numaboa.com.br/relogios/ [13] Essa frase eu ouvi do Prof. Cylon Gonçal- Avogrado pelo método de J. Perrin. RBEF
timeline.php. ves da Silva, professor emérito do 21
21, 447 (1999).
[4] http://micro.magnet.fsu.edu/primer/ Instituto de Física da UNICAMP. [22] M. Knobel e G.F. Goya, Ferramentas mag-
java/scienceopticsu/powersof10/ [14] http://www.almaden.ibm.com/vis/stm/ néticas na escala do átomo. Scientific
index.html. stm.html American Brasil, 31
31, 58 (2004).
[5] http://gps.ciagri.usp.br/. [15] http://www.foresight.org/FI/Drexler. [23] U. Capozzoli, O Brasil na era da nano-
[6] http://www.sobiografias.hpg.ig.com.br/ html. tecnologia. Scientific American Brasil 1,
HerbKroe.html. [16] http://omnis.if.ufrj.br/~capaz/ffnc/ 38 (2002).
notas.html. [24] Revista Veja, p. 72, edição 1889, 26/01/
[7] Adenilson J. Chiquito e Francesco Lanciotti
[17] N.C. Seeman, Nanotecnologia e a dupla 2005.
Jr., O transistor, 50 anos. RBEF 20,
hélice. Scientific American Brasil 26
26, 27 [25] (http://www.begbroke.ox.ac.uk/nano/
309 (1998).
(2004). accessWeb/history.html.
[8] http://www.its.caltech.edu/~feynman/ [18] http://seemanlab4.chem.nyu.edu/ [26] V. Rodrigues e D.M. Ugarte, Quantização
plenty.html. homepage.html. da condutância: Um experimento
[9] http://micro.magnet.fsu.edu/electro [19] A. Einstein, Über die von der molekular- simples para o ensino de Física. RBEF
mag/java/transistor/index.html. kinetischen Theorie der Wärme geforderte 21
21, 264 (1999).
[10] http://www.inovacaotecnologica.com. Bewegung von in ruhenden Flüssigkeiten [27] http://www.pencilpages.com/articles/
br/noticias/noticia.php?artigo= suspendierten Teilchen. Ann. Phys. 17 17, (veja o Alice Newcomber ’s physics
010110030603. 549 (1905). project).

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