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Hayden White

Ponta 4

META-HISTÓRIA
A IMAGINAÇÃO HISTÓRICA DO SÉCULO XIX

CSP
Reitor Roberto Leal Lobo e Silva Filho
Vice-reitor Ruy Laurenti

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Presidente João Alexandre Barbosa


Diretor Editorial Plinio Martins Filho
Editor-assistente Manuel da Costa Pinto

Comissão Editorial João Alexandre Barbosa (Presidente)


Celso Lafer
José E. Mindlin
Oswaldo Paulo Forattini
Djahna Mirabclli Redondo Tradução de José Laurênio de Melo
Indicação dc Antônio Dimas,
professor do Dept° dc Letras Clássicas c Vernáculas da USP.

Título do original cm inglês:


Metahistory: The Historical Imagination in Nineteenth-Century Europe

© 1973 by the Johns Hopkins University Prcss

Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Só se pode estudar aquilo
White, Hayden. com que primeiro se sonhou.

Meta-História : A Imaginação Histórica do Século XIX/ Hayden White ; Bachelard


[tradução de José Laurénio dc Melo]. - São Paulo: Editora da Universidade de A Psicanálise do Fogo
São Paulo, 1992. (Coleção Ponta; v. 4)

Bibliografia.

ISBN: 85-314-0053-8

1. Europa - História - Historiografia - Século 19 - Teoria I. Título.

92-0109 CDD-907.204

índices para catálogo sistemático:

1. Europa: Historiografia 907.204

Direitos cm língua portuguesa reservados à

Edusp - Editora da Universidade dc São Paulo


Av. Prof. Luciano Gualbcrto, Travessa J, n° 374
6® andar - Ed. da Antiga Reitoria - Cidade Universitária
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TcL: (011) 813-8837/813-3222 r. 2633,2643

Printed in Brazil 1992


SUMARIO

Prefácio........................................................................................................... 11
Introdução: A Poética da História

Parte 1
A TRADIÇÃO RECEBIDA: O ILUMINISMO
E O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA
1. A Imaginação Histórica entre a Metáfora e a Ironia................................... 59
2. Hegel: A Poética da História e o Caminho para além da Ironia ... 95

Parte II
QUATRO TIPOS DE “REALISMO”
NA ESCRITA HISTÓRICA DO SÉCULO XÍX
1. Michelet: O Realismo Histórico como Estória Romanesca....................... 147
2. Ranke: O Realismo Histórico como Comédia............................................ 175
3. Tocqueville: O Realismo Histórico como Tragédia................................... 203
4. Burckhardt: O Realismo Histórico como Sátira......................................... 241
PREFÁCIO
Parte III
O REPÚDIO DO “REALISMO” NA FILOSOFIA
DA HISTÓRIA DO FINAL DO SÉCULO XIX

1. A Consciência Histórica e o Renascimento da Filosofia da História 277 2. Marx:


A Defesa Filosófica da História no Modo Metonímico ... 291
3. Nietzsche: A Defesa Poética da História no Modo Metafórico . . . 339
4. Croce: A Defesa Filosófica da História no Modo Irônico........................... 383

Conclusão.............................................................................................................. 433

Bibliografia.......................................................................................................... 443

índice Remissivo................................................................................................... 449

Esta análise da estrutura profunda da imaginação histórica é precedida


por uma introdução metodológica. Ali tento expor, explicitamente e de maneira
sistemática, os princípios interpretativos em que se baseia o trabalho. Enquanto
lia os clássicos do pensamento histórico europeu do século XIX tornou-se para
mim evidente que considerá-los como formas representativas da reflexão histó­
rica pressupunha uma teoria formal do trabalho histórico. Procurei apresentar
tal teoria na introdução.
Nessa teoria trato o trabalho histórico como o que ele manifestamente é:
uma estrutura verbal na forma de um discurso narrativo em prosa. As histórias
(e filosofias da história também) combinam certa quantidade de “dados”,
conceitos teóricos para “explicar” esses dados e uma estrutura narrativa que os
apresenta como um ícone de conjuntos de eventos presumivelmente ocorridos
em tempos passados. Além disso, digo eu, eles comportam um conteúdo
estrutural profundo que é em geral poético e, especificamente, linguístico em
sua natureza, e que faz as vezes do paradigma pré-criticamente aceito daquilo
que deve ser uma explicação eminentemente “histórica”. Esse paradigma fun­
ciona como o elemento “meta-histórico” em todos os trabalhos históricos que
são mais abrangentes em sua amplitude do que a monografia ou o informe de
arquivo.
A terminologia que empreguei para caracterizar os diversos níveis cm que
se desdobra um relato histórico e para construir uma tipologia de estilos
historiográficos talvez se mostre desorientadora. Mas tentei primeiro identificar
as dimensões manifestas - epistemológicas, estéticas e morais - do trabalho
histórico e só depois penetrar até o nível mais profundo em que essas operações
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META-H1STÓRIA 13

teóricas fundam suas sanções pré-críticas implícitas. Ao contrário de outros


leitores, explico na introdução por que a empreguei e o que entendo por suas
analistas da escrita histórica, não suponho que a subcstrutura “meta-histórica”
do trabalho histórico consista nos conceitos teóricos explicitamente utilizados categorias.
Um dos meus intuitos fundamentais, além daquele de identificar e
pelo historiador para dar a suas narrativas o aspecto de uma “explicação”.
interpretar as principais formas de consciência histórica na Europa oitocen­
Acredito que tais conceitos compreendem o nível manifesto do trabalho, visto
tista, é estabelecer os elementos inconfundivelmente poéticos presentes na
que aparecem na “superfície” do texto e podem comumente ser identificados
com relativa facilidade. Distingo, porém, três tipos de estratégias que podem historiografia e na filosofia da história em qualquer época que tenham sido
postos em prática. Diz-se com freqüência que a história é uma mescla de
ser usadas pelos historiadores para alcançar diferentes tipos de “impressão
explicativa”. Chamo, a essas estratégias, explicação por argumentação formal, ciência e arte. Mas, conquanto recentes filósofos analíticos tenham conse­
guido aclarar até que ponto é possível considerar a história como uma
explicação por elaboração de enredo* e explicação por implicação ideológica.
modalidade de ciência, pouquíssima atenção tem sido dada a seus compo­
Dentro de cada uma dessas diferentes estratégias identifico quatro possíveis
nentes artísticos. Através da exposição do solo lingüístico em que se consti­
modos de articulação pelos quais pode o historiador alcançar uma impressão
tuiu uma determinada idéia da história tento estabelecer a natureza
explicativa de tipo específico. Para os argumentos há os modos do formismo, do
inelutavelmente poética do trabalho histórico e especificar o elemento pre-
organicismo, do mecanicismo e do contextualismo; para as elaborações de
figurativo num relato histórico por meio do qual seus conceitos teóricos
enredo há os arquétipos da estória romanesca**, da comédia, da tragédia e da
foram tacitamente sancionados.
sátira; e para a implicação ideológica há as táticas do anarquismo, do conser-
vantismo, do radicalismo e do liberalismo. Uma combinação específica de Assim, postulo quatro modos principais de consciência histórica em
modos constitui o que chamo de “estilo” historiográfico de determinado conseqüência da estratégia prefigurativa (tropológica) que informa cada um
historiador ou filósofo da história. Procurei explicar esse estilo em meus deles: metáfora, sinédoque, metonímia e ironia. Cada um desses modos de
estudos sobre Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt entre os historiado­ consciência proporciona a base para um protocolo lingüístico preciso com que
res, e sobre Hegel, Marx, Nietzsche e Croce entre os filósofos da história, da prefigurar o campo histórico e a partir do qual podem ser empregadas estraté­
Europa do século XIX. gias específicas de interpretação histórica para “explicá-lo”. Afirmo que os
A fim de correlacionar esses diferentes estilos como elementos de uma mestres reconhecidos do pensamento histórico do século XIX podem ser
única tradição do pensamento histórico, fui forçado a postular um nível profun­ compreendidos, e que suas relações mútuas como participantes de uma tradição
do de consciência no qual um pensador da história escolhe as estratégias comum de investigação podem ser confirmadas, pela explicação dos diferentes
conceituais com que irá explicar ou representar seus dados. Nesse nível, acre­ modos tropológicos que lhes inspira e informa o trabalho. Em suma, é minha
dito, o historiador realiza um ato essencialmente poético, em que prefigura o opinião que o modo tropológico dominante e seu concomitante protocolo
campo histórico e o constitui como um domínio no qual é possível aplicar as lingüístico compõem a base irredutivelmente “meta-histórica” de todo trabalho
teorias específicas que utilizará para explicar “o que estava realmente aconte­ histórico. E sustento que esse elemento meta-histórico nas obras dos historia­
cendo” nele. Esse ato de prefiguração pode, por sua vez, assumir certo número de dores magistrais do século XIX constitui as “filosofias da história” que implici­
formas cujos tipos são caracterizáveis pelos modos lingüísticos em que estão tamente mantêm suas obras e sem as quais eles não poderiam ter produzido os
vazados. Seguindo uma tradição de interpretação que remonta a Aristóteles e que, tipos de obras que produziram.
mais recentemente, foi desenvolvido por Vico, pelos lingüistas modernos e pelos Por fim, tento mostrar que as obras dos principais filósofos da história do
teóricos da literatura, dou a esses tipos de prefiguração os nomes dos quatro tropos século XIX (Hegel, Marx, Nietzsche e Croce) só diferem das dos seus homólo­
da linguagem poética: metáfora, metonímia, sinédoque e ironia. Como é gos no que às vezes se denomina “história propriamente dita” (Michelet, Ranke,
bastante provável que essa terminologia seja estranha a muitos dos meus Tocqueville e Burckhardt) quanto à ênfase, não quanto ao conteúdo. O que
permanece implícito nos historiadores é simplesmente levado à superfície c
sistematicamente defendido nas obras dos grandes filósofos da história. Não é
* Emplotment, no original, traduzido aqui quase sempre por “elaboração de enredo". No entanto, para as
acidente o fato de que os principais filósofos da história foram também (ou
formas verbais - to emplot, emplotted, emplotting - utilizou-se. como ponto de partida, a expressão “pôr em posteriormente se descobriu que foram) quintessencialmente filósofos da lin­
enredo”, empregada pelo prof. Luiz Costa Líma para dar conta do termo emplotment ao abordar esta obra guagem. Por isso é que foram capazes de compreender, de modo mais ou menos
de Hayden White em seu livro O Controle do Imaginário (Ia edição. São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 166; 2*.
autoconsciente, os fundamentos poéticos, ou pelo menos lingüísticos, em que
ed, revista ,e ampliada. Rio de Janeiro, Forense Universitária. 1989, p. 166) (N. doT.).
•• Romance, no original. “Estória romanesca” é a lição colhida na tradução do prof. Péricles Eugênio da Silva tiveram suas origens as teorias supostamente “científicas” da historiografia do
Ramos do livro de Northrop Frye. Anatomia da Crítica (São Paulo. Cultrix, 1973). no qual o autor de século XIX. Naturalmente esses filósofos procuraram isentar-se das acusações
Meta-História foi buscar os arquétipos dos modos de elaboração de enredo. Ver. adiante, a introdução (N.
de determinismo lingüístico com que atacavam seus adversários. Mas é inegável,
doT.).
a meu ver, que todos eles entendiam a proposição essencial que tento demons-
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trar: que, em qualquer campo de estudo ainda não reduzido (ou elevado) ao uma rejeição da própria ironia. E terá sido parcialmente desbravado o caminho
estatuto de verdadeira ciência, o pensamento permanece cativo do modo para a reconstituição da história como forma de atividade intelectual que é ao
lingüístico no qual procura apreender o contorno dos objetos que povoam seu mesmo tempo poética, científica e filosófica em suas preocupações - como foi
campo de percepção. durante a idade de ouro da história no século XIX.
As conclusões gerais que extraio do meu estudo da consciência histórica
oitocentista podem ser assim sumariadas: 1) não pode haver “história propria­
mente dita” que não seja ao mesmo tempo “filosofia da história”; 2) os modos
possíveis de historiografia são os mesmos que os modos possíveis de filosofia
especulativa da história; 3) esses modos, por sua vez, são na realidade formali­
zações de intuições poéticas que analiticamente os precedem e que sancionam
as teorias particulares usadas para dar aos relatos históricos a aparência de uma
“explicação”; 4) não há apodicticamente premissas teóricas infalíveis em que
se possa de forma legítima assentar uma justificativa para dizer que um dos
modos é superior aos outros por ser mais “realista”; 5) em conseqüência disso,
estamos irremediavelmente presos a uma escolha entre estratégias interpreta-
tivas opostas em qualquer esforço de refletir sobre a história em geral; 6)
como corolário disso, os melhores fundamentos para escolher uma perspec­
tiva da história em lugar de outra são em última análise antes estéticos ou
morais que epistemológicos; e, finalmente, 7) a exigência de cientificização
da história representa apenas a declaração de uma preferência por uma
modalidade específica de conceptualização histórica, cujas bases são ou
morais ou estéticas, mas cuja justificação epistemológica ainda está por
estabelecer.
Ao apresentar minhas análises das obras dos pensadores históricos
magistrais do século XIX na ordem em que aparecem, procuro sugerir que o
pensamento deles representa a elaboração das possibilidades de prefiguração
tropológica do campo histórico contidas na linguagem poética em geral. O
aproveitamento real dessas possibilidades é, no meu modo de ver, o que
mergulhou o pensar histórico europeu na condição irônica do espírito que o
aprisionou no final do século XIX e que é às vezes chamada dc “crise do
historicismo”. A ironia, cuja forma fenomênica era esta “crise”, continuou
desde então a florescer como o modo dominante da historiografia profissional,
tal como era cultivada nos meios acadêmicos. Isso, creio cu, é o que explica
tanto o torpor teórico dos melhores representantes da moderna historiografia
acadêmica quanto as numerosas rebeliões contra a consciência histórica em
geral, que marcam a literatura, a ciência social e a filosofia do século XX.
Espera-se que o presente estudo elucide as razões desse torpor por um lado e
das rebeliões por outro.
Talvez não passe despercebido que este mesmo livro está vazado num
modo irônico. Mas a ironia que o informa é consciente e portanto representa
uma volta da consciência irônica contra a própria ironia. Se lograr.estabelecer
que o ceticismo e o pessimismo de grande parte do pensar histórico contempo­
râneo têm suas origens numa disposição de espírito irônica, e que esta disposi­
ção dc espírito é por sua vez apenas uma dentre muitas posturas possíveis a
adotar diante do registro histórico, terá proporcionado alguns dos motivos para
INTRODUÇÃO
A POÉTICA DA HISTÓRIA

Este livro é uma história da consciência histórica na Europa do século


XIX, mas também pretende contribuir para a atual discussão do problema do
conhecimento histórico. Como tal, representa não só uma exposição do desen­
volvimento do pensar histórico durante um período específico de sua evolução
mas também uma teoria geral da estrutura daquele modo dc pensamento que
é chamado de “histórico”.
Que significa pensar historicamente e quais são as características incon­
fundíveis de um método especificamente histórico dc investigação? Essas ques­
tões foram debatidas durante todo o século XIX por historiadores, filósofos e
teóricos sociais, mas habitualmente dentro do contexto da suposição de que era
possível lhes dar respostas inequívocas. A “história” era considerada um modo
específico de existência, a “consciência histórica” um modo preciso de pensa­
mento, e o “conhecimento histórico” um domínio autônomo no espectro das
ciências humanas e físicas.
No século XX, porem, as considerações em torno dessas questões se
processam numa atmosfera um pouco menos autoconfiante e em presença de
um receio de que talvez não haja possibilidade de lhes dar respostas definitivas.
Pensadores da Europa continental - dc Valcry c Heidegger a Sartre, Lévi-
Strauss e Michel Foucault - expressaram serias dúvidas sobre o valor de uma
consciência especificamente “histórica”, sublinharam o caráter fictício das
reconstruções históricas e contestaram as pretensões da história a um lugar
entre as ciências1. Ao mesmo tempo, filósofos anglo-americanos produziram

1. Vero meu “TheBurden of History”,//wto»y andTheory, 5, n° 2 (1966): 111-34. em que se estudam as razões
dessa revolta contra a consciência histórica. Quanto a manifestações mais recentes, verCIaude I.évi-Strauss,
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uma alentada bibliografia sobre a posição epistemológica e a função cultural da Meu método é, para dizê-lo numa só palavra, formalista. Não tentarei
reflexão histórica, bibliografia que, tomada em conjunto, justifica intensas decidir se a obra de um determinado historiador é uma descrição melhor, ou
dúvidas acerca do estatuto da história como ciência rigorosa ou arte genuína2. mais correta, de um conjunto definido de eventos ou de um segmento do
Essas duas linhas de investigação tiveram o efeito de criar a impressão de que processo histórico, do que a descrição deles feita por algum outro historiador;
a consciência histórica de que se orgulha o homem ocidental desde o início do ^ocurareij de^r£fej^çiaJdcjlüfic£J3SXomponentes.£sUutxu^isjjc^.as^s-
século XIX talvez não passe de uma base teórica para a posição ideológica a crições.
partir da qual a civilização ociSfentarencara seu relacionamento não só com as No meu entender, esse procedimento justifica a concentração em histo­
cufturase^civnízações que a precederam mas também com as que lhe são riadores e filósofos de desempenho nitidamente clássico, aqueles que ainda
contemporSgãs goJempp e contíguas no espaço3. Em suma, é possível conce­ servem de modelos reconhecidos de modos possíveis de conceber a história:
ber a consciência histórica como um vics_çspçcifica mente ociçfantal capaz de historiadores como Michelct, Ranke, Tocqueville e Burckhardt; e filósofos da
fundamentar retroativamente a presumjd^j^j>erinridadejla.moderna^socieda- história como Hegel, Marx,_Nietzsçhe e.Croce. No exame de tais pensadores
de industrial. discutirei a questão do que representa o enfoque mais correto do estudo
"‘Tífinha própria análise da estrutura profunda da imaginação histórica da histórico. A situação deles como possíveis modelos de representação ou con-
Europa oitocentista pretende oferecer uma nova perspectiva ao debate em ceptualização histórica não depende da natureza dos “dados” que utilizavam
curso a respeito da natureza e função do conhecimento histórico. Ela avança para escorar suas generalizações nem dás teorias que invocavam para explicá-
em dois níveis de investigação. Procura analisar, primeiro, as obras dos mejstres las; depende, isto sim, da consistência, da coerência e do poder iluminador de
reconhecidos da historiografia^ULQpcia dp século XIX e, em segundo lugar, as suas respectivas visões do campo histórico. É por isso que não podem ser
o5Fas'dõsprmapais filósofos da história desse mesmo período. Um objetivo “refutados”, ou ter suas generalizações “desconfirmadas”, quer pelo recurso a
geral é determinar as características de família das diversas concepções do novos dados que poderiam surgir em pesquisa subsequente, quer pela elabora­
processo histórico que efetivamente aparecem nas obras dos narradores clássi­ ção de uma nova teoria para interpretar os conjuntos de eventos que constituem
cos. Outra meta é determinar as várias teorias possíveis mediante as quais foi a seus objetos de representação e análise. A situação deles como modelos de
reflexão histórica justificada pelos filósofos da história daquele tempo. A fim narração e conceptualização histórica depende, em última análise, da natureza
de alcançar esses alvos, considerarei o labor histórico como o que ele manifes­
tamente é, a saber: uma estrutura verbal na forma^del un^discurso narrativo em tradição neopositívista (e anti-hegeliana) representada da maneira mais conspícua por Karl Popper. Mas as
prosa que pretende serumnSSel^ou ícone, de estruturas e processos passados duas obras abordam um problema comum, isto é, a natureza da representação “realista”, que é o problema
no mteressieSegqp/ícflro que eram representando-os\ colocado para a moderna historiografia. Nem um nem outro, porém, trata da análise do conceito crucial de
representação histórica, muito embora ambos tomem o que se poderia denominar “senso histórico” como
um aspecto centra Ido “realismo" nas artes. Eu. decerto modo, inverti a formulação deles. Eles perguntam:
The Savage Mind(Londres, 1966). pp. 257-62; e Idem, “Overture to leCru et leCuit", em Jacques Ehrmann quais sáo os componentes “históricos" de uma arte “realista”? Eu pergunto: quais são os elementos
(Org.), Structuralism (Nova York, 1966), pp. 47-48. Consultem-se também duas obras de Míchel Foucault: “artísticos" de uma historiografia “realista”? Ao procurar responder a esta última pergunta, vali-me
The OrderofThingszAnArcheology oflhe Human Sciences (Nova York, 1971). pp. 259 e ss., e LArchéologie intensamente de dois teóricos da literatura cujas obras representam sistemas filosóficos virtuais: Norlhrop
du savoir (Paris, 1969), pp. 264 e ss. Frye, The Anatomy of Criticism: Four Essays (Princeton, 1957 [Anatomia da Crítica, tradução de Péricles
2 A substância desse debate foi competentemente resumida por Louis O. Mink, “Philosophical Analysis and Eugênio da Silva Ramos; São Paulo, Cultrix, 1973)); e Kenneth Burke.J Grammar ofMotives (Berkeley e
Historical Understanding”, Review of Metaphysics, 21, n° 4 (jun., 1968): 667-98. Quase todas as posições Los Angeles, 1969). Também me beneficiou a leitura dos críticos estruturalistas franceses: Lucien Gold-
assumidas pelos principais participantes do debate estão representadas William H. Dray (Org.), em mann, Roland Barthes, Michel Foucault e Jacques Derrida. Gostaria de assinalar, porém, que estes últimos
Philosophical Analysis and History (Nova York, 1966). me parecem, em geral, cativos de estratégias tropológicas de interpretação do mesmo modo que seus
3. Ver Foucault, The Order of Things, pp. 367-73. homólogos do século XIX. Foucault, por exemplo, não parece estar consciente de que as categorias que usa
4. É claro que aqui estou na iminência de abordar o debatidíssimo problema da moderna critica literária para analisar a história das ciências humanas são pouco mais do que formalizações dos tropos. Frisei isto
(ocidental), o problema da representação literária “realista”. Para uma explanação do problema, ver René em meu ensaio “Foucault Decoded: Notes from Underground”. History and Theory, 12, n° 1 (1973): 23-54.
Wellek, Concepts of Criticism (New Haven e Londres, 1963), pp. 221-55. De maneira geral, meu modo de Em minha opinião, toda a discussão sobre a natureza do “realismo” em literatura se embaralha na
encarar o problema, tal como ele aparece dentro do contexto da historiografia, segue o exemplo de Erich incapacidade de estabelecer criticamente em que consiste uma concepção genuinamente histórica da
Auerbach, Mimesis: The Representation of Reality irt Western Literature (Princeton. 1968). Toda a questão da “realidade". A tática habitual é pôr o “histórico” em confronto com o “mítico”, como se aquele fosse
representação “fictícia” da “realidade” foi tratada em profundidade, com especial referência às artes visuais, puramente empírico e este não fosse senão conceptual, e em seguida localizar o reino do “fictício” entre os
em E. H. Gombrich, Ari and Jllusion.A Study in lhe Psychology of Piclorial Representation (I>ondres e Nova dois pólos. A literatura é portanto vista como sendo mais ou menos realista, dependendo da proporção de
York, 1960). O próprio Gombrich vai descobrira origem do realismo pictórico da arte ocidental na tentativa elementos empíricos para elementos conceptuais contida dentro dela. Tal é, por exemplo, a tática de Frye,
dos artistas gregos de traduzirem termos visuais as técnicas narrativas dos autores de textos épicos, trágicos bem como de Auerbach e Gombrich. embora se deva notar que Frye pelo menos considerou o problema
e históricos. O capítulo 4 àeArt and Ulusion, sobre as diferenças entre a sobredeterminação conceptual da num ensaio sugestivo, "New Directions from Old”, em Fabies of Identity (Nova York, 1963). que trata das
arte do Oriente Próximo, orientada para o mito, e a arte narrativa, antimítica, dos gregos, pode ser relações entre história, mito e filosofia da história. Dos filósofos que lidaram com o elemento “fictício” na
provei tosa mente cotejado com o famoso capítulo de abertura da Mimesis de Auerbach, que justapõe os narrativa histórica, achei mais úteis os seguintes: W. B. Gallíe. Philosophy and the Historical Understanding
estilos de narrativa encontrados no Pentateuco e em Homero. É dispensável dizer que as duas análises da (Nova York, 1968); ArthurC. Danlo.Analytical Philosophy of History (Cambridge. 1965) & Louis O. Mink,
carreira do “realismo” na arte ocidental propostas por Auerbach e Gombrich diferem muito. O estudo de “The Autonomy of Historical Understanding”, em Dray (Org.). Philosophical Analysis and History, esp. pp.
Auerbach é hegeliano sob todos os aspectos e apocalíptico no tom, enquanto Gombrich trabalha dentro da 179-86.
20 HAYDENWHJTE

META-HISTÓRIA 21
preconceptual e especificamente poética de suas perspectivas da história e seus
processos. Tudo isto admito como justificação de um enfoqpe fnrmalktx-do A TEORIA DA OBRA HISTÓRICA
estudo da reflexão histórica no século XIX.,
Isso posto, porém, fica evidente de imediato que as obras produzidas por
Começo por distinguir os seguintes níveis de çonceptualizaçãq na obra
esses pensadores representam concepções alternativas, e ao que tudo indica
histórica: 1) crônica; 2) estória; 3) jnodo de elaboraçãodeenred^4yr^do"de
mutuamente exclusivas, não só dos mesmos segmentos do processo histórico
argumentação; e 5jjhòdô de implicação ideológica. Entendo que a “crônica” e
mas também das tarefas da refleMQJÚstóriça^Çjinsideradas^uramente como
a^estória” remetem a “elementos primitivos” do relato histórico, mas ambas
estruturas verbais, as obras por e.lçs .produzida parecem. ter características
representam processos de seleção e arranjo de dados extraídos do registro
Tôrmais radicalmentedjfexcuto.e-arranjai ojpag-atp conceptual, usado para histórico não pr^SJS^l^nteresse de Fórharesse registro mais compreensível
explicar os mesmos conjuntos de dados, de maneiras fundamentaimente dife-
para um público de determinado tipo. Assim concebida, apbj^hi^tc^içaj;epxp-
rentes. No nível mais superficial, por exemplo, a obra de um historiador pode
senta uma tentativa de mediarão entre o que eu chamarei de-C^^. (tf^órico,
ser diacrônica ou processional por natureza (salientando o fato da mudança e 0 nao'PTtoróriçoj e um público.
transformação no processo histórico), ao passo que a de outro pode ser sincrô-
nica ou estática na forma (acentuando o fato da continuidade estrutural). Por Ém primeiro lugar os elementos do campo histórico são organizados
outro lado, enquanto um historiador pode entender que é sua tarefa reevocar,
de maneira lírica ou poética, o “espírito” de uma época passada, outro pode temRorayg^^
presumir que lhe cabe sondar o que há por trás dos acontecimentos a fim de postmor^nAÍafe eventos J^pmpon^
revelar as “leis” ou os “princípios” de que o “espírito” de uma determinada de^acontecimento, que, sçgundg^se pensa, possuj çpmeço, mgiq^fim
vms/Essa transformação da crônica em estória é efetuada pela caracterização
época é apenas uma manifestação ou forma fenomênica. Ou, para registrar uma
de alguns eventos da crônica em função de motivos iniciais, de outros em função
outra diferença fundamental, alguns historiadores concebem sua obra primor­
de motivos conclusivos, e de ainda outros em função de motivos de transição.
dialmente como uma contribuição para a iluminação de problemas e conflitos
Um evento simplesmente registrado como tendo ocorrido num certo tempo e
sociais existentes, enquanto outros se inclinam para suprimir tais preocupações
lugar é transformado num evento inicial por sua caracterização como tal: “O rei
presentistas e tentam determinar em que medida um dado período do passado
foi a Westminster em 3 de junho de 1321. Lá ocorreu o funesto encontro entre
difere do seu, no que parece ser um estado de espírito bem próximo daquele do
o rei e o homem que iria finalmcnte desafiá-lo em disputa pelo trono, se bem
“antiquário”.
que na ocasião os dois homens parecessem destinados a tornar-se os melhores
Em poucas palavras, consideradas exclusivamente como estruturas ver­
amigos”. Um motivo de transição, por outro lado, sinaliza ao leitor para que
bais e formais, as histórias produzidas pelos historiadores mestres do século suspenda temporariamente suas expectativas acerca da significação dos acon­
XIX exibem concepções radicãlmente diferentes daquilo em que deveria con­
tecimentos nele contidos até que seja fornecido algum motivo conclusivo:
sistir “a obra histórica”. A fim, portanto, de identificar as-xaracterístjcasde “Enquanto viajava para Westminster, o rei foi informado por seus conselheiros
família dos diversos tipos de reflexão histónça produzidos pelo século XIX, é de que ali o esperavam seus inimigos e que as possibilidades de um acordo
necessário em primeiro lugar esclarecer em que poderia consistir a estrutura vantajoso para a coroa eram escassas”. Um motivo conclusivo indica o fim ou
típico-ideal da “obra histórica”. Uma vez elaborada essa estrutura típico-ideal, resolução visível de um processo ou situação de tensão: “A 6 de abril de 1333
disporei de um critério para determinar que aspectos de qualquer obra histórica travou-se a Batalha de Balybourne. As forças do rei foram vitoriosas, os rebel­
ou filosofia dajiistóriaj:pnhecida devem ser considerados no afã de identificar des, derrotados. O resultante Tratado de Howth Castle, de 7 de junho de 1333,
seus elementos estruturais Em seguida, reconstituindo as transfor­ trouxe paz ao reino - muito embora viesse a ser uma paz difícil, consumida nas
mações operadas nos modos pelos quais os pensadores da história caracterizam chamas das lutas religiosas sete anos depois”. Quando um dado conjunto de
aqueles elementos e os arranjam numa ordem narrativa específica para chegar eventos é posto num código de motivos, o leitor tem diante de si uma estória; a
a uma “impressão explicativa”, devo ter condições de cartografar as mutações crônica de eventos transforma-se num processo diacrônico concluído, a respeito
fundamentais ocorridas na estrutura profunda da imaginação histórica referen­ do qual é possível então fazer perguntas como se se estivesse lidando com uma
te ao período em estudo. Isto, por sua vez, permitirá caracterizar os diferentes estrutura sincrônica de relações5.
pensadores da história do período em função da posição por eles partilhada
enquanto participantes de um universo de discurso característico, dentro do 5. As distinções entre crônica, estória e enredo que tentei expor nesta seção talvez tenham mais valia para a
qual eram possíveis diferentes “estilos” de reflexão histórica. análise de trabalhos históricos do que para o estudo de ficções literárias. Ao contrário de ficções literárias
comoo romance, as obras históricas são feitas de acontecimentos que existem fora da consciência do escritor.
Os acontecimentos relatados num romance podem ser inventados de um modo que não podem ser (ou não
devem ser) inventados numa história. Isso dificulta a distinção entre a crônica de eventos e a estória contada
numa ficção literária. Em certo sentido, a “estória" contada num romance como os Buddenbrooks de Mann
é indistinguível da “crônica” dos acontecimentos relatados na obra, muito embora possamos distinguir entre
META-HISTÔRIA 23
22 HAYDENWWTE

As estórias históricas reconstituem as sequências de eventos que condu­ “identificadas” ou “descobertas” na crônica. Podem ser respondidas de várias
zem dos inícios aos términos (provisórios) de processos sociais e culturais, de maneiras. Chamo essas maneiras de explicação por elaboração de enredo,
um modo que as crônicas não são obrigadas a fazer. A rigor, as crônicas têm explicação por argumentação e explicação por implicação ideológica.
finais em aberto. Em princípio não têm inícios; simplesmente “começam”
quando o cronista passa a registrar os eventos. E não têm pontos culminantes
nem resoluções; podem continuar indefinidamente. As estórias, porém, têm EXPLICAÇÃO POR ELABORAÇÃO DE ENREDO
uma forma discernível (mesmo quando essa forma é a imagem de um estado de
caos) que separa os eventos nelas contidos dos outros eventos que poderiam Prover o “sentido” de uma estória através da identificação da modalidade
aparecer numa crônica abrangente dos anos cobertos em seus desdobramentos. de estória quefoi contada é o que se chama explicação por elaboração de enredo.
Diz-se às vezes que o objetivo do historiador é explicar o passado através Se, ao narrar sua estória, o historiador lhe deu a estrutura de enredo de uma
do “achado”, da “identificação” ou “descoberta” das “estórias” que jazem tragédia, ele a “explicou” de uma maneira; se a estruturou como uma comédia,
enterradas nas crônicas; e que a diferença entre “história” e “ficção” reside no ele a “explicou” de outra maríeira/A elaboração de enredo é a via pela qual
fato de que o historiador “acha” suas estórias^ ao passo que o ficcionista uma seqüência de eventos modelados numa estória gradativamente se revela
“inventa” as suas Essa concepção ^a tarefa do fiístoriádor, porém, obscurece como sendo uma estória de um tipo determinado.
o graTB^ftinvgnção” que também desempenha um papel nas operações do Seguindo a direção indicada por Northrop Frye em seu Anatomy of
historiador/Õ mesmo evento pode ser útil como um tipo diferente de elemento Criticism, identifico pelo menos quatro modos de elaboração de enredo: a
dFmuitas estórias históricas diferentes, dependendo da função que lhe é estória romanesca, a tragédia, a comédia e a sátira. Pode haver outros, como o
atribuída numa caracterização motívica específica do conjunto a que ele per­ épico, e é provável que um determinado relato histórico contenha estórias
tence. A morte do rei pode ser um começo, um final, ou simplesmente um evento vazadas num modo como aspectos ou fases do conjunto inteiro de estórias
de transição em três estórias diferentes. Na crônica este evento está simples­ postas em enredo de outro modo. Mas um historiador qualquer é forçado a pôr
mente “ali”, como um elemento de uma série; não “funciona” como um elemen­ em enredo todo o conjunto de estórias que compõem sua narrativa, enredo que
to de estória. O historiador arranja os eventos da crônica dentro de uma assume uma forma de estória abrangente ou arquetípica. Por exemplo, Miçhelçt
hierarquia de significação ao atribuir aos eventos funções diferentes como vazou todas as suas histórias no modo romanesco, Ranke vazou as suas no modo
elementos da estória, de maneira a revelar a coerência formal de um conjunto ^coTmccTTocqueville utilizou7o^m^^?ágFcõT Burckhardt usou a sátira. A
completo de eventos como um processo compreensível, com princípio, meio e estrutura épicrde^enrêdorpTrece ser a forma implícita da própria crônica. A
fim discerníveis. questão importante é que toda história, mesmo a mais “sincrônica” ou “estru­
O arranjo de eventos selecionados da crônica no interior de uma estória tural”, há de ser posta em enredo de alguma maneira. O modo satírico forneceu
suscita os tipos de questões que o historiador deve prever e responder no curso os princípios formais pelos quais a historiografia supostamente “não-narrativa”
da construção de sua narrativa. As questões são desta ordem: “Que aconteceu dc Burckhardt pode ser identificada como uma “estória” de tipo especial. Pois,
depois?” “Como isso aconteceu?” “Por que as coisas aconteceram desse modo como mostrou Frye, as estórias vazadas no modo irônico, do qual a sátira é a
e não daquele?” “Em que deu no final tudo isso?” Essas perguntas determinam forma ficcional, alcançam seus efeitos precisamente ao frustrar as expectativas
as táticas narrativas que cabe ao historiador empregar na construção dc sua normais acerca dos tipos de resoluções proporcionados por estórias vazadas em
estória. Mas tais perguntas acerca das conexões entre dois eventos, que os outros modos (estória romanesca, comedia ou tragédia, conforme o caso)6.
transformam em elementos de uma estória seguível, devem ser diferenciadas dc
perguntas de outro tipo: “Que significa tudo isso?” “Qual a finalidade disso 6. Estou consciente de que, ao empregar a terminologia e a classificação de estruturas de enredo de Frye. me
tudo?” Essas perguntas têm a ver com a estrutura do conjunto inteiro de eventos exponho à crítica daqueles teóricos de literatura que ou se opõem aos esforços taxonômicos de Frye ou têm
considerado como uma estória concluída e reclamam um juízo sinóptico da suas próprias taxonomias a propor no lugar da dele. Não desejo dar a entender que as categorias de Frye
sãoas únicas possíveis para classificar gêneros, modos, mythoi etc., em literatura; mas achei-as especialmenle
relação entre uma dada estória e outras estórias que poderiam scr “achadas”,
úteis para a análise das obras históricas. A principal crítica à teoria literária de Frye parece ser que. embora
seu método de análise funcione bastante bem nos gêneros literários de segunda ordem, como o conto de
fadas ou a novela policial, é ele demasiado rígido e abstrato para fazer justiça a obras de tão rica textura e
a “estória-crônica” e o “enredo” (que é o de uma tragédia irônica). Diversamente do romancista, o
tantos níveis como Rei Lear, Em Busca do Tempo Perdido ou mesmo O Paraíso Perdido. Talvez isto seja
historiador defronta com um verdadeiro caos de acontecimentos já constituídos, dos quais há de escolher os
verdade; provavelmente é. Mas a análise de Frye das principais formas de literatura mítica e fabulosa serve
elementos da estória que vai contar. Realiza sua estória mediante a inclusão de alguns acontecimentos e a
muito bem para a explicação das formas simples de elaboração de enredo encontradas em formas de arte
exclusão de outros, realçando alguns e subordinando outros. Esse processo de exclusão, realce e subordina­
“limitadas”como a historiografia. As “estórias” históricas tendem a incluir-se nas categorias elaboradas por
ção é levado a cabo no interesse de constituir uma estória de tipo particular. Isto é. o historiador "põe em
Frye precisamente porque o historiador resiste à construção das peripécias complexas que constituem o
enredo” sua estória. Sobre a distinção entre estória e enredo, ver os ensaios de Shklovsky. Eichenbaum e
fundo de comércio do romancista e do dramaturgo. Exatamente porque o historiador não está (ou pretende
Tomachevsky, representantes da escola formalista russa, em LeeT. Lemon & Marion J. Reis (Orgs), Russian
não estar) contando a estória “pela estória”, inclina-se ele por colocar suas estórias em enredo segundo as
Formalist Criticism: Four Essays (Lincoln, Neb., 1965); e Frye, Anatomy, pp. 52-53. 78-84.
24 UAYDEN WUITE META-HISTÓRIA 25

A estória romanesca é fim^msnfcalmpnte» um„dtamaJe auto-identifica­ condição da sociedade é então representada como sendo mais pura, mais sã e
ção simbolizado pela apticffo'do herói para transcender o mundo da experiên­ mais sadia em conseqüência do conflito entre elementos do mundo aparente­
cia, vencê-lo e libertar-se dele no final - o tipo de drama associado à lenda do mente opostos de forma inalterável; estes elementos revelam-se, no fim de
Graal ou à estória da ressurreição de Cristo na mitologia cristã.É um drama do contas, harmonizáveis uns com os outros, unificados, concordes consigo mes­
triunfo do bem sobre o mal, da virtude sobre o vício, da luz sobre a treva, e da mos e com os outros. As reconciliações que ocorrem no final da tragédia são
transcendência úítima do homem sobre o mundo em que foi aprisionado pela muito mais sombrias; têm mais o caráter de resignações dos homens com as
Queda. O tema arquetípico da sátira é o exato oposto desse drama romanesco condições em que devem labutar no mundo. Essas condições, por sua vez, se
da redenção; é de fato um drama da disjunção, drama dominado pelo temor de declaram inalteráveis e eternas, implicando que ao homem não é possível
que o homem é essencialmente um cativo do mundo, e não seu senhor, e pelo mudá-las mas que lhe cumpre agir dentro delas. Impõem limites quanto ao que
reconhecimento de que, em última análise, a consciência e a vontade humanas se pode aspirar e ao que se pode legitimamente visar na busca de segurança e
são sempre inadequadas para a tarefa de sobrepujar em definitivo a força equilíbrio no mundo.
obscura da morte, que é o inimigo infatigável do homem. A estória romanesca e a sátira seriam, aparentemente, meios mutuamente
A comédia e a tragédia, porém, sugerem a possibilidade de libertação, ao exclusivos de pôr em enredo os processos da realidade. A noção mesma de sátira
menos parcial, da condição da Queda, e de alívio provisório do estado dividido romanesca representa uma contradição. Posso legitimamente imaginar uma
em que os homens se acham neste mundo. Mas essas vitórias provisórias são estória romanesca satírica, mas o que eu entenderia por essa expressão seria
concebidas dessemelhantemente nos arquétipos míticos de que as estruturas de uma forma de representação destinada a expor, de um ponto de vista irônico, a
enredo da comédia e da tragédia são formas sublimadas. Na comédia, a espe­ fatuidade de uma concepção romanesca do mundo. Mas, por outro lado, porco
rança do temporário triunfo do homem sobre seu mundo é oferecida pela falar de uma sátira cômica e de uma comédia satírica, ou de uma tragédia satírica
perspectiva de reconciliações ocasionais das forças em jogo nos mundos social e de uma sátira trágica. Mas cabe notar aqui que a relação entre o gênero
e natural. Tais reconciliações são simbolizadas nas ocasiões festivas de que se (tragédia ou comédia) e o modo em que ele é vazado (satírico) é diferente
vale tradicionalmente o autor cômico para terminar seus relatos dramáticos de daquela que prevalece entre o gênero da estória romanesca e os modos (cômico
mudança e transformação. Na tragédia não há ocasiões festivas, salvo as falsas e trágico) em que ele pode ser vazado. Comédia e tragédia representam
ou ilusórias; pelo contrário, há sugestões de estados de divisão entre os homens restrições à percepção romanesca do mundo, considerada como um processo,
ainda mais terríveis do que aquele que incitou o trágico agon no início do drama. no interesse de levar a sério as forças que se opõem ao esforço de redenção
Todavia, a queda do protagonista e o abalo do mundo que ele habita ocorridos humana ingenuamente sustentado como uma possibilidade para a humanidade
no final da peça trágica não são considerados ameaçadores para aqueles que na estória romanesca. A comédia e a tragédia levam o conflito a sério, mesmo
sobrevivem à prova agônica. Para os espectadores da luta houve uma aquisição que aquela resulte numa visão da ulterior reconciliação de forças opostas e esta
de conhecimento. E pensa-se que essa aquisição consiste na epifania da lei numa revelação da natureza das forças que se opõem ao homem. E é possível,
regedora da existência humana que a pugna vigorosa do protagonista contra o para o autor romanesco, assimilar as verdades da existência humana reveladas
mundo produziu. respectivamente na comédia e na tragédia dentro da estrutura do drama de
As reconciliações que acontecem no final da comédia são reconciliações redenção que ele imagina em sua visão da vitória final do homem sobre o mundo
dos homens com os homens, dos homens com seu mundo e sua sociedade; a da experiência.
Mas a sátira representa uma espécie diferente de restrição às esperanças,
possibilidades e verdades da existência humana reveladas na estória romanesca,
formas mais convencionais - como o conto de fadas ou a novela policial por um lado, ou como estória na comédia e na tragédia respectivamente. Ela observa essas esperanças, pos­
romanesca, comédia, tragédia ou sátira por outro. sibilidades e verdades ironicamente, na atmosfera gerada pela percepção da
Talvez importe lembrar que o historiador oitocentista de formação regular teria sido criado numa dieta de inadequação última da consciência para viver feliz no mundo ou compreendê-lo
literatura clássica e cristã. Os mylhoi contidos nessa literatura lhe teriam fornecido um fundo de formas de
estória a que poderia recorrer para fins narrativos. Seria um equívoco, porém, supor que mesmo um plenamente. A sátira pressupõe a inadequação última das visões do mundo
historiador tão sutil comoTocqueville fosse capaz de adaptar essas formas de estórias aos tipos de desígnios dramaticamente representadas tanto no gênero da estória romanesca quanto
que um grande poeta como Racine ou Shakespeare conceberia. Quando historiadores como Burckhardt, nos gêneros da comédia e da tragédia. Como fase na evolução de um estilo
Marx, Michelet e Ranke falavam de “tragédia” ou “comédia" tinham geralmente uma noção muito simples
do que significam esses termos. Era diferente no caso de Hegel. Nietzsche e (em menor extensão) Croce.
artístico ou de uma tradição literária, o advento do modo satírico de represen­
Como especialistas em estética, esses três filósofos tinham uma concepção muito mais complexa de gênero tação assinala uma convicção de que o mundo envelheceu. Como a própria
e consequentemente escreviam histórias muito mais complexas. Os historiadores em geral, por mais críticos filosofia, a sátira “pinta seu cinzento sobre cinzento” na compreensão de sua
que sejam de suas fontes, tendem a ser ingênuos contadores de histórias. Quanto à caracterização das própria inadequação como imagem da realidade. Portanto prepara a consciên­
estruturas básicas de enredo proposta por Frye. ver Anatomy, pp. 158-238. Acerca de Frye. ver Geoffrey
Hartman, “Ghostlier Demarcations: The Sweet Science of Northrop Frye", em Beyond Formalism: Lilerary cia para seu repúdio de todas as conceptualizações rebuscadas do mundo e
Essays, 1958-1970 (New Haven e Londres, 1971), pp. 24-41. antevê um retorno e uma percepção mítica do mundo e seus processos.
26 HAYDEN WHITE META HISTÓRIA 27

Essas quatro formas arquetípicas de estória oferecem-nos um meio de (composta pelos meios de produção e pelos modos de relação entre eles) haverá
caracterizar as diferentes modalidades de impressões explicativas que um transformação nos componentes da Superestrutura (instituições sociais e cul­
historiador pode buscar no nível da elaboração do enredo narrativo. E permi­ turais), mas que a relação inversa não prevalece (por exemplo, mutações na
te-nos distinguir entre narrativas diacrônicas, ou processionais, do tipo produ­ consciência não operam mutações na Base). Outros exemplos de leis putativas
zido por Michelet e Ranke e as narrativas sincrônicas, ou estáticas, escritas por (como “A moeda má expulsa a boa” ou mesmo uma observação banal como
Tocqueville e Burckhardt. Nas primeiras o senso de transformação estrutural é “Tudo o que sobe deve cair”) são em geral pelo menos tacitamente invocados
predominante como a principal representação orientadora. Nas segundas, o no curso dos esforços feitos pelo historiador para explicar um fenômeno como,
senso de continuidade estrutural (especialmente em Tocqueville) ou estase digamos, a Grande Depressão ou a Queda do Império Romano. O bom senso
(Burckhardt) predomina. Mas a distinção entre uma representação sincrônica ou convencionalismo dessas últimas generalizações não lhes afeta o estatuto de
e uma representação diacrônica da realidade histórica não deve ser tomada supostas premissas maiores de argumentos nomológico-dedulivos graças aos
como indicadora de métodos mutuamente exclusivos de pôr em enredo o campo quais se oferecem explicações de eventos fornecidos na estória. A natureza das
histórico. Essa distinção aponta apenas para uma diferença de ênfase no generalizações apenas aponta para o caráter protocientífico da explicação
tratamento da relação entre continuidade e mudança numa dada representação histórica em geral, ou para a inadequação das ciências sociais de onde essas
do processo histórico como uma totalidade. generalizações, aparecendo numa forma apropriadamente modificada e mais
A tragédia e a sátira são modos de elaboração de enredo concordes com rigorosamente enunciada, poderiam ser extraídas a título de empréstimo.
o interesse daqueles historiadores que percebem atrás ou dentro da congérie O ponto importante é que, na medida em que um historiador apresenta
de eventos contidos na crônica uma estrutura vigente de relações ou um eterno explanações pelas quais as configurações de eventos de sua narrativa são
retorno do Mesmo no Diferente. A estória romanesca e a comédia sublinham explicadas mais ou menos na forma de um argumento nomológico-dedutivo, tais
a emergência de novas forças ou condições emanadas de processos que parecem explanações devem ser distinguidas da impressão explicativa alcançada pela
à primeira vista ou ser imutáveis em sua essência ou estar mudando só em suas maneira como ele pôs em enredo sua estória como uma estória de tipo particular.
formas fenomênicas. Mas cada uma dessas estruturas arquetípicas de enredo Isso não decorre do fato de que não se pudesse tratar a elaboração de enredo
tem suas implicações para as operações cognitivas pelas quais o historiador como um tipo de explicação por meios nomológico-dedutivos. Com efeito, um
procura “explicar” o que estava “realmente acontecendo” durante o processo enredo trágico poderia ser tratado como aplicação das leis que regem a natureza
do qual ela proporciona uma imagem de sua verdadeira forma. e as sociedades humanas em certos gêneros de situações; e, na medida em que
tais situações foram estabelecidas como existentes em determinado tempo e
lugar, poder-se-ia considerar que elas foram explicadas pela invocação dos
princípios aludidos, do mesmo modo que os eventos naturais são explicados por
EXPLICAÇÃO POR ARGUMENTAÇÃO FORMAL
identificação das leis causais universais que se presume governem suas relações.
Talvez eu pudesse dizer que, na medida em que um historiador fornece o
Além do nível de conceptualização em que o historiador põe em enredo “enredo” pelo qual os eventos da história que ele conta ganham algum tipo de
seu relato narrativo “do que aconteceu”, há outro nível no qual ele pode coerência formal, ele está fazendo o mesmo tipo de coisa que faz um cientista
procurar explicar “a finalidade disso tudo” ou “o que isso tudo significa” no fim quando identifica os elementos do argumento nomológico-dedutivo em que
de contas. Nesse nível posso discernir uma operação a que chamo explicação deve vazar sua explicação. Mas faço aqui a distinção entre a colocação em
por argumentação formal, explícita ou discursiva. Tal argumentação oferece enredo dos eventos de uma história considerados como elementos de uma
uma explicação do que acontece na estória mediante a invocação de princípios estória e a caracterização daqueles eventos enquanto elementos de uma matriz
dc combinação que fazem as vezes de leis putativas de explicação histórica. de relações causais que se presume tenham existido em regiões específicas do
Neste nível de conceptualização, o historiador explica os eventos da estória (ou tempo e do espaço. Em suma, tomo por enquanto ao pé da letra a afirmação do
a forma que imprimiu a esses eventos ao pô-los em enredo de um modo historiador de estar fazendo a um só tentpp t ciência e a distinção habitual­
particular) através da construção de um argumento nomológico-dcdutivo. Esse mente traçada entre as operações investigativas do historiador de um lado e sua
argumento pode ser analisado à maneira de um silogismo, no qual a premissa operação narratjyadooutro. Admitimos que uma coisa é representar “o que
maior consiste em alguma lei putativamente universal de relações causais, a aconteceu” e “por que aconteceu como aconteceu” e outra bem diferente é
premissa menor, nas condições do limite dentro do qual a lei é aplicada, e uma prover um modelo verbal, na forma de uma narrativa, de modo a explicar o
conclusão na qual os eventos realmente ocorridos são deduzidos das premissas processo de desenvolvimento que conduz dc uma situação a uma outra situação
por necessidade lógica. A mais famosa dessas leis putativas é provavelmente a recorrendo às leis de causação.
chamada lei da relação entre a Superestrutura e a Base, formulada por Marx. Mas a história difere das ciências prccisamejule poique..as historiadores
Essa lei afirma que, sempre que houver qualquer transformação na Base discordam, não só sobre quais são as leis decausação sociaj que^po-denam
META-HISTÓRIA 29

28 HAYDENWHTTE
A teoria formista da verdade tem em mira a identificação das caracterís­
ticas ímpares dos objetos que povoam o campo histórico. Nessa conformidade,
invocar para explicar uma dada sequência dc eventos, mas também sobre a
o formista considera que uma explicação está completa quando um dado
questão da forma que umae^lícação ucienHncairdêve assumif.TTa uma longa
conjunto de objetos foi convenientemente identificado, seus atributos de classe,
história de controvérsia sobre se as explicações científicas naturais e as históri­
genéricos e específicos, foram marcados, e as etiquetas que atestavam essa
cas devem ter as mesmas características formais. Essa controvérsia gira em
particularidade foram coladas. Os aludidos objetos podem ser individualidades
torno do problema de saber se os tipos de leis que poderiam ser invocadas nas
ou coletividades, particulares ou universais, entidades concretas ou abstrações.
explicações científicas têm seus equivalentes no reino das chamadas ciências
Assim entendida, a tarefa da explicação histórica consiste em dissipar a percep­
humanas ou espirituais, como a sociologia e a história. As ciçncias físicas
ção das similaridades que parecem ser partilhadas por todos os objetos do
parecem avançar por força dos acordos, alcançados de tempos em tempos pelos campo. Quando o historiador estabelece a unicidade dos objetos particulares
mem^ÕFaas^munidades e^ de cientistas, relativamente ao que
do campo ou a variedade dós tipos dc fenômenos que q camjgoju^n^sta,
conta como problema.científico, à jfoxmajque uma explicação científica deve
fornece uma expITcaçao f^rrn jst a Hq campo como tal.
assumir e aos[gêneros$edaÓQs^que poderão ser acolhidos como provas numa
desçnSaQ .cprretamçnte científica darealiefade. Entre os historiadores não O modo formista de explicação encontra-se em Herder, Carlyle, Michelet,
existe tal acordo, nem nunca existiu. Isso talvez simplesmente reflita ajxatui^a nos historiadores romanescos e nos grandes narradores históricos, como Nie-
protocientífica da resa historipgráfiça, mas é importante ter em mente essa buhr, Mommsen e Trevelyan - em qualquer historiografia em que a descrição
discordância (õu*! de concordância) congênita sobre o que importa como da variedade, do'colorido e da vividez do campo histórico é tomadFcomo o
explicação especificamente histórica de qualquer conjunto dado de fenômenos Ôbjêtivõcentral do trabalho doJústorjadqr. Sem dúvida um historiador formista
históricos. Pois isso significa que as explicações históricas são obrigadas a pode mostrar-se inclinado a fazer generalizações acerca da natureza do proces­
basear-se em diferentes pressupostos meta-históriços acerca da natureza do so histórico como um todo, à semelhança de Carlyle que a caracterizou como
campo “a essência de inumeráveis biografias”. Mas, nas concepções formistas da
5 histórico?pressupostos
_ im ---- - ■*— '
que geram diferentesTÍJconcepções dos tipos de
Ijum ..ijuiiy,. . * - i—v—»
explicação histórica, a unicidade dos diversos agentes, agências e atos que
exp//cí2çoc5"que podem ser usadas na análise historiografica.
compõem os “eventos” por explicar é fundamental para as investigações, e não
As disputas historiográficas no nível da “interpretação” são na realidade o “fundo” ou a “cena” para o despontar dessas entidades8.
disputas sobre a “verdadeira” natureza da empresa do historiador. A história
permanece, no estado de anaxquia conceptual em que as ciências naturais 7. As observações feitas com relação a Frye na nota 6 aplicam-se, mutatismufandi, à concepção dc Pepper das
estiveram durante o séculQJLYI. quando havia tantas diferentes concepções da formas básicas de reflexão filosófica. Sem dúvida os maiores filósofos - Platão, Aristóteles, Descartes,
“empresa científica” quantas eram as posições metafísicas. No século XVI as Hume, Kanl, Hegel, MilI - resistem à redução aos arquétipos apresentados por Pepper. Talvez mesmo o
diversas concepções do que a “ciência” devia ser refletiam em última análise as pensamento deles represente uma mediação entre dois ou mais dos tipos de posições doutrinárias que
Pepper esboça. Mas os tipos ideais de Pepper proporcionam uma classificação bastante conveniente dos
diversas concepções de “realidade” e as diversas epistemologias por elas gera­ sistemas filosóficos ou das visões de mundo mais simplistas, do gênero de concepção gerai da realidade que
das. Assim, também as disputas sobre o que a “história” deve ser refletem de encontramos em historiadores quando eles falam com o filósofas - isto é, quando invocam alguma idéia geral
igual modo variadas concepções daquilo em que deve consistir uma correta do ser, recorrem a alguma teoria geral relativa a verdade e verificação, inferem implicação ética de verdades
supostamente estabelecidas e assim por diante. Em sua maioria, os historiadores raramente se elevam acima
explicação histórica e diferentes concepções, portanto, da tarefa do historiador. do nível de refinamento filosófico representado por, digamos, Edmund Burke. O grande Whig linha
certamente uma visão do mundo, embora não propriamente uma “filosofia” reconhecível como tal. Como,
É escusado dizer que não falo aqui dos gêneros de disputas que surgem aliás, a maioria dos historiadores, sem excetuar Tocqueville. Pelo contrário, os maiores filósofos da história
nas páginas dos resenhadores dos periódicos especializados, em que é possível tendem a elaborar uma filosofia e também uma visão do mundo. Neste sentido são mais “cognitivamente
responsáveis” do que os historiadores, que na maioria dos casos simplesmente adotam uma visão do mundo
questionar a erudição ou exatidão de um determinado historiador. Falo dos e tratam-na como se fosse posição filosófica cognilivamente responsável. Sobre as “hipóteses do mundo”
tipos de questões que afloram quando dois ou mais especialistas, de aproxima­ ditas básicas, ver Stephen C. Pepper, World Hypotheses.A Study in Evidence (Berkeley e Los Angeles, 1966),
damente igual erudição e refinamento teórico, chegam a interpretações alter­ parte 2, pp. 14ess.
8. Achei a terminologia critica de Kenneth Burke utilíssima para as minhas tentativas de caracterizar o que
nativas, ainda que não por força mutuamente exclusivas, do mesmo conjunto de chamei de “campo histórico” anterior à análise e representação que dele faz o historiador. Sustenta Burke
eventos históricos, ou a diferentes respostas a perguntas como “Qual é a que todas as representações literárias da realidade podem ser analisadas em função de uma péntade de
verdadeira natureza do Renascimento?” O que se subentende aqui, em pelo elementos “gramaticais” hipotelizados: cena, agente, ato. agência e propósito. O modo como esses elementos
se caracterizam e os pesos relativos dados a eles como forças causais no “drama” em que figuram revelam a
menos um nível de conceptualização, são diferentes concepções da natureza da
visão de mundo implícita em todas as representações da realidade. Por exemplo, um autor materialista estará
realidade histórica e da forma apropriada que um relato histórico, considerado propenso a enfatizar o elemento “cena” (o meio, como quer que seja concebido) em relação aos elementos
como argumentação formal, deve assumir. Seguindo a análise de Stephen C. “agente”, “ato”, “agência” e “propósito”, de modo a fazer com que estes quase se igualem a epifenômenos
Pepper em seu World Hypotheses, diferenciei quatro paradigmas da forma que daquele. Já um autor idealista tenderá a ver “propósito” em toda parte e transformará a cena em pouco mais
do que uma ilusão. Ver, para uma explanação geral, Burke, A Grammar of Motives, pp. 3-20.
se pode conceber_ípie~assuma jima._ explicação histórica, considerada como
argumento discursivo: fori^js^organicista, mecanicista e contextualista7.
30 HAYDENWHITE META-HISTÓR1A 31

Para usar os termos de Pepper, o formismo é esscncialmentc “dispersivo” Sem dúvida, como observa Pepper, os historiadores que lidam com esse
nas operações analíticas que executa sobre os dados, e não “integrativo”, como modo estarão mais interessados em caracterizar o processo integrativo do que
tendem a ser as explicações organicistas e mecanicistas. Assim, embora uma em descrever seus elementos individuais. Isso é o que dá aos argumentos
estratégia explicativa formista tenda a ser ampla quanto ao “alcance” - vasta vazados nesse modo seu caráter “abstrato”. Além disso, a história escrita nesse
nas espécies de particularidades que identifica como ocupantes do campo modo tende a orientar-se para a determinação do fim ou da meta para a qual
histórico suas generalizações acerca dos processos discernidos no campo se presume que propendem todos os processos encontrados no campo histórico.
propendem a carecer de “precisão” conceptual. Os historiadores romanescos, Um historiador como Ranke, está claro, resistirá conscientemente à inclinação
e, na verdade, os “historiadores narrativos” em geral, estão inclinados a cons­ para especificar qual poderia ser o telos de todo o processo histórico, e há de
truir, em torno da totalidade do campo histórico e da significação de seus se contentar com o esforço de determinar a natureza de certos teloi provisórios,
processos, generalizações tão extensas que têm pouquíssimo peso como propo­ estruturas integrativas intermediárias como o “povqF, a “nação” ou a “cultura”,
sições que podem ser confirmadas ou desconfirmadas pelo emprego de dados que ele intenta descobrir no processo histórico em curso. A determinação do
empíricos. Mas tais historiadores geralmente compensam a vacuidade de suas fim último de todo o processo histórico só pode ser vislumbrada, sustenta
generalizações com o fulgor de suas reconstruções de determinados agentes, Ranke, numa visão religiosa. E assimja obra de Ranke pode ser considerada um
agências e atos representados em suas narrativas. exemplo de uma historiografia composta num modo especificamente formista.
As hipóteses organicistas do mundo e suas correspondentes teorias da Mas, ainda que Ranke prime pela descrição de eventos em sua particularidade,
verdade e da argumentação são relativamente mais “integrativas” e portanto suas narrativas devem a estrutura e coerência formal como explicações dos
mais redutivas em suas operações. O organicista tenta descrei£Losj2Qimenores processos por ele descritos antes de tudo ao fato de recorrerem tacitamente ao
discernidos no campo histórico como componentes de processos sintéticos. No modelo organicista do que deve ser uma adequada explicação histórica, modelo
âmago da estratégia organicista existe um compromisso metafísico com o implantado na consciência do próprio Ranke como paradigma do que deve ser
paradigma da relação microcósmico-macrocósmica; e o historiador organicista toda e qualquer explicação válida dc todo e qualquer processo presente no
tenderá a ser regido pelo desejo de ver entidades individuais como componentes mundo.
de processos que se agregam em totalidades que são maiores ou qualitativa­
mente diferentes da soma de suas partes. Os historiadores que operam dentro É uma característica das estratégias organicistas de explicação abster-se
dessa estratégia de explicação, como Ranke e a maioria dos historiadores da procura de leis do processo histórico, quando o termo “leis” é interpretado
“nacionalistas” das décadas de meados do século XIX (Von Sybcl, Mommscn, no sentido de Irel^^S^Sairun^Kaise invariantes, à maneir^J|a^sica
Treitschke, Stubbs, Maitland etc.) tendem a estruturar suas narrativas de modo newtoniana, da química lavoisieriana ou da Hioíògia darwipiana. O organicista
a desenhar a consolidação ou cristalização, a partir dc um conjunto de eventos tende a falar dos “princípios” ou das “idéias” que informam os processos
evidentemente dispersos, de alguma entidade integrada cuja importância c individuais percebidos no campo e de todos os processos tomados globalmente.
maior do que a de qualquer das entidades individuais analisadas ou descritas Esses princípios ou idéias são vistos como formadores de imagens ou prefigu-
no curso da narrativa. radores do fim para que tende o processo como um todo. Não funcionam como
Os idealistas em geral, e os pensadores dialéticos como Hcgel em especial, agentes ou agências causais, salvo em historiadores de orientação decididamen­
representam esse modo de abordar o problema da explicação dos processos te mística oui teológica, caso em que são geralmente interpretados como mani­
discernidos no campo histórico. festações dos desígnios de Deus para Sua criação. De fato, para o organicista,
tais princípios e idéias funcionam não como restrições à capacidade humana de
realizar uma meta caracteristicamente humana na história, como é de supor que
Embora úteis como estratagema para caracterizar a concepção, pelo historiador, do “campo histórico** ainda
não processado, as teorias de Burke sáo menos úteis quando se trata de caracterizar o que o historiador as “leis” da história funcionam no pensamento dos mecanicistas, mas como
poderia fazer do campo depois que este foi “gramaticalmente” posto em código. Sua Rhetoric of Motives fiadores de uma liberdade humana essencial. Assim, embora precise destacar
(Berkeley e Los Angeles, 1965). que pretende sondar as dimensões morais da representação literária, e seu a natureza integrativa do processo histórico visto como um todo para que possa
Language as SymbolicAction (Berkeley e Los Angeles, 1968), que pretende oferecer uma versão secularizada
do nível “anagógico” medieval do sentido e da significação, são decepcionantemente convencionais. Burke apreender o sentido do processo histórico, o organicista não extrai as variedades
tem. por certo, razão em afirmar que todas as representações literárias da realidade, por mais “realísticas” de conclusões pessimistas que o mecanicista rigoroso tende a extrair de suas
que sejam, são em última análise alegóricas. Mas quando passa a classificar as espécies de alegorias que reflexões sobre a natureza nomológica do ser histórico.
poderiam estar presentes dentro delas, oferece pouco mais do que um pastiche das simbologias marxistas,
freudianas e antropológicas, que são, por sua vez, apenas representações alegóricas da “realidade" que As hipóteses mecanicistas do mundo são também integrativas em seu
intentam simplesmente analisar. Consideradas como alegorias, as histórias parecem prestar-se à análise objetivo, mas propendem a ser antes redutivas que sintéticas. Para usar a
pelos métodos apresentados por Frye. Considerada como forma de discurso cognitivamente responsável,
uma história parece ser caracterizável na terminologia de Pepper. E, consideradas como opúsculos morais,
linguagem de Kenneth Burke, o mecanicismo está disposto a ver os “atos” dos
parecem ser classificáveis precisamente nos termos sugeridos pela sociologia do conhecimento de Man- “agentes” que povoam o campo histórico como manifestações de “agencias”
nheim. Sobre esta ver a nota 11, mais adiante. extra-históricas que têm suas origens na “cena” dentro da qual se desenrola a
32 HAYDENWfíITE

META-HISTÓRIA
“ação” descrita na narrativa. A teoria mecanicista da explicação apóia-se na
busca das leis causais que determinam os fesuT^dgSBBÍproçessos^scobertbs circundante. Aqui, como no formismo, o campo histórico é apreendido como
no campo histórico. Õs objetos que se supõe que habitam o campo histórico são um “espetáculo” ou uma tapeçaria de rica textura que à primeira vista parece
interpretados comó existentes na modalidade de relações de parte com parte, carecer de coerência e de qualquer estrutura fundamental discernível. Mas, ao
cujas configurações específicas são determinadas pelas leis que se presume contrário do formista, que tende simplesmente a considerar as entidades em
governarem suas interações. Assim, um mecanicista como Buckle, Taine, Marx sua particularidade e unicidade - isto é, sua similaridade com, e diferença de,
ou, como indicarei, mesmo Tocqueville, estuda a história a fim de predizer as outras entidades no campo o cont^rtualisfa insiste em que “o que aconteceu”
leis que de fato governam suas operações e ^çre^a^^ónali fim de expor no campo pode ser explicado pela especificação da$t.inter7réEc5eãR^^nais
numalormanarrativa os efeitos dessas leis. existentes çntre os agentes e^agênçi^_ quç ^çupayam^ campo num dado
A compreensão das >is que regem a história e a determinação de sua momento.
natureza específica podem ser mais ou menos conspícuas na representação “do A determinação dessa inter-relação funcional é levada a cabo por uma
que estava acontecendo” no processo histórico num determinado tempo e lugar; operação que alguns filósofos modernos, como W. H. Walsh e Isaiah Berlin,
mas, na medida em que as investigações do mecanicista se realizam na busca de chamam de “coligação”9. Nessa operação o objetivo da explicação é identificar
tais leis, seu relato é ameaçado pela mesma tendência para a abstração que a os “fios” que prendem o indivíduo ou a instituição em estudo a seu especioso
do organicista. Ele considera as entidades individuais menos importantes como “presente” sociocultural. Exemplos desse gênero de estratégia explicativa po­
testemunho do que as classes de fenômenos a que se pode demonstrar que dem ser encontrados em qualquer historiador digno deste nome, de Heródoto
pertencem; mas essas classes, por sua vez, são menos importantes para ele do a Huizinga, mas ela encontra expressão como princípio dominante de explica­
que as leis que, segundo se presume, suas regularidades manifestam. Em última ção no século XIX na obra de Jacob Burckhardt. Como estratégia de explicação,
análise, para o mecanicista, uma explicação só é considerada completa quando o contextualismo procura evitar tanto a tendência radicalmente dispersiva do
ele descobre as leis que, é de presumir, governam a história, da mesma maneira formismo quanto as tendências abstrativas do organicismo e do mecanicismo.
que é de presumir que as leis da física governam a natureza. Então aplica essas Busca, em lugar disso, uma relativa integração dos fenômenos discernidos em
leis aos dados de modo a tornar suas configurações compreensíveis como províncias finitas de ocorrência histórica em função de “tendências” ou fisiog-
funções dessas leis. Assim, num historiador como Tocqueville, os atributos nomonias gerais de períodos e épocas. Na medida em que tacitamente invoca
próprios de uma dada instituição, de um costume, de uma lei, forma de arte ou regras de combinação para determinar as características de família de entidades
coisa parecida, são menos importantes como testemunho do que a espécie, a que ocupam províncias finitas de ocorrência histórica, essas regras não são
classe e as tipificações genéricas que, na análise, se pode demonstrar que interpretadas como equivalentes às leis universais de causa e efeito postuladas
exemplificam. E essas tipificações por sua vez são julgadas por Tocqueville - e pelo mecanicista ou aos princípios teleológicos gerais postulados pelo organi­
ccrtamente por Buckle, Marx e Taine - menos importantes do que as leis da cista. Ao contrário, são interpretadas como relações reais que se presume
estrutura social e o processo que regem o curso da história ocidental, cujas tenham existido em tempos e lugares específicos, cujas causas primeira, final e
operações eles atestam. material nunca podem ser conhecidas.
Obviamente, se bem que sejam caracterizadas pela precisão conceptual, O contextualista avança, diz-nos Pepper, isolando algum (na verdade,
as concepções mecanicistas de verdade e explicação estão expostas às acusações qualquer) elemento do campo histórico como assunto de estudo, seja o elemento
de falta de alcance e tendência para a abstração do mesmo modo que seus tão amplo como “a Revolução Francesa” ou ião pequeno como um dia na vida
congêneres organicistas. De uma perspectiva formista, mecanicismo e organi- de uma determinada pessoa. Em seguida passa a escolher os “fios” que ligam
cismo parecem ser “redutivos” da variedade e do colorido das entidades o evento que vai ser explicado a diferentes áreas do contexto. Os fios são
individuais presentes no campo histórico. Mas, para restaurar a desejada exten­ identificados, estendidos para fora, na direção do espaço natural e social
são e concretude, não é preciso buscar refúgio numa concepção tão “impres­ circundante dentro do qual ocorreu o evento, e estendidos para trás no tempo,
sionista” da explicação histórica como a representada pelo formismo. Pode-se, a fim de determinar as “origens” do evento, e para a frente no tempo, a fim de
dc preferência, adotar uma posição contextualista, que como teoria da verdade determinar seu “impacto” e “influência” sobre os eventos subseqüentes. Essa
e da explicação representa uma concepção “funcional” do sentido ou da operação termina no ponto em que os “fios” ou desaparecem no “contexto” de
significação de eventos percebidos no campo histórico. algum outro “evento” ou “convergem” para provocar a ocorrência de algum
A pressuposição informadora do contcxtualismo é que os eventos podem novo “evento”. O impulso não é integrar todos os eventos e tendências que
ser explicados ao serem postos dentro do “contexto” de sua ocorrência. Por que pudessem ser identificados em todo o campo histórico, mas, antes, reuni-los
ocorreram como ocorreram há de ser explicado pela revelação das relações
9. Ver W. H. Walsh, Introduction to the Philosophy of Ifutory (Londres, 1961), pp. 60-65; Isaiah Berlin, “The
específicas que tem com outros eventos ocorrentes em seu espaço histórico
Concepl of Seientific History”, em Dray (Org.), Philosophical Analysis and Hístory, pp, 40-51. Sobre
“coligação" em geral, ver as observações de Mink, “Autonomy”, pp. 171-72.
31 HAYDENWHTTE META-H1STÓR1A 35

numa cadeia de caracterizações provisórias e restritas de províncias finitas de de tipo peculiarmente “histórico” deve tomar. Por contraste, mecanicismo e
ocorrência “significativa”. organicismo representam heterodoxias do pensamento histórico, na opinião
tanto da principal fileira de historiadores profissionais como da de seus defen­
Deve ser óbvio que o enfoque contextualista do problema da explicação
sores entre filósofos que vêem na “filosofia da história” mito, erro ou ideologia.
histórica pode ser visto como uma combinação dos impulsos dispersivos que
Por exemplo, o influente livro de Karl Popper, The Poverty of Historicism,
movem o formismo de um lado e os impulsos integrativos que inspiram o
consiste quase somente numa sistemática denúncia desses dois modos de
organicismo do outro. Mas, na realidade, uma concepção contextualista da
explicação do pensamento histórico10.
verdade, da explicação e verificação parece ser extremamente modesta naquilo
que reclama do historiador e exige do leitor. No entanto, em razão de sua Mas os motivos da hostilidade doshistQXÍadQr-es-profissionaisaQS.modos
organização do campo histórico em diferentes províncias de ocorrência signifi­ organicistas e mecanicistas de explicação continuamobscuros. Ou, melhor, as
cativa, com base na qual é possível distinguir uns dos outros os períodos e as razões aessa hostilidade parecem residir em considerações de tipo especifica­
épocas, ^^contextualismo representa uma solução ambígua do problema da mente extra-epistemológico. Pois, admitida a naturezajxotocicntífiça
construção de um modelo narrativo dos processos discernidos no campo histó- dos históricos, não^há^fuMame^^^pUtemológçoLJP^Qt^, a
YícoTCF^ffuxo” do tempo histónçq^é^ejrrcaradp jíelo contextualista corno um preferência de um modo de explicação sobre outro»
movimento ondulatório (isso é explicitamente indicado por Burckhardt) em que Está claro que já se disse que a história sò pode libertar-se do mito, da
certas fases ou culminâncias são consideradas intrinsecamente mais significati­ religião e da metafísica através da exclusão dos modos de explicação organicis­
vas dõ que outras. Ã operação de estender os fios de ocorrências de modo a tas e mecanicistas de suas operações. Segundo a opinião geral, a história não
permitir o discernimento de tendências no processo sugere a possibilidade de pode desse modo elevar-se à condição de “ciência” rigorosa, mas argumenta-se
uma narrativa em que as imagens de desenvolvimento e evolução pudessem que pode ao menos evitar os perigos do “cientismo” - a dúplice macaqueação
predominar. Mas, na realidade, as estratégias explicativas contextualistas incli­ do método científico e ilegítima apropriação da autoridade da ciência - através
nam-se mais para as representações sincrônicas de segmentos ou seções do dessa exclusão. Pois, limitando-se à explicação segundo os modos do formismo
processo, cortes feitos, por assim dizer, a contrapelo do tempo. Essa tendência e do contextualismo, a historiografia pelo menos permaneceria “empírica” e
para o modo estruturalista ou sincrônico de representação é inerente a uma resistiria à queda no tipo de “filosofia da história” praticada por Hegel e Marx.
hipótese contextualista do mundo. E se o historiador que se inclina para o Mas, precisamente porque a história não é uma ciência rigorosa, essa
contextualismo agregar os vários períodos que estudou numa visão completa de hostilidade para com os modos de explicação organicista e mecanicista parece
todo o processo histórico deverá transpor os limites do arcabouço contextualista expressar apenas um preconceito por parte do estabelecimento profissional. Se
- rumo ou a uma redução mecanicista dos dados em função das leis “intempo- se admite que o organicismo e o mecanicismo apresentam percepções de
rais” que se presume regê-los ou a uma síntese organicista daqueles dados em qualquer processo nos mundos natural e social que não podem ser obtidas pelas
função dos “princípios” que se presume revelem o telos para o qual tende todo estratégias formistas e contextualistas, então a exclusão do organicismo e do
processo ao cabo de um longo percurso. mecanicismo do cânone das explicações históricas ortodoxas deve basear-se em
Certamente qualquer um desses quatro modelos de explicação poderia considerações extra-epistemológicas. O compromisso com as técnicas disper­
ser utilizado numa obra histórica para oferecer alguma coisa que se parecesse sivas do formismo e do contextualismo reflete apenas uma decisão da parte dos
com um argumento formal do verdadeiro sentido dos eventos descritos na historiadores de não tentarem o tipo de integrações de dados que o organicismo
narrativa, mas não gozam todos do mesmo prestígio junto aos notórios prati­ e o mecanicismo sancionam naturalmente. Essa decisão, por sua vez, parece
cantes profissionais da disciplina desde sua academicização no início do século assentar em opiniões pré-criticamente sustentadas acerca da forma que uma
XIX. De fato, entre os historiadores acadêmiços^modelos formista e contex­ ciência do homem e da sociedade tem de assumir. E por seu turno essas opiniões
tualista tendem a predominar como principais çandidajpsAortodoxia. Sempre parecem ser geralmente éticas, e especificamente ideológicas, por natureza.
que*aparecem tendências organicistas ou mecanicistas em renomados mestres É amiúde afirmado, especialmente pelos radicais, que a preferência dos
do ofício, como em Ranke e Tocqueville respectivamente, são elas encaradas historiadores profissionais por estratégias explicativas contextualistas e formistas
como lapsos em relação às formas adequadas que as explicações em história é ideologicamente motivada. Por exemplo, dizem os marxistas que é do interesse
podem assumir. De mais a mais, quando o impulso de explicar o campo histórico dos grupos sociais estabelecidos rejeitar os modos mecanicistas de explicação
em termos francamente organicistas e mecanicistas chega a predominar num histórica porque a revelação das leis reais da estrutura e do processo históricos
determinado pensador, como Hcgcl de um lado e Marx de outro, é este impulso exporia a verdadeira natureza do poder desfrutado pelas classes dominantes e
interpretado como a razão da queda na abominável “filosofia da história”. supriria o conhecimento necessário para desalojar essas classes de suas posições
Em suma, para os historiadores profissionais, formismo e contextualismo
representam os limites da escolha entre as formas possíveis que uma explicação 10. Karl R. Popper, The Poverty of Historicism (Londres, 1961), pp. 5-55.
META-H1STÓRIA 37
36 HAYDENWHTTE

para mantê-lo no estado em que se encontra); tais prescrições vêm acompanha­


de privilégio e poder. É do interesse dos grupos dominantes, afirmam os radicais, das de argumentos que se arrogam a autoridade da “ciência” ou do “realismo”.
cultivar uma concepção da história em que só os eventos individuais e suas Seguindo a análise de Karl Mannheim, em Ideology and Utopia, postulo quatro
relações com seus contextos imediatos podem ser conhecidos, ou em que, na posições ideológicas básicas: anarquismo, conservantismo, radicalismo e libe­
melhor das hipóteses, se permite o arranjo dos fatos em frouxas tipificações,
ralismo11.
porque tais concepções da natureza do conhecimento histórico se conformam
Há, é claro, outras posições metapolíticas. Mannheim menciona o apoca-
respectivamente com as preconcepções “individualistas” dos “liberais” e as
lipticismo das primeiras seitas religiosas modernas, a posição do reacionário e
preconcepções “hierárquicas” dos “conservadores”.
a do fascista. Mas essas posições são em essência autoritárias de um modo que
Por contraste, os historiadores liberais também consideram ideologica­ as formas oitocentistas das ideologias supramencionadas não são. O apocalip-
mente motivadas as pretensões dos radicais à descoberta das “leis” da estrutura ticista baseia suas prescrições para a ação na autoridade da revelação divina, o
e do processo históricos. Tais leis, diz-se, são em geral apresentadas com vistas reacionário na da prática de uma classe ou grupo, que é vista como um sistema
a promover algum programa de transformação social, numa direção radical ou eternamente válido de organização social, e o fascista na autoridade indisputada
reacionária. Isso impregna de mau cheiro a própria busca das leis da estrutura de um chefe carismático. E, embora sê empenhem em polêmicas com represen­
e do processo históricos e torna suspeito o saber de qualquer historiador que tantes de outras posições, os porta-vozes desses pontos de vista não acham
pretenda investigar tais leis. O mesmo se aplica àqueles princípios pelos quais
os filósofos idealistas da história intentam explicar o “sentido” da história em
11. Simplifiquei a classificação de Mannheim dos principais tipos de ideologias e as filosofias da história que
sua totalidade. Tais “princípios”, insistem os expositores de concepções de as apoiam. No ensaio “Prospects of Scientific Politics”, Mannheim enumera cinco “tipos representativos
explicação contextualistas, formistas e mecanicistas, são sempre apresentados ideais” de consciência política que surgiram nos séculos XIX e XX, dois dos quais são espécies de
em apoio a posições retrógradas ou obscurantistas em suas intenções. conservantismo (uma “burocrática”, a outra “historicista”). Não preciso fazer essa distinção aqui, já que se
pode dizer que a forma “burocrática” se contrapõe a todas as tentativas ideologicamente inspiradas de
Parece haver, de fato, um irredutível componente ideológico em todo transformação da ordem social. Estou interessado no trabalho de intelectuais que procuram transformar ou
relato histórico da realidade. Isto é, simplesmente porque a história ngoé, jima manter o status quo recorrendo a concepções específicas do processo histórico. Que eu saiba, nenhum
ciência, ou é, na melhor das hipóteses, uma protociência com elementos não- historiador ou filósofo da história escreveu de modo a promover a atitude do “conservador burocrático”.
Da maneira como defini o conservantismo, porém - isto é, como uma defesa não de um passado idealizado
científicos determináveis em sua constituição, a própria afirmação de se ter mas do regime social vigente o “historicismo conservador”, como o concebeu Mannheim, constituiria o
percebido algum tipo de coerência formal no registro histórico leva consigo refúgio natural do “conservador burocrático”. Ver Mannheim, Ideology and Utopia: An Introduction to the
teorias da natureza do mundo histórico e do próprio conhecimento histórico Sociology of Knowledge (Nova York, 1946), pp. 140 e ss.; e Idem, “Conservative Thought”, em Paul
Kecskemeti (Org.), Essays in Sociology and Social Psychology (Nona York, 1953), pp. 74-164.
que contêm implicações, ideológicas para as tentativas de compreender “o Mannheim também incluiu o “fascismo” entre os tipos ideais da moderna consciência política. Não utilizei
presente”, por mais que esse “presente” esteja definido. Dito de outro modo, a essa categoria, pois seria anacrônica se aplicada a pensadores do século XIX. Em vez disso, usei a categoria
própria afirmação de se ter distinguido um mundo passado de um mundo do “anarquismo”, que, na opinião de Mannheim, é a forma peculiarmente oitocentista assumida pela
reflexão política apocalíptica. Importa lembrarque no ensaio, “The Utopian Mentality”, Mannheim arrolou
presente de reflexão e práxis social, e de se ter determinado a coerência formal quatro tipos ideais de reflexão utópica, cada um representando um estágio distinto na evolução da
daquele mundo passado, implica uma concepção da forma que o conhecimento consciência política moderna. Eram o quiliasmo orgiástico (a tradição milenarista representada pelos
do mundo presente também deve tomar, na medida em que é contínuo com anabatistas no século XVI), a idéia humanitarista-liberal, a idéia conservadora e a utopia socialista-comu­
nista. Ver Ideology and Utopia, pp. 190-222 O anarquismo foi a forma secularizada que o quiliasmo
aquele mundo passado. O compromisso com uma forma particular de conheci­ orgiástico assumiu no século XIX, enquanto o fascismo é a forma por ele assumida no século XX. Ver/bní,
mento predetermina os tipos de generalizações que se pode fazer acerca do p. 233.0 que toma ímpar o anarquismo na história das políticas apocalípticas é o falo de que, ao contrário
mundo presente, os tipos de conhecimento que se pode ter dele, e consequen­ do quiliasmo e do fascismo, ele procura ser cogn itivamente responsável, istoé, procura oferecer justifica tivas
temente os tipos de projetos que é lícito conceber para mudar esse presente ou para sua postura irracional.
No meu entender, o anarquismo é a implicação ideológica do romantismo, aparecida onde quer que o
para mantê-lo indefinidamente em sua forma vigente. romantismo tenha aparecido no século XIX, e, da mesma forma que o romantismo, alimentou o fascismo
no século XX. Mannheim tentou ligar o romantismo ao conservantismo de forma sistemática quando, na
realidade, em suas primeiras manifestações no século XIX aconteceu-lhes ser contemporâneos um do outro.
A filosofia da história gerada pelo mythas romântico não prefigura aquela noção de uma comunidade
EXPLICAÇÃO POR IMPLICAÇÃO IDEOLÓGICA plenamente integrada, realizável no tempo histórico, que inspira aos conservadores hinos de louvor ao status
quo social. O que é singular no romantismo é seu elemento individualista, aquele egoísmo que inspira a
crença na desejabilidade de uma anarquia perfeita. Esse elemento pode estar presente em alguns pretensos
As dimensões ideológicas de um relato histórico refletem o elemento ético pensadores conservadores, mas, se forem verdadeiramente conservadores, ele estará ali como um expediente
envolvido na assunção pelo historiador de uma postura pessoal sobre a questão ideológico, para defendera posição privilegiada de determinados grupos no regime social vigente contra as
da natureza do conhecimento histórico e as implicações que podem ser inferidas reivindicações de mudança programática provenientes de radicais, liberais ou reacionários. O conservador
dos acontecimentos passados para o entendimento dos atuais. Por “ideologia” não pode aprovar uma concepção genuinamente anarquista do mundoda mesma forma que não pode tolerar
uma concepção verdadeiramente radical. Defende o status quo ao mostrá-lo como uma unidade integrada,
entendo um conjunto de prescrições para a tomada de posição no mundo orgânica, que anarquistas e radicais ainda sonham promover.
presente da práxis social e a atuação sobre ele (seja para mudar o mundo, seja
METAHISTÓRIA 39
HAYDENWHITE

I
necessário firmar a autoridade de suas posições cognitivas em premissas racio- mudança social, todas as quatro reconhecem sua inevitabilidade mas represen­
nalistas ou científicas. Assim, ainda que apresentem teorias específicas da tam visões diferentes não só quanto à sua desejabilidade mas também quanto
sociedade e da história, essas teorias não assumem suas responsabilidades ao ritmo ótimo de mudança. Evidentemente os conservadores são os mais
diante da crítica desfechada por outras posições, diante dos “dados” em geral desconfiados de transformações programáticas do status quo social, enquanto
ou do controle pelos critérios lógicos de consistência e coerência. os liberais, radicais e anarquistas são relativamente menos desconfiados de
As quatro posições ideológicas básicas identificadas por Mannheim, po­ mudança em geral e, analogamente, são menos ou mais otimistas acerca das
rém, representam sistemas de valores que reivindicam a autoridade da “razão”, perspectivas de transformações rápidas da ordem social. Como observa Man­
da “ciência” ou do “realismo”. Essa reivindicação compromete-as tacitamente nheim, os conservadores tendem a ver a mudança social através da analogia das
com a discussão pública com outros sistemas que invocam a mesma autoridade. gradualizações botânicas, ao passo que os liberais (pelo menos os liberais do
Torna-as epistemologicamente autoconscientes de um modo que os represen­ século XIX) dispõem-se a vê-la através da analogia dos ajustes, ou “sintonias
tantes dos sistemas “autoritários” não são, e engaja-as no esforço de compreen­ finas”, de um mecanismo. Em ambas as ideologias admite-se que a estrutura
der “dados” descobertos por investigadores do processo social que trabalham fundamental da sociedade é sólida e que alguma mudança é inevitável, mas
com pontos de vista alternativos. Em suma, as formas oitocentistas de anarquis­ acredita-se que a própria mudança é mais eficaz quando se modificam deter­
mo, conservantismo, radicalismo e liberalismo são “cognitivamente responsá­ minadas partes da totalidade, ao invés de se alterarem as relações estruturais. Os
veis” de um modo que suas congêneres “autoritárias” não são12. radicais e anarquistas, no entanto, acreditam na necessidade de transformações
Cumpre salientar neste ponto que os termos “anarquista”, “conservador”, estruturais, os primeiros visando reconstituir a sociedade sobre novas bases, os
“radical” e “liberal” destinam-se a servir mais de designadores de preferência últimos visando abolir a “sociedade” e substituí-la por uma “comunidade” de
ideológica geral do que de emblemas de partidos políticos específicos. Repre­ indivíduos cuja coesão é mantida por um sentimento compartilhado de sua
sentam diferentes atitudes com respeito à possibilidade de reduzir o estudo da “humanidade” comum.
sociedade a uma ciência e à desejabilidade de fazê-lo; diferentes noções das Quanto à velocidade das mudanças imaginadas, os conservadores insis­
lições que as ciências humanas podem ministrar; diferentes concepções da tem num ritmo “natural”, enquanto os liberais preferem o que se poderia
desejabilidade de manter ou mudar o status quo social; diferentes concepções chamar de ritmo “social” do debate parlamentar, ou o ritmo do processo
da direção que as mudanças dostatas quo deve tomar e os meios de efetuar tais educacional e das disputas eleitorais entre dois partidos empenhados na obser­
mudanças; e finalmente diferentes orientações temporais (uma orientação para vância das leis estabelecidas de governação. Radicais e anarquistas, ao contrá­
o passado, o presente ou o futuro como repositório de um paradigma da forma rio, prefiguram a possibilidade de transformações cataclísmicas, muito embora
“ideal” de sociedade). Cumpre também assinalar que o enredo que um deter­ aqueles tendam a ser mais conscientes do poder necessário para efetuar tais
minado historiador elabora do processo histórico ou do modo de explicá-lo num transformações, mais sensíveis à força inercial de instituições herdadas, e
argumento formal não precisa ser considerado como uma função da sua posição portanto mais preocupados com o provimento dos meios de realizar tais mu­
ideológica conscientemente assumida. Mais exatamente, pode-se dizer que a danças.
forma dada por ele a seu relato histórico tem implicações ideológicas concor­
Isso nos conduz a uma consideração das diferentes orientações temporais
dantes com uma ou outra das quatro posições diferenciadas acima. Assim como
das várias ideologias. De acordo com Mannheim, os conservadores estão pre­
toda ideologia é acompanhada por uma idéia específica da história e seus
dispostos a imaginar a evolução histórica como um aperfeiçoamento progressi­
processos, toda idéia da história é, também, afirmo, acompanhada por implica­
vo da estrutura institucional vigente, estrutura que é a seus olhos uma “utopia”,
ções ideológicas especificamente determináveis.
isto é, a melhor forma de sociedade com que os homens podem “realisticamen­
As quatro posições ideológicas que me interessam podem ser aproxima­
te” contar, ou a que podem legitimamente aspirar, por enquanto. Já os liberais
damente caracterizadas nos seguintes termos. Com relação ao problema da
imaginam um tempo no futuro em que essa estrutura terá sido melhorada, mas
projetam esse estado utópico num futuro remoto, de modo a desencorajar no
12. Fui buscar em Pepper a noção de “responsabilidade cognitiva”. Ele a emprega para fazer distinção entre
sistemas filosóficos comprometidos com defesas racionais de suas hipóteses de mundo e outros que não têm presente qualquer tentativa de concretizá-lo precipitadamente, por meios “ra­
tais compromissos. Exemplos destes últimos são o misticismo, o animismo e o ceticismo extremo, todos os dicais”. Por outro lado, os radicais tendem a ver o estado utópico como iminente,
quais, em algum ponto de seus argumentos, reincidem nas idéias de revelação, autoridade ou convenção. o que incute neles o interesse por encontrar os meios revolucionários de realizar
Embora certos místicos, animistas e céticos pudessem apresentar justificações racionais das posturas
irracionais que assumem perante a realidade, tais justificações são habitualmente formuladas como críticas
essa utopia agora. Finalmente os anarquistas inclinam-se a idealizar um passado
ao hiper-racionalismo de seus adversários. O conteúdo positivo de suas doutrinas é em última instância remoto de inocência natural humana da qual os homens tombaram no estado
indefensável em bases racionais, uma vez que negam no fim a autoridade da própria razão. Ver Pepper, “social” corrupto em que se encontram hoje. Por sua vez, projetam essa utopia
WorldHypotheses, pp. 115-37. Os equivalentes de tais sistemas no pensamento político seriam representados sobre o que é efetivamente um plano não-temporal, encarando-a como uma
pelo nobre feudal preso à tradição; pelo reacionário, que nega qualquer valor ao presente ou ao futuro; e
pelo fascista ou niilista, que rejeita a razão e o ideal de consistência na discussão com seus opositores. possibilidade de realização humana em qualquer tempo, bastando que os ho­
40 HAYDEN WHÍTE META-H1STÔRIA 41

mens se apossem do controle de sua humanidade essencial, seja por um ato de conhecimento histórico a que recorrem as diferentes ideologias. Pois, já que
vontade, seja por um ato de consciência que destrua a crença socialmente essas concepções têm origem em considerações éticas, a assunção de uma
estatuída na legitimidade da instituição social vigente. determinada postura epistemológica para julgar a adequação cognitiva delas
representaria em si mesma apenas outra opção ética. Não posso asseverar que
A demarcação temporal do ideal utópico, em nome do qual trabalham as
umat das concepções do conhecimento histórico preferjdaJ2mm>a.,dadajdeo-
diferentes ideologias, permite a Mannheim classificá-las com respeito à tendên­
logiastyanuHs“realísü^^
cia delas para a “congruência social” de um lado ou a “transcendência social”
do gue con^uijmn^dequa^ Nem
do outro. O conservantismo é o mais “socialmente congruente”; o liberalismo
posso 3Fzer que uma concepção do conhecimento histórico é mais “científica”
o é em termos relativos. O anarquismo é o mais “socialmente transcendente”;
do que outra sem prejulgar o problema do que deve ser uma ciência especifi­
o radicalismo o é relativamente. Na verdade, cada uma das ideologias represen­
ta uma mescla de elementos de congruência social e transcendência social. camente histórica ou social.
Sobre esse ponto, suas divergências recíprocas são questões mais de ênfase que Certamente durante o séculorXIXaj^cep£ã^^
de conteúdo. Todas levam a sério a probabilidade de mudança. Isso é o que representada^QjmfiÇ^BsaQ. Mas os teóricos sociais diferiam entre si quanto
explica o interesse compartilhado pela história e ã preocupação de oferecer uma à questão da legitimidade de uma ciência mecanicista da sociedade e da história.
justificativa histórica para seus programas. Do mesmo modo, isso é o que explica Os modos formista, organicista e contextualista de expliçaçãQf„çoníinuaiam a
a disposição para debater entre si, em termos cognitivamente responsáveis, florescer ha$~ciêncí^WTOnas apíongo virtude de genuínas
questões secundárias como a velocidade da mudança social desejável e os meios divergências de opinião sobre a adequação do mecanicismo como estratégia.
a usar para realizá-la. Não estou preocupado, portanto, em classificar as diversas concepções
É, porém, o valor atribuído à instituição social existente que explica suas da história produzidas pelo século XIX em função de seu “realismo” ou de sua
diferentes concepções, tanto da forma da evolução histórica quanto da forma “cientificidade”. Também não é meu propósito analisá-las como projeções de
que deve assumir o conhecimento histórico. No entender de Mannheim, o uma dada posição ideológica. Só estou interessado em indicar como as consi­
problema do “progresso” histórico c interpretado de maneiras diferentes pelas derações ideológicas entram nas tentativas do historiador de explicar o campo
diversas ideologias. O que é “progresso” para uma é “decadência” para outra, histórico e construir um modelo verbal dos processos desse campo numa
gozando a “época atual” de um estatuto diferente, como um zénite ou nadir do narrativa. Mas procurarei mostrar que mesmo as obras daqueles historiadores
desenvolvimento, dependendo do grau de alienação de uma dada ideologia. Ao e filósofos da história cujos interesses eram manifestamente não políticos, como
mesmo tempo, reverenciam diferentes paradigmas da forma que devem ter os Burckhardt e Nietzsche, têm implicações ideológicas específicas. Essas obras,
argumentos destinados a explicar “o que tem acontecido na história”. Esses afirmo, estão pelo menos concordes com uma ou outra das posições ideológicas
diferentes paradigmas de explicação refletem as orientações mais ou menos dos tempos em que foram escritas.
“científicas” das diversas ideologias. Penso que o momento ético de uma obra histórica se reflete no modo de
Assim, por exemplo, os radicais partilham com os liberais a crença na implicação ideológica pelo qual uma percepção estética (a elaboração do
possibilidade de estudar a história “racionalmente” e “cientificamente”, mas enredo) e uma operação cogriitiva (o argumento) podem combinar-se para
têm diferentes concepções a respeito daquilo em que poderia consistir uma deduzir enunciados prescritivos daqueles que pareçam ser puramente descriti­
historiografia racional e científica. Aqueles procuram as leis das estruturas e vos ou analíticos. Um historiador pode “explicar” o que aconteceu no campo
dos processos históricos, estes as tendências gerais ou o rumo geral do desen­ histórico ao identificar a lei (ou as leis) que rege(m) o conjunto de eventos
volvimento. Como os radicais e os liberais, os conservadores e os anarquistas postos em enredo na estória como um drama d<, significação trágica. Ou,
acreditam, em conformidade com uma convicção difundida no século XIX, que inversamente, pode encontrar a significação trágica da estória que pôs em
é possível descobrir e apresentar o “sentido” da história em esquemas cogniti­ enredo ao descobrir a “lei” que rege a seqüência de articulação do enredo. Em
vamente responsáveis e não simplesmente autoritários. Mas a concepção que ambos os casos as implicações morais de um determinado argumento histórico
têm de um conhecimento histórico característico requer certa fé na “intuição” têm de ser inferidas do relacionamento que o historiador presume ter existido,
como o terreno em que se poderia erigir uma “ciência” putativa da história. O dentro do conjunto de eventos considerado, entre a estrutura de enredo da
anarquista inclina-se para as técnicas essencialmente empáticas do romantismo conceptualização narrativa de um lado e a forma do argumento oferecido como
em seus relatos históricos, ao passo que o conservador propende para integrar explicação “científica” (ou “realística”) explícita do conjunto de eventos, do
suas várias intuições dos objetos do campo histórico num amplo relato organi- outro.
cista de todo o processo. Um conjunto de eventos posto em enredo como uma tragédia pode ser
No meu modo de ver, não existem premissas extra-ideológicas que per­ explicado “cientificamente” (ou “realisticamente”) recorrendo-se a leis preci­
mitam arbitrar entre as conflitantes concepções do processo histórico e do sas de determinação causal ou a leis putativas de liberdade humana, conforme
42 HAYDEN WH1TE META-HJSTÓRIA 43

o caso. Na primeira hipótese a implicação é que os homens estão atados a um riadores “explicam” um dado evento inserindo-o na rica trama das individuali­
destino inelutável em virtude de sua participação na história, ao passo que na dades igualmente discrimináveis que ocupam esse espaço histórico circundante.
segunda hipótese a implicação é que eles podem agir de maneira a controlar, Contestava tanto a possibilidade de inferir leis do estudo da história quanto a
ou pelo menos influenciar, seus destinos. O impulso ideológico das histórias desejabilidade de submetê-la à análise tipológica. Para ele, uma dada área de
modeladas nesses modos alternativos é em geral “conservador” e “radical” ocorrência histórica representava um campo de acontecimento que era mais ou
respectivamente. Essas implicações não precisam estar formalmente delineadas menos rico no esplendor de sua “trama” e mais ou menos suscetível de repre­
na própria narração histórica, mas serão identificáveis pelo tom ou clima em sentação impressionista. Sua Civilização do Renascimento, por exemplo, é
que estão moldadas a resolução do drama e a epifania da lei que assim se convencionalmente encarada como desprovida de “estória” ou de qualquer
manifesta. As diferenças entre os dois tipos de historiografia assim distinguidos “linha narrativa”. Na verdade, o modo narrativo em que foi vazada é o da sátira,
são aquelas que concebo como características da obra de um Spengler de um a satura (ou “miscelânea”), que é o modo ficcional da ironia e que obtém alguns
lado e de um Marx do outro. O modo mecanicista de explicação é usado por dos seus principais efeitos ao recusar oferecer os tipos de coerências formais
aquele para justificar o tom ou clima de histórias postas em enredo como que estamos condicionados a esperar da leitura da estória romanesca, da
tragédias, mas de maneira a deduzir implicações ideológicas que são socialmen­ comédia e da tragédia. Essa forma narrativa, que é o correspondente estético
te acomodacionistas. Em Marx, porém, uma estratégia de explicação igualmen­ de uma concepção especificamente cética do conhecimento e suas possibilida­
te mecanicista é utilizada para sancionar uma descrição trágica da história que des, apresenta-se como o tipo de todas as concepções supostamente antiideo-
é heróica e militante no tom. As diferenças são precisamente semelhantes lógicas da história e como uma alternativa àquela “filosofia da história”,
àquelas que distinguem a tragédia euripidiana da sofocliana ou, para tomar o praticada tanto por Marx e Hegel quanto por Ranke, que Burckhardt pessoal­
caso de um único autor, a tragédia do Rei Lear da de Hamlet. mente desprezava.
Exemplos específicos de historiografia podem ser rapidamente citados Mas o tom ou clima em que molda uma narrativa satírica tem implicações
para fins de ilustração. As histórias de Ranke são consistentemente vazadas no ideológicas específicas, “liberais” se vazada num tom otimista, “conservadoras”
modo da comédia, forma de enredo que tem como tema central a idéia de se vazada num tom resignado. Por exemplo, a concepção burckhardtiana do
reconciliação. Da mesma maneira, o modo dominante de explicação utilizado campo histórico como uma “textura” de entidades individuais unidas por pouco
por ele foi organicista, que consiste na descoberta das estruturas e dos processos mais do que seu estatuto de componentes do mesmo domínio e pelo fulgor de
integrativos que, acreditava ele, representam os modos fundamentais de relação suas diversas manifestações, combinada com seu ceticismo formal, é destruido­
encontrados na história. Ranke não se ocupava com “leis” mas com a descoberta ra de qualquer esforço por parte de seu público de usar a história como meio
das “Idéias” dos agentes e agências que via como habitantes do campo histórico. de compreender o mundo atual em termos outros que não os conservadores. O
E afirmarei que o tipo de explicação que ele supunha que o conhecimento próprio pessimismo de Burckhardt em relação ao futuro tem o efeito de
histórico proporciona é o equivalente epistemológico de uma percepção esté­ promover em seus leitores uma atitude de “sauve quipeut” e “que o diabo leve
tica do campo histórico que toma a forma de um enredo cômico em todas as quem ficar por último”. Seria possível promover tais atitudes no interesse de
narrativas de Ranke. As implicações ideológicas dessa combinação de um modo causas liberais ou conservadoras, dependendo das situações sociais reais em
cômico de elaboração do enredo e um modo organicista de argumento são que fossem propostas; mas não há possibilidade alguma de basear argumentos
especificamente conservadoras. Pensava-se que essas “formas” que Ranke radicais sobre elas, e suas implicações ideológicas fundamentais como Burck­
divisou no campo histórico existiam no tipo de estado harmonioso que conven­ hardt as empregou são estritamente conservadoras, quando não são simples­
cionalmente aparece no fecho de uma comédia. Ao leitor resta contemplar a mente “reacionárias”.
coerência do campo histórico, considerado como uma estrutura concluída de
“Idéias” (isto é, instituições e valores), e com o tipo de sensação gerada na
encenação de um drama que alcançou uma definitiva resolução cômica de todos
O PROBLEMA DOS ESTILOS HISTORIOGRÁFICOS
os conflitos visivelmente trágicos nele incluídos. O tom de voz é acomodacionis-
ta, o clima é otimista e as implicações ideológicas são conservadoras, porquanto
se pode concluir naturalmente de uma história assim explicada que se habita o Tendo feito distinção entre os três níveis em que operam os historiadores
melhor dos mundos históricos possíveis, ou pelo menos o melhor que se pode com o fito de alcançar uma impressão explicativa em suas narrativas, conside­
“realisticamente” esperar que exista, dada a natureza do processo histórico que rarei agora o problema dos estilos historiográficos. Em minha opinião, um estilo
historiográfico representa uma combinação particular d£ modos de elã^ração
se revela nos relatos que Ranke faz dele.
ãeTenredo^ argument^SoTimpficaçãõ ideológica. Kías*osdiversos modos de
Burckhardt representa outra variante dessas mesmas possibilidades de elaboraçao de enredo, argumentaçao e implicação ideológica nao podem ser
combinação. Burckhardt era um contextualista; dava a entender que os histo­ indiscriminadamente combinados numa determinada obra. Por exemplo, um
HAYDEN WIUTE
META HISTÓRIA 45

enredo cômico não é compatível com um argumento mecanicista, assim como


uma ideologia radical não é compatível com um enredo satírico. Há, por assim espécies distintas de fenômenos. Alem disso, cumpre concebe-las de modo que
dizer, afinidades eletivas entre os vários modos que poderiam ser usados para mantenham certos tipos de relações umas com as outras, cujas transformações
alcançar uma impressão explicativa nos diferentes níveis de composição. E essas constituirão o “problema” que será resolvido pelas “explicações” proporciona­
afinidades eletivas baseiam-se nas homologias estruturais que se podem discer­ das nos níveis de enredo e argumentação da narrativa.
nir entre os possíveis modos de elaboração de enredo, argumentação e impli­ Em outras palavras, o historiador defronta o campo histórico mais ou
cação ideológica. As afinidades podem ser graficamente representadas assim: menos da mesma maneira que o gramático defrontaria uma nova língua. Seu
primeiro problema consiste em distinguir entre os elementos léxicos, gramati­
Modo de Elaboração Modo de Modo de Implicação cais e sintáticos do campo. Só então poderá ele intentar a interpretação do que
de Enredo Argumentação Ideológica significam determinadas configurações de elementos ou transformações de suas
relações. Em suma, o problema do historiador é construir um protocolo lingüís­
Romanesco Formista Anarquista tico, preenchido com as dimensões léxicas, gramaticais, sintáticas e semânticas,
Trágico Mecanicista 4„ Radical por meio do qual irá caracterizar o campo, e os elementos nele contidos, nos
Cômico Organicista Conservador
seus próprios termos (e não nos termos em que vêm rotulados nos documentos)
Satírico Contextualista Liberal
e assim prepará-los para a explicação e representação que posteriormente
oferecerá deles em sua narrativa. Por sua vez, esse protocolo lingüístico precon-
ceptual será - em virtude de sua natureza essencialmente prefigurativa - carac-
Convém não tomar essas afinidades como combinações necessárias dos
tcrizável em função do modo tropológico dominante em que será vazado.
modos num determinado historiador. Pelo contrário, a tensão dialética que
caracteriza a obra de todo historiador magistral geralmente surge de um afã de Os relatos históricos se querem modelos verbais, ou ícones, de segmentos
aliar um modo de elaboração de enredo com um modo de argumentação ou de específicos do processo histórico. Mas tais modelos são necessários porque o
implicação ideológica que é incompatível com ele. Por exemplo, como irei registro documental não apresenta uma imagem não equívoca da estrutura dos
mostrar, Michelet tentou combiriar um enredo romanesco e um argumento eventos nele atestados. A fim de imaginar “o queJrgg//ne/Ue aconteceu” no
formista com uma ideologia que é explicitamente liberal. Assim também Burck- passado, portanto, deve primeiro o historiador prefigurar como objetopossível
hardt empregou um enredo satírico e um argumento contextualista a serviço de
uma postura ideológica que é explicitamente conservadora e em última análise Este ato prefigurativa é poéZico. visto que é precognitivo e pré-crítico na
reacionária. Hegel elaborou seu enredo da história em dois níveis - trágico no economia da própria consciência do historiador. É também poético na medida
microcósmico e cômico no macrocósmico -, ambos justificados pelo emprego em que é constitutivo da estrutura cuja imagem será subseqüentemente formada
de um modo de argumentação que é organicista, daí resultando a possibilidade
de inferir implicações ideológicas radicais ou conservadoras de uma leitura de daquilo “que realmente aconteceu” no passado. Mas é constitutivo não somente
sua obra. de um domínio que o historiador pode tratar como possível objeto de percepção
Mas, em todos os casos, a tensão dialética se desenvolve dentro do (mental). É também constitutivo dos.rQZ?cg/7jQ.£..Qne emPX£garáJ)ara identificar
contexto de uma visão coerente ou imagem diretiva da forma da totalidade do os&bjgtop que povoam aquele domínio e caracterizar os tipos de relações que eles
campo histórico. Isso confere à concepção que o historiadortem do campo o podem manter entre si. No ato poético que precede a análise formal do campo
aspecto de uma totalidade coerente. E essa coerencia e consistência dao a obra o historiador cria seu objeto de análise e também predetermina a modalidade
seus atributos estilísticos propnos. O problema aquj^^ide em determinarmos das estratégias conceptuais de que se valerá para explicá-lo.
fundamentos dessa ccKrênci_ae,,çpnsistência. A meuyer, esses fundjmç.ntossão Mas o número de estratégias explicativas possíveis não é infinito. Há, dc
poéticos, e êspeqffcam^ fato, quatro tipos principais, que correspondem aos quatro principais tropos da
linguagem poética. Por conseguinte, localizamos as categorias para analisar os
Antes que o historiador possa aplicar aos dados do campo histórico o
diferentes modos dc reflexão, representação e explicação, encontrados cm
aparato conceptual que usará para representá-lo e explicá-lo, cabe-lhe primeiro
campos não científicos como a historiografia, nas modalidades da própria
prefigurar o campo, isto é, constituí-lo como objeto de percepção mental. Esse
linguagem poética. Em suma, a teoria dos tropos fornece-nos uma base para
ato poético é indistingüível do ato lingüístico em que o campo é preparado para
classificar as formas estruturais profundas da imaginação histórica num dado
a interpretação como um domínio dc tipo particular. Em outras palavras, antes
período de sua evolução.
que um dado domínio possa ser interpretado, há de ser primeiro organizado
como um território povoado por figuras discerníveis. As figuras, por sua vez,
devem ser concebidas para ser classificáveis como ordens, classes, gêneros e
46 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 47

A TEORIA DOS TROPOS mais flexível do discurso poético e uma diferenciação mais sutil dos estilos literários do que a oferecida pelo
sistema bipolar preferido pelos lingúistas modernos. Embora mantendo a distinção binária básica entre
metáfora e metonímia, alguns retóricos passaram a ver a sinédoque como uma espécie de uso metafórico e
A poética tradicional e a moderna teoria da linguagem identificam quatro a ironia como uma espécie de uso metonímico. Isso permite a distinção entre linguagem integrativa de um
tropos básicos para a análise da linguagem poética, ou figurada: metáfora, lado e linguagem dispersiva do outro, conquanto ainda permita outras distinções concernentes e graus de
metonímia, sinédoque e ironia13. Esses tropos permitem a caracterização de integração ou redução visados em diferentes convenções estilísticas. Em A Ciência Nova (1725, 1740).
Giambattista Vico utilizou a quádrupla distinção entre os tropos como base para diferenciar 06 estágios de
objetos em diferentes tipos de discurso indireto, ou figurado. São especialmente consciência através dos quais a humanidade passou do primitivismo para a civilização. Ao invés de ver uma
úteis para entender as operações pelas quais os conteúdos de experiência que oposição entre consciência poética (mítica) e consciência prosaica (científica), portanto, Vico viu uma
resistem à descrição em representações não ambíguas em prosa podem ser continuidade. Ver Thomas G. Bergin & Ma H. Fisch (Trads.), The New Science of Giambattista Vico (Ithaca,
N.Y., 1968) Livro 2, pp. 129ess., sobre“Poetic Wisdom”. Sobre a teoria retórica do Renascimentoe quanto
a um catálogo das clássicas figuras de linguagem e dos tropos, ver Lee A Sonnino./l Handbookto Siteenth
13. Os dois principais expoentes da concepção tropológica do discurso nãocientífico (mítico. artístico e onírico) Century Rhetoric (Londres, 1968), pp. 10-14, 243-46.
sãoos estruturalistas Roman Jakobson eClaudeLévi-Strauss. Este usa a díade metafórico-metonímica como A distinção entre esquemas efiguras em retórica convencional assenta nisto: um esquema (seja de palavras
base para sua análise dos sistemas nomeativos em culturas primitivas e como chave para a compreensão dos [Zexeor], seja de pensamento [dianoia]) é uma ordem de representações que não envolve saltO6 ou substitui­
mitos. Ver ClaudeLévi-Strauss, TheSavageMind, pp. 205-44; e, para uma exposição do método, verEdmund ções “irracionais”; já uma figura envolve precisamente tal substituição irracional (ou pelo menos inespera­
Leach, Claude Lévi-Strauss (Nova York, 1970). pp. 47 ess. Jakobson usa a mesma díade como base para uma da), como, por exemplo, na expressão “frias paixões” em que o adjetivo “quentes" talvez fosse esperado.
teoria lingúística da poética. Ver seu brilhante ensaio “Linguistics and Poetícs”, em Thomas A. Sebeok Mas o que é racional e o que é irracional no uso lingúístico? É racional qualquer figura de linguagem que
(Org.), Stylein Language (Nova York e Londres. 1960), pp. 350-77; e o famoso capítulo 5 de Roman Jakobson produz o efeito de comunicação visado pelo usuário. E o mesmo se poderia dizer dos esquemas, quer de
e Morris Halle, Fundamentais of Language (Gravenhage, 1956 intitulado “The Metaphoric and Metony- palavrasquer de pensamentos. Ouso criativoda linguagem admite, na verdade exige, afastamento em relação
mic Poles”, republicado em Hazard Adams (Org.), Criticai Theory since Ptato (Nova York, 1971), pp. ao que a consciência no ato de ler, pensar ou ouvir antevê com base na convenção. E isto se aplicaria tanto
1113-16. Para idêntica aplicação dessa díade ao problema da caracterização da estrutura linguística dos ao discurso “realista” em prosa quanto à poesia, por mais “romântica” que fosse. O que os sistemas
sonhos na psicanálise, ver Jacques Lacan, “The Insistence of the Letter in the Unconscious”, em Jacques terminológicos formais, como os ideados para denotar os dados da física, têm em vista é a eliminação por
Ehrmann (Org.), StructuraUsm (Nova York, 1966). pp. 101-36. completo da linguagem figurada, a construção de “esquemas” de palavras perfeitos em que nada de
Lévi-Strauss, Jakobson e Lacan concebem a metáfora e a metonímia como os “pólos” do comportamento inesperado apareça na designação dos objetos de estudo. Por exemplo, o acordo para usar o cálculo como
lingúístico, representando respectivamente os eixos contínuo (verbal) e descontínuo (nominal) dos atos de o sistema terminológico para discutir a realidade física postulada por Newton representa a esquematização
fala. Na teoria lingúística do estilo, de Jakobson, a sinédoque e a ironia são tratadas como espécies de daquela área de discurso, ainda que não do pensamento em tomo de seu objeto de estudo. O pensamento a
metonímia, a qual, por sua vez, é vista como o tropo fundamental da prosa “realista”. Assim, por exemplo, respeito do mundo físico continua essencial mente figurativo, avançando mediante todos os tipos de saltos e
Jakobson escreve: “O estudo dos tropos poéticos tem sido dirigido principalmente para a metáfora, e a pulos “irracionais” de uma teoria para outra - mas sempre dentro do modo metonímico. O problema para
chamada literatura realista, intimamente ligada ao princípio metonímico, ainda resiste à interpretação, o físico criativo é moldar suas percepções, inferidas por meios figurativos, no esquema de palavras
embora a mesma metodologia lingüística, que a poética usa ao analisar o estilo metafórico da poesia especificado para a comunicação com outros físicos comprometidos com o sistema terminológico matemá­
romântica, seja inteiramente aplicável à textura metonímica da prosa realista”. Ver Jakobson. “Linguistics tico fornecido por Newton.
and Poetícs”, p. 375. Na verdade, a análise da história do realismo no romance em função de seu conteúdo O problema fundamental da representação “realista” daquelas áreas da experiência nãoterminologicamente
essenciaimente metonímico foi feita por Stephen Ullmann. Style in the French Novel (Cambridge. 1967). disciplinadas do modo que é a física está em formular um adequado esquema de palavras para representar
Ullmann demonstra a progressiva “nominalização” do estilo essencial mente “verbal” do romance romântico o esquema de pensamentos que por suposição é a verdade acerca da realidade. Mas, quando se trata de
de Stendhal a Sartre. caracterizar uma área da experiência a respeito da qual não há concordância fundamentai em torno daquilo
Mas por mais fecunda que se tenha revelado a díade metafórico-metonímica para a análise do fenômeno em que ela consiste ou do que poderia ser sua verdadeira natureza, ou quando se trata de contestar uma
linguístico, seu emprego como arcabouço para caracterizar estilos literárias é, em minha opinião, limitada. caracterização convencional de um fenômeno como uma revolução, a distinção entre o que é legitimamente
Inclino-me a utilizara quádrupla concepçãodos tropos, convencional desde o Renascimento, para distinguir “esperado” e o que não é desaparece. O pensamento acerca do objeto por representar e as palavras a usar
as diversas convenções estilísticas dentro de uma única tradição de discurso. Como Émile Benveniste propôs na representação ou do objeto ou do pensamento acerca do objeto entregam-se aos uso>s d o discurso figurado.
em seu penetrante ensaio sobre a teoria da linguagem de Freud, “é antes o estilo que a linguagem que É imperioso, portanto, quando se analisam supostas representações “realistas” da realidade determinar o
tomaríamos como termo de comparação com as propriedades que Freud revelou como indicativas da modo poético dominante em que está vazado o discurso. Ao identificar o modo (ou os modos) dom inantes(s)
linguagem onírica (...). O inconsciente usa uma autêntica ‘retórica’ que, como o estilo, tem suas ‘figuras’, e do discurso, penetra-se naquele nível de consciência em que um mundo da experiência é constituído antes
o velho catálogo dos tropos forneceria um inventário apropriado aos dois tipos de expressão [simbólico e de ser analisado. E, retendo na memória a quádrupla distinção entre os “tropos mestres”, como lhes chama
significativo)”. Émile Benveniste, “Remarks on the Funclion ofLanguage in Freud ia n Theory”, em Problems Kenneth Burke, toma-se possível especificar os diversos “estilos de pensamento” que poderiam aparecer,
of General Linguistics (Coral Gables, Flórida, 1971), p. 75. Nesse ensaio Benveniste esvazia a distinção entre mais ou menos escondidos, em qualquer representação da realidade, seja ela manifestamente poética ou
linguagem poética e prosaica, entre a linguagem dos sonhos e a da consciência vígil. entre os pólos metafórico prosaica. Ver Burke, Grammar, Apêndice D, pp. 503-17. Cf. Paul Henle (Org), Language, Thought, and
e metonímico. Isso é compatível com a minha afirmação de que as similaridades entre representações Culture (Ann Arbor, Mich., 1966), pp. 173-95. A bibliografia sobre os tropos é variada e fustigada por
poéticas e discursivas da realidade são tão importantes quanto as diferenças. Pois o que se passa com as discordância congênita. Alguns dos problemas que há que enfrentar quando se tenta analisar as dimensões
ficções “realistas” passa-se com os sonhos: “A natureza do conteúdo faz com que todas as variedades de tropológicas do discurso podem ser vistos nas diversas caracterizações do6 tropos feitas em Alex Preminger
metáfora apareçam, pois os símbolos do inconsciente recebem seu significado e sua dificuldade da conversão et ai (Orgs.), Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetic, (Princeton, 1965).
metafórica. Também empregam o que a retórica tradicional chama de metonímia (o continente pelo Ter presente a quádrupla análise da linguagem figurada tem a vantagem adicional de impedir que incorra­
conteúdo) e sinédoque (a parte pelo todo) [ricj. e se a ‘sintaxe’ das sequências simbólicas faz aparecer um mos numa concepção essencialmente dualista dos estilos que a concepção bipolar de estilo-cum-linguagem
artifícip mais do que qualquer outro, é a elipse” (Ibid.). promove. De fato, a quádrupla classificação dos tropos permite o uso das possibilidades combinatórias de
Parte da dificuldade de passar de uma caracterização lingúística para uma caracterização estilística das uma classificação dual -binária dos estilos. Através do seu uso não somos forçados, como Jakobson é, a divid ir
formas de literatura realista talvez resida na incapacidade de explorar a distinção retórica convencional a história da literatura do século XIX entre uma tradição romântico-poético-metafórica de um lado e uma
entre tropos e figuras de um lado e entre tropos e esquemas do outro. Os retóricos do século XVI. seguindo tradição realístico-prosaico-metonímica de outro. Ambas as tradições podem ser vistas como elementos de
Petrus Ra mus, classificaram as figuras de linguagem em função dos quatro tropos (ou modos) da metáfora, uma única convenção de discurso em que todas as estratégias tropológicas de uso lingúístico estão presentes,
da metonímia, da sinédoque e da ironia, mas sem frisarsua mútua exclusão, assim fornecendo uma concepção mas presentes em diferentes graus em diversos escritores e pensadores.
META-HISTÓRIA 49
48 HAYDENWHETE

contrário, sugere-se que os “navios” são em certo sentido identificáveis com


prefigurativamente compreendidos e preparados para a apreensão consciente.
aquela parte deles mesmos sem a qual não podem operar.
Na metáfora (literalmente, “transferência”), por exemplo, os fenômenos podem
ser caracterizados em função de sua semelhança ou diferença com um outro, à Na metonímia os fenômenos são implicitamente apreendidos como tendo
maneira da analogia ou símile, como na frase “meu amor, uma rosa”. Através relações entre si na modalidade dos relacionamentos de parte com parte, com
da metonímia (literalmente, “troca de nome”), o nome de uma parte de uma base na qual se pode efetuar uma redução de uma das partes à condição de um
coisa pode substituir o nome do todo, como na expressão “cinqüenta velas” aspecto ou função da outra. Apreender qualquer conjunto dado de fenômenos
quando o que está indicado é “cinqüenta navios”. Com a sinédoque, que é como existente na modalidade de relações de parte com parte (não, como na
considerada por alguns teóricos como uma forma de metonímia, um fenômeno metáfora, relações objeto-objeto) é impor ao pensamento a tarefa de distinguir
pode ser caracterizado usando-se a parte para simbolizar alguma qualidade que entre aquelas partes que são representativas do todo e aquelas que são simples­
se presume seja inerente à totalidade, como na expressão “ele é todo coração”. mente aspectos dele. Assim, por exemplo, a expressão “o estrondo do trovão”
Através da ironia, finalmente, é possível caracterizar entidades por meio da é metonímica. Nessa expressão todo o processo pelo qual se produz o som do
negação no nível figurado do que é afirmado posUiyamente no nível literal. As trovão é primeiro dividido em dois tipos de fenômenos: o de uma causa por um
figuras de expressão manifestamente absurda (catacrese), como “bocas cegas”, lado (o trovão); e o de um efeito pelo Outro (o estrondo). Depois, feita essa
divisão, o trovão é relacionado com o estrondo na modalidade de uma redução
e de paradoxo explícito (oxímoro), como “fria paixão”, podem ser tomadas
como emblemas desse tropo. causa-efeito. O som significado pelo termo “trovão” é brindado com o aspecto
de um “estrondo” (tipo particular de som), o que permite que se fale (metoni­
Ironia, metonímia e sinédoque são tipos de metáfora, mas diferem umas
das outras nos tipos de reduções ou integrações que efetuam no nível literal de micamente) do “trovão que causa o estrondo”.
Pela metonímia, portanto, pode-se simultaneamente distinguir entre dois
suas significações e pelos tipos de iluminações que têm em mira no nível
fenômenos e reduzir um à condição dê manifestação do outro. Essa redução
figurado. A metáfora é essencialmente representacional, a metonímia é reducio-
pode tomar a forma de uma relação agente-ato (“o trovão estronda") ou uma
nista, a sinédoque é integrativa e a ironia é negacional.
relação causa-efeito (“o estrondo do trovão”). E, por meio de tais reduções,
Por exemplo, a expressão metafórica “meu amor, uma rosa” afirma a como assinalaram Vico, Hegel e Nietzsche, o mundo fenomênico pode ser
adequação da rosa como representação da(o) amada(o). Declara que existe povoado por uma profusão de agentes e agências que se presume existam por
semelhança entre dois objetos apesar de diferenças manifestas entre eles. Mas trás dele. Uma vez que o mundo dos fenômenos é separado em duas ordens do
a identificação do ser amado com a rosa é apenas literalmente declarada. A frase ser (agentes e causas de um lado, atos e efeitos do outro), a consciência primitiva
destina-se a ser tomadafiguradamente como indicação das qualidades de beleza, é presenteada, por meios puramente linguísticos apenas, com as categorias
preciosidade, delicadeza e assim por diante, possuídas pelo ser amado. O termo conceptuais (agentes, causas, espíritos, essências) necessárias para a teologia,
“amor” faz as vezes de signo de um determinado indivíduo, mas o termo “rosa” a ciência e a filosofia da reflexão civilizada.
é entendido como sendo uma “figura” ou um “símbolo” das qualidades atribuí­
Mas a relação essencialmente extrínseca que se presume caracterizar as
das ao ser amado. O ser amado é identificado com a rosa, mas de modo a
duas ordens de fenômenos em todas as reduções metonímicas pode, por siné­
sustentar a particularidade do ser amado enquanto sugere as qualidades que
doque, ser interpretada à maneira de uma relação intrínseca de qualidades
ela (ou ele) compartilha com a rosa. O ser amado não é reduzido a uma rosa,
compartilhadas. A metonímia afirma uma diferença entre fenômenos interpre­
como seria o caso se a frase fosse lida metonimicamente, nem a essência do ser
tada à maneira de relações parte-parte. A “parte” da experiência que é apreen­
amado é tomada como sendo idêntica à essência da rosa, como seria o caso se
dida como “efeito” relaciona-se com aquela “parte” que é apreendida como
a expressão fosse entendida como uma sinédoque. Nem, é óbvio, a expressão é
“causa” à maneira de uma redução. Pelo tropo da sinédoque, porém, é possível
tomada como negação implícita do que é explicitamente afirmado, como no
caso da ironia. interpretar as duas partes à maneira de uma integração dentro de um todo que
é qualitativamente diferente da soma das partes e do qual as partes são apenas
Um tipo semelhante de representação está contido na expressão metoní- réplicas microcósmicas.
mica “cinqüenta velas” quando usadas para significar “cinqüenta navios”. Mas
A título de ilustrar o que está subentendido no uso sinedóquico, analisarei
aqui o termo “vela” é substituto do termo “navio” de modo a reduzir o todo a
a expressão “Ele é todo coração”. Nessa expressão há o que parece ser uma
uma de suas partes. Dois objetos diferentes estão sendo implicitamente compa­
metonímia, isto é, o nome de uma parte do corpo é usado para caracterizar o
rados (como na frase “meu amor, uma rosa”), mas os objetos são explicitamente
concebidos para terem um com o outro uma relação da parte com o todo. A corpo todo do indivíduo. Mas o termo “coração” deve ser entendido figurada­
mente como designando, não uma parte do corpo, mas aquela qualidade de
modalidade dessa relação, porém, não é a de um microcosmo-macrocosmo,
caráter convencionalmente simbolizada pelo termo “coração” na cultura oci­
como seria verdadeira se o termo “vela” se destinasse a simbolizar a qualidade
dental. O termo “coração” não se destina a ser interpretado como designando
partilhada por “navios” e “velas”, caso em que seria uma sinédoque. Ao
50 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 51

uma parte da anatomia cuja função pode ser utilizada para caracterizar a função retórica da aporia (literalmente “dúvida”), em que o autor sinaliza de antemão
do corpo todo, como em “cinqüenta velas” para “cinqüenta navios”. Pelo uma descrença real ou fingida na verdade de seus próprios enunciados, poderia
contrário, deverá ser interpretado como símbolo de uma qualidade que é ser considerada a fórmula estilística predileta da linguagem irônica, tanto na
característica do indivíduo todo, considerado como uma combinação de ele­ ficção da espécie mais “realística” quanto nas histórias que são moldadas num
mentos físicos e espirituais, todos os quais participam dessa qualidade na tom autoconscientemente cético ou são “relativizantes” nas suas intenções.
modalidade de uma relação microcósmico-macrocósmica.
O alvo do enunciado irônico é afirmar tacitamente a negação do que no
Assim, na expressão “Ele é todo coração”, uma sinédoque se superpõe a nível literal é afirmado positivamente, ou o inverso. Pressupõe que o leitor ou
uma metonímia. Se fosse tomada em sentido literal, a expressão seria absurda. ouvinte já conhece, ou é capaz de reconhecer, a absurdez da caracterização da
Lida metonimicamente, seria redutiva, considerando que apenas implicaria o coisa designada na metáfora, na metonímia ou na sinédoque usada para lhe dar
reconhecimento da centralidade do coração para o funcionamento do organis­ forma. Assim, a expressão “Ele é todo coração” se torna irônica quando
mo a fim de ser mesmo sugestiva figuradamente. Mas lida sinedoquicamente - proferida num certo tom de voz ou num contexto em que a pessoa designada
isto é, como declaração que sugere uma relação qualitativa entre os elementos obviamente não possui as qualidades que lhe são atribuídas pelo uso dessa
de uma totalidade -, é antes integrativa que redutiva. Diferentemente da sinédoque.
expressão metonímica “cinqüenta velas”, usada como figura para “cinqüenta
navios”, destina-se a assinalar não somente uma “troca de nome” mas uma troca Pode-se ver de imediato que a ironia é em certo sentido metatropoló-
de nome designativa de uma totalidade (“Ele”) possuidora de alguma qualidade gica, pois desenrola-se na percepção autoconsciente do possível abuso da
(generosidade, compaixão etc.) que enche e constitui a natureza essencial de linguagem figurada. A ironia pressupõe a ocupação de uma perspectiva
todas as partes que a compõem. Como metonímia, sugere uma relação entre as “realística” da realidade, de onde se poderia oferecer uma representação
várias partes do corpo que deve ser entendida no plano da função central do não figurada do mundo da experiência. A ironia representa assim um estágio
coração entre aquelas partes. Como sinédoque, porém, a expressão sugere uma da consciência em que se reconhece a natureza problemática da própria
relação entre as partes do indivíduo, considerado como uma combinação de linguagem. Chama a atenção para a tolice potencial de todas as caracteriza­
atributos físicos e espirituais, que é de natureza qualitativa e da qual todas as ções lingüísticas da realidade, tanto quanto para a absurdidade das crenças
partes participam. que ela parodia. É portanto “dialética”, como observou Kenneth Burke,
Consideramos os três tropos até agora examinados como paradigmas, ainda que não tanto em sua apreensão do processo do mundo como em sua
supridos pela própria linguagem, das operações pelas quais a consciência pode apreensão da capacidade da linguagem para obscurecer mais do que aclarar
prefigurar áreas da experiência que são cognitivamente problemáticas a fim de em qualquer ato de figuração verbal. Na ironia a linguagem figurada torna
posteriormente submetê-las a análise e explicação. Isto é, no próprio uso a dobrar-se sobre si mesma e põe em questão suas próprias potencialidades
lingüístico, o pensamento se abastece de possíveis paradigmas alternativos de para distorcer a percepção. É por isso que as caracterizações do mundo
explicação. A metáfora é representacional no sentido em que poderá sê-lo o vazadas no modo irônico são amiúde consideradas intrinsecamente refinadas
formismo. A metonímia é redutiva à maneira mecanicista, enquanto a sinédoque e realistas. Parecem assinalar a ascensão do pensamento, numa dada área
é integrativa como o é o organicismo. A metáfora sanciona a prefiguração do da investigação, a um nível de autoconsciência no qual se torna possível uma
mundo da experiência no plano da relação objeto-objeto, a metonímia no da conceptualização do mundo e seus processos verdadeiramente “esclareci­
da”, isto é, autocrítica.
relação parte-parte e a sinédoque no da relação objeto-todo. Cada tropo
também promove o cultivo de um protocolo lingüístico único. Esses protocolos O tropo da ironia, portanto, proporciona um paradigma lingüístico de um
lingüísticos podem ser chamados de linguagens da identidade (metáfora), da modo de pensamento que é radicalmente autocrítico com respeito não só a uma
extrinsecalidade (metonímia) e da intrinsecalidade (sinédoque). dada caracterização do mundo da experiência mas também ao próprio esforço
Em contraste com esses três tropos, que qualifico de “ingênuos” (uma vez de captar adequadamente a verdade das coisas na linguagem. É, em resumo,
que só podem expandir-se na crença na capacidade da linguagem para apreen­ um modelo do protocolo lingüístico em que o ceticismo no pensamento e o
der a natureza das coisas em termos figurados), avulta o tropo da ironia como relativismo na ética são convencionalmente expressos. Como paradigma da
um equivalente “sentimental” (no sentido schilleriano de “autoconscientc”). forma que uma representação do processo do mundo poderia assumir, é
Diz-se que a ironia é essencialmente dialética, visto representar um uso auto- intrinsecamente hostil às formulações “ingênuas” das estratégias de explicação
consciente da metáfora a serviço da auto-anulação verbal. A tática figurada formistas, mecanicistas e organicistas. E sua forma ficcional, a sátira, é intrin­
básica da ironia é a catacrese (literalmente “abuso”), metáfora manifestamente secamente antagônica aos arquétipos da estória romanesca, da comédia e da
absurda destinada a inspirar reconsiderações irônicas acerca da natureza da tragédia como modos de representar as formas de desenvolvimento humano
coisa caracterizada ou da inadequação da própria caracterização. A figura significativo.
52 HAYDENWIHTE META-HISTÓRIA 53

Existencialmente projetada numa visão de mundo amadurecida, a ironia a sua Filosofia da História (1830-1831), identificou corretamente a principal
daria a impressão de ser transideológica. A ironia pode ser utilizada taticamente causa do cisma: as irredutíveis divergências entre um modo irônico e um modo
para defesa de posições ideológicas liberais ou conservadoras, dependendo de metafórico de apreender o campo histórico. Além disso, na sua filosofia da
estar o ironista falando contra formas sociais estabelecidas ou contra reforma­ história, Hegel apresentou uma justificação racional para concebê-lo no modo
dores “utópicos” que procuram alterar o status quo. E pode ser usada defensi­ sinedóquico.
vamente pelo anarquista e pelo radical para ridicularizar os ideais de seus Durante esse mesmo período, naturalmente, o racionalismo iluminista era
opositores liberais ou conservadores. Mas, como base de uma visão de mundo, submetido a revisão numa direção organicista pelos positivistas franceses. Na
a ironia tende a dissolver toda crença na possibilidade de ações políticas obra de Auguste Comte, cujo Cours de la philosophie positive começou a
positivas. Em sua apreensão da doidice ou absurdez essencial da condição aparecer em 1830, as teorias mecanicistas de explicação propostas pelo Ilumi-
humana, ela tende a engendrar crença na “loucura” da própria civilização e a nismo fundiram-se com uma concepção organicista do processo histórico. Isso
inspirar um desdém mandarinesco por aqueles que procuram compreender a permitiu que Comte pusesse em enredo a história como comédia, dissolvendo
natureza da realidade social através da ciência ou da arte. assim o mythos satírico que havia refletido o pessimismo da historiografia do
final do Iluminismo.

AS FASES DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA DO SÉCULO XIX Assim, durante o primeiro terço do século XIX, três “escolas” distintas
de reflexão histórica tomaram corpo: a “romântica”, a “idealista” e a “positi­
vista”. E ainda que discordassem entre si quanto ao método correto de estudar
A teoria dos tropos proporciona um meio de caracterizar os modos
e explicar a história, uniam-se no repúdio da atitude irônica com que os
dominantes da reflexão histórica que tomou forma na Europa no século XIX.
racionalistas do final do Iluminismo tinham abordado o estudo do passado. Essa
E, como base para uma teoria geral da linguagem poética, permite-me descrever
compartilhada antipatia pela ironia em todas as suas formas explica em grande
a estrutura profunda da imaginação histórica daquele período considerado
parte o entusiasmo pelos estudos históricos que foi característico da época e o
como produto de um ciclo encerrado. Pois cada um dos modos pode ser visto
tom autoconfiante da historiografia do começo do século XIX, que prevalecia
como uma fase, ou momento, dentro de uma tradição de discurso que evolui
a despeito de divergências cruciais sobre questões de “metodologia”.
das formas de percepção metafórica, metonímica e sinedóquica do mundo
histórico para uma apreensão irônica do irredutível relativismo de todo o Também explica o tom peculiar do pensamento histórico durante sua
conhecimento. segunda fase, “madura” ou “clássica”, que se estendeu de mais ou menos 1830
a 1870 aproximadamente. Esse período se distinguiu pelo debate travado em
A primeira fase da consciência histórica do século XIX tomou forma torno da teoria histórica e pela produção consistente de volumosos relatos
dentro do contexto de uma crise na refleíãoHstór^a^n^djíJlminiimo. narrativos de culturas e sociedades passadas. Foi durante essa fase que os
Pensadores como Voltaire, Gibbon, Hume, Kant e Robertson tinham chegado quatro grandes “mestres” da historiografia oitocentista - Michelet, Ranke,
finalmente a ver a história em termos essencialmente irônicos. Os pré-românti­ Tocqueville e Burckhardt - produziram suas principais obras.
cos - Rousseau, Justus Mõser, Edmund Burke, os poetas da natureza suíços, os
O que é mais admirável na historiografia dessa fase é o grau de autocons­
Stürmerund Dràngereem especial Herder - opuseram a essa concepção irônica
ciência teórica em que seus representantes levaram a cabo suas investigações
da história uma antítese autoconscientemente “ingênua”. Os princípios dessa do passado e compuseram suas narrações desse passado. Quase todos eles se
concepção da história não foram coerentemente elaborados nem receberam a inspiraram na esperança de criar uma perspectiva do processo histórico que
adesão uniforme dos diversos críticos do Iluminismo, mas todos eles partilha­ fosse tão “objetiva” quanto aquela pela qual os cientistas observavam o processo
vam da comum antipatia pelo racionalismp iluminista. Acreditavam na “empa-
da natureza e tão “realista” quanto aquela pela qual os estadistas do período
tia” enquanto método de investigação histórica e cultivavam certa simpatia por
dirigiam os destinos das nações. Durante essa fase, portanto, o debate tendeu
aqueles aspectos da história e da humanidade que os iluministas tinham enca­
a voltar-se para a questão dos critérios pelos quais se poderia julgar uma
rado com desprezo ou condescendência. Em conseqüência dessa oposição
concepção genuinamente “realista” da história. Como seus contemporâneos
produziu-se uma verdadeira crise na reflexão histórica, uma profunda^diyergên-
romancistas, os historiadores da época queriam produzir imagens da história
cia a respeito da atitude adequada para abordar o estudo d^^storía. Esse cisma
que fossem tão livres da abstratividade de seus predecessores iluministas quanto
ãcarretouineviTavelmZníFolnteresse peíáTeoffã KKtôríca, e,~na~ altura da
eram desprovidas das ilusões de seus precursores românticos. Mas também
primeira década do século XIX,' ÕT^prÔBIèrria do conhecimento histórico”
como os romancistas seus contemporâneos (Scott, Balzac, Stendhal, Flaubert e
passara a ocupar o centro das preocupações dos filósofos do período.
os Goncourt), só logravam produzir tantas espécies diferentes de “realismo”
Hegel foi o filósofo que deu a esse problema sua mais profunda formula­ quantas eram as modalidades de interpretar o mundo em discurso figurado. Em
ção. Durante o período situado entre a sua Fenomenologia do Espírito (1806) e confronto com o “realismo” irônico do Iluminismo, inventaram uma porção de
54 HAYDENWHITE META-HISTÓR1A 55

“realismos” concorrentes, projeção cada qual de um ou outro dos modos da Burckhardt como as bases do seu tipo peculiar de “realismo” foram autocons-
metáfora, da metonímia e da sinédoque. De fato, como irei mostrar, os “realis­ cientemente assumidos como problemas por Nietzsche. De mais a mais, foram
mos históricos” de Michelet, Tocqueville e Ranke consistiram em pouco mais considerados manifestações de um estado de decadência espiritual que iria ser
do que rebuscamentos críticos de perspectivas supridas por essas estratégias superado em parte pela libertação da consciência histórica do ideal impraticável
tropológicas para processar a experiência por meios especificamente “poéti­ de uma perspectiva transcendentalmente “realista” do mundo.
cos”. E, no “realismo” de Burckhardt, assiste-se à queda uma vez mais naquela Em suas primeiras obras filosóficas Nietzsche tomou como seu problema
condição irônica da qual o próprio “realismo” deveria libertar a consciência a consciência irônica de sua época e, como corolário disso, as formas específicas
histórica da época. de conceptualização histórica que a sustentavam. E, como Hegel antes dele
A esfoliação desses vários modos de conceptualização histórica não só se (embora num outro espírito e com outro alvo em mira), procurou dissolver essa
fez acompanhar mas em grande medida provocou nova reflexão sobre a filosofia ironia sem cair nas ilusões de um romantismo ingênuo. Mas Nietzsche não
da história. No curso dessa segunda fase, a filosofia da história tendeu a tomar representa um retorno à concepção romântica do processo histórico, porquanto
a forma de um ataque ao sistema de Hegel, mas, de modo geral, não conseguiu tentou assimilar o pensamento histórico a uma noção de arte que toma o modo
levar a reflexão sobre a consciência histórica mais além do ponto onde ele a metafórico como sua estratégia figurativa paradigmática. Nietzsche falava de
tinha deixado. A exceção a essa regra é, naturalmente, Marx, que tentou uma historiografia que é conscientemente meta-histórica em sua teoria e “su-
combinar as estratégias sinedóquicas de Hegel com as estratégias metonímicas per-histórica” em seu objetivo. A sua era, portanto, uma defesa de uma aper-
da economia política do seu tempo, com o fim de criar uma visão histórica que cc^oautoconscientementemetafórica do campo histórico, o que vale dizer que
fosse ao mesmo tempo “dialética” e “materialista” - isto é, simultaneamente era apenas metaforicamente irônica em sua intenção. No pensamento de Nietzs­
“histórica” e “mecanicista”. che sobre a história a psicologia da consciência histórica está aberta à análise;
Ojpróprio Mararepresentapesfprço mais consistente do século XIX no além disso, revelam-se suas origens numa apreensão especificamente poética
sentido de transformar o estudo histpripo numa ciência. Além disso, foi o seu da realidade. Por conseguinte, Nietzsche, tanto quanto Marx, forneceu as razões
esforço mais consistente de analisar a relação entre consciência histórica de um para aquela queda na “crise do historicismo” a que a reflexão histórica de sua
lado e as formas efetivas de existência histórica do outro. Em sua obra a teoria época sucumbiu.
e a prática de reflexão histórica estão intimamente ligadas à teoria e à prática
dasõcíedade em que surgiram. Mais cio que qualquer outro pensador, Marx foi Foi em reação à crise do historicismo que Benedetto Croce empreendeu
sensíveH implicãçaÔTdeologica de qualquer concepção da história que reivin­ suas monumentais investigações na estrutura profunda da consciência histórica.
dicasse o estatuto de visão “realista” do mundo. A própria concepção da história Como Nietzsche, Croce reconheceu que a crise refletia o triunfo de uma atitude
de Marx era tudo menos irônica, mas ele conseguiu revelar as implicações essencialmente irônica da mente. E, como ele, esperava depurar a reflexão
ideológicas de todas as concepções da história. E proporcionou por esse meio histórica dessa ironia assimilando-a à arte. Mas ao fazê-lo Croce foi levado a
razões mais do que abundantes para o mergulho na ironia que iria caracterizar inventar uma concepção particularmente irônica da própria arte. Em seus
a consciência histórica da última fase da reflexão histórica da época, a chamada esforços por assimilar o pensamento histórico à arte apenas conseguiu por fim
crise do historicismo que se desenvolveu no último terço do século. conduzir a consciência histórica a uma percepção mais profunda de sua própria
Mas o pensamento histórico não precisava de um Marx para projetá-lo condição irônica. Posteriormente tentou ele salvá-la do ceticismo, estimulado
em sua terceira fase, ou crise. O êxito mesmo dos historiadores da segunda fase por essa intensificada autoconsciência, assimilando a história à filosofia. Mas,
nesse esforço, conseguiu apenas historicizar. a filosofia, tornando-a assim tão
foi suficiente para mergulhar a consciência histórica naquele estado de ironia
que é o verdadeiro conteúdo da “crise do historicismo”. A consistente elabora­ ironicamente autoconsciente de suas limitações quanto já se tinha tornado a
ção de várias concepções igualmente abrangentes e plausíveis, ainda que na própria historiografia.
verdade mutuamente exclusivas, dos mesmos conjuntos de eventos era suficien­ Assim encarada, a evolução da filosofia da história - de Hegel, através de
te para solapar a confiança na pretensão dá história à “objetividade”, “cientifi- Marx e Nietzsche, a Croce - representa o mesmo desenvolvimento que se pode
cidade” e “realismo”. Essa perda de confiança já era perceptível na obra de ver na evolução da historiografia, desde Michelet, através de Ranke e Tocque-
Burckhardt, que é patentemeníe esteticista no espírito, cética no ponto de vista, villc, a Burckhardt. As mesmas modalidades básicas de conceptualização apa­
cínica no tom e pessimista em relação a qualquer esforço no sentido de conhecer recem tanto na filosofia da história quanto na historiografia, ainda que
a verdade “real” das coisas. apareçam numa seqüência diferente em suas formas plenamente articuladas. O
O equivalente filosófico do estado de espírito representado por Burck­ ponto importante é que, tomada como um todo, a filosofia da história termina
hardt na historiografia é, está claro, Friedrich Nietzsche. Mas o estcticismo, o na mesma situação irônica a que tinha chegado a historiografia no último terço
ceticismo, o cinismo e o pessimismo que foram simplesmente adotados por do século XIX. Essa situação irônica diferia de sua contraparte do final do
56 HAYDENWHITE
Parte I
Iluminismo apenas no refinamento com que foi interpretada na filosofia da
história e na amplitude da erudição que presidiu à sua elaboração na historio­ A TRADIÇÃO RECEBIDA
grafia da época.
0 ILUMINISMO E 0 PROBLEMA
DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA

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1
A IMAGINAÇÃO HISTÓRICA
ENTRE A METÁFORA E A IRONIA

INTRODUÇÃO

A cultura européia do século XIX manifestou em toda parte entusiasmo


por uma apreensão realista do mundo. O termo “realista”, está claro, significava
algo diferente de uma compreensão “científica” do mundo, embora certos
autonomeados “realistas”, como os positivistas e darwinistas sociais, identifi­
cassem seu “realismo” com a espécie de compreensão dos processos naturais
que as ciências físicas proporcionavam. Mesmo aqui, porém, o termo “realis­
mo” tinha conotações que davam a entender que não se tratava só de uma
simples aplicação de “método científico” aos dados da história, da sociedade e
da natureza humana. Pois, a despeito de sua orientação em geral “cientística”,
as aspirações “realistas” de pensadores e artistas do século XIX eram informa­
das por uma percepção de que qualquer tentativa de entender o mundo
histórico apresentava problemas especiais, dificuldades não observadas no
esforço humano de compreender o mundo dos processos meramente físicos.
O mais importante desses problemas era criado pelo fato de que o
estudioso do processo histórico estava incluído nele ou nele envolvido de um
modo que o estudioso do processo natural não estava. Havia um sentido em que
se podia legitimamente sustentar que o homem estava ao mesmo tempo na
natureza e fora dela, que eleparticipava do processo natural, mas podia também
transcender esse processo na consciência, assumir uma posição fora dele e ver
esse processo tal como se manifestava naqueles níveis de integração natural que
eram demonstravelmente não-humanos ou pré-humanos. Mas, quando se tra­
tava da reflexão sobre a história, só o homem, dentre todos os seres da natureza,
60 HAYDENWHrTE METAHISTÓR1A 61

parecia ter uma história; para todos os fms práticos, o “processo histórico*’ só enfoque “realista” da realidade é mais ou menos a mesma que aquela contida
existia na forma de um processo em geral humano. E, já que a “humanidade” nas noções de “sanidade mental” e “saúde”. Tais noções se definem mais
constituía a única manifestação concebível daquele processo dito “histórico”, facilmente pelo que os homens de um dado tempo e lugar reconhecem como
parecia impossível fazer acerca do processo como um todo generalizações do noções opostas: “loucura” e “doença”. Assim, também, o conteúdo específico
tipo que podia ser lícito fazer acerca da “natureza” em suas dimensões pura­ da concepção de “realismo” de uma dada época se define mais facilmente pelo
mente físicas, químicas e biológicas. O “realismo” nas ciências naturais podia que tal época como um todo julgava ser “irrealismo” ou “utopismo”. E, quando
ser identificado com o “método científico” desenvolvido desde no mínimo se trata de tentar caracterizar a reflexão histórica de uma época em que muitas
Newton para a análise de processos naturais. Mas dizer em que poderia consistir concepções divergentes de “realismo histórico” lutavam pela hegemonia, é
uma concepção “realista” da história era um problema tão grave quanto a necessário perguntar qual era o ponto de concordância dessas concepções
definição de termos igualmente falazes como “homem”, “cultura” e “socieda­ diversas de “realismo” quanto a “irrealismo” ou “utopismo” na reflexão histó­
de”. Cada um dos mais importantes movimentos culturais e ideologias do século rica em geral.
XIX - positivismo, idealismo, naturalismo, realismo (literário), simbolismo, De modo geral os teóricos oitocentistas da história concordavam em que
vitalismo, anarquismo, liberalismo etc. - pretendia oferecer uma compreensão as principais formas de pensamento histórico do período imediatamente ante­
mais “realista” da realidade social do que seus concorrentes. Mesmo a afirma­ rior - isto é, as do Iluminismo - ministravam modelos dos perigos antepostos a
ção simbolista de que “o mundo é uma floresta de símbolos” e a recusa niilista qualquer teoria histórica que reivindique a autoridade de uma visão “realista”
a confiar em qualquer sistema de pensamento possível eram acompanhadas de do mundo. Isso não quer dizer que rejeitassem de plano toda a produtividade
argumentos em defesa da natureza “realista” de suas visões de mundo. historiográfica dos pensadores iluministas. De fato, alguns dos philosophes, e
Ser “realista” significava não apenas ver as coisas com clareza, como elas mais do que todos Voltaire, continuaram a exercer profunda influência durante
realmente eram, mas também extrair dessa clara apreensão da realidade con­ o período do romantismo, e o próprio Voltaire era encarado como um ideal
clusões apropriadas para levar uma possível vida com base nisso. Assim enten­ digno de emulação até por um historiador romanesco como Michelet. Apesar
didas, as pretensões a um “realismo” essencial eram ao mesmo tempo disso, de maneira geral, o que o pensamento histórico do século XIX almejava
epistemológicas e éticas. A qualquer um era dado sublinhar a natureza pura­ no tocante a uma historiografia “realista” pode ser mais bem caracterizado nos
mente analítica ou perceptual de seu “realismo”, como o fizeram os pintores termos do que reprovava em seus predecessores do século XVIII. E o que mais
impressionistas, ou as implicações morais e prescritivas de sua clareza de visão, reprovava na historiografia iluminista era sua ironia essencial, da mesma forma
como o fizeram em teoria política os neomaquiavelianos como Treitschke. Mas que o que mais reprovava na reflexão cultural iluminista era seu ceticismo.
a pretensão a representar uma posição “realista” em qualquer assunto impunha Não reprovava, note-se, o que se costuma considerar como a principal
a defesa dessa posição com base em pelo menos duas premissas: epistemológica característica da filosofia da história do Iluminismo - isto é, seu suposto
e ética. “otimismo” e a doutrina do progresso que habitualmente o acompanhava. Pois
Do nosso ponto de observação na oitava década do século XX podemos os pensadores da história durante a maior parte do século XIX estavam tão
agora ver que quase todas as importantes disputas teóricas e ideológicas trava­ interessados como seus homólogos do século XVIII em suprir as bases para a
das na Europa entre a Revolução Francesa e a Primeira Guerra Mundial foram crença na possibilidade de “progresso” por um lado e algum tipo de justificação
na realidade disputas, que visavam determinar que grupo poderia reivindicar o para o “otimismo” histórico por outro lado. Para a maioria deles, o conceito de
direito de estabelecer em que poderia consistir uma representação “realista” “progresso” e o sentimento de “otimismo” eram compatíveis com a visão
da realidade social. A “realidade” de um homem era a “utopia” de outro, e o “realista” do mundo para a qual esperavam contribuir através de seus textos.
que parecia ser a quintessência de uma posição “realista” sobre determinada Para eles, o ponto importante era que o conceito de progresso e seu concomi­
questão poderia, de uma outra perspectiva, representar a quintessência da tante otimismo ainda não contavam com adequada justificação cognitiva. Al­
“ingenuidade” a respeito da mesma questão. O que é mais interessante em guns - notadamente Tocqueville e Burckhardt - temiam que tal justificação
jamais pudesse ser oferecida, e conseqüentemente impregna-lhes a obra um tom
relação a todo esse período, considerando-o como um drama de investigação e
expressão já encerrado, é a autoridade geral que a sua própria noção de um pouco mais sóbrio do que aquele que encontramos em espíritos mais
“realismo” inculcava. Pois cada época, mesmo a mais fideísta, como o período ardentes como Michelet (em suas primeiras obras) e Marx (na totalidade das
medieval, alcança sua consistência integral a partir da convicção de suas pró­ suas).
prias aptidões para conhecer a “realidade” e reagir aos desafios desta com Em geral, portanto, o “realismo” do pensamento histórico oitocentista
respostas adequadamente “realistas”. O desejo expresso de ser “realista”, consiste em sua busca de fundamentos adequados para crer em progresso e
então, deve refletir uma concepção específica não tanto do que é a essência do otimismo, tendo plena consciência de que os pensadores setecentistas da histó­
“realismo” como do que significa ser “irrealista”. A problemática de um ria foram incapazes de fornecer esses fundamentos. Se se quer entender a
62 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 63

natureza específica do realismo histórico do século XIX, considerado como a primeiro revelar a dinâmica tropológica da tradição historiográfica a que ela se
matriz de crenças compartilhadas que fazem das diversas escolas do pensamen­ opôs.
to histórico daquela época habitantes de um único universo de discurso, deve-se
particularizar a natureza do malogro do século XVIII na reflexão histórica. Esse
malogro, como argumentarei, não consistiu numa deficiência de realização AS CONCEPÇÕES CONVENCIONAIS DA HISTORIOGRAFIA
acadêmica- isto é, malogro do saber - nem numa inadequada teoria da reflexão
histórica. Pelo contrário, consistiu no modo irônico em que tanto a investigação
No século XVIII os pensadores convencionalmente distinguiam três es­
erudita quanto a síntese teórica foram moldadas pelos eminentes pensadores
iluministas da história. pécies de historiografia: fabulosa, verdadeira e satírica. Concebia-se a historio­
grafia fabulosa como sendo um produto de pura invenção; os fatos eram
organizados e apresentados sub specie historiae, mas com o intuito de distrair
ou recrear, conferindo àquilo em que a imaginação desejava acreditar a apa­
rência de uma realidade. É escusado dizer que, para pensadores como Bayle e
Voltaire, esse tipo de histoire romanesque estava abaixo da crítica, sendo
A DIALÉTICA DA HISTORIOGRAFIA ILUMINISTA
imprópria para a redação de um erudito ou a leitura de um homem sério. A
verdade era a matéria versada pelo historiador, e nada senão a verdade - assim
rezava a teoria. Dizia Bayle em seu Dicionário Histórico:
A reflexão histórica do século XVIII teve origem numa tentativa de aplicar
estratégias metonímicas de redução aos dados da história, de modo a justificar A história, de maneira geral, é a composição mais difícil que um autor pode empreender,
ou uma das mais difíceis. Requer grande discernimento, um estilo nobre, claro e conciso, uma boa
a crença na possibilidade de uma comunidade humana concebida no modo
consciência, perfeita probidade, muitos materiais excelentes e a arte de colocá-los em boa ordem,
sinedóquico. Dito de outro modo, o Iluminismo tentou justificar uma concepção e, acima de todas as coisas, o poder de resistir ao instinto do zelo religioso, que nos induz a
organicista da comunidade humana ideal com base numa análise do processo menosprezar o que pensamos ser verdadeiro [1,170].
social que era por natureza essencialmente mecanicista. Assim criticou a socie­ Observo que a verdade sendo a alma da história é uma coisa essencial para uma composição
dade à luz de um ideal que era moral e valorativo, mas intentou basear essa histórica estar isenta de mentiras; de modo que embora tenha todas as outras perfeições, não será
crítica numa análise puramente causal dos processos históricos. Como conse- história, mas mera fábula ou estória romanesca, se faltar verdade [173].
qüência, o fim para o qual a representação histórica se destinava a contribuir
era inconsistente com os meios realmente utilizados na construção das narrati­ Cabia então ao historiador ater-se à verdade, na medida do humanamente
vas históricas. O resultado desse conflito entre os meios da representação possível, evitando a todo custo o “fabuloso”, nada inventando que não fosse
histórica e o fim para o qual ela deve contribuir foi a instalação do pensamento justificado pelos fatos e reprimindo os próprios preconceitos e interesses
sobre a história numa posição que era notória e militantemente irônica. O que partidários para não se expor à acusação de difamação. Como dizia Bayle:
começou como uma tensão criativa na reflexão histórica dos primórdios do
Iluminismo, entre concepções cômicas e trágicas do enredo da história, entre A corrupção de costumes tem sido tão grande, tanto entre aqueles que vivem no mundo,
concepções mecanicistas e organicistas de seus processos e entre as implicações como entre aqueles que vivem fora dele, que quanto mais nos esforçamos por apresentar relatos
fiéis e verdadeiros, mais risco corremos de compor somente libelos difamatórios [História e Sátira].
conservadoras e radicais que poderiam ser inferidas destas, gradativamente
degenerou numa ambigüidade, e finalmente numa ambivalência, concernente a
todos os principais problemas da representação historiográfica e das metas O cinismo de Bayle não deve passar despercebido. Bayle insinua que
sociais gerais. Na altura do último quartel do século XVIII essa ambivalência qualquer descrição apenas veraz da humanidade está sujeita a assumir a apa­
se transformara em ironia, que se expressava numa epistemologia que era rência de difamação simplesmente porque a média geral do gênero humano é
extremamente cética e numa atitude ética, gerada pelo ceticismo, que era mais provavelmente torpe do que nobre, e que portanto a própria verdade tem
manifestamente relativista. No final do Iluminismo, pensadores como Gibbon, toda a possibilidade de assumir o aspecto de uma calúnia.
Hume e Kant tinham efetivamente dissolvido a distinção entre história e ficção Voltaire, escrevendo uma geração depois, adotou a mesma tática: “A
sobre a qual pensadores anteriores como Bayle e Voltaire haviam baseado suas história”, disse ele, “é a narração de fatos considerados verdadeiros. A fábula,
empresas historiográficas. Foi contra essa “ficcionalização” da história, essa ao contrário, é a narração de fatos considerados falsos” (Works, X, 61). Tudo
atitude irônica perante as tarefas “científicas” que os historiadores do início do perfeitamente simétrico. No entanto, Voltaire traçou a linha entre a represen­
século XVIII haviam imposto a si mesmos, que Herder, Burke e os Stürmer und tação verídica dos erros e das tolices humanas e as histórias escritas com o fim
Drangerst rebelaram. Mas, antes que se possa entender essa rebelião, é preciso de caluniar através da falsificação. Aludindo a umas “memórias fraudulentas”
64 HAYDENWHITE
META-HISTÓRIA 65

(publicadas sob o nome de Madame de Maintenon) que acabavam de aparecer,


satírica e verídica). Em suma, a própria distinção entre três tipos de escrita da
Voltaire observou:
história, concebidos não em função de uma oposição do compíetamente verídi­
Quase todas as páginas estão poluídas por afirmações falsas e injúrias à família real e a
co ao totalmente inventado mas como diferentes mesclas de verdade e fantasia,
outras famílias ilustres do reino, sem que o autor dê mostras de emprestar alguma verossimilhança representa o incremento positivo da consciência histórica - um avanço em
a suas calúnias. Isto não é escrever história; é escrever difamações que fazem jus ao pelourinho relação à consciência do período anterior - que o Iluminismo pode legitima­
[Phil sict, Works, X, 86-87]. mente reivindicar.
A própria atitude do Iluminismo frente à escrita histórica em geral era
Em obras como a sua Filosofia da História, é claro, Voltaire não fugiu à irônica. Ele não somente usou o conhecimento histórico para fins partidários
apresentação tendenciosa dos fatos ou dos comentários que teceu sobre eles ou polêmicos - como todas as épocas anteriores haviam feito - como o fez com
em proveito da causa para a qual trabalhava, que era a da verdade contra a plena consciência da possibilidade de usá-lo desse modo e praticá-lo pelo
inverdade, a da razão contra a insensatez, a do esclarecimento contra a supers­ prazer de praticá-lo ou, como dizem, para si exclusivamente. A escrita da
tição e a ignorância. Mas aqui o interesse polêmico era patente, e suas reflexões história a serviço da verdade em si foi praticada-pelos grandes historiadores
sobre a história do mundo tomaram o aspecto de um ensaio crítico antes que amadores de antiguidades do século XVIII, Ludovico Antonio Muratori e La
de uma investigação erudita em torno do que era a verdade dos fatos. Os fatos Curne de Sainte-Palaye, notáveis expoentes da historiografia filológica, que se
foram usados simplesmente como oportunidades de indicar as verdades mais preocupavam acima de tudo com a edição e avaliação crítica de documentos
gerais que Voltaire queria pôr diante dos seus leitores numa forma adequada­ conforme princípios científicos. Mas os princípios críticos com base nos quais
mente colorida. as verdades morais ou intelectuais podiam ser inferidas do estudo de crônicas
É bem diferente o caso de uma obra como a História de Carlos XII, de ou anais, eles mesmos estabelecidos, consoante princípios “científicos”, como
Voltaire. Aqui, também, os fatos foram usados para fundamentar a proposição relatos fidedignos “do que tinha acontecido” no passado, não tinha sido teori­
segundo a qual é “loucura” um governante, ainda que poderoso e inteligente, camente assentados pelos grandes amadores de antiguidades.
buscar a “glória” através de conquistas e batalhas. Como salientou Lionel
Gossman, esta história foi escrita como uma “epopéia burlesca”, o que quer Os racionalistas do Iluminismo - Bayle, Voltaire, Montesquieu, Hume,
dizer que nela os acontecimentos que marcaram a vida de Carlos foram conce­ Gibbon e Kant - e o excêntrico a-racionalista Giambattista Vico reconheceram
bidos de modo a configurar uma quase-tragédia, uma tragédia que falhou em a necessidade dos princípios críticos, vale dizer meta-históricos, pelos quais as
virtude da “loucura” essencial dos objetivos que motivavam o protagonista. E verdades gerais inferidas da contemplação de fatos passados, em sua individua­
Voltaire não perdeu uma única oportunidade de comentar a loucura essencial lidade e concretude, podiam ser fundamentadas em premissas racionais. O fato
do que se poderia chamar de projeto ou busca de Carlos, ou de descrevê-la em de não terem conseguido ministrar tais princípios não foi conseqüência de seu
imagens que sugerem isso mesmo ao leitor sem dizê-lo explicitamente. Contudo, método de reflexão mas da matéria dela. Ao século XVIII faltou uma adequada
os fatos foram tratados como uma estrutura de relações objetivas que o histo­ teoria psicológica. Os philosophes careciam de uma teoria da consciência
riador não tem permissão de violar. Pode-se extrair certo número de conclusões humana em que a razão não se contrapusesse à imaginação como a base da
diferentes do exame de um dado conjunto de fatos, admitia Voltaire; mas o verdade contra a base do erro, mas em que se reconhecesse a continuidade entre
estabelecimento dos fatos, a verdade dos fatos, insistia ele, deve ficar separado razão e fantasia, se pudesse procurar a relação das duas como partes de um
das verdades - morais, estéticas e intelectuais - que se procura inferir da processo mais geral de investigação humana de um mundo incompletamente
reflexão sobre os fatos, para que não se venha a ser acusado de escrever uma conhecido, e se pudesse perceber o processo pelo qual a fantasia ou imaginação
história “fabulosa” ou “satírica”, e sim elogiado por escrever uma história contribuía, tanto quanto a própria razão, para a descoberta da verdade.
“verídica”. Os iluministas acreditavam que o fundamento de toda verdade era a razão
Há, evidentemente, uma ambigüidade contida na justaposição de história
e sua capacidade de julgar os produtos da experiência sensorial e extrair de tal
“verídica” à história “fabulosa” de um lado e à historiografia satírica do outro. experiência seu puro teor de verdade contra o que a imaginação desejava que
Isto parece sugerir que há três espécies do gênero “escrita da história”, duas fosse aquela experiência. Assim, como sustentou Voltaire em sua Filosofia da
impróprias e uma própria, sendo as diferenças entre elas evidentes por si História, parecia ser um assunto simples distinguir entre o verdadeiro e o falso
mesmas. Na realidade, porém, é óbvio que se faz necessário pressupor uma na história. Era necessário apenas usar o senso comum e a razão para distinguir
quarta espécie de consciência histórica no caso de serem admitidas como entre o verídico e o fabuloso, entre os produtos da experiência sensorial guiados
adequadas as distinções feitas; refiro-me à consciência meta-histórica que, pela razão e aqueles produtos que apareciam sob a influência da imaginação,
situada em posição superior, tem condições de julgar da validade dos direitos no registro histórico. Podia-se, portanto, separar os elementos verdadeiros dos
à atenção do leitor reclamados pelas três espécies de historiografia (fabulosa, fabulosos e depois escrever uma história em que só os elementos verdadeiros
66 HAYDENWHTTE META-HISTÓR1A 67

seriam tratados como os “fatos” dos quais podiam ser inferidas verdades mais HISTÓRIA, LINGUAGEM E ENREDO
gerais - intelectuais, morais e estéticas.
Num artigo sobre “linguagem figurada”, inserido no Dicionário Filosófico,
Isso significava que conjuntos completos de dados provenientes do pas­ Voltaire escreveu:
sado - tudo o que estava contido na lenda, no mito, na fábula - eram excluídos
como testemunho potencial para determinar a verdade acerca do passado, isto Imaginação ardente, paixão, desejo - frequentemente frustrado - produzem o estilo figu­
rado. Não o admitimos em história, porquanto metáforas em demasia são prejudiciais, não só à
é, aquele aspecto do passado que tais conjuntos de dados diretamente repre­
clareza, mas também à verdade, por dizerem mais ou menos do que a coisa em si [Wbrks, IX, 64].
sentavam para o historiador empenhado em reconstruir uma vida em sua
integridade e não somente em função de suas manifestações mais racionalistas.
Em seguida atacou os Padres da Igreja pelo uso excessivo da linguagem
Como os próprios iluministas eram devotados à razão e estavam interessados
figurada como meio de representar e explicar os processos do mundo. Pôs em
em firmar a autoridade dela contra a superstição, a ignorância e a tirania de sua
contraste esse abuso da linguagem figurada com os usos corretos por parte dos
própria época, eram eles incapazes de enxergar qualquer coisa mais do que o
poetas pagãos clássicos como Ovídio, que sabiá distinguir entre o mundo
mero testemunho da essencial irracionalidade das épocas passadas nos docu­
incontestavelmente verdadeiro e o mundo fabuloso de suas criações imaginárias
mentos em que aquelas épocas representavam suas verdades para si mesmas,
e que, como disse Voltaire, utilizava tropos e figuras de tal modo que não
em mitos, lendas, fábulas e outras coisas mais. Apenas Vico, em sua época,
“enganava” ninguém (Ibid., 73). A linguagem do historiador, segundo Voltaire,
percebeu que o problema histórico era precisamente o de determinar em que
tinha de ser austera como a razão que o guiava na busca da verdade sobre o
medida uma apreensão puramente “fabulosa” ou “mítica” do mundo podia ser
passado, literal, portanto, antes que figurada, em sua representação do mundo
adequada, por qualquer critério de racionalidade, como base para entender um
que o defrontava.
tipo específico de vida e ação histórica.
O estudo dos documentos históricos foi evidentemente levado a um alto nível
pelos grandes eruditos do período, mas - como Gossman demonstrou no estudo
O problema, como Vico o via, era descobrir a racionalidade implícita até
que fez de La Cume de Sainte-Palaye e dos círculos letrados em que ele se movia
nas mais irracionais das imaginações humanas, na medida em que tais imagina­
- esses homens não possuíam nenhum princípio crítico pelo qual pudessem sinte­
ções tinham de fato servido de base para a construção de instituições sociais e
tizar os fatos contidos nos seus anais de antiguidades em relatos históricos gerais
culturais graças às quais puderam os homens viver suas vidas com e contra a
dos processos refletidos nos próprios anais. Na melhor das hipóteses, entre os
própria natureza. A questão era: de que modo a racionalidade (como sua época
historiógrafos da época - mesmo na obra produzida pelo grande Edward Gibbon
a conhecia) se formou e emergiu da mais ampla irracionalidade pela qual,
há basicamente apenas um comentário sobre os remanescentes literários dos
devemos presumir, era guiado o homem da Antiguidade e com base na qual
grandes historiadores da Antiguidade clássica, comentário que é mais ou menos
construiu ele as formas originais da existência civilizada? Os iluministas, porque
irônico de acordo com a própria percepção de Gibbon da racionalidade do
viam a relação da razão com a fantasia mais no plano de uma oposição do que
historiador que ele está parafraseando ou comentando.
no de uma relação entre parte e todo, não souberam formular essa questão de
De fato, a concepção que os iluministas tinham do problema da represen­
um modo historiograficamente proveitoso.
tação histórica, da construção, num modelo verbal, do mundo do passado, quase
Os iluministas não contestavam os direitos da fantasia sobre a consciência não se elevava acima do nível de consciência refletido na preocupação deles em
humana, mas entendiam que o problema consistia, em determinar as áreas da torno de saber se determinado conjunto de eventos históricos devia ser posto
expressão humana em que era lícito permitir a plena atuação da fantasia e aquelas em enredo como epopéia, comédia ou tragédia. O problema de escolher o modo
em que lhe era vedada a entrada. E tendiam a pensar que a única área em que a apropriado de representação - proposto como alternativas que mutuamente se
fantasia podia reivindicar plena autoridade era na esfera da “arte”, esfera que excluíam - corresponde à distinção traçada no nível epistemológico entre
eles opunham à da própria “vida”, estabelecendo praticamente a mesma relação relatos fabulosos, satíricos e verazes do passado. A forma épica, concordavam
de oposição que, imaginavam, a “irracionalidade” mantinha com a “racionalida­ todos, não se prestava à representação de eventos históricos; e a Henríada de
de”. A “vida”, ao contrário da “arte”, tinha de ser governada pela razão, e mesmo Voltaire, poema épico da vida de Henrique IV, era comumente considerada
a arte devia ser praticada com plena consciência da distinção entre “verdade” e como um tourde force, um triunfo poético, embora não fosse levada a sério como
“fantasia”. E, visto que a história se ocupava “com a vida” em primeiro lugar e modelo a ser imitado por poetas ou historiadores em geral. Os iluministas
“com a arte” só secundariamente, devia ela ser escrita não apenas sob a direção percebiam intuitivamente (e de maneira correta) que a forma épica pressupu­
da razão mas também, em sua perspectiva mais ampla, “em torno da razão”, nha a cosmologia representada na filosofia de Leibniz, com sua doutrina da
usando todo o conhecimento que a história pudesse proporcionar sobre a continuidade servindo de princípio ontológico informador, sua crença no racio­
“desrazão” para promover a causa da razão na vida e na arte. cínio analógico como princípio epistemológico e sua noção de que todas as
META-HÍSTÓRIA 69
68 HAYDENWHITE

narração do declínio e queda de Roma. O relato que fez da transição do que


mudanças não são senão transformações graduais de um estado ou condição julgava ser o tempo mais feliz do homem anterior à sua própria época não é
para outro de uma “natureza” cuja essência não se altera. Todas essas idéias trágico; é, antes, a maior realização de ininterrupta ironia da história da litera­
estavam em visível oposição à lógica da contradição e ao princípio de identidade tura histórica. Termina em 1453, com uma descrição da queda de Bizâncio ante
que constituíam os princípios que a racionalidade, tal como era concebida, devia o turco fanático, na irônica apreensão, em resumo, do triunfo de um fanatismo
assumir no pensamento dominante na época. sobre outro. Essa apreensão, porém, é acolhida dentro do contexto do conhe­
Mas a escolha entre comédia e tragédia, como as únicas alternativas para cimento adquirido por Gibbon da revivescência do pensamento e das letras na
a elaboração de exposições narrativas do passado, é ela mesma oferecida - num Europa Ocidental, que produziu o Renascimento e preparou o terreno para a
pensador como Mably, por exemplo, cujo De la manière de Vécrire Vhistoire Idade da Razão que o próprio Gibbon representa. Em si mesmo, porém, o
apareceu quase no fim do século - ironicamente. Em sua maioria os iluministas Renascimento é concebido como produto do fato irônico de embasar-se no
não podiam realmente conceber que a história propiciasse muitas ocasiões para triunfo de um fanatismo sobre outro em Bizâncio, o que forçou a ida dos letrados
a composição de enredo no modo trágico, e isso porque, como Bayle dissera de Constantinopla para a Itália, para lá disseminarem o conhecimento da
antes, “a corrupção dos costumes tem sido tão grande (...) que quanto mais nos Antiguidade clássica, que no fim de contas iria servir (ironicamente) para
esforçamos por apresentar relatos fiéis e verdadeiros, mais riscos corremos de subverter a superstição cristã, a serviço da qual fora (ironicamente) usado pelos
compor somente libelos difamatórios”. O mais provável candidato que Voltaire monges da Idade Média.
podia imaginar como tema de uma história trágica era Carlos XII, mas o melhor Esse amontoado de ironias, que a imagem da história produzida por
que pôde produzir com base na reflexão sobre os acontecimentos da vida Gibbon invoca como seu princípio de explicação e representação, não podia
daquele soberano foi uma “epopéia burlesca” em prosa, porque a época, como deixar de gerar uma atitude irônica para com os valores e ideais a serviço dos
Edmund de Goncourt disse da sua, procurou em todas as partes a “verdade” quais estava o próprio Gibbon. No fim, ela devia conduzir ao mesmo debilitante
das coisas e, encontrando-a, só lhe restou perder a esperança. ceticismo a respeito da razão, contra o qual Hume procurara refúgio nos estudos
históricos, ceticismo que voltara a desafiá-lo mesmo ali, na vida de ação tanto
quanto na vida de pensamento de todas as épocas passadas.
CETICISMO E IRONIA Uma das mais óbvias ironias do desenvolvimento intelectual de Kant foi
o fato de se ter ele voltado, na velhice, para a meditação a respeito das
A forma cética que o racionalismo tomou ao refletir sobre sua época estava implicações morais do conhecimento histórico, tema que não julgou digno de
destinada a inspirar uma atitude puramente irônica com relação ao passado genuíno interesse filosófico na fase madura de sua atividade de filósofo. Sua
quando utilizado como princípio de reflexão histórica. O modo em que foram preocupação como filósofo, convém recordar, era dar crédito às percepções de
vazadas todas as grandes obras históricas do período foi o da ironia, daí Hume e Rousseau dos limites da razão, por um lado, e da legitimidade dos
resultando que todas tendessem para a forma da sátira, realização suprema da direitos das emoções contra a razão, por outro. Em oposição a Hume, procurou
sensibilidade literária daquela época. Quando Hume passou da filosofia para a defender a razão contra o ceticismo extremado aduzindo as premissas sobre as
história, porque sentia que a filosofia se tornara desinteressante em razão das quais o êxito manifesto da ciência no entender o mundo poderia ser compreen­
conclusões céticas a que fora compelido, trouxe para o estudo da história a dido. Contra Rousseau procurou construir um lugar na natureza humana para
mesma sensibilidade cética. Achou ele cada vez mais difícil, porém, manter o as emoções e paixões, dotá-las de autoridade como bases do juízo moral e
interesse por um processo que só lhe exibia o eterno retorno da mesma insen­ estético sem, com isso, derrubar a autoridade das verdades estabelecidas em
satez em muitas formas diferentes. Viu no registro histórico pouca coisa mais premissas científicas e racionais. É interessante notar como esses antigos adver­
do que o registro da loucura humana, o que o levou por fim a se sentir tão sários voltaram, sob formas adequadamente modificadas, a assediar Kant na
entediado com a história como já se sentira com a filosofia. velhice, quando, sob as pressões do pensamento de Herder acerca da história
Evidentemente não nos cabe duvidar da seriedade de Gibbon, o grande e dos acontecimentos históricos da Revolução, Kant se viu forçado a refletir
contemporâneo de Hume, mas tampouco devemos desconsiderar com excessiva sobre as bases epistemológicas, o valor moral e a significação cultural do
ligeireza a caracterização que o próprio Gibbon fez do seu Declínio e Queda do conhecimento histórico.
Império Romano como produto de uma tentativa de se entreter e divertir. A ameaça do ceticismo estava presente para Kant no fato de que os
Conta-nos Gibbon que o que o incitou a atacar o seu projeto foi a ironia do homens continuavam a estudar história, muito embora parecesse claro que não
espetáculo proporcionado por monges ignorantes a celebrar suas cerimônias se podia aprender na história nada que não se pudesse aprender no estudo da
religiosas numa igreja levantada no terreno onde outrora existira um templo humanidade em suas várias encarnações presentes, encarnações que, como
pagão. Esta anedota não somerite revela a atitude com que Gibbon se aproxi­ objeto de estudo, tinham a vantagem de ser diretamente acessíveis à observação
mou de sua tarefa como prefigura também a forma que tomou finalmente a sua
META-HISTÓR1A 71
70 HAYDENWHITE

de um modo que os eventos históricos não eram. A sombra de Rousseau se como espetáculo de degenerescência (e conceber o conhecimento histórico
estendia sobre a velhice de Kant na convicção, crescente em todo o período da como sendo, antes de tudo, conhecimento de um “espetáculo” que se desenrola
virada da Revolução rumo ao Terror e da difusão das impressões de que o diante dos olhos do historiador), viverei a história de modo a acarretar ao
mundo desmoronava, de que todo o processo histórico representava uma processo um fim degenerado. E analogamente, se eu conceber aquele espetá­
inevitável degeneração sob a aparência de progresso ou na visão (promovida culo como não sendo senão “uma sucessão de chateações”, agirei de modo a
pelas percepções de philosophes tardios) de que, embora as coisas possam tornar a época em que vivo uma época estática, na qual nenhum progresso será
mudar, não havia realmente nada de novo sob o sol, de queplus ça change, plus possível. Mas se, por outro lado, eu conceber o espetáculo da história, com
c’est la même chose. toda a sua insensatez, iniquidade, superstição, ignorância, violência e aflição,
Como Bayle e Voltaire antes dele, Kant reconhecia três concepções do como um processo em que a própria natureza humana se transforma de
processo histórico que o homem pode adotar como a verdade sobre o conjunto aptidão para criar esses males em aptidão para encetar a luta moral contra
do processo. Conforme sua denominação, essas três concepções são a eudemo- eles, enquanto projeto inconfundivelmente humano, então agirei de modo a
nística, a terrorística e a abderítica. A primeira acredita que a história descreve concretizar essa transformação. Além disso, há bons motivos extra-históri­
um processo de constante progresso nas condições materiais e espirituais da cos para adotar essa visão da história como sendo ao mesmo tempo vivida e
existência humana. A segunda sustenta que a história representa uma degene­ concebida no pensamento. Esses motivos são supridos pela filosofia, na qual
ração contínua, ou queda contínua, de um estado original de graça natural ou o conceito de razão é utilizado como justificação para conceber a natureza
espiritual. E a terceira segue a opinião atribuída à antiga seita abderita de como aquilo que, no homem, realiza as potencialidades nela contidas desde
filósofos cínicos, de que, embora as coisas pareçam desenvolver-se, na realidade suas origens.
todo movimento nada mais representa do que uma redisposição de elementos A concepção da história assim exposta por Kant é irônica, mas sua ironia
primitivos e não uma alteração fundamental na condição da existência humana. é moderada pelos princípios do sistema filosófico em que o ceticismo se detivera
à beira da rejeição da própria razão. No entanto, o pensamento de Kant sobre
Devo observar que essa divisão corresponde, em suas implicações para a
a história se mantém dentro dos limites do racionalismo iluminista num sentido
explicação e escrita da história, àquela feita antes entre os modos da comédia,
significativo. A modalidade de oposição, pela qual as coisas na história se
da tragédia e da epopéia respectivamente. A diferença na formulação kantiana
relacionam no pensamento, não deu lugar à modalidade de continuidade e
da distinção epistemológica - entre historiografia fabulosa, satírica e veraz - é
intercâmbio, que sozinha poderia gerar uma adequada compreensão da concre-
que Kant reputava todos os três modos de conceber o processo histórico
tude, individualidade e vividez de eventos históricos considerados exclusiva­
igualmente “fabulosos” ou igualmente “fictícios”. Representavam para ele o
mente em si mesmos. Kant concebia os dados históricos como fenômenos, que,
testemunho da capacidade da mente de impor diferentes modalidades de
à semelhança dos fenômenos naturais, são vistos sob o prisma da “natureza
coerência formal ao processo histórico, diferentes possibilidades de pô-lo em
submetida à lei” (mais especificamente, a natureza submetida a leis causais
enredo, produtos de diferentes apreensões estéticas do campo histórico.
universais e invariáveis). Isso significa que ele interpretava o campo histórico
Mas Kant sublinhou as implicações morais dessas opções estéticas, os metonimicamente, como uma oposição mediada por relações de causa-efeito,
efeitos que a decisão de pôr em enredo ou conceber o processo histórico de um vale dizer, extrínsecas. Não havia razão científica, nas condições de Kant, para
modo específicopoderia ter sobre o modo como se vivia a história, as implicações tentar, como fizera Leibniz, uma identificação sinedóquica das partes daquele
que teriam para a maneira como se concebia o presente e se projetava um futuro campo em sua função de componentes do todo. Ao cabo de tudo, Kant apreen­
para si e para outros homens. O conhecimento histórico não dá uma contribui­ deu o processo histórico menos como um desenvolvimento de um estágio a outro
ção importante para o problema de entender a natureza humana em geral, pois na vida da humanidade do que como simplesmente um conflito, um conflito
não nos mostra nada a respeito do homem que não possamos aprender no insolúvel, entre dois princípios etemamente opostos da natureza humana: racio­
estudo dos homens vivos considerados como indivíduos e como grupos. Mas nal de um lado, irracional do outro. Por isso viu-se compelido a concluir, mais
proporciona uma ocasião para compreender o problema, o problema moral, do uma vez em consonância com a tradição do racionalismo iluminista represen­
fim ou propósito com que uma vida deve ser vivida. tado por Bayle, Voltaire, Hume e Gibbon, que em última análise a história deve
A posição de Kant era aproximadamente esta: o modo como concebo o ser apreendida de um modo antes estético que científico. Só assim é possível
processo histórico, apreendido como processo de transição do passado para o convertê-la em drama, cuja resolução pode ser imaginada como uma consuma­
presente, a forma que imponho às minhas percepções desse processo, tudo isso ção cômica do conflito e não como uma derrota trágica ou uma epopéia
proporciona a orientação segundo a qual penetro num futuro com maior intemporal sem nenhum resultado específico. As razões de Kant para optar por
esperança ou desespero, em face das perspectivas que esse movimento conce- esta noção cômica do sentido de todo o processo eram fundamentalmente
bivelmente terá enquanto movimento em direção a uma meta desejável (ou na éticas. O espetáculo da história tinha de ser concebido como drama cômico; de
direção contrária a uma meta indesejável). Se eu conceber o processo histórico
72 HAWENWHITE META-HISTÓRIA 73

outro modo os homens falhariam em suas tentativas de levar adiante aqueles de de Gelehrter germânico de convicção positivista tendia a desprezar com
projetos trágicos que são os únicos capazes de transformar o caos num campo excessiva pressa, caracteriza-se por manter com a historiografia humanística do
expressivo do esforço humano. Renascimento a mesma relação que a “mitologia de salon dos poetas rococós”
A tendência dominante na historiografia racionalista do Iluminismo ori­ mantinha com “o paganismo robusto dos grandes poetas do Renascimento”
ginou-se no reconhecimento de que a história não deve ser escrita apenas para (Ibid., 412). Era, dizia Fueter, o equivalente historiográfico do “estilo galante”
entreter ou simplesmente no interesse de promover um parti pris de tipo da música da época (Ibid.),
confessional ou político. Os racionalistas reconheciam que era necessário con­ O que é notável nas quatro vertentes da reflexão histórica seiscentista
tar com um princípio crítico para guiar a reflexão sobre o registro histórico se identificadas por Fueter é a proporção em que as duas primeiras - a história
quisessem produzir algo mais do que crônicas ou anais. Começaram em oposi­ eclesiástica e a história etnográfica - são inspiradas por uma percepção opres­
ção consciente zoshistoriens romanesques ougalants do século anterior, ao tipo siva de um cisma fatal na comunidade humana: divisão religiosa no caso da
de história “recreativa” escrita pelo abade de Saint-Réal ou por Charles de história confessional, e separação racial e espacial no caso da história etnográ­
Saint-Évremond, o principal expoente da teoria histórica “libertina” e o protó­ fica (do tipo escrito por Las Casas, Oviedo, Herrera etc.). Aqui a história é
tipo da historiografia “esteticista” mais tarde representada por Walter Pater e escrita na apreensão de divisões que fornecem todas as provas de fatalmente
Egon Friedell. A história - reconheciam osphilosophes - devia ser “veraz” ou estorvarem a marcha da própria civilização.
não poderia pretender “instruir e esclarecer” o leitor no processo de o “entreter A forma analística que a escrita da história tendeu a assumir nas mãos dos
e deleitar”. O que estava em debate, então, era o critério pelo qual se devia grandes eruditos antiquários daquele mesmo século - Mabillon, Tillemont e,
reconhecer a verdade. Em suma, qual era a forma que a verdade tinha de um pouco mais tarde, Muratori - representa um esforço especificamente
assumir? Qual era o paradigma da verdade em geral, em comparação com o historiográfico na apreensão do tipo de continuidade que se poderia conceber
qual um relato verídico das coisas poderia ser reconhecido?
como capaz de fazer desta realidade dividida um todo, uma totalidade com­
Para entender as respostas que os racionalistas deram a essas perguntas preensível. Na forma analística da escrita histórica percebo não somente uma
não basta simplesmente apontar para a distinção que fizeram entre história paixão por algum gênero de ordem mas também a sugestão implícita de que a
“fabulosa” e “satírica” de um lado e história “verídica” do outro. Nem basta ordem da ocorrência temporal talvez seja o único princípio ordenador que
apenas apontar para a idéia geral de verdade assinalada pela dedicação formal poderia ser usado para tornar os anais um pouco compreensíveis. O desejo
deles aos princípios de estabelecimento empírico dos dados, crítica racional do de lidar com “a verdade e nada senão a verdade” e a necessidade compulsiva
testemunho e representação narrativa do “significado” do testemunho numa de tratar dos acontecimentos apenas em seus aspectos extrínsecos, seus aspec­
estória bem contada. Só poderemos entender o que tinham em mente conside­ tos enquanto funções de uma ordem serial, constituíam a base dos princípios
rando os tipos de pensamento histórico que eles rejeitaram ou não levaram a críticos dos eruditos; e isso fixou os limites à concepção do entendimento
sério como possíveis alternativas às suas próprias preconcepções irônicas e histórico. Como forma de representação histórica, os anais representaram um
propensões céticas. avanço na consciência crítica em relação à obra dos grandes historiadores
confessionais (como Foxe) e dos grandes etnógrafos (como Las Casas). Os
analistas procuravam alçar-se acima dos preconceitos e vieses partidários de
>15 PRINCIPAIS FORMAS DA HISTORIOGRAFIA PRÉ-ILUMINISTA uma historiografia escrita com o espírito voltado para as disputas religiosas e os
conflitos raciais. Ao caráter maniqueísta desta última eles opunham a ordem da
Em sua clássica sinopse da história da escrita histórica, Geschichte der serialidade temporal como modo de representação que ao menos deixava o
neuren Historiographie, Eduard Fueter identificou quatro grandes vertentes na historiador livre do vício da subjetividade e do discurso de defesa. Tentavam ser
tradição histórica do século XVII com base nas quais, e contra as quais, se tão frios e distantes quanto eram engajados os confessionalistas e etnógrafos
desenvolveu a historiografia “reflexiva” ou “crítica” dos iluministas. Eram a nas histórias que escreviam. Mas, no fim, foram capazes apenas de suprir os
história eclesiástica (e em grande parte “confessional”); a história etnográfica materiais com que se poderia escrever uma verdadeira história, e não de
produzida por missionários e estudiosos dos novos mundos que a Era da fornecer eles mesmos verdadeiras histórias. E o mesmo se pode dizer de seus
Exploração e Descoberta havia franqueado ao escrutínio científico e histórico; sucessores - inclusive La Curne de Sainte-Paelaye - no século seguinte.
a historiografia antiquaria dos grandes eruditos do período, amplamente filo­ Quando comparado com a paixão moral dos confessionalistas e a frieza
lógica quanto ao enfoque e dedicada à elaboração de cuidadosas crônicas e dos analistas, o cultivo de uma historiografia puramente esteticista da espécie
anais do passado remoto e próximo; e, finalmente, a historiographie galante ou produzida pelos historiens galants parece menos retrógrado do que Fueter
romanesque, baseada nos “romans de intrigas e amores” e escritas num espírito queria que acreditássemos. Se Saint-Réal pouco mais fez do que “divertir” seus
francamente beletrístico (Fueter, 413). Esta última, que Fueter em sua serieda­ leitores ao escrever “nouvelles amusantes et émouvantes”, suas histórias, como
74 HAYDENWHITE 75
META-H1STÓR1A

por exemplo Don Carlos (1672) e Conjuration des Espagnols contre la république é quase indistinguível de Sua criação. Esta maneira de conceber o mundo e a
de Venise en 1618 (1674), pelo menos assinalavam um desejo de alcançar uma relação das partes dele com a totalidade justifica uma representação analística
perspectiva crítica que ao mesmo tempo distanciasse os fenômenos a represen­ dos processos da história, não menos do que da natureza, considerados em sua
tar e os unisse num todo compreensível, ainda que o todo fosse pouco mais do realidade concreta individual e como momentos de um processo total que só
que uma estória emocionante. No entanto, como a única unidade que as parecem estar dispersos no tempo e no espaço. Leibniz podia escrever a história
histórias de Saint-Réal têm é a da estória, estória concebida como pouca coisa numa forma analística porque acreditava que a dispersividade dos fenômenos
mais do que um artifício para alcançar efeitos retóricos, as histórias que ele de era apenas aparente; em sua visão o mundo era indivisível e contínuo entre suas
fato escreveu são falhas pelo fato de que, segundo suas próprias palavras, partes. Nessa conformidade, sua concepção do processo histórico, em que
representam não uma ‘‘verdade” acerca do passado mas apenas uma “ficção” transição por graus infinitesimais pode ser representada em relatos analísticos
de como os fatos poderiam ter sido. Poderiam perfeitamente ter sido de outro de províncias finitas de ocorrência, não exigia que ele distinguisse entre provín­
modo, e poderiam perfeitamente ser representados como parte de uma estória cias maiores e menores. O mesmo processo de transição-na-unidade e unida-
(ou certo número de estórias) de tipo completamente diferente. de-na-transição opera em todas as partes, quer a parte individual seja
interpretada como sendo uma pessoa, uma família reinante, um principado,
uma nação, um império, quer seja toda a raça humana.
LEIBNIZ E OILUMINISMO Mas foi precisamente essa visão da unidade essencial da raça humana que
os iluministas julgaram ser o ideal ainda por realizar no tempo histórico. Eles
Na verdade a forma analística de representação histórica contara impli­ não podiam tomá-la como um pressuposto de sua escrita histórica, não apenas
citamente com uma refinada base teórica ministrada pela filosofia de Leibniz. porque os dados não a corroboravam, mas porque ela não correspondia à
Sustentou Fueter que Leibniz apenas aplicou o método dos analistas à escrita experiência que tinham de seus próprios mundos sociais. Para eles a unidade
da história, mas, ao contrário deles, fracassou na tentativa de conceber “anais da humanidade era um ideal que podiam projetar no futuro, mas não podiam
da Alemanha imperial”, limitando-se à construção de genealogias e cronologias usar esse ideal como paradigma para a explicação histórica ou a representação
de pequenas casas e Estados como o de Brunswick. “Em suma”, disse Fueter, histórica, porquanto era, em primeiro lugar, com vistas a esse ideal que estuda­
“coligiu os materiais, mas não os trabalhou” (Ibid., 393). Mas Fueter não soube vam e escreviam a história, como parte do esforço por levar a efeito tal
fazer justiça à obra de Leibniz. A forma analística de historiografia era consis­ unificação. O mundo que conheciam como fato de experiência obrigava-os a
tente com as concepções leibnizianas de continuidade, de transição por graus invocar um paradigma de representação e explicação que considerasse o fato
infinitesimais, da harmonia do todo em face da dispersão no tempo e no espaço do cisma e da separação, do conflito e do sofrimento, como realidades dadas.
dos elementos ou das partes. Leibniz foi talvez o único entre os grandes vultos A oposição de forças, da qual o cisma e o conflito são manifestações, determi­
do seu tempo a ter motivos para crer que a historiografia analística era um modo nava as modalidades da experiência iluminista da história concebida como
filosoficamente justificado de representação histórica. Sua Monadologia (1714), processo de transição do passado para o presente. O passado para eles era a
que continha a doutrina da continuidade, a teoria da evolução por graus, e a desrazão, o presente era um conflito de razão e desrazão, e só o futuro era o
concepção do acontecimento particular como um microcosmo do macrocosmo, tempo que podiam prefigurar como o do triunfo da razão sobre a desrazão, o
representava uma defesa formal daquele modo de compreensão que denomi­ tempo da perfeita unidade, da redenção.
namos sinédoque. Esse modo de compreensão recorre à relação microcósmi-
co-macrocósmica como a um paradigma de toda explicação e representação da
realidade. No pensamento histórico de Leibniz ele aparece como a crença em O CAMPO HISTÓRICO
que a representação de um evento em seu contexto total, sendo o próprio
contexto interpretado como um espaço pleno de eventos individuais unidos em Quando examinou o passado remoto Leibniz viu lá em ação as mesmas
sua diferença recíproca, é um meio adequado de imaginar o significado e a forças que via à sua volta no presente, e nas mesmas proporções. Essas forças
relação daquele evento com o todo. nem eram exatamente as da razão nem exclusivamente as da desrazão, mas,
O cosmo, como Leibniz o concebia, é um espaço pleno de mônadas antes, a harmonia dos opostos, o que faz da razão e da desrazão apenas
individuais, cada uma perfeita em si mesma, cuja unidade consiste na autonomia manifestações diferentes da mesma força ou poder unificado, que é em última
do todo considerado como processo de infinita criatividade. A perfeita harmo­ instância o de Deus. Quando examinavam o passado remoto, os iluministas eram
nia do todo, que domina e destrói a impressão de conflito e causalidade atormentados pelas diferenças entre ele e o mundo por eles próprios ocupado,
extrínseca que parece impossibilitar qualquer relação intrínseca entre as diver­ tanto assim que se sentiam quase propensos a idealizar sua própria época e a
sas partes, é validada pela bondade do Criador, cuja beneficência é tal que Ele colocá-la em contraste com o passado remoto como um oposto antitético.
76 HAYDENWHÍTE
META-HISTÓR1A 77

Foram salvos da inclinação para idealizar sua própria época - embora alguns
deles (notadamente Turgot e Condorcet) cedessem à tentação de fazê-lo - pelo A situação de escassez motivou uma luta entre os homens pelos bens da natureza
ceticismo que lhes norteava o uso da razão na crítica dos males do seu tempo. que uma tecnologia inadequada não podia aumentar com eficiência. Isso, por
Mas a consciência da oposição era suficientemente forte para impedir o esban­ seu turno, levou à “criação” da sociedade, que regulou o conflito humano pela
jamento de tolerância ou simpatia pelo homem arcaico, salvo naqueles raros força e manteve sua autoridade sobre os homens com o auxílio da religião, ela
casos em que, como Gibbon, eles julgavam perceber no passado algum protó­ mesma também produto da combinação de carência e ignorância. Assim, o
tipo do gênero de homens que se imaginavam ser ou desejavam poder se tornar. estado da própria sociedade veio a ser identificado como simultaneamente
Uma vez que sua relação com o passado remoto era concebida sob os auspícios causa e manifestação da desrazão no mundo. E o progresso foi concebido como
de um paradigma metonímico - isto é, no modo da separação ou da oposição o gradual desmascaramento da natureza irracional do estado social pelo peque­
extrínseca - e uma vez que o modo explicativo que a metonímia sugere para no grupo de homens racionais capazes de reconhecer-lhe o caráter intrinseca­
explicar a relação entre dois aspectos opostos do todo é o de causa-efeito, os mente tirânico. Desse modo, o significado do processo histórico iria ser
iluministas compreendiam o espetáculo da quase total ignorância, superstição encontrado, não no fato de a razão emergir da desrazão, mas no plano pura­
e violência daquelas idades passadas como quase por .completo causalmente mente quantitativo, como a expansão de uma razão originariamente limitada
determinado. para áreas da experiência formalmente ocupadas pelas paixões, emoções, igno­
Não tinham necessidade alguma de dar maior atenção à representação de rância e superstição. Não foi de maneira alguma um processo de transição.
eventos do passado remoto (como o dos antigos hebreus de que trata o Antigo Mas isso queria dizer que - de acordo com os princípios mecanicistas
Testamento), visto que todos aqueles eventos retratavam a verdade única de invocados - o florescimento da razão tinha de ser concebido como tendo
absoluta determinabilidade da humanidade daquele tempo. Tudo era concebi­ ocorrido a expensas de alguma outra coisa. Essa outra coisa era o próprio
do como manifestação de uma paixão, ignorância ou irracionalidade (muitas passado, como existia no presente enquanto tradição, costume e tudo o mais -
vezes qualificada por Voltaire de insanidade) essencial e absoluta. Atenção instituições, leis, artefatos culturais - que exigia consideração e respeito sim­
especial poderia merecer a representação de algum protótipo de homem racio­ plesmente porque era antiga. Os iluministas, portanto, escreviam a história
nal reverenciado como um ideal em seu próprio tempo, mas não podiam contra a própria história, ou pelo menos contra aquele segmento da história que
vivenciavam como “passado”. A simpatia deles pelo passado só era estendível
explicar o aparecimento desses homens racionais no meio de uma invariável
irracionalidade, da mesma forma que não podiam explicar o desabrochar da afinal, como observou Voltaire, ao passado próximo, onde podiam encontrar
razão no seio da própria desrazão. Ambas as coisas eram igualmente “miracu­ coisas para admirar e respeitar porque estas se assemelhavam muito a eles
mesmos. Essa investigação do passado próximo à cata de objetos próprios para
losas”, embora a segunda fosse vista como uma dádiva “providencial”, conside­
rando que a época presente e o futuro podiam ser concebidos como a representação histórica simpática permitiu zosphilosophes suas poucas incur­
beneficiários positivos do advento da Idade da Razão. sões pela representação sinedóquica (organicista e tipológica simpática).

Mas note-se: o eclodir da razão no interior de um estado de desrazão é Mas mesmo aqui suas aptidões para a simpatia e a tolerância eram
em última análise “irracional”, visto que a irracionalidade original do homem frustradas por sua contínua apreensão da falha, do elemento de desrazão ainda
não pode ser explicada com base na teoria da natureza essencialmente racional presente no homem supostamente racional. Isso se verificava sobretudo quando
da própria natureza. Pois, se a natureza é regida pela razão e é ela mesma atentavam para homens de ação, como por exemplo Carlos XII. No retrato que
intrinsecamente ordenada e harmoniosa em suas operações, por que então não Voltaire fez dele, Carlos foi apresentado como o mais inteligente, capaz e
é presumível que os primeiros homens de que temos notícia, homens que viviam talentoso governante conhecido na história do mundo; mas ele ainda era
irremediavelmente imperfeito como bem o mostrava sua paixão irracional pela
num estado de natureza, tivessem sido eles próprios racionais? Como produtos
imediatos de um sistema racional de processos causais invariantes, é de supor “glória da conquista”, considerada por Voltaire um resíduo de um passado
bárbaro que estupidamente via na guerra uma virtude em si mesma. Essa falha
que os primeiros homens tenham sido tão racionais em seu modo de existência
não era afinal uma falha trágica, uma função da excelência de Carlos; era um
quanto a própria natureza. Mas não somente são eles visivelmente irracionais;
defeito, uma infecção no cerne de um organismo que sob outros aspectos era
são - como aparecem nos registros de remota antiguidade - especialmente
irracionais. Como se pode explicar isso? esplendidamente saudável. A queda de Carlos, portanto, não era trágica; era
patética. Por isso sua história era apenas uma oportunidade de lamentar o poder
A tática dos iluministas era postular a existência de uma condição, ante­ da desrazão de impregnar, e destruir, até o mais forte dos homens.
rior às eras primitivas de que temos registro, em que os homens eram tão
racionais quanto a própria natureza, mas da qual decaíram em conscqüência O que Voltaire poderia ter concluído de sua análise da carreira de Carlos
de sua ignorância e da situação de escassez causada pela multiplicação da era que a desrazão é uma parte do mundo e do homem, tão inelutável e
espécie, o que por sua vez era fruto da beneficência e generosidade da natureza. irredutível como a própria razão, e uma força que não deverá ser eliminada mais
cedo ou mais tarde mas que cumpre domar, sublimar e direcionar para canais
78 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 79

criativos e humanamente úteis. Ele era incapaz de considerar essa possibilidade as causas em questão entendidas geralmente como as forças da razão e da
porque partilhava com sua época de uma concepção mecanicista da psique desrazão, cujos efeitos eram geralmente concebidos como sendo de um lado os
humana, concepção que exigia que ela fosse considerada um campo de batalha homens esclarecidos e do outro os supersticiosos ou ignorantes.
em que formas opostas, e mutuamente alternativas, de consciência, razão e Os elementos “lexicais” desse sistema eram homens, atuando como indi­
desrazão se enfrentassem em eterna luta até que uma desmantelasse totalmente víduos ou como grupos, “gramaticalmente” classificáveis nas principais catego­
o poder da outra. O mais perto que Voltaire ou os outros gênios da historiografia rias de portadores de valores supersticiosos ou irracionais e portadores de
da época - Hume e Gibbon - chegaram de entender as potencialidades criativas valores esclarecidos ou racionais. A “sintaxe” das relações pelas quais essas
da desrazão foi na crítica irônica que fizeram de si mesmos e nos esforços que duas classes de fenômenos históricos se vinculavam era a do incessante conflito
envidaram para compreender a história. Isso os levou a se verem a si mesmos de opostos; e o significado (semântico) desse conflito não era senão o triunfo
tão potencialmente imperfeitos como os aleijados que lhes pareciam estar destes sobre aqueles, ou o inverso. Mas nem a evidência oferecida pela reflexão
parodiando o espetáculo da história. sobre os tempos nem aquela proporcionada pela reflexão sobre a história era
realmente capaz de confirmar ou negar em definitivo essa concepção do signi­
ficado da história. Conseqüentemente, o pensamento histórico da principal
A REALIZAÇÃO HÍSTORIOGRÁFICA DO ILUMINISMO tradição do Iluminismo foi sendo cada vez mais obrigado a recuar de sua
primitiva apreensão metonímica do mundo para a compreensão irônica dele,
que a evidência exigia, admitidos em primeiro lugar os termos em que a pesquisa
Tendo indicado a natureza do avanço que a historiografia racionalista do
foi concebida. Pois, se começo por uma apreensão do campo da história humana
Iluminismo representa em relação às principais convenções da reflexão históri­
como uma área de acontecimento dominada por relações causa-efeito, sou
ca que a precedeu, e tendo registrado as falhas ou limitações daquela visão
então obrigado no fim de contas a considerar qualquer coisa deste campo,
histórica, especificarei agora o exato teor de sua realização. A historiografia do
qualquer homem, instituição, valor ou idéia, como sendo apenas um “efeito” de
século XVII começou por uma apreensão do campo histórico como um caos de
forças opostas, entre as quais o historiador tinha de optar e a serviço de uma ou algum nexo causal - isto é, como uma realidade contingente (portanto determi­
mais de uma delas escrever sua história. Isso aconteceu tanto com a historio­ nada) e, assim, irracional em sua essência.
grafia confessional do século XVII como com a historiografia etnográfica dos Em face dessa inevitabilidade, o pensamento do Iluminismo foi compeli­
missionários e conquistadores espanhóis. Essa historiografia do cisma essencial do, como o pensamento histórico do século anterior fora compelido, a conside­
teve como sucessoras, ou mobilizou, duas alternativas para si mesma. Uma rar a escrita histórica como uma espécie de arte. Mas, visto que a concepção de
delas, a tradição dos antiquários eruditos, emergiu de um desejo de perfeita arte dos iluministas era neoclássica - isto é, uma arte que colocava a causação
objetividade, que redundou na criação do modo analístico de explicação e e a lei no centro de sua apreensão do mundo tal como o fazia a ciência -, a
representação, cuja característica foi a concepção de ordem e unidade como historiografia da época foi necessariamente impelida na direção de um modo
mera serialidade, ou sucessão no tempo. A defesa tácita desse modo de escrita de representação puramente satírico, do mesmo modo que em geral o foi a
histórica, contida na Monadologia de Leibniz e na doutrina da continuidade ali literatura da época. Essa época não produziu nenhuma grande historiografia
exposta, era intrinsecamente hostil à concepção, sustentada pelosphilosophes, trágica e pela mesma razão que não produziu nenhum grande teatro trágico.
da realidade social como sendo inerentemente dividida e atomizada e em Faltavam nela as bases da crença na falha heróica trágica, concebida como um
contraste com a qual a própria doutrina leibniziana da harmonia essencial dos grau excessivo de virtude. Uma vez que todos os efeitos tinham presumivelmen­
opostos parecia ser tão ingênua quanto era “idealista”. A outra reação à te de ter as causas necessárias e suficientes para sua produção, a noção de um
historiografia do cisma essencial era puramente estética, representada pelos paradoxo existencial, de uma contradição dialética que era antes vivida que
historiens galants, que, ainda que simbolizassem o desejo de elevar-se acima da simplesmente pensada, dificilmente podia ser concebida pelos pensadores ou
história partidária, só se sentiam aptos a fazê-lo mediante a recusa a admitir que artistas dessa época. Por isso é que a comédia produzida pela época, mesmo a
a empresa historiográfica era parte da busca mais geral da “verdade” que de Molière, tende a corresponder antes à da nova, que à da velha, comédia ática;
motivava a ciência e o pensamento filosófico da época. enquadra-se mais na linha da farsa de Menandro do que na da seriedade
A alternativa a todas essas convenções historiográficas foi o modo irônico mimética elevada de Aristófanes, que é uma comédia baseada antes numa
de conceber a história, elaborado pelos philosophes, que se empenhavam em aceitação das verdades da tragédia que no abandono, ou na derrogação, daquelas
alcançar a objetividade e o descompromisso e, pelo menos tacitamente, reco­ verdades, como tendem a ser a de Menandro e a de Molière.
nheciam a impossibilidade de atingir essas metas. Dominados por uma concep­ Verlaine, ao que se diz, comentou que as belas damas pintadas por
ção de racionalismo derivada das ciências físicas (newtonianas), osphilosophes Reynolds e Gainsborough tinham a aparência de deusas que não acreditavam
encaravam o campo histórico como um espaço de relações causa-efeito, sendo em sua própria felicidade. O mesmo se pode dizer dos escritores, historiadores
META-HISTÓR1A 81
80 HAYDENWHTTE

O resultado dessa percepção iria conduzir o pensamento à consideração


e filósofos da era do Iluminismo; mas não porque não acreditassem na felicida­
da exeqüibilidade de moldar o processo histórico a um enredo trágico. Isso,
de, e sim porque não podiam crer que eles próprios fossem deuses ou mesmo
porém, foi prejudicado desde o início pela concepção da natureza humana como
heróis. Nem uma visão cômica nem trágica da história era plausível para eles, e
simplesmente um campo de determinações causais, o que faz de toda falha
por isso recorreram às representações satíricas e irônicas do mundo que
potencialmente trágica num protagonista uma verdadeira corrupção, antes que
habitavam e dos processos através dos quais ele se constituíra. Mas isso não
uma virtude que por excesso se transformou em vício. O resultado foi ter o
deve ser tomado como uma escolha ignóbil por parte deles. Tendo pré-critica-
pensamento histórico, a exemplo da sensibilidade filosófica e literária da
mente decidido, através da prefiguração do mundo como um campo fragmen­
época, enveredado pelo modo da sátira, que é a forma “ficcional” tomada pela
tado, de causas por um lado e efeitos por outro, que nenhuma unidade era
possível, foram progressivamente abandonando o ideal em favor da realidade. ironia.
Essa realidade apresentava-se para eles como uma irredutível mistura de razão Pode-se usar a sátira - e aqui penetro na área das implicações ideológicas
e desrazão, como beleza conspurcada e finalmente como obscuro destino tão - para fins conservadores ou liberais, dependendo de ser o objeto satirizado
incompreensível quanto inelutável. uma força social estabelecida ou emergente. O pensamento histórico do Ilumir
Posso agora caracterizar o aspecto geral do pensamento histórico do nismo, aquele produzido por seus melhores representantes, podia ter sido usado
Iluminismo como um todo. No plano principal percebo o estabelecimento para fins liberais ou conservadores, mas sem maior efeito a serviço de qualquer
de um paradigma da consciência histórica no modo da metonímia, ou das dos dois, porque, em sua ironia, reconhecia que as verdades específicas que
relações de causa e efeito, a serviço das quais tanto as identificações meta­ estabelecia eram ambíguas e não ensinavam verdades gerais, apenas que plus
fóricas (a nomeação dos objetos do campo histórico) quanto a caracteriza­ ça change, plus c*est la même çhose. No fim, as forças da democracia que iam
ção sinedóquica dos indivíduos em termos de espécies e gêneros foram surgindo no decurso do tempo pareciam tão repreensíveis e ameaçadoras aos
usadas para produzir um significado que era irônico em seu conteúdo olhos dosphilosophes como lhes tinham parecido as forças da aristocracia e do
específico. E posso dizer que, neste caso, uma compreensão irônica foi o fruto privilégio a que eles se tinham originariamente oposto, porque, da maneira
de uma investigação metafórica e sinedóquica de um campo que fora pré- como interpretavam a realidade, não podiam crer na possibilidade de genuína
criticamente apreendido e, portanto, interpretado no modo da metonímia. transformação de coisa alguma: sociedade, cultura ou eles mesmos.
Expresso como uma regra, isso redundaria numa generalização: aquele que A decisão de Kant de tratar a compreensão histórica como ficção, o que
aborda a história como um campo de relações de causa e efeito é conduzido, comportava diferentes implicações morais, representou a chegada à consciên­
pela lógica da própria operação linguística, à compreensão daquele campo cia da predisposição irônica da época. E, assim como na filosofia de Kant sua
em termos irônicos. defesa irônica da ciência preparou o terreno para o idealismo, também sua
análise irônica do pensamento histórico preparou o terreno para o renascimen­
Isso quer dizer que o pensamento histórico do Iluminismo passou, em seu to da concepção organicista da realidade ensinada por Leibniz. Kant não
modo explicativo, de apreensões nomológicas para compreensões topológicas, gostava do idealismo de Fichte, que era um desdobramento excêntrico do seu
o que vale dizer que o melhor que ele ofereceu ao entendimento histórico foi próprio sistema, porque fazia da ciência apenas uma projeção da vontade
uma sucessão de “tipos” de humanidade que tendiam a dividir-se em classes subjetiva. O que lhe desagradava no organicismo de Herder, que reviveu a
positivas ou negativas, neste caso, razão e desrazão, respectivamente. O modo doutrina leibniziana da continuidade e transformou-a na base de uma nova
de representação começou numa prefiguração épica do campo histórico, isto é, filosofia da história, era que ele fazia da mudança e transformação as bases
na apreensão de uma grande disputa entre os poderes da razão e da desrazão, mesmas da vida, cuja natureza agora exigia que nem sequer se suscitasse a
disputa inspirada pela esperança de que a história mostrasse o triunfo dos questão de saber se a história progredia ou não.
poderes heróicos sobre as figuras obstrutivas que eram indispensáveis à tensão
Numa obra que examinarei depois, como outro exemplo de abordagem
que conduz ao movimento do todo. Mas os historiadores logo chegaram a
irônica do conhecimento histórico (Uso e Abuso da História de Nietzsche),
reconhecer que, quando se trata de disputas sagradas, há que perder ou ganhar
traça-se uma distinção entre três tipos de sensibilidade histórica - a antiquá-
alguma coisa de modo absoluto no conflito, que não é uma questão simplesmen­
ria, a monumental e a crítica - com base no que se poderia chamar a forma
te de redistribuir as forças em ação no campo, que, em suma, nem a vida nem a
dominante da “aspiração temporal” que caracteriza cada uma. A história
história é um jogo. Isso, por sua vez, redundou na indagação dos possíveis
antiquária, disse Nietzsche, confere um valor absoluto ao que é velho, só
significados cômicos ou trágicos que a totalidade do processo histórico poderia
porque é velho, e atende à necessidade do homem de sentir que deita raízes
conferir à investigação. Mas reconheceu-se finalmente que uma representação
num mundo anterior e a suas aptidões para a reverência, sem o que ele não
cômica da ocorrência histórica só pode apoiar-se em elementos dogmáticos,
poderia viver. A história monumental, por contraste, procura não o velho
como Turgot e Condorcet tentaram apoiá-la, e nunca em elementos empíricos,
como Bayle e Voltaire esperavam fazer. mas o ostensivamente grandioso, o heróico, e o exibe como exemplo do poder
82 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 83

criador do homem para mudar ou transformar seu mundo; por isso é orientada na história concebida como um mistério humano, que Vico celebrou em sua
para o futuro e demolidora das devoções e preocupações práticas presentes dos “Ciência Nova”.
antiquários. A história crítica, por outro lado, procede ao julgamento tanto das
devoções herdadas como dos sonhos utópicos do futuro, operando a serviço das
necessidades e dos desejos sentidos no presente, preparando o terreno para A REBELIÃO DE HERDER
aquele esquecimento criativo, o refinamento da faculdade de “olvido”, sem CONTRA A HISTORIOGRAFIA DO ILUMINISMO
o que a ação no presente não é de modo algum possível.
O século XVIII produziu representantes dos três tipos de escrita da O pensamento de Herder é “mítico” porque procura escapar à metonímia
história, mas foi fraquíssimo na promoção da forma monumental, a serviço do e sua conseqüência irônica recorrendo ao tipo mais básico de explicação e
herói. A concepção da história como a estória dos heróis, do processo histórico representação, fundamento da própria compreensão mítica, a ingênua metáfo­
como “a essência de inumeráveis biografias”, tal como o conceberia Carlyle ra. Mas o pensamento de Herder não é “ingênuo”; é conscientemente dirigido
tempos depois, foi o feito especial da era romântica do início do século XIX. para a recuperação da individualidade do evento em sua particularidade,
Mas o Iluminismo não produziu nada parecido com isso, porque o Iluminismo singularidade e concretude em conjuntos discretos de identificações metafóri­
não tinha realmente muita confiança nos homens enquanto indivíduos - na cas. Assim, pode-se dizer que o pensamento de Herder começou por uma
humanidade, sim; no homem, não. A razão disto residia na perspectiva pela qual
apreensão do campo histórico como um conjunto efetivamente infinito de
os iluministas viam suas próprias tentativas de escrever a história, fosse na forma
particularidades, cujas origens ou causas presume-se que sejam totalmente
antiquária, fosse na forma monumental ou crítica.
incognoscíveis pela razão, portanto miraculosas, e cuja totalidade se apresen­
Os iluministas chegaram ao seu estudo da história partindo do quarto nível tava a seus olhos como um agitado e encapelado oceano de acontecimentos
de consciência que o próprio Nietzsche procurou promover, uma consciência visivelmente casuais. Mas Herder não podia contentar-se com o simples passa­
meta-histórica - uma consciência irônica - da limitação que a natureza impõe tempo dessa aleatoriedade como realidade última. Insistia - por razões religio­
a todas as ações humanas e da restrição que a finitude humana impõe a todos sas ou metafísicas - em que este campo do acontecimento tem um fundamento
os esforços de compreender o mundo pelo pensamento ou pela imaginação. ou propósito ontologicamente anterior e espiritualmente superior, um propó­
Mas não exploraram totalmente sua ascensão a esse nível de consciência. Não sito que lhe dava certeza da unidade, integração e harmonização última das
acreditaram nos seus próprios poderes prodigiosos de sonhar, que sua auto­ partes no todo.
consciência irônica devia ter liberado. Para eles, a imaginação era uma ameaça O pensamento de Herder esforçava-se por estabelecer o princípio em
à razão e só podia ser disseminada no mundo sob as mais rigorosas coerções virtude do qual esse indício de harmonia e integração pode ser justificado, mas
racionais. de modo a evitar sua especificação em termos meramente físicos ou causais (isto
A diferença entre os iluministas e Nietzsche estribava-se em que este é, metonímicos), a fim de não incidir na ironia que tal especificação inevitavel­
último estava cônscio da natureza “fictícia” de suas próprias percepções mente acarreta quando plenamente considerada numa reflexão que avança até
irônicas, e contra elas dirigia seus próprios poderes oníricos, usando a posição sua derradeira conclusão. Herder contentava-se com descobertas de coerências
“a-histórica”, a partir da qual podia inspecionar os esforços dos historiadores formais limitadas entre as individualidades que imaginava habitarem o campo
para “compreender” o processo histórico em termos antiquários, monumen­ histórico tal como é imediatamente dado - isto é, com a apreensão do que se
tais e críticos, como base para se elevar à posição “super-histórica”, na qual poderia chamar de universais putativamente concretos, que outra coisa não são
podiam ser gerados novos “mitos” da história, só que a serviço da vida e não que as espécies e gêneros encontrados no campo histórico mas tratados como
da morte. individualidades concretas em si mesmas: nações, povos, culturas. Por isso é que
Por sua vez os iluministas nunca atingiram a plena consciência das sua concepção da história pode ser vista como ao mesmo tempo individualista
possibilidades criativas contidas em sua própria apreensão irônica da natu­ e tipológica, e que todo o sistema de pensamento de Herder pode ser legitima­
reza “fictícia” da reflexão histórica. Esta é uma das razões por que nunca mente associado ao romantismo por um lado e ao idealismo por outro.
conseguiram entender as representações “fictícias” da verdade expostas nos Como sistema filosófico que tomou forma depois do mecanicismo ilumi-
mitos, nas lendas e nas fábulas de tempos primitivos. Eles não viam que as nista e em reação a ele, a filosofia organicista de Herder afirmava a um só tempo
fábulas podem ser as formas dadas a verdades incompletamente apreendidas o primado e a irredutibilidade do ser humano individual bem como das tipifi­
do mesmo modo que freqüentemente podem ser o conteúdo de falsificações cações dos modos de relacionamento dos indivíduos entre si. Herder não sentia
que são incompletamente reconhecidas. Assim, nunca se libertaram para necessidade alguma de decidir se o indivíduo concreto ou o tipo que ele
aquela imersão mítica no processo histórico concebido como o mistério representa é ontologicamente mais primordial, pois concebia o indivíduo e o
divino, que Herder celebrou em sua filosofia, ou para aquela imersão poética tipo como sendo igualmente “reais”. Ambos exprimiam igualmente a força
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espiritual ou potestade, que é em última instância responsável pela integridade Nessa citação podemos ver como Herder conseguiu encerrar dentro de
do indivíduo e do tipo, e pela harmonização deles dentro de uma totalidade mais uma apreensão da nobreza e harmonia do todo - e neutralizá-la - aquela
vasta, cósmica, ao longo do tempo. Pelas mesmas razões, o nascimento e a conclusão irônica a que há de ser conduzida uma apreensão simplesmente
extinção do indivíduo e das espécies e dos gêneros que elas representam não metonímica do mundo se for consistentemente elaborada e pensada até suas
constituíram problemas para ele, visto que presumia que esse processo de derradeiras implicações. A “contradição” da condição humana, o paradoxo
nascimento e extinção não deve ser definido como processo natural ou espiri­ segundo o qual o homem é o mais elevado dos seres vivos e ao mesmo tempo
tual, mas como um processo que é natural e espiritual ao mesmo tempo. Nascer está em constante conflito consigo mesmo, possui as mais altas faculdades e é
e morrer eram igualmente preciosos para ele como meios pelos quais a força ao mesmo tempo o único organismo animal que está em constante guerra com
orgânica unificada cumpre sua tarefa de finalmente integrar o ser consigo seu ambiente, a ironia do fato de que os mais nobres exemplares da espécie são
mesmo. os mais descontentes com sua sorte e são os menos eficientes nos esforços por
Assim, nem mesmo a morte era uma conclusão para Herder; ela não é enobrecer seus companheiros - tudo isso é invocado para explicar a “evidente
real, mas sim um ponto de transição de um estado de integração para outro. Nas bipolaridade” da natureza humana, que, por sua vez, é transformada numa base
Ideen zurPhilosophie der Geschichte des Menschheits (1784-1791), por exemplo, para crença na condição do homem como habitante de dois reinos, o natural e o
ele afirmou: espiritual, entre os quais ele forma o elo e a ponte, e a partir dos quais suas
aspirações como homem o impelem a uma ordem mais alta de integração para
além do tempo e do espaço. Tudo isso é o que justifica a dupla via que o
Tudo na natureza está ligado: um estado busca e prepara o seguinte. Se, então, o homem pensamento de Herder seguiu ao considerar o processo histórico: sua apreensão
for o último e mais alto elo, encerrando por assim dizer a cadeia da organização terrestre, deve
também iniciar a cadeia de uma ordem mais elevada de criaturas como seu elo mais baixo. É ele,
da estrutura do campo histórico no modo de identificação metafórica das
portanto, o anel do meio entre dois sistemas contíguos de Criação. (...) Esta visão das coisas (...) entidades individuais - seres humanos e grupos - que o constituem em sua
nos dá por si só uma chave do maravilhoso fenômeno do homem e portanto também de uma imediatez; e sua compreensão desse campo como um processo, como uma
possível filosofia da história humana. estrutura em processo de articulação no sentido da integração de todas as partes
Pois, se nos lembrarmos sempre desta perspectiva, ela nos ajudará a projetar luz sobre a num todo espiritual.
peculiar contradição que é inerente à condição humana. O homem considerado como animal é um
filho da terra e a ela está ligado como à sua habitação; mas considerado como ser humano, como Herder afastou a necessidade de caracterização metonímica do campo
criatura da Humanitat, tem dentro de si as sementes da imortalidade, e estas precisam ser plantadas histórico, dissolveu-o como campo de acontecimento causal e construiu um
em outro solo. Como animal pode satisfazer suas necessidades; há homens que não desejam mais dado com o que, nas filosofias mecanicistas da história, deve ser considerado
nada e por isso podem ser perfeitamente felizes aqui embaixo. Mas aqueles que procuram uma como a problema crucial, isto é, o problema à^mudança. Ao mesmo tempo não
finalidade mais nobre acham tudo à sua volta imperfeito e incompleto, porquanto o mais nobre nunca
foi alcançado comais puro raramente perdurou nesta terra. Isso é amplamente ilustrado pela história
renegou a justificação da conclusão irônica a que é levada uma análise metoní­
de nossa espécie, pelos inúmeros tentames e empreendimentos que o homem promoveu e pelos mica, isto é, a natureza aparentemente “contraditória” da história humana.
acontecimentos e revoluções que o surpreenderam. De vez em quando um homem sábio, um Simplesmente tomou aquela “contradição” como uma realidade “aparente”,
homem bom, apareceu para lançar idéias, preceitos e ações na corrente do tempo. Eles apenas coisa que não cabe tanto explicar como singelamente invalidar por meio de
agitaram a superfície das águas. (...) Os néscios sobrepujaram os conselhos dos sábios e os
explicações que apelem para a presumida harmonização das partes em última
perdulários herdaram os tesouros de sabedoria reunidos por seus antepassados. (...) Um animal
vive o seu tempo de vida, e mesmo que seus anos sejam demasiado breves para que possa atingir análise. Conseqüentemente seu pensamento oscilava entre a apreensão do
fins mais elevados, seu escopo mais profundo é alcançado; suas habilidades são o que são e ele é o indivíduo em sua concretude e integridade como particularidade caracterizada
que está destinado a ser. Só o homem, dentre todas as criaturas, está em conflito consigo mesmo e por intenção e movimento para um objetivo, o que tornou Herder valioso para
com o mundo. Mesmo sendo a mais perfeita dentre elas, no plano das potencialidades, ele é também
o que menos êxito alcança em desenvolvê-las em toda a plenitude, mesmo ao fim de uma vida longa os românticos que o seguiram, e a compreensão do todo como um espaço pleno
e ativa. Ele é o representante de dois mundos ao mesmo tempo, e daí deriva a evidente bipolaridade de tipificações sugeridoras da progressiva idealização da totalidade, o que o
de sua natureza. (...) Isto é certo: em cada um dos poderes do homem reside uma infinidade que tornou caro aos idealistas. O que o converteu em anátema para os filósofos
não pode se desenvolver em seu estado presente, onde é reprimida por outros poderes, por positivistas do seu tempo (como Kant, que em sua filosofia científica estabeleceu
tendências e apetites animais, e oprimida, por assim dizer, pelas forças e pressões de nossos
trabalhos cotidianos. (...) A expressão de Leibniz, de que a mente é o espelho do universo, contém o ponto de partida para um positivismo filosoficamente sólido) e aqueles que
uma verdade mais profunda do que comumente se supõe. Pois os poderes do universo que parecem vieram depois dele (como os comtianos) foi o ter sido a categoria de causalidade
estar escondidos na mente precisam somente de uma organização, ou de uma série de organizações, esvaziada de toda eficácia para a análise dos fenômenos humanos, ou melhor,
que os ponha em ação. (...) Para a mente, ainda em seus grilhões at uais, espaço e tempo são conceitos ter tido sua competência limitada à análise da natureza física e animal e daqueles
vazios. Eles apenas medem e denotam relações do corpo e não exercem influência sobre a eterna
capacidade da mente que transcende o espaço e o tempo [Herder, Ideen, 146-49 (trad. ingl. Barnard, aspectos do homem que estão submetidos a leis (agora epistemologicamente
280-81); grifos acrescentados]. insignificantes) de causação material.
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Mas se essa compreensão das diferentes esferas presididas por diferentes individualidades encontradas naquele campo ou a unidade superior de cuja
classes de ciências (as ciências físicas de um lado, as ciências humanas do outro) existência as aptidões delas para a auto-articulação davam testemunho.
lhe granjearam a estima dos idealistas e dos neokantianos do final do século * Eis aqui a real importância de Herder como metodologista histórico. Se
XIX e do nosso tempo, foi ela recebida com algo menos do que fervoroso o interesse do historiador estiver primordialmente voltado para as individuali­
entusiasmo por Hegel. O grande idealista crítico Hegel reconhecia que Herder dades ocupantes do campo, ele tenderá a escrever história no modo romanesco,
e outros como ele tinham corretamente percebido que a mudança era uma cuja natureza mítica ficou imediatamente patente para “realistas” sagazes da
categoria fundamental da análise histórica, mas Hegel também via que nem geração seguinte como Wilhelm von Humboldt, Ranke e Hegel. Se o historiador
Herder nem os idealistas absolutos (Fichte e Schelling), nem os positivistas quiser estudar as individualidades do campo a fim de determinar a natureza do
haviam oferecido uma teoria racional adequada para a determinação do que misterioso “espírito” de cuja existência a existência delas deve dar testemunho,
implicava para a vida humana em geral essa mudança, do que poderia ser o como fizeram Fichte, Schelling e Wilhelm von Schlegel, escreverá história
significado dessa mudança, sua direção e finalidade última. idealista, cuja natureza “mítica” era igualmente óbvia para aqueles mesmos
“realistas” da geração seguinte. Se, porém, o historiador separar a técnica de
Herder não apenas via o plano de todo o drama histórico como um plano investigação de Herder dos interesses espiritualistas mais gerais a que, na mente
cômico; também via cada ato desse drama como uma peça cômica em miniatura, dele, devia ela concebivelmente servir, e fizer da simultânea apreensão das
um pequeno mundo fechado em si mesmo, no qual as coisas são sempre coisas em sua individualidade e coerência formal o objeto de seu estudo do
exatamente o que devem ser e também o que manifestamente são. No entanto, campo histórico, de modo a definir uma explicação especificamente “histórica”
essa caracterização mesma da existência histórica como uma “contradição” e como uma descrição da coerência formal revelada por uma individualidade,
um paradoxo nega implicitamente o que ele consistentemente reiterava como quer como uma particularidade, quer como uma congérie de particularidades,
verdade estabelecida. E isso revela a limitação moral da concepção herderiana escreverá história no modo que passou a ser chamado de “historicismo” - que
da história, o formalismo para o qual ela se encaminhava como o mais alto recentemente chegou a ser considerado como uma visão de mundo caracterís­
gênero de conhecimento a que se pode aspirar na própria compreensão histó­ tica, com implicações ideológicas tão inelutáveis como as dos sistemas “míticos”
rica. Esse formalismo, que era a resposta de Herder à ironia da historiografia contra os quais foi originariamente proposto como antídoto.
do racionalismo tardio (cético), essa disposição de deter a apreensão da coe­
rência formal no processo histórico, assinalava a vontade de Herder de recons­
tituir miticamente os fundamentos sobre os quais se podem levar a cabo a
explicação e representação histórica, seu desejo de um novo paradigma da A IDÉIA DA HISTÓRIA DE HERDER
compreensão histórica.
Antes de passar à discussão das origens do historicismo e da caracteriza­
Herder partilhou esse desejo de um novo paradigma para conceber o ção de seu paradigma e de suas várias modalidades de articulação, registrarei,
campo histórico com a geração de escritores e pensadores que apareceram em para fins de elucidação, os modos pelos quais a visão de mundo de Herder
toda a Europa nessa época (os “pré-românticos” e os Stünner und Dranger), funciona como base para uma possível metodologia do estudo histórico. Come­
geração que procurava romper com todos os pressupostos do racionalismo çarei por mencionar a costumeira caracterização do trabalho de Herder como
iluminista na filosofia e na ciência e com o neoclassicismo na arte. O desejo deles pensador da história. Herderiano tardio e expoente da mesma inteligência
de romper com o racionalismo (pelo menos em sua forma mecanicista) e o sinedóquica que Herder representou no seu tempo (e, além disso, um herde­
materialismo (pelo menos em seu conceito não-evolutivo) pressagiava a iminen­ riano que expôs sua filosofia num espírito análogo, isto é, como meio de
te cristalização de um novo paradigma, com base no qual a explicação, a transcender a ironia de sua época), Ernst Cassirer afirmou que Herder “des­
representação e a implicação ideológica iriam ser postas em prática em campos manchou o feitiço do pensamento analítico e o princípio de identidade que
de ocorrência tão “caóticos” como o representado pela história. Por ter suposto haviam mantido a reflexão iluminista escravizada à análise causal no pensamen­
a mudança como imediatamente categorial em seu sistema e só proximamente to histórico”. A história, como Herder a concebia, escreveu Cassirer, “dissipa
ou finalmente derivada de um poder mais alto, imutável, Herder atendeu bem a ilusão da identidade; não conhece nada realmente idêntico, nada que alguma
à necessidade sentida por sua geração de reinvestigar os fenômenos de mudança vez reapareça da mesma forma. A história dá à luz novas criaturas em sucessão
histórica em geral. E já que ele se recusou a especificar qual poderia ser a ininterrupta, e a cada uma outorga, como direito inato, uma forma ímpar e um
agência reguladora superior, aqueles que compartilhavam de sua apreensão do modo independente de existência. Toda generalização abstrata é, portanto,
campo histórico - como uma congérie de individualidades concretas diversa­ impotente com relação à história, e nem uma norma genérica nem qualquer
mente empenhadas no processo de sua própria auto-articulação - podiam norma universal pode abarcar sua riqueza. Toda condição humana tem seu valor
utilizar seu modo de apreender o campo histórico no interesse de estudar as peculiar; toda fase particular da história tem sua validade e necessidade ima­
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nente” (Cassirer, 231). No entanto, ao mesmo tempo, continuou Cassirer, para Herder não se julgava situado acima de qualquer coisa que encontrasse
Herder, no registro histórico. Mesmo os desmazelados nativos da longínqua terra da
Califórnia, dos quais teve notícia através de um missionário, despertavam nele
Essas fases não estão separadas umas das outras; elas só existem no todo e em virtude do mais admiração do que a repulsa que teriam inspirado a Voltaire. Embora se
todo. Mas cada fase é igualmente indispensável. É dessa completa heterogeneidade que emerge a mudassem de casa “talvez cem vezes por ano”, dormissem onde quer que o sono
unidade real, que só é concebível como a unidade de um processo, não como uma similitude entre os vencesse, “sem se preocuparem com a sujeira do chão ou se darem ao
coisas existentes [Ibid.].
trabalho de se resguardar dos bichinhos nocivos”, e se alimentassem de grãos
que, “quando premidos pela penúria, saem catando (...) em seu próprio excre­
A sensibilidade de Herder para a diversidade das formas de vida, sua mento”, Herder ainda encontrava neles qualidades que resgatavam os defeitos.
percepção da unidade na diversidade e sua substituição da estrutura pelo
Pois estavam “sempre bem dispostos; brincando e rindo o tempo todo; bem-
processo como o modo de compreender a história em sua totalidade constituem
constituídos, desempenados e ativos”; levantavam pedras e outras coisas do
suas contribuições características para o senso histórico do século XIX. Mas, chão “com os dois dedos grandes dos pés”; e quando despertavam do sono,
quando apresentou seu sistema nas Ideen zur Philosophie der Geschichte des
“rifam], conversa[vam] e brincafvamj”, e assim continuavam, “até serem debi­
Menschheits, ele ousou demais. Procurou unir as esferas do natural e do
litados pela velhice, quando [enfrentavam] a morte com tranqüila indiferença”
histórico dentro do mesmo complexo de causas. Considerem-se, por exemplo,
(181 [9]).
os comentários seguintes, que vêm no fim de suas reflexões sobre as causas do
declínio e da queda de Roma: Herder não julgava nada. As coisas que pareciam ser funestas, pungentes,
danosas eram vistas por ele sempre a se julgarem a si mesmas; o perecer delas
A lei que sustentou o sistema terrestre, e formou cada cristal, cada verme, cada floco de era o juízo que formavam de si mesmas - elas simplesmente não resistiam. E,
neve, formou e sustentou também a espécie humana; ela fez de sua própria natureza a base de sua segundo Herder, o que acontecia com os grandes agentes da história acontecia
permanência e ação progressiva, enquanto os homens existirem. Todas as obras de Deus têm sua com os pequenos, com os romanos e com os californianos. “Os romanos”,
estabilidade em si mesmas c em sua formosa consistência; pois todas repousam, dentro de seus escreveu Herder, “foram precisamente o que foram capazes de se tornar; todo
limites determinados, no equilíbrio de forças opostas, graças à sua energia intrínseca, que reduz o perecível pertencente a eles pereceu, e o que era suscetível de permanência
estas à ordem. Guiado por esta indicação, percorro o labirinto da história e em toda parte diviso
perdurou” (394 [267-68]). Nada existia para, qualquer outra coisa, mas tudo era
a divina ordem harmoniosa; pois o que pode em qualquer parte ocorrer, ocorre; o que pode operar,
opera. Mas só a razão e a justiça perduram; a loucura e a inépcia destroem a Terra e a si mesmas parte indispensável do todo; a lei do todo era a norma da parte: “A história
[Herder, Ideen, 419 (Manuel (Org.), 116-17)]. natural não colheu vantagem alguma da filosofia das causas finais, cujos sectá­
rios tendem a satisfazer-se com a conjetura provável, em vez da investigação
O encanto imediato dessa passagem prende-se à imagem que evoca de paciente; e menos ainda colheu a história da humanidade, com seu maquinismo
um sistema que é ao mesmo tempo crescente e disciplinado, ativo e estável, infindavelmente complicado de causas que atuam mutuamente umas sobre as
dinâmico mas repousado, progressivo porém sistemático, infinito e no entanto outras" (393 [266-67]; grifos acrescentados). Na história, como na natureza,
limitado etc., tudo isso englobado na idéia de equilíbrio. A implicação desse concluiu Herder, “tudo, ou nada, é fortuito; tudo, ou nada, é arbitrário. (...) Este
trecho é que tudo que algum dia existiu era adequado às condições de sua é o único método filosófico de considerar a história, e tem sido até inconscicn-
existência. Herder deliciava-se com o fato de que “o que pode em qualquer temente praticado por todas as mentes pensantes” (392 [264-65]).
parte ocorrer, ocorre; o que pode operar, opera”. E com base nessa percepção Está claro que para Herder nada era fortuito, nada era arbitrário. Ele
premunia os leitores contra qualquer impulso de se enlearem em “preocupa­ acreditava que a agência reguladora que dá a tudo a forma que deve ter não é
ções” de caráter “previdente ou retrospectivo” (39). As coisas são sempre o que extrínseca ao processo histórico; no próprio processo, através de uma interação
devem ser, mas a necessidade de serem o que são nada mais é do que a relação mútua entre os elementos do processo, as coisas são levadas a ser o que devem
entre elas e o seu meio: “Tudo o que pode ser, é; tudo o que pode vir a ser, será; ser. Todas as agências da história carregam dentro de si a norma de sua própria
se não hoje, então amanhã”. O espetáculo do nascimento e da morte que o articulação, cuja operação é testemunhada nas coerências formais que as coisas
registro histórico revela à consciência não era para Herder motivo de desespero. individuais conseguem realmente alcançar. A humildade em presença da mul­
O tempo não o ameaçava, porque ele não levava o tempo a sério. As coisas se tiplicidade dessas formas é a regra de conduta do historiador, como é a do
extinguem quando chega o seu tempo, não quando o Tempo exige isso delas. O filósofo, e, na verdade, na concepção de Herder, como é a do cientista. Visto
tempo é internalizado no indivíduo; não exerce hegemonia alguma sobre a de dentro do próprio processo, e não de fora dele à luz de preconcepções
natureza orgânica: “Tudo o que veio a florescer sobre a terra era o que podia genéricas, o mundo histórico é uma pletora de formas singulares, universais
florescer; cada coisa no seu tempo e no seu meio; feneceu, e florescerá de novo concretos, nenhum dos quais é igual a qualquer outro, mas cada um dos quais
quando chegar sua hora”. dá testemunho da presença de um princípio informador dentro do todo.
90 HAYDENWHITE META-H1STÓRIA 91

A limitação dessa concepção da história é facilmente discernível. Lovejoy regra de articulação podia estender-se a uma sociedade contemporânea, assim
assinalou que faltava a Herder qualquer princípio que lhe pudesse permitir como a ordens sociais passadas, num espírito aceitável para as faixas conserva­
explicar porque, se tudo era sempre adequado ao que a natureza exigia dele, as doras e liberais do espectro da ideologia política. A atitude que servia como
coisas tinham de mudar afinal (Lovejoy, Essays, 181). Incapaz de relacionar o base do historicismo quando dirigido para o passado era a mesma que servia
fato da mudança com o fato da duração de algum modo teoricamente convin­ como base do realismo quando voltado para o presente. A mesma “catolicidade
cente, Herder foi compelido, diz Lovejoy, a elevar a mudança e a duração à de apreciação e entendimento” que Herder prodigalizou sobre todos os aspec­
condição de sacramenta e considerar as manifestações de qualquer das duas tos da natureza e da história passada tornou-se, em espíritos tão diversos como
como epifanias de um poder misterioso, “a força orgânica unificada”, diante da Hegel, Balzac, Tocqueville e Ranke, a base de uma autoconsciência histórica
qual ele foi alternadamente reduzido a piedoso silêncio ou inspirado a compor distintivamente realística. Uma vez esvaziado de suas excessivas pretensões
hinos de louvor. Em sua resenha das Ideen, Kant, o incansável detector de como forma de explicação científica e mantido como atitude, o organicismo
metafísica, laconicamente expôs o caráter não científico das reflexões de Herder gerou todo um conjunto de perspectivas sobre o passado e o presente que eram
sobre a natureza e a história. A noção de uma força orgânica unificada como especialmente satisfatórias para os porta-vozes das classes estabelecidas na
“autoconstitutiva com respeito à multiformidadede todas as criaturas orgânicas ordem social, quer esses porta-vozes se considerassem liberais ou conservado­
e como subseqüentemente operante sobre órgãos segundo as diferenças entre res.
eles, de modo a estabelecer os muitos gêneros e espécies”, situava-se “totalmen­ Ao caracterizar a concepção de história de Herder, então, devo distinguir
te fora do campo da ciência natural empírica”, afirmou Kant. Tal “idéia” o ponto de vista a partir do qual ele observou os agentes e as agências históricas,
pertencia “exclusivamente à filosofia especulativa”, sustentou Kant, argumen­ a voz com que se dirigiu a seu público, a teoria formal do organicismo que ele
tando em seguida que “se ela tivesse acesso mesmo ali, provocaria grande ofereceu como explicação dos eventos *da história, a estória que contou a
devastação entre as concepções aceitas” (Kant, Sobre a História, 38). O desejo respeito da história e a estrutura de enredo que apóia essa estória e fez dela uma
de relacionar tudo a tudo o mais era negado à ciência, disse Kant; e num trecho estória de tipo particular. Se faço essas distinções, posso ver que Kant, embora
espirituoso sobre a tentativa de Herder de deduzir as funções das partes do estivesse correto ao proscrever o organicismo de Herder como teoria metafísi­
corpo de sua fisionomia geral, Kant pôs a nu o impulso metafísico de todo o ca, na realidade abalou apenas um dos cinco diferentes aspectos de todo o
sistema de Herder: sistema de Herder. Como narrador, Herder forneceu um modelo para um modo
de descrever a história que pode ser desprendido de sua base teórica formal e
Querer determinar o arranjo da cabeça, extemamente com respeito à sua forma e interna­ julgado em seus próprios termos como um protocolo metodológico que pode
mente com respeito a seu cérebro, como necessariamente associado a uma propensão para uma ser partilhado por românticos, realistas e historicistas indistintamente, partilha
postura ereta; ainda mais, querer determinar de que maneira uma organização simples dirigida essa que fez dos pensadores históricos que se lhe seguiram, fossem românticos,
exclusivamente para este fim poderia conter a capacidade de raciocinar (atividade portanto de que realistas ou historicistas, representantes de uma única família de atitudes.
o animal participa) - isso claramente excede toda razão humana. Pois a razão, assim concebida,
cambaleia no degrau mais alto da escada fisiológica e está a ponto de levantar vôo metafísico Antes de mais nada, a voz em que Herder apresentou sua concepção da
[38-39]. história era a de um celebrante eclesiástico de um mistério divino, não a do
profeta repreendendo seu povo por ter decaído do estado de graça e chaman­
O que Kant discerniu no sistema de Herder como um erro, porém, era do-o de volta à participação na lei. Herder falava mais em defesa da humanidade
precisamente o que seduzia os historiadores e filósofos da história que vieram do que contra os detratores da humanidade, mas não só em defesa da humani­
depois dele. Em primeiro lugar, o fato de ser o sistema de Herder antes dade em geral; ele falava também por seu público contemporâneo ou em nome
metafísico que científico era menos importante do que o modo de conceber a dele, ao qual se dirigia diretamente e de cujas atitudes e valores compartilhava.
história que ele promovia. Os aspectos metafísicos do sistema eram resultados Em segundo lugar, o ponto de vista assumido por Herder com respeito a seus
de uma abstração proveniente da metáfora fundamental que o escorava e materiais era o de quem não está abaixo nem acima deles em dignidade. Herder
sancionava uma determinada postura diante dos fatos da existência de um lado não acreditava na idéia de que ele e sua própria época fossem uma invenção
e um determinado modo de representar os processos naturais e históricos do insana de uma era mais nobre ou antecipações incompletas de uma era ainda
outro. A postura diante dos fatos que ela estimulava era especialmente atraente por vir. Embora sua atitude para com o passado fosse a de um celebrante da
para homens que tinham vivido no período da Revolução e suas seqüelas e que virtude inerente a esse passado, ele estendia essa mesma virtude ao seu tempo,
ardentemente desejavam algum princípio com base no qual pudessem afirmar de modo que a virtude que se presumia ter existido em tempos pretéritos e que
a adequação de sua própria realidade vivida contra as críticas extremistas a ela existiria nos tempos futuros também se presumisse estar presente no seu tempo.
dirigidas pelos reacionários de um lado e pelos radicais do outro. A aceitação Em terceiro lugar, a estória que ele contou foi a do nascimento e morte das coisas
por Herder de toda realidade como inerentemente possuidora de sua própria no tempo próprio delas\ era uma estória organizada em torno dos motivos de
92 HAYDENWHITE METAHISTÓR1A 93

mudança e duração e dos temas de geração, crescimento e realização, motivos distintivamente otimistas, mas que é também essencialmente ambíguo em suas
e temas que dependem, para sua plausibilidade, da aceitação da analogia entre implicações morais e políticas, vale dizer, ideológicas. Ambas as convenções
a vida humana e a vida vegetal, da identificação metafórica fundamental pre­ surgiram em oposição à historiografia “confessional” do século anterior, que se
sente no cerne da obra. Foi a abstração proveniente dessa metáfora que presumia carecer de objetividade; ao modo analístico de representação, ao qual,
forneceu a Herder a filosofia especificamente organicista, com sua concomitan­ como corretamente se percebia, faltavam colorido, conceptualização e poder
te estratégia de explicação e critério da verdade, que Kant em sua resenha interpretativo; e à concepção beletrística da tarefa do historiador, tal como a
tachou de pouco científica e metafísica. E, finalmente, a estrutura de enredo ou estimulavam os historiens galants ou romanesques do período rococó. Sugeri que
mito subjacente, que permitiu a Herder soldar os temas e motivos de sua estória o pleno desdobramento do mecanicismo em ironia por um lado e do organicis-
numa estória de tipo particular, era aquela que tem seu arquétipo na comédia, mo em autoconvicção por outro criou um cisma na consciência histórica da
no mito da Providência, o que possibilitou a Herder asseverar que, quando época que a expôs à ameaça de mitificação, ameaça que Kant denunciou e
devidamente entendido, todo testemunho de disjunções e conflito exposto no exemplificou em sua proposta no sentido de que a forma do processo histórico
registro histórico vem a significar um drama de reconciliação divina, humana e se fundamentasse em premissas estéticas por razões morais.
natural do tipo delineado no drama de redenção da Bíblia. FF’ ~ Essa tendência para a mitificação da consciência histórica foi levada a
Em todo o sistema de Herder, portanto, podem-se fazer distinções entre cabo no interesse de defender o indivíduo contra a coletividade no romantismo
o modo como ele aborda os dados da história e os converte em testemunho por e no interesse de defender a coletividade contra o indivíduo no idealismo. Esses
um lado e o modo como os explica e representa por outro. Sua abordagem dos dois movimentos representaram reações à ironia moral a que a historiografia
dados era a do piedoso celebrante da variedade e vitalidade desses dados, e ele racionalista fora conduzida desde Bayle até Gibbon e à ambigüidade ideológica
os trabalhava de modo a construir com eles uma estória em que a variedade e a que os pressupostos sinedóquicos do pensamento organicista de Herder o
a vitalidade são antes acentuadas que atenuadas. Variedade e vitalidade não tinham levado no início da década de 1790.
eram, para ele, categorias secundárias, mas sim primordiais, e a classe de Pode-se conceber o pensamento histórico romântico como uma tentativa
eventos que ele retratava na estória da história do mundo que escrevia destina­ de repensar o problema do conhecimento histórico no modo da metáfora e o
va-se a apresentar essas características como os dados a serem explicados. Eram problema do processo histórico em função da vontade do indivíduo entendido
explicados por estarem inseridos numa dupla ordem de estratégias explicativas, como o único agente de eficácia causal nesse processo. O idealismo pode ser
teóricas e metafísicas por um lado e poéticas e metafóricas por outro. Assim, visto por um prisma análogo. Também ele representa uma tentativa de conceber
nas Ideen de Herder o leitor vivência um duplo efeito explicativo: a teoria o conhecimento histórico e o processo histórico no modo da metáfora; mas ele
metafísica, que colide com a investigação filosófica formal, e em especial com concebe como único agente do processo histórico o espírito, não em sua
o criticismo kantiano, de seu tempo; e a identificação metafórica da doutrina individualidade, mas em sua essência genérica, como o Espírito do Mundo, em
da Providência com a vida do vegetal, o que possibilita a organização do material que todos os eventos históricos são vistos como efeitos de causas “espirituais”
da estória numa comédia típica. remotas, primeiras e finais.

DE HERDER AO ROMANTISMO E IDEALISMO


'-i
Ao caracterizar a historiografia do século XVIII distingui quatro modali­
dades de conceptualização histórica. Caracterizei a principal tradição do racio-
nalismo como metonímica e irônica em sua apreensão e compreensão,
respectivamente, do processo histórico, e mostrei como essa abordagem da
história justificava um modo essencialmente satírico de representação, cujas
implicações absurdistas concordavam perfeitamente com o ceticismo do pen­
samento e o relativismo da ética a que no fim de contas deve conduzir uma
apreensão consistentemente mecanicista do mundo. Em contraste com essa
tradição, indiquei, como convenção subdominante do pensamento histórico que
persistiu durante todo o século, de Leibniz a Herder, um modo metafórico-si-
nedóquico de conceptualização histórica que promove uma noção organicista
de explicação e um modo cômico de representação, que tem implicações
2
HEGEL
A POÉTICA DA HISTÓRIA
E O CAMINHO PARA ALÉM DA IRONIA

INTRODUÇÃO

O pensamento de Hegel sobre a história começou pela ironia. Ele pres­


supôs a história como um fato primeiro de consciência (como paradoxo) e
existência humana (como contradição) e em seguida passou a uma consideração
do que os modos metonímico e sinedóquico de compreensão podiam fazer de
um mundo assim apreendido. No percurso relegou a compreensão metonímica
à condição de base para explicações físicas e científicas do mundo e posterior­
mente limitou-a à explicação daquelas ocorrências que podem legitimamente
ser descritas no plano das relações de causa e efeito (mecânicas). Concebeu a
consciência sinedóquica como tendo aplicabilidade mais geral - isto é, aos
dados da natureza e da história-, visto que tanto o mundo físico quanto o mundo
humano podem ser legitimamente compreendidos em termos de hierarquias de
espécies, gêneros e classes, cujas inter-relações sugeriram a Hegel a possibili­
dade de uma representação sincrônica da realidade em geral, que é ela mesma
hierárquica por natureza, muito embora ele negasse a possibilidade de conceber
essa hierarquia como capaz de se expandir no tempo no mundo físico. Essa
posição era coerente com a ciência do tempo de Hegel, a qual não permitia que
fosse atribuída à natureza física ou orgânica a capacidade de evoluir; ele
ensinava a fixidez das espécies.
Portanto, Hegel foi obrigado a concluir que a coerência formal que o
homem percebe nos objetos físicos é só aquela - isto é, formal - e que a
aparência de conexão evolutiva entre eles que o homem julga discernir é uma
função do esforço da mente para compreender o mundo de relações puramente
96 HAYDENWHITE
METAHJSTÓRIA 97

espaciais sob o aspecto do tempo. Isso significa que, na medida em que Hegel cia natural e também histórica. Mas, desde que considerava as coerências
foi conduzido para a doutrina da evolução natural, ele o foi exclusivamente por formais em termos segundo os quais essa distinção era especificada como sendo
considerações lógicas. A mente organiza de modo adequado o mundo natural, essencialmente intemporal, o formalismo não possuía nenhum princípio pelo
concebido como uma hierarquia de formas cada vez mais abrangentes - do qual pudesse explicar a evolução delas, de formas inferiores para formas
indivíduo e da espécie ao gênero e à classe - e é impelida pela especulação a superiores de integração, e nenhum critério pelo qual pudesse avaliar a signifi­
imaginar a classe de todas as classes, que seria o aspecto formal da totalidade cação moral da evolução que poderia realmente ser vista como tendo ocorrido
do Ser. Mas o homem não tem elementos para imputar a essa hierarquia das na esfera histórica. Como o enfoque mecanicista da história, o enfoque forma-
formas uma evolução da inferior para a superior ou da superior para a inferior lista era obrigado a escolher entre a conclusão de que as coerências formais que
no tempo. Cada coerência formal apreendida é apenas uvaapressuposição lógica discernia na história apareciam e desapareciam ao acaso ou representavam a
da que está acima dela, assim como é a conseqüência lógica da que está abaixo eterna recorrência do mesmo conjunto de coerências formais durante todo o
dela. Mas nenhuma é a precedente real da outra, pois na natureza as próprias tempo. Era impossível deduzir da consideração delas um verdadeiro desenvol­
espécies não mudam nem evoluem; os indivíduos sim, e mudam ou evoluem no vimento evolutivo.
movimento de linhas retas (como na atração gravitacional) ou ciclõs (como nos
processos orgânicos de reprodução, nascimento, crescimento, decadência e Assim, formalismo e mecanicismo impunham uma escolha entre a supre­
morte), isto é, desenvolvem-se dentro dos limites de uma forma específica, não ma incoerência total de todos os processos históricos (pura contingência) e sua
através da espécie. suprema coerência total (pura determinação).
Para Hegel, todo exemplo de fecundação cruzada de espécies represen­ Mas, na opinião de Hegel, o formalismo era mais perigoso do que o
tava uma degeneração, uma corrupção das espécies, e não um aperfeiçoamento mecanicismo porque a atmosfera espiritual da época estimulava a adesão a seus
ou forma superior de vida. A natureza, portanto, existe para o homem nos diferentes modos de desenvolvimento, como apreensão da total incoerência ou
modos da metonímia e da sinédoque; e a consciência do homem é adequada à da total coerência nos dois movimentos culturais dominantes do período, o
plena compreensão de seus modos de existência quando ele desenvolve concei­ romantismo e o idealismo subjetivo, ambos desprezados por Hegel.
tos causais para explicar mudanças na natureza e sistemas tipológicos para
caracterizar a coerência formal e os níveis de integração ou dispersão que a Na sua introdução à Filosofia da História, Hegel caracterizou um tipo
natureza oferece à percepção guiada pela razão e pelo senso estético. Bem de raciocínio que utiliza exclusivamente processos formalistas nos seguintes
diferente é o caso da história, para a qual as explicações causais e caracteriza­ termos:
ções tipológicas de seus dados representam possíveis modos de conceber seus
níveis mais primitivos de ocorrência, mas que, se apenas eles são empregados Um (...) processo de raciocínio é adotado, em referência à correta asserção de que o gênio,
para sua compreensão, expõem o entendimento aos perigos do mecanicismo o talento, as virtudes morais e os sentimentos e a piedade podem ser encontrados em todas as
por um lado e do formalismo por outro. regiões, sob todas as condições e constituições políticas; para confirmá-lo apresentam-se exemplos
em abundância [65].
Hegel supunha serem óbvias as limitações de uma abordagem puramente
mecanicista da história, uma vez que a própria primazia que tal abordagem Essa é a modalidade de apreensão da qual Herder deduziu suas conclu­
concedia aos conceitos de explicação causal levavam inevitavelmente à conclu­ sões organicistas acerca da natureza do processo histórico. Mas em seguida
são não só de que toda a história era integralmente determinada mas também Hegel observou:
de que nenhuma mudança genuinamente significativa poderia ocorrer na his­
tória, devendo o visível desenvolvimento da cultura humana ali percebido ser Se nesta asserção as distinções concomitantes se destinam a ser repudiadas como desimpor-
interpretado como mero rearranjo de elementos primitivos em diferentes com­ tantes ou inessenciais, a reflexão evidentemente se limita a categorias abstratas; e- ignora os
binações. Tal visão não faz inteira justiça nem à óbvia evolução da consciência [atributos específicos] do objeto em questão, que certamente não se enquadram em nenhum
religiosa, artística, científica e filosófica nem à evolução da própria sociedade. princípio reconhecido por tais categorias [65-66].
Essa abordagem tinha de redundar na conclusão de que, de fato, não se
registrara nenhum progresso qualitativo da humanidade, nenhum avanço essen­ E depois assinalou:
cial da cultura e da sociedade, desde o tempo de sclvageria até o tempo de
Hegel, conclusão que era absurda à primeira vista. A posição intelectual que adota esses pontos de vista meramente formais apresenta um
vasto campo para indagações engenhosas, opiniões eruditas e comparações surpreendentes [66].
O formalismo era outra questão. Ele compreendia o processo histórico a
partir de uma distinção entre formas superiores c inferiores dc vida, na existên­ Mas, afirmou ele, tais “reflexões” são “brilhantes” somente
98 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 99

na medida em que o assunto a que se referem é indefinido, e são suscetíveis de novas e variadas encorajam, pelo menos não procuram ocultar a falta de sentido dos processos
formas em proporção inversa com a importância dos resultados que podem ser obtidos delas, e que elas explicam atrás da incômoda tagarelice a respeito da “beleza” de tudo
com a certeza e racionalidade de suas questões [íbid.]. isso. Talvez possam até servir de base para um tipo particular de apreensão
trágica do mundo - o tipo de tragédia produzida pelos gregos, em que o destino
Com base nesses elementos, insistiu Hegel, não podia haver certeza a é apreendido como “fado cego” - que por sua vez pode servir de base para uma
respeito da questão de saber se a humanidade progredira ou não ao longo do resolução estóica. Mas, no fim, o mecanicismo e o tipo de tragédia absurdista
tempo e no movimento de uma forma de civilização para outra. Além disso, tal concebida com base nele como princípio de representação artística podem,
formalismo continua a ser presa do relativismo moral do qual é o equivalente como na Grécia antiga, promover uma reação moral epicurista e também
epistemológico. estóica. A menos que haja algum princípio em virtude do qual todo o espetáculo
O mesmo acontece com relação àquele outro tipo de formalismo, fomen­ do acaso e da determinabilidade, da liberdade e da limitação humanas, possa
tado pelo romantismo, que considera o indivíduo em sua concretude e singula­ transformar-se em drama, com uma significação especificamente racional, e ao
ridade como uma coerência formal, em oposição à espécie, ao gênero e à classe mesmo tempo moral, a consciência irônica na qual o pensamento do próprio
a que o indivíduo pertence. Hegel também chamou a atenção para as implica­ tempo de Hegel começou sua reflexão irá terminar erir desespero - ou no tipo
ções amorais - ou imorais - desse ponto de vista. Isso “é algo meramente formal, de sibaritismo egoísta que provocaria o fim da própria civilização.
na medida em que a nada mais visa do que à análise do assunto, seja ele o que
for, em suas partes constituintes, e à compreensão destas em suas definições e
formas lógicas” (68). Assim, disse ele, naqueles filósofos (românticos) que LINGUAGEM, ARTE E CONSCIÊNCIA HISTÓRICA
afirmam encontrar “gênio, poesia e mesmo filosofia” em toda parte em igual
abundância (ou igual escassez), há uma incapacidade de distinguir entre forma Só raramente se observou que Hegel tratou da escrita histórica e de todo
e conteúdo e identificar este último como uma particularidade única juntamente o problema da historiografia (em oposição à filosofia da história) mais porme­
com a identificação da forma como preciosa evidência da difusão equitativa do norizada em sua Enciclopédia e em suas Conferências sobre Estética do que em
espírito por todo o mundo (67). É verdade, disse Hegel, que encontramos, suas Conferências sobre a Filosofia da História. A “ciência” da história que era
“entre todos os povos históricos do mundo, poesia, arte plástica, ciência, até seu objetivo estabelecer na Filosofia da História era, em sua conceptualização
filosofia”; mas, insistiu, dela, produto de uma consciência pós-histórica, da reflexão filosófica sobre as
obras realmente produzidas por historiadores “reflexivos”. Na Estética, porém,
não somente há uma diversidade de estilo e aspecto de modo geral, mas ainda mais notavelmente Hegel elaborou sua teoria da própria escrita histórica, que ele via como uma
de tema; e esta é uma diversidade do tipo mais importante, que influi sobre a racionalidade daquele
tema [69].
das artes verbais e, portanto, sujeita aos imperativos da consciência estética. É
proveitoso, portanto, considerar o que Hegel tinha a dizer sobre a escrita
histórica e a consciência histórica nesse contexto, como meio de tornar claro o
É portanto “inútil” uma “crítica estética pretensiosa exigir que não se faça
conteúdo específico de sua “teoria do trabalho histórico”.
do nosso bom gosto a norma para essa matéria - as partes substanciais do seu
Na terceira parte de suas Conferências sobre Estética Hegel tratou das
conteúdo - e sustentar que é a forma bela como tal, a sublimidade da fantasia,
artes verbais. Começou por uma caracterização da expressão poética em geral
e assim por diante, que a arte pura tem em vista, e que deve ser considerada e
e passou, em seguida, a estabelecer uma distinção entre poesia e prosa. A poesia,
fruída por um gosto liberal e uma mente cultivada” (íbid.). O intelecto saudável
não pode, afirmava Hegel, “tolerar tais abstrações”, porque “há não só uma disse ele,
forma clássica como também uma ordem clássica de assunto; e na obra de arte,
é mais antiga do que o discurso modelado na forma artística da prosa trabalhada. É a apreensão
forma e assunto estão tão intimamente unidos que a primeira só pode ser imaginativa original da verdade, uma forma de conhecimento que [1] não consegue ainda separar o
clássica na medida em que o segundo também o seja” (70). universal de sua existência viva no objeto particular, que [2] ainda não põe em contraste lei e
Tudo isso significa uma condenação do que é agora chamado o “método fenômeno, fim e meio, nem [3] relaciona um com o outro em subordinação ao processo da razão
comparativo” de análise histórica, que é a forma que a consciência metafórica humana, mas [4] compreende um exclusivamente no outro e em virtude do outro [IV, 22 (ed. alemã,
assume quando é projetada teoricamente num método. As objeções de Hegel 240); grifos acrescentados].
ao modo metafórico de representar a história eram ainda mais virulentas do que
suas objeções ao modo metonímico, pois os efeitos das explicações formalistas Essa caracterização da poesia como forma de conhecimento é precisa­
que oferece e as estruturas épicas de enredo que utiliza para caracterizar as mente a mesma de Vico, o que vale dizer que concebe a poesia como apreensão
estórias que conta são moralmente mais perigosas. As teorias mecanicistas de metafórica do mundo, e que contém dentro de si mesma o potencial de gerar os
explicação, e as maneiras absurdistas de pôr em enredo a história que elas outros modos de redução e expansão tropológica: metonímia, sinédoque e
META-HISTÓRIA 101
100 HAYDENWHITE

ironia respectivamente. Posteriormente Hegel afirmou: “O caráter desse modo adequadas às concepções e deduções do entendimento”, mas “reúne-as numa
de apreender, revestir e expressar o fato é sob todos os aspectos puramente totalidade livre” (25 [243]). Assim, a sinédoque projeta - em contraste e como
teórico {rein theoretisch]. Não é o fato em si e sua existência contemplativa, mas antítese ao mundo apreendido em termos metonímicos - um “novo mundo”.
a construção [Bilden] e a linguagem [Reden\ que são o objeto da poesia” (Ibid. Mas, visto que esse novo mundo só existe na consciência e não na realidade (ou
[241]). Na poesia, prosseguiu ele, o que é expressado é simplesmente utilizado pelo menos não se sente que exista lá), o problema da consciência reside em
para alcançar o ideal da “auto-expressão” verbal. E tomou como exemplo da relacionar esse novo mundo ao das coisas concretas. É tarefa do poeta, concluiu
poetização de um fato o dístico, registrado por Heródoto, em que os gregos Hegel, reconciliar o mundo existente no pensamento com o das coisas concre­
homenagearam a memória dos chacinados na Batalha das Termópilas, um tas, configurando o universal nos termos do particular e ó abstrato nos termos
acontecimento histórico. Diz a inscrição: do concreto.
A expressão poética procura assim restituir a um mundo prosaico a
Four thousand here from Pelops’ land consciência de sua idealidade intrínseca. Em tempos mais recuados, quando a
Against three million once did stand . distinção entre poesia e prosa não estava tão bem desenvolvida como veio a
[Herodotus, The Histories, livro. VII, cap. 228, p. 494.] estar com o avanço da ciência e da filosofia, o poeta enfrentava uma tarefa mais
fácil - isto é, simplesmente aprofundar tudo o que é “significativo e transparente
Hegel frisou que o conteúdo deste dístico é apenas o fato de que 4 000 nas formas da consciência usual”. Após o advento da civilização superior,
peloponésios lutaram contra três milhões num certo tempo e lugar. O principal porém, em que “a prosa da vida já apropriou no interior de seu modo de visão
interesse do dístico, porém, é a “composição” de uma inscrição que “comunica todo o conteúdo da vida consciente, pondo seu selo em tudo e em cada parte
à vida contemporânea e à posteridade o fato histórico, e está ali exclusivamente dele, a arte da poesia é obrigada a empreender a tarefa de fundir tudo outra vez
para fazê-lo” (Aesthetics, 23 [241]). O modo de expressão é “poético”, disse e re-cunhar o mesmo de outro modo” (26 [244]). Isso quer dizer que lhe cabe
Hegel, porque a inscrição “dá testemunho de si como uma criação [um poiein, não só
jtoteív}” que comunica o conteúdo em sua simplicidade e ao mesmo tempo
expressa esse conteúdo “com um propósito definido”. A linguagem em que a desfazer-se da aderência da consciência vulgar a tudo que é indiferente e contingente, e (...) alçar
idéia se concretiza, disse ele mais adiante, é “de valor tão intensificado” que “se a apreensão científica do cosmo do fato ao nível da penetração mais profunda da razão, ou (...)
fez uma tentativa de distingui-la da linguagem vulgar”, e portanto “temos um traduzir o pensamento especulativo nos termos da imaginação, dar corpo ao mesmo na esfera da
própria inteligência; deve, além disso, converter de muitas maneiras o modo de expressão comum
dístico em lugar de uma oração” (Ibid.). O conteúdo da oração, portanto, à consciência vulgar naquele apropriado à poesia; e, apesar de toda a intencionalidade imposta por
tornou-se mais vívido, mas imediatamente autoprojetivo, do que teria sido se tal contraste e tal processo, fazê-lo aparecer como se todo esse propósito estivesse ausente,
tivesse sido expresso como simples registro em prosa de um evento ocorrido preservando a liberdade original que é essencial a toda a arte [Ibid (244-45)].
num determinado tempo e lugar. Um enunciado “prosaico” do mesmo fato
deixaria inalterado o conteúdo, mas não se presentificaria como aquela união E, tendo especificado o conteúdo e a forma da consciência poética, Hegel
íntima de conteúdo e forma que é reconhecida como uma elocução especifica­ passou em seguida a “historicizar” a própria consciência poética, indicando
mente poética. seus vários períodos de esplendor e declínio dentro do arcabouço geral da
A linguagem prosaica, argumentou Hegel, pressupõe um modo “prosai­ história da consciência exposta na Fenomenologia do Espírito, na Filosofia do
co” de vida, que, deve-se presumir, se desenvolveu depois daquele estágio da Direito e na Filosofia da História.
consciência humana em que a linguagem era “poética sem intenção [conscien­ A poesia nasceu, então, da separação da consciência de seu objeto e da
te]” (Ibid.). A linguagem prosaica pressupõe a evolução de uma consciência necessidade (e tentativa) de efetuar uma união com ele mais uma vez. Essa
pós-metafórica, uma consciência que “lida com condições finitas e o mundo distinção essencial gera as duas principais classes de poesia: a clássica e a
objetivo em geral, isto é, as categorias limitadas da ciência ou do entendimento” romântica, que acentuam respectivamente o universal e o particular, a expres­
(24 [242]). O mundo em que a enunciação prosaica se desenvolveu é de supor são objetiva e a subjetiva. E, por sua vez, a tensão entre essas duas classes de
que tenha sido aquele em que a experiência se tornara atomizada e despojada poesia engendra as três espécies básicas de composição poética, a épica, a lírica
de sua idealidade e significação imediatamente apreendida, e esvaziado de sua e a dramática, as duas primeiras representando a externalidade e a internalida-
riqueza e vitalidade. Contra essa ameaça de atomicidade e determinação causal, de como perspectivas efetivamente estáveis sobre o mundo, a última represen­
a consciência erigiu um terceiro modo de apreender o mundo, o “pensamento tando o esforço da imaginação poética para encarar o movimento através do
especulativo”, que “não se satisfaz com as diferenciações e as relações externas qual se resolve essa tensão e se alcança a união do sujeito com o objeto.
A épica, disse Hegel, “nos dá um quadro mais extenso do mundo externo;
Da pátria de Pélope quatro mi! aqui!A três milhões souberam resistir (N. do T.). alonga-se até na descrição de acontecimentos e ações episódicas, com o que a
HAYDENWHITE META-H1STÓR1A 103
102

imaginativa o conteúdo variado dos acontecimentos e dos caracteres, recriá-los e tomá-los vívidos
unidade do todo, em virtude do maior isolamento das partes, parece sofrer para nossa inteligência com seu próprio gênio [38 (257)].
redução”. A lírica “varia de conformidade com a flutuação de seus tipos,
adapta-se a um modo de representação de extrema variedade: num momento é
mera narração, em outro exclusiva expressão de emoção ou contemplação, num Isso quer dizer, acima de tudo, que o historiador não pode “contentar-se
outro restringe sua visão” e assim sucessivamente. Em contraste com a épica e com o sentido meramente literal do fato particular”, mas deve antes esforçar-se
a lírica, o drama “exige uma conjunção mais rigorosa” de realidade externa e por “inscrever esse material num conjunto coordenado; deve conceber e abar­
interna, muito embora possa, numa corporificação específica, adotar ou o ponto car traços, ocorrências e ações singulares sob o conceito unificador” (Ibid.). O
de vista clássico ou o romântico como seu princípio constitutivo (37 [256-57]). enlace desses conteúdos com a forma de representação sob a qual eles são
Assim, o estudo da poesia por Hegel começou por um exame da linguagem adequadamente reunidos permitirá ao historiador construir uma narrativa, cuja
como instrumento de mediação do homem entre sua consciência e o mundo que ação é levada adiante pela tensão entre duas manifestações concretas de uma
ele habita; encaminhou-se para uma distinção entre os diversos modos pelos vida especificamente humana. Essas manifestações são tanto particulares quan­
quais o mundo pode ser apreendido, daí para uma distinção entre poesia e to gerais.
prosa, entre as formas clássicas e românticas de ambas, e entre as formas épicas A grande,narrativa histórica - da espécie produzida por Heródoto, Tucí-
e líricas destas; e terminou numa investigação do drama como a forma de arte dides, Xenofonte, Tácito “e alguns outros” - apresenta “uma imagem clara da
em que é concebida a modalidade do movimento através do qual se consolida nação, da época, das condições externas e da grandeza ou fraqueza espiritual
a fratura. É significativo que, tendo chegado a esse ponto, Hegel se lançasse dos indivíduos envolvidos na própria vida e caracterização que lhes diziam
incontinenti na análise da história como a forma de prosa mais próxima, por sua respeito”; ao mesmo tempo, afirma a partir de tais entidades concretas “o
imediatez, da poesia em geral e do drama em particular. De fato, Hegel não só vínculo de associação” em que as “várias partes da imagem” se transformam
historicizou a poesia e o drama como também poetizou e dramatizou a própria numa totalidade compreensível de “significação histórica ideal” (Ibid. [258]).
história. Isso implica que a análise histórica avança metonímica e sinedoquicamente, ao
mesmo tempo decompondo o tema em manifestações concretas das forças
causais de que se presume sejam efeitos e buscando as coerências que aglutinam
essas entidades numa hierarquia de unidades progressivamente espiritualiza­
HISTÓRIA, POESIA E RETÓRICA das. No entanto, o historiador não pode agir nem com a “liberdade” que o puro
poeta reclama para si nem com a intencionalidade do orador. O primeiro está
O exame formal a que Hegel submete a escrita da história como forma de livre para inventar os “fatos” que julgar convenientes, o segundo para usar os
arte situa-se entre sua análise da poesia e da oratória. A localização entre essas fatos seletivamente para os fins específicos do discurso que estiver compondo.
duas formas - uma relacionada com a expressão da idealidade no real, a outra A história se situa em alguma parte entre a poesia e a oratória porque, embora
relacionada com os usos pragmáticos dos instrumentos lingüísticos - sugere a sua forma seja poética, seu conteúdo é prosaico. Hegel o diz nestes termos: “Não
similaridade com o drama, que (como fizemos notar anteriormente) é a forma é exclusivamente a maneira como a história é escrita, mas a natureza do seu
de mediação assumida na arte entre as sensibilidades épica e lírica. A história conteúdo, que faz dela prosa” (39 [258]).
é a representação em prosa de um intercâmbio dialético entre externalidade e A história lida com a “prosa da vida”, com os materiais de uma “vida
internalidade, tal como esse intercâmbio é vivido, precisamente do mesmo comum” (Gemeinwesen) especificamente, quer considerada pelo lado das cren­
modo que o drama é a representação poética desse intercâmbio tal como é ças religiosas compartilhadas, quer pelo lado da constituição política com suas
imaginado. E, de fato, Hegel deixou bem pouca dúvida de que, em sua mente, leis, instituições e instrumentos para impor a adesão do indivíduo aos valores
os aspectos formais da representação histórica e dramática são os mesmos. da comunidade (Ibid.). Dessa vida comum, disse Hegel, emergem as forças que
“Pelo que toca à história”, disse ele, “não pode haver dúvida de que conduzem à “preservação ou mudança” da mesma, e para as quais devemos
encontramos aqui ampla oportunidade para um dos aspectos da genuína ativi­ presumir a existência de indivíduos aptos para ambas as tarefas. Em resumo, o
dade artística”, porquanto processo histórico é preeminentemente o produto de um conflito dentro do
contexto de um estilo de vida compartilhado e através de todo um conjunto
a evolução da vida humana, sob o aspecto da religião e da sociedade civil, os acontecimentos e os desses estilos de vida compartilhados, o conflito da forma realizada com uma
destinos dos mais renomados indivíduos e povos que se destacaram em um e outro campo [isto é, força que procura transformá-la ou de um poder estabelecido com algum
na religião e na vida civil], tudo isso pressupõe fins grandiosos na compilação de tal obra ou o indivíduo que a ele se opõe no interesse do que julga ser sua própria autonomia
completo malogro do que isso implica. A representação histórica de temas e conteúdos como estes
e liberdade. Eis, em suma, a situação clássica da tragédia clássica e da comédia
comporta verdadeira discriminação, meticulosidade e interesse; e por mais que nosso historiador
se esforce por reproduzir o fato histórico real, incumbe-lhe, não obstante, pôr diante de nossa visão
clássica.
104 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 105

A vida social do homem não é simplesmente uma vida épica que, apesar muito mais excentricidade e variação do que mostram as maravilhas da poesia,
de todo o movimento, colorido e violência da ação, continua a ser substancial­ que através de toda a diversidade deve permanecer fiel ao que é válido em todos
mente o que era todo o tempo. Indivíduos eminentes vêm ao proscênio, em os tempos e lugares” (Ibid. [259-60]).
contraste com o pano de fundo de uma vida comum compartilhada por homens Finalmente, a história tem a ver com a realização de projetos e objetivos
medianos e transformam essa situação épica num conflito trágico em que nem a por parte de indivíduos e grupos específicos, o que requer o trabalho enfadonho
mera beleza nem a mera força triunfa, mas em que dois direitos rivais, dois de achar meios adequados à tarefa, em si mesma uma atividade prosaica, porque
princípios morais igualmente justificáveis, travam combate a fim de determinar utilitária; e os testemunhos dessa atividade devem estar presentes no relato do
qual poderá ser a forma da vida humana numa encarnação social específica. Por historiador. Essa atenção aos detalhes da atividade prática, que deve derivar do
esse motivo, Hegel imaginava três categorias básicas de atores do drama estudo do registro histórico e não apenas ser pressuposta pelo historiador, num
histórico: grandes, pequenos e depravados (heróis, homens medianos e crimi­ estado de espírito poético ou especulativo, toma seu trabalho muito mais
nosos). prosaico do que o do poeta ou o do filósofo.
Segue-se, portanto, de acordo com Hegel, que o historiador não tem o
Esses indivíduos sâo grandes e eminentes na medida em que se mostram, através de sua direito de “expungir essas características prosaicas do seu conteúdo ou conver­
verdadeira personalidade, [estar] em cooperação com o fim geral que está subjacente à concepção tê-las em outras mais poéticas; sua narrativa deve abranger o que realmente está
ideal das condições que os defrontam; são pequenos quando não conseguem alçar-se à altura do diante dele e na forma em que ele o encontra, sem ampliação [o/tne umzudeuten]
que se exige de sua energia; são depravados quando, em lugar de se alistarem como combatentes
ou transformação poética” (41 [260]). Por mais que seu pensamento se esforce
das necessidades práticas dos tempos, se contentam simplesmente com dar rédea larga a uma força
individual que é, com seu capricho implícito, alheia a todos os fins comuns [40 (259)]. por apreender o significado ideal da forma das miríades de eventos percebidos,
ao historiador não é permitido “subordinar totalmente a tal fim as condições
Nesse catálogo de tipos de personalidades “históricas” encontra-se uma que lhe são apresentadas, os caracteres ou os acontecimentos”, muito embora
recapitulação das categorias de análise da própria poesia, mas sob o modo da lhe seja concedido “eliminar de seu estudo o que é inteiramente contingente e
metonímia, isto é, da eficácia causal. Mas, como Hegel indicou na Filosofia do desprovido de verdadeira significação” (Ibid.). O historiador “deve, em suma,
Direito, não se deve conceber o campo histórico como simplesmente um campo deixá-los aparecer em toda a sua contingência objetiva, dependência e miste­
da força bruta. Pois, onde tal força predomina, onde ela não está em conflito riosa fantasia” (Ibid.). Isso quer dizer que a imaginação do historiador deve
atuar em duas direções ao mesmo tempo: criticamente, de modo a lhe permitir
com um princípio mais geral - isto é, a “vida comum” do grupo -, não há conflito
decidir o que pode ser omitido de um relato (embora não possa inventar ou
genuinamente histórico e conseqüentemente nenhum “evento histórico” em
fazer acréscimos a fatos conhecidos); epoeticamente, de modo a pintar, em sua
termos específicos. Hegel deixou isso bem claro numa passagem que se segue
vitalidade e individualidade, a miscelânea de acontecimentos como se eles
àquela citada acima. Onde qualquer das três condições enumeradas prevalece
estivessem diante dos olhos do leitor. Em sua função crítica, a consciência
como a condição geral, onde temos a tirania de um único homem, a tirania do
histórica só é eficaz como agência excludente. Em sua função sintética, só atua
costume (que é a tirania do homem mediano), ou a tirania do caos, “não temos
para fazer inclusões. Pois, mesmo que o historiador possa adicionar a seus
nem um verdadeiro conteúdo [histórico] nem um estado do mundo tal como
estabelecemos na primeira parte de nossa investigação como essencial à arte da relatos suas reflexões particulares de filósofo,
poesia”, que é a condição de toda a criatividade especificamente humana
tentando assim apreender as razões absolutas de tais acontecimentos, (...) está, não obstante,
(Ibid.), porque:
privado, no que se refere à verdadeira conformação dos acontecimentos, daquele direito exclusivo
da poesia, a saber, aceitar essa resolução substantiva como o fato de máxima importância [42].
Mesmo no caso de grandeza pessoal, o fim substantivo de sua dedicação é em maior ou
menor grau algo que lhe é dado, pressuposto ou imposto, e nessa medida a unidade da individua­
O historiador não pode incorrer em meta-história, se bem que possa
lidade está excluída, no que o universal, a personalidade inteira, deve ser idêntico a si mesmo, um
fim exclusivamente para si, um todo independente, em suma. Pois por mais que esses indivíduos especulativamente apreender as razões pelas quais uma visão sintetizadora
descubram seus objetivos em seus próprios recursos, não é, apesar disso, a liberdade ou falta dela meta-histórica poderia ser possível, porque:
em suas almas e inteligência, mas o fim alcançado, e seu resultado tal como opera sobre o mundo
real já existente, e essencialmente independente de tal individualidade, que constitui o objeto [de À poesia somente é concedida a liberdade de dispor sem restrição do material que lhe é
estudo] da história [fbid.]. apresentado de tal modo que ele se toma, mesmo visto pelo lado da condição externa, conforme
com a verdade ideal [Ibid.].
Além disso, acrescentou Hegel, na história encontramos uma variedade
muito maior, mais contingências, mais subjetividade, reveladas na expressão de Nesse aspecto a oratória goza de maior liberdade do que a história, pois,
paixões, opiniões e destinos, “que nesse modo prosaico de vida apresentam já que a arte do orador é exercida como meio para a consecução de fins práticos,
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assim como a do poeta é exercida para a consecução de fins ideais, ao orador é são apresentados. Do mesmo modo que o filósofo da arte toma como seus
permitido utilizar os fatos históricos como lhe apraz, seletivamente e em res­ objetos de estudo as várias formas de obras de arte que apareceram na história
posta ao fim visado (43). do mundo, o filósofo da história toma como seus objetos as várias formas das
Assim, Hegel tornou a invocar a distinção, feita no começo de sua intro­ histórias realmente escritas pelos historiadores no curso da própria história. Ele
dução à Filosofia da História, entre historiografia “original” e “reflexiva”, com apreende essas histórias como sistemas formais que podem compor um relato
base na natureza essencialmente poética da primeira e na natureza cada vez de uma vida em qualquer dos quatro modos - poema épico, comédia, tragédia,
mais prosaica da segunda, e dentro da historiografia reflexiva, entre o tipo sátira - ou em qualquer combinação deles.
universal, o pragmático e o crítico. A história universal é, como ele observou, a
mais poética, tomando como seu tema todo o mundo histórico conhecido e Mas o épico não é uma forma adequada de historiografia, segundo Hegel,
modelando-o, em resposta a formas ideais apreendidas, por metáfora, num todo porque não pressupõe mudança substancial. E o mesmo se pode dizer da sátira
poético coerente. A historiografia pragmática, escrita sob o impulso de servir a porque, embora admita a mudança, não observa a base substancial em contraste
alguma causa, a algum fim prático, eleva-se acima da variedade universal, visto com a qual é possível medir as mudanças percebidas. Para o épico tudo é
que passa de um modo poético para um modo oratório de conceber sua tarefa, mudança concebida em contraste com uma apreensão básica de imutabilidade
da visão da idealidade do todo para uma consciência dos usos a que uma visão substancial; para a sátira, tudo é imutabilidade concebida à luz da percepção
do todo pode ser submetida. A produção de várias dessas visões conflitantes do de uma mutabilidade substancial (cf. os comentários de Hegel à Henríada de
processo histórico inspira uma reflexão “crítica” sobre a própria escrita histó­ Voltaire, 131-32). O mesmo acontece no gênero misto da (moderna) tragico-
rica, que por seu turno permite o crescimento da consciência da possível média romântica, que procura mediar entre as visões cômica e trágica do
idealidade do todo através da reflexão no modo da sinédoque. Isso preparou o mundo, mas só o faz formalmente - isto é, ao apresentar dentro da mesma ação
caminho para a própria história filosófica de Hegel, que se destinou a expor as os representantes de cada visão, sem combiná-los ou unificá-los, mas deixando
pressuposições e formas de pensamento pelas quais as percepções essencial­ o mundo tão dividido como o encontrou originalmente, sem fornecer nenhum
mente poéticas do historiador podem ser concentradas na consciência e trans­ princípio superior de unidade que a consciência pudesse transformar num
formadas numa visão cômica de todo o processo. Mas esta é a tarefa do filósofo objeto de contemplação para a promoção do saber acerca de um mundo assim
da história, não do historiador; como Tucídides, o historiador deve manter-se fragmentado em seu interior. Restam, portanto, apenas a comédia e a tragédia
mais próximo do modo poético de apreensão, mais próximo da identificação como modos de pôr em enredo os processos históricos, e o problema reside em
metafórica com seu objeto, mas ao mesmo tempo ser mais autocrítico, mais elaborar suas inter-relações como diferentes etapas de reflexão autoconsciente
ciente das modalidades de compreensão utilizadas para transformar uma per­ sobre a relação da consciência com o mundo.
cepção poética no conteúdo de um conhecimento mais racional.
Hegel afirmava que a ciência filosófica, quando voltada para a história,
comporta a mesma relação com a ciência histórica, quando voltada para os fatos
da história, que a visão cômica mantém com a visão trágica. Isto é, a filosofia
AS ESTRUTURAS DE ENREDO POSSÍVEIS faz a mediação entre as corporificações concretas da existência humana histó­
rica representada em histórias específicas como conteúdo para o qual procura
Isso me leva à teoria hegeliana da elaboração do enredo histórico. Quando encontrar uma forma de representação e um modo de construção de enredo
trato deste assunto passo da consideração da história como objeto, como adequados. E o encontra na própria visão cômica. A comédia é a forma que a
conteúdo, cuja forma há de ser percebida pelo historiador e convertida em reflexão assume após ter assimilado a si mesma as verdades da tragédia.
narrativa, para aquela em que a forma adotada, a narrativa realmente produzi­
da, se torna um conteúdo, um objeto de reflexão com base no qual se pode
sustentar em premissas racionais uma verdade acerca da história em geral. E TRAGÉDIA E COMÉDIA COMO ESTRUTURAS
isso suscita o problema do possível conteúdo dessa verdade e da forma que sua DE ENREDO GENÉRICAS
afirmação deve assumir. A solução de Hegel para esse problema pode ser
formulada da seguinte maneira. As verdades configuradas nas narrativas histó­ “N ação dramática”, escreveu Hegel, “não se limita à simples e tranqüila
ricas da espécie mais elevada são as verdades da tragédia, mas essas verdades realização de um desígnio definido, mas depende totalmente de situações de
estão apenas poeticamente configuradas ali como formas de representações conflito, paixão humana e caracteres, e redunda portanto em ações e reações,
históricas cujos conteúdos são os dramas da vida real vividos por indivíduos e que por sua vez exigem algum posterior apaziguamento do conflito e da ruptu­
povos em tempos e lugares específicos. Por isso, faz-se necessária a reflexão ra” (249). A ação dramática, portanto, tem as mesmas características formais
filosófica para extrair a verdade contida na forma em que os relatos históricos da ação histórica:
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META-H1STÓRIA

O que temos (...) diante de nós são fins definidos, individualizados em personalidades vivas
e situações prenhes de conflito; vemos estas quando se afirmam e perduram, quando atuam em
em si mesmas sua própria justificação e se realizam substantivamente na ativi­
cooperação ou oposição - tudo num momentâneo e caleidoscópico intercâmbio de expressão - c dade volitiva da humanidade” (295). Esse mundo substantivo é o da família, da
simultaneamente com isso, também, o resultado final pressuposto e decorrente da totalidade dessa vida social, política e religiosa da sociedade civilizada, mundo que, ao menos
emaranhada e conflitante meada de vida humana, movimento e realização, que tem, ainda assim, implicitamente, reconhece a legitimidade da aspiração individual à personali­
de alcançar seu tranquilo apaziguamento [249-50 (475-76)]. dade por um lado e as leis e a moral da coletividade por outro. A família, a
sociedade, a religião e a política ministram os fundamentos das ações que
Assim, a ação dramática sobreleva e compreende os pontos de vista épico chamamos “heróicas”:
ou objetivo e lírico ou subjetivo; o drama como tal não adota como posto de
observação nem um nem o outro, mas transita entre eles de modo a mantê-los É numa solidez e perfeição condizentes com estas que consistem os caracteres realmente
presentes diante da consciência. Pode-se dizer, então, que o drama transita no trágicos. Eles são sob todos os aspectos aquilo que a noção essencial de seu caráter os capacita e
modo da própria ironia, a troca dialética de ponto de vista nada mais sendo do compele a ser. Não são apenas uma variada totalidade concebida na série de perspectivas adequa­
que essa perspectiva irônica (251-52; cf. Burke, Grammar, 511-17). das à maneira épica.
De acordo com Hegel, o drama começa na apreensão da unilateralidade
de todas as perspectivas da realidade e busca a “resolução do aspecto unilateral Não são individualidades não mediatizadas, mas personalidades possui­
dessas forças, que descobrem sua auto-estabilidade na personagem dramática” doras de uma unidade de caráter que lhes permite portar-se como representan­
(Aesthetics, IV, 255). E, acrescentou Hegel, tes de diversos aspectos da “vida comum” ou como agentes livres à procura da
própria independência (295-96). E no conflito trágico, como no conflito histo­
isto é assim quer, como na tragédia, elas se oponham a tal de modo hostil, quer, como na comédia, ricamente significativo, a vida comum ou a personalidade em busca de indepen­
elas se manifestem no interior dessas próprias personagens, sem outra mediação, num estado de dência causa o próprio conflito.
apaziguamento [256]. O drama trágico, porém, não toma o conflito de si como seu objeto (como
tende a fazê-lo a épica) mas antes aquele estado de resolução, em que tanto o
Este último trecho é significativo, pois sugere que Hegel considera a herói quanto a vida comum são transformados, que se situa do outro lado desse
tragédia e a comédia não como modos opostos de encarar a realidade mas como conflito.
percepções de situações de conflito a partir de diferentes aspectos da ação. A
tragédia aborda o ponto culminante de uma ação, levada a cabo com uma Na tragédia os indivíduos são lançados em total confusão em virtude da natureza abstrata
intenção determinada, da perspectiva do agente que vê estendido diante de si de sua vontade e de seu caráter autênticos, ou sâo forçados a aceitar com resignação aquilo a que
um mundo que é ao mesmo tempo um meio e um obstáculo para a realização essencial mente se opõem [301].
de seu propósito. A comédia recorda os efeitos desse conflito situando-se além
do estado de apaziguamento através do qual a ação trágica transportou os A comédia, porém, chega a uma visão desse reconciliação como “uma
espectadores, ainda que a ação, em lugar de transportar para lá o protagonista, vitória da vida anímica totalmente pessoal, cujo riso resolve tudo, por meio e no
o tenha consumido enquanto se desenrolava. Assim, como as situações históri­ meio de tal vida” (Ibid.). Em suma, a base geral da comédia é
cas, as situações dramáticas começam na apreensão de um conflito entre um
um mundo em que o homem fez de si mesmo, em sua atividade consciente, senhor absoluto de
mundo já formado e modelado em seus aspectos materiais e sociais (o mundo tudo aquilo que de outro modo passa por ser o conteúdo de seu saber c de sua realização; um
manifestado imediatamente na epopéia) e uma consciência diferenciada dele e mundo cujos fins são consequentemente anulados por sua faita de solidez [Ibid].
individuada como uma personalidade resolvida a alcançar seus próprios obje­
tivos, satisfazer suas necessidades e saciar seus desejos (o mundo interior Dificilmente se poderia querer melhor caracterização do mundo que é
expresso na lírica). Mas, em vez de se deter na contemplação desse estado de contemplado, na Filosofia da História, do ponto de vista da reflexão filosófica
separação, o artista dramático passa a contemplar a modalidade dos conflitos sobre a tragédia de vidas históricas individuais. A essência da visão cômica há
que resultam dessa relação assintótica entre a consciência individual e seu de ser encontrada não na reflexão satírica sobre o contraste entre o que é e o
objeto. O modo de resolução e a profundidade do saber nele refletido produ­ que deve ser, esse contraste que é a base do conflito moral no interior do tema
zirão as ações de três tipos de formas pós-épicas e não-líricas de drama: a heróico, mas preferivelmente numa “infinita cordialidade e confiança capaz de
tragédia, a comédia e (o equivalente da sátira) a peça social, que é um gênero elevar-se acima de sua própria contradição sem experimentar nesse particular
misto que procura mediar entre as percepções da tragédia e as da comédia. nenhum travo de amargura ou sensação de infortúnio” (302).
O conteúdo da ação trágica, escreveu Hegel, é o mesmo que o da história: O estado de espírito cômico é “um vigoroso estado de alma que, plena­
nós o apreendemos imediatamente nos objetivos das personagens trágicas, mas mente consciente de si, pode suportar a dissolução de seus objetivos e realiza­
só o compreendemos plenamente como “o mundo daquelas forças que contêm ções” (Ibid.). Por isso é que, sugeriu Hegel, a ação da comédia requer uma
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“resolução” de maneira ainda mais imperativa do que a tragédia (304). “Em quais se aplicam suas objeções às limitações do mecanicismo e do formalismo.
outras palavras”, disse Hegel, “na ação da comédia é reafirmada mais funda­ Essas três classes de consciência histórica representam diferentes estágios de
mentalmente a contradição entre aquilo que é essencialmente verdadeiro e sua autoconsciência histórica. A primeira corresponde ao que se poderia chamar
realização específica” (Ibid.). E a razão disso, continuou ele, reside no fato de mera consciência histórica (consciência histórica em si), a segunda a uma
que, “vista como arte genuína”, a comédia consciência histórica que se reconhece como tal (consciência histórica para si),
e a terceira a uma consciência histórica que não só se conhece como tal mas que
não tem por missão mostrar por meio de sua apresentação o que é essencialmente racional como reflete sobre as condições de seu conhecimento - isto é, sua relação com seu
aquilo que é intrinsecamente despropositado e votado ao malogro, mas, ao contrário, como aquilo
objeto (o passado) - e sobre as conclusões acerca da natureza de todo o
que nem outorga a vitória nem, em última análise, concede qualquer apoio à insensatez e ao
absurdo, isto é, às falsas contradições e oposições que também fazem parte da realidade [/2>/d].
processo histórico que podem ser inferidas da reflexão sobre seus vários pro­
dutos, as obras históricas específicas (consciência histórica em epara si).
A mera consciência histórica, cujo produto é a historiografia “original”
Essa é a modalidade de consciência que é conquistada pelo agon da
(ursprünglich), emerge da simples percepção do próprio processo histórico, da
comédia de Aristófanes, que jamais calunia qualquer coisa que tenha impor­
tância verdadeiramente ética “na vida social de Atenas”, mas apenas expõe ao sensação da passagem do tempo e de uma compreensão dà possibilidade do
ridículo “o produto espúrio da democracia, em que desapareceram a antiga fé desenvolvimento da natureza humana. É encontrada em pensadores como
e a moral anterior” (Ibid.). Esta é também a consciência que informa a filosofia Heródoto e Tucídides, “cujas descrições geralmente se limitam a feitos, acon­
da história, em que “o modo de aparecimento adequado ao que é, por assim tecimentos e estados da sociedade que eles tinham diante dos olhos e de cujo
dizer, substantivo, desapareceu; e, se o que é essencialmente destituído de espírito partilhavam. Eles simplesmente transferiram o que se passava no
subsistência fundamental fracassa com sua pretensão de ser o que não é, o mundo circundante para o reino do intelecto re-presentativo”. Segundo Hegel,
indivíduo se afirma como responsável por essa dissolução e mantém-se no fundo esses historiadores trabalhavam como poetas que operam sobre material “for­
inviolado e satisfeito até o fim” (305). necido pelas emoções, projetando-o numa imagem para a faculdade conceptual
Que é este o modo de uma compreensão especificamente filosófica da [für die Vorstellung]” (Fil. da Hist., 1 [ed. alemã, 11]). Claro está que esses
historiadores podem ter utilizado relatos escritos por outros homens, mas
história, que é aquele a que a consciência responsável deve chegar sob a
fizeram uso deles do mesmo modo que qualquer um faz uso de uma “linguagem
orientação da razão, e que ele é a antítese da ironia, prova-o a virtual recusa de
Hegel a dar à forma satírica de representação dramática o estatuto de autêntico já modelada” - isto é, só como ingrediente. Para eles não há distinção entre a
gênero dramático. O drama satírico, no seu entender, é resultado de uma história que vivem e a história que escrevem (Ibid. [12]).
incapacidade de levar os lados opostos da existência humana, o subjetivo e o O que Hegel sugeria aqui é que os “historiadores originais” trabalham
objetivo, a qualquer resolução. O máximo que a sátira antiga e, na opinião de primordialmente no modo da caracterização metafórica: eles “aglutinam os
Hegel, a tragicomédia moderna (romântica) podem proporcionar não é “justa­ elementos fugidios da estória & os guardam como tesouros no Templo de
posição ou alternância desses pontos de vista contraditórios” mas uma “mútua Mnemósine” (Ibid., 2 [12]). Seu modo de explicação é a representação poética,
acomodação, que neutraliza a força de tal oposição” (306). Há uma tendência ainda que com esta diferença: o historiador original toma como seu conteúdo
em tal drama, como naquela “historiografia do criado pessoal” que pertence ao “o domínio da realidade - efetivamente vista ou capaz [em princípio] de ser
mesmo gênero, a contar com análises puramente pessoais, “psicológicas”, de vista”, não o domínio dos sonhos, fantasias e ilusões (Ibid.). Esses historiadores
caráter ou a fazer das “condições materiais” o fator decisório da ação, de modo “poéticos” realmente “criam” (schaffen) os “acontecimentos, as ações e os
que nada nobre pode ser finalmente afirmado ou negado dos homens nobres estados da sociedade” como um objeto (ein Werk) para a faculdade conceptual
(307). E pode-se dizer o mesmo daquela historiografia da época moderna, (Vorstellung) (Ibid ). Portanto, suas narrativas são restritas na amplitude e
romântica. O historiador romântico procura refugiar-se da realidade da perso­ limitadas no tempo. Seu objetivo principal é produzir uma “imagem” viva dos
nalidade e daquele “destino”, que não é senão a “vida comum” em que tem acontecimentos que eles conhecem em primeira mão ou através de fonte
origem, através da contemplação sentimental dos motivos do protagonista por autorizada. As “reflexões” não são para eles, pois eles vivem “no espírito do
um lado ou da materialidade de sua condição por outro. [seu] tema” (Ibid.). E, desde que partilham o mesmo espírito que informa os
acontecimentos descritos, podem, com total incolumidade à crítica, interpolar
os detalhes da narrativa - como os discursos que Tucídides pôs na boca de seus
HISTÓRIA EM SI E HISTÓRIA PARA SI protagonistas - que julgarem pertinentes, contanto que esses detalhes sejam
coerentes com o espírito do todo (Ibid.).
No começo da introdução à sua. Filosofia da História, Hegel distinguiu três Essa historiografia poética é tão rara entre os historiadores modernos,
classes de consciência histórica (original, reflexiva e filosófica), à segunda das disse Hegel, como era entre os antigos. Só pode ser produzida por espíritos que
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aliam aptidão para questões práticas em grande escala, participação nos acon­ instrução dos vivos. Tais histórias podem, como seus equivalentes universalistas,
tecimentos e talento poético, como foi o caso do cardeal de Retz ou de ser grandes obras de arte ou, como no caso de O Espírito das Leis de Montes-
Frederico, o Grande. Para penetrar nas verdades essenciais das obras produzi­ quieu, ser verdadeiramente iluminadoras; mas sua autoridade é limitada, não
das por esses “historiadores originais” é necessário longo estudo e paciente apenas porque as verdades em que fundamentam suas lições para o presente
reflexão, concluiu Hegel, porquanto suas obras representam uma forma de são tão fragmentárias e abstratas como as encontradas na história universal, mas
historiografia que é ao mesmo tempo uma história e um documento original dos também porque “o que a experiência e a história ensinam é isto: que os povos
tempos em que foram escritas. Aqui a identificação da alma do historiador e e governos jamais aprenderam qualquer coisa com a história nem agiram em
dos eventos acerca dos quais escreve (e nos quais tomou parte) é quase consonância com princípios deduzidos dela” (6). Hegel assim pensava porque:
completa, e, se queremos conhecer qualquer desses elementos - a poesia, os
acontecimentos ou as obras do historiador -, devemos procurar conhecê-los Cada período está envolto em circunstâncias tão peculiares, exibe um estado de coisas tão
rigorosamente idiossincrático, que sua conduta tem de ser regulada por considerações associadas
todos. Podemos lê-los em busca de inspiração poética ou alimento intelectual,
a si mesma, e a si somente. No meio da pressão de acontecimentos momentosos, um princípio geral
caberia acrescentar; mas submetê-los aos critérios que empregamos para a não dá ajuda alguma. É inútil reverter a circunstâncias idênticas no passado [Ibi<£]:
aferição da moderna historiografia “reflexiva”, a historiografia do erudito
profissional, é, sugeriu Hegel, uma demonstração não só de mau gosto como de E assim foi ele induzido a proferir um dos seus mais célebre apotegmas:
desconhecimento do que é a crítica científica.
Certas espécies de “histórias originais”, como as obras dos monges da As pálidas sombras da memória lutam em vão com a vida e a liberdade do presente [Jbid.J.
Idade Média, podem ser criticadas por seu caráter abstrato ou seu formalismo;
mas essas limitações resultam da grande distância que separa as vidas dos que A história, afirmou Paul Valéry num tom muito mais amargo quase um
as escreveram dos acontecimentos a respeito dos quais escreveram. Não temos século depois, “ensina precisamente nada”. Hegel, porém, teria dado ênfase ao
motivo para tentar empatizar com essas obras ou criticá-las; precisamos apenas “precisamente” e não, como fez Valéry, ao “nada”. É provável, então, que o
saqueá-las à procura dos dados fatuais que possam conter e usá-los para a leitor das histórias universal e pragmática se sinta “desgostoso” delas, em reação
construção de nossos relatos históricos do passado. ou à “arbitrariedade” ou à inutilidade, e se refugie no passatempo fornecido
A segunda classe de obras históricas, as histórias “reflexivas” - histórias pela simples “narrativa”, que não adota “nenhum ponto de vista específico”.
para si - é escrita não só em razão de uma apreensão da passagem do tempo O que registrei dos textos de Hegel até aqui resume-se nisto: nem pode­
mas também com pleno conhecimento da distância entre o historiador e seu mos conhecer a história in totum lendo os historiadores nem aprendemos com
objeto de estudo, distância que o historiador conscientemente tenta reduzir. eles muita coisa que seja útil para a solução dos nossos problemas. Qual é, então,
Esse esforço de reduzir a distância entre presente e passado é concebido como o objetivo de escrever história senão a fruição estética da criação poética que
um problema distinto. O espírito da história reflexiva, portanto, “transcende o acompanha a redação da história “original” ou o senso moral de servir a uma
presente [do próprio historiador]”, escreveu Hegel; e os vários estratagemas causa com que pode regozijar-se o autor da história pragmática?
teóricos de que lançam mão os historiadores para suprimir a distância que os De sua caracterização das outras duas formas de história “reflexiva”
separa do passado, penetrar nesse passado e captar sua essência ou conteúdo, pode-se depreender que, para Hegel, o motivo para escrever história há de ser
respondem pelas diversas espécies de história reflexiva que esse tipo de histo­ procurado nas transformações da consciência que a tentativa de fazê-lo promo­
riador produz. ve na mente dos próprios historiadores.
Hegel distinguiu quatro espécies de história reflexiva: universal, pragmá­ A “história crítica” alcança um nível de consciência histórica superior ao
tica, crítica e conceptual (Begriffsgeschichte). Todas as quatro espécies exibem que se manifesta nas outras duas espécies de historiografia reflexiva, pois aqui
os atributos - nas caracterizações que Hegel faz delas - do modo de compreen­ o problema de transpor a distância entre passado e presente é apreendido como
são mctonímico ou sinedóquico. A história universal lida, pela própria necessi­ um problema em si, isto é, um problema cuja solução não será proporcionada
dade de reduzir seus materiais, com abstrações e escorços, é arbitrária e por considerações gerais ou práticas (como na historiografia universal e prag­
fragmentária - não somente por força do alcance de seu assunto, mas também mática), mas pela inteligência teórica exclusivamente. Pois, na história crítica,
em virtude da necessidade de estabelecer causas sem razões suficientes e o historiador critica não só as fontes mas também outras narrações históricas
construir tipologias com base em dados inadequados. As histórias pragmáticas do assunto que está estudando, no esforço de extrair delas o conteúdo de
produzem o mesmo tipo de quadros do passado, mas, ao invés de fazê-lo no verdade real, a fim de evitar as ciladas da arbitrariedade, da fragmentação e do
interesse de conhecer todo o passado (que predomina na história universal), interesse subjetivo que prejudicam os tipos precedentes de historiografia. Se­
esforçam-se por servir ao presente, por iluminar o presente apresentando-lhe gundo Hegel, a escrita crítica da história poderia chamar-se mais adequada­
analogias oriundas do passado e por inferir lições morais para a edificação e mente “história da história”. Mas, observou Hegel, essa forma de reflexão
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histórica tem sido cultivada na ausência de qualquer critério convencionado por arbitrário e fragmentário de todo o conhecimento genuinamente histórico de
meio do qual se pudesse estabelecer a relação entre as histórias efetivamente partes particulares da história.
escritas e os objetos que elas representam. Isso tende a consumir toda a energia Como disse Hegel posteriormente, os historiadores devem lidar com
do historiador na operação crítica, de modo que, em lugar da história do eventos e temas em sua concretude e particularidade; traem sua vocação
assunto, tem-se uma história das histórias dos vários historiadores do assunto. quando deixam de fazê-lo. Mas isso significa que a perspectiva deles é sempre
A natureza intrinsecamente formalista dessa empresa é revelada pelo fato de limitada e restrita. Essa limitação é o preço que pagam por tentar re-presentar
que a chamada “crítica superior” da época de Hegel na Alemanha manifesta­ uma vida passada em toda a sua idealidade e concretude; servem melhor ao seu
mente substituiu o aparato conceptual, que uma história genuinamente crítica escopo quando não procuram elevar-se acima da simples reconstrução do
não só exibiria como também defenderia com argumentos racionais, por todas passado e aventurar-se a aduzir do seu conhecimento do evento concreto os
as espécies de fantasias subjetivas: “fantasias cujo mérito é medido por sua princípios universais que vinculam uma determinada vida passada a seu contex­
ousadia, isto é, na insuficiência das particularidades em que se baseiam e no to total.
tom peremptório com que desmentem os fatos mais bem estabelecidos da A história filosófica, porém, pergunta que princípios são necessários para
história” (7). compreender as representações das partes do mundo histórico oferecidas por
Assim, quando chegamos à última espécie de história reflexiva, a história diferentes histórias reflexivas. Pode-se definir a história filosófica, disse Hegel,
conceptual (as histórias da arte, da religião, do direito etc.), não temos por que simplesmente como “a consideração atenta” (die denkende Betrachtung) da
nos surpreendermos com o fato de que ela “anuncia seu caráter fragmentário história (Ibid. [20]). Isto é, não é a aplicação da razão aos fatos individuais da
à primeira vista” (Ibid.). A história conceptual adota uma “posição abstrata”, história com vistas a aduzir novos fatos oriundos dos já conhecidos, ou a corrigir
mas também “assume um ponto de vista geral”. Portanto fornece a base para os relatos feitos pelos historiadores “reflexivos” na execução de suas tarefas
uma transição para a história filosófica, a terceira classe de reflexão histórica a legítimas, embora limitadas; é a “reflexão atenta” sobre as obras produzidas por
que o próprio trabalho de Hegel deve ministrar os princípios (7-8), porque tais historiadores. Supunha Hegel que, se as obras produzidas por historiadores não
ramos da vida de uma nação ou de um povo, como sua arte, suas leis e sua podem ser sintetizadas à luz dos princípios gerais da razão, do modo como
religião, encontram-se na mais íntima relação com “todo o conjunto de seus podem sê-lo as obras dos físicos e químicos, a história não pode reclamar para
anais”, isto é, com o domínio da práxis social e cultural em geral. Por isso a si o estatuto de ciência. Pois, se o historiador fosse dizer que contribuiu para
história conceptual necessariamente suscita a questão da “conexão do todo” nosso conhecimento da humanidade, da cultura ou da sociedade na história que
(derZusammenhangdes Ganzen), que a história de uma nação representa como escreveu, mas depois negasse que o pensamento pode legitimamente generali­
uma realidade e não apenas como uma idéia ainda por realizar, ou não apenas zar acerca da significação das estruturas e dos processos verdadeiramente (mas
compreendida como uma abstração mas realmente vivida (9 [19]). A articulação incompletamente) representados naquelas histórias, isso equivaleria a impor à
dos princípios pelos quais o conteúdo da história de um povo e sua própria história e ao pensamento uma restrição que nem a ciência nem a filosofia
apreensão ideal de seu modo de vida hão de ser extraídos dos seus “anais” e os poderiam sancionar.
modos como as relações entre todos eles devem ser explicadas formam o
Importa notar que, ao salientar o caráter fragmentário e arbitrário de toda
objetivo da terceira classe de reflexão histórica, a filosófica, que é “o objeto da
obra histórica realmente produzida pelos historiadores, Hegel colocou-se den­
presente tarefa [de Hegel]” (8).
tro da posição irônica a que a reflexão iluminista fora impelida por sua apreen­
i são da natureza arbitrária de sua própria reflexão histórica. Mas, ao invés de
concluir, como os românticos, que se podia fazer da história o que se quisesse,
HISTÓRIA EM E PARA SI Hegel insistiu em que só a razão deve ter autoridade para extrair a verdade
(ainda que parcial) desses relatos imperfeitos do passado e, soldando-os,
Ora, é óbvio que as quatro espécies de história reflexiva oferecem uma convertê-los no alicerce de uma verdadeira ciência da história - não, notem
caracterização tipicamente hegeliana dos estágios da consciência histórica que bem, numa ciência da história, mas na base teórica de uma ciência da história.
são possíveis dentro da classe de consciência históricapara si. A história original Como ele mesmo disse, “o único pensamento que a filosofia traz para a
é produto da consciência histórica em si, e a história filosófica é produto da contemplação da história é a simples concepção de razão, que a razão poderia
mesma consciência em e para si. A história reflexiva pode ser decomposta nas ser a soberana do mundo e que a história do mundo portanto poderia apresen­
categorias do em-si (história universal), do para-si (história pragmática) e do tar-nos [o aspecto de] um processo racional” (Ibid.). Esta convicção, ele adverte,
em-e-para-si (história crítica), enquanto o quarto tipo (Begriffsgeschichte) serve “é uma hipótese no domínio da história como tal” (Ibid.). Não é assim na
de transição e base para a nova classe, a história filosófica. Isso é assim porque filosofia, pois, sem peremptoriamente pressupô-la, a própria filosofia não seria
a quarta espécie começa na apreensão (irônica) do caráter necessariamente possível. Se a Begriffsgeschichte funciona como etapa de transição entre a
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história reflexiva e a filosófica, deve ela ser interpretada no modo de simples o mundo da inteligência e da volição consciente não está abandonado ao acaso, mas deve mostrar-se
autoconsciência - isto é, como história filosófica em si. O problema de Hegel na luz da idéia autocognoscitiva (10 [22]).
cifrava-se em articular os princípios que informariam essa autoconsciência
histórica para si - isto é, no modo de a Begriffsgeschichte refletir sobre suas No entanto, insistia Hegel, ele não se “sentia compelido a fazer tal apelo
próprias operações e sua relação com seu tema. preliminar à fé [do leitor], pois “o que eu disse assim provisoriamente (...) deve
Conceber o problema dessa maneira é transitar da ironia ingênua de um ser considerado (...) como uma visão sumária do todo; resultado da investigação
modo de reflexão histórica que simplesmente assume a arbitrariedade e a que estamos prestes a encetar (...) resultado ulterior” de uma investigação que
natureza fragmentária de seus achados para aquela que se empenha em com­ “prosseguirá historicamente - empiricamente” (Ibid.). Isso quer dizer que se
preender a conexão interna pela qual os eventos adquirem uma historicidade deve “fielmente adotar tudo o que é histórico” como material para reflexão,
específica. Esse esforço inevitavelmente transportará o pensamento através da muito embora os termos “fielmente” e “adotar” sejam ambíguos ao extremo
consideração das caracterizações metafóricas, metonímicas e sinedóquicas dos (11). Que as hipóteses concernentes à racionalidade última do processo do
objetos que ocupam o campo histórico e das relações entre eles (causais e mundo devam ser aplicadas aos dados supridos pelos historiadores nos vários
tipológicas), para um estágio superior de auto-reflexão irônica, no'quaT‘Òs “modos” em que os historiadores refletem (Jbid.), Hegel entendia que isso não
significados essenciais da consciência histórica e do ser histórico são expostos era motivo de alarme, pois, na história como na ciência, mesmo o historiador
à reflexão filosófica sobre suas naturezas essenciais. Assim concebida, a finali­ mais “imparcial”, “que acredita e proclama que mantém uma atitude simples­
dade da filosofia da história é determinar a adequação da consciência histórica mente receptiva, submetendo-se aos dados que lhe são fornecidos, não é de
a seu objeto de tal maneira que o “sentido da história” é percebido como um forma alguma passivo com respeito ao exercício de seus poderes de reflexão.
fato de consciência e uma realidade vivida. Só então a consciência histórica terá Traz consigo suas categorias e observa os fenômenos apresentados à sua visão
sido alçada a um nível para além da ironia, a um nível de reflexão em que ela mental exclusivamente através desses meios” (Ibid.). O filósofo refletindo sobre
não somente será em si e para si mas também por, em e para si - isto é, em a história deve apenas estar seguro de manter sua razão viva e em plena atividade
harmonia com seu objeto. durante sua investigação. Dada a natureza da própria razão, o resultado deve
Evidentemente todas essas antevisões do nível para além da ironia a que ser uma exposição racional da história como um processo racionalmente com­
a consciência histórica poderia ascender foram articuladas em Hegel na plena preensível, pois, “para aquele que considera o mundo racionalmente, o mundo,
consciência da impossibilidade de alcançar tal estado de integração de sujeito por sua vez, apresenta um aspecto racional. A relação é mútua” (JbidJ. O
e objeto dentro do tempo histórico. A verdade mais alta da consciência histórica importante é que esse aspecto racional não seja considerado como uma coerên­
e do ser histórico, que é de supor que seja em última análise a mesma verdade, cia puramente formal. As leis que governam a história hão de ser apreendidas
a verdade do poder da razão sobre a história e do aspecto racional que a história como inerentes ao próprio processo histórico, na medida em que ele se
confere à consciência suficientemente reflexiva para apoderar-se de sua essên­ desenrola no tempo, do mesmo modo que, na ciência, as operações reais da
cia, é, finalmente, uma verdade da filosofia. Embora a arte possa apreender essa natureza são apreendidas racionalmente na forma das leis usadas para con-
verdade em sua concretude e coerência formai, e a religião possa nomeá-la ceptualizá-la (12).
como a verdade do governo de Deus sobre Seu mundo, a própria filosofia não O caminho para além da ironia conduz, por uma via que contorna a
pode nomeá-la, porque, como disse Hegel, a filosofia sabe que “a Verdade é o convicção simplesmente ingênua ou religiosa de que a história é governada pela
Todo” e “o Absoluto é a Vida”. , Providência, à demonstração científica - isto é, racional e empírica - da natureza
Mas todas essas considerações são inconseqüentes para o objetivo mais providencial da história, não pelo que toca a um homem ou um grupo em
modesto de elaborar as bases em que as verdades imperfeitas e fragmentárias particular, mas com relação à vida da espécie. O apelo à crença na Providência
oferecidas pelos historiadores individuais podem ser legitimamente considera­ está vedado, segundo Hegel, “porque a ciência de que temos de tratar propõe-se
das como o assunto de uma possível ciência da história. E são sobrepujadas pelo fornecer a prova (não realmente a Verdade abstrata da doutrina, mas) de sua
fato de que só o processo histórico nos provê de uma parte necessária dos exatidão quando comparada com os fatos”. E esta “exatidão quando compara­
materiais com base nos quais podemos imaginar uma ciência da natureza da com os fatos” exige que comecemos pelo reconhecimento de que, conside­
humana. A filosofia, escreveu Hegel, não é senão a tentativa de satisfazer “o rada empiricamente como apenas um campo de acontecimento singelamente
desejo de discernimento racional” (10). Não é “a ambição de acumular um mero percebido, a humanidade é, acima de tudo, governada pelas paixões. Isto
acervo de conhecimentos” - isto é, os dados que devem ser “pressupostos” significa que qualquer explicação da história deve ‘“retratar as paixões da
como o patrimônio de todo praticante de uma disciplina específica (Jbid.). humanidade, a índole, as forças ativas que desempenham seu papel no grande
palco”, e evidenciar, através de uma demonstração ao mesmo tempo racional
Sc a clara idéia de Razão já nâo está desenvolvida em nossa mente, ao começarmos o estudo e empírica, que esse caos de fatos pode ser concebido não somente como tendo
da história universal, devemos pelo menos ter a fé inabalável em que a Razáo existe ali; e em que uma forma mas que também patenteia realmente um plano (Endzweck) (13).
118 HAYDENWHTTE META-H1STÓRIA 119

Revelar o aspecto geral desse plano, pretender mostrar “o desenho fundamen­ aspecto de conjunto de fenômenos dos quais se espera que a inteligência crítica
tal do mundo”, implica a “definição abstrata” do “sentido” (Inhalt) desse extraia um sentido. Essas duas caracterizações são de natureza bem diferente
desenho e a apresentação da prova de sua concretização (Verwirklichung) no e recompensam o estudo acurado que se fizer para determinação de suas
tempo (16 [29]). características individuais.
Pois bem, nos parágrafos que se seguem, indicarei o desenvolvimento da Em sua primeira caracterização do campo histórico, Hegel considerou-o
reflexão de Hegel sobre a natureza daquele “espírito” que ele concebeu ser a como uma estrutura sincrônica, apreendida como um caos de paixões, interesses
agência pela qual as ironias de pensamento, sentimento e existência experimen­ pessoais, violência, esperanças destroçadas e planos e projetos frustrados. Em
tadas pelo homem são finalmente transcendidas na apreensão de uma possível sua segunda caracterização do campo histórico, ele o considerou como um
integração da consciência com o ser. Darei aqui apenas um rápido escorço de processo diacrônico, um campo que parece distinguir-se pela simples mudança.
sua doutrina do espírito, já que ela aparece em detalhe em outra parte - isto é, A primeira caracterização destinava-se a servir de base para a geração dos
em sua Fenomenologia, Lógica e Filosofia do Direito. O importante é que ele conceitos pelos quais o campo, considerado como um caos de paixões, pudesse
começou sua discussão acerca do espírito pela apreensão de uma antítese ser compreendido como um espetáculo de finalidade. A segunda caracterização
radical entre espírito e matéria. O termo “Mundo”, disse ele, “inclui a natureza destinava-se a servir de base para a geração dos conceitos pelos quais o campo,
física e psíquica”. Admitiu que a natureza física desempenha um papel na considerado como um caos de mudanças, pudesse ser compreendido como um
história do mundo e também admitiu que seria necessário fornecer uma descri­ processo de desenvolvimento.
ção das operações mecânicas nela ocorridas sempre que isso se relacionasse A primeira caracterização do campo histórico, como campo de fenôme­
com o tema por ele estudado. Mas seu tema era o espírito, cuja “natureza” pode nos, foi apresentada no modo metafórico, isto é, não como meros fenômenos
ser caracterizada em função de suas “características abstratas”: o “meio” que mas como fenômenos nomeados. Hegel caracterizou o campo histórico que se
ela usa para realizar sua idéia ou concretizar-se no tempo; e a “forma” que a oferece à intuição “externa e fenomenal” em função de sua forma estética, das
perfeita corporificação do espírito assumiria. implicações morais da forma apresentada e da questão filosófica que a combi­
O espírito, disse Hegel, pode ser entendido como o oposto de matéria, nação disso necessariamente suscita. Assim, disse ele:
cuja natureza deve ser determinada por algo extrínseco a ela mesma. O espírito
é “existência completa em si mesma” (bei-sich-selbst-sein), vale dizer, “liberda­ O primeiro relance de olhos pela história convence-nos de que as ações dos homens
dimanam de suas necessidades, suas paixões, seus caracteres e talentos, e inculca-nos a crença em
de”, pois liberdade não é senão independência ou autonomia, ausência de toda que tais necessidades, paixões e interesses são as únicas molas da ação - os agentes eficientes nesta
subordinação a, ou determinação por, qualquer coisa fora de si mesma. A cena de atividade [20].
existência completa em si mesma, continuou ele, é também autoconsciência -
consciência que se tem do próprio ser, isto é, consciência de que se é potencial­ Na verdade, observou Hegel, mesmo nesse nível de compreensão pode­
mente capaz de vir a ser. Hegel tomou essa definição abstrata de autoconsciên­ mos perfeitamente discernir ações e projetos empreendidos por dedicação a
cia como o análogo da própria idéia de história: “Pode-se dizer da história “objetivos de tipo liberal ou universal”, como “benevolência” ou “nobre patrio­
universal que é a exibição do espírito no processo de elaborar o conhecimento tismo”, mas tais “virtudes e visões gerais são simplesmente insignificantes
daquilo que ele potencialmente é” (17-18). E, na medida em que a história é quando comparadas com o mundo e seus atos”. A própria razão pode revelar
processo, realização no tempo, esta elaboração do conhecimento do que o seus efeitos ao entendimento, mas, baseados só nos dados, não temos motivo
espírito potencialmente é, é também a realização, ou atualização, do que ele é para negar que as “molas mais efetivas da ação humana” são “paixões, objetivos
potencialmente capaz de vir a ser. Já que a autoconsciência não é senão privados e a satisfação de desejos egoístas” (Ibid.).
liberdade, deve-se supor que a atualização do espírito no tempo representa o Quando refletimos sobre esse “espetáculo de paixões” (Schauspiel der
crescimento do princípio da liberdade. Assim, escreveu Hegel: “A história do Leidenschaften) e percebemos a irracionalidade essencial tanto do mal quanto
mundo não é senão o progresso da consciência de liberdade”. E essa percepção, dos “bons desígnios e objetivos virtuosos”, quando “vemos o mal, o vício, a ruína
disse ele, ministrava-lhe “a divisão natural da história universal e sugere o modo que sucedeu aos mais florescentes reinos que a mente do homem já criou”,
de discuti-la” (19). dificilmente podemos evitar que sejamos precipitados numa concepção essen­
cialmente absurdista do drama ali representado. Toda a história assim vista
parece levar a marca da “corrupção”, e, já que essa “decadência não é obra da
O CAMPO HISTÓRICO COMO ESTRUTURA natureza, mas da vontade humana”, “uma exasperação moral” (einer moralische
Betrübnis) e “uma revolta do bom espírito, se ele tem um lugar dentro de nós”
Há duas passagens cruciais na introdução à Filosofia da História em que podem surgir em nosso íntimo (20-21). Uma combinação puramente estética
Hegel caracteriza o campo histórico como problema a solucionar em seu ou, o que vem a dar no mesmo, “simplesmente verdadeira das atribulações que
120 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 121

esmagaram as mais nobres das nações e comunidades organizadas e os mais Hegel, portanto, aceitou como verdade a percepção da história que tinha
belos exemplares da virtude humana” forma “um quadro de aspecto tão horri­ levado os philosophes ao desespero e os românticos ao auge da animação e do
pilante” (furchtbarsten Gemàlde) e inspira emoções de tristeza tão profunda, entusiasmo - a saber, o fato de que a “paixão” por si só é a causa imediata de
que nos inclinamos a buscar refúgio no fatalismo e a isolar-nos cheios de asco todos os acontecimentos históricos. “Podemos afirmar peremptoriamente”,
“no ambiente mais agradável de nossa vida individual, no presente formado por disse ele, “que nada de grande foi realizado no mundo sem paixão [nichts
nossos propósitos e interesses privados” (21). Grosses in der Welt ohne Leidenschaft vollbracht worden irt]” (23 [38]). Tem
Mas essa resposta moral a uma percepção estética em si inspira reflexão assim o historiador como seu objeto de estudo precisamente o que aparece
sobre uma questão que “surge involuntariamente” dentro de qualquer cons­ diante dele: um panorama de pecado e sofrimento. Mas tem ele também seu
ciência em que a razão atua. A questão é: “A que princípio, a que propósito “conceito” [Begriff], que é a relação meios-fins, e sua “idéia” [Idee], que é a plena
final têm sido oferecidos esses enormes sacrifícios?” (Ibid.) realização, por atualização concreta, de todos os seres que aparecem na história
Quando chegamos a esse ponto, disse Hegel, o procedimento usual como entidades reconhecivelmente históricas (em contraste com as puramente
consiste em intentar o tipo de investigação que ele caracterizou como “história naturais), através dos quais pode extrair sentido desse panorama. Tanto a
reflexiva” - isto é, reduções causais e tipológicas pelas quais é possível ordenar redução metonímiça quanto a ironia devem ser evitadas mediante o grupamento
“arbitrariamente” e “fragmentariamente” o campo. Por outra parte, Hegel dos dados (o panorama de pecado e sofrimento) dentro do conceito adequado
pareceu resistir a essas estratégias redutivas ao tomar “esses fenômenos que à apreensão deles como meio para algum fim:
[compõem] um quadro tão sugestivo de emoções sombrias e reflexões profun­
Dois elementos, portanto, entram no objeto de nossa investigação: o primeiro, a idéia, o
das como o próprio quadro” [grifo de Hegel] que exibe os “meios [grifo acres­
segundo, o conjunto de paixões humanas; um, a urdidura, o outro, a trama do imenso pano de arras
centado] para alcançar (...) o destino essencial (...) ou (...) o verdadeiro da história [Ibid.].
resultado da história do mundo” (Ibid.). A reflexão moral, insistiu ele, não pode
servir de método de entendimento histórico. As reduções causais e tipológicas Assim, a paixão, “que é [convencionalmente] encarada como uma coisa
do campo histórico inspiradas por essa reflexão moral, muito embora tentadas de aspecto sinistro” e como “mais ou menos imoral”, é não somente reconhecida
no interesse de dissipar pelo entendimento a depressão, podem quando muito como um fato da existência humana mas é também elevada como condição
apenas justificar os fenômenos que pretendem explicar e no pior dos casos necessária e desejável para a realização de fins maiores do que qualquer um
apenas confirmar nossos temores quanto à absurdez essencial do quadro do que um homem ou grupo em particular, governado por interesses pessoais ou
todo. A história é um “panorama de pecado e sofrimento”, e qualquer concep­ traços de caráter, possa imaginar. Supera-se dessa maneira a separação entre a
ção da história que implique negar esse fato de percepção agride os princípios paixão e os fins humanos mais altos que indivíduos e grupos realizam de fato no
da arte, da ciência e da moral. Dessa maneira Hegel dava total crédito à tempo. O dualismo de razão e paixão que os iluministas não foram capazes de
percepção do campo histórico como “panorama de pecado e sofrimento”. Mas superar (pela análise metonímiça) é transcendido juntamente com o falso
pôs sua percepção desse panorama dentro da questão de meios e fins que, monismo da hegemonia da paixão sobre a razão (dos românticos) e o falso
insistiu, surgia na consciência em razão da reflexão moral sobre tal panorama monismo da absoluta hegemonia da razão sobre a paixão (dos idealistas subje­
(“a que princípio, a que propósito final têm sido oferecidos esses enormes tivos). O instrumento de mediação entre paixão e razão foi concebido por Hegel
sacrifícios”). como sendo o Estado - não o Estado mecanismo, que é apenas um meio dessa
Em resumo, “pecado e sofrimento” devem ser encarados como os meios mediação em existência concreta, mas o Estado em sua essência ideal, o Estado
para a realização de algum princípio que é superior a eles. Esse princípio como moral objetificada. “Meio concreto” e “união” da idéia e da paixão é “a
superior não é dado à percepção sensorial mas é considerado cognoscível em liberdade sob as condições da moral num Estado” (Ibid.).
princípio pela dedução transcendental das categorias pelas quais pode ser
inferido - o tipo de dedução que Kant levou a cabo com relação aos fenômenos
naturais e à ciência. Hegel caracterizou o fim do processo inteiro como “Prin­ O ESTADO. O INDIVÍDUO EA VISÃO TRÁGICA DA HISTÓRIA
cípio-Plano da Existência-Lei”, que, admitiu ele, é uma “essência oculta, não
desenvolvida, que como tal, embora verdadeira em si mesma, não é completa­ O Estado ideal, observou Hegel, seria aquele em que os interesses priva­
mente real [wirklich]” (22 [36]). A causa final concebível, ou princípio ainda por dos de seus cidadãos estão em perfeita harmonia com o interesse comum,
realizar na existência concreta, deve ser reconhecida como fundamentalmente “quando um encontra sua satisfação e realização no outro” (24). Mas todo
incognoscível para a ciência na medida em que está ainda no processo de Estado real, precisamente porque é um mecanismo concreto, uma atualização
atualização na história. O pensamento deve, portanto, começar pelos dados que mais do que apenas uma potencialidade ou uma realização do Estado ideal, é
estão lá diante dele e pela apreensão deles como meio para um fim maior. incapaz de consumar essa harmoniosa reconciliação dos interesses, desejos e
122 HAYDENWH1TE META-HISTÓRIA 123

necessidades individuais com o bem comum. Essa incapacidade de qualquer Isso não quer dizer que o indivíduo esteja isento de um destino trágico na
Estado determinado de encarnar o ideal, porém, deve ser sentida antes como perseguição de seus objetivos. Pelo contrário, quer dizer que aqueles que
motivo de júbilo que de desespero, pois é precisamente esse desequilíbrio dos perseguem seus próprios objetivos com paixão, vontade e inteligência adequa­
interesses privados com os públicos (ou dos públicos com os privados) que das à consecução imediata desses objetivos - isto é, a transformação real de suas
propicia o espaço para o exercício de uma liberdade especificamente humana. sociedades à luz das suas concepções particulares do que poderia ser uma vida
Se qualquer Estado determinado fosse perfeito, não haveria base legítima para boa - serão figuras trágicas. O homem mediano, disse Hegel, apega-se ao que
a insatisfação que os homens sentem com os dons sociais e políticos recebidos, sua sociedade teima em lhe apresentar como sendo o limite dentro do qual ele
justificação para a indignação moral que provém da disparidade entre o que os pode realizar seus desejos e fazer valer seus interesses privados. O criminoso
homens desejam para si e sentem, porque é o único critério de direito que procura com subterfúgio burlar as leis e os limites estabelecidos pela moral
sentem imediatamente, ser um desejo moralmente justificável, e o que a comu­ pública, de modo a realizar seu desejo particular de satisfação material, mas
nidade em que nascem e são convidados a viver suas vidas insiste em que devem sem com isso efetuar quaisquer alterações nos cânones da moral pública e da
desejar. A liberdade humana, que é uma liberdade especificamente moral, se lei (Phil. of Hist., 28-29). Por contraste, os heróis da história são exatamente
manifesta no estado de coisas em que nenhum “presente” está jamais adequa­ aqueles cuja crença apaixonada na legitimidade de seus objetivos e interesses
damente “adaptado à realização de objetivos que [os homens] consideram particulares é tal que não lhes permite tolerar qualquer disparidade entre o que
corretos e justos”. Há sempre um contraste desfavorável entre “coisas como ido desejam para si mesmos e o que a moral pública e o sistema legal exigem dos
e coisas como devem ser” (35). Mas essa precondição da liberdade é também homens em geral. César, por exemplo, ao buscar a concretização da imagem
uma limitação ao exercício dela; toda tentativa de corrigir ou melhorar o Estado, ideal que tinha de si mesmo, conseguiu reconstituir completamente a sociedade
pela reforma ou pela revolução, consegue apenas estabelecer algum novo romana. Os grandes homens, observou Hegel, formulam “objetivos para satis­
mecanismo que, por mais superior que seja ao que veio antes, é igualmente fazer a si mesmos, não aos outros”, e são aqueles que não aprendem com os
limitado em sua capacidade de reconciliar interesses e desejos particulares com outros mas com quem os outros aprendem (30). Os grandes conflitos entre uma
o bem e as necessidades comuns. vontade individual, adequadamente dotada para sua tarefa, e a ordem social
O escopo, sugeriu Hegel, é manter a consciência da natureza irônica (isto recebida, cujos devotos parecem sustentar-lhe a forma alcançada, constituem
é, paradoxal e contraditória) dessa condição inconfundivelmente humana, que os eventos axiais da história do mundo; e é com as “relações abrangentes” que
é produto da própria distinção entre interesses privados e públicos. Pois só isso se delineiam nesses embates que a história do mundo (em a ver (29).
permite à consciência acreditar na possibilidade de seu próprio exercício de
Por essa razão, o espetáculo da história, quando visto de dentro do
liberdade e na legitimidade dos sentimentos de insatisfação que a impelem à processo do seu próprio desenrolar, do ponto de observação dos indivíduos que
perfeição ulterior das formas de comunidade humana em que todos os interes­ lograram mudar a forma de vida de um povo ou de muitos povos - ou,
ses particulares e o bem público podem identificar-se. poder-se-ia acrescentar, resistir aos esforços heróicos para efetuar tais trans­
Nada era mais comum em sua própria época, comentou Hegel, do que “a formações - é concebível como um drama trágico em termos específicos. Com
queixa de que os ideais que a imaginação estabelece não se cumprem, de que fundamento exclusivamente na consciência histórica, sem o acréscimo da hipó­
esses sonhos gloriosos são destruídos na fria realidade” (Ibid.). Mas essas tese que a reflexão filosófica traz para a história - isto é, com base apenas numa
queixas, insistia ele, são produtos de caráter meramente sentimental, se aqueles combinação de sensibilidade estética e moral - pode-se transformar a história
que as fazem condenam a situação social como tal simplesmente porque seus do mundo, de uma epopéia absurdista de conflito e discórdia insensatos, num
ideais não se realizaram em sua própria época. É mais fácil, disse Hegel, drama trágico de importância especificamente ética. Assim, escreveu Hegel:
encontrar deficiências em indivíduos, Estados, e em todo o processo histórico
do que “discernir-lhes a verdadeira significação e valor” (36). “Pois nessa crítica Se chegarmos a lançar um olhar para o destino das personalidades históricas mundiais (...)
puramente negativa assume-se uma postura orgulhosa”, e o aspecto positivo de verificaremos que não foi um destino feliz. Eles não lograram um contentamento tranquilo; toda
toda situação histórica, seu oferecimento das condições para a efetivação de a sua vida foi de trabalho e inquietação; toda a sua natureza não foi outra coisa senão sua paixão
uma liberdade limitada, é negligenciado (Ibid.). A perspectiva adotada por dominante. Quando alcançam o objeto caem como cascas vazias de amêndoa. Morrem cedo, como
Hegel destinava-se a revelar que “o mundo real”, com suas contradições e seus Alexandre; são assassinados, como César; transportados para Santa Helena, como Napoleão [31].
conflitos, sua liberdade limitada e seu sofrimento, “é como deve ser” para a
consecução de fins humanos por meios adequados à tarefa (Ibid.). O espírito Em suma, vivem suas vidas como os heróis de uma tragédia shakespearia-
dessa assertiva está de acordo com o aforismo de Sêneca com que Vico (citando na. E o perigo de uma reflexão puramente moral sobre essas vidas está em que
incorretamente) termina o livro V da Ciência Nova: “Pusilla res hic mundus est, poderia conduzir à conclusão, semelhante àquela que “qualquer relato siniples-
nisi id, quod quaerit, omnis mundus habeat” (1096: 415). mente verídico” do campo histórico inspira, de que tais vidas foram tão sem
124 HAYDENWHITE META-HISTÓR1A 125

sentido, tão inconseqüentes, como as vidas daqueles homens comuns que se estrutura sincrônica, aparecerá como um sistema coerente de troca entre o
contentaram com os papéis que o destino lhes reservara. princípio da selvageria e o da civilização.
Tal visão, porém, só é possível com base em elementos fornecidos pelo
modo metonímico de compreensão, o qual, fundamentando-se numa falsa
analogia entre a natureza e a história, vê toda ação apenas como efeito de alguma O CAMPO HISTÓRICO COMO PROCESSO
causa anterior, mecânica. Assim, o impulso subjetivo por trás do ato - a vontade,
a razão, ou as emoções do indivíduo que se esforça por alcançar algo de Isso nos leva ao nível de compreensão em que a consciência sinedóquica
grandioso - é reduzido à mesma natureza essencial que a do homem comum, substitui a explicação causal pela explicação tipológica e em que a imagem do
que não busca nenhuma grandeza e, conseqüentemente, não deixa marca na puro caos é substituída pela imagem de uma sucessão de formas ou tipos de
história salvo em sua função de unidade de um conjunto. Quase não admira, realização cultural, cuja apreensão imediata se dá sob o aspecto da tragédia.
comentou Hegel depois, que aqueles que começam por presumir que a história Foi aqui que Hegel fez o comentário que tem sido com tanta freqüência
é apenas a natureza num disfarce diferente sejam levados, pela lógica do modo, erroneamente interpretado como prova da natureza essencialmente formalista
de explicação próprio para compreender exclusivamente a natureza, à conclu­ de sua filosofia da história. Ele escreveu:
são de que a história não tem sentido, pois:
O historiador deverá conhecer a priori (se quisermos dizê-lo assim) todo o círculo de
O estado de natureza é [de fato] predomínantemente ode injustiça c violência, de impulsos concepções a que pertencem os princípios em questão - assim como Kepler (para citar o exemplo
naturais indomados, de ações e sentimentos humanos [41]. mais ilustre desse modo de filosofar) deve ter conhecido a priori elipses, cubos e quadrados, e as
idéias das respectivas relações antes que pudesse descobrir, a partir dos dados empíricos, aquelas
suas “Leis” imortais, que não são senão formas de pensamento próprias daquelas classes de
Se o homem fosse “só natureza”, seríamos incapazes de explicar a domes­ conceitos. Quem não conhece a ciência que adota essas concepções abstratas elementares é tão
ticação da humanidade em geral como somos incapazes de explicar a criação pouco capaz - ainda que tenha passado a vida inteira a observar o firmamento e os movimentos
daquele “estado social” que é o instrumento dessa domesticação. Além disso, dos corpos celestes -de entender aquelas Leis como de descobri-las [64; grifos acrescentados].
seríamos forçados a concluir que as realizações superiores de gênios individuais
na arte, na ciência, na religião e na filosofia foram produtos de uma consciência Aqui Hegel distinguia entre o “círculo de concepções” e os “princípios”
que não era essencialmente diferente daquela que caracteriza o homem em seu de caracterização, e entre as “formas de pensamento” e as “classes de concei­
estado selvagem; que elas refletem apenas novas combinações, antes que aper­ tos” que as formas de pensamento utilizam na explicação de dados de diferentes
feiçoamentos progressivos, de um número finito de elementos, todos os quais, espécies. Os princípios e as classes de conceitos que são permissíveis na
deve-se presumir, estiveram presentes no estado selvagem. caracterização do processo histórico derivam do círculo de concepções pelas
Mas a verdade é que o selvagem não cria nada que tenha significação quais várias formas de pensamento são simultaneamente diferenciadas umas
cultural especificamente elevada exceto a religião e uma forma rudimentar das outras e relacionadas umas com as outras. Se se há de evitar um método
(costumeira) de sociedade. Isso nos permite concluir que a “forma da religião” puramente a priori, pelo qual uma preconcepção inspirada por um preconceito
determina a forma do Estado que se ergue sobre os princípios da consciência simplesmente se impõe sobre o registro histórico como explicação dele, deve
que o informam (51) e dá à cultura de um povo seu aspecto característico (50). haver algum princípio pelo qual uma dada forma de pensamento possa ser
Mas presumir que a mesma forma de consciência que caracteriza a mente dirigida para a articulação das classes de conceitos necessárias à distinção entre
selvagem também caracteriza a mente civilizada é fazer pender a balança da o que é “essencial” e o que não o é num dado aspecto do processo do mundo.
análise apenas em favor da descobcrda de similaridades quando o que é No círculo de concepções, determinância e liberdade são concebidas com o fim
necessário é uma avaliação e uma explicação das diferenças entre os dois de gerar princípios, formas de pensamento e classes de conceitos adequados à
estados de consciência e seus produtos. Tal busca de similaridades à custa de caracterização e ao entendimento dos processos naturais e históricos respecti­
diferenças jaz na base de todos os mitos da Arcádia, mitos do feliz estado de vamente. É aqui que o pensamento acerca da história se expõe aos perigos do
natureza, que tantalizou os pensadores iluministas e inspirou os românticos a mecanicismo, em virtude de confusão de um processo histórico com um pro­
procurarem refúgio das dores da existência presente numa terra de nenhum cesso meramente natural, e à ameaça de formalismo, em virtude do simples
lugar onde nada, senão a felicidade, predomina. reconhecimento de uma sucessão de coerências formais no processo histórico.
O problema, então, reside em explicar os princípios pelos quais o desen­ Os conceitos que a consideração da história como processo de desenvol­
volvimento da humanidade através da história pode ser compreendido. Esse vimento requer são começo, meio e fim, mas não concebidos no modo pelo qual
desenvolvimento, considerado em seu aspecto diacrônico, aparecerá como uma tais processos são apreendidos na natureza física, isto é, como simplesmente
transição de uma condição inferior para uma superior e, em seu aspecto de início, extensão e expansão, e término. Os processos históricos devem ser
126 HAYDEN WHÍTE META-HISTÓRJA 127

encarados como análogos aos tipos de ações morais concluídas que apreciamos “explicação” - das raízes latinas ex e plicare, que, combinadas, comunicam a
na contemplação dos produtos superiores da arte e da religião - isto é, como idéia de um “alisamento” de dobras, como se faz com um pedaço de papel ou
processos que surgem como um “começo”, prosseguem como uma transforma­ pano amarrotado. A conotação é a de um desenrolar ou deslindar de conteúdos
ção “dialética” dos conteúdos e das formas da disposição original e culminam latentes.
numa “consumação ou resolução” que representa mais do que uma simples Mas a apreensão desse processo pelo que ele verdadeiramente é não pode
conclusão. ser proporcionada exclusivamente por expansões sinedóquicas. Isso é salienta­
A natureza física como tal não tem começo, meio ou fim; é sempre e do no trecho que se segue. Aqui é retomada a mesma transição da consciência,
eternamente o que deve ser. Podemos imaginá-la começando a existir num dado que passa de uma percepção estética, através de uma percepção moral, para
momento e terminando num dado momento, mas ela não se desenvolve em sua uma percepção intelectual que encontramos na caracterização original que
passagem de um instante para o outro, razão por que dizemos que ela existe Hegel fez do campo histórico nos modos da metáfora e da metonímia:
apenas no espaço (72). A natureza orgânica, é verdade, representa um tipo de
desenvolvimento que se pode conceber como uma realização do potencial de Se relancearmos os olhos à história do mundo em geral, veremos um vasto quadro de
crescimento contido na semente; mas o indivíduo pode realizar ou pode não mudanças e atos [Taten], de formas infinitamente numerosas de povos, Estados, indivíduos, em
realizar esse potencial. Se realiza, chega a um fim que é preordenado por lei inquietante sucessão \Aufeinanderfolge] [ibid.].
natural - de modo que todo processo de crescimento levado a seu término é
exatamente igual a todos os outros, não havendo desenvolvimento de um indiví­ Esse espetáculo da sucessão de formas suscita um estado emocional que é
duo para outro, e nenhum desenvolvimento na totalidade da vida orgânica de bem diferente daquele que o espetáculo do caos originalmente descrito suscita:
uma espécie para outra. Aqui, na medida em que há movimento de qualquer
modo, não há desenvolvimento, apenas recorrência cíclica. Tudo o que pode penetrar na alma do homem e interessá-la - toda a nossa sensibilidade
As transições significativas na história, porém, revelam o tipo de proveito para a bondade, beleza e grandeza - é chamado à ação [Ibid.].
que muitas vezes intuímos estar presente, mesmo quando não podemos especi­
ficar-lhe o conteúdo, no final de uma peça trágica ou de um diálogo filosófico Ainda vemos a “ação e o sofrimento humanos predominantes”, mas
conduzido no modo dialético. Nele, quando alguma coisa morre, alguma outra também vemos algo semelhante a nós mesmos que “estimula nosso interesse
coisa nasce; mas aquilo que nasce não é simplesmente a mesma coisa em sua pró ou contra”, quer esse “algo” atraia a nossa atenção por sua “beleza,
essência que aquilo que morreu, como é na vida vegetal e animal. É alguma coisa liberdade e abundante variedade”, quer por sua “energia” exclusivamente
nova em que a forma anterior de vida - a ação da peça, a argumentação do (Ibid.).
diálogo - está contida dentro da forma ulterior de vida como seu material ou
conteúdo; vale dizer que é convertida de fim em si num meio para a consecução Às vezes vemos a massa mais ampla de algum interesse geral avançando com relativa
de um fim superior apenas obscuramente apreendido nos derradeiros clarões lentidão, e subsequentemente sacrificada a uma infinita complicação de circunstâncias fúteis, e
da resolução. assim dissipada em átomos. Então mais uma vez, com um enorme dispêndio de energia, produz-se
Essa percepção da natureza do processo histórico é construída sobre a um resultado trivial; enquanto, do que parece insignificante, provém um enorme resultado. Por
expansão sinedóquica do campo, metaforicamente apreendido e metonimica- todos os lados há a mais heterogênea multidão de eventos a nos arrastar para dentro do círculo de
mente compreendido, do acontecer histórico originalmente percebido como seu interesse, e quando um agrupamento desaparece logo surge outro em seu lugar [Ibid.].
“um panorama de pecado e sofrimento”. A dinâmica dessa expansão sinedó­
quica está assinalada na segunda grande caracterização hegeliana de todo o O primeiro pensamento geral que desponta em resposta ao espetáculo
campo histórico, agora concebido não somente como caos mas como mudança assim apreendido, “a categoria que primeiro se apresenta nesta incessante
também. mutação de indivíduos e povos, existentes por um momento e em seguida
A segunda caracterização que Hegel faz do campo histórico se inicia pelo desvanecendo-se”, é o de “mudança geral” (díe Verãnderung überhaupt). Essa
famoso apotegma, apreensão logo se transmuta num sentimento de “tristeza”, tal como aquele que
poderíamos sentir em presença das ruínas de algum Estado pujante, como
A história em geral é portanto o desenvolvimento do espírito no tempo, como a natureza é Roma, Persépolis ou Cartago. Mas a “consideração seguinte, que se alia” à da
o desenvolvimento da idéia no «poço [Ibid.]. simples mudança e que se origina do reconhecimento das coerências formais a
serem vistas no espetáculo, é esta: “que embora importe em dissolução, a
A palavra que se verte convencionalmente em inglês por development mudança subentende ao mesmo tempo a ascensão de uma nova vida - que
(desenvolvimento) neste contexto é a alemã Auslegung, literalmente um “esten­ embora a morte seja a conseqüência da vida, a vida é também a consequência
der, espalhar, ou expor”, com associações secundárias de “explanação” ou da morte” (72-73).
128 HAYDENWHITE META-H1STÓRIA 129

O problema que de imediato se impôs a Hegel foi o da modalidade pela O conceito abstrato de mera mudança dá lugar ao pensamento do espírito a manifestar,
qual se há de compreender essa sucessão de coerências formais - isto é, como desenvolver e aperfeiçoar seus poderes em todas as direções que sua natureza multiforme pode
se há de pôr em enredo a seqüência de formas. E nos parágrafos que se seguirão seguir {Ibid.:, grifo acrescentado].
pode-se ver a diferenciação que ele fez entre três diferentes estruturas de
enredo que poderiam ser utilizadas para caracterizar esse processo concebido Os poderes que o espírito que se deve presumir governar esse processo
como sucessão de formas, diversamente da estrutura de enredo épica, que inerentemente possui só podem ser conhecidos “em conseqüência da variedade
poderia ser empregada para pôr em enredo o espetáculo de simples mudança de produtos e formulações que ele gera” (Ibid.). Isto quer dizer que o processo
na apreensão original do campo histórico como caos. histórico deve ser visto, não como simples movimento, mudança ou sucessão,
mas como “atividade”: “Der Geist handelt wesentlich, ermacht sich zu dem, was
Revertendo à natureza (isto é, ao modo metonímico de caracterizar
eran sich ist, zu einer Tat, zu seinem Werk; so wird ersich Gegenstand, so hat er
mudanças como tais) em busca de um análogo, essa sucessão de formas poderia
sich ais ein Dasein vorsich” (72 [99]). Assim foi com individualidades históricas,
ser concebida em uma de duas maneiras, ambas as quais poderiam ser denomi­
aqueles heróis trágicos que conseguiram deixar suas sociedades ao menos
nadas trágicas na medida em que dão crédito à apreensão do fato de que, na
significativamente transformadas em conseqüência de suas ações; e assim é com
natureza humana pelo menos, “embora a morte seja a conseqüência da vida, a
povos e nações inteiras, que são ao mesmo tempo beneficiárias e cativas das
vida é também a conseqüência da morte” (grifo acrescentado). Por exemplo, a
formas espirituais em que suas ações contra o mundo e em favor do mundo se
sucessão de formas poderia ser posta em enredo como transferência de um
manifestam. Isso indica que a vida de cada povo ou nação é, como a vida de
conteúdo para uma nova forma, como na doutrina oriental da metempsicose;
cada indivíduo heróico na história, uma tragédia. E o modo apropriado de pô-la
ou poderia ser concebida, não como uma transferência, mas como uma inces­
em enredo, a apreensão dela como realidade histórica, é o do drama trágico.
sante re-criação de uma nova vida das cinzas da velha, como no mito de Fênix
(73). Hegel qualificou de “admirável” a percepção contida nas concepções De fato, Hegel pôs em enredo as histórias de todas as formas civilizacionais que
orientais do processo do mundo, mas negou-lhes o estatuto de verdades filosó­ discerniu na história do mundo em termos trágicos. E em sua Enciclopédia das
ficas adquiridas, por dois motivos. Primeiro, essa percepção (“que embora a Ciências Filosóficas e nas Conferências sobre Estética, forneceu a justificação
para esse modo de elaboração de enredo como a modalidade mais elevada de
morte seja a conseqüência da vida, a vida é também conseqüência da morte”)
só é geralmente verdadeira com relação à natureza, e não especificamente historiografia reflexiva.
verdadeira com relação às individualidades naturais. Segundo, as simples no­ Em sua Filosofia da História, porém, ele se limitou a aplicar esse modo de
ções de transferência e de recorrência sucessiva não fazem justiça à variedade imaginar o processo de criação, ascensão, dissolução e morte a civilizações
de formas de vida que o processo histórico, diferentemente do processo natural, individuais. Não procurou justificar o modo trágico de elaboração de enredo,
revela à percepção. Como disse Hegel: mas simplesmente o pressupôs como o modo apropriado para caracterizar os
processos de desenvolvimento que é possível discernir nos ciclos vitais de uma
civilização específica, como a grega ou a romana. É possível pressupor esse
O espírito - consumindo o invólucro de sua existência - não apenas se transforma em outro modo porque é aquele em que qualquer história geral de uma civilização cujo
invólucro, nem se ergue rejuvenescido das cinzas de sua forma anterior; aparece exaltado [erheben],
prazo de vida expirou é convencionalmente posta em enredo por historiadores
glorificado [verklãrt], um espírito mais puro {ein reinerer GetwJ. Ele certamente faz guerra a si
mesmo-consome sua própria existência; mas nesta mesma destruição transmuda aquela existência profissionais. O historiador filosoficamente não-autoconsciente poderia extrair
numa nova forma, e cada fase sucessiva toma-se por sua vez um material sobre o qual ele se eleva conclusões errôneas de sua reflexão sobre o padrão de ascensão e queda,
[erhebt] a uma nova qualidade [Bildung] [Ibid]. marcado pelo aspecto de destino e inevitabilidade. Poderia concluir que esse
padrão não podia ter sido diferente e que, devido ao que é, só pode ser
compreendido como uma tragédia en gros.
E isso sugere outro motivo por que todo esse processo não pode ainda ser
reconhecido como prefigurador de uma resolução cômica. Continuam inexpli- A contemplação do processo histórico induz realmente a apreendê-lo
cados os princípios em virtude dos quais poderia ser admitida a apreensão do como uma seqüência de tragédias. O que originalmente aparecia como um
enredo da sucessão de formas. A elucidação desses princípios requer uma visão “espetáculo de paixões” épico transmuda-se numa seqüência de derrotas trá­
a partir de uma perspectiva no interior do processo, a fim de que não seja gicas. Cada uma dessas derrotas trágicas, porém, é uma epifania da lei que
apreendido como apenas uma sucessão de coerências formalmente iguais, mas governa toda a seqüência. No entanto, essa lei do desenvolvimento histórico não
antes como um tipo de processo autônomo de automanipulação, ações exerci­ é concebida como sendo análoga às espécies de leis que determinam a evolução
das “em diferentes modos e direções”, em que a forma anterior serve de ou a interação dos corpos físicos; não é lei natural. É, antes, a lei da história,
material, e estímulo, para a criação de sua sucessora (Ibid.). Dessa perspectiva: que é a lei da liberdade imaginada em todo projeto humano que culmina numa
resolução trágica. E essa lei configura o resultado basicamente cômico de toda
130 HAYDENWHITE META-H1STÓRIA 131

a sucessão de formas que é imediatamente apreendida sob a aparência de natureza do espírito humano permite. Ela nunca é plenamente atingida, e, nessa
tragédia. assimetria entre a intenção geral e os meios e atividades específicas utilizadas
O escopo de Hegel é justificar a transição que se verifica desde a com­ para assegurar-lhe a realização, reside a falha trágica no coração de cada forma
preensão da natureza trágica de cada civilização específica para a apreensão de existência civilizada. Essa falha é percebida como o que realmente é nos
cômica do desenrolar do drama de toda a história. Da mesma forma que, na estágios avançados de um ciclo de civilização; ou melhor, quando essa falha se
Fenomenologia do Espírito, ele sugeriu que a visão cômica de Aristófanes era torna perceptível como o que realmente é, a civilização evidencia uma forma de
superior ao discernimento moral contido na visão trágica de Eurípides, em sua vida deteriorada e torna-se iminentemente moribunda. Quando essa falha é
meditação sobre a história do mundo procurou dotar toda a história de um percebida como o que realmente é - isto é, como uma contradição entre o ideal
sentido cômico que se fundamenta nas implicações de uma concepção mera­ específico que a civilização encarna e as atualizações específicas daquele ideal
mente trágica do curso da vida histórica em geral, que é responsável perante elas na vida costumeira, institucional, social, política e cultural -, o cimento que une
e que, no entanto, as transcende. a sociedade na devoção ao ideal, ao senso de piedade, dever, moralidade,
começa a esboroar-se. E

ao mesmo tempo o isolamento dos indivíduos uns dos outros e em relação ao todo faz seu
DA TRAGÉDIA À COMÉDIA
aparecimento [Ibid.].

No ciclo de atitudes morais, a comédia é logicamente posterior à tragédia, O povo começa a falar em virtude em vez de praticá-la; quer saber as
pois representa uma afirmação das necessidades da vida e de seus direitos razões por que deve cumprir seus deveres e encontra razões para não cumpri-
contra a compreensão intuitiva trágica de que todas as coisas existentes no los; passa a viver ironicamente: falando da virtude em público, praticando o vício
tempo estão condenadas à destruição. A morte de uma civilização não é privadamente, mas cada vez mais abertamente (76-77).
estritamente análoga à morte de um indivíduo, mesmo a de um indivíduo Pela transformação da prática em vício, porém, essa separação do ideal
heróico. Pois, assim como o indivíduo heróico encontra uma espécie de imor­ em relação ao real é em si uma purificação do ideal, que dessa forma se livra
talidade nas mudanças que efetua nas formas de vida do povo que ele modela das malhas da existência atualizada, uma oportunidade para que mentes con­
à sua vontade, assim, também, um povo heróico encontra uma espécie de cretas possam apoderar-se do ideal em sua essência, conceptualizá-lo e figurá-
imortalidade nas mudanças que efetua nas formas de vida da raça. Um grande lo. Assim elas preparam o ideal para liberá-lo do tempo e do lugar em que
povo não morre “uma morte simplesmente natural”, escreveu Hegel, pois um atingiu sua atualização e transmiti-lo através do tempo e do espaço para outros
povo “não é um mero indivíduo isolado, mas uma vida espiritual, genérica”. As povos, que por sua vez podem usá-lo como o material com que poderão mais
mortes de todas as civilizações são mais como suicídios do que mortes naturais, adiante especificar a natureza da idealidade humana em sua pureza essencial.
continuou ele, porque como gêneros contêm dentro de si suas próprias negações
Assim, disse Hegel, se quisermos ter uma idéia específica do que os gregos
- “na própria generalidade que os caracteriza” (75).
eram, teremos de ir aos registros em que eles singelamente revelaram os modos
Um povo impõe a si mesmo uma tarefa, que, considerada em sentido geral, de suas relações práticas em sociedade. Mas se quisermos conhecer essa idéia
há de simplesmente ser alguma coisa de preferência a nada. Sua vida inteira está em sua generalidade, sua pura idealidade, iremos “achá-la em Sófocles e
presa à, e sua coerência formal característica se expressa em, sua dedicação Aristófanes, em Tucídides e Platão” (76). A escolha dessas testemunhas do ideal
(consciente e inconsciente) a essa tarefa. Mas, como tarefa, esse esforço de ser não é casual; elas representam as formas avançadas da consciência grega na
alguma coisa requer meios cuja especificidade está implícita na concretude da tragédia, na comédia, na historiografia e na filosofia, respectivamente, e devem
aplicação deles a problemas antes específicos que gerais. As tarefas gerais, ser distinguidas com bastante nitidez de seus predecessores “ingênuos” (Ésqui-
como apenas subsistir, reproduzir-se, cuidar dos filhos, proteger-se dos elemen­ lo, Heródoto, os filósofos pré-socráticos). A captação da idealidade de um povo
tos, atividades de povos pré-civilizados, realizam-se em respostas a inclinações ou civilização pela consciência é um ato que ao mesmo tempo o “preserva” e
e instintos humanos gerais representados pelo costume, “uma existência sensual “dignifica”. Ainda que o povo descambe em nulidade e catástrofe eventual,
meramente externa que cessou de se lançar entusiasticamente na direção de seu subsistindo como população mas declinando como nação poderosa (no sentido
objeto” (74-75). Mas, para cumprir a tarefa de se tornar algo particular e distinto político e também cultural), o espírito desse povo é assim salvo, através da
da grande maioria da humanidade, um povo precisa dar-se uma tarefa ideal e consciência, em pensamento e arte como uma forma ideal.
certas tarefas práticas, pois “o ponto mais alto do desenvolvimento de um povo
é este: ter alcançado uma concepção de sua [própria] vida e condição; ter Conquanto então, por um lado, o espírito anule a realidade, a permanência daquilo que
reduzido suas leis, suas idéias de justiça e moralidade a uma ciência” (76). Aqui ele é, ele ganha, por outro lado, a essência, o pensamento, o elemento universal daquilo que só
a unidade do ideal e do real é atingida tão completamente quanto a própria de foi [77].
META-HISTÓRJA 133
132 HAYDENWHITE

um homem virtuoso e como revelação de seu relacionamento com o povo


Essa captação, pela consciência, da essência interior de um modo finito ateniense, a quem ele ensinou um novo princípio de moralidade. Sócrates,
de atualização do espírito num povo heróico deve ser vista, não como apenas escreveu Hegel, foi o “inventor da moralidade”, e sua morte se tornou neces­
uma preservação, ou mumificação, do ideal que ele representa, mas antes como sária como um dos atos pelos quais aquele princípio foi confirmado como regra
a alteração do espírito do próprio povo-a elevação de seu princípio a um “outro prática de vida e não simplesmente afirmado como um ideal (269). Sua morte
princípio realmente superior”. É essa elevação, pela consciência e na consciên­ foi a um só tempo a morte do professor Sócrates e a elevação do princípio pelo
cia, do ideal a outro e superior princípio que oferece justificação para a crença qual ele viveu e morreu à condição de modelo concreto da atividade moral.
na natureza basicamente cômica, natureza providencial, do “panorama de Sua morte mostrou não somente que os homens podem viver de acordo com
pecado e sofrimento” que a percepção imediatamente encontra nos dados da um princípio moral mas também que, quando morrem em nome desse princí­
história como uma “combinação simplesmente verdadeira” dos fatos. E é da pio, transformam-no num ideal pelo qual outros podem viver. O reconheci­
“mais alta importância”, observou Hegel, que entendamos “o pensamento mento de que essa “morte” é também o meio para a transformação da vida
subentendido nessa transição [dieses Übergangs]”. O “pensamento” aludido é o humana e da própria moral em um nível de autoconsciência maior do que a
contido na contradição do crescimento e desenvolvimento humano, isto é, “vida” que conduziu a ela era, para Hegel, a intuição inspiradora da visão
aquele segundo o qual, embora o indivíduo continue a ser uma unidade ao longo cômica e da mais alta compreensão do processo histórico a que a mente finita
dos graus de seu desenvolvimento, na realidade ele se eleva a uma consciência pode aspirar.
superior de si e de fato passa de um estágio mais baixo e restrito de consciência A visão cômica, escreveu Hegel na Fenomenologia, transcende o medo do
para um mais alto e mais abrangente. Assim também, disse Hegel, um povo se “destino”. É
desenvolve, ao mesmo tempo continuando a ser o que foi em seu ser essencial
como povo determinado e desenvolvendo-se até que “alcança o grau da univer­
salidade”. Nesse ponto, concluiu Hegel, “reside a necessidade fundamental, a o retomo de tudo o que é universal à certeza de si, certeza que, em consequência, é esta completa
perda do medo de tudo que é estranho e desconhecido, e completa perda de realidade substancial
necessidade ideal de mudança [Verãnderung]”, que é “a alma, a consideração
da parte do que é desconhecido e externo. Tal certeza é um estado de boa saúde espiritual e de
essencial, da compreensão filosófica da história” (78). auto-abandono a ele, por parte da consciência, de modo que, fora desse tipo de comédia [aristofâ-
Essa “compreensão”, então, se funda numa apreensão do processo histó­ nica], não deverá ser encontrado em parte alguma [748-49].
rico como desenvolvimento rumo ao grau de universalidade, no qual o espírito
em geral “se eleva, e se completa, a uma totalidade autocompreensiva” (Tbid.). Esta última observação, de que o estado de “boa saúde espiritual e de
A necessidade da destruição última de toda civilização por suas próprias mãos é auto-abandono a ele (...) não deverá ser encontrado em parte alguma” fora de
sublimada numa apreensão das instituições e modos de vida daquela civilização uma certa visão cômica, sugere que a natureza cômica do próprio processo
como os únicos meios, modos abstratos de organização, pelos quais seus fins histórico só pode ser apreendida (nunca compreendida a não ser em termos
ideais se realizam. Não são realidades eternas e não devem ser consideradas abstratos) como uma possibilidade que goza do crédito, com base no testemu­
como tais. A morte delas, portanto, deve provocar menor “ansiedade” retros­
nho histórico racionalmente processado, de alta probabilidade, porque, como
pectiva do que a morte de um amigo ou mesmo a morte daqueles heróis trágicos disse Hegel na introdução à sua Filosofia da História, a história só tem a ver com
com cuja excelência pode ser identificada, a tal ponto que podemos sentir-lhes
o passado e o presente', quanto ao futuro não pode fazer afirmações. Entretanto,
a morte como uma indicação da nossa.
com base em nossa compreensão do processo histórico como um desenvolvi­
Hegel apresentou sua percepção das instituições e dos modos de vida na mento progressivo que, começando em tempos remotos, chegou ao nosso
seguinte metáfora: próprio presente, a natureza dual da história como ciclo e progressão se torna
clara para a consciência. Podemos agora ver que
A vida de um povo amadurece a gestar um certo fruto; sua atividade visa a completa
manifestação do princípio que ela encarna. Mas esse fruto não cai de volta no seio do povo que o
produziu e maturou; pelo contrário, toma-se uma poção venenosa para ele. Essa poção venenosa a vida do espírito sempre presente é um círculo de concretizações progressivas, que olhadas sob
ele não deixa em paz porque sente por ela uma sede insaciável: o gosto da poção é o aniquilamento um aspecto ainda existem umas ao lado das outras, e só quando olhadas de outro ponto de vista
dele, embora ao mesmo tempo seja a ascensão de um novo princípio [Ibid.]. aparecem como passadas [PhiL of Hist., 79].

A comparação desse trecho com aqueles em que Hegel descreveu e E isso significa que os “graus que o espírito parece ter deixado para trás”
comentou o significado da vida e morte de Sócrates para a cultura ateniense não estão perdidos e abandonados mas estão ainda vivos e são recuperáveis “nas
como um todo ilumina o uso da metáfora da “poção envenenada” que, uma profundezas do presente” (Ibid.). Essas palavras e essa esperança, com que
vez consumida, põe termo a uma vida velha e estabelece o princípio de uma Hegel concluiu a introdução à Filosofia da História, ecoam o parágrafo final da
vida superior. A morte de Sócrates foi trágica como espetáculo da morte de
134 HAYDENWHITE META-HISTÓR1A 135

Fenomenologia do Espírito, com que ele havia inaugurado a fase madura de sua através de uma redução metonímica e expansão sinedóquica do processo em
carreira filosófica: que seus diversos modos possíveis de relacionamento se explicam, para uma
compreensão irônica da ambigüidade do “sentido” do processo - até chegar a
A meta, que é o Conhecimento Absoluto ou o Espírito conhecendo-se a si mesmo como repousar, finalmente, na mais geral identificação sinedóquica de todo o proces­
Espírito, encontra sua senda na recordação de formas espirituais [Geister] como são em si mesmas so como um drama de significação essencialmente cômica.
e como completam a organização de seu reino espiritual. A conservação dessas formas, observada
pelo lado da existência delas em liberdade que aparecem na forma de contingência, é a História;
Assim, o modo de explicação de todos os eventos históricos é imediata­
observada pelo lado de sua organização intelectualmente compreendida, é a Ciência dos modos mente metonímico e sinedóquico, o que justifica a caracterização de qualquer
como o conhecimento aparece. Juntas as duas, ou a História [intelectualmente) compreendida ato total específico do drama como uma seqüência de coerências formais
[òegnflfen], formam ao mesmo tempo a recordação e o Gólgota do Espírito Absoluto, a realidade, governadas por leis causais (embora as leis de causalidade invocadas devam ser
a verdade, a certeza de seu trono, sem o que ele estaria inanimado, solitário e abandonado. Só as do espírito, ou liberdade, e não as da natureza, ou determinância). Por
conseguinte, a construção do enredo de qualquer segmento dado de todo o
O cálice deste reino de espíritos
processo deve realizar-se no modo trágico, que é o modo em que o conflito entre
Oferta a Deus a espuma de Sua Infinitude.
ser e consciência se resolve como uma elevação da consciência a uma percepção
mais alta de sua própria natureza e, simultaneamente, da natureza do ser, uma
Posso agora traçar o gráfico das dimensões e do vigor da concepção
epifania da lei. Mas as implicações ideológicas da história assim interpretada e
hegeliana do conhecimento histórico como modo de explicação, representação
assim posta em enredo continuam ambíguas, porque num sistema causal não há
e implicação ideológica. Começo por notar que o todo dessa concepção é um
nem certo nem errado, mas simplesmente causa e efeito, e num sistema formal
esforço continuado no sentido de manter a ironia essencial da condição humana
não há nem melhor nem pior, mas simplesmente o objetivo da coerência formal
sem rendição ao ceticismo e ao relativismo moral a que o racionalismo iluminista
e os meios de alcançá-lo.
tinha sido conduzido por um lado ou ao solipsismo a que fora levado o
intuicionismo romântico por outro. Esse objetivo é alcançado pela transforma­ Nessa interação de causas e efeitos e meios e fins, porém, a consciência
ção da ironia em método de análise, base para a representação do processo irônica percebe os efeitos de que toda a interação desses elementos é causa e o
histórico, e num meio de afirmar a ambigüidade essencial de todo o conheci­ fim de que é o meio - isto é, a progressiva elevação da própria humanidade
mento real. O que Hegel fez foi agrupar as estratégias metonímicas (causais) e através da consecução de formas superiores de autoconsciência, o reconheci­
metafóricas (formalistas) de reduzir os fenômenos à ordem dentro das modali­ mento de suas diferenças em relação à natureza, e a progressiva elucidação da
dades de caracterizações sinedóquicas por um lado e as certezas autodissolven- finalidade do esclarecimento racional, da liberação e da integração humana que
tes da ironia por outro. A principal certeza a dissolver-se, porém, é a certeza o processo que se estende do passado ao presente manifesta como tendência
intelectual, o tipo de certeza que alimenta o orgulho da posse de uma verdade inegável. Assim, toda a série de dramas patéticos, épicos e trágicos contidos no
putativamente absoluta acerca do todo. As únicas verdades “absolutas” permi­ registro histórico são anulados e incorporados num drama de significação
tidas à inteligência finita são verdades “gerais” como “A verdade é o todo” e essencialmente cômica, numa comédia humana, numa teodicéia que é uma
“O Absoluto é a vida”, ambas as quais são verdades antes liberadoras que justificação não tanto dos caminhos de Deus para o homem quanto dos cami­
repressivas, na medida em que tacitamente asseveram que a verdade absoluta nhos do próprio homem para si mesmo.
não é possuída por nenhum indivíduo isolado. Mas esse tipo de certeza se Assim é sugerido o desfecho essencialmente cômico, a condição basica­
dissolve de modo a promover aquele outro tipo de certeza, a autocerteza moral, mente integrativa e reconciliatória, para que tende todo o processo. O senso
que é exigida para a vivência de uma vida efetivamente “livre”, a verdade estético afirma isso como sendo a forma que o processo histórico assume na
existencial de que tudo é precisamente como deve ser, inclusive o desejo com consciência; o senso moral confirma-o como aquilo que a autocerteza humana
relação ao que “deve ser”, o que significa que o indivíduo está justificado ao exige que seja; e o senso intelectual, representado pela razão, explica os princí­
afirmar esses desejos como seu direito contra o todo social desde que tenha a pios pelos quais tanto a percepção quanto o desejo se tornam plausíveis. Em
vontade, a energia e os meios de fazê-lo. Ao mesmo tempo significa que a última análise, o máximo que a consciência pode extrair da reflexão sobre a
vontade do grupo, a concepção da coletividade daquilo “que deve ser”, que é história é apenas uma apreensão estética para a qual há bons fundamentos
habitualmente idêntico a “o que é”, é igualmente justificada, de modo que o morais e racionais. As leis que regem o todo, bem como a forma que o todo
conflito de individualidades finitas no terreno da história não pode ser prejul- finalmente assumirá, só podem ser especificadas pelo pensamento em seus
gado quanto a seu valor intelectual ou moral antes do conflito em que as termos mais gerais.
pretensões de domínio e a obediência da massa de homens sejam finalmente
arbitradas. No fim, então, pode-se ver que toda a filosofia da história de Hegel O cálice deste reino de espíritos
passou de uma caracterização metafórica original do processo do mundo, Oferta a Deus a espuma de Sua Infinitude.
136 HAYDENWHTTE META HISTÓRIA 137

Mas a “coruja de Minerva” só fará seu voo final no arremate do dia conjunto exaustivo de causas, a apenas uma coerência formal (isto é, caso
cósmico. Até lá o pensamento poderá falar da verdade da história apenas dentro genérico), ou a uma totalidade fechada de relacionamentos. Em outras palavras,
de províncias finitas de significado e na antevisão do momento em que a verdade a identificação de um estado de coisas histórico como constitutivo de uma fase,
do todo será antes vivida que simplesmente pensada. a explicação de por que ela é o que é, a caracterização de seus atributos formais,
e as relações que ela mantém com outras fases de todo o processo são global­
mente concebidas como tendo igual validade como elementos da caracterização
O ENREDO DA HISTÓRIA DO MUNDO total das fases e de todo o processo em que aparecem. Evidentemente, para
aqueles que consideram que Hegel não é senão um praticante do método
apriorístico de representação histórica, todas essas maneiras de caracterizar
Agora deve ser uma questão relativamente simples explanar os princípios
uma fase da história de uma civilização não são outra coisa senão projeções das
específicos de explicação e de elaboração de enredo que Hegel utilizou em sua
categorias da dialética: o em si (tese), o para si (antítese) e o em e para si
Filosofia da História propriamente dita. Esses princípios têm interesse em si
(síntese), seguida por uma negação da síntese, o que por si só implica uma nova
mesmos, como produtos de uma inteligência histórica profunda e bem-informa-
tese (que não é senão um novo em si), e assim por diante, indefinidamente.
da, cuja agudeza e cultura justificam por si sós seu estudo. Mas seu valor real
È verdade que se poderia efetuar tal redução conceptual do método de
reside na textura da narrativa, porquanto Hegel iluminou um ponto aqui,
análise de Hegel, e de uma forma que não ofendesse o próprio Hegel, desde
sombreou um contexto ali, encaixou adiante um aparte especulativo que as
que se considerassem essas categorias como fundamentais tanto para a lógica
gerações subseqüentes teriam de investigar anos a fio, e de modo geral dominou
quanto para a ontologia e como a chave para a compreensão de qualquer
o registro histórico com uma arrogância que só se justifica por sua profundida­
processo, seja do ser, seja da consciência.
de. No entanto, podemos com proveito alongar-nos sobre um ou dois pontos do
texto, não somente para aclarar as opiniões de Hegel sobre a natureza da Mas, de acordo com minha maneira de caracterizar seu pensamento, em
explicação e representação histórica em geral, mas também para demonstrar a função dos modos lingüísticos utilizados em suas caracterizações, não só dos
consistência com que ele aplicou seus próprios princípios explícitos de análise estágios do ser e da lógica, mas também da história, prefiro considerar essas
histórica. fases como conceptualizações de diferentes modos de relacionamento em geral
É um lugar-comum dizer que Hegel decompôs a história de qualquer tal como foram geradas pela percepção por parte de Hegel dos níveis em que
civilização determinada e da civilização em geral em quatro fases: o período de a linguagem, e portanto a própria consciência, tinha de operar.
nascimento e crescimento original, o de maturidade, o de “velhice” e o de Vale recordar que Hegel caracterizou Roma como “a prosa da vida”, em
dissolução e morte. Assim, por exemplo, a história de Roma é concebida como contraste com a “prístina poesia espontânea” do Oriente e “a poesia harmonio­
estendendo-se em sua primeira fase da fundação até a Segunda Guerra Púnica; sa” da maneira de viver dos gregos (Phil. of Hist. ,288 [350]). Essa caracterização
em sua segunda fase, da Segunda Guerra Púnica até a consolidação do princi­ lembra a distinção de Vico entre as idades dos deuses, dos heróis e dos homens.
pado por César; em sua terceira fase, dessa consolidação até o triunfo do Os romanos não viviam de modo “natural”, e sim “formal”, vale dizer, levavam
cristianismo; e, em sua última fase, do século III até a queda de Bizâncio. Esse uma vida de extrinsequidade e de relacionamentos mediatizados pela força e
movimento através de quatro fases representa quatro níveis de autoconsciência pelo ritual, uma vida fraturada que só se conservava unida graças ao empenho
civilizacional: as fases do em si, do para si, do em para si, e do por, em e para com que agiam nas esferas práticas da política, do direito positivo e da guerra,
si. Essas fases também podem ser tomadas como demarcadoras dos elementos o que lhes deixava pouca energia ou vontade para criar uma arte superior ou
de um drama clássico, com suas fases de pathos, agon, sparagmos e anagnorisis, uma religião ou filosofia profunda, como os gregos criaram. Em suma, os
que têm seus equivalentes espaciais na consolidação e dissolução dos elementos romanos apreendiam o mundo no modo da metonímia (isto é, em termos de
do espírito romano: conflito com inimigos estrangeiros, expansão exterior na contigüidades) e esforçavam-se por alcançar uma compreensão dele num siste­
criação de um império, uma meia-volta sobre si mesma, e uma dissolução que ma de relações puramente sinedóquico. A “realidade” romana não era senão
preparou o terreno para o advento de um novo poder, a cultura germânica, da um campo de força, sua idealidade um mundo de relacionamentos formalmente
qual a própria Roma foi vassala e vítima. ordenados - no tempo (culto dos antepassados; posse de filhos, mulheres e
É digno de nota que se possa encarar essas fases como indicadoras de filhas como propriedade do pater famílias; direito das sucessões etc.) e no
relações existenciais, como maneiras de explicar esses relacionamentos, como espaço (estradas, exércitos, procônsules, muralhas etc.). Ironicamente, tornou-
maneiras de representá-los, ou como maneiras de simbolizar-lhes o “significa­ se vítima de uma cosmovisão e de um espírito que apreendiam sua realidade e
do” dentro de todo o processo do desenvolvimento histórico romano. O impor­ seu ideal em termos precisamente opostos. O cristianismo representa a negação
tante é que, para Hegel, o que Roma foi em qualquer estágio determinado de da eficácia da força para a conquista do espaço e do tempo e a negação do valor
sua evolução não fosse considerado redutível ao que ela fez, a um efeito de um de quaisquer relações meramente formais. O cristão apreende o mundo como
138 HAYDENWHETE META-HISTÓRIA 139

um termo de uma metáfora, da qual o outro termo, dominante, aquele pelo qual unidade para a afirmação do ideal como individualidade - isto é, como causa
o mundo recebe seu sentido e identidade, é concebido como existente em outro autônoma-, vale dizer, redução metonímica. Como disse Hegel, “aquilo que no
mundo. E, longe de reconhecer os direitos de uma compreensão metonímica Oriente está dividido em dois extremos - o substancial como tal e a individua­
ou irônica do mundo, o cristão busca a transcendência de todas as tensões entre lidade absorvida nele - reúne-se aqui. Mas só imediatamente esses princípios
o ideal e a realidade que esses próprios modos de compreensão implicam. distintos estão em união; e conseqüentemente envolvem o mais alto grau de
Logo que percebemos a dinâmica do sistema através do qual Hegel contradição” (107). Por isso é que, na opinião de Hegel, a civilização grega só
caracterizou uma dada fase do processo histórico do mundo, podemos entender pareceu ser uma unidade concreta porque floresceu muito depressa, apenas
mais claramente em termos atuais como ele chegou a suas concepções da origem para definhar e morrer com a mesma rapidez com que tinha surgido. Faltou o
e evolução da história do mundo e por que dividiu-a em quatro períodos princípio em virtude do qual o próprio modo de conceber a união da parte com
principais. Essa divisão corresponde aos quatro modos de consciência repre­ o todo era possível. Roma concebeu esse modo de relacionamento, que era o
sentados pelas modalidades da própria projeção tropológica. Por exemplo, o da sinédoque, mas só formalmente, abstratamente, como dever, pujança, ou
estado de selvageria pode ser assimilado ao estágio em que a consciência poder. Sua “seriedade” representou a transição da história para a maioridade:
humana vive na apreensão de nenhuma diferença essencial entre ela mesma e “Pois a verdadeira maioridade não age nem de acordo com o capricho de um
o mundo da natureza; em que o costume dita a vida sem qualquer reconheci­ déspota, nem em obediência a um hábil capricho próprio; mas trabalha para o
mento das tensões interiores que poderiam ser geradas na sociedade pelo objetivo geral, objetivo em que o indivíduo perece e alcança seu objetivo
direito do indivíduo a aspirar a alguma outra coisa que não aquilo que o costume particular exclusivamente naquele objetivo geral” (Jbid.).
dita como possível aspiração; na ignorância, na superstição e no medo, sem Até aqui caracterizei as três primeiras fases de um enredo trágico clássico,
qualquer percepção de uma meta específica para o povo como uma totalidade; no qual a primeira fase representa opathos, ou estado geral do sentimento, que
sem noção alguma de história, mas num presente infindável; sem nenhuma dá início à ação; a segunda representa o agony ou conflito, que a leva adiante; e
consciência de qualquer idéia abstrata que pudesse gerar reflexão religiosa (em a terceira representa o dilaceramento do tema, o sparagmos, que cria as
contraste com a mítica), artística (em contraste com a artesanal) e filosófica (em condições do dénouement e leva a ação para uma resolução (anagnoriííj). As
contraste com a concreta); num estado antes de repressão que de moralidade, três fases desse drama não deverão, porém, ser resolvidas no modo da tragédia,
que implica a capacidade de escolher; e sem qualquer lei que não seja o domínio muito embora cada fase descreva um padrão de ascensão e queda trágica. A
do mais forte. fase da reconciliação (anagnorisis) para a qual a ação é impulsionada pela
A transição da selvageria para as grandes civilizações do Oriente e do contradição essencial da civilização romana e seu espírito é marcada, não pela
Oriente Próximo, as culturas arcaicas como são chamadas, pode ser assimilada epifania da lei férrea do destino ou da justiça que a tragédia grega clássica
reclamava como sua resolução, mas antes pela demarcação do que parece ser
ao despertar da consciência para a possibilidade da apreensão metafórica, que
é, ela mesma, inspirada pelo senso de diferença entre aquilo com que se está tal lei dentro da visão cristã (cômica) da libertação final do homem do seu
familiarizado e aquilo que é desconhecido. A metáfora é o modo de preencher mundo e de sua reconciliação final com Deus. A visão trágica é anulada na visão
a lacuna entre essas duas ordens de realidade apreendida, e nas civilizações do do todo, que transcende a ironia implícita na resolução da tragédia clássica, na
antigo Oriente estão exemplos do que é essencialmente um modo metafórico qual, embora algo novo se revele à consciência, esse algo novo está sempre
de vida e consciência. O Oriente, escreveu Hegel, é “consciência não reflexiva contrastando com o fundo de um mistério ainda maior, que é o Destino em si.
- existência substancial, objetiva, espiritual (...) com a qual o sujeito mantém Ainda que a fase da história representada pela cristalização de uma nova
uma relação sob a forma de fé, confiança, obediência” (105). Assim, quando civilização na Europa Ocidental pudesse dar a impressão de ser o ingresso da
Hegel equiparou o Oriente ao período de infância na história, sugeria - como humanidade em sua “velhice”, essa conclusão só se justificaria se o análogo
Vico sugerira antes - que o modo de compreender o mundo que emerge naquele adequado da história fosse o do processo natural. Mas, argumentou Hegel, a
lugar num momento determinado é o da simples identificação metafórica do história é, acima de tudo, “espírito”, o que significa que na história, em
sujeito com o objeto. contraposição à natureza, a “maturidade” é a modalidade de “força” e “união”
A transição da infância da história para sua adolescência segue o caminho entrevista na visão cristã da “Reconciliação” da Criação com o Criador (109).
da Ásia Central, onde a individualidade do sujeito se expressa no “tumulto” e A visão trágica é assim transcendida na apreensão de todo o processo do
“turbulência” das tribos que ali se levantaram e desafiaram a ordem monolítica mundo com base na analogia, não com a natureza ou a tragédia clássica ou
imposta pelo governante ao súdito, com base numa unidade que se percebe mesmo a comédia clássica (que somente afirma o direito da vida contra a visão
existir mas que ainda não tem seu fundamento na autoconsciência comum (Jbid., do destino oferecida na tragédia), mas com a “Divina Comédia” cristã, em que,
106). A transição para o mundo grego, a fase da adolescência, passou da no fim, na expressão épica que Dante deu à idéia informadora de sua obra,
apreensão do isolamento do indivíduo dentro da identificação metafórica da tudo afinal vem a repousar em seu lugar apropriado na hierarquia do ser. Mas
140 HAYDENWHITE
META-HISTÓRIA 141

a visão cristã é, ela mesma, apenas uma apreensão metafórica da verdade do


todo. Sua articulação deve ser efetuada através do agon e sparagmos de sua é, intuitivamente, metaforicamente. Mas, uma vez que a união do homem com
relação com o mundo, o que leva a civilização ocidental através do conflito da a natureza, mediatizada apenas pelo costume, se rompe, e a consciência aban­
Igreja e Estado na Idade Média e do conflito das nações nos primórdios do dona as apreensões míticas (ou ingenuamente poéticas) do mundo e passa a
período moderno àquele ponto em que todo o processo da história é finalmen­ uma apreensão da distância entre a consciência e seu objeto (que é o pressu­
te compreendido em princípio como o drama da unificação do homem com posto da existência prosaica ingênua), pode-se dizer que tem início a história,
sua própria essência, vale dizer liberdade e razão, e aponta para o tempo em porque o desenvolvimento histórico, em contraste com a primitiva mudança e
que a perfeita liberdade será a perfeita razão e a razão liberdade, a verdade evolução, só é possível dentro do contexto de uma pressentida contradição entre
do todo, que é o Absoluto, o qual, como disse Hegel, não é senão a própria a consciência e seu objeto. A consciência humana vivência essa tensão como
vida na plena compreensão do que ela é. uma carência que ela procura superar pela imposição de uma ordem, cujas
Isso quer dizer que Hegel podia “colocar” seu próprio tempo dentro de quatro formas aparecem como as subfases do desenvolvimento histórico orien­
uma perspectiva que era manifestamente providencialista por sua natureza mas tal: chinesa, indiana, persa e egípcia sucessivamente.
que, pelo enfoque, não apelava para a fé ingênua ou a crença convencional; ao A própria sucessão dessas quatro fases da civilização oriental pode ser
contrário, fundamentava-se em dados empíricos e na apreensão racional do que compreendida tanto como um drama trágico em quatro atos quanto como um
esses dados significam. O período da Revolução representava para ele o ponto processo em que a consciência passa da apreensão puramente metafórica de
culminante de um período agonístico em que as nações tombavam desagregadas seus projetos civilizacionais, através da metonímia e da sinédoque, para a
em sua alteridade, mas levavam dentro de si os princípios da própria coerência divisão e dissolução irônica. Todo o processo deve ser concebido, de acordo
interna e dos relacionamentos intrínsecos entre elas. Esses princípios represen­ com Hegel, sob o aspecto da conquista da ordem através da imposição de uma
tavam, nas formas sinedoquicamente compreendidas em que Hegel os ordenou vontade arbitrária a materiais humanos (111). A China é, assim, caracterizada
como partes para o todo, as bases da crença na unificação última do mundo como um “despotismo teocrático” que opera no modo de identificação (meta­
numa nova forma de Estado, forma que só pode ser especificada conjetural­ fórica) do súdito (político) com o soberano. Nenhuma distinção formal se faz
mente. A América e a Rússia são prefiguradas como possibilidades para o na civilização chinesa entre as esferas privada e pública, entre moralidade e
desenvolvimento de novos tipos de Estados no futuro, mas o conhecimento legalidade, entre passado e presente, ou entre os mundos interior e exterior. Os
histórico e a compreensão filosófica desse conhecimento têm de deter-se ante imperadores chineses reivindicavam em princípio a soberania sobre o mundo,
o fato de que só são passíveis de consideração aquilo que já ocorreu e aquilo embora fossem incapazes de exercê-la. É um mundo de pura subjetividade,
que está ocorrendo. No máximo podem falar de possibilidades de desenvolvi­ ainda que essa subjetividade esteja concentrada, não nos indivíduos que formam
mento futuro por extensão lógica das tendências já discernidas em todo o o império chinês, mas no “chefe supremo do Estado”, que é o único livre
processo e podem sugerir as formas através das quais o desenvolvimento futuro (112-13).
deve passar na transição da corporificação concreta do espírito humano no
Estado-nação para o Estado-mundo que suas integrações realizadas auguram.
Mas, disse Hegel, no “segundo reino - o reino indiano - vemos a unidade
Que essas formas possuirão, vistas do contexto de um nível superior de da organização política (...) rompida. Os vários poderes da sociedade aparecem
integração de consciência e ser, os mesmos relacionamentos modais que aque­ divididos e livres uns em relação aos outros”. As castas estão definidas, mas
les por que têm passado as fases individuais de todo o processo histórico e por “considerando a doutrina religiosa que as estabeleceu, assumiam o aspecto de
que passou todo o processo histórico através dessas fases, Hegel sugeriu que distinções naturais”. Elas existem no modo da separação causalmente determi­
devia ser verdade, porquanto essas formas são as formas da própria consciên­ nada - isto é, metonímia - e em constante tensão agônica, em contraste com o
cia. A história do mundo só pode ser compreendida em tais termos, pois estas pathos que formalmente unia o governante e os governados, o sujeito e o objeto,
são as modalidades de consciência em suas dimensões de inteligência, emoção no reino chinês metaforicamente orientado. Assim, também, na índia, o despo­
e vontade. A dinâmica interna de uma única fase do processo simboliza a tismo teocrático deu lugar à aristocracia teocrática, com uma correspondente
dinâmica do todo. perda de ordem e direção. Visto que se presume ser a separação inerente à
Por exemplo, o “enredo” da história oriental é em si analisável em quatro própria natureza do cosmos, não pode haver ordem e direção comum na
fases. Hegel caracterizou-lhe o início como uma ruptura com os processos totalidade. O princípio dessa civilização “enuncia a mais severa antítese - a
puramente orgânicos da existência selvagem em que ocorreram a difusão da concepção da unidade puramente abstrata de Deus e dos poderes puramente
linguagem e a formação das raças. A consciência histórica como tal não conhece sensualistas da natureza. A conexão dos dois é apenas uma mudança constante
e não pode conhecer essa existência primitiva. O homem só a conhece como - um incessante precipitar-se de um extremo ao outro -, um furioso caos de
mito e só pode (deu a entender Hegel) compreendê-la no modo do mito - isto variação estéril, que deve parecer loucura a uma consciência inteligente, ade­
quadamente regulada” (113).
142 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 143

O princípio em virtude do qual é possível superar essa separação e afirmar caracterização do enigma da existência humana como adivinhação é ainda outro
a unidade do ser humano em bases mais adequadas à sua tradução em princípios meio de indicar a natureza essencialmente cômica de toda a indagação histórica.
sociais e políticos - isto é, a apreensão (sinedóquica) da natureza espiritual de Não é necessário aqui tratar de toda a articulação do drama da história
todo ser - apareceu na Pérsia, onde, porém, esse “espírito” era ainda imaginado humana que Hegel apresentou na Filosofia da História. O importante é assinalar
em termos de seu análogo material, a pura luz. Assim, escreveu Hegel: que Hegel propôs que nos considerássemos atores num drama que, embora
incognoscível em seu desfecho real, revela a ordem e continuidade de uma peça
A China é peculiarmente oriental; a índia poderíamos comparar com a Grécia; a Pérsia, bem-urdida ou de um argumento dialético, e que, portanto, nos fornece boas
por outro lado, com Roma [Jbid.]. razões para crer que a resolução desse drama não só não será insignificativa
como não será nem mesmo trágica. A visão trágica, é dado o que lhe é devido
Pois não somente o poder teocrático apareceu na Pérsia como monarquia como meio de iluminar determinado aspecto de nossa existência e determinada
como ainda o princípio de que se valia para exercer sua autoridade, o princípio fase tanto da evolução de uma cultura específica quanto da evolução da civili­
espiritual, era interpretado materialmente, e portanto não dispunha de meios para zação em geral. Mas ela é encerrada dentro da perspectiva superior da natureza
conceber seu ideal consciente, o regime da íei, em termos que realmente cômica do todo. Assim também os vários modos pelos quais apreendemos o
mundo e o compreendemos na consciência - os modos da metáfora, da meto-
permitissem o reconhecimento da dignidade do súdito. A unidade da Pérsia era
nímia e da sinédoque - recebem o que lhes é devido como meios a serviço da
concebida em função do “sol benfazejo” que brilha igualmente para todos,
aglutinando as partes no todo num relacionamento puramente extrínseco que consecução daquela consciência superior da natureza imperfeita e fragmentária
é, porém, entendido e vivenciado pelo súdito como benéfico (114). Como em de qualquer compreensão determinada do mundo que é a ironia.
qualquer coerência meramente formal em que o princípio da relação da parte Além dessa postura irônica não podemos ir à ciência, porque, visto que
com o todo é apreendido como fundamental, o império persa permitiu a existimos na história, jamais poderemos conhecer a verdade final a respeito da
cristalização e o desenvolvimento de povos diferenciados, como os judeus, no história. Podemos, porém, entrever a forma que aquela verdade assumirá - sua
entendimento equivocado de que é possível tolerar que tais partes se desenvol­ forma como harmonia, razão, liberdade, a unidade de consciência e ser que é
vam sem fraturar ou rebentar a unidade supostamente espiritual do todo (Ibid.). intuída na religião, metaforicamente figurada na arte, metonimicamente carac­
Que o desenvolvimento da parte de modo a não ameaçar a unidade do terizada na ciência, sinedoquicamente compreendida na filosofia e ironicamen­
todo é impossível provam-no dois fatos: a rebelião dos gregos da Jônia, que te distanciada e tornada objeto de maiores esforços de compreensão na própria
sustentaram o valor absoluto da individualidade contra uma universalidade consciência histórica. A justificação desses esforços de compreensão cada vez
especiosa; e a dos egípcios, que reafirmaram os direitos da materialidade contra maiores, em face da percepção irônica de sua inevitável limitação, é proporcio­
uma especiosa espiritualidade. nada pela própria arte, na visão cômica do caos de formas que se torna uma
festa, uma jubilosa afirmação do todo.
No Egito, disse Hegel, as “antíteses em sua forma abstrata se rompem;
ruptura que as anula” (115). Os egípcios apreendiam o mundo ironicamente, O movimento decorrente da percepção do mundo através das modalida­
como uma condição cismática em que a separação de espírito e matéria é des - religiosa, artística, científica, filosófica e histórica - de compreensão dele
vivenciada como dor e ansiedade profundas. Por isso, a cultura egípcia apre­ (cada modalidade de compreensão tomando a precedente como simplesmente
sentava o aspecto “dos princípios mais contraditórios, que ainda não são uma apreensão) reflete o movimento essencial do ser em sua atualização, e da
capazes de harmonizar-se, mas, propondo o nascimento dessa harmonia como consciência em sua realização, na história. A consciência histórica em si nasce
o problema a resolve?', transformam-se num “enigma” para si e para os outros. ao mesmo tempo que um modo especificamente histórico de existência na
O enigma seria resolvido finalmente - e com sua solução proporcionava-se o história da humanidade. Dos gregos até a época mesma de Hegel, essa cons­
princípio para a transição para um novo mundo - na Grécia. A solução do ciência histórica tornou-se “para si”, separando-se de outras formas de cons­
“enigma” era, evidentemente, a solução que Édipo deu ao enigma da Esfinge ciência, e foi utilizada por historiadores individuais para a produção dos vários
que ele encontrou na convergência das três estradas ao dirigir-se para Tebas tipos de histórias “reflexivas” que eles realmente escreveram. O ato mesmo de
(220-21). O enigma que os egípcios não sabiam resolver era o “homem”, mas o escrever a história cria a oportunidade para um terceiro tipo de reflexão
histórica - isto é, reflexão sobre a natureza da própria consciência histórica e
fato de que a solução tenha sido encontrada, não no Oriente, mas no Ocidente
sobre sua relação com o ser histórico - e promove aquelas que são efetivamente
(no mito de Édipo, a Esfinge viajou para a Grécia), dá a entender que o
as precondições de um tipo superior de consciência em geral dentro da cons­
incremento feito na consciência humana pela trágica ascensão e queda de uma
ciência religiosa, artística, científica e filosófica.
ou outra das encarnações da humanidade numa cultura específica é oferecido,
não à cultura em si, mas à cultura que o procura, à cultura que logra solver o A religião, a arte, a ciência e a filosofia refletem, elas mesmas, os diferentes
“enigma” criado pela consciência irônica da lei em sua própria estrutura. A estágios do confinamento de uma dada civilização (e da consciência-em-geral)
144 HAYDENWHITE
Parte II

com seu objeto (que, no caso da consciência em geral, é o puro ser). Estes
podem ser usados para caracterizar a qualidade da apreensão e compreensão, QUATRO TIPOS DE “REALISMO"
por uma cultura, de si mesma e de seu mundo na medida em que se desenvolvem NA ESCRITA HISTÓRICA
no tempo nas modalidades do em-, para-, em-e-para, e em-para-e-por-si, que
por sua vez suprem os modos de caracterização dos quatro estágios através dos DO SÉCULO XIX
quais todas as civilizações passam desde o nascimento até a morte. Mas a
apreensão da natureza desses quatro estágios pela história filosófica, do tipo
proposto por Hegel em sua obra, reflete o aparecimento de uma ordem ainda
mais alta de consciência que fornece o fundamento para transcender a natureza
“irônica” da relação da consciência com o ser em geral e do relacionamento da
civilização com suas várias encarnações na história do mundo. Esse novo modo
de consciência representa a subida à consciência da visão cômica do processo
do mundo, que agora não apenas afirma õ primado da vida sobre a morte em
face de qualquer situação trágica determinada como também conhece as razões
dessa afirmação.
MICHELET
0 REALISMO HISTÓRICO
COMO ESTÓRIA ROMANESCA

INTRODUÇÃO

Hegel, o crítico de todos os historiadores que o antecederam, foi a


consciência histórica da época que a ele se seguiu. Ninguém chegou perto de
alcançar o nível de perspicácia e profundidade de sua investigação do problema
da consciência histórica, nem mesmo Croce, o filósofo que mais se assemelhou
a ele no temperamento e na amplitude de interesses. Mas, nessa época, poucos
pensadores da história desejavam penetrar no interior de suas próprias precon-
cepções sobre a história e no tipo de conhecimento a extrair desse estudo.
Aqueles que tinham por profissão estudar a história estavam ocupados demais
em escrevê-la e não se detinham nq exame das bases teóricas de sua atividade.
A justificação do conhecimento histórico que Hegel procurara ministrar pare­
cia não só desnecessária como desnecessariamente prolixa. O estudo da história
profissionalizou-se ao longo dos mesmos anos que Hegel passou meditando
sobre o problema da justificação teórica desse estudo como forma especial de
consciência e tentando definir-lhe o relacionamento com a arte, a ciência, a
filosofia e a sensibilidade religiosa. E essa transformação da história, de área
geral de estudo, cultivada por amadores, diletantes e antiquários, numa disci­
plina profissional parecia justificação suficiente para o rompimento da historio­
grafia com as infindáveis especulações dos “filósofos da história”.
Cátedras de história foram criadas na Universidade de Berlim em 1810 e
na Sorbonne em 1812. Logo depois fundaram-se sociedades dedicadas à com­
pilação e publicação de documentos históricos: a sociedade dos Monumenta
Germaniae Histórica em 1819, a École des Chartes em 1821. As subvenções
148 IIAYDEN W1HTE META-H1STÓRIA 149

governamentais a essas sociedades vieram a seu devido tempo, na década de história maçante é geralmente má história, e teremos o mais alto apreço por
1830. Depois dos meados do século surgiram os grandes periódicos nacionais aqueles colaboradores que apresentarem suas pesquisas numa forma lúcida e
de estudos históricos: a Historische Zeitschrift em 1859, a Révue historique em eficaz”.
1876, a Rivista Storica Italiana em 1884 e a English Historical Review em 1886.
A idéia geral era que, dada a brecha que se abrira entre as ciências
Progressivamente a profissão academizou-se. O professorado formava uma
“rigorosas” (positivistas) e as artes “livres” (românticas) durante a primeira
clerezia voltada para a promoção e o cultivo de uma historiografia socialmente
metade do século XIX, a história poderia legitimamente pretender ocupar um
responsável; preparava e diplomava aprendizes, mantinha padrões de excelên­
terreno neutro intermediário com base no qual seria possível aproximar e reunir
cia, dirigia os órgãos de comunicação intraprofissional e em geral desfrutava de
as “duas culturas” no interesse comum das metas da sociedade civilizada. Assim
lugar privilegiado nos setores humanísticos e sociocientíficos das universidades.
se expressava a nota preliminar da EHR:
Nessa disciplinarização do campo da história, a Inglaterra atrasou-se em relação
às nações do continente. Oxford só em 1866 criou o Regius Professorship of Acreditamos que a história, num grau ainda mais elevado do que tem sido até aqui
History, que teve como primeiro titular Stubbs; Cambridge seguiu-lhe os passos reconhecido por seus cultores, é o ramo central dos estudos humanos, capaz de iluminar e
em 1869. Mas só a partir de 1875 os universitários ingleses puderam especiali­ enriquecer tudo o mais [Stem, Varieties, 177]r
zar-se em estudos históricos como área acadêmica específica.
Mas, a fim de atingir essa meta de iluminação e enriquecimento, era
Entretanto, se os estudos históricos se profissionalizaram nesse período, preciso que a história fosse cultivada num espírito que ultrapassasse os interes­
a base teórica dessa disciplinarização continuou indefinida. A transformação ses partidários e as fidelidades confessionais. Isso queria dizer que era neces­
do pensamento histórico, de atividade amadora em profissional, não foi acom­ sário manter as pesquisas e generalizações históricas dentro dos limites de uma
panhada pelo tipo de revolução conceptual que acompanhou tais transforma­ modéstia essencial, contornando os perigos de estreiteza por um lado e vagueza
ções em outros campos, como a física, a química e a biologia. A instrução no por outro. Como assinalou a EHR, duas visões da função da história prevaleciam
“método histórico” consistia essencialmente na recomendação de usar as téc­ em meados do século: uma, que era simplesmente outra forma de comentário
nicas filológicas mais refinadas na crítica dos documentos históricos, combinada político, e, outra, que era comentário sobre tudo o que tivesse algum dia
com um conjunto de prescrições acerca do que o historiador não devia tentar acontecido no tempo humano. A EHR propunha evitar os dois extremos esti­
fazer com base nos documentos assim criticados. Por exemplo, logo se tornou mulando a colaboração proveniente de “estudiosos de cada departamento
lugar-comum dizer que a história não era um ramo da metafísica ou da religião, especial” (175) de estudos históricos e, acima de tudo, “recusando colaborações
as quais, ao misturarem-se com o conhecimento histórico, levavam a consciência que discutem (...) questões relacionadas às controvérsias atuais” (176).
histórica a “incorrer” nas heresias da “filosofia da história”. Ao invés disso,
afirmava-se, a história devia ser vista como combinação de “ciência” e “arte”. Nessa proposta a EHR seguiu a orientação sugerida pela Révue historique
Mas os sentidos dos termos “ciência” e “arte” não eram claros. Sem dúvida era - isto é, “evitar controvérsias contemporâneas, tratar os assuntos (...) com a
evidente que o historiador devia tentar ser “científico” em sua investigação dos rigidez metodológica e a ausência de partidarismo que a ciência exige, e não
documentos e em seus esforços por determinar “o que de fato aconteceu” no procurar argumentos pró ou contra doutrinas que estão apenas indiretamente
passado, e que devia representar o passado “artisticamente” para seus leitores. envolvidas” (173). Mas esse apelo à “rigidez” metodológica e ao apartidarismo
Mas em geral admitia-se que a história não era uma ciência “rigorosa” (uma se fazia na ausência de qualquer noção, salvo as mais gerais, daquilo em que
disciplina aplicadora ou descobridora de leis) como a física e a química. Isto é, consistiriam. Na verdade, o objetivo era, como o prefácio ao primeiro número
a história não era uma ciência positivista, e o historiador devia contentar-se com da Historische Zeitschrift deixou bem claro, afastar o estudo histórico dos usos
uma concepção baconiana, empírica e indutivista da tarefa do cientista, o que a que estava sendo submetido por radicais e reacionários da cena política e
queria dizer que a historiografia devia permanecer uma ciência pré-newtoniana. servir - através da disciplinarização dos estudos históricos - aos interesses e
E o mesmo se dizia do componente “artístico” na representação histórica. valores das novas ordens e classes sociais que tinham chegado ao poder depois
Ainda que arte, a escrita histórica não devia ser encarada como o que se da Era Revolucionária.
chamava no início do século XIX uma “arte livre” - isto é, uma arte criativa do
tipo que os poetas e romancistas românticos cultivavam. Como forma de arte, A Historische Zeitschrift fez questão de se apresentar como um periódico
a escrita histórica poderia ser “vívida” e estimulante, até “recreativa”, contanto “científico”, cujo objetivo era “representar o verdadeiro método de pesquisa
que o historiador-artista não ousasse utilizar qualquer outra coisa que não histórica e apontar os desvios desse método”. Mas também fez questão de dizer
fossem as técnicas e estratagemas da novelística tradicional. Como diz a nota que não se imaginasse que seus interesses fossem estreitamente antiquários ou
preliminar do primeiro número da English Historical Review (EHR): “Assim, intrinsecamente políticos. “Não é nosso objetivo”, lê-se no prefácio a seu
longe de sustentarmos que a verdadeira história é maçante, acreditamos que primeiro número, “debater questões não resolvidas de política atual, nem
150 HAYDEN WHITE METAHISTÓRIA 151

comprometer-nos com um partido político em particular.” Não pareceu “con­ românticos foram eximidos da acusação. Enquanto os historiadores defletiam
traditório”, porém, excluir como enfoques legítimos do estudo histórico os a consciência para o estudo do passado, os poetas projetavam-na num futuro
pontos de vista representados pelo “feudalismo, que impõe elementos inanima­ indefinido, convertendo o presente em nada mais do que uma vaga antevisão
dos à vida progressiva; [pelo] radicalismo, que substitui o desenvolvimento do que poderia ter sido ou poderia ainda ser, mas em ambos os casos sugerindo
orgânico pelo capricho subjetivo; [e pelo] ultramontanismo, que sujeita a evo­ que os homens existentes não eram fins em si mesmos mas exclusivamente os
lução espiritual nacional à autoridade de uma Igreja forânea” (171-72). Tudo meios para alcançar uma Humanitàt obscuramente entrevista. Nem a história
isso queria dizer que a profissionalização dos estudos históricos tinha de fato “científica” nem a poesia “estética”, disse Heine,
implicações políticas e que a “teoria” em que sua cientização em última análise
se baseava não era senão a ideologia dos setores médios do espectro social, harmoniza-se plenamente com o nosso vigoroso sentimento da vida. Por um lado, não desejamos
representados pelos conservadores de um lado e pelos liberais do outro. ser incitados inutilmente e apostar o melhor que possuímos num passado vão. Por outro lado,
também exigimos que o presente vivo seja avaliado como merece c não sirva apenas de meio para
Realmente, tanto na França quanto na Alemanha o destino acadêmico de um fim distante. O fato é que nós nos consideramos mais importantes do que meros meios para
historiadores e filósofos de esquerda acompanhou o crescimento e o declínio um fim. Acreditamos que meios e fins não passam de conceitos convencionais, que o homem
do próprio radicalismo. Isso significou o decesso da maioria deles. Em 1818, meditabundo julgou ler na natureza e na história, e dos quais nada sabe o Criador. Pois toda criação
Victor Cousin e Guizot foram demitidos da Sorbonne por ensinarem “idéias” tem finalidade em si mesma e todo acontecimento é autocondicionado, e tudo - o próprio mundo
em lugar de “fatos” (Liard, II, 157-69). Feuerbach e D. F. Strauss tiveram suas todo - está aqui, por direito próprio [Ewcn ed., 810].
carreiras bloqueadas na academia alemã por suas idéias “radicais”. Em 1850 a
liberdade de ensino foi revogada nas universidades francesas em vista da E concluiu com um desafio aos conceitos anti-sépticos de história cultiva­
necessidade de proteger a “sociedade” contra a ameaça de “ateísmo e socialis­ dos pelos historiadores profissionais de um lado e à filosofia hospitalar dos
mo” (23). Michelet e Quinet e o poeta polonês Mickiewicz foram despedidos, poetas românticos do outro:
“livros perigosos” foram banidos e os historiadores foram especificamente
proibidos de se afastarem da ordem cronológica na apresentação de seus A vida não é nem meio nem fim. A vida é um direito. A vida deseja ratificar esse direito
materiais (246). E dessa vez Cousin e Thiers, vítimas anteriormente de discri­ contra as pretensões da morte petrificadora, contra o passado. Essa justificação da vida é a
Revolução. A indiferença elegíaca de historiadores e poetas não deverá paralisar nossas energias
minação política, apoiaram as medidas repressivas (234). Não admira que o
quando estivermos empenhados nessa empresa. Nem deverão as visões românticas daqueles que
poeta e revolucionário Heine reservasse algumas de suas farpas mais agudas nos prometem a felicidade no futuro induzir-nos a sacrificar os interesses do presente, a luta
para os historiadores profissionais e os cultores do humanismo acadêmico. imediata pelos direitos do homem, o direito à própria vida [809-10].
Escrevendo no exílio em Paris, Heine fustigou o professorado, que escon­
dia seu apoio a regimes repressivos por trás da máscara da objetividade e do Em sua justaposição dos direitos da vida às pretensões do passado morto
estudo desinteressado do passado, e assim iniciou uma ofensiva contra o saber e do futuro ainda não nascido, Heine precedeu o ataque de Nietzsche, na década
acadêmico que seria seguida por Marx e Nietzsche, da esquerda e da direita de 1870, a todas as formas de historiografia acadêmica, ataque que correu o
respectivamente, e que culminaria na última década do século numa revolta risco de se tornar um clichê na literatura nos anos de 1880 (Ibsen), 1890 (Gide,
generalizada de artistas e cientistas sociais contra o fardo da consciência Mann) e no início da década de 1900 (Valéry, Proust, Joyce, D. H. Lawrence).
histórica em geral.

Zu fragmentarisch ist Welt und Leben! OS CLÁSSICOS DA HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XIX


Ich will mich zum deutschen Professor begeben.
Der weiss das Leben zusammenzusetzen,
Und er macht ein verstândlich System daraus; Entretanto, o período compreendido entre 1821 (ano do ensaio de Wi-
Mit seinen Nachtmützen und Schlafrockfetzen lhelm von Humboldt, “Sobre a Tarefa do Historiador”) e 1868 (ano do Historik
Stopfterdie Lücken des Weltenbaus [Stôssinger ed., 116]. de Droysen) produziu as obras que ainda servem de modelos para o moderno
labor historiográfico de profissionais e amadores. Um simples arrolamento dos
Os filósofos da história, os filósofos da natureza, os estetas à moda de trabalhos de quatro mestres incontestes da historiografia do século XIX bastará
Goethe e os “sabichões” da escola histórica estavam todos envolvidos, sustentou para indicar o alcance e a profundidade desse esforço de compreender o
Heine, numa conspiração para refrear “a febre terçã de liberdade do povo passado de maneira a iluminar os problemas contemporâneos. Os mestres de
alemão”. Os historiadores em especial eram “bajuladores e intrigantes” (Ran~ que estamos falando são Jules Michelet (1798-1877), o gênio tutelar da escola
ken und Ranken) (98), que cultivavam um “fatalismo conveniente e apazigua­ romântica da historiografia; Leopold von Ranke (1795-1886), o fundador da
dor” como antídoto para a inquietação política. Nem mesmo os poetas escola histórica, o historicista par excellence, e o paradigma da historiografia
152 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 153

acadêmica; Alexis de Tocqueville (1806-1859), o virtual fundador da história gregos. Cada uma das quatro espécies de história reflexiva que tinham apareci­
social e protótipo dos modernos sociólogos históricos Émile Durkheim e Max do no desenvolvimento da reflexão histórica desde os gregos havia representado
Weber; e, finalmente, Jacob Burckhardt (1818-1897), o historiador cultural uma forma superior de autoconsciência histórica. A própria filosofia da história,
arquetípico, cultor de uma historiografia estética e expoente do estilo impres­ como Hegel a concebia, não era senão a explanação dos princípios subjacentes
sionista de representação histórica. As obras em apreço são: à “história reflexiva” e de sua sistemática aplicação ao problema de escrever a
história universal de uma maneira mais elevada, mais autoconscientemente
1824 Ranke, Histórias dos Povos Latinos e Germânicos “reflexiva”. Ele não sugeriu que os próprios historiadores tentassem escrever
1827 Michelet, tradução da Ciência Nova de Vico tal história universal, mas insistiu em que deixassem a composição dela para os
1828 Miçhelet, Compêndio de História Moderna filósofos, porque só os filósofos eram capazes de compreender o que estava
1829 Ranke, História da Revolução Sérvia implícito na realização da historiografia reflexiva, de alçar-lhe os princípios
1831 Michelet, Introdução à História Universal epistemológicos, estéticos e éticos à consciência, e portanto de os aplicar ao
1833- 1844 Michelet, História da França, seis volumes sobre a Idade Média problema da história da humanidade em geral.
1834- 1836 Ranke, História dos Papas Essa maneira de distinguir entre historiografia e filosofia da história não
1835- 1840 Tocqueville,/! Democracia na América'"'
era geralmente entendida ou, quando era entendida, admitida, pelos historia­
1839-1847 Ranke, História da Alemanha no Tempo da Reforma
1846 Michelet, O Povo dores oitocentistas. Para a maioria deles, a “filosofia da história” representava
1847 Ranke, Nove Livros de História Prussiana o esforço de escrever história com base em preconcepções filosóficas que
1847-1853 Michelet, História da Revolução Francesa exigiam a submissão dos dados ao esquema alcançado por um raciocínio
1852-1861 Ranke, História da França nos Séculos ÀT7 e XVII apriorístico. O “método histórico” - como os historiógrafos clássicos do século
1853 Burckhardt,/! Epoca de Constantino, o Grande XIX entendiam a expressão - consistia numa disposição de ir aos arquivos sem
1856 Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução i
quaisquer preconcepções, estudar os documentos lá encontrados e em seguida
1859-1868 Ranke, História da Inglaterra no Século XVII escrever uma estória acerca dos acontecimentos atestados pelos documentos
1860 Burckhardt,/! Civilização do Renascimento na Itália de modo a fazer da própria estória a explicação “do que tinha acontecido” no
1872-1873 Michelet, História do Século XIX
passado. A idéia era deixar a explicação emergir naturalmente dos próprios
documentos e depois exprimir seu significado em forma de estória.
As obras de muitos outros historiadores, quase tão eminentes, poderiam
ser acrescentadas a essa lista: as dos grandes historiadores clássicos Grote, A noção de que o próprio historiador punha em enredo os acontecimentos
Droysen, Mommsen e Fustel de Coulanges; dos medievalistas Stubbs e Mai- encontrados nos documentos era apenas vagamente intuída por pensadores
tland; dos nacionalistas Von Sybel e Treitschke; dos chamados doutrinários sensíveis ao elemento poético presente em todos os esforços de descrição
Thierry e Guizot; ou dos filósofos da história Comte, Spencer, Buckle, Gobi- narrativa - por um historiador como J. G. Droysen, por exemplo, e por filósofos
neau, Hegel, Feuerbach, Marx e Engels, Nietzsche eTaine. Mas nenhum desses, como Hegel e Nietzsche, mas por poucos outros. Ter insinuado que o historia­
exceto talvez os incluídos entre os filósofos da história, pode dizer-se possuidor dor punha em enredo suas estórias teria ofendido a maioria dos historiadores
da autoridade e prestígio dos quatro mestres: Michelet, Ranke, Tocqueville e oitocentistas. Que diferentes “pontos de vista” fossem aplicados ao passado
Burckhardt. Pois, embora os outros tenham criado campos inteiros de estudo e ninguém negava, mas esses “pontos de vista” eram encarados mais como vieses
possam ser vistos como representantes de diversos padrões de reflexão histórica a serem suprimidos do que como perspectivas poéticas que poderiam iluminar
do século XIX, só estes quatro - Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt - tanto quanto obscureciam. A idéia era “contar a estória” do “que tinha acon­
ainda servem de paradigmas de uma consciência histórica distintivamente tecido” sem resíduo conceptual significativo ou prcformação ideológica dos
moderna. Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt representam não somen­ materiais. Se a estória fosse contada corretamente, a explicação do que tinha
te realizações originais na escrita da história mas também modelos alternativos acontecido viria à superfície da narrativa, da mesma forma que a estrutura dc
do que uma historiografia “realista” poderia ser. uma paisagem seria delineada por um mapa adequadamente desenhado.
Uma história podia ter um componente explicativo, como a “legenda” de
um mapa, mas esse componente tinha de ser relegado a um lugar na periferia
A HISTORIOGRAFIA CONTRA A FILOSOFIA DA HISTÓRIA da própria narrativa, do mesmo modo que a legenda do mapa. A “legenda” de
uma história devia ser posta numa cercadura especial, por assim dizer, contida
Em sua Filosofia da História, Hegel procurou oferecer justificação teórica nas “observações gerais” com que os autores prefaciavam suas histórias ou as
a um tipo de reflexão histórica que ele considerava incomparável para a época concluíam. A verdadeira explicação residia na narração de uma estória que
moderna. O que chamava de “história original” existira desde o tempo dos fosse ao mesmo tempo precisa nos pormenores e convincente em seu significa­
154 HAYDENWHTTE META-HISTÓRIA 155

do. Mas a precisão dos pormenores muitas vezes se confundia com a verdade para o problema de como escrever história, tendo escolhido os modos da estória
do sentido da estória. Não se percebia que o sentido da estória era dado pelo romanesca, da comédia, da tragédia e da sátira para colocá-la em enredo. Mas
modo escolhido de elaboração do enredo para fazer da estória contada uma assumiram diferentes posições ideológicas diante do campo histórico: anarquis­
estória de tipo particular. Não se entendia que a própria escolha de um modo de ta, conservadora, liberal e reacionária respectivamente. Nenhum deles foi um
elaboração de enredo refletia o compromisso com uma filosofia da história, e radical. Os protocolos lingüísticos em que prefiguraram esse campo foram
que Hegel chamara a atenção para isso ao examinar a história como forma de também diversos: metafórico, sinedóquico, metonímico e irônico.
arte literária em sua Estética.
Qual era, então, a diferença entre “história” e “filosofia da história”? Os
quatro mestres historiadores do século XIX deram diferentes respostas a essa A HISTORIOGRAFIA ROMÂNTICA COMO “REALISMO”
pergunta, mas todos concordavam em que uma verdadeira história devia ser NO MODO METAFÓRICO
escrita sem preconcepções, objetivamente, por puro interesse pelos fatos do
passado, e sem nenhuma tendência apriorística a modelar os fatos num sistema Na introdução ao meu capítulo sobre o pensamento histórico do século
formal. No entanto, o atributo mais evidente das histórias escritas por esses XVIII sugeri que o “realismo” de seu equivalente oitocentista consistiu primor­
mestres era sua coerência formal, seu domínio conceptual do campo histórico. dialmente na tentativa de justificar a crença no progresso e no otimismo,
Dos quatro, Burckhardt foi o que melhor conseguiu dar a impressão de alguém evitando ao mesmo tempo a ironia a que osphilosophes tinham sido conduzidos.
que simplesmente deixa que os fatos “falem por si mesmos” e o que manteve os A historiografia romântica, sugiro agora, representa um retorno ao modo
princípios conceptuais de suas narrativas mais completamente enterrados na metafórico no que se refere à caracterização do campo histórico e seus proces­
textura de suas obras. Mas mesmo as histórias impressionistas de Burckhardt sos, mas sem a adoção da estratégia explicativa organicista com que Herder o
têm uma coerência formal própria, a coerência da “sátira”, a forma na qual a tinha sobrecarregado. Os românticos repudiaram todos os sistemas formais de
alma hipersensível representa a loucura do mundo. explicação e tentaram conseguir um efeito explicativo utilizando o modo meta­
Com exceção de Tocqueville, nenhum desses historiadores introduz o fórico para descrever o campo histórico e o mythos da estória romanesca para
argumento explicativo formal no primeiro plano da narrativa. Para extrair os representar-lhe os processos.
princípios de que eles se socorrem tem-se de inferir implicações do que é dito
na linha narrativa das histórias que escrevem. Isso quer dizer, porém, que o peso
do efeito explicativo é lançado sobre o modo de elaboração do enredo. E, de O CAMPO HISTÓRICO COMO CAOS DO SER
fato, o “historicismo” de que Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt são,
como hoje se reconhece, igualmente representantes pode ser de certo modo Esse repúdio de todos os sistemas formais de explicação não deve ser
caracterizado como simples substituição da argumentação como estratégia tomado ao pé da letra, porém, pois os românticos em sua maioria pressupunham
explicativa pela elaboração do enredo. Quando, à maneira de Ranke, preten­ uma teoria do conhecimento adequada à caracterização do campo histórico
diam estar simplesmente “contando o que de fato aconteceu” e explicando o como aquilo a que Carlyle deu o nome de “Caos do Ser”, a respeito do qual o
passado ao contar sua “estória”, estavam todos explicitamente adotando a historiador podia assumir uma postura como observador e agente dos processos
concepção da explicação pela descrição, mas na verdade estavam praticando a desse caos. Em românticos do tipo de Constant, Novalis e Carlyle, para tomar
arte da explicação pela elaboração do enredo. Cada um contou um tipo de três exemplos, essa noção de “Caos do Ser” da história inspirou três atitudes
estória diferente - estória romanesca, comédia, tragédia ou sátira - ou pelo distintas, cada uma das quais implicava uma concepção diferente da tarefa do
menos pressupôs uma ou outra dessas formas de estória como arcabouço geral historiador. A posição de Constant representa uma variante romântica do ponto
para o segmento de história que descrevia em detalhe. As “filosofias da história” de vista irônico herdado do final do século XVIII, mas que se tornou mais niilista
que eles representavam devem ser caracterizadas, então, não só em função das pelo tom da resposta dele aos acontecimentos da Revolução e da Reação. Uma
estratégias explicativas formais que adotavam mas também em função dos de suas caracterizações do mundo histórico pode ser tomada como representa­
modos de elaboração de enredo que escolhiam para armar ou informar a estória tiva do sentimento de apreensão que a reflexão histórica de sua época pretendia
que narravam. transcender. Num trecho que figura no ensaio “Sobre a Religião”, Constant
Mas ainda mais importante do que o modo de elaboração de enredo que escreveu:
escolhiam para dar forma às estórias que contavam é o modo de consciência em O homem, vencedor dos combates em que se empenhou, olha para um mundo despovoado
que prefiguravam o campo histórico como um domínio, a postura que assumiam de espíritos protetores e espanta-se com sua vitória. (...) Sua imaginação, ociosa agora e solitária,
perante essa estrutura, e o protocolo lingüístico em que o caracterizavam. Os volta-se para si mesma. Ele se vê sozinho numa terra que pode tragá-lo. Sobre essa terra as gerações
quatro mestres historiadores do século XIX representam diferentes soluções se sucedem, transitórias, fortuitas, isoladas; aparecem, sofrem, morrem. (...) Nenhuma voz das
156 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 157

raças que já não existem se prolonga na vida das raças ainda vivas, e a voz das raças vivas não tardará
a ser sorvida pelo mesmo silêncio eterno. Que há de fazer o homem, sem memória, sem esperança,
entre o passado que o abandona e o futuro que está fechado diante dele? Suas invocações já não Que o espectador honesto contemple serena e desapaixonadamente a nova era estatoclasta.
são ouvidas, suas orações não recebem resposta. Ele repeliu todos os pontos de apoio com que (...) Todos os vossos esteios serão demasiado fracos se o vosso Estado se mantiver inclinado para
seus predecessores o tinham cercado; está reduzido às suas próprias forças [citado em Poulet, a terra. Mas prendei-o por uma aspiração superior às altitudes celestes, estabelecei a relação dele
Studies, 212]. com o universo, e tereis nele uma mola infatigável, e vereis todos os vossos esforços abundante­
mente recompensados [56].

Essa passagem é claramente irônica. Sua ironia essencial é assinalada pela


Novalis punha sua esperança numa nova forma de cristianismo, nem
frase de abertura, em que uma humanidade aparentemente “vitoriosa” se
católico nem protestante, mas cosmopolita e unificador. E acreditava que
“espanta” com a realização daquilo por que tanto havia lutado e que afinal se
deveria encontrar uma justificação para sua esperança no estudo da história.
concretiza. Mas essa vitória se volta contra o próprio homem, porque agora o
“Eu vos remeto à história”, disse ele. “Procurai no seio de sua instrutiva
homem “se vê sozinho”, ocupante de um mundo “que pode tragá-lo”. A ameaça
coerência pontos paralelos do tempo e aprendei a usar a varinha mágica da
a que os homens estão agora expostos é identificada por Constant como
decorrente da descoberta da futilidade da história, da apreensão da absurda analogia” (Ibid.). Assim o homem finalmente descobriria o espírito da palavra
cristã e ultrapassaria a interminável substituição de uma “letra” por outra.
seqüência das gerações, que “se sucedem, transitórias, fortuitas, isoladas; apa­
recem, sofrem, morrem”. Nenhum consolo pode advir da reflexão sobre as “Deverá a letra dar lugar à letra?”, perguntou. “Estareis à procura do germe da
relações entre as gerações: as “vozes” das gerações passadas não proporcionam deterioração na velha ordem também, no velho espírito? E vos imaginais numa
posição melhor para o entendimento de um melhor espírito?” (Ibid.) A salva­
ajuda ou conselho aos vivos; e os vivos têm de enfrentar um mundo em que eles,
também, logo serão consumidos e relegados ao “mesmo silêncio eterno”. Os ção, insistiu Novalis, não estava nem numa volta sentimental à velha ordem nem
numa adesão doutrinária à “letra” de uma ordem nova, mas antes numa fé que
vivos estão assim colocados entre um “passado” que os “abandona” e um
tomasse o “espírito” mesmo da história como modelo.
“futuro” que está “fechado”; são obrigados a viver “sem memória, sem espe­
rança”. Todos os costumeiros “pontos de apoio” da vida comunal se desinte­
graram, e o homem está reduzido a “suas próprias forças”; mas essas forças, Oxalá o espírito das forças vitais vos insufle e desistais desse tolo afã de modelar a história
e a humanidade e dar a ela vossa orientação! Não é ela independente, não é ela dotada de energia
sugere claramente o texto transcrito, são inadequadas para o prosseguimento
própria, não é infinitamente amorável e profética? Estudá-la, segui-la, aprender com ela, marchar
das tarefas que todas as sociedades e civilizações anteriores estabeleceram para em cadência com ela, observar honestamente suas promessas e indicações - nisso ninguém pensa
si mesmas. A consciência humana é portanto dada como inapta não só para a [JbàZ.].
compreensão da realidade mas também para o exercício de qualquer controle
efetivo sobre ela. Os homens estão à deriva num mar histórico ainda mais As idéias de Novalis são tão “míticas” como as de Constant, isto é,
ameaçador do que o mundo natural com que os primitivos selvagens se defron­ representam uma disposição de espírito, um estado de alma, que foi elevada à
taram em sua ignorância e debilidade na aurora do tempo humano. condição de verdade. O misticismo histórico de um aparece em contraste direto
Era precisamente essa postura irônica diante da história que os sistemas com o pirronismo do outro, mas são igualmente dogmáticos. Este propôs
filosóficos dominantes do início do século XIX pretendiam superar e suplantar resolver o problema da vida afirmando a futilidade da história, aquele asseve­
com uma concepção teoricamente mais fundamentada das aptidões do homem rando que o único sentido que a vida pode ter deve vir da fé acrítica no poder
para controlar o próprio destino e dar sentido e direção à história. As tendências da história de suprir seu próprio sentido e a crença em que os homens devem
metafísicas da época, refletidas nos grandes sistemas do idealismo, do positivis­ “seguir” a história do mesmo modo que, no passado, tinham seguido a religião.
mo e do romantismo, procuravam dissolver o tipo de atitude irônica que A mesma condição que Constant vivenciou como pesadelo, Novalis apreendeu
pensadores como Constant, em seu desespero, julgavam ser a única forma que como material para um sonho de salvação.
o “realismo” podia assumir na época pós-revolucionária. Cumpre notar, porém, que as duas posições assim esboçadas gerariam o
A reação romântica a esse estado de angoisse tomou duas formas, uma mesmo tipo de historiografia. Em ambos os casos o acontecimento individual
predominantemente religiosa, a outra estética. Exemplo da reação religiosa é assumiria um valor que não teria numa historiografia regida por algum padrão
Novalis, que, em face do ceticismo e niilismo dos últimos momentos do Ilumi- crítico, em que o historiador tivesse de distinguir entre acontecimentos insigni­
nismo e do imediato período pós-revolucionário, simplesmente sustentava - ficantes e significativos no registro histórico. Para Constant, todos os aconteci­
bem à maneira de Herder - a natureza redentora do próprio processo histórico. mentos eram igualmente insignificantes como contribuição para a busca dc
Em Cristandade ou Europa, ele afirmou que a ansiedade da sua época provinha sentido empreendida pelo homem; para Novalis, todos os acontecimentos eram
da incapacidade de reconhecer a inadequação de qualquer solução puramente igualmente significativos como contribuições para o autoconhecimento do ho­
secular, ou puramente humana, dos problemas sociais. mem e a descoberta da significatividade da vida humana.
158 HAYDENWH1TE META-HISTÓRIA 159

Uma forma também esteticista, mas eticamente mais responsável, de Diferentemente de Novalis e dos românticos religiosos, a rebelião de
romantismo apareceu no ensaio de Carlyle sobre BoswelTs Life of Johnson. Aqui Carlyle contra o ceticismo continha certa rejeição de qualquer tentativa de
Carlyle definiu o escopo da história como a tentativa de revogar “o Edito do localizar o sentido da vida humana fora da própria humanidade. A vida humana
Destino, de modo que o Tempo não tenha absolutamente, nem tão cedo e por em suas encarnações individuais era, para ele, um valor supremo; e a tarefa do
muitos séculos domínio sobre nós”. O intuito do historiador, na opinião de historiador, portanto, não consistia simplesmente em celebrar o próprio pro­
Carlyle, era transmudar as vozes dos grandes homens do passado em advertên­ cesso histórico, à la Novalis, mas antes em dar à vida humana uma consciência
cias, e inspirações, para os vivos. Na escrita histórica de peso, disse ele, “os que de sua natureza potencialmente heróica.
se foram estão ainda aqui; embora ocultos, eles se revelam; embora mortos, Mas Carlyle excluía qualquer possibilidade de ir além da percepção
ainda falam”. Eis a tarefa do historiador concebida como palingenesia, a (metafórica) de que cada vida é “como todas as outras” e ao mesmo tempo
piedosa reconstrução do passado em sua integridade, cujo espírito continua a “totalmente singular”. Excluía a possibilidade daquilo que reconheceríamos
dominar a historiografia nostálgica até o presente. Inspira-a o sentimento que como “explicação” caracteristicamente histórica do mundo. Se “cada aconteci­
G. B. Niebuhr exprimiu quando escreveu: mento singular é resultado (...) de todos os outros acontecimentos, anteriores
ou contemporâneos” e o campo histórico é um “Caos do Ser (...) no qual forma
Há uma coisa que produz felicidade: restituir a grandeza esquecida e negligenciada a uma após forma se corporifica a partir de inúmeros elementos”, parece impossível
posição onde se possa reconhecê-la. Aquele a quem isso é concedido pela fortuna entra numa conceber qualquer meio de reduzir esse “Caos” a ordem. Na opinião de Carlyle,
relação calorosa com espíritos desde muito desaparecidos, e sente-se ele próprio abençoado, porém, a compreensão do campo histórico é propiciada por um duplo movi­
quando a similaridade de ações e atitudes se une â ternura por eles, aquela ternura com que ele se
mento de pensamento e imaginação, ou “ciência” e “poesia”, graças ao qual as
afeiçoa a um grande homem como a um amigo [citado em Neff, Poetry of Hist., 104-5].
coisas são primeiro apreendidas em sua similaridade com outras coisas e depois
captadas em sua unicidade, ou diferença, de tudo o mais. O que Carlyle fez foi
Mas a concepção de história de Carlyle, como sua concepção de filosofia, encerrar as apreensões científica e poética do mundo dentro do modo da
era mais ativista que contemplativa, eticamente mais vigorosa e agressiva e, metáfora de modo a compreender o relacionamento entre elas como uma
surpreendentemente, mais resistente ao comodismo nostálgico do que as filo­ “transferência” natural de conceitos. O modo metafórico de interpretar o
sofias históricas dos primeiros românticos. No ensaio “Sobre a História”, ele campo histórico, prefigurado como “Caos do Ser”, exige que o historiador se
sustentou que posicione diante desse campo numa atitude de esperar e antegozar as riquezas
que ele lhe revelará, na firme convicção de que, desde que cada vida individual
na história vivida não é como na história escrita: os acontecimentos reais de modo nenhum se é como todas as outras, é “como a nossa portanto” e está, por conseguinte,
relacionam entre si como se relacionam progenitor e prole; cada acontecimento singular é resultado imediatamente presente na consciência em sua integridade e também em seu
não de um, mas de todos os outros acontecimentos, anteriores ou contemporâneos, e irá por sua
relacionamento com tudo o mais.
vez combinar-se com outros para dar origem a novos acontecimentos: é um Caos do Ser perma­
nentemente vivo e ativo, no qual forma após forma se corporifica a partir de inúmeros elementos Mas essa noção de história difere da de Herder, com a qual tem muitas
[59-60]. semelhanças, em virtude do fato de que o campo é entendido literalmente como
um Caos; não é visto como um caos aparente que se presume esteja operando
Esse “Caos do Ser” - disse Carlyle no ensaio “Sobre a Biografia” - há de em última instância no sentido de uma total integração de seus componentes
ser encarado pelo historiador numa disposição de espírito que ele qualificou de infinitamente numerosos. Na realidade, Carlyle, como a maioria dos últimos
simultaneamente científica e poética: românticos, via esse Caos como basicamente divisível em duas ordens do ser,
cujas naturezas são supridas pelas categorias da similaridade e da diferença que
Científica: porque cada mortal tem, posto diante de si, um Problema de Existência, o qual,
ele empregou para distinguir a compreensão científica da compreensão poética
não sendo só, o que para a maior parte é, o Problema de garantir a subsistência, deve ser até certo na passagem citada. A história como processo representa uma luta interminável
ponto original, diferente de todos os outros; e no entanto, ao mesmo tempo, muito parecido com da plebe contra o homem excepcional, o herói. Para Carlyle, então, adquire-se
todos os outros; como o nosso próprio, portanto; instrutivo, além disso, já que também estamos o conhecimento histórico mediante a simples perquirição do “Caos do Ser” a
contratados para viver. Um interesse poético mais ainda: pois precisamente essa mesma luta do fim de determinar os pontos em que determinados indivíduos excepcionais
Livre-Arbítrio humano contra a Necessidade material, que a Vida de todo homem, pela mera
apareceram e impuseram sua vontade a uma turba indolente e recalcitrante. O
circunstância de que o homem continua vivo, mais ou menos vitoriosamente irá revelar-é isso que
acima de tudo o mais, ou antes abrangendo tudo o mais, convoca a Simpatia dos corações mortais aparecimento de um herói representa uma “vitória” do “Livre-Arbítrio humano
à ação: e se se mostra na ação, no pensamento ou na escrita, não só é Poesia como é a única Poesia sobre a Necessidade”. A tarefa do historiador, nesse ponto, é compor um hino
possível [52-53]. em honra do herói, não, à la Novalis, cantar um hino de louvor à “história em
geral”.
160 HAYDENWHTTE META-HISTÓRIA 161

Carlyle, em resumo, possuía um princípio crítico, princípio que escolhia Para ele, uma sensibilidade poética, criticamente autoconsciente, proporciona­
o herói individual, o homem que realiza alguma coisa contra a história, como o va o acesso a uma apreensão especificamente “realista” do mundo.
objeto apropriado a uma historiografia humanamente responsável. O “Caos do Michelet negou explicitamente que fosse um romântico. O “movimento
Ser”, que Constant apreendia como um vazio aterrador e que Novalis via como romântico” o tinha ignorado; enquanto o movimento florescia, ele estava ocu­
uma plenitude indiferenciada de força vital, era concebido por Carlyle como pado nos arquivos, fundindo sua erudição e seu pensamento num novo método
sendo a situação que o indivíduo heróico enfrenta como campo a ser dominado, histórico, do quaM Ciência Nova de Vico podia ser considerada um protótipo.
ainda que só temporariamente e no pleno conhecimento da vitória última que Michelet caracterizou seu novo “método” como o de “concentração e reverbe­
esse “Caos” irá desfrutar sobre o homem que procurar dominá-lo. A “história”, ração”. Dizia que o método lhe assegurava “uma chama suficientemente intensa
no pensamento de Carlyle, estava dotada de maior significado intrínseco do que para fundir todas as diversidades aparentes, devolver-lhes na história a unidade
possuía no modo como Constant a apreendia. E a vida humana se investe de que tiveram em vida”. Como se vai ver, porém, esse novo método não era senão
maior valor precisamente na medida em que o indivíduo chama a si o encargo uma elaboração das implicações do modo da metáfora, concebida como meio
de impor forma a esse “Caos”, de dar à história a marca da própria aspiração de permitir ao historiador efetivamente adotar, ressuscitar e reviver o passado
do homem a ser alguma coisa mais do que znero.caos. em sua totalidade.
Contudo, a noção de “Caos do Ser” da história teve pelo menos a Michelet iniciou o esforço de escapar à ironia ao abandonar as táticas da
vantagem de libertar a consciência histórica do tipo de determinismo que havia metonímia e da sinédoque e assumir de imediato uma atitude de confiança na
conduzido o pensamento histórico do racionalismo iluminista à ironia e à sátira; adequação da caracterização metafórica do campo histórico e seus processos.
fez do campo histórico e do processo histórico um panorama do acontecer em Negou toda a validade das reduções mecanicistas (causais) e integrações for-
que o acento cai nos aspectos novos e emergentes, e não nos concluídos e malistas (topológicas) do campo histórico. A apreensão metafórica da similitu­
herdados, da vida cultural. Fez da história uma arena em que é possível ver o de essencial das coisas anula todas as outras considerações em sua escrita e
surgimento de coisas novas, ao invés daquela em que velhos elementos apenas diferencia-o de Carlyle e de outros cultores românticos do individualismo. Foi
se rearranjam incessantemente num conjunto finito de combinações possíveis. essa apreensão da similitude que lhe permitiu reivindicar para suas apaixonadas
Mas não ministrou nenhum critério pelo qual os elementos individuais que caracterizações da história o estatuto de verdades científicas, da mesma forma
aparecem no campo podem ser reunidos de modo a promover a confiança em que Vico havia reclamado estatuto científico para sua concepção essencialmen­
que todo o processo tem um sentido compreensível. Limitou-se a constituir o te “poética” da história. Michelet buscou uma fusão simbólica das diferentes
campo histórico como uma “folia de formas” a que o poeta pode recorrer em entidades ocupantes do campo histórico, e não apenas um meio de caracterizá-
busca de inspiração, a fim de pôr à prova sua capacidade de simpatia, de las como símbolos individuais. A unicidade acaso detectada na história era, na
discernimento e de avaliação. concepção de Michelet, a unicidade do todo, não das partes que compõem o
todo. A individualidade das partes é só aparente. A importância delas deriva
de sua condição de símbolos da unidade que todas as coisas - na história como
na natureza - almejam vir a ser.
MICHELET: A HISTORIOGRAFIA EXPLICADA COMO METÁFORA
Mas o simples fato de haver tal ânsia no mundo indica que essa unidade
E POSTA EM ENREDO COMO ESTÓRIA ROMANESCA
é uma meta a alcançar, mais do que uma condição passível de descrição. E isso
tem duas conseqüências para Michelet. Uma delas é que o historiador deve
Constant, Novalis e Carlyle foram todos pensadores manifestamente escrever suas histórias de modo a promover a unidade que todas as coisas
“românticos”, e suas reflexões sobre a história giraram em torno de sua apreen­ almejam vir a ser. E a outra é que tudo o que aparece na história deve ser
são do campo histórico como “Caos do Ser”, que eles em seguida passaram a avaliado conclusivamente em função da contribuição que traz para a consecu­
compreender respectivamente como apenas um caos, um espaço pleno de força ção da meta ou da capacidade de impedir tal consecução. Michelet portanto vai
criativa e um campo de luta entre homens heróicos e a própria história. Tais buscar no modo de elaboração de enredo da estória romanesca a forma narra­
modalidades de compreensão, porém, foram menos conquistadas que simples­ tiva a ser usada para compreender o processo histórico concebido como uma
mente asseveradas como verdades, a serem aceitas pela fé depositada na luta da virtude essencial contra um vício virulento, mas em última instância
sensibilidade poética de seus respectivos patronos. O francês Jules Michelet, transitório.
historiador e filósofo da história, representou uma posição diferente dentro do Como narrador, Michelet valeu-se das táticas dos dualistas. Para ele, só
movimento romântico com respeito à concepção que este possuía do processo havia realmente duas categorias em que era possível inscrever as entidades
histórico. Em primeiro lugar, Michelet pretendeu ter descoberto o meio de individuais que povoam o campo histórico. E, como em todos os sistemas
elevar a apreensão romântica do mundo à condição de um enfoque científico. dualistas de pensamento, não havia em sua teoria historiográfica meio algum de
162 HAYDEN WHITE META-HISTÓRIA 163

senão o que insufla o puro amor da unidade. (...) A própria geografia está anulada. Não há mais
conceber o processo histórico como um progresso dialético ou mesmo diferen­
montanhas, rios, ou barreiras entre os homens. (...) Tal é o poder do amor. (...) Tempo e espaço,
cial em direção à meta desejada. Havia apenas um intercâmbio entre as forças as condições materiais a que a vida está sujeita, não existem mais. Uma estranha vita nuova,
do vício e as da virtude - entre tirania e justiça, ódio e amor, com momentos eminentemente espiritual, e que faz de toda a sua Revolução uma espécie de sonho, ora encantador,
ocasionais de conjunção, como o primeiro ano da Revolução Francesa - para ora terrível, começa agora para a França. Ela não conheceu nem tempo nem espaço. (...) Todos os
lhe sustentar a confiança na possibilidade de uma união final do homem com o velhos emblemas empalidecem, e os novos que são ensaiados têm pouca significação. Quer o povo
homem, com a natureza e com Deus. Nos limites extremos da aspiração humana jure sobre o velho altar, diante do Santíssimo Sacramento, quer preste juramento perante a fria
imagem da abstrata liberdade, o verdadeiro símbolo está em outra parte.
Michelet prefigurou a descoberta do símbolo supremo, da metáfora das metá­
A beleza, a grandeza, o etemo fascínio dessas festas, é que o símbolo é um símbolo vivo.
foras, que pode ser pré-criticamente apreendido como Natureza, Deus, Histó­ Este símbolo do homem é o homem [444-45].
ria, o Indivíduo, ou a Humanidade em geral.
Como o modo da metáfora e o mito da estória romanesca funcionam na E, em seguida, passando para uma voz que era ao mesmo tempo a sua e
historiografia de Michelet pode-se ver na sua História da Revolução Francesa. a do povo que acreditou na Revolução naquele dia, Michelet escreveu:
Sua descrição do espírito da França no primeiro ano da Revolução é uma
seqüência de identificações metafóricas que passa da caracterização da revolu­ Nós, adoradores do futuro, que pomos nossa fé na esperança e olhamos para o nascente;
ção como a luz que emerge das trevas para a descrição dela como o triunfo do nós, a quem o passado desfigurado e pervertido, tomado cada dia mais insuportável, expulsou de
impulso “natural” em favor da fraternidade sobre as forças “artificiais” que todos os templos; nós que, em razão de seu monopólio, estamos privados de templo e altar, e muitas
desde muito se opunham a ele, e acaba, finalmente, na contemplação dele como vezes nos sentimos tristes na solitária comunhão de nossos pensamentos, tivemos um templo
símbolo de pura simbolização. A França, escreveu Michelet, “avança corajosa­ naquele dia - um templo como nunca existira antes! Não uma igreja artificial, mas a igreja universal;
mente, através desse escuro inverno [de 1789-1790], para a primavera apetecida dos Vosges às Cévennes, e dos Alpes aos Pirenéus.
Nada de símbolo convencional. Só a natureza, o espírito, a verdade! [450-51]
que promete nova luz ao mundo”. Mas, perguntou Michelet, o que é essa “luz”?
Já não é, respondeu, a do “vago amor da liberdade”, mas antes a da “unidade
da terra natal” (440). O povo, “como crianças extraviadas, (...) encontrou por Era tudo, disse ele, “a maior diversidade (...) na mais perfeita unidade”
fim uma mãe” (441). Com a dissolução dos Estados provinciais em novembro (452).M
de 1789, declarou, todas as divisões entre homem e homem, homem e mulher, ichelet deu a suas histórias o enredo de dramas de revelação, da libera­
progenitor e filho, rico e pobre, aristocrata e plebeu estão anuladas. E o que ção de um poder espiritual em luta para se livrar das forças da treva, uma
resta? “A fraternidade eliminou todos os obstáculos, todas as federações estão redenção. E sua concepção de sua tarefa como historiador iria atuar como
em via de se confederarem, e a união tende à unidade. - Basta de federações! defensora do que é resgatado. Em seu livro O Povo, escrito em 1846, ele disse
São inúteis, só uma agora é necessária - a França; e ela aparece transfigurada de sua concepção da representação histórica:
na glória de julho” (441-42).
Que me seja reconhecido no futuro o ter, não alcançado, mas indicado, o objetivo da
Michelet então perguntou: “É um milagre tudo isso?” E, claro, sua história, o tê-lo chamado por um nome que ninguém lhe havia dado. Thieny chamou-o narração,
resposta foi “sim, e o maior e mais simples dos milagres, um retorno [do homem] e o sr. Guizot análise. Eu o denominei ressurreição, e esse nome ficará [citado em Stem, Varíeties,
à natureza”. Pois, considerando que “a base fundamental da natureza humana 117).
é a sociabilidade”, fora “necessário um mundo de invenções contra a natureza
para impedir que os homens vivessem juntos” (442). Todo o Antigo Regime era Essa concepção da história como “ressurreição” aplica-se tanto à estru­
visto como uma barreira artificial ao impulso natural dos homens para se unirem tura de enredo que as diversas histórias que Michelet escreveu pretendiam
uns aos outros. Toda a opressiva estrutura de alfândegas, impostos, taxas, leis, delinear como às estratégias explicativas nelas empregadas. Determina tanto o
regulamentos, pesos, medidas e dinheiro, todo o carcomido sistema de rivali­ conteúdo das histórias de Michelet como a forma. É seu “sentido” como
dades “cuidadosamente estimuladas e mantidas” entre “cidades, países e cor­ explicação e representação. Mas já que Michelet situou o ponto de resolução
porações - todos esses obstáculos, todos esses velhos baluartes, desagregam-se macro-histórico no momento em que, durante a Revolução, a perfeita liberdade
e caem num dia” (Ibid.). E, quando caem, “os homens se avistam, percebem e a perfeita unidade são realizadas pelo “povo” através da dissolução de todas
que são semelhantes, espantam-se de terem podido passar tanto tempo igno­ as forças inibidoras que se lhe antepunham, o tom de sua obra histórica estava
rando-se, deploram a insensata animosidade que os mantivera separados du­ fadado a tornar-se mais melancólico, mais elegíaco, na medida em que os ideais
rante tantos séculos, e redimem-se dela indo ao encontro uns dos outros e da Revolução em sua fase heróica refluíam para segundo plano entre as classes
abraçando-se num transporte de alegria” (Ibid.). Não existe nada, disse Miche­ sociais e as elites políticas que originariamente os tinham fomentado.
let, Michelet dominou o campo da historiografia na França durante a Monar­
quia de Julho: seu Précis d*histoire modeme (1827) foi o estudo padrão da
META-HISTÓR1A 165
164 HAYDENWHITE

A resolução cômica que sucedeu a esse estado de divisão foi a própria


história européia nas escolas francesas até 1850, quando uma nova onda de
Revolução. A disputa que precipitou a Revolução é caracterizada como uma
Reação levou o liberalismo a ingressar numa fase conservadora e com seu
luta “entre dois princípios, dois espíritos: o velho e o novo” (Michelet, Rev., 22).
ímpeto destruiu a carreira de Michelet na universidade. Sua História da Revo­
E o “novo” espírito, o espírito de justiça, vem “realizar, não abolir” (Ibid.). O
lução Francesa (em sete volumes, publicados no calor das paixões que os anos
espírito velho, o espírito de injustiça, existia exclusivamente para se opor à
de 1847-1853 geraram entre os franceses de todos os partidos) é prefaciada por
realização do novo. E esse princípio de oposição radical deu a Michelet a base
uma nota em que o tom elegíaco está associado às lembranças que Michelet
para caracterizar a Revolução numa única frase: “A Revolução não é senão a
guardava da morte de seu pai, ocorrida no momento em que ele acompanhava
reação tardia da justiça contra o governo do favor e a religião da graça” (27). A
com tristeza a morte lenta dos ideais da Revolução. Suas reflexões históricas,
Revolução foi uma inversão, uma substituição da tirania absoluta pela justiça
escreveu ele, tinham sido efetuadas “nas circunstâncias mais atrozes que podem
perfeita. Mas essa inversão foi menos explicada que simplesmente caracterizada
apresentar-se na vida humana, entre a morte e o túmulo, quando o sobrevivente,
como tal. Foi a “redenção” do povo de cuja história Michelet estivera indireta­
ele mesmo parcialmente morto, foi levado a julgamento entre dois mundos”
(Michelet, Rev., 14). O enredo romanesco micheletiano da história da França mente participando o tempo todo.
até a Revolução inseria-se assim numa percepção trágica mais ampla de sua Outra imagem utilizada por Michelet. para caracterizar a Revolução foi a
subseqüente desintegração. Essa compreensão da natureza trágica de seu do parto. Mas o parto imaginado era mais cesariano que natural. Durante suas
próprio tempo deu a Michelet outra razão para reivindicar o título de realista. viagens, escreveu ele, foi dar um passeio nas montanhas. Refletindo sobre um
pico de montanha que se tinha levantado vigorosamente “das entranhas da
Para ele essa condição era precisamente a mesma que existira na França na
década de 1780. terra”, disse Michelet, foi levado a devanear:
O Précis se encerra às vésperas da Revolução, com uma caracterização do
Quais foram então as revoluções ocorridas no interior da terra, que potências incalculáveis
estado de fragmentação a que havia chegado toda a sociedade francesa naquela combateram em seu seio, para que aquelas montanhas imponentes, perturbadoras, traspassando
época. Descreveu-o o próprio Michelet: rochas, despedaçando veios de mármore, irrompessem na superfície? Que convulsões, que agonia,
expeliram das entranhas do globo esse prodigioso gemido! [28]
Todo o mundo estava interessado no povo, amava o povo, escrevia para o povo; la
Bienfaisance était de bon ton, on faisait depetites aumônes et de grandes fêtes [395], Esses devaneios, disse ele, encheram-lhe o coração de violenta angústia,
pois “a natureza me fizera recordar com excessiva nitidez a história”. E a
Mas, enquanto a “alta sociedade” encenava de boa fé uma “comédie “história”, por sua vez, lhe lembrara a “justiça”, enterrada por muitos e muitos
sentimentale”, o “grande movimento do mundo” prosseguia numa direção que anos nas prisões das trevas:
iria em breve transformar tudo.
Que a justiça tivesse suportado por mil anos aquela montanha de dogma [cristão] sobre seu
coração e, esmagada sob esse peso, tivesse contado as horas, os dias, os anos, tantos anos infelizes
O verdadeiro confidente do público, o Fígaro de Beaumarchais, tomava-se cada dia mais - é, para aquele que sabe disso, uma fonte de lágrimas eternas. Aquele que por intermédio da
amargo; passava da comédia à sátira, da sátira ao drama trágico. A realeza, o Parlamento, a nobreza, história participou dessa longa tortura jamais irá recobrar-sc disso; aconteça o que acontecer,
todos cambaleavam de fraqueza; o mundo estava bêbado [commeiwe] [395-96}. estará triste; o sol, a alegria do mundo, nunca mais lhe trará conforto; ele viveu demasiado tempo
na tristeza e na escuridão; e meu próprio coração sangrou ao contemplar a longa resignação, a
docilidade, a paciência e os esforços da humanidade para amar aquele mundo de ódio e maldição
A própria filosofia adoecera da “ferroada” de Rousseau e Gilbert. “Nin­
sob o qual estava esmagada [Ibid].
guém acreditava mais em religião ou irreligião; todo o mundo, porém, gostaria
de acreditar; os espíritos mais animosos iam incógnitos buscar a crença nas
ilusões de Cagliostro e na tina de Mesmer.” No entanto, a França, como o resto Deve-se notar aqui uma diferença essencial entre os enfoques da história
de Herder e Michelet. Por um lado, Michelet por certo não se recusava a julgar
da Europa, envolveu-se no “diálogo interminável do ceticismo racional: contra
o niilismo de Hume erguia-se o aparente dogmatismo de Kant; e por toda parte as diversas figuras que divisava na paisagem histórica. Alem disso, não percebia
a majestosa voz poética de Goethe, harmoniosa, imoral e indiferente. A França, o processo histórico como uma harmonia essencial que manifesta sua bondade
e beneficência à humanidade em todas as suas operações. Como Ranke, Miche­
aturdida e dominada pela ansiedade, não entendia nada disso. A Alemanha
encenava a epopéia da ciência; a França produzia o drama social” (396). A let levava a luta e o conflito a sério, como aspectos inelutáveis da existência
histórica. Esse é outro sinal de seu “realismo”. Mas, desde que situou a
tristeza cômica (le triste comique) desses últimos dias da velha sociedade era
resolução desse drama num período e numa série de eventos que progressiva­
resultado do contraste entre as promessas grandiosas e a completa impotência
mente iam sendo despojados de sua condição de encarnações ideais da comu­
daqueles que as fizeram: “L 'impuissance est le traitcommun de tous les ministè-
nidade humana - isto é, na Revolução em sua fase popular (e, para ele,
res d’alors. Tous promettent, et nepeuvent rien” (Ibid.).
META-HISTÓR1A 167
166 HAYDENWHITE

que a Revolução exumou e levou a julgamento. A Revolução toi a ressurreição


anarquista) a apreensão essencialmente romanesca do processo histórico,
política e moral de tudo de bom e humano “enterrado” pelo velho regime.
por parte de Michelet, pouco a pouco tomou a cor de uma desconsolada
Assim considerada, a Revolução representava a vingança que a memória
apreensão de sua crescente falta de sentido como princípio em torno do qual
- isto é, a “história” - toma da imolação seletiva de homens vivos e da anulação
se pode organizar a história em geral. Ele continuou a professar sua crença nos
dos direitos dos mortos. Na Bastilha os homens não eram simplesmente assas­
ideais da Revolução e na visão social que justificava a crença e o ideal, mas seu
sinados, escreveu Michelet; eram, ao invés - o que era mais horrendo ainda na
tom se tornou cada vez mais desesperado na medida em que os acontecimentos
opinião de Michelet -, simplesmente “esquecidos”.
de 1789 recuavam no tempo.
A situação histórica da qual ele considerava em retrospecto o período da
Esquecidos! Terrível palavra! Que uma alma pereça entre almas! Não tinha aquele que
Revolução, situação em que as forças da tirania haviam mais uma vez assumido Deus criou para a vida o direito de viver pelo menos na memória? Que mortal ousará infligir,
o controle da vida nacional e internacional, impôs-lhe uma apreensão cada vez mesmo ao mais culpado, esta que é a pior das mortes - a de ser etemamente esquecido? [73]
mais irônica do processo histórico, um sentimento do eterno retorno do mal e
da divisão na vida humana. Mas ele resolutamente interpretou esse eterno Mas, num passo que revela sua própria concepção da santidade da tarefa
retorno do mal e da divisão como uma condição temporária para a humanidade do historiador, Michelet insistiu:
a longo prazo. A dúvida que o reconhecimento de sua própria condição inspirou
dentro dele foi transformada por um ato de vontade na precondição da espe­
Não, não creais nisso. Nada é esquecido - nem homem nem coisa. O que uma vez existiu
rança - na verdade, foi identificada com a esperança. Podia ele dizer a si mesmo, não pode ser assim aniquilado. As próprias muralhas não esquecem, o pavimento se tomará
como disse “do povo” às vésperas da Revolução, quando a vida parecia mais cúmplice, e transmitem sinais e ruídos; o ar não esquecerá [Ibid.].
sombria para esse mesmo povo:
Longe de incorrer na contemplação irônica da vida como prisão, Michelet
Não vos alarmeis com vossa dúvida. Essa dúvida já é fé. Acreditai, tende esperança! O tomou a si o encargo de “lembrar” os mortos vivos e os ideais da Revolução,
direito, embora postergado, terá seu advento; virá submeter a julgamento o dogma e o mundo. E que tivera por objetivo restituir os mortos vivos a seu legítimo lugar entre os
esse dia de julgamento se chamará Revolução [30]. vivos.
Às vésperas da Revolução - como no mundo que Michelet foi obrigado a
Assim, a estrutura de enredo romanesco de todo o processo histórico habitar depois da renovada imolação do ideal revolucionário por Napóleão III
permaneceu intacta. As condições de tragédia e ironia podiam instalar-se - “o mundo [estava] coberto de prisões, de Spielberg à Sibéria, de Spandau ao
dentro dela como fases do processo total, a serem anuladas no fogo da Revolu­ Mont-St.-Michel. O mundo [era] uma prisão!” (Ibid.) E, escrevendo a história
ção que suas próprias histórias pretendiam manter aceso. do advento da Revolução, Michelet solidariamente entrou no movimento po­
Ao contrário de Herder, que concebia a história como uma transformação pular que dentro em pouco explodiria em violência contra essa ofensa à memó­
gradual da humanidade, de um conjunto único de particularidades para outro, ria e à vida, reviveu-o:
Michelet concebia-a como uma série de inversões cataclísmicas causadas por
tensões crescentes que compelem a humanidade a colocar-se em campos Do padre ao rei, da Inquisição à Bastilha, a estrada é reta mas longa. Santa, santa Revolução,
opostos. Nessas inversões, a falsa justiça é substituída pela verdadeira justiça, o como tu vens devagar! - Eu, que venho esperando por ti há mil anos nas leiras da Idade Média -,
quê? devo esperar mais? - Oh. como o tempo demora a passar! Oh! como tenho contado as horas!
amor inconstante pelo amor verdadeiro, e a falsa religião do amor, o cristianis­
Tu nunca chegarás? [79]
mo, tirano que “cobriu o mundo com [um] mar de sangue”, por sua verdadeira
antítese, o espírito da Revolução (31). E seu propósito, disse Michelet, era
E quando as mulheres e crianças atacaram a Bastilha para libertar seus
testemunhar contra os aduladores de monarcas e sacerdotes, “afogar a falsa
maridos, filhos, amantes e irmãos lá aprisionados, Michçlet explodiu num grito
história e os bajuladores assalariados do homicídio, tapar-lhes a boca perjura”
de alegria: “Ó França, estás salva! Ó mundo, estás salvo!”
(33).
Essa salvação redundou numa dissolução de todas as diferenças entre os
O emblema da velha monarquia era, no relato de Michelet, a Bastilha; era homens, entre homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, que transfor­
ela o símbolo da condição irônica em que um “governo da graça” mostrava sua
mou finalmente a nação num povo. Esse estado de perfeita integração era
“boa índole” concedendo lettres de cachet a favoritos por mero capricho e aos simbolizado pela imagem de Joana d’Arc: “Novamente vejo nos céus minha
inimigos da justiça por dinheiro. O crime mais nefando do velho regime era estrela juvenil em que por tanto tempo depositei minha esperança: Joana
condenar homens a uma existência que não era nem vida nem morte, mas “um
d’Arc”. Mas em seguida, em outras dessas efusões líricas, em que ofendeu a
meio-termo entre a vida e a morte: uma vida inanimada, enterrada”, um mundo
razão e a ciência, mas não a metáfora, Michelet exclamou: “Que importa se a
organizado “expressamente para o olvido”, a Bastilha. Foi essa vida “enterrada”
168 HAYDENWHTTE META-HISTÓRIA 169

donzela, mudando de sexo, se tornou um moço, Hoche, Marceau, Joubert ou de se elevar acima de tais “emoções” não deve ocultar o fato de que suas
Kleber” (Ibid.). próprias histórias não são menos marcadas por indícios de preferência pessoal
Em seu entusiasmo pelos acontecimentos que descrevia, Michelet dissol­ e inclinações partidárias do que as de Michelet. O importante é que ambos os
veu todo o senso de diferença entre homens, instituições e valores. Sua metafó­ historiadores agiam como guardiães da memória da raça, contra qualquer
rica identificação de coisas que parecem ser diferentes pôs de lado qualquer tirania que tivesse ofendido essa memória através de sistemática supressão da
senso das diferenças entre coisas, que é, para começar, o momento mesmo para verdade.
o emprego da metáfora. Toda diferença foi dissolvida em sua apreensão da Michelet concebia a tarefa do historiador como sendo exatamente seme­
unidade do todo. Assim, escreveu Michelet, “os mais belicosos dos homens” lhante à daquelas mulheres que invadiram a Bastilha para restaurar os direitos
tornam-se os “arautos da paz”; e a “Graça, em cujo nome a Tirania nos oprimiu, dos prisioneiros “esquecidos”. O historiador, disse Michelet num de seus
mostra-se consoante, identificada, com a Justiça”. Concebida como processo, momentos mais autocríticos, não é “nem César nem Cláudio, mas muitas vezes
a Revolução, disse ele, não é senão a “reação da eqüidade, o tardio advento da em seus sonhos vê uma multidão que chora e lamenta sua condição, a multidão
Eterna Justiça”; em sua essência, é “verdadeiramente Amor, e idêntica à daqueles que ainda não morreram, que gostariam de viver outra vez [qui
Graça” (80). i voudraient revivre]” (fragmento escrito por Michelet em 1842, citado por
Essas fusões de uma abstração com outra não foram conquistadas diale- Barthes, 92). Esses mortos não pedem apenas uma “urna e lágrimas”, e não
ticamente; foram meramente declaradas. Mas não foram vividas por Michelet basta somente repetir seus “suspiros”. O que exigem, disse Michelet, é
nem como abstrações nem como fusões, mas como identificações da única
essência que é tanto a substância da história quanto a causa em cujo nome um Édipo que decifre para eles o enigma que lhes foi incompreensível, um Édipo que lhes explique
Michelet trabalhava como historiador. “Amor” e “Graça” eram para ele “Jus­ as palavras que proferiram, as ações que praticaram e que não entenderam [Ibid.].
tiça”, que dizia ser sua “mãe”, e “Direito”, que dizia ser seu “pai”. Mas mesmo
a justiça e o direito eram demasiado distintos para ele, e assim ele os identificou
Isso parece sugerir que o historiador, escrevendo em nome dos mortos,
com Deus (“vós que sois um com Deus”) (Ibid.).
está escrevendo também para os mortos, não para leitores vivos do presente ou
Assim, finalmente, Deus amparou Michelet no serviço prestado à história
do futuro.
e garantiu-lhe a objetividade, que era apenas outra forma de “Justiça” e
“Graça”. No final da introdução à suz História da Revolução Francesa Michelet Mas em seguida Michelet mais uma vez trocou de imagem, e substituiu a
dirigiu-se a Deus diretamente, como antes se dirigira à “Revolução”: figura de Édipo pela de Prometeu. Como Prometeu, o historiador levará aos
mortos um fogo suficientemente intenso para derreter o gelo em que suas
E como és Justiça, hás de me amparar neste livro, onde meu caminho tem sido balizado “vozes” foram “congeladas”, para que os mortos possam “falar uma vez mais”
pelas emoções de meu coração e não por interesse pessoal, nem por qualquer consideração a esse por eles mesmos.
mundo terreno. Serás justo comigo, e eu o serei com todos. Pois para quem escrevi isto, senão para Mas nem isso basta. O historiador precisa ser capaz de ouvir e entender
ti, Eterna Justiça? [Ibid.]
“palavras que nunca foram pronunciadas, palavras que ficaram nos abismos dos
corações [dos mortos]”. É tarefa do historiador, finalmente, “fazer falar os
Ora, não se pode negar que o tom e o ponto de vista da obra de Michelet silêncios da história, aquelas terríveis pausas [points d’orgue] que nunca soarão
se colocam em total contraste com os de seu colega alemão mais “realista”, o de novo e que são exatamente seus tons mais trágicos”. Somente quando as vozes
judicioso Ranke, que constantemente insistia em sua relutância em “julgar” o dos mortos, e seus silêncios, forem devolvidas à vida
passado ou legislar para o futuro. Mas, na questão da “objetividade”, as
principais diferenças entre Michelet e Ranke são mais superficiais do que reais.
Elas residem no fato de que os princípios do amor, da graça e da justiça, que os mortos repousarão tranqüilos em seus túmulos. (Só então] começarão a compreender seu
destino, a modular suas dissonâncias numa harmonia mais suave, a dizer a si mesmo e em voz baixa
informavam o enfoque micheletiano do estudo da história, eram trunfos ocultos
as últimas palavras de Édipo: “Sede felizes por todo o tempo que há de vir”. As almas são saudadas
e expressamente encarnados nos princípios da “nação, do povo e da Revolução” e apaziguadas. Permitem que se fechem suas umas. (...) Preciosa uma de tempos esquecidos, os
mais do que implicitamente reverenciados e identificados com “o Estado, a sacerdotes da história - com que unção, com que solicitude eles a vão carregando e passando
Igreja e a sociedade estabelecida” como em Ranke. Michelet não estava menos adiante! (...) como carregariam as cinzas do próprio pai ou do filho. O filho? Mas não são eles
interessado do que Ranke na representação verídica do passado, em toda a sua mesmos? [Ibid.]
particularidade e unidade; mas acreditava que se podia escrever história, não
movido por qualquer “interesse particular” nem influenciado “por qualquer Mais uma vez, em 1872, no fim da vida, no prefácio à sua Histoire du XIX e
consideração a esse mundo terreno”, mas apenas seguindo o “caminho balizado siècle (II, 11), Michelet falou do papel do historiador como sendo essencialmente
pelas emoções de [seu] coração”. Que Ranke se declarasse guiado pelo desejo o de um guardião da “memória” dos mortos.
170 HAYDENWHITE META-H1STÓRIA 171

Sim, cada pessoa morta deixa algum bem, sua memória, e exige que alguém cuide dele. Para as forças que são superadas em qualquer avanço ocorrido na sociedade ou na
quem não tem amigos, um magistrado deve cncarregar-se disso. Para a lei, a justiça é mais digna
consciência são úteis como materiais que entram na modelagem da nova
de confiança do que nossas ternuras desatentas, nossas lágrimas logo estancadas.
Esse magistrado é a História. (...) Nunca em toda a minha existência perdi isso de vista, o
sociedade e consciência. Como observou Michelet na introdução à sua tradução
dever do Historiador. Dei a muitos dos mortos cedo demais esquecidos o auxílio de que eu mesmo de A Ciência Nova, “Princípios da Filosofia da História”, a fé na natureza
terei necessidade. providencial do processo histórico é assegurada, não pela crença somente, mas
Eu os exumei para uma segunda vida [citado por Barthes, 91J. pela própria sociedade:

Essa concepção do dever do historiador não conflitava de modo algum O milagre da constituição (da sociedade] reside no fato de que em cada uma de suas
com a noção que Michelet tinha da necessidade de “franca e vigorosa parciali­ revoluções, ela encontra na própria corrupção do estado precedente os elementos da nova forma
dade pelo direito e pela verdade” por parte do historiador. A falsa parcialidade que é capaz de a redimir. É assim absolutamente necessário que lhe seja atribuída uma sabedoria
acima do homem (...) [au-dessus dt 1’homme] [xiv].
só penetrava na história quando os historiadores escreviam com medo ou na
esperança de agradar a autoridade estabelecida. O historiador mais honrado,
insistiu Michelet em 1856, na conclusão de sua História da França, tinha de Essa “sabedoria” não nos governa por meio de “leis positivas”, continuou
perder todo o “respeito” por certas coisas e certos homens a fim de servir de ele, mas serve a si mesma ao regular os “usos que seguimos livremente”. Assim,
juiz e redentor do mundo. Mas essa perda de respeito permitiria ao historiador concluiu Michelet, o princípio central do entendimento histórico reside nas
perceber até que ponto, “dans íensemble des siècles et Vharmonie totale de la idéias que Vico expôs em/l Ciência Nova:
vie de Vhumanité”, “o fato e o direito coincidem ao fim de tudo, e não contradizem
um ao outro”. Mas, advertiu, os homens mesmos fizeram o mundo social tal como é [tcl qu ’il esr]; mas este mundo não é menos
produto de uma inteligência, muitas vezes contrária, e sempre superior, aos fins particulares que
os homens fixaram para si mesmos [xlv].
situar nos pormenores, no conflito, este ópio fatal da filosofia da história, esses ménagemcnts de
uma falsa paz, é inserir a morte na vida, matar a história e a moral, ter de dizer, à maneira de alma
indiferente: “Que é o mal? Que é o bem?” [90] Repetiu então a lista de bens públicos (resultantes de interesses privada­
mente projetados) que assinalam o curso do avanço humano da selvageria à
Michelet admitia abertamente a orientação “moral” de sua obra, mas sua civilização e concluiu observando que “mesmo quando as nações tentam des­
pesquisa, insistia, lhe permitiria ver a verdadeira “fisionomia” dos séculos que truir-se, dispersam-se na solidão (...) e a Fênix da sociedade renasce das cinzas”
estudara; e ele havia pelo menos oferecido “une impression vraie” dela (Ibid.). (xlvi).
Michelet mencionou Vico como o pensador que ministrara a teoria da Essa imagem da Fênix é importante porque sua sugestão de um eterno
interação da consciência com a sociedade, graças à qual o fato da simples retorno aponta para a tendência inerentemente antiprogressista contida em
sucessão de formas sociais podia ser admitido como um processo providencial qualquer sistema de caracterização tropológica não informada por um firme
de natureza puramente secular. A teoria de Vico possibilitou a Michelet dissol­ senso dialético. O modo metafórico promove a degenerescência da concepção
ver todas as coletividades formais visíveis em particularidades e, depois disso, do processo histórico num “caos de formas” quando uma suposição da integri­
caracterizar em termos puramente metafóricos a natureza essencial tanto das dade metafórica da história começa a definhar. Logo que a fé de Michelet
particularidades quanto dos processos em que elas têm lugar. A desconfiança passou a se dissipar, na medida em que as forças anti-revolucionárias se
de Ranke acerca das teorias abrangentes de qualquer tipo predispunha-o a tornavam preponderantes, não lhe restou outra saída senão incorrer na reflexão
suspender a busca de sentido e ordem na história com a apreensão das formas melancólica sobre a derrota do ideal cujo triunfo inicial ele havia narrado em
acabadas da sociedade e da cultura que haviam tomado corpo em seu próprio suas primeiras histórias.
tempo e a usar essas formas como padrão para qualquer sentido que a história As principais diferenças entre a concepção da história de Michelet e a de
em geral pudesse ter. Assim, esses dois historiadores, que tinham tanto em Herder podem agora ser especificadas. Herder caracterizou os objetos ocupan­
comum na maneira como prefiguravam o campo histórico e seus processos, tes do campo histórico no modo da metáfora e depois passou para uma
tendiam para modos alternativos de caracterização que lhes permitiam escapar integração sinedóquica do campo através das estratégias explicativas do orga-
à ameaça da ironia. nicismo e das estratégias de enredo da comédia. Michelet começou da mesma
Michelet encontrou apoio no modo da metáfora, e pôs em enredo a maneira, mas os padrões de integração que ele discerniu naquele campo eram
história como estória romanesca, porque seu sentido da coerência de todo o representados sob uma perspectiva que lhe era dada por sua percepção irônica
processo era sustentado por uma crença na natureza unitária das partes. da natureza evanescente e transitória desses padrões. A estória romanesca da
Michelet captou a questão essencial que Vico havia suscitado acerca de qual­ luta do povo francês contra a tirania e a divisão e da consecução de uma perfeita
quer concepção especificamente histórica da realidade humana - a saber, que unidade durante o primeiro ano da Revolução é pouco a pouco afastada pela
172 HAYDENWHITE
META-H1STÓR1A 173

compreensão crescente em Michelet da ressurgência e vitória (ao menos tem­


aquele momento de pura conjunção que pensou ter visto na história da França
porária) das forças bloqueadoras. Michelet continuou a escrever história como
no decorrer de um único ano, 1789. No fim, pôde louvar aqueles indivíduos que
o defensor dos inocentes e justos, mas sua devoção a eles pouco a pouco se
identificou como soldados a serviço do ideal, e pôde dedicar sua vida a narrar
enrijeceu, tornou-se mais “realista”, ao compenetrar-se do fato de que o
a estória deles num tom e modo que viessem a promover o ideal no futuro. Mas
resultado desejado ainda estava por alcançar. Ao contrário de Herder, que
o próprio ideal nunca poderia realizar-se no tempo, na história, pois era tão
estava disposto a acreditar que toda resolução de um conflito histórico era
evanescente quanto o estado de anarquia que pressupunha para sua realização.
desejável simplesmente porque era uma resolução, Michelet reconhecia que o
historiador deve assumir uma posição pró ou contra as forças em ação nos
diferentes atos do drama histórico. Sua própria perspectiva dos agentes e
agências do processo histórico era irônica; ele distinguia entre os que eram bons
e os que eram maus, muito embora fosse dominado pela esperança de que o
conflito entre os representantes desses agentes produzisse o tipo de resultado
triunfal para as forças do bem que julgava ter sido conseguido na França em
1789. O suposto “realismo” de seu método consistia em sua inclinação a
caracterizar numa linguagem densamente carregada de metáfora os represen­
tantes dos dois tipos de forças presentes no processo histórico. Diferentemente
de seus predecessores setecentistas, Michelet imaginava que sua tarefa como
historiador era a de guardião dos mortos, fossem eles, no seu entender, bons ou
maus, mesmo que o fim visado fosse o de servir àquela justiça segundo a qual
os bons são definitivamente libertados da “prisão” do olvido humano pelo
próprio historiador.
Muito embora Michelet se tivesse na conta de liberal e escrevesse história
para servir à causa liberal como ele a entendia, na realidade as implicações de
sua concepção da história são anarquistas. Como se pode ver no modo como
caracterizou em sua História da Revolução Francesa a condição a que chegou o
povo francês em 1789, ele concebeu o estado ideal como sendo aquele em que
todos os homens estão natural e espontaneamente unidos em comunidades de
emoção e atividades compartilhadas que não requerem nenhuma direção for­
mal (ou artificial). No estado ideal da humanidade as distinções entre coisas, e
entre coisas e suas significações, estão dissolvidas (...) em puro símbolo, como
ele mesmo o expressou, em unidade, graça perfeita. Qualquer divisão entre
homem e homem é vista como estado de opressão, que os justos e virtuosos
procurarão dissolver. As diversas unidades intermediárias representadas por
Estados, nações, Igrejas etc., consideradas por Herder como manifestações da
comunidade humana essencial e vistas por Ranke como meios para a unificação,
eram encaradas por Michelet como impedimentos ao desejado estado de
anarquia, que, para ele, seria o único a assinalar o surgimento de uma verdadeira
humanidade.

Dada a concepção micheletiana da única forma ideal possível de comu­


nidade humana, parece improvável que ele se dispusesse a ver em qualquer
forma específica de organização social efetivamente registrada na história uma
aproximação mesmo longínqua do ideal. Enquanto Herder era compelido, pela
lógica de sua concepção da história, a aceitar tudo, a nada criticar e a louvar
qualquer coisa simplesmente por ter existido, Michelet era incapaz, pela lógica
de sua concepção da história, de encontrar virtude em qualquer coisa salvo
2

RANKE
0 REALISMO HISTÓRICO COMO COMÉDIA

INTRODUÇÃO

Numa passagem que se tomou canônica no credo da ortodoxia da profis­


são historiográfica, o historiador prussiano Leopold von Ranke caracteriza o
método histórico, de que foi fundador, nos termos de oposição aos princípios
de representação encontrados nos romances de aventura de Sir Walter Scott.
Ranke ficara encantado com os quadros que Scott havia pintado da época da
cavalaria. Eles lhe tinham inspirado o desejo de conhecer mais amplamente
aquela época, de vivê-la de maneira mais imediata. E por isso fora às fontes de
história medieval, aos documentos e aos relatos contemporâneos da vida na­
quele tempo. Escandalizou-se ao descobrir não só que os quadros de Scott eram
em grande parte produtos da fantasia mas também que a vida real da Idade
Média era mais fascinante do que qualquer descrição novelística dela jamais
poderia ser. Ranke descobrira que a verdade era mais estranha do que a ficção
e, para ele, infinitamente mais satisfatória. Resolveu, por isso, limitar-se no
futuro apenas à representação daqueles fatos que eram atestados pelo testemu­
nho documental, reprimir os impulsos “românticos” de sua própria natureza
sentimental e escrever história para relatar exclusivamente o que houvesse de
fato sucedido no passado. Esse repúdio do romantismo foi a base da marca da
historiografia realista de Ranke, marca que, desde a popularização do termo
por Meinecke, veio a ser chamada de “historicismo” e que ainda serve como
modelo daquilo a que uma historiografia realista e profissionalmente responsá­
vel deve aspirar.
176 HAYDENWHITE METAHISTÓRIA 177

Mas a concepção de história de Ranke não se baseou só na rejeição do que sua obra aspirava, “o acontecimento em sua inteligibilidade humana, sua
romantismo. Ela se cercou também de várias outras rejeições: o filosofar unidade e sua diversidade”, só poderia ser atingido por um movimento do
apriorístico de Hegel, os princípios mecanicistas de explicação que predomina­ particular ao geral, nunca pelo procedimento inverso (57). Posteriormente, nos
vam nas ciências físicas e nas escolas positivistas de teoria social da época e o anos 1830, ele discorreu sobre as únicas “duas maneiras de adquirir conheci­
dogmatismo dos credos religiosos oficiais. Em suma, Ranke rejeitava qualquer mento acerca das coisas humanas”, ao alcance de uma consciência humana
coisa que impedisse o historiador de ver o campo histórico em seu caráter puramente secular: aquela que avançava “através da percepção do particular”
imediato, particular e vívido. O que ele considerava como método histórico e aquela que procedia “por abstração”. A primeira era, dizia ele, o “método”
adequadamente realista era o que restava à consciência realizar depois de ter da história; a segunda era o da filosofia (58-59). Além disso, indicou as duas
rejeitado os métodos da arte romântica, da ciência positivista e da filosofia “qualidades” sem as quais, no seu entender, ninguém podia aspirar ao ofício de
idealista do seu tempo. historiador: amor ao “particular por si mesmo” e resistência à autoridade de
“idéias preconcebidas” (59). Só através da “reflexão sobre o particular”, o curso
Isso não queria dizer, como concluíram alguns dos intérpretes de Ranke, “do desenvolvimento do mundo em geral (...) se torna visível” (Ibid.).
que sua concepção de objetividade se aproximava da do empirista ingênuo. Mas o curso do desenvolvimento não podia ser caracterizado em função
Muito mais do que isso estava em jogo na visão de mundo que desde então daqueles “conceitos universais” com que o filósofo legitimamente opera: “A
passou a ser chamada de historicismo. Essa visão de mundo está escudada em tarefa da história é a observação desta vida que não pode ser descrita por Um
várias preconcepções peculiares a setores específicos da comunidade acadêmi­ só pensamento ou Uma só palavra” (60). Ao mesmo tempo era inegável que o
ca da época de Ranke. A fim de distinguir a concepção peculiar de “realismo” mundo apresentava sinais de ser governado por um poder espiritual no qual as
que ela promovia naquele tempo e diferenciá-la das concepções românticas, particularidades da história devem no fim de contas encontrar sua unidade
idealistas e positivistas de “realismo” contra as quais foi proposta, eu a chamarei como partes de um todo (Ibid.). A presença deste espírito justificava a crença
de “realismo doutrinário”, pois ela supõe ser o realismo um ponto de vista que em que a história era mais do que um espetáculo de “força bruta”. E a natureza
não deriva de preconcepções explícitas sobre a natureza do mundo e seus desse espírito só poderia ser entrevista por uma consciência religiosa, à qual
processos, mas que presume que a realidade pode ser conhecida “realistica­ não se podia recorrer em busca de soluções para problemas históricos especí­
mente” por um repúdio consciente e consistente das formas em que uma arte, ficos. Mas uma forma sublimada dessa apreensão religiosa do mundo era
uma ciência e uma filosofia distintivamente “modernas” aparecem. imprescindível a uma adequada apreciação das partes e da relação das partes
com o todo. Como Ranke escreveu em outro fragmento durante os anos 1860,

o estudo das particularidades, mesmo de um único detalhe, tem seu valor, se é bem feito. (...) Mas
AS BASES EPISTEMOLÓGICAS DO MÉTODO (...) o estudo especializado, também, estará relacionado com um contexto maior. (...) O alvo final
HISTÓRICO DE RANKE - ainda não atingido - permanece sempre a concepção e composição de uma história da humani­
dade [61].

Comenta-se com freqüência que a concepção de explicação e represen­ Os estudos especializados poderiam certamente obscurecer a unidade de
tação histórica de Ranke estava definitivamente estabelecida por volta de 1850 todo o processo histórico, mas não era preciso, insistiu Ranke, “temer que
e que não se alterou nem evoluiu (na verdade tendeu a degenerar num sistema cheguemos no fim às vagas generalidades com que se satisfaziam as gerações
aplicado mecanicamente) nos trinta anos seguintes. As revoluções de 1848-1851 anteriores”. De fato:
e 1870-1871 não tiveram efeito algum sobre ele; não lhe deram nenhum indício
das fraquezas ou imperfeições essenciais do sistema de organização social e Depois do êxito e da eficácia dos estudos que em todas as partes têm sido empreendidos
cultural que a Europa forjara, nas décadas de 1830 e 1840, ao cabo de quase com perseverança e seriedade, essas generalidades já não podem ser apresentadas. Nem podemos
voltar às categorias abstratas que em várias épocas as pessoas costumavam acolher. Também é
dois milênios de luta. A visão cômica continuava incólume, como Droysen viu
improvável que um acúmulo de apontamentos históricos, com julgamento superficial do caráter e
com toda a clareza no estudo crítico que fez de Ranke em 1868. da moral humanos, redunde em conhecimento cabal e satisfatório [62].
No prefácio às suas Histórias das Nações Latinas e Germânicas de 1495 a
1514, que apareceram em 1824, Ranke declarou que seu escopo fora narrar as Assim, o labor histórico tinha de avançar em dois níveis simultaneamente:
histórias das nações “em sua unidade” (Stern, 56-57). Mas a compreensão “a investigação dos fatores vigentes nos acontecimentos históricos e o entendi­
daquela unidade só podia vir, sustentou, através do estudo das particularidades. mento de seu relacionamento universal”. Compreender “o todo” embora “obe­
Admitiu que sua concentração em “particularidades” podia dar à sua narrativa decendo aos ditames da pesquisa metódica” seria sempre a “meta ideal, pois
uma aparência “rude, desconexa, incolor e maçante”. Mas o “sublime ideal” a abarcaria um entendimento solidamente enraizado de toda a história do ho­
178 HAYDENWHUE METAHISTÓR1A 179

mem”. A pesquisa histórica não sofreria, concluiu, “com sua conexão com o subjetiva. Ao mesmo tempo, não se podia impelir o pensamento com excessiva
universal”, pois, sem “este elo”, a pesquisa se tornaria “debilitada”. Ao mesmo precipitação para o modo sinedóquico de compreensão, que sancionava a
tempo, “sem pesquisa metódica, a concepção do universal degeneraria num procura de coerências formais no sistema histórico, sem ter de suportar a
fantasma” (Ibid.). acusação de idealismo, que lhe teria sido tão fatal quanto a própria acusação
Citam-se com freqüência essas observações para indicar até que ponto o de romantismo. Assim, Ranke prefigurou o campo histórico no modo da
ideal concebido por Ranke violava os princípios metodológicos que o guiavam metáfora, que sancionava um interesse primordial pelos acontecimentos em sua
em suas pesquisas. Por exemplo, Von Laue distinguiu entre “as conclusões mais particularidade e singularidade, sua nitidez, colorido e variedade, e depois
amplas da historiografia de Ranke, seus subentendidos religiosos e sua ambição sugeriu a compreensão sinedóquica dele como campo de coerências formais,
filosófica de captar as intenções divinas da história”, e seu “método”, tendo este cuja unidade fundamental ou final podia ser apresentada por analogia com a
sobrevivido enquanto aqueles foram rejeitados. O fato é que, disse Von Laue, natureza das partes. Isso não só livrava Ranke de ter de procurar leis causais e
Ranke relacionais universais na história, de tipo sincrônico (positivista) ou dialético
(hegeliano), como também lhe permitia acreditar que a modalidade mais
deixou uma grande escola de historiadores que estão em acordo fundamental sobre padrões elevada de explicação a que a história poderia aspirar era a de uma descrição
comuns de objetividade. Por toda parte os historiadores acadêmicos ainda insistem na necessidade narrativa do processo histórico. O que Ranke não viu foi que se poderia
de estudar criticamente as fontes mais originais, de penetrar em todos os detalhes, de chegar a perfeitamente rejeitar um enfoque romântico da história em nome da objetivi­
generalizações e à síntese a partir de fatos primários. Ainda se apegam aos ideais de objetividade
dade, mas que, enquanto a história fosse concebida como explicação por narra­
e subordinação do historiador a seus materiais [138].
ção , seria necessário trazer para a tarefa de narração o mito, ou estrutura de
enredo, arquetípico, o único pelo qual se poderia dar forma àquela narrativa.
Tudo isso é correto, mas não indica adequadamente até que ponto as
noções de “objetividade”, “estudo crítico” e “penetração nos detalhes” e a
produção de generalizações a partir do exame de “fatos primários”pressupõem
O PROCESSO HISTÓRICO COMO COMÉDIA
concepções da natureza da verdade e da realidade sobre as quais o tipo de
“conclusões mais amplas”, que Ranke afirmava inferir de seu estudo dos mate­
riais, podem ser justificadas. A enorme produtividade de Ranke (suas obras O mythos cômico serviu de estrutura de enredo para a maioria das obras
completas estendem-se por mais de sessenta volumes), que reflete um padrão históricas de Ranke e de arcabouço dentro do qual cada uma dessas obras pode
uniformemente alto de pesquisa e talento para a representação narrativa, só é ser encarada como um ato individual de um drama macrocósmico. Esse mythos
compreensível em função da certeza que ele levou para o exame dos materiais permitiu a Ranke concentrar-se nos detalhes individuais das cenas que narrava,
e de sua confiança na adequação do critério que usou para distinguir na massa mas proceder com resoluta autoconfiança através da profusão de documentos
de dados õ testemunho histórico significativo e o irrelevante. Foi a confiança à seleção segura daqueles que eram significativos e daqueles que eram insigni­
em seu critério, cuja natureza foi por ele concebida como capaz de diferenciar ficantes como testemunho. Sua objetividade, seus princípios críticos, sua tole­
seu enfoque da história do dos positivistas, românticos e idealistas, que caiu no rância e simpatia por todos os lados dos conflitos com que deparava em todo o
gosto dos historiadores - conservadores e liberais, profissionais e amadores - registro histórico eram distribuídos dentro da atmosfera sustentadora de uma
prefiguração meta-histórica do campo histórico como conjunto de conflitos que
de sua época, e de modo a fazer dele o modelo do que devia ser uma consciência
devem necessariamente terminar em resoluções harmoniosas, resoluções em
histórica “realista”.
que a “natureza” é finalmente suplantada por uma “sociedade” que é tão justa
Ranke compreendeu intuitivamente que a historiografia da nova época,
quanto estável. Assim, em seu ensaio “As Grandes Forças”, Ranke escreveu:
se devia servir aos propósitos que seus valores exigiam que servisse, tinha de
começar pelo repúdio preliminar do modo metonímico, com sua concepção A história do mundo não apresenta um tumulto tão caótico, sucessão contraditória e casual
mecanicista de causação e suas irônicas implicações para os valores e os ideais de Estados e povos como parece à primeira vista. Nem é o quase sempre dúbio avanço da civilização
sublimes. Esse repúdio não precisava ser defendido formalmente, porquanto sua única significação. Existem forças e na verdade forças espirituais, vivificantes, criativas, ou
Herder já o tinha justificado. Além disso, a Revolução e a Reação haviam melhor, a própria vida, e há energias morais, cujo desenvolvimento vemos. Elas não podem ser
confirmado a falência de qualquer enfoque abstrato da realidade social, e o definidas ou colocadas em termos abstratos, mas c possível contemplá-las e observá-las. Pode-se
romantismo, em sua poesia e arte, ilustrara a justificação dos impulsos irracio­ chegar a ter simpatia por sua existência. Elas se expandem, apreendem o mundo, aparecem em
numerosas expressões, opõem-se e reprimem-se e sobrepujam umas às outras. Em sua interação
nais do homem. Mas tampouco podia o pensamento histórico reverter a um e sucessão, em sua vida, em seu declínio c rejuvenescimento, o que portanto abarca uma plenitude
modo meramente metafórico de caracterizar o campo histórico e ainda assim cada vez maior, uma importância mais elevada e mais ampla extensão - nisso reside o segredo da
reclamar o título de “ciência” com que Ranke pretendia vê-lo contemplado se história do mundo [Von Laue (Org.), 217].
lhe fosse permitido fazer jus a uma consideração maior do que a da opinião
180 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 181

Aqui a metáfora sancionadora é manifestamente organicista, a ênfase vez criam instituições específicas (Igrejas e Estados) para a realização de seus
incide no próprio processo; mas o processo denotado não é um simples surgi­ destinos como nações. Os seres humanos, como indivíduos e como povos, eram
mento e desaparecimento das coisas no tempo, em seu próprio tempo. O tempo concebidos como sendo governados pela paixão natural, ou animal, e conse-
em si é dotado de valor em virtude da percepção de uma progressão para uma qüentemente como sendo por natureza desregrados e destrutivos. Mas, de
meta, muito embora a própria meta permaneça indeterminada e seja caracteri­ acordo com Ranke, em duas instituições, a Igreja e o Estado, encontram-se
zada apenas como a realização da coerência formal em geral. instrumentos através dos quais as energias sem direção dos povos podem ser
O fim ou meta para que aponta todo o desenvolvimento é, porém, espe­ canalizadas para projetos humanamente benéficos.
cificado no “Diálogo sobre a Política” de Ranke. Aludindo aos Estados-nações Ranke não se preocupava com especulações inúteis sobre as origens de
que se formaram no decorrer da longa passagem do fim dos tempos medievais Igrejas e Estados ou a maneira pela qual se constituíram no início. O caráter
até a Restauração, Ranke invocou a metáfora de um sistema celestial para geralmente benéfico dessas duas instituições era por ele considerado um fato da
caracterizar o resultado do processo histórico na Europa: história, uma verdade estabelecida não só pela reflexão histórica mas também
pela experiência cotidiana. Pessoalmente estava convencido de que essas insti­
Essa inúmeras comunidades separadas, terreno-espirituais, impulsionadas por energia tuições tinham sido fundadas por Deus para impor ordem a uma humanidade
moral, crescendo irresistivelmente, avançando em meioa toda a turbulência do mundo para o ideal, desregrada; e pensava que um estudo imparcial da história confirmaria o papel
cada qual em sua própria rota! Contemplai-os, a esses corpos celestes, em seus ciclos, em sua mútua
geralmente benéfico desempenhado por essas duas instituições na vida humana,
gravitação, seus sistemas! [180J
que poderia sugerir ao piedoso a origem divina de ambas. Mas não era neces­
sário acreditar na divindade delas para reconhecer-lhes a função ordenadora
Aqui a percepção organicista utilizada para caracterizar o processo de
nas vidas dos povos. Elas constituem os únicos princípios ordenadores no tempo
crescimento e desenvolvimento dá lugar a uma percepção mecânica mais
histórico; é através delas que um “povo” pode dirigir suas energias espirituais
adequada à caracterização de um sistema em equilíbrio. A imagem do sistema
e físicas para a constituição de si mesmo como “nação”.
solar tem a vantagem de sugerir movimento contínuo dentro do sistema. A
Assim encaradas, as forças da ordem e da desordem que constituem as
história não é concebida como se chegasse a um fim na própria época de Ranke,
condições primeiras do processo do mundo encontram suas formas históricas
mas o movimento é agora regrado, ordenado. É movimento dentro dos limites
em Igrejas e Estados de um lado e em povos do outro. Essas categorias não se
de um sistema acabado de relações que por sua vez já não é concebido como
excluem mutuamente porque Igrejas e Estados são equipados por seres huma­
sujeito à mudança.
nos assim como os povos se compõem de seres humanos que partilham um
Ranke percebia o período anterior à Revolução Francesa como aquele
domicílio comum e um dote cultural comum em matéria de língua, conjuntos
em que as forças em ação tentavam encontrar um lugar que lhes fosse adequado
específicos de costumes, usos, hábitos etc. A conseqüência desse fato é que
num sistema; o próprio sistema estava sendo constituído, ou se constituía a si
Igrejas e Estados nem sempre militam em nome dos princípios da ordem e do
mesmo, por um processo de conflito e mediação. Ranke encarava seu próprio progresso pacífico, mas de tempos em tempos procuram exceder suas esferas
tempo, o período pós-revolucionário, como o tempo em que a constituição do naturais de autoridade. Por exemplo, os eclesiásticos podem tentar usurpar a
sistema estava afinal concluída; em que o sistema se tornava um mecanismo autoridade do Estado, daí resultando o declínio da força política de um povo;
auto-equilibrador, cuja forma geral apropriada estava terminada. O movimento,
ou os estadistas procuram usurpar toda a autoridade espiritual, acarretando a
o crescimento e o desenvolvimento deveriam continuar, mas numa base bem diminuição da energia espiritual da vontade do povo e a degenerescência da
diferente de que existira antes que os elementos do sistema estivessem plena­ vida privada dos cidadãos e da moral em geral. Em tais ocasiões a nação será
mente constituídos. A sociedade finalmente substituía a natureza como o meio
abalada pela guerra civil e incitará à conquista as nações vizinhas que, pelo fato
dentro do qual a história devia operar com vistas à realização de sua meta
de terem atingido um equilíbrio mais adequado de autoridade política e ecle­
imanente, a consecução de uma humanidade integral.
siástica dentro dos termos de suas “idéias” nacionais específicas, poderão
imprimir forma e direção unitária a seu impulso intrínseco de crescimento e
expansão à custa da nação enfraquecida. E, a menos que uma nação assim
A “GRAMÁTICA” DA ANÁLISE HISTÓRICA ameaçada possa apelar para reservas de força espiritual ou física em tais
períodos de crise, a menos que possa instituir reformas e restabelecer o relacio­
Para Ranke o processo histórico per se, diferentemente do processo total namento entre instituições eclesiásticas e políticas exigido pela “idéia” que a
do mundo, era um campo perfeitamente estável (sua estabilidade era garantida informa, o desastre ocorrerá e o povo daquela nação desaparecerá da história
por Deus), povoado por objetos discretos (seres humanos, cada qual individual­ para sempre.
mente constituído por Deus) que se juntam e se combinam em diferentes
entidades (povos, também individualmente constituídos por Deus), que por sua
182 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 183

Também uma concepção específica do Estado ou da Igreja pode adquirir modo característico de organização social do sistema europeu de Estados-na­
poder excessivo sobre a imaginação dos homens em todas as partes e pode ções. Esse modo encontrou sua expressão nítida no aparecimento do princípio
expandir seu poder para além dos limites do povo para o qual exclusivamente do equilíbrio de poder como corolário da diferenciação nacional.
é adequada, constituindo-se como uma “Igreja universal” (como a católica Da mesma forma que uma nação encontrava em sua “idéia” o mecanismo
romana) ou um “Estado universal” (como o Sacrum Imperium do povo alemão). para ajustar as relações internamente, entre povo, Igreja e Estado, também a
Isso, de fato, foi o que aconteceu na Idade Média, acreditava Ranke, resultando “idéia” de Europa funcionava como mecanismo regulador para ajustar as
daí que - como escreveu ele - o “progresso pacífico” se tornou lento, a relações externamente, entre as diversas “nações” que haviam tomado forma
transformação dos povos em nações encontrou obstáculos e a cultura definhou no seio do mundo amorfo e heterogêneo da Idade Média. Ao contrário de
numa escuridão gótica de indecisão, ansiedade e medo. Mas, no fim, aparece­ muitos conservadores arcaístas que viam apenas perversidade na Revolução
ram reformadores entre todos os vários povos que juntos constituíam a civiliza­ Francesa, Ranke admitia que muita coisa boa resultara dela. Por exemplo, em
ção européia, e esses reformadores atacaram tanto a idéia de uma Igreja consequência da Revolução, as nações haviam ingressado num estágio final de
universal quanto a de um Estado universal. Além disso, conquanto se apegassem autoconsciência, as grandes potências tinham divisado um escopo comum na
à verdade essencial da religião cristã e à unidade essencial da cultura européia, manutenção de cada uma por todas as outras, e a civilização européia penetrara
esses reformadores arquitetaram formas de organização eclesiástica e política, finalmente em seu milênio, no qual o “progresso pacífico” podia prosseguir
e das relações entre elas, que eram adequadas à expressão das necessidades indefinidamente sem temor real de revolução vinda de baixo ou de guerras de
específicas desses vários povos, de acordo com as “idéias” nacionais que os aniquilação total vindas de fora. Assim, na introdução a seu ensaio “As Grandes
informavam. Forças”, Ranke escreveu:
Essa era a verdadeira significação do Renascimento e da Reforma e do
período das guerras religiosas que se seguiram. Durante esse período a “idéia” Se o principal acontecimento dos cem anos que precederam a Revolução Francesa foi a
da nação emergiu como o princípio autoconscientemente orientador dos diver­ ascensão das grandes potências em defesa da independência européia, também o principal acon­
tecimento do período que se lhe seguiu é o fato de que as nacionalidades rejuvenesceram,
sos povos da Europa, que se constituíram como nações distintas com destinos
revigoraram-se e voltaram a desenvolver-se [215].
históricos inconfundíveis e fundaram Igrejas e Estados adequados à direção de
suas energias por caminhos regulares e humanamente benéficos.
Sua própria época, disse ele, tinha

promovido uma grande libertação, não totalmente no sentido de dissolução mas antes num sentido
A “SINTAXE” DO ACONTECIMENTO HISTÓRICO criador, unificante. Não basta dizer que deu vida às grandes potências. Também renovou o princípio
fundamental de todos os Estados, isto é, a religião e a lei, e deu nova vida ao princípio de cada
Estado individual [216].
Logo que os povos da Europa se tinham constituído em nações, com
Igrejas e Estados exclusivamente adequados a suas necessidades espirituais e
políticas específicas, e dentro do contexto geral europeu de certos atributos Dir-se-ia que, para Ranke, a constituição de nacionalidades auto-regula­
culturais e religiosos compartilhados, a civilização européia entrou numa fase doras unidas numa comunidade mais ampla de relações de poder auto-regula­
qualitativamente nova de desenvolvimento histórico. A constituição dos povos doras representava um fim para a história tal como os homens a tinham
da Europa em Estados-nações diferenciados criou as condições para o apare­ conhecido até aquela época. Em suma, para ele a história terminava no presente;
cimento de um sistema de organização cultural completamente autônomo, com a constituição da Europa em meados do século XIX, fixava-se a forma
progressista e auto-regulador. Tão logo as várias “idéias” das várias nações básica de todo o desenvolvimento futuro. O sistema achava-se em equilíbrio
afloraram à consciência dos vários povos da Europa, foram automaticamente quase perfeito; de tempos em tempos poderia haver necessidade de ajustes,
estabelecidos os controles destinados a regular as relações entre o povo, a Igreja assim como o sistema de Newton reclamava a intervenção ocasional do relojoei­
e o Estado dentro das nações por um lado e entre as diversas nações assim ro divino para retificá-lo, e esses ajustes tomariam a forma de ocasionais
constituídas por outro. O sistema não foi completamente elaborado durante distúrbios civis ou guerras limitadas entre os Estados.
quase três séculos e, antes que estivesse terminado, teve de resistir a ataques É óbvio que a concepção de Ranke do desenvolvimento histórico europeu
procedentes dos equivalentes seculares do velho conceito universalista medie­ pode ser dissociada dos postulados possibilitadores de sua visão total do mundo
val de organização social, às tentativas de hegemonia européia e até mundial e julgada por seus próprios méritos como interpretação ou como esquema para
por parte de chefes políticos como Carlos V, Filipe II, Luís XIV, os jacobinos organizar o estudo da história européia. E, ao empregar seu próprio método de
e Napoleão. Mas esses ensaios de hegemonia política foram frustrados pelas crítica das fontes e determinação objetiva dos fatos, outro historiador poderia
operações do princípio de diversidade-na-unidade que Ranke julgava ser o discordar dele a respeito do que constituía os componentes do campo histórico
184 HAYDENWHITE META-HISTÓR1A 185

e os possíveis modos de relacionamento entre eles. O próprio Ranke foi social fossem consideradas tentativas imperfeitas de realizar o que ele imagina­
generoso com os críticos de sua obra, que dirigiram a atenção dele não só para va ter sido conseguido em seu próprio presente. E foi por conseguinte obrigado
“fatos” que havia negligenciado ao caracterizar determinados períodos, Esta­ a sustentar que, já que este presente se concretizou, nenhuma outra forma de
dos, indivíduos, idéias e assim por diante, mas também para categorias inteiras organização social pode emergir. Como Hegel, Tocqueville e Marx, a única
de fatos, como os econômicos, que originariamente não tinham lugar em seu forma alternativa de organização social que ele podia conceber era internacio­
sistema. É, porém, importante reconhecer que um elemento em seu sistema de nal, ou transnacional, baseada em algum princípio cosmopolita ou universal.
interpretação histórica funcionava como mais do que um dado puramente histó­ Mas excluiu essa possibilidade com o auxílio da própria história: tais formas
rico; refiro-me à sua noção da “idéia da nação”. universais tinham sido tentadas na Idade Média - na Igreja universal e no
Sacrum Imperium - e se tinham revelado deficientes; portanto, tinham sido
permanentemente postas de lado. Ranke admitiu a possibilidade de tentativas
A “SEMÂNTICA” DA INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA de reviver essas formas universalistas de comunidade no futuro; e viu tais
tentativas no liberalismo, na democracia, no socialismo e no comunismo. Mas
A redundância de minha caracterização da “noção” da “idéia da nação” julgava que tais movimentos eram, como a própria guerra, apenas ocasiões de
é exigida pela função que essa noção desempenha no sistema de Ranke, pois a fortalecimento e ulterior articulação da “idéia” nacional eternamente viável.
“idéia da nação” não é apenas uma idéia entre muitas que os homens podem
ter dos meios de organizar a sociedade humana; é o único princípio possível de
organizá-las para a realização do “progresso pacífico”. Em resumo, a “idéia da AS IMPLICAÇÕES CONSERVADORAS DA IDÉIA
nação” era para Ranke não apenas um dado mas também um valor; mais, era o DA HISTÓRIA DE RANKE
princípio em virtude do qual se podia atribuir a tudo na história uma significação
positiva ou negativa. Ranke demonstrou-o quando caracterizou a “idéia da NoPolitische Gesprache, Ranke argumentou que as guerras não determi­
nação” como eterna, imutável, um pensamento de Deus. Admitiu que os povos nam “as formas de organização política interna” mas apenas “suas modifica­
podem vir e ir, as Igrejas podem formar-se e desaparecer, e os Estados podem ções”. Em “As Grandes Forças”, equiparou sua própria época à do período
surgir e extinguir-se; e que é tarefa do historiador narrar a passagem deles ou, helenístico. O período helenístico, escreveu,
em épocas mais recentes, reconstruí-los em sua individualidade e singularidade.
Mas captar-lhes a essência, perceber-lhes a individualidade e singularidade, é oferece muitas semelhanças com o nosso: uma cultura comum extremamente desenvolvida, ciência
apreender a “idéia” que os informou, que lhes deu o ser como existentes militar, e ação e interação de intrincadas relações exteriores, além da grande importância dos
históricos específicos, e encontrar o princípio unitário que fez deles alguma interesses comerciais e das finanças, rivalidade de indústrias e florescimento das ciências exatas
coisa em vez de uma coisa qualquer. E isso só é possível porque a “idéia” de baseadas na matemática. Mas aqueles Estados [helenísticos], produzidos pelo arrojo de um
conquistador e pela dissensão entre seus sucessores, nem tinham possuído nem sido capazes de
uma nação é intemporal e eterna. forjar quaisquer princípios individuais de existência. Baseavam-se em soldados e dinheiro exclusi­
Mas em princípio essa “idéia” só é cognoscível quando se atualiza numa vamente. Foi por esse simples motivo que logo se dissolveram e afinal desapareceram por completo
forma histórica específica - isto é, só na medida em que um povo consegue RH.
realmente tornar-se uma nação específica. Isso sugere que todos os povos e
todas as civilizações que ainda não chegaram ao estágio de auto-realização Em contraste, a época mesma de Ranke fora estimulada a alcançar o
representado pelo Estado-nação existem numa espécie de noite proto-histórica poder criador da “força moral” e do “princípio de nacionalidade”. “Que teria
anterior à verdadeira aurora histórica da moderna história européia no século acontecido a nossos Estados”, perguntou ele, “se não tivessem recebido vida
XVI. E, para levar essa metáfora diurna à sua conclusão lógica, segue-se que o nova do princípio nacional em que se baseavam? É inconcebível que qualquer
meio-dia da história é localizado no próprio presente de Ranke, quando, saído Estado pudesse existir sem ele” (Ibid.). Era assim concebível, Ranke dava a
do trauma da Revolução, o sistema auto-regulador de Estados-nações europeus entender, que, enquanto o princípio de auto-identidade nacional fosse mantido,
plenamente constituídos alcançou uma forma final. Ele admitiu a possibilidade também continuaria a existir o sistema de Estados-nações auto-reguladores.
de verdadeira transformação, revolução, convulsão, apenas para épocas ante­ Ranke deixou claro que considerava caber ao historiador escrever história
riores à sua; mas para ele o futuro era tão-somente uma indefinida extensão de de modo a reforçar o princípio de nacionalidade como única salvaguarda contra
seu próprio presente. o afundamento na barbárie. E, numa passagem que ele mesmo posteriormente
Uma vez que a criação de um sistema de Estados-nações auto-reguladores omitiu ao preparar a edição de suas Obras Reunidas, esclareceu que, para ele,
era a meta para a qual tudo tende, a estase final para a qual todo movimento um sistema de Estados-nações podia, como uma conversa entre os deuses, durar
aponta, Ranke forçosamente exigia que todas as outras formas de organização para sempre. À indagação de se o sistema de Estados-nações não poderia
186 HAYDENWHHE META-HISTÓR1A 187

impedir o desenvolvimento de uma comunidade mundial, respondeu que a nacionais que têm como princípios informadores “idéias” nacionais particula­
própria civilização dependia de diversidade e divisão. res, seu ideal de investigação histórica “objetiva” era perfeitamente satisfatório.
Mas, em qualquer ponto do registro histórico onde entidades como Estados,
Haveria apenas uma desagradável monotonia se as diversas literaturas deixassem que seus Igrejas, povos e nações constituíssem antes “problemas” que “dados”, seu
característicos individuais se misturassem e se fundissem. Não, a união de todos deve assentar na método empírico possivelmente não funcionaria. A investigação histórica po­
independência de cada um. Podem então estimular uns aos outros de maneira vigorosa, sem que deria avançar com base no método rankiano onde as instituições sociais já
um domine ou prejudique os outros.
estivessem estabelecidas com tal solidez que pudessem oferecer sua concepção
Dá-se o mesmo com Estados e nações. Definido, o predomínio de um levaria os demais à
ruína. A mescla de todos eles destruiria a essência de cada um. Da separação e do desenvolvimento do que constituía a natureza real do homem, do Estado e da Igreja como critério
independente emergirá a verdadeira harmonia [218]. pré-criticamente firmado de direção da pesquisa do historiador. Onde tais
instituições sociais ainda não tivessem tomado forma ou começassem a debili­
Em resumo, Ranke não contemplava a possibilidade de novas formas de tar-se ou a desmoronar, e os princípios de organização social não mais fossem
comunidade em que os homens estivessem politicamente unidos e livres das evidentes para os profissionais da história, e fosse suscitado o problema do que
restrições a eles impostas por Estados e Igrejas nacionais. Esta é a um só tempo constituía a melhor forma de comunidade humana, seria necessário ir buscar
a medida e a forma do seu conservadorismo. Uma vez que a “idéia da nação” outros métodos de investigar o passado e o presente, outras categorias concep­
funciona como valor absoluto em sua teoria da história, as próprias noções de tuais destinadas a caracterizar o processo histórico. A procura desses outros
universalidade e liberdade individual são vistas como alternativas à própria métodos e dessas outras categorias conceptuais deu origem às novas ciências
história. Estas se identificam - como mais tarde em Camus - com os princípios sociais que se formaram nos três últimos decênios do século XIX. Essas novas
do totalitarismo de um lado e da anarquia do outro. E, de igual modo, a “idéia ciências sociais geralmcntc se preocupavam com os problemas históricos, mas
da nação” funciona para desencorajar qualquer busca (sociocientífica) de leis eram uniformemente hostis ao que por aquela época passara a ser chamado de
universais de associação e comportamento humano. Tal busca poria necessa­ método histórico. Pois, a essa altura, o método histórico era o método rankiano,
riamente em questão o valor de características nacionalmente estatuídas, reve­ não apenas com seu inducionismo ingênuo, mas acima de tudo com seu pressu­
laria em suma a natureza puramente histórica das características nacionais e posto de que a nação era a única unidade possível de organização social (e a
exigiria que a própria “idéia da nação” fosse tratada como apenas uma idéia. única desejável) e sua convicção de que, portanto, os grupos nacionais consti­
Isto é, exigiria que a “idéia da nação” fosse tratada como o que, de fato, é, um tuíam as únicas unidades viáveis de investigação histórica.
conceito de associação que tomou forma durante um período particular da
história do mundo, num determinado tempo e lugar; que assumiu uma forma
institucional e cultural específica entre os séculos XVI e XIX; e que, portanto, A HISTÓRIA POSTA EM ENREDO COMO COMÉDIA
poderia concebivelmente dar lugar a algum outro conceito de associação hu­
mana, como classe, raça, ou simplesmente aptidões humanas para a sublimação Cumpre notar que num sentido Ranke se presta mais facilmente à carac­
criativa das energias destrutivas do homem no futuro. terização geral do que Michclet, e no entanto, em outro sentido, menos facil­
Ranke considerava os problemas humanos solúveis apenas dentro do mente. Isso porque a estrutura de enredo da história escrita no modo cômico é
contexto da nação e das instituições formadas nela para refrear aqueles impul­ formalmente mais coerente no nível de estória da narrativa do que a história
sos que julgava serem inevitavelmente destrutivos em suas formas imediatas de romântica tem probabilidade de ser. O enredo da história da França de Miche-
expressão. Via em qualquer coisa que ameaçasse a autoridade da Igreja (como let descreve a ascensão gradual do protagonista (o povo francês) a uma percep­
o materialismo e o racionalismo), do Estado (como o capitalismo, imperialismo, ção plena de sua própria natureza essencial e a uma realização integral, ainda
racismo ou liberalismo), ou da nação (como o socialismo, comunismo ou a que momentânea, de sua unidade intrínseca contra as figuras, instituições e
religião ecumênica) uma ameaça à própria civilização. A seus olhos, qualquer tradições obstaculizadoras que procuravam frustrar-lhe o crescimento e a
movimento que depositasse fé numa natureza humana liberada pouco mais era auto-realização. Mas a pureza dessa linha ascendente é obscurecida pela carac­
do que humanitarismo sentimental. E, na medida em que tais movimentos terização metafórica de seus pontos componentes, cada um dos quais deve ser
procurassem estabelecer-se por meios revolucionários, ele os via como forças mais deslumbrante, mais extremo, mais abrangente e intenso, a fim de simboli­
que o Estado e a Igreja tinham sido instituídos para reprimir. zar o estágio superior a que chega o protagonista após cada um dos seus
Assim, visto que Ranke tomou a Igreja e o Estado, por um lado, e o povo, sucessivos triunfos. Alem disso, uma vez que Michelet escreveu a história desse
por outro, como dados em seu sistema, como entidades discretas com caracte­ processo ascendente colocando-se no lado oposto dc seu ponto culminante,
rísticas observáveis e determináveis, e incumbiu o historiador de reconstruir os tendo consciência dc uma subseqüentc queda do ápice atingido, em virtude da
modos pelos quais essas entidades se conjugaram para formar comunidades traição aos ideais da Revolução, o esforço dc captar a pureza, o esplendor e a
188 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 189

santidade do instante do clímax só pôde ser mantido por meio das mais tortuosas A civilização européia ocidental é dividida em seus substratos culturais
projeções poéticas sobre um litoral cada vez mais distante onde se desenrolavam alatinados e germânicos, e estes por sua vez se dividem nas famílias de línguas
os acontecimentos. encontradas em cada um deles. Tais famílias lingüísticas fornecem a base do
Como Ranke, Michelet foi um historiador da Restauração, se bem que relacionamento simbiótico, entre cultura e natureza, em diferentes lugares da
vivenciasse o período da história em que escrevia de maneira oposta à de Ranke. Europa, por meio do qual os povos se constituem. Em seguida postulam-se,
O que Michelet sentiu como abjuração do ideal, depressão pós-coito, por assim dentro das nações, formas específicas de organização política e eclesiástica,
dizer, Ranke saboreou como consumação, mas uma consumação no sentido adequadas ao estabelecimento e à expressão das virtudes e poderes peculiares
literal do termo. Não foi, como na concepção micheletiana do momento revo­ aos diversos povos. Depois invoca-se, entre as próprias nações, uma modalidade
lucionário, um ponto em que a unidade foi alcançada mediante a eliminação particular de relacionamento - expressa na noção do equilíbrio de poder - como
das barreiras que tinham sido artificialmente erigidas para proibir a união do o fim para o qual todos os conflitos entre as nações vêm apontando. No curso
povo consigo mesmo, mas foi, ao contrário, uma verdadeira integração de da narrativa efetivamente escrita analisam-se partes, destacadas dos todos, e
elementos outrora conflitantes entre si e uns com os outros dentro de uma forma depois reconstituem-se os todos, destacados das partes, de modo que a revela­
superior de comunidade, o Estado-nação e o sistema internacional em que cada ção gradual do relacionamento que as partes mantêm com os todos é apreen­
Estado-nação tinha seu lugar e funcionava como parte necessária do todo. dida como a explicação do motivo por que as coisas aconteceram como
aconteceram.
A apreensão organicista do processo histórico proposta por Hcrdcr
estava ainda presente na obra de Ranke como a metáfora pela qual o processo O modo de caracterização tropológica que sanciona essas estratégias de
como um todo devia ser compreendido. Mas fora sublimada na estrutura de explicação é a sinédoque. A “projeção metodológica” desse tropo é aquele
enredo cômica por meio da qual a estória contada acerca da história européia organicismo que os modernos historiadores do pensamento histórico identifi­
devia ser compreendida como estória que supunha uma significação específica. caram como “historicismo”. As explicações de Ranke do motivo por que as
Essa estrutura de enredo era em si mais complexa do que aquela que informava coisas aconteceram como aconteceram assemelhavam-se assim às de Michelet
e conferia um sentido secundário às histórias romanescas de Michelet. num determinado nível, aquele em que o acontecimento a explicar é inserido
em seu contexto pela identificação de todos os elementos que conferem ao
Michelet imaginou o enredo da história como um conflito maniqueísta em acontecimento a “textura” de uma particularidade. Mas a caracterização de um
que protagonista e antagonista estão empenhados num combate mortal cerrado determinado contexto - como o da “Idade Média”, ou da “Reforma”, ou do
e em que um ou o outro deve ser eliminado a fim de que a estória atinja seu “século XVII” e assim por diante - oferece ao leitor o sentido de uma sucessão
ponto culminante, como epifania de redenção ou de danação. Mas Ranke de coerências formais através das quais a ação se desenrola de modo a sugerir
encaixou o espetáculo do conflito dentro de uma apreensão das unidades mais a integração das partes num todo histórico mais vasto, que é a forma da própria
amplas que as lutas entre protagonistas e antagonistas ocasionam, e sublinhou civilização européia em sua fase mais recente.
o que seria ganho pela ordem social em geral em consequência da própria luta.
Assim como a narrativa tem elementos de relato que dão respostas às
A imagem da unidade definitiva da humanidade foi deslocada para um ponto
perguntas “Que aconteceu depois?” e “Como é que terminou tudo isso?”, além
no fim do tempo histórico para fazer as vezes da meta prefigurada em direção
de elementos de enredo que respondem à pergunta “Que sentido tem tudo
à qual pode a fé ou a imaginação supor que se move o processo; e atribuiu-se isso?”, também a explicação avança em dois níveis. Num nível, a pergunta “Que
primordial significação às formas de unidade social já alcançadas nas institui­
aconteceu?” é respondida pela inserção de um evento ou série de eventos dentro
ções e nações oriundas do processo de conflito milenário que se estendeu da
de um contexto através da discriminação dos fios que ligam o evento a outros
Alta Idade Média até a própria Restauração.
eventos, propiciando dessa forma a impressão de uma rica textura de ocorrência
O movimento ternário da comédia, que se inicia num estado de paz que não é passível de qualquer explicação nomológica. Em outro nível, a
aparente, prossegue na revelação do conflito e culmina na resolução do conflito, pergunta “Por que aconteceu como aconteceu?” é respondida pelo movimento
isto é, no estabelecimento de uma ordem social genuinamente pacífica, permitiu que parte de um contexto, considerado como uma forma realizada, para outro
a Ranke delinear, de maneira autoconfiante e convincente, as principais unida­ de modo a mostrar a integração superior dos fenômenos entre si em cada etapa
des de tempo em que se pode dividir o conjunto do processo histórico. O fato sucessiva - no modo do organicismo. Negar que a forma das formas pode ser
de que o processo temporal pode ser posto em enredo com tal margem de conhecida pelo historiador tem o efeito de conferir à etapa mais recente do
segurança inspira confiança na aceitação, por parte de Ranke, das formas processo, aquela em que é postulada a coerência formal alcançada pela época
políticas e sociais de sua época como unidades naturais de análise histórica, do próprio historiador, o estatuto de suposto telos, fim, ou propósito, de todas
graças às quais é possível mapear o campo histórico considerado como estrutura as etapas precedentes. Em suma, o campo histórico é primeiramente demarca­
espacial, ou sincrônica. do como um complexo de eventos dispersos relacionados entre si apenas pelos
190 H4YDENWHITE META-HISTÓRIA 191

fios e meadas que fazem deles um pano de arrás de relacionamentos evento- A “verdade interior” desses feixes de acontecimentos é a “forma” que o
contexto; o campo é em seguida mapeado como padrão de totalidades integra­ historiador, utilizando uma faculdade mais ou menos parecida com a do poeta,
das que mantêm entre si o relacionamento de microcosmo-macrocosmo, ou lhes atribui. Como disse Humboldt, o historiador deve usar sua “imaginação”
parte-todo - e sempre de modo a sugerir que a mais recente coerência formal para “revelar a verdade de um acontecimento por meio da apresentação, ao
discernível na história é a forma suprema de organização sociocultural que pode completar e encadear os fragmentos desarticulados da observação direta”. Mas,
ser legitimamente percebida no processo em geral. diferentemente do poeta, o historiador não pode usar a “pura fantasia”. Deve,
Ranke concebia a história, então, no modo da sinédoque. Traduzida em ao contrário, ater-se a um modo de compreensão exclusivamente histórico, que
método, este lhe permitia pô-la em enredo no modo da comédia e explicá-la à Humboldt chamou de “capacidade conectiva” (58-59). Essa capacidade conec-
maneira do organicismo. Se, porém, desejarmos uma defesa formal tanto do tiva é produto, sugeriu Humboldt, da aplicação, pelo historiador, das “leis da
modo de construção do enredo quanto do modo de explicação que dão à necessidade” que atuam como freio às operações da “faculdade intuitiva”
historiografia de Ranke suas características próprias como ciência supostamen­ (Ibid.)t o que significa que o historiador há de seguir “dois métodos (...)
te “realista”, teremos de procurá-la em outras partes que não as obras de Ranke. simultaneamente na abordagem da verdade histórica: (...) a investigação preci­
Essa defesa foi oferecida já em 1821 pelo estadista, filósofo e cientista Wilhelm sa, imparcial, crítica dos acontecimentos (...) [e] a conexão dos eventos explo­
von Humboldt num ensaio (originariamente lido como conferência em Berlim) rados” (59).
intitulado “Sobre as Tarefas do Historiador”. Mas a capacidade conectiva não deve estender-se a todo o processo
histórico, porque o campo histórico é uma

vasta, densa barafunda das coisas deste mundo, em parte decorrentes da natureza do solo, da
A DEFESA FORMAL DO ORGANICISMO COMO
natureza humana c do caráter das nações e dos indivíduos, em parte surgidas não se sabe de onde,
MÉTODO HISTÓRICO como se implantadas por um milagre, dependentes de poderes obscuramente percebidos e visivel­
mente ativados por idéias eternas profundamente enraizadas na alma do homem - tudo [isso]
Momigliano qualificou Ranke, ao lado de Boeckh e Droysen, de “aluno compõe uma infinitude que a mente não poderá nunca comprimir numa forma única [60].
ideal” de Humboldt (105). E recentemente George Iggers expôs as similitudes
dos pontos de vista deles a respeito de temas como a natureza do pensamento E a disposição do historiador de se abster de impor uma forma única a
histórico, o Estado, a sociedade e o futuro da cultura européia (capítulos todo o campo histórico, contentando-se com a imposição de coerências formais
III-IV). Mas o ensaio de Humboldt ainda não se exauriu como defesa formal provisórias, de médio alcance, a províncias finitas do campo, faz do seu um
dos princípios explicativos que Ranke combinou com o enredo cômico da mister especificamente “realista”.
história para extrair princípios ideológicos especificamente conservadores da Cabe ao historiador, disse Humboldt, empenhar-se em “despertar e
consideração “objetiva” dos “dados” da história. estimular uma sensibilidade para a realidade”. Com efeito, sustentou ele, “o
Humboldt começou por negar expressamente que o historiador pudesse elemento essencial” em que os historiadores operam é “o senso de realidade”,
aspirar a uma compreensão nomológica da história; ao invés disso, o máximo que é definido como “a consciência da transitoriedade da existência no tempo
que o historiador pode esperar é “uma simples apresentação” daquilo “que de e da dependência de causas passadas e presentes” e, ao mesmo tempo, “a
fato sucedeu” (57). Isso não quer dizer, naturalmente, que o historiador é consciência de liberdade espiritual e o reconhecimento da razão”. Só essa
“exclusivamente receptivo e reprodutivo”. Pelo contrário, deve ele ser “ativo e percepção dual de transitoriedade temporal e causalidade de um lado e cons­
criativo” porque: os acontecimentos são apenas “parcialmente visíveis no mun­ ciência de liberdade espiritual do outro permite ao historiador “compor a
do dos sentidos; o resto tem de ser acrescentado por intuição, inferência e narrativa dos acontecimentos de tal modo que as emoções do leitor sejam
conjetura”; as “manifestações de um acontecimento são esparsas, desarticula­ avivadas por ela como se o fossem pela realidade mesma” (Ibid.).
das, isoladas”; e a “unidade” essencial desse “mosaico” de acontecimentos O aspecto mais interessante dessa concepção de realismo histórico é que,
“permanece distante da observação direta” (57-58). A observação sozinha, a julgar pela aparência, ela quase não difere da noção romântica do “Caos do
frisou Humboldt, pode fornecer somente “as circunstâncias concomitantes ou Ser” da história proposta por Carlyle. O realismo do conhecimento histórico
sucessivas”; não penetra no “nexo causal interno” do qual a “verdade interior” parece consistir em o historiador manter na mente do leitor o paradoxo de que
de uma série de acontecimentos “é a única dependente” (58). O que a observa­ a vida humana é a um só tempo livre e determinada. De fato, Humboldt negou
ção revela é um campo de objetos incompletamente percebidos e um complexo explicitamente que o conhecimento histórico pudesse ser usado para instruir o
de relacionamentos que são ostensivamente ambíguos, os feixes individuais de presente quanto a “o que fazer e o que evitar”. Mas, ao mesmo tempo,
acontecimentos aparecendo, “por assim dizer, como as nuvens que só à distân­ recusou-se a aceitar a noção de que o conhecimento histórico consiste exclusi­
cia assumem forma para o olho” (Ibid.). vamente naquela “simpatia” que a concepção “poética” dos românticos pôs no
192 HAYDENWHITE
META-HISTÓRIA 193

seu centro. A história, disse Humboldt, é útil em virtude de “seu poder de (64). Em história, “entendimento” é “o produto combinado da constituição [do
estimular e aprimorar nossa consciência de atuação sobre a realidade”, mas esse evento] e da sensibilidade aplicada pelo observador” (Ibid.). Existe, sugeriu ele,
poder se manifesta mais no suprimento da “forma atribuída aos eventos” do uma afinidade eletiva entre a natureza dos eventos históricos e os modos de
que na simples apreensão dos próprios eventos (61). E aqui se tornam evidentes compreensão que o historiador aplica a esses eventos. Os eventos históricos são
os pressupostos sinedóquicos de sua concepção da explicação histórica. Uma manifestações das tensões que existem entre formas realizadas de vida e ten­
explicação histórica, afirmou ele, é a representação da forma a ser discernida dências conducentes às transformações dessas formas; a compreensão histórica
numa série de eventos, uma representação em que “cada evento” é visto como consiste na dupla apreensão das “forças” que conduzem à produção de inova­
“parte de um todo”, ou em que “cada evento descrito” é apresentado de modo ções na sociedade e na cultura e das “tendências” que aglutinam individualida­
a revelar a “forma da história per se" (Ibid.). des em unidades mais amplas de pensamento, sentimento e vontade (Ibid.). Por
Embora Humboldt concebesse a representação histórica como se esta isso é que a “verdade histórica” é, “de maneira geral, muito mais ameaçada pela
consistisse na revelação da “verdadeira forma dos acontecimentos” e da “estru­ manipulação filosófica do que pela manipulação artística” (Ibid.).
tura interna” da totalidade do conjunto de acontecimentos contidos numa A filosofia, no entender de Humboldt, procura sempre reduzir a totalida­
narrativa, é óbvio que o que ele intentava era uma operação sinedóquica em que de à condição de realização de um processo integrativo que é teleológico por
se imagina que todos os acontecimentos mantêm uma relação com o todo, que natureza. O historiador, por outro lado, não deve lidar com fins ou realizações
é a de microcosmo para macrocosmo. Mas ele percebeu que, em seu ponto de últimas, e sim com tendências e processos. E, ao tratar dessas tendências e
vista, uma representação histórica, ou mimese, deve ser uma reprodução, não processos, não deve impor-lhes suas noções do que eles poderiam em última
dos próprios acontecimentos em sua particularidade, mas da coerência formal análise significar, mas deve, isto sim, permitir que as “idéias” que lhes dão sua
do tecido total dos acontecimentos, que, se levada a cabo integralmente, resul­ coerência formal “emerjam da massa dos próprios eventos, ou, para sermos
taria em “filosofia da história”. Por isso é que ele distinguiu entre dois tipos de mais precisos, surjam na mente através da contemplação desses eventos em­
mimese: a simples cópia da forma externa de uma coisa e o delineamento de preendida com verdadeiro espírito histórico” (Ibid.). Deve, portanto, o histo­
sua “forma interior”. A primeira operação limita-se a reproduzir os contornos riador ao mesmo tempo “levar” as formas das “idéias” a suas “observações”
de um objeto, como o faria um desenhista, ao passo que a segunda oferece um dos eventos da história do mundo e “abstrair” aquela “forma dos próprios
modelo da proporção e da simetria desse objeto, como o faz o verdadeiro artista eventos” (Ibid.). Isso pode parecer uma “contradição”, admitiu Humboldt, mas
(61-62). Esta última operação exige que o próprio artista produza a “idéia” que na verdade, disse ele, todo “entendimento” pressupõe uma “congruidade ori­
pode transformar um corpo de dados numa coerência formal específica. Foi ginal, antecedente, entre sujeito e objeto”; consiste sempre na “aplicação de
essa “idéia” que permitiu a Humboldt fazer distinção entre a verdade de uma uma idéia geral preexistente a algo novo e específico” (65). E, no caso do
reprodução fotográfica por um lado e a “verdade da forma” por outro (63). entendimento histórico, aquela idéia geral preexistente consiste nas operações
Quando aplicada à representação histórica, evidentemente, essa distinção ex­ do “coração humano”, que proporcionam ao mesmo tempo as bases da existên­
põe o historiador ao tipo de subjetividade e relativismo que românticos como cia histórica e as da consciência necessária para a compreensão dela (Ibid.).
Michelet invocavam para justificar suas concepções de “simpatia” como guia
adequado ao entendimento histórico. Mas Humboldt resistiu a essa incursão na Só o crítico mais generoso poderia conceder a esse argumento qualquer
subjetividade ao suscitar a questão de saber “se há idéias capazes de guiar o direito ao rigor que uma genuína análise filosófica deve revelar. Na realidade,
historiador e, se há, de que tipo são elas” (Ibid.). ele repetidamente suscita a possibilidade de uma concepção científica da
Nas passagens que vêm logo em seguida às aqui citadas, Humboldt revelou explicação histórica só para dissolver essa possibilidade na negação da adequa­
as bases essencialmente clássicas e, em última análise, aristotclicas, de sua ção de qualquer explicação causal, ou nomológica, à obtenção da verdade
concepção do conhecimento histórico ao distinguir entre “idéias” num sentido histórica. Foi este o principal impulso do desejo de Humboldt de separar a
estético, filosófico, e num sentido histórico. E o fez de modo a permitir a reflexão histórica da filosofia e aproximá-la mais de sua concepção da arte como
identificação do conhecimento histórico com o tipo de conhecimento que atividade estritamente mimética. Ele situou o conhecimento histórico entre o
Aristóteles consignou especificamente à poesia. O tipo de entendimento que o caos de dados que o registro não processado apresenta à percepção e o ideal
historiador tem da realidade, argumentou, não é o tipo reivindicado pelo artista de uma ciência das leis pelas quais aquele caos pudesse ser submetido a ordem
romântico, que é um conhecimento puramente subjetivo, ou uma expressão de e compreensão, e em seguida negou ao historiador a possibilidade de aspirar a
um estado emocional subjetivo, mas sim uma apreensão do mundo que poderia qualquer compreensão nomológica das forças que dominam o processo histó­
ter existido no interior dos acontecimentos que aparecem no registro histórico. rico. Recorreu a uma analogia entre arte e historiografia, mas invocou uma
concepção de arte que presume a adequação das idéias de forma contidas na
Os historiadores, disse Humboldt, procuram a verdade de um aconteci­ imaginação à representação das formas das coisas encontradas no ser indivi-
mento “de maneira semelhante ao artista”, que procura “a verdade da forma” duado. A teoria do conhecimento histórico daí resultante era formista quanto
194 HAYDENWHITE META-HISTÓRIA 195

à natureza e tipológica na implicação, mas o mistério do ser histórico continuou uma “arte mais livre” entre os gregos (68). Humboldt julgava o feito grego em
indissolvido e seu caos foi reduzido a uma coerência formal geral da espécie especial miraculoso; não pode haver “explicação” para ele, pois representa uma
considerada pela arte neoclássica como a meta mais alta a que podia aspirar. A realização puramente “individual” de “individualidade”. A tarefa do historia­
concepção romântica e idealista subjetiva do poder que é dado à mente para dor, em presença desse milagre, não é explicá-lo, então, mas simplesmente
impor forma à percepção, e, nessa distorção da realidade, alcançar sua huma­ representá-lo pelo que é - isto é, manifestação de uma liberdade humana
nização, foi desprezada. Humboldt reafirmou a ficção da perfeita consonância essencial (Ibid.). Ao mesmo tempo deve o historiador admitir que esse milagre
de consciência e ser, promovida por Leibniz e Herder, numa forma muito menos não durou, que a cultura grega degenerou e extinguiu-se. Sua dissolução é
metafísica e menos rígida. atribuída ao envolvimento de sua idéia nas formas da existência fenomenal, e
Assim, sustentou Humboldt, o historiador “concebe para si mesmo um assim uma explicação material e causal dessa dissolução é tacitamente sancio­
quadro geral da forma da conexão de todos os eventos” de que pode inferir um nada por Humboldt (Ibid.),
quadro da conexão essencial dos eventos que compõem o processo histórico A noção é curiosa, visto que como fenômenos são concebidos como sendo
(Ibid.; grifos acrescentados). Mas excluiu três concepções de conectividade na governadqs.por uma regra em seu processo de realização e por outra em seu
história como inadequadas à correta compreensão de seu tema de estudo. processo de dissolução, por uma força inconfundivelmente “espiritual” no
Foram elas as abordagens mecanicista, fisiológica e psicológica da história, que, primeiro caso e por forças especificamente materiais, fisiológicas e psicológicas
segundo ele, se concentram na conexão causal para explicar o que de fato no segundo. Isso tem o efeito de conferir ao processo de germinação, nascimen­
acontece no processo histórico (66-67). As objeções de Humboldt a essas três to e crescimento maior valor do que o concedido à maturação, degenerescência
abordagens giravam em torno da incapacidade delas de atingir um ponto de e dissolução, estranha assimetria que só é explicável pela suposição de uma
vista “fora do alcance do finito”, do qual “cada parte da história do mundo” necessidade de fazer pender a consciência histórica numa direção explicitamen­
pode ser compreendida e dominada (67). Nesse ponto ele apresentou sua te otimista e confiante. “O primeiro passo dado, o primeiro clarão da centelha”
própria doutrina das idéias, baseada na noção da adequação de generalizações, - isto é, a realidade que surge - é “miraculoso” na história grega, não aquilo
derivadas da reflexão sobre a totalidade das operações do coração humano, à que penetra na obscuridade ao mesmo tempo em que o novo faz seu apareci­
totalidade dos eventos contidos na história do mundo, como base para uma mento. Sem esse “primeiro passo”, disse Humboldt, “as circunstâncias favorá­
apreensão distintivamente “histórica” da realidade. veis não poderiam tornar-se operativas, e nenhuma acumulação de prática ou
As partes da história do mundo devem ser - disse Humboldt - integradas de aperfeiçoamento gradativo, mesmo durante séculos, redundaria em qual­
numa visão do todo, concebido com fundamento numa noção de “governo do quer realização” (Ibid.).
mundo” ou na idéia de que a totalidade do processo histórico manifesta as O valor atribuído à novidade emergente leva à concepção do processo
operações de um princípio superior de unidade, cuja natureza precisa não pode histórico como aquele em que o espírito pode ser contraposto à matéria como
ser especificada mas cuja existência pode ser inferida da evidência que é histori­ a forma ao conteúdo, cujo intercâmbio é regido pelo poder anômalo do primei­
camente entendida. ro. Humboldt queria enviar o “sentimento de peso do sentido” de volta aos
Dir-se-ia então que o historiador não pode aspirar mais à identificação primeiros estágios do processo. Mas esse desejo não foi plenamente justificado
das condições necessárias da inovação emergente do que à identificação das por sua caracterização do processo de nascimento, crescimento e decadência
condições suficientes. Em princípio afirma-se que as próprias circunstâncias no tempo histórico.
não podem explicar o aparecimento de novas formas no processo histórico. E, A “idéia” de uma coisa, disse ele, deve ficar aos cuidados de uma “força
uma vez que é objetivo da ciência determinar tanto as condições necessárias espiritual individual”. Sua individuação, porém, é o ensejo de sua dissolução,
quanto as suficientes para a ocorrência de um evento, tem-se a impressão de uma vez que através de sua própria individuação a força espiritual se submete
que a busca de tais condições pelo historiador está excluída desde o começo. O à influência das leis que regem a existência fenomenal. Seu valor eterno é
que resta ao historiador que se vê diante dessas inovações é o pasmo e a tarefa difundido numa finitude temporal e vinculado a um processo degenerativo.
de “representá-las” no plano da coerência formal que oferecem a uma cons­ Mas, insistiu Humboldt, seu perecimento no tempo deve ser concebido, não
ciência historicamente condicionada à sua apreensão. como testemunho da natureza determinada da existência histórica, mas antes
Mas, se esse método convém à apreciação do aparecimento de tais como epifania da capacidade do espírito de procurar sua articulação na esfera
inovações na história, não tem meio - como não tinha Herder - de explicar a fenomenal; sua articulação e sua dissolução são vistas como prova da “indepen­
dissolução delas. dência” da causalidade fenomenal do espírito, não como prova das operações,
Humboldt deu como exemplos da “criação de energias, de fenômenos nele, de leis causais (69). O movimento da idéia rumo à sua plena articulação
para cuja explicação as circunstâncias concomitantes são insuficientes”, o sur­ no tempo e no espaço é concebido, não como desenvolvimento no tempo e
gimento da arte “em sua forma pura” no Egito e o súbito desenvolvimento de espaço, mas como movimento do ser “interior”para o ser “exterior”.
META-HISTÓRIA 197
196 HAYDENWHITE

tuada” por sua incapacidade de dominar por completo a “matéria ativamentê


Humboldt queria estabelecer esse movimento do interior para o exterior
resistente” em que busca sua atualização (Ibid.). Mas que a série de tragédias
como a forma do desenvolvimento histórico sem especificar o fim para que
que a incapacidade da idéia de se atualizar pode produzir deva ser concebida
tende todo o desenvolvimento e incorrer portanto no idealismo e numa concep­
como um processo fundamentalmente cômico foi uma conclusão prevista por
ção “filosófica” do conhecimento histórico. O que parecia dizer era que o
ele, uma vez que “nenhum acontecimento está separado totalmente do nexo
pensamento permite-nos conceber a história de maneira “idealista” mas não
geral das coisas”; o todo é governado por uma liberdade que a parte apenas
compreender as várias formas de existência histórica sob as condições de uma
vagamente supõe em seu processo de atualização. Assim, a ênfase é transferida
visão idealista do todo. Aqui nos deparamos com aquele “formalismo” no
para a liberdade contida no todo - isto é, para os fenômenos de mudança e
pensamento histórico que Hegel condenou em virtude da ambiguidade intelec­
emergência - e proporciona mais razão ainda para resistir ao interesse por
tual e moral que promovia. Essa ambiguidade se tornou ostensiva no pensamen­
qualquer “busca do padrão coerente do todo”. Buscar o padrão do todo seria
to de Humboldt quando, na conclusão de seu ensaio, ele admitiu que podemos
imputar-lhe determinância.
perceber, através das tendências e das energias emergentes que aparecem na
Podemos ver por esse exame da concepção da história de Humboldt o
história, “formas ideais que, embora não constituam a individualidade humana,
relacionamento que Ranke e a historiografia que ele representa mantêm com o
com ela se relacionam, ainda que só indiretamente”. Ele declarou perceber tais
enfoque organicista de Herder. Houve uma mudança de ênfase. Essa mudança
formas ideais na própria linguagem, que “reflete” tanto “o espírito de seu povo”
consiste numa diminuição do impulso de procurar provas de uma integração
como “uma base anterior, mais independente”, que é “mais influente do que
total do mundo histórico que ainda predominava no pensamento de Herder.
influenciada”, de modo que “cada linguagem importante aparece como veículo
Uma concepção formista de explicação substituiu a concepção organicista que
inconfundível da criação e comunicação de idéias” (70). E partindo dessa
Herder abertamente preconizava. Por conseguinte, há um afrouxamento da
analogia, Humboldt chegou a comentar a respeito da maneira como “as idéias
textura do campo histórico e uma atenuação do impulso de buscar o entendi­
originais e eternas de tudo o que pode concebivelmente alcançar existência e
mento geral dos processos que o caracterizam como campo total de aconteci­
poder” fazem isso “de modo ainda mais puro e completo: elas instauram a
mento ou ocorrência. Mas o arcabouço geral, a significação mítica, a natureza
beleza em todas as formas espirituais e corpóreas, a verdade na atuação inelu­
essencialmente cômica do modo pelo qual aqueles processos devem ser postos
tável de cada força conforme sua lei inata, e a justiça no processo inexorável de
em enredo, continua intacto. Pode-se caracterizar a transição como modificação
acontecimentos que eternamente se julgam e se punem a si mesmos" (Ibid.;
em que o impulso para a explicação é sublimado num desejo de simplesmente
grifos acrescentados).
descrever o processo como se desenrola diante do olhar do historiador. O sentido
Mas ele contestou a capacidade do discernimento humano de perceber do processo ainda é o mesmo. É concebido como um drama cômico, cuja
os “planos do governo do mundo diretamente”. No máximo, disse ele, pode resolução ainda está por realizar-se. Mas a manutenção da moldura cômica,
“adivinhá-los nas idéias através das quais eles se manifestam” (Ibid.). Isso o agora pressuposta, permite que os acontecimentos que ocorrem dentro da
autorizou a concluir que “a meta da história” deve ser “a atualização da idéia moldura sejam apreendidos num estado de espírito explicitamente otimista. Ao
que há de ser realizada pela humanidade de todas as maneiras e em todas as deixar indeterminado o desfecho do drama, embora afirmando ao mesmo
configurações em que a forma finita pode entrar em união com a idéia”. Todo tempo a necessidade de acreditar que todo o processo implica um drama de
o processo só pode terminar no ponto em que “a forma finita” e “a idéia” se resolução especificamente cômica, a luta e o conflito podem ser considerados
unem e “onde as duas não são mais capazes de ulterior integração mútua” (Ibid.; como elementos genuínos da realidade histórica, sem de maneira nenhuma
grifos acrescentados). atribuir a esses elementos a possibilidade de seu triunfo na história no fim de
Voltando depois à comparação inicial do historiador com o artista, Hum­ contas. Cada derrota de uma aspiração é encarada como tão-somente um ensejo
boldt afirmou que “o que o conhecimento da natureza e (...) das estruturas de novo desenvolvimento da idéia nela contida, de modo que seu triunfo
orgânicas são para este, a investigação das forças que aparecem na vida como definitivo na realidade estará assegurado.
[princípios] ativos e orientadores é para o primeiro”. O que o artista percebe
como “proporção, simetria e o conceito de forma pura”, o historiador percebe O mal, a dor e o sofrimento podem ser assumidos simplesmente como
como “as idéias que se desdobram (...) no nexo dos acontecimentos do mundo ocasiões para o espírito alcançar suas muitas atualizações possíveis no tempo.
sem, porém, fazer parte [desses acontecimentos]” (Ibid.). E isso forneceu a As personagens obstrutoras presentes no drama histórico são bastante reais,
Humboldt a base para sua “solução definitiva, e no entanto a mais simples, para mas sua função é percebida agora como sendo a de proporcionar as oportuni­
o [problema da] tarefa do historiador”, que é “a apresentação da luta de uma dades em que o espírito consegue dominar as condições de sua própria atuali­
ideia para realizar-se em ato” (Ibid.). zação. Todos os conflitos passados entre homem e homem, nação e nação, ou
classe e classe podem ser postos à distância e contemplados na plena convicção
Deve-se dar ênfase à palavra “luta”, pois, como disse Humboldt, a idéia do triunfo da beleza, da verdade e da justiça no fim de tudo. A significação
nem sempre logrará realizar-se na primeira tentativa; pode ela vir a ser “desvir­
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cômica de todo o drama não se toma objeto de reflexão, como no pensamento produzir uma série de quadros discretos do passado, mas antes alçar-se a uma
de Hegel, mas simplesmente pressuposta como um fim que podemos apreender conceptualização superior dos relacionamentos delineados no processo, do
de dentro da nossa posição no interior da história, cuja compreensão real deve qual esses quadros representam apenas partes ou fragmentos. A reflexão
aguardar a “integração” de “configurações finitas” e “forma” na última cena do histórica, disse Humboldt, é inspirada por preocupações especificamente mo­
último ato. Como atua todo o processo só em termos gerais é conhecido e rais, pela necessidade do homem de conhecer de algum modo o que é a sua
cognoscível. O máximo a que o historiador pode aspirar é à representação natureza a fim de poder agir com vistas à construção de um futuro melhor do
narrativa dos processos em que uma coerência formal transitória é alcançada que sua vida presente lhe oferece. O que está em debate é como o contexto
em diferentes momentos e lugares no mundo. O aparecimento de novas formas dentro do qual os sucessos históricos ocorrem, a moldura ou o solo em que
continua a ser um “milagre”, um objeto de percepção mas não de compreensão. acontecem, deve ser concebido, e se o processo delineado pela concatenação
A dissolução de formas acabadas é atribuída ao envolvimento de suas dos eventos no tempo deve ser julgado animador ou desalentador em suas
idéias diretrizes nas condições de sua especificação - isto é, a leis de mudança implicações morais.
e dissolução física. Mas o sistema de Humboldt não podia dar conta da ascensão
e triunfo do que chamou de “estados anormais de vida, como em tipos de
doença”, pois lhe era inimaginável que o mal, o erro e a injustiça pudessem ter CONCLUSÃO
suas formas “ideais” do mesmo modo que a bondade, a verdade e a justiça.
Indubitavelmente, disse ele, há alguma espécie de analogia entre estados “anor­ No pensamento de Ranke acerca do processo histórico deparamos com
mais” e “normais” de vida, analogia de tendências “que se manifestam de súbito
idéias que assinalam um rompimento definitivo com alguns dos principais
ou pouco a pouco sem causas explicáveis, que parecem seguir leis próprias e
pressupostos do romantismo literário. Os impulsos românticos por trás dos
concernir a uma conexão oculta de todas as coisas”. Mas ele era incapaz de
exercícios historiográficos de Ranke não podem, evidentemente, ser negados;
imaginar como essas tendências poderiam fazer parte do drama histórico tal
ele mesmo deu testemunho da influência deles sobre seu pensamento durante
como o concebia. Esse lado obscuro do processo histórico permanecia miste­
sua juventude. Estão presentes em seu interesse pelo evento individual único e
rioso para ele, e, afirmou Humboldt, “talvez se passe ainda muito tempo até que
concreto, em sua concepção da explicação histórica como narração e em sua
[seus princípios] venham a ser úteis à história” (69).
preocupação de penetrar no interior da consciência dos atores do drama
Ao conceber a transição de Herder através de Humboldt até Ranke em histórico, para vê-los como eles se viam a si mesmos e reconstruir os mundos
função da mudança de uma estratégia explicativa organicista para outra formis- que eles enfrentavam no tempo e no lugar que lhes eram próprios. Mas ao
ta, em que o modo essencialmente cômico de elaboração de enredo continua mesmo tempo Ranke combateu resolutamente o impulso para a glória na “festa
intacto, permito-me prescindir da terminologia usual, atualmente transformada de formas” que o registro histórico parece representar para o olho acrítico. Em
em clichê, na qual as disputas historiográficas do início do século XIX são seu modo de ver, a história - apesar de sua natureza aparentemente caótica -
convencionalmente estudadas. Pode-se ver que os pontos controversos não apresenta à consciência histórica adequadamente condicionada um sentido e
giram tanto em torno do problema da oposição do individual ao geral, ou do compreensibilidade que ficam um pouco abaixo da certeza total de seu sentido
concreto ao abstrato, ou sequer sobre a questão de saber se a história deve ser último que a sensibilidade religiosa pode extrair da reflexão sobre ela. Esse
filosoficamente concebida ou empiricamente inferida, ou se é mais uma ciência “sentido” consiste na apreensão da coerência formal de segmentos finitos do
do que uma arte. O ponto em debate em todas as análises em que tais termos processo histórico, na apreensão das estruturas que se sucedem umas às outras
são empregados é o que se entende pelos próprios termos, os modos como a como integrações cada vez mais abrangentes da vida e da sociedade humana.
arte, a ciência e a filosofia são concebidas, por um lado, e a natureza do Em suma, para Ranke, o sentido que a história revela à consciência é puramente
relacionamento entre o evento individual e seu contexto, por outro. organicista. Não é, porem, o organicismo holístico que Novalis pretendeu
Na verdade, Humboldt, como Ranke, sustentava que a história é o conhe­ enxergar no processo todo, mas o do relacionamento parte-todo que permite
cimento do acontecimento individual em sua realização concreta e que o ao observador ver no microcosmo uma indicação da coerência mais ampla
problema que o historiador enfrenta é o de relacionar o individual com o contida na totalidade. Ranke confiou a apreensão adequada da natureza dessa
contexto em que aparece e cumpre seu destino. Além disso, ele e Ranke coerência mais ampla a uma sensibilidade especificamente religiosa e negou-a
afirmavam que a história é em última análise uma forma de arte, e especifica­ à consciência histórica corretamente entendida. Mas ao historiador concedeu
mente uma forma de arte clássica, vale dizer, uma forma de arte mimética um tipo de discernimento que produz um sentido, ou vários sentidos, que podem
voltada para a representação da realidade como esta “efetivamente” aparece superar o desespero sofrido por Constant, de um lado, e o tipo de fé ingênua
num dado tempo e lugar. De mais a mais, ele asseverava que o escopo do estudo professada por Novalis, do outro. Encontrar as formas em que a realidade
histórico, afinal, é adivinhar o sentido de todo o processo histórico, e não apenas histórica se manifesta cm diferentes épocas e lugares, nos esforços da raça para
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realizar uma comunidade humana - tal era a concepção dc Rankc da tarefa do cesso que é representado como drama cômico por um historiador pode ser
historiador. E essa doutrina organicista constituiu a principal contribuição de representado como drama trágico ou processo absurdo por outro. Quando tais
Ranke para a teoria pela qual a história se estabeleceu como disciplina autôno­ enredos alternativos se oferecem a um público que já perdeu a fé em sua própria
ma no segundo quartel do século XIX. capacidade de fornecer a resolução cômica do drama em que desempenha o
É verdade que disputas como as travadas entre Ranke e o discípulo de papel de principal protagonista, o interesse pelas explicações organicistas da
Hcgcl, Hcinrich Leo, giram em torno de questões como a de saber se o história pode ceder o lugar a um desejo de técnicas explicativas mecanicistas ou
entendimento deve proceder do particular para o geral ou do geral para o contextualistas. E isso foi o que ocorreu em vastos setores do mundo culto no
particular; mas essas disputas se travam a partir do interior da pressuposição último quartel do século XIX, com o advento do positivismo e do marxismo de
compartilhada de que o campo histórico é o lugar onde o geral e o particular, um lado e do esteticismo de outro.
o universal e o individual, se encontram e se fundem no processo histórico em Mas, em tais circunstâncias, não é necessário abandonar o organicismo;
geral. A verdadeira questão tem a ver com a exigência de rigor na conceptuali- basta apenas passar da representação do processo histórico como drama cômi­
zação, por um lado (a posição representada por Hegel), e a possibilidade de co para a representação dele como drama absurdista para refletir a perda de
resistir a uma rigorosa conceptualização das bases do conhecimento histórico, vigor das classes dominantes de uma sociedade quando suaj>rópria capacidade
por outro (a posição representada por Humboldt e Ranke). Na cdncepção de compreender cientificamente a realidade se dissipou. E isso foi o que
organicista de explicação, a obscuridade em algum ponto da análise é um valor Burckhardt realizou.
inquestionado, é exigida pela apreensão do campo histórico como lugar onde a A importância do ensaio de Humboldt residia não em sua concepção da
novidade essencial se intromete sob condições e impulsos que são intrinseca­ explicação histórica, que era menos do que adequada do ponto de vista lógico
mente incognoscíveis. Esse é o verdadeiro teor da defesa feita por Ranke e seus e científico, mas na confiança que manifestava na adequação de uma abordagem
seguidores do método “empírico” na pesquisa histórica. Mas esse “empirismo” organicista do estudo histórico. O que sugeria era que, se a representação
provém menos de uma rigorosa observação de particularidades do que de uma histórica fosse respaldada pela convicção da definitiva coerência formal de todo
decisão de tratar certos tipos de processos como intrinsecamente resistentes à o processo, o pensamento histórico poderia ser salvo da noção de “Caos do Ser”
análise - e certos tipos de compreensão como intrinsecamente limitados. dos românticos, por um lado, e da noção de sua perfeita compreensibilidade
Essa apreensão da natureza fundamentalmente misteriosa (ou miraculo­ proposta pelos idealistas e positivistas, por outro. Em suma, representava um
sa, se se preferir) do acontecer histórico é salva do obscurantismo a que é compromisso com o modo sinedóquico de compreensão.
naturalmente propensa por força da crença que a acompanha na estrutura de Omythos da sinédoque é o drama da comédia, a apreensão de um mundo
enredo essencialmente cômica desenhada em cada estória que poderia ser em que todas as lutas, discórdias e conflitos se dissolvem na realização de uma
contada sobre o processo histórico em suas dimensões macroscópicas. Essa perfeita harmonia, na instauração de um estado em que o crime, o vício e a
apreensão da natureza fundamentalmente cômica do processo está subjacente insânia finalmente se revelam como meios para o estabelecimento da ordem
ao chamado otimismo da imagem historicista do mundo. O que as denomina­ social que é alcançada no final da peça. Mas a resolução cômica pode assumir
ções das preconcepções “otimistas” do historicismo rankiano obscurecem é o duas formas: o triunfo do protagonista sobre a sociedade que lhe bloqueia a
grau em que uma atitude meramente otimista é vivenciada como noção pueril caminhada para a meta, ou a reafirmação dos direitos da coletividade sobre o
quando não se faz acompanhar de um fundamento lógico pelo qual a crença em indivíduo que se ergueu para desafiá-la como forma definitiva de comunidade.
sua verdade é justificada. Na consciência sinedóquica de Humboldt e Ranke, À primeira modalidade de construção de enredo cômico pode-se chamar
esse fundamento lógico é umapreconcepção, ela mesma não analisada critica­ comédia do desejo, à segunda comédia do dever e da obrigação. Michelet
mente e injustificada, mas simplesmente afirmada com a atitude com que os escreveu suas histórias da França até a Revolução na primeira modalidade;
homens são moralmente compelidos a encarar a história se não pretendem Ranke escreveu suas histórias de todas as nações da Europa na segunda. O que
entregar-se ao desespero. Mas a justificação para acreditar nisso é oferecida os ligava como representantes da nova, ou “realista”, historiografia do segundo
representação real do processo do mundo em que uma estruturação cômica quartel do século XIX era a convicção que partilhavam: de que a simples
do enredo do processo total passa no teste de plausibilidade. descrição do processo histórico em toda a sua minúcia e variedade iria delinear
A ameaça a que o historicismo estava exposto não cra teórica, uma vez um drama de realização, plenitude e ordem ideal de modo a fazer da narração
que uma concepção organicista de explicação não pode ser atacada de fora do da estória uma explicação do por que ele aconteceu como aconteceu. Por trás
âmbito de seus próprios postulados habilitadores. O que se fazia necessário para dessa disposição de se engolfarem no caos de dados e eventos contidos no
debilitar esses postulados não era uma demonstração de que o registro histórico registro histórico estava a convicção de que uma descrição precisa dos aconte­
pode ser compreendido por modos de explicação mecanicistas, formistas ou cimentos em sua particularidade redundará, não numa imagem de caos, mas
contextualistas, mas, de preferência, uma demonstração de que o mesmo pro­ numa visão de uma coerência formal que nem a ciência nem a filosofia é capaz
202 HAYDENWHITE
3
de apreender e muito menos de captar numa representação verbal. Buscavam
ambos colher a essência de uma “idéia” no centro do processo de desenvolvi­ TOCQUÊVILLE
mento que pretendiam primeiro capturar na prosa narrativa. 0 REALISMO HISTÓRICO COMO TRAGÉDIA

INTRODUÇÃO

A consistência do pensamento histórico de Michelet provinha da cons­


tância com que ele aplicava seu talento para a caracterização metafórica dos
indivíduos e dos processos que discernia no campo histórico. A apreensão
formista, por parte de Michelet, dos objetos ocupantes do campo histórico
escorava-se no mito da estória romanesca que ele empregou para pôr em enredo
a seqüência de acontecimentos que culminaram na Revolução de 1789. Uma
inconsistência fundamental de seu pensamento residia no esforço de inferir
implicações expressamente liberais de uma concepção do processo histórico
que era de natureza essencialmente anarquista. Nenhuma inconsistência seme­
lhante prejudicou o pensamento e a obra de Ranke. Sua teoria do conhecimento
era organicista, seu modo de elaboração de enredo, cômico, sua posição ideo­
lógica, conservadora. Consequentemente, quando lemos Ranke, por mais que
nos impressionemos com seu saber e seus poderes de narrador, nos damos conta
da ausência, em tudo quanto escreveu, do tipo de tensão que associamos à
grande poesia, à grande literatura, à grande filosofia - e mesmo à grande
historiografia. Talvez seja esta uma das razões por que é possível, de tempos em
tempos, renovar o interesse por um historiador como Michelet de úm modo que
é quase impossível com relação a um historiador como Ranke. Admiramos o
feito deste último, mas respondemos de imediato e com simpatia ao agon
daquele.
Quando se trata de cartografar a história do homem e da sociedade em
grande escala, ninguém se permite o tipo de certeza que parece informar a obra
204 HAYDEN WHITE
METAHISTÓRIA 205

de Ranke. O conhecimento é produto de um corpo a corpo não só com os fatos


mas também com o próprio ego. Onde as visões alternativas da realidade não social e político da França orleanista. Sua estatura de importante precursor do
são acolhidas como possibilidades autênticas, o fruto do pensamento tende para moderno pensamento sociológico está bem estabelecida, e suas contribuições
a amenidade e a autoconfiança gratuita. De certo modo respondemos a Ranke para o liberalismo e o conservadorismo são agora pontos pacíficos. Não é meu
como estamos inclinados a responder a Goethe; nenhum pensador foi levado a propósito fazer acréscimos ao entendimento desses aspectos do pensamento,
tentar qualquer coisa que ele já não soubesse no íntimo que podia realizar. A da obra e da vida de Tocqueville. Estou bem mais interessado em analisar seu
tranqüilidade que intuímos existir no centro da consciência de Ranke era uma pensamento sobre a história como modelo de um estilo específico de reflexão
função da coerência entre sua visão e a aplicação daquela visão à sua obra de histórica.
historiador. Essa coerência faltou a Michelet no nível em que ele procurou Nessas duas obras, a forma ostensiva que o conhecimento da realidade
passar de sua visão da história para a posição ideológica com que estava social assume é tipológica, o que poderia sugerir que, no fim de contas, o
conscientemente comprometido, mas que era inconsistente com aquela mesma propósito de Tocqueville era efetuar ou uma dispersão formista ou uma unifi­
visão. Sua obra é por isso mais turbulenta, mais apaixonada e mais imediata para cação organicista dos processos e das forças identificados em função dos tipos
nós que vivemos numa'época em que a autoconfiança moral, se não impossível, realmente construídos. Mas, ao contrário de Michelet por um lado e de Ranke
pelo menos parece tão perigosa quanto é desejável. por outro, nem uma festa de formas nem uma síntese de forças rivais era
Turbulência semelhante àquela que apreendemos em Michelet está pre­ admitida por Tocqueville como verdadeira possibilidade para o futuro da
sente no cerne da obra de seu grande contemporâneo e compatriota Alexis de Europa. Para ele, o futuro comportava pouca possibilidade de reconciliação do
Tocqueville. Essa turbulência tem sua fonte em duas emoções que Tocqucville homem com o homem na sociedade. As forças em ação na história, que faziam
partilhava com Michelet: uma decisiva capacidade de simpatizar com homens dela uma arena de conflito irremissível, não são reconciliáveis, nem na socieda­
diferentes dele mesmo e um temor da destruição das coisas que ele mais de nem no coração do próprio homem. O homem está, como escreveu Tocque­
estimava no passado e no presente. Vimos como Michelet tendeu para uma ville, “na divisa entre dois abismos”, um constituído por aquela ordem social
concepção cada vez mais irônica da história em geral na medida em que a vida sem a qual ele não pode ser homem, o outro constituído por aquela natureza
política francesa foi se distanciando das condições em que uma união ideal da demoníaca dentro dele que o impede de se tornar plenamente humano. É à
nação fora alcançada, ao menos do ponto de vista de Michelet, na euforia de consciência dessa existência “na divisa entre dois abismos” que o homem
1789. Quando o ponto culminante da história francesa desapareceu no passado, regressa constantemente ao cabo de cada esforço para se elevar acima do animal
o mito romântico que Michelet utilizou para dar contorno e forma à história da e fazer florescer o “anjo” que reside dentro dele, reprimido, aprisionado e
França até 1789 passou a ser progressivamente sublimado, reprimido, tratado incapaz de conquistar ascendência na espécie.
como uma insinuação do que poderia ainda ser o resultado da história francesa Esse estilo não é exaustivamente descritível nos termos de um determina­
se o historiador simplesmente conseguisse realizar seu trabalho de reconstrução do rótulo ideológico (como liberal ou conservador) ou especificamente disci­
e ressurreição do passado em sua integridade, cor, intensidade e vida. Na plinar (como “sociológico”). De fato, o ponto por mim sustentado é que a
evolução do pensamento histórico de Tocqueville assistimos a um idêntico verdadeira implicação lógica da obra de Tocqueville como historiador é radical.
deslizamento para a ironia quando acompanhamos o desenvolvimento de sua Visto que estudou a história com o fim de determinar as leis causais que regem
reflexão sobre a história, e sobre a história francesa em geral, desde a Democra­ suas operações como processo, ele se comprometeu implicitamente com uma
cia na América (1835) até os Souvenirs (escritos nos anos que precederam sua concepção a respeito da manipulação do processo social, do tipo que associa­
morte em 1859). Mas o ponto em que Tocqueville iniciou sua descida é diferente mos ao radicalismo em sua forma moderna, materialista. Esse radicalismo
daquele em que Michelet iniciou a sua. Enquanto Michelet começou pela implícito está refletido no mythos trágico que inspira e fornece o contexto
estória romanesca, passou por uma apreensão trágica dos destinos que atrai­
macro-histórico das duas mais importantes obras de Tocqueville, Democracia
çoam os ideais para os quais trabalhou como historiador e veio por fim repousar na América e O Antigo Regime e a Revolução.
naquele amálgama de romantismo sublimado e manifesta ironia com que viu a
história da França depois de 1789, Tocqueville começou por uma tentativa de Fundamental em todo o pensamento de Tocqueville é a apreensão de um
sustentar uma visão explicitamente trágica da história e depois paulatinamente caos primordial que faz da ordem encontrada na história, na sociedade e na
deixou-se cair numa resignação irônica a uma condição da qual via pouca cultura em parte um enigma e em parte uma bênção. Como seu grande contem­
possibilidade de libertação, cedo ou tarde. porâneo, o romancista Balzac, Tocqueville exultava no mistério do fato de que
Os estudos recentes sobre Tocqueville revelaram totalmente as bases o homem “tem” uma história; mas sua concepção dos escuros abismos de onde
intelectuais e emocionais de seu pensamento; as “influências” exercidas sobre o homem provém, e contra os quais ele ergue a “sociedade” como barreira ao
ele, por pensadores do passado e contemporâneos; e sua posição no mundo caos total, não lhe permitia esperar senão modestos ganhos, de tempos em
tempos, em seu conhecimento das forças que no fim de contas governam o
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processo do mundo. Como, para ele (ao contrário de Marx), o próprio ser era crática e aristocrática. E sua concepção da história da moderna civilização
um mistério, Tocqueville não podia fazer avançar seu pensamento até a con­ ocidental, desde o fim da Idade Média até sua própria época, girava em torno
templação da autêntica ciência da história que sua organização tipológica dos do problema de como esses dois tipos de sociedade tinham surgido dentro
fenômenos históricos parecia sancionar. Esse indigerível resíduo de mistério daquela civilização, da natureza do relacionamento e interação entre elas e da
vedava sua conceptualização das leis do processo que poderiam ter-lhe permi­ avaliação das perspectivas do futuro de cada uma. A pergunta a que Tocqueville
tido explicar o fato de que a própria história parece decompor-se em tipos tinha de responder era esta: Qual é a natureza do processo dentro do qual esses
mutuamente exclusivos, mas recorrentes, de fenômenos sociais. dois tipos imutáveis de sociedade se manifestam, interagem e conflitam um com
o outro?
Mas, diferentemente dos ironistas puros que o antecederam no Iluminis- Na verdade Tocqueville não tratou dessa questão diretamente. Intentou
mo e que lhe sucederam no fim do século XIX, Tocqueville não se permitiu discernir tendências de longo alcance, de natureza política, social e histórico-
acreditar que a história não tem nenhum sentido geral. O que o agon trágico cultural, que indicavam, no seu modo de ver, o declínio de um dos tipos de
revela, repetidas vezes, é que o segredo da história não é outra coisa senão a sociedade (o aristocrático) e a ascensão do outro (o democrático). E deu a
eterna luta do homem consigo mesmo e o eterno retomo a si mesmo. O mistério entender que o declínio do tipo aristocrático é função da ascensão do tipo
da história é, assim, concebido ora à maneira de Ésquilo, ora à maneira de democrático, o que significa que via todo o processo histórico como um sistema
Sófocles, primeiro como auxílio à ação autoconfiante no presente em nome de fechado, que continha uma quantidade finita de energia utilizável, em que tudo
um futuro melhor, depois como um memento dos riscos de uma exclusão o que é ganho em qualquer processo de crescimento deve ser custeado por
prematura de possibilidades ou de um precipitado compromisso com progra­ alguma perda em outra parte do sistema. O sistema como um todo, considerado
mas sociais ou pessoais incompletamente compreendidos. E essa perspectiva como um processo, era, assim, concebido de maneira mecanicista, e as relações
dual da história era a base do liberalismo de Tocqueville. Só perto do fim da entre as partes eram concebidas em termos mecânico-causais.
vida o tom e a índole de suas reflexões sobre a história absorveram-se na Se fosse um pensador idealista (ou organicista), Tocqueville seria compe­
convicção irônica de Eurípides ou do último Shakespeare, convicção de que a lido a ver nessa troca de energia o ensejo de um crescimento positivo na
vida pode não ter mesmo sentido algum. Quando essa convicção se insinuou, consciência humana em geral, crescimento que seria perceptível na elevação do
Tocqueville reprimiu-a, por razões morais, com medo de seu efeito debilitador refinamento de reflexão e expressão em sua época em comparação com todos
sobre os homens que precisam empenhar-se, com todas as forças, para fazer os períodos anteriores - à maneira de Hegel ou, quanto a isso, de Ranke. Mas
dos mesquinhos materiais que o destino lhes oferece uma vida de alguma o crescimento que Tocqueville percebeu no processo não deve ser encontrado
espécie. E chegou até a atacar seu amigo Gobineau por atrever-se, em nome da propriamente no progresso da consciência em geral mas no poder das forças
verdade, a disseminar uma concepção da história que iria contribuir para a que foram as únicas a tirar proveito do declínio da aristocracia e da ascensão
promoção de um temor que cabe ao filósofo e ao historiador dissipar. da democracia: o poder do Estado centralizado, por um lado, e o poder das
massas, por outro. E, do seu ponto de vista, essas duas forças agregam-se e
Se Tocqueville tivesse afirmado ou que a história não tem sentido algum combinam-se para apresentar uma ameaça crítica, não só para a civilização e a
e portanto não oferece base nenhuma para a esperança, ou, inversamente, que cultura como ele as concebia, mas também para a própria humanidade. Além
ela tem um sentido e que esse sentido pode ser integralmente conhecido pelo disso, o crescimento dessas forças foi visto por ele, não como um processo
homem, teria sido impelido ou para a posição reacionária de seu sucessor esporádico ou casual, mas como uma erosão sistemática e constante de precisos
Burckhardt ou para a posição radical de seu contemporâneo Marx. Mas ele
recursos humanos - intelectuais, morais e emocionais.
queria acreditar que a história tem um sentido e que esse sentido há de ser
encontrado na natureza misteriosa do próprio homem. Foi o valor que Tocque­ Todo o processo tem a inevitabilidade de um drama trágico, e as primeiras
ville conferiu a esse mistério que o converteu no porta-voz da posição ideológica reflexões de Tocqueville sobre a história e o conhecimento histórico imaginam
explicitamente a tarefa do historiador como a de um mediador entre as novas
que tem sido chamada de liberal, a despeito do fato de que sua concepção da
forças conquistadoras que aparecem nos horizontes temporais do próprio
natureza nomológica do processo histórico poderia tê-lo induzido a adotar uma
historiador e os antigos e desfalecentes ideais culturais que elas ameaçam com
posição radical sobre a maioria das importantes questões sociais da época.
sua ascensão. Tocqueville habitava um mundo dividido. Seu escopo era socor­
O estudo “científico” que Tocqueville fez da história resultou na distri­ rê-lo da melhor maneira possível, de modo que as fendas e rachaduras pudes­
buição dos eventos históricos em tipos, classes, gêneros, espécies e assim por sem ser remendadas, senão completamente corrigidas.
diante. Os dados se transformavam em conhecimento quando se tinha levado a Tocqueville tomou para contexto mais amplo de sua reflexão toda a
cabo sua localização numa série finita de tipos de fenômenos sociais, políticos história da civilização ocidental, na qual situou suas análises das variações das
e culturais. Por exemplo, Tocqueville analisou dois tipos de sociedade: demo­ espécies européia e americana dessa civilização como exemplos de tipos relati-
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vamente puros de potencialidades contidas na totalidade como futuros possíveis ANT1DIALÉTICA


para sua própria geração. Conseqüentemente, tanto o ponto de vista sob o qual
observou as histórias dos dois tipos quanto o tom de voz em que narrou as Na obra de Tocqueville, ao contrário da de Ranke, há muito pouca
histórias diferem significativamente. O ponto de vista assumido para a observa­ percepção de uma transformação dialética do campo histórico; a percepção
ção da democracia americana é o do observador que é superior aos agentes e dominante é a de uma constante queda de uma posição de superioridade e uma
agências que compõem aquele tipo de sociedade. O estado de espírito é de incapacidade de explorar determinadas possibilidades. O dualismo das forças
benevolente ironia, ao menos no primeiro volume de Democracia na América, históricas que Ranke via como a precondição da conciliação social de fato
visto que Tocqueville escrevia com o propósito de alertar seus leitores europeus realizada em sua própria época, Tocqueville via como uma ameaça fundamental
para as forças e as fraquezas dessa potencialidade que a sociedade européia à própria civilização. Com efeito, toda a realização historiográfica de Tocque­
continha dentro de si como possível futuro. Já em O Antigo Regime o tom e o ville foi fruto de seu empenho em determinar se alguma coisa na iminência do
ponto de vista mudaram, na direção assinalada pelo segundo volume de Demo­ desastre total podia ser salva do conflito de forças que, no seu entender,
cracia na América, que é mais nitidamente analítico das instituições, dos costu­ pareciam ser irreconciliáveis.
mes e das crenças americanas e mais diretamente crítico da ameaça que O dualismo que para Tocqueville caracterizava o processo histórico
representam para componentes eternamente valiosos da vida cultural européia. refletia-se em sua concepção da própria natureza humana ou projetava-se dessa
O ponto de vista é muito mais o do participante de um processo, mas partici­ concepção. Como ele escreveu a um amigo em 1836:
pante que deve esforçar-se ao máximo para sair desse processo a fim de
predizer-lhe o movimento ou tendência geral, prever-lhe o fim ou a direção e Não importa o que façamos, não podemos impedir que os homens tenham um corpo e
advertir os que nele estão envolvidos dos perigos que os rondam. O tom mudou também uma alma. (...) Você sabe que o animal não está mais domado em mim do que na maioria
também para harmonizar-se com a mudança de ponto de vista. O estado de das pessoas, [mas] adoro o anjo e daria qualquer coisa para vê-lo prevalecer. Estou, portanto,
continuamente ocupado em descobrir o meio-termo que os homens podem seguir sem se tomarem
espírito é mais sombrio; o mythos trágico determina que a forma da narrativa
discípulos quer de Heliogábalo quer de São Jerônimo; pois estou convencido de que a imensa
fique mais próxima da superfície. A linguagem é predominantemente metoní- maioria jamais será persuadida a imitar qualquer dos dois, e menos o santo do que o imperador
mica, como é no segundo volume da Democracia na América, mas as imagens [Memoir, 1,318].
do processo são muito mais conspícuas, e o fluxo do tempo e o senso de
desenvolvimento são evocados de maneira mais insistente. O mesmo dualismo foi transportado para os princípios políticos de Toc­
Entre o primeiro volume de Democracia na América e CMnrigo Regime queville e redundou numa busca de idêntico “meio-termo” ali também. Sobre
houve importante mudança de ênfase, que passou da consideração da estrutura sua posição política observou certa vez:
para a consideração do processo, daí resultando que a sensação do peso do
sentido se deslocou mais abertamente para o nível narrativo da representação Imputam-me alternadamente preconceitos aristocráticos e democráticos. (...) Mas acontece
na obra posterior. O processo da história da Europa Ocidental desde a Reforma que o meu nascimento me predispôs a ser cauteloso com ambas. (...) Quando vim ao mundo a
até mais ou menos 1830 foi simplesmente assumido como contexto para a aristocracia estava morta e a democracia ainda não tinha nascido. Meu instinto, portanto, não
análise, levada a cabo na obra anterior, da estrutura da democracia americana. poderia conduzir-me ccgamente para uma ou para a outra. (...) Equilibrado entre o passado e o
futuro, sem atração natural instintiva para qualquer dos dois, podia sem esforço observar com
Dentro desse processo, a democracia americana aparece como uma estrutura
tranquilidade cada lado da questão [Ibid., II, 91].
rígida cujo único movimento ou crescimento está na articulação de seus elemen­
tos componentes e suas relações. Em O Antigo Regime, ao contrário, a distinção
entre processo e estrutura está quase dissolvido. O efeito é, por conseguinte, Tocqueville assemelhava-se a Maquiavel em sua convicção de que sua
mais literário, o viés ideológico também mais ostensivamente rebuscado. Mas própria época sofria de uma incapacidade de escolher entre sistemas sociais e
as implicações das duas obras convergem para uma única imagem de estase, ideais culturais alternativos. Desde a queda de Napoleão, acreditava ele, a
determinação, frustração, opressão e desumanização. O impulso predominante Europa ficara suspensa entre o velho sistema aristocrático e o novo sistema
democrático; nem abandonara totalmente o primeiro nem abraçara completa­
por trás de toda a obra de Tocqueville era a visão de derrota e desespero
mente o segundo, e, embora atormentada pelas falhas de ambos, não gozava dos
inexplicados que inspira o m