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MUKUIU

O que me leva a escrever sobre este assunto tão


delicado e polemico para algumas pessoas até os
dias de hoje, é o fato de perceber determinadas
afirmações e até imposições perante a comunidade
de nação Angola/Kongo quando se refere ao pedido
de benção, que é algo muito complexo de se ter um
entendimento padrão, desde o momento em que
dentro da própria nação existe uma gama de grupos
diferenciados dentro da mesma etnia Bantu.
Desta forma já é possível perceber que mesmo
sendo você um praticante do candomblé de
Angola/Kongo de Ndanji (RAIZ) diferente dos
demais, pode haver muitas distinções de culto,
costumes, linguagem, preceitos e até entendimento
de certas expressões.
E é com base nos pontos apresentados que venho
neste trabalho de pesquisa confabular sobre o
assunto.
Também pretendo deixar claro que esta explanação
que faço aqui não é uma forma de dizer que eu
estou certo ou o outro está errado, longe de ter tal
pretensão, mas apenas colocar o modo com que a
Ndanji Nkumbi e seus familiares entreveem a
expressão MUKUIU.

Para dar inicio a explanação apresento algumas


pesquisas feitas por adeptos e pesquisadores do
candomblé Angola/Kongo e sua vasta cultura.
Não o faço na intenção de confrontar algo, mas sim
de compartilhar as informações e pesquisas feitas,
de forma a demonstrar a diversidade de
entendimentos e usos das próprias expressões,
MAKUIU, MOKOIU, MU NKUIU e etc...
MAKUIU e MOKOIU por Wanter de Nkosi
Makuiu
Maku = mãos (do Kimbundu) - Iú, Adj. e pron.
demonstrativo- designativo a pessoa ou coisa que
está presente, ou mais próxima de quem fala./ Este;
esta.
"Maku iú!"- Eis minhas mãos? Creio que seja uma
referência, em sinal de oferecimento aos nossos
préstimos, que consiste no ato de justapormos
nossas mãos em direção aos mais antigos.
Então, a resposta "Maku iú Nzambi", dá-se a crer,
que seria "Nzambi abençoe estas mãos", ou
"Abençoada seja estas mãos!” Em sinal de
agradecimento, e não significa.
"Benção", como muitos supõem ou aprenderam
como tal.
Mokoiu
(a + o= Ma-oko, môko = mãos) (u + o = ô kuoko
kôko = mão)

MU NKUIU por Kijobini do Nkosi


Mu Nkuiu
Mu - Entre outros também é um "Pronome
possessivo" = (Meu/minha). Nkuiu = (Espírito
/Ancestral/Fantasma... etc).
Logo Teremos:
"Mu Nkuiu" (Meu Espirito/Ancestral)... Nu- "Pron.
compl. da seg. Pessoa do plural= (Vós /a Vós).
"Mu Nkuiu nu Nzambi", (A Vós Meu
Espírito/Ancestral Sagrado)". Sabemos que quando
pedimos a "bênção" estamos mesmo é pedindo ao
Ancestral da Pessoa a qual nos direcionamos e esta
pessoa Roga ao Ancestral por quem pede...

VOLTANDO...
Após a explanação sobre as abordagens dos amigos
feitas a acima, compartilho o entendimento da
expressão MUKUIU para nós mbêle (conjunto de
todos os parentes, Família, Casa; pessoas que vivem
na mesma casa, Pessoa da família) Ndanji Nkumbi
repartindo assim o acervo de conhecimentos como
registro da sapiência dos nossos mais velhos.
Em nossa Ndanji (Nkumbi), desde os mais antigos,
sempre foi usado a expressão Mukuiu, inclusive
muitos infelizmente já não estão mais entre nós em
seu aspecto físico, mas sim na Identidade ancestral
da nossa Ndanji e através deles nos foi deixado um
grande conhecimento oral que não se pode deixar a
ser comparado a um dicionário ou mesmo uma
verdade biblioteca.
Destaco aqui o fato que muitos dos dicionários
utilizados para a tradução e entendimento de
palavras dos grupos linguísticos de origem Bantu
foram feitos por padres e missionários que
promoveram a degradação e distorção da nossa
cultura Bantu em modo geral.
Quando você olha e pesquisa em alguns registros
literários o mais “comum e natural” é encontrar a
palavra MUKUIU como figueira e realmente isso
nada tem haver como a benção como muitos
tendem a ter este significado como informação,
mas não quer dizer que o uso da palavra MUKUIU
esteja errado, pois esse significado pode muito bem
estar relacionado a todo um contexto para o uso
dessa expressão.

MUKUIU – FIGUEIRA
A árvore figueira em Angola é mais conhecida como
Mulemba Waxa N’gola (apelidada por mulembeira).
A Mulemba Waxa N’gola para os angolanos é um
dos símbolos máximo da ancestralidade desta terra.
Como as várias árvores desta espécie espalhadas
por Angola, a mulembeira é vórtice de histórias e
crenças antigas.
Conta a tradição que foi o mítico rei Ngola Kiluanji
Kia Samba que com o objetivo de marcar um
território como soberano plantou uma mulemba
(prática comum na época), mas desejoso de deixar
sua marca e ser diferente dos demais soberanos
Ngola Kiluanji resolveu plantar a árvore ao
contrário, folhas para baixo, raiz para cima.
Diz a lenda que apesar de ter sido plantada de
forma invertida e mais de 500 anos terem passado
essa mulemba continua no mesmo local e frondosa,
ramos enrodilhados, como um abraço de braços
compridos.
Outro episódio histórico e representativo para a
tradição oral também reforça a importância da
Mulemba Waxa N’gola. Contam as histórias, dessas
que passam de boca em boca durante gerações,
que debaixo desta árvore, acampou a nossa Rainha
Jinga Mbandi e a sua comitiva, durante uma viagem
a Luanda, em 1621, como líder de uma embaixada
do seu irmão Ngola Mbandi.
Conta-se que essa figueira foi tocada por alguns dos
mais míticos reis Ngola e grandes Asoba, que ainda
hoje alimentam o nosso imaginário de resistência e
identidade.
Desde a sua invertida e atribulada origem Mulemba
Waxa N’gola tornou centro de peregrinação de
pessoas vindas de todos os lugares do país e até de
fora dele, no local sempre foram encontradas
oferendas, objetos, como moedas e também outros
objetos de culto. É que dizem, esta mulembeira
concede milagres a quem a reverencia…
Verdade ou não, a tradição conta que estas árvores
são a perfeita ligação entre o mundo dos mortos
(ancestrais e antepassados), o mundo dos vivos e
aquilo a que chamamos paraíso. Debaixo de uma
mulembeira celebrou-se o Tratado de
Simulambuco, em Cabinda, entre Portugal e os
soberanos da região assim como muitos outros
marcos importantes para o país.
O poder da Mulemba Waxa N’gola ultrapassa os
limites da razão. É sentimento puro, fé absoluta.
Tem a energia dos nossos reis antigos, é origem
que, na beira de uma estrada caótica, ainda hoje
cresce, cresce e cresce. A sua
Sombra continuam a manter comemorações como
antigamente, quando as mulembeiras eram pontos
de, oferendas, cultos, reuniões entre mais-velhos e
fontes de mujimbos.
Este lugar relembra-nos que, muitas vezes, a força
reside na tradição, e que a ela devemos regressar
sempre que o mundo lá fora nos parece envolver e
nos confundir.
Através desse contexto podemos acreditar que a
Mulemba Waxa N’gola tinha um profundo sentido
simbólico entre os povos de nação angola e é dele
que advém o sentido da palavra MUKUIU que era
usada antigamente como vir de uma figueira e foi
através dela que os nossos antepassados na época
da escravidão se expressam para que um deseja-se
ao outro sorte, paz, resistência, ânimo, força, uma
forma de se manter conectados a suas origens,
tradições e através disso receber ajuda de seus
ancestrais que ali estão representados pela figueira.
Desta forma percebemos que na verdade a palavra
MUKUIU usada pelos nossos antepassados para
saldar ao seu semelhante e mantidos até os dias de
hoje não seria um pedido de benção, mas sim um
desejo de tudo aquilo que citei acima, como uma
forma de resistência e de se manterem vivos
mediante todas as situações, como também como
um reconhecimento próprio para saber os seus
semelhantes perante a mistura e diversidade de
africanos trazidos para o Brasil de diferentes etnias.
Quando por ventura vinham a responder MUKUIU
NZAMBI na intenção de desejar de volta ao seu
semelhante o mesmo, que Nzambi não como fator
“DEUS”, mas sim como natureza, universo e tudo o
que há nele pudesse ajudar, como se os pedidos se
cumprissem.
É importante destacar que como tudo no universo
Bantu existe uma amplitude e significado na
etimologia da palavra, a mulembeira concede
sempre milagres a quem o reverencia, a partir disso
podemos dizer que pra nós da NDANJI NKUMBI a
palavra MUKUIU tem um significado muito forte
quando qualquer um há de professar a mesma.
Com esta explanação não quero tornar verdade ou
impor a comunidade o uso da mesma, mas apenas
tentar mostrar aos adeptos e pesquisadores que
pode haver inúmeras diferenças de pensamentos,
ideias e até costumes de uma Ndanji para a outra e
que mesmo assim uma não anula a outra, o
importante é que todos possam seguir seus
costumes como passados por seus mais velhos e
poder manter sua práticas, acho que estamos
vivendo num momento em que muitos querem
fazer afirmações e tentar mostrar que a casa dele é
melhor que a outra e que só ele tem razão e
conhecimento do que faz pesquisa ou fala.
Somos uma nação plural independentemente de
qualquer coisa, onde temos muito a acrescentar
num todo, e todos tem muito a acrescentar com a
gente nessa vasta etnia Bantu.
Sou feliz pela quantidade de pesquisadores que
ganhamos aqui no Brasil, assim a informação pode
ser passada e chegar a quem vai a sua busca,
mesmo aqueles que não tiveram oportunidades,
tempo e nem cabeça para tais pesquisas e
informações, assim fazendo a cada dia maior onde
nos encontramos hoje em nosso candomblé
Angola/Kongo.
MUKUIU A TODOS E VIVA A DIVERSIDADE!!!!

TATA RUMBE
Rio de Janeiro
24/06/2020