E ontem mesmo me peguei agindo certo simplesmente para me provar superior. Aí a
questão da certitude emerge imediatamente: se tudo que fiz de maneira correta ocupava tão somente o lugar de querer demonstrar minha superioridade em relação aos que não seguiam o padrão como eu, é ainda possível afirmar que eu estava certo? Ontem mesmo eu me vi dando dinheiro a um pedinte a fim de me livrar do incômodo de suas insistentes investidas...; ontem mesmo eu disse bom dia a um vizinho detestável somente para provar a mim mesmo que eu sou generoso e não discrimino ninguém...; ontem mesmo olhei uma criança de rua com um sentimento de ternura pesarosa, mas não estava nem um pouco disposto a baixar o vidro do carro e sentir o cheiro que exalava de sua pele...; ontem mesmo eu estive preocupado com a situação social dos menos favorecidos, mas isso por que incomoda meus olhos enxergar a pobreza rastejando entre os carros...; ontem mesmo decidi ingressar na Anistia Internacional, mas me dei conta subitamente que meu interesse pelos africanos e pelas mulheres maltratadas não passa de um nível retórico básico – o do bom- mocismo politicamente correto – e que me preocupo tanto com isso quanto com uma espécie de plâncton azul anil, raro, em vias de extinção. Eu bem que preferiria ficar apenas com a parte bonita dos sentimentos que me animam, mas não posso negar o fato de que na cotidianidade eu nutro mais indiferenças e ódios do que preocupação e ternura pelos que convivem comigo neste mundo. Não consigo esconder que vivo mais no desprezo e na pressuposição do erro alheio do que na tentativa de acolher o outro como sendo uma individualidade irredutível e, portanto, digna de ser ouvida em sua particularidade, ainda que se trate de um imbecil. Não tenho paciência para ignorância e falta de tato social. Estes são elementos que me parecem fundamentais para a vida em comunidade, mesmo que isso inclua a mentira deslavada. Só que nós estamos mais para fantasmas repetidores de certos padrões sociais do que criadores, inventores de uma vida nova a cada dia. Nossa geração está engessada entre a visão da crueldade e a promessa de um mundo onde as contradições não impedem a satisfação de nossos anseios. É uma geração desprovida de viço, de estro poético, de veias pulsantes. Nós não faremos mais que dois ou três gênios, quando muito. Cristalizamos numa posição submissa ante os constrangimentos todos que o dia-a- dia nos inflige, e esta cristalização pode ser raivosa ou pacata, de modo que muitas vezes a estupidez mumificada no corpo de nossa geração aparece como tentativa de se impor pela quantidade de músculos, pelos decibéis suportados no automóvel, pelo descaso com a reflexão crítica, com o desmando nas camadas gestoras do estado, que agora se reabastece com uma geração nova, mas que possui os mesmos trejeitos de impostação de voz e gesticulação (e quiçá atuações) das aves de rapina que lhes servem de modelo. Cristalizamos numa posição de imbecilidade social, e não sei se há santo suficiente para dar conta de equilibrar faltas e excessos. REVOLUÇÃO! Sangue derramado pelas estradas. Burgueses classe média baixa – inclusive implicados com a causa revolucionária – aparecem degolados. Reis assassinados. Presidentes queimados em praça pública. Suspensão de liberdades individuais. Exílio. Talvez seja esse o caminho para nos civilizarmos; revolução armada, com sangue e sofrimento; ou talvez nesse caminho estejamos retornando a uma nova Idade Média, na qual o obscurantismo – agora um obscurantismo científico e laico – ganha força e ressurge como regulador social e ordenador do conhecimento.