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O DIOCONATO DE SÃO FRANCISCO

Fr. Celso Márcio Teixeira, ofm

Dentre os pontos obscuros da história de São Francisco, o que se refere ao seu


diaconato se nos apresenta sobremaneira intrincado. Primeiramente, por falta de
documentação histórica que trate inequivocamente do tema; em segundo lugar, devido a
uma série de hipóteses e interpretações que, muitas vezes, são inquestionavelmente
consideradas como sendo a história. A busca de um caminho de solução requer que se
coloque o tema num quadro mais amplo de discussão, onde se analise o conceito de
“clérigo” (no fundo, a problemática da clericalização).

Documentação insuficiente

Em nenhuma fonte franciscana se encontra a afirmação inequívoca do diaconato


do fundador da Ordem dos Frades Menores. Nenhuma biografia de São Francisco lhe
atribui o termo “diácono”. Já algumas afirmam que Francisco era “levita” (cf. 1Cel
86,1; Jul Pról. 1,8; 73,1; LM, 1O,7,5), apresentando-o no desempenho da função própria
dos diáconos, como ler ou cantar o Evangelho na missa solene (cf. JJ 16; 1Cel 86,1; Jul
54, 6; LM 1 0, 7, 5). O termo “levita” na Idade Média normalmente era sinônimo de
diácono. São Lourenço, que fora diácono, é apresentado em At F 50,4 simplesmente
como levita.
Francisco tampouco se autodenomina diácono ou levita. No entanto, deixa
transparecer que exercia a função de diácono, como trazer nas mãos o corpo de Cristo,
que só era permitido aos que fossem, no mínimo, diáconos (cf. 1Cl 8; 2Cl, 8). E afirma
também que era clérigo (cf. 1Cl 1;2Cl1;Test18).

Hipóteses e interpretações

Uma primeira hipótese diz respeito à data e ao lugar da ordenação diaconal de


Francisco: teria sido em 1209, em Roma, quando a proto-regra foi oralmente aprovada
por Inocêncio III. Esta hipótese, porém, não tem absolutamente qualquer documentação.
Não é atestada nem pelas fontes franciscanas nem por qualquer outra testemunha. O que
consta nas fontes é que houve uma tonsura de todos os frades. Se tivesse havido uma
ordenação diaconal naquele momento, dificilmente os biógrafos teriam deixado de fazer
alguma alusão a ela, até porque uma ordenação diaconal é mais importante do que uma
simples tonsura.
Uma segunda hipótese tenta justificar por que Francisco não se ordenou sacerdote: teria
sido por humildade. Esta hipótese estabelece uma incompatibilidade entre o sacerdócio
e a virtude da humildade, como se um sacerdote não pudesse ser humilde. Também a
esse respeito não se encontra nenhuma documentação ou testemunho.
Uma interpretação que, as vezes, se tenta dar à funcão de diácono (levita) é que
um fundador de Ordem religiosa ou um abade de mosteiro podia cantar o Evangelho nas
liturgias solenes (isto é, exercer a função de diácono). Esta afirmação procura tirar dos
ombros de Francisco uma possível ordenação diaconal, deixando-o no estado de leigo
(de fato, o diácono fazia parte do clero ou do status clerical).

O conceito de clérigo

Este conceito, na Idade Média não era unívoco Tinha dois sentidos O sentido
estrito significava um membro do clero ou da hierarquia Deste modo, um diácono era
clérigo no sentido estrito da palavra O sentido lato ou amplo indicava a pessoa letrada,
aquele que tinha estudos, que sabia ler e escrever, que tinha frequentado escola.
Francisco considerava-se, de alguma forma, clérigo. Sua afirmação não deixa
dúvidas: “E nós, clérigos, rezávamos o ofício como os outros clérigos” (Test 18; cf. 1Cl
1; 2Cl 1). Resta a pergunta: em que sentido? Em sentido estrito ou amplo? O uso do
sentido amplo aqui parece difícil de sustentar- se, pois uma afirmação frequente que
Francisco fazia sobre si próprio era a de ser um homem iletrado: “E éramos iletrados e
submissos a todos” (Test 19). Ainda tomada em sentido amplo, esta afirmação do
Testamento contradiz exatamente a frase anterior. A contradição é flagrante: “nós,
clérigos (=letrados) rezávamos o ofício e éramos iletrados”. Resta, portanto, o uso do
sentido estrito.
Concluindo, pode-se dizer que, partindo do termo levita usado para o diácono e
levando- se em consideração que o termo clérigo deva ser tomado em senso estrito, o
mais provável é que Francisco tenha sido diácono. Mas não se sabe absolutamente a
época nem por quais motivos fora ordenado.