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Afrânio Mendes Catani

• Acumulação Dependente e Subdesenvolvimento - André G. Frank


• O Capitalismo Tardio - João M. Cardoso de Mello
• Formação do Capitalismo Dependente no Brasil - Ladis/au Dowbor
• Multinacionais e Trabalhadores no Brasil - Paulo Freire -
CEDAL /CEDETIM
• PCB - 1922/1982 - Memória Fotográfica - Div. Autores OQUEÉ
Coleção Primeiros

• O que
Passos

é Capital Internacional - Rabah Benakouche


IMPERIALISMO
• O que é Comunismo - Amaldo Spindel
• O que são Multinacionais - Bemardo Kucinski Coordenação:
• O que é Socialismo - Ricardo C. Antunes
• O que é Subdesenvolvimento - Horácio Gonzalez
Vanya Sant'Anna

Coleção Tudo é História


• A Guerra Fria - Déa R. Fenelon 8~edição
• Guiné-Bissau - A Busca da Independência Econômica - Ladislau
Dowbor
• A Formação do 3? Mundo - Ladislau Dowbor
• A Luta contra a Metrópole (Ásia e África) - M. Yedda Unhares
• A Primavera de Praga - Sonia Goldfeder
• A Revolução Industrial," Francisco Iglesias

Coleção Encanto Radical


• Ho Chi Minh - Um poeta no apocalipse - Rafael Roubicek
• José Carlos Mariátegui - Redescobrir a América - Hector Alimonda
• Mahatma Gandhi - A Política dos Gestos Poéticos - Rubem Alves
• Salvador Allende - A Paz pelo Socialismo - Femando AlegrIa

Coleção Primeiros Vôos


• As Multinacionais - do Mercantilismo ao Capital Internacional -
Wa"enDean
Copyright © Afrânio Mendes Catani

Capa:
Mário Carnerini

Caricaturas:
Emílio Damiani

Revisão:
José E. Andrade

ISBN: 85-11·01035-1 ÍNDICE


1~ edição 1981

- Apresentação 7
- Lênin e a questão do imperialismo. . . . . .. 10
- Rosa Luxemburgo e A Acumulação do
Capital. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 58
- Conclusão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 84
- Indicações para leitura .90

editora brasiliense S .a.


rua da consolação, 2697
01416· são paulo - sp.
fone (Onl 280·1222 ..'
brasiliense telex:11 33271 DBlM BR .':
••
'~ expansão é tudo ( ... )
Se eu pudesse, anexaria os APRESENTAÇÃO
planetas. "
Cecil Rhodes
Em O que é Capitalismo, um dos volumes desta
coleção, havia salientado que o capitalismo em seu
curso histórico - ultrapassadas suas origens manu-
fatureiras e sua era heróica de luta contra o feuda-
lismo - apresenta a nível econômico e social dois
fenômenos fundamentais:
• o surgimento de um capital concentrado e com
Para vocação monopolista que, uma vez exauridos os
Barbara Mãe e mercados internos, tende a expandir-se pelo
Barbara Filha, com todi mundo todo, constituindo uma vasta rede impe-
o meu amor. rialista;
• o surgimento de uma classe operária organizada,
que se apresenta com clara vocação universalista.
Destaquei também que estes fenômenos, princi-
Para palmente o surgimento do imperialismo, ultrapas-
Vanya e Ricardo, saram o marco histórico e os referenciais teóricos
muito mais que amigos. de Marx, impossibilitando que o pensador alemão
8 Afrânio Mendes Catani O que é Imperialismo 9

a eles se dedicasse. Dessa maneira optei, neste outro um pouco mais demorado acerca de Rosa
pequeno livro, pela retomada da questão do impe- J (em virtude de maioria do público a que o presente
rialismo a partir das principais obras clássicas que livro se destina dispor de informações menos con-
trataram do tema, centralizando a exposição nas solidadas sobre a autora), inseridos no infcio de
idéias veiculadas por alguns trabalhos de Lênin e cada um dos capítulos, permitem situar tais pensa-
Rosa Luxemburgo - sem dúvida os pensadores dores no tempo e no espaço.
que mais aprofundaram o estudo de tão espinhosa O item Indicações para Leitura tem uma finali-
problemática. dade dupla: destacar a importância de alguns clás-
Nessa exposição dos aspectos essenciais dos sicos que não foram incorporados ao texto (casos,
trabalhos de Lênin e Rosa sobre o imperialismo por exemplo, dos trabalhos de J. A. Schumpeter e
procurei ser fiel ao pensamento dos autores, se- Hannah Arendt) bem como sugerir alqurnas das
guindo as mesmas "trilhas", condensando, esque- II publicações editadas nos últimos anos sobre o
matizando e transcrevendo trechos dos originais. 1I tema. Esse procedimento, acredito, fornecerá ao
Para esclarecer passagens que me pareceram obscu- leitor um mapeamento, ainda que não exaustivo,
ras e/ou com a finalidade de realizar algumas - daquilo que deverá ser lido caso pretenda se ultra-
críticas às concepções dos dois escritores, utilizei passar os limites introdutórios deste livro.
textos de comentaristas que, em meu entender, Espero que após a leitura de O que é Imperialis-
compreenderam muito bem tais clássicos. Assim, mo você não tenha sede de expansão e não se sinta
R. Banfi, L. Gruppi e M. Bandeira; M. Pedrosa, desanimada(o) como Cecil Rhodes, o todo-pode-
J. Valier (principalmente) e J. P. Nettl tornaram-se roso senhor britânico da África do Sul. Rhodes
indispensáveis para a compreensão das idéias de II ficava deprimido ao ver no céu "essas estrelas ...
Lênin e Rosa Luxemburgo, respectivamente. esses vastos mundos que nunca poderemos atingir."
As concepções de K. Kautsky, F. Engels, R. E afirmava: "Se eu pudesse, anexaria os planetas."
Hilferding e J. A. Hobson aparecem incorporadas,
principalmente, na parte dedicada ao exame das
idéias de Lênin acerca do fenômeno do imperialis-
mo - embora críticas a Kautsky não estejam
ausentes quando
Luxemburgo.
apresento as idéias de Rosa I
I[
Um ligeiro esboço biográfico sobre Lênin e
-a
o que é Imperialismo 11

ampliar a sua fundamentação teórica. Criou o par-


tido pol ítico e a teoria do partido como vanguarda
consciente da revolução. Consolidou o conceito
de Estado, instrumento de dominação de classe, e
os princípios da insurreição e da ditadura do prole-
tariado. Estudou a formação dos trustes e cartéis
e o capitalismo na sua fase superior, o imperialis-
mo. O resultado do estupendo esforço de Lênin no
estudo do imperialismo foi a sua obra clássica,
LÊNIN E A QUESTÃO DO O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo,
IMPERIALISMO onde fez um balanço do desenvolvimento do capi-
talismo mundial no meio século decorrido desde a
publicação de O Capital, de Marx, cujo livro I
apareceu originalmente em 1867. Os Iivros de
Vladimir IlIitch Ulianov (Lênin) nasceu em Sim- número 11, 111e IV de O Capital, cumpre destacar,
birsk, atual Leningrado, Rússia, em abril de 1870 e foram publicados postumamente.
faleceu em janeiro de 1924 em Gorki, perto de Lênin escreveu O Imperialismo em Zurique,
Moscou. Nele, ao longo de seus cinqüenta e tantos entre janeiro e julho de 1916. Publicou-o pela
anos de vida, sempre se pôde observar a fusão entre primeira vez em Petrogrado, na Rússia, em meados
a teoria e a prática pol ítica .. de 1917. Como pretendia editá-Io legalmente em
Em trinta anos de atividades Lênin escreveu seu país, adotou uma linguagem velada, com pou-
cerca de dez milhões de palavras, cada uma intima- cas observações políticas. Segundo suas próprias
mente vinculada ao processo de uma das maiores palavras, no prefácio escrito em 26 de abril de
revoluções sociais da história, aquela que iniciou 1917, sua brochura foi elaborada " ... tendo em
na velha Rússia dos tzares a destruição da socieda- conta a censura tzarista. Por isso, não só me vi
de dividida em classes: a revolução de outubro de forçado a limitar-me estritamente a uma análise
I1I
1917, por ele organizada e dirigida. exclusivamente teórica - sobretudo econômica -
Além de realizar o ideal de Marx (1818-1883) como também tive de formular as indispensáveis e
I e Engels (1820-1895), ao instaurar a primeira pouco numerosas - observações pol íticas com a
república socialista, Lênin acabou por enriquecer e maior prudência, servindo-me de alusões... "
I
12 Afrânio Mendes Catani O que é Imperialismo 13

Apoiando-se nas leis do nascimento, desenvolvi-


I
"0 imperialismo é, pela sua essênciaeconômica,
mento e decadência do capitalismo, estudadas por o capitalismo monopolista. Isto determina já o
Marx, lênin, pela primeira vez, realizou uma pro- I lugar histórico do imperialismo, pois o monopólio,
funda análise científica da essência econômica e que nasce única e precisamente- da livre concor-
pol ítica do imperialismo. Sintetizando os novos rência, é a transição do capitalismo para ~ma
fenômenos da economia do capitalismo mundial, estrutura econômica e social mais elevada." Assim
demonstrou a inevitabilidade da agudização no é que lênin inicia o último tópico de seu trabalho
imperialismo de todas as contradições inerentes à O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo,
sociedade capitalista. Caracterizou o imperialismo assinalando quatro manifestações irnportantes do
como sendo o capitalismo parasitário, moribundo, capitalismo monopolista.
em estado de putrefação, tendo revelado as condi- Em primeiro lugar, o monopólio é um produto
ções de seu perecimento, a inevitabilidade e a ne- da concentração da produção num grau muito ele-
cessidade da substituição do capitalismo por um vado do seu desenvolvimento, sendo que é formado
regime social novo e progressivo: o socialismo. pelas associações monopolistas dos capitalistas,
Fundamentou a tese de que "o imperialismo é a pelos cartéis, pelos sindicatos e pelos trustes.
véspera da revolução social do proletariado. Isto foi Dá-se o nome de truste à associação financeira que
confirmado à escala mundial desde 1917". resulta da fusão de várias firmas em uma única
O estudo do imperialismo, essa nova fase _do empresa, enquanto cartel é entendido como o
desenvolvimento histórico, ocupou boa parte do acordo comercial realizado entre empresas produ-
tempo despendido por lênin nos anos que vão de toras que, embora conservem a autonomia interna,
1912 a 1916. Nesse período lênin examinou se organizam em sindicato para distribuir entre si
perto de 150 livros e 230 artigos relativos ao tema cotas de produção, os mercados e determinar
do imperialismo, sendo que os apontamentos com preços, suprimindo a livre concorrência.
os quais acompanhou essas leituras preencheram No in ício do século XX essesgrupos atingiram
20 cadernos que serviram de base para a redação completo predomínio nos países avançados e se os
de seu ensaio. Tais cadernos de notas, é importante primeiros passos no sentido da cartelização foram
salientar, foram publicados depois de sua morte dados anteriormente pelos pa ísesde tarifas alfande-
com o título Cadernos sobre o Imperialismo. gárias protecionistas elevadas (como a Alemanha e
os Estados Unidos), a Inglaterra acabou mostrando
* * * um pouco mais tarde esse mesmo traço funda-
14 Afrânio Mendes Catani O que é Imperialismo 15

mental: o nascimento do monopólio como conse- "velhos" motivos da pol ítica colonial, o capital
qüência da concentração da produção. financeiro acrescentou a luta pelas fontes de
Em segundo lugar os monopólios vieram agu- matérias-primas, pela exportação de capitais,
dizar a luta pela conquista das mais importantes pelas "esferas de influência", isto é, as esferas de
fontes de matérias-primas, particularmente para a transações lucrativas, de concessões, de lucros
indústria siderúrgica e de carvão que eram as mais monopolistas, etc. e, finalmente, pelo território
cartelizadas da sociedade capitalista. A posse mo- econômico em geral. Por exemplo, quando as
nopolista das fomes mais importantes de matérias- colônias das potências européias na África repre-
primas aumentou enormemente o poderio do gran- sentavam a décima parte desse continente, como
de capital e tornou mais agudas as contradições acontecia ainda em 1876, a pai ítica colonial podia
entre a indústria cartelizada e a não cartelizada. desenvolver-se de uma forma não monopolista,
A terceira manifestação principal do capitalismo pela "livre conquista" de territórios. Mas quando
monopolista diz respeito ao fato de que o mono- 9/10 da África já estavam ocupados (por volta de
pólio surgiu dos bancos, os quais de modestas 1900), quando todo o mundo estava já repartido,
empresas intermediárias que eram antes transfor- começou inevitavelmente a era da posse rnonopo-
maram-se em monopcllstas do capital financeiro. lista das colônias e, por conseguinte, de luta parti-
Três ou cinco grandes bancos de cada uma das cularmente aguda pela divisão e pela nova partilha
nações capitalistas mais avançadas realizaram a do mundo.
"união pessoal" do capital industrial e bancário, e Assim, os monopólios, a oligarquia, a tendência
concentraram em suas mãos somas de milhares e para a dominação em vez da tendência para a liber-
milhares de milhões, que constituem a maior dade, a exploração de um número cada vez maior
parte dos capitais e dos rendimentos em dinheiro de nações pequenas ou fracas por um punhado de
de todo o país. A oligarquia financeira tece uma nações riqu íssimas ou muito fortes: tudo isto
II densa rede de relações de dependência entre originou os traços distintivos' do imperialismo,
todas as instituições econômicas e pol íticas da que obrigam a qualificá-Io de capitalismo parasi-
sociedade burguesa contemporânea sem exceção: tário, ou em estado de decomposição. Cada vez se
tal é a manifestação mais evidente deste mono- manifesta com maior relevo como uma das ten-
pólio. dências do imperialismo, a formação de "Estados-
Finalmente é preciso destacar que o monopó- rentiers", de Estados usurários, cuja burguesia vive
lio nasceu da pol ítica colonial. Aos numerosos à custa da exportação de capitais e do "corte de
16 Afrânio Mendes Catam O que é Imperialismo 17

cupons". No seu conjunto, o capitalismo cresce mais recente do desenvolvimento do capitalismo".


com uma rapidez incomparavelmente maior do Após essas breves considerações, Lênin chega a
que antes, mas este crescimento não só é cada vez afirmar que, "no fundo, o que se disse acerca do
II
mais desigual como a desigualdade se manifesta imperialismo durante estes últimos anos - sobre-
de modo particular na decomposição dos países tudo no imenso número de artigos publicados em
mais ricos em capital, como é o caso da Inglaterra. jornais e revistas ( ... ) - nunca saiu do círculo
das idéias expostas, ou melhor dizendo, resumidas,
nos dois trabalhos menciona-dos ... '', Nas páginas
seguintes de seu ensaio Lênin expõe sumariamente,
Já nas primeiras I;nha: d: sua brochura Lênin I ao longo de quase uma centena de páginas, os
chama a atenção para o fato de que nos últimos laços e as relações rec íprocas existentes entre as
quinze ou vinte anos - lembrem-se, ele escreveu I particularidades econômicas fundamentais do
isso em 1916 -, principalmente depois das guerras I imperialismo. Assim, a partir daqui apresentarei, de
hispano-americana (1898) e anglo-bôer (1899- maneira resumida, tais particularidades econômicas
1902), as publicações econômicas e políticas uti- fu ndamenta is.
lizam cada vez mais o conceito de "imperialismo"
para caracterizar a época que se estava atravessan-
do. Recorda que em 1902 aparece em Londres e A concentração da produção e
Nova lorque o livro do economista inglês John os monopólios
Atkinson Hobson (1858-1940), O Imperialismo,
e que esse economista burguês faz uma descrição
excelente e pormenorizada das particularidades I A noção de imperialismo tornara-se amplamente
econômicas e pol íticas fundamentais do impe- I difundida a partir do in ício do século atual ria lite-
rialismo. Em 1910 publica-se em Viena O Capital I ratura pol ítica de diferentes correntes de pensa-
Financeiro, obra do marxista austríaco Rudolf mento. Tal noção era, todavia, relacionada predo-
Hilferding (1877-1941). No entender de Lênin, minantemente às características da ação política.
apesar de o autor cometer erros em algumas pas- Foi preciso esperar o surgimento da obra de Hilfer-
sagens do texto e procurar conciliar o marxismo ding, O Capital Financeiro, para que fosse indicada
com o oportunismo, seu trabalho constitui uma na formação do capital financeiro (fusão do capital
análise teórica extremamente valiosa da "fase bancário com o industrial, com predomínio do
)
18 Afrânio Mendes Catani O que é Imperialismo . 19

primeiro) a razão estrutural do fenômeno pol ítico desenvolvimento, conduz ao monopólio.


do imperialismo. Dessa maneira, uma parte cada Além disso, Hilferding praticamente ignora em
vez maior do capital industrial não pertence aos seu livro:
industriais que o utilizam. Podem dispor do capital • a repartição do mercado mundial operada pelos
unicamente por intermédio do banco que repre- trustes internacionais;
senta, para eles, os proprietários desse capital. • a relação entre o capital financeiro e a formação
Por outro lado, o banco também se vê obrigado a de uma camada parasitária que vive da renda
fixar na indústria uma parte cada vez maior do seu de ações;
capital, convertendo-se, em proporções crescentes, • os nexos entre o desenvolvimento do imperia-
em capitalista industrial. E é essecapital bancário, lismo e o surgimento do oportunismo no movi-
sob a forma de dinheiro, que pelo processo rapida- mento operário.
mente descrito se transforma em capital industrial, Em suma, ele não vê com clareza todas as conse-
que é chamado capital financeiro. Ou seja, o capital qüências pol íticas dos processos estruturais apesar
que se encontra à disposição dos bancos e que os de ter- sido o primeiro a investigá-Ios de maneira
industriais utilizam. orgânica. .
Todavia, esta definição está longe de ser comple- . Um resumo da história dos monopólios, em suas
ta, pois não indica um dos aspectos mais importan- linhas gerais, poderia ser realizado da seguinte
tes: que o aumento da concentração da produção e maneira: a) nas décadas de 1860 e 1870 atinge-se
do capital em grau tão elevado conduz e tem con- ·0 g~au superior, culminante, do desenvolvimento

duzido ao monopólio, embora Hilferding destaque I


da h~re concorrência. Nessa época os monopólios
o papel dos monopólios capitalistas. A história constltu.em apenas germes quase imperceptíveis;
do aparecimento do capital financeiro e daquilo b) de~OIs da crise de 1873 (com o craque de 1873
que este conceito encerra podem ser resumidos e, ~als exatamente, com a depressão que se lhe
da seguinte forma: concentração da produção; segUIU e que abarca vinte e dois anos da história
monopólios que resultam da mesma; fusão ou econômica da Europa) observa-se um longo perío-
junção dos bancos com a indústria. Em O Capital do d,: desenvolvimento dos cartéis, os quais ainda
Marx já havia demonstrado, através de uma análise constituem apenas uma exceção, não são sólidos e
teórica e histórica do capitalismo, que a livre con- repr~entam . ainda um fenômeno passageiro;
corr~ncia gera a concentração da produção, e que a c) finalmente, há uma ascensão da economia nos
referida concentração, num certo grau do seu fins do século XIX e ocorrem novas crises de 1900
20 Afrânio Mendes Catarro que é Imperialismo 21

a 1903. Já a partir da í os cartéis passam a ser uma monopólios. O capitalismo, na sua fase imperia-
das bases de toda a vida econômica: o capitalismo lista, conduz à socialização integral da produção
transformou-se em imperialismo. nos seus mais variados aspectos. Praticamente
Esses cartéis estabelecem entre si acordos sobre arrasta os capitalistas contra sua vontade, e sem
- as condições de venda e sobre os prazos de paga- que disso tenham consciência, para um novo regi-
mento; repartem os mercados de venda; fixam a me social, de transição entre a absoluta liberdade
quantidade de produtos a fabricar; estabelecem os de concorrência e a socialização completa. A pro-
preços; distribuem os lucros entre as diferentes dução passa a ser social, mas a apropriação conti-
empresas, etc. nua a ser privada. Os meios sociais de produção
A concorrência transforma-se em monopólio, continuam a ser propriedade privada de um reduzi-
daí resultando um gigantesco progresso na sociali- do número de indivíduos. Mantém-se o quadro
zação da produção. Socializa-se também, em parti- geral de livre concorrência formalmente reconhe-
cular, o processo dos inventos e aperfeiçoamentos cida, e o jugo de uns quantos monopolistas sobre
técnicos. Isto nada tem a ver com a antiga livre o resto da população torna-se bem mais duro,
concorrência entre patrões dispersos, que não se mais sensível, mais insuportável.
conheciam e que produziam para um mercado As associações monopolistas recorrem a vários
ignorado. A concentração chegou a tal ponto que meios no combate àqueles que não fazem parte dos
foi possível fazer um inventário aproximado de cartéis. Além de utilizarem as condições técnicas
todas as fontes de matérias-primas (por exemplo, para vencer a competição, recorrem ainda aos
jazidas de minérios de ferro) de um pa ís e, ainda, seguintes métodos:
de vários países e de todo o mundo. Não só se • privação de matérias-primas (um dos processos
realiza este inventário, mas também associações mais importantes para obrigara entrar no cartel):
monopolistas gigantescas se apoderam das refe- • privação de mão-de-obra mediante "alianças"
ridas fontes. Efetua-se o cálculo aproximado da (quer dizer, mediante acordos' entre os capita-
capacidade do mercado que estes grupos partilham listas e os sindicatos operários para que estes
entre si por contrato. Monopoliza-se a mão-de-obra últimos só aceitem trabalho nas empresas carte-
qualificada e contratam-se os melhores engenhei- lizadas) ;
ros. As vias e meios de comunicação - as linhas • privação de meios de transporte, de possibili-
férreas na América e as companhias de navegação dades de venda e de créditos;
na Europa-e na América - vão parar nas mãos dos • acordo com os compradores para que estes man-
• . Mendes Cata,que é Imperialismo 23
22 Afrânio .

tenham relações comerciais unicamente com os tendência para a concentração e o monopóli.o. O


cartéis; autor cujo pensamento está sendo exposto aflrm~:
• declaração do boicote; "o monopólio é a última palavra da :as~ m~l,s
• diminuição sistemática dos preços - com o recente do desenvolvimento do caPltall.smo.
objetivo de assimilar as empresas que não se Entretanto, para se compreender a força e!etlva e o
submetem aos monopolistas, gastam-se durante significado dos monopólios há que se dedicar espe-
um certo tempo milhões para vender a preços cial atenção ao papel desempenhado pelos bancos
inferiores ao do custo. nesta fase particular do capitalismo.
Dessa maneira, a sociedade como um todo
encontra-se perante o estrangulamento, pelos mo-
nopolistas, de todos aqueles que não se submetem
Os bancos e o seu novo papel
ao monopólio, ao seu ju ízo, à sua arbitrariedade.
O capitalismo contemporâneo, cujo alto grau Ao processo de concentração do cap.ital indu~-
trial, se soma o da concentração do capital ban~a-
de concentração e centralização transformou a
rio. De intermediários nos pagamentos os bancos se
concorrência em monopólio; apresenta outra
convertem em fornecedores essenciais de capital.
particularidade extremamente importante: a cha-
Enquanto na fase do capitalismo predominante-
mada "combinação", ou seja, a reunião numa só
mente concorrencial os bancos constituem uma
empresa de diferentes ramos da indústria que, ou
rede de pequenos intermediários, transformam-se
representam fases sucessivas da elaboração de uma
agora num pequeno grupo de monopolistas que
matéria-prima (por exemplo, a fundição do minério
detém o capital, sendo esse um dos processos
de ferro a transformação do ferro fundido em aço
fundamentais da transformação do capitalismo
e em certos casos, a produção de determinados
em imperialismo capitalista.
artigos de aço) ou desempenham um papel auxiliar
Quando os bancos detêm a conta corrente de
uns em relação aos outros (como a utilização dos
uma série de indústrias, cumprem aparentement.e
resíduos ou dos produtos secundários, a produção
apenas uma tarefa técnico-auxiliar. Mas na reali-
de embalagens, etc.).
dade, quando essa função assume proporções con-
A supressão das crises pelos cartéis é uma fábula
sideráveis os bancos conseguem ter não apenas
dos economistas burgueses, pois as crises de todo o
uma perf~ita informação de todo o ciclo de ne~ó-
tipo, sobretudo as crises econômicas - mas não
cios e da situação econômica global, como tambem
somente estas - aumentam por sua vez com a
24 Afrânio Mendes Calque é Imperialismo 25

intervêm na própria situação econômica, amplian- mediante a posse das ações, mediante a partici-
do ou restringindo o crédito, aumentando ou pação dos diretores dos bancos nos conselhos de
diminuindo o preço do dinheiro, condicionando supervisão ou de administração das empresasindus-
assim os investimentos e a própria vida das indús- e
triais comerciais, e vice-versa - completa-se com
trias. a "união pessoal" dessas sociedades com o governo.
Em tal situação, a relação entre capital bancário Vários lugares nos conselhos de administração são
e capital industrial se faz tão estreita que necessa- confiados a personalidades de renome, bem como a
riamente tem de se desenvolver uma união pessoal antigos funcionários do Estado, que podem "faci-
dos bancos com as maiores empresas industriais e litar" em grau considerável as relações com as
comerciais, uma fusão entre eles mediante a posse autoridades. .
de ações ou a entrada de diretores de bancos nos Os grandes bancos criam seções especiais, desti-
conselhos de administração das empresas indus- nadas a recolher informações financeiras, onde
triais e comerciais e vice-versa. trabalham permanentemente dezenas de engenhei-
Os bancos convertem o capital-dinheiro inativo ros, economistas, advogados, .especialistas em esta-
em capital ativo, isto é, em capital que rende tística, etc. Ocorre, por um lado, a junção dos
lucro. Reúnem toda a espécie de rendimentos em capitais bancário e industrial; e, por outro, a trans-
dinheiro e os colocam à disposição da classe capi- formação dos bancos em instituições com um ver-
talista. Os pequenos estabelecimentos vão sendo dadeiro "caráter universal", isto é, informadas
afastados pelos grandes e em apenas alguns deles sobre todas as variáveis financeiras que Ihes inte-
concentra-se a maior parte de todos os depósitos. ressam.
O aumento da concentração dos bancos restringe Lênin deixa claro que o velho capitalismo cadu-
o círculo de instituições a que se poderia recorrer cou e que o novo constitui uma etapa de transição
em busca de crédito, acarretando um aumento na para algo diferente, fornecendo resposta bastante
dependência da grande indústria com relação a um clara ao importante problema de saber em que
reduzido número de grupos bancários. Assim, a per íodo se situa o in(cio da nova atividade dos
grande indústria assiste com certa perplexidade à grandes bancos. Para ele, as relações entre as
trustificação - (unificação ou transformação em empresas industriais com o seu novo conteúdo e as
trustes) dos bancos, cada vez mais intensa. suas novas formas e os grandes bancos organizados
A "união pessoal" dos bancos com as maiores de um modo ao mesmo tempo centralizado e des-
empresas industriais - isto é, a fusão de ambos centralizado, não se estabelecem como fenômeno
27
26 Afrânio Mendes Cal que é Imperialismo

característico da economia nacional antes do últi-


mo decênio do século XIX. No final do século
passado ocorrem as grandes fusões de empresas,
que implantam pela primeira vez a nova forma de
organização descentralizada, segundo a nova pol i-
tica industrial dos bancos.
O século XX assinala, portanto, a passagem do
velho capitalismo para o novo; da dominação do
capital em geral para a dominação do capital finan-
ceiro.

o capital financeiro
e a oligarquia financeira

A gestão dos monopólios capitalistas trans-


forma-se inevitavelmente na dominação da oligar-
quia financeira, através do "sistema de partici-
pação". !: por meio desse sistema que o dirigente
controla a sociedade fundamental (a "sociedade-
mãe"); esta, por sua vez, exerce o dom ínio sobre
as sociedades que dependem -dela ("sociedades-
filhas"); estas últimas, sobre as "sociedades-netas",
etc. Desse modo é possível, sem possuir um capital
muito grande, dominar ramos gigantescos da
produção. Por exemplo, se a posse de 50% do
capital é sempre suficiente para controlar uma
sociedade anônima, basta que o dirigente possua o capitalismo financeiro e a diluição das fronteiras nacionais.
apenas 1 milhão para estar em condições de
28 Afrânio Mendes Cate; que é Imperialismo 29

controlar 8 milhões do capital das "sociedades- tal financeiro são desmedidos durante os períodos
netas"; E se esse entrelaçamento vai ainda mais de expansão industrial, nos períodos de depressão
longe, com 1 milhão pode-se controlar 16 milhões, arruínam-se as pequenas empresas e aquelas pouco
32 milhões, etc. Como boa parte dos pequenos fortes. A í é que novamente os grandes_bancos
acionistas se encontra dispersa (isto é, não tem na entram em ação; adquirindo tais empresas a preços
prática ,possi~ilidade alguma de assistir às assem- baixos ou no seu lucrativo "saneamento" e "reor-
bléias gerais, etc.) basta possuir fração relativamen- ganização". Tais operações de saneamento e reorça-
te pequena das ações para dirigir os' negócios' de nização tornam-se interessantes para os bancos por
uma sociedade 'anônima. Um exemplo; bastante dois motivos: primeiro, como operação lucrativa;
recente do que se está afirmando é o da GEmeraI segundo, como ocasião propícia para colocar sob
Motors;,ol)de o grupo que possui apenas 7% das a sua dependência essas empresas.
ações mant'ém o controle da corporação. Outra das operações' particu larmente lucrativas
Esse "sistema de participação" serve não só para do capital financeiro é também a especulação com
aumentar em proporções gigantescas o poderio terrenos situados nos subúrbiosdas grandes cidades
dos monopolistas como também permite a execu- que crescem rapidamente. O monopólio dos bancos
ção, impunemente', de "toda ,a' espécie de negó- funde-se neste caso com o monopó1io das vias de
cios escusos 'e sujos e roubar o 'público". Isto cornunicação, pois o aumento dos preços dos
porque os dirigentes das "sociedades-mães" não terrenos, a possibilidade de vendê-Ios vantajosa-
respondem pela "sociedade-filha" (considerada mente por parcelas, etc., dependem principalmente
independente, segundo, a lei), através da qual se das boas vias de comunicação com a parte central
póde fazer passar tudo. da cidade, as' quais 'se encontram nas mãos de
O capital financeiro,: concentrado em poucas grandes companhias ligadas a esses mesmos bancos
mãos e gozando do monopólio efetivo, obtém um mediante o sistema de participação e da distri-
Iucroenorme que aumenta, quase que indefinida- buição dos cargos diretivos. '
mente, com a constituição de sociedades, emissão O monopólio, uma vez constituído e contro-
de valores, empréstim.os do Estado, etc., consoli- lando milhares de milhões, penetra de' maneira
dando a dominação' da oliqàrquia financeira e absolutamente inevitável em todos os aspectos da
impondo a toda a sociedade um tributo em pro- vida social, independentemente do regime político
veito dos monopolistas. e de qualquer outra particularidade.
E importante salientar que, se os lucros do capi-
30 Afrânio Mendes Cat4que é Imperialismo 31

A exportação de capital

o que caracterizava o velho capitalismo, no qual


dominava plenamente a livre concorrência, era a
exportação de mercadorias, enquanto que a carac-
terística básica do capitalismo moderno, no qual
impera o monopólio, é a exportação de capital.
Conforme Marx já deixou claro, o capitalismo
vem a ser a produção de mercadorias no çrau supe-
rior do seu desenvolvimento, quando até a força de
trabalho se transforma em mercadoria. O desen-
volvimento da troca constitui-se em traço distin-
tivo e característico do capitalismo, sendo a
Inglaterra a primeira a se transformar em país
capitalista e, em meados do século XIX, ao implan-
tar o livre câmbio, pretendeu ser a "oficina de
todo o mundo", a fornecedora de artigos manufa-
turados para todos os países - os quais deviam
fornecer-lhe, em contrapartida, matérias-primas.
Entretanto, já no último quartel do século XIX
o monopólio da Inglaterra foi enfraquecido, pois
alguns outros países que se haviam transformado
em Estados capitalistas independentes começam a
se defender através de direitos alfandegários pro-
tecionistas. No início do século atual observa-se a
formação de monopólios de outro gênero: pri-
meiro, uniões monopolistas de capitalistas em
todos os países .de capitalismo desenvolvido;
segundo/situação monopolista de poucas nações o novo capitalismo e a exportação de capital:
Afrânio Mendes Casque é Imperialismo
33
32

riqu íssimas, nas quais a acumulação de capital ti mo com receio de que o vizinho se adiante, con-
tinha alcançado proporções gigantescas, fazendo ceda e, ao mesmo tempo, obtenha certas vantagens
com que se constitu ísse um enorme "excedente em troca do serviço que presta. Nas transações
de capital" nos países avançados. internacionais deste gênero o credor obtém quase
Esse "excedente de capital" - que jamais é sempre algo em proveito próprio: um favor no
investido no sentido de elevar o nível de vida das tratado de comércio, a construção de um porto,
massas trabalhadoras do pa ís - é exportado para uma concessão lucrativa ou uma encomenda de
o estrangeiro, dos países desenvolvidos para os canhões. ~ muito comum observar que entre as
países atrasados. Nos atrasados o lucro é em geral cláusulas de empréstimo se imponha o gasto de
elevado, pois os capitais são escassos, o preço da uma parte do mesmo na compra de produtos do
terra e os salários relativamente baixos e as maté- país credor, em especial de armamentos, barcos,
rias-primas baratas. Uma série de nações atrasadas etc. Portanto, a exportação de capitais passa a ser
já foram incorporadas na circulação do capitalismo um meio de estimular a exportação de mercado-
mundial, e nelas já se construíram (ou foram inicia- rias. Num relatório do cônsul austro-húnqaro em
das) as principais vias férreas, bem como foram São Pau 10 encontrava-se escrito: "A construção
asseguradas as condições elementares para o desen- das ferrovias brasileiras realiza-se, na sua maior
volvimento da indústria. Assim, a necessidade da parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e
exportação de capitais obedece ao fato de que em alemães; os referidos países, ao efetuarem-se as
alguns países (como a Inglaterra, a França e a Ale- operações financeiras relacionadas com a _cons-
manha) o capitalismo "amadureceu excessiva- trução de ferrovias, reservam-se as encomendas
mente" e o capital - dado o insuficiente -desen- de materiais de construção ferroviária".
volvimento da agricultura e a miséria das massas -
carece de campo para a sua colocação lucrativa.
Os países que tomam dinheiro emprestado insis-
A partilha do mundo
tem junto às grandeS potências no sentido de obte- entre as associações de capitalistas e
rem cada vez mais empréstimos. Em geral, mesmo entre as grandes potências
que as perspectivas políticas não sejam animadoras
e que o país que tomou o empréstimo esteja com
sua economia já abalada, raramente qualquer dos As associações de monopolistas capitalistas
mercados monetários se decide a negar um ernprés- (cartéis, sindicatos, trustes) inicialmente partilham
34 Afrânio Mendes Cau i I, . li
que e mpena tsmo 3S

entre si o mercado interno, apoderando-sede qu~se


toda a produção do país. Entretanto sob o capita- ficação das conquistas coloniais corresponde aos
lismo, o mercado interno está inevitavelme~te anos de 1860 a 1890, principalmente durante os
últimos vinte anos do século XIX. Para a França
entrelaçado com o ex!erno, .constituindo-~e assim
um mercado mundial. A medida em que fOI aurnen- e para a Alemanha corresponde exatamente a esses
vinte anos. Conforme destaquei em páginas ante-
tando a exportação de capitais e se foram ala~g~n-
riores o desenvolvimento máximo do capitalismo
do. as relações com o estrangeiro e.com as co.lon~as
pré-rnonopolista, o capitalismo onde predomina a
e as "esferas de influência" das maiores assoclaço~s
livre concorrência, vai de 1860 a 1870, aproxima-
monopolistas, acabou levando a um a~.or?o Uni-
versal entre elas, à constituição de cartéis mterna- damente. E é exatamente depois desse período que
se observa a enorme intensificação de conquistas
cionais, num grau de concentração mundial d?
capital e da concorrência incomparavelmente mais coloniais. Conseqüentemente, a passagemdo capi-
elevado que os anteriores. talismo à .fase do capitalismo monopolista, ao
capital financeiro, se encontra relacionada com a
Os capitalistas realizam a partilha do mundo
exacerbaçãoda luta pela partilha do mundo. Vários
porque o grau de concentração a que sechegou os
Estados europeus capitalistas (em ordem decres-
obriga a seguir esse caminho para. manter seus
cente: Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica e
lucros. E repartem-no segundo o capital e segundo
Portugal) colocam sob seu domínio, entre 1880 e
a força sendo impossível qualquer outro processo
1900, grande quantidade de territórios e suas
de partilha no sistema da produção m.ercantil e no
respectivas populações - as colônias -, o que
capitalismo. Por sua vez, a força ~arla de aC,0.rdo
constitui um fato universalmente conhecido da
com o desenvolvimento econômico e polftico.
história da diplomacia e da pol ítica externa.
No lnrcio do século atual o b serva-se "a par-
CeciI Rhodes (1853-1902), político inglês,
tilha definitiva do planeta". Definitiva no sentido
milionário, rei da finança, principal responsável
de que a pol ítica colonial dos países capitalist~s
pela guerra anglo-bôer, ideólogo do imperialismo
já completou a conquista _de todas ?S terras nao
e do colonialismo, organizador da anexação pelos
ocupadas que ·havla no globo. Porem, a.ntes d~
ingleses de um extenso território na Africa do
prosseguir na análise desse aspecto é preciso veri-
Sul, percebia claramente, a exemplo de Joseph
ficar a maneira pela qual o mundo encontrava-se
Chamberlain (1836-1914) - estadista inglês e
.repartido nessaépoca. . .
Ministro das Colônias de 1895 a 1903 -, a liga-
Para a Inglaterra o período de enorme rntensr-
ção existente entre as raízes puramente econô-
36 Afrânio Mendes Calque é Imperialismo 37

micas do imperialismo moderno e as suas ra ízes ções entre "a grande Roma com a Grã-Bretanha",
sociais e pol íticas. Rhodes falava em 1895, a não acrescentando nada de útil à elucidação da ques-
propósito de suas idéias imperialistas: "Ontem tão da particularidade fundamental do capitalismo
estive no East-End londrino (bairro operário) e moderno. Mesmo a política colonial capitalista das
assisti a uma assembléia de desempregados. Ao fases anteriores do capitalismo é essencialmente di-
ouvir ali discuros exaltados cuja nota dominante ferente da pol ítica colonial do capital financeiro.
era: pão!, pão!, e ao refletir, de. regresso a casa, A particularidade fundamental do capitalismo
sobre o que tinha ouvido, convenci-me, mais do moderno consiste na dominação exercida pelas
que nunca, da importância do imperialismo ... associações monopolistas dos grandes patrões. Tais
A idéia que acalento representa a solução do monopólios adquirem a máxima solidez quando
.problema social: para salvar os 40 milhões de habi- conseguem reunir sob seu controle todas as fontes
tantes do Reino Unido de uma mortífera guerra de matérias-primas e atuam no sentido de retirar
civil, nós, os políticos coloniais, devemos apode- dos adversários, por exemplo, as terras que contêm
rar-nos de novos territórios; para eles enviaremos o . minério de ferro, as jazidas de petróleo, etc. A
excedente de população e neles encontraremos posse de colônias é a única coisa que garante de
novos mercados para os produtos das nossas fábri- maneira completa o êxito do monopólio contra
cas e das" nossas minas. O império, sempre o tenho todas as contingências da luta com o adversário.
dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar Quanto mais· desenvolvido está o capitalismo,
a guerra civil, deveis tornar-vos imperialistas". quanto mais sensível se torna a insuficiência de
matérias-primas, quanto mais dura é a concorrên-
* * * cia .e a procura de fontes' de matérias-primas em
todo o mundo, tanto mais encarniçada é a luta
A política colonial e o imperialismo existiam já pela aquisição de colônias.
antes da fase mais recente do capitalismo e até Como os monopólios se constituem na parti-
antes do capitalismo. Roma, baseada na escrava- cularidade principal do capitalismo contemporâ-
tura, manteve uma política colonial e exerceu o neo, o mercado livre passa cada vez mais para o
imperialismo. Entretanto, as considerações qerais domrnto da história; os sindicatos e trustes mono-
sobre o imperialismo que relegam a um segundo polistas operam sua redução dia a dia. Para o capi-
plano as diferenças essenciais entre as formações tal financeiro, não são apenas as fontes de matérias-
econômico-sociais, acabam por realizar compara- primas já descobertas (geralmente localizadas nas
39
38 Afrânio Mendes Calque é Imperialismo

vista economlCO, o imperialismo capitalista é a


colô~ia~) que têm importância, mas também as
substituição da livre concorrência capitalista pelos
~OSS!VeIS, ~ma vez que a técnica avança com
monopólios capitalistas.
incr ível rapidez e as terras hoje não aproveitáveis
Uma definição o mais breve possível do imperia-
podem tornar-se amanhã terras úteis, se forem
lismo de acordo com a teoria leninista seria a se-
descobertos novos métodos ou se forem investidos
guinte: "0 imperialismo é a fase monopolista do
~randes ca3itais. O mesmo acontece com relação capitalismo". Entretanto é necessário, para se
~ expl,oraçao de riquezas minerais, sendo tendência caracterizar o imperialismo, uma definição que
inevitável do capital financeiro ampliar o seu terri-
inclua cinco traços fundamentais, quais sejam:
tóri~ econ~mi~o e o seu território em geral. O capi-
• a concentração da produção e do capital num
t~1 financeiro tenta se apoderar das maiores exten-
grau tão elevado de desenvolvimento que criou
soes possíveis de território sempre pensando nas fon-
os monopólios, os quais desempenham um
tes potenciais de matérias-primas e temendo ficar
papel decisivo na vida econômica;
para trás na luta furiosa para obter as últimas parce-
• a fusão do capital bancário com o capital indus-
las do mun~o que ainda não foram repartidas ou pa-
trial e a criação, baseada nesse "capital finan-
ra consegu Ir uma nova partilha das já repartidas.
ceiro", da oligarquia financeira;
Além disso, com o controle das colônias por
• a exportação de capitais, diferentemente da
P?r~e dos países imperialistas, é sempre muito mais exportação de mercadorias, adquire uma impor-
fácil, a~ravés da utilização de meios monopolistas, tância particularmente grande;
suprimir os concorrentes, garantir encomendas, etc. • a formação de associações internacionais mono-
-r:0da essa situação de interesses e relações envol- polistas de capitalistas, que partilham o mundo
~,Idos P~OVoC?Ua seguinte afirmação de Hilferding: entre si; e
O capital financeiro não quer a liberdade mas a • o término da partilha territorial do mundo entre
dominação". r
as potências capitalistas mais importantes.
~es~ definição econômica, imperialismo é o
capitalismo na fase de desenvolvimento em que
o imperialismo, gan~ou ~orpo a dominação dos monopólios e do
fase particular do capitalismo capital fl~anceiro; adquiriu marca da importância a
exportaçao de capitais; começou a partilha do
mundo pelos trustes internacionais e terminou a
Em resumo pode-se afirmar que, do ponto de
40 Afrânio Mendes Calque é Imperialismo 41

partilha de todos os territórios disponíveis entre os pleta, pois destaca de modo unilateral apenas o
países capitalistas mais importantes. Assim, no sen- problema. nacional, relacionando-o arbitrária eincor-
tido puramente econômico o imperialismo repre- retamente só com o capital industrial dos países
senta em si, indubitavelmente, "uma fase particular que anexam outras nações, colocando em primeiro
de desenvolvimento do capitalismo". plano, da mesma forma arbitrária e errada, a anexa-
Lênin desenvolve uma crítica penetrante à defi- ção das regiões agrárias. O imperialismo é uma
nição de Kautsky acerca do imperialismo, enquan- tendência para as anexações - eis a que se reduz a
to tendência dos países industrialmente desenvol- parte política desta definição. É justa, mas extre-
vidos a anexar territórios agrícolas. E é particular- mamente incompleta, pois no aspecto político o
mente rechaçada a tendência contida no estudo de imperialismo é, em geral; uma tendência para a
Hobson que vê o imperialismo como degeneres- violência e para a reação. Encontra sua base estru-
cência do capitalismo e não como seu desenvolvi- tural não no capital industrial, mas no capital
mento necessário. Trata-se do mesmo erro em que financeiro, donde deriva o impulso para anexar não
incorre Kautsky, que considera o imperialismo um apenas territórios atrasados, mas também para
"modo particular" através do qual o capitalismo penetrar em países industrialmente desenvolvidos,
se expressa (pela violência), e não como uma "ten- por dois motivos: em primeiro lugar, estando já
dência natural, necessária". concluída a divisão do globo isso obriga, para tor-
Karl Kautsky foi o principal teórico marxista nar possível uma nova partilha, a estender a mão
da época da chamada II Internacional, isto é, dos sobre todo tipo de territórios. Em segundo lugar,
vinte e cinco anos compreendidos entre 1889 e faz parte da própria essência do imperialismo a
1914 - ver, sobre as Internacionais, volume rivalidade de várias grandes potências nas suas
específico a ser lançado em breve nesta mesma aspirações à hegemonia, isto é, a apoderarem-se de
coleção. Contrapondo-se às concepções leninistas, territórios não apenas para si, mas também para
definiu o imperialismo como sendo um produto enfraquecer o adversário e minar a sua hegemonia.
do capitalismo industrial altamente desenvolvido, Se o imperialismo for concebido sem vinculação
consistindo na tendência de toda nação capita- ~m o capital financeiro, que é sua base econô-
lista industrial para submeter ou anexar cada vez mica. fundamental, poderá deixar de aparecer como
mais regiões agrárias, quaisquer que sejam as nações manifestação inevitável do capitalismo. Aí deixa-se
que as povoam. ~e lado o elemento decisivo: que na fase imperia-
Entretanto, esta definição é bastante incom- lista agravam-se todos os contrastes de classeentre
42 Afrânio Mendes Caflue é Imperialismo 43

o capitalismo e os trabalhadores; entre as metró- que temporariamente, desaparecem até ~ert? ponto
poles imperialistas e os povos coloniais, ao mesmo as causas estimulantes do progresso tecruco. Po.r
tempo em que se acentuam as contradições no inte- conseguinte, tendem a desaparecer as causas esti-
rior do alinhamento imperialista monopolista. mulantes de todo o progresso, de todo o avanço,
Hobson, em O Imperialismo (1902), entende surgindo assim a possibilidade eco~ô~ica de
que o novo imperialismo distingue-se do velho conter artificialmente o progresso tecruco. No
porque, em vez da aspiração de um só império início do século tornou-se clássico o caso de um
crescente, segue a teoria e a prática de impérios americano inventor de uma máquina que provocava
verdadeira revolução no fabrico de garrafas. O
rivais cada um deles guiando-se por idênticos.ape-
cartel alemão de fabricantes de garrafas com-
tites 'de expansão pol ítica e de lucro comercial.
prou-lhe as patentes e guardou-as à chave, atra-
E também porque nessa forma do imperialismo
sando a sua aplicação. É evidente, entretanto, que
predominam os interesses financeiros, ou relativos
sob o capitalismo o monopólio não pode nunca
ao investimento de capital, sobre os interesses
eliminar do mercado mundial, completamente e
comerciais.
por um período muito prolongado, a concorrência.
Assim, a concorrência entre os vários imperia-
É natural que a possibilidade de diminuir os
lismos e o predomínio do financeiro sobre o co-
gastos de produção e aumentar os lucros, implan-
mercial foram aspectos destacados pelo economista
tando aperfeiçoamentos técnicos, atua a favor das
inglês Hobson e que Kautsky estava longe de com-
modificações. Mas a tendência para a estagnação
preender.
e para a decomposição, inerente ao monopólio,
continua por sua vez a operar; e em certos ramos
da indústria e em certos países há períodos em
o parasitismo que consegue impor-se.
e a decomposição do capitalismo. Com o imperialismo observa-se o desenvolvi-
mento extraordinário de uma camada de indiví-
duos conhecida pelo nome de rentier (os rentiersi,
Conforme já se explicou, a base mais profunda
ou seja, de pessoas que vivem apenas do lucro
do imperialismo é o monopólio capitalista, que
extraído do capital Iíquido. Os rentiers seriam os
acaba por gerar inevitavelmente uma tendência capitalistas investidores, indivíduos que vivem do
para a estagnação e para a decomposição. Na
"corte de Cupons", que não participam em nada
medida que se fixam preços monopolistas, ainda
--------------------------------------~
44 Afrânio Mendes em I, . li 45
que é mpena tsmo

em nenhuma empresa. A exportação de capitais, a sua classe dirigente e subornar as classes infe-
uma das bases econômicas mais essenciais do capi- riores para conseguir a sua concordância. En~re-
talismo, acentua ainda mais este divórcio completo tanto, para que esse suborno se torne econormca-
entre o setor dos rentiers e a produção, imprime mente possível, é necessário um elevado lucro
uma marca de parasitismo a todo o país, que
monopolista.
vive da exploração do trabalho de alguns países Entre as particularidades do imperialismo rela-
e colônias do ultramar. cionadas com os fenômenos já descritos figura a
No imperialismo, o. predomínio do capital finan- redução da emigração dos países imperiali,st.as.e
ceiro e da categoria do rentier imprime um enorme o aumento da imigração (afluência de operanos e
impulso a todos os fenômenos que são próprios do migrações) para estes últimos. A massa humana
capitalismo: a especulação financeira, o jogo na que a eles chega vem, em geral, dos países mais
bolsa e, principalmente, a especulação sobre os atrasados onde o nível dos salários é mais baixo.
terrenos para a construção. Tudo isso adquire uma Na Inglaterra, a tendência do imperialismo para
nova dimensão, modifica as relações tradicionais dividir os operários e para acentuar o oportunismo
(capitalistas) entre os vários setores da economia e entre eles, provocando uma decomposição tempo-
atribui à especulação uma função determinante. rária do movimento operário, manifestou-se muito
A pol ítica parasitária desenvolvida pelos capi- antes dos fins do século XI X e princípios do sé-
talistas inclui laços que unem o imperialismo aos culo XX. Isto explica-se porque desde meados do
interesses financeiros, ao aumento dos lucrosresul· século passado existiam na Inglaterra dois impor-
tantes dos contratos, dos fornecimentos, etc. Em tantes traços distintivos do imperialismo: imensas
muitas cidades, os ramos mais importantes da possessões coloniais e situação de monopólio no
indústria dependem das encomendas do governo- mercado mundial, sendo que durante dezenas de
o imperialismo dos centros da indústria metalúrgica anos Marx e Engels estudaram sistematicamente
e da construção naval dependem em grande parte essa relação entre o oportunismo no movimento
deste fato. operário e as particularidades imperialistas do
Um dos principais fatores responsáveis pela capitalismo inglês.
redução da força dos velhos impérios vem a ser o Em A Situação da Classe Trabalhadora na
"parasitismo econômico", pelo qual o EstadO Inglaterra, de Engels,são analisadas as causas e
dominante utiliza suas províncias, colônias e conseqüências do aproveitamento, por parte dos
países dependentes com a finalidade de enriquecer operários ingleses, do monopólio colonial da
46 47
Afrânio Mendes Ca
que é Lmpena. litsmo

Inglaterra e do seu monopólio no mercado muno atitude das diferentes classes da sociedade ~erante
dial. As causas são as seguintes: 1) exploração do a política do imperialismo, de acordo com a Ideolo-
mundo inteiro por este país; 2) a sua situação de gia geral das mesmas.
monopólio no mercado mundial; 3) o seu mono- Uma série de fatores possibilitou a passagem em
pólio colonial. E as conseqüências: 1) aburquesa- bloco de todas as classes proprietárias para o lado
mento de parte do proletariado inglês; 2) uma do imperialismo, série essa que poderia ser as~im
parte dele permite que a dirijam pessoas compradas explicada: as proporções gigantescas_ do caplt~1
pela burguesia ou, pelo menos, pagas por ela. financeiro, concentrado em poucas maos, deu OrI-
O imperialismo do início do século atual com- gem a uma rede extraordinariamente vasta e densa
pletou a partilha do mundo entre alguns Estados, de relações e vínculos. Isso, por um lado, !ez c?m
sendo que cada um deles explorava na ocasião que ficasse subordinado ao seu poder nao so a
uma parte do mundo um pouco menor do que massa dos capitalistas e pequenos e médios empre-
aquela que a l,[Iglaterra explorava em 1858. Cada sários, mas também os mais insignificantes. Por
um desses Estados ocupava, no princípio do século, outro lado, exacerbou a luta contra outros grupos
uma posição de monopólio no mercado mundial nacionais-estatais financeiros pela partilha do
graças aos trustes, aos cartéis, ao capital financeiro, mundo e pelo domínio sobre outros países. É
às relações de credor e devedor. E, por último, interessante enfatizar que essa situação fez com
cada um deles dispunha, até certo ponto, de um que todas as classes proprietárias dessem sua ade-
monopólio colonial - segundo as estatísticas são ao imperialismo.
disponíveis, de 75 milhões de quilômetros quadra- No início do atual século o sinal do novo tempo
dos de todas as colônias do mundo 65 milhões, foi o entusiasmo "geral" pelas perspectivas do
isto é, 86% estavam concentrados nas mãos de imperialismo, a sua defesa furiosa, o seu embele-
seis potências; 61 milhões, isto é, 81% concentra- zamento por todos os meios, tendo a ideologia
vam-se em apenas três potências. imperialista penetrado mesmo - no seio da classe
operária.
O essencial da crítica do imperialismo consiste
Crítica do imperialismo em saber se é possível modificar por meio de refor-
mas suas bases, se há que seguir para diante, agu-
A crítica do imperialismo foi entendida por dizando e aprofundando ainda mais as contradições
Lênin no sentido amplo da palavra, ou seja, como a que o imperialismo gera, ou se há que retroceder,
48 Afrânio Mendes Cal que é Imperialismo 49

atenuando essascontradições. Como as particularí- sociais-pacifistas) no que se refere à paz? Em vez


dades políticas do imperialismo são a reação em de analisar e apontar em toda a sua profundidade
toda a linha e a intensificação da opressão nacional as contradições do imperialismo, não se observa
- conseqüência da opressão da oligarquia financei- mais que o "desejo piedoso". reformista de as
ra e da supressão da livre concorrência -, a oposi- evitar, de as ignorar.
ção democrática pequeno-burguesa ao imperialis- O rompimento de Kautsky com o marxismo
mo aparece em quase todos os países imperialistas ocorreu quando começou a defender, para a época
em princípios do século XX. . do capital financeiro, um ideal reacionário, qual
De acordo com Lênin, Hobson antecipou-se a seja, a "democracia pacífica", o "simples peso dos
Kautsky ao erguer-se contra a "inevitabilidade do fatores econômicos", pois este ideal arrasta objeti-
imperialismo" e ao invocar a necessidade de "ele- vamente para trás, do capitalismo monopolista
var à capacidade de consumo" da população (como para o capitalismo não monopolista, e isto é um
se isso fosse possível sob o regime capitalista). São engano reformista. No seu entender o comércio
citados vários outros economistas e estudiosos da Inglaterra com o Egito (ou com outra colônia
que mantêm uma posição pequeno-burguesa na ou semicolônia) "teria crescido" mais sem a ocu- .
crítica do imperialismo, da onipresença dos bancos, pação militar, sem o imperialismo, sem o capital
da oligarquia financeira, etc. Todos eles, sem financeiro. Que significa tal afirmação? Que o
qualquer pretensão marxista, ingenuamente opõem capitalismo se desenvolveria mais rapidamente se a
ao imperialismo a livre concorrência e a democra- livre concorrência não conhecesse a limitação que
cia, condenam a aventura da estrada de ferro de lhe impõem os monopólios em. geral, as "relações"
Bagdad, que conduz a conflitos e à guerra, manifes- ou o jugo do capital financeiro e a posse monopo-
tam o "voto piedoso" de viver em paz, etc. Nos lista das colônias por parte de alguns países? Os
economistas burgueses essa ingenuidade nada tem r~ciocínios de Kautsky não podem ter outro sen-
de surpreendente. Tanto mais que Ihes convêm, tido, e este "sentido" é um sem sentido. Admita-
parecem tão ingênuos e falam "a sério" da paz se, por hipótese, que a livre concorrência sem
sob o imperialismo. Entretanto, Hobson indaga: mono~li?s de nenhuma espécie, possa desen~olver
o que resta a Kautsky de marxismo quando em o capitalismo e o comércio mais rapidamente.
1914, 1915 e 1916, adota essa mesma posição Entretanto, quanto mais rápido é o desenvolvimen-
burguesa reformista e afirma que "toda a gente to do comércio do capitalismo mais intensa é a
está de acordo" (imperialistas, pseudo-socialistas e concentração da produção e do capital que gera
50 Afrânio Mendes Catl que é Imperialismo 51

lmperialismo: as contradições entre. os rnonopó-


o monopólio. E os monopólios já nasceram, prec!- r e a livre concorrência que existe paralela-
samente de livre concorrência: Assim, por mais mente a eles, entre as "operações" gig.antescas (e ?S
voltas que se dê aos raciocínios de Kautskv, não se lucros gigantescos) do capital financeiro e o com~~-
encontrará neles mais do que reacionarismo e refor- io "honesto" no mercado livre, entre os ~rtels
rnisrno burguês. . e trustes, por um lado, e a indústria nãocartelizada
O aumento da exportação está relacionado precr- por outro, etc. ,. .
samente com as fraudulentas maquinações do Através de uma comparação com os raciocínios
capital financeiro, que não se preocupa ~om. a de Hobson (1902), pode-se mostrar o caráter rea-
moral burguesa e esfola o boi duas vezes: primeiro cionário da famosa teoria do "ultra-imperialismo",
com o lucro do empréstimo e depois com o .I~c!:o divulgada por Kautsky em 1915. Achava es~e
desse mesmo empréstimo investido na aqursiçao último que a política imperialista atual poderia
de artigos ou materiais ferroviários d.o s!~dic~to do ser suplantada por outra nova, ultra-imperialista:
aço, etc. Para raciocinar sobre a sl~nlflcaçao ~o que em vez da luta dos capitais financeiros entre SI
capital financeiro no que se refere a exporta~o, estabeleceria a exploração comum de todo o mun-
etc., é indispensável saber destacá-Ia de manelr~ do pelo capital financeiro unido internacionalmen-
especial e unicamente na sua relação co~ as ma~UI- te. Essa nova fase do capitalismo era, para ele,
nações dos financeiros, de maneira especial e uruca- concebrvel, embora ponderasse que a inexistência
mente na sua relação com a venda dos produtos dos de premissas suficientes não permitia. resolver se
cartéis etc. Limitar-se a comparar simplesmente .as era realizável ou não.
colônias em geral com as não colô~ia.s, um imp:n~- A fase do "ultra-imperialismo" seria aquela em
lismo com outro, uma sernicolõnia ou colônia que a formação de trustes internacionais chega a
com todos os países restantes significa deixar de. ponto de criar uma única grande concentração
lado e escamotear precisamente a essência da mundial, com o que não mais poderiam ocorrer
questão, que é o que Kautsky. faz . .!= a crítica teó- guerras, uma vez que seriam superadas as contra-
rica do imperialismo que realiza nao tem nada de dições intermonopolistas que as geram. Essa hipó-
comum com o marxismo, servindo apenas como tese de Kautsky é logicamente possível se se raclo-
ponto de partida para preconi.z~r a paz .e ~ unidade cina de maneira abstrata. Entretanto, levando-se
com os oportunistas e os sociais-chauvinistas. Isto em consideração os processos históricos reais, ou
porque deixa de lado e oculta precisamen~e as seja, ao se captar o fenômeno do imperialismo
contradições mais profundas e fundamentais do ~ _
52 Afrânio Mendes Ca~que é Imperialismo 53

não em uma uruca de suas componentes - a ten- Após a guerra anglo-bôer, era natural que os
dência à concentração financeira - mas em todos padres dedicassem a maior parte d~ .seus esforços
os seus elementos, para ser fiel à interpretação com a finalidade de conso,lar. os filisteus ~ ope-
leninista então não há dúvida que o desenvolvi- rários ingleses, que tinham sofrido um bo,:" numero
mento seque a linha de um único truste mundial de mortos nas batalhas sul-africanas ~ tlvera~ de
pagar impostos elevados para .gara~tlrem maiores
que enriqueça todas as empresas e todos os Esta-
lucros aos capitalistas financeiros Ingleses. E que
dos sem exceção. Mas a segue em tais circunstân-
melhor poderia consolá-los do que a idéia de que o
cias, sob tais ritmos, com tais contrastes, conflitos
imperialismo não era assim tão mau, qu~ se en~o.n-
e choques - e não apenas econômicos, mas tam-
trava muito próximo do inter ou ultra-Impenal~s-
bém políticos, nacionais, etc., etc. - que neces-
mo, capaz de assegurar a paz permanente? Quais-
sariamente, antes que se chegue a um único truste
quer que fossem as boas intenções dos padres
mundial, à associação mundial "ultra-imperialista"
ingleses ou as de Kautsky, o verdadeiro_ sentid?
dos capitais financeiros nacionais, o imperialismo
social da sua "teoria" é um só: a consolaçao arqui-
deverá forçosamente explodir e o capitalismo se
reacionária das massas com a esperança na possi-
transformará em seu contrário.
bilidade de uma paz permanente sob o capitalismo,
Segundo Hobson, o cristianismo consolidado
desviando a atenção das agudas contradições e dos
num número limitado de grandes impérios fede-
agudos problemas da atualidade de então, para as
rais cada um deles com colônias não civilizadas e
dirigir para as falsas perspectivas de um possível e
paí~es dependentes, parecia a muitos a evolu~o
desejado ultra-imperialismo futuro.
mais legítima das tendências atuais, uma evoluçao
Dessa maneira, as alianças interimperialistas ou
que, além disso, permitiria alimentar as maiores
ultra-imperialistas no mundo capitalista - seja qual
esperanças numa paz permanente sobre a base
for a sua forma: uma coligação imperialista contra
sólida do interimperialismo.
outra coligação imperialista, ou uma aliança geral
Kautsky qualifica de ultra-lmperialismo ou su-
de todas as potências imperialistas - só podem ser,
perimperialismo aquilo que Hobson qualificava, inevitavelmente, "tréguas" entre guerras. As alian-
treze anos antes, de interimperialismo. Assim, o ças pacíflcas preparam as guerras e por sua vez
progresso do pensamento "científico" em Kautsky surgem das guerras, conciliando-se mutuamente,
reduz-se à pretensão de fazer passar por marxismo gerando uma sucessão de formas de luta pacífica
aquilo que Hobson descreve, em essência, como e não pacífica sobre uma mesma base de vínculos
manifestação hipócrita do clero inglês. .
S4 Afrânio Mendes Calque é Imperialismo SS

imperialistas e de relações recíprocas entre a eco-


nomia e a política mundiais.

o lugar do imperialismo na história

Neste último tópico de seu trabalho lênin tece


algumas considerações - além daquelas que já
destaquei no início do capítulo - a respeito dos
efeitos que a prática imperialista acarreta sobre a
classe operária. Considera que a obtenção de ele-
vados lucros monopolistas pelos capitalistas de um
dentre muitos ramos da indústria, de um dentre
muitos países, oferece-Ihes a possibilidade econô-
mica de subornarem certos setores operários. E,
temporariamente, torna possível subornar uma
minoria bastante considerável destes últimos,
atraindo-os para o lado da burguesia desse ramo ou
dessa nação, contra todos os outros.
O acentuado antagonismo das nações imperia-
listas pela partilha do mundo aprofunda essa ten-
dência. Cria-se, assim, a ligação entre o imperia-
lismo e. o oportunismo, ligação que se manifestou,
antes que em qualquer outro lado e de uma forma
mais clara, na Inglaterra, devido ao fato de vários
dos traços de desenvolvimento imperialista apare-
cerem nesse país muito antes de aparecerem
noutros.
A conquista teórica de lênin está na lúcida visão Lênin teórico.
56 Afrânio Mendes C'atueé /mperiali$7no 57

de como a estratégia do proletariado deva ser postaE lênin chega a sentenciar, corretamente, que
no quadro do desenvolvimento imperialista. O mo a luta contra o imperialismo e uma frase oca e
mento em que lênin se apresenta no movimento falsa se não for indissoluvelmente ligada à luta
operário como o teórico que deu a mais lúcida contra o oportunismo existente no interior do
definição do imperialismo e de suas conseqüênciasmovimento operário.
pol íticas, é também o momento em que ele se apre
senta como um dirigente do movimento operário
revolucionário a nível internacional.
A tomada de consciência do fenômeno do impe-
rialismo, efetivada no seio da esquerda social-demo·
crata no curso da Primeira Guerra Mundial, repro·
põe a questão nacional e o princípio da autodeter-
minação dos' povos. Esboçam-se duas orientações:
a dos que, diante do novo grau de internacionali-
zação do capital representado pelo imperialismo,
consideram que a questão nacional já está supe-
rada, enquanto -momento essencial da luta revolu-
cionária do proletariado; ea dos que, como lênin,
consideram que precisamente essa mais direta e
orgânica opressão dos povos, exerci da pelo capita-
lismo transformado em imperialismo, coloca com
novo vigor e com maior amplitude a questão
nacional, de modo a torná-Ia mais que nunca uma
parte integrante do programa revolucionário do
proletariado.
O imperialismo, ao superar os limites dos Esta-
dos nacionais, faz com que todas as contradições
sejam aguçadas e os conflitos nacionais se somem
aos conflitos de classe. Também assim amadure-
cem, rapidamente, as condições para o socialismo.
____________
~--------------~Á
••••~~ __.~.~ ••• ••
59

Em 1887 graduou-se pela escola secundária de


Varsóvia tendo conhecido o Partido Proletário,
aliado ao movimento populista russo e ingressado
em uma de suas células. É importante frisar que foi
essa a primeira tentativa de organização de um
partido socialista na Polônia. Suas atividades
acabaram por chamar a atenção da pol íciae aos
19 anos foi obrigada a se exilar. Decidiu ir para
ROSA LUXEMBURGO E A, Zurique (Suíça) a fim de estudar na Universidade
ACUMULAÇÃO DO CAPITAL e também para se juntar à colônia de exilados
russos e poloneses que tinham aí se estabelecido.
Entre eles se encontrava Plekhanov (1856-1918),
chamado "o pai do marxismo russo". Inscreveu-
se na Universidade em 1890, na Faculdade de
Rosa Luxemburgo nasceu na pequena cidade
Filosofia, onde estudou durante dois anos ciências
polonesa de Zamoso (então pertencente ao Império
naturais e matemáticas. Em 1892 mudou de curso
Russo) em março de 1871 e faleceu em Berlim em
e matriculou-se na Faculdade de Direito, tendo-a
janeiro de 1919. Filha de judeus pequeno-bAur~ue·
cursado durante cinco anos. Data de 1898 a
ses, sua família tinha possibilidades econormcas
defesa de sua tese de doutorado em ciências polí-
limitadas. ticas intitulada O Desenvolvimento Industrial da
Sua infância transcorreu relativamente calma, Polônia.
apesar da deformidade num dos quadris que foi Em 1894 fundou a Social-Democracia do Reino
erradamente diagnosticada como tuberculose ósse~. da Polônia, que se constituiu em uma ruptura com
Esta doença imobilizou-a durante um ano, dei- o Partido Socialista Polonês. Acreditava que a
xando-a coxa para o resto da vida. Antes de com· luta pela independência nacional da Polônia, des-
pletar três anos sua família mudou-se para Var: pida do conteúdo de classe, levaria o proletariado
sóvia, onde passou a infância e adolescência. Là a reboque da burguesia, sob o manto nacionalista.
foi objeto de dupla discriminação legal em sua O prOletariado polonês deveria procurar a sua liber-
educação, uma vez que era simultaneamente tação através de uma aliança com a classe trabalha-
judia e polonesa. dora russa, e não apoiar a burguesia polonesa em
60 Afrânio Mendes Cato °
que é Imperialismo 61

sintetizou sua experiência política na Polônia


nenhuma luta nacional. O argumento utilizado era
realizando também uma análise geral da revoluçâo
o de que a burguesia polonesa, por necessitar do
russade 1905. -
vasto mercado russo para as suas indústrias, estava
Em 1908 tornou-se docente da Escola Central
bastante ligada ao Tzarismo e ao Império Russo
do Partido Social Democrata em Berlim, onde se
para empreender uma luta efetiva. Defendia tam-
manteve até 1914. Nesta atividade de professora
bém a idéia de que a classe trabalhadora polonesa
teve a oportunidade de produzir vários textos.
deveria lutar por uma revolução socialista e não
entre os quais A Acumulação do Capital (1913) ~
por uma revolução que instituísse uma democracia
que continua a ser considerada a sua obra teórica
burguesa.
principal - e Introdução à Economia Política.
Mudou-se em 1898 para a Alemanha, então o
Os anos posteriores a 1911 foram mais frutífe-
centro do mundo socialista, onde começou a mili-
ros para Luxemburgo, que se envolveu na aqitação
tar na social-democracia. O Partido Social Demo-
P~ovocada pelo Partido acerca da questão do sufrá-
crata viria a ter, em 1913, noventa jornais diários,
gio na Prússia, onde a maioria dos trabalhadores
com uma circulação superior a um milhão e trezen-
er~. impedida de votar nas eleições para a Assem-
tos mil exemplares, bem como sessenta e duas
biela. Com o eclodir da Primeira Guerra Mundial
tipografias, empregando cerca de três mil trabalha-
(1914-1918), tomou uma posição contrária à mes-
dores pagos em jornada de trabalho integral. Para
m~,_tendo passado praticamente toda a guerra na
poder se estabelecer na Alemanha sem ter com-
pn~o onde escreveu, entre outros, A Crise na
plicações com a polícia, Rosa casou-se em abril
Social Democracia Alemã - cuja intenção era for-
de 1898 com Gustav Lubeck, o que lhe deu a na-
ne~r a palavra de ordem unificadora da esquerda
cionalidadealemã. Este casamento foi uma com-
antlguerra - e as Cartas da Prisão (publicadas
pleta ficção legal, na medida que o casal se separou
à porta do Registro Civil. . :~na~ em. 1921). Ainda durante o período do
Desde a sua chegada à Alemanha até o ano de L.tlvelro, Juntamente com Franz Mehring,Karl
1908, envolveu-se em vários debates teóricos, lebknecht e Leo Jogiches, fundou a Liga Spar-
takus, de ação revolucionária.
teve ativa participação como militante do Partido
Com a revolução de novembro de 1918 e com a
Social Democrata e escreveu muito, sendo impor-
queda do governo do Kaiser, foi posta em liberdade
tante destacar dois de seus livros: Reforma Social
ou Revolução e Greve de Massas,Partidos Poltticot ~ começou imediatamente a ampliar a influência
a esquerda revolucionária. Em dezembro do
e Sindicatos. Neste último, publicado em 1906,
62 Afrânio Mendes Catani 63

mesmo ano a Liga Spartakus realizou uma confe- Lê.nin e Rosa - é interessante ter em mente que ela
rência com outros grupos de esquerda e fundou o foi uma defensora ardente da Revolução Russa
Partido Comunista da Alemanha. '- e":lbora não, ~enha assumido de modo algum um~
No in ício de janeiro de 1919 os trabalhadores at~tude acrrtíca perante ela -, Lênin chegou a
berlinenses iniciaram uma série de manifestações afirmar: "Rosa Luxemburgo foi; e continua a ser
para nós, uma águia". .
armadas como protesto contra a tentativa de desti-
tuir o chefe da Polícia de Berlim, um popular Rosa Luxernburqo viveu e morreu pela causa a
social-democrata de esquerda e, como tal, um que dedicou apaixonadamente toda a sua vida,
obstáculo ao projeto do Exército de "restaurar a tendo lutado pela libertação da classe trabalha-
lei e a ordem" com a conivência do governo dora (e, de um modo geral, de toda a humanidade)
social-democrata republicano. Estas manifestações dos horrores do capitalismo imperialista.
ficaram conhecidas como Semana Spartakus, por-
que, se bem que os líderes da Liga Spartakus
fossem contra tais manifestações, colocavam-se à
Indagações que levaram
cabeça destas quando não conseguiam dissuadir Rosa Luxemburgo a escrever
os trabalhador de agir. O Exército acabou esma- "A Acumulação do Capital"
gando tais contestações de um modo sangrento
e brutal, tendo sido desencadeada uma verdadeira
onda de terror contra todos os socialistas revolu- Rosa. ~uxemburgo descrevia no "Prólogo" de
seu principal estudo teórico, em dezembro de
cionários.
Em 15 de janeiro de 1919 Rosa l.uxemburo e 1912, as razões que a levaram à redação de A
Karl Liebknecht foram presos por oficiais do ,,!-~~mulação do Capital. Afirmava a autora que "a
Exército e brutalmente assassinados. Luxemburgo Idela deste trabalho surgiu da Introdução à Econo-
foi espancada até a morte com coronhadas e o seu mia Política, obra de divulgação que há muito
corpo lançado para um canal onde ficou durante tempo venho preparando, constantemente inter-
algumas semanas. Liebknecht foi baleado mortal- rompida pelas minhas atividades na escola do
mente na cabeça, transportado para um necrotério ~art~do e pelas campanhas de propaganda. Em
e sepultado como "uma pessoa desconhecida Janeiro deste ano, após as eleições para o Reichstag
(parlamento alemão), tentei terminar aquele tra-
encontrada morta a bala".
balho de divulgação da teoria econômica de Marx,
Apesar das muitas divergências existentes entre
64 Afrânio Mendes Catani
o que é-Imperialismo
65

mas me defrontei com uma dificuldade inesperada.


Não conseguia' expor com suficiente clareza o Na época em que escrevia seu livro muitos
processo global da produção capitalista em seu socialistas discutiam as análises marxistas sobre a
aspecto concreto, nem seus limites históricos decadência do capitalismo - e freqüentemente
objetivos. Aprofundando-me no assunto, cheguei acabavam por deformá-Ias. Eduard Bernstein
à conclusão de que não se tratava simplesmente de (1850-1932), em especial, desde 1896-1900 se
uma dificuldade de exposição. A dificuldade envol- apoiava no fato de que os salários reais aumenta-
via um problema teoricamente relacionado 'com a vam e o exército industrial de reserva diminuía
doutrina do volume II de O Capital de Marx, e, para criticar Marx e afirmar que o capitalismo
que, além disso, se vincula estreitamente com a poderia desenvolver-se indefinidamente, sem obstá-
atual pol ítica imperialista e suas ra (zes econômi- culos.
cas. Tentei formular com toda a exatidão cientí- É contra esta tendência e, principalmente contra
fica esse problema. Se houvesse conseguido, meu Bernstein, que a autora vai argumentar, afirmando
trabalho hão teria somente interesse teórico puro, que o capitalismo em determinada etapa de sua
mas encerraria, também, em minha opinião, certa evolução, encontrará fortes barreiras que irão
importância para nossa luta prática contra o impedir seu desenvolvimento indefinidamente. Para
imperialismo. " ela, Marx não se equivocou. Apenas não tornou
Assim, em A Acumulação do Capital, retomando óbvia a impossibilidade de o capitalismo arruinar-se
o volume II do texto de Marx, constatou que a enquanto existissem setores e países pré-capitalistas
reprodução composta era possível e que conduzia que pudessem ser conquistados.
ao imperialismo e à crise. O capitalismo destrói as Além de Bernstein, certos revisionistas e vários
formas pré-capitalistas de produção - a escravidão, OUtros membros da Internacional socialista mostra-
o feudalismo, a economia camponesa - e para a ram-se, desde o começo do século atual, aberta-
realização da mais-valia, mediante a política de mente favoráveis ao colonialismo. Em contra pare
empréstimos externos de Estado a Estado, prote- tida, alguns adversários destes revisionistas insisti-
cionismo alfandegário e exportação do capital, ram rio papel dos mercados externos para o desen-
chega ao imperialismo. Esse processo é empirica- volvimento das economias capitalistas, enfatizando
mente comprovado por ela através do estudo da que o capitalismo poderia arruinar-se caso o mer-
história econômica européia, "asiática, africana e cado se tornasse demasiadamente estreito. É assim
latino-americana, a partir do século passado. por exemplo quê Kautsky,· que na década de
noventa aparecia como o defensor do marxismo
66 Afrânio Mendes Cata", 67

revolucionário,. insiste na importânci~ do papel tenha paulatinamente constituído e não possa ser
dos mercados externos no desenvolvimento das alargado por meio de freqüêntes ampliações,
economias capitalistas. Em um artigo pu~licad~ enquanto que a produtividléle do trabalho não
em 1902 ponderava ele que o mercado crescia mais deixará de progredir, o conflito periódico entre as
vagarosamente que a acumulação de capital e que o forças produtivas e os limites da mudança come-
aumento na produtividade do trabalho. Como con- çará cedo ou tarde e sua repetição irá se fazer cada
seqüência, . a indústria capitalista deveria procurar vez mais violenta e impetuosa.
um mercado suplementar localizado fora ~e s:u Interessando-se pelo problema do crescimento,
domínio em nações e estratos da população nao procura destacar também os movimentos cíclicos
capitalis;as. Acrescentava ainda q~e não a~en?s as da economia. Para ela é fundamental ter em mente
crises eram inevitáveis como tambem o caPI~hsmAo que, embora a periodicidade de conjunturas de
seria conduzido a um "período de depressao cro- prosperidade e de crise represente um elemento
nica". Isso precisamente devido à impossibilidade importante da reprodução, não. constitui o pro-
de se ampliar, indefinidamente, o mercado mun- blema da' reprodução capitalista em sua essência.
dial. . . . A existência" de ciclos faz com que a produção
Escrevia também que os conflitos internacionais seja ~Igumas vezes superior e outras inferior à
iriam se tornar mais sérios, pois à medida e~ que demanda efetiva. Sem dúvida, em um período de
o estado de depressão crônica se aproximava, tempo mais longo se pode obter um volume médio
cada nação procuraria estender sua parte do ~er- de reprodução, e isto não é puramente teórico,
cado à custa das outras, utilizando as conqUls~~s pois além dos movimentos cíclicos a capacidade
coloniais, as tarifas alfandegárias e os ca~t~IS. produtiva se desenvolve progressivamente. E ela
Mais tarde, Kautsky repudiará total e exphclt~- se pergunta: "Como se realiza isto ... ? Aqui
"mente estas teses; todavia, é interessante recorda- COmeçam as dificuldades ... " A essa questão de
Ias uma vez que constituíam uma das respostas Luxemburgo, podem ser acrescentadas outras,
que se poderia dar aos revisionistas. . tais como: por que cresce a economia capitalista?
Respondendo aos revisionistas L~xembu~g? POde ela crescer de maneira ilimitada? Qual a ori-
destaca que se as previsões de Marx nao. s~ .verlfl- gem da propensão para lnvestir? De onde vem a
cam com exatidão é em virtude das pO~lblhdades demanda que permite a continuidade da acum~-
de expansão, que as colônias oferecem a Eu.r0pa. lação? São estas, acredito, questões fundamentais
Entretanto; uma vez que o mercado mundial se que necessitam ser respondidas. Trata-se, em suma,
68 Afrânio Mendes Catam 69

do problema da propensão para investir. Assim, sejam respeitadas. Dessa maneira, após apresentar
resta saber quais as razões que levam os capitalistas os esquemas de Marx afirma que a acumulação do
a investir e como eles sabem se existirá uma deman- capital parece poder continuar de maneira indefi-
da suficiente para os produtos criados pelo novo nida e numa progressão constante, com uma
cápital. extensão ilimitada da produção, apoiada apenas nó
mercado interno.
O erro de Marx, para ela, éonsiste em haver ra-
ciocinado no marco de uma nação, mais precisa-
Críticas às 'concepções de Marx mente, de formular sua argumentação como se o
mundo inteiro fosse uma única nação capitalista.
Rosa Luxemburgo, nos notáveis capítulos de Conseqüentemente, o esquema marxista de repro-
história do pensamento econômico, rechaça as dução ampliada não pode explicar o processo de
várias colocações de J. B. Say,' David Ricardo, acumulação tal como se verifica na realidade, nem
Sismondi e Malthus sobre a lei dos mercados. como se impõe historicamente. O esquema marxis-
Igualmente são rechaçadas as teses dos populistas ta expõe o processo de acumulação a partir do
russos que defendiam a necessidade de mercados pressuposto segundo o qual capitalistas e trabalha-
exteriores, além de criticar violentamente, tam- dores constituem-se nos únicos consumidores.
bém, as teses dos marxistas legais que defendiam a O livro III de O Capital fa Ia de uma contradição
possibilidade de um desenvolvimento indefinido entre a capacidade ilimitada de desenvolvimento
do capitalismo apoiado unicamente no mercado das forças produtivas e a capacidade limitada de
interno, levando .ao absurdo, porém, certas desco- desenvolvimento do consumo interno nas condi-
bertas de Marx. ções de distribuição capitalista das rendas. E é esta
Salienta que os esquemas de reprodução amplia- contradição que faz com que se tornem necessários
da do' livro II de O Capital conduzem a um resul- os mercados externos, que desempenham um papel
tado insatisfatório e contraditório em relação ao essencial na, propensão prévia para produzir, um
livro 111. Para Rosa, os esquemas de reprodução papel essencial na criação da mais-valia, na época
do livro II de O Capital dão a impressão de que é da acumulação primitiva. "Em nossos dias",
possível um desenvolvimento indefinido do capita- contudo, desempenham apenas o papel de fonte
lismo, apoiado apenas no mercado interno, com a para os excedentes de produtos, um papel na
condição de que as proporções entre os dois setores realização da mais-valia. Marx explica que "atual-
70 Afrânio Mendes Catani
o que é Imperialismo 71

mente" a criação da mais-valia já não depende da


existência de mercados externos, senão unicamente mente na necessidade de uma proporcionalidade
da importância da população operária e do grau entre os setores (setor I - produtor de bens de
de exploração do trabalho .: produção; setor II - produtor de bens de consu-
Assim, se os mercados externos não desempe- "':'0) para q~e o problema dos mercados seja resol-
nham nos dias atuais um papel essencial na pro- vido, Todavia, parece não ser possível concluir que
pensão prévia para produzir permitem, sem dúvida Marx avente a possibilidade de um desenvolvi-
alguma, vender os excedentes dos produtos; são mento ilimitado do capitalismo, tendo por base o
indispensáveis para a realização da mais-valia. mercado in.te~no. Toda a obra de Marx, por outro
A insuficiência do consumo interno impede a lado: ~~nstltUl em certo sentido uma negação desta
venda no mercado interno de todos os estoques dos possibilidade de uma expansão indefinida.
produtos, o que acaba conduzindo os capitalistas Não se pode exigir dos esquemas do livro "
a procurar vender suas mercadorias excedentes mais do que eles efetivamente nos mostram.
nos mercados externos. ~estes esquemas, a vontade dos capitalistas de
Poderiam ser destacadas outras passagens onde Investir ~ admitida e mantida, sendo que Marx
Marx prossegue em suas considerações sobre a bu~, ~Imples~e~te, quais são as condições do
necessidade dos mercados externos para a reali- eq~11Ibrio econorruco - e a esse respeito é o pri-
zação da mais-valia. Entretanto, quanto a este meiro a mostrar que esta Condição é a igualdade
aspecto, creio que já apresentei o núcleo das idéias entre o investimento e a poupança. Assim, não se
do pensador alemão.i.permitindo assim uma com- ~ode buscar em tais esquemas uma explicação do
preensão adequada por parte dos leitores. Gostaria Impulso para investir, por parte dos capitalistas.
então de discutir, a partir de agora, a validade das Em segundo lugar, não é correto afirmar que há
críticas que Rosa Luxemburgo dirige a Marx. uma contradição entre os livros II e III de O Capi-
Acredito que tais críticas são equivocadas em tal. A oposição sobre a qual Marx insistirá no livro
dois pontos: primeiro, a idéia segundo a qual o 111,.en.tre a tendência a uma acumulação cada vez
livro II de O Capital daria a impressão de um pos- mais Importante e à proletarização das massas
sível desenvolvimento indefinido do capitalismo, pOpulares, surge como um atentado à necessária
apoiando-se no mercado interno, parece constituir- prop.?rcionalidade entre os setores.
se em uma interpretação incorreta. É verdade que Nao obstante o caráter muito discutível das
nos esquemas do livro II Marx insiste essencial- críticas que Luxemburo dirige a Marx, se é obriga-
do a reconhecer que ele, sem dúvida , não atribuiu
.
72 Afrânio Mendes Cata,,; 73

grande importância aos m~rcad~s externos co~ Primeira explicação: Os mercados externos são
relação à propensão para investir. Confor~e fOI necessários para realizar a mais-valia.
mostrado, se Marx atribui um papel essen~lal a.os Ao longo de toda uma seção de seu trabalho,
mercados externos na realização da. mals-~al~a,
A
Luxemburgo retoma o tema desenvolvido por
acaba por- negar-Ihes toda a imp?rta~cla na cnaçao Marx no livro III de O Capital, segundo o qual os
da mais-valia, ou seja, na motiveçeo que leva os mercados externos, inúteis para criar a mais-valia,
capitalistas a produzir e a investir. . . são indispensáveis para a sua realização.
A partir de agora torna-se interessante ver.'flcar A) A acumulação do capital num sistema capi-
como Rosa Luxemburgo justificou a necessidade talista, afirmou, só pode ocorrer a partir de duas
de mercados externos para o desenvolvimento do condições: a primeira é que a produção deve .gerar
capitalismo e, especialmente, examinar se ela Ih;s mais-valia; a segunda é que a mais-valia tem que ser
realizada.
atribuiu alguma importância enquanto propensao
a produzire a investir. Quanto à primeira condição, Rosa concorda
com as afirmações de Marx, ponderando que para
se gerar mais-valia é indispensável a existência no
Os mercados externos são necessários mercado de matérias-primas, máquinas e mão-de-
obra. E que a criação da mais-valia não depende
para realizar e' para criar a mais-valia da existência de mercados externos.
B) Ao contrário, a realização da mais-valia
Em A Acumulação do Capital encon~ra~-se ~ois depende dos mercados externos.
tipos de explicação diferentes. Um p~lmelro tl?O, Uma condição adicional torna-se necessária para
que no plano teórico é mais desenvolvld_o,conslst,e que o capitalista individual realize sua mais-valia: a
em afirmar que os mercados externos sao n~cessa- existência "de um mercado mais amplo". E essa
rios para realizar a mais-valia. O se9.undo tipo de realização para fins de acumulação torna-se um
explicação, muito menos desenvolvido no plano problema insoiúvel em uma sociedade onde haja
teórico mas amplamente desenvolvid~ n? plano da apenas trabalhadores e capitalistas. Assim, como
história do desenvolvimento do capitalismo, co~~ primeira condição, a realização da mais-valia re-
siste em afirmar que os mercados externos sa quer um círculo de compradores que está locali-
necessários para criar a mais-valia, en.quanto pro- Zado fora da sociedade capitalista.
pensão prévia ou estímulo para produzir. SObre estes mercados a autora afirma que. eles
74 Afrânio Mendes Catani o que é Imperialismo
7S

são externos não com relação às fronteiras nacio-


nais, mas sim à própria esfera capitalista. "Mercado
interno, sob o ponto de vista da produção capita-
lista, é mercado capitalista. Mercado externo é a
zona social não capitalista." Em outros termos, a
conquista de mercados externos significa tanto
a conquista de setores pré-capitalistas no interior
das fronteiras nacionais, como a conquista de mer-
cados nos países atrasados, no exterior das fron-
teiras nacionais. A realização da mais-valia e a
acumulação do capital, para ela, torna-se impos-
sível em um sistema capitalista fechado, e a parte
da mais-valia poupada somente pode ser realizada
através da venda a compradores não capitalistas, ou
seja, países ou camadas sociais pré-capitalistas no
interior dos países capitalistas.
A autora apresenta, em algumas partes de sua
obra - em especial nos dois primeiros capítulos da
terceira parte -, outro tipo de explicação para
demonstrar sempre que os mercados externos são
necessários para a realização da mais-valia.
Com efeito, em seus esquemas da reprodução
ampliada encontrados no livro II de O Capital,
Marx supôs que a composição orgânica do capital
(a .-relação .do capital constante com o capital
variável, C/V) permaneceria constante. Entretanto
é necessário reintroduzir em tais esquemas uma lei
descoberta por Marx, segundo a qual no sistema
capitalista um processo constante de racionalização
e de progresso técnico provoca uma_tendência
Rosa Luxemburgo.
76
Afrânio Mendes Catani o que é Imperialismo 77

ascendente de C/V. demanda suplementar. os gastos militares, por


Esta introdução nos esquemas de Marx do pro- exemplo, desempenham um papel essencial na con-
gresso técnico da elevação de C/V mostra, que o sis- qu ista e manutenção dos mercados externos, porém
tema se encaminha para um beco sem salda. Com a não criam uma demanda suplementar: o consumo
ajuda de exemplos numéricos demonstra que a dos militares não faz senão substituir o consumo dos
introdução do progresso técnico nos esquemas da trabalhadores, ou o consumo e o investimento dos
reprodução acarreta como conseqüência uma insu- capitalistas. Não é outra coisa senão uma simples
ficiência de produção e um excesso de bens de transferência de capital. O que a grande massa dos ca-
consumo. pitalistas que produzem meios de subsistência para a
Para escapar a este dilema - entre um estanca- classe operária perde, e ganha um pequeno grupo de
mento que implicaria a queda do capitalismo e uma grandes industriais tomando-o do ramo de guerra.
superprodução que cresce constantemente -, a Entretanto, esta afirmação é incorreta, pois não
autora acrescentou que os capitalistas precisariam, se pode assegurar que o total arrecadado através
sempre, escoar uma quantidade cada vez maior d~ de impostos ou empréstimos estatais tenha sido
suas mercadorias para os setores ou para os tem- gasto pelos indivíduos. Em tais condições o Estado
tórios pré-capitalistas. A economia capitalista esta- pode, mediante seus gastos, criar uma demanda
ria obrigada, 'então, a enviar os excedentes de seus suplementar. Se, por exemplo, o Estado se apropria
produtos para os mercados externos. de uma parte da mais-valia poupada pelos capita-
A insistência da escritora polonesa no aspecto listas e a utiliza para gastos públicos, pode ocorrer
necessário dos mercados externos para a realização perfeitamente a criação de uma demanda suple-
da mais-valia a obriga a cometer graves erros de mentar caso os capitalistas não tiverem intenção
apreciação acerca do papel dos gastos do Estado e, alguma de investir sua poupança. Afirmar, como o
em especial, dos gastos militares. faz Luxemburgo, que o Estado não pode nunca
Não são os setores "improdutivos" (militares, criar uma demanda suplementar, significa dizer
funcionários etc.), em seu entender, os que condu- que a poupança dos capitalistas é, sempre, autdma-
zem, através de sua demanda, a uma reprodução ticamente lnvestide. Este era o pensamento dos
ampliada. Isto porque o consumo dos setores clássicos ~ em especial David Ricardo - e, a
improdutivos se faz graças a uma parte da mais-va- partir daí, pode-se perceber até que ponto influen-
lia e dos salários, obtidos por meio dos impostos. ciavam os escritos da autora, como que a conduzi-
Conseqüentemente, esse consumo não cria uma Ia no sentido de cometer tais erros.
78 Afrânio Mendes Catani
o que é Imperialismo
79

Se as suas concepções sobre a necessidade de


mercados externos para realizar a mais-valia são é algo frente ao qual ele é impotente em absoluto.
errôneas e enganosas, o mesmo não pode ser dito Esses novos mercados, que justificam os inves-
de algumas passagens de seu livro onde apresenta timentos suplementares, o capitalismo vai encon-
trá-Ios em parte no exterior.
uma tese muito mais interessante, segundo a qual
os mercados externos são necessários não para Esta teoria do estímulo a investir não é, infeliz-
realizar a mais-valia, não para vender um exced~nte mente, muito precisa no plano teórico. Entretan-
de mercadorias já produzidas, mas sim para criar a to estará presente, sem dúvida, na história que a
mais-valia para incentivar os empresários a investir autora elabora sobre o desenvolvimento do capi-
talismo.
e produzÍr. Nesse aspecto sua tese é essencialmente
nova com relação às concepções de Marx. B) Os dois últimos capítulos do livro apresen-
Segunda explicação: Os mercados externos são tam uma descrição muito interessante da história
necessários para criar a mais-valia. do desenvolvimento do capitalismo, onde fica claro
Luxemburgo defende esta tese, por um lado, que a conquista de novos mercados tem sido - e
no plano teórico e por outro em sua história do continua sendo - condição essencial para seu
desenvolvimento do capitalismo. desenvolvimento, pois o capitalismo vem ao mundo
A) Em vários pontos de sua obra encontra-s~ e se desenvolve historicamente em um meio social
claramente expressa a idéia de que só se podera não capitalista. Destaca, particularmente, a luta do
produzir a inversão caso os capitalistas estejam capital contra a economia natural (luta contra o
seguros de encontrar pela frente um me~cado em escravismo, o feudalismo, o comunismo primitivo),
expansão ou, mais precisamente,. se eXI~te un:a observando que a dominação capitalista é a primei-
demanda prévia que os impulsione a investir. ra a impulsionar a destruição das organizações
Explica que no regime capitalista os capitalis~as sociais existentes: a luta .do capital contra a econo-
investem suas poupanças apenas se uma amplia- mia camponesa, mediante a separação entre indús-
ção prévia de seus mercados Ihes oferece uma razão tria e agricultura, que cria um mercado para os
para fazê-Io. O acréscimo da d.emand~ qerada pelas produtos industriais; e, -finalmente, a luta concor-
inversões não pode ser o motivo do investimento: rencial do capital no mercado internacional para
o capitalista necessita um mercado mais amplo, apoderar-se,· em certo .núrnero de territórios, do
porém o aumento da demanda em geral como ~m que resta dessas formas de-produção, luta p.ortá~to
pela conquista das colônias, pelas zonas de influen-
particular com relação a seu gênero de mercadorias,
cia, etc.
80 Afrânio Mendes Catani
o que é Imperialismo 81

Todo esse processo de introdução. do sistema de


mercado nas novas regiões do globo, e a monopoli- As reações ao livro
zação desses mercados em proveito das grandes de Rosa Luxemburgo
potências industriais, permitiram o prosseguimento
e o desenvolvimento da acumulação.
Extrai de suas análises duas conclusões muito Jacques Valier, em seu artigo sobre Rosa Luxem-
importantes: burgo, chama a atenção para o fato de que o livro
1~) não pensa que a busca de sa ídas ao exterior da autora foi: muito mal recebido. Mal recebido,
seja um fato novo no capitalismo do século XX, em primeiro lugar, pelos autores revisioriistas. A
mas sim que é uma condição permanente de desen- esse respeito, devem ser assinalados dois aspectos:
volvimento do capitalismo; 10) A atividade dos- partidos socialistas frente à
2~) esta necessidade para o capitalismo de bus- questão colonial havia evoluído consideravelmente
car mercados externos constitui-se numa contra- nos últimos quinze anos. No congresso da Inter-
dição essencial do sistema, pelo menos tão impor- nacional socialista de Paris, em 1900, foi votada
tante quanto as contradições analisadas por Marx. por unanimidade uma resolução antiimperialista
O capitalismo é a primeira forma econômica e anticolonialista. Porém, alguns anos depois, a
com capacidade de desenvolvimento mundial. Uma partir do congresso de Amsterdã (1904), o colo-
forma que tende a estender-se pelo âmbito da terra nialismo encontra partidários tanto entre os socia-
• e a eliminar todas as demais formas econômicas; listas alemães, como entre os ingleses, holandeses
que não tolera a coexistência de nenhuma outra. e belgas. Depois, no congresso da Internacional
Porém é também a primeira que não pode existir socialista de Stuttgart, em 1907, apareceram
só, sem outras formas econômicas de que possa importantes diferenças de atitudes a propósito do
alimentar-se; ao mesmo tempo que tem a tendência colonialismo: alguns propunham, por exemplo,
a converter-se em forma única, fracassa pela incapa- reconhecer o caráter inevitável dos impérios
cidade interna de seu desenvolvimento, sendo uma coloniais e preconizavam simplesmente reformas
contradição histórica viva em si mesma. que melhoravam as condições dos "indígenas"
Tal é, de acordo com a autora, uma das contra- - porém no marco da dominação - colonial.
dições essenciais do sistema capitalista. Kautsky, representante da tendência de esquerda,
deu provas em Stuttgart pelo menos de grande
prudência: "a idéia da emancipação das colônias
é uma espécie de idéia-limite que nos mostra uma
82 Afrânio Mendes Catani o que é Imperialismo 83

direção, porém não é uma proposição prática cado seu A Acumulação do Capital, que a crença
para cuja aplicação imediata devamos trabalhar". na possibilidade de acumulação em uma sociedade
A fonte teórica da posição colonialista dos par- capitalista isolada, a crença de que o capitalismo é
tidos social-democratas era uma deformação do assim concebível sem expansão, é a fórmula teórica
marxismo. Consistia na afirmação de que sendo o de uma tendência tática perfeitamente determina-
capitalismo historicamente inevitável, tudo o que da. Esta concepção tende a não considerar a fase
servisse ao seu desenvolvimento e que o ajudasse do imperialismo como necessidade histórica, como
a se estender pelo mundo todo seria também ine- luta decisiva pelo socialismo, senão como invenção
vitável e, portanto, deveria ser sustentado. Esta perversa de um punhado de interessados. Esta
idéia é defendida por Kautskv quando declara que concepção trata de persuadir a burguesia de que o
a produção capitalista entra em choque com as for- imperialismo e o militarismo são perigosos para el~
mas de produção atrasadas, porém que não se pode e do ponto de vista de seus próprios interesses capi-
nem se deve colocar obstáculos' em seu caminho. talistas, isolando assim a suposta parcela daqueles
20) O segundo ponto a ser assinalado a propó- que se aproveitam deste imperialismo, formando
sito da atitude dos revisionistas frente ao livro de um bloco do proletariado com amplas camadas da
Luxemburgo é que eles - e em especial Kautsky - burguesia para "atenuar" o imperialismo.
estimavam ser o imperialismo (forma particular e O livro de Rosa Luxemburgo não foi mal rece-
violenta da expansão praticada apenas por peque- bido apenas pelos revisionistas; foi mal recebido
nos grupos de capitalistas; os grandes bancos e os também por Lênin. A influência das idéias de
militares) contrário ao interesse do conjunto da Lênin sobre a evolução posterior do pensamento
classe capitalista. É por esse motivo que, afirmava marxista será tal que as teses defendidas por
Kautsky, a maioria da classe capitalista irá se opor, Luxemburgo sobre o papel dos mercados extern~s
de maneira crescente, à pol ítica de violência impe- no desenvolvimento do capitalismo serão esqueci-
rialista e a fará retroceder cada vez mais. Pode-se das ou menosprezadas ao longo do tempo. "Este.é
observar até que ponto esta posição é contrária à um fato lamentável, pois é evidente que a teoria
de Luxemburgo, para quem o imperialismo e a do imperialismo de Rosa Luxemburgo - em que
conquista de mercados externos são inerentes ao pese as ( ... ) imprecisões e erros que for~m
capitalismo e permitem o seu desenvolvimento. mencionados - continua sendo, até nossos ?I~S,
Por outro lado, é pensando em Kautsky que ela um instrumento útil para a análise do imperialis-
irá escrever, ao responder àqueles que haviam ata- mo." (J. Valler).
o que é Imperialismo 8S

do que vem a ser o imperialismo diferem muito.


Para Luxemburgo, não é o que do imperialismo
que irá interessar, mas sim por que ele é inevitável.
Para ela, a história do capitalismo é que revela
este segredo, que consiste na intervenção do capi-
talismo nos diversos modos econômicos pré-capita-
listas, desde a economia camponesa aos meios
técnicos econômicos especializados da economia
capitalista já avançada, .tais como o crédito inter-
CONCLUSÃO nacional, a exportação de capitais, o protecio-
nismo e o militarismo.
Lênin leu A Acumulação do Capital em 1913,
no mesmo ano de sua publicação, quando suas
Longe de querer fornecer a última palavra acerca relações pol íticas com a autora eram, ao que cons-
da controvertida questão doimperialismo, acredito ta, longe de satisfatórias, tendo se manifestado
que possa ser de grande utilidade para o leitor radicalmente contra suas idéias. Ele considerava
apontar, através dos trabalhos de alguns comenta- um "erro fundamental" a tese da autora sobre a
ristas, o cerne das divergências existentes entre as impossibilidade da reprodução ampliada prosse-
concepções de Lênin e Rosa Luxemburgo com guir numa economia fechada e da' necessidade de
relação a esse tema. . as economias avançadas engolirem economias
Os grandes teóricos do marxismo que permane- pré-capitalistas para poder funcionar. Dessa apre-·
ceram fiéis às implicações políticas práticas da ciação partiram todas as críticas comunistas que
análise estrutural de Marx são Lênin e Rosa Lu- . vieram em seguida, inclusive a de Bukharin, em seu
xemburgo. Mas apesar desses dois estudiosos con- livro O Imperialismo e a Acumulação de Capital
cordarem ao assumir a mesma posição estratégica, (1925).
mesmo assim os caminhos que fazem para analisar Portanto, as concepções teóricas de Lên2n e
a questão do imperialismo são diversos. Ambos Rosa sobre a função do imperialismo acabarao se
partem de uma mesma concepção: a necessidade da contrapondo. Luxemburgo estava embaraçada no
queda do imperialismo como caminho para a che- impasse do "capitalismo puro", e o mesmo acon-
gada ao socialismo. Entretanto, suas concepções tecia com Lênin na "defesa" da política segundo a
86 Afrânio Mendes Catani o que é Imperialismo 87

qual é preciso aplicar o capitalismo na Rússia ou amigo - que lhe pareça suscetível de desvio ou
como meio legítimo de fazer progredir a indústria, passo em falso na política que ele persegue. Ao
criar e desenvolver a classe operária; preparar enfim abordar o problema do comércio e dos mercados
os ingredientes necessários à dialética final da externos, acredita ser necessário tratá-los como
revolução. - A fúria de l.uxernburqo ao descrever o questão histórica e não mais teórica. É preciso ana-
processo feroz da penetração imperialista nos lisar as condições concretas do desenvolvimento do
países pobres e em curso de colonização irritava capitalismo nos diferentes países e nos diferentes
profundamente l.ênin, que comenta: "A de~c~i- períodos. Munido da teoria da realização de Marx,
ção da tortura dos negros na Ãfrica do Sul está concentra seus ataques, também, nas teses defen-
cheia de ru ídose cores sem significação. É sobre- didas por outros populistas russos. Esses escritores
tudo não-marxista". Para ele, em lugar de estar explicam a necessidade do mercado externo para
preocupada com a solução do problema da -rnais- uma nação capitalista - a própria Rússia - pelo
valia, Rosa procurava "0 conforto da exploração fato de que é impossível aos capitalistas realizar
colonial". de outro modo seus produtos. O mercado interno
Os ataques de Lênin nem sempre se destinam a russo reduz-se, em conseqüência da ru ína do carn-
Luxemburgo mas sim a jovens bolcheviques, seus pesinato e da impossibilidade de realizar a mais-va-
discípulos, pois ele temia que fossem influenciados lia sem mercado externo; ou o mercado externo é
por Rosa, por Bukharin em pessoa e, sobretudo, inconcebível a um país jovem, que ingressou
por Pyatak. tardiamente na via do desenvolvimento capitalista
I nicialmente o pensador tratou do problema da - eis como, insiste Lênin; os populistas russos
realização da mais-valia no capitalismo fechado. demonstram que o capitalismo nesse país, com
Em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia fundamento em considerações a priori (e falsas
(1899), com o subtítulo "teoria populista sobre a de um ponto de vista teórico), "não tem base
impossibilidade de realizar a mais-valia", toda a sua sólida, é um natimorto! "
atenção voltou-se contra os populistas russos e Após longas considerações e análises sobre a
aqueles que foram considerados durante algum insistente questão da realização da mais-valia, sobre
tempo "marxistas legais". À sua maneira de uma o problema do escoamento dos produtos no exte-
vigilância dupla, sempre armada em qualquer si- rior, sobre as contradições entre as tendências
ilimitadas ao crescimento da produção e ao con-
tuação que se apresente, Lênin não perdoa a
sumo limitado - inclusive a tese de que o próprio
menor afirmação - seja de quem for, adversário
88 - Afrânio Mendes Catani o que é Imperialismo 89

Marx está em contradição com seus próprios esque- dente, afirmam que sua absorção não está relacio-
mas -, Lênin é peremptório ao afirmar que não nada com a questão da realização da mais-valia,
havia nada mais insensato do que deduzir dessas chegando à estranha posição segundo a qual uma
passagens do Capital que Marx não admitia a possi- tentativa de absorção do excedente conduz à aqui-
bilidade de realizar a mais-valia na sociedade capi- sição de mais excedente.
talista, que ele explicaria as crises por um consumo Essa posição tem sido apontada como dotada de
insuficiente, etc. um significado particular, que apresenta uma pers-
Para os economistas populistas, a causa da pro- pectiva metodológica diferente da de Rosa Luxem-
cura de mercados externos por parte dos pa íses burgo. Ela tentou permanentemente perceber
capitalistas deve-se à "carência do próprio capita- como é que as lutas dos 'trabalhadores e dos mar-
lismo". Replica Lênin que, muito pelo contrário, xistas revolucionários poderiam ter relação com o
essa necessidade mostra de modo claro o trabalho fenômeno que estava a discutir. No Capitalismo
historicamente progressista do capitalismo, que Monopolista, de Baran e Sweezy, o trabalho como
destrói o isolamento, o caráter fechado dos siste- categoria econômica e a classe trabalhadora como •
mas econômicos de outrora (e, por conseguinte, força política raramente são mencionados, e isto
a estreiteza da vida intelectual e política), e que não acontece por acaso. Estas omissões derivam
reúne todos os países do- mundo num só todo dos métodos utilizados na análise, e, como tal,
econômico. separam o estudioso da tradição em que o trabalho
Para alguns estudiosos contemporâneos, entre- de Rosa se integrou.
tanto, o problema principal do capitalismo mo-
derno - ao contrário do que pensava Luxemburgo
- não é a realização da mais-valia, mas a venda do
"excedente econômico" - que poderia ser concei-
tuado como a diferença entre o que a sociedade
produz e os custos. de produção. Dessa maneira,
os economistas Baran e Sweezy mostram que os
modernos monopólios enfrentam a questão de um
excedente econômico crescente, que cria o proble-

-.
ma da colocação ou absorção do mesmo. Após
realizar uma série de considerações acerca do exce-

~_IL.._
'------- - ~ ~ ------