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LITURGIA

IMPORTÂNCIA E MANEIRA DE VIVÊ-LA E REALIZÁ-LA


CADA DIA E EM CADA CELEBRAÇÃO

A Importância da Liturgia

A prática de ações rituais é um elemento constituinte de todas as formas de religião e credo,


nas mais variadas culturas, e nos mais diversos períodos históricos. Isto porque, é através das ações
rituais que a imanência tange a transcendência. Obviamente que cada religião procede os atos
rituais de formas diferentes.
Em nosso caso, somos herdeiros de toda uma forma de relacionar-se com o sagrado que tem
suas origens nos próprios colóquios de Adão com o Onipotente no Jardim do Éden, onde a
convivência era face a face. Contudo, com o pecado, e o progressivo afastamento da criatura do seu
Criador, nossa relação deixou de ser direta e passou a ser indireta, desenvolvendo-se, assim, os atos
de sacrifício expiatório e propiciatório que obtiverem seu acabamento com as prescrições da Lei
Mosaica.
Porém todas estas formas de culto, eram uma prefiguração do que viria acontecer. Pois, “na
plenitude dos tempos Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito a Lei, a fim
de resgatar os que eram sujeitos a Lei, a fim de que recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,4-5). E
com a sua vida Jesus resinificou não sou a Lei Mosaica, mas também as relações de culto.
Toda a missão salvífica de Jesus tem como meta e culminância o mistério pascal de sua
paixão, morte e ressurreição. E para que aquele ele evento cósmico não permanece-se estático no
Krónos (Κρόνος), mas se perpetua-se como Kairós (Καιρός), “na noite em que foi traído, tomou o
pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei
isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice,
dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em
memória de mim. Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a
morte do Senhor, até que venha” (1Cor 11,23b-26).
Portanto, a Sagrada Liturgia nasce, justamente, do mistério pascal de Cristo, como nos
indica o prefácio da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: “(...) de seu lado aberto pela lança,
fez jorrar com a água e o sangue, os sacramentos da Igreja (...)”. Sendo assim ensinam-nos os
mais variados documentos que:

“Todavia, a Liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo


tempo, é a fonte donde emana toda a sua força” (Constituição Conciliar
Sacrosanctum Concilium, n. 10).

“A celebração da Missa, como ação de Cristo e do povo de Deus


hierarquicamente ordenado, é o centro de toda a vida cristã tanto para a Igreja
Universal como local e também para cada um dos fiéis” (Instrução Geral do
Missal Romano, n. 16).

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Quando ainda era cardeal, o santo padre emérito, o papa Bento XVI, escreveu o livro
Introdução ao Espírito da Liturgia. Ao longo do texto ele apresenta a liturgia cristã como o
sacrifício da palavra. Pois “os sacrifícios de animais e tudo o mais que existiu e existe junto a vós, e
que não pode satisfazer a ninguém, agora estão liquidados. Em seu lugar entra o sacrifício-
palavra. Nós somos a religião espiritual, na qual se realiza o culto divino feito por meio da
palavra; não são mais sacrificados bodes e bezerros, mas a a palavra é dirigida a Deus como
Àquele que sustenta a nossa existência, e essa palavra se une à Palavra por excelência, ao Logos
de Deus, que nos eleva à verdadeira adoração” (RATZINGER, 2014, p. 144).
Justamente nesta nova forma de culto, reside a ação que Bento XVI denomina de ORATIO,
“a verdadeira ação litúrgica, o verdadeiro ato litúrgico (...) que constitui o núcleo da celebração
litúrgica” (RATZINGER, 2014, p. 143). Essa ORATIO transubstancia os elementos materiais,
arranca-os de sua realidade os eleva até Deus, por meio da própria ação divina.
A importância da Liturgia, reside, portanto, justamente neste movimento de união nossa com
o Logos, a Palavra Criadora, que “se fez carne e habitou entre nós” (João 1,14b), retirando-nos de
nossa realidade e transubstanciando-nos para a sua realidade divina.

A Participatio Actuosa

O Sacramento da Eucaristia é a expressão máxima da liturgia, e por isso deve ocupar o


centro da vida de todos os batizados, “constituindo a fonte de vida que nos purifica e robustece, de
modo que já não vivamos para nós, mas para Deus, e nos unamos uns com os outros pelo vínculo
mais íntimo da caridade” (Mysterium Fidei, n. 2). Imbuídos por esse espírito, os padres conciliares
passaram a cunhar a expressão Participatio Actuosa-Participação Ativa (Cf. Sacrosanctum
Concilium, n. 11 e 14), que, no entanto, passados mais de 50 anos, não foi compreendida como
deveria.
Ainda hoje, compreende-se de forma errônea essa participação como apenas a realização de
atos exteriores como dizer palavras, realizar gestos, ou cumprir funções. “Claro que se participa
ativamente também quando se cumpre, no interior da celebração litúrgica, o serviço próprio de
cada um. (...) Mas, tudo isso não significaria participação verdadeiramente ativa, se não
conduzisse para a adoração do mistério da salvação em Cristo Jesus, morto e ressuscitado por
nós” (MARINI, 2016, p. 32). Ademais, ensina-nos Bento XVI (RATZINGER, 2014, p. 143) que
para participar ativamente é preciso conhecer aquela ação principal, que desenvolve-se na liturgia, e
a qual todos devem tomar parte, não dando valor primordial ao que é secundário.
Como vimos anteriormente, o centro da liturgia como um todo, a sua ACTIO, é a ação de
Deus que transforma a nossa realidade. Assim afirma Bento XVI ao dizer que “os elementos da
terra são trans-substanciados, arrancados, por assim dizer, de sua natureza criatural,
reconstituídos no fundamento mais profundo de seu ser e transformados no corpo e sangue do
Senhor. O novo céu e a nova terra são antecipados. A verdadeira ‘ação’ da liturgia, na qual todos
devemos tomar parte, é ação de Deus” (RATZINGER, 2014, p. 144). É Deus quem age e realiza o
essencial, faz com que tomemos parte desta nova criação. “Por esse motivo a actio humana passa

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para segundo plano e deixa espaço para a actio divina, o agir de Deus” (MARINI, 2016, p. 33).
Mas de que forma atua a Actio divina?
Novamente é Bento XVI que nos ilumina. Tomamos parte dessa ação principal de Deus
quando nos permitimos ser transformados no Logos- Jesus. Da “Oratio faz parte a oração de
aceitação” (RATZINGER, 2014, p. 145). Assim como Jesus se abriu a vontade do Pai, também
nós, buscamos pela Oratio, a nossa conformação a vontade do Criador. Afinal “o que nos une ao
Senhor é um só espírito com Ele” (1Cor 3,17).
No final das contas a nossa Actio pessoal não seve ser distinta da Actio de Cristo. “A
verdadeira educação litúrgica não pode consistir simplesmente na aprendizagem e exercício de
atividades exteriores, e sim no introduzir-se na ação essencial, na obra de Deus, no mistério pascal
de Cristo. É por esse mistério que o fiel precisa deixar-se alcançar, envolver e transformar”
(MARINI, 2016, p. 35).
A ação primordial não anula a realização dos elementos exteriores na liturgia. “É claro, pois
que se pode distribuir de maneira sensata as ações exteriores: ler, cantar, acompanhar as ofertas.
(...) Aqui deveria ficar claro para todos que os atos externos são absolutamente secundários”
(RATZINGER, 2014, p. 145-146).
Todavia, nunca é demais salientar que a liturgia não é algo nosso, mas é de Deus. Que as
ações sagradas não são um programa de auditório em que precisamos levantar a galera com
invenções que não condizem com a natureza do culto segundo a nossas realidades particulares.
Prudência, Humildade, Discrição e Decoro são palavras-chaves para a boa celebração da
Liturgia.

A Participatio Fructuosa

Ordinariamente uma participação ativa na liturgia, na Oratio, produz em nós frutos, por isso
alguns liturgistas cunharam a expressão participação frutuosa. Neste ponto ensina-nos o Concílio
que “para que se obtenha esta plena eficácia, é mister que os fieis se acerquem da Sagrada
Liturgia com disposições de reta intenção, sintonizem a sua alma com as palavras e cooperem com
a graça do alto, a fim de que não a recebam em vão” (Sacrosanctum Concilium, n. 11). Afinal “a
palavra ‘liturgia’ significa originalmente ‘obra pública’, ‘serviço da parte do povo e em favor do
povo’. Na tradição cristã. ela quer significar que o povo de Deus toma parte na ‘obra de Deus’.
Pela liturgia, Cristo, nosso redentor e sumo sacerdote, continua em sua Igreja, com ela e por ela, a
obra de nossa redenção” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1069).
O fruto da participação ativa é que, como ação do próprio Deus, a “liturgia da fé vai sempre
além do ato cultual até atingir a cotidianidade, a qual, por sua vez, tem de tornar ‘litúrgica’,
serviço para a mudança do mundo” (RATZINGER, 2014, 146). Penetrar na ação de Deus para
cooperar com ele, esse é o fruto que deve ser gerado. Para isso ajuda-nos a acese, palavra hoje em
declínio.
“Hoje treinamos com zelo, com perseverança e com grandes renúncias para fins variados:
por que, então, não se treinar para Deus e para Seu reino? (...) O envolvimento do corpo, do qual
se trata na liturgia da palavra feita carne, se exprime na própria liturgia em certa disciplina do
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corpo, em gestos amadurecidos pela intenção interna da liturgia e que, de certo modo, manifestam
visivelmente a sua natureza” (RATZINGER, 2014, p. 147).
Essa acese, muitas vezes traduz-se por mortificação. No fundo o sentido é mais abrangente
do que apenas uma “violência” corporal. A mortificação deve ser sobretudo espiritual. Participando
ativamente do mistério pascal renovado na liturgia, e permitindo-nos abrir a Graça, devemos, como
diz São Paulo, morrer e sermos sepultados com Cristo, para ressurgimos para uma vida nova (Cf.
Rm. 6,4).
Sendo assim, de forma plena, o fruto da Fructuosa Participatio é a RESSURREIÇÃO.

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Referências

CONCÍLIO ECUMÊNICO DO VATICANO II. Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. In.
VIER, Frederico (Coord.). Compêndio do Vaticano II: Constituições, decretos e declarações. Ed. 29. Petrópolis:
Editora Vozes, 2000. p. 257-306.

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao
Lecionário. Brasília: Edições CNBB, 2008.

MARINI, Guido. Liturgia: Ministério da Salvação. Trad. José Dias Goulart. São Paulo: Paulus, 2012.

PAULO VI. Mysterium Fidei. Disponível em: https://www.veritatis.com.br/mysterium-fidei-paulo-vi-03-09-1965/.


Acesso em: 09 de Jul. de 2017.

RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia. Trad. Silva Debetto C. Reis. Ed. 2. São Paulo: Loyola,
2014.

Catecismo da Igreja Católica. Disponível em: http://www.catequisar.com.br/dw/catecismo.pdf. Acesso em: 09 de Jul. de


2017.

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