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UMA VIS O SIST MICA DA VIOL NCIA

ROSANA RAPIZO DEZEMBRO 2003 Neste trabalho pretendo tentar pensar a violÍncia com trÍs ferramentas, trÍs pontos de vista: o sistÍmico, o construcionista social e o das teorias sobre a aprendizagem a partir da experiÍncia ou da aÁ„o. Olhar a violÍncia desde uma perspectiva sistÍmica implica em: pensar em relaÁıes, contextos e processos. Implica em pensar em conexıes n„o lineares e sim complexas. Implica em pensar que n„o È um fenÙmeno que possa ser controlado com qualquer medida linear ou unilateral. A violÍncia n„o È propriedade de um indivÌduo violento nem de uma categoria de indivÌduos, perfil, nem tem causas ou conseq¸Íncias lineares. Falar da violÍncia desde o ponto de vista sistÍmico implica em tentar evitar a lÛgica disjuntiva ou/ou que transforma diferenÁas em hierarquias ou em posiÁıes antagÙnicas prÛprias das definiÁıes tradicionais da violÍncia em nossa cultura. Entender a violÍncia desde um ponto de vista sistÍmico implica em entende-la como forma, como padr„o que conecta, usando as palavras de Bateson. Ent„o podemos comeÁar a pensar na violÍncia em uma definiÁ„o mais sistÍmica como um ìpadr„o, um estilo, uma modalidade de trato em que uma pessoa exerce sobre outra, sobre si mesma e sobre objetos, com a caracterÌstica de que a primeira n„o percebe, ou percebe de forma diferente de outras pessoas no contexto, que produz danos que v„o de uma mal estar psÌquico atÈ lesıes fÌsicas concretas (doenÁa e morte inclusive)î (Ravazzola). Pensando a violÍncia em uma relaÁ„o, ent„o, proponho avanÁarmos um pouco e pensarmos nela como fenÙmeno comunicacional. Por exemplo: ìquem exerce o abuso n„o aprendeu a regular, a medir, a dizer e a escutar e respeitar mensagens de si mesmo e do outro tais como: ën„o queroî, ìn„o d· maisî, ìsÛ atÈ aquiî, ou ainda, se encontra em contextos nos quais estas aprendizagens se apagam, se diluem ou perdem a firmeza. Isto pode produzir prejuÌzos a si mesmo e a outros de diversas maneirasî. (Ravazzola) Este aspecto comunicacional È, em realidade, muito amplo: inclui todas as formas de paradoxos, negaÁıes e contradiÁıes, assim como elementos relacionais bem delimitados e cotidianos, como as queixas, os protestos, alguns modos de brigas,

triangulaÁıes, etc. Inclui tambÈm desqualificaÁıes do interlocutor perturbador: distintas maneiras de rotular o outro e, por tanto, de tirar o valor de sua mensagem (designaÁıes psicopatolÛgicas, como louco, histÈrica, etc., ou as ideolÛgicas, como comunista, feminista, etc.). A ambivalÍncia e ambiguidade das mensagens asseguram que n„o se perturbem consensos. O consenso È um valor mais importante em nossa cultura que a diversidade. Pensar a violÍncia do ponto de vista construcionista social implica em tentar entender a violÍncia como uma construÁ„o social compatÌvel com o contexto social construÌdo. Portanto implica pensar a violÍncia como algo temporal, local e historicamente determinado como qualquer outro fenÙmeno social. Implica pensar a violÍncia como construÁ„o ling¸Ìstica, parte da linguagem que define e È definida por um determinado contexto coletivo. A pr·tica social, a aÁ„o conjunta È a matÈria prima da construÁ„o de contextos. Assim, a relaÁ„o entre pr·tica e cultura, entre experiÍncia e valores È indiscutÌvel. Como qualquer outra coisa a violÍncia È aÁ„o conjunta, com participaÁıes diferenciadas entre todos os elementos dos sistemas sociais. A violÍncia n„o È uma realidade que tenha uma sÛ definiÁ„o para todos os participantes de um sistema, nem tem uma objetividade diferente de qualquer outro fenÙmeno. Pensando na idÈia de ìposicionamentoî (Shotter) em um contexto social as participaÁıes nos contextos de violÍncia s„o diferenciadas. Em nossa forma de viver em sociedade algumas pessoas tem mais voz que outras, existe a desigualdade e, portanto a construÁ„o dos contextos È realizada e mantida a partir de participaÁıes diferentes de seus elementos. As participaÁıes individuais podem ter mais ou menos autonomia, dependendo da posiÁ„o social que ocupam. Os indivÌduos tÍm escolhas e consciÍncia de suas escolhas possÌveis a partir da vis„o que podem construir e compartilhar de suas vidas. Suas narrativas, estÛrias e performances sociais est„o conectadas com a histÛria, as relaÁıes e as experiÍncias compartilhadas em seus contextos de pertinÍncia. Podemos chamar estas diferenÁas de diferenÁas de poder. Segundo Marcelo Pakman: ìo poder È uma forÁa contextual din‚mica. Esta forÁa existe somente incorporada na experiÍncia que, em certas situaÁıes, alguns dos autores de uma interaÁ„o dada s„o capazes de definir unilateralmente o que est· acontecendo deî real ì num certo domÌnio para todos os membros dessa interaÁ„o. A violÍncia implica

no uso destas diferenÁas de posiÁıes para dominar e submeter o outro a sua prÛpria

definiÁ„o de realidade. PrivilÈgio, como uma posiÁ„o de poder, que permite e possibilita

a violÍncia n„o È um atributo independente que as pessoas tem em qualquer interaÁ„o

possÌvel. As vÌtimas n„o possuem essa posiÁ„o como uma propriedade perpÈtua, e podem se tornar vitimizadores e ocupar uma posiÁ„o privilegiada em outras circunst‚ncias. Da mesma forma os autores da violÍncia podem se tornar vÌtimas em outras relaÁıes ou naquela mesma, contanto que mude o contexto da relaÁ„o. Isso n„o nega o fato que muitos membros de nossas sociedades nascem em situaÁıes que j· est„o socialmente construÌdas de uma maneira que legitima e perpetua posiÁıes de n„o privilÈgio em m˙ltiplos domÌnios. Em um grupo social domÈstico que manifesta uma relaÁ„o cotidiana e significativa, supostamente de amor e proteÁ„o, existe ìviolÍncia familiarî quando uma pessoa, fisicamente mais fraca que outra È vÌtima de abuso fÌsico ou psÌquico por parte de outra. Abuso implica sempre em um abuso antisocial de algum a mais de poder na relaÁ„o afetada, tal que coloca ao abusado/a na condiÁ„o de objeto e n„o de sujeito Aos atos se somam ‡s condiÁıes em que se produzem, que s„o de tal natureza que se torna difÌcil implementar recursos de controle social capazes de regular e impedir essas pr·ticas, que, portanto tendem a repetir-se. Lamentavelmente, qualquer membro da famÌlia inferiorizado em suas capacidades pode ser, por uma ou outra raz„o, vÌtima de atos abusivos reiterados. Uma outra caracterÌstica de nossa cultura È o que chamamos de naturalizaÁ„o da

violÍncia. A violÍncia È aceita socialmente em muitas situaÁıes para a resoluÁ„o de conflitos, sejam eles das crianÁas na escola em que o pequeno deve aprender a se defender, seja nos confrontos pessoais e institucionais que temos acompanhado em que a violÍncia n„o È um recurso n„o descartado. As formas possÌveis de resolver ou prevenir a violÍncia tambÈm s„o socialmente construÌdas como por exemplo os modelos jurÌdicos-morais e de controle e os modelos ganha-perde. Isto sem mencionar

a exposiÁ„o maciÁa ‡ violÍncia em filmes, tv, etc,o que a torna natural pela freq¸Íncia com que estamos prÛximos da imagem. Ent„o se pensamos assim, teremos que pensar a violÍncia n„o como algo invasor a ser extirpado, mas como algo que È criado conjuntamente, legitimado em muitos espaÁos, quando n„o valorizado e encarnado em

nossas micropr·ticas cotidianas de forma invisÌvel (natural). A violÍncia faz parte das narrativas encarnadas em nossa forma de viver. Assim, fenÙmenos comunicacionais nos levam, todos, a aceitar e legitimar inadvertidamente pr·ticas violentas. H· distintas formas em nossa sociedade de invisibilidade das indignidades. Todos nos acostumamos a certas formas de maltrato. Assim s„o tambÈm os companheiros da violÍncia ñ os preconceitos ñ como gÍnero, etnia, idade, etc. O desenvolvimento do patriarcado e da economia capitalista e mesmo das ciÍncias sociais, trouxeram a violÍncia domÈstica, as violaÁıes sexuais, a marginalizaÁ„o sÛcio-polÌtica das mulheres, a perda da dignidade e de lugares para os homens, a impossÌvel masculinidade racional e n„o envolvida, a perda de conex„o do homem com a terra, a mulher e as crianÁas. Podemos acrescentar aÌ in˙meros outros fatores como o individualismo, a economia de mercado, etc, etc, etc. Hoje em dia e, cada vez mais, acredito que a experiÍncia, a aÁ„o È o palco onde iniciamos nosso aprender e como Bateson j· dizia, aprender È mudar. Aprender È transformar a experiÍncia em novas experiÍncias enriquecidas (Paulo Freire). … mudar a partir da vivÍncia. … transformar a experiÍncia em algo que possa ser compartilhado, que possa ser generalizado, que possa servir de norteador para mudanÁas de rumo. Aprender a aprender È aprender a identificar relaÁıes, contextos e criar sinais e cÛdigos que trazem alguma previsibilidade para estes contextos. Aprender È um ato de tornar-se consciente da experiÍncia, construir sobre ela e, no processo criar novas experiÍncias que se tornam parte do que sabemos. A aprendizagem sempre ocorre em uma marco de premissas tomadas como garantidas sobre o que È legÌtimo fazer ou mesmo pensar, ou seja È socialmente construÌda. … influenciada direta e indiretamente pelo poder de outros, assim como pelas forÁas que constrangem as visıes dos participantes sobre o que È possÌvel. Sempre nos surpreendemos ao ver a repetiÁ„o da violÍncia. Mas se pensarmos em termos de aprendizagem contextual: O que podemos aprender em um contexto de tens„o, opress„o, medo?

Como s„o, ent„o, os contextos onde ocorre a violÍncia? Tenho feito algumas vezes exercÌcios em grupos que est„o vivendo, pensando ou trabalhando com a violÍncia. H·

dois tipos de exercÌcio que eu gosto muito. Em um deles, peÁo ‡s pessoas que lembrem de trÍs situaÁıes de suas vidas: uma em que foram vÌtimas de alguma violÍncia; outra em que foram autores de alguma violÍncia e que, naquele momento tinham todas as justificativas possÌveis para tal ato e, a terceira de alguma situaÁ„o em que foram testemunhas de um ato violento 1 . Depois de registrarem para si mesmos tais situaÁıes, peÁo que associem a cada uma sentimentos que tenham tido. O segundo exercÌcio, muitas vezes uma continuaÁ„o do primeiro È listar os ingredientes presentes e necess·rios para uma situaÁ„o de violÍncia. Nas respostas e reflexıes que surgem a partir dos exercÌcios, identifiquei alguns temas e sentimentos que aparecem muito freq¸entemente ligados a contextos de violÍncia.

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Segundo Sluzki existem dois fatores contextuais de efeito devastador em contextos de violÍncia: o primeiro quando ela È perpetrada por quem deveria proteger; o segundo quando a transformaÁ„o de car·ter protetor em car·ter violento ocorre num contexto que destrÛi ou nega essa transformaÁ„o.

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Os contextos de violÍncia dentro da famÌlia ou das relaÁıes Ìntimas s„o caracterizados pela repetiÁ„o de ciclos exponenciais e repetitivos. As pessoas nas situaÁıes de violÍncia cumprem um papel de perpetuaÁ„o destes ciclos. Todos compartilham preconceitos e valores que inadvertidamente ajudam a perpetuar a violÍncia. Por exemplo: as mulheres compartilham com homens preconceitos em relaÁ„o ao gÍnero e ‡ naturalizaÁ„o de papÈis culturalmente atribuÌdos aos homens

‡s mulheres. Assim se d· tambÈm em relaÁ„o ‡ educaÁ„o das crianÁas. (Ravazzola)

e

!

O

binÙmio pertinÍncia e exclus„o. A violÍncia est· muito ligada ‡ perda do sentido

de pertencer, seja a um grupo, a uma famÌlia, a um extrato social, ou e, talvez

principalmente, a valores que se perdem e que as pessoas tentam a muito custo manter porque n„o encontraram outros. As pessoas que se encontram em situaÁ„o de violÍncia, s„o pessoas que padecem de isolamento, falta de rede social,

1 A primeira vez que ouvi as primeiras duas perguntas foi em um workshop de Marcelo Pakman em1999. ApÛs a leitura do livro de Cristina Ravazzola e da import‚ncia que percebi existir na figura da testemunha, incluÌ na reflex„o este lugar assim como os sentimentos associados a cada uma das posiÁıes.

marginalizaÁ„o de muitos tipos (doenÁa, velhice, desemprego, sexo). Por outro lado, em contextos de violÍncia encontramos relaÁıes onde se criam formas de encerramento em pertinÍncias: se alguÈm pretende fazer um movimento recebe acusaÁıes de deslealdade ou egoÌsmo, ou outros modos de pressıes coercitivas que atentam contra as auto-afirmaÁıes.S„o contextos onde a pertinÍncia n„o suporta diferenÁas e neste sentido a ameaÁa da exclus„o È permanente. A sensaÁ„o È de perda de autonomia e autoria da prÛpria vida, ou dito de outra forma, na exclus„o ou no encerramento em pertinÍncias a vivÍncia È de ser mais objeto do que sujeito de sua prÛpria histÛria.

! Percebi que a violÍncia È uma linguagem para a express„o de conflitos, de poder, mas tambÈm de comunicaÁ„o de toda qualidade de afetos. Esta linguagem que inclui formas muito sutis de se dirigir a outro se repete e se aprende muitas vezes ao longo de geraÁıes. A percepÁ„o e definiÁ„o do que È violÍncia, do que È toler·vel ou n„o dentro de uma relaÁ„o È bastante diferente para as pessoas que aprenderam a viver em contextos em que as manifestaÁıes de cuidado, preocupaÁ„o, medo e amor podem ser violentas.

! As pessoas sentem em contextos como este uma impossibilidade de serem ouvidos, no sentido de ser considerados, de terem voz. A sensaÁ„o È de invisibilidade para o outro.

! S„o sentimentos presentes tambÈm a desconex„o, a dist‚ncia, o congelamento, a anestesia. AlÈm da raiva e da vergonha.

! A sensaÁ„o de impotÍncia, a culpa, a desqualificaÁ„o de si mesmo e dos outros, o

A violÍncia est· profundamente ligada a

situaÁıes de medo. Medo n„o sÛ de quem sofre a violÍncia, mas tambÈm de quem a comete.

! Nos contextos de violÍncia È quase impossÌvel planejar, ter metas ou imaginar cen·rios futuros.

! Os contextos de violÍncia s„o contextos onde est„o presentes o julgamento, a busca da lei e da ordem fora deles. S„o contextos onde se vÍem a falta de limites corporais claros, de limites relacionais, de orientaÁ„o espacial, temporal, que tornam necess·rias muitas vezes intervenÁıes externas, buscadas pelos prÛprios

desamparo, e medo, medo, medo

elementos do sistema ou n„o, para regular, controlar e legislar no sistema. DaÌ a presenÁa de conversas atravÈs de processos, conselhos e outros Ûrg„os de serviÁos e controle social como parte integrante da vida Ìntima destas pessoas. Esta situaÁ„o È tipicamente uma em que a tentativa de soluÁ„o se torna, recursivamente, uma parte do problema (violÍncia).

! Estes sentimentos e situaÁıes n„o s„o exclusividade das vÌtimas, nem mesmo da testemunha da violÍncia. Um de meus maiores aprendizados foi que nestes contextos os sentimentos s„o bastante parecidos, embora eles estejam praticando atos muito diferentes. Todos se sentem vÌtimas, todos em momentos diferentes sentem-se sem voz, sem protagonismo, desamparados, culpados ou fora de controle. Todos tÍm medo o tempo todo, de coisas diferentes.

! TambÈm observei que as pessoas trocam freq¸entemente de posiÁ„o naquela ou em outras relaÁıes usando a mesma forma de comunicaÁ„o, a mesma linguagem em qualquer uma delas. Muito comumente a saÌda de uma posiÁ„o, por exemplo, de vÌtima, se d· assumindo a de autor. Isto nos permite sair do territÛrio de antagonismos fixos.

! Aprendi que as pessoas que vivem nestes contextos s„o especialistas na arte de sobreviver a situaÁıes de enorme sofrimento. S„o sobreviventes e lidam com seu mundo e suas histÛrias com recursos imaginados e criados para sobreviver. Relacionam-se com as pessoas a partir destes recursos, quer estes pareÁam bons ou ruins para as outras pessoas ou para eles mesmos. Muitas vezes n„o tÍm a idÈia, porque n„o tiveram a experiÍncia, de que pode ser diferente. A preocupaÁ„o com a sobrevivÍncia, muitas vezes fÌsica e psÌquica, n„o permite o uso de algumas habilidades relacionais ligadas ao prazer, ‡ generosidade, ‡ sensaÁ„o de que h· tempo, processo, etc. N„o permite tambÈm espaÁo para a reflex„o. As pessoas est„o sempre alertas e prontas para a aÁ„o.

! Outro tema que est· presente nos contextos de violÍncia È o cuidado de si e dos outros. Em contextos de violÍncia as idÈias ou o foco em praticas de cuidado s„o raras ou repetem a violÍncia. Assim, como se cuida do corpo? Como se cuida da casa? Como eu cuido de mim para me manter dentro de uma sensaÁ„o de dignidade? Como se cuida do outro? Como me sinto cuidado nas relaÁıes e nas

inst‚ncias sociais ‡s quais recorro? Algumas condutas mistificadas em relaÁ„o ao altruÌsmo, ‡ abnegaÁ„o, ‡ resignaÁ„o ou, por outro lado, a condenaÁ„o tambÈm mistificada em relaÁ„o ao egoÌsmo, ‡ rebeldia, etc. se convertem em lugares socialmente inquestion·veis e idealizados que perpassam as estratÈgias de cuidado de si e do outro nestes contextos.

Incluo em todos estes pensamentos e sentimentos a vivÍncia das equipes, das pessoas que trabalham com a violÍncia. Podemos virar bombeiros, cuidando apenas da sobrevivÍncia do trabalho e das pessoas e partindo para a ilus„o de que nossa presenÁa vai resolver e modificar o contexto para outro que nÛs sabemos melhor para a vida das pessoas. Podemos tambÈm nos sentir t„o importantes para aquelas pessoas t„o vitimadas ou desvalidas que nos descuidamos de nÛs mesmos. Podemos ainda reproduzir no seio de nossos trabalhos e com aqueles com quem trabalhamos (os clientes) atitudes violentas, especialmente as de exclus„o e julgamento. Temos nossos conceitos, nossas histÛrias de outros contextos e, quando comeÁamos a trabalhar passamos a fazer parte dos contextos nos quais trabalhamos. Podemos viver ou reviver todos os sentimentos, preconceitos e posiÁıes possÌveis dentro dele. Esperamos sempre aumentar nossa consciÍncia a respeito disso e ajudarmo-nos uns aos outros para que n„o nos tornemos inadvertidos perpetuadores da violÍncia onde querÌamos mud·-la. Nas equipes que trabalham com violÍncia o cuidado entre as pessoas È fundamental e a atenÁ„o aos temas como inclus„o, escuta, autoria,

solidariedade, etc. tambÈm. Conflitos existem a todo o momento nas relaÁıes humanas. Tentar lidar com eles em um registro diferente do da violÍncia, por mÌnima que ela seja, È mais desafiador do que parece. Percebo em meu trabalho cotidiano o efeito transformador que existe na escuta ativa e interessada do ponto de vista de cada um. Percebo a agressividade se tranq¸ilizando quando se d· garantia de que aquela pessoa que cometeu um ato indesej·vel

socialmente, ainda ter· voz naquele

.Percebemos que os pactos de n„o

contexto.

violÍncia funcionam melhor quando s„o acompanhados de garantias para todos os elementos do contexto de que sua voz ser· respeitada. Aprendi que passar por cima

de qualquer violÍncia que seja È um ato de desqualificaÁ„o da percepÁ„o de quem

sofreu e de quem praticou a violÍncia. Percebo que a aceitaÁ„o do outro como legÌtimo outro e a crenÁa no que as pessoas dizem, n„o importa o qu„o diferente seja aquilo do que vocÍ diria, ou do que algum outro disse, cria um contexto onde emergem outros sentimentos que podem ser uma contrapartida ‡ violÍncia e que podem dar a cada pessoa de acordo com a posiÁ„o que ocupa novas alternativas de escolha. Percebo que em cada pessoa que pode ter outro tipo de experiÍncia, surgem imediatamente, mesmo que para desaparecer em seguida, outros sentimentos como a potÍncia, o

desejo, a alegria, a generosidade. Cabe a nÛs, em uma tarefa artesanal trabalhar para

a manutenÁ„o destas novas experiÍncias e a transformaÁ„o delas em diferenÁas que

faÁam diferenÁas para os que est„o fazendo parte destes contextos. Como diz Bateson

a mudanÁa È a diferenÁa que faz diferenÁa e que permanece ao longo do tempo.

Percebo que apesar de estarmos assujeitados a entraves burocr·ticas e legais, demoras, falta de recursos, etc. mesmo assim dentro de um micro contexto as pessoas sentem-se mais autoras da sua prÛpria vida e mais sujeitos do que objetos. Sentem-se fazendo ou refazendo escolhas e valorizadas em sua tentativa. Hoje em dia penso no trabalho com as pessoas que est„o em situaÁ„o de violÍncia, sejam eles estritamente terapÍuticos ou n„o, como a construÁ„o de contextos de

cuidado e de aprendizagem de cuidado para todos, inclusive nÛs, profissionais. Isto inclui alÈm das noÁıes mais comuns de cuidado, a garantia de alguns acordos e negociaÁıes na convivÍncia que permitam a n„o reproduÁ„o e a possibilidade de reparaÁ„o de atos violentos j· cometidos. Tais contextos n„o s„o neutros eticamente,

tÍm uma direÁ„o: a valorizaÁ„o da escuta, das redes de pertinÍncia e da criaÁ„o e recuperaÁ„o da autoria e da potÍncia de ser no mundo. Percebo a freq¸Íncia da equaÁ„o autoria ñ criatividade ñ potÍncia em mÌnimas doses. N„o falo de fatos grandiosos, mas mÌnimos dentro do cotidiano possÌvel de cada um. ¿s vezes apenas um gesto faz toda a diferenÁa. Isso se reflete no cuidado corporal, na postura, no que chamamos entre nÛs de descongelamento. Os processos s„o demorados, trabalhosos

e muitas vezes desanimadores para todos. Concentramo-nos em n„o perder em nÛs a

relaÁ„o entre esperanÁa e limitaÁ„o. O que pode nos ajudar nesta tarefa È, n„o perdermos a consciÍncia no sentido da

visibilidade para cada um de que a violÍncia È socialmente instituÌda e

inadvertidamente perpetuada por cada um de nÛs. … necess·rio recursivamente apostar que na relaÁ„o constante entre os micro e macro contextos podemos tecer algumas ilhas e ondas de paz, mesmo que muitas vezes elas pareÁam desaparecer e sucumbir a todo o resto. Podemos fazer isto estando permanentemente em contato com nossas histÛrias, com os momentos em que estivemos em contextos que para nÛs foram violentos e nos conectando com as diversas posiÁıes que ocupamos em nossos contextos de pertinÍncia e de que forma nos sentimos. Para mim uma das melhores ferramentas para trabalhar em contextos onde existe a violÍncia È n„o perdermos a noÁ„o de que ela est· encarnada em nÛs como parte de nossa heranÁa cultural e que sÛ percebendo assim podemos ter meios para nos aproximar dela como algo que n„o È sÛ do outro, mas de todos. Como diz Ravazzola: ìN„o sou melhor do que eles, o que faz com que me respeite e me faÁa respeitar e que tenha respeito pelos outros, È que tomei a decis„o de me esforÁar, a cada momento, no exercÌcio da contenÁ„o necess·ria quanto a mim mesma e aos outrosî.