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Cor Adormecida

Copyright ©2014 – Todos os direitos reservados a:


Jo A-mi

ISBN: 978-85-4160-070-5

1ª Edição
Junho 2012
2ª Edição
Fevereiro 2014

Arte da Capa: Jo A-mi


Diagramação: Joélia Rodrigues da Silva

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Jo A-mi

São Paulo
2ª Edição - 2014

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Cor Adormecida

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Jo A-mi

O passado não é mais do que a prefiguração


do futuro. Nenhum acontecimento é
irreversível, nenhuma transformação é
definitiva. (...) O tempo apenas possibilita o
aparecimento e a existência das coisas; não
tem qualquer influência decisiva sobre essa
existência – dado que ele próprio se regenera
constantemente.

Mircea Eliade

Histórias e contos de fadas não


obedecem a chamados, nem mesmo de
reis. Só vêm quando querem.

Hans Christian Andersen

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Cor Adormecida

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Jo A-mi

Dedico este livro às mulheres da minha vida:

Glícia, Joélia, Rita e Rosângela.

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Cor Adormecida

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Jo A-mi

ADVERTÊNCIA

Caro (a) leitor (a), apesar de não usarem


mais da “advertência” – que foi coisa de
séculos e literaturas passados – precisarei
lançar mão deste recurso literário: primeiro,
porque meu mundo é tão vasto quanto as
histórias que compõem o tempo; depois,
porque acho que o espaço da “advertência” é o
único lugar onde o(a) autor(a) pode ter um
contato mais humano com seu(sua) leitor(a) –
de resto são só narradores(as), personagens,
cenas, histórias. Afinal, cada vez mais, nós,
autores (as), saímos do palco: antes tínhamos
os nomes em destaque nas capas dos livros,
mas agora são nossos heróis e heroínas a
figurarem em primeiro plano. Desculpem, não
pude evitar o último comentário!

Bem, a advertência é para dizer que a


ficção que ora lhes apresento é verdadeira -
como em quase toda a Literatura -, porque
ficção não é mentira, mas apenas um modo de
refletir sobre algumas realidades.

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ÍNDICE

CAPÍTULO 1 – Era uma vez...---------------------------------------------p.13

CAPÍTULO 2 – Certo dia, --------------------------------------------------p.19

CAPÍTULO 3 – Longe, muito longe---------------------------------------p.83

CAPÍTULO 4 – Era uma vez... --------------------------------------------p.97

PÁGINAS DE ENTRELINHAS-----------------------------------------p.116

O patinho feio-----------------------------------------------------------------p.117

O pescador e sua mulher----------------------------------------------------p.118

A raposa e o gato-------------------------------------------------------------p.119

A esperta Gretel--------------------------------------------------------------p.120

O Dr. Sabe-Tudo-------------------------------------------------------------p.121

João com sorte----------------------------------------------------------------p.122

A raposa e os gansos---------------------------------------------------------p.123

Dona Sombra------------------------------------------------------------------p.124

O gato de botas---------------------------------------------------------------p.125

O jovem gigante--------------------------------------------------------------p.126

Os cisnes selvagens----------------------------------------------------------p.127

Jorinda e Joringel-------------------------------------------------------------p.128

O rei perverso-----------------------------------------------------------------p.129

O soldadinho de chumbo----------------------------------------------------p.130

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Cor Adormecida

As três fiandeiras-------------------------------------------------------------p.131

As viagens do pequeno polegar--------------------------------------------p.132

Mamãe Sabugo---------------------------------------------------------------p.133

Mãe Hilda---------------------------------------------------------------------p.134

Hans, o palerma---------------------------------------------------------------p.135

Rapunzel-----------------------------------------------------------------------p.136

A esperta filha do camponês------------------------------------------------p.137

MORAL DAS HISTÓRIAS----------------------------------------------p.138

SOBRE A AUTORA..........................................................................p.139

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CAPÍTULO I – Era uma vez...


1

o silêncio. Silêncio. Silêncio. Não havia gestos, movimentos,


palavras, pensamentos. Depois, senti como se houvessem roubado
as minhas lembranças. Foi aterrador. Tudo aconteceu tão rápido,
ainda estou atordoada. Foram vinte anos incompreensíveis e talvez
um jogral: minúscula faísca no universo, destemperança da ordem,
cochilo de Zeus. Nada mais. Daí resolvi voltar a escrever diários.
(Re)existindo depois desse tempo, entreguei-me às
lembranças. Melhor agora? Guardo os resquícios do sonho e dos
mundos possíveis. Diziam-me: “Cora, é cedo demais para fazer
isso”. Que importa? Em meados de fevereiro de 2009 eu realizei
um desejo de juventude: brincar o carnaval na grande capital das
fantasias. Andei por ladeiras, deliciei-me com pores-do-sol entre as
pontes do rio, vivi ilusões e dancei até me cansar.
O sonho tornou-se realidade, afinal, o que é a realidade?
Hospedei-me num hotel próximo ao centro histórico da cidade.
Todas as manhãs eu caminhava por alamedas cobertas por árvores
frondosas e centenárias. O ar era fresco e sorridente. Este período
do dia trazia senhoras, homens de meia idade, esportistas, cães
faceiros – uma pequena sociedade de amanhecidos que mal sabiam
uns dos outros. E eu era uma estrangeira que gostava de perscrutar
as conversas, admirar a maneira como se vestiam, entender por que
se tocavam tanto ao conversarem. Apropriei-me daquele cotidiano
e senti-me viva.
Todos os dias, quando o sol relaxava em sua jornada, eu
me sentava para apreciar a vista da varanda. O trânsito trôpego
excitava voluntariamente as buzinas. Até ali eu já conhecia boa
parte dos motoristas que se arrastavam pela procissão diária.
Molecotes vendiam balas e faziam piruetas. Uma mulher segurava
uma criança nos braços, acompanhada de mais três filhotes sujos,
oferecendo a mão para receber esmolas. O semáforo alerta em
verde. As cortinas se fecham e o teatro se desfaz temporariamente.
Depois eu presenciava a poesia do escurecer: uma volumosa
circunferência branco-acizentada surgia irradiando todos os quartos

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do hotel. A lua espumosa brandia luz leitosa e densa, reduzindo-me


em sombra. Enamorada pela lua, eu olhava célebre para o céu e
agradecia. Na varanda havia cadeira e uma pequena mesa redonda
onde podia guardar chá, caderno e caneta. Comumente, passava a
mão pela textura da capa dura do meu diário e relembrava,
lembrava, relembrava. Depois escrevia no diário, dando-me
testemunho. Parecia ser o desfecho, mas ainda o tempo não havia
terminado.
A ressaca do inverno ainda aparece nos frisos da
floricultura – adormecida e preguiçosa, entupindo toda a calha de
cal e água suja derretida. A água parada tem formado uma bolha lá
em cima, atraindo mosquitos e mau cheiro. O pedreiro já marcou
umas dez vezes por telefone, e já é o quarto a prometer uma visita.
Não sei quanta dificuldade isso pode trazer! Não fosse minha total
ausência de equilíbrio em caibros e tetos, já estaria tudo resolvido.
E na primavera - que posso respirar e sentir acasalamento
e nascimento se embrenhando no ar e quando lírios, narcisos,
petúnias, bromélias, crisântemos, margaridas, surgem e ressurgem
no mundo inteiro - tudo começou. Flores abertas e resplandecentes
auscultam em cores vivas e multiformes todos os passantes; as
orquídeas brincam entre galhos e alturas diferentes, o vento nos faz
respirar o ar verde e ocre das folhagens; sinto que há algo de
grandioso em tudo isso, pois até as pessoas parecem melhores –
mudam os semblantes, sorriem sinceramente, guardam os pesados
guarda-roupas, passeiam de mãos dadas.
A primavera invade o espaço de minha floricultura com
seus ramos e espécies e cores e perfumes: é só abrir a porta para
sentir o emaranhado de fragrâncias a disputarem o ar. É minha
felicidade. Do lado de fora da loja os ramos de nove-horas se
multiplicam. Na porta há um leve sino transparente denunciando a
entrada dos visitantes. O balcão exibe uma janela que espia o
jardim montado sobre um pequeno espaço bem arquitetado. Tudo é
bem cuidado: desde a pequena fonte de água disposta no meio da
sala - que faz escorrer uma fina água barulhando leve entre as
pedras armadas num círculo – ao banco de madeira com aspecto
cru e disposto para o conforto de duas pessoas à direita da sala. O
lado esquerdo deixa a passagem livre até o balcão que é separado

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da estufa por um retângulo transparente de vidro. E a estufa é um


mundo de mudas, ramíneas, variedade de flores e jarros que
recriam uma pequena floresta úmida, tranquila e pacífica.
Os últimos dias, porém, foram complicados: a rotina
transformou-se num caos, as decisões difíceis e meu jardim em
ruína. Estive ansiosa e insegura com as dificuldades em terminar o
segundo capítulo da monografia. Cada página tem sido resultado
de uma dedicação ímpar. Há pouco tempo introduzi os contos de
fadas no trabalho – confesso que quase me perdi no tempo das
princesas, duendes, bruxas e dragões. Minha monografia tem
passeado pelos folclores das principais nações do mundo, como
França, Alemanha, Inglaterra, Itália e transcreve as manifestações
folclóricas através dos contos de fadas. O hábito de ler e escrever
sobre histórias de fadas tem criado um novo prazer em minha vida:
à noite, depois de um longo dia de trabalho, enrolo-me sob as
cobertas quentes e macias da cama, acendo a luz do abajur e
mergulho nos contos narrados pelos Irmãos Grimm. Id chega a
ficar com ciúmes:
- Você não vem assistir tevê comigo? – pergunta numa voz alta que
sai ecoada da sala.
- Não, hoje não. – ele se chateia; e sei que esta é a resposta que
tenho dado seguidamente.
Costumo registrar os rascunhos das ideias que surgem
num pequeno bloco amarelo que levo comigo a todos os lugares. É
um pequeno faz de conta: entalho-me nos objetos de escritora,
mais do que propriamente o sou. Assim, nas descobertas de um
fato, ocasião ou palavra, animo-me a reescrever e redirecionar as
linhas de raciocínio: um verdadeiro frisson intelectual. “Um
prazer!” - resposta que sempre dou à culpa.
No semestre anterior tive duas reprovações. Raiva ou
decepção? Eu não sabia a natureza real dos meus sentimentos. A
universidade estava tão monótona, os professores a repetir os
discursos apanhados de fichamentos amarelados pelos longos anos
de docência. Fui aprovada no curso de história de uma
universidade pública renomada, mas o fervor e agitação iniciais
esvaíram-se. Professores desumanos esses das ciências humanas!
Arrotam saberes que não digerem, dão aulas automaticamente, não

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se reinventam: uma chatice de pedantes vestindo suspensórios!


Não fosse ter conhecido Sofie, acho que sentiria arrependimento
por ter passado três anos cursando as matérias infláveis desse
curso.
Sofie foi minha melhor amiga. Não nos desgrudávamos:
sentávamos próximas nas salas de aula, almoçávamos juntas,
dormíamos uma na casa da outra, dividíamos os rapazes do curso
de engenharia e mergulhávamos no conteúdo extracurricular - a
parte mais interessante da universidade: maconha, vinho, mãos-
bobas, rock, passeatas. Nossas famílias já haviam se acostumado
com a amizade, embora ainda achassem estranho que Sofie, uma
moça nascida no continente africano, fosse tão branca.
Eu tinha 22 anos, Sofie contava com quase 24 anos.
Entretanto, parecíamos adolescentes matando aula e dormindo de
madrugada ao som de nossos risos e fanfarras. O mais estranho:
quando anunciei o casamento com Id, Sofie mudou drasticamente.
Minha mãe questionou os motivos da mudança, mas como eu
poderia saber? Ela não atendia aos telefonemas e me evitava em
pleno final de semestre – logo quando as provas eram mais duras e
difíceis. Casei-me um ano depois de conhecer Dimitrius e Sofie:
mas só ele apareceu para a cerimônia. Mamãe até resmungou uma
tarde:
- Que tem a sua amiga “argelina”? – perguntou com uma voz
inquisitória.
- E eu sei?! – respondi irritada.
O terceiro semestre iniciou, mas Sofie não estava
matriculada nas disciplinas que havíamos planejado cursar juntas.
Fiquei chateada. O que eu tinha feito para merecer isso? O mais
estranho ainda foi o episódio na casa dela:
- Por que você não atende mais aos meus telefonemas, e... por que
você ficou tão estranha? – perguntei, segurando a caneta disposta
sobre papéis riscados.
- Você não vê que estragou tudo. – respondeu com um tom
melancólico e triste.
- Estraguei o quê? Não entendo. – disse com surpresa e
curiosidade.

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Jo A-mi

Sofie ficou em silêncio e cobriu o rosto. Começou a


chorar; continuei sem compreender. As lágrimas jorraram
enraivecidas, resvalando numa dor contida. Fiquei apavorada.
Fiquei destruída. Nunca quis fazer-lhe mal. Sofie começou a
soluçar e o rosto enrubescido já fazia marcas brancas entre as
pontas dos dedos à altura da testa. Tentei abraçá-la, mas fui
empurrada com uma força que me derrubou na cama, entre os
lençóis. Senti seu cheiro íntimo entre os olhos e o nariz: gostei.
Imediatamente, porém, numa reação de indignação misturada à
incompreensão, saí. Os dedos no rosto de Sofie se pareciam com
grades a me separarem dela: foi a imagem que guardei. Desci as
escadas e nem consegui me despedir de sua mãe. Fui e não olhei
para trás. Desisti? Como me faz falta a companhia de Sofie! Sinto
saudades da delicadeza, sem falar da inteligência. Revi seu lindo
cartão de formatura: letras em dourado, uma foto grande no meio;
ela vestia o casaco preto que compramos numa liquidação: lindo!
Fez escova no cabelo e ainda usava o batom vermelho-vinho. Por
que nos distanciamos?
Sem Sofie fiquei só com a universidade. Atrasei-me. Vivi
muitas crises: desistência do casamento, desistência da carreira,
desistência de mim. Estive a ponto de desistir da monografia
porque Id me criticava:
- Você tem que ser mais prática! - dizia ele.
- E você nunca tem tempo para ler uma página que escrevo! –
respondia batendo a porta do quarto.
Foi assim por muitas semanas: brigas e desencontros
constantes. Eu não queria desistir do casamento. Tantas coisas
poderiam ter sido feitas, ainda, mas acontece o clássico: quase um
castigo! Às vezes calculo e recalculo as experiências na minha
mente e reflito: foi um erro de escolha? Não sei, afinal, Dimitrius é
um bom homem. Comum, mas um bom homem. “Comum”..., seja
talvez o erro. É. O “comum” sempre me incomodou. Id é comum.
Acho que o pior de um casamento é achar que o comum é bastante.
Eu me sinto numa encruzilhada, confesso. Prefiro lembrar os
primeiros seis meses de 1984: visitamos as praias do Caribe,
conhecemos reservas florestais, comemos comidas exóticas e
nadamos com golfinhos. Talvez não fosse tão apaixonada por

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Cor Adormecida

ele...; acho que era apaixonada, sim! Às vezes é melhor não dar
ouvida às dúvidas e até escondê-las de si mesma. Mas me
incomodam os boatos sobre Id e algumas alunas. Sinceramente,
custo a acreditar que isso seja verdade. “Desde que te conheci, só
você”, ele repete; e um fio relutante de pensamento alfineta: “se ele
fez com você, por que não faria com outras novamente”. Deixa pra
lá, melhor esquecer.
Decidi ficar a maior parte do tempo escrevendo na
floricultura: enraizando e fertilizando as palavras do jeito que faço
com as flores. Vez por outra, lendo em voz alta para um conjunto
resistente de orquídeas todos os argumentos que preparei para
defender meu trabalho acadêmico. Elas são tão compreensivas!
Depois, mudo as coisas de lugar, limpo, cuido e convivo com esses
pequenos seres. Daí aconteceu: no início da primavera de 1988
diante de uma manhã ensolarada, eu voltava em direção à minha
casa para pegar um livro que havia esquecido sobre a mesa no
quintal. Eu estava exultante porque o argumento do segundo
capítulo havia se transformado num texto de 45 páginas. Com vinte
e sete anos eu sonhei com minha formatura. Não estaria com meus
colegas, não dividiria a festa com Sofie – como havíamos
planejado -, mas me formaria. Depois de quase doze meses
afastada das atividades acadêmicas eu finalizaria o processo.
Contudo, a ressaca do tempo embaralhou tudo.

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Jo A-mi

CAPÍTULO 2 – Certo dia,


1

acompanhada de um buquê de margaridas e uma leve esperança no


coração, senti que o tempo suspendia meus sentidos. Os olhos
viram atenciosos todos os movimentos da rua. Minha audição ficou
especialmente aguçada. Seu Nicolau, o verdureiro, ofereceu-me
alfaces, rúculas, acelgas, abobrinhas e tomates frescos – acenando
com uma mão e apontando com a outra para o tablado de madeira -
: recusei com um leve menear da cabeça. Um carro prateado
passou veloz, deixando indignado um senhor que acabara de
atravessar a rua. Pelo retrovisor, o motorista pode entrever uma
coletânea de palavrões na boca ventríloqua do passante. Do outro
lado da rua acenei para a senhora da livraria onde gosto de comprar
papéis e canetas-tinteiro. Um choro estridente de criança moveu
meu olhar: uma menininha havia tropeçado e caído sobre a
calçada. A mãe da pequena só conseguia pedir para que se
acalmasse: olhou-lhe os joelhos para verificar a extensão do
machucado. Depois de um tempo, seguiram no caminho oposto ao
meu.
O sol tocou a fronte do meu rosto, aquecendo levemente
a pele. Respirei fundo querendo sugar o delicioso ar da primavera.
E o dia permanecia lindo e as pessoas passavam e o barulho da rua
continuava contraído. As plantinhas verdes espevitadas pela
estação seguiam as paredes da estreita alameda, gotejando o
orvalho da noite anterior. Lembro que o tempo parou e não
consegui controlar movimentos, palavras, pensamentos. Caí.

Dos últimos vinte anos eu não conseguia guardar uma


única lembrança. A exaustão do primeiro dia ainda ecoava em
minha mente; no corpo. Sentia como se todas as forças houvessem
calado. Inércia, crueza e silêncio sobre o peito. Inércia, crueza e
silêncio se repetindo. E por que acordei? Quantas vezes ainda
poderei acordar? E dormir? E imaginar?

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Cor Adormecida

Não tinha respostas. Afinal, o que significavam aqueles


acontecimentos? As perguntas não cessavam porque nenhuma foi
respondida. Naquele tempo escrevi uns dois calhamaços de diários
e numa das páginas registrei:
Depois de uma longa jornada ainda desconhecida por mim, de
tantos pavores que me acometeram, acometem e, provavelmente,
acometerão, quero dizer-me determinadas coisas que são
verdadeiramente importantes. Não quero esquecer, nem ser
esquecida. Aliás, talvez seja mais coerente falar em não esquecer,
ponto. O esquecimento é uma crueldade inestimável... E, daquele
dia, 19 de maio de 2008, posso apenas descrever o que senti:
relâmpago na pele, um choque, uma luz forte e vivi novamente.
Meus olhos arderam e me deram uma sensação de profundo
desconforto. Quis esfregá-los, mas fui contida pelo emaranhado de
fios escorregando por todo o meu corpo. Não vi mais nada,
embora tenha visto tudo, antes. Houve tudo, tenho de alguma
forma essa certeza. Saí da cama e a primeira coisa que reconheci
foi o sol que entrava pela janela do quarto. Do lado de fora, um
homem limpava o jardim – vi pela janela. Ninguém havia comigo e
pelo tempo que tive em desfazer-me de todos os fios, levantar-me,
tomar um copo d’água e vestir um casaco deixado dentro de uma
das gavetas, percebi que não causava muita preocupação. Segui
umas setas até me encontrar na portaria do prédio. Penso que
deveria parecer uma louca recém-fugida de sua prisão, mas,
mesmo assim, não fui abordada por qualquer pessoa. Empurrei as
portas transparentes e vi um dia cuja manhã quente e cheirosa
abrilhantava um jardim repleto de pequenas flores, remanescentes
do verão, que seguiam os cantos das paredes. O sol que vira antes
no quarto, agora me tomava por inteiro. Meu corpo, frio ainda por
causa do ar-condicionado, esquentava e expandia como se
encontrasse vida. Ardia agradavelmente o sol em minha pele.
Desci dois degraus quando o rosto enrugou todo. O sol forte me
fez retornar alguns centímetros. Com a mão direita fiz uma
pequena sombra na fronte da testa e sorri. Há quanto tempo eu
não sorria? Como é bom sorrir! O mais estranho, naquele
instante, foi que meu sorriso doeu como doeram minhas costas
após me levantar da cama do hospital. “Estou enferrujada”,

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Jo A-mi

pensei. Com a mão esquerda apoiei-me no corrimão e desci


degrau a degrau. Meus olhos se abriram e o mundo foi-me
apresentado. Pisei com dois pés ao fim da escadaria. Vi um
singelo chafariz rodeado por pequenas hortênsias e margaridinhas
formando ali uma linda mandala em cores azul, branca, rosa e
amarela – o que fez lembrar minha família de flores. Olhando a
vida fresca e simples das roseiras, tive vontade de chorar: comovi-
me.
(11 de setembro de 2008)

No dia em que saí do hospital não sabia em que direção


seguir. “Tudo bem”, pensei, e fui. Queria afastar-me daquele lugar.
Estava na parte central da cidade onde se movimentavam centenas
de pessoas por dia. O comércio estava repleto de gente,
mercadorias, lojas, bancas e ofertas variadas. Eu andava por ali há
tantos anos, mas agora as coisas pareciam diferentes. Assustei-me.
Caminhei a passos lentos e contidos, irritando
irracionalmente os demais transeuntes – não entendi por quê.
Alguns passantes foram capazes de dizer xingamentos e atravessar
meu ombro numa pressa incompreensível. Com as mãos nos bolsos
e cheirando a éter, caminhei sem direção certa. Admirei-me com a
quantidade de mulheres nas ruas, com a quantidade de crianças e
pedintes, com a quantidade de preços demarcando todos os espaços
possíveis da calçada, das paredes, dos enormes monitores. Olhei
para cima e percebi que os ramos frondosos das mangueiras que se
enfileiravam na rua estavam velhos e sem pássaros - os pardais
adoravam brincar ali! Não vi ninhos, nem ouvi os piares. Estranho!
E segui mais um pouco na rua e escutei os gritos de uma mulher e
fiquei assustada: mas era apenas uma dançarina gritando embutida
em roupas coladas e acompanhada de um grupo de dançarinos em
vestuários simétricos. Mais à frente vi uma vitrina repleta de
cãezinhos que balançavam a cabeça: achei tão bonitinho! Por trás
desses animais lambuzados em verniz, havia uma fauna de
papagaios, gatos, abelhas, girafas, onças e macacos: todos imitando
os animais verdadeiros. A vida se misturava à artificialidade das

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Cor Adormecida

feições construídas em plástico, ferro e madeira; a vida era falseada


em sua variedade: imagens de santos e santas católicos, pessoas em
miniatura, árvores, casas, cozinhas, carros, prédios, sóis, luas.
Bocejei vagarosamente e protegi-me com as duas mãos no bolso.
No bolso esquerdo do casaco, porém, encontrei um pedaço de
papel de jornal com os dizeres transcritos em tinta vermelha,
“Gregor, 28 de agosto. Recepção: bufê Amarílis”, quando fui
surpreendida por Dimitrius:
- O que faz aqui, meu amor? – Olhei, mas não gostei de vê-lo.
Algo o diferenciava do homem que conheço. Não consegui decifrá-
lo e respondi secamente:
- O que você quer?
– Vamos para casa -, abraçando e guiando-me até à porta do carro.
Após alguns minutos chegamos a uma casa de paredes
brancas e portas azuis, antena no teto, jardim exposto aos excessos
do sol e sem nenhum cuidado. Era nossa casa, reconheci, embora
não parecesse. A pequena entrada de outrora, agora era um
grandioso muro com portões de madeira para a garagem e entrada
de pedestres. De resto, atravessei um portal no tempo: mesas,
camas, vasos, marcas na parede, ferrolhos, corredor entremeado
por portas laterais dos quartos. A cozinha ao fundo ainda tinha os
batentes que davam para o quintal íngreme e árido. As pequenas
flores que cercavam o muro não existiam mais. As paredes de
concreto apresentavam o tom esverdeado do lodo vivo e encorpado
que quase conseguia pintar todo o reboco. Do lado esquerdo, as
primeiras colunas levantadas do que seria a extensão da casa.
- Meu Deus! - espantei-me. - Quanto tempo passei naquele
hospital?
O gato suspenso na árvore da casa vizinha nos olhou com
desdém. Lambia-se despudoradamente. Parou por um instante
como se me encarasse. Havia pequenos questionamentos naquele
olhar e eu não soube compreender. Virou-se lateralmente e a
cabecinha acinzentada deixou mais gordas as duas orelhas grandes.
O vento úmido e frio passou nervosamente por seus pelos,
assanhando e dando-lhes a aparência de um penteado punk. Os
olhos amarelo-esverdeados piscaram algumas vezes por causa da
brisa que já se tornava um tufão no seu mundinho. Levantou-se,

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Jo A-mi

estirou o corpo o mais que pôde, arranhou o pequeno galho do


abacateiro e desceu.
Vi a cena. Não vi mais nada depois. Pus as mãos nos
olhos como se pudesse esconder-me. Acocorei e derreti até me
sentar no chão acimentado. Suspirei firme. Eu não entendia o que
havia acontecido, mas precisava respirar fundo. Id me olhou de
cima, ainda de pé, depois se sentou ao meu lado. Ficamos ali,
silenciosos, entrelaçados por uma ciranda de porquês. Os porquês
dançaram com muitos pensamentos, até que cada um resolveu ir-se
embora e nos atravessar irresolutos com a chuva.
Um vento úmido e frio derramou-se em gotículas suaves
e cheirosas batendo nos nossos rostos. No céu era possível
adivinhar alguns rabiscos de Zeus: carneiro, cão, guarda-chuva,
lebre, avião. Insatisfeito, porém, o deus apagou tudo e amassou o
papel transformando-o numa grande nuvem cinza-petrólea. Jogou o
papel numa lixeira fazendo barulhar trovão. Os pingos aumentaram
e tornaram-se gotas e gotas maiores. Id sabe que eu tenho medo de
trovões, então pegou na minha mão e a encostou no colo: tudo
realizado num silêncio sincrônico.

Casei-me com Id aos vinte e três anos quando iniciava o


terceiro semestre de História. Ele, um professor emérito de Física;
eu, uma graduanda repleta de questões existenciais. Conhecemo-
nos na universidade, à época de um programa de recepção para
alunos novatos que consistia em reunir professores de todas as
áreas para se revezarem nas boas-vindas aos recém-chegados: Id
estava entre os docentes.
Dimitrius abriu a cerimônia com uma palestra que
elencava seus melhores feitos: disciplinas ministradas, publicações
internacionais e, principalmente, a contribuição que deu a um
grande projeto interinstitucional que fez seu nome ter destaque.
Uma chatice! É como costumo dizer sarcasticamente: “se o nosso
amor dependesse de sua qualidade como orador...”
Sentei-me estrategicamente próxima à porta de saída do
auditório. Nunca fui muito afeita a reuniões, palestras e vendas.

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Cor Adormecida

Entediada, saí para comer alguma coisa. Ao retornar, uns vinte ou


trinta minutos depois, Id já havia mudado para a história da vida de
Einstein. Ele nos falava da dislexia do “gênio da física” e dos
obstáculos profissionais: “mas ninguém foi capaz de barrar o
engrandecimento deste grande homem”. Pensei: “que frase
traiçoeira. Bela queda, professor”!
Acabada a palestra, todos os alunos e alunas se sentiram,
definitivamente, membros da instituição. Os corredores ficaram
repletos de passantes, estudantes, professores e curiosos. Como
toda aluna recém-chegada, olhei tudo ao redor até chegar ao
flanelógrafo e achar interessante todo tipo de notícias. Andei em
direção ao final do corredor quando tive a sensação de ser
observada. Virei-me e constatei que era verdade o que pressentia: o
“professor emérito” olhava-me. Envergonhada, saí
apressadamente, quase não conseguindo meter-me entre as portas
de vidro do corredor estreito. Ele gritou baixo e educado, mas
eloquente:
- Hei, moça. Moça! – ouvi sem querer ouvir e resisti um pouco. Ele
insistiu. – Posso lhe fazer uma pergunta?
– Sim -, respondi.
– Por que você saiu do auditório? – perguntou enquanto tentava
equilibrar umas dezenas de páginas desordenadas dentro de um
livro grosso com capa dura.
– O quê?! Ah, eu precisava lanchar. – disse escondendo as partes
laterais do cabelo por trás das orelhas. Id riu e depois pediu que o
acompanhasse até a cantina:
- Essa conversa me deu fome. - piscou e ofereceu o braço
esquerdo. Eu quis saber um pouco mais sobre o projeto que o
tornou famoso, mas ele disse que não era tão famoso. Então
sorrimos como um casal de enamorados.
Depois de alguns meses na universidade - entre
corredores, salas de aulas, colegas e professores -, vi Dimitrius, ao
longe, conversando com uma moça. Senti ciúmes, embora fosse
estranho, pois só o tinha visto uma única vez. Escondi-me atrás de
uma árvore e vi que ele acariciava a mão da garota enquanto seu
rosto brilhava à luz do sol. Os cabelos crespos e sorridentes dela
recriavam a imagem da medusa petrificando o olhar do homem

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senil. Há alguns metros de distância, entre mim e eles, alguns


estudantes brincavam de debater sobre o idealismo e o realismo
nos pensadores antigos. Uma borboleta pousou na mochila de
exército de um rapaz e bateu as asinhas até se fixar mais
intimamente entre uma dobradura e outra da bolsa. Uma moça, em
voz auspiciosa, retomou o debate apontando para o serzinho a dois
palmos de distância: “e aquele ser, é real ou cópia?” A borboleta,
que acreditava na própria existência mais que qualquer outro ser,
deu um impulso com as perninhas e voou até à capa dura de um
caderno com desenho colorido do Homem-Aranha. Do meu canto,
observei quando Id entregou um papel para a garota. Consertei
uma mecha de cabelo que insistia em tapar minha visão. Resolvi
descer alguns degraus da calçada e passar a uma distância em que
pudesse ser vista por ele. Fui percebida:
- Cora, Cora -, gritou. Com um infantil “ar alheio” respondi
monossilabicamente:
- Sim?!
- Olá. Dimitrius, lembra-se? – falou como um animalzinho que
precisa de atenção.
- Ah! Claro. Como está? – Eu dei atenção.
Conversamos por quase duas horas em meio ao lindo
jardim do campus que exibia um lago esverdeado cuja ponta
acenava para uma de suas saídas. Gansos passeavam exuberando
beleza e elegância por entre as mesas e bancos ocupados pelas
pessoas que costumavam reunir-se ali. O grande jardim, lago,
gansos, árvores, esculturas e tudo mais que compunha o espaço,
sem deixar de falar dos risos e fofocas abafadas nos motins juvenis,
faziam daquele espaço um parque alegre e aprazível. Foi nesse
ambiente que falei a Id de minhas primeiras experiências na
universidade, dos tipos e modos dos professores, das paqueras e
das atividades extracurriculares, dos projetos e planos futuros na
academia. Falei tudo o que podia falar e ele ouviu tudo o que podia
ouvir. A cena foi engraçada e me fez rir. Dimitrius perguntou:
- Por que ri?
- Rio de você. – respondi.
- O que fiz? – perguntou segurando no meu queixo.

25
Cor Adormecida

- O que não fez. Nós estamos aqui há horas e você ainda não disse
uma palavra. – gostei quando ele tocou meu queixo.
- É claro que eu disse. – sorriu - Não..., eu não disse. – rimos
juntos.
Id beijou-me a mão e eu fiquei um pouco envergonhada,
não propriamente pelo beijo, mas porque deixei transparecer certo
nervosismo. Tentando disfarçar, perguntei:
- Você anda por aí beijando a mão de todas as alunas dessa
universidade? – deslaçando minha mão das dele.
- Não só desta. Quer dizer: não! Só desta – consertou a pontuação
da resposta.
- O quê?
Ele deu uma gargalhada e me confessou meses depois que
havia rido da minha inexperiência e insegurança. Soube naquele
instante que eu me interessara por ele, mas nada comentou. E
adiantou-se:
- Disse para provocar. Você gostaria de ir ao cinema comigo?
- Para ver que filme? – perguntei esperando qualquer resposta.
Embora ele tenha me respondido com uma pergunta.
- O que está em cartaz?
- Você me convida sem saber o filme? Que espécie de convite é o
seu? – perguntei participando da brincadeira.
- Sou professor desta universidade. Por aqui não é muito bem
quisto um professor e uma aluna juntos, entende? Pensei no cinema
porque teríamos mais tempo e espaço para conversar. Aliás, uma
pergunta: você já fez dezoito anos?
O fato é que aos vinte e sete anos, quando escrevia a
monografia de conclusão de curso, caí no meio de uma rua,
próxima à minha casa e tudo pareceu cessar: sons, cores,
sensações, movimentos. Parentes, colegas e amigos ficaram
atônitos. Como era possível que alguém dormisse, simplesmente, e
não acordasse mais? Esta era a pergunta que assaltava a todos.
Numa linda manhã na pequena alameda próxima à Rua dos
Pinheiros - cujos entroncamentos tão estreitos mal deixavam passar
dois automóveis emparelhados, com casas residenciais de muros
baixos e comércio local doméstico, onde mulheres levavam seus
filhos para brincarem na praça que podia ser vista ao final da rua,

26
Jo A-mi

idosos relatavam as coisas vividas e planos desfeitos e os homens


se reuniam para ver um jogo de futebol – eu caí.
Os carros que por ali passavam, ficaram parados antes da
pequena multidão formada. O alvoroço foi diminuindo à medida
que me viram respirar. Seu Nicolau, o quitandeiro, chamou uma
ambulância. Umas mulheres que acompanhavam todo o alvoroço
trataram logo de pedir o auxílio dos homens a fim de me colocarem
sobre a calçada. O tumulto mudou-se para um único lado da rua e
os motoristas, vagarosamente, migraram espiando pelo retrovisor.
Alguns minutos depois – o suficiente para que o tumulto se
desfizesse – pode-se ouvir a sirene ao longe: a ambulância chegara.
Os paramédicos verificaram os batimentos cardíacos e pressão
arterial. Eu estava clinicamente bem. Perguntaram se havia alguém
com quem pudessem contatar. O quitandeiro veio com um pequeno
papel amassado onde havia escrito um número de telefone – mas se
deu conta que o número correspondia ao da loja das flores. Pegou-
o de volta. Prometeu ao paramédico que informaria à minha
família – acariciando-me a testa enquanto falava. Deixou que me
pusessem na ambulância. O automóvel gritou com sua sirene
expulsando todos os outros carros do caminho. As pessoas se
dispersaram, o tráfego normalizou. Seu Nicolau, ainda nervoso
com o que acabara de acontecer, lembrou-se de tomar o remédio
para controlar a pressão arterial. Depois se dirigiu aos fundos do
estabelecimento e abriu um velho baú onde guardava alguns
documentos e antigas agendas. Folheou uma, depois outra, até
encontrar o número do telefone da casa de vovó. Resolveu arriscar.
Ligou e esperou até que caísse a ligação. Tentou novamente,
insistiu, quando foi atendido:
- Alô - uma voz rouca de mulher respondeu do outro lado.
- Bem, é da casa de dona...? Quer dizer..., - atrapalhou-se.
- O senhor quer dizer Antonieta? - respondeu a moça.
- Sim.
- Ela não pode atender. Quem deseja?
Então o quitandeiro tentou explicar à moça do telefone o
que tinha acontecido. Percebeu que a notícia a abalara, pois falhou
algumas vezes no completar das palavras que respondia. Pediu

27
Cor Adormecida

desculpas por ligar dando tal notícia, mas não havia encontrado
outra opção. Ela agradeceu-lhe mesmo assim.
Os dias correram deixando minha família atônita. Minha
mãe, irmãos, marido revezaram-se no hospital universitário
tentando guardar esperança diante das notícias que recebiam.

Os pingos grossos da chuva derreteram nossos corpos


estáticos. Agarrei-me ao braço de Id como se os pingos pudessem
inundar-me. Fixa e colada em Dimitrius, apertei-me em seu braço
com força: dando-lhe câimbras. Foi estando assim, imóvel e
insegura, que me dei conta da chuva teimosa e arredia cuja força já
fazia penetrar água em meu busto. A roupa colava-se ao corpo
formando sulcos disformes no peito, e o vento que ainda rugia forte
e áspero levantou a fina aba que ia do busto ao pescoço, fazendo
descobrir o seio esquerdo que já enrijecia por causa do frio.
Dimitrius, tomado por voluptuosa visão, respirou forte. Eu o
rejeitei, censurando-o com o olhar. Ele virou a cabeça rapidamente,
assumindo uma cega culpa. Levantei-me e entrei na casa. Dirigi-
me ao armário para pegar toalhas e abri a pequena porta do móvel
que estava, estranhamente, descascada e maltratada. Observei com
minuciosa atenção toda a dimensão do armário para ter certeza do
que via. Sim, era verdade: as toalhas arrumadas estavam cobertas
por um bolor acinzentado que me deu náuseas. Virei para Id que
me olhava da porta do quarto e perguntei quase sem voz:
- Como isto pôde acontecer? O que significa... - até perceber que
todo o móvel estava deteriorado e toda a cama com seu esqueleto
de madeira e colchão com ranhuras e todas as paredes com mofo
generalizado e todo o quarto e a morte que dali pendia no ar.
Assustada, saí imediatamente do recinto e puxei o
máximo de ar que pude: estava sufocada. Id não sabia o que dizer,
não sabia como agir, não sabia. Teve vontade de chorar, mas se
conteve. Suas ilusões para quando eu acordasse estavam deixando-
o louco: imaginara que depois de alguns anos – como nos contos
de fadas – sua esposa acordaria e olharia para ele com tanto amor
que seria quase impossível guardar a fortuna desse sentimento. Ele

28
Jo A-mi

a colocaria a par de tudo e ela, por sua vez, ficaria agradecida por
ter sido cuidada todos esses anos pelo esposo e professor emérito
de Física. Ele lhe contaria o que o mundo passara e de como as
coisas haviam mudado. Existiriam muitas noites e muitos dias para
serem vividos só nos seus relatos, e eu, como desejaria qualquer
mulher, cairia em seus braços protetores aguardando novas
revelações.
O entusiasmo de Id foi declinando, pois a realidade
mostrou-se mais dinâmica que sua pobre imaginação – talvez
menos romântica. Teve medo da mulher que via ali, à sua frente;
correu para segurar-me firme, mas como um animalzinho arredio
soltei-me dos seus braços tão logo fui abraçada.
- O que está acontecendo? – gritei - Por que a minha casa está
dessa forma? E...
Uma catástrofe: ainda não tinha reparado na minha
aparência. Ao voltar para a sala um relance de espelho denunciou a
mudança. Não consegui terminar a frase. Olhei. Olhei
demoradamente. Até então só arranjara tempo para ver o mundo, as
pessoas, os objetos, os sons. Olhei agora para Id - mas há poucos
minutos atrás ele não estava assim. Ou estava? Enlouquecera? Não
sabia ainda se chorava ou morria. Chorei. Chorei muito. Entre
lágrimas persistentes, tentava me ver um pouco mais no espelho: a
imagem embaçada pelas lágrimas desfigurava o meu rosto,
tornando os movimentos flácidos e assustadores. Chorei mais
ainda. Fiquei sentada no chão olhando e chorando sobre a imagem
que não via mais. O corpo estava cansado. Pedi para deitar-me. Id
me levou até uma cama de solteiro e enrolou-me em meio aos seus
lençóis desfeitos. Meu rosto azeitado na dor estava vermelho e
inchado. As mãos tremiam levemente com pequenos espasmos
contínuos. Dimitrius também não resistiu e chorou silenciosamente
- no seu conto de fadas particular havia esquecido de esconder o
príncipe que não resistira ao tempo: seus cabelos estavam
embranquecidos e ralos, as olheiras profundas, a barriga saliente e
o corpo mais franzino que antes. Quando eu dormi, ele tinha
apenas 42 anos e estava no auge de seu potencial físico e
intelectual: forte, alto, cabeleira farta e presunçosa, livro para ser
publicado e menções honrosas; colecionava admiradoras na

29
Cor Adormecida

universidade – entre alunas e professoras. Agora, porém, sentia-se


quase morto.
Estava para completar 62 anos, às vésperas de se
aposentar como qualquer professor de Física: carreira acadêmica
comum, milhares de alunos e alunas esquecidos, salário mediano,
bajulações nos corredores, reuniões de departamento. Nos
momentos mais profundos de frustração, culpou-me pela derrota na
carreira: se não tivesse que cuidar de mim, se tivessem se separado
antes, se não me amasse; noutros, convivia com minha aparência
cada vez mais estranha: uma morta que ainda não morrera,
respirando sem ajuda de aparelhos, um amarelo incomum tomando
conta da pele. Não me mexia, não tinha mais meu cheiro
característico e alguns tímidos fios de cabelo branco apareciam.
Envelhecia com toda a vida que resistia em meu corpo: doenças
(disfunção respiratória, infecção urinária, alergias), crescimento
dos pelos, menstruação, alimentação, banho, unhas, cáries. Por fim,
o tempo: um guardião silencioso e cheio de mistérios. E apesar de
tudo isso, Dimitrius gostava de ser o único a decidir sobre minha
vida. Nos primeiros meses, costumava ligar para a chefia de
enfermagem para saber se eu recebera ou não visitas: comumente,
recorria à lista registrada semanalmente pelas enfermeiras. Com o
passar dos anos, porém, os convivas diminuíram. Amigos e colegas
da universidade, vizinhos, clientes da floricultura, freiras: todos
foram rareando. Ficaram apenas Id e minha família.
Id sofreu ao meu lado e se perguntou, por anos a fio, se
eu também sofreria por ele. Mas agora eu estava adormecida
profundamente em sua cama, não mais no hospital. “Ainda
precisava dormir?”, pensou, revelando um pouco de maldade no
próprio pensamento. “Certamente é outro tipo de sono”, refletiu em
voz alta. Mas eu virei várias vezes na cama, derrubei o lençol, fiz
caretas e sons incomuns – o sono era inquieto. No sonho, eu
tentava andar sobre a corda-bamba de um circo, a plateia aplaudia,
mas eu não conseguia soltar a coluna de ferro que sustentava o
grande fio de aço. Sentia-me completamente exposta. Uns riram do
meu medo, outros apenas cochicharam. Olhei para o meu corpo e
vi que estava com o roupão dado aos pacientes do hospital. Um
vento frio passou por minhas orelhas: tentei protegê-las

30
Jo A-mi

rapidamente. Uma tragédia: ao fazê-lo, perdi o equilíbrio e caí das


alturas. O susto do sonho me acordou. O suor escorreu pelo
pescoço e misturou-se ao éter, deixando no quarto um aroma
estranho de alguma coisa desagradável. Id estava à frente da cama
sentado e cochilando numa velha cadeira, mas seu incansável
estado de alerta o fizera retornar à realidade.
- Tudo bem? - perguntou.
- Quanto tempo eu dormi?
Olhando as horas no relógio de pulso e fazendo um
pequeno esforço para enxergar, disse:
- Cerca de duas horas.
– Falo do hospital. Quanto tempo passei no hospital? Por que está
tudo tão diferente?
– Não acha melhor primeiro tomar um banho e alimentar-se? -
indagou.
Eu suspirei consentindo ao argumento daquele homem,
pois senti que estava por ouvir algo aterrador. Ele levantou-se,
abriu a porta do pequeno guarda-roupa e retirou uma toalha.
Abaixo abriu a gaveta e sacou sabonete, escova para dentes, fio
dental. Noutra porta retirou um vidro de colônia que continha
metade de seu conteúdo. Deixou tudo sobre a cama e saiu. Antes,
porém, virou-se e disse que eu podia abrir a porta à direita e
escolher um vestido – eu ainda conservava a estrutura corporal dos
anos anteriores.
Id havia escolhido com o auxílio de minha irmã alguns
modelos de roupas ao longo dos anos – em certas datas
comemorativas oficiais, costumavam fazer compras imaginando
que um dia eu acordaria para usá-los. Eu escolhi um modelo
simples de algodão e cor creme. Retirei-o do cabide e intui que
teria, também ali, alguma roupa íntima que pudesse usar.
Acertadamente peguei tudo e levei ao banheiro.
O pequeno armário do lavabo mostrou o rosto e parte do
meu colo. Antes de despir-me totalmente, porém, olhei-me. Senti
pesar e tristeza. Se ainda não me falhava a memória, meu rosto
estava bem mais cheio de marcas e sulcos laterais – especialmente
nos lábios. As pálpebras haviam cedido ao desejo da gravidade
disputando espaço com a pequena fileira de cílios. Fios brancos de

31
Cor Adormecida

cabelo podiam ser vistos uniformes e persistentes por toda a


cabeleira. Retirei a longa blusa e calça monocromáticas. Não vestia
roupas íntimas. Meus seios estavam maiores e flácidos. Toquei
entre as pernas e senti os pelos pubianos bastante desenvolvidos.
Percebi, além dos pelos, as unhas enormes dos pés. Abri a cortina e
liguei o chuveiro. Fiquei ali por alguns minutos como se quisesse
ser levada junto. Peguei xampu e sabonete. A água escorria em
meu corpo fazendo-me lembrar do trânsito de fios instalados sobre
mim. Enxuguei-me. Sentei no aparelho sanitário e cortei as unhas –
estavam-me incomodando. Levantei e olhei-me novamente no
espelho. Os cabelos corriam longos e desajeitados sobre o ombro.
Refiz levemente o penteado e saí. Id fumava um charuto
protegendo-se entre os dois braços da poltrona.
- Fiz chá com torradas - disse.
- Que bom -, agradeci fechando a porta do banheiro.
- Vou pegar.
Id dirigiu-se à cozinha. Logo depois, voltou com uma
bandeja que abrigava duas xícaras de chá, açúcar e um prato com
torradas. Assentou-os sobre a pequena mesa central da sala,
oferecendo com um gesto da mão. Eu sentei no sofá e servi-me.
Depois de um pequeno gole de chá e um longo suspiro, Dimitrius
falou.

A amizade com Sofie foi algo especial. Não lembrava de


me sentir assim desde a adolescência quando no ensino
fundamental e médio cresci entre rodas de meninos e meninas e
escolhia uma, dentre todos os amigos e amigas, para se tornar
minha melhor amiga. A sensação que tinha é que jamais houvera
uma pessoa que me conhecesse, compreendesse e sintonizasse com
a vida da maneira como Sofie fazia. Sentíamo-nos almas gêmeas.
Acho que o convite para a formatura poderia ter-nos reaproximado:
mas não aconteceu. Cruéis desistências que fiz na vida!
À parte, Sofie fez e refez pelo menos três modelos
diferentes de convites para mim, mesmo tendo medo da mágoa e
da distância que nos separaram nos últimos anos. A formatura seria

32
Jo A-mi

realizada nos jardins dos flamboyants no final de 1987 – local


assim conhecido por abrigar um colorido especial de vermelhos em
tons claros e escuros floridos em flamboyants com estaturas
diversas. Sofie estava feliz por conseguir formar-se naquela
universidade. Pretendia seguir carreira acadêmica e dar muito
orgulho ao pai. Eleita para fazer o discurso da turma, subiu ao
palco e leu as palavras registradas no papel. Antes, porém,
lembrou-se de mim e tentou achar-me entre os convivas – pois
havia mandado o convite pelo correio. Não me viu. Pensou: talvez
não tivesse recebido o convite ou talvez não quisesse estar ali.
Suspirou fundo e ficou parada à frente de todos por alguns
segundos - lembrou-se de como havia me conhecido: líamos as
palavras grifadas no flanelógrafo no dia da recepção de calouros,
os ombros se bateram disputando espaço entre aqueles que ficavam
parados e aqueles que se movimentavam no estreito corredor, após
a palestra de boas-vindas. Desculpamo-nos, e, ao mesmo tempo,
rimos daquela imensa balbúrdia, da deliciosa e virtuosa balbúrdia.
Apresentamo-nos e descobrimos ser iniciantes do mesmo curso.
Alguns minutos depois, brincando com o conjunto ininteligível de
letreiros e tabelas expostos naquele mural, combinamos de nos
encontrar na sala de aula à tarde. Sofie saiu de um lado, eu do
outro. Antes de ler o discurso para a turma ocorreram-lhe essas
lembranças: tempo e circunstâncias que não conseguia explicar.

- Era uma quinta-feira. Eu estava na universidade e me preparava


para uma reunião do departamento. Não sei se ainda lembra, mas
nós tivemos uma discussão na noite anterior. Foi uma época de
crises. – disse Dimitrius.
- Se ainda posso confiar em minha memória, nosso casamento era
uma constante crise – desabafei.
- Bem, antes da reunião resolvi passar pela cantina e tomar um
café. Senti-me mal, tive náuseas. Sei que homem não tem intuição
como as mulheres, mas naquele dia eu tive a intuição de que algo
muito ruim estava acontecendo. Andei lentamente até a sala e
quando abri a porta do recinto onde seria dada a reunião, a

33
Cor Adormecida

secretária me alcançou e pediu para falar em particular. Vi que essa


coisa de intuição pode ser muito séria e dolorosa: a secretária
confirmara um telefonema de sua irmã informado que você estava
no hospital municipal. Meu coração disparou.
Ouvi tudo com muita atenção. Em minha mente se
passavam muitas perguntas, mas eu não ousava interromper
Dimitrius. As mãos dele tremiam com a história que se seguia
contada passo a passo.
- Eu corri, peguei um táxi e parti em direção ao hospital municipal.
Nenhum médico soube dizer o que estava acontecendo. Gritei com
muitos funcionários e precisei ser acalmado por sua mãe e irmã.
Depois liguei para uns colegas e consegui um quarto e cuidados
especiais no hospital universitário – naquele momento, o único
capaz de oferecer tecnologia e recursos humanos eficientes. Os
médicos do hospital municipal afirmaram não haver risco de morte
e deram autorização para levá-la ao outro hospital. Assim, logo que
você chegou, foi realizada uma bateria de exames e todo o tipo de
procedimentos possíveis para entender o que estava acontecendo.
Convidaram médicos de diversas áreas de pesquisa, contataram
com pesquisadores estrangeiros: em vão. Tudo continuava como
antes, tudo intrigava como sempre: Cora, você não precisava de
aparelhos para respirar, tinha pressão arterial, batimento cardíaco,
taxas sanguíneas, funcionamento dos órgãos na mais perfeita
normalidade. Depois de algum tempo, porém, acho que mais de
seis meses, a solução parecia ter sido achada: um dos médicos e
pesquisadores que cuidava de você, o Senhor Tomas, estava a
conversar com um colega que terminava seu mestrado fora do país
e que conhecia uma dessas histórias sem solução médica.
Finalmente entendemos o que havia lhe acontecido.

Animada com o novo mundo que me surgia, ocupei a hora


do almoço em família contando todos os detalhes da manhã:
palestra do professor, a colega do flanelógrafo, as pessoas
estranhas – pois havia me admirado com a multidão, modos,
vestuários. Corri, tomei um banho e voltei para a universidade.

34
Jo A-mi

Atrasei-me: a aula começava às 13 horas, mas eu só consegui achar


a sala quando o relógio marcava trinta e cinco minutos além do
horário marcado. A porta da sala de aula estava fechada. Deveria
esperar o término ou simplesmente entrar e fazer-me desentendida?
Arrisquei: entrei e sentei-me no fundo da sala. O professor fazia
algumas anotações no quadro acerca do conteúdo da disciplina.
“Talvez não tenha me visto”, pensei no momento. Tão logo
terminou suas anotações, virou-se e olhou exatamente para mim.
Falou: - “Aproveito a ocasião para dizer que não admito trânsito
em minhas aulas. Exijo pontualidade e frequência”: este foi o único
momento em que eu e o referido professor tivemos nosso mais
profundo diálogo. O fato é que para cada disciplina apresentada
havia uma surpresa: uma professora não se importava com a
ausência dos alunos, outra exigia apresentações regulares a fim de
obrigar a participação discente, outro quase não aparecia e o último
vivia solicitando licenças médicas. Do primeiro dia de aula ao
último daquele semestre, senti que meus sonhos iam anoitecendo: a
vida universitária me decepcionava. Mesmo assim, segui, e o
segundo semestre trafegou inseguro até o fim.
No dia em que terminei de fazer a última prova do
semestre, resolvi andar um pouco à beira-mar e olhar as ondas.
Sentei e fiquei a admirar-lhes o vai-e-vem, os navios à distância, o
farol na ponta mais ao leste do litoral, os transeuntes. A areia
branca e fina fazia uma pequena revoada em meus pés até a ponta
dos joelhos. Senti cócegas e sorri. O barulho forte do vento soprou
palavras incompreensíveis de pedras microscópicas em meu
ouvido. Um pequeno caranguejo expulsou alguns intrusos de sua
casa: botões de areia, insetos, uma ponta de cigarro. Viu-me.
Estático, mal mexeu os olhinhos estufados na cabeça de mármore
acinzentado. Vigiamos o movimento um do outro quando uma
criança correu atrás de uma bola que queria abraçar as ondas. Eu e
o caranguejo aproveitamos a ocasião e voltamos para casa.
Não sei exatamente o que aconteceu, mas uma euforia
tomou conta de mim. Tudo parecia mais claro. Então, decidi.
Liguei para Sofie, queria que fosse a primeira a saber:
- Sofie, tomei uma decisão.
– O quê?

35
Cor Adormecida

– Vou aceitar o pedido de Id, o que você acha?


Sofie talvez não esperasse minha atitude - por uns trinta
segundos ficou parada e sentindo algo que não sabia explicar, mas
que, definitivamente, era ruim. Quando deu por si o telefone dava
sinal de ocupado. Desligou. A sineta tocou novamente e ela
atendeu:
- O que aconteceu, fiquei falando e você não respondia..., então
desliguei.
– É, nem eu entendi o que aconteceu. – disse com uma voz lenta.
- E aí, o que você acha?
- Ah, legal...bacana. – respondeu desanimada.
Eu não quis falar, mas naquele momento achei Sofie muito
estranha. Mesmo assim, agradeci e liguei para Dimitrius.
Marcamos num restaurante às 19 horas. Eu estava nervosa, ansiosa
e um pouco atônita. Iria fazer uma das coisas que considerava
importantes na vida de uma mulher e não era da forma como havia
combinado em meus sonhos de fadas. Concentrei-me na realidade
tentando esquecer as magias. “Estou feliz”, eu me dizia, “não é isto
que importa?” Estava para dar um grande passo na minha vida e
tinha consciência disso.
Em casa, entre o som das colheres batendo na louça de
porcelana e a degustação quente da sopa, anunciei:
- Aceitei o pedido de Id.
- Qual? - perguntou mamãe, cuidadosamente.
- De casamento.
Minha avó interrompeu o saboreio das torradas e tossiu
seco. Meu irmão riu e minha irmã imitou.
- Ele não é velho demais pra você? - perguntou mamãe.
- Vocês são tão diferentes um do outro, - redarguiu vovó.
- A senhora nunca ouviu falar que os opostos se atraem? É a lei da
Física. – repliquei com um sorriso no rosto.
- Talvez, - disse vovó com seriedade e enfado – mas a minha
experiência me ensinou que são os semelhantes que permanecem
juntos: é a lei da Vida.
Um incômodo silêncio tomou conta da sala. Eu fiquei
desconcertada com a resposta e não sorri mais. Vovó levantou-se
levando para a pia o prato ainda ocupado por um resto de sopa.

36
Jo A-mi

Meus irmãos não riram mais. Mamãe, embora descontente com a


notícia, sentiu orgulho: a filha estava crescendo.

Uma dor inestimável tomou conta de mim. Não sabia o que


pensar, fazer, dizer. A xícara pendia na mão direita: paralisada,
estanque. “Teria sido real o que acabara de ouvir?”, pensei por um
instante. E se estivesse no hospital, ou em casa e tudo não passasse
de um pesadelo. Não, não seria possível um mundo onde as
mulheres dormem por anos e depois acordam como zumbis.
Absolutamente. Nenhuma mulher resiste olhar-se ao espelho
depois de tantos anos inconsciente. Não, não. Sacudi-me, gritando
“acorde, acorde”. Mas chá e xícaras estavam ali, e os móveis e Id,
e minhas mãos com o início das marcas próprias à idade de uma
mulher madura.
Um grande espelho abriu-se à minha frente porque agora
conseguia olhar melhor as marcas das curvaturas na boca de Id –
próprias a um fumante de muitos anos -, e suas mãos sempre fortes
e resolutas estavam amarelas e trêmulas disputando espaço com o
emaranhado de rugas que guardavam suas grandes veias verdes.
Enquanto meus olhos descobriam o pequeno mundo ao redor, Id
sentia-se impotente: a dor que viveu solitariamente por todos esses
anos estava mais uma vez mandando em sua vida, ocupando suas
vontades, destruindo a esperança. Levantou-se e fingiu que não
sentia o que sentia: tentou ser forte, como eu me acostumara a vê-
lo. Juntou a xícara que quase caiu da minha mão, sem saber o que
dizer ou pensar. Fiquei vendo aquele homem tão distinto do que
conhecera, tão longe, tão distante, que tive vontade de sumir,
desaparecer, inexistir.
Levantei-me e disse: “preciso andar”, dirigindo-me ao
quarto de casal. Intuí que haveria ali, ainda, o velho sapateiro.
Descobri uma cortina e o vi abaixo da penumbra fina e cinza da
camada aérea: desgastado e quase irreconhecível, encarcerado na
pequena cabina. Um zíper dava as notas contraídas do modesto
objeto que fez chover pó e poeira logo depois de sua remoção.
Tossi repetidamente e por alguns segundos, e, quando a poeira

37
Cor Adormecida

assentou, vi que minha antiga sandália feita de couro e borracha


permanecia intacta ao tempo. A sandália sobrevivera vinte anos no
tempo. “O que mais teria permanecido?”, pensei.
O couro e borracha ainda tinham beleza. As sandálias
faziam parte de mim, do meu jeito, do meu gosto e estavam ali à
frente. Diante de tudo que acabara de ouvir, elas tornaram-se
relíquias: parte de minhas escolhas, um pouco de mim. Sacudi,
lixei as bordas sobre a colcha do velho colchão, calcei-as e saí. Id
ainda estava na sala, sentado na poltrona. Teve vontade de
perguntar, pedir, implorar para acompanhar-me, mas não teve
coragem de fazê-lo. Eu o olhei como que adivinhando os receios e
falei: “eu volto”.
Pisando o chão com as próprias sandálias, senti as pedras
que me levaram ao portão da rua. Abri e saí. Olhei de um lado,
olhei de outro. Fui para a esquerda e passeei sob a sombra dos
longos muros da rua – antes uma rua com enormes palmeiras que
podiam ser vistas há algumas quadras. Agora apenas umas poucas
árvores que se destacavam diante do grande corredor de concreto.
Nas noites de ventos fortes, lembrei, podia-se ouvir o zuir lento e
fragoso do ar que batia irregularmente nas longas folhas das
árvores. A rua em silêncio tornava-se palco desse obscuro
resfolegar entre o vento e as partes mais íntimas das plantas. Havia
um desejo imperativo que fazia nascer entre as pedras desiguais da
rua umas ramificações esverdeadas que ajudavam a construir um
barulho esquisito ao serem quebrantadas pelos pneus dos carros.
As casas exibiam muros baixos e terrenos uniformemente
planejados, fazendo parecer, quem as visse de cima, com caixotes
distribuídos em tom marrom. As pessoas tinham o costume de
sentar-se ao final da tarde na frente das próprias casas, papeando,
muitas vezes, em conversas que ziguezagueavam de um lado ao
outro da rua.
Andei, observei e cheguei a uma esquina - e se não me
traíam as lembranças, ao seguir pela direita faria o mesmo caminho
para a floricultura. Freei: “e se não houvesse mais floricultura?
Meu Deus! Teria como suportar essa ausência?” Alguns rapazes
vinham na contramão fazendo balbúrdia entre si, e com tamanha
zoada que me deixaram perturbada. Escorei-me no muro. Um

38
Jo A-mi

deles, querendo sobressair-se aos demais, olhou-me de longe e


brincou: “já tá legal uma hora dessas, tia?” Eles riram e começaram
a inflamar piadas de todos os tipos. A pilhéria me fez sentir mais
desnorteada ainda.
Os rapazes dobraram a esquina e desceram pela rua
transversal – as gargalhadas podiam ser ouvidas à distância. Carros
passaram e muitas pessoas também. O sol estava bastante forte e o
meu corpo começava a suar. Quando passei a mão pela testa senti o
meu próprio cheiro e lembrei das vezes em que me sentava sob
frondosas árvores na universidade para ler um pouco e o sol descia
entre as folhas das árvores e tocava em meu corpo. “Era a luz
divina”, dizia Sofie. “Meu Deus”, pensei, “e como deve estar
Sofie”? Mas aí a tristeza tomou conta de mim novamente: “e se
não estiver mais viva? Que droga não saber de nada, não lembrar
de nada”. Meus movimentos pareciam imitar um teatro de
marionetes – o que chamava a atenção dos transeuntes. Ninguém
se interessou em perguntar se eu precisava de alguma coisa.
Gesticulei, chorei, balancei a cabeça de um lado para outro: irritada
e inconformada. Uma moça passou pela calçada, do outro lado da
rua. As letras pichadas no muro deixaram-na curiosa: “a doçura é o
abrigo dos ra...os.”; mas não pôde ler a derradeira palavra porque
eu a cobria em parte. Perdeu-se na minha imagem. Ficou por uns
instantes observando-me e não teve vontade de rir. Atravessou a
rua e foi ao meu encontro. “Senhora, senhora!”, chamou, mas eu
não a ouvia. A moça insistiu, tocando-me o ombro. Virei-me
assustada, sentia uma dor que me trincava os ossos.
- Posso ajudá-la? - Perguntou.
- Ninguém pode me ajudar. Ninguém. – respondi.
- Vamos voltar para casa! - Falou a moça, dando ordem.
Por mansidão ou desespero, eu aceitei. Ela ofereceu o
braço e me conduziu para casa. O portão estava entreaberto. Ela
bateu palmas e esperou que alguém viesse atendê-la. Soltei-me do
braço e entrei. Id saiu imediatamente, esbarrando em minha figura
cabisbaixa e chorosa. A moça intuiu que alguma coisa muito
estranha estava a acontecer ali. Id a abordou e pediu que o
acompanhasse num chá. Resignada, acompanhou-o até à sala de
estar. Os olhos da artista viram que a estante empoeirada estava

39
Cor Adormecida

desenhada por pequenos rastros: “formigas, baratas, moscas,


cupins?” - pensou. A cor escura da parede envelhecia mais ainda o
móvel antigo e corroído nos pés. Teve a ideia de pintar um quadro,
quando Id apareceu com a velha bandeja de pinho escurecido.
Serviu o chá com uma disciplina militar. Sentou-se na poltrona e
aguardou silenciosamente, como se esperasse alguma explicação.
Ela entendeu:
- Meu nome é Anita. Vocês moram aqui muito tempo?
- Moramos há mais de vinte anos, minha filha - respondeu com ar
fadigoso. Anita tomou mais um gole do chá quente e amargo.
- Então devem ter conhecido papai. Ele tinha uma pequena
quitanda na rua de trás.
- Você é filha do Senhor Nicolau, o verdureiro?
- Sim. – respondeu animada.
Ela adorava encontrar pessoas que pudessem falar de seu
pai. Dimitrius contou das vezes em que foi convidado a sentar-se
no banquinho, à entrada do comércio de frutas, do trânsito entre a
floricultura e a quitanda, das histórias de família e da eterna
discussão sobre verduras e enlatados:
- Seu Nicolau maldizia todos os enlatados! – rindo, rememorou
Dimitrius.
Depois de lavar o rosto inchado pelas lágrimas, saí do
banheiro e voltei à sala de estar - enquanto Id e Anita riam do dia
em que seu Nicolau tentou ensiná-lo a diferença entre rúculas e
espinafres. Ao ouvir o nome “Nicolau”, ocorreu-me perguntar:
- Como vai seu Nicolau?
- Ah! Papai morreu há muitos anos. – Anita respondeu com
tranquilidade.
- Desculpe, desculpe moça! – respondi enquanto permitia que a
tristeza se instalasse de vez.
- Não, não, tudo bem! Eu tenho vagas lembranças dele, pois ainda
era muito criança quando ele sofreu o infarto. Ah! Ele morreu de
infarto depois de um jantar. Minha mãe disse que o chamou ao
quarto para que visse o criado-mudo cheio de baratinhas, mas ele
não respondeu. Ela pensou que fosse o jornal na tevê – já que era
uma das coisas que mais gostava de fazer: sentar-se de frente ao
televisor e conhecer as notícias do mundo – mas ele não atendeu.

40
Jo A-mi

Depois do terceiro chamado, enfurecida, foi até a sala e puxou-lhe


o braço pela lateral da poltrona. Mamãe costuma dizer que este foi
um dos momentos mais estranhos e demorados de sua vida porque
o braço tinha uma textura dura e seca. O medo a impediu de dar
um passo à frente, mas isso durou só alguns segundos. Disse que o
levaram ao hospital, mas já era tarde. Foi enterrado no dia seguinte.
Um dia, porém, ouvi-a confessar a uma amiga que jamais
conseguiu esquecer os olhos vagos e sem vida de papai – fixos e
pálidos em direção à tevê. Então eu deduzi que ele já estava morto
desde que foi levado lá de casa e, provavelmente, fora a um
necrotério e não a um hospital como mamãe costuma relatar. Eu
não sei por que me esconde esses fatos. – pausou - E muito menos
porque falei dessas coisas pra vocês. Bem, como diz meu esposo,
“deixemos tudo isso pra lá, guardemos as fotos e os bons papos”. –
levantando do sofá.
- O verdureiro, amigo de vovó, era seu pai? - perguntei,
recompondo a memória.
- Sim senhora. Senhor Nicolau era o nome dele.
- Como ele está?
- Querida...! -, Id quase interrompeu a conversa ao tentar explicar o
que havia sido dito há alguns segundos, mas Anita apressou-se em
responder.
- Infelizmente morreu há alguns anos.
- Meus pêsames. – respondi.
- A senhora o conhecia?
- Sim. Eu tenho uma floricultura ali perto. Todos os dias eu
passo..., ou melhor, passava em frente à loja de seu pai e ele
sempre me oferecia alguma fruta, legume, verdura...
- Que legal, eu adoro flores. Onde fica sua floricultura?
- Na Rua dos Pinheiros... – vacilei um instante -, se não me engano,
umas poucas quadras daqui.
- Rua dos Pinheiros? – estranhou.
Id olhou incisivamente para Anita e ofereceu-lhe mais chá.
Anita agradeceu. Já estava de pé e o tom da conversa deu-lhe a
necessária certeza da partida. Despediu-se educadamente do casal à
frente, apertando-lhes as mãos. Id a acompanhou. Os dois ficaram

41
Cor Adormecida

conversando uns instantes e Dimitrius a vigiou com os olhos até o


final da rua.

10

Com exceção de vovó que se mostrou bastante contrariada,


o casamento foi um primor: damas de honra, sacerdote, madrinhas,
padrinhos, juramentos, comidas, bebidas e alguns convidados. Na
adolescência eu havia sonhado com algo parecido. Praticamente
tudo o que imaginei estava ali à minha frente, com exceção do meu
pai que não me levou ao altar – ele simplesmente ignorou convites,
pedidos, situação. Casado por duas vezes - a primeira vez por
vários anos com mamãe; a segunda por quase cinco anos com a
mulher com quem se correspondia e o levara a abandonar a casa e
os filhos –, mas totalmente apegado ao próprio mundo, tornou-se
cada vez mais sorumbático com o passar dos anos, negando-se a
sair de casa, atender telefonemas, receber pessoas. Dentro de mim
houve sempre a imagem do alpendre e das leituras silenciosas que
fazíamos: imagem que o tem salvado por todos esses anos.
Apesar de tudo isso, sentia-me a mulher mais feliz do
mundo. Dancei, comi, joguei o buquê, abracei os convidados,
desfilei de mãos dadas com as crianças, agradeci publicamente pela
conquista e saí com a cauda do carro cheio de latinhas e mensagens
penduradas de “muitas felicidades”. De casa ao aeroporto, do
aeroporto ao hotel, do hotel à bancada do quarto, um pequeno
espelho, olhos cansados, mãos suadas, boca seca. Id saiu do
banheiro e tocou-me o ombro: “é o sinal”, pensei. Havia resolvido
esperar pelas núpcias até o casamento - não por tradição, mas por
vontade de formalizar um ritual e potencializar o pouco tempo de
relação. Dimitrius beijou-me a face direita e chamou-me para a
cama.
No outro dia, eu estava indisposta, chateada, mal-
humorada. Saí bem cedo e fui caminhar à beira-mar. Dormindo
profundamente, Id não notou a ausência. Andei de uma ponta a
outra da praia, molhei os pés na água ainda morninha, vi pássaros
caçando peixes e um forte barulho das ondas batendo nos corais.
Sentei-me na areia, olhei fixamente o mar e suspirei: sentia-me

42
Jo A-mi

incomodada. “É isto que chamam de lua de mel?”, pensei com


certa raiva. Ainda sentia as dores da noite passada, a violência com
que havia sido tratada, o sono ininterrupto de Id e a insônia de
quase uma noite inteira fazendo com que eu chegasse a uma
conclusão: banho e mar, as duas melhores coisas daquele lugar.
Voltei ao hotel. Por entre vidraças, vi que Id tomava um
copo de suco. Pensei no que deveria fazer: voltar ao quarto ou
encontrá-lo no restaurante? Era tarde, ele já se levantava da cadeira
e ia ao meu encontro. Beijou-me fortemente a face e docemente a
boca, depois me tocou no queixo com uma das mãos – numa das
maneiras que mais gosto de ser acariciada – e encostou a face no
meu rosto: causando-me uma sensação bastante agradável. A
indecisão dera lugar ao sorriso e, o corpo, ao estremecer,
compreendeu esse momento mais rápido que a mente.
De mãos dadas, fomos ao restaurante, tomamos café e
subimos ao quarto. Id abraçou-me, levando-me entre os braços
para a cama. Tocou-me a barriga fazendo círculos disformes, subiu
a mão até achar a fronteira entre meu pescoço e os seios. Senti a
respiração acelerar. Olhando-me fixamente, ele tocou o seio direito
– apertando-o entre os dedos grossos e fortes. Um pequeno grito
saltou involuntariamente da minha boca. Jogando o corpo pesado e
ereto por cima do meu corpo excitado - que, ofegante, não sabia
como disfarçar também os olhos lânguidos e curiosos -, fizemos
amor: dessa vez, juntos.

11

Anita não conseguiu deixar de pensar no que acabara de


ouvir: uma mulher que dorme durante vinte anos e depois acorda,
simplesmente. Id havia sido sintético e raso, mas bastante claro. Ao
sair daquela casa com aparência de abandono, ficou a pensar sobre
a vida de alguém que passa por tudo isso. Sentiu medo. Uma
vontade imensa de ver a filha e falar com a mãe tomou conta de
seu coração. Puxou do bolso o telefone e ligou:
- Posso almoçar por aí hoje?
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou a mãe.

43
Cor Adormecida

- Não. – desligou e seguiu pela alameda que abrigava a antiga


quitanda de seu pai. Lembrou da floricultura. Quando já se
aproximava do viaduto, viu na esquina de uma rua a placa azul
com letras garrafais brancas que registrava AVENIDA 51, e, logo
abaixo, em letras bem menores, “antiga rua dos pinheiros”. “Se
existiu alguma floricultura por aqui, ao passado pertence”, pensou.
Uma grande avenida destacava-se ali, e, a antiga Rua dos
Pinheiros, onde era possível ouvir o sino tocar a cada novo cliente
meu, tornara-se uma rua comercial e barulhenta. As árvores foram
substituídas por postes que serviriam para iluminar as ruas escuras,
caso não fossem apedrejadas as lâmpadas. Assustada pela mudança
que desconhecia, Anita voltou para casa um pouco triste: imaginou
o que teria sido um dia a Avenida 51. Pensou em crianças
correndo, idosos sentados à porta de suas casas, árvores, latidos de
cães, comércios locais – entre eles a minha floricultura: não tinha
ideia do exato espaço que teria ocupado essa loja. Imaginou que
talvez tivesse existido entre a esquina da avenida e a Rua 17, e
quem sabe expusesse girassóis, lírios e orquídeas na vitrine, com
um sol a visitá-la todos os dias pela manhã? Guardou a imagem.
Andou mais dois quarteirões até chegar a uma grande
área que reunia mais de vinte blocos de apartamentos. Falou com o
porteiro, pegou a correspondência e dirigiu-se ao número 204 do
bloco L. Abriu a porta e pegou no colo a pequena Salô – uma
gatinha que não tinha mais que dois anos, resgatada de um dos
blocos do condomínio -, beijou e apertou-a contra o peito. Salô
miou e quis descer do colo. Anita deixou-a no chão, limpou o pelo
que se encravara na blusa cor de vinho e foi direto para o banheiro.
Tomou banho, vestiu-se, reforçou a comida do felino (esperto a
esfregar-se entre as pernas!) e transitou entre os blocos do
condomínio até chegar ao apartamento 103 do bloco B: local onde
residia a mãe. Abriu a porta da cozinha, sem bater – o que era de
seu costume - e gritou por Susan.
- Estou aqui no quarto! - respondeu.
- Oi mãe, tudo bem?
- Sim. Que novidade foi essa? Pensei que só viesse domingo.
- Sei lá! Deu vontade.
- E Gabi?

44
Jo A-mi

- Está com o pai, eles foram ao shopping. Ontem tivemos a maior


briga por causa disso, ele insiste em comprar tudo o que a menina
pede, tem cabimento isso?
- Mas ele é o pai.
- Por isso mesmo. Se ele fosse um estranho, um parente, a avó –
apontando para Susan - querendo agradar a criança..., mas assim
não se educa. Mas não foi isso que me trouxe aqui. Hoje aconteceu
uma coisa estranha. Eu voltava da academia, quando vi uma
senhora passando mal quase na esquina da travessa Bittencourt.
Sabe alguém com aspecto de...sei lá...como se não
existisse...entende? Ela cobria a última palavra de uma frase
pichada no muro..., era tipo um quadro... Imaginei agora!
- E o que aconteceu?
- Bom, eu fui lá e me ofereci para levá-la em casa. A casa era
próxima e mal abrimos o portão tinha um senhor meio agoniado –
o esposo - que nos recebeu e me ofereceu chá. O interessante é que
ele e a esposa conheceram papai. Ela ainda tentou conversar
conosco, mas embaralhava as informações. Depois do chá eu vim
embora e o senhor...é é é...Dimitrius, me falou que a esposa não
estava bem porque tinha acontecido algo especial. Que ela havia
dormido vinte anos e finalmente acordou e que tinha acabado de
chegar do hospital e..., enfim, eu fiquei a ouvi-lo. Não entendi.
Achei coisa de doido. Mãe, você tá me ouvindo?
- Como você disse se chamar o homem? – perguntou Susan,
assustada.
- Sr. Dimitrius.
Susan ficou estupefata. Sentou-se sobre a cama e relatou:
- Ainda quando morávamos há umas ruas dali, em cima da
quitanda, faziam parte da vizinhança um casal por nome Cora e
Dimitrius. Ela, dona de uma floricultura herdada da avó e ele
professor universitário. Conheciam-se de cumprimentos: Cora
costumava comprar verduras vez por outra na quitanda, Dimitrius
gostava de papear com seu pai. O fato é que um ano antes da morte
de seu pai aconteceu uma tragédia. Lembro como hoje. Você devia
ter uns três anos e nós voltávamos da antiga pracinha que existia
aqui perto. Não sei se você recorda. Você juntava umas
pedrinhas...

45
Cor Adormecida

- Como assim, juntava pedras? – perguntou Anita, sem entender.


- Você saía catando pedras para guardar na caixa de bonecas que
Nicolau fez pra você. Lembra-se?
- Minha caixinha..., claro que lembro. Chorei tanto quando a vi
destruída pelos cupins. Só não lembro da mania de pedras. – falou
com um olhar doce.
- Pois bem, nesse dia voltávamos da pracinha e você quis porque
quis pegar uma pedrinha que viu entre a calçada e a divisão do
calçamento da rua. Você ficou por lá mexendo e eu me distraí com
um lindo xale que esvoaçava do pescoço daquela moça. Cora
estava tão bonita! Ela carregava uns blocos de papéis numa mão,
um buquê de margaridas noutra e o pano esvoaçante fazendo
sombra atrás de si. Foi só esse instante para você escorregar e cair
na calçada.
- Minha cicatriz!? – Anita pegou no joelho e sentiu a pequena
saliência: achava que o pequeno relevo em sua pele era parte
natural do corpo.
- Sim. Foi tudo neste dia. Seu joelho sangrou, você chorou bem
alto e só parou quando viu um pequeno aglomerado de pessoas
aproximarem-se de Cora. Eu não sabia o que fazer porque
precisava cuidar de seu ferimento, mas, ao mesmo tempo, tinha
aquela mulher ali estendida na rua. Seu pai foi um dos primeiros a
chegarem próximos a ela. Houve alvoroço. Resolvi entrar e cuidar
do seu corte. Com alguns minutos olhei pela janela e percebi que
as pessoas se dispersavam. A ambulância já partia com o grito
desesperado, quando Nicolau entrou. Desci metade da escada e vi
que ele mexia no baú.
- Papai tinha um baú?
- Um pequeno baú onde “guardava as lembranças”, como tinha o
costume de falar. Depois passou a visitá-la no hospital. Às vezes
acho que era paixão.
- Mãe!
- Seu pai não era nenhum santo! Após alguns meses, Nicolau
deixou de acompanhá-la no hospital, pois não havia esperança.
Ninguém sabia explicar o que tinha acontecido. Ele passava horas
repetindo o que vira e ouvira dos médicos – tornou-se um dos
assuntos do comércio -, as pessoas chegavam a ligar para se

46
Jo A-mi

inteirar da situação. Com o passar do tempo as notícias sobre Cora


foram se tornando cada vez mais raras, principalmente depois da
morte de Nicolau. Vendi a casa e nós viemos morar aqui –
condomínio recém-construído etc. etc. -, o resto você sabe.
- Você nunca foi visitá-la?
- Não. Mas lembro do rosto dela, devia ter sua idade, mais ou
menos. Achava bonito ver aquela moça passar repleta de livros na
mão, dona de um comércio. Naquela época não era muito comum
ver mulheres tão independentes por aqui, ainda mais casadas.
- A escravidão acabou, mãe!
- Talvez.
Há alguns quarteirões dali, nesta mesma hora, eu recebia a
visita de minha mãe e dos meus irmãos.

12

Às vezes o silêncio pode ser algo aterrador. Às vezes pode nos


prender e com uma coragem venerável, uma força compulsiva,
atrair-nos por alguns segundos até voltarmos às agruras de
sempre, ao pulsar do barulho, ao vai-e-vem desnorteante que nos
dita os ritmos da vida. Naquele dia quis o silêncio por alguns
minutos. Vi-me nua, despedaçada, sem definições. Eu não tinha
qualquer preocupação, não tinha receios, não sabia o que viria –
sentia-me menos humana. Estava lá sentada diante de uma mesa e
tentava decidir pelo livro à direita ou o controle remoto ao lado.
Tarde inteira sem fazer nada. Um sol que passava pela janela com
uma luz que resplandecia de um céu choroso por chuva, meio
acinzentado, meio branco, meio azul – partido em partes
desiguais. Sim, eu estava ali. Eu me imaginava ali. Mas não era
real, não parecia real. Era assim que eu me sentia.

(20 de setembro de 2008)

Fechei o diário e abri as janelas do quarto. Duas janelas


protegidas por um pano empoeirado que estava ali por anos. Havia
quatro meses em casa. O tempo insuportável em minha memória se
sustentava intervalado por movimentos e solidão: ficava em casa

47
Cor Adormecida

dia após dia - temia encontrar as pessoas; entregava listas de


compras a Dimitrius, tentava entender a tevê (programas,
propagandas, estilos, sons, informações) e as novas tecnologias
(internet, celulares, computadores, CDs, DVDs). O mundo tinha
passado por uma grande revolução nos últimos vinte anos. No
íntimo havia uma grande dúvida: eu conseguiria sobreviver diante
de tantas coisas estranhas? Já tinha recebido a visita de mamãe,
irmãos e alguns curiosos; soube da morte de papai e dos diários
deixados como herança. Entristeci-me com a venda da floricultura
– segundo Dimitrius, agora uma loja de turismo. Depois de quatro
longos meses, somente após, é que passei a cuidar de mim: olhava-
me no espelho, penteava os cabelos, lavava roupas, organizava o
quarto abandonado (agora meu espaço), cuidava do jardim,
banhava-me à luz do sol, cozinhava, assistia tevê, ouvia rádio,
olhava-me no espelho, penteava os cabelos...; e foi assim a
readaptação ao mundo em que eu acabara de renascer.
Os dias pareciam novos diariamente. Havia descoberta
até na rotina: uma manhã de fotos do colégio, uma tarde com os
convites de formatura da antiga turma da faculdade, uma noite
relendo os diários, uma manhã desfazendo-me de algumas roupas,
uma tarde chorando com um filme de comédia romântica, uma
noite entretida com as catástrofes naturais mostradas no jornal
local. Sem planos ou projetos, sentia-me mal..., mas livre.
Acordava todas as manhãs sem saber o que me daria o fim do dia e
arriscava alguns scripts: às vezes eram horas a fio remexendo nos
velhos vinis abandonados na despensa. Tirava todos do lugar onde
haviam sido dispostos. Empoeirados e arranhados, muitos não
cantavam mais. Mesmo assim, cuidei de todos, um a um. Primeiro
os separei por ordem alfabética, depois por estilo, até concluir que
por ora faria de um jeito e depois de outro: sem muitas regras. O
aparelho de som ainda funcionava bem – coisas antigas que tinham
sua razão para serem feitas; os discos – dentre aqueles que pude
salvar – foram cuidados e guardados numa das prateleiras da
estante de madeira no meu quarto. Fazia um chá, ou um café, um
suco, ou um copo de leite quente, e puxava uma cadeira à
proximidade do aparelho de som até colocar todos os cantores para
cantar. Hábito que estimulou muitas lembranças: enquanto ouvia as

48
Jo A-mi

músicas vinham-me imagens da infância – as corridas de bicicleta,


bolas de gude, campeonatos de baralho feitos com carteiras de
cigarro, prisão de vaga-lumes em garrafas transparentes;
reapareciam as fantasias da adolescência – as noites de filmes
proibidos com as amigas, o beijo roubado de um colega,
menstruação, espinhas no rosto, lutos pelos vários ídolos
colecionados nos pôsteres de guarda-roupa, tédio e solidão no
natal; e as incertezas da vida adulta – a amizade com Sofie, a
reprovação nas disciplinas da faculdade, o dia do casamento, o
último capítulo da monografia. “Sim, a monografia!”, pensei. Meus
olhos sorriram e imediatamente saí a mexer em tudo que pudesse
guardar um maço de 100 folhas datilografadas: armários, bancadas,
estante, guarda-roupa, caixas, sacolas: mas em nenhum lugar
encontrei meu trabalho. Fiquei triste. Liguei para Id, mas ele não
pode atender-me. Pensei: “algumas coisas não mudam”. E fiquei a
esperá-lo voltar da universidade. Considerei a possibilidade de que
a monografia não existisse mais e estava certa: Dimitrius
confirmou.

13

A sala começou a desaparecer diante de nossos olhos.


Silenciosos já havia algum tempo, entreolhamo-nos vagarosamente
e com certa dificuldade – é que entrava pela porta uma luz
alaranjada e brilhante. Perguntei:
- Ainda existe o banquinho no jardim? Não prestei atenção quando
entrei.
- Sim. Vamos? – convidou-me também com as mãos.
Fomos em direção ao pequeno jardim. À frente do muro,
um banquinho de madeira disposto propositadamente para alcançar
os pores-do-sol. Quase todos os dias eu costumava cumprir a rotina
de sentar naquele banquinho para ver o alaranjado tomar conta das
primeiras gramíneas de meu querido jardim, até se estender pela
varanda e sala de estar. Os vizinhos passavam e cumprimentavam-
me; as crianças corriam de um lado ao outro da rua, do início ao
fim da calçada; adolescentes se reuniam num ponto qualquer da
alameda, podendo-se ouvir, ao longe, as muitas e confusas risadas.

49
Cor Adormecida

Mas agora o muro interrompia a visão. Havia crescido. O pequeno


portão de madeira antigo, que se podia abrir com um empurrar das
pernas, ficara adulto e inchado. Quando me sentei, percebi que as
mudanças tinham tornado meu jardim algo entre o inóspito e um
árido lugar maltratado. A grama não existia mais, as rosas
vermelhas haviam desaparecido e a macieira cultivada em tempos
remotos não deixara vestígios. Os barulhos da rua também haviam
mudado: carros, vendedores, portões, latidos, brigas na vizinhança,
buzinas.
– Lembro do pequeno muro que se abria com o portão de madeira.
Eu mesma pintei aquele portão e tudo por causa de uma chuva
torrencial. Recorda-se? - Id consentiu com a cabeça.
- Você mal parava em casa; isto, inclusive, se não me engano, foi
um dos motivos pelos quais brigávamos tanto. Era sempre uma
banca examinadora de títulos aqui, uma palestra ali, reuniões,
aulas, festas, o que resultava em pouco tempo pra gente. Deixa pra
lá! Eu cuidava das atividades domésticas, das mais básicas (como
ir à quitanda comprar tomate e folhas para a salada) às que
considerava mais complexas: o caso desse muro. Passara a noite
chovendo, você estava viajando. Eu acordei, peguei meus livros, a
chave da floricultura e, quando abri a sombrinha, percebi que parte
do muro estava caída. Foi tão bobo o nervosismo que me deu ao
ver aquilo. Fiquei um bom tempo parada olhando o reboco e tijolos
desfeitos. Sentei no sofá até conseguir raciocinar e pensar no que
fazer. Liguei pro seu Nicolau contando o acontecido e ele logo
mandou um pedreiro. Conversamos, fiz um café e nada da chuva
perecer. Combinamos então que quando chegasse a estiagem
aproveitaríamos para consertar tudo. Já eram por volta das nove
horas da manhã quando o pedreiro saiu daqui. Guardei os livros em
minha escrivaninha, pus umas sandálias plásticas, tirei a bolsa de
dinheiro de dentro da mochila e fui ao armazém. O armazém era de
quem mesmo? Ah! Senhor James, esposo de dona Marieta. Meu
corpo já tremia de frio quando cheguei à venda. Perguntei ao Sr.
James se ele vendia portões de madeira e ele então me levou à
parte lateral do armazém onde pude escolher um lindo portãozinho
que se fechava transpassando uma trava pendurada num dos lados
do portão. Escolhi uma tinta verde-abacate, pincéis, lata de verniz e

50
Jo A-mi

removedor. Após o almoço não havia mais chuva. Eu e o pedreiro


tentamos consertar a frente da casa: ele com cimento e tijolos, eu
com tinta, verniz e um novo portão. Nossa tarde foi ótima, bastante
divertida. Os vizinhos passavam e paravam ali por um instante para
saber o que tinha acontecido. Eu explicava pacientemente a cada
um que me perguntava. Dona Eleonor viu tudo do próprio jardim.
Segurando firme a bengala, atravessou a frente da casa, entrou e
quando voltou trouxe-nos uma compota de abóbora. Quando você
voltou e abriu o portão, e isto foi o mais incrível, não percebeu a
mudança. Fiquei impressionada.
- Por que você está lembrando de tudo isso? Eu já conheço essa
história. – disse com certo desprezo. Levantei-me do banco e
respondi:
- Porque a única coisa que subsiste em mim são as lembranças. –
falei com a voz trêmula e cheia de raiva. Parei por um instante. O
sol dera adeus sem elegância. Balancei negativamente a cabeça,
voltei o olhar para Id que ainda estava imóvel no banquinho, e
disse: “mas você não é obrigado a perder seu tempo com minhas
lembranças”. Saí.
A casa toda estava sob uma penumbra que quase chegava
a exalar dor. Levei a mão à boca, que estava amarga. Procurei o
interruptor e acendi a luz da sala. Dirigi-me ao quarto quando ouvi
a campainha tocar. Tomei um susto com o conhecido grito agudo
que corria entre as paredes da varanda até tomar toda a sala: minha
mãe e meus irmãos haviam chegado. O grito familiar era da minha
irmã – cabelos frisados e pintados de vermelho, os olhos claros
faziam contraste com a cor preta à margem dos cílios. Envelhecera,
mas era quase imperceptível -, sempre gritava ao deparar-se com
uma situação que a excitava. Olhamo-nos e fomos as primeiras a
nos encontrar. Num abraço fulgurante e apertado, prendemo-nos;
logo depois houve um e mais outro abraços: era mamãe e meu
irmão – este ainda guardava um rosto juvenil e alegre, apesar das
marcas horizontais na testa.
Id acompanhou tudo da porta da frente da casa:
presenciou o choro alegre de quatro pessoas íntimas que não se
viam há duas décadas. Cruzou os braços. Não sentiu qualquer

51
Cor Adormecida

emoção com a cena – o que não deixou de ser estranho até para si
mesmo.
Toquei e senti o cheiro do cabelo de mamãe – para quem
a velhice não abrira mão. O rosto estava mais enrugado com
olheiras grossas e escuras. A quantidade de sardas multiplicadas no
corpo desenhava variados tamanhos de manchas dálmatas. O olhar
e o sorriso, entretanto, permaneciam -, como costumava fazer em
tempos remotos. Tinha o mesmo cheiro. Apertei-a com todas as
forças. No sentido oposto fui puxada por meu irmão que ainda
guardava um ar pueril por trás da barba cheia: as lágrimas correram
em nossos rostos. Dimitrius descruzou os braços e foi até a cozinha
fazer mais chá. Agora, sentados e apreensivos, olhamo-nos com ar
de euforia:
- Eu não acredito que você está aqui -, disse minha irmã com voz
emocionada.
- Nem eu - respondi, segurando a mão do meu irmão e de minha
mãe.
- Eu nunca perdi a fé, minha filha. Todas as noites, durante esses
vinte anos, todas as noites eu rezei pra que você acordasse. – falou
comovida.
- Mãe, eu não sei, será que eu dormi, simplesmente?
- Os médicos disseram que sim, e você não é caso único -
arrematou minha irmã -, houve mais mulheres assim.
Da cozinha ressoou o barulho de vidro estalando e
quebrando ao chão. Ninguém ligou. Id entrou com uma bandeja e
xícaras dispostas para o serviço de copa. Esqueceu-se das xícaras
ainda sujas de horas antes e não pode colocar a bandeja sobre a
mesa. Serviu, então, um a um. Outrora um militar, agora um
mordomo inglês: decidido e silencioso. Serviu a todos e retirou-se
para a cozinha. Ninguém estranhou. Tomaram chá e, entre um gole
e outro, mamãe apertava-me contra o peito. Eu pus a xícara sobre
as outras que estavam à mesa, sentei no colo da minha irmã e
beijamo-nos e beijamo-nos e beijamo-nos ainda mais. Meu irmão,
fingindo ciúmes, apontou para o próprio colo sugerindo que eu não
o preterisse. Pulei em seus braços e disse que tinha mudado pouco.
“Apenas a barba, apenas a barba”, repeti, “o faz diferente”. Ele riu
fartamente e respondeu:

52
Jo A-mi

- Impossível, eu agora estou com 45 anos e você quer me dizer que


ainda permaneço com o jeitinho de 25?
- Sim. - Todos riram, inclusive eu. Mas, imediatamente séria,
lembrei:
- Papai já sabe que acordei? – Obtive a pior das respostas: o
silêncio. Detida no ar que mal conseguia respirar, fiquei imóvel...
até derreter:
- Oh, não! - E pus as mãos sobre os olhos chorando
compulsivamente. - Vocês têm certeza, quer dizer, ele não está
dormindo? – uma pergunta da criança-Cora.
- Minha querida, até hoje só as mulheres dormiram. – mamãe
respondeu copiosamente.
Saindo da penumbra do quarto de hóspedes, Id trouxe
consigo uma caixa empoeirada e lacrada. Entregou-me
mecanicamente. Mamãe olhou-me e disse:
- Minha filha, quando seu pai morreu nos deixou duas coisas: a
escritura da casa e esta caixa para você. Como um pacto, juramos
abri-la somente se um dia você não mais pudesse fazê-lo. Assim,
você mesma pode cumprir o desejo de seu pai.
Eu estava triste e assustada. Os olhos inchados não
conseguiam ver a ponta da fita adesiva. A poeira acumulada vestia
o objeto fazendo-o parecer uma esponja grande e gasta. O cheiro
de bolor incrustado ali ao longo dos anos tomou conta da sala
pouco a pouco. Mamãe começou a tossir, minha irmã a coçar o
nariz e meu irmão preferiu afastar-se um pouco da pequena fumaça
que ressurgia do fundo da caixa. Eu fiquei impassível.
Abrindo as quatro abas da caixa fui movendo, um a um,
os pertences e pondo-os no cantinho da mesa: um minúsculo
carrinho de madeira que meu irmão havia ganho quando tinha três
anos; duas entradas de cinema; uma caixinha de música que não
cantava mais; uma fita k7 e quatro grandes blocos de papéis
enrolados por uma fita vermelha. Eu reconheci cada uma daquelas
coisas: o carrinho havia sido comprado numa feira: presente de três
anos do meu irmão. Entreguei-o. As entradas para o filme The
seven year itch1, estrelado por Marilyn Monroe, do aniversário de

1
O pecado mora ao lado (nota da autora).

53
Cor Adormecida

namoro dos meus pais: entreguei-as à mamãe. A caixinha de


música era de minha irmã e tocava Bach – resquícios de quando
mamãe apagava a lâmpada principal do quarto e, na peregrinação
do concerto para dois violinos, surgiam estrelas que se
movimentavam num pequeno carrossel diante da luz do abajur,
fazendo a penumbra do quarto ser discretamente iluminada:
devolvi à antiga dona. Os blocos eram meus diários há muitos anos
guardados no sótão.
De modo especial, emocionava-me ver aquela velha fita
k7. Sacudi-a, batendo entre as mãos. Soprei-lhe as frestas,
dirigindo-me instintivamente para a estante. Talvez o som não
tocasse mais, talvez a fita sequer funcionasse, mas fui
radiantemente corajosa, e, depois de algumas tentativas, consegui
conectar todo o emaranhado sistema. Apertei a tecla fazendo com
que a fita se movesse lentamente. Não houve som: fita e máquina
seguiam engasgadas. Abri o tocador. Parte da fita havia sido
engolida pelo instrumento. Insisti, insisti. Todos estavam com dó,
mas também sabiam que de nada adiantaria falar. Um instante mais
e, finalmente, por milagre ou violência, a fita cantou e eu me sentei
para ouvir. Como uma orquestra que vai cantando e seduzindo e
penetrando nos poros, os ouvintes da sala foram sequestrados pela
canção de Billie Holiday:

I´ll be loving you always


With a love that´s true always
When the things you plan
Need a helping hand will understand
Always, always
Days may not be fair always
That´s when I´ll be there, always
Not for just an hour
Not for just a day
Not for just a year, but always…2

2
Tradução: Eu te amarei sempre/ com um amor que é sempre verdadeiro/
e quando as coisas que você planeja/ precisarem de uma mãozinha, eu
entenderei/ sempre, sempre / Os dias podem não ser sempre justos/ mas

54
Jo A-mi

14

Naquele dia, 22 de maio de 2008, tive vontade de escrever.


Abri as partes finais de um dos diários - as folhas em branco
fizeram-me lembrar do hábito de nunca começar um diário na
carona de outro. Mesmo assim escrevi:
Quero retomar meu antigo hábito de escrever, mas ainda não sei
como serão meus próximos e novos dias. Então gostaria de
registrar aqui a ausência de duas pessoas que sempre foram muito
importantes pra mim: meu pai e minha avó. Meu pai morreu por
causa de um derrame cerebral: encontraram-no desfigurado sobre
a cama dois dias depois. Contava com setenta anos. Sempre
admirei meu pai, mas mal pude dizer-lhe isto. A melhor das
lembranças: as longas tardes de silêncio debaixo do alpendre de
nossa casa; ele sentado na varanda, lendo, lendo sempre; eu, ao
seu lado, no chão e encostada na coluna: horas concentrada no
tempo. Ás vezes escrevia, às vezes lia. Lembro que podia ouvir os
suspiros de sua leitura. Havia suspiros e pausas. Olhadelas para o
horizonte e retorno ao livro. Foi assim nossa rotina por muito
tempo. Vivíamos da aposentadoria dele – funcionário público
gravemente afetado por um acidente de carro - e das poucas peças
de roupa vendidas por mamãe. Vivíamos com restrições
financeiras, mas para mim era bom viver daquele jeito. Aos dez
anos de idade voltei da escola e papai não estava em casa. Vovó
me recebeu à porta e explicou que mamãe estava com dores de
cabeça e por isso não almoçaria conosco. “E papai?”, perguntei,
“depois explico”, respondeu, passando as mãos por minha cintura
para desabotoar a pequena mochila com tonalidades em pastel. No
final do dia, eu e meus irmãos entendemos tudo: éramos os mais
novos filhos de pais separados da escola. Um lado bom: algumas
colegas que antes mal sabiam de minha existência, passaram a me
cumprimentar como se eu tivesse sido promovida; o lado ruim:
não ter mais a companhia de papai nas tardes de leitura. Depois
da separação eu sentava lá, sozinha, e ficava a olhar o horizonte

eu estarei sempre aqui/ não apenas por uma hora/ não apenas por um dia/
não apenas por um ano, mas sempre... (nota da autora).

55
Cor Adormecida

procurando entender o que ele tanto achava naquele lugar. No


mais, tudo estava igual: mamãe dia e noite na máquina de costura,
vovó colaborando com os afazeres de nossa casa, as arengas de
meus irmãos e contas pra pagar. Por consequência, vovó passou a
ficar mais tempo em nossa casa. Retomávamos a relação estreita
dos meus seis, sete anos, quando papai e mamãe permitiam que a
visitasse com frequência, especialmente depois da morte de vovô.
Lá eu podia andar descalça sobre a grama e tocar o chão frio e
levemente espinhoso do verde que se espalhava por alguns metros.
Podia sentir a água que escorria para molhar as plantas e
penetrava entre os dedos, ensopando e deixando-os enrugados
como os dedos da vovó. Eu pulava e corria entre as rosas brancas
e vermelhas e lembro que ela sempre pedia para eu ter cuidado
com os espinhos. No centro do jardim havia um pequeno recanto
de gnomos e fadas – ela dizia que era o segredo para ter plantas
tão belas; no lado esquerdo algumas flores caiam pelo jarro
pendurado na parede cujo colorido fazia reluzir o branco forte das
margaridas estendidas pelo longo paredão daquele recanto verde;
e, no canto direito, um caramanchão protegia à sombra um lindo
banco de madeira feito por vovô. Quase sempre sentávamos lá e eu
podia ver muitas fotos, anotações de diários, cartas, entradas de
bailes e festas de clubes – memórias ainda bastante vivas para
vovó. Às vezes era chato porque as lembranças se repetiam nas
frases e registros recontados por ela; mas, em geral, eu não
ligava. Na verdade, em muitos momentos eu aproveitava os relatos
para imaginar histórias que eu mesma contava para mim. Vovó
sentada ao banco lembrando do baile em que fora convidada por
vovô e sob seus pés a grama brilhava com o sol. Entorpecido, vovô
só conseguia olhar para ela. Os dois se aproximavam e se
beijavam. O beijo era intenso, mas contido: uma bela imagem. E
depois, pulando desobedientemente no tempo, vovô batia a
madeira, forrava, alisava: os ecos das batidas quase estremeciam
as delicadas paredes de sua oficina; no lado direito, uma pequena
mesa onde desenhava as formas traçadas para o banco. Vovó
consentia com a cabeça e os dois sorriam com a própria
felicidade. Mas então vovó puxava a ponta de meu calcanhar e
repreendia-me por não prestar atenção às suas histórias e eu

56
Jo A-mi

refletia que era por prestar a máxima atenção aos seus relatos que
meu mundo criava outros e mais outros mundos para mim. Entre
dez e onze anos vi minha mãe discutir com ela por causa da
floricultura – após muitos anos remoídos pela saudade de vovô,
ela havia resolvido trabalhar, mas mamãe ficou contrariada
porque tal empreendimento exigiria tomar dinheiro da poupança.
Escondida em meu quarto, vi pela porta entreaberta vovó
responder: “e quando vou poder gastar meu dinheiro? Depois que
eu morrer?” Mamãe retrucou com palavras que foram abafadas
pela densa coluna de cimento armado que separava a cozinha dos
outros compartimentos da casa. Soube que a conversa tinha
acabado quando vovó fez o que sabia como ninguém: calar-se – o
que irrita profundamente minha mãe. Ri com certo sarcasmo da
situação. Ouvi a porta bater e vovó atravessou o canteiro próximo
à minha janela. Ela morreu dez anos depois do meu sono, aos
oitenta e oito anos, dormindo: o coração idoso resolveu parar de
funcionar. Fui seduzida pelas flores e vovó foi a principal
responsável. O cheiro da terra, o movimento frenético das
minhocas, a água escorrendo pelas raízes, a diferença entre essa e
aquela planta: anos de aprendizado. Assim, a floricultura foi para
mim, também, um ótimo investimento. Como filha mais velha,
sempre ficava mais tempo sozinha. Meus irmãos, entre arengas e
carinhos, eram a companhia um do outro. Papai tinha-se ido,
mamãe precisava costurar mais que antes: só me restavam os
livros e a companhia de vovó na floricultura. No início a desculpa
para minha ausência de casa era fazer companhia à vovó –
mamãe, mesmo contrariada com o empreendimento, permitia que
tivesse trânsito livre -, até eu não precisar dizer mais nada. Aos
poucos, a floricultura tornou-se uma ocupação diária.
Acompanhei planos, investimentos, sucessos e fracassos. As flores
chegavam nas carrocerias abertas dos velhos caminhões. Havia os
períodos entre estações, despesas e preocupações; mas também
existia o contato com as flores, companheirismo entre mim e vovó,
e lucros. Depois de alguns anos eu me tornei sócia – discutíamos e
decidíamos juntas o que fazer no dia a dia – e cúmplice de vovó:
as fragilidades da idade faziam-na esquecer de alguns
compromissos, chegar mais tarde ao trabalho, intensificar manias

57
Cor Adormecida

e medos. Um dia pediu-me que fechássemos mais cedo a


floricultura. Levei-a em casa. O caminho foi transcorrido com um
silêncio incômodo – intui que algo estava para acontecer. Vovó
abriu o portão e me chamou para tomar um café. Sentei-me sob o
caramanchão e, enquanto esperava, lembrei os tempos de infância.
Desabotoei meus sapatos e pus os pés no chão: a sensação da
grama espetando fez com que voltasse no tempo e sentisse o cheiro
do jardim novamente. Olhei para cima e vi que uma lagarta verde-
fosforescente tentava equilibrar-se entre as folhas para não cair
nas teias íngremes de uma aranha preta (cujos múltiplos olhinhos
estavam totalmente concentrados na presa). Sorri. Alguns minutos
se passaram até vovó voltar trazendo numa bandeja duas xícaras
acompanhadas de café e biscoitos caseiros – eu adorava aqueles
biscoitos: crocantes, macios e pedindo para serem derretidos na
boca. Serviu-me com elegância característica. Tomamos um ou
dois goles até que ela revelou sua inquietação: seu Ariston (dono
do terreno onde se encontravam a floricultura e vizinhos) iria
vender o terreno para a construção de lojas padronizadas. Lembro
claramente da cena: sentada à minha frente e cercada pelos ramos
que saiam do caramanchão, os olhos entristecidos de vovó ficaram
mais claros no contraste com o vestido azul-turquesa que
compunha seu vestuário. Um pente fino e côncavo espetava atrás
da cabeça mechas de cabelos com um quarteto de dentes
prateados. Estava linda! A voz triste, entretanto, assombrava a
beleza do quadro. “Precisamos encontrar um novo lugar para as
flores”, ela dizia, enquanto o pequeno tremor do café na xícara
denunciava a altura de sua decisão. Depois de quatro meses e
meio, quando as lojas já começavam a ser construídas e já haviam
vendido o terreno da floricultura, encontrei uma linda alameda há
uns dois ou três bairros dali, chamada rua dos pinheiros. Era um
lugar onde as árvores consumiam todo o sol da rua, o que nos
fazia respirar com pulmões cheios sob sombras densas. Casas e
carros respeitavam o tempo e as pessoas; o comércio local
ocupava toda a região, acatando-lhe horários para almoço, lutos,
feriados e moradias. Havia nos arredores quitandas, papelarias,
escolas, escritórios, botecos, restaurantes, mercadinhos, igreja e
banco. Comprei o novo endereço da floricultura de um senhor,

58
Jo A-mi

dono de um antigo mercadinho: queria desfazer-se da propriedade


para realizar o sonho de conhecer as pirâmides do Egito. Com a
anuência de vovó, realizei a compra e contribui com os sonhos: a
floricultura foi reinaugurada e Seu Nestor desembarcou no
continente africano. Agora eu pergunto: onde foi parar minha
Casa das Flores? Talvez em alguma poupança.

(22 de maio de 2008)

A raiva me fez fechar bruscamente o diário. Ouvi um


barulho de chaves: Id chegava a casa. Com o coração apertado,
guardou o molho de chaves, respirou fundo e entrou. Intimamente
sentia-se sufocado pela situação que vivia em sua própria casa,
pela universidade que o tomava de forma sobre-humana, por tudo
que ainda não conseguira falar – especialmente Gregor.
Naquele dia, em especial, havia voltado para casa num
ritmo frenético - quase fez o motorista cometer um acidente
pedindo-o irracionalmente para atravessar canteiros e semáforos
vermelhos. Teve náuseas e solicitou ao taxista que parasse; correu
até o cantinho de uma lixeira e vomitou. Limpou os lábios, mas na
garganta ainda arranhava a nódoa do líquido viscoso e
terrivelmente amargo que acabara de descer pela boca. As pernas
pareciam enfraquecer-se e tremiam um pouco. O taxista olhava-o
de longe, preocupado com o pagamento da corrida:
- Hei, senhor! Senhor?! O taxímetro está contando, vamos! – Id
não tinha forças e condições para dizer-lhe sequer um palavrão.
Balançou a cabeça e pensou que a vida lhe tirava até o direito de
passar mal. Resignado, voltou para o carro e sentou-se. A mente
fervilhava. Em três dias sua vida mudara radicalmente. Estava
desnorteado e ainda não tivera tempo para pensar, refletir. De
repente, apareço viva; depois veio a visita da família; insônia,
silêncio e a reunião “inadiável”: “uma porcaria de vaidosos
doutores”, pensou.
Estava num estado que nem ele mesmo sabia definir. Havia
uma única certeza: o coração insistia em bater apertado,
assombrado, miúdo. Teria que conviver novamente com a família
de sua esposa – para quem se tornara uma espécie de fantasma a

59
Cor Adormecida

rondar meu leito. Mas isso não o afetava, verdadeiramente, já que


nunca havia se sentido bem recebido naquela família. Até o
momento, colegas de trabalho, alunos e funcionários não sabiam o
que me acontecera nos últimos dias. Dimitrius desejou até o fundo
d’alma ver-me viva novamente, mas nos teríamos de volta? Era o
que ele se perguntava. Id achava-me uma estranha andando pela
casa de madrugada e mexendo em coisas velhas guardadas no
quarto: caixas empoeiradas, chinelos apodrecidos, discos velhos,
diários - tudo que era velho, velho, velho demais naquela casa. Eu
não tocava, falava ou reagia à sua presença. Chegou a pensar que o
sofrimento dos vinte anos passados teria sido menor que o contado
naqueles três últimos dias – principalmente do primeiro dia:
atrasado para a aula matinal chegou às pressas no hospital. Foi
proibido de atravessar o corredor para o meu quarto. Sem
compreender, tentou contatar com chefes e diretores: em vão. A
mente latejou pensamentos frustrantes e assustadores: “Cora está
morta? Por que não posso ver minha esposa? Chamo um advogado
se foi proibição da família.” Mas nada do que imaginara havia
acontecido. O segurança do hospital, um homem forte, calvo,
falante e com seus cinquenta e poucos anos, não dera uma palavra.
As enfermeiras passavam por eles em marcha, sem olharem para o
lado, imóveis em seus movimentos. Desesperado, Dimitrius olhou
pela pequena janela transparente e viu os médicos discutindo com
o diretor do hospital. Tentou passar pelo segurança. Houve
alvoroço. As pessoas que esperavam na recepção para ser atendidas
se afastaram. Id gritou e ameaçou entrar de qualquer forma naquele
local. Ninguém sabia, queria ou podia informar. Acendeu um
cigarro e olhou para todos: censurando qualquer tentativa de
reprimenda. Andou de um lado a outro da recepção batendo a mão
esquerda contra a perna – a fim de fazê-la parar de tremer. Mal
conseguiu terminar o segundo cigarro quando viu o diretor passar
da porta em sua direção.
- O que aconteceu? – o olhar visivelmente perplexo e angustiado
deixou claro seu desequilíbrio. As mãos se apertaram e os pés
bateram irregularmente no chão. A pasta de trabalho caía pelo
ombro, marcando na blusa quase lilás o suor que fluía da testa e
descia pelo restante do corpo.

60
Jo A-mi

- Como sempre o fiz, serei direto. Sua esposa não está mais no
hospital. – disse o diretor.
- Como..., para onde a levaram? Nós temos um acordo. –
respondeu indignado.
- Deixe-me terminar. Não a levamos a lugar nenhum.
Simplesmente sumiu do hospital e ninguém a viu sair. A
enfermeira foi trocar o soro da manhã, como é feito todos os dias, e
encontrou a cama vazia. – A raiva sufocou a respiração de Id. Não
conseguia atravessar o corredor de um hospital porque fora barrado
por um segurança que julgava quase um amigo, mas sua esposa
sumira sem ninguém ver. Tentou gritar com o robô disfarçado de
médico à frente, mas não conseguiu. O segurança tentou interpor-
se à conversa, porém, para sua decepção, Id não o enfrentou. Saiu
imediatamente do hospital. Andou mais um pouco até o ponto que
circundava a linda fonte com azulejos cor anil. A água corria fresca
com um som tranquilo. Há pouco mais de dois metros um
jardineiro segurava uma pá e saco de adubo. Intrigado com a
atitude que presenciara durante aquela manhã de quarta-feira,
lembrou-se de mim que há pouco falara com as flores e seguira a
passos lentos pela rua principal. “O dia vai ser longo!”, pensou,
mas resolveu perguntar:
- Senhor, senhor, eu posso ajudar? Senhor! – não adiantou. Id saiu
em direção ao estacionamento. O jardineiro ficou a observá-lo
jogar-se diante de um táxi que quase o atropelou. Balançou a
cabeça e cavou a terra: tentava aumentar a população de
margaridinhas.

15

“... Havia no reino treze fadas, mas, como só havia doze


pratos de ouro para que neles elas comessem no banquete, uma
delas não foi convidada. A festa realizava-se com todo o esplendor
e as fadas ofertaram seus dons à criancinha: uma lhe deu a virtude,
outra a beleza, uma terceira a riqueza e assim por diante. Tudo,
enfim, que há de desejável na vida. Quando onze das fadas tinham
feito as suas bonançosas promessas, apareceu inesperadamente no
palácio aquela que não fora convidada. Sem cumprimentar e

61
Cor Adormecida

mesmo olhar para pessoa alguma, a intrusa gritou, com voz furiosa
e ameaçadora: - Quando tiver quinze anos, a princesa espetará a
mão em um fuso de fiar e cairá morta. E, sem dizer mais uma
palavra sequer, virou as costas e foi-se embora. Todos os presentes
ficaram estarrecidos, mas a duodécima fada, que ainda não havia
pronunciado o seu voto propício, adiantou-se e, como não tinha
poderes para anular o prognóstico da fada perversa, mas apenas
abrandar o seu efeito, disse: - Não será a morte que a atingirá, e
sim um sono profundo, que imobilizará a princesa durante cem
anos. O Rei, ainda esperançoso...” - a campainha tocou.
Fechei as páginas dos Irmãos Grimm e fui atender o
portão: era um entregador de flores. Sorri e pedi que esperasse.
Voltei com algumas moedas na mão. Recebi lindas margaridas que
estavam frescas como a manhã em que foram colhidas. Apertando-
as contra o peito, lembrei-me da floricultura. Uma solitária lágrima
correu-me o rosto até cair, incólume, sobre um envelope laranja. O
barulho da pequena queda fez com que atentasse para o papel. Pus
as margaridas sobre a mesa, puxei o envelope e li: “quem sabe, um
reinício... das flores, da amizade. Sofie”, e um número de telefone
abaixo da assinatura.
Beijei o cartão e fui até à cozinha buscar um vaso. O
telefone tocou. Sem importar-me, deixei que o aparelho buzinasse
meus ouvidos moucos. Fui até o quintal e pus as flores no meio da
mesa. Afastei-me um pouco a fim de medir as distâncias entre o
centro e as bordas do quadrado de madeira onde havia colocado as
lindas margaridas. O telefone insistiu, causando aborrecimento:
deixei que continuasse gritando. Fui à mesa e afastei
milimetricamente o jarro: estava certo agora. O cartão tinha
deixado na sala de estar: lembrei-me.
Os primeiros meses em casa haviam dado certa ordem à
minha vida: tinha meu quarto, retomara a escrita no diário, cuidava
do jardim, recebia parentes, assistia tevê e relia trechos de alguns
livros. Resgatei o cartão de cima da mesa, quando o telefone tocou
novamente: “alô”, falei ofendida por atrapalharem um momento
tão importante. Aparentemente era para Id, pois foi o primeiro a ser
mencionado, depois entendi por que devia ter negligenciado o
toque: a secretária administrativa do hospital pretendia marcar uma

62
Jo A-mi

entrevista comigo. Em linhas gerais, era preciso assinar


documentos, dar baixas, esclarecer dúvidas, registrar justificativas.
Mas a burocracia sempre me irritara, por isso desliguei o telefone e
o tirei do gancho. Para completar a manhã agitada, Id chegou mais
cedo que o esperado - trouxe compras de supermercado, adubos,
jarros, mudas de plantas. Ele havia amanhecido com esplendor
singular: antes de ir para o trabalho recebera o telefonema de uma
pessoa importante, a greve na universidade o dispensara das aulas
naquele dia, o taxista lhe dera um bom desconto e talvez recebesse
outra menção honrosa. Despediu-se do táxi, beijou minha face
direita, levou as compras para a cozinha. Fiquei um pouco
envergonhada com o beijo. Fui para a cozinha também. Como há
muito não se via, guardamos juntos os mantimentos: lado a lado. O
cheiro do ensopado de frango tomava conta da cozinha. Dimitrius
guardou a última lata de ervilhas e pôs-se a fazer uma das coisas
que mais gostava: provar comidas em cozimento. Bati-lhe na ponta
dos dedos. Rimos e nos abraçamos.
Id deu-se conta do restante das compras e foi guardar os
mantimentos de jardinagem. Ao atravessar a pequena área entre a
cozinha e o quintal, viu que minha mesa estava repleta de
margaridas. Parou um instante e deixou os poucos sacos no chão.
Olhou mais de perto as flores, procurou algum cartão ou coisa
semelhante. Tocou as pétalas brancas: havia gotículas a refrescá-
las. Olhou para trás e, como teve a certeza de estar sozinho, puxou
o plástico que estava sobre uma das cadeiras e leu o nome da
floricultura de onde tinham sido enviadas as margaridas. Pôs o
papel de volta na cadeira e foi tomar banho. Do banheiro ele pode
ouvir o meu gritinho alegre após o bipe do micro-ondas –
tecnologia que me seduziu rapidamente. Vestiu uma roupa e
quando saiu do quarto viu quase pronta a mesa do almoço. Esperou
silenciosamente na poltrona. Pensou nas flores e irritou-se. As
novidades o aborreciam. Não gostava das preocupações, de sair da
rotina ou do que não conseguia explicar. Definitivamente, as flores
tinham-no aborrecido. “Logo, logo, estarão todos aqui em casa!”,
balbuciou. “O quê?”, perguntei, passando com o último prato.
“Nada, nada”, respondeu. E ambos sentamos e aproveitamos o
final da manhã com um delicioso ensopado de frango.

63
Cor Adormecida

Id foi à sesta e eu à música: pus um dos 135 vinis que


dispunha. Retirei uma das caixas de cima de meu guarda-roupa e
joguei todos os pertences sobre a cama. Mexi num de meus álbuns
e despreguei a foto em que eu e Sofie estávamos abraçadas sob a
árvore dos calouros – local onde se costumavam levar todos os
“bichos” recém-chegados à faculdade e pregar-lhes peça. “Por que
eu e Sofie havíamos deixado de nos falar?”, questionei-me. Pulei
da cama e fui ao quarto de Id: mas ele estava dormindo; havia
esquecido. A mão direita sustentava a cabeça, os pés se
entrelaçavam revoltosamente entre os lençóis e um braço pendia
para trás do corpo: “este é o Id dormindo”! - pensei.
Alguns dias depois tive vontade de ir à universidade.
Dimitrius estava aperfeiçoando o nó da gravata – teria uma reunião
importante com pró-reitores – quando cheguei abrigada sob uma
echarpe rosa-claro que me abraçava o corpo de vestido azul
anoitecido. Parou de apertar o nó e eu estacionei-me junto à porta
do quarto.
- Você está linda! – exclamou.
- Posso ir com você até a universidade?
- Logo hoje?! Eu tenho uma reunião muito importante.
- É só uma carona. – Interrompi. Sorri.
O táxi buzinou e ambos saímos. As ruas passaram
depressa diante dos meus olhos. O ar estava mais denso, havia
muito barulho de buzinas, as pessoas andavam apressadamente.
Um pedestre tentou passar pela faixa e o motorista quase o
atropelou: “seu maluco”, gritou o taxista. Uma ambulância
anunciou a emergência com uma sirene ensurdecedora na
contramão da avenida. O celular de Id tocou e eu me surpreendi:
não tinha me dado conta da existência do aparelho. O semáforo
iluminou-se de vermelho e o taxista teve que frear bruscamente.
Fui jogada contra o banco de passageiros. Dimitrius irritou-se e
inferiu: “Mais uma dessas e eu desço sem pagar!” - o taxista olhou
pelo retrovisor e revidou com os olhos.
Não ouvi o que Id dissera, pois logo me voltei para o
assento e minha atenção retomou o complexo quadro de pessoas,
cartazes, prédios, ruas, luzes, movimentos. Desconhecia quase
tudo. O semáforo acendeu-se em verde e os carros avançaram

64
Jo A-mi

velozmente. Um casal beijava-se na esquina de uma rua e


espantou-me tamanha intimidade em público – só o vira mesmo na
tevê dos últimos meses: virei o pescoço até não poder avistá-los
mais. Cruzei os braços e fiquei aguardando as cenas e mais cenas
do caminho. Fizera aquele caminho tantas vezes, mas me pareceu
nunca ter feito. As fachadas e os prédios, o estilo e a disposição das
pessoas, o asfalto contínuo e as novas estradas: tudo estava
diferente. “Vinte anos são capazes de mudar as coisas tanto
assim?”, refleti com certo medo.
À entrada de uma rua reconheci a grande jabuticabeira.
Olhei para Id e perguntei se ali era a rua das livrarias: ele
respondeu positivamente. Estava espantada com meu velho mundo
novo. Como uma criança quando os pais a levam para passear de
carro, olhei para todos os lados, acompanhei as esquinas das ruas,
murmurei com os lábios entreabertos o que não podia conter dentro
de mim. Voltei-me para a janela do carro e quase tudo era
irreconhecível. Pessoas em pequenas barracas expunham livros e
todo tipo de papel velho. Livrarias, lanchonetes, bares, espaços
intitulados lan house, posto de gasolina, farmácias e bancos
enchiam cada centímetro da rua. Entre tantos lugares distantes de
minhas lembranças, reconheci a fachada metálica com dizeres
“desde 1950”, da livraria de dona Santa – uma bibliófila espanhola
que nos aprazia com o recontar de suas aventuras pessoais. Na
livraria de dona Santa era possível adquirir livros usados e novos
com prescrição da livreira. Gostava de servir café e chá aos
visitantes. Sentia-se orgulhosa mais em dizer a importância
intelectual de um livro que vendê-lo. “Será que ainda está viva”? –
uma pergunta recorrente para mim nos últimos meses. E como a
maior parte das vezes ia à livraria de dona Santa acompanhada de
Sofie, lembrei-me dela.
Descemos do carro e o caminho para a universidade tinha
sido mais curto que o de costume. Dimitrius abriu-me a porta do
carro e disse:
- Hoje o caminho pareceu mais longo, hein meu bem! O velho
Einstein tinha razão. – falou empurrando os óculos que pendiam
quase na ponta do nariz.
- Por certo. – respondi com um sorriso singelo.

65
Cor Adormecida

O taxista sumiu entre os extensos eucaliptos que


ensinavam o caminho de volta. Id olhou para mim e falou ao
beijar-me a testa:
- Preciso ir.
- Tudo bem. – respondi.
- Podemos nos encontrar aqui por volta de 11 horas. O que acha? –
balancei a cabeça positivamente, ele percebeu que eu estava tensa.
Como se lembrou de minha euforia com as flores e da alegria por
ter falado com Sofie ao telefone, teve dó. Condescendentemente
apontou para um ladrilho que chegava a um prédio cor pastel.
- Ali é o departamento de história onde Sofie é professora. Um dia
a encontrei por acaso aqui. Quem sabe hoje não está por aí! – e
atropelando a frase que acabara de dizer, exortou:
- E próximo daquele abrigo onde as pessoas aguardam o ônibus,
vire à esquerda e encontrará o departamento de física. Espero-a
mais tarde.
- Sim – respondi ainda tensa; e como uma criança que recebe a
permissão para fazer algo importante, saí em direção ao
departamento de história.

16

Eu não tinha combinado ainda qualquer encontro com


Sofie. Ao apontar para o departamento de História, Id fez crescer
em mim algumas expectativas. Andamos juntos por mais alguns
metros até nos separarem os caminhos opostos. Cheguei ao
departamento, mas a porta fechada de vidro expunha apenas
cartazes de eventos acadêmicos e uma pobre mosca trancada do
lado de dentro. Desviei o olhar para o grande corredor escuro que
guardava muitas salas em sua lateral e pensei no quanto havia
sonhado em formar-me e, quem sabe, até seguir carreira
acadêmica. As reviravoltas da vida haviam-me trazido até ali, mas
eu não saberia responder se me sinto mais presa ou livre do lado de
fora da porta de vidro. Lembrei das palavras que escrevera dias
antes em meu diário: não fui só eu que desapareci nos últimos
anos. As pessoas também desapareceram da minha vida. Vivemos

66
Jo A-mi

todo esse tempo longe uns dos outros. O que tanta distância e
tanto tempo podem nos trazer?
Do lado de dentro do vidro, sozinha, a mosca encarava-
me com todos os olhinhos que Deus lhe dera. Estática e
contundentemente concentrada, mal piscava ou mexia as asinhas.
Eu a olhava fixamente. Pensei: “e se eu vivesse do lado de dentro
do vidro, não estaria igualmente sozinha e olhando com muitos
olhinhos para fora?” Um ônibus passou e atravessou barulhento
todos os departamentos daquela quadra. Assustada, voltei-me para
trás, toquei a porta e saí. Havia bastante fumaça e o som do motor
ainda barulhava seus ecos. Como uma sobrevivente da guerra que
sai viva do meio das cinzas, atravessei a rua e deixei que a mosca
me visse partir sem despedidas. Um transeunte, que também
sobrevivera à fumaça, saiu a resmungar do motorista. Aproveitei
para perguntar onde ficava a biblioteca central. Informada e
conduzida por alguns metros, atravessei algumas ruas, uma
pequena ponte de madeira sobre uma água esverdeada e cheia de
peixinhos laranja, até chegar a uma enorme rampa que ligava a
porta principal da biblioteca ao mundo externo. Os sensores
tocaram logo que entrei – mas eu nada carregava no corpo além
das roupas e dos pensamentos. O segurança de plantão aproximou-
se e pediu desculpas – explicou que o sistema estava com defeito.
Aproveitei para pedir-lhe explicações sobre os setores em que
estava dividido aquele prédio. Ele explicou que a biblioteca tinha
três andares e um anexo - que estava para ser inaugurado. O térreo
era composto de secretarias administrativas, auditório e
hemeroteca; primeiro, segundo e terceiro andares de livros e
trabalhos de conclusão de curso organizados por áreas respectivas.
Em cada andar havia espaços computadorizados para consulta e
acesso livre à internet, bem como imensos armários de
catalogação.
Atravessei o longo corredor que separava os setores do
andar e senti-me maravilhada com tantos livros. À frente de cada
corredor existiam elevador e escada de acesso para deficientes
físicos. Também exposto ali, ficava um mapa da biblioteca para
que os visitantes soubessem locomover-se dentro do recinto. Parei
em frente a um desses mapas e segui com o dedo indicador as

67
Cor Adormecida

trilhas marcadas na pedra de mármore, percorrendo-a até chegar ao


setor do curso de História. O elevador era pouco a pouco ocupado
por estudantes recém-chegados ao local, quando me dei conta e
aproveitei para subir também. Cheguei ao segundo andar e fui para
o lado oposto da caixa flutuante, maravilhada com toda a
tecnologia que cercava aquele lugar. Uns estudantes à esquerda
foram repreendidos por um funcionário da biblioteca, devido ao
barulho que faziam. Havia muitos computadores desocupados e eu
aproveitei para vê-los mais de perto. Sentei-me e fiquei a admirar
umas imagens que atravessavam horizontalmente a tela: elefantes
com seus filhotes, desertos em ventos áridos, crianças correndo em
campos muito verdes, montanhas atravessadas por lindas gaivotas,
uma tartaruga enorme olhava em close para a tela. Depois as
imagens retornavam e se repetiam. Fiquei ali e cheguei a cogitar se
essa era a única serventia de um computador – apesar de gostar
muito do que estava vendo. Um instrutor apertou uma das teclas do
teclado e fez desaparecerem todas as imagens. Ao meu lado e com
certa fadiga no olhar, perguntou como poderia ajudar-me.
- Eu não sei direito... – tentei dizer alguma coisa, mas o rapaz
clicou quase que automaticamente numas teclas e recomendou:
“Veja nesse site de buscas. Depois eu volto”. Fiquei parada diante
da tela. Havia anúncios de livrarias, lojas de eletrodomésticos,
filmes, viagens. No centro da tela, um nome que eu não sabia
pronunciar. Passei a mão direita pelo rosto, esfreguei os dedos no
queixo, fiz uma pequena careta e levantei-me. “Um dia, quem
sabe?!”, resmunguei baixinho e pus-me a andar pela biblioteca.

17

Id falou com a secretária e perguntou por mim. Por um


instante, um laivo de preocupação o tomou. Sentado em sua sala,
olhou pela janela as folhas das árvores que balançavam com
bastante força. “Vai chover!”, pensou. A mão direita continuava
esparramada sobre um calhamaço de papéis desordenados. Um
papel, porém, o deixava bastante nervoso: o reitor da universidade
o convocara para uma reunião com a junta do hospital
universitário. Detestava ser convocado pelo reitor: “nunca saiam

68
Jo A-mi

coisas boas dessas reuniões.” – resmungou. Na última dessas,


lembrou-se, houve greve e pancadaria por causa dos cortes no
orçamento.
Coordenador e professor do departamento, Id já estava
bastante cansado das desventuras políticas e jogos de poder. A
realidade dos últimos anos, porém, fez dele um homem maleável e
conciliador, principalmente diante das tentativas por parte de
alguns adversários políticos em transferir-me para o hospital
público municipal com o recorrente argumento de prejuízo aos
cofres públicos – pois a “Síndrome da Bela Adormecida” tornara-
se um verdadeiro mistério para a medicina: não havia constantes
relacionais, estatísticas seguras, remédios, escalas reguladoras,
prognósticos. A única coisa que os médicos tinham achado, até
então, não fora mais que a percepção de um leigo: acontecia
inextricavelmente com mulheres.
Voltou-se para a janela. Pingos grossos começavam a bater
impiedosamente no vidro. As pessoas corriam lá fora a fim de
abrigar-se. Um ônibus passou veloz pelas poças d’água – irritando
a todos. No meio do alvoroço, à parte de toda a confusão, eu
apareci. Dimitrius teve a forte vontade de correr e proteger-me da
chuva, mas a altivez e tranquilidade com que me movi o fizeram
recuar: definitivamente, eu não precisava de cuidados. Andei pela
calçada como se o sol me amortecesse e a brisa leve me
conduzisse. A chuva abraçou meu corpo no lindo vestido e me
permiti ser abraçada. Estava uma mulher bonita. Os cabelos
molhados davam-me um charme desconcertante e o vento forte fez
com que eu pusesse o xale sobre o rosto, deixando apenas os olhos
descobertos. Tornara-me agora uma sultana estonteante,
atravessando um longo deserto. Certamente deixei saudades aos
transeuntes.
A cena seduziu Id. A poesia daquela imagem fora mais
forte que a ausência do seu poeta. A comoção recobrou na
memória de Dimitrius o dia em que me vira desfilar pelos ladrilhos
de pedra e madeira à frente do pequeno lago da universidade. Ele
entregava as notas de uma matéria a uma aluna, quando passei
radiante próximo a ele e fiquei gloriosa com a luz do sol a

69
Cor Adormecida

expandir-se no meu corpo. Distraído com a figura leve e desfilante,


despachou a bolsista e foi ao encontro não marcado.
Aos poucos a minha imagem foi desaparecendo da janela.
Dimitrius juntou os papéis: jogando e trancando-os dentro da
gaveta da mesa. Quando chegou ao segundo corredor pode ver-me
desamassando o vestido e recompondo a echarpe no pescoço.
Nossos olhos se encontraram. Imantados e sem nada dizer,
desejaram-se. Um beijo quente e molhado selou o pacto do
reencontro. De mãos dadas entre os corredores, de mãos dadas
dentro do táxi, de mãos dadas à porta do quarto, Id deitou-me sobre
os lençóis desarrumados de sua cama. Não houve palavras, não
houve qualquer espécie de arrependimento. Um juízo onipresente
afirmaria: amaram-se lascivamente como num reencontro.

18

Ir à universidade passou a fazer parte do meu cotidiano. Eu


e Id estávamos felizes, como não o tivemos a maior parte do
casamento. Brincávamos, implicávamos um com o outro, saíamos
para cinemas e restaurantes. Eu devorava os dias retomando coisas
antigas e descobrindo outras novas: tevês interativas, cartões de
crédito, shoppings centers, câmeras digitais, músicas em CDs,
clipes em DVDs. O tempo parecia ter encolhido. A família já
reclamava de minha ausência nos almoços e jantares marcados,
mas eu queria experimentar o novo mundo em que havia renascido.
As vitrines das lojas, os elevadores, os parques de diversão, os
sabores do fast-food. Retomara a amizade com Sofie. Estava
contente.
Quando o mês de outubro já anunciava suas despedidas,
tive a terceira tentativa de contato da administração do hospital.
Nesse dia, resolvi marcar uma audiência. Imediatamente liguei
para Id que achou importante o compromisso: “a sua presença é
imprescindível nesse processo”, afirmou. No dia e hora marcados
estávamos ambos na audiência. A secretária saiu da sala principal e
pediu que eu entrasse. Dimitrius segurava-me no antebraço e,
como se houvesse colado sua mão, foi levado até à porta. A
secretária, dura e insípida, não permitiu que ele nos acompanhasse.

70
Jo A-mi

“Somente ela, senhor!”, vociferou. E sua voz foi tão forte e cheia
de autoridade que ele não questionou e nem eu protelei. Separamo-
nos. Entrei.
A reunião foi tensa e longa. Impaciente, Dimitrius já havia
resolvido diversos problemas por telefone, e, cheio de papéis,
pontas de cigarros e caneta, incomodou a passividade das pessoas
no corredor da recepção. O vigilante da ala administrativa já havia
chamado atenção sobre o fumar, mas Id pouco se importava.
Tempos depois, eu saí quase correndo da sala de audiências.
Dimitrius guardou tudo na pasta, jogou o cigarro no chão
(apagando-o com um dos pés) e correu ao meu encontro. Eu acenei
qualquer coisa dando a entender que não queria falar. Nós pegamos
o ônibus que circulava pela universidade até chegarmos ao bloco
de física. Calados, fazíamos ressonar fortes e intensas nossas
respirações – não fosse o barulho ao redor, certamente ecoariam
nas paredes enlatadas do automóvel. Descemos. Id segurou minha
mão. Andamos até o final do corredor quando a secretária do
departamento interveio:
- Professor, Gregor está à sua espera. – visivelmente constrangida.
- Mas ele disse que viria só amanhã – respondeu alto,
arrependendo-se. Pôs-se à minha frente como uma muralha
construída para limitar as linhas fronteiriças. Beijou meus lábios e
disse: - Querida, preciso resolver um assunto. Nada importante,
mas... – titubeou; - ...vou ter que resolver. Você entende? - Eu mal
percebi a presença dele naquele momento, tampouco o nervosismo
e frisson característico de seus pés a baterem inconstantes no chão.
“Vá encontrar Sofie!”, ele disse. E eu fui.
Cheguei a casa no final da tarde. Dimitrius ainda pôde
ouvir as palavras de despedidas de Sofie. Assistia a um jogo de
futebol da seleção nacional e estava chateado por isso. Passei pela
sala, toquei-lhe o ombro e entrei para meu quarto – onde preferia
dormir sozinha. Saí do quarto com uma toalha na mão, tranquei-me
por alguns minutos no banheiro até espalhar um doce perfume de
alfazema pela casa. Fui para a cozinha e demorei-me por lá. Apesar
da curiosidade, Id preferiu dar atenção à partida de futebol que
estava nos seus minutos finais. O aroma quente de café fresco
misturou-se à alfazema, dando leveza ao ar. Eu peguei duas

71
Cor Adormecida

pequenas xícaras, açúcar, alguns biscoitos – os mesmos que


aprendera a fazer com vovó. Servi o café e depois de tomar duas
xícaras, falei:
- A reunião foi péssima. Ainda estou sob seu impacto. Foi bom ter
passado a tarde com Sofie, mesmo tendo que assistir a uma aula de
História romana: um pouco chata! Temos encontrado muitas coisas
em comum. Sinto-me bem em tê-la de volta.
- Conte-me da reunião. – falou automaticamente, pois seus olhos
não se furtavam em ver os acréscimos da partida.
- Como disse, foi péssima. Puseram umas duas resmas de papel
sobre a mesa, anotaram tudo o que eu falava, interrogaram-me
como juízes. A maior parte das coisas eu não soube responder,
como o que acontecia enquanto eu dormia, em que estado de
consciência me encontrava, se tinha fome ou sede, ou mesmo da
percepção das pessoas no quarto do hospital. Não lembro de nada
disso. Então eles partiram para o dia do meu “renascimento” –
assim se expressaram; contei os detalhes que lembrava.
Repassaram papéis entre os presentes, anotações dos responsáveis
de plantão, resumos vazios de prontuários, gastos e medidas de
divulgação pública. Houve também acusações implícitas do tipo
“por que eu saí sem dizer nada a ninguém”. Eu lhes respondi que
se houvesse alguém para falar eu teria falado – o que causou
alvoroço. Um dos membros impôs sua palavra sobre as dos outros
e disse que o hospital fora negligente, que isso não poderia
acontecer novamente. Então me meti na discussão, acusei-os de
abandono, reforçando a ideia de negligência e descaso. E todos me
olharam com umas caras inchadas de raiva e impaciência – como
se eu não pudesse me manifestar ou não devesse estar ali; “e por
que me chamaram?”, pensei no momento.
- Como era o senhor que interveio na conversa? – perguntou Id.
- Um senhor com sobrancelhas bem grossas e olhos verdes escuros.
- Ah! Deve ter sido o reitor! – exclamou.
- Mas apesar de toda essa burocracia e chateação, tirei algo
importante dessa reunião: eu senti que é necessário entender o que
me aconteceu nesses vinte anos. Até agora eu não mexi nesse
assunto, mas depois dessa audiência vi que não posso mais fugir.

72
Jo A-mi

O jogo já havia terminado: empate sem gols. Eu levei as


xícaras de café para a cozinha. Perguntei: “você tem cigarro?”; “e
você fuma?” – refutou Id, entregando-me um maço recém-aberto.
Pondo-me a caminho do jardim, vi que o último sol do dia já se
fora. Sentada no banco do meu jardim, acendi um cigarro: mas não
fumei, deixando-o morrer entre os dedos. Uma tez de seriedade
tomou conta do meu semblante, porém, um pequeno beija-flor que
dançava no ar ali pertinho beijou desregradamente as pequenas
petúnias próximas à janela, quebrando a máscara rígida em que se
tornara meu rosto. A noite espalhou-se timidamente, deixando a
réstia de sol sedimentar seus tentáculos rosa-alaranjados. Mais um
dia fora embora.

19

A reunião com o reitor e superintendentes foi importante


para mim. Desde então, eu estava determinada a entender o que era
a “bela adormecida”. Os dias seguiram sua própria dinâmica,
tomados por muitas atividades: trabalho, pesquisas na biblioteca,
reuniões familiares, cursos. Na velocidade, rapidez, correria e
insônia, tentei tornar-me uma mulher do meu tempo: Id me dera
um celular, meus irmãos uma câmera fotográfica, Sofie uma
exposição de arte contemporânea. Passei a frequentar cursos de
fotografia, informática e dividi os ouvidos entre as músicas tocadas
por vinis e cds. Às vezes não havia tempo para ligar para mamãe
ou encontrar-me num happy hour com minha irmã e sobrinha. Nos
últimos dias Id estava bastante ocupado com os assuntos de sua
homenagem especial, bem como com a recepção dos calouros do
curso de Física: mal podendo perceber os novos acontecimentos
em nossas vidas. Eu, entretanto, permanecia sem respostas: por que
isto só acontece às mulheres? Por que logo comigo? O que
sentiram as outras mulheres depois de acordarem? Seria possível
fazer contato com algumas delas?
Inicialmente fui buscar respostas na biblioteca da
universidade. Lá encontrei poucos registros de jornais, um artigo
científico, dois artigos numa revista não especializada e duas
palestras sobre a síndrome da bela adormecida: praticamente nada.

73
Cor Adormecida

Como era possível que naquele país, e naquela cidade, e dentro do


hospital daquela universidade houvesse um caso como esses e
quase nada tenha sido registrado a respeito? Senti-me mal. Dormi
vinte anos e só me restavam poucos indícios e descaso. Nem a
imprensa sensacionalista interessava-se pela bela adormecida.
Preferia falar dos bastidores de corrupção do presidente da
República aos casos amorosos do astro teen, estrias, lixo
transportado de um país a outro, atores famosos com prostitutas,
drogas, assassinatos perversos, emagrecimento instantâneo.
Enquanto eu e umas poucas mulheres perdíamos anos de nossas
vidas de uma maneira extraordinariamente incomum, porém
insuficiente para o divertimento dos tabloides. Ali mesmo em meu
país, em minha cidade - a não ser pelo setor administrativo do
hospital que tinha suas razões burocráticas e financeiras para fazê-
lo – ninguém se dera conta que eu havia saído do hospital. Seis
meses e nem ao menos uma entrevista ou matéria curta de jornal. O
próprio hospital fora retrato desse abandono: saí pela porta da
frente e nenhum funcionário se dera conta disso.
Entre as dezenas de questões em que eu me enredava,
havia também esta: teriam as outras mulheres padecido do mesmo
abandono? Nos artigos de jornais encontrados, havia relacionado o
nome de sete mulheres: uma sul-coreana, aos 23 anos; duas
africanas, com 22 e 23 anos, respectivamente; uma sul-americana e
uma europeia aos 25 anos; uma norte-americana com 26 anos; e eu
aos 27 anos. As últimas notícias datavam de oito anos atrás, e
apenas uma das mulheres, com exceção de mim, parecia estar viva.
As matérias não davam conta de ordem cronológica, datas
específicas, nomes, histórias de vida, mortes ou renascimentos, leis
ou decretos. Senti-me menosprezada. Neste dia fui para casa com
uma tristeza tão profunda que mal conseguia falar. Doíam-me as
juntas, os ossos, a maçã do rosto. Dimitrius chegou tarde e estava
exausto de seus afazeres acadêmicos. Pediu desculpas pela falta de
disposição e deitou-se na cama do jeito que estava. Eu requentei a
sopa e pus o prato sobre a mesa. Em vão: a garganta ainda estava
fechada. Sentei em meu banco no jardim, mas estava muito frio:
tive que voltar para a sala. Pensei, pensei e pensei. As horas
passaram longas e cansativas.

74
Jo A-mi

Testemunhando os primeiros raios de sol à porta, vi a


demorada noite entregar seu turno. Aproveitei para reorganizar a
mesa e pôr uma toalha limpa; peguei papéis e canetas. Fiz um café
forte e tomando-o ainda de pé comecei a traçar pequenos planos. A
noite em claro me fizera tomar uma decisão importante: iria
registrar a síndrome da bela adormecida, tornando-a real e
verdadeira para que todos tivessem conhecimento – quisessem ou
não. Aproveitaria método, intuição, persistência e força de vontade
que havia adquirido na monografia para registrar minha
experiência. Seria porta-voz de outras mulheres esquecidas e
adormecidas. Rapidamente motivada, falei em voz alta:
“esquecidas e adormecidas” poderiam fazer parte do título do meu
trabalho. Id ainda ouviu as palavras da porta da cozinha, quando
perguntou:
- O que fará parte de seu trabalho, meu amor? – beijando-me a
testa.
- Ontem... quer dizer, durante toda a noite de hoje também, eu
pensei bastante e decidi: vou pesquisar e publicar sobre a síndrome
da bela adormecida.
- Hum..., muito bom. Mas o que a levou a tomar tal decisão?
- Ora, a falta de informações. Sabia que há mais artigos médicos
naquela biblioteca sobre bactérias nas unhas que a droga dessa
síndrome? – falei com certa irritação.
- Ah! Meu amor, mas isto é normal, afinal, há mais pessoas com
feridas nas unhas que mulheres adormecendo por anos. – replicou
Id, quase rindo.
- Sei. Então você está me dizendo que a necessidade de se fazer
pesquisas se dá pela maior ocorrência de um fato e não por sua
gravidade ou importância? Sendo assim, por que não pesquisam a
falta de sensibilidade nos homens? – falei completamente irritada.
Não fosse a campainha tocando, ele teria arranjado alguma
justificativa para sua resposta infeliz. Entreolhamo-nos. “Você está
esperando alguém?”, perguntou. E foi atender o portão com ar de
surpresa. Abriu o duro costado de madeira e uma senhora
aparentando mais de sessenta anos, tênis, calça de moletom, casaco
com gorro, apresentou-se:
- Bom dia. Desculpe o incômodo!

75
Cor Adormecida

- Bem..., não. Em que posso ajudá-la? – perguntou curioso.


- Meu nome é Susan, o senhor não está me reconhecendo porque
nos vimos poucas vezes, mas me lembro perfeitamente de sua
feição. É o senhor Dimitrius, não?
- Sim. – respondeu ressabiado.
- Pois bem, sou a viúva de Nicolau, mãe de Anita que os visitou há
alguns meses.
- Ah! Claro, claro. Que ótima surpresa. Entre, por favor.
A senhora Susan entrou e sentou-se no sofá. Id procurou
xícaras limpas para servir-lhe café, mas estavam todas sujas. Pediu
desculpas, pois precisaria deter-se um pouco na cozinha. O dia
estava indeciso entre aquiescer sol ou chuva. Da mesa, ouvi os
rumores. Passei a mão nos cabelos um pouco assanhados e fui até a
cozinha. Sussurrando, perguntei próximo ao ouvido de Id:
- Quem está na sala?
- Dona Susan, mãe de Anita, aquela que você encontrou há alguns
meses na rua.
- Sim, sim. Vou fazer sala.
Cumprimentamo-nos. Agradeci pela visita, perguntei por
Anita, comentei sobre o dia e o feriado da independência. A
senhora Susan falou que caminhava ali pela vizinhança e há muito
queria fazer-nos esta visita, mas estava tímida. Dimitrius chegou
com o café, pôs a bandeja sobre a mesa: já estava atrasado para o
trabalho. Viu que conversávamos aprazivelmente. Pediu licença
para arrumar-se e entrou no quarto. Falamos então do senhor
Nicolau, da filhinha de Anita e das mudanças geográficas na
vizinhança. Em meio a um dos temas, Id aproximou-se de mim e
beijou-me a boca: despedindo-se. Olhou para Susan e a
cumprimentou com um aperto de mão burocrático. Saiu. Continuei
a conversar amenidades com minha visita, até ouvir:
- Lembro como hoje do dia em que você caiu. – disse
propositadamente, pois há muito estava curiosa para saber o que
tinha acontecido comigo depois da queda.
- Como assim? A senhora estava lá? – arregalei os olhos.
- Sim. A poucos metros. – respondeu com certo poder.

76
Jo A-mi

- Oh! Por favor, fale-me tudo que puder. Eu preciso muito saber
como aconteceu. Os detalhes..., por favor! – supliquei com voz
nervosa.
- Eu estava voltando para casa com minha filha Anita. Sabe, aquela
que veio aqui. Ela é artista hoje, até já expôs seus quadros. Ela tem
uma filhinha linda, Gabriela: é minha paixão.
- Sim – respondi tentando disfarçar a impaciência.
- Pois bem. Ela havia se machucado e chorava muito. Eu me
ajoelhei para abraçá-la e ver o ferimento.
- Eu me lembro de um choro do outro lado da rua. Sim, sim. Havia
uma criança e uma senhora. Olhei rapidamente porque me chamou
atenção o choro alto. Mas estava tão concentrada no meu mundo! –
respirei fundo e longamente.
- Sabe, eu sempre admirei a senhora.
- Você, por favor! – interrompi.
- Sim, sim. Sempre a admirei à distância. Tenho certeza que jamais
soube. Naquela época era pouco comum ver por aqui mulheres
como você: independentes, joviais, felizes.
- Nem tanto... – falei baixinho.
- Avistei-a de longe e lembro que carregava flores numa mão,
papéis na outra. Você tinha um xale que esvoaçava ao vento e a
deixava bastante elegante. Acho que tinha a idade da minha filha.
Vinte e três anos?
- Não. – falei sorrindo – Tinha vinte e sete anos.
- Tinha cara de mais menina. Não vi exatamente o momento de sua
queda. Já a vi no chão. As pessoas se aproximaram aos poucos.
Nicolau foi o primeiro a chegar.
- Certamente, dona Susan. – falei um pouco cansada dos rodeios
daquela conversa. Abri a boca, abafando-a em seguida com a mão.
- Minha conversa está um pouco maçante, não é? – disse Susan.
- Não, não se trata disso. – respondi – É que não dormi esta noite.
Realmente está ótima nossa conversa. Continue, por favor.
- O que mais me chamou atenção não foi a queda, porque pensei
que tinha desmaiado: o que não deixa de ser comum. Mas me
chamou atenção a imagem que veio com a queda: enquanto as
margaridas eram pisoteadas pelas pessoas que se aproximavam de
você, um vento forte começou a soprar naquele instante, como um

77
Cor Adormecida

presságio, sabe. Anita chorou e eu tentei acalmá-la, mas minha


atenção estava nas folhas brancas levadas pelo vento. Como
pombos brancos que voam em bandos, as folhas que você segurava
se espalharam por aquela pequena rua. Elas iam saindo de seus
braços e feito pequenos animais presos que acham o caminho da
liberdade, foram saindo e saindo de você até irem embora: uma a
uma. Se tivéssemos inverno com neve, alguém ao longe poderia
dizer que viu a neve cair extraordinariamente numa ruazinha
perdida deste país. Foi uma cena marcante, nunca a esqueci. O
vento frio bateu em meu rosto, tive medo de fazer mal à Anita, por
isso a coloquei nos braços e levei para dentro de casa. As pessoas
já se dispersavam e Nicolau já havia acenado para mim dizendo
que a ambulância estava a caminho. Dei banho em Anita e a pus
para dormir, em seguida, testemunhei o alvoroço do transporte na
ambulância. Ela foi embora com sua sirene vermelho-giratória e
aguda levando você. O mais interessante é que o vento passara e
nenhuma folha mais foi vista. Curiosa que sou, procurei entre as
lixeiras, jardins e até noutras ruas. Do primeiro andar onde morava,
olhei os telhados: nada vi. Eu nunca consegui esquecer isto.

20

Há poucos minutos eu rabiscava alguns planos e agora


tinha a imagem dos papéis a voarem como pássaros pela alameda:
poético e triste. Os escritos de quase dois anos criaram asas e
foram embora. Eu havia lhes dado energia e tempo, e mesmo assim
não existiam mais. Fiquei a pensar na visita da Senhora Susan. Por
que viera exatamente naquele dia e não em outro? Coincidência?
Minha mente estava confusa. Sentada diante da mesa no quintal,
um caminho longo de cupins entrava na casa: não tinha ainda
atentado para isso. “Certamente estão tomando todo o teto”, pensei
submissa à realidade. Peguei o diário. Já não escrevia há alguns
dias. Abri-o e as últimas quatro linhas que registrara datavam de 25
de outubro:
A indiferença é o caminho que cruzamos quando não temos mais o
afeto de antes. A doçura por um cão, a admiração pelo jardim, a
dedicação a um projeto, o romance com alguém, a certeza de uma

78
Jo A-mi

amizade. Quando nos é indiferente, perdemos tudo. Acho que perdi


algumas migalhas.
Acrescentei: Hoje recebi uma visita importante, não acho que foi
coincidência. Acredito numa força que comprime e nos lança para
a vida. Não acredito nos passos em falso. Tudo o que vivemos é
parte daquilo em que acreditamos, sonhamos, fazemos, criamos.
De alguma forma eu cheguei até aqui. Minha jornada é mais
rápida ou mais lenta, mais fácil ou mais difícil que outras? Não
sei. Mas hoje foi, verdadeiramente, o primeiro dia em que quis
deter-me sobre o sono profundo de vinte anos. Eu vivi sob um véu
transparente que não me protegeu de todos os invasores. O véu foi
desfeito, levantado e não há outra coisa a fazer a não ser expor-
me. Estou toda exposta agora. Já ouvi muitas músicas, já tive
medo da rua, já enfrentei o desconhecido mundo em que renasci.
Já beijei uma mulher e amei o homem que desejava: acho que
estou pronta para hastear esse véu.
(06 de novembro de 2008)

A visita à minha casa foi muito significativa para Susan.


É interessante o quanto se pode formar uma imagem e colocá-la
intocável em algum lugar da mente. Uma fantasia se desfez quando
Susan me viu. De modo inexplicável, ela ainda esperava a moça da
echarpe esvoaçante que andava altiva e elegante na antiga alameda
do bairro. Encontrou, no entanto, uma senhora despenteada e um
pouco abatida. Talvez tivesse em mim uma espécie de heroína.
Ficou decepcionada, certamente. Sentiu que sua mente a iludira
perigosa e infantilmente: “ora, que loucura essa minha!”, disse em
voz alta limpando as escamas do peixe que fez para o almoço
daquele dia. De toda forma, estava inquieta. Não conseguia
concentrar-se na comida: “quanto de curry ou pimenta do reino?”,
perguntou com as mãos nas vísceras do peixe. Trocou de roupa,
telefonou para Anita e foi até seu apartamento.
Ambas conversaram muito e, da mesma forma como
aconteceu com Anita, o momento que tivemos causou um efeito
estranho em Susan. Enquanto falavam, Anita mexia rapidamente
seu pincel espalhando toda a cor de tinta no quadro já manchado
por tons esverdeados e lilases. A mãe olhou com a mesma

79
Cor Adormecida

expressão que fazia ao ver os quadros da filha: “não entendo como


podem lhe pagar por isso?”, resmungou com maldade. Anita
limpou os dedos num pano e falou:
- Eu não entendo por que você se deu ao trabalho de sair de casa
para me falar tal coisa. – revidou dando as costas para a mãe.
- Eu vim lhe falar da visita. É que não consigo gostar dessas coisas.
Como é que pode? – insistiu Susan.
- Eu já disse e vou repetir: o fato de você não gostar não quer dizer
que não tenha valor. – a resposta veio abafada pelo atrito do som
da voz na tela manchada em muitas cores.
- Eu sei filha. Desculpe. É que estou um pouco perturbada. Você
sabe que eu menos entendo que gosto. É rabugice da idade. –
desculpou-se. E continuou:
- Este quadro é encomenda?
- Sim, devo entregá-lo ainda esta semana. Talvez depois do
feriado. Mas me diga, por que ficou tão incomodada com esta
visita, afinal, você já conhecia aquela mulher – Anita falou
enquanto se virava em direção à Susan.
- Eu ainda não sei. – pausou olhando pela janela. – é que essas
coisas que não sabemos explicar aumentam na cabeça da gente e
ficam latejando. Uma mulher tão bonita tendo que passar por tudo
o que passou. – terminou a frase enquanto juntava as mãos sobre o
colo.
- É – respondeu sem dar muita atenção.
Susan não disse mais nada e Anita virou-se para terminar o
quadro – sem saber direito como reagir. Susan ficou sentada vendo
a filha fazer a arte que não entendia. Cansou-se. Resolveu voltar
para casa.

21

O feriado foi embora da mesma forma que chegou: rápido


e entediante. Eu já havia traçado algumas estratégias para minha
pesquisa: através do prestígio de chefe do departamento, Id haveria
de conseguir agendar uma entrevista com o médico que me
acompanhara à época da internação no hospital; também eu já tinha
iniciado uma pesquisa na internet – agora já mais familiarizada

80
Jo A-mi

com a ferramenta tecnológica. A luta por respostas, no entanto, não


era fácil; parte dessas dificuldades eu encontrava dentro da minha
própria casa. Dois dias antes, quando o sol já se punha e eu fazia
jorrar água sobre o jardim - que agora se apresentava com uma
grama verde-escura alta, rosas vermelhas, margaridas e alguns
gnomos em barro cozido – chega-me Dimitrius em casa
profundamente irritado com os assuntos de trabalho: mal me
cumprimentando ao passar pelo jardim. Imaginando que algo o
perturbava, fiquei protegida entre o aparador de gramas e o regador
escolhendo o melhor ângulo para cultivar novas plantas.
Eu tinha organizado o novo jardim inspirada no que
ainda me lembrava do jardim que ajudara a cultivar com vovó –
minha mãe e irmãos reconheciam isso e sempre comentavam a
semelhança. Cada nova plantinha significava muito porque
homenageava alguém que havia sido tão importante para mim. O
jardim tornou-se minha nova floricultura – pelas plantas, pela
energia, pelas ideias. As horas a fio mexendo na terra, adubando,
afofando e preparando-a para novos moradores traziam-me uma
sensação conhecida. Eu me sentia à vontade para conversar com as
pequenas bromélias (sempre mais frágeis que as outras plantinhas),
cavar a terra, refazer o lugar de plantação da antiga macieira. A
rotina e o hábito de cuidar dessas plantinhas me revitalizavam.
Quando a noite começou a dar sinais fortes de sua
existência e a luz se apresentou escassa, guardei regador e estrume
na pequena caixa reservada aos mantimentos. Id havia
desaparecido silencioso dentro de casa: “na dúvida, é melhor
deixar quieto”, pensei. Quando entrei o vi assistindo ao noticiário
local enterrado na poltrona com olhos que atravessavam o
televisor. Sentei-me no sofá e fiquei ali acompanhando a notícia
sobre o ganhador da loteria. Depois de alguns instantes, perguntei:
- Você pode falar agora?
- Sim. Claro. – disse impassível como se nada o incomodasse.
- Bem, estive pensando durante o dia de hoje sobre o que
conversamos pela manhã. Certa vez você comentou a respeito do
médico que me acompanhou durante a maior parte desses anos.
- Doutor Tomas. Já está aposentado. – respondeu com certa
irritação.

81
Cor Adormecida

- Sim, isto mesmo. Você tem notícias dele? Tenho esperanças de


descobrir mais algumas coisas. – falei com um laivo de
entusiasmo.
- Por que você quer mexer nisso? – disse com uma voz irritada,
mas contida. - Fiquei pensando no que me dissera pela manhã e
não entendo que necessidade é essa de trazer à tona essas coisas.
Estamos aqui, vivos, com nossa vida de volta: isto é que importa. –
respondeu impaciente. E mal pode terminar a frase para eu
devolver-lhe outra:
- Eu que nunca entendi como você pôde conviver com uma coisa
dessas e jamais se interessar por ela. O que, o que você fez durante
todos esses anos além de dormir com suas alunas, hein doutor
Dimitrius? – E jogando o controle remoto contra a parede, despedi-
me da conversa indo na direção do quintal. Id me seguiu. Seu
coração palpitava e o corpo estava exausto:
- Porque eu vivo no presente. Eu não vejo em que me adianta viver
do passado, ter lembranças pra contar num caderno como fazem as
patéticas adolescentes. E eu lhe digo o que fiz estes anos: cuidei
para que não a mandassem para lugares como o hospital municipal,
onde certamente não teria acordado porque morreria de infecção
hospitalar. Tive paciência com sua família que sempre me detestou
– mais ainda quando lhe aconteceu a síndrome; e sim, procurei
saber sobre a doença, mas é algo que não tem razão de ser, não tem
explicação científica e eu não sei acreditar no que não posso
provar. Sou um homem de ciência: lamento.
Ao dizer a última frase não pode conter o punho que se
despejava fechado sobre a mesa, batendo com força e raiva no
pobre objeto de madeira. Depois, escondeu as duas mãos nos
bolsos da calça social tentando disfarçar-lhes o tremor.
Inexplicavelmente calma, sem gritar ou exaltar-me, falei:
- Uma mulher dormindo... pode ser um paraíso. Não vê, não briga,
não discute; enquanto o tempo passa. Não acredito que nesses vinte
anos você só tenha vivido para cuidar da minha assistência e para
se desvencilhar dos meus parentes.
E com uma intuição precisa, desfechei:
- Você realizou o sonho de ter um filho?
- Sim. – respondeu vingativamente.

82
Jo A-mi

CAPÍTULO 3 – Longe, muito longe


1

de minha própria razão, escrevi:


Como é difícil medir a distância entre o amor e o absoluto desejo
de propriedade. Apesar de tudo que já vivemos juntos, de todos os
sentimentos, não acho mais meu tempo com Id. Será que sua
permanência existe somente nos olhos dos outros, que sempre nos
relacionam juntos? Sinto-me covarde. Estou aqui a alguns dias do
carnaval e sequer lhe dei um telefonema. Mas este momento é meu.
Hoje seria o aniversário de papai. Quer dizer, para mim ainda é.
Na infância gostávamos de festejar os aniversários com torta de
chocolate. Mas passou. A separação nunca afeta só o casal: se tem
filhos, ou amigos comuns, ou colegas, ou parentes, enfim, todos
aqueles ligados à convivência são de alguma forma afetados.
Culpei minha mãe por muito tempo, até entender que papai era
assim mesmo: solitário e bastante egoísta para dividir a própria
vida com os outros - talvez a palavra “egoísmo” seja injusta. Na
época da separação, lembro que nossa casa ficou desolada por
muito tempo. Mamãe chorava espremida entre as plumas de seu
travesseiro; todas as noites, quando ouvíamos a máquina de
costura parar sabíamos que depois da exaustão só lhe restaria
chorar até dormir e acordar no outro dia pela manhã mais uma
vez, e costurar e chorar e dormir. De toda forma, tenho saudades
da nossa casa de infância: arquitetura antiga, piso de madeira,
espaçosa e decorada em cores de tom marrom que contrastavam
com o branco das cortinas. Nas noites quentes costumava-se
dormir de janelas entreabertas, o que me permitia ver, da ponta da
cama, um desenho multiforme que brincava de fazer sombra no
chão e iluminar o escuro-breu que se apoderava da casa. As
cortinas balançavam e faziam uma espécie de fuuuuu! Meus
irmãos tinham medo. Que engraçado, isto! Eu não tinha receio de
passear de madrugada pela casa e olhar pela janela o gato
sorrateiro que pulava de muro em muro, nem rir do casal que
namorava sob a sombra noturna das mangueiras e jambeiros.
Gostava do silêncio do escuro e da possibilidade de nada

83
Cor Adormecida

acontecer, gostava de saber que naquele momento as pessoas


daquela casa sonhavam. Apreciava pensar que o friozinho da noite
umedecia as folhas das árvores deixando-as mais cheirosas pela
manhã. Era estranho, entretanto, não ter papai conosco. No mais,
restaram livros velhos e escassos telefonemas que passaram a ser,
praticamente, a única forma de comunicação entre a casa e o pai
pródigo – telefonemas trocados sob a iniciativa constante dos
filhos. Por que teve que ser assim? (03 de fevereiro de 2009).
No início Sofie não entendeu, depois a ideia foi tomando
corpo até se tornar certeza com o passar dos anos. Na Grécia antiga
os deuses intervinham no amor: com uma única flecha Cupido era
capaz de mudar muitos destinos; Sofie, sem nenhuma intervenção
divina, percebeu que havia se apaixonado. Porém, aceitar esse tipo
de coisa nunca fora muito fácil para ela. Oriunda de uma família
tradicional da Argélia, Sofie nasceu quando seus pais já
planejavam a fuga do país de origem. Por anos a fio, terras e
propriedades foram violentamente tomadas por colonos franceses
que trouxeram corrupção, preconceito racial, miséria,
analfabetismo e doenças. Muitas famílias tentaram se proteger da
catástrofe com casamentos arranjados a fim de juntarem heranças:
mas não foi suficiente. A convivência social ficou cada vez mais
inviável. Alguns ricos, desafortunados, revolucionários, religiosos,
militares e toda a gente nacionalista ou sem opção, permaneceram
na Argélia; outros não suportaram e fugiram, exilando-se noutros
países.
A família de Sofie fugiu numa noite de quarta-feira do
ano de 1961. Estava frio e, como precisaram passar
desapercebidamente pela fronteira e arriscarem-se até um navio,
tiveram que deixar seu pequeno cachorro americano. Colheram o
que podiam – fotos, cartas, certidões, roupas, dinheiro -, deixaram
bastante comida e água para o animal de estimação e se
despediram silenciosos dos vizinhos, da casa e da vida até então
construída: fugitivos e estrangeiros restavam-lhes apenas
sobreviver.

84
Jo A-mi

Sofie havia terminado o processo de seleção para o


mestrado quando soube do meu acidente. Todo o processo tinha
sido bastante tenso. Cursar a pós-graduação era um sonho ainda
não repetido pelos membros de sua família – apesar da origem
abastada -, mas bastante desejado, principalmente por seu pai.
Desde muito jovem um homem apegado aos livros, destoando
completamente dos irmãos que sempre foram seduzidos pelo
cultivo da terra. Com a permissão de seu pai (que não entendia o
gosto particular do filho) terminou o ensino médio, comprou livros
importados da França e se preparou para cursar arquitetura no
exterior. Porém, em 1954, desencadeou-se o processo de
descolonização da Argélia contra a França. A guerra civil que
durou oficialmente quase uma década, torturou civis, censurou
meios de comunicação, destruiu propriedades, produziu milhares
de mortos e desaparecidos. Os avós de Sofie viram um dos filhos
mortos em combate pelo exército e outro praticamente aniquilado
com a destruição da propriedade por guerrilheiros e força nacional
governante. Restou ao filho mais novo a tarefa de salvar a família.
Obrigado a casar-se “pelo bem da família”, reuniu duas grandes
fortunas da Argélia e foi morar numa enorme propriedade rural de
domínio da família da esposa (a quem nunca tinha visto antes).
Casado e tendo que cuidar das terras, contou com a ajuda do irmão
e o prazer de conceber a pequena Sofie - deixando o sonho de
tornar-se arquiteto guardado nos livros empoeirados da estante.
Sofie foi a melhor coisa que acontecera ao imberbe casal –
não cansavam de repetir. Quando conseguiram se estabelecer
noutro país – depois de muitos anos de rejeição e preconceito,
maldade e frieza por parte da comunidade em que viviam -, e
foram relativamente aceitos, tentaram consumir ao máximo a nova
cultura: dialetos, comidas, roupas, cheiros, festividades, etiquetas.
Seu país já os havia rejeitado e sua cidade mal podia ser vista
direito no mapa. Por vários momentos houve esperança e
otimismo, pois conseguiam imaginar que num outro lugar, noutra
cultura, poderiam ser eles mesmos, sem interferências. No final das
contas, talvez tenham conseguido. Apesar de serem sempre “os

85
Cor Adormecida

argelinos” ou “os africanos”: não se arrependeram; além do mais, o


pai de Sofie conseguira realizar o grande sonho de formação
intelectual através da filha, que não só terminara uma graduação,
como concluíra mestrado, doutorado e ainda lecionava na
universidade. Apesar de não ser sua arquitetura, nem seu
conhecimento, o pai de Sofie se sentia feliz.
Assim, com quarenta e nove anos incompletos, Sofie
cuidava da carreira e do filhinho de oito anos: sozinha e vivendo
furtivos casos amorosos – como foi com o pai do pequeno
Auguste: psicólogo e PhD ministrava palestras pelo país e exterior,
sem guardar muito tempo para o filho e para ela. Sofie o conheceu
numa reunião de departamento. A atração foi quase imediata.
Como nunca houve cerimônias entre colegas acadêmicos para este
tipo de coisa, em pouco mais de uma semana estavam divertindo-
se loucamente: ora no apartamento dela, ora no dele. Viajaram,
sentiram saudades, escreveram cartas apaixonadas, mas, no fim,
não fosse a concepção não planejada de Auguste, ele mal lembraria
a existência do caso fortuito. Os pais de Sofie não aprovavam esse
tipo de relação, tampouco a mudança da filha solteira e sozinha
para um apartamento.
Algum tempo antes, quando ainda contava com seus 28
anos, soube do que havia me acontecido. Numa tarde quente e
repleta de mosquitos, Sofie se abanava na parada de ônibus do
campus da universidade. À sua frente, muitas pessoas inquietas e
impacientes com o calor e os insetos. Retirando do bolso uma
pequena garrafa térmica, bebeu os últimos goles de água trazida de
casa. Enquanto se distraia mexendo em qualquer coisa na mochila,
achou nas pontas dos olhos a imagem de um homem que vinha em
sua direção. Fechou o zíper da bolsa e olhou: era Id. Reconheceu,
apesar de tê-lo visto poucas vezes. Pôs-se numa posição frontal e
ereta que mais se parecia com um soldado dando continência.
- Você é Sofie, não é? – perguntou Id levantando os pesados óculos
de metal.
- Sim. E você é Dimitrius!? – respondeu amistosamente.
Cumprimentaram-se com apertos de mão. Dimitrius a
chamou para uma conversa, caso tivesse tempo. Naquele instante
sentiu um estranho frio na barriga, mas foi. Eles andaram juntos

86
Jo A-mi

por algumas quadras dentro do campus. Id explicou a Sofie o que


havia ocorrido comigo. Sofie teve vontade de chorar, mas se
conteve. Ele a convidou para me fazer uma visita no hospital e ela
o fez três dias depois.
Agora, vinte anos passados, Sofie estava nervosa e
apreensiva. Como um relógio que conta as horas e passeia sempre
pelos mesmos ponteiros, Sofie encontrara Id, resgatara o endereço
de sua casa para escrever um singelo cartão numa das floriculturas
perto de casa. Escolhera um grande ramalhete de margaridas – pois
sabia serem as minhas prediletas – remetendo-o ao endereço.
Estava nervosa. Ligou para a babá e pediu que ficasse à noite
cuidando do filho. Foi a um café, pediu chá e torradas: enquanto
comia, vieram-lhe as lembranças de nosso tempo. Quanta coisa
saltou-lhe à memória! Abrira o baú e não sabia se poderia fechá-lo
novamente.

Fiquei emocionada com as flores que havia recebido. Não


soube como Sofie pode entender de forma tão simples e completa
meu momento. À memória vieram-me as conversas, as
confidências, as noites discutindo filosofia, os namorados, o beijo.
O beijo... Num toque a sensação do calor atravessando as costelas,
o estômago, o sexo; depois o encaixe dos lábios a se moverem
voluntariamente, como se quisessem sugar alguma coisa que não
está à deriva, à mercê, mas que está dentro, no profundo, na
essência.
Mesmo assim nunca houve qualquer conversa sobre isso.
O beijo, sim, selou umas duas semanas de silêncio: sem nada
planejarmos, tentamos evitar a companhia uma da outra com
atividades extra-sala e lugares afastados. O coração ainda palpitava
forte cada vez que pensávamos no encontro. Houve medo de que
um corredor nos aproximasse e nos desse o inevitável desejo de
repetir a travessura. Mas não aconteceu. A semana de provas
chegou e eu já havia recebido o convite para casar-me. Daí a vida
continuou. E quando não pudemos mais evitar um reencontro,
Sofie apareceu com um antigo namorado. As sensações de

87
Cor Adormecida

suspense, medo e constrangimento cessaram. Chamei-a para


almoçar lá em casa e ela aceitou. Num passe de mágica tudo
pareceu voltar ao que era antes: retomamos a rotina, os hábitos, o
tempo, até o dia em que eu aceitei o pedido de casamento de
Dimitrius e contei para ela.
Agora estava ali diante daquelas lindas margaridas. O
telefone tocou algumas vezes, mas eu não quis atender porque
tinha certeza tratar-se da administração do hospital. Quando tive
oportunidade, depois de arrumar meticulosamente as flores sobre a
mesa do quintal, liguei para o número escrito às bordas do papel.
Depois do quarto sinal, uma criança atendeu:
- Alô? – bradou com uma voz alta e aguda. Meus ouvidos doeram.
- Olá, eu gostaria de falar com Sofie. – o telefone foi jogado sobre
alguma superfície dura pelo impacto que pude ouvir. Alguns
segundos e a resposta:
- Bom dia!
- Sofie, aqui é Cora. Sou eu, Cora! Recebi suas flores. – gaguejei
antes de terminar a frase.
- Meu Deus! Eu não acredito. É você mesmo?! Dimitrius me
contou há poucos dias. Desculpe não ter feito contato antes.
- Vamos nos ver? – pedi.
- Claro, claro que sim. Hoje?
- Se você puder me pegar.
E foi assim que eu consegui sair de casa. Passamos o final
da tarde e até algumas horas da noite a conversar: falamos da
síndrome, do filho de Sofie, da relação com Dimitrius, dos medos,
da felicidade e da grande saudade que sentimos uma da outra.
Estávamos felizes juntas.

Eu já tinha mais de trinta minutos naquele lugar. O doutor


Tomas estava atrasado, mas sequer houvera ligado para informar
qualquer imprevisto. Batendo os pés sobre o piso encerado e
escorregadio, eu observava o longo e solitário espaço do salão de
convivências da universidade. Vi juntar-se ao chão, porém, uma

88
Jo A-mi

sombra densa e gorda: era a silhueta do médico. Este se aproximou


de mim e disse:
- Vim aqui a pedido de Dimitrius. – arrebatou sem qualquer
cerimônia.
Levantando-me do banco, apontei com a mão esquerda um
lugar que, apertado, daria perfeitamente à acomodação de três
pessoas. Tomas se sentou. Havia em seu semblante um amargor
duro de carregar.
- Agradeço doutor. Não sei se Dimitrius entrou em detalhes... –
falei introduzindo o assunto delicadamente.
- Sim. Mas eu não sei como posso ajudá-la. Não há o que dizer. A
sua doença é como a multiplicação do câncer – se dá de uma forma
irracional e desumana. Talvez a sua seja um pouco melhor, afinal,
só atinge mulheres, pelo que eu saiba – as palavras do médico
fixaram-se nas minhas entranhas: queimando-me. Tive vontade de
dizer-lhe poucas e boas, mas me contive, afinal, era um dos poucos
que ainda podiam ajudar-me, mesmo sem vontade. Desanuviando
qualquer tensão, perguntei:
- E o que o senhor soube sobre essa síndrome?
- Pouco. À época nós não tínhamos um sistema de comunicação
tão sofisticado como dos dias atuais. Quando seu caso chegou às
minhas mãos eu fiquei motivado: eu gostava dos desafios. Liguei
para um colega que terminava a pós-graduação no exterior e este
me deu o número de um professor que gostava de colecionar casos
não resolvidos pela medicina: famoso por escrever artigos e
instituir projetos que tratassem de casos intrigantes para a
medicina, como o Alzheimer. Também escreveu um artigo sobre a
síndrome da bela adormecida. – Interrompendo-o, adiantei:
- O artigo que está na biblioteca.
- Sim.
- Mas ele apenas relata o total desconhecimento da medicina. Não
aponta outras fontes de pesquisa ou nos dá uma solução, a não ser
aceitar como mistério. Acho que é até a palavra que ele usa. –
completei.
- Sim. Você leu o artigo! Mas não existe a palavra mistério no
cardápio científico. “Mistério” é um argumento ruim. É isso! – E
foi levantando-se do banco. Eu também me levantei. Parado à

89
Cor Adormecida

minha frente vi um senhor amargo, com aspecto doente, triste e


sem vida afastar-se. Ainda tive coragem de perguntar numa voz
que acabou ecoando na enorme e solitária sala de convivência:
- Posso procurá-lo novamente? – Sem olhar para trás e movendo-se
o mais rápido que pode, respondeu incisivamente:
- Não perca seu tempo! – e saiu.
Neste dia, ao voltar para casa, escrevi em meu diário:
Hoje encontrei doutor Tomas. Minhas esperanças foram diluídas.
Sinto-me profundamente triste e infeliz. Certamente, hoje não é um
bom dia para viver. Estava cheia de expectativas, mas a única
coisa que obtive foi um nada cheio de amargor. Por que ninguém
se interessa pelo que passei? Por que sequer se preocupam em
perguntar como estou? É tão insignificante assim? Às vezes penso
que morrer teria sido a melhor solução: não precisaríamos, afinal,
ficar entediadas achando que alguém em algum lugar se
importasse conosco. O tempo que não vivi jamais será retomado.
Tantas coisas poderiam ter acontecido: eu poderia ser professora,
escritora, fotógrafa, ter-me apaixonado novamente; ou mesmo
aumentar a floricultura e cultivar minhas flores num lindo sítio
cujos campos de girassóis e margaridas desenhassem um lindo
tapete amarelo-embranquecido... (07 de dezembro de 2008).

Dimitrius procurou-me para falar sobre Gregor, seu filho.


Desde a briga que tivemos, houve um profundo silêncio na casa:
ele se sentindo culpado, eu numa sensação que desconhecia.
Éramos dois estranhos que, dividindo a casa, falavam-se
telegraficamente por bilhetes: “chegarei tarde, Reunião às
18:00hs”, “aula extra, informática. Depois sairei com colegas.”
Uma manhã, porém, Id guardou o pequeno bloco de papéis
rabiscados e me procurou.
- Podemos conversar? – pediu em tom baixo e delicado. Eu
respondi positivamente enquanto fazia um suco de morangos.
Apontando para a travessa cheia da fruta vermelha, pedi mais –
pois sabia que ele gostava. Terminando o preparo, dirigimo-nos ao
quintal. Sentamos diante de uma manhã florida pelas luzes do

90
Jo A-mi

verão que se apresentava. As folhas verde-escuras que caíam sobre


o muro davam ao musgo-cor um tom mais fechado. Borboletas
brincavam sobre as petúnias e o orvalho-amante das plantas fazia
toda a vegetação soltar um cheiro suave e fresco.
- Desculpe-me, Cora. Não foi desrespeito, como você me acusou.
- Você prestou atenção mesmo! – respondi ironicamente.
- Cora, conhecemo-nos como poucos! Quando a gente se viu
naquele dia, no campus, e você passou, estava linda! Jamais
esqueci. Nosso casamento, nossas brigas e nossos acertos. Esses
vinte anos... Não sou o melhor homem do mundo e nem você é a
melhor mulher do mundo. Mas nós temos uma coisa que poucos
têm: nós nos aceitamos. Nem sempre a gente fala, nem sempre
demonstra, mas eu sei disso.
- Eu também. – falei olhando sinceramente em seus olhos.
- Depois que lhe acometeu a síndrome eu fiquei perdido. Você
nunca quis ter filhos. Eu sempre quis ser pai: continuar a geração.
Tenho um sentimento de entrega, quero passar ensinamentos a
alguém especial, ter trabalho com essa pessoa, sentir o calor de seu
abraço pelo resto da vida. Eu não sei por que, afinal, como você
mesma já apontou, sou tão frio em tantas coisas, mas a paternidade
me comove. – envergonhado pela modesta lágrima a escorrer-lhe
no rosto.
- Eu sei. Mas você poderia ter se separado e constituído filhos com
outra mulher, poderia ser avô se quisesse agora. Porém, foi
vivendo casos e mais casos amorosos... e sempre voltava. Eu
sempre quis seu retorno, mesmo quando te detestava. Não acho que
isso seja amor.
- E você acha que existe amor, mesmo? – exclamou com ar de
surpresa.
- Claro! – Ele riu e continuou:
- Estou brincando. – Puxando-me levemente o queixo, falou mais
sobre Gregor e a felicidade de tê-lo no curso de física, “seguindo a
carreira do pai”; confesso que ouvi com indiferença.

91
Cor Adormecida

Eu havia adquirido um computador e agora dividia meu


tempo entre os escritos e a fotografia. Uma vez, conversando com
Sofie, compreendi que a fotografia chegara à minha vida para
guardar impressões, momentos, imagens, fantasias: a memória
havia se tornado insuficiente.
Os preparativos para as festas de final de ano chegavam e,
enquanto todos falavam de união e festas familiares, eu tinha um
profundo desejo de aproveitar esse tempo de outra forma.
Eu e Dimitrius estávamos distantes. Apesar de sentir uma
dor incômoda e intermitente com essa situação, estava me
permitindo vivenciá-la. Não tinha vontade de brigar, bater, discutir.
Desde que soube do filho, havia caído em meu coração uma
enorme sensação de desapego ao pai. Sentia nos passos curtos do
tempo, a presença real da distância: não me importava em vê-lo
sair para resolver os assuntos paternos, nem mesmo para “conduzir
assuntos familiares” – como gostava de resumir: o que significava
encontrar-se com a “ex-amante”. Não sabia explicar, mas entendia
que algo estava se desfazendo.
Por outro lado, estava alegre porque minha amizade com
Sofie fora retomada; apenas algumas diferenças: agora éramos
mulheres experientes e o beijo havia voltado às nossas memórias
despertando linhas indivisíveis. O tempo parecia segurar um barril
cheio de ansiedade e desejo, pronto para ser bebido: e foi o que
aconteceu nas festas do final de ano. Passamos o grande feriado
juntos – eu, Sofie e o filho. A fronteira entre sedução e saudade se
tornava cada vez mais tênue. Uma casa de praia, tevê, vídeos,
livros, roupas: tudo havia sido planejado, sem planejamento. Cada
uma, ao seu modo, pensara nos dias vindouros e suas
possibilidades. Em tudo havia notas dos preparativos: festas,
vinhos, viagem, praia. Estávamos a sós e curiosas com o que
poderia acontecer.
A última noite do ano despontou e sentia inveja de nós.
Cada uma, no próprio quarto, resolvera preparar-se para uma
espécie de celebração acordada silenciosamente. Sofie já havia
conduzido o sono do filho, vigiado pela babá. Na sala, sentada de

92
Jo A-mi

pernas cruzadas, vestido lilás com encantos furtivos de dourado


entre o busto e a gola, eu esperava ansiosa. Ouvi um movimento no
corredor da casa: Sofie dava ordens à baba e entrava novamente no
quarto. Meu coração estava acelerado. Resolvi ir à varanda e ver o
mar. As ondas batiam fortes e despejavam espumas brancas às
margens da praia. Um pescador contemplava o escuro que, pouco a
pouco, fora tomado por uma enorme bolacha alaranjada: a lua
crescia sobre o horizonte. Fui tocada no ombro. As mãos quentes e
firmes de Sofie fizeram correr um denso frio no meu estômago.
Virei-me e toquei seu rosto. Nada dissemos. Pegamos o carro e nos
dirigimos a um pequeno restaurante próximo ao complexo de casas
daquele povoado. À luz de lamparinas, som suave, brisa tranquila,
objetos rústicos e quase ninguém para compartilhar a singularidade
do estabelecimento, eu e Sofie brindamos o encontro com um forte
vinho tinto. Uma entrada com torradas e berinjelas ao azeite; prato
principal de peixe rodeado por legumes e purê de alcaparras com
laranja. Sem sobremesa e mais vinho, a lua já se tornara uma
grande luz branca no alto do céu, sumindo e reaparecendo entre
nuvens formadas. Os nossos corpos já não se importavam mais de
paquerarem na frente dos poucos presentes. Entrelaçávamos as
mãos, tocando-nos na ponta dos joelhos. Com sutilidades
involuntárias, falávamos com os olhos, com o suor, com os cheiros,
com o ar.
Pagamos a conta e resolvemos andar pela praia. A lua
aparecia parcialmente, neste instante, como se estivesse
envergonhada ou pronta a dar toda a privacidade que aquele
momento merecia. Sofie e eu andamos alguns metros. O desejo nos
consumia. Sofie pegou na minha mão. Andamos ainda mais alguns
metros assim. Eu tomei a iniciativa e disse:
- Eu nunca me esqueci daquele beijo.
- Nem eu. – respondeu imediatamente.
- E por que nunca falamos dele? – perguntei um pouco nervosa.
- Há tantas coisas que nunca falamos. – falou peremptoriamente. E
depois de um silêncio curto e cortante, disse:
- Eu me apaixonei.
Puxei Sofie para junto do meu corpo. Os seios se tocaram e
produziram um leve arrepio em nossos corpos. Ela aproximou-se

93
Cor Adormecida

dos meus lábios e tocou-os com o nariz – queria sentir o cheiro, a


textura reproduzida em seu aroma. Eu correspondi e beijei a ponta
do nariz, os sulcos do buço e a boca. Aproximei-me suavemente e
consumi seus lábios. Curiosa, a lua saiu das nuvens e viu por
alguns segundos um denso e carinhoso beijo. Os seios se afastaram
e nossas bocas se fecharam. Sem compreender, a lua quis saber um
pouco mais e já descia do alto do céu e aproximava-se do mar a
fim de ouvir os ecos da conversa que logo depois sucedeu. O
encantamento de outrora, o desejo do tempo passado e do tempo
presente, as palavras de sedução e os preparativos do encontro
ficaram estranhos. Corroídas pelo beijo que jamais se repetiu, eu e
Sofie fantasiamos a presença do desejo. Mas o tempo parecia ter-
nos pregado uma peça. Os lábios haviam corroídos e não resistiram
à espera.
Ainda andamos juntas de mãos dadas por alguns metros,
até resolvermos tomar banho na água morna e espumosa do mar.
Cansada, a lua resolvera dormir – pois já era tarde e não conseguia
compreender. O céu ficou escuro.
Molhadas e correndo do frio, eu e Sofie seguimos até o
carro e chegamos à casa de praia. Conversamos bastante durante
todo o feriado. Diferentemente de outras tantas ocasiões, decidimos
falar cada detalhe do que havíamos sentido, dos tempos remotos à
noite anterior. Não chegamos a qualquer conclusão.

O mês de fevereiro despontou e com ele o girassol já havia


formado mais duas gerações. O sol protegeu o verão iluminando e
tragando seus longos dias. Eu, disposta a realizar um antigo sonho,
resolvi viajar para brincar o carnaval ao modo dos antigos. Eu
estava impressionada com toda a cidade preparando-se para pular o
carnaval. Era uma quarta-feira e dali a dois dias nasceria outro
tempo para mim. As ruas estavam repletas de cartazes, ensaios,
gente a se bater entre pequenas bancas de vendedores ambulantes
dispersos nos quadrantes irregulares e coloridos pelas fantasias.
Dos mais clássicos – branca de neve, Hulk, Batman, Homem-
Aranha, palhaços, diabinhos etc. – aos contemporâneos – políticos

94
Jo A-mi

em voga, atrizes, cantores, personagens da tevê: havia fantasias e


máscaras para todas as pessoas.
O som ensurdecedor do frevo ensaiava os ouvidos das
pequenas crianças que dançavam nos palcos montados ao ar livre.
Lojistas saíam dos comércios para prestigiar uma bandinha que por
ali passava. Carroças e animais, carros e colunas, estabelecimentos
financeiros e casas de festas, muros e fachadas de prédios
suspendiam o tempo num passo inevitável: colorir e dançar de
vermelho, amarelo, azul, verde, prateado e alaranjado as ruas, os
corpos e os pensamentos. Entre-séculos, ri e pulei como há muito
não fazia. Senti-me livre. A vida enchia o peito e soprava em suas
têmporas. Eu estava repleta de pequenos e grandes horizontes.
Todas as janelas se abriam e o tempo suspenso enforcava
diferenças sociais, raças, religiões. Pobres e ricos dançavam
misturando credos e cores. Empoeirada por serpentina, abracei uma
senhora que dançava com as duas filhas, fazendo crescer uma
grande corda entrelaçada por braços e abraços: muitas tristezas
foram sufocadas ali. O palco principal bateu seus tambores – como
nas antigas tribos – anunciando a chegada dos percussionistas:
berimbaus, alfaias, pandeiros e xequerés abrasaram os sentidos.
Era quase uma hora da manhã quando me despedi do pré-carnaval.
Sentada na varanda do hotel e ouvindo ainda o ressoar do batuque
de latas, refleti: “por que demorei tanto para fazer isso?”
No hotel o tempo voltou a ser ordinário e dormiu com o
restante da madrugada. Manhã e tarde caíram lentas e cheias de
brisa. O cheiro de terra molhada ascendeu e penetrou o dia seguinte
inteiro. Era noite novamente e eu vesti um short amarelo-manga
enfeitado com lantejoulas que havia comprado no comércio
próximo dali. Sem tempo para preocupações ou tristezas, desci as
escadas como uma pessoa feliz.
A abertura do carnaval chegou numa noite quente e
alegre. A luxúria, o vigor, a alegria e a brincadeira compunham um
grande quadro desdenhoso da vida. Provavelmente mamãe só
chegará no domingo de carnaval – pois resolvi convidá-la para
brincar; também quero aproveitar esse tempo para conversar um
pouco: há muitas coisas para serem ditas, os anos ainda deitam

95
Cor Adormecida

rumores de mágoas e desentendimentos; e carnaval é tempo para


expurgar o mau humor da vida!

96
Jo A-mi

CAPÍTULO 4 – Era uma vez...


2

o tempo. Tempo. Tempo. Ideias e palavras confusas. Estou


sentada agora diante do meu jardim. Já consegui melhorar um
pouco do caos. Há poucos dias eu estava no hospital e pareceram
vinte anos. Eu vi os rostos enrugados, senti os cheiros, encontrei as
pessoas distantes. Fantasmas arrependidos voltaram à vida, assim
como aqueles ainda nem nascidos. A nossa mente é uma
impossibilidade. Somos todos irracionais brincando que temos
razão. Hoje cedo li parte de um poema hindu que dizia mais ou
menos assim: “procuramos o Caminho e, sem o conhecer, nós o
seguimos com as mãos abertas, com as mãos abertas...” É como me
sinto: sem conseguir deter minha própria história, estou aberta.
Não foram vinte anos fora, mas foram vinte anos dentro de mim.

Desde o primeiro filme eu e Dimitrius nos assistimos e


não nos separamos. O tempo nos fez descobrir muitas coisas um do
outro: eu com a “Casa das Flores” que vovó me deixou e a
universidade; ele com as aulas e a morte recente do pai. Casamo-
nos um ano depois de nos termos visto pela primeira vez. Vovó e
mamãe não gostaram muito de saber do meu namorado professor e
quinze anos mais velho. Meu irmão não opinou e minha irmã
ajudou-me no enxoval e festa de casamento. Papai não respondeu
aos telefonemas: mandei o convite por correio. Como todo casal,
eu e Dimitrius temos algumas arestas quase irreparáveis; somamos
certas diferenças profissionais: ele sempre desejou a carreira
acadêmica; e eu desejo plantar, cultivar e vender flores.
Concentramos diferenças domésticas: ele não se importa
com nossa casa, ponto. Não se interessa pelos cupins ou baratas a
atravessarem o teto, as gavetas, os armários. Prescinde de
quaisquer cuidados com o jardim, muro, portão. No inverno
passado deixou que parassem com a construção do primeiro andar
da casa e, até então, não quis retomar a rotina de pedreiros,

97
Cor Adormecida

carpinteiros e eletricistas. Sua atividade preferida em casa é assistir


bastante tevê; eu me dedico a conservar tudo o que construímos
juntos durante esses quatro anos de casamento, cuido da
alimentação comum e da ornamentação da casa e jardim. Adoro
escutar meus discos e escrever os diários. Quero mudar as cores
das portas e dar um novo ar à frente da casa. Passei dia desses pela
venda do Sr. James e ele até brincou com o descascado do portão:
“por que não pega tinta e um novo portão”; eu balancei a cabeça
positivamente.
Entramos em conflitos constantes quando o assunto é
família: ele quer ser pai, não simpatiza com minha família e ainda
não aceitou a morte do próprio pai – um homem rude e frio; eu
nunca quis ser mãe e já consegui aceitar a distância de papai.

Como eu tive capacidade de sobrepor o tempo dessa


forma? Não sei. Tudo era muito real e eu mal pude conceber
acordar e não me ver entre as serpentinas. Dimitrius descreveu os
momentos anteriores:
- Doutor Tomas, ela está bem? – perguntou logo que me viu
deitada sobre a cama no quarto do hospital.
- Sim. Chegou um pouco inquieta, mas agora só dorme. O senhor
pode esperar lá fora? – disse incomplacente.
Id voltou ao corredor. Depois de um tempo, foi chamado à
porta pelo médico que o convidou a entrar.
- Está tudo bem? – perguntou com certo alvoroço.
- Sim, sim. Logo que chegou tomamos os cuidados necessários.
Verifiquei pressão, pulsação. Foi só um desmaio. A enfermeira já
vem retirar o equipamento. Agora, é necessário cuidar dessa
anemia ou prejudicará o bebê.
Dimitrius controlou suas emoções, pois não queria
demonstrar ao médico que não sabia da gravidez. Tentou disfarçar:
- O senhor soube da tragédia, já foram mais de 200 corpos
achados? Fiquei comovido mesmo foi com as meninas da
república.

98
Jo A-mi

- Que meninas? Não estou sabendo. – disse, recolocando o


estetoscópio em volta do pescoço.
- Não sabe ainda? Hoje pela manhã uma universidade dos Estados
Unidos foi atingida por um tornado que levou tetos, árvores,
fiação: tudo, tudo. Os estudantes comemoravam a primavera e
divertiam-se no pátio próximo à república. Como ouviram o sinal
de alerta, correram para o abrigo, mas, infelizmente, seis moças
foram imediatamente soterradas. Dormiam no momento.
- Que tragédia! – falou a certa distância, já mexendo nas gavetas
repletas de prontuários e receituários.
- Parece que eram uma europeia, duas africanas, uma norte e outra
sul-americana, uma asiática. – mas o médico não se incomodou.
Terminou de escrever no prontuário, despediu-se e saiu do quarto.
Dimitrius passou a mão nos cabelos e olhou-me por alguns
segundos. Depois, sentou-se em meu leito e, segurando minha
mão, beijou delicadamente meus lábios. Eu acordei.
- Querida, - disse acariciando-me a testa com a outra mão – você
não sabe como estou feliz. Gregor, Gregor será o nome dele – falou
sussurrando no meu ouvido embrenhado por cabelos soltos. E
continuou: Gregor, como meu pai. Gregor! – e abraçou-me com
força. Não compreendi onde estava, nem por que tinha os braços,
barriga e peito repletos de fios. Id sorriu. O doutor Tomas
reapareceu minutos depois e deu-me alta médica. Porém, fiquei a
observá-lo: não se arrastava mais com a bengala, nem tinha o rosto
manchado pelos anos passados. Dimitrius ainda tinha sua cabeleira
e não passava da casa dos quarenta. O que estava acontecendo?
Pegamos um táxi e fomos para casa. O caminho foi feito
em quase completo silêncio. Id ainda tentou brincar com minha
barriga imitando um carinho com voz de criança: a tentativa foi vã.
Olhei pela janela e tudo o que via era estranho: ruas, transeuntes,
restaurantes, bancos, casas, prédios, comércios, igrejas. O taxista
andava lento pela grande avenida e quase atropelou um passante
que correu antes do semáforo apontar a luz vermelha. Chegando a
casa, ainda desnorteada e sem saber direito o que estava
acontecendo, abri a porta do carro e procurei o molho de chaves
dentro da bolsa. Não o tinha. Por quê? Olhei para Dimitrius e
perguntei:

99
Cor Adormecida

- Onde estão minhas chaves? Costumo guardá-las dentro da bolsa.


– perguntei com uma sensação de tontura que descia à garganta.
- Ah! As tenho aqui. Quando caiu deixou que caíssem na rua, mas
seu Nicolau me ligou e fez questão de devolver pessoalmente.
Acho que aquele velho se interessa por você, pois chegou
rapidinho no hospital. – e disse como se nada tivesse acontecido.
Puxou as chaves do bolso direito e entregou-me. Eu fiquei
boquiaberta. A confusão em minha mente atropelava os
pensamentos. Id segurou minha cintura, ajudando-me a entrar em
casa. O portão descascado e caído ainda batia à altura de nossos
joelhos. O muro baixo permitia que todos vissem o jardim
descuidado: grama seca, flores sem pétalas, girassol já desistindo
de olhar para o céu. Sem conter-me, questionei:
- O que aconteceu com o muro? E o jardim? – minha mão tremia
parecendo querer fugir do corpo.
- Você não tem cuidado muito bem dele... Não entendo por que me
pergunta, mal piso na sua grama. E vamos, vamos, só consigo me
preocupar com sua saúde... e, agora, do nosso filho: o Gregor. –
disse beijando-me o cantinho da boca.
- E o muro? – insisti.
- Ah! Isso foi da chuva torrencial de hoje... em plena primavera! Só
alguns minutos e deu nisso. Acho que atingiu a estrutura. Talvez
tenhamos que fazer alguma reforma aí. – respondeu sem entender a
importância das palavras.
- Gregor? Que filho é esse? De quem é esse filho? – perguntei ao
mesmo tempo em que me desvencilhava de seus braços. Saí em
direção ao quarto. Impressionantemente a cama estava lá, o
colchão, os lençóis. O armário estava intacto e a tinta branca
recém-aplicada ao móvel ainda cheirava viva. Abri uma porta e
depois outra: as toalhas estavam organizadas e limpas. Não havia
mofo. Lembrei-me do sapateiro. Segui até o canto do quarto e o
pequeno objeto quadrado mostrava todos os seus moradores limpos
e disponíveis ao uso: inclusive minha sandália de couro e borracha.
Sentei-me na cama e puxei as sandálias para próximo de meus pés.
Retirei os sapatos que usava, pisei no chão frio e calcei as
sandálias. Estavam frias e macias. Levantei a cabeça e Id
permaneceu à porta, calado e de braços cruzados, sem entender o

100
Jo A-mi

que me acontecia. Olhei-o de onde estava e depois me aproximei


até chegar a um palmo de seu rosto. Então, perguntei:
- Quanto tempo eu fiquei naquele hospital? – Id olhou no grande
relógio prateado e falou:
- Talvez umas três horas. Por quê? – fiquei surpresa e cheia de
espanto. Ordenei:
- Querido, faça um chá com torradas e me espere na sala: há muito
que dizer. – Ele obedeceu como um cãozinho curioso. Os óculos
escorregando do nariz suado, os cabelos precisando de uma escova
e a calça social ratificavam a veracidade de sua imagem à minha
frente.

Cheguei ao hospital quando a primavera anunciava o


nascimento da vida. Era 25 de setembro de 1988 e eu voltava da
floricultura com minha monografia na mão e flores noutra. Senti
que o tempo me suspendia, fazendo com que tudo ao redor ficasse
diferente. Soube por Dimitrius que foi seu Nicolau o primeiro a
cuidar de tudo: telefonemas, ambulância, chaves. Quando a
ambulância chegou e os paramédicos pediram um contato e o local
onde poderiam me levar, houve discussão entre aqueles que
acompanhavam tudo. O hospital municipal ficava próximo dali, há
algumas quadras que poderiam ser atravessadas a pé, mas seu
Nicolau insistiu para que eu fosse levada ao hospital universitário,
visto ser Id professor dessa instituição.
Seu Nicolau nos conhece desde o tempo em que vovó
cuidava da floricultura. Mesmo mudando a loja de lugar, já a
algumas quadras distantes do antigo endereço, vovó fazia questão
de acompanhar as entregas, atender alguns clientes, ornamentar
alguns buquês. Foi assim que muitas vezes voltamos juntas para
minha casa e eu pude mostrar a beleza de minhas bromélias e a
visita dos beija-flores na sacada da janela. As visitas fizeram com
que a apresentasse ao seu Nicolau e ambos ficassem amigos em
pouco tempo. Depois de um ou dois anos assim, as visitas de vovó
foram se tornando raras: acometida por artrose crônica nas pernas,
mal conseguia cuidar do próprio jardim. Mamãe insiste há anos

101
Cor Adormecida

para que ela passe a morar consigo, mas a resposta é sempre


negativa. Admiro-a por isso, também. Com o tempo, a amizade
entre vovó e seu Nicolau foi parcialmente transferida para mim:
sempre puxando assunto, comprando flores ou oferecendo
verduras, ele tornou-se parte do meu cotidiano. A esposa, dona
Susan, eu vira umas duas ou três vezes. Tinham apenas uma filha,
Anita, uma menininha doce e atenciosa. Jamais esqueci o dia em
que voltava para casa e a vi juntar pequenas pedras próximas ao
meio-fio. O sol alaranjado destacava a cor amarela do vestidinho.
Seu Nicolau não prestava atenção na garota, pois atendia à dona
Eleonor que enchia uma cesta de palha com mangas e bananas.
Anita punha as pedras sobre a calçada e fazia uma espécie de
triagem. Uma pedra torta ou outra suja de areia que não desgrudava
poderiam ser motivos suficientes para a reprovação. Depois de
muito julgar, a pequena guardava três ou quatro pedrinhas no bolso
e voltava para a caixinha de bonecas. Atravessei a rua, sentei-me
no banquinho que fica do lado de fora da quitanda e perguntei:
- Por que você junta pedrinhas? – sorrindo e acariciando seus
lindos cabelos castanhos.
- É pra caixinha. – disse apontando um mundinho mágico à frente.
Dentro de uma caixa de madeira – medindo cerca de um metro
quadrado – havia uma pequeno-grande cidade com jardim, casas,
bonecas minúsculas, piscina, árvores e até uma igreja. Algumas
pedrinhas acompanhavam um pequeno corredor repleto de árvores
iguais e enfileiradas; outras começavam a revestir um espaço quase
redondo próximo a uma das casas: “a piscina da minha casa”,
disse, explicando-me pouco a pouco cada objeto ali disposto. As
partes laterais da caixa, feitas muros, foram pichadas por desenhos
incompreensíveis realizados com lápis de cor e cera. Curiosa,
perguntei sobre os desenhos e ela me explicou que eram dragão,
cachorro, borboleta, casa, árvore: todos feitos com bastante cor e
mistura de traços e círculos. Um desenho, no entanto, chamou-me
atenção. Apontei para ele e indaguei:
- E este desenho, por que não tem cores como os outros? –
segurando em sua mãozinha cheia de anéis.
- Porque eles são todos dessa cor. – mostrando-me um pequeno
pote com metade de tinta guache branca.

102
Jo A-mi

Pombos brancos comiam restos de milho jogados em frente


à quitanda. Um carro apressado assustou a todos, fazendo
ascenderem numa grande revoada.

Tomando chá com torradas, contei a Id, em linhas gerais, o


que havia me acontecido nas últimas horas. Em detalhes falei
apenas de minha chegada a casa e da visita de minha família. Ele
riu fartamente e fez um de seus típicos comentários:
- As mulheres adoram magias, historinhas desenhadas num céu
azul – dando bastantes gargalhadas. – mas seu devaneio foi
premonitório, sua família está para chegar!
Mudando de assunto, perguntou:
- E desde quando sabe da gravidez? – ainda frágil e desordenada
com as últimas horas ou com os vinte anos passados, falei
rapidamente que estava me preparando para lhe contar tudo,
quando minha família chegou.
Recebi a visita de mamãe e meus irmãos. Vovó chegaria
logo: teimosa como é, preferiu vir sozinha de táxi. Abraçamo-nos
como se houvesse anos separados. Minha irmã deu um gritinho,
beijou-me e perguntou como estava – apontando para a barriga;
minha mãe, cheia de olheiras pelo trabalho e preocupação com o
que havia acontecido, pediu desculpas por não ter passado no
hospital; e meu irmão me puxou fazendo com que nossas barrigas
se encontrassem, “desculpe irmãzinha!”, disse beijando minha
barriga. Dimitrius olhava tudo da porta. A mesa estava ocupada
pela bandeja com xícaras, açúcar e farelos de torradas. Id passou
por nós, pegou a bandeja e com extrema seriedade, falou: “vou
fazer mais chá”. Saiu e ninguém lhe deu atenção.
Ficamos muitos minutos nos acariciando e brincando com
minha gravidez. Id atrapalhou-se e derrubou talheres na cozinha –
mas talvez só eu tenha notado! Ele chegou instantes depois,
ofereceu chá e torradas para todos e perguntou:
- Por que fui o último a saber de Gregor? – havia chateação em sua
voz. Mamãe tomou à frente e perguntou:

103
Cor Adormecida

- O que é isso de Gregor? – havia irritação em sua voz. Eu


aproveitei para dizer:
- Gregor era o nome do pai de Id. Ele quer dá-lo à criança. – havia
indignação em minha voz. Minha irmã puxou-me de lado e falou
baixinho:
- Não era Auguste para menino e Alice para menina? – havia
surpresa na voz de minha irmã. E meu irmão desfechou:
- Por que os homens são sempre os últimos a saberem? – com
cumplicidade em sua voz.
Id voltou-se para o quarto de hóspedes. Alguém chamou do
lado de fora da casa: era dona Susan junto da pequena Anita.
Instantes depois elas estavam na sala conosco. Cumprimentamo-
nos todos e Id trouxe as cadeiras do quintal para acomodar as
recém-chegadas. Susan carregava uma pequena sacola surrada. De
dentro puxou as folhas datilografadas: era minha monografia.
Fiquei feliz. Abracei-a. Ela disse:
- Puxa, nunca vi ninguém ficar tão feliz por receber papéis
amassados. – e olhando-me dentro dos olhos, prosseguiu –
desculpe se perdi alguma coisa ou não pude cuidar como deveria.
Os danados quase saem voando com os pombos. Aqui estão. –
entregando-me. Chorei. Todos na sala ficaram entre comovidos e
preocupados. Meu irmão falou:
- O que são essas páginas irmã? – enxuguei o rosto e respondi.
- São páginas da minha monografia. – e todos sorriram.
– São importantes para mim. – justifiquei, pondo os papéis seguros
sobre meu colo.
Anita falou alguma coisa no ouvido da mãe e Susan
perguntou se haveria problema de deixá-la brincando no jardim.
Dissemos que não. A pequena correu, mas antes de chegar às
plantas, às pedras, à grama, caiu sobre a pedra retangular de
cimento que levava ao portão. Todos saímos em direção ao jardim.
Susan abaixou-se e abraçou a menininha desconsolada em seus
braços. O joelhinho começava a espirrar um fino fio de sangue.
Dimitrius correu do quarto, olhou o que estava acontecendo pelas
frestas da porta da sala, foi ao banheiro e pegou na caixa de
remédios um antisséptico, gaze e esparadrapo. Anita chorou,
principalmente depois que o líquido transparente se misturou ao

104
Jo A-mi

sangue que lhe escorria até as pernas. Depois da limpeza e


curativo, Susan pediu desculpas pelo incômodo, disse que estava
ali para saber notícias minhas também, mas que diante dos
acontecimentos precisaria voltar logo para casa. Agradeci a
gentileza, mandando lembranças especiais ao seu Nicolau: pedi
que voltasse outras vezes. Susan saiu com Anita no colo.
Voltamos para a sala e Id para o quarto. Instantes depois
saiu com uma caixa de papelão fechada por fita adesiva. A caixa
estava bastante empoeirada. Eu sabia do que se tratava e tomei a
iniciativa de abri-la. Ao puxar a fita, uma chuva de poeira tomou
conta da pequena roda de pessoas na sala. Id voltou militarmente
para a porta. Havia diários antigos, uma fita k7 com minhas
músicas preferidas, uma caixinha de música que não tocava mais -
que pertencera à minha irmã - e um carrinho de madeira que papai
havia comprado para meu irmão. Sorri. Depois me voltei para Id e
perguntei por que havia resgatado todas aquelas coisas. Ele disse:
- Porque é sobre isso que falávamos. Essas coisas antigas são
lembranças de vocês. – minha mãe voltou-se para o lado e olhou-o
com carinho. Ele continuou – é preciso existir para colher essas
memórias. Vocês estão aí, veem? O carrinho, a caixa, os diários e a
fita são parte da história de vocês.
- Eu adoro esta caixinha e não lembrava mais que existia. – disse
minha irmã, tomando-a para si.
Mamãe abriu a bolsa que estava sobre o colo, pegou um
fino envelope branco já deslacrado e disse:
- Aqui está algo importante. Ontem eu e seu pai nos encontramos e
conversamos um pouco. Não entendi quando ele me ligou e pediu
para nos vermos. Eu fui à sua casa. Ele vive sob uma penumbra
seca e hostil de uma mansão. As janelas presas às cortinas não se
abrem. A garagem guarda um carro antigo que não reconheço. Nos
vãos dos corredores há livros espalhados desordenadamente e dois
ou três cães passeiam pela casa livremente. Fomos a uma espécie
de escritório – a casa é enorme! De forma bastante burocrática ele
pediu que eu me sentasse à sua frente, e, abrindo a gaveta do birô,
entregou-me o envelope. Não sei por que, mas intui que poderia ser
o que é: a escritura da casa. Disse orgulhoso que não precisava
mais da nossa casa, pois havia ganhado na loteria.

105
Cor Adormecida

Peguei a fita k7 e a pus para cantar. Como numa orquestra,


éramos o público de Billie Holiday.
Depois de um bom tempo da tarde em minha casa, e
quando o sol alaranjado entrava pela sala de estar e Id já servia a
todos um suco de morangos frescos, vovó chegou. Nós a
acomodamos na poltrona de Dimitrius, pois parecia bastante
cansada. Sentada ao meu lado e olhando-me profundamente na
alma, disse:
- Pra quando é a menina? – tocando na barriga.
- Não sei vovó. – Uma lágrima escorreu-me pelo rosto. Eu ainda
não tinha contado nada a ninguém, mas havia feito um ultrassom
há dois dias e os médicos me confirmaram ser menina. Também
mal pude falar para Id, apesar de tentar uma ou duas vezes durante
a nossa conversa de horas atrás. Ele me olhou indignado e para não
ser indelicado com a família que ele já não gostava, calçou os
chinelos e saiu para andar um pouco. O clima tornou-se tenso e
todos na sala ficaram silenciosos. Quando o portão bateu forte na
tranca e não fechou, falei:
- Bem, como já perceberam, eu nada tinha contado a ele. – vovó
quis interromper-me e pedir desculpas, mas não deixei.
– Não se preocupe vovó, foi até bom. Uma vez você me falou que
são os semelhantes que ficam juntos, lembra-se? – e ela balançou
positivamente a cabeça. Continuei – Acho que é isso. A gravidez
veio sem planejamento. Acho que se Id pudesse engravidar ele o
faria em meu lugar. Eu mesma não sei o que fazer!
- Você está querendo dizer que vai tirar? Não permito, isto é
pecado! – interrompeu mamãe. Rebati:
- Não mamãe, não vou tirar..., mas porque não tenho mais
condições. Eu pensei nisso logo que minha menstruação não veio e
a caixinha do anticoncepcional já não estava sobre o criado-mudo.
Id e eu há muito não fazíamos... – e meu irmão, antes de qualquer
um, pediu para não ouvir sobre a vida sexual da irmã. Consenti.
– Não entrarei em detalhes. – continuei: - O fato é que depois de
duvidar e questionar sobre essa mudança em minha vida fui
deixando que o tempo passasse e cá estou com quase quatro meses
de gravidez.

106
Jo A-mi

- Você está melhor do que lhe aconteceu? Foi só um desmaio? –


perguntou vovó.
- Sim, vovó. Agora estou bem. Quer dizer, organizarei umas ideias
e depois conversamos. – ela consentiu com a cabeça como se
soubesse o que ocorrera nas últimas horas.
Mamãe preparou uma sopa de verduras e legumes: sua
especialidade. Jantamos e nos despedimos quase oito horas da
noite. Sentia-me exausta. Id parecia aguardar a saída de todos, pois
foram embora e ele voltou para casa. Eu arrumava a cama, os
lençóis e o travesseiro. O livro dos Irmãos Grimm estava sobre
meu criado-mudo. Abri-o. A última folha de uma orquídea, surgida
excepcionalmente em março, manchava a página da história da
bela adormecida. Encostei o exemplar no peito e abracei-o. Não
havia só cansaço em mim, o tempo me fizera passar por extremas
transformações nas últimas horas. Id apareceu banhado e de roupão
no quarto. Vestiu o pijama e deitou-se ao meu lado. Havia
decepção em seu rosto. De costas para mim, disse:
- Amanhã conversamos. – a tristeza tomava conta de sua voz.

O dia amanheceu lindo e vigoroso. Os pássaros cantavam


sob o abacateiro da vizinha e alguns brincavam entre a árvore e o
muro do quintal. Sentei-me à mesa e folheei meus antigos diários.
A memória de algumas lembranças me fez pensar nos últimos
acontecimentos. Como eu podia saber da escritura da casa? Meu
pai ganhou na loteria e no sonho havia um homem que também
ganhava na loteria. E tudo mais: premonição? Ilusão? Devia
acreditar em quais palavras do tempo e do sonho? Minha cabeça
estava latejando. Dormi com a leitura da bela adormecida e tentei
me encontrar na história infantil. Um dos diários mal tinha sido
usado: apenas uma dezena de páginas escritas. Aproveitei para
retomar o antigo hábito e escrever:
Ontem passei mal quando voltava da floricultura. Fui levada ao
hospital e minha família me fez uma agradável visita. Mas esses
não são os principais motivos para eu retomar um hábito da
adolescência. O motivo maior que me leva a escrever é relatar o

107
Cor Adormecida

que se passou em minha vida nas horas em que estive desacordada


por causa de um desmaio. Um engasgo do tempo tomou meus
sentidos levando-me por caminhos desconhecidos e confusos.
Alguns acontecimentos vividos voltaram à tona para comprar uma
confusão de outras situações. Passado e presente se misturaram, e,
nem mesmo eu que vivi todas aquelas coisas no sonho e fora dele,
posso dizer onde um começa e outro termina. Passado e presente
se cruzaram, mas o futuro parece que também não quer ficar
sozinho. Meu pai ganhou na loteria e deu a escritura da casa de
presente para mamãe. O beijo e amizade com Sofie, o primeiro
encontro com Id, as lembranças da infância: onde se encaixam
todas essas coisas com as mortes, os desencontros, o tempo? Serei
capaz de me ver daqui a vinte anos como me vi há poucas horas
atrás? E as descobertas e mudanças no mundo, onde minha mente
as fabricou? No entanto, ouvi Billie Holiday como a Cora de meus
sonhos: uma repetição? Um propósito inconsciente?Agora
mesmo..., agora mesmo retomo as páginas riscadas de um antigo
diário e dou depoimentos da minha vida e nem havia percebido.
Dimitrius apareceu no quintal. Já estava sem o pijama, mas
os olhos inchados e os cabelos assanhados ainda falavam de sua
recente saída da cama. Beijou-me a testa e perguntou se já havia
café feito. Disse que não. Ele pediu que o esperasse, faria nosso
café e traria para a mesa. Antes de entrar em casa, porém, voltou-se
e perguntou:
- O que esses diários velhos fazem aí? – coçando o queixo.
- Acho que recomecei a escrever neles. – ele voltou e beijou minha
boca. Com um sorriso leve e solto, brincou:
- Meu amor quer voltar à adolescência, hein... bons tempos
aqueles! – e foi preparar nosso café.
Eu escrevi 26 de setembro de 1988, logo abaixo do registro
feito há pouco no diário. Havia dentro da caixa ainda uns
envelopes com bilhetes de cinema – uma mania minha: guardar
todas as entradas de cinema -, contas de supermercados, folhetos e
cartões de fornecedores da loja, bem como todo tipo de serviço
comercial: telefone, cabeleireiro, pizzarias, bancos, livrarias. Entre
todos, no fundo da caixa, rasgado e com letras em azul
desaparecendo, o telefone da casa de Sofie. Retirei o maltratado

108
Jo A-mi

papel da caixa e pus o número dentro da página que acabara de


escrever minhas memórias recentes. Id apareceu com uma bandeja
e pediu que eu guardasse todos os papéis a fim de organizar a mesa
para nosso café. Obedeci. Ele trouxe suco de laranja, pães de leite,
queijo, café preto e uma pequena bromélia. Olhei-o com gratidão.
Nós tomamos o café da manhã um do lado do outro.
Depois de tomarmos o suco e comermos o pão, ficamos
bebericando o café e olhando para o céu. Havia nuvens e ele me
disse:
- Se o tempo fechar novamente... vou dizer que enlouqueceu. –
disse-me olhando com carinho. Completou: – mas eu te protejo dos
trovões. – fiquei calada.
O tempo de duas décadas voltava à minha mente. Tive
vontade de escrever no diário, mas me contive. Dimitrius se
levantou, recolheu a bandeja e o resto do café da manhã. Antes de
adentrar a casa, perguntei:
- Você não está atrasado para as aulas?
- Não. – respondeu sem olhar para mim – Hoje eu estou de folga. É
bom, assim podemos passar o dia juntos. – Saiu. Mas eu sei que
nas sextas-feiras há pelo menos um horário do dia ocupado, então
entendi que tinha feito de propósito: não quis dar o braço a torcer,
embora estivesse bastante curioso com todo o processo em que
ficamos envolvidos nas últimas horas.
Assim, guardei todos os papéis, envelopes e blocos de
diários dentro da caixa, deixando de fora só o diário em que
acabara de escrever. Fui até o quarto de hóspedes e pus a caixa
onde estava antes: no armário. Passando pela sala, Id estava com a
tevê ligada, mas seus olhos atravessavam as imagens: tinha certeza
que ele nada registrava do que assistia. Sentei-me no sofá e
perguntei se podíamos conversar. Ele consentiu com a cabeça.
Falamos do bebê e de como eu me sentia. Não escondi ter
percebido sua decepção ao saber que era uma menina e não um
menino a criança que está na minha barriga. Ele tirou os olhos do
nada em que se encontrava e falou:
- Não é verdade. Não se tratou de decepção. Desde ontem eu já
amo essa menina, minha pequena, pode ter certeza. – o disse com
lágrimas nos olhos que desceram revoltadas. Com o olhar

109
Cor Adormecida

embaçado, esfregou os olhos e continuou – é que me senti perdido


no meio de outras pessoas, não éramos só nós dois: primeiro eu
tenho a surpresa de saber que vou ser pai e depois que o Gregor só
existia na minha vontade porque você havia feito um exame
secretamente e já tinha a certeza de ser uma menina. Veja, todas as
pessoas na sala já sabiam que você estava grávida, sua avó já
conhecia até o sexo da criança. Então eu pensei: quanto tempo
depois Cora pretendia contar sobre nossa filha? Aborreci-me e saí
andando pelas ruas do bairro. Quando voltei, pra minha sorte, seus
parentes já tinham ido embora. Eu não queria falar com ninguém. –
ouvi tudo silenciosamente.
Ele suspirou arrastado e se calou. Então eu respondi:
– Não disse nada a você não por que não pudesse sabê-lo. A filha é
sua, antes de qualquer coisa – Id baixou a cabeça – sei que você se
afligiu com isso também – ele interrompeu:
- É verdade – coçando o queixo -, pois pensei: quando fizemos essa
criança? Há muito não procuramos um ao outro. E ademais, você
se cuida.
- Sim. Mas exatamente há alguns meses atrás eu fui à universidade
fazer umas pesquisas, lembra-se? – ele passou as mãos pelo cabelo
desarrumado e respondeu:
- O dia da echarpe e da chuva! Claro, claro!
- Eu não atentei para a caixa de remédios vazia. O dia com o
fornecedor da loja foi causticante. Eu cheguei a casa exausta e você
também: até dormiu com a roupa do trabalho. – ele balançou a
cabeça concordando com o que eu dizia – eu não sei se consciente
ou inconscientemente, mas eu acabei esquecendo de comprar e
tomar. A lembrança e o medo apareceram juntos quando minha
menstruação não veio. Fiquei apavorada. Então contei só para
minha irmã. E não vou mentir: até uns dias atrás eu pensava em
tirar a criança, por isso ainda não havia falado para você. Com o
ultrassom e os acontecimentos das últimas horas, acho que não
tenho mais condições.
Ele se levantou da poltrona, pôs as mãos nos bolsos da
calça e sentou novamente. Havia fúria em seu olhar e uma
tempestade especialmente formada sobre mim. Desabafou:

110
Jo A-mi

- Você não teria a coragem de... Você não tem o direito! – disse
apontando o dedo indicador para a ponta do meu nariz.
- Eu tive e ainda tenho esse direito sim senhor. O corpo é meu,
serei eu a arcar com todos os benefícios e danos dessa gravidez e,
além do mais, é capaz de, no final das contas, eu me
responsabilizar por tudo na vida dessa pequena criatura dentro de
mim. – falei com autoridade.
- O que você quer dizer com isso? Você sabe a quanto tempo eu
sonho em ser pai, em cuidar de um filhotinho só meu. Acho que se
eu pudesse ter filhos, já teria até engravidado. – disse batendo forte
no braço da poltrona.
- Eu quero dizer que apesar de você querer ser pai, eu nunca tive o
desejo de ser mãe. Acho que isto deve contar para alguma coisa, ou
estou enganada? – ele baixou o olhar – E ter um filho no nosso
casamento pode ser apenas uma válvula de escape, ou também
estou enganada sobre isso? – saí da sala enfurecida. Sentei-me à
mesa do quintal. Ele me seguiu e ficou de pé um instante, próximo
à minha cadeira. Depois sentou e replicou:
- Cora, você tem razão. Você tem razão. É verdade, não somos o
casal mais apaixonado do mundo e já estou um pouco acabado –
disse batendo na barriga – mas nós nos entendemos, você me
conhece, eu te conheço. O que mais é preciso para que uma relação
dure? – perguntou fazendo um leve carinho no meu queixo.
- Que haja amor, que a paixão nos mova!
- Você é muito romântica mesmo! – riu acariciando meu pescoço.
– vamos, vamos. Como se chamará nossa pequena, você já decidiu
isso também?
- Gosto de Alice.
- Como a Alice dos contos? A perseguidora de coelhos? –
satirizou.
- Sim. – falei séria e olhando diretamente em seus olhos.
- Concordo. – respondeu.
Depois ele perguntou sobre os sonhos do desmaio. Tentei
disfarçar dizendo que não tinha importância – mas o nervosismo do
dia anterior e a repetição do que havia lhe contado, denunciaram o
disfarce. Então eu disse que a noite de sono havia levado muitas

111
Cor Adormecida

lembranças embora e, além do mais, falar daquelas coisas dava-me


vontade de desmaiar. Ele parece ter acreditado.
A tarde chegou, Id foi à sesta e eu resolvi ligar para o
número de telefone da casa de Sofie. Liguei e o aparelho chamou
umas três ou quatro vezes até que uma voz grossa e firme
atendesse:
- Alô! – alguém disse do outro lado da linha. Identifiquei-me:
- Alô, aqui é Cora. Com quem eu falo, por favor? – perguntei
educadamente.
- Com quem deseja falar? – a voz questionou-me num tom áspero.
- Gostaria de falar com Sofie.
- Não há nenhuma Sofie nesta casa. – desfechou.
- Obrigada de toda forma. – respondi decepcionada e com certa
lentidão. Quando quase tirei o telefone dos ouvidos, a voz me
falou:
- Espere, espere um pouco. – pelo barulho que fez deve ter jogado
o telefone sobre uma superfície dura. Voltou. – essa Sofie é a filha
dos africanos?
- Sim, sim. – respondi.
- Eles se mudaram, mas deixaram aqui o endereço novo e telefone.
Anote. – obedeci. Depois agradeci. Ele desligou sem se despedir.
Imediatamente liguei para o número do telefone
informado. Pela voz percebi se tratar da mãe de Sofie. Identifiquei-
me. Nós conversamos por cerca de 10 minutos: eu lhe falei um
pouco sobre minha vida dos últimos quatro anos, finalizando com a
noticia da gravidez. Ela me parabenizou e não teria soltado o
telefone caso eu não insistisse para falar com Sofie. Pediu-me um
instante, e não ouvi mais nada. Menos de dez segundos depois me
disse que Sofie não estava, mas deixaria recado. Despedimo-nos e
meu coração ficou triste. Depois tive medo de ter feito a coisa
errada, afinal, eu não tinha ido à formatura, não tinha sequer
agradecido pelo convite. Assisti um pouco de tevê e aproveitei a
sombra que já se deitava sobre meu jardim para retirar alguns
espinhos que vira ainda ontem. Quando Id acordou quis demover-
me da ideia de cuidar do jardim: inutilmente. Enquanto puxava o
pé de espinhos falei rapidamente sobre o telefonema, e ele disse:
- Falando nisso, encontrei sua amiga esses dias. – parei e perguntei:

112
Jo A-mi

- E como ela está? – tentando disfarçar a ansiedade na voz.


- Se ainda me lembro direito... do mesmo jeito. Disse que estava ali
para pegar o resultado do mestrado. Desejei-lhe sorte. – e saiu para
a cozinha. Voltou depois de alguns segundos e arrematou:
- Não sei se fiz bem, mas dei o número de nosso telefone para ela.
- Tudo bem. – respondi.
No final da tarde, quando eu cuidava do jardim e tentava
retirar os fungos brancos do girassol, folha por folha, Id me
chamou: era o telefone. Limpei as mãos, guardei pá e adubos. Ele
segurava o telefone e batia a ponta dos pés no chão. Peguei o
aparelho e disse:
- Alô. – falei com bastante ansiedade.
- Olá filha, liguei para saber se está tudo bem. – era vovó. A
ansiedade me fez imaginar que pudesse ser Sofie. Retomei o tom
normal da voz e disse:
- Olá vovó. Sim, está tudo bem. – ela interrompeu.
- Venha aqui me visitar. – a voz estava um pouco cansada.
- O que aconteceu?
- Não se preocupe, são só as dores de sempre. Minhas pernas
gemem.
- Vou agora por aí. – disse peremptoriamente.
- Farei chá com os biscoitos que você gosta.
- Ótimo. Tchau, tchau. – desliguei. Mal pus o aparelho no gancho e
ele tocou novamente. Atendi:
- Sim vovó... – falei com uma respiração profunda que ainda pode
ressonar do outro lado.
- Não estou tão velha assim... – riu – é Sofie, Sofie Cora, tudo
bem? – A ligação me pegou de surpresa. A ansiedade de antes
havia derretido, mas voltara rapidamente. Fiquei silenciosa o
bastante para Sofie perguntar:
- Cora, é você? – ouvi-a resmungar alguma coisa – Desculpe. – e
desligou. Fiquei nervosa. Eu acabara de guardar o número do
telefone no diário. Dei uns passos rápidos até o quarto, quando o
aparelho voltou a tocar. Era Sofie novamente.
- Por favor, é da casa de Dimitrius? – perguntou em tom sério e
contraído.

113
Cor Adormecida

- Sofie, sou eu. – recepcionamo-nos com gritos de emoção


recíprocos. Os desentendimentos e a distância pareciam ter
desaparecido. De forma espontânea e bonita, como era do seu
costume, disse:
- Temos que nos ver, há muito para falar – ouvi um pequeno rugido
ao telefone. Perguntei do que se tratava, ela disse:
– É Tigre, agora nos dá pequenas mordidas no calcanhar quando
quer comida, pode isso? Ah! Fez uma ninhada linda com a gatinha
da vizinha. Você perdeu. – “e o que mais perdi”?, pensei
imediatamente.

As horas seguiram informes e atropeladas. Os


acontecimentos vieram sem qualquer controle ou direção,
produzidos ou preditos, não sei ainda explicar, foram se realizando
num piscar de olhos. Vovó teve outra crise de artrose, mas nada
além do que já se esperava. Estava com saudades. Fez chá e os
biscoitos que tanto gosto. Conversamos debaixo do caramanchão e
eu comecei a lhe contar um pouco do que havia sonhado antes de
chegar ao hospital naquele dia. Dessa vez, foi ela que ficou a
escutar as histórias da minha vida. Talvez estivesse ali, talvez
apenas contasse também outras histórias enquanto me ouvia. A
noite chegou e nos levou para dentro de casa. Entramos e a ajudei a
deitar na cama. Depois massageei suas pernas, dei um beijo no
rosto e voltei para casa.
Um novo amanhecer floresceu. Dimitrius esteve o dia todo
atarefado numa reunião extraordinária da universidade. Mamãe
recebeu algumas encomendas de roupa e meu irmão foi encontrar
uns amigos para uma partida de futebol. Minha irmã passou quase
o dia inteiro lá em casa. Conversamos e trocamos confidências.
Estou agora num café próximo à floricultura – um local
agradável com livros e uma boa música. Cheguei mais cedo que o
combinado, pois há muito que escrever no meu diário: convidei o
tempo para dançar; tentarei não pisar em seus pés. Tenho transcrito
os últimos dias contando as horas e os instantes dos
acontecimentos, mas ainda não tive condições para processar o que

114
Jo A-mi

vivi. As coisas que sonhei por vezes aparecem, por vezes somem,
mas, de alguma forma, estão presentes. De fato, não sei explicar no
que consistiram meus pensamentos e a síndrome da bela
adormecida; muito menos sei dizer a importância de tudo que vi.
Inventei? Criei? Intui? Nessas instâncias eu mal sei onde me
procurar. No momento, estou à espera de Sofie. Quem sabe o que
poderemos achar...

115
Cor Adormecida

PÁGINAS
DE
ENTRELINHAS

116
Jo A-mi

O PATINHO FEIO

Longe dos seus, papai fugiu para refugiar-se no seu próprio


mundo. Irmão de muitos irmãos, quac! quac!: nasceu patinho feio.
Qual a sua identidade? Por que é tão diferente dos irmãos? Tinha
vergonha do que era, apontavam e diziam: “não tem a inteligência
de fulano”, “parece meio desengonçado”, “puxou a quem? Não
consigo reconhecer”. Então papai passou a se esconder nos
arbustos e vestiu máscara de agricultor (trabalhando dia após dia na
pequena lavoura familiar), máscara de filho piedoso (cuidando do
próprio pai nos seus últimos anos de vida, apesar de não se
falarem), máscara de funcionário público (contratado para ser
motorista da embaixada), máscara de marido (casando-se com a
jovem normalista de sua cidade e dando-lhe três filhos), máscara
de pai (autômato beijando os filhos antes de irem para a escola).
Tomado de empurrão, levando bicadas, maltratado e
ridicularizado, papai tornou-se árido, distante, calado. Não se
aproximava. Quase não falava. A natureza de cisne que tinha
nascido como patinho, porém, o impulsionava a nadar. E nadar era
a única atividade em que não recebia o ralho: nadava com as
caravelhas de Camões, os moinhos de Quixote, os reinados de
Lear. Eu admirava vê-lo bater asas, como se fosse livre sob o
alpendre. Tardes e tardes assim. Um dia, decidiu ir-se embora. Foi.
Entrou na floresta e nunca mais voltou. Até hoje não sabe ser um
cisne.

117
Cor Adormecida

O PESCADOR E SUA MULHER

Era uma vez um pescador: Seu Nicolau. Homem simples


que saía todas as manhãs para pescar na sua quitanda de frutas e
verduras. Gostava também de cumprimentar as pessoas na rua.
Depois de muitos anos havia conseguido comprar com muito custo,
suor e trabalho, a pequena casa que agora tinha um andar e um
letreiro feito à mão livre: QUITANDA. Nicolau tinha uma irmã
que não via há anos, pois que tinha se casado com um estrangeiro e
mudado para o exterior. Os pais haviam morrido havia quase uma
década, a foto em preto e branco do modesto casal ocupava a mesa
de atendimentos do pequeno comércio. Nicolau era um homem
piedoso e não gostava da crueldade humana, pois apreciava
contemplar as águas claras, proteger e respeitar os animais. A
vizinhança comentava: “como seu Nicolau foi gostar de dona
Susan?!”; realmente, duas naturezas bem diferentes: Susan não era
simples e sociável, tampouco modesta. Ao invés da choupana
ansiava por um castelo. Se castelo tivesse, certamente não se
aquietaria até conseguir reinado. Ganhando reinado, gritaria e
espernearia até conseguir tornar-se imperatriz. E, sendo imperatriz,
quereria ir além e mandar nas almas: tornar-se-ia papa. Por isso,
detestava morar num lugar onde se riscava à mão o nome
“quitanda” na frente. Fora criada para ser princesa: filha única,
tinha tudo o que uma pequena menina quisesse. A mãe a tratava
como uma bonequinha de porcelana: estava sempre limpinha,
comportadinha, educadinha. Na escola, não emprestava os lápis de
cor, pois não podia estragá-los: ordens do pai. Foi assim também
na adolescência quando os pais fizeram grande esforço para
colocá-la no melhor colégio particular da cidade. Susan cresceu
achando que as coisas seriam assim pelo resto da vida. Um dia,
porém, apaixonou-se por um homem que mais se parecia um
príncipe, de tão educado e delicado que era: Nicolau. Sem cavalo
branco ou castelo, a família de Susan foi contra. Susan enfrentou
os pais – ao modo de meninas da sua idade – e casou com Nicolau.
Às vezes se arrependia, mas não dizia nada.

118
Jo A-mi

A RAPOSA E O GATO

Tigre sempre foi um gato muito esperto. Certa vez o vi


sendo perseguido por uma mangueira d’água enlouquecida no
jardim da casa de Sofie. Assim como fez o gato do conto de fadas
que subiu numa árvore ao ver os caçadores e sua cachorrada na
floresta verde da grama, Tigre alcançou o topo da árvore e ficou a
rir da pobre raposa de pedra, cuja arte maior era vigiar o jardim e
levar água no focinho.

119
Cor Adormecida

A ESPERTA GRETEL

Gretel era uma cozinheira que usava salto vermelho e


tomava vinho. Para não deixar que o prato principal esfriasse e
perdesse o sabor, provava-o. Provando-o, resolve saboreá-lo.
Saboreando-o, decide consumi-lo por completo. Então, o patrão e
seu amigo chegam para o banquete, mas este já não tem mais seu
prato principal: Gretel o havia devorado por completo. Esperta que
era, porém, acabou por ludibriar a ambos com a façanha de uma
criança e a puerilidade de uma borboleta. Bon vivant, minha irmã é
Gretel: pessoa que nunca se deixa entrelaçar pelas situações (por
mais difíceis que sejam). Sorrindo e sorrindo sempre, há em sua
mão sempre um copo de vinho imaginário que a embriaga de
alegria e otimismo. Tornamo-nos amigas pouco a pouco - mais por
causa dela, serei justa, pois sempre fui mais introspectiva (até para
amizades), do tipo que às vezes guarda mofo na respiração. Seu
entusiasmo por minha gravidez foi admirável. Pensei: quanta
alegria para algo tão complexo. Ela é assim.

120
Jo A-mi

O DR. SABE-TUDO

O Dr. Sabe-Tudo era um coelho que sentia vontade de ser


médico. Conversando com um homem da medicina, perguntou o
que devia fazer para conseguir seu intento. Esse lhe disse para
adquirir um livro de ABC, roupas e objetos que se relacionem com
a medicina e uma placa com os dizeres “sou o Dr. Sabe-Tudo”.
Assim fez o coelho. Um ricaço que precisava descobrir os ladrões
de seu dinheiro, procurou o coelho para resolver o assunto. Num
golpe de sorte induzido por palavras e mal-entendidos, o Dr. Sabe-
Tudo conseguiu obter fortuna de onde menos esperava. O mesmo
aconteceu com seu Ariston que tinha um pequeno terreno onde se
concentravam domésticas lojas comerciais – entre as quais, a
minha floricultura. Induzido a investir em imóveis pelos conselhos
do mercado financeiro, decidiu reformar e uniformizar todas as
lojas a fim de alugá-las por um preço “mais viável”. Quando já
tinha tudo pronto, recebeu oferta irrecusável de um grande
empresário que queria transformar seu conjunto de lojas e mais
algumas residências vizinhas em versátil rede de escritórios de uma
multinacional.

121
Cor Adormecida

JOÃO COM SORTE

Meu irmão é aquele sujeito que você olha e tem vontade de


ficar perto. Bom homem, terno coração. Até hoje batalha muito,
apara arestas e conquista espaços. Acho que o fato de ser o único
homem no meio de uma família repleta de mulheres – pois não
esqueçamos que nosso pai sempre foi uma figura ausente para
todos – fez não só com que lutasse pelo próprio lugar e espaço
nesta família, como também guardasse respeito pelo sexo
feminino. João com sorte, meu irmão de fadas, é um homem da
labuta que não se arrisca nos prazeres do ócio; homem maduro que
enfrenta sem reclamar os muitos percalços da vida. Infelizmente, é
ludibriado muitas vezes pela ingenuidade do próprio coração e
troca ouro por cavalo, cavalo por vaca, vaca por porco, porco por
ganso, ganso por pedras de amolar... até que as pedras caem num
poço sem fundo e ele volta de coração leve e livre para junto dos
seus: como se nada tivesse acontecido.

122
Jo A-mi

A RAPOSA E OS GANSOS

Salô é daquelas gatinhas manhosas que se escondem


rapidamente quando se acham na presença de pessoas estranhas.
Do contrário, quando está à vontade, torna-se protagonista e age
como a raposa que, encontrando alguns gansos gordos, resolve
comê-los ali mesmo. Bobinha que é, no entanto, concede às
vítimas um últimos pedido: esperar que cada uma realize suas
preces. Resultado: se Anita não lhe der comida, nossa inocente
raposa fica a ver o quá, quá, quá dos gansos e nada come.

123
Cor Adormecida

DONA SOMBRA

Quando penso em dona Eleonor logo imagino uma


bruxinha travessa. Pouco a conheço, apesar de sermos vizinhas há
alguns anos. As más línguas falam que ela faz trabalhos diabólicos
contra as pessoas; sozinha, dizem que jamais casou. Não acredito.
Nós costumamos nos cumprimentar sempre que ela passa quase
encurvada sobre a bengala de madeira à frente. Gosta de me trazer
os seus doces caseiros e eu gosto de passá-los nos biscoitos
acompanhados de chá. Às vezes, bato no portão e ela vem se
arrastando sem a bengala – deixada sob o abacateiro e seus frutos;
aproximo-me, desejo um bom dia e ofereço um presente: a muda
de uma pequena planta. Não conversamos muito. Dona Eleonor é a
pequena acha de lenha jogada ao fogo pelas donas sombras - que
habitam próximas de todos nós -, mas que, transformada em luz
pelo fogo, retorna à própria natureza.

124
Jo A-mi

O GATO DE BOTAS

Auguste, o filho de Sofie, é um garoto deveras traquino.


Imaginem que certo dia ele resolveu pular do guarda-roupa para a
cama. Como já devem imaginar, a operação não teve sucesso e o
pequeno Auguste mais se parecia, agora, com um unicórnio e seus
cabelos loiros esvoaçantes. A babá, coitada, não pode largar o pé
da criança, pois é se virar para um lado e ver Auguste metendo-se
em enrascadas de outro. Assim como o gato de botas, que fez um
alvoroço na vida do rei e do Marquês de Carabás, Auguste passou
pela infância e adolescência como um bichinho esperto e de botas
saltitantes pela floresta. Para sorte de sua mãe e de todos os
demais, tornou-se um ilustre fidalgo na vida adulta, passando a
caçar camundongos quando lhe dá na telha.

125
Cor Adormecida

O JOVEM GIGANTE

James é o menino que nasceu do tamanho de um dedo


polegar. Raquítico e frágil, incialmente, foi alimentado e bem
cuidado: tornando-se um gigante. Andou de lugarejo em lugarejo,
trabalhou quando muitos não suportavam mais, até instalar-se na
casa de um rico fazendeiro: onde aprendeu a planejar, contar,
demarcar território, arranhar-se em espinhos e subjugar a terra.
Adquiriu força e amedrontou a todos com seu poder. Fez uma
promessa: no fim de um tempo de trabalho receberia como
recompensa o direito de dar três pancadas no fazendeiro. Assim se
fez e o James gigante cobrou o salário: deu as pancadas que havia
prometido expulsando fazendeiro e família. Tomou-lhe as terras.
Em pouco tempo, explorando o trabalho de seus funcionários nos
dois armazéns que conseguiu comprar, abriu uma madeireira.
James é aquele tipo de gente que nos sorri à medida do brilho de
nossas moedas - não de nossos olhos!

126
Jo A-mi

OS CISNES SELVAGENS

Contam as fadas que existiu uma moça chamada Elisa.


Esta era irmã de mais onze príncipes. Os príncipes foram
transformados em cisnes pela madrasta, e Elisa sacrificada por
muito tempo até quase morrer -quando, então, se salva. Mas apesar
do título remeter-se aos cisnes, é Elisa a protagonista dessa
história, pois, sem ela, não há libertação dos irmãos enfeitiçados.
Com sua arte e coragem faz camisas de mangas compridas
fabricadas de fibras das urtigas (uma das plantas mais irritantes que
há na terra) e refaz a felicidade de todos. Elisa é a pequena Anita
que vejo brincar com sua casinha de madeira, desenhando em
muros encaixotados. Imaginativa, tem Anita o dom de recriar a
realidade e salvar seus irmãos – que são bonecas, palitos, pedras,
folhas, papéis, tintas. E, por isso, como Elisa, encanta a todos – pai,
mãe, vizinhos – com sua fragrância de rosas reluzindo no lindo
batom colorido e beijando nossas faces. Anita tem o dom da arte.

127
Cor Adormecida

JORINDA E JORINGEL

Jorinda e Joringel são os pais de Sofie que, olhando em


torno de si mesmos, estão perdidos na própria floresta chamada
Argélia. À procura de proteção, eles seguem sem saber direito para
onde. “Teremos volta?”, refletem. Uma coruja agoureira voa em
torno do casal: eles têm medo. O tempo passa e a família aporta em
terras estranhas. Nos primeiros anos sempre anoitecia. Anoitecia.
Mas, aos poucos, as agruras foram desaparecendo, a indiferença
transformando-se em amor e os anos amanhecendo, entardecendo,
anoitecendo. Sem magia ou espada são unânimes em dizer que
venceram com a flor milagrosa (sua pequena filha): troféu que
exibem nas tardes de sábado depois de um almoço farto e
exuberante sob a mangueira do quintal. Relembro uma cena: o pai
bate a mão grossa e rude sobre a cabeça da filha contando,
orgulhoso, de sua infância no meu país; e a mãe sorri, antes de
levantar-se para nos servir o café recém passado. Respiramos todos
com cumplicidade.

128
Jo A-mi

O REI PERVERSO

Estetoscópio na mão, cada hospital era um reino a ser


derrotado. Assim era Tomas, o médico - também conhecido por rei
perverso. Este rei perverso é arrogante e ambicioso, contempla
seus tesouros pendurados na parede (os diplomas que adquiriu ao
longo da carreira), jóias registradas em escrituras (casas e
apartamentos), exércitos (que são feitos de alguns carros) e estátuas
(alas e placas erigidas em seu nome). O mundo está aos seus pés e
até Deus é por ele provocado, pois que se vangloria de ressuscitar
moribundos e curar pacientes. Mas tamanha petulância cobra um
preço e o rei perverso o paga todos os dias quando volta para casa:
as sólidas paredes e os objetos estilosos são sua única companhia.
A solidão o acompanha como uma nuvem de insetos a arderem
como fogo em sua mente, em seu corpo. Anestesiado pelas
picadas, o rei perverso nem consegue mais chorar.

129
Cor Adormecida

O SOLDADINHO DE CHUMBO

Meu avô era um soldadinho de chumbo, feito do


derretimento de uma velha concha de ternura, mas parado sempre
em posição de sentido: firme. Apesar de constituído do mesmo
material dos irmãos, vovô não se dava à construção de fusíveis,
baterias e cimentos. Não. Sentia doçura e romantismo demais no
coração. Então, ouvindo as histórias sobre o carpinteiro que
ensinou a profissão ao seu filho-deus, e observando o marceneiro
da rua com suas cadeiras, mesas, baús e camas de madeira, decidiu
seguir essa profissão. O barulho da serra era sua música predileta,
e, enquanto os irmãos cresciam pensando em ser construtores e
engenheiros, ele já tinha a certeza que queria ser mesmo era
marceneiro. Aprofundou-se no ofício, abriu loja própria e sustentou
minha avó e filhos. Meu querido soldadinho de chumbo fora
sempre bravo e honrado - mesmo diante de todos os percalços que
a vida lhe concedera. Um herói e sua heroína (minha avó), ambos
gloriosos, que derrete sem perder de vista sua bailarina.

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Jo A-mi

AS TRÊS FIANDEIRAS

Era uma vez uma moça que não tinha muita vontade de
trabalhar e nem estudar. Mesmo sendo incentivada dia e noite pela
mãe, de nada lhe adiantavam os conselhos. Marieta queria mesmo
era assistir tevê e sentar-se à frente da casa para ver o que faziam
seus vizinhos. A muito custo, ajudava a completar as compras do
mês indo à rua do comércio. Passeando por ali, gostava de parar na
casa de linhas e conversar com as três irmãs fiandeiras –
notadamente, as maiores conhecedoras das vidas alheias de toda a
região. Marieta sentava-se por ali e sentia que os minutos
passavam depressa quando, ocasionalmente, podia se divertir com
uma boa conversa. Assim, numa dessa visitas descobriu pelas
fiandeiras que chegara à cidade, há pouco mais de dois dias, um
homem grande e com cara de poucos amigos; de nada sabiam dele,
apenas que deveria ter muito dinheiro, pois havia comprado a
mansão da colina. O tempo passou. Marieta se aproximou aos
poucos do novo morador oferecendo-lhe prendas de tecido
(grandes blusas confortáveis de linho, gorros de lã que podiam
cobrir a circunferência de sua cabeçorra, meias de algodão em
tamanhos especiais) que dizia ter sido feitas por ela; também o
convidou algumas vezes para tomar chá em sua casa, mostrando o
quanto era prendada. Depois de alguns meses, e outras visitas,
James resolveu casar-se com a simpática moradora daquela cidade
- pois não queria continuar pagando uma empregada e estava muito
satisfeito com os talentos domésticos de sua noiva. Assim
aconteceu. James casou e montou seus armazéns; e Marieta ainda
conhece a vida de todo mundo, só que agora do alto da colina.

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Cor Adormecida

AS VIAGENS DO PEQUENO POLEGAR

Seu Nestor sempre foi um homem bastante sonhador.


Quando criança, desejava ser cantor de rock, então brincava no
quintal com um cabo de vassoura (por guitarra) e outro pedaço de
madeira (por microfone) fingindo talhar ali os maiores sucessos do
momento; na adolescência decidiu ser aviador, criando sua própria
aeronave que descia como um papelão pela calha acimentada da
casa; na vida adulta, resolveu descobrir o mundo e, logo que pode,
vendeu a única propriedade para começar suas explorações pelas
pirâmides do Egito. Como o pequeno polegar, saiu pelo mundo
sozinho enfrentando gigantes da ponte aérea, momentos de
escassez alimentar em fast-foods, salteadores de máquinas
fotográficas e raposas xenófobas. Depois voltou à casa dos pais e
por eles foi recebido com um grande abraço.

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Jo A-mi

MAMÃE SABUGO

Às vezes molhamos os pés onde não deviamos e o tempo


seco nos dá de presente um resfriado. Se temos uma mãe carinhosa
e cuidadosa, ela nos deita na cama, acende a chaleira e prepara um
chá que tenta nos salvar de todos os males da vida. Esta mãe é a
minha: que ri quando rimos e chora quando choramos. Da Escola
Normal (onde aprendeu a arte da costura nas “práticas integradas
do lar”) saiu direto para o casamento. Azeitada na mesma água
onde cultiva as folhas para meu chá, aprendeu a observar os ramos
do sabugueiro que levantam a tampa da chaleira e fazem nascer a
Mulher Sabugo: vovó. Nossa Mulher Sabugo está entranhada em
nossas vidas e parece-se que uma pequena fada a nos tocar com
suas palavras, biscoitos, doces, companhia. No episódio da
separação de meus pais, por exemplo, quando quase esquecíamos
quem éramos, ela saiu de dentro dos arbustos e nos lembrou dos
cuidados, afetos, parcerias, amizade. Vovó nos sustentou com suas
histórias que plantaram dezenas de boas raízes em nossa
imaginação, fazendo-nos sempre viajar para “recantos novos”.
Como uma flor retirada do peito de uma criança, nossa Mamãe
Sabugo é sempre parte viva de uma doce recordação. Enquanto
mamãe não pára de olhar para a chaleira.

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Cor Adormecida

MÃE HILDA

Mãe Hilda é uma mulher sábia e paciente que gosta de


acolher as pessoas em sua casa. Não faz distinção de cor ou raça
para falar ou ensinar o certo do errado. Mãe Hilda ou dona Santa é
nossa educadora de leitura, senhora dos bons chás e doces
conselhos. Sua livraria era como a casinha na campina, sorridente e
aberta à visitação. Se chegávamos para apreciar seu acervo ou
aprender um pouco mais de um autor ou obra de seu conhecimento,
respondia-nos sempre em tom carinhoso, à maneira de alguém que
pertence à nossa intimidade. Não esqueço. E quando já havíamos
passado tempo demais sob sua guarda, dona Santa ou Mãe Hilda
nos deixava ir embora com algumas bagagens no pensamento e no
coração. Se o contrário se desse, porém, como alguns estudantes
que queriam desfazer de seu acervo e companhia, ela não tolerava
a situação e dispensava os jovens e imaturos clientes para que
voltassem à feiura que traziam nas mochilas e mentes.

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Jo A-mi

HANS, O PALERMA

Não se espantem com o título porque ele vem de um conto


de fadas. Seu protagonista é Hans, que também é Dimitrius. O pai
de Hans acredita estar a felicidade escondida atrás de uma grande
fortuna, por isso, manda seus filhos para o mundo a fim de
conseguirem tal empenho – assim como Gregor: o pai de Id. Hans
(de codinome “palerma”) é o mais desacreditado pelo pai.
Dimitrius nunca obteve o reconhecimento de Gregor. Hans não tem
a elegância e a inteligência que o progenitor credita aos demais
filhos, mas, para sua surpresa, é Id, o “palerma”, quem agrada a
princesa. Montado num bode (ao invés do cavalo branco), ceando
corvo morto (no lugar de um banquete com pratos finos),
oferecendo tamanco estragado (ao invés de um sapatinho de
cristal) e lodo tirado de uma vala (no lugar de castelo, campina e
reinado), Id vence e ganha o coração da princesa - que jamais o
considerou um “palerma”, por isso, fez questão de lançar um edito
que corrigiu o epíteto dado ao esposo. Vejo em seus olhos
simplicidade e pureza – mesmo quando não são ingênuos. Seduzi-
me.

135
Cor Adormecida

RAPUNZEL

A pequena Gabriela, ainda imberbe, já mostrava ser


detentora de uma farta cabeleira. Anita costumava molhar as
pontas dos dedos com um óleo cheiroso e esfrega-lo nas mãos para
passear através da pequena florestinha que se adensava nos
cachinhos semi-feitos do bebê. Do alto de sua torre, Gabi cresceu –
e com ela, os cabelos também. Todos comentavam que a menina-
moça era linda, e mais ainda os cabelos que podiam ser avistados
de longe; houve mesmo quem sentisse inveja de suas madeixas e
lhe soltasse pragas. Mas Gabi tornou-se adulta - e como o passar da
idade muitas vezes traz benefícios que não esperamos, assim foi
com o cabelo dessa pequena – e suas madeixas tornaram-se ainda
mais abundantes e sedosas. Bastava balançá-las para que todos
ficassem aos seus pés. E foi observando tal talento natural que um
empresário do ramo da estética a contratou para ser sua principal
fornecedora de cabelos. Gabi ficava triste quando tinha que cortar
suas plumas, mas como que, por encanto, logo logo cresciam.

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Jo A-mi

A ESPERTA FILHA DO CAMPONÊS

Sofie é a admirável filha do camponês: uma moça simples


e inteligente que decifrou o enigma e conquistou o coração do rei.
Mas esta é a parte final da história. Assim, era uma vez uma moça
que, tentando salvar o próprio pai através de sua formatura e
estudos, não perdeu a capacidade de ser ela mesma. Sofie é
daquele tipo de pessoa que não se esconde da vida, que enfrenta os
obstáculos e não se perde enumerando as derrotas. Como a filha do
camponês, ela enfrenta as cenas mais dramáticas da sua jornada,
fazendo-se sempre vencedora – mesmo quando perde; e, como a
filha do camponês que ajudou um jovem homem pobre sem pedir
nada em troca, Sofie nos presenteia com sua benevolência rindo à
mesa nos jantares de feriado com minha família, satirizando sobre
os bastidores da História Antiga. Toda a corte a reverencia: vovó
beija-a como a uma neta, enquanto meu irmão oferece-lhe um
olhar cheio de flores; minha irmã bate palmas para o discurso
eloquente sobre Cleópatra e mamãe oferece-lhe mais um pouco de
sobremesa, sem perder a oportunidade de perguntar sobre a vida na
Argélia. De minha parte, sou por vezes apenas uma observadora,
por outras, candidato-me a rei roubado e alçado de seu próprio
chão: como acontece nos contos de fadas.

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Cor Adormecida

MORAL DAS HISTÓRIAS:


Para existir,
basta ser
personagem
de contos de
fadas.

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Jo A-mi

SOBRE A AUTORA...

É Professora-pesquisadora da Unilab-CE (no Instituto de


Humanidades e no Mestrado Profissional em Ensino e Formação
Docente) e da UFC (no Programa de Pós-Graduação em Artes).
Pós-doutora em Artes (UFMG), trabalha com pesquisas que
atravessam estudos em/com Arte Visual,
Literatura/Poética/Escrita, Arte-Educação. Enquanto Artista
Visual, tem vivenciado experiências interartes com Literatura,
Pintura, Fotografia, Desenho e Audiovisual; como escritora,
publicou os livros Pela Impermanência (2018) e Cor Adormecida
(2012). Site: https://joa-miart.wixsite.com/joa-mi

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