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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 16, Nº 30: 89-105 JUN.

2008

A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO


PROFISSIONAL NO BRASIL:
UMA HIPÓTESE A PARTIR DO CASO DE SÃO PAULO

Adriano Codato

RESUMO

A partir do exame das propriedades sociais e das características políticas ocupacionais dos representantes
da bancada de São Paulo na Assembléia Nacional Constituinte de 1946, o artigo constata que houve uma
mudança importante no perfil dessa elite. Os dados sugerem que a variação dos atributos da classe política
paulista ocorre durante o Estado Novo (1937-1945) e, hipótese a ser confirmada, por causa do Estado
Novo. À primeira vista, a alteração do perfil da elite é resultado de duas transformações sucessivas: primei-
ramente, nas condições de competição política, fato que tem impacto direto sobre os critérios de recruta-
mento; em seguida, na estrutura e nos mecanismos de recrutamento, graças ao rearranjo dos aparelhos
burocráticos do Estado. Essas variáveis institucionais não esclarecem, contudo, como o ‘bacharel’ substi-
tuiu tanto o ‘coronel’ quanto o ‘oligarca’ como figura dominante na política estadual. Conclui-se que uma
hipótese para explicar a peculiaridade da reforma dos contornos da elite não pode prescindir de uma
análise histórica, onde variáveis contextuais jogam um papel decisivo.
PALAVRAS-CHAVE: elite política; profissionalização política; Estado Novo; São Paulo; Getúlio Vargas.

I. INTRODUÇÃO1 Do mesmo modo, a modernização capitalista


(que equivale aqui à industrialização mais urbani-
Caso se tome dois pontos da história nacional
zação aceleradas) fez com que a classe política
para comparação, 1930 e 1950, por exemplo, fica
do País passasse a ser recrutada também em ou-
difícil negar que tenha havido uma renovação
tros grupos sociais, como Conniff (1989) verifi-
ampla – tanto em termos geracionais, quanto so-
cou: nas camadas médias, por exemplo. As “lutas
ciais, econômicos e ideológicos – das elites políti-
pelo desenvolvimento nacional”, para retomar um
cas brasileiras.
dito do período, implicaram, por sua vez, que os
O intervalo entre as duas datas, e os vários interesses a serem legitimados e/ou sancionados
subperíodos ao longo desses 20 anos em que as pelo Estado passassem a ser outros, o que se com-
liberdades políticas estiveram ou suspensas, ou prova pelas infinitas disputas do tipo “mercado
controladas, além de todos os eventos importan- interno versus mercado externo”, “indústria versus
tes dessa época – uma revolução (1930), uma agricultura”, “burocracia versus burguesia” etc.
contra-revolução (1932), seis eleições (1933, 1934, Isso certamente contribuiu para a decadência po-
1936, 1945, 1947, 1950), duas constituições lítica das “oligarquias tradicionais” (as antigas clas-
(1934, 1946), um golpe de Estado (1937), um ses dominantes regionais). Tão importante quan-
contragolpe de Estado (1945), e as respectivas to as oposições entre projetos ideológicos que
crises que os acompanharam –, aceleraram uma concorriam entre si e que pretendiam definir e di-
troca de turno que seria mais longa se fosse natu- rigir a mudança econômica do país (cf.
ral ou “espontânea”: por morte, afastamento vo- BIELSCHOWSKY, 2000), as restrições legais e/
luntário, perda de prestígio em função da perda ou políticas sobre a cena política e, conseqüente-
de capital social (status) ou econômico (“renda”). mente, sobre os direitos de participação na elite
política, produziram um efeito definitivo sobre
quem poderia participar do jogo político, como
1 Sou grato pela leitura e pelas sugestões feitas por Sérgio participaria desse jogo, onde participaria, em nome
Braga, Luiz Domingos e Bruno Bolognesi, do Núcleo de de quem ou de que interesses participaria etc.
Pesquisa em Sociologia Política Brasileira da Universidade
Federal do Paraná (UFPR). Ainda que esses movimentos políticos e pro-

Recebido em 11 de maio de 2008. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, v. 16, n. 30, p. 89-105, jun. 2008
Aprovado em 30 de maio de 2008.
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A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

cessos históricos tenham tido um impacto decisi- ordinárias: boa figura, domínio da retórica, capa-
vo e determinante sobre o universo das elites po- cidade de negociação etc. (DOGAN, 1999, p. 171-
líticas estaduais imediatamente antes, durante e 172)2. No segundo sentido, menos adjetivo e mais
depois do Estado Novo (1937-1945), para ficar- substantivo, a profissionalização política deve ser
mos numa data decisiva, penso que é necessário vista como um programa de comutação de um
ser aqui bem mais específico. tipo social (o notável) para outro (o especialista)
e de conversão da natureza dos recursos políticos
A representação política de São Paulo na As-
legítimos numa sociedade dada.
sembléia Nacional Constituinte de 1946 possuía
algumas peculiaridades em relação àqueles que Nessa linha de argumentação, Angelo
controlaram as posições-chave no estado durante Panebianco estabeleceu uma distinção útil entre os
toda a República Velha (1889-1930). Muito embo- diferentes conteúdos da fórmula “profissionalismo
ra a grande maioria dos trinta e oito integrantes da político” e uma classificação bastante sensata dos
bancada tivesse saído dos antigos partidos diferentes tipos de dirigentes políticos ordinários.
oligárquicos, o perfil social e ocupacional da elite Conforme Panebianco, a profissionalização da ati-
política paulista mudou em dois sentidos importan- vidade política tende a superar a definição weberiana
tes: ao mesmo tempo em que houve uma ascensão clássica – aquele que vive da política (WEBER,
e um predomínio de indivíduos oriundos das ca- 1994) – em duas direções: há tanto um processo
madas médias tradicionais (profissionais liberais, de substituição dos dirigentes dos partidos de notá-
professores universitários etc.), houve também uma veis pelos funcionários dos partidos de massa
maior profissionalização do pessoal político; o quase (profissionalização política propriamente dita), efei-
monopólio dos postos legislativos por parte desse to da democratização do mercado político ou da
novo tipo social, os “bacharéis”, deslocou tanto os ampliação do sufrágio; quanto – nosso caso aqui –
“coronéis” como os “oligarcas”, em sua maior parte um processo de substituição dos parlamentares de
os grandes proprietários que, em geral, eram tam- origem aristocrática, burguesa ou operária (isto é,
bém os chefões das máquinas políticas estaduais. de origem classista) pelo político “de classe mé-
dia”, com alto nível de instrução (profissionalização
Como, quando e por que isso ocorreu? Ou mais
intelectual), exigência e efeito, segundo ele, da
exatamente: o que poderia explicar o descasamento
“tecnicização” das decisões políticas (cf.
entre as classes economicamente dominantes e as
PANEBIANCO, 2005, p. 438-439).
classes politicamente dirigentes, em particular em
São Paulo em meados do século XX? A diferença tradicional entre notáveis e profis-
sionais, processo que, no caso brasileiro, engloba
O objetivo deste artigo é comparar os
o rebaixamento dos “coronéis” e a promoção, ao
predicados da classe política paulista em dois
primeiro plano da cena política estadual, dos “ba-
momentos distintos – antes do Estado Novo (1889-
charéis” (palavra que designa os titulares de pro-
1937) e imediatamente depois (1946-1951) – e
fissões liberais e não apenas de títulos universitá-
formular uma hipótese explicativa para o câmbio
rios), deve ser vista, entretanto, menos como uma
das origens sociais e, em especial, dos atributos
oposição abstrata entre dois tipos ideais; e sim
profissionais dos agentes políticos nesse contex-
como uma transformação induzida pelo regime
to histórico. Há, contra todas as expectativas ide-
do Estado Novo a fim de, justamente, afastar a
ológicas, uma profissionalização da classe políti-
idéia de uma progressão regular marcada pela
ca, a de São Paulo inclusive.
profissionalização desinteressada das práticas e pela
“Profissionalização política” pode ser entendi- racionalização abstrata da organização estatal no
da em dois sentidos, um mais descritivo, outro curso do período ditatorial.
mais analítico.
Olhando para todas as discrepâncias da classe
No primeiro caso, a noção designa a ascensão política paulista em dois períodos democráticos
e a predominância, nos aparelhos políticos, de um (os regimes das Constituições de 1891 e 1946),
agente – o político profissional – que deve exibir parece promissor considerar que a mudança do
quatro características distintivas: vocação preco- seu perfil tenha ocorrido entre as décadas de trin-
ce para a atividade política; carreira política ex- ta e quarenta e, mais exatamente, durante o Esta-
tensa; recursos extraídos tão somente das posi-
ções políticas ocupadas; e qualidades políticas 2 Uma referência clássica para o assunto é Black (1970).

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do Novo. Essa constatação não chega a ser uma te (o que implica, por sua vez, em novas formas
notícia inédita, principalmente quando se recorda de recrutamento e na exigência de outros perfis
a Revolução de 1930 (não o episódio, mas o pro- profissionais)4. O processo de circulação das eli-
cesso de transformação que se seguiu a ele). Onde tes políticas que ocorre e que é verificável olhan-
está, portanto, a novidade? do-se para os atributos da classe política de São
Paulo na primeira legislatura depois de 1937, é
O “Estado Novo” (isto é, o regime político e
assim o efeito do Estado Novo (ou melhor: das
suas instituições políticas) não constitui, como é
alterações na forma do Estado e na forma do re-
óbvio, a profissão política no Brasil, mas permite
gime) e não conseqüência automática do proces-
e, em certa medida, incentiva a profissionalização
so de renovação geral dos quadros dirigentes que
do pessoal político à disposição da ditadura. Uma
a Revolução de 1930 promoveu e patrocinou.
das peculiaridades aqui é que o regime faz isso,
mas sob a cobertura de uma ideologia política que Este artigo pretende desenvolver essa hipóte-
não só dissimula esse processo, mas o nega ex- se. Meu propósito exclusivo é encontrar, porém,
plicitamente. Assim, mesmo num ambiente de variáveis mais específicas para explicar esse pro-
depreciação retórica das funções políticas, de acu- cesso de “renovação profissional e social” da eli-
sação ideológica da inoperância das instituições te. Nos termos propostos por Wright Mills, uma
liberais e de estigmatização social das oligarquias “sociologia das posições institucionais” (e, por
(um exemplo entre muitos do espírito da época: extensão, uma sociologia do pessoal político que
VARGAS, 1938, passim), há a promoção de al- ocupa essas posições) deve explicar o “tipo de
guns grupos de elite em prejuízo dos demais gra- pessoa” ao mesmo tempo exigida e produzida por
ças à sanção de novos espaços institucionais no elas (GERTH & WRIGHT MILLS, 1970, p. 88).
Estado (interventorias federais, departamentos
Na segunda seção, esboço uma alternativa te-
administrativos, conselhos econômicos etc.) e à
órica a fim de estipular alguns parâmetros gerais
legitimação de recursos políticos (ou “capitais”,
para o estudo dos políticos profissionais em si
na fórmula de Pierre Bourdieu) de novo tipo.
mesmos (isto é, como objeto próprio de estudos)
O ponto a destacar, no entanto, não é apenas e do seu campo de atuação por si mesmo (isto é,
esse, é também outro e tão significativo quanto: com o objetivo de compreendê-lo “conforme suas
enquanto a passagem do “notável” – o homem po- próprias regras”).
lítico que dispunha de prestígio, posses e títulos –
Essa precaução metodológica deriva de uma
para o “político de profissão” se fez tradicional-
especialidade desse contexto histórico (que é,
mente num contexto da universalização do sufrá-
conforme o vejo, mais que uma coincidência tem-
gio e avanço da democracia política, conforme Max
poral). A desfiguração do perfil dos antigos repre-
Weber (1999) observou3, ocorre aqui exatamente
sentantes políticos da classe dominante paulista
o contrário: essa permuta faz-se no contexto dita-
(a profissionalização intelectual, nos termos de
torial e – é meu argumento – devido à ditadura.
Panebianco), embora seja simultânea ao processo
A suposição geral, portanto, é que a transfor- de transformação capitalista da economia brasi-
mação do perfil social da elite política (paulista, leira (a “industrialização”), não é, todavia, deter-
no caso) é derivada de duas causas institucionais minada por ela. A compreensão dessa alteração
combinadas: i) das mudanças sucessivas nas con- política fundamental (que, em certa medida,
dições de competição política ao longo da década viabiliza a própria transição do modelo agro-ex-
de 1930 (o que implica em novos critérios políti- portador para um modelo urbano-industrial) pas-
cos e ideológicos de recrutamento e promoção, sa antes pelo entendimento do rearranjo das re-
em especial antes de 1937) e ii) das modificações gras e dos procedimentos próprios do jogo políti-
na organização e nos modos de funcionamento co (ou de maneira mais ampla: do mundo políti-
do aparelho do Estado brasileiro de 1937 em dian- co) e por sua institucionalização característica
durante o Estado Novo.
3 Cf. Weber (1999, p. 544-560). Para um teste empírico
dessa hipótese, ver o estudo coordenado por Best e Cotta 4 O que significa dizer: a mudança da classe política não
(2000). Foi analisada a relação entre origem social e carreira pode ser explicada somente como um reflexo da mudança
política em onze países europeus no grande período que na estrutura social. Para uma discussão ponderada desse
vai de 1848 a 2000. ponto, ver Rodrigues (2006, p. 165-174).

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A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

Na terceira seção, faço um contraste entre as importante que os antecede e os dirige. Assim, não
propriedades da elite política paulista da I e da II se vai estudar a prática dos políticos em si mesma
República (1889-1930 e 1930-1937) e as da IV (ou sua fisionomia), justamente porque não se acre-
República (1946-1964), conforme a periodização dita que ela seja determinada por si mesma.
de Edgard Carone, a fim de delimitar melhor o
O ponto de partida aqui, contudo, é outro. O
problema empírico. Ele serve para explicitar o que
“empreendimento político”, para falar como Max
aconteceu nesse universo durante esse grande in-
Weber, é em primeiro lugar um efeito das leis in-
tervalo de tempo e indicar onde, em princípio,
ternas do campo político. O que esse princípio
deve-se buscar a resposta.
significa, exatamente?
Na quarta seção, procuro expor e explicar a
O campo político (tal qual o campo burocráti-
combinação de três variáveis contextuais –
co, o campo ideológico etc.) deve ser entendido,
institucionalização (do poder político),
com toda prudência que uma declaração de prin-
autonomização (do universo político) e
cípios como essa exige, como um microcosmo,
profissionalização (dos agentes e das práticas
como “um pequeno mundo social relativamente
políticas) – que concorrem para definir e dirigir
autônomo dentro do grande mundo social”, con-
esse processo peculiar de circulação de elites e
forme sugeriu Pierre Bourdieu. Essa autonomia,
sacramentar definitivamente a separação da clas-
se levada ao pé da letra, isto é, etimologicamente,
se dirigente da classe dominante, ao menos no
indica que, mais freqüentemente do que se imagi-
caso paulista. É possível pensar que o caso de
na ou se está disposto a aceitar, esse campo tra-
São Paulo possa, em certa medida, servir como
balha “de acordo com sua própria lei, seu próprio
parâmetro para elaborar uma explicação sobre a
nomos”; isto é, “ele possui em si mesmo o princí-
metamorfose da classe política brasileira a partir
pio e a regra do seu funcionamento” (BOURDIEU,
da segunda metade do século XX.
2000, p. 52). Bourdieu vai ainda mais longe nesse
II. AUTONOMIA DA POLÍTICA E AUTONOMIA assunto e sustenta que, em qualquer caso, “seria
DOS POLÍTICOS um erro subestimar a autonomia e a eficácia espe-
cífica de tudo o que acontece no campo político,
Simon Schwartzman concluiu que na década
reduzindo a história propriamente política a uma
de 1920 a política, para os paulistas, “era uma for-
espécie de manifestação epifenomênica das forças
ma de melhorar seus negócios; para quase todos
econômicas e sociais” (BOURDIEU, 1998, p. 175).
os outros [agentes políticos], a política era [o] seu
negócio” (SCHWARTZMAN, 1975, p. 123). Não foi preciso esperar pelas descobertas da
Ciência Política da segunda metade do século XX
Quando a atividade política tornou-se, para a
para afirmar que “interesses políticos” não são –
elite de São Paulo, um negócio como outro qual-
sempre e em todos os casos – a conversão, em
quer, naquele sentido sugerido tradicionalmente por
outra esfera, de interesses sociais. Assim como
J. Schumpeter? A resposta a essa pergunta de-
há uma profissão política, com seus códigos pró-
pende de como se considere o mundo político:
prios, há interesses especificamente políticos, sen-
sua autonomia ou heteronomia em relação ao
do ambos a confissão da autonomia do político
mundo social define o objetivo da investigação; e
(i.e., o espaço social), da autonomia da política (a
a heteronomia ou autonomia dos agentes políti-
prática social) e da sócio-lógica específica que
cos e dos interesses que eles defendem em rela-
governa e dirige essa prática. Joseph Schumpeter
ção aos agentes sociais aos quais estão ligados
reprovou com ironia a ingenuidade dos analistas
(de várias maneiras) e que, teoricamente, “repre-
que teimavam em não levar a sério a verdade con-
sentam”, decide o objeto da investigação.
tida na frase pronunciada por um político emi-
Caso se perceba o mundo político como um nente: “O que os empresários não compreendem
“reflexo” de fatores extrapolíticos, isso determina, é que, exatamente como eles negociam com pe-
de saída, o objetivo do inquérito (que só pode ser tróleo, eu negocio com votos”. O próprio Weber
“compreender os efeitos do mundo social sobre o (1993, p. 119-120) já observara que os políticos
mundo político”), bem como o objeto do estudo, são fundamentalmente “especuladores” de votos e
que nunca podem ser “os políticos” e o seu mundo cargos. Esses juízos de fato explicitam tanto o que
– a não ser que ambos sejam vistos como a tradu- Schumpeter chamará de “interesse profissional dis-
ção de uma dinâmica (social, econômica) mais tinto”, que está na base das ações dos políticos de

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carreira, quanto o “interesse distinto do grupo na A segunda questão refere-se à natureza da rela-
profissão política enquanto tal” (SCHUMPETER, ção entre todos os jogadores no espaço social ou,
1984, p. 356). Ele parece mesmo bem aborrecido para simplificar, entre a “elite social” e a “elite polí-
em ter de lembrar aos devotos da heteronomia uma tica”. Ela – a relação – pode ser pensada em termos
verdade tão evidente: a legislação que se fabrica subjetivos (a origem social da elite política) ou em
nos Legislativos e a administração que sucede no termos objetivos (a função social da elite política).
Executivo não são mais que “subprodutos” dessa O entusiasmo diante de uma ou de outra idéia é,
“incessante batalha” que acontece “no parlamento feitas todas as contas, a razão da divergência prin-
e fora dele” pelos empregos políticos e pelos car- cipal da polêmica Miliband-Poulantzas5.
gos públicos (idem, p. 355-356).
A terceira questão refere-se às condições so-
Esse hermetismo que caracteriza e define o ciais de produção dos próprios jogadores. A auto-
universo político implica ter presente tanto os pro- nomia do campo (e do jogo) político é a condição
cessos políticos e ideológicos de produção dos para produzir a profissão política e seus especia-
profissionais da política, que são historicamente listas: os profissionais da política. Quanto menos
diferentes em formações sociais diferentes, quanto diletantes, mais tendem a desenvolver interesses
os procedimentos efetivos, isto é, o “jogo políti- “corporativos” – ou, para falar como Weber, a
co”, com suas técnicas de ação e de expressão buscar “o poder pelo poder”; quanto mais inte-
(regras, posturas, crenças, valores, hierarquias ressados em si próprios, mais tendem a reforçar e
etc.), que são a essência de qualquer campo e o ampliar aquela autonomia. Conforme esse racio-
pré-requisito para participar dele. A propósito da cínio, a questão fundamental seria compreender e
famosa frase de Weber, para quem se pode viver explicar a regra do jogo (político), isto é, sua só-
da política ou para a política, Bourdieu corrige e cio-lógica implícita. É ela que determina as pro-
adiciona uma outra idéia: seria mais exato pensar priedades do campo de jogo, fixa os pré-requisi-
que se possa “viver da política com a condição de tos para participar da partida (o background soci-
se viver para a política” (BOURDIEU, 1998, p. al) e determina o contorno ideal (quem são) e a
176), isto é, conforme se conheça e se adira às margem de manobra dos jogadores (o que eles
regras do jogo, e não conforme uma vocação ima- podem, ou não, fazer).
ginada. Eu acrescentaria que o oposto também é
Voltando do céu à terra, os dois dispositivos
verdadeiro: só vive para a política aquele que vive
mais importantes dessa regra (no caso histórico
da política. Essa profissionalização é a condição
aqui considerado) são: i) a configuração
para dedicar-se integralmente seja à função de re-
institucional do Estado ditatorial – a forma e a fun-
presentação de interesses externos ao campo polí-
ção das instituições políticas autoritárias e ii) os
tico (interesses sociais), seja à função de represen-
critérios de seleção, ou as normas estritas de ad-
tação dos próprios interesses, e mesmo dos inte-
missão estipuladas pelo regime político em vigor.
resses do campo político enquanto tal: sua existên-
Essas variáveis institucionais – em suma: a forma
cia, sua permanência, seus regulamentos, seus có-
de Estado e a forma de regime – condicionam e
digos, seus princípios de seleção e exclusão etc.
constituem as características dos “jogadores”6. Mas
Há, no mínimo, três questões que decorrem dessa não apenas elas. Sua ação depende, na realidade,
interpretação do mundo político e de sua relação com de três processos mais gerais (“estruturais”, por
o mundo social. Menciono-as de passagem tendo assim dizer) que são sua condição de possibilidade.
em vista os objetivos limitados deste artigo. Enumero-os e os explico adiante, na seção IV. De
acordo com a perspectiva contextual aqui adotada,
A primeira refere-se à relação efetiva entre a
as variáveis históricas que concorrem para a trans-
esfera das práticas políticas e a esfera dos inte-
formação do universo da elite (dessa elite específi-
resses sociais. Só é possível pensar na autonomia
ca, bem entendido, já que esse não é um “modelo”)
dos representantes políticos tendo como suposto
(lógico e histórico) a autonomia do campo da re-
presentação política (“representação” entendida 5 Ver, em especial, os primeiros artigos: Poulantzas (1969)
aqui em vários sentidos: como delegação, como e Miliband (1970).
encenação e como figuração). Recorrendo a uma 6 Assim, quando escrevo que a transformação dos perfis
imagem a fim de ilustrar a idéia: os jogadores e o sociais das elites políticas estaduais é o efeito tanto das
jogo pressupõem o tabuleiro. restrições impostas na cena política, quanto das institui-

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são: a institucionalização do poder estatal; a empresariais era de admiráveis 60%. O figurino


autonomização do campo político e a observado em São Paulo deveria sugerir, portanto,
profissionalização dos agentes políticos. a existência de uma “elite do poder” – para utilizar
o termo clássico de Wright Mills (cf. LOVE &
Para o período que analisamos, a caracteriza-
BARICKMAN, 1986, p. 753, Tab. I, p. 747, 764).
ção empírica dos “jogadores” teria de incluir o
processo de transformação das figuras – estereo- Esses dados são tanto mais relevantes quando
tipadas – do coronel, no mundo rural, para o ba- se sabe que, no mesmo período, as taxas de “pro-
charel, no mundo urbano, num ambiente político prietários” na classe política de São Paulo eram
em que predomina socialmente (e ideologicamen- mais significativas do que as de Minas Gerais ou
te) um tipo característico: o oligarca. Pernambuco.
As três expressões, apesar da imprecisão Para a variável “proprietário rural”, por exem-
conceitual, são, antes de tudo, uma anotação plo, enquanto havia 19% de fazendeiros na elite
taquigráfica. Elas pretendem reter três formas di- pernambucana e 17% na elite mineira, havia 38%
ferentes de existência social; não são, assim, uma de “donos de fazendas produtoras de bens agrí-
descrição sociológica completa. Contudo, são úteis colas ou pastoris” na elite política paulista7. Dian-
aqui à medida que reenviam esses “tipos” a ori- te de outros países, mais ou menos à mesma épo-
gens sociais específicas e a um conjunto de valo- ca, o caso da locomotiva da federação é mais dis-
res e práticas históricas distintas, reconhecíveis crepante ainda: contra 56% de proprietários na
intuitivamente. classe política de São Paulo, os Estados Unidos
contavam, entre fins do XIX e início do XX, com
Essa tipologia ad hoc e impressionista reco-
15%, o México com modestos 7% e a Argentina,
bre, como se vai ver a seguir, um programa mais
uma economia também agro-exportadora, com
geral de diferenciação social que tem na
31% (cf. LOVE, 1983, p. 72, Tab. 8)8.
dissociação da classe dirigente da classe domi-
nante (o assunto do item III) e na construção de Entretanto, essa justaposição, que atingiu seu
um campo político autônomo (a discussão do item ponto mais alto imediatamente depois da Repúbli-
IV), a gênese da constituição de um papel social ca Velha, possivelmente em função da ascensão
novo: o político de profissão. política do aristocrático Partido Democrático de
São Paulo, não era nem uma tendência brasileira,
III. ELITE POLÍTICA E ELITE ECONÔMICA
cujo aumento poderia ser detectável ao longo do
Seria bem razoável objetar que, nas condições tempo, nem uma essência (um “padrão históri-
históricas do Brasil da primeira metade do século co”) da política nacional. O estudo de José Murilo
XX, a separação entre um grupo de indivíduos de Carvalho mostrou que na elite imperial brasilei-
formado por políticos profissionais e a classe ra o total de fazendeiros mais comerciantes entre
economicamente dominante é uma distinção, na os Ministros de Estado não chegava nem a 5%.
melhor das hipóteses, escolástica. Em compensação, as profissões ligadas à buro-
Joseph Love e Bert Barickman mostraram, ao cracia imperial (políticos, militares, funcionários,
comparar a elite política paulista (“rulers”) com magistrados e diplomatas) somavam exatos 60%
sua elite econômica (“owners”), que, entre a Pro- (cf. CARVALHO, 1996, p. 91, Quadro 11).
clamação da República e o Estado Novo, a pri- Lendo de trás para diante, a ditadura parece ter
meira praticamente coincide com a segunda. No exercido um efeito significativo sobre a represen-
intervalo 1889-1937, “56% da elite paulista tinha tação parlamentar de São Paulo. O exame das pro-
ocupações cujo rendimento tomava a forma de priedades sociais e profissionais do grupo na pri-
lucros, juros ou renda, mais que salários ou ho- meira legislatura federal depois do regime de 1937
norários”. Segundo os autores, em 1932 o nível sugere que o Estado Novo, isto é, seus critérios de
de sobreposição entre líderes políticos e líderes
7 Para a comparação, ver Love e Barickman (1991, p. 7).
ções impostas pelo sistema estatal quero de fato dizer que
Para esses dados, ver Love (1983, p. 88-89).
ela é o efeito das duas coisas. Não há aqui uma prioridade
lógica ou uma hierarquia fixa de causas, embora “historica- 8 Os dados referentes à Argentina são uma média pondera-
mente” (isto é, nesse contexto específico), a primeira tenha da de alguns momentos entre 1889-1946; os dados referen-
acontecido cronologicamente antes (1930-1937) da segun- tes aos EUA são para os anos 1877-1934; no caso do Mé-
da (de 1937 em diante). xico, 1917-1940.

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seleção ideológica, seus métodos de recrutamento Câmara dos Deputados em todo o período
político e modos de operação burocrática funcio- “populista” (1946-1964)9.
naram como uma engrenagem que teve duas con-
O ponto relevante aqui, entretanto, não é sa-
seqüências inesperadas (ou mais propriamente, não
ber se o contorno dos comandantes políticos de
planejadas) sobre o universo da elite: descasou a
São Paulo aproximou-se do padrão nacional de-
classe economicamente dominante da classe politi-
pois da “redemocratização” de 1945, mas sim
camente dirigente e constituiu, no seio desta últi-
explicar quando, como e por que ele mudou.
ma, uma classe política naquele sentido defendido
acima por Panebianco, resultado, em princípio, da A Tabela 1 estabelece algumas informações re-
“complexificação” da gestão política (o que ele levantes para essa discussão. Para os nossos pro-
chamou de “profissionalização intelectual”). pósitos, é suficiente acompanhar a profissão prin-
cipal dos 38 constituintes, incluídos os cinco su-
Graças à relativa disjunção entre rulers e
plentes que exerceram mandato. Sérgio Braga
owners, a bancada paulista na Assembléia Consti-
(1998) lista as ocupações secundárias, visto que,
tuinte de 1946 era integrada por menos de 24%
no período, era comum atuar em mais de um ramo
de proprietários, média idêntica, aliás, ao perfil
de atividade.
social dos representantes dos demais estados na

TABELA 1 – SENADOR E DEPUTADOS CONSTITUINTES EM 1946 - BANCADA DE SÃO PAULO – TODOS OS


PARTIDOS (ATIVIDADES PROFISSIONAIS POR ORDEM DE IMPORTÂNCIA; EM %)

FONTE: o autor, a partir de Braga (1998, p. 132-144, anexo 6).


NOTAS: 1. Foram incluídos os suplentes que assumiram o mandato
2. O total é de 38 constituintes.

9 Santos (2000) demonstrou que de 1946 a 1998 o total de


proprietários agrícolas somados aos empresários urbanos

95
A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

“Proprietários” (de vários tipos) como ocupa- Essas cifras não são surpreendentes. Em geral,
ção principal (em vários ramos) eram somente carreiras políticas tendem a ser mais fáceis para
nove indivíduos, menos de um quarto dos consti- indivíduos com brokerage ocupations: professores
tuintes10. Os proprietários de terras não estavam universitários, sindicalistas, jornalistas, advogados.
absolutamente sub-representados, mas também Além de contarem com condições objetivas mais
não eram o maior pedaço da bancada dos capita- favoráveis para dedicar-se também ou exclusiva-
listas. Esses grandes fazendeiros, aliás, compare- mente à vida política (tempo disponível, férias lon-
ciam aqui tanto como “representantes de classe”, gas, carreiras profissionais descontínuas, indepen-
quanto como políticos profissionais: a fração dência profissional, segurança financeira, relações
pessedista – César Costa; Martins Filho; Sampaio na sociedade, status social e habilidades técnicas
Vidal – junto da banda udenista (Toledo Piza) era úteis na vida política: uso hábil da retórica, conhe-
formada por um ex-PRP (o primeiro) e dois inte- cimento da legislação etc.), há, da parte desses pro-
grantes tradicionais do PD-PC (o terceiro e o quar- fissionais, uma disposição subjetiva maior para as-
to) e todos os três políticos do PSD11 paulista che- sumirem os riscos e os custos de tentar uma posi-
gavam à Assembléia Constituinte tendo estagiado ção no poder Legislativo ou no poder Executivo
no Estado Novo: César Costa foi membro do De- (cf. Ranney apud NORRIS & LOVENDUSKI,
partamento Administrativo do estado de São Pau- 1997, p. 165-166). Schumpeter resumiu em uma
lo (Daesp), Martins Filho dirigiu federações sindi- expressão essa idéia: há “um estrato social”, esse,
cais de patrões e Sampaio Vidal foi “membro da no caso, “que se liga à política de forma natural”
CME – Coordenação da Mobilização Econômica, (SCHUMPETER, 1984, p. 362).
do Conselho de Expansão Econômica de São Paulo
Para desfazer a idéia de uma república de ad-
e do Conselho Consultivo do DNC – Departamento
vogados que essa classificação pode induzir, é
Nacional do Café (1942-1945)” (BRAGA, 1998,
suficiente incluir nessa tabulação a categoria “po-
p. 683).
lítico profissional”. A grande maioria dos 38 re-
Indivíduos que tinham “profissões intelectu- presentantes do estado certamente poderia estar
ais” (em geral, atividades liberais) somavam 73% contida nela, mesmo aqueles que assumiam pela
(28 pessoas). Nessa classe, “advogados profissi- primeira vez um posto no legislativo. Eram mui-
onais liberais” eram 42%. Olhando exclusivamente tíssimo raras as trajetórias realizadas fora da polí-
essa linha e somando os indivíduos que exerciam tica institucional e, para o PSD-PTB, fora dos
a advocacia como profissão secundária ou even- empregos políticos proporcionados pelo Estado
tual, encontramos 65,5%. Caso incluíssemos os Novo; os casos de recrutamento lateral, mesmo
demais “advogados funcionários públicos” nessa para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), eram
conta, a cifra subiria para nada menos de 76% da igualmente infreqüentes.
bancada12.
Pode-se objetar que, com o fim do Estado
Novo, esse processo de remanejamento das posi-
variou de um mínimo de 10,2% (1978) e um máximo de ções sociais na elite, se não foi natural, já era
37,2% (1990). No período “populista” a média ficou em esperável, pois teria havido uma renovação
23,1% (cf. SANTOS, 2000, p. 84, Gráf. 5). Os percentuais
geracional importante: novos políticos (isto é,
foram determinados por mim, a partir dos dados do autor.
políticos mais jovens), abrigados em novos parti-
10 São eles: Hugo Borghi (Partido Trabalhista Brasileiro
dos, criados somente em 1945, justamente con-
(PTB)) (banqueiro); Horácio Lafer (Partido Social-Demo- tra as máquinas políticas oligárquicas dominadas
crático (PSD)); João Abdala (PSD); Machado Coelho
(PSD); Paulo Nogueira Filho (União Democrática Nacio-
pelas velhas elites estaduais e depois de um longo
nal (UDN)) (industriais); César Costa (PSD); Martins Fi- hiato institucional.
lho (PSD); Sampaio Vidal (PSD); Toledo Piza (UDN) (fa-
zendeiros). César Costa (PSD); Cirilo Júnior (PSD); Costa Neto (PSD);
11 Os significados das siglas dos partidos são os seguin- Euzébio Rocha (PTB); Gofredo Telles Jr. (PSD); Honório
Monteiro (PSD); Horácio Lafer (PSD); José Armando
tes: PRP: Partido Republicano Paulista; PD: Partido De-
(PSD); Machado Coelho (PSD); Manuel Vítor (PDC);
mocrático; PC: Partido Constitucionalista.
Marcondes Filho (PTB); Mário Masagão (UDN); Martins
12 A relação completa de todos os bacharéis em Direito é Filho (PSD); Novelli Júnior (PSD); Paulo Nogueira Filho
a seguinte: Altino Arantes (PR); Alves Palma (PSD); Antô- (UDN); Plínio Barreto (UDN); Romeu Fiori (PTB); Romeu
nio Feliciano (PSD); Ataliba Nogueira (PSD); Aureliano Lourenção (UDN); Sampaio Vidal (PSD); Sílvio de Cam-
Leite (UDN); Batista Pereira (PSD); Berto Condé (PTB); pos (PSD); Toledo Piza (UDN).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 16, Nº 30: 89-105 JUN. 2008

Todavia, quando se testam essas proposições, tes) não era tão baixa: 40% dos constituintes dos
o que se verifica, em primeiro lugar, é que a taxa maiores partidos possuíam idades acima dos 51
de “antigüidade” do grupo PSD-PTB de São Pau- anos13. A UDN sozinha detinha a maior média de
lo (o maior bloco da bancada: 25 indivíduos) so- idade da representação de São Paulo: 52,5 anos.
mado aos políticos da UDN-SP (seis representan-
É a história que a Tabela 2 conta.

TABELA 2 – DISTRIBUIÇÃO ETÁRIA DOS MEMBROS DA BANCADA PAULISTA DA UDN, DO PTB E DO PSD
NA ANC DE 1946 (EM %)

FONTE: o autor, a partir de Braga (1998, p. 652-700).


NOTAS: 1. Considerou-se a idade no momento da instalação da ANC, em 1946.
2. Universo: 38 indivíduos: amostra: 31; base de cálculo: 30 (sem informação: 1).

Essas cifras são tanto mais significativas quan- posições políticas ocupadas. Desse subgrupo de
do se sabe que a maior parte dos constituintes de 12 políticos que tinha, na Revolução de 1930, pelo
outros estados somados todos os partidos era até menos 36 anos de idade, praticamente todos já ha-
mais jovem (ainda que ligeiramente) que essa amos- viam ingressado naquela altura na carreira política
tra da bancada paulista e ficava na faixa dos 41 a (sete), ou o fariam imediatamente depois (três).
50 anos: 36% contra 30% dos paulistas nessa clas-
A segunda evidência que se pode mencionar
se.
contra a hipótese da “renovação” da política
Esse dado sobre a distribuição etária sugere uma paulista é que praticamente 70% do bloco de 31
outra questão: a experiência política prévia dessa políticos do PSD + PTB + UDN fora recrutado
elite. Um indicador é a filiação partidária; outro, as nos partidos da oligarquia.

TABELA 3 – TRAJETÓRIA PARTIDÁRIA DOS CONSTITUINTES DE SÃO PAULO POR PARTIDO ANTES DE 1937

FONTE: o autor, a partir de Braga (1998, p. 652-717).


NOTAS: 1. Horácio Lafer integrou tanto o PRP como o PC. Para evitar dupla contagem, foi somado para o PRP.
2. AIB: Ação Integralista Brasileira.
3. s/a: sem atividade; s/i: sem informação.

Até onde foi possível determinar e conside- crática Nacional de São Paulo, todos os seis de-
rando as informações disponíveis para o intervalo putados federais vinham do Partido Democrático
1910-1937, dos 18 representantes do PSD-SP,
pelo menos 72% haviam iniciado sua carreira ou 13 A respeito das faixas de idade dos constituintes por
no Partido Republicano Paulista ou no PD/PC; dos partidos na Assembléia Nacional Constituinte (ANC), cf.
sete integrantes da bancada do PTB-SP (cuja mé- Braga (1998, v. I, p. 66, Tab. 9, p. 66). A agregação que fiz
dia de idade era menor) pelo menos dois haviam e as classes etárias que criei são, contudo, diferentes das do
integrado o PRP; e da aristocrática União Demo- autor.

97
A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

e/ou do Partido Constitucionalista, seu sucessor14. haviam sido, em algum momento da carreira, pre-
feitos (eleitos ou nomeados), secretários de esta-
Havia, contudo, no universo de 38 pessoas,
do, líderes de associações de classe, dirigentes
um número razoável de indivíduos em sua pri-
partidários, militantes políticos, publicistas, mem-
meira legislatura (praticamente a metade, 18), mas
bros de institutos governamentais, de conselhos
essa cifra revela mais a renovação de nomes no
econômicos etc.
plano federal do que o ingresso de noviços na
elite política. A tabela 4 discrimina os empregos políticos e os
movimentos políticos que os membros da bancada
Dos dezoito principiantes como deputado fe-
do PTB-SP, do PSD-SP e da UDN-SP tiveram ou se
deral, apenas um deles possuía nenhuma experi-
envolveram antes e durante o Estado Novo.
ência política e/ou partidária15. Todos os demais

TABELA 4 – ATIVIDADES POLÍTICAS DOS ESTREANTES DA BANCADA PAULISTA NA CÂMARA FEDERAL EM


1946 POR PARTIDO

FONTE: o autor, a partir de Braga (1998, p. 652-717).


NOTA: s.a. = sem atividade; s.i. = sem informação.

14 Desses 31 constituintes, não dispomos de informações assumiram a cadeira na ANC para terem pertencido às
agremiações da oligarquia (ver a tabela 4).
seguras sobre a filiação partidária prévia de cinco deles:
Lopes Ferraz e Martins Filho (do PSD-SP); Berto Condé, 15 Do PSD, Honório Monteiro (suplente; assumiu o man-
Euzébio Rocha e Hugo Borghi (do PTB-SP). Os dois últi- dato substituindo Gastão Vidigal quando este se tornou
mos, além de Martins Filho, eram muito jovens quando Ministro da Fazenda). Ele era professor universitário (ca-

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 16, Nº 30: 89-105 JUN. 2008

As trajetórias políticas desses 13 nomes que mar a fórmula clássica de Pareto: a substituição
assumiam pela primeira vez um mandato parla- da elite pela contra-elite), ocorreu uma mudança
mentar eram muito variadas, mas ainda assim há – que não chegou a ser uma renovação completa,
traços em comum. como se comprova pela permanência de vários
dos mesmos nomes na elite – nos perfis sociais e
As carreiras dos pessedistas até poderiam ter
ocupacionais dos representantes políticos da clas-
começado antes mesmo de 1937, mas o funda-
se política paulista. Esse processo consagrou a
mental é que para todos sobre os quais existe in-
ascensão dos ‘bacharéis’, isto é, de um grupo
formação (cinco), o último posto relevante imedi-
bastante grande (o maior da bancada) que estava
atamente antes da Câmara Federal era uma colo-
separado por sua situação social e por sua posi-
cação no regime “varguista”: ou funções jurídicas
ção social da oligarquia reinante na I República,
no aparelho do Estado, ou funções políticas no
abrindo o caminho para a “profissionalização in-
governo ditatorial (Prefeito), ou funções sindicais
telectual” da elite.
oficiais.
É possível que o caso de São Paulo, em fun-
O PTB acompanha o mesmo padrão – fun-
ção das questões específicas que envolve não seja
ções burocráticas em agências importantes – e
representativo (em termos estatísticos) da lógica
esses estreantes na política parlamentar paulista
política de cada estado da federação no período
são exatamente os mais jovens de toda a bancada.
posterior a 1930 e mesmo no posterior a 1945.
A diferença em relação aos pessedistas é que aque-
Ainda assim, o interesse em estudá-lo – mesmo
les detinham posições políticas estaduais; os
sabendo de antemão os impedimentos para pro-
petebistas, em aparelhos federais (Comissão Na-
duzir testes de hipóteses válidos, inferências cau-
cional de Política Industrial e Comercial (Cnpic) e
sais e generalizações confiáveis em pesquisas em
Comissão de Mobilização Econômica (CME)).
que o n = 1 (cf. KING, KEOHANE & VERBA,
Exatamente metade da bancada da UDN – 1994, p. 209 e segs.) – deriva do fato dele ser um
Mário Masagão, Plínio Barreto e Romeu caso-limite (em que as ocorrências do problema
Lourenção – era estreante no legislativo. Esse é, são mais intensas), e não um “caso crucial”, na
entretanto, um dado enganoso. Masagão fora o definição de Eckenstein (1975), isto é, um caso
Secretário de Justiça e Segurança Pública durante único e decisivo para a explicação integral do pro-
a Interventoria de Armando de Sales Oliveira (em blema considerado.
1933); “nessa condição”, enfatiza Braga, “foi en-
De toda forma, as circunstâncias políticas em
carregado de organizar a participação da bancada
São Paulo acompanham e respondem a um con-
paulista na Assembléia Nacional Constituinte
junto de transformações históricas mais gerais, sim-
(1933-1934)” (BRAGA, 1998, p. 705). Plínio
bolizadas pelo Estado Novo, que qualificam e tor-
Barreto, por sua vez, havia tido uma carreira tão
nam mais complexa a influência das variáveis
movimentada quanto: foi “Secretário de Justiça e
institucionais relatadas acima: as mudanças na for-
Segurança Pública após a vitória do movimento”
ma de regime e seus impactos sobre os princípios
de 1930. “Governador Provisório de São Paulo
de seleção política; as mudanças na forma de Esta-
por um curto período (6 a 25 de novembro de
do e a burocratização da atividade política, fato que
1930). Participou ativamente e foi uma das prin-
exige um tipo específico de operador político.
cipais lideranças civis do movimento
constitucionalista ocorrido em São Paulo, tendo Para explicar as características mais salientes
sido chefe do Serviço de Censura durante a rebe- da classe política paulista no período posterior a
lião (1932)” (BRAGA, 1998, p. 711). Romeu 1945 – indivíduos oriundos não das oligarquias
Lourenção era jovem demais para ter assumido de proprietários rurais, mas ainda assim provin-
postos partidários ou no governo. dos das máquinas políticas tradicionais; políticos
mais velhos que a média nacional, mas nem por
Em resumo: sem que tenha havido realmente
isso com o mesmo perfil profissional dos políti-
um processo de circulação das elites (para reto-
cos da República Velha – é preciso entender os
processos estruturais de reconfiguração do cam-
tedrático de Direito Comercial da Faculdade de Direito de
São Paulo) e ocupou apenas posições administrativas em po político. Eles indicam que variáveis contextuais
instituições de ensino superior no estado durante o Estado são tão ou mais decisivas que variáveis estrita-
Novo (BRAGA, 1998, p. 671-672). mente institucionais.

99
A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

IV. INSTITUCIONALIZAÇÃO, AUTONOMIZA- Isso fica particularmente claro quando se ana-


ÇÃO E PROFISSIONALIZAÇÃO lisam inclusive os discursos dos agentes políticos
da IV República. Eles incorporam a linguagem
A profissionalização política não é um fenô-
administrativa da eficiência, eficácia, objetivida-
meno datável com exatidão, visto que sua evolu-
de, neutralidade etc. herdada da III República, com
ção (em termos gerais) é inconstante e sua cro-
todos os rendimentos simbólicos (ou melhor: po-
nologia, imprecisa.
lítico-ideológicos) que daí decorrem e dos quais
Ela depende de um sem-número de fatores, imaginam poder viver às custas. É nesse contex-
que são tanto internos quanto externos ao campo to que ocorre um tipo específico de
político. Por isso é difícil estipular um modelo profissionalização dos agentes políticos: a
abstrato que preveja a maior parte das situações “profissionalização intelectual”, mas no sentido
históricas. Ainda assim é possível determinar, em proposto por A. Panebianco (2005). Seu traço mais
função desse contexto, as variáveis especiais que saliente e mais desconcertante, terceiro parado-
concorrem para a explicação do problema pro- xo, é que esse processo não vem acompanhado
posto aqui. Todas essas variáveis contextuais di- de uma retórica ou de um conjunto de convicções
zem respeito a transformações que sucedem ape- políticas que o justifique e valide em seus próprios
nas no mundo político (em função de sua autono- termos, mas de uma arenga que o condena e o
mia característica), ainda que se possa estabele- nega explicitamente: basta consultar toda a dou-
cer uma relação de correspondência mais geral trina política desse período em que os intelectuais
entre a institucionalização do poder do Estado na- profissionais imaginam poder substituir a classe
cional e as mudanças na base econômica desde política no processo de reorganização da Nação
1930, ou entre a profissionalização da classe polí- (cf. PÉCAUT, 1990, p. 22ss.).
tica e a decadência social das oligarquias estadu-
A retórica autoritária tem, nesse caso, uma
ais, desde 1937.
função dupla: enquanto ela celebra a despolitização
No caso do Estado Novo há, a respeito dessas da política, apresentando os agentes do aparelho
questões, um fenômeno triplo e, penso, triplamente do Estado como técnicos em administração pú-
interessante, já que assinala e exprime, à primeira blica, ela, ao mesmo tempo, encobre a transfor-
vista, três paradoxos. Eles combinam três variá- mação dos atributos sociais e profissionais da clas-
veis construídas indutivamente: institucionalização, se política. Daí a “nova elite” aparecer em 1946
autonomização e profissionalização. como tendo brotado do processo de moderniza-
ção institucional, ou do desenvolvimento nacio-
Primeiro paradoxo: a temporada que se abre
nal, ou da mudança da base econômica etc., e não
em 1937, com o golpe de Estado, é um período
dos dois requisitos gestados no Estado Novo: i)
de institucionalização do poder propriamente po-
um universo político relativamente autônomo, que
lítico (separado do “poder econômico”) sem que
determina regras de seleção próprias, define cren-
haja, de fato ou de direito, uma política institucional
ças legítimas e atribui papéis específicos e ii) um
(partidos, parlamentos, eleições) que institua e le-
aparelho administrativo extenso, complexo e re-
gitime esse poder; segundo paradoxo: esse pro-
lativamente institucionalizado (“burocratizado”)
cesso de institucionalização do poder, cuja me-
que exige, justamente, a intervenção de um experto
lhor evidência é a constituição de um Estado na-
– ou, ao menos, de alguém que possa se trombetear
cional, ao lado da nacionalização da atividade po-
como tal.
lítica brasileira (fenômeno esse verificável somen-
te depois de 1945, graças à formação de O mundo político (incluindo aqui também o
agremiações partidárias nacionais, em substitui- Estado e seus aparelhos de poder) pode possuir
ção e em oposição aos partidos estaduais), é para- uma extensa rede de instituições políticas e orga-
lelo não à autonomização completa do campo po-
lítico; mas à submissão da lógica e dos valores do
campo político à lógica e aos valores do campo 1964 e, em especial, a configuração do sistema partidário,
estava condicionada por duas variáveis herdadas do perío-
burocrático16.
do anterior: a ideologia autoritária dos círculos dirigentes
autoritários (antiliberal, antidemocrática, antipartidária,
16 Maria do Carmo Campello de Souza apresentou uma antiparlamentar etc.) e a estrutura institucional do Estado
versão aproximada dessa idéia por meio de uma hipótese Novo (centralização decisória, hipertrofia do poder Execu-
bastante conhecida: a política brasileira no período 1946- tivo etc.) (cf. SOUZA, 1990, p. 63-136).

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REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA V. 16, Nº 30: 89-105 JUN. 2008

nizações formais, ou mesmo admitir práticas, pro- mais exatamente: essa sincronia oculta as relações
tocolos e procedimentos próprios, isto é, ser de causalidade.
“institucionalizado” (ou estar em processo de
Minha idéia básica é que no ambiente de trans-
institucionalização), sem ser por isso autônomo
formações produzidas, planejadas ou simplesmen-
(ou já completamente autônomo). Nesse caso, ele
te inspiradas pelo Estado Novo, tende a surgir,
é guiado (ainda) por uma lógica externa e deriva-
inclusive em meio à ideologia da racionalização
da de um campo ou maior, mais extenso, mais
das práticas administrativas, uma figura política
poderoso, ou mais legítimo, mais prestigioso, e
entre o antigo notável (ou o “oligarca”), e o es-
que tem o poder de impor, por meio de mecanis-
pecialista (o que eu chamei até aqui de “profissio-
mos variados, suas normas e regras específicas,
nal”). Panebianco definiu esse tipo como o políti-
seus valores inerentes, seus modos de percepção
co “semiprofissional”. Ele “dispõe de independên-
e expressão próprios. Portanto, a institucionali-
cia econômica, em razão dos proventos profissi-
zação não supõe autonomização completa.
onais extrapolíticos”, como o notável; e conta com
A heteronomia ou a autonomia não são igual- “grande disponibilidade de tempo livre” para dedi-
mente dois estados fixos, já que podem compor- car-se à atividade política, como o profissional.
tar, tal qual a institucionalização, gradações. Os políticos semiprofissionais são educados, trei-
Idealmente, um campo pode estar contido em nados e exibem competências específicas como
outro, que o engloba e domina; dois campos po- os peritos (em geral são advogados, professores,
dem estar parcialmente sobrepostos, sendo a área jornalistas, médicos), sem deter ainda uma exten-
de intersecção o objeto da disputa, ou podem ser sa capacidade técnica ou grande experiência em
irredutíveis um ao outro, já que não partilham assuntos superespecializados (cf. PANEBIANCO,
(mais) nem recursos, nem comportamentos e 2005, p. 460-461).
valores (“capitais” e habitus, na linguagem de
Essa figura de transição – tal como o ensaísta,
Pierre Bourdieu).
entre o beletrista e o cientista, também bastante
Por sua vez, a profissionalização, isto é, o pro- popular no contexto intelectual dos anos 1930 –
cesso de constituição de agentes especificamente que estará na origem dessa classe política forma-
políticos, supõe a existência de um universo polí- da posteriormente por uma maioria de políticos
tico relativamente autônomo; mas como ela tam- profissionais e separada da oligarquia resulta de
bém é paulatina (e historicamente determinada por alguns fatos básicos: do processo concreto de
um sem-número de variáveis), é provável que es- redimensionamento do universo político (por meio
sas três coisas – institucionalização, da redução numérica da classe política); da
autonomização, profissionalização – aconteçam ao redefinição dos direitos de entrada nesse universo
mesmo tempo e se determinem mutuamente. e a conseqüente depuração político-ideológica da
elite que ele permitiu (graças aos novos sistemas
Há uma diferença perceptível entre esses três
de controle das nomeações políticas); e da
fenômenos conjugados que, em geral, não preci-
burocratização dos papéis políticos (o que impli-
sam ocorrer de acordo com uma seqüência fixa,
cou, ipso facto, no remodelamento das funções
ainda que um pressuponha “logicamente” o ou-
sociais dos representantes das “classes agrárias”).
tro: a institucionalização (do poder político), a
autonomização (do universo político) e a Um ponto a destacar para essa discussão, e
profissionalização (dos agentes e das práticas que nem sempre foi bem dimensionado nas análi-
políticas). É possível que haja um paralelismo, e ses, mas que concorreu decisivamente para dimi-
não uma relação de determinação causal, entre a nuir a coincidência entre a classe dominante e a
história da construção do Estado nacional brasi- classe dirigente, foi a drástica diminuição do nú-
leiro – e seus correlatos: diferenciação institucional, mero de empregos políticos.
centralização política, coordenação de funções,
O Estado Novo emagreceu significativamente
conforme definiu C. Tilly (1975), a burocratização
a classe política porque restringiu significativa-
das suas rotinas e de seus quadros –, sua pro-
mente os cargos à disposição dos políticos. Para
gressiva institucionalização como um poder (for-
que se tenha um parâmetro disso: Love (1982)
mal e real) “separado da sociedade”, o processo
estudou os 263 indivíduos que formaram a elite
de autonomização do campo político profissional
política paulista entre 1889 e 1937. Para continu-
e a profissionalização dos seus operadores. Ou

101
A FORMAÇÃO DO CAMPO POLÍTICO PROFISSIONAL NO BRASIL

ar sua pesquisa até 1945, e adotando critérios idên- zação do poder de Estado e profissionalização das
ticos, o grupo a ser analisado não somaria 30 pes- práticas políticas) estão assim no princípio da fa-
soas17. Se incluíssemos na conta os 14 integran- bricação de uma espécie muito própria de “con-
tes do Departamento Administrativo do estado de tra-elite” por meio do processo de reciclagem dos
São Paulo, descontássemos as sobreposições, o recursos humanos da própria elite.
total da elite não seria nem 20% do universo de
Variáveis de tipo contextual (ou histórico) não
Love. Conforme estimativas (otimistas), a elite
negam explicações institucionais; tornam essas
estadual no Estado Novo somaria em São Paulo
últimas mais complexas e mais completas.
algo em torno de modestos 40 indivíduos. E tal-
vez menos ainda. Amaral, adotando critérios se- V. CONCLUSÕES
melhantes aos de Love, encontrou 31 indivíduos
Certos acontecimentos, como se intui, são
na elite riograndense (cf. AMARAL, 2006, p. 147).
mais significativos para o todo sem que se preci-
O pré-requisito histórico que tornou todos es- se estudar tudo. São Paulo antes e depois de Vargas
ses acontecimentos possíveis – “purificação” da é assim um ponto de partida para circunscrever
elite, limitação do número bruto de representantes melhor o problema de pesquisas desse tipo (pes-
e novas formas e novos mecanismos da repre- quisas históricas sobre elites), para exemplificar
sentação política – foi o “fortalecimento” do Es- as regras utilizadas para a delimitação e a constru-
tado federal, isto é, o aumento da capacidade es- ção da questão aqui tratada (o transformismo da
tatal (SCKOPOL, 1985) e, conseqüentemente, o elite política paulista) ou mesmo para elencar quais
aumento da autonomia política e do poder da elite são os problemas mais relevantes desse tipo de
que o controla. tema (o profissionalismo político). Esse ponto de
partida permite, ao fim, não só produzir alguns
Esse Estado – autônomo, forte e burocratiza-
achados, mas gerar hipóteses explicativas testáveis
do – pode, a partir daí, reconfigurar o universo
em outros contextos históricos (cf.
político nacional, institucionalizar, com base no
RUESCHEMEYER, 2003).
seu poder, uma forma nova de fazer política e, ao
mesmo tempo em que circunscreve e reorienta o Em termos menos precisos, mas mais descri-
poder das elites políticas estaduais, pode definiti- tivos: o Estado Novo isolou três grupos anterior-
vamente gerar uma classe política com as virtu- mente fundidos – homens de riqueza, homens de
des e os predicados exigidos pelo regime ditatori- status, homens de poder.
al, justificando-o inclusive com a desculpa da
Como se recorda, os cálculos de J. Love e B.
“burocratização” do Estado e a complexidade das
Barickman indicavam uma taxa de sobreposição
suas rotinas. Essa classe política, com os devidos
ente rulers e owners de inacreditáveis 60% no iní-
ajustes, e devidamente ampliada, cujos atributos
cio dos anos 1930 (cf. LOVE & BARICKMAN,
distintivos mais importantes são sua origem soci-
1986, p. 764), um padrão muito alto inclusive para
al (“de classe média”) e seu perfil ocupacional
a América Latina (cf. LOVE, 1983).
(homens que vivem da política), continuará mais
adiante para tornar-se o grupo reinante no regime Quando se olha para a bancada paulista na
da Constituição de 1946. Assembléia Constituinte de 1946, quinze anos de-
pois, o traço mais relevante não é a renovação
Em suma: os três processos – “estruturais” – geracional, que em rigor não há (40% dos repre-
de transformação do universo político nacional sentantes dos três grandes partidos possuíam 51
durante o Estado Novo (que indiquei aqui como anos ou mais do que isso). É o fato de a maior
autonomização do campo político, institucionali- parte da representação política de São Paulo ser
formada por políticos profissionais, isto é, por
17 Para chegar a essa cifra somei todos os secretários de indivíduos que tinham na política sua principal
estado dos três interventores (havia sete secretarias: Justi- atividade: os bacharéis. Na Legislatura que se se-
ça, Fazenda e Tesouro, Viação e Obras Públicas, Educação guiu ao fim do Estado Novo (1946-1951), dos 38
e Saúde, Agricultura, Indústria e Comércio, Segurança Pú-
eleitos pelo estado, apenas sete indivíduos (me-
blica e a Secretaria de Governo), os próprios chefes do
Executivo estadual, mais o Prefeito da capital, os Chefes nos de 24%) poderiam ser classificados como
do Departamento das Municipalidades (nomeados pelo “proprietários” e ainda assim quase todos tinham,
Interventor). paralelamente uma carreira política paralela.

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Os atributos (sociais, políticos e profissionais) o tipo de recrutamento (a nomeação burocrática


dos grupos definidos pelo regime ditatorial e san- substitui a eleição “democrática”), sem que mude
cionados pelos mecanismos e aparelhos encarre- radicalmente a fonte do recrutamento: isto é, os
gados de recrutá-los são, de fato, menos “elitistas” mesmos partidos oligárquicos que haviam polari-
do que aqueles típicos da República Velha, sem zado a cena política do fim do II Império até 1937
serem, contudo, mais populares: há tanto no in- (PRP, PD, PC). Daí que a renovação de nomes no
tervalo 1937-1945, quanto depois, uma ascensão plano federal (havia nada menos de 18 indivídu-
à classe política de indivíduos saídos das cama- os, quase metade da bancada, em sua primeira
das médias e com formação jurídica (os “bacha- legislatura) não signifique a substituição dos gru-
réis” são 76% da representação paulista na ANC) pos políticos na esfera estadual.
e o quase desaparecimento dos proprietários agrá-
A idéia central é que, mais do que resultado do
rios do pessoal político (os “coronéis” não so-
grande programa de “cooptação” federal, a elite
mam nem 11%). Nem por isso a carreira se torna
política que reina no Estado Novo e a partir da
“meritocrática”. Ela deixa de ser “democrática”
qual se vai constituir a classe política da “demo-
(isto é, baseada formalmente no princípio eleito-
cracia de 1946”, é, de certa forma, produzida pelo
ral, a regra de ouro da República Velha) para tor-
regime para o regime. Daí que não se trate ape-
nar-se, durante o Estado Novo, “burocrática”, o
nas, embora também, da transposição de integran-
que paradoxalmente irá promover a ascensão dos
tes da elite – indivíduos – de um campo político
políticos de profissão, que agora podem apresen-
(oligárquico) para outro (autoritário), num primeiro
tar-se, para quem quiser acreditar, como técnicos
momento, e, depois de 1945, da passagem desses
e especialistas em administração pública, graças à
mesmos indivíduos do campo autoritário para o
cobertura da ideologia autoritária, inclusive, ou
democrático, mas da dominação, decapitação e
principalmente, após 1945.
assimilação das antigas elites a fim de produzir
Essa transformação, criteriosa e comedida, uma nova classe dirigente: processo esse que casa
articulada pelo Estado Novo, mas não necessaria- com aquilo que Gramsci designou por
mente planejada por ele, ocorre assim porque muda transformismo (GRAMSCI, 2002, p. 63).

Adriano Codato (adriano@ufpr.br) é Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campi-
nas (Unicamp) e professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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