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unidade

1
Fenômenos de
TRANSPORTE
unidade

Introdução ao Estudo do Fenômeno


1
dos Transportes
Prezado estudante,
Estamos começando uma unidade desta disciplina. Os textos que a compõem foram
organizados com cuidado e atenção, para que você tenha contato com um conteúdo
completo e atualizado tanto quanto possível. Leia com dedicação, realize as atividades e
tire suas dúvidas com os tutores. Dessa forma, você, com certeza, alcançará os objetivos
propostos para essa disciplina.

OBJETIVO GERAL
Compreender os conceitos básicos do comportamento estático dos fluidos.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Analisar o sistema internacional, o sistema inglês e o sistema métrico.
• Compreender as trocas de unidades.
• Compreender como a termodinâmica e a transferência de calor estão relacionadas.
• Entender o efeito da pressão no interior de um fluido, bem como as forças de
pressão em superfícies finitas, reconhecendo, a definição da estática dos fluidos.
• Definir as propriedades e grandezas que caracterizam um fluido, bem como um
elevador hidráulico.
unidade

Parte 1

Sistema de Unidades

O conteúdo deste livro é


disponibilizado por SAGAH.
10 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 31

Análise A partir da Eq. 1–26, a pressão atmosférica é determinada da seguinte forma

Discussão Observe que a densidade muda com a temperatura, e que por isso esse
efeito deve ser considerado nos cálculos.

EXEMPLO 1–9 Efeito do peso do pistão sobre a pressão em um cilindro


O pistão de um arranjo pistão-cilindro vertical contendo um gás tem massa igual a
60 kg e área de seção transversal de 0,04 m2, como mostra a Fig. 1–58. A pressão
atmosférica local é de 0,97 bar, e a aceleração gravitacional é de 9,81 m/s2. (a) De-
termine a pressão dentro do cilindro. (b) Se for transferido calor para o gás e seu
volume dobrar, você espera que a pressão dentro do cilindro mude?

SOLUÇÃO Um gás está contido em um cilindro vertical com um pistão pesado. A


pressão dentro do cilindro e o efeito da variação de volume sobre a pressão devem Patm  0,97 bar Patm
ser determinados. m  60 kg

Hipótese O atrito entre o pistão e o cilindro é desprezível.


Análise (a) A pressão do gás no arranjo pistão-cilindro depende da pressão atmosfé- A  0,04 m2
rica e do peso do pistão. O diagrama de corpo livre do pistão mostrado na Fig. 1–58, P?
e o equilíbrio das forças verticais resultam em P
W  mg
PA  Patm A  W
FIGURA 1–58 Esquema para o Exemplo
Resolvendo para P e substituindo, 1–9 e o diagrama de corpo livre do pistão.

(b) A variação do volume não terá nenhum efeito sobre o diagrama de corpo livre de-
senhado na parte (a) e, portanto, a pressão dentro do cilindro permanecerá a mesma.
Discussão Se o gás se comporta como um gás ideal, a temperatura absoluta dobra
quando o volume é dobrado a uma pressão constante.

EXEMPLO 1–10 Pressão hidrostática em um lago solar com densidade


variável
Lagos solares são pequenos lagos artificiais com alguns metros de profundidade
usados para armazenar energia solar. A ascensão da água aquecida (portanto, menos
densa) é evitada pela adição de sal no fundo do lago. Em um lago solar com gradiente
(continua)
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Sistema de Unidades | PARTE 1 11
32 Termodinâmica

Sol
Aumento da
salinidade e da
densidade
r0 � 1.040 kg/m3
Região da superfície
1
z
H�4m Região de gradiente

2
Região de armazenamento

FIGURA 1–59 Esquema para o Exemplo 1–10.

(continuação)
de sal típico, a densidade da água aumenta na região de gradiente, como mostra a
Fig. 1–59, podendo ser expressa como

onde r0 é a densidade da água na superfície, z é a distância vertical medida de cima


para baixo a partir do topo da região de gradiente, e H é a espessura da região de
gradiente. Para H� 4 m, r0 � 1.040 kg/m3 e uma espessura de 0,8 m para a região
superficial, calcule a pressão manométrica no fundo da região de gradiente.

SOLUÇÃO A variação da densidade da água salgada na região de gradiente de um


lago solar com profundidade é fornecida. A pressão manométrica no fundo da região
de gradiente deve ser determinada.
Hipótese A densidade na região superficial do lago é constante.
Propriedades A densidade da água salgada na superfície é dada como 1.040 kg/m3.
Análise Chamamos o topo e o fundo da região de gradiente de 1 e 2, respectivamen-
te. Notando que a densidade da região superficial é constante, a pressão manométri-
ca no fundo da região superficial (que é o topo da região de gradiente) é

uma vez que 1 kN/m2 � 1 kPa. A variação na pressão hidrostática ao longo de uma
distância vertical dz é dada por
4
3,5
3
2,5 A integração entre o topo da região de gradiente (o ponto 1 no qual z � 0) e qualquer
distância z da região de gradiente (sem subíndice) resulta em
z, m

2
1,5
1
0,5
0 Realizando a integração, temos que a variação da pressão manométrica na região de
0 10 20 30 40 50 60 gradiente é
P, kPa

FIGURA 1–60 A variação da pressão


manométrica com a profundidade na região
de gradiente em um lago solar.
12 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 33

Dessa forma, a pressão no fundo da região de gradiente (z  H  4 m) torna-se

Discussão A variação da pressão manométrica com a profundidade na região de


gradiente é traçada na Fig. 1–60. A linha tracejada indica a pressão hidrostática no
caso da densidade constante a 1.040 kg/m3 e é fornecida para referência. Observe Solução
que a variação da pressão com a profundidade não é linear quando a densidade varia
com a profundidade. o
od il
M fác
is

Modo mais difícil


ma

1–12 TÉCNICA PARA SOLUÇÃO DE PROBLEMAS


O primeiro passo para o aprendizado de qualquer ciência é conhecer e assimilar
Problema
os seus fundamentos. O passo seguinte é testar o seu conhecimento. Isso é feito
por meio da solução de problemas importantes envolvendo situações práticas do
FIGURA 1–61 Uma abordagem passo a
mundo real. A solução desses problemas, particularmente daqueles complicados,
passo pode simplificar bastante a resolução
exige uma abordagem sistemática. Utilizando uma abordagem passo a passo, um de um problema.
engenheiro pode transformar a solução de um problema complicado na solução
de uma série de problemas simples (Fig. 1–61). Para tanto, recomendamos que
você use os seguintes passos com cuidado nas situações aplicáveis. Isso o ajudará
a evitar algumas das armadilhas mais comuns associadas à solução de problemas.

Passo 1: Enunciado do problema


Enuncie brevemente o problema com suas próprias palavras, as informações chave
fornecidas e as grandezas a serem determinadas. Isso vale para que você se certifi-
Fornecida: Temperatura do ar em Denver
que de que entendeu o problema e os objetivos, antes de tentar solucioná-lo.
A ser encontrada: Densidade do ar

Passo 2: Esquema Informação faltando: Pressão atmosférica


Faça um rascunho do sistema físico envolvido, e relacione as informações relevan-
tes na figura. O desenho não precisa ser elaborado, mas deve se parecer com o sis- Hipótese #1: Supor P  1 atm
tema real e mostrar as principais características. Indique as interações de energia (Inapropriado. Ignora o efeito da altitude.
e de massa com a vizinhança. A listagem das informações fornecidas no desenho Causará um erro maior que 15%.)

ajuda na visualização do problema inteiro. Da mesma forma, verifique as pro-


priedades que permanecem constantes durante um processo (como a temperatura Hipótese #2: Supor P  0,83 atm
durante um processo isotérmico) e indique-as no desenho. (Apropriado. Ignora apenas efeitos
menores, como as condições do tempo.)

Passo 3: Hipóteses e aproximações


Enuncie todas as hipóteses apropriadas e aproximações feitas para simplificar o
problema e possibilitar uma solução. Justifique as hipóteses questionáveis. Consi-
dere valores razoáveis para as quantidades que estão faltando e que são necessárias. FIGURA 1–62 As hipóteses feitas
Por exemplo, na falta de dados específicos sobre a pressão atmosférica, ela pode enquanto se resolve um problema de
ser suposta como 1 atm. Entretanto, é preciso observar na análise que a pressão engenharia precisam ser razoáveis e
atmosférica diminui com o aumento da altitude. Por exemplo, em Denver, cidade justificadas.
estadunidense, a pressão cai a 0,83 atm (a cidade está a 1.610 m). (Ver Fig. 1–62).
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Sistema de Unidades | PARTE 1 13
34 Termodinâmica

Passo 4: Leis da física


Aplique todas as leis e princípios básicos relevantes da física (como a conservação
da massa), e reduza-os a suas formas mais simples utilizando as hipóteses. Entre-
tanto, em primeiro lugar, é preciso identificar com clareza a região à qual uma lei
da física se aplica. Por exemplo, o aumento da velocidade do escoamento da água
através de um bocal é analisado pela aplicação da conservação da massa entre a
entrada e a saída do bocal.

Passo 5: Propriedades
Determine as propriedades desconhecidas em estados conhecidos e necessários
para solucionar o problema, por meio de relações ou tabelas de propriedades. Re-
lacione as propriedades separadamente e indique as fontes, se for o caso.

Passo 6: Cálculos
Substitua as grandezas conhecidas nas relações simplificadas e execute os cálculos
para determinar as incógnitas. Preste atenção particularmente às unidades e aos
cancelamentos de unidades e lembre-se de que uma grandeza dimensional sem
uma unidade não tem sentido. Da mesma forma, não dê uma ideia falsa de alta
precisão, copiando todos os algarismos da calculadora – arredonde os resultados
até um número apropriado de algarismos significativos (ver página 37).

Passo 7: Raciocínio, verificação e discussão


Verifique se os resultados obtidos são razoáveis e intuitivos e analise a validade
Uso da energia US$ 80/ano
das hipóteses questionáveis. Repita os cálculos que resultaram em valores pou-
Energia co razoáveis. Por exemplo, o isolamento de um aquecedor de água que usa US$
economizada US$ 200/ano 80 de gás natural por ano não pode resultar em economia de US$ 200 por ano
pelo isolamento
(Fig. 1–63).
IMPOSSÍVEL! Indique também o significado dos resultados e discuta suas implicações.
Enuncie as conclusões que podem ser obtidas com base nos resultados e todas as
recomendações que podem ser feitas com base nelas. Enfatize as restrições que
FIGURA 1–63 Os resultados obtidos tornam os resultados aplicáveis, e tome cuidado com possíveis mal-entendidos
de uma análise de engenharia devem ser e com o uso dos resultados em situações nas quais as hipóteses básicas não se
checados quanto à sua razoabilidade.
aplicam. Por exemplo, se você determinou que envolver um aquecedor de água em
uma proteção isolante de US$ 20 reduzirá o custo da energia em US$ 30 por ano,
indique que o isolamento se pagará com a energia economizada em menos de um
ano. Entretanto, será necessário indicar que a análise não leva em conta os custos
trabalhistas, e que essa será a hipótese se você mesmo instalar o isolamento.
Lembre-se de que as soluções que você apresenta aos professores, bem como
toda a análise de engenharia apresentada a outros, são uma forma de comunicação.
Precisa-se:
Engenheiro Assim, a limpeza, organização, inteireza e aparência visual são da maior importân-
organizado
cia para o máximo de efetividade (Fig. 1–64). Além disso, a organização também
serve como uma ótima ferramenta de verificação, pois é muito mais fácil detectar
erros e inconsistências em um trabalho bem organizado. A falta de cuidado e a
vontade de queimar etapas para economizar tempo quase sempre acabam resultan-
do em mais tempo gasto e ansiedade desnecessária.
FIGURA 1–64 Capricho e organização A abordagem aqui descrita é usada nos problemas resolvidos sem a declaração
são altamente valorizados pelos explícita de cada etapa. No caso de alguns problemas, algumas das etapas podem
empregadores. não se aplicar, nem serem necessárias. Observa-se com frequência, por exemplo,
14 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 35

que não é prático listar as propriedades separadamente. Entretanto, nunca é demais


lembrar a importância de uma abordagem lógica e ordenada para a solução de um
problema. A maioria das dificuldades encontradas durante a solução de problemas
não se deve à falta de conhecimento. Antes disso, elas se devem à falta de organi-
zação. Recomendamos a utilização dessas etapas para solucionar problemas até
que você desenvolva uma abordagem própria que funcione melhor para você.

Pacotes computacionais de engenharia


Você deve estar se perguntando por que embarcar em um estudo detalhado dos
fundamentos de mais uma ciência da engenharia. Afinal, quase todos os problemas
que podemos encontrar na prática podem ser resolvidos usando um dos vários
sofisticados pacotes computacionais facilmente disponíveis no mercado. Esses
pacotes computacionais não apenas dão os resultados numéricos desejados, mas
também fornecem os resultados na forma de diagramas coloridos que podem ser
usados em apresentações. Hoje é inconcebível a prática da engenharia sem o uso
de alguns desses programas. Esse tremendo poder de computação, disponível para
nós ao toque de um botão é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma praga. Isso
certamente permite que os engenheiros resolvam os problemas de maneira fácil e
rápida, mas também abre a porta para abusos e falta de informação. Nas mãos de
pessoas sem o conhecimento necessário, esses pacotes são tão perigosos quanto
armas sofisticadas nas mãos de soldados mal treinados.
Pensar que alguém que sabe usar um computador mas não tem formação
adequada pode praticar engenharia é o mesmo que pensar que uma pessoa que
sabe usar uma chave inglesa pode trabalhar como mecânico de automóveis. Se
fosse verdade que os estudantes de engenharia não precisam de todos os cursos
fundamentais que fazem, porque praticamente tudo pode ser feito pelos compu-
tadores de forma rápida e fácil, também seria verdade que os empregadores não
precisariam mais de engenheiros com altos salários, uma vez que qualquer pessoa
que soubesse usar um processador de texto também poderia aprender a usar os
pacotes computacionais. Entretanto, as estatísticas mostram que a demanda por
engenheiros está aumentando e não diminuindo, apesar da disponibilidade desses
poderosos programas.
Sempre devemos lembrar que todo o poder da computação e os pacotes com-
putacionais de engenharia disponíveis hoje são apenas ferramentas, e as ferramen-
tas só têm utilidade nas mãos dos mestres. O melhor processador de texto do mun-
do não torna uma pessoa um bom escritor, mas certamente facilita muito o trabalho
de um bom escritor e o torna mais produtivo (Fig. 1–65). As calculadoras portáteis
não eliminam a necessidade de ensinar nossas crianças a somar ou subtrair, e os
sofisticados pacotes computacionais da área médica não substituem a faculdade de
Medicina. Da mesma forma, os pacotes computacionais de engenharia não subs-
FIGURA 1–65 Um excelente programa
tituem os cursos tradicionais de engenharia. Eles apenas causam uma mudança na
de processamento de texto não transforma
ênfase dada à matemática. Ou seja, mais tempo será dedicado em sala de aula à alguém em um bom escritor, simplesmente
discussão detalhada dos aspectos físicos dos problemas e menos tempo à mecânica faz um bom escritor ser mais eficiente.
dos procedimentos de solução. © Vol. 80/PhotoDisc/Getty RF.
Todas essas maravilhosas e poderosas ferramentas disponíveis no momento
impõem uma carga extra aos engenheiros. Eles ainda precisam ter uma compreen-
são completa dos fundamentos, desenvolver uma “ideia” do fenômeno físico, co-
locar os dados na perspectiva correta e tomar decisões sensatas de engenharia,
assim como seus antecessores. Entretanto, devem fazer isso muito melhor e muito
mais rápido, usando padrões mais realistas, por causa das poderosas ferramentas
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Sistema de Unidades | PARTE 1 15
36 Termodinâmica

disponíveis. Os engenheiros do passado contavam com os cálculos feitos à mão, as


réguas de cálculo e, mais tarde, as calculadoras portáteis e os computadores. Hoje
eles contam com os pacotes computacionais. O acesso fácil a tal poder, e a possibi-
lidade de um simples mal-entendido ou má interpretação causar um grande dano,
torna importante hoje, mais do que nunca, o treinamento sólido nos fundamentos
da engenharia. Neste texto, nos esforçamos para dar ênfase ao desenvolvimento da
compreensão intuitiva e física dos fenômenos naturais, em vez dos detalhes mate-
máticos dos procedimentos da solução.

Engineering equation solver (EES)


O EES é um programa que resolve numericamente sistemas lineares ou não li-
neares de equações diferenciais ou algébricas. Ele tem uma ampla biblioteca de
funções de propriedades termodinâmicas incorporadas, bem como de funções ma-
temáticas, e permite que o usuário forneça dados de propriedade adicionais. Ao
contrário de alguns pacotes computacionais, o EES não soluciona os problemas
de engenharia; ele apenas resolve as equações fornecidas pelo usuário. O usuário
deve entender o problema e formulá-lo pelas aplicações das leis físicas e relações
matemáticas relevantes. O EES economiza tempo e esforços consideráveis para o
usuário, simplesmente resolvendo as equações matemáticas resultantes. Isso pos-
sibilita a tentativa de resolver problemas significativos de engenharia não adequa-
dos aos cálculos à mão, e a realização de estudos paramétricos de forma rápida e
conveniente. O EES é um programa muito poderoso, intuitivo e fácil de usar, como
mostram os Exemplos 1–11 e 1–12. O seu uso e os potenciais de utilização são
explicados no Apêndice 3 no site www.grupoa.com.br.

EXEMPLO 1–11 Solução de um sistema de equações com o EES


A diferença entre dois números é 4, e a soma dos quadrados desses dois números é
igual à soma dos números mais 20. Determine esses dois números.

SOLUÇÃO As relações são fornecidas para a diferença e a soma dos quadrados de


dois números. Eles devem ser determinados.
Análise Iniciamos o programa EES, damos um clique duplo em seu ícone, abrimos
um arquivo novo e digitamos as seguintes equações

que são as expressões matemáticas exatas do enunciado do problema com x e y in-


dicando os números desconhecidos. A solução deste sistema de duas equações não
lineares com duas incógnitas é obtida com um único clique no ícone “calculadora”
na barra de tarefas. Isso resulta em

x5ey1

Discussão Observe que tudo o que fizemos foi formular o problema como faríamos
em papel; o EES tomou conta de todos os detalhes matemáticos da solução. Observe
também que as equações podem ser lineares ou não lineares e podem ser inseridas
em qualquer ordem com incógnitas em ambos os lados. Programas amigáveis de so-
lução de equações de fácil uso como o EES permitem que o usuário se concentre na
física do problema, sem se preocupar com as complexidades matemáticas associadas
à solução do sistema de equações resultante.
16 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 37

EXEMPLO 1–12 Análise de um manômetro de vários fluidos com o EES


Reconsidere o manômetro de coluna de vários fluidos que discutimos no
Exemplo 1–7 e que foi desenhado novamente na Fig. 1–66. Determine a pressão
do ar no tanque usando o EES. Determine também qual seria a altura diferencial
h3 do fluido para a mesma pressão de ar se o mercúrio da última coluna fosse
substituído por água do mar com densidade de 1.030 kg/m3. Óleo

SOLUÇÃO A pressão em um tanque de água é medida por um manômetro de vá-


rios fluidos. A pressão do ar no tanque e a altura diferencial h3 do fluido caso o Ar
mercúrio seja substituído por água do mar devem ser determinados usando o EES. 1

Análise Iniciamos o programa EES dando um clique duplo em seu ícone, abrimos h1
um arquivo novo e digitamos as seguintes expressões na tela em branco que aparece 2
(expressamos a pressão atmosférica em Pa para manter a consistência da unidade).
g  9.81 h2 h3
Patm  85600 Água
h1  0,1; h2  0,2; h3  0,35
rw  1.000; róleo  850; rm  13.600
P1  rw*g*h1  róleo*g*h2  rm*g*h3  Patm
Mercúrio
Aqui P1 é a única incógnita. Ela é determinada pelo EES como

P1  129.647 Pa 130 kPa


FIGURA 1–66 Esquema para o
que é idêntico ao resultado obtido antes. A altura da coluna de fluido h3 quando o Exemplo 1–12.
mercúrio é substituído por água do mar é determinada facilmente substituindo-se
“h3  0,35” por “P1  129.647” e “rm  13.600” por “rm  1.030”, e clicando no
símbolo de calculadora. Isso resulta em

h3  4,62 m

Discussão Observe que usamos a tela como um bloco de papel e escrevemos as infor-
mações relevantes juntamente com as relações aplicáveis de forma organizada. O EES
fez o restante. As equações podem ser escritas em linhas separadas ou na mesma linha,
separadas por pontos-e-vírgulas, e linhas em branco ou de comentário podem ser inse-
ridas para facilitar a clareza. O EES ajuda a fazer as perguntas “e se”, e a executar os
estudos paramétricos, como explicado no Apêndice 3 disponível no site do Grupo A.
O EES também tem a capacidade de verificar a consistência das unidades nas
equações, caso sejam fornecidas com os valores numéricos. As unidades podem ser
especificadas entre colchetes [ ] após o valor especificado. Quando esse recurso é
utilizado, as equações anteriores estariam na seguinte forma:
g  9,81 [m/s^2]
Patm  85.600 [Pa]
h1  0,1 [m]; h20,2 [m]; h30,35 [m]
rw  1.000 [kg/m^3]; róleo  850 [kg/m^3]; rm  13.600 [kg/m^3]
P1  rw*g*h1  róleo*g*h2  rm*g*h3  Patm

Uma observação sobre os algarismos significativos


Em cálculos de engenharia, as informações fornecidas são conhecidas com até
um determinado número de algarismos significativos, em geral três. Assim, os
resultados obtidos não podem ser exatos com um número maior de algarismos
significativos. Os resultados relatados com um número maior de algarismos signi-
ficativos implicam maior exatidão do que aquela que realmente existe, e isso deve
ser evitado. Por exemplo, considere um recipiente de 3,75 L cheio de gasolina
PREZADO ESTUDANTE

ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO


PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE.
unidade

Parte 2

Introdução ao Fenômeno
dos Transportes

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20 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo

In trodução e
C oncei tos B ásicos 1
A
ciência da termodinâmica trata da quantidade de calor transferido quando OBJETIVOS
um sistema passa por um processo de estado de equilíbrio para outro, sem
Ao término deste capítulo, você será
fazer nenhuma referência sobre quanto tempo esse processo demora. Mas, capaz de:
em engenharia, estamos mais frequentemente interessados na taxa de transferência
de calor, que é o tema da ciência da transferência de calor. � Compreender como a termodinâmica
Começamos este capítulo com a revisão dos conceitos fundamentais da ter- e a transferência de calor estão
modinâmica, que são os princípios básicos da transferência de calor. Primeiro, relacionadas.
abordamos a relação do calor com outras formas de energia e fazemos uma revisão � Distinguir a energia térmica de
sobre balanço de energia. Em seguida, apresentamos os três mecanismos básicos outras formas de energia e a
de transferência de calor, condução, convecção e radiação, e discutimos o concei- transferência de calor de outras
formas de transferência de energia.
to de condutividade térmica. Condução é a transferência de energia resultante da
interação de partículas de maior energia de uma substância com partículas adja- � Fazer balanços gerais de energia e
centes de menor energia. Convecção é o modo de transferência de calor entre uma balanços de energia em superfícies.
superfície sólida e um líquido ou gás adjacente que está em movimento, e esse � Entender os mecanismos básicos da
processo envolve os efeitos combinados de condução e movimento do fluido. Ra- transferência de calor (condução,
convecção e radiação térmica), a lei
diação é a energia emitida pela matéria em forma de ondas eletromagnéticas (ou
de Fourier da condução de calor, a
fótons), como resultado das mudanças nas configurações eletrônicas de átomos lei de Newton do resfriamento e a lei
ou moléculas. Concluímos este capítulo com uma discussão sobre transferência de Stefan-Boltzmann da radiação.
simultânea de calor.
� Identificar os mecanismos de
transferência de calor que ocorrem
de forma simultânea na prática.
� Conscientizar-se dos custos
associado às perdas de calor.
� Solucionar os vários problemas de
transferência de calor encontrados
na prática.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Introdução ao Fenômeno dos Transportes | PARTE 2 21
2 Transferência de Calor e Massa

1–1 TERMODINÂMICA E TRANSFERÊNCIA DE CALOR


Por experiência, sabemos que, se deixarmos uma lata de bebida gelada em tempe-
ratura ambiente, ela esquentará; da mesma forma, se deixarmos uma lata de bebida
quente na geladeira, ela resfriará. Isso acontece por causa da transferência de ener-
gia do meio quente para o meio frio. A transferência de energia é sempre do meio
de maior temperatura para o de menor temperatura, e esse processo cessa quando
os dois meios atingem a mesma temperatura.
Garrafa Em termodinâmica, estudamos que a energia existe em diferentes formas.
térmica Neste capítulo, estamos interessados principalmente no calor, definido como a
forma de energia que pode ser transferida de um sistema para outro em conse-
quência da diferença de temperatura entre eles. A ciência que estuda as taxas de
transferência do calor é chamada transferência de calor.
Por que precisamos fazer um estudo detalhado sobre transferência de calor se
Café é possível determinar a quantidade de calor transferido para qualquer sistema, em
quente
Isolamento
qualquer processo, utilizando apenas a análise termodinâmica? A termodinâmica
térmico está focada na quantidade transferida de calor quando um sistema passa de um es-
tado de equilíbrio para outro, sem fornecer informações sobre o tempo de duração
do processo. A análise termodinâmica apenas nos informa quanto de calor deve ser
FIGURA 1–1 Geralmente, estamos transferido para realizar determinada mudança no estado termodinâmico, de forma
interessados em saber qual é o tempo a satisfazer o princípio da conservação da energia.
necessário para o café quente que está no Na prática, estamos mais preocupados com a taxa de transferência do calor
interior de uma garrafa térmica resfriar até
(calor transferido por unidade de tempo) do que com sua quantidade propria-
certa temperatura. Essa informação não
pode ser determinada somente por meio da mente dita. Por exemplo, podemos determinar a quantidade transferida de calor
análise termodinâmica. do café quente no interior de uma garrafa térmica para que ele resfrie de 90 °C
para 80 °C utilizando apenas a análise termodinâmica. No entanto, um típico
usuário ou fabricante de garrafa térmica pode estar muito mais interessado em
saber quanto tempo o café demora para resfriar até 80 °C, e uma análise termodi-
nâmica não pode responder a essa questão. A determinação das taxas de transfe-
rência de calor ou de um sistema e, consequentemente, o tempo de aquecimento
ou resfriamento e a variação de temperatura são os objetivos da transferência de
calor (Fig. 1–1).
A termodinâmica trabalha com estados termodinâmicos em equilíbrio e trans-
formações de um estado de equilíbrio para outro. A transferência de calor, por sua
Ambiente vez, trabalha com sistemas que não estão em equilíbrio térmico, pois são fenôme-
frio nos de não equilíbrio termodinâmico. Dessa forma, o estudo da transferência de
20 °C calor não pode ser baseado apenas nos princípios da termodinâmica. As leis da
Café termodinâmica estabelecem o ambiente de trabalho na ciência da transferência de
quente Calor calor. A primeira lei estabelece que a taxa de energia transferida para um sistema
70 °C
deve ser igual à taxa de crescimento de sua energia. A segunda lei estabelece que o
calor deve ser transferido na direção da menor temperatura (Fig. 1–2). É o mesmo
que um carro estacionado em uma descida, que deve se mover na direção de decli-
ve quando os freios são liberados. Esse processo é também análogo ao da corrente
FIGURA 1–2 Fluxo de calor na direção da elétrica que flui na direção da queda de tensão elétrica ou ao do fluido que escoa na
temperatura decrescente. direção de queda da pressão total.
A exigência básica para a ocorrência da transferência de calor é a presença da
diferença de temperatura, pois não pode acontecer transferência líquida de calor
entre dois corpos que estão na mesma temperatura. A diferença de temperatura é
a força motriz da transferência de calor, assim como a diferença de potencial elé-
trico é a força motriz da corrente elétrica, e a diferença de pressão, a força motriz
para o escoamento de fluidos. A taxa de calor transferido em dada direção depende
da magnitude do gradiente de temperatura (diferença de temperatura por unidade
de comprimento ou taxa de variação da temperatura) na mesma direção. Quanto
maior o gradiente de temperatura, maior a taxa de transferência de calor.
22 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 3

Áreas de aplicação da transferência de calor


A transferência de calor é frequentemente encontrada em sistemas de engenharia
e em outros aspectos da vida, e não precisamos ir muito longe para ver algumas
áreas de aplicação. Na verdade, não precisamos ir a lugar nenhum. O corpo hu-
mano está constantemente rejeitando calor para o ambiente, e nosso conforto
está diretamente ligado à taxa em que essa rejeição ocorre. Tentamos controlar
essa taxa de transferência de calor adequando nossas roupas às condições do
ambiente.
Muitos utensílios domésticos são projetados, totalmente ou em parte, com
base nos princípios de transferência de calor. Alguns exemplos incluem fogões elé-
tricos e a gás, aquecedores e ar-condicionados, geladeiras e freezers, aquecedores
de água, ferros de passar e, até mesmo, computadores, TVs e DVDS. Casas ener-
geticamente eficientes são projetadas para minimizar a perda de calor no inverno
e o ganho de calor no verão. A transferência de calor representa importante papel
no projeto de muitos outros dispositivos, como radiadores de carro, coletores de
energia solar, diversos componentes de usinas elétricas e até naves espaciais (Fig.
1–3). A melhor espessura de isolamento térmico para paredes e telhados, canos de
água quente, vapor ou aquecedores de água é determinada com base na análise da
transferência de calor e das considerações econômicas.

Contexto histórico
O calor sempre foi percebido como algo que produz uma sensação de aquecimen-
to, mas ninguém poderia imaginar que sua natureza fosse um dos primeiros con-
ceitos entendidos pela humanidade. Apenas na metade do século XIX, alcançamos

O corpo humano Sistemas de ar condicionado Sistemas de aquecimento


(© Vol. 121/Photo Disc.) (© The McGraw-Hill Companies, (© Comstock RF.)
Inc./Jill Braaten, photographer.)

Equipamentos eletrônicos Usinas de potência Sistemas de refrigeração


(© Alamy RF.) (© Vol. 57/Photo Disc.) (© The McGraw-Hill
(© Brand X/Jupiter Images RF.) Companies, Inc./Jill
(© Punchstock RF.) Braaten, photographer.)

FIGURA 1–3 Algumas áreas de aplicação da transferência de calor.


Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Introdução ao Fenômeno dos Transportes | PARTE 2 23
4 Transferência de Calor e Massa

Superfície o verdadeiro entendimento físico sobre a natureza do calor, graças ao desenvol-


de contato vimento da teoria cinética, que entende as moléculas como pequenas bolas em
movimento que têm, portanto, energia cinética. O calor é, então, definido como
Corpo Corpo a energia associada ao movimento aleatório de átomos e moléculas. Embora o
quente frio conceito de que, o calor é a manifestação do movimento no nível molecular (deno-
minada força vital) tenha surgido no século XVIII e início do XIX, essa visão, que
Calórico
prevaleceu até meados do século XIX, foi baseada na teoria do calórico, proposta
em 1789 pelo químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794). Essa teoria defen-
dia que o calor era um tipo de substância semelhante ao fluido denominado calóri-
FIGURA 1–4 No início do século XIX, o co, que era sem massa, incolor, inodoro, insípido e capaz de fluir de um corpo para
calor foi concebido como um tipo de fluido outro (Fig. 1–4). Quando o calórico era adicionado a um corpo, sua temperatura
invisível, denominado calórico, que fluía aumentava, e, quando removido, sua temperatura diminuía. Quando um corpo não
do corpo mais quente para o mais frio. pudesse conter mais nenhum calórico, assim como quando um copo com água não
pode dissolver mais nenhuma quantidade de sal ou açúcar, dizia-se que o corpo
estava saturado de calórico. Essa interpretação deu origem às expressões líquido
saturado e vapor saturado, usadas até hoje.
A teoria do calórico foi criticada logo após sua introdução. Ela sustentava
que o calor era uma substância que não podia ser criada ou destruída. Contudo,
já se sabia que o calor podia ser gerado indefinidamente ao esfregarmos as mãos
ou dois pedaços de madeira. Em 1798, o americano Benjamin Thompson, conde
de Rumford (1753-1814), mostrou em seus trabalhos que o calor pode ser gerado
continuamente por meio da fricção. A validade da teoria do calórico foi também
contestada por muitos outros. Todavia, foram os experimentos cuidadosamente
realizados pelo inglês James P. Joule (Fig. 1–5) e publicados em 1843 que final-
mente convenceram os céticos de que o calor não era, afinal, uma substância, pon-
do fim à teoria do calórico. Embora essa teoria tenha sido totalmente abandonada
na metade do século XIX, contribuiu enormemente para o desenvolvimento da
termodinâmica e da transferência de calor.

1–2 TRANSFERÊNCIA DE CALOR NA ENGENHARIA


Equipamentos de transferência de calor, como trocadores de calor, caldeiras, con-
densadores, radiadores, aquecedores, fornos, refrigeradores e coletores de energia
solar, são projetados principalmente com base na análise de transferência de calor.
Os problemas de transferência de calor encontrados na prática podem ser separa-
dos em dois grupos: (1) de avaliação e (2) de dimensionamento. Os problemas de
avaliação lidam com a determinação da taxa de transferência de calor para um sis-
tema existente com diferença de temperatura específica. Os problemas de dimen-
sionamento tratam da determinação do tamanho do sistema de forma a transferir
calor em dada taxa para uma diferença de temperatura específica.
Sistemas ou processos de engenharia podem ser estudados de forma expe-
rimental (testando e tomando medidas) ou analítica (por meio do cálculo ou da
análise matemática). A abordagem experimental oferece a vantagem de trabalhar
com o sistema físico real, e a quantidade desejada é determinada por medição
dentro dos limites dos erros experimentais. No entanto, essa abordagem é cara,
demorada e frequentemente impraticável. Além disso, o sistema em estudo pode
nem mesmo existir. Por exemplo, todo o sistema de aquecimento e encanamento
de um prédio deve ser dimensionado antes de o prédio ser construído, com base
24 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 5

nas especificações dadas. A abordagem analítica (incluindo a abordagem numé-


rica) tem a vantagem de ser rápida e barata, no entanto os resultados obtidos
estão sujeitos ao acerto das condições assumidas, das aproximações e das idea-
lizações feitas na análise. Nos estudos de engenharia, com frequência, um bom
compromissso é reduzir as escolhas pela análise e depois verificar o resultado
experimentalmente.

Modelagem na engenharia
As descrições da maioria dos problemas científicos envolvem equações que des-
crevem as relações entre algumas variáveis importantes. Normalmente, o menor
incremento nas variáveis leva a descrições mais gerais e precisas. Na situação li-
mite de mudanças infinitesimais ou diferenciais nas variáveis, obtemos equações
diferenciais que proporcionam formulações matemáticas precisas para leis e prin-
cípios físicos, representando as taxas de variação na forma de derivadas. Assim,
equações diferenciais são usadas para investigar uma ampla variedade de proble-
mas na ciência e na engenharia (Fig. 1–6). Entretanto, na prática, muitos proble-
mas encontrados podem ser resolvidos sem a necessidade de recorrer a equações
diferenciais e suas complicações associadas.
O estudo de dado fenômeno físico envolve dois passos fundamentais. No pri- FIGURA 1–5 O físico britânico James
meiro, identificam-se todas as variáveis que influenciam o fenômeno, fazem-se Prescott Joule (1818-1889) nasceu em
considerações e aproximações razoáveis e estuda-se a interdependência dessas Salford, Lancashire, Inglaterra. Joule
é mais conhecido por seu trabalho
variáveis. As leis e os princípios físicos relevantes são identificados, e os proble-
sobre a conversão de energia elétrica e
mas, formulados matematicamente. A equação em si torna-se muito instrutiva, mecânica em calor e pela primeira lei da
uma vez que mostra o grau de dependência de algumas variáveis em relação às termodinâmica. A unidade de energia, o
outras e a importância relativa dos vários termos. No segundo passo, o problema joule (J), foi nomeada em sua homenagem.
matemático é resolvido por meio de uma abordagem apropriada, e os resultados Segundo a lei de Joule de aquecimento
são interpretados. elétrico, a taxa de produção de calor
Muitos processos que parecem ocorrer na natureza de modo aleatório e sem em um fio condutor é proporcional
ao produto da resistência do fio e ao
nenhuma ordem são, na verdade, regidos por algumas óbvias ou não tão óbvias leis quadrado da corrente elétrica. Por meio
físicas. Independentemente de notarmos ou não essas leis, elas estarão lá, gover- de seus experimentos, Joule demonstrou
nando consistentemente o que parece ser eventos comuns. A maioria delas é bem a equivalência mecânica de calor, ou
definida e compreendida pelos cientistas. Isso possibilita prever o comportamento seja, a conversão de energia mecânica
de um evento antes de ele acontecer de fato ou estudar vários aspectos de um em quantidade equivalente de energia
evento matematicamente sem recorrer a caros e demorados experimentos. É onde térmica, que estabelece fundamentação
para a conservação do princípio de energia.
o poder da análise matemática reside. Muitos resultados precisos de problemas
Joule e William Thomson (mais tarde
práticos e significativos podem ser obtidos relativamente com pouco esforço usan- lorde Kelvin) descobriram a queda de
do um modelo matemático apropriado e realista. A preparação desses modelos temperatura de uma substância durante
requer um conhecimento adequado do fenômeno natural envolvido e das leis físi- a livre expansão, fenômeno conhecido
cas pertinentes, bem como bom senso de julgamento. Um modelo não realístico, como efeito Joule-Thomson, que forma
obviamente, dará resultados imprecisos e inaceitáveis. a fundamentação do funcionamento da
refrigeração de compressão de vapor
Um analista trabalhando em um problema de engenharia, frequentemente,
comum e de sistemas de ar condicionado.
encontra-se em situação em que deve escolher entre um modelo preciso, porém,
(AIP Emilio Segre Visual Arquivo.)
complexo, e um modelo simples, mas não tão preciso. A escolha certa depende
da situação que se tem em mãos. A escolha certa é, normalmente, o modelo mais
simples que fornece resultados adequados. Por exemplo, o processo de cozinhar
batatas ou assar um pedaço de carne em forno pode ser estudado analiticamente
de modo simples, modelando a batata ou o assado como uma esfera sólida que
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Introdução ao Fenômeno dos Transportes | PARTE 2 25
6 Transferência de Calor e Massa

contém as propriedades da água (Fig. 1–7). O modelo é bem simples, mas os


Problema físico
resultados obtidos são suficientemente precisos para a maioria dos propósitos
práticos. Outro exemplo é quando analisamos a perda de calor de um prédio de
Identificar
variáveis forma a escolher o tamanho certo do aquecedor, determinando a perda de calor
importantes Assumir para as piores condições previstas e selecionando um aquecedor que proverá
condições e energia suficiente para compensar tais perdas de calor. Frequentemente, ten-
aproximações
Aplicar razoáveis demos a escolher um forno maior nos antecipando a alguma expansão futura
leis físicas ou apenas adotando um fator de segurança. Nessse caso, uma análise bastante
relevantes
simples é suficiente.
Quando escolhemos um equipamento de transferência de calor, é importante
Uma equação diferencial considerar as reais condições de funcionamento. Por exemplo, quando adquirimos
um trocador de calor que usará água pesada, devemos considerar que, ao longo
Impor do tempo, ocorrerá algum depósito de cálcio nas superfícies de transferência de
condições Utilizar técnicas
iniciais e de calor, causando encrustamento e uma consequente queda gradual no desempenho.
de solução
contorno adequadas O trocador de calor deve ser escolhido com base em sua adversa condição de fun-
cionamento, e não nas condições do trocador novo.
Elaborar modelos precisos mas complexos normalmente não é uma tarefa tão
Solução do problema
difícil. No entanto, tais modelos serão inúteis para um analista se forem muito difí-
FIGURA 1–6 Modelagem matemática de ceis e consumirem muito tempo para serem resolvidos. No mínimo, o modelo deve
problemas físicos. refletir as características essenciais do problema físico que representa. Existem
muitos problemas significativos no mundo real que podem ser analisados por meio
de modelos simples. Todavia, devemos sempre ter em mente que os resultados ob-
tidos por meio de uma análise são tão precisos quanto permitam as hipóteses assu-
midas na simplificação do problema. Logo, a solução obtida não deve ser aplicada
a situações que não correspondem às hipóteses adotadas originalmente.
Uma solução que não é totalmente consistente com o observado na natureza
do problema indica que o modelo matemático utilizado é muito grosseiro. Nesse
caso, um modelo mais realista pode ser elaborado com a eliminação de uma ou
mais das hipóteses questionáveis. Isso resultará em um problema mais complexo
e, portanto, mais difícil de resolver. Assim, qualquer solução do problema deve ser
interpretada no contexto de sua formulação.

1–3 CALOR E OUTRAS FORMAS DE ENERGIA


Forno Existem várias formas de energia, como térmica, mecânica, cinética, potencial, elé-
trica, magnética, química e nuclear, e a soma delas constitui a energia total E (ou
Batata Real e por unidade de massa) de um sistema. As formas de energia relacionadas com a
estrutura molecular de um sistema e com o grau de atividade molecular são chama-
175 °C das de energia microscópica. A soma de todas as formas microscópicas de energia
é denominada energia interna U do sistema (ou u por unidade de massa).
Água Ideal
No Sistema Internacional (SI), a unidade de energia é o joule (J) ou quilojou-
le (1 kJ  1.000 J). No sistema inglês, a unidade de energia é o British thermal
unit (Btu), definida como a energia necessária para elevar a temperatura em 1 °F
FIGURA 1–7 A modelagem é uma de 1 lbm de água a 60 °F. As magnitudes de 1 kJ e 1 Btu são praticamente as
poderosa ferramenta de engenharia que
mesmas (1 Btu  1,055056 kJ). Outra unidade de energia bem conhecida é a
fornece uma boa ideia do fenômeno, de
modo simples, com alguma imprecisão.
caloria (1 cal  4,1868 J), definida como a energia necessária para aumentar a
temperatura em 1 °C de 1 g de água a 14,5 °C.
A energia interna pode ser entendida como a soma das energias cinética e po-
tencial das moléculas. A parte da energia interna associada com a energia cinética
das moléculas é denominada energia sensível ou calor sensível. A velocidade
média e o grau de atividade das moléculas são proporcionais à temperatura. Assim,
26 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Capítulo 1 Introdução e Conceitos Básicos 7

em altas temperaturas, as moléculas têm energia cinética alta, e, consequentemen-


te, o sistema apresenta alta energia interna.
A energia interna é também associada com as forças intermoleculares entre as
moléculas de um sistema. Essas forças ligam as moléculas umas às outras e, como
previsto, são mais fortes em sólidos e mais fracas em gases. Se energia suficiente
for adicionada às moléculas de um sólido ou líquido, ela romperá essas forças mo-
leculares e transformará o sistema em gás. Tal processo é denominado mudança de
fase, e, por causa dessa energia adicionada, o sistema na fase gasosa tem um nível
de energia interna maior que na fase sólida ou líquida. A energia interna associada
com a fase de um sistema é chamada de energia latente ou calor latente.
Essas mudanças podem ocorrer sem alteração na composição química do sis-
tema. A maioria dos problemas de transferência de calor se enquadra nessa catego-
ria, de forma que não é necessário prestar atenção nas forças de ligação dos átomos Fluido em
Energia  h
nas moléculas. A energia interna associada às ligações dos átomos na molécula é movimento

denominada energia química ou de ligação, enquanto a energia interna associada


com as ligações dentro do núcleo de um átomo é denominada energia nuclear. As
energias química e nuclear são absorvidas ou liberadas durante reações químicas
ou nucleares, respectivamente.
Fluido em
Na análise de sistemas que envolvem fluxo de fluidos, frequentemente encon- repouso
Energia  u
tramos a combinação das propriedades u e Pv. Por questão de simplicidade e con-
veniência, essa combinação é definida como entalpia h, isto é, h = u Pv, onde
Pv representa a energia de escoamento do fluido (também denominada trabalho FIGURA 1–8 A energia interna u
de bombeamento), que é a energia necessária para impulsionar um fluido e manter representa a energia microscópica de um
o escoamento. Na análise da energia de fluidos escoando, é conveniente tratar a fluido em repouso, enquanto a entalpia h
energia de escoamento como parte da energia do fluido e representar a energia representa a energia microscópica de um
microscópica do fluido escoando pela entalpia h (Fig. 1–8). fluido em movimento.

PREZADO ESTUDANTE

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unidade

Parte 3

Fundamentos da Estática dos Fluidos

O conteúdo deste livro é


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28 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

76 Mecânica dos Fluidos

3–1 PRESSÃO
A pressão é definida como uma força normal exercida por um fluido por unida-
de de área. Só falamos de pressão quando lidamos com um gás ou um líquido. O
equivalente da pressão nos sólidos é a tensão normal. Como a pressão é definida
como a força por unidade de área, ela tem como unidade newtons por metro qua-
drado (N/m2), que é denominada pascal (Pa). Ou seja:

A unidade de pressão pascal é muito pequena para quantificar a maioria das


pressões encontradas na prática. Assim, normalmente são usados seus múltiplos
3 6
quilopascal (1 kPa  10 Pa) e megapascal (1 MPa  10 Pa). Outras três uni-
150 libras 300 libras
dades de pressão muito usadas na prática, particularmente na Europa, são bar,
atmosfera padrão e kilograma-força por centímetro quadrado:

Apés = 50 in2

P = 3 psi P = 6 psi
Observe que as unidades de pressão bar, atm e kgf/cm2 são quase equivalentes entre
P = sn = –––– 150 lbf = 3 psi
W = –––––– si. No sistema inglês, a unidade de pressão é libra-força por polegada quadrada
Apés 50 in2
(lbf/in2 ou psi) e 1 atm  14,696 psi. As unidades de pressão kgf/cm2 e lbf/in2 tam-
FIGURA 3–1 A tensão normal (ou bém são indicadas por kg/cm2 e lb/in2, respectivamente, e normalmente são usadas
2
“pressão”) sobre os pés de uma pessoa em calibradores de pneus. É possível demonstrar que 1 kgf/cm  14,223 psi.
mais pesada é muito maior do que sobre A pressão também é usada em sólidos como sinônimo de tensão normal,
os pés de uma pessoa esbelta. que é a força que age perpendicularmente à superfície por unidade de área. Por
exemplo, uma pessoa que pesa 150 libras com uma área total da sola dos pés
2 2
ou “das pegadas” dos pés de 50 in exerce uma pressão de 150 lbf/50 in  3,0
psi sobre o solo (Fig. 3–1). Se a pessoa fica sobre um único pé, a pressão dobra.
Se a pessoa ganha peso excessivo, pode sentir desconforto nos pés por conta da
maior pressão sobre eles (o tamanho do pé não muda com o ganho de peso). Isso
também explica o motivo pelo qual uma pessoa pode caminhar sobre neve fresca
sem afundar se usar sapatos de neve grandes, e como uma pessoa consegue cortar
alguma coisa com pouco esforço usando uma faca afiada.
A pressão real em determinada posição é chamada de pressão absoluta, e é
medida com relação ao vácuo absoluto (ou seja, a pressão absoluta zero). A maioria
dos dispositivos de medição da pressão, porém, é calibrada para ler o zero na atmos-
fera (Fig. 3–2) e, assim, eles indicam a diferença entre a pressão absoluta e a pressão
atmosférica local. Essa diferença é chamada de pressão manométrica. A Pman pode
ser negativa ou positiva, mas as pressões abaixo da pressão atmosférica são chama-
das de pressões de vácuo e são medidas pelos medidores de vácuo que indicam a
diferença entre a pressão atmosférica e a pressão absoluta. As pressões absoluta,
manométrica e de vácuo são quantidades positivas e estão relacionadas entre si por:

Pman  Pabs  Patm (3–1)


FIGURA 3–2 Alguns medidores de
pressão básicos. Pvac  Patm  Pabs (3–2)
Dresser Instruments, Dresser, Inc.
Utilização permitida. Isso é ilustrado na Fig. 3–3.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Fundamentos da Estática dos Fluidos | PARTE 3 29
Capítulo 3 Pressão e Estática dos Fluidos 77

P man

Patm

Pvac P abs

Patm P atm

Pabs

Vácuo Vácuo
P abs = 0 FIGURA 3–3 Pressões absoluta, ma-
absoluto absoluto nométrica e de vácuo.

Assim como outros medidores de pressão, o medidor utilizado para medir


a pressão do ar de um pneu de automóvel lê a pressão manométrica. Portanto, a
leitura comum de 32 psi (2,25 kgf/cm2) indica uma pressão de 32 psi acima da
pressão atmosférica. Em um local onde a pressão atmosférica seja de 14,3 psi,
por exemplo, a pressão absoluta do pneu será de 32  14,3  46,3 psi.
Nas relações e tabelas termodinâmicas, quase sempre é utilizada a pressão
absoluta. Ao longo deste livro, a pressão P indicará a pressão absoluta, a menos
que seja especificado o contrário. Frequentemente, as letras “a” (de pressão ab-
soluta) e “g” (de pressão manométrica) serão adicionadas às unidades de pressão
(como em psia e psig) para esclarecer seu sentido.

EXEMPLO 3–1 A pressão absoluta de uma câmara de vácuo


Um medidor de vácuo conectado a uma câmara exibe a leitura de 5,8 psi em um local
onde a pressão atmosférica é de 14,5 psi. Determine a pressão absoluta na câmara.

SOLUÇÃO A pressão manométrica de uma câmara de vácuo é dada. A pressão


absoluta da câmara deve ser determinada.
Análise A pressão absoluta é determinada facilmente pela Equação (3–2) como:

Pabs  Patm  Pvac  14,5  5,8  8,7 psi

Discussão Observe que o valor local da pressão atmosférica é usado ao determi-


narmos a pressão absoluta.
P P

Pressão em um ponto P P

A pressão é a força de compressão por unidade de área e parece ser um vetor.


Entretanto, a pressão em qualquer ponto de um fluido é igual em todas as dire-
ções (Fig. 3–4). Ou seja, ela tem intensidade, mas não uma direção específica
e, portanto, é uma quantidade escalar. Isso pode ser demonstrado considerando P
um elemento fluido em forma de uma pequena cunha de comprimento unitá-
FIGURA 3–4 A pressão é uma quan-
rio (y  1 para dentro da página) em equilíbrio, como mostra a Fig. 3–5. As tidade escalar, não um vetor; a pressão
pressões médias nas três superfícies são P1, P2 e P3 e a força que age sobre em um ponto do fluido é a mesma para
uma superfície é o produto da pressão média pela área da superfície. A partir todas as direções.
30 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

78 Mecânica dos Fluidos

z da segunda lei de Newton, sabemos que um balanço de força nas direções x e z


resulta em:

(3–3a)
g

(3–3b)
l
onde  é a densidade e W  mg  g x y z/2 é o peso do elemento fluido.
Observando que a cunha é um triângulo retângulo, temos que x  l cos  e z
 l sen . Substituindo essas relações geométricas e dividindo a Eq. (3–3a) por
y z e a Eq. (3–3b) por x y temos:
x
(3–4a)
FIGURA 3–5 As forças que agem so-
bre um elemento fluido em forma de
cunha em equilíbrio. (3–4b)

O último termo da Eq. (3–4b) desaparece quando z → 0 e a cunha torna-se


infinitesimal e, portanto, o elemento fluido encolhe até certo ponto. Em seguida,
combinando os resultados dessas duas relações temos:

(3–5)

independente do ângulo . Podemos repetir a análise para um elemento do plano


yz e obter um resultado semelhante. Assim, concluímos que a pressão em um
ponto de um fluido tem a mesma intensidade em todas as direções. Esse resultado
se aplica tanto aos fluidos em movimento quanto aos fluidos em repouso, já que
a pressão é escalar, não um vetor.

Variação da pressão com a profundidade


Não deve ser surpresa o fato de que a pressão em um fluido em repouso não varia
na direção horizontal. Isso pode ser facilmente mostrado por uma fina camada hori-
Pman zontal de fluido e um balanço de forças em qualquer direção horizontal. Entretanto,
esse não é o caso na direção vertical, na presença de um campo de gravidade. A
pressão de um fluido aumenta com a profundidade, porque mais fluido se apoia nas
camadas inferiores, e o efeito desse “peso extra” em uma camada mais profunda é
equilibrado por um aumento na pressão (Fig. 3–6).
FIGURA 3–6 A pressão de um fluido Para obter uma relação para a variação da pressão com a profundidade, con-
em repouso aumenta com a profundi- sidere um elemento fluido retangular de altura z, largura x e profundidade
dade (como resultado do peso adicio- unitária (y  1 para dentro da página) em equilíbrio, como mostra a Fig 3–7.
nado). Considerando que a densidade do fluido  seja constante, um balanço de forças
na direção vertical z resulta em:

onde W  mg  g x y z é o peso do elemento fluido e z  z2 – z1. Ao


dividir por x y e reorganizar temos:
(3–6)

onde s  g é o peso específico do fluido. Assim, concluímos que a diferença


de pressão entre dois pontos em um fluido de densidade constante é proporcional
à distância vertical z entre os pontos e à densidade  do fluido. Observando
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Fundamentos da Estática dos Fluidos | PARTE 3 31
Capítulo 3 Pressão e Estática dos Fluidos 79

o sinal negativo, podemos dizer que a pressão em um fluido estático aumenta z


linearmente com a profundidade. É isso o que um mergulhador experimenta ao
g
mergulhar mais fundo em um lago.
P2
Uma equação mais fácil de lembrar e aplicar entre dois pontos quaisquer no
mesmo fluido sob condições hidrostáticas é: z2
x
Pabaixo  Pacima  gz  Pacima  sz (3–7) z

onde “abaixo” refere-se ao ponto de menor elevação (mais profundo no fluido) e z1


W
“acima” refere-se ao ponto de maior elevação. Se você usar essa equação consis-
tentemente, deveria evitar erros de sinal.
Para um determinado fluido, a distância vertical z às vezes é usada como P1
uma medida de pressão e é chamada de carga de pressão. 0
x
Concluímos também, pela Eq. (3–6), que para distâncias de pequenas a mo-
deradas, a variação da pressão com a altura é desprezível para os gases, por causa FIGURA 3–7 Diagrama de corpo livre
de sua baixa densidade. A pressão em um tanque contendo um gás, por exemplo, de um elemento fluido retangular em
pode ser considerada uniforme, uma vez que o peso do gás é muito baixo para equilíbrio.
fazer uma diferença considerável. Da mesma forma, a pressão em uma sala cheia
de ar pode ser considerada constante (Fig. 3–8).
Se considerarmos o ponto “acima” na superfície livre de um líquido aberto
para a atmosfera (Fig. 3–9), no qual a pressão é a pressão atmosférica Patm, então
a pressão a uma profundidade h da superfície livre torna-se:

P  Patm  gh ou Pman  gh (3–8)

Os líquidos são substâncias essencialmente incompressíveis e, portanto, a


variação da densidade com a profundidade é desprezível. Isso também aconte-
ce com os gases quando a variação de altura não é muito grande. Entretanto, a
variação da massa específica dos líquidos ou dos gases com a temperatura pode
ser significativa e precisa ser levada em conta quando a exatidão desejada for
alta. Da mesma forma, a profundidades maiores, como em oceanos, a variação
na massa específica de um líquido pode ser significativa devido à compressão
exercida pelo enorme peso do líquido acima.
A aceleração gravitacional g varia de 9,807 m/s2 no nível do mar até 9,764
2
m/s a uma altitude de 14.000 m, na qual viajam os grandes aviões de passagei-
ros. A mudança é de apenas 0,4%, mesmo neste caso extremo. Assim, é possível
considerar que g é constante com erro desprezível.
Para fluidos cuja densidade varia significativamente com a altitude, a relação
Ptopo = 1 atm
para a variação da pressão com a altitude pode ser obtida dividindo a Eq. (3–6)
por z e considerando o limite z → 0. Isso resulta em: AR
(Um quarto de 5 m de altura)
(3–9)
P fundo = 1,006 atm
Observe que dP é negativo quando dz é positivo, uma vez que a pressão diminui
na direção ascendente. Quando a variação da densidade com a altitude é conhe-
cida, a diferença de pressão entre qualquer par de pontos 1 e 2 pode ser determi- FIGURA 3–8 Em uma sala cheia com
um gás, a variação da pressão com a al-
nada por uma integração:
tura é desprezível.

(3–10)

Para o caso de densidade e aceleração gravitacional constantes, essa relação se


reduz à Eq. (3–6), como era esperado.
32 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

80 Mecânica dos Fluidos

A pressão em um fluido em repouso não depende da forma ou seção trans-


versal do recipiente. Ela varia com a distância vertical, mas permanece cons-
Pacima = Patm
tante nas outras direções. Assim, a pressão é igual em todos os pontos de um
plano horizontal para determinado fluido. O matemático holandês Simon Stevin
(1548-1620) publicou em 1586 o princípio ilustrado na Fig. 3–10. Observe que
h as pressões nos pontos A, B, C, D, E, F e G são iguais, uma vez que estão à mes-
ma profundidade, e estão interconectadas pelo mesmo fluido estático. Entretanto,
Pabaixo = Patm + rgh as pressões nos pontos H e I não são iguais, já que estes dois pontos não podem
estar interconectados pelo mesmo fluido (ou seja, não podemos desenhar uma
curva do ponto I até o ponto H, permanecendo sempre no mesmo fluido), embora
eles estejam à mesma profundidade. (Você saberia dizer em qual ponto a pressão
FIGURA 3–9 A pressão em um líquido
em repouso aumenta linearmente com a é mais alta?) Da mesma forma, a força de pressão exercida pelo fluido é sempre
distância da superfície livre. normal à superfície nos pontos especificados.
Uma consequência de a pressão de um fluido permanecer constante na dire-
ção horizontal é que a pressão aplicada a um fluido confinado aumenta a pressão
em todo o fluido na mesma medida. Essa é a Lei de Pascal, em homenagem a
Blaise Pascal (1623-1662). Pascal também sabia que a força aplicada por um
fluido é proporcional à área da superfície. Ele percebeu que dois cilindros hi-
dráulicos com áreas diferentes poderiam estar conectados, e que o maior poderia
exercer uma força proporcionalmente maior do que aquela aplicada ao menor. A
“máquina de Pascal” tem sido fonte de muitas invenções parte do nosso dia a dia,
como os freios e os macacos hidráulicos. É esse conceito que nos permite elevar
um automóvel facilmente com um braço, como mostra a Fig. 3–11. Observando
que P1  P2, já que ambos os pistões estão no mesmo nível (o efeito das peque-
nas diferenças de altura é desprezível, particularmente a altas pressões), a relação
entre a força de saída e a força de entrada é determinada por:

(3–11)

Patm

Água

B C D E G
A F

PA = PB = PC = PD = PE = PF = PG = Patm + rgh Mercúrio

H I

FIGURA 3–10 A pressão é a mesma em todos os pontos de um plano horizontal em um dado fluido, independentemente da geome-
tria, desde que os pontos estejam interconectados pelo mesmo fluido.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Fundamentos da Estática dos Fluidos | PARTE 3 33
Capítulo 3 Pressão e Estática dos Fluidos 85

A coluna de fluido diferencial de altura h está em equilíbrio estático e aberta


para a atmosfera. Dessa forma, a pressão no ponto 2 é determinada diretamente
pela Eq. (3–7) como:
Gás
P2  Patm  gh (3–13) h

onde  é a densidade do fluido no tubo. Observe que a área da seção transversal 1 2


do tubo não tem efeito sobre a altura diferencial h e, assim, não tem efeito sobre
a pressão exercida pelo fluido. Entretanto, o diâmetro do tubo deve ser suficien-
temente grande (mais do que alguns milímetros) para garantir que o efeito da
tensão superficial e, portanto, da elevação por capilaridade, seja desprezível. FIGURA 3–19 O manômetro básico.

EXEMPLO 3–5 Medição da pressão com um manômetro


Um manômetro é usado para medir a pressão em um tanque. O fluido usado tem Patm = 96 kPa
uma gravidade específica de 0,85 e a altura da coluna do manômetro é de 55 cm,
como mostra a Figura 3–20. Se a pressão atmosférica local for de 96 kPa, determi-
ne a pressão absoluta dentro do tanque.
P=?
h = 55 cm
SOLUÇÃO A leitura de um manômetro acoplado a um tanque e a pressão atmos-
férica são dadas. A pressão absoluta no tanque deve ser determinada.
Hipóteses O fluido no tanque é um gás cuja densidade é muito menor do que a
densidade do fluido manométrico. GE = 0,85
Propriedades É dado que a gravidade específica do fluido manométrico é 0,85.
Consideramos a densidade padrão da água como 1.000 kg/m3. FIGURA 3–20 Esquema do Exemplo
3–5.
Análise A densidade do fluido é obtida multiplicando sua gravidade específica
pela densidade da água, que é considerada 1.000 kg/m3:
  GE

Assim, da Eq. (3–13):

Discussão Observe que a pressão manométrica no tanque é de 4,6 kPa.

Patm
Fluido 1
Alguns manômetros usam um tubo oblíquo ou inclinado a fim de aumentar a h1
resolução (precisão) ao ler a altura do fluido. Tais dispositivos são chamados de
manômetros inclinados. Fluido 2
Muitos problemas de engenharia e alguns manômetros envolvem a sobrepo- h2

sição de vários fluidos imiscíveis de diferentes densidades uns sobre os outros. Fluido 3
Tais sistemas podem ser facilmente analisados se lembrarmos de que (1) a varia- h3
1
ção da pressão em uma coluna de fluido de altura h é P  gh, (2) em determi-
nado fluido, a pressão aumenta para baixo e diminui para cima (ou seja, Pfundo  FIGURA 3–21 Em camadas empilha-
Ptopo) e (3) dois pontos a uma mesma altura em um fluido contínuo em repouso das de fluidos em repouso, a variação
estão a mesma pressão. da pressão em cada camada de fluido
O último princípio, que é um resultado da Lei de Pascal, permite “pularmos” com densidade  e altura h é gh.
de uma coluna de fluido para a próxima, em manômetros, sem nos preocuparmos
com a variação de pressão, desde que não pulemos para um fluido diferente, e
34 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

86 Mecânica dos Fluidos

Uma seção de escoamento ou desde que o fluido esteja em repouso. Assim, a pressão em qualquer ponto pode
um dispositivo de escoamento
ser determinada iniciando com um ponto de pressão conhecido e adicionando ou
subtraindo os termos gh à medida que avançamos na direção do ponto de interes-
Fluido se. Por exemplo, a pressão na parte inferior do tanque da Fig. 3–21 pode ser deter-
minada iniciando-se pela superfície livre, onde a pressão é Patm, indo para baixo
1 2 até atingir o ponto 1 na parte inferior e igualando o resultado a P1. Isso resulta em:

a Patm � 1gh1 � 2gh2 � 3gh3 � P1

r1 h No caso especial de todos os fluidos possuírem a mesma densidade, essa relação


A B fica reduzida a Patm � g (h1 � h2 � h3) � P1.
r2
Manômetros são particularmente adequados para medir a queda de pressão
entre dois pontos específicos de uma seção de escoamento horizontal, devido à
FIGURA 3–22 Medição da queda de presença de um dispositivo como uma válvula, um trocador de calor, ou qualquer
pressão em uma seção de escoamento resistência ao escoamento. Isso é feito conectando os dois lados do manômetro
ou em um dispositivo de escoamento a esses dois pontos, como mostra a Fig. 3–22. O fluido de trabalho pode ser um
com um manômetro diferencial. gás ou um líquido cuja densidade é 1. A densidade do fluido manométrico é 2 e
a altura diferencial do fluido é h. Os dois fluidos devem ser imiscíveis e 2 deve
ser maior do que 1.
Uma relação para a diferença de pressão P1 – P2 pode ser obtida iniciando-se
pelo ponto 1 com P1, movendo-se ao longo do tubo adicionando ou subtraindo os
termos pgh até atingir o ponto 2, e igualando o resultado a P2:

P1 � 1g(a � h) � 2gh � 1ga � P2 (3–14)

Observe que pulamos do ponto A horizontalmente para o ponto B e ignoramos a


parte inferior, uma vez que a pressão em ambos os pontos é igual. Simplificando:

P1 � P2 � (2 � 1)gh (3–15)

Observe que a distância a não tem efeito sobre o resultado, mas deve ser in-
cluída na análise. Além disso, quando o fluido que escoa no tubo é um gás, então
Óleo
1 V 2 e a relação da Eq. (3–15) pode ser simplificada para P1 – P2  2gh.

Ar
1 EXEMPLO 3–6 Medição da pressão com um manômetro de vários
Água fluidos
h1
2 A água de um tanque é pressurizada a ar, e a pressão é medida por um manôme-
tro de vários fluidos, como mostra a Fig. 3–23. O tanque está localizado em uma
h2 h3 montanha, a uma altitude de 1.400 m, onde a pressão atmosférica é de 85,6 kPa.
Determine a pressão do ar no tanque se h1 � 0,1 m, h2 � 0,2 m e h3 � 0,35 m.
Considere as densidades da água, do óleo e do mercúrio como 1.000 kg/m3, 850
kg/m3 e 13.600 kg/m3, respectivamente.
Mercúrio
SOLUÇÃO A pressão de um tanque de água pressurizado é medida por um ma-
nômetro de vários fluidos. A pressão de ar no tanque deve ser determinada.
FIGURA 3–23 Esquema do Exemplo
3–3. O desenho não está em escala. Hipótese A pressão do ar no tanque é uniforme (ou seja, sua variação com a eleva-
ção é desprezível devido à sua baixa densidade) e, portanto, podemos determinar a
pressão na interface entre o ar e a água.
Propriedades As densidades da água, do óleo e do mercúrio são dadas por 1.000
kg/m3, 850 kg/m3 e 13.600 kg/m3, respectivamente.
Análise Iniciando-se pela pressão no ponto 1 na interface entre ar e água, moven-
do-se ao longo do tubo, adicionando ou subtraindo os termos gh até atingirmos
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unidade

Parte 4

Princípios da Hidrostática

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38 FENÔMENOS DE TRANSPORTE

Princípios da hidrostática
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

„ Definir as propriedades e as grandezas que caracterizam um fluido,


bem como um elevador hidráulico.
„ Relacionar os tipos de pressão ao empuxo.
„ Calcular o estado de equilíbrio de um sistema com dois corpos devido
a empuxos e à pressão.

Introdução
Certos fenômenos alteram a forma como aplicamos as leis de Newton.
Isso ocorre por se tratarem de situações com certas particularidades
que interferem na análise do problema e uma dessas particularidades é
quando o meio em que ocorre o fenômeno físico é um fluido. Por isso,
neste capítulo, você vai estudar as interferências físicas que surgem por
um fenômeno ocorrer dentro de um fluido em repouso.

Fluido: o que é?
Antes de estudarmos como um fluido afeta fisicamente uma situação em
particular, é evidente que temos que saber o que é um fluido.
Para realizar a tarefa de definir um fluido, primeiro imagine uma mesa
de madeira, ou seja, algo que não é um fluido por definição. Ao tentar fazer
alguma interação física, você não consegue:

„ Afundar sua mão na mesa, ou seja, sempre ficará restrito à superfície


de um dos seus lados.
„ Observar uma mudança significativa de forma na mesa sem que a
estrague.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
2 Princípios da hidrostática Princípios da Hidrostática | PARTE 4 39

Já quando pensamos na interação física com a água, que é um exemplo


clássico de fluído:

„ Você até tem uma pequena resistência do fluído, mas é facilmente


quebrada. Lembre-se, a barrigada, que é conhecida dessa forma por
ser uma queda de barriga na água, dói como se estivesse batendo com
o corpo no chão. Além disso, com a queda, você pode se afogar.
„ A água pode deixar você ocupar o espaço em que ela estava facilmente,
mas se você sai da água, ela volta.
„ Por fim, é muito fácil ver um rio de água, mas eu nunca vi um rio de
mesas.

Agora que fizemos esse levantamento de ideias, você deve estar esperando
que venha um quadro com uma definição do conceito de fluido, porém, isso
não vai acontecer. Nenhum dos mais de seis autores tradicionais de física
geral da atualidade fez isso por uma razão muito simples: ao tentar definir
fluido, você está resolvendo um problema e gerando outro, uma vez que não
achamos uma definição simples que explique tudo que associamos a fluido.
Para solucionar e facilitar a resolução de uma situação física, vou dizer o que
é um fluido em termos gerais com um conselho.

Fluido é todo gás e todo líquido, mas evite trabalhar com alguns, pois, para conse-
guir fazer um estudo físico dos não ideais, temos que levar em conta situações mais
complexas.
Outra dica: a água e o ar, nos problemas apresentados nos nossos estudos, sempre
serão fluidos ideais.

Elevador hidráulico: outra definição importante


Se você pegar uma garrafa PET (politereftalato de etileno) de água aberta e
apertá-la, o que acontecerá (Figura 1)?
40 FENÔMENOS DE TRANSPORTE
Princípios da hidrostática 3

Figura 1. Exemplo de jato da água gerado pelo aperto


da mão.
Fonte: Tpfeller/Shutterstock.com.

O que vemos é que o fato da mão ocupar o espaço em que estava a água faz
esta sair para ocupar outro espaço. Não consideramos que a água se comprime,
o que acontece com o gás.
Usando essa propriedade ilustrada na Figura 1, podemos criar um elevador
hidráulico, que é um equipamento que tem um sistema com água isolado por
paredes móveis. Como um pistão cheio de água, porém, há, pelo menos, duas
peças livres para se mover.
A importância do elevador hidráulico se dá ao estudarmos os efeitos sobre
a força, devido ao Princípio de Pascal. Então, voltaremos a analisar o tópico,
após estudarmos outros conceitos dentro da hidrostática.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
4 Princípios da hidrostática Princípios da Hidrostática | PARTE 4 41

Grandezas físicas dos fluidos


No estudo dessas grandezas, vamos trabalhar com definições mais objetivas.
O volume (V) é o espaço ocupado por algo, ou seja, você dizer que cabe a
mesma quantidade de palhaços e de formigas em um fusca seria um absurdo,
o volume tem sua unidade dada em [m3]. Em termos de fluidos, é comum o
uso de litro [l], lembrando que lm3 = 1000l e também que lm = 100 cm, mas
que lm3 = 100 00 00 cm3.
A densidade específica (⍴) é a quantidade de matéria de um objeto em
um determinado espaço, dada em [kg/m3], e que calculamos por ⍴ = m/V.

Existe mais de um tipo de densidade com a ideia de massa dividida por volume. A
diferença é se tratamos da massa total, do volume total, ou se estamos falando de
uma densidade relativa, que é uma densidade comparada à outra.

A pressão é um conceito de força dividido por área P = F/A, [N/m2] ou [Pa],


mas vamos refletir um pouco sobre. Um soco dado em uma ponta de faca é
a mesma coisa que um soco dado em uma parede? Nos estudos externos, ou
seja, tratando os corpos como indestrutíveis, sim, é a mesma coisa. Mas, com
certeza, os resultados práticos são diferentes. Isso ocorre porque o resultado
prático de socar uma ponta de faca é se cortar, isto é, destruir parcialmente
o punho, o corpo físico. Situação que não consideramos no estudo de efeitos
externos.
Então, uma grandeza física que tem grande influência em fenômenos
físicos, na qual importa a proporção da força e da área em que se aplica a
força, é a pressão.
Se você se perguntou se na hidrostática e na hidrodinâmica isso acontece,
a resposta é sim.
E por fim, pressão é escalar. Apesar de força e área serem vetoriais, a
definição completa de pressão é a força aplicada perpendicularmente em
uma determinada área. Então, é a força aplicada empurrando uma superfície
e não uma de atrito que tenta te segurar ao raspar o dedo em uma borracha.
42 FENÔMENOS DE TRANSPORTE
Princípios da hidrostática 5

Apesar de pressão ser [N/m2] ou [Pa], é comum outras unidades em cada área do
conhecimento humano. Como:
1 atmosfera padrão = 1 atm = 101300 Pa = 101,3 kPa ≈ 100 kPa
760 milímetros de mercúrio = 760 mm de Hg = 1 atm
As demais são da língua inglesa.

Pressões destacáveis
Há duas pressões de fluidos que logicamente você teve que ter sentido para
estar lendo este texto: a pressão atmosférica, que você sente neste exato mo-
mento, e a pressão em líquidos, que você sentiu dentro da barriga da sua mãe.
A gravidade funciona para tudo e para todos, correto? Se isso é verdade,
ela funciona para o ar que está em cima da sua cabeça agora, e mesmo que
esteja sob um teto, se houver uma maneira do ar de fora entrar em contato com
o ar de dentro, o efeito do teto é desprezível. Por mais que coloque uma folha
de papel em cima de sua cabeça, haverá uma pressão lá devido ao ar, pois o
ar empurra o papel e este te empurra. Repare que isso diz que não é somente
a gravidade sobre o papel que estaria afetando a força do papel sobre você,
mas também a gravidade sobre o ar.

Foi dito sobre o desprezo do efeito do teto devido ao contato do ar de fora com o de
dentro de um ambiente, pois, não é somente a quantidade de ar sobre a sua cabeça
que importa, uma vez que, em um ambiente isolado, como um avião, por exemplo,
podemos alterar a pressão interna, alterando também a quantidade de ar confinado.

O valor da pressão atmosférica é tratado como constante nos problemas


de física em geral. Na superfície da terra, essa pressão vale 1 atm e pode ser
arredondada por 105 Pa. Já a pressão hidrostática segue a mesma lógica da
origem natural da pressão atmosférica, porém, falamos de líquidos e estes
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
6 Princípios da hidrostática Princípios da Hidrostática | PARTE 4 43

têm uma particularidade de não se comprimir, o que facilita a criação de


uma fórmula.
A fórmula é:

p = po + ρgd (1)
p é pressão total.
po é a pressão inicial devido ao ambiente.
⍴ é a densidade do líquido.
g é a aceleração da gravidade.
d é a altura de água que há em cima do ponto de análise.

A Figura 2 ilustra essas informações.

Figura 2. Exemplo do exercício da pressão hidrostática.


Fonte: Flight of imagination/Shutterstock.com.

Olhando a Figura 2, você pensa que a pressão é igual em todos os pontos da


seringa? Na verdade, como a seringa é pequena, nós dizemos que sim, porém,
essa simplificação ignora o efeito aqui estudado de que a cada profundidade
há uma pressão.
44 FENÔMENOS DE TRANSPORTE Princípios da hidrostática 7

Então, aplicando a fórmula na seringa, todos os pontos têm a pressão Po,


mas alguns pontos também têm a pressão dos líquidos acima dele, que depende
da quantidade de líquido, ou seja, da profundidade.
Por fim, ao mergulhar, será sentido o mesmo efeito. A cada 10 metros de
profundidade, a pressão aumentará em 1 atm, isto é, mergulhando a 10 metros
de profundidade, dobra-se a pressão sobre quem mergulha, o que explica a
dificuldade de explorar o fundo do mar.

Na prática, como calcular a pressão hidrostática?


Vejamos o exemplo e, ao fazer uma análise, como calcular.

Aqui temos um tubo fechado


embaixo, com uma divisória no
meio e preenchido com água.

Se a densidade da água é 1000 kg/m3,


a aceleração da gravidade é 10 m/s2,
a pressão inicial é de 0,8 atm e
os pontos estão nas seguintes
profundidades: [A = 0,2 m; B = 0,2 m;
C = 0,5 m]. Sendo assim, como
é a pressão em cada ponto?

Calculemos:
Po = 0,8 atm = 0,8 . 105 Pa = 80000 Pa
⍴ = 1000 kg/m3
G = 10m/s2

P no ponto A = PA = 80000 +
1000 . 10 . 0,2 = 82000 Pa
P no ponto B = PB = 80000 +
1000 . 10 . 0,2 = 82000 Pa
P no ponto C = PC = 80000 +
1000 . 10 . 0,5 = 85000 Pa

Repare que PA e PB são iguais. Por


que será? Isso ocorre porque a
água horizontal aos pontos não
interfere no ponto, sendo que esse
fato está evidente na fórmula.
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
8 Princípios da hidrostática Princípios da Hidrostática | PARTE 4 45

O elevador hidráulico revisitado


Agora que entendemos a pressão e as suas ideias correlacionadas à hidráulica,
voltemos ao elevador hidráulico, que é uma máquina que usa o Princípio de
Pascal.
Ao usar uma seringa preenchida com água, quando a apertamos, fazemos
um aumento de pressão, que será sentido em qualquer lugar dentro dela, isto é,
ao aumentar a pressão, toda a seringa aumenta a mesma quantidade de pressão.
Porém, a pressão é a força dividida por área. Se houver áreas diferentes,
por consequência, teremos forças também diferentes para conservar a pressão
(Figura 3).

Figura 3. Elevador hidráulico já com a fórmula.


Fonte: Fouad A. Saad/Shutterstock.com.

Observe a máquina. Temos dois tubos com áreas diferentes e estamos


desconsiderando a pressão devido à profundidade da água. O resultado é: se
fizermos uma força F1, teremos uma força maior F2. Há inúmeras aplicações,
você consegue imaginar alguma? Acredite, há muitas, pois esse fenômeno de
ampliação de força é muito útil.
46 FENÔMENOS DE TRANSPORTE Princípios da hidrostática 9

Agora, se você for um aluno questionador, o que eu encorajo que seja, verá
que parece que a terceira lei de Newton foi violada, pois temos uma força F1,
ação menor do que uma força de reação F2 maior, logo, a intensidade é diferente.
Porém, a terceira lei não foi violada. O que acontece é que o par ação e
reação não é o proposto pela pergunta, mas a ação é a força F1 que uma pessoa
aplica na A1 e a reação é a força que a superfície A1 aplica na pessoa.

Empuxo: uma consequência direta da teoria


vista
Você sabe que existe barco, não é? Mas por que o barco flutua?
Uma hipótese simples é dizer que a água empurra o barco, o que está cor-
reto, mas isso não é uma lei para que possamos calcular, de fato, quando este
afunda ou quando flutua. Então, Arquimedes pensou sobre o tema, utilizou
a versão da teoria da hidrostática da época e criou uma lei que responde esta
e outras perguntas relacionadas a flutuar e a afundar.

Mais sobre lei e princípios pode ser lido no link a seguir.

https://goo.gl/3Pyppo

A definição da lei de Arquimedes via uso de forças


Um fluido exerce uma força de empuxo orientada para cima, FE, sobre um
objeto imerso ou que flutua no fluido. O módulo da força de empuxo equivale
ao peso do fluido deslocado pelo objeto (KNIGHT, 2009).
O módulo da força em termos algébricos, ou seja, o empuxo, é:

FE = ρfluidoVfluido g
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
10 Princípios da hidrostática Princípios da Hidrostática | PARTE 4 47

O que é meio claro, lendo a lei, é que temos a densidade ⍴ do fluido e não
do objeto e o volume de fluido que saiu devido à presença do objeto. Esses
dois elementos multiplicados dão a massa deslocada. Então, multiplicando
pela gravidade, obtemos o peso do fluido deslocado.

Respostas a perguntas instintivas sobre o empuxo


A primeira pergunta é: como o empuxo ajuda a descobrir se o corpo flutua
ou afunda?
Você vai ter uma força de empuxo e depois vai descobrir todas as outras
forças – geralmente uma ou duas a mais – para então usar a segunda lei de
Newton e calcular o resultado da combinação de todas as forças. Não é difícil,
você, em tese, faz isso desde o ensino médio e talvez nem saiba.
A segunda pergunta é: por que o destaque são as informações do fluido
e não do objeto?
Uma caixa flutuando tem parte do seu volume que não interfere no empuxo,
isto é, a parte fora da água. Mas aqui vai um alerta aos desavisados: o volume
fora do fluido afeta as outras forças, somente ao empuxo que não. Quanto
à densidade ser do fluido, um tijolo ou um chumbo de mesmo volume, no
fundo do oceano, sofrem o mesmo empuxo, porque é a água deslocada e não
o material que interfere no empuxo.
A terceira pergunta é: isso vale para o ar e para os balões de ar quente?
A resposta é sim, isso por causa do empuxo que esses balões voam. O que
acontece é que o ar quente modifica a densidade do ar dentro do balão e isso
afeta o equilíbrio entre o empuxo do ar de fora e o peso do balão.

Finalização sobre empuxo


Como você vai descobrir como calcular se as coisas flutuam ou não? Para fazer
isso, como você já deve ter lido todo o material até aqui, então você vai tentar
fazer uma conta simples. Tente responder calculando o seguinte exercício:
Pegue uma caixa com um peso já conhecido, digamos 100N. Se segurarmos
toda ela submersa na água, ao soltá-la, ela vai flutuar?
Para flutuar, o empuxo tem que ser, pelo menos, no valor de 100N, sendo
assim, agora, temos que calcular o empuxo. Sabemos que a densidade da água
48 FENÔMENOS DE TRANSPORTE
Princípios da hidrostática 11

é 1000kg/m3 e que a aceleração da gravidade vale 10m/s2. Então, qual deve


ser o volume da caixa para ela flutuar?
A resposta é dada pela resolução da equação:
100N = 10 · 1000 · V

V = ???

Sabe o que vai mudar desse exemplo simples para os demais exercícios?
Os valores talvez serão outros ou talvez serão dados de forma indireta, isto
é, ainda precisam ser calculados. Pode ser que sejam mudados com relação a
pedir a densidade, a aceleração da gravidade ou a força.
Com o aumento da dificuldade da situação física, ainda será pedido a
mesma coisa mencionada. Contudo, as grandezas serão dadas de forma in-
direta e necessitarão de adaptação ou cálculos intermediários para chegar às
grandezas que a lei diz que geram o empuxo.
A dificuldade está em saber como fazer essas adaptações. Para isso, volte a
estudar a teoria, pois, ao saber bem como esta funciona, saberá também aonde
modificar. Mas lembre-se, saber uma teoria não é repeti-la, é saber explicar
de forma que isso faça sentido para alguém.

Talvez haja dificuldades ao pesquisar sobre empuxo em inglês, pois isso se deve à
tradução ser buoyancy.
Também observe um detalhe importante: a lei de Arquimedes e o empuxo tratam
da mesma coisa, estão fortemente relacionados, mas são coisas diferentes.
A lei é uma explicação, enquanto o empuxo é uma força sob a ótica da mecânica de
Newton. Repare que podemos usar outra ótica sem falar de forças e a lei de Arquimedes
ainda estará lá, isto é, a Lei de Arquimedes é como explicamos um fato e o empuxo é
uma forma que representamos a lei via forças para prever situações com a mecânica.
Veja a tradução do livro de Arquimedes sobre o tema, no link a seguir, e repare que
as únicas equações algébricas que aparecem são em uma nota adicionada, visto que
tudo era explicado sem equações.

https://goo.gl/YA2Hfq
Introdução ao Estudo do Fenômeno dos Transportes | UNIDADE 1
Princípios da Hidrostática | PARTE 4 49
12 Princípios da hidrostática

ASSIS, A. K. T. Sobre os corpos flutuantes, tradução comentada de um texto de


Arquimedes. Revista SBHC – Sociedade Brasileira de história da Ciência, Rio de Janeiro,
n. 16, p. 69-80, 1996. Disponível em: <https://www.ifi.unicamp.br/~assis/Revista-
-SBHC-V16-p69-80(1996).pdf> Acesso em: 28/02/2018.
KNIGHT, R. D. Física: uma abordagem estratégica. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2009.
v. 2: Termodinâmica óptica. cap. 15.
SILVEIRA, S. L. Princípios e leis em física. Disponível em: <https://www.if.ufrgs.br/
novocref/?contact-pergunta=principios-e-leis-em-fisica> Acesso em: 28/02/2018.

Leituras recomendadas
BAUER, W.; WESTFALL, G. D.; DIAS, H. Física para universitários: relatividade, oscilações,
ondas e calor. Porto Alegre: AMGH, 2013.
HEWITT, P. G. Fundamentos de física conceitual. Porto Alegre: Bookman, 2008.
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