Você está na página 1de 157

-

.
.,.-·
l'residenre do R(>ptíl>lica:
Fernanclo llcnrique Cardoso
l\-linistro da Educaçcio e cto Desporto:
Paulo H('ll<.lto de Souza

SccretórJo executil•O:
Luciano Oliva p-•.uríclo
MEC
Secrctcíria de Ecluccl<;{io Func1cmwmal:
Iara G lúria Areias Praclo

Diretor do Departamc•nto de Política da Edunu,;ão Funrlwltelltal:


Wc.11tcr Kiyoslli Takcmoto
Coordenodora Geral de / \poio ús Esco/os lndtgenas:
lvcrc Maria Bmhosa :O.tadcira Campos

MEC/ SEF/ DPEf-"


Coorclcn<..H;ão Geral d<' Apoio ils Escolas Indígenas
EspléH1éldf'l elos M i nisrC.:·ri os. H loco "L". Saln G2G
CEP: 70 .047-900- Hrasília/ DF
Tel. : (G I ) 4 I O 8630/ 32 I 53~3. Fax : (o I) 32 I 3864
e ·rnail : c.:gaci@sef.rnec .gov.hr

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


Heitor·
Prol. LJr. Jacqucs Marcovitch

Diretoro cin. Fnculflc u le de Ectucw;cio


Profa . Dra. Myriurn Kmsild1ik

l..APEC/-1 - FEL'SP

CENTRO DE TRABALHO INOIGENISTA- CTI


Presirlc>n 1e:
Prof<:t . Ora. Sylvia C. NOVélC'S

CoordenadorCl do J>rogronw Educaç ôo 8culnr Indígena


Pn 'fa . Maria Elisa U .1deira

GOVERNO POP LAR DO MATO GROSSO DO SUL


secretário Eswctuol de Educm;ciu:
Pn ,f. 1•ectro KenlJ,

Nüclec' </e Educ.:w;cic > Inrtígenc 1

Bittencourt, Circe Maria.


A história do povo Terena. I Circe Maria Bittencourt,
Maria Elisa Ladeira. - Brasília : MEC, 2000.
156p.: lt.

1.Educação Escola Ind ígena 2.Cultura Indígena


I.Maria Elisa Ladeira.

cou 37(=081 :81)


C irc e Maria B itte n court
Maria Elisa L adeira

A História
do Povo Terena

MEC - SEF - USP

M a io / 2000
REALIZAÇÃO:

CENTRO DE TRABALI 10 JNOIGENISTA - C TI


FAC ' LDADE DE EDUCAÇÃO 'SP

Pro<luçüo:
Pro~rama de E ducação Escola r Incti~ena/CTl

Coordennçõo e elal>oroçOo:
Circe Mmin Bittenco11rt
Marín Eli~a Ludeira

Pe~ quiso :
Ho~ério A lves de Rezende
A driane Costa da S ilva
Professores Terenn de Miranda: Severiano P"dscoal, Gen6sio de Farias. Josefina Muchacho
l lcnriquc . Nilza J(Jlio Haimunclo . A rlete l3onifác io. Ruy Sebastiã o. Eu lo~ia de A lbuque rque.
E lizeu Sehaslião. Ané s io Pinto. Luzinete Rain"lundo . 1\:ilo Oelfino . E lcio cte A lbuquerque.
A ronalclo Jülio. Paulo Bonif<c'lcio.
Ah1nos do LRboratório de Pesquisa e E nsino d e C if·ncias l lumam.ls/LJSP/ Lapcch

Co nst 1/1< >ria:


Ni<.lia Pontusck
<lilherto Azanha
A ryon Dall'lg na Rodrigue s

J>rogramcu.;do Vi~ual:
Sônia Lorcnz

D iagrnmnçdo. n1apas e trnwrnento elas im<1gens:


A ntônio Kchl

HClli~(lo :
i\tmia Regina t=ig ucirecJo 1 tortc1

APOIO INSTITUCIONAL:

Ralnforest r-ouncla tion - Noru e~R


Centro de Traballto tncligenisra
u niversidade de S~io Paulo
Sccretmia ESiéldual ele E ducação d o Mato G rosso do S 1ti

CENTRO DE TRABALHO IN D I E N ISTA - C T I


R ua Firlnlgn . .348 - sale~ 1.1
v ila M<Kialenn - Seio Paulo - SP
05432-000
Te/. : ( 1 1) 813-3450
e-mnil: cti (a d ia/dato. com . l>r
-
APRESENTAÇAO

Es t e l ivr o de His tó ri a te m m uitos a uto r es. Muit as p essoas


parti c ipa ra m . de dife re ntes fo rmas, de sua criação e confecção. Ele
n asceu de um e n contro de pro fessores Te re n a realizado p e lo Centro de
Trabalho Jnd igeni s ta, em l 994, n a Fac uld ade de Edu cação da
Universidade de São Paulo.
Os liv r os de His t ó ri a escr evem po u c o sobr e as pop ulações
indígen as. o mitindo muito da p a rtic ipação d estes povos n a his tó ria de
toda a n ação brasile ira. Este livro n asceu , assim. d a vonta d e de d e ixar
uma his tó ria escrita de u m povo que vive h á centen as de a n os n o te rritó rio
b rasile iro. possuid or de um p assado de lutas e de conquis tas c uja
m em ó ria his tó rica p recisa ser conhecida . d iscutida. repen sad a .
P a ra q u e e sse liv ro pudesse ser escri t o f o r a rn f eit as muitas
pesquisas. Os p rofessores Tcre n a p esquisara m c om os m a is velhos e
regis tra ram muitas his tó rias de um passado q u e com eça n o Êxiva. n a
região do Ch aco. A lunos do c urso de Prá tica de Ensino de His tó ria da
Universid ade d e São Paulo e a equipe do Projeto de Edu cação do CTI
f izera m levantam ento de livros c d ocu mentos escritos, pesquisando
sobre b rasile iros . portuguese s e esp a nhó is que. desd e o século XVI,
d eixaram re la tos e desenhos sobre os Te re n a . Muitas o utras p esssoas
do CTI e da USP ajuda ram a redig ir e o rganizar os diversos cap ítulos
que fazem parte do liv ro. Especia lis tas em compu tação au x ilia ra m com
s u a a rt e a organizar os m apas . as ilus trações do liv ro . E a inda é
importante destacar que esse liv ro n ão te rminou. p o rqu e as c ria n ças e
jovens Tere na irão com p leta r muitas his tó rias. faz_ e ndo pesquisas j u n to
com s e us p rofessores e escrevendo n os espaços reservado s p a ra q u e
a história c ontinue sen do escrita, p o r m a is a uto res.
Na trajetória de construir este livro foram e nfrentados muitos
desafios e dificuldades. mas também foi muito g ratificante partic ipar
desse trabalho. As muitas pessoas que se envolveram na sua e laboração
c ria ram laços de respeito e de a mizade. Agradecemos a todos q u e
colaboraram direta o u indiretamente para que este livro se tornasse uma
realidade.
Todos nós, que participamos da e laboração desse livro. esperamos
que e le possa c ontribuir para aumentar os laços de s olidariedade entre
os Terena. e que e le ajude a reafirmar a identidade histórica de um povo
que tem lutado para ser reconhecido como construtor da nação brasileira,
sem perder s ua a utonomia cultural e política, seu modo p róprio de ser e
sua dignidade.

Circe Maria B ittencourt Maria Elisa Ladeira


niversidnclc <..le S~o Paulo Cenrro de Tmbalho lndi~enisra
,
SUl\1ARIO

Capítulo I - começa urna História 9


I . Os Aruák I2
2. Povos Aruák no B rasil 14
3. Povos indígenas no B rasil 18
4. Histórias da o rigem do povo Terena 22
5. Momentos da história do povo Tere na 25
Capítulo li - Tempos Antigos 33
1 . Os Guaná no Êxiva 35
2 . Contatos entre Guaná e b rancos 37
3. Os Terena em M iranda c Aquidauana 38
4. Os Tc rena na época do Impé rio b rasil e iro 42
Capítulo 111 - Os Tercna c a Guerra do Paraguai 53
1 . A Guerra do Paraguai ss
2 . Histórias da Guerra: re la tos de Taunay 57
3. Histórias da guerra: Relatos dos Terena 63
Capítulo IV - Tempos da Servidão 73
1. A Lei de Terras de 1850 e os povos indígenas 75
2. Os Te re na depois da Guerra do Paraguai 76
3. O governo republicano e os povos indígenas 79
4. A Estrada de Ferro Noroeste do B rasil 82
Capítulo v - O Territó rio dos T e re na 91
1 . O Serviço de Proteção aos Índios. 93
2. A criação das áreas Terena. 96
3. Os T erena c os p roblemas com o SPI 97
4. A FUNAI e a situação a tual. 98
Capítulo V I - Cotidiano nas a lde ias : o nte m c hoj e 105
1. vestu ário 108
2. Moradia 1 13
3. As a rtes: cerâmica. ces taria e tecelagem 1 19
4. Culinária l3 1
s. Hoças. pesca. coleta. caça c criação 134
6. Festas e cerimônias 140
Créditos Fotográficos 153
B IBLIOGRAFIA 155

-'
Capítulo ·~~
Começa __
A história do povo Tercna é longa c e stá ligada às história s de vários
povos indígenas. dos e uropeus. dos a fricanos e seus descendentes. O
povo Terena, juntamente com o s Laiana e os Kinikina u, faz parte da
história de g rupos indígenas que v ivem e m várias regiões e países d a
América.
Para se c onhecer a h is tória dos Terena é preciso recorrer a várias
fontes de informação. Podemos conhecer o passacio cios Tcrena pelos
p rodutos da c ultura material. como o bjetos de cerârnica. de tecelagem.
instrumentos musicais. que revelam muito d os hábitos c costumes
antigos e q ue a tunlmcnte ncrn sempre existem mais. Pode-se também
recorrer aos textos escritos. desenhos. pinturas. fotografias feitos por
brancos que cstal1eleceram contatos e m diversos momentos c om os
TerPna.
E a inda. para sabermos sobre a vicia passada elos Terena. é muito
importante o uvir os relatos orais dos mais velhos. A tradição oral revela
os rnorncntos rné1is s ignificativos da história dos povos indígenas. A
língua féllada pelos Tercna é a mais importante fonte que se tern para se
conhecer parte da histórk rnais recente c também do passado rnais
d istante.

1I
A língua falada pelos Terena conserva elementos em comum com
a língua usada pelos Laiana e pelos Kinikinau e qúe, embora com
a lgumas diferenças, permite reconhecer que e le pertence a uma língua
de origem comum denominada Aruák. A identificação dessa língua
comurn é importante porque, por intermédio dela, podemos saber um
pouco sobre a origem dos Terena e localizar o lugar onde vivem e
v iveram em outros tempos.
Pode-se conhecer o lugar de origem das pessoas porque as línguas
têm e lementos cornuns e pode-se perceber que cada povo recebe várias
influências no contato com outras populações. Com a convivência são
acrescentadas novas palavras. a lterando cons tantemente a língua
o rig inal. Quando uma comunidade se separa. a convivência entre as
pessoas diminui e, em conseqüência. aumentam as diferenças na fala
dos habitantes desses lugares. Quando esses g rupos mudam-se para
outros lugares d is tantes. perdem todo o conta to entre si e não existe a
possibilidade de incorporar palavras novas.
Desta forma. apesar da língua ser a mesma , os Terena de
Cachoeirinha, por exemplo. falam de um modo diferente dos Terena de
Taunay e. da mesma forma. a língua portuguesa fa lada pelos gaúchos
é diferente da língua portuguesa falada pelos pernambucanos ou pelos
habitantes de Portugal. Podemos saber, então. pela fala. o lugar de origem
daquela pessoa. Podemos também identificar se um Terena é de
Cachoeirinha. de Ipegue. de Bananal ou de outras aldeias.

I. Os Aruák

o nome Aruák vem de povos que habitavam principalmente as


Guianas, região próxima ao norte do Brasil e algumas ilhas da América
Central. na região das Antilhas . Quando os europeus começaram a
dominar a região, os Aruák dividiam e disputavam o mesmo espaço
com outro povo indígena. os Karib. E foi com estes dois povos que os
europeus tiveram seus primeiros contatos. Tal como aconteceu com o
nome Karib, que passou a designar aquela região. o Caribe. também o
nome Aruák veio a ser usado pelos europeus para identificar um conjunto
de línguas encontradas n o interior do continente sul-americano.

12
,
1 . OS ARUAK NA AMERICA

o
()

m
")>

"Z.
o

-
()
o
o

ú
o

Legenda
Povos lndfgenas existentes
Povos Indígenas extintos
Observe com atenção o mapa para localizar a ampla região onde
são faladas as línguas d e origem Aruák.
Podemos observar que se fala o Aruák na região norte da América
do Sul, com povos que habitam a área dos rios Orinoc o. Negro e
seus afluentes, principalmente o rio Içana. E existem povos que
habitam lugares próximos aos rios Japurá e Solimões. Purus e Juruá
até chegar às nascentes do rio ucaiáli. os povos que fa la m a língua
d e origem Aruák, conforme pod.e-se verificar pelo mapa, não habitam
em un1 único país.
Outros grupos que se utilizam da língua de origem Aruák vivem
mais ao sul · do continente. Existem povos que vivem na região
amazônica da Bolívia. no estado do Mato Grosso e na região do rio
Xingu . no B rasil. o povo de língua Aruák que mora mais ao sul do
continente americano são os Terena .

2 . Povos Aruák no Brasil

Podemos ag:upar os povos indíge nas que falam a líng u a Aruák n o


Brasil d e acordo com a região e m que habitam. O rio Amazonas d e limitn
as áreas dessas populações.
Os g rupos Aruák s ituados ao norte do rio Amazonas são vários .
Ao ler sobre e les . procure no mapa a localização de cada um.
Os Baníwa do Rio Içana, afluente do Rio N egro , compreendem
um grande núme ro de pequenos g rupos distribuídos ao lo n go de todo o
curso do rio e de alguns outros rios próximos . Cada um destes g rupos
fala dialeto próprio . mas com poucas diferenças entre si.
N ão muito distante vivem os warekana, que compreendem alguns
grupos situados e m outro afluente do rio Negro, o rio Xié, e cuja língua
difere muito pouco da de seus vizinhos, os Baníwa.
Tariána é um outro grupo Aruák, mas que hoje pouco fala seu idioma
de origem. porque ao se mudare m do rio lçana para a região do rio
uapés, o povo Tari ána adotou a língua de seus novos vizinhos. os
Tukano. Pa rece que apenas o grupo chamado Íyemi continua m antendo
a língua Tariána, que é também muito próxima da língua dos Baníwa do
rio Içana.

14
AIOÇCI Palikur

15


. I

KamjiiJ'
M axineri

Brasília
e CUibá


2. OS ARUAK NO BRASIL

Legenda

Povos Aruák

Outros povos indígenas

RIO GRANDE
DO SUL
Os g rupos que v ivem próximo
a o rio Negro. Baré. Mandawáka e
Yabaána não tê m mantido a língua
de origem Aruák , se ndo q ue a
maioria deles faln so mente o
português.
Há ta mbém o s Wopixana que
v ivem no esta do de Horaima, às
margens do rio Branco, c o s Palikur,
s ituados no estado do Amapá, na
bacia do rio Oiapoquc. que se
utilizam de uma língua falada muito
próxima. e mbora com a lg umas
diferenças, da língua usada pelos
povos Banivva.
Os g rupos Aruák que v ivem
ao sul do rio Amazonas podem
ser agrupa dos de acordo c om a s
áreas que ocupam. Existem quatro
á reas importantes qu podem ser
o bservadas pelo mapa.
A primeira dessas á reas e stá
s ituada no s udoeste do estado do
Acre e nelas v ivem o s Aaurinã (ou
Jpurinã) . com a lde ias ao longo do
rio Purus: o s Kómpa no a lto rio
Juruá: os Maxinéri e Manitenérí (a
língua Píro) no rio Iaco. um a fluente
do rio Juruá.
u ma segunda á rea fica a oeste
do estado do Mato Grosso. na
região dos formadores do rio
Juruena, que é um a fluente d o rio
Tapajós. onde v ivem o s Paresi e os
Salumã.
Em uma terceira á rea , no alto
do rio Xingu , são fala das línguas

I '
da família Aruák, muito semelhantes e ntre si. Es tes grupos são
denominados c omo Mehináku, \11aura e Yawalapítí.
E, a quarta e ú ltima á rea é a que corre sponde aos g rupos que vivem
na região mais meridional da família Aruák no Brasil. É o povo Terena,
que habita na região dos rios Aquidauana e Miranda, afluentes do rio
Paraguai, no estado do Mato Grosso do Sul. Na década de 3 0 um g rupo
de Tcrena foi transferido para o estado de São Paulo, numa área o nde
v ivem os Kaingang e Nhandcva (Guarani) . na região de Bauru. Em
c onseqüência desta migração . há meio século que a língua Terena
também 6 falada nesta região.
Existe um grupo na Bolívia, os Moxo. que ainda mantém a língua
de origem Aruák; e outro denominado Chané, mas este povo atualmente
s ó fala e spanhol. No Paraguai há também os G uaná, que a parentemente
não falam mais a língua.
Todos estes g rupos indígenas que falam a língua A ruák têm
diferenças e ntre s i , mas possuem uma mesma líng ua de o rigem. A lém
desta proximidade que indica uma o rigem c omum, e stes g rupos têm
semelhanças na forma de s ua organização social. Todos esses g rupos
possuem ou possuíram formas de organização internas características.
sendo tradicionalmente agricultores e c onhecedores das t6cnicas de
tecelagem e cerâmica .

3. Povos indígenas no Brasil


As populações indígenas do Brasil não s ão um só povo: são
c onstituídos por muitos g rupos . diferentes e ntre s i e do conjunto de
populações descendentes dos c olonizadores e uropeus. portugueses.
dos e scravos a fricanos c dos imigrantes que a qui c hegaram e m
diferentes é pocas. c omo os italianos, á rabes. espanhóis. a lemães.
japoneses . e n tre outros. A nação brasileira é. assim, constituída por estes
povos e o c onjunto de diferentes povos indígenas.
Os povos indígenas foram as primeiras p opulações que ocuparam
o te rritório que foi denominado Brasil pelos portugueses, mas os
momentos e a forma dessa ocupação ocorreram de maneiras
diferentes. Para ocupar o te rritório foram fe itas g uerras. realizaram-se
acordos c om autoridades. alianças e ntre vários g rupos . houve a

8
catequese de m issio n á rios. esta b e lecen do-se conta tos diversos . às
vezes de forma pacífica e em o utras s ituações d e m a n e ira v iole nta . É
importante destacar q u e esta s ituação ocorre u n o passado. m as a inda ·
a·contece atu alme nt e.
A his tó ri a d a ocupação do t e rrit ó ri o p e los g ru pos indígen as,
a nterio r à c h egad a d o s e uropeu s ta mbé m foi realizad a de d ife re ntes
fo rm as e m o m e nt os. A o c up ação d o t e rrit ó ri o foi se nd o fe ita
le nta m e nte. d ura nte muito t e mpo, por mig r açõ es de populaçõ es
ind ígenas d ife re ntes que esta b e lecera m c onta to s e ntre si, trocara m
exp e riê n c ias, reali zando a lia n ças ·que e nriquecera m s u as h e ra n ças
cultu ra is ou. e ntão. fi zera rn g u e rras par a d o mina r á reas m a is fé rte is
ou de fácil comunicação .
D esta fo rma, a população ind ígen a no B rasil é con s tituída p o r
d iversos povos, dife rentes entre si, c om usos . costumes e c re n ças
próprias . e q u e fala m líng u as dife re ntes. O dire ito a esta dife re n ça,
m antendo a líng u a e c o s tum es tradicio n ais é a tu alme nte gara ntido p e la
Con stituição Brasile ira de 1988 p elo A rtig o 23 1 :

"São r econhecidos aos índios s u a o rganiz a ção social.


cos tum es, lín g uas, c r en ç a s e tradi ções. e os dire itos
o ri g in á ri os so bre terr as q u e tradi c i o n a lm e nte ocupam .
comp e tindo à União dem a r cá-las. pro teger e j azer r esp eitar
todos os seus b en s . "

T a mb é m est á ga r a ntido por l e i co n s titu c i o n a l o dir e it o d e


p reservação e es tud o das líng u as ind ígen as n as esco l as. p e l o
A rti go 2 1 O:

"O en s ino fundam ental regular será minis tra d o em lín g ua


portug uesa. assegura d a às comunida d es indígenas também a
u tilização de s u as lín g u as m a ternas e processos pró prios d e
apren d izagem. w

Exis tem aproxima d a m e nt e 2 0 0 povos indígen as n o Brasil q u e


fa la 1n 170 línguas. Esta população c orresponde, segundo estima tivas.
a 250 m il p essoas. Observe n o m a p a a seguir, a dis tribuição das
populações indígen as n o te rritó rio brasile iro.
••

Brasília
e Cuibá
• •

3. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL

Legenda
- Jê
- Tupi-Guarani
A ruák

- Pano

- Karib
Outras línguas RIO GRAifOE
DO SUL
É provável q ue na é poca da
c hegada dos portugueses. há soo
a nos. o nún1ero das línguas
indígenas fosse maior do q ue é
hoje. É também difícil sa ber o
número de habitantes indígenas na
é poca d a c hegada dos e uropeus.
o desaparecimento de muitas
línguas indígenas foi maior nas
regiões c olonizadas mais
intensamente e há mais tempo
pelos portugueses. como a região
s udeste. nordeste e sul do Brasil.
As lín g uas indígenas
existentes no Brasil podem ser
agrupadas. de um modo geral,
e m g ra ndes g rupos denominados
como " famílias linguísticas" que,
e m alguns c asos. t ê m falantes
também e m o utros países. Estas
" famílias" sã o T upi-Guarani,
Karib, Pano, A ruák e Jê.
Existem também, a lé m dessas
g randes "famílias", o utras "famílias"
menores como G uaikuru, Tukano,
Maku e Yanomami. E ainda existem
as línguas que os es tudiosos
c lassificam co mo " lín g uas
isoladas". Po r " língua is o l a da "
queremos d izer que o s ling üistas,
que são os estudiosos das línguas,
não sabem a q ue "família" o riginal
esta língua pertence.
4. Histórias da origem do povo T e re na

Saber a o rigem d os povo s é m u ito d ifícil . Em geral, cada povo cria


mitos e le n das p a ra explicar s u a o rigem. o m ito sobre como os Tc rena
fo ra m criados p ode ser contado de várias m aneiras . As dife ren ças entre
as versões n a rra d as estão ligadas ao mom ento e à situação v iv ida pelo
p o vo quan do conta m essa p a rte da s u a his tó ria. Os b ran cos ta m bém
conta m a s u a his tó ria de vários j e itos, d e p e nde n d o do te mpo. d as
c irc uns t â n c i as e dos g rup os qu e es tava m n o pod e r qua ndo a
escrevera m . Por isso. a his tória d e muitos p e rs onagen s b ran cos q u e
aparecem n os liv ros. ta m bém te m vári as versões.
Cad a p ovo tem a s u a pró pria m a n e ira de contar sobre a c riação do
mundo e d e com o s urg ira m e nquanto p ovo. Os povos de tradição
juda ic o -cristã, por exemplo . tê m o mito d e A dão e Ev a. O s D esan a. que
é um povo d e líng u a Tuka n o que m o ra com o utros p o vos de língua
Aruá k e M a ku n a região do rio Negro, n o estado do Amazon as, contam
sobre o umuri nhku . o "Avô d o Universo". E assim. cad a p o vo tem a s u a
p rópria tradição e v isão d o mundo.
S egundo a tra d ição dos T e re n a. os pro fessor es da alde ia de
Cachoe irinha, e m 19 9 5 , resumira m assim a c riação d e seu p ovo:

/\ criação do p ovo Teren a

H avia um h o m em chama d o Orek a Yuuak ae. Este h o m em


ning u ém s abia d a s u a origem . n ão tinha pai e n em m ãe, era
um h o m em que n ão era conhecido de ning uém . Ele andava
c aminha ndo n o mundo. Andando num caminho, o u viu g rito
d e p assarinho o lhando com o q u e com m edo para o ch ão. Este
p assarinho era o b em -te-ui.
Este h o mem, p o r c uriosidade. começou ch egar p en o . Viu
um f eixe d e capim , e emba ixo era um b uraco e n ele h avia um a
multidão, eram o s povos ter en as. Es tes h o m en s n ão se
c omunic a v am e ficavam trêmulos. Aí O reka Yu uakae. segura n do
em s u as mãos tirou eles to d os d o buraco.
Oreka Yuuakae. preo cupado, q u eria co municar-se com eles e
ele não con seguia. Pen sando, ele resolveu con vocar v ários animais
para tentar jazer essas p essoas falarem e ele n ão conseguia.
Finalmente ele convidou o s apo p nru j azer a presentação no
s ua frente. o sapo teve s ucesso pois toe/os esses povos deram
g argalhocta. a partir daí eles começaram o se c omw 1icar e falarom
para Oreka Yuvakae que estavam com rnuito frio. "

Um c s tuclioso do povo Terena . o a ntropólogo Herbe rt Baldus. depois


de c onve rsar c o m os Terena. durante as v isitas qu fez a os postos
indígenas do e s tado de São Paulo t"rn 194 7. transcre v e u a seguinte
versão :

~ oiz
que a ntigamente nôo havia gente. Bem-te-ui. uítuka,
descobriu o nde havia gente cteboixo do vrejo. Bem -te-ui marcou
o lugar (lOS Orekajuvakái q ue eram dois hornens e estes tiraram
u gente do buraco
Antif}amente, Orekajuuakái era urn só e quando n1oço a
sua mãe ficou brava, pois Orekajuuakôi não q ueria ir j unto com
ela à roça. foi à roça. tirou joice e cortou com ela Orekajuvakái
em dois pedaços. o pedaço na cintura paro cima ficou gente. e
a outra meroc1e também .
Antes de tirar a gente do buraco. O rckajuuakái manclaram
tirar jogo. iukú. Pensaram q uem U(li tirar jogo. Foi o tico-tico.
xavokóÇJ. Ele foi e não achou jogo. Depois foi o coelho. kanóu.
e tomou o jogo dos s eus nonos. os Tokeóre.
O konóu chegou o nde estoua os Orekajut 1okái c foram
jazendo grandejogueirn Gen re levantou os braços e Orekajuunkái
tirou do b uraco . Toda gente era nu e tinha f rio e Orekajuuakái
chamaram paro ficar perto do fooo . Era gente de ro da raça.
Orekajuvokái sempre p ensarorn c o rno fazer jular esta gente.
1\landaram-na entror em f ileira um a trás no o urro. Orekajuuakái
chamarorn lobinho. okué. pra f azer rir a gente. Lobinho fez
mucacndo. mordeu no p róprio rabo. mas não c onseç)uiu jazer
rir. oreknjut 'Okâi chnn1aron1 sapinho. a quele vern1elho. kolalôke.
J-~c; te andou como sempre a nda e a gente começou a dar risada.
Sapinho passou ida e volta ao longo da fila três vezes. Aí a
gente corneçou a f alar e ctar risaclo.
Orckqjcwakái o uuirnm q ue cacto um da gente falou clijerente
do o utro. Aí separaram cada um o um lado. Eram gente de

-
".)
.....
toda raça. Como o mundo era pequeno, Orekajuvakói aumentou
o mundo para o pessoal caber.
O rekajuvakói deu uns carocinhos de feijão e milho e deu
mandioca também e ensinou como se planta. Deu tarnbém
semente de a lgodão e ensinou como tecer faixa. Ensinou jazer
arco e flecha, ranchinho, roçar e plantar. "(relato oral de Antônio
Lulu Ka liketé. traduzido para o português por Ladislau Hahóoti)

Linha . do Tempo dos Te rena


Chc~oda elos
Portugueses
ao Brasil

o
I
o
l.()

o
o
L()

Legenda Primeiras levas


vinck"lS do Êxiva
atravessando o
Brasil Colônia Tempos Antig os I {jo Pm<lgué:ú

Brasil Império Tempos de Servidão

Brasil Re pública Tempos A tuais

24
s . Mome ntos da história do povo T e re na
Cada povo t e m mom e ntos importantes marcados por
acontecime ntos que levam a rnudanças na v ida d e toda a c omunidade.
Esses momentos surgem e ntr e laçados a vários acontecimentos e
permanecem na m emória de todos . R e le mbrar esses mome ntos c buscar
entendê-los é irnportantc para que s e possa p e rcebe r os acontecimentos
p resentes e como eles estão ligados a esse passado. Para os Tcrcna .
têm s ido re lembrados três grandes mome n tos e m sua história.

Nova Constinuc;ão
lll<tcpenc ti''n<.·ia Pnx:twnaçtlo L3ra..-.ilcira
uu Brasil <la Rq >úhli<'CI
Gu<·rra do Elei<;ÜI.'S
)Jrl'Sicl<."nCiHis
P<lr~ltai

I I t1olpe l\ hhta r

o
o
co

I
Trc-uado ele paz Destnli<,;ao ck'
l'lltrl' o~< iltnicuru .tltll'icl!:> t' (JiSJ l<.'rS<"to
do puvu Tcr('IICI <:ria<.,·[tO CriaÇ<io
e t •urtugal da Funai
<k> SPI
Prinlt'ir<t.'> 1nforn li l<.,ú<:~
PrtrTK'iras llt'111C:lr<.'él(,'Ül'S
l'S<.TII<I.'> ~obr!' a prest·n~.,·,,
<k• àrt'éL<; l'l:r('na
Ter<'li< 1 lld H1 ·gtilo

,..) ;--

-J
O primeiro deles foi a saída do Êxiva. transpondo o rio Paraguai , e a
ocupação da região do a tual estado de Mato-Grosso do Sul. Este período
foi longo, durando muitos anos, com migrações que foram feitas em
todo o decorrer do século XVIII. Foi um período e m que os Terena
ocuparam um território vasto, dedicando-se à agricultura e estabeleceram
a lianças importantes c om os Guaicuru e com os portugueses.
Este foi o período dos Tempos Antigos.
Em seguida, um acontecimento importante a fe taria a v ida dos
Terena, a Guerra do Paraguai. O momento mais significativo da v ida
dos Terena foi a Guerra do Paraguai ( 1864-1870). Esta g uerra, na q ual
participaram muitos países - Brasil. Paraguai, Argentina e Uruguai -
envolveu tamb6m os escravos de o rigem a fricana e povos indíge nas
habitantes das regiões próximas ao rio Paraguai. Os Te rcna e Guaicuru
alia ram-se a os brasileiros e lutaram para preservar seu território .
Após a Guerra do Paraguai, muitas mudanças aconteceram na
região e, para os Terena , e la s ignificou a perda da maior parte do seu
território, que passou a ser disputado pelos proprietários de terras
brancos, que c hegavam cada vez mais para plantar e c riar gado.
Este foi o período denominado Tempos da Servidão.
E o terceiro momento c orrcspondeu à delimitação das Rese rvas
Terena, iniciado com a chegada da Comissão Construtora das Linhas
Tele gráficas c hefiadas por Rondon , e continua até o presente . Essa
é poca. d o c omeço deste século até os d ias de hoje. é marcada por uma
maior proximidade c om a popul açã o branca , o s purutuyé , com
mudanças nos hábitos e cos tumes terenas. Os T e r e na têm s ido
obrigados a se s ubmete r a trabalhos para os proprie tários de terras
particulares. Este momento ainda está sendo v ivido pelos Tere na, que
estão fazendo s ua história, buscando maior autonomia e nquanto povo.
e mais d ireitos como c idadãos brasileiros . Este período não possui a inda
um título. Cada c riança ou jove m Tercna pode denominá-lo como desejar.
Depois de le r e ste livro, d ê um título a este terce iro momento d a
história dos Te re na :

Tempos .. .. .. .... .... ........................... .. ........................................... .


ATIVIDADE S

I.Os Aruák

Escreva uma relação das fontes para se c onhecer a história do povo


Te rena:

Por que a língua falada pelos Tcrena é diferente da língua falada dos
Salumã. se as d uas línguas são da "família" 1\ruák?
Observando o mapa 1 , escreva:
o nome dos países da América onde vivem povos de origem Aruák.

o nome de três pov0s Aruák

2. Povos Aruák no Brasil

Escreva uma característica comum a todos os povos de língua Aruák.

Observando o mapa 2, relacione:


o nome dos estados brasileiros onde vivem povos de língua Aruák

28
o nome de alguns dos rios importantes para os A ruák

3. Populações indígenas no Brasil

Leia com atenção os Artigos 231 e 2 1o da Constituição Brasileira de


1 988 e escreva com suas palavras os direitos de todos os povos
indígenas do Brasil.

Observe o mapa 3 c escolha dois estados brosilciros com um número


expressivo de povos indígenas

Que:lis os povos inciígenas corn quem os Tercna m<lntêm contato?


Escreva o nome de outros povos de quem você já teve notícias

4 . A História da origem do povo Terena

Faça um desenho inspirado pelo mito de Orekajuvakái


Converse c om outras pessoas (pais, a vós. e tc.) sobre a origem dos
Terena. Depois compare as versões, e escreva a s diferenças.

Procure saber junto aos ma~s velhos o utros mitos Tcrcna . Escreva nas
linhas a baixo. Depois leia para seus c olegas.
5. Momentos da História do povo Terena

Observe a Linha do Tempo e calcu le há q uantos séculos os Terena têm


c ontato com os purutu yé.

Explique o que é um sécu lo.

Qual o século e m q ue ocorreu a Guerra do Paraguai?

Faça uma Linha do Tempo da história da s ua aldeia , localizando:


- é poca em que foi c riada
- acontecimentos mais importantes
Mulher lcuanclo carga em
bolsa (te Garagumcí

Mulher Lengua tirando água


cta planw Gamoumó

"
1 . Os Guana no Exiva
/

Os avós c ontam que os Tere na v ivia m antiga mente no Êxiva, lugar


conhecido pelos p urutuyé c omo Chaco.
As tribos que falavam a língua Aruák e ram c hamadas, na época
e m que os e uropeus c hegaram a o Êxiva. de Guaná. Há re la tos escritos
pelos espanhóis descrevendo os Guaná.
Sanches Lavrador escreveu um re lato sobre sua viagem pela regiã o
do Êxiva. e m 1 767, e a fi rmou que:

"Em uárias partes do Paraguai ca tólico se tem notícia da


nação chamada Guaná. Nome que engloba todos os s ubgrupos.
Es tes s ubgrupos usam nomes para se distinguirem en tre si.

Francisco Aguirre. que percorreu a regiã o e m 1793, c ontou que:

"Os G uaná. em seu idio ma "Chané ... isto é. "muita gente".


hnbitam o Chaco paraguaio ... das mar gens do rio Paraguai até
os confins do Peru. É a nação mais numerosa. .. As nações

3.S
Guaná que se conhecem nesta parte oriental são 5: Layana.
Etelenoe ou Etelena. Equiniquinao ou Equiliquinao, Neguecatemi
e Hechoaladf'

Atualmente todos estas nações que compunham os Guaná estão


agrupadas sob a denominação de Te rena (Etelenoe) , apesar de muitos
dos velhos saberem se são descendentes dos Layana ou Kinikinaua
(Equiniquinao).

A história dos T erena no Êxiva ainda é relembrada pelos mais velhos


das aldeias:

"Meu sogro. pai de minha mulher. .. ele contou a história do


Êxiva, de onde eles vieram fugindo. Meu sogro também veio de
lá. Eles não sabiam falar o português, só falavam o Terena e
não sabiam ler nem escrever... não sabiam nada, mas sabiam
o tempo em que as árvores floresciam todos os anos. No mês
de agosto começavam a derrubar o mato para plantar.
Plantavam só um pedacinho de terra mas dava uma p rodução
grande. com fartura... Não faltava nada para o índio comer.
Tinha bastante peixe e caça. E muita mandioca para comer."
(João Martins - 'Menootó · - aldeia Cachoeirinha)

Os Guaná não e ram a única nação que habitava o Chaco. Lá viviam


também os Mbaya Guaicuru e os Guarani. com quem os Guaná
estabeleceram vários tipos de contato . Os contatos entre os Guaná e
os Guarani nunca foram amistosos, havendo mu itas h istórias de
conflitos .
A relação entre os Guaná e os Mbaya Guaicuru foi de aliança. A
história das duas nações mostra que as alianças fe itas e ntre e las foram
muito importantes nas lutas contra tribos inimigas e con tra espanh óis e
portugueses.
A aliança entre Guaná e Guaicuru foi possíve l por serem povos
com um modo de vida diferente. Os Guanás eram hábeis agricultores
que viviam das roças próximas às suas a ldeias e os Gu aicu ru, v ivendo
da caça e da pesca. controlavam vastos te rritórios. Atualmente o único
grupo de origem Mbaya Guaicuru no Brasil é o Kadiwéu, que vive ao sul

3()
do pantanal do Mato-Grosso do Sul, na fronteira c om o Paraguai. Nguns
relatos d os Kadiwéu mostram que essas diferentes maneiras de v iver
sempre existiram:

kQuando Deus (Aneotedroni) terminou de jazer c ada tribo.


ensinou o q ue eles poderiam jazer: deu enxada para os terena.
joice para os brancos e p ara os Kadiwéu deu a terra. porque
para Kadiluéu deu a terra. porque não pode roçar. não s abe roçar"
(Basílio Kadiwéu. 1 989)

.
As diferenças entre os Guaná e os Guaicuru facilitaram a s relações
de troca. Os Guaicuru aprenderam a utilizar cavalos trazidos da Europa
para fazer g uerra e protegiam as a lde ias aliadas dos a ta ques dos inimigos
Guarani e dos espanhóis. Os Guaicuru forneciam para os Guaná facas e
machados que e ram utilizados na agricultura. Os Guaná forneciam aos
Guaicuru produtos que c ultivavam nas roças. roupas de algodão e
c obertores . Para consolidar estas a lianças, os Guaná c os Guaicuru
realizavam casamentos e ntre s i.

Vários relatos escritos dos espanhóis comprovam essas trocas. Eis


um desses relatos:

··os Guaicuru recebiam dos Guaná a lgum g rcio parn v iagem.


um bolo de Nibadana com que pintam de vermelho. c algurna
manta de a lgodão. seja branca o u listrada de várias cores. que
com gosto tecem os G uaná. "
(Sanches Labrador. 1 76 7)

2. Contatos entre Guaná e brancos

Os brancos chegaram ao Êxiva navegando pelo rio Paraguai, v indos


do porto de Buenos Aires. Vieram a traídos pelas le ndas sobre a riqueza
das minas de o uro e p rata na região dos Andes, onde a mais rica das
minas de p rata era Potosi , no a tual país c hamado Bolívia. Esse e ra o
caminho mais curto para c hegar a té a região das minas. Sabendo disso.

:-37
e les o rgan izaram muitas exp e dições para lá. Assim. a p artir do século
XVI. começou a h istó ria do conta to e ntre os p ovos indígenas, primeiros
h a bita n tes e sen hores dessas te rras , e os europeus .
Schimdel. um escrit o r e uropeu que passou pelo Êxiva naquela
é p oca. descreveu a v ida d os G u a n á:

"Neste caminho achamos roças cultivadas com milho .


raizes e o utros frutos (. .. ) Q u an do eles colhem um roçado. outro
j á está am adurecen do e qua ndo este está m a duro, j á se p lanto u
num terceiro. para que em todo se tivesse alimento n ovo n as
roças e n as casas".

Nem sempre as re lações e ntre os europeus. os Gu aná e seus aliados


fo ra m de amizade. H o u ve m u itos conflitos. porq u e os brancos queriam
con q uis tar as te rras próximas ao rio Pra ta, in te ressados n o o uro e prata.
Para os eu ro p e u s. esses m e ta is to rna ra m-se p rodutos m u ito cobiç ados.
porq u e transfo rmavam -se e m d inhe iro, to rnan do as p esso as ricas e isso
gero u m u itas b rigas e confrontos. H avia dispu tas e ntre os próprios
europeu s. luta n do portugueses con tra espanhóis para dom in ar as regiões
com riquezas minera is e h avia as g u e rras contra as populações indígen as
q u e p rocuravam resis tir à con q u ista d.e seus territórios.

Os espanhó is foram os p rimeiros a c h egar. L ogo depois, v ieram os


portu g u eses. Con s truíra m v ilas para morar. T ro uxeram instrume ntos de
ferro para p la nta r (m ach ados e facões). a lime ntos (cana-d e-açúcar.
m a n ga, café ) e anima is d ife re ntes (vacas, carne iros. cabritos, cach orros,
galinhas e cavalos). A p resença dos b ra n cos p rovocou muitas mudanças
na v ida dos ín d ios. Viera m o s padres missio n á rios, q u e criaram aldeias
para os índ ios aprenderem a re lig ião c ris tã e a líng u a d os estrangeiros.

3. Os Te rena e m Miranda e Aquidauana


A região do Êxiva ficav a próxima das minas de m e tais preciosos e
os colo n izad o res e uropeu s disputavam esse te rritó rio. Espanhóis e
portug u eses fazia m g u e rras para decidir quem ficaria com essas terras.
)

As várias tribos da região foram e nvolvidas por essas lutas. Para defender
seu povo c suas terras. os Guaná procuraram fazer a liança com o s
portugueses. Já os Guarani, procuraram unir forças c om os espanhóis
contra seus antigos inimigos . os Guaicuru.
Durante essas g uerras muita~ a ldeias foram destruídas . Os Guaná.
v ieram se deslocando acompanhando os seus a liados Mbayá-Guaicuru
para o Mato Grosso do Sul, no século XVIII. Os Terena, os Kinikinau, os
Laiana reconstruíram s uas a lde ias perto do fone Coimbra c das vilas
das Serras cJo A lbuquerque, entre o s rios Paraguai e Miranda. Os Kadiwéu
e outras tribos Guaicuru se estabeleceram nas redondezas da Serra de
Maracaju .
A lguns relatos dos mais velhos c ontam porque os Terena saíram
do Êxiva e como eles a travessaram o rio Paraguai:

"Meu pai cresceu Já mesmo no Êxiva. Meu pai fugiu de Já


porque lá havia os índios ('kopenoti') b ravos. Eles a travessaram
as morrarias a trás de Porto Esperança. Na água q uando nadou,
amarrou u m carandá seco na cintura como jangada. "
(Antônio Muchacho - aldeia Cachoeirinha)

"Minha avó, meu avô são do Êxiva. Eles usaram uma taquara
bem g rande para a travessar o rio ... pelo nome ' taquaruçu ' ela é
conhecida pelos p urutuyé. Eles trançavam com cipó (hymomó)
para fazer uma ca noa para a travessar o rio P araguai
(huveonokaxionó - 'fiO elos paraguaios'). quando vierarn para
o Cachoeirinha . ..
(João Martins- 'Menooró · - a ldeia Cachoeirinha)

o trabalho dos Terena nas p lantações foi assim lembrado:

·· .. . Quando a gente jazia roça. não tinha enxada. A enxada


ndo era como a de hoje: era de cerne pontudo .. . era um cerne
ele áruore QUe não dava para quebrar. Plantavam melancia.
n1oranga. abóbora. milho. feijão ele corda. As á rvores eram
clcrrubodas com jogo. .. não havia ferramentas de metal para
f uzer esses serviços . .. instrumentos de ferro são coisas
recentes ... "
(João ,\-Iortins - 'Menootó · - a ldeia Cachoeirinha)

3~)
4 . A OCUPAÇÃO DE MATO GROSSO

@ CUIABÁ

GO

~xiva

9.
SP 1o Ã

PR

Legenda
TE REN A . KADIWÉU
I. AI Pilade Rebuá 6. A I Limão verde
2. A I cach ocirin h a 7. A I Buriti ., GUAR ANI
3. AI Taunay/lpegu e 8. AI Nioaque
.Ã GUATÓ
4. AI Lalima 9. AI lca tu
s. A I Alde inh a I O. A I A r ar ibá . OFAI É-XAVANTE

. KAMI3A

4()
Na época c r n que os Te re na deixa ram o Êxiva . a região de Miranda
era desabitada. Eles foram os primeiros a ocupar a á r a . A ocupação da
região pelos portug ues s c omeçou depois da descoberta de ouro na
região de Cu iabá c e m Mato Gross o. no século XVIII. Várias povoaçôes
fo r a m fundadas pelos po rtugu e ses nessa é poca: Cuiabá ( 1 727);
A lbuque rque e Vila Maria ( 1 778).
Pre ocupados e m defende r suas fro nt ' iras elos e spa nhóis, os
portugueses também c o nstruíram vários fortes: r-ort ele Coimbra ( I 775),
Forte Doura do e Pr e sícJio de M ira nda ( I 778) . Observ e no mapa a
localização e stratégica de a lguns destes forte s .
Assim. enquanto os espanhóis queriam instalar fazendas etc gado
para e fetivar a posse na região e e xpulsa r a s populaçôes nativas. o s
portugueses procurar a m garantir o domínio da r gié1o a través déJ
construção de fortes c acordos c om os índios . Já nessa é poca os Guaná
vendiam no Porte de Coirnbra redes e panos. hatatas. g alinhas c porc os
e. e m troc a recebiam objetos ele metais c tecictos.
Para dominar a região. os purutuyé p recisavanl da ami~adc dos
g rupos indíge nas que aí viviam. Era importante ter gente para garantir a
posse das terras e para morar nas novas vilas e c idade s . També m
p recisavam de trabalha dore s para as minas e para as faze ndas q ue
surg iam. onde plantavam c ana-de-açúcar e criavam gado. Para a região
foram enviados soldados para vigiare m a s fronteira s .
Os portugueses fiz ram uma lei que proibia a escravização dos
indígenas. mas eles e ram obriga dos a morar e m a lde ic s dirigidas por
c hefes brancos. Aí. os ínciios d -veriam aprende r é\ viver e a trabalha r de
aco rdo com os c ostumes do homem bran c o . Mas os Guaná c ontinuaram
levando uma v ida independente dos b ranc os. Graças à a liança com os
Guaicuru . conseguiram rnan te r o domínio da re g ião e n tre os rios Apa e
Miranda . Observe no mapa 4 e s ta região de domínio dos índios .
Os co lonizadores b ranc os te ntaram de várias man 'iras c onquistar
a cHnizade cios índios. especialme nte dos Guaicuru. pois queriam
colonizar a região. Para isso. faziam c omércio . distribuíélm p resentes e
davan1 aos c hefes las tribos aliadas pate ntes do e xérc ito.
os ~cavaleiros~ (como os pun1tuyé chamavam os Guaicuru) ram temidos
.
tanto pelos portugueses. c orno pelos espanhóis. Montados e m cavalos.
utilizavarn sua boiada para atacar os inimigos. O s truíam suas povoações.
roubavam seus cavalos e seu gado. c arruinavam suac; p lantações .

4 1
Os Gu aicuru, dep o is de m u itos con fro ntos. tiveram in te resse em
esta b e lecer um acordo c om os portug u eses. D aí fo i assinado um tra tado
e ntre e les n o R ea l P resídio d e Coimbra. e m 1 7 9 1. Esse trata d o .
assegurava a p roteção da c oroa portu g u es a c tran s fo rmava os Mbayá-
Gu a ic uru e m súditos da rainha de Portugal.
Dep o is do Tratad o de 1 79 1 . a aliança entre os Guaicuru e os Guaná
com eçou a se enfraquecer. Os Guan á não n ecessitavam mais da "pro teção"
dos Gu a icuru e ampliaram o conta to com o s brancos, p rincipalm ente d epois
da indep endê nc ia do B rasil e m relação a Po rtugal ( 182 2 ).

4. Os Terena na época
do Império brasileiro
D e p o is q u e os brasile iros se libe rta ra m de Po r tugal , o governo
esta b e lecido fo i d e uma m o n a rq uia. s ob o p o d e r de u m im perad o r, o .
Pedro I, e d epois do seu filho. o . Pe dro 11. Este é o perío d o do Império
( 18 2 2- 1889).
L ogo d epois da inde p e ndê n c ia , o governo p e rmitiu a p resen ça de
v iajantes e estud iosos estran geiros em várias partes d o país. Um a das
exp edições estrangeiras que v is ito u a r egião de M a to Grosso fo i a
Exp edição L a n gsdorff, n os a n os 1825 a 1829. p a ra estudar os a nimais
e as pla ntas brasile iras .
O desenhista q u e acompanhava a expedição chamava-se H ercule
Flo re n ce c e le passou ta m bém a escrever sobre as p opulações indígen as
q u e ia m conhecen do n a v iagem.
Sobre os Gu aná e le d e ixou a seguinte d escrição:

"Os Gu an ás m o ra m n a m a rgem oeste d o rio Paragu ai, um


pou co acima da ui/a de Miranda: acham-se todos jun tos e
· a ldeados numa esp écie de g ra n de pouoação. usam de uma
lín g u a p rópria. mas em gera l sabem alg uma coisa de portug uês.
q u e f a lam à m an eira de q u ase todos os índ ios o u dos n egros
n ascidos n a costa d 'África. De q u anta tribo tem o Paraguai. é
esta q u e m a is em conta to está com os b rasileiros. L auradores.
c ultivam o milho. o a ip im e m a n d ioca. a can a-de-açú car o

42
a lg odão . o taba co e o utras p lantas do p a ís. Fa b ricantes.
possu em a lgun s en genhos de m oer can a . e j azem g ran des
peças de pan o cte a lgodão com q u e se ues tem . a lém de redes
e cintas. Industriais. uão. em can oas s u as ou n as dos b rasileiros.
até Cuiabá par a uen derem s u as p eças de r o u pa , c intos .
s uspen sórios. cilhas de selim e rabaco. "
(I Jercule Flo ren ce, 1825- 1829)

E d e ixou d esenhos . reg istra n do costumes da é poca:

c.,.~..:/.6- ,/.,.:;.-
/;'~o<4'--.~ .

.\loc;a Guw 1cí c G uunito. c h efe ctos C uunds .

43
Duas pirogas de Guar)(ÍS. 182 7

Um outro v iaj a nte c h a m ado Fra n c is Castc lnau v is ito u a região em


18 4 5 e escreveu q u e os Te re n a viv ia m mais isolados q u e o s o utros
Gu a n á (os Kinikinau a e os L ayan a ).

/\ s de abril f o m os v is ita r o aldeamento d os teren os. índios


q u e p erten cem à m esm a n ação d os p recedentes Gu a n ás. m as
q u e até aqui têm tido muitas pou cas relações com os brancos.
É uma n ação g u erreira q u e con serva em toda integridad e os
costumes de seus a ntepassados.
o a ldeam ento q u e íamos v isita r fica , em linha reta. d uas
léguas e u m terço a n o r deste de Miranda... Com põem -se o
a ld eam ento de umas cento e dez casas, unidas umas às o utras.
Es tas form a m um imen so ran ch o coberto de f o lhas de palmeira
e estão d ispostas em círc u lo. à ·volta d e uma gra n de praça
central. To d a a p opulação. con s tituída de mil e q uinhentos a
mil e o itocent os h abita ntes. ocup a v a-se a tivam ente n a
prep a ração de u m a f esta"

44
• •
••
•••
A TIVIDAD E S

I. Os Guaná no Êxiva

Quem fo ra m o s Gu a n á?

L ocalize no mapa 4 a região do Êxi va.


Por que. no relato de João M artins, n a época e m q u e os T e re n a v iv iam
no Êxiva h avia fa rtura?

45
Escreva o nome de outros povos que habitavam a região do Chaco.

Por que os Guaná fizeram alianças com os Guaicuru?

Pergunte para os avós alguma história sobre os antigos conflitos e ntre


os Terena e os Guarani e depois escreva nas linhas abaixo.

Escreva o que você conhece da vida dos Kadiwéu (pergunte para os


pais . avós ou outras pessoas da aldeia)

(j
Pedir para os antigos (avós) conta r e m his tó rias d a v ida d os T e rena n o
Êxiva e escreva n as linhas abaixo . D epois faça um d esenho.

47
Agora faça um desenho sobre essas histórias.

4H
2. Contatos entre Guaná e brancos

Por que os metais preciosos eram importantes para os europeus?

Escreva sobre as mudanças que ocorreram na vida dos Terena depois


da chegada dos europeus.

3. Os Terena em Miranda e Aquidauana

Por que os Guaná saíram do Êxiva?

Faça uma comparação entre os tipos de alimentos que os Guaná


plantavam no Êxiva e os que são p lantados hoje.

49
Observe no mapa 4 os fortes construídos p e los portugueses e explique,
com suas palavras, por que foram construídos.

Por que foi assinado o Tratado de 1 79 1 entre portugueses e Guaicuru e


quais as conseqüências para os Tercna?

5()
4. Os Terena na época do Império brasileiro

Pelo desenho de l lercule Florence, como eram as vestimentas das


mulheres Guaná daquela época? você sabe o nome dessa vestimenta ?
(Pergunte às avós)

Como era realizado o com ércio entre os brancos e os Guaná ? Compare


com os dias atu ais.

Qual o transporte utilizado nesse comércio? Ainda exis te essa forma de


transporte na região em que você mora?

5 1
Desenhe a aldeia descrita por Castelnau.
Capítulo 111
Os Terena e a
Guerra do Paraguai
A Re tiracta da Laguna.
• •

1 . A Gu e rra do Pa ragu a i
Na América do Sul, a região dominada pelos portugueses manteve-
se unida após a Independência e m 1822. formando um só país, o
Brasil .
Com as colônias espanholas não aconteceu o mesmo. As re g iões
dominadas pelos espanhóis, ao se libertarem . formaram vários países
independentes . Foi o q ue ocorr u c om o Vice-Reinado do Prata, do qual
fazia parte a região do rio Paraguai. Após a expulsão dos e spanhóis,
esse V ice-Reinado deu origem a quatro países: Argentina, Uruguai.
Paraguai e Bolívia.
Depois da independência houve vários c onflitos e ntre os países da
região do rio Paraguai c do rio da Prata para delimitar a s fronteiras e
o rganizar s eus territórios. Havia também d iscordâncias e ntre eles por
causa do direito de navegar no rio Paraguai. no rio Paraná e no rio da
Prata . A liberdade de navegação e ra importante para que os países
pudessem realizar seu c omércio.
o Paraguai era um dos países mais poderosos da região naquela
époc a . Não possuía território perto do mar. mas c ontrolava a navegação
no rio Paraguai. o desejo dos g overnantes do Paraguai e ra obter território

55
junto ao oceano Atlântico para exportar c importar produtos . Os
paraguaios começaram a ter vários problernas com os países vizinhos,
principalmente com o Brasil c a Argentina.
Os problemas com o Brasil estavam relacionados ao controle sobre
a navegação no rio Paraguai. pois o rio Paraguai e ra o principal caminho
que ligava a província de Mato Grosso ao litoral brasileiro .
A guerra começou quando o exército de Solano Lopez, o governante
paraguaio, invadiu Mato Grosso em dezembro de 1864. Solano Lopez
usou como pretexto para a invasão, o fato do governo de o. Pedro 11 ter
ajudado a destituir o presidente do Uruguai que era a liado do Paraguai.
Ao mesmo tempo, Solano Lopez tentava conquistar territórios para
chegar ao mar.
A invasão do território brasileiro pelo exército paraguaio foi feita por
dois g rupos de soldados. um atravessou o rio Paraguai em direção ao
·forte Coimbra e Corumbá , que foram facilmente ocupados. O outro g rupo
atravessou o rio Apa, em Bela Vista, e avançou em direção de
Aquidauana e Miranda. O exército paraguaio também invadiu o te rritório
argentino. na província de Corrientes , para alcançar a província brasileira
do Rio Grande do Sul.
o Brasil, a Argentina e o Uruguai uniram-se e formaram a Tríplice
Aliança para combater os paraguaios. A Tríplice Aliança recebeu armas
dos ingleses, que desejavam ter negócios no Paraguai depois que Solano
Lopez fosse vencido .
Durante a guerra, parte das tropas brasileiras e ra formada por
escravos negros. A esses escravos o imperador o . Pedro 11 havia
prometido a libe rdade quando a guerra acabasse.
o governo brasileiro também chamou índios de Mato Grosso para
combaterem os paraguaios. Os Guaicuru lutaram ao lado do exército
brasileiro. enquanto os Terena, que sempre foram grandes agricultores.
além de enfrentar o e xército paraguaio, também participaram da guerra
fornecendo alimentos para os combatentes.
Os exércitos da Tríplice Aliança entraram em Assunción. a capital
do Paraguai, em j aneiro de 1869 , mas . os últimos comba t e ntes
paraguaios só foram derrotados em 1870.
Após quase c inco anos de luta. o Paraguai estava totalmente
arrasado. A maior parte de sua população masculina estava morta ou
mutilada. No início da guerra a população paraguaia era de 800. ooo

,....(....
'- )
pessoas, mas e m 1870, quando a guerra terminou , e ssa população e ra
ele apenas 1 9 4. ooo pessoas.
O Brasil pôde então dominar a navegação do rio Paraguai e demarcar
suas fronteiras da maneira que achou melhor, tomando partes do território
paraguaio. A Ingla te rra , por s ua vez. tambén1 pôde e xplorar a s riquezas
do Paraguai.

2. Histórias da Guerra: relatos de Taunay

Para c onhecermos o e nvolvimento dos Terona e o utros povos


indígenas na Guerra do Paraguai existem fontes escritas c o rais. A fonte
escrita mais importante para a história do povo terena é o c onjuntos de
textos escritos por A lfredo Taunay.

Relatos de Taunay

A lfredo de Taunay (pronuncia-se


"Toné") foi um escritor e e ngenheiro que
participou da Guerra do Paraguai. E ntre
os escritos q ue ele deixou. e ncontra-se
a descrição de Miranda d urante a Guerra
e o livro contando da Retirada da Laguna.
Pelo livro "Retirada da Laguna"
sabemos que os Terena participaram
como soldados na campanha da g uerra.
junto com os demais soldados, sofrencio
as calamidades da g uerra. Taunay conta
que no carninho para Nioac. tentando
p roteger a v ila cie o utro sa que dos
paraguaios . a coluna de soldados foi
atacada pela epidemia da cólera que
n1atou muito soldados. Um dos p rimeiros ,-\ljrec1o D'1.2..S Cf(101lOIJe T<HIIlQ~}
a morrer pela doença foi um Terena:

-~
~ >'
"... Pouco depois morrera, com um dia de moléstia apenas.
um índio terena recebido na enfermaria de Bella Vista".

E depois, continuou Taunay, outros .Terena também morreram:

"Neste dia fez o cólera nove vítimas. Assinalaram-se vinte


casos novos: o chefe dos Terenas, Francisco das Chagas,
chegou moribundo numa r ede que sua gente carregava.
Estavam estes índios no auge do terror; mas não podiam mais
abandonar a coluna. ocupado como se achava todo o campo
por um inimigo (os paraguaios). que, quando os apanhava.
jamais deixava de os jazer parecer nos mais horríveis suplícios".

Nossa é poca podemos saber como viviam os Terena pelos escritos


de Taunay em outro livro onde descreveu a região de Miranda.
A população indígena do distrito de Miranda na época da Guerra.
escreveu Taunay, e ra formada por duas grandes nações: a Guaicuru e a
Chané. que era o outro nome com que e ram conhecidos os Guaná.
Faziam parte da nação Guaicuru os Kadiwéu e os Beaquieu, que
viviam juntos p e rto dos rios Paraguai e Nabileque. c um grupo que
Taunay chamou apenas de "guaycuru", que vivia em La lima e perto
de N ioaque.
A nação Chané (Guaná) dividia-se em quatro grupos: os Tcrena,
os Kinikinau , os Layana e os Choo ronó (que Taunay, às vezes chamava
apenas de .. guanás"). No te mpo da invasão paraguaia, os T e re na
morava m no Naxedaxc, no Ipegue, na Cachoeirinha e e m uma a ldeia
c hamada "Grande" . Os Kinikinau v ivam no Euagaxigo (Agaxi) e no
Laiuad.

Taunay descreveu assim os Terena que e ncontrou:

"O Terena é ágil e ativo: o seu todo exprime mobilidade (... )


e conserva arraigados os usos e tradições de sua raça, g raças
talvez á um espírito mais firme de liberdade.
São as mulheres geralmente baixas. . têm cara larga. lábios
finos. cabelos grossos e compridos(... ) e expressão de inteligência.
Trazem comumente parte do busto descoberto e umajulata, tanga

58
o u avental de algodão, cinta abaixo dos seios, com uma das
pontas passadas entre as coxas e segura à cintura.
Raras dentre elas s abem falar o português: todas p orém o
compreendem bem. apesar d e fingirem não o entenderem."

Taunay na aldeia de Naxadaxe

Em março de 1866, ainda d u ra nte a g uerra , Alfredo de Taunay. o


capitão-engenheiro A ntônio do Lago e a lguns soldados tentavam escapar
dos paraguaios. Perto de um córrego c hamado Piranhinha , e l es
ch egaram a uma estrada onde parecia haver passado muita gente. Mais
adiante Taunay com eçou a o uvir barulho :

"Na realidade numa vol ta além, achava-se a aldeia, c ujos


ruídos cada vez mais íntimos. denunciavam a v ida e a a nimação
do trabalho.n

Taunay e seus companheiros havia m c h egado à aldeia de Naxedaxe.


o nde um grande núme ro de Tcre na havia se re fugiado.

"Ou v imos grande vozerio. algazarra contínua. e Quando


ante de nós s urgirarn as primeiras palhoças, uma chusma
(grande quantidade) de gente a rmada se a tirou ao nosso
en contro. (... ) Chegaram a lguns de tais indivíduos o apontar-
nos espingardas ... "

Pensando q u e os v is itantes b rancos pudessem ser paraguaios . os


Tcrcna d o Naxedaxe foram receb ê-los de a rmas e m punho. Mas quando
reconheceram alguns dos soldados . festejararn a v isita. o povo do
Naxcdaxe. então. levou os s oldados a té a casa do capitão da a lde ia.
que chamava-se José Pedro c sabia ler e escrever.
os Teren a do Naxedaxe estavam p intados com uru um e j e nipapo
e carregavarn lanças e espingardas. As espingardas. Taunay ficou
sabendo depois. haviam s ido tiradas d o depósito de a rmas de Miranda.
quando os índios se a rmaram por conta própria para se d efende r dos
paragua ios.
o
povo do Naxedaxe deu galinha cozida com arroz para Taunay e
seus companheiros. que assim mataram a fome que vinham passando
em sua marcha.
No dia seguinte. Taunay ganhou milho, farinha de mandioca, mel e
rapadura dos Terena. que estavam preparando a aldeia para uma festa.
Vários curadores cantavam para que o mel fermentasse depressa para
fazer a bebida para a festa .
Depois de visitar essa aldeia , Taunay e screveu que, apesar do longo
contato com o branco, o povo Terena a inda mantinha sua tradição .

'Taunay e os koixomuneti

Naque la mesma época, durante os anos de guerra contra o Paraguai,


o escritor Alfredo de Taunay pôde observar muitas vezes os koixomuneti
Tcrena em ação.
No relato que escreveu. Taunay nos conta que. nos dias em que
esteve na aldeia Terena. os koixomuneti cantavam o tempo todo, pelos
mais variados motivos:

"cantavam para as colheitas, para a chuva parar. para a


chuva cair, para o milho pendoar. Cantavam a noite inteira.
Jazendo previsões e conversando com o macauã".

Taunay chamava os koixomuneti de "padre índio":

"O padre. para suas vigílias, veste-se de uma julata ornada


de lantejoulas e presa à cintura por uma espécie de talim de
contas. Pinta o tórax. braços e cara com jenipapo e urucum.
Estende um couro diante da porta de sua choupana e nele
caminha. lenta e compassadamente. avançando e recuando a
cantar, ora estrondosamente, ora em voz baixa e monótona.
com o acompanhamento de um chocalho. que agira à mão
direita. À esquerda empunha um espanador de penas de ema,
bordado com desenhos caprichosos. "

(i O
O c urador ia cantando pela madrugada afora e e ntão parava por
um longo tempo. De repente ouvia-se. bem lo nge, o g rito do macauã.
que e ra respondido pelo c urador. Os pios do pássaro ia m se aproximando
cada vez mais e no final ó ko ixomuneti começava a fazer as previsões.
Taunay confessou ter ficado muito impressionado com a conversa e ntre
o ko ixomuneti e o macauã e desenhou um deles:

cerimonia religiosa dos Ín(tio.s Guanâs. 1Büo.

Uma história sobre Pacalalá

um o utro rela to de Taunay foi sobre Pacala lá . Taunay escreveu que


encontrou, na serra de Maracaju, uma mulher Kinikinau que c horava dia
e noite a morte de seu filho. Era a mãe de Pacalalá. um jovem que havia
liderado a luta d os índios de Miranda contra o s paraguaios. Taunay, e ntão.
registrou a his tória de Pacalalá.
No início da Guerra do Paraguai, o Agaxi a inda e ra território indígena
habitado pelos Kinikinau. pare ntes dos Terena. Q uando os soldados
sobreviventes do segundo corpo de cavalaria de N ioaque passaram pela
aldeia. deixaram os Kinikinau preocupados com a notícia de que o s
paraguaios estavam se aproximando.

ti l
N e ssa é poca o c a pitã o dos Kinikina u d e Agaxi e ra um velho
chamado Flávio Bote lho que n ã o esta va fazendo certo com o p ovo.
R e voltado, o povo do Aga xi d estituiu o capitã o e coloc ou Pacalalá e m
s e u lugar. s egundo Taunay . Pacala lá:

"Era ra paz d e p o u co mais d e v inte anos: tipo soberbo de


robus tez. ín d io d e raça p ura . com o lhe d enunciavam a cor de
c obre v ermelho. as f eições angulos as. os ma/ares s alientes. os
d entes a cerad o s e magnífic os. os olhos p equen os e vivíssimos.
e o queixo acentuado denunciav am-lhe a inteligên cia e a energ ia . ..

M a is recente m e nte o utros estudiosos d os p ovo s indígenas da região,


reco lheram re la tos sobre o p e ríodo d a Gu e rra d o Pa ragu ai e c ontam
que , m e smo a nte s d e s e r e leito capitão, Pacala lá d enunc iav a os abusos
dos bra n c o s d e Miranda c ontra seu p ovo. Ele sempre diz ia:

"Cuidado com os purutuyé. Não som os seus escravos. Eles


s ão n ossos ig u a is e não nosso s senhores. Nesta terra não d ev e
haver duas esp écies d e gente: um a que manda e o utra que
trabalh e. Todos d ev em tra balha r e receb er a p aga jus ta de seu
traba lho."

A prime ira coisa que Pacala lá fez depois de e le ito capitão fo i p edir
que s e u povo a b ando n asse a a ld e ia e rn busca d e re fúg io. Enquanto
velhos. mulheres e c ria n ças carregavam o que e ra p ossível p ara as m atas
d a serra d e M a racaju . Pacala lá foi com trinta ra p azes a té Miran da p edir
a rmas às a uto ridades b r a n cas. para e nfrenta r os paragu aios q u e se
a proximavam .
C h egando e m Miranda. Pacala lá c seu s companhe iros p ercebera m
que ning u é m na c idad e tinha inte n ção de resis tir aos paragua ios e as
a utorida d es se recu sara m a e ntregar a rmas aos índios .
A lguns dias d e p o is, todos os bran cos fug iram d e M ira n da. d e ixando
o a rsen a l d a c idad e c h e io d e armas e munições. Os Kinikinau . junta m ente
c om os T e re n a. L ayan a. e ntra ra m n o a rsen al e se arma ra m sozinhos.
a ntes que os p a ragu aios c h egassem e foram para a serra d e Maracaju.
Qua n do os índios c h egara m à serra . os bra n cos ta mbé m tin h a m
s e re fug ia do lá e esta v a m p ass a ndo fo m e. L ogo o s Kinikinau e os
Tcrcna com eçaram a fazer s uas roças e e m pouco tempo havia comida
para todos .
Os paraguaios haviam ocupado toda a região e ntre o rio Apa e o rio
Paraguai. A serra de Maracaju, no e ntanto, c ontinuava a ser um abrigo
seg uro contra os paraguaios. De lá desciam Pacalalá c seus
companheiros para roubar o gado dos parêlguaios e assim abastecer os
re fugiados com carne.
Certa vez, e nquanto tocavam os bois para a se rra, forarn
surpreendidos por uma patrulha paraguaia . Pacalalá, então. o rganizou
uma e mboscada. matando o comandante da patrulha e levando seu
cavalo como troféu.
Em 1866, q uêlndo as tropas brasileiras a inda estavam muito longe
de Miranda, Pacalalá foi com seis Kinikinau e dez Terena a té um canavial
na margem dire ita do rio Aquidauana, para faze r rapadura. Passaram lá
alguns d ias , sem ver nenhum s inal dos paraguaios. Isso fez com q ue se
descuidassem um pouco da vigilância. Mas. foram v istos por uma
patrulha inimiga q ue c hamou reforços c foram cercados por quase
d uzentos soldados paraguaios.
Pacalalá an imou seus companheiros a e nfre ntar os inimigos com
coragem, e logo nos primeiros disparos os índios mataram uns doze
paraguaios e abrigaram-se. então, em uma mata p róxirna. de o nde fizeram
os soldados inimigos re troceder. Porém, q uando o inimigo já ia batendo
em re tirada assustado, Pacalalá foi a tingido por uma bala certeira.
Quando a notíc ia da morte de Pacata lá c hegou à serra. todos
choraram. As moças cortaram os cabelos na a ltura cias o re lhas e tiraram
seus enfeites, em s inal d e luto.

3. H istórias da guerra: Relatos dos Terena


Existem as fontes o rais q u e são os relatos dos Terena p rese ntes na
rnernória da população.
Os Tf'rena contam q u e:

~an tes do Guerra do Paraguai jó habitavam na região ele


Miranda e mantinham relações com o pouoaclo d e Miranda .
Quando o cidade de Miranda foi invadida, as aldeias que estauam
s ituadas nessa região também foram atacadas. Os Terena se
organizaram para jazer frente, utilizando as táticas próprias dos
índios, como por exemplo, ataque noturno. Os Terena
investigavam o nde ficava o acampamento dos paraguaios e
cercavam no momento em que os inimigos não percebiam,
geralmente à noite. Jó os paraguaios a tacavam só de dia.
Foram jeitos vórios enjrentamentos o nde morriam índios
Terena e também paraguaios. C onta-se que na aldeia Babaçu,
o s paraguaios mataram um Terena, pendurando-o num pé de
árvore.
Os Terena se escondiam nos matos e o utros fugiam para a
região de Bananal e Limão Verde. Durante a g uerra é que foi
fundada a aldeia de Limão verde. Na área de Cachoeirinha existia
um povoado chamado "Pulóvo'uti" e esta localidade servia de
esconderijo durante a g uerra porque era de difícil acesso por ser
cercada de mata muito fechada. "

E m outro relato ficamos sabendo que:

"Na a ldeia B ananal, no município de Aquidauana, os Terena


f izeram confronto com a tropa paraguaia, q ue resultou na morte
de vários soldados e de indígenas. o episódio aconteceu no
momento em que a tropa estava passando em f rente da a ldeia.
precisamente ao norte. A5 tropas se d irigiam para a Serra do
Maracajú. para conquistá-la e lá seria o fim do fronteiriço. caso
os paraguaios vencessem a g uerra.
Os terena se o rganizaram c onvocando os homens
c orajosos para jazer parte n a dejessa do território brasileiro.
a rmados simplesmente de flechas em o bediência de seu líder.
No lugar o nde as tropas inimigas iam c ruzar havia
vegetação chamada "bacuri". muito fechada, j ustamente um
lugar escolhido pelos Terena para jazer confronto utilizando a
tática de g uerra p rópria do índio. Os Terena se o rganizaram nas
matas. c uidadosamente camuflados. Sendo bons de manejo
com flechas. acertavam mortalmente os adversários.
Os paraguaios reagiram ao a taque e foram infelizes. porque
q uando tentavam entrar na mata para a tacar os indígenas

()4
facilitavam os lances certeiros das flechas. Os Terena não
d ispondo de muitas flechas. em o bediência ao c acique
desapareceram nas matas.
Cessado o a taque os paraguaios tomaram p rovidências
para enterrar seus mortos. No local fizeram uma enorme valeta
onde enterraram todos os c adáveres juntos. Nesse local os
antigos terena da aldeia Bananal acharam por bem usar como
cemitério na comunidade. (relato de Olímpio Serra da aldeia de
Argola) ...

Rondon. muitos a nos depois de terminacla a Guerra do Paraguai.


no ano de 1904, ao demarcar as áreas Tcrena de lpegue e Cachoeirinha.
reforça o sofrimento do povo Terena na é poca da Guerra ao apontar em
seu relatório a localização da a ldeia de Ipegue destruída p elos paraguaios:

" ... depois ta linha divisória da á rea de lpegue) c ortou um


capão com taquara. entrou novamente no cerrado, a té uma
lagoa seca o nde c omeçam os Campos do Ipégue. vendo-se à
esquerda 1 ·.ooo m., a tapera do lpégue. a ntiga A ldeia destruída
pelos Paraguaios" ...

Uma história sobre Kali Siini

Os Terena também contam as histórias dos heróis de suas a ldeias


que lutaram na Guerra do Paraguai. Entre cssf"s heróis está Kali S iiní:

··Não havia mais líder e o povo começou a fugir. Então Kali


Siiní. dn oldcia Cachoeirinha. Kali Hoopenó. da a lcleia Passarinho
e L'haakâ. na aldeia Moreira. se jun taram. Os três erorn
koixornune ti. Eles foram para Cuiabá . os três q ueriam ser
capitães (1e suas oldeias: cte Passarinho. ele Cachoeirinha e de
1\loreiru.
Eles houiam f ugido no Ângelo Rebuá. o purutuyé b ravo de
Mirancla. E como o Ângelo era bravo. não esperou que os
paraguaios chegassem a Miranda: ele fugiu logo... Ângelo Rebuá
era bravo só no meio das pessoas .. .
o peyó de Uhaakó era o piê e o peyó de Kali Hoopenó era
o gavião. A junção de Kalí Siini era c uidar para que ninguém os
atacasse pelo fundo do barco onde viajavam. Eu não sei qual
era o peyó do Kali Siiní.
Eles voltaram de Cuiabá com uma carta. Kali Iloopenó.
Uhaaká e Kali Siini. todos os três já eram capitães e chegaram
todos vestidos de naatí.
(relato de Antônio Muchacho. de cachoeirinha)

Kali Siiní. enquanto lutava contra os paraguaios.


preocupava-se com o futuro do povo Terena:
Em uma tarde Kali Siiní pegou uma onça. A onça atacou
quando Kali Siiní estava brigando sozinho contra os paraguaios.
Ele brigava com flecha e lança e é por isso que nós temos esse
pedaço de terra.
Kali Siiní matou a onça, coureou. fez um manto com o couro
e assim chegou à aldeia. Quando ele matou essa onça, fizeram
uma festa grande e assaram muita batata e muita mandioca.
Quando acabou a guerra, Kali Siini recomendou que a gente
não deveria se casar com purutuyé, nem falar o português, nem
trazer purutuyé para a a ldeia. Ser sempre Terena e não deixar a
meninada sair da aldeia para não perdermos a terra.
Todos os anciões se reuniram para o povo não se misturar
com o purutyé. para que ninguém saísse.
Kali Siini era nosso avô. Ele era baixinho e era koixomuneti.
Para seguir a recomendação de Kali Siini todos devem tomar
con ta da aldeia, n ão dependendo dos purutuyé ".
(relato de Dona Maravilha, de Cachoeirinha)
I

••
••
•• •
•• ••



- -

ATIVIDADES

1. A Guerra do Paraguai

Sublinhe com lápts. no mapa 1. os pd1ses que participaram da Guerra


, io Paraguai.
?or que aconteceu a Guerra cto Para~uai?

()7
Escreva uma conseqüência da Guerra do Paraguai.

2. Histórias da Gue rra: re latos d e Taunay

Quem foi Taunay e por que ele foi ajudado p elos Terena da aldeia d e
Naxedaxe? Pergunte e localize no mapa 4 onde ficava a aldeia de
Naxedaxe.

---------------------------------------------------------- -----
o es cnhe. c om as informações do texto , como te ria s ido a a ldeia de
Naxedaxe.

()9
Por que os koixomuneti são chamados por Taunay de .. padres índios"?

3. Histórias da guerra: relatos dos Terena


Como os índios que se refugiaram na serra de Maracaju lutavam contra
os paraguaios? Desenhe uma cena de combate .

7()
Procure sab e r com ·seus avós o utras histórias sobre a partic ipação dos
Terena na Gu erra do Paraguai. Escreva no espaço abaixo e conte para
seus colegas.

71
Capítulo IV
Tempos da. Servidão
•• •


• •

• •

1 . A Lei de Terras de l 850


e os povos indígenas
Até 1 850 as te rras no B rasil e ram doadas pelo governo às pessoas
de sua confiança. Em 1850 foi decretada a .. L e i de T e rréls" e. a partir
desta data , fi cou dete rminado q u e as te rras pode riam ser compradas e
vendidas sem p recisar de aprovação do governo. As terras tornaré.lm-
se. então . mais valiosas . porque por intermédio da c ompra e vencia
elas pocleriam ser tran s formadas e m dinheiro. As te rras passaram a dar
luc ro a seus p roprie tários. independe nte m e nte das benfe itorias n e las
existentes.
A Lei ele Terras tinha como fina lidad forçar a colonização ele mais
terras e a utorizava o governo a vend e r. por leilão. as terras deuolutos .
is to é. te rras que não possuíarn registro de p ropriedade. A penas um
mês depois ela aprovação da L e i d e T e rras. o Ministé rio do Impé rio
mandava incorporar como te rras devolutas as te rras dos índios que já
não v iviam em aldean1cntos.

-' ....
Muitas terras de posse dos índios foram assim tomadas c vendidas
em leilão; justamente daqueles índios que não eram mais ..selvagens" e
viviam pacificamente com os chamados "civilizados" . Esta era uma nova
situação da história da propriedade da terra no B rasil e a fetou muito a
vida dos g rupos indígenas.
Pel a primeira vez o governo do Impé rio estabelecia em lei a
diferença ent r e "índio bravo - índio manso". O "ín d i o b ravo" era
selvagem porque defen dia a través das armas a sua terra. e nesse caso
o governo reconhecia sua posse. Agora, o "índio manso" não brigava
mais, e ntão podia ser expropriado de sua te rra. E esta era a condição
do povo T e rena .

2. Os Tere na depois da
Guerra do Paraguai
A Guerra do Paraguai m a rcou profundamente a história dos Guaná.
Como vimos. um dos palcos do conflito foi justamente em território deste
povo, que aliado dos brasileiros. sofreram a taques e represálias por parte
das tropas paraguaias. É quase certo que todas as aldeias então existentes
na região dos rios Miranda e Aquidauana desapareceram. com seus
h abitantes buscando refúgio nas serras de Maracaj ú e Bodoquena.
Quando a Guerra do Paraguai chegou ao fim . em 1870, os T eren a
começaram a voltar para suas antigas a lde ias . destruídas durante os
combates. Muitas a ldeias haviam s ido completamente aniquiladas c
nunca mais fo ram reconstruídas ou recuperadas. O antigo território das
aldeias já e ra disputado por novos "proprietários". em geral oficiais
desmobilizados do exérc ito brasileiro e com erc iantes que lucraram com
a guerra c que permaneceriam na região .
Os Terena h aviam lutado na Guerra para garantirem os territó rios
que ocupavam. m as este direito n ão foi garantido pelo govern o b rasileiro
e a vida do povo Terena seria. a partir daí. bem diferente.
Depois de ganhar a g u erra contra os paraguaios. o governo brasileiro
começou a incentivar a ida de purutuyés de o utras regiões do país para
Mato Grosso. Assim, o governo poderia contro la r melh or a região.
guarda ndo a fronte ira com fazendas de gado e plantações.

7()
Aqui dois ínctios Tercna que combm eram no guerra. com u niformes etc oficiais em
ctesuso.

As fazendas começaram a se multiplicar. Na região do Mato Grosso.


os Tere na v iram-se cada vez mais cercados pelas fazendas de gado.
Os rebanhos das faz e ndas estavam sempre destruindo as
p lantações dos Terena. A v ida nas alde ias ficou muito d ifíc il e boa parte
dos Tcrena foi obrigada a se empregar como trabalhadores nas faze ndas.
É p o r is so que muito s av ó s que hoje m o ra m n as aldeias n ascera m n as
fazenda s . Os T e re n a que n ão que ria m se s ubme te r acab avam p o r sair
d a região e se refugiara m em lugares mais d ista ntes. Os fazendei ros
con seguiam, e ntã o , s e a pos sar d e mais te rras do povo Tc ren a.
Os c onflitos e ntre os Te ren a e o s fazendeiro s eram c ons tantes. H avia
muita explo ração dos pro prie tários bra n c o s sobre o trabalh o dos Tere n a.
u m exemplo d os c onflitos fo i o que o corre u p o r volta de 1890 . D o is
fazende iros brigav a m e ntre s i n a regiã o de Miranda. A fazenda Santa n a .
q u e e ra dis puta d a p e los dois fazende iros fo i saquead a p o r um d e les. ·
m as o proprie tá ri o r esolveu p or a c ulpa nos Tcrena da r egião de
Cachoe irinha. Por cau sa d essa acu sação . os T ere n a fo ram obrigados a
tra b alha r d e g raça p a ra o don o d a fazen da. O povo de Cach oeirinha se
revolto u contra esse fazende iro e muitas famílias deixaram a alde ia.
buscando refúg io e m B a n a n al e n a serra d o M aracaju.
Este p e ríodo d a histó ria d o p ovo Te re n a é conhecido com o os
T e mpos da Se rvidã o .
Os te mpos d a servidão dos T c rena ain da é lembrado nos relatos
d o p o vo d as a lde ias :

"N aqu ela ép oca os Teren a se en contravam fora de s u a


ald~ia . trabalhan do n as f azen das em con d ições de q u ase
escravidão. T ra b a lhavam quase sem remuneração e muita s
vezes os f azendeiros s im ulavam o acerto de contas e diziam.
a proveita n do-se dos ín d ios: ·v ocê a inda está devendo. portanto
tem q u e trabalha r mais um ano·. E a cada a certo de contas elec;
repetia m o mesm o ." (Gen ésio Farias)

"O p essoal d aquela ép oca tinha m edo p o rq u e a inda se


lembrava do p a trão q u e os chico teava n a f azenda. Q uem se
a trasava para to m a r ch á de m a nhã era s urrado .. . f oi o finado
m eu avô q u em m e conto u . Com o cas tigo o pessoal tinha q u e
a rra n car o mato com as pró prias m ãos. Q u ando a comida
estava p ro nta. eles m ediam toda a s u a tarefa. Eram quinze
braça s d e ta refa e. m esm o n ão termina n do a tarefa do d ia. de
m anhã m edia m o utra tarefa . q u e acumulava . " (João 'M en ootó ·
M a rtins )

78
"Meu pai. Belizório Ron don , da aldeia Passarinh o , foi ca tiuo
da fazenda Suc uri. Para m a rcar o tem po, era o rientado pela lua
n oua e para a certar a conta com o patrão ele jazia traços na
bainha do facão, m a rcando os d ias do m ês. " (H o n o ra to Ron don
da aldeia Passarinho)

3 . O governo republicano
e os povos indíge nas
Muitas mudan ças aconteceram no p aís depois da Gu e rra do Paragu a i.
Algu mas c i dades, como São Paul o e Ri o de Jan e iro, c r escer am
rapidamente e surgiram as p rimeiras fábricas n o B rasil. E m 1888, o
governo pôs t1m ao trabalho escravo e com eçou a incentivar a v inda de
imig rantes da Europa para trab alhar prin c ipalme nte n as fazen das de café .
O café havia se tran sfo rmado n o p rincipal p ro duto de exportação do B rasil.
o café e ra tra n sportad o a través de estra d as de fe rro a té o porto de
Santos, de o n de era exportado para o utros países. Com parte dos luc ros
da ve nda do café, fo i possível d ese n vo l v e r novas t éc ni cas e
ap erfeiçoam entos nos meios de comunic ação. o Gove rno do impera d o r
o. Pe dro ll h avia também inic iado uma polític a d e insta lação d e linhas
telegráficas .
Em 1889. enquanto o povo T ere n a ainda v iv ia n o tempo da s ervidão,
o imperador D. Pe dro ll foi tirado do pode r por u m grupo d e m ilita res
apoiados por g rupos sociais q u e d esejavam mudanças nas le is e na
o rganizaç ão econ ômica do país. O Brasil. então , d e ixou de ser uma
monarquia e se to rno u u m a república . gove rn ad a p o r u m presidente.
o g o v e rno republica n o a m p lio u a política de con s trução de estradas
d e fe rro e d e linha s te legrá ficas para melho rar a comunicação e o
tra nsporte en tre o litoral e o interio r do país e forta lecer seu con tro le
sobre todo o te rritó rio b rasile iro . As estradas d e ferro facilitavam ta m b é m
o transporte de p rodutos para os portos do Ocean o A tlâ n tico. d e ond e
e le s s e riam exportados para países d is tantes.
A instalação d e linhas d e te lég rafo. ligan do o lito ra l ao inte rio r do
país , fa zia parte das g ra n des transformações p ro m ovidas p e lo governo .
o t e l égr afo e ra o m e io d e c omunicação à dis tâ n c ia m ais rá p ido e
m o d erno que exis tia n aquela é poca.
Em 1888, um a n o antes d a R ep ública ser p rocla m ad a, o imperador
o. Pedr o 11 crio u a Com issão Con s trutora de Linhas T e legráficas . O
o bje tivo dessa Comissão e ra ins ta la r linhas de telégrafo por todo o in te rior
do B rasil e s u a p rimeira missão foi levantar os p ostes telegráficos da
c idad e paulis ta d e F ra n ca a té a c idad e de Cu iabá n o Mato Grosso.

O governo republicano continuou a ins ta la r os pos tes telegrá ficos


n a região do M a to G rosso. Em 19 0 0 fo i o rganizada uma Comissão p a ra
ligar o trech o d o te légra fo de Cuiab á a té a fro nteira com a B o lív ia e o
Pa ragu a i. Essa Comissão fo i lide rada por Cândido Maria no d a Silva
Rondon, que j á h avia p a rtic ipad o d e o utros tra b a lhos de con s trução da
linha te legrá fica.
A con s trução d esse ra m a l d o te légrafo exig ia muita m ão-de-obra e
Ro ndo n p assou a conve n cer os índios para aju dar n os trab alhos de
ins ta lação d a linha.

"'O poste teleg ráfico uai alJrinno C(lminho ii c iuilização. E . n este caso. duplamente: os
o p erários que o erguem s ão quase tonos recrutcKios entre o s indígenos locais.~

H<>
Os p rimeiros índios que participaram dos trabalhos da comissão
foram os Bororo . Quando a linha telegráfica c hegou à margem do rio
Taquari, os Boro ro n ão q uiseram mais continuar seu trabalho. Dali para
a frente, d isseram e les. estava o território dos Guaicuru e dos Terena. E,
a partir daquele momento. o trabalho dos Bororo foi s ubstituído pelo
dos Terena. q ue participaram das a tividades da Comissão a té o final.
Essa época ainda faz parte da memória dos mais velhos das· a lde ias:

"Quando o finado Marechal Hondon passou por aqui. meu


tio mais velho foi com ele. Meu tio se chamava José Henrique. E
linha outro tio meu que acompanhou o Marechal Rondon
q uando ele p assou na terra de Cachoeirinha. Ele se chamava
José Marques e era cozinheiro lá o nde eles acampavam.
Eles passavam na região de Cáceres. Barra dos Bugres.
p ra lá de Cuiabá, o nde meu rio passou acompanhando a
medição da terra. Esse era o serviço de meu tio. Rondon g ostava
muito de andar com José Henrique. meu tio mais velho, porque
ele trabalhava muito bem ... "
(relato do sr. Félix da a ldeia de c achoeirinha)

Nas palavras de Rondon. esse tempo de pós-g uerra, o tempo da


servidão , é assim descrito:

"Os Terena são comumente explorados pelos fazendeiros. É


difícil encontrar um camarada Terena q ue não deva ao seu patrão
os cabelos ela cabeça ... Nenhum ··camarada de conta" poderá
cleixar o seu patrão sem que o novo senhor se responsabilize. E.
s e tem ousadia de f ugir. corre q uase sempre o perigo de sofrer
vexames. pancadas e não raras vezes a morte. em tudo figurando
a polícia como co-participante em tais a tentados"

81
4. A Estra d a d e Ferro Noroeste d o Brasil

Depois da Guerra do Paraguai, dois fatos significativos m arcariam a


história dos Terena. a criação do Serviço de Proteção aos Índios/ SPI e a
c onstrução da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, esta última responsável
dire ta pelo aumento da população da região sulmatogrossense. o número
de habitantes c re sceu cinco vezes mais em poucos a nos.
E m 1904 , quando a linha telegráfica a té a fronteira com a Bolívia
a inda e stava sendo construída, foi fundada a Companhia Estrada de
Ferro Noroeste do Brasil.
Essa Companhia. que foi c riada com d inheiro brasileiro, francês e
belga, tinha o objetivo de c onstruir uma estrada de ferro ligando a c idade
de Bauru, no estado de São Paulo, à c idade de Corumbá , e m Mato
Grosso.
A c idade de Corumbá foi escolhida por estar na fronteira com a
Bolívia. O g overno brasileiro a inda estava levando a diante o projeto d'
fortalecer as fronteiras no s ul de Mato Grosso. Depois de p ro nta, essa
fe rrovia seria ligada a outra estrada de ferro que já estava sendo
construída e ligava a c idade de Bauru a o porto de Santos. Com a Estrada
de Ferro Noroeste, o s ul do Mato Grosso teria um caminho seguro a té o
mar. O trem também levaria com rapide z os produtos de Mato Grossó
para o litoral. Isso fa ria c om que mais purutuyés fossem para a região
da fronteira com o Paraguai e Bolívia c riando fazendas e cidades .
E m 1 905 começou a c onstrução da Estrada de Ferro Noroeste . Seus
trilhos e ram ins talados a o mesmo te mpo e m Mato Grosso c em São
Paulo, e se e ncontrariam no meio do caminho. De Corumbá, a estrada
de ferro passaria por Porto Esperança, M iranda, A quidauana, campo
Grande, Três Lagoas, A raçatuba, Pe n ápolis, a té c h egar a Bauru .
O s Terena que já haviam par ticipado da instalação da linha
telegráfica, trabalhara m na c onstrução do trecho Mato Grosso da ferrovia,
juntamente c om os purutuyé pobres . No trecho paulista os trabalhos
tiveram que ser s uspensos por um bom tempo por cau sa da resistê ncia
do povo Kaingang c ontra a invasão de seu território.
os Kaingang já e stavam e m g uerra contra os fazendeiros de café
quando a fe rrovia c omeçou a ser c onstruída. Fazende iros q u e queriam
p lantar c afé nas te rras dos Kaingang estavam invadindo o território desse
povo .

82
A construção da e strada de
ferro fez esse conflito ficar mais
v iolento p orque o s trilhos da
e strada de ferro passavam
dentro do território Kaingang. O s
Kaingang c omeçaram a a taca r
os trabalhadores da ferrovia,
q ue também matavam os
Kaingang sempre que tinham a
oportunidade.

83
Funcionários do SPI foram mandados para o território dos Kaingang
tentar fazer um acordo de paz. Em 191 2 um primeiro grupo de Kaingang ,
liderado pelo cacique vauhin. fez a paz com o pessoal do SPI. Depois
dele. outros grupos começaram a depor suas armas.
Com o tratado de paz, os Kaingang foram a ldeados em reservas
mui to pequenas. perdendo a maior parte de suas terras para os
fazendeiros. Nos anos seguintes. a maior parte desse povo morreu de
doenças transmitidas pelos brancos.
Com o fim da resistência dos Kaingang, a ferrovia seguiu em direção
a Mato Grosso. encontrando-se, em 1 9 1 7, com o trecho construído. com
a participação dos Terena. a partir de Porto Esperança. Muitos dos Terena
que trabalharam na construção da Estrada de Ferro Noroeste ficaran1 na
memória dos mais velhos:

"Os trabalhos da ferrovia foram feitos praticamente pelos


índios. Muitos morreram pelos vários acidentes que aconteceram
no período de construção da estrada de ferro. Da aldeia
Cachoeirinha participaram José Benedito, Elias Antônio. Félix
Candeia e muitos outros.
Segundo eles foi um trabalho difícil. arriscando a própria
vida na região do Pantanal. onde existem muitos animais
selvagens.
Félix Antônio. Úli Terena, lembra que participou da
construção da ponte do rio Paraguai e quando chegou na cidade
de Corumbá, foi realizada uma festa, comemorando a realização
do trabalho. "

84
•• • ••
•••o: •


• •
• •4


••
• •
•• ••
ATIVIDADES

1. A Lei de Terras de 1850 e as terras indígenas

Explique com suas palavras o que foi a Lei de Terras de 1850 e escreva
nas linhas abaixo .

85
Por que as populações indígenas ~oram prejudicadas pela Lei de Te rras
de 1850?

2. Os Terena depois da Guerra do Paraguai

Por que o governo incentivou a ida dos purutuyé para Mato -Grosso?

Quais a mudanças que ocorreram c om os Te re na d e pois da Guerra do


Paraguai?

Escreva sobre a lgum tipo d e conflito e ntre os T e rena e os fazendeiros.

8()
Por que este período da história do povo Tere na é le mbrado c omo
Tempos da Servidão?

3. O governo republicano e os povos indígenas

Qual a difere nça e ntre .Monarquia e República?

87
Quando o Brasil tornou-se uma República?

Qual a importância da construção das ferrovias e das linhas de telégrafo


no final do século XIX e início do século XX para o Brasil?

Escreva sobre o tipo de participação ç_jos Terena na construção das linhas


de telégrafo.

88
4. A estrada de ferro Noroeste do Brasil

Por que houve c onflitos en tre o governo e os Kaigan gs n a é poca da


construção da Noroeste do B ras il?

Escreva u m benefício q u e a ferrovia Noroeste do B rasil trouxe para os


Tere na.
Capítulo V
O Território dos Terena
Esta é o foto da
1 n entrada de Ronclon
1w sertdo. 1890
/

1. O Serviço de Proteção aos Indios.

No início do século XX o g overno republicano foi obrigado a se


ocupar dos problemas das populações indígenas. Vários povos indígenas
se recusavam a ser dominados pelos brancos. E houve muitos
confrontos. Muitos g rupos indígenas foram e xterminados na luta para
manter sua independência.
Nessa época alguns dos c hoques e ntre índios e invasores de seus
territórios c omeçaram a ser denunciados pelos jorna is. principalmente
devido à atuação dos "bugreiros". matadores profissionais de "bugres",
como e ram c hamados os índios por essas pessoas. Os matadores de
índios e ram contratados por agências para "limpar o te rreno" para facilitar
a p osse das terras por fazendeiros e para a especulação da terra. E sses
conflitos c omeçaram a aparecer nos jornais das c apitais do país e
também no noticiário internacional.
Os Bugreiro s

Essas notícias provocaram, a té 19 1 o, muitos debates em torno da


" questão do índio". envolvendo intelectuais (advogados. militares.
e ngenheiros, c ientistas), políticos e religiosos que a poiavam muitas vezes
os interesses das populações indígenas.
Como a s ituação se agravava, o governo da República precisava
c ria r uma política para resolver os problemas com os índios. A primeira
Constituição da República. de 1 89 1 , não trazia nenhuma referência aos
g rupos indígenas. mas a ocupação mais intensa dos p urutuyé nos
e stados de Mato-Grosso e os da região A mazônica obrigava o governo
a pensar e m novas formas de relação com os diferentes g rupos
indígenas. o g overno precisava c riar uma política para r esolver o
"problema indígena".
Era d ifícil estabelecer uma política que fosse aceita por todos. Havia
pessoas que q ueriam s implesmente exterminar os g rupos indígenas

94
reb e ldes à · presença do purutuyé. O utros achavam que os índios
deveriam ser transformados em trabalhadores, s ubstituindo a mão-de-
obra escrava nos trabalhos c om as lavouras e c riação de gado.
Havia também d iscordâncias e m relação à educação e controle
das populações indígenas. Uns defe ndiam q ue a e ducação d everia ser
realizada p e los missionários religiosos. Mas, havia o utros q ue achavan1
m elhor que o governo c riasse um ó rgão especial. sem ligações com a
Igreja. para tratar dos assuntos relacionados aos índios.
o p roblema maior d o governo e ra estabelecer o d ire ito dos índios
ao seu te rritório. Ficou decidido q u e os índios teriam suas " reservas "
delimitadas e controladas por funcionários do governo. Essas reservas
q uase sempre foram menores que os te rritórios a nteriormente ocupados
por cada nação indíge na. E os índios não podiam opinar.
Essa p roposta de política e m relução aos índios c omeçou a ser
p raticada a partir de 191 o. com a c riação do Serviço de Proteção aos
índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPI -LTN). Rondon foi
escolhido para fundar e dirigir o futuro SPI devido a seu trabalho na
Comissão das Linhas Telegráficas. Nesta condição. Rondon. usando de
m eios não violentos, havia c onseguido q ue m uitos povos indígenas que
contatou d urante os trabalhos de ligação telegráfica permitissem a
p assagem da linha em seus te rritórios.
Rondon impôs ao S PI as seguintes linhas de atuação:

• "pacificar" o índio a rredio e hostil, para p ermitir o avanço dos


purutuyé nas zonas p ione iras, isto é, recém abertas para a
colonização.
• demarcar suas te rras. c riando "reservas indígenas". lotes de terra
sempre infe riores aos te rritó rios ante riormente ocupados pelos
índios. A justificativa é q u e "pacificados" não p recisavam mais
~correr de um la do para o utro".

• edu car os índios. e nsinando a e les técnicas de agricultura , noções


de h ig ien e. as p rime iras le tras e o fíc ios m ecânicos e manuais
para que pudessem sair da condição de índio bravo e sere m
transformados em tra balhadores nacionais.
• p roteger os índios e assisti-los em s uas doenças .
2. A criação das áreas T ere na.
Os Terena nunca aceitaram a servidão n as fazendas e chegaram
algumas vezes a se rebelar contra os faze ndeiros. Mesmo vivendo fora
das aldeias. espalhados pelas fazendas , os antigos nunca se esqueceram
que eram Terena, continuando a falar a língua e a sonhar em voltar para
suas terras.
Algumas poucas famílias Terena consegu iram se mante r em
p e que nos núcleos próximos às fazendas que aumentavam cada vez
mais em Mato Grosso. Foram estes núcleos que os integrantes da
comissão das Linhas Telegráficas , chefiada por Cândido Rondon ,
e n c ontraram em 1 904. Os T e rena aproveitaram o trabalho junto a
Rondon, quando da instalação das linhas telegráficas , para solicitar-lhe
que o governo lhes garantisse a posse de suas terras. Por m eio d e
acordos com os fazendeiros que tinham ocupado terras d e forma ilegal,
Rondon conseguiu que o governo de Mato Grosso, por meio de decretos,
"reservasse" aos índios glebas de te rra.
T e ndo Rondon como interme diário. algumas comunidades, como
Cachoeirinha e Bananal/Ipegue. tiveram suas te rras d e marcadas em
1905 e mais tarde, em 1 9 1 1 , foram reconhecidas pelo SPI.
A história da criação d estas primeiras reservas é assim lembrada:

"Meu pai foi pra Já de Nioaque. M eu pai morou lá e eu e


meus irmãos nascem os lá. Eu tinha seis irmãos e três irmãs.
Então ch egou a notícia do Marechal Rondon. O gerente da
fazenda lá de Nioaque avisou m eu pai que tinha notícia de que
Rondon iria juntar os índios e o fazendeiro tinha que p erdqar
quem estivesse com dívidas.
Era para juntar porque tinha um pedaço de terra para a gente.
E então viemos para cá e moramos aqui. Eu tinha dez anos quando
chegamos aqui e os outros que vieram comigo eram adultos. "
(Relato de Antônio Muchacho, aldeia cachoeirinha)

Quase todas as demais áreas Terena, foram delimitadas no tempo


do SPI.
O tamanho das áreas d e marcadas pelo antigo SPI era muito menor
do que era o território ocupado pelos Terena antes da Guerra do Paraguai

f)(j
e por isso os índios continuaram a trabalhar nas fazendas c omo mão de
obra . Não foi respeitada a idéia de território. A forma de organizar o
território pelos Terena, o u seja, a organização do espaço das moradias.
das p lantações. das cerimônias e demais a tividades. não foi respeitada
pelos administradores do SPI .

3. Os Te rena e os problemas com o SPI

o SPI instalou um posto e m Cachoerinha em 1 9 18, com o propósito


de p roporcionar .a os Tercna um apoio conforme o que pretendia Rondon.
Mas logo essa "proteção" foi sendo transformada e m perda de direitos e
de autonomia política dos Te re na.
Rondon p retendia que ca da povo ind ígena tivesse um re presentante
q ue p udesse ser o interlocutor legítimo para os assuntos e xternos à
aldeia e nomeou com o título honorífico de "capitão" o c hefe Terena que
c omandava Cachoeirinha naquela é poca. Benedito Polidoro. Porém,
passados alguns anos. o funcionário c hefe do posto do SPI passou a
interferir na escolha do "capitão".
O "encarregado do posto" , e m pouco tempo, passou a interferir e m
praticamente todos os aspec tos da v ida Terena: da m e diação de conflitos
internos entre famílias, g uarda dos registros das ocorrências c ivis
(nascimento, casamento c ó bitos) e até dos contratos de trabalho . o
encarregado do posto c riou até uma "guarda indígena" para a manutenção
da "ordem". para q u e os Tercna não p udessem fazer protestos. o SPI
mostrava para os Tercna. q u e a li, nas reservas indígenas. e les v iviam por
concessão. como se o governo estivesse fazendo um favor.
E. assim o futuro do povo Tercna. passou a ser o rientado por um
puru1uyé. Os Terena passaram a ser considerados importantes apenas
con1o mão-de-obra para as empresas agropecuárias da região e o c hefe
de posto do SPI e ra q u em o rganizava o trabalho para os fazendeiros .
Na décacJa de so os dados colhidos por um a ntropólogo c hamado
Roberto Cardoso de Oliveira. em Cachoeirinha mostraram q ue das 12 7
famílias q ue constituíam a a ldeia e m 1 95 7 . apenas 1 9 famílias ( 1 7%)
viviarn exclusivamente da agricultura interna e a rtesanato, enquanto 58
famílias (46%) viviam exclusivamente do trabalho externo, c o utras 50

()-
' I'
famílias (37%) combinavam o trabalho em suas roças com o trabalho
esporádico externo.
Muitos Terena começaram a ir para as cidades em crescimento a
partir do final dos anos so. A saída dos Terena de suas aldeias para as
cidades acontecia porque havia um crescimento da população nas
reservas e a falta de "futuro" nelas. Em 1960, Roberto Cardoso de Olive ira
constatou que haviam 4 1 8 Terena morando em Campo Grande.

4. A FUN A I e a s ituação a tua l.

o espaço das "Reservas" era insuficiente porque para o SPI o futuro


dos Terena. assim como para os demais grupos indígenas . era
abandonar sua cultura para trabalhar como mão-de-obra nas lavouras e
fazendas dos grandes proprietários ou ainda mudar-se para as cidades.
integrando-se ao modo de vida do purutuyé, abandonando sua língua.
costumes e tradições.
o SPI não estava preocupado em criar condições para favorecer o
desenvolvimento das áreas dos Terena. nem incentivar e favorecer o
aumento de suas plantações. para que pudessem ter produtos para
realizar comércio. obter autonomia financeira e ter condições d e ficar
mais independentes dos "favores" dos brancos .
No período da ditadura militar. que teve início com o golpe de Estado
de 31 de março de 1 964 , o SPI encerrou suas atividades. havendo na
época várias denúncias de corrupção. inclusive d e venda ilegal de terras
indígenas . o SPI foi substituído pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI ,
criada em 1967.
O chefe do posto da FUNAJ herdou do seu antecessor do SPI o
mesmo poder. Contudo, com o aumento da procura da mão-de-obra
para as usinas de cana. o chefe do posto. com a concordância do
"capitão", passou a cobrar uma taxa dos intermediários das usinas (os
chamados .. gatos") para cada índio contratado. o dinhe iro assim
arrecadado era para ser utilizado na "manute nção " d e algumas das
necessidades do posto.
A administração da "changa" (como é chamado regionalmente o
trabalho temporário nas fazendas e usinas de açúcar) passou a ser um

98
dos principais- senão o princ ipa l - papel desempenhado pelo núcle o
de poder na reserva (chefe PI. capitão e membros p rivilegia dos do
Conselho).
Mas a "changa " não é s omen t e um a fo nt e de r e nda pa ra
determinados membros da aldeia; hoj e e la se tornou importante para
resolver o problema da sobrepopulação nas reservas - sobretudo para
a imensa maioria dos jovens.
Estes jovens. que integ ram 90 % dos "ch angueiros", se encontram
em um momento d ifíc il. Eles sabem q ue a c hanga é o ú nico destino
que lhes é reservado, c aso queiram construir s u as v idas nas alde ias .
Sabem também q u e, c om pouca e scolarizaçã o. e starão c ompetindo
e m condiç ões de ex tre ma infe rioridade num merc ado de trabalho nas
c idades. A possibilidade de sobrevivên c ia, c omo a tes tam muitos dos
Terena que saíram das reservas Bananal/lpegue e Buriti e foram para a
c idades. é c omo prestadores de serviç os, trabalhando c o mo empregados
doméstic os, empregados de c omerciante s ou c omo mão-de-obra para
serviços gerais.

Veja o que pensam. e m 1 999, alguns jovens da a lde ia Cachoe irinha


quando inte rrogados s obre o futuro:

.. _ você tem vonta de de trabalh a r na c ida de?


- Eu tenho von tade de trabalhar fora.
- E por que você quer ir trabalha r fora?
- Quero jazer m inha uida. Construir minha uida. "
(Salmir de A lbuque rque/ 1 8 a nos)

.. _ Você já saiu para tra balhar fora?


- Já. Cortando cana.
- Quantas vezes v ocê já fez c hanga? você achou ruim?
-Já fui 2 uezes e ach ei bom. é bom trabalhar.
- Você tem vontade de sair fora da a lde ia?
- Tenho. falta trabalho aqui. Aqui não tem trabalho não. É por isso
que eu quero cair fora.
- E por que você não vai?
- Tem a mãe e eu não tenho estudo. Só fiz a té a sétima série. "
(Nivaldo Albuquerque/ 23 anos)

..(
Estu<1ante Terenu. AtiL 'idw te na Bi/)JiOL'ideotec a do 1VTECA

Embora existam muitas explicações que podem justificar a saída


dos Terena de suas reservas. é importante reconhecer que existe falta
de uma área suficiente para a população .
Atualmente os Terena aldeados vivem em pequenas "ilhas" de terra
espalhadas em municípios sul-matogrossenses como Miranda .
Aquidauana, Anastácio, Sidrolândia. Dois Irmãos do Buriti c Nioaque-
também há famílias Terena vivendo em a ldeias no estado de São Paulo ,
para onde foram levadas pelo extinto SPI. Cercadas por fazendas de
gado . as áreas Terena podem ser caracterizadas como reservas de mão-
de-obra para fazendas e usinas. uma vez que a falta de terras cultiváveis
obriga o Terena. tradicionalmente um excelente agricultor, a empregar
sua força de trabalho em atividades fora da área indígena .
Nos últimos anos, importantes segmentos das comunidades Terena
vêm se mostrando preocupados em reverter essa situação.
Quando os Terena solicitaram a demarcação do território, não
estavam pedindo um presente do governo ou de Rondon . O povo Terena
havia enfrentado o exérc ito paraguaio para proteger suas terras. A
demarcação das áreas Terena foi a confirmação de um direito muitas
i>

vezes conquistado no decorrer da süa história.


É sobre esse direito que falam os mais velhos:

"Por que nós remos essa terra? Porque nós saluamos a tal
da cidac1e. Por isso nós ganhamos essa terra. quando nós
ganhamos a guerra contra os paraguaios. Eu não alcancei essa
época. mas eu sei porque ouui dos finados meus auós. "

l (_)()
HC'W1ião dos lideranças AITECA. Meninos no sala ele aula.

"Esse uermelho do Bate-Pau é o sangue de nossos auós.


dizia meu auô. Por isso nós temos essa Cachoeirinha: por causa
do sangue de nossos auós. "

"Os nossos auós combateram na guerra contra os


paraguaios. Os paraguaios queriam tomar esse nosso lugar.
mas não conseguiram porque aqueles nossos auós de
antigamente se armaram com arco e flecha."

E por esse direito as terras reconhecidas deveriam ter sido muito


maiores. A própria FUNAI reconhece esse direito . Desde 1984 há uma
portaria da FUNAI que elege todas as áreas Terena. com exceção de
Buritizinho. Limão Verde e Nioaque, como passíveis de ampliação de
área.
Desta forma. a FUNAI também não resolveu o problema mais
importante da vida dos Terena: o direito à terra para que toda a população
possa viver com dignidade. E autonomia.
Atualmente a busca de soluções para os problemas enfrentados
pelo povo Terena é uma constante preocupação das autoridades Terena
que têm consciência da necessidade de se buscar novas alternativas
no relacionamento com a sociedade nacional e no usufruto pleno de
seus territórios.

1() l
ATIVIDAD E S

Por que o governo republicano criou o SPI?

Escreva um dos objetivos do SPI

()2
Por que e quando o SPI foi fechado?

Quais as mudanças que aconteceram com a criação da FUNAI?

Por que os jovens Terena têm que trabalhar na "changa "?

Escre v a sobre os dire itos do povo Te re na.

I >~~
Capítulo VI
Cotidiano
nas aldeias:
ontem e hoje
A história elo povo Tercna tem s iclo cte mudanças no seu rnodo de
v iver. Os d iferentes contatos q u e estabe leceram no clecorrer de s ua
história com povos d iversos como os Guaicuru . portugueses e brasileiros
fez c orn que muitos costumes c hábitos de v iciél te nharn se transformado.
O trahalho e as relações com a te rrél e seus p rodutos . as construções
das casas. as vestimentas . os alime ntos c m uitos o utros hábitos d o
co tidiano tên1 rnudado. Mas existcrn características ele v ida que são
manticlas e perrnaneccm. comprovando a resistência elos Ter na e m
rné1ntcr sua identidade corno povo. A língua. festas. re lações familiélres
e políticas. o a rtesanato . e ntre o utras manifestações da c ultura. são
cxernplos ela rnanutenç5o elas características dos Tcrc na. C onhecer e
rc t1ctir sohre as diferentes manifestações c ulturais da v ida c otidiana é
in1portante para o estudo da história do povo Terena. Uma história q ue
tern sido marcélcla por permanências e mudanças.

1 ()7
Ílll lios Gu anô. Hérc u les Florence. 1 82 7 .

1 . Vestuário
Ferna n do Alte nfe lde r. u rn antro p ó logo que v is itou as aldeias Te rena
por v olta d e 1940 , estudou os re la tos escritos dos purutuyé do século
passado e r eco lhe u dep o ime n tos d e info rmantes Terena. B aseado
n esses d ocume n tos, A ltenfc lder com ento u q u e entre os antigos Teren a .

"O ves tuá rio m a is comum era o x irip á , um saio te q u e ia da


cintura a té os j oelhos. Em tem po d e g u erra usavam um x iripá
bem c urto. d e cor p reta. Ainda era assim em 1845. O cab elo ero
puxac1o par a c ima e amarra d o a trás ela c abeça. Usavam
a lpercatas d e couro com uma tira q u e d escansava n o peito do
p é. Costuma vam d epilar inteira m en te o corpo, excepção do

I ()8
.\lu/hcrcs Tcrenn no ((('n ulo etc q uurenro.

crâneo. e esta operaçc1o estaua ligada a crenças mágicos.


Durante o inverno protegiam-se do f rio com c urnisas sem
mangas (rcpcnotD. tecidas c1e a lgodão. .. Usauom colares.
p ulseirus. e enjeite...::; para a perno. Esses adornos eram jeitos
pela ligação cte sementes. contas o u dentes e ossos de animais.
corn fios de alç]odão: os b raceletes eram. às uezes. de o uro e
p rata. possiuelmente obtidos dos l'vlbayá. Nas fes tas usauam
d ioden1as ele penas uern1elhas e saiotes de plumas cte en1a. /\5
penas de popogaio. an1arelas. somente os chefes podiam usar.
pois o popagaio era considerado um "chefe ..: o uso da pena de
papagoio significaua q ue um inimigo hauia s ido morto en1
con1lxue. Nu g uerra. o clleje de g uerra (chuná acheti). ues tia
uma copa de pele de o nça . ..

I ()9
Ainda segundo Altenfelder. a pintura do c o rpo e ra indispensável
nas dan ças e festas. P intavam o c o rpo c om riscas. e m branco e preto e
utilizavam-se do jenipapo e do carvão veget al. um elos viajantes que
visitou os Terena no século passado. descreveu assim a p in tura cJos
Te rena:

" Os desenhos s ão feitos de uma excessiva fineza e


apresentam uma harmonia e uma delicadeza que é impossível
de se descr ever··

Sobre o cuidado c om o c orpo e as roupas Taunay fez a seguinte


descrição:

"É também c omum à todos os ínclios do d is trito o hábito


da mais apurada limpeza: lavam o c orpo três o u quatro vezes
por d ia; quer jaça calor ou frio o u haja bom ou mau tempo. As
mulhere..c:; c uidam muito da alvura dos panos e procuram sempre
andar muito limpas ... "

E ele também escreveu que:

..É geral. a todos os índios a guçarem os dentes, em finas


pontas"

Descreva como são os Tcre na h oje. F..m que o s Te rena difere m na


a parência, no modo de vestir e de se comporta r. dos purutuyé?

I I()
Dcs nhc , baseado nas informaçôes acima, as vestimentas elos Terena
de a ntigarncnte.

I I I
Você leu sobre Kali Siini na parte q u e trata da Guerra do Paraguai. os
mais velhos contam q ue e le c h egou com uma pele de o n ça nos ombros.
Ele seria um "chefe de g u e rra "?

oesenl:le alguns dos motivos que são usados nas pinturas do corpo e
dos e nfeites da dança do bate-pau . Q ue tinta é usada nestas p inturas?

1 I2
2. Moradia

Esta é uma fotografia de 1 942 de uma casa Terena da alde ia de


Cachoeirinha . A foto mostra os materiais que ram utilizados na
c onstrução das moradias c as técnicas de c onstrução .
Altcnfeldc r escreveu que os antigos Terena moravam e m casas
que. em gera l, e ra m longas c de teto arqueado . Eles construíam casas
com telhados de duas águas. os quais desciam até as proximidades do
solo , descansando s obre paredes de cerca de 1 , 60 em de a ltura; no
centro e nos extremos. três postes sustentavam uma viga central sobre
a qual se apoiavam caibros e ripas. A c obertura e ra feita de sapé ou
folhas de acurí.
As casas eram de forma retangular, e as paredes da frente e dos
fundos se apresentava m inclina das para o inte rior. no a lto. Segundo
a firmam a lguns informantes. as portas eram simple s aberturas . sem
o utra proteção. As roças, cavané. e ram feitas por detrás das casas.

I 13
Em cada casa viviam várias famílias obedecendo a um chefe . Os
Terena h abitavam aldeias. oneo, onde as casas se distribuíam em círculo
ao redor de uma praça central none-ouocuti. Não havia distinção especial
no tocante à casa do chefe da aldeia , nem parece ter havido d istribuição
especial com referência à localização das metades tribais (Xumonó e
Sukirikiano). A aldeia constituía uma unidade política. mas a unidade
econômica era a família (a qual abrangia pais. filhos , genros e escravos) ;
a posse de escravos. os Kauti , significava auxílio na guerra e no preparo
das plantações.

Você sabe o nome dos materiais utilizados na construção da casa da


fotografia de 1 942 da aldeia de cachoeirinha?

Compare agora as casas da sua aldeia com as casas de antigamente ,


de acordo com uma descrição feita por Altenfelder, de como moravam
os antigos T erena .

l 14
Desenhe. com as informações dadas pelo texto acima. como seria uma
antiga aldeia Tcrena e compare com a que você mora. Procure construir.
em miniatura. uma casa tradicional.

15
Antigamente "as portas eram simples aberturas. sem outra proteção". E
hoje. esta afirmação continua sendo verdadeira? Por que os Terena
necessitam de portas trancadas?

Por que o a utor afirma que a "unidade econômica" era a família? A família
Terena ainda permanece organizada desta forma?

Pergunte aos mais velhos se eles concordam com a afirmação de


Altenfelder sobre os Terena utilizarem-se do trabaH1o dos Kauti no preparo
das plantações e na guerra .

Leia em outros livros e compare a escravidão dos brancos sobre os


índios e negros com o sistema de cativos dos Terena .

I I ()
L eia agora sobre o interior das casas dos antigos T e rena:

Os T erena dormia m sobre j iraus. A p lataforma e ra recoberta com


trançados de bambu e couro. Sobre essa armação estendiam-se peles de
animais. Não possuíam m esas e n em ban cos. No passado eles sentavam-
se em esteiras de piri, hituri. Tapetes de pele, panketi , e ram usados no
passado. Por esse tempo. e mbora possuíssem o algodão e conhecessem
a técnica de tecer, não usavam redes q u e só adquiririam mais tarde. Os
recipientes variavam das cabaças e potes de barro aos trançados de fibras
vegetais e cestaria. os alimentos pendiam do teto o u das paredes; cabaças
cortadas ao meio, de vários tamanhos, serviam para g uardar água e mel ;
potes de barro, cestos e bolsas de fibras , pendentes das paredes,
completavam o mobiliário. No inte rior das casas os a ntigos Terena
guardavam ainda peles de animais, a rmas (arco, flecha , lança, c lava e o
arco de duas cordas. o bodoque ), u tensílios (foice, machado- inicialmente
de pedra, bastão de cavar), fusos, mate rial para fiar, b em como presas de
gu erra, enfe ites de plumas e material para pintura.
O fogo e ra p roduzido p e la fricção de duas varetas e a maioria dos
alimentos e ra cozida .

Moças Terena desconsando em cima elo jirau.

I 17
Descreva o interior de uma casa Terena atual. Quais são os objetos.
móveis e utensílios encontrados no seu interior?

Identifique os objetos que aparecem no texto acima e que ainda são


utilizados nos dias atuais.

Compare o uso da água e do fogo antes e agora.

1 18
3. As artes: cerâ mic a ,
cestaria e tecelagem
Nas casas dos a ntigos Terena, c onforme o relato e a foto anterior,
havia muitos o bjetos de cerâmica e cestaria. A fabricação dos vários
objetos e ra feita pelos homens e pelas mulheres.
No mito dos gêmeos Yurikoyuvakái, o herói c ivilizador dá a os
homens as armas e os instrumentos agrícolas. e , às mulheres. o fuso.
justificando a ssim a divisão do trabalho masculino e feminino. Se a
limpeza da roça e o prepar o da terra e ram tarefas masculinas. às
mulheres cabiam a s tarefas de fiação, a cerâmica e c uidados caseiros.
Na fiação, tarefa feminina, empregavam-se fibras de a lgodão, de
palmeiras e de um arbusto denominado yuhi. Para fiar o algodão.
deixavam-no p or alg uns dias mergulhado na água. Com esse tratamento

Mulher Terena fiando a lgodão nativo.

I I9
as fibras de yuhi. eram facilmente separadas e depois de secas e ram
fiadas com o auxílio do uosso-copeti. Com as flbras de yuhi faziam dois
tipos de bolsas; u ma pequena, uerii, para g uardar frutas. pequenas
cabaças e outros o bjetos; e o utra maior, n imaquê, para o transporte de
mandioca e o utros p rodutos da roça para as moradias. Faixas de algodão.
denominadas héo-eti. e ram utilizadas para pre nder os x iripá, a marradas
à c intura.

Moça Tere na p reparando s eu enxoval. 1 95 7.

Na página ao lado. mulher Tercna


tecendo recle p ara dormir.

l 2()
Folhos ele Coranctá exposras oo sol pura secar. empregue/os no confecçclo ele chapéus
de palha e abonos.

Há relatos também sobre a fabricação de cestos e abanicos de


carandá ou de piri ou ainda de bambu . Os cestos eram utilizados para
guard ar e transportar a limentos. Cestos especiais eram feitos para
transporte de crianças. Estes últimos eram adaptados às costas das
mulheres e presos à cabeça por meio de faixas de algodão.

E as mulheres Terena· de sua a ldeia continuam tecendo? Por que a


tecelagem é uma atividade quase em desuso na maioria das aldeias?
Antes. os n1ul11eres Tereno. c on1o descreve o texto. carregavam os fil11os
nas c ostas. aconchcgaclos en1 urn cesto próprio. E hoje. como as
mull1eres carrcgan1 seus filhos?Continué\ existindo uma maneira Tercna.
diferente da rnane ira dos purutuyé. ele carregar os filhos? Façél un1
clescnho.

Antigarnente os homens fazianl seus arcos. flechas . lanças. instrUJnentos


agrícolas. de p esco. faziam cestos c abanicos. etc. ... c hoje. q u ais são
os artefatos produzidos pelos homens Terenél?
ínctio Terena fuzendo pote de barro.

124
As mulheres Tcrena, segundo vários re la tos, sempre conh eceram
e empregaram o processo de espirais de a rgila para fabricação de potes
e panelas. Um cientista, de n ome Richard Ro hdc, que dirigiu uma missao
científica no Brasil no ano de 1883-84, contou que, quando a peça estava
pronta. os Tere na faziam inc isões no barro ainda mole com uma corda,
formando o motivo, c a peça era deixada depois para secar ao sol por
uns dias e depois cozida. Depois a louça e ra re tirada e pintava-se o
modelo com a resina do p au-santo. com a peça ainda e m brasa. Mais
tarde com a louça já fria, o desenho era terminado com as cores vermelho
e b ranco.

,\ tulller Terena pinronclo peças ele cerâmica.

-
1 --:>,....
.... "')
Um o utro purutuyé. Kalervo Obcrg. que e steve e ntre os Terena cn1 1949.
escreveu que os potes Tercna . depois de queimados. eram decorados
com a c or preta para a q ual e ra usada a resina de jatobá.

(}ueimancto cer(lrnica.
Qtwinwncto peços df' cerâmico dt>JJOis de pintodns.

A cerâmica continu a sendo uma ativ idade realizada somente pelas


rnulheres?

Na sua aldeia as mulhe res ainda continuam fabricando a cerâmica?


As peças fabricadas são vendidas ? O nde? Por quem?

1
_. .) _,
As fotos apresentando a cerâmica são de épocas diferentes; que
mudanças você pode observar nas peças? Por que. no decorrer do
tempo, as ceramistas mudam o formato e o tamanho das peças?
Para a fabricação da cerâmica, as mulheres continua m utilizando a
mesma técnica que suas a nte passadas?

Quais s ão as principais d ific uldades que as mulheres Terena enfrentam


para fabricar a cerâmica ? E para a s ua comercialização?

Qu e outras ati v idades são re alizadas pelas mulheres, a l é m destas


a tividades fe m ininas tradicionais, que são a tecelagem c a cerâmica?
Desenhe alguns dos motivos usados pelas mulheres para enfeitar a
cerâmica.
4. Culiná ria

-
Observando a foto. você saberia dizer o que estas mulheres estão
preparando?
o texto abaixo, baseado nas informações de Altenfelder. conta um pouco
sobre as comidas dos antigos Terena e o mocJo de prepará-las. Leia.

"Das principais plantas cultiuadas pelos antigos Terena cabe


mencionar como mais importantes o milho. a mandioca. o fumo,
a batata doce. o algodão. o cará e uárias e.._c;pécies de abóboras.
Os Terena conheciam diuersas uariedades ele milho: o milho
amarelo. huanketi'soboró: o milho branco. heopuiti-soboró: o
m ilho de g rãos mistos. c uati soboró. u ma o utra uariedade, de
Mespiga longa e g rão muito macio", era denominada de soboró.
s implesmente.
Peneimnao jnrinlw de mandioca.

132
Ac;; espig as eram co/hirtas ainda uerdes e tostadas ao jogo.
f er uenta das o u ainda e_c;mag adas para o preparo de p equenos
b o los d en o minados chipa. O milho era a inda utiliz ado n o preparo
d e b ebidas f erm entadas.
Embo ra d esconhecessem o processo cie fabric a ç ão ela
farinha d e mandioc a , que só mais tarcle uiera m a dominar. os
antigos terena teriam c ultiuado a mandioca braua. s uáiti-tchupú,
a por com as uariedades não uen en osas . ech o ti-tchupú. A
mandioca m an s a era comida c o zida ou as sada. As uariedades
uen en osa s eram utiliz adas na fabri c a ç ão d e b o linh os.
d en ominados hihi. ou de b olos maiores. hopape. D epois d e
raspada a casca da m andioca braua com fac as d e madeira .
p eritau. esmig alhauam o miolo em ralado res d e madeira. A massa
assim o btida era en uoluida em tecidos de algodão. que eram
retorcidos com o auxílio ele uaretas rte madeira. Libertada cio caldo
uen en oso a massa era cozida em panelas d e barro até p erder o
s abor amargoso. A mandioca m ans a era muitas uezes cozida
de mis tura com p edaços de carne o u p eixe m o queado. "

A b a ta ta doce, c o é. e ra c ultiva d a no Ê xiva p elos T e re n a. que


a firm avam h avere m c onhecido a s seguintes v a ri e d a d es: bra n ca.
h eopuiti-coé; a m are la. hua nketí-co é: roxa. haraiti-coé. A bata ta e ra comida
assada dire ta m ente n as c inzas ou fe rvc ntad a . H avia a inda uma te rceira
m an e ira de prepará-la. O processo c ons is tia e m fazer urn buraco n o
solo, en c h ê-lo d e lenha e a tear fog o ; la nçava-se a b a ta ta s obre o braseiro
e recobria-se o buraco com terra, cie ixando-o assim p or urn dia o u m a is.
O fo rno s ubte rrâ n eo e ra c h a m a d o d e xuiupu-p en o-uti-co é.

Os Terc n a h oj e continua m prep a rando estas c omidas ?


Quais as corn idas cios antigos que ainda são fe itas n as a lde ia s?
Qual é a alimentação básica dos Tcrena hoje?

Quais são as diferenças entre o que se come hoje nas aldeias e o que
os purutuyé comem?

Quais seriam os alimentos que os purutuyé aprenderam a com e r com


os Tercna?

s. Roça, pesca, cole ta, · caça e criação


A agricultura continua sendo a atividade econômica mais importante
para os Tercna? Quais são as plantas mais cultivadas hoje pelos Te re na?
Ilomens Terena colhendo feijcio . 1998.

Tercno morcando g acto. derrulJancto IJezerro.


Em que época os Terena começaram a lidar com o gado?

1 loje e m dia a criação de gado é uma atividade importante para os


Terena? Na sua a lde ia existem muitos criadores de gado?

Os Terena mais velhos con tam que , quando a inda no Êxiva,


costumavam caçar, entre outros . a onça, o veado do campo, o veado
mateiro. a anta e o jaó.
A carne da caça e ra tos tada d iretamente no braseiro ou moqucada,
o que faziam também com o peixe. Mencionam ainda os Terena uma
cobra d'água. denominada tié, bem como caramujos d'água. caeió. os
quais cons tituíam parte de sua dieta.

Os Terena ainda caçam? Como? Quais são os animais que ainda são
encontrados dentro da área?

Por que a caça diminuiu?

13f)
Escreva a lg uma his tó ria sobre animais que s ã o c ontadas e m sua a lde ia.

E a p esca é a inda uma atividad e importa nte para o s T e ren a? Qua is os


lugares em que as p e s soas d e sua a lde ia p e s cam? Qua is os p e ixe s
m ais apreciad os pe lo s T e re n a d e hoje?
A coleta e ra tarefa tanto masculina c omo fe minina. e abrangia a
apanha de frutas e mel silvestre. bem como de ovos de e ma. de tartaruga,
palmitos e raízes medicinais. As matas que bordejam o rio Paraguai são
abundantes e m plantas de valor a lime ntício. c omo a alg aroba , mee; o
euê. fruta semelhante a o jambo; o uaápú. fruto de características
semelhantes à s da jabuticaba. e mbora menor. Os a ntigos Terena
a preciavam muito a flor de c apim do brejo. lapoienu e a bocaiúva. ecaié.
O mel não e ra só utilizado c omo a limento. mas também no preparo de
bebidas alcóolicas .

A coleta é uma atividade importante para os Terena de hoje? Quem são


os principais re sponsáveis por ela , a s mulheres? As c rianças? Quais
são os frutos nativos que a inda e x iste m na sua área?
Tereno tonwncto mate c llin1orr<lo.

13~)
6. Festas e cerimônias
A re lação e ntre pais e filhos e ra de muito respeito e afeição. o
casamento e ra uma decisão familiar. Taunay escreveu que

/\ afeição matema, o u o interesse de um p ai pela prole, a


amizade que une os irmãos. s ão entre eles edificantes e a té em
extremo comovedoras. Verdadeira fraternidade envolve aquelas
almas simples levando-as a dedicações extremadas em matéria
de solidariedade. Com todo o devotamento servem os pais aos

Índia Terena com seu ji/J1o.

14()
f ilhos que cegamente lhes o bedecem ... Sujeita-se a moça à
imposição paterna. aceitando sem murmurar o esposo que lhe
apresentem. o u desprezando aquele c uja separação aconselharam.
No casamen to regular, esco lhe o noiuo a futura esposa
q uando a inda criança. Dela c uida. ueste-a, c oncorre para a
alimentação dos pais, por quem é considerado filho . Aos dez
a nos. mal lhe apontam os peitos . a inda não núbil. é a
rapariguinha noiua entregue ao futuro marido. Com ele a enrolam
em uma esteira. ao redor do qual dan ç am o s pais, parentes e
conuidados. cantando. bebendo e comendo os presentes .....

Casal ctescClnsnnclo após o Trabalho.

14 I
Faça uma pesquisa sobre como eram os casamentos. Quais eram as
obrigações do noivo e da noiva e de suas famílias? Corno era a festa
que tornava público o casamento? Compare com a situação atual.

Pelo parentesco tradicional Terena. são chamados também de irmãos


tanto os filhos dos irmãos de seu pai, como os filhos dos irmãos de sua
mãe, e com todo s estes que os purutuyé chamam de primos, o
casamento e ra proibido. Esta é uma regra que a inda con tinua valendo
para os Terena de hoje?

142
A união fam iliar podia ser percebida também por ocastao do
fa lecimen to de um 1nembro da família. Taunay relatou q ue. na época da
guerra do Paraguai, perto de seu rancho de palha, nos Morros (Se rra
Maracaju)

"habitava pobre índia velha que noite e d ia lastimava a


morte elo f ilho ú nico (q ue era o Pakalalá). morto em combate
pelos paraguaios. no mês de maio de 1866. O seu s oluçar
mos trava a dor profunda em que jazia ... O ra enumerava a
pobre mãe as v irtudes do filho: o ra rogava à lua que lhe
recebesse a alma: o ra ao sol q ue aquecesse o lugar em que
fora p rostrado . "

Este escritor q ue participou de perto da g uerra do Paraguai. contou


a inda c o mo a perda de uma pessoa da família e ra compartilhada pelo
restante da a ldeia:

'./\ c asa do morto é invadida, e nela prorrompem gemidos


e g ritos agudíssimos, soltos pelo mulherio e pelas crianças ...
Fica o c adáver em casa apenas duas o u três horas, é logo
amarrado em uma rede enfiada num varapau q ue vai carregada
por dois parentes. D irige-se o enterro ao cemitério. acompanhado
por todas as pessoas das casas. defronte das q uais vai
passando. Ergue-se assim u ma g ritaria cada vez mais intensa.
todos se lamentam ...
No a to de se entregar o cadáver à terra. j unto à cova matam-
se os animais mais q ueridos do morto. que é sepultado com
todos os objetos o utrora de s ua maior afeição. Se neste a to
alguém se apresenta pedindo qualquer a nimal o u o bjeto obtem-
no Jogo. sem d ificuldade nem paga. ficando desde aí. o cobiçado
móvel p ropriedade sua. Desta a rte cedem os parentes rezes.
mana dos de éguas, etc. .. etc ... . p rocurando desfazer-se de tudo
o que p ertencera ao defunto.
De volta do cemitério. é o rancho abandonado: toda a jamilia
se muda: entretanto d urante muito tempo conservam-se nas
palhoças. desocupadas. água. fogo e cigarros para que a a lma
do morto beba, a queça-se e f ume...

1 3
Quando uma mulher morre. de uolta do enterro, quebram-
se todos os potes. pratos etc. .. É o seu rancho, também .
comple tamente desmanchado.
Meses depois do falecimento de um parente qualquer
recordação p r ouoca vio l entas explosões de dor, Jogo
acompanhadas por todas as uelhas da aldeia. A duração do
luto uaria conforme o grau do parentesco ... "

Os Tercna mantêm ainda hoje esta cerimônia quando enterram os seus


mortos?

Qual o ponto principal que d iferencia. segundo a descrição acima. a


relação do purutuyé e do Tcrena com os seus mortos?

Aponte as diferenças, entre os Terena c os purutuyé, em relação à


herança deixada pelos mortos.

144
Flagrante da assistência e do Pajé cantando. evocando os espíritos. O c ulto começa
de noite e termina com o raiar elo sol , revezando o Pqjé com a s ua mulher.

Antigamente havia grandes koixomoneti. A inda hoje os koixomoneti


mantêm um g rande poder. Os Terena sempre mantiveram respeito por
estes homens q ue c onseguem e ntrar e m contato c om o s espíritos e
d esse modo proteger m elhor o seu povo.

"Dois koixomoneti estauam se insultando. cada um dizendo


q ue o o utro não sabia nada. Um deles para mostrar que s abia
mais que o o utro. deu um jeito para uirar a ema que estó no
céu. Aí ueiou uma tempestade. escureceu muito e começaram
a descer do céu . no meio da chuua. passarinhos de duas
cabeças. patos de duas cabeças. g ansos de duas c abeças.
carão de d uas cabeças. Estaua a nuuem tão b aixa que a gente
o uuia a fala de criança em meio des ta nuuem.
Quando o o utro koixomoneti uiu que não podia com ele. o
mais forte sacudiu o cf)ocalho de c abaça, itakanó, e aí parou a

I t-5
chuva. os pássaros foram embora e limpou o tempo. A en1a
ficou no céu como o koixomoneti mais forte a tinha virado"
(Antônio Lulu Kaliketé. 194 7, Araribá, SP)

Desenhe a estória contada por Kaliketé.

14(j
Culto rcliuioso dos Tere nu <'n 1 cnchoeirinha.

Conte outro fe ito de um grande Koixomorlcti.

147
Acinw. dois indios Terena com s ua inclumenrâria <la dan(a elo MBate-Pau". Abaixo. em
coluna cle dois. os lanças de bombu /cvontadas. batendo na lança do companheiro
ao lado. marcancto sernpre a c adência.
"E naquele tempo, quando terminou a guerra do Paraguai,
as pessoas que começaram a se juntar de novo ficaram alegres
e este é o Bate-Pau, vermelho contra azul. E este azul começou
a se manifestar de alegria. Por isso criaran1 a bandeira azul dos
purutuyé. E esse vermelho é o sangue de nossos avos. dizia
meu avô. Por isso nós ganhamos n ossa terra. por causa dos
sangue de n ossos avós. Então por isso que os dois cabeças do
Bate-Pau se perguntam: c daí. .. nós vamos brigar? "e
respondem : Não. nós vamos brincar e começar a ficar alegres!.
disseram os lados azul e vermelho"
(João Martins Menootó)

Faça uma pesquisa e escreva um texto sobre o bate-pau. Pergunte aos


mais velhos e discuta com seus professores c colegas. No espaço abaixo
você vai fazer o seu relato.

14
Agora faça um desenho sobre a dança do " Bate-Pau".

l 5()
Para finalizar este livro, em que vocês também são os autores , e s c reva
. sobre os problemas atuais de sua comunidade e como você pensa o
futuro de seu povo.
Círculo risc(lc/o no cheio renclo no centro um máchacto. com a I<imina enrerracla. o que
s ignifico: Pec1icto para que o rempom/ posse Jogo.

Créditos Fotográficos

os desenhos elas abertur<ls <I<: capítulo e c.Hivicl ~tdes s<1o motivos cl<1s p intums da c en:i mica
Te re na .

As fotogmfifls da Cole<;ilo llarcll<l Scllultz . 19 42 . I oram gentilmente cccli<las pelo Museu <lo
tmlio - RJ - Fl 'NAJ. Setor de 1\ntropolo~ia V isual. Os negativ os forélrn ampli a dos c
r<•tocados p or Sér~io B urglli.
. \~ foto~rafifls desta cole<; ilo aparc<.:em nas páginas : 1O. 1on. 1 13. 1 17. I 19. 121 . 122 .
1~4 . 125. 120. 127. 131. 132. foto inferior ela 13 5 . 139. 14 0 . 141. J45 . as cluas fotos da
14 7 . i<l('m na 148. I :i I l' 15:i .

Pe~gincl 1:i . fo to ele \ 'incent Cnr('lli Instituto Sócio Arnbiental ISA.

Púg ina 3 4 . Lamina ü2 : Mujcr transportando la c a rga e n una bolsa de


"caraguat<'t · IChaco) . C o!. ~tuseo . dia . 1 G6.
Lamina 23 : ~! ujer Lengua ~acanclo a gua de la planta " cél ra~unté'l ... G ruhb B .
1 1 1: pág. 1U3 . Los , \ #)Origenes ele/ Paraguoy IV C ultura Material. B ranlslava
S tJsnik. Mus eu Etno~ré'lfi o ··A ndrcs Barbero ... Asuncion Para~uay. I Ü 82 .

153
Página 43. Gu<:initá. c h e fe cJos g uam1s. A lbuquerque . c . de 1R26. a quarC'Ia. 28.7 x 25.1 na
pg . 44. A Descoberta cfn r\rnozc"min. {)~ D iários do Notumlista llerc uJ(>S F lorei1C<'.
Edito ra Marca O'Agua. São Paulo . 1995.

Página 4-4. Duas p irogas ele Guan<.is. 1 82 7. nml<Juim aguado. 19.9 x 30. 7 na pg. 43 .•~
oescoberru ctn Arnazõnia. Os D iários do Na turalista Ilernlles Plurence. Editora
Marca D'Agua. São Paulo. l905 .
-----
Página 54 . A Retirada da L aguna - Compos ição de Alv aro Marins ( Seth l na pg.2s 1. A
Retirado ela Laguna. A lfredo d'Escragnolle T aunay. V isconde cJe Taunay. Editora
comp. Melhorame ntos ele S. Paulo . 1935.

Página 5 7, Alfredo o· Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay. Rio de Jane iro· 22 d e


Fevereiro d e 18 43 - 25 ele Jane iro de 18U9. A Retiroda r1n Laç)uno. A l fredo
d'Escragnolle Taunay. EcHtora C omp . MC'Ihoramcntos d e S. Pa ulo . 1935.

Página 6 1. Cerimônia r e ligiosa dos lnclios Guélnás 130 de Março de 1866). Elllre os nossos
ínctios: C lwnés. Ten::nas. Gwmás. L a ianas. Guwó~. G uaycurus. Caingunu~ - São
Paulo, Museu Paulista. 193 1 .

Página 7 7. Aqui clois T e re na que comb<lteram na guerra. com uniformes de o fic ia i s e m


d esuso. pg 4 70, llistória dos Ínctios no B ras il. São Paulo. Companhia das L e tras
/ SE Munic ipa l d e São Paulo. / FAJ>ESP. I 992

Página 80. Na pg. oS ela revista o CRUZEIRO. 15 ele junho ele 1957.

Página 83 , Fotos d e G ilberto Azanha . Centro de Traball1o lndigenista. 198 1.

Púgina 9 2 . Né'l pg . 6 1 da revista O CRUZF.IRO. 15 el e junho <..le 1957.

Pt:lgina 94 . 1o. Bugrciros e s uas v ítimas 11 • A cervo s cs. nn pg 4 1. Os fnctios Xokleng .

Memó ria V isual. S ílv i o Coelho dos Santos. Ec1itora da UF SC · Univali. 1997 .

Páginas 100 c 1o 1. Foto 1 de Gill)erto Azanha. 1986. As demais el e Rogério Alves (.k
Rezende. 1997 . Centro de T rabalho tndigenista .

Púgina 108. Índios Gu aná. 116 rc 11les Flure n ce. na pg. :~29 . aquarc ln d e novembro d e 1827,
da povoação d e A lbuquerque (atual Corumbá> . Expedic;ão Lang~dorf­
Rugc nctos. Taunoy. Florcnce ( 182 1 · 182 9). Rio de Ja n e iro. A lumbramento,
1998 .

P.;tgina 12 0. Moç<-~ Ter em:l p rcpamndo seu enxoval. 1957 na pg.8o. D o ínctiu ( lO B u gre.
Robe rto Carcloso ele O live im . Fran c isco A lves. 1H76 .

Páginas 128 c 129. Acima. fotos d e ~lurilo Santos. 1989 . A baixo. ele Hogérin A lves ele
Rezende. 1997. Cent ro de T ra balho lncligenista.

Página 135. Foto s upe rior de Rogé rio A lves el e Rc·ze ncle . 1997. Centro de Tral)all1u
Indigenista.

Púgina 138. oescnt1os de frut as fei tos por a lunos T e rena .

154
Bibliogra fia

A<IL'IHHE. r-rancisco. ·c.rnografla clcl Cl1aco· - :\Tanusc riro dcl C<lpitC:t n de Fra~alél D. Juan
Francisco ~uirrc. Boletim <fel lnstituro <icogrúfico Argentino. U-J. Buenos , \ires. IHDR

AL\IEIDA SERH1\.Hicardo r:ranc o de. "1->c.m•ccr sobre o nlclcê:lrnento dos índios L'aicuru.s c
Ciunnás. com a clcsni<;üo ele seus usos. religióo . estal>ili<lncl<' c costurnes-. in Het 'istu do
lnstlllllo 1/istorico c CieoÇJreificu Brasileiro. voLVI!. Hto de Janeiro. 18-l-5

A LTENrEI.OER SILVA Fernando. "l\ludançn Cultural elo~ Terenn·. 111 Rel,istn rio 1\-luseu Poulistu.
Nm 'CI Série. Vol. 111 • Süo .J'>tlulo. 1U40.

_ _ - " Heligi8o Tcrcna" . In Leitura... de Emol<xJia Brnsildru São Pou/o. Companltia Editora
Nacional. 1 97fi.

AZANIIA.<Iilhcrto e YAI..i\DAO.Virgínia. Senllore,.,; clcstus Ten·o - os povos indíoen<ls no nrosil: cln


col()nio oos nossos dias . Sáo Paulo. Atual. 1OD7 .

AZANHA. Gilberto. "Hclatórios ele Trabalho sobre os Ten-na/ClT - Centro ele Trabalho
Jneligcnism. S<'lo P·du lo. 19R6 c 1unR.

RACII. .1 ... Da tos sol>rc los tnelios Tcrcnas ch • J'vliraneln·· In AnoJes de lo Sociedw /e Cientíjlc(l
Argentino. LXXXII . Bueno~ Aires. 1n 1o

BALDL 'S. I lerbert. "Lendas elos Índios Tcrcna·. In Het•istu Museu Paulista. Nova Série. vol.l'~ São
Paulo. 1950

BASTOS. Uacury Ril)ciro cJa. "Expansão territoria l elo 11rasil coU)nia no vale do P<.tra~t Jai ( 1 707·
180 I)" . In Boletim n" 4 PFLCII/ l'SP. Süo Paulo. I U78

CASTELNA . rr<'lncis de. ExpecJ;ções às Reyiões Centrois ctn t \mérica rio Sul. S<":lo Paulo . Cia Ecl.
Nacional. 194U (col. Brasiliana. v o l. 266).

Cl TNIIA. Manut'lct Carneiro da K>rg.J. llistôrio rios índios no Hmsil. Süo Paulo. Cia. elas Letras/ SE
1\tunicipal de Süo J>·aulo / FAJ>ESP. 1DD2

DAI.L'IGN A . Aryon Hodrigues. Línguus Bmsilcims. para o c onllecilllc'nto das lín[}WIS indíocnus.
S~lo P'dltlo. Edições Loyola. 1994- .

EXPEDIÇÃO Lan~sdorff ao Brasil. 1H:! I · 1829. lcononrojla du Arquil •o <la Academia de Ci~ncios
elo Rtíssiu . Hio de Janeiro. Edi<,úes Alumbmmcnto/ Li\'roartc Editora. 199R

f"'I.OHENCE. llerculcs. Viagem jlul'ial <lo -rietc; ao Amazonas de 1R2!> <I 182!.> . São Pdulo . Cultrix/
J:DL'SP. I D77.

_ _..•\ d e.scolx·nu cl<1 Alllazóniu- us di(lnos do nwum/isro 1 lerc ules Plorence npre.<;entodos por
.\lcíriu CnrC'IIi. Sfto Paulo. Editora ~lmca D'Agué\. 1995.

IIOL \.'>:DA. Sergio L3uarque (!c. o Exrremo Oeste. São Pc:tuJo. Brasiliense. 1986.

LADI :.IIV\. :\!mia Elisa e FERREIHA NETTO. \Valdemm. ~ PesquiSél sociolinguística elo uso da
ltng ua Ten.•n c1 no tnuni<: ípio de Miranda (MSl". Centro de Trabalho lncligcnista/
L'nive rsidatle ele &to P<.tuJo. S. Paulo. 1!J9H. Cdélt.l

1\t(:TRAl 'X. Alfred. "Estudios ele Etnográt1a Chaquensc..•". In AnoJes cle/Insmwo ele Ernooreifia
, \mericono. ( 'llil'ersictade 1\'ncionu/ ele Cuyo. 194-l-. vol. V

MONSEHRJ\T. Ruth. M . F ·Línguas Indígenas no Brasil ConrernporânC'Q" In /nctios no Bras il .


secretaria Municipal ele Ctdrum. SP. 1992.

ISS
NORDENSKIÓLD. Erlnn<.l. "La vie des in<liens dans te Chaco". In neuue de Géogmphit(. torne VI.
fascicule 111 . Paris. Lil)rarie CI1.Delagrave. s.d.

OBER<i. K aJervo. "Th e Terena and tl1e Caclwco of Southem Mato Grosso. Bra!'>il". In
lnstitutio n . tnstitite of Social Anthropolo~y. n°.9. Washington. 1949. -.
_ _. "Tercna social Organizacion and law· . In Arnencan Aillropologist Men<1sho. \Viscunsin.
Aprii-Junc. Vol. L . no 2.194-8.

OLIVEIRA. Roberto Cmdoso tlc. ·Preliminares de unw pesquisa sobre a assimilação dos --
Tercna". In Heuisru de Antropolcx;ia . vol. s. no 2. São Paulo. 1957

_ _ . L'rlxmizoção e Tribalismo - A inregraçclo elos ínctlos Terena numa socic>ctacte ele clw"ses.
Silo Paulo. Zahm Editores. 1 9m~

RONDON. Candiclo Mnriano - • Re latório elos trabalhos realizados ele 1 900- 1906 pela
Comissão ele Linhas Telegráficas do estado elo Mato Grosso". In Publicaç:do no 69-70
elo Conselllo Nncionol de Proreç;<io <lOS Índios. Ministério ela Agricultura • Rio de
Janeiro . Imprensa Nacional. l 049.

_ _ . Awos de Medição e Demorcação (10 Jpegue e Cachoeirinlln. município de Mironda. lnclios


Terenas. 1905. r-..ta nuscrito endereçado a o-Presidente elo Estado do Mato Grosso.
a tendendo ao ele-ereto 2 t 7 d e 6 de maio de 1904 - 1905 .

SPAL D ING. Walte r. 1\ inuasOo Poraguaio no B rasil. S~lü Paulo. Cia. Eclitora Nacional. 194-0.
<Col eçãoBrasiliana.vol. 1RS)

SUSNIK. Branislava. Los Aborígenes ele/ Pornguuy . Asuncion. P"draguay. Musl'o Etnográfico
"Andres 13arl'1ero". 1982.

TAUNAY. V isconde de . <Ai fr<'do d'Escragnollc). Scenos rtc Viagem: Exp/omçdo entre rios Tuquari e
Aquiclalionn no Distrito etc Miranda. Rio de Janeiro. 186~ .

_ _ . Entre os nossos ínclios: Cllnnc~s. Terenas. Gucmás. Lnianas. Guarós,.-


Guaycurus.Cningangs . São Paulo. Museu Paulista. 1 9~~ 1 .

_ _. A Rerirol la ctn Loguna . Episódio da ciuen"CI do Pamguui . 12 " edição. São Puulo.
Melhorarnc ntos. 1935.

kA Epopéia de Rondon·. In rcvistn O CRUZEIRO . 1-S ele junho.p;;lginas SG a 74, 19.57.

156
Este é un1 livro d él história do
povo Tercnu. un1a puJ..>L tlação de quase
ts .ooo pessoas. que h oje habita na
regi5o oeste do Mdto-G rosso elo Sul e ,
en1 rncnor parcela. no i r "l t e rior elo estado
<le São Paulo, pélra u qual foram
deslocaclos hé'l élp r c> xirnadarnentc
cincocnto anos. {)S Terena estão
dispersos crn un1 tcrrit<"'->rio fragmentado
en1 pequenas áreas e cercados por
granctes fnzcnrlas. Vivc." rn da agricultura
ele subsistência c do trat->alho tcrnporário
nas usinas ele c a na- d e-açúcar. I lá
tan1hérn un1 ~ranele nú m ero de Tere na
desaldeaclos. vivendo n a periferia de
grandes cid<:tcies. corno Campo Grande.
Miranda. Aquidauna e B r asília.
A equipe que cs c r eveu este livro
teve con1o preocupE\ ção vincular a
história do povo Terer1 a à história das
demais populacôcs b r asilei ras . Os
temas significativos da t r ajetório Tercna
articulam·se ao processo histórico dos
povos Aruák. <.1 colonização e ocupação
européiu nas terras elo sul do continente.
à {;uerra do J>·draguai. n 1.a rco divisório na
história desse 1>ovo ao l e var à rcdução
ctrástica dc scus tcrritóric._ >.s c às mudanças
, rnodcrnizantcs na reg i ão. Conhecer a
histór ia elo povo Tcrcn u é n1ais do que
saber sobre a viela c t ns populações
inctíg nas. É tarnbérn r pensar a história
do Brasil. É urn<:t his túri u ctos outros 300
anos.

Universidade de São Paulo


M I N I STÉRIO
D A EDU CAÇÃO
FUNOESCOLA
!Wt!tr!tMI$ e '' ...,_.,.,. I GOVERNO
..
FEDERAL
, I
I
I_........