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Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

PJe - Processo Judicial Eletrônico

27/09/2021

Número: 0706793-53.2021.8.07.0018
Classe: AçãO CIVIL COLETIVA
Órgão julgador: 3ª Vara da Fazenda Pública do DF
Última distribuição : 14/09/2021
Valor da causa: R$ 1.000,00
Assuntos: Atos Administrativos, Contratos Administrativos
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Advogados
SINDETRAN DF SINDICATO DOS TRABALHADORES EM
ATIVIDADES DE TRANSITO, POLICIAMENTO E
FISCALIZACAO DE TRANSITO DAS EMPRESAS E
AUTARQUIAS DO DF (AUTOR)
ANDRESSA MIRELLA CASTRO DIAS (ADVOGADO)
DANILO OLIVEIRA SILVA (ADVOGADO)
ULISSES RIEDEL DE RESENDE (ADVOGADO)
JULIANA ALMEIDA BARROSO MORETI (ADVOGADO)
VANESSA SANTOS DINIZ (ADVOGADO)
ALLISSON RODRIGO CASTRO TORRES (ADVOGADO)
RAFAEL TEIXEIRA MORETI (ADVOGADO)
DEPARTAMENTO DE TRANSITO DO DISTRITO FEDERAL
(REU)

Outros participantes
ASSOCIACAO NACIONAL DAS EMPRESAS
FRANQUEADORAS DE SERVICOS DE VISTORIAS -
ANFRAVIST (INTERESSADO)
ITAMAR LUIGI NOGUEIRA BERTONE (ADVOGADO)
MINISTERIO PUBLICO DO DISTRITO FEDERAL E DOS
TERRITORIOS (FISCAL DA LEI)
CONSELHO NACIONAL DE VISTORIAS VEICULARES
(INTERESSADO)
HENRIQUE STANISCI MALHEIROS (ADVOGADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
104245215 27/09/2021 Decisão Decisão
14:15
Poder Judiciário da União
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

3VAFAZPUB
3ª Vara da Fazenda Pública do DF

Número do processo: 0706793-53.2021.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO CIVIL COLETIVA (63) - Atos Administrativos (9997)

AUTOR: SINDETRAN DF SINDICATO DOS TRABALHADORES EM ATIVIDADES DE TRANSITO,


POLICIAMENTO E FISCALIZACAO DE TRANSITO DAS EMPRESAS E AUTARQUIAS DO DF

REU: DEPARTAMENTO DE TRANSITO DO DISTRITO FEDERAL

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Vistos etc.

Trata-se de Ação de Conhecimento com pedido de Tutela de Urgência ajuizada pelo


SINDICATO DOS SERVIDORES DAS CARREIRAS QUE COMPÕEM OS
ÓRGÃOS E ENTIDADES DE TRÂNSITO DO DISTRITO FEDERAL
(SINDETRAN/DF) em desfavor do DEPARTAMENTO DE TRÂNSITO DO
DISTRITO FEDERAL – DETRAN/DF, buscando, antecipadamente, a suspensão dos
efeitos da Instrução Normativa n° 230/2021, em especial o início das atividades de vistoria
veicular pelas empresas credenciadas no DODF de 14/09/2021, que, segundo a mídia, com
base nas declarações do Diretor-Geral do Detran/DF, iniciarão suas atividades no dia
15/09/2021, até o julgamento do mérito desta ação.

Narra que, em 26/03/2021, a Gerência de Exame, Inspeção Técnica Veicular e de


Emissão de Gases Poluentes, por intermédio do Núcleo de Exame Veicular e de Emissão de
Gases Poluentes de Brasília, propôs à Diretoria de Policiamento e Fiscalização do
DETRAN/DF, por meio do Relatório SEI n° 1/2021, um Acordo de Produtividade com o
intuito de atender os anseios da população no que concerne aos serviços de vistoria veicular.

Informa ter sido proposto que cada agente de trânsito deveria realizar a capacidade máxima
individual de produção de 20 (vinte) vistorias veiculares diárias, em consonância com que
foi pactuado anteriormente entre o Detran/DF e o TCDF, nos autos do Processo
Administrativo n° 00055-00107644/2018-48.

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Cita outras sugestões contidas no referido acordo, tais como: (I) adequação do sistema de
informática; (II) aquisição de equipamentos; (III) manutenção do pagamento do serviço
voluntário gratificado; e (IV) qualificação dos agentes responsáveis pelas vistorias.

Anuncia a proposta de acordo ter se originado em razão dos problemas ocasionados no


sistema de informática responsável pela regulação das vistorias veiculares junto ao
Detran/DF, argumentando que o subutiliza nas vistorias realizadas em aproximadamente
25% (vinte e cinco por cento), ocasionando transtornos à população, vez que embora conste
as agendas como preenchidas, na verdade não estão.

Declara que o sistema de agendamento de vistorias não permite a baixa das que foram
antecipadas e/ou canceladas, constando, assim, as agendas como preenchidas, mas que não
reflete a realidade.

Ressalta falhas no sistema de informática do Detran/DF, o que prejudica a prestação do


serviço público decorrente da realização de vistorias veiculares, sendo tal fato objeto de
inúmeras reclamações pelos servidores. Todavia, noticia que a área de informática do órgão
finaliza os chamados, mas sem resolução do problema.

Conta ter encaminhado ofício, no ano de 2020, ao então Diretor-Geral do Detran/DF, sobre
informações solicitadas em audiência do dia 07/01/2020, em que trouxe à baila diversas
situações e impedimentos legais que inviabilizariam a terceirização da atividade de vistoria
veicular no âmbito do Distrito Federal.

Alega ter apresentado Interpelação Extrajudicial em 27/01/2021, precisamente quanto à


manutenção da designação de servidores para composição da comissão especial designada
por meio da Portaria n° 198/2019, cujo objetivo era promover estudos para apresentação de
projeto de contratação de ferramenta de solução completa para serviços de remoção, guarda,
vistoria e leilão de veículos apreendidos.

Alude que a mencionada Portaria dispôs, em seu artigo 2°, que a Comissão designada teria o
prazo de 30 (trinta) dias para emitir um relatório conclusivo sobre a viabilidade de
modernização dos serviços, dentre eles, o de vistoria veicular.

Diz ter requerido cópia do relatório conclusivo, bem como esclarecimentos quanto à
observância das vedações estipuladas no Decreto Distrital n° 39.978/2019 e acerca da
existência de outras Portarias ou Comissões criadas posteriormente à Portaria n° 198/2019
com o mesmo objetivo.

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Quanto a tais pedidos, assevera ter o Detran/DF se limitado a informar, por meio do Ofício
n° 322, de 11/02/2021, que após consulta à Procuradoria Jurídica não havia qualquer questão
jurídica a ser dirimida.

Salienta que desde 2017 vem informado o Detran/DF sobre os problemas do sistema de
informática e, consequentemente, os de vistoria veicular, buscando esclarecimentos, mas a
autarquia não responde ou, quando o faz, apresenta respostas não conclusivas.

Segundo o autor, mesmo sem o órgão ter resolvido os problemas do sistema de TI, a
Instrução n° 230/2021, ora combalida, foi publicada dando conhecimento aos interessados
em efetuar o credenciamento de empresas especializadas no ramo de vistoria veicular.

Considera haver uma correlação entre as falhas no sistema de informática responsáveis pela
vistoria dos veículos e, consequentemente, a edição da referida Instrução, a qual promoveu o
credenciamento das atividades de vistoria.

Acresce o fato de ter enviado ofício, em 20/04/2021, ao Secretário de Estado de Segurança


Pública do Distrito Federal, contendo uma série de ponderações, dentre elas, a segurança da
malha veicular e demais inconsistências na abertura do procedimento de credenciamento.
Certifica ter encaminhado recomendação do Ministério Público Federal, a fim de que o
Detran/DF se abstivesse de aplicar a questão de vistorias veiculares no âmbito do Distrito
Federal.

Enfatiza causar estranheza que, antes da abertura do processo de credenciamento, algumas


empresas já estarem oferecendo os serviços de vistoria veicular, apontando que o
interessado, caso seja contratado, poderá auferir o faturamento de R$ 20.000,00 (vinte mil
reais) ao mês.

Por essa razão, postula a suspensão, em caráter de tutela de urgência, dos efeitos da Instrução
n° 230/2021, diante da possibilidade de ocasionar prejuízo à categoria de servidores do
Detran/DF e à população indiretamente, em razão da suposta ilegalidade na realização das
atividades de credenciamento de vistoria veicular.

De outra acepção, nos termos do art. 22, inciso IX e XI, da Constituição Federal, descreve
que compete privativamente a União legislar sobre as diretrizes da política nacional de
transportes e sobre trânsito e transporte.

Sobre os critérios de competência, faz alusão ao artigo 22 do Código de Trânsito Brasileiro,


de que compete aos órgãos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, no âmbito de sua

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circunscrição, vistoriar, inspecionar as condições de segurança veicular, registrar, emplacar e
licenciar veículos, com a expedição dos Certificados de Registro de Veículo e de
Licenciamento Anual, mediante delegação do órgão máximo executivo de trânsito da União.

Tece considerações a respeito da sistemática legislativa sobre a atividade de vistoria, fazendo


referência aos normativos legais sobre a matéria, consignando que a veicular decorre do
poder de polícia da Administração, além de ser matéria reservada a competência legislativa
privativa da União.

Explana que a modalidade de credenciamento, contida no artigo 1° da Instrução n°


230/2021, não encontra previsão na legislação, mas está sendo conceituada como um sistema
por meio do qual a Administração Pública convoca todos os interessados em prestar serviços
ou fornecer bens, para que, preenchendo os requisitos necessários, credenciem-se junto ao
órgão para executar o objeto, quando convocados, pressupondo pluralidade de interessados
e indeterminação do número exato de prestadores do serviço.

Garante que, na realidade, há inexigibilidade de licitação, pois não é possível limitar o


número exato de contratados, mas há a necessidade de contratar todos os interessados, o que
inviabiliza a competição.

Consigna a atividade de vistoria veicular decorrer do poder de polícia, consistente na


finalidade do órgão de trânsito (artigo 3°, inciso II, Decreto Distrital n° 27.784/07), tendo
como objetivo a fiscalização das normas relativas ao licenciamento e regularidade dos
veículos perante a legislação, configurando serviço público, mediante o pagamento de taxa.

Realça que a prestação do serviço público é privativa do Estado, podendo ser exercida por
particular, desde que por delegação e precedida de licitação (artigo 37, inciso XXI, e artigo
175, ambos da CF), o que entende não ser o caso dos autos.

Sublinha a inspeção veicular realizada pelo particular não ser mera delegação de atos
materiais preparatórios, mas ao revés, configurando o próprio exercício do poder de polícia
por pessoa privada.

Aponta ser a inspeção veicular obrigatória e compulsória, ensejando a cobrança de taxa,


decorrente do exercício do poder de polícia. Aduz que a taxa, diferentemente da tarifa, só
pode ser exigida por pessoas jurídicas de direito público, de modo que deve ser paga à
Administração Pública e não pode ser delegada à empresa privada.

Pronuncia a Instrução n° 230/2021 ter outorgado, indevidamente, o exercício do poder de

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polícia a particular, afrontando os princípios basilares do direito público, colacionando
reportagens de que a terceirização das atividades de vistoria de trânsito é vetor para desvio
de finalidade e corrupção nos órgãos de trânsito estaduais e distrital.

Observa, nos termos do artigo 22 da Instrução n° 230/2021, que para o exercício da atividade
de vistoriador exige-se apenas certificado ou diploma de conclusão do curso de identificação
veicular, ministrado por entidades públicas e/ou privadas.

Pontua que o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA/DF) encaminhou ao


Diretor-Geral do Detran/DF, por meio do Ofício n° 112/2021, uma série de apontamentos e
questionamentos quanto a Instrução n° 230/2021.

Pleiteia a concessão da tutela antecipada para que seja determinada a suspensão dos efeitos
da Instrução n° 230/2021, em especial o início das atividades de vistoria veicular pelas
empresas credenciadas no DODF de 14/09/2021, que, segundo a mídia, segundo declarações
do Diretor Geral do DETRAN/DF, iniciarão suas atividades no dia 15/09/2021, até
julgamento de mérito desta ação.

No mérito, pede a procedência dos pedidos iniciais para que seja considerada ilegal a
promoção de credenciamento de empresas privadas para a realização das atividades de
vistoria veicular, nos termos da Instrução n° 230/2021. Pleiteia a condenação do réu no
pagamento das custas processuais e honorários de sucumbência.

Protesta a produção de todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente a


documental.

Deu à causa do valor de R$ 1.000,00 (mil reais).

Custas recolhidas (ID 103078015).

Em decisão de ID 103081048, determinei a intimação do Detran-DF para se manifestar


acerca do pedido liminar, no prazo de setenta e duas horas, em analogia ao que preceitua o
art. 2º da Lei nº 8.437/1992. Cautelarmente, suspendi os efeitos e a eficácia da Instrução nº
230/2021, especialmente no que tange ao início das atividades de vistoria veicular pelas
empresas credenciadas no DODF de 14/09/2021, até que fosse apreciado o pedido de tutela
antecipada.

O DETRAN/DF apresentou manifestação (ID 103161705). Diz que o Sindicato-autor utiliza


argumentos absolutamente genéricos e desprovidos de sustentação fática, quando afirma que

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falhas nos sistemas de informática são o principal motivo da mudança na prestação do
serviço de vistoria. Verbera o agendamento prévio das vistorias ter sido uma necessidade em
virtude da pandemia, o que resultou em aumento de produtividade da autarquia, conforme
dados ora trazidos.

Apesar disso, assinala que o serviço é considerado ruim pela maior parte da população do
Distrito Federal, em especial por conta da demora para a realização da vistoria ou em virtude
do pagamento de altos valores a despachantes. Para corroborar, menciona que o Tribunal de
Contas do Distrito Federal insistentemente tem exigido mudança na prestação do serviço
público de vistoria, conforme Decisões nº 3519/2015, nº 490/2018 e nº 3606/2020.

Explica ser o serviço ineficiente e também muito caro, tendo o Detran/DF despendido entre
os anos de 2018 e 2020 mais de R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais), somente para
manter os postos de atendimento de vistorias.

Reforça que o Detran/DF não está criando nada novo, tendo em vista que diversos outras
Estados da Federação já vêm utilizando esse novo modelo de vistoria veicular.

Complementa que o pedido contido na exordial não encontra amparo na jurisprudência, nas
decisões do TCDF e nem na atual posição do MPDFT, destacando que os precedentes
citados pelo autor não se aplicam ao caso em tela.

Frisa que embora o entendimento do col. STF seja consolidado no sentido de que a referida
matéria é de competência legislativa privativa da União Federal, segundo artigo 22, inciso
XI, da CF, no caso dos autos o Distrito Federal não legislou sobre a vistoria veicular, mas
apenas foi editada pelo Detran/DF a Instrução n° 230/2021, observando estritamente os
limites da Resolução nº 466 do CONTRAN.

Insurge-se contra os argumentos contidos na inicial de que a Instrução nº 230/2021 delegou


poder de polícia para particulares, aduzindo não ser verdade, citando os artigos 59 e 60 para
demonstrar que apenas os atos materiais estão sendo delegados, mas que o Detran/DF
continuará tendo a palavra final sobre o procedimento fiscalizatório.

Faz referência a decisão proferida pelo TCDF, nos autos do Processo nº 00600-
000032325021-18, de que a Instrução nº 230/2021-Detran/DF buscou apenas disciplinar o
exercício de possibilidade já prevista na Resolução nº 466/2013 do CONTRAN, não
havendo que se falar em invasão de competência privativa da União.

Notabiliza ter sido o credenciamento das empresas de vistoria tratado presencialmente com o

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Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, conforme Ata de Reunião de 04/2021,
ora colacionada.

Manifesta que a Instrução nº 230/21 do Detran/DF adota o mesmo modelo de outros Estados
da Federação e está amparada na Resolução nº 466/13 do Contran. Não encontra óbice na
jurisprudência do col. STF e diante da ausência de decisões favoráveis tanto no âmbito do
TCDF quanto em reunião realizada junto ao MPDFT inexiste cogitar na fumaça do bom
direito em favor do Sindicato-autor.

Verbera a ausência do periculum in mora, porque as vistorias serão realizadas nos estritos
limites da Resolução nº 466/2013 do Contran, contando sempre com a validação final do
Detran/DF, não havendo que se falar em transferência do poder de polícia. Na realidade,
considera ser o periculum in mora inverso, pois não se pode perpetuar a prestação de um
serviço inadequado em desfavor de toda a população do Distrito Federal.

Solicita a revogação da tutela de urgência, restaurando-se, até o julgamento final deste


processo, a completa eficácia da Instrução 230/21 do Detran/DF.

Sobreveio petição (ID 103199125) do Conselho Nacional de Vistorias Veiculares – CNVV,


requerendo seu ingresso na lide como assistente simples da parte ré (Detran/DF),
argumentando possuir interesse jurídico no feito, a fim de demonstrar que a atividade de
vistoria veicular realizada pelas empresas credenciadas traz um serviço de qualidade à
população e emprega a tecnicidade prevista em lei.

Deferi o ingresso na lide do Conselho Nacional de Vistorias Veiculares (CNVV) como


assistente simples do Detran/DF, bem como determinei a remessa dos autos ao MPDFT para
manifestação, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, acerca do pedido de tutela de urgência
(ID 103259135).

A Associação Nacional dos Franqueadores de Serviços de Vistoria (ANFRAVIST) requereu


seu ingresso na lide como assistente simples do réu (ID 103553077). Assegura ter interesse
na lide, na forma do artigo 119 do CPC, a fim de que a sentença seja favorável ao
Detran/DF, aduzindo que as redes associadas, denominadas Empresas Credenciadas em
Vistoria de Veículos (ECV), são responsáveis por aproximadamente 600 (seiscentas)
unidades de atendimento e pela emissão de quase 150.000 (cento e cinquenta mil) laudos por
mês.

Deferi o ingresso na lide da Associação Nacional dos Franqueadores de Serviços de Vistoria

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(ANFRAVIST) como assistente simples do Detran/DF, determinando que aguardasse
manifestação do MPDFT ou decurso do prazo. Após, retornassem conclusos para decisão
acerca do pedido de tutela de urgência (ID 103582458).

O Detran/DF requereu a notificação do MPDFT por Oficial de Justiça (ID 103603539).


Acolhi o pedido e determinei providências ao CJU (1ª a 4ª), conforme ID 103623607.

O MPDFT oficiou pelo indeferimento do pedido de tutela de urgência, ao argumento de que


a coordenação de vistoria veicular e documental serão exercidas, preferencialmente, por
integrantes do cargo de agente trânsito, entendendo que a atribuição dos agentes de trânsito
para realização das vistorias não é absoluta, citando normativos legais acerca da matéria (ID
103857883).

Os autos vieram conclusos.

É o RELATÓRIO. DECIDO.

Presentes os pressupostos processuais e as condições da ação, passo a analisar o pedido


de tutela de urgência.

O Código de Processo Civil, em seu artigo 300 e seguintes, condiciona a concessão da tutela
de urgência à presença de elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de
dano ou risco ao resultado útil do processo.

A tutela provisória de urgência, para ser deferida, demanda a presença de dois requisitos
cumulativos: periculum in mora e fumus boni iuris, conforme vaticina abalizada doutrina:

“Mas o perigo de dano não é suficiente quando a tutela final não é provável. Trata-se
da probabilidade relacionada à conhecida locução “fumaça do bom direito” ou
“fumus boni iuris”. Para obter a tutela de urgência – cautelar ou antecipada – o autor
deve convencer o juiz de que a tutela final provavelmente lhe será concedida. A
admissão de uma convicção de probabilidade como suficientemente à concessão da
tutela urgente decorre do perigo de dano, a impor solução jurisdicional
imediatas[1]”.

Dado o caráter excepcional da medida, cumpre à parte requerente demonstrar, de plano, a

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presença de ambos os requisitos autorizadores, probabilidade do direito e o perigo de dano
ou risco ao resultado útil do processo, sem os quais não se faz possível a concessão da tutela
de urgência.

A antecipação, total ou parcial, dos efeitos da tutela pretendida, somente pode ser deferida
quando, existindo prova inequívoca, o julgador se convença da verossimilhança da alegação
e haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação.

O Sindicato-autor, em sede de tutela de urgência, pretende a suspensão dos efeitos da


Instrução n° 230/2021 do Detran/DF, em especial o início das atividades de vistoria veicular
pelas empresas credenciadas no DODF de 14/09/2021, até o julgamento de mérito desta
ação.

Para tanto alega que o assunto abordado na referida Instrução é de competência privativa da
União, entendendo que o Detran/DF usurpou a competência. Afirma ser o poder de polícia
indelegável, o qual não pode ser transferido para o exercício de vistorias veiculares, pena de
afronta os princípios basilares de direitos e aos normativos de regência.

De outra forma, o Detran/DF defende que não possui amparo os argumentos expostos na
inicial, aduzindo que a Instrução nº 230/2021 observou estritamente os limites da Resolução
nº 466 do Contran, citando que o TCDF nos autos do Processo nº 00600-000032325021-18
já se manifestou acerca da legalidade da referida Instrução. Complementa que o MPDFT
participou de reunião sobre o credenciamento das empresas de vistorias, conforme consta da
Ata de abril de 2021, ora acostada ao feito.

De início, cediço que certas prerrogativas são conferidas à Administração Pública com a
finalidade de resguardar o interesse público coletivo. De outro lado, a lei impõe ao
administrador deveres específicos com a finalidade de regular a execução de sua atuação,
amparado em seu poder-dever.

Sem embargo, a atuação estatal está limitada à vinculação legal, de modo a preservar os
direitos fundamentais, ainda que diante do interesse público. Os poderes administrativos
podem ser entendidos como mecanismos colocados à disposição dos agentes públicos para
que, atuando em nome do Estado, alcancem a finalidade pública.

O poder de polícia possui natureza instrumental, apresentando-se como medida limitadora de


direitos, cuja função primordial visa resguardar a ordem social, sendo dotado de
autoexecutoriedade, imperatividade e discricionariedade.

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Em nosso ordenamento jurídico, o poder de polícia encontra previsão no artigo 145, inciso
II, da CF[2] e no artigo 78, do CTN[3]. Contudo, em que pese a margem de
discricionariedade atribuída a este poder, como instrumento de controle das atividades do
Poder Público, necessário observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade em
cada caso concreto.

De acordo com o entendimento majoritário da doutrina, os atos passíveis de delegação no


exercício do Poder de Polícia são os de fiscalização e de consentimento, sendo indelegáveis
os atos de legislar e de aplicar sanção.

Segundo o doutrinador Matheus Carvalho, é possível dividir a atividade de poder de polícia


em quatro ciclos, da seguinte forma: (1°) ordem de polícia; (2°) consentimento de polícia;
(3°) fiscalização de polícia; e (4°) sanção de polícia. Confira-se:

“A ordem de polícia decorre do atributo da imperatividade, impondo restrições aos


particulares, dentro dos limites da lei, independentemente de sua concordância, como
ocorre, por exemplo, nos casos em que se veda a aquisição de armas de fogo, se
proíbe o estacionamento de veículos em determinada avenida, entre outros.

O consentimento de polícia está presente nas hipóteses em que a lei autoriza o


exercício de determinada atividade condicionada à aceitabilidade estatal. Pode
se manifestar por meio de autorizações e licenças.

O terceiro ciclo decorre da possibilidade conferida ao ente estatal de controlar


as atividades submetidas ao poder de polícia, com o intuito de verificar seu
cumprimento, podendo, para tanto, se valer de inspeções, análise de
documentos, entre outras formas.

Por fim, a atividade de polícia administrativa pode ensejar a aplicação de


penalidades, notadamente, nas situações em que se verifica o descumprimento das
normas impostas pelo poder público, justificando a culminação de sanções, como
multas e embargos de obras, por exemplo[4].”

Neste passo, o consentimento de polícia e a fiscalização de polícia são delegáveis, tendo em


vista que dizem respeito ao poder de gestão do Estado. Já a ordem de polícia e a sanção de
polícia são indelegáveis por retratarem atividade de império, típicas do poder estatal.

Sob outro enfoque, cabe mencionar que o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) foi
criado, no dia 23 de setembro de 1997, com base nos preceitos estabelecidos da Constituição

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Federal (CF), o qual encontra-se em vigor até a presente data.

O CTB tem como escopo garantir a segurança no trânsito, conforme teor de seu artigo
1º, §2º, no sentido de ser um direito de todos e dever dos órgãos e entidades componentes do
Sistema Nacional de Trânsito, cabendo a esses, no âmbito das respectivas competências,
adotar as medidas destinadas a assegurar esse direito.

Para alcançar os objetivos previstos no CTB faz-se necessária uma atuação permanente e
sistemática dos órgãos e entidades que compõem o Sistema Nacional de Trânsito (SNT), do
qual fazem parte o Contran – órgão máximo normativo, consultivo e coordenador da política
nacional de trânsito – e o Denatran – órgão máximo executivo de trânsito da União.

O artigo 12 do CTB prevê as competências atribuídas ao Contran, dentre elas, estabelecer


normas regulamentares, diretrizes da Política Nacional de Trânsito (PNT), normatizar os
procedimentos de aprendizagem, habilitação, expedição de documentos de condutores,
registro e licenciamento de veículos.

No tocante às competências atribuídas ao Denatran, encontra previsão no artigo 19 do CTB,


dentre as quais, destaco: fazer cumprir a legislação de trânsito, executar as normas e
diretrizes estabelecidas pelo Contran; elaborar e submeter à aprovação do Contran as normas
e requisitos de segurança veicular para fabricação e montagem de veículos, consoante sua
destinação.

Registro, entretanto, que o Contran atua por meio de Resoluções, cujos atos administrativos
possuem cunho complementar às normas de trânsito, com a finalidade de zelar pela
uniformidade e cumprimento delas. Já o Denatran atua por meio de Portarias, as quais
contém instruções acerca da aplicação de leis ou regulamentos, recomendações de caráter
geral, execução de serviço ou qualquer outra determinação de sua competência.

Lado outro, vale destacar que a União, no exercício de sua competência privativa, poderá
conferir atribuições executivas e competências legislativas complementares sobre política de
educação e fiscalização de trânsito aos demais entes federados, conforme dicção do artigo
22, parágrafo único, e artigo 24 da Carta Magna.

Por questões de competência, o artigo 22 do CTB, atribuiu competência aos órgãos ou


entidades executivas de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, dentre outras, para
vistoriar, inspecionar as condições de segurança veicular, registrar, emplacar e licenciar
veículos, com a expedição dos Certificados de Registro de Veículo e de Licenciamento

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Anual, mediante delegação do órgão máximo executivo de trânsito da União, ou seja, o
Contran, como forma de garantir a segurança e fiscalização dos veículos automotores.
Confira-se:

Art. 22. Compete aos órgãos ou entidades executivos de trânsito dos Estados e
do Distrito Federal, no âmbito de sua circunscrição: (...)

III - vistoriar, inspecionar as condições de segurança veicular, registrar,


emplacar e licenciar veículos, com a expedição dos Certificados de Registro de
Veículo e de Licenciamento Anual, mediante delegação do órgão máximo
executivo de trânsito da União.

De mais a mais, a vistoria de veículos terrestres é atividade regulamentada pelo Conselho


Nacional de Trânsito (Contran), em atendimento aos artigos 130 e 131 do CTB, in verbis:

Art. 130. Todo veículo automotor, elétrico, articulado, reboque ou semi-


reboque, para transitar na via, deverá ser licenciado anualmente pelo órgão
executivo de trânsito do Estado, ou do Distrito Federal, onde estiver registrado
o veículo.

§ 1º O disposto neste artigo não se aplica a veículo de uso bélico.

§ 2º No caso de transferência de residência ou domicílio, é válido, durante o


exercício, o licenciamento de origem.

Art. 131. O Certificado de Licenciamento Anual será expedido ao veículo


licenciado, vinculado ao Certificado de Registro de Veículo, em meio físico e/ou
digital, à escolha do proprietário, de acordo com o modelo e com as
especificações estabelecidos pelo Contran.

§ 1º O primeiro licenciamento será feito simultaneamente ao registro.

§ 2º O veículo somente será considerado licenciado estando quitados os débitos


relativos a tributos, encargos e multas de trânsito e ambientais, vinculados ao
veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações cometidas. (Vide
ADIN 2998)

§ 3º Ao licenciar o veículo, o proprietário deverá comprovar sua aprovação nas


inspeções de segurança veicular e de controle de emissões de gases poluentes e de
ruído, conforme disposto no art. 104.

§ 4º As informações referentes às campanhas de chamamento de consumidores para


substituição ou reparo de veículos não atendidas no prazo de 1 (um) ano, contado da

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data de sua comunicação, deverão constar do Certificado de Licenciamento Anual.

§ 5º Após a inclusão das informações de que trata o § 4º deste artigo no Certificado


de Licenciamento Anual, o veículo somente será licenciado mediante comprovação
do atendimento às campanhas de chamamento de consumidores para substituição ou
reparo de veículos.

Neste ponto, os normativos legais para serem considerados válidos devem obedecer às
disposições contidas nas normas superiores. Desse jeito, todo o ordenamento jurídico –
Constituição Federal, Lei Ordinária, Resoluções e Portarias –, que trata a respeito da
realização de vistoria veicular, é válido. Isso porque, ao que parece, o CTB respeitou a CF,
bem como as resoluções do Contran respeitaram as determinações da Carta Magna.

Atente-se que o CTB previu a possibilidade de o Contran delegar aos órgãos dos Estados e
do Distrito Federal a atribuição para realização de vistoria veicular, dentre outras.

Impede registrar que as Resoluções vêm sendo exaradas pelo Contran conforme a
necessidade do momento. Com o crescimento da frota de veículos e a ausência de
investimento do Estado às condições de realização das vistorias pelos órgãos de trânsito
estaduais e distrital, com constante filas e falta de pessoal, culminaram em inúmeras
reclamações pela população e pelos servidores.

Por essa razão, após o advento do CTB, o órgão máximo de trânsito (Contran), com o
decorrer dos anos, vem expedindo Resoluções acerca do assunto.

No que concerne aos autos, imperioso mencionar a publicação da Resolução nº 466/2013 do


Contran, a qual tratou sobre a atividade de vistoria de identificação veicular a ser realizadas
pelos órgãos de trânsito estadual e distrital ou pessoa jurídica privada, contendo a seguinte
redação em seu artigo 1º:

Art. 1º Esta Resolução estabelece procedimentos para o exercício da atividade de


vistoria de identificação veicular a ser realizada pelos órgãos e entidades
executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, ou por pessoa jurídica
de direito público ou privado, habilitada para a prestação dos serviços de
vistoria veicular.

§ 1º A habilitação para a realização do serviço de que trata esta Resolução


constitui atribuição dos órgãos e entidades executivos de trânsito dos Estados e
do Distrito Federal.

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Posteriormente, sobreveio a Instrução Normativa n° 230/2021, de lavra do Detran/DF, em
09/04/2021, dispondo sobre o credenciamento de empresas especializadas no ramo de
vistoria veicular, consoante previsão de seu artigo 1º. Mire-se:

Art. 1º Tornar público, para o conhecimento dos interessados, que o


Departamento de Transito do Distrito Federal - Detran/DF efetuará
Credenciamento de empresas especializadas no ramo de Vistoria Veicular, para
prestação dos serviços de vistoria de identificação veicular no âmbito do
Distrito Federal por ocasião da transferência de propriedade, mudança de
unidade da federação, mudança de cor, mudança de categoria, emissão e/ou
geração de certificados, e demais situações previstas em Resoluções do Contran,
tudo de acordo com os termos desta Instrução e seus respectivos anexos,
inclusive o Projeto Básico, bem como em consonância com a legislação de
regência.

Nesta senda, ao que parece, a Instrução nº 230/2021 do Detran/DF observou os limites


previstos na Resolução nº 466/2013 do Contran, agindo dentro dos estabelecidos pela
legislação de regência, visto que a citada norma federal atribuiu a competência aos órgãos de
trânsito dos Estados e do Distrito Federal quanto à habilitação para regularização de serviços
de vistoria de identificação veicular, nos termos do artigo 1º, §1º, da Resolução nº 466/2013
– Contran.

Repiso que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) além de coordenador, é o órgão


máximo normativo e consultivo do Sistema Nacional de Trânsito, conforme dicção do artigo
7º do Código de Trânsito Brasileiro, sendo, portanto, competente para designar atribuições
aos órgãos de trânsito estadual ou distrital.

De mencionar que a Resolução nº 466/2013 do Contran previu aos órgãos e entidades de


trânsito dos Estados e do Distrito Federal a possibilidade de exercer diretamente a atividade
de vistoria de veículos automotores, por intermédio de seus servidores públicos
especialmente designados para a função, nos termos do §2º, do artigo 1º. Confira-se:

§ 2º Os órgãos e entidades executivos de trânsito dos Estados e do Distrito


Federal poderão exercer diretamente a atividade de vistoria de veículos
automotores por meio de servidores públicos especialmente designados.

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Contudo, o referido dispositivo atribuiu uma faculdade quanto à possibilidade de execução
da atividade de vistoria de forma direta pelo órgão de trânsito estadual ou distrital, e não uma
obrigação. Desta maneira, dentro de seu poder discricionário e das hipóteses moralmente
aceitas, pode a entidade decidir qual a forma entende ser mais benéfica para a prestação dos
serviços de vistoria à população, ou seja, se diretamente ou por delegação.

Em contrapartida, verifico que a Instrução nº 230/2021 – Detran/DF consigna que somente


poderá participar do chamamento pessoas jurídicas, cujo contrato social conste do seu
objeto, de maneira exclusiva, o ramo de vistoria veicular, consoante previsão de seu artigo
4º.

No mais, ao que parece, a referida Instrução garantiu a publicidade dos atos pertinente à
vigência do credenciamento, bem como determinou ao Detran/DF a concessão de
informação ao Denatran acerca de eventuais irregularidades constatadas na emissão dos
laudos de vistorias pelas empresas credenciadas, a indicar o exercício de fiscalização pela
autarquia nos atos materiais delegados às pessoas jurídicas privadas, a priori.

Neste sentido, os dispositivos extraídos da Instrução:

Art. 10. A habilitação de pessoas jurídicas para a realização de vistorias de identificação veicular
será concedida através de Instrução, publicada no Diário Oficial do Distrito Federal e respectivo
Termo de Credenciamento, ambos expedidos pelo Detran/DF.

Parágrafo único. A habilitação de que trata o caput será realizada anualmente, de acordo com o
chamamento público divulgado pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal.

Art. 11. O Detran/DF informará ao Denatran eventuais irregularidades constatadas na emissão


dos laudos de vistoria de veículos realizados pelas pessoas jurídicas credenciadas e registrados no
Sistema de Certificação de Segurança Veicular e Vistorias - SISCSV, mantido pelo Denatran.

Art. 12. A publicidade relativa à vigência do credenciamento de que trata esta Instrução se dará
por meio do Diário Oficial do Distrito Federal.

Para mais, evidencio que o capítulo III, da Instrução n° 230/2021, traz os requisitos a serem
preenchidos pelas empresas interessas no credenciamento junto ao Detran/DF,
demonstrando, a princípio, que apenas serão habilitadas empresas que possuem capacidade
para atuar no ramo, a saber:

Art. 16. A pessoa jurídica interessada em exercer a atividade prevista nesta

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Instrução, segundo os critérios instituídos pelo Código de Trânsito Brasileiro,
bem como as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Trânsito e
Departamento Nacional de Trânsito, será habilitada pelo Detran/DF, após
demonstrar o cumprimento dos seguintes requisitos:

I - Habilitação da pessoa jurídica;

II - Regularidade fiscal e trabalhista;

III - Qualificação técnica e financeira; e

IV - Qualificação técnica-operacional.

§ 1º A documentação exigida deve ser entregue em cópia reprográfica


autenticada em cartório, com exceção das certidões e atestados que deverão ser
entregues em original, assim como as declarações firmadas pelo representante
legal da empresa.

§ 2º Na hipótese de não constar prazo de validade nas certidões exigidas, serão


consideradas válidas aquelas expedidas até 60 (sessenta) dias anteriores à data de sua
apresentação.

A Instrução nº 230/2021 também determinou ao Detran/DF a realização de teste de


integração e conformidade técnico-operacional no estabelecimento da pessoa jurídica
interessada, demonstrando, a priori, que os atos materiais delegatórios devem estar em
conformidade aos normativos legais de regência, nos termos do artigo 40.

Outrossim, vale frisar que o objetivo da vistoria de identificação veicular restou plenamente
estabelecido na Instrução em comento, inclusive em plena sintonia aos preconizados na
Resolução Federal nº 466/2013-Contran, senão vejamos:

Art. 52. A Vistoria de Identificação Veicular tem como objetivo verificar:

I - A autenticidade de identificação do veículo e da sua documentação;

II - A legitimidade da propriedade;

III - Se o veículo dispõe dos equipamentos obrigatórios, e se estes estão funcionais;

IV - Se as características originais do veículo e seus agregados foram modificados e caso


constatada alguma alteração, se esta foi autorizada, regularizada e se consta no prontuário do
veículo junto ao Detran/DF;

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V - Em caso de reprovação na vistoria, o usuário tem direito ao retorno para realização de nova
vistoria, dentro do prazo de 10 (dez) dias uteis, a contar da data da emissão do laudo de vistoria.

Na mesma direção, a Resolução Federal nº 466/2013 -CONTRAN, precisamente em seu


artigo 2º, §2º, in verbis:

Art. 2º A vistoria de identificação veicular, por ocasião da transferência de


propriedade ou de domicilio intermunicipal ou interestadual do proprietário do
veículo, é de responsabilidade dos órgãos e entidades executivos de trânsito dos
Estados ou do Distrito Federal e poderá ser realizada por pessoa jurídica de
direito público ou privado previamente habilitada. (...)

§ 2º A vistoria de identificação veicular tem como objetivo verificar:

I - a autenticidade da identificação do veículo e da sua documentação;

II - a legitimidade da propriedade;

III - se os veículos dispõem dos equipamentos obrigatórios, e se estes estão


funcionais;

IV - se as características originais dos veículos e seus agregados foram


modificados e, caso constatada alguma alteração, se esta foi autorizada,
regularizada e se consta no prontuário do veículo na repartição de trânsito.

À vista disso, em análise perfunctória ínsita deste momento processual, tenho que a Instrução
nº 230/2021 do Detran/DF está em consonância ao previsto na Resolução Federal do Órgão
Máximo de Trânsito, ou seja, do Contran.

Noutra vertente, a Lei nº 2.990/2002 – que dispõe sobre a carreira de policiamento e


fiscalização de trânsito do quadro de pessoal do Detran/DF – especialmente em seu artigo
10, previu que a coordenação dos serviços de vistoria veicular será exercida
preferencialmente pelo agente de trânsito, in verbis:

Art. 10. Serão exercidas, preferencialmente, por integrantes do Cargo de Agente


de Trânsito:

I - as funções de confiança das unidades vinculadas ao policiamento e a fiscalização


de trânsito do Departamento de Trânsito do Distrito Federal;

II - a coordenação de vistoria veicular e documental;

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III - a coordenação da central de operações de policiamento e fiscalização de
trânsito;

IV - a coordenação, supervisão e controle dos depósitos de veículos apreendidos;

V - a coordenação de operação de tráfego nas regionais de trânsito urbanas.

Entretanto, parece-me que a legislação estabeleceu, de forma preferencial, que a


coordenação de vistoria veicular seja realizada pelos agentes de trânsito, não refletindo uma
obrigação. Em vista disso, a atribuição aos servidores dos Detran/DF para realização de
vistoria veicular não é absoluta, mas sim relativa, podendo ser delegada a terceiros, a priori.

De outra banda, oportuno mencionar sobre a Deliberação nº 190 do Contran, de 20 de maio


de 2020, que em razão da pandemia instalada pela Covid-19 dispôs acerca da realização de
vistoria de identificação veicular de que trata a Resolução nº 466/2013, enquanto durar o
estado de calamidade reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6/2020.

Em seus dispositivos, o órgão máximo de trânsito previu, expressamente, que a vistoria de


identificação veicular contida na Resolução nº 466/2013 do Contran, em obediência às
determinações das autoridades sanitárias, poderão ser realizadas fora das instalações dos
órgãos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, e das Empresas Credenciadas em
Vistoria de Veículos (ECV), indicando, a princípio, a possibilidade de delegação desse tipo
de serviço às pessoas jurídicas privadas. Confira-se:

Art. 1º Esta Deliberação dispõe sobre a realização de vistoria de identificação veicular, de que trata a
Resolução CONTRAN nº 466, de 11 de dezembro de 2013, enquanto durar o estado de calamidade
pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 2020.

Art. 2º Durante o estado de calamidade pública de que trata o art. 1º, a vistoria de identificação
veicular, observadas as recomendações das autoridades locais de saúde, poderá ser realizada fora
das instalações dos órgãos executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal, e das Empresas
Credenciadas em Vistoria de Veículos (ECV), em locais definidos pelo órgão executivo de trânsito
de cada Unidade Federativa.

Parágrafo único. Os locais de que trata o caput deverão ser definidos em norma do órgão executivo
de trânsito do Estado ou do Distrito Federal.

Art. 3º A vistoria de identificação veicular de que trata o art. 2º deverá garantir a segurança, a
identificação e a rastreabilidade do processo.

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De mais a mais, a Instrução nº 230/2021 determinou ao Detran/DF a obrigação de
disponibilizar modelo de informações sobre a vistoria veicular, por meio de publicação no
sítio da internet do órgão, a ser seguido pelas empresas credenciadas, além de que o laudo de
vistoria deve conter imagens, a fim de garantir segurança à população, com a devida
fiscalização pela autarquia. Literalmente:

Art. 53. O modelo de informações de vistoria veicular será determinado pelo Detran/DF através de
publicação especifica em seu site www.detran.df.gov.br que elencará os itens a serem avaliados, a
forma de avaliação, os critérios de aprovação e os instrumentos necessários para cada aspecto a
ser avaliado, que deverá ser observada pelas credenciadas quando da realização da vistoria
veicular.

§ 1º A verificação dos itens do artigo anterior será efetuada pelo vistoriador da ECV, com a realização
de imagens para envio subsequente, por meio de sistema integrado, ao Detran/DF.

§ 2º As imagens serão submetidas ao Detran/DF, bem como ficarão armazenadas na base de dados
da ECV, ficando está responsável pela sua guarda pelo lapso de cinco anos.

Art. 54. Durante a realização da vistoria de identificação veicular serão registradas, no sistema
informatizado de vistoria, a integrar o laudo de vistoria, independente de outras exigências legais,
imagens dos seguintes itens:

I - Fotografia dos faróis:

a) Dianteira em 45º com faróis acesos;

b) Traseira em 45º com faróis acesos.

II - Fotografia do para-brisa e painel, captando o hodômetro.

III - Fotografia do macaco/chave de rodas e triangulo em seu local de origem;

IV - Fotografia da Carteira Nacional de Habilitação do condutor do veículo vistoriado.

V - Fotografia do chassi e etiquetas:

a) Número de identificação do chassi; e

b) Etiqueta ETA/VIS do compartimento do motor/quadro.

Art. 55. Além da realização do procedimento de fotografias, a vistoria deverá ser armazenada pelo
sistema da ECV a filmagem de todo o seu procedimento, permitindo livre consulta ao Detran/DF.

§ 1º A filmagem será realizada em uma volta em 360 graus, ao longo do veículo, iniciando na parte

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dianteira, com término no ponto inicial, captando o veículo por completo, com movimentos horizontais
e verticais, caso necessários.

§ 2º Na realização da volta, o veículo permanecerá aberto, com portas, capo, porta-malas ou caçambas
abertas, registrando, além dos itens previstos no artigo anterior, os seguintes:

I - Motor em funcionamento, priorizando o compartimento do motor;

II - Ambiente interno em geral, capaz de demonstrar bancos, vidros, espelhos retrovisores,


funcionamento dos cintos de segurança; e

III - Compartimento de bagagem, porta-malas ou caçambas abertas.

§ 3º Além das gravações mencionadas, deverá ser captura vídeo, ininterrupto, da câmera
panorâmica durante toda realização do procedimento de vistoria.

§ 4º Os veículos de natureza conversíveis devem ser vistoriados com a capota totalmente fechada.

§ 5º Não será admitida vistoria veicular de automóveis localizados sob guinchos ou quaisquer outras
plataformas de transporte.

Por ora, a Instrução nº 230/2021 não transferiu às empresas credenciada o poder de polícia,
mas tão somente os atos materiais para execução dos serviços de vistoria veicular, visto que
a fiscalização continuará a ser exercida pelo órgão de trânsito distrital, bem como será da
autarquia a execução dos últimos atos para validação do referido procedimento. Observe-se:

Art. 59. Após aprovação do vistoriador, as vistorias serão submetidas à sala de


monitoramento da ECV, que será responsável por revisar as imagens e, após a
confirmação da validade do procedimento, encaminhará a documentação e as
fotos ao Detran/DF, por meio de sistema integrado.

Art. 60. O Detran/DF disponibilizará acesso ao Sistema Informatizado à


empresa credenciada, através do qual as vistorias poderão ser realizadas e
transmitidas para o SISCSV, mantido pelo Denatran, para fins de integração e
confirmação de todo procedimento. (...)

Art. 68. Incumbe ao Detran/DF:

I - Expedir a Instrução de Credenciamento às pessoas jurídicas habilitadas e efetuar a


sua publicação no Diário Oficial do Distrito Federal-DODF, com o respectivo Termo
de Credenciamento, mediante prévia realização de Visita Técnica;

II - Cumprir e fazer cumprir as disposições regulamentares da atividade de

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vistoria de identificação veicular;

III - Zelar pela uniformidade e qualidade das vistorias de identificação veicular;

IV - Estimular a conservação e a preservação do meio ambiente;

V - Disponibilizar, permanentemente no seu sítio eletrônico, a relação


atualizada das empresas habilitadas para a atividade de vistoria de
identificação veicular, incluindo nome, endereço, telefones para contato, CNPJ,
área geográfica de atuação, prazo de vigência do contrato e nome do preposto
responsável;

VI - Informar ao Denatran a relação de empresas que podem executar a


atividade de vistoria de identificação veicular, com nome, endereço, CNPJ,
prazo de vigência do contrato e nome do preposto responsável;

VII - Monitorar e controlar todo o processo de vistoria de identificação veicular,


inclusive a emissão do laudo e qualquer documento eletrônico disponível na
central SISCSV, seja quando realizada por meios próprios ou por meio de
pessoa jurídica de direito público ou privado, utilizando-se de tecnologia da
informação adequada que realize a integração dos dados necessários, conforme
regulamentação específica do Denatran;

VIII - Fiscalizar a pessoa jurídica habilitada no exercício da atividade de


vistoria de identificação veicular, in loco e por meio do SISCSV,
independentemente de solicitação do Denatran ou de notificação judicial ou
extrajudicial podendo requisitar documentos, esclarecimentos, e ter livre acesso
a todas as instalações da empresa, conforme previsto na Lei nº 3.192/2003;

IX - Zelar pela uniformidade e qualidade das vistorias de identificação veicular;

X - Advertir, suspender ou cassar o credenciamento da pessoa jurídica habilitada nos


casos de irregularidades previstas neste, informando antecipadamente ao Denatran,
por meio de ofício, a data de início e término da imposição da penalidade;

XI - Controlar os repasses financeiros efetuados mensalmente pelas empresas


credenciadas com base no relatório estatístico de vistorias realizadas e gravadas
no SISCSV ou outro banco de dados indicado pelo Detran/DF;

XII - Efetuar os repasses obrigatórios ao Denatran pelo uso e acesso ao SISCSV,


conforme previsto na Instrução nº 130/2014;

XIII - Receber o resultado das vistorias e auditar individualmente,


homologando quando em conformidade em um prazo máximo de 30 minutos,
contados a partir do recebimento virtual;

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XIV - Manter equipamento e sistemas suficientes para gravação de imagens e dados
relacionados às vistorias realizadas pelo tempo em que o Denatran definir;

XV - Liberar acesso ao banco de dados do Detran/DF e Denatran para a consulta a


dados e gravação de informações referente à vistoria veicular;

XVI - Indicar local de entrega e receber veículos com indícios de adulteração dos
numerais identificadores, ou outra irregularidade que impossibilite de circular,
encaminhados pela empresa credenciada, bem como com alterações de caraterísticas;

XVII - Analisar o teor da suspeita de adulteração e proceder à inclusão da restrição


"AVERIGUACAO/MOTOR";

XVIII - Aplicar as penalidades legais, regulamentares e previstas neste Edital, em


função de irregularidades apuradas no devido processo legal;

XIX - No exercício da auditoria e fiscalização, o Detran/DF terá acesso aos dados


relativos à administração, contabilidade, recursos técnicos, econômicos e financeiros
do credenciado, que digam respeito ao credenciamento;

Sob outro prisma, a priori, também não há que se falar em invasão de competência privativa
da União para legislar sobre a matéria, como afirmado na inicial pelo Sindicato-autor.

Como predito, a Instrução apenas reproduziu o conteúdo previsto na Resolução nº 466/2013


do Contran, no sentido de facultar ao órgão de trânsito do Distrito Federal a possibilidade de
terceirizar a prestação dos serviços de vistoria veicular à empresa credenciada, em nada
inovando em relação ao normativo federal de regência.

Via de consequência, ao que tudo indica, não houve usurpação de competência privativa da
União, visto que a Instrução nº 230/2021 do Detran/DF não legislou sobre trânsito e
transporte, mas tão somente adotou medidas sobre a vistoria veicular nos limites
estabelecidos na Resolução nº 466/2013 do Contran.

Inclusive, sobre o assunto, o Tribunal de Contas do Distrito Federal apreciou medida cautelar
requerida nos autos do Processo nº 00600-00003235/2021-18-e quanto à edição da Instrução
nº 230/2021, também objeto da presente lide.

No âmbito do TCDF, os autos primeiramente tramitaram na Terceira Divisão de Fiscalização


de Áreas Sociais e Segurança Pública – 3ª DIASP/TCDF, a qual exarou manifestação, por
meio da Informação nº 37/2021, no sentido de não conhecer da representação, sugerindo o

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arquivamento dos autos.

Após, a Secretaria de Fiscalização de Áreas Sociais e Segurança Pública – Seasp/TCDF,


mediante a Informação nº 15/2021- SEASP, apreciou os fatos, proferindo entendimento pelo
conhecimento da representação e deliberação sobre o pedido de medida cautelar.

Os autos foram remetidos ao Conselheiro do TCDF, o qual se pronunciou, dentre outros, que
a referida Instrução buscou apenas disciplinar o já previsto na Resolução nº 466/2013 do
Contran, não havendo que se falar em invasão de competência da União (ID 103161721), in
verbis:

“(...) Superada essa questão preliminar, passo a apreciar o pedido de medida


acautelatória realizado pelo SINDETRAN/DF “com o intuito de 2021 do
DETRAN/DF, até a apuração dos fatos mencionados”.

Lembro que medidas dessa natureza, para legitimarem-se, requerem a presença


conjugada da probabilidade do direito alegado (fumus boni iuris) e do risco da
demora (periculum in mora).

Adianto que, ao menos em sede de cognição sumária, não vislumbro ilegalidade a


amparar o provimento da medida de urgência pleiteada, pelos motivos que passarei a
expor.

Em que pese a entidade sindical colacionar decisões da Suprema Corte relativos


à execução da vistoria das condições de segurança dos veículos para fins de
licenciamento, observa-se que a Instrução nº 230/2021-Detran/DF se refere
especificamente ao credenciamento de empresas para prestação de serviços de
vistoria de identificação veicular.

Ademais, diferentemente dos julgados citados na exordial, na situação em tela


não houve a edição de lei local a inovar em matéria de trânsito, não se
cogitando, assim, invasão da competência constitucional da União.

O que se constata, neste juízo preliminar, é que, com a Instrução nº 230/2021-


Detran/DF, buscou-se apenas disciplinar o exercício de possibilidade já prevista
na Resolução n.º 466/2013, do Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, que
estabelece procedimentos “para o exercício da atividade de vistoria de
identificação veicular a ser realizada pelos órgãos e entidades executivos de
trânsito dos Estados e do Distrito Federal, ou por pessoa jurídica de direito
público ou privado, habilitada para a prestação dos serviços de vistoria
veicular” (destaquei).

A referida norma regulamentadora federal prevê, também, que “A habilitação

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para a realização do serviço de que trata esta Resolução constitui atribuição dos
órgãos e entidades executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal”
(g.n.), afastando-se, no exame perfunctório, a aventada inadequação da
Instrução nº 230/2021- Detran/DF.

Ainda, consta da Resolução nº 466/2013-CONTRAN que “Os órgãos e entidades


executivos de trânsito dos Estados e do Distrito Federal poderão exercer
diretamente a atividade de vistoria de veículos automotores por meio de
servidores públicos especialmente designados”, denotando-se que a realização
de vistorias de forma direta pelo Detran/DF, embora possível, não é obrigatória.

Ademais, observo que os objetivos da vistoria de identificação veicular


preconizados no art. 52 da Instrução nº 230/2021-Detran/DF são exatamente os
mesmos relacionados no art. 2º, § 2º, da Resolução nº 466/2013-CONTRAN. (...)

Como se vê, o ato do Detran/DF ora impugnado pelo Representante aparenta


guardar plena consonância com a normatização do Conselho Nacional de
Trânsito, que está em pleno vigor no mundo jurídico. (...).”

De outra banda, em 12/04/2021 foi realizada reunião para tratar de questões referentes ao
Detran/DF, precisamente quanto ao ato normativo que modifica a sistemática de vistoria de
veículos no Distrito Federal, oportunidade que estavam presentes o Procurador Distrital dos
Direitos do Cidadão do MPDFT e o Diretor-Geral do Detran/DF, tendo o Parquet se
manifestado favoravelmente ao novo modelo, conforme consta na Ata de Reunião (ID
103161724). Confira-se:

“(...) O Diretor-Geral do Detran-DF informou, logo de início, que solicitou a


reunião para dar ciência ao PDDC da edição, da data de hoje, de ato normativo
que modifica a sistemática de vistoria de veículos no Distrito Federal. Esclareceu
que, a partir de agora, as vistorias deixarão de ser realizadas de folha direta pelo
Departamento, passando a serem executadas por empresas privadas que serão
credenciadas pelo Órgão. O Diretor-Geral explicou que o novo modelo,
descentralizado, seguirá o que já ocorre com as clínicas de renovação da Carteira
Nacional de Habilitação (CNH) e autoescolas, e está baseado em experiências
exitosas observadas em outras doze unidades da federação, como Espírito Santo
e Pernambuco. Segundo o titular da Autarquia, a ideia é aprimorar o serviço que
vem, há muitos anos, sendo objeto de queixas dos usuários. Ele explicou que
parte das etapas do processo de transferência de veículos, que dependem das
vistorias, será virtual. Destacou que, anualmente, há sete pontos de vistorias
veiculares no DF operados diretamente pelo Detran. Com a mudança, a

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expectativa é que passarão a ser cerca de 30, o que deverá acelerar o tempo de
conclusão da execução do serviço, com ganhos para os usuários. A propósito do
preço do serviço, ele explicou que a mudança não alterará o valor da taxa
correspondente, que continuará a ter um custo total de R$ 287,00 (dos quais R$
161,00 relativos à transferência, e R$ 126,00 atinentes à vistoria).

Logo após as manifestações iniciais do titular do Detran-DF, o Procurador Distrital


fez um breve relato do teor das manifestações encaminhadas à PDDC referentes
a problemas com os serviços prestados pela Autarquia, principalmente as
relativas à vistoria de veículos. O titular da PDDC manifestou-se
favoravelmente ao novo modelo descentralizado, lembrando que ele também é
adotado em outros países. Disse, no entanto, que a entrada de empresas
credenciadas gera, por outro lado, novos desafios ao Detran, sobretudo em
relação à fiscalização e credenciamento das empresas que passarão a realizar as
vistorias.

O Diretor-Geral da Autarquia concordou cona a observação e acrescentou que a


fiscalização induzirá melhoria no sistema de TI do órgão. Explicou também que
a nova instrução normativa estabelece uma série de requisitos que terão de ser
cumpridos pelas empresas credenciadas para realizar as vistorias, entre os
quais o de que terão que manter vídeos e fotografias nas inspeções para efeito
de eventual consulta e auditagem futura pelo Departamento em sua função
fiscalizatória. O titular do Detran também informou que a alteração do modelo
permitirá o reforço da atividade-fim do órgão. Tal reforço será possível porque 103
agentes de trânsito que hoje atuam na atividade de vistoria serão alocados para
a atividade de fiscalização de trânsito. Durante a reunião, o Diretor-Geral
encaminhou ao PDDC cópia da IN nº 230/2020, publicada hoje, e baseada em
diretrizes contidas em atos normativos do Conselho Nacional de trânsito
(Contran). Na sequência, convidou a PDDC e outros órgãos do MPDFT a dar
sugestões de aprimoramento do ato, sugestão que foi recebida de forma positiva
pelo PDDC.

Em seguida, o Procurador Distrital passou a tratar de outros pontos relativos a outros


serviços da Autarquia que vem sendo objeto de queixas enviadas à PDDC. (...)”

Então, aparentemente, diferentemente do alegado pelo Sindicato-autor, o Detran/DF


encontra-se preocupado em efetuar melhorias no sistema de TI do órgão, o que foi frisado na
referida reunião pelo Diretor-Geral, o qual acredita que com a fiscalização mais acirrada a
ser efetuada com o advento da Instrução nº 230/2021, acarretará melhoria no sistema
informatizado da autarquia.

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Abordou-se também o fato de que o valor da taxa correspondente aos serviços de vistoria
veicular não será alterado, o que não trará prejuízo à população, indicando, na realidade, o
reverso, visto que a expectativa com a implementação do novo modelo de descentralização
das vistorias acarrete rapidez no atendimento aos usuários, em razão do aumento do número
de pontos de vistorias.

Por fim, o modelo de descentralização dos serviços de vistoria às empresas credenciadas ao


órgão de trânsito se baseou em experiências positivas observadas quando do implemento
dessa medida em outras doze unidades da federação, além de ter como finalidade aperfeiçoar
o atendimento de vistoria veicular, com a devida ampliação dos postos.

Ao menos nessa análise perfunctória, com base nas provas documentais colacionadas, não
constato, de plano, qualquer ilegalidade ou arbitrariedade do Detran/DF, assim como
usurpação de competência privativa da União, com a edição da Instrução nº 230/2021.

Para além, deve ser considerada a presunção relativa de legitimidade dos atos
administrativos, cumprindo a quem alega não ser o ato legítimo a comprovação da
ilegalidade apontada, sendo certo que, enquanto isso não ocorrer, deve ser considerado
válido e seguir produzindo seus normais efeitos.

Por essas razões, indefiro a tutela de urgência, ante a ausência dos requisitos previstos
no artigo 300 e seguintes do CPC.

Revogo a medida cautelar concedida.

Cite-se.

Vindo a contestação ou decorrido o prazo, réplica.

Após, remetam-se os autos ao Ministério Público.

Intimem-se.

Brasília - DF, 27 de setembro de 2021 13:46:32.

JANSEN FIALHO DE ALMEIDA

Juiz de Direito

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[1] MARINONI, L. G. Tutela de evidência e tutela de evidência: soluções processuais diante do tempo da justiça. São Paulo: Ed. RT, 2018, p. 130.

[2] Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos: (...) II - taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou
pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos a sua disposição.

[3] Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato
ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício
de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos
individuais ou coletivos. Parágrafo único. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei
aplicável, com observância do processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou desvio de poder.

[4] CARVALHO, Matheus. Manual de Direito Administrativo. 6. ed. Salvador: Juspodvim, 2019, p. 138.

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