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AA
PROFECI A
PROFECIA
DE
DE
ISAÍAS
ISMAS

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r. i. -
w

A PROFECIA DE ISAIAS
ISAIAS

CAPÍTULOS
C A P Í T U L O S 40-66
40-66

TEXTO, EXEGESE E EXPOSIÇÃO


EXEGESE E EXPOSIÇÃO

VOLUM E n
VOLUME n

A. R
A. R. CRABTREE
• , A
C R A B T R E E, A . B-,
B., D.B.,
D . B-, Th. D.
D.

1.* EDIÇÃO
1.* E D IÇ Ã O

1967
1967
CASA PU B LIC A D O R A BATISTA
CASA PUBLICADORA B A T IS T A
Caixa Postal
Caixa Postal 320320 -- ZC
ZC -- OO
OO
Rio de Janeiro — Gb.
Rio
— Gb.
Capa de: PAULO
P A U L O DAMÁZtO
DAMÁZIO

CA8A

Composto e Impresso
Impresso nas
CASA PUBLICADORA
PU B LIC AD O R A
Oficinas da
BATISTA
B A T IS T A
Vale,
Rua Silva V

al«i 781 — Tomás —
Coelho — GB

Tiragem
Tiragem
— 4.000 —
Data — 30-06-67
OUTRAS DO AUTOR
O UTRAS OBRAS DO A U TO R

M
M Esperança Messiânica
Esperança Messiânica
História dos Batistas
História no Brasil,
Batistas no Brasil, I Parte
Parte
Introdução Nôvo Testamento
Introdução ao Nôvo

Hebraico do Velho Testamento


Sintaxe do Hebraico
Arqueologia Bíblica
Biblica
A Doutrina Biblica do Ministério
Doutrina Bíblica Ministério
Teologia do Velho Testamento

O Livro
Livro de Amós
O Livro
Livro de Oséias
Dicionário
Dicionário Hebraico-Português
Hebraico-Português (inédito
(inédito ))
A Profecia
Profecia de Isaías,
Isaías, Capítulos 1-39
1-39 (Vol.
(Vol. I) !
Prefácio
Prefácio
Êste Comentário sôbre aa segunda
Êste parte do
segunda parte Livro de
do Livro de
Isaias
Isaías representa o' mais
mais profundo estudo biblico
profundo estudo bíblico dodo au¬
au­
tor nos seus longos
longos anos de de trabalho como pastor, pro¬
como pastor, pro­
fessor e escritor.
esci’itor. Completando hoje hoje 75 anos de
75 anos de idade,
idade,
aumentou-se a sua profunda pelas ricas
gratidão pelas
profunda gratidão ricas bên¬
bên­
çãos recebidas no no serviço do
do Senhor.
Senhor. Ficou ainda mais
Ficou ainda mais
intensa a sua gratidão ào receberreceber do Rio de
do Rio de Janeiro
Janeiro as as
lembrança da
generosas cartas de lembrança da Casa Publicadora, do
Casa Publicadora, do
Seminário Teológico, da IgrejaIgreja da Tijuca, ee aa mensagem
da Tijuca, mensagem
telegráfica do Pastor
Pastor Osvaldo Ronis.
Ronis.
Qualquer estudante cuidadoso
cuidadoso desta profecia ficará
desta profecia ficará
convencido de que esta éé aa obra suprema do
obra suprema do Velho
Velho Tes¬
Tes­
tamento. É monumento literário
É monumento literário igual ou superior
igual ou superior ao ao
Livro
Livro de Jó. E na exposição das
E na eternas da
das verdades eternas da
revelação divina, êste grande mensageiro
mensageiro do do Senhor
Senhor vaivai
além de todos os profetas
profetas ee escritores
escritores dodo Velho
Velho Testa¬
Testa­
mento. A sua exposição compreensiva
mento. compreensiva da da doutrina
doutrina de de
Deus universo, ee oo Condutor
Deus como o Criador do universo, Condutor da da his¬
his­
tória humana, corresponde neste neste sentido aos ensinos
sentido aos ensinos do do
Apóstolo Paulo. ensino sôbre
Paulo. O seu ensino Pessoa ee aa obra
sôbre aa Pessoa obra
do Servo Sofredor do Senhor
Senhor foi cumprido
cumprido perfeitamen¬
perfeitamen­
te na Pessoa e no no sacrifício vicário de Jesus Cristo
de Jesus Cristo na na
cruz do' Calvário.

Há numerosos manuscritos
manuscritos do Grego do
do Grego Nôvo Tes¬
do Nôvo Tes­
tamento, e umauma variedade de outros documentos
de outros documentos que que
ajudam na verificação do melhor melhor texto da língua
texto da língua origi¬
origi­
nal, mas existem apenas três manuscritos antigos do
manuscritos antigos do Ve¬
Ve­
lho' Testamento, e o maismais antigo dêstes éé datado
antigo dêstes datado do do ano
ano
8 A. R. CRABTREE
A . R. CRABTREE

895. Mas entre os numerosos fragmentos de manuscri¬


manuscri­
tos hebraicos descobertos nas cavernas nosnos outeiros do
lado ocidental do Mar 1947, todos os livros
Morto desde 1947,
Mar Morto livros
Ester, são repre¬
do Velho Testamento, com a exceção de Ester, repre­
Èstes são datados do primeiro
sentados. Èstes primeiro século cristão’,
ou do último século antes de Cristo. O mais
mais importante
importante
êstes manuscritos é a cópia quase completa do
de todos éstes
Livro Isaías, suplemento de valor ao Texto Massoré-
L ivro de Isaías, Massoré-
tico desta profecia.
0 texto hebraico do Velho Testamento, editado por
O por
Kittel, com notas críticas, é reconhecido
Rudolf Kittel, reconhecido como oo
jnelhor. Apresentamos a nossa tradução dêsse texto,
melhor.
com poucas modificações, segundo a Septuaginta Grega.
preferimos o texto do
Em mais de uma dúzia de casos preferimos
Rôlo do Mar poucas variações do Texto
Mar morto, nas suas poucas
Massorético.
Procuramos preservar em nossa tradução, tanto
Procuramos
form a poética do hebraico,
quanto possível, a forma hebraico, e dar sen*
sen*
tido mais exato do pensamento do profeta profeta do que se en¬ en­
contra nas versões mais literárias
literárias da Bíblia
Bíblia em portu¬
portu­
guês ou inglês. ÊsteÊste profeta é gênio literário
literário no uso da
no uso
linguagem figurativa e poética de ritmo, ritmo, aliteração, pa¬pa­
ralelismo, onomatopéia, paronomásia, e de várias outras
4formas da «poesia hebraica. É
«formas É umum tanto difícil, ou até
timpossível, preservar a fôrça e a beleza
impossível, beleza da sua lingua-
lingua-
•e m musical na tradução das línguas
«em línguas ocidentais. É É no¬
no­
tável o seu modo de repetir ou combinar belas belas palavras.
palavras.
Combina frequentemente pronomes eu e tu para
freqüentemente os pronomes para ex¬
ex­
pressar o profundo significado da relaçãorelação entre o Senhor
Senhor
e o seu povo de Israel. mensageiro do Senhor en¬
Êste mensageiro
Israel. 'Êste en­
tendeu e explicou mais claramente do que qualquer ou- ou­
tro^ profeta o eterno propósito de Deus na
trovprofeta na eleição de Is¬
Is­
rael. Assim, a teologia deste
rael. dêste profundo pensador, inspi¬ inspi­
Dtíus, é mais importante do que a beleza
rado pòr Deus, beleza da sua
linguagem
linguagem. .
P R O FE C IA DE ISAÍAS
A PROFECIA ISAÍAS 9

Aceitamos os capítulos 40-66 como a obra um só


autor, não obstante a diferença no no estilo literário de al-
gumas partes dos capítulos 56-66, devida à mudança das
al­ -
circunstâncias históricas do povo de Israel
Israel quando esta
última parte da profecia foifo i escrita.
Estudante por muitos anos da profecia do Velho
Testamentcf, o autor dedicou um ano intéit-o
Testamentd, intéfto de trabalho
ao preparo desta obra. Aproveitou o estudo dos melho¬ melho­
res comentários sôbre esta profecia, mas a tradução e a
exegese do texto representam a sua própria interpreta¬
interpreta­
ção que segue o principio
princípio de permitir ao profeta expres¬
expres­
sar os seus próprios pensamentos, e não os de alguns co¬ co­
mentaristas. Variam consideravelmente as interpretações
de muitas passagens desta profecia. O autor não dá mui¬ mui­
to espaço na citação destas várias interpretações, algu¬ algu­
abandonadas.. Tem
mas das quais agora são abandonadas Tem havido gran¬
gran­
de progresso nos últimos 40 anos no no estudo das linguas
línguas
semíticas,
semiticas, o que ajuda na explicação de algumas passa¬ passa­
gens difíceis do' Velho Testamento, como o autor mos¬ mos­
trou no seu livro Arqueologia Bíblica.
O escritor deste
dêste Comentário especializou-se no no estu¬
estu­
do do hebraico dos livros de Jó e Isaias
Isaías no seu curso de
Doutor em Teologia, e por muitos anos ensinou com
prazer esta língua de Sião aos seus estudiosos alunos do
Seminário Teológico Batista do Rio Rio de Janeiro. Deseja
que esta obra, preparada no serviço de amor, seja um um
auxilio agradável para Os pastores e outros estudantes
Bíblia hebraica no Brasil e em Portugal.
da Biblia Portugal. Esta
Esta é uma
uma
profecia evangélica, a obra suprema do Velho Testamen¬
Testamen­
to, que dá ênfase especial ao propósito de Deus Deus na cria¬
cria­
ção do universo, e na direção da história humana.

A.
A . R. Crabtree

Roanoke, Virgínia — 11—


11 de agosto
agôsto de 1964
1964
*

*1.
'*
ÍNDICE
ÍNDICE
Página.
Página
Prefácio
P r e fá c io ....................................................................7 7
Introdução
In tro d u çã o ......................................................................... 15-
15 -
O Livro
Livro de Isaías (Capítulo
de Isaías (Capítulo 40 40 — — 66)66)::
I.
I. AA Libertação Divina do
Libertação Divina do Povo
Povo do do S Senhor .. .
e n h o r..................... - 43

A. Prólogo, o oPregador ea aSua


A. SuaM eMensagem
n sa g em ................ 43
1. O Conforto
1. Confôrto doAmor Amorde de
D eDeus
u s .............................. 44
2. A Promessa de Deus Permanece Imutável para para
Sempre
S e m p r e ......................................................... 50
50
3. O Poder e o Cuidado do Bom Pastor P a s t o r ................ 52
B. Javé, o Deus Incomparável
B. In com p ará vel.................................... 54
11.. A Infinidade
Infinidade do Criador do Universo U n iverso................ 54
54
In co m p a rá vel.......................................
2. O Deus Incomparável 56
3. Javé, o Deus Sempiterno
S em p itern o................................... 61
C. O Deus da História das Nações N a ç õ es.............................. 64
1. A Soberania do Senhor
1. S e n h o r ..................................... 65
65
Israel É
2. Israel É o Servo Escolhido do Senhor S e n h o r ............ 69
3. O Senhor É É o Redentor de Israel I s r a e l..................... 73
73
4. O Deserto Se Tornará em Lucar Lucar Fértil
F é r t i l ........... 74
5. Comparação entre os Deuses Deuses da BabilóniaBabilônia e o
Senhor Javé J a v é ................................................ 76
76
D . O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão .... . . 80
80
1. O Caráter e a Missão do Servo
1. S e r v o ...................... 81
2. A Nova Idade Idade no Propósito do Senhor S e n h o r ............ 84
3. O Nôvo Cântico de Redenção R e d e n ç ã o ........................... 89
4. O Senhor Contra os Seus Inimigos In im ig o s ................. 91
55.. Israel,
Israel, o Servo do Senhor, É É CegoeeSurdo Surdo . .... . 93
93
E. Javé, o Criador de Israel,
E. Israel, É Também o Seu Re¬ Re­
dentor ...................................................................... 97
1. O Senhor Ajudará os Seus Filhos
1. Filhos desde as Es- Es-
tremidades da Terra T e r r a .................................. 98
2. Javé Ê Ê o único Deus, e Fora Fora dÊle Não Não Há Há Sal¬Sal­
vador ............................................................ 101
101
3. A Queda da Babilónia Babilônia e a Restauração de Is¬ Is­
rael .............................................................. 104
104
4. A Cegueira de Israel Israel e a Graça Salvadora de
Javé
J a v é ............................................................. 107
107
5. Pelo Derramamento do Seu Espírito, o Senhor
Abençoará o Seu Povo P o v o ................................ 111
111
6. Além de Javé Não Há Deus, e Israel Israel É É a Teste¬
Teste­
munha dÊle d Ê le ................................................. 113
113
7. A Estultícia da Idolatria Id o la tr ia ................................... 115
115
8. Volta-te para Mim ............................................. 119
119
F. Javé É
F. £ o Poderoso Criador, Ciro £ o Seu Instru¬ Instru­
mento ............................................................ 120
120
1. A Comissão de Ciro
1.
2. Ai d Aquele Que Contende com o Seu Criador ....
dAquele
.
C ir o .................. ....................... 124
124
128
128
3. O Fracasso das Religiões Pagãs P a g ã s ................... .. 130
130
Inteiro Reconhecerá o Deus de Israel
4. O Mundo Inteiro Israel
o Salvador
S alvad or................................................. 132
132
G. O Deus Que Carrega os Deuses Que T
G. Têm
ê m de Ser
Carregados . ..
Carregados............................................... .. 137
1. O Contraste entre os Deuses da Babilónia
1. Babilônia e o
Is r a e l.............. , .........................
Deus de Israel 138
138
2. O Testemunho da História e da Profecia .. .. ... 142
142
H. O Orgulho e a
H. a Humilhação da Babilónia Babilônia............... 145
145
11.. A Desgraça da Virgem, BabilóniaB abilôn ia.................... 146
146
2.. A Senhora dos Reinos Perde o Seu Poder
2 P oder.......... 149
149
3.. A Destruição Iminente
3 Iminente dos Caldeus Caldèus Cruéis . . . .
4. A Confiança no Poder Salvador dos Astrólogos
.. 151
151
153
153
I I . O Propósito do Senhor ha História e na Profecia .. .. 156
156
1. O Profeta Defende o Modo e o Propósito da Re¬
1. Re­
..
velação do Senhor .... .... ’.. ........................ 158
158
2. Nos Versículos 12-16, o Profeta Explica as Cousas
Novas do Versículo 66 .. .. ......................... 164
164
3. Os Versículos 17-19 Falam da Maravilhosa Com¬ Com- '
paixão do Senhor para com Israel Is r a e l........... 167
167
4. O Cântico de Vitória dêste Profeta P ro fe ta ................ 168
168
.
II. A Redenção Israel
de Is r a e l............................................... 169
169
A. O
A. O Livramento
Livramento ee aa Consolação
Consolação de de Israel
Is r a e l.......... 170
170
11.. O Servo do Senhor Remirá e Trará os Preserva¬ Preserva­
dos de Jacó ao Seu Deus D e u s ..................... 171
171
22.. O Futuro Mais Brilhante para Israel .... .. . ... 176
176
3. Sião Será Povoada de Nôvo e os Seus Lugares
.Desolados Serão Restabelecidos
Restabelecidos................ 180
180
nações Trarão os Filhos de Sião para a Sua
4. As Nações
Terra 183
T e r r a ..................................... .................. 183
55.. OO Salvador, Redentor ee Poderoso
Salvador, Redentor Poderoso de Jacó ..
de Jacó .. ..... 185185
6. AA Relação
Relação do do Senhor
Senhor com comooSeu SeuPovo,
Povo, Segundo
Segundo
Concêrto
Concêrto.................................................... 187
B.
B. “O Getsêmane
“O Getsêmane do do Servo”
Servo” ..................................... 190
190
C. IsraelitasFiéis
OsIsraelitas
Os Recebem aa Promessa
FiéisRecebem Promessa de Salvação 196
deSalvação
1. Não
1. Temais, Está
Não Temais, Chegando oo Dia
Está Chegando Dia dada Salvação
Salvação 198 198
2. Um Um Apêlo
Apêlo ao ao Senhor,
Senhor, Criador Redentor ...
Criador ee Redentor . .... 204 204
xx 33.. Não
Não Temais,
Temais, Eu Sou oo Vosso
Eu Sou Vosso Consolador
Consolador.......... 206
D.
D. O Reino
O Reino do Senhor em
do Senhor em aa Nova Época de
Nova Época de Jerusalém
Jerusalém 209 209
1, Sião
1* Sião Já Bebeu Bastante do Cálice
Bebeu Bastante Cálice de de Atordoa¬
Atordoa­
mento ...................... ................................. 210
210
2 . Adoma-te dos Teus Vestidos Formosos, ó Jeru¬
2. Jeru­
.. ........
.....
....
salém .. .............. .............. .................... 213
213
3. OO Retômo
Retômo do Senhor aa SSião
do Senhor i ã o ................... 217
217
E. O Sacrifício e a Glória
E. O Sacrifício e a Glória dodo Servo
Servo do
do Senhor
Senhor............. 221 . .
11.. A Obra e a Exaltação do Servo S e rv o ........................ 222
222
2. Homem de Dores D o re s ............................................ 224
33.. O Sofrimento Expiatório do Servo ....
S e rv o ................... •227
Inocente Submete-se Voluntariamente
* 227
4. O Servo Inocente
à Morte Ignominiosa
Ignominiosa................................. 232
232
5. A Realização do Propósito do Senhas* SenhQ£„no Sacri­
no Sacri¬
fício do Servo
S e rv o ............................................ 235
235
Felicidade de Sião Reunida com o Senhor por um
F. A Felicidade
F.
Concêrto Eterno
E tern o ............................................ 239
239
1 .
1. O Aumento dos Filhos de Sião S iã o ........................ 241
2. A Nova Jerusalém
Jerusalém .......................................... 247
247
C . A Salvação pela Graça de Deus ..
G. .. .. .. 251
1 .
1. O Povo Convidado a Receber as Bênçãos da Gra¬ Gra­
ça de Deus
D e u s ................................................ 251
Arrependei-vos,
2. Arrependei- vos, Porque Está Próximo o Reino
D e u s .....................................................
de Deus 256
256
III. Admoestações, Esperanças e Promessas
III. Promessas................... 261
A. Oráculosôbre
A. Oráculo sôbreaaObediência
Obediênciada daLei L e i .................... 263
263
B. Denúncia de Governadores Cegos e do Culto Cor¬
B. Cor­
rompido ......................................................... 268
268
11.. As Bêstas São Convidadas a Devorar o Rebanho
Desprotegido
Desprotegido..................... ..................... 269
269
G ulosos................... :: ......................
2. Os Cães Gulosos 271
3. Os Justos Perecem, e os Apóstatas Não Têm En¬ En­
tendimento ...................... ..273
273 .................
4. Repreensão dos Apóstatas 274
Apóstatas............................... 274
Imoralidade e a Corrução dos Israelitas
5. A Imoralidade Israelitas .. .. 276
276
6. A Devoção dos Israelitas Israelitas aos Deuses Deuses da Ferti¬ Ferti­
lidade ....................................................... 277
277
7. Os Ritos Corrutos no Cultodos dosCananeus
Cananeus .. .. .. 278
278
8. A Futilidade de Abandonar o Senhor e Confiar
em tdolos
Íd o lo s.................................................. 230
280
C. AA Graça
Graça do do Senhor
Senhor na na Redenção
Redenção do do Seu
SeuPovo Povo .... 281
281
D. AA Prática
D. Prática do Jejum ee aa Observação
da Jejum Observação do do Sábado
Sábadol .. .. 286
286
E. AA Intervenção
E. Intervençãodo Senhorna
do Senhor Vida de
na Vida deIsrael ..
Israel .... .. 297
"297
1. A Separação entre Deus
1. Deus e a Comunidade de
Is r a e l............................. --.........................
Israel 299
299
2. A Comunidade Deseja Ficar Livre e Confessa o
Ficar Livre
Seu Pecado
Pecad o.............................................. 303
303
3. A Intervenção
Intervenção do Senhor S e n h o r............................... 306
306
!

Felicidade de Sião ...


F. A Glória, a Grandeza e a Felicidade
F. . .. 310
310
Nova Jerusalém
1. A Glória da Nova
1. Jerusalém.......................... 312
312
Proclamação de Boas-novas a Sião
2. A Proclamação S i ã o ............ 323
323
Povo Messiânico
3. O Povo Messiânico.................. ....................... 332
332
G . O Dia de Vingança e o Ano da Redenção
G. Redenção........... 343
343
Inimigos de Israel
1. O Conquistador dos Inimigos I s r a e l............ 344
344
1.
2. O Dia da Vingança do Senhor ..
Senhor .......................... 346
346
Profeta em Favor
H. A Oração do Profeta
H. Favor do Seu Fovo Povo De-De-
sam inado......................................................
saminado 348
348
1. Recordação das Bênçãos do Senhor sôbre o Povo
1. Povo
^ Israel
dç ,, ..
Isrsid , .♦ . ................
,, . ,«
o Povó
t

Povo Se Lembra
,,, ,,
( t m i 349
349
2. No Período de Angústia o Lembra dos
Dias . . . . ..
Dias Antigos .... ,.... .... .............................. 352
352
3. Dirigido ao Pai e Rendentor de Israel
Apêlo Dirigido
O Apêlo ao Pai Rendentor de Israel 354
354
4. Profeta Pede uma Teofania Universal
O Profeta Universal........... 358
358
5. Deus Que Trabalha para
O Deus pára Aquêles Que nfile nÉle Es¬ Es­
peram ............................ ..............................
peram 359
359
Pecado na Vida de Israel
Efeitos do Pecado
6. Os Efeitos Is r a e l........... 360
360
. ..
Novai Terra . ..................................
[ .O Nôvo Céu ee a Novai
I 364
364
l1.. o
O Contraste entre os Servos do Senhor e os Após¬ Após­
tatas ............................................................ 365
365
2. O Profeta Apresenta um Contraste entre os Servos
do Senhor e os Apóstatas
Apóstatas............................. 373
373
Está Criando Novos Céus e uma Nova
3. Deus Está Nova Terra 374
374
4. As Bênçãos da Vida do Povo Povo na Comunidade Mes¬ Mes­
. 376
siânica .......................................................... 376
5. A Idade de Paz, até no Mundo Animal A n im a l........... 378
378
J. A Felicidade Eterna do Verdadeiro Israel
Felicidade Eterna Israel e o Des¬ Des­
tino dos Apóstatas
Apóstatas....................................... 379
379
Humildade e a Sensibilidade do Espírito
1. A Humildade
1. Espirito no no
..
2. A Corrução do Culto no Sistema de Sacrifícios .. 383
381
Culto ............................................................ 381
..
383
i 3. SalvaçÉb para
3. SalvagMb fiéis, Julgamento para
para os fiéis, para os Após-Após¬
V tatas .................................... ............ .. 384
384
I 4.
4. OO Povoamento Repentino da
Povoamento Repentino da Nova
Nova Jerusalém
Jerusalém .. ..
386
386
Bênç&os da Nova
O Regozijo com as Bênçãos
1 55.. 0 Nova Jerusalém .. ..
387
387
6. A Promessa de Prosperidade a Jerusalém e aos
Seus Habitantes
Habitantes.......................................... -388 388
7. oO Senhor Julgará o Mundo M u n d o ............................... 390
390
8. Cerimónias Purificação dos Povos
Cerimônias de Purificação Povos Vizinhos de
Israel ..
Israel ................... ........................................ 391
9. Anúncio dedo Conhecimento ee da Glória Glória do Senhor
10.
'
' ’‘ entre as Nações
10. AA Permanência
N ações.........................
Permanência da Nova Comunidade
da Nova Comunidade Que
..............
Que oo Se- Se¬
392
392
nhor Há
' nhor Há de Criar ..................... 395
395
INTRODUÇÃO,
INTRODUÇÃO, C A P Í T U L O S
CAPÍTULOS 40-66

O Livro
L ivro de Isaias comptísto de 66 capítulos. É
Isaías é compdsto É
o livro inteiro a obra de um só autor, IsaiasIsaías de Jerusa¬
Jerusa­
lém? Antes do estudo moderno dos autores e do fun¬ fun­
do histórico das obras do Velho Testamento, os 66 ca¬ ca­
foram aceitos normalmente como a obra de
pítulos foram
Isaías de Jerusalém. No décimo segundo século Ibn
Isaias Ibn
Ezra levantou dúvidas de que os capítulos 40-66 fossem fôssem
Isaías, o autor dos capítulos 1-30.
escritos por Isaias, Em 1775
1-30. Em 1775
Johan Christoph formulou e defendeu a hipótese de
foram escritos anos depois da pro¬
que os capítulos 40-66 foram pro­
dução da primeira parte do livro por um grande poeta,
que apresenta, na sua própria obra, as circunstâncias
históricas da sua época.
Baseando-se no fato evidente de que os profetas di¬ di­
rigiram
rigiram as suas mensagens aos seus .contemporâneos, os
estudantes eruditos dos tempos modernos aceitam, sem
mais argumentação, a evidência de que o autor dos ca¬ ca­
pítulos 40-66 viveu e escreveu no período histórico de
598-540 a. Isaías de Jerusalém teve a sua visão do
a. C. Isaias
. .
Senhor no ano da morte do rei Uzias em 742 a . C .,, um um
século e meio antes do período histórico
histórico' apresentado nos
capítulos 40-66. Os profetas dirigiram as suas mensa¬ mensa­
gens aos seus contemporâneos, apresentando-lhes verda¬ verda­
des eternas da revelação divina que receberam d© do Se¬
Se­
nhor para o seu próprio povo . exemplei, não se le¬
Por exemplo,
p ovo. Por le­
vantam dúvidas sôbre o período histórico do profètà
16 A R. CRAB TR EE

Amós, que apresentou ao povo de Israel a verdade eter­


na da justiça divina, justamente como Oséias apresentou
aos seus cdntemporâneos a verdade eterna do amor imu­
tável, do Senhor..
Há três argumentos, geralmente reconhecidos agora
como irrefutáveis, de que o profeta Isaias de Jerusalém
não escreveu os capítulos 40-66 do livro intitulado Isaías
no texto Hebraico e nas versões modernas.
A. As circunstâncias históricas apresentadas nos ca­
pítulos 40-66 são claramente diferentes do período his­
tórico de Isaías de Jerusalém. Começando as suas ativi­
dades proféticas no ano da morte do rei Uzias em 742
a. C., Isaías exerceu o seu ministério durante os reina­
dos de Jotão, Acaz e Ezequias de Judá, e possivelmente
por alguns anos no reinado de Manassés. Êle fala de
Peca, rei de Israel, e de Rezim, rei da Síria, e também
de Sargão e Sénaqueribe, reis da Assiria. O profeta fala
da politicagem e da infidelidade religiosa do rei Acaz, e
descreve também as suas experiências e a influência do
seu apêlo dirigido ao rei Ezequias no tempo do sítio de
Jerusalém por Senaqueribe. Fala das campanhas m ili­
tares da Assíria e da sua prática de genocídio, a extermi-
nação de grupos nacionais que conquistou. Isaias é ge­
ralmente reconhecido como estadista que entendeu me­
lhor do qi|e os reis de Judá e Israel os problemas políti-
tcos e os nfbvimentos históricos do seu tempo. Exerceu
|b seu ministério nò período do declínio nacional de Judá.
|Has êste grande homem de Deus transmitiu a sua firm e
esperança no poder e no triunfo final do reino do Se­
nhor sôbre as nações e povos do mundof.
O autor dos capítulos 40-66 exerceu o seu ministério
na última parte do período dò exilio dos judeus na Ba-
bilQniç. Não sé fala mais, nestes capítulos, sôbre a As­
siria, o poder dominante do Oriente Próxim o no período
de Isaías de Jerusalém. O reino de Israel não existe mais.
A PROFECIA DE ISAIAS 17
Jüdá e Jerusalém haviam caido no poder do ex^gcito de
Nábuccdonosor, e a melhor pai te de seus habitantes se
achava na Babilônia. Jerusalém e a Palestina jaziam em
ruinas (44;26, 28).
Logo no princípio do capítulo 40 o profeta começa
a sua mensagem com palavras de consolação e de en­
corajamento do seu povo, e continua coin"â descrição da
nova manifestação da glória do Senhor. O pensamento
e as atividades dêste profeta relacionam-se normalmente
com as circunstâncias históricas do seu povo que se acha­
va no cativeirtí, e à luz do nôvo movimento da história.
Os impérios semíticos estavam chegando ao fim do seu
domínio com a decadência e a conquista iminente de Ba­
bilônia por Ciro, o grande estadista que já estava intro­
duzindo os grandes ideais da nova civilização. O profe­
ta se mostra bem informado sôbre as campanhas mili­
tares de Ciro e do seu govêrno benéfico dos povos que
estava libertando da tirania dos seus dominadores. O
profeta reconheceu Ciro como o homem destinado, na
providência divina, para libertar os israelitas do cativei­
ro, e restaurá-los para a sua própria terra. Êle mencio­
na o nome de Ciro duas vêzes (44:28; 45:1), e fala dêle
como o ungido do Senhor.
“ Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro,
a quem tomo pela mão direita,
para abater nações ante a sua face;
e descingir os lombos dos reis,
para abrir diante dêle as portas,
para que entradas não sejam fechadas.”
Assim o profeta tem certeza de que Ciro dará liber­
dade aos israelitas cativos, e que êstes cumprirão a sua
missão sacerdotal de acôrdo com o eterno propósito do
Senhdr. Esta descrição tão clara! dás circunstâncias his­
tóricas dêste mensageiro do Senhor, entre 598 e 540
18 A. R. CR AB T R E E

a. C ., não pode ser aplicada ao período histórico de


Isaías de Jerusalém.
B. Outro argumento de que Isaias de Jerusalém não
escreveu os capítulos 40-66 do L ivro de Isaías baseia-se
no estilo literário da segunda parte que é claramente di­
ferente dos característicos literários da primeira parte.
Enquanto êste argumento não tem a fôrça dos fatos his­
tóricos já apresentados, é bastante importante para o
estudante cuidadoso dos característicos literários que
são muito diferentes nas duas partes do livro.
Isaías de Jerusalém era um grande estadista, um
gênio intelectual que d Senhor levantou para guiar e
orientar o seu povo através do período crítico da sua
história. Êle tinha que enfrentar os maiores problemas
políticos e religiosos da história do seu povo. O seu esti­
lo literário' é característico do seu gênio, e adapta-se às
circunstâncias daqueles que precisavam receber as suas
mensagens sôbre a infidelidade política e religiosa dos
dirigentes do povo.
O seu estilo é geralmente conciso, sólido e freqüen­
temente austero, com o movimento maj estático e im ­
ponente dos seus períodds retóricos. Sabia caracterizar
com poucas palavras os homens e os reis fracos e ar­
rogantes. Peca, o rei de Israel, e Rezim, rei da Síria,
são dois pçdaços de tições fumegantes. A parábola da
"tinha do Sehhlor é uma obra-prima desta qualidade de
literatura.
* O autor dos capítulos 40-55 era poeta lírico. A sua
linguagem é mais fluente, mais apaixonada, xjiais emocio­
nal, mais alegre e mais exuberante do que a linguagem
forte de Isaías, que se sentiu impelido a criticar, admoes­
tar e até ameaçar o seu povo freqüentemente com o cas­
tigo Mlivino. No tempo do cativeiro, o povo de Israel
tinha sofrido o castigo dos seus pecados, e na sua humi­
A PRO FE CIA DE IS AfAS 1»

lhação e desânimo, precisava ouvir a mensagem, dp con­


solação e de encorajamento. Assim, o profeta desperta
e inspira os exilados com a certeza do seu livramento,
e a promessa divina de que êles ainda vão cumprir a sua
nobre missão entre as nações do mundo. Não há muita
diferença no vocabulário das duas partes do livro', mas
há uma grande diferença no uso das palaxyas. O autor
dos capítulos 40-56, como jà notamos, é poeta lirico, e
mostra interêsse e destreza em repetir e combinar pa­
lavras para produzir sons poéticós e musicais. Entre
todos os escritores do Velho Testamento, êle é o mestre
supremo no uso da língua hebraica.
C. Há também uma diferença considerável entre
os pensamentos e os ensinos teológicos dos capítulos
1-39 e 40-56. Como se notam afinidades de linguagem,
há também semelhanças na teologia, mas as diferenças
são mais notáveis do que as similaridades. O autor dos
capítulos 40-56 apresenta um retrato do Senhor como o
Criador, o Redentor e o Condutor da história. Assim
êle não só aperfeiçoa a mais profunda filosofia da his­
tória, como apresenta também o mais perfeito entendi­
mento de Deus como Criador e Redentor. (Êle tem tam­
bém o mais claro entendimento do eterno propósito do Se­
nhor. O seu retrato' de Deus como Criador e Redentor não
tem paralelo na profecia de Isaías. Êste mensageiro da
Senhor era mestre da teologia, bem como da língua he­
braica ,
Há uma diferença interessante entre o Messias de
Isaias, 9:1-6 e 11:1-9, e o retrato do Servo Sofredor do
Senhor nas quatro passagens nds capítulos 40-55. E ’
inuito difícil acreditar que o mesmo escritor apresentas­
se estas duas figuras maravilhosas que não se identifi­
cam em qualquer parte do Velho Testamento, mas se
combinam perfeitamente na Pessoa e no ministério de
Jesus de Nazaré.
20 A. R. C R AB TR E E

São mui poucos agora os estudantes do Livro de


Isaías que tentam provar que os capítulos 40-56 repre­
sentam a projeção da vista profética de Isaías no futuro
para entender e interpretar eventos históricos que acon­
teceram 150 anos depois da sua morte. Como se pode ex­
plicar que Isaías conheceu o nome de Ciro, o agente un­
gido do Senhor, que nasceu mais de cem anos depois da
morte do profeta? Ninguém pode negar que os profetas
de Deus podiam fazer predições sôbre a operação das
verdades eternas da justiça e do amor do Senhor na his­
tória humana. Isto, porém, não significa que o profeta
sabia predizer os pormenores da história de homens e
nações do futuro. O mensageiro do Senhor divigiu os
seus ensinos diretamente ads seus contemporâneos. En­
contram-se nos capítulos 40-56 vários ensinos que Isaías
e outros profetas já tinham apresentado. As afinidades
e relações entre os capítulos 1-39 e 40-66 talvez indiquem
a razão por que as duas profecias foram publicadas no
mesmo rôlo ou livro.
I- A Integridade dos Capítulos 40-66
Bernard Duhm apresentou dois argumentos para
provar que os capítulos 56-66 não foram escritos pelo
autor dos capítulos 40-55. Êle argumentou que os últi­
mos capítulos foram escritos em Jerusalém alguns anos
depois da volta do cativeiro. Diz êle que as formas de
.culto, e especialmente a ênfase na observação do sábado
je no costume de jejuar, representam uma religião de
çerimonialismo diferente da religião espiritual apresen­
tada nos capítulos 40-55. Um grupo de críticos concor­
da com êle, e diz que as práticas e os costumes religiosos
do povo apresentados nesta seção indicam um período
mais além. Declara também que a cegueira dos diri­
gentes da vida religiosa nos capítulos 56:9-57:13 indica
o período do desenvolvimento do cerimonialismo reli­
gioso depois da reconstrução do Templo.
A PROFEC IA DE ISATAS 21
Mas quando consideramos o idealismo religioso apre­
sentado tão brilhantemente pelo profeta nos seui? apelos
aos cativos em contraste com as dúvidas dèstes, pode­
mos entender que as lutas entre as facções e as práticas
religiosas que existiam no tempo de Esdras e Neemias
começaram ou existiram entre um grupo de israelitas
desde a volta do cativeiro'.
Quando voltaram do cativeiro encontraram condir
ções econômicas e políticas mais difíceis do que espera­
vam. 0 mensageiro dos capítulos 40-55, contemplando
o significado da restauração para o futuro' do povo de
Deus, apresentou na linguagem poética, e nas imagens li­
terárias, a grandeza e a glória do evento. Èste mensa­
geiro do Senhor, no seu profundo entendimento do eter­
no propósito do Senhor na escolha de Israel, estava pen­
sando evidentemente no grande significado dêste even­
to, não somente para o pequeno grupo que ia voltar à
sua própria terra, maravilhosa que fôsse aquela expe­
riência. Com os seus predecessores, mas com entendi­
mento mais profundo', êste mensageiro do Senhor enten­
deu os problemas que êstes homens tinham que enfrentar
no cumprimento da sua missão como o povo' escolhido
do Senhor. No cativeiro com êles, oi profeta lhes inter­
pretou a eterna importância da sua restauração. Depois
da volta para a sua terra, o mensageiro do Senhor pre­
cisava encorajar e orientar êstes israelitas no restabele­
cimento difícil na terra que jazia em ruínas. Tinha que
repreender em linguagem forte as suas falhas e os seus
pecados (56:9-57:13). Ao mesmo tempo êle sabia enco­
rajá-los de nôvo com a linguagem poética e brilhante
que tinha usado no princípio para despertá-los do seu
desânimo e letargia (Cp. 57:14-21 e caps. 60-62).
Na linguagem e no estilo literário, êstes capítulos
56-66 são muito mais semelhantes à seção 40-55 do que
alguns críticos querem reconhecer. Os primeiros oito
22 A R. C R A B T R E E

versiculos do capitulo 56 ligam-se diretamente com a se­


ção anterior.
N o estudo cuidadoso dos capítulos 56-66, entende-se
cada vez mais claramente a relação da vitória dos res­
taurados sôbre os problemas difíceis que venceram com
a glcíriosa visão profética que se apresenta nos capítulos
40-55. Não há nada no estilo literário, nem nas circuns­
tâncias históricas dos capítulos 56-66, que prove positi­
vamente que êstes capítulos não podiam ser escritos pelo
autor dos capítulos 40-55.
Considerando o gênio dêste homem de Deus, o seu
conhecimento do povo de Israel e a sua rica experiência
espiritual com o Senhor, torna-se evidente que êle sabia
orientar e dirigir os israelitas restaurados, com todos os
problemas e lutas, no seu restabelecimento na Palestina,
e na nova fundação da obra do Senhor no Monte Sião.
Não obstante o fato de que alguns críticos concor­
dam com os argumentos de Duhm, há uma tendência
entre os críticos modernos de reconhecer que os capítu­
los 40-66 podem ser o produto de um só escritor.
Dizem alguns que as condições refletidas nestes capí­
tulos pertencem ao período de Esdras e Neemias, e que
o autor está condenando os pecados e a idolatria dos cis-
máticos samaritanos, mas não há qualquer prova desta
interpretação. Felizmente, a diferença entre os pontos
de vista sQbre esta questão não tem muita importância
ha interprerlição dêstes capitulos.

f I I . Alguns Característicos Gerais dos Capítulos 40-56


Alguns estudantes dos capitulos 40-66 observam três
divisões desta parte do livro, com nove capítulos em
cada divisão. Citam também certos preceitos litúrgicos
que caracterizam cada uma destas divisões.
v T i K . Cheyne e outros afirmam dogmaticamente
que os capitulos 49-55 não foram escritos pelo,autor dos
A. P R O F E C IA DE IS A tA S 23

caps. 40-48. Basearam os seus argumentos no fato de


qué novas teses são desenvolvidas na segunda Iffvisão,
<e que o nome de Ciro não é mencionado nestes capítu­
los. Estas diferenças se explicam facilmente pelas cir­
cunstâncias diferentes dei escritor. As semelhanças nq
«estilo literário e nas teses das duas partes, bem como o
desenvolvimento das poesias e do pensamento do autor,
são mais notáveis e mais importantes do qife as diferen­
ças apropriadas.
A . A Unidade dos Capítulos 40-55
Há um grupo de escritores, críticos da form a lite­
rária, que dá muita ênfase ao tipo e ao estilo literário des­
ta profecia, como Hugo Gressman, Ludvig Kõhler e
Mowinckel. (Êles argumentam que os capítulos 40-55
são compostos de um grande número de pequenas poe­
sias que não se relacionam logicamente umas com as ou­
tras. Não concordam quanto ao número de tais poesias,
mas dizem que cada uma delas existe independente de
tôdas as outras. Mas esta análise mecânica da obra não
concorda com os fatos evidentes para o leitor cuidadoso
da obra, pois, não obstante a variedade de tipos, formas
e imagens literárias apresentadas na obra, é perfeitamen­
te claro para o leitor estudioso que há uma continuidade
lógica no pensamento do profeta, e uma relação clara
entre as imagens literárias, bem como o desenvolvimen­
to da mensagem profética de acôrdo com as necessidades
religiosas do seu povo. O profeta não escreveu simples­
mente para demonstrar o seu poder poético.
Considerando as teses predominantes dêstes capítu­
los, podemos reconhecer a lógica e o propósito dêste
grande mensageiro do Senhor. Na mudança das circuns­
tâncias históricas do seu povo, o' profeta persiste
no desenvolvimento das verdades eternas da reve­
lação divina. É teólogo profundo no reconhecimen­
to do Senhor Javé como o Criador de tôdas as
A . R. C RAB TRE E

cousas e o Condutor supremo da história humana.


Portanto, os seus propósitos e cis seus planos são infalí­
veis. No Concêrto do Senhor com Abraão, e no Concêr­
to ulterior com Israel, o Senhor revelou o séu eterno pro­
pósito na vida e na missão do povo da sua escolha. O
profeta dá muita ênfase à glorificação do Senhor no li­
vramento de Israel do cativeiro' para cumprir a sua mis­
são sacerdotal, um evento histórico de profunda signifi­
cação para a humanidade inteira.
O profeta reconhece que êste pequeno grupo de is­
raelitas desanimados e desesperados não tinha o poder
de libertar-se a si mesmo, mas será libertado pelo' braço
forte do Senhor, e será divinamente guiado na volta para
a sua terra, e no seu restabelecimento no Monte Sião.
Não obstante a variação nas circunstâncias do profeta,
e a mudança nos seus sentimentos poéticos, êle persiste
nos seus ensinos principais. 0 seu ensino sôbre Deus
como o Criador e o Condutor da história humana é funda­
mental em todos os seus ensinos. O Senhor Javé será
glorificado entre as nações dô mundo pela redenção de
Israel. O eterno propósito do Senhor se estende a tôdas
as nações do mundo e será finalmente realizado por in­
termédio do seu Servo Sofredor. O profeta reconhece
que o caminho do' Senhor é freqüentemente misterioso,
mas é sempre o caminho de triunfo e vitória.
, Êste ntftpsageiro do Senhor é o mais profundo teólo-
fcò do Velho Testamento. É de profunda significação a
iontinuidade do séu pensamento' sôbre o propósito e as
atividades do Senhor. A glória do Senhor se revelará a
todos os povos. O Senhor virá como o Conquistador dos
inimigos do seu polvo. Virá como o Rei Supremo e esta­
belecerá o sèu reino de justiça. Estabelecerá a sua obra
criadora no mundo. Israel é o seu servo, o povo da sua
escolha^ o povo do seu Concêrto, o portador das boas
novas do Senhor para todos os povos.
A ' P R O F E C IA DE ISAtAS 25

Mas Israel tinha fracassado no cumprimento- 4a sua


missão, tornandò-se cego e mudo. As calamidades his­
tóricas que haviam caido sôbre Israel, com o seu sofri­
mento no cativeiro eram conseqüências da sua cegueira
e.da sua infidelidade. Mas o Senhor não abandonará o
seu propósito na eleição de Israel. N o seu amor imutá­
vel e na sua graça redentdra, o Senhor já havia cumpri­
do o primeiro grande passo na redenção de Israel. Na
sua grande e misteriosa providência, o Senhor tinha le­
vantado Ciro como o agente para libertar Israel do cati­
veiro (Cap. 44:24-45:13). Mas o Senhor conseguirá a
salvação espiritual de Israel por intermédio do seu Ser­
vo Sofredor (Caps. 42:1-4; 49:1-6; 50:4-10; 52:13-53:12) .
B. O Estilo Literário do Profeta
Muitos estudantes da poesia dêste profeta ficam en­
cantados com a beleza da sua linguagem. É verdadeira­
mente uma obra-prima da literatura semitica. A relação
de sons com o sentido das palavras é característica da
poesia hebraica, e êste profeta demonstra o seu gênio
como mestre da poesia no uso da linguagem figurativa,
desenhos técnicos, imagens literárias e cânticos líricos.
N o sentido preeminente êle é poeta bem como profeta.
Como os demais profetas, era proclamador fiel da men­
sagem do Senhor, mas apresentou a mensagem do Se­
nhor nas mais lindas formas da poesia.
N o entendimento do espirito desanimado de Israel,
êste profeta, em plena comunhão com ó Senhor, sabia
usar os seus dons poéticos na transmissão da mensagem
do amor de Deus ao seu povo. Na expressão da intensi­
dade do seu pensamento, e dos sentimentos do seu co­
ração, êle demonstra os ricos recursos dos seus dons; li­
terários. Contemplando a glória do Senhor como o
Ctínquistador das fôrças do mal, na realização dos seus
eternos propósitos, o profeta levanta a sua voz em cân­
26 A. R. C R ABT REE

ticos exuberantes de louvor e gratidão (42:10-13; 44:23;


45:8; 49:13). Louva ao Senhor em cânticos de alegria
pela redenção de Israel.
Rompei em júbilo, exultai juntamente,
vós lugares desertos de Jerusalém;
porque o Senhcir confortou o seu povo,
remiu a Jerusalém (52:9) •
Êle se regozija nas maravilhas da criação; louva e
glorifica ao Senhor pela graça poderosa na redenção ide
Israel. Participando na compaixão do Senhor, êle pro­
duz algumas das mais lindas poesias de tôdas as Escri­
turas Sagradas (43:1-4; 44:21-22; 48:18-19; 49:14-16;
54:6-8). No exercício dos seus dons literários, o profe­
ta revela o seu profundo entendimento das atividades do
Senhor na história de Israel, bem como o eterno propó­
sito divino na direção da história humana. Na lingua­
gem dramática, êle dâ ênfase aos temas principais da sua
mensagem, a criação, a história e a redenção. O Senhor
Javé, na sua própria Pessoa, na sua autoridade suprema,
e na sua sabedoria e poder, determinará o destino de Is­
rael no cumprimento do propósito da sua escolha como
o portador da revelação divina a todos os povos do mun­
do. Na transformação dos seus pensamentos teológicos
em imagens visíveis, o profeta se apresenta como o mais
profundo tê&logo do Velho Testamento.
1 Lendo esta profecia em voz alta, fica-se cada vez
nfais enlevado com a técnica e a beleza da poesia do au­
tor. É mestre no uso de paralelismos, na arte de metri-
ficação e na combinação de palavras e sons para produ­
zir a poesia musical. Estudantes da profecia mencio­
nam os numero'sos característicos poéticos da linguagem:
Onomatopéia, 40:1a; 42:14; 47:2a; 53:4-6; Paronomá*
sia, 40:11; 41:5a; 53rl0b; Aliteração, 40:6; 47:1; Ritmo,
é característico da obra inteira, mas veja 40:6-8; Com­
A PR O F E C IA DE ISATAS 27

binação de palavras com o mesmo som, 40:12ab; .|l :lab;


54:1.
É também notável o estilo dramático do profeta.
Mais do que qualquer outro escritor bíblico, êste mensa­
geiro do Senhor acentua as formas dramáticas da ati­
vidade de Deus na história. Dá ênfase também ao pro­
pósito e à vontade do Senhor em relação' com o espírito
revoltoso de Israel, e as fôrças de iniqüidade que operam
contra os planos e os propósitos divinos nos vários pe­
ríodos da história. Há várias cenas dramáticas na pro­
fecia, como o' conselho no céu (40:1-11); o julgamento
das nações (41:1-42:4); o êxodo dos deuses da Babilô­
nia (46:1-13); a queda da Babilônia (47:1-15); a vinda
do Senhor Javé como Rei (52:7-10).
Deus é a personagem central em tôda parte da pro­
fecia. É o Criador, o Condutor da história e o Redentor.
Tôdas as nações ficam subordinadas à sua autoridade
suprema. A vida e o destino' de Israel envolvem-se nas
atividades providenciais do Senhor no controle da his­
tória humana.
Nas suas arrojadas figuras poéticas, o profeta apre­
senta o Senhor nas suas atividades como homem de
guerra, um grande Conquistador preparado para entrar
na batalha (42:13); como mulher de partd, dando gri­
tos de dor (42:14); como destruidor de montes e outei­
ros (42:15) ; como guia dos cegos no caminho que êles
não conhecem (42:16); Como Rei do Seu povo (43:15);
como Juiz de povos e nações (41:1-42:4; 43:8-13; 48:14-
16); como Marido do seu povo (54:5); como Pai de Is­
rael (50:1); o Criador e Formador do universo e de Is­
rael (40:22-28; 43:1).
Deve-se estudar esta profecia à luz da história de
Israel como o povo escolhido do Senhor, e a história do
Oriente Próxim o. O profeta trata da história do MQ
A R. C R A B T R E E

povo à luz da chamada divina de Abraão, e do Coticêrto


do Senhor com Israel.
C . A Situação Histórica do Povo de Israel
Êste profeta relaciona a sua mensagem à história
de Israel desde a chamada de Abraão. Êle formulou
mais claramente do que qualquer outro profeta uma f i­
losofia da história. Assim, interpreta as atividades do
Senhor, não sòmente na história dfe Israel, mas também
na história das nações do mundo'. A sua interpretação
da história de Israel e das nações é especialmente inte­
ressante à luz das circunstâncias tristes da sua própria
nação.
Depois da morte do rei Josias em 608 a. C., a pe­
quena nação de Judá ia se enfraquecendo e caindo como
nação, sob o govêrno de reis fracos e irresponsáveis. Em
597 a.C . Nabucodonozor deportôu um grupo de judeus,
e deixou Zedequias como o governador da pequena co­
lônia i Mas, por causa das intrigas políticas de Zedequias,
o poderoso rei da Babilônia voltou, sitiou a cidade de
Jerusalém em 587 a .C ., e no ano seguinte capturou e
destruiu a cidade e o Tem plo. Êste terrível desastre
eclipsou por algum tempo a história do povo de Israel,
bem conlo as suas práticas tradicionais da religião.
O exército da Babilônia levou no exílio os mais im­
portantes hqhitantes de Jerusalém, bem como os homens
tfe maior influência social de Judá, mas permitiu ao
plofeta Jeremias o privilégio de ficar à vontade nas ruí-
nfs da sua terra. Mais tarde, êle profetizou a restaura­
ção dos exilados (Jer. 29:10), e a conquista da Babi­
lônia pelos medos (51:11).
Por uns 40 anos depois da queda de Jerusalém ha­
via poucas indicações da restauraçãd dos exilados. O
número, dos judeus levados no exílio nas três deporta­
ções, segundo as referências de Jeremias, era de 4.600.
Êles fririram alguma liberdade na Babilônia, e alguns
A ' PROFECIA DE ISAfA S

prosperaram e edificaram as suas próprias casas^Jer.


29:5), e tinham permissão de se reunirem na vida social
(E z. 8:1; 14:1; 20:1). No correr dos anos, a nova gera­
ção ia se adaptando às condições no estrangeiro, e perdeu
o interesse e a esperança de voltar para a sua terra.
Mas havia um grupo que mantinha o ardente desejo de
realizar o sonho de restabelecer-se em Jerusalém, a cida­
de do Senhor. Entre êste grupo o Senhor levantou o seu
grande mensageiro para despertar e encorajar o povo
no preparo para a sua restauração, de acôrdo com o pro­
pósito eterno na direção da história de Israel e das nações
do mundo (40:55).
Em 550 a . C . começou a carreira do grande estadista
Ciro, que tomou ràpidamente o controle dos reinos dos
medos e persas. Para o profeta, êste nôvo movimento
histórico, com a queda dos impérios semíticos e o estabe­
lecimento de governos liberais, significava a operação do
Senhor Javé na história, que havia de resultar no liber­
tamente de Israel do cativeiro para cumprir a sua missão
sacerdotal, de acôrdo com o eterno propósito de Deus.
D. A Teologia de Segundo Isaías
Êste profeta é o mais profundo teólogo do Velho Tes­
tamento. Èle não apresenta um sistema teológico, mas
o' seu ensino sôbre a Pessoa e as atividades do Senhor na
história de Israel e das nações do mundo é o elemento
fundamental da sua mensagem. Como Isaías de Jerusalém,
era homem da sua época histórica, e interpretou as ati­
vidades de Deus na grande crise da história do povo de
Israel. Os profetas anteriores eram monoteístas, mas êste
autor entendeu e interpretou mais claramente do que êles
a glória de Deus na Criação e no controle dos eventos da
história. A mensagem do profeta relaciona-se com a nova
época da história. Israel está ainda no cativeiro, mas em
o nôvo movimento da história, será libertado para cum-
30 A . R. C R A B T R E E

prir a sua missão determinada pelo Condutor dos even­


tos da história.
Êste profeta declara logo no princípio da sua mensa­
gem o que Deus é na sua Pessoa (40:12-2&). Acentua re­
petidamente a incomparabilidade de Deus. A quem, pois,
fareis semelhante a Deus? Êle dá ênfase às obras da cria­
ção. Quem é Aquêle que mediu as águas na concavidade-
da mão, e marcou os limites dos céus com « palma? Quem
recolheu numa medida o pó da terra, e pesou os montes
com um pêso? Levantai ao alto os vossos olhos, e vêde:
quem criou êstes? Aquêle que faz sair por número o seu
exército, chamando todos êles por nome; pela grandeza
das suas fôrças, e pela fortaleza do seu poder, nem um só
vem a faltar. Em comparação com o poder do Criador
da terra e dos céus, e o Condutor do movimento de tôdas
as estréias, quão insignificantes são todos os sêres fini­
tos ! As nações são como uma gôta dum balde, e nenhuma
combinação dos podêres políticos do mundo pode impedir
a realização dos propósitos eternos de Deus.
Se qualquer combinação dos homens é impotente pe­
rante o Senhor, que se pode dizer sôbre o poder dos deu­
ses feitos pelas mãos dos homens? No's versos 18-20 des­
creve-se o processo de fabricar ídolos que não têm vida
e não podem fazer cousa alguma.
Tôdas as atividades do Senhor relacionam-se ao fato
, de que !Êle*£ o Criador. O Criador entra na história para
tefetuar a redenção. Para êste teólogo, as atividades divi-
Inas na direção dos eventos da história são' inseparáveis
'da obra da criação. O Redentor de Israel e dos povos do
mundo é o Criador. Para descrever as atividades do Se­
nhor na direção da história de Israel e dos povos do mun­
do', o profeta visa as palavras formar e criar. Êle usa a
palavra muitas vêzes para descrever as atividades
\ » TT
criadoras de Deus, « a realização do seu propósito nos mo­
vimentos da história das nações (40:26, .28; 41:20; 42:5;
A ' p r o f e c ia de is a ía s 31

43:1, 7, 15; 45:7, 8, 12, 18; 48:7; 54:16). Deus se.#evela


a si mesmo na obra da criação. No seu poder cósmico,
Êle triunfa sôbre os deuses pagãos, e os podêres políticos
de homens e «ações que querem usurpar o seu poder . .
A propósito do Senhor na salvação de Israel e do
mundo inteiro relaciona-se à obra da criação. Javé fêz
o mundo para ser habitado (45:12, 18). 0"'Senhor não
ebándonOu e nunca abandonará o mundo que criou. Não
fiz o inundo para ser um caos (45:18). Êle se apresenta
em tôdas as épocas da história, e vai chatmando as gera­
ções desde o princípio (41:4 ). A criação é o ato inicial
ãd Senhor, a obra final é a salvação. Juntamente com
esta atividade constante de Javé na vida dos homens, Êle
tem conhecimento do futuro, e visa ao triunfo'final do
seu eterno propósito como Criador, Redentor e Condutor
da história humana. Nenhum outro escritor do Velho Tes­
tamento dá tanta ênfase ao propósito de Deus em tôdas
as suas atividades como êste mensageiro divino. O eterno
propósito divino relaciona-se diretamente com a santida­
de, a justiça e o amor imutável do Criador.
Êste profeta relaciona a sua mensagem com o Deus
Eterno, . O Senhor é o Deus sempiterno, o
t **
Criador dos fins da terra. Êle não desfalece, nem se cansa,
o seu entendimento é inescrutável (40:28). Javé era co­
nhecido como o Deus eterno, mas êste é o primeiro men­
sageiro do Senhor que relaciona a criação com a eterni­
dade . Deus é o Senhor do tempo, bem como das obras da
criação. Êle é o primeiro e o último (44:6). O Senhor
VSÍ cumprindo o seu eterno propósito nos períodos su-
, cessivos de tempo (42:21; 44:28; 46:10; 53:10; 55:10-11).
O Senhor Javé sempre se apresenta nesta profecia
COlno o único e o verdadeiro Deus.'Eu sou o Senhor, e
nfio há outro; além de mim não há Deus (45:5, 6, 21;
Cp. 41:26-27). Eu sou file, o único Deus verdadeiro (41:
32 A . R. CR A B TR E E

4; 13:15; 46:4; 48:12), O propósito de Deus se manifesta


em todos os movimentos da história, desde o princípio até
ao fim , Êle não sòmente entende e explica a história,
mas também vai criando eventois no correr da história,
de acordo com o seu eterno propósito.
Outras nações fabricam os seus deuses que não po­
dem fazer cousa alguma. Mas o Senhor, o Criador do
universo, no seü poder supremo, sustenta e conserva as
obras da criação. Na sua sabedoria inescrutável, e no
seu conhecimento inesgotável, o Criador controla e diri­
ge o trânsito das obras do seu universo, incluindo' até o
movimento das estrelas. Outras religiões têm os seus
mistérios, os seus tabus, mas a santidade é a verdadeira
natureza do Senhor.
O leitor cuidadoso desta profecia fica impressionado
com os títulos do Senhor que indicam o seu caráter, o
seu poder e as suas numerosas atividades. Todos êstes
têrmos, Juiz, Rei, Salvador, Consolador e Mestre, aplicam-
se ao Criador, e indicam a sua onipotência.
O Senhor Javé é o Juiz supremo em todo o domínio
da história de Jerusalém e Israel, e das nações, Assíria,
Babilônia, Egito, Etiópia, Seba, e até os confins da terra
(43:3 ). Israel é designado como instrumento de julga­
mento, mas também será julgado juntamente com as ou­
tras nações do mundo. O julgamento é a função do Rei.
A nova i^pde será inaugurada pela declaração do govêr-
no universal de Deus (40:10; 52:7) . Todos os povos verão
a vinda do Senhor em tôda a sua glória (52:7-10). O Se­
nhor é Rei de Israel num sentido especial. É também o
Santo, oi Redentor, o Poderoso, o Criador de Israel (44:6).
Javé c o único Salvador, o único que tem o poder de
salvar. Fora de mim não há Salvador (43:11; 45:21; 46;
2, 4, 13; 47:13, 15). A salvação do Senhor é eterna (45:
17*; 51:6, 8), e se manifesta não sòmente no livramento do
poder político, tãcf significativo para a pequena nação de
A PR O FEC IA DE ISAfA S 33

Israel. É também a salvação espiritual que pode-sçp con­


seguida sòmente pelo poder, pela justiça, pela santidade
e peia graça de Javé, o verdadeiro Salvador. Êste grande
mensageiro do Senhor visa também à salvação das na­
ções no reconhecimento de Javé como o verdadeiro’ Deus
de todos os povos do mundo (51:4-6; 52:10).
Êste profeta dá muita ênfase à compaixão do Senhor
nu sua relação com tí povo de Israel. Javé é o grande Con­
solador de Israel na sua aflição e sofrimento, ó tu, aflito,
tempestuosamente arrojado, e não consolado, eis que eu
porei as tuas pedras com antimônio, e lançarei os teus
alicerces com safiras. Logo no princípio desta profecia,
Deus promete consolar o seu povo, e êste tema recebe ên­
fase em tôda parte da profecia (Cp. 40:1; 49:13; 51:3,
12, 19; 54:11; 57:18; 61:2; 66:13).
O Senhor se apresenta também como o Instrutor do
«eu povo. Deus instruirá todos os seus filheis no caminho
da justiça. Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te ensina o
que é útil, e te guia pelo caminho em que deves andar
(48:17). Javé deu a Israel a Lei, m i n , a Revelação
T

Divina, com a incumbência de transmiti-la às nações do


mundo.
Deus se revela na sua Palavra e no cumprimento das
•uas promessas. Em tôda parte da sua mensagem o pro­
feta declara a sua fé inabalável na revelação de Deus,
• na certeza de que o Senhor dos Exércitos cumprirá o
MU eterno propósito na redenção de Israel, e na salvação
ê u nações do mundo. A Palavra do nosso Deus (40:5)
p w manece eternamente (40:8) . (Êle concorda ctím os ou­
tros profetas na certeza de que o Senhor cumprirá os
MUft eternos propósitos, mas tem uma compreensão mais
Olara dos eternos propósitos de Deus concernente à mis-
• lo de Israel, e o triunfo divintí na salvação das naçõe»
A . R. C R A B TR E E

do mundo (40:5,8; 55: 10-11). A Palavra de Javé,


ntTP-rD 5^ freqüentemente significa a Revelação do S «-
•l
nhor que abrange o eterno propósito de Deus na criação
na história, em tôdas as complexidades de povos e nações
no tempo e no espaço (45:18, 19).
Mais claramente do que qualquer outro profeta, êste
mensageiro do Senhor entendeu e interpretou a missão
de Israel, como o povo escolhido de Deus. Em palavras
solenes, Deus revela o' seu eterno propósito na direção
da história de Israel, o pdvo da sua escolha. Agora, pois,
ouve, ó Jacó, servo meu, e tu ó Israel, a quem escolhi. No
uso freqüente dos pronomes Eu e tu revela-se o significa­
do da relação tão importante entre o Senhor e o seu povo.
Deus fala freqüentemente na primeira pessoa EU na men­
sagem íntima que dirige a tu, Israel. Eu sou o teu Santo;
Eu sou q teu Redentor; Eu te criei; Eu te ajudoj; Eu te
sustento; E u sou o teu Rei; Eu sou o teu Salvador; Eu
te consolarei
Êste profeta apresenta a mais profunda interpreta­
ção do Concêrto do Senhor cdm o povo de Israel. Como
o Senhor guiou o povo de Israel até Sinai, o monte do
concêrto, e depois na longa e difícil viagem até à terra da
Promessa, assim, na nova idade, Êle libertará o seu povo
do exílio, e guiá-lo-á até ao Monte Sião. Israel reconhe­
cerá fim im ente o propósito de Deus na sua eleição, que
fo i escolhido, não por causa de qualquer mérito da sua
parte, mas ünicamente por causa do’ amor do Senhor
(Deut. 7:7-8), e para servir na realização do eterno pro­
pósito de Deus (Deut. 9:4-6). A eleição significava para
Israel, não sòmente um glorioso privilégio, mas também
ilmai nobre responsabilidade. Êste grande mensageiro do
Senhor explica que a eleição de Israel se relaciona dire­
tamente com o' eterno propósito de Deus de oferecer a
graça da salvação divina a todos os povos do mundo. Êle
A PRO FE CIA DE ISATAS 35

apela diretamente ao Concêrto do Senhor com -Qavi (II


Sam. 7:3-17), mas êste se relaciona com os concertos
divinos com Noé, Abraão e Moisés (Gên, 9:8-17; 12:3;
Êx. 19:6). Finalmente, Israel será a nação sacerdotal
(55:1,3-5). E m 43:8-13, o Senhor declara a Israel: Vós
sois as minhas testemunhas, e o meu servo, a quem es­
colhi .
Israel tem também o privilégio e a incumbência de
louvar e glorificar a Deus, cantando-lhe hinos de alegria
e de regozijo. Cantai de alegria, ó céus, e exultai, ó terra;
e vós, ó montes, rompei em cânticos; pois o Senhor con­
solou o seu povo, e se compadecerá dos seus aflitos (49:13;
Cp. 44:23; 51:3; 52:9; 55:12).
E. O Servo Sofredor do Senhor, 42:1-4; 49:1-6;
50:4-9; 52:13-53:12
Aparentemente, nenhum outro assunto é mais discuti­
do! pelos comentaristas do Velho Testamento do que o
Servo do Senhor que se apresenta nestas passagens. Sem
entrarmos na discussão das muitas interpretações dos co­
mentaristas, incluindo as suas opiniões a respeito do esco­
po e da integridade das passagens, que tratam do Servo
do Senhor, limitamos a nossa explicação às poesias que
falam diretamente da figura e da missão' do Servo. Não
bbstante a similaridade de algumas declarações sôbre Is­
rael como o servo do Senhor e a missão do Servo Sofre­
dor, segundo estas passagens, há certamente uma distin­
ção clara entre Israel como nação e a Pessoa do Servo do
Senhor. Os característicos pessoais do Servo do Senhor
apresentam um contraste enfático com a comunidade de
Israel.
Israel, como o' Servo do Senhor, é fraco, vacilante,
freqüentemente infiel, e tem que ser admoestado e enco­
rajado para abandonar as suas dúvidas e a sua infidelida­
de, e confiar no socorro do Senhor (40:27; 41:8-14.; 44:
36 A R. C R ABT REE

l-»2, 21), ao passo que o Servo do Senhor triunfa logo


sôbre qualquer desânimo momentâneo, com a fé inaba­
lável no Senhor (49:4; 50:7-9). Êle é perfeitamente livre,
de culpa e do pecado (50:5; 53:4-6, 12). O servo Israel
é pecador desde o nascimento, ou desde a sua origem como
povo (48:4-5; Cp. 43:27). Israel tinha que sofrer no
exilio por causa dos seus pecados (42:18-25; 43:22-28;
47:6; 50:1; 54:7). O Servo do Senhor sofre voluntaria­
mente, tomando sôbre si os pecadds de Israel (52:13-
53:12).
Notemos ós característicos principais do caráter e da
missão do Servo do Senhor, especialmente na sua relação
com o povo de Israel.
1. Êle fo i escolhido e chamado por Deus para cum­
prir a sua gloriosa missão pessdal. Foi dotado com o po­
der do Espírito do Senhor para desempenhar-se da sua
incumbência divina (42:1-4; 49:1-5; 53:4-10).
2. A missão do Servo é dupla. Acha-se encarregado
de trazer Israel, o povo escolhido, mais perto do Senhor,
no reconhecimento da sua missão (49:5; 53:1-6). Tam­
bém o Servo transmitirá a verdadeira religião aos povos
do mundo (42:1, 4; 49:6; 52:15; 53:12).
3. O Servo é o mensageiro ideal do Senhor. Escondi­
do na nt$o de Deus, tem a bôca de uma espada aguda, e
o ouvido para Ouvir como erudito. Assim, é divinamente
preparado para ouvir, entender e transmitir a Palavra
do Senhor (49:2; 50:4). Apresenta a mensagem divina
no espírito de gentileza, ternura e compaixão.
4. Por algum tempo o Servo era uma figura obscura,
homem de dores e conhecedor de tristezas e aflições (49:
4: 50:6; 53:3-7). Mas co'm a certeza da sua grande voca­
ção, e do seu destino como o Servo do Senhor (49:5, 6),
êle resolve enfrentar inimizade, perseguição e qualquer
A PR O FEC IA DE ISAÍAS 37

outro sofrimento no cumprimento da sua majestosa mis­


são. Mal entendido e desprezado’, o Servo sabia que o so­
frimento vicário é o caminho da glória (50:6-10; 53:
7-12).
5. Os contemporâneos que tinham desprezado o Ser­
vo nas suas atividades como o mensageiro do Senhor até
à morte, finalmente ficaram profundamente impressio­
nados com a nobreza da sua fidelidade, nas circunstâncias
da injustiça que ó matou. (Êles reconheceram a inocência
do Servo, e chegaram a entender que os seus sofrimentos
não merecidos eram verdadeiramente a expiação vicária
dos próprios pecados dêles. Verdadeiramente êle tomou
sôbre si as nossas enfermidades, e carregou as nossas do­
res; mas nós o reputamos por aflito, ferido de Deus, e
oprimido (53:1-6).
6. Assim, a carreira do Servo foi ricamente abençoa­
da nos maravilhosos resultados dos seus sofrimentos vi-
cários. Foi coroado de glória e honra perante os reis
e os povos do mundo (52:13-15).
Surge uma questão interessante sôbre a identificação
do Servo Sofredor e o Messias Davídico. Alguns intér­
pretes procuram mostrar que o Servo do Senhor se iden­
tifica com o Messias em alguns dos Salmos e outras escri­
turas do Velho Testamento. Mas os intérpretes mais cri­
teriosos declaram que não se encontra qualquer evidência
lias Escrituras do Velho Testamento para justificar esta
conclusão. Alguns descobrem característicos do Servo
nan referências ao Messias em passagem como Lam . 4:
20; Salmos 8; 18; 89; 118:5-7, mas isto não significa que
O Messias se identifica com o Servo de Isaías 53. De fato,
üfttí há qualquer evidência de que as duas personagens se
Identificaram antes da Era Cristã.
Os escritores do Nôvo Testamento, à luz da morte e
dtt ressurreição de Jesus, reconheceram na sua pessoa e
A . R. C R A B T R E E

no seu ministério, a identificação do Messias Davídico


com o Servo Sofredor, Mas os próprios discípulos de Je­
sus rejeitaram os seus ensinos sôbre a necessidade da
sua morte até depois da ressurreição. W . Wheeler Ro-
binson faz a seguinte observação sôbre a identificação d o '
Messias com o Servo' do Senhor por Jesus: “ Não é exa-
gêro dizer que esta é a mais original e a mâis ousada de
tôdas as feições características dos ensinos de Jesus, e que
resultou no elemento mais importante da sua obra. Não
tem havido nenhum êxito, em todos os esforços de achar
identificação' prévia ou contemporânea do Messias com
o Servo Sofredor de Javé.” 1
Os escritores do N ôvo Testamento reconhecem Jesus
como o Messias da profecia, mas descrevem a sua Pes­
soa e o seu ministério em harmonia especial com as pro­
fecias sôbre o Servo' do Senhor no Livro de Isaías. O tema
do Evangelho de Marcos, por exemplo, baseia-se nas pro­
fecias sôbre o Servo. Pois o Filho do Homem também
não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate de muitos (10:45). É claro que o' Evangelho
de Marcos identifica o Filho do Homem como o Servo
Sofredor de Isaías 53. A declaração de Mat. 17:5 e Mar.
9:7; Luc. 9:35, a voz da nuvem na Transfiguração, Êste
é meu Filho amado, ouvi-o, refere-se claramente à Pessoa
do Servo em Isaías 42:1. É clara e significativa a decla­
ração Jesus em Lucas 22:37: Pois vos digo que impor­
ta que se cumpra em mim o que está escrito: Êle foi con­
tado com os malfeitores (Is. 53:12). O Apóstolo Paulo
não faz referência ao Servo do Senhor, mas declara: Cris­
to morreu por nossos pecados segundo as Escrituras (I
Cor. 15:3). Quando Filipe pregou o Evangelho ao eunu-
co, êle começou com a explicação de Isaías 53:7-8, e as­
sim lhe anunciou Jesus (Atos 8:26-39) . A verdade é que
^ *
1. W . W heeler Robinson, Redemption and Revelation, 1942, p. 199
A PR O F E C IA DE ISAÍAS 30

■a pregação do Evangelho em tôda parte do Nôv%Testa-


jnçnto, Jesus Cristo se apresenta como o Servo Sofredor
que. consegue a salvação de pecadores pela sua morte vi-
cária na cruz do Calvário.
íF. O Autor de Isaías 40-66
(Consideramos todos êstes capítulos como a obra de
um só autor. O nome dêste maior profeta do Velho Tes­
tamento é desconhecido. Êle é geralmente conhecido
como Segundo Isaías, porque a sua profecia faz parte do
Livro de Isaías, e a sua mensagem se relaciona freqüen­
temente com os ensinos de Isaías de Jerusalém. Não sa­
bemos nada da fam ília dêle, nem onde êle nasceu. É pro­
vável que estivesse no cativeiro com o seu povo, voltando
com êle na restauração. Êle revela muito conhecimento
du história do seu povo, e mais do que qualquer outro
mensageiro do Senhor, êle entendeu e interpretou a im­
portância da escolha de Israel para sua missão especial
entre os povos do mundo.
É provável, como' alguns pensam, que êle era o con­
selheiro espiritual dos judeus no cativeiro, e que talvez
fôsse o fundador da sinagoga. É certo que pregou pode­
rosamente aos exilados a mensagem de consolação, enco­
rajamento e esperança. Como' já observamos, êle era um
profundo teólogo, e interpretou a história do seu povo, e
a história das nações do mundo, à luz do eterno propósito
do Senhor na criação do universd, e nas atividades divi­
nas nos eventos históricos de todos os povos da terra.
As Divisões Principais dos Capítulos 40:66
: I; A Libertação Divina do Povo do Senhor, 40:l-48i22
A . Prólogo, o Pregador e sua Mensagem, 40:1-11
B. Javé, o Deus Incomparável, 40:12-31
C. O Deus da História das Nações, 41:1-29
D. O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão, 42:
1-25
40 A. R. C R ABT REE

E . Javé, o Criador e Redentor de Israel, 43:1-44:23


F . Javé É o Poderoso Criador, Ciro É o Seu Instru­
mento, 44:24-45:25
G. O Deus Que Carrega o Seu Povo, os Deuses Que>
São Carregados pelo Povo, 46:1-13
H . O Orgulho e a Humilhação da Babilônia, 47:1-15
I. O Propósito do Senhor na História e na Profecia,
48:1-22
II. A Redenção de Israel, 49:1-55:13
A . A Libertação e a Consolação de Israel, 49:1-50:3
B. O Getsêmane do Servo do Senhor, 50:4-11
C. Os Israelitas Fiéis Recebem a Promessa de Sal­
vação, 51:1-16
D . O Reino do' Senhor na Nova Época de Jerusalém,
51:17-52:12
E. O Sacrifício e a Glória do' Servo do Senhor, 52:
13-53:12
F . A Felicidade de Sião Reunida com o Senhor por
um Concêrto Eterno, 54:1-17
G. A Salvação pela Graça de Deus, 55:1-13
III. Admoestações, Esperanças e Promessas, 56:1-66:24
A . Oráculo sôbre a Obediência da Lei, 56:1-8
B..Denúncia de Governadores Cegos e do Culto Cor­
rompido, 56:9-57:13
C. A Graça do Senhor na Redenção do Seu Povo
14-21
D. A Prática do Jejum e a Observação do Sábado,
58:1-14
E. A Intervenção do Senhor na Vida de Israel, 59:
1-21
> ' F . A Glória, a Grandeza e a Felicidade de Sião, 60:
1-62:12
A PR O FEC IA DE ISAÍAS 41

G. O Dia de Vingança e o Ano de Redenção^-ôS:1-6


H. A Oração do Profeta em Favor do Seu Povo Desa­
nimado, 63:7-64:12
I. O Nôvo Concêrto e a Nova Terra, 65:1-25
J. A Felicidade Eterna da Verdadeira Israel, 66:1-24

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Tradução do Inglês, Lutterwórth Press, London,
A . R . Crabtree
O LIVRO DE ISAÍAS
Capítulo 40-66
Texto, Exegese e Exposição

I. A Libertação Divina do Povo do Senhor, 40:1-48:22


A. Prólogo, o Pregador e a Sua Mensagem, 40:1-11
' 1. Consolai, consolai o meu povo,
diz o vosso Deus.
2. Falai ao coração de Jerusalém,
e proclamai-lhe :
que já se terminou o tempo do seu duro serviço,
que a sua iniqüidade está perdoada;
que já recebeu da mão do Senhor
o dòbro por todos os seus pecados.

O lema central da primeira divisão desta profecia é


a libertação do povo de Judá do cativeiro babilônico, e
as conseqüências dêste maravilhoso evento. A restaura­
ção dos exilados para a sua própria terra, com ênfase na
sua missão mundial, será uma nova manifestação do po­
der e da glória .do Senhdr, 40:5, 10, 11. O autor identi­
fica-se com os exilados na Babilônia, e se regozija pelo
significado histórico da providência de Deus no cuidado
dò povo da sua escolha, o povo que cumprirá a sua nobre
missão de levar a tôdas as nações do mundo a mensagem
desta nova revelação do Senhor.
Esta mensagem não surge simplesmente dentro do
espirito do profeta, mas lhe vem.de fora. Êle está cônscio
da jsua incapacidade de compreender plenamente a pa->
íçyra divina, mas tem a certeza inabalável da sua cha*
44 A. R. C R A B TR E E

mada e da glória do Senhor que lhe fala. Êste nôvo


mensageiro do Senhdr é também do grupo dos profetas
nobres e fiéis que tinham proclamado o propósito de Deus
na escolha de Israel, e a operação da sua eterna providên­
cia na direção da história humana.
Por muito tempo, profetas como Amós, Isaías, Joel,
Miquéias e outros tinham proclamado o julgamento di­
vino sôbre a infidelidade dos filhos de Israel, visando sem­
pre ao despertamento, à disciplina e à redenção do seu
povo. Êste profeta representa um nôvo movimento na
providência de Deus que revela o desenvolvimento do pro­
pósito' do amor e da graça do Senhor na direção do seu
povo. O Deus Soberano triunfará sôbre todos os movi­
mentos históricos que operam contra o seu eterno pro­
pósito na orientação da história humana.
0 profeta sabia do afastamento' do seu povo da pre­
sença do Senhor (Os. 1:9); e sabia também do poder da
compaixão divina na restauração dos infiéis para assim
fazer dêles um povo fiel no serviço do seu reino (Os.
2:23).
1. O Conforto do Amor de Deus, 40:1, 2
No' prólogo, palavra introdutória da mensagem pro­
fética, ouviinos apenas vozes que proclamam o término
do longo periodo do castigo do povo do Senhor no cati­
veiro. Ntts primeiros dois versículos as vozes dirigem-se
aos cativos, ou talvez ao profeta que deve transmitir a
mensagem de confôrto aos exilados. Mas no versículo
nove as vozes são dirigidas a Jerusalém, chamada para
proclamar as boas novas ao seu povo, longe da pátria
amada.
Está terminando período da servidão de Jerusalém,
orque ela sofrerá já a plena punição por tôdas as suas
E•aàsgressões. Proclama-se nestes versículos a promessa
de perdão e do livramento do povo exilado no estrangeiro.
A PROFEC IA DE ISAÍA S 45

Há três palavras importantes na interpretação dejta no­


tável mensagem: consolai, falai, proclamai.
Consolai, consolai o meu povo. A repetição da pri­
meira palavra de uma nova mensagem é característica
do estilo dêste profeta (43:11, 25; 48:11, 15; 51:9, 12, 17;
52:1, 11). As traduções geralmente têm consolai-vos, mas
não se pode identificar logo o grupo que'~à palavra vos
significa. Parece que a palavra de confôrto é dirigida a
todos que têm ouvidos para ouvir a Palavra de Deus sôbre
o nôvo mcívimento da providência divina na história. É
verdadeiramente uma nova palavra na profecia. É a
mensagem da ternura e do amor do Senhor que vai ser
demonstrada nas bênçãos do seu povo, e nas conseqüên­
cias históricas da restauração dos exilados na Babilônia
para a sua própria terra.
Alguns comentaristas, sem a mínima prova, fazem
um esfôrço para relaciònar a linguagem desta profecia
sôbre o plano de Deus na história com as festas babilô-
nicas do nôvo ano.
O vosso Deus está dizendo, Consolai o meu povo.
Nas palavras o meu povo o profeta recdnhece claramen­
te o eterno concêrto, rY H S , do amor imutável do Senhor
• t

para o povo da sua escolha (Gên. 12:3; 'Êx. 19:1-6; II

Sam. 7:5-29). O verbo "Ü2ÍO é incompleto e represen­


ta ação1incipiente ou repetida (Cp. 1:11,18; 33:10; 40:25;
41:21; 46:9). A form a do verbo hebraico representa ape­
nas a qualidade de ação; o seu tempo é sempre determina­
do pelo contexto. 1 O tempo presente cabe melhor neste
contexto. Assim, o profeta declara que Deus está dizen­
do repetidamente* que já terminou o período de servidão
dura do seu povo na Babilônia.
1. A . R . Crabtree, Sintaxe do Hebraico do Velho Testamento» P*J&<
46 A . R. C R A B T R E E

Os primeiros cativos de Judá foram levados à Babi*


lônia em 598, e desde 587 os habitantes mais importantes
de Judá e Jerusalém foram exilados pelos conquistado­
res, Pelas águas da Babilônia os cativos se assentavam
e choravam quando se lembravam de Sião (Sal. 137:4).
Mas finalmente lhes vem a palavra de animação, de con­
fôrto e de esperança. É nestas circunstâncias que o men­
sageiro do Senhor fica encantado com a gloriosa restau­
ração dos exilados.
Falai ao coração de Jerusalém. Falar ao coração
significa falar com ternura, acariciar, confortar, expres­
sar o sentimento de carinho e amor (Gên. 34:3; Juizes
19:3; II Sam. 19:7; Os. 2:14; Rute 2:13). Na psicologia
hebraica atribuíram-se ao coração' tôdas as funções inte­
lectuais que nós atribuímos ao cérebro. Mas nós falamos
ainda das funções e dos poderes do espírito.
N o sentimento do profeta, Jerusalém é personificada
com o a comunidade do povo de Deus no cativeiro, sub­
jugada e sem defesa. A cidade em ruínas assim se identi­
fica co'm os seus habitantes na Babilônia, como Sião no
v . 9; e Cap. 49:14-16; 51:16, 17; 52:1, 2. Já é findo o
tempo da sua malícia, ou melhor: Já se terminou o tem­
po do seu duro serviço. Em Jó 7:1, a palavra fcOX , ma-
T T

lícia ou tempo de serviço, é paralela com a frase os dias


do jornajçiro. 0 têrmo se usa também no sentido do pe­
ríodo do serviço militar, e figurativamente como qual­
quer tempo de trabalho duro e opressivo que o servo de­
seja ardentemente terminar (Jó 14:14).
A sua iniqüidade está perdoada. A palavra n^"l2
V * •

é passiva, e é usada num sentido peculiar nesta declara­


ção . Encontra-se a form a ativa do verbo no sentidò de
cqinprir o dever de guardar o sábado (L e v . 26:34, 41, 43;
I I Grôn. 36-21). A iniqüidade, a culpa de Jerusalém ou
A P R O F E C IA DE IS AÍAS

dos exilados é paga totalmente. A palavra grega ' ±£kvrai


tem o mesmo sentido de remissão do pecado.
Assim, a nova idade dêste povo começará com o seu
pecado' perdoado (40:25; 44:22; 48:9) . Em contraste com
o povo em geral, os profetas nunca pensaram no cativei­
ro de Judá como o resultado das suas atividades políti­
cas, ou ás suas intrigas com nações mais poüerosas. Atrás
de todos os seus movimenteis políticos era sempre o pe­
cado de infidelidade ao Senhor, e a rebelião contra a von­
tade do seu Deus revelada aos profetas.
A declaração de que o povo tinha recebido da mão
do Senhor o dôbro por todos os seus pecados perturba
alguns leitores. Esta declaração não pode ser interpreta­
da teologicamente no sentido de que o próprio Senhor
havia castigado diretamente os exilados o dôbro por to­
dos os seus pecadós. Sabemos, à luz das Escrituras (E z .
33:11), que Deus não tem prazer no castigo inevitável
dos revoltosos contra as leis da justiça. Na linguagem
figurativa o profeta declara apenas que o povo de Judá
tinha sofrido suficientemente. 0 problema do sofrimen-
tei é complicado, e na livre vontade de pessoas e de na­
ções os inocentes sofrem, às vêzes, com os culpados, e al­
guns membros dos grupos e das nações sofrem mais do
que merecem. Os dois reinos dos israelitas tinham que
sofrer o julgamento do Senhor por causa da sua infideli­
dade, mas alguns sofreram mais do que mereciam no po­
der dos conquistadores cruéis. Mas apesar de todos os
inimigos da justiça divina, e as injustiças que o povo de
Deus têm que sofrer nas guerras e nas intrigas interna­
cionais, o Senhor vai realizando o seu eterno propósito
na longa e ctímplicada história da humanidade. Êste pro­
feta também decora que o Servo Sofredor do Senhor
levou sôbre si, nos seus sofrimentos não merecidos, o cas­
tigo dos pecados do seu povo (C p . 53).
A R. C R A B T R E E

3. Ouça! A voz do que está clamando:


Preparai no deserto o caminho do Senhor;
endireitai no êrmo a veneda para o nos*# Deus.
4. Todo vale será levantado,
e todo monte e outeiro será abaixado;
a terra desigual será nivelada,
e os lugares escabrosos, aplanados

Õ Profeta ouve uma voz que egtá clamando,


H H p • O hebraico não diz, a voz qUe clama no deserto,
segundo as versões em português. A palavra vo z em decla­
rações como esta, freqüentemente tem o sentido de uma
interjeição, ouça ou escute. Aparentemente, a voz vem
de um ministro angélico, e não do' próprio Senhor, e talvez
se dirija a servos celestiais. Preparai no deserto, entre a
Babilônia e a Palestina, o caminho que os exilados vão se­
guir, dentro em breve, na volta pará a sua terra amada.
As palavras H llV e T I T l , o caminho do Senhor, encon­
tram-se freqüentemente nesta profecia (42:16; 43:16, 19;
48:17; 49:11; 51:10). O profeta Ezequiel declara que o
Espirito do Senhor acompanhou os cativos de Jerusalém
até a Caldéia (11:22-25). A glória do Senhor tinha aban-
donado a cidade de Jerusalém e acompanhado os seus ha­
bitantes, o verdadeiro Jerusalém, até à Babilônia. Agora
está chegando o tempo da sua volta triunfante quando
levará consigo os seus desterrados. A volta dps judeus
do c a ti^ iro babilônio, sob a direção do Senhor, o seu
Deus, é um evento histórico profundamente signiíicaüvo,
como a libertação dos seus antepassados da escravidão do
Egito. É um ato do Senhor dos Exércitos no cumprimen­
to do seu eterno propósito na história da humanidade.
Preparai no deserto o caminho do Senhor (C p . Gên.
24:31; Lev. 14:36; Sal. 80:9). Esta figura baseia-se no
costume de preparar a estrada para a procissão do rei no
Oriente. Ma» há outros obstáculos, como' problemas po­
A P R O F E C IA DE IS A ÍA S

líticos, que serão removidos pelo Senhor no prepa^p para


a restauração do seu p o vo .
Segundo o versículo 4, os exilados voltarão pelo ca­
minho direto através do deserto entre a Babilônia e a Pa­
lestina, acompanhados e dirigidos pelo Senhor. Haverá
também uma transformação no espírito’ dos cativos. Os
tímidos e desanimados serão' encorajados. «Qs orgulhosos
e arrogantes se torrtarão humildes na presença do poder
e da glória do seu Libertador. Os que haviam sido rebel­
des e infiéis ficarão submissos ao amor imutável do Se­
nhor dos Exércitos.

As palavras DpJÍH JTffi não dizem o


• I TV TTt
tortuoso será retificado, segundo algumas versões. A tra­
dução melhor é a seguinte:: A terra desigual, ou A colina
íngreme se tornará em planície.
5. B a glória do Senhor será revelada,
■e tôda a carne a verá;
pois a bôca do Senhor tem falado.

Será revelada a glória do Senhor. iFoi certamente re­


velada a glória do Senhor na restauração dos judeus exi­
lados. É evidente que muitos dos velhos que foram le­
vados à Babilônia já tinham morrido, mas alguns dêstes
tiveram o privilégio de voltar para a sua terra. Alguns
dêstes velhos choraram quando viram as ruínas de Je­
rusalém, mas outros levantaram as vozes com júbilo e
com alegria (Esd. 3:12).
fc certo que o homem não pode ver o Senhor Deus
com a vista física, mas há ocasiões quando pode testemu­
nhar as manifestações das obras do Senhor na natureza
fisica, na história humana, e acima de tudo na experiên­
cia do poder e da glória de Deus no seu espírito (V er Êx,
33:17-23). Quantas vezes a fé do povo de Deus é con­
firmada e fortalecida pelos fatos da história. A eterna
significação de certos fatos históricos não se manifestai
50 A . R. C R A B T R E E

nem se pode manifestar ao entendimento humano logo


na ocasião. Quem podia ter calculado na ocasião o signifi­
cado do livramento' do pequeno grupo dos hebreus escra­
vos do poder do Egito, ou a salvação dè Jerusalém do po­
der do exército poderoso de Senaqueribe, ou do triunfo
de Jesus Cristo' sôbre a morte, ou da proclamação das
.eternas verdades do evangelho?
Como diz Sir George Adam Smith: “ A glória de Javé
será revelada, e vê-la-á tôda á carne juntamente, Como
é que o nosso coração não’ pode deixar de levantar-se do
confôrto da graça de Deus, e da nossa vitória sôbre êste
mundo, e a nossa certeza do céu mesmo? A história tem
que tomar o seu lugar ao lado da fé, quando os homens
obedecerão' à segunda, bem como à primeira destas vo­
zes.” 2
O Deus eterno, o Rei dos reis, acompanha e dirige
êste grupo de desterrados para a sua terra, porque êstes
homens fiéis dependem a preservação das Escrituras, do
Velho Testamento e o triunfo final do amor do Senhor na
vida humana, pois a bôca de Deus assim tem dito.

2. A Promessa; de Deus Permanece Imutável para Sem­


pre, 6-8
6. Ou$a! Alguém e»tá dizendo: Clama.
E eu diaae, Que hei de clamar ?
Tôda a carne 6 erva,
tôdaa *ua fllória como a flo r da erva.
7. Seca-se a erva, « cai a flor,
quando eopra nela o hálito do Senhor;
verdadeiramente o povo é erva.
8. Seca-se a erva, • cai a flor,
mas a palavra do nosso Deus permanecerá eternamente.

Nestes versículos o profeta está ouvindo de nôvo uma


vóz celestial. Esta segunda voz está chamando o homem
para proclamar a palavra do Senhor. A voz especifica
â~_t________
S. S ir George Adam Smith, T h * Bóok o f Isaiah, V ol. IX, 'p. 81 -:
A • P RO FE CIA DE ISAÍA S 51

duas verdades que o profeta deve pregar. A glória4 ° ho­


mem é passageira como a erva do campo. A palavra do
nosso Deus permanecerá eternamente.
A Vulgata, a Setenta, e o Rôlo do Mar Morto, têm.:
E eu disse, ou Eu perguntei em vez de Alguém disse do
Texto Massorético. Fòra do prólogo êste profeta não fala
da sua própria pessoa. Mas na explicação da»sua chama­
da para pregar a mensagem de Deus, é muito natural a
sua declaração. E eu disse. E com o desejo de entender
claramente a ordem que está recebendo da voz, o profe­
ta pergunta, Que hei de pregar? (Cp. Is. 6 ).
Todo homem é erva, e táida a sua glória como a
flor da erva. A palavra 1CH significa aqui glória ou
beleza, mas não tem êste sentido em qualquer outro lu­
gar. Esta palavra é uma das mais ricas, na sua significa­
ção, do Velho Testamento. Usa-se principalmente no sen­
tido' do amor firme, eterno, imutável, inabalável, benigno
de Deus para com o seu povo do Concêrto (Êx. 15:13;
Sal. 21:8 (H e b .); 33:22; 103:4; Miq. 7:20; Jer. 32:18;
Is. 63:7). A palavra se refere também à bondade dos ho­
mens fiéis do Senhor (I Sam. 20:15; Os. 6:6; Is. 16:5;
Jó 6:14; Prov. 3:3).
A palavra rTTi significa vento e espírito. Neste ver­
sículo sete a palavra significa o vento quente, o siroco.
Omite-se êste versículo na Vulgata e na LX X , mas consta
nò Rôlo do Mar- Morto. O versículo cabe bem no contexto.
Surgem opiniões diferentes sôbre o significado da
frase o povo é erva. Alguns pensam que tí profeta não se
refere ao povo de Israel, mas aos inimigos de Israel. Cer­
tamente ó profeta não ensina em qualquer outro lugar
que ò povò de Israel é meramente erva, pois êste é o povo
escolhido. É o povo do eternò concêrto do Senhor, ó
núcleo de fiéis quç está cumprindo o eterno propósito
52 A . R. C R A B T R E E

de Deus, objeto nesta profecia do amor imutável do Se­


nhor. A palavra, "D H do nosso Deusí é a mensagem re-
t t i,j
velada aos profetas, sinônimo aqui de Torah, (T o ra ) a
revelação divina. Esta revelação do propósito eterno do'
Senhor opera constantemente nos movimentos da histó­
ria. Os inimigos de Deus se levantam é passam, de geração
em geração, cdmo a erva do campo. As predições de cas­
tigo dos infiéis pelos profetas anteriores já se cum priram .
Mas esta nova promessa de conforto, permanecerá eterna­
mente, e os fiéis de todos os séculos futuros experimenta­
rão as bênçãos desta promessa de con fôrto.
3. O Poder e o Cuidado do Bom Pastor, 9-11
9. Sebe a um monte alto,
ô Sião, mensageiro d « boas novas;
levanta a tua voz fortemente,
Õ Jerusalém, mensageiro da boas noticias,
levanta-a, não temàs;
dize As cidades de Juda:
Eis o vosso Deu»!
Outra versão gramaticalmente correta:
Sobe a um monte alto,
0 tu que, anuncias boas novas a S ilo ;
levanta a tua voz fortemente,
0 tu que anuncias boas novas a Jerusalém,
levanta-a, não temas;
dize As cidades de Judá:
Eis o vosso Deus!
Os intérpretes modernos, na grande maioria, prefe­
rem a nossa primeira tradução do versículo nove. Ainda
alguns preferem a segunda versão que também é grama­
ticalmente correta.
A procissão dos restaurados do cativeiro', na visão do
profeta, está chegando aos arrabaldes de Jerusalém. São
as cidades de Judá que vão receber a mensagem do' men­
sageiro de boas notícias. É q proclamador das boas novas
a cidade de Jerusalém, ou aos habitantes de Sião. Sião
A' PR O FE C IA DE IS A fA S 53

geralmente designa a pequena cidade que Davi-Jpmou


dos jebuseus (I I Sam. 5 :7 ), apenas a parte sueste de Je­
rusalém. Mas os dois nomes usam-se como' sinônimos
nos paralelismos poéticos. O monte alto é provávelmente
o Monte das Oliveiras, de onde Sião, o arauto, levantará
poderosamente a voz na proclamação das boas novas às
cidades de Judá. Da palavra , boas novas ou boas
T l
notícias, originou-se o têrmo Evangelho do N ôvo Testa­
mento. Assim, a cidade de Deus recebe a chamada, a in­
cumbência de proclamar às cidades devastadas de Judá,
sem qualquer mêdo da Babilônia, o princípio do' nôvo dia
para o povo escolhido do Senhor.
10. Eis que o Senhor Javé vem com poder,
e o seu braço governará por êVe;
eis que o s«u garladão está com Sle,
e diante d ile a sua recompensa.
11. Como pastor apascentará o seu rebanho,
entre os seus braços recolherá os cordeirinhos,
« os levará no seu regaço;
as que amamentam, éle guiará mansamente.

O Senhor Javé vem com poder, demonstrando na


restauração dos exilados de Judá o mesmo poder que li­
bertou o seu povo da escravidão no Egito. O seu braço
é sempre o símbolo de poder e autoridade (48:14; 51 ;5, 9;
52:10; 53:1). O galardão, a recompensa do Senhor é o
seu povo libertado da Babilônia para cumprir a sua mis­
são divina, com a proteção e as bênçãos do seu Deus (Cp.
Jer. 31:15-17).
Como o Bom Pastor, o Senhor vai na frente das suas
ovelhas, guiando-as com a voz de carinho, em vez de an­
dar atrás delas para dirigi-las à fôrça. É u’a mensagem
que encanta os viandantes com beleza, alegra o seu es­
pírito com esperança, e desperta de nôvo o' amor para
com o seu vitorioso Libertador.
54 A . R. C R A B T R E E

A linguagem também sugere um general vitorioso,


à frente, não dè prisitíneiros capturados nà guerra, mas
de uma companhia de exilados que êle tinha libertado.
Alguns dêstes estão velhos e cansados; outros são mulhe­
res e crianças. Êste Comandante é o Todo-Poderoso, e
ao mesmo tempo 6 Bom Pastor que cuida carinhosamente
de tôdas as suas ovelhas, levando os cordeirinhos entre os
braços, e guiando mansamente os que amamentam. O
seu amor carinhoso alcança o mais humilde, e o mais ne­
cessitado do seu rebanho,
B . Javé, o Deus Incomparável, 40:12-31
1. A Infinidade do Criador do Universo, 12-14
12. Quem mediu •• águas na concavidade da mão,
e marcou os limites dos céus com * palma ?
Quem reoolheu numa medida o pó da terra,
e pesou os montes com um pôso
e os outeiros na balanga ?
13. Quem dirigiu o Espirito do Senhor,
ou, como o. seu conselheiro, o instruiu ?
14. Com quem tomou êle conselho, para que lhe desse compreensão?
Quem o instruiu na vereda da justiça,
■ e lhe ensinou conhecimento,
« lhe mostrou o caminho de entendimento?

(Êstes versículos apresentam perguntas retóricas sô­


bre a infinidade de Deus. O profeta assim desperta os exi­
lados de^inimados para contemplar a verdadeira nature-
zã e poder de Deus . N o L ivro de Jó (38:5-41) o Senhor
~3mgêT perguntas sôbre as obras de Deus, com o propósi­
to de humilhar o Orgulho dn hom em .
A qualidade literária desta profecia, bem como a
súa teologia, é clara e brilhante nas descrições, profunda
nos pensamentos e majestosa nas figuras poéticas. O en­
tendimento moderno dò universo assombra a imaginação,
exencanta o nossó orgulho. O conhecimento dos hebreus
antigos sôbre a vastidão do universo, com as numerosas
A P R O F E C IA DE I SA IA S 55

constelações, fo i muito limitado. Mas é fato profunda­


mente significativo que as descrições das maravilhas das
obras de Deus nas Escrituras Sagradas sempre acompa­
nham o progresso do conhecimento científico do univer­
so. “ Nenhuma descoberta de astro físico pode superar
a descrição desta passagem, ou de Jó 38. Pode-se dizer
também com certeza que nenhuma poesia iriais m agnífi­
ca jamais será escrita sôbre o Incomparável?” 8
N o versículo doze o profeta apresenta ilustrações da
magnitude das obras de Deus como Criador. Quem me­
diu as águas na concavidade da mão? A resposta é clara­
mente subentendida: Ninguém, senão o Senhor Javé, o
Criador. O Deus que revela a mua glória"nns~exilados e
os liberta do podefr^a Ttahilônin / n-T-ri/trtnr dêste-^asto
universo. O Deus dêstes judeus desanimados não é SÒ-
mente O Criador dos maf ps, dos rnrpns roloatinis » -ria
terra; é ja m b ém o Governador e Dominador de tôdas as
obras que~cnou. ETünbém o Soberano e o Guia dos po­
vos e das nações (Jó 26:5-14; Sal. 104).
O Rôlo do Mar Morto tem as águas do mar em vez de
as águas. Marcou os limites dos céus com a .palma, mi a
mão estendida do dedo pequeno até o polegar. Quem re­
colheu numa medida, , a têrça parte da efa, o pó
da terra. Há duas concepções neste versículo a respeito
da criação do universo. A primeira refere-se à ordem, ao
acôrdo e às proporções nas obras da natureza física, in­
dicando' a inteligência suprema que governou a obra da
criaçãd. Mas o pensamento mais importante do profeta
é o poder infinito do Senhor, que dirige constantemente as
operações tão vastas no govêrno das obras da criação. É
fato interessante para algumas pessoas que os escritorès
bíblicos nunca apresentam argumentos para provar a exis­
tência de Deus. Nunca pensaram que pudessem desco-
3. .. C. R. Jíorth, The Tçrch Bible, Isaiah, 40-55, p. 46
56 A. R. C R A B TR E E

brir a Deus com os seus podêres intélectuais. Conheceram


ao Senhor sòmente à médida da capacidade intelectual e
espiritual de reconhecer e receber a revelação divina.
No versículo treze o profeta discute a infinita sabe­
doria do Senhor. Quem dirigiu..fiscalizou, jegulou,-eon-
troloyjJ>u marcou Q« Hinítes dn Espirito do Senhor—fl Es-
iírito do SenKõraqui não tem o sentjdo do EspíritoSan-
Í o em o IMOvo Testamento. A L X X tem J'Qüèm conhece a
mente do Senhor?” Esta versão é citada em Rom . 11:34
e I Cor. .2:16. O profeta está pensando na inteligência do
Senhor. Quem fiscalizou a inteligência do Senhor* ou ser­
viu como o seu conselheiro? O Espírito do Senhor pene­
tra, vivifica e sustenta o espirito dos servos fiéis de Deus,
bem como as obras da criação'.
Nos versículos 13 e 14 pergunta-se: “ Quem instruiu
ao Senhor, ou de quem tomou conselho ou recebeu en­
tendimento?” O conselho, a sabedoria, a compreensão,
o conhecimento, o entendimento e a Justiça, pertencem ao
Senhor no sentido absoluto. A palavra DStifà é usada
T *•
no sentido de retidão e justiça humana, mas significa aqui
o juízo do Senhor, que é a justiça absoluta. A L X X não
tem esta pergunta, mas não há razão para duvidar da sua
autenticidade. É rico e profundo o sentido dos sinônimos
dêstes versos. A palavra nJWFl significa entendimento,
r i
í discernimíhto intelectual, prudência, sabedoria e inteli-
Igência.
* 2. O Deus Incomparável, 15-26
15. Eis que a » nações são como uma flôta dum balde,
e consideradas como pó na balança;
eis que êle levanta aa ilhas como pó fino.
16; Nem o Libano é suficiente para queimar,
nem os seus animais para um holocausto.
’l7 .'.T ô d a s as nagôes são como nada perante êle;
v são consideradas por dia como menos de nada, como vácuo.
A PRO FE CIA DE

18. A quem, pois, compararei* a Deus,


ISAIAS

ou que figura fareis semelhante a êle 7


<&■ r
57

Depois de considerar a revelação do poder e da sabe­


doria do-Griador na ordena nas-proporções e na coordena-,
ção das Obras da natureza, n prnfpta fe la r n ryiif» nt p/i.
võs è ãs nações são insignificantes em comparação com
Deus. São tão insignificantes como' uma gôia de água
que ctfh_dnna.-,halde. ou um grão de pó na halanqa. O Se-
nhoMévanta as ilhas como po fino. Êste profeta refere-
se doze vêzes às ilhas, designando provàvelmente as ter­
ras habitadas no Mar Mediterrâneo.
O Deus dêstes exilados é o Controlador dos eventos
da história (Am ós 1:1-2:16; 4:6-12). As fôrças militares
das poderosas nações do mundo, como a Babilônia, são
insignificantes em comparação com o propósito e a obra
de Deus na história humana. A comparação' neste versí­
culo quinze dá ênfase ao poder supremo do Senhor, e à
certeza do cumprimento do seu propósito na libertação
do seu povo. Temos que aprender do interêsse e do pro-
pósittí do Senhor concernentes às nações de outros ensi­
nos dêste profeta (Cps. 42:5-9; 49:5-7; 53:1-12).
Se tôdas as florestas do Líbano fôssem queimadas no
holocausto de todos os seus animads^laLjofeiia. seria ina­
dequada para honrar ao Senhor (v . 17) •
A teologia dêste mensageiro do Senhor liga-se direta­
mente com o Criador do universo. O poder soberano na
criação é o poder soberano na história. As obras da cria­
ção constituem o' palco sôbre o qual se cumpre o eterno
propósito do Senhor na história humana (44:21-28; 45:
12-15; 51:9-10).
A quem, pois, comparareis a Deus, ou que figura fa­
reis semelhante a êle? O Senhòr Javé é o único e o verda-
deiro Deus, e não pode haver outt-o. É verdadeiramente
$T fncompáf&vjíl E humanamente impossível entender o
58 A R. C R ABTRE E

maravilhoso mistério do Espírito do Senhor. Enquanto


o poeta, nos versos 12 a 17, descreve as atividades do Se­
nhor em têrmos das atividades humanas, estas descrições
exaltam o poder supremo do' Criador. O homem, criado à
imagem de Deus, participa com Êle nos podêres de pensar
e planejar. O Criador, porém, tem êstes podêres à medida
infinita. Assim sabemos que o Criador é Deus, e que não
há Deus fora dÊle.
19. O ídolo! o artífice o funde,
e o ourives o cobre de ouro,
e forja para êle cadeias de prata.
20. O empobrecido escolhe madeira que não se apodrece;
/''"e busca um artífice perito para esculpir uma imagem
r que n io oscilará.

O profeta explica nos versos 18 a 20 a estultícia da


idolatria. H*) provável que os judeus exilado's ficaraxn..im-
pressionados e a # fà^mã7l5§T por algum tempo, com as”'
pomnas da idolatria dos bãEiíònios. Mas com as prega-
õés dos profetas è novas e preciosas experiências com
Javé dos Exércitos, o Deus de Israel, muitos foram com­
pletamente curados das tendências de cair na idola­
tria. O profeta expõe a tolice de pensar que o Senhor
Deus pode ser representado por ídolos fabricados pelas
próprias mãos dos homens. É interessante que alguns
comentaristas se esforçam para provar que o' profeta não
está condenando o culto ao Senhor Deus por imagens.
P or que, então, o profeta condena tão severamente a in­
sensatez de fabricar ou esculpir o ^ D B íd o lo , imagem?
(V e r Ê x . 20:4, 5; Juí. 18:31; Deut. 4:16, 23, 25; Hab.
2:18; Is. 42:17; 44:10; Jer. 10:14; 51:17; Is. 44:15, 17;
45:20), Se é tão' absurdo fabricar imagens, é muito mais
absurdo o esfôrço de adorar ao Senhor por meio delas.
O hebraico do versículo 20 apresenta dificuldades.
Alguns levantam dúvidas sôbre o significado da palavra
A PRO F ECIA DE ISAÍAS 59

, mas é geralmente considerada como o Par.tigípio

Pual do verbo J3D ficar pobre, empobrecido de oblação.


T

n í^ lF l Mas a tradução não fica satisfatória no contex- •


T i ' '
to, com a palavra oblação. 0 idólatra é. ferv©Fesff~1io
seu ..çulto. Escolhe á árvore ffiíe nao apodrece.-madei­
r a que permanece firm e e sólida por longos ano®. En­
tão busca o mais perito entalhador que prepara uma f i­
gura que não oscilará ou cairá (Cp. I Sam. 5:3, 4 ). A
imagem coberta de ouro será mais durável e mais digna,
e merecerá mais .kmyor e-adefacão.
r ------------
21. Não sabeis? Não tendes ouvido?
Não vos tem sido anunciado desde o principio?
Não tendes entendido desde as fundações da terra?
, 22. Êle é o que está assentado sôbre o círculo da terra,
cujos moradores são como gafanhotos;
é êle quem estende os céus como cortina,
e os desenrola como tenda para nèles habitar;
23. é êle quem reduz a nada os principes,
e torna em cousa vã os juizes da terra.

Havendo ridicularizado o encantamento dos ídolos


para os judeus na Babilônia, o profeta procede, nos ver­
sículos 21 a 26, a mostrar como o Senhor Javé se revela
nas suas obras e na sua palavra como o Criador e Guia
do universo. Começa no versículo 21 com uma série de
perguntas. Não sabeis? Não tendes ouvido? “ As duas
avenidas pelas quais o conhecimento de Deus alranç&__a
m ente são a reflexão sôbre os fatos da Natureza p. Histó­
ria e o testemunho’ externo . ” 4 O testemunho externo é a
- palavra <Ie Deus revelada aos seus mensageiros, os profe­
tas. Não somente os judeus, mas todos os povos rece­
bem constantemente o testemunho da grandeza e da gló­
ria de Deus nas obras da criação (Sal. 19:1; Jó 12:9) . O
4. J. Skinner, The Book o f the Prophet Isaiah, caps. 40-66, p. 12
60 A R. C RA BTR EE

profeta reconhece, o fato' lamentável de que os homens


em geral não se interessam nas maravilhas da natureza
que testificam a sabedoria e o poder de Deus.
Nos versículos 22 e 23 o profeta fala de nôvo sôbre
a majestade do Senhor revelada nas suas atividades pro­
videnciais. Na linguagem poética é êie <jue está assentado
sôbre o círculo ou a redondeza da terra, onde se encon­
tram os céus e a terra (P rov. 8:27; Jó .22:14). Nesta abó­
bada, ou firmamento, Deus colocou os dois grandes lu­
zeiros para alumíar a terra. E fêz também as estréias e
as colocou no firmamento. O astronauta teve o privilé­
gio' de apreciar esta linda descrição bíblica do firmamento
(Cp. Jó 26:10; Sal. 113:5; Prov. 8:27).
O Condutor da história reduz a nada e torna em cou-
sa vâ os príncipes arrogantes e opressores, como Sena-
queribe e Nabucodonosor, e os juizes injustos que vendem
os direitos dos pobres (Amós 2:6).
24. Apenas foram plantados, apenas semeados,
apenas se arraigou na terra o seu tronco,
quando sopra sêbre êles, e secam-se;
. . e uma tempestade os leva embora como pãlha.
25. A quem, pois, ms comparareis,
que eu lhe seja semelhante ?
diz o Santo.
26. Levantai ao alto os vossos othos, e vêde :
quftflp criou tetes 1
l Aquêle que faz sair por número o seu exército,
I chamando todos êlss por nome ;
7 pela grandeza das suas fôrças,
' e pela fortaleza do seu poder,
r>em um sé vem a faltar.

O versículo 24 continua com o pensamento do ver­


sículo anterior. Não há qualquer autoridade, nem qual­
quer outro poder no mundo, tão alto ou tão impregnável
que Deus não possa reduzir à cousa vã. No período dos
grandes profetas hebraicos, impérios se levantaram e caí­
A PROFECIA DE ISAIAS 61
ram. Ditadores militares usurparam poder e oprimiram
o' seu povo, mas por pouco tempo, porque o seu desfiJtb
estava na mão do Senhor. Êles se secaram como a erva
perante o siroco quando o hálito do Senhor soprou nêles
(v . 7 ).
A quem, pois, me comparareis? É a repetição do pen­
samento do' versículo 18. Diz o Santo. A palavra hebrai­
ca tgfflp não tem artigo. O Santo aqui não é atributo,
T W
é jijm nnmn prnpi4*>~(Tp Hah 3-3; .Tr> A Santida-
delt&o é um dos atributos de Deus; é a sua própria natu-
rêzT (L e v. l *H2; Jos. 24:19; I Sam. 2:2; Is. 1:4; 5:16;
10:17; 31:1; Sal. 22:8; 99:1-9). Deus sempre se revelá
como Santo. A religião do Velho Testamento sê distingue
TlasToutras religiões antigas, Hp rpm á - n m a reli-
fliâjn t U sa n firigfT p ~
Levantai ao alto os vossos olhos e vêde o exército ce­
lestial (Juizes 5:20). Quem criou êstes, e quem os faz
sair por número. Esta palavra criar, X“ f i , encontra-se
T T
quinze vêzes nos capítulos 40:45, e mais cinco vêzes nos
outros capitulos. A doutrina da criação é o âmago da teo­
logia biblica. Javé é o criador das estréias, deuses que
os babilônios adoravam. O Criador conhece por nome
cada um dos membros do seu exército celestial. Êle os
conduz tão perfeitamente que em todos os seus movimen­
tos nem um só dêles vem a faltar.
3. Javé, o Deus Sempitemo, 27-31
27. Por que dizes, £ Jacó,
e falas, 6 Israel,
O meu caminho está escondido ao Senhor,
e o meu direito passa desatendido por meu Deus ?
28. Não sabes ? Não tendes ouvido ?
O Senhor é o Deus sempiterno,
o Criador dos fins da terra.
£le não desfalece, nem se cansa,
o seu entendimento i inescrutável
62 A. R. C R ABT REE

29. Êle dá fôrça ao fatigado,


• aumenta as fôrgás daquele que não teifl vigor.
30. Os jovens se oansam e se fatigam,
s os manoebos caem exaustos;
31. mas os que esperam no Senhor renovarão a sua fôrça,
subirão com asas como águias»
correrão e não se cansarão;
caminharão, e não se fatigarão.

Êstes versículos apresentam verdades preciosas para


os exilados. Havendo explicado com destreza os seus en­
sinos sôbre a majestade e o podçr absoluto do Senhor Javé,
O profeta apresenta ao seu povo abatido e desanimado a
esperança e o apêlo que se encerram nestas verdades di­
vinas .
Quando ouviram estas descrições encantadoras do
poder criador do Senhor, e das suas atividades providen­
ciais na redução a nada os poderosos impérios e os opres­
sores do povo, os exilados ainda se achavam na Babilônia,
e aparentemente sem qualquer evidência histórica da sua
libertação.
O verso 27 descreve a primeira reação dos ouvintes
às promessas proféticas de libertação. O profeta pergun­
ta: Por que dizes, 6 Jacó, no espirito de desespêro? E por
que declaras: O meu caminho está escondido ao Senhor?
Israel julgava que o Senhor não se interessava na liherta-
çãõ" dcís ê x o d o s áã opressão e do sofrimento. Sabe Deus
i-iiussa coíidlyfiu angustiosa? (Faz Êlé caso de nós? O
Í eu direito passa desatendido por meu Deus. Não obs-
nte a infidelidade e a culpa dos exilados perante o Se­
nhor, êles pensavam que o direito estava com êles contra
os opressores.
Nos versículos 28-31 o profeta responde às dúvidas do
povo desencorajado. Deve-se lembrar das suas experiên­
cia^ còm o Senhor através dos anos da história. As na­
ções opressoras iam caindo enquanto o Senhor cuidava
A PRO F ECIA DE IS AÍAS «a

de Israel. Assim, o profeta dirige a mensagem ao poyo


como Jacó-Israel cuja relação com o Senhor havia sido
tão significativa. Nota-se um tom de censura nas pala­
vras do profeta no versículo 27. Israel revela pena de si
mesmo, e assim se cega em parte ao pleno entendimento
da promessa de libertação. O profeta lhes declara que não
há no Senhor a fraqueza e a vacilação que caracterizam
os homens. A fôrça do homem pode decrescer, e êle pode
perder o seu vigor. Não é possível que o Senhor se es­
queça daqueles que prometeu salvar; como não é possí­
vel a diminuição do seu poder, ou a mudança do seu eter­
no propósito. E a mensagem vai crescendo em beleza e
poder. Não sabe o exilado que Javé é o Deus imutável,
sempiterno, o Criador dos fins da terra ? Não obstante
a fraqueza e a vacilação dos homens, aquêle que espera
no Senhor adquirirá novas fjôrças (Cp. Sal. 103:5). O
vôo da águia é uma linda figura do poder da f é . O verbo
na L X X significa criar asas, Ou pôr-se ai voar. A Yulgata
é semelhante ao grego assument pennas. Os que esperam
no Senhor renovarão a sua fôrça. Terão uma nova quali­
dade de vida de união com Deus, e, portanto, cheia de vi­
gor, de fé e de esperança.
O profeta antecipa a vitória da Pérsia na conquista
da Babilônia, e a providência de Deus que promete a
volta de Israel para a sua terra, onde receberá as maravi­
lhosas bênçãos do Senhor no cumprimento da sua gloriosa
missão.
Correrão e não se cansarão; caminharão, e não se
f atigarão. Alguns críticos opinam que esta declaração é
uma conclusão fraca da grande mensagem do profeta, e
deve ser eliminada como interpolação. Mas Sir George
Adam Smith, numa exposição clássica da passagem, es­
creveu: “ É um climax natural e verdadeiro, subindo do
mais fácil para o mais difícil, do ideal para o real, do so­
nho para o dever, de uma das raras ocasiões da vida para
64 A. R. C RAB TR EE

que deve ser a experiência comum e permanente. A his­


tória seguiu êste curso.” 6
C . O Deus da História das Nações, 11 :l-29
Uma das funções do profeta do Velho Testamento
foi a interpretação dos sinais da história contemporânea.
Da sua perspectiva, como mensageiro do Senhor, êle in­
terpretava o significado dos movimentos da história das
nações em relação ao propósito de Deus concernente à
missão do povo de Israel. Isto não quer dizer que eram
historiadores no sentido moderno da palavra. É notável,
porém, que êles sempre entenderam mais claramente do
que os reis contemporâneos os sinais dos tempos.
Êste profeta testemunhava grandes transições na his­
tória dás nações da sua época. A Babilônia, o poderoso
conquistador de nações e povos, estava perdendo ràpida-
mente o poder e a autoridade sôbre os povos que havia
subjugado.- E êle entendeu e interpretou para o seu povo
a decadência da Babilônia e o levantamento do nôvo im­
pério da Pérsia em relação com o propósito do Senhor.
O chefe dêste nôvo império era Ciro, o príncipe de Ansã,
o pequeno estado' entre Elão e a Pérsia, ao norte da Babi­
lônia, mas já estava demonstrando a sua visão e o seu
poder como estadista. Havia conquistado a Média em
550. Yenceu Creso da Lídia em 546. Em 539, pouco tem-
, po depois*^ proclamação da mensagem do profeta no' ca-
i pitulo 41, Ciro conquistou a Babilônia.
f Êste profeta é o pregador da redenção de Israel pelo
Criador e o Condutor da história. Êle interpreta a histó­
ria de acôrdo coím o propósito do Senhor na criação. Êste
profeta reconhece o povo de Israel como o servo escolhido
do Senhor, e como o mensageiro da autoridade da justiça
de Javé sôbre as nações.
5. T h « Book of Isaiah, Vol. II, p. 105
A P R O FE C IA DE ISAIAS 65

Deus opera dentro do' seu processo histórico nas-gli-


vidades de povos e nações. Êle é o Controlador da histó­
ria (11:21-24). De acôrdo com o plano de Deus na obra
da criação, o levantamento de Ciro, e o dèsenvolvimento
do' seu império faz parte do propósito compreensivo do
Senhor Javé (41:25-29). Ciro apresenta-se como con­
quistador benévolo, e o libertador de povos oprimidos.
Governou com clemência os povos que subjugou. Foi êle
quem autorizou a volta dos judèus cativos para recons­
truir o Templo de Jerusalém (II Crôn. 36:22, 23; Esd.
1:1-8). O profeta fala dêle como “ pastor de Javé” (44:
28) e como “ tí ungido do Senhor” (45:1). Embora não
haja evidência de que Ciro aceitou Javé como seu Deus,
0 profeta reconhece que Deus utilizou-se da benevolência
dêle na realização do seu propósito na restauração dos
judeus do cativeiro.
Quando as nações antigas sofriam derrotas na guer­
ra, êles julgavam sempre que tais desgraças foram devi­
das à fraqueza dos seus deuses em comparação com os
deuses dos seus conquistadores. Em contraste com êste
modo de pensar, é fato notável que os profetas de Israel
Interpretavam os desastres e as calamidades do seu povo
como a punição justa da sua infidelidade ao seu Deus,
como o domínio da Assíria (Is. 10:5-15) e o cativeiro
por Nabucodonosor (Jer. .25:9). Quando terminou o cas­
tigo merecido no cativeiro, Deus levantou Ciro para os
1libertar e os restaurar na sua terra, como tinha levantado
|Moisés, séculos antes, para tis libertar da escravidão do

1. A Soberania do Senhor, 41 :l-7


1, Calai-vos perante mim, ó ilhas,
e renovem os povos a sua fôrça;
* cheguem-se, e então falem ;
cheguemo-nos a julgamento.
66 A. R. C R A B T R E E

2. Quem suscitou do oriente


aquêle cujos passos segue a vitória ?
Quem faz que as nações se lhe submetam,
e que êle calque aos pés os reis,
e com a sua espada os transforme em pó,
e em palha arrebatada com o seu arco ?

Como o Condutor da história, Javé determina os des­


tinos de tôdas as nações. E neste primeiro versículo Êle
convoca as nações para ouvir a sua palavra: Calai-vos pe­
rante mim, ó ilhas. Escutai silenciosamente a minha pa­
lavra. A palavra ilhas significa aqui, como em 40:15, não
somente as ilhas, mas também tôdas as terras na costa do
Mediterrâneo, o litoral (40:15; 42:10, 12; 49:1; 51:5).
As nações estão convocadas perante o tribunal da lei. O
Senhor Javé, o Deus do povo' do seu concêrto, tem uma
controvérsia com os deuses das nações. Não obstante o
fato de que o Senhor é uma das partidas na controvérsia,
Êle também, na sua justiça absoluta, é o Juiz, não somen­
te do seu próprio povo do concêrto, mas também de todos
os povòs do' mundo. As nações são convidadas para re­
novar as suas fôrças, aproximar-se e falar e unir-se com
o tribunal no julgamento.
Quem suscitou êste poderoso conquistador que vai
subjugando as nações do oriente e do norte, esmagando
os reis? O profeta refere-se claramente a Ciro, e não a
Abraão éltno dizem Calvino e outros. Ciro, filho de Cam-
bises, estava intimamente relacionado com a casa real da
Média, segundo! referências antigas. Média ficava ao nor­
te, e a Pérsia ao leste da Babilônia. Havendo subjugado
os países ao leste e ao norte, estava bem preparado para
conquistar a Babilônia. O hebraico do versículo dois é
difícil, mas o sentido genérico é claro. Alguns traduzem
a frase , Quem suscitou o homem
^ v : - s •• t i * v V
justo do oriente aos seus pés, como servo; ou Quem
suscitou a justiça do oriente. Outros preferem Quem a
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 67

justiça encontra em todos os passos. É muito claro que


o profeta reconhece Ciro como instrumento na ríão do
Senhor para libertar os exilados da Babilônia. E que êle
calque aos pés os reis, com pequena mudança de vocali­
zação, pode ser traduzido, que êle subjuga, ou humilha
os reis.
3. Persegue-os e passa adiante em segurança, '**i
por uma vereda que os seus pós não haviam trilhado.

A segunda parte do versículo 3 pode significar que o


conquistador está trilhando uma vereda nova. Mas al­
guns pensam que o profeta está dizendo na linguagem
poética que Ciro, na sua velocidade meteórica, não trilhou
a vereda com os pés.
4. Quem f i z e executou -isto,
chamando as geragSes desde o princípio ?
Eu, o Senhor, o primeiro,
« com os últimos; Eu sou file.

Pergunta-se no versículo 4, Quem consegue executar


eventos tão maravilhosos, chamando as gerações dos ho­
mens desde o princípio da história humana? A resposta
é claramente, O Senhor. Desde o principio da história
humana, o' Senhor Deus tem chamado tôdas as gerações
à existência. Na sua essência divina, Deus é o mesmo
através de tôda a eternidade (Cp. Sal. 90:3; Is. 37:16;
43:10-13; 46:4; 48:12). No período da agressão da As­
síria, cujo poder cruel parecia invencível, o profeta Isaías
declarou repetidamente a imutabilidade de Deus na sua
infinita sabedoria, e no seu eterno propósito na direção
da história dos povos e das nações (14:14-27; 22:11; 28:
23-29; 29:14; 31:2; 37:26).
5 Os países do mar vêem e têm mêdo;
os fins da terra tremem;
Aproximam-se e vêm.
6. Cada um ajuda ao seu próximo, 1
e diz ao seu irmão: Esforça-te !
68 A. R. C RAB TRE E

7. E o artífice anima ae ourives,


e o que alisa com e martelo, ao que bate na bigorna,
dizendo da soldadura: Está bem feita.
Então o segura com pregos para que não oscile.
Não é muito claro o sentido dêstes versículos. A
sugestão de alguns intérpretes de que os versículos 6
e 7 devem seguir 40:1’9, complica em vez de esclarecer
o significado da passagem. Para esclarecer esta com­
plicação êles eliminam o versículo cinco, sem justifica­
ção. O seíitidb da passagem é que as nações, na sua
consternação por causa do levantamento de Ciro, dedi­
cam-se dilígêntemente ao plano de fabricar mais e me­
lhores ídolos para garantir, tanto quanto possível, a sua
segurança contra o invasor.
Os países do mar traduz mèlhor aqui, e em 40:15, o
sentido da palavra NthQ do que ilhas. Observando o
progresso rápido de Ciro nas suas ctínqüistas, os povos
têm mêdo, e os fins da terra tremem. O Rôlo do Mar
Mortti? tem juntos em vez de tremem. O versículo cinco
descreve a réaçSo das nações contra o apêlo do profeta no
versícüío primeiro.
Òs versículos seis e sete descrevem as fraquezas das
nâçõès, è zombam dos seus ídolos, nos quais os povos
confiam como os seus deuses. Na sua confusão, os po­
lvos se èsfilçam na produção de imagens mais fortes,
mais bonitas e mais preciosas. Cooperam fervorosamen-
|s, cada um ajudando o próximo', e dizendo ao irmão:
Esforça-te. O artífice, tí^in , que funde a iinagem, enco-
T T

raja ao ourives, «pj? , que cobre a imagem de ouro e


forja para ela cadeias de prata (40:19). Não está muito
ciarei a significação da cláusula, o que alisa com o mar­
telo, ao que baite na bigorna, mas evidentemente êstes
faziam os últimos retoques nas imagens e forjavam na
A P R O FE C IA DE ISAÍAS 69'

bigorna pregos para segurar a imagem no seu lugar pfêra


que não oscilasse ou caísse. Mas a veemência e o fa ­
natismo dos idólatras não têm valor. Chegou a hora do-
Senhor Javé, o Deus de Israel.
2. Israel É o Servo Escolhido do Senhor, 41:8-13
8. Mas tu, Israel, servo meu,
Jacó, a quem escolhi,
descendente de Abraão, meu amigo;
9. tu a quem tomei das extremidades da terra,
e chamei dos seus cantos mais remotos,
e te disse: Tu és o meu ®ervo,
eu te escolhi e não te rejeitei;
10. não temas, porque eu sou contigo,
não te desanimes, porque sou o teu Deus ;
eu te fortalecerei, eu te ajudarei,
eu te sustentarei com a destra da minha justiça.

Nestes versículos o profeta dirige-se a Israel como


o servo do Senhor, escolhido e chamado de todos os
povos sôbre a face da terra para ser um povo santo ao
Senhor, e uma nação sacerdotal, Êx. 19:6. Deus nunca
abandonará o povo do seu Concêrto,1 rTH.3 » e nunca
• x

renunciará o seu propósito na eleição de Israel (Cp.


Jer. 30:10, 11; 46:27, 28; Ez. 28:25, 26 ; 37:25).
O Livro de Gênesis conta como' o Senhor limitou
gradualmente o povo escolhido; primeiro aos descenden­
tes de Sem (Gên. 10:21; 11:10); então a Tera (11:27);
a Abraão e Isaque (21:12) e, finalmente, aos descenden­
tes de Jacó. 2
Israel, servo meu. A palavra servo freqüentemente
significa escravo, porém o servo do rei, ou do nobre,
ocupou uma posição de honra. Mas Israel, o servo es^-
1. Esta palavra não significa aqui pacto, nem aliança. V er a Teologia»
do autor, p. 20
2. A . R. Crabtree, A Esperança Messiânica, Cap. 5
70 A . R. CR A B TR E E

colhido do Senhor, ocupa uma posição especial de honra


entre as nações. Muito feliz também a vida de qual­
quer homem que é um verdadeiro servo do Senhor,

como Abraão, meu am igo. A palavra , traduzida


• “ t
amigo, significa literalmente aquêle que eu amo. Gên.
15:18 fala do Concêrto do Senhor.com Abrão.
O propósito dó Senhor na eleição de Israel especifi­
ca-se repetidamente nas Escrituras do Velho Testamen­
to. É uma doutrina complicada nas suas ramificações,
mas é simplesmente mencionada nesta passagem, junta­
mente com a promessa de que o Senhor sempre ajuda­
rá o seu povo no cumprimento da sua grandiosa missão.
As nações, com o's seus deuses impotentes, acham-
se constantemente atormentadas pelo mêdo, enquanto
o povo do Senhor vive pela fé no amor imutável do Se­
nhor e na sua graça não merecida. Êste profeta dá ên­
fase especial à escolha irrevogável de Israel, e ao pro­
pósito divino na sua separação como o povo santo para
o serviço particular do seu Deus (Cp. Deut. 6:8; 7:7, 8;
14:2, 21; 26:19; Êx. 19:6).
A eleição originou com a chamada, a fé, a obediên­
cia e a missão' de Abraão, e com a promessa de Deus: “ Na
tua descendência serão benditas tôdas as familias da
.terra” (Gê%, 12:1-3). Nestes versos 8-10, o profeta dá
Welêvo à escolha irrevogável de Israel, e no uso das pa­
lavras eu, , e tu, n fiN , põe ênfase na relação pe-
V •-* T -

culiar entre Deus e o povo da sua escolha.


A quem tomei, ptpl , agarrei, segurei das extremi-
-T
dades da terra. É significativo que o ato do Senhor na
eleiçãQ de Israel nunca deixou de ser uma grande e inex­
plicável maravilha para os nobres profetas de Israel.
Pela eleição Israel pertencia ao Senhor de acôrdo com
o eterno Concêrto que o próprio Deus fêz com o seu
A PR O FEC IA DE ISAÍAS 71

povo. A religião de Israel firmava-se na certeza h*£tba-


lável da sua eleição divina. Nos períodos perigosos da
história de Israel, os profetas encorajavam o seu povo,
dando ênfase ao Concêrto com as promessas divinas.
Não temas, porque Eu Sou, , contigo. Não te desa*
•■ t
nimes, porque EU SOU o' teu Deus; EU SOU.„te fortale­
cerei; EU SOU te ajudarei; EU SOU te sustentarei com
a destra da minha justiça. Ver (Êx. 3:14).
V t V

11. Eis que serão envergonhados « confundidos


todos os indignados contra ti;
serão reduzidos a nada e perecerão
os que pelejam contra ti.
12. Buscarás os que contendem contigo,
mas não os achar&s;
os que fazem guerra contra ti
serão como nada e cousa de nenhum valor.
13. Pois eu, o Senhor teu Deus,
estou segurando a tua mão direita;
sou eu que estou dizendo a ti: Não temas,
eu te ajudarei.

Nos versículos 11 a 13 o profeta proclama a vitória


de Israel sôbre os inimigos. O castigo dos que pelejam
contra Israel será a vergonha e a humilhação, mas o
povo escolhido estará perfeitamente seguro no’ poder do
seu Deus, o Senhor.
De acôrdo com o eterno plano do Senhor, o exér­
cito da Pérsia está em marcha vitoriosa, sob o coman­
do de Ciro, e vai calcando os reis inimigos do povo do
Senhor. Assim, o eterno plano de Deus está sendo rea­
lizado na situação’ histórica e política do mundo. Ciro
vai conquistando, não muito ràpidamente, mas com fôr­
ça irresistível as nações que se indignam contra o povo
de Israel. Ciro não sabia que estava sendo usado na
realização do propósito eterno do Todo-Poderoso que
visava ao estabelecimento do seu império espiritual en-
72 A R. C R A B T R E E

'tre tôdas as famílias da terra. O conquistador de nações


não entendeu a intenção do amor imutável do Senhor
110 livramento daquele pequeno grupo de homens sub­
jugados no estrangeiro, longe da sua pequena terra.

Neste capítulo 0 mensageiro do Senhor vai muito


além da promessa de confôrto divino para o povo que
vacilava na esperança e na confiança no socorro do seu
Deus. “ Eu, Javé, te chamo em justiça, tomei-te pela
mão e te guardei. Eu te dei como concêrto do povo, para
luz dos gentios” (42:6). Deus não escolheu a Israel por
qualquer mérito de fidelidade ou do amor ao' seu Cria­
dor e Protetor. À vista do Senhor, Israel, em si mesmo,
não é mais do que um bichinho (v . 14). Enquanto o
povo escolhido exultava de felicidade no socorro e nas
bênçãos do Santo de Israel, devia reconhecer, ao mesmo
tempo, que fo i eleito como servo de Deus, para fazer com
Deus o que êle está sempre fazendo. O povo de Deus
tem que batalhar contra tôdas as fôrças do mal, tem que
esmagar as montanhas de iniqüidade que impedem o
progresso do Salvador (41:14-16).

O profeta proclama o julgamento divino contra


três classes de inimigos do povo de Deus: todos que es­
tão indignados ou inflamados contra ti; os que conten­
dem ou lutem contigo; os que fazem guerra ou pelejam
contrai ti. Â^ronúncia do julgamento divino começa com
â palavra Eis, observa, olha atentamente (Cp. v . .29;
® . 3:1; 8:7; 10:33; Amós 2:13; 6:11; 8:11). Os têrmos
i<íe julgamento descrevem a violência crescente dos ini­
migos contra o povo de Deus. O profeta simpatiza com
o seu povo ainda subjugado' pelo inimigo, mas explica
claramente a impotência dos adversários do povo de
Deus. iÊste profeta fortalece a sua mensagem de con-
fôrtò pela repetição freqüente das promessas do Senhor,
o Deus*de Israel. O Senhor está segurando' a mão di-
A PROFEC IA DE ISAÍAS 73

reita dò seu servo, dizendo-lhe: Não temas, Eu te aju­


darei.

3. O Senhor É o Redentor de Israel, 41:14-16


14. Não temas, tu verme, Jao6,
vós, homens de Israel I
Eu te ajudarei, diz o Senhor;
o teu Redentor é o Santo de Israel.
15. Eis que farei de ti um trilho ctebulhador,
agudo, nôvo, e armado de dentes;
trilharás e esmagarás os montes,
e reduzirás os outeiros à palha.
16. Tu os padejarás e o vento os levará,
e a tempestade os espalhará. Y'
Tu te regozijarás no Senhor,
e te gloriarás no 8anto de Israel.

Êstes versículos, com a frase introdutória, Não fe*


mas, relacionam-se com o parágrafo anterior. O profe­
ta faz um contraste interessante entre a fraqueza de Is-
i-ael na sujeiçãtí, e o grande poder que o Senhor vai fa­
zer dêle. O profeta apresenta o contraste entre a fraque­
za atual e o poder futuro de Israel nas figuras de verme
e trilho debulhador. Seria difícil fazer uma compara­
ção mais impressionante entre o pequeno grupo de ju­
deus na humilhação e desânimo no cativeiro, e no po­
der mundial que o Redentor vai fazer dêle.
Alguns comentaristas exageram o contraste, tradu­
zindo a palavra por têrmos como gusano ou pio­
lho. Mas o contexto indica que o profeta emprega a pa­
lavra no sentido comum de verme ou bichinho, como<
têrmo de carinho. A palavra V ltt no paralelismo, ho~.
4* * "
mens de Israel, ou povozinho de Israel, concorda com;
o sentimento carinhoso do profeta. A bela linguagem
figurativa que descreve o poder que Israel receberá do>
74 A R. C R ABT REE

Senhor para cumprir a sua missão sacerdotal é mais


brilhante e expressiva no hebraico do que nas várias
traduções.
Thomas Oliver escreveu no seu belo hino: Êle diz
que o verme é seu amigo, e declara que êle mesmo é o
seu Deus. Não temas, povozinho de Israel, Eu te aju­
darei, diz o Senhor: o teu Redentor é o Santo de Israel.
Nestas palavras o profeta expressa pela primeira vez o
profundo pensamento de que o Santo de Israel é o Reden­

tor, ^ 3 , do seu povo (43:1, 4; 44:6, 23, 24; 47:4; 48:


17, 20; 49:7, 26; 52:3, 9; 54:5, 8; 60:16; 63:9, 16). O sen­
tido desta palavra aqui é uma das muitas ilustrações do
fato de que a Bíblia aprofunda a significação vulgar de
palavras. O goel, entre os hebreus, tinha a responsabili­
dade social e a obrigação moral de comprar ou redimir a
propriedade do parente mais chegado (Rute 4:1-10). O
Senhor Javé é o Redentor do seu povo.
Como instrumento do julgamento divino, Israel é
0 trilho debulhador, bem armado para esmagar os mon­
tes e reduzir os outeiros a palha. Os montes e os outeiros
são símbolos dos adversários de Israel. Êste pequeno
povo redimido pela graça de Deus triunfará gloriosamen­
te no cumprimento da sua honrosa missão. Depois de
-cumprir a uua obra de julgamento, o povo escolhido se
regozijará, e se gloriará no Santo de Israel.
1 4 . 0 Deserto Se Tornará em Lugar Fértil, 41:17-20
17. Quando os pobres e necessitados buscam água, e não há,
e a sua língua »a teca de sède,
Eu, o Senhor, os atenderei,
Eu, o Deus de Israel, não os desampararei.
18. Abrirei rios nos altos desnudos,
^ ' e fontes no meio dos vales ;
tornarei o deserto em açudes de água,
e a terra sêca em mananciais.
A PR O F E C IA DE ISAIAS 75

19. Porei no deserto o cedro,


a acácia, a murta e a oliveira;
colocarei no êrmo o cipreste,
o olmeiro e o buxo juntos;
20. para que os homens vejam e saibam,
considerem e juntamente .entendam,
que a mão do Senhor féz isto,
e o Santo de Israel o criou.

Como o servo do Senhor, Israel tinha que representar


o seu Deus, e assim lutar contra tôdas as fôrças do mal
que pudessem impedir a obra salvadora do seu Senhor.
Mas nesta incumbência, impotente de lutar nos altos mon­
tes da iniqüidade, Deus não o desamparará. Êle respon­
derá a tôdas as suas necessidades. Êle dará ao seu ser­
vo água abundante para refrescar a língua sêca, abrindo
rios, fontes e mananciais nos montes, nos vales e no de­
serto. O Senhor plantará várias qualidades de árvores no
deserto para a proteção do povo contra o calor do sol.
Êste poeta fala freqüentemente sôbre a transformação
da natureza física que acompanhará as bênçãos espiri­
tuais de Israel na volta do cativeiro (43:18-21; 48:21; 49:
9-11; 55:12, 13). Êste profeta fala freqüentemente sôbre
as atividades do Senhor nas obras da criação, e nestes
versículos, especialmente no v. 20, êle associa a fertili­
dade miraculosa da terra com a obra criadora do Senhor.
Alguns perguntam se êstes versículos devem ser interpre­
tados literalmente ou figurativamente. Eu diria que esta
passagem, juntamente com Jer. 4:23-26, deve ser inter­
pretada poèticamente.
Há sentimentos do espírito humano que não se po­
dem descrever na linguagem puramente científica, como
o amor da mãe para com os filhos, o amor conjugal e o
amor imutável de Deus. Há certas experiências huma­
nas que se podem descrever, em parte, por têrmos cientí­
ficos, mas a sua mais profunda significação tem que ser
interpretada, tanto quanto possível, em linguagem poética.
76 A R. C RAB TR EE

Nesta passagem (vers. 17-20) o profeta está respon­


dendo, aparentemente, às dúvidas e aos problemas que os
«exilados enfrentavam nos seus pensamentos sôbre a vol­
ta do cativeiro para a sua terra (Caps. 35; 43:18-21; 49:
B - l l ) . O povo, sem dúvida, estava pensando nos proble­
mas e nos sofrimentos que tinha que enfrentar na longa
viagem através do' deserto desde a Babilônia até à Pales­
tina. Pensava no cansaço dos velhos, no sofrimento das
crianças, na sêde e na fom e de todos. O povo buscará
água no deserto sem achá-la, e a sua língua se secará de
sêde.
P or outro lado, o mensageiro' inspirado do Senhor
interpreta o significado da restauração dêste povo esco­
lhido, como nação sacerdotal, para cumprir a sua missão
d e importância eterna no plano de Deus. Apresenta um
retrato dote exilados, como se já tivessem iniciado a via­
gem de volta para a Palestina. “ Quando os pobres e ne­
cessitados buscam água, ...E u , o Senhor, os atenderei,
Eu, o Deus de Israel, não os desampararei.” Na jornada
dé Israel do Egito para a terra de Canaã, o Senhor trou­
xe água da rocha para o seu povo no deserto (48:21; Êx.
17:1-7; Núm. 20:1-13). Deus cuidará da mesma ma­
neira do seu povo na volta para a sua terra a fim de
cumprir a sua missão. “ Abrirei rios nos altos desnudos;
tornarei o deserto em açudes de água.” Para o profeta,
tÔ(da a natureza física se regozijaria com êste miraculoso
■etento. “ Porei no deserto o cedro, a acácia, a murta e
a ç liv e ir a .” “ Saireis, pois, com alegria e em paz sereis
•conduzidos; os montes e os outeiros romperão em cânti­
cos diante de vós, e tôdas as árvores do campo baterão
palmas” (55:12).
3 . Comparação entre os Deuses da Babilônia e o Senhor
Javé, 41:21-29
x -
.21. Apresentai a vossa eauta, diz o Senhor;
i oferecei os vossos argumentos, diz o Rei de Jacó.
A PRO F ECIA DE ISAÍAS 77

22. Produzam e nos façam conhecer o que acontecerá.


Declarai-nos as cousas anteriores, quais são, '<«>"
para que as consideremos, e saibamos o fim delas;
ou declarai-nos as cousas vindouras.
23. Anunciai-nos as cousas que ainda hão de vir,
para que saibamos que vós sois deuses;
fazei bem, ou fazei mal,
para que fiquemos assombrados e aterrorizados.
24. Eis que vós sois de nada,
e a vossa obra 6 de nada;
uma abominação 6 quem vos escolhe.

Havendo falado do Senhor Javé como o Criador de


tôdas as cousas, e o Condutor da história das nações, o
profeta declara nestes versículos que o Rei de Jacó, o
Rei de Israel, é o Verdadeiro Deus que conhece o fim de
tôdas as cousas desde o princípio. Êste conhecimento do
futuro é a prova final da divindade. Assim, o profeta se
dirige aos ídolos, não às nações, desafiando-os para de­
monstrarem o seu conhecimento do futurei, ou mostrarem
o seu poder de fazer qualquer cousa, bem ou mal. Nos ver­
sículos 21-24, o profeta apresenta o' Senhor Javé como o
Único e o Verdadeiro Deus. Nos versículos 25-29, êle de­
clara que o Senhor levantou Ciro para punir as nações, e,
como o seu servo, para libertar os judeus exilados na Ba­
bilônia, e permitir a sua volta para a Palestina, onde êles
pudessem cumprir a sua missãó sacerdotal.
Apresentai a vossa causa, diz o Senhor. A palavra
causa, y “l f significa aqui um processo ou litígio perante
o tribunal da justiça (Cp. Miq. 6:1; Os. 2:4). As provas,
os argumentos e as razões em favor dos ídolos podem ser
apresentados perante o tribunal, diz o Rei de Jacó. Para
provar a sua divindade, os ídolos devem conhecer e expli­
car as cousas ou os eventos históricos que já aconteceram,
e devem demonstrar o seu poder de declarar cousas vin­
douras, ou explicar o significado e o fim da história. Por
outro lado, o' Senhor Javé, o Deus de Israel, por intermé­
78 A . R. C R A B T R E E

dio dos seus mensageiros, os profetas, manifesta o seu


pleno conhecimento das cousas vindouras. O Deus de Is­
rael revela ao seu povo que está libertando os exilados do
cativeiro para que êles possam cumprir a incumbência
de transmitir a tôdas as nações a revelação do eterno
plano do Senhor concernente aos povos da terra.
25. Suscitei um do norte, • êle veio,
desde o nascimento do soi, èle invocará o meu nome;
pieará magistrados como lõdo,
como o oleiro pisa o barro.
26. Quem o declarou desde o princípio, pára que saibamos,
ou de antem&o, para que digamos : É justo ?
N io houve quem o declarou, nem quem o proclamou,
nem ainda quem ouviu as vossas palavras.
27. Eu *ou o que primeiro o declarou a Sião : Eis ! ei-los !
e dou a Jerusalém um arauto de boas notfcias.
28. Mas quando eu olho, não hâ ninguém;
e entre Astes n io há conselheiro
quam, quando eu pergunto, dê resposta.
29. Eis que todo» êles s io nada;
as suas obras são cousa nenhuma;
•a tuas imagens fundidas são vento e caos.

Os versículos 25-29 explicam como' o Senhor levan­


tou a Ciro explicitamente para libertar o povo de Israel
do poder da Babilônia. Suscitei um do norte. O sentido
do verbo hebraico é vigoroso: despertei, provoquei, in­
citei, impeli. Javé declara que havia despertado' um do
norte. Um ato norte significa claramente Ciro. Êle veio
d a Média e do Elão. 0 império de Ciro já se estendia ao
nd^te e ao leste da Babilônia. Assim, êle veio do norte,
e também do nascimento do sol, ou do* leste.
Êle invocará o meu nome. Esta declaração significa
que Ciro reconhecerá ao Senhor Javé como Deus. É fato
que Ciro reconheceu Marduque como o' deus da Babilô­
nia (Cp. 45:4, 5) 3, mas isto não nega a declaração do
profeiá ile que êle reconheceu o Senhor de Israel como
3. A . R . Grabtree, Arqueologia Bíblica, p. 282
A P R O F E C IA DE IS A ÍA S 79

Deus. Enquanto seja claro que Ciro não tinha conhecido


a Javé, declara-se também em 45:3 a respeito de Q r o :
para que saibas que eu sou o Senhor, o Deus de Israel,
que te chama pelo teu nome. N a fé monoteísta tôdas as
atividades históricas são subservientes ao eterno propósi­
to do Senhor. Ciro era servo de Deus, embora não tives­
se consciência do' pleno significado da sua benevolência
para com os judeus (C p. Mal. 1:11; Jer. 25:9* Rom . 8:
2 8 ). O profeta está pensando no movimento histórico ini­
ciado por Ciro que resultou na restauração dos judeus
para a sua terra, o seu restabelecimento em Jerusalém,
e a preservação das Escrituras da Revelação Divina por
intermédio dos profetas que interpretaram o eterno pro­
pósito do Senhor na história de Israel, o povo escolhido
do Senhor.
Pisará magistrados como lôdo. O texto massorético

í O ' diz virá sôbre os magistrados, segundo a versão de


T
Almeida, mas a pequena emenda é geralmente acei-
\T

ta porque cabe melhor no paralelismo, como o oleiro pisa


o barro (Cp. 41:2; 63:6). A p a l a v r a , governado-
• TI
res, magistrados óu sátrapas, é da língua da Assíria (Jer.
51:37; Neem . 2:16; Ez. 23:6, 12, 23).
Quem o declarou desde o princípio para que saiba­
mos? Os deuses das nações não podiam dizer cousa al­
guma sôbre o futuro. Se tivessem profetas que pudes­
sem anunciar de antemão eventos futuros, o povo do Se­
nhor diria, , Direito, justo, certo. Por outro lado,
êste profeta acentua em tôda parte da sua mensagem
o conhecimento e o poder do Senhor Javé, a onisciência
e a onipotência de Deus.
O texto do v . 27 é difícil. A LX X , versão grega, diz,
Darei a Sião um comêço, e confortarei a Jerusalém no
80 A R. C R A B T R E E

caminho. O hebraico diz: Prim eiro a Sião. Eis! ei-Io! Ver


as versões em português, que lutaram com esta dificul­
dade do texto. A emenda do texto concorda melhor com
o paralelismo. Assim, o Senhor fo i o primeiro que anun­
ciou a restauração dos exilados, e Êle dá a Jerusalém um
anunciador de btías notícias (Cp. 40í9-ll; 42:,v); 48:6).
Quando eu olho, não há ninguém. í ) profeta fala aqui,
não mais dos ídolos, mas daqueles que adoram as ima­
gens dos seus deuses. O profeta nãò ppdia achar entre
êstes qualquer conselheiro que pudesse explicar a signifi­
cação de qualquer cousa que tinha acontecido, ou dizer
alguma cousa sôbre os eventos vindouros.
O versículo 29 apresenta a conclusão do argumento
do profeta. Todos êles, os ídolos e os que adoravam os
ídolos, não são nada. As imagens dos deuses que os ho­
mens fizeram com as próprias mãos, e as belas imagens
fundidas são apenas vento e caos.

D . O Servo Escolhido do Senhor e a Sua Missão,


42:1-25
1. Eis o mau aarvo, ■quem austenhe,
o nvèu «acolhido, em quem se compraz « minha alma;
pus aftbra lia o mau Espírito,
e Ala trará juatiga para as nações.
. Apresenftese nestes versículos a primeira das quatro
pnsagens, conhecidas como Os Cânticos do Servo (42:1^9;
49fl-6; 50:4-9; 52:13-53:12). Quem era o Servo nos
quàtro Cânticos? Nenhum outro assunto do Velho Tes­
tamento tem sido' discutido mais do que esta questão. Há
uma grande variedade de interpretações das passagens.
Fora dêstes cânticos, o profeta fala de Israel como o ser­
vo de Javé, nas seguintes passagens: 41:9-10; 44:1, 2, 21;
45:4; 38?20. Dentro dos quatro Cânticos o Servo é anôni­
mo, excetp em 49:3, mas aqui a palavra Israel é usada no
A PRQFEC IA DE ISAÍAS 81

sentido de uma pessoa escolhida, formada desde o ventre


para reunir o povo de Israel. O caráter do Servo do Se­
nhor nestas passagens é também muito diferente da natu­
reza pecaminosa de Israel como nação.
Portanto, não se pode afirmar dogmàticamente que a
palavra servo nestes cânticos é a nação de Israel, como
insiste um grupo' considerável de intérpretes. Convém
notar também que a frase o servo do Senhor é líS&da fre­
qüentemente para designar uma pessoa, como Davi em
II Sam. 3:18 e Ez. 34:23, 24, Zorobabel em Ageu 2:23;
Nabucodonosor em Jer. 27:6, os profetas em Amós 3:7.
É Javé quem fala nos versículos 1-4. Aparentemente,
está dirigindo a palavra a sêres celestiais. O Servo está
presente, mas o desempenho da sua missão ainda está no
futuro.
Quase todos os pensamentos do profeta sôbre a res­
tauração de Israel do cativeiro são mencionados nos pri­
meiros dois capítulos. Daqui o profeta procede na am­
plificação dos assuntos apresentados nestes primeiros ca­
pítulos, e na discussão das atividades do Senhor na liber­
tação do povo escolhido do cativeiro. Então o profeta
apresenta esta nova Pessoa, o Servo de Javé, e explica
como êle vai trazer luz aos gentios.
De acôrdo com a interpretação de muitos exposito­
res, o Servo do Senhor, apresentado neste capitulo, é uma
nova Pessoa, distinta de Israel como nação, mas perfei­
tamente identificada com êle. Israel, como o povo esco­
lhido, mostrou-se incapaz de cumprir, ou até de enten­
der a sua nobre missão com respeito aos gentios. Portan­
to, o' eterno propósito do Senhor na eleição de Israel será
realizado na Pessoa e na obra do Servo de Javé.
1. O Caráter e a Missão do Servo, 1-4
Deus chama o Servo O Meu Servo, 'HSJ?, O Meu Ser-
• 3 *

vo Escolhido, ‘H T iS . Êstes são os mesmos têrmos usados


82 A. R. C RAB TRE E

a respeito de Israel como o servo do Senhor (41:8, 9; 44:1,


2, 21; 45:4; 48:20); justamente porque êste Servo anôni­
mo vai realizar o eterno propósito que Deus tinha em
mira na escolha de Israel. Os característicos da Pessoa do
Servo anônimo são os seguintes: a escolha dêle como o
Servo de Javé; os dons que o preparam para cumprir a
sua missãtí; a natureza divina da sua missão; o seu modo
de trabalhar; e o resultado feliz do seu grande ministério.
O versículo explica a escolha agradável do Servo, os seus
dons espirituais e o alvo do seu serviço.
Eis o meu Servo, a quem sustenho, e o meu escolhi­
do, em ti me comprazo. A L X X tem Eis Jacó meu servo,
e Israel meu escolhido, mas estas palavras Jacó e Israel
são geralmente reconhecidas como adição sem autorida­
de ao texto original. As palavras minha alma são usa­
das, às vêzes, em poesia em lugar do pronome Eu. As­
sim, as palavras que Jesus ouviu quando fo i batizado, “ Tu
és o meu Filho amado, em ti m e comprazo” (Marcos 1:
11) são palavras dêste primeiro Cântico do Servo e do
Salmo 2:7. Isto pode significar que Jesüs, na ocasião do
seu batismo, estava cônscio do seu ministério duplo, como
o Rei Messiânico do reino de Deus, e como o Servo So­
fredor do Senhor e o Salvador da humanidade.1 O Servo
do Senhor é dotado do Espirito' de Javé, o Espírito de sa­
bedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de
(fortaleza, «^Espírito de conhecimento e de temor do Se-
bihor.

| Êle trará justiça, , para os gentios. Esta pala-


T . « •

vra é usada em vários sentidos: julgamento, justiça, reti­


dão, direito, juízo, a maneira de Deus da terra (Jer. 5:
4, 5; 8:7). Êle trará, ou causará sair, ou proclamará a
justiça.

1. A Esperança Messiânica do autor, ps. 274-284


A P R O F E C IA OE ISAÍAS 83

É interessante notar que não há qualquer indicação


do que o profeta tenha ligado nesta passagem o seu c<M-
ceitó do Servo com a doutrina prevalecente do Rei mes­
siânico. Mas é perfeitamente claro nos quatro Evange­
lhos, que Jesus mesmo se apresenta como o Messias, o
Rei Messiânico do seu reino espiritual, e ao mesmo tem­
po como o Servo' Sofredor, o Salvador da humanidade.
Assim êste profeta apresenta, na sua interpretação do mi­
nistério sobrenatural do Servo do Senhor, o mais profun­
do desenvolvimento da profecia bíblica.
2. Não clamará, nem levantará a voz,
nem fará ouvir a sua voz na rua;
3. não quebrará a cana rachada,
nem apagará a torcida que ainda fumega;
com fidelidade fará sair a justiça.
4. Êle não iluminará fracamente, nem será esmagado,
até que estabeleça a justiça na terra;
e as terras do mar aguardam a sua Lei.

Os versículds 2-4 descrevem como o Servo procede


calma e mansamente no estabelecimento da justiça no
m undo. Não terá com êle um grande exército conquista­
dor como Ciro. Não se apresentará com ostentação e
arrogância. Não clamará em voz alta nas praças pú­
blicas, tíu nos lugares altos. O Evangelho de Mateus ex­
plica (1.2:17-21) como Jesus cumpriu esta profecia no
seu modo de trabalhar. N o seu espírito gentil e tranqüi­
lo, o Servo apresenta um contraste notável com aquêles
que queriam ser ouvidos pelo seu muito falar (Mat. 6:7).
Para aquêles que percebem e amam a verdade, as mensa­
gens do Servo’ são verdadeiras e de valor eterno.
É profundamente significativa a gentileza do Servo
na sua relação com os homens humildes que têm pouco
entendimento da vida espiritual e o desejo fraco de co­
nhecer a vontade do' Senhor. Êste é claramente o sentido
figurativo das frases a cana esmagada ou rachada, e a tor­
cida que fumega, ou que ilumina muito obscuramente.
84 A R. CR A B TR E E

Em vez de esmagar as esperanças e os desejos tão fracos


no espírito de muitas pessoas, o Servo despertará e fo r­
talecerá as nobres aspirações no coração dos homens aba­
tidos e desanimados.
Considerando as referências do profeta à missão do
Servo aos gentios, não resta dúvida de que êle está pen­
sando na fom e espiritual dos homens de tôdas as nações,
e não simplesmente na dos judeus, Com o seu pleno co­
nhecimento das verdades eternas do Senhor, o Servo fiel
providenciará a salvação eterna para tôdas as nações do
mundo.
Êle não iluminará fracamente, nrO*1 , nem será
V I*
esmagado, V1T' ^ *.
, o incompleto de - r é o tex-

to correto, e não o incompleto do verbo 7*11 , cor-


T
rer do texto Massorético. Êfle não falhará, nem ficará de­
sanimado traduz o sentido da declaração do profeta. Re-
tòricamente a sentença é uma litotes, uma afirmação por
meio de uma negação contrária. O profeta está assim
dizendo que o Servo brilhará fortemente, e ficará bem
animado pelo estabelecimento da justiça na terra.
As terras do mar aguardam a sua Tora. Na frase,
as terras do mar, o profeta está se referindo aos gentios,
ou às nações do mundo inteiro. A palavra Tora significa
qui a revelação divina, a instrução, o ensino, a Palavra

Se Deus, que o Servo transmitirá aos povos do mundo,


essatisfeitos com os seus sistemas religiosos, e que dese­
jam uma fé mais pura e mais poderosa.
2. A Nova Idade no Propósito do Senhor, 42:5-9
5. Assim diz Deus, o Senhor,
que criou os céus e os estendeu,
^ , que alargou a terra e o que dela procede;
que dá fâlego de vida ao povo que nela está,
, e espírito aos que andam nela.
A PR O F E C IA DE ISAtAS 85

Há várias interpretações dêstes versículos 5-9, mas sem


entrar na discussão dos pontos de vista dêstes intérpretes,
vamos apresentar a passagem como a segunda parte do
primeiro Cântico do Servo do Senhor.
Êste profeta fala freqüentemente do Senhor como o
Criador, bem como da grandeza da criação. Êle sempre
tem em vista o propósito na criação, e o plano de estabe­
lecer o seu reino espiritual na vida da humanidade. Dá
muita ênfase à escolha de Israel, e o ÍY H 2 , concêrto, que
♦ l

estabeleceu com êle. Mas Israel como o servo do Senhor


nunca chegou a compreender claramente o' propósito de
Deus na sua escolha. Os profetas reconheceram e ensi­
naram a responsabilidade do seu povo perante o mundo.
Êste profeta reconhece o povo escolhido como o' servo do
Senhor, e ao mesmo tempo identifica o Servo dêstes qua­
tro Cânticos com a nação de Israel.
Assim diz Deus, o Senhor, o Diretor da história de
acôrdo com o seu eterno propósito na criação do mundo.
O Deus, , que alargou e estendeu os céus e a terra,
T

que aumentou a produção da terra, e que deu vida espiri­


tual aos que andam nela. Deus não sòmente soprou nas
narinas do primeiro' homem o fôlego de vida (Gên. 2:7);
o seu Espírito dá vida a todos os homens.
6. Eu, o Senhor, te chamei em justiça,
tom ar-te-ei pela mão, e te guardarei;
Eu te darei como concêrto do povo,
uma luz para os gentios;
7. para abrir os olhos dos cegos,
para tirar da prisão os presos,
e do cárcere os que estão sentados nas trevas.

Há qualquer relação entre os versículos 5-9 e 1-4? A l­


guns insistem em que o versículo cinco introduz um nôvó
assunto. Mas os versículos 6-9 concordam perfeitamente
ctím a descrição do Servo do Senhor em 1-4. Alguns di­
86 A. R. C RAB TRE E

zem que os versículos 6-9 descrevem a missão de Ciro,,


mas é muito claro que a passagem não descreve a missão
política de Ciro . Outros pensam que o servo é Israel, mas.
o profeta está falando claramente de uma Pessoa que-
tem podêres sobrenaturais. É verdade que a passagem
apresenta dificuldades, mas o reconhecimento de que ela.
faz parte do primeiro Cântico do Servo remove as difi­
culdades que os escritores levantam.
Eu sou o Senhor, eu te chamei em justiça. Esta tra­
dução cdncorda melhor com o contexto geral, mas Eu,
o Senhor, é igualmente correta. A L X X acrescenta

K vpio<s o 0e6<s. Os verbos tomar, guardar e dar podem


ser traduzidos no tempo passado, ou no tempo futuro.
A L X X e tôdas as versões modernas que conheço, com a
exceção da Revised Standard, preferem o' tempo futuro,,
que concorda mais claramente com o contexto, e espe­
cialmente com a frase que segue, uma luz paira os gen­
tios. E o versículo sete certamente não descreve a ativi­
dade religiosa de Israel no tempo passado. O profeta está
falando claramente sôbre o Servo' Ideal, o Servo de Javé.
Mat. 12:18 e Lucas 2:32 declaram que Jesus Cristo, »
Servo do Senhor, cumpriu a promessa de Deus nestes
versículos.
Nestes versículos 6-9, o Criador dos céus e da terraT
£stá falanda» não de Israel, que tinha sido infiel no cum-
brimento do propósito' divino na sua escolha, mas ao ver-
l&deiro Servo de Javé que nunca vacilou perante as difi—
duldades, e na face dos inimigos, no cumprimento perfei­
to da sua missão. No seu poder divino, êle abriu os olhos
dos cegos, redimiu os presos do pecado, e tirou da escra­
vidão os que estavam sentados nas trevas da iniqüidade.
Eu te dairei como concêrto do povo, uma luz para os
gentio^. No seu amor imutável, hesedh, o Senhor tinha
estabelecido o seu ccíncêrto com o povo de Israel. O be-
A PRO F ECIA DE ISAIAS 87

Tith que o Senhor havia cortado com o povo escolhido é


um dos fatos mais importantes na história da revelàção
•divina. 2 Todos os profetas recónhecem que Israel, como
nação, não respondeu devidamente ao amor imutável re­
velado no Concêrto do Senhor com o povo da sua escolha.
Portanto, o profeta Jeremias já havia falado do N ôvo
Concêrto do Senhor. Eis aí vêm dias, diz Javé, quando
cortarei um N ôvo Berith com a casa de Israel? e com a
«asa de Judá (31:31). ÉJste é o Nôvo Concêrto que farei
com a casa de Israel depois daqueles dias, diz Javé: Im ­
primirei a minha Tora no seu interior, e a escreverei no
seu coração (Jer. 31:33). Convém notar que esta pala­
vra de Jeremias fo i proclamada pouco antes que II Isaías
escreveu os versículos seis e sete. Assim, estas palavras
dos versículos seis e sete, Eu te darei por Concêrto do
povo referem-se claramente ao Nôvo Concêrto do Servo
•do Senhor, já esclarecido na mensagem de Jeremias,
Franz Delitzsch apresenta claramente a relação en­
tre o povo escolhido e o Servo. Diz êle: “ A idéia do Servo
de Javé, falandó figurativamente, é uma pirâmide. A
hase da pirâmide representa o povo total de Israel; a se­
ção no meio representa Israel, não meramente da carne,
mas segundo o Espírito; o cume é a pessoa do Mediador
•da salvação que se levanta de Israel.” 3 Declara também
que o Mediador, ou o Servò, é o centro no círculo do Rei­
no de Promessa.
8. Eu sou o Senhor, êste é o meu nome;
a minha glâria, pois, a outrem não dou,
nem o meu louvor às imagens de escultura.
9. Eis que as primeiras cousas já passaram,
e novas cousas eu vos anuncio,
antes que venham à luz,
eu vos farei ouvi-las.

2. W alther Eichrodt, Th-eology of the Old Testament


3. Franz Delizsch, The Prophecies of Isaiah, Vol. II, p. 165
88 A R. C R A B TR E E

Eu sou o Senhor, êste é o meu nome. Ássim, mais


uma vez o profeta reconhece que a atividade do Senhor
na história e na profecia é uma prova de que Êle é o Deus
supremo. É êle quem chamou Israel como o povo do
Concêrto e uma luz para tôdas as nações do mundo. Na
eleição e na preservação de Israel através das vicissitu-
des da história, o grande propósito do Senhor já foi cum­
prido em parte. Mas em o Nôvo reino do Servo, o povo do
Concêrto, regenerado pelo amor imutável do Senhor, an-
dairá em novidade de vida (Rom . 6:4). Para êste profe­
ta, ó Concêrto significa a relação indissolúvel da graça di­
vina do Senhor com Israel, por intermédio do Servo. E
Israel redimido será uma luz para os gentios.
O versículo sete descreve a missão do Servo em têr­
mos tão ricos e tão significativos que poderia ser cumpri­
da somente pelo Salvador do mundo. Segundo Lucas 2:32,
a missão do Servo se cumpriu em relação a Israel e aos
gentios. Mateus descreve na linguagem do profeta o cum­
primento glorioso da missão do Servo.
Eis o meu Servo que escolhi,
o meu amadd, em quem a minha alma se compraz;
Farei repousar sôbre êle o meu Espírito,
e êle proclamará a justiça aos gentios.
(Êle não contenderá, nem gritará,
nem se ouvirá nas praças a sua voz.
< Não esiftftgará a cana quebrada,
| nem apagará a torcida que fumega,
f até que faça vencedora a justiça.
' E no seu nome esperarão os gentios
(Mat. 12:18-21).
Eu sou o Senhor, êste é o meu nome, a> minha glória,
pois a outrem não dou. O nome do Senhor significa ou
representa a sua Pessoa. Israel tinha algum conhecimen­
to do'Nom e do Senhor. Mas se revela na Pessoa do Servo
um nôvo conhecimento do amor eterno e da graça salva-
A PR O FEC IA DE ISAtAS 89

<lora de Javé nâo somente para o povo' escolhido, mas


bém para todos os povos do mundo. Eu sou o Senhor,
o único e o verdadeiro Deus, não sòmente do' povo esco­
lhido, mas de tôdas as nações da terra.
As primeiras cousas já passaram, ou já se cumpri­
ram. Está falando dos primeiros eventos na nova época
da história humana. Já se cumpriram as predições sô­
bre a obra de Ciro, e a libertação do povo escolhido da
escravidão política. 0 profeta apresenta na sua mensa­
gem as cousas novas, a exaltação do Servo, aredenção
de Israel e a conversão dos gentios.
3. O Nôvo Cântico de Redenção, 42:10-12
10. Cantai ao Senhor um cântico n6vo,
o m u louvor até às extremidades da terral
Ruja o mar e a tua plenitude,
v ó » terras do mar, • m u s moradores.
11. Alcem a voz o deserto e as suas cidades,
as aldeias que Quedar habita;
exultem os habitantes de Seta,
clamem em alta voe do cume dos montes.

Os versículos 10 e 11 apresentam o apêlo de cantar


um cântico nôvtí, um cântico de louvor até às extremida­
des da terra. Parece que o m otivo dêste nôvo hino de
louvor é duplo; a libertação do cativeiro babilônico, e as
cousas novas mencionadas no versículo nove que fala das
bênçãos do' Servo do Senhor. Tôda a criação é chamada
para celebrar a glória do Senhor. Vários Salmos mencio­
nam a celebração da glória, das maravilhas e da salva­
ção do Senhor (33:3; 40:3; 96:1; 98:1; 144:9; 14!9 :1 ).
O cântico é distintivamente bíblico, característico de
pessoas e pdvos que têm ricas experiências da graça sal­
vadora de Deus. Ver Isaías 24:14-16. Parece que o pro­
feta associa a libertação política de Israel com a obra es­
piritual do Servo do Senhor, e o principio da Nova Idade
Messiânica que êle inicia. Pois não há provas de que o
90 A . R. CR A B TR E E

SenhCr revelasse a qualquer um dos profetas o tempo*


exato do princípio da Nova Era. Também não' se revela
em o N ôvo Testamento o tempo da Segunda Vinda d e
Cristo. Certamente, o Senhor manifestou a sua glória na
isaída de Israel da Babilônia, como no seu êxodo do Egito,,
triunfo glorioso que inspirou o cântico de Miriã (Êx.
15:21).
'Cantai ao Senhor um cântico nôvo, um hino de lou­
vor, glorificando ao Senhor Javé pela redenção do seu>
povo, até aos fins da terra. Vós os que desceis ao mar, e
tudo quanto há nêle, traduz corretamente o texto masso-
rético, mas apresenta uma dificuldade no paralelismo, e
no sentido da declaração'. Com a substituição do verbo
em lugar de ''T Ti' , a dificuldade desaparece.
Ruja o mar e a sua plenitude, não sòmente apresenta unr
paralelismo mais claro, mas concorda também com os.
mesmos pensamentos nos salmos 96:11 e 98:7. Suprimos
a voz que não consta no hebraico, como o objeto do ver­
bo alcem ou levantem. As terras do mar, e as cidades-
do deserto, são incluídas na frase as extremidades da
terra.
O versículo 10 refere-se às terras do oeste, e o ver­
sículo 11 indica as regiões ao leste e ao sul, e a região-
montanhosa da Palestina. Sela pode ser identificada com
Petra, a captai de Edom, mas alguns ainda preferems
a s que habitam nas rochas.

11 12. Dêem glória ao Senhor,


e anunciem nas terra» do mar o seu louvor.

O verso 12 conclui o hino de louvor. A glória e cr


louvor pertencem sòmente ao Senhor, o Criador dos céus
e d^ terra. O fim principal do homem nesta vida é o' de
glorificar ao Senhor e viver em comunhão espiritual com
Ê le.
A PR O FEC IA DE I8AIAS 91

4. O Senhor Contra os Seus Inimigos, 42:13-17


13. O Senhor sai como valente,
desperta o seu z ilo como homem de guerra;
clama em voz alta, lança forte grito de guerra.
Mostra-se valente contra os seus inimigo*.
14. Por muito tempo me calei,
entive em silêncio, e me contive;
mas agora darei gritos como a que está de parto,
ofegarei e suspirarei.
15. Os montes e outeiros devastarei,
e tôda a sua erva farei secar;
tornarei os rios em ilhas,
e secarei os lagos.

Êstes versículos descrevem as atividades de Deus em


têrmos designados como antropomorfismos e antropopa-
tias, atribuindo ao Senhor formas físicas e sentimentos
humanos. Para o homem moderno, êstes têrmos parecem
■extremamente violentos para descrever a Pessoa e as ati­
vidades do Senhor. À luz da iniqüidade e da rebelião do
povo escolhido contra Deus, era natural que os profetas
tia justiça dessem ênfase ao julgamento divino. Quando
Deus veio na encarnação, fo i o’ homem que derramou
sangue, até o sangue do Filho encarnado de Deus. Os he-
breus pensavam mais na Pessoa e nas obras do Senhor do
que os homens modernos. Êles também atribuíam a
Deus, num sentido que é difícil parà o homem moderno'
•entender, tôdas as cousas que acontecem no mundo.
O profeta declara que o Senhor toma o campo, como
valente e zeloso, contra os inimigds. Por muito tempo o
Senhor se manteve pacífico, mas o tempo já chegara para
•despertar o seu zêlo contra o inimigo, e para dar gritos
com o a mulher que está de parto.
O Senhor sai como valente, cdmo homem de guerra,
como poderoso herói (Cp. I I Sam. 11:1; Amós 5:3; Is.
28:21; 59:16-18; Êx. 15:3; Zac. 14:3). Os versículos 13
c 14 descrevem a vitória do Senhor sôbre os inimigos em
92 A. R. C R ABT REE

têrmos bélicos. Quais são os limites dà vitória do Senhor


que o profeta descreve? É claro que não está pensando
somente na libertação de Israel do cativeiro, pois está con­
templando também os resultados futuros daquela vi-
lória.
Se os têrmos que descrevem as atividades do Senhor
nos versículos 13 e 14 parecem muito severos, convém
lembrar também as palavras na segunda parte do ver­
sículo 14: mas agora darei gritos como a que está de par­
to. Estas palavras descrevem a profunda compaixão do
Senhor na execução da justiça. Apresentam-se as mes­
mas verdades divinas no ministério e nas atividades do
Senhor Jesus Cristo (Cp. F il. 2:7 e Mat. 25:31). Há
muitas passagens em o N ôvo Testamento que descrevem
o poder de salvar, sim; mas também o poder de vencer as
fôrças do mal na execução' da justiça. Não há contradição
nem falta de harmonia entre a justiça e a misericórdia
divina.
16. Guiarei o* cego* por um caminhe qua 4lee nie conhecem,
fá-loe-ei andar per varadaa deaoonhaeidaa;
tornarei ae trovae em luz perante tlee,
e oe lugare* eaeabroeoa em tarraa planaa.
Estaa elo aa eouaaa qua lhaa farei,
• n lo ea abandonarei.
Assim, no versículo 10 o profeta descreve o poder da
praça de DÍ^us na salvação dos homens fiéis que são fra-
tos e impotentes. Na hora da vitória sôbre os seus inimi-
L)s, o Senhor guiará os cegos por um caminho que êles
^ão conhecem. Deus não muda no seu eterno propósi­
to na direção da história. Como guiou o seu povo esrco-
lhido do' Egito até ao Monte Sinai (Êx. 13:21-22), assim
Êle guiará os cativos para a sua terra, mudando as trevas
em luz, perante êles, e tornando os lugares escabrosos em
terras planas. O Senhor nunca abandonará o seu povo.
17. Voltando-se para tráe, serão cobertos de vergonha,
"os que confiam em imagens de escultura,
A PR OFECIA DE ISAÍAS 93

e que dizem às imagens de fundição : ..


Vós sois os nossos deuses.

O versículo 17 descreve o efeito da revelação de Deuà


no julgamento e na graça. O pleno sentido do versículo
não está perfeitamente claro. Mas é claro que aquêles que
confiam em imagens de escultura serão cobertos de ver­
gonha. Parece que o profeta está se referindo aos babi­
lônios, aquêles que dizem às imagens de fundição: Vós
sois os nossos deuses (Cp. 46:1).
5. Israel, o Servo do Senhor, É Cego e Surdo, 42:18-25
18. Ouvi, vós surdos;
e olhai, vós cegos, para que possais ver.

Èste trecho não é tão claro e tão brilhante como o


resto dêste capítulo e da profecia em geral. Os escritores
não concordam na interpretação da passagem, especial­
mente em relação ao Cântico do Servo' nos primeiros ver­
sículos do capítulo. O profeta fala, nestes versículos, de
Israel como o servo do Senhor. 0 profeta pensa de Is­
rael em relação ccfm os assuntos que já tinha discutido,
a criação, o propósito e o plano do Senhor na história da
humanidade e a restauração de Israel do cativeiro. Israel,
o servo do Senhor, é espiritualmente cego e surdo e inca­
paz de realizar o propósito' de Deus na sua escolha (Ver
os versículos 18, 19, 22).
É interessante, e profundamente significativo, o con­
traste entre esta descrição do servo do Senhor e o retra­
to do Servo apresentado nos primeiros versículos do ca­
pitulo. Surge logo a pergunta: Estas duas descrições
referem-se a Israel, o povo escolhido do Senhor? Muitos
intérpretes insistem em que as duas passagens descrevem
a nação de Israel como o povo escolhido. Dizem que a
primeira passagem descreve Israel como o servo ideal,
ou idealizado, enquanto que a segunda descreve o povo
escolhido nas suas fraquezas mórais, e na sua falta de en-
94 A R. C R ABTRE E

tendimento do propósito do Senhor na sua escolha, e a


providência divina na sua preservação. Não se pode ne­
gar que esta interpretação concorda em grande parte com
a história e a missão de Israel.
Por outro' lado, não podemos deixar de reconhecer
que os quatro Cânticos do Servo constituem uma parte
distintiva da profecia. São coerentes e harmônicos na des­
crição da Pessoa e da missão do Servo. Também êste Ser­
vo, absolutamente perfeito no' seu caráter e na sua har­
monia com a vontade e o propósito do Senhor, consegue
a redenção de Israel e das nações por seus sofrimentos.
P or suas pisaduras somos sarados. Como já observamos,
o Servo faz parte de Israel, o povo escolhido, e identifica-
se com êle. A redenção divina relaciona-se com o julga­
mento do Senhor.
Ouvi, olhai. Na sua longa história, Israel se mostra­
ra surdo e cego, quanto às bênçãos que tinha recebido do
Senhor. Olhar e ver se distinguem em II Reis 3:14 e Jó
35:5. Israel deve contemplar o significado do favor espe­
cial que tinha recebido do Senhor.
19. Quem 6 cego, aenão o meu servo,
ou surdo como o meu mensageiro, a quem envio ? 1
Quem 6 cego como o meu enviado,
ou cego como o servo do Senhor ?

O serwe que é cego e surdo é claramente o povo es-


jtcolhido, a nação de Israel. O profeta fala francamente
|sôbre a cegueira e a surdez espiritual do seu p ovo. Israel,
4como o povo escolhido do Senhor, tinha o' privilégio e a
oportunidade, como nenhuma outra nação, de experimen­
tar, observar e reconhecer o propósito do Senhor nas ati­
vidades divinas na sua vida nacional.
v A L X X tem meus servos em vez de meu servo. A
vulgata tem como aquêle a quem eu tenho enviado o s : .
meus mensageiros, uma paráfrase incorreta. 0 Senhor *
A PR O FEC IA DE IS AfA S 95

chamou Israel para prestar um nobre serviço no mundo,


mas êste povo escolhido preocupou-se demais com a re­
ligião form al que lhe permitia satisfazer aos seus dese­
jos carnais.
A palavra , Participio Pual deD/u* , aliado
T \ l - T

de paz, mas a palavra não concorda bem com o,contexto.


Alm . tem o galardoado; a Bras., que tem paz comigo;
SSB., o meu amigo; R SV ., my dedicated one. Aquêle
que é enviado talvez represente o texto original. Alguns
manuscritos têm surdo em vez de cego na última cláusu­
la do versículo' 19.
20. Êle vê muitas cousas, mas não as observa;
tem os ouvidos abertos, mas não ouve.
21. Foi do agrado do Senhor, por amor da sua justiça,
engrandecer a Tora, e fazê-la gloriosa.

Êle, no versículo 20, é mais gramatical do que Tu.


Êle, o servo, vê muitas cousas, mas não as observa. O pro­
feta dá ênfase à cegueira e à surdez do servo. A revela­
ção divina foi apresentada ao povo escolhido pelos men­
sageiros inspirados do Senhor, mas Israel falhou no reco­
nhecimento dêste fato tão importante (Cp. 43:8; 6:9-11;
Deut. 29:3, 4 ). Nenhuma outra nação tinha experimen­
tado eventos na sua história tão profundamente significa­
tivos como o êxodo do Egito, a revelação no Monte Sinai,
as maravilhas da conquista da Palestina e a salvação de
Jerusalém do poder de Senaqueribe. Nenhum outro povo
podia se ufanar de servos de Deus que lhe tinham apresen­
tado verdades eternas e de aplicação universal, tais como
Abraão, Moisés, Davi e os profetas. Por amor da justiça,
o Senhor havia engrandecido a sua Tora, a revelação da
sua própria Pessoa e do seu eterno propósito na escolha
de Israel.
22. Mas êste é um povo roubado e saqueado,
todos êles enlaçados em cavernas,
96 A R. C RAB TRE E

e escondidos em cárceres;
são postos por prêsa, e ninguém há que os livre;
por despojo, e ninguém diz: Restitui!
23. Quem há .entre vós que dará ouvidos a isto,
atenderá e ouvirá o que há de ser depois?
24. Quem entregou Jacó ao despojador,
e Israel aos roubadores?
Não foi Javé, contra quem temos pecado,
em cujos caminhos êles não queriam andar,
e a cuja Tora êles não queriam, obedeoer?
25. Pelo que Javé derramou sôbre êle o furor da sua ira,
e a violência da guerra;
isto lhe ateou fogo ao redor, mas êle não quis entender;
e o queimou, contudo, êle não percebeu.

O versículo 22 descreve a condição miserável de Is­


rael, o escolhido do Senhor, no cativeiro. A linguagem
do profeta, em parte, pelo menos, é figurada. Os rudes
têrmos, roubado, saqueado, enlaçado, prêso, despojo, são
usados para descrever uma caravana atacada e roubada no
deserto pelos beduínos.
A pergunta no versículo 23 indica o desejo do profeta
que Israel, cego e surdo, acorde para se lembrar da sua
relação histórica com o Senhor Javé, e assim fique pre­
parado para entender o significado da restaução do ca­
tiveiro para a sua terra, e o que há de ser depois. Eviden­
temente, o profeta espera a conversão espiritual de Israel,
como resultado da sua libertação do cativeiro', no preparo
,para cumpçjr a sua divina missão.
I Nestes versículos 22-28, o profeta põe ênfase no fato
* e que Israel fo i entregue aos inimigos como o castigo
merecido da sua infidelidade ao seu Deus. É provável
que os israelitas em geral julgavam que estavam sofrendo
no cativeiro simplesmente como resultado do poder e da
crueldade da Babilônia. Do ponto de vista do historiador
moderno era inevitável que os dois reinos dos israelitas
fòsâem engulidos pelos poderosos impérios da Assíria e
da Babilônia. Os profetas, porém, sempre ensinavam que
A P RO FECIA DE ISAtAS 97

a sua subjugação política foi devida ao julgamento divino


da infidelidade dêles ao Senhor. Os profetas também*en-
tenderam que o Senhcfr havia de realizar o seú propósito
na escolha de Israel de acôrdo com a sua perfeita e imu­
tável justiça.
E . Javé, o Criador de Israel, É também o Seu Ré-
dentor, 43:1-44:23 ^
1. Mas agora, assim di* o Senhor,
o teu Criador, ó Jacó,
o teu Formador, 6 Israel;
Não temas) porque eu te redimo;
Chamo-te pelo teu nome, tu és meu.
0 Senhor, havendo declarado que Êle mesmo trouxe
a calamidade e o sofrimento sôbre o povo de Israel por
causa dos seus pecados e da sua infidelidade, explica nes­
tes dois capítulós, por intermédio do seu mensageiro, que
não havia rejeitado o povo da sua escolha. Assim, o pro­
feta desperta os cativos com a promessa divina de que o
Criador e Formador do povo de Israel vai libertá-lo’ do
poder da Babilônia. Criado e redimido pela graça de Deus,
Israel pode ficar certo de que não há qualquer poder capaz
de separá-lo do cuidado e do eterno propósito' do Senhor.
De acôrdo com o seu amor imutável, o próprio Se­
nhor vai fazer a restauração de Israel, e vai levá-lo para
a sua terra a fim de realizar o propósito divino na esco­
lha e na vida dêle. Á redenção’ de Israel,, o Concêrto de
Deus com êle, juntamente com as promessas de Deus e
as responsabilidades de Israel, concordam perfeitamente
com o eterno propósito de Javé na direção da história da
humanidade. Certamente Javé, o Criador dos céus e da
terra, não será frustrado por quaisquer fôrças ou circuns­
tâncias históricas na realização do’ seu eterno propósito
na eleição de Israel. Deus não sòmente criou êste povo,
mas também havia demonstrado o seu poder de preser­
vá-lo e orientá-lo no cumprimento da sua nobre missão.
98 A. R. CR A B T R E E

É impossível desfazer o Concêrto entre o Senhor Javé e o


seu povo regenerado pela graça divina.
Pelo derramamento do seu Espírito, o Senhor aben­
çoará o seu povo tão maravilhosamente que homens entre
as nações se unirão voluntàriamente com o povo redimido
de Israel. Pela demonstração tão evidente do poder so­
berano dó Senhor Javé como o único e verdadeiro Deus,
os idólatras ficarão envergonhados pela impotência dos
seus deuses por êles mesmos fabricados.
1. O Senhor Ajuntará os Seus Filhos desde as Extremida­
des da Terra, 43:1-7
As palavras Mas agora relacionam-se com a mensa­
gem que precede (Cp. 42:25). O povo escolhido, exilado
por causa da sua infidelidade ao' Senhor, havendo sofri­
do a pena dos seus pecados, vai ser redimido pelo poder
da graça de Deus. Israel não tinha feito qualquer obra
para merecer a sua redenção. O profeta dá ênfase espe­
cial ao fato de que o Senhor é o Criador (vs. 1, 7, 15); o
Formador (vs. 1, 21; 44:2, 21, 24; 45:11; 49:5); o A rtífi­

ce, ntl^y (44:2; 51:13; 54:5) de Israel. Assim diz o Se­


nhor, o teu Criador, ó Jacó, o teu Formador, ó Israel.
O Criador dos céus, da terra e das nações (42:5) é o Cria­
dor de Israel num sentido especial. Israel fo i criado para
cumprir unja mi$são especial, de acôrdo com o eterno pro­
pósito do Crrador. Por que Não temas em vez de Regozi-
jl-te? Assim o profeta encoraja o povo desanimado (cp.
5; 41:10, 13; 44:2; 54:4). Não temas, porque eu te re­
dimo; chamo-te pelo teu nome, tu és m eu. Os verbos
e frHp são completos ou perfeitos de certeza, e
- T T T

traduzem-se melhor pelo tempo presente (cp. Êx. 31:2


e Est. 2:14). Tu és meu. Javé é o Redentor de Israel, 41:
14. 'Portanto, Israel pertence ao Senhor (cp. II Sam.
12:28; Amós 9:12).
A P RO FECIA DE ISAÍA S 99
2. Quando passares pela* águas eu serei contigo; •
e pelos rios, êles não te afogarão;
quando andares no meio do fogo, não serás queimado;
nem a ehama te consumirá.
3. Pois eu sou o Senhor teu Deus,
o Santo de Israel, o teu Salvador.
Eu dou Egito por teu resgate,
Etiópia e Seba em lugar de ti.

No versículo 2 Javé promete ficar com o seu povo em


quaisquer perigos e sofrimentos que êles tenham que en­
frentar. O fogo e a água são mencionados freqüente­
mente como os perigos extremos (42i25; Sal. 66:12).
Parece que o profeta não está falando dos perigos que o
ptívo vai enfrentar na volta para a sua terra (ver. 41:18-
20) . Está falando em geral dos perigos que ameaçam ao
povo do Senhor em qualquer lugar em qualquer tempo.
Nas maravilhosas promessas divinas nestes, primei­
ros três versículos podemos observar as enoirmes respon­
sabilidades do próprio Senhor na realização do seu pro­
pósito, e do seu plano eterno, na escolha de Israel, ou na
salvação de qualquer povo obstinado e pecaminoso. En
soa o Santo de Israel, o teu Salvador. O R ôIq do Mar
Morto tem Redentor em vez de Salvador, mas ver v . 11;
45:15, 21; 49:26; 60:16; 63:8.
Eu dou Egito por teu resgate, Etiópia e Seba em
lugar de ti. Esta declaração apresenta dificuldades, mas
aparentemente significa que Ciro, por causa do seu pre­
paro para a libertação dos judeus da Babilônia, será re­
compensado pelas ricas terras do Egito, Etiópia e Seba.
Assim, o Senhor: resgatou o seu poyo da escravidão ba-
bilônica.
4. Porque és precioso aos meus olhos,
honrado, e eu te amo,
dou homens por ti,
e povos em troca da tua vida.
100 A R. CR A B TR E E

Porque és precioso aos meus olhos, honrado, e eu te


amo. Assim, as cláusulas são coordenadas, como a nossa
tradução indica. Também o tempo presente traduz mais
nitidamente o amor continuo ou permanente do Senhor.
O amor de Deus é o motivo dominante nas promessas do
Senhor nesta profecia. A palavra í n í í é usada nos vá-
■- T
rios seplidos do amor humano, mas aqui descreve a afei­
ção e ç amor puro do Senhor, no sentido de João 3:16.
A palfivra "IjDH significa o amor imutável para o seu
povo èàcoihido, o"povo dò Concêrto'. Dou homens por ti.
DuHm e outros preferem , terras.
... 5. Não tem««, po^que »ou contigo;
■ , trarej a tua descendência desde o oriente,
• to ajuntarei desde o ocidente.
6 . : Direi ao norte : Entraga; -
• e aò eut: N io retenhas;
. traze meue filhps de longe,
‘ a rninhas filhae das extremidades da terra;
7. ,tpdp aquíle que é chamado por meu nome,
‘ os . que criei pára minhà glória,
e que formei e fiz.

Os versiculos 5-7 descrevem, em têrmos compreensi­


vos, o ajuntamento do povo do' Senhor na sua própria
têrra. Com a repetição das palavras Não temas, o Senhor
Jávé sé apresShta no processo de trazer os exilados de Is-
ratí dé tôdas ás extrèmidades da terra para a pátria de
p^m issãó. Nestè tèmpo os israelitas se achavam espa­
lhados em quase tôdás as terras conhecidas do mundo.
Meus filhos e minhas filhas. Assim se descreve a relação
de Javé com o seu povo. Desde os tempos antigos Israel
conhecia ao Senhor como Pai (Êx. 4:22, 23; Os. 11:1; Is.
1:2; Jer. 3:4; Mal. 1:6). Voltarão todos os homens e tô­
das as mulheres que sãoi chamados pelo nome de Javé,
porque foram criados, formados e feitos para a honra e
A PRO F ECIA DE ISAfA S 101

a glória de Deus. Assim, o profeta relaciona o amor re­


dentor de Javé com a obra da criação. Os três sinônimòs
salientam o poder e a riqueza da graça de Javé na escolfiá
de Israel. Assim, ò Senhor se glorifica a si m estas1ÜO
cumprimento final da missão do seu pòvo. As tréèpa­
lavras apresentam à mais alta expressão desta mettáagéin
do profeta: , criar de nôvo; T i ' , form ar segu n ^
T T ' ' ' *• T !

o propósito divino; HtíjJ? , fazer, aperfeiçoar o plano di-


T T
vino.
2. Javé É o único Deus, e Fora dÊIe Não H á Salvador,
43:8-13
8. Traze o povo que 6 cego, ainda que tem olhos;
e o surdo, ainda que tem ouvidos.
9. Congreguem-se tôdas as naqões,
e reúnam-se todos os povos.
Quem dentre i l u pode anunciar isto,
e fazer-nos ouvir cousas antigas?
Apresentem as suas testemunhas « sejam justificados,
para que ousam e digam: Verdade 6.

Os versículos 8-13 tratam do tribunal de justiça que


é semelhante ao de 41:1-4 e de 41:21-24. Há três partidos
na controvérsia: as nações, v . 9; os israelitas, v , Í0 ; e
Javé, vs. 11-13.
Traze o povo que é cego, ainda que tem olhos. Traze
o povo, não do exílio, mas perante o tribunal. A form a
do verbo trazer no texto hebraico é o hifil completo, roas
o contexto exige o imperativo. Embora cego' e surdo, Is­
rael havia testemunhado os eventos da história, ainda
que não tivesse entendido a sua significação, ou observa­
do as suas admoestações. Contudo, Israel era guardião das
mensagens e dos Oráculos divinos que tinham recebido
do Senhor por intermédio dos profetas. Israel era tèste-
munha dos fatos que tinha visto e das profecias que ti­
nha ouvido e èxperimentado na sua vida nacional.
102 A . R. C R A B T R E E

As nações têm o privilégio de apresentar evidências


de que os seus deuses haviam demonstrado conhecimento
do curso da história, mas os deuses impotentes ficam
completamente silenciosos, porque são surdos e mortos,
e não têm conhecimento de cousa alguma. Então as na­
ções cfuvem as evidências sôbre o poder único e absoluto
de Javé, o único e o verdadeiro Deus, na libertação do seu
povo do cativeiro babilônico.
10. Vós sois as minhas testemunhas, diz o 8enhor,
o meu servo, a quem escolhi;
para que saibais e me creiais,
e entendais que Eu «ou Êle.
Antes de mim nio se formou nenhum deus,
e depois de mim nenhum haverá.
11. Eu, sim Eu, sou o Senhor;
e fora d* mim nio há Salvador.
12. Eu anunciei e salvei e proclamei;
s deus estranho não houve entre v6s;
pois vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor.

Quando os deuses das nações não podem responder


ao desafio de provar a sua existência, o Senhor se dirige
de nôvo ao seu servo Israel. Vós sois as minhas testemu­
nhas. 0 pronome é enfático. O profeta, assim, apresenta
de nôvo a importância do lugar de Israel no mundo. Êste
é um povo que não existe simplesmente para satisfazer às
suas aspirações nacionais. Não é uma nação grande e po­
derosa; n ã o é um poVo de cultura excepcional, mas tem o
faobre priviKgio de ser uma testemunha da santidade, da
glória, do poder e do eterno propósito do Senhor Deus na
qriação do mundo e na direção da história humana. Dar
testemunho do Verdadeiro Deus é uma das funções hon­
rosas de Israel como o servo do Senhor.
Israel deve ficar acordado para que saibais e me
creiais e entendais que Eu sou Êfle. A história testifica a
infidelidade vergonhosa de Israel para com o seu Deus, e
a falta de reconhecer e cumprir plenamente a sua grande
A PR O F E C IA DE IS AÍAS 103

incumbência. Mas a nova e poderosa experiência (tá gra­


ça salvadora do Senhor deve acordar o povo de Israel para
meditar, contemplar, crer e interpretar ao mundo o signi­
ficado da sua própria história em relação ao fato de que
o Senhor Javé é o Único e o Verdadeiro Deus, e que fora
dÊle não há outro.
Antes de mim não se formou nenhum deus. Alguns
pensam que o profeta está falando irônicamente no uso
da palavra formou neste contexto. Entre as nações, os
deuses nasceram e até morreram. O pensamento da de­
claração é perfeitamente clard. Antes que se formou
qualquer deus, Eu Sou. !Êle, e só Êle é Deus, e será eter­
namente o Único e o Verdadeiro Deus, o Salvador.
Eu anunciei e sailvei e proclamei; e deus estranho não
houve entre vós. A palavra deus não se encontra no texto
hebraico, mas é claramente subentendida. Assim, o pro­
feta apresenta provas irrefutáveis de que os israelitas,
não obstante as suas falhas, são testemunhas do poder,
da grandeza e da glória do seu Deus.
13. Sim, desde o prineipio sou Êle;
nio há quem poua livrar da minha mão;
operarei e quem impedirá?

O hebraico dó versículo 13 é obscuro. Alguns tradu­


zem, Desde que era dia, sou êle, ou De hoje em diante sou
êle. A L X X tem Desde a eternidade sou êle. Esta é a
palavra do próprio Senhor que o profeta transmite, e a
mensagem é de importância especial nas circunstâncias
históricas de Israel. O Senhor declara que o destino dó
seu povo, como sempre, está nas mãos protetoras do seu
Deus Santo. Não há, portanto', quem possa impedir ou
frustrar o eterno propósito do Senhor na escolha e no
destino do seu povo.
104 A R. C R ABTRE E

3.. A Queda da Babilônia e a Restauração de Israel,


43:14-21
14- A**jm di* o Senhor,
o vosso Redentor, o Santo de larael;
Por amor de vós enviarei a Babilônia,
e langarei por tarra tôdas as barras,
e os brados dos caldeus se tornarão em lamentos.
15. Eu sou o Senhor, vosso 8anto,
o Criadorde Israel, vosso Rei.
16. Assim diz o 8anhor,
o que abra caminho no mar,
e uma varada nas águas impetuosas;
Assim diz o Senhor, o vosso Redentor, o Santo de
Israel. Estas palavras introduzem um nôvo oráculo do
Senhor. Como tinha libertado o seu povo do poder do
Egito, agora vai manifestar a sua onipotência no livra­
mento de Israel do cativeiro babilônico, de acôrdo com o
sen eterno propósito nà escolha de Israel, e no cumprimen­
to $a promessa que lhe fêz no estabelecimento do Concer­
to Üõlh êle.
Não obstante as dificuldades do hebraico na última
parte do versículo 14, o pensamento básico é qüe Babi­
lônia será destruída, e Israel será liberto da opressão cruel
que tinha sofrido nos longos anos do cativeiro'. A tradução
literal do hebraico do texto Massorético apresenta com­
plicações e áificuldades, mas tem o apoio do Rôlo do Mar
Morto ,• A nossa versão exige mudanças insignificantes, e
d l uni sentido mais simples e mais claro. As palavras
significam literalmente farei descer
■ ' ,T * 1 “

fugitivos. A palavra significa barras. O têrmo


; ', i r '■ \ ' ' 'T

m « 3 q u e r dizer nós navios, enquaritò a palavra ,


i 11 ■ ’ " 1“

com a mudança de apenas duas vogais, significa em la­


mento .
A . PR O FEC IA DE I8A ÍAS 105

Eu sou o Senhor, vosso Santo, o Criador de Israel,


vosso Rei. Assim o profeta dá ênfase especial às ativida­
des do Senhor como Redentor, Criador e Rei, em relação
ao seu povo . 0 têrmo Santo é usado aqui como sinônimo
de Javé. Os mais poderosos reis destas terras — Assíriá,
Babilônia e Egito' se ufanavam dos seus reis que se
levantaram, exerceram por pouco tempo o §£u poder ar­
rogante, e então sofreram a destruição, e a devida recom­
pensa dos seus pecados cruéis. Mas o Senhor Javé, o
Redentor, Criador e o Verdadeiro Rei da pequena nação'
de Israel, é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. O
Santo de Israel revela o seu poder e a sua autoridade uni­
versal, não somente nestas circunstâncias extraordinárias
na vida de Israel, mas também no contrôle e na direção
da humanidade de acôrdo com o seu propósito firmado
desde a fundação' da terra. Os pecados de Israel trouxe­
ram sôbre a nação o julgamento divino, mas não cance­
laram a promessa eterna do Senhor soberano e misericor­
dioso.
17. o que faz sair o carro e o cavalo,
exército e heróis unidos;
' êles se deitam, e nunca se levantam,
estão extintos, apagados' como uma torcida.
18. Não vos lembreis das cousas passadas,
nem considereis as antigas.

Em 41:17-20 o profeta descreve a jornada de Israel


através do deserto transformado na volta de Babilônia
para a sua terra. Aqui nos versículos 16^21 êle faz um
contraste entre aquêle êxodo e a libertação iminente da
escravidão babilônica. Assim diz o Senhor que âbré ca­
minho no mar, e uma vereda nas águas impetuosas. Está
se referindo’ à demonstração do poder maravilhoso do
Senhor na divisão das águas do Mar Morto para os israe­
litas que passaram em sêco, enquanto que as mesmas
águas voltaram sôbre os inimigos perseguidores (Êx. 14:
106 A PRO FE CIA DE ISAtAS

15-31). Mas o êxodo dos cativos da Babilônia será ainda


mais maravilhoso, ctím o preparo do caminho pelo Se­
nhor através do deserto, dos rios e do êrmo com os ven­
tos uivadores. Os inimigos estão extintos e apagados como
uma torcida. Esta promessa deve despertar e animar os
israelitas para o segundo e o mais glorioso êxodo.
Não vos lembreis das cousas passadas (Cp. 44:21;
46:9; 47:7). Aparentemente, é uma contradição da parte
do profeta. A admoestação não significa que o povo’ se
esqueça completamente do êxodo do Egito quando Israel
fò i escolhido como o servo' do Senhor. Já chegou a hora
para os cativos pensarem especialmente na nova manifes­
tação da graça do Senhor, e no mais profundo significa­
do da sua libertação do cativeiro. É mais importante,
nas Circunstâncias, a esperança para o' futuro glorioso de
Israel do que a meditação sôbre as maravilhas dos even­
tos do passado.
19. Eis que faço cousa nova;
agora está saindo à luz, não a percebois?
Sim, farei um caminho no deserto,
e rios no Srmo.
20. Os animais do campo me honrarão,
os chacais e os avestruzes;
porque dou águas no deserto,
e rios no Srmo,
para dar de beber ao meu povo escolhido,
21. o povo.que formei para mim mesmo,
! para qu? manifestassem o meu louvor.

I, Eis que faço cousa. nova. A restauração dos israeli­


tas desde as extremidades da terra e a sua volta através
do deserto transformado pelo Senhor, para a terra onde
cumprirá a sua missão como servo do Senhor, será a cou­
sa nova que ultrapassará o milagre do êxito do Egito.
Na visão do profeta, êste milagre já está acontecendo, ou
saindo à luz. O profeta está falando aqui algum tempo
antes da conquista da Babilônia por Ciro, e antes da li-
A 'PR O F E C IA DE ISAÍAS 107

bertação dos cativos, mas na inspiração profética?*'está


testemunhando esta cousa nova, e pede que o povo a per­
ceba e se regozije. •As plantas e as feras, ou os animais do
campo, se regozijam e honram ao' Senhor pelas bênçãos
novas que recebem, como os rios no deserto.
A palavra "U n ft } deserto, significa lugar onde ani-
T * *

mais possam achar sustento limitado; , êrmo, é


• :
lugar nu e solitário, terra que não produz nada (Deut.
32:10; Sal. 68:7; 107:4).
Em o nôvo evento da história de Israel (vers. 20 e
21), o deserto não é mais uma ameaça de destruição e
m orte. Deus dará de beber ao seu povo escolhido, e à na­
ção que tinha formado para si mesmo, e que manifestará
o seu louvor.
4. A Cegueira de Israel e a Graça Salvadora de Javé,
43:22-28
22. Contudo, não me tens invocado, ó Jacó;
mas de mim te fatigaste, ó Israel !
23. Não me tens trazido a gado miúdo dos teus holocaustos,
nem me tens honrado com os teus sacrifícios.
Não te tenho carregado com ofertas,
nem te tenho cansado com incenso.
24. Não me tens comprado, com dinheiro, cana aromática,
nem me satisfizeste com a gordura dos teus sacrifícios,
mas tens-me dado trabalho com os teus pecados,
e me tens cansado com as tuas inqüidades.

O versículo 22 aparentemente se refere à negligência


do culto da parte dos israelitas, enquanto se achavam no
cativeiro. Afadigavam-se do Senhor no período da opres­
são, e não invocavam o seu Deus.
Os versos 23 e 24 apresentam dificuldades, especial­
mente quanto aos sacrifícios, às ofertas e ao incenso. Os
profetas condenam severamente a confiança dos israeli­
tas nas ofertas e sacrifícios de animais como meio de ga­
108 A. R. C R ABT REE

nhar o favor de Deus, sem se incomodar com a prática


da justiça social, O Senhor não está repreendendo os is­
raelitas aqui porque haviam negligenciado o culto ritual.
Seria difícil, se não impossível, os israelitas oferecerem
sacrifícios de animais no cativeiro. É bem provável que
êles tinham invocado deuses babilônios enquanto se acha­
vam na Babilônia, fota da sua própria terra. Limitando
as referências, nas declarações negativas dos versículos 23
e 24, ao período do exílio, não são pròpriamente repreen­
sões de Israel. O profeta está chamando a atenção ao fato
de que Israel não ofereceu sacrifícios ao Senhor durante
o período do cativeiro. A verdade importante nestes ver­
sículos é a da relação de Javé com o seu povo. Israel ti­
nha dado trabalho ao Senhor com os seus pecados, e ti­
nha-o cansado com as suas iniqüidades.
Contudo, não me tens invocado, ó Jacó. A invocação
do Senhor no dia da angústia era o dever e o glorioso pri­
vilégio do povo de Deus (Sal. 50:15). Mas o povo, em
geral, tinha negligenciado êste privilégio. Mas de mim te
fatigaste, ó Israel (Cp. 22b; 23d; 2 4 d). É notável o con­
traste entre êste indiferentismo de Israel, quanto à relação
com o seu Deus, e o amor redentor de Javé para com Is­
rael, o seu povo escolhido.
A falta de sacrifícios da parte de Israel não havia
enfraquedcjo a relação entre Javé e o seu povo (cp. 1:
10-15). Não* te tenho sobrecarregado com ritualismo,
cw exigido de ti ofertas e incenso. O Senhor havia de-
cjarado pelo' profeta Jeremias: “ Pois nada falei aos vos­
sos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, nem
lhes ordenei cousa alguma acêrca de holocaustos ou sacri­
fícios. Mas isto lhes ordenei: Dai ouvidos à minha voz, e
Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” (7:22,
23) Q incenso era produto da Arábia, e fo i introduzido
no culto ritual dos judeus no fim do' período da monar­
quia . Nem me satisfizeste com a gordura dos teus sacri­
A PROFEC IA DE ISAÍAS 109

fícios (Cp. Jer. 131:14; Sal. 36:8). Israel tinha dado tra-r
balho ao Senhor fom os seus pecados e as suas maMades.
Em contraste, o Sjjenhor não havia carregado Israel de uni
sistema de ritos | sacrifícios. Mas Israel, da sua parte,
não se incom oda^ da incumbência de servir ao Senhor
como o seu Deus, que no seu amor e na sua graça infinita
estava levando sôbre si as iniqüidades do govo.
25. Eu, eu mesmo %ou
o que apago i«s tuas transgressões, por amor de mim,
e dos teus p«eadps não me lembro.
26. Desperta-me a ^nemória, julguemos juntos;
apresenta a tua causa, para que possas justificar-te.
27. Teu primeiro pal pecou,
e os teus mfíjiadores transgrediram contra mim.
; 28. Portanto, profanHi Os príncipes do santuário;
entreguei 4ae$ à destruição,
e Israel ao opróbrio.

Os versículos 25-28 tratam da graça e do julgamento


do Senhor. Há pouca consolação para Israel em meditar
sôbre as cousas antigas. De acôrdo com as acusações
apresentadas pelo profeta, Israel está condenado, e não
pode justificar-se a si mesmo. Portanto; o Senhor toma
a iniciativa e apaga as transgressões por amor de si mes-
rno. Eu, Eu mesmo sou o que apago as tuas transgres­
sões, por amor de mim. Há vários têrmos no Velho Tes­
tamento que descrevem o perdão do pecado, Sarar ou
salvar (Jer. 17:14); não lembrar mais o pecado (Jer.
31:33, 34); passar por cima da transgressão; pisar aos pés
as nossas iniqüidades; lançar os nossos pecados na pro­
fundeza do mar (M iq. 7:18-20); Èncobriste os seus pe­
cados (S al. 85:2 ). São usados também os têrmos remo­
ver, carregar, tirar, cancelar, levar embora, para signifi­
car o perdão do pecado.
Mas o processo, ou a atividade divina no perdão do
pecado, inclui tôdas as relações e todos os recursos do po­
der de Deus. O problema do pecado é difícil e complicado
110 A. R. C RAB TRE E

até para o próprio Criador do hcímem. ( t pecado sempre


exige castigo e, na sociedade humana, J homem, ou al­
guém no seu lugar, tem que sofrer as conseqüências de
todos os seus pecados. Por causa dos setis pecados como o
povo escolhido do Senhor, os israelitas finham que sofrer
no cativeiro. O arrependimento é uma condição absolu­
tamente necessária para o pecador recefejer o perdão. Para
êste profeta, é o próprio Senhor, oü o Servo do Senhor
que leva os pecadores ao arrependimento' (Is . 53). O
Senhor fala ao povo recalcitrante para despertar o desejo
de receber as bênçãos de perdão e de comunhão com
Deus.
Os israelitas freqüentemente, e talvez neste caso, jul­
gavam que os profetas eram severos demais na condena­
ção dos seus pecados e da sua infidelidade ao Senhor.
Para despertar o povo e levá-lo a reconhecer a sua culpa,
o Senhor diz aos cativos: Desperta-me a memória, jul­
guemos juntos. O Senhor é perfeitamente justo, e tam­
bém razoável. Explica a tua causa e os teus méritos, para
que possas justificar-te. Assim, o Senhor convida Israel
para um tribunal de justiça, onde terá o privilégio de de­
fender-se, não meramente do seu ponto de vista, mas de
acôrdo com os princípios da justiça absoluta. Desperta-
me a memória é um antropomorfismo.
Teu primeiro pai pecou. O profeta não se refere a
Abraão, mas*«ntes a Jacó, o epônimo herói nacional de
Isiãel (Cp. Os. 12:3). A L X X diz vossos primeiros pais.
Fa| o desenvolvimento religioso mais tarde que atribuiu
a ôrigem do pecado universal a Adão (Rom . 5:12). Os
vossos mediadores, ou intérpretes (Jó 33:23; I I Crôn. 32:
31). Talvez o têrmo se refira aos falsos profetas (Cp.
Jer. 23:11).
Portanto, profanei os príncipes do santuário. A L X X
diz, Cte teus príncipes têm profanado o meu santuário.
Entreguei, Jacó à destruição, e Israel ao opróbrio. Israel
PR O FEC IA DE ISAIAS 111

não foi completamente destruído, e a palavra é us^da aqui


com algum abrandamento do seu terror original.
Assim, nesta passagem, o profeta trata da justificação
pela graça. Assin|, o profeta reconhece claramente que
Israel não podia sálvar-se pelas obras, mas somente pelo
amor de Deus, mefliante o arrependimento e a fé.
5. Pelo Derramamento do Seu Espírito, o Stenhor Aben­
çoará o Seu Povo, 44:1-5
1. Mas agora ouve, '6 Jacó, servo meu,
ó Israel, a quem escolhi)
2. Assim diz o Senhor que te criou,
que te criou e te forrnou desde o ventre e que te ajuda:
Não temas, 6 J a c i , servo meu,
Jesurum, a quem escolhi.
3. Porquê derramarei água «Abre a terra sedenta,
• torrentes sdbre a terra sdca;
derramarei o meu Espírito sôbre a tua posteridade,
a minha bênção sôbre os teus descendentes.
Na última seção do capitulo anterior o profeta pro­
curou despertar o povo de Israel para reconhecer o seu
estado angustidso perante Javé, o seu Deus., Se, no seu
desânimo e sofrimento, o povo puder chegar a reconhe­
cer a sua impotência e a sua incapacidade de merecer o
socorro do seu Deus, então ficará preparado para ouvir
com gratidão e louvor a preciosa mensagem nos primeiros
cinco versículos dêste capítulo. Êste Evangelho é a pro­
clamação do amor e da graça infinita do Deus de Israel.
Mas agora introduz as Boas Novas de consolação,
justamente como 43:1 oferece confôrto ao povo que tinha
ouvido' uma repreensão. Mais uma vez a nuvem de obscuri­
dade e desesperança desaparece perante a promessa do
brilhante futuro para o po\o escolhido do Senhor. Com
o derramamento do Espirito do’ Senhor, até estranhos re-
cònhecerão a honra de Tigãr-se "com o povo de Javé.
Assim'diz o Senhor que te criou e te formou desde o
ventre (V er 49:5 e Jer. 1:5) . O Senhor havia demonstra-
112 A. R. C RA BTREE

do. o' seu cuidado providencial para coi seu servo Jacó-
Israel desde o ventre, ou desde o temp| quando o criou,
Êste profeta repete freqüentemente os iêrmos meu servo
e meu escolhido. O nome Jesurum, rmado de *
significa ò honroso, ò justò, o direito fD e u t. 32:15; 35:5,
.26; Jos. 10:13; Núm. 23:10).
O derramamento de águas e codfentes, no versículo
3, não trata da transformação do deslfto no preparo para
a volta dos judeus para a sua terra, Jpmo em 41:17-19 e
43:10, mas refere-se claramente ao apréscimoí da popula­
ção dos judeus, que resultará do deríámamento do Espí­
rito de Javé sôbre êle. A operação do*Espírito de Javé na
vida do homem é caracterizada w>Ia~enerflia dinAmioa na
sua vida ( C p . Juí. . O Espírito é_também a
fonte e o criadnr da v id a ,.
A L X X traduz: Porque darei água aio sedento que
anda na terra seca. A transformação espiritual dos des-
cendentés de Israel será acompanhada pela transforma­
ção da natureza física. Para êste profeta, como para os
0 profetas em geral, as condições da natureza <física acom-
\ panham as mudanças na vida religiosa do povo. Javé

a nova vida espiritual


4. Brotarão como érva entre águas,
como salgueiros junto das águas corfe.ntes.
, 5. Um difl^: Eu sou do Senhor;
outro te chamará do nome de Jacó,
ainda escreverá na própria mão : Do Senhor,
\ : e outro
e por sobrenome tomará o nome de Israel.
E brotarão Cômo erva entré as águas. Esta é a tradu­
ção da LXX, representando o texto hebraico, T t ín
• T

^ 1 *?? , que geralmente reconhecido como o tex­


to èorreto, em vez do Massorético, ^ 3 , que
• T “ í
não tem sentido'. A figura neste versículo 4 é de uma
Y , PRO FEC IA DE ISAÍAS

vegetação luxuei^lit&r Como salgueiros ao~l3do~dõs" canais~"^


daJffaBilnnia4c5SaL_L37:2).
Os intérpreteaL em geral, concordam em que o ver­
sículo 5 não' se refere à reivindicação de judeus infiéis, mas
aos prosélitos do pfaganismo que abraçaram a fé dos ju­
deus, ccímo o resultado das bênçãos de Javé na restaura­
ção maravilhosa do seu povo. Portanto, esta promessa
abrange mais, ou Vai mais longe do que 43:5-7. Estran­
geiros de várias nações ficaram profundamente impres­
sionados pelo monoteísmo e a pureza ética da religião dos
judeus. Um dirá: Eü sou do Senhor, e outro se chamará
do nome de Jacó. Tais declarações são mais naturais para
ps prosélitos do que para os israelitas. A frase, escreverá
na própria mão: do Senhor, é muito significativa, porque
se refere ao costume antigo (Éx. 13:9,16; Ez. 9:4; Apoe.
7:3; 13-16). No mundo antigo a religião do homem foi
determinada pela fé do povo na terra do seu nascimento.
Isto explica, em parte, por que os israelitas não eram um
povo missionário. O prosélito acrescentará Israel ao seu
nome, e assim fará parte do povo do Concêrto, com tô­
das as responsabilidades éticas, e todos os privilégios es­
pirituais do povo escolhido. Assim, o seu nôvo nome será
um título de honra que representa a sua comunhão com
o Senhor Javé, o único e o verdadeiro Deus.
lém de Javé Não Há Deus, e Israel É a Testemunha
dfille,1 44_í&jL-T
tu
6. Assim diz o Senhor, o Rei de Israel,
o seu Redentor, o Senhor dos Exércitos:
Eu sou o primeiro e eu soli o último;
além de mim não há Deus.
7. Quem Há como eu ? Que êle se apresente e proclame, .
que o declare, >e o ponha em ordem para mim.
Quem anunciou desde tempos antigos cousas vindouras ?
Que êles nos declarem o que há de acontecer.
8. Não vos espanteis, nem temais;
desde tempos antigos não vo-lo fiz ouvir, não vo-lo anunciei?
114 A. R. C R AB TR E E

E vós sois as minhas testemunhas ! j


Porventura há outro Deus fora de mim *
Não há Rocha; não conheço nenhum*.

Como em 41:21 e 43:15, êste orácálo apresenta mais


uma vez o Senhor Javé como Rei de tírael. O Rei de Is­
rael é também o seu Redentor (43:14§. Como o Senhor
dos Exércitos, Javé se apresenta com| o Redentor de Is­
rael. Esta expressão Javé dos Exércitos encontra-se em
45:13; 47:4; 48:2; 51:15; 54:5, e müitâs vêzes em outras
partes do Velho Testamento. Nos tempos antigos a frase
significava, mas raramente, o Senhor dos exércitos mili­
tares de Israel (I Sam. 17:45). Mais tarde, os exércitos
significava as estrelas dos céus, e também os anjos ou os
sêres celestiais (II Reis 17:16; Sal. 148:2). Eu sou o pri­
meiro e eu sou o último (Cp. 41:4; 48:12). Em o Nôvo
Testamento Alfa e ômega significa o primeiro e o último
(Apoc. 1:8, 17; 22:13).
O hebraico do versículo 7 é complicado' e difícil. Na
segunda cláusula da primeira linha a L X X tem Que fique
em pé e proclame, que muito provàvelmente representa
o texto original. O esforço de traduzir literalmente o tex-
tò Massorético resulta em versões complicadas (Cp. as
várias versões em português). Com a emenda do texto,
segundo' Duhm e outros, de para
T *
o versículo é mais claro (Cp. 45:
À ) . Cousas vindouras e o que há de acontecer são ex-
píessões eqüivalentes e formam um paralelismo.
Mais uma vez, no versículo 8, o profeta apresenta ra­
zões por que Israel não deve ficar espantado, e não deve
ter mêdo. O Senhor já havia demonstrado o seu controle
sôbre eventos históricos, predizendo-os e descrevendo a
sua significação antes de acontecerem. A palavra ín iP l
A PR O FE C IA DE ISAtAS 115

não consta em qualquer outro lugar, e talvez fôsse^ori-


ginalmente !|K“ in •
t •
7. A Estultícia da Idolatria, 44:9-2ü
9. Todos os que fazem ídolos são nada, e as suas cousas mais
desejáveis são de nenhum préstimo; as suas testemunhas nada
vêem nem .entendem, para que êles sejam envergonhados.
10. Quem forma um deus, e funde uma imagem de escultura, que
é de nenhum préstimo ?
11. Eis que tódos os seus seguidor.es ficarão envergonhados, pois
os mesmos artífices não passam de homens; ajuntem-se todos,
e se apresentem, espantem-se e sejam juntamente envergo­
nhados.
12. O ferreiro faz o machado, trabalha nas brasas; êle forma
um ídolo com martelos, e o forja com o seu braço forte; êle
tem fome, e a sua fôrça falta, n io beba água, e desfalece.
13. 0 carpinteiro estende • régua, e com lápis esboça uma ima­
gem; alisa-a com plainas; marca oom compasso; e a fa z na
figura de homem, com a beleza do homem, para habitar em
uma casa.

Alguns pensam que esta passagem (vers. 9-20) sôbre


a idolatria seja uma interpolação, porque interrompe a
conexão entre os versículos 8 e 21. Escrita em prosa, o
ritmo e o estilo literário são muito diferentes dos desta
profecia em geral. Mas a sátira forte e elaborada, na con­
denação da idolatria, concorda perfeitamente com o ensi­
no enfático do profeta do monoteísmo.
O escritor declara que os fabricantes de imagens são
homens fracos, ou insensatos, e que os deuses que êles fa­
zem com dedicação e destreza não têm valor nenhum (9-
11). O escritor começa o seu argumento com a declaração,
de que o fabricador de ídolos, bem como o ídolo que faz,
não é nada. É simplesmente caios, ou vaidade, como em 40:
17 e 41:29. As suas cousas mais desejáveis, ou os objetos
que lhes encantam os sentidos, são de nenhum préstimo.
116 A . R. C R AB TR E E

Aquêle que pensa que está formando um deus (v..


10) está simplesmente fazendo uma inpgem de escultura.
(40:19).
Os seus seguidores, ados, talvez fi-
zessem parte de uma grupo inteiro
ficará envergonhado. Os artífices que fabricam os ídolos
são apenas homens, e como é que o htifjnem pode fazer um
deüs? (Cp. 40:17). ■ y:
..... O ferreiro faz o machado. O feiyeiro trabalhava em
ferro, e o carpinteiro em madeira. A palavra ’
. . . T “t “
em Jer. 10:3, significa machado, instrumento que o car­
pinteiro usava no fabrico de ídolos, e parece que está fora
dé'lugar como ferramenta do ferreiro. O ferreiro forma
os ídolos com martelos, e os forja com braço forte, traba­
lhando tão assiduamente, e com tanta fôrça que fica exaus­
to 'é desfalece, sofrendo de fom e e sêde. O homem que
faz os seus deuses gasta a sua fôrça no píocesso' (Ver o
contraste em 40:31).
0 trabalho do carpinteiro não é tão duro como o do fer-
rèirò, mas se esforça com a mesma dedicação. As palavras
lápis e plainas não se encontram em qualquer outro lugar
rid Velho Testamento. O carpinteiro faz o seu ídolo ná
fótrna da beleza humana, para habitar em qualquer tem-
lo ou sanj^ário doméstico.
! 14. Êle corta para ai cedros, e toma, ou escolhe uma azinheira ou
um carvalho, e o deixa crescer entre as árvores do bosque;
planta um cedro e a chuva o faz crescer,
í 15. Então êle serve ao homem para queimar; com uma parte de
sua madeira se aquenta, acende um fogo, e assa pão; também
faz um deus e se prostra diante dêle, faz uma imagem de
escultura e se ajoelha diante dela.
16,. Metade queima no fogo, e com ela coze a carne para comer,
assa-a e farta-se; também se aquenta e diz : Ah I já me
aqtiento, sinto o calor (ou vi o fogo).
A- PR O FE C IA DE IS A fA S 117

17, Então do resto faz um deus, uma imagem esculpida, p.rostra-se


diante dela e. lhe presta adoração, dirige-lhe a sua^oração,
dizendo: LiVra-me, porque tu és o meu deus.

Nos versículos 14-17 o escritor descreve a qualidade


do material que o carpinteiro usava no fabrico dos ídolos
ou dos deuses do seu povo. É difícil o hebraico do versí­
culo: 14. A L X X omite a segunda cláusula,e diz: Êle
corta uma árvore do mato, que o Senhor plantou, e a
chuva nutriu.
O versículo 15 explica, com ironia devastadora, como
o carpinteiro idólatra usa a.sua madeira. Uma parte da
árvore êle usa como lenha, aquenta-se diante do fogo e
se fregozija no seu confôrto. Go'm outra parte êle acende
um fogo, e assa pão. E ainda com a terceira parte da
mesma árvore êle faz para si um deus e o adora; forma
uma imagem e ajOelha-se diante dela. 0 paralelismo, com
os sinônimos, dá ênfase à ironia de adorar imagens feitas
pela mão do' homem. A palavra “1ÜD , prostrar-se, é
• ; . •^ t -

muito rara no Velho Testamento, e é usada sempre no


sentido do culto do paganismo.
18. Êles não sabem, nem discernem; porque se lhes untaram os
olhos, de maneira que nfio vejam, e os seus corações, dé
maneira q u e n io possam entender
.19.i Nenhum considera, e não há conhecimento nem entendimento
para dizer : Metade queimei no fogo, também cozi pão sôbre
as suas brasas; assei sôbre elas carne, e a comi; e faria eu do
resto uma aborninação ? Cairia eu diante de um pedaço de
. ., árvore? .1 ••
20. Êle se apascenta de cinza-; o seu coração iludido o desviou;
de maneira que nio pode livrar a sua alma, nem dizer : Não
há u’a mentira na minha mio direita?

Nos versículos 18-20 o profeta declara que a idolatria


se torna tão fascinante para o fabricante de imagens que
êle fica cego e tão’ completamente enganado que não pode
mais refletir sôbre a tolice da sua obra. Há tanta seme­
118 A R. C RAB TREE

lhança no pensamento dos versículos 18fe 19 que alguns


pensam no versículo 18 como interpolaéão. Mas a repe­
tição de um pensamento, com mais esclarecimento é ca­
racterística do hebraico e, neste caso, tmmenta a ironia
do autor. Porque êle fechou os seus alhos, ou se lhe un-
taram, ou grudaram os olhos. Êle fechou os seus olhos
não traduz o' hebraico. Alguns pensam que a palavra
•1PIÍ3 representa o texto correto: os seus olhos são gru­
dados .
Não há entre os idólatras conhecimento nem discer­
nimento. O hebraico do versículo não é muito clarcf, mas
o autor está condenando vigorosamente a tolice da idola­
tria . Êste assunto fo i muito discutido e severamente con­
denado entre os judeus (Jer. 10:1-16; e na literatura apó­
crifa) . A idolatria sempre se liga com a superstição, e as­
sim representa a falta de cultura intelectual e espiritual.
O escritor declara que os fabricantes e os adoradores de
imagens feitas pelas mãos humanas não têm a capacidade
de reconhecer a própria falta de inteligência e conheci­
mento. Uma parte da árvore êle usa como lenha, aquen-
ta-se diante do fogo e se regozija no confôrto. Com outra
parte da mesma árvore êle acende um fogo, e sôbre as
brasas prepara o pão e a carne para comer. Com a ter­
ceira parte da mesma madeira o artífice faz o seu deus,
e cai diante d^le em adoração.
| O profeta declara, finalmente, no versículo 20. que
o jpólatra se apascenta de cinzas. Com o coração, sede da
inteligência, completamente iludido, o idólatra se afasta
colnpletamente do verdadeiro culto ao Senhor. Para o
profeta Jeremias, tais deuses eram vapor ou vaidade (2:5;
10:8; 14:22). Cego e iludido, o fabricante de ídolos é com­
pletamente incapaz de reconhecer a vaidade do seu traba­
lho, ah a tolice de adorar a obra das próprias mãos, como
se fôsse um deus.
A PR O F E C IA DE IS A ÍA S 119

8. Volta-te paira Mim, 44:21-23


21. Lembra-te destas cousas, 6 Jacó,
e Israel, porque tu is o meu servo;
eu te form ei; tu és o meu servo;
ó Israel, não serás esquecido por mim.
22. Apago as tuas transgressões como a névoa,
e os teus pecados como a nuvem.
Volta-te para mim, porque te remi.
23. Exultai, ó céus, porque o Senhor fêz isto;
clamai, 6 profundezas da terra;
retumbai com júbijo, ó montes,
ó bosque e tôdas as suas árvores 1
1 Porque o Senhor remiu a Jacó, ,
e será glorificado em Israel.

Alguns pensam que êstes três versículos se relacio­


nam diretamente com a passagem sôbre a idolatria, mas
é mais provável que se ligue com os versículos 6-8, e as­
sim pedem que Israel reconheça a sua posição especial,
como o povo escolhido', em relação com o Senhor Javé, o
único e o verdadeiro Deus. A frase estas cousas refere-se
às verdades apresentadas e acentuadas nos versículos 6-8,
ou segundo a opinião de alguns intérpretes, às explicações
que o profeta vai agora apresentar. Porque tu és o meu
servo. Como servo do Senhor, Israel certamente evitará
a idolatria que havia praticado nos tempos passados. É
fato histórico que o cativeiro babilônico curou Israel com­
pletamente da idolatria.
ó Israel, não serás esquecido por m im . Esta constru­
ção, o’ verbo passivo com sufixo acusativo, é muito rara
no hebraico. Por isso, alguns tradutores mudam a constru­
ção, e traduzem, Não deves me esquecer. Mas esta ver­
são não fica bem no contexto, e também enfraquece a
ênfase do profeta sôbre a maravilhosa providência do
Senhor na vida do povo de Israel. Tu és o meu servo; èu
te form ei. Assim, por intermédio do profeta, o Senhor di­
rige a sua maravilhosa promessa ao seu povo' com ternu­
120 A R. C R AB TR E E

ra e carinho. Apago as tuas transgressões como a névoa


(Cp. Os. 6:4; 13:3; Jó 7:9; 30:15).
Êstes versículos apresentam o verdadeiro motivo da
esperança de Israel, a sua relação especial com o Senhor.
Nos primeiros capítulos desta profecia, o Senhor tinha
prometido repetidamente a redenção do seu servo do po­
der da Babilônia. Mas apresenta-se no versículo 22 uma
das mais ricas promessas divinas da salvação do poder do
pecado. Apago as tuas transgressões como a névoa, e os
teus pecados como a nuvem . O tempo do verbo é geral­
mente designado como o perfeito de certeza. O Senhor
apaga a pena do pecado do homem, nãtí como condição
dja volta ao seu Deus, mas como apêlo, como motivo de
receber o perdão que lhe é oferecido de graça. Como a
nuvem desaparece perante o sol, assim-as transgressões e
os pecados de Israel são apagados, e o seu futuro se tor­
na tão brilhante como a Promessa de Deus. Não obstante
os tropeços, as falhas e as imperfeições da fidelidade de
Israel no passado, êle ainda está no cuidado' precioso do
Senhor do amor eterno.
No êxtase de alegria, o profeta invoca, no versículo
23, os céus e a terra, e pede que celebrem a graciosa re­
denção de Israel (Cp. 42:10-13; 45:8). A exuberância do
profeta é semelhante aos cânticos de alegria nos Salmos
e nos hinos^ristãos. Exultai, ó céus, porque o Senhor fêz
teto. O profeta crê que tôdas as obras de Deus, os céus,
terra, os montes, e até as árvores do bosque, se régozi-
jferão, Porcjue o Senhor remiu a Jacó, e será glorificado
em Israel.
F . Javé É o Poderoso Criador, Ciro É o Seu Ins­
trumento, 44:24-45:25
24>. Assim diz o Senhor, teu Redentor,
que te formou desde o ventre :
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 121

Eu sou o Senhor, que fêz tôdas as cousas,


que sòzinho estendeu os céus,
que espraiou a terra.
Quem estava comigo ?

Havendo discutido a grande libertação de Israel, o


profeta procede nesta seção com a discussão dos efeitos
que seguirão êste gldrioso livramento. O profeta explica
como o Senhor vai usar Ciro na realização do seu pro­
pósito na restauração do povo escolhido para cumprir a
sua missão entre as nações do mundo. O Redentor de Is­
rael vai permitir a ccíntinuação das conquistas de Ciro,
porque nos planos políticos dêste conquistador, será per­
mitido a Israel voltar para á sua terra a fim de reconstruir
a çidade de Jerusalém, e reedificar o Templo dó Senhor.
O profeta tinha falado do conquistador Ciro (41:1-4, 25-
29) , chamando' a atenção às suas vitórias sôbre várias na­
ções. Sendo um grande estadista, Ciro entendeu os er­
ros das nações que levaram cativos os melhores elemen­
tos dos povos que subjugaram. Nesta passagem o profe­
ta está dando ênfase ao poder e à sabedoria do Senhor na
restauração dó seu povo, e não está exaltando a grandeza
de Ciro, como dizem alguns comentaristas. O profeta
está falando do eterno propósito do Senhor, nas suas ati­
vidades soberanas na criação, na história, na profecia
e na orientação dos povcfs e das nações, na realização do
seu alvo. É o Deus soberano que usa muitos meios e mui­
tos instrumentos para conseguir ós seus propósitos tempo­
rários ou eternos. O fató fundamental, na providência di­
vina, é que o Criador pode usar homens e povos bons ou
maus, como instrumentos para conseguir os seus eternos
planos. Tudo que êste profeta diz a respeito de Ciro, por
exemplo, relaciona-se ao propósito de Deus; O profeta
não diz cousa alguma sôbre o interê&se de Ciro na reli­
gião do povo de Israel. Giro se apresenta na história
como poderoso conquistador e como nobre estadista; mas
122 A , R. C RAB TREE

sem saber que estava executando a vontade de Javé, o


Deus supremo, na restauração de Israel para reconstruir
a cidade de Jerusalém e reedificar o Templo do Senhor.
0 profeta reconhece que as bênçãos do Senhor sôbre o
seu povo' escolhido resultarão, finalmente, na queda das
religiões falsas, e na convicção universal de que Javé é o
único e o verdadeiro Deus.
Eu sou o Senhor, que fêz tôdas as cousas. Javé, o
Redentor de Israel que o formou desde o ventre, que es­
tendeu os céus e espraiou a terra, é o Condutor da histó­
ria. Não há cousa alguma que não dependa do poder e da
sabedoria de Deus (Cp. 41:22; 43:5; Jó 9:8). O profeta
está se referindo aos atos originais da criação, e por isso
traduzimos os participios fê z . . . estendeu. • •espraiou.
Quem estava comigo? A resposta, Ninguém. No princípio
criou Deus os céus e a terra. Esta é uma das declarações
mais compreensivas do Velho Testamento sôbre a Cria­
ção (Cp. Amós 4:13; 5:8-9; 9:5-6). As versões em p o r­
tuguês seguem a L X X e a Vulgata neste versículo 24.
25. Que desfaço os sinais dos mentirosos,
e enlouqueço os adivinhos;
que faço tornar atrás os sábios,
e converto em loucura a sua ciência;
26. que confirmo a palavra do meu servo,
•e cumpro o conselho dos meus mensageiros;
1 que <n*> de Jerusalém : Ela será habitada,
L e das cidades de Judá, Elas serão edificadas,
1 e eu levantarei as suas ruínas;

' Javé declara, no v . 25, que êle desfaz ou frustra


(tempo presente) os sinais dos mentirosos ou faroleiros
(Jer. 50:36). O profeta está se referindo aos astrólogos
e aos adivinhadores que ocupavam posições de influência
e poder na Babilônia. Javé destruirá o poder dêstes enga­
nadores do povo. Os escritores do Velho Testamento con­
denam -severamente tôdas as formas de adivinhação e de
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 123

profecia falsa. Javé, o Senhor da história, confunde os


adivinhadores e converte em loucura a sua sabedoKa. Os
prognosticadores adivinhavam por meio de flechas, sis­
tema conhecido como belomância, ou pela inspeção das
entranhas de animais oferecidos em sacrifício, ou, aruspí-
cio. Mas o Senhor Javé confirma a palavra do seu servo,
e cumpre o conselho dos seus mensageiros. Alguns ma­
nuscritos têm servos em vez de servo. Mas parece que
o profeta está falando aqui do Servo do Senhor, Israel, o
assunto mais importante desta profecia. O Senhor tinha
revelado e confirmado a sua promesa ao seu povo esco­
lhido .
27. que digo à profundeza dás águas : Seca-te,
e secarei os teus rios;
28. que digo de Ciro : Êle é meu pastor,
e cumprirá tudo que m* apraz;
dizendo de Jerusalém ; Será edificada;
e do Templo : Será fundado.

Enquanto o Senhor confunde ou desfaz os sinais dos


mentirosos, e enlouquece os adivinhos, Èle transmite o
conhecimento da sua vontade e do seu propósito ao povo
da sua escolha por intermédio dos seus mensageiros, os
profetas. Segue, então, a promessa de que Jerusalém
será habitada; as cidades de Judá serão reedificadas, e o
Templo fundado. Surgem dificuldades na explicação dos
versículos 27 e 28. Alguns pensam que a última parte do
versículo 28 seguiu originalmente a última parte do v.
26, assim: que digo de Jerusalém: Ela será habitada; e
do Templo: Será fundado.
Segundo esta mesma opinião, o versículo 28 termi­
nou com as primeiras duas linhas. Muitos estudantes dês­
tes versículos crêem que o versículo 27 é uma interpola-
ção, não somente porque não cabe bem no' contexto, mas
principalmente porque faz parte da história de Heródoto
(1:185-191) que não concorda com os fatos conhecidos
124 A . R. C R A B TR E E

das inscrições de C iro. 1 A narrativa de Heródoto é lendá­


ria . Portanto, é difícil acreditar que o versículo 27 fáça
parte do texto do profeta.
A série das predições sôbre o livramento de Israel
termina com as duas primeiras linhas do versículo' 28,
com a menção do nome do conquistador da Babilônia, e
libertador dos povos presos naquele pais. Na lingua per­
sa o nome dêle é Kürush. Que significa a declaração,
Êlle é meu pastor? A palavra pastor aqui significa clara­
mente governador ou monarca, como em Jer. 3:15; Ez.
34:2; Miq. 5:5. Assim, o conquistador está operando de
acôrdo com a vontade e o propósito de Javé nalibertação
dos povos subjugados por Babilônia. Ciro fo i certamente
um grande estadista, mas não há qualquer indicação' de
que êle mesmo acreditasse ser um instrumento no poder
de Javé na libertação dos povos escravizados na Babilô­
nia. Êle respeitava as religiões das várias nações, e hon­
rava especialmente a divindade dé Marduque, o deus prin­
cipal dos babilônios.
i . A Comissão de Ciro, 45 :l-7
1. Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro,
a qusm tomo pela mão direita,
para abáfer nações ante a sua face;
e descingir os lombos dos reis,
1para abrir diante dêle as portas,
i par«^que entradas não sejam fechadas.
i Nos primeiros três versículos dêste capítulo Giro é
íiareséntado como o ungido do Senhor. No fim do capí-
tslo anterior, êle foi introduzido como o pastor de Javé,
para conseguir o propósito do Senhor na restauração do
seu povo escolhido para cumprir a sua missão entre as
nações do mundo. Ciro é figura de reconhecida impor­
tância neste oráculo, mas não é o tema principal da men­
sagem do profeta. 0 profeta continua a discussão das ver­
1. Arqueologia Bíblica do autor, p. 282
A .PR O FE C IA DE IS A iA S 125

dades que preocupavam o seu pensamento', como o^ivra-


mento e a missão do seu servo Jacó, a redenção divina, o
monoteismo e a soberania de Javé, o Criador;de tôdas as
cousas, e o Guia dos povos e nações de acôrdo com o seu
eterno propósito.
. Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro. 0 substan­
tivo tingido é usado aqui como sinônimo de pastor, oiútço
titulo' de Çirp. O têrmo era usado, às vêzes, com r e fç r ^ -
cia aos reis do povo hebreu (I Sam. 24:6; II Sam. i9 ’;21;
Sál, 18:50). Sacerdotes também foram denominadosVás
vêzes, ungidos do Senhor (Êx. 29:7; 30:30; Lev. 4 : 3 ) $ jn
I (Reis 10:15,16, Elias recebe ordem do Senhor para ungir
Hazael rei da Síria, Jeú rei de Israel e Eliseu profeta) èm
seu lugar. E Nabucodonosor é chamado o servo do Se­
nhor (Jer. 25:9; 27:6; .43:10). É porque o profeta reco­
nheceu o propósito doí Senhor na conquista da B a b il^ ia
por Ciro, que lhe deu êste título o ungido do Senhor.; Çfro
declara, na sua própria narrativa, que Marduque, deus ;da
Babilônia, tomou a sua mão direita. Assim, Ciro dpu im­
portância especial ao deus Marduque. O versículo dá íjm
resumo compreensivo das vitórias significativas do esjíp-
dista Ciro. Èle vai abatendo ou subjugando as nações na
sua campanha militar (Cp. 41:2; 48:14). A frase descin-
g ir os lombos dos reis significa que os reis perderão o
seu poder, ou ficarão desarmados (Cp. I Reis 20:1). Às
portas e as entradas serão abertas para receber o conquis­
tador que levava aos povos a esperança de um govêrno
justo'. Declara-se no Cilindro de Ciro: “ Todo o povo da
Babilônia, de Sumer e Acade, nobres e governadores, pros-
traram-se diante de Ciro, beijando-lhe os pés, e regozijan­
do-se na soberania dêle. ” 2
2 Eu irei adiante de ti
e farei planas as montanhas,
quebrarei as portas de bronze

2. Arqueologia Bíblica do autor, p. 283


126 A R. C RAB TREE

e despedaçarei as trancas de ferro.


3. Dar-te-«i os tesouros das trevas,
e as riquezas em lugares secretos,
para que saibas que eu sou Javé,
o Deus de Israel, que te chama pelo teu nome.

Eu irei diante de ti. A primeira pessoa dá ênfase à


verdade de que Javé está na direção dos eventos históri­
cos da época. O Senhor está guiando Ciro, o estadista, de
acôrdo' com o seu propósito na libertação do povo de Is­
rael. Farei planas as montanhas . Quebrarei as portas de
bronze e despedaçarei as trancas de ferro que protegem
ou resguardam os tesouros da Babilônia. Ver Sal. 107:16.
Segundo Heródoto, Babilônia tinha 100 portas de bron­
ze (1:179).
Dar-te-ei os tesouros das trevas, isto é, os teso.uros
escondidos nas trevas (Jó 3:21; Prov. 2:4). Refere-se
aqui principalmente às riquezas de Sardo e da Babilônia,
espólio que Ciro tomará nas suas conquistas. Para que
saibas que eu sou Javé, o Deus de Israel, que te chama
pelo teu nome. Parece incrível que o Deus do insignifi­
cante povo cativo de Israel pudesse dar vitória a êste con­
quistador irresistível. Não é, porém, somente por amor
dêste. povo cativo, mas para que todos os povos do mun­
do, do leste ao oeste, possam saber que não há outro Deus
além de Javé,
4. Por amor do meu servo Jacó,
j e Èk Israel, meu escolhido,
i eu te chamo pelo teu nome,
1, e te ponho o sobrenome, ainda que não me conheces,
í 5. Eu sou o Senhor, e não há outro;
além de mim não há Deus;
eu te cinjo, ainda que não me conheces;
6. para que se saiba, desde o nascente do sol,
e desde o poente, que fora de mim não há outro;
eu sou o Senhor, e não há outro.
Eu formo a luz e crio as trevas;
eu faço a paz e crio o mal;
eu sou o Senhor, faço tôdas estas cousas.
A ■ PRO FEC IA DE ISATAS 127

Eu te chamo pelo teu nome, e te ponho o sobrenome,


ainda que não me conheces. Israel é o povo escolhido,
e também o servo de Javé (41:8; 42:1; 43:10; 44:1-2)..
A inscrição no Cilindro de Ciro engrandece o nome do
grande estadista, mas o Senhor declara que Ciro foi der
signado por um título honroso, chamado e preparado pelo
Senhor, e assim habilitado para conseguir as-swas vitórias
por amor do servo de Javé. O propósito do Senhor no
levantamento de Ciro visava, primeiro, ao livramento e à
exaltação do seu servo' Israel; segundo, a que Javé fôsse
reconhecido no mundo inteiro como o único e o verdadei­
ro Deus. Ciro estabeleceu governos benéficos entre òs
povos que subjugou, e assim granjeou o seu louvor e gra­
tidão, mas, acima de tudo mais, êle era instrumento na
providência divina que restaurou e exaltou o povo do
Senhor.
Segundo o versículo 6, o último propósito da missão
de Ciro é a proclamação e o reconhecimento da verdade
declarada no versículo 5, Javé é o único Deus, e além
dêle não há outro.
Eu faço a paz e crio o m al. Esta é claramente uma
declaração explícita de monoteísmo. Javé, o único Deus,
põe em ordem todos os eventos, bons e maus. O profeta
não está negando o fator humano nos eventos da história.
Está dizendo' que o Criador é supremo e que as atividades
humanas estão subordinadas ao eterno propósito do Se~
nhor. Eu sou o Senhor, faço tôdas as cousas. O profeta ,
repete freqüentemente esta verdade para o confôrto dos
exilados que levantavam dúvidas sôbre êste ensino do
profeta, como fazem também homens modernos.
8. Distilai, ó céus, do alto,
e chovam as nuvens a justiça;
abra-se a terra para que produza a salvação,
e brote com elá a justiça;
eu, o Senhor, criei isto.
128 A R. C RAB TREE

O "versículo oito relaciona-se com o parágrafo ante­


rior, e representa o pensamento do profeta de que o Se-
nhòri, como o Criador da natureza, sustenta as fôrças da
natureza para servir à sua vontade e aos seus propósitos
(Cp; 55:10-11; Os. 2:21-22). Para êste profeta os fatos
da história comprovam as verdades da profecia, e assim
confirmam que o Senhor Javé é o Verdadeiro Deus.
Distilai, ó céus, do alto. O profeta está pensando' nas
bênçãos que seguirão, como resultado natural, o' triunfo
da/verdadeira religião. O verbo distilai é caúsativo. A
justiça, pHS e a salvação, são têrmos sinônimos.
As. duas palavras têm o sentido de libertação ou vitória
(V er 41:2 e cp. 5:1 de II R e is ). É provável que o profeta
esteja pensando que a restauração de Israel é o princípio
da consumação da história, e que tôda a Criação acompa­
nhará com alegria o glorioso reino da justiça do Senhor.

2. Ai Daquele Que Contende com o Seu Criador, 45:9-13


9. Ai daquele que contende com o seu Criador,
um vaso de caco com o oleiroI
Diz o barro ao qua o forma :
Que fazes ? ou : A tua obra não tem al$a ?
10. A i daquele que diz ao pai : Que estás gerando ?
ou à mulher: Que dás tu à luz?

‘ ; Êstes versículos são dirigidos ao grupo dos exilados


Í ue se sentiram ofendidos pela declaração' do profeta de
üe um estrangeiro, Ciró, seria o instrumento divino na
libertação do povo do Senhor. Os ais nos versículos 9 e
10, a reafirmação da soberania do Senhor nos versículos
11 e 12, com a nova explicação da obra de Ciro no ver­
sículo 13, indicam a oposição deliberada contra o plano
do §eijhòr por um grupo, pelo menos, dos exilados. Os
exilados ficaram ofendidos especialmente pela aplicação
do título Ungido ou Messias ao estrangeiro, Ciro, não
A PR O FE C IA DE IS A fA S 12»

obstante o fato de que êle os estava libertando da-escra­


vidão babilônica (V er Jer. 30:21) . O profeta responde irô-
nicamente que aquêle que contende com o seu Formador é
semelhante ao vaso de barro que disputa com o' oleiro, ou,
como o filho que diz ao pai: Que estás gerando? Ou à
mãe: Que estás dando à luz? O hebraico do versículo 9
não está muito claro, mas certamente dá ênfase especial
ao sentido irônico da declaração do profeta.
Em vez da frase, A tua obra não tem alçai, o’ Rôlo do
Mar Morto tem, A vossa obra, nenhum homem tem mãos
para êle. É tão insensato os exilados questionarem o
modo da sua libertação do cativeiro pelo Senhor como o
é a idéia de o filho perguntar ao pai, Que estás gerando?
ou dizer à mãe: Que estás dando à luz?
11 Assim diz o Senhor,
o Santo de Israel» e o n u Formador:
Quereis me perguntar aoôrca de meus filhos,
ou quereis me dar ordens acêrca da obra das minhas mãos ?
12. Eu fiz a terra,
e sôbre ela erieí o homem;
Eu, sim as minha* mãos estenderam os céus,
e Eu dei ordens a todos os seus exércitos.
13. Eu o despertei em justisa,
e endireitarei todos os seus caminhos;
éle ed ificari a minha cidade,
e libertará os maus exilados,
não por preso nem por subôrno,
diz o Senhor dos Exércitos.

Nos versículos 11-13, segundo o autor, é o próprio Se­


nhor, o Santo de Israel quem fala, em vez de o profeta
que tinha falado nos versículos anteriores. Aparentemen­
te, o Senhor indica nestes três versículos que o povo tem o
privilégio, ou o direito, de apresentar-lhe perguntas, mas
não pode ou não deve criticar a sua resposta (Cp. I Sam.
13:14, 25:30; II Sam. 6:21, 7:11). Êstes versículos nos
fazem lembrar de nôvo que Javé é Soberano, e assim con­
segue realizar os seus propósitos segundo a sua própria
ÍS8 3 A í 4 * f r a O C R » » H ( l » Í <’ A

v«atede{)eolãD5 tteiáidÔEdoí eomoéb^òPm&dQ' d& t-wfl^éítór’.


^âEtíiBfeiaü4eatiôM>nsí ©er^MlI^
§ as-cousasj cÉiadàstlhef#èi*téflÈfâtópE
fe^jdfelédasíasictriatiiiksaeqláPfflaSMStiksfltf&oSfí Mgi&iftlHéá
Ô ai <9b^abdsas^kútaai aa£ès: ifcãsjve# ^JfrefíS&nirfáiàis íteétíflfòg
^Gjloo^swersfcvdiws-fiíWeílS-lôl £ A$f#8|fet#fâ3P dHíffiri^Ss
{tóOS^tlloSridiaiáE ii8 adà >êlrftefe> <di*tííâ Çiê^Jàtyé
na direção dosísâns cpl^oBlç®xftíeFnenfeei> a$ 'Seu* jjíôVb .'' Eü
ÍW)( GWTfl) rdf^Bfrtft6JemEiiu»4i^a,flde içô^dot^oinsâ «atlSdade
§o§nji*Í*S» B?í'feiW ^«fttówdoTde UeimBfiadoií) icfe! t â if e ã ^
SOM§#Bflí^^rgj»6*s[ÓE*ean pér^presèirtéi. :;0 m *ítvff*««
GigftiSS iik fw ^ ã te d 09'1] » * * ^ fé i póJfcttc»jifenaboíd jSÓKW§í
n ^ líh g^ , ®l$kn*0£> ptoeçQ)jou íesejqpsppiMÍti^lo SfeiitióH >08
versículos 3 e 4 dçf.wpá 4^«nSi> aádairwiíiensífestk dséteíííÀ
cão, como dizem alguns comentaristas. a „ .. „ , t,

3 . o FW * ^ £ m £ > a t ó * i : ; j 5 W , . ® í a j
" so&rr asHnim 2sb sida sã aaiâoe; z"-: ' •• "»sb srn íiaiaup
14. Assim diz o Senhor: , * i i » í « t * i,3
A riqueza do Egito e; «•rmelrQBdeNasielcta sfictóépèa,
e os ,**fe8 U|o híiliíftrtftiíte-íeafeaSftwaísrtniiTi e® mia ,u -i
passarão pae«*tâ«àtt*SQfl»fe t#*isjoboj s ensbio 9 b u3 s;
caminharão atrás de ti; íti& iíjfiaqaab o .;3 £í*
virão em (tfUMftfe,» (JiÍAet%dd%d*josei<pfl(W*n*»T«#. 9
Far-te-So súplicas a ti, disoatfft): srinim s è is 3 Í>;b« -ii-
Certamente Deus estAdtmttisoeiesniãooh&icJutKtt; .?
nenhum D«us além.sfoéttus toci mac* oae-iq -icq oêm
, 15. V erda«% am ente, Tu és«tf í bèi rt ^qt f è^e’ xb
t . ,6 Deu# de Ura«l. o Salvador.0 r rr t , ..-y
- i í í O H ífC tíi o íiO /.
> t'!O ÍU 6 0 O D fllíg d a , [ > [ - [ ! í30*U
Í ^ lo íifi (Sniét^íUsftttssãjifíiiaítaÉÍK-^üttei e^Cla^^íéi- ti sfetfiii
df>) id9t iY^rsíçfllOíí 14mi ‘jÀlgUMá1ipewsmr*<Xfue‘ '0 ^elitíò^ &Mfi
4o#sifw dp <qsep(»i{aftíoanQ»'5fce3èJsfcfe®arâb fuhtitòíènfê
$g0» ^sm^iSiçiíeHaRstttfâiroqíEifa 48i3,í& Egttò,&!BÍi5£ía
e(rS ^ á são naç^cieaados cornoS io -preç!©' d# redèhtíaoP¥íè
sigAtfica, ífiefeess^fcriâiAient^-lêef^fèk
Çpj^i?ij?ã03p8j^ (SiíM^cò^lóiaicp e'«%Mbas>}'i*í‘3W ^0?êée
qp^.oSivgrfcog píostoarãe e farpte*#»!gópH«aâ[ Íêkfibí?
•A IS A IA S m

dos sòmente£<apinoi'A@ã9>Kfel^epk>«es»rtftdD)3açã»>^(7‘ Giro.


Também«na^aíse |tóS«arSôK|)átòllí)9bní'^ ff ^"é^tífixo pro-
-lorfnaê oisq evtsa •«■ firtèioq .ioeisl .Tf
nominal é feminino, e assim coneorda eõm^poitfo de vis­
ta de que a decfeiPfiçStò^è fêf ef Isís^l^pbMüe0W ó s e
cidades são normalmente feminfnos iío hebraico s(Cp. 18:
l i PóMéÊfcPyí) m w m fia fe s sim-

- « M ? A s » A m iJ Ç .¥Íme9çftc«!ritt0esr4B»wHà*i6ii.
mente, uma mterpolaçao, porque não cabe bem, Sfcíáiès
chegam^ yoluntàri;

J em m * w<^e% <m
1%e95KferybI^?m,
ciríamstaiicias msnancas
lcf st)L eC | Ç ^ v ^ l W ^ ”
r fr % W è f "e9Mrlara"
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'VÍá§,/S i TiaçSé^ ¥ m % £ ° W 9 í& n ^ ^ m Q

im V w & iã ^ idP
amíonia, o
perante as nações o seu poder e a sua glona. Portanto,

10
Verdadeiramente, Tu es ò l>eus que te ocultas (Ver
55:8-10; Deut. 29:29; Prov. 25íí2^& oAsssim^sesta#' pífesa-
gens indicam que, de«i*t potat#demstífc ôP$èíihâr se ocul­
ta até do povo de; fSíaêfl^lifaí? d ji!st£^'çjçÊjn°o povo
mesmo quando a sua pyesoen&$i ^ftãp^gelgi^^coBOiecida.
Freqüentemente, Deus está o&esandonBaiakgriftie na dor,
nas calamidades e nos <sofrfmeirtos,.-qd®i#de o°pô^o igno­
ra o seu poder misterioso. Deus fáwp®8címcfidtf pàtfa âtjuê-
les que se afastam ou sessí^;H1Qínü^D®!tó..T>éM^ está sem­
pre
I
presente
,
na vida:
* SOfiO (Vtff 8^
fccb¥àftpes » ficam
abertos para reconhecer ç,breçsbgrot^s^sjw,*® bençaos na
hora de alegria, ou ija ^ g rg ^sí>&aHieHd«0brt9S6>
132 A R. C R A B TR E E

16. Todos êles ficam envergonhados e confundidos,


os fabricantes de ídolos caism juntos Sm ignomínia.
17. Israsli porém, é salvo pelo Senhor
com salvasão eterna;
não sersls envergonhados nem confundidos
em tdda a eternidade.

Nos versículos 16 e 17 o profeta fala da confusão e da


vergonha dos idólatras em contraste com a gloriosa sal­
vação de Israel. Os perfeitos dos verlios nestes versículos
representam o tempo presente, e assim devem ser tradu­
zidos.
Com uma salvação eterna que nunca resultará em
confusão. Àlguns pensam que a declaração é escatológi-
ca, que o profeta está falando das últimas cousas. As­
sim, os problemas e as ambigüidades da história serão re­
solvidos na nova era, incluindo' a manifestação de Javé,
e a união indissolúvel entre Êle e G seu j>ovo. Provàvel-
mente o profeta esperava que a redenção de Israel seria
0 princípio da Idade Messiânica, o período perfeito e final
da história. N ão sereis envergonhados nem confundidos
em tôda a eternidade.

4. O Mundo Inteiro Reconhecerá o Deus de Israel, o Sal­


vador, 45:18-25
18. Pois V * ' m diz o 8enhor,
> o Cflador dos céus, Ais é o Deus,
W o formador da terra, e o artífice dela;
% êle a estabeleceu;
1 não a criou para ssr um caos,
mas para ser habitada;
Eu sou o Senhor, s n io Há outro.
19. Não falei em segrêdo,
nem em lugar «souro da terra;
não disse à descendência de Jacó :
\ ■. Buscai-me <sm caos.
Eu, o Senhor, falo a verdade,
•< fazendo conhecido o que é direito.
A PRO FEC IA DE ISAÍAS 133

Êste profeta acentua em tôda parte da sua mtSisagem


que Javé, como Criador e Salvador, é o verdadeiro Deus,
O mundo, criado de acôrdo com o seu eterno' propósito,
testifica a sabedoria do Senhor, justamente como a pro­
vidência divina na vida de Israel testifica o seu poder de
salvar. O Senhor não criou o inundo para ser um caos
(Cp. Gên. 1:2). O significado desta decláíação negativa
é reforçado e esclarecido pela afirmação: Mas êle formou
a terra para ser haibitada pelo homem criado à Sua pró­
pria imagem. O versículo acentua o desígnio e o eterno
propósito do Senhor na criação do' mundo. Deus não criou
a terra para ser um caos sem habitantes. (Êle form ou e pre­
parou o mundo como lugar habitável para o homem,
r w r a tf? .
TT» V V T
Eu sou o Senhor, é não há outro. Deus não é conhe­
cido, nem pode ser conhecido pelos podêres intelectuais
do homem . O homem, por seus próprios podêres, não
tem a capacidade de buscar e achar a Deus. Mas êle pode
ter conhecimento’ do caráter e do propósito de Deus à me­
dida que o' Senhor mesmo se revela ao entendimento hu­
mano .
0 versículo 19 descreve a bondade e a graça do Se­
nhor no seu modo de revelar-se a si mesmo ao povo de
Israel. Não falei em segrêdo, nem em lugar escuro da
terra. O Senhor manifestou a sua bondade e a sua graça,
de uma maneira explícita e inteligível, na direção da vida
nacional de Israel. A revelação do Senhor fo i uma luz
brilhante para guiar e socorrer o seu povo escolhido’ na
realização da sua incumbência como a nação sacerdotal.
Não disse à descendência de Jacó: Buscai-me em caos.
Deus criou um mundo de ordem e de lei, e não de caos.
Portanto, a revelação' é a proclamação da verdade em per­
feita harmonia com a ordem da criação. Deus criou o
homem com a capacidade de observar e entender a har-
f» sAi/ve.i fsqsR^iOTsee • a

m ô»iar»inopier8f^i(?)daS[ ItM tfM ea & ii & ítèíi* j SiHfevela


a ^ ífc é ^ ly P ^ ÍÊ re ^ É a ^ à f^ Â tfe á i 'Í(M S :] e W c é ffl& â H B
,oÜ8Òqoiq 'orm];> uon o rrtoo oirioor; sfv o b e m job m m i O
ecj^ejéf)toeito!oiifr©^Bi4íad*)í4l^í^fâAÍ’H)b3dB8 « Boftilaaí
oh loboq iso?. o noilríaal l o t m l oh T;[>';'v uri univib riboâbi:/
bi o oorio oãn lorínoS O .'ur/Itm
chegai-vqs juntas, , , .... ■ r\ m t <-\ 'w
«viiB 89n0p ^ i g I ã ^ J g ^ ^ #0 ftK ^ jp ^ ia O . ( i . : I .nau) . q J )
uoraicíiãsléÊiaBMtéfidBtftMtailf; «B q obi-wíisloao 9 obttyiohri ò
-<m[ fjj^aétwfeflwreOTSTrfwriíó^ipsBteiwfeliíiriaa &is.q is-mi js
(imoJ# (5,r5nfl>ifidí?bj5Íebs fHíín93fi oIuoíktjv' O .mogEtiri íihq
«oixa ,poDnmn t[f) ofiasm bíi 'io íIívíS o!) oliaòqoiq
mu m B iBfj irrol n
,rnorn«B4ei« ám i^ioUiT«tí(tefefae !W^orf)¥Atraoií?)fiíJíii o oo‘ieq
Quem o declarou de há muito ? . w c n fz r n
Nao fui Eu, o Senhor? T in
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? i _ í M í ] a ^ M % ^ v| f e | mohb<jrínoo 193 aboq rnsn ,obh>
^ . ^ M P J a r A ^ í í ê â ^ i l v ^ 1 ' fn?r,í° i!t 0 .momorí UÍ>
oboq 9i 9 ^ h S fiBoaud ab absbiocqea «• o i»)
-■om è eir«€i«9hiolfãbqmf; ãbn*o?ftkè%acN)b ‘oiaamioadaoí) •(»)
-ijíJ oinaniibnoing ob ebvo-r 93 o im o ia -ío á m Z o sup Bbib
Congregai-vos e vinde, os que escapastes das naçõesç
os,que não desapareceram nas conquistas.de. Ciro,. Che-
á í- W s »^ f e * m ^ à íE ^ fiiS K ^ ^ ^ c ííÀ s id e -
_ ._9írí»í
i ^ ¥ â B % < F A a ^ # â g n i ^ a - 9: __ _ resentada
_ À ° « i í l q fiF ll
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.■«ii a n u i 101 lo n n o S ob OBjBíoypt, /. r l-is-m l 9b ÍBfiooBtt
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um deus que nao jpode salvar, nac ~‘
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a^eesentabfàx jfdsiaBfcíilHsaí (d .b(<Jteaí&íFâm<jijTOp^ss^rtíj:
fãSííi ^ê$á'f9l|à?2ft>,*flifís.esrt8í dè
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Sínteobífytiq ás&aMtfteda %j§m«flspr(e8í!%(psSçj3#4ft w*

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« 3b, ílivíMíSfttíg-itpStef ífPjüftdfti,, [) ishq Biorrôfr
01hai<»iKiKVíntiirij ou AlaidiBr a>fmifai}f(€po Mat .oáttiáJ8$)
?í$n>>#U#0U

<8»SH »f SPfifofi <^»')TPlÀ g% í4o rArfíjhpi im i^ u 1 ob

23. P o r mim mesmo tenho'()'éÍ^VíÍ4E'J ,m fif>nÍB ,IíH n aI ob OVOÍf


06 ao vo ^ af0iftWjèt6%B*iíòBff/ÍK^l?f b ísbibI ab gusG 0
uma palavra que nao vo lta ra : CC «?sM
Diante de mim sa dobrará todo joelho, “ '• 1
oo b e -MisbanáTAída(])!waH»f .oíiôlno-s obt m w t n w i kVI
r jíM o W filM fr ‘Te£fiwM °r»fí1t ) H
l,í9|ííSffiti'Wí><5bnK'í;ü 9 t«ô . ( « i i / ü t »
-/mm ofe*:è^ S a8& Bica .oâo/r/ína ob Knnfuob gsjh >:
, .» a Ele ,viraol e Mrao envergoVihadbs,,»r , ;> , , ,
- í f i i f e f ) rt-4gjj S r í t W M Â 1# 31* 1" 7 ^ a a V i - <ih‘
í.lgtb ípteesiáHaftffia^oriom ah obo
íritoviíBiôítofafídiàísfltlÊBcisOde jcokrib o&?Blovyi cb obebi-ov
,oê‘)íiJ’í9diI 3 b J3oat4*iocrg9 moa 9«BW) 9 gí>f>fimim:89f> mrníioiT
O versículo 23 reforça o apelo. Por mim mesmo te-

«MÍBÍfeft
nhor, e tudo que |Èle faz, de misericórdia ou de julgamen­
to, Icm <a âuarflrigee9!inaqii4k(íiq«te«aÊl®Té9ftft®uabp(ii^M!Í3>PÈs-s
136 A . R. C R A B TR E E

soa. Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará tôd0


lingua (V er Jer. 31:31-34). O profeta fala, não somente
da conversão da massa do povo, mas da experiência pes/
soai de tôdas as pessoas de tôdas as nações. O profeta*
assim, vai além da mensagem de confôrto para o povtf
de Israel. A promessa abrange todos os gentios.
Somente no Senhor, de mim se dirá, há justiças e fôr'
ça. O hebraico do versículo 24 não está muito claro.
palavras "1)2^ ^ significam a mim êle disse. Mas a^
• T

versões em português e inglês interpretam o verbo im '


pessoalmente. Há justiças e fôrça. É usado aqui o plu7
ral de justiça para intensificar as atividades poderosas dti
Senhor (I Sam. 12:7; Miq. 6:5; Sal. 71:15-17). Diz Skin/
ner: “ Aqui o têrmo' justiça é usado para indicar a expe'
riência pela qual se realiza a relação própria com Deus.”
O têrmo tem o sentido de vitória ou de salvação.
N o Senhor será justificada, e se gloriará tôda a des/
cendência de Israel. Assim, o profeta termina esta gran'
de mensagem com mais uma palavra de confôrto para d
povo de Israel, ainda no cativeiro’ .
O Deus de Israel é o Salvador de Todos os Povos dtf
Mundo, 22-25
: Na mensagem de confôrto, para o povo de Israel nd
cativeiro, êst^ grande mensageiro do' Senhor desenvolvei*
aWua doutrina de salvação para todos os povos do mun/
da. Neste versículo êle apresenta a sua mais clara defini7
çãè de monoteísmo, e assim explica o significado destí*
verdade da revelação divina. Os israelitas no cativeir^
ficaram desanimados e quase sem esperança de libertação'

No fundo histórico, um tanto desanimador, o mensageí''


ro do, Senhor enfrenta os pavorosos problemas político^
3. The Cambridge Bible for Schools and Coll«ges, V ol. II, p. 74
A PR O FE C IA DE IS A fA S 137

e religiosos da época, com a fé vitoriosa, que através dos


séculos, vem confirmando e enriquecendo a fé 'tio ho­
mem depositada no poder, na sabedoria e no amor do
Criador do mundo.
Havendo explicado aos cativos e ao’ mundo inteiro-a
tolice da idolatria, o profeta inspirado pelo Espírito de
Deus declara, com plena confiança e fé inabalável, que o
Senhor Javé sempre tem a mão na história do mundo
que !Êle criou, e que está dirigindo de acôrdo' com o seu
eterno propósito. Esta fé invencível do profeta baseia-
se naquilo que o Criador já havia feito.
O seu profundo entendimento da obra da criação
preparou o espírito do profeta para receber e transmitir
o evangelho da graça do Senhor. O mundo não fo i criado
como caos, nem é um acidente caprichoso. O mundo de
ordem, governado' por leis que o homem pode entender
e aproveitar para o seu próprio bem-estar, indica
claramente o propósito supremo do Senhor na cria­
ção da terra como a habitação do homem. Mas, além
disto, o Senhor tem falado repetidamente ao en­
tendimento do homem, não somente através do cur­
so dos eventos da história das naçõesi e dos povos,
mas também pelos profetas, sôbre o seu eterno pro­
pósito na vida e na missão de Israel. Como o Senhor Javé
ia Se apresentando no passado como o' verdadeiro Salva­
dor na direção da história do povo de Israel, o seu cuida­
do carinhoso será revelado e demonstrado de nôvo na li­
bertação dêste povo' do poder da Babilônia. O Criador sá­
bio do universo, o Deus de Israel, tão grande em santida­
de, justiça e amor, é verdadeiramente o Salvador de tô­
das as nações do mundo.
G. O Deus Que Carrega e os Deuses Que Têm Que
Ser Carregados, 46:1-13
1. Bel se encurva, Nebo se abaixa;
os seus ídolos estão nas costas de bêstas e de gado;
*k 3 A i ARI IB.QCt*ABTHCEq A

e0b aà^éibki cBUfi^ ittiíH-ietóuiròèvBiaiíteryea^taíiò i;b go«'oigiÍ3-x o


-<>ri ob i^°í;P(»teí'jWn'f>jfFft40 ,«o!udò»
°t> ^•)f^®|?fi^®/^^j5frt?ít|2|.g^tí?JÍ??KfnolfirVL'líjhit«o([,j b t í s o n t
êles mesmos entram no cativeiro. • ObniJIII ul) '10bf»i'l,)

Í1 M S S S Í &

!1uri&iíMiirastèasmtraiüei tisb^Ba»<§laolS£dllldf|ll» Qj<PS8£>Af


°bBÍ-fciiaèlpa»4(jbnnfn O .•\oihnZ ob f^rng i;b orifogiiBvíi o
■•i) o[OM!K f o f ò s ' i ^ ô s , í £ $ > a £ e « 2 c $
Vldftuíè ífgrii'i(fííe'fy軫eôWâgaâOíl>Ba
^o^ W íffloítíW i, <òu f$ m aqüêft«(5oque os
l^-ftn^ébrflÔ íiiJ^pô^dirpM Í^. oto l& W é / G 0ém»dteíl&-

lòda á ^ d i M ^ â ^ r à o ó to fflè fti r^íWiiíttk e&igifiíPiãiítlgUÍ-


^ «é tiu s ^ q iíè êíé^ttfifi qtóè dàfWdgaf, êk iSftii^iS(lei*<ííue< *o
$me§áKn *> O^^e^sê^^pe^eittbà^Soft^temig ^fefriiaíhut
«lílkâ^ãbl^^teí^títtüa- Iâ6§4éül5 ^biv íííl oJifíòtj
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Os feitos generosos de Ciro e o -áèWi üéfía^ílo-'jÜèW><. «E ítóè
Ipcaçainhou
Par^ awBabiioma, mardiaçlTO a o ^ ú ^ J p } çjMjo' amigo e
como companheiro. . . .Sem batatriaou confli fo, Marduque
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1. G eorg& ;^ain^rai^dT4iesB 6© ki «ferlsaÈstlap YoloH, ?Bd., p. 198
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Marduque. ÇOffltJ rP JBTÔPeup f4<WBft0t^9.;g:$ ft a g o p o * ^ ;
ou deuses, que são apenas um fardo' nas costas dos ani-
rrtalsjaáflyKsônfféadBs -^Üídcrradoísi ®ôráb>absítidesGàAfumi-
lhttd08. <oíí^asBfíetehragôep íestwasf)do?andímôvo^ ijíhiigeeisr
(tó»Ma»fcliKrHé'ié ídaoseu ífih » f$ebft eí-ami iQvadasí »aòilanffiS
d a m a * id á - d a «d «ie m iJ a íK )s p ^ í# a k £ ts teâdflqâMnsJÍralra,
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b o rii sp b reca rrega d os.com os fa rd o s nas costas, tinham
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, e rtodo ín restante, cfa casa d a .H rtfl;' , ■>
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^R ^iJrtfettU liaodA igN ng m u r á tfu tb n n q n -jr j< y j ou p g o m o } «b h í
4. A té à vossa velhtc* Eu sou Ê,le, . i o í í i í ; IJ9 H OJí
e até às c&s Eu vos levarei;
Eu te,Oihp£feà\í« 89 rfi u=o prrfPffiyS 3-1e':Rq mo0 sm rnsup A .B
? teWiWll^TiMlVSníèisB 9UP m s q eiaTsrilsmsazs sm 9
2. Jaok Finegan, LigHt From thesWricMntoiãastírttifiõyjííup zO .3
3. Cuneiform Inscription, Vol£®iPflUá 6 e 6 n Gieiq b rrifcasq a
A R . C R A B TR E E

Já notamos o profundo ensino dêste profeta sôbre


Javé coino o único e o verdadeiro Deus, ô Criador e o Sal-
vador de todos os povos do mundo. Nos versículos 3 e 4 o
profeta faz um contraste entre Javé, © Deus de Israel, e
os deuses dos babilônios. Os homens da Babilônia carre­
gavam os seus deuses impotentes e pereceram com êles.
Mas através das vicissitudes da sua história, os israelitas
tiveram uma experiência bem diferente com o seu Deus.
O Senhor Javé havia carregado o seu povo em triunfo
desde o princípio' da sua história (Ê x. 19:4; Deut. 1:31,
33:11; Os. 11:3; ver também Is. 40:11 e 43:9).

Até à vossa velhice Eu sou !Ê9e. Como o Senhor ha­


via dirigido e abençoado o seu povo no passado, assim
Êle será o seu Deus de graça e de amor através de todo
o futuró' (Cp. Sal. 71:9,18). Neste versículo 4, o prono­
m e Eu, "Oíí , de Javé, é usado cinCo vêzes com cinco ver-
• “t
bos diferentes: Eu sou file; Eu vos levarei; Eu tenho fei-
to|; Eu carregarei; Eu salvarei. É profundamente signifi­
cativo o que o Senhor tinha feito, bem como as cousas
que Êle promete fazer. Os sinônimos e
“ T T T
dão ênfase à promessa do Senhor. Com o seu amor e
graça Deus levará, carregará e salvará o seu povo, embo­
ra seja, às vêzes, uma carga pesada (Cp. Sal. 100:3).
Se o Senhor nos criou, certamente estamos nas mãos dêle
dásde o nascSfriento até ao' fim da vida. No seu eterno
propósito de amor, é Êle a nossa única esperança. Êle
nc$i oferece a salvação do poder do pecado e da morte,
mas temos que corresponder à sua graça e nos entregar
ao seu amor.
5. A quem me comparareis para que lhe seja igual,
e me assemelhareis para que sejamos semelhantes ?
6. 'O s'que gastam ouro da bôlsa,
e pesam a prata nas balanças,
A PR O FE C IA DE IS A fA S 141
j
assalariam o «urives, e êle o transforma em deus,
então se prisatram e o adoram ! '•*>"
7. Sôbre os ombrtfè o toman, carregam-no,
e o põem no aeu lugar, e aí file fica,"
do seu lugar file não pode se mover.
Se alguém lhe clamar, file não responde,
nem o salva dá aua tribulagão.

Alguns pensam que os versículos 5-7 iftierrompem a


mensagem do profeta, mas seguem a discussão da impo­
tência dos ídolos nos versículos 1-4, em contraste com o
poder e a graça salvadora do Senhor.
Êstes versículos apresentam uma descrição sarcástica
daqueles que fabricam e adoram ídolds. O versículo 5 ter­
mina a discussão da providência e do socorro do Senhor
através da história de Israel com uma pergunta retórica:
A quem me compararete (Cp. 40:18, 25) ? Nos versículos
6 e 7 o profeta descreve o idólatra no processo de fabricar
o’ ídolo como o seu próprio deus (Cp. 44:15, 17, 19). Os
que gastam ouro dei bôlsa, e pesam a prata nas balanças.
Os idólatras forneciam generosamente o ouro e a pra­
ta, os materiais mais preciosos para serem usados na
produção dos seus deuses. Talvez a prata e o ouro
fôssem usados apenas para cobrir e aformosear a ima­
gem . O profeta fala irônicamente na descrição do culto
prestado aos ídolos. O homem toma o ídolo sôbre o om­
bro, carrega-o e o põe no seu lugar, e aí fica. 0 ídolo
é feito pelas mãos do homem, levado nos ombros huma­
nos e colocado cuidadosamente no seu lugar. Não tem o
poder de se mexer ou de deslocar-se. Se alguém, na hora
de tribulação, lhe clamar, êle não' responde. Do sofri­
mento ou de angústia êle não pode salvar (Cp. 45:20).
O profeta não se interessa na comparação entre ás
fôrças militares de Ciro e as da Babilônia. O poder de Is­
rael está no Senhor Javé, o seu Deus; a fraqueza da Ba­
bilônia está nos seus deuses.
142r 3 A i* g ' R 3 © R A B 3 ffB B 3c» Ai

2 .^OTestemiMílwda^Bistôriííe dâ Prefett!á,áf6:8-10
! m s io b s 3 9 T!s-ía:--.i aa os .í«*
8. Lembrai-vos disto^cornridertrí o * ' 9~>dã8 \
trazei-o à m er^ft^i*r*n»gr«!íi«>re*?e ofí waôci o 9
9. Lembrai-vos < M m % # r^ ^ d ã i"d l^ ^ n V i3ÜIdáII: ° & ,
que Eu sou « S Ú Í ^ r ti»s t â o i i f r ò T - ? 'r'9üfe' s
Eu sou Deus e ntóPMf‘« M o % «n#ftaM è8í« m im !'

àks ^ ^ s m ,\
Israel deve depender do pôdér do seu Deus, e nao da sua
‘3© ipwirfetajSBséá^díifi^BÍèsiestasífâââvras
açfj «^ jfeí^ ^ H em ãooti^am rajífé iãafifiriÉfet etmê-sèVé BéÉ
« W í í f c s t W l Q - i ü u o .- oh :> liíjilÒb i / o i q sí> oSáéüiOáíí) n ijíiífn

& n á m m W i À & a ê à n ¥ j t à i m m f f , a% m ,i í lÊÍo'éxis-


« m i h í M V S S ® ® *®
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Ba» 8ofes8ü ai‘3'is« eisq 20ücn39iq siem aSttWffíft aoH.oi
^lgHíis0 eçu#tost| prefewfea: B»e«im o&>*ségÜír og-?4fefà-f<í
gemi cie ^

Sft rppf»tídaépa#iiarti\âdades i|^*iê6àc*Êtis'iHè JfeVé; nh ^istç-


r& & I§ÊS*1 erfoãiipôbcÉaÉí r ó ^ a iíe ô t è P a ^ q l^ ‘SéfttôCTe
IgH^àfé «sjto»CQlet»:Vea€adeird Deiá-. ’Edx¥tíu ® eü^è kj£o
há outro semelhante a mim. á-Ví/ab r^-r ^on até-) «mout
PBORBtaAHíPEH ISAÍAS m

iíuáÇl Íftíff1dti >c8OMtifaífi\ fif1'Jtiféfíi« fPífqcW j u p i'1 aoviJfio an)

•*9fâbsStfi8f«fiíWÍ % 'W fô^flfta.a& s™ 9» 1 oraoa sUi^m


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- è d i I í í i « HfteíHomemr«nê«n®ti> dasàamosd a iú ik á íit^ a -ra h ô íh qüfrtuir.‘ >
- ÍÓDB $ » .êíflÇBáitSjf» J*l6»»Mtêb><*IÍ>$ÍF«ê!^6b B 3-idôg ooia
-Bfo.9b n l uB flT ei. 5^?rflrf#^T.->tflfh!^cfti65íff415^=0 titoa ob
0 profeta declara de nôvo que- ècftò 0k ftfefô1
ria é predeterminadttsde<<acôr<k>b©ei»irf<o «éiestro-ipi^pêfcito
do Senhor. Todos os iáBfiiteMtaf# ^ISfáift^Se^bS Jffbfetas do
Senhor h a f f M a f f u f M e f ss M ^ s f ô á a anos
antes de tais a c o n t^ í^ ftftÍQ s riw ^ p ^ m fu fe r , ^ i W ; 45:
21; 48:5). Assim, o Criad©üòdete»itMix)tt'aiít®eipadamen-
9>&W99dÍP^W%d* ^ ^ f„)| j| »B a n 0 fe n i# lfo O » » não
Ç B ^ ^ í P » / ^ «t?*1# # ! m m i9P® tò® ts> .eenesrasute tetósi-

,^ v ^ ^ lS!é)ycglíl
conselho su b si^ E ^ ^ ç fJçqj&ftriflee tiífek^)a#ieípÍWifeí!eRT
ctáím
U coM ^ U o, dW ê i M e ao
éükinéwa í K i á t o M a e a ^ a f « à i i im rjo S
'WSKtíSa?'!,0® 9* f 0b5™
-vrrújv} of> ?,obmiJBÍ89i rriímç w «o n s u r boviíbo mm o tm q
Chamando a ave de rapina desde o oriente. Aparen-
teiftfifi&raigtjííjs doé Xsí-aehitaiâ /Kéj eitanaittiaimsfls&gern tkl
profeta,'de que Ciro seria um instrumento no poder,-dp

iía^ôeá^^ètfiTO^á^Á^fría^ê ‘â

0Lt * . Q r o ^ m p (jo u n t

iJí&fétâ ü k a ^ t í f i í Ü l ^ a S * i i í I f f e i & i V o a % e ^ ^ { i & i ^ dtís


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' p ro te ta ‘deseja crue
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144 A . R. C R A B TR E E 7 í

tas cativos fiquem plenamente persuadfdos de que Deus


vai usar a conquista da Babilônia petós persas simples­
mente como meio de conseguir a liberação dêles.
Eu tenho dito, .. .Eu formei êslp propósito. Com
estas palavras o profeta acentua de nôvo o seu ensino bá-
sico sôbre a direção divina da história das nações, de acôr­
do com o seu propósito predeterminàdo. Esta é a decla­
ração do Senhor Javé.
12. Ouvi-me, vós, obstinados de coração,
vós que sstais longe da justiça.
13. Farei cl>egar a minha justiça, e não está longe,
e a minha salvação não tardará;
Eu estabelecerei o livramento em 8i8o,
para Israel a minha glória.
Está chegando, finalmente, a hora da libertação de
Israel do cativeiro, e os versículos 12 e 13 apresentam de
nôvo êsté grande evento na sua culminação. O profeta
acentua o significado desta experiência de Israel no cum­
primento do propósito de Deus na história.
Ouvi, vós, obstinados de coração, ^ 1
,1T 3 K . Al­
guns comentaristas pensam que estas palavras vós, obs­
tinados de coração são fortes demais para descrever o es­
pirito dos cativos dignos de serem restaurados do cativei­

ro, e assim preferem o texto da LXX, 2^ 'HUX , hu-


.♦ ♦
♦|

«jndldes ouifesanimados de coração. Parece, porém, que


W> profeta está usando o têrmo obstinado aqui com refe-
Ijência ao capricho daqueles cativos que recusaram acre-
oitar que êles pudessem ser libertados pelos persas, e as­
sim representa o texto original.
Vós que estais longe da justiça. A palavra justiça
aqui significa a vitória ou o triunfo da justiça do Senhor
que está chegando no livramento do seu povo do cativei­
ro.''Alguns pensam que o profeta está falando somente
da justiça do seu propósito na libertação política dos cati­
VV PR O FE C IA DE IS A ÍA S 145

vos, mas que os Israelitas ainda estão longe da salvação


espiritual. Mas nè teor da sua mensagem o profeta está
visando à salvaçãot espiritual não sòmente do povo de Is­
rael, mas de todos os povos do mundo, não obstante a in­
credulidade de Israel a respeito do seu livramento político
pelos persas.
Farei chegar a minha justiça, e não está longe. Qua­
se todos os comentaristas insistem em que o têrmo salva­
ção nos versículos 12 e 13 se limita ao sentido do’ livra­
mento político de Israel. Mas êstes têm dificuldade no es-
fôrço de explicar o significado da afirmação do profeta
que representa o Senhor nas palavras: Eu estabelecerei a
salvação, ou o livramento espiritual, em Sião, para Israel
a minha glória. A salvação política de Israel do cativei­
ro foi acompanhada pela redenção espiritual que prepa­
rou êste povo escolhido para cumprir a sua missão como
a nação sacerdotal, ou como o medianeiro entre o Senhor
e as outras nações do mundo.

H. O Orgulho e a Humilhação da Babilônia, 47:


1-15
No capítulo 46 o profeta trata da-4mputciu;ia a da
queda vergonhosa tfos ^ Ftnkiinniq Êle zombava
freqüentemente da idolatria dêssç povo, mas, neste capí­
tulo, escrito pouco antes da conquista da terra por Ciro,
apresenta o seu ataque mais irônico e mais vingativo con­
tra a Babilônia como nação orgulhosa e arrogante. Ex­
pressa o sentimento semelhante ao ódio, encontrado na
profecia de Naum, contra a Assíria quando Nínive caiu no
poder da Babilônia.
De vários pontos de vista, o tratamento dos judeus
deportados para a Babilônia em 597 e 586 a. C., foi mui­
to mais leve do que a destruição de Israel como náção
pelos assírios . Na Babilônia, os judeus cativos tinham o
privilégio de manter os seus característicos distintivos
Í46 BAIWÍ R5 t C R A B f E R & B q fif

@?j^llcô^eEÍHÍtÍ3d0sítíanieí‘ st* áMpsg$i»tj£#$


Mílgit^P'i^erfiJltcs^fyl-20> .Bb Hn»i Járarteíiiônjto>jiáêj[8§
a&i&fíutofà»ft-iqfe m se (tèiniW]iniósípçbô?B7l«iífc»fetfSlfií
p«Í>étMífflertte ttéqndhaípim.oüü s«p^çãoedQcOi*líO r»«riT&»T
jjM*feu @ NiSâífóímí rMasidesÉiBiíeJyea-dafe jialt^tgbeíiítoÔS#)
ao Senhor sem o sacrifício de animais, e contàmiStjaBlilBí}
pri%9iiçSi/íflíi ílitôriíÈtr» ^#a%íiffiS»aeiíyaw^ítíalfocíia de
c%tiê8i#fftíâàd& wpisrteirdeJaasfisiníigisgâaafíioa so «oboí o«
- fn /itó¥íio,:!‘ètóSo.oeenfebcpUca* éfêiiaá(áblicteÉaçfo-seyería «49
IMiilêMafjatóa Tjiísofatá %'jlA-lgmM pfenESftÈvjtiUPj iWleqúttfeiias
«teí^^^ferfé^ídólEx^icqbfc^tirigtoenteoilqzEeiito^rj^
Náêlã^te^ ©fe4)áSaiôlriO’«i%rriaiira»raíImiá9D se^erasmpiiOji^p
^lípfcsptíwis,pisi0 pKDfètaJÈKfcpBtfioàfflsktxpBítwp^cl^â^^i^
piíWjtMtobd&SeiítfiEli' aaiJííi»tfór&^fl(y!assi/n .9át&Ifeil#íÍstíft 8
B8l9ilâníâítèi ÜUtí i dâ|í9eo«ç«tdiuMnatea){lQ3{fe!Místóirôs dft.lhui
ítíaeídsâêíliínBabilôniwjnai « u a rj^aM ifi»p*sta»ac; oQRfrsoEí
Vôíi<»áeo(tof iSenhÓKf réhGantra=:o oseuo r&i^jsspidètt^l; rito
inundo. A Babilônia sente-secdampfetómeiíteinái^íídçntQ
de quçlquer poder superior. Até os seus próprios deuses
sâè f l Ü H M í& r < ^ ^ flS fM e £ ‘A ^çaaOse&te-sè capaz
de dirigir a sua própria história e determifiín* o seu pró-
BpoJ^ 9ft)^ f f i a g f g ;iíI^ 3ç ^ (^ d Stc ^ p I ^ en» seu

F0Çt9/{fe]v$ af#$í/$ÍS9
d ooincm ?.tEia aupeie um <> ■■iUiwriqv.
t x51 b íni
l n obsiiaosii 9 ,oibò ob slmirífemag oln sm iirm o mwuf
fel^B À «b s-itnoo .fnimM
o virgem filha tia Babilônia;
ab .fibalo-m
. r a , 'l
as&enta-te no chão, pois não há trono^^ÓllÜíSci X9DOC[
HUüUisi ai?isnMí(tesüBiW?Jia(?> , ^my yb cohíoq ?omtv sí!
a B'iBq sobatioqab
ott')Bn oíbí>,í,rfeÉ‘ial ’%l) e vnp ob oval ?,\Rm oi
o fíwOIítòpítolêfípc^éoiieefiguriditoa uMia aasbdade ^cóm
váv-íásrfeelõeírrsüliioeffinaídas^ao^ temarjinmdpafr. (ítefírófe-j
V
Vy PR303RCCÍAf>9E = IS A ÍA S 1£/,

ta descreve a Babilônia corao^ ^a^gems«telieada & fastidio­


sa que está enfrentando a perspectiva* de sêe»t*ui$ã» cala­
mitosa no futuro j^óxijnpá Ela |tíS£Jâêstrtff^âf &hum i­
lhada s e ffl^ q w la H ^ S 1 -'->--t.í»T*ajíM-oe««*- z ---
gem ainda porque até

'e.B‘io.o.áoo‘ ofin oãaB-ifiíoaí» afaab Birnoí


-ai J M S ^ r & í ^ f e i j b

dg^e ,®s|6s^yí?y95fe%°íf^í; Hrrff-T'/ jtooto^ í

^ ) ^ a}c9nbwr ~
no chao n ^ e s w T O « « M i ;
lôma (Cp. 3:26) . ,um profundo rebaixamento m orar
__________-
t e m m & i é m ^ & p PÍ)eut.
^gm icp iD fiíuifi siaoixcDJa .orillígio a taboq moa toa<v:í
OôçBSíítdiíâ ea srst, toda*?, ob sjitaijr a -j ■ábobhofi; ■: c
^q2P^o#»s|^4^i«É bi[9tiM I«ir/í .a&as-il í >.y?sa ab
rabo*! üpáesfceladfr cabpB/tiBtnupaq efo ao^O o .ávèt »í> r->b
O . /^Bfeâd^y^OÍCÇipb^liÇWSíR bí> OBO-Jiib sa osmqu<!
àlrar m s s T ! $>e*oikn asn siaòíkífiS ab oaiíi»í>
oii/S&stnaúaMidft «nóírrftiliJFiBfeSaòA K a»ii»íR »}rg^s na-
gôes éireidteíidíhà gft^ãfe^^WJiava. (í?x> S$:5< Jó,$UlQ)/
R m ove QlKémiümai. »r â :lu $Jrrfenfco!AS;jnpiBlb3 -e& de po/sir
;¥ W a ^ # u # a j a esçqi}4eríro « g l p do o t e
intenso do vulgo.Tira o traje de ramha. O Rolo dó Mar
M^oufem^DêSPéaW . «ftr:.< >18:26) Désnudaa*
pWftféfê .afislSis^FtóêíVfà«^}Wtfee«t»hi destfa m m
lher da aristcícracia reduzida à posição <fe estírart©0í^ •:*' >
, ^E^fáà* páiÉtrâls' áãóf ‘tMÍfes^para
m im é t
soas levadas no cativeiro. Máf^òdHm^iâ^niéatHèffflbéin^
aiidegradaÇâ» e>a fyergoahíuqiaerio escravo sofre jnq sei» tra-
lio pnaQsaftómoO :foíxieíl sifo o m o j . oíjbííísídíík n,.-
148 A . R. C R A B TR E E

3. A tua nudez será desçoberta, «


e ver-se-á a tua vergonha;
Eu tomarei vingança,
e . não pouparei a homem ãlgum.
4. Nosso Redentor, o Senhor dos Exército* 6 o seu nome,
é o Santo de Israel.

Surgem dificuldades na interpretação dos versículos


3 e 4 porque o hebraico não está claro. A tua nudez será
descoberta. A forma desta declaração não concorda com
o ritmo do versículo, e alguns pensam que seja uma in-
terpolação. O pensamento' não segue lògicamente a figu­
ra da môça escrava assentada à mó, Ocupada no seu tra­
balho penoso. Na segunda parte dò versículo 3, o profeta
dirige-se diretamente a Babilônia, e declara que ela será
despida como adúltera (Ver Os. 2:12; Ez. 16:37).
Eu tomarei vingança. Assentada regiamente no seu
trono, com poder e orgulho', Babilônia tinha desprezado
a autoridade e a justiça do Senhor Javé na subjugação
cruel de nações fracas. Não entendeu que estava no po­
der de Javé, o Deus da pequena nação de Israel, o Poder
Supremo na direção da história dos povos e nações. O
destino de Babilônia está nas mãos do Senhor.
Não pouparei a homem algum. O sentido é obscuro.
A LXX diz: Eu não te entregarei mais aos homens. A
Vulg. tem: E não há homem que me resista. Alguns pen­
dam que em vez de 01K , representa o texto ori­
ginal, e deve ser lido: Eu tomarei vingança, e não pou­
parei, diz o Redentor: Javé dos Exércitos é o seu nome,
o Santo de Israel.
A vingança de Javé sempre representa, até no caso
de nações cruéis como a Babilônia, a santidade, a justiça
e o amor do Verdadeiro Deus.
' O' opressor cruel de nações sofrerá o castigo justo
da sua iniqüidade. Como diz Daniel: Contou Deus o teu
A , PR O FE C IA DE I8 A IA 8 149

reino, e deu cabo üêle. Pesado fôste na) balança, e achado


em falta. Dividido foi o teu reino, e dado aos nMSdos e
persas (Dan. 5:25-5$) . O profeta dá ênfase especial ao
significado das ativjdades providenciais do Senhor Javé
na história das naç$es. O Senhor Javé dos Exércitos, o
Santo de Israel, é o étnico e o Verdadeiro Deus, o Rei dos
reis e o Senhor dos senhores.

2. Á Senhora dos Reinos Perde o Seu Poder, 47:5-7


6. Assenta-te em tilftneio, entra na* trevas,
i filha dos caldeue;
porque nunca mais será* chamada
a senhora de reines.
6. Agaetei-me contra o m e u povo,
tornei profana a minha herança,
e os entreguei na tu « mão;
não usaste çpm. élss de misericórdia;
sôbre os velhtii fiaéste pesado,
sim, muito péMdó 6 teu jugo.
7. Disseste : Eu serei senhora para sempre 1
Assim não tom i*t* a eério estas cousas,
nem te lembraste do fim delas.

Ameaçada pelo julgamento divino, a senhora dos rei­


nos assentar-se-á em silêncio, e entrará nas trevas, como
todos que são avisados de perigo iminente (Cp. I Reis
21:27). A senhdra dós reinos entrará nas trevas por cau­
sa da crueldade que tinha praticado contra Israel. A pala­
vra trevas pode ser um simbolo de prisão (42:7), mas
parece que aqui significa a miséria e a humilhação que
a senhora tem que sofrer (Cp. Lam. 3:2).
Babilônia nunca mais será chamada a senhora dos
reinos. Êste titulo é usado em Jer. 13:18 no sentido de
rainha-mãe. Como Assíria, assim também Babilônia ul­
trapassou a missão de servir co'mo instrumento na mão do
Senhor para castigar a infidelidade de Israel contra Javé,
o seu Deus. A palavra do Senhor é dirigida a Babilônia,
«0 eA jfiüA Ra<CRAB6^ft6i a M

abctfade
podeíPíoidBstiiKfeide yá»*SHiíi©9e§ ^ n ^ f t i ^ e l . s n ü ffl9
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è ^ ^ m S > í Ã M â 6 ; ^ è ] è $sa& $& 6 p & â & t e M m »
tjaf pM b .M#1Ke foi^lfflb^dê^^èhàs^ata
ser á í l i ^ l i f f á # f c f W & ' d à in íj® È d & d e ê ê p k ^ J á v ê f 6
seu Deus, e assim ficar preparád^fí&frá'# áí¥ef)èédíiiietito

Agastei-me cfíhíirá If lcnãeíí',Tt>çWtf^^pTI'* 5^;^^;97fiei18;


64:5,9). As várias do
Senhor perturbam alguns leitore»*, s,I>eyqr8£. i^rijirar que
a ira do Senhor é s e m p re a e x p M s s ã ^ a ^ i^ ç ft^ ^ t a do
amor de Deus contra 4 ê ^ s ’as form as ttiôainjustiça. Até a
ira humana contra a inj ustièèH cftref "è Itwv&vely dentro
dos limites do amor e 0d a 1 i g ^ % w Í ^ t ó ^ p i o do
Presidente Kennedy despeitou 4 muitos
povos do mundo. ^Iwraeliifeji ^eseolhida» eujlesjgagdí) pelo
Senhor como pov^santov» ou -separadeocomo inação sacer­
dotal ou intermediária efftrê DèvíS è^í^OfftrAs^n&ções do
^poçéip, profanou-se perante o Sçnhor
pelajsua .m£ff^(Èdp, e ttinba qiiè"ser (âstitfâJ dtí‘è rBÍdimi-

* 0B™ - Ô »«g k
t
i m $ òw •,>; ,

\ ji.p Rêcebfèmosilduas iircppessõss a íespeito do t^atam^ntc*


dos judeus catfób£ naiiB«B)ilênia.: í JÉ eeyto que êtó%,-§efeerr

lopwê ,pr.qvavpl.qge.depo;? da conquipta,


:ò^stótóai%.Spqfla X4m w>í
mus- se\ e ■;
•A PRÔFE6MPODE? ISAtAS

tei rôKmtét "Stígawefeias üeíerêneiasí dÊsíé(pEOfâí«.^C/iL.p


4Çí#Í¥9!á?5:^t> fibfin abntína osc s ,fc:m«-rn ie b finijinc-
E» a M W k ^ v ^ ^ y ^ lí^ m ê m m k ^
e f t f » . BlEètâ é<tf%i&8Psfevera
%M*teátftp!fcr èstói

tàvèílfol^ ü s^ ^ áflB i^ í^ ^ m rfflíí# / ^ u£tía «ím Büí B^’ f Sili


•.''Wp ab tonai bs&íiso fia °>-oí>;7enof^ii£v .eocfiiDgsg tns m
■jb dos G a tó i^ ® fí^ ^ ^ :fe líft in
-o :ií ob [firià-}ferá sb u b h siq so iq fsb q ith ih n li ,*,&¥. . sc-dlll
ofüftb ék)4fni$&fr ísyFi jnodnde $ .u.t foirrsia
an pÇHoüde ofe&filoesb mo Bvt-r/
-ms B8tUHu fliati^mÀHyib £hqò?q eus
-0*KT nãè-mer^teserftltlíinatmo sSúvaejíKí ivfrpíiirjp iwiggoq
~ n a o í,a jn * m ^ q e h M íttb ^ 18í6érç i;o' s b e b c b ib jjb q
*b ^ la^íc-q ateâ . cbr-íb

■iS»iqijsU^.i^íi «iai«iuiéi*rà* « i « c f*i>fe«ri«»b0.1t m n q s i jin sn :


-ã ‘>n ■ ■•^aral»HB«»iVMÍrf9iRteÉP«^!)fk9!P^fesOBí^Hs>i £
10. Poi# «onfiast* na tu IftM M tfo fít/. ; T -!:Í £ fcbfl I) hf; t
ir/iiínuptfHWS^ m x f r .e %orfln 3fa áfc79Q a
•'“i ^ f f l í m * t « r t t ó a p w «p »<**■
riob ctâtirç .«rí.*mBíuio>df: w s y
Í *u á4ufj.*'»*|<m;fl!te«nrBnri rriasMátrputpavíié^e^ t ,Sí-?ecn

e alem de ntim nao na outra. Esta declaração qufe e tírò-

te-se no versículo, 10 como a anrmaçao aa caDílcrma a


íespeitó3ida s i ^ Ó p r i á ® l ( ! â ^ P ^ è i f f l á W » í t e h i g Í f l f e
162 A R. C R AB TR E E

na sua segurança absoluta, e no seu conhecimento, ela se


engana a si mesma, e não entende nada da degradação
e da desgraça que vai sofrer logo, sem dem ora.
Ouve isto, ó voluptuosa, que habitas em confiança.
Tu que amas o luxo e os prazeres das riquezas abundantes,
conquistadas de outras nações, vais sofrer as conseqüên­
cias da tua injustiça. Ágora, neste momento, estás assenta­
da em segurança, vangloriando-te na certeza falsa de que
nunca serás como viúva, e nunca conhecerás a perda de
filhos. Mas, iludida pela prosperidade material do mo­
mento, tu, a senhora arrogante, vais ficar assentada como
viúva em desolação absoluta. Crendo firmemente na
sua própria divinização, a senhorâ elegante julga im ­
possível qualquer fonte de censura da sua pró­
pria divindade ou qualquer poder contra a sua transcen­
dência . (Êste profeta é um do's maiores defensores da re­
ligião profética e do ponto de vista hebraico da história.
Os profetas condenaram o espírito de nacionalismo geral­
mente representado pelos reis ambiciosos que despreza­
vam a religião do concêrto’ do Senhor com o povo de Is­
rael (I Reis 21:1-7; Am . 7:16-17).
A perda de filhos e viuvez é uma frase figurativa
dos dois males que Babilônia vai sofrer. Ela se jul­
gava absolutamente segura contra o perigo dêstes dois
males, a catástrofe militar e a subjugação do seu povo.
A frase Virão sôbre ti repete-se freqüentemente nos ver-
ículos 9, 1T e 13, dando' ênfase ao julgamento inesperado

S lo Senhor sôbre a iniqüidade e a injustiça da Babilônia.

l Babilônia foi largamente conhecida pela prática de fei­


tiçarias e encantamentos. Contrário ao pensamento de
pessoas supersticiosas, a magia não é uma religião' e não
tem poder nenhum, se não nas más conseqüências das
vítimas.
Pois confiaste na tua maldade. O Rôlo' do Mar Morto
tem, confiaste no teu conhecimento, 'jjp jn s , em vez de
A - PR O FE C IA DE ISAÍAS 153

*Tirijn3 • 0 profeta declara que a sabedoria e a gência


•• T T «

dos babilônios fizeram-nos desviar. A sabedoria e a ciên­


cia, do ponto de vista falso, tiveram o resultado contrá­
rio à certeza dos babilônios. A Babilônia não confiava
na maldade, do seu próprio' ponto de vista. Mas nações,
bem como pessoas, são responsáveis pelas conseqüências
das falsas crenças religiosas, não obstante a opinião de
algumas pessoas de que uma religião é tão boa como ou­
tra qualquer, desde que o' adepto seja sincero na sua
crença.
O pecado de Babilônia de confiar na vontade e no de­
sejo próprio, com poder de controlar eventos em seu fa ­
vor pela magia, representa a mentalidade do homem na­
tural. Muitos sábios do mundo pensam que têm o poder
e até a responsabilidade de controlar eventos em favor
do seu bem-estar, sem qualquer consideração para com o
Criador e Dominador do mundo'. Êles assim dizem de si
para si: Eu sou, e não tenho necessidade do socorro di­
vino.
4. A Confiança no Poder Salvador dos Astrólogos, 47:11-15
11. Mas virá sôbre ti o mal,
de que não saberás livrar-te;
calamidade cairá sôbre ti,
da qual não poderás fazer expiação;
de repente virá sôbre ti uma desolação,
de que nada sabes.
12. Deixa-te estar firme com os teus encantamentos,
« com • multidão das tuas feitiçarias,
em que te fatigaste desde a tua mocidade;
talvez possas tirar proveito,
talvez com isso inspirar terror.
13. Estás cansada com os teus muitos conselhos.
Levantem-se agora e te salvem,
os que dissecam os céus,
os que fitam os astros,
os que nas luas novas predizem
o que há de vir sôbre ti.
tS4 ^ A S íR íS R J W K T ir B E ^ a

sr>a®
ca e com o. sentimento de piedade, sôbre a confiança1 da
m m m t m >ç® m
sé^9è é & k tè s é m ^ d é k s s i fè n é p

-,-te o ft i m q o s jíaaísdo ema '.saoígiíai, a s a a s a s a s a te i «bí>


P^tisw£s$>£ifct£-i otíf -j oáigií^t ama »trç» »ò ísoaseq %S£B®$Í£
süí Q # ^ 4 e ifl^ «P ú b s «fé A r â 9 UBffwstefcifcii laáapta^pcomr
encantamentos. Almeida tem de que saberás a OEl&ftm
qy§ ^ R n p q ^ ^ n ^ jT f^ irfiifiiitr^ tífâ íIá i® òífíébim ^, décla-
E%?õ§%^iftxye}j^i9te M lq m ; vprmetí&sq
C^^Í*rflííSíS03®>jg#St«^í|Og sM ai9 ^fits.ü r^iM s^p Y «lr
osteéí^^ r^Bn|§ rsôfep m f smí&fnfiií&Qm
ak^Vtfc& a4§m >& gum W Q ioj(^W m $fflâM ílãpM m f$KÇ®

mtmdmmtQüfkàCMgp o ^ £ g -m M rs m à íis 6 @ ^ i¥ ití)0 tê)


hfc4ft'6$^tr*>6 - i b a h í ? : ^ y y ^ a otíxisí o s n * .00 a íí3 : t e & t â q ,
Com sarcasmo mordaz o profeta exorta o povo p*tra
que fique firm e na certeza da sua segurança. Deixa-te
é s í a F f i é n ^ ^ p ^ s i t t t o ^ á ^ í í r M à í f f t M m 4 } ffiÍM ç á
absoluta no poder invencível dos-<teua «aeaBiamentos, e
da multidão das tuas feitiçairias e*w*l*rç tè^fatigaste desde
a tu a mocidade. Assim descr eye %úflli fütífeá^flIT&â Bêdoria
e conhecimento d o ^ | ® | n | ^ ,. *qft B ^qlfcgn tem -
porâneos o1fc caldeus eram largai&^iítQsbeoríbecislos pelo
apder dos s«ws ®stróáogos- qu© pr^i;rianr^firtTOW c O-va-
tfcinador que advifolfaVà5côítéaá-1bdSs5 pâfa 3o ”st?u3'próprio
pbvo, e calamidaffés paí5&'ol povo
prestígio, honra e revereijeis». 1sA§*Hiiv í)‘cH!pa\a,ímna posi­
ção de influênc*a,’es'pe,derf**m58®cieda!de.8 3FiOÍsgeií&&néntc
reconhecido como políttoj'*& eSt&cHfcW, ^TTQíMffrèn!e nas
épocas da prosperidade do seu .3,^|t|||a'í]^|)dna nú-
merò de livros sôbre os Métóéte Av&tèfloflPS»Wig s^ínive
e Babilojiia. ■■S V -9Í3 3<rí 31ip O
A ’ PftôFEefiSpODB1 IS A ÍA S 865

jsL Ein' qüè *tl!àtJSlliaÉíte <MPte ^ t i g ^ t e dMd&aitàa^mtwir


datte Xfípv 43h22)3í!ÇTalvez possas tirar spraveite^eíT inspj'
T^ntémsoíi íQ jetiIS íSa) Tahsèzoeolno fiso cirnsafe^BtetEt-
ra<yó;a«4ettfniítti^ff7 r Ã3 * Zléfa obn9&Blí £*89 'JVül
tóKs @ ^gr^êüfóíl^Si&^êatf^è Attif«tíM8ifle*tíBíÉ>#s^í/s ré-
cursos no poder dos babilônios. O profetô^e^faottibàpdfâ
agaea do» íu^rogo%^nfr*ílimáei8j,|j>§»eéií§ pe^S §§?&* ou
G O B stela^ S íftJ ii^d ef-ew ^n á-^-m siip íáç^g^ gn feje m
a ^ ^ J E ^ e r íe y i^ s o fu fe iíft ^ r ; sftâffeia
o (â sjã o 3 fa »e P á v s ès ^ % c í^ iv ealfiMlPs e (9 p r^ iç -
iaRioá) seüs p m m o^i^^íiefm cpm Q riS iu ^íd d a^e^t i$fkt£m-
tóífciyíNas & «^ ip ^ d iç ® ^ iir f«c in a to p . e ç ^ i^ a jj»
os^iasfelijsesido ® ^ e io s ? d «is ni«ilogí^bji.. I e M t o e m
o&iastrólojgQssj q íí >s eenasm
«3 ^ j^ d b íT O Ú ite ® fl^ è % »í«'j6 E é É »J (^ © IB te ® S0a b3*?£
litesatvH-a e &ls9.spP8f$^íÔBSKr'td ob'/. . ohèomi ob absb
' i t S i J ^ u t W k o ^ U ^ K o , ■& ' iozz*iqo ■■ÁT.qml ob q
o fogo os devora} •
;>nqòilüf(ii5?dW IjWÈW^at) » í::sis.'nç ob ins-i&fiensffi &)?3
-1 1 .do poder-dafr chamas* ^ ^ , , ,
í] & iM H W r fb iW <>£ <****> obíífib ,ovoq
.niBs&ixjaftWc,¥»^(í:4s^a'Ii»«&ídêl» s&i«áetfhar.!£iríí«i airí fib ?,us>(l
-•fdfi®uM»i» rii^osl««vWwMi«>3oiB «»lBBÍ^ti*M&taíws>d.Gê &
aquêles que negociavam contigo desde a tua mocidadçs ^ j-
êles andam errantes, cada um no seu próprio caminho;
..BbalOT^PfciM «09C&&ÍP4YP i o i l a » 8 ob oíÈBòqífT*! O I
Êstes versículos apresentam o tema áo" Jjul^amento
f j l J 8 & f* ífc i* # 9 É » com
a ^ % ^ f 'W t o f t i ^ i 4 € B . d K ^ í ^ Ô ^ B Í P l * ^ t e g P f e í f
R?MB0süca4©re$, ^ B#pESbu»tfv«m tteüftnqs fiMlíva^t*}^
da^auiáÉfíIiafÉRi®, m a » êfabtaflfesmes íflãasèdwartôlhobiiHb
W oftteíà^i^áao^dfem s^Qiâç^íafcM uetòíikj-sisniiflBiqiáBb
í>Éogbé£Ò sííâbsdoCdadffi^w^tosffípa áfcfrçyaá s^íy^l^íliJrJ
2s2>#4'i7s4) íi;í&tac>ésèPof-è aprcseratxci a^dqwãos-atefinltói
wfenaijpiesio fã^afeia yisam «iH r (tóstrjliçSQodç BaM4ônéa|)dft
^ ê rd o f t e m ©#i»jpósíito sàaiSfiiihDrKila-diliérte^torifloBsieii
156 A . R. C RAB TREE

p o vo . O fogo não é apenas uma brasa brilhante diante da


qual alguém se assenta no inverno para descansar con-
fortàvelmente. É o fogo da destruição justa que o Senhor
Javé está trazendo sôbre a nação que desprezava a justiça
do Verdadeiro Deus. Não há mais esperança para esta
nação arrogante.
Aquêles que negociavam contigo refere-se aos vassa­
los que negociavam còm o império de Babilônia. É a
tradução preferível, e cabe melhor no contexto (Cp. Naum
3:16, 17). Muitas nações e povos negociavam com Ba­
bilônia no período da sua prosperidade material. Com a
queda da grande cidade, terminou a carreira comercial
dos caldeus. Aquêles que negociavam contigo, os seus
vassalos, andam errantes, cada um no seu próprio cami­
nho. Os vassalos em geral se alegravam com a calami­
dade do império. Não havia ninguém que se interessasse
pelo império opressor (Cp. vs. 13b; 45:15; 46:2, 4, 7,
13).
Esta mensagem do profeta é dirigida ao seu próprio
povo, dando ênfase ao tema de que o Senhor Javé é o
Deus da história, e o Juiz de todos aquêles que desprezam
a soberania do Criador e CondutOr de tôda a humani­
dade.
I. O Propósito do Senhor na História e na Profecia,
48:1,22
* Êste capítulo, dirigido aos exilados na véspera da sua
partida de Babilônia, termina a primeira das divisões prin­
cipais desta profecia. O profeta trata de várias dificul­
dades e problemas envolvidos neste evento importante
do' povo escolhido em relação aos novos movimentos na
história das nações contemporâneas. O profeta havia tra-
tadq. nos capítulos anteriores, de vários assuntos relacio­
nados com o propósito do Senhor na criação do mundo
e na direção' da história humana. Tinha discutido o sig-
A PR O FE C IA DE I8A ÍA S 157

nificado da escolha de Israel pelo Senhor em relqgão ao


eterno propósito divino concernente às outras nações do
mundo. Nestas discussões anteriores o profeta deu ênfa­
se ao seu ensino de monoteísmo, declarando repetida­
mente que Javé, o Senhor dos Exércitos, é o único e o
verdadeiro Deus, e que os deuses das nações eram ape­
nas imagens fabricadas pelas mãos do homem.
Neste capitulo o profeta repete, em resumo, o seu
argumento' da história e da profecia, e a relação das pri­
meiras cousas com as cousas novas. Alguns críticos, em
vez de reconhecerem que o profeta trata francamente aqui
dos problemas envolvidos na restauração de Israel, fa­
lam das contradições imaginadas e a falta de harmonia
entre as declarações do profeta neste capitulo e a sua
mensagem de confôrto no’s ensinos anteriores.
É certo que êle condena mais severamente os peca­
dos e a infidelidade de Israel, e fala menos no confôrto
divino. Na profunda discussão do significado da graça
de Deus na escolha, na preservação e no livramento de
Israel do poder dos inimigos, o profeta já havia reconhe­
cido o indiferentismo, a incredulidade e até a oposição de
alguns exilados contra o modo da restauração apresenta­
do pelo profeta.
Mas além dos exilados que não acreditavam plena­
mente na mensagem da restauração, havia outros que não
se interessavam mais na volta para a Palestina. Nos úl­
timos cinqüenta anos nasceu a maioria dos israelitas que
se achavam em cativeiro. Até os velhos, na sua prospe­
ridade material, haviam perdido, em parte pelo menos, o
amor apaixonado da pátria natal, e o profundo desejo de
voltar para a sua terra. Ainda se orgulhavam de ser is­
raelitas, e mantinham a fé no Senhor, no reconhecimento
de que poderiam adorá-lo até no estrangeiro. Assim, o
profeta reconheceu a necessidade imperiosa de condenar
mais severamente os pecados do seu povo, e assim acor-
ÍÍ8
3 A! W R 3<fcR M S>M K «e’ A

<áâqsteiiisjfei«álíl»dadb ofamõlio
onivxb oJiaòqoiq orm ig.
•dGtoa um> fiío-ioiq o ssiohdtofi f^õaauoaib a a t s a K . o b n u p i
V&ifcl&bf «feP®B&iifle ^ 1 'Mnd0r>e(0tP¥íípctí^teí4a í*#v$$Ç%9
o 5 ooinò o á .e o jio ^ S e n ffA Q o lk lâ g o ,àvBt aup alnsm
-oqe m s is .^õçbii^ ?dp#bj|||üab <ro aup s .íiuaQ o ib b fib ia v
' «Á s p n c tò ensgfimi «Ba
!-■'>* o to < a »M »«iÉ 9 |«Mtf»-id«i)¥Ãhq- o olü íiqeo aiastí
-hq ajrtwofcgajM»» fiitòiairi fsb oinamugiB
m» ?.s raoo a^uoa eeitarn
is/p§ s ^ r a g p g g ^ %S«tó«»4Sta í> fiattbJKWiaaarfnotm ab xsv
-ti ,!9£7^í8^ i rfteí^'*6Fifi^^':oetts stehiartehma gBrasídoiq aob
Gfaom7Bâu*bn«*fa& »e shWiyp?i*i>f#!*!tcí*aõ?fhínínoo gjeb rnsl
m* i 3 n B M g B 4W % e tó íd f'íe á tii ^ f t B S ^ r t S e f f l á f l a
pelo seu
< H ftá P etó^SH^ifiSP I0í*BHfip%í>#êta$tò *#r©)asprBfecia
^ F E B t o ffi. « f l ^ o ^ g u i t e a K l - 3ÍwfeÍiçÔoíni « 1 » deir
M t 4 ffin filfíí% rítótuí^rf>^!^èifdatí<á»a®^us^ aograffei
IJ W W S S H te iâ MDSBáeffliste
WcÃft Jüofi&Áíri&eOaiit&kgÉP taeoipareòúdeolsiaei íí>
M ã W lfâ ' bâtó (fu # fe â è è % W cífeEíMWjflaajuetertá a obra
% É ‘^ d l fi9^é(Ãl{*ÊIeB^ P Í « ííô ' ff (atí«g*ai0vàs iéAiesp^m?-
das que vão resultar na salvação de Israeli^oiq oíaq ob
fiP&êfeMdWfe tiftàfebMfefiação
W íW dlfÍM aefW ^faS m ^^M aiêfe-^si^eaflèátasPipatai-
fraS(ítít^ M & «| T . W M S á É ^ íf o^iffSéfy^JátWMS íeèino^
ie M ^ m fis á ^ ^ a n ^ a ^ ^ p tò tS iíííS ite
%% ^ ' f f c u ê P rêpacâP«ftèSftrg5% Í0«ridífe«çã©
n ò s ilB c S íW ^ á s .y ^ l^ 1?0^ xiá^élftí %*ffl©6§á<h
ÇÍ B fê ® a ° n ® M J%áfeâa‘ %*^6ffiJá$af;^Já ÉífKãôodm
exiíM os Natí^M^tfBPdâ&e^'ttá^ stfá"JÜsfieâ 0?'ÔtóSC(j3ii«r-
'm w m m * «k <®> ^ d ^ e i t ó d í » atiwtófcxin
% 'o Ü m : infiSr£,3fH®§ç tf$ r # r 9hím h% 1Wí&&fcSaS«ih<i^
ifepféJeíifítftte fto\a?qi
~fiiiMií^ilífi5ck 'M ^a^li^ep feíraM S n í^, ^ TMtlll^cís^Mfpsi-
A PFSD rrO iAflQ EF! ISA ÍA S 1§#r

ra para entenderem a IfrtWgiráça-'«de^Dees uo^epÉi-oSdê-


les para cum prifêiff ^ lifif ifl fiuffffiêlféJB ffiar1/ãfa a hon­
ra 49í M f $ 9 Í 4°#-,f e r p ^ ° 4 ^ ® M ,& ií ^ cl:)eus •
ÍÈste restante dá0ífíIídudé'!Jüdáí! pdb filü-
lo honroso de IsyggJ* Ç r í^ ^ ^ | ^ A s»^ | v|^|Jes das
águas de Judá é a » ^ « W ^ o Bífoie^tp sbfi&y#i#k1Jíias é di­
fícil de explicar. Com upia .pequena mudança, quase tô-
m ^ v è ã m j u-

Ê s f e d é ^ l f k e % jjfW $èMá cfe wtti££

a' m ie os, ^?SBtóS%^â^Sífâ^ êó$t cfeíaftáà1 Ué^lSs 4fè


d t ffiíífc ffi) f 3M d ^ Í £ Ã ’i ^ b
. V te ^ jtts íí^
o^rafêra^fe ê^à ¥àWãcfcfôJirlterêS'-
séídote ^a&aráosm&^attídeíi&aalsôssHi dotSehhàrw^ o’/.
(!:)b ^ ? flíã é ia # W ^ ^ S è ffla *Jt««<bêm 'á f t M a ^ s â ô y exi-
lM § 7 cÍAl#ffis f é S i M f ^ B ^ V e ríífe iitò gorflràaiz^Síreífei
rtS á& f á í ^ í è f t ^ t o ^ f M ô é g i í ^ ê c M * m «to
fg f 'Mfiâ-áíí fráéféStôík? «% átó¥!ííá%ãatffi«!®Sáfe^fMnftif-'
& k & m {¥ 3 3 ^ á )faefJtík (è f VèlfenftTW?& éÒftf«^éÉfiáS9è
fitfW rf d tíW fe < $ r stf&íffcH* dêíâftiáíãísíobc é sBioaÔbaoi

-d ^ut< tsimo'}ri3s
Êste não é o verbo usado geralmnfeoK! <jíardMefxp*essa«:
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160 A. R. C R AB TR E E

5. Por isso eu ta « declarai há muito,


antes que aconteceram, eu tas anunciei,
para que tu não digas, O meu ídolo as fô*>
a minha imagem de escultura e a de fundição as ordenaram.
6. «lá o tens ouvido; olha para tudo isto;
porventura não o deelararás 7
Desde agora -eu te faço ouvir cousas novas,
cousas ocultas que nunca conheceste.

O versículo 3 fala das primeiras cousas que o Senhor


anunciou e cumpriu desde os tempos antigos (Cp. 41:22-
23; 42 :Ô; 43:9-18; 46:9-10). A história confirma o fato
de que o Senhor havia cumprido as promessas proclajna-
das ao' povo de Israel nos tempos anteriores (41:2 2 ). O
profeta se refere aos muitos eventos na história passada
de Israel, preditos pelo Senhor por intermédio dos profe­
tas e cumpridos de acôrdo com o propósito do Senhor.
No versículo 4 o profeta fala da obstinação dos exila­
dos (Cp. Ez. 3:7-9) . A tua cerviz é tendão de ferro (Cp.
Êx. 32:9; Deut. 0:6, 13). Alguns sugerem que o profeta
está se referindo ao culto pagão dos exilados na Babilô­
nia, como fizeram os exilados no Egito, mas a história in­
dica claramente que o exílio' resultou no abandono das
tendências à idolatria pelos israelitas. O profeta refere-
se antes à longa história da obstinação do povo, não obs­
tante as muitas provas do amor e da misericórdia que ti­
nham recebido do Senhor.
P orlh so eu tas declarei. Pôr intermédio dos seus
| mensageiros, o Senhor havia declarado os eventos futuros
* ao seu povo de Israel para que êle não pudesse atribuir
' tais eventos aos ídolos (Cp. 41:5-7). Foi o Senhor Javé,
e não’ os ídolos, que tinha abençoado e dirigido o povo da
sua escolha através das vicissitudes e crises da história. O
Senhor nunca tinha abandonado o seu povo, nem nos pe­
ríodos da sua infidelidade, como no reino de Manassés,
e Yios anos anteriores do cativeiro (Jer. 44:15-19). As­
sim, o Senhor tinha feito cousas maravilhosas no passa­
A PRO FEC IA DE ISA ÍA S 161

do, que já havia anunciado antecipadamente. Agqj-a Deus


vai fazer maravilhas que não tinha anunciado.
7. São criados agora, e não há muito;. ,
e antes dêste dia delas nunca ouviste,
p a r a q u e n ã o digas : Eis que ]á 'a s sabia.
8. Tu nunca ou vist* nunca conheceste,-.
desde a antigüidade não abriste o teu ouvido.
Porque «u sab>« q n t procederias mui traiçoeiramente,
e que desdé o ventre materno eras chamado transgressor.
São criados agora, e não há muito tem po.E sta pala­
vra criar significa produzir por uma palavra uma, cousa
que nunca existíu amtcs.. Israel nunca tinha.ouvido destas
cousas antes dêste dia. Esta declaração é importante na
determinação' da data desta profecia. .Foi certamente
proferida pouco antes da restauração, e não dois séculos
antes, como dizem alguns. Se tais eventos fôssem anun­
ciados muito tempo antes, não teriam mais interêsse para
o povo da época. Ela 'que eu as sabia. As cousas escondi­
das ou ocultas são conhecidas únicamente por Deus.
O versículo 8 condena severamente o povo de Israel.
Tu nunca ouviste... desde o ventre da tua mãe (Cp. 40:
21, 24, 28). Foi sempre tão obstinado que através da
sua história Israel demonstrou o espírito rebelde, e em
vez de abrir o ouvido para ouvir e entender a verdade,
sempre preferia seguir os seus próprios desejos e
as suas ambições. Também os profetas Oséias, Jeremias
e Ezequiel pensam na história da vacilação da fé de Is­
rael, e nas suas repetidas revoltas contra a autoridade do
Senhor, e contra os ensinos éticos da revelação divina.
Durante a sua história êles geralmente preferiam a reli­
gião mais agradável do cerimonialismo praticado pelas
nações vizinhas. Assim, Israel tinha procedido traiçoeira­
mente desde o seu nascimento conto nação (Cp. 1:2, 3;
E z: 2:6-8; 3:9-26,' 16:3). I' •
Ora, õ Senhor vai apresentar cousas novasMÇtte líwaèl
minca tinha ouvido, e nunca tinhà conhecido: São obràs
162 A . R. C RAB TREE

divinas que os israelitas não tinham a capacidade de en­


tender com todcis os seus podêres intelectuais. Com as
três declarações correlativas no versículo 8 o profeta dá
muita ênfase ao conhecimento puramente divino na pro­
fecia. A frase Por amor do meu nome apresenta um dos
mais profundos ensinos teológicos da Bíblia, a doutrina
da salvação de homens pecaminosos pela graça livre de
Deus, e não pelas obras da lei. O povo de Israel, por cau­
sa da sua infidelidade e o espírito revoltoso contra o con­
cêrto' do Senhor, feito' solenemente (Êx. 19:5) , merecia
â destruição. Apresenta-se aqui também a indicação do
grande significado do concêrto do Senhor com Israel no
propósito eterno do Senhor. Não fo i simplesmente um
pacto entre iguais. O concêrto' originou-se no amor eter­
no, ’ i d n , dò Senhor, e assim encerrava a promessa da
-* •••’ •/ V
graça imerecida para com o povo da sua escolha. Portan­
to, Deus não executa a justiça de cortar o povo infiel, mas
por amor do seu nome Êle preserva a comunidade de Is­
rael^ porque a perda dêste povo poderia ter resultado na
profanação do nome do Senhor entre as nações (Ez.
20:9, 22).
9. Por amor do meu.nome retardo a minha ira,
e por amor do meu louvor a retenho para contiqo,
para que te não venha a exterminar.
10. Eis que te acrisolei, mas não como prata;
< ; prtdei-te na fornalha de aflição.
L 11. Por amor de mim, por amor de mim, eu o faço,
pois como seria profanado o meu nome ?
| A minha glória não a darei a outrem.

. A declaração no versículo 9 de que Israel está em


perigO: de ser exterminado, não concorda com a mensagem
de Confôrto dêste profeta. É uma verdade profunda que
o Senhor não pode ficar indiferente perante a infidelida-
d exlo poivo do concêrto, mas o seu eterno propósito é o
de ajudar o povo na luta e na vitória sôbre a infidelidade.
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 163

P or amor do meu nome retardo, TplKK , a minha ira,

e . . . a retenho, DÍ2PIK , para contigo. O imperfeito dês-


T VI v
tes verbos, que traduzimos no presente, representa o què
o Senhor está fazendo continuamente. Para que não t t
venha a exterminar. É a opinião de alguns comentaris­
tas que esta declaração, indicando que Israel está em pe­
rigo de ser exterminado, não concorda com a mensagem
de confôrto do profeta. Mas a maravilhosa salvação dês­
te terrível perigo de exterminação faz parte da mensagem
de confôrto.
O profeta declara no versículo 10 que em vez de ex­
terminar o povo de Israel, o Senhor vai purificando, acri-
solando a nação na fornalha da aflição. O problema do
sofrimento é muito complicado, mas é certo que um dos
resultados da aflição é o de acordar o aflito, ou o punido,
para reconhecer a suafraqueza e a sua culpa; bem como
a dependência do poder do alto, ou o poder supremo do
Senhor. A frase nao como prata é difícil neste contexto.
A preposição pode significar também para ou com refe­
rência a. Não como prata, não tão severamente como se
acrisola a prata.
P or amor de mim, por amor de mim, eu o faço. O
hebraico omite o' objeto do verbo faço, o. O profeta de­
clara positivamente que o Senhor salvará a nação infiel.
Eu faço (Cp. 41:4; 44:2,3; 46:4). Como seria profana­
do o meu nome? A palavra meu nome não se acha no
hebraico, mas faz parte do texto da LX X , e cabe bem
aqui. O Rôlo do' Mar Morto tem, Seria Eu profanado?
A palavra Nome é freqüentemente sinônimo da pessoa
mesma (Cp. 48:1, 2, 9, 19) .
Êste versículo é mais uma das declarações dêste pro­
feta sôbre a maravilhosa graça salvadora do Senhor . Deus
está sempre salvando pecadores apesar da oposição dêles.
Êle salvará a Israel apesar da infidelidade dêste no passa-
m A R. C RAB TREE

do, por amor do seu próprio Nome. O Senhor Javé não


abandona a salvação do homem que se mostra rebelde
e indigno da graça divina, mas demonstra o poder do
seu amor redentor na redenção dos fracos e dos indignos
dos homens. , A^minha glória não a dárèi a outrem (Çp ;
43:8) . Q Senhor esta demonstrando a sua glória de u";i
maneira especial lio preparo para o livramento dos exi­
lados do poder babilônico. Enquanto a infidelidade de Is­
rael merece a condenação severa do profeta, o Senhor
Javé vai demonstrar a sua gloria nã revelação das cousas
riòvas e ria salvação do seu povo, que está no cativeiro
como ó resultado dos seus pecados, de acôrdo còm ò amor
fiel do seu concêrto. >
• 12. Dá-me -ouvidos, ó Jacó. : . ■' ;
i . í i e.tü Israel, a quem chamei ! :
; Eu sou Êle, Eu sou o primeiro,
e eu *ou o último.
13. Sim, a minha mão fundou a terra,
— : « a minha destra estend eu os céu s;
quando Eu os chamar,
. êle» se apresentarão juntos.
14. Ajuntai-vos, todos vós, e ouvi I
Quem dentre êles tem anunciado estas cousas ?
O Senhor o ama e executará o seu propósito contra a Babilônia,
■ o -aeu braço será contra os caldeus.

. 2. Nos versículos 12-16, o profeta, explica as coisas


' ” Ov8s do $Brsículo> 6. A Babilônia será conquistada por
f iro, instrumento na mão do Senhor, e ós israelitas exila-
os serão libertados do poder dos caldeus, e voltarão para
a sua terra, com a missão de proclamar o louvor do Se­
nhor Javé, o Salvador do seu servo Jacó (48:20).
Dá-me ouvidos, ó Jacó. Jacó deve entender o signi­
ficado da sua grande libertação, como também a grande­
za, vó .poder e o maravilhoso amor do seu Salvador. É
o Senhor Javé, o Criador dos céus e da terra (40:12-31)
quem Hbertará os israelitas do poder do inimigo. Israel,
A PRO FEC IA DE ISAtAS 166

a quem chamei ou o meu chamado é o meu escolhido


(43:20). Eu sou Êlle, Eu soú o Primeiro, Eü sou o Último.
Esta tríade dá em resumo a teologia do profeta. O Se­
nhor Javé é o Únicd, o Verdadeiro, o Eterno Deus, o Cria­
dor do universo e o Condutor da história de acôrdo com
o seu eterno e infalível propósito (41:4; 44:6).
A mão do Senhor fundou a terra, e a sua destra es­
tendeu os céus (Cp. 40:12, 22, 26; Sal. 102:25),, &stç
profeta acentua freqüentemente o' propósito do Senhor
na criação e na história da humanidade. Israel qçupa
um lugar especial na história, em perfeita harmonia com
o eterno propósito do Criador. Deus é soberano na dire­
ção do universo que Êle criou. Quando Eú os chamar,
os céus e a terra sé apresentarão juntos.
As palavras Ajuntai-vos do versículo 14 são dirigidas,
não às nações como em 41:1-4, mas ao povo de Israel.
Alguns manuscritos têm entre vós em vez de entre êles.
Alguns pensam que a pergunta, Quem dentre êles teirç
anunciado estas cousas? se refere aos “ não-deuses” , ou
aos ídolos de 41:21. A pergunta é obscura por falta da
relação direta com o pensamento geral do versículo. O
Senhor o ama e executa o seu propósito contra a Babi­
lônia . A L X X não contém um têrmo que signifique o Se­
nhor . Alguns mudam ó sufixo do verbo para a primeira
pessoa, e assim traduzem: O meu amigo executará o meu
prazer contra a Babilônia. Esta tradução dá a Ciro o
nôvo título de amigo, o mesmo que designa Abraão em
41:8. Mas isto certamente não significa que Ciro èra a
mesma qualidade de amigo do Senhor cotao era AbraSò
(41:8). (V er também 44:28; 45:1). A última cláusula dof
versículo é especialmente difícil. A L X X tem “ para dés-
truir a semente dos caldeus” , assim lendo , em v t »

de ynr .
166 A R. C R AB TR E E

15. Eu, Eu tenho falado, e também o chamai.


Eu « trouxa a farei próspero o ssu caminho.
16. Chagai-vos a mim, ouvi isto :
N io falai em segredo dasde o prinefpio;
dasda o tempo em que isso aconteceu eu eatava l i .
Agora o Senhor Javé me enviou a mim • o seu Espírito.

O versículo 15 é uma resposta enfática à pergunta da


segunda linha do versículo 14. Eu, eu tenho falado; eu
chamei; eu trouxe; êle prosperará. Assim é descrito que
o Senhor usou Ciro co'mo instrumento na realização do
propósito divino.
0 versículo 16 também apresenta algumas dificulda­
des de interpretação.1Por intermédio do profeta, o Se­
nhor chama o seu povo para ouvir a sua própria mensa­
gem a respeito de si mesmò. Não falei em segrêdo desde
ò princípio (45:19). Òs intérpretes em geral dizem que
as palavras desde o princípio se referiem à revelação do 1
Senhor aos seus servos, os profetas, desde o tempo de
Moisés. Não se referem ao propósito do Senhor, de usar
Ciro na libertação dos exilados, pois esta revelação faz
parte das últimas cousas. O Senhor revelou-se claramente
nos tempos passados. Agora está chegando a hora para
o Senhor cumprir a promessa que fizera ao povo de Is­
rael por intermédio do seu mensageiro. Êle não. se ocul­
tará na véspera da realização do seu grande propósito’ de
( libertar o*$eu povo do cativeiro, e restaurá-lo para a sua
L própria terra;
| O Senhor Javé me enviou a mim e o seu Espírito.
Esta declaração é claramente do profeta, a única vez que
fala de si mesmo, fora de 40:6. 0 seu Espírito é objeto
diréto do verbo enviou. O Velho Testamento' não declara
em qualquer lugar que o Espirito de Deus enviou os pro­
fetas, mas declara freqüentemente a operação do Espirito
naSrida e na mensagem dos profetas (Is. 61:1; Ez. 2:2,
11:5, 37:1; Zac. 7:12).
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 167

17. Assim dix o Senhor, o tsu Redentor,


o 8anto de Israel :
Eu sou o Senhor, 0 teu Deus,
que te ensina o que 6 útil,
e te guia pelo caminho em que deves andar.
18. Oxalá que tivesM s dado ouvidos aos meus mandamentos!
Então teria sido • tua paz como um rio^
e • tua justiça oomo as ondas do mar;
19. a tua posteridade teria sido como a areia,
e os teus descendente* como os seus grãos;
o seu nome nunca feria cortado
nem destruído de diante de mim;

3. Os versículos 17-19 falam da maravilhosa com-,


paixão do Senhor para com Israel. Esta linda passagem
é semelhante ao Salmo 81:13-16. O próprio Senhor de­
clara pelo profeita que o pecado e a desobediência de Is­
rael tinham limitado a realização dos propósitos do seu
amor para com o povo da sua escolha (Cp. Luc. 13:34) .
Descreve-se então em linguagem poética o que teria sido
a história da vida e da paz de Israel, se êle tivesse dado
ouvidos à orientação do seu Deus.
Apresentam-se no versículo' 17 alguns dos nomes, de
profunda significação, do Deus de Israel: Redentor, Santo,
Mestre e Diretor (47:4; 49:7; 54:5). Através da história
de Israel, desde a libertação do poder do Egito, o Senhor
Javé lhe havia transmitido a Tora, a revelação divina por
intermédio dos profetas. A direção da vida nacional de
Israel pelo Senhor e o reconhecimento, embora imperfei­
to, do Senhor Javé como o Deus de Israel distinguiu e se­
parou aquêle povo de tôdas as outras nações do mundo
(Êx. 13:18, 21; 15:13; Deut. 4:27; 29:5; Sal. 5:8; 23:2;
27:11; 43:3; 139:10, 24; Is. 40:11; 55:12; 63:13).
Se Israel tivesse dado' ouvidos aos mandamentos do
Senhor no passado (v . 18) de acôrdo com o desejo e o
propósito do Senhor, Deus poderia ter enriquecido multo
mais a vida nacional do seu povo. O mensageiro do S**
nhor fala em têrmos brilhantes das bênçãos da libertagfgy
168 A R. C R AB TR E E

de Israel, e alguns dizem que a restauração do povo es­


colhido do cativeiro não cumpriu perfeitamente esta
grande visão do profeta. 0 profeta entendeu os problemas
e as dificuldades que surgiriam na volta do cativeiro, e
no restabelecimento de Israel na sua terra, mas na lin­
guagem poética da fé no propósito do Senhor, a sua exul­
tante visão foi mais perfeitamente cumprida do que mui­
tos comentaristas dizem. É fato da revelação divina que o
Deus Soberano limita o seu próprio poder pela vontade li­
vre que concede ao homem. Pela obediência e a fidelidade
ao Senhor, Israel poderia ter sido como’ rio perene ou como
as ondas do mar (Cp. 66:12; Am. 5:24). Mas a limitação do
poder do Senhor pela infidelidade do' homem não impede
a operação da graça imerecida de Deus nasalvação de
Israel ou de qualquer pessoa. Se o amor imutável eper­
sistente do Senhor não tivesse constrangido o povo de
Israel, êle nunca teria sido vitorioso no cumprimento fi­
nal da sua missão. Mas é fato reconhecido por todos os
profetas que Israel perdeu muitas bênçãos preciosas do
Senhor pela obstinação e pela falta de obediência.
4. O Cântico de Vitória dêste Grande Profeta, 48:20-22
20.Saí de Babilônia, fugi dos caldeus,
anunciai isto com voz de júbilo, proclamai-o.
levai-o at£ ao fim da terra;
dizei: O Senhor remiu o seu servo Jacó.
1 21: Não paàfeceram sêde, quando os guiou pelos desertos;
1 fêz-lhes correr água da rocha;
V . fendeu a rocha e a água correu.
22 N io há paz, diz o Senhor, para os ímpios.

Êstes lindos versículos do profeta da consolação apre­


sentam a conclusão da primeira divisão principal da pro­
fecia. É cântico de júbilo que celebra o livramento dos ju-
dèus,.exjlados e a sua volta para a pátria. Estava chegando
a hora de libertação para Israel, subjugado ao poder pa­
gão de Babilônia desde 587. É o próprio Senhor Javé, o
A- PR O FE C IA DE ISAÍAS

Deus de Israel e o Condutor da sua história, quem esiá rea­


lizando esta maravilhosa vitória de profunda significação,
não sòmente para o futuro do povo escolhido, mas tam­
bém para realizar o seu eterno propósito concernente 3.
todos os povos da terra.
As exortações do profeta são breves e urgentes. Saí
de Babilônia, fugi dos caldeus (Cp. Jer. 51^6), e publi­
cai as boas novas de que o Senhor remiu 0 seu servo Jacó.
No versículo 21 o profeta se lembra do primeiro êxodo
(Êx. 17:6; Naúm. 20:11) e do desvêlo do Senhor para com
o seu povo naquela experiência. O cuidado carinhoso do
seu povo 110 primeiro êxodo é uma prtímessa infalível do
mesmo socorro do Senhor no segundo livramento do seu
povo (Cp. 41:18; 42:19-21).
As palavras do versículo 22 são as mesmas de 57:21,
e segundo a opinião de muitos, foram acrescentadas aqui
por um redator para marcar a conclusão desta divisão da
profecia.
II. A Redenção de Israel, 49:1-55:13
O mensageiro do Senhor apresenta nestes capítulos
a segunda das divisões principais desta profecia. A data
desta seção cai dentro' do período da queda da Babilônia
em 538, ou de pouco tempo antes, e 536, na véspera da
volta dos judeus para a Palestina. N ão se encontra nestes
capítulos a discussão de vários assuntos que preocupavam
o pensamento do profeta nos capítulos 40:48. Não' diz
mais nada sôbre a impotência dos ídolos. Não tem mais
nada a dizer sôbre Ciro como instrumento no serviço do
Senhor. Não se refere mais à Babilônia.
Na aprdximação da hora do livramento de Israel, o
profeta fala mais da Palestina, e especialmente de Jeru­
salém, ou Sião, a cidade do Santo Templo. Êle dirige
várias mensagens à cidade devastada de Jerusalém, que
no seu pensamento tipifica a vida e o espírito de Israel.
Jerusalém era a cidade de Davi, o centro do verdadeiío
170 A. R. C R AB TR E E

culto do Senhor depois das reformas de Josias em 621,


onde os viandantes de várias partes da terra subiam para
adorar ao Senhor, e se sentiam na verdadeira presença de
Deus. Havia perigos neste ponto de vista, e não há dú­
vida de que o exílio era uma bênção indireta para os ju­
deus, que aprenderam por experiência que podiam pres­
tar culto ao Criador dos céus e da terra em qualquer lu­
gar. Mas Jerusalém ainda simbolizava a vida política e
religiosa da sua nação'. Quando ò profeta fala de Sião ou
de Jerusalém, está pensando nás bênçãos especiais do
povo escolhido do Senhor. Àgora êle centraliza o seu
pensamento na verdadeira consolação de Israel. Trata do
futuro glorioso' dêste povo que será realizado pelo restabe­
lecimento da vida nacional em Sião, a cidade do Senhor.
Encontram-se também nestes capítulos três dos qua­
tro Cânticos do Servo do Senhor: 49:1-6; 50:4-11; 52:13-
53:12. O primeiro dêstes cânticos se acha em 42:1-6.
Surgem váriote problemas e dificuldades na interpretação
destas passagens. Quem é o Servo ? É o mesmo em tôdas
estas passagens? Um grupo de intérpretes pensa que o
Servo é o próprio Israel, mas alguns dêstes julgam que o
Servo Sofredor era o profeta Jeremias, Concordamos com
ois intérpretes que reconhecem a unidade distinta dos qua­
tro cânticos, e que todos êstes se referem a uma Pessoa,
ò Servo .Sofredor do Senhor. Por seus sofrimentos vicá-
t rios êste Hfrande Servo do Senhor trará redenção ao povo
de Israel, e será também o Salvador dos gentios.
£
A . O Livramento e a Consolação de Israel, 49:1-26
Israel será libertado da humilhante submissão pelo
poder do Senhor e levantado' para uma posição de honra
e poder entre os povos do mundo. Os exilados, até aquê-
làs que se acham nas partes mais distantes da terra, vol­
tarão, à sua terra.
A PR O FEC IA DE ISAÍAS 171

1. O Servo do Senhor Reunirá e Trará os Preservados de


Jacó ao seu Deus, e Será Também o Salvador dos Gentios^
até os Confins da Terra, 49:1-6
1 Ouvi-me, 6 terras litorâneas,
e vós, povos de longe, escutai.
O Senhor me chamou desde o ventre,
desde as entranhas da minha m ie fèz merçção de meu nome.'
2. Fêz a minha bôca como uma espada aguda,
na sombra da sua mão me escondeu;
e fêz-me como uma flecha polida,
e me escondeu na sua aljava.
3. E me disse : Tu is o meu servo,
Israel, por quem hei de ser glorlficado.

A mensagem dêste segundo Cântico que o Servo do


Senhor dirige às nações segue a passagem em 42:1-4, e
acrescenta mais alguns característicos novos ao Retrato
apresentado naquela descrição. É o próprio Servo quem
fala nestes seis versicultís aos remanescentes de Israel, e
aos gentios até à extremidade da terra, para os quais já
havia recebido a sua còmissão (4 2 :4 ). Falando no seu
próprio nome, o Servo declara que tinha recebido a sua
incumbência missionária diretamente do Senhor Javé.
O Senhor me chamou desde o ventre (Cp. Jer. 1:5) . As­
sim, em poucas palavras, o‘ Servo fala da história da sua
vida e da sua comunhão entranhada com o Senhor Javé,
o Deus de Israel. Esta experiência do Servo é muito mais
profunda e bem diferente de qualquer entendimento que
o povo de Israel tinha da sua vocação. Alguns intérpre­
tes dizem que o Servo do Senhor é a personificação de Is­
rael idealizado, mas êles não podem explicar satisfato­
riamente a atividade pessoal do ideal no livramento de Is­
rael do cativeiro, e na conversão dos gentios. Outra difi­
culdade é o fato de que o Servo do Senhor é claramente
distinguido do povo de Israel.
No versículo 3 o Servo é chamado Israel, e êste fato
apresenta uma perplexidade, à luz da distinção geral do
172 A R. C RAB TRE E

Servo nos quatro Cânticos. É verdade, que fora dos Cân­


ticos, Israel chama-se o servo do Senhor, algumas vêzes
(41:8-9; 44:1-2, 21; 45:4; 48:20). No versículo 5 o pró­
prio Servo tem a missão de trazer Jacó, e reunir Israel
ao Senhor. Como se explica que Israel tenha a missão
de levar Israel ao Senhor? Por causa desta dificuldade al­
guns intérpretes eliminam a palavra Israel do versículo
3. Mas há apénas vim manuscrito antigo que deixa fora
esta palavra. O Rôlo do Mar Morto contém Israel. Com
tôdas estas evidências não se pode justificar a eliminação
desta palavra do texto.
Mas quando reconhecemos o fato de que o nome Is­
rael, Príncipe de Deus, foi dado primeiro a uma pessoa,
Jacó, e só mais tarde usado para designar os seus descen­
dentes como a nação, certamente podemos acreditar que
ai palavra é usada aqui também para designar a pessoa
do iServo do Senhor. Portanto, nãó podemos aceitar a
declaração de Skinner, grande intérprete, de que a palavra
Israel no Versículo 3 “ é fatal para a concepção individua­
lista do Servo” . 1 O nome Israel já representou a concep­
ção individualista, como nome pessoal de Jacó em Gêne­
sis 32:28, e mais uma dúzia de outras referências. Ao
mesmo tempo, podemos reconhecer que Israel pode signi­
ficar aqui o restante ou o grupo fiel dos israelitas, mas
não a nação inteira que nunca foi solidária na fidelidade
, ao Senho*,
Se a palavra Israel nestes versículos significa a per-
, ..^xJficação dos israelitas fiéis como o Servo do Senhor,
' é perfeitamente claro, que nos cânticos terceiro e quarto,
o' Servo é uma pessoa que se distingue definitivamente dos
israelitas como nação. Alguns intérpretes que reconhe­
cem o Servo como pessoa declaram que êle é o próprio
profeta dêstes cânticos, ou o profeta Jeremias que já ti-
1. T h e B o o k of t h e P r o p h e t Isaia h , C a p s . 40-66, p. 99, R e v .
J . *S k i n n e r , D . D .
A PROFEC IA DE ISAÍAS 173

nlm sofrido perseguição da parte do seu povo, jiias não


sofreu martírio, como o Servo de Isaias 53.2 O Servo nun­
ca se apresenta como rei conquistador, nem sé identifica
nas Escrituras do Velho Testamento como o Messias,
mas segundo o Nôvo Testamento Jesus Cristo cumpre as
profecias sôbre estas duas grandes figuras.
Como diz o Dr. H. H. Rowley, num.jjrtigo sôbre o
Servo Sofredor, traduzido’ para a Revista Teológica de
julho de 1954: “ Êle é, antes, um sofredor humilde, que
por meio do seu sofrimento leva homens ao arrependi­
mento perante Deus, e cujo poder surge do seu sacrifício
em favor dos homens. 0 seu sacrifício descreve-se como
oferta pela culpa.” Assim, um grupo crescente de erudi­
tos modernos reconhece que êstes cânticos do Servo são
perfeitamente harmônicos na descrição dêste Servo dò
Sènhor, e que culminam, no capítulo 53, com a discussão
dêste Representante do Senhor, que no seu sofrimento
vicário levou sôbre si a iniqüidade de nós todos.
O profeta declara que o Servo foi bem preparado pelo
Senhor para cumprir a sua nobre missão. Fêz a minha
bôca como espada aguda. O Senhor Javé lhe deu a língua
dos eruditos. Êle trará ao seu povo e a tôdas as nações
a mais completa revelação do caráter e do propósito eter­
no do Senhor. Assim, o Servo é o' mais perfeito de tõdos
os profetas e mensageiros do Senhor. É mais do que
um profeta; é o Salvador da humanidade. É flecha po­
lida, escondida na aljava do Senhor até à plenitude do
tempo.
Tu és o meu Servo, Israel, por quem me gloríficarei.
Se o Servo é uma pessoa, Príncipe de Deus, ou o pequeno
grupo dos fiéis de Israel, o Senhor Javé será glorificado
por êle.
4. Mas eu disse : Debalde tenho trabalhado,
inútil e vãmente eu gastei as minhas fôrças;

S. The Book of Isaiah, Vol II, Cap. XVI, George Adam Smith
174 A R. CRABTRE E

contudo, 6 certo que o meu direito está com o Senhor,


•e.a minha recompensa está com o meu Deus.
5. £ agora diz o Senhor,
que me formou desde o ventre para ser o seu servo,
para lhe tornar a trazer Jacó,
e pára que Israel lhe seja reunido,
pois eu sou honrado aos olhos do Serhor,
e o meu Deus é a minha fôrça
6. Êle diz; Pouco é o sêres o meu servo,

e tornares a trazer-os preservados de Israel;


eu te darei como. luz para os gentios,
para sêres a minha ;salvação até à extremidade da terra.

E eu, eu disse, tenho trabalhado em vão. Não obs­


tante faltando-lhe conseguir logo os resultados que espe­
rava, o Servo ; nãp perdeu a confiança na grandeza e na
glória da sua missão, porque tinha a certeza de que o seu
direito, , e a sua recompensa, n^J?£ , o feliz êxi­
T I *
to do seu serviço estavam nas mãos do Senhor. Todo ò
pensamento e tôdà a esperança do Servo se centralizavam
no Senhor Javé, o seu Deus.

Alguns intérpretes pensam, com Moffatt, que as úl­


timas duas linhas do versículo 5 seguiram originalmente
o versículo' 3, mas George Adam Smith e outros reconhe­
cem a lógica do pensamento na ordem do Texto Masso-
'tico. %

O profeta expressa claramente, nos versículos 5 e 6, o


opósito do Senhor na formação do seu Servo. O Servo
é formado e chamado para levantar as tribos de Jacó, res­
taurar os preservados de Israel e levar o conhecimento da
salvação do Senhor a tódos os homens. Assim, o Servo
representa o alvo eterno de Javé, e fica encorajado na
contemplação da grande obra que há de realizar. Ciro
libertou^os exilados do poder político das nações, mas o
A . PROFECIA DE ISAÍAS 175

Servo do Senlior abrirá os olhos dos cegos para que .ve­


jam a glória do Senhor, e livrará os presos da tirania
do pecado para que cantem um nôvo hino e louvem ao
Senhor até aos confins da terra. No versículo 4 o Servo
expressou surprêsa pela falta de êxito feliz do seu trabalho
entre o povo de Israel. Mas a palavra agora, H n j? , evi-
T -

dentemente, indica a mudança quanto aos rêsultados do


seu serviço entre as tribos de Jacó . O verbo >

trazer de nôvo, no v . 5, e , reunir, no v . 6, descre-


* T

vem o cumprimento' da missão do Servo aos preservados


de Israel.
Para que Israel lhe seja reunido'. Esta palavra 1^5
no v. 5, evidentemente, representa o texto original do he­
braico em vez do negativo do Texto Massorético. É
claramente o Servo do Senhor, e nãci a nação de Israel,
que trará de nôvo ou tomará a trazer Jacó ao Senhor, e
reunirá Israel com o séu Deus. Os intérpretes que con-r
fúndem o Servo com a nação de Israel reconhecem a con­
fusão de traduzir, Israel reunirá Isráel com o seu Deus,
e procuram evitar esta dificuldade pela declaração de que
o Senhor é o sujeito' dos verbos tom ar a trazer e reunir.
Esta é claramente uma interpretação forçada. Pois eu sou
honrado aos olhos do Senhor. Pois eu, o Servo, sou hon­
rado' porque trouxe Jacó ao Senhor e reuni Israel com o
seü Deus. O profeta não diz que o Senhor é honrado aos
olhos do Senhor porque trouxe Jacó ao Senhor. É perfei­
tamente evidente que êstes seis versículos tratam da Pes­
soa e da missão dupla do' Servo do Senhor. 0 poder do
Servo foi recebido do Senhor juntamente com a sua co­
missão .
A missão do Servo do Senhor, como já notamos, se
estende além do pòvo de Israel, até às nações do mundo.
176 A. R. C RAB TR EE

O Senhor deu ao seu Servo a comissão de ser uma luz para


os gentios (Luc. 2:32), e para ser a salvação do Senhor
até aos confins da terra.

2. O Futuro Mais Brilhante pará Israel, 49:7-13

7. Assim diz o Senhor,


o Redentor de Israel, o Santo déle,
ao que é profundamente desprezado, abominado das nações,
ao servo dos que dominam :
Reis verão e se levantarão;
príncipes, e se prostrarão;
por causa do Senhor, que é fiel,
o Santo de Israel que te eseolheu.

Alguns pensam que os versículos 7-13 continuam o


Cântico do Servò. Mas é claro que o Cântico do Servo
dos versículos 1-6 é a fonte de uma série de esperanças e
promessas de consolação. No Cântico, é o Servo do Se­
nhor quem fala da sua grande missão dupla. O profeta,
então, procede com a discussão das mudanças que o povo
de Israel vai experimentar no futuro próximo, em relação
aos povos contemporâneos, como o resultado da obra do
Servo. O período de humilhação degradante, com o des-
prêzo de Israel pelas nações mais poderosas, vai passar
com a restauração iminente dos exilados do cativeiro.
Êste versículo 7 aparentemente indica que o profeta esta-
! va antecipabdo a obra suprema do Servo em 52:13-53:12.
|0 fato de que o Senhor oferece salvação a tôdas as na­
ç õ e s do mundo, por intermédio do Servo, engrandece a
esperança futura de Israel. O dia da vitória está chegan­
do. Com a volta dos israelitas exilados para a sua terra,
os reis e os príncipes reconhecerão a grandeza espiritual
da pequena nação que tinham desprezado.
O profeta, na sua discussão, está confirmando as pro­
messas do Servo. Aqui o próprio Senhor se apresenta
A PROFEC IA DE ISAÍAS 17?

como o Redentor de Israel, o Santo de IsraeL Est^decla­


ração certamente não contradiz o ensino dos Cânticos de
que o Servo Sofredor do Senhor levou sôbre si as enfermi­
dades e as dores do povo de Israel, e de.todos os povos do
mundo. É claro, porém, que o profeta não está tratando
diretamente da obra do Servo nestes versículos.
Os reis e os príncipes do mundo v e rã o s glória futu­
ra de Israel, e se levantarão e se prostrarao perante o Se­
nhor, no reconhecimento da fidelidade de Javé, o Santo
de Israel. Ao que é desprezado de alma, .
V v > •

ou profundamente desprezado, e o abandonado da»


nações,'•12 , é Israel. Ao servo dos que dominam
•• T t •

refere-se ao fato de que Israel tinha sido o servo de na­


ções poderosas.
Os versículos 8-12 descrevem o livramento e a restau­
ração dos israelitas que ainda estão no cativeiro. No tem­
po aceitável Èu te respondi. O tempo aceitável ou favo­
rável é o dia da operação da graça de Deus no espírito
dos fiéis (Cp. 61; 2 e II Cor. 6:2) . É qualquer dia ou oca­
sião quando õ povo, ou o homem, está preparado para
abrir o coração e receber as bênçãos de Deus . A pregação
do profeta visava ao preparo dos exilados para obedecer
à chamada do Senhor, e voltar para a sua terra. O tem­
po perfeito dos verbos responder e ajudar é o perfeito
profético, ou o perfeito de certeza. O Rôlo do Mar Morto
tem o imperfeito dêstes verbos, e assim indica que o pro­
feta não está falando do" auxílio do Senhor no passado,
mas do seu socorro na restauração de Israel no futura
imediato. Há pouca diferença entre o sentido do imper­
feito do verbo hebraico e o perfeito profético.
8. Assim diz o Senhor :
No tempo aceitável Eu te respondi,
e no dia da salvação Eu te ajudei;
178 A. R. CRABTREE

Eu te guardei e te dei
, por concêrto do povo,
para restabelecer a terra,
para repartir as herdades assoladas;
9. dizendo aos presos: Vinde,
e aos que estão em trevas: Aparecei.
Êles pastarão nos caminhos
e em todos os altos desnudos terão o seu pasto.
10. Não terão fome nem sêde,
não os molestará o vento abrasador nem o sol,
porque o que dêles se compadece os guiará,
e os conduzirá aos mananciais das águas.

O imperfeito dos verbos guardar e dar do versículo 8


dá ênfase ao fato de que o Senhor havia guardado o seu
povo através da história, e que lhe tinha dado o concêrto,
J V f í > indissolúvel. A palavra aliança certamente não
traduz o sentido desta palavra, um dos têrmos mais ricos
do Velho Testamento. Os títulos O Velho Testamento e O
N ôvo Testamento significam ó Antigo e o Nôvo Concêrto.
O pequeno grupo de israelitas fiéis que obedeceram à
orientação do Senhor e voltaram para a sua terra, depois
da longa noite no exílio, é um exemplo da profunda sig­
nificação do Concêrto indissolúvel entre Javé e o seu povo.
O Senhor é o sujeito dos verbos nos versículos 9 e 10.
Êle consola e encoraja os exilados abatidos e subjugados
ao domínio dós caldeus. Promete que a hora está chega n-
. do quandÓ*êles serão libertados, e terão uma nova expe-
kriência do amor e da graça do Santo de Israel. O profeta
Idescreve os israelitas, libertados do poder dos caldeus, na
marcha para a sua terra, como ovelhas guiadas pelo Se­
nhor como o seu Bom Pastor (Cp. 40:10-11). Êles pas­
tarão nos caminhos. Evidentemente, os israelitas esta-
vam pensando nas dificuldades que tinham que enfrentar
na sua longa viagem, na fom e e na sêde que haviam de
sofrer. Antecipando os seus pensamentos, Deus lhes
promete proteção e cuidado carinhoso. Êle lhes fornecerá
A PROFECIA DE ISAÍAS 179

alimento em abundância, e os protegerá do ven-


T T

to abrasador, ou as areias quentes do deserto.


11. E farei de todos os meus montes um caminho;
e as minhas Verdades serão alteadas.
12. Eis que êstes virão de longe,
e eis que aquêles do norte e do ocidente,
e aquêles outros da terra Sinim. **
13 Cantai de alegria, ó céus, e exultai, 6 terra;
e vós, ó montes, rompei em cânticos I
Pois o Senhor consolou o seu povo,
e se compadecerá dos seus aflitos.

Deus preparará o caminho para os viandantes, pelos


montes e os vales. Êste é claramente o sentido das pala­
vras, farei de todos os meus montes um caminho, e as
minhas veredas serão alteadas.
Os exilados virão de longe, das partes distantes da
terra, do norte e do ocidente, e aquêles outros da terra de
Sinim. Tem havido muita discussão em tôrno desta pa­
lavra. O Rôlo do Mar Morto tem em vez de
D ^C do Texto Massorético. Das várias identificações
sugeridas, China recebeu mais atenção até recentemente.
Agora muitos estudantes pensam que Sinim ou Sewe-
nim foi Assouã, associado com a colônia dos judeus de Ele-
fantina no tempo do Exílio (Ver a discussão sôbre Os Pa­
piros de Elefantina, Arqueologia Bíblica do autor, pgs.
59-63).
A linda poesia lírica do v. 13 é um hino de gratidão
e louvor ao Senhor por tudo que tinha feito em favor do
seu povo (Cp. 42:10-12; 44:23; 55:12-13). Cantai, ó céus,
e exultai, ó terra. Estas palavras concordam com a ênfase
que êste profeta põe na soberania do' Senhor na criação e
na história humana. Tôda a criação de Deus se regozija
com a sua obra redentora.
180 A. R. CR A B TR E E

3. Sião Será Povoada de Nôvo e os Seus Lugares


Desolados Serão Restabelecidos, 49:14-21
14. Mas Sião disse: O Senhor me desamparou,
o meu Senhor se esqueceu de mim.
15. Acaso pode u’a mulher esquecer-se do filho que ainda mama,
de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre ?
Ainda que esta se esquecesse,
eu não me esquecerei de t i .
O profeta fala nestes versículos sôbre a volta dos
exilados para a sua cidade de Sião; o amor imutável do
Senhor para o seu povo; o encantamento e o regozijo do
povo' na sua nova cidade em contraste com o seu desespê-
rò no exílio. A linguagem poética da passagém é fortemen­
te figurativa, e muito linda. Sião, a cidade de Jerusalém,
é idealizada e personificada como a espôsa de Javé e a mãe
de seus habitantes.
: ; A transição da mensagem profética da seção ante­
rior está clara. 0 profeta havia transmitido aos exilados
a grande mensagem da compaixão do’ Senhor e das ricas
promessas do seu socorro para os viandantes no caminho
para a sua terra. Mas os judeus, no exílio, na hora da
saída de Babilônia, ainda se queixam; 0 Senhor me de­
samparou, o meu Senhor se esqueceu de m im . Por mais
de cinqüenta anos a cidade de Davi, o’ centro das nobres
tradições e das preciosas esperanças dos judeus, se acha­
va em ruínas, e foi nestas circunstâncias que o povo res?
vpondeu às‘promessas brilhantes do profeta: 0 Senhor se
esqueceu de nós.
* Nos versículos 15 e 16 o profeta responde com uma
áas mais palpitantes declarações da Bíblia sôbre o amor
inefável de Deus. A fé e a esperança do profeta se firm a­
vam, não nas circunstâncias políticas do povo, mas na re­
velação que tinha recebido sôbre a natureza de Deus.
É por causa da justiça de Deus que Jerusalém está em
ruídas'. A restauração de Sião pelo poder humano é abso­
lutamente impossível. M as o amor do Senhor Javé não
A .PROFECIA DE ISAÍAS 181

vacila nem falha. A mais terna e a mais persiten te form a


de amor humano, o amor da mãe para com o seu filíto do
peito, é apenas um fraco e imperfeito reflexo do amor
imutável de Deus. A fonte e a esperança da consolação
e Oa vida de Israel na degradação é o amor do seu Deu»
(Cp. 43:4; 44:21; 46:3-4). Ver também Jer. 31:20; Os.
11:8; Mat. 23:37; João 3:16.
16. Eis nas palma* das minhas mãos te gravei;
os teus muros estio continuamente perante mim.
17. Os teus filhos virão apressadamente,
e os teus destruidores e os teus assoladores
sairão para fora de ti.
18. Levanta os teus olhos ao redor, e olha;
todos se ajuntam, Ales v ê m a t i .
. Como vivo Eu, diz o Senhor,
de todos êstes vestirás como dum ornamento,
e dêles te cingirás como noiva.

■:i:Havendo declarado que o seu amor é mais profundo


e mais inabalável do que o amor materno, o Senhor de­
clara ainda, em linguagem antropomórfica: Eis nas pal­
mas das minhas mãos ,te gravei. O costume de marcar o
corpo com desenhos indeléveis ainda prevalece entre os
povos do mundo, freqüentemente como sinal de fidelida­
de e devoção eterna. Esta prática fo i proibida entre os
hebreus. Deus vai além dos costumes e dos sentimentos
humands. Não sòmente grava nas duas mãos o nome de
Sião, mas grava também nas palmas um retrato dela.
Êste é, evidentemente, o retrato da cidade nova, no seu
estado perfeito, depois da sua reconstrução. Os teus mu-
ros estão continuamente perante m im. Como comenta
George Adam Smith: “ Pois esta é a resposta da fé a tôda
a contradição macilenta do fato externo. A realidade não
é o que nós vemos: a realidade é o que Deus vê 3
No versículo 17 o profeta fala de dois fatos impor­
tantes a respeito da volta dos exilados a Jerusalém: Os
3. The Book of Isaias (1927), Vol II, p. 401
182 A R. C RA BTR EE

teus filhos virão apressadamente, enquanto os assolado-


res sairão fora dai cidade nova. A Vulgata, a Septuaginta

e o Rôlo do Mar Morto têm '•pJS ,teus construtores, em

vez de teus filhos. Embora êstes manuscritos


constituam um argumento em favor de construtores, o
Texto Massorético concorda melhor com o sentido dos
versículos 18 e 19. Assim, os filhos de Sião voltam para
reconstruir a cidade e os seus muros, enquanto aquêles
qué fizeram dela uma assolação têm que partir da cida­
de e da pátria nova dos restaurados.
Levanta os teus olhos ao redor, e olha. De todos os
lados vêm a ti aquêles que por muitos anos se achavam
perdidos no exílio, desesperados e sem qualquer esperan­
ça de voltar à pátria amada. A nova população que Sião
recebe será para ela como ornamentos de que u’a mulher
se veste, e como' a cinta ornamental com a qtial a nóiva
cinge o seu vestido nupcial. Assim, a nova Sião se apre­
senta em todo o seu esplendor, de acôrdo com o juramen­
to solene do Senhor. Agora ela tem a multidão de filhos
como o seu ornamento festivo, e como a cinta ornamental
que a noiva usa para cingir o seu vestido nupcial. É mui­
to vigorosa esta figura da cidade vestida de seus morado­
res, e até fantástica para os ocidentais, mas é muito ex­
pressiva e myito linda na poesia hebraica.
119. Pois quanto ao* teus lugares desertos e desolados,
e à tua terra devastada,
v agora tu, certamente serás estreita demais para os morador**;
e os que te d*voravam estarão longe de ti.
20. Ainda dirão ao* teus ouvidos
os filhos nascidos no tempo da tua aflição :
Mui estreito é para mim êste lugar;
dá-me espaço em que eu habite.
21 .''Então dirás contigo mesmo:
Ç u e r n me gerou êstes ?
Pois estava desfilhada e estéril,
A PROFECIA DE ISAIA 3 183

exilada e repelida,
quem então criou éstes?
Eis qu* eu fui deixada sòzinha;
e onde se achavam éstes ?

Alguns pensam que o versículo 12, que j á estudamos, •


seguiu originalmente o versículo 18, mas o versículo 19
continua o pensamento geral do profeta.
Alguns dizem que o versículo 19 é obscuro por falta
de verbos na primeira parte. O profeta está dizendo sim­
plesmente que as cidades de Judá são poucas e pequenas
para as multidões dos exilados que voltam. A terra de­
vastada, mas agora renovada, será estreita para a multi­
dão de seus novos moradores, mesmo quando os inimigos
assoladores estão expulsos e longe de t i .
Os filhos nascidos no tempo da tua aflição significa
os filhps de Sião que nasceram no cativeiro. A cidade-
mãe julgava-se estéril enquanto ficava por longos anos
privada da presença de seus filhos nascidos no estran­
geiro. Ela, porém, ainda vai ouvir a voz dos seus filhos,
fortes e felizes. Ainda dirão aos teus ouvidos: Mui es­
treito pasra mim é êste lugar. Dá-me espaço, pois eu
sou uma multidão.
Admirada com o aumento rápido dos seus filhos, a
mãe, alegre, pergunta: Quem me gerou êstes? Os filhos
vêm chegando dos exilados do Reino de Israel (43:5-7),
do Egito e de outrtís lugares. O período do exilio fo i o
tempo da sua esterilidade.
4. As Nações Trarão os Filhos de Sião para ai Sua Terra,
49:22-23
22 Assim diz o Senhor Javé :
Eis que levantarei a minha mão para as nações,
e ante os povos arvorarei a minha bandeira;
e êles trarão os teus filhos nos braços,
e as tuas filhas serâo levadas sôbne os ombros.
184 A . R. CR A B TR E E

23. Reis serão os teus aios,


s m suas rainhas, tuas amas.
Diante de ti se inclinarão oom o rosto em terra,
e lamberão o pó dos teus pie.
Então saberás que eu sou o Senhor;
aquêles que por mim esperam não serão envergonhados.

Esta é a primeira passagem sôbre o poder futuro


dos israelitas, libertados dos seus opressores. As outras
duas são, vs. 24 a 26 e 50:1-3. Estas passagens explieam
o poder e a influência dos israelitas na nova época da
sua história. Deve-se notar a linguagem figurativa, que
concorda em geral com o ensino do profeta sôbre a uni­
versalidade do poder e da autoridade espiritual do Senhor
Javé, o Santo de Israel (Cp. 45:14-16;60:4-8; 66:20) . O
Senhor se apresenta nas circunstâncias da história, le­
vanta a sua bandeira, e as nações poderosas e opresso­
ras, cansadas e decepcionadas com os ídolos, apresentam-
se perante o Criador e o Redentor de tôda a terra. Não
sòmente libertam o povo do Senhor no seu poder, mas
os conduzem com grande cerimônia para a sua própria
terra, carregando as criancinhas nos braços, e as filhas
maiores nos ombros. Assim, considerando as circunstân­
cias históricas, os ensinos do profeta sôbre o caráter e
o propósito de Deus, o seu entendimento da vitória f i­
nal do Senhor sôbre as nações, é claro que estas três
mensagens sôbre a conversão das nações concordam
#com a esp«çança do profeta em tôda parte da sua men-
agem. O profeta descreve em linguagem poética e figu-
! ativa o sentimento do amor e o espírito de homenagem,
o povo de Deus, da parte das nações que passam das
trevas do paganismo para a luz da liberdade dos filhos
de Deus.
Reis e rainhas ministrarão às suas necessidades (Cp.
60:16), e prestarão homenagem. A linguagem poética
e oriental parece forte demais, mas expressa o sentimen­
to profundamente religioso. Era o costume natural para
A P-ROFECIA DE ISAÍAS 185

os orientais inclinar-se perante os potentados e beijar-


lhes òs pés. Nesta linguagem simbólica descreve-se
colno os convertidos à fé do Senhor beijarão os pés dos
seus escravos de outros tempos sem observar o pó que
os cobre.
5. O Salvador, Redentor e Poderoso de Jacó, 49:24-26
24. Tirar-sej á a prêsa ao valente ?
Acaso serão libertados os cativos do tirano ?
25. Certamente, assim diz o Senhor :
Até os presos se tirarão do poderoso,
e a prêsa do tirano será livrada,
porqu« contenderei com os que contendem contigo
e salvarei os teus filhos.
26- Farei os teus opressores
comer a sua. própria carne,
e êles se embriagarão
com o seu próprio sangue, como com vinho nôvo.
Então todo homem saberá
que eu sou o Senhor,
o teu Salvador e o teu Redentor,
o poderoso de Jacó.

É possível que o povo do Senhor seja libertado do


poder dos seus opressôres? Por algum tempo os israeli­
tas se mostraram indiferentes à promessa do profeta.
No v. 14 Sião expressou dúvida dó cuidado de Deus, jul­
gando que o Senhor se esquecera do seu povo. O mensa­
geiro de Deus responde que não há qualquer poder hu­
mano capaz de prender o povo que o Senhor vai liber­
tar. Expressa-se de nôvo, no v. 24, a dúvida dos ou­
vintes do profeta sôbre a promessa da salvação logo :.o
futurp.
Acaso serão libertados os cativos do tirano? O he­
braico tem aqui , o justo, mas o texto do Rôlo do
•T

Mar Morto, , tirano, é evidentemente correto nes-


•T

te contexto.
186 A. R. C RAB TR EE

O versículo 25 é a resposta à pergunta do versículo


24: Podemos esperar libertação do poder do tirano?
Certamente, diz o Senhor, contenderei com os que con­
tendem contigo e salvarei os teus filhos. A primeira pes­
soa do pronome dá muita ênfase à promessa de salvar
os teus filhos (41:12; Jer. 2:9).
É muito intenso o sentimento da primeira parte do
versículo 26, como o do v. 23. Os opressores têm que
sofrer extrema aflição, e comerão a sua própria carne
(Cp. Is. 36:12; Jer. 19:9). Assim, êstes opressores têm
que sofrer o mesmo tratamento cruel que êles tinham
aplicado aos povos fracos que haviam dominado. Alguns
pensam que as lutas e as guerras que os déspotas prati­
cam contra povos inocentes resultam no suicídio nacio­
nal. O profeta nos declara que o desastre dos opresso­
res de Israel proclamava o poder Salvador do Altíssimo.
O espírito de nacionalismo na primeira parte do
versículo 26 não é característico dos ensinos funda­
mentais dêste profeta mas, nas circunstâncias histó­
ricas, a queda dos tiranos foi reconhecida como vi­
tória de profunda importância no futuro do povo do
Senhor. As palavras do profeta sôbre êste even­
to histórico do sexto século a. C. aplicam-se ao povo
do Senhor, de geração em geração. O mesmo Deus
que libertou o seu povo do poder da Babilônia o levou
! para a teíffi natal a fim de deitar de nôvo os fundamen-
ftos do reino de Deus no mundo, e assim preservar a ma­
ravilhosa história da revelação da Pessoa do Senhor, e
vdoi seu eterno propósito, transmitida ao povo escolhido
pelos profetas. Foi uma crise, na história do povo de
Israel, de profunda significação para o futuro do mundo
inteiro.
Os tiranos que se levantam, um após outro, e amea­
ças destruir o movimento cristão no mundo, sempre se
enganam com a sua prosperidade temporária, e finâl-
A PROFECIA DE ISAÍAS 187

mente caem de nôvo no esquecimento, enquanto que o


povo do Senhor, renovado e fortalecido pela disciplina»
continua na proclamação da soberania do Altíssimo na
direção dos povos do mundo, e da história humana, de
acôrdo com o seu eterno propósito. Está chegando o dia-
quando o Reino de Deus será estabelecido com poder e
as fôrças do' inimigo serão vencidas.
Vem o grande dia quando todo homem saberá que
Javé é o Senhor, o Salvador e Redentor. O povo fiel de
Deus ainda não está controlando os eventos da história,
nem pode entender o' significado de tudo que está acon­
tecendo nestes dias de grande progresso da ciência, do
comércio e das relações internacionais, com o levanta­
mento e a queda de ditadores e de governos opressores.
Não se pode interpretar o significado completo destas
palavras do profeta. Mas alguns dos reis e rainhas de
hoje podem ser aios e amas, que, na maravilhosa provi­
dência divina, estão operando inconscientemente para
o progresso do Reinó de Deus no mundo dos nossos dias.
6 . A Relação do Senhor com o Seu Povo, Segundo o
Concêrto, 50:1-3
1. Assim diz o Senhor :
Onde está a carta de divórcio de vossa mãe,
pela qual eu a repudiei ?
Ou qual dos meus credores é
a quem eu vos tenha vendido ?
Eis por causa das vossas iniqüidades fôstes vendidos,
e por causa das vossas transgressões vossa mãe foi repudiada.

O profeta fala nestes versículos sôbre a relação tão


entranhada entre o' Senhor Javé e o seu povo. Não há
qualquer obstáculo que impeça a redenção de Israel.
Ainda permanecem as promessas da graça de Deus.
Como Oséias, Jeremias e Ezequiel, assim também êste
profeta compara a relação entre o Senhor e o povo de
Israel com a união entre o homem e sua espôsa. Em
188 A . R. CR AB T R E E

49:14 Israel se queixou: Javé se esqueceu de mim. Aqui


os israelitas estão pensando: O Senhor já n o s rejeitou; |
0 Senhor não tinha rejeitado o seu povo. Israel es­
tava sofrendo a humilhação do exílio por causa dá in­
fidelidade ao seu Deus. Javé, como sempre, está ofere­
cendo as bênçãos do seu arritír e da sua graça aò seu
povo obstinado.
Onde está a carta de divórcio de vossa mãe? É claro
que a mãe nesta passagèm é Sião, e seus filhos são os
israelitas. Êles julgavam que a suá condição angustío-
sa fôsse devida áo fato de que ó Senhor se havia divbr-
ciado de sua mãe (Cp. Deut. 24:1), ou que linha vendido
òs filhos dela a qualquer um de seus credores (Cp. Êx.
21:7; I I Reis 4:1; Neem. 5:5, 8; Mat. 18:25). Os israe­
litas se enganavam nestas duas suposições. Não havia
carta de divórcio, porque o Senhor nãò tinha repudiado
a Sião, e não tinha vendido Israel aós credores que nem
existiam. À única razão do exílio foi o espirito rebelde
e peeaminoso do próprio p ovo.
Credores cruéis praticavam a venda de crianças de
devedores para o pagamento de dívidas, embora o costu­
me fôsse geralmente considerado como prática desuma­
na (Êx. 21:7; Cp. II Reis 4:1; Neem. 5:5, e Am . 2:6).
Por sua apostasia Israel tinha violado o concêrto do
Senhor, e assim sofreu as conseqüências no exílio, mas
[Deus não detinha anulado, e nunca tinha deixado de cum-
irir as suas promessas. Israel tinha pensado por tanto
t empo que o Senhor o repudiara que êle já se tornara
espiritualmente cego quanto ao' seu afastamento de Deus,
e já tinha perdido o conhecimento da santidade, dà jus-
fiça e do amor de Deus.
2. Por que razão, quando eu vim, não havia homem ?
^ „ Quando chamei, porque ninguém respondeu ?
Acaso *e encolheu a minha mão, que não pode salvar ?
Ou não há poder em mim para livrar ?
A PRO F ECIA DE ISAÍAS 189

Eis que- pela miritia repreensão AU faso secar p mar. .


, gu façoçlp® rios um deserto;
cheiratrjm al os peixes por falta de água,
pqis morrem de sêde. ' ' :1
3. E u y is to os cê (is dè negridâo, ...
e lhes ponho taoo pór sua coberta. : .r:'. i

Segundo o profeta, é o próprio Senhor quèm tala


nestes versículos e explica a sua relação c o n fo povo" dé
Israel, mas a palavra do profeta é geralmente, mas nem
sempre, a palavra de Deus. Quando o Senhor fala direta1
mente ao povo a mensagem é de importância especial.
Apesar do afastamento de Israel, ó próprio Senhor lhè
declara que a única pousa que impede a sua redenção,ç
a falta de fé. Quando o Senhor vem com a promessa
de redenção, Israel fica obstinadamente calado. Quando
Deus chama, ninguém responde à sua mensagem de ainòr
(Cp. 40:1-11),
É fato. que Sião está separada do Senhor, mas não
fo i divorciada. Separou-se voluntàriamente pelo arnpr
do pecado, e pela infidelidade e desobediência. 0 Senhor
já havia respondido às queixas de que êle se esquecera
de Sião, e que a tinha rejeitado. Israel não entendeu
que merecia a punição da sua desobediência, nem com­
preendeu ainda que o Senhor Javé, o seu Deus, na Sua
misericórdia estava acordando nêle o sentido de justiça,
e o espírito de arrependimento e fé . O versículo refor­
ça a pregação fervorosa e persistente do profeta, com o
apêlo do amor e da graça redentora do Senhor ao povo
no cativeiro.
Os exilados estavam sofrendo opressão e vergonha,
e não obstante as promessas áureas do profeta, êles não
entenderam como poderiam ser libertados. Não acre­
ditavam mais em milagres, e se houvesse qualquer mani­
festação da providência divina na sua história, não esta*-
va operando nestas circunstâncias terríveis que estavam
atravessando. v
190 A. R. C R ABT REE

Javé responde às dúvidas e às queixas do povo. O


Criador tem o poder e a autoridade absoluta sôbre as
suas próprias obras. Não se encolheu a mão salvadora
do Senhor, nem é limitado o seu poder de salvar. Está
Deus falando, aqui e no versículo 3, sôbre a criação ori­
ginal? A ênfase que êste profeta põe-nas obras da cria­
ção e na direção da história pelo Senhor talvez indique
que está falando da obra original de Deus quando criou
os céus e a terra. Há outras indicações de que esteja
fazendo alusão aos milagres do Senhor em favor do seu
pofvo no período do Êxodo. Declara-se em Êx. 14:21
que o Senhor secou as águas do m ar. Ç) mesmo escritor
diz em Êx. 7:18, 21 que os peixes do rio' morreram e o
rio cheirou mal. Êstes são apenas sinais da manifestação
dò poder do Senhor.
Eu visto os céus de negridão pode ser uma referên­
cia ao' eclipse do sol, ou à escuridão dos céus quando
o Senhor manifestou a sua presença ao povo de Israel
no Monte Sinai (Êx. 19:16-25).
B. “ O Getsêmane do Servo” , 50:4-11
4. O Senhor Javé me deu
a língua dos que são instruídos,
para que eu saiba sustentar com uma palavra
o que está cansado.
Êle me desperta de manhã em manhã,
dejjperta-ms o ouvido
pari? ouvir aquêles que são instruídos.
| 5 .0 Senhor Javé me abriu o ouvido,
* e eu não fui rebelde,
nem me retirei para trás.

Êste é o título muito apropriado dos versículos 4-11


no livro do brilhante escritor C. R . North, Isaiah, 40:55,
p. .116. É o terceiro Cântico do Servo do Senhor. Os
primeiros dois põem muita ênfase na missão do Servo.
Aqüi se trata principalmente da fé e da obediência do
Servo. A fonte do seu poder se acha na sua integridade,
A PROFEC IA DE ISAtAS 19.1

c na dedicação absoluta à vontade e ao serviço do Sçphor


Javé. Os versículos 4-6 descrevem a obediência do Ser­
vo, apesar da oposição cruel, e da perseguição violenta
que êle tem que enfrentar no cumprimento da sua mis-,
«ão. 0 Servo testifica da sua dependência constante da
Vontade do Senhor e da orientação que recebe diretamente
do Senhor.
Na comunhão perfeita com o Senhor Javé, o Servó
é instruído e preparado para enfrentar qualquer sofri­
mento ou qualquer sacrifício no desempenho da sua in­
cumbência. O Senhor lhe dera a língua dos eruditos,
a língua treinada na arte de falar a verdade com cora­
gem e poder. Apesar do poder dos inimigos, o SerVo
recebe poder superior na certeza do seu triunfo final
sôbre todos os inim igos. O Senhor Javé me deu a língua
dos que são instruídos. 0 Servo tinha recebido instru­
ção para sustentar com uma palavra o cansado. Esta
palavra , sustentar, não se encontra em qualquer
outro lugar no Velho Testamento. Versões em portu­
guês e inglês traduzem a palavra por dizer. A Vulgata
tem sustentar, e a L X X diz a tem po. A palavra confortar
ou encorajar também cabe no contexto, e talvez expresse
o sentido do hebraico. A palavra cansado, P|JT, proVà-
•• r
velmente se refere ao israelita impaciente e queixoso
que ainda se achava no exílio, mas alguns pensam que o
profeta estava pensando no idólatra que se achava cada
vez mais dessatisfeito com a adoração das obras de suas
próprias mãos.
O Senhor Javé desperta-me o ouvido diariamente
para ouvir aquêles que são instruídos, ou aquêles que são
os meus discípulos. Constantemente em perfeita comu­
nhão com Deus, o Servo obedece perfeitamente à voz
divina no seu ouvido. Com pleno conhecimento da opo­
sição e do sofrimento que havia de enfrentar na exe-
192 A . R. C R A B T R E E

tíUção da sua obra, o Servo não foi rebelde nem retirou-


sé para trás. '
Quem é êste Servo que permanece em comunhão
com o Senhor, e assim triunfa sôbre tôda oposição' cruel
no cumprimento da sua obra? Vários comentaristas
idèhtificam o Servo com o profeta Jeremias. É fato que
Jeremias, bem como outros profetas, enfrentou oposição,
e fo i perseguido por causa da. condenação severa da in­
fidelidade do seu povo. Mas Jeremias não sofreu a vio­
lência física e os terríveis insultos que o Servo tinha que
suportar. E Jeremias não' pôde enfrentar a sua missão
profética com a paciência, o entendimento, a dignidade
honrosa e a grandeza de fé e de obediência do Servo.
Queixou-se amargamente das injustiças e perseguições
que sofreu (18:18-20; 20:6-9)* Amaldiçoou o dia do seu
nascimento (20:14-18).
6. Dei as minhas costas «os que me feriam,
« a s minha* faces aos que me arrancavam os cabelos;
. não escondi o meu rosto
de oprâbrios e escarros.

Por outro lado', o Servo nunca vacilou no desempe­


nho da sua incumbência. Nunca se queixou da perse­
guição violenta e dos insultos terríveis que tinha que
enfrentar na realização da sua obra. A crueldade de ar­
rancar a barba e cuspir no rosto eram os piores insultos
para o^feomem do Oriente (Cp. 7:20;vl5:2).
A vocação de Servo levou-o ao càíninho dá humi­
lhação e da desgraça perante os seus ouvintes, mas ne­
nhuma injustiça podia desviá-lo da sua vidã dolorosa.
Assim, êste versículo declara que o Servo, embora ino­
cente, tem que sofrer como o príncipe de pecadores. O
tèxto não menciona os motivos dos inimigos perseguido­
res do Servo. Alguns supõe que os judeus se opuseram
V ín issão do Servo fora do povo escolhido do Senhor, jul­
gando que estava confiscando a prerrogativa especial de
A P R O FE C IA DE ISA iA S 193

Israel, a eleição como o povo peculiar do Senhor* É no-


lável que o Servo não menciona neste cântico o motivo
de seus perseguidcfres. Mas foi simplesmente a prega­
ção fiel do Servo, revelando a puréza dó seu caráter, que
despertou a inveja dós seus ouvintes. O Servo demons­
trou tão claramente a convicção e a coragem nos seus
ensinos, em contraste com a covardia e a infidelidade
dos ouvintes, que êles evidentemente ficaram indignados.
Compare as declarações de Mat. 27:18 e Marcos 15:10.
Porque sabia que por inveja o tinham entregado.
7. Pois o Senhor Javé me ajuda;
pelo que não me sinto confundido;
por isso pus meü rosto como pederneira,
e sei qué não serei envergonhado.

Pois o Senhor Javé me ajuda. Assim, o Servo ex­


pressa a sua firm e confiança no socorro de Javé. Já ha­
via demonstrado a sua fé invencível na obediência per­
feita ao chamado' do Senhor. Havendo experimentado
o auxílio do Senhor Deus, o Servo está preparado para
enfrentar o futuro, custe o que custar. Se Deus é por
nós, quem será contra nós? (Ver Romanos 8:31-39).
É provável que esta maravilhosa declaração de fé pelo
Apóstolo Paulo fôsse inspirada pela fé do Servo.
Parece que a primeira parte do versículo 7 refere-
se à experiência do Servo até o momento desta declara­
ção . Até aqui me ajudou o Senhor, e em virtude dêste
auxílio nunca fiquei confundido. Visto que o Senhor Javé
me ajuda, não fico até agora envergonhado. Justamente
por causa dêste socorro do Senhor que já experimentei,
estou fortalecido e encorajado para enfrentar qualquer
sofrimento. Portanto, ponho o meu rosto como peder­
neira. Tão firm e e tão certo está de que nunca será
envergonhado, e que finalmente será plenamente en­
tendida sua inocência e a grandeza da sua obra, que está
pronto a sofrer as conseqüências da sua fidelidade,.põr-
194 A. R. C R A B TR E E

que sabe que está com o Senhor, e que o Senhor está


com êle.
8. Perto está o que me justifica; quem contenderá comigo ?
Apresentemo-nos juntos.
Quem é o meu adversário ?
Chegue-se para mim.
9 Eis que o Senhor Javé me ajuda;
Quem há que me condene ?
Eis que todos êles como vestido' envelhecerão;
a traça os comerá.

Cônscio da sua inocência, o Servo convida os seus


adversários para se apresentarem juntamente com êle
perante o tribunal da justiça. Perto está o meu justifieai-
dor, , Aquele que me declarará justo ou ino­
cente. O Servo sabe que o Senhor Javé é o seu Defensor
contra a injustiça das acusações falsas dos seus acusado­
res. Não fará justiça o Juiz de tôda a) terra? O Servo
tem a certeza de que o Senhor estabelecerá a verdade
da sua inocência, e condenará a injustiça dos seus adver­
sários. Quem contenderá comigo? Apresentemo-nos
juntos (Cp. 49:26; 47:12, 13; 52:13; 53:11). As acusa­
ções que os adversários apresentam contra o Servo são
igualmente acusações contra o Senhor Javé (Cp. 41:1-
42:4). Com a certeza firm e e invencível de que está em
plena comunhão com o Senhor Javé, e que está sendo di-
í rigido na ^ealização do eterno propósito de Deus, o Ser-
i v o determina levar avante a sua missão até ao fim .
Em Jer. 17:17-18, o profeta apresenta a defesa da
sua inocência e declara que o Senhor é o seu refúgio no
dia do mal. Mas com o seu profundo entendimento e
amor à justiça, há uma diferença notável entre o espi­
rito do profeta e o espírito do Servo, especialmente quan­
to^ ao sofrimento do jUsttí. Nem o salmista (22:6-21),
que apresenta um retrato que prefigura o sofrimento do
Nazareno, revela o entendimento do problema do sofri­
A. PR O FEC IA DE ISAfAS 195

mento como o Servo. O fato é que não se encontra o


Velho Testamento qualquer exemplo exata mente ^seme­
lhante ao do Servo do Senhor. O Servo, na sua Pessóa,
11a sua perfeita comunhão espiritual com o Senhor Javé,
e no cumprimento da sua missão' por meio do sofrimen­
to (53:4-8), é o único Mensageiro do Senhor do Velho
Testamento que prefigura perfeitamente o Senhor Jesus
Cristo, 0 Salvador do mundo. Eis que 0 Senhor Javé me
ajuda. Quem há que me condene?
10. Quem há entre vós que teme ao Senhor,
e obedeça à voz do seu Servo,
que anda em trevas
e que não tem luz,
e ainda assim confia em o nome do Senhor
e se firma sôbre o seu Deus ?
11. Eia I Todos vós que acendeis fogo,
e ateais tiçõesl _
Andai no lume do vosso fogo,
e entre os tiçSes que ateastes !
Isto vos vem da minha mão;
e em tormentos vos deitareis.

Êstes dois versículos explicam como os israelitas se


separam em duas classes em relação ao Servo do Senhor,
e assim apresentam uma conclusão apropriada da poesia.
É o próprio Senhor quem fala por intermédio do profeta
sôbre o Servo dos versículos ô-Q. Êle nos declara que o
Servo anda nas trevas, sem luz, e ainda confia em o
nome do Senhor, e se firm a sôbre o seu Deus. O Senhor
exorta aquêles israelitas para que temam ao Senhor a
fim de andarem com o Servo, exercendo a mesma qua­
lidade de fé no Senhor e a mesma confiança tranqüila
na sua vitória final.
A frase que anda em trevas e que não tem luz é a ex­
pressão bíblica da mais profunda miséria. Mas aquêle
que ouve a voz do Senhor nestas circunstânciasmiserá­
veis pode confiar em o nome do Senhor (Sal. 33:2J) e
196 A. R. C R ABT REE

se firm a sôbre o seu Deus (10:20). Nota-se que aquêles


que respondem à palavra de Deus por intermédio do
Servo, nem sempre recebem a bênção de conforto do Se­
nhor imediatamente, mas têm que andar ainda nas tre­
vas com o Servo, com a fé invencível na vitória final.
O versículo 11 descreve o julgamento divino sôbre
os infiéis que desprezam a mensagem do Senhor, e an­
dam no lume do fogo que êles acendem. Seguimos o tex­
to siríaco v“pi'$í2 , atear fogo, em vez de 'T lN u !, cingir
com faíscas. A palavra Eia! reforça o julgamento dos
infiéis que desprezam o caminho do Servo’ e, na sua in­
fidelidade, andam no lume do fogo que êles mesmos
acendem. Assim, a malícia dêles lhes recai sôbre a ca­
beça (Sal. 7:16). feto vos vem da minhá mão; e em tor­
mentos vos deitareis. Assim, aquêles que, na hora das
trevas, confiam no Senhor verão a luz brilhante do dia;
enquanto' que aquêles que se regozijam na luz que êles
mesmos acendem serão finalmente devorados por ela.
C. Os Israelitas Fiéis Recebem a Promessa de
Salva/ção, 51:1-16
O tema dominante desta poesia é a consolação dos
israelitas fiéis e a promessa do seu livramento no futu­
ro próximo. Apresentam-se nos primeiros oito versículos
, dos três i^feves oráculos de consolação, com a certeza
t e a permanência da libertação vindoura. A promessa de
Isalvação é reforçada pela recordação das bênçãos do
‘ Senhor na história providencial de Israel.
A poesia é rica no estilo literário, na expressão do
espirito devocional do profeta, no seu entendimento das
obras do Senhor na criação e nas vicissitudes da história
humana. Para entendermos o escopo do seu pensamen­
to 'Sne&tes oráculos devemos lembrar o seu conhecimento
da história do povo de Israel, dos seus ensinos proféti­
A PRO F ECIA DE ISATAS 197

coS e teológicos nos capítulos 40-48 e o' resumo dêstes


ensinos nos oráculos seguintes. A relação da poesia com
profecias anteriores é claramente indicada pela seme­
lhança de frases e pensamentos. Não obstante a opinião
contrária de alguns comentaristas, o tema de consolação
e a repétição da promessa de livramento, bem como as
palavras da conclusão, Tu és o meu povo, mostram cla­
ramente a unidade da passagem. São dominantes as
idéias de livramento, salvação, confôrto e alegria.

A poesia apresenta três divisões: versículos 1-8; 9-


10; 12-16. Há três breves oráculos na primeira divisão:
1-3; 4-6; 7-8. Os israelitas exilados devem vencer o seu
desânimo, o seu mêdo e as suas dúvidas e aceitar con-
fiadamente a promessa de livramento (1-3). Nos ver­
sículos 4-6, o segundo oráculo aparentemente se relacio­
na com o primeiro Cântico do' Servo (42:1-4). Parece
que está chegando a hora para a realização da esperan­
ça do Servo do Senhor. O que Javé vai fazer será uma
luz para os povos, e não simplesmente e somente para
Israel. Será imperecívei esta salvação para todos os po­
vos do mundo. Nos versículos 6-8, o profeta reconhece
que tôdas as cousas da criação sujeitas à mudança e
decadência hão de passar, mas a salvação de que Javé,
é imutável, durará para sempre.

A segunda divisão, versículos 9 e 10, é um apêlo di­


rigido aci Senhor, talvez pelos israelitas entusiasmados
pela promessa de Javé, de que êle revele logo o seu gran­
de poder de salvar, como nos dias antigos.

Na terceira divisão (12-16) ouve-se a voz do Senhor


èm resposta à oração do povò. O Senhor Javé, o Criador
dòs céus e da terra, é o seu Consolador, e não há razãò
dé ter mêdo dos opressores, porque eu sou Javé, t«B
Béüs, e tu és o meu povo . '^
198 A. R. CR A B TR E E

1. Não Temais, Está Chegando o Dia da Salvação,


51:1-8
1. Ouvi-me, vós, os que procurais a justiça,
os que buscais ao Senhor;
olhai para a rocha de que fôstes cortados,
e para a caverna do poço de que fôste* cavados.

Apesar do mêdo e das dúvidas do seu povo, o prega­


dor de consolação e de esperança, volta ao seu tema do­
minante, está próximo o dia para o Senhor Javé executar
o seu propósito de libertar Israel do cativeiro e restaurá-
lo para a sua própria terra. Nestes versículos, o profeta
apresenta o seu apêlo fervoroso para que os exilados fiéis
abandonem o seu mêdo e as suas dúvidas e se regozijem
na promessa de salvação.
O pequeno grupo dos exilados fiéis se julgava pouco
em número para herdar as grandes bênçãos que o men­
sageiro do Senhor lhes prometia. O profeta dirige o seu
apêlo aos que realmente procuram a justiça e buscam o
Senhor (Cp. Deut. 16:20; Prov. 15:9; 21:21). Justiça
aqui significa o procedimento correto da vida em rela­
ção ao próximo e a Deus, de acôrdo com a vontade do
Senhcfr.
Olhai para a rocha de que fôstes cortados. A histó­
ria da fé de Abraão e da sua comunhão com o Todo-
Poderoso é mencionada centenas de vêzes nos livros do
Velho Testojnento, e evidentemente era bem conhecida
no' tempo do cativeiro. O profeta compara os antepas­
sados do povo de Israel com uma pedreira, e os israeli-
tâs são pedras cortadas dela. Para os israelitas fiéis, o
cumprimento da promessa que Deus fêz a Abraão deve
oferecer plena esperança de que a sua promessa de res­
taurar a Sião será também cumprida. Esta esperança
é reforçada pela comparação das circunstâncias históri­
cas de Abraão e as dós exilados de Israel . Se vós julgais
que sois poucos em número, e aparentemente insignifi-
A PRO F ECIA DE ISAfAS 199

cantfes no plano e no propósito do Senhor, lembrai-vos


das bênçãos do Senhor Deus na vida e na historia de
Abraão. Se, no principio da história de Israel, Deus de­
monstrou que Êle podia fazer cousas aparentemente im ­
possíveis, como no caso de Abraão, certamente Êle pode
cumprir a promessa de libertar o povo de Israel para
cumprir a sua missão de acôrdo com o etfijno propósito
do seu Deus.
2. Olhai para Abraão, vosso pai,
e para Sara, que vos deu à luz:
porque quando era um, eu o chamei,
e o abençoei e o multipliquei.
3. Pois o Senhor consolará Sião;
conso'ará todos os teus lugares assolados,
e fará o seu deserto como o Éden,
e o seu êrmo como o jardim do Senhor;
regozijo e alegria se acharão nela,
ação de graças e a voz de melodia.

Olhai parai Abraão, vosso p a i. Abraão não é mera­


mente o vosso progenitor, a rocha de que fôstes corta­
dos, como pedras da casa de Jacó; e Sara é mais do que
o ventre de que saistes à luz. Por muito tempo o casa­
mento de Abraão e Sara era infrutífero. O nascimento
de Isaque e a origem de Israel fo i um milagre do poder
e da graça de Deus. O nascimento de Isaque, o filho da
Promessa, foi o nascimento do povo de Israel, a nação
sacerdotal (Êx. 19:6). Abraão foi escolhido para ser o
vaso da redenção universal. 1 Quando êle era um, eu o
chamei, e o abençoei e o multipliquei. Assim, o mensa­
geiro do Senhor está dizendo aos filhos de Abraão: Não
é possível, depois da longa história da direção divina do
seu povo, que o Senhor Javé deixasse morrer no cativei­
ro os representantes fiéis do seu eterno propósito de re­
denção. Em vez de o abençoei, o Rôlo do Mar Morto
tem o fratifiqu ei.
1. A Esperança Messiânica do autor, cap. V
200 A. R. C R ABTRE E

Pois © Senhor consolará Sião. O perfeito do vçrbo


consolar nos vários casos é perfeito profético, ou perfei­
to de certeza, e assim o traduzimos pelo futuro. Será
confcírtado não somente o povo na sua libertação do ca­
tiveiro, mas também Sião e a terra de Judá. li mais
um exemplo da simpatia da natureza física para com o
povo, segundo os escritores biblicos, e especialmente de
acôrdo com êste profeta que personifica Sião freqüente­
mente e em várias relações.
Na consolação de Israel p' Senhor também abrange
a sua terra, incluindo até os lugares assolados, Fará o
deserto como o Éden, e o êrmo como o jardim do Se­
nhor. Nesta nova terra, transformada como o jardim
do Senhor, haverá regozijo, ação de graças, e cânticos de
alegria. Esta linguagem do profeta é meramente figu­
rativa e representa o espírito poético do profeta no seu
entendimento do grande significado da restauração’ para
o futuro do reino de Deus no mundo, ou está êle pen­
sando no período do aperfeiçoamento final do reino de
Deus entre os povos dò mundo? Teólogos modernos
gostam do têrmo escatologia, e usam a palavra para de­
signar o reino de Deus, ou a Igreja de Gristo, no período
da sua perfeição entre as nações da terra, e não no sen­
tido do fim dêste mundo e o julgamento' final. Mas não
há qualquer prova de que êste profeta estivesse pensan­
do que a resrauração de Israel iniciaria o período do rei­
na de Deus no seu aperfeiçoamento. Êle usa a lingua-
gtíjn poética para descrever o profundo significado do
livramento dêste pequeno Restante fiel dos israelitas, na
preservação do conhecimento do verdadeiro Deus, reve­
lado aos profetas do povo escolhido. Certamente haverá
regozijo, alegria, ação de graças e a voz de melodia entre
os libertados que voltam para a sua terra (Cp. Esd. 3:
10*13) .
A- PR O F E C IA DE ISAÍAS 201

•MÇ. A ten d ei-m *,p ovó meu, ' »


e escutai-me, nação minha;
porque de mim sairá uma lei,
e minha ordenança como luz doc povos.
5. Perto «s tá a minha justiça,
saiu a minha salvação,
e os meus braços dominarão os povos;
as terras do mar me aguardam,
e para o meu braço esperam. **

;, A breve passagem dos versículos 4-6 também diri­


ge a esperança dos israelitas fiéis ao gloriôso futuro de
todos aquêles que aguardam a salvação do Senhor. Na
sua entranhada comunhão com o Senhor, êste mensagei­
ro teve um a visão clara do profundo significado dêste
núcleo dcfs israelitas dedicados ao serviço do seu Deus
e ao seu rejno espiritual no espírito dos povos e das na­
ções do mundo. Êle não quis obscurecer a luz brilhante
daquela rica, preciosa e verdadeira visão com a descri­
ção das dificuldades e dos sacrifícios e sofrimentos que
os libertados tinham que enfrentar na sua volta e na re­
construção das ruínas da sua pátria.
Atendei-me, povo meu, e escutai-me, naição minha.
Alguns manuscritos têm povos e nações. A mensagem
é dirigida ao pçvo èiscolhido. A LXX tem reis em vez de
minha nação. Porque; 4 e mim sairá uma lei, ou simples­
mente lei. O têrmo lei, m i n , é usado em vários senti-
T

dps (Cp. 2:3). A lei e a minha ordenança, , jus-


’ • T I •

tifa, julgamento, decreto, juízo, retidão. Alguns suge­


rem que o têrmo aqui significa religião (Cp. 41:1, 3, 4 ).
.A palavra .J P fli$,, fazer repousar, é geralmente
considerada lima adição ao texto original. Mas alguns
traduzem a palavra por estabelecer: e estabelecerei o
meu direito como Fuz dos povos. Outros ligatn a palavra
202 A. R. CR A B TR E E

com o versículo 5, para dizer: repentinamente ou rapi­


damente trarei perto a minha justiça, ou a minha liber­
tação se aproxima rapidamente.
Os meus braços dominarão os povos (Cp. 40:10
e 45:20-25). O braço do Senhor é sempre o' símbolo do
seu poder. As terras do mar aguardam a justiça e a sal­
vação do Senhor. As palavras justiça e salvação repre­
sentam a atividade do Senhor entre os povos das terras
do mar. Os seus braços dominarão os povos. O que
Javé está prestes a fazer será, não somente para Israel,
mas para os povos de tôdas as terras. A salvação ma­
ravilhosa do povo de Israel demonstrará tão claramente
o poder da graça salvadora do' Senhor, que os povos de
tôdas as terras aguardarão também esta grande bênção
de Deus. Assim, esta atividade redentora do Senhor en­
tre os povos do mundo responde à fom e espiritual dos
que aguardam e esperam a sua presença (42:4). Dêste
modo, a missão do Servo do Senhor é realizada, segun­
do êste oráculo, pelas atividades de Deus.
6. Levantai os v o m o s olhos para os céus
e olhai para a terra embaixo;
pois os céus desvanecerão como o fumo,
a terra envelhecerá como um vestido
e os seus moradores morrerão da mesma maneira,
mas a minha salvação durará para sempre
e á*N((iinha justiça nunca será abolida.

Temos um ensino' nôvo no versículo 6, mas derivado


s doutrinas fundamentais do profeta, especialmente
Pessoa de Deus e da sua relação com as obras da
criação. Se Deus plantou no espírito do homem o dese­
jo ardente de conhecer o seu Criador e experimentar co­
munhão com Êle, esta religião verdadeira certamente
será^de duração eterna. A terra e os céus, aparentemente
permanentes na sua beleza e majestade, são realmente
temporais, mas a salvação do Senhor durará para sempre.
À PRO F ECIA DE ISAÍAS 203

A salvação eterna de homens e mulheres, na comunhão


com Deus, certamente indica que êles viverão’ eterna­
mente. Os céus desvanecerão como o fumo, a terra en­
velhecerá como um vestido (Cp. Os. 13:3; Sal. 68:2;
Sal. 102:3).
: Deus é imutável, e a salvação que êle oferece dura
para sempre. Portanto, o povo do Senhor, apesar da
morte física, viverá com Deus eternamente. Esta é a
ccfnclusão lógica das palavras do profèta. Esta também
é a base da esperança na vida depois da morte segundo
o Nôvo Testamento. Porque eu vivo, vós também vi-
vereis (João 14:19). Os crentes em Cristo reconhecem
que não têm poder próprio de triunfar sôbre a morte f í­
sica, mas Deus nos dá esta vitória por intermédio do
nosso Senhor Jesus Cristo (I Cor. 15:57).
7. Ouvi-me, vás que conhece is a justiça,
o povo em cujo coração está a minha lei;
não temais o opróbrio dos homens,
nem vos turbeis pelas suas injúrias.
8. Porque a traça os roerá como a um vestido,
e o bicho os comerá como a lã;
mas a minha justiça durará para sempre,
e a minha salvação para tôdas as gerações.

Os versículos 7 e 8 apresentam u’a mensagem para


encorajar os israelitas que conhecem a justiça e o povo
ém cujo coração está escrita a lei do Senhor. Aquêles
dó versículo 1 que seguem a justiça, conhecem o poder
da justiça na vida. Com a lei da justiça escrita no cora­
ção' (Jer. 31:33; Is. 29:13; Sal. 40:8; E z . 36:27), os is­
raelitas fiéis não devem ter mêdo do opróbrio dos ho­
mens e não devém ficar turbados pelas injúrias que so­
frem . No meio de quaisquer injúrias e sofrimentos, os
israelitas fiéis têm experiência do socorro e da justiça di­
vina. Aquêles que desprezam e perturbam ós servos
fiéis do Senhor são homens fracos, e somente aos pró­
prios olhos são grandes e poderosos (Cp. v . 12; Sai.
204 A R. C R A B TR E E

9:20; 10:18). Aquêles que têm a justiça e a lei do Ser­


vo (42:4) no coração, não se limitam aos israelitas fiéis,
mas incluem também os servos fiéis entre os povos e
as nações do mundo (v . 4 ).
Os fiéis de Israel, ou os de qualquer outro povo, são
encorajados com a certeza de què os seus sofrimentos
são transitórios, enquanto que as bênçãos da salvação
do Senhor sao eternas.
Nota-se também no versículo 8 a influência do Cân­
tico do Servo do Senhor (50:4-9). Porque a traça os
roerá como a um vestido, e o bicho os comerá como a
lã. Esta é a terceira vez que é usada a figura do vestido
para ilustrar a decadência e a corrução dos podêres do
m al. Mas a salvação do Senhor é eterna.
2. Um Apêlo ao Senhor, Criador e Redentor, 51:9-11
9. Desperta, desperta, arma-te de fôrça,
i braço de 8enhor;
desperta como nos dias passados,
como nas gerações antigas.
NSo fôste tu que cortaate em pedaços a Raabe,
e feriste o dragão ?
10. Não fôste tu que secaste o mar,
aa águas do grande abismo;
que fizeste o fundo do mar um caminho,
para que passassem os rem idos?

A invocação apresentada nestes versículos é dirigida


ao< Senhor ccnho o Redentor de Israel. Alguns pensam
qu| o apêlo vem diretamente dos israelitas fiéis, anima-
dol|pelas exortaçõeíi do profeta. Mas é o próprio profeta
quem apresenta a petição em favor do povo. 0 profeta
pede o auxílio do Criador e Redentor em favor do povo
no período de ansiedade e impaciência por se libertar do
cativeiro e de estar logo no caminho' para a sua terra,
na realização das promessas proféticas.
A 'literatura dos hebreus recebeu alguma influência
da mitologia da Babilônia e de outras nações do Orien*
A PR O F E C IA DE IS AÍAS 205

te. Temos nestes versículos os têrmos mitológicos JRaabe,


o Dragão, o Mar e o Grande Abismo (Cp. Jó 9:13; 36:12;
7:12; Sal. 74:13; 89:9-13). Êstes têrmos são usados
como sinônimos do eaos original. Nesta linguagem
simbólica e figurada, o profeta faz alusão ao poder dé
Deus na criação e na libertação de Israel do poder do
Egito. Êste profeta freqüentemente relaciqna a histó­
ria humana com a obra da criação. Assim, é usada a
mitologia no Velho Testamento para reforçar fatos his­
tóricos. Os têrmos são usados principalmente como f i­
guras na linguagem do Velho Testamento.
Desperta, desperta, arma-te de fôrça. Nas repeti­
das mensagens de cônsolação, o profeta tinha falado mui­
to sôbre o propósito e o plano do Senhor na libertação
de Israel do seu sofrimento na opressão. Aqui se apre­
senta um apêlo fervoroso para que o Senhor se desper­
te do loingo periodo de inatividade e salve logo o seu
povo. Arma-te de fôrça, ó braço do Senhor. A restau­
ração de Israel para o seu nôvo mundo de justiça e re­
denção pode ser realizada somente pelo braço do Senhor,
pelo exercício do seu grandioso' poder. Desperta, ,
Como nas gerações antigas, dias dos atos poderosos da
criação e do livramento de Israel do poder do E gito. O
Senhor, então, demonstrará de nôvo o seu poder de sal­
var. O profeta está pensando na analogia entre a cria­
ção original do mundo material e o restabelecimento da
ordem moral. Como o Senhor triunfou na formação da
ordem material do mundo de elementos de caos, assim
também no livramento de Israel, Êle estahelecerá de nôvo
a ordem moral tão violentamente abalada pela fôrça bru­
tal do cativeiro.
íRaabe, no versículo 9, é a personificação do caos
que precedeu, a separação da terra (Gên. 1:9-13). O
têrmo se refere também ao Egito no versículo 10., O
206 A. R. C R ABT REE

dragão tradicional era um grande um grande mons­


tro marinho (Jó 26:13). Assim, o profeta usa a mitologia
no desenvolvimento de alguns ensinos teleológicos (Cp.
Sal. 74:13-14: Jó 38:11; Ez. 29:3-5; Hab. 3:8). O Se­
nhor dôs Exércitos segura no seu poder as fôrças do mar.
Êle agita O mar e faz bramar as suas ondas (Sal. 80:9-
10; 93:1-5).
Foi o Senhor quem secou as águas do grande abismo
e féz o fundo do mar um caminho. A palavra abismo,
D in n » é a mesma usada em Gên. 1 :2, chamando a
*
atenção para o ato original de Deus na criação. O Cria­
dor é, também o Salvador, e, assim, na frase o fundo do
mar, o profeta faz referência à separação ou à divisão
da^ águas n° tempo do êxodo (!Éx. 14:21).
11: Assim voltarão o* resgatados do Senhor,
« virão « SU o bom júbilo;
e uma alegria aempiterna coroará as cabeças;
alcançarão gôzo e alegria,
é dtles fugirão a dor e o gemido.

Há muita discussão sôbre o versículo 11. Tem pou­


ca relação com os versículos anteriores, e verbalmente
é quase igual a 35:10, onde cabe melhor no contexto. E
alguns pensam que o versiculo foi introduzido aqui por
,um copista*» Mas a volta dos resgatados do Senhor con-
korda bem, não sòmente com a tese geral que o profeta
Istá discutindo, mas também com a ênfase no poder do
senhor acentuado nos versículos 9-10. O Senhor mani­
festará de nôvo o seú grande poder na restauração do
seu !povo qiie voltará para a sua terra com as cabeças
coroadas de alegria perpétua. Na sua nqva felicidade; a
dor e o gemido' fugirão dêles.
3. ''Nfio Temató, Eu Sou ò Vosso Consolador, 51:12-16
12. Eu, Éu aou aquêle Que vos contoíá;
A PROFEC IA DE IS AiAS 207

quem és tu, para teres mèdo do homem que morre,


ou do filho do homem feito como erva ? '%
13. Quem és tü que te esqueces do Senhor, teu Criador,
que 'estendeu os céus
e deitou a fundação da terra,
e temes continuamente todo o dia
por causa do furor do opressor,
quando se prepara para destruir ?
Onde está o furor do opressor ?
14. O exilado cativo depressa será libertado;
lá não morrerá para descer à sepultura,
nem lhe faltará o seu pão.

O Senhor se apresenta de nôvo nestes versículos


como o Consolador do seu povo, A passagem é geral­
mente reconhecida como resposta direta ao apêlo dos
versículos anteriores. O masculino plural vos, e o fem i­
nino singular tu no' versículo 12 não apresenta a mesma
dificuldade no hebraico como em inglês e português. O
profeta pensa primeiro nos homens que compõem o
grupo dos exilados, e logo em seguida êle personifica
os exilados como mulher, como em 41:14, mas em 41:8
êle fala dos exilados como homem. P or que os exilados,
cujo Deus é o Criador Todo-Poderoso, têm tanto mêdo
da destruição pelos opressores? Como é que tens mêdo
do homem mortal entregue à destruição como erva? (Cp.
40:6).
Quem és tu que tens mêdo do homem? E quem és
tu que te esqueces do teu Criador? (V er 49:14). Esta re­
preensão ao mêdo de Israel no versículo 12, e do seu
esquecimento do’ seu Criador no versículo 13, parece
inapropriada em resposta ao apêlo dirigido ao Senhor
nos versículos 9 e 10, que falam dos seus atos poderosos
na criação . Mas é prdvável que naquele fervoroso apêlo
Israel tivesse dúvidas da intervenção do Senhor depois
de tantos anos de sofrimento.
A resposta do Senhor às dúvidas e à fé vacilante
de Israel é a nova afirmação de que (Êle é o Deus
208 A. R. C RAB TRE E

que o povò descreve nas suas declârações. Se Is­


rael se entregar ao seu Deus, as suas dúvidas e o
seu mèdo se desvanecerão, e terá plena certeza do
livramento da opressão e da redenção que o Senhor lhe
promete. O Senhor, teu Criador, é Uma referência ao
fato de que o Criador do universo é o Fazedor de Israel,

, teu Fazedor. Israel não tem razão de ter niêdo.
O texto hebraico do' versículo 14 é complicado e di­
fícil, mas o seu sentido parece mais ou menos claro.
A RSV traduz, Aquêle que é curvado, mas O exilado cati­
vo é mais definido. O Rôlo do Mar Morto tem O aflito.
O oprimido no cativeiro será libertado' depressa, ou quase
imediatamente. O versículo dá ênfase à libertação dos
cativos impacientes. O cativo não morrerá ou descerá
à cova na terra da Babilônia. Assim, o Senhor promete
que é chegada a hora da libertação e da volta dos cati-
vós para a sua terra.
15 Poia Eu *ou o Senhor teu Deus,
•que «oito o mar, de modo que bramem a» *uas ondae;
O Senhor do* Exércitos é o seu nome.
16. Pus ae minhas palavras na tua b6ca,
e te escondi na sombra da minha mão,
estendendo o* céus
e fundando a terra,
. e dizendo a 8iio Tu és o meu povo.
. '
L Por causa dá semelhança dos versículos 15 e 16 a
$ufras passagens do profeta, alguns pensam que foram
Adicionados à profecia por ura copista. Mas o modo
de concordar com o pensamento e o' estilo do profeta
favorece a sua integridade. Os versículos reforçam a
ênfase dò profeta sôbre a criação, á relação peculiar
entre Javé e Israel, a missão de Israel como o povo do
Còroéêrtd, a révela^Sp divina e à pròmessá de ireden-
ção. ■■ ■' ■
A. PROFECIA DE ISAÍAS 209

Sou ò Senttor teu Deus que agito o mar. O.contro­


le ; dó mar, em 'tôdas as suás agitações é simplesmente
um a: ilustração do poder do Senhor dos Exércitos, o
Criador e Controlador de tôdas as fôrças do universo.
Pus as mittiias palavras na tua bôca', e te escondi
na sombra da minha mão. Estas palavras são parale­
las com as de 5íht è 49:2, e assim se relacionam com a mis­
são do Servo do Senhor. Parece que o profeta estava pen­
sando no Israel restaurado e redimido pelo Servo. Está
pensando especialmente de Israel como o povo do Con­
cêrto, o povo que o Senhor tinha escolhido para ser o
seu pdrtador da revelação divina aos povos do mundo,
com o propósito de criar um nôvo mundo de justiça,
um nôvo céu e uma nova terra em lugar dos velhos que
desaparecerão (Ver v. 6 ; cap. 65:17; 66:22) . A missão de
Israel restaurado e redimido como o povo do Senhor
há de ser cumprida. E Deus dirá a Sião: Tu és o meu
povo.

D . O Reino do Senhor em a Nova Época de Je­


rusalém, 51:17-52:12
: Na mensagem anterior o profeta discutiu a promessa
do livramento de Sião do cativeiro, e a esperança da re­
denção espiritual dos israelitas fiéis. Falou também
da; alegria e da exultação' do povo na volta para a sua
terra. Nos versículos 17:23 o mensageiro do Senhor
proclama que o período de sofrimento e humilhação de
Jerusalém está quase terminado. Êle descreve a cidade
na figura de mulher prostrada e atordoada pelo cálice
da ira do Senhor. De todos os seus filhos não houve ne­
nhum que pudesse ajudá-la na sua condição miserável.
Más Ò Senhor Javé toma o cálice das mãos dela e o dá
aos inimigos que a tinham desprezado e oprimido por
longos anos. Assim; na nova épcfca Sião acordará e se
vestirá, dá sua fortaleza, e dos seus vestidos formosos.
210 A R . CRABTREE

O Senlior Javé dos Exércitos, havendo disciplinado su­


ficientemente o seu povo, não permitirá que o seu Nome
seja blasfemado pela continuação do sofrimento de Is­
rael, o povo da sua escolha. Os atalaias erguem a voz
e anunciam com exultação as boas novas do' retorno dos
libertados a Sião, acompanhados pela presença do Se­
nhor. Êles pedem que as ruínas da cidade rompam em
júbilo. Os libertados voltam vitoriosamente, cercados
pela presença do Senhor dos Exércitos.
1. Sião Já Bebeu Bastante do Cálice de Atordoamento,
51:17-23
17. Aeorda-te, acorda-te,
levanta-te, 6 Jerusalém,
tu que bebeste da mão do Senhor
o cálice da sua ira,
que tu bebeste até o sedimento
do cálice de atordoamento.
13. De todos os filhos que ela teve
não há nenhum que a guie;
de todos os filhos que ela criou,
não há nenhum que a tom* pela mão.

Nos versículos 17 e 18 o profeta dirige a palavra à


cidade de Jerusalém. 0 estilo da mensagem toma a
forma literária de elegia. Desde a sua destruição pelos
caldeus, tinha ela bebido do cálice da ira do Senhor. O
profeta tiuha declarado repetidamente que estava che-
ando deprS&sa a hora do livramento de Israel. Mas Sião
S inda se apresentava como mulher prostrada no estado
e entorpecimento. 0 profeta quer despertar a cidade
letárgica para entender o futuro da sua redenção e da
sua incumbência como o povo' do Senhor. O verbo
é reflexivo e traduz-se melhor acorda-te.
A form a do verbo em 52:1 é diferente, e neste versículo
traduz-se bem desperta. Jerusalém tinha bebido do
cálice (Ja ira ,do Senhor até às fezes de atordoamento.
A PROFEC IA DE ISAÍAS 211

Jeremias tinha falado do cálice da ira dó Senhor nà-a&dsão


do julgamento de Jerusalém juntamente com tôdas as
iiàções (25:15-26). A palavra ,nj?.2p , cálice, encontra-
se sòmente aqui e no versículo 22, mas a palavra se en­
contra nas inscrições ugaríticas (Arqueologia Bíblica,
ps. 24, 54, 131) qüe evidentemente tinham,uma certa
influência no vocabulário de alguns dos escritores he­
braicos. Aparentemente, a palavra CÍ2 foi acrescenta­
da por um copista para explicar a palavra ugarítica. A
palavra , atordoamento, cónsta sòmente aqui
' T t *•

e em Sal. 60:3.
O versículo 18 descreve a condição tão miserável
de Jerusalém, de que não havia ninguém, mesmo entre
os seus filhos, para a guiar ou tomá-la pela mão. Mas
esta condição abjeta de Jerusalém não veio sôbre ela
acidentalmente. Era o castigo divino dos seus pecados
e da sua infidelidade para com o Senhor da justiça.
19. Estas duas cousas te sobrevieram;
quem terá compaixão de ti ?
A desolação e a destruição, a fome e a espada;
. , quem te consolará ?
20. Os teus filhos já desmaiaram, . .. .
jazem nas entradas de tôdas as ruas,
como antílope na rêde;
‘ Êles estão Cheios da ira do Senhor,
e da repreensão do teu Deus.

O versículo 19 declara que Jerusalém tinha sofrido


duas grandes calamidades por causa da sua infidelidade:
a destruição da sua terra, e o castigo do seu povo pela
fom e e a espada. Quem te consolará? O pronome "'ft não
concorda bem com a primeira pessoa do verbo consolar,
é alguns traduzem, Como eu te consolarei? Mas óà Setèh-
ta e o Rôlo do Mar Morto têm a terceira pessoa do verbo i
212 A . R. C RAB TRE E

Os teus filhos já desmaiaram (Cp. Am . 8:13; Jon.


4:8; Naum 3:11) . A frase nas entradasf, ou nas cabeças
de tôdas as ruas, segundo a opinião de muitos estudan­
tes, foi acrescentada ao versículo, de L a m . 2:19, e so­
brecarrega o metro hebraico. Os teus filhos jazem des­
maiados como o antílope esgotado no esforço de liber­
tar-se. Os habitantes da cidade estão cheios da ira do
Senhor.
21. Pelo que ouve isto, tu que estás aflita,
e estás embriagada, mas não de vinho:
22. Assim diz o teu Senhor Javé,
e o teu Deus que pleiteia a causa do seu povo:
Eis que eu tomei da tua mão
o cálice de atordoamento;
o cálice da minha ira;
nunca mais dêle beberás;
23. E pô-lo-ei na mão dos teus atormentadores,
os que diziam a ti:
Abaixa-te, para que passemos:
■e tu pusest* as tuas costas como chão,
e como rua para os transeuntes.
Apresenta-se o clímax dêste capitulo nestes versí­
culos. O profeta usa várias palavras e frases para dar
ênfase ao evento de tanta importância que anuncia.
Pelo que, ou portanto, introduz a promessa brilhante
para os exilados aflitos e entorpecidos pelos longos anos
no exílio 4 Ouve isto, em vez de abandonar o seu povo
| no sofrimento, o Senhor Javé, o teu Deus, declara: Eis
Iq u e eu tomei da tua mão o cálice de atordoamento. Sa-
fbendo que o seu povo tinha bebido até às fezes do cálice
da disciplina, o próprio Senhor toma a iniciativa na re­
denção'do mesmo.
A palavra eis é importante. As posições do povo
perseguido e do perseguidor vão ser mudadas. O povo
perseguido será libertado, enquanto que o seu cruel per­
seguidor vai- experimentar o sofrimento que tinha, ad-
xiiinis4rado: ao: povo de Judá , O Deus poderoso toma da
A • PR O FEC IA DE ISAÍAS 213

mão de Judá o cálice de atordoamento e o entrega na


mão dos seus atormentadores . O Juiz de todo o mundo,
na sua justiça perfeita, julga em favor do seu povo con­
tra o seu inimigo (Cp. 41:1-42:4; 43:8-13; 44:6-8; 45:
20-25; 48:14-16; 50:8-9).
O verbo tomei é o perfeito de certeza, e pode ser
traduzido estou tomando. A palavra teus atormentado­
res, “ip Ü íi , encontra-se também em Lam . 1:5, 12; 3:32.
Abaixa-te para que passemos. Estas palavras descrevem
a prática dos conquistadores orientais de pisar nas cos­
tas dos conquistadõs prostrados. Às vêzes os conquis­
tadores, montados, faziam os cavalos pisar cruelmente
os conquistados. É certamente o Senhor Deus, e só êle,
quem pode nos libertar de tôdas as formas do mal.
2. Adorna-te dos Teus Vestidos Formosos, ó Je­
rusalém, 52:1-6
1. Desperta, desperta,
reveste-te da tua fortaleza, ó Sião;
adorna-te dos teus vestidos formosos,
ó Jerusalém, a cidads santa;
pois não mais entrará em ti
nem o incircunciso nem o imundo.
2. Sacode-te do pó, levanta-te,
ó cativa Jerusalém;
solta-te das ataduras de teu pescoço,
ó cativa filha de Sião.

Em contraste com as referências à humilhação de­


gradante que Jerusalém tinha sofrido, o profeta volta
à tese do livramento e da redenção de Sião. É de inte­
resse especial o contraste entre a descrição da nova Jeru­
salém e o cântico exprobrante sôbre a Babilônia em
47:1-3.
Havendo passado das mãos de Jerusalém o cálice da
ira do Senhor, ela é chamada para livrar-se da letargia
e do sono atordoante, e a d o rn a ra de vestidos formosos e
214 A . R. CR A B TR E E

apropriados para a sua nova relação, como a noiva do


Senhor (Cp. Apoc. 21:2). Desperta, desperta, reveste-
te da tua fortaleza, ó Sião. É notável como o profeta
adapta a linguagem para expressar o sentimento do seu
espirito, bem como o seu pensamento intelectual. Judá
deve ficar despertada do estado de torpor, para reconhe­
cer que Jerusalém não c mais uma escrava. Ela está na
véspera de se tornar a cidade santa, como nunca antes
(Cp. 48:2; Joel 4:17; Apoc. 21:2). Não' mais entrará
na cidade nova o incircunciso e o imundo (Cp. Naum. 1:
15; Apoc. 21:27, 22:14,15) . Jerusalém havia ficado pros­
trada no pó por muito tempo', algemada como escrava
(51:23).
Sacode o pó, levanta e assenta-te. Êste é o texto
massorético, e pode significar levanta-te e assenta-te
tranqüilamente, ou assenta-te no teu trono. Mas muitos
pensam que a palavra 'Ottf foi originalmente ,
• I T’
cativa, como na última linha do versículd. Com esta
pequena modificação, o paràlelismo característico do
profeta é restaurado. Solta-te das ataduras do teu pes­
coço. Encontram-se nos monumentos de Babilônia figu­
ras de escravos amarrados um ao outro por ataduras
no pescoço. A volta do pequeno grupo dos cativos redi­
midos para a Cidade Santa representava para o profeta
p futuro dóVeino de Deus.
1 Éstes versículos na form a de prosa apresentam al­
gumas dificuldades. O sentido' do hebraico nao é per­
feitamente cláro, e aparentemente contradiz algumas das
declarações do profeta sôbre a soberania e a onipotên­
cia do Deus de Israel. A pásságém faz referências à su-
jugação de Israel no Egito e na Assíria. Judá é denomi-
nadq vjós e meu povo, em vez de Pilha de Sião, nos ver­
sículos anteriores'. A passagém trata de Judá escraviza­
da, e da opinião dos conquistadores a respeito dã ttiajes-
A P R O F E C IA DE ISAtAS 215

tade e do poder do Deus de um pequeno grupo de e$pra-


vos. Pròpriamente interpretada, a passagem cabe no
eontexto da história de Judá na véspera da restauração.
Por causa do estilo inferior da passagem, e da ênfase no
ponto de vista dos conquistadores sôbre a impotência do
Deus de Israel, alguns intérpretes rejeitam os versículos
como interpolação, mas não há nada no ensino teológico
que justifique a sua rejeição.
Pois assim diz o Senhor: Por nada fôstes vendidos
(Cp. 50:1 e Sal. 44:12) . O cativeiro' babilônico de Judá
é sempre representado pelos profetas como o castigo
justo dos pecados de Israel. Mas Babilônia, como o Egi­
to e a Assíria, não tinha qualquer direito de pensar que
Judá lhe pertencia. O Senhor não recebeu cousa alguma
em trôco de Judá. Deus permitiu o' cativeiro do seu
povo sòmente para discipliná-lo por causa da sua infide­
lidade. E vai libertá-lo, não por preço, mas por causa
do seu amor imutável para .com o povo do Concêrto, na
glorificação' do seu Nom e. O Nome do Senhor fo i des­
prezado por algum tempo pelos conquistadores de Judá,
mas na libertação do povo cativo será honrado, e os seus
inimigos serão humilhados e desprezados (51:22-23). A
ênfase no versículo 3 cai nas palavras por nada e sem di­
nheiro .
3. Pois assim diz o Senhor: Por nada fôstes vendidos; e sem
dinheiro sereis resgatados.
4. Pois assim diz o Senhor Deus : O meu povo no principio desoeu
ao Egito para ali habitar, e a Assíria sem razão o oprimiu.
5. Mas agora, que tenho aqui, diz o Senhor, visto ter sido o meu
povo levado sem preso ■ Os seus governadores dão uivos, diz
o Senhor; e o.meu nome 6 desprezado continuamente todo dia.
6. Portanto, o meu povo saberá o meu nome; por isso naquele
dia saberá que sou Eu quem fala : Eis-me aqui.

No versículo 4 o profeta fala de duas experiências


de injustiça que o seu povo tinha sofrido na sua histó­
ria. O s hebreus desceram voluntàriamente ao Egito,
216 À . R. C R ABTRE E

còrividados por Faraó, e mais tarde foram escravizados


injustamente. Deus usou a Assíria como instrumento de
julgamento (Cp. 10:5-6), mas os assírios ignoravam o
propósito divino e se interessavam somente no domínio
cruel das iiações vizinhas para aumentar as suas rique­
zas e o seu poder (Cp. 10:7-11)
Mas agora, que tenho aqui? As palavras Mas agora
chamam a atenção para a gravidade das circunstâncias do
povo' de Israel na véspera da sua libertação do poder
bábilônico. Que acho aqui? Que vou fazer? O Rôlo
do Mar Morto tem, Que tenho aqui? Assim, pergunta o
Senhor: Que tenho aqui, visto ter sido o meu povo le­
vado sem preço? As palavras indicam que o Senhor
Javé se acha na presença dos exilados (Cp. 46:4). A
pergunta mostra que o Senhor vai libertar o seu povo
do poder da Babilônia, como o tinha libertado do Egito
e da Assíria. A frase meu povo levado sem preço re­
presenta o ponto de vista das nações. Os povos julga­
vam que o Deus dos israelitas era fraco e não podia de­
fender o seu povo nas lutas com as nações mais podero­
sas. É dêste ponto de vista què Israel fo i vendido, ou
levado sem preço. Assim, as nações desprezaram a ma­
jestade e o poder do Senhor Javé, o Deus de Israel (Cp.
Ez. 36:20). Vendido à Babilônia sem preço, Israel será
libertado do poder do inimigo, não por dinheiro, mas
pelo' anítar imutável e a graça salvadora do Senhor dos
Exércitos, o Deus de Israel e o Criador Soberano de to­
dos os povos do mundo. Os governadores do mundo dão
uivos, ou vangloiriam-se do seu poder, e desprezam cons­
tantemente o Nome do Senhor (Joel 2:17; Sal. 42:10;
79:10; 115:2).
Portanto, o meu povo saberá o meu Nom e. Israel
vai ter novas experiências sôbre ò significado do Nome
db Senhor. As nações escárneciam do Nome dò Senhor,
e Israel ficava entristecido e desanimado eóm os loit-
A PBOFEÇIA: de is a ía s 217

gos anos de sofrimento sem alívio. Israel será libertado


do poder do inimigo, e terá uma nova experiência do
poder soberano e onipotente do Senhor, não sòmente na
sua vida nacional, mas também na história das nações.
O destino de Israel está sempre nas mãos poderosas do
Senhor Javé dos Exércitos, e o povo escolhido do Senhor
reconhece o cumprimento' das promessas-* divinas (Çp.
45:19; 46:11; 48:15-16). O segundo portanto ou por isso
pode ser eliminado, e talvez não fizesse parte do texto
original. Eis-me aqui, o Guia de tôda a história da hu­
manidade.
3. O Retorno do Senhor a Sião, 52:7-12
7. Quão formosos são sôbre os montes
os pés do que anuncia as boas novas,
que faz ouvir a paz, que anuncia cousas boas,
que faz ouvir a salvação,
que diz a Sião : O teu Deus reina.
8. Ouve, os teus atalaia* levantam a voz !
juntamente exultam;
porque ôlho a ôlho vèem
o retorno do Senhor a Sião.

Nesta passagem o profeta transmite com entusias­


mo e animação a mensagem de boas novas. O Senhor
ganha a maravilhosa vitória de libertar o' seu povo do
poder cruel da Babilônia. O mensageiro está no cami­
nho, chegando a Jerusalém para anunciar o estabeleci­
mento do reino de paz e salvação do Senhor Javé, o Dèus
de Israel. O profeta descreve a rapidez do movimento
dos pés do mensageiro na sua aproximação à cidade de
Jerusalém, com as suas boas noticiais, ou boas novas,
Ifc n a (Cp. 40:9; 41:7).
Quão formosos são sôbre os montes os pés do que
anuneia as boas novas. Encontra-se uma parte dêstè ver­
sículo em Naum 1:15. O Apóstolo Paulo cita a passa*
gem com referência aos pregadores do evangelho de
218 A. R. C R ABT REE

Cristo (Rom . 10:15). Às repetições que anunciá, que


faz ouvir, que anuncia, que faz ouvir, que diz, descre­
vem a persistência e a profunda alegria do evangelista
na proclamação da sua mensagem, O teu Deus reina. O
Sénhor estabelece o seu reino eterno (Cp. 24:23; Sal.
93:1; 97:1; Is. 40:10; 47:8). Êste é o clímax da men­
sagem do profeta nas suas profecias.
Com a destruição do reino de Israel, e os longos
anos do exílio do pequeno grupo' de homens de Judá,
parecia que o reino do Senhor na terra já estava quase
extinto. Mas a esperança e a promessa do reino eterno
e universal do Senhor Javé dos Exércitos que o grande
profeta tinha proclamado no período de calamidade, está
sendo cumprida finalmente, com o retorno dos exilados
fiéis a Sião. A tese da majestade e da realeza de Javé
apresentada nas Escrituras antigas (Juizes 8:22-23; I Sam.
8:7), e tão freqüentemente prcfclamada pelo profeta, está
sendo confirmada pelo livramento e a salvação do seu
povo escolhido para realizar, com as bênçãos do Senhor,
a sua grande missão.
Ouve, os teus atalaias levantam a voz! Os atalaias
aqui não são os profetas. Mas os profetas são freqüen­
temente denominados atalaias (€6:10; Jer. 6:17; Ez.
33:2-6). A palavra é usada aqui no sentido comum de
guardas estacionados nos muros da cidade. 'Êistes guar­
itas ou atalaias são representados como os primeiros que
^êem e anunciam a aproximação do‘ R ei. Êles levantam
à voz e se regozijam à primeira vista da chegada do Rei
a Sião. Porque ôlho a ôlho vêem o retorno do Senhor
a Sião. A expressão ôlho a ôlho encontra-se mais Uma
-vez em Núm. 14:14. O Senhor, representado pelo" grüpo
de exilados fiéis que retornam a Sião, é visto claramen­
te. 'A 'expressão ôlho a ôlho não tem o mesmo sentido
aqui copio no ptírtuguês moderno, no sentido de. concor­
dar ou pensar semelhantemente sôbre qualquer assunto.
Juntamente os guardas observam a chegada do Rei.
A RROFECIA DE ISAÍAS» 219

9. Rompei em júbilo, exultai à uma,


desolações de Jerusalém;
porquê o Senhor consolou o seu povo,
remiu a Jerusalém.
10. O Senhor desnudou o seu santo braço
aos olhos de tôdas as naçãss;
e todos os confins da terra verãó
a salvação do nOsso Deus.
Rompei em júbilo,. . . desolações de Jerusalém. Atra­
vés da sua história a música expressava os mais profun­
dos sentimentos de alegria e gratidão do povo de Deus
(Ver 44:23; 49:13; 55:12). Até as ruínas da cidade são
convidadas para acordar e romper em júbilo porque o
Senhor consolou o seu povo e remiu Jerusalém (Cp.
44:23; 51:3). A promessa de consolação está sendo glo­
riosamente cumprida. Muitds dos Salmos nos mostram
como o louvor, ações de graça e regozijo caracterizavam
a religião e o culto do povo do Senhor no Velho Testa­
mento .
No versículo 10 o profeta descreve o preparo do
Senhor para o conflito que resultou na sua gloriosa vi­
tória. Desnudou o seu santo braço aos olhos de tôdas
as nações. O braço do Senhor é o símbolo do seu poder
que agora será demonstrado perante tôdas as nações até
aos confins da terra, na salvação do seu povo. Não há
qualquer palavra de louvor ao povo de Israel nesta pro­
fecia. A sua libertação e restabelecimento em Sião à
vista de todos os povos do mundo, fo i obra do Senhor,
realizada completamente e somente pela sua onipotên­
cia.
11. Retirai-vos, retirai-vos, saí de lá,
não toqueis cousa imunda;
saí do meio dela, purificai-vos,
os que levais os vasos do Senhor.
12 Pois não saireis apressadamente,
nem vos ireis fugindo;
porque o Senhor irá diante de vós,
e o Deus de Israel será a vossa retaguarda.
220 A R. CR A B T R E E

Nestes versículos o profeta apresenta a chamada do


Senhor ao seu povo para um nôvo êxodo, não do Egito,
mas da Babilônia. Os exilados devem preparar-se para a
sua partida de Babilônia, deliberadamente e sem pressa
(Cp. !Èx. 12:11; Deut. 16:3). Êles acompanharão o Se­
nhor no' seu retorno vitorioso a Sião (Cp. 40:10, 11).
Nas suas mensagens urgentes, êste profeta tem o costume
de repetir as ordens que transmite do Senhor: Retirai-
vos, retirai-vos (Cp. 40:1; 51:9, 17; 52:1). O profeta
ainda se achava na Babilônia, mas, aparentemente, se
apresenta como o mensageiro do Senhor em Jerusalém,
chamando o povo para a santa cidade de Sião, onde vai
ser estabelecido para o cumprimento da sua missão.
Não toqueis cousa imunda. O povo deve purificar-
se, como no preparo para uma procissão santa. O povo
está levando os vasos do Senhor, e a ênfase na purifica­
ção cerimonial não concorda com os ensinos enfáticos do
profeta sôbre a necessidade imperiosa da transformação
espiritual do povo pecaminoso e infiel para com o seu
Deus. A ênfase aqui sôbre os vaso's do Templo talvez
se relacione com o decreto de Esdras 6:5.
No versículo 12 a saída de Babilônia apresenta-se
em contraste com o êxodo do Egito (Êx. 12:11; Deut.
16:3) . Apressaram-se a fugir do Egito, mas a partida
de Babilônia fo i deliberadamente planejada e realizada
tcpin p erfefli segurança. No deserto Os israelitas foram
«miados pela coluna de nuvem de dia, e de noite pela cor
|íma de fogo (Êx. 13:21, 22), mas no seu retôrno a Sião,
à justiça irá diante dêles, e o Senhor será a sua reta­
guarda (58:8).
É difícil exagerar o eterno significado da volta do
pequeno grupo' de israelitas fiéis a Sião. Nao era fácil
desarraigar-se dos seus negócios e voltar para a pequena
ferra èm ruínas. Mas o mensageiro do Senhor, com o
poder da sua fé no futuro do reino de Deus, acordou e
A PROFEC IA DE ISAtAS m
insjiirou o pequeno grupo de fiéis para reconhecer a ne­
cessidade imperiosa de fazer qualquer sacrifício a fífh de
cumprir a sua missão como o povo do Senhor.
E. O Sacrifício e a Glória do Servo do Senhor,
52:13-53:12
Êste quarto Cântico do Servo do Senhor é o mais
compreensivo e o mais importante. Apreéfênta ideais
significativos dos outros cânticos, e descreve as conse­
qüências e a recompensa do sofrimento do Servo. É o
Senhor que fala no princípio e no fim do Cântico.
Esta é a mais profunda e a mais sublime das profecias
do Velho Testamento.
Nos cânticos anteriores o Servo se apresenta como
representante ideal do Senhor, cônscio da sua nobre mis-
sSo e resoluto’ no propósito de cumpri-la. Não obstante
a perseguição e o sofrimento, o Servo executa a sua mis­
são com inflexível coragem, certo da vitória final. Nos
primeiros três oráculos sôbre o Servo não há qualquer
indicação de que a sua atividade fôsse interrompida pela
morte. É no terceiro que o Servo é cruelmente perse­
guido, mas, com a ajuda do Senhor, desafia os seus ad­
versários. Estas três profecias dão ênfase ao ministério
do Servo como profeta Ou mensageiro da vitória final
do Senhor sôbre todos os inim igos.
No Cântico final, a missão do Sèrvo é perfeitamente
conseguida pela sua morte vicária. Assim, êle se apre­
senta como o Servo Sofredor, o Homem de Dores, o
mártir paciente que toma sôbre si os pecados de muitos
e intercede pelos transgressores. A passagem dá ênfase
especial aos terríveis sofrimentos do Servo, e o efeito
dêste sofrimento sôbre o pensamento dos seus contem­
porâneos. É só depois do padecimento, da morte é da
ressurreição que o Servo é reconhecido como o Salvador
dos seus inimigos. Os que desprezaram o Servo e o jul­
222 A. R. C RA BTREE

garam indigno entre os homens, antes da morte dêle,


chegaram a entender depois da ressurreição, que, êle ti­
nha levado sôbre si os pecados dos inimigos que o ma­
taram .
Um estudo cuidadoso da passagem confirma a co­
nexão com os ensinos do profeta que precedem, e as ex­
posições que seguem. As estrofes e a form a métrica
desta maravilhosa profecia são as mesmas que se encon­
tram nos outros cânticos do Servò. O profeta trata do
mesmo assunto geral, com variações, nos primeiros 16
capítulos da sua mensagem, acentuando o poder do Se­
nhor, o seu eterno propósito em relação à incumbência
do seu povo escolhido, e à sua responsabilidade de rece­
ber, preservar e transmitir a mensagem de Deus a tô­
das as nações do mundcf. Assim esta mais importante
mensagem do homem de Deus ocupa o lugar apropriado
na sua profecia. Há cinco estrofes ou divisões sôbre o
Homem de Dores.
1. A Obra e a Exaltação do Servo, 52:13-15
13. Eis que o meu servo procederá com prudência;
será exaltado e elevado, e mui sublime.
14. Como pasmaram muitos à vista dêle —
tão desfigurada estava a sua aparência que não era do
homem, e a sua forma mais do que a dos filhos do homem —
15. assim espantará muitas nações,
reis fecharão a bftea por causa dêle;
, pois á%(ilo que não lhes foi anunciado verão,
t « aquilo que êles não ouviram entenderão.
I Nestes três versículos é o próprio Senhor que apre-
stenta o Servo dêle, com o anúncio da obra e da exaltação
dêle, apesar da humilhação e do sofrimento que enfren­
ta na realização do propósito divino. A estrofe é mais
do que uma introdução; é um resumo da humilhação,
da obra e da exaltação do Servo. A passagem dá ênfase
ao òoirtraste entre a degradação do Servo e a sua gló­
ria.
A ' PR OFECIA DE ISAÍAS 223

Meu Servo procederá com prudência. A palavra


significa ser prudente. Muitos preferem tradu-
— T

zir o H ifil do verbo prosperará. Mas procederá com pru­


dência traduz melhor o' sentido da palavra aqui, porquê
o êxito feliz ou a prosperidade final do Servo fo i o re­
sultado ou o fruto do seu caráter, da sua prudência. É
o fruto da prudência do Servo que justifica finalmente a
sua elevação. Esta palavra é muito rica na sua signifi-
caçãò. É a palavra-chave desta profecia. O Servo su­
porta os sofrimentos, porque sabe que por seu sacrifí­
cio vicário êle conseguirá a salvação do seu povo. 0 que,
no capítulo cinqüenta, parecia a sua infelicidade, apre­
senta-se aqui como a mais profunda sabedoria que re­
verteu finalmente na sua exaltação e sublimidade. Será
exaltado e elevado, e mui sublime. Nota-se que o prin­
cípio, o progresso e o estado final da exaltação do Servo
corresponde perfeitamente com a vitória de Cristo sôbre
a morte e a sua exaltação à destra de Deus. Como a
humilhação do Servo fói a mais baixa possível, assim
também a sua exaltação e a sua glória será a mais alta
possível.
Mas é difícil para o homem, sem a orientação di­
vina, entender o espírito e a sabedoria de sacrifício por
amor da humanidade. Na história contemporânea, o ho­
mem que sofre por amor da causa que representa é ge­
ralmente reconhecido como pessoa peculiar. É verdade
que o sofrimento é um problema para a filosofia e para
a fé. Assim, o povo ficava pasmado diante do sofri­
mento do Servo. Mas Deus nos revela no exemplo do
seu Servo que o sofrimento pode ser frutífero, e o sacri­
fício no serviço do Senhor pode ser glorioso.
Há certas dificuldades no hebraico e na construção
dos versículos 14 e 15. 0 texto Massorético tem a ti ou
à vista de ti, mas à vista dêlè cabe melhor no contexto,
224 A. R. C R A B TR E E

e é geralmente preferido pelos intérpretes. Os versículos


14 e 15 são apenas uma declaração, e o período é compli­
cado . Como pasmaram muitos à vista dêle, . . . as­
sim espantará muitas nações. As cláusulas intermediá­
rias são um parêntese, indicado pelo verbo pasmaram.
A palavra pasmaram expressa o espanto, o assombro
ou o horror daqueles que viram o terrível sofrimento do
Servo, tão desfigurada estava a sua aparência. A decla­
ração explica a repugnância ou o sentimento de horror
daqueles que viram o Servo na sua condição desprezí­
vel. O Servo ficou tão desfigurado pelo sofrimento que
não tinha mais a aparência normal do hom em . A palavra
é substantivo e significa desfiguração. Não
— * •
consta em qualquer outro lugar.
Assim espantará muitas nações. A palavra n!P (

H ifil de Jlfj , é de difícil interpretação, mas o sentido do


T T
H ifil é fazer palpitar, saltar ou espantar, e o sentido espan­
tar cabe muito' bem no contexto. A palavra também tem o
sentido de borrifar, espalhar ou chuviscar, mas borrifar ou
chuviscar nações não cabe tão bem neste contexto como
espantar. Reis fecharão a bôca por causa dêle. Os reis
e as nações chegam a reconhecer a grandeza e a autori­
dade do Sef%o (Cp. 49:23; Sal. 76:12; 138:4; Jó 12:21).
f s reis chegam a ver e entender a grandeza, a exaltação
e|a glória do Servo, um evento de que não tinham rece­
bido qualquer aviso. Assim, a conclusão dêste breve re­
sumo da descrição da Pessoa e da obra do Servo explica
os sentimentos profundos das nações e dos reis.
2. Homem de Dores, 53:1-3
\ '
1. Quem creu o que nós ouvimos ?
E a qu-em foi revelado o braço do Senhor?
A PROFECIA DE ISAÍAS 225

2. Pois crescia diante dêle como rebento nôvo,


e como raiz duma terra sêca;
não tinha forma nem formosura, quando o vimos,
e nem beleza para que o desejássemos.

No capítulo' cinqüenta o Servo é representado como


mártir, confiando firmemente em Deus, e certo de que
o Senhor o vindicaria. Os sofrimentos caíram sôbre êle
em conseqüência da fidelidade no seu serviço, mas a
passagem termina sem explicar o êxito da sua missão.
Na estrofe 52:13-15 o Senhor vindica o Servo, justifica
o seu sofrimento e a sua glorificação. Então o profeta
procede com a descrição da carreira do Servo e do desen­
volvimento das opiniões dos contemporâneos sôbre a
pessoa e a obra dêste homem de dores.
Quem creu o qtíe nós ouvimos? Quem podia ter
crido naquilo que nós ouvimos ? A resposta indicada pela
pergunta é que a mensagem, ou o relatório a respeito do
Servo, foi claramente incrível. Quem está falando? E
o que tinham ouvido? Tinham ouvido' (52:13-15) a
mensagem resumida sôbre a Pessoa do Servo, que, ape­
sar da sua humilhação e sofrimento, êle tinha procedido
prudentemente, e que finalmente fo i exaltado, elevado
e mui sublime. 0 que tinham ouvido relacionava-se in­
diretamente com a pregação dós profetas, mas direta­
mente com aquilo que tinham ouvido a respeito do Ser­
vo do Senhor.
Mas quem está falando? Os comentaristas apresen­
tam três respostas à pergunta. Muitos pensam, incluin­
do judeus, que são as nações pagãs. Mas no versículo
anterior (52:15), as nações e os reis ficaram muito sur­
preendidos porque não tinham ouvido cousa alguma
sôbre a exaltação do Servo. Por outro lado, aquêles que
falam tinham ouvido, mas não podiam crer (53:1). E
no versículo 8 encontra-se a frase o meu povo que seria
impossível do ponto de vista das nações. A exaltação do
226 A. R. C R A B T R E E

Servo está no futuro do ponto de vista do profeta (52:


13-15; 53:10-12), e as nações form am as suas opiniões
a respeito do Servo' no fato da exaltação dêle. Conside­
rando êstes fatos, parece claro que são os israelitas que
assim revelam as suas meditações sôbre a Pessoa e os
sofrimentos do Servo. É o próprio profeta, inspirado
pelo Espírito do Senhor, que fala, e assim representa os
israelitas. O que nós ouvimos era do Senhor, revelação
divina. A exaltação do Servo do Senhor fo i conseguida
pelo braço, o poder, a energia do Senhor que opera na
história e realiza os propósitos divinos na luta com as
fôrças do mal (40:10-11; 48:14; 51:5; 52:10; 59:16; 63:5,
12). O poder do Senhor e a fraqueza do Servo; a majes­
tade do Senhor e a humilhação do Servo'; a santidade do
Senhor e o sofrimento do Servo; eram paradoxos para
os primeiros ouvintes da mensagem do Servo. Por cau­
sa da superficialidade dos homens no' amor das cousas
mundanas, êles interpretaram erradamente a significa­
ção do sofrimento do Servo. Êste versículo é citado em
João 12:38, e R om ., em parte (10:16), com referência
à rejeição do evangelho pelos judeus.
O versículo 2 dá ênfase à origem humilde do' Servo,
e também explica o desprêzo que os contemporâneos ma­
nifestaram para com êle. O Servo não tinha beleza nem
formosura que pudesse satisfazer ao gôsto do povo. Os
.homens nã%sabiam julgar o' caráter do Servo, senão pela
Wua aparência, que era repelente. Pois crescia diante dêle
fom o rebento nôvo, e como raiz duma terra sêca. As
frases como rebento nôvo e raiz duma terra sêca dão
muita ênfase à origem humilde do Servo. Alguns mu­
dam a frase diante dêle (O Senhor) para diante de nós.
A mudança é desnecessária, porque o hebraico está cla­
ro. Não havia nada na aparência do Servo que pudesse
agràdár aos contemporâneos. Por outro lado, havia
nêle sòmente o que provocava aversão. Julgando de
A ' PR O F E C IA DE ISAÍAS 227

acôrdo com os seus ideais falsos, os homens entenderam


erradamente o caráter do Servo e a nobreza da sua
missão.
3. Era desprezado • rejeitado pelo* homens;
um homem de dores que tinha experiência de enfermidades.
Como um de que os homens escondem o rosto,
era desprezado, e dêle não fizemos oaso.

Era desprezado e rejeitado pelos homens. A pala-


vra traduzida rejeitado, ^“ín , significa cessar. Qsho-
- T
mens abandonaram ou cortaram quaisquer relações com
o Servo. As dores referem-se às tristezas do Servo. O
Servo ficou entristecido pela falta de entendimento dos
homens, pelo egoísmo e pela superficialidade religiosa
dêles. A angústia do espírito fo i o sofrimento principal
do Servo. Mas tinha experiência de enfermidade. Isto
não significa que era homem doentio, mas fo i afligido
por moléstia repulsiva. Para o povo em geral, do Velho
Testamento, as doenças e o sofrimento eram considera­
dos o resultado do pecado. O Livro de Jó é um protesto
contra esta opinião pública da época. N o caso do' Servo,
o zêlo e o amor arderam no espirito dêle, porque se iden­
tificou com o povo nas suas enfermidades e sofrimentos.
Respdndendo à vontade de Deus, o Servo dedicou-se per­
feitamente à verdade, ao dever e ao serviço da huma­
nidade .

3. O Sofrimento Expiatório do Servo, 53:4-6


4. Verdadeiramente, êle tomou sôbre si as nossas enfermidades,
e carregou as nossas dores;
mas nós o reputávamos por aflito,
ferido de Deus e oprimido.

Enquanto os versículos 2 e 3 descrevem a impressão


instintiva que o sofrimento do Servo provocou no' pen­
samento dos contemporâneos, os versículos 4-6 expli-
228 A R. C RAB TREE

eanx o entendimento moral da consciência acordada e


esclarecida. Assim, êstes versículos explicam o proble­
ma do mistério e o significado das enfermidades e das
dores do Servo. Aquêles que entenderam erradamente
a causa das dores do Servo, e assim o desprezaram, ch«*-
gam a reconhecer que a natureza dos seus sofrimentos
é muito diferente do que êles haviam pensado. O povo
tinha razão no reconhecimento de que o sofrimento é
de fato a conseqüência do pecado; erraram, porém, no
julgamento de que o Servo estava sofrendo o castigo do
seu próprio pecado .
Verdadeiramente, certamente, pfcí , êle levou, ,
•* T T T

as nossas enfermidades, , as nossas dores, triste-


•• T T*

züs ou sofrimentos, , êle os carregou,


•• i —
. Esta é uma declaração maravilhosa sôbre o
T T •

sofrimento vicário. O servo puro e inocente toma volun-


tàriamente sôbre si o sofrimento que devia ter caí­
do sôbre os próprios pecadores. A mudança de ati­
tude para com o Servo era o princípio do arre­
pendimento' do povo. Em Mat.8:17 o evangelista apli­
ca estas palavras aos milagres de nosso Senhor na
cura das doenças e enfermidades do povo. Mas o Servo
Idjnrou sôbre si as enfermidades e os sofrimentos do povo,
e lp te sacrifício vicário do Servo foi mais perfeitamente
eJ$mplificado pela morte de Cristo na cruz do Calvá­
rio.
Nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e opri­
mido. O sujeito nós é muito enfático. O povo pensou
que o Servo foi afligido, ferido e morto porque era gran­
de pecador, enquanto êles se consideravam justos. A
verdade, porém, é que êle foi punido porque nós somos
os pecatfores, e nós, escapamos porque êle foi ferido e
A PRO FEC IA DE ISAtAS 229

oprimido de Deus em nosso lugar. É interessante que


Elohim, Deus, é usado aqui em vez de Javé, o Senhor
Deus de Israel, o Nome de Deus que o profeta geralmente
empregou. O profeta assim reconhece que a morte vi»
cúria do Servo vai além de Israel nos seus resultados, e
abrange as nações até aos confins da terra. A variedade
dos têrmos usados para descrever os sofrimentos do Ser­
vo é notável, como se vê pela leitura cuidadosa do capi­
tulo. Nós julgamos que êle foi aflito, , ou puni-
- T
do. É a palavra usada para descrever qualquer doença
ou aflição que o Senhor faça cair de repente sôbre o pe­
cador (Gên. 12:17; I Sam. 6:9). Em Jó 19:21; I I Reis
15:5; Lev. 13:3, 9, 20, esta palavra descreve o ataque re­
pentino da lepra pela mão de Deus no castigo do pecado.

5. Mas êle foi ferido pelas nossas transgressões,


esmagado pelas nossas iniqüidades;
o castigo que nos traz a paz caiu sâbre êle,
e pelas suas pisaduras somos nós sarados.

O versículo 5 é chamado, às vêzes, o João 3:16 do


Velho Testamento. A palavra , ferido, furado,
™T

traspassado, é mais forte do que a palavra HSfà , tradu­


zida ferido no' versículo 4. Êle foi traspassado pelas nos­
sas transgressões. Torna-se mais clara a relação entre
o sofrimento do Servo e os pecados do povo. O espírito
rebelde trouxe sôbre Israel o cativeiro. Pensando na sua
infidelidade, o povo' chega a reconhecer que o seu sofri­
mento era o resultado natural de mundanismo, obstina­
ção, egoísmo e desobediência. Israel tinha-se desviado
do caminho do Senhor, e assim devia sofrer as conse­
qüências do seu pecado. Como o sangue do assassinado
caía sôbre o homicida, exigindo castigo justo, assim qual­
quer pecado do pecador cai sôbre êle. Neste caso, po­
230 A . R. C RAB TREE

rém, é o Servo justo e inocente quem sofre o castigo dos


pecados de Israel.
Alguns levantam dúvidas sôbre o' princípio da jus­
tiça do sofrimento vicário. Dizem que a culpa não pode
ser transferida. Entre os homens esta declaração é geral­
mente reconhecida como verdade, mas nem sempre, pois
mesmo entre os homens, o amor tem prerrogativas, como
o direito de sofrer pelo amado. . Ninguém tem maior
am or do que êste, de dar alguém a sua vida pelos seus
amigos. O pai ou a mãe, pelo seu amor, tem o' direito de
sofrer em lugar do seu filho. Considerando o fato da
solidariedade da fam ília e da raça humana, não há nada
mais evidente neste mundo do que o sofrimento pelos
pecados do' injusto. O sofrimento do inocente pelo cul­
pado, motivado pelo amor, tem sido uma fôrça redentora
na experiência humana. Os resultados benéficos do so­
frimento vicário, no poder do amor, ultrapassam a jus­
tiça.
Além disto, a relação do' Servo Sofredor para com
Israel, ou a relação de Cristo para com os pecadores, é
tal que não existe igual entre os homens. N o versículo
4 o povo confessa que o Servo levou sôbre si as suas en­
fermidades. No' versículo 5 Israel reconhece mais clara­
mente, e entende mais profundamente, o significado dos
sofrimentos do Servo. O Servo sofreu o castigo dos pe-
qados comeüdos pelo povo. O castigo que nos traz a paz
à iu sôbre êle. O castigo corretivo que devíamos ter re­
cebido para o nosso bem-estar, êle tomou sôbre si. Além
disto, o sacrifício do Servo foi o remédio que nos resti-
tuiu a nossa saúde espiritual. Pelas suas pisaduras,
in -D I-D , somos nós sarados.

O perfeito profético do verbo traduz-se pelo presen­


te. Assim os vários perfeitos nesta profecia descrevem as
bênçãos permanentes que o Servo trouxe para o seu
A PR O FE C iA DE ISAtAS 211

p ovo, O profeta não podia ter declarado mais claramen­


te a expiação do pecado humano pelo sacrifício do seu
substituto. O profeta não declara que o povo não sofria
por causa dos seus pecados, mas ensina que não podia
ser salvo por seus próprios sofrimentos. Era sòmente
pela submissão voluntária do Servo' ao castigo divino, e
â nobreza do seu modo de fazê-lo, que êle'f»odia efetuar
a reconciliação entre o Senhor e Israel. Como represen­
tante do povo, o Servo submeteu-se voluntàriamente à
justiça do Senhor em harmonia com o amor divino, e as­
sim se tornou o Salvador dêle.
6. tóodgá^IniS) como ovelhas, andávamos desgarrado» :
Temo-noa desviado ca^a para n-wn saminho;
e o'Senhor f8z cair sôbre Sle
a iniqüidade de£Hó* tôdâs.

Como a iniqüidade sai do pecador e ó condena, vol­


ta sôbre êle com o poder de destruí-lo. Mas neste caso
o Senhor fêz cair sôbre êle a iniqüidade de nós todos.
Assim, o Servo inocente sofre o castigo que devia ter
caido sôbre ós próprios pecadores. Identificou-se com os
pecadores e tomou sôbre si o castigo que devia ter caido
sôbre êles, se não existisse esta prerrogativa do amor.
Todos nós são as primeiras, e também as últimas
palavras da confissão do povo no versículo’ 6 . Todos nós
andávamos desgarrados, — a iniqüidade de nós todos
caiu sôbre êle. A iniqüidade de ‘Israel fo i o seu desvio do
Senhor. Cada um se desviou para o seu caminho. As­
sim êste profeta, como* Jeremias e Ezequiel, reconhece a
iniqüidade individual, bem como a culpa nacional de Is­
rael. Êstes profetas protestaram contra o conceito dé
que o pecado é sòmente nacional, e que as gerações fu­
turas tinham de sofrer a culpa e a pena dos pecados dos
pais (V er Jer. 31:29; E z. 18:1-32). Certamente, a n l*
ção, como tal, era pecaminosa, mas ao mesmo tem f&;
cada um dos israelitas fo i pecaminoso e responsável pÊk:
232 A R C R AB TR E E

xante o Senhor pela sua própria infidelidade. Cada um


tinha-se desviado do seu próprio caminho, de acôrdo com
as suas tentações pessoais, e cada um tinha que sofrer
jTpéna rins spus prnprias-p^aTTr^ Más mesmo assim é
valido o princípio do sofrimento vicário, e temos aqui
a declaração de que o Senhor fêz cair sôbre o Servo a
iniqüidade do povo. 0 castigo vicário' do pecado entende-
se somente à luz do amor de Deus .
4. O Servo Inocente Submete-se Voluntàriamente à Morte
Ignominiosa, 53:7-9
7. Ê.1e foi oprimido, e foi aflito,
mas não abriu a bôca;
como cordeiro levado ao matadouro,
e, como ovelha, muda perante os seus tosquiadores,
assim ôle não abriu a sua bôca.

Nestes versículos o profeta conclui a narrativa sôbre


o sofrimento do Servci, explicando a paciência do Sofre­
dor na presença da morte e a cegueira espiritual dos
seus contemporâneos. Êfle foi oprimido e maltratado.
A palavra , oprimido, aparentemente, apresenta o
resumo das afrontas e dos ultrajes que o Servo sofreu
dos seus contemporâneos em conseqüência do julgamen­
to falso que formaram a respeito da sua Pessoa e da sua
obra. O têraio significa o tratamento cruel que os escra-
Vos recebiam dos senhores (Cp. Êx. 3:7; 5:6; Jó 3:18).
Bepois de sofrer a violência e a injustiça às mãos dos
perseguidores, a vida do Servo foi terminada precipita­
damente por homicídio judicial, e êle foi desonradamente
deitado na sepultura com os ímpios.
É fato notável e interessante que o Servo desta pro­
fecia é o único no Velho Testamento que sofreu em si-
lênqo, ,e sem se queixar da injustiça dos seus persegui­
dores. Os homens do Velho Testamento que sofreram
às mãos dos inimigos não ficaram silenciosos. Davi,
A- PR O FE C IA DE ISAtAS 233

Ezequias, Jó e o mártir dos Salmos confessaran^ repe­


tidamente a sua culpa perante o Senhor. Queixaram òu
argumentaram com Deus que estavam sofrendo injusta­
mente. Como se explica que êste Servo é o único varão
do Velho Testamento que tanto' sofreu sem se queixar,
ou sem abrir a sua bôca? É porque se entregou voluntà-
riamente ao Senhor, e sabia que estava sofcepdo de acôr­
do com o propósito de Deus que não podia ser conse­
guido de qualquer outra maneira. Compreendeu que não
estava sofrendo por causa dos seus próprios pecados.
Em virtude do seu amor, o Servo entendeu o mistério
do sofrimento vicário, tinha certeza do êxito do seu pro­
ceder, e entregou-se humildemente ao propósito do Se­
nhor.
8. Pela violência e julgamento foi arrebatado;
e, quanto à sua geração, quem considerou
que êle foi cortado da terra dos viventes,
ferido pela transgressão do meu povo ?
Os versiculos 8 e 9 nó hebraico, bem como nas ver­
sões, são difíceis de interpretar. Pela violência e julga­
mento foi arrebatado. A preposição geralmente sig­

nifica de ou fora de, e alguns traduzem ,deopres-


v ••
são ou de violência e julgamento fo i arrebatado, ou li­
bertado da violência pela morte, mas esta tradução não
concorda com o sentido do texto do capítulo. A prepo­
sição tem também o sentido de com ou por, e êste sen­
tido cabe melhor aqui. Pór um processo da lei o Sgí-
vo foi condenado à morte, e fo i executado de acôrdo
com a lei. Foi homicídio cometido pela injustiça em
nome da justiça. Assim, a morte do Servo, como a cru­
cificação do nosso Senhor, fo i um assassínio judicial, e
ninguém refletiu ou considerou que êle foi cortado da
terra dós viventes pela injustiça tirânica do seu povo, é
que, apesar do processo aa lei que o condenou, êle fò i
234 A . R . C R A B TR E E

morto traiçoeiramente. Foi arrebatado, ou fo i tomado,


n p ? , significa fo i morto (Cp. Ez. 33:4).
t \
Alguns intérpretes, às vêzes, levantam dificuldades
que realmente não existem. É verdade que a palavra
geração pode ter vários sentidos, mas na cláusula, quanto
à sua geração, , a palavra significa os contempo­
râneos do Servo. Assim, pode-se traduzir, quanto aos
seus contemporâneos, quem considerou? Mas alguns
pensam que o têrmo se refere à posteridade do Servo
(Cp. Núm . 9:10). Ferido pela transgressão do meu
povo não é uma declaração difícil, se é o profeta quem
está falando. Mas alguns pensam que o profeta está re­
presentando! as nações como aquêles que falam (4-6),
dizendo, êle foi cortado da terra dos viventes, e ferido
até à morte pelas nossas transgressões. O Rôlo do Mar
Morto tem do seu povo, em vez do meu povo. A L X X
tem fo i ferido pelos revoltosos do meu povo. Mas estas
mudanças do Texto Massorético levantam mais dúvidas
do que resolvem.
9. Deram-lhe a sepultura com os perversos,
e com um rico estgve na morte,
ainda que não tinha cometido violência,
nem havia dolo na sua bôca.

Deram-lhe a sepultura com os perversos. A repug­


nância públicft que o Servo experimentou durante a vida
cqbtinuou depois da sua morte. Também se apresentam
dificuldades no texto hebraico' do versículo 9. Alguns
dizem que é difícil entender o paralelismo entre os per­
versos e um rico, ou ricos. Por exemplo, o Velho Testa­
mento geralmente fala dos pobres como os piedosos,
mas raramente identifica os ricos com os perversos. A
prosperidade material é geralmente reconhecida como
a recòmpensa da justiça do homem (Jó l:l-2 :6 ; 42:10-
16). Mas os profetas, em geral, reconheceram que as ri-
A .P R O F E C IA DE ISATAS 235

quezas do homem freqüentemente representam a injusti­


ça dos ricos na opressão dos pobres (Cp. Jer. 9:2o; 17;
11; Miq. 6:12). Álguns cristãos entendem que o sepul-
tamento do Servo prefigura o entêrro de Jesus por José
de Arimatéia (Mat. 27:57-60), e que neste caso o têrmó
perversos não representa o texto original. Outra suges­
tão para esclarecer o paralelismo é substituir por
j n 'W )} , malfeitores, o têrmo , um rico. A L X X
- * T

tem o plural ricos. 0 Texto Massorético tem TjrVjttS *


T *

nos seus mortos.


Ainda que não tinha cometido violência, nem havia
dolo na sua bôca. Esta declaração do profeta sôbre a
inocência do Servo termina a narrativa sôbre a Pessoa e
o caráter dêle. Não há qualquer declaração positiva do
profeta de que o Servo era absolutamente livrè do pe­
cado, mas a figura dêle como cordeiro levado ao mata­
douro, a sua humilhação e paciência na submissão per­
feita à vontade do Senhor sugerem que o profeta enten­
deu que o Servo era absolutamente perfeito sem qual­
quer mancha de pecado.
Alguns pensam que a frase o Cordeiro de Deus, um
dos nomes de Jesus (João 1:29, 36; Atos 8:32; I Ped. 1:
19; Apoc. 5:6-14; 7:9-17), derivou-se desta passagem
sôbre o Servo levado ao matadouro como cordeiro.
5. A Realização do Propósito do Senhor no Sacrifício
do Servo, 53:10-12
Enquanto o texto dos versículos 10 e 11 é difícil, é
clara a declaração de que o Servo terá uma vida nova,
será completamente reabilitado e cumprirá perfeitamen­
te a sua predeterminada missão nos seus sofrimentos e
na sua morte vicária. Através da sua carreira na vida,
na morte, no sepultamento e na ressurreição, sempre
236 A R. C R A B TR E E

se realiza o eterno' propósito do Senhor. A declaração


que aparentemente não houve razão para o destino fa-
tal do Servo (The Interpreter’s Bible, V ol. V, p. 627)
não concorda com os ensinos desta estrofe, nem com a
exposição dó próprio escritor. 0 sofrimento do Servo
concorda perfeitamente com o propósito do Senhor. N o
seu sofrimento, o Servo levou sôbre si os pecados do
povo, e pela sua mórte vicária multidões ficam livres
da pena dos seus pecados, e recebem a salvação perfeita.
O próprio Servo verá o fruto do seu sofrimento vicário,
multidões dos remidos que êle salvou, e ficará gloriosa­
mente satisfeito.
10. Todavia, foi do agrado do Senhor esmagá-lo;
fazendo-o enfermar;
quando êle se puser por expiação do pecado,
verá a sua posteridade e prolongará os seus dias;
a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos.

Foi do agrado do Senhor esmagá-lo. É o profeta


quem fala no versículo 10, e nos versículos 11 e 12 é o
próprio Senhor Javé que explica o seu prazer no pro­
cedimento prudente, sábio e eficaz do Servo. A angústia,
a humilhação e a morte do Servo não foi por acaso, nem
fo i do poder do mal, senão indiretamente, mas de aeôrdo
com a vontade e o prazer do Senhor. As atividades do
Servo concordaram perfeitamente com o plano e o pro­
pósito do Sefifeor.
| É verdade que o desprêzo e o ultraje que o Servo
inerente sofreu às mãos dos contemporâneos era uma
perversão da justiça da parte dós pecadores, e aparente­
mente um triunfo completo do mal sôbre o bem. Pare­
cia que o Servo fó i abandonado pelo Senhor justamente
como o povo pensava. Pelo ccíntrário, agradou ao Se­
nhor esmagá-lo. È muito forte esta declaração, mas dá
ênfase'1 aò propósito do Senhor no proceder do Servo,
motivado.,pelo amor de Deus em favor dos homens pe­
A PR O FE C IA OE ISA ÍA S 23?

cadores. Assim a declaração concorda perfeitamente


com o ensino fundamental da Bíblia inteira. Pois o Fi*
lho do Homem veio buscar e salvar o que se havia per­
dido.
A cláusula fazendo-o enfermar é a tradüção de ape­
nas uma palavra hebraica, , o H ifil de ,
• VI V T T

fazer enfêrmo (Cp. Miq. 5:13; Naum 3:19), causar-lhe


dor ou aflição. Alguns levantam dúvidas sôbre o texto,
mas certamente se refere ao sofrimento do' Servo.
Quando êle se puser por expiação do pecado, ou
Quando êle der a sua alma como oferta pelo pecado. A
palavra , alma, freqrüentemente significa pessoa. A
declaração não é tão difícil como dizem alguns comenta­
ristas. O têrmo hebraico , oferta pela culpa ou
T r
oferta pelo pecado, é a palavra-chave desta estrofe, e
uma das palavras mais ricas e mais significativas desta
profecia sôbre o Servo Sofredor. Originalmente, o têr­
mo significava culpa, e assim é usado em Jer. 51:5: a
terra está cheia de culpas. É usado' em Levítico e Nú­
meros no sentido de oferta pela culpai e oferta pelo pe­
cado. Assim, o Servo oferece-se a si mesmo como ofer­
ta pelo pecado do povo. O Servo' inocente dá a sua vida
em lugar da vida do povo culpado a fim de satisfazer
à justiça divina. Êle era mais do que um mártir. O
seu sacrifício representa o amor, bem como a verdade
da lei divina.
Verá a sua posteridade e prolongará os seus dias.
O hebraico' diz literalmente, Verá posteridade e prolon­
gará dias. Êste têrmo JHf aqui não significa os des­
cendentes físicos do Servo, como dizem muitos comen­
taristas, mas refere-se à semente ou à linhagem de tó-
238 A. R. CRABTREE

dos os salvos pelo sacrifício do Servo, e os dias dêstes


que a salvação prolonga. Assim, a vontade e o prazer
do Senhor prosperarão nas mãos do Servo.
11. £le verá o fruto do penoso trabalho da sua alma,
e ficará satisfeito;
o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento
justiçará a muitos,
levando sôbre si as iniqüidades dêles.

Êle verá o fruto do penoso trabalho da sua alma.


A L X X e o Rôlo do Mar Morto têm Éllè verá a luz, em vez
de o fruto, e alguns traduzem, Depois do penoso traba­
lho da sua alma, êle verá a luz (Cp. 60:19-20; Sal. 36:
9)... Nos versículos 11 e 12, a conclusão dêste capitulo,
encontra-se o resumo' dos ensinos sôbre a Pessoa e a obra
do Servo. O Servo se apresenta como oferta pelo pecado,
derrama a sua alma, justifica a muitos, derrama a sua
alma até à morte, e intercede pelos transgressores. Pelo
seu conhecimento, isto é, pelo ccfnhecimento que êle tem
de Deus, e do propósito divino no seu sofrimento, êle jus­
tificará a muitos. Assim, depois da sua ressurreição, o
Servo continuará a sua atividade profética interrompida
pela morte (Ver 42:1-4; 49:2; 50:4-9). Não há razão
séria de se duvidar da inferência da ressurreição do Ser­
vo neste período de desenvolvimento rápido do conceito
do valor do homem individual. E êle levará sôbre si as

arei uma parte com os grandes,


artes êle partilhará o despojo;
*■ porque aorramou a sua alma até à morte,
e foi contado com os transgressores;
contudo, êle levou os pecados de muitos,
e pelos transgressores êle intercede.

Como recompensa dos seus sofrimentos vicários, e


da sua obra eficaz, o Servo receberá uma parte com os
grandes’ e exercerá uma influência poderosa. O sentido
de dividir o despojo é figurado. O poder futuro do Ser­
A PR O FE C IA DE ISAIAS 239

vo não será político, mas a fôrça espiritual da justiça di­


vina; Na primeira estrofe do capítulo o Servo se Apre­
senta como o sofredor repugnante que o povo rejeita, mas
o nadir da sua humilhação fo i a posição mais perto da
sua exaltação, pois êle se levantará, será exaltado e mui'
sublime. O sacrifício e a morte lhe trouxeram a vida e a
satisfação (V er Luc. 9:24). Assim, o Senhor estava rea­
lizando, na experiência do Servo, o seu eterno propósito.
Os sofrimentos vicários e a obra mediatória do Servo,
cm favor dos transgressores, serão gloriosamente recom­
pensados. A frase êle partilhará o despôjo com. os fortes,
é linguagem figurativa, e a expressão proverbial de vi­
tória . O Servo é coroado de honra e glória porque volun-
tàriamente derramou até à morte a sua alma, a sua vida,
e fo i contado' com os transgressores. Tomando o lugar
de transgressor, o Servo inocente levou sôbre si os peca­
dos de muitos. Pelos transgressores êle intercede, ou
intercederá. A form a do verbo é incompleta e pode sig­
nificar intercessão repetida ou futura. Êste principio
de que uma pessoa pudesse levar a culpa da comunidade
é reconhecido em Jos. 7:24 e I I Sam. 21:6. Muitos co­
mentaristas persistem na declaração de que o Servo é a
nação de Israel, mas não há a mínima evidência de que
êste capítulo trate de Israel como o Salvador de Israel.
F . A Felicidade de Sião Reunida com o Senhor por
um Concêrto Eterno, 54:1-17
1. Canta, ó estéril, que não deste à luz;
exulta com cântico de alegria, e exclama,
tu que não tiveste dores de parto;
porque os filhos da solitária ®erão mais
do que os filhos da casada, diz o Senhor.

O capítulo 54 relacio'na-se mais diretamente com 52:


13-53:12 do que muitos comentaristas querem reconhe­
cer. Todos reconhecem a semelhança no estilo literário
dos dois capítulos, mas alguns dão muita ênfase à dife­
240 A . R. C R AB TR E E

rença dos dois assuntos apresentados pelo' profeta, sem


qualquer palavra de explicação da mudança abrupta da
sua mensagem. É verdade que há um contraste entre
o sentimento de tristeza e compaixão despertado pelo so­
frimento do Servo inocente do Senhor e o' júbilo do povo
remido. Mas, para o leitor cuidadoso, a última estrofe
do capítulo 53 certamente explica o motivo do júbilo de
Sião' nos capítulos 54 e 55.
No capítulo 54 o profeta volta à tese predominante
dos capítulos 40-55, à maravilhosa restauração de Israel.
Êle tinha proclamado repetidamente, e com grande en­
tusiasmo e alegria, o livramento de Israel, mas êste povo
ainda se achava no cativeiro' por causa da infidelidade
ao Senhor, e, no seu desânimo, não podia crer plenamen­
te na grande mensagem da esperança do profeta. O pro­
feta tinha explicado também que o sofrimento de Israel
no cativeiro foi o castigo divino das suas iniqüidades e
dá infidelidade ao seu Deus. Insistia em que Israel ti­
nha que ser libertado do poder do pecàdo, bem como do
poder político. A redenção moral e espiritual era uma
necessidade imperidsa no preparo do povo de Israel para
cumprir a sua missão messiânica, como o povo escolhi­
do do Senhor.
Os comentaristas que não entendem a plena signi­
ficação da obra redentora do Servo não vêem a relação
<Jo' reg o zija d o s homens remidos no capítulo 54 com a
iW rativa da humilhação, da morte vicária e da exalta­
ção do Servo do Senhor. Os dois capítulos tratam do
Mesmo assunto, de pôntos de vista diferentes. O capítulo
53 explica a redenção de Israel pela obra do Servo; os
capítulos 54 e 55 descrevem as bênçãos frutíferas da obra
do Servo na transformação espiritual de Israel, e no
preparo dêste povo para cumprir a sua gloriosa missão.
O emino do' profeta sôbre a obra do Servo, a redenção
espiritual de Israel e a sua restauração política relacio­
A PRO FEC IA DE ISA ÍA S 241

na-se com o concêrto eterno do Senhor com a nação es­


colhida .
1. O Aumento dos Filhos de Sião, 54:1-10
Segundo o profeta, a restauração de Israel é clara­
mente o resultado da obra do Servo do Senhor. Enquan­
to que o capítulo 53 explica o processo da salvação espi­
ritual de Israel, o capítulo 54 descreve o livramento po­
lítico do povo como o resultado da sua transformação
ética. Nos primeiros três versículos desta seção, o pro­
feta expressa de nôvo a sua certeza inabalável do futuro
glorioso que o povo de Israel vai experimentar em a nova
relação com o Senhor.
Nos primeiros dez versículos dêste capítulo, o pro­
feta continua a discussão do restabelecimento de Israel
na sua própria terra, com ênfase especial nas novas bên­
çãos do Senhor no aumento dos filhos de Sião, na sua
nova comunhão com o seu Deus. Deve-se notar aqui a
discussão das maravilhosas bênçãds divinas de Israel re­
dimido pela graça de Deus em 45:1-5; 40:14-21; 50:1;
51:1-3. Agora o período do castigo do povo já termi­
nou, e a prosperidade de Sião daqui em diante será maior
do que no período' antes do exilio.
a. Canta), ó estéril, que não deste à luz. A lingua­
gem dos primeiros dois versículos é figurada e muito ex­
pressiva. Sião, a espôsa estéril, exultará e cantará com
grande alegria, porque agora vai ter muitos filhos. Quan­
do Jerusalém fo i destruída ela se tornou estéril porque
havia abandonado o seu Marido, e ficou desolada no
período do exílio. Mas agora, no futuro próximo, Sião,
reunida com o Marido, restaurada à comunhão com Javé,
vai ter filhos mais numerosos do que tinha nos dias da
vida de casada. A frase os filhos da casada refere-se a to­
dos os filhos de Israel, antes do seu cativeiro, antes do
afastamento ou da separação de Sião do seu Senhor.
242 A. R. C R AB TR E E

Esta linguagem figurativa que apresenta Israel como es-


pôsa e o Senhor como o seu Marido, baseia-se nas idéias
do povo sôbre a aflição da esterilidade e a grande bênção
de muitos filhos. É muito notável que êste profeta, como
Oséias, Jeremias e Ezequiel pudesse usar esta figura do
matrimônio, tão corrompido nas religiões dos povos con­
temporâneos, para descrever a comunhão puramente es­
piritual entre o povo de Israel e o seu Deus.
2. Alarga o lugar da tua tenda,
e estendam-se as cortinas das tuas habitações;
não impegas, alonga as tuas cordas,
e segurar as tuas estacas.
Com a redenção' espiritual dos exilados, e a sua vol­
ta para a cidade de Jerusalém, que havia ficado desolada
durante o período do cativeiro, os moradores de Sião,
com as bênçãos do seu Redentor, vão-se multiplicando
rapidamente (Cp. 49:20, 21). Desta maravilhosa pros­
peridade da nova Sião surge a exortação, alarga o lugar
da tua tenda. É muito expressiva esta figura do nôma­
de que tinha achado lugar para residir permanentemen­
te. Já terminaram os dias da peregrinação dos filhos de
Israel. Alguns pensam que o imperativo do verbo, esten­
de as cortinas, concorda melhor com alarga o lugar do
que o subjuntivo plural, estendam-se as cortinas, e tal­
vez fôsse a form a original do hebraico, mas não há evi­
dência bastante nos manuscritos para fazer a mudança.
Jerusalém multiplicam-se tão rà-
estavam se espalhando no terri-
o ________ Êste é o sentido da figura da ten­
da cujas cortinas devem ser estendidas, as cordas alon­
gadas e as suas estacas afirmadas (Cp. Jer. 49:29; Hab.
3:7).
3. Pois trasbordarás para a direita e para a esquerda;
x 'tua posteridade possuirá as nações,
e fará que sejam habitadas as cidades assoladas.
A -PROFECIA OE ISAÍAS 243

.0 versículo 3 explica como Jerusalém trashprda


de moradores, e como êstes se espalham para a direita
è para a esquerda no território que os israelitas ocupa­
ram nos dias da sua prosperidade (Cp. Gên. 22:17).
Estas terras foram ocupadas pelo's edumeus e os filhos
de Am om desde os desastres de Judá e Jerusalém em
597 e 586. A posteridade dêste povo redimido, e dedicado
de nôvo ao serviço' do Senhor ocupará as cidades assola­
das e possuirá as nações (Cp. Gên. 22:17; 24:6) . A decla­
ração indica que os judeus restaurados ocuparão pacifica­
mente o território que lhes pertencia nos dias da sua
prosperidade. Mas é difícil a declaração, Tua posteri­
dade possuirá as nações. Alguns pensam que a expres­
são indica o nacionalismo agressivo que se desenvolveu
entre os israelitas depois da sua restauração, e que se
revela mais claramente em 60:12, 16 e 61:5. Mas o es­
pírito de nacionalismo não concorda com a obra do Ser­
vo. Parece mais provável que a declaração' significa a
ocupação somente das terras assoladas, e não o domínio
do mundo inteiro pelos israelitas. A passagem aqui não
indica que a nova comunidade religiosa de Israel dos
judeus seja politicamente agressiva.
4. Não temas, porque não serás envergonhado;
não estejas confundido, porque não sofrerás humilha$ão:
pois que te esquecerás da vergonha da tua mocidade,
e não mais te lembrarás do opróbrio da tua viuvez.
5. Pois o teu Criador 4 o teu Marido,
o Senhor dos Exércitos é o seu nome;
e o Santo de Israel i o teu Redentor,
£le 6 chamado o Deus de tôda a terra.
6. Porque o Senhor te chamou
como a mulher desamparada e angustiada de espírito,
como a mulher da mocidade,
quando ela 6 repudiada, diz o teu Deus.

b. Na Reconciliação com o Senhor, Sião Se Esque­


cerá da sua Vergonha, 54:4-6. Na reconciliação com o
244 A . R. CRABTREE

Senhor, seu Marido, Sião entrará numa nova época da


sua história. Êste nôvo evento, esta nova experiência
da graça de Deus, é de tanta importância para o futuro
do povo de Deus, que não haverá mais razão de ter mêdo
de qualquer calamidade, ou de qualquer humilhação,
comci as que tinham sofrido no exílio. Sião deve aban­
donar completamente qualquer idéia de depender dos
seus próprios esforços, e confiar no socorro e na orienta*-
ção do seu Marido. Nesta nova relação com o Marido,
Sião deve se esquecer da vergonha da sua mocidade, e
não se deve lembrar mais do opróbrio da sua viuvez. A
vergonha da sua mocidade talvez seja uma referência à
experiência de escravidão no Egito, mas também pode
ter referência ao período da infidelidade que resultou
no seu cativeiro (Cp. Os. 2:17; Jer. 2:2). A outra frase,
o opróbrio da tua viuvez, refere-se claramente à expe­
riência infamante do cativeiro.
Êste versículo 5 apresenta, em resumo, a teologia
do profeta, os seus ensinos sôbre a Pessoa e as ativida­
des providenciais de Deus. Notai a riqueza dos têrmos
que descrevem o caráter e a obra de Deus: Criador, Se­
nhor dos Exércitos, Santo de Israel, Redentor e o Deus
de tôda a terra. O teu Criador é o teu M arido. Pela in­
fidelidade e rebelião Israel tinha-se afastado de Deus.
O tempo que ficou separado de Deus é assim denominado
ç período ck^sua viuvez. Pela obra do Servo, Israel foi
libertado do poder político estrangeiro e reconciliado
cpm Deus. Esta nova relação de Israel com o Senhor
é-Hndicada pela figura de casamento. Pois o teu Criador
é o teu Marido.
É usada também no versículo 6 a figura de casa­
mento para descrever a relação de Israel, no período da
sua mocidade, com o Senhor. Mas, pela sua infidelidade,
Israêi afastou-se do seu Deus, e ficou separado dêle por
algum tempo'. Passou alguns anos fora da presença do
A P R O FE C IA DE ISAÍAS 245

Senhor, e longos anos dêsse período se achou em cati­


veiro, com tristeza e sofrimento. Mas com as bênçãos
do amor imutável de Deus, Sião é de nôvo reconciliada
com o' seu Marido, como a mulher da mocidade. Deus
não pode rejeitar o seu povo (Os. 2:19; 11:8, 9 ). Israel'
era qual mulher desamparada e angustiada, sofrendo
profunda tristeza no período da sua viuvez.
7. Por um breve momento te deixei,
mas com grahdes misericórdias te recolherei.
8. Num momento de grande indignação escondi de ti a minha face,
mas com amor «terno me compadecerei de ti,
diz o Senhor, o teu Redentor.
9. Pois isto é para mim como as águas de Noé;
como jurei que as âguas de Noé
não passariam mais sâbre a terra,
assim eu jurei que não mais me irarei contra ti,
nem te repreenderei.

c. A Promessa do Am or Imutável do Senhor, 54:


7-10. O período da separação do Senhor do seu povo
foi apenas por um breve momento, mas agora êle diz:
com grandes misericórdias, ou com grande compaixão
eu te recolherei. Há um contraste profundo entre o bre­
ve momento em que d Senhor abandonou o seu povo e
o amparo eterno em favor deste povo da sua escolha,
com as grandes misericórdias do seu amor imutável. Ver
Sal. 30:5, sôbre o breve momento, e Sal. 27:10, sôbre
a reconciliação (Cp. II Cor. 4:17, 18). A restauração
eterna de Sião é de acôrdo com o Concêrto eterno e in­
violável do Senhor com o povo da sua escolha. A
grande indignação ou a ira trasbordante, ,
beshetsef quetsef, é uma paronomásia que não se pode
imitar na tradução. A palavra não se encontra em
qualquer outro lugar no Velho Testamento. O têrmo
hesedh usado com referência ao Senhor significa o amor
249 A R. C R AB TR E E

eterno, imutável e fiel do Senhor. Neste versículo a pa­


lavra é reforçada com o adjetivo eterno, nona •
T V V I
O escritor está falando do concêrto do Senhor com Is­
rael que por si mesmo é uma revelação do amor e da f i­
delidade de Deus. Seria difícil achar em o Nôvo Testa­
mento uma expressão mais profunda do amor do Se­
nhor do que hesedh olam.
Pois isto é para m im comio as águas de Noé.
Alguns manuscritos têm como os dias de N oé. Há
pouca diferença entre as duas palavras hebraicas, e
a diferença entre as duas traduções neste caso’ é
de menos importância. Como eu jurei (Cp. Gên. 8:21,
22 e 9:11, 17). Êste profeta conhece as Escrituras
que falam das relações do Senhor com a humani­
dade, e especialmente das suas relações com o povo de
Israel. O profeta relaciona a promessa solene do Senhor,
neste versículo, com o' concêrto do Senhor com Noé.
Diz Gên. 6 :8, Mas Noé achou graça, t!”l, nos olhos do
Senhor. Segundo o resultado dos estudos do hebraico
por Nelson Glueck e outros eruditos nos últimos anos,
as palavras TH » e IC n são muito mais ricas na
•• V V V V

sua significação do que nas versões populares do Velho


Testamento. Assim, estas palavras, graça imerecida, ver-
,dade e amMr imutável têm essencialmente o mesmo sen-
kido como no Evangelho de João' (Ver o artigo Grace
in d Truth, por Lester J. Kuyper, na revista teológica
ÍNTE R PR E TATIO N , de Janeiro de 1964). Assim como
Deus jurou a Noé, e cumpriu a sua promessa solene,
agora êle promete com juramento solene que desviará
para sempre a sua ira do povo que tinha libertado e re­
generado pelo seu amor imutável de acôrdo com o seu
confeêrto eterno com o povo da sua escolha. Não se men­
ciona qualquer juramento nesta narrativa, mas isto não
tem importância.
A PROFECIA DE I9AIAS

10. Pois os montes podem se desviar


e os outeiros ser removidos, ^*
mas meu amor imutável não se desviará de ti,
e o meu concêrto de paz não será removido,
diz o Senhor, que se eompadece de ti.

0 versículo 10 reforça a promessa das bênçãos do


Senhor sôbre o seu povo (Cp. Jer. 31:35-40; 33:20-26;
Sal. 46:2-4). Os montes e os outeiros, as'**)bras maís
estáveis da criação, podem se desviar ou ser removidos;
MAS MEU AMOR IM U TÁ V E L NÃO SE DESVIARÁ DE
T I. Israel sabia que tinha sido escolhido como a mu­
lher de Javé (Cp. 42:6; 49:8), mas no período do exilio
tinha dúvidas do amor e do poder do Senhor, Assim, o
profeta expressa de nôvo em têrmos profundamente ri­
cos e preciosos o' amor, a fidelidade e ò poder do Senhor
na salvação do seu povo. Repete do versículo 8 o amor
eterno e imutável do Senhor. Declara que o concêrto de
paz não será removido (Cp. E z. 34:25 ; 37:26; Núm.
25:12; Mal. 2:5). 0 proíeta tinha reconhecido o Servo
como o mediador do concêrto de paz (53:5).
2. A N ova Jerusalém, 54:11-17
Êstes versículos descrevem a beleza e o futuro glo­
rioso da Nova Jerusalém, reconstruída pelo povo redimi­
do do Senhor. O profeta desenvolve o pensamento dos
versos anteriores, e explica a nova prosperidade de Sião
como o cumprimento da promessa infalível do Senhor,
no seu concêrto inviolável com o povo de Israel.
a. Deus Promete ao seu Povo A flito um Futuro L i­
vre de Perigos, 54:11-13
11. ô tu aflita, tempestuosamente arrojada e não consolada,
eis que eu porei as tuas pedras com antimônio,
e lançarei os teus alicerces com safiras.
12 Farei os teus baluartes de rubis,
as tuas portas de carbúnculos,
e tôda a tua muralha de pedras brilhantes.
248 A. R. CRABTREE

Jerusalém ainda está atormentada e perturbada pe­


las experiências do sofrimento, e não consolada (Cp.
a frase não consolada com o nome da filha de Oséias,
Lo-Ruama; Os. 1:6). Há um contraste muito forte entre
a aflição que o povo está experimentando e o futuro glo­
rioso que o Senhor lhe promete. Deus promete pôr as
pedras da nova cidade com antimônio. Esta é uma f i­
gura da futura beleza de Jerusalém. As mulheres do
Oriente usavam antimônio, um pó mineral, para tingir
de prêto as pestanas, e assim aumentar o brilho dos olhos
(Cp. II Reis 9:30; Jer. 4:30). Alguns não gostam da f i­
gura de Jerusalém qual mulher vaidosa, e querem mu­
dar o hebraico'. Na L X X consta carbúnculo. A figura
representa a argamassa custosa que aumentava o brilho
das pedras. As safiras dos alicerces são pedras de azul
cintilante (Cp. Êx. 24:10; Ez. 1:26).
Farei os teus baluartes ou os teus pináculos de rubis.
A palavra deriva-se da palavra , sol.
A palavra significa as partes do nôvo edifício que bri­

lham ao sol. A palavra rubi, , consta apenas


i■
aqui, e a de Ez. 27:16 é geralmente traduzida esmeral­
da. Era pedra faiscante. Carbúnculos são pedras bri­
lhantes que irradiam luz. Até a muralha era de pedras
brilhantes^ Êste quadro de Sião reconstruída pelos ju-
í deus que voltaram do cativeiro é poético e muito gracio-
|so, mais uma demonstração do espírito compassivo do
grande profeta que tinha sofrido com o' seu povo, e se
regozijava na proclamacão das promessas do Senhor
(Cp. Ãpoc. 21:2 e 22:1-21).
Êstes versículos tratam da justiça, da paz e da se­
gurança do povo da Nova Jerusalém. Nos versículos an­
teriores o' profeta descreve o esplendor e a beleza da
prosperidade material da Nova Jerusalém, que para o
A' P R O F E C IA OE ISAfAS 249

mensageiro era a Cidade de Deus. A grandeza e j i gló­


ria espiritual de Sião relaciona-se intimamente com o
esplendor da sua prosperidade material.
13. Todos os teus filhos serão ensinados pelo Senhor,
e grande será a paz de teus filhos.
14. Serás estabelecida em justiça,
estarás ionge da opressão, pois não tem eris;
e também do terror, porque não chegará i? t i .
Todos os teus filhos, ou cidadãos serão ensinados do
Senhor. O Rôlo do Mar Morto tem teus construtores
em vez de teus filhos, aparentemente para evitar a repe­
tição de teus filhos no fim do versículo. Teus filhos re­
presenta melhor o pensamento do profeta. Esta declara­
ção aparentemente se relaciona diretamente com a passa­
gem sôbre o Servo em 50:4-11 (Cp. Jer. 31:34) que fala do
Nôvo Concêrto. Em João 6:45 a declaração é dirigida
aos discípulos de Jesus. Grande será a1 paz de teus f i­
lhos.
Estabelecida em justiça, Jerusalém ficará absoluta­
mente invencível. A justiça da comunidade é a garantia
da sua liberdade do' domínio de nações poderosas, agres­
sivas e cruéis. Não sofrerá mais da opressão e do ter­
ror. Mas o profeta está pensando também no caráter
moral dos cidadãos que tinham experimentado a salva­
ção espiritual pela graça do Senhor. Os ensinados pelo
Senhcfr alegrar-se-õo na atividade redentora na sua nova
vida. Estarás longe da opressão (Cp. 51:12-16). Não
temerás, porque o terror não chegará a ti.
Êste é um dos grandes ensinos do profeta do exílio:
,as conseqüências e as bênçãos da justiça na vida da co­
munidade e na vida pessoal. O verdadeiro conhecimen­
to de Deus é uma bênção para qualquer comunidade ou
qualquer grupo de pessoas. Os homens que se firmam
confiadamente na verdadeira justiça nunca poderão ser
subjugados. Serão vitoriosos, ainda que sejam perse­
guidos ou mortos por homens injustos. O profeta sabia
250 A. R . C RABTREE

que os inim igos da justiça permanecem, mas sem o po­


der de perturbar a serenidade e a tranqüilidade do povo
do Senhor. O verdadeiro crente em Cristo, que sente sin­
cera reverência para com o seu Salvador, não tem mêdo
de qualquer poder dò' mal, nem de qualquer inim igo da
justiça.
b. O Senhor N ão Permitirá a Destruição do Seu
Povo, 54:15-17
15. Se alguém suscitar contendas,
isto não procede de m im ;
Quem conspira contra ti,
cairá por causa de ti.
16. Eis que eu crio o ferreiro,
que assopra
as brasas no fogo,
eproduz a
arma para o seu devido fim ;
também crio o assolador para destruir.
17. Tôda arma forjad a contra ti não prosperará;
tôda lingua que se levantar contra tiem juízo, tu a conde-
n a ris;estaé a herança dos servos do 8enhor,
e á sua justiça que vem de mim, diz o Senhor.

O profeta pensa no Senhor como sendo ferreiro ou


criador das armas forjadas como instrumentos da sua
vontade, mas que não permitirá a destruição do seu
povo. O hebraico do versículo 15 é muito' dificil. O ver­
bo ajüntar de algumas versões não cabe bem no contex­
to. Muitos estudantes pensam que a form a do verbo
ui signififea suscitar. Há exemplos de contendas sus-

f
adas contra Israel, de acôrdo com a vontade do Se-
or (Is. 10:5-6; I Reis 19:15-17). Mas se alguém que
rião é um instrumento de Deus se levantar contra o povo
do Senhor, êle certamente fracassará.
Os versículos 16 e 17 apresentam mais uma vez a
interpretação do propósito do Senhor na criação' e na his­
tória. O Deus oniptítente cria não sòmente o forjador
das armas, como também o assolador que usa as armas
no seu-trabalho de destruição'. Tôdas as armas forja­
A P R O F E C IA DE ISA IA S 251

das e tôdas as fôrças organizadas para a destruição de


Sião, ou do povo de Deus, em qualquer lugar ou* em
qualquer tempo, serão destruídas. É o próprio Senhor
que perm ite ao ferreiro o fo rja r as armas, e dá liberda­
de ao' assolador de usá-las, mas nunca lhes dará o po­
der de destruir o seu povo encarregado da missão de le­
va r avante a obra do seu reino espiritual entre as nações
do mundo. A arma forjada contra ti será destruída e a
língua levantada contra ti será condenada. Esta é a he­
rança dos servos do Senhor (C p. 63:17; 65:8-9; 66:14).
Esta é a justiça dêles que vem de mim, diz o Senhor.
Aquêles que se entregam ao Senhor nunca podem ser
derrotados ou destruídos (C p. R om . 8:38, 3 9 ).
G. A Salvação pela Graça de Deus, 55:1-13
1. ó vós, todos os que tendes séde,
vinde às águas;
e vós que não tendes dinheiro,
vinde, comprai, ecomei;
sim, vinde comprai vinho e leite
sem dinheiro e sem preço.
Êste capítulo está relacionado com a mensagem de
consolação do capítulo 40. Com a volta dos exilados
para a sua terra, chega a hora para êles receberem as
bênçãos da salvação providenciadas pela obra do Servo
do Senhor. O eterno propósito do Senhor, que recebe
tanta ênfase nesta profecia, está sendo realizado no re­
gresso do seu povo para a cidade de Sião. As obras da
natureza física participarão neste grande evento históri­
co (40:4), o cumprimento da Promessa dó Senhor
(40:8).

1. O Povo Convidado a Receber as Bênçãos da Graça


de Deus, 55:1-5
Os libertados do cativeiro são convidados a partici­
par livremente nas bênçãos da graça do Senhor, de acôr-
252 A . R. C R A B T R E E

do com o eterno concêrto de Deus, pelo qual a missão de


Israel será realizada. O profeta interpreta para o seu
povo o significado da situação histórica, proclama a im i­
nência da nova época na história de Israel, e convida to­
dos que têm fom e e sêde para receberem as bênçãos do
am or do Senhor tão livremente oferecidas. 0 profeta
continua a discussão do tema principal do capítulo 54,
acentuando a fidelidade do Senhor no cumprimento da
seu concêrto, o apêlo da compaixão divina e as promes­
sas da paz espiritual para todos os fiéis.
O maravilhoso convite dêstes cinco versículos é di­
rigido ao povo do concêrto. Deus se oferece para satis­
fazer à fome e à sêde do seu povo. Esta passagem é se­
melhante ao convite do evangelho do Nôvo Testamento
dirigido aos famintos e sedentos (Cp. João 4:10-14; 6 :
35-40; 7:37, 38; Apoc. 21:6; 22:17). O convite aqui é di­
rigido não somente aos israelitas que estavam sofrendo
fom e e sêde física. Os exilados tinham sentido profun­
damente a falta da presença do seu Deus nos longos anos
de sofrimento no cativeiro, e agora se acham esfomea­
dos e sequiosos no seu espírito, desejando ardentemente
receber de nôvo as bênçãos da graça divina na comu­
nhão espiritual com o Senhor Javé, o seu Deus.
Esta mensagem evangélica é dirigida não somente
ao grupo çje israelitas, mas o apêlo se apresenta também
ia cada uma1 das pessoas que faziam parte da companhia
pos fiéis. Êste profeta, juntamente com Jeremias e Eze-
|[uiel, reconhece que a verdadeira religião surge da expe­
riência pessoal com Deus. Não se sabe a proporção
dos exilados que ficaram na Babilônia, mas certamente
um bom número dos mais prósperos não quis fazer os
sacrifícios materiais a fim de realizar a longa e difícil
viagem para a pequena terra, quase esquecida, e agora
ocupada em grande parte pelos edumeus e os filhos
de Am em . Estas condições econômicas e políticas nos
A P R O FE C IA DE ISAÍAS 253

ajudam a entender os problemas e as dificuldades tre­


mendas daqueles que resolveram obedecer à visão celes­
tial do mensageiro do Senhor. Por outro lado, podemos
entender, à luz da história, a grandeza e a glória da obra
dêste pequeno grupo de servos fiéis do Senhor que obe­
deceram à visão çelestial, um serviço de eterna impor­
tância para o futuro da verdadeira religião.
Segundo o pônto de vista geral do profeta, o evan­
gelho da graça de Deus é oferecido não somente aos que
voltavam do cativeiro, mas a todos os homens que te­
nham sêde espiritual, ó vós, todos os que tendes sêde,
vinde às águas. É perfeitamente claro que estas ricas
promessas não se limitam às bênçãos materiais, sendo
estas, porém, incluídas. Todavia, o profeta está pensan­
do principalmente nos frutos espirituais da união com
Deus, e nas bênçãos tão poderosas dos servos fiéis que
o Senhor está usando na preservação' e na promoção do
seu reino espiritual no mundo inteiro. A linguagem fi­
gurada é dirigida a todos os cansados e oprimidos (Cp.
41:17; 44:3). A referência às águas relaciona-se à fon­
te miraculosa aberta pelo Senhor para o alívio' do seu
povo (V er 41:18 e cp. 12:3). As questões levantadas
sôbre o texto dêste versículo não são importantes» pois o
sentido do hebraico é claro. Segundo o' pronome relati­
vo, pode-se traduzir vós ou êle, mas o verbo está no plu­
ral, vinde, enquanto que o pronome está no singular.
Assim, a construção é irregular. Mas aquêle que não
tem dinheiro representa o seu grupo. Todos que têm
sêde e fom e são convidados. A L X X omite as palavras
vinde, comprai, e o Rôlo do Mar Morto omite vinde,
comprai e comei. A frase sem dinheiro e sem preço sig-
gnifica receber de graca. Vinho e leite são símbolos dos
favores divinos (Cp. Rom . 11:6).
2. P o r qu e gastais dinheiro naquilo ciue não é pão;
e o vosso trabalho naquilo que não sati s faz ?
254 A R. C R A B T R E E

Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom,


e vos deleitareis com manjares substanciosos.

Por que gastais o vosso dinheiro? Mais literalmen­


te pesais prata. Não havia dinheiro amoedado até o
domínio dos persas. Pedaços ou barras' de prata e de
ouro foram usados nas transações comerciais. O pro­
feta assim declara que a prosperidade material ou as
atividades comerciais, não podem produzir o verdadei­
ro pão da vida, e que o trabalho' que ganha riquezas ma­
teriais não pode satisfazer à fom e e à sêde espiritual do
homem.
Ouvi-me atentamente e comei o que é bom. Sus­
tentai-vos pelos recursos espirituais que o Senhor vos
oferece de graça, o pão' de Deus e a água da vida eterna.
Assim vos deleitareis com a gordura, figura da delicada
iguaria que alimenta o espírito (Cp. 58:14; 66:11; 25:6).
3. Inclinai o vosso ouvido, e vinde a mim;
ouvi, e a vossa alma viverá;
e farei convoseo um concêrto eterno,
as firmes misericórdias de Davi.
Inclinai o vosso ouvido, e vinde a mim. A Bíblia
nos ensina claramente em tôda parte que ninguém pode
receber as bênçãos do Senhor sem submeter-se á vonta­
de de Deus. Ensina com igual clareza que não' há nin­
guém que possa salvar-se a si mesmo. Ouvi, e a vossa
alma n yerá. Ouvi significa mais do que escutar. Sig­
nifica obedecei. Parei convosco um concêrto eterno.
Esta palavra berith não pode ser traduzida pelo têrmo
aliança ou pacto quando se refere ao' berith que o Senhor
corta com o seu povo. A palavra descreve a iniciativa
e a obra do Senhor com o povo que êle escolhe, salva e
dirige. O povo não tem nada a fazer na determinação
da vontade e do poder do Senhor.
'' " Farei convosco um concêrto eterno, as firmes mise­
ricórdias de Davi. tÈiste concêrto do Senhor com Davi
A P R O FE C IA DE ISAÍAS 265

recebe muita impcírtância nas profecias, nos<*Salmos e


em o N ôvo Testamento. Nas últimas palavras de Davi
(II Sam. 7:8-16), as promessas do Senhor a Davi, o
amor firm e, constante e eterno, são apresentados . (C p .
II Sam. 23:5; Sal. 18:50; 89:28-36; Jer. 33:21-22; II
Crôn. 6:42). As bênçãos que Deus prometeu a Davi
são transmitidas à sua dinastia e ao poro de Israel, e f i­
nalmente ao poVo do Nôvo Concêrto. Escolhido Davi
como o rei de Israél e ungido pelo profeta Samuel, o Es­
pírito do Senhor veio sôbre êle. Êle ocupou uma posição
especial na história de Israel e na relação com o Senhor,
como' representante do seu povo. As atividades benéfi­
cas do Rei Davi contribuíram para o desenvolvimento do
poder e do prestigio de Israel entre as nações, mas os
seus pecados limitaram a sua influência na vida religio­
sa do seu povo. Todavia as promessas que êle recebeu
do Senhor tinham um efeito notável na história de Is­
rael e do mundo'.
4. Eis que eu o dei por testemunha aos povos,
como príncipe e comandante dos povos
5. Eis que chamarás nações que não conheces,
é nações que não te conheceram correrão a ti,
por causa dò Senhor teu Deus, è do Santo de Israel,
porque êste te glorificou.

O versículo 4 fala da pessoa de Davi. Os versículos


4 e 5, segundo o ponto de vista de um grupo de estudan­
tes, apresentam um paralelo entre a posição que Davi
ocupou na história e o lugar de Israel, como nação, no
eterno' propósito do Senhor na redenção das nações do
mundo. As firmes misericórdias, o amor do concêrto
do Senhor, que Davi recebeu, verificaram-se em grande
parte na dinastia do rei, na história de Israel e na litera­
tura nacional (Cp. Jer. 39:9; Ez. 34:23-34). O sal-
mista, 18:43, falando como Davi, declara:
256 A R. C R A B T R E E

Tu me fizeste cabeça das nações;


povo que não tinha conhecido me serviu.
Temos, porém, que interpretar tais passagens poéti­
cas à luz da história. É fato que a profecia messiânica
em geral reconhece o Filho de Davi, ou o Segundo Davi,
como o Messias. É claro que Jesus, o Nazareno, se apre­
senta como o Messias, o Ungido do Senhor, mas deu mais
ênfase ao fato de que era o Servo da profecia. É claro
agora, à luz de muita discussão, que a profecia do Velho
Testamento nunca identificou o Messias com o Servo do
Senhor.
Enquanto que o versículo 4 fala de Davi como tes­
temunha aos povos e comandante dos povos, o profeta
está falando no versiculo 5 do povo de Israel como’ a na­
ção messiânica. Israel, como a nação escolhida, o povo
messiânico, ajuntará as nações do mundo. Nações de que
Israel não tinha conhecimento serão despertadas pelo
seu testemunho ao Santo de Israel (Cp. 44:5; 45:14;
49:7). Todavia, alguns pensam que o profeta tem a
idéia de que a monarquia de Davi será permanentemen­
te estabelecida. Mas é muito mais de acôrdo com a men­
sagem do profeta que as misericórdias de Davi são trans­
feridas à nação redimida na volta para a sua terra.
Há fíregularidades nò hebraico do versículo 5. A
| palavra ^5 está no singular, mas o verbo correrão,
, no plural. O verbo, bem como a mensagem
T
do profeta indicam claramente que êle está falando das
nações que correrão a Israel. Porque êle te glorificou
(Cp. 44:23; 49:3).

2> Arrependei-vos, Porque Está Próxim o o Reino de


Deus, 55:6-13
A P R O F E C IA DE ISA ÍA S 257

6. Buscai ao Senhor enquanto sè pode achar, 'm


invocai-o enquanto «s tá perto;
7. abandone o perverso o seu caminho,
e o injusto os seus pensamentos;
converta-se ao Senhor,
qu3 se compadecerá dêle,
e volte-se para o nosso Deus,
porque êle perdoará flenerosamente. '•*

Já chegou a hora da salvação para o povo de Israel.


Na véspera da volta para a sua terra, Israel deve voltar
primeiro ao seu Deus. Buscai, ítí^ R , o Senhor para
receber e experimentar conhecimento do seu amor e da
sua graça salvadora. O Senhor já chegou bem perto do
seu povo e quer que êle se arrependa e receba as bên­
çãos do pleno perdão dos seus pecados e da sua infideli­
dade. Assim, Israel será preparado para enfrentar as
suas responsabilidades como o povo do Senhor e cum­
prir a sua missão messiânica. O Senhor está sempre per­
to, especialmente daqueles que têm fom e e sêde espiri­
tual. A frase onqua^fn pnrfo iwhm-iwüim «-pio a Hp-
mora em aceitai- áusraça salvadora do Senhor pode serJa»-
tal . Nã' mesma b o r a -d a vindo-do Senhor para libertar o
seu povo, êste povo deve ficar preparado para obedecer
à direção do Senhor. O Senhor está apresentando aos ju­
deus exilados a oportunidade de tomar um passo gigan­
tesco no grande movimento que determinará o seu des­
tino como o povo escolhido. Esta é uma daquelas opor­
tunidades que se apresentaram uma só vez na história
de Israel. Assim a situação histórica do povo explica a
urgência da exortação, Buscai o Senhor enquanto se
pode achar.
Esta exortação está em perfeita harmonia com a
promessa da graça de Deus. Volte-se para o nosso Deus,
porque êle perdoará generosamente, ou abundantemente.
258 Á . R. C RAB TREE

No entendimento do amor e da graça de Deus e do


significado de arrependimento e da fé do homem, êste
profeta demonstra profundo conhecimento da necessida­
de e do propósito divino na revelação da Pessoa e do
caráter dó Senhor aos homens habilitados para receber
e transmitir a mensagem divina. Sem a revelação divina
os homens criam o seu deus à sua imagem.
8. P o is os m eus p en s a m e n to s não sãp os v o s s o s pen sam en tos,
nem os vo s s o s c a m in h o s os m eus cam in h os, d iz o S en h o r.
9. P o rq u e , assim com o os céus são m a is a lto s d o que a te rra ,
assim são os m eus c a m in h o s m a is a lto s do qu e os v o s s o s
cam in h o s, e os m eus p en sam en tos do que os v o s s o s p e n s a ­
m en to s.

O profeta, habilitado pelo Espírito de Deus, decla­


ra-nos que há uma diferença incalculável entre os pen­
samentos e caminhos do Senhor e as perplexidades no
pensamento do homem e os seus caminhos errados. O
ponto de vista do profeta é que o propósito do Senhor
na redenção do homem é tão sublime e tão profundo
que não pode ser medido pela inteligência do homem
(Ver 40:27-31). Os homens não sabem os pensamentos
do Senhor (M iq. 4:12; Cp. Jer. 29:11).
O profeta responde, nestes versículos, ao pensamen­
to de numerosos homens de tôdas as gerações. O ho­
mem natural julga que seja incompreensível a idéia de
que o honrem pode ser salvo pela graça de Deus, median-
íte a fé, e n§o pelas suas próprias obras. É difícil para
muitas pessoas entenderem a natureza, a significação e
| importância do arrependimento. Deve-se nótar que os
versículos 8-9 relacionam-se diretamente com os ver­
sículos 6-7. Impressionado pelas maravilhas da graça
de Deus na salvação do homem, o profeta reconhece
que esta salvação está sempre ao alcance de todos os po-
vos^dq mundo (Cp. 52:13-53:12; 55:1-2). O Senhor tem
conhecimento perfeito da natureza e da necessidade do
coração faminto do homem (Cp. 45:9-13).
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 26#

O apêlo de buscar, ch am ar e vo lta r acentua, o amor


salvador do Senhor na sua promessa de perdoarmos ar­
rependidos . A exortação do versículo 7 é mais um exem­
plo da misericórdia infinita do Senhor. Preocupado pe­
las atividades humanas, o' homem sente-se obrigado' a
escolher a qualidade de vida que deseja nas suas relações
sociais e na relação para com o seu Dejjs. O profeta
nos declara que o Senhor, transcendente e santo, salva
c abençoa aquêles que desejam a redenção eterna.
10. P o is assim com o d escem a ch u va e a n eve dos céus,
e p ara lá não to rn a m , m as re ga m o te rra ,
e a fa z e m p ro d u zir e b rotar,
d an do s em e n te ao s e m e a d o r e pão ao que com e,

Tão certo é que a proclamação da palavra de Deus


efetuará o seu propósito, como é que a chuva e a neve
regam a terra (Cp. 40:8). Esta é uma declaração de pro­
funda importância sôbre o propósito e as conseqüências
da proclamação da mensagem do Senhor, não somente
pelos profetas e apóstolos, mas também por todos os
pregadores do evangelho através dos séculos. O profeta
apresenta a pequena parábola das atividades e das bên­
çãos do Senhor no processo da natureza física, e então
explica como a proclamação da m ensagem de Deus pro­
duz os frutos espirituais na vida do homem. A chuva e
a neve não voltam para os céus sem que primeiro re­
guem a terra e a façam produzir. Entre as religiões dos
povos do Oriente a chuva foi considerada a dádiva prin­
cipal dos deuses; o profeta recdnhece que as bênçãos da
chuva e da neve simbolizam a maior bênção do Senhor.
O pregador moderno tem uma tremenda responsabili­
dade de saber que a mensagem que êle proclama é ver­
dadeiramente a palavra de Deus.
11. assim será a m in h a p a la v ra que s a ir da m in h a b ô c a ;
não v o lt a r á p a ra m im v a z ia ,
m as fa r á o qu e m e a p ra z,
e p ro sp era rá n a q u ilo p a ra qu e a e n v ie !.
260 A . R. C R AB TR E E

A ssim será a m inha p alavra (Cp. 40:8; 45:19, 23;


50:4; Mat. 24:35). Esta é uma das maiores declara­
ções da Bíblia sôbre o poder e a eficácia da palavra, “l i 11! ,
T T
de Deus. A palavra de Deus concorda perfeitamente com
o' caráter de Deus, a santidade, a justiça e o amor de
Deus. A pala vra de Deus é a revelação divina, e sinôni­
ma, em parte, da palavra logos, no Evangelho de João,
especialmente nesta profecia (Cp. 9:8-21; Jer. 1:4-12;
Ez. 37:1-4; Sal. 33:6; 147:15). A m inha pala vra que
sa ir da m inha bôca, ou que sai da m in h a bôca não v o l­
tará para m im v a z ia . Não há limite no poder e alcance
da revelação divina. F a rá o que m e a p ra z. O eterno
propósito do Senhor na vida do homem e na história
humana se encerra na sua palavra (44:28; 46:10; 48:14;
53:10). A m inha palavra prosperará naqu ilo para que a
en v ie i. Não há, na história da humanidade, uma declara­
ção mais universalmente estabelecida do que esta.
12. P o is s a ire is com a le g ria ,
e em p áz s ere is g u ia d o s ;
os m o n tes e os o u te iro s d ia n te de v ó s
ro m p erã o em c â n tic o s d e a le gria *
e tô d a s as á r v o re s do c am p o b a te rã o p a lm a s.
13. Em lu g a r do esp in h e iro c re s c e rá o c ip re s te ;
em lu g a r da s a rç a c re s c e rá a m u rta ;
e será p ara o S en h o r p or m e m o ria l,
p or um sin a l e te rn o que ja m a is será e x tin to ,
í %
i Êste dois versículos descrevem, em têrmos de pro­
funda alegria, o significado da restauração dos judeus
èxilados para a sua terra, e a glória da sua missão. An­
tecipando o livramento e a restauração do seu povo, o
profeta se regozija com o cumprimento da promessa do
Senhor (Cp. 40:11; 49:10, 22; Jer. 31:8-9). O povo
sairá com alegria e será guiado em paz. O Rôlo do Mar
M oíto diz, e em paz andareis. Veja Êx. 12:11, 33; Deut.
16:3, e note o contraste entre a saída de Babilônia e o
A pi9If9'^aD% 'IAÍAS
òxodq do Egit8.Jh^ i|p ^ - , r ^ e ^ i ^ (ftos e
«os louvores
com profunda flfepqa, p ^B te^yfln jg,,
teiros romperãçj, ^ i . p ^ t ^ s , l^ t p H4o»f^ p w
11a marcha p a ra .& # p . J e r ^ - . © ^ ! ^ $ {^ré,ÍE $£n k#ter
jnente r e p r e s e n ta i P « s , Wn W i(JW f^Ít4. íharr
monia com os eter^ps,propósitos.Jo.Sfipftart! eí .aqui .tom^
purte na jubilação idos, jexil&doH.no,seuMÍiutumiglím<3eso>e
110 cumprimento da^promessaictei 'Deus ^ Tôdas jiu?> árvor
res do campo b ate*% :p^mas ;(( Çp,,,M ;?0; 49djfc Sal.
!)b:ll-13) . 'ii-is! <n\>i\irv>w< *1; ■> -.•■xV.m; ííijhí; v im n
Em lugar do e8pinheiroi«res<iBiiá''tt> ciJ»i»Btp.
deserto demonstrará o seu jübáilo, >ei‘ptwduziíá «reíjiréstè
e a murta, em vez do espírihtòrò ;(!>dásar(ja ((&pi'41íl8>-
20; 43:19-20 ; 49:9-10). E á f e ^ á M ^ iéâiiiHhfelr6VÍMW j T 3 l!,
iiiií í:;i !ímí 'íiü ln ^ r1 oh
consta apenas mais uma vészí .no',Velhos .TçBteíiíiento. ,A
palavra traduzida sarça^ 12HD j; ié idesoonheeiday! láas
i>:rA<‘- otV>*,ií!i^ J, . ul»
as duas palavras represenfejp e s ^ s s ^ ^ .p l^ n ^
getais no deserto. O cipresj^.^ ^ n^nluf’ta,^p^^E itaiJi,!Í
produtividade do deserto, enquantQ ,o^ redjpiidpsi (p atrgr
vessavain, e talvez no período 4filtei®Q ))ÍB, novaxÇpocftH Q
livramento do seu povo’ será para >oi&enhDr pononepaorial
e por sinal eterno que nuncaíserá; corvtadoi (iGp./Jcily 14;
8:18; 20:3). Enquanto que estaildeõlartíçfi<K poétíebi-não
foi literalmente cumprida, o id.ejal que. rfipjmentíi foi
plenamente realizado. Os escritpvss dOnNôvo Testamento
reconheceram a eterna importância dêste evento, e o Se­
nhor Jesus demonstrou o seu profundo entendimento do
significado do poder de Deus na vida de seus discípulos
fieis, em perfeita harmonia com os ensinos dêste pro­
feta .
III, Admoestações, Esperanças e Promessas, 56:1-66:24
262 A . R. C R A B TR E E

Nota-se logo que o fundo histórico dos capítulos


56-66 é diferente das circunstâncias históricas quando
foram escritos os capítulos 40-55. É perfeitamente cla­
ro que os capítulos 40-55 foram escritos quando os judeus
ainda se achavam nà Babilônia, e que a última divisão
do Livro representa o período de alguns anos da histó­
ria dos judeus depois da sua restauração do cativeiro. Os
comentaristas não concordam quanto ao número dos
anos que são representados nesta parte da profecia.
Não se encontram nesta divisão do Livro as fervo­
rosas aspirações e as esperanças brilhantes e gloriosas do
escritor quando dirigiu a sua mensagem aos exilados na
Babilônia. Os exilados, mais ou menos satisfeitos com
os confortos da vida na Babilônia, não se mostravam en­
tusiasmados com o apêlo do' profeta. Mas o poderoso
mensageiro do Senhor tinha um profundo entendimen­
to do significado e da eterna importância da volta dos
cativos fiéis para a sua terra, no maravilhoso propósito
do Senhor. A situação social, econômica e política dos
judeus restaurados na sua terra era mais difícil do que
êles esperavam. Eram mais complicados os problemas
que tinham de enfrentar na restauração da vida social
e na experimentação' das esperanças religiosas do que
antecipavam. Portanto, o profeta sàbiamente adaptava
a sua nova mensagem às novas condições, e às novas ne-
1 cessidadesl^spirituais do seu povo.
1 Enquanto os críticos modernos, na. grande maioria,
R econhecem que não há muita diferença no estilo literá­
rio desta última divisão, êles seguem a opinião do expo­
sitor Duhm, e falam do Trito-Isaiah (terceiro autor)
como o autor desta divisão da profecia. Nds seus ensi­
nos teológicos, na semelhança de muitos textos e nos
ensinos sôbre o universalismo do amor e da graça de
Deus, há várias evidências de que o autor desta parte da
profecia é o' mesmo que escreveu os capítulos 40-55. Nes­
A PR O FE C IA DE IS A fA S 263

te caso, a questão do au tor tem pouca im p ortân cia na


in terpretação da m en s a g e m .
A. O rácu lo sôbre a O bediência da L e i, 56:1-8
1. Pois assim diz o Senhor:
Mantende a retidão, e fazei a justiça,
porque a minha salvação está prestes a viiy*
e a minha justiça prestes a manifestar-se.
2. Bem-aventurado o homem que fa z isto,
e o filho do homem que nisto se firm a;
que se guarda de profanar o sábado,
« guarda a sua mão de cometer algum mal.

O p ro fe ta coriaeça a sua m ensagem co m a exortação


para q u e se obedeça à L e i do Senhor, c o m ên fase na
retid ã o e ju stiça . Certds característicos do orácu lo in ­
d icam que fo i p r o fe r id o pouco tem p o depois da vo lta dos
p rim e iro s exilad os da B abilônia. A ssim d iz o S en h or: M an­
tende a retidão, e fa z e i a ju stiça . A p a la vra ZQãttfâ
T 8

é m elh o r tradu zida retidão, enquanto que HpTí sig-


T T J
n ific a justiça, a justiça divina. A s duas palavras são
usadas de v e z em quando co m o sinônim os, m as em g era l
a p rim e ira p a la vra refere-se ao h om em reto, ou à ju stiça
hum ana, enquanto q u e a segunda é usada m ais pa ra d e ­
sign ar a ju stiça diTiiHi, ou a ju stiça absoluta. A p rim e i­
ra pala vra tam bém sig n ifica juízo ou ju lga m en to, en­
quanto q u e o h om em é tam bém ju lg a d o pela ju stiça d i­
v in a qu e pode e n cerra r a m isericórd ia ou a g ra ç a de
Deus.
É fá c il pa ra aquêles que não entendem o sign ificado
da visão p rofética dos capítulos 40-55 d eclarar que os
resultados da vo lta dos exilàd os para a sua terra não
con cord aram co'm as grandes esperanças do p ro fe ta .
Mas aquêles que reconhecem , com o p rofeta, que o fu tu ­
ro do rein o de Deus dependia daquele evento aparente-
A . R. C R AB TR E E

ineute insignificante, sabem que a linguagem poética des­


creve o pleno significado da restauração daquele peque­
no grupo fiel dos homens de Deus.
A minha salvação está prestes a vir. É interessan­
te observar que êste pensamento repete-se em vários pe­
ríodos da história de Israel (Ver Cps. 40:55; 57:14; 58:
8, 9; 62:6) . Assim permaneceu esta convicção de que
estava prestes a redenção de Israel, e que fo i protelada
sòmente pelo pecado do povo.
A bem-aventurança, , do versículo 2 estende-
se ao homem e ao filho do homem ou a todos os homens
que observam a Lei do Senhor. O sábado adquiriu nova
significação para os exilados, quando foram suspensas
as ordenanças do culto público. A circuncisão e o sába­
do se tornaram as mais importantes provas da fidelida­
de ao concêrto e exercem bastante influência na história
subseqüente de Israel. E guarda a mão de cometer al­
gum mal, segundo os preceitos do versículo 1. Ver tam­
bém as ofensas mencionadas em 58:4-0 e 59:3-8.
Em a nova comunidade do povo do Senhor que vol­
tou do cativeiro e se estabeleceu na sua terra, os estran­
geiros e os eunucos que aceitavam e observavam as leis
divinas gozavam os mesmos direitos e privilégios religio­
sos que pertenciam aos judeus ortodoxos. Se êste es-
\ critor nãô**é o mesmo que escreveu os capítulos 40-55,
lê le certamente ensina as mesmas doutrinas gerais, e es-
Ipecialmente a universalidade da religião do povo do Se­
nhor, apresentada nos capítulos anteriores (Ver 44:5;
45:14, 23 ; 55:5).
3. E não d ig a o e s tra n g e iro que se uniu ao S e n h o r:
C e rta m e n te o S e n h o r m e s e p a ra rá d o seu p o v o ;
nem ta m p o u co d ig a o eu n uco :
■ E is qu e eu sou um a á r v o r e sSca.

Aparentemente, o prosélitó tinha receio dè que êlè


pudesse ser separado da fraternidade dos fiéis ao Senhor
A PR O FE C IA DE IS A ÍA S 265

em a nova comunidade. Certamente o Senhor me se­


parará de iseu povo. Em Deut. 23:4-7, a lei prftibiu a
recepção dos amonitas e moabitas na congregação dos
fiéis, por causa da sua inimizade aos judeus quando
êstes se achavam no caminho do Egito para a Palestina.
Os edumeus e os egípcios não podiam ser recebidos na
comunhão até à terceira geração (Deut. 23:8, 9 ). 0 es­
pírito missionário inerente na religião do p*bvo escolhido
(fÊx. 19:6) manifestava-se várias vêzes na história do
povo, mas nunca se desenvolveu com fôrça (Cp. I Reis
8; os livros de Rute è Jonas e alguns Salm os).
Segundo Deut. 23:1, o eunuco' fo i excluído da con­
gregação. É muito provável que havia judeus fiéis ao
Senhor que foram obrigados a servir ricos e poderosos
pagãos enquanto se achavam no cativeiro. Segundo o
costume cruel do Oriente naquele tempo êstes homens fo ­
ram feitos eunucos contra a sua própria vontade. Êstes
também tinham receio de que não pudessem ser consi­
derados dignos de fazer parte da congregação do povo do
Senhor. Eu sou uma á rv o re sêca significa que não
pòdia ter pdsteridade. O eunuco lamenta porque não
pode contribuir com filhos para a congregação de Deus
(Cp. Jer. 34:19; Dan. 1:3; Atos 8:27).
Em harmonia com as novas manifestações da graça
de Deus para com o seu povo, o profeta, orientado pelo
amor do Senhor, mostra-se mais bondoso do que a lei.
4. Pois assim diz o Senhor :
aos eu n u cos que gu a rd a m os m eus sáb ados,
e q u e escolh em a q u ilo q u e m e a g ra d a ,
e gu a rd a m fie lm e n te o m eu c o n c ê r to ;
5. Eu lh es d a re i na m in h a casa
e d en tro dos m eus m u ro s um m e m o ria l e um nom e
m e lh o r do qu e filh o s e filh a s ;
d a r - lh e s - e i um n om e e te rn o
que nunca s e rá c o r ta d o .
296 A R . C R AB TR E E

O versículo 4 se refere ao Concêrto restabelecido


com os redimidos que tinham voltado do cativeiro. De
agora em diante a vida religiosa dêste povo dependerá
de condições espirituais, e da obediência mais fiel da
parte do povci. O versículo é dirigido aos eunucos que
em o nôvo regime podem fazer parte igual com os fiéis
da congregação. Enquanto os eunucos ficaram separa­
dos da congregação, êles não podiam tomar parte em to-
dcfs os privilégios religiosos dos judeus em geral. O pro­
feta lhes declara que há três princípios importantes que
êles devem honrar e observar fielmente: guardar o sá­
bado; escolher voluntariamente aquilo que agrada ao Se­
nhor; obedecer fielmente ao Concêrto do Senhor.
É provável que os judeus exilados celebravam fiel­
mente o' sábado, pois desde então êles deram importância
especial à responsabilidade de guardar o sábado. Os eu­
nucos tinham que escolher livremente, TlflH , aquilo
“S T

que agradava ao Senhor. Com os seus novos privilégios,


os eunucos tinham que aceitar as plenas responsabilida­
des dos fiéis, incluindo fidelidade ao concêrto' do Senhor.
Não obstante a sua incapacidade de gerar filhos, o eu-
nuco que teme o Senhor será reconhecido como membro
da congregação dos justificados, e o seu nome será eter-
, namente h©nrado entre o povo de Israel.
\ O versículo 5 dá ênfase ao culto da comunidade re­
ligio sa na minha casa e dentro dos seus muros, com a
plena participação dos eunucos fiéis. O Senhor promete
dar aos eunucos um lugar e um nome, DBft “P , me-
•* T T

llior do que filhos e filhas. O eunuco que temia ao Se­


nhor e fazia parte da congregação seria eternamente
hohrádo entre o povo de Israel. Além disso, teria um
nome-permanente que nunca seria apagadtf (Cp. 55:13).
A PR Q FE C IA DE IS A IA S 267

6. E o s e s tra n g e iro s , q u e se c h e g a m a o S en h o r,
p a ra o s e rv ire m , e p a ra a m a re m o n om e do Seriftor,
sen d o d êste m od o s e rv o s seus,
to d o s os qu a g u a rd a m o sáb ad o, não o p ro fa n a n d o ,
e a b ra ça m fir m e m e n te o m eu C o n cê rto,
7. ê s te s eu le v a r e i ao m eu s a n to m on te,
e os a le g r a r e i na m in h a casa de o ra ç ã o ;
os seus h o lo c a u sto * e os seus s a c r ifíc io s
s erã o a c e ito s no m eu a lt a r ; "*■
p orq u e a m in h a casa será c h a m a d a c a s a d e oração
p a ra to d o s os p o v o s .
8 . A s s im d iz o S e n h o r J avé,
qu e c o n g r e g a o s d isp erso s de Is ra e l :
Eu a in d a c o n g r e g a r e i o u tro s
ao s qu e j á se ch am reu n id os.

O versículo 3 indica que os prosélitos tinham uma


dúvida a respeito do seu lugar e os seus privilégios re­
ligiosos entre os judeus da comunidade do povo do Se­
nhor. Os versículos 6-8 descrevem as responsabilidades,
a piedade e Os p riv ilé g io s religiosos dos prosélitos na co­
munidade dos fiéis ao Senhor. P a ra o se rvirem , e para
a m arem o n om e do Senhor, descreve os altos motivos
dos prosélitos sinceros. A frase para o servirem ,
i m t i f l > é usada em Gên. 39:4 e 40:4 no sentido de
t T I

serviço honroso, e para amarem o nome do Senhor,


em Deut. 6:5 e 11:1. Assim, os prosélitos que
T “S ” t

se entregavam plenamente ao culto e ao serviço do Se­


nhor pertenciam ao povo de Israel (Cp. 54:17; Lev.
25:42).
0 versículo 7 declara que todos os estrangeiros que
curriprem as condições necessárias terão livre acesso a
tòdos os privilégios do Santuário do Senhor. O Senhor
ptomete levar os estrangeiros ao seu Santo Monte, à casa
de oração e ao seu altar, ctím o privilégio de apresentar
os seus holocaustos e as suas ofértas juntamente çom o
povo de Israel. Assim, êles se alegrarão perante o’ Se-
Sé s a ía a ! a

nhor ,(,PeHt. què a frase


minha casa (5 e 7) se refere a a T e m p lo ,e que esta úl­
tima partê! do'tãvirô <ée Idafes foi éscritspdepois de 516,
quando foi coníjil^fiiçtà à°"récoíMM^ãò T5Ò Teiuplo. É
* , . »>‘ f f o i n c& i sisvâi ^
mais provável q ^ # 5nj*nJte3cp&aq^x S£fai;çfi£a ^ sinagoga
que teve a sua origem ^entra? os judftw&oáor! cativeiro, A
frase a minha casa de oraçãfr & «égnifieaitiva; e evidente­
mente dá máis ‘êrifãSe',!à'ôrfejSò'tifi?‘q iíe ^ lís holocaustos
e sacrifícios. Não havendo luça^’|^E^!jtiS^|à;"onde ofe­
recer holocaustos .q:J^ ç r j f í çips,, , ó, aor4São mais
ênfase. i'n-j.jS-ianoc, uh:-..;:,
Assim diz o Senhor Jâvé! 'Esttí dfeâfatiaçâò sémpre in­
dicai aiii»Sptórtâ)aiãiâi-idaímsn8agei(a,íquè segUe. »Èste ver-
síeute igç’ôi5/Eífit)Lia(uai ideal idtesi jjudeu$»l a travas- da tsua his-
tóHajíitOode^ejiolipittrflJDitlonde ficarem nreimidos; e firme-
n*«Mbi lesltabe]eieidos< ;na »sua, -tertraK-ÍI&to11412; Jer'. 49:5;
Ssd.»;147(i2) ^oEyWtínteiwtt^y s u m i tponsidetàvel de
jad^us do»€ftíÍ¥«iw3 Kjiá^foi. coí»gregado;ifem SíãoiM Mas o
Senhor-<ppcutoete irazer tnítrp»dos<jue estão reunidos. A
pad«Ki?a .‘jout(ros pajie .significar outros i,j udeüs, -dispersos
cpUMfl? i?p$o$nqalSjP$fptipa. Mas
é provável que o contexto esteja a indicar que o Senhor
€$(!#'£ef!a&&> rôtí^prdséíitfâS^íflíe $ í^ o remid^S’*è unidos
odpiH0âi|itdfâM!s>a»eçiít«iíB0va !é$q>ca á&'< sila história.;

-■& <B: iBéftúneia' dé’ Governàd©re«!.€eg©s *' do Culto


.•«>*í ;T|; CTorrçiMpiiop65:9*-57slS?,* !,s;
t Discute-se nesta seção, em tçrmos, bem severos, a
cWírií^Ó'Wó^ 'líoVéynâaòies !é *V iiíffd&idarfé' dós ’ dirigen-
ÍÈs'!p > & í f ò ' d q í s r a , ^ . A sè^aó mteit-a^e' gefal-
íWémè'reèo^fr!étí|da..cWntó'tíftidáde htpí&Tia. (V estilo da
jióSliâ ;èi;’|cárkct^íiiâdó jièia ^seveiidâde das repreensões
dók'1^i^éure4 dó póvÒ l, S ão' desígüádós cornp',' cegos e
áürdü&, j>reguiÇòsos c glüfõM^ egõütas^e compfèt|mente
íiiseúMvéT^ quanto as Íiéíce^siiíádes dó^áeu povo. Há evi-
A PR O F E C IA DE IS A ÍA S 269

dèucias substaáçiais e inegáveis de que o cativeiro «x e r-


céu uma influência notável na vida religiosa dcfs fiéis de
Israel. Isto n io quer dizer que os restaurados se torna­
ram perfeitos nà sua vida religiosa, social e política; mas.
êles nunca mais voltaram à apostasia, ao adultério espi­
ritual e à corrução que caracterizaram os infiéis no pe­
ríodo da infidelidade antes do cativeiro (Cp. 'Os. 1:1-3:5;
4:12-19; Amós 6Í1-14; Jer. 2:20-37 e muitas outras pas­
sagens) . No período entre a volta do cativeiro e a re­
construção do Templo, os israelitas revelaram as suas
fraquezas de negligência religiosa e de seu egoísmo, mas
em geral, os restaurados se submeteram aos ensinos e
à orientação dos profetas, conservaram a fé, as suas Es­
crituras Sagradas e reconstruíram o Templo do Senhor.
São forçados os argumentos de que a decadência e a cor­
rução, apresentadas nesta seção, descrevem a infidelida­
de dos judeus que se restabeleceram na Palestina depois
do cativeiro. Aparentemente, o profeta descreve aqui
os pecadcis do povo de Israel no período antes ,do cativei­
ro. O estilo literário em geral é característico desta úl­
tima divisão da profecia. É provável que o profeta es­
teja descrevendo os pecados do povo no passado, como
admoestação, e para incentivar a fidelidade do nôvo Is­
rael no cumprimento da missão de preservar e transmi­
tir a mensagem do Senhor.

1. As Bestas São Convidadas a Devorar o Rebanho Des­


protegido, 56:9-10

9. Vós, todos os animai* do campo, tddas as feras do bosque,


vinde a devorar.
10. Os seus atalaias' são cegos,
todos êles sem oonhecrmento;
todos são cães mudos,
não podem ladrar;
sonham, deitados,
amando o tosqusn«jar.
270 A . R. C R AB TR E E

O Senhor convida a tôdas as bêstas do campo para


vir e devorar o seu rebanho despi-otegidp. As bêstas do
campo e as feras do bosque referem-se às nações. Os
governadores e dirigentes do povo de Israel, em vez de
ficarem alertas e vigilantes, estão cegos; em vez de ad­
moestarem e orientarem o seu povo, são surdos; em
vez de aceitarem qualquer responsabilidade para a se­
gurança e o bem-estar do seu povo-, êles passam o tem­
po dormindo e tosquenej ando.
Encontra-se esta figura das nações como bêstas do
caimpo em outras profecias (Cp. Jer. 12:19; 19:7; Ez.
34:1-28; 39:17-20). Seja qual fôr a data desta mensa­
gem, o profeta declara que Israel está no domínio dos
seus próprios governadores e pastôres. Esta descrição
não concorda com as ccfndições religiosas dos israelitas
depois da restauração, nem com as repreensões, compa­
rativamente leves, de Malaquias e Neemias.
O profeta explica no versículo 10 a razão por qut
êle convidou as bêstas a devorar o povo de Israel. As na­
ções serão instrumentos no poder do Senhor Javé para
castigar e disciplinar os governadores (56:10-37:2), e os
dirigentes da religião do povo na corrução' do culto (57:
3-14) . O têrmo atalaias aqui se refere aos profetas e aos
sacerdotes (Jer. 6:17; Ez. 3:17; 33:7; Amós 5:21-27).
Êstes atalaias que deviam estar alertas e espiritualmente
ptçparados jlhra receber, entender e transmitir a mensa-
jnln do Senhor, estão completamente desqualificados
cflpio mensageiros do Senhor. Todos êles sem conheci­
mento. A LXX diz Êles não sabem observar. Em vez
declamar a plenos pulmões como verdadeiros profetas,
todosAles são cães mudos, não podem ladrar. Esta é
uma expressão de desprêzo e de escárnio' (V er I Sam.
17:43; 24:14; II Reis 8:13). Sonham, deitados, A pa-

lavra , sonhando, é usada sòmente aqui no Velho


A .PRO FECIA DE (S A ÍA S 271

Testamento. Alguns pensam que, na transmissão do

texto, a palavra D^ÍH , enfurecer-se, foi substituída. A


mudança não é necessária. A declai-ação apresenta os
profetas na sua indolência e preguiça.

2. Os Cães Gulosos, 56:11-12


11. Os cães são gulosos;
não se podam fartar.
Também os pastâres não têm entendimento;
todos se tornam para o seu caminho,
cada um para a sua ganância, todos, sem exceção.

'Êstes versículos continuam a descrição dos dirigen­


tes religiosos do povo, incluindo os profetas e os sacer­
dotes. Os cães são gulosos, fortes de alma ou de apeti­
te . Não se podem fartar ou Não- sabem ficar satisfeitos.
Os profetas e os sacerdotes se mostram insaciáveis (Cp.
Miq. 3:5-12; Amós 7:12-17). Assim, os dirigentes reli­
giosos, com a missão sagrada de guiar o povo no cami­
nho da fidelidade e da justiça, mostravam-se infiéis, ava­
rentos e maliciosos. Os pastôres não têm entendimento.
A avareza dos falsos profetas é indicada pela venda de
oráculos que pudessem agradar aos homens que despre­
zavam as profecias dos verdadeiros mensageiros do Se­
nhor (Jer. 6:13; E z. 13:19; 22:25. O têrmo pastôres
é usado no sentido figurado de governadores do povo,
ou de todos que tivessem qualquer responsabilidade na
orientação religiosa do povo. O hebraico da frase não
está claro, e, segundo a nossa tradução, indica uma clas­
se de pessoas diferentes dos atalaias. A palavra pastôres
não se encontra na L X X .
Todos êles se tornam, ou se tornaram para o seu ca­
minho (Cp. 53:6). Todos êles buscam os seus próprios
interêsses. Os pregadores do evangelho e os pastôres das
igrejas modernas são geralmente honrados nos tempos
272 A . R. C R A B TR E E

modernos e os hipócritas são desprezados. Cada um


para a sua ganância, todos, sem exceção.
Depois de um estudo cuidadoso desta denúncia tão
severa dos dirigentes religiosos de Israel, ficamos mais
certos de que nesta divisão do Livro' de Isaías, o autor
está descrevendo as condições que existiam antes do ca­
tiveiro. A semelhança das denúncias nos livros de Oséias,
Amós e Jeremias reforçam esta conclüsão.
1,2. Vinde, dizem êles, trarei vinho, .
e nos encheremos de bebida forte;
o dia de amanhã será como êste dia,
grande além da medida.

Eu trarei vinho, ou adquiramos vinho. Um manus­


crito antigo tem nnp: primeira pessoa do plural, ei-n
T I *

vez do' singular, nPipK . A Vulgata diz, Vinde, bebamos


T * V
vinho, e enchamo-nos até à embriaguez. É um dos ata­
laias quem convida os colegas para a festa orgíaca. É
uma ilustração dos ideais da sociedade dos dirigentes re­
ligiosos no período do seu declínio espiritual (Cp. 5:
11-13, 22; 28:1, 7, 8; Miq. 2:11). Alguns pensam que o
versículo’ faz parte de um cântico de beberrões (Cp.
22:13; I Cor. 15:32). Assim, o poeta cita um fragmento
do cântico dos libertinos. Èles não se incomodam do
dia de arranha, e ainda menos da justiça e do julgamento
í do Senhor. O Rôlo do Mar Morto’ diz: Vamos obter vi-
|nho. E nos encheremos de bebida forte. Declarações
'* como estas caracterizavam os beberrões no período da
apostasia de Israel antes do cativeiro, mas não há qual­
quer evidência de que os restaurados caíram nestes pe­
cados, ou aposta taram tanto do Senhor. Grande além
da medida. Alguns pensam que esta declaração separa­
da expressa o sentimento árrogante dos farristas. Êles
vão bater o récorde na sua festa orgíaca'.
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 273

O escritor assim nos declara que a vida política £


religiosa da comunidade de Israel estava muito, baixa
quando êle escreveu a sua mensagem. Fora da aposta­
sia religiosa de Israel, não há referências que nos aju­
dem na decisãdíjda data da mensagem. Alguns supõem
que o profeta el|á falando dos israelitas que não foram
levados a Babilôpia, e que depois receberam o titulo des-
prezivel de samáúritanos, mas não há evidência suficien­
te para estabelecer esta opinião.
Como já indicamos, nas várias referências, o escri­
tor condena os mesmos pecados que caracterizaram os
israelitas no periodo da apostasia que durou por algum
tempo no período que precedeu o cativeiro. É difícil
evitar a conclusão de que estivesse pensando na mesma
época da história; apresentada nas profecias de Oséias,
Amós e Jeremias, seja qual fô r a data da sua mensagem.
3. Os Justos Perecem, e os Apóstatas Não Têm Enten­
dimento, 57:1-2
1. O homem justo perece,
e ninguém considera isso no seu coração;
homens piedosos sSo arrebatados,
e ninguém entende.
2. Pois o homem justo é libertado da calamidade,
£!e entra na paz;
descansam nos seuc leitos
os que andam em retidão. -

Uni fato alarmante da sociedade, para o profeta, é


que os homens justos da comunidade vão perecendo, ap
passo que os líderes religiosos do povo não entendem o sig­
nificado trágico dêste fa to . O indicativo dos verbos con­
siderar e entender traduz mais nitidamente do que o sub-
juntivo o sen lido enfático da declaração. Os-guias ofi­
ciais do povo vão comendo, bebendo, dormindo e des­
prezando as admoestações dos verdadeiros mensageiros
do Senhor. Êles preferiam! ouvir os falsos profetas e
874 A R. C R AB TR E E

sacerdotes que procuravam agradar o seu espírito de


egoísmo (Cp. Amós 6:1-6; 4:4, 5; 7:10-17; Jer. 28; Sal.
12:1-4; Miq. 7:2).
No período da decadência moral e religiosa, alguns
profetas e sacerdotes abandonaram as suas responsabi­
lidades espirituais, e entregaram-se ao espirito de ganân­
cia e aos apetites para a bebida fort< Omites não se in­
comodavam com a morte dos justos, nem com o bem-
estar espiritual da comunidade.
As palavras p^SH , o homem justo e os homens

piedosos, "DH 'w j N , são paralelas. Os homens pie­


dosos eram os israelitas fiéis ao Concerto do Senhor; os
israelitas que honravam e adoravam ao Senhor no seu
coração e no seu procedimento moral.
Levantam-se dúvidas sôbre o texto, Pois os justos
são arrebatados perante o mal. Seguimos o texto revi­
sado. Mas alguns pensam que o profeta indica que a
morte do justo foi para êle um alívio da sociedade deca­
dente. As frases ninguém considera e ninguém entende
isso no seu coração são paralelas. Não obstante o fato
de que a mdrte foi geralmente considerada uma grande
infelicidade, alguns pensam que o profeta está pensando
aqui na paz e no descanso da sepultura para os justos
aeste períoU© de decadência moral de Israel (Cp. Jó
3 k l3 ). Os que andam em retidão. Cada um que amava
a^ Senhor e praticava a justiça e retidão.
4. Repreensão dos Apóstatas, 57:3, 4
3. Ma s, quanto a vós, chegai-vos aqui,
filhos da agoureira,
descendência da adúltera e da prestituta.
4.5 Dp quem estais zombando ?
Contra quem escancarais a bõca,
,je deita is para fora a língua ?
A PR O FE C IA DE ISAIAS 275

Não sois filhos da transgressão, ■


da descendência da falsidade,

O profeta está falando nos versículos 3-13 dum gru­


po diferente de profetas e sacerdotes falsos mencionados'
nos versículos 1 e 2. A linguagem indica claramente
que a mensagem foi proclamada na Palestina. Alguns
pensam que o profeta está falando dos pecados dos sa-
maritanos, e assim fixam a data da mensagem algum
tempo depois da reconstrução do Templo em 516 a. C.
Citam Mal. 2:10-3:6 em favor desta opinião, mas é bem
claro' que Malaquias está falando contra a tendência en­
tre os próprios judeus de casar-se com mulheres estra­
nhas. Por outro lado, os pecados de infidelidade, arro­
gância, bebedice, apostasia e adultério, mencionados nes­
te trecho, são justamente os mesmos mencionados dos
israelitas infiéis no período antes do cativeiro (Cp. 1:2;
46:8; 48:8; Os. 14:9; Miq. 1:5, 13; Ez. 18:22, 28).
A linguagem do profeta é muito severa. Chegai-
vos aqui, os filhos da agoureira, descendência da adúlte­
ra e da prostituta. O pior insulto possível para o ho­
mem do Oriente é o de alguém falar mal da sua mãe. O
profeta está falando dos habitantes de Jerusalém, talvez
no reinado de Manasses, que se haviam nutrido da feiti­
çaria, da imoralidade sexual e das superstições dos cana-
neus (Cp. 28:9-10).
De quem estais zombando? O profeta se refere ao
escárnio dos beberrões e dos israelitas infiéis. lÊstes ho­
mens malvados estavam escarnecendo dos homens jus­
tos. O profeta ficou pasmado de que os filhos da trans­
gressão, da descendência da falsidade, pudessem zom­
bar dos justos fiéis ao Concerto do Senhor. Contra
quem escancarais a bôca, e deitais para fora a língua?
(Sal. 35:21). À luz da história, são os escarnecedores
da justiça e da verdade que merecem a derrisão e a re­
pugnância .
276 A R. C RÁB TREE

5. A Imoralidade e a Corrução dosIsraelitas,57:5-6


5. vós que abrasais no desejo sexual, junto aoscarvalhos,
debaixo de tôda árvore verde,
que sacrificais os vossos filhos nos vales,
debaixo das fendas das rochas ?
6. Entre as pedras lisas dos ribeiros está a tua porção ;
estas, estas, são a tua sorte ;
a estas derramaste a tua libação,
ofereceste-lhes uma oblação.
Contentar-me-á com estas cousas 1

Os versículos 5-13 descrevem várias formas de ido­


latria dos israelitas, provavelmente no reinado de Ma-
nassés, no período da sua grande apostasia (Jer. 7:31;
li9:15; Ez. 20:28, 31; 23:39; Miq. 6:7; I I Reis 21:1-9;
23:10).
Os versículos 5 e 6 descrevem a devoção' dos israe­
litas às idolatrias praticadas pelos cananeus. Êles se­
guiam o costume dos cananeus na prática de ritos de
imoralidade sexual nos montes e outeiros junto aos car­
valhos, álamos e terebintos (Os. 4:12-14; Jer. 2:20-25;
3:2).
Vós que abrasais no desejo sexual junto aos carva­
lhos. É interessante saber que o mesmo verbo é usado
nos textos ugaríticos em relação aos amôres divinos.
Refere-se aoxulto primitivo na adoração das árvores. A
átvore sagrada foi dedicada ao deus da fertilidade entre
o * ugaríticos e muitos israelitas praticavam os seus ri-
tol licenciosos junto às árvores sagradas, onde êles se
abrasavam nos seus desejos sexuais. Estas orgias de
sensualidade foram praticadas largamente no mundo
antigo, mas severamente condenadas pela religião de
Israel. Não há a mínima prova ou indicação de quedos
judeus praticavam êstes ritos licenciosos depois do cati­
veiro, como alegam alguns intérpretes (Cp. Deut; 12:
2; 3:6; 17:12; Ez. 6:13; II Reis 17:10).
A PRO FEC IA DE ISA ÍA S 277

Havendo condenado a adoração de árvores, e «as


orgias licenciosás relacionadas ao culto da natureza, o
profeta passa a Reprovar o grande pecado do sacrifício de
crianças (Jer. 7*31; 19:5; Ez. 20:28, 31; 23:39; Miq.
6:7; Os. 13:2). Êstes sacrifícios debaixo das fendas das
rochas, aparentemente se referem aos ritos revol-
tantes dedicados a Baal.
Entre as pedras lisas dos ribeiros. O hebraico não
traz o têrmo pedras, mas sua inclusão ajuda no entendi­
mento da declaração de que tem referência às serpentes
veneradas nos cultos. O versículo não está claro, e al­
guns pensam que a declaração é uma referência às pe­
dras lisas que eiam adoradas pelós árabes, como o deus
Orotal, e também por israelitas antes do exílio. Pelo
concerto com o povo de Israel, o Senhor se tornou a por­
ção dêles (Cp. Deut. 4:19-20; ,9:26; Jer. 10:16; 51:19;
Sal. 16:5; 73:26; 124:5). Os israelitas apóstatas ofere­
ceram os seus sacrifícios aos deuses da fertilidade, em
vez de apresentá-los ao Senhor.
6. A Devoção dos Israelitas aos Deuses da Fertilidade,
57:7-8
7. Sôbre um monte alto e elevado
puseste o teu leito;
« lá subiste para oferecer sacrifícios.
8. Detrás da porta e da umbreira
puseste o teu símbolo;
pois, desertando-me a mim, descobriste o teu leito,
e subiste para êle,
alargaste o teu leito;
e com êles fizeste contrato,
amaste o leito dêles
e lhes miraste a nudez.

Os j udeus,; como os cananeus, tiveram os seus san­


tuários nos montes, bem como nos vales. Os versículos
7 e 8 falam do culto dòs israelitas dedicados aos deuses
278 A . R. CRABTREE

da fertilidade (Os. 4:13; Jer. 2:20; Ez. 6:13). A lin­


guagem dêstes versículos não é simplesmente figurati­
va, como dizem alguns. O profeta descreve claramente
o culto imoral da sexualidade.
O versículo 8 é complicado e difícil, mas fala clara­
mente dos israelitas infiéis que adoravam os deuses da
fertilidade nos seus atos de sensualidade. A palavra
Th3T , traduzida símbolo, normalmente declarava aos
israelitas que Javé era o verdadeiro Deus. Êles tinham
o costume de escrever esta palavra nas portas e nos um­
brais das suas casas (Deut. 6:9; 11:20). Mas os infiéis
colocaram êste mesmo símbolo detrás da porta e da um-
breira da porta, provavelmente para que não fôssem lem­
brados da sua infidelidade e da sua vergonha. Entre os
cananeus, o membro do homem era o símbolo do culto
à fertilidade. A sensualidade dêste culto dos cananeus
afastou êstes israelitas completamente do concêrto do
Senhor còm Israel (Cp. Os. 2:5; Jer. 2:20-23).
D.esertando-me a mim, descobriste o teu leito.
. . . com êles fizeste contrato; . . . amaste o leito dêles.
Assim traduzidas, estas declarações mostram que êstes
infiéis mostraram a sua adoração aos deuses dos estran­
geiros, e sua infidelidade para com o Senhor, o verda­
deiro Deus.

\17. Os Ritos
^ Corrutos no Culto dos Cananeus, 57:9-10

9. Viajaste ao rei com óleo


e multiplicaste os teus perfumes;
enviaste os teus emissários para longs,
e te abateste até o Sheol.
10. Tu te cansaste na tua comprida viagem;
\ - contudo, não disseste: Não há esperança;
achaste o que buscavas,
•'.por isto não desfaleceste.
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 279

O versículo 9 continua o pensamento dos versículos


anteriores, na descrição das viagens dêstes israelitas *ín-
fiéis aos santuários dos deuses estranhos. Alguns co­
mentaristas pensam que a passagem trata dos emissá­
rios políticos a um rei de estrangeiros, provàvelmente
ao rei da Babilônia, e crêem que 30:6; 31:1; Os. 5:13;
10:6 e II Reis 16:7-9 favorecem esta interpretação. Mas
esta explicação é forçada e não concorda com o pensa­
mento geral da passagem, óleo, perfumes e ungüentos
usavam-se muito nos cultos dos semitas.
Viajaste ao rei com óleo. Esta é a tradução do he­
braico, mas a palavra aparentemente se refere a
um dos grandes reis da Assíria ou da Babilônia. Com
uma pequena mudança de vogais a palavra tem a forma
de Moloque, o nome de vários deuses entre o povo se­
mi tico. É interessante observar que as vogais de Molo­
que são as mesmas da palavra > vergonha. E vi­
dentemente, o têrmo é usado aqui como o nome de um
dos deuses dos estrangeiros.
Enviaste os teus emissários parai longe, e te abates-
te até o Sheol. Êstes israelitas infiéis não somente bus­
cavam os deuses de várias nações, mas mandavam emis­
sários até ao mundo subterrâneo para consultar os deu­
ses. Mas alguns pensam que a declaração significa sub­
serviência abjeta aos deuses estranhos.
Tu te cansaste na tua comprida viagem. Os israelitas
infiéis ficaram cansados por esta idolatria, ,mas perma­
neciam cegos na sua loucura, e não perderam o seu zêlo
no seu desespêro e na sua infidelidade para com o Se-
nhoí Javé. Achaste o que buscavas. Esta linguagem
é um tanto obscura, mas aparentemente significa que
èstes israelitas infiéis satisfizeram aos seus desejos las-
civos.
880 A . R. C R AB TR E E

8. A Futilidade de Abandonar o Senhor e Confiar em


ídolos, 57:11-13
11. De quem tiveste recaio e mêdo,
para que mentisses,
e não te lembrasses de mim,
nem de mim te importasses ?
Não é porque eu me calo, e desde muito tempo,
que não me temes ?
12. Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras,
elas, porém, não te aproveitarão.
13. Quando clamares, livre-te a tua coleção de ídolos!
Levá-los-á o vento;
um assôpro os arrebaterá a todos,
mas o que confia em mim possuirá a terra,
e herdará o meu santo monte.

A interpretação dêstes versículos não é tão difícil co­


mo dizem alguns. O profeta pede irônicamente aos israe­
litas idólatras uma explicação do seu procedimento. Por
que abandonaram o Senhor, e humilharam-se servil­
mente perante os ídolos impotentes do paganismo ? Quais
são estas divindades que adoram com tanto receio e te­
mor?
De quem tiveste tanto receio e temor que pudesses
mentir e proçeder traiçoeiramente, afastando-te com­
pletamente do Senhor, a tua verdadeira segurança, para
te entregar es aos deuses impotentes do paganismo? Não
é porque e u ^ e calo? Quando os israelitas violaram o
concerto divino, êles cancelaram o seu privilégio de co-
mtfcihão com o Senhor. Assim, Deus ficou calado por
algum tempo, mas finalmente tomou de nôvo a iniciativa
para chamar os infiéis ao julgamento e ao arrependi­
mento.
, .0 Senhor vái proceder no julgamento. Eu publica­
rei a tua justiça, e as tuas obras. Eu é a palavra que
reçebé-ênfase nesta declaração, irônica. As. palavras jus­
tiça e tuas obras são sinônimas. Mas a justiça e as obras
A PR O FE C IA DE IS A ÍA S 281

dos israelitas infiéis não' têm valor nenhum, não te apffo-


veitarão.
À primeira parte do versículo 13 continua o pensa­
mento da futilidade da idolatria dos israelitas infiéis.
A coleção dos ídolos não tem qualquer poder de libertar
os israelitas quando êstes lhes apresentam os seus cla­
mores, e os seus pedidos de socorro (Cp. Jer. 2:28).
Quanto aos ídolos, os objetos do culto dêstes israelitas
infiéis, um assôpro de vento os arrebatará.
C. A Graiça do Senhor na Redenção do Seu Povo,
57:14-21
A segunda parte do versículo 13 form a a transição
para a passagem que trata da salvação dos israelitas que
se arrependem e buscam o socorro do Senhor. O que
confia em mim herdará o meu santo monte.
Num contraste notável entre a severa condenação dos
israelitas infiéis, nos versículos 3-13, o profeta apresen­
ta nesta seção as promessas da graça divina para todos
os israelitas que se arrependam e voltem ao Senhor. Esta
mesma chamada do amor compassivo do' Senhor se apre­
senta em 49:3, 7 e 62:10.
14. Alguém diz: Aterrai, aterrai, preparai o caminho,
tirai os tropeços do caminho do meu povo.
15. Pois assim diz o Alto, o Sublime,
que habita a eternidade, cujo nome é Santo :
Eu habito no alto e santo lugar,
e também com aquâle que é contrito e humilde de espirito,
para vivificar o espírito do humilde,
e vivifica r o coração dos contritos.

Alguém diz ou Êle diz. A Vulg. tem Eu direi; o


grego, Êles disseram; o Rôlo do Mar Morto, Êles diziam.
É Deus quem fala por intermédio do seu profeta. A fi­
gura do preparo do alto caminho de salvação relaciona-
se com 40:3, mas aqui tem uma aplicação diferente. Em
282 A . R. C R A B TR E E

vez do alto caminho através do deserto para a volta dos


exilados, o escritor fala aqui do preparo do espirito dos
israelitas para voltar ao Senhor (Cp. v. 18). As fôrças
do mal na comunidade dos israelitas, os tropeços mo­
rais, mencionados na estrofe anterior, serão removidos,
e a comunhão de Israel, humilde e contrito, com o Se­
nhor será restabelecida. O estilo literário e a teologia
dêste oráculo indicam que foi escrito no período' da apos­
tasia de Israel antes do cativeiro. O mensageiro dá ên­
fase às doutrinas da santidade, da compaixão e da uni­
versalidade do julgamento do Senhor.
No versículo 15 o profeta dá ênfase à majestade e
à misericórdia do Senhor (Cp. Mat. 11:25-30). O Alto,
o Sublime, que habita no Santo Lugar, habita também
com aquêle que é contrito e humilde de espírito, os es­
magados e os mansos de espírito. O grande mistério do
Senhor transcendente, que habita a eternidade, é que,
na sua santidade e no seu amor, êle habita com os hu­
mildes e contritos, e vivifica o seu espírito e transforma
0 seu coração.
16. Pois não contenderei para sempre,
nem me indignarei continuamente;
porque diante de mim desfaleceria o espírito,
e o fôlego da vida que criei.
^ 17. Eu meaíjndignei por causa da iniqüidade da sua cobiça,
' feri-oí escondi a face, e indignei-me,
1 mas, rebelde, seguiu êle no caminho do seu coração.

Êstes versículos falam da compaixão e da clemência


do Senhor em relação ao seu povo (Cp. Sal. 103:9, 13,
14; 78:31). O Senhor não pode cancelar o seu eterno
propósito na escolha de Israel. Em perfeita harmonia
com a sua santidade, a ira do Senhor sempre se manifes­
ta contra tôdas as formas de iniqüidade e de injustiça.
Não há qualquer desarmonia entre a santidade, a justi­
ça e o ãmor do Senhor, na manifestação da sua miseri­
A PR O FE C IA DE IS A íA S 283

córdia. A livre vontade do homem é sempre o maior


problema de Deus na realização do seu eterno propos­
to . A continuação da ira do Senhor contra Israel, sem
a misericórdia, poderia resultar não somente na des­
truição de Israel, mas de tôdas as almas que Deus tinha
criado.
A justiça divina exige a punição do pecado, mas
quando o castigo dos israelitas infiéis resultou no arre­
pendimento e na produção do espirito contrito e humil­
de, o Senhor demonstrou o seu amòr e a sua eterna mi­
sericórdia no perdão de Israel e na orientação dêle no
cumprimento da sua missão divina. Assim, êstes ver­
sículos se ligam à passagem anterior, na explicação da
natureza e do propósito da ira do Senhdr. Não conten­
derei para sempre, nem me indignarei continuamente
(Cp. 54:7-9; Gên. 6:3; Jer. 3:5; Sal. 103:9). O motivo
da ira do Senhor contra o seu povo pecaminoso não é
primeiramente punitivo, mas visa especialmente à sua
redenção. A ira do Senhor desperta o' espírito de arre­
pendimento, e assim prepara o povo para receber a grar
ça da salvação.
Porque diante de mim desfaleceria o espírito, e o
fôlego da vida que criei. Muitos traduzem, Porque de
mim procede o espírito. Mas o sentido do' verbo SyilDJT
é desfalecer. A L X X traduz proceder ou prosseguir.
Mas era natural que o espírito do povo desfalecesse na pre­
sença do Senhor. O fôlego da vida que criei. Aquêle que so­
prou nas narinas do homem o fôlego da vida promete
vivificar os israelitas com o mesmo poder divino que
sustenta a vida humana.
Eu me indignei por causa da iniqüidade da sua co­
biça, ou por causa da culpa da sua avareza me indignei.
A L X X acrescenta por um momento. Escondi a face.
As palavras a face ou a minha face não se encontram no
284 A. R. C R AB TR E E

hebraico. 0 Rôlo do Mar Morto tem in D r W , Eu me


escondi. Deus esconde a face como' sinal da sua indig­
nação (Cp. 54:8; Sal. 22:24; 27:9; 88:14; 104:29). Mas
rebelde, seguiu no caminho do seu coração, ou ia-se afas-
tando no caminho do seu coração (Cp. Jer. 3:14, 22;
31:22; 49:4). O julgamento divino não produziu qual­
quer mudança no espírito rebelde do povo. Êles conti­
nuam a seguir as inclinações perversas do seu coração.

18. Eu ten h o v is t o os seus cam in h os, m a s o s a ra re i;


ta m b ém o gu ia re i, e ihe to rn a re i a d a r consolação,
e aos qu e d êle c h o ra m .
19. Eu creio o fr u t o dos lá b io s;
P a z , pa^, p a ra os de lon ge, e os de p erto , d iz o Senhor,
e eu o s a ra re i.

Os versículos 18 e 19 apresentam um contraste com


os versículos anteriores. Os verbos que descrevem a res­
tauração do povo se apresentam em contraste com aquê­
les que explicam o julgamento de Israel na sua perver­
sidade .
Eu tenho visto os seus caminhos. A justiça de Deus
exigiu o julgamento e o castigo do povo de Israel rebel­
de. O julgamento divino no castigo de Israel pecamino­
so podia despertar o povo para reconhecer a sua misé­
ria, mas não podia curar a sua moléstia. Mas o Senhor
íJavé, na suâ graça imerecida, era o Médico do seu povo
■ Cp. 6:10; 53:5; Êx. 15:22-26; Os. 5:13; 6:1; 14:2; Jer.
*:22-25). Eu o sararei; também o guiarei. Alguns mu­
dam ag vogais do hebraico desta última palavra para ler,
Eu líie darei descanso. Deus responde ao seu povo não
com o julgamento que merece, mas com a graça livre
do seu amor e a consolação que êles não merecem (Ver
40:^; .49:13; 52:9). Eu lhe darei a consolação, bem
como aos seus pranteadores (Cp. 61:2; 66:10).
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 285

Eu crio o fruto dos lábios. Alguns incluem estas pa­


lavras no versículo 18. O fruto dos lábios dos israelitas
perdoados serão palavras de louvOr e gratidão (Cp. Os.
14:2, no Hebr. 13:15).
Paz, paz, para os de longe e os de perto, diz o Senhor.
Estas palavras apresentam uma promessa de felicidade
para todos que abandonam os seus pecados e se voltam
ao Senhor. Estas palavras de saudaçãcf entre homens
indicam a bem-aventurança daqueles que se voltam ao
Senhor e recebem a graça divina que restaura a saúde
espiritual. Deus é o Grande Médico que deseja curar
as feridas dos pecadores e despertar nêles o espírito de
amor e gratidão, e o gôzo da comunhão com o seu Sal­
vador. Assim, Deus cria a paz e a tranqüilidade no’ es­
pirito do seu povo. Os de longe, e os de perto, incluem
todos que desejam voltar-se ao Senhor e receber as bên­
çãos de salvação, segundo o ponto de vista do Apóstolo
Paulo em Efésios 2:17.
20. M as os p e rv e rs o s são co m o o m a r a g ita d o ,
qu e não p od e f i c a r qu ieto,
e as su as á g u a s tangam la m a e lô d o .
21. P a ra os p erv e rso s , d iz o m eu Deus, não há p a z.

Há um contraste notável entre o sossêgo do povo


do Senhor e a infelicidade dos hdmens perversos. Os
versículos 20 e 21 apresentam uma conclusão apropriada
desta seção da profecia (57:14-21). Os perversos não
têm descanso, ficam doentes e turbulentos, sem qual­
quer conhecimento de saúde do espírito. São como o
mar tumultuoso, sempre agitados na miséria dos seus
pecados. Estão constantemente lançando lama e lôdo na
sociedade de que fazem parte. Èles, como o mar, não se
podem sossegar (Cp. Jer. 49:23).
Para os perversos, diz o Senhor, não há paz. Como
o mar não pode descansar, , assim os perversos
286 A . R. C R A B T R E E

não podem ter experiência da paz e do sossêgo do povo


do'Senhor.
Nesta seção (56:9-57:21) sôbre o julgamento e à
misericórdia do Senhor, o profeta descreve a decadência
da vida política e religiosa do povo de Israel, sem qual­
quer indicação específica do contexto histórico da sua
mensagem. Mas a denúncia da apostasia e da infideli­
dade do povo' concorda com as mensagens dos profetas
que exerceram o seu ministério antes do cativeiro e pro­
clamaram aos israelitas as conseqüências inevitáveis da
sua idolatria e da sua injustiça social. Alguns, sem pro­
vas, datam a mensagem pouco tempo depois da recons­
trução do Templo em 516 a. C. Felizmente, o' valor
eterno das verdades apresentadas na passagem não de­
pende da data da sua proclamação.
D. A Prática do Jejum e a Observação do Sábado,
58:1-14
1. C la m a em a lta v o z , não te d eten h as,
le v a n ta a tu a v o z com o tr o m b e ta ;
d ec la ra ao m eu p o v o a sua tra n sg res s ã o ,
e à casa de J acó os seus p ecad o s.

Neste capitulo o profeta dirige a sua mensagem ao


povo que tinha perdido em grande parte o seu interêsse
na disciplina religiosa. Os israelitas, como outras na­
ções, tinhaífr o costume de celebrar os eventos importan­
tes da sua história. As suas maravilhosas experiências
fom o seu Deus despertavam nêles o profundo sen-
ümento de gratidão e louvor. Nas suas festas re­
ligiosas, êles se lembravam da libertação do poder
do Egito, da sua escolha, no Monte Sinai, para ser
o povo do Senhor, das peregrinações no deserto e
do seu estabelecimento na Palestina como nação.
Nas' crises nacionais o povo se reunia com os sacerdotes
para humilhar-se perante o Senhor, para jejuar e pedir
A PR O FE C IA DE IS A fA S 287

a orientação e o socorro do Senhor (Cp. Jos. 7:6; Jjfí.


20:26; 21:2-6; I Sam. 7:6; II Sam. 12:16; I Reis 21:12;
Jer. 36:9; Joel 1:1-2:27).
É geralmente reconhecido que os profetas, depois
da restauração de Israel, deram mais ênfase ao jejum,
ao sábado e às cerimônias da religião. Nestes últimos
anos tem havido muita discussão sôbre o lugai* e a im­
portância do cultus na religião de Israel. Os teólogos
modernos usam êste têrmo cultus no sentido de “ expres­
sar a experiência religiosa nas ações externas, concretas,
realizadas dentro da congregação, preferivelmente por
expoentes oficialmente designados, e em formas estabe­
lecidas” .1 Neste sentido, o cultus é secundário. Ludwig
Koehler declara que não há nenhuma sugestão em qual­
quer parte do Velho Testamento de que sacrifícios, ou
alguma parte do cultus, fôssem instituídos por Deus.
Mas êle rectínhece que Deus fala sôbre o regulamento
dos sacrifícios praticados pelos israelitas. 2 Mas há sem­
pre diferenças notáveis entre as opiniões dos homens a
respeito do valor e da importância das ações externas da
religião.
O profeta não condena a prática do jejum, e a ob­
servação' do sábado da parte do povo, mas reconhece e
condena a superficialidade na observação das atividades
externas da religião e a falta da verdadeira religião es­
piritual . O profeta não está acentuando a importância
do cultus, como dizem alguns comentaristas modernos.
Está, sim, condenando o declínio espiritual da religião
do' povo. É mencionado na Lei apenas o jejum no Dia
de Expiação (L ev. 16:29). Mas Israel mostrou a tendên­
cia de jejuar como meio de propiciar o seu Deus (Juí.
20:26; I Sam. 7:6; Jer. 36:9). Jejuavam também nas
ocasiões de sofrimento e aflição. Quando o templo dos
1. W alther Eichrodt, T h e o lo g y o f th e O ld T e s ta m e n t. Vol. I, p. 98
2. Ludwig Koehler, O ld T e s ta m e n t T h e o lo o y , p. 181
288 A . R. C R AB TR E E

judeus em Yebé fo i destruído pelos egípcios, os israeli­


tas no Egito jejuaram. Segundo Zac. 7:1-7, surgiu entre
os sacerdotes e profetas a questão de descontinuar a prá­
tica de jejuar depois de setenta anos. Nota-se, porém,
que o jejum foi praticado pelos crentes do Nôvo Testa­
mento .
0 profeta proclama neste capitulo uma disciplina es­
piritual que é muito superior à celebração das atividades
externas da religião. Se o povo praticar a justiça e mos­
trar-se compassivo e misericordioso, a luz do Senhor dissi­
pará as suas trevas. Se deixarem de buscar o seu prazer
no dia do Senhor, e buscarem fazer o que. agrada ao seu
Deus, êles experimentarão a verdadeira felicidade.
Nos primeiros dois versículos o profeta recebe á or­
dem do Senhor para declarar ao povo a sua transgressão
e à casa de Davi os seus pecados. Aparentemente, o povo
é intensamente religioso, mas o profeta é comissionado a
explicar a superficialidade das suas atividades religiosas.
A gravidade do entendimento falso' da religião, daparte
do povo, é indicada pela urgência da ordem divina ao
profeta: Clama em alta voz, com todo o teu poder, levan­
tando a voz como trombeta. Esta é a missão dos profetas
do Senhor (Cp. Os. 8:1; Is, 18:3; Jer. 4:5; Ez. 33:6-20).
t 2. M as m e buscam c a d a dia,
i e têm p ra z e r em s a b er os m eus c a m in h o s ;
l com o nação q u e p ra tic a a ju s tiç a ,
7 e não tin h a ab an d on ad o a o rd en a n ç a do seu D eus;
pedem de m im os d ire ito s da ju s tiç a ,
tê m p ra z e r em se c h e g a r a D eu s. t

Mas ainda me buscam cada dia. Assim, o povo é mui­


to zeloso nas suas atividades religiosase pensa que a prá­
ticas,das suas obras externas pode estabelecer a sua relação
com o Senhor, e assim lhe ganhar os favores divinos. É
característico de qualquer povo que busca agradar a Deus
A P R p F E C IA DE IS A ÍA S 289

com as suas boas obras externas, sem a devoção do espí­


rito, o pensar que tais obras podem firm ar a sua relaçao
cóm Deus. Não entendem o significado da co'munhão do
espírito do homem com o Espírito de Deus. Êste povo,
que praticou com zêlo o jejum e a aflição da alma, não
conseguiu estabelecer comunhão com Deus. Ostensiva­
mente o povo se apresenta como nação quepratiça a jus­
tiça, que busca cada dia o Senhor; que tem prazer em sa­
ber os caminhos do Senhor : Declara que não tinha aban­
donado a ordenança, ou a justiça do Senhor. Êlles pe­
dem de mim, por intermédio do sacerdote ou do profeta,
os direitos ou as recompensas da justiça, {JTSS
V V • • I I *

Têm prazer em se chegar a Deus; têm prazer na proximi­


dade de Deus.
3. Por que jejuam oi njt, « tu não «tanta* para isso?
Por que afligirmos as nossas almas, e tu não o sabes ?
Eis que no dia do vosso jejum buseais os vossos prazeres,
e «x ig is todos oa vossos trabalhos.

As perguntas do povo, dirigidas ao' profeta, na primei­


ra parte do versículo 3 surgem do seu desapontamento
porque o Senhor não tinha respondido ao seu zêlo nem
havia recompensado as suas boas obras. Por que jejua-
mos nós, e tu não atentas para isso? É profundamente
significativa esta pergunta. Mostra que o povo pensava
erradamente que o homem pudesse merecer e exigir o
favor de Deus com as suas boas obras. A sua desilusão
é prôva do seu egoísmo. As suas obras não foram motiva­
das pelo amor e a gratidão, mas pelo desejo de receber
a devida recompensa do seu serviço. Por que é que Deus
não nos pagava o nosso serviço? É por que êle não sabe
o que nós temos feito no seu serviço?
Então o profeta, como o mensageiro do Senhor, res­
ponde às perguntas do povo na última parte do versículo
3. O povo.se vangloriava em jejuar e em afligir a sua
290 A . R. C R A B T R E E

alma, mas foi uma obra sem valor, porque não fo i feita
com devoção ao Senhor. Buscais os vossos prazeres, os
vossos p róp rios n egó cios. P o is ex igis todos os vossos tra ­
balhos. Aproveitais a oportunidade de oprimir os vossos
trabalhadores.
4. Eis qu e je ju a is p a ra fa z e r c o n ten d a s e rix a s,
e p a ra fe r ir d e s c o m o punho in iq u o .
Jeju an d o assim c om o no d ia d e h o je
não se fa r á o u v ir a v o s s a v o z no a lto .
5. É ta l com o ê ste o je ju m que escolhi,
o d ia em que o h om em a flija a su a a lm a ?
Ê para o hom em in c 'in a r a ca b eç a co m o ju n co,
e e s te n d e r d eb a ix o de si pano de saco e > cin za ?
É isto que ch a m a rá s je ju m ,
e dia a c e itá v e l ao S en h o r ?

O versículo 3b apresenta a queixa do povo de que o


Senhor desdenhava dos seus jejuns e as aflições com que
se afligiam. Deus responde, 3c-5, por intermédio do seu
profeta, com perguntas sôbre o motivo do povo na práti­
ca de jejuns e o seu procedimento moral nos dias festi­
vos. Há um contraste notável entre o verdadeiro motivo
dejejuar e o propósito declarado por êstes jejuadores
(Cp. Lev. 16:29, 31; 23:27, 32; Núm. 29:7). Dirigido
pelo espírito de egoísmo, o povo profanava os dias de je­
jum por contendas e rix a s. Mostrava-se de mau humor,
irritável e violento até ao ponto' de fe r ir com o punho iní-
, quo. Pr«üpupado com o' propósito de aumentar as suas
i riquezas materiais, aproveitando-se do trabalho dos seus
*empregados nestes dias feriados, as suas orações, mera-
rmente formais, não chegaram aos ouvidos do Senhor (Cp.
Os. 6:4-6; Amós 5 : 23:24; Is. 1:15-17; Zac. 7:8-13). O
povo' não se interessava em saber a vontade de Deus, ou
em submeter-se ao julgamento divino, e assim se purifi­
car da avareza e cobiça.
H Com três perguntas dramáticas no versiculo 5, o Se­
nhor responde à pergunta dêste povo, e assim explica a
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 291

razão por que não havia respondido» às suas orações. Ê


tal como êste o jejum que escolhi, o dia em que o hofnem
se aflija a si mesmo? O profeta indica nesta pergunta a
qualidade de jejum e o propósito do jejuador que desa­
grada ao Senhor, e nos versículos 6 e 7 êle descreve a -
qualidade de jejuns e de outras atividades externas que
agradam ao Senhor. As palavras o dia em que o homem
humilha a sua alma são irônicas, pois a vercladeira hu­
mildade do homem perante o Senhor é justamente a qua­
lidade de espírito que êstes homens não tinham, nem en­
tendiam . O seu costume de inclinar a cabeça como junco
e estender debaixo de si pano de saco e cinza é um exem­
plo do seu formalismo extremo'.
O profeta pergunta satiricamente o significado dêste
costume de inclinar a cabeça como junco e de estender
debaixo de si pano de saco e cinza. É isto o jejum que
julgas aceitável ao Senhor? Se o homem não expressa
o sentimento de amor e fidelidade de coração e o verda­
deiro desejo de adorar ao Senhor com as suas atividades
religiosas o' seu serviço não tem valor algum.
6. Não é êste o jejum que eu eacolho :
que soltes as ligadura* da impiedade,
desfaças as ataduras da servidão,
deixes livres os oprimido*
e despedace* todo jugo ?
7. Não é que repartas o teu pão com o faminto
e recolhas em casa os pobres desabrigados;
e quando vires o nu, o cubras,
e não t » escondas da tua própria carne ?

Em contraste com o jejum form al e hipócrita, o pro­


feta explica nos versículos 6 e 7 o verdadeiro jejum que
agrada ao Senhor. Falando diretamente à consciência,
como Amós e os outros profetas anteriores, êste mensa­
geiro do Senhor também explica a exigência da compai­
xão e do amor ao próximo, na justiça social, como o
292 A . R. C R A B T R E E

verdadeiro jejum . Assim, o' jejum que agrada ao Se­


nhor é bem diferente do costume form al de inclinar a
cabeça como junco, e deitar-se no pano de saco e cinza
(Cp. Os. 6:4-6; Miq. 6:1-8; Is. 1:10-20; Jer. 3:4-13; Ez.
18:5-9; Mat. 25:35-40).
O verdadeiro jejum não é meramente uma formali­
dade negativa. É a verdadeira humilhação do espírito
perante o Senhor, no arrependimento' que odeia a hipo­
crisia das meras formalidades da religião. É o amor que
desprende as ligaduras da opressão, da impiedade, como
o tratamento cruel dos devedores pelos credores. Os
quatro verbos do versículo' 6 descrevem as práticas que
os falsos jejuadores tinham que abandonar antes que
pudessem fazer um jejum agradável ao Senhor: soltar
ligaduras da impiedade; desfazer ataduras da servidão;
deixar livres os oprimidos; despedaçar todo jugo. So­
mente assim êles poderiam exercer o verdadeiro jejum
que é a prática da beneficência para cota os necessitados.
Há quatro verbos também que descrevem o verdadeiro je­
jum: repartir o teu pão com o faminto; recolher em casa
os desabrigados; cobrir a nudez dos desastrados; ajudar
uns aos outros, e assim não te escondas da tua própria
carne (Deut. 22:1, 3, 4), dd camarada israelita.
O profeta explica nos versículos 8-12 as bênçãos que
o povo recebe do Senhor quando entende e satisfaz às
exigência^ morais da verdadeira religião. Recebe, sem
demora, a salvação e o Senhor responde às suas orações.
Assim, as suas trevas se transformam em luz.
8. E n tão ro m p erá a tu a luz com o a a lv a ,
e a tu a cu ra a p re ss a d a m en te b ro ta r á ;
a tu a ju s tiç a irá a d ia n te de ti,
e a g ló r ia do S en h o r será a tu a r e ta g u a rd a .
9. E n tão c la m a rá s , e o S en h o r te re sp o n d e rá ;
g rita rá s , e ê le d irá : E is -m e a q u i.

H Então romperá a tua luz como a alva. Em contraste


corn os negativos dos versículos 6 e 7, á primeira palavra
À PR O FE Ó lÁ DE ISAIAS 293

dos versículos 8 e 9 é , Então. Assim, o profeta*come-


T

ça a linda descrição da mudança na vida e nas recompen­


sas espirituais do povo que abandona o jejum puramente
formal e deseja ardentemente seguir a orientação do Se­
nhor . A noite tinha reinado no espirito' do povo que pro­
curava ganhar os favores de Deus com as mias form ali­
dades religiosas, sem se interessar no conhecimento da
vontade divina. Mas quando o povo nas trevas acorda
para reconhecer a sua miséria, e deseja receber o socorro
divino, a luz romperá para êle como a alva. Esta palavra
romper, J?p2 , é usada em Gên. 7:11 e Sal. 74:15 no
sentido das águas que rompem pelas fendas da terra. Na
linguagem figurativa a luz fende os céus e inunda a ter­
ra. Assim, para os israelitas arrependidos a luz divina
romperá as trevas no seu espírito como a alva. Assim, o
rei Mesha usou esta palavra, na inscrição da Pedra Moa-
bita, para descrever a libertação do seu povo (Ver a A r­
queologia Bíblica cto autor, p . 142).
A tua cura brotará apressadamente, n tiS n
. T * * I T \
Estas palavras, segundo Delitzsch, significam a pele que
cresce sôbre a ferida que está sarando (Ver o Comentário
in lo c o ). Esta palavra é usada no sentido de cura

espiritual em Jer. 8:22; 30:17; 33:6. Em Neem. 4:7 a


palavra é usada no sentido de reparação dos muros de Je­
rusalém . O profeta explica as recompensas espirituais
do povo que abandona as formalidades hipócritas da re­
ligião e se entrega ao Senhor com amor e gratidão. Rom ­
perá para Israel regenerado a luz como alva; brotará
apressadamente a sua cura espiritual.
Se Israel abandonar as meras formalidades religiosas
e preocupar-se Com o serviço de amor ao próximo è da
fidelidade para cóm o Senhor, então marchará no caminho
da fé e da comunhão com o Senhor. E nesta nova vida a
294 A . R. C R A B T R E E

sua justiça irá adiante dêle, enquanto que a glória de Deus


será a sua retaguarda, como seu Protetor. Também o
Senhor ouvirá as orações do seu povo e lhe dará socorro.
9b. Se tiranee do moio d* ti « jugo,
o estender do dedo e o falar iniqüidade,
10. se abrires a tua alma ao faminto,
e fartares a alma aflita,
entio a tua luz nascerá nas trevas,
e a tua escuridão será como o' meio-dia.

Nesta segunda parte do versículo 9, que se liga ao


versículo 10, o profeta explica de nôvo, porém mais bre­
vemente, os característicos da vida religiosa que o Senhor
aceita. Nos versículos 10-12 o profeta anima o povo com
promessas do futuro glorioso daqueles que confiam no
Senhor. Mas Israel, da sua parte, tem que fazer coi*re-
ções específicas no seu procedimento moral a fim de gosutr
estas bênçãos.
Se tirares do meio de ti o jugo. Como no versículo
6, a palavra jugo significa opressão, e liga-se com qualquer
iniqüidade social. O povo tinha que abandonar a opres­
são do próximo (Is. 30:12; 54:14; Os. 12:7; Amós 4:1;
Miq. 2:2; Jer. 7:5; Zac. 7:10; Mal. 3 :5 ). O estender do
dedo fo i um gesto de escárnio (P ro v . 6:13). Os árabes
pensavam que êste sinal era um meio de trazer infelicida­
de sôbre uma pessoa. Entre os israelitas era apenas um
< gesto de Atsprêzo do homem pobre ou infeliz (L e v . 19:
| 1 8 ). Alguns pensam que a frase falar iniqüidade,
T significa profetizar falsamente, mas o con-
v v T ... - *

texto não favo‘rece êste sentido.


Se abrires a tua alma ao faminto. A L X X diz, Se de­
res da tua alma pão ao faminto. A provisão de comida
para os famintos, a verdadeira simpatia para com os ne-
ceàsitados, transformarão as trevas do egoísmo e a falta
de interesse no bem-estar dos pobres e aflitos na luz bri-
A P R O F E C IA DE I8A ÍA S

Diante do meio-dia. Fartares a alma aflita, ou satwfizeres


o apetite, 011 o desejo, ou o espírito do aflito. Esta palavra
tem vários sentidos: ser vivente, pessoa, vida, alma,
desejo e apetite. O Senhor guiará os israelitas que amam
a justiça e que servem os pobres e aflitos. Êle fará nascer
a sua luz nas trevas da opressão e da injustiça.
11. E o Senhor te guiará continuamente,
« fartará a tua alma em lugares árido*,
e fortificará os teus ossos;
serás como um jardim regado,
e como manancial
cujas águas nunca faltam.
12. E os teus filhos edificarão as antigas ruínas;
levantará* os fundamentos de muitas gerações;
e serás chamado reparador da brecha,
o restaurador de veredas para a habitaçio.

O profeta apresenta nos versículos 11 e 12 o apogeu


da sua mensagem sôbre o' futuro feliz de Israel. O Senhor
te guiará continuamente (Cp. 57:18). Na primeira parte
do versículo 3 o povo se queixava de que o Senhor não
respondeu ao seu jejum nem às aflições da sua alma. Ago­
ra. o profeta promete que o Senhor ficará continuamente
com o seu povo, que Israel terá conhecimento dos cami­
nhos do Senhor e andará nêles. O povo ficará em comu­
nhão com o Senhor, e dêle receberá respostas às suas ora­
ções. O Senhor promete satisfazer às necessidades espiri­
tuais do seu povo. Fartará a tua alma em lugares áridos.
A palavra iTifTCnX , lugares áridos, não se encontra em
T « *"

qualquer outro lugar no Velho Testamento, mas não há


dúvida sôbre a significação da palavra. A RSV traduz
satisfará a » teu desejo com cousas boas. O hebraico está
claro e a mudança é desnecessária. A palavra alma é mais
expressiva aqui, e mais apropriada do que desejo. Alguns
sugerem a mudança da frase fortificará os teus ossos
296 A . R. C R A B TR E E

para renovará a tua fôrça. Mas em muitas referências


da Bíblia os ossos representam a fôrça estável do homem
(V er Jó 40:18; P rov. 17:22; Sal. 31:10; 32:3; 38:3; 51:
8; 102:3, 5 ). Serás como um jardim regado, como ma­
nancial cujas águas nunca faltam. Quantas vêzes a Bí­
blia fala de água como símbolo da riqueza, da abundân­
cia e da felicidade de vida.
Os teus filhos edificarão as ruínas antigas. A inva­
são dos babilônios deixou a Palestina em ruínas. Êste
versículo diz indiretamente que a terra ainda estava em
ruínas. O Templo não foi reedificado. Evidentemente, o
profeta estava pensando principalmente nas ruínas mate­
riais da terra. Serás chamado reparador da brecha, o
restaurador de veredas para a habitação (Cp. 60:14; 61:3,
6; 62:2, 4,12; Jó 24:13).

13. Se deaviares o teu pé do sábado, ( * )


de fazer a tua vontade no m«u santo dia
e chamares ao sábado deleitoso,
e o santo dia do Senhor honroso;
se o honrares, não seguindo os teus caminhos,
não fazendo a tua própria vontade, nem falando
palavraa vãs;
14. então te daleitarás no Senhor,
e te farei cavalgar sôbre as alturas da terra;
eu te sustentarei com a herança do teu pai Jac6,
( a bôea do Senhor 0 disse.

^ Nos versículos 13 e 14, o' profeta se interessa espe-


’/ cialmente na observação do sábado, uma instituição de
importância capital na história de Israel. Foi inaugurado
por Moisés (Êx. 20:8) e observado através da história
(Am ós 8:5 e Os. 2:11) e com importância especial no pe­
ríodo do exíiio' babilônico. Se o povo guardar o sábado
^ (# ) Parece evidente que, o sentido a q u i é — Se desvlares o teu
pé de profamar o sábado, — e é como se acha vertido na, edição da
S .B .B . — Nota da Editôra.
A P R O FE C IA DE ISAIAS 297

com o desejo de exaltar o caráter do Senhor e obedecer à


sua vontade, a religião será um grande prazer em vez de
um incômodo.
Se desviares o teu pé do sábado, isto é, deixares de
profanar o sábado. O sábado era o dia do Senhor, ou,
segundo o hebraico, o santo do Senhor. Portanto, o povo
deve desviar-se de fazer a sua própria vontade no sainto
dia do Senhor. Deve obedecer à ordem do Senhor, e as­
sim cessar do trabalho e dedicar-se pessoalmente à adora­
ção do Senhor. Apresentam-se na última parte do ver­
sículo 13 as condições religiosas que o povo precisa cum­
prir para receber o regozijo e experimentar oi prazer no
serviço do Senhor. O povo tem que deixar de seguir os
seus caminhos; tem que abandonar o hábito e até o de­
sejo de seguir a sua própria vontade; chamar ao sábado
uma delícia e o santo (dia) do' Serthor honroso.
Então te deleit&rás no Senhor, havendo experimenta­
do uma transformação no seu espirito em relação com o
Senhor. Assim, quando a observação do sábado é uma
alegria para o' povo, o Senhor tem prazer em amar e aben­
çoar os seus servos. E eu, o Senhor, te farei cavalgar
pôbre as alturas da terra (Deut. 32:13; 33:29; Sal. 18:33;
Hab. 3:19). O Senhor promete que o seu povo triunfa­
rá sôbre todos os obstáculos no serviço do seu Deus. Pro­
mete solenemente, pois a bôca do Senhor o disse, susten­
tar o seu povo com a herança do seu pai Jacó.

E. A Intervenção do Senhor na Vida de Israel,


59:1-21
1. Eis, a mão do Senhor não está encolhida,
para qu « não possa saivar,
nem surdo o seu ouvido,
para que não possa ouvir.

O profeta descrevê, nos capítulos 56-59, a decadência


religiosa e moral do seu povo. Assim, êle continua, neste
298 A R. C R A B T R E E

capitulo, a discussão das transgressões de Israel e a sua


separação' do Senhor. Desviado do Senhor, o povo está an­
dando nas trevas, sofrendo a miséria e a desilusão, que
são as conseqüncias do' desprezo da retidão e da justiça
e da infidelidade para com o Senhor. É difícil achar em
qualquer outra parte da Bíblia um vocabulário tão rico na
descrição do pecado, como nos versículos 3-8 dêste capí­
tulo (Cp. Sal. 51 e Rom . 1:18-22). Descreve-se nesta
passagem a terrível depravação da natureza humana.
Mas no capítulo inteiro, o profeta está concentrando o
seu pensamento no Redentor de Israel. O homem não pode
fazer cousa alguma para libertar-se da depravação da sua
natureza e da sua corrução moral. Mas o Senhor tem o de­
sejo, o poder e o propósito de libertar o povo da escravidão
e transformar a sua natureza pecaminosa. Tão difícil será
a luta que o Senhor se apresenta figurativamente como
guerreiro armado para a luta. A salvação dêste povo rebel­
de parece uma causa perdida. Tudo depende do Senhor, e
êle mesmo pode salvar somente os pecadores que se arre­
pendem da sua rebelião e confiam no amor divino. Mas
o Todo-poderoso não falhará. A bondade do Senhor le­
vará o povo ao arrependimento, e a poderosa graça divina
o salvará do poder do pecado. Êste profeta assim procla­
ma o evangelho da fé e esperança. A sua esperança ba­
seia-se na coífcicção inabalável de que o Senhor é o Domi-
ntmor de tôdas as fôrças materiais e espirituais dêste mun-
dcrçe que a justiça triunfará sôbre o mal na redenção dês­
te povo que tinha recebido as prómessas do concêrto di­
vino. Assim, o Senhor manifesta a sua soberania ao mun­
do inteiro. Há três divisões principais do capítulo.
1. A iniqüidade humana separa Israel do Senhor, 59:1-8
2. A Nmiséria e a lamentação de Israel na sua separação
do Senhor, 5$ :9-15a .
A P R O FE C IA DE IS A fA S 29»

3. A vitória do Senhor e a manifestação da sua sobera­


nia ao mundo, 59:15b-21
1. A Separação entre Deus e a Comunidade de Israel,
59:1-2
Nos primeiros dois versículos o profeta dá em resu­
m o o seu argumento no capitulo inteiro. Nã©..é a impo­
tência nem o’ desinterêsse do Senhor que separam Israel
de Deus e impedem o seu regozijo nas bênçãos divinas que
almeja. É antes o seu próprio pecado e a sua revolta
contra a retidão e a justiça do Senhor que faz a separa­
ção. Por muito tempo os profetas haviam condenado se­
veramente o' povo de Israel porque violava o concêrto de
amor que o Senhor fizera com êle. Mas a experiência do
sofrimento no exílio e das lutas no restabelecimento na
sua terra despertou na consciência do povo o desejo de
experimentar comunhão com o Senhor e de receber as
bênçãos do socorro divino. Com a decadência religiosa
de Israel, êle precisa arrepender-se da sua infidelidade,
abandonar a falsa confiança nas próprias obras e receber,
pela fé, a salvação da graça livre do Senhor.
O povo pensava que a sua separação do Senhor fôsse
devida inteiramente à impotência ou ao desinterêsse do
Senhor. O profeta responde a esta opinião falsa do povo,
dizendo, Eis, a mão do Senhor não está encolhida para que
não possa salvar. Os antropomorfismos, a mão, o ouvido, o
rosto do Senhor, dão ênfase especial ao interêsse e ao' po­
der do Senhor na salvação de Israel. Deus não é limitado
no seu poder (Cp. 50:2) de ouvir as orações do seu povo,
ou de libertá-lo' da iniséria da infidelidade.
2. Mas. as vossas iniqüidades fazem separação
entre vós e o vosso Deus;
e os vossos pecados escondem de vós o seu rosto,
de sorte que não vos ou$a.
300 A R. C R A B T R gÇ

Ás vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o


vosso Deus. O particípio significa ação cons-
• * » “

tante, vai separando. Devido à promessa solene de fide­


lidade ao Senhor, segundo a sua promessa como o povo
escolhido do Senhor (lÊx. 19:6, 8; I Reis 8:23), os peca­
dos da infidelidade de Israel eram muito graves. Os vossos
pecados escondem de vós o seu rosto (Cp. 8:17; 57:17; Jó
34:29), de sorte que não vos ouça. As frases, o Rosto do
Senhor, o Nome do Senhor, a Palavra do Senhor, têm um
sentido muito profundo no hebraico. São usadas quase no
sentido da Pessoa ou da Presença do Senhor.
3. Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue,
e os vossos dedos de iniqüidade;
os vossos lábios falam mentiras,
e a vossa língua murmura maldade.
4. Ninguém há que clame pela justiça,
e ninguém pleiteia com retidão;
confiam em vaidade( e falam mentiras;
concebem o mal, e dão à luz a inqiiidade
Nos versículos 3 e 4 o profeta apresenta um retrato
espantoso da infidelidade da ccímunidade de Israel para
com o seu Deus. No versículo 3 êle dá exemplos dos pe­
cados sociais. As vossas mãos estão contaminadas de san­
gue, e os vossos dedos de iniqüidade. O profeta mencio­
na quatro' dos órgãos do corpo que o povo usava na co­
missão do pecado contra o seu Deus: as mãos, os dedos,
ofe lábios e a língua. Com as mãos e os dedos o povo co-
irfetia atos pecaminosos. Com os lábios e a língua o povo
falava os pensamentos e os propósitos do coração malva­

do. A palavra contaminadas, é uma forma pe­


culiar do verbo. É o N ifal com as vogais do Pual. O ver­
bo significa tingir, manchar ou contaminar. Quando o
povo^esèende as mãos contaminadas o Senhor esconde os
seus olhos (1:15). Nos versículos 3-8 o profeta enumera
A PR O FE C IA DE IS A IA S 301

pecados de Israel que são mencionados também em o


Nôvo' Testamento (M ar. 7:21-23; Mat. 15:19; Rom . 3:
10-18; Gál. 5:19-21; II Cor. 12:20; I Ped. 2:10-19).
Ninguém há que clame pela justiça. Ninguém entra
na litigação com justiça (Cp. Jó 9:16). A palavra
significa a firm e aderência ao padrão da justiça e da ver­
dade. A palavra significa fidelidade, honestida-
T TI

de, confiança. Era um pecado muito grave a violação da


lei do Senhor, ou dos direitos do vizinho em qualquer pro­
cesso legal (Cp. 1:17; 10:1-2; 29:21; Amós 5:10, 13; Jer.
5:28). Ninguém pleiteia com retidão. Os litigantes des­
prezavam a retidão. Confiavam em vaidade, , fala-
< T

vam em falsidades, inanidades, , amam a injustiça.


V T

Desprezam qualquer padrão ético. Falam mentiras; con­


cebem o mal e dão à luz a iniqüidade. Com astúcia e ex­
periência, êstes opressores do povo aprenderam meios de
enganai- o público. Tornaram-se peritos em ludibriar e
roubar os inocentes, e ao mesmo tempo apresentavam-se
como expoentes de retidão e justiça.
5. Chocam ovos de víbora,
e tecem teias de aranha;
o que comer dos ovos delas morre;
e de um dos ovòs esmagados sai-lhes uma víbora.
6. As suas teias não prestam para vestidos;
homens não se cobrirão com o que elas fazem.
As obras dêles são obras de iniqüidade,
e atos de violência estão nas suas mãos.
7. Os seus pés correm pára o mal,
e se apressam para derramarem o sangue inocente;
• os seus pensamentos são pensamentos de iniqüidade,
desolação e destruição se acham nos seus caminhos-
8. Êles não conhecem o caminho da paz,
nem há justiça nos seus passos;
fizeram tortuosas as suas veredas;
quem andar por elas não conhece a paz.
302 A . R. C R A B TR E E

Os versículos 5-8 descrevem em têrmos veementes a


perversidade dos israelitas. Não obstante a mudança da
segunda para a terceira pessoa, o profeta ainda está fa­
lando da classe dos opressores do povo' inocente, dos que
concebem o mal e dão à luz a iniqüidade.
A linguagem do versículo 5 e a primeira parte do ver­
sículo 6 é muito figurativa. Êstes homens cruéis chocam
ovos de víbora, e tecem teias de aranha. A figura é de­
senvolvida nos versículos seguintes. Na sua natureza en­
venenada, êstes opressores meditam sôbre os seus planos
de roubar os vizinhos, e na ocasião oportuna executar a
sua estratégia, transmitindo o veneno da sua injustiça às
vítimas, como a víbora transmite o seu veneno pelos ovos.
A segunda figura, da teia de aranha, talvez se refira ao
modo usado pela aranha para apanhar insetos na sua teia.
O que comer dos ovos delas morre (Cp. Deut. 32:33). Os
enganados pela astúcia do opressor, ou os esmagados pela
sua crueldade.
O profeta declara no versículo 6 que os planos astu­
ciosos desenvolvidos pelos iníquos não contribuem, afinal
de contas, para o seu próprio bem-estar. As suas teias
não prestam para vestidos, e êles não se cobrirão com as
obras iníquas, e os seus atos de violência contaminam as
suas mãos.
A representação da vida como caminho, no versículo
71 e o modoMe andar nêle é comum nas Escrituras. Os
vlrbos correm e apressam indicam o entusiasmo dos mal­
feitores até no derramamento de sangue inocente. L i hoje
como alguns nazistas que se acham agora perante o tribu­
nal da justiça na Alemanha, nos seus pensamentos de ini­
qüidade, mataram cruelmente muitas crianças inocentes.
Êles não conhecem o caminho da paz. Há três sinô­
nimas interessantes nos versículos 7 e 8: alto caminho,
, caminho, “ p T , veredas, ÍVDTiJ . Êstes homens
A PR O FE C IA DE IS A ÍA S 303

afastados do Senhor não têm conhecimento da paz daque­


les que amam a paz e andam no caminho dela. Andítm
de acôrdo ccim os seus desejos concupiscentes, fazendo, as­
sim, as suas próprias veredas tortuosas (P ro v. 2:15; Í0i9;
28:18). A palavra andar é usada freqüentemente nas Escri­
turas para descrever o procedimento moral ou religioso
do homem. Andou Enoque com Deus.
2. A Comunidade Deseja Ficar Livre e Confessa o Seu
Pecado, 59:9-15a
9. Por isso está longe de nós a retidão,
e a justiça não nos alcança;
esperamos pela luz, e eis as trevas,
pelo resplendor, mas andamos em escuridão.
10. Apalpamos a parede como cegos,
como os que não tèm olhos, andamos apalpando;
tropeçamos ao meio-dia como nas trevas,
e entre os de pleno vigor somos como mortos.

O profeta apresenta nesta seção os sentimentos dos


homens mais nobres da comunidade. Descreve a tristeza,
o desânimo e a confissão daqueles que lamentavam a de­
mora no cumprimento das promessas do Senhor. Espe­
ramos pela luz, e eis as trevas (Cp. Jer. 8:13; 13:16; 14:
19; Jó 3:9; 6:19; Lam . 2:16; Is. 50:10; 58:8,10). A demo­
ra no cumprimento das promessas de libertação produziu
no' sentimento do povo a convicção mais profunda dos
pecados da sua infidelidade e do seu afastamento do Se­
nhor. Por isso está longe de nós a retidão, ZDStifà ,
▼s *
e a justiça, H p lX , não nos alcançai. Assim, aprofundou-
T T «
se o sentimento de culpa na consciência do povo. O ver­
sículo reflete a psicologia dos israelitas. Êles se queixam
da demora do Senhor na sua libertação, mas reconhecem
ao mesmo tempo que os seus sofrimentos resultam da
sua própria iniqüidade.
304 A. R. C R A B TR E E

Apalpamos a parede como cegos. Andam ao lado da


parede, apalpando e buscando saida . Vão tropeçando ao
meio-dia como nas trevas, ou como à meia-noite, segundo
a L X X . Em comparação com aquêles no pleno vigor da
vida, êles são m ortos.
11. Todos nós bramamos como ursos,
e gememos como pombas;
esperamos o julgamento, mas não o há;
a salvação, « ela está longe 'de nós.
12. Pois as nossas transgressões se' multiplicam perante ti,
e os nossos pecados testificam contra nós,
porque as nossas transgressões estão conosco,
e conhecemos as nossas iniqüidades;
13. transgredindo e negando ao Senhor,
retirando-nos de seguir o nosso Deus,
falando opressão e rebeldia,
concebendo e proferindo, do coração, palavras de falsidade.

Na sua grande dor, impaciência e sofrimento, o povo


braina como ursos. A comunidade está cheia de angústia,
perturbação e pavor. Na melancolia, tristeza e timidez,
os homens gemem como pombas. Esperam o julgamento.
Alguns traduzem a palavra mishpat aqui por justiça, mas
julgamento parece melhor neste contexto. Êste povo ar­
rependido desejava as bênçãos de perdão e misericórdia,
e não a justiça que merecia. Nestes versículos o povo con­
fessa os pecados que o profeta havia denunciado tão se-
veram en^.
L As nossas transgressões se multiplicam perante t i.
mNa presença do- Senhor santo e justo, a consciência do
í povo torna-se mais sensível e os homens começam a reco­
nhecer a multiplicidade das suas transgressões, e lamen­
tam mais profundamente a sua perversidade. Os nossos
pecados testificam contra nós, e almejamos ardentemente
alivio 'da' nossa miséria (Ver Jer. 14:7) . Não podemos
fugir"-dás- nossás -transgressões que constantemente nos
acusam, nem podemos apagar o sentido de culpa em nos­
A PR O FE C IA DE IS A ÍA S 30C

sa consciência (Cp. Jó 12:3; 14:5; Sal. 51:3). Assim, o


povo reconhece e éonfessa a magnitude, > da sua in­
fidelidade e da apostasia do Senhor.
No versículo 13 Os pecados do' povo são enumerados
por uma série de infinitivos absolutos (Cp. v. 4 ). O
mais grave pecado do povo, como a nação escolhida
do Senhor, é a apostasia, indicada na declaração tríplice
da primeira parte do versículo 13: Transgredindo, a re­
belião contra o Senhor; negando o Senhor, o seu Deus de
amor; retirando-se, ou afastando-se da comunhão com o
Deus do concêrto. Êles também haviam falado e pratica­
do' a opressão e a revolta, concebendo e proferindo do
coração palavras de falsidade.
14. A justiça se retirou para trás,
e a retidâó se pâs de longe;
a verdade caiu nas praças públicas,
e a eqüidade n io ppde entrar.
15a. Sim, falta a verdade,
e quem se desvia dò mal exp5e-s» a ser prtsa.

A confissão dos pecados pelo povo no versículo 14 se­


gue a ordem das acusações nos versículos 3 e 4. Os peca­
dos da injustiça e opressão resultaram finalmente na cor­
rução das relações sociais da ctimunidade. Por falta de
integridade, a justiça e a retidão foram removidas, ou ex­
pulsas, jDH , da comunidade. As virtudes cívicas, a jus­
tiça, a retidão, a verdade e a eqüidade são personificadas,
c assim tratadas como se fossem pessoas indignas de
ocupar um lugar na sociedade. As virtudes especificadas
são antimonias dos pecados mencionados no versículo 13,
e sc apresentam como desejosos <le tomar o seu lugar pró­
prio na comunidade. Mas o povo se aclia tão dominado
pela corrução' social cjlie não pode tolerar a presença des­
sas virtudes perturbadoras na sua conumideidè.. Quantas
vêzes a justiça, a verdade e a retidão, aparentemente ex­
303 A R . C R AB TR E E

terminadas, levantam-se contra os corrutores da socieda­


de. Como disse o poeta, A verdade esmagada na terra se
levantará de nôvo.
Falta a verdade, e quem se desvia do mal expõe-se a
ser prêsa. É lastimosa a perseguição do homem por cau­
sa da sua justiça, mas a submissão voluntária à fôrça dos
iníquos é muito mais trágica. A verdade sumiu. Não
está mais presente (Os. 4:1). Quando a verdade não
tem mais lugar no meio da sociedade, e quando é despre­
zada entre os homens da praça, são as pessoas justas que
sofrem as conseqüências.
3. A Intervenção do Senhor, 59:15b-21
15b. O Senhor viu isso, e lhe desagradou
que não houvesse justiça.

No meio do versículo 15 há uma modificação repen­


tina da mensagem do profeta. Em vez do desânimo, das
queixas e orações do povo na sua miséria, o profeta apre­
senta a mensagem de esperança. Ao povo que se acha
emaranhado' na sua própria iniqüidade, o profeta lhe
anuncia a promessa da salvação divina.
0 Senhor viu isso, a condição miserável de Israel, e
lhe desagradou que não houvesse justiça. As palavras do
versículo 15b relacionam-se com os versículos 4, 8-8. Os
versículos 15b-16 expressam o mesmo pensamento de
41:28; 42;13; 63:5, a comunidade pecaminosa. É claro
que não n& esperança, fora da intervenção do Senhor, para
a comunidade dos israelitas na sua miséria. Esta firm e
convicção apresenta-se na visão profética do socorro di­
vino. A falta de justiça na comunidade desagradou ao Se­
nhor, foi nial aos seus olhos, mas não podia abandonar
o povo rebelde.
16. Êle viu que não havia homem algum,
,, e maravilhou-se por não haver um intercessor;
então o seu próprio braço lhe trouxe a salvação,
e a sua própria, justiça o susteve.
A PRO FEC IA DE ISAtAS 307

17. Vestiu-se de justiça como de uma couraça, ■-*


e pôs na cabeça o capacete da salvação;
pôs sôbre si a vestidura da vingança,
e se cobriu de zêlo, como de um manto.

Deus viu que não havia homem algum, e maravilhou-


se por não haver um intercessor. A palavra maravilhou-se,
, é m into-forte: atônito. Maravilhou-se por não

haver JTÍBÍÍ , intercessor, em favor da verdade e jus­


tiça (Cp. Ez. 22:30; Is. 63:5) . Mas no seu poder sobera­
no e na sua sabedoria infinita, o Senhor não precisava do
auxilio ou do conselho humano (40:12-14; 41:28). O seu
próprio braço lhe trouxe a vitória, a salvação (Cp. 40:10;
51:5, 9; 52:10; 53:3; 63:5). Vendo que não havia nenhum
htímem de energia e capacidade espiritual para trazer v i­
tória ao povo do seu concêrto, o próprio Senhor, segundo
o eterno propósito do seu amor, estendeu o seu braço e
libertou o seu povo da miséria da escravidão. Podia fazer
isto somente sob condição do arrependimento do povo.
Na linguagem figurada, o Senhor veste-se como guer­
reiro a fim- de batalhar com as fôrças do mal na socieda­
de dos israelitas (Cp. 42:13; 49:24, 25; 52:10; Êx. 15:3).
Mas as armas do Senhor são os seus próprios atributos.
A justiça inabalável é a sua couraça, e o seu capacete é a
salvação. A figura do Senhor como guerreiro, armado
pelos próprios atributos, indica a natureza da luta espiri­
tual com os pecadores humanos que querem ficar livres
do poder divino, e aó mesmo tempo desejam ardentemen­
te o socorro do Altíssimo. Nenhum poder humano é su­
ficiente para libertar o homem da escravidão do pecado,
não obstante a vaidade humana. A frase á vestidura dé
vingança não se encontra na LX X , mas cabe bem no con­
texto. A Imguagem figurativa trata, em 'termos ántropo-
mórfieos, da luta do Senhor com homens obstinados no
exercício da sua livre vontade.
308 A . R. C R AB TR E E

18. Segundo as obras dêles, assim retribuirá;


furor aos seus adversários, e a retribuição aos seus inimigo*;
às terras do mar dará a recompensa.
19. Assim, temerão o nome do Senhor desde o poente,
e a sua glória desde o nascente do sol;
pois virá como corrente impetuosa,
impelida pelo vento do Senhor.
20. Virá a Sião como Redentor,
aos de Jacó que voltam da transgressão, diz o Senhor.

O profeta descreve no versículo 18-20 as conseqüên­


cias da intervenção do' Senhor, especialmente na história
do povo de Israel. O Senhor c o Deus da justiça que re­
compensa aos homens de acôrdo com as suas obras. Acen­
tua-se nestes versículos a vinda do Senhor como Redentor.
Mas a redenção é sempre condicional. É para aquêles que
desprezam e abandonam as suas transgressões e vêm ao
Senhor com arrependimento e fé. Os adversários e os ini­
m igos do Senhor que desprezam a justiça divina, e obsti­
nadamente recusam abandonar as suas transgressões, re­
ceberão a devida punição do furor do Senhor. A palavra
furor é usada aqui no sentido humano. Mas o furor do
Senhor é simplesmente uma característica da santidade di-
viiia que não pode ter prazer com a injustiça, ou com qual­
quer outra form a de pecado. O profeta não especifica quais
são os adversários e inimigos, mas aparentemente se re­
fere aos israelitas que recusaram o convite da graça sal-
. Vadorá dtf^enhor. Alguns pensam que a última parte do
WèrSículo seja uma interpolação, mas declara que os povos
lía s nações são recebidos e salvos pelo Senhor nas mes-
ínas condições de arrependimento e fé.
Assim, temerão o nome do Senhor. Neste versículo
19 o profeta descreve a glória da vinda do Senhor no jul­
gamento (Cp. 40:5; 60:1, 2; 66:18-19). Com a pequena
mudança das vogais do verbo para alguns
* ♦* * ♦ * . . .
preferem ler, Assim, verão o nome do Senhor. A vinda do
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 309

Senhor e a manifestação da sua glória serão vistas^desde


o poente até ao nascente do sol. A vinda da glória do Se­
nhor trará o julgamento e a redenção: o julgamento para
rts pecadores obstinados que não querem abandonar a$
suas transgressões; e a redenção aos arrependidos que se
voltam ao Senhor com o desejo de receber o perdão dos
seus pecados e a graça da salvação. Em 'Romanos 11:26,
o Apóstolo Paulo usa esta declaração' como exemplo da
salvação messiânica.
21. Quanto a mim, êste 6 o meu concerto com êles, diz o S e n h o r :
o meu Espirito que esté sôbre ti, e as minhas palavras que
pus na tua tiôca, não apartarão da tua bôca, nem da bôca
dos teus filhos, nem da b6ca dos filhos dos teus filhos, diz o
Senhor, desde agora e para todo o sempre.

O versículo 20 fala das conseqüências da vinda do


Redentor para o povo de Israel. Virá a Sião como Reden­
tor, aos de Jacó que voltam da transgressão. A L X X diz:
E mandará embora a profanação de Jacó, e não tem as
palavras, diz o Senhor. Alguns dizem que o versículo
apresenta uma conclusão lógica da última divisão da pro­
fecia, porque relaciona a conclusão diretamente com o
principio desta seção da mensagem profética. O Reden­
tor virá aos filhos de Jacó que se arrependem das suas
transgressões e se voltam ao Senhor.
O versículo 21 é o único do capitulo que está escrito
em prosa. É diferente também no estilo literário dos úl­
timos capítulos. Não obstante a diferença no' estilo, a
mensagem foi dirigida ao verdadeiro Israel. O restante
•dos fiéis de Israel tinha recebido o perdão das suas trans­
gressões, e foi dotado do Espírito e do verdadeiro conheci­
mento dó Senhor. Não obstante a diferença no estilo
dêste versículo, a promessa aqui apresentada concorda
perfeitamente com as discussões anteriores do profeta.
A referência ao concêrto do Senhor com Israel certamente
relaciona as promessas apresentadas, não sòmente com a
310 A . R. C R AB TR E E

mensagem do profeta nos últimos capítulos, mas com os


ensinos do livro inteiro de Isaías. A referência às promes­
sas do concêrto é perfeitamente natural, pois esta união
còm o Senhor era sempre a única esperança do povo de
Israel1 (Cp. 42:1; 49:2; Jer. 1:9; Sal. 143:10; Jó 32:8; Ez.
37:1-14; Zac. 12:10). A relação do Senhor com Israel,
de acôrdo com o concêrto, existiu através da história dêste
povo desde o tempo de Moisés (Êx. 19:1-20:26). O pró­
prio concêrto promete que sempre haverá um restante
fiel para preservar e transmitir a mensagem da graça de
Deus. O Espírito do Senhcfr operará no espírito do povo
de Israel na preservação e na transmissão do amor e da
graça do Senhor, desde agora e para todo o sempre.
F . A Glória, a Grandeza e a Felicidade de Sião, 60:
1-62:12
Nos versículos 20 e 21 do capitulo 59 o profeta fala
da graça do Senhcfr na redenção do povo de Israel, que
se arrependeu dos seus pecados de rebelião e se voltou ao
Senhor. Êstes versículos explicam a transição na men­
sagem do profeta, e a maravilhosa discussão da glória do
Senhor nos capítulos 60-62. O estudante cuidadoso da se­
gunda grande divisãci do Livro de Isaías não pode deixar
de observar a ênfase nas várias discussões sôbre dois pon­
tos de vista aparentemente contraditórios. Há várias
discussã^» sôbre a infidelidade, a rebelião e o desespêro
do povo de Israel. Por outro lado, o mensageiro do Se­
nhor, nas suas várias discussões põe ênfase na soberania
do Senhor e no seu eterno propósito de salvar um restante
do povo de Israel, como a nação sacerdotal, para realizar
o seu eterno propósito concernente a tôdas as nações do
mundd.
Nos capítulos anteriores o profeta descreve a perver­
sidade de Israel no seu afastamento do Senhor. Mas na
1. Walther Eicbrodt, Theology o f the Old Testament, Vol I, Cap. II
A PROFECIA DE ISAÍAS 311

sua miséria, o povo vai procurando, às apalpadela^, o seu


caminho nas trevas. Mas as fôrças espirituais da comuni­
dade corrompida são impotentes. No seu desespêro o
povo tinha que abandonar os seus pecados, e depender
unicamente da graça do Senhor, o seu verdadeiro Re­
dentor.
Assim, na visão do profeta, as nuvens escuras do pe­
cado e do julgamento divintí, se desvanecem, e nos três
magníficos caps. 60:62, o profeta descreve a glória do
sol nascente da nova Jerusalém. O tema destas poesias
se encontra em 40:5: A glória se revelará, e tôda a carne
a verá (Cp. cps. 40; 49-55; especialmente 49:15-28; 51:
17-23; 54:1-17). Todos os estudantes reconhecem a arte
retórica, as lindas imagens e a fôrça especial das palavras-
chaves destas maravilhosas poesias. 0 tema, o estilo li­
terário, os ensinos teológicos dêstes capítulos concordam,
em geral, com os ensinos dos outros caps. de 40-66, não
obstante a variedade das opiniões contrárias.
Não é possível fixar a data exata dêstes capítulos. A l­
guns pensam que os exilados da Babilônia já tinham vol­
tado a Jerusalém, e que o profeta tem uma visãó da vol­
ta dos judeus dispersos em tôdas as terras do mundo.
A palavra central nestes capítulos é a glória do Se­
nhor na revelação do seu poder soberano na salvação do
povo escolhido e a glória da nova Jerusalém. A glória
do Senhor foi revelada ao povo de Israel na nuvein da
fogo no Monte Sinai (Êx. 19:16-24; 24:16-18; Deut. 5:
22-27). O Senhor costumava revelar a sua glória ao povo
do Velho Testamento no fogo e na luz resplandecente (Is.
6:1-30; Sal. 18:8-15; Hab. 3:1-17; Ez. 1:1-28). O rosto
de Moisés resplandecia com a refletida luz divina (Êx.
34:29). O sol se envergonhava na presença da luz do Se­
nhor (Is. 24:23). O fogo e a luz são símbolos do poder,
da majestade e da glória do Senhor. Deus é luz (I João
1:5).
312 A . R. C RAB TREE

Assim, o profeta tem uma visão da Nova Jerusalém


na sua grandeza e glória. Erguida nos elevados outeiros
de Judá, acima do mundo nas trevas, Sião resplandece
na luz gloriosa do Senhor e cdnvida os seus filhos espa­
lhados a voltarem para a sua terra libertada e redimida
pelo poder e pela graça do Senhor. Na sua nova glória,
Sião será o centro da comunidade estabelecida na justiça
e prosperidade e será homenageada até pelos povos que
a desprezavam nos tempos passados.
A fé e a esperança do profeta baseavam-se na firm e
convicção do govêrno soberano do Senhor, e do seu eter­
no propósito de salvar o seu povo e orientá-lo nó cumpri­
mento da missão de receber, preservar e transmitir a re­
velação da graça do’ Senhor a tôdas as nações do mundo.
1. A Glória da Nova Jerusalém, 60:1-22
1 Levanta-te, resplandece, pois é chegada a tua luz,
e a glória do Senhor nasceu sôbre ti.

A luz e as trevas são símbolos religiosos. A luz é a


comunhão com a santidade e o amor do Senhor; as tre­
vas representam as condições da vida separada da pre­
sença do Senhor. A natureza do Senhor é luz e verdade.
A glória do Senhor é a manifestação da sua Pessoa, na
sua santidade, justiça e amdr.
Nos primeiros três versículos o profeta descreve a
alvoradíNda nova idade de Sião, a cidade do Senhor. En­
quanto o resto do mundo está imerso nas trevas, a luz
da glória de Deus resplandece sôbre a nova Jerusalém.
A nova luz brilha com tanta fôrça que até as nações de
longe cdmeçam a ver a sua glória. No seu estilo magnífi­
co, o profeta descreve com ricas imagens e poderosas pa­
ia vias a grandeza e a glória da manifestação do Senhor.
O profeta dirige a mensagem do Senhor a Sião, como
sèfôsse lima senhora prostrada e preparada pelas circuns­
tâncias históricas para ouvir com profunda alegria as pro­
A' PR O FE C IA DE IS A fA S 313

messas do seu Deus (Cp. 50:1; 51:17-23; 52:1-2; 54:1).


Levanta-t», resplandece. A L X X omite o imperativo le­
vanta, e repete resplandece. Acrescenta também Jerusa­
lém. Pois é chegada a tua lu z. O verbo é perfeito pro­
fético. O profeta está vendo e descrevendo a glória futu­
ra de Sião, que no propósito do Senhor e no1pensamento
do profeta já está se realizando. A glória, 'T Í3 2 , a ma-
T

jestade, a honra de Sião resplandecerá sôbre tôda a terra


(Cp. 6:3; Sal. 57:5, 11; 72:19) . Pois é chegada a tua
lu z. Que declaração sublime para o povo que tinha sofri­
do opressão poir tantôs anòs pelas nações pagãs! É o cum­
primento final das promessas repetidas dos mensageiros
do Senhor.
2. Pois eis que as trevas cobrirão á terra,
e a escuridão espeaaa os povos;
mas sôbre ti se levantará o Senhor,
e a sua glória se verá sôbre ti.
3. E nagões se encaminharão para a tua luz,
e reis para o resplendor que te nasceu.

Pois eis que as trevas cobrirão a terra. Enquanto a


luz da glória celeste resplandece sôbre Jerusalém, a ci­
dade do Senhor, as nações do mundo jazem nas trevas.
Sião é o único lugar na terra sôbre o' qual a luz da glória
divina está brilhando. Sôbre ti se levantará, ITlP >
surgirá, resplandecerá o Senhor. A sua glória se verá sô­
bre ti, como o brilho do sol nascente. O profeta acentua
o contraste entre a luz e as trevas, a luz da glória do Se­
nhor sôbre a Jerusalém, e as trevas nas terras sem Deus
e sem esperança (Cp. E f . 2:12).
As nações se encaminharão para a tua luz. N o es~
plendor da sua luz, a nova Jerusalém é o único lugar na
terra que reflete a glória do Senhor. Jerusalém, por tan­
tos anos desprezada pelas nações poderosas e arrogantes,
é finalmente o monte da casa do Senhor, estabelecido no
314 A . R. C RAB TREE

eume dos montes; e concorrerão a êle tôdas as nações


(2:2-4; Miq. 4:1-5; 9:1-2). Virão também reis para o
esplendor que te nasceu, ou o esplendor da tua alvorada
(Cp. 10:17; Sal. 104:2; Miq. 7:8). Assim, esta nova
comunidade, redimida pela graça de Deus e fundada nos
princípios da justiça divina, gozará honra, prestígio, po­
der, prosperidade e paz.
4 . L e v a n ta em r e d o r os t e u s o lh o s , e v ê ;
todos êles se ajuntam e vêm a ti;
teus filhos virão de longe,
e tuas filhas serão levadas nos braços.
5. Então vferás, e serás radiante,
o teu coração estremecerá e se regozijará;
porque a abundância do mar se tornará a ti,
as riquezas das nações virão a ti.

Nos versículos 4 e 5 o profeta fala da restauração


dos filhtís dispersos de Israel e da vinda das riquezas de
tôdas as partes do inundo ao povo da nova comunidade.
O profeta dirige a mensagem do Senhor à nova cidade
de Jerusalém.
Levanta em redor os teus olhos, e vê. A multidão
dos filhos e filhas está voltando à querida mãe, das terras
longínquas aonde foram levados por seus conquistado­
res. Êles vêm dos quatro confins da terra (11:12). As­
sim, o B^ofeta apresenta, na linguagem poética, um re­
trato dos judeus dispersos, reunidos em companhias na
volta para a sua terra amada. Os filhos vêm andando
enquanto as filhas são levadas nos braços, ou melhor
nos quadris, segundo o costume de carregar crianças
(Cp. 49:22-23; 66:12). A primeira parte do versículo 4
é a repetição das primeiras duas linhas de 49:18, e as
linhas três e quatro' variam um pouco das duas últimas
linhas de 49:22, onde os filhos são levadbs nos braços,
e as filhas sôbre os ombros.
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 315

Então verás e serás radiante, ou iluminado, *


T T *
(Cp. Sal. 34:5). O teu coração estremecerá, palpitará
de regozijo (Cp. Jer. 33$; Os. 3:5). Quando Sião le­
vantar os olhos e vir as nações encaminhando-se com os
seus filhos e filhas, ela será radiante de alegria. A LX X
tem temer em vez de ser radiante, mas o testo hebraico
é preferível aqui, pois concorda melhor com o teor do
pensamento e da alegria de Sião, embora o temor e a re­
verência sempre acompanhem o sentimento de regozijo
na comunhão com o Senhdr.
Porque a abundância do mar se tornará a ti. A pa­
lavra ü a n , abundância aqui, geralmente significa tu-
T
multo ou multidão, mas aqui é paralela com as riquezas
da linha seguinte. A abundância do mar e as riquezas do
mar não significam os produtos do mar, mas as riquezas
das nações carregadas através do mar e trazidas a Sião.
As riquezas freqüentemente representam a glória do'
Senhor (Gên. 13:2; 45:13; Cp. Sal. 49:17).
O profeta descreve nestes versículos a homenagem
• o tributo que Israel receberá do Oriente. Com duas
imagens o profeta desenvolve a promessa do versículo
5. Descreve a procissão de camelos e rebanhos que re­
presentam os ricos tributos do Oriente parao povo do
Senhor.
6. A multidão de camelos te cobrirá,
os camelos novos de Midiã e Efá;
todos êstes virão de Sabá.
Trarão ouro e incenso,
e proclamarão o louvor do Senhor.
7. Todos os rebanhos de Quedar se ajuntarão a ti,
os carneiros de Nebaiote te servirão;
para o meu agrado subirão ao meu altar,
e eu glorificarei a casa da minha glória.
A multidão de camelos (Cp. Ez. 26:10; Jó 22:11;
38:34). A palavra multidão é usada para descrever o
316 A . R. C R AB TR E E

número de cavalos na tropa de Jeú (II Reis 9:17). A


palavra traduzida dromedários significa camelos novos,
de menos de nove anos de idade, segundo as autoridades.
Midiã ficava ao' leste do gôlfo de Acaba. Os midianitas
são mencionados em Gên. 37:28, 36 como negociantes
entre o deserto e o Egito, chamados nos versículos 25 e
28, ismaelitas. Segundo Êx. 2 e 18 êles ocupavam a pe­
nínsula sinaítica (Ver também Núm. 12, 22, 25, 31
e Juí . 6-8) . Em Gên. 25:4 Efá é.mencionado como filho
de Midiã. Todos êstes vêm de Sabá, a terra da rainha
que visitou a Salomão. lÊles trazem os ricos tributos de
outro e incenso (Cp. Jer. 6:20; Ez. 27:20; Sal. 72:15).
Êles proclamarão o louvor do Senhor, ou louvarão as
boas novas das obras do Senhor, .
T « *
Todos os rebanhos de Quedair se ajuntarão a ti (Ver
o com. 21:16). Os camelos carregam os ricos tesouros
e os rebanhos se ajuntam para subir ao altar, assim ser­
vindo ao nôvo Israel como' vítimas sacrificiais. Quedar
e Nebaiote são associados nas inscrições de Assurbanipal
(V er as referências na Arqueologia Bíblica do au tor),
Para o meu agrado subirão ao meu altar. O Rôlo do Mar
Morto diz: Êles subirão para a aceitação sôbre o meu
altar . E eu glorificarei a casa da minha glória, ou em­
belezarei a minha bela casa. Alguns pensam que estas
palavras indicam que o templo já fo i reconstruído, mas
í não signmcam necessàriameute à existêftcia do nôvo
1 templo. Na nova idade o ternplo restaurado será a ha-
f bitação^do Senhor (Cp. 63:15; 64:11).
Havendo' falado do tributo que Israel receberá do
Oriente, o profeta descreve nos Versículos 8 é 9 os na­
vios do Ocidente que vêm voando sôbre o mar para Je­
rusalém. Êstes navios vêm carregados dos filhos exi­
jamos. de Sião e dos ricos tesouros das terras longínquas.
Quem são êstes que vêm voando como nuvem, .
e como pombas ao seu pombal ?
A -PROFECIA DE IS A fA S S17

9. Certamente as terras do mar me aguardarão; ■


virão primeira os navios de Társis,
para trazerem os teus filhos de longe,
e com 6les a sua prata e o seu ouro,
para o nome do Senhor, teu Deus,
e para o Santo de Israel,
porque 81* te glorificou.

Quem são êstes que vêm voando como* nuvem, e


como pombas ao seu pombal? Aparecem no mar,
navios andando rapidamente como nuvem leve im­
pelida pelo vento, e como bando de pombas que
voam ao seu pombal. Evidentemente, os israelitas da Ba­
bilônia já tinham voltado a Jerusalém. Agora o profeta
está vendo no Mar Mediterrâneo navios velozes carrega-*
dos de israelitas das terras mais distantes, no caminho
para Sião.
Certamente as terras do mar m e aguardarão (Cp.
43:5-7, 14; 49:18; 51:5). Esta declaração não é bem
coerente com a descrição dos navios nas linhas que se­
guem . Portanto, algjins sugerem a substituição da pa­
lavra , em vez de D^K , para ler, Certamente os
navios se ajuntarão ]para m im . Segue-se então logica­
mente, virão primeiro os navios de Tarsis. Tarsis era
uma cidade dos fenícios, no sul da Espanha, aproximada­
mente a 2.500 quilômetros distante de Jerusalém.
Para trazerem os teus filhos de longe, e com êles a
sua prata e o seu ouro. Assim, os navios vêm trazendo,
das terras mais distantes de Jerusalém, ó's filhos disper­
sos de Israel para a gloriosa cidade dè Sião. Êstes is­
raelitas trazem consigo a prata e o ouro que ganharam
no exílio como ofertas para honrar o nome do seu Se­
nhor, o Santo de Israel. Porque êle te glorificou, ou
te embelezou, como no versículo 7. Assim, êste versículo
termina exatamente como 55:5.
A R. C R AB TR E E

13. Estrangeiros edificarão os teus muros,


e os seus reis te servirão;
pois na minha ira te feri,
mas no meu favor tive misericórdia de ti.
11- As tuas portas estarão abertas de continuo;
nem de dia nem de noite se fecharão;
para que tragam a ti as riquezas das nações,
com os seus reis conduzidos na procissão.
12. Pois a nação e o reino que não te servem perecerão;
essas nações serão de todo assoladas.

O profeta, nos versículos 10-12, continua a discussão


da prosperidade material e da glória futura de Sião. Os
muros de Jerusalém serão reconstruídos com o auxilio
dos estrangeiros, filhos daqueles que destruíram a cida­
de . As nações e os reis trarão o seu tributo' e prestarão
homenagem e devoção à nova Jerusalém, o centro do
mundo. Pois na minha ira te feri, e assim te trouxe ao
arrependimento e fé. No meu favor tive compaixão
de ti.
As tuas portas estarão abertas dia e noite, para que
as nações, orientadas por seus reis, tragam a ti as suas
riquezas, com os seus reis conduzidos na procissão.
Alguns pensam que o versículo 12 seja uma inter-
polação que não concorda com o teor do pensamento' do
profeta.
Nos versículos 13-14, o profeta declara que as ár­
vores (k) Líbano serão trazidas para adornar e embele-
13. A glória do Libano virá a ti;
o cipreste, o olmeiro e o pinheiro conjuntamente,
para embelezar o lugar do seu santuário,
e farei glorioso o lugar dos meus pés.
14. Também virão a ti, inclinando-se,
os filhos dos que te oprimiram;
prostrar-se-ão aos teus pés
^ . todos os que te desprezaram,
chamar-te-ão a cidade do Senhor,
a Sião do Santo de Israel.
A PR O F E C IA DE IS A fA S 319

zar o santuário' de Jerusalém (Cp. Neem. 2:8) . © lugar


do-seu santuário é o Templo (Jer. 17:12), o lugar dos
meus pés (E z. 43:7).
Em conseqüência da nova glória de Jerusalém e do
seu santuário, os filhos dos que te oprimiram prostrar-
se-ão aos teus pés. Jerusalém será universalmente reco­
nhecida como a cidade do Senhor. EnquanfÔ esta lingua­
gem é poética, ao mesmo tempo o profeta explica o poder
das verdades eternas que Sião, o Santo de Israel, receberá
do Senhor e transmitirá ao mundo.
15. Em vez de terea abandonada • odiada,
com ninguém atraveeeando por ti,
eu te farei uma «xcoléncia perpétua,
um regozijo do gorasio em g tr a ç io .
16. Mamarás o leito de na$3es,
e te alimentará* ao* paitoi de rei(|
sabsrás que eu, o Senhor, aou teu Salvador,
o teu Redentor, o Poderoto do Jaoó.

Gs versículos 15 e 16 falam da excelência perpétua,


da felicidade de Sião, como a cidade eterna, redimida
e abençoada pelo Senhor. Em vez de ser abandonada
e odiada pelas nações, a noiva Jerusalém será honrada,
prestigiada e glorificada em tôda a terra. Passará o
período de julgamento e condenação; chegará o tempo
da glória de Israel. Será um regozijo de geração em
geração.
P or muito tempo o povo de Israel pensava que fôsse
desamparado, esquecido e desprezado (Cp. 49:14, 21;
54:6, 11; 62:4; Ez. 16:1-63). O profeta tem uma visão
do período glorioso de Sião, como a nação sacerdotal en­
tre os povos da terra. O Senhor fará de Sião uma exce­
lência perpétua. A primeira parte do’ versículo 16 é cla­
ramente figurativa, mas muito expressiva. As nações e
os reis, com um nôvo entendimento de Israel, como o
povo de Deus, e da sua gloriosa missão, contribuirão ge­
320 A . R. C R AB TR E E

nerosamente. para a prosperidade material de Sião. Êste


prestígio de Israel aumentará e aprofundará d seu conhe­
cimento do Senhor. Saberás que eu, o Senhor, sou teu
Salvador, o teu Redentor, o Poderoso de Jacó.
17. Em vez de bronze trarei ouro,
em vez de ferro trarei prata,
em vez de madeira, bronze,
em vez de pedras, ferro;
farei paz os teus magistrados,
e justiça os teus exatores.'
18. Não se ouvirá mais de violência na tua terra,
de devastarão ou de ruinas nos teus termos;
aos teus muros chamarás Salvação,
a às tuas portas Louvor.

Os versículos 17 e 18 tratam da glória da felicidade


espiritual de Sião. A grande prosperidade material de
Israel é- reconhecida como bênção preciosa do Senhor,
o seu Deus. A sua prosperidade foi o resultado, em gran­
de parte, do prestigio e do poder da sua vida espiritual
como o póvò do Verdadeiro Deus. A história de Israel
fo i manchada pela infidelidade, injustiça e a opressão
dos pobres pelos ricos e poderosos. Mas os magistrados
e os exatores de Israel serão a paz e a justiça.
Não se ouvirá mais de violência na tua terra. O
governo violento e opressor, que caracterizou a his­
tória Israel por muitos anos, não subsistirá mais
na terra (C p, 59:7; 51:19). A nova Jerusalém se apre­
sentará em grande contraste com o seu passado. Não
haverá mais a devastação e ruínas dentro dos seus lim i­
tes (Cp. 59:19-21). Em contraste com a opressão cruel
dos governadores políticos, e a injustiça dos homens ri­
cos, a paz e a justiça governarão o povo da nova Jeru­
salém. Aos teus muros chamarás Salvação. A Salvação
^do Senhor será os muros, a proteção, da cidade de Sião,
e o Louvor será as suas portas.
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 321

19. NSo será mais o sol


a tua luz de dia, '*
nem o brilho da lua
te dará a luz de noite;
mas o Senhor será a tua luz perpétua,
. e o teu Deus será a tua glória.
20. Nunca mais se porá o teu sol,
nem a tua lua «e retirará;
pois o Senhor será a tua luz perpétua, '**
e os dias do teu luto findarão.

Nos versículos 19 e 20, o profeta declara que a nova


Jerusalém não terá mais necessidade da luz do sol e da
lua, porque a cidade será iluminada pela glória do Se­
nhor. Como diz Apocalipse 21:23: A cidade não precisa
nem do sol, nem da lua, para a iluminar, pois a glória
de Deus é a luz dela, e o Cordeiro é a sua lâmpada. De­
clara-se em Gênesis 1 :3-5 que havia luz antes da criação
do sol e da lua. Depois da criação da luz, Deus criou o
sol, a lua e as estréias para sinais, para estações, para
dias e anos (Gên. 1:14). Esta declaração dá ênfase ao
fato de que o profeta está pensando e falando em têrmos
escatológicos. A teofania de que o' profeta fala não será
temporária, como no caso do aparecimento do Senhtír a
Moisés e Isaías, mas permanente. Ássim, o Senhor se
manifestará como o Deus eterno (Cp. Gên. 21:23; Deut.
32:40; 33:27; Jer, 10:10; Dan. 7:9, 13, 22; 12:7). O
tema do profeta, a glória do Senhor em Sião, chega ao
clímax neste versículo 20. A glória do Senhor é a luz
inefável que não se pode descrever. Deus é luz (I João
1:5 ). Pois o Senhor será a tua luz perpétua, e os dias do
teu luto findarão. O povo de Deus viverá eternamente
na luz da glória inefável do Senhor.
21. Todos os do teu povo serão justos;
para sempre possuirão a terra,
o renovo da minha plantação, obra das minhas mãos,
para que eu seja glorificado.
322 A . R. C R A B TR E E

22. O mais pequeno virá a ser mil,


e o mínimo uma nação forte;
Eu «ou o Senhor,
apressarei isto a seu tempo.
O profeta descreve, nos versículos 21 e 22, a glória
futura do povo de Israel que será a reflexão da glória do
Senhor. Todos os da nova Jerusalém serão justos, ou
chegarão a participar da salvação, segundo a opinião de
alguns intérpretes. A ntíva Jerusalém possuirá para sem­
pre a sua terra (Cp. 49:8; 57:13; 58:14; 61:7; 65:9; Amós
9:15; Sal. 25:13; 37:11) . O renôvo da minha plantação,
obra das minhas mãos é o povo de Israel. O Senhor es­
colheu e redimiu êste pequeno grupo de hebreus, fêz con-
cêrto com êles e os plantou na sua própria terra para
servirem no cumprimento do eterno propósito de Deus
(Cp. (Êix. 19; Is. 5:1-7; 61:3-6). Desprezado' e subjuga­
do pelas nações mais poderosas por muitos anos, êste
povo vai realizar o propósito do Senhor na plantação
dêle. O renôvo da minha plantação é apenas um grêlo
que o Senhor plantou (Cp. 61:3; 11:1; 14:19). Mas o
Senhor cultivou e preparou o seu brôto para o cumpri­
mento do seu eterno plano.
O mais pequeno virá a ser mil, e o mínimo uma na­
ção forte. A palavra mil aqui significa também um clã
Ou uma tribo. A mais pequena virá a ser uma tribo, e
finalmente uma grande e poderosa nação. Esta grande
mensagem profética termina com a promessa, Eu sou
o Senhor^apressarei isto a seu tempo. Finalmente, o Se-
k nhor vai cumprir tôdas as promessas que tinha feito ao
* povo' do seu Coneêrto. O tempo da manifestação da gló­
ria do Senhor é determinado por Êle. Esta glória virá
repentinamente, e como surprêsa, para os fiéis que espe­
ravam esta revelação maravilhosa da glória do Senhor.
Assim, a série das mensagens e promessas do Senhor
dirigida a Sião chega ao seu maior desenvolvimento nes­
te’' capítuld.
A - PR O FE C IA DE I8A IA S 323

2. A Proclamação de Boas-novas a Sião, 61:1-11


O profeta descreve neste capítulo as bênçãos de
Sião na sua nova época. Assim, trata essencialmente do
mesmo tema do capítulo anterior, dando mais ênfase à
pessoa e à missão do proclamador da® boas-novas.
Quem é êste pregador de boas-novas ?**.À primeira
vista parece que o profeta está falando da sua própria
missão. Esta é a interpretação de vários escritores. Mas
levantam-se objeções contra êste ponto de vista, pelas
seguintes razões: o profeta não fala de si mesmo em
têrmos como êstes em qualquer outro lugar. É somente
o Servo do Senhor que assim fala de si, e da sua própria
obra, nesta profecia (V er 49:1-3; 50:4-i9; 42:1-7; 52:13).
Tudo que a pessoa diz de si mesma nesta passagem, en­
contra-se no retrato do Servo do Senhor. Pus sdbre êle
o meu Espírito (4 2 :1 ). O Senhor Deus me enviou a mim
e o seu Espírito (48:16). O Senhor Deus me deu língua
de eruditos, para que eu saiba sustentar com umai palavra
ao cansado (50:4). (Ver também 42:3, 7; 49:9). É di­
fícil crer que o profeta pudesse reclamar para si os atri­
butos mencionados nesta passagem. Alguns chamam a
atenção ao fato de que o título O Servo do Senhor não
consta na passagem, mas não consta também em 50:4-9,
que fala claramente do Servo.
É fato que o escritor apresenta aqui o poderoso pre­
gador da salvação, mas êste arauto de boas novas vai
restaurar os quebrantados de coração e proclamar liber­
tação aos cativos e presos. Mas além de ser o mensagei­
ro de boas novas, o Servo Sofredor do Senhor se apre­
senta também como o mediador da salvação. É dupla­
mente significativo que Jesus procurou e citou os pri­
meiros dois versículos dêste capítulo quando iniciou o
seu ministério público em Nazaré (Luc. 4:18, 19). As­
sim, o' Ungido do Senhor, o Messias, se apresentou pri­
324 A . R. C RAB TREE

meiro como o pregador de boas novas, e finalmente cum­


priu a sua missão como o Servo Sofredor do Senhor.
Assim, esta maravilhosa mensagem de salvação se rela­
ciona não sòmente ctím a obra do Servo do Senhor, mas
também com tôdas as promessas messiânicas do Velho
Testamento. Relaciona-se também com o cumprimento
destas promessas no ministério públicô do Senhor Je­
sus, e com a sua morte vicária na cruz do Calvário' (Cp.
Luc. 24:44-48).
Segundo a nossa interpretação, o profeta não fala
de si mesmo nestes primeiros três versículos, mas cita
as palavras do pregador de salvação, o qual fo i ungido
com o Espírito’ do Senhor para pregar boas novas aos
mansos, sarar os quebrantados de coração, consolar os
entristecidos e proclamar o dia de liberdade e de eterno
esplendor.
1. O Espírito do Senhor Deus está sôbre mim,
porque o Senhor me ungiu
para pregar boas novas aos aflitos;
enviou-me para curar os quebrantados de coração,
para proclamar liberdade aos cativos
e a abertura de prisão aos presos;
O Espírito do Senhor Deus está sôbre mim (Cp. 42:
1; 48:16; 59:21; Miq. 3:8; Zac. 7:12). No cap. 60 o
profeta apresenta a mensagem do Senhor sôbre a glória
futura de Sião; neste cap. 61 o evangelista do Senhor se
apresentej, como o mediador desta glória. O nome de

Deus aqui n iíV , o Senhor Javé, se encontra tam-


T “I
bém em 48:16 e 50:4-9. O Rôlo do Mar Morto omite a
palavra Senhor. Com a exceção do' profeta Ezequiel,
os profetas aparentemente evitam referências ao Espí­
rito do Senhor como mediador da inspiração divina dos
profetas. Os profetas antigos atribuíram o seu estado
dfe êxtase ao poder do Espirito do Senhor (I Sam. 10:
9-13)..
A PR O FE C IA DE IS A fA S

Porque o Senhor me ungiu, ''JTlk , para*evan-


• “ T

gelizar, para pregar boas novas aos pobres e


•» < 4
m,anos. Quem é êste pregador de boas-novas? À pri­
meira vista parece que o profeta está falando da sua
própria missão. Esta é a interpretação de -alguns escri­
tores. Mas nestes capítulos o profeta está falando da
glória futura de Sião. A o mesmo tempo, a declaração
dá muita ênfase à Pessoa do Evangelista. A sua mensa­
gem é também muito semelhante às palavras do Servo»
do Senhor em 49:1-6 e 50:4-0. É fato que o titulo O Servo-
do Senhor não consta da passagem, mas também não é
mencionado o Servo em 50:4-9. A missão do mensageiro
aqui é certamente semelhante, em grande parte, à missão
do Servo do Senhor. Recebe também o mesmo preparo,
o poder do Espirito do Senhor, para cumprir a sua mis­
são (42:1; 50:4; 61:1). A obra do Servo na emancipação
dos cegos e presos, e a libertação dos cativos é a mesma
como obra dêste pregador de boas novas (42:7; 49:9).
Mas é fato que o Servo se apresenta como Salvador, en­
quanto o Evangelista aqui é o pregador das boas novas
de salvação. É fato de profunda importância que na
citação desta passagem por Jesus, no' princípio do seu
ministério público em Nazaré, êle se apresenta como o
Messias, profeta e Salvador. Assim, do ponto de vista
bíblico, esta poesia relaciona-se, não somente com as
poesias sôbre o Servo do' Senhor, iíias também com tôda
a profecia messiânica da Bíblia inteira. Mais tarde, o
Evangelista de Nazaré apresentou-se como o Servo So­
fredor do Senhor (Cp. Luc. 9:31; Mat. 26:27, 28; Luc.
24:44-48).
2. para proclamar o ano aoeitável do Senhor,
e o dia da vingança do nosso Deus;
para confortar todos os pranteadoresj
326 A . R. C R AB TR E E

3. e pôr sôbre os que choram em Sião


uma grinalda em vez de cinzas,
dar-lhes o óleo de alegria em vez de pranto,
manto de louvor em vez do espírito tímida;
para que sejam chamados carvalho de justiça,
plantação do Senhor, para que Êle seja glorificado.

Êste mensageiro do Senhor fo i enviado pelo Espíri-


tó do Senhor para proclamar o ano aceitável, ,
T
o ano do favor ou da graça do Senhor (Cp. 49:8; Luc.
4:18, 19). Jesus terminou a sua citação com estas pala­
vras, sem mencionar o dia da vingança do nosso Deus.
Não está bem claro o significado do dia da vingança do
nosso Deus. Pode significar a vingança contra os opres­
sores de Israel, ou a vingança contra os israelitas infiéis.
A palavra aqui não tem a significação de vingança hu­
manai, mas da operação da justiça perfeita do Senhor.
Êste Evangelista do Senhor tem a missão também de
confortar a todos os pranteadores, ou todos os que cho­
ram. Esta palavra confortar ou consolar ou ter compai­
xão, Q n i, contribui grandemente à rica mensagem pro-
- T
fética desta parte da profecia.
E pôr sôbre os que choram em Sião uma grinalda
em vez de cinzas. É complicado o hebraico da primeira
parte dêste versículo, mas o sentido é claro. Os que
choraíft1pode significar aquêles que choram em Sião ou
aquêles que choram por Sião, como em 66:10. Uma gri­
nalda em vez de cinzas é uma frase de profunda signi­
ficação porque visa à história maravilhosa do povo de
Israel. Na miséria do desespero o israelita cobria a ca­
beça de cinzas, mas com a vinda do Messias êle porá na
cabeça a grinalda, o simbolo da beleza e da glória. A
frase grinalda em vez de cinzas, •••“ &$£ , é bonita
' v •• *
paronomásia. O óleo de alegria em vez do pranto con­
tinua o contraste entre a felicidade suprema e a profun­
'a PRO FEC IA DE ISA ÍA S 327

da tristeza (Cp. Sal. 23:5; 45:7; Luc. 7:46). lífanto de


louvor em vez de espírito tímido, ou espírito desanimado.
Depois de tantos anos de opressão, parecia quase incrí­
vel que houvesse de vestir-se do manto de louvor.* O
profeta dá ênfase ao espírito de louvor do' povo da Nova
Jerusalém. Para que sejam chamados carvalho de jus-

tiça. O particípio tf"|p representa a ação linear. Para


T
que sejam chamados continuamente ou permanentemen­
te carvalho de justiça. O forte carvalho usa-se freqüente­
mente como símbolo da vida de retidão e justiça (Cp.
Ü0:21; Sal. 1:3; 52:8; Jer. 17:8).
Seguindo' o pensamento no fim do versículo 3, o
profeta continua nos versículos 4J9 a discussão do futuro
glorioso de Israel. Com a nova redenção espiritual de
Israel, os seus lugares arrumados serão reconstruídos, e
êle será gloriosamente reconhecido como a nação sacer­
dotal entre os povos do mundo. Estrangeiros lhe pres­
tarão homenagem, e Israel será duplamente recompen­
sado pelos sofrimentos do passado. As bênçãos do Se­
nhor repousarão sôbre êste povo sacerdotal.
4. Edifiearão as ruínas antigas,
levantarão as de antes destruídas;
renovarão as cidades assoladas,
as devastações de muitas gerações.
5. Estranhos se apresentarão e apascentarão os vossos rebanhos;
estrangeiros serão os vossos lavradores e os vossos
vinhateiros.

Nos versículos 4-5 o profeta descreve as boas novas


da restauração e da prosperidade de Israel. Levantar-
se-ão de nôvo as cidades e os lugares arruinados por
muitos anos (Cp. 49:8; 58:12; 60:10). Através da his­
tória Israel tinha sofrido injustiça e opressão, mas a sua
história na nova época será bem diferente. Os estran­
geiros chegarão finalmente a reconhecer que Israel, com
"328 A . R. C R AB TR E E

o seu conhecimento da revelação' do eterno propósito do


Senhor Deus de tôdas as nações, há de ser a nação sacer­
dotal, o medianeiro entre Deus e os outros povos do mun­
do. Com o reconhecimento do propósito divino na salva­
ção, os estrangeiros apascentarão os rebanhos, e serão os
lavradores e os vinhateiros do povo de Israel. Todo tra­
balho servil será feito pelas nações.
Alguns críticos duvidam de que os versículos 5 e 6
fôssem escritos pelo profeta, porque não concordam com
o espírito generoso do escritor, mas representam a ati­
tude arrogante de nacionalismo. Mas alguns dizem que
o profeta, em linguagem poética, está simplesmente des­
crevendo o prestígio e a glória da missão do povo do
Senhtír. Assim, declara o fato histórico que os israeli­
tas serão os sacerdotes das nações. Pela sua história, e
pela transmissão das suas Escrituras Sagradas, Israel
comunicará o conhecimento do verdadeiro Deus aos ou­
tros povos do mundo. Nota-se, porém, aqui o espírito'
de nacionalismo que não concorda com o conjunto dos
ensinos dos profetas, e nem com o Evangelho de Jesus
e do N ôvo Testamento. Chamado para servir como na­
ção sacerdotal (Êx. 10:6), Israel será honrado no cum­
primento da sua gloriosa missão e experimentará as co-
piosas bênçãos do Senhor.
Na cjescrição da nova época da história de Israel, o
1 profeta continua o desenvolvimento da mensagem apre-
I sentada nos versículos 4 e 5. No cumprimento da sua
funissão espiritual, Sião será abençoada com a prosperi-
«dade material e o' prestígio espiritual entre as nações
((60:5, 11).
6. M as vós sereis chamados sacerdotes do Senhor,
e vos C h a m a r ã o m in is t r o s do nosso Deus;
^ * comereis as riquezas das naçSes,
e na sua glória vos gloriareis.
7.-*, Em vez da vossa vergonha tereis uma porção dupla,
em lugar de desonra exultareis na vossa herança;
A . PR O FE C IA DE IS A fA S 32»

por isso em vossa terra possuireis uma porção dupla;


e tereis uma alegria sempiterna. *

Vós sereis chamados sacerdotes do Senhor e minis­


tros do nosso Deus. Ássim, os israelitas hão de ser sa­
cerdotes e ministros entre todos os povos do mundo,
como os levitas serviam como a tribo sacerdotal entre os
hebreus. Israel terá a função sacerdotal dey instruir as
nações no conhecimento do nosso Deus, e interceder por
elas perante o Senhor (Cp. 45:14-15; 60:14; 66:21) ~
Não será mais a pequena nação fraca e desprezada pelos
povos poderosos do' mundo, mas com honra e glória des­
fruta das riquezas das nações que em outros tempos-
roubaram o seu p ovo.
E nas suas riquezas, ou na sua glória, vos gloriareis»

A palavra "153 , riqueza, é quase igual a palavra *1122 „


V T
glória. Há também várias discussões sôbre o significa­
do do verbo . O Rôlo do Mar Morto reconhece o
T “ •

verbo como o Hitepael de "1Í2N, e o traduz vangloriar-


~ T

.se (Cp. Sal. 94:4). A nossa tradução cabe bem no con­


texto .
É difícil o texto da primeira linha do versículo 7.
A L X X omite a primeira parte da linha que diz: Em lu­
gar da vossa vergonha dupla a desonra. P or vossa dupla-,
vergonha, tradução correta de Almeida, não cabe bem
no contexto. A RSV segue o texto do Rôlo do Mar Morto-
que tem a segunda em vez da terceira pessoa do verbo.
E tereis uma alegria sempiterna é uma conclusão apro­
priada da estrofe.
Os versículos 8-9 tratam do eterno concêrto do Se­
nhor com o povo de Israel. O escritor define o caráter
do Senhor e afirma a fidelidade do Senhor no cum­
primento das promessas do' Concêrto que tinha feito com
330 A . R. C R AB TR E E

Israel. A qualidade espiritual dos filhos de Israel será


reconhecida entre as nações do mundo. As relações en­
tre Israel e os povos do mundo serão mudadas de acôrdo
com a justiça do Deus de Israel. Orientado pelo Senhor,
Israel vai ocupar uma posição de honra e prestígio no
mundo. Como medianeiro entre o Senhor e as nações,
Israel não sofrerá mais o desprêzo e a .opressão que ti­
nha sofrido no passado.
S. Pois eu, o Senhor, amo a justiça,
odeio o roubo e a iniqüidade;
dar-lhes-ei fielmente a sua recompensa,
e farei com êles um concêrto eterno.
9. Os seus descendentes serão conhecidos entre as nações;
e a sua posteridade no meio dos povos;
todos quantos os vinem os reconhecerão,
que êles são o povo que o Senhor tem abençoado.

Pois eu, o Senhor, amo a justiça, odeio o roubo e a


iniqüidade. Tudo que o Senhor faz em favor do povo
do seu Concêrto e na direção da história dós povos do
mundo é sempre motivado pelo amor à justiça e o ódio
da iniqüidade. Êste é o tema dos capítulos 60 e 61 que
explicam as circunstâncias históricas que resultaram f i­
nalmente no reverso das relações entre Israel e as pode­
rosas nações do mundo. O hebraico diz roubo com ofer­
ta queimada, • Mas esta tradução literal eviden-
■'ís* T
i temente nab representa o pensamento do' escritor. Com
fyogais diferentes a palavra significa iniqüidade.
t
A versão da L X X é correta. A frase o roubo e iniqüidade
não se refere aos pecados de Israel no passado, como
dizem alguns, mas ao tratamento iníquo de Israel por
seus inimigos. O Senhor promete recompensar o seu
povo de Israel fielmente e fazer com êles um Concêrto
eteVnò (Cp. Gên. 9:9-17; Is. 54:10; 55:3; 59:21; Jer.
32:10hEz. 16:16; Sal. 89:34). A palavra aliança certa­
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 331

mente não dá o sentido da palavra Í V D . A palavra


♦ j "4I>

acôrdo é um pouco melhor. Deus cortou o Concêrto com


Israel.
O profeta dá ênfase, nof versículo 9, ao fato de que-
o eterno Concêrto do Senhor garante o cumprimento das
promessas divinas às gerações sucessivas de Israel. Êste
povo redimido do Senhor será reconhecido* pelas na­
ções e honrado pela adoração' do verdadeiro Deus. As
nações proclamarão o conhecimento do Senhor que re­
cebe do povo de Israel (66:2 3 ).
O profeta termina êste grande capítulo com um hino
exultante de gratidão e louvor aof Senhor (Cp. 42:10-13;
45:8). Falando da glória futura de Sião, o mensageiro
do Senhor está profundamente comovido de alegria.
Sentindo-se inspirado pelo Espírito do Senhor, o poeta sa­
grado fala do prestigio espiritual de Sião entre as na­
ções do mundo. Redimido e restaurado na sua própria
terra, a justiça de Israel nas suas relações internacio­
nais será claramente evidente aos povos do mundo.
Não concordamos inteiramente com os comentaris­
tas que declaram dogmàticamente que esta passagem é pu­
ramente escatológica. Os escritores do Velho Testamen­
to em geral sonhavam com o aperfeiçoamento da comu­
nidade dos fiéis do Senhor neste mundo, e não depois
da morte. Êste profeta, bem como Jeremias (Cps. 31-
33), esperava o desenvolvimento perfeito da comunida­
de dos fiéis, incluindo' gentios, depois da volta do cati­
veiro babilônico. É só nestesentido que sepode falar
desta passagem como hino escatológico.
10. Regozijar-m e-ei muito no Senhor,
a minha alma se exultará no meu Deus;
porque me vestiu de vestidos de salvação,
êle me cobriu com o manto de justiça,
como noivo que se adorna de turbante,
e como noiva que se enfeita com as suas jáias.
332 A R. C RAB TREE

v11. Pois como a terra produz os seus renovos,


e como o jardim faz brotar o que nêle se semeia,
assim o Senhor Javé fará brotar a justiça
e o louvor perante tôdas as nasões.

Regozijar-me-ei muito no Senhor (Cp. vss. 1-3,


7; 12:1-2; 25:1-9; 41:16; 51:3; Luc. 1:46-55, 68:79).
Não há provas de que êste versículo 10 está fora do
seu contexto como dizem alguns. É o profeta que
fala, no seu cântico de alegria, sôbre a glória de
Sião restaurada, louvando ao Senhor pela grandeza da
sua salvação. A minha alma se exultará, porque me
vestiu dos ornamentos de salvação (Cp. 49:18). Com
a renovação do Co'ncêrto eterno do Senhor com Israel,
o povo recebe apropriadamente os vestidos de salvação
« o manto de justiça (Cp. E f. 6:14-17). O adôrno do
noivo e o enfeite da noiva são símbolos da glória e da
alegria do povo ridimido do Senhor. O turbante do noivo
era semelhante ao do sacerdote (lÊx. 39:28).
Como germina a semente semeada no jardim, tão
certamente o Senhor Javé fará brotar a justiça e o lou­
vor (Cp. 55:10; 42:9; 43:19; 58:8). As leis espirituais
do' Senhor são tão infalíveis como as leis do seu mundo
fís ic o .
3. O Povo Messiânico, 62:1-12
, O profeta que proclamou a mensagem de boas novas
■ap povo de Sião em 61:1-11, explica aqui o cumprimento
infalível das promessas áureas do Senhor. Enquanto
êàte capítulo tem o seu caráter distinto, ao mesmo' tem­
po é geralmente reconhecido como a terceira divisão da
magnífica profecia sôbre a grandeza e a glória de Sião
na época messiânica da sua história.
Nota-se uma certa relação entre os ideais do profe­
ta sôbre o futuro' glorioso de Sião e a missão do Servo
do Senhor. Alguns pensam que o Servo é o mensageiro
A PRPFEC1A DE ISAÍAS 333

desta brilhante mensagem messiânica. Mas o pregador


representado aqui é o proclamador da salvação, eli-
quanto o' Servo se apresenta como o Mediador da salva­
ção (Cp. 53). Enquanto não se pode reconhecer êste
profeta como O Servo, êle é certamente um dos mais
nobres servos entre os profetas do Velhó Testamento, di­
vinamente inspirado para proclamar a fidelidade abso­
luta do Senhor no cumprimento das suas promessas.
Êste pregador é um nobre exemplo dos servos que rece­
bem e transmitem a Palavra de Deus, pois entende cla­
ramente que está proclamando' a mensagem eterna do
Senhor. Êle depende absolutamente do poder misterioso
do Espírito do Senhor.
O tema e o centro da sua mensagem é o povo mes­
siânico do Senhor. Êste fato é indicado nas poesias an­
teriores que falam de Sião como a cidade do Senhor, a
plantação do Senhor, sacerdotes e ministros do Senhor
(60:14; 61:3, 6, 9 ). Estas passagens falam da glória fu ­
tura de Sião em a nova época da sua história messiânica.
A comunhão entranhada de Sião com o Santo de Israel
transformará a sua vida religiosa no preparo para o cum­
primento da sua missão sacerdotal entre as nações do
mundo.
Não obstante as declarações dogmáticas que os capí­
tulos 56-66 não foram escritos pelo autor de 40-55, todos os
comentaristas reconhecem que os cps. 60-62 são seme­
lhantes no estilo literário e nos ensinos teológicos dos cps.
40-55 (Cp. 40:1-11; 52:1-12; 54:1-17).
O profeta demonstra o seu brilhante poder literário,
especialmente na descrição' da obra do seu povo no cum­
primento da sua vocação como o povo escolhido do Se­
nhor. O profeta, na sua exuberância espiritual, não pode
334 A . R. C RAB TREE

guardar silêncio até que Sião redimida pela graça do


Senhor possa servir como a luz para os gentios.
a . Sião Se Apresenta Como Coroa de Glória na
Mão do Senhor, 62 :l-3
1. Por «m or de Sião não me calarei,
• por amor de Jerusalém não descansarei
até que saia a sua justiça como resplendor,
a sua salvação como tocha acesa.
Nos primeiros três versículos desta magnífica poe­
sia o profeta fala de Sião como a coroa de glória na mão
do Senhor. Delitzsch e outros pensam que é o Senhor
quem fala nestes versícultís. Outros dizem que é o Ser­
vo que proclama esta linda mensagem sôbre a salvação
de Jerusalém. É o profeta inspirado que transmite a
mensagem do Senhor. Em virtude da sua incumbência
(62:1-3) e da sua visão da glória futura de Sião (60:1-3),
o mensageiro do Senhor não pode ficar calado. Por amor
de Jerusalém êle não pode descansar. Há dois motivos
irresistíveis que orientam o profeta na proclamação da
grandeza e da glória de Sião na época futura dá sua his­
tória . O primeiro é o seu profundo amor da cidade de
Sião; o segundo é a incumbência honrosa que recebeu
do Senhor.
P or amor de Sião .. •e por amor de Jerusalém, o
profeta continuará incessantemente a orar e a pregar
até que sejfi cumprida a promessa da salvação de Jeru­
salém. O lâlnsageiro do Senhor não podia ficar silen­
cioso nas circunstâncias que enfrentava, mas em outros
lugares o profeta se refere ao silêncio de Javé (42:14;
57:11; 64:12; 65:6). Comovido’ pelas circunstâncias his­
tóricas e a promessa do Senhor, o profeta declara: Não
descansarei. A L X X diz relaxar ou afrouxar. O Rôlo
do Mar Morto tem outro verbo que significa ficar silen­
cioso .
Até que saia a sua justiça como resplendor, ou até
à vindicação dela (Cp. 61:11). A palavra P lp IS qua-
A PRO FECIA DE IS A IA 8 335

sc sempre significa justiça, mas vindicação talvez seja o


sentido mais exato do têrmo aqui. Sião fica ainda na
obscuridade, mas o tempo está chegando quando a sua
justiça sairá como luz resplandecente, Flii como a au­
rora (58:8), a lüz que brilha cada vez mais (P rov. 8:
18). Até que a salvação dela seja como tocha-que cha-
meja, ou como a luz do inundo (Mat. 5:14).
Na profunda convicção da verdade eterna que pro­
clama e na certeza da redenção divina do seu povo, êste
pregador apresenta uma exposição evangélica da graça
redentora do Senhor Javé.
Devemos reconhecer, na leitura destas lindas pala*
vras, que o profeta está pensando na dignidade, na gran­
deza e na glória da história futura do seu povo. Apre­
senta-se diretamente ao entendimento do homem de
Deus o cumprimento da Promessa do Senhor sobre a
Idade Messiânica.
2. As nações verão a tua justiça,
e todos os reis * tua glória;
e tu serás chamado per um nome nôvo,
que a bôca do 8enhor designará.
3. Tu serás uma coroa de glória na mão do Senhor,
um diadema real na mão do teu Deus.

As nações e todos os reis da terra verão a glória do


Senhor que se manifestará na vida espiritual do seu povo.
Os reis, na glória material do seu poder, verão e enten­
derão a superioridade da glória espiritual do Senhor re­
velada na vida transformada do seu povo. Sião recebe­
rá um nôvo nome em harmonia com a sua nova vida
e com o seu prestigio missionário entre as nações do
mundo. Entre os povos antigos o nome geralmente sig­
nificava o caráter da pessoa. O nôvo nome de Sião será
um símbolo do seu nôvo caráter e da sua nova relação
com o Senhor (Cp. Apoc. 2:17; 3:12; Is. 65:15). Os
nomes de Abrão e Jacó foram mudados para corres-
336 A R. C RAB TREE

ponder com a noiva relação com o Senhor e o seu nòvo


serviço no mundo. Os novos nomes dos filhos do pro­
feta Oséias simbolizam a nova relação do povo do Se­
nhor na nova idade (Os. 2:22-23). Que a bôcai do Se­
nhor designará, . O sentido fundamental desta pa-
“ T
lavra é picar ou perfurar. O nome assim designa e dis­
tingue o homem e a sua personalidade (Núm . 1:17; II
Crôn. 28:15; 31:19).
Assim, em linguagem figurada, o profeta descreve
0 que Sião há de ser no futuro. Será uma coroa de ador­
no na mão do Senhor, a tiara, ffffàíS , do sumo sacerdo-
T
te (tÊx. 28:4; Zac. 3:5; Ez. 21:31). É significativo o
fato de que o próprio Senhor segura na mão o diadema
real. Alguns pensam que a coroa de aidôrno, ou de be­
leza, talvez seja uma alusão à coroa mural na cabeça de
certas divindades representadas nas moedas antigas. O
profeta evita a idéia de que Sião, como diadema real, po­
dia ser colocada na cabeça de Javé. Sião, como coroa
na mão do Senhor, é uma descrição figurada da precio­
sidade do povo de Deus e da relação entranhável entre
Sião e o seu Senhor (Cp. 60:21; 61:3).

b. Os Versículos 4 e 5 Descrevem a Nova Relação de


^ião com » ^ e u Deus
1 4. Nunca mais te chamarão Desamparada,
* nem a tua terra será mais chamada Desolada;
' mas tu serás chamada Hefribá,
e a tua terra Beulá;
porque o Senhor se agrada de ti,
e a tua terra será casada.
5. Porque, como « jovem se casa com a donzela,
assim teus filhos casarão contigo;
' e como o noivo se alegra da noiva,
assim de ti se alegrará o teu Deus.
A PR O FE C IA DE IS A í AS 337

O profeta usa os têrmos desamparada e Desolada


para descrever as experiências de Sião no periodo da
sua infidelidade e do cativeiro. Está se aproximan­
do o tempo' quando ela será de nôvo a amada do Se­
nhor. Como Oséias, Jeremias e Ezequiel, êste profeta
usa a figura do matrimônio para descrever a nova re­
lação entre o Senhor e o seu povo. Em vejTtie ser cha­
mada Desamparada e Desolada, a nova Sião será desig­
nada pelo nôvo nome r O - ^ D l l , M inha-delícia-nela e
T * » V

Beulá, , Casada. H efzibá foi o nome da mãe


T *
de Manassés (I I Reis 21:1), e Azuba, Desamparada, fo i o
nome da mãe de Josafá (1 Reis 22:42). Alguns estudantes
eliminam a frase será m ais chamada do versículo 4, por­
que complica o' metro do hebraico. Esta nova relação entre
o Senhor e Sião representa o am or e a fidelidade do Senhor
no cumprimento da Prom essa do seu Concêrto com Israel,
o povo da sua escolha. Foi a disciplina e a orientação
divina que levou o pòvo ao arrependimento, no preparo
para receber a Prom essa do Senhor sôbre a glória futu­
ra de Sião.
Como o jovem se casa com a donzela, assim teus
filhos se casarão contigo. Alguns comentaristas dizem
que esta declaração é muito rude, e sugerem a mudan­
ça da palavra para , teu Construtor. A lin-
• TT
guagem é figurada, e devemos lembrar que estas duas f i­
guras representam a relação puramente espiritual entre
o Senhor e o seu povo. Em alguns lugares os israelitas
são representados como filhos do Senhor que recebem
o amor do Pai Celestial. Aqui e em outros lugares Sião
é a espôsa do Senhor e recebe o amor do seu Marido. A
combinação das duas figuras aqui dá ênfase dupla à
grandeza do amor do Senhor.
c. Os Guardas nos Muros de Jerusalém Oram em
338 A . R. C RAB TREE

Favor do Bem-estar da Sua Cidade^ 6-7. E ’ claro que o


profeta atribui ao próprio Senhor as primeiras quatro
linhas do versículo 6. O profeta profere a última parte
do versículo 6 e o versículo 7. Alguns pensam que é o
profeta que fala nos dois versículds, mas parece muito
dificil de se acreditar que fôsse o profeta que pusera vi­
gias ou guardas sôbre os muros da cidade (Cp. 21:
12-13).
6. Sôbre os teus muros, ó Jerusalém,
tenho pôsto guardas;
todo o dia e tôda a noite
êles nunca ss oalarão.
Vós, os qus fa ie is lembrado o Senhor,
não descanseis,
7. nsm deis a âle descanso
até que estabslega a Jerusalém, ^
n. e a ponha por objeto de louvor na terra. F'*'7

\ /
0 Senhor ouve constantemente a voz de intercessão
em favpjçde Jerusalém. Alguns pensam que as guardas
eram /anjo^ ou sêres celestes (Cp. 40:1-11). Oútros di­
zem que eram apenas símbolos, ou talvez 4^aelifes^ pie­
dosos, mas o contexto indica que eram jgroíq0 »rD esd e
o princípio da História de Israel o SenhõrTmha levan­
tado profetas como os seus intercessôres (Cp. Moisés,
Elias, Amós, Jeremias, Ezequiel e outros; \jer Rom .
8:26-27; 7:25).
| Sôbre os teus muros. O profeta está se lembrando
d l declaração de 49:16: Eis que nas palmas das minhas
mãos te gravei; os teus muros estão continuamente pe­
rante m im . As guardas, ou profetas designados pelo Se­
nhor, oram continuamente que os muros em ruínas se­
jam levantados. Tenho pôsto guardas. A palavra
'n ip & n é melhor traduzida aqui designei (Cp. I I Reis
21 :1) . ' ^
T
^SX 7cA Z tr> " *)

A PR O FE C iA DE ISA ÍA S 339

Vós os que fazeis lembrado o Senhor. Os que fazem


lembrado (remembrancers) o Senhor são aqueles*que
trazem à memória do Senhor as suas prõme^asT colno
o õflciãTno palácio trazia a memória do rei os seus com­
promissos . Êlês ttnhaíxl qUe apresentar constantemente
ao Senhor as necessidades imperiosas da sua cidade.
Nem deis a êle descanso até que estabeleça a Jeru­
salém, e a ponha por objeto de louvor na terra. Os in-
tercessores não devem deixar de <£rãr) em favor de Je­
rusalém atggjqi^ o Senhor ponha a sua' sanTã cidãde por
obj eto de^ ü v o r ) em tSTdiTã le r r a . ~.........
d. Os Judeus Desfrutarão os Produtos do Seu Traba- d *3
lho Fatigante, 62:8-9
Jurou o Senhor pela sua mfio direita,
e pelo seu braço poderoso;
Nunca mais darei o teu cereal
por euetento aos teus Inimigos,
e estrangeiros não beberio o teu vinho,
fruto de teus trabalhos fatigante*;
mas os que o recolherem o comerio,
e louvarão ao Senhor;
e os que o ajuntarem o beberio
nos átrios do meu santuário. SZ/
iWirw f
S\AS~) t s X '\ A L>-> o A O
O Senhor promete solenemente que o fruto do traba- . J
lho dos judeus não será mais consumido pelos inimigos.
Terminarão os anos da opressão pelos estrangeiros. Os
inimigos não roubarão mais a comida e o vinho produ­
zidos por Israel. O povo do Senhor terá alegria em reco­
lher e comer os produtos do' seu próprio trabalho.
Jurou o Senhor pela sua mão direita. Israel não
será mais subjugado e oprimido' pelos inimigos que ti­
nham roubado e devastado a sua terra. O juramento do
Senhor Soberano expressa a certeza da realização do seu
propósito, bem como a fé inabalável do seu mensageiro
(Cp. 40:10; 41:10; 45:23; 51:9; 52:10; 53:1; 54:9). O
Senhor tinha demonstrado' o poder do seu braço em
340 A R. CRABTREE

vários períodos da história de Israel (Gp. Êx. 6:6; Deut.


4:34; 5:15; 7:19). Certamente a promessa do Senhor é
tão poderosa como o seu braço.
Israel não será mais perturbado pelas nações pode­
rosas. Reinará a paz na sua terra, e o povo se regozija­
rá na sua liberdade sem restrições. Com louvor e grati­
dão ao Senhor, o povo comerá o fruto do seu trabalho.
O seu cereal não será mais levado pelos inimigos, e es-
trangeirtís não beberão mais o seu vinho. Quais são os
estrangeiros nesta referência? Há várias respostas a esta
pergunta. Se a passagem fôsse escrita depois do resta­
belecimento de Israel na sua terra, os edumeus seriam
os estrangeiros que roubaram os produtos da terra de
Israel. Mas o período da felicidade da história de Israel
talvez indique a esperança de Israel na véspera da volta
para a sua terra.
O versículo 9 dá ênfase ao louvor do' Senhor pelos
israelitas na côrte do Templo, talvez na celebração da
Festa dos Tabernáculos (Deut. 12:17-18; 14:23-26; 16:
13-17). O Rôlo do Mar Morto diz louvarão o nome do
Senhor, e acrescenta diz o Senhor, no fim doversículo.
e. Eis Que Vem a Tua Salvação, 62:10-12
10. Passai, passai pelas portas;
preparai o caminho ao povo;
aterrai, aterrai a estrada;
, limt*»i-a das pedras;
t arvorai um estandarte sôbre os povos.
11. Eis que o Senhor fêz ouvir
* até aos confins da terra :
Dizei à filha de Sifio :
Eis que vem a tua salvagão;
eis que o seu galardão está com êle,
e diante dêle a sua recompensa.
12. Chamar-lhes-ão : O Povo Santo,
os remidos dó Senhor;
^ e 'tu serás chamada Procurada,
a cidade não Desamparada-
A PROFECIA DE ISAÍAS 341

Apresenta-se nestes versículos um apêlo fervoroso


aos que voltam do cativeiro. A passagem é semelhante
a 48:20-22 e 52:11-12. É difícil determinar se o profeta
indica que os judeus tinham voltado da Babilônia ou
não. De qualquer maneira, a celebração da Festa dos'
Tabernáculos dos judeus em Jerusalém despertou no
espírito do profeta o profundo desejo de tesiçmunhar a
volta dos israelitas que ainda se achavam nas terras lon­
gínquas .
Passai, passai pelas portas. A L X X e o Rôlo do Mar
Morto têm apenas um imperativo, mas notai o impera­
tivo duplo em 40:1; 51:9, 17; 57:14; 65:1. Parece que
estas palavras são dirigidas aos israelitas em Jerusalém,
com a exortação de êles se prepararem para a volta dos
israelitas ainda espalhados em várias terras do mundo.
Assim, as portas são’ as de Jerusalém, e não as portas da
Babilônia.
Preparai o caminho para o povo. Uma ordem se­
melhante se encontra em 40:3. Assim, o caminho é
aquêle pelo qual o Senhor conduzirá o seu povo do cati­
veiro para a cidade santa de Jerusalém. Aterrai, aterrai
a estrada, limpai-a das pedras. Cdmo podiam os mora­
dores de Jerusalém preparar o caminho para a volta
dos seus patrícios? Êles não podiam aterrar ou preparar
a estrada. A linguagem é claramente figurada.
Arvorai um estandarte sôbre os povos (Cp. 49:22).
Chegou o tempo para as nações entregarem os seus ca­
tivos. Os filhos e as filhas de Israel finalmente voltam
ao’ Santo Monte de Sião onde está levantado o seu estan­
darte (Cp. 49:22).
Eis que o Senhor fêz ouvir até aos confins da terra.
Em 48:20 Israel recebeu a ordem de declarar ao mundo
inteiro a grande salvação que tinha experimentado. Aqui
é o próprio Senhor que fará ouvir as boas notícias até
aos confins da terra.
342 A. R. C R A B T R E E

Dizei à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação.


Assim, aqueles que já foram libertados do cativeiro e
Vinham voltado à Sião recebem a ordem de proclamar a
redenção impendente aos seus patrícios ainda nas terras
longínquas. Em tôdas as terras remotas onde os israe­
litas se acham dispersos, ser-lhes-á anunciada a vinda
da salvação do Senhor (Cp. 40:9-10 e 52:8). A L X X e
a Vulgata têm teu Salvador em vez de tua salvação. A
salvação vem como galardão e recompensa ao povo pu­
rificado pela punição justa e severa.
Os membros da nova comunidade, remidos pelo
Senhor, serão chamados O Povo Santo (Cp. 61:6, sa­
cerdotes de Javé; 63:18; Êx. 19:6). É o Povo Santo de
Deus (Cp. 35:10; 48:20; 51:10). Serás chamada Procu­
rada, a cidade não Desamparada. Notai o contraste en­
tre Procurada e Desamparada. O povo remido do Se­
nhor (35:10; 48:20) é o povo santti, ou separado, para
servir como sacerdote da humanidade (61:6).
Neste capítulo 62, o profeta dá ênfase especial ao
eterno propósito do Senhor na redenção do seu povo de
Israel. Assim, a Prcímessa do Senhor é selada pelo jura­
mento solene. Ao mesmo tempo, o profeta, na sua de­
pendência absoluta do Senhor, tem uma convicção ina­
balável e um espírito intrépido na proclamação do pro­
pósito infalível do Senhdr. Israel será salvo pela graça
e pelo poder^do Senhor. Em vez de ficares abandonada
eWesolada, tu serás chamada Minha-delícia, e a tua terra
O vad a. Pelas orações intercessórias dos vigias nos mu-
t o j de Jerusalém e a pregação fervorosa e persistente do
grande profeta, Israel triunfou sôbre todos o's seus ini­
migos, e conseguiu restabelecer-se como o sacerdote do
Senhor (Cp. Luc. 18:1-8; 11:5-12).
Assim, o profeta demonstrou o mistério e a supre­
ma importância da pregação fervorosa da verdade e da
oração intercessória. Alguns perguntam: Se Deus é
A PROFECIA DE I SAÍ AS 343

Bom e Onipotente, por que é necessário pregar e oraj?


Basta citar as respostas de Jesus (Mat. 9:37-38; Luc.
24:48), e as experiências humanas (Atos 2:41) até hoje.
G. O Dia de Vingança e o Ano da Redenção, 63:1-6
Èstes versículos descrevem, em linguagem vigorosa
e dramática, o triunfo do Senhor sôbre os inimigos do
seu povo, no preparo para o Ano da Redenção. Explica
a visão do Senhor na marcha vitoriosa, depois da sua
vitória sôbre Edom, inimigo típico, cruel e persistente
do pòvo de Israel. Parece, à primeira vista, que a poe­
sia não tem relação com o assunto que precede, nem com
a oração que segue, mas relaciona-se com o tema do dia
da vingança e do ano do Senhor em 59:16-20 e 61:2. O
profeta está pensando no estabelecimento' e na extensão
do domínio do Senhor entre tôdas as nações. Como di­
zem alguns comentaristas, a poesia descreve o julga­
mento escatológico, no período quando a verdadeira re­
ligião' de Israel será vitoriosa no mundo. É claro, por­
tanto, que o profeta não está descrevendo uma vitória
histórica do Senhor em favor do seu povo Israel. Mas a
vitória simbólica, sem qualquer esforço da parte dos
israelitas, é profundamente significativa. A justiça do
Senhor triunfará finalmente sôbre tôdas as fôrças do
m al. O mensageiro do Senhor está discutindo’ o julga­
mento final quando tôdas as nações sofrerão o castigo
da sua injustiça e do seu desprêzo do eterno propósito
de Deus.
Esta imagem do Senhor como o Juiz de Edom, e
assim do mundo inteiro, é uma das mais temíveis no
Velho Testamento. O profeta vê, na sua visão, a figura
do Herói Majestoso na sua marcha vitoriosa, depois de
ter esmagado a nação arrogante e cruel dos edumeus.
O Vitorioso aproxima-se com as vestes tintas de escarla­
te, e uma voz de longe anuncia que é o Senhor Javé.
344 A R. C R A B T R E E

Então o Senhor responde à perplexidade do profeta


e explica a significação da sua aparência. 0 dia da vin­
gança já passtíu no preparo para o grande Dia da Reden­
ção.
Alguns intérpretes antigos aplicaram esta profecia
ao sofrimento e à morte de Cristo, mas a comparação
da figura aqui com o sacrifício de Cristo é muito força­
da e não pode ser aceita. O sangue que tinge as suas
vestes não é dêle, mas o sangue dos inimigos de Israel.
Mas mesmo assim, a visão na sua totalidade, dá ênfase
ao julgamento divino de tôda a injustiça, e assim sugere
a obra de Cristo como Juiz e Salvador. Mas é o próprio
Senhor Javé, não o' Servo do Senhor, nem o Messias que
fala nesta passagem.

1. O Conquistador dos Inimigos de Israel, 63:1-3


1. Quem é êste que vem de Edom,
com vestes brilhantemente coloridas,
que 4 glorioso na sua vestidura,
marchando na grandeza da sua fôrça ?
Sou Eu, que falo em justiça,
poderoso para «alvar.
2. Por que está vermelho o teu traje,
e as tuas vestes como as daquele que pisa no lagar?

O vidente, o profeta, observa com soliciíude e pro­


fundo interêsse a aproximação' majestosa do Conquista­
dor, e pergunta: Quem é êste que vem de Edom com
vestes de escarlate? Esta pergunta toca diretamente no
|m a desta poesia e no ensino bíblico da justiça divina
^Cp. Sal. 24:8, 10). Edom aqui c o representante das
nações na sua hostilidade contra o povo e o Deus de Is­
rael (Cp. 21:11-12; 34:1-17; Ob. 1:21; Am . 1:11-12;
Jer. 49:7-22; Ez. 25:12-14; Joel 4:19; Sal. 137:7; Lam .
4:21-22; Mal. 1:2-5). Através da história, Edom tinha
manifestado o seu ódio implacável, a sua inimizade fe­
roz contra Israel, especialmente nos períodos da fraque­
A P R O F E C IA DE IS A fA S 345

za dêste. Bozra era a cidade principal de Edom, e aigda


existe como vila, chamando-se El-Buzaira (Cp. A m . 1:
12; Jer. 49:13).
As vestes do Conquistador que vem se aproximan­

do são da côr escarlate. O texto hebraico tem n jra


que Delitzsch traduz bending to and fo r. Mas'tt texto da

margem de Kittel é , marchando. O Conquistador

é glorioso ou magnífico na aua vestidura,


t ♦

"in n > no adôrno, no esplendor, na honra. Sou Eu


T

que falo em justiça (Cp. 45:1*9). A RSV traduz announ-


cing vindication, e assim acentua a justiça do Senhor no
castigo de Edom, mas a tradução literal é melhor. Javé
declara que Êle fala em justiça, que é fie l no cumpri­
mento das suas pi-omessas, o Poderoso para salvar.
Por que está vermelho o teu traje? O profeta não
sabe ainda o significado da presença de Javé, e assim con­

tinua o diálogo. A côr vermelha, Q lfcí, do vestuário do


T

Conquistador é semelhante à palavra Edom. O vestuá­


rio é colorido como as vestes daquele que pisa no lagar.
3. Eu pisei sõzinho o lagar,
e dos povos ninguém se achava comigo;
os pisei na minha ira,
no meu furor os esmaguei,
o seu sangue ma salpicou a s vestes,
e me manchou t6da a minha vestidura.

É o próprio Senhor quem responde à pergunta do


profeta e lhe explica a razão e o significado do seu modo
de aparecer. Eu pisei sozinho o lagar. Assim, Êle dá ên­
fase à excelência, à primazia absoluta da sua obra. Dos
povos ninguém se achava com igo. A linguagem é pictó-
ríca. O suco das uvas manchou-lhe as vestes. Então o
346 A. R. C R A B T R E E

Senhor lhe explica o' símbolo do lagar e das uvas que


nêle pisou. As uvas que o Senhor pisou no lagar eram
os povos do mundo. A seiva das uvas que manchou o
seu vestuário era o sangue dos povos rebeldes do mundo
(Cp. Joel 4:13; Apoc. 14:19-20; 1,9:15). O Rôlo do
Mar Morto diz E do meu povo ninguém se achava comi­
go. Sem a cooperação do seu povo, o Senhor sozinho,
no seu poder de salvar ou de julgar, trouxe sôbre as na­
ções do' mundo o julgamento da justiça.
Assim, os povos foram cortados e lançados no lagar
(Joel 4:13), e o Conquistador, no seu vigor e na sua ira,
manchou as vestes, pisando os seus inimigos. Os verbos
têm a forma completa, como se o julgamento das na­
ções já tivesse acontecido.

2. O Dia da Vingança do Senhor, 63:4-6

4. Pois o dia da vingança me estava no coração,


e o meu ano de redenção é chegado.

Pois o dia da vingança me estava no coração. De­


vemos reconhecer que esta linguagem é figurativa e, à
luz dos ensinos do amor e da misericórdia do Senhor
em tôda parte da revelação divina, é muito forte. Ao
mesmo tempo a passagem ensina com fôrça a verdade
eterna da jugtiça divina. O Dia de Javé é o dia de julga-
mènto universal. Sôbre o dia da vingança (ver 49:8-9;
59117-20; 34:8; 35:4; 61:2; Mat. 25:31-32). O meu ano
defredenção também faz parte da resposta do Senhor
ao profeta. É o Senhor Javé que toma a iniciativa na
salvação de Israel e da humanidade. O ano da redenção
é o ano do favor do Senhor Javé (61:2) . É o ano da
vitória final de Israel, no cumprimento da sua missão
como' o povo sacerdotal do Senhor, escolhido, dirigido
e abençoado pelo Todo-poderoso. Deus é a única fonte
da redenção humana.
A PROFECIA DE I SAÍ AS 347

5. Eu olhei, mas não havia quem me ajudasse; - •*,


e espantei-me de não haver quem me sustivesse;
paio que o meu próprio braço me trouxe a salvação,
e a minha ira me susteve.

Êste versículo 5 explica a razão por que o' Senhor


pisa sozinho o lagar. Não se achava qualquer mediador
entre as nações, nem entre o povo escolhido d».Senhor.
Ciro tinha servido como mediador na libertação’ de Israel
do poder da Babilônia. Mas não havia nenhum homem
entre as nações que pudesse servir como ajudador do
Senhor na obra da redenção. A esperança de que algum
auxiliador humano pudesse aparecer ao lado do’ Senhor
é mais notável aqui do que em 49:16. Espantei-me de
não haiver, nem entre o povo de Israel, quem me susti­
vesse. A palavra , ajudar, é têrmo militar. Não
• T

havia ninguém para ajudar o Senhor no seu conflito


com o poder do’ mal no mundo. Com o seu poderoso bra­
ço o Senhor trouxe a salvação.
A minha ira me susteve. A injustiça, atos de cruel­
dade e crimes horríveis normalmente despertam a con­
denação severa da sociedade e especialmente a ira do
homem justo. Mas, com a freqüência de atos de injus­
tiça e de crimes cruéis, o povo desta geração está per­
dendo, em grande parte, o sentimento da ira justa con­
tra qualquer forma de pecado e de crueldade. Mas quan­
do uma pessoa sofre as conseqüências horríveis de cri­
mes brutais, fica acordada para reconhecer o poder do
mal no mundo’ .
6. Eu pisei povos na minha ira,
embriaguei-os no meu furor,
e derramei sôbre a terra o seu sangue.
E Eu, o Senhor, pisei povos na minha ira. Assim,
se repete o sentido geral do versículo 3, mas é usado aqui
um verbo diferente dos verbos do versículo 3, T V em
348 A. R. C R A B T R E E

vez de TpH . A L X X omite a segunda linha do versículo,


~ T

Alguns manuscritos têm a sua fôrça derribei por terra


(A lm .) em vez de derramei sôbre a terra o seu sangue.
Não obstante a ênfase na poesia sôbre a ira do Se­
nhor, é especialmente notável a exposição do propósito e
do motivo do Senhor na salvação dos homens que são
completamente incapazes de salvar-se a si mesmos.
H. A Oração do Profetai em Favor do Seu Povo
Desanimado, 63:7-64:12
Esta oração fervorosa expressa a tristeza, a agonia
e a esperança do profeta e do seu povo na experiência da
adversidade. É rememorativa da confissão' do pecado
de Israel em 59:1-15. Passou o período de confiança e
esperança dos capítulos 60-62, e nota-se o espírito ansio­
so do povo, o reconhecimento e a confissão do pecado e
a oração ardente para que o Senhor salve o seu povo e
restabeleça a comunhão com êle. O profeta identifica-se
com o povo e intercede em seu favor.
Além da sua nobre missão de receber do Senhor a
revelação divina e transmiti-la ao povo, o profeta tam­
bém serviu como intermediário entre Deus e o seu p ovo.
Encontram-se entre êstes grandes intercessores homens
como Abraão (Gên. 18:22-32), Moisés (Núm . 14:13»
19), Amos (7:1-5), Jeremias (14:1-9), Esdras (9:6-15)
íe Daniel (y:4 -1 9 ).
* Esta passagem descreve em tèrmos claros e com­
preensivos os característicos da verdadeira religião, como
o reconhecimento da justiça de Deus e da indignidade do
homem perante o' Senhor, bem como o desejo profundo
de gozar comunhão com o Senhor.
Com meditação e louvor, o profeta se lembra das
manifestações do amor, da misericórdia e das bênçãos
da providência de Deus na vida do seu povo. Pensando
nas crises históricas na vida de Israel, o profeta reconhe­
A PROFECIA DE ISAÍAS 349

ce que a sobrevivência do seu povo não foi conseguida


por sua própria sabedoria, nem por seu poder, mas pela
intervenção direta do Senhor Javé.
Segue-se, então, a súplica fervorosa para que o Se­
nhor atente do céu e tenha misericórdia do seu povo
(63:15-64:12). No verdadeiro espírito de oração, o pro­
feta reconhece o amcír e a graça de Deus, confessa o pe­
cado do povo e pede as bênçãos da misericórdia divina.
Quando o homem, na oração, reconhece a santidade e o
amor de Deus, êle se torna também cônscio dos seus pe­
cados de orgulho' e de obstinação, infidelidade, ingratidão
e desobediência.
As alusões históricas não ajudam na determinação
da data exata da profecia. A declaração de 63:18 de que
o país fo i possuído por breve tempo, indica que a passa­
gem fo i escrita pouco tempo depois do restabelecimento
de Israel na Palestina, depois da volta do cativeiro.
1. Recordacão das Bênçãos do Senhor sôbre o Povo de
Israel, 63:7-10
7. Mencionarei as benignidade* do Senhor,
os cânticos de louvor do Senhor,
segundo tudo o que o 8enhor nos concedeu;
e a grande bondade para com a casa de Israel,
que lhes concedeu segundo a sua misericórdia,
de acôrdo com a abundância do seu amor imutável.
8. Pois Êle disse: Certamente dles são meu povo,
filhos que nSo mentirão;
assim se lhes tornou Salvador.
O versículo 7 dá ênfase ao amor imutável do Senhor.
Traduzimos o plural de IDPi por benignidades, que sig-
V V

nifica as numerosas manifestações do amor imutável do


Senhòr (Cp. Sal. 77:10-15; 78:1-4; 89:1-8; 105:1-45;
106:2; Neem. 9:5-13). É notável a ênfase do profeta na
grande bondade e no amor imutável do Senhor. Nota-
se também a menção do Nome Senhor três vêzes, a re­
petição do verbo concedeu e da frase de acôrdo com.
350 A R. CR AB T R E E

Mencionarei, recdrdarei, lembrar-me-ei do amor fir ­


me, imutável e eterno do Senhor Javé. Os louvores do
Senhor significa tis numerosos cânticos e hinos entoados
a Deus pelo povo de Israel, na celebração dos maravilho­
sos eventos da sua história (Êx. 15:1; Núm . 21:17; Sal.
33:3; 45:17; 96:1; Is. 26:13; etc., e t c .). Segundo tudo
o que o Senhor nos tem concedido, ou tudo o que o Se­
nhor nos repartiu, . E a grande bondade para com
“ T
a casa de Israel. O profeta está pensando não somente
nas bênçãos do Senhor nas libertações de Israel do po­
der dos seus inimigos. Está pensando também na esco­
lha de Israel para ser uma nação sacerdotal entre os po­
vos do mundo, na orientação e na interpretação da his­
tória do seu povo segundo o seu eterno propósito. O Se­
nhor levantou e inspirou os seus profetas para ensinar a
santidade, o amor e a justiça do Senhor, e para treinar
o' povo da sua escolha no amor e na obediência ao seu
Deus.<
Certamente êles são meu povo. Assim, o profeta
menciona o evento fundamental na vida de Israel, a sua
eleição para ser o povo de Deus. O Senhor se tornou o
Salvador de Israel; Êle os remiu da escravidão, levan­
tou-os e os carregou (C p. 44:21-28). Deus esperava a
fidelidade do seu povo, filhos que não serão falsos (Cp.
Êx. 4:22; Deut. 14:1; 32:6; Os. 1:2; Is. 43:6; 44:1).
eleição déMsrael é a nota dominante, não somente des-
poesia, mfas também do Velho Testamento inteiro.
9. Em tôda a aflição dêles foi êle afligido,
• o «n jo da sua presença os salvou;
no teu amor e na sua compaixão êle os remiu;
íle o* levantou e os carregou
todo* o* dias da antigüidade.
10. Êles, porém, se rebelaram,
_ e coAtristaram o seu santo Espirito;
por isso, é l« •• lhes tornou em inimigo,
* Sle mesmo pelejou contra êles.
A PROFECIA DE ISAÍAS 351

Em tôda a aflição dêles fo i êle aflito, ou houve a fli­


ção para êle. Esta declaração da presença do Senhor
no sofrimento humano é um dos mais profundos e pre­
ciosos pensamentos do Velho Testamento sôbre a com­
paixão de Deus. Não é bem claro o texto hebraico da
afirmação. A L X X transfere a frase em tôda a aflição para
o fim do versículo 8, e então traduz, Não fo i um enviado
ou mensageiro, (mas) a suai própria presença os salvou.
Seguimos a tradução de quase tôdas as versões moder­
nas em inglês e português, que colçcam *}^ em lugar

do negativo ^ . A L X X usa T 5 , mensageiro, em lu­

gar de "IX , aflição. 0 Rôlo do Mar Morto tem aflição.


A L X X tem a sua própria presença em vez de o anjo da
sua presença.
Embota os anjos fôssem sêres celestiais, intimamen­
te relacionados com o Senhor, eram ao mesmo tempo
independentes do Senhor nas suas atividades. Mas aqui
o anjo da sua presença os salvou. Nesta conexão, pode­
mos notar que o Senhor prometeu acompanhar a Moisés
com a sua presença (Êx. 33:14), mas acrescentou, Não
ame poderás ver ai face (lÊix. 33:20). A presença de Javé
acompanhou Moisés e os israelitas, mas não lhes foi per­
mitido ver a face do seu Deus. Assim, êste versículo 9
declara que a presença do Senhor salvou o povo. O Se­
nhor salvou Israel não somente no principio de sua vida,
mas os levantou e os carregou todos os dias da antigüi­
dade, desde o princípio (46:3,4; Deut. 32:7, 11-12).
Êles, porém, se rebelaram e contristaram o seu san­
to Espírito. Os têrmos o Espírito de Deus e o Espírito
de Javé encontram-se freqüentemente no Velho Testa­
mento, mas o santo Espírito encontra-se somente aqui,
no versículo 11 e no Sal. 51:11 (Cp. Atos 7:51; e E f.
4:30). Não se refere aqui à terceira Pessoa da Trindade,
362 A R. CRABTREE

mas o verbo contristar quase significa a personalidade do


Espirito. A rebelião dos israelitas resultou na inimizade
entre êles e o seu Deus.
2. No Período de Angústia o Povo Se Lembra dos Dias
Antigos, 63:11-14
11. Então se lembrou dos dias antigos,
de Moisés, o seu servo.
Onde e s ti aquêle que fês subir do. mar
o pastor do seu rebanho ?
Onde está o que pôs no meio dêle'
o seu sãnto Espirito ?
12 Aquêle que fêz o seu braço glorioso
andar à mão direita de Moisés,
dividindo as águas diante dites,
a fim de fazer para si um nome eterno,
13. aquêle que os guiou pelos abismos ?
Como o cavalo no deserto,
êles não tropeçaram.
N o tempo de aflição, Israel se lembra das experiên­
cias inesquecíveis da sua maravilhosa história. O profe­
ta chama a atenção do povo aos grandes dias antigos,
quando Moisés, com o' Senhor à sua mão direita, guiou
o pequeno grupo dos israelitas na formação da sua vida
nacional. Há certas dificuldades nos pormenores do
hebraico, mas o sentido da linguagem é claro.
Ê evidente que a segunda parte do versículo 11 cita
as palavras do' povo, e não as do Senhor. Não há, por­
tanto, qualquer dificuldade no singular do verbo lem-
■ r a r . O povo ae Israel se lembrou dos dias quando Javé
I l z maravilhas entre êles. O T . M . diz Moisés, seu povo.
A L X X omite estas palavras. A Yulg. tem Moisés e o
seu povo. N a Siríaca se lê Moisés, o seu servo. A nossa
versão segue a Siríaca, H i J ? , o seu servo em vez do
▼—s
T . M. IfòJJ * o seu povo.
Onde está aquêle que fêz subir do mar o pastor do
seu reftunho? O T . M . tem pastores, talvez com a idéia
A PROFECIA DE ISAIAS 363

de incluir Arão (Cp. Sal. 77:20), mas alguns manuscri­


tos antigos e a L X X têm o singular que é melhor. O pen­
samento dominante nestes versículos é a libertação de
Israel.
Onde está o que pôs no meio dêle o seu santo Espi­
rito? Onde está o Senhor? As versões em geral têm no
meio dêles, isto é, no meio do rebanho. Mas Vêja Núm.
11:17. Foi o Senhor quem chamou Moisés para ser o
pastor do rebanho do Senhor.
O seu braço glorioso, que tem o poder de operar
maravilhas, é personificado aqui como o Espírito do ver­
sículo anterior. (V er 51:9; 52:10; 53:1; 59:16; 62:8.)
Assim, o Senhor fêz o seu braço, com todo o seu grande
poder, andar à mão direita de Moisés. Foi o braço do
Senhor que fêz divisão, ou fendeu, , as águas do
- T

Mar Vermelho', para que os israelitas pudessem passar


na terra sêca. O braço do Senhor simboliza o poder oni­
potente de Deus qüe acompanhou tôda a obra de Moisés
no livramento e na direção do povo de Israel. A fim de
fazer para si um nome eterno. Tôda esta seção (11-14)
dá ênfase ao poder, à autoridade e ao propósito do Se­
nhor Javé no livramento e na orientação do povo de Is­
rael. Mas o preparo do ntíme eterno do Senhor, ou a
glorificação do nome de Deus, representa o eterno pro­
pósito divino na história inteira da humanidade (Cp.
Mat. 6:9-10). Guiando-os pelos abismos. Êste é o úl­
timo dos cinco participios desta seção, fazendo subir,
pondo no meio, fazendo andar, dividindo e guiando. A
ação linear dèstes participios dá muita ênfase à operação
do Espírito do Senhor no espirito de Moisés e nas expe­
riências e atividades do p o v o .de Israel.

Os abismos, rvfônFl , significa, na linguagem poé-


» •
tica, o Mar Vermelho (Cp. fox. 15:5,. 8; Sal. 77:16; Is.
364 A. R. CRABTREE

51:1 0 ). Como o cavalo no deserto, êles não tropeçaram.


Os israelitas andaram tão firmemente e tão seguramen­
te na terra, na sua viagem, como o cavalo na terra seca.
Cp. o paralelismo do Sal. 106:9: Fê-los passar pelos
abismos, como por um deserto.
14. Como o gado que desce ao vale,
o Espirito do Senhor lhes deu descanso.
Assim, guiaste o teu povo
para te fazeres um nome glorioso.
Como o gado que desce ao vale. Êste versiculo apre­
senta mais uma imagem da firmeza e da segurança dos
israelitas ao descerem aos abismos do Mar Vermelho.
O Espírito do Senhor lhes deu descanso. É o Espirito do'
Senhor que leva Israel no seu caminho inteiro, desde o
Egito até à terra de Canaã (Cp. Jer. 8:7). Assim, tu
guiaste o teu povo. Caracteristicamente o profeta muda
da terceira para a segunda pessoa, a fim de preparar o
Espírito do leitor para a oração que segue. Para te fa­
zeres um nome glorioso. Sendo o Senhor Santo, Justo
e Compassivo, não pode haver maior propósito em tô-
das as suas atividades do que a glorificação do seu Nome.
O propósito final da história é a glorificação do Nome do
Senhor.
3. O Apêlo Dirigido ao Pai e Redentor de Israel, 63:15-19
Depois^ da meditação' sôbre os dias gloriosos da his­
tória de Isr&el, o profeta passa a discutir as condições
Iragicas dos seus contemporâneos, e a sua necessidade
ingente de receber o socorro divino. Então apresenta
còm solicitude o' apêlo intenso para que o Senhor reco­
nheça a angústia do seu povo, e o ampare com o seu
poder.
15. Atenta desde o céu >e vê,
da tua santa e gloriosa, habitação.
i ’ * Onde estão o teu zêlo e o teu poder?
O anelo do teu coração e da tua ternura
ie detêm para comigo!
A •PROFECIA DE ISAÍAS 365

16. Pois tu és nosso Pai,


ainda que Abraão não nos conhece, *
e Israel não nos reconhece;
tu, ó Senhor, és nosso Pai,
nosso Redentor é o teu nome desde a antigüidade.

Atenta desde o céu e vê. O Sal. 80:14 tem o mesmo


apèlo. Segundo o antropoformismo natural do Velho
Testamento, os israelitas tinham a tendência* de atribuir
a prevalência do mal na terra à suspensão das atividades
do zêlo e do poder do Senhor, mas geralmente reconhe­
ceram a suspensão do auxilio do Senhor como o castigo
dos pecados e da infidelidade de Israel.
Onde estão o teu zêlo e o teu poder? ou as tuas obras
poderosas, as tuas atividades heróicas e valorosas? Pa­
recia ao escritor que o Senhor havia-se retirado para a
sua habitação no céu, e não se interessava mais no bem-
estar do seu povo. A palavra zêlo, HfcWp , significa
T í •

emoção profunda, e às vêzes ardor ou ciúme (Cp. 49:


17). Onde estão o anelo do teu coração e a ternura das
tuas entranhas?
Pois tu és nosso Pai. Tu és o ndsso Pai porque és o
nosso Criador, o nosso Fundador como a nação da tua
escolha (Ver Êx. 4:22; Os. 11:1; Is. 1:2; Jer. 3:4, 19;
Mal. 1:6). Esta verdade é o centro e o clímax do pen­
samento do' profeta. Certamente êles são o meu povo,
filhos (v . 8 ). Abraão e Jacó não nos reconhecem. lÊIes
se acham em Sheol, no estado de esquecimento. É pos­
sível que o profeta esteja denunciando o culto dos ante­
passados (Cp. 51:1, 2; Mat. 8:11, 12; João 8:39-42; Rom.
2:28, 29). No Velho Testamento Deus é o Pai do seu
povo, mas o israelita individual não é reconhecido no
Velho Testamento como filho de Deus. Mas a pater­
nidade de Deus certamente indica uma relação espiritual
dos israelitas fiéis com os seus progenitores. Tu, ó Se­
A. R. CRABTREE

nhor, és nosso Pai, nosso (Redentor é o teu nome desde


a antigüidade. Assim, q profeta dá ênfase a esta rela­
ção histórica do Senhor com o pdvo de Israel. Quando
o Senhor libertou Israel da escravidão no Egito, êle o
adotou como seu filho (Êx. 4:22-23). O redentor, como
o' pàrente mais chegado, tinha o direito de comprar o
escravo. Javé comprou Israel da escravidão do Egito.
O amor paternal do Senhor para com o seu filho Israel
é o sentimento profundo que caracteriza o nome do Re­
dentor.
17. õ Senhor, por que nos fazes desviar dos teus caminhos,
e endureoes o nosso coração para que te não temamos ?
Volta por amor dos teus servos,
e das tribos da tua herança.
18. Só por breve tempo o teu povo santo possuiu o teu santuário;
os nossos adversários profanaram o teu santo lugar.
ó Senhor, por que nos fazes desviar dos teus cami­
nhos, e endureces o nosso coração para que te não tema­
mos? Ò profeta se mostra profundamente comovido pe­
las circunstâncias do seu povo pecaminoso, e pela falta
de qualquer evidência do auxilio' do Senhor. Parece ao
profeta que o Senhor não reconhece mais a Israel como
o seu povo, nem se interessa no santo lugar profanado
pelos adversários dos israelitas. Israel tinha rejeitado a
direção divina, e o Senhor entregou o povo aos seus pe­
cados. Por*guanto mais tempo vai permanecer esta re­
lação entre Deus e o povo de Israel ? Na teologia do Velho
Testamento Deus é o Criador e o Senhor Soberano de
tfdtí. Ao mesmo tempo, Israel é responsável pelo seu
procedimento moral perante o Senhor. O pecado é terrí­
vel no seu poder dé afastar o pecador cada vez mais lon­
ge da presença de Deus. Segundo a sua petição, o pro­
feta aparentemente pensa que as aspirações religiosas do
povq são enfraquecidas pelas evidências dd indiferentis-
m o ou o desagrado de Deus quanto à infidelidade de Is­
rael.
A PR0PECIA DE ISAfAS 387

Volta por amor dos teus servos. Tem compaixão


dos teus servos (Sal. 90:13). Nos períodòs da sua infi­
delidade, Israel representado' pelo profeta, nuncà podia
se esquecer do fato de que o Senhor Javé era o seu Re-,
dentor e o seu Pai. O profeta, no apêlo ardente ao Se­
nhor, dá ênfase à relação especial entre Deus e Israel.
O profeta sempre dá ênfase à relação espeeial entre o
Senhor Javé e o seu povo de Israel. O Senhor revelou o
seu amor ao' povo de Israel no Coneêrto que fêz com
êle. Revelou a sua santidade e a sua justiça no modo
de cumprir as promessas do Coneêrto e o' seu poder na
operação da graça divina na vida do seu povo.
No versículo 18 o profeta fala ao Senhor sôbre Is­
rael cómó o povo santo. Israel se tornou um povo san­
to, não por qualquer mérito, m as sòmentê pela graça de
Deus. Foi escolhido e santificado pelo Senhor como a
nação sacerdotal. íFoi escolhido para cumprir uma mis­
são especial no serviço do Senhor. O teu povo santo pos­
suiu o teu santuário, o Tem plo na cidade do Senhor, onde
o povo podia se encontrar com o seu Deus no culto, e
onde o Senhor manifestava a sua glória.
A frase por breve tempo apresenta dificuldades, por­
que a idéia não se relaciona com o Templo de Salomão.
Com poucas mudanças no texto Massorético, alguns tra­
duzem, Porque os iníquos desprezam o teu Santo Lugar.
Há também outras sugestões. A versão seguinte é consi­
derada uma das mais aceitáveis, Há apenas pouco tempo
que os nossos inimigos desapossaram o povo santo. Esta
tradução segue mais de perto o texto hebraico.
19. Tornamo-nos como aquâles sôbre quem tu nunca dominaste,
nunca
' como ò t qu «' « « chamaram peloteunome.

Tornamo-nos como aqueles sôbre quem tu nunca


dominaste. N o último período da sua história, Israel
sè tornava cada vêz mais semelhante às outras nações, na
vidà religiosa, sém evidências da influência e do poder
388 A . R. C RAB TREE

de Deus na sua vida nacional. Mas o povo não podia se


esquecer completamente do poder e da glória de Deus
na salvaçãò de Israel do poder do Egito. Javé tinha sido
o Rei de Israel (Is. 6:5; 33:22; 41:21; 43:15; 44:6; Cp.
também Salmos 47; 93; 96-99) . Mas o profeta reconhe­
ceu que havia poucas evidências visíveis da presença ma­
jestosa do Rei na vida do seu povo nos últimos anos dâ
sua história.
4. O Profeta Pede uma Teofania Universal, 64:1-3
1. Oh ! ■* fendesses os céus, e descesses,
• os montes tremessem na tua presença ]
2. Como quando o fogo inflama os gravetos,
como quand-o faz ferver as águas —
para fazer conhecido o teu nome aos teus adversários,
e que as nações tremessem da tua presença I
3. Quando fin s te cousas terríveis que não esperávamos,
tu desceste e os montes tremeram à tua presença.
Entristecido pelo silêncio do Senhor e pelo desânimo
do seu povo, o profeta, numa oração apaixonada, pediu
ardorosamente que o Senhor fendesse os céus, descesse
e interviesse em favor do seu povo'. A partícula oh!, ou
oxalá, rege os dois verbos na exclamação. O profeta co­
meça a sua oração pela lembrança da grande misericór­
dia de Deus na história do seu povo. O Senhor havia-se
revelado ao povo de Israel como Redentor e como Pai
(Êx. 19:16-18; Deut. 32:22; Juí. 5:4-5; Miq. 1:3-4; Naum
l|4-6; Hab. Ü:3-15; Sal. 18:8-16). A form a dos verbos
indica a certeza do profeta de que o Senhor já tinha res-

pcmdido aos seus desejos. Se os montes tremessem, V7Í3 ,


T

N if. de ^ ^ í . A L X X e a Vulg. têm se derreter do


“r
verbo ✓T3 .
“T
6 fogo que inflama os gravetos e fáz ferver as águas.
Fogo é çgracterístico das teofanias (Cp. Êx. 19:18; Deut.
A PROFECIA DE ISAí AS 35!

5:4; Heb, 12:18) e associa-se freqüentemente com o julga­


mento divino, Para fazer conhecido o teu nome aos teus
adversários. O profeta tem certeza de que as nações po­
derosas, que eram inimigas da pequena nação de Israel,
vão ter conhecimento do poder supremo do Senhor Javé,
o Deus de Israel, que desprezavam. Estas nações orgu­
lhosas vão tremer perante o Deus do povo que despreza­
vam (Cp. 30:27).
Quando tu fizeste cousas terríveis que não esperáva­
mos. O escritor está pensando dos eventos temíveis da his­
tória do seu povo no tempo do seu livramento do poder do
Egito e das suas peregrinações no deserto (Cp. Deut. 10:
21; II Sam. 7:13; Sal. 106:22). Na direção de Israel, o
Senhor ajudou o povo nas crises da sua história, com
obras maravilhosas que êles não' esperavam, e vai ajudá-
los da mesma maneira agora. T u desceste e os montes
tremeram da tua presença. Alguns dizem, sem provas
suficientes, que esta linha representa um êrro do es­
crivão .
5. O Deus Que Trabalh a para Aquêles Que nÊle Esperam ,
64:4-5
4. Desde os tempos antigos n io te ouviu,
nem com ouvidoa «e percebeu,
nem com os olhos sa viu Deu* além de ti,
que trabalha para aquiles que nêle esperam.
5. Sais ao encontro daquele que com alegria pratica Justiça,
daqueles que se lembram de ti nos teus caminhos.
Eis que te iraste, e nós pecamos;
por muito tempo estamos em nossos pecados,
e havemos de ser salvos ?
O hebraico desta passagem é difícil nos seus por­
menores, mas distingue o Senhor da justiça de todos os
outros deuses. Javé é o único Deus que trabalha para
aquêles que, nêle confiam. Devido à persistência da ira
diyina; o povo finalmente reconhece e confessa o seu es­
tado pecaminoso. A severidade de Deus, nesta passagem,
300 A. R. CRABTREE

para com o povo de Israel é devida às circunstâncias his­


tóricas e à necessidade de levar o povo ao arrependi-
inentd.
Desde os tempos antigos, ninguém jamais viu ou ou­
viu qualquer outro deus além do Senhor Javé, que podia
fazer maravilhas para aquêles que nêle esperam. Para o
homem de fé, segundo a Bíblia, não é o homem mas
Deus que toma a iniciativa, e trabalha além daquilo que
o homem pode pedir ou pensar, E f. 3:20. O Apóstolo
Paulo esclarece o sentido dêste versículo em I Cor. 2:9,
e assim reconhece a coragem e a esperança do pro­
feta.
Sais ao encontro daquele que com alegria pratica
justiça. Tu já te encontraste, , com aquêle que se
T I - T
regozija na prática da justiça. Tu sempre respondes
àqueles que amam e praticam a retidão e a justiça e que
nos seus caminhos se lembram de ti. No seu desejo ar­
dente que o Senhor se manifeste ao povo desanimado,
o profeta sente-se encorajado pela recordação dos gran­
des dias na história do seu povo quando os homens de
fé praticavam a justiça. Mas, na sua meditação, êle re­
conhece que não há esperança, senão para aquêles que
se arrependam dos seus pecados e confiem na graça de
Deus. Eis que te iraste, e nós pecamos. A ordem
desta decla^lção é difícil, mas à luz da passagem (4-7),
saíra do Senhor é devida ao estado pecaminoso e ao es­
pirito revoltoso do povo.
6. Os Efeitos do Pecado na Vida) de Israel, 64:6-12
Êstes versículos tratam da relação entre a ira do
Senhor e a degfeneração espiritual do povo de Israel.
Aparentemente, o profeta atribui, em certas declarações,
a iniqüidade de Israel à ira do Senhor. Não há dúvida de
que as manifestações da ira do' Senhor têm a influência,
A PR O FE C IA DE IS A fA S M1

às vêzes, de afastar o pecador para mais longe d » pre­


sença divina. O profeta chega a reconhecer que o cum­
primento da sua fé e da sua esperança, concernente ao
povo de Israel, depende do arrependimento do povo e da
confissão dos seus pecados. Tu te iraste, nós pecamos.
Se a ira do Senhor contra um povo pecaminoso resulta,
às vêzes, no aumento da sua iniqüidade, ao-mesmo tem­
po o sofrimento do pecador pode resultar no seu arre­
pendimento .
6. Todos nós nos tornamos como o imundo,
e tôdas as nossas obras ds justiça como vestido sujo.
Todos nós murchamos como fôlha,
e as nossas iniqüidadss como um vento nos arrebatam.
7. Não há qusm invoque o teu nome,
quem se desperte, para •* segurar em ti;
pois escondeste At nós o teu rosto,
e nos fizeste derreter pelas nossas iniqU idades.
Todos nós nos tornamos como o imundo. As nos­
sas obras de justiça, praticadas no esfôrço de cumprir
a vontade do' Senhor e assim ganhar o seu favor, são
contaminadas, como pano sujo, pelas nossas iniqüidades,
enquanto permanecemos em nossa condição pecaminosa
(Cp. L ev. 15:19-24). Todos nós murchamos como a
fôlha. Como a falta de humidade rouba da fôlha a clo­
rofila e a sua vitalidade, assim o pecado rouba do ho­
mem o seu vigor. O homem tem uma vida superior à
da fôlha, e o pecado lhe rouba a sua vitalidade espiritual,
o sentido de responsabilidade moral, e até o desejo e a
vontade de resistir ao poder destruidor do pecado (Cp.
40:24; 41:16; 57:13; Jó 27:21; Sal» 1:3). Assim, os pe­
cadores murchaih, e como as fôlhas sêcas, são levados
pelo vento,
Não há quem invoque o teu nome. Tão degenerada
ficou a condição moral do povo que ninguém procurava
invocar o nome de Deus para estabelecer qualquer rela­
ção com Êle, ou pedir qualquer socorro dÊle. P ois es-
À . R. C R AB TR E E

condeste de nós o teu rosto. No poder terrível do peca­


do, sem o espírito de arrependimento, e sem qualquer
fom e espiritual, o povo se achava longe do seu Deus. A
comunidade se entregava à iniqüidade, tão completa­
mente ao poder do pecado que o Rosto' do Senhor se es­
condia dela.
8. M a s a g o ra , ó S e n h o r , t u és nosso Pa i,
nós s om os o b a r r o , e t u és o nosso o le ir o ;
e to do s nós som os o b r a das t u a s m ã o s .
9. N ã o te irr it e s e x c e s s iv a m e n te , ó S e n h o r ,
e não te le m b r e s p e r p è t u a m e n t e da nossa i n i q ü i d a d e ;
ol ha, c on side ra , to dos nós s om os o te u p o v o .
10. A s t u a s s a ntas cidad es t o r n a r a m - s e em deserto,
Sião está fe ita e m deserto,
J e r u s a l é m está a s s o la d a .

Nos versículos 8-12 o profeta termina a sua oração


com uma súplica fervorosa, e com pedidos para que o
Senhor faça cessar a ira contra o seu povo. O profeta
reconhece e confessa; o pecado do seu povo e expressa o
profundo desejo de que o Senhor tenha misericórdia da
comunidade e a salve da miséria terrível.
M as agora^ ó Senhor, tu és nosso P a i (Cp. 63:13).
Por causa da infidelidade do povo, o profeta não diz,
e nós som os teus filh os, mas êste pensamento é clara­
mente subentendido (63:8). N ós som os o barro, e tu
és o nosso o le iro (Cp. Jó 6:9; Is. 29:16; Jer. 18:4-10).
fe o apêlo da criatura dirigido ao seu Criador. O oleiro
mão permitirá a destruição completa da sua obra. Pode
^ < ^ a d o r ~ p è r m !t ir a destruição da sua crTalurã ? Em
63:16 o profeta dirigiu o seu apêlo ao Senhor como Pai
e Redentor; aqui o apêlo é dirigido ao Senhor como Pai
e Criador. T o d o s nóa -aom os- obra- das tuas-m ã o s. não
obstante a nossa corrução. O profeta tem a coragem e
até $ Qusadia de perguntar, na oração em favor do seu
povo: P o d e o Senhor destruir á obra das suas próprias
m Sbs? ^Cp". 60:21; Jer. 18:5-6) .
A PR O FE C IA D£ IS A ÍA S

No versículo 9 o profeta dirige o seu apêlo à demên­


cia e à compaixão do Senhor. A nação está sentindo o
pêso do sofrimento dos pecados do passado. O povo
sentiu^F»e-o^sofeHtteate-^mi^rofey^ião-4inha aSagãdo
a culpa terrível dos seus persistentes pecados de infide­
lidade (Cp. Zac. 1:1 2 ). Não te lembres perpetuamente
da nassarânlflüidade. QuancíõTsracl Tneditfn*a na sua in­
fidelidade ao Senhor, o sentido de culpa e condenação
lhe parecia quase insuportável, especialmente do ponto
de vista do profeta. Em tôda a oração o profeta fala de
Israel como comunidade, ou como a totalidade do povo
de Israel, pensando, aparentemente, na sua grande mis­
são entre as outras nações do mundo.
Nq versículo 10 o profeta fala das cidades de Israel.
A L X X e a Vulg, têm o singular, cidade santa, como se
o têrmo se referisse somente a Jerusalém. Mas, no apêlo
do profeta em favor de Israel como nação, era natural
que falasse aqui das cidades santas da Palestina que era
santa em virtude de pertencer ao' Senhor Santo (Ver Zac.
2 :12).
11. A nossa santa e formosa cata,
em que nossos pais te louvavam,
foi queimada a fogo;
tádas as nossas preciosidades se tornaram em ruínas.
12. Conter-te-áe tu ainda, 6 Senhor, à vista destas cousas7
Ficarás calado, e assim nos afligirás sobremaneira ?

A nossa santa e formosa casa refere-se claramente ao


Templo de Salomão, que foi queimada a fogo pelos cal-
deus. A casa em que nossos pais te louvavam indica que
o profeta está falando da geração passada, do ponto' de
vista dêle e de seus contemporâneos. A declaração indica
que o profeta estava escrevendo algum têmpo depois da
volta dos israelitas do cativeiro^ e antes da construção' do
segundo Templo em 516.
364 A . R. C R AB TR E E

Tôdas as nossas preciosidades se tornaram em ruí­


nas. A palavra íTHttnfà não significa lugares agra­
dáveis, segundo algumas versões, mas cousas preciosas
do Templo, como os vasos sagrados, os utensílios de
ouro, o altar, o mar de bronze e outros objetos preciosos
que os babilônios levaram no cativeiro' dos judeus.
A vista das circunstâncias históricas de Israel, tão
tristes e lamentáveis, como é que o seu Deus pode con­
ter-se? Considerando as numerosas manifestações do
amor e da misericórdia do Senhor para com o seu povo
vacilante, ctímo é que pode agora recusar-se de salvá-lo
da sua terrível miséria e santificá-lo de nôvo para cum­
prir o propósito divino na sua eleição? Como é que o
Senhor pode manter-se calado, e como é que o Pai de
Israel pode deixar de fazer qualquer cousa em favor do
seu povo? Certamente, foi o próprio Senhor quem ins­
pirou esta oração no espírito do profeta, e o amor imu­
tável do Senhor não deixa de corresponder a tais pedidos
como êste.

I. O N ôvo Céu e a Nova Terra, 65:1-25


Os críticos, em geral, reconhecem a semelhança no
estilo literário e no pensamento dos capítulos 65 e 66,
e julgam que.foram escritos pelo-mesmo autor, O pro­
feta represáWa o Senhor como Aquêle que transmite a
ikensagem nestes capítulos. O escritor trata principal­
mente de Ameaças e Promessas du Julgamento e Salva-
çao. As opiniões dos comentaristas variam a respeito
da relação dêstes capítulos com a seção' anterior (63:7-
64:12).
C onsiderando o fa to de que dois grupos, m u ito d ife ­
r e n t e na sua religiã o, são representados nos capítulos
65 e o6, enquanto que na oração a n terior do profeta, não
há qu alqu er distinção en tre os israelitas fié is e os apósta­
A 1PR O FE C IA DE l8 A fA 3

tas, vá rios intérpretes pensam qu e não há qu alqu er re­


lação en tre êstes capítulos e a o ra ç ã o do p ro fe ta . N otan ­
do a fo r t e ên fase do escritor na gran d e separação dos
dois gru p os; a denúncia dos ritos pagãos dos apóstatas
e dos seus cultois nos lu ga res altos; pensa Skinner que
êste gru po é com p osto d e sam aritanos, e q u e êstes capí­
tulos fôssem escritos m a is tarde, talvez n o tem po de Es-
dras e N e e m ia s ;1 m a s M u ile n b u rg 2 e ou tros reconhe­
cem a m en sagem dêstes capítulos co m o a resposta do
Senhor à oração' do p r o fe ta . É d ifíc il acred itar qu e o
escritor do capitu lo 64 tenha deixado a gran d e oração
intercessória sem q u a lqu er resposta, e o p ro fe ta tão
pertu rbado e tão consagrado sem q u alqu er m ensagem
de c o n fô r to . É fa t o q u e o p ro fe ta o ro u em fa v o r de
Israel, a nação sacerdotal, m a s certam en te reconheceu
q u e o S en h or podia p e rd o a r e aben çoar som ente os ar­
rep en d idos qu e v o lta ra m a o Senhor co m f é .
O p rim e iro ve rsícu lo d ò capítu lo 66 ind ica claram en­
te que o T e m p lo de Z orob a b el ainda não fô r a construí­
do, e que esta ú ltim a d ivisão do L iv r o f o i escrita entre
538 e 520 a . C ., e não no tem po de Esdras e N eem ias,
quando surgiu o c o n flito en tre os ju deus e os sam arita­
n os. A lé m disto, todos os p rofetas reconhecem e con d e­
nam severam ente a id olatria, o adultério, a inju stiça e a
in fid elid a d e dos ju deu s que seguiram a a gra d á vel re li­
g iã o dos .pagãos. A distinção aqu i en tre os apóstatas e
os fiéis, eoncorda p erfeita m e n te com os ensinos d e todos
os p ro feta s .

1. O C ontraste en tre os S ervos d ó Senhór e os Apóstatas,


65:1-12
t. Fui acessível a ser buscado dos que não perguntavam por mim;
fui acessível, a ser achado dqqueles que não me buscavam;

1. The ‘ Ínterpréter”s Bible, Vòl. 5, Í44


2. Cambridge Bible fo r Schools and Colleges, Isaiah, X L — L X V I
366 A. R. C R AB TR E E

eu disse : Eis-me aqui, eis-me aqui,


a um povo que não chamava em m«u nome.
2. Estendi as minhas mãos o dia todo
a um povp rebelde,
que anda no caminho que não é bom,
seguindo os seus próprios desígnios.

Neste capítulo' o profeta apresenta as ameaças do


Senhor contra os israelitas apóstatas e as promessas das
hênçãos divinas ao seu povo fiel. Nos primeiros dois
versículos êle explica a relação entre o Senhor Javé e
o grupo dos israelitas que haviam abandonado' as verda­
des e os princípios religiosos que tinham recebido do
seu Deus por intermédio dos profetas. Ao grupo dos
israelitas infiéis que declarava o desejo de ver a Pessoa
de Deus, e pedia uma aparição miraculosa da presença di­
vina, uma teofania, o Senhor respondeu: Eis-me aqui.
Fui acessível a ser buscado, . . . e a ser achado. Os
verbos , na forma Nifal, são re-
• * - l • e •

flèxivos, e assim descrevem a disposição do Senhor


em relação ao povo de Israel, especialmente em re­
lação’ ao grupo dos israelitas que declaravam fal­
samente o desejo de encontrar-se pessoalmente com
Deus (Gp. Ez. 14:3; 20:3, 31; 36:37). Assim, o Se­
nhor ofereceu a este grupo reclamante dos israelitas a
permissão', <s**privilégio, de demonstrar a fidelidade ge-
ntaina ao' Deus de Israel (Cp. 55:6; Deut. 4:7). O he-
b n ic o omite a palavra mim na primeira linha, mas se
acaia no Rôlo do Mar Morto, na L X X e na Vulgata.
Na oração intercessória, o profeta identificou-se com
a nação inteira, na esperança, ou na condição, de que to­
dos os israelitas sé arrependessem. Enquanto' o grupo
infiel dos israelitas rejeitou a graça de Deus, o Senhor
disse V u m povo que não tinha invocado o seu nome: Eis-
me aqui *
A ' PRO FEC IA DE ISAÍAS .367

Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo^rebel-


d e. Êste convite ardente para que o povo aceite as bên­
çãos da salvação divina é um exemplo da persistência do
grande amor de Deus (Cp. Prov. 1:24; Is. 1:15). É per­
feitamente normal que os homens estendam as mãos
quando confessam o seu amor a Deus e lhe apresentam
as suas petições e promessas de fidelidade e„§erviço. Mas
aqui o próprio Senhor, em linguagem figurada e pro­
fundamente significativa, estende as mãos o dia inteiro
a um povo rebelde, oferecendd-lhe, no seu amor imutá­
vel, o perdão do pecado e as bênçãos da graça divina
(Cp. Luc. 10:11; Mat. 28:18-20). A L X X diz um povo
desobediente e contrário. O caminho que não é bom é jus­
tamente o caminho que os infiéis inventaram e seguiram
de acôrdo com os seus próprios desígnios,
(Cp. Sal. 36:4; Prov. 16:29). O Apóstolo Paulo cita ês-
tes dois versículos em Rom . 10:20-21, aplicando o pri­
meiro aos gentios e o segundo a Israel.
3. Um povo que me provoca
diante da minha face d* continuo,
sacrificando em jarding
e queimando incenso «ôbre tijolos;
4. que se assenta entre sepulturas
e passa as noites em lugares secretos;
que come carne de porco,
e caldo de cousas abomináveis nos seus vasos;
5. que diz : Fica. onde estás,
não te aproximes de mim porque estous e p a r a d o de ti.
Êstes são um fumo no meu nariz,
u m fogo que arde o dia todo.

Nos versículos 3-5 o profeta descreve o culto cor­


rompido e supersticioso do grupo dos israelitas infiéis
que provocava a ira do Senhor. Os participios hebraicos,
provocando, sacrificando, queimando incenso, assentan­
do, comendo e dizendo, representando ação linear, dão
ênfase à assiduidade dos israelitas apóstatas na prática do
368 A, R. C R A B TR E E

seu culto, que provocava o Senhor. Esta provocação ao Se­


nhor pelos israelitas infiéis é mencionada no princípio e
no fim da estrofe. Não se especificam os cultos que pro­
vocavam o Senhor, mas é quase certo que são os mes­
mos praticados no tempo de Isaías (1:13; 10:10,11; Amós
3:2, 10; 3:14; 4:4, 17; Os. 4:17; 6:8; 8 :4 ).
Um povo que me provoca ou me irrita diante da m i­
nha face, sem embaraço, sem mêdo, e sem qualquer re­
conhecimento da vergonha da sua infidelidade. Sacrifi­
cando em jardins (Cp. 66:17, e especialmente 1:29). A
oferta de sacrifícios e o culto nos jardins associavam-se
com os ritos de lascívia e a imoralidade sexual que os
israelitas infiéis adotaram do culto ritual dos pagãos.
Queimando incenso sôbre tijolos. Não se acha uma
explicação satisfatória desta declaração. Alguns pensam
que os tijolos significa o telhado da casa, de superfície
plana, onde se ofereciam, às vêzes, sacrifícios aos deuses
falsos (Cp. II Reis 23:12; Jer. 19:13; Sof. 1:5). A frase
queimar incenso pode significar queimar sacrifícios, como
em 1:13.
O versículo 4 descreve algumas práticas fantásticas
e abomináveis dos cultos dêstes israelitas infiéis. Que se
assenta entre sepulturas. É muito provável que esta
prática fundava-se no culto de antepassados, talvez na
esperança de receber u’a mensagem importante dos mor­
tos. P a s s a is noites em lugares seeretos. Alguns pen-
s « n que esta é uma alusão ao' costume conhecido entre
alguns antigos como incubação, ou como diz a L X X por
amor de sonhos. Alguns sugerem a frase entre pedras
em vez de lugares secretos, mas o hebraico é perfeita­
mente claro. Que come carne de porco, nas refeições sa-
crificiais, assim violando a lei bem conhecida de Moisés
(L ev. 11:7; Deut. 14:4) . Alguns pensam que estes ju­
deus Yoram influenciados nesta violação da lei, enquanto
sé achavam na Bábilôniá mas o porco,, como alimento,
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 369

fo i proibido entre todos os semitas. Foram influepcia-


dos neste hábito pelos pagãos que reconheceram o porco
como animal sagrado atís seus deuses. Também comiam
caldo de cousas abomináveis, evidentemente nas suas re­
feições sacrificiais.
Fica onde estás, ou fica sòzinho, separado, não te
aproximes de mim porque estou separado d e ü . As ver­
sões em português, Porque sou mais santo do que tu,
não expressam o sentido do hebraico. Um membro de
uma comunidade religiosa está falando do perigo do con­
tato com êste grupo para qualquer pessoa de fora. A
comunidade santa não deve ser profanada pelo contato
com aquêle que não é santo (E z. 44:19; 46:20). A frase
que diz, refere-se àqueles que se julgam santos, separa­
dos, em virtude dos seus ritos e cerimônias especiais e
particulares de culto.
Êstes são um fumo no meu nariz, um fogo que arde
o dia todo. O fumo e o fogo são' símbolos da ira do Se­
nhor. Os ritos e as cerimônias do culto dêste grupo dos
israelitas infiéis despertam a ira do Senhor, um fogo que
arde todo o dia (Cp. Deut. 32:22; Jer. 17:4).
É pronunciado nestes versiculos o julgamento dos
apóstatas, que pela sua idolatria persistente mereciam o
mesmo castigo dos seus pais infiéis. O próprio Senhor
proclama o castigo justo que os apóstatas mereciam jun­
tamente com os seus pais infiéis.
• . Eis que está escrito diante de mim,
e não me calarei, mas eu pagarei,
sim, pagarei no mie diles;
7. as suas iniqiiidadies e as iniqüidades dos paiç, diz o Senhor;
porque queimaram incenso nos montes,
e me insultaram, nos outeiros,
portanto, lhes medirei as obras
e lhes pagarei no seio dêles.

Eis que está escrito diante de m im . Assim, os pe­


cados mencionados estão registrado» nos livros divinos,
370 A . R. C RAB TREE

e pedem constantemente o justp castigo (Cp. Jer. 17:1;


Ver também iè x . 32:32; Mal. 3:16; Sal. 69:28; Dan.
7:10). N ã o m e calarei, mas pagarei com justiça as ini-
qüidades daqueles que me desprezam e me insultam
(Cp. 62:1; 64:12). A frase no seu seio refere-se ao lugar
no manto, acima do cinto, onde os orientais levavam o
dinheiro e outros objetos de valor (Cp. Jer. 32:18; Sal.
79:12; Luc. 6:38).
As suas iniqüidades e as iniqüidades dos pais. As­
sim, a L X X e a versão Siríaca têm a terceira pessoa do
pronome, suas iniqüidades, em harmonia com seio dêles,
no versículo anterior, enquanto o hebraico diz vossas
iniqüidades. As versões em português, menos a Bras.
seguem o hebraico, mas a versão da Soc. Bíblica, omite
a frase no seio dêles do versículo anterior. O hebraico
podia mudar da segunda para a terceira pessoa de pro­
nomes para mudar a ênfase. A L X X freqüentemente
leconhece esta tendência, e assim mostra mais interêsse
na harmonia gramatical.
P o rq u e qu eim aram incenso nos m ontes, e m e insul­
ta ra m nos ou teiros. Os profetas sempre condenaram se­
veramente êstes sacrifícios nos montes, porque repre­
sentavam o culto puramente pagão, juntamente com a
prática da imoralidade sexual no culto dos deuses pagãos
(£ p . Is. 57:5, 7; Os. 4:13; Ez. 6:13; 18:6).
í Portaríf®, lhes m ed irei as obras. A RSV, Alm . e
I . B . traduzem, Porta n to, lhes m ed irei as obras antigas,
gU an teriores. Mas o Senhor lhes medirá tôdas as obras.
Enquanto há um grupo de idólatras e infiéis entre
os israelitas, severamente denunciados nos versículos an­
teriores, há também os israelitas fiéis, m u ito preciosos
à vista do S en h or. O Senhor não destruirá o seu povo
fiel^ e lhe promete um futuro glorioso. Encontra-se nes­
tes versículos a resposta do Senhor à oração tão signifi­
cativa do profeta no capítulo 64. ..
A PRO FEC IA DEi ISAÍAS 371

8. A s s i m d i z o S e n h o r : - #
C o m o q u a n d o se a c h a v i n h o no cacho,
e a l g u é m d i z : N ã o o de stru a s,
pois há u m a bê nç ão nê le;
a s s im fa re i p o r a m o r de m e u s servos ,
e não os d e s t r u i r e i a t o d o s .
9. F a r e i s a i r de J a c ó de sc end ênc ia ,
e de J u d á u m h e r d e i ro dos m e u s m o n t e s ; ,,,
os m e u s eleitos h e r d á - l a - ã o ,
e os m e u s s e r v o s h a b i t a r ã o ne la.
10. S a r o m s e r v i r á de p a s t a g e m de r eban hos ,
e o V a l e de A c o r d u m l u g a r de repouso de gado,
p a r a o m e u pov o q u e me buscou.

A figura do cacho de uvas representa a nação in­


teira dos israelitas, a comunidade dos fiéis, e o grupo
dos rebeldes e idólatras. Havendo pronunciado o julga­
mento divino sôbre os apóstatas, o Senhor promete nes­
tes versículos, em linguagem figurada, preservar, prote­
ger e abençoar ricamente o seu povo fiel. O vinho nôvo,
, o mosto é o âmago da nação, os meus servos,
e por amor dêstes o Senhor não destruirá a nação intei­
ra, mas o texto certamente não significa que salvará a
nação inteira. Alguns pensam que as palavras, Não o
destruas, pois há uma bênção nela fazem parte de um
dos cânticos populares da vinha (Juizes 9:27; Is. 5:1-7;
16:10; Jer. 25:30; 48:33). Assim farei por amor dos
meus servos, e não os destruirei a todos.
O versículo 9 declara que os verdadeiros israelitas
possuirão e ocuparão a terra da Palestina, a Terra Santa,
ou sepairada, para ó povo do Senhor (Cp. 57:13; 60:21).
São interessantes as palavras usadas a respeito do povo,
descendência de Jacó, herdeiro dos meus montes, meua
escolhidos, meus servós. Tôdàs estas frases se relacio­
nam com as promessas do Senhor ao seu povo escolhido
e 'divinaAiente orientado através da suarhistória.
372 A R. C R AB TR E E

S arom fic a na pa rte setentrional da plan ície m a ríti­


m a que se estende do M onte C arm elo até J op e. O V a le
de A c o r se estende do R io Jordão, do sul parà o n orte
(J os. 7:24; 15:7; Qs. 2:15)*. Assim , os nom es S a rom e
A c o r representam os lim ites da terra da Palestina, des­
de o M editerrâneo, no leste, até à descida do Jordão, no
oeste, que os israelitas fié is possuirão.
11. Mas quanto a vós que vos apartais do Senhor,
que vos esqueoeis do meu santo monte, .
que preparais uma mesa para a Fortuna)
e en che is copo s de v i n h o m i s t u r a d o p a r a o D e s t in o :
12. eu v o s de st in a r e i à espada,
e to do s v ó s v o s e n c u r v a n e i s à m a t a n ç a ;
po r q u e , q u a n d o c h a m e i , v ó s nã o res pondestes,
q u a n d o fale i, não ouv is te s,
m as fizeste s o q ue é m a u aos m e u s olhos,
e escolhestes aquilo que 6 mau aos meus olhos.

Os versos 11-12 apresentam um a n ova am eaça con­


tra os apóstatas. O p ro feta anuncia o ju lga m en to so­
lene, destinado àqueles que estão abandonando o Senhor,
e esquecendo-se do Santo M on té de S iã o . A qu êles que
se apartaram do Senhor e se esqueceram do Santo M onte
èra m os israelitas apóstatas que irrita ra m o Senhor pela
süa in fid elid ad e e o seu culto pagão (1 - 7 ). N ota-se que
0 p ro feta não m enciona o culto no T e m p lo , um a in d i­
cação de qjjte o segundo T e m p lo não' fô r a co n stru íd o.
1 A m esa para á F ortu ita, è os copos d e vin h o para ó
B estin o . O preparo da m esa sign ifica as oferta s de co­
m id a e bebida para os deuses. O hebraico diz Gade em
v e z de F ortu n a e M en i e m 'v e z de D estin o. Gade, um a
divindade siríaça, era 0 deus da F ortu n a . H á vá rias re­
ferên cias ao deus Gade na literatu ra . V e r os nom es de
lugares, tais cotao B aa l-G a d e (J os. 11:17; 12:7; 13:5;
1 5 :3 7 ). M as quase nada se sabe de M eni, o deus d o
D estin a, O prep a ro de festas para h on ra r os deuses era
A P R O F E C IA DE IS A ÍA S 373

um costum e com u m n o m undo an tigo (C p . Jer.. 7:18;


19:13; I C o r . 1 0 :2 1 ). *
Eu vo s destinarei à espada. N o ta i a relação do v e r ­
b o m anah, destinar, e o n om e do deus M eni, D estin o. Mas
é o S en h or qu em destina à espada os idólatras, porque,'
quando cham ei, v ó s não respondestes, . . . fizestes o que
é mau, e escolhestes perante os m eus olhoç^aqu ilo que
é itia u . A declaração’ neste versícu lo é um a resposta, p elo
m enos em parte, à oração do p ro feta no capítu lo 64,

2. O P r o fe ta Apresenta um Contraste entre os Servos


do Senhor e os Apóstatas, 65:13-16
13. Portanto, «Mim diz o Senhor Deus :
Eis que os msus servos comerão,
mas vós padecsreis forns;
eis que os meus servos beberio,
maa vós tereis slde;
eis que os meus servos ee alegrarão,
mas vós voS envergonhareis;
14. eis que os meus servos cantarão por alegria de coração,
mas vós gritareis pela tristeza de coração,
e uivareis pela angústia de espirito.
15. Deixareis o vosso nome aos meus eleitos por maldição;
e o Senhor Javi vos matará;
mas a seus servos chamará por outro nome;
16. de sorte que aquêle que Se abençoar na terra
abençoar-se-á pelo P«us da verdade,
e aquêle que jurar na terra
jurará pelo Deus. da verdade;
porque já estão esquecidas as angústias do passado,
e estão escondidas dos meus olhos.
Declara-se quatro vêzés nós versícu los 13 e 14 o
ju lg a m en to solene dò Senhor, fa zen d o um contraste en­
tre a recom pensa dos servos fié is do Senhor e o trata­
m en to im p e ra tivo dos in fiéis e corrü tos. T rata-se nos
versícu los 15 e 16 d o destiilo fin a l dos dois grupos, co m
ên fa se em o nôvçf nome e n a n ova bênção ,d o p o v o d o
S en h or.
374 A . R. C RAB TREE

Os quatro contrastes no hebraico entre as frases Eis


os meus servos, V"DJ? JlSn e mas vós. DDfcíí» são mui-
T -I
tp enfáticos e devem ser traduzidos pelos mesmos têr-
mos em português para representar a ênfase do he­
braico.
O nome dos apóstatas será usado no futuro somente
na fórmula de amaldiçoar (Cp. Jer. 29:22). E o Senhor
Javé (te ) vog matará. Alguns pensam que esta linha
representa a substância da maldição. A declaração é de
difícil interpretação, mas o uso da segunda pessoa do
singular talvez indique a form a da maldição. Mas a
seus servos chamará por outro nome. A L X X tem, e aos
meus servos será chamado um nôvo nome. (Êste outro
nome, ou nôvo nome não é indicado, mas o’ nôvo nome
certamente distinguirá os israelitas fiéis dos apóstatas.
O versículo 16 declara que o Senhor, no cumpri­
mento das suas ameaças e das suas bênçãos, mostrou-se
como o Deus da verdade. Portanto', aquêle que se aben­
çoar na terra, ou invocar a bênção do Senhor, receberá a
bênção do Deus da verdade. Deus da verdade, é Deus de
Amém (Cp. II Cor. 1:20; Apoc. 3:14). É muito pro­

vável que a palavra original tenha sido , ômen,


que significa verdade ou fidelidade. Estão esquecidas
angustiai* passadas, não' existem mais (Cp. 63:9 e
oc. 21:4).
Deus, Está Criando Novos Céus e uma Nova Terra,

:17. Poi» ai* que eatou criando novos efue


. -e um* noy« terra;

1 18^ Maa aléQ^ai-voe e 'regozijai-vos para aenvpre


«to que eu eateu eriandoj
A 'P R O F E C IA DE ISAÍAS 375

1 dois eis que estou criando para Jerusalém um ragpzijo,


I »
e par» o seu povo uma alegria.
19. Eu folgarei em Jerusalém,
e exultarei no meu povo;
nunca mais se ouvirá nela a voz de chôro,
nem o clamor de angústia.

Com fé inabalável o profeta descreve os novos céus


e a nova terra que o Senhor está criando."Em a Nova
Idade, tudo contribuirá para a felicidade do povo rege­
nerado pela graça de Deus. Será um tempo de regozijo
e paz. É usado três vêzes o particípio do verbo que sig­
nifica para descrever o progresso linear da Nova
T T

Idade com as bênçãos frutíferas de obediência e fideli­


dade.
A frase novos céus e uma nova terra dá em resumo
a teologia da profecia. A natureza fisica dos céus e da
terra será transformada em perfeita harmonia com a
humanidade regenerada pelo amor de Deus (Cp. 11:6-9;
29:17; 30:23-26; 32:15; 35:1-10). A ciência moderna não
aceita êste ensino teológico dos profetas. Mas o crente
fervoroso de hoje pode crer que tôdas as cousas contri­
buem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus
(Rom . 8:28). As cousas anteriores pode ter referência
especial á declaração do versículo 17 (Cp. 42:9; 43:18-
19). Nem subirão mais ao espírito, lit. subir sôbre o co­
ração, como em Jer. 3:16 e 7:31.
Mas alegrai-vos e regozijai-vos para sempre no que
eu estou criando. Ó versículo 19 explica as bênçãos da
nova relação do povo fiel com o seu Senhor. É uma de­
claração maravilhosa do Senhor ao seu povo na Nova
Idade, sôbre a nova relação entre o Senhor e o seU povo
regenerado. O Senhor está sé regozijando em a nova
comunidade do seü povo eleito (Cp. 62:5; Deut. 30:9;
S o f. 3:17). O povo exulta de alegria porque jã passou
o período de chôro e lamentação (Cp. 25:8; 30:19;
35:10).
376 A . R. C RAB TREE

4. As Bênçãos da Vida do Povo na Comunidade Mes­


siânica, 65:20-23
20. Não haverá mais nela
um infante de poucos dias,
nem um velho que não cumpra os «eus dias,
pois a criança morrerá de cem anos,
e o pecador de cem anos será amaldiçoado.
21. Êles edificarão casas, e as habitarão;
plantarão vinhas, e comerão o seu fruto.
22. Êles não edificarão para outro habitar;
não plantarão para outro comer;
pois como os dias da árvore serão os dias do meu povo,
e os meus eleitos gozarão das obras das suas mãos.
23 Êles não trabalharão debalde,
nem terão filhos para a calamidade;
pois serão a posteridade dos benditos do Senhor,
e os seus filhos com Sl«s.

Alguns críticos pensam que o versículo 20 foi escrito


algum tempo depois da descrição original da comunida­
de messiânica contida nos versículos 21-23. Não obs­
tante a obscuridade do verso, a declaração concorda com
a descrição dos versículos 21-23. Entre as outras gran­
des bênçãos da comunidade messiânica, a nova vida do
povo de Deus será prolongada miraculosamente. Não
haverá mais o' infante de poucos dias. A morte prematu­
ra de crianças e outras pessoas fo i geralmente interpre­
tada como manifestação da ira, ou do desprazer do Se-
i, como a dos patriarcas, foi
bênção de Deus (Cp. Gên.
Mas não se encontrará mais
um velho que não cumpra os seus dias. Pois a criança
morrerá de .cem anos. Assim, a morte à idade de eem
anos será prematura e uma indicação da ira do Senhor.
Somente os pecadores morrerão antes de chegar à ida­
de d ^ cem anos, e a morte dêles resultará da ira do Se­
nhor.
A PR O FE C IA DE ISAÍAS 377

F oi desconhecida entre os hebreus dêste terqjpo a


doutrina da vida futura. Êles esperavam a restrição do
poder da morte, mas não a cessação dela (mas ver Sal­
mos 17:15; 73:24). Mas haverá conseqüências felizes da
extensão do têrmo da vida. Os homens ceifarão o fruto
do seu trabalho. Êles edificarão casas, e as habitarão;
plantarão vinhas, e comerão o seu fruto.
Descreve-se nos versiculos 21-23 a felicidade da vida
na comunidade messiânica de Israel. Em contraste com
as lutas e os sofrimentos do passado, e oráculos de pro­
fetas anteriores (Amós 5:11; Miq. 6:15; Sof. 1:13), os
israelitas, em a Nova Idade, serão abençoados com uma
longa vida de paz e prosperidade. Vão gozar os frutos
do seu trabalho. Èsta Esperança Messiânica não é nova,
mas o profeta pensa que está chegando finalmente o
tempo para o estabelecimento da Idade Messiânica. En­
cantado pela visão da felicidade futura de Israel, o men­
sageiro contempla as npvas bênçãos que o povo recebe­
rá do Senhor.
Israel vai possuir a sua própria terra, e assim pode
trabalhar com a confiança e a esperança de que êles mes­
mos, e não estrangeiros, habitarão as casas que edificam,
e comerão o fruto das suas plantações. É muito claro
nestes versículos que o' profeta está pensando na revela­
ção do amor imutável do Senhor, e da orientação divina
dos seus eleitos no cumprimento da sua missão mundial,
Pois como os dias da árvore serão os dias do meu
povo. Os hebreus, bem como outros povos, ficavam
profundamente impressionados com o mistério das árvo­
res, especialmente da sua longa vida (Cp. 61:3; Jó 14:
7-9; Sal. 1:3; 92:12-13; Jer. 17:8; Ez. 19:10). Na posse
segura da sua terra, e com longos anos de vida, o homem
podia cumprir os seus planos e alegrar-se nos resultados
do seu trabalho. A vida era muito preciosa para os he-
378 A . R. C R A B TR E E

breus, e êles reconheciam uma vida longa como bênção


especial do amor do Senhor,
Em a Nova Idade, êles não trabalharão debalde,
como tinham feito em algumas épocas passadas, quando
estrangeiros entraram e lhes roubaram os produtos da
terra (Juizes 6:1-10). O labor dos homens produzirá
uma abundância de tudo para satisfazer às necessidades
do p ovo. Não terão filhos para a calamidade (Cp. Lev.
26:16; Jer. 15:8; Sal. 78:33), Os israelitas receberam
os filhos como bênção do Senhor, e em a nova época os
filhos serão ricamente abençoados juntamente com os
pais.
5. A Idade de Paz, até no Mundo Animal, 65:24-25
24. Antes que êles clamem, eu responderei;
enquanto êles ainda estão falando, ouvirei.
25. O lôbo e o cordeiro apascentarão juntos,
o leão comerá palha como o boi;
e p6 será a comida da serpente.
Êles não farão mal, nem destruirão
em todo o meu santo monte, diz o Senhor.

No capitulo 64 o povo de Israel ficou profundamen­


te entristecido porque o Senhor não' respondeu imedia­
tamente à oração apaixonada do profeta. Apesar da sua
impaciência, o profeta aprendeu que o Senhor não é so­
mente acessível ao povo que deseja ficar em comunhão
dom Êle, m al que o próprio Senhor responde às petições
cn seu povo fiel enquanto êles ainda estão orando. As-
sltn, o pensamento' do v. 24 relaciona-se com a declara­
ção' do Senhor nos primeiros dois versículos do capítulo.
Mas aqui o poeta compreende mais claramente as bên­
çãos do amor do Senhor (Cp. 58:9; 30:19; Jer. 29:12).
Chegou a entender que o Senhor deseja mais ardente­
mente satisfazer às necessidades supremas do seu povo
do que os homens almejam receber as bênçãos espiri­
tuais do*seu Deus.
A PR O FE C IA DE IS A ÍA S 379

No quadro profético da nova terra, a paz vai reinar


perfeitamente, até na vida dos animais. As linhas segun­
da e quarta dêste versículo 24 são citações dos versículos
7 e 9 do cap. 11. A primeira linha é um resumo do pen­
samento dos versículos 6 e 7a do cap. 11. A declaração,’
e pó será a comida da serpente é uma alusão a Gên.
3:14. Êste retrato da Idade Messiânica baseia-se na es­
perança fundamental do Velho Testamento. Mas êste
profeta pensa que está na véspera da nova era. Em a
Nova Idade Jerusalém será o centro supremo do reino da
paz (Os. 2:18; E z. 34:25, 28).
Não obstante a discussão sôbre a data e a relação dês­
te capítulo com 63:7-64:12, o escritor apresenta nêle qua­
tro afirmações importantes que concordam perfeitamen­
te com os ensinos do' Livro de Isaias. Nos versículos 1-7,
o profeta explica o pecado como a rebelião contra Deus
e o julgamento inevitável dos pecadores pelo Senhor.
Nos versículos 8-10, o autor repete e acentua a doutrina
isaiânica do Restante que se relaciona com o amor imu­
tável do Senhor e a realização do seu eterno propósito
na eleição de Israel. Afirma-se nos versículos 11-16 que
o poder do' Senhor triunfará finalmente sôbre todos os
seus inimigos, e que êstes receberão a sua justa recom­
pensa. Finalmente, além do período das perturbações
e da justiça, o homem de Deus proclama o Reino Mes­
siânico de paz e justiça (17-28).
J . A Felicidade Eterna do Verdadeiro Israiel e o
'Destino dos Apóstatas, 66:1-24
Há várias evidências de que os capítulos 65 e 66
constituem uma unidade literária. O ponto de vista his­
tórico e teológico, a linguagem figurativa, a divisão dos
israelitas entre os fiéis e os apóstatas indicam que os dois
capítulos foram escritos pelo' mesmo autor. As condi­
ções religiosas e históricas indicam que o capítulo foi
escrito no período entre 538 e 520 a. C.
380 A R. C RAB TRES.

1. Assim diz o 8snhor ;


O Céu é o meu trono,
e a terra o escabêlo dos meus pés.
Que casa me edificareis vós,
e qual o lugar do meu repouso?
2. A minha mão fêz tôdas estas cousas,
e tôdas estas cousas são minhas, diz o Senhor;
mas êsts é o homem para quem olharei;
aquêle que 6 humilde e contrito de espirito,
e que treme à minha palavra. ■

Apresenta-se na primeira divisão (1-4) a mais se­


vera condenação do modo de oferecer sacrifícios que se
encontra em todos os livros proféticos (Cp. Amós 5:21-
24; Is. 1:10-17; Jer. 7:21-23). Dirigindo-se aos que con­
templam a edificação de um Templo para a sua lionra,
o Senhor lhes declara que o único culto que lhe é agra­
dável é aquêle que procede do espírito contrito e reve­
rente.
Apresenta-se nos versículos 5-6 um contraste entre a
recompensa dos israelitas fiéis, pelo Senhor, e o pago
dos seus inimigos. É uma promessa aos fiéis que tre­
mem à palavra do Senhor, e uma retribuição destrutiva
dos inimigos de Deus.
A figura dos versículos 7-9 descreve a salvação e a
prosperidade da cidade de Jerusalém. Com estas ricas
bênçãos, a pequena cidade se torna em breve uma gran­
de nação.
A Idade Messiânica de Jerusalém (10-14) será um
ríodo de prosperidade, cdnsolação e de profunda ale-
ia. Sião será a mãe de muitos filhos que se regozija­
rão na sua grandeza e glória.
Declara-se nos versículos 15-16 que no Dia do Se­
nhor êle aparecerá nò fogo e na tempestade para tomar
vingança contra os seus inimigos. O julgamento é se­
guido n o s versículos 18-22 peja manifestação da glória
do Senljor a tôdas as nações.
A PR O FE C IA DE I8A IA S 381

! Finalmente, nos versículos 23-24, a verdadeira reli­


gião será universal, com uma referência ao trerifendo
destino dos rebeldes contra o' Senhor que não se arre­
pendem da sua inimizade contra Deus.
1. A Humildade e a Sensibilidade do Espírito no Culto,
66 :1-2
Continua-se neste capitulo a discussão do contraste
entre o culto e a vida religiosa dos dois grupos de israe­
litas. É freqüentemente difícil explicar a conexão en­
tre as idéias apresentadas, e os comentaristas nem sem­
pre concordam quanto às divisões do material. Mas é
claro que os primeiros dois versículos tratam do espi­
rito do verdadeiro culto ao Senhor. O profeta declara
que a qualidade dd culto humano que o Senhor deseja
acima de tudo mais é o espírito de humildade e a sensi­
bilidade à palavra do Senhor revelada aos seus mensia-
geiros e proclamada fielmente ao povo.
0 Céu é o meu trono, e a terra o escabêlo dos meus
pés. O Altíssimo não habita em casas feitas por mãos
humanas (Cp. Atos 7:48-50; I Reis 8:27; Jer. 23:24).
O Senhor estabeleceu o seu trono no céu (Sal. 11:4;
103:19), e a terra é o estrado dos seus pés. Outras pas­
sagens falam do Templo como o escabêlo dos pés do Se­
nhor (Lam . 2:1; Sal. ®9:5; 132:7; I Crôn. 28:2). Mas,
na verdade, habitará Deus na terra? (I Reis 8:27). O
Senhor não habita em qualquer casa ou santuário na
terra (II Sam. 7:4-14; I Reis 8:27-49). O profeta pro­
testa contra qualquer culto puramente formal que não
expresse a humildade e a reverência do espírito (Cp,
1:11-17; Amós 5:21-25; Os. 6:6; Jer. 3:16-17; 7:21-23).
Que casa me edificareis vós, e qual o lugar do meu
repouso? A L X X diz: Que espécie de casa me edifica-
reis? A KJV diz: Onde a casa que me edificareis, e
onde o lugar do meu repouso? A declaração apresenta
382 A . R. C R A B TR E E

um contraste forte do trono do Senhor no céu e o esca-


bêlo dos seus pés na terra com o templo material que os
homens querem edificar para Deus na terra. Jesus re­
fere-se a êste versículo em Mat. 5:34-35. O homem
não pode prestar culto verdadeiro ao Senhor do céu e da
terra, sem o espírito contrito de reverência e submissão.
Qual é o lugar do meu repouso? Certamente não é um
templo feito pelas mãos do' homem.
Há muita discussão sôbre ésta alusão ao templo
neste primeiro versículo. É claro que o profeta está
condenando o culto meramente formal, sem o espírito de
reverência e adoração'. Mas alguns pensam que o pro­
feta está condenando o propósito de um grupo de judeus
que planejava reconstruir o templo.
Outros pensam que o profeta está falando nos judeus
no cativeiro que desejavam construir um templo ao Se­
nhor na Babilônia, como fizeram alguns judeus mais
tarde no E gito.
Alguns pensam que o profeta está dirigindo a sua
mensagem aos samaritanos, mas não há qualquer evi­
dência de que os samaritanos dêste período do profeta
tenham pensado na construção de um templo.
Outros intérpretes pensam que o profeta está se re­
ferindo ao templo de Zorobabel, em cuja construção os
judeus apóstatas da Palestina quiseram ajudar, mas os
judeus fiék^lhes negaram esta permissão. Todavia, não
tee apresenta qualquer evidência da situação histórica des-
yt natureza.
i Alguns intérpretes pensam que o profeta está sim­
plesmente defendendo o culto puramente espiritual, e as­
sim está falando’ do perigo de reconstruir o templo (Cp.
Salmos 40, 50, 51, 60) . Dizem êstes que o profeta está
se mostrando contra o plano de Ageu na reconstrução
do tpmplo, porque o Senhor não precisava de qualquer
casa de culto.
A ' PR O FE C IA DE ISA ÍA S 383

Mas estudantes cuidadosos da profecia julgam «que o


profeta não está condenando tôdas as formas exteriores
de culto. Não é o templo, propriamente, mas a corru­
ção das práticas religiosas que o profeta condena. Como
os profetas, em geral, êle não condena a instituição de
sacrifícios como tal, mas a corrução do sistema. O Se­
nhor não rejeitaria o segundo' templo se fôsse dedicado
ao culto puramente espiritual. Esta interpretação da
palavra do profeta concorda com o ensino do Senhor Je­
sus em Mat. 21:12-13.
O versículo 2 amplifica o sentido da mensagem. A
minha mão fêz tôdas estas cousas, tis céus e a terra, tôda
a criação, e não se refere aos edifícios no Monte Sinai,
como dizem alguns (Cp. Sal. 50:9-12). Mas êste é o
homem a quem olharei, aquêle que é humilde e contrito
de coração. As palavras, aquêle que é humilde e contrito
de espírito, constituem o âmago da estrofe e explicam
a sua significação. Descrevem o verdadeiro culto para
qualquer homem em qualquer parte do mundo em qual­
quer tempo. O Rôlo do Mar Morto tem Í1K3J1 , ferido,
em vez de PlDiM . contrito (Cp. Prov. 15:13; 17:22;
•• *'
18:14; Sal. 109:16). O homem humilde e contrito tre­
me de reverência na presença do' Senhor.

2. A Corrução do Culto no Sistema de Sacrifícios,, 66:3-4

3. O que imola o boi é como aquêle que mata a um Homem;


o que sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço
a um cão; o que oferece uma oblação, como o que oferéce
sangue de porco; o que queima incenso, como o que bendiz
a um ídolo.
Sim, êstes escolheram os seus próprios caminhos,
è a sua alma se deleita nas suas abominações.
4. Também eu escolherei os seus infortúnios,
è trarei sôbre êles o' que êles temem;
384 A . R. C RAB TREE

porque quando clamei ninguém respondeu;


quando falei, êles não 'escutaram;
mas fizeram o que era mau aos meus olhos,
e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer.

0 profeta descreve nestes versículos a corrução do


sistema de sacrifícios praticados pelos judeus apóstatas.
Ainda nas suas superstições pagãs, êstes apóstatas espe­
ravam ganhar o favor de Deus, meramente pelo cerimo-
nialismo de oferecer-lhe animais em sacrifício. Podiam
se comprar assim os favores dos deusés, sem qualquer
submissão, ou sem qualquer humilhação perante êles.
As últimas quatro linhas do v . 4 são as mesmas que
as de 65 :12, e possivelmente foram acrescentadas por um
redator.
Há quatro pares de frases participiais que descre­
vem as práticas dos apóstatas no seu modo' de fazer sa­
crifícios, em contraste com o culto dos fiéis que tremem
na presença do Senhor. A primeira parte de cada linha
representa um ato de sacrifício de um boi, de um cordei­
ro, de uma oferta de cereal e da oferta memorial de in­
censo. A segunda parte de cada linha representa o avil­
tamento do sacrifício pelo espírito e o caráter de paga­
nismo que dominava a mentalidade dos apóstatas, como
o homicídio, o ato de quebrar o' pescoço de um cão, a
oferta do sangue de porco, ou o bendizer a um ídolo.
, Como êstai, sincretistas escolheram os seus próprios ca-
bninhos, e assim desprezaram o clamor do Senhor, Eu,
$ Senhor, escolherei as suas aflições. Os infortúnios e
ès sofrimentos que êles temiam o próprio Senhor trará
sôbre êles.
3. Salvação para os Fiéis, Julgamento para os Apóstatas,
66:5-6
5^ Otivi a palavra do Senhor, . . .
vós que tremeis da sua p a la vra :
A PR O FE C IA DE ISATAS 385

v o s s o s irmãos que vos odeiam, ' ,*


e para longe vos lançam por causa do meu nome,
e dizem : Que o Senhor seja glorificado,
para que vejamos a vossa alegria;
èsses, porém, aerio envergonhados.
C. Ouça ! uma voz de tumulto da cidade I
Uma voz do templo I
A v o t do Senhor, ...
d a n d o a recompensa aos seus i n i m i g o 3 !

O profeta apresenta aqui um contraste vigoroso en­


tre os israelitas fiéis e os seus irmãos infiéis que zomba­
vam dêles. É ump promessa de salvação para aquêles
que reverenciavam e aceitavam a palavra de Deus, e
uma declaração do julgamento dos apóstatas que odia­
vam os seus irmãos e desprezavam a sua fé.
Vós que tremeis da sua palavra são os israelitas fiéis
dêstes dois capítulos, mas o profeta refere-se especial­
mente ao aflito e abatido de espírito do v. 2. A suai pa­
lavra é a palavra do Sénhor proclamada pelos profetas:
Vós que tremeis são os israelitas reverentes que desejam
ardentemente receber os ensinos da revelação divina e
com êles se conformar. O profeta acentua a sensibilida­
de espiritual dêstes homens piedosos e fiéis (Cp. Fil. 2:12).
Vossos irmãos são os israelitas que vos odeiam. Os pro­
fetas anteriores tinham falado muito a respeito da in­
fluência da religião dos povos vizinhos sôbre a fé de
Israel. Os deuses dêstes povos eram extremamente gene­
rosos com os seus adoradores, e lhes permitiam a liber­
dade de satisfazer, à vontade, à sua sensualidade, cobiça
e egoísmo, enquanto recebiam dêles as ofertas e as de­
vidas manifestações de lealdade. E para longe vos lan­
çam por causa do meu nome. É uma forte declaração
do ódio dêste grupo de judeus para com os israelitas
fiéis. A palavra JT13 chegou a significar mais tarde
T T

exclusão. São os zombadores dos fiéis que dizem irôni-


camente, Que o Senhor seja glorificado, para que veja­
3S6 A . R. C R AB TR E E

mos a vossa alegria. São os apóstatas que zombam da


verdadeira religião dos fiéis que serão envergonhados
(Cp. 65:13). A vitória está sempre com os servos fiéis
do Senhor, até nos períodos quando são odiados e perse­
guidos .

4. O Povoamento Repentino da Nova Jerusalém, 66:7-9


Usando a figura de nascimento (49:17-21 e 54:1),
0 profeta descreve o nôvo povoamento de Jerusalém.
Haverá um aumento repentino, rápido' e maravilhoso da
população da nova cidade de Sião. Será como o nasci­
mento de uma nação num só dia. Aparentemente, o pro­
feta está pensando nos inúmeros israelitas que voltam
do cativeiro para a sua cidade natal. Assim, a pequena
comunidade dos israelitas pobres e desanimados será
multiplicada e enriquecida pelas bênçãos do Senhor. Sem
qualquer esfôrço da sua parte, o pequeno grupo dos is­
raelitas fiéis torna-se repentinamente uma grande nação.
7. Antes que estivesse de parto,
dsu à luz;
antes que lhe viessem as dores,
ela deu à luz um fi|ho.
8. Quem jamais ouviu tal cousa ?
Quem viu cousas semelhantes ?
Nascerá uma terra num só dia ?
N a ^ e rá uma nação de uma só vez ?
, Pois Sião, antes que lhe viessem as dores,
1 deu à luz seus filhos.
| 9. Acaso farei eu abrir a madre, e não farei nascer ?,
diz o Senhor.
Acaso eu que faço nascer, fecharei a madre ?,
diz o teu Deus.

Antes que estivesses de parto. Êste estilo literário


é característico dos escritores hebraicos, mas tem um ele­
mento misterioso no modo aqui usado. Não se mencio­
na a mãe até o fim do versículo 8. Para o pequeno res­
A PR O FE C IA DE ISA ÍA S 387

tante fiel, no meio de zombadores, Deus promet£ criar


nm a vasta multidão de crentes igualmente consagrados
no seu amor e na sua fidelidade.
Nascerá. «m á terra num só dia, ou nascerá uma na­
ção de nma só vez? A palavra terra é usada aqui no sen­
tido' de população, paralela com nação. Há várias na­
ções da história que nasceram da destruição de civiliza­
ções anteriores. Mas Deus, no seu poder criador, cum­
pre plenamente o seu propósito na história de Israel.
Acaso farei eu abrir a madre, e não farei nascer?
Mas nesta crise, o Senhor está presente. Êle não trará o
nôvo Israel até ao ponto de nascer, para então abandoná-
ld. Deus certamente completará esta grande obra que
êle começou.
5 . 0 Regozijo com as Bênçãos da Nova Jerusalém,
66 : 10 -11
Na sua profunda alegria com a promessa das novas
e ricas bênçãos de Jerusalém, o profeta convida a todos
que amam a cidade para se regozijarem com ela, na sua
futura grandeza e glória.
10. Regozijai-vos juntamente com Jerusalém, e alegrai-vos por ela,
vós todos os qua a amais;
regozijai-vos com ala ds alegria,
todos vós qua ehoraia sAbrs ela;
11. para que mamais, e vos farteis
dos seus peitos eonsoladores;
para que sugueis, e vos deleiteis com a
abundância da sua glória.

Regozijai-vos com Jerusalém. A L X X diz: Regozi­


ja-te, ó Jerusalém. É uma ilustração interessante como
a mudança das vogais das palavras hebraicas pode mu­
dar ligeiramente o seu sentido. Mas o T .M . concorda
melhor com o sentido geral do versículo. O hebraico
possui três verbos que significam regozijar ou alegrar.
388 A . R. C R AB TR E E

0 escritor dirige o seu convite a todos que amam Sião,


e a todos que choram sôbre ela (Cp. 57:18; 61:2, 3; Saí.
137). 0 povo fiel de Jerusalém estava passando por um
período histórico de tristeza e desânimo, sofrendo não
sòmente por causa das tristes condições da cidade, mas
entristecidos também pela zombaria dós israelitas infiéis.
A impetuosidade da alegria do profeta é característica das
manifestações de regozijo quando êle contemplava as bên­
çãos e a glória da Idade Messiânica,
Paira que mameis, e vos farteis dos seus peitos con­
soladores. A figura de Sião como mãe (Cp. 49:17-21;
54:1-6) sugere a figura da criança de peito. A prosperi­
dade econômica de Sião na nova idade gloriosa é com­
parada ao precioso leite materno (Cp. I Ped. 2 :2 ), Para
que sugueis, e vos deleiteis. É o retrato da criança de
peito nos braços maternos, alimentando-se em perfeito
cónfôrto e satisfação. A palavra hebraica VI >traduzida
abundância, aqui é de difícil interpretação. Alguns tra­
duzem a linha, com o peito amplo da sua glória. Uma
palavra cognata dêste têrmo hebraico consta no Salmo
50:11 e também no Salmo 80:13 (Heb. 14), que vem de
outra raiz, e tem o sentido de mover. Inspirado pelo
Espírito do' Senhor, o profeta pela fé no Senhor, o Re­
dentor de Israel, tem a visão da grandeza e da glória do
reino de Dêbs que se levantará, pelo poder de Deus, das
oiinas de Jerusalém.

6’. A Promessa de Prosperidade a Jerusalém e aos Seus


Habitantes, 66:12-14

Pensando ainda nas maravilhosas bênçãos do Senhor


ao seu povo, em a nova idade de Jerusalém, o profeta
proihetfe aos seus habitantes a grande felicidade de paz
e glória.
A. PR O FE C IA DE ISA ÍA S 389

12. Pois assim diz o Senhor :


Eis que estenderei sôbre ela a paz como um rio,' »
e a glória das nações como uma torrente que transborda;
então mamareis, nos braços sereis levados,
e sôbre os joelhos sereis acariciados.
13. Como alguém a quem sua mãe consola,
assim eu vos consolarei;
em Jerusalém vós sereis consolados.
14. Vós o vereis e o vosso coração se regozijará,
e os vossos ossos florescerão como a erva;
então o poder do Senhor será notório aos seus servos,
e êle se indignará contra os seus inimigos.

Eis que estenderei sôbre ela a paz, . Alguns in-


T '
lérpretes dizem que a palavra aqui significa prosperida­
de, e o têrmo paralelo T Ü 3 tem o sentido de riqueza.
T
É fato que o profeta fala também da prosperidade e das
riquezas de Israel na Idade Messiânica, mas aqui está
dando ênfase especial sôbre as bênçãos espirituais, paz
e glória, do póvo de Deus em a nova época. Então ma-
mareis: Parece haver confusão no texto. Com a peque­
na mudança das vogais da palavra para
y *• •
D npn , a L X X traduz: Os filhos de peito serão leva*
v t - *

dos no quadril. As palavras podem ser tra*


duzidas no quadril, no peito ou nos braços. E sôbre os
joelhos sereis acariciados, e assim tratados como um
nenê (Cp. Sal. 119:16, 70; Is. 11:3; Amós 5:21).
Como alguém a quem a mãe consola. O hebraico
diz como homem, , a quem sua mãe consola, mas

a L X X diz nva , alguém. Delitzsch defende a tradução


literal do hebraico, e comenta assim: Israel, então, será
como homem voltado do cativeiro, cheio de tristes lem­
branças, cujos ecos, todavia, se desvanecem completa­
390 A R. C R AB TR E E

mente nos braços do amor divino da mãe em Jerusalém,


o lar amado dos seus pensamentos até na terra estran­
geira (The Prophecies of Isaiah, Vo'1. II, p. 461).
Os vossos ossos florescerão como a erva. Serão fo r ­
tes e cheios de vitalidade. Êste pensamento psico-físico
é característico dos escritores hebraicos (C p. Jó 21:24;
Prov. 15:30; Sal. 31:10; 32:3; 102:3; Lam . 1:13).
7 . 0 Senhor Julgará o Mundo, 66:15-16
Descreve-se nestes versículos a súbita manifestação
do Senhor na teofania de fogo. Êle virá no fogo e na
tempestade para vingar-se finalmente dos seus inimigos.
O profeta indica que será um juízo mundial, e não m e­
ramente dos israelitas infiéis. Assim, o Senhor respon­
derá à oração fervorosa do profeta (64:1-3).
15. Pois eis que o Senhor virá em fogo,
« os seus carros como o torvelinho,
para tornar a sua ira em furor,
e a sua repreensão em chamas de fogo.
16. Porque com fogo o Senhor entrará em juizo,
com a sua espada, sôbre tôda a carne;
e serão muitos os mortos pelo Senhor.

Pois eis que o Senhor virá em fogo. Encontram-se


numerosas manifestações do poder do Senhor no sim­
bolismo de fogo (10:17-18; 29:6; 30:27-28; 64:1-3; Sal.
^0:3-4; 97:1^5). Em algumas teofanias a glória associa­
is com o fogo do Senhor (Cp. Èx. 19:18; 24:17; Deut.
3k23). Os seus carros serão como o torvelinho. O Se-
iffior andava freqüentemente montado numa nuvem li­
geira (19:1; Sal. 18:10; 68:33; 104:3; Deut. 33:26). Je­
remias usa o mesmo simbolismo na descrição do inimi­
go que vem do norte (4:13) .
Porque com fogo o Senhor entrará em juízo ou jul­
gamento. Alguns traduzem a palavra , executar
A PRO FEC IA DE ISAÍAS 391

julgamento, mas êstes mesmos intérpretes traduzem a


palavra entrar em julgamento em Ez. 38:22; Jael 3:2
(Cp. Amós 7 : 4 ). 0 Rôlo do Mar Morto dá: Éle virá para
julgar. A L X X traduz: Porque no fogo do Senhor tôda
a terra será julgada. Há várias passagens que falam
simbolicamente do Senhor como guerreiro, especialmen­
te na luta com os inimigos, e no julgamento dos infiéis
(Cp. 27:1; 31:8; 34:5; Deut. 32:41-42; Jer. 46:10; Ez.
21:3-5; 38:21). Com a sua espada, s,ôbre tôda a carne.
O julgamento, bem como a teofania serão universais,
sôbre tôda a> carne (Cp. 4:5; 6:12; 63:6). Serão muitos
os mortos pelo Senhor (Cp. Sof. 2:12; Jer. 23:33).
O profeta está pensando ainda nos dois grupos de
israelitas da sua época. Os arrogantes apóstatas que es­
tão se esforçando para dominar e subjugar os israelitas
fiéis estão' lutando contra o Senhor. Não sòmente fra­
cassarão no seu intento, mas serão mortos pelo Senhor.

8. Cerimônias de Purificação dos Povos Vizinhos de


Israel, 66:17
Muilenburg e outros pensam que os versículos 17:24
foram acrescentados por um redator como conclusão dos
capítulos 56-66. Assim o versículo 17 é o elo entre os
versículos 1-16 e os versículos 18:24. A passagem, em
perfeita harmonia com os capítulos 65 e 66, serve tam­
bém como conclusão aprcipriada dos capítulos 56-66.
17. Os que se santificam e se purificam para entrarem nos jardins,
após um no meio, comendo carne de porco, cousas abominá­
veis e rato, serão consumidos, diz o Senhor.

Os que se santificam e se purificam para entrarem


nos jardins. Assim o escritor continua a discussão do
culto dos sincretistas que misturavam as cerimônias re­
ligiosas do povo vizinho com o culto do' Senhor (65:3-5,
11; 66:3-5). Os ritos ilegais foram consagrados nos jar­
S92 A . R. C R A B TR E E

dins, e praticados também nos montes (Cp. Os. 4:12-


13). O hebraico diz simplesmente para os jardins, in­
dicando assim o preparo necessário para entrar nos jar­
dins, onde os ritos e cerimônias ilegais foram consuma­
dos . É provável que os hebreus infiéis seguiram o exem­
plo de um membro do grupo que conhecia perfeitamen­
te os ritos que os israelitas deviam praticar cuidadosa­
mente. Após um no meio, hierofante, que orientava o
povo na cerimônia de purificação (Cp. Ez. 8:11). A l­
guns manuscritos, inclusive o Rôlo do Mar Morto, têm
o feminino de H IN .A versão SBB assim traduz: após
T V
a deusa que está no meio, que talvez seja o sentido ori­
ginal.
Comendo carne de porco (Cp. 65:4). Assim, êstes
hebreus infiéis, não sòmente seguiam os ritos e as ceri­
mônias dos estrangeiros, mas arrogantemente demons­
travam o seu desprêzo pela lei de Moisés, comendo car­
ne de porco. E as abominações, ou cousas abomináveis.
Alguns críticos pensam que a palavra rHtíftT) , verme
V V “ *

ou bichinho, representa a palavra original em vez^pt^m ,


abominação. O rato, ou melhor ratinho, ou camun-
dongo aqui era imundo segundo a lei de Moisés (Lev.
11:29). É provável que o rato era reconhecido entre os
apóstatas çwno sagrado, e que fôsse comido nas refei-
es sacramentais. A palavra é usada como nome pró-
S io em Gên. 36:38 e II Reis 22:12, 14, Achor. Os he-
eus que violam as leis estabelecidas, comendo animais
imundos, serão consumidos, diz o Senhor.
9. Anúncio do Conhecimento e da Glória do Senhor
entre as Nações, 66:18-21
18. Poia eu conheço aa auaa obraa • os aeus pensamentos; e venho
^ para ajuntar tôdas a s naçSes e línguas; e virão e verão a
minha glória.
A PR O FE C IA DE IS A íA S 393

19. E porei entre êles um sinal. E eu enviarei alguns .^os seus


sobreviventes às nações, a Társis, Pul e Lude, que atiram com
o arco, a Tubal e Javã, às terras do mar mais remotas, que
nunca ouviram falar da minha fama, nem viram a minha
glória; e êles anunciarão entre as nações a minha glória..
20. E êles trarão todos os vossos irmãos, dentre tôdas as nações,
por oferta ao Senhor, sôbre cavalos, e em carros e em litei-
ras, e sôbre mulos, e sôbre dromedários, ao meu santo monte,
a Jerusalém, diz o Senhor, justamente como os israelitas
trazem as suas ofertas cereais, em vasos puros à casa do
Senhor.
21. E dentre êles tomarei alguns para sacerdotes e para levitas,
diz o Senhor.

É o próprio Senhor quem fala nestes versículos,


anunciando a manifestação iminente do seu poder e da
sua glória entre as nações, e a subseqüente submissão
voluntária destas ao seu povo, os israelitas, exilados en­
tre elas.
Não se pode traduzir literalmente o hebraico da
primeira declaração do versículo 18. Alguns transferem
a frase as suas obras e os seus pensamentos à última
linha do versículo’ anterior para ler: As suas obras
e os seus pensamentos juntamente chegarão ao fim .
Seguimos a versão da RSV e a SBB. O Senhor declara
que êle ajuntará tôdas as nações e línguas, e elas virão
e verão a sua glória (Cp. Zac. 8:23; Dan. 3:4, 7; 4:1;
6:25). Provàvelmente, se refere à glória visível e sobre­
natural do Senhor no Templo (E z. 43:1-4). Há várias
indicações da influência da profecia de Ezequiel nesta
seção.
E eu porei entre êles um sinal. O Rôlo do Mar Mor­
to diz sinais. A nova idade será iniciada pela presença
do Senhor, e por um sinal miraculoso (Cp. 7:11; 55:13;
49:22; 62:10; Êx. 7:3; 10:2). Enviarei alguns entre os
seus sobreviventes às nações (Cp. 45:2®) para anun­
ciar e proclamar as notícias preciosas da presença, do
poder e da glória do Senhor. A glória do Senhor é um
394 A R. C RAB TREE

poder dinâmico que destrói os inimigos do Senhor e ope­


ra na salvação dos homens de fé . Os lugares menciona­
dos, Tarsis, Pute (em vez de P u l), Tubal e Javã, são
tomados do L ivro de Ezequiel (27:10, 12, 13; 38:1; 38:
2; 39:1). Que tira o arco. O arco é mencionado como
a arma dos lídios em Jer. 46:9. Tarsis é uma cidade
mercantil fenicia, na Espanha (Cp. 2:16; 60:9; Ez.
27:12). Pute e Lude são da África. São mencionados
como povos da África em Gên. 10:6,13; Ez. 27:10; 30:5.
Javã é um têrmo hebraico que significa os gregos, os
ionianos da Ásia Menor, ou da Grécia (E z. 27:13, 19;
Joel 3:6; Zac. 0:13; Dan. 8:21; 10:20). As terras do
mar mais remotas, que nunca ouviram falar da minha
fama. O profeta está fazendo uma distinção entre as
nações vizinhas de Israel que tinham experimentado al­
gumas manifestações do poder do Senhor, como os fi-
listeus, e os povos mais remotos que nunca tinham ouvido
falar do nome do Senhor, A menção dêste espírito mis­
sionário dos sobreviventes é característica da mensagem
desta profecia (Cp. 42:1-7; 49:1-6; 51:4). O espírito
desta passagem é muito evangélico. O próprio Senhor
enviará missionários aos povos que não têm conhecimen­
to do seu poder e da sua glória.
E êles trarão todos os vossos irmãos. As nações
evangelizadas pelas boas novas dos sobreviventes da gló­
ria de Deus^no Templo de Sião trarão os israelitas da
Ááspora para a sua própria terra que há de ser o centro
dls atividades dos povos redimidos do Senhor. Descreve-
sè o modó de viajar, ou de transportação dos povos das
várias partes do mundo: sôbre cavalos, e em carros, e
em liteiras, e sôbre mulos_, e sôbre dromedários. Os ve­
lhos e os novos, os enfermos e os fortes viajarão triunfan­
temente na longa procissão' na marcha para o santo mon­
te dè Jerusalém. Afluirão as nações juntamente com
os israelitas ao Monte Sião de Jerusalém. E todos êles
A PR O FE C IA DE ISAtAS 395

vêm trazendo as suas ofertas de cereais, em va^os pu­


ros, à casa do Senhor.
E dentre êles tomarei alguns para sacerdotes e para
levitas, diz o Senhor. Alguns intérpretes pensam que- a
declaração' indica que o Senhor tomará os ministros do
santuário dentre os israelitas restaurados. Outros pen­
sam que os futuros ministros do Senhor 'nerão escolhi­
dos também entre os gentios convertidos que levam os
israelitas exilados para a sua terra. Alguns pensam que
os gentios são' excluídos destas posições oficiais por 56:
6-7 e 66:6, mas as inferências baseadas nestas passagens
não constituem provas. Mas a passagem inteira fala
com ênfase da nova Idade Messiânica quando não haverá
mais distinção entre as bênçãos e privilégios religiosos dos
israelitas e os gentios. As ofertas que os gentios trazem
à casa do Senhor em vasos puros (v . 20) e a adoração
de tôda a carne (v . 23) indicam bênçãos e privilégios
iguais para os gentios e o povo de Israel.

10. A Perm anência d a N o v a Comunidade Que o Senhor


H á de Criar, 66:22-24

22. Pois como os novos céus e a' nova terra,


que hei de fazer,
durarão diante de mim, diz o 8enhor;
assim durará a vossa posteridade e o vosso nome.
23. E será que de uma lua nova a outra,
e de um sábado a outro,
virá tôda a carne a adorar perante mim,
diz o Senhor.
24. E êles sairão, e verão os cadáveres dos homens que transgre­
diram cantra mim; pois o aeu verme, não morrerá nem o seu
fogo se apagará, e êles serão uma abominarão para tôda a
carne.

Apresenta-se aqui nos versículos 22-23 o maravi­


lhoso clímax do Livro de Isaías. O profeta põe ênfase
na estabilidade e na permanência da nova comunidade
396 A . R. CRABTREE

que o próprio Senhor criará em a Nova Idade. Na sobe­


rania do Senhor, a dignidade do nome e da posteridade
do seu povo permanecerá tão certamente e tão segura­
mente como os novos céus e a nova terra que o Senhor
criará. A permanência do nôvo Israel relaciona-se com
a ordem natural do mundo físico (Cp. 51:8, 11; 60:20-
21:62:7; 65:18-21; Jer. 31:35-36; 33:25-26).
Na história da criação o Senhor descansou o sétimo
dia, de tôda a obra que fizera. Santificou o sétimo dia
como o sábado de Deus, o dia de descanso e de culto ao
Criador (Gên. 2:1-3; tfex. 20:10-11). Assim, a nova
criação estabelece novos motivos de gratidão e louvor ao
Senhor. De uma lua nova a outra. Acontecerá que
quando a lua nova está na lua nova, e quando o sábado
está no sábado, tôda a carne adorará perante o Senhor.
Todos os comentaristas reconhecem que êstes dois ver­
sículos constituem o apogeu não somente dos capítulos
56-66, mas também do livro inteiro de Isaías.
O versículo 24 apresenta uma dura verdade sôbre
os inimigos do Senhor, mas é um fato reconhecido em
tôda parte do livro, e em tôda parte do Velho Testamen­
to. Os apóstatas, os infiéis e os rebeldes sempre resistem
às verdades da revelação divina, mas têm que enfrentar
o julgamento do Verdadeiro Deus Santo e Justo (Cp. Jer.
7:31; Dan. 12:2; Marcos 9:47-49).
> Todaviãfy os versículos 22 e 23 apresentam a conclu-
sfio apropriada dêste grande livro profético' e da eterna
dfperança do povo de Deus.
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