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REVISTA DE DIREITO PENAL REVISTA

DE
Direfor: Prof Heleno C. Fragoso

Secretário: Dr. Nilo Batista

Redação: Trav. Paço, 23 grupos 701/2 - Rio de Janeiro, GB.


DIREITO PENAL
óRGÃO OFICIAL DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS PENAIS DA
Assinaturas:
FACULDADE DE DIREITO CÂNDIDO MENDES
Na Gnanabara: Livraria Cultural da Guanabara Ltda.,

Rua da Assembléia, 38

Diretor: Prof. HELENO C. FRAGOSO


Demais E"ltados:

Editor Borsoi, Rua Francisco Manuel, 51/55, Benfica,

ZC-15 - Rio;"de Janeiro, GB.


N.o 3

JUL. - SET. / 1971

Preço dêste volum~:'Gr$ 20,00


Assinatura anual (4 números) ,Cr$ 72,00
EDITOR BORSOI

1<"'
RufÍt'Inismo e proxenetism,o .. Incompa!ibíÇídade ................... . 88
Casa de prostituição. InéPcta da denunc1a .......................• 88
Casa de prostituição. Locação .................. """." ... " ...... . 88
Miserabilidade. Prova ......................... :; ... " .... "d' . "".. 88
, Corrupção de menor. Inexiste se o menor é pessoa Ja corromP1 a ... . 89
.Sediução. Idade da víth'na .............. ',. :" ............. . -.- ... . 90
Receptação dolosa do mediador e recep~açao culposa do adquzrente.
Compatibilidade ................. ~ ................ " ..... " .. " 91
.Receptação ................ : ............... . ............... _."
, 91
Cheque sem fundos. Tolerâncza ~o credor ....................... . 93 Embora tenha estado aparentemente em elaboração durante muitos
Che ue em garantia de dívida,. Onus d~ p;'o.va ........ ;, ....... :. ~. 93 axmos, é pouco 10 que se sabe s6bre os traballhos preparatórios e o
Che~ue sem fundos. Não há i~en~idade Jundzca entre endosso e emzssao 93 processo de discussão e aprovação do texto do nôvo Código Penal.
Cheque sem fundos. Competencta .........:: : .................. . 93 Iniciamos neste número a publicação de amplo trabalho sôbre o nô.vo
Cheque sem fundos. Exigência de vantagem thc~ha ............. . 94 Código, escrito por quem tomou parte na tarefa e que pode, assim,
P1I'escr-ição. Contage1,n de prazo .. : ............................. . 96 com segurança, esc'larecer fatos e fixwr resp1onsabilidades.
. -
Cril1te COl1111issivo por mmssao. E".nge o dever
' J'urídico de irnpedir o
resultado ................................................ . 96 Incluímos também nesta edição o notável trabalho do prof. HANS
WELZEL sôbrea culpa e os delitos de circulação, o qual constitui umas
Crime contra a honra. Interpelação judicial .. : ............... '-,' '.' 98
Estagiário junto à Defensoria Pública e funcwnmnento no suma1'2O
das melhores contribuições doutrinárias (LO estudo dos crimes culposos.
100 O texto que divulgamos é tradução do prof. NILO BATISTA e contém"
de ctdpa ...... · ...... · .. ····················.·······.···:·.t· acréscimos e alte1"açÕeS que nos foram enviados pelo autor, constituin-
Sentença condenatória que se b1aseia em prova colhzda no tnque1'2 o
policial .................................................. . 100 do, portanto, uma versão revista de sua excelente comunicação ao
Prescricão pel-a pena em concreto ............. : .......... : .. : ... . 101 VIII Congresso Internacional de Direito Penal.
Crime de a,utomóvel. Agravante pela inobservâncw de regra tecmca .. 101 O leitor encontrará também parecer do Min. VICTOR NUNES LEAL
Delito de circulação. Discordância entre a prova testemunhal e a pr07,'(.t sôbre debatida q~testão relativa ao crime de calúnia, no qual revela
per"icial ............................. 'o' •••• •••••••••••••••• 105 o autor a sua fina sensibilidade de jurista" bem como diversos O1ttrOí5
Inquirição de testemumhas por estagiário. Nuhdade ............... . 106 artigos em nossa seção de Comentários e Comunicações. Aqui estão>
Porte de arma e mero transporte ............................. : .. 106 trabalhos de ARION SAYÃü ROMITA sôbre a absolvição sumária na deba-
Citação por edital. Necessidade de esgotar os recursos para 10cp,Z1zar tida lei 4.611; de J. A. CESAR SALGADO. sôbre a reforma do aparelha-.
o réu ................................................... . 106 monto penitendá,nio nl(L Argentina,: de INOCÊNCIO M. COELHO sôbre
Acidente de trânsito. Via preferencial ....... : 'A' • • • • • • • • • • • • • • • • • 107 a obra científica e filosófica do prof. RüBERTO LYRA FILHO e do prof.
Justiça Militar. A correição parcial é med!d:: zdone'a para declanar~se DIOGO. DE FIGUEIREDO. MOREIRA NETO, sôbre o Direito Administrativo
a extinção d.a punibilidade pela prescr1çao ................... . 107 brasileiro da segurança pública.
Denunciação caluniosa e calúnia ................................ . 107
Prova ilegal. Nulidade do processo .................... : ...... : .. . 108 Em nosso próximo número, que completará o nosso primeiro ano
· swmano.
R zto ,. L' e1 4 . 611
" . Assistente do M. P. na fase pol1Czal. dNuhdade 108 de publicação vitoriosa, p~lblicaremos completo índice de tôdas as ma-
Crime político. Audiência de deputados e senadores arrola os como térias dêstes quat1"0 primeiros números, inclusive de nossa, seção ele
testeHzunhas .................................... '/' ........ " 109 jurisprudência, permitindo assim a formação elo volume.

COMENTARIOS E COMUNICAÇÕES H.C.F.


Arion Sayão Romita, Absolvição Sumária no processo dos crimes a
que se refere a Lei 4.611 · .. ·.·········:···:;·.·····Á·····.·· 111
Cesar Salgado, A reforma do aparelhame.nto /emtencwno da rgen~1na 119
Inocêncio M. Coelho, A obra científica e fzlosof1ca de. ~ober~o Lyra I!11~0 127
Dio o de Figueiredo Moreira Neto, Direito AdH1-zmstratwo Braszlezro
gda Segurança Pública ..................................... . 134
DOUTRINA ,,

SUBSÍDIOS PARA A HISTóRIA DO NôVO 'CóDIGO PENAL

HELENO C. FRAGOSO

1. Tendo participado dos trabalhos de reVlsao do anteprojeto


do nôvo Código Penal, na primeira fase das atividades da comissão
revisora, bem como, ràpidamente, na fase final, que antecedeu à pro-
mulgação do Decreto-lei, cremos de nosso dever deixar consignado,
com absoluta fidelidade histórica, como se desenvolveu todo o processo
de elaboração do texto apresentado como definitivo, na parte em que
participamos dêsse trabalho. Trata-se de tarefa extremamente deli-
cada e importante, não só para que haja informação geral sôbre os
trabalhos preparatórios, como também para fixar e ressalvar res-
ponsabilidades.

2. Tendo decidido empreender a reforma de tôda a nossa legis-


lação codificada, o govêrno Jânio Quadros incumbiu ao Min. NELSON
HUNGRIA, em 1961, a elaboração de um anteprojeto de Código Penal
(1). A escolha recaía sôbre consumado mestre na matéria, com larga
experiência no preparo de leis penais, sem dúvida o penalista brasileiro
de maior prestígio, no país e no estrangeiro. Sua participação nos
trabalhos preparatórios do Código de 1940, foi, como se sabe, ex-
cepcional. A êle se deve a Exposição de Motivos assinada por FRAN-
CISCO CAMPOS e seus Comentários são, de longe, a obra mais impor-
tante em nossa matéria desde o aparecimento do código.
A estreita vinculação de NELSON HUNGRIA com o Código Penal
vigente, de que êle foi o grande defensor e guardião, talvez expliquem

(1) Ao prof. ROBERTO LYRA solicitou-se o preparo de um anteprojeto de


Código das Execuções Penais, e ao prof. HÉLIO TORNAGHI, de um anteprojeto
de Código de Processo Penal, trabalhos executados em tempo oportuno pelos
insignes mestres e amplamente divulgados.

7
o seu propósito de preservá-lo tanto quanto possível. O anteprojeto Apresentados os anteprojetos de Código Pellal, de Código de Pro.c'
apresentado ao Govêrno em 1963 manteve bàsicamente a estru~ur.a do cesso Penal e de Código das Execuções Penais, constituiu o govêrno
código em vigor, cujos defeitos mais graves se procurou elImmar. uma comissão revisora, composta dos três autores (NELSON HUNGRIA
sendo poucas as soluções inovadoras de maior alcance. Entre estas: ROBERTO LYRA e HÉLIO TORNAGHI), a qual começou a funcionar e~
merece desde logo destaque a eliminação das medidas de segurança janeiro de 1964, iniciando os seus trabalhos com o anteprojeto de
detentivas para os imputáveis e 'a adoção do sistema vicariante para. Código Penal. Pretendia-se que a mesma comissão revisse os três
os semi-imputáveis (pena ou medida de segurança). projetos, que seriam posteriormente enviados ao Congresso. O pro-
Na parte relativa às penas e à sua aplicação as insuficiências fessor R01?ERTO LYRA, que presidia à comissãQ revisora, opinou no
do 'anteprojeto eram notórias. Mantinha êle os critérios anacrônicos sentido de que os anteprojetos fôssem mandados ao Congresso como
da legislação em vigor, agravando-os pela inspiração rigorista de tôda se achavam, sendo vencido (4). Diante disso, reservou-se para votar
essa parte. Convencido da necessidade de tornar a lei mais severa, apenas em caso de empate.
HUNGRIA propunha a elevação do máximo da pena de reclusão para Já ia longe o trabalho de revisão, concluindo-se o que se referia
40 anos (art. 35, § 1.Q ) , limitando o poder discricionário do juiz na à Parte Geral, quando sobrevieram os acontecimentos políticos de
aplicação das agrav~ntes e atenuantes (art. 55), e elevando as penas março de 1964, surgindo então um nôvo govêrno, de que foi Ministro
cominadas a diversos crimes na Parte Especial. Mantinha-se a plura- da Justiça o eminente senador MILTON CAMPOS.
lidade das penas privativas da liberdade, o sistema de agravantes e Pretendeu-se então dar prosseguimento aos trabalhos, sendo con-
atenuantes obrigatórias, inclusive a reincidência específica e a orien- vocada a comissão revisora anteriormente designada. O prof. ROBERTO
tação do Código Penal vigente quanto às causas de aumento e dimi- LYRA, no entanto, escusou-se, afirmando estar "convencido de que uma
nuição da pena,' na Parte Especial, que, como se sabe, não obedece obra de tanta magnitude científica e de tanta delicadeza técnica não
'a qualquer critério. deve sobrecarregar e desviar, nesta hora, um parlaménto ressentido
O anteproj eto foi publicado pelo govêrno "para receber sugestões", e empraz'ado" (5).
e divulgado através de outras publicações (2). Numerosos trabalhos Em 9 de fevereiro de 1965, o Ministro MILTON CAMPOS decidiu
foram apresentados e nós mesmos realizamos extenso exame crítico' dissolver a anterior comissão revisora e designar outra, composta do
do 'anteproj eto, apresentado em nome da Ordem dos Advogados do Min. NELSON HUNGRIA e dos professôres HÉLIO TORNAGHI, ANÍBAL
Brasil, Seção do Estado da Guanabara (3). BRUNO, bem como do autor do presente (6).
Sob a presidência do Prof. ANÍBAL BRUNO, a comissão entrou à,
funcionar imediatamente, com reuniões regulares, que se prolongaram
(2) A Imprensa Nacional fêz duas edições, sendo a primeira em 1963: por vários meses. Realizaram-se as reuniões em ambiente de grande
e a segunda em 1965. O texto original constava como apêndice das diversas, cordialidade e respeito, sendo incensurável o modo pelo qual se com~
edições do Código Penal feitas pela Saraiva a partir de 1963, tendo sido publi- portou mestre HUNGRIA. Como sabem os que tiveram o privilégio
cado na Revista Bras. Crim. D>ir. Penal, ns. 1 e 2 (abril-junho e julho-
setembro, 1963). de conhecê-lo e de com êle conviver, era HUNG~IA polemista emérito,
(3) Nosso trabalho foi publicado na Rev. Brasileira de Crim. Dir. Penal" dotado de espírito brilhante e rara inteligência, obstinado na defesa
ns. 2, 3 e 4 (A reforma da legislação penal). A mesma revista publicou nume- de suas idéias, como seus escritos tantas vêzes revelam. Chegaram até
rosos outros trabalhos sôbre o anteproj eto, alguns de valor excepcional: THEO- nós as notícias das disputas terríveis havidas na elaboração do código
OOLINDO CASTIGL]lONE, CrÍ1ninosos habituais e por tendência perante o ante-
projeto de Código Penal (n. o 2, jul.-set. 1963); PAULO JOSÉ DA COSTA JR., O pro-
jeto, o código e a estatística (n. o 3, out.-dez. 1963) e O concurso de crimes. no defesa que fêz de seu projeto ante nossa crítica (Em tôrno ao projeto de Códig(Y'
anteprojeto (n. o 4, jan.-mar. 1964); BASILEU GARCIA, Das penas principais e sua Penal, in Rev. Bras. Crim. Dir. Penal, ns. 3, 4 e 5, out.-dez. 1963, jan.-mar.,
aplicação; ALGlDES MUNH'OZ NETO, Érro dIe fato e êrro oh direito no amtevprojeto e abr.-jun. 1965).
de Código Penal e ARNALDO RODRIGUES DUARTE, A pena e a medida de segurança (4) O Decreto n.o 1. 490, de 8/11/62, estabelecia a obrigatoriedade do exame:
no anteprojeto Nelson Hungria, todos no n.o 4 (jan.-mar. 1964); ,EVERARDO LUNA, dos projetos por comissão revisora.
A causalidade na omissão no anteprojeto de Código Penal e Ruy JUN'QUEIRA DE (5) Cf. ROBERTO LYRA, Nôvo Direito Penal, 1971, pág. 30. Solicitou ()'
FREITAS CAMARGO, Os crimes contra a propriedade imaterial, ambos no n.o 6 mestre ao Ministro da Justiça que não se cuidasse de seu anteprojeto: "Em re-
(jul.-set. 1964); J.' A. CESAR SALGADO, A pena no anteprojeto de Código Penar lação ao meu anteprojeto de Código das Execuções Penais, que é uma tentativa
de Nel.son Hungria (n.o 7, out.-dez. 1964); LEONÍDIO RIBEIRO, O crime de infanti- de criação e avanço, dirijo a V. Exa. emocionado apêlo no sentido de deixar sua
cídio e a legislação penal do Brasil (n. o -8, jan.- mar. 1965) e O nôvo Código Penal revisão e seu encaminhamento para oportunidade mais propícia".
e o problema da responsabilidade (n.o 9, abr.-jun. 1965) e RAUL CHAVES, Crimes (6) Cf. Diário Oficial, 10/2/1965, pág. 1664. O prof. HÉLIO TORNAGIlI
contra a Fé Pública (n. o 9, abr.-jun. 1965). NELSON HUNGRIA', embora recolhendo- não participou dos trabalhos de revisão. Nosso nome havia sido proposto pelo
com atenção as críticas, raramente lhes dava resposta. Veja-se, no entanto, .a prof. ROBERTO LYRA para integrar a comissão anterior, tendo sido por ela aprovado .

8 .9
vigente notadamente com o Prof. ROBERTO LYRA, de quem o separa- Estava, já então HUNGRIA, gravemente enfêrmo, vítima de insidiosa
vam fu~das diferenças de orientação doutrinária. O próprio HUNGRIA moléstia que o levaria à morte, em 26 de marçõ.
nos confidenciou certa feita que os trabalhos diflcilmente teriam che- Ponderámos ao mestre que o projeto revisto não estava em con-
gado a têrmo, se VIEIRA BRAGA não tivess~ sido conv?ca~o para ~nte­ dições de se transformar em lei como se achava, lembrando que ficára-
grar a comissão revisora, pois êste aliava a seus notavels dotes mte- mos de realizar uma segunda leitura, bem como que diversas questões
lectuais um espírito cordato e conéiliador. Havia, pois, razão para haviam ficado em aberto. Assinalámos também a necessidade de re·
anteciparmos dificuldades nos trabalhos que cumpria realizar. É, no examinar várias outras questões. Era evidente~porém, o desejo de
entanto, rigorosamente justo consignar que nenhuma queixa pOd:m NELSON HUNGRIA em ver o seu projeto finalmente transformado nó
ter de NELSON HUNGRlf.. os seus companheiros daquele trabalho. Ele nôvo Código Penal. Disse-nos estar convencido. de que não haveria
estêvesempre disposto a receber as críticas e propostas de revisão possibilidade de que isso ocorresse se tivesse de depender deaprovaçno
a seu trabalho de espírito aberto e boa vontade, aceitando-as muitas pelo Congresso. R€:colhendo, porém, as ponderações que fizéramos,
vêzes e apresentando novas fórmulas (7). ,com a bondade e o carinho que sempre nos dispensou, prometeu chamar-
3. Durante vários meses funcionou a Comissão Revisora, tendo nos quando recebesse do Ministério da Justiça os originais do projeto
encerrado o que deveria ser a primeira parte de seus trabalhos em na fOl'ma em que a Comissão Revisora o havia deixado em r965, para
fins de 1965. O projeto revisto deveria ser passado a limpo, distri- que eventualmente o examinássemos em conjunto, convocando em se-
buindo-se cópias aos membros da Comissão, ficando entre êles acertado guida ° Prof. ANÍBAL BRUNO, para que se pronunciasse sôbre as al-
que uma segunda leitura do texto revisto deveria realizar-se. V árias terações acaso introduzidas no texto que se afirmava definitivo.
questões haviam ficado em aberto, e um estudo comparativo deveria G. Faleceu, no entanto, o mestre, sem que nenhuma notícia nos
ser feito quanto às penas cominadas, na Parte Especial. desse. Dias após a sua morte, procurou··nos o secretário da Comiss2.o
Ficamos, assim, os membros da Comissão, aguardando que de nôvo Revisol'u, com os originais do projeto revisto, para dizer que o Ministro
nos convocassem para o prosseguimento do trabalho. Parece, no en- NELSON HUNGRIA, pouco 'antes de falecer, os havia devolvido ao Minis-
tanto, que o govêrno se havia desinteressado do assunto, talvez em tério da Justiça, com a recomendação de que os enviassem a nós para
face dos graves problemas políticos que àquela época o ocupavam. que elabo:tássemos a respectiva Exposição de Motivos, sendo tal incum-
e não mais recebemos qualquer notícia do projeto. NELSON HUNGRIA bência confirmada pelo Ministro da Justiça. Imediatamente esclm~e­
externou , em várias oportunidades, desde então, o seu. desânimo, não cemos ao diligente funcionário que o projeto não estava em condições
mais acreditando que o trabalho realizado pudesse vmgar. de ser promulgado, explicando-lhe o que já antes disséramos ao próprio
4. Com o passar do tempo, as insuficiências e os defeitos do HUNGRIA, e que receberíamos a tarefa honrosa, que expressava a con-
projeto revisto foram-se tornando evidentes a nossos olhos (e segura- fiança do velho mestre, com a condição de um preliminar reexame
mente ao próprio NELSON HUNGRIA). O prof. ANÍBAL BRUNO certa meticuloso do texto. E a isso nos dedicamos, tendo podido verificar
vez nos disse que preferiria desvincular o seu nome do trabalho de que, aos defeitos do original, outros acrescentara o serviço do Minis-
revisão, se o projeto se convertesse em lei na forma em que o havíamos tério da Justiça, com erros graves na transcrição e até com a omissão
deixado. Em verdade, porém, o trabalho não estava concluído, de- de artigos.
vendo-se esperar pela oportunidade de reexaminá-lo, numa segunda Ia longe o nosso trabalho de revisão do texto, quando fomos avisa-
leitura do projeto, como já mencionamos (8). dos, por simples comunicação telefônica,' que estávamos desincumbidos
da tarefa, pois a Exposição de Motivos seria redigida pelo próprio
5. Em janeiro de 1969, recebemos comunicação telefônica de
pessoal do Ministério.
NELSON HUNGRIA, dando conta de que o Ministro da Justiça de então,
o Prof. GAMA E SILVA, o avisara de seu propósito de editar o nôvo 7. Foi, portanto, com surprêsa, que recebemos, em meados do
Código Penal por decreto imediatamente. A Câmara Federal e o Se- ano, ofício a nos convocar para reunião destinada ao exame de algumas
nado achavam-se então em recesso, por fôrça do Ato Institucional n. o 5. propostas finais relativas 'ao texto que se julgava definitivo. O Ministro
da Justiça havia designado o Prof. ALFREDO BUZAID para a coorde-
nação geral da reforma dOEI códigos, e sob presidência dêste realizaram-
(7) Somente em dois pontos insurgiu-se tenazmente HUNGRIA contra a opi- se então algumas reuniões, com os remanescentes das comissões revi-
nião de seus colegas: na questão do crime continuado (pela manutenção do critério
puramente objetivo, contra a maioria, que pretendia abandoná-lo) e na incrimi. soras dos anteprojetos de Código Penal e de Código Penal Militar.
nação do adultério (que se pretendia, contra seu voto, eliminar). Estiveram presentes apenas os professôres Ivo D' AQUINO e BENJAMIN
(8) O projeto revisto está publicado na revista Justitia, ns. 68 e 69. MORAES, pois o Prof. ANÍBAL BRUNO, doente, escusou-se.

10 11'
o Ministério da Justiça havia solicitado a alguns professôres que
se pronunciassemsôbre o projeto revisto (9). Apresentou então O'
Prof. BUZAID várias propostas de alteração do texto revisto, sendo,
algumas muito importantes (sôbre relação de causalidade, imputabili-
dade e êrrO' de direito, por exemplo). Grande parte, no entantO', re- \
feria-se à redação, com emendas quase sempre muito felizes. Havia,
grande pressa em cO'ncluir O' trabalhO', pois anunciava-se a reabertura
do CO'ngresso e o gO'vêrnO' tinha o firme propósito de editar O'S Códigos
pO'r decreto. IssO' não O'bstante, repetimO's aO' PrO'f. BUZAID as pO'n-
derações que várias vêzes fizéramos sôbre O' trabalho da CO'missãO'
Revisora, solicitando que nO's desse oportunidade para prO'pO'r emendas, CULPA E DELITOS DE CIRCULAÇÃO (:f.)
e correções. TendO' em vista a extrema urgência, propusemO's modi-
ficações apenas no que cO'ncerne à Parte Geral, restringindú~nosao Sôbre a Dogmática dos Crimes Culposos
que nos parecia mais importante e com possibilidades de ser aprovadO"
sem profundas alterações sistemáticas. Quarenta e cinco emendas
fO'ram por nós prO'postas, sendo quase tôdas aprovadas. Quanto à Parte HANS WELZEL
Especial, dada 'a urgência, nada se podia reexaminar. A ExposiçãO'
de Motivos foi redigida por nós na Parte Geral e pelo PrO'f. BENJAMIN
. Há ex atam ente trinta anos, ENGISCH, em sua monografia sôbre
MORAES na Parte Especial. ::IntençãO' e negligência, podia referir-se à "relativa raridade das infra-
Pr~nto o trabalho datilografado às pressas para o seguínte des-' ,~ões culposas, apesar da enorme p'ossibilidade de se as praticar" (1).
pacho ministerial, entrou novamente num ponto morto, cO'm a doença .Este quadro sofreu, desde então, radicais transformações. Das 102.000
e depois com o falecimento do presidente COSTA E SILVA e a situação <condenações ocorridas em 1957, o crime eulpos() mais importante _
política complicada que então se criou. Nessa oportunidade (] pro- ,º-dfLlg§<5,e13 corp()rais - ~lcançou, piõ'i-'-'larga:' rmiigem, na Repl1blica
fessor BENJAMIN MORAES reexaminou com mais vagar o projeto, in· Fede:a~ da Alemanha, a CIfra mais elevada entre tôdas as infrações
troduzindo-Ihe modificações, sobretudo na Parte Especial. Nenhuma do CO'~lgO Penal. .i\ quarta parte do total de condenações por crimes
participação tivemos nessa fase do trabalho, nem sabemos quem aqui O'u delItos, pronUnCla?aS em 19~7, em face de disposições do Código
interferiu ou colaborou. O Código foi promulgado pela Junta Militar Penal, re~ere,-se a lesoes corp'Orms culposas. Mas a rrealizeu;ãJo do crime
que governava o país, em 21 de outubro de 1969 (Dec.-Iei n.o 1.004)" culposo ~ao ~ apenas, em tema de delitos de negligência, o que aumen-
devendo entrar em vigor em 1.0 de janeiro de 1970, juntamente com t~u conslderavel;ne?te; a ap:enaÇlã,o de ações culposas apres.enta, tam-
o nôvo Código Penal Militar e o nôvo Código de Processo Penal Mí- bem, clara tendencla ascenclOnal. Sobretudo, certos delitos que eram
litar (10). A nova legislação castrense entrou efetivamente em vigor", antes quase desconhecidO's sã'o os que chamam cada vez mais a atenção
mas o nôvo Código Penal teve prorrogado o período de vacância.,
Embora tenha sido fixada a data de 1.0 de janeiro de 1972 para que
entre em vigor, é pouco provável que isso ocorra, pois se anuncia (*) Tradução de Nilo Batista. O presente trabalho foi apresentado pelo
o envio de projeto de lei ao Congresso com emendas ao texto pro- a~tor ao ,v.III Congresso Internacional de Direito Penal (Lisboa, 1961), na sessão
pleparator1a. d~ Roma, realizada em maio de 1960, atendendo ao tema Os Pro-
mulgado. Isso é, a nosso ver, realmente indispensável, como procura- b~ema.s do Dtr,et.to Penal Moderno com o Defi.emvolvimento de lnfrações N,ão Inten-
remos demonstrar na continuação dêste trabalho. úlo;WtS. O orIgmal f~i publicado pela Juristischen Studiengesellschaft Karlsruhe,
edItado por C. F. Muller, Karlsruhe, 1961. A tradução foi revista pelo Profes-
(9) o Ministério Público de São Paulo chegou a elaborar um nôvo ante'- sor HELENO FRAGOSO, a quem o autor enviou acréscimos e alterações. É oportuno-
projeto, mantendo, bàsicamente o código vigente, nos pontos fundamentais. For,· lembrar que a palavra Fa,hrlüssfu:keit compreende, em alemão, quer a negligência
mulou também sugestões, ouvindo o prof. JosÉ FREDERICO MARQUES. Cf. Justitia, (comportamento culpo.so tn .om~ttendo) quer a imprudência ou imperícia (com-
n. o 67, págs. 361 e seguintes, bem como n. o 68, págs. 358 e 368. p~rtamentos culposos ~n com~ttendo), aspectos afinal casuísticos de uma só situa-
(10) Na breve nota escrita por LUIZ DE MELIJO KUJAWSKI, que precede çao, em. qUe se faz presente a falta de cautela para com atitudes práticas indis-
o anteprojeto elaborado pelo M. P. de São Paulo, a que já aludimos, está dito, pensáv:els à vid~ de relação, essência da conduta culposa. Na presente tradução,
para estarrecimento e espanto geral que "segundo foi revelado em conferência p~ef~rIU-se o termo. culpa, por ser corrente em nossa doutrina e na jurispru-
pública pelo prof. BENJAMIN MORAES FILHO, a publicação do nôvo Código re- dencIa de nossos trIbunais (N. T.).
sultou, por engano, de um rascunho inacabado, que tie:rá revisto e novamente (1) Untersuchugenüber Vorsatz und Fahrliissigkeit im Strafrecht 1930
publicado" (Justitia, n.o 67, pág. 362). pág. 476. ' ,

12 13
. rimes culposos de perigo. Também a êste, nados e especialmente preparados, como na exploração das linhas

I
do legislador, ou seJaI!1 o; ~ ndo do ano de 19:>0, assinalar como uma, férreas. Mas, a circulação moderna de veícu~os a mótor colocand9
respeito ENGISC;a ,podIa, a.a ~ do r'ncípio de que, para os, casoS,
"clfcunstância fel1z" a apllcaçao, Pa 1 SO'Inente as hipóteses de rea-,
rtam a essa epoc , t . ~rir:~~Çiâ~I!~i!ri~~;·~~ai:~~~i~Õ~~~.I~~~1t4;:~t:~~~qi~~~~1~11~~t
de culpa que se repo tí ico (vale dizer, casos em que es eJa, o-·hQ.IA~m .. I1.ªg-ªJ.lgX..l?~:g.J!!'..9.:~~~~ té5~J:l!Ǻ·
.. . .'
lizacão consumada do fato P l d s a julgamento (2). Enquanto, ,.,. Entretanto, assim como o progress'O técmco é irreversível, tam-
Pre;ente um resultado) er~m ev~ o Stl' 0'0 em quase lOdos os casoS,. bém nós não poderíamos, com maiores razões, renunciar a submeter
culpo<:!a so mereCIa ca <=o,
outrora a con du t a ~ d t houvesse ocasionado uma conse- o emprêgo das fôrças técnicas a normas e a regulamentos, e o direito
quando o com);}?rtament,? o au ~:m jurIdicamente tutelado) (3), a penal se faz indispensável a tal efeito. Mesmo admitindo que uma
qüência indeseJ~vel , (le~~,o. a tun~ da' vez mais hoje em dia (d. § 3~6" proporção, mais importante do que se supunha até aqui, de acidentes
exposição a pengo e su ICIen :: "'~e Trânsito Alemã). Na vida socl~l produzidos em razão do emprêgo de fôrçaR técnicas, seja atribui da a
b, C.P.A., §§ .1/ 49 , 0drd~n~f~o ampliaram consideràvelmente a pu:n1,- imperfeições humanas das quais esteja ausente a culpa, ou a defeitos
essas novas flguras e e (4) . puramente técnicos, o papel assumido pela culpa em sentido penal
bilida.de dos comportamenc,?s c<,ulPOS.~ ntes: dos 102.000 crimes culpo- subsiste com sufic.iente importância. Além disso, de um dia para outro,
As r~zões dessa ~volUÇ~~:e~~~~~r~m c~ndenações em 1957, 95.700 inundada a prática judiciária de uma verdadeira màré de compor-
sos d~J;,Jrr]2Q.:alSque t.A ·t Enquanto que os outros casoS; tamentos delituosos, está obrigada a doutrina a consagrar-lhe mais
estãoJigad~i'l.ª,_a,fl.dgllt.~.d~.__ !al:~.._?. de 1955 a 1957, tendência atenção que à época de sua relativa rar.idade. Sempre que a delin-
UEllesoes:corporals cul~oS~S 5~Oan~f~1~~oa)" as lesões derivadas de um qüência aumenta, a criminologia costuma manifestar-se por seus
a regredIr (~assand~o e . ram 'rà idamente. A evolução dos ho- diversos ramos, tais como a etiologia, a sociologia, a psicolog,ia, etc.
acidente de clrculaç~o se eleva " p 'odo ENGISCH tinha cer- Por importantes que sejam, essas investigações não poderiam substi-
micídios cul~osos fOI 1?ar:;lela nO ~.esm~a~~~~de ·doscrímes ....ctÜpOsos, tuir o estudo dogmático dos elementos do crime e seu interrelacio-
lamente razao, ao
-,--"" ...... f atnbmr a ~el a lVa . . '.,.. . d ertem' .perma..
~D. mentaIs humanas que nos ay .. ' namento. Essa elaboraçã'O dogmática não tendediretamente, é certo,
n~ssa epoca, a~ unço",s ... . ' . '5) Maslais funções só exercem a deter o surto dos crimes culposos, mas a evidenciar as bases de
nenteI?~ll~~...~~(:l:J:'c.ªª-qsP~J:':~g?i' ( . limite das fôrças humanas "na- uma apreciação dêsses delitos tão disciplinada e equitativa quanto
plenamente seus saudavel,s e :~ o~ no con"'e üências de ligeiros des- sej a possível, e, simultâneamenté, a proporcionar ao legislador as
tu~ais", porqul~ ?en.tro ~.~st~r~~~~~~a=ente tã~ insignificantes q'}e. não formas de construção das regras adequadas, tarefa indispensável a
cmdos ou neg 1ger:-.s.Ias. sao . d relêvo Quando, pelo contrano, o qualquer outra investigação, de tal maneira que essa contribuição
ocasionam consequenclas p~na~s eA 'elas fôrças da natureza, a iJrlidireta que a investigação dogmática traz para a luta contra a de-
homem multiplica suas proP:I~s forias ~uito mais que dantes, efeitos linqüência não p'ode ser suprida por aquelas.
menor negligência tem ne~essana~er:-d~ aí 'o que torna inquietante o No terreno dogmático há muito o que fazer; e é conveniente esta-
graves e inclusive des~s rosoS. eSI re uladores da ação humana belecer, de um modo geral, o próprio fundamento do sistema de ele-
desenvolvimento dos crImes c';llposos. Os g m funcão. das fôrças mentos dos crimes culpos'os (6). A dogmática penal tradicional se
são concebidos, antes de maJs ~ada, s~~ee~:~ ~ h'omemse serve de orientava, quase exclusivamente, sôbre o modêlo das infrações intep.-
"'Y/Jat'nra,is" do homem. Quan 1o, m~er as suas' os reguladores de sua cionais. A partir delas se desenvolveu a teoria do tipo e da antijU);i-
fôrças que ultrapassam amp amen e utilidad~ e segurança. As coisas 1 dicidade. A negligência não intervinha, neste sistema. a não ser como
ação já não fu~cionam com ao :nesm~uma é < oca em ~que o emprêgo .de .~ "forma de "culpa"-ê"'so era trataaa na mterven aJo " a " cuI "
a. A 1'(]'"
ela
se passavam dlferente~entte c,mt'~itado a p alguns indivíduos se1ec~'O­ I q~-" er·-""" . .~.. . e sa manelra e ve a de ue d"s ue
fôrças "sobrehumanas es ava 1 \ u en a oca um bem 'ur'dica
, i A se ato é constitutivo da conduta 've, deduzi do-se " or
indício" sua an , . CI a 7. Vencidas essas c'Omprovações, tôdas
-(z~GISCH, ob. cit:, pág. 297. ática de então via no resultado o
as oras m agaçoes estinadas a verificar se o autor seria efetiva-
(3) Esclarece·se aSSIm porque a dogm . d em 1952 escrevia
t penal mais importante do fato culposo, como alll a
1
eemen.o' ' 4a d ' 45)
MEZQER (St'udienbueh, I, : e., pago ,', em 1957 25.000 condenações sõ~
(4) A estatística criminal federal ln dIca
(6) Sôbre a dogmática dos delitos de omJssao e.ulposos, cf. a monografia
mente p~la infraçã o do § 316, b. A d' d~s tendênc'as voluntària- de ARMIN KAUFMANN, Die DO'gl1~atik der Unterlass'LLngs-delikte, 1959 .
. (4) ~ ENGISCH, ob. cit., pág. 475; ace1:'ca lSsoJ.~.eccn~C;eJlt·Gr;)ente no contrôle (7) Cf. também neste sentido BGH 7, pág. 114; Bay ObLG in VRS 6,
t" a exe"'ce1f'~·se
.1;. J. ,-,J'.,
,.) l -

mente adquir!das mas que c~~ 1l1~~:;0nli"h!~~t \md Schuld, ZStW, 60, pág~.. 470 pág. 41. É a "noção causal da ação" que expus em meu Strafrecht, 11.a ed.•
de nGSSES açoes, ci. meu .ar l",~ S 8, e em meu Neuen Bild eles Strajrechtssystcl1'LS, 4.a ed., § 1.
e segs., e mais adiantü págs. 30 e segs.
15
14
. ~e, na apreciação dêste. caso, se aplica o sistema de noções tradi ,.
jffiente responsável por seu "ato antijurídico" se processavam no d0- ClOnaIs! A, por um ato voluntário (o ato de dirigir um automó el)-
}Ilínio da culpa. produzIU uI? dap? a um bem proteg.ido (iesões- corporars em B) ';,eu
Se- se admitem êsses elementos fundamentais, e se sôbre a base ato. ~ra: pOIS, tIpICO, e, na ausência de uma justificativa igual~ente

I
da noção habitual de culpa - pela qual "se entende por culpa as antiJundICO; resta apeAnas indagar se êste ato estava im'pregnado d
lelaçges -p~Jquicas entre o agente e seu ato,. das quais result~ q~e tàl
i

ato lhe àevâ ser reprovado" (8) - se examma a abundante Junspru-


Aência gerada, nos últimos anos, por crimes culposos relativos a aci-
culpa, ou, em _outros termos, se êste ato típico e antijurídiC'o admitO e
uma reprovaçao a seu autor .. A doutrina clássica, negando a presen
de culpa neste caso, consegUIa ao menos evitar um castig
1: '
A ç
,dentes -ae
lrânsito (9), comprova-se com perplexidade que, na maior um ato típico e antijurídico.. o a por
parte dessás _clecisões, ou pel'O menos nas mais importantes, são trata- . . , Ipntretanto, essa apreciação examina realmente os caracteres
.dos problemas que não se inserem neste sistema de noções, mas que, JundIcos do ato? A, que manteve estritamente sua direita nã t
pelo cOlitrJrÍü, escapam decididamente por entre suas malhas. ~: corretam ente, em plena conformidade com as regras de ! I o ~ uou
rovação de Ul!LJlto voluntário que tenha provocado um dano a um conseqüentemente,
d - de forma legítima'" e B que "fechou" a CIrcu
curvaaçao, e,
para

t
bem- pr-õteg1d9 faz-se evidente em tôdas essas decisões, o que intr"0Q.u,z a esquer a, nao se c'Omportou contràriamente às regras de ci I -
e portanto~ de, ~orma_ ile~ítima? Se se quiser considerar que ~u a~~~~ .
·t~':~-;X~:;:f/i~~li~riO:Oo~~~~~tin~~~~~rdaa~ a;~m:O-mop;r~r:~~~t~Q:~= d~ ~orma. llegülma tao somente por haver, através de um ato volun-
. iderado: Omlyle'o de tais decisões contém considerações que se éx- tamo,
. leSIOnadol' um
.d dbem protegIdo
,. " êle deveria abster-se d e d'" IrIgIr
pr-essa-m---cônstaIltemente em fórmulas do seguinte teor: o usuár.io da pOIS q?e. as ve OCI a: es pro~rlas dos veIculos automotores conduze~
via (::tliJQJ:J;J.O~i1ista ou pedestre) está obrigado a ... ; não está obri- , necessanamente. a nscos m~lOres. D~d~ que a circulação elas via '

I
gado a ... ; tem direito de ... ; deve poder contar com ... ; deslocou-se €o~ suas velocIdades. relatIvamente elevadas; é. autorizad~ pelodt
:corretàmeilte, eO]lforme ou não às regras de circulação; sua maneira ;relio,. ~l!..~:!&._gll~se;obs~I':yem. deter~inada§.r!'lgmª.de comporta-
me;nJo,' e ISto apesar. d.O I. .n. e~?t~v. . . .e.J. . . . . a.çr._._.e.'sc.lmo....n. osr.is. co.sd~s_s.ª_c.Ji~uíação, .
.de dirigir não podia merecer reparo, etc.
Ora, tais- comprovações nada têm a ver com as "relaçÇies psíqui- quando pre~ente a_ ~!'Y_::l,p_cIª_d~s menclOn9-das.x~gr.as, e prêdsâ-
,cas entre '~õ--agente e seu ato". Tampouco emergemdõ· domínio da men!e po~ 1st?" n~()_pod~r~a_~~!. ~legítim;;t" ainda que se consumem
]glP_á~ilidade-,assim concebida, nem7conseqüentemente, da culpa sbilCto , os nSCOSI?evIta,:e:~s. U. . .ffi ª.
..... dastaref9-S .do direito . é dizer ao cidadão
_~ enquanto se considere esta comollEl-ª-_jorma de "Ç..l1lP-a", se- 'Illg-<I~:!e lhe e permItrQ.~ fazer. Enquanto a ação do cidadão se situêri'Üs
gundo a doutrina tm_ÇLiciQIl..al. Onde as colocar, então, se se pretende , ImItes dessa. permIS~a?, não pode ser ilegítima .
.que a prõvoc-âç[õ·-de um dano por um ato voluntário configura a con- A .doutrma tradICIOnal não conseguiu reservar, entre os elementos
duta típica e .sua antijuridicidade? Essa questão não seria tão pre- dos CrImes cu.lpos'os,. um. lugar para essa permissão: e~a não deve
-mente se, -nas considerações mencionadas, se tratasse com elementos segun?o ~e. ~flrma, mcluJlr-se n~qll~~.ão da antijuJ:'idiç(acte, já quJ
do crime de pouca importânc\ia, .00cwsiomaÍ8. Entretanto, está longe de ka antIJundIcldade do ato resulta da_yôluntária---- ão dodaIlO
e
llI"~Gciê-ªJ;rLente ...a..em
_m... a. .saber
i..o...r...p..a.se.() usuário
. . ss..a.s.... decda
..i.S. õ.via,
.es. . , . '.0..em l.~:! !-.
......SUa
O.'b.. sli11.ação iq~
..ÇQu!::r:et:;t,
•.e~de 3ue nao s.e es!eJa la~ e . e uma as causas especiaIs . JUS-

I
,se..r....assim
... ' •. N r. t.e. d.e .:pr a_. }:f:!}._.tr(J1.J
.•_.e...s. tIflcaçao, ~m cUJo numero ~ao fIgura 'O cuidado objetivo considerado
-tlnha ou não direito a praticar o ato em @estão, ª'_q:t;!ELcPillPQrtamento ~a e.x~cudçao dlo ato; f'Jª pro P~, ...J3.egundo.,....s..e..._ª:fiJ:'111ª, ingressar no •
estava ou ·não õ15rigãêr(};-~º-ill~o'q1iêfiiihiou- J1ã~ __ ~:EE~it.º-_ª~_~-º~tar, ommIO a cu :r>ª,que compreen . -eu
- . sÍ uicas re o autor·
.etc:"Tra:ta::sedoconteúdo e da delimitação do "cuidado objetivo"que e seu a o. 'Ollseque:r: emeIl_e,_IlAº-_~.~is!e aqui, no sistema tralciõ'
.devia ser pôstono ato, e também da verif,icação ou não dêsse cuidado", de etefheht~s. dos CrI:n~s culposps, Jugar'·para:=a-jiermíSsã<Lde_::;Lãzer. ,
Se, portanto,êsses elementos não surgem do domínio da culpa, A doutrma tradICIOnal percebeu, ocasionalmente êste problema
. .l.'0nde devemsereolocados? Para esclarecer êste p'onto, examinemos um EN9I~,CH, um de s~us partidários, assinalou a "dific~ldade" e "hesi~
,caso simples, que ocorre diàriamente: os automóveis de A e B colid'~m taçao dessa doutr:na frente ao cuidado 'objetivo (10) : por um lado
num cruzamento duvidoso, vindo a ferir-se B. Para A, tratava-se de se encontra a teo':Ia da c?ndição causal, que leva a considerar todo
fuma curva para a direita, e ao conduzir, êle se mantivera à direita da comportamento nao especIalmente justificado como típico desde o
. pista. Para B, tratava-se de uma curVa para a esquerda, curva por momento em que êle ocasione um resultado (11); por out~o lado se
i ;êle "fechada", -mano'bra que o lançou sôbre o trajeto de A.

(8) SCHONKE-SCHRODER, Ko=mentar zum Str.afrecht, 15.


ed., pág. 13.
a · (10) ENGISCH, oh. cit., págs. 2'76 e segs.
, , . (11) Isto'e va'l'd -,
1 o nao so para a ,teorIa
, ' da condição causal em sentido
(9) Cf. -BGli 7, pág. 114: "A conduta do acusado era antijurídica,
,ausência de uma _causa de justificação".
na]J
f
. estrIto, como també~ para tôda a teoria causal da ação, fundamento' da doutrina

17
16
encontra a culpa definida como ignorância ilegItimamente não evi- 'mas apen~s pl1ovIOca,do de uma determinada maneira (isto é por um"-
tada' mas entre essas duas categorias se sitúa uma terceira, multo ato conSCIente
, , ' de vontade)" '" " (16) Se tal noça"o d e açao " C011stltm
" . a ')
impo~tante, que surge imediatamente quando se está na presença, p'Or base a:a ceona da, aça'O bpl-ca e do injusto, cousiderêJ.119S em n
um lado, de uma relação condicional, e por outro, de uma capa.cidade e~emplo, que a a,ção de A é ~í~i~a e antijurídica, havendo 'A, po/~~
de discernimento ou de um conhecimen1:Jo, que carecem contudo de aeo ,~e vont~?e, 1.0 ,f::Ü~ de ~lnglr o automóvel), pr,ovocn.do as lesões
cuidado objetivo. em B. , . O cuwaao
d "t" Ob]etlVo na:o pode . , desempenhar qualquer pa pc1 nos,
Essas indicações demonstram como a verdadeira natureza do d. 0?'lIUlOS ~ açao , lplca e do l,nJUStO, sob pena de incorporar-se à,
cuidado objetivo devia impor-se à doutrina tradicional. Dessa forma, IdeIa de açao precIsamente aquüo que a doutrina tradicI'onal b'
'd'lca1m<:,nt
la" eI exc" mr: as modahda,des particulares da realização USCOUda'
já em EXNER (12), KITZINGER (13) e ENGISCH (14), se observam expo-
sições que sublinham que os problemas colocados pelo cuidado obj etivo aç.ao, ,e nao apenas .o fato de que essa ação tenha um resulta;,do detpr-
se referiam à antijuridicidade do ato. Não obstante, o próprio ENGIS,CH, mmado. Com o cUIdado objetivo, o valor (ou o desval'Or) d ~-,
que se inclinava de modo decidido no sentido do cuidado objetivo, assume o -centro da teoria do injusto em tema de crimes . aI' a?~{)'
acreditava que poderia deixar sem resposta a questão. Êle considerava , p asso que o desvalor
a'o 1 d -'
,0 ,resultado (ofensa a um bem j u:rldicam "nt '
Ccl posos

que não havia nenhum perigo em falar "habitualmente", em relação t~tel~do) .se situa na. ~enferia (onde, como já o veremos, sua fu~ i>~
direta com a noção de culpa stricto sensu (concebida como forma de n,a~ e maIS qu~. resh? ~lVa, e não constitu ti va do limite inicial do f~to
culpa), da não manifestação do cuidado necessário (15). tlPICO e da a,ntIJundlcldade)
· 1.L • E com o valor 'ou dcsvalo" . d a acarO " es t a
se convert e. 19ua men~e
.J.

Se essas tentativas, afinal, não obtiveram êxito na doutrina' tra- . em centro da condut' . a tl'pl'ca no s cnmes ," cu- 1
dicional, iss'o se deve a causas mais profundas: a:.,JJQçJ;í,Qº~ação e pos~s; :?alS precIsamente, a ação, naquilo que suas modalidades de

~U~l.·y. ~
reallzaçao possuem de particular e não apenas em seu '1 c, .
iP.".J.·ust.o,. fundada.posslbJhda,<ltL,deadmlbr
exc. a..me...nt..e.... '8...Ô. . .b.r. e._'." . . r. es. d f re aClOnamel1i:'O
o u.terceIro
ltad. . O! naoelemento
. d. á.. a essa
da d.O...lJ):::
u.'.':" . '.!. '

{rina nenhuma e "causa e e e1 LO com um resultado. Para saber-se se A . "


I.:!:ração, ligado à idéia de, cuidado objetiv\? A observação de ENGISCH
1esoes de B mo i;"nto ,
, ~
\J !lma acao
L
-
1:
t""
t U1'idwa será nece~"an aven~'"
provocou a.,
..
acima menCÍ'onada a propósito do papel desempenhado pela teoria da 'TI noI "-- a! ades na aé,:{W e A, e nao
-,.- enas
Q
'v
PIlO • d
a em rImelro
;- .
~ anO St _~o .8;.~i:1O (qua quer at5l vo y,lltário t causOl1 as lesões d~ B.
00

condição causal para a caracterização típica e para a antijuridicidade


do ato, segundo a doutrina tradicional, consigna já essa causa mais ~"na~c? amoe~ A, na cOlrsao, tIvesse sido IeSTonaão, o carátpr
profunda. A teoria tradicional do delito repousa sôbre a estrita sepa-', ~ntJJlll~n~lc~ da asao ,de B dependeria, decisivamente, das moda1idad~s
ração entre um elemento 'Objetivo e externo (causal) e um elemento 1 ( a ar;aiO . e ,e nao ~o_o fato d~ que A tenha sofrido lesões. Dêste modo
subjetivo e psicológico do ato. O primeiro domina o campo da ação o ~ssenclal das de,cISoe,s. ,relatIvas aos casos de trânsito se refe'I'~';'
e da antijuridicidade; o segundo, o da culpa. Para o primeiro se deu açoes concretas cU1np'li.,úhs pelo acu"ado e às a - l ~- as
cum,p1 ;do A f'ormuIa segum
n . t'e ~ t "'d' , d ·'floes qlW (; evcna ter-
"
lIma noção d.e ação "que só exige um vínculo de causalid;ade entre a , t· "
d ! •
. , ex raI.a e uma sentença e car"cte-
vontade e o ato, e que subtrái totalmente à questão da culpa o cionteúdlCY rIS lca essa maneIra de ver' "A t d d '. '''''
p'Or tempo suficiento '. n es .e e~vlar, o acusado se deteve
,dessa vontade; conseqüentemente, uma noção na qual a ação é um .
{ que mais deveria ter feito" (17) v, e exammou a sltuacao do tr' " A

. afego. N ao se ve
movimento corpóreo nã:o estruturado de uma determinada maneira,
. A idéia de que a observância ou inobservância do flul'dad b'
• t IVO se refere a um bI d'" . v o o ]e-
ação do agente f~o . ema e JUr'lodt~tdade ou ántiiuricididaíd~ da

l
-tradicional. Segundo a doutrina tradicional, todo comportamento gerador de um S? _a lIxpa cada vez mals nas decisões ronunc' d
Pojr nOE",sa.,; JUnsdlJoes sobre os assuntos relativos à circu1acão d:ave::~
C< N' ':
:. resultado, quer seja a provocação dêste resultado entendida no sentido da t~oria'
da equivalência, quer seja no sentido da teoria da causalidade adeqJ;lada, é típico CU.os. ssa evoluçao começou or d' t' - "
.e antijurídico se não se encontra especialmente justificado. tamento b' t· r:
, uma IS mçao dara entre 'o compor-
1

(12) F-ahrlassigikeit, 1910, pág. 193.


(13) Juristische Aphorisme'n, págs. 34/35. 'F~i sobr~tl1~ol~a~~~~~::~~~~ ;~ere:~a~á~~aCsirdcueclal'SÇo~e,ose.a ~UtlJ?a
essa di t· - f 1nS1S lU so re
(!b8 ).
riores . samç~o p~ra ~z~-la penetrar no espírito das jurisdições infe-
A' , - ,
(14) Ob. cit., pág. 278.
(15) Ob. cit., pág. 346. Essa é a razão pela qual, na doutrina tradicional,. . CamaIa Cnmmal, reza uma dessas decisões, não distinguiu
não teve ressonância a idéia de que aquilo que respeita ao cuidado objetivo seja
questão de antijuridicidade. Inclusive nos casos específicos de risco permitido é
dito prudentemente que essa exposição a perigo não está "proibida" , que ações
(16) RADn"lUcH. Der Ha,"dlw'gsbe ri!!' ,
dêste gênero não poderiam "ser tomadas como fundamento de uma responsabi- !rechtssysfJ::'m 'ln semer Bed:rutung !iir das Stra-
( , 1904 , pago
' 130'. , , [J
lidade pelo fato culposo", que não se poderia admitir culpa senão face a uma
negligência do cuidado necessário na execução individual. Assim MEZGER, Lehrbuch,
pág. 358, diversamente, Studienbuch I (14. a ed.), § 66; cf. também VON HIPPEL, ,
pá.g, Ai.
7
OLG Ha1n1n, in VRS 7, pág. 226; d. também OLG Celle, in VRS 14,

Lehrbuch II, págs. 361/2; BINDING, Normen IV, pág. 446. (18) AEsim, por exemplo, LG Hannove1', in VRS 4 ,pág. 22.

18 19
. . t violações objetivas das regras da
J com SufICIente clarez~ en r~. ~vos essenciais para a apreciação da ev.idencia a insuficiência dessa teoria. Desde que. 'O núc1e~da ilicitude
,circulaçã'O e 'Os eleme~ o\~~ Je I o~tra passagem, só deveria ser res- d'OS delitos de negligência nã'O reside na iCausação de um resultad'O,
culpa (~9) ; um acusa o, e ~e e:tamento fôsse (objetivamente) con-
}l'OnSablhzado quando. se~ c_mp (subjetivamente) reprovável e repre-
trári'O às regras de ~I~CU ~çao e eus déveres vale dizer, culposo; a
.~entat~vo d~ l!-ma m raça'O a ~ c'Om 'Ortam~nt'O, é uma questãJo ~re­
I
mas em uma açÔJo incorreta, 'O que importará essencialmente é 'O c'On-
creto cumprimento desta ação, a 'Orientaçã'O dada aos mei'os da ação
pelo comando sistemático da v'Ontade: "O acusad'O fechott para a es-
querda numa curva duvid'Osa, na qual era de esperar-se a tod'O m'O-
ment'O a apar.ição de veícul'Os dirigindo-se em sentido inverso". "Atra-
mfraça'O obJettva aos deveres, n A Pt· de 1953 uma sentença: cIvel

~:~:;r:~~~;~~U~~1 ~~~:e~!IO )de:~~~~~e~~j:~~:~~~t~;:e~Sfd:d!~ ~~


vessou 'O cruzament '. ada". Antes de desviar, ae'-
e-se por empo suficiente para examinar a situaçã'O". É em têrmos
.acusad'O haVia sld'O ltctta p'O!'qu.. u e com a sentença das dêste teor que se expressam as comprovações de fat'Os, a partir das
ci~culaçã;'O (~1).' Esta .âvoluJa'Os~t~~~ ~rfb:nal Federal (BGH) de quais se investigará a antijuridicidade. Uma teoria da açã'O a cuj'Os

~~~~;; (~~)e:Is,,~e~i~~i:~ v,i~enJ{l~~t:d~~~n~r~ir;~~Ç:~ale s:e~~v~:


'Olh'Os ' O único critério, para a n'Oção de açã'O, seja o fato de que um
at'O voluntário (vale dizer, "um com ortament'O ual ~wr (!)") tenha
rig'Os, e a'O reglflar p'Ormen~!I~a a dessa circulaçã'O, expressa c'Om iss.'O provo c 'n desconhece não só que tôda ãÇãõ
comp'Ortar aqueles que ~ar IClpam regras se c'Ol'oca nas lindes d'O dI- representa uma unidade de element'Os Dbjetivos e sUbje.tiVOs, 'Ou seja,)
que uma. iC'Ondl!-ta, relspelt'Osa desmsap~rtament'O t'Otalmente respeit'Os'O d'Os um comando de um fato exteri'Or pela vontade, com'O também exdui
da noção de ação os elementos precisamente mais importantes para a
re it'O. É :madmIssIve que . 'b'um
- c'O das regras de Clrculaça'O
. - est eJa,. na-'O
apreciaçã'O da antijuridicidade (24).
imperatIv'Os e das prOl. I~'Oes d valor negativo da antijuridicidade.
'Obstante, dafetad? P~'O ~~:z~l c~mp'Ortament'O nã'O c'Onstitui, neste sen- É por iss'o que a teoria da ação causal nã'O possui c'Ondições de
.~ result~ 'O 'OCB:s~'Ona 'O ara a atribuiçã'O d'O caráter ilegítim'O, na acep- assinalar as características da açã'O sôbre as quais se poderia fun-
ti_do, raz~? suf;c~entâ p Códig'O Civil Alemã'O sôbre as ações ilegítimas,- dar a procura da antijuridicidade, determinante para a culpa. Resi-
~~~ !~~ ;:i~~~~~sde~iConsiderar a açã:? ~e~ma que caus'Ou ~:e~~~~~~~ , de aí, também, a razã'O da dificuldade que ela experimenta para dar'
a'O cuidado objetivo um lugar adequad'O na estrutura da infraçã'O~,
C'Onvém igualmente assinalar, em prmcIpI'O, que n o cas'O, s regras de Inversamente, é quase incompreensível que se repr'Oche c'Onstante-
,. d d via férrea c'Onf 'Orme a
tament'O de usuarlO a rua <:u a encontram'Os diante de uma lesão mente a te'Oria finalista da ação por nã'O possuir condições de enfren-
circulaçã'O (regulamentos), na'O pos C" 1 d BGH declarou em tar a ação culposa. Só se explica tal reprimenda se se c'Onsidera que
. . 'd' "T' bém a 4 aCamara nmma 'O
a.ntIJun Ica. am . com ortament'O que se mantém nos aquêles que a formulam perdem de vista que "'O element'O penalmen-
fi~~:~?~od~rr~~i~i~9g~, c~~;~a~~a est~elecido ,P~~m~~::t~ic1:O ;d~~~~~= '. te essencial" (ou sej a, 'O elemento ilícito decisivo) d'O delit'O culpos'o
nã'O está n'O resultado pr'Ovocado, mas na aç.ão iniCorreta. Nã'O basta
çã'O nã'O está apenas JustifIcado, senao que e . 1 - objetiva·
C{ü~ntemente, nã'O poderia ser considerad'O como uma VIO açao ~ c'onferir a'Os elementos esquecidos n'O plano da açã'O um papel n'O pla-

das ~~I:;'O ~~~i~~~a~!~~~:{;Çã'O completa da teoria dos c!"i~es iCulp'Oi


s'Os deve ac'Ompanhar a evolução que se acaba.de expor. Na~'O~I~::IV~e
1 (24) A seguinte passagem de SCHRODER, in SCHÕNKE-SCHÔDER, Strafgesetz-
buch, 15. a ed., pág. 18, é característica a êsse respeito: "Só tem relevância jurí-
c'Ontinuar vend'O na "n;g~:cê:s~t:~'O nrae~r!~IS'O q;:'O~~m~ d'Os crimes dica o elemento causal que é objeto de apreciação jurídica independentemente de
~~iP~~o;'O:~o~~d~'slaods'O'n~veis da estrutura d'O delito,.?u seja, nos do- qualquer tendência final; a condição exigida é a existência de um ato de von-
tade". É conveniente analisar cada uma dessas proposições para descobrir o
mí~i'Os da tipicidade, da antijuridicidade e da iCulpabIlIdade, bem como elemento essencial dos crimes culposos: o elemento causal (a provocação do resul-
na esfera 'Ont'Ológica da ~çã'O que ;'O~ Pdreced~.
tado) não possui relevância jurídica mais que a título secundário, permitindo
"dificuldade"expe- apenas excluir as ações culposas sem relêvo para a punibilidade. Não basta que
A r'Opósit'O d'O que e do d'OmmlO a aça'O, a . - 1 um ato de vontade qualquer tenha sido executado: o decisivo é saber de que ato
rimentia.a em relação a'O cuidado objetivo pela teona da açao causa de vontade se trata. Juridicamente só importa "a ação com sua tendência
final": o fato de fechar num cruzamento duvidoso, de atravessar um cruza··
mento a velocidade exagerada, de deter seu veículo e examinar a situação. etc.
(19) VRS 4, pág. 535. Ê':stes atas fina~~s constituem a base da apreciação jurídica; a questão é saber se,
na situação concreta do caso, foram êles "apropriados", "corretos", "prudentes"
(20) VRS 8, pág. 64 . . ' 107
(21) VRS 5, pág. 586; Cf. também BGH, in VRS 11, pago . e em que medida se afastaram de mp comportamento adequado (em relação ao'
qual dAve ser verificado. no phmo da culpabilidade. se o agente tinha sabido de'
(22) BGH, Civil. 24 ,pág. 21. seu afa,stamento da conduta adequada, e se o teria podido evitar).
(23) VRS 14, pág. 31.

20 .21:
timo. Em tema de cr,imes culposos, o legislador não descreve a ação
.,' " .. , e l"C'u'" e, com tal proéedírt1énto~ delitu,osa em têrmos concretos. Igualmente, as' definiçõês da conduta
ho da cuipabill.dade: êste hf.O e S ~ 46' 1,

I
, in,cervenção assaz tardIa. . , . típica dos crimes culposos são definições "abertas", ou - como tam-
teriaml,um~., L o cornportamento que deve servir como cnteno para bém poderíamos dizer - definições "a serem completadas", para as
A em,,(llssd , eI"et'.~va "ç"o a'o autor vale diz,er, o compor. tamento
O
quais é o juiz quem deverá determinar os caracteres particulares da
~ ,a proclaca
.. v
o a · ' às1 regras,
' . ' 'f'
'" "" "
apropriado), deve ser tamb'e~ uma 'açáo punível. ,
"eonco (con orme ,,' , t 1 ,. "O cauteloso devena man-/ Süua-se aí aquilo que constitui a especial dificuldade dos crimes
-ação final, ou a ori1lssao ue uma. a açao.. " o ' • f" n-
• " . ,';~ 't" "Deveria reduzIr sua velOCldu(Á<:o, usar arOlS co culposos. Enquanto que, para outros fatos delituosQs, suficientemente
ter sua uuel a . • ,. ,,,,,.., :\,,:t' ntar com ." def,inidos ou "fe,chados", a realização do fato previsto pela lei implica
, '" t " 0" pe''O contraI'1o' . 1 mna c IreI o ue co .' ' .
venlcnteS, e 'c. li, 1 , ' . • . 1 1 '; C 1\0 cc'rota 'ocasião o caráter antijurídico dessa realização, de forma que basta ao juiz
' t ...."'do o 'TrIbunal Supenor Estaaua ae e,,>c, '
. es .e . seLlLI' " enrença que confirmava deClsao
N ' - menor.,
. 1" ,-' . "O J'uiz dO) comprovar a realização do fato preVIsto em lei para concluir por sua
~~:~lS~,~~e €~n~Pl'~var e estabelecer ,a.s mGd:idAa,s qne p1'eC1,S,a,1nente es,: ilegitimidade, deve o juiz, diante das definições abertas dos crimes
ta,va ObTigad,o a, -t011tWr o wutlor i1wrimÍlu:uLo p~ra E::Vltar o resu~~ad~ culposas, assumir parte do papel do legislador, vale dizer, deve de-
• (25). Tudo ísso não se poderia compr~~l'lder a .L?:.~e ~m conc~1 ~T~ terminar a própria ação delituosa, relegada à imprecisão pela def,i-
a ão segundo o qual ela sel'Ía pr~yocaç~o }'OlUmUI}a üe uma l~,~cn ,!_ niçiio legal. O principal r'oblell'ia ue a resentam os ' cul o-
ç ,_ " , . '. ex"rl'io" "erão sellle'1.W a hase ue l.tl11 conceno s~ s2§. não RP Ca,OIra. ;uonanto, no tano da cu a, e sÜn no da ;1;.4>0, e
cacao 110 n1UYlnO ' C0L, " ,> ~."
• d"" , vontade para mai~ especiah;l1ente, U.iJ rlel"e,:rmluoçãa. d.a conduta .tí~ca. Ressurge
o'undo o qual a ação seja uma in~ervençao lngwa ua '
rnfluenciar o aconLecimento exteI'lOr.. .' t 't t aqm o LJaralehsmo com 'Os cnmes comlSSlVOS por omlssao; em relação
'0 "b.lnma da ti ide' ' c . mes culposos esta es reI amen e aos quais deve o juiz desempenhar a mesma função integrativa da
. ro, v , _ o' _ " o"ao causa da definiçáo do delito, determinado a (Jutegoriu dos a,utorres. Da mesma
liq"do "O ' rO.ema da aca . um deuva o oU to. n '-",,:, -,
b.~"' CQl,t~v1·a\,,",./~,'Z
arao <,',...'.
a. ("U'l"iN1,
.l'-~'"
tl"1'1i ci.onal como nota com razao ~NGISGH,
~~~ ~ lt d forma que é necessário ao juiz, em face de crimes comissivos por
,,~o consideraT CJr1.Hlr.:~uer comp'Ortamen~o g.u.e condwlOne t~ ~e~~l Q:~
t,.\j I!:- . , • ""
omissão, um critério para sua definição complementar da categoria
desde (lU'? !:üío esteja especialmente Jus'~lflcado, como IP~CO ti dos autores - critér.io que é proporcionado pela "situaçã:o de garan-
uma tal definição, que não menciona maIS que ~ 'pro,:?c~açao e um tidor"-, faz-se também necessário um ,critério para os crimes cul-
res1..ütr,do por ~lm compmtamento qualque~' ( !), ,e. lJ;S~l.llClf~.t\,e con- posos, que lhe permita preencher a lacuna da definição legal do fato
duz ao" efeitos e dificuldades acima descntos, e mutll ~ut lU
bretud; depois das colo.cações f,citas. Por outr,.? lado;. e ora (e. u-
'f' ~?­ típico. Tal critério lhe é oferecido pelo § 276 do Código Penal Ale-
mão, segundo o qual a~a~.~ã~o~c~u~l~~o~o~sa~e~'~a~u~,~~~~~~~~~~~~~
'(j mo a dpfinicào lega,l dos C1'lmes culposos nao re~al, regularmente, "o cuidado ne rIO oe
Vl .~ qC··:::b'.e ~o fato da provocacão do resultado, deIxando, em troca, "situaçao e garantidor" para os crimes comissivos por omissão o
senao 80,'~" bl ge- " cm'd.a do a observar-se nas relações com os demais" representa, para'
a acão do autor cm il1determin~çao. Coloca-se aqm u:n pro ema
J _ "

ral "'da definição dos fatos deUtuosos, que a~e~a em ~l ,~nes:\.a d~~: os crnnes culposos, o ponto de referência que serve ao juiz para a de-
trina tradicional da definição da condt~c,a tIP1cg. fI"-· l~e1~eg~l J;ofa~~ terminação do fato típico. Tôda ação que, com um resultado susce-
centr~d8 por BELING e desde BELING sobre a e lUlçao _ ' tível de c'onstituir o fato delituoso, não apresenta características do
típic~~ Élã result.a não só do § 59 do Código Penal Alemao,.? onde esta "c~.idado a observar-se nas relações com os demais", ê ação típica do
expre~samente posta, como também, e sobretudo, ,da. funçao qu~ p03- cnm.e culposo. Deduz-se que o legislador não po,de, em geral, definir
sui na oyO'anizacão constitucional dos poder~s publIcos. A def~n.Içao preCISamente a ação típica dos crimes culposos, porque as formas de
objetiva d~s corD:portamentos proibidos na le~ - e apen.as ~a 81 ação nas quais não está presente o "cuidado a óbservar-se nas rela-
assegura plenamente a aplicação da r~gra lfLulLa Ploen~ svne ege. n: E ç?e~ com os ?-emais" ão de imensa diversidade, e dependem das con-
tretanto sérias objeções surgem, acerca dessa funçao. Encontrar~ <ilc aes matepais de cfd:i:caso Rar mUar.
mos um~ delas no estudo da determinação da pessoa do autor n~s crI- Por impossível que sej a, através de fórmulas gerais, descrever
mes comissivos por omissã'o. A lei não "dete-:mina:' a _pessoa ( o ga- de modo suficientemente preciso o cuidado "objetivo", necessário nas
rantidor") que 'Se torna responsável p~la. nao evItaçao do, resultado relações com os demais, para que se deduza automàticamente, de al-
penalmente definido como crime comlSS1VO (por exempl~o, dt> um gum modo, o comportamento "correto", ou "apropriado", é entretanto
homicídio) . é ao juiz que cabe "determiná-la": A separaçao :ntre, o possível e indispensável indicar, mediante fórmulas gerais, o método
papel do l~gislador e o do juiz se resolve, aSSIm, em favor deste ul- a aplicar, no sentido de perceber-se concretamente o cuidado objetivo.
Compreende-se que sob o domínio de uma teoria segundo a qual
a culpa stricto sensu nã'o significa mais que um problema da culpabi-
(25) OLG Celle, in VRS 14, pág. 113; cf. tamh2m OLG Hamm, VRS 7,
pág. 226.
23
lidade, essa definição do cuidado objetivo tenha sido menosprezada. normal é, em consequencia, o comp'Ortamento (vale dizer, a ação fi-
de tal forma que, como nota ENGISCH (26), a doutr,ina tratou a inob- nal 'ou sua abstenção) que adotaria, nas particulares~ircustâncias
servância do cuidado exteri'or apenas "acessoriamente e sem consa- consideradas, "~~ma pessoa dJotaiLa de discernimento e de prudênCia"
grar-lhe atenção" (27). Convém, pois, neste terreno, recuperar um colocada na mesma situaçâ.o d.o agemte" (33). Imaginando-se êste
grande atraso, estando uma abundante jurisprudência em condições modêl'o de "pessoa dotada de discernimento e prudência", na situa-
de nos proporcionar, a êste respeito, valiosos subsíd~os. Se a "obser ção do agente real, tem-se condições de indicar o que seja um com-
vância do cuidado necessário nas relações com os demais" constitu' portamento "apropriado", "correto", em uma palavra, indicar o que
a "ação" modêlo,. a açã:o-critério a partir da qual será determinada seja o cuidado objetivo, e se estabelece, de tal forma, 'O ponto de
conformidade da ação incriminada com a definição do delito de ne partida da ,investigaçã'O, na ação real do agente, de seu caráter típi-
gligênc,ia, da mesma forma é necessário um "agente" modêlo, u .c'O de um crime culposo (34).
agente-critério em função do qual a açã'o cuidadosa será concebida de Nesse desenvolvimento metódico convém distinguir dois aspec-
maneira abstrata. Nada melhor para demonstrar que os problemas tos: primeiramente 'O aspecto puramente intelectivo do juíz'o ,de c!uu-
cruciais da culpa stricto sensu são problemas da aç'ií,o, que o fato de salidade adequaiía. É êle que demonstra se determinada ação contém
que para definir o cuidado objetivo é preciso usar-se a idéia de "agen- ou não riscos para certos bens protegidos. Mas uma ação perigosa
te cuidadoso". Em numerosas decisões encontraremos êste agente n- , e e ão-cuidadosa, pois se assim fôra ser neces-
moàêlo (usuário, dà via,): é o "condutor hábil e.consciencios'O" (28). wxioevital:..q,uase. tQda açã'O na ._ as a que se pense na
o "condutor consciente de suas responsabiUQades e consciencioso'· ~~r];l2 circula~ãQ d~ veículos; e não ' ocamentos
(29), o motôrista cauteloso (30), que "dirige sempre com reflexão cuja velocidade ultrapassa a veloc1 a e natural dos deslocamen os
e mantendo atenção, levando em conta, ao mesmo tempo, as possibi- n en o em rlOnarIamen e rISCOS para ens a elos JUrI-
lidades de comportamento dos demais, de acôrdo com as circunstân dicamente tutela 1m ra 1camen e em to o mov1men o,
cias, e atuando corretamente mesm'O nas situações difíceis" (31). Es conse üenC1a da inte ra ã diversos rocessos e C1re a
tando alerta aos perigos para poder enfrentá-los com serenidade, re- participação na circulação não é possível sem um .
vela, em seus caracteres, aquêle da "pessoa dotada de discernimen- surge o segundo aspecto - êste, n'ormativo - da ação "pruden-
to" procedendo ao raciocínio de causalidade adequada, quem, com 'o te", que vem rsetringir o anterior: o cuidado necessário somente
conhecimento ontológico próprio do observador lúcido e com o co- falta quando a açã'O acarreta uma periclitação que vá além do que
nhecimento ontológico suplementar próprio do agente real, bem como seja "normal", "socialmente adequado". Para a determinaçã'O dêste
mu;nido do máximo de conhecimentos nomológicos de sua época, se "risco prudencial" servirá como modêlo a pessoa "prudente",
• entrega, sQl::> 'O mesmo âIlgJ110~ do agente" rear, a umprognósticQ );\,9- que sempre aparece em decisões acêrca de circulação, como moto-
bre as relações de causalidade futuras (32). O cuidado ÔÍ>jetivo rista "consciente de suas responsabilidades", "conciencioso", "cau-
teloso". Ê em tôrno dêle que giram as principais decisões sôbre o ris-
co prudencial: 'Segundo "as concepções de um condutor consciencioso
(26) ENGISCH, ob. cit., pág. 275. e cuidadoso", lê-se numa sentença do BGH, "é certamente possível
(27) Compreende-se igualmente que sob o domínio desta teoria, o cuidado
objetivo, que é uma modalidade de .realização da ação, conferindo-lhe o caráter Fesisar <: lhp-ite de velrcid:.:: ~!:~: superação iiiS.I:!tJC8 8 jmpu~açâ2
"apropriado" ou "correto", tenha sido confundido com o cuidado "subjetivo". e mfra ao as 1 J] o" (35). ConSIderando os rISCOS
"interior", ou melhor, com a "precaução atenta", atitude puramente espiritual que ru enciais que pode enfrentar um motorista "consciencios'O e cons-
implica um estado de alerta das fôrças espirituais do agente. Não é raro obser- ciente de suas responsabilidades", a jurisprudência elaborou e desen-
var a não coincidência dêstes dois elementos: uma pessoa pode obrar com tôdas volveu o "prinl-lá,priJo ,da, oonfiMU}a", fund.amental em matéria de cir-
as suas fôrças espirituais em tensão, e não obstante cometer· uma ação inapro- culação de veículos, segundo o qual o usuário d'O caminho tem direito
priada, incorreta em suas modalidade~; ao contrário: \lguém. pode efetuar "por
instinto" a ação correta, porque, como conseqüência de uma longa prática, a
reação correta se converteu numa disposição automática para a ação. forma qUe esta mesma noção não poderia ser elaborada sem partir de um su-
(2'8) BGH 7, pág. 118; 12, pág. 83; cf. também BGH in VRS 4, pág. 52; jeito-critério (cf. tamb€m EXNER, ob. cit., pág. 197). A polêmica de BINDING
OLG Hamlln in VRS 16, pág. 122. (Normen IV, pág. 730, e IV, pág. 523) carece igualmente de base.
(29) BGH in VRS 13, pág. 468; cf. também BGH, in VRS 16, pág. 122. (33) Cf. meu Strafreeht, 11.a ed., § 18, I, a e b.
(30) Bay ObLG, in VRS 4, pág. 385; KG in VRS 16, pág. 380. (34) Quando H. MÁYER, Lehrbueh, pág. 187, atribui ao juiz o papel de
(31) BGH Civil, in VRS 10, pág. 12. determinar a amplitude do risco permitido, não contradiz o que acima foi dito:
(32) O juízo de causalidadé adequada sempre foi desenvolvido a partir de habitualmente se confia ao juiz a tarefa de efetivar o juízo de causalidade ade-
uma pessoa-critério, sem a qual seria irrealizável. Por outro lado, o raciocínio quada: em ambos os casos o juiz procede como pessoa competente, ou seja, como
de causalidade adequada é parte integrante da noção de cuidado objetivo, de pessoa "dotada de discernimento e prudência".

24 25
·• a contar com que os demais usuários. se compor~em igu~ln1.ente de nos en<:ontramos em presença de dito caso. Também o_f~to de que um'~
uma maneira correta, a menos que. as cIrcunstanCIas part~eul~res ~e­ comportamento se afasta de um princípio empír:ico ou_ de uma regr.à
j am de tal natureza que lhe permItam rec'Onhecer que nao e aSSlm do ofício é um indício, .mas não uma prova de mfraçao a uma obn-
\ \.36).N esses dois aspectos interdependentes, do ,duwermme1nt.Q
. ',. ..
yntelt- gação de cuidado. É por iss'O qt~e a si~ples violaç~o das regras parti- •
culares (administrativas) da cu'culaçao, nas qUalS se expressam ex-
gonte dos perigos e da adaptação p'a.rtic1,~laJ1' a êles, podem en<:o?trar- periências gerais em matéria de circula~ão, _não rep~esenta mais ,que·
se os elementos do cuidado objetivo em um ou outr'o caso partIcular. "indicaeão" de uma infração a uma obngaçao de cUldado, no senndo
Neste processo de c1olncretiza.ç1ã,o é igualmen~e poss~ve~ deduzir ~l.gu­ dos cr,:i~es culposos (40). O conteúdo da ação "apropriada" ou "cor-
mas mdicaçães especiais de caráter mater'Va.l: prmclpl~s empU'lCOS reta" não poderia jamais ser apreciado definitivamente, em cada
sôbre a relação entre modos de comportamento d.ete~'r~llnados ,e. os caso . partic~lar, a p:;-rtir de .pr~n~ípios, ~n:pírico.s gerais \ de regr.aSj
perigos que lhes são próprios. (37), bem como pl'lnClpIO~ ernpr:lcos geralS, senao a partlr do prmClpIO metodlco aCIma expoSLo, ou. seja,
sôbre as medldas malS apropriadas para escapar a certos perIgos. indagando-se qual teria sido a ação de u;na pes;;oa. dotada de dlscer-
Entre êstes últimos, os mais conhecidos são as regras do oficio (as leges nin,cnto Q pl'udêr'cia, frent3 às mesmas cU'clmstancutS.
((rtis) próprías de diversas pr'ofissões; regras dêste gênero ex is- O DrÍnCÍnlo da confianl;a COIlcTctiza material1nente, de modo
t~m e~ menor escala para todos os demais campos da vida. O .Tribu- inmol'taiüe, a,' noção de cuidado, na medida em que faz da esfera do
nal Estadual Superior da Baviera invocou, em uma de suas senten- coY"reto comportamento dos dema,is a base do comportamento apro-
caso as "regras de C'onduta reconhecidas" que "têm por objeto o com- Driado de todo usuário da via. As regras de circulação adqUirem,!
portamento correto na via, e quê constituem o critério do comporta- dessa forma, um nôvo valor dentro da noção de cuidado .. Send? ~ícito,. .
mento de um condutor cuidadoso" (38). Tais regras de ofício p'odem em princípio, 2.0 usuário da via, contar com que 'os demaIS usuanos G~3
transformar-se em verdadeiros princíp.ios de. direito ; assim é qu.e, conduzirão de maneira correta, passa êle a disp'Or de uma base só-
• por exemplo, inúmeras regras de ~irculação não. são mais que "o re- lida para regular apropriadamente seu próprio comportamento (41).
sultado de uma vasta previsão de possíveis perigos, que repousa sô- Pode-se assim determinar a conduta que, na situação particular
bre a experiência e a reflexão" (39). do aO"ente real, teria sido "apropriada" e "correta", e que, por con-
Mas vemos manifestar-se aqui também os lim.ites estabelecidos seqüênCia, teria manifestado o "cuidado necessário nas relações com.
ao conteúdo materiul da noção de cuidado, em oposição ao princípio ·outrem". Manifestando-se com relação ao agente, concretiza-se o man-
metódiclo de fOTrnJ,éU;ãlo da noção de cuidado, acima desenvolvida. Tôdas damento jurídico da observância do cuidado objetivo nisso: quem
as regras e todos os princíp,ios empíricos gerais de car'áter materia.l possui habilidade para empreender a ação "adequadamente", cas'o a
são generalizações em abstrato de processos indiv~duais; tais gene- empreenda, deve executá-la a:dequwda.mente. Quem não possui habi~i­
ralizações são possíveis apenas na medida em que ~ais process?s são Clade para isso, deve omitir integralmente a ação. Para êste é a om1,S-
similares. Os princípios empíricos e as regras geraIS deles derIvadas são o comporrta.mento adequa,do (42). Com o comportamento adeq1,~ai/J~
não possuem, pois, valor, senão enquan~o. se apliquem ~ p:o~essos indi-
viduais sitmilures. Quando, pelo contrarIo, um caso mdlV,Idual apre-
~,senta traços particulares, a regra geral ou o pri:r;cípiro e:r:r;pírico n,~o (,10) BGH, 4, pág. 185. .
se pode aplicar integral~ente. Todo o seu" valor ,m!o~ma,~lvo. p:ov~m (41) Para saber por exemplo, como regular a velocidade quando tenha prio-
unicamente do grande numero de casos caractel'lstIcos, Similares. ridade (BGH, 7, pág.' 118); se deve contar com a colocaç[í.o em fila dos veículos
Entretanto, é necessário investigar sempre, antes de mais nada, se ·que trafegam em sentido inveTso (BGH 12,. pág. 82); s.e, no instan~e em que
dobra à esquerda, deve ainda lançar um olhar ao retrOVIsor (BGH, ~n VHS 5,
pág. 551; KG, in VRS 16, pág. 380).
------ (42) Esta é a verificação decisiva para a conformidad,;, ao d~reito_ ou a
(35) BGH 7, pág. 118. Trata-se de decisão essencial sôbre o aspecto ~e antijuridicidade de uma açíio: "Todos devem saber lo)n determ~'I1J.wda sttuaçao, que
saber-se se o condutor de um automóvel tem direito de esperar que os demaIS C01nportamento é Í1npôsto perrn.itido ou proibido. Quando isto se estabelece mde··
usuários da via respeitarão seu direito de prioridade. Cf. também BGJ:I 12:, pendentemente da reprov~bilidade pessoal e do conhecimento que o indivíduo !en~a
pág. 83: o "motorista consciencioso" não está obrigado a contar, co~ uma mcor- da situacão de fato servirá à elaboração das nor'mas de conduta, em relaçao· as
reta colocacão dos veículos que, em fila, trafeguem em sentIdo mverso, e a q1.tais todos devem poder orienta1'-se na mesma situação". Assim formula VON
regular sua' veiocidade em função dessa eventualidade. CAEMMERER em sua contribuição à obra comemorativa do dia dos juristas alemães
(36) Sôbre o, alcance dêste princípio é interessante remeter-se a OLG (Juristenstag-Festsehrift, II, 129), de acôrdo como presente trabalho! de forma
Neustadt, in VRS 7, pág. 200. . particularmente feliz, a função primária que serve à fixação dR objetlva confor- •
(37) Cf. BGH, in VRS 6, pág. 198, referindo-se à experiênCIa da circulação. midade ao direito ou antijuridicidade. Essa função não podia aparecer na co:?-
(38) VRS 4, pág. 385. ceHuação até hoj e não destacada de negligência-culpa. Por d.etrás dessa funçao
(39) BGH, 4, pág. 185. fundamental dos componentes da antijuridicidade na culpa strzcto sensu coloca-se

26 27
.qüência é absolutamente inevitável" (46). Por outro lado, o resulta-

n
ue assim se estabelece, deve ser comparado o efetivo comportamen- ,do é manifestamente mais que uma condição objetiva de punibilidade
o do agente, para verificar-se se êle é típic'O no sentido de um crime porque deve encontrar-se em relaçõ,o específica 'com a aÇão típica. ~~
culposo: tôda ação que não corresponder a tal comportamento ade- .é suficiente ue a a ão ne . :
quado é típica no sentido do crime culposo. .JUlZO como resulta o, mas é ne~s~rio ~e~ contrár~~ 'lHe Q pl'ól-
Entretanto, a ação delituosa não é a única característka "ob- ª
jtl~~? se !leva precIsamente à faUã ili:J)~]]Aêüêj;;:qlJe Ãf;taca acãQ .
jetiva" dos delitos ?e negUgência. 9omo reg~a ger~l, é pr~ciso, al~m .ASSIm na:o acontece quando o resultado, ainda que provocado pela/f
disso, já que os cnmes culposos sao concebIdos, amda hOJe em dIa~ .ação negligente, teria sido produzido igualmente se a ação tivesse
como crimes de resultado, que à ação delitU'osa se suceda um dano a. .sido cuidadosa: a negligência (caráter não apropriado) da ação deve
um bem juridicamente protegido. Ao desv'(JjZor da ação deve agregar-o estar materia,lizlada no resultado (47).
1se, como regra geral, o desvlalor do resultfJJd,o. Tem-se aqui uma carac-·
terística comp,Zemelntar/' que não está ne'cessàlriCJJmente contida no des-·
Essa relação interna, em virtude da qual o resultado deve ma-
nifestar-se na m,aterializ'alÇ1{io da ação típica, justifica a incorporação
valor da ação. Com efeito, uma ação é inapropriada ou incorreta -do resultado na definição do fato típico. Desempenha êle aí, entre-
quando admite uma infração. à obrigação de prudência, independente- tanto, o papel de um elemento não constitutivo, e sim unicamente li-
mente do resultado ou da ausência do resultado que ocasiona. O des- mitativo. É "inevitável, queira-se ou não, que a execução da ação tí-
valor da ação, enquanto tal, não poderia ser aumentado pelo fato pica represente plenamente uma violação da norma, seja que esta
de que se lhe agregue o desvalor do resultado, nem diminuido pela .ação se materialize num resultado ou não" (48); mas é apenas me-
ausência dêste. Muito se falou do desvalor do resultado como do "ele- .diante sua materialização num resultado que essa ação adquire _
mento fortuito" dos delitos de negligência. "É do capricho da sorte .segundo o direito positivo - seu caráter pena;l, que ela se converte
que depende se o agente será castigado; da sorte também depende na base material de um ilícito que requer a repressão penal (49). O
a pena que lhe será inflingida" (43). A mesma ação negligente pode ,direito positivo se satisfaz com uma seleÇ/wo feita entre as ações negli-
- segundo seu resultado - ser castigada ou ficar totalmente impu- :gentes, pelo resultado que tiveram.
ne: tôdas essas possibilidades se contêm, em germe, na ação, no ins- Seria interessante, sem que tal tarefa seja simples, indagar as
tante em que se perfaz. razões jamais manifestadas que, até hoje, conduziram o legislador a
Não é fácil definir o papel do resultado nos crimes culposos. A tais restrições. São principalmente razões de ordem prática, visto que
doutrina italiana pretendeu fôsse o resultado simples c'OI).dição ob- ;a negligência sem conseqüências é muito mais difícil de revelar-se que
jetiva de punibilidade (44). Não é simples assumir posição acêrca. :a negligência com conseqüências. Mas o que constituiu a verdadeira
dêste ponto de vista, talvez em razão de uma certa obscuridade que, razão, menos que motivos racionais, foi o sentimento irracional se-
apesar de esforços notáveis (45), paira sôbre a noção de condição 'gundo o qual "as coisas nã'o são tão graves sempre que tudo tenha
'Objetiva de punibilidade. Em favor da condição objetiva de punibi- -corrido bem" (50).
lidade pode invocar-se que se a definição do fato típico representa a Mas essas considerações não são totalmente valiosas! Se é certo
"matér.ia proibida" (vale dizer, as características materiais de um 'que, até época muito recente, podia contar-se com a "feliz" circuns-
comportamento proibido), o resultado, falando com propriedade, não tância de que as ações negligentes não eram punidas senã'o em pre-
a integra. O que está proibido é a realização da ação negligente, "in- 'sença de um dano a um bem protegido, o legislador moderno tende,
dependentemente de saber se, por azar, a não-manifestação da pru- 'cada vez mais, a incriminar a exposiçl{(,o((, perigo culposa de bens
dência 'Ocasiona o resultado em vista de cuja ev.itação se orientava -protegidos (cf. especialmente §§ 1/49 da Ordenação de Trânsito Ale-
esta prudência. A isto ENGISCH acrescenta, insistindo: "Esta conse- mã: § 316 n. O 2 do Código Penal Alemão). Dêsse modo se colocam

também o ponto de vista da legítima defesa, o qual rege na maior parte das (46) ENGISCH, oh. cit., pág. 341.
vêzes como critério da antijuridicidade, pois tem muitos sentidos. Sôbre isso vol-
(47) Jurisprudência constante: cf. BGH, in VRS 5, pág. 284 e BGH 11,
taremos adiante. -págs. 1 e segs.
(43) EXNER, Fahrliissigheit, pág. 83.
(48) ENGISCH, ob. cit., pág. 342.
(44) Cf. especialmente MANZINI, TraUato di dir. pen., 1948, I, pág. 563;
VANNINI, Il problema giuridieo del tentaUvo, 1952, págs. 54 e segs.; contra, espe- (49) ENGISCH afirma que o resultado não tem outra função senão tornar
cialmente DELITALA, Il fatto nella. teoria generale delI rbato, 1930.
culpável a infração da norma (pág. 342). Isto soa fortemente como simples con-
dição objetiva de punibilidade.
(45) Cf. as recentes comunicações de SCHMlDHAUSER e STRATENWFiRTH. e o
(50) Essa forma de ver se manifesta também nas penas atenuadas que se
debate comemorativo do dia dos criminalistas de Erlangen em 1959 (Erlange'1'
cominam .à tentativa, em relação ao crime consumado.
Kriminalistentwgung), in ZStW, v. 71. pág. 545 e segs. e 565 e segs.

29
28
problemas completamente novos. A ação negligente (inapropriada,.., Aqui O perigo é consideràvelmente "mais concreto", mas de for-
incorreta) deve ser, mesmo por definição, .uma ação que i;uplique, no, ma nenhuma inevitável se, por exemplo, A, que vem em .sentido ,in-
juízo de um observador dotado de. ~iscer~lmen.to, em perIgo_para ~s verso logra evitar 'o choque mediante uma reação instantânea. A no-
bens protegidos. Se se passa a eXIgIr, alem ihss,o, que a açao neglI- ção deaçlãiO' perigosa pode, pois, ser perfeitame?te se~al'ada do. juízo
gente haja exposto a perigo um bem protegido, estaremos em face que se expressa afirmand? que um. b,em P1'O,teg1,do: esta em pelrtgo. A
ou de uma redundância, ou da intervenção de uma nova idéia de pe- primeira noção repousa sobre um JUIZO d~ causahd~de adequada, re-
rigo. Isto pode ser ilustrado mais claramente com um exemplo. ferido ao momento em que se efetua a açao, a partIr do qual um ob-
Se, em nosso exemplo do comêço, o mo'borista B "fecha" para a, servador dotado de di&cernimento prevê um perigo a bens protegi-
esquerda numa curva duvidosa, executa, ao fazê-lo, uma ação peri- dos cientificando-se de que tais bens poderiarfl, penetrar na zona de
gosa, considerando-se que no momeniJoda manobra, o observador do- efi~ácia da ação; o segundo juízo supõe a presença de um bem pro-
tado de discernimento, para quem a curva era duvidosa do mesmo tegido na zona de eficá~i~ _da açã'O. ,. . _ .
modo que para B, deve contar ,com a chegada de veículos que trafe- Partindo daí, a deflmçao do fato bplCO na expOSlçao a per,lgo por
guem em sentido inverso. O fato de "fechar" a curva representa uma negligência já não apresenta dificuldades Je~~enciais. ~ concreção da
manobra perigosa, ainda que se demonstre a posteriori que não se' acão típica é a mesma que ara todos 'os uentos n .~,l., enCIa. AO ê-
encontrava nenhum outro usuário do caminho no percurso de B: o' es· o resultado lcmdo elo e-
juíz'o de perigo é sempre, com efeito, um juízo ex wnte, fazendo abs- ri o ue a -etou determinado bem oh· eto de rote ão a reciado no
tracão dos fatores reais não-discerníveis num dado momento. Uma i m · êste ingressa na zona de e icáda da a ão. A com-
vez· conhecidas ex post tôdas as condições reais, surge o prejuízo, seja provacão da re.aliz,açwo o a~ ,ICO e, contudo, malS Ifícil e in-/
ora certo, ora excluído (51). Para julgar a causal.idade adequada, o' certa, , porque. a c'omprovação de acontecimentos. reais (dan?s, lesões)
momento decisivo, quando se trata de saber se uma ,aç{i,o é perigosa" é sempre malS segura que a de meras eventualIdades (perIgos).
é aquêle no qual a ação foi efetuada. As coisas se passam diferente- Com o cumprimento da ação típica e com sua materialização num
mente quando se pergunta se um bem ptotegidJo foi exposto (l; peTigo., resultado típico, estão reunidos os indícios da wntijuTiâic'bd,wde. Êste
Pressupõe-se, então, que o bem cm questão tenha entrado na zona papel de indício desempenhado pela realização do fato típico pode ser
de efi.cácia de determinado a<::'Ontecimento e, pondo-se no momento excluído por causas de justificação, tais como a legítima defesa (53),
em que penetrou nesta zona, pergunta-se se êle poder,ia sofrer um: o estado de necessidade (54), o consentimento do ofendido (55), etc
dano sob o efeito do dito acontecimento. Em nosso exemplo, a açã,o (56). Não existe, quanto a êsse aspecto, controvérsia fundamental.
de B já era perig'osa no momento em que êle começou a "fechar" sua~ A questão mais vivamente .debatida é a de saber como apreciar
curva. Mas outro usuário do caminho (A) não teria sido exposto a uma ação caracterizada pelo "cuidado necessário nas relações com os
perigo se não se encontrasse efetivamente, durante a manobra, no demais", e, por isso, "apropr,iada" e "correta", que tenha porém pro-
trajeto de B enquanto êste a fazia. Convém, portanto, realizar um vocado, (adequadamente), um prejuízo. Segundo os pontos de vista
'Segundo juízo de causalidade adequada partindo da situação não no já expostos (57), esta ação não apresenta as condições do fato típico
m()mento em que a ação é efetuada, e sim no momento em que o bem: e não é pois, .conseqüentemente, antijurídica, posto que, segundo a
protegido ingressa na zona de eficácia da ação (52).
conseqüências juridicas que operam igualmente ainda quando, no momento da
realização da ação, esteja certo para um observador dotado de discernimento que
(51) Curiosamente, é preciso rcpétir às vêz€s essa verdade, porque ocorre não ocorrerá um dano, como-, por exemplo, no caso do § 306" ns. 2: e 3 do Código
que ainda hoje em dia se lê: "Se um p2rigo e/elivo· ocorreu, somente se pode Penal alemão.
'verificar em todos os casos por um juízo conclusivo (\1) posto Com um juízo (53) Cf. a respeito especialmente NIESE, Finalitüt, Vorsatz, Fahrlüssigkeit,
(X ante apresenta-se um perigo imo,ginário". TvIEZGER, Stuâ!ienbueh, I, pág, 84 1961, pág. 46; TvIAURACH, Allg. Teil, § 43, II, C.
(passagem já agora eliminada). (54) Cf. OLG KiiVn, in VRS 16, pág. 442. Deve considerar-se sobretudo a
(52) A segunda noção de perigo é mais concreta, é verdade, que a primeira, violação de imperativos de PTudência na circulação de veículos por ocasião de
porque as premissas do raciocínio une conduz a concluir dessa forma, contem mais operações de ajuda e sncorro em caso de catástrofe.
fato's que as premissas do primrlJ"o. Sc:::iFt, contudo, errôneo distinguir ambas, (55)Cf.KG, in JR 54, pág. 428; VRS 7, pág. 184.
as noçõ2S falando de um perigo "aostr::lto" e de um perigo "concreto". A pri- (56) Por exemplo, o direito a portar armas. A respeito NIESE, ob. cit"
meIra noção de perigo é iguah;aent<) concreta; é o resultado do raciocínio habitual pág. 47.
de causalidade adequada, que se faz remetendo-se à situação no momento do ato (57) 11::les constituem um desenvolvimento de minha teoria sôbre a cu1pa
(CI. VON HIPPEL, II, pág. 148). Não se poderia falar de pErig'o "abstrato" a stricto sensu até aqui sustentada, segundo a qual a violação do cuidado exigido
não ser nos casos em que a idéi.a c~e um perigo é o 11'w'tivo ql\e leva o Iegisladl:>r no tráfego era um puro momento de antijuricídidade (contra, com razão, VON
a estabel€cer 'conseqüências jurídicas para um fato com certas característic3iS:" CAEMMERER, JT Festschrift, II, pág. 78, nota 118).

30 31
.opImao geralmente admitida até uma ép'Oca_ re~ente, ..e ~ll! voga h~je nopólio da noção de injusto edif,icada s,?bre o desvalor do r~s~lt~do,
,em dia, sobretudo em direito civil, essa açao e antIJUrIdlCa, em VIr-
tude do resultado por ela produzido, e apenas se torn~ exculpavel pela e quando se descobre o desvalor da a~ao com~ elemen~ prIma:lO e
prudência necessária manifestada .em . sua ~portumdade:. Devemos geral da antijuridicidade, .que a evoluçao desencadeada pela teoria do
também afirmar as teses aqui desenvolvIdas sobr:,e as rela~oes en!re. o risco permitido pôde amplIar-se plen~menteA (6~). , . ,.
A êsse respeito, uma grande Importancla corresponde a IdeIa
.desval'Or da ação e o desvalor do !,~sultado, e sobre sua l:?portancIa
para a noção do injusto, c?ntra. c.r:trcas recentes que lhe sao opostas, suplementar de que ,?S ~as,os. de ris?<: regulad? repr~se~ta~ ,~p~?as
subcategorias da noçao JundIca g~,nerIca de cUlda.?o obJetIvo, ~e­
°
particularmente pela doutrm~ ~IvIhsta. . .. . .
direito penal, ao contrarIO da dout~ma cIv~hsta, cammha, ~esd.e
há algum tempo, no sentido das concepç?es a~~I. expostas: .0 RrImel-
cessário nas relações com outrem e Slu~, consequ.e~teme~te, a nao-
manifestação do cuidado, ou da prudencla necessarlOS, nao era um
-elemento da culpa e sim do "injusto típico" (63). Esta idéia, já clara-
TO passo nesta direção se deu com a teona d? risco. permItIdo (58), mente expressa por ENGWCH, apenas pôde produzir todos os seus fru-
referente às emprêsas perigosas de necessIdade vital (59), segun-
tos também ela, no terreno da teoria do desvalor da ação. Apesar,
do a qual as ações efetuadas com vistas ~ objetivos de necessida~e
vital sã'O permitidJas, sob reserva das medIdas de seguranç3; necessa- po~ém, dos trabalhos de ENGISCH sôbre a noção .objetiva d~ cuida~o,
.os delitos de negligência são constantemente conSIderados, amda hOJe,
rias mesmo quando elas impliquem num acréscimo de perigos parli sob o ângulo da antiga noção não diferenciada e subjetiva do cuida-
ben~ protegidos, e ainda que tais perigos se materializem. O .air.eitó do (64). Esta noção pouco clara que confunde a antijuridicidade e
em vigor, autorizando a realização de tais ações, apesar dos perIgos .,a culpa constitui' o mais poderoso obstáculo para a análise de estru-
-que acarretam, deve considerá-las legítimas e .não a~enas exc~lI?ávei~ tura dos delitos de negligência. Apenas quando se reconhece que o
mesmo se 'o perigo se materialize. Nesta teorIa, o riSCO permitIdo Í,I- cuidado necessário nas relações com outrem é o comportamento que
gurava entre as "causas de exclusão do injusto" (60), dando a en- deveria manifestar-se numa situação dada, e que 'O conteúdo dêsse
tender com isso que a provocação do resultado "em si" era indício' comportamento teórico está determinado em função do comportamento
da antijur,idicid~de ..Ê aí que residia a debilidade da teoria do ri~co que teria adotado, na situação do agente real, uma pessoa dotada de
permitido no seio da teoria tradicional do injusto; esta,. c~~ efeIto, discernimento e prudência (65), e, finalmente, que se o agente real
.estava referida ao dJe!8va~olr do resulfJiJJ(];O, enquanto que a Idela da ex- não manifestou êste comportamento, a medida na qual é possível reprro-
clusão da antijur,idicidade pelo risco permitido se assentava sôbre o Vá-bO releva do problema da culpa, apenas então se faz possível cons-
desvalor da açãiO. Apesar da superveniência de um prejuízo, a ação truir uma noção completa do injusto, incluindo o desvalor da ação,
que o provocou deve permanecer legítima, por u~ !ado, em razão de bem como uma concepção do del.ito que leve em conta todos os seus
:seu caráter indispensável em face de certos obJetrvos, e por outro, -elementos constitutivos.
em razão da natureza particular de sua realização. À teoria do poder Nã'O é certo, entretanto, que uma vez'reconhecida a noção objetiva
justificativo do r,isco permitido sucedeu a apariçã'O de uma nova no- do cuidado, as conseqüências daí derivadas, acima expostas, sejam
ção de injusto, referida ao de81)alor da ,açãJo. É por isto que est3; teo- efetivamente extraídas pela teoria do injusto. Isto acontece sobretudo
ria permaneceu necessàriamente como um co~po estranI:,o n'O selO da em direito civil. Os civilistas querem certamente admitir, é verdade,
teoria tradicional do injusto fundada exclus.Ivamente sobre o resul- e o direito em vigor autoriza a i' de uma ati' d implica
tado, e as duas teorias jamais chegaram a se harmonizar verdadeira- ....na p08s~b~lid(1jde e esã'o a terceiros, sob ª cO~M de que se manI-
mente (61). Não é senão a partir do instante em que se rompe 'O mo- ste o cuidado necessário no sentido de que se' a evitada essa leSã'õ''' , •

(58) EXNElR, ob. cit., pág. 193; BINDING, N ormen IV, pág. 432 e segs.
(62) Podemos ainda assim considerá-la como a teoria dominante hoje em
(59) Como as atividades em pedreiras, minas, transportes ferroviários e ·dia. Cf. WELZEL, ZStW 58, págs. 514 e segs., seguindo-se a H. MAYER, Lelhrbuch,
TOdoviários, operações cirúrgicas, etc. a
1. ed., pág. 205; VON WEBER, Grundriss, pág. 83; NIESE, ob. cit., pág. 64; do
(60) ENGISCH, ob. cit., pág. 286. mesmo autor, "Streik und Strafrecht», 1954, pág. 30; H. MAYER, Lehrbueh, 2. a ed.,
(61) Sustentou-se também, pôsto que raramente, como por ex~rr:plo, EX~ER pág. 187; HENKEL, Mezger-Festschrift, pág. 2'82; GALLAS, ZStW 67, pág. 42;
e ENGISCH, que a integridade da ação, compr;e~dendo o resultado t:PICO, era Ile- BOLDT, ZStW 68, pág. 335; WELZEL, Strafrecht, l1.a ed., § 18, I, e Neues Bild,
gítima. A opinião de BINDING é caractenstI:a em. sua , ~onfusao: segundo pág. 31.
Normen IV, pág. 433, nota 1, e pág. 441, a açao sena le'gtt=, mas" segundo
(63) ENGISCH, ob. cit., pág. 348. ,
pág. 446, apenas "não proibida" e não legítima! V~N HIP~, II, pago 461 e
_ (64) Cf. SCHÕNKEl-SCHRõDER, 15. a ed., pág. 527; MEZGER, Lehrbuch, pags .. 357
segs., e MEZGER, Lehrbuch, pág. 385, expressam-se em termos amda menosclaro~,
falando de ação "não proibida", ou "que não oferece a base de uma responsabI- e segs.; Studienbuch, I, 9. a ed., pág. 190; agora na 14.a ed., § 66, como aCIm3'"
(65) Faz parte também, por exemplo, dêste comportamento, a abstençao
lidade penal a título de culpa"
,da ação que o agente não é capaz de efetuar corretamente.

32 33
mas acrescentam que, "sendo assim, a lesão concretaefetivarmente terminologia essas duas acepções, falando por exemplo no segundo
prodruz~da e o comportamento que a ela conduziu são, a partir dêsse
momento, enfocados pelo direito em v,igor na perspectiva da pessoa
caso, de uma "antijuridicidade de segundo grau". Em
'direito penal
se coloca o mesmo problema ainda irresolvido a propós,ito da agressão
lesionada, e considerados como um dano "ilegítimo" aos direitos dessa "injusta" na legítima defesa. Ê ainda controverso se a ilegitimidade
pessoa" (66). É uma "estranha lógica" (67), na realidade, - e não da agressão deve ser e~tendida no sentido do desvalor da ação ou do
só à primeira vista - aquela que pretende que o direito autorize pri- resultado (como agressao que o ag:reS&'IOr não tem o direito de cometer
meiro um certo comportamento e que c01bdene de imediato o mesmo ou que o agredidJo não está obrigado a tolerar) (72).
comportamento sob pretexto de ilegitimidade. Se o verbo "autorizar" Aq~i, ~em como em. o~tros ponto~ (73), se manifesta uma profun-
deve ter um sentido, só pode significar que o comportamento autori- da tensao Interna do dIreIto. Todo SIstema jurídico, que deve ver a
zado não é contrário ao direito. E se não era contrário ao direito no essência de seu papel na delimitação dos direitos dos diversos sujeitos
momento em que ocorreu, não poderia posteriormente (retroativa- de direitos (74) tem uma dupla tarefa: deve indicar a um o u t m
mente) tornar-se contrário ao direito pelo fato de ter produzido um direito e o que nã'o tem direito de fazer e o 1·
acontecimento cuja possibilidade, de qualquer modo, já estava prevista _ o nga o a aceI ar. m princípio, as disposições dessa
pelo direito (68). ' ord,em sao. e:l~pressa ou aCI amen e correlativas e gêmeas: a ação que
A contradição lógica aqui manifestada toca um problema de fundo esta no dIreIto de um efetuar, o outro está obrigado a aceitá-la e
ainda irresolvido. Uma ação não poderia ser permitida ou proibida, invers~~ente, a ação que um não está obrigado a tolerar, o outro ~ão
ou - em outras palavras - ser conforme ou contrária ao direito tem dIreI~o de comAentar (~5). Mas existem casos em que se manifes-
senão no momento em que é efetuada. Mas se uma ação permitida pelo tam tensoes .en!re esses dQ,ls aspectos, casos nos quais é duvidoso que
direito conduz a um prejuízo, e se a partir de então, e por causa dêsse a uma permlSsao de obrar corresponda uma obrigação de aceitar ou
prejuízo, se fala de "ilegitimidade", esta não pode recair sôbre a aç1ãlo, vice-v~rsa. Ê de. um ·caso dês!e. gênero que aqui se trata. Se uma ~ção
para a qual é impossível tornar-se ilegítima a posteriori, mas apenas reves!I~a do ~Ul?ado ne~essano nas relações com os demais não é
sôbre 'o resultado. c~ntrana ao dIreIto em VIgor porque o agente está no direitO' de agir
Mas em tal caso, a idéia de ileg.itimidade ganha um sentido nôvo. deste mo~o, me~:n0 quando, eventualmente, esta ação provoque. um
Quando a a.çuo é legítima ou ilegítima por ser "p,errrdt{;'da" ou "proi- result~do In?ese]avel, o p~oblema é. saber se a vítima da conseqüência
bida", o resultado não poderia ser legítimo ou ilegítimo como se fôra da açao esta,. a sel;l respeIto, em SItuação de legítima defesa. Os que
"permitido" ou "proibido"', e sim apenas como sendo "jurIdicamente responde!ll ~fIrmatIvamente a esta questão crêem comumente _ apesar
desejável" ou "juridicamente indesejável". O dire.ito pode muito bem da p~rn;Is.sao de obr.ar - t;r. de declarar a ação "ilegítima". Tal é
atribuir conseq:üências jurídicas a resultados indesejáveis, por exemplo o r~CI?C~mO q~eexphca a "logIca estranha" do direito civil (76). Êste
para o autor (69) de um determinado resultado; mas em tal hipótese, r~clOcmlO .supoe provado, não obstante, que a ilegitimidade da agres-
essas conseqüências operam não porque tenha o agente efetuado uma sa,o,. men~l~nada no § 53 do Código Penal alemão e no § 227 do
açã.o proibida, e sim porque foi o autor de um resultaldo indesejá- C,?dIgO CIVIl alemão, atende às mesmas circunstâncias e tem conse-
vel (70). Se a êste respeito se emprega, às vêzes (71), a noção de quentemente a mesma significação que a "inobservância do cuidado
antijuridicidade, convém não perder de vista que tal têrmo, nêste caso, normal", a significação de uma interdir;ãJO' de obrar, dependente do
não recái sôbre uma aç'iJJo proibida, porém sôbre um resultado ~ndese-'
jável (a evitar). Ainda assim seria preferível distinguir também na. (72) Cf. especialmente FRANK, § 53, I, 2b; atualmente SCHÕNKE-SCHRODER,
§ 53; II, 2.
d . (73)A Por. exemplo, na resistência a um ato da autoridade e na salvaguarda
(66) LA.RENZ, Lehrb~wh des Schuldrechts, II, 3. a ed., pág. 364, desenvol-. h e ~~teresses Justos~ Sôbre o primeiro caso, cf. Niederschriften über d:e Ver-
vendo o artigo de H. S'1'OLL, in JZ 1958, págs. 137 e segs.; cf. também LARENZ, ~~w;:en der Grossen Strafrechtslkommission, V. XIII, págs. 49 ~ segs., e S'l'RA-
Karlsruher Foru1n 1959, .Beiheft zum Versicherungsrecht, págs. 10 e segs. 8cri H, Veran~wortun!J und Gehorswrn, 1958; sôbre o segundo caso, Nieder-
(67) LARENZ, ob. cito ften, V. XII, pago 167, XIII, pág. 150; ver ainda meu Strafrecht 11 a ed § 42
III, 2; § 73, III, 2 C. ' • ., ,
(68) No mesmo sentido agora com particular ênfase, VON CAEMMERER,
JT Festschrift, II, págs. 126 e segs.; NIPPERDEY, Karlsruher Forum, 1959, págs. 4 b (74) ~f., a propósito, a noção de direito de KANT: "conjunto de condições
e segs.; ENNECCERUS-NIPPERDEY, Allgemeinerr Teil, II, págs. 1.307 e segs. 80 as quaIs o livre arbítrio de um se pode combinar com o livre arbítrio de
outro, segundo uma lei geral de liberdade"
(69) Também, eventualmente, para outras "pessoas, por exemplo, para o
tratador de um animal (§ 833 do Código Civil alemão). e t d(
oSt
J
75
Ci., p.or exemplo ,a disposição .d~ -§ 904 do Código Civil alemão, sôbre
o ~ necessIdade: "O proprietário não tem o direito de proibir a ação de
(70) Aqui se situa a vasta área da "responsabilidade pela exposição a
perigo". ' u rem Sobre a coisa, quando ...
(71) Como, por exemplo, em relação ao § 1.004 do Código Civil alemão. (76) Especialmente R. SCHMIDT, NJW, 1958, pág. 488.

34 35
está excluído "quando o proprietário está obrigado à tolerância"; mas
desvalor da ação ~ lião do desvalor do re_sul~a,do, .yale dizer da ~ispensa C'om isto não afirma qua,ndo existe esta obrigação à tolerância. Em
. de ter que tolerar. Mas esta prova nao ~ .sufIclente. Tam~em. ~~­ todos os casos de risco permitido nos encontramos, queira-se ou não~
,GlSCH (77) declarou es~a .con~lusão "insuÍlclente, porqu~ a I.legItlmI- em presença de um verdadeiro acréscimo do perigo (80) que, em outras
dade como elemento da, ~nfr;a,çiW{} tem um pape.l ~ um sen~I~o dIferent~~ circunstância,s - fora do risco permitido - ensejaria incontestàvel-
ao papel e do sentído da ilegitimldade Clondtçao da !eg!tIma def,e~a - mente uma ação de cessação. Ao recusar admitir uma ação de cessação
Portanto, não é de modo. algum certo q~e a admlssao da legItIma nos casos de risco permitido se restringe o -direito negatório (ou seja,' •
defesa se justIficana valoratIVamente. Convem, em nosso. ~xemplo do o direito de não tolerar) pela permissão de obrar. Porém se a ação,
comêço conceder o direito de legítima defesa .a, B, que dlrlge de ma- num caso de risco permitido, ocasiona uma das conseqüências danosas
neira i~correta, cont;ra A, que dirige de maneIra c'orreta, se o ch?q~e que mesmo uma pessoa dotada de discernimento e prudência não se
não podia ser evitado por outros meios? É ver_dade que, ~a maIOria encontra em condições de ev.itar - e são unicamente essas conseqüên-'
.d'Os ca;;;os dêsse tipo a possil;>ilidade de , u.ma açao de legitIma def~sa cias as que pertencem ao domínio dos perigos permitidos - não po-
Não é quase concebível, nem para a: VItIma nem para .um terCeI!?_ deria ser objeto, nem prática nem logicamente, de uma ação de ces-
Seria, entretanto, concebível no segumt~_ caso: un:;t canAdldato ao. SUI-. sação, já que a lesão possível, contida em germe, inevitàvelmente, no
eídio (um bêbado, uma criança, um ancIao) se atIra sobre os t:ll!IOS risco permitido, não poderia ser evitada senão pela :proibição de tôda
diante de uma locomotiva que chega a todo va~or (78). O maqUllllsta acão afetada .de risco. Em outras palavras: a partir do momento em
não está em condições de freiar sua locomotIva a tempo, mas um que se admite a instituição do risco permitido, seja porque ninguém
terceiro poderia, acionando uma chave de linha, dirigí-l:;t contra u:n o negue ou pudera negá-lo, as lesões inevitáve.is dêle derivadas sãô
obstáculo, 'o que 'Ocasionaria o descarrilamento ~a 10comotIya e a lesao "acidentes deploráveis", para retomar a expressão já empregada em
ou a morte do maquinista ou do fogu!sta. A açao do terceIro deve ser 1911 pelo civilista-H, A. FISCHER (81) ou, como expõe NIESE, "um
justificada pela legítim:: defesa (auxíl!o ~~ .nece~,sidade) porque, o infortúnio, mas não uma injustiça" (82). Com maiores razões se é
maquinis,a havia -cometIdo uma a.gressao mJ,usta contra a: pess~a apenas uma conseqüênc,ia inevitável (83). A análise do § 1004 do
estendida sôbre os trilhos? ValoratIvamente estImo que tal dec:s~o nao Código Civil alemão mostra precisamente que a permissão de obrar
seria justa, mas reconheço que de minha part~ é um. puro, JUIZO de limita a não-necessidade de tolerar, mas que o inverso não é certo (84)_
valor, e que se poderia atribuir outro .. Não darl~.à vítima ou ao ter-
-ceiro que atuou para salvá-la um direito ~e legItIma defesa, mas lh.e (80) Não se vê o verdadeiro problema do risco permitido, se se dirige o
concederia tão somente uma escusa em razao de seu estado de neceSSI- perigo que implica a ação arriscada no sentido de uma "exposição a perigo pura-
dade (§ 54 do Código Penal al.emão) (7~~. . . . _ mente abstrata, suscetível apenas de ser enfocada estafisticamente", e se se
Se pelo contrário, se defme a antIJurldlCldade da agress~o par- lhe opõe "a exposição a perigo (o que se qUEr dizer, sem dúvida, é prejuízo) con-
creto e iminente", como faz LAREN'Z, ob. cit., pág. 364 (cf. também a nota n. o 52'
tindo do desvalor do resultado (prejuízo que não se está obrIgado _a supra) .
tolerar) é necessário responder à ?i~ícil questão de sabe~ quando nao (81) HANS ALBRECHT FISCHER, Die RechtS"widrig,keit mit besonde1"er Be-
se está obrigado a tolerar um preJUlzo. ~aturalme!lte nao basta re3- rüc,ksichtigung des Privo,trechtes, 1911, pág. 107.
ponder: não se está ob~igado a tolerar a,,~nter~ençao qu:'o outr.o. nao (82) NIESE, Streik ~cnd Strafrecht, 1954, págs. 30 e segs.; JZ 1956, pág. 460;
está no direito de realIzar, porqúe se Cal entao num CIrculo VICI?SO. NIPPERDEY, NJW 1957, pág. 1.778; ZIPPELIUS, NJW 1957, pág. 170 AcP. 157,
Com esta resposta se eliminam, é verdade, todos 'os casos nos qua~s o pág. 390; e ainda ESSER, Grnndlage1n und Entwicoklung der Gefahrdungshaftung.
1941; JZ, 1953, pág. 129.
sistema jurídico em vigor une sem ambigüidades o dever ,d~ aCel~a: (83) Pode-se, em certos casos, limitar o § 1.004 à obrigação, para o autor
e a permissão de fazer (como por exemplo no § 904 do CodlgO CIVIl do resultado, de reparar ou suprimir êste resultado, e, em razão dessa obrigação
alemão), mas se abstém de responder a todos os o~tr.os ca~o~. _ de reparação ou supressão, chamar a êste resultado "antijurídico". A expressão
O sistema da actio nega,toM do § 10.04 do C'OdI~O. CIVIl alema~ "resultado antijurídico" significa então resultado juridicamente indesejável e que
não proporciona tampouco uma resposta, porque 'O dIrerbo que preve deve, por esta razão, ser reparado ou suprimido (cf. a propósito a nota seguinte).
(84) Encontra-se quase o mesmo problema nas relações entre a salvaguarda
de interêsses justos, por um lado, e por outro a legítima defesa e a ação de omissão,
(77) Ob. cit., págs. 61 e 358. . A _
segundo o § 1.004 do Código Civil alemão. A salvaguarda de interêsses justos
(78) Elejo propositadamente uma locomotIva para est~ exemplo, ~ .nao um constitui um caso particular de risco perrmitido: o agente está no direito de emitir
comboio completo, para evitar que se me objete <;lue o numero de .vItImas .?a uma afirmação difamatória, com o risco de se estabelecer sua inexatidão, por-
"a ão defensiva" modifica as premissas do raciocímo. Cf. neste sentIdo tambem que não há outro meio de obter a certeza da violação (possível) de interêsses
ç . , 34 importantes (cf. a respeito a bibliografia contida na nota n.o 73, acima). O §
VON CAEMMERER, ob. CIt., pago 1 . .. . te
(79) E 't restringiria dêste modo, conforme o dIreIto VIgente, aos pa~en s 193 do Código Civil alemão prevê uma permissão de obrar, e portanto um direito.
pró,dmos. Sôbre o problema da legítima defesa, v. meu Strafrecht, 11. ed., de atuar (doutrina tradicional). Êste direito não restringe apenas a legítima
§ 14, II, 1 b.
37
36
A ação do agente pode, além disso, ser típica, quando não cor-
re~ponda ao comportamento prwdente da pessoq.-padrão!/,Convém per-
'guntar-se, também aí, se a reprovação pode ser feita ao agente em'
questilo: um estado de emoção ou de fadiga não imputável ao agente
pode, por exemplo, fazer desaparecer a reprovabilidade de uma ina::
propriada eleição dos meios a empregar para a realização da ação (86).
A doutrina tradicional preocupou-se sempre, é verdade, com êstes
elementos, enfocando-os, no entanto, do ponto de vista enganoso do
dever subjetivo de cuidado: o grau de cuidado que teria podido e
devido manifestar um agente numa situação concreta deve ser deter-
minado, afirma esta doutrina, exclusivOffYl.,ente de um PO%to de vista
subjetivlo (87). Reside nessa tese, sem dúvida, o mal entendido que
é uma das conseqüências mais gravosas que a doutrina tradicional
acarreta para a culpa: o conteúdo do dever de cuidado, vale dizer,
o cuidado necessário nas relações· com outrem, deve sempre e neces-
sàriamente determinar-se a partir de um ponto de vista objetw1o'; é
o comportamento exigível de parte do agente na situação concreta dada.
fI; ela Õ C'O
N

onda ao ~om o tament


Êste dever se impõe objetivamente ao agente e não se concretiza em
função das capacidades individuais dêste, senão no sentido de que o
j ii _IscermmSi~l±o e 'prudência, colocada nas mesmas cIrcunstancIas ~ agente capaz de efetuar a ação de forma apropriada deve efetuá-Ia
A agenit:,
1l'J Para a culpabilidade segue-se daí que o agente deve ter podIdo
. assim, se é que pretende efetuá-la, e ue que o agente que não é capaz
de efetuá-Ia de forma apropriada deve omitir a ação. O dever de omitir
executar também subje,tivlarmente o juízo de causalidade adequada a ação não apropriada aplica-se sem restrições a todo agente. Não o .
, objetivo (de uma pessoa com discernimento) com .r~f~~ência à J?o~si­ dever, mas apenas a reprovabilida,c/,e da violação do dever, será limi-
bilidade de lesão. Ao passo que a chamada prevIsIbIlIdade ,obJetwa tada pelos elementos subjetivos da falta de previsibilidade subjetiva
constitúi a tipicidade e a antijuridicidade da ação, a chamada pre- ou da falta de prudência.
visibilidade subjetiva constitui um elemento da reprovabilidade da ação Apenas à base dessa distinção sistemática se aclara o problema
típica e antijurídica. Quando o agente realizou efetivamente ao em- dos crimes culposas. O dever de cuidado é uma magnitude objetiva;
preender a ação o juízo de oausalidade adequ(JJda, agiu, com referência enquanto cuidado neeessáriO; nas relações com outrem, é êle o ponto
ao resultado possível, ~om culpa ciO%scie%te (85), e se êle tinha podido de referência em função do qual pode ser determinada a conformidade
tê-lo realizado agiu com culpa inconsciente. Para a reprovabilidade da ação do agente com a definição do fato típico; uma infração a
não surge dessa distinção qualquer diferença. êste dever representa o injusto típico nos crimes culposos. Ainda assim,
a primeira tarefa do juiz, a mais importante e também a mais difícil,
defesa senão também a possibilidade da ação de om'issii,o do § 1.004 do Código é a de procurar, por um lado, o que teria sido para o agente, nas .
Civil ~lemão. A ação prevista pelo § 193 não poderia tornar-se ilegítima a pos- circunstâncias concretas do caso, o cuidado necessário, e por outro, se
teriori pelo fato de que a inexatidão da afirmati.va difamatória seja constatada a ação do agente correspondeu ou não ao comportamento "apropriado",
ulteri;rmente! Contudo, uma vez provada a inexatidão da afirmativa, e se assim definido. É apenas na segunda hipótese que se coloca a queíj!tão
esta "ocasionou uma situação que tem como conseqüência uma ameaça e uma da reprovabilidade, e portanto da culpa. Esta questão, para que seja
lesão permanentes aos interêsses da vítima",,, o § 1: OO~ d? Có~igo Civil ale~ão
pode criar para o agente uma obrigação de dar fIm. a ~l~uaçao "por ele cnada pertinente, há de ser colocada diante do pano de fundo do dever obje-
mesmo se, ao tempo da ação, pudesse êle invocar uma JustIfICatIva (~GH, ~JW, tivo de cuidado e da infração a êste dever, ou seja, do caráter típico
1958, pág. 1.043). :Êste direito que deriva do § 1.004 e sua causa tem, ~ntao, o e antijurídic'O da ação (88).
sentido assinalado na nota n. o 83. Cf. Também SCH).VIITZ, MD'R, 1958, pags. 8.81
e segs., com indicações bibliográficas suplementares; VüN CAEMMERER, ob. cIt., (8?) Cf. VRS 5, pág. 368; 6 pág. 451; 10 pág. 213. Assim também pro-
pág. 130. . , t nunCIOu-se o BGH para o direito civil. Cf. BGH in VRS 4, pág. 91; 5, pág. 88.
(85) A distinção entre culpa consciente e do!us eventual1s ~ uma ou ra • (87) SCHÕNKE-SCHRÕDER, § 59, X, 6 e (pág. 527); MEZGER, Lehrbuch, pá-
questão que aqui não mais pode ser examinad~ .. EXI~te culpa :onsCl~?te quand?, gma 359; Leipz. Kom., § 59, III, Nr. 22; diversamente, MEZGER-BLElI, Studienbuch,
o agente confiou em que o resultado não SObl'eVlrm. Sobre a noça? _de confIança I, § 66.
e sua distinção da mera "esperança", cf. meu Strafrccht, l1. a edlçao, § 13, I 2 b. (88) As questões de sistema são questões de fato. Os êrros de sistema re-

38 39


minante") que entra "automàticamente" em jôgo como consequencia
à prudência o e ,1 u men e, de um determinado estímulo (por exempl'O, uma situaçãb perigosa).
prOl Içao, e particularmen e .em razão Essa reserva de disposições adquiridas pela ação dispensa o motorista
o eve 'O. Nos e 1 . arecem es e:- de concentrar-se permanentemente em cada uma das numerosas ope-·
cIalmente em relação ao princípio de conf,iança, como, por exemp()~ rações de direção, e libera sua atenção para a observação do tráfego.
'O:Jirro Mbrê ú ditei I,!! Me llPÔÍiaãaê ou & obrüfaçao de esner!t (89r. Sem essa reserva de disposições automáticas para a ação, a rápida
Finalmente, a resp'Onsabilidade pode ser excluída na hipótese de lnex,i- circulação moderna seria inconcebível.
gibilidade de unia conduta correta, e o conhecido caso do cocheiro O que aqui se expôs com o auxílio do exemplo da circulação de auto-
cujas rédeas se engancham na cauda do cavalo se situa bem, por outro móveis (92), vale para todos os campos da atividade humana. Tôdas as
lado, no domínio da circulação (90). Também em relação a êstes dois disposições para a ação que levamos conosco, tivemos que aprendê-las
pontos de vista, e desde que esclarecidas as questões da tipicidade e um dia e nos exercitamos penosamente mediante atos isolados. Essa
da antijuridicidade, a culpa, considerada como reprovabiUdade de um reserva de disposições automáticas para a açã:o, que funciona no sub-
comportamento por sua vez típico e antijurídico, se insere harmonio- consciente e no .inconsciente, nos deixa margem de ação para objetivos.
samente e sem dificuldades no sistema dos crimes culposos. cada vez mais vastos e gerais. A perquirição sistemática de nossos.
O problema específico da culpa nos <:rimes culposos não se coloca objetivos só é possível porque a execuçã'O individual de um grande.
aqui, entretanto, senão num domínio ligado à estrutura da ação. Vimos, número de escalões intermediários da ação se faz, de certa maneira,
nos crimes culposos, a antijuridicidade derivar da ausência do cuidado "em si mesma", automàticamente, a exemplo de não estarmos obrigados,
necessário na ação, e a culpa da reprovabilidade dessa falta de cuidado. ao caminhar, ao contrôle consciente de cada um de nossos passos, mes-·
Como compreender tal repr'ovabilidade partindo da ação? As ações na mo que em outra época o tenhamos feito. O <:ontrôle final da ação.
área da circulação, sôbre as quai2 fixamos a maior parte de nossas con- pode, dessa forma, concentrar-se sôbre determinados pontos, contanto-
siderações, nos proporcionam precisamente indicações importantes a e na medida em que sua execução possa apoiar-se sôbre disposições.
êste respeito (91). Quem aprende a conduzir um veículo, deve fami- para a ação adquiridas conscientemente ou semi-conscientemente no
liarizar-se com os instrumentos de direçã'O, de mudança de velocidade passado e incorporadas agora ao subconsciente e ao inconsciente. Por
e de freio; deve exercitar-se nos diversos movimentos das mãos e dos. outro lado, êsse contrôle deve levar em consideração os limites das
pés que lhe serão necessários para dirigir; deve compenetrar-se das disposições. para a ação que intervêm em sua exe<:ução, ou - em
regras e sinais de cir<:ulação e deve, sobretudo, aprender a adaptar sua outros têrmos - estabelecer um equilíbri'o entre a ação controlada
maneira de conduzir ao caráter incessantemente evolutivo do trânsito. conscientemente e seus elementos parciais automatizados. A êsse. res-
Cada uma das manobras individuais necessárias a essa finalidade, peito, tomaremos um exemplo na área da circulação: o condutor de
a.previsão do~ perigos e a forma de evitá-los, tudo isso deve ser apren- automóveis deve regular sua velocidade em funçã'o de seu govêrno das
dIdo .e _exercIt.~do mediante atos de vontade sistemática, até que a manipulações técnicas e de seu poder de reação. Se é certo que o
repetIçao frequente dessas operações e manobras as "automatize" e caráter apropriado ou correto de nossas ações repousa, em grande· I
provoque uma disposição inconsciente à ação (uma "tendência deter- escala, não sôbre um contrôle <:onsciente de cada elemento da açã:o,
senão sôbre disposições automáticas para a ação, adquiridas no pas-
sado (93), o caráter inapropriado 'Ou incorreto da ação deve repr'O-'
percutem nos êrros de fato, e vice-versa. Ainda assim não foi apenas "não- var-se, portanto, ao agente, na medida em que, fora da realizaçãó
prej;r~icial", senão fatal manter a desconsideraçã.o do cuidado necessário no de sua ação final, não tenha êle se preocupado c'om os limites de sul:!:s'
dommlo da culpa, mesmo depois que se precisou a idéia do cuidado objetivo. disposições automáticas para a ação, mesmo tendo podido distinguí-los.
, (89) Cf., por exemplo BGH in VRS10 pág. 176; OLD Oldenburg in VRS 11. Retornamos assim a nosso ponto de partida. Se o homem, o ser
pago 176; OLG Olden,burg in VRS 11, pág. 64; OLG Hamm. in VRS 13, pág. 71. mais mutável que existe, cuj a natureza se caracteriza precisamente
(90) RG 30, pago 25. Aparece aqui o caráter normativo da reprovabilidade
que não se resolve simplesmente no fato de poder atuar conforme o direito Sôbre por uma grande latitude no que se refere a comportamentos inatos'
isto, e sôbre a diferença entre a não-exigibilidade e a antijuridicidade, cf. E~NGISCR pré-estabelecidos, soube, no conjunto, enfrentar vitoriosamente a erup-
cit., pág. 443 e segs. . cão da técnica em sua vida cotidiana, isso é fruto, essencialmente,
(91) Sôbre () que se segue, d. meu artigo Personlichkeit und Schu'la, de haver conseguido criar uma "segunda" natureza: um conjunto de~
ZStW 61: págs. 468 e segs.. . Em relação à circulação de veículos, Cf. LUFF. Dai:! disposições para a ação, adquiridas e exercitadas, que se situam no>
Automattscroe Reaktionsverhalten des Kraftfahrers und seine reehtliC'he W/ür.
digung, in.· "Der offentliche Gesu'i'l.c7Jheitsdienst", 1957, pág. 154. Quanto aos au-
tomatismos de nossa vida afetiva, ver A. GEHLEN, Die Seele i1n techni..~chen (92) Outro exemplo comum seria talvez a natação.
Zeitalter págs. 104 e segs. (93) e com cujo funcionamento contamos em nossas ações finais.

40 41
subconsciente e no inconsciente, que se desencadeiam sob o efeito· de ttArmo senão sob a condição de colocar ordem elp sua cg.ncepção dos

!
"palavras de ordem" próprias às diversas sItuações da vIda, e que (f,C~imeS culposos, abandonar a visão tradicio~al, segundo a q1!al o re-
permitem ampliar-se dessa forma às grandes possibilidades de sua -f". ultado repre.senta o elemento penal essencIal do ato neglIg~nte, e
ação conscIente. O homem é também responsável por essas disposi- '!xtrair do fato de que o desvalor da apão ,.?onstitui o pont~ capItal _dO
çoes que representam sua segunda, natureza: de um lado, porque ele :ato culposo, as conseqüências que se Im~~em para a teorIa da açao,
devia aprendê-las laboriosamente e compenetrar-se delas mediante : ]:lara a antijuridicidade e para a culpabIlIdade.
atos conscientes; de outro, e principalmente, porque as integra em
suas ações conscientes e finais, o que lhe impõe· a obrigação de regular
a amplitude de suas ações sôbre os limites dessas disposições. para a
ação. Se, no direito penal da circulação, a condução em estado de
embriaguez é considerada a justo título como manifestação particular-
mente grave de ausência do sentido das responsabilidades, deve-se a
que, em tal situação, é patente o desprêzo aos limi~es (momentâneos)
das disposições automáticas para a ação.
O exemplo da condução em estado de embriaguez mostra também
que nos encon,tramos num momento decisivo de nossa consciência mo-
ral geral. Até hoje a embriaguez podia passar, em larga medida, como
um assunto privado, porque suas conseqüências eram insignificantes;
num motorista, ela representa um perigo social. O que está em evi-
dência, na condução em estado de embriaguez, é válido para tudo o
que diga respeito à circulação. O fato de dirigir-se ao trabalho, visitar
amigos, passear, constituía até hoje um assunto privado, sem con-
seqüências. Não são assim os correspondentes deslocamentos efetua-
dos em automóvel. E não se trata unicamente dêles! Em razão da
estreita i:Qterdependência dos proc~sso~ de circulação, 'Os próprios des-
locamentos dos pedestres não constituem assuntos puramente privados.
A técnica nos impõe a todos uma respornsabilidaJ(];e social desconhecida
anteriormente. Entretanto, nossa geração conserva um pé no mundo
pré-técnico, e é por isso que não adapta senão lenta e dificilmente
seus juízos de valor ao incremento da responsabilidade social do ho-
mem. Característica a êsse respeito é uma comprovação feita no es-
, tudo mais recente sôbre as causas próprias de. acidentes na circulação
das vias alemãs, segundo o qual "ainda hoje e;m.. dia oS! deljtQ'a de
~fe~o - especialmente os graves ~ quanao não sejam se uidos "por
um resulta o . o e nen uma
~iêcüÇã:Q,'" ou - também freqüentemente essas pe -
euções são abandonadas pela insignificâncIa a ca .
qUeF-qUe atrIbua ao aIreito penal uma funçao predóminantemente
sócio-ética e sócio-pedagógica não deixará de perceber nêle um dos
meios mais importantes - e sem dúvida o mais importante - de
impor uma tomada de consciência da responsabilidade social incre-
,'mentada para cada um na vida cotidiana. A relização prática dessa
ltarefa é assunto que os juristas não poderiam, c'ontudo, levar a bom

(94) ERNST MAYER e ERNST JAKOBI, Typische Unfallursachen im deutschen


Stra8senver kehr, darge'stellt am Hand einer statistieher Untersuckung, vol. I,
pág. 185, publicação do conselho administrativo Wir und die StraS8l6', Bad Godesberg.

43
42
PARECER
5. A imputação caluniosa estaria contida na ,mencionada carta, na qual
2rrolando diversas notas promissórias que o querelante, ap·ós a quitáÇ'ão, estaria
retendo indevidamente, o paciente assim alude a uma delas:

"promissória de Cr$ 763.200 ( ... ), por mim emitida em favor de


V. Sa., vencida em 30 de outubro de 1961, já paga em dôbro mediante
ardil de V. Sa., e indevidamente retida".

CALúNIA. CONFIGURAÇÃO DO CRIME 6. Embora contida em carta, o Tribunal reputou realizada a comunicação
,a terceiro .da imputação, essencial para a configuração da calúnia, por ter sido
VICTOR NUNES LEAL .a missiva enviada ao destinatário por intermédio de Cartório de Registro de
Titulos e Documentos.
7. Assim resumidos os pressupostos de fato da decisão. condenatória, passo
Calúnia. Condenação a título de calúnia por pre,tendida imputaçã(Jp a emitir o meu parecer, adiantando de logo que, após madura reflexão sôbre o
de estelionato. CrVme não configurado, por atipicid,~de da imputação. .caso, concluí pela inexistência da calúnia.
Dadas as singularid<ades da figura penal do estelionato, é impres-
cindíve!l p,ara q'ue 8e configure a oalúnia, qUe a imputação dita oa,lunios(/;
seja tão circunstanciada quanto necessário para qW8 se possa apurar a' III - DO CRIME DE CALÚNIA
caráter penal ou sÍ1nplesm.ente cúiÍJl alao fraudJ atribuída ao sujeito passivo~
8. É de saber elementar que constitui elemento essencial para a tipificação
I - EXPOSIÇÃO PRELIMINAR <Ia calúni~ que a falsa imputação se traduza na atribuição ao ofendido da prática
<Ie um fato criminoso deter~inado.
1. O Dr. Oscar Negrão de Lima pede o meu parecer sôbre a configuração" 9. Discrepam, no entanto, todos os tratadistas, quando se cogita de pre-
ou não, na hipótese versada no HC 48.757 - ora pendente de ,decisão pelo ego cisar o grau de determinctção' necessário para que a imputação, se falsa, seja
Supremo Tribunal Federal - do crime de calúnia, pelo qual foi condenado o seu reputada objetivamente como calúnia. Variam, realmente, quase que de autor
filho Eng. o Márcio Resende Lima, ora paciente, por fôrça de acórdão do coI. para autor, os critérios aí sugeridos: desde os que exigem sempre que a imputação
Tribunal de Alçada de Minas Gerais. seja tão circunstanciada quanto se requer da denúncia, aos que, como o grande
2. A consulta veio acompanhada de cópia da carta dirigida pelo paciente ao- HUNGRIA (ComlYatários, 1955, VI-61), consideram suficiente, para a determinação
Dr. Rubens Resende Neves, que constituiria o corpo de delito da calúnia, e de do fato, "que se dê a impressão de certo acontecimento concreto ou específico".
cópias do acórdão condenatório, dos pareceres sôbre a espécie, subscritos pelos 10. Após a leitura de representantes das duas correntes, ambas constituídas
eminentes professores José Frederico Marques e Magalhães Noronha, bem como> de penalistas do maior tomo, não me convenci de que, em princípio, 'se deva
da petição de habe,as cropus, esta da lavra do ilustríssimo professor Heleno Cláu- ser demasiado exigente quanto ao grau de determinação do fato criminoso impu-
dio Fragoso.
tado, para que se dê por concretizada a calúnia.
3. Não sendo especialista em Direito Penal, a verdade é que hesitei em
11. De regra, por exemplo, tenho por formalismo exagerado, data venia,
somar minha opinião sôbre o caso àos três eruditos pronunciamentos, emitidos
que se reclame da imputação caluniosa o mesmo número e precisão de circuns-
por tão renomados tratadistas da disciplina. Ccnvenceu-me ,porém, a honrosa
tâncias de fato que a melhor jurisprudência prescreve intransigentemente para
insistência do consulente a abordar certos aspectos do problema, que me pareceram
a denúncia ,sob pena de inépcia.
de especial relêvo, ainda que o faça sem o instrumental teórico dos reputados pe-
nalistas que já se manifestaram. 12. É que os requisitos de precisão do conteúdo da denúncia respondem fun-
damentalmente à garantia de ampla defesa do acusado, que postula, como con-
dição básica, que a acusação seja formulada em têrmos claros e, quanto possível
II - O FATO
circunstanciados. Já na calúnia, bem como na difamação, a exigência de que a
4. O paciente, absolvido em primeira instância, está condenado por calúnia~ imputação se cifre em um fato determinado corresponde, segundo a generalidade
como tendo imputado falsamente ,ao seu ex-sócio a prática de um crime de dos autores, à razão de ser de sua mais grave apenação em relação à injúria,
esteliona to. e que se situa na maior credibilvr1Ja'de da acusação concreta de um fato em relação
à simples assacadilha de uma expressão ofensiva.
44
45
13. Ora, a melhor razão parece estar com HUNGRiA (op. loco cit) , quando. 21. De um lado, a fraude criminal, em que o estelionato se consubstancia,
assevera que "essa maior credibilidade, porém, não está necessàriamente subor-- traduz - em oposição aos crimes patrimoniais deviolên.cia, cland.estinidade ou
dinada a uma descrição detalhada". Claro que, sendo falsa a imputação, o maior mero oportunismo - um refinamento intelectual das manifestações do instinto
número de pormenores com que o agente a cerque não só dará maior consistência. predatório (ANTOLISEI, Manuale di Diritto penale, 1966, Partel spe,ciale, 1-253),
ainda à acusação mentirosa, como também desvelará dolo mais intenso: são dados, o que faz dêle na expressão de HUNGRIA, (op. cit., VII - 164), "uma forma
no entanto, que, segundo me parece, hão de ser levados em conta na fixação da evoluída de captação do alheio" ou, em outra passagem (id, ibidem, pág. 163),
pena, mas não chegam a constituir elementos essenciais à própria t:pificação< "um a testado do poder de inventiva e perspicácia do homo sapietns", aí porque
da calúnia. fruto da imaginaçãó inteligente do criminoso refinado, o estelionato haja de ser
14. No caso concreto, todavia, e isso é fundamental, não tem maior relêvo. definido pelo legislador em têrmos tão amplos quanto possíveis para abranger
a posição de princípio que se tome a respeito do dissídio doutrinário a que me as manifestações múltiplas e imprevisíveis da fraude penal. É impossibile -
ó<

vinha referindo. dizia o insuperável CARRARA (Programma, ed. 1.875, 1V-536, § 2.340, nota) -
15. É que, se se trata de calúnia - falsa imputação de fato definido como' stringere in una descrizione di fonne materiale il concetto ~3lo stellionato; im-
crime - o grau de determinação do fato imputado encontra, no próprio texto possibile classificare la enumerazione dei vasi nei quali si estrinseca questo pro-
do art. 138 do Código Penal, um mínimo indispensável de precisão e circunstancia- teiforme '('I8'ato sotto l'impulso della eallidità dei malvagi desiderosi sempre di
menta, que decorre da necessária tipicidade da imputação. ar'i'ichirsi a danno dell'(jJltrui bonna fede". Serve-se, pois, "o legislador, a essa
. 16. Em outras palavras: se é de calúnia que se cogita, pode a doutrina. conta, de fórmulas diversas e amplas com que procura rastrear a atividade mul-
dIscutir e variar a jurisprudência sôbre a necessidade ou não da menção expressa, tiforme dos burlões e enliçadores" (OOOZIMOO in STF, HC 31.168, AJ 95-81).
no teor da imputação falsa, a esta ou aquela circunstância acidental do crime- 2'2. Mas, como teve de traçar, ao fixar o tipo, círculo suficientemente largo
atribuído ao ofendido; mas é inquestionável que todos os essent~1'Xlia delicti hão de conceitos para abarcar o número incalculável de imprevisíveis formas de exe-
de esta~ presentes .no fato imputado, ou não se poderá falar de fato definida cução do estelionato, o legislador não pôde, de regra, fugir da inconveniência de
cama cnme, nem, vIa de conseqüência, em calúma. uma definição tão genérica, que, aplicada em sua literalidade, não compreenderia
17. Por conseguinte, o mínimo de pormenorização das circunstâncias are" apenas tôdas as manifestações substancialment~ criminosas da fraude, mas se
clamar-se, em cada caso, da imputação, para que se possa aferir da existência estenderia também a hipóteses sôbre as quais seria lícito fazer incidir a gra-
de .calúnia,_ só indire,tamente se extrai do art. 138 do Código Penal. Exigindo êste vidade das sanções penais. Baldados seriam os esforços para, da letra dos textos
a lmputaçao de fato definido como crime, o padrão direto e imediato a con- pmais que defniem o estelionato, dqsW/1'lJClr.e un critério per distinguere gli artifizi
frontar-se com os têrmos corretos da imputação é menos a definição da cláusula criminosi dai non criminosi nelle umane contrattazioni (CAR>RARA, op. loco cits,
do ~u~ a descri~ão legal do crime que, na espécie, se pretenda ter sido falsament; § 2.340).
atnbmdo ao SUJeito passivo da suposta ofensa. 23. Surge daí a tentativa plurissecular de encontrar, implícita no ordena-
18. É essa consideração que, na hipótese em estudo, me faz concluir no mento jurídico total, a diferença específica, seja, em geral, entre o crime e o
mesmo sentido da petição do professor HELEN'O FRAGOSlO e dos pareceres dos pro- delito civil, seja, em particular, entre a fraude civie., reparável e punível pelas
fessores FREDERIOO MARQUES e MAGALHÃES NORlONHA, não obstarÍt.e me haver sanções do direito privado, e a fraude criminal, úniea a justificar o recurSo
colocado; e~ ,linha de princípio, mais próximo de HUNGRIA e do eminente ANIBAL extremo à pena.
BRUNO (D~re~to penal, 1966 IV-303), no tocante à premissa do quantum de deter- 24. A matéria deu margem, como se sabe, a valiosas construções teóricas
minação do fato imputado. de juristas, das quais HUNGRIA dá um resumo valiosíssimo em seus Comentários
19 .. É que a espécie, segundo a decisão condenatól"ia, seria de imputação (VII-l72 ss). O balanço dos resultados da discussão não é, entretanto, de molde
de estelwnato, o que torna particularmente delicado o exame do problema, in- a estimular novas pesquisas para a formulação de um critério, bastante genérico e
dependentemente de se requerer ou não, em regra, maiores especificacões do fato ao mesmo tempo suficientemente preciso, para a distinção. HELENO FRAGOSO
pa.ra a afirmação da calúnia. Com efeito, são as singularidades qu; marcam o parece expressar o pensamento geral da doutrina contemporânea, ao asseverar
cnme de estel~on~to que me levam a concluir que o trecho de carta, no qual que as diversas teorias sôbre o tema "hoje têm apenas valor mais ou menos
se funda o acordao, na verdade não traduz calúnia. histórico" e ao concluir que, na verdade não há diferença ontológica entre a fraude
penal e a fraude civil )Liçõo,s de Direito Penal, 1962, 2-346).
25 . Da impossibilidade de diferenciação ontológica, entretanto, não se pode
IV - DO ESTELIONATO tirar a conclusão radical dos que, como IMPALOMENI e MANZINI, citados por
HUNGRIA (op. cit., VII -180) e também SOLER entendem qu~ qualquer procedimento
20. Realmente ,o esteliona,to apresenta peculiaridades que fazem dêle um classificável como fraudulento pode configurar estelionato, se estiverem presente",
tipo ímpar de delito, no elenco das infrações penais. os demais elementos traçados no tipo legal.

46 47
2'6. Uma vez mais, o grande HUNGRIA expõe com absoluta clareza que me prossegue o mestre de Turim - tale interpretazione n~n é del tutto aderente aUa
pareceu a colocação mais razoável e realista do problema (op. cit., v. VII): lettera della leuge, ed à 1linche indiscutibile che lascw, un notevo~/margine aI
"Reconheça-se a impraticabilidade de uma distinção in abstracto ou rigorosamente podere discrizionale del giudice (op. loco cits., pág. 257).
científica entre fraude penal e fraude civil, mas há que atender a êste fato Expressivo, por fim, é o testemunho da jurisprudência. espanhola m~is. mo-
irrecusável: a constante impunidade assegurada pela justiça criminal a certos derna prestado pelo professor JUAN DE ROSAL em seus, valIosos Som~'11Jtano~ a
casos de fraude contra o patrimônio. É que então existe, embora sob um prisma la doctrina penal del Trib~~naZ Supremo (Madrid, 1961, pago 303): As~, adquwre
alheio ao da lógica abstrata, uma fraude localizada aquém do direito penal, ou con f ~rmac~on
· ., plena de que" en última instancia cuando se trata de entresacar de,
não excedente das raias do direito civil". (pág. 180). "Negar a existência de los homens vitales, situaciones penales o civiles, la valoración deZ juzgador, t~ndra
uma fraude autêntica e não exorbitante da órbita civil é abstrair o que se pro- P ~netrar al través del eXamJM agudo do la prueba, en ai remo'to (jonf~n de
clama nos tribunais. E o critério da jurisprudência é incensurável: sabem os queactitud interior
la , de la persona, med'iante el h.lt o ex t · d e la f·n
ertor ~ a l"dad
~ """"o
~..
juízes que a pena é fôrça de reserva na defesa da ordem jurídica, e a consciência puesta, y claramente exteriorizada. " .. A. •• •

lhes dita que nem tôda e qualquer fraude, mesmo excedente da licenti}fJJ decipiendi, 32. É do maior relêvo observar que a Junsprudêncqa bras~letr,a, e partIc~~~r-
justifica ou reclama a reforçada sanção criminal. Somente integra um crime a . r·sprudência
IUen t e a JU 1 do Supremo Tribunal Federal, tem abonado • com frequen-
, d-
fraude que reveste cunho de especial malignidade. Fraude punível é só a velha- . ess a mesma colocação doutrinária. São numerosos, com
Cla _ efeIto,d. os acorh. aos
,
caria chapada, o refinado embuste, a patifaria genuína fraude pe>rigosa, enfim" d S emo Tribunal em que se versou sôbre a configuraçao, nas Iversas IpO-
(pág. 182). o upr d T ·t ..1 (
teses, de verdadeiro estelionato ou de simples frau e ou I ICI o CIVI v. g
2'7. Renunciando, embora, à fixação apriorística de um critério de distin- RHC 38.270; HC 39.822, RF 206-244; HC 39.287, RF 208-239; EC 39.941:
ção, a melhor doutrina contemporânea não foge, entretanto, à realidade, sentida HC 39.664; RHC 39.872, DJ 3-1-64; REC 42'.043; HC 4.224, RTJ 32-398:
constantemente pelos Tribunais, na vivência dos casos concretos: há fraudes que RHC 42.823, RTJ 35-289; HC 44.076, RTJ 42-39; !lC 44.290, RTJ 43-31.'
c'mbora enquadradas na literalidade do tipo legal do estelionato, não alcançam a REC 45.631, RTJ· 47-263 etc.). O importante é que esses precedent:s do. Tn- A

gravidade bastante para a caracterização do crime. bunal sem embargo de ora afirmarem, ora negarem, in concrreto, a eXlsten.CIa de
28. Por isso, a tendência doutrinária hoje prevalente é a de deixar ao fraud~ penal, guiaram-se todos pela "lógica del razlYYli.fJJble" e~ergente das CIrcuns-
prudente arbítrio do Juiz a tarefa de classificar a fraude como penal ou mera- tâncias da espécie, de tal forma que dêles não se pode extraIr qualquer postulado
mente civil, à luz da consideração global de tôdas as circunstâncias do caso con- genérico que permitisse diferenciações abstratas.
creto: "como ao legislador seria impossível uma exaustiva fórmula casuística na 33. Assentadas essas premissas, já é lícito reafirmar, sem ca~sar espan~o,
seleção da fraudJe penal, ao juiz é que cabe, necessàriamente, apreciar se êste Ou que não é fácil divisar calúnia em uma simples frase, na qual se dIZ de a1guem
aquêle caso concreto se enquadre, ou não, no versículo genérico da lei penal". que obteve um proveito mediante ardil. .
( ... ) "Na incriminação da lesão patrimonial per fraudem, existe a lerx; proevia, 34. Com. efeito, se para haver estelionato não basta ?ue tenh~ havIdo fraude
mas, como esta tem de adotar uma fórmula de contornps amplos ( ... ), não pode - seja qual fôr o nome que se lhe dê - , mas é tambem de mIster que, :xa-
deixar de ser confiada ao juiz, na sua própria função específica de jus conditum minada em concreto, a fraude seja grave e o bastante para ganhar as c~res
dicere, o oportuno ajustamento dessa fórmula aos casos o~orrentes" (HUNGRIA, fortes do direito penal, uma conclusão se impõe. Uma si~ples palavr~ :-' amda
op. cit., VII-179).
que art ~·1'~mo
. e ~,
n~d';Z
., que foram as escolhidas pelo legIslador
. braSIleIrO
. para I
29. E a formulação de HUNGRIA tem tido, no Brasil, a adesão geral dos mais definir exemplificativamente o modo de execução do estelIonato - , uma sImp es
eminentes penalistas. Assim, para HELENIO FRAGOSO (op .cit., 2-346), a dife- palavra jamais será suficientemente expressiva p~ra que se .possa ter, de modo
rença entre a fraude penal e a fraude civil é apenas "questão de grau ou de inequívoco, como penalmente típica, uma imputaçao de estehonato.
quantidade, a ser resolvida, em última análise, pela apreciação do juiz ,que deverá
35. Ardil ou artifício, ainda que se diga que foram usados como forma. ~e
considerar o conjunto das circunstâncias do fato, inclusive a capacidade das partes captação de uma vantage'Yn indevida, podem traduzir fraude mera;ne.nte. cw~l.
e suas limitações". No mesmo sentido, MAGALHÃES NORlONHA, Direito Penal, E só os pormenores do caso concreto permitirão dizer de sua crImmalIdade,
1960, 2-455.
ou não.
30. Seria evidentemente inoportuna uma cansativa reprodução de opiniões
no mesmo sentido de numerosos doutrinadores estrangeiros. Vale recordar, no 36. Vale a respeito trazer a palavra do ego Supremo Tribunal ~e~:;~~ em
entanto, que o próprio AN'OOLISEI, apesar de refutar, em princípio, a existência decisão de sua antiga Primeira Turma - RHC 46.367 de 11-11-68, RT , .-
de qualquer separação entre a fraude penal e a simplesmente civil, acaba por de que foi 'relator o eminente magistrado Ministro BARROS MOINTE~~. ConSIde-
reconhecer que, com freqüência, se verificam em um dado ambiente e para deter- rando inepta - não porque pouco circunstanciada, mas porque '(t,t~pwa - uma
minados negócios, fraudes (inganni) que la coscienza social ripro'Va betnsi, ma denúncia por estelionato, S. Exa. demonstra a necessidade de que se descreva
considerw semplici scorre'ttezzi, que não dão vida ao estelionato. Senza dubbio _ concretamente o ardil e o artifício empregado:

48 49

. """
tração e nos pareceres mencionados, concluo por todo o exposto ,e~ qu~, na es ;-.
p
.. No caso dos autos, segundo sua descrição legal, é elemento do cie, não tendo imputado ao querelante a prática de ,um f~to que m~lV'oc~men e
tipo penal do estelionato o emprêgo pelo agente de artifício, ardil possa ser definido como estelionato, ou qualquer outro cnme, o pacwnte nao per-
ou qualquer outro meio fraudulento ( ... ).
Trata-se, então, de elemento indicativo da maneira de execução petrou cwlÚnia. d' - d
clusão se chega sem qualquer lscussao a prova,
do crime, cuja falta causa a desaparição do tipo criminal e pode 41 E como a es t a con ' f '
, " t ' apenas da correta qualificação jurídIca dos fatos a Ir-
gerar a formação de um simples ilícito civil. as ao contrarIO a raves d
:m , , d'- t em que a matéria pode ser resolvida no processo e
Neste existe, por vêzes, a malícia, o ardil, o engano, a fraude, :mados pelo acor ao, es ou
até mesmo o dolo. São freqüentes as transações comerciais ou civis habeas corpus.
É o meu parecer.
em que êsses elementos subjetivos desempenham decisivo papel ...
A denúncia, incorrendo em defeito de narração, não indicou no
caso qual o modo ou de que maneira o recorrente conseguiu induzir
a vítima em êrro. Disse apenas, vagamente, que foram usados arti-
fícios e ardis os mais variados. Assim o fato não chega a ser nada,
nem se é crime, nem se é delito civil."

37. O que se pode, pois, concluir é que, para que se tenha uma imputação
de estelionato, ainda que para o simples fim de caracterizar calúnia, não basta,
como no caso, que o agenfJe afirme de outrem que, mediante a;rdi~, conseguiu re-
ceber em dôbro o valor de uma nota promissória.
38. Dadas as peculiaridades da figura penal do estelionato, em razão das
quais nem sempre o realiza concretamente o fato, ainda que literalmel}te enqua-
drável no texto do art. 171 do Código Penal, é imprescindível que a imputação
do emprêgo de ardil seja circunstanciada. Só assim será lícito afirmar que, em
um caso dado, se imputou ao sujeito passivo uma fraude penal e não meramente
civil. Despida das circunstâncias concretas de vária natureza que permitam qua-
lificar a fraude, a imputação é atípica e não pode, por conseguinte, servir à con-
formação da calúnia.
39. Ao afirmá-lo ,não entro em contradição com a posição de princípio,
antes tomada quanto à desnecessidade de uma minudente descrição do fato para
a tipificação da calúnia. De regra, esta me parece a melhor doutrina. Mas,
quando se trata de estelionato, a exigência de que a fraude esteja circunstancia-
damente descrita, no próprio corpo da imputação supostamente caluniosa, decorre
diretamente das singularidades do tipo penal que se pretende ver configurado
na falsa atribuição de crime. É que, como se disse, não é o art. 138 do Código
Penal, ao definir a calúnia que fornece ao intrérprete a medida de determinação
que há de ter o do fato imputado. Contenta-se o art. 138 com a tipicidade da
'imputação. Mas se a imputação deve ser típica, o que vai d'izer da maior ou
menor necessidade de especificações do fato imputado é a simplicidade em com-
plexidade do tipo - não o da calúnia - mas o do crime que se pretende ver
configurado na acusação ofensiva. Se o tipo é simples, como o do homicídio,
quase nenhum pormenor é necessário, para que a calúnia se configure. Se o
tipo é complexo e depende, como é notadamente a hipótese dQ estelionato, exame
global das circunstâncias do fato, a imputação há de ser necessàriamente circuns-
tanciada para não ser atípica.
Deixando de analisar outros aspectos do problema, entre os quais o da ine-
xistência do elemento subjetivo da calúnia, já magnIficamente versado na impe-
51
50
nV~~~JA1tlU

III - Que as leis rep.ressivas ao comércio, posse 0!1 facilita~o do uso de


entorpecente ou de substância de efeito análogo, permitam, de modo positivo e
racional, a identificação das drogas nocivas, evitando a consumação de clamo-
rosas injustiças, desenvolvendo-se, ainda, com veemência, a louvável 'cruzada
cor.ira os tóxicos, através de jornadas educativas com o fim de revelar os extra-
ordinários malefícios, de ordem física e moral, resultantes dêsse vício degradante.
IV - Que os estabelecimentos penais brasileiros sejam estruturados de
modo conducente ao tratamento eficaz dos criminosos a todos proporcionando
os meios indispensáveis à reeducação pessoal, colimando, especialmente, a res-
I SIMPóSIO DE DIREITO PENAL socialização dos delinqüentes habituais e dos criminosos por tendência.
V - Que os Códigos Penais do Brasil, no sentido de sua mais eficiente
Sob patrocínio do Curso de Direito do -Centro Sócio-econômico da Univer- influição no combate à criminalidade e na segurança da defesa social, consagrem
dade Federal do Pará, realizou-se em Belém o I Simpósio de Direito Penal, 110 terminologia técnica apropriada, eliminando o emprêgo indevido de expressões
período de 24 de maio a 9 de junho do corrente ano, para discussão de temas dúbias, que tanto concorrem para defeituosas interpretações e prejudiciais apli-
relacionados com os novos Código Penal e Código Penal Militar. cações da lei aos casos concretos.
Foi coordenador do Simpósio o prof. ALDEBARO CAVALEIOO DE MACEDO KLAUTAU, VI - Que as medidas de segurança, em sua específica função preventiva
tendo integrado a sua comissão orientadora oDes. AGNANO MOREIRA LOPES, e educacional, como complementos ou substitutivos da pena, encontrem, em nosso
presidente do Tribunal de Justiça do Estado do ;Pará; o prof. ALDEBARO CAVA- país, as instalações e os técnicos imprescindíveis ao seu aplicamento em prol
LEIRO DE MACEDO KLAUTAU FILHO, presidente do Conselho Secional da OAB, Seção da readaptação social dos imputáveis e dos inimputáveis, que tanto necessitam
do Pará; oDes. MOAC'YR GUIMARÃES MORAES, procurador geral do Estado do de sua benéfica cooperação.
Pará, e o prof. CLÓVIS CUNHA DA GAMA MALCHm, coordenador do Centro Sócio- VII - Que a personalização de pena, elevada a princípio dogmático na
Econômico da Universidade Federal do Pará. penologia moderna, encontre, em oportuna reforma da legislação pátria, diretriz:
Ao encerrar-se o Simpósio, foi aprovado um pecálogo de Recomendações, nos segura a prudentes e sábias fixação e execução da pena, como salutar retribuição
seguintes têrmos: do mal concreto do crime pelo bem concreto da pena na concreta personalidade
"O Plenário do I Simpósio de Direito Penal no Estado do Pará, realizado do criminoso.
de 24 de maio a 9 de junho de 1971, no Palácio da Justiça, em Belé~, sob () VIII - Que os Juizados de Menore'5 sejam devidamente aparelhados ao s.eu
patrocínio da Universidade Federal do Pará, e com a colaboração dos Podêres fiel e meritório desiderato.
Judiciários e Ministérios Públicos da União e do Estado, da Ordem dos Advo- IX - Que a prisão perpétua e a pena de morte, execradas pela contempa-
gados do Brasil, Secção do Pará, e do Diretório Acadêmico de Direi'to conside- rânea penologia, por ineficientes quanto à regeneração dos condenados, e ofen-
rando os temas nêle discutidos resolve, ao encerrar seus trabalhos ;romulgar sivas à dignidade da pessoa humana, sejam proscritas do direito positivo bra-
as seguintes recomendações que espera ver atendidas pelas autoridades compe- sileiro.
tentes da União e dos Estados, nos limites de suas atribuições constitucionais. X - Que outros conclaves, da natureza dêste, se efetivem entre nós, ver-
I - Que, no sentido da humanização do Direito Penal Militar, as leis ordi- sando diferentes ramos da ciência jurídica, e que, em futuro bem próximo, se
nárias brasileiras consignem, de modo expresso no capítulo referente à prisão torne em realidade o I Simpósio de Direito Penal da Amazônia".
para averiguações, o preceito do § 3. 0 do artigo 153 da Constituição da Repú-
blica Federativa do Brasil, que estabelece imperativamente: "A lei não poderá
excluir da apreciação do Poder Judiciário qualquer lesão de direito individual". 8.° CONGRESSO INTERNACIONAL DE DEFESA SOCIAL
II - Que, assegurado, em plenitude, o direito à greve, na conformidade do
Realizar-se-à em Paris de 18 a 22 de novembro próximo, o 8. 0 Congresso
item XX do artigo 165 de nossa Lei Magna, sejam outorgadas à Justiça do
Internacional de Defesa Social, organizado pela Sociedade Internacional de Defesa
Trabalho, em todo o território pátrio, condições de pessoal e estrutura, necessá-
Social (Paris) em colaboraçãó com o Centro Nacional de Prevenção e Defesa
ri~s ao ex ato cumprimento de suas elevadas funções, de modo que, conciliando
Social (Milão).
e Julgando, com acêrto e proficiência, possam seus diversos órgãos garantir har-
O tema geral do CO!igresso será "As técnicas de individualização judiciária",
monia e solidariedade ao capital e ao trabalho, anulando, assim, conflitos entre
com Quatro distintas seções: a jurídica (presidente, prof. JESCHECK; relator
a~ fôrças realizadoras da produção nacional, notadamente quando consubstan-
CIadas na grl}ve violenta e no abandono coletivo do trabalho. geral ~rof. KOUDRIAUTSEV); penitenciária (presidente, prof. PAUL CORNIL; rela-
tor geral, prof. ERIKSOO.N) e a médica-biológi"a. (presidente, prof. BEIDmMAN;
52
53
'relator geral, prof. DENIS SZABO). O relator de síntese geral será o prof. GElORGES dividualização judiciária: trata-se, inicialmente, tanto de política cr-iminal quanto
LEVASSEUR. de técnica jurídica, propriamente dita. :Ê:ste processo penal de individualização
Os interessados poderão dirigir-se ao Centro Nacional de Prevenção e De- suscita igualmente - e particularmente do ponto de vista da política criminal
fesa Social (3, Pia'zza CasteIlo, 20121 - Milão, Itália) ou à Wagons-Lits/Cook, _ questõe:;; que devem ser examinadas, de um lado, por sociólogos, e, de outro,
Départment des Congres 40, rue de rArcade, Paris 8e, França. por médicos, psiquiatras e psicólogos. Finalmente, êste mesmo processo penal,
A Sociedade Internacional de Defesa Social se esforça constantemente em como se propõe a assegurar, ao mesmo tempo, proteção da sociedade e do indi-
encorajar, na medida do possível, pesquisas, estudos e debates sôbre os proble- víduo, mesmo o delinqüente (com vistas à sua posterior reintegração social), é
mas fundamentais das sociedades contemporâneas. A sociedade objetiva essen- a base e o ponto de partida de um processo penitenciário que a Defesa Social
cialmente a difusão e aplicação dos resultados que até o presente alcançaram não mais concebe como radicalmente separado da fase judicial. Por isto, os
as modernas teorias, criminal e social. O resultado derradeiro deveria ser a representantes das váJ;'ias ciências humanas estão comprometidos no esfôrço de
procura de uma política de conjunto "na medida do homem". ou seja orientada desempenhar as técnicas processuais de individualização no curso do processo
principalmente no sentido da prevenção do crime, graça à ação sistem~tica sôbre penal.
os fatôres criminógenos sociais. Trata-se de uma extensão, para além das técnicas neo-clássicas de indivi-'
Os dois primeiros Congressos Internacionais de P,fesa Social (realizados dualização, e também além dos problemas específicos examinados pelo Congresso
,em San Remo, em 1947 e em Liege, em 1949) compreenderam um estudo geral de Anvers de 1954.
da transformação dos atuais sistemas penais em sistemas de prevenção e trata- Se uma verdadeira política de "defesa social" deve ser aplicada ao acusado,
mento com base na personalidade do acusado e na relação de tal personalidade é necessário determinar não só as circunstâncias em que o crime foi oometido,
com as exigências sociais, e a proteção dos rlireit,os humanos. O terceiro Con- como também, mais importante, a personalidade do delinqüente e a possibilidade
gresso, realizado em Anvers, em 1954, abordou o pro,blema específico e vital de sua reintegração na sociedade, levando-se em conta suas características mo-
da "individualização da pena e sua execução" encarado sob o ponto de vista rais e físicas.
da observação (que deveria ser ao mesmo tempo o objetivo inicial e o resultado O juiz criminal deverá, então, procurar conhecer a constituiçã{) biológica
do processo) e a reintegração do indivíduo ao meio social. As resoluções do do delinqüente, suas reações psicológicas e seu status social; em resumo, é pre-
Congresso, em conseqüência, deram ênfase aos seguintes fatôres, como se seguem: ciso aprofundar o eXlJ/me científico da p.9rsonaridade do delinqÜente. Com efeito,
a) a organização qualitativa da observação científica; b) a integração de tal só a observação científica do acusado e a do condenado pod:em permitir a apli-
observação no processo judiciário (pela possível divisão eventual do processo cação de medidas apropriadas à sua personalidade.
~en.al. e~. duas fases); c) as condições e meios necessários à obtenção de uma O objetivo do Congresso é de avaliar os meios técnicos que tornam possível
mdIvIduaIrzação pós-judiciária no período da execução. a aplicação do mais idôneo tratamento de "Recuperação Social", utilizando os
. "O Co~~resso de 1971 tem pOr tema: "Técnicas de individualização judiciá- recursos científicos apropriados, sejam médtcos, sociais ou criminológicos, ou
rIa. VerIfIca-se que essa matéria tem profunda afinidade com o tema b do estritamente jurídicos. A tarefa é definir êstes meios com maior precisão e de-
C~ngresso de Anvers. Além disso, deve-se sublinhar que o Congresso de 1954 terminar seu valor prático, identificando tôdas as medidas ulteriormente pro-
ne.st~ contexto deb~teu a questão - então original - da "cisão" do processo porcionadas pelas técnicas modernas para o exame da personalidade e para
Cl'lmmal. Os orgamzadores do Congresso propõem deixar de lado êsse problema a escolha dos passos mais precisos para assegurar sua reinserção na vida social.
particular, porque foi. longamente debatido desde então (mais recentemente pelo Para atender a um completo juízo científico do delinqüente, é desejável que
X ?ongresso InternacIOnal de Direito Penal de 1969, em Roma), e porque haveria se façam quatro diferentes espécies de exames: biológico, social, psicológico e
o l'I~CO de oc~par o tempo do Congresso com infrutíferas controvérsias que nada psiquiátrico. O Congresso deverá cuidar sôbre o que - nêstes domínios - as
trarIam de novo. mais recentes descobertas da ciência indicam como fatôres criminógenos e sôbre
As~im sendo, propõe-se considerar a matéria em relação aos meios técnic~s os remédios' que podem ser sugeridos. Assim, por exemplo, a propósito' da gênese
de realIzar ~ma verdadeira individualização no curso do processo penal. "Pro- biológica da criminalidade, alguns especialistas de diversos países por algum
cess.o .Pena~ ,.deve ser compreendido no sentido que é dado pela Defesa tempo sugeriram que é possível que {) comportamento anti-social e criminal,
SO_CIaI. do. ll1IClO d.o ~rocessamento à extinção das últimas medidas de execução. caracterizado por manifestações de grave violência, seja determinado - pelo
Nao deverIa ser hmItado ao simples ato de sentenciar no sentido técnico da menos, influenciado - por anomalias cromossomáticas, consistindo na presença
~:i:v~a em inglê~, que, aliás, foi objeto do )íltimo Coló~uio inter-associações de de um "Y" em suplemento (XYY). N a medida em que êstes resultados são sufi-
glO. É especIalmente necessário conservar o exame multi-disciplinar tanto cientemente dignos de fé, será possível apreciar a forma de utilizá-los nos pro-
quanto possÍv l ' t' . , '
.. e a ma e~Ia, qUe e característico dos Congressos de defesa social. cessos de individualização judiciária.
Os JurIstas devem co~slderar como o Direito Penal (geral e especial) pode ser Uma vez estabelecidas as necessidades de' realizar exames de acôrdo com
estudado ou desenvolvIdo' de forma a realizar, sôbre o plano processual, esta in- as formas determinadas relativamente à individualização judiciária, é preciso

54 55
CoOm a rebelião doOs encarceradoOs noO prídioO de Attica, no EstadoO de N oOva
York, volta a ser chocada, comoO oOCoOrre de' quando em quando, a êÔ~sciência do
mundo civilizadoO, coOm 00 proOblema da segregaçãoO daqueles que transgrediram certas
normas impoOstas pela soOciedade.
Os acoOntecimentos de Attica, que é um presídio com a capacidade para
2,500 hoOmens, retratam a face e oos coOnflitos de tôda a sociedade de oOnde emer-
PROJETO ITALIANO SÕBRE ABõRTO
giram. Aliás, não poOdia ser de oOutroO moOdoO.
LoOcalizadoO que é na cidade de NoOva York, oOnde 00 índice de criminalidade
, Foi apresentado aoO Congresso Italiano, recentemente prójeto de lei autoO-
rlz~ndoO ,00, abôrtoO, sob oos fundamentos alternativoOs de que' a gestaç- 00 se elevou a mais de 30%, no períoOdoO de 1970/71 e oOnde só 200/0 dos crimes
saude t flslca e ' mental, a
d mae,
_ oou 00 fetoO apresente doença incurável
a ameace a oOcorridos foram solucionados pela polícia, será relativamente fácil concluir as
t ou tenha
ages an e maIS de CInCO filhos e mais de 45 anoO ' características das relações que reinam no interior do presídio.
A ~ As notícias, quanto às origens da rebelião, foram diversas e contraditórias:
m d ,s~~un~a hipóte~e, (apresente 00 fetoO doença incurável) corresponde à cha-
algumas informavam que se haviam exacerbado os conflitos raciais, entre os
a a m Icaçao eugeneslCa do abôrtoO e tem antecede t ' ,
quês (lei de 1937) filandês (lei de 1950), islandês (l~~: ~~~8s)Ist:masl dmam( ar- presidiários; outras diziam que a revolta dos presos tivera origem num mal
140 CP), cubano (art. 443, letra e CP), suecoO lei d ,.lUg~savo ~rt. €.ntendido durante um jôgo que, então, se realizava.
Tm'mination of Pregnancy Bill 1967 I b) N( : 1?6~ e mgles (Medwal Certamente, nem uma nem outra das informações era verdadeira, A verdade,
, '" . os dOIS ultImoOs ca~oOs ao e
~:~~~~" ~ orIgem da permissão se encontra "na desgraçada experiên~a' th~~i-
da
pura e simples, veio pela palavra do Presidente da Associação de Estudantes de
Georgetown, ALFRED F. Ross: "O que aconteceu em Attica, não foi mera-
mente, um massacre brutal e sem nenhum sentido de homens, cujas vidas já
A ,terceira ~ipótese (tenha a gestante mais de cincoO filhos e mai d 4'"
anoOs) e que se Ilisere nas cha d ,_ '" . . s e ;y tinham sido mutiladas e perdidas. O que todos testemunhamos foi a última e
noO Japão e na Chin d 'd ma as permIssoes ·soclals, InIciadas especialmente inequívoca manifestação, para que o mundo v~ja com horror, daquilo que chamamos
a, aVI o aos proOblemas de superpopul roo
do ato legislativo do estado de Nova Iorque de 1 o d . lhaç d > e que, a partir nOSSO sitema de justiça criminal que está completamente falido; que em
bate~ tem :ausadoO. ° projeto italiano CoOntudo,
a leI novalOrquina que admite 00 abôrtoO d
CoO~té~
'
:ai:re e 19~~, _tan~s
de-
s res rlçoOes o que
nome da justiça, desumanidade e injustiça permeiam-se no tratamento daqueles
condenados" .
semanas iniciais da gravidez N 00 caso Ú r e manelr~ ~bs?luta, dentro das 24 Êsse, sem dúvida, um dos problemas cruciais da justiça criminal: a punibi-
prevalência nessa moOt. _. A a mnoO, a eXlgencla de motivação, e a lidade, seu's meios e fins. A sociedade impondo a pena da privação da liberdade,
rior de cin~o filhoOs' id:::a:~la~~v!::~;s coOm v~a coOnoOtação social (prole ante- encurrala os encarcerados, enjaula-os, certa de que por êste processo, conseguirá
jeto à questão coOlo~ada pela lei de No:a a;:;ç:e a da ~esta~t,e) subtraem o pro- reeducá-los e readaptá-los ao meio social de onde emergiram. Até agora, pelo
si, pela conveniência pessoOal da gestante.' q ,que e a lICItude, do abôrtoO em menos, êsse pt,incípiO nij,o tem dado os frutos que a penologia esperava. Sobem
assustadoramente os índices de criminalidade em todos os recantos do mundo,
desafiando os juristas e, sobretudo ,os penalistas, com os tormentosoS problemas
PROF. ALEXANDRE G. .GEDEY
da reincidência criminal e do destemor da pena.
A coOnvite da Faculdade de DireitoO de Bauru Estado de SãoO P 1 O caso de Attica será o da mais sangrenta rebelião carcerária da história
f essor ALEXANDRE GABRI G ' au o, 00 pro- dos Estados nidos porque, ao seu término, já havia 41 mortos e êste número
culdade de DireitoO Cân~~do E~::d::g:ntseecda t~a~eirEa de t~ireito Penal da Fa- poderia ainda aumentar, em conseqüência dos ferimentos infligidos tanto aos
C' 1'e ano xecu l,\"O do Inst't t d
Pen~is, le~

l:nClas
A
estêve naquela cidade do interior paulista em 20 de ob e presos como aos guardas.
oOn e, proOnuncIOU coOnferência abordando 00 tema "A Lei 4' 611 e s em ro. A população carcerária, no momento da revolta, era constituída de 2.250 en-
suscItadoOs coOm 00 seu aparecimen t 00 " • '
. O;s problemas carcerados, dos quais, no mínimo, 75% eram negros ou portorriquenhos, vigiadOS
a orO a~~ofe~sor ALEXANDRE GABRIEL GEDEY VoOltou vivamente impressioOnadoO com por 383 guardas brancos.
~ ,IzaçaoO e o trabalhoO que se realiza naquela Faculdade podendo l' Anteriormente ao levante, os preSidiários de Attica haviam feito algumas
ser e ebvamente um padrãoO, entre as escolas de Direito do n~ssoO
país. a lrmar reivindicações às autoridades. Entre elas, queixaram-se dos maus tratos que
lhes eram infligidos, quase sempre, por razões irrelevantes e diminutas; que só
A REBELIÃO DE ATTICA tinham direito a banho uma única vez por semana; que os encarregados do pre-
sídio, só supriam os banheiros com um rôlo de papel higiênico por mês, etc.
- "Se não poOdemos viver comoO pessoOas ao menos, devemos tentar moOrrer Protestaram, seguidamente, contra tais condições que lhes eram impostas,
como hoOmens", sãoO as palavras de CHARLE; HORACI'Ü CRtOWLEY, prisioOneiroO em mas nunca foOram atendidos.
Attica.
57
S6
rão de ser convencidos, através de uma
t não lhes convirá. Te /
Todavia, qualquer que seja a razão, a violência irrompeu, realmente, na Isso, ce,rtame~. e: ' d ue segreO'ados temporàriariiente, apren-
manhã do dia 9 de setembro, cêrca das 8:80, quando um grupo de internos re- Teforma penitenclana humamzada, e q ~um sem dúvida ressurgirão
como pessoas e pelo labor em c o , '
cusou-se a perfilar, para uma vistoria pelos guardas e foram espancados. Eram derão a viver
minoria, os outros vieram ajudar e alastrou-se o motim. ,como homens.
A partir de então, usando gás lacrimogêneo, atirado por helicópteros, logra-
ram obter, parcialmente, o contrôle dos presos, confinando cêrca da metade em
ABÔRTO USA
suas celas, nos blocos B e C (o presídio tem quatro blocos de celas A, B, C e D, , _ d bA~t em 17 Estados da América do Norte,
sendo que o bloco A destina-se àqueles de melhor conduta). A ques t -o
a
de leglslaçao o a 0,- o,
" ' , almente porque de problema me lCO e
'd'
Contudo, o bloco D ficou sob contrôle dos internos amotinados, que retinham voltou ao notici~rio internacional. . ~:;:c:a tolera~a, tornou-se também um pro-
consigo 10 guardas como reféns. , "di"Co sob cUJ os aspectos sua pra
JUll, , I agenciação propaganda, etc.
A imprensa veiculou a notícia mentirosa de que os internos haviam dego- blema empresana, com , 't e'am de impossível obtenção - que
lado os reféns; não obstante ,o médico legista que examinou os corpos das víti- 'nda que Cifras exa as s J , '
Sabe-se - al t erl'canas recorriam, anualmente a pra-
'lh- d mulheres nor e-am ,
mas, declarou que "8 dos 10 reféns foram mortos por tiros de armas de fogo e mais de um m l : o ~ d 1970 Daí muitas mortes e 'lesões ocorriam,
2 dêles por arma branca e não degolados como afirmaram as autoridades". tica ilegal do aborto, Isto antes e . "t' 1 s
. 1 uma coisa para eVI a- a .
Declarou mais: "que os ferimentos encontrados nos corpos ,não poderiam ter .sem que se pudesse f azer a g , d Nova York um centro espe-
sido causados por armas de pequeno calibre, que eram as únicas portadas pelos 'd te ano foi maugura o em -
Em maIO o c o r r e n , ,. tendo interrompido 2,402 gestaçoes,
internos rebelados". bA t o Parkmed - que Ja
dalizado em a or o - ntou as seguintes estatísticas: , '
Porém, tais notícias fornecidas pelas autoridades eram, sem dúvida, para num momento dado, leva b t'a ao abôrto pela prImeIra
lh f' ou que se su me I
acobertar a violência usada na repressão do motim, ordenada pelo governador _ A maioria das mu eres a I~m f 't abôrto anteriormente e as res-
NELSON RroCKFElLLER com o apoio do Presidente NIJQ(YN. d m que já haViam el o um
vez; 322 respon era ' b t'd a nenhum.
, e nunca se haViam su me I o ,
As autoridades, ou seja, os responsáveis pelas condições do presídio, receavam tantes mformaram qu 24 80 anos as solteiras fIzeram
, t 'dicou que entre e ,
e temiam o levante de presos em outros estabelecimentos penais norte-americanos: O estudo dos regls ros m , t 25 e 29 anos, as
~ " abôrtos do que as casadas e ,en re .
felizmente, tal não aconteceu. Com exceção dos detentos da Penitenciária Centrai ,duas vezes e mera maIS " abôrtos do que as solteiras.
de Baltimore, no Estado de Maryland, que se sublevaram por algumas horas e , f 'to uma vez e mela maIS
casadas havIam eI ubmeteram a tal prática são as
sem conseqüências graves e dos 900 presidiários, em New Orleans, em Louisiana. 1 d' elas mulheres que se s lh
As razões a ega as p ' d P kmed informou que as mu eres
O problema real - repetimos - aquêle que abala a consciência do mundo , C t do' a supervIsora o ar d t
mais varIadas. on u , _ d planeJ' amento familiar; ten o, en re
civilizado é o problema da punição, da reclusão e da segregação, quase sempre, , r'a aleO'aram razoes e
casadas, em sua maIO I , ,"'d d 4 5 estados de gravidez.
senão sempre, levadas a efeito da forma desumana e cruel. A:llinal, o ser humano interrompi o e a , d
os 25 e 34 anos, t' t' dl'vulgadas a incidência maJOr e
que delinqüe ou delinqüiu, não perde a sua condição humana por êste fato, , d mesmas esta IS Icas , " d d
Segundo, alll a, as 9 pode ser assim, especifIca a: e
nenhum nasceu uma fera estigmatizada, que deve ser banida do convívio dos lheres de 19 a 2 anoS e , d 25
abôrtos ocorre em mu , O 24 200 casadas e 28 divorciadas; e
seus semelhantes. 15 a 19 anos, 567 solteIras; de,~ a ,
Dêsse modo, impõe-se a reforma penitenciária. Não só lá, como aqui e .a 29 anos, 51 ,divorcia~as e .9 VIUvas. tal intervenção, que nem sempre está ao
alhures. Principalmente, o que importa mudar, na época de evolução que atra- Há a considerar, amda, o custo de _ foram criados "fundos de
mulher Por essa razao, " d"
vessamos, é' a mentalidade que informa a aplicação repressiva e sancionadora iácil alcance de qua1quer . d U' 'da'ae' do Maine têm um fun o
da pena. 1 studantes a lllven . d
.auxílio", em Seatt e e as e, Y k O custo do abôrto varra, sen o
Imponha-se o trabalho - sempre moralizante, edificante e construtivo - aos .de ajuda que subsidia as viagens a Nova or.
homens e mulheres encarcerados; se possível, trabalhos a serem compostos pelas -em média, US$ 150,00, , 'dos como não podia deixar
mãos e pelas técnicas de muitos e provindos, forçosamente, da colaboração e da abortivos básicos e rapl , " "
Existem três processos _ A . a) _ o da "indução sahmca
solidariedade de muitos participantes; tanto quanto possível, em ambientes aber- oe ser para uma emprêsa comer~s~~ :~: e~:s'a 24 semanas de prenhez, sendo,
tos, como oficinas e fábricas instaladas dentro e, talvez até, fora dos ambientes q ue é usado quando .a gestante C ' t na intromissão de uma agulha
'drástico onSlS e , d
carcerários. -entre todos, o processo maIS . d se encontra o feto, retlran o
Não importa muito que fujam alguns, escapando à pena talvez, desde que . d d bd meu até o útero, ,on e 1" Esta
através da pare e o a o , , tando uma solução sa Imca.
se libertarão, sempre que o desejarem, pela morte. Aos que fugirem sem se ter . de lá o líquido amo"t'ICO e, em seu lugar, mJe . do até mesmo, dAores que
. ., um pequeno parto, surgm ' d "di '
recuperado socialmente, e essa condição lhes deverá ser dita, retornarão, cêdo ou solução mata o feto e mlcl~ d f t depois de 24 a 72 horas; b) - o a -
tarde, à escalada do sacrifício. l:!e prolongam até a expulsao o e o
59
58
Recentemente, o presidente do Conselho Nacional de Trânsito
Iatação e curetagem", usualmente feito sob anestesia geral. Tem largo uso desde cia na Comissão de Transportes da Câmara dos Deputados, divulg( ~
que a prenhez tenha ocorrido há cêrca de 12 semanas. Consiste, primeiramente. oficiais segundo as quais, no Brasil, em 1971, morrerão 7 :375 pCf
da dilatação da parte cervical do útero, com intromissão de sondas, que dilatam. sofrerão lesões corporais em conseqüência dos 123.900 acidentes f
facilitando as posteriores manobras com a cureta que, então, efetua a raspagem previstos. Consoante dados do IBGE, os desastres causados pelos
das paredes do útero até que, aos pedaços, todo o embrião tenha sido removido; veículos representavam em 1964 47% do total ,mas devem alcar__
c) - o da "aspiração pelo vácuo". Trata-se de uma variação da prática abortiva proporção de 89 %. Isso significa que, dos 12.900 acidentes previstos,cêrca u"
e que a torna, ainda, mais fácil e rápida. É um dos métodos aplicados quando 75.000 serão devidos à conduta dos motoristas. A mesma fonte situa no alcoo-
a prenhez tem já 12 semanas e consiste, principalmente, após ser dilatada a lismo e na estafa as principais origens da fração de acidentes atribuível aos
parte cervical do útero, na intromissão de um tubo de metal (pode ser de plástico,. motoristas.
Segundo a Organizaçãlo Mundial de Saúde (OMS), em 1969 morreram
se a prenhez ocorreu só há 10 semanas), ligado a uma bomba, que pela sucção>
retira o feto, também, aos pedaços, para o interior de uma garrafa. . 10.000 pessoas no Brasil por acidentes de circulação, enquanto 200.000 sofreram
Com a legislação de tal prática,parecendo ser esta a tendência universal lesões. Tendo em vista a frota de veículos em uso no país (3.000.000), e o
das legislações mais avançadas, evita-se um determinado número de mortes e de número de acidentes, a OMS apresenta o índice de 39 em cada 10.000.
conseqüências fatais, é verdade, desde que sejam praticadas tais intervenções Por ocasião do Seminário de Acidentes de Tráfego, que se desenvolveu para-
por médicos, mas surgem e surgirão outros graves problemas correIa tos a tal lelamente 'ao 7. 0 Simpósio de Pesquisas Rodoviárias, levado a efeito, recentemente,
liberalização. no Clube de Engenharia, interessante trabalho foi apresentado pIo Prof. Boruch
Grinblat, da Faculdade de Engenharia da: Fundação Armando Alvares Penteado,
de São Paulo, propondo um plano de estudos sistemáticos de acidentes de tráfego.
PROF. DENIS SZABO

Nos dias 17 e 19 de agôsto, o prof. DENIS SZABO, Diretor do Centro Inter-


nacional de Criminologia Comparada, ligado à Universidade de Montreal, pronun-
ciou conferências na Faculdade de Direito Cândido Mendes, a convite do Insti-
tuto de Ciências Penais, respectivamente, sôbre os temas "A Criminologia no
Mundo Moderno" e "A Problemática do Crime no Mundo Atual". Dessa última
participou também o Prof. J'ÜSÉ MARIA RICO, da Universidade de Montreal.
Efetuou o Prof. SZABO aguda análise de situações criminógenas determinadas
por certas características da assim chamada sociedade pós-industrial, com relêvo
para as circunstâncias que podem envolver o indivíduo nas "megalópolis" enfa-
·
t lzando '
o papel dos meios eletrônicos de comunicação, da acumulação de riquezas,
e do que designa por anonimidade. Particularmente interessante foi a exposição
do método de ensino utilizado pelo Centro Internacional de Criminologia Com-
parada, que dirige, o qual parte naturalmente da concepção multi-abrangente que
tem o Prof. DENIS SZAB"Ü da Criminologia, recorrendo a um regime necessària-
menteinter-disciplinar no desenvolvimento de suas pesquisas.
Em sua estada no Brasil, manteve o Prof. SZABO contato com autoridades do
Estado da Guanabara, com vistas à criação de um Centro de Prevenção do Crime,
aproveitando a experiência de um modêlo canadense. O Prof. DENIS SZABO é
hoje um dos maiores nomes da Criminologia internacional, autor de considerável
obra e defensor de fecundas colocações.

DELITOS DE CIRCULAÇÃO
O notável desenvolvimento da dogmática jurígica referente aos chamados
crimes de automóvel, ou delitos de circulação, é necessário reflexo do tormentoso
problema ocasionado pelo tráfego de veículos nas cidades e nas estradas. Os nú-
\ merOs traduzem, enfàticamente, o vurto dessa questão.
61
60
/
RESENHA BIBLIOGRÁFICA mais aprofundar, maIs . d ommara.
' , Quan t o mal's' descer, mais elevará. Cuidará do
presente atento à dinâmica social para receber a flagrân~ia do pr~resso, na
contínua propulsão do futuro". _,
Com as palavras adiante transcritas - que nos, dao a medIda da grandeza
d a ob ra e seu a lcance e lhe sintetizam o conteúdo e que , . "o professor RoBERTO
, , , o seu prefácio a que intitulou "Defesa PrevIa
LYRA lmCIa . .: . A

"Ê t 'certamente meu último livro, mas o prImeIrO pela mdependen-


s e sera, , A , . p' I' t . t
da e pe1o avan ço . É a apresentação de um novo , DIreIto
, f
ena ' A
m 'ranslgen
f 1e
com a f 'a Is a , o falso humanismo , a falsa fIlosofIa, a .alsa ClenCla, a a sa
e'tI'ca
RiOBERTO LYRA. Nôvo Direito Penal, voI. L Editor Borsoi, Rio de Janeiro, 1971.. arte. É o aparelhamento dos espíritos moços de tôdas a~ Id~des cont,r~ ~ te:-
, I'Izaça-o " a medicinização a psicologização, a psicanal1zaçao,
nICa ' . a pohclalIzaçao
"A quem me perguntar ---' aonde quer chegar? - responderei: eu querO' €i, sobretudo, a desnacionalização do Direito APe.nal. Extrem:l as energIas e luzes
partir, com a máxima urgência, porque conduzo jovens para o século XXI". que me restam em trabalho criador, panoraml.:o, .prospectIvo para romper bru-
Estas palavras proferidas pelo Professor ROBERTO LYRA ao inaugurar o pri- mas e rasgar horizontes, Perfilei-me pela conSClenCIa humana, sem a qual a cons-
meiro Curso Superior de Criminologia realizado no Brasil - que organizou e ciência científica seria um vácuo".
dirigiu - se não estão textualmente reproduzidas no pórtíco de sua obra mais Êste Úvro irá por certo motivar inteligências jovens, estimular vocações, cor-
recente, onde tão bem assentariam, estão, imanentes, fora de dúvida, em todo' " desvios provocar debates, É enérgico, apaixonante, excitante e fecundo, e
o livro talo vigor com que em cada ,passo o autor projeta seu pensamento no' rlglr , . t' . - . 'd'
nos oferece uma visão global da evolução das idéias e das ms ItUl~oes JurI ICO-
encalço do porvir.
penais desde os tempos primitivos aos nossos dias, uma síntese onentadora das
O Nôvo Direito Penal conquanto obra de cunh~ didático, estabelece nada' posições doutrinárias e das tendências atuais em todo, o mundo, acomp~~ha~a de
obstante uma ruptura com o convencionalismo habitual das obras dessa espécie. crítica veemente aos retrocessos históricos que se mamfestam com 'frequencIa e:n
Em nada se lhes assemelha. Não é um repertório ordenado de idéias cediças, tôda parte, além de proporcionar-nos, ainda, uma antevi são lógica do ?ue hav~n,a
como certos livros cujos autores se limitam a enfileirar e interpretar opiniões de ser o Direito Penal na sociedade do futuro, quando liberto dos reslduos PrIVI-
alheias para, em seguida fazer opções nem sempre claras ou convincentes, quandO' legiados, que lhe têm retardado o avanço.
não se apropriam dessas opiniões ou as desfiguram, voluntàriamente ou não) Lopo Alegria
tornando-as irreconhecíveis, ao apresentá-las.
ROBERTO L'YRA não precisa perfilhar, defender, exibir, expor, adequar oU'
transmitir idéias de outrem. É reconhecidamente um criador nato e exuberante, Revista do Instituto Médico-Le'gal do Estado da Guanabara, ano III,' janeir()
cujas notáveis contribuições ao desenvolvimento da ciência e do direito pE,nal tem J971, 1J. II, n.o 1.
merecido louvores unânimes das mais renomadas autoridades de todo o mundO'.
Seu livro traz a marca do autor: é independente corajoso, claro, sincero, vibrante, Êste número da Revista do Instituto Médico,-Legal do Estado da Gwamabara
íntegro. Não é, como dissemos um mero livro, répetitivo e monótono mas obra mantém as elevadas qualidades desta publicação, sem sombra de dúvidas a me-
de vanguarda assestada para o ,futuro que procura familiarizar o estudioso com lhor de sua espec:ialidade no Br,asiI. Merece ser consignado o padrão formal
as aquisições científicas mais recentes, habilitando-o, assim a perquirir com extraordinário da Revista com obediência às normas técnicas de bibliografia
segurança novos caminhos prevenido contra as distorções, o superficialismo as e documentação, Ao finai de cada trabalho insere-se o Swrn1nar,y, em inglês,
modas transeuntes, os preconceitos o conformismo. ' fornecendo sucinta informação acêrca do conteúdo do trabalho; o título de cada
Embora didática, é obra polêmica, em que o autor como é de seu feitio, não trabalho é também vertido (a Revista opta por inglês); as referências biblio-
faz concessões para agradar a ninguém. Muito ao contrário: investe implacàveI- gráficas são precisas e se dispõem consoante as referidas normas. Tudo isso
mente contra os que conspurcam com teorias falsas, os desígnios nobres do Direito - ao lado da impecável impressão - contribui para que se confira destaque
Penal e ,entravam seu' livre desenvolvimento. "Que continuem a palrar, com a ao órgão oficial do Centro de Estudos do L M , L" notadamente em relação às
"hélice fora dágua", os estranhos e ignorantes do Direito e de suas bases. Entre, publicações que versam espeCIficamente sôbre direito, dotadas de invulgar, ~e­
juristas e sociólogos nã!} há objeto para oposição. O Direito Penal _ afirma beldia contra as exigências daquelas normas técnicas, indispensáveis aUXIlIa-
o professor ROBERTO LYRA - atuará ao nível dos quadros jurídicos depois de res 'do pesquisador.
revolver as profundezas sociais. Traz a luz colhida nas profundezas para a Quanto ao aspecto substancial, traz a publicação como característica a ex-
planície - luz densa e total e não fluorescente e circunscrita. Habilitará. prin- cepcional categoria de seus colaboradores, garantida pelo rigor do conselho de
cipalmente, o legislador e o juiz a compreender o que tenta disciplinar. Quanto redação (Comissão Científica do Centro de Est1;ldos).

62
63
Salientam-se neste número, com maior interêsse para os estudiosos de di- ra. Carmen Martinez veio, posteriormente, a fa~
foram interrompidas, e a S
/
reito e processo penal, o trabalho de NAPOLEÃO TÔRRES MESSIAS sôbre Vadiagem, lecer. Nilo Batista
elaborado à base de 2.000 exames de vali dez por êle efetuados; o parecer mé-
(fico-legal sôbre Deverrminação de causa e hora eh morte, da lavra de NILSON
SANT'ANNA e ALVES DE MENEZES, primoroso documento sôbre a falibilidade de rimés cont'l1CIJ a S(p,gurança Naciona,l, Rio, 1971,
um laudo técnico, e portanto, matéria diretamente vinculada à teoria da prova; EURIOO CASTELLO BRANCO, Dos C
e o parecer médico-legal sôbre Conjunção Caornal, de NILTON SALLES, onde realiza J. Konfino ed. 283 p ..
pormenorizado exame de um laudo técnico e de um parecer que versavam sôbre .' h d lei de Segurança Nacional, decreto-lei n. O 898, de
E sabIdo que a c ama a , _ ' .
<O mesmo objeto, assinalando o autor extraordinárias divergências, "justificando d 1969 oferece sérias dificuldades a reconstruçao dogmatlCa,
~9 de set emb ro e , I I d t e
a impressão de que são exames de órgãos diferentes" (p. 23). elos raves êrros técnicos que apresenta. Instrumento ega . :. ex rema. s -
Na seção Perguntas e Respostas consta uma consulta ac~rca de se pode ~erida~e que se fêz necessário para dotar o Estado de aptIdao rep:e~s~va,
<O médico atuar cirurgicamente no paciente contra a sua vontade, diante de frente : situações nas quais o radicalismo político ~mergiu. sob formas medIta-o
situação de iminente perigo de vida, a que a Redação responde afirmativa- mente violentas, numa determinada conjuntura da VIda naCIOnal,. a LSN se r~s­
mente, invocando o art. 49 do Código de Ética e o i§ 3. 0 , inciso I do art. 146 sente, contudo das mazelas características das obras empreendIdas .com mUlto
• ' !,' D'ant do autêntico labirinto que constItuem suas
CP, recomendando-lhe simplesmente certas precauções. entUSIasmo e pouca clencla. I e . " ,
espécies, desordenadas, conflitantes, redundantes, bem com~ dos prm~I~Ios. re~-
Em verdade, a velha e radical opinião de VON -BAR, no sentido de que a tores estipulados nos primeiros artigos, que abando~a~ t~da a tradIçao ,JurI-
<operação cIrurgica levada a efeito sem o consentimento do paciente é lesão . d' t o Estado para fixar-se em IdeIaS a base das qUaIS se
<corporal dolosa (" ist vorsatzliche Korper1Aerletzung" ) cedeu terreno, moderna- dIca os cnmes con r a , - I t' te
· da" guerra revolucionária", de elaboraçao re a Ivamen
encontra a ou rIDa d t , . f a
mente, aos argumentos que invocam o benefício da coletividade como comple- ' ante enfim da pequena codificação - necessarIa, mas con us -
rece, nte dI " . , h d" 'l"'to
mento do interêsse individual na preservação da própria vida, fundamentando, , LSN era mister tratá-la com o que poderIamos c amar e espI I
que e a ,
nessa perspectiva, como faz GRISPIGNI, um estado de necessidade (no mesmo
de sistema",
:sentido, ASÚA; MANZINI distingue, como observa HUNGRIA, "entre o caso O r d Sr EURIOO -CASTELlJO BRANOO, lamentàvelmente, não cobre
de recusa do enfêrmo e o caso em que o mesmo se acha em estado de incons- ,IV!O.
essa eXIgencIa, e ,
o n'a-o atinge portanto o objetivo, aliás importantíssimo, de
, .
<Ciência, ora falando em "legítima defesa de terceiro que a si mesma se faz uma esclarecer, mediante os processos da exegese, da dngmática, e da crItica, essa
injusta violência" - o que nos parece um tour-de-force infeliz - "ora falando legislação. Utilizando-se de uma bibliografia realmente m~desta, o .~utor, se-
em estado de necessidade" (in Comentários, Rio, 1958, Forense, v. VI, p. 177). 't d d "comentários" aborda artigo por artIgo, classlfIcandO-os,
gun d o o me o o e ' - b
LElONIDm RIREI-RO (Direito roe Curar) contribuiu decisivamente, como reconhece e rubricando-os sem qualquer critério científico ~econhecív:l (~ ~ue,stao do e;n
HUNGRIA (op. cit., p. 176) para resolver a questão, em nosso direito, nos têrmos jurídico, que, confrontada com os primeiros artIgos, S~scIt~rIa I~u~e:as, qu ~-
·da excludente especial que o art. 146 registra. Deve ser advertido, contudo, que _ _, ogitada) Um exemplo desta classiflCaçao arbItrarIa e o tI-
toes, nao e sequer c ' " A t re
oé indispensável que a intervenção cirúrgica "se apresente necessária, urgente, A t t 27 e 28' "Dos crimes complexos ou conexos. na u -
tulo apos o aos ar s . ' . - d t' b' t'
'inadiável, para conjurar a iminência da morte do paciente", como acentua -za de algumas figuras tradicionais se obscurece pela desc:Içao .0 _ IpO o Je IVO
HUNGRIA (loc. cit.) , ensinando FRAGOSO que "perigo remoto ou futuro não des- de modo absolutamente divorciado delas; é o casO', v. g" da tnsun:e~çao (~rt.: 24),
erimina a intervenção médica não consentida" (ú~ L1Jções, São Paulo, 1962, J. A insurreição que sempre consistiu em "desenvolver uma atIvIdade Idonea ~
Bushatsky, v. 1, p. 186). :fazer com qu: a população ou uma considerável parte dessa ~e erga em arma~
Recentemente, a imprensa noticiou caso interessantíssimo (cf. Time, July 19, (cf. MANZINI,. Trat. d'i Dir, PeJ.n" Torino, 1950, v. IV, p'. 4~4), ou seJa~
1971, pág. 44), levado ao Juiz David Porter, na Flórida, no qual era submetida numa idônea tentativa armada de assumir o poder, por essa VIa llegal, me~ec
.à sua apreciação a oposição da Sra. Carmen Martinez, de 72 anos, portadora d Autor? seguinte comentário: "A insurreição visa espalhar o desass~sse~o,
-de uma forma fatal de anemia hemolítica, em continuar sendo submetida a o. t .. 'l'd de a insegurança com o fim de provocar ambiente de agItaçao,
-a m ranquII a , ' ." 1) A examinar
tratamento extremamente doloroso, que consistia em contínuas incisões cirúr~ clima propício à subversão da ordem política ou SOCIal (p.. 8 . "o d rt d
~icas para fins de contínuas transfusões de sangue. "Eu não posso decidir - o crime do art. 31 (revelação de segrêdo), consigna o A~tor qu: o : I ~ I ~
.afirmou o Juiz, em sentença - se ela deve viver ou morrer: isso compete a que se trata aqui em princípiO, s'omente pode ser c.omebdo a tItulo d e o ~~
Deus. Mas uma pessoa tem o direito de não sofrer dôres. Uma pessoa tem o ..... de admitI'r-se p' orém que êle se verifique a título de culpa, quan o o a
"" " , ' ,." ( 102) Essa pro-
-direito de viver ou morrer com dignidade". (A person has a right not to suf~ resultar de negligência ou imprudênCIa do f~n~IonarlO . P'l das 'modalidades
j.gr pCfin. A person has the right to live -ar die in c1tignitrJ!). As transfusões 1>osição simplesmente ignora a regra da pumçao excepcIOna ..

65
culposas (j§ único do art. 15 CP). Igualmente não nos parece feliz o recurso em outra idéia que lhe é especialmente cara, a de "higiene mental" (acêrcada
aos dicionários para definir o objeto material das várias condutas contempla- qual editou um livro, em 1956). Contudo, não se apercebe neste psicóh5gO e psi-
das nos arts. 27 e 28, prática que se registra na p. 97, de onde transcrecvemos quiatra a fácil tendência para incidir nas soluções de uma "so~iedade de con-
um exemplo: "7) atentndo pBls8'oal - ofensa grave da lei ou da moral, execução trôle", na qual uma repressão estatal bem montada se encarregarIa de zelar pela
ou tentativa de um crime contra alguém". Não vemos a utilidade de registrar "saúde social", ou mesmo pela "higiene mental" dos indivíduos. Reportando-se
"o sentido vulgar" dessas modalidades, como previne o Autor. a todo instante às revelações da psicanálise (FREUD é constantemente retomado,
Apesar das reservas esboçadas acima, o livro do Sr. EURICO CASTELLO a despeito da indisfarçável inclinação do autor pelo culturalismo), o Prof. BUEN-
BRANOO começa a preencher a lacuna existente em nossa literatura jurídica TELLO Y VILLA faz do homem, enquanto único fim - e único método - das
contemporânea sôbre os crimes contra a ordem política e social. Não só nessa tensões sociais, o seu objeto de pesquisa. E se as causas dessas tensões, seu
perspectiva, mas também em função de alguns méritos (v. g., o conteúdo estri- fundamento e origem, não raro passam ao largo de suas especulações, não é
tamente informativo da obra é excelente, notadamente no que se refere à le- menos certo que essa atitude científica dota seu trabalho médico-criminológico de
gislação; a experiência pessoal do autor com a prática judiciária referente aos indiscutível cunho humanístico.
'delitos de que trata; e também obseryações oportunas, como as que faz acêrca Destacamos os trabalhos óCAlgunos aspeotos de la idbología y terapéutica de
da indeterminação da incriminação do' art. 25, p. 88), recomenda-se o livro aos la delincuencia infantil y jtwenil en México" (p. 36-45); aprevención de la delin-
estudiosos da matéria. cuencia" (p: 59-69); a El enfermo mentalde:linmwnte" (p. 71-78), como um têrmo
No prefácio, o Sr. EURIOO CASTELLO BRANCO registrara que "ao dar médio das atividades do Prof. BUENTELLO Y VILLA. No segundo dêsses traba-
à publicidade êste livro, fica-me a certeza de que, se não fiz um trabalho per- lhos, há satisfatória informação sôbre o recente modismo criminológico que envol-
feito, me absolve da temeridade a intenção que tive de ser útil a todos quan- veu a genética.
tos têm na devida conta os assuntos dessa natureza". As dificuldades que a LSN Contudo, é no artigo aLa Peligrosidad" (pág. 47-51) que se revela uma aproxi-
apresenta, por nós assinaladas no início dessa nota, terão sido fator relevante mação do Autor com problemas relevantes,que, face à natureza do trabalho, não
para obstar a consecução dêsses objetivos respeitáveis; formulamos esperanças resultam aprofundados como mereciam. Subtraindo à conhecida passagem de
de que o Autor, numa segunda edição, aprofunde e amplie o seu trabalho, para FREUD a idéia da agressividade como resposta individual à repressão (" sacrifí-
servir aos mesmos objetivos. cios") impostos pela civilização, consigna com perspicácia que "a agressividade
Nilo Batista primitiva ,que usa como meios os punhos, punhais e pistolas, foi se substituindo
por formas sociabilizadas, ainda que nem sempre menos deprimentes ou fisica-
Criminalia - Ano XXXVII, n.os 1 a 3 mente lesivas: agora, muita agressividade se canaliza mediante a capacidade de
manipular outros seres humanos por obra de indústria, planejamento e organi-
A revista mensal Criminalia, órgão da Academia Mexicana de Ciencias Pe-
nales, foi fundada em 1934, pelo saudoso RAÚL CARRANCÁ Y TRUJILLO, JosÉj ANGEL zação" (f. 48).
CENICEROS (seu atual diretor) e FRANCISOO GONZÁLEZ DE LA VIDA, constituindo-se, Os trabalhos óCMedicina Social" (p. 143-154) e óCMedicina Social y Delin-
em verdade, na origem do movimento do qual surgiu subseqüentemente a Aca- cuencia" (p. 161-168) podem valer como uma visão geral do pensamento básico
demia, da qual se fêz órgão oficial. Pode ela apresentar, portanto, a conside- do Prof. BUENTELlJO Y VILLA, como já referimos. Propondo que "la medicina
rável cifra de trinta e sete anos de edições mensais ininterruptas, tanto mais social es un agente activo para> el cambio de las sociedades" (p. 143), e reconhe-
impressionante quanto se considera que, especialmente na América (à exceção cendo a inutilidade de soluções idealistas à base de inatos sentimentos' de cola-
natural dos Estados Unidos), as publicações científicas costumam ter vida assaz boração e amor, numa a comunidad de ángeles" (KARL MANHEIM, pág. 165),
efêmera. adverte que "a segurança social integral não pode tampouco ater-se à solução
oposta ,estacionária e retrógrada, que, complacentemente, considera como se fôssem 1
Nos números 1 e 3 dêste 37.0 ano, Crminalia nos apresenta preciosa cole-
tânea de trabalhos do Prof. EDMUNDO BUENTELLO Y VILLA, cuja obra, em sua eternas as formas de opressão social e política, sem cuidar de transformar as I
técnicas sociais, conduzindo a um poder desnudo e rígido, que só emprega a I
maior parte, se encontra dispersa numa série de artigos, comunicações, notas e I
contribuições, inse,rida nas mais diversas publicações. A par de intensa ativi- coação, como fêz o nazismo" (p. 165). I,
dade docente, o Prof. BUEN1'ELLO Y VILLA ligou-se definitivamente aos problemas A esta generosa contribuição à exata compreensão da delinqüência, enquanto II
da delinqüência juvenil (foi Juiz do Tribunal de Menores, em 1948/9) e do peni- fato social, devemos adicionar esclarecedora intervenção do Autor em matéria
':11\
tenciarismo (exercendo cargos do maior relêvo no sistema penitenciário mexicano, divresa. Suas a Aportacio'fIJes de l,as cienmUiS psiciOlogicas a !(l; v'aloracion de pruec..
bas" (p. 189-197) estão, por si só, a merecer cuidadosa consideração e ativo
I
particularmente de 1949 a 1952).
O pensamento de BUENTELLO Y VILLA se elabora permanentemente a partir
de um conceito do que chama "medicina social", que em certo sentido se imbrica
aproveitamento.
Nilo Batista i
"

I
67 I
66
I
.JI()ÃO DE DEUS MENNA BARRETO - O Desafio das Drogas e o Direito, Editôra antes e depois do advento da. Lei 385. Antes, segundo o entendimento. do. STF,
Reves, Rio de Janeiro, 1971 - 132 pgs. Jloderia obter absolvição. Depois de sua vigência, com a Jlunição ex.pressa de
quem faz uso dos tóxicos, não.
'l'ema dos mais atuais, já por demais abordado, aparece no trabalho do Juiz Propõe finalmente em suas "considerações críticas'" tratamento penal diverso
MENNA BARRETO, professor de Direito Penal da Faculdade de Direito Estácio de para as quatro categorias que criou com rara felicidade.
Sá, com outra roupagEm, fazendo com que não só os estudiosos, os teóricos, mas, A obra de MENNA BARRETO é, sem dúvida, da maior importância e atuali-
até mesmo os leigos tenham leitura fácil de magnífica utilidade.
dade. Deverá merecer dos estudiosos uma atenta leitura, sendo certo que aquêles
Citando entre outros, MURIlJO MEDO FILHO, J'OÃ!O SALDANHA, ALDOUS HUXLEY, e como já assinalamos anteriormente, até mesmo os leigos a terão entre seus
ORLANDO GOMES, CRETELLA JÚNIOR, FERNANDO WHITAKER DA CUNHA, ANÍBAL melhores livros.
BRUNO, NELSON HUNGRIA e HELENI(} FRAGOSO, o autor demonstra que sua pesquisa Alexaw.dre G~ Gedey
não se restringiu, absolutamente à Ciência Penal, mas a todo tipo de atividade
que realmente tivesse qualquer correlação com o tema que abordou.
GIUSEPPE BETTfOL - Direito penal, ed. Revista dos Tribunais, 1971, vI. II, 340 pp.
Inicia sua obra com rápida passagem sôbre os antecedentes históricos do
tóxico, desde a antigüidade. Aborda a seguir o fator econômico-cultural obser- Ao 1. 0 volume do conhecido Diritto Penale, do prof. GIUSEPPE BETTroL, tra-
vando que análiSES recentes e estudos estatísticos· demonstram que "os crimes duzido e editado E111 1966, faz a Editôra Revista dos Tribunais acrescentar, êste
que mais diretamente atingem à coletividade no sentido patrimonial, sexual e de ano, o 2. 0 volume, em primorosa tradução do Prof. PAUDO JosÉ DA COSTA JR. e do
saúde pública são cometidos por pessoas pertencentes às classes menos favore- Prof. ALBERTO SILVA FRANCO, contendo notas dos tradutores e notas do Profes-
cidas cultural e econômicamente". sor EVERARDO DA CUNHA LUNA.
Ao estudar o fator polítio o-Zjsc"col6gico o autor apresenta estudo estatístico no Abrange o volume recém-editado o estudo da culpabilidade, das fases de
qual ed'at.i;.. :. Cl1~e o uso de tóxicos constitui a principal causa 1nortis entre os realização do fato punível, do concurso de agentes e de concurso de crimes, esgo.-
habitantes de Nova York, de 14 a 34 anos de idade, sendo "nos meses de janeiro tando dês se modo a teoria do delito, cuja exposição se inicia no 1.0 volume e
e fevereiro de 1970 faleceram 177 viciados em drogas, numa média de 3 dl0r dia neste é conduzida até o exame das causas supra-legais de justificação, encenando
e dêsse número 49 eram jovens com menos de 16 anos". a matéria de antijuridicidade. É desnecessário salientar que um jurista do porte
Podemos afirmar que o ponto alto do trabalho de MENNA BARRE'OO é sem de BETTIOL, que fêz consignar no Prefácio para a edição brasileira que "todo
dúvida quando enfoca o fator jurídico-social do problema. Após selecionar a penalista que mereça tal nome tem o deVEr de lutar pela causa da liberdade"
legislação pertinente à matéria, estabelece uma classificação, que entende racio- (1.0 v., p. VII) - encontra nos problemas cruciais colocados pela culpabilidade
nal, das atividades dos agentes, com o fim de buscar dosagem correta na apli- o mais delicado terreno para o rigor e a generosidade de suas posições. :Jl:ste
cação da pena, dividindo-os em quatro categorias - traficantes, viciados, trafi- aspecto, considerado paralelamente à severidade científica com a qual BETTIOL se
cantes-viciados, e experimentadores. opôs à degradação do direito penal à condição de instrumento de regimes políticos
Com relação ao traficante define ser o elemento verdadeiramente perigoso, totalitários, adicio·na às reconhecidas qualidades de seu empreendimento dogmá-
razão por que após intenso estudo de sua perniciosa atividade, sàbiamente propõe tico em tôrno da culpabilidade, um fascinante teor de documento de intransigente
um tratamento penal rigoroso diverso do que é impôsto às outras três categorias. afirmação de princípios liberais à base dos quais - e tão somente à sua ·base -
Os viciados, a quem de maneira correta considera "uma classe de indivíduos se pode construir um direito penal da culpa.
que violam as normas do equilíbrio social premidos por circunstâncias que lhes Às excelentes "notas do tradutor",com constantes remissões ao direito bra- I
obliteram, pelo menos momentâneamente (instante de sofreguidão) o dicernimento" sileiro, se acrescentam neste 2.0 volume oportunas observações do Prof. EVERARDJ
o professor MENNA BARRETtO, critica, a nosso ver acertadamente, o Dec.-Lei 385
de 26-12-68 que expressamente os incrimina.
DA CUNHA LUNA, seja igualmente no sentido de converter ao direito positivo bra-
sileiro considerações do Autor, seja no sentido - aos moldes de várias notas dos
li
'I
tradutores - de advertir para certos aspectos da exposição, complementando-os
Quanto ao traficante-viciado, o autor o trata como espécie de suma periculo-
sidade. Observa não ser o mesmo "um doente criminoso mas ao contrário um
criminoso doente". Entende que há necessidade de uma ação "de conteúdo coer-
ou desenvolvendo-os.
A obra de GIUSEPPE BETTTOL, rica de informações sôbre os institutos que exa-
I
citivo para suprimi-lo" sem que se despreze o tratamento médico-profilático para mina, é de extrema utilidade para todos os profissionais do direito, e de leitura
a sua cura. obrigatória para os estudiosos de Direito Penal. A tradução que temos em mãos
O experimentador é aquêle que, segundo MENNA BARRE'OO infringe o estatuto representa inestimável serviço a nossas letras jurídicas, facilitando o acesso ao
penal levado pela curiosidade. Para ilustrar cita o caso de um aluno de Facul- pensamento do mestre italiano, e divulgando entre nós um trabalho da maior
dade superior que, levado por um companheiro, experimentou usar maconha e categoria.
para seu azar foi prêso em flagrante. Compara a situação do "experimentador" Nila Batista

68 69
1'

MIGUEL REALE JÚN~OR - Dos Estados de Nocessidade, José Bushatsky, ed. São figuras, em franco desenvolvimento, que visam, na precisa _expressãoyo Autor,
\ I
Paulo, 1971, 101 págs. a "adelantar las bwrr.eras de ~(b protección penal" (pág. 151).
Na seção de Jurisprudência, destacam-se as notas de JORGE FIGUEROA, enfo- II
O desenvolvimento dos estudos de Direito Penal entre nós fazia previsível
uma safra de jovens penalistas, preocupados com as grandes questões da dogmá-
cando uma decisão da Côrte de Concepción, a respeito de situação de exercício !
arbitrário das próprias razões, ligada a furto de espécies que correspondiam a
tica jurídico-penal, e dispensando-lhes o necessário tratamento científico. dívida do lesado para com o acusado; e a nota de JUAN Bus'])os sôbre uma de-
O livro de MIGUEL REALE JÚNOOIR se insere nessa expectativa, marcando uma cisão da Côrte de Talca, a respeito de um caso de dupla autoria em ,homicídio
apreciáv~l contribuição ao estudo do estado de necessidade, ou' dos estados de culposo e lesões corporais culposas por acidente de trânsito.
necessidade. Abordando o assunto, não se furta o Autor a queimar, com ele- Na seção de Bibliografia, merece relêvo a notícia de SÉRGlO POLI'])OFF, a pro-
gância, as etapas prévias da culpabilidade normativa e da inexigibilidade de pósito do livro Politik und Verbrechen, de HANS MAGNUS ENZENSBERG (Suhr-
outra conduta, fundamento e pôrto da matéria com que trabalha. A obra se kamp Verlag, Frankfurt, 1964). A resenha que dêle nos é fornecida demonstra
ressente de um saudável hausto finalista - revelando a inevitável difusão das tratar-se de fascinante obra, elaborada sôbre o que o Autor define como "terreno
criativas colocações dessa doutrina, entre nós, apesar das restrições imerecidas vago, incierto, entre folletin y filosofía". São nove monografias, que abordam,
<que lhe fizeram alguns de nossos maiores penalistas. das reflexões sôbre a "jaula de cristal" de Eichman, ao "Sôbre a teoria da trai-
Trata-se de livro indispensável aos profissionais do direito que trabalharão ção", o "~erfi1 de um pai da pátria, Rafael Truj(i1lo", significativamente pró-
com o Código de 1969, para justa compreensão do instituto do estado de neces- ximo da "Balada de Chicago - modêlo de uma sociedade terrorista", e ainda a
sidade, tal como nêle se disciplinou. indispe'nsável consideração de episódios da Máfia. O eventual lançamento de uma
Nilo Batista
tradução brasileira representaria para o editor, a par de um serviço à causa da
cultura, indiscutível sucesso editorial.
Revista de Ciencias Pemx,zes, Tomo XXIX, n. o 2. Nilo Batista
O órgão do Instituto de Ciências penales (Chile) nos apresenta, nesse nú-
mero, dois trabalhos em sua seção de doutrina: Culpabilid1ad y Criminolo'gia, do
Prof. ENRIQUE CURY, e El delito de peligro por conduccion temeraria, do Pro-
fessor A. BERISTAIN, da Universidade de Oviedo.
Em CulpabUidad y Criminologia, o Prof. CURY pesquisa a aproximação, ou
melhor, a interpenetração da Criminologia com o Direito Penal a partir da
culpabilidade post-frankiana, já que "o exame das circunstâncias concomitantes
e de sua influência na formação da vontade, pertence ao criminólogo e condiciona
o penalista" - o que significaria estarem as duas ciências "rec1procamente de-
terminadas" (pág. 111). O Autor conclui por considerar que ,a serem exatas
tais considerações, "a teoria da culpabilidade deve transformar-se, e compreen..
der uma completíssima criminologia das causas" (pág. 114).
Em El delito de peligro por conduccion temeraria, o Prof. A. BERISTAIN rea-
liza preciosa reconstrução da espécie criminal que enfoca, não só com ampla
informação de direito comparado, como sobretudo no exame dos elementos típicos.
Colocando a idéia de "temeridade" no plano objetivo, - não com "a imprudência
temerária do autor, mas como a forma objetiva da condução" (pág. 125) - ,
situa sua qualidade de temeridad emanifesta no plano subjetivo da integrali-
zação do tipo, com apoio em feliz observação de BOCKELMAN, e outros argu-
mentos ponderáveis (pág. 127). Ao estudar o elemento normativo da exposição
a perigo, o Autor efetua conciso mas excelente trabalho sôbre o conceito dog-
mático de perigo, suas classes e conteúdo. Abordando a culpabilidade, põe em
questão o assim chamado dolo de perigo, culminando todavia por admitir sua
«conveniencia doctrinal" (pág. 146). Também é versada a hipótese de concurso
do crime de perigo com o crime de resultado que é um seu sucedâneo, em pers-
pectiva empírica. Em suma, trata-se de valiosa contribuição à compreensão dessa-

70 71
JURISPRUD~NCIA por sua 2. a Turma, relator o eminente
lVIin. THOMPSON FLORES.
Na hipótese, o paciente fôra proces-
sado por estelionato continuado (ven-
mando que essa orientação está con-
forme à jurisprudência estraHficada do.
STF, incluída na S'Úlmula 497. O crime
continuado não constituiria uma uni-
~
I
i

da de automóveis adquiridos por prêço dade, sendo seu objetivo único tornar
inferior) em duas distintas ações pe- menos intensa a aplicação da pena.
nais, que correram em diversos juízos O eminente Min. EIlOY DA ROCHA,
(distintas Varas Criminais da mesma acompanhando o relator, salientou:
Comarca). Num dos processos foi ab- "Para conceituação do crime continuado,
solvido, afirmando o Juiz que o fato importa ,antes de tudo, verificar a
Exame de corpo de delito indireto lização do exame de corpo de delito. descrito na denúncia era de natureza pluralidade de ações ou omissões dos
êste não é realizado. O art. 158 do civil, tendo a decisão transitado em crimes se deve configurar ,com to-
o exame de corpo delito indireto não Cód. Pro c . Penal encerra uma regra julgado. N o outro processo, decisão dos os seus elementos, inclusive o ele-
pode ser admitido .quando era possível de observância compulsória, cuja pre- mento subjetivo. Ainda que o elemento.
posterior o condenou, afirmando a exis-
a realização do exame direto. Assim terição é fulminada com a pena de nu- objetivo fôsse idêntico, a diversidade do
tência de estelionatocontinuado. A pri-
decidiu, com absoluto acêrto, a 2.a Câ- lidade, não a suprindo a confissão do ,elemento subjetivo poderia descaracte-
mara Criminal do T. A. da Guanabara, meira decisão transitou em julgado, em-
réu, nem a prova testemunhal". (T. bora isso só tenha ocorrido depois de rizar em qualquer dos ,fatos a infra-
na Ap. Crim. n. o 4. 426, relator o emi- J. de São Paulo, h.c. 38.267, relator ção penal. A indagação do elemento,
nente Juiz JOÃo CLAUDINO "Só na proferida a sentença condenatória no
Des. THOMAZ CARVALHAL, Rel!isva, dos segundo processo. subjetivo avulta sobretudo, no caso, em
impossibilidade de realização do exame Triburwds, 208/71 ) . que se trata de estelionato. A ação.
de corpo de delito, por haverem desa- Reclamava o impetrante que o tribu-
"É imprescindível o corpo de delito relativamente a uma das vítimas, po-
parecido os vestígios, a prova testemu- nal reconhecesse efeito de coisa julga- deria constituir estelionato e, quanto à,
direto. Se não se prova a impossibili-
nhal poderá suprir-lhe a falta". Pre- da do primeiro processo sôbre o segun- outra, não, considerado o elemento sub-
tendia-se ter por provadas lesões cor- dade de obtê-lo, nenhuma valia tem o
do, argumentando com a unidade ju- jetivo, art. 171 do C. Pen .. Somente
porais com o simples boletim de socor- indireto. A vítima que se recusa ao
rídica do crime continuado. depois, investigam-se as condições legais,
ro, o qual, como se sabe, é firmado por exame deve ser compelida sob pena de
desobediência". (T.J. Distrito Fede- O tribunal denegou a ordem por una- da continuação, para o efeito da uni-
um só médico. A decisão foi unânime, nimidade. Afirmou o eminente relator dade prevista na lei.
(D. O., Parte III, 12/7/71, pág. 514, ral, relator Des. JosÉ DUARTE, Revista,
Forense, 90/816). que "os fatos objeto da primeira de- Em processos separados, foram pro-
do apenso) .
núncia e seu aditamento diversos fo- feridas duas sentenças. Suponha-se que
O exame de corpo de delito nos cri- Veja-se também a decisão proferida
ram da segunda", isto é, o segundo pro- o paciente tivesse sido condenado no
mes que deixam vestígio é essencial pelo Tribunal de São Paulo (in Rev.
cesso se referia a vendas de carros a primeiro processo, enquanto tinha ano,
(art. 158 Cód. Proc. Penal), sob pena Tribs., 268/533).
pessoas diversas daquelas que figura- damento, em separado, o outro. Quem
de nulidade (art. 564, III, letra "b"). A 2. a Câmara Criminal doT .A. da vam como lesadas no primeiro proces-
É certo que o corpo de delito direto
haveria de argüir a coIsa julgada, re-
Guanabara decidiu também na Ap. so. E que a absolvição no segundo pro- sultante daquela condenação? O juiz,
pode ser suprido pelo indireto (art. Crim. n. o 4.091, relator igualmente ()
167), que se realiza através da prova cesso, ainda que transitada em julga- poderia absolver o paciente, se assim
ilustre Juiz JoÃ!o CLAUDINO, .que "só'
testemunhal. do, porisso mesmo, não poderia refle- julgasse, no segundo processo".
na impossibilidade de realização do
Duas são porém, as condições impres~ tir-se no primeiro. Invocou, nesse sen- O ilustre Min. ADALfCIO NOGUEIRA,
exame de corpo de delito, por haverem
cindíveis: (a) é indispensável que os tido, a lição de J'osÉ FREDERIOO MAR- negando igualmente a ordem, obser-·
desaparecido oS vestígios, a prova tes-
vestígios tenham desaparecido; (b) - QUES: "Quando o réu é absolvido por vou que "não obstante continuados fo-
temunhal poderá suprir-lhe a falta".
a prova testemunhal deve ser unifor- (D. O., Parte III, 2/8/71, pág .556 do. um ou mais delitos, na sentença que ram frutos de mais de uma ação, em
me e categórica, de forma a excluir apenso) . passou em julgado, bis in idem não conformidade com o prescrito no art.
qualquer possibilidade de dúvida quan- haverá, se a nova acusação fôr pro- 51, ,§ 2. 0 , do Cód. Pen .. Não se cogita
to à existência dos vestígios. Cf. RDP, movida tendo em vista fatos que, em- de unicidade de ação delituosa, senão
n.O 1, pág. 148. Não se admite o cor- Crime continuado. Pluralidade de pro- bora ligados pelo nexo da continuidade de variedade desta, embora os tipos res-
po de delito indireto quando nenhum cessos. Coisa julgada aos da decisão anterior, dela não cons- pectivos se vinculem por um elo co-
impedimento havia para a realização tituiram objeto, e, por isso, não foram mum.
do exame: "Nulo é o processo em que' A complexa questão da coisa julga- julgados". (Ele'YItento8 de Dir. Prov. As atividades criminosas são autôno-
tendo a infração deixado vestígios e da no crime continuado foi levada ao penal, 1961, 3.° vol., pág. 100). mas, embora interligadas, e por isso hão>
não havendo qualquer obstáculo à rea- STF, no julgamento do RHC 47.816, Concluiu o seu voto o relator afir- que ser separadamente apreciadas. A

72 73
<conseqüência exclusiva a inferir-se do MIRANDA (Comentários à Lei de 1m· .em Matéria Penal, 1953, pág. 203) plícito, na dependência da interpretação
fato é a atenuação da penalidade sobre- premxa, voI. II, 1969, pág. 488). A lei .demonstra que no processo penal rege dos técnicos do d~reito. H~de ser ex-
yinda à continuação, bem como, no que de imprensa de 1934 (Dec. 24.776, ,o prinCIpIO de que "o juiz preve- presso, para a compreensão geral, in-
toca à prescrição o benefício consagra- art. 17§ 1.0) referia-se expressamente niente estende seu conhecimento da cau- clusive de quem é pessoalmente atingi-
do pela jurisprudência, hoje consolida- a notificação, que seria entregue ao no- .sa preparatória à causa preparada", do por êle". Lembramos, no entanto,
da na Súmula 497". (lM!). Trim. Ju- tificante (.§ 2. 0 ) . ;afirmando que previnem a competência, que o STF já decidiu sôbre a matéria.
rispr., 55/411). Pedimos licença para consignar nos- na lei de imprensa, as diligências pre- no h. c. 42.576, relator o Min. PEDR-G
sa completa divergência com a orienta- 'liminares para a exibição de autógrafos, CHAVES, afirmando que se trata de
ção do v. acórdão. Diversamente do ,o pedido de explicações, o processo su- simples irregularidade e de "irregula-
Interpelação em crime contra a hon- que ocorre no processo civil, no crime a maríssimo sôbre a inidoneidade finan- ridade fútil", pois o juiz determina pro-
ra praticado pela imprensa não pre- competência se firma pela prevenção .ceirae a retificação compulsória. vidências que implicam necessàriamente
vine a competência do juízo. Rece- desde que o juiz tenha antecedido outro No Rec. Crim. 6.636, a 2.a Câmara no recebimento da denúncia. (Rev.
bimento da queixa exige despacho "na prática de algum ato do processo .(lo T. J. da Guanabara, corretamente Trim. Jurispr., 35/582'). A 2.a Câma-
expresso ou de medida a êste relativa, ainda que ,decidiu que "o pedido de explicações de ra Criminal do T. J. da Guanabara, na
anterior ao oferecimento da denúncia 'que trata o art. 25 da lei 5.250, de Ap. Crim. 47.142, relator o ilustre
Nesse sentido decidiu a 3.a Câmara ou da queixa" (art. 83 Cód. Proc. Pe- :1967, previne a competência do juiz que Des. ROBERTO MEDEIROS, admitiu tam-
Criminal do T. J. da Guanabara, no nal). A competência por prevenção no -dêle conheça para a ação penal". Foi bém o recebimento implícito da de-
h. c. 20.831, relator o eminente Des. processo penal é de muito maior am- :relat~r para o acórdão oDes. R<JBERTO núncia, afirmando: "Não se determina
ODUVALDO ABRITTA. O paciente havia plitude do que no processo civil, e as MElDEIlWS, cujo voto foi acompanhado a citação senão depois de recebida a de-
respondido a interpelação judicial por dúvidas que a matéria suscita provêm pelo Des. OLIVEIRA RAM'OS, ficando ven- núncia. Determinando a citação do
artigo publicado na imprensa. Julgan- exclusivamente de introduzir no debate cido o Des. FAUSTINO NASCIMENTO (re- acusado, estava o magistrado dando co-
do insatisfatórias as explicações da- os critérios do processo civil, inteira- mêço à ação penal e impulsionando-a,
lator) .
das, o requerente promoveu ação-'penal mente inaplicáveis. o que só ocorre, inicialme'üte, através
O Tribunal de Alçada de São Paulo,
perante o juízo em que foram pedidas Em conseqüência, basta, para preve- do recebimento da peça acusatória".
por sua 3.a Câmara Criminal já deci-
as explicações, entendendo haver pr e- nir a competência, a prática de qual- (Rev. Jurispr., 13/387). É a boa orien-
yenção. diu no mesmo sentido: "O pedido de
quer medida relativa ao pro{!,esso'.
explicações, formulado ex vi do art. tação.
Concedeu a Câmara o h. c. afirman- O pedido de explicações é medida pro-
it44 do Código Penal e diante do que
do a incompetência do JUÍzo.' Isso por- cessual peculiar em que se procura ca-
.dispõem os arts. 75, parágrafo único e
'que o pedido de explicações "é diligên- racterizar a existência, em seus aspec- Falsidade ideológica. Registro ciyil.
'83 do Código de Processo Penal, firma
da preliminar facultativa, cuja reali- tos exteriores. de uma ofensa. Isso se
.a competência do juízo que dêle conhe- Ausência de dolo
'zação não compromete o juízo, eis que faz, rigorosamente, através de uma in-
'Ça para a ação penal" (Rev. Tribs.,
seu resultado, segundo o parágrafo úni- terpelação. A nova lei de imprensa (lei Em caso que envolvia falsidade ideo-
co do mesmo dispositivo (art. 11 da lei 5.250, de 9/2/67, art. 25) impropria- '379/248).
O processo de interpelação deve ser lógica em registro civil por motivo no-
'2083), fica a critério exclusivo do ofen- mente se refere a notificação e, ado- bre, declarou a 3.a Câmara Criminal do
dido. Assim, não constitui ato proces- tando o sistema do Código Penal, esta- entregue ao requerente. Manifesta-se
aqui, como ensina o nosso doutíssimo T . J. da Guanabara a ausência de dolo,
sual indispensável e inerente à propo- beleceu que ao juiz. compete julgar se na Ap. Crim. 41.828, relator oDes.
situra da ação penal. Normalmente as explicações são satisfatórias ou não. ELIEZER RJOSA, o poder de documen-
DEOCLECIANiO MARTINS DE OLIVEIRA·
passa a pertencer ao requerente par~ 1!:sse sistema dá lugar a graves incon- tar que possui a jurisdição, formando a
Tratava-se de registro de nascimento
com ela instruir a ação a promover". venientes. Quem pede as explicações é prova que interessa e pertence à parte.
feito pela mãe, de filho adulterino,
(Rev. Jurispr., 13/362). que deve julgar se as que foram aadas Uma última observação merece o v.
que o declarou legítimo. A apelante
NELSON HUNGRIA (Comentários, vo- são satisfatórias. T'ais aspectos da ma- acórdão, na parte relativa ao despacho
(condenada em primeira instância à
lume VI, pág. 126) referindo-se ao pe- téria, no entanto, são irrelevantes, a com o qual o juiz recebeu a queixa ou pena de 1 ano e 2 meses de reclusão)
dido de explicações a que alude o art. nosso ver, para decidir a questão da a denúncia. No caso, o juiz, ao invés
vivia amasiada cêrca de 18 anos com
144 Cód. Penal afirma que o Cód. Proc. competência (ao contrário do que pa- de lançar as palavras sacramentais, "re-
o pai da criança, e era pessoa sexage-
Penal não o regulou especialmente, "de receu à E. Câmara). cebo a queixa", despachou: "A., cite-se
nária e enfermica.
modo que o seu processo deve obedecer Trata-se apenas de saber se o pedi- 'Ü querelado, designando o cartório dia
Entendeu a Câmara que não houve
ao das notificações avulsas ", com a en- do de explicações é medida relativa ao oe hora para o interrogatório". Afirmou
dolo e que, se dolo tivesse havido, seria
trega dos autos ao l'equerente inde- , PrOlcesso. A afirmação parece-nos irre- ,3 E. Câmara que "o despacho de re-
dolus bonus, já que seu único propósito
pendentemente de traslado. No' mesmo cusável. Examinando a matéria. JosÉ eebimento de denúncia ou queixa, pelas
foi o de resguardar o futuro e a dig-
%;entido opina o douto DARCY ARRUDA FREDERIOO MARQUES (Da Competência suas conseqüências, não pode ser im-

74 75
nidade da criança. Evidenciava-se tam- Mesmo nos casos em que há prejuízo. :Disparo de arma de fogo. Não se con- que a ~:'a rucha funcionava bem. En-
bém que nenhuma vantagem pessoal au- potencial, êsses casos estão fatalmente figura a contravenção se os dispa- tendeu .' a Câmara que não havia con-
ferira a ré, com a declaração falsa. destinados à absolvição, pois a gravi- travenção, porque- a armaíl"ão estava
ros são de festim
Ficou vencido o ilustre Des. JOSÉ dade de nossa lei torna a condenação. municiada quando da agressão. "O ilí-
MURTA RIBE1RO, que confirmava a iníqua e insustentável. É, tipicamente" cito penal somente surgiria no momen-
Nesse sentido decidiu a 2.a Câmara to em que houvesse o municiamento,
sentença, entendendo que o dolo na fal- uma daquelas situações de anomia da,
Criminal do T. de Alçada da Guana- não antes disso já que então não podia
sidade ideológica, é a vontade da muta- norma jurídica, que o Tribunal deixa
bara, na Ap. Crim. n. o 270, relator o a O'arrucha ser utilmente usada, ainda
tio veritatis, na espécie, e particulari- de aplicar por não corresponder, de ma--
zada pela intenção de alterar a verdade neira gritante, às mínimas exigências. ilustre juiz JORGE ALBERTO ROMEIRO, qu: pudesse ser fulmin~ntemente ~l­
de justiça. por unanimidade. cançada na pasta. Em lmguagem sm-
sôbre circunstâncias de relêvo jurídico,
Que o motivo nobre não exclui o dolo,., Como bem acentuou o excelente juiz gela, mas que pretende ser si~nificativa
com conseqüências na esfera do direito
prova-se com o art. 242 :§ único do CÓ-- relator , "sendo o bem jurídico tutelado da inexistência da contravençao no caso:
de família e das sucessões. (Rev. Ju-
digo Penal vigente. O exato caminho" pelo nosso direito positivo, na contra- quando da apreensão, o réu não estava
rispr. 13/367).
de Z0ge ferenda, está em permitir em venção de disparo de arma de fogo arma-dJo" (Julg.ados do T. A., voI. 2,
Considerando situação semelhante, de- tais casos o perdão judicial, cominando' (art. 2B da CLP), a incolumidade pú-
cidiu o STF, por sua 3.a Turma, no pág. 177).
a pena de multa alternativamente, como, blica como Se verifica da epígrafe do Parece-nos difícil negar o porte de
mesmo sentido, relator o eminente Min. fêz o nôvo Código Penal (art. 267 §~ capítulo em que está ínsito o dispos~­ arma quando a munição está em po-
HERMES LIMA, no h. c. 43.515. Nesse único). tivo legal, são irrelevantes para confI-
caso, o paciente era casado e sepa- der do réu. Está .ar'I'JWda a pessoa que
gurá-la os disparos com festim". Es- tem numa das mãos uma pistola auto-
rado da mulher, vivendo amasiado com clarece, com evidente acêrto, que nossa
outra. Declarou no registro que era le- mática e na outra o pente de cartu-
Pif-paf. Não constitui contravenção 1pi, tomou por modêlo o vigente Código
gítima a filha dêle e da companheira, chos que introduz na pistola numa fra-
Penal italiano, onde a contravenção çíío de segundo. Considerando-se o co~­
reconhecendo o juiz que agiu por mo-
tivo superior. (Rev. Trim. Jurispr.,
A 2. a Câmara do Tribunal de Alça- (act, 703) figura sob a rubrica c:
on - tlJúdo de perigo que a contravençao
da da Guanabara, na Ap. Crim. n. o 34, tTavcnzioni concernenti la prevenZ101M
39/280). No sentido de que o falso re- pressupõe, não pode h~ver dúvida d,e
relator o ilustre juiz J'ORGE ALBERTY, di delitti contro la vita e l'incolumità,
gistro de filho ilegítimo não é crime, que a infração se conflgurava, na h;-
ROMEIRO, decidiu por unânimidade que personale, diversamente do que ocorre
ci. aindft Rev. For., 199/275. o jôgo chamado pif-paf não é de azar pótese em julgamento. Em caso ana-
no direito alemão, que, silenciando sô- logo assim decidiu a VOl. Câmara do
O dolo no crime de falsidade ideo- e a sua prática não constitui contra- bre o bem jurídico tutelado, permite
venção. Nesse s€.ntido, há numerosag; mesmo Tribunal, por unanimidade, ~a
lógica (art. 299 Cód. Penal) é especí- que se entenda a contravenção co~o
decisões dos tribunais. Cf. HELENO C. Ap. Crim. n. o 59.237, relator o Mm.
fico. Consiste na vontade dirigida à contra o pe-rigo e o molestamento pu-
FRAOOSO, Jurisprudência Criminal, nP' AZEVEDO FRANCESCHINI. Entend~ a
ação ou omissão que constitui a mate- blicos.
158, bem como Rev . For., 126/532 e Câmara, com exatidão, que, em se tr~­
rialidade do fato, com o fim de preju.
RoeI/). Tribs., 228/499; 242'/367; 257/197 trando de arma de fogo, para aperfel-
dicU/i' direito, crümr obrigação ou alterar
e 259/332. WILSON BUSSADA, Contra·, çoar-se a contravenção do art. 19 ~a
a vertlJade sôbr0 fato juridicamente rlJ-
venções Penais, São Paulo, 1956, n. ou Forte de arma. Munição fora da Lep não se exige que o agente seJa
levante. A alteração da verdade sôbre
fato juridicamente relevante deve ser 253, pág. 138. arma surp~eendido levando projetil na a~u­
O acórdão assinala que no mesmO' lha ou no tambor: "basta que,alem
feita de forma a prejudicar alguém,
seja o prejuízo efetivo ou potencial.
sentido já se pronunciaram neste Es- A 4.a Câmara Criminal do Tribunal da arma em condições de funcionam en-
-"
(Rev. For., 199/287). No julgamento
tado, quando Distrito Federal, a Chefia'. de Alç~da de São Paulo, na Ap. Crim. to possua munição ao alcance da mao
de Polícia, aprovando parecer de seu' n. o 59.493, relator o Min. AZEVEDO Jú- (Íulgwdos, vol. 2, pág. 186).
do h. c. 43.515, declarou o Min. HERMES
assistente jurídico, Dr. CÂNDIDO ÁL- NIOR decidiu, unânimemente, que não A 2.a Câmara do T. de· Alçada da
LIMA: "Na nossa legislação penal, VARO DE GOUVÊA (Boletim de ServiçO'
quanto à falsidade ideológica, se real- se configura a contravenção prevista Guanabara, na Ap. Crim. n. o 424, re-
do Departamcrnto Federall de Seguranç($ no art. 19 LCP,quando alguém leva lator o ilustre juiz EPAMINlONDAS PON-
mente a intenção não foi prejudicar, P'4blica, n. o 257, de 9/11/1956, pági-
mas proteger, não me parece que o garrucha desmuniciada. Na hipótese, o TES, entendeu, por unanimi~ade, que
na 1/2), e a Procuradoria Geral da se caracteriza a contravençao com o
dolo específico haj a ocorrido". É pos- réu levava a arma numa pasta (cir-
Justiça, em parecer do Dr. MARTINH't1 simples transporte da arma em _pasta
sível, assim, que a falsidade ideológica cunstância julgada irrelevante, para
DA ROCHA DOYLE, datado de 2 de marçO' fechada sem balas no tambor, nao ha-
no registro civil se realize sem dolo, o configurar o porte) e trazia no bolso ,
de 1969, 'por delegação do Procurad'or
oito cartuchos intactos e adequados vendo possibilidade de ser, o revo'1ver
que dependerá das circunstâncias do Gerál CÂNDIDO DE OLIVErR:&. Ni!:Tt)', que
àquela arma. A perícia demonstrou usado de imediato.
caso concreto. o aprovou.

76 77
Preconceito de raça ou de côr. Re- que realmente não estavam habilitados; xão, que jamais poderiam constituir ob-' instrumentos de que se sirva o cri-
cusa de hospedagem. Só há contra- para funcionar em tal tipo de proces-, jeto de um único processo (argumento minoso.
venção se se demonstra o especial sos. Nunca se viu neste país tão gran- não invocado pela defesa). Não nos parece, - data venia, possa
motivo de agir de número de denúncias ineptas, ape- O TFR afirmou que a denúncia não haver qualquer dúvida de que a mer-
sar de imensas. Na sentença condena- era inépta, pois a multiplicidade de cadoria que constitui objeto material
Na Ap. Crim. n.o 113, a La Câmara tória proferida no volumoso processa. agentes e a circunstância de se tratar da ação seja integrante do corpo de
Criminal do T. de Alçada da Guana- contra os comunistas de Pernambuco,. de crime continuado tornava difícil pre- delito nos crimes de contrabando ou
bara, relator o ilustre juiz RAUL DA que se apresenta em 47 volumes, o juiz: cisar, com exatidão, qual o dia e o descaminho. No caso não só a merca-
CUNHA RIREIRO, afirmou que a contra- reproduziu na sentença exatamente a. lugar em que os agentes praticaram doria não foi apreendida como também
venção prevista no art. 2.° da Lei que se continha na denúncia, como mo- cada uma das açÕes. "A imprecisão no nenhuma testemunha a ela se referiu.
n.o 1.390, de 1951, só se configura tivação paTa condenar a maioria dos mencionar essas circunstâncias não é É outro assunto saber se a regra
quando se demonstra que a ação foi acusados, fato que implica em eviden- suficientemente idônea para caracteri- contida no art. 158 Cód. Proc. Penal,
motivada por preconceito de raça ou te nulidade. zar a inépcia da denúncia". deve ser mantida no processo penal
de côr. Essa fúria acusatória, que constitui moderno. Responderíamos pela negati-
Nas acusações por contrabando, não
Na hipótese entendeu a Câmara, e fEnômeno episódico e fàcilmente com- tiva. Trata-se de evidente vestíg'o do
houve qualquer apreensão de mercado-
bem, que não ficara demonstrado que preensível, deu lugar à instauração de sistema das provas legais, sem razão
rias. Em relação a tais crimes, tudo
a recusa na hospedagem se tinha feito IPM nos Estados do Ceará e Piauí, de ser nos dias de hoje. Veja-se a ca-
não passava de referências fragmentá-
por motivo de raça ou de côr. Tudo não tendo por objeto a investigação de con- racterística lição de nosso excelente
rias dos próprios acusados, que depu- J,osÉ FREDERIOO MARQUES (Elementos
passava de uma convicção das teste- trabandos e descaminhos que naqueleS'
lugares sempre ocorreram com a par- seram presos, com base no art. 156, de Direito Processual Penal, voI. II,
munhas, fundadas' em razões meramen-
ticipação e a conivência das autorida- CJM. A denúncia não arrolava teste- pág. 364): "Na verdade, fora do sis-
te subjetivas, que não passaram de
des. É a via fácil do enriquecimento munhas. Afirmava a defesa que o cri- tema da prova legal, só um código como
simples presunção, insuficientes para
de numerosas pessoas respeitáveis dos me deixa vestígios e que era impres- o nosso, em que não há a menor siste-
condenar. Decisão unânime.
Estados do norte, que se dedicam ao cindível o eXame de corpo de delito. matização científica pode manter a exi-
comércio ilícito especialmente com Pa- O Tribunal rejeitou a alegação, afir- gibilidade do auto de corpo de delito
Contrabando. Falta de apreensão da ramaribo. mando o ilustre relator que o crime sob pena de considerar-se nulo o pro-
mercadoria. Irrelevância O h.c. n. o 1.351, impetrado ao TFR de contrabando "não deixa vestígios a cesso. Que isso ocorresse ao tempo da
pelo saudoso prof. OLAV'o OLIVEIRA, era serem provados por exame de corpo legislação do Império ainda Se com-
Com os acontecimentos políticos de 31 relacionado com denúncia oferecida em de delito". preende. Mas queaindà se consagre
do março de 1964, tivemos, como se IPM, contra 60 pessoas, versando sôbre Lamentamos dissentir. ARTURO Rocco tal baboseira num estatuto legal pro-
sabe, em nosso país, uma onda de 133 crimes, sendo 22 de estelionato; (L'oggetto del reato, 193Z, pág. 10) mulgado em 1941, eis o que se não
IPMs, com os quais inúmeras violên- 47 de bando ou quadrilha; 12 de cor- identificava o corpo de delito com o pode explicar de maneira razoável".
cias foram praticadas, com fundamento rupção ativa; 51 de contrabando ou objeto material do crime (Obietto ma- No h.c. de que damos notícia alega-
no famigerado art. 156 C J M. Tais descaminho e um de facilitação de con- teriale del reato e, quindi, in altre pa- va também o impetrante ser nulo o de-
IPMs foram apenas expressão de zêlo trabando ou descaminho. Tudo isso num role, il corpus de>li0ti) , nêle incluindo creto de prisão preventiva, por falta
revolucionário e, mesmo nos casos em só processo. A pressão das autorida- os meios materiais e instrumentos (ins- de fundamentação. O ilustre relator,
que havia realmente crimes a punir, des militares levou à decretação da pri- trumenta sceleris) empregados pelo confirmando anteriores pronunciamen-
não levaram a qualquer resultado prá- são preventiva. agente, bem como o produto do crime. tos, admitiu a existência de fundamen-
tico. Isso ocorreu, em boa parte pela O conhecido rigor com que 'o TFR O nosso J'Üko MENDES (O Processo Cri- tação implícita, entendendo que o juiz
desorientação total dos militares encar- julga casos dessa natureza fêz c'Üm 1ninal Brasileiro, 1911, voI. II, pág. 6), incorporou ou integrou na fundamen-
regados dos inquéritos, que os trans- que a ordem fôsse denegada, unâni- com exatidão, ensinava que corpo de tação de seu decreto de prisão preven-
formaram numa espécie de inquisição memente. Foi relator o ilustre Minis- delito é "o conjunto de elementos sen- tiva o conteúdo da denúncia. Ainda
universal para compreender enorme va- tro ANTONIO NEDER. síveis do fato criminoso". E ORTOLAN aqui pedimos licença para, mais uma
riedade de delitos contra diversos Argüía a defesa a inépcia da denún- (Élements de Droit Pénal, 1963, voI. I, v~'z, deixar consignada nossa divergên-
acusados, em fatos que não guardavam cia, que era irrecusável, por desaten- pág. 484) dizia que o corpo de delito cia. A motivação da prisão preventiva
entre si qualquer conexão. Os que fo- der às exigências do art. 41, Cód. Proc. é ul'ensemble complet des éléments ma- deve ser exatíssima e estar contida no
ram para a Justiça Militar, por fatos Penal, quanto à narração do fato deli- tériel'8 dont se forme le délit". O corpo próprio decreto, para que fique claro o
de natureza política, comprometeram-se tuoso. Inadmissível era, por outro hido; de delito é constituído em suma, por convencimento do juiz ao decidir sôbre
irremediàvelmente pela incompetência a reunião de numerosos fatos absolu- todos os 'elementos materiais da con- prisão excepcional. A denúncia consti-
do M. P. militar e de muitos auditores, tamente isolados, sem qualquer cone- duta incriminada, inclusive meios ou tui uma acusação ou seja, uma simples

78 71
imputação de fatos, não constituindo seu defensor. E que, em conseqüência
um documento probatório. Por outro dessa perda de capacidade de. fato, com- tiça pois, até o revel tem assegurado assinala MANZINI, não são defensores
lado, nada pode a denúncia conter sô- pete ao Presidente do Conselho a no- o patrocínio de um advogado, na fun- do crime, mas da lei e do aGeito.
bre a necessidade da prisão cautelar. meação do curador (art. 71, ;§ 2. 0 , do ção de Curador designado pelo Presi- Ainda que o acusado não fôsse sim-
Não há motivação implícita. Veja-se a C.P.P.M.). dente do Conselho e na ausência de plesmente revel, e sim foragido (no di-
precisa lição de BETTrOL (lstituzioni di Como assinala o acórdão, com abso- quem esteja legalmente investido de zer de CANELUTTI, aquêle que voluntà-
Diritto e Procedura Penale, 1966, pá- luta precisão, realmente, "pela lei de mandato para defendê-lo. , memte se substrai à execução de um
gina 222): La motivazione implicita Organização Judiciária Militar - ar- "De outro lado nenhum inconvenien- mandado de captura), ainda assim pre-
non e unC/J motivazione. tigo 44 - II - Compete ao Presiden- te ou prejuízo poderá advir à Justiça valeceria o princípio da plenitude de
Do acórdão lê-se: "Prisão preventi- te dos Conselhos Especiais e Perma- por haver o revel sido defendido por defesa, compreensivo da escolha do de-
va. Prova da existência do crime e in- nentes de Justiça, nomear advogado ao advogado que constituiu, logo que to- fensor. Em excelente trabalho (A De-
dícios suficientes de autoria. A inexis- acusado que não o tiver e curador ao mou conhecimento da acusação que lhe fesa d!o Foragido), ROMEU P. CAMPOS
tência dessa prova e dêsses indícios ausente ou de menor idade. € atribuída." BARROS, ilustre professor da Faculdade
para consubstanciar a ilegalidade da "Isso, porém, não quer dizer que o De notar que a Procuradoria-Geral de Direito de Goiás, afirma: "A exe-
prisão deve ser demonstrada de manei- acusado, considerado revel, não possa manifestara-se pelo deferimento da gese que se pretende emprestar ao pa-
ra conveniente e 'não simplesmente ale- constituir advogado, pois tal proibição correição "porque o nela pleiteado está rágrafo único do art. 396 CPP, no sen-
gada". Essa passagem da ementa, em representaria uma restrição ao livre acorde com a lei e com o que consta tido de que envolve uma restrição ao
desacôrdo, aliás, com o voto do ilustre exercício da advocacia que o Estatuto dos respectivos autos". direito de escolha do defensor pelo
relator, é particularmente infeliz. Não da Ordem dos Advogados do Brasil as- A orientação do STM foi confirma- acusado que desatende ao chamado ju-
compete à defesa evidenciar que não segura aos seus membros." da no julgamento da Correição Parcial dicial, não se ampara no sistema do
existe prova da existência do crime ou "Aliás o próprio Código de Processo n. O 997, relator o ilustre Min. JACY Código que dá sempre a função suple-
d2, autoria. Cabe, c?mo é óbvio, ao juiz Penal Militar, em seu art. 75, estabe- GUIMARÃES PINHEmo (que ficou ven- tiva ao juiz de nomear defensor, quer
demonstrar cumpridamente que ela lece que "ao exercício da sua funçs.o cido, juntamente com Os eminentes Mi- quando êste deixa de comparecer a de-
existe, de modo a justificar a prisão no processo o advogado terá os direi- nistros SYZENO SARMENTO e OLIVEIRA terminado ato do processo, ainda que
preventiva (TFR Jurispr., 121103). tos que lhe são assegurados e os de- SAMPAIO). Nesse caso o advogado provisoriamente ou para o só efeito do
veres que lhe são impostos pelo Esta- pleiteara fôsse desig~ado curador, ato".
Defensor constituído de réu revel tem tuto da Ordem dos Advogados do Bra- apresentando-se com instrumento de A solução não difere de outros sis-
sil, salvo disposição em contrário, ex- mandato que lhe foi outorgado pelo pai temas. MANZINI ensina que "el nom-
direito a ser designado curador. Jus-
pressamente prevista neste Código." do acusado revel (em aplicação ana- brajJ1~ento de confironza prevalece siem-
tiça Militar
"A única restrição que a lei impôs lógica 'do disposto no art. 241 do pre sobre el de oficio, al punto de que
Dando provimento à Correição Par- ao revel está inscrita no art. 413, isto é, C.P.P.M.). este se entiende revocado tan pronto
cial n. o 982, relator o ilustre Minis- o revel que comparecer após o início O direito de livre escolha do defen~ el imputado sea, asistido o representa-
tro WALDEMAR TioRRES DA COSTA, deci- do processo acompanhá-Io-á nos têrmos sol' constitui um desdobramento do di- do por un defensor de confiaJnza", ex-
diu o STM que "deve ser designado em qne estiver, não tendo direito à re- reito de defesa, que em nossos dias se plicando que isso se justifica pela con-
curador o advogado que se apresenta petição de 'qualquer ato. proclama sem restrições. Constitui um veniência de conceder ao acusado "la
com instrumento de procuração do "Evidentemente, o advogado consti- princípio arcáico o de impor ao réu mGlJJor amplitud posible en la que se
acusado reve!. O curador designado, tuído ao ser designado curador sofrerá conseqüências terríveis pela revelia, re- refiere a su defesa" (in Tratado de
na ausência do acusado, considerado a restrição imposta aos que defendem pudiando o processo penal moderno a Der. Proc. Pen., Trad., v. II, pág. 599).
em lugar incerto e não sabido, deve ser revéis, como o afirma o art. 414, isto é, bárbara restrição medieval de ódio ao Entre nós, no mesmo sentido, o pro-
substituído por advogado que Se apre- o curador ao acusado revel se incum- contumaz, inspirada, como lembra FIJO- nunciamento de ESPÍNOLA FILHO, in
sente legalmente constituído". birá da sua defesa até o julgamento, RIAN, no desumano critério romanístico. Código de Prrocesso Pemal Anotado,
Tratava-se, na hipótese, de acusado podendo interpor os recursos legais, ex- Hoje subsiste apenas, pOr um lado, v. II, n.o 550, e BORGES DA ROSA, in
que se achava fora do país e que ou- cetuada a apelação de sentença conde- o fato da acusação, e, por outro, o fato Processo Penal Bra.gileiro, 1942' v. 2,
torgara mandato ao advogado para que natória. Em nenhum dispositivo do da ausência, sendo indiscutível o inte- pág. 199.
o defendesse em ação penal em curso. C. P . P . M., se encontra qualquer dis- rêsse público da defesa, que se destina Essa concordância poderia se esten-
O Conselho indeferiu a pretensão, en- positivo proibindo que o advogado acei- a iluminar o julgador, evitando o êrro der a outros autores, e se deve, em boa
tendendo que o reconhecimento judicial te procuração de um acusado conside- judiciário. Os advogados são órgãos da parte, a que tal questão se imbrica com
da ausência do réu lhe impõe restrição. rado revel. administração da Justiça e como tais, o próprio prestígio da justiça no Es-
temporária e condicional à sua capaci- "O que está dito na lei é que nin- instrumentos de sua realização. Tanto tado democrático.
dade jurídica de agir, na escolha de guém ficará sem defesa, perante a Jus- melhor será a Justiça quanto mais efi- De fato, a justiça penal só tem a lu-
caz a ação dos advogados, que, como crar quando faculta aos acusados os

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mais amplos meios de defesa. E a qualidade não tem o servidor do Banco Na hipótese tratava-se de simples indivíduo, com a cominação expresslX .•
atuação do advogado de confiança cons- do Brasil envolvido em irregularidades determinação de comparecer a uma re- Ci. FRAGOSO, Lições, IV, pág;"1.152. O'
titui sem dúvida um dos mais eficazes ocorridas em operações rotineiras de partição pública (Serviço de Trânsito) crime de desobediência não pode dar'
dêsses meios gar~ntindo de antemão ao crédito, comuns a todos os estabeleci- para justificação de irregularidade, que lugar a abusos, nem servir para cons-
acusado, à sua família ·e à comunidade mentos bancários". não dependia de flagrante. Isso ocor- trangimento ilegal por parte da auto-
o concreto exercício da defesa; vale di- A irregularidade a que alude o acór- reu em incidente entre guarda de trân- . ridade. Como ensina SOLER (Der. Pern.,
zer. a sua concreta panticipaçãoo na dão teria ocorrido na Carteira- de Cré- sito e motorista, no curso do qual o V, pág. 110), "para não atribuir .ex-
sentença final. Dêsse modo a par de dito Geral do Banco. guarda exigiu ilegalmente que o moto- tensão desmedida à figura da desobe-
inexistirem obstáculos legais à admis- Decisão correta em que ficaram ven- rista o acompanhasse, ao invés de apli- diência, é preciso ser muito exigente
são do advogado constituído, existem, cidos os ilustres Ministros AMARÍLI') ca~ as medidas previstas no Código acêrca da existência concreta da or-
pelo contrário motivos legais e moti- BENJAMIN e ANTIONIO NEDER. (TFR Nacional do Trânsito. Decisão eviden- dem com respeito a cada destinatário;
vos políticos stricto sensu - ligados à Jurispr., n. o 15, pág. 181). temente correta. O ilícito penal esta- da clara cominação da mesma e da
amplitude da defesa no regime demo- va do lado do guarda (Rev. Jurispr., existência de um dever positivo de aca-
crático - a indicarem a conveniência 14/295). tamento".
daquela admissão. Desobediência. Não se configura com A 3.,a Câmara Criminal do T .J. da No caso levado. a julgamento, não
A orientação do STM, em conseqüên- a resistência passiva à prisão Guanabara, na Ap. Crim. n. o 48.163, houve qualquer ordem ou cominação
cia merece o aplauso entusiástico de relator oDes. ODUVALDO A'BRITTA, afir .. direta contra o paciente, que só foi de-
todos os que se ocupam com o Direito Por unanimidade, assim decidiu com mou haver desobediência num caso de tido e levado à polícia, quando plei-
Penal em nosso país, revelando a sen- absoluta exatidão, a 2. a Câmar~ do busca e apreensão sem mandado for- teava junto a um policial a restituição
sibilidade da E. Côrte para uma ques- T. J. da- Guanabara, na Ap. Crim. malizado, sendo, portanto' a diligência, da bola. Decisão exatíssima (Rev. Trirn.
tão importante e deolicada, principal- n. o 47.065, relator o eminente Desem- ilegal (Rev. Jurispr., 14/331). Jurispr., 42/314).
mente com respeito a processos por bargador OLAV1() TOSTES FILHO.
crimes políticos. A desobediência passiva à ordem de
prisão não é crime. Se a évasão não Desobediência. Denúncia inepta Corrupção passiva. Elementos que a
violenta não configura qualquer deli- integram
Corrupção ativa. Inexiste em face de to, não pode ser punível quem busca A 2. a Turma do STF, relator o emi-
ato injusto da autoridade eximir-se à prrsao (Rev. Jurispr., nente Min. ALII()MAR BALEEIRO, no jul-
13/383)0. É o argumento de mestre gamento do h.c. n. o 44.439 declarou
Na Ap. Crim. n. o 47.312, relator.o
ilustre Des. ROBERTO MEDEIROS, decidiu
Já decidiu o STF, em mais de uma SOLER (Der. Peno Aruerntino, 1963, V, "ser imprestável denúncia por desobe-
oportunidade, que não há crime de cor- a 2:a Câmara Criminal do T .J. da
pág. 11) ,que estuda atentamente a ma- diência, que não caracteriza em que ela
rupção ativa no oferecimento de van- téria, e que podemos acolher, pela constitui". Por outro lado, sendo di- Guanabara, que a corrupção passiva
tagem a funcionário público, para que identidade das disposições legislativas versos os acusados não discriminou a "tem como suporte básico a prática ou
não pratique ato injusto (Rev. Trim. de nossos países. Cf., no mesmo sen- denúncia a atuação de cada um dêles, omissão de um ato de ofício. O agente
Jurispr., 33/380). Novamente voltou a tido, Arq .Jud., 69/126. elemento imprescindível (Rev. Trim. pede ou aceita o favor em troca de um
pronunciar-se a 2. a Turma por unani- Jurispr., 43/612). ato de ofício, lícito ou ilícito, que à
midade, no mesmo sentido ao decidir acusação cabe apontar na denúncia e
o h. c. n. o 43.549, relator o eminente Desobediência. Não se configura se a demonstrar no curso do processo". Cf.
Min. ALIIOMAR BALEEIRO (Rev. Trim. ordem é ilegal Desoberliência. Não existe sem ordem FRAGOSO, Lições, IV, págs. 1.102/1.105;
Jurispr., 40/26). que tenha cominação expressa HUNGRIA, Comentários, V, pág. 514,
Decidindo a Rev. Crim. n. o 5.267, as No caso em julgamento, não se ligou
Câmaras Criminais .Reunidas do T .J. A 2.,a Turma do STF concedeu o a solicitação a qualquer ato de ofício
Corrupção ativa em relacão a funcio- da Guanabara, relator o eminente De- h.c. n. o 44.174, por unanimidade, re- que o apelante devesse praticar ou dei-
nário do Banco do Br"asil sembargador FAUSTINO NASCIMENTO, lator o ilustre Min. PEDRO CHAVES, xar de praticar e nem se insinuou se-
afirmaram que não pode se configurar num caso que afirmou ser de "verda- quer que o ofendido tivesse interêsse
No julgamento do h. c. n. o 1.272 re- o crime de desobediência, se o funcio- d~pendente da ação funcional do réu,
deira teratologia jurídica": um jovem
lator o eminente Min. HENRIQUE D'AVI- nário procede de modo arbitrário e ou em curso na repartição em que es-
foi processado por desobediência, em
LA, decidiu o TFR, em sessão plena, sem respeito às formalidades legais. virtude de um simples bate-bola na tava lotado. Por tal razão, proclaman-
que "o crime de corrupção ativa de Nessa situação, como ensina BENTO DE do a imoralidade da ação, a Câmara o
praia. Não há crime de desobediência,
que trata o art. 333, do Código P~nal, FARIA (Código Penal Brasileiro, vol. V, absolveu, afirmando a aticipicidade do
por ausência de tipicidade quando não
pressupõe necessàriamente que o sujeito pág. 552) quem se torna violador da fato (Rev. Jurispr., 16/359).
haja ordem dirigida concretamente ao
passivo seja funcionário público. E esta lei é o próprio funcionário.

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.concnssão. Flagrante preparado. Exis- quanto à iniciativa da ação (Rev. Trim. quer. No caso, o apelante visava, com tal. Documento é o escrito devido ti
tência de crime Jurispr., 43/609). falsa identidade, fugir à ação da polí- aador determina,dõ, contend6certo teor
cia, por crimes anteriormente pratica- e possuindo relevância jurídica. O im-
Durante largo tempo os tribunais dos. Decisão unânime (Rev. Jur7spr., presso, se não estiver assinado, não é
.afirmaram a existência de crime pu- Extravio de documento. Configuração 14/340) . documento. Cf. a propósito, FRAGOSO,
tativo, quando funcionários públicos Lições, 2. a edição, voI. 4, n. o 884, pá-
·exIgIam vantagens de comerciantes, A hipótese de que cogitou a 1.a Tur- gina 988. A falsificação na hipótese
.sendo surpreendidos pela polícia quan- ma do S'l'F no h.c. n. o 43.729 era a Uso de documento falso. Carteira de constituiria meio fraudulento e o caso.
,do vinham efetuar o recebimento, mar- de pessoa que tinha sob sua guarda os identidade trazida no bolso estelionato (Rev. Trim. J~~risprudência,
-cado para momento posterior. Há sem- autos de inquérito administrativo e os 40/478).
pre crime em tais condições. Indepen- empres,tou, em confiança, ao :próprio Na Ap. Crim. n. O 48.980, relator o
.dentemente da validade do flagrante, interessado. Êste os destruiu. Foi o ilustre Des~ OLAV'O TOSTES FILHO, de-
,consuma-se o crime de concussão no paciente condenado pelo crime previsto cidiu, com acêrto, a 2. a Câmara Cri- Falsidade documental. Ausência de
momento e no lugar em que o funcio- no art. 314 Cód. Penal. Por unanhni- minal do T .J. da Guanabara que "não corpo de delito
nário exig.@ a vantagem, independen- dade, concedeu-lhe o STF o h.c., rela- pratica o crime do art. 304, Cód. Pe-
temente de seu efetivo recebimento. O tor o ilustre Min. EVANDRO LINS E naI, quem, embora trazendo-a em seu A l.a Câmara Criminal do T. J. da
crime, nessa modalidade, é formal. Se SILVA, entendendo, a nosso ver de for- bobo (falsa carteira de identidade), Guanabara, no h. c. 20.083, relator a
<O comerciante marca outra ocaSlaO ma incensurável, que não houve tipici- não na exibe a ninguém, ou dela lança ilustre Des. JoÃo FREDERICO MOURÃO>
para entregar a vantagem exigida e dade, nem o crime se pune a título de mão para a sua finalidade específica" RUSSELL, decidiu, com evidente acêrto r
avisa à polícia, para surpreender o culpa. O paciente não extraviou os au- (Rev. Jnrispr., 18/371). ser incabível o corpo de delito indireto,
criminoso em flagrante, não há dúvida tos, mas os emprestou a um terceiro Não pode haver uso sem que o do- nos casos de falsidade documental ..
de que ocorre o fJjaogrante preparado a de boa-fé, tomando desde logo a inicia: cumento saia da esfera pessoal do Afirmava-se, no caso, ter havido falsi-
que se refere a Súmula n. o 145. Isso, tiva de levar o fato ao conhecimento agent,e iniciando com outras pessoas dade material de cheques, que não vie-
no entanto não pode ter a virtude de da administração e promover a restau- relações que produzem conseqüências ram aos autos. O juiz a qnoadmitira
fazer desaparecer o crime, que já se ração (Rev. Trim. Jurispr., 40/389). jurídicas. O uso envolve o emprêgo do a ocorrência de exame indireto, por via
consumara em momento anterior, quan- documento em sua específica função de testemunhas. Entendeu, no entanto,
do o funcionário fêz a exigência. probatória, ou seja, para evidenciar fa- a Câmara, por unanimidade, não ser
Falsa identidade. Configura-se desde tos a que seu conteúdo se refere. Cf. admissível no caso, o exame de corpo
O matéria foi considerada pelo STF,
que o agente vise obter qualquer HELENO C. FRAGOSO, Jurisprnd!ência, de delito indireto, concedendo a ordem
em sua 1.a Turma no h.c. n. o 44.609,
sendo relator o eminente Min. BARROS
vantagem Criminal, n. o 141 e os autores ali men- para excluir a imputação do falso do-
M'ONTEffiO. A decisão unânime foi, a cionados. cumental. (Rr3v. Jurispr., 14/301)_
O crime previsto no art. 307 Cód.
nosso ver, exatíssima: o Tribunal con- Penal, configura-se também quando a
cedeu a ordem para que o paciente se vantagem visada pelo agente não é de Falsificação de convites de baile. Fal- Crime contra a saúde pública. Prova
defendesse sôlto, sem declarar a au- conteúdo patrimouial como ensina, sem sidade documental do estado da mercadoria no ato da:
sência de justa causa. Afirmou o re- discrepância a doutrina. Vantagem, venda
lator: "É fora de dúvida que o auto nesse dispositivo de lei, significa, como Diante de uma caso de falsificação
de flagrante lavrado no dia seguinte, diz MAGGI'ÜRE (Diritto Pema,le, 1953, de convites para baile carnavalesco, Concedeu a 2. a Turma do STF O'
foi preparado, avisada que fôra a po- Parte Spe'Ciale, vol. II, pág. 488), qual- vendidos ao preço de Cr$ 50,00 (cin- h. c. 44.544, impetrado em favor de
lícia, pelos proprietários do estabeleci- quer utilidade patrimonial ou não pa- qüenta cruzeiros), foi o réu condenado responsáveis por grande fábrica de re-
mento". Em suma: o flagrante é nulo, trimonial, material ou moral e mesmo pelo crime previsto no art. 298 Cód. frigerantes, acusados de terem pra-
mas o crime subsiste (Rev. Trim. simplesmente sexual. Cf. FRAGOSO, Li- Penal. afirmando-se a existência de ticado o crime previsto no art. 279
Jurispr., 43/149). ções, voI. IV, pág. 1.050. falsidade em documento particular. Código Penal. O inquérito policial foi
Em sentido contrário decidiu a Seguindo o entendimento comum, a Denegou a ·2. a Turma do STF a ordem instaurado por queixa de pessoa que
2. a Turma, no h. c. n. o 44.42'6, rela- 1.a Câmara Criminal do T. J. da Gua- dA h. c. impetrada (n. o 43.743), por alegava ter passado mal após ingerir
tor (para o acórdão) o eminente Mi- nabara, na Ap. Crim. n. o 48.482, re- unanimidade, relator o ilustre Minis- parte do conteúdo de uma garrafa, que
nistro EVAND~O LINS E SILVA sendo lator o ilustre Des. MURTA RIBEIRO, de- tro HAHNEMANN GUIMARÃES. Pedimos apresentou juntamente com outras gar- '
vencidos os Ministros ALIOM~R BA- cidiu que para a caracterização do cri- licenca para observar que um convite rafas. O laudo pericial atestou haver
LEEIRtO e ADAUCTO CARDOSO. Nessa de- me de falsa identidade não é necessá- impresso, sem assinatura não constitui nas garrafas, objeto do exame, a pre-
cisão o STF aplicou a Súmula n. o 145. rio que o agente vise uma vantagem documento, não sendo elemento idôneo senca de substâncias estranhas que,
Em realidade, porém, havia dúvida econômica, mas uma vantagem qual- para a prática de falsidade documen- embora não sendo de natureza tóxica,

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no interior de um pão. (Re'/). J'U!i'ÜJ- trução e pertencia a uma associação de
<!irôrnàram o produto impróprio para o não soube dar indicações sôbre quando beneficência, constitui fato deplorável,
prudência, 6/408) .
"consumo público alimentar. e onde havia adquirido os refrigerantes. que àbalou tôda a. cidade d~io de Ja-
O T. J. da Guanabara, por sua 2.a O Min. ALIOMAR BALEEIRO assinalou neiro. Movida ação penal contra di-
\Câmara, havia denegado a ordem, fi- a precariedade do laudo pericial que de- Crime contra a saúde pública. Subs- versos engenheiros foram a final ab-
"Cando vencido o eminente Des. OLAva clarava apenas ser a substância impró- tância illl;prõpria para o consumo e solvidos os responsáveis pela sondagem
TOSTES. pria, sem indicar o que ela era e nem nocividade do terreno, pelo cálculo das estruturas
O relator (Min. ADALícIO NOGUEIRA) que quantidade dela existia na bebida. e pela construção da estrutura do pré-
assinalou, com inteira propriedade, em (Re'/). Trim. Jurispr., 43/79). Não basta, para que se configure o dio. O engenheiro responsável pelo es-
seu voto, que não pode deixar de ferir Quem conhece o processo de fabri- cr.ime previsto no art. 279 Código Penal, taqueamento do edifício, no entanto, foi
a atenção o fato de que, numa pro- cação e engarrafamento de bebidas nas que os peritos declarem determinada condenado às penas do art. 256 '§ único
dução anual de milhões de garrafas de grandes fábricas, altamente mecaniza- substância imprópri,a para o consumo. Código Penal.
refrigerantes, algumas apenas viessem das, sabe muito bem que êsse tipo de A nocividade consiste na idoneidade da
O Tribunal de Alçada da Guanabara
patentear a negligência e o descuido de defeitos não pode existir. As acusações substância para causar dano à saúde,
por sua 2.a Câmara Criminal, deu pro-
uma grande emprêsa, há longos anos são geralmente falsas e fantasiosas, ou seja, ao normal desenvolvimento fí·
vimento à Ap. Crim. 419, relator o emi-
empenhada no aperfeiçoamento de sua exigindo a maior cautela. sico-psíquico do homem. Impróprio
nente juiz HAMILTON M'ORAES E BARroS,
indústria: "o insólito do caso dá que Por outro lado, o crime é punível para o consumo é o que se -apresenta
em condições inadequadas, quanto ao para absolver o apelante.
meditar. E daí, o rigor, a reserva e o somente a título de dolo, e chega a ser
cuidado com que se devem acolher ridículo imaginar que os responsáveis cheiro, ao sabor, à cor, ao aspecto, em Assinala o bem lançado acórdão que
acusações dessa espécie. A denúncia por uma grande indústria de bebidas suma. Cf. FRAGOSO, Lições, III, pá- "a construção de um edifício é, hoje,
que as formular, para fugir à pecha de poderiam ter agido dolosamente com gina 849; FLAMÍ,N10 FÁvERto, Crimes tarefa de muitos", sendo indiscutível a
inepta, há que esquadrinhar, minuciosa- respeito a uma parte defeituosa de sua contra a saúdlg pública, 1950, pág. 76; diversificação de tarefas. "Cada em-
mente, tôdas as circunstâncias do acon- produção. MAGALHÃES NOroNHA, Dir. Pen., voI. prêsa tem tarefa especial e trabalha
tecimento, por que se não constranjam, O art. 279 Código Penal é aplicado IV, pág. 27. com base em dados que lhe são forne-
sem fundadas- razões, possíveis inocen- pelos tribunais com rigor desmedido e Aceitando essa distinção fundamen- cidos. Em conseqüência, a responsabi-
tes alheios ao sucedido". tem conduzido a muitas condenações tal para a configuração do delito a lidade dos vários tarefeiros, civil e cri-
Subscreveu o tribunal o voto vencido injustas, em casos em que há evidente 2. a Câmara do T. J. da Guanabara, na minal, limita-se ao que lhes está afeto,
do excelente juiz que é oDes. OLAV'O ausência de dolo. Ap. Crim. 48.607, relator o eminente e não pode ser ampliada nem presu-
TOSTES. N esse voto há uma passagem Des. ROBERTO MEDEIRtOS, absolveu, por mida. Cumprido o contrato celebrado,
que me'êece destaque: "Para a instau- unanimidade, pessoa acusada de ter em afastam-se da cena. Sua vinculação
ração da ação penal, não há necessi- Substância alimentícia avariada. Cor- depósito uisque declarado simplesmente está limitada à perfeita execução, à
dade da prova liminar da autoria mas po estranho 1Jmpróprio para o consumo. (Re'/). Ju- correta previsão".
não é permitida dúvida sôbre a ma- rispr., 15/306).
Corpo estranho e sem nocividade en- O apelante se encarregava de pro-
terialidade do crime, pelo menos em N o mesmo sentido pronunciaram-se
contrado no pão não configura o crime jetar e executar o estaqueamento das
crimes-ligados à deterioração de subs- as Câmaras Criminais Reunidas, nos
tância alimentícia. O estado de con- previsto no art. 279 -Código Penal. Embargos de nulidade e infringentes fundações, e não de fazer as fundações
servacão é suscetível de modificação de- Nesse sentido decidiu, corretamente, a na Ap. Crim. 42.527 relator o ilustre _inteiras. Ficou demonstrado que a
pois do ato da venda, de sorte que pa- 3.a Câmara Criminal do T. J. da Gua- Des. OLAVO TOSTES FILHO. Nesse caso, ruina do edifício se deveu ao colapso
rece essencial a identificação da avaria, nabara no Rec. Crim. 6.485, relator o tratava-se de alteração de componentes das suas fundações, mas a perícia do
na flagrância do ato incriminado. Não ilustre Des. MAURO GOUVÊA COELHO, da fórmula de substância medicinal, Instituto de Criminalística não conse-
há exemplo, que eu possa memorizar, por unanimidade. Na hipótese um corpo sem que se demonstrasse a redução do guiu afirmar causas e fixar responsa-
de uma ação penal em que se dispensou estranho (tecido de meia de nylon) foi valor terapêutico. (R,9'/)ista Jurispru- bilidades. Faltaram aos órgãos técni-
a informação sôbre o estado da mer- acidentalmente introduzido no interior dência, 17/407). cos os meios necessários para levar a
cadoria no momento e,xato .da sw.a, en- de um pão, sem que o laudo pericial cabo as devidas indagações. O apelante
tregaao consumidor, passando a ma- afirmasse a nocividade para a saúde. reclamou os exames e prontificou-se
terialidade do crime a depender da ido- (Re'/). Jurispr., 17/419). A mesma Câ- Desabamento de edifício. Dúvida quan- mesmo a pagar tôdas as despesas para
neidade do queixoso, com o risco de uma mara anteriormente havia decidido, na to à causa do desabamento e quanto que se realizassem.
adulte"acão posterior sem culpa do Ap. Crim. 37.251, relator o eminente à culpabilidade
Concluiu o eminente relator que a
vendedor". Des. MURTA RIBEIRO, não haver crime prova técnica existente nos autos não
O desabamento do edifício "São Luiz
O exame pericial havia sido realizado contra a saúde pública num caso em servia para embasar uma condenação
Rei", que estava em fase final de cons-
váriog dias após o fato e o queixoso que um bandt-aid nôvo foi encontrado

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criminal, "pois o clima intelectual dela Casa de prostituição. Inépcia da de- mente feita através de atestado for~ "para que o poder de denunciar não
é a certeza e não as hipóteses, por mais núncia necido pela autoridade policial. degenere em'abusQ de pode~que recai
brilhantes que sejam". N o julgamento do h. c. 46.706, re- no âmbito do ha.beas oorpus"), con-
A decisão foi unânime. Em seu voto No h. c. 43.460, julgado pela 3.a lator o ilustre Ministro ADAUTO Lúc!') cluindo: "É forçada, no caso, a teoria
o ilustre juiz IVÂNIO CAIUBY, referiu-se Turma do STF, decidiu-se por unanimi- CARIl'DSO, decidiu a 2. a Turma do STF, da corrupção gradativa, em se tratando
ao "total desaparelhamento da justiç::t dade anular o processo, afirmando a por unanimidade, que a miserabilidade de menor com quase dezoito anos, que
inépcia da denúncia oferecida pelo crim~ "não carece de atestação quando re- já tivera a infelicidade de se prostituir,
criminal e dos órgãos do poder público
de casa de prostituição, a qual se li- sulta com segurança de condição da entregando·se por dinheiro a homens
a ela mais estreitamente ligados, para
mitava a imputar ao paciente a prática vítima, no caso empregada doméstica diversos". O Min. EVANDRO LINS E
a solução ou esclarecimentos de qual-
do deHto com a simples menção do no- em cidade do interior, not.()riamente in- SILVA também reconheceu que a menor
quer problema mais complexo ou menos ~'já tinha chegado a elevado grau de
men juris. É evidente que a denúncia em capaz de fazer face às despesas de
corriqueiro", observando ainda: "o que tais condições desatende ao que pres- corrupção". Não é possível. a corrupção
mais constrange ainda é que, numa éra ação privada". Decisão perfeita. (D. J.,
creve o art. 41 Código de Processo de menor já corrompida. Para o con-
de sêde de reformas, não se cuide de 25/4/69, pág. 1.638).
Penal. Relator o Min. GONÇALVES DE ceito de pessoa já corrompida, cf.
dotar a Justiça Criminal de meios ma- OLIVEIRA. (Revista Trimestral de Ju- FRAGOSO, Lições, II, pág. 522. Ficou
teriais eficazes para a consecução de risprudência 40/528). Corrupção de menor. Inexiste se o vencido o ilustre Min. OSWALDI() TRI-
seus fins". Absolveu também o ape- menor é pessoa já corrompida GUEIRO, que afirmava não poder, em
lante porque não ficou demonstrado habeas corpus, examinar a prova ne-
que o estaqueamento tenha cedido por Casa de prostituição. Locação Concedeu a 2 ..a Turma do STF, o cessária à concessão da ordem. (Re'IJ.
fato que lhe era imputável. E concluiu, h. c. 43.496, relator o eminente Min. Trim. Jurispr., 42/119).
Decidiu a 3.a Turma do STF, relator VICTOR NUNES LEAL, em caso de cor-
com exatidão: "havendo possibilidade É evidente que não há corrupção de
o eminente Min. LUIZ GALVDTTI, que rupção de menor que se revelou ser
fundada, por menor que seja, de que o menores nos càsos de fornicatio sirn-
não pratica o crime do art. 229 Código pessoa já corrompida. Foi a denúncia
réu não seja culpado, não pode ser paex. (Cf. Rev. Trim. Jurispr., 33/110).
Penal quem aluga imóvel a prostitutas oferecida em rumoroso inquérito reali-
condenado. Para a condenação criminal, Veja-se também a decisão proferida
para que nêle exerçam a sua atividade.
é necessária pelo menos a prova con- zado no Rio de Janeiro}, envolvend'o pela 2. a Turma do STF, no h. c. 43.417,
A ordem foi concedida unânimente, por artistas de televisão e diversas outras
creta da culpa pessoal". relator Min. VILAS BOAS, D. J., de
ausência de justa causa.
pessoas, acusadas da prática de atos 19/10/66, pág. 3.636. A corrupção de
Estamos de acôrdo em que não se
libidinosos com menores. menores não pode ser considerada uma
configura o crime do art. 2'29 na hi-
Rufianismo e proxenetismo. Incompa- Em relação ao paciente ,estudante da espécie de soldado de reserva nos cri-
pótese. Parece-nos, no entanto, irre-
tibilidade Universidade Católica, a denúncia o mes contra os costumes, não sendo,
cusável que o fato constitui o crime do
acusava de ter dormido com menor de como evidentemente não é, sucedâneo
art. 228 Código Penal (favorecimento
As Câmaras Criminais Reunidas do 17 anos, vinda de São Paulo, que nos de outro crime sexual. Cf. HELENO
da prostituição). (Rev. Trim. Juris-
T. J. da Guanabara decidiram, na Rev. dias anteriores participara de tôda C. FRAGOSO, Jurisprudência Criminal,
prudência 41/33). Cf. HELENO C. FRA-
sorte de excessos sexuais com outros n.o 93.
Crim. 5.213, relator o ilustre Des. GOSO, Jurisprudência Criminal, n. o 103,
homens, no mesmo local. O impetrante N o voto do excelente Min. VICTOR
AMILCAR LAURINDIO, que o rufianismo com indicação de outras decisões a res-
instruiu o pedido com o depoimento da NUNES está consignada uma advertên-
não pode concorrer com a mediação peito.
suposta vítima, com o qual se demons- cia importante que julgamos oportuno
para satisfazer a lascívia de outrem,
trava que em São Paulo não tinha do- reproduzir: "O processo a que se re-
quando a ação é. dirigida contra a
Miserabilidade. Prova micílio certo, procurando sempre ho- fere êste habeas cOrpt!8 desvela uma
mesma pessoa. Se a prostituição já parte dêsse grave problema social, que
mens para ter onde dormir.
existe como forma profissional de saciar é a prostituição precoce. Sem ser pri-
A ação penal nos crimes contra a li- O T. J. da Guanabara havia dene-
a lascívia alheia e indeterminada, será berdade sexual é privada, como dispõe vilégio do nosso país ou· do nosso
gado o pedido (h. c. 21.142, relator
possível o favorecimento à continuidade o art. 225 do Código Penal. Todavia, a tempo, êle apresenta dificuldades pe-
Des. MAURÍCIO EDUARDO RABELLO, in
de um estado pré-existente, mas nunca ação será pública, mediante represen- Rev. Juris.pr., 13/363), afirmando que culiares nas atuais condições de vida
o induzimento particular e determinado. tação, "se a vítima ou seus pais nã(} nossa lei não distingue graus na cor- das autoridades, que é de todo louvá-
Entendeu ainda o Tribunal qu ea afir- podem prover às despesas do processo, rupção. vel em prevenir e reprimir o favoreci-
mação da vítima, só por sí, em delito sem privar-se de recursos indispensá- Em seu voto, o Min. VICTOR NUNES me~to ou a exploração do meretrício,
de tal natureza, não pode conduzir à veis à manutenção própria ou da fa- LEAL realizou um confronto entre a nas grandes metrópoles. Mas o zêlo
condenação. Decisão unânime. (Revista 'mília". denúncia e os elementos em que se não pode incluir, indiscriminadamente,
·d.9 Jurisprudênai,a, 13/339). A prova da miserabilidade é geral- apoiava (o que é perfeitamente lícito, na etapa preparatória da corrupção de

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:menores, atos isolados de simples com- desvirginamento, que impõe a nosso
parsaria, que são moralmente condená- ver uma visão distinta de alguns cri- '!Ião pode constituir prova de idade, clsao é tanto mais correta quanto no
veis, mas não punidos pela lei penal". mes contra a liberdade sexual. Com a para autorizar a condenação (Rev. art. 180 Cód. P~nal, há j;ipo misto
A 2. a Câmara do T. J. da Guanabara, penetração e o brilho habituais, obser- Tri1n. Juri8prudência, 41/497). cumula-tiva e não alternativo. Cf. HE-
na Ap. Crim., 43.819, relator o ex-, vou o Min. ALIO MAR BALEEIRO que é Diversa é a questão de saber se o LENO C. FRAGOSO, Conduta Punível,
eelente Des. OLAVO TOSTES FILHO, de- hoje diversa a condição da mulher que :registro de nascimento posterior ao fato 1961, págs. 137 e 2'05 e a bibliografia
darou que não se configura o crime não é mais virgem: "Hoje, sabemos impede o recebimento da denúncia. A ali citada.
<le corrupção de menor "se o acusado que ela assume uma profissão, tem resposta aqui é, evidentemente, nega ti-
apenas acede ao congresso sexual com vida própria e equilibrada, como em -va, e nesse sentido decidiu a 3.a Tur-
menor experimentada não se registran- inúmeros países. A própria família não ma do STF no h. c. 44.047, relator o Receptação
do nenhum ato ou palavra de alicia- tem mais o preconceito de atirá-la à ilustre Min. HERMES LIMA, que fi-
mento ou destruição do pudor da in- No h.c. 43.758, a 2.11. Turma do STF,
prostituição como uma vindita como cou, aliás, vencido. Como afirmou, com
<ligitada ofendida". Diz ainda o acór- relator o ilustre Min. ALIüMAR BA-
meio de lavar a face. .. Hoje, ela tra- 'exatidão o Min. EIJOY DA ROCHA, a
dão: "A tônica do dispositivo legal LEEIRIO, decidiu que não pode prevale-
balha, leva sua vida normal, inclusive .questão é de prova. Se o registro não
'está no verbo corromper e não na prá- cer condenação pelo crime previsto no
tem sua vida afetiva. Pode não ser tem validade, a prova da idade poderá
tica da libidinagem, de sorte que é ne- art. 180 do Código Penal caput, se não
da igreja, mas não é em si mesmo uma ser suprida pelos meios regulares, como,
cessário que se comprove que o agente estabelece a denúncia as razões de con-
vida condenável sob o ponto de vista ,por exemplo, a certidão de batismo.
tenha procedido de modo a minar a vicção acerca do conhecimento concre-
dos costumes. A moral é condicionada "De nutro lado, acrescentou, chegaría-
resistência da menor, vencer o seu pu- ao tempo". (Rev. Trim. Juri8prudên- to do crime pelo comprador. A recep-
mos à conclusão de que, não tendo sido
dor, atrai-la ou despertar-lhe a con- cia, 44/271). tação dolosa exige dolo direto e não
registrado o nascimento da ofendida,
eupiscência, com palavras blandiciosas pode ser praticada com dolo eventual.
,ainda que, na instrução, se pudesse
ou afagos libidinosos" (Rev. de Juri8- O receptador deve saber que a coisa
'comprovar a menoridade, fôsse o caso
prudência, 14/311). Sedução. Idade da vítima que recebe, adquire ou ocuIta é pro-
de sedução, como aqui, ou fôsse o caso
No h. c.' 44.566, considerou a 2.a duto de crime, não bastando a dúvida,
de estupro, não se caracterizaria o cri-
Turma do STF a situação de homem Julgando o Rec. Extr. 61.083, re- com a aceitação do risco.
me". (Rev. Trim. Juri8pr. 44/76).
casado que se desquitou, passando a lator o ilustre Min. LUÍs' GALLOTTI, Entendeu o STF que o crime seria
viver maritalmente com a menor ha- a 3. a Turma do STF considerava a o do art. 180 I§ 1.° Cod. Penal, sendo
vendo três filhos dessa união. O pa- questão da prova da idade da ofendi- Recepia«;ão dolosa do mediador e re- culposa a receptação. Como tal crime
ciente fôra condenado pelo juiz de pri- da nos crimes contra os costumes. Tra- ceptação culposa do adquirente. estaria prescrito, foi a ordem conce-
meira instância, sendo denegado o h. c. tava-se de revisão criminal e o acórdão dida. Há precedentes a justificar êsse
Compatibilidade
que impetrou ao T. J. do Rio Grande recorrido afirmava: "O exame médico procedimento. Decisão unânime. (Rev.
do Sul. Em seu voto, afirmou o ex- é o meio legal, seguro e aconselhado Julgando a Ap. Crim. n.o 46.588, Trim. Jurispr., 41/536).
celente relator, Min. EVANDRO LINS E pela lei, pela doutrina e pela jurispru- ,a 2.8. Câmara Criminal do T. J. da No h. c. 44.070, da La Turma, rela-
SILVA: "Na verdade, o que é corromper, dência para a determinação da idade Guanabara, relator o ilustre Des. Ro- tor o eminente Min. ADAUTO CAR-
senão perverter, degradar, desnaturar, da ofendida nos crimes de sedução, BER'l'O MEDEIRIOS, afirmou a compati- DOSO, reafirmou o Tribunal que a re-
torcer, moralmente, o espírito da jo- quando a vítima não foi registrada ou bilidade entre a ação dolosa do media- ceptação dolosa só se configura "quan-
vem? Isto é que é corrupção. Penso é inoperante o seu registro de nasci- dor e a ação culposa do adquirente, na do indubitável a prova de que o recep-
que o elemento subjetivo do crime, tal mento". No caso, o registro de nasci- receptação. Na hipótese, um dos agen- tador sabia que a coisa adquirida, re-
como está descrito na sentença, não se mento foi realizado após o fato que se tes sabendo que a coisa era produto de cebida ou ocultada era produto de cri-
configurou. O tipo penal não é apenas afirmava ser delituoso, mas a certidão <crime, influiu para que o outro a re- me". A decisão foi, igualmente, unâ-
a definição objetiva dada na lei; com- debatismo indicava ter a vítima mais cebesse, havendo grande desproporção nime. (Rev. Tn'm. Juri8pr., 41/545).
preende também a parte subjetiva da de 18 anos. de valores. Seguiu-se, assim, a orien- Quanto ao dolo no crime de recep-
ação do acusado. No caso,' a meu ver, A Turma, por unanimidade, deu pro- tação da doutrina (HUNGRIA, Comen- tação, convém acrescentar alguns da-
não existe o crime de corrupção de vimento ao recurso, com inegável acêr- tário8, voI. VII, pág. 297; MAGALHÃES dos. Para que tal crime se configure,
menor. O paciente, ao possuir essa to. O exame médico-legal de idade é N'ORONHA, CrimJel8 contra o Pafrimônio, em nosso direito, é necessário que o
môça, tinha o propósito de com ela sempre precário e aproximativo, não '2. a Parte, pág. 434). Não há, em tal agente tenha conhecimento inequívoca
viver, como vive, maritalmente tendo sendo possível nele basear a condena- caso, concurso de agentes, pois o con- de que a coisa adquirida, ocultada ou
dela três filhos". ção criminal, que exige sempre certeza. curso é incabivel entre ação dolosa e recebida é produto de crime. Ao con-
É evidente a mudança de costumes, O STF já decidiu que o exame médico ação culposa, mas dois crimes autôno- trário do que sucede na generalidade
em nossa época, em relação ao fato do da vítima, na ausência de registro civil, mos, praticados por cada um dos agen- dos casos, o crime previsto no art~ 180
tes (Rev. JUri8pr., 14/32:3). Essa de- Cnd. Peno não pode ser praticado com
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dolo eventual, representado, como diz iniludível: não basta que o agente te-, -culiar ao crime de receptação, pois. é sendo relator o ilustre Des .. ROBER-
MANZINI, por uma situação de dúvi- nha razões para ~,Jsconfiar da origem. .essencial a tôda condenação. Como di- TO MEDEIROS, que - não há~dentida­
da. Isso resulta da própria descrição criminosa da coisa, pois cumpre que: .zia JEAN PATARIN (Le particula.. de jurídica entre emissão e endôsso de
da conduta típica: "Adquirir, receber saibfJJ tratar-se de produto de crime. risme de la theorie des preuves en droit chE.que, de tal modo que não é possí-
ou ocultar, em proveito próprio ou É imprescindível o dolo direto, isto é,. Jjénal, no volume Quelques asp'6cts de vel incluir a ação de endossar no tipo
alheio, coisa que sabe> ser 1Jroduto de o conhecimento positivo de que se está. l'autonomie du droit pénal, Paris, 1956, do art. 171 § 2. 0 , VI Cód. Penal. Na
crime" . mantendo a situação ilícita decorrente· 'pág. 57): "La rech.9rche d'unle certitu- hipótese, o cheque sem fundos fôra
Porisso mesmo, a doutrina e a juris- de um crime anterior". -de parfaite se révele une exigence par- emitido por determinada pessoa e de-
prudência afirmam, invariàvelmente. A jurisprudência também exige, inva- ticuliM'ement impérieuse du droit pe- positado em conta de outra, que o en-
ser necessária a certeza da origem cri- ri,àvelmente, a certeza: "Desclassifica-· ·nal". dossou.
minosa do objeto material da ação, o se o delito para receptação culposa, se Não obstante as opiniões em contrá-
que ocorre mesmo perante legislações não há prova de que o réu tinha certeza. rio de NELSON HUNGRIA, BENTO DE
que não se referem ao aspecto subje- da proveniência criminosa da coisa" ,Cheque sem fundos. Tolerância do FARIA e MAGALHÃES NORONHA, enten-
tivo do comportamento na própria de- (Rev, For., 158/415). "Sem a certeza, credor deu a Câmara que "não há equiparar
finição do delito. de que o agente sabia ser produto de para efeitos penais emissão de cheque
Assim, SEBASTIAN SOLEoR, o maior crime a coisa comprada, não se con- A tolerância do credor, concordando
sem fundos e endôsso de cheque sem
penalista da América, em seu notável figura a receptação dolosa" (Rev. For. ,em aguardar certo prazo para apre-
fundos", sem recurso à analogia. N es-
tratado (Derecho Penal Argentino, 180/348). "Para que se configure a, ,sentação do cheque ·que lhe foi dado
se sentido é, aliás, a lição de SOLER
voI. V, 1963, pág. 247), ensina que o receptação dolosa, imprescindível é que como pagamento à vista é indiferente,
(Der. pen., V, pág. 427) e ALBERTO
crime "não consiste em comprar de haja a certeza da proveniência crimino- ::pois ocorre após a consumação do de-
S. MILLAN (El cheque, 1958, pág. 135).
má fé, senão em perturbar a ação da sa da coisa; se o agente procede na dú- lito. NEsse sentido decidiu, com exa-
Parece-nos correta a orientação do
justiça, e uma figura dêsse tipo requer vida, . o que se apresenta é a recepta- tidão, a 1.a Turma do TSF, no h. c.
Tribunal. O que existe nesses casos é
necessàriamente a certeza acerca da ção culposa, que será também reconhe- -43.823, relator o eminente Min. EVAN-
geralmente co-autoria, sempre que o
procedência delituosa da coisa adqui- cida quando o agente procede com dolo> DRO LrNS E SILVA, por unanimidade
'(Rev. Trim. Jurispr., 411757). endôsso seja realizado quando o cheque
rida" . eventual" (Rev. For., 192/382). "Se é lançado em circulação, ou seja, antes
MANZINI (Trattato, vol. IX, pág. os autos não ministram elementos se- do momento consumativo do crime.
897), perante o direito italiano adver- guros de que o acusado ~inha a çerteza, 'Cheque em garantia de dívida. ónus (Rev. Jurispr., 16/351). Não se ex-
te: "N on basta il semplice dubbio, an- sabia da procedência criminosa do ob- da prova I ! clui, por outro lado, que a utilização
corche esso .9quivalga evidentemernte> jeto adquiri,tio, não há cogitar-se do> fraudulenta do cheque sem fundos, por
alla scienza (alternla,tiva) della prove- delito de receptação dolosa" (Rev. For., Compete ao emitente provar que o meio do endôsso, possa constituir um
nienza delittuosa. L'art, 648, infatti, 185/341). "Não há receptação dolosa cheque foi dado em garantia de dívida, estelionato em seu tipo fundamental
le,sige la certezza". senão quando se apura que o agente .quando sua aparência é formalmente (art. 171 caput).
No mesmo sentido, DE MARS!OJ sabia C01n certeza que a coisa receptada incensurável.
(Delitti contro iI patrimonio, 1951, pág. era produto de crime" (Rev _ For., A 2. a Câmara do T.J. da Guana-
22'4): "Ed anche qui iI dolo Dome cos- 941146). "Sem cer~:'jza de que o recep- bara, na Ap. Crim. 46.107, relator o Cheque sem fundos. Competência
cienza (11.0l 1nomento rapresentativo) tador sabia ser a coisa receptada () 'ilustre Des. ROBERTO MEDEIROS, por
,del valore deU'atto si riaffer'YYlJl(" essen- produto de um crime, não há recepta- unanimidade decidiu que "quem pre- Considerando o crime de emissão de
do necessario ch!., l'agente non s010 ope- ção dolosa; se apenas devia êle pre- tende que cbeque de sua emissão, cheque sem suficiente provisã0 de fun-
ri BU cose effettivam'ente prov,9nienti sumir esta circunstância, o crime é 'ou de terceiro, não é o que a lei diz dos mat.9rial, entende o STF, em juris-
da delitto, ma abbia la certeza di' tala de receptação culposa" (Rev. Tribs. 'que êle é, isto é, ordem de pagamento prudência pacífica, que o momento con-
provenienza". / 142/701). -à vista, mas promessa de pagamen- sumativo do delito, é aquêle em que o
Finalmente. nosso grande mestre O elemento "certeza" aparece, nas to, ou garantia de dívida, deve pro- cheque é apresentado, verificando-se a
HUNGRIA (Comentários, vol. VIi, decisões que invocamos, com um duplo -vá-lo cumprldamente". (Rev. Jurispr., inexistência de fundos.
pág. 299), é decisivo: "É preciso que aspecto. Exige-se, por parte do agen- 14/318). Em conseqüência, a competência de-
hajP, certe?r'XJ da proveniência crimino- te, certeza de que a coisa é produto de termina-se pelo domicílio do banco sa-
sa da coisa. Se o agente procede na crime, e, por outro lado, exige-se, por cado. Assim voltou a decidir o Tribu-
;Cheque sem fundos. Não há identida-
dúvida, o que se apresenta é a recep- parte do julgador, certeza de que () nal por sua 1.a Turma, no Conflito
taciío culpof'a. Esta será reconhecida agente sabia da proveniência delituosa, -ue juridica entre endõsso e emissão de 'Jurisdição n. o 3.957, relator o ilus-
ai.uda auando o agente proceda com ou seja, certeza sôbre a certeza. tre Min. VICTOR NUNES LEAL, sem di-
No h. c. 21.242, afirmou a Z.a Câ-
,dolo eventual. O texto do art. 180 é Ê::sse último aspecto nada tem de pc- vergência (Rev. Trim. Jurisprudência.
'fInara CrimIna1 do T.J. da Guanabara,

92 93
42/414). Mesma decisão foi dada no No h. c. 43.625, da 1.a Turma, re- efetiva fraude em que o beneficiário (Tribunal Pleno), em que o cheque de:
Confl. Jurisd. 3934, relator o ilustre lator o lustre Min. EVANDRO LIN,s, do cheque o recebeu como garantia de Cr$ 370,75 foi pago' arntes Q.a denúncia.
Min. DJACI FALCÃ'O, por unanimidade E SILVA, concedeu-se a ordem em dívida". (Rev. Trim. Jurispr. 40/474). A ordem foi concedida (cohtra os vo-
(Rev. Trim. Jurispr., 43/645). caso de pagamento, não estando tam- Se algumas dessas considerações são tos dos Ministros Ewy DA ROCHA e
A 2. a Câmara Criminal do T.J. da bém esclarecida a fase em que tal pa- admissíveis de 1e.g,9 ferenda, é difícil, VICTOR NUNES LEAL), afirmando-se na
Guanabara, no Rec. Crim. 6.443, de- gamento se realizou, considerando o re- a nosso ver, data venia., conciliá-las ementa que na hipótese MO estava ca-
cidiu que o crime se consuma "na oca- duzido valor (menos de cinco cruzei- com nosso direito positivo. Cf. sôbre raof)terizada a frauáJe. Isso significa
sião em que o sacador entrega o che- ros novos). Em seu voto o relator con- o assunto, em posição crítica, HELENO que a fraude depende do pagamento
que ao tomador, com o engano e o pre- cedeu a ordem por ausência de justa C. FRAGOSO, Jurisprudência Criminal, posterior, o que nos parece, data venia"
juízo dêste, embora só ulteriormente causa, "como temos reconhecido em ca- n. OS 74 e 76. inadmissível (Rev. Trim. Jurispr.~
se torne conhecida a fraude". 1l:sse é sos análogos de cheques de reduzido Referindo-se ao pagamento feito pelo 43/29).
o entendimento correto, como temos re- valor, e que tenham sido pagos ao cre- banco sacado, em confiança, no h. c. O STF como se vê, tem atribuido
petidamente afirmado. Foi relator o dor". (Rev. Trim. Jurisvpr. 40/32). 43.693, da 1.a Turma, relator o Min. ao pagam'ento o efeito de extinguir a.
ilustre Des. ROBERTO MEDEIRiOS. (Rev. O mesmo fundamento prevaleceu no EVANDRIO LINS E SILVA, por una- punibilidade, de forma bastante impre-
Jurispr., 17/416). h. c. 43.570, igualmente decidido por nimidade afirmou-se que em tal hipó- cisa. Dir-se-ia que o abandono dos prin-,
unanimidade pela mesma turma, sendo tese há crime e não tentativa impossí- cípios jurídicos que regem a matéria
relator o mesmo Min. EVANDRO LINS. vel, pois a hipótese é de fraude. Como conduziu à incerteza e à insegurança.
Cheque sem fundos. Exigência de
Tratava-se de um cheque de sete e meilJ se sabe essa é uma das questões con- Em vários acórdã>os não encontra-
vantagem ilícita (
cruzeiros novos. N essa oportunidade o trovertidas em nosso direito, em maté- mos referência nem ao valor do che-
A 2." Turma, por unanimidade, con- eminente juiz fêz as considerações que ria de cheque. Aqui, porém, cogitava- que nem ao tempo em que .o pagamento,
cedeu a ordem impetrada no h. c. julgamos útil transcrever: se de pagamento feito em cheque de- se efetuou. Pensamos, no entanto, que-
43.767, num caso em que o paciente "N a verdade o cheque se tem desvir- positado para compensação em outro a doutrina dominante pode ser assim
fôra condenado por emissão de cheque tuado de sua finalidade, em grande nú- banco, sendo pago antes da compen- sintetizada: o pagamento do cheque y
sem fundos, que posteriormente havia mero de operações. Daí a tendên- sação, em confiança. Não pode haver qualquer que seja o seu valor, antes da
sido pago. O v. acórdão não revela o cia em receber com reservas as acusa- dúvida quanto à existência de crime. denúncia, extingue a punibilidade. Se
montante do cheque, nem em que fase ções de crime de fraude no pagamen- (Rev. Trim. Juris'[Jr. 40/323). .o pagamento for efetuado depois da
ocorreu o pagamento. O eminente mes- to por meio dêsse título. Em livro re- No julgamento do h.c. 43.598, rela- denúncia só se extinguirá a punibili-
tre Min. HAHNEMANN GUIMARÃES, em cente, CASAMAY'OR, juiz da Côrte da tor o Sr. Min. PRADO KELLY, deci- dade, se' se tratar de cheque "de ín-
seu voto, no entanto, afirmou: "Dou Cassação de Paris, assinala como os diu por unanimidade a 3.a. Turma que fimo valor". De ínfimo valor, têm sido-
provimento ao recurso, para conceder a cheques sem provisão de fundos con- .o pagamento do valor do cheque (no considerados cheques que não ultrapas-
ordem pedida, visto como ,o paciente não gestionam os serviços da Justiça cri- caso, Cr$ 187,00), antes do oferecimen- sam a Cr$ 10,00.
auferiu vantagem ilícita com a emis- minal, no mundo contemporâneo. E in- to da denúncia, desautoriza a condena- Um bom exemplo dessa orientação
são do cheque, que foi pago". O cheque forma que, no Japão, "aquele que emi- ção por crime previsto no art. 171 § encontramos no h.c. 43.899, decidido
sem fundos é, assim, integralmente vin- te um cheque em fundos se vê simples- 2. 0 n. o VI Cod Penal. (Rev. Trim. por unanimidade pela 1.a Turma, re-
culado ao estelionato, em circunstância's mente privado de seu talão e proibido Jurispr., 41/754). No mesmo sentido lator o ilustre Min. VICTOR NUNES'
privilegiadas, aliás, pois se exclui inclu.· de abertura de conta em banco" (La decidiu a 3.a Turma') no h.c. 43.701, LEAL (Rev. Trim. Jurispr, 42/662).
sive a punibilidade da tentativa. A de- justice, l'homrme et [,a, liberté, 1964, p. relator o Sr. Min. GONÇALVES DE OLI- Tratava-se de um cheque de Cr$ 200,00,
cisão foi unânime. Todavia, ao que 207/8). Vê-se a tendência de retirar VEIRA, por unanimidade (Rev. Trim. pago após a denúncia. A ordem foi de-o
parecE', as circunstâncias especiais do do Código Penal tal infração, para fa- Jurispr .. 411756), bem como a 2. a Tur- negada, afirmando o ilustre relator que-
caso concreto explicam a decisão, pois zê-la sofrer sanções de natureza admi- ma, no h. c. 44.274, relator o eminente "o resgate do cheque após o início da
no h. c. 43.644, da mesma turma, rela- nistrativa. Razões de ordem prática, . Min. HAHNEMANN GUIMARÃES (Rev. ação penal, embora antes da sentença,
tor o Min .HAHNEMANN GUIMARÃES, a entre outras, aconselham essa solução, Tri'Yit. Jurispr., 42/188). não poderia ter o efeito de extinguir
ordem foi denegada, num caso em que inclusive para aliviar os cartórios cri- No h.c. 44.170, julgado pelo Tri- a punibilidade".
o pagamento do cheque se fêz 3 anos minais de uma infinidade de processos bunal Pleno, sendo relator o ilustre O TFR, por maioria, no h.c. 1.539,
após a sua emissão e 1 ano e 4 mêses dessa natureza. Há estatísticas alar'- Min. ADAUTO CARDOSO, foi a ordem em que foi relator o eminente Min.
apóR a denúncia, com a afirmação cor- mantes. que indicam ser vultosÍssimat concedida, contra o voto do Min. ELOY ANTÔNI'O NEDER, afirmou corretamente
retíssima e irrecusável de que a repa- a auantidade de inquéritos e ações pe- DA ROCHA, porque o cheque (cujo mon- aue o crime prevista no art. 171, § 2.0-
racão do dano não exclui a punibili- . nai~ por tal crime, sem que a justiça; tante não foi. mencionado) foi pago ~.o VI, é formal. Dissentiu apenas o
dade (Rev. Trim. Jurispr., 40/327 disponha de meios e recursos para poei- antes da denúncia (Rev. Trim. Jurispr., ilustre Min. AMARlÍLIO BEN J AMIN. As-
e 532). rar, em tempo razoável, os casos de 42/528). Veja-se também o h.c. 44.182 sinalou o relator que "perante nossO'

,94 95
Código, o interêsse imediatamente pro- tor o ilustre Min. LAFAYETTE DE AN- seja pela identificação do dever jurí- tenha a:ssumido ou -que lhe tenha sido
tegido não é a segurança patrimonial DRADA, no h.c. 43.169. Decisão unâ- dico de atuar. imposta a função de garantia da não
.do tomador ,mas a confiança no cheque nime. Antes de recebida a denúncia É fóra de dúvida, porém, que tais superveniência do resultado I típico. Não
como ordem de pagamento" (TFR não produz seus efeitos jurídicos (Rev, .crimes não se configuram sem que o basta um dever quem vis ex populo.
,Jurispr., 14/116). Trim. Jurispr., 41/530). agente tenha o dever jurídico de impe- Essa visão dogmática dos crimes comis-
dir o resultado. Não há omissão sem sivos por omissão é corrente hoje na
Já tivemos ocasião de criticar a dou-
transgressão de dever jurídico de atuar. doutrina. Cf. MAURACH, D'eutschel5
trina do STF em matéria de cheque, a
Crime comissivo por omlssao. Exige A omissão não é simples não fazer, Strafreoht, 1957, pág. 239; WELZEL,
quàl, data venia nos parece insusten-
o dever jurídico de impedir o re- mas não fazer ,algo que o agente podia Deutsch.9s Strafr1e.cht, 1962, pág. 184;
tável. Ela equivale a transferir o mo-
sultado e devia realizar. Como nos crimes co- SCHONKE - SCHRODER, Strafgesetzbuch
mento consumativo do crime para a de-
missivos por omissão se exige, para a K01wrroonta,r, 1962, pág. 27; ANTOLISEI,
núncia, e assim mesmo se o cheque não
A 2. a Câmara do Tribunal de Alçada <configuração do delito, a superveniên- Manuale de Diritto Penal e, 1963, pá-
for de ínfimo valor. O que estamos
da Guanabara, na Ap. Crim. 2.085, da de um resultado, o dever jurídico gina 180; BETTIOL, Diritto penale,
vendo é a polícia transformar-se em
relator o ilustre juiz WELLINTON PI- de atuar é aqui um dever jurídico de 1966, pág. 218; ANíBAL BRUNO, Direito
instrumento de coação para a cobrança
MENTEL, por unanimidade, decidiu que i1'npedir o resultado. O que dá vida ao Penal, vol .1, pág. 307 (edição' de 1956),
,de cheques.
os crimes comissivos por omissão exi- ilícito é o fato de o agente não evitar Afirma-se assim, a exigência de de-
gem sempre a ocorrência de dever ju- 'Ü acontecimento que tinha o dever de
ver jurídic; de. atuar, como elemento
:Prescrição. Contagem de prazo rídico de impedir o resultado. impedir. essencial dos crimes comissivos por
Na hipótese, tratava-se do crime de Porisso, a doutrina tradicional afir- omissão.
A natureza da prescrição determina des'abamento culposo (art. 256 Cód. ma que os crimes comissivos por omis- Nosso Código Penal vigente é omis-
,o critério para a contagem do prazo, Penal), atribuído à omissão do apelan- são apresentam antijuridicidade espe- so, em relação às fontes do dever jurí-
,que é diverso, considerando-se o que te. Afirmava-se ser êste responsável daI, consistente na violação de um de- dico de atuar necessário aos crimes co-
dispõe o Cod. Penal (art. 8) e o Cód. pelo imóvel, que ruiu, matando duas ver jurídico de agir. missivos por omissão. Alguns códigos
Proc. Penal (art. 798 :§ 1.0). No h. c. pessoas e ferindo outras. Não era o Já GARRARA (Programma, § 30) di- limitam-se a deixar assentada a exigên-
43.608, a 1.,a Turma, por unanimidade, apelante proprietário do imóvel, que zia que os crimes de pura inação não cia de um dever jurídico de imrpl3dir ()
relator o Min. OSWALDO TRIGUEIRI'il, efetivamente não utilizava. O prédio podem ser concebidos senão nos casos r.9sultado. É o caso do Código italiano
decidiu que a contagem se deve fa- havia sido alugado, há muitos anos, a em que alguém tenha direito exigível à (a:r t . 40): "Non impedire un evento,
~zer incluindo o dia do início, vale dizer, firma de engenharia pertencente ao fa- açtio omitida. VON WEBER (Grun- che si ha l'obbligo di i1npedire, equivale
:pelo critério do Código PenaL (Rie!/). lecido pai do réu. A emprêsa do ape- dris8 des Strafrechts, 1949, pág. 58) a cagionarlo". No mesmo sentido o Có-
Trim. Jurispr., 40/114). O TFR tam- lante pagava a um vigia, que era an- sustenta que é pressupos'to da omissão digo grego, de 1950 (art. 13): "Quan-
tigo empregado da locatária original. 'que haja um dever jurídico de agir, do a lei exige, para fundamentar um
bém já decidiu que no prazo se inclui
Essa decisão nos dá oportunidade -afirmando que as proibições se dirigem fato punível determinado resultado, o
-o dia do começo (H. C. n. o 1.512.) e o
para algumas observações de interêsse. 'a qualquer um, mas as ordens, só a não impedi~ento do resultado equipa-
T .J. da Guanabara já se pronunciou no
O crime previsto no art. 256 Cód. um restrito número de pessoas. Daí ra-se à causação do mesmo, se o acusa-
.sentido de que a prescrição é de direi-
penal não exige tenha o agente qual- conclui HOPNER (Z~w Lehre vom Un- do omite especial dever jurídico de evi-
to substantivo (Rev. Jurispr., 12'/155), tá-lo". Assim também o Código iugos-
quer qualidade ou condição pessoal: t.9rlassungsdelikte, 1916, pág. 115) que
,embora entendesse, em outra oportuni-
pode ser praticado por qualquer pes- a omissão só pode ser equiparada à lavo, de 1951 (art. 22').
dade, que, no caso de perempção, a con- A doutrina supre a deficiêncil". da le-
soa. Trata-se de crime comissivo, que ação se for preliminarmente estabele-
tagem se faz pelo cód. Proc. Penal gislação estabelécendo, desde FEUER-
poderia ser cometido por qualquer pes- cida a sua antijuridicidade, ensinando
(Rev. Jurispr. 11/318). soa que, através de um comportamento BACH que êsse dever jurídico pode
'SCHO.NKE"SCHRODER, em seus precio-
Julgamos que a respeito da prescri- ativo, causasse desmoronamento. sos comentários ao Código Penal ale- emau'ar da lei, do contrato ou de ati-
,ção, deve prevalecer a teoria mista, que Como todo crime comissivo, êste tam- mão, que tipicamente a omissão só pode vida de anterior do próprio agente, cau-
reconhece o seu caráter material e pro- bém pode ser praticado 'Por omissão, corresponder à ação quando existe uma sadora do perigo.
cessual (HELENO C. FRAGOSO, Jurispru- constituindo um crime comissivo por especial relação de dever (Pflichtver- Os projetos de lei mais recentes pro-
.dncia Criminal, n. o 42'), devendo a con- omisslão. hiiltnis) , por fôrça da qual o agente é curam estabelecer claramente tais pres-
-tagem fazer-se pelo Código Penal. A Dogmática Jurídico Penal tem sus- chamado a afastar o resultado típico, supostos dos crimes omissiv~s impró-
A prescrição começa a correr da data citado questões difíceis e altamente con- 'através de fôrças que se lhe oponham. prios. O projeto Nelson HungrIa, no art.
do recebimento da de>núncia, e não do trovertidas, no que concerne a tal ca- Em tais crimes, o agente surge como 14 ,§ 1.0 dispunha: "A omissão é rele-
.dia em que foi apresentada. Assim de- tegoria de delitos, seja pelas dúvidas a garantidlor da não superveniência do vante como causa quando quem omite
-cidiu o STF, por sua Lia Turma, rela- que dá lugar a causalidade da omissão, resultado. É de mister que o agente devia e podia agir para evitar o resul-

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das partes à outra em processo judi- objeto da locação rescindenda e nada
tado, decorrente êsse dever seja da lei, to, é indispensável que o agente saiba
cial. Entendera o juiz que siinples mais. N <> ca30; hOUVe insinuação de
seja de relação contratual ou de peri- que é parte obrigada, etc.
imputação de adultério, sem maiores adultério, parecendo terem sido omiti-
gosa situação de fato criada pelo pró- No caso submetido a julgamento, po-
esclarecimentos, constituía apenas in- dos detalhes conhecidos. Cabia a inter-
prio omitente, ainda sem culpa." O tex- de-se observar que o locatário não tem
júria, Estando coberta pela imunidade pelação para que fôssem revelados os
to definitivo apresenta redação supe- o dever jurídico de zelar pela solidez
judiciária prevista pelo art. 142 CP, detalhes insinuados ou para que hou-
rior. do imóvel, se o contrato não o obriga
n.O I, sendo portanto, incabível a inter- vesse o necessário recuo" (Diário da,
Os anteprojetos Soler (art. 10) e nesse sentido. ]jj que o Código Civil
pelação. JustÍ<}a, GB, 20-7-79, pág. 345).
Eduardo Correia (art. 7 '§ 1.0) segui- dispõe, em seu artigo 1206: "Incumbi-
ram a mesma orientação. rão ao locador, salvo cláusula expressa Ficou vencido o excelente juiz EPA- No Código Penal vigente, a imunida-
São três, portanto, as fontes do de- em contrário, tôdas as reparações, de MINIONDAS PONTES, que, preliminarmen- de judiciária em caso de injúria ou
ver jurídico de impedir o resultado: a que o prédio necessitar. § único. O lo- te, entendia não ser possível ao juiz difamação é absoluta, e será inepta á
lei, o contrato e a precedente atividade catário é obrigado a fazer pOr sua con- pronunciar-se sôbre a interpelação, jul- interpelação quando se tratar de fato
,criadora do perigo. ta no prédio as pequenas reparações de gando as explicações dadas satisfató- que não possa, de forma alguma, cons-
A mãe que deixa de alimentar o pró- estragos que não provenham natural- rias, ou não. Invocou em seu apoio a tituir calúnia. No caso em julgamen-
prio filho pequeno, que vem a morrer, mente do tompo ou do uso". autoridade de NÉLSON HUNGRIA (Co- to, havia a atribuição de um delito,
responde por homicídio porque a lei Atribui a lei civil ao locatário a obri- mentários, vol. VI, n.o 143, in fir>.e). sem maiores detalhes, podendo surgir
(Cód. Civil, art. 231) impõe aos pais gação de restituir a coisa finda a lo- A nós também parece irrecusável que da interpelação a ofensa punível.
o dever de sustento, guarda a educa- cação, no estado em que a ;ecebeu, "sal- a apreciação sôbre as explicações dadas Injustificável é, aliás, a exigência de
ção dos filhos. Pessoa estranha prati- vas as deterioriações naturais ào uso compete ao juiz da ação penal, sob pena imputação detalhada de fato delituoso
caria apenas o crime de omissão de so- regular" (art. 1192 n. o IV Código Ci- de prejulgamento. Feita a interpela- para configurar a calúnia. Pode o
corro. vil) . ção, o juiz deve mandar entregar os agente atribuir à pe'ssoa ofendida a
A segunda fonte do dever de, atuar Nã? tem, portanto, o locatário dever autos ao requerente, sem se p'l'onunciar prática de um crime, omitindo circuns-
é o contrato. Neste caso, o dever de juríd1co de zelar pela solidez do imóvel. sôbre .as explicações dadas. tâncias que não excluam a clara refe-
atuar e a posição de garantidor surgem Tal dever a lei atribui ao locador. O voto vencido (que aprovamos in- rência a um fato concreto. A orienta-
de obrigação contratual, quando o agen- Êle poderá ser estabelecido em contrato, tegralmente) examina com rara preci- ção em sentido contrário de vários tri-
te é obrigado pelos riscos decorrentes. o que' não era o caso, pois a locação são a segunda parte da matéria em bunais é positivamente incorreta, con-
]jj o caso da enfermeira contratada não tinha contrato escrito. trastando com a finalidade da lei. Ve-
jUl!Samento. Não seria possível negar
para velar pelo doente; do professor Não é possível, em conseqüência, que ja-se a certeira lição de HUNGRIA (Co-
a mterpelação sob fundamento de que
que se compromete pelo pupilo; do lo- o acusado tivesse praticado um crime mentários, vol. VI, n.o 127). O Código
havia apenas injúria: "Não houve
propriamente, na petição de interpela~
catário em relação ao imóvel, etc. Cf. comissivo por omissão, com referência Penal argentino, com a reforma intro-
ANÍBAL BRUNO, ob. cit., vol. I, pág. 305. ao desmoronamento, porque não lhe ca- ção u~a acusação de calúnia .. O que duzida pela Lei n. o 17.567, em seu ar-
Finalmente, o dever de agir que pode bia nenhum dever jurídico de impedir tigo 10.9 (seguindo o Projeto SOLER,
está na petição é que havia uma in-
dar lugar aos crimes comissivos por o 'i1@sultado. Nem lei, nem contrato lhe art. 146), pune como calúnia a falsa
sinuação do crime de adultério que se-
omissão existe também quando o pró- impunham tal dever. Não foi êle que, imputação da prática de crime doloso,
ria praticado habitualmente pelo inter-
prio agente provoca a situação perigo- através de sua ação, causou a instabi- "ou de uma conduta criminosa dolosa,
pelante no apartamento que era objeto
sa. Quem cria o perigo de dano tem lidade do muro. Essa argumentação da de uma ação de despejo. Ora se o in- ainda que indeterminada", visando com
obrigação jurídica de afastá-lo. Porisso defesa foi acolhida pelo Tribunal. isso evitar as dúvidas introduzidas pela
terpelante já se julgasse di;etamente
se afirma que o dever de agir nesses jurisprudência dos tribunais.
caluniado, não teria porque interpelar.
casos é tácito e resulta do sistema.
Se requereu a interpelação, foi porque De notar que no nôvo Código Penal
Quem põe fogo a um depósito tem o Crime contra a honra. Interpelação
se viu atingido por grave acusação de a injúria ou a difamação irrogadas em
dever jurídico de socorrer os que nele judicial juízo não serão puníveis, s.alvo quando
adultério mas de modo impreciso. Ca-
se encontram.
bia fôsse espancada a imprecisão com ineq1tívoca a, in<f1enÇlÚo de ofender" (ar-
]jj claro que a culpabilidade exige que O T. A. da Guanabara, por sua
a resposta concreta esclarecendo quan- tigo 149). Introduziu-se assim uma
o agente tenha consciência da sua po- La. Câmara Criminal, no Rec. Crim.
do e com quem o interpelante prati- restrição à imunidade judiciária total-
sição de garantidor (cf. WELZEL, ob. n. o 140, relator o ilustre juiz FABIANO
cara adultério; ou com a resposta re- mente injustificável. Diante disso, a
cit., pág. 191; MAURAC'H, ob. cit., DE BARRlOS FRANOO, negou provimento
conhecendo tratar-se de acusação le- interpelação será sempre cabível, em
pág. 245). No exemplo da mãe que por maioria a recurso interposto con-
viana, interesseira, visando a levar o caso de ofensa equívoca, qualquer que
omite alimento ao filho, é indispensá~ tra o despacho de juiz que indeferiu
seja, pois a culpabilidade somente será
interpelação relativa a ofensa relacio- juiz do despejo a ter o interpelante
vel que ela tenha conhecimento de sua examinada no curso da ação penal.
nada com adultério atribuído por uma como pessoa inidônea, fraudadora do
condição de mãe. No caso do contra-

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Estagiário junto à Defensoria Públi- maras Criminais Reunidas do Tribunal nec6s81,arrio desconfiar siempre de los mento da Apelação n.o 54.798, com o
oCa e funcionamento no sumário de de Justiça do Estado da Guanabara medios de )e1xcita,ción que han empleado'" mesmo relator e mesmo voto vencido
'Culpa concluíram que anão se concebe oonde- (in Tratado de la prueba en Matéria, (in D. O. de 15 de jUlhh de 1971 Par-
nação penal calc'a,da exclusivamente nos Crimina,l, pág. 189). E o professor te III, A~';lnso ao n. o 132, pág. 52'4J.
Decidiu unânimemente a 3.a Câmara elementos coligido's no inquér-ito poli- ROBERTO LYRA, em seu Pass,ado, Pre- Não temos duvida em afirmar que a;
Criminal do Tribunal de Justiça do cial", assinalando que "o princípio do sente e Futuro da Prova Penal, 1955, melhor interpretação se encontra com
Estado da Guanabara, no julgamento livre convencimento não vai tão longe". pág. 69, estabelece um quadro absolu- o ilustre Des. OLIVEIRA RAMOS. Contu-
da apelação n. o 52.997, que "o esta- Foi relator o Des. V ALPORÊ DE CASTRll tamente real e significativo das condi- do, diante da invariável orientação do
giário da Defensoria Pública está ex- CAIADO, registrando-se a ocorrência de ções sob as quais se costuma obter E. Supremo Tribunal Federal, consa-
pressamente autorizado por lei a fun- votos vencidos (in D. O. de 15/7/1971 "confissões" extrajudiciais. grada na Súmu4ar n. o 146, deve o pro-
cionar "na tomada de depoimentos pes- Parte III, Apenso ao n,o 132, pág. 525): blema da prescrição pela pena em con-
Legislações recentes (entre as quais
:soais", "inquisições e acareações de Parece-nos decisão irretocável. É creto, hodiernamente, no Brasil, ser co-
nosso Código de Processo Penal Mili-
testemunhas" (Provimento n. O 25, de princípio assente em nosso processo cri- locado no plano das exigências de igua-
tar, art. 9.0) estabelecem expressamen-
4/6/66, do Conselho Federal da Ordem minal o da subsidiariedade da prova litária distribuição de justiça, dada a
te o caráter provisório da instrução
dos Advogados do Brasil, art. 4. 0 , ampLtude e pleno acolhimento obtidos
colhida no inquérito (cf. Rev. For., realizada no inquérito, cuja única fun-
letra b)". por aquelas orientações. A êste aspec-
167/391). O Supremo Tribunal Fe- ção é fornecer ao Ministério Público
Data venia do v. acórdão, é precisa- to se referia o Min. PRADO KELLY no
deral, julgando o H. C. n.o 43.042 anu- um ponto de partida para a persecução
mente texto expresso de lei - da Lei
lou sentença criminal que se fundara penal. O M. P. deve provar sua denún- julgamento do H. C. n. o 42. 987, q~an­
n. o 4.215 - que proíbe ao estagiário do afirmava que "Por mais discutível
exclusivamente na prova obtida no in- cia em instrução sob a garantia cons-
'a prática de tais atos, quando os con- que 8'eja tecnioa'mente a conclus'ão erl1.
quérito, em decisão-paradigma da qual titucional do contraditório, à luz das
'sidera privativo's dos advogados, como tal ?er;tido (n? sentido da prescrição)
foi relator o Eminente Min. PEDRO CHA- audiências públicas, submetendo à defe-
fatos de defesa que inegàvelmente são. de tnumeros Julgados, fôrça, é convir
VES, que assim se expressou: "A sen- sa não só a prova que produz como o
'Ü provimento n,o 2:5 não pode subsis- que a orientação invariável, neles se-
tença está baseada exclusivamente na modo de produção dessas provas; e não
tir, porquando colide com a lei, e por guida, consagra uma conce>ssão liberal.
prova testemunhal colhida no inquérito, considerá-la provada porque a polícia,
essa clave se têm afinado copiosas de- de que não é lícito, pela generalidade:
como nela mesma se contém expressa- mantendo-o às vêzes prêso e em situa-
cisões que declaram a nulidade de pro- 16 pe>la extensão de seus efeitos, retra-
mente. Essa prova foi tomada sem ções constrangedoras, na obscuridade
cessos nos quais hajam funcionado, em var-se a Alta Côrte (in R.T.J., 36/359)_
observância do princípio do contraditó- de salas onde não é permitido o "in-
inquiriçõ'?s de testemunhas, tão-s'omen- A inflexível jurisprudência da Alta
rio, em procedimento meramente ins- gresso de pessoas estranhas ao servi-
te os estagiários junto à Defensoria Côrte, a respeito, deve assegurar, por
trutório, sem defesa do acusado. Sen- ço", desserviu à Justiça - e à lei
Pública. A substância da questão con- um relativo disciplinamento de decisões
tença baseada em prova dessa natureza nessa ordem, e ao mesmo tempo.
tudo, prepondera sôbre seu aspecto for- a segurança na igualdade do tratamen:
é senténça sem fundamentação, é sen-
mal: a liberdade dos cidadãos (com- to judiciário. Consignamo-s, por isso, as
tença nula; e a prisão conseqüente dela
prometida, sem dúvida, por qualquer Prescrição pela pena em concreto duas decisões já mencionadas, tendo em
é evidente constrangimento à liberdade
inabilidade da defesa) é preço muito vista que episodicamente em composi-
do paciente" (cf. R. T. J., 40/744).
elevado pelo aprimoramento na forma- Novamente voltou o Tribunal de Jus- ção ocasional de suas' Câmaras o
FREDERICO MARQUES (in Elementos de
ção técnica de novos profissionais. A tiça do Estado da Guanabara a decidir E. Tribunal de Justiça do Estado' da
Dir. Proc. Pen., 1961, v. I, pág. 161)
intervenção de mero estagiário no su- que a prescrição da ação penal regu- Guanabara negou a prescrição da ação
ensina que "só excepcionalmente é que
mário de culpa corresponde a autêntica la-se pela pena concretizada na senten- penal aos moldes da Súmula n.o 146.
o juiz poderá encontrar no inquérito
experiência in anima nobile, por todos ça,quando não há recurso da acusa-
alguma base para estruturar o seu li-
os títulos condenável, devendo determi- ção, seguindo a orientação do Supremo
vre convencimento". A lição é antiga, Crime de automóvel. Agravante lIda
nar a nulidade do processo, já que, em Tribunal Federal, consegrada na Sú-
e os tratadistas da prova sempre se inobservância de regra técnic,:!.
boa verdade, estêve o acusado indefes'o mula n.O 146.
mostraram cautelosos no instante de
(in D. O. de 15/7/1971. Parte III, Assim ocorreu no julgamento do H. C. No julgamento do H.C. n. o 48.375,
avaliar provas colhidas em procedimen-
AP9'1tSO ao n. o 132, pág. 52'2).
to inquisitorial. De tôdas, a mais sus- n. O 25.498, pela 1. a Câmara, do qua: relator o eminente Min. BARROS MON-
peita é a confissão, não raro obtida foi relator o ilustre Des. VALPORÊ DE TEIRO, a 1.a Turma do STF afirmou
Sentença condenatória que se baseia CASTRO CAIADO, sendo voto vencido o que a agravante relativa à inobservân-
mediante coação física, pelos métodos
em prova colhida no inquérito po- Des. OLIVEIRA RAMOS (in D. O. de 15 cia de regra técnica de profissão, arte
mais atrozes e repugnantes. MITTER-
liciaI MAYER advertia para o fato, assinalan- de julho de 1971, Parte III, Apenso ao ou ofício, aplica-se tanto aos motoris-
Julgando os embargos oferecidos à do que a si la conff!l8sion heL sido reci- n. o 132, pág. 522) ;assim ocorreu no- tas profissionais quanto aos amadore;,
vamente na mesma Câmara, no julga·. (Rev. Trim. Jurispr., 56/695).
decisão da Apelação n. o 50.541, as Câ- bida por ernple'ados de policia ( ... ) e8

100 101
mente em tal caso se acresce a medida No Códfgo Espanhol (art. 565), tam-
Tratava-se de gravíssimo acidente de que tinha razão o impetrante, ° que do dever de cuidado e a reprovablii- bém se contempla agravante para o ho-
trânsito, com pluralidade de vítimas, não nos parece difícil demonstrar. da de da falta de atenção, diligência ou micídio culposo e as lesqes corporais
tendo sido o réu condenado à pena de Circunstâncias são elementos aciden- cautela exigíveis. Se não se trata de culposas, quando resultarem de "impe-
2 anos e 3 meses de detenção. Apli- tais que acompanham o fato delituoso um profissional, o componente da cul- rícia ou de negligência profissional".
cou o Juiz a pena-base de 1 ano e e com êle se relacionam (accidentalia pabilidade não excede o que regular- Explica QUINTANtí) RIPOLÉS (Tratado
6 meses, aumentando-a de, 1/6 pelo delicti), influindo na gravidade do ma- mente Se requer para a configuração de Za Parte Especial del Derecho Penal,
concurso de crimes e de 1/3 pela inob- lefício, aumentando ou diminuindo a do crime culposo em sua hipótese típica 1962, vol. I, pág. 106) que a jurispru-
servância de regra técnica, que o ma- culpabilidade ou a antijuricidade do básica, de modo que o reconhecimento dência inicialmente aplicava o citado
gistrado afirmara ter ocorrido com o fato. da agravante significaria uma dupla dispositivo legal a todos os condutores
fato de dirigir alcoolizado e expondo os As circunstâncias são judiciais (ar- valoração inadmissível. de veículos legalmente habilitados, re-
outros a perigo. Com tal pena ex- tigo 42) ou legais (arts. 44, 45 e 48), Se alguém constrói um muro divisó- servando-se posteriormente, no entanto,
cluía-se o direito à suspensão condi- podendo configurar, na Parte Espe- rio de seu terreno e se tal muro vem dita agravação para os condutores pro-
cional. cial, causas de aumento ou diminuição a ruir causando morte, por ter sido fissionais em sentido estrito.
Com o Habeas Corpus visava o im- das penas. edificado com inobservância de regras Em outra obra, DereClho Penal de la
petrante excluir a parcela de aumento No art. 12'1, § 4.° (como no art. 129, técnicas, parece evidente que uma cul- Culpa, 1958, pág. 546, esclarece o sau-
relativa à inobservância de regra téc- § 7.°) está prevista uma causa espe- pa agravada só poderia ter um técnico doso mestre: "La versión más pruden-
nica (6 meses), reduzindo a pena de cial de aumento da pena aplicável ao na construção de muros. Quem, não te es la, de limitarse a rl9Servar la agra-
modo a permitir a ,concessão do s~~rsi8. homicídio culposo, que opera acrescen- sendo técnico, se lançasse à construção vación de eUa en casos de profesionali-
Indeferindo o pedido, salientou o ilus- do a culpabilidade do agente. Aumen- de um muro, seria apenas culpado da dad estricta, qUe es el critério ultima,-
tre relator que o STF não poderia san- ta-se a reprovabilidade do comporta- imprudência elementar ao crime cul- rne1~te predominante lem la jurisprud'ên-
cionar a tese que fundamentara a im- mento de quem tenha causado culposa- poso. cia. Entendiendo por profesión de con-
petração, pois, se é certo que dos mo- mente a morte de alguém A maior responsabilidade surge so- ductor no la mera teneneia d6l1 permiso
(a) - com inobservância de regra mente pelos acrescidos deveres que tem de condueir regZamentaria, como en al-
toristas profissionais "se exige a pro-
técnica de profissão, arte ou ofício; o profissional. Se o muro fôr cons- guma ocwsión Sltl creyó, sino el arte, há-
va de conhecimentos técnicos do veículo"
(b) - deixando de prestar imediato truído por um profissional, com inob- bito o eontinuidad 6ln el empleo que se
(C. N. T., art. 72, § 1.0), tanto dêles,
socorro à vítima; servância dos deveres de seu ofício, a tiene y ejerce publicamente".
como dos amadores, reclama-se a mes- (c) - não procurando diminuir as
ma habilitação para dirigir (art. 64), censurabilidade será bem maior, por- De outra forma, argumenta o gran-
conseqüências de seu ato; ou que o profissional está adstrito a mais de penalista, o cumprimento da obri-
o mesmo exame de sanidade física e (d) - fugindo para evitar a prisão graves responsabilÜlades. gação de conduzir com autorização com-
mental, a ciência das leis e regulamen- em flagrante. ,
tos do trânsito e a prática de direção Como ensina o nosso excelente ANi- petente constituiria absurda agravação
A agravação surge ,através de um BAL BRUNO (Direito Penal, vol. IV, pá- de responsabilidade para o motorista
na via pública (art. 72, a, b e c). plus de culpabilidade e jamais poderia gina 129), "não é a imperícia do agen- habilitado e inadmissível privilégio
Acrescente-se que, no momento, con- ser 'f'e'conhecida em elementos que inte- te que se torna agravante na primei- para o condutor não habilitado, pois a
fOTme noticia a imprensa, os exames gram a condutím típica ou a definição ra hipótese, mas a inconsideração com êste não se aplicaria a agravante.
psicotécnicos, hoje apenas exigidos paTa do delito em sua hipótese fundamental. O antigo § 222 do Código Penal Ale-
que age, desprezando as regras do seu
os condutoTes de veículos de tTanspor- Como assinala BURNS (Strafzumessun- ofício, e por êsse desinterêsse, provo- mão (modificado em 1940) também
te coletivo e de escolaTes (aTt. 73) vão gsre'cht, 1967, págs. 96 e 335), um dos cando o fato punível". mandava aumentar a pena se o crime
ser estendidos a tôdas as categorias de primeiros erros jurídicos descobertos São bem raras, na legislação compa- fôsse praticado com a violação de de-
motoristas, conforme o permite, aliás, pela teoria da aplicação 'da pena foi rada, disposições semelhantes à de nos- veres de cargo, ofício ou profissão.
o § 3.° do mesmo dispositivo do C. N . T. o da inadmissível dupla valoração de sa lei. NÉLSION HUNGRIA menciona o Consultando-se os autores, verifica-se
E, mais: Um e outro estão sujeitos características do, tipo, considerados de Código holandês, de 1881 (art. 309), que nenhuma dúvida havia de que a
à observância do extenso rol de deve- nôvo pelo juiz na identificação de cer- segundo o qual, se o homicídio culposo agravante se limitava às ações que
.... r€s e obrigações de que trata o art. 82 tas agravantes. constituíssem exercício de uma profis-
ou as lesões corporais culposas « sont
do mesmo Código". N o crime de homicídio culposo e no commis {lIa<ns l'exercice de quelquer pro- são. Veja-se, por exemplo, WACHEN-
Reconheceu o relator que a inobser- de lesões corporais culposas, a pena é fession ou emplai, la peine pourra étre FELD, Lehrbuch des deutschen Straf-
vância de regra técnica não estava nos agravada se o fato foi praticado "com augmentée d'un t~6I1"S". Como se perce- reohts, 1914, pág. 315, e GERLAND, Deut-
fatos indicados no dispositivo da sen- inobservância de regra técnica de pro- be, o aumento de pena s'omente é apli- seres Strafre,cht, 1932, pág. 477.
.. tença, mas, sim, no excesso de veloci- fissão arte ou ofício". cável ao crime cometido "no exercício FRANK (Das Strafgesetzbuch für das
dade, referido na motivação. Tal' dispositivo só se aplica quando de qualquer profissão ou ~mprêgo". Deuts'che Reich, 1931, pág. 474) ensi-
Data venia da E. Turma, parece-nos se trata de um JYf(ofissional, pois so-

103
102
nava que "o fundamento da mais se- notação rica de sentido para explicar Delito de circulação. Discordância en- ria o perito, em- última análise, o jul-
vera punibilidade encontra-se na culpa e esforçar a tese que aqui se busca pôr tre a prova testemunhal e a prova gador" (in Curso de Dtf' Proc. Penal~
mais grave (sclvweren Velf's'chulden) de manifesto. Só o condutor profissio- periciaJ S. P., 1964, pág. 133).
que tem o agente pela omissão dos de- nal, dirigindo veículo, exercita sua pro- Houve um tempo em que, desgraça-
veres profissionais". fissão. Para o condutor profissional No julgamento da Apelação Criminal damente, a solução das disputas envol-·
O citado dispositivo do Código Ale- ser condenado, em sede criminal, por n. o 4.859, decidiu a 2.,a Câmara Cri- vendo acidentes de trânsito se desloca-
mão foi eliminado, como dissemos, em delito do automóvel, há que ter havido minal do Tribunal de Alçada do Estado vam dos corredores do Forum para as·
1940, sendo objeto de críticas uniformes provadamente violação das normas nã() da Guanabara, que "na contradição ante-câmaras dos peritos, porque êstes,
de tôda a doutrina. É que a violação de só de comportamento genérico (diligên- grave entre a prova técnica e a prova na conclusão de seu laudo, indicavam
deveres p'f'ofissionais já 81e, pode ade- cia, prudência e perícia) mas também oral inconteste, fica a dúvida e não a uma culpa - estritamente objetiva, re-
quadamente conside'nC1Jr culpa «stricto violação de normas de compo'f'tamento certeza necessária a uma solução con- ferida à ordenação do trânsito, e não,
sensu" na forma de imperícia. específico estabelecidas por lei (em dena tória". raro equivocada - que alguns magis-
Denegada a ordem, o impetrante re- sentido amplo) ou pela técnica de uti- trados supunham consistir numa ante-
No caso, o laudo pericial afirmara
quereu revisão criminal ao Tribunal de lização da via pública, se fôr caso de cipação técnica da decisão, à qual 00--
a inexistência de frenagem, por ausên-
Alçada da Guanabara, a qual tomou o lhe ser a pena aumentada. Para o con- mente deveriam dotar da forma jurí-
cia de vestígios, ao contrário de farta
n. o 61, sendo relator o ilustre juiz dutor não profissional ser condenado dica da sentença. Êste era o resultado,.
ELIÉZER ROSA. Concederam-na por una- prova testemunhal (na qual. se inseria
em sede penal haverá de ter havido vio- ao nível prático do processo penal, da
o depoimento dos patrulhadores, cuja
nimidade as Câmaras Criminais Reuni- lação das normas de comport'amentl> errônea visão que mereceu o endôsso,
atenção para o acidente foi chamada
das por que "na espécie não cabe o au- genérico, e o aumento da pena, só se do notável ALTAVILLA, segundo a qual
mento e·special da pena previsto no pela "freada") - tôda ela a atestar o
o perito é um "juiz técnico", condição,
0 tiver havido violação de normas de conveniente uso dos freios. Como, na
§ 4. , do art. 121 do Cód. Penal, por extrapolada de sua categoria primária
comportamento específico mas não liga- hipótese, a discrepância entre um com-
isso que não se trata de condutor pro- de fonte de prova (cf. Psicologia Judi--
fissional e sim amador. Mesmo, porém, das ao profissionalismo. Ê aqui o caso. portamento que observasse o cuidado
ciária, trad. F. Miranda, Coimbra,
O réu ora requerente desta Revisão só objetivo e um comportamento culposo
que se aplicasse tal aumento também 1959, 4.° V., pág. 141), sujeita, como
ao condutor não profissional, no caso violou normas de comportamento gené- residisse essencialmente neste aspecto
as demais provas, a considerações de
não ocorreu inobservância de regra téc- rico e a pretendida violação de normas - da utilização dos freios - , optou a
compatibilidade, coerência e adequação·
nica, tendo havido por parte do julga- de comportamento específico não lhe é Câmara pela solução absolutória, reco-
lógica ao surto de informações de que·
imputável, dado ser êle condutor ama- nhecendo situação' de dúvida. Foi re-
dor incorreção na qualificação jurídica dispõe o juiz para convencer-se.
das circunstâncias dentro das quais se dor" (Decisão ainda não publicada). lator o Juiz GtOULART PIRES.
FLORIAN advertiu, a êsse respeito,.
verificou o fato. Nosso direito ante- O T. A. da Guanabara, por sua Trata-se de decisão acertadíssima, a que, se há uma "parte da perícia que'
rior esclarece, em sua literalidade o 1.a Câmara Criminal, no julgamento da nosso ver. O laudo pericial não pode é juízo, ou seja, a parte ·que se apre-
ponto que aqui se traz em questão', a Ap. Crim. n. o 1.448, relator o ilustre prevalecer quando é incompatível e con- senta como auxílio ao juiz", e se esta
saber, se o condutor não profissional Juiz (hoje Desembargador) BANDEIRA flitante com outras provas. Frente a parte "tem, por sua natureza, neces-·
de veículos auto-motores pode ter, em STAMPA, fixou bem o ponto a que aci- situações dessa natureza, prescrevia sidade de ser interpretada pelo juiz" ~
caso de homicídio culposo ou em caso ma aludimos. Tratava-se de ultrapas- MITTERMAYER a seu alunos de Heildel- "para que serve, então, essa qualifica,
de lesões corporais culposas, sua pena sagem imprudente, dando lugar à coli- berg, há mais de 150 anos, que ao juiz ção peculiar?" (in Delle Prove Pena.zi,
aumentada nos têrmos do ,§ 4. 0 do ar- são de veículos. Havia no fato o ele- "só lhe resta decidir favoràvelmente ao ed. ValI ardi, 1924, v. I, pág. 178).
tigo 121 do Cód. Penal. Na verdade o mento constitutivo da culpa, que não acusado, desprezando totalmente os fa- Pouco antes, o mesmo autor se refe-
Cód. Penal de 90 e a Consolidação das poderia ser' novamente considerado para tos constantes de um relatório ,,(peri- rira à "mais completa liberdade do
Leis Penais diziam ' para a hipótese, cial) que não o convenceu" (in Trata- juiz na apreciação das conclusões peri-
. aumentar a pena. Como se diz no exa-
d.o da Prova em Matéria Criminal,
ISSO: "Aquêle que, por imprudência, tíssimo acórdão, "dar início a ultrapas- ciais" (op. cit., pág. 117).
negligência ou imperícia na sua arte sagem, sem ~mtes verificar a sua pos- trad. A. Soares, Rio, 1909, pág. 208). Não se trata de desmerecer a prova:
ou profissão, ou por inobservância de sibilidade, revela culpa, por imprudên- O art. 182 CPP, que reproduz dispo- pericial, que é, indiscutIvelmente, pre-
alguma disposição regulamentar come- cia. E sendo tal ultrapassagem o ele- sição constante de várias legislações do ciosa e eventualmente indispensáveT
ter. ou fôr causa involuntária, direta mento de fato que constitui, por si, a: Séc. XIX (cód. francês; cód .bavaro) contribuição ao conhecimento do juiz.
ou indiretamente, de um homicídio, será culpa, não é de ser, também, configu- é, confrontado aos princípios gerais do Trata-se simplesmente de situá-la em
punido ... " (O grifo em "sua", na rador da exasperante de inobservância: livre convencimento, quase uma super- sua correta posição, evitando que de
transcrição do texto legal alegado é do 'de regra técnica de profissão". De'Ci- fetação. O nosso MAGALHÃES NORONHA uma entusiástica exaltação da técnica:
relator). Ora, o possessivo "sua" na são unamme (Arquivos do Tribunal de observa, estudando que o laudo não - tão falível quanto o homem, que a.
língua do legislador passado traz co- Alçada, Ano II, n. o 4, pág. 2'48). abriga o juiz, que "caso contrário, se- criou e comanda - resulte a curiosa:

104 105
inversão a que aludiu MAGALHÃES No- A inquirição de testemunhas é real-
:todos os recursos fornecidos pelo pro- Para c.orrigir o êrro que é apontado no
RONHA, na passagem citada. As pro- mente ato de defesa importantíssimo,
-cesso para a localização do réu. É nula despacho impugnado, valeu-se o supli-
vas tinham "pêso" no regime de pro- como sabem todos os que têm experiên-
,a que se realiza sem tal diligência" cante da medida prevista \rro art. 367,
vas legais; no regime do livre conven- cia no processo penal. Não pode ser
(D. O., Parte III, 28/6/71, pág. 489. do CJM, já que para obviá-lo não há re-
cimento, sua consideração atende a cri- praticado por estagiário, que é simples
.apenso) . curso específico admitido na lei adje-
térios lógicos e não aritméticos aprendiz, sem acarretar, com freqüên-
tiva militar". E ainda que "além de
Sobretudo ~o que concerne a~s cri- cia, grave prejuízo para o aCU6ado. caber, na espécie, a medida requerida,
mes culposos, cuja delicada estrutura Não temos dúvida em afirmar a cor- _Acidente de trânsito. Via preferen- há que atender à determinação do ar-
só pode ser penetrada, com eficiência, reção do julgado, rigorosamente fun-
cial tigo 115 CJM, segundo a qual, em ca-
pelos instrumentos fornecidos pela teo- dade na Lei n. o 4.215, sendo irrele- sos como êste, a prescrição deverá ser
ria da ação final (cf., especialmente, vante, por ilegal, o provimento da OAB A 1.a Câmara Criminal do T. A. da declarada de ofício. A denúncia não
WELZEL, FahrUissigkeit und Verkehrs- comumente invocado. .Guanabara, na Ap. Crim. n. o 4.360, re- poderia ser recebida. Aí está um êrro
delikte, Karlsruhe, 1961), parece-nos .lator o ilustre Juiz BARROS FRANOü, que precisa ser corrigido e a Correi-
absolutamente temerário conferir à con- por unanimidade afirmou que a prefe- ção Parcial é meio idôneo para fazê-lo .
dusão do laudo pericial (" a culpa foi Porte de arma e mero transporte .rência em cruzamento não constitui di- Quando do recebimento, já era impro-
do motorista Tício") um valor diverso reito absoluto, a excluir a culpa: " A cedente a pretensão punitiva, certo,
O porte.de arma, como fato punível,
daquele que o juiz atribuiria às decla- preferência por si só não exclui a cul- como é, que estava prescrito o jus p~!­
rações de uma testemunha idônea e ex- não se confunde com o mero transpor-
pa do motorista que no cruzamento ul- niendi".
periente, a qual fôsse inquirida (se fôra te, que ocorre, por exemplo, quando a
trapassa outro veículo e se precipita
tal pergunta possível) sôbre a culpa arma é trazida em evolvotório impedi- No mesmo sentido o STM voltou a
<em cima de um terceiro que normal-
.dos participantes do acidente. O mais tivo do uso nocente imediato. Assim decidir na Correição Parcial n. o 962,
mente efetuava a travessia" (D. O.
importante no laudo, sem dúvida, é o já decidiu o STF (Cf. HELENO FRAGOSO, relator o ilustre Min. ALCIDES CARNEIRO.
Parte III, 28/6/71, pág. 489 do apen-
relatório: é a correta apreensão dos fa- Jurisprudência Crimimal, n. o 157). Essas decisões merecem o aplauso de
so) . Decisão exatíssima em tema sô-
tos e sua redução a expressão intelegi- O T. A. da Guanabara, por sua todos, não só porque constituem exata
bre o qual já fizemos ampla análise.
2. a Câmara Criminal, na Ap. Crim. interpretação da lei, como também por-
vel aos leigos. A sua conclusão é uma 'Cf. RDP n. o 1, pág. 113.
<conclusão técnica, objetiva, naturalista. n. o 4.885, relator o ilustre Juiz ELIÉ- que a inexistência do habeas corpus
Entre a "culpa" a que se referem or- ZER ROSA, por unanimidade afirmou, tem de conduzir necessàriamente a ra-
'llinàriamente as conclusões dos exames em decisão incensurável: "Não estan- .Ju.stiça Militar. A correição parcial é zoável ampliação das medidas proces-
periciais e a "culpa" que o juiz pode do a arma nocente na imediata dispo- medida idônea para declarar-se a suais que permitem a impugnação de
reconhecer na sentença está simples- nibilidade do homem, mas distanciada extinção da punibilidade pela pres- ilegalidades que atingem gravemente o
mente o mundo do direito. de seu corpo, não há porte e sim trans- direito de liberdade do cidadão. Con-
'Crição
A decisão do Tribunal de Alçada porte de arma, fato indiferente à lei vém" apenas assinalar ·que a prescrição
'Constitui soberba demonstração do penal das Contravenções" (D. O., Par- No julgamento da Correição Parcial deve ser aferida pelos fatos narrados
acêrto dessas colocações (in D. O. de te III, 28/6/71, pág. 489). TI.o 933, relator o falecido Min. JOÃo na denúncia e não pela sua capitula-
1217 /1971, Parte III, Apenso ao nú- MENDES DA GOSTA FILHO, assentou o ção, muitas vêzes maliciosa e proposi-
mero 129, pág. 615). ·qitação por edital. Necessidade de STM, por unanimidade, princípio da tadamente incorreta para evitar seja
maior importância na interpretação do declarada desde logo a prescrição, pro-
esgotar os recursos para localizar o
cabimento da correição parcial. Trata- longando-se uma perseguição judiciária
-Inquirição de testemunhas por esta-
giário. Nulidade
.
réu va-se de denúncia oferecida em relação
a crime que estava prescrito, sendo tal
injusta e inútil. A denúncia oferecida
A citação por edital constitui ficção recentemente na 2.a. Auditoria da Ae-
Encaminhando-se no bom sentido, de- jurídica a que não é lícito recorrer sem denúncia recebida pelo auditor. Contra ronáutica da 1.a CJM, no velho inqué-
-cidiram as Câmaras Criminais Reuni- que antes sejam realizadas tôdas as o despacho que recebe a denúncia não rito do ISEB, é o exemplo mais fla-
das do T. A. da Guanabara, por maio- diligências cabíveis em face ,das infor- cabe recurso e o acusado requereu a grante.
ria, que "a inquirição de testemunhas mações proporcionadas pelos autos. ICor.reição.
-é ato de defesa e, assim, privativo de Nesse sentido decidiu a 1.a Câmara Declarou o E. Tribunal que "a cor-
Teição parcial é medida idônea para Denunciação caluniosa e calúnia
'advogado. Sua prática por estagiário Criminal do T. A. da Guanabara, no
acarreta nulidade". Decisão na Revisão H.C. n. o 2.269, relator o excelente Juiz promover declaração de extinção da
punibilidade pela prescrição", pois há Julgando-se atingido por denunciação
'Criminal n. o 55, sendo relator o ilus- PEDRIO LIMA, por unanimidade: "A ci· caluniosa de que resultou inquérito po-
tre Juiz PEDRIO LIMA (D. O., Parte III, tação edital, que repousa numa presun- êrro manifesto do Juillt ao receber a
denúncia. Como salientou o eminent~ licial arquivado, dirigiu-se o interessa-
'28/6/71, pág. 490). ção, só se deve praticar após esgotados do ao Procurador-Geral da Justiça, re-
relator, "o caso é de correção parcial.

106 107
querendo fôsse requisitada pelo M. P. como elemento constitutivo, fato que. iace da nulidade do processo" (D. J., insegurança que nesta área existe
a abertura de inquérito policial. In- por si só constitui crime. 14/6/71, pág. 2.828). quanto' aos direitos· de liberdade do ci-
deferiu o pedido o Procurador-Geral, Ninguém duvida de que a denuncia- É difícil compreender como admitir dadão"1
por entender que não se configurava ção caluniosa não passa de uma calúnia_ () funcionamento do assistente do M. P. As partes estão também em situação
o crime de denunciação caluniosa. Di- levada às últimas conseqüências atin- se o M. P. não funciona, e sem que se desigual em face do número de teste-
ante disso, o interessado apresentou gindo, por isso mesmo, não só ~ hono- cumpram as formalidades previstas em munhas que uma e outra pode arrolar.
queixa por calúnia contra o autor das rabilidade pessoal da vítima mas tam-- lei. É o Juiz que admite o assistente, Estabelecendo, por um lado, que o Mi-
imputações falsas, que deram origem bém a administração da Justiça. ()uvido o M. P. (art. 272 Cód. Proc. nistério Público deverá arrolar até três
ao inquérito. O Juiz a quem foi distri- Se o M. P., por qualquer razão, re- Penal), não podendo tal ato ser prati- testemunhas, por outro diz que a de-
buída a queixa não a recebeu, alegando cusa-se a iniciar a ação penal afirman-· cado pela autoridade policial. A nuli- fesa poderá indicar duas (arts. 65
que o crime seria o de denunciação ca- do que o crime mais grave não ocorrM~. dade do processo, no entanto, a nosso e 66).
luniosa, sendo incabível a ação privada subsiste então indiscutivelmente, a ca-· ver, depende de ter havido prejuízo, Tais disposições violam o princípio
por crime contra a honra. 1únia, que pode ser perseguida pele. para a acusação ou a defesa (art. 563, de isonomia das partes no processo pe-
Inconformado com essa decisão, re- ofendido. Cód. Proc. Penal), segundo a regra nal, assegurado pelo princípio consti-
correu o autor da queixa ao Tribunal geral. tucional do contraditório.
de Alçada da Guanabara (Rec. Crim. Como ensina JosÉ FREDERICO MAR-
Prova ilegal. Nulidade do processo
n.o 224, da 1.a Câmara Criminal), que QUES (Elemento's de Processo Penai,
deu provimento ao recurso, reconhecen- (jrime politico. Audiência de depu- voI. I, pág. 82), o procedimento con-
"É nula a sentença condenatória, que
do que remanesce como crime autônomo tados e senadores arrolados como traditório é "decorrência da isonomia
dá fundamental importância à prova
a calúnia, se o M. P. deixa de denun- testemunhas processual, que é corolário, por sua vez,
testemunhal de processo em apenso, no;
ciar pelo crime complexo de denuncia- do princípio constitucional da igualda-
qual o réu não foi parte, para a deci- A vigente Lei de Segurança N acio-
ção caluniosa. de perante a lei. Nota característica
são dos autos principais. Só as provas' nal, como a anterior, disciplina a au-
Foi relator o ilustre Juiz EPAMINI()N- do contraditório é o direito de ambas
produzidas contraditàriamente com a diência de testemunhas de forma abso- as partes produzirem, em igualdade de
DAS PONTES, que acentuou em seu ex- parte à qual se opõem poderão e de- lutamente inadmissível e evidentemente condições, as provas relativas às suas
celente acórdão: "sempre que ao M. P. verão ser levadas em consideração pelo- inconstitucional. pretensões" (pág. 85).
não se configure um crime complexo juiz". Assim decidiu a '1.a Turma do·
do qual um dos elementos seja um de- É que estabelece desigual tratamen- ANDRÉ VITU (Procedure PénaZe,
STF, por unanimidade, no H. C. nú-
lito deixado à iniciativa privada, êste to para as partes, de forma que as 1957, pág. 13), igualmente doutrina:
mero 48.668, relator o eminente Mi-
remanescerá destacado; permanecerá testemunhas arroladas pela promotoria "Datns l'organisatian de la justice, la
nistro AMARAL SANroS (D. J., 14/6/71,-
com sua configuração própria, segundo são regularmente intimadas, sob as pe- procédure accus,atoire suppose une com-
pág. 2. 828) . Decisão exa tíssima. Ve- plete égal;ité entre l'aecusacion et la·
nas da lei, a comparecer a Juízo, ou
o pensamento do ofendido, que tem a ja-se sôbre o assunto, RDP n. o 1,_
legitimação para pretender vê-lo, dêsse requisitadas, quando são funcionários défense".
pág. 148.
modo, reconhecido judicialmente. A não públicos, ao passo que a defesa sofre o O grande mestre LOONE (Lineamenti
ser assim, ter-se-ia dado ao M.P. o po- ónus de apresentar as suas testemu- di Diritto Process,uale penale, 1949,
der de disponibilidade em delito cujo Rito sumário. Lei 4.611. Assistente nhas, no dia e hora fixados para a pág. 10) não discrepa de tais lições
processo foi deixado à iniciativa priva- do M.P. na fase policial. Nulidade- inquirição. Se tais testemunhas deixa- ao assinalar que é princípio do sistema
da ou se lhe teria dado um sui generis rem de comparecer à audiência marca- acusatório "la paritáJ di posizione t'kUe
poder de julgar, uma singular judica- É nulo o processo de rito sumário. da, sem motivo de fôrça maior com- parti".
tura indireta, pela tabela do arquiva- se intervém assistente de acusação n~' provado pelo Conselho, "não mais se- Como ensina o prof. SEBASTIÂN SOLER
mento sem qualquer contrôle judicial. fase policial. Assim decidiu a 1.a TUr- rão ouvidas, entendendo-se como desis- (lnte'f'pretaeion de la bery, Barcelona,
Ter-se-ia dado, ao Ministério Públi- ma do STF, por unanimidade, no H. C. tência o seu não comparecimento" (ar- 1962, pág. 37), "la igual<1Jad perfecta
co, o poder de arquivamento relativa- n.o 48.421, relator o eminente Minis- tigo 66 e seu parágrafo único). de las partes en un pro·ceso e's, sin la
mente a delito, cujo processo foi dei- tro DJACI FALGÃeO: "Admissão do as-- Isso representa dificuldades comu- menor duda, un principio de justicia,
xado à iniciativa privada. Seriam in- sistente do Ministério Público na fase- mente intransponíveis para a defesa e además de una efectiva garantia de
congruência e ilegalidade evidentes" policial do processo regido pela Lei para o esclarecimento dos fatos. São que sea alcanzado uno de lO$ fines que
(D .. 0, 3/5/71, pág. 342 do apenso). n. o 4.611, de 2 de abril de 1966, sua numerosas as situações em que as tes- el proceso pe'f'sigue: estabeleCle'f' na. ver-
inviabilidade. Somente na fase judicial, temunhas se recusam a atender ao pe- dad, de modo que sobre ella pueda datr-
A decisão é, evidentemente, correta. quando atua o acusador público, é que' dido da defesa, para evitar incômo(ros se a cada uno lo que es efectivamente
A denunciação caluniosa é crime se torna admissível o assistente. Con- ou por simples temor do contato com suyo".
complexo. Isso significa que ela tem, cessão do pedido de habeas corpus em assuntos dessa natureza, em face da A rigidez dos textos da lei de segu-

108 109
rança sôbre a prova testemunhal foi defesa e tendo em vista a situação pes-·
quebrada pelo STM no julgamento da soaI, prevista e favorecida em lei, das' COMENTÁRIOS E COMUNICAÇõES
Correição Parcial n. o 981, relator o emi- testemunhas arroladas".
nente Min. ALCIDES CARNEIRO. Refe- As -prerrogativas processuais dos;
ria-se a hipótese em que a defesa ha- deputados e senadores constituem ga-
via arrolado como testemunhas senado- rantias da independência e do funcio-
res em exercício, tendo requerido fôs- namento regular do Poder Legislativo ..
sem expedidas precatórias para Brasí- Tais prerrogativas só cessam quand(J'-
lia para que a audiência se realizasse deixarem êles de atender, sem justa.
na forma do art. 350 CPPM. Tais tes- causa, o convite judicial, no prazo de
temunhas deveriam ser ouvidas "em trinta dias (art. 32, § 4. 0 , da Consti-
local, dia e hora previamente ajustados tuição Federal). ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA NO PROCESSO DOS CRIMES
entre elas e o juiz". O Conselho, após
admitir a expedição de precatórias (que
Não prevalece, portanto, o dispositi-
vo da lei de segurança sôbre a inqui-
A QUE SE REFERE A LEI N.O 4.611,
deixaram de ser cumpridas por se acha- rição de testemunhas, quando Se trate DE 2 DE ABRIL DE 1965
rem ausentes as testemunhas), recusou de deputados ou senadores. Em' tal
a renovação do ato, dando por encer- caso, deve aplicar-se o art. 350 CPPlVI.
rada a prova da defesa. A decisão do STM nesse sentido bem ARION SAYÁO ROMITA
O STM entendeu que tinha razão o revela a preocupação pelos direitos da
Rcte., deferindo a Correição Pa~cial defesa e a constante inspiração demo-
"como forma de garantia do direito de crática da E. Côrte na aplicação da lei. SUMÁRIO: 1 - Introdução. de procedimentos inviáveis no nasce-
2 - Constituciorualidade da leL douro, muitos dos quais instaurados até
3 - Concessão de habeas corpus. mesmo na ausência de fato típico, como
4 - Inburrogatório e julgamento. são exemplo os casos de auto-lesão cul-
S - Arquivcumento. 6 - Anu- posa, encontrados menos raramente do
lação e absolvição da instância. que seria de esperar". (1)
7 - Rejeiç.ão da portaria ou do O Anteprojeto de Código de Processo
auto de prisão em flag-rante. Penal- de autoria do Professor HÉLIO
8 - Absolvição sumária. TORNAGHI conserv~ a ação penal ini-
ciada mediante portaria ou auto de
1 - Estendendo ao processo dos cri- prisão em flagrante: Art. 565 - Nos .
mes de homicídio culposo e de lesões casos de infração não punida, ainda
culposas o rito sumário do procedimen- que alternativamente, com pena de re-
to ~ officio, a Lei n. o 4.611, de 2 de clusão, se não houver prisão em fla-
abril de 1965, sofreu justas críticas dos grante, o processo será iniciado medi-
doutos. ante portaria da autoridade policial ou
Assim se expressou WEBER MARTINS do juiz, de ofício ou a requerimento do
BATISTA: "apontada como a primeira Ministério Público. Art. 572 - Nos
resposta séria ao cruciante problema da casos de infração a que não fôr co-
multiplicação infindável dos processos minada, ainda que alternativamente,
criminais (omissis), acabou, ao nosso pena de reclusão, havendo prisão em
ver, cooperando para o seu agrava- flagrante, será o réu apresentado ao
mento. As autoridades policiais têm juiz competente, juntamente com a3
acumulado o fôro com um sem número testemunhas do fato. (2)

(1) WEBER MARTINS BATISTA, O Problema do Arquivamento na Lei n. o 4.611,


de 2 de abril de 1965; in Rev. Jur. do Trib. Just. do Estado da Gwanabara
(RJTJEG) 19/54.
(2) Diário Oficial da União, suplemento ao n.o 167, de 3-9-1963.

110 111
tos.' Atinge êle, profundamente, o Bta.- do. Dissentiram, no entanto, na solu-
tusdignitatis do acusado". (7) Com ção,a segv.ir". (10)
Por tal motivo, o Anteprojeto Tor- quando se tratar de ação penal pri-
,naghi sofreu reparos de SÉRGIO DE AN- vada.
razão ,assevera ° jurista citado que "o Realmente, pesquisal\do-se as solu-
mínimo do respeito peios direitos su- ções alvitradas, podem \ ser citadas as
DRÉA FERREIRA: "ora, com relação aos Esclarece a Exposição de Motivos:
pra-estatais de liberdade e de digni- seguintes: La) - inconstitucionalida-
crimes, tal resquício inquisitorial não "a tutela penal deve ficar a cargo do
'mais se justifica. Nem mesmo a maior Ministério Público, e a defesa do di-
dade das pessoas impõe que ° juiz de da Lei n.o 4.611; 2.a ) - concessão
exerça o contrôle jurisdicional prévio de hab6lJJS oorpus ao acusado; 3.0) -
celeridade processual pode explicar tal reito de liberdade ao acusado e seu pa-
do procedimento, ao recebê-lo da auto- interrogatório e julgamento imediato;
anacronismo. Sabem muito bem aquê- trono. Ao juiz cumpre aplicar impar-
ridade policial". (8) Inegável é a ten- 4. a ) - arquivamento do feito; 5. a ) _
]es que labutam no Fôro, que, pelo con- cialmente a lei penal. Atendeu-se, por
dência atual no sentido de se mitigar anulação e absolvição da instância;
trário, como não há possibilidade de isso, no anteprojeto, sem restrições, não
o rigor processual na repressão dos 6. a ) - rejeição da portaria ou do auto
arquivamento, tais processos só termi- só ao princípio de que ne procedat iu-
chamados delitos do automóvel: reza o de prisão em flagrante.
nam com a sentença final, sobrecarre- dex ex officio, como ainda ao da proi-
art. 123 da Lei n.o 5.108, de 21-9-1966 2 - Para alguns, a Lei n.O 4.611
gando as Varas". (3) bição do julgamento ultra petiW/'. (5)
(Código Nacional de Trânsito): ao seria inconstitucional, já diante da
Também LUIZ EDUARDO RABELLO se Enquanto estiver em vigor, a Lei
mostra contrário à extensão do rito su- n.o 4.611 continuará gerando proble-
condutor de veículo, nos casos de aci- Constituição de 1946. Dispunha ° ar-
dente de trânsito de que resulte víti- tigo 141, § 27, da Carta Magna citada:
mário ao processo dos crimes a que se mas, como os denunciados por WEBER
ma, não se imporá a prisão em fla- ninguém será processado nem senten-
refere a Lei n. o 4.611: "lamentàvel- MARTINS BATISTA: "como se sabe,
grante, nem se exigirá fiança, se prese ciado senão pela autoridade competen-
mente (omissis) , foi estendido o rito aquela lei mandou aplicar aos crimes
tar socorro pronto e integral àquela. te e na forma da lei anterior. O ar-
sumarIO de procedimento ex officio, dos arts. 121, § 3.°, e 129, § 6.°, do
Acrescente-se a observação de SÉRGIO gumento está sintetizado na ilação de
que, a princípio, era s'omente para as Código Penal o rito procedimental pre-
DE ANDRÉA FERREIRA: "Não é justo WEBER MARTINS BATISTA: "o processo
'contravenções penais, agora, também, visto para as contravenções. Em de-
que, com relação a infrações mais gra- e julgamento da pretensão punitiva,
para os crimes culposos". E explica, corrência, viram-se os juízes das gran-
ves, haja possibilidade de arquivamen- por afetar substancialmente o ius liber~
mostrando os inconvenientes gerados des cidades, de uma hora para outra,
to, enquanto, no tocante às de menor ta,tis, devem correr perante o juiz com-
pela citada lei: "_tal procedimento, que em face de um problema de propor-
importância, o réu tenh~ de ser forço- petente, que é tão-somente o órgão do
deveria ser banido da lei processual ções sérias: uma porcentagem muito
samente processado". (9) Estado investido de jurisdição. Quem
por ferir o princípio ne procedat iudex grande dos chamados "delitos do au-
Todos concordam com a necessidade diz juiz natural, diz juiz constitucional
ex officio, mais uma vez ganhou fôrça, tomóvel" - compreendidos naquelas
de se evitar o processeguimento do (omissis) e nem a Constituição de 1946
atingindo, agora, os crimes culposos, disposições de lei - chegados às Va-
processo até a sentença final, nos ca- nem a atual atribuiu à autoridade po-
nos quais, em tese, estão os acidentes ras, se compõe de procedimentos abso-
sos acima indicados. Explica WEBER lical funções jurisdicionais de processó
de trânsito, infelizmente, hoje tão nu- lutamente inviáveis, ora por inexistên-
MARTINS BATISTA: "tôdos os juíses e julgamento de quem quer que seja,
merosos, tendo constituído no ano pró- cia de qualquer prova contra o acusa-
acharam que nestes casos ( omissis) razão por que seria inconstitucional a
ximo passado a metade dos processos do (já esgotada, pràticamente, tôda a
era absurda a idéia de levar o proce- lei que assim o fizesse". (11)
em andamento neste Juízo". (4) prova da acusação), ora por estar pro-
dimento, normalmente, até o fim, com O mesmo jurista repele a tese da in~
O Anteprojeto de Código de Proces- vado, sem sombra de dúvida, que não
so Penal de autoria do Professor JosÉ agiu êle com culpa; ou, o que parece
° que se puniria, injustamente, o acusa- constitucionalidade: "a Lei n.o 4.611
FREDERICO MARQUES, baniu o procedi- absurdo, mas é bastante freqüente,
mento ex afficio: Art. 7. 0 - Não se porque o fato atribuído ao indiciado é
admite procedimento criminal ex offi- penalmente atípico". (6) Nestes casos, que se contém na acusação deve ter a sua razão, ou funda~ento .. Os fatos em
cio. A relação processual penal, para ainda nas palavras de WEBER MARTINS que se esteia o pedido acusatório constituem, segundo a termmologla de LEo Ro-
SENBERG, no processo civil, a base empírica da pretensão,.: :Êles sã~ o antecede~te
constituir-se, depende sempre de acusa- BAIrISTA: "os incômodos, os vexames
do pedido, ligando-se, um e outro elementos, p~la ~onexa_o ~ormahva. d~ preceIto
ção do Ministério Público, nos casos decorrentes do processo penal são ine-
jurídico a'plicável. Pretensão sem fundamento e aÍlrmaçao merme e mutIl, como
de ação penal pública, ou do ofendido, gáveis e constituem graves sofrimen- o disse CARNELUTTI" (Elementos de Direito Pro()essual penal, II, Rio de Janeiro,
p. 156).
(7) WEBER MARTINS BATISTA, O Problema do Arquivamento, cit., RJTJEG,
(3) SÉRGIO DE ANDRÉA FERREIRA, Algumas Sugestões para a Reforma do 19/60 .
Código de Processo Penal, in Rev. de Direito do Ministério Público do Estado da (8) WEBER MARTINS BATISTA, id., 19/61.
G1M1Jnabara (RDMPEG), 3/29. (9) SÉRGIO DE ANDRÉA FERREIRA, Algumas Sugestões, cit., RDMDEG, 3/29.
(4) LUIZ EDUARDO RABELLO, Lesões Corporais Culposas. Processo Swmário. (10) WEBER MARTINS BATISTA, O Saneamento, cit., p. 49.
Habeas Corpus de Ofício, in RDMPEG, 10/191. (11) WEBER MARTINS BATISTA, O Prob6::ma do Arquivamen,to, cit., RJTJEG,
(5) Diário Oficial da União, suplemento ao TI. o 118, de 29-6-1970 .. 19/57.
(6) WEBER MARTINS BATISTA, O Saneamento no Proce~8o Penal, _RIO de; a- !
neiro, 1971, p. 49. Na lição de JosÉ FRF.;DERIOO MARQUES, 'a pretensao punItIva
113
112
rio, a concessão de habeas corpus de to, no art. 654, § 2.°", segundo a lição não é inconstitucional porque, enquanto para processar também é ó delegado,.
ofício previsto no art. 654, § 2.0, do de EDUARDO ESP\ÍNOLA FILHO". (20) corre perante a autoridade policia], .o segundo o Código de Process~ Pena>!.,
Código". (17) Realmente, lia-se no art. 344 do Código procedimento não passa de instrução Tanto que pro<:essa. Não pudesse prO'"'
Mas tem procedência a crítica de de Processo Criminal do Império não processual, de caráter contradi- cessar, por fôrça da afual Constihliçã.c'
WEBER MARTINS BATISTA: "a solução, (1832): independentemente de petição, tório". (12) federal ,e o processo Ipolicial, irremg..-
no entanto, não é feliz. Como lembra qualquer juiz pode fazer passar uma Mas o verdadeiro motivo está na li- diàvelmente, teria que ser reproduzidd
COSTA MANSO, nenhum juiz pode con- ordem de habeas COl/'pus ex officio, tô- ção de EPAMIN'ONDAS PONTES: "quan- em juízo ou não poderia servir de bass
ceder habeas corpus contra ato do pró- das as vêzes que no curso de um pro- do o art. 26 do Código de Processo à sentença". (14)
prio juízo. A ordem só tem cabimento cesso chegue ao seu conhecimento por Penal estabelece que nas contravenções Não é inconstitucional, portanto, a
quando a coação provém de autoridade prova de documentos ou ao menos de a ação penal será iniciada com o auto Lei n. o 4.611. Tribunal algum jamais
diversa daquela que tem o processo sob uma testemunha 'jurada, que algum ci- de prisão em flagrante ou por meio de declarou inconstitucional essa lei.
SUa direção, pois seria totalmente iló- dadão, oficial de justiça ou autoridade portaria expedida pela autoridade judi-
gico que o juiz ordenasse a medida a pública, tem ilegalmente alguém sob ciária ou policial, está excluindo ° in- 3 - Para Lurz EDUARDO RABELLO
si próprio". E mais: "a medida é, quérito policial. E está igualando o "a solução para tais casos se encontr~
sua guarda ou detenção. Nos têrmos no próprio Código de Processo Penal
ainda, desnecessária. Se o juiz enten- juiz ao delegado de polícia". (13) Es-
de ilegal a coação, na hipótese em que
do art. 48 do Decreto n.o 848, de 11
clarece o jurista: "está na Constitui- em seu art. 654, § 2.°, que estabelec~
de outubro de 1890, independentemente o seguinte: os juízes e os tribunais
concede o hl1Jbeas corpus, basta revogar ção federal que notícia do auto de pri-
de petição, qualquer juiz ou tribunal têm competência para expedir de ofí-
o ato que a determina". (18) são em flagrante seja dada, imediata-
federal pode fazer passar uma ordem cio ordem de habeas corpus quando, no
EPAMINONDAS PONTES tenta refutar mente, a um juiz togado, que é o ver-
de habeas corpus ex officio tôdas as curso do processo, verificarem que al-
o argumento: "é evidente que o juiz dadeiro juiz natural do indiciado. Mas
vêzes que no curso de um processo che- guém sofreu ou está na iminência de
que liberta não é a autoridade que co- isto não significa não seja o delegado
gue ao seu conhecimento, por prova sofrer coação ilegal". (15) Caberia ao
age. A coação ilegal decorre do pro- o primeiro juiz natural do suspeito,
instrumental ou ao menos deposição de juiz expedir ordem de habslas corpus
cesso e êste existe, com as característi- apenas, agindo êle como juiz delegado"
uma testemunha maior de exceção que com fundamento no art. 648, I, do Có-
cas que assumiu, até que o juiz o anule (o grifo é do original) . E adiante,
algum cidadão ,oficial de justiça ou digo de Processo Penal (a coação con-
pelo hIJJbeas corpus. A coação é exer- insistindo na tese relativa à função
autoridade púplica tem ilegalmente al- siderar-se-á ilegal quando não houver
cida pela autoridade que inicia o pro- exercida pelo delegado de polícia: "é
guém sob sua guarda ou detenção. justa causa).
cesso". (19) que tem êle, também, na essencialidade
A expedição de ordem de habeas cor- Escreve o jurista: "com efeito, mui-
Improcede a objeção. Não é do pl/'O- de sua função clara afinidade com o
pus, prevista pelo § 2. 0 do art. 654 do to embora provadas, em muitos casos,
cesso que decorre a coação. Esta é Ministério Público, dando o primeiro
Código de Processo Penal, supõe seja a autoria e a materialidade do evento,
sempre ex-etrcida por alguém (Código de impulso ao processo. Veja-se que exer-
a coação exercida por outra pessoa que não chega êle a constituir crime por
Processo Penal, art. 654, § 1.0 , a, in ce função de polícia judiciária. E ela
fine) . Se quem exerce a coação é "a não o juiz ao qual está afeto ° pro-
é polícia tanto quanto é Ministério PÚ- lhe faltar a car~terização,por lhe
autoridade que inicia o processo", ela
cesso. Ressalva-se, é evidente, a com-
petência do tribunal de segunda ins-
blico e é judiciária tanto quanto é fun- faltar° elemento constitutivo da culpa
é, no fundo ,exercida pelo próprio juiz, ção auxiliar do juízo". Sustenta que e, assim, não há crime a punir 'e, não
tância. Mas ao juiz de primeiro grau havendo crime a punir, não há justa
uma vez que a autoridade policial age .. êle é delegado do Poder Judiciário
é defeso conceder habea.g corpus, pois causa para o processo penal". (16)
pOr delegação judicial, tal como ensina quando inicia as ações penais exercen-
expediria a ord'em contra si próprio.
EPAMINONDAS PONTES, conforme se viu do a chamada polícia repressiva ou ju- A.solução em aprêço merece os aplau-
acima. 4 - Informa WEBER MARTINS BA- diciária ,tendo, então, sua atividade re- sos de EPAMINONDAS PONTES: "nas hi-
Descabe a concessão de habeas COI/'- TISTA, referindo-se a juízes, que "al- gulada pelo Código de Processo Penal póteses em que o juiz rejeitaria a de-
pus. Nenhuma inovação introduziu o guns entenderam de realizar o julga- e leis penais extravagantes". E arre- núncia, pelas ilegalidades enumeradas
art. 654, § 2.°, do Código de Processo mento do acusado, para absolvê-lo, no mata, afirmando ser o delegado com- no art. 43 do Código de Processo Pe-
Penal, ao contemplar o habeas corpus próprio dia do interrogatório, marcado petente para processar: "e competente naI ,caberá ao juiz, no processo sumá-
de ofício. Antes, "é a tradição do nos- em pauta especial, com o que se pre-
so processo, que se vê mantida, portan- tendia livrá-lo, o mais depressa pos-
(12) WEBER MARTINS BATISTA, id., IV/57.
(13) EPAMTNONDAS PDNTES, O Arquiva,mento do Processo na Lei n. o 4.611,
(17 EPAMINONDAS PONTES, O Arquivamento, cit., RJTJEG 21/29. de 1965, in RJTJEG, 21/27.
(18) WEBER MARTINS BATISTA, O Saneamento, cit., p. 50. (14) EPAMIN'ONDAS PONTES, O Arquivamento, cit., R.JTJEG 21/30,31, 32 e 34.
(19) EPAMINONDAS PONTES, O Arquivamento, cit., RJTJEG, 21/36. (15) LUIZ EDUARDO RABELLO, Lesões Corporais Culposas, cit., RDMPEG~
(20) EDUAoRDO ESPÍNOLA FILHO, Cóçmgo de Processo Penal Brasileiro Ano- 10/191.
tado, VI, Rio de Janeiro, 1944, p. 403. (16) LUIZ EDUARr:iJ RABELL<O, ob. cit., 10/192.

114 115
sível, dos vexames e dos gastos do pro- ceiro caso, o da falta de provas contra
cesso". Êle próprio 'mostra os inconve- o indiciado, é que poderá oferecer al-
nientes da providência: "a solução, guma dúvida. Geralmente, os arquiva-
mentos são determinados quando, sendo poderá proceder a novas pesquisas, se jeitada quando: I - \ o fato nanauo
com não enfrentar o problema jurídi~ de outras provas tiver notícias. Dêsse
esta falta irremediável, as lesões so- evidentemente não constituir crime'
co, apresentou senos inconvenientes modo, vê-se que o arquivamento não é II - já estiver extinta a punibilida:
fridas são levíssimas (pela considera-
práticos, dado que o despacho "A inter- julgamento, não extingue a possibili- de, pela prescrição ou outra causa;
ção de que de minimis non curat prae-
rogatório e julgamento" implicava em tor) ou foram produzidas em membros dade de ser o indiciado novamente per- III - fôr manifesta a ilegimitade da
prejulgamento do caso, de desastrosas da família do próprio autor (já puni- seguido em juízo pelo mesmo fato. Jul- parte ou faltar condição exigida pela
conseqüências. .. financeiras". (13) do, de certa forma). Inexiste aqui, do gado por sentença com provas defi- lei para o exercício da ação penal. A
5 - Partindo do pressuposta de que, mEsmo modo, legítimo interêsse para cientes, o processo jamais será reaber- analogia é expressamente admitida pelo
"ao receber o juiz os autos da autori· prosseguir no feito ,que se mostra ab· to (omissis). Como é sabido, as nossas art. 3. 0 do mesmo código: a lei proces-
dade policial, ainda não existe rela- solutamente inviável". A solução é, leis não consagram a revisão contra o sual penal admitirá interpretação ex
ção processual, instaurada não está a sempre, o arquivamento. (23) réu". (26) tensiva e aplicação analógica, bem como
Opondo-se a essa tese, EPAMIN'ONDAS Sem dúvida, nos têrmos do art. 26 o suplemento dos princípios gerais de
instância", WEBER MARTINS BATISTA
PONTES mostra que "de arquivamento do Código de Processo Penal, a ação direito.
sustenta que "a situação é análoga à
da ação penal em exame por analogia 1Jenal se inicia com o auto de prisão Assim como a denúncia pode ser re-
do procedimento comum, na ocasião em em flagrante ou por meio de portaria. jeitada nas hipóteses previstas pelo
com o inquérito policial não se pode co-
que o juiz recebe os autos de inquérito Não tem cabimento, portanto, arquivar art. 43 do Código de Processo PEnal,
gitar, primeiro, porque há lei aplicável
policial, e sendo assim, é possível seu ia'Ção penaL O feito, uma vez iniciado, o auto de prisão em flagrante ou a
(o. Ministério Público não pode desistir
arquivamento, pois o Processo Penal da ação penal) e, segundo, porque o deve findar por f]entença. portaria seriam igualmente rejeitados
acolhe, expressamente, a analogia (Có- arquivamento (O'Inissis) seria providên- 6 - Outras soluções alvitradas se- pelo juiz, nas mesmas hipóteses.
digo de Processo Penal, art. 3.0) ". (22) cia contra o réu". (24) Também LUIZ riam a absolvição do réu da instância A esta solução, pode objetar-se que
Distingue WEBER MARTINS BATISTA EDUARDO RABELLO afirma "a impossi- e a anulação do processo. a rejeição da denúncia ou queixa só
três casos: 1.0 - o fato narrado é bilidade de requerer o arquivamento de Fiel à tese de que "quando o juiz tem cabimento porque ainda não ini-
realmente atípico (ex.: auto-lesão cul- tais processos por incabível tal pedido recebe o procedimento da polícia, ainda ciada a ação penal, o que não sucede
posa); 2. 0 - há prova de que o indi- em ação penal já em andamento e por não está instaurada a instância, o que m'. hipótese em debate, pois a aç.ão
ciado não agiu culposamente; 3.0 - não poder o Promotor Público desistir só ocorrerá com a notificação do acusa- penal já se acha em curso quando o
não há prova contra o indiciado. Nos de ação penal já intentada". (25) do para o interrogatório, se se der juiz recebe o processo da autoridade
dois primeiros casos, impõe-se o arqui- EPAMIN'ONDAS PONTES assim explicita prosseguimento ao feito", (27) WEBER policial.
vamento do feito. "No primeiro, por seus argumentos: "a lei só prevê ar- MARTINS BATISTA escreve que "não 8 - Outra solução que poderia ser
im;possibilidade jurídica do pedido. quivamento para inquérito policial e cabe ao juiz absolver o réu da instân- lembrada é a da aplicação analógica
Inexistindo a figura típica da auto-le- ação penal que se inicia na polícia não cia, simplesmente porque ainda não do art. 409 do Código de Processo Pe-
são, o fato narrado não constitui cri- é inquérito nem é a êle equiparável, existe instância, nem anular ab initio nal: se não se convencer da existên-
me (Código de Processo Penal, art. 43, simplesmente por ser o que a lei e a o pro(!esso, pela mesma razão de ine- cia do crime ou de indício suficiente
I). No segundo, porque, colhida tôda doutrina destacadamente, denominam xistir processo em sentido estrito". (28) de que seja o réu o seu autor, o jui7.
a prova de acusação, demonstrado, ir- de ação penal". Isto, quanto ao pri- Tal construção jurídica não se com- julgará improcedente a denúncia ou a
retorquivelmente, que o indiciado não meiro argumfnto, porque ,relativamen- padece com a regra contida no art. 28 queixa. Transpor-se-ia a impronúncia,
agiu com a menOr parcela de culpa no te ao segundo, é o arquivamento "do do Código de Processo Penal. Entre- instituto típico do processo dos crimes
evento ,devendo-se êste, tão-s'omente, à ponto-de-vista do interêsse verdadeiro tanto, a lei processual penal não per- da competência do júri, para o pI'oces-
imprudência da vítima, falece legítimo do réu, indesejável e ilegal". Re·almen- mite seja o réu absolvido da instância so dos crimes a que se refere a Lei
interêsse ao Estado para prosseguir no te, "segundo o art. 18 do Código de nem a anulação do feito encontra am- n.o 4.611.
Processo Penal, a autoridade policial paro no art. 564 do Código de Processo Recebendo os autos da autoridade
feito. .. (idem, art. 43, III). O ter-
Penal. policial, o juiz, de ofício ou a requeri-
7 - Para alguns juristas, a solução mento . do acusado ou do Ministério
(21) WEBER MARTINS BATISTA, O Samewrrw,ento, cit., p. 49. do problema está na aplicação analó- Público, absolveria sumàriamente o réu,
(22) WEBER MARTINS BATISTA, O Problema d!o Arquivamento, cit., in gica do art. 43 do Código de Processo a ocorrer qualquer das hipóteses já
RJTJEF 19/57 e 58. Penal: a denúncia ou queixa será re- aventadas.
(23) WEBER MARTINS BATISTA, id., RJTJEG, 19/62.
(24) EPAMINONDAS PONTES, O Arquivamento, cit., RJTJEG 21/34.
(25) LUIZ EDUAROO RABELL:O, Lesões Corporais, cito RDMPEG 10/191. (26) EPAMINONDAS PONTES. O Arqtdv>:''11'vento, cit.. R,JT.TEG 21/25 e 2'6.
(27) WEBER MARTINS BATISTA, () Sanewmentn. cit., p. 51.
116 (28) WEBER MARTINS BATISTA, O Problema do Arqu:vamento, cit., RJTJEG.
19/58.

117
É de se preferir a denominação - afastada por categórica declaração da
absolvição sumaria - porque mais lei penal, à vista de causa expressa,
consentâneas com a absolvição que re- excludente da punibilidade, da crimina-
sultaria do julgamento final, se o feito lidade ou da responsabilidade". (30)
prosseguisse normalmente. Impronúncia CÂMARA LEAL especifica as hipóteses,
destoa. em que se dá a impronúncia e aquelas
Distingue-se a impronúncia (art.409) em que se verifica a absolvição sumá-
da absolvição sumária (art. 411). Ad- ria. (31) Com razão, pondera EDUARDO
verte MARIA STELLA VILLELA Souro: ESP'ÍNÜLA FILHO: "não vemos por que
"convém não confundir impronúncia não alargar a noção, para estender, i

com absolvição. N esta, é condição es- como merece, a absolvição sumária às A REFORMA DO APARELHAMENTO PENITENCIÁRIO
sencial a existência do crime o indício hipóteses da provada inexistência de
da autoria; pode um fator jurídico de crime (inocência do fato imputado) e DA ARGENTINA
importância, todavia, fazer com que o da autoria definitivamente afastada,
julgador absolva o réu sumàriamente. pois é mais significativo, para a pes-
Na impronúncia, não há certeza da ma- soa denunciada ou incriminada numa Um exemplo a segmr
t"rialidade do crime, como, por igual, queixa recebida pelo juiz, o ser absol-
não há certeza da autoria. Pode OCOr- vido, do que o ser impronunciado" (32}
rer, neste caso, que a prova colhida na No julgamento dos processso a que CESAR SALGADO
instrução não provou a acusação; pode se refere a Lei n.o 4.611, dar-se-ia a
ter sido vaga a imputação feita, atra- absolvição sumária sempre que o ma-
vés de depoimentos imprecisos e su- gistrado, recebendo os autos da auto- CONGEPCIÓ.N ,ARENAL, cujo nome é registro e louvor a obra que vem sendo
perficiais. Disso resulta a nenhuma ridade policial ,verificasse a absoluta citado entre os dos mais ilustres pre- realizada na Argentina, graças à visão
certeza do magistrado, que não vê ou- cursores do penitenciarismo científico, dos homens que, nesse país, tratam do
inviabilidade do mesmo, ante a inexis-
tra solução melhor que a impronúncia escreveu há quase um século: "Dizei- problema da criminalidade.
tência de fato típico (falta de possibi-
do acusado". (2'9) me qual é o sistema penitenciário de
lidade jurídica do pedido) ou ante au-
Nesse sentido é a lição de EDUARDO povo e eu vos direi qual é sua jus- ANTECEDENTES HISTóRICOS
sência de culpa do agente (falta de le- tiça" (1).
EspiNÜLA FILHO: "dá-se a impronún- DE UMA CONSCIÊNCIA.
cia (o'IJtissis) como conseqüência da gítimo interêsse).
Se a insígne autora dêsse enunciado
exigüidade, da insuficiência da prova, Tratar-se-ia de verdadeira sentença, voltasse ao mundo, nos dias de hoje, Quando se diz que determinado povo
quanto à própria existência material não de mero despacho, pois o juiz apre- ela haveria de reconhecer, melancolica- tem a consciência de uma grandeza, em
do delito, quanto à autoria, ou quanto ciaria o fundo da causa, como explica mente, que o problema penitenciário con- qualquer domínio do pensamento hu-
a uma e outra. Para a absolvição, in- EDUARDO ESP,Í.NOLA FILHO. (33) Com tinua desafiando a ação dos homens de mano, isso significa que as categorias
vés, mister é que haja um crime, de- a prolação da sentença de absolvição consciência e de responsabilidade, em mais representativas do espírito de tal
finitivamente provado na sua existên- sumária, o feito chegaria ao seu final, face das graves lacunas de que ainda povo rendem culto àquela grandeza,
cia material, a punir, e que indícios sem os inconvenientes apontados com se ressentem os regimes de aplicação que tanto pode ser moral, científica ou
sérios e bastantes apontem a autoria referência às demais soluções exami- da pena. artística.
do acusado, cuja punição é, entretanto, nadas. É realmente de surpreender o con- Com êsses pressupostos, é lícito afir ..
traste que perdura, mesmo em países de mar que, na Argentina, mais do que
civilização milenária, entre as afirma- em qualquer outra região latino-ame-
ções teóricas e as realizações práticas, ricana, há uma "consciência peniten-
no setor penitenciário. ciária".
É certo que algo de meritório se tem Essa realidade resulta da clarividên-
(29) MAR,IA STELLA VILLELA SÜUTO, ABC do Processo Penal, II, Rio de Ja- cia de estadistas e do trabalho de cien-
neiro, 1959, p. 42. feito, aqui e ali, de acôrdo com os mo-
(30) EDUARDO EspíNOLA FILHO, Código dg Processo Penal Brasileiro Ano- dernos preceitos da ciência peniten- tistas, interessados, desde velhos tem-
tado, IV, Rio de Janeiro, 1942, p. 165/166. ciária. E, nesse particular, é digna de pos, no aprimoramento das normas le-
(31) CÂMARA LEAL, Comentários ao Código de Processo Penal Brasileiro, III,
Rio de Janeiro, 1942, p. 71 e 76/77.
(32') EDUARDO EspíNOLA FILHO, ob cit., IV, p. 182. (1) CONCEPCIÓN ARENAL, Obras Completas, voI. X, Las colonias penales
(33) EDUARDO ESPÍ.N'OLA FILHO, Id, p. 167. de Australia y la. pena de deportación, Madri, 1895.

118 119
gais e dos recursos materiais para a princlplOs estabelecidos na Europa e diretores, ela se converteu, em estabele- problema penitenciário, através dos co-
aplicação de uma sábia política cri- nos Estados Unidos (2). cimento penal modêlo, onde se tornou nhecimentos científicos quk adquiriu c'
minal. Se não houvesse SAN MARTIN mereci- possível a aplicação de um regime cien- da prática a que se dedicou, BALLVÉ agiu,
Nas crônicas das origens do peniten- do, por outros altos títulos, o lugar pro- tífico e humano. como um autêntico precursor das reali-
ciarismo argentino, um nome se apre- eminente que ocupa, entre os grandes Dentre os seus primeiros diretores, zações modernas do penitenciarismo ar-
senta, de maneira surpreendente: o de vultos do continente americano, basta~ destacou-se HENRIQUE O'OONOR, cuja gentino. Sua obra transcendeu os li-
SAN MARTIN. Pois êsse herói de legen- ria a sua atuação pioneira em meio à atuação foi consagrada por JosÉ RER- mites de sua pátria para projetar-se nos
dárias façanhas ,uma das figuras mais selva selvaggia da aplicação da pena. NANDEZ no poema da Raça, MARTIN centros científicos da Europa e da Amé,
gloriosas da história das Américas, não naquêles remotos tempos, - para con- FIERRO: rica. Eis o autorizado testemunho de·
desdenhou de instruir-se em assuntos sagrá-lo como um benfeitor da huma- GARCIA BASA'L{): "Su nombre, rodeado
penológicos, através dos trabalhos de nidade. "Grabenló como en la pfudra dle prestigio cientifico, fué difundidlY
FILANGIERI, BENTHAM e LARDIZABAL. Com êsse áureo antecedente, a Ar- Cuanto he clicho en este com to. por doqttier por los juicios críticos de
E, de seu interêsse no referente ao tra- gentina dava testemunho de sua vo- Y aunque 'yo he sufrido tanto GUGLIEM-D FERRERO (1), CONSTANcm
tamento dos prêsos, dá testemunho o cação histórica no campo penitenciário. Debo confesarlo aqui: BERNNL,DO DE QUIRÓS (2), GINA LOM-
famoso ofício que, na qualidade de go- E não tardou muito para que outro El hombre quemarnda allí BROS'Ü (3), ENRIQUE FERR! (4), y de pu-
vernador de Mendoza, enviou à Muni- expressivo documento, o Projeto de Có- Es poco 1nenos que un santo". blicaGÍones especializadas co'mo la Se--
cipalidade dessa capital, em 25 de março digo Penal, de CARLOS TEJEDOR, con- 'l'naine Medicale, de París (5). No hubo
de 1816. vertido em lei, em 1886, mencionasse. ANTONIO BALLVÉ, Mestre e Exemplo. en nuestro n;zedlio iniciativa penitencia-
Nêsse documento, SAN MARTIN ciente pela primeira vez, na legislação latíno- ria de d1,)"áter legislativo o administra-
de que os prêsos do cárcere local só americana, o "regime penitenciário", Durante pouco mais de um quarto de tivo qt~e dejara de avalarse c:on la obra
recebiam uma refeição por dia, pede com finalidade corretiva. sé~ulo) a Penitenciária de Buenos Aires, IY el n01nbre de BALLVÉ. Aún hOiY, cada
providências para sanar essa grave irre- Imbuidos dos princípios científicos não obstante as crises políticas que o vez que se rastrea en 131 pasado una fi-
gularidade, por quanto - ponderou - que apontavam novos rumos aos méto- país atravessou ,manteve-se como pa- gura p.,tniternciaria de relieves propios,.
aquêles reclusos, embora delinqüentes, dos de imposição das sanções penais, drão para a América Latina. surge natura,lmente su nO'l'l'/..bre, aunque
não deixavam de ser homens. E, ainda: cogitaram os penitenciaristas argenti- Nas outras regiões do continente, per- quienes lo evoquen muchas veces no 00-
"Muitos dêles sofrem prisão meramen- nos de construir um presídio, dotado dos: duravam ainda os' presídios tipo mas- nozcan ni sospe'chen su trasccndencia."
te preventiva COmo supostos réus. Os melhores recursos, preconizados na morra, destituídos das mais elementares En 1924, estando FERRI I[n L011dres,
cárceres não são um castigo, mas um época. Assim, tiveram início em 1872 condições de habitabilidade. con motivo dei IX Congreso penitencia-
recolhimento de custódia ao que deva as obras da Penitenciária de Buenos: Assim era no Brasil. A Penitenciá- rio Internacional, a 16 anos de la dcsa-
recebê-lo" . Aires, planejada pelo engenheiro FRE- ria de São Paulo demoraria ainda parici6n de BALLVÉ escribió: "He CO'l'f1,-
E dizer-se que o grande capitão, DERICO BUNGEl, e considerada desde logo algum tempo para nos redimir, em probado. " con vivo p/acer ~(1; refonna
eleito pelo destino para as tarefas de como uma das mais acabadas concep- parte, do lamentável atraso em que nos penitenciaria que harealizado la Ar-
liqertação de povos irmãos, assim se ções de arquitetura presidiária, em es- encontrávamos no setor penitenciário. gentina. Auguro 'Y confio' que mi amiga
manifestou há ma,is de cento e cin- ,tilo radial, de co:n1'ormidade com as E, ao ser inaugurada, em 1920, na pla- EUSEBlO GOMEZ hará revivir lem la pe-
quenta anos, quando se ignoravam em prescrições do sistema auburniano. "O nície do Carandiru, já se contavam de- nitenciária Nacional de Buenos Aires.
terras latino-americanas os mais ele- edifício construído por BUNGE é um dos zeseis anos que ANTÔNIO BALLVÉ como elalma sapiente de humanidlqd que cl
mentares preceitos do nôvo ordenamen- mais perfeitos que se conhecem e su- diretor da Penitenciária de Las Heras, inolvidable ANTÔNIO BALLVÉ habia ele-
to penitenciário! perou os seus congêneres de latino- havia instituído, nesse estabelecimento vado alli".
Outro fato que atribue a SAN MARTIN america pela beleza de suas formas presidiário, com antecedência sôbre os "BALLVÉ por su carácter, por su ca-
as credenciais de precursor do peniten- e acerto de sua distinção funcional" - seus congêneres da América Latina um pacidad administrativa, por su forma-
ciarismo nesta parte do continente ame- lê-se em GARCIA BASADO (3). regim" científico para a reabilitação do ción 'Y por su experiencia, es nttest1'o
ricano é "a reforma carcerária e peno- Inaugurada em 1877, a Penitenciária delinqüente. arque tipo de penitenciarista. Su aporte
lógica do Peru - a primeira na Amé- de Buenos Aires influiu grandemente É lícito dizer-se que BALLVÉ está para aI desarrollo progresista de nuestro ré-
rica do Sul - sob o critério de maior no aprimoramento do sistema peniten- o penitenciarismo americano como OON- gimen penitendario es fundamental y
humanidade na aplicação da pena e ciário argentino. CF,pCIÓN ARENAL e MONTESINOS para o per1nanente'" (4).
tratamento dos delinqüentes, segundo os Pela dedicação e capacidade de seus espanhol. Que melhor elogio podia merecer AN-
Orientado por sua larga visão do TÔNI-O BALLVÉ, "Mestre e Exemplo"?
(2) ELIAS NEUMAN. EiJoluci6n de la pena privativa de libertad y regúnenes
carcelarios. págs. 87 a 89, Buenos Aires; 1971.
(3) GARCIA BASALO, Ballvé, Penitenciarista, pág. 7, Buenos Aires, 1958. (4) GARCIA BASALO, op. cit., págs. 27, 28 e 31.

120 121
OUTROS NOMES ILUSTRES São êsses, além de outros, os homens gamco, que abarca os múltiplos aspec- pamento de Santo Humberto, também
que têm contribuido valiosamente para tos do problema penitenciário. À vista de tipo aberto, e pelo Setviço Crimino-
BALLVÉ, não criou propriamente um situar a Argentina em pôsto de van- do que já foi feito e do que se procura lógico.
sistema penitenciário original, nem pre- guarda no setor penitenciário. fazer, o observador verifica que aquêle O que impressiona nesses estabeleci-
tendeu fazê-lo. Mas conseguiu algo de Entre os novos, que já se distinguem programa, fruto de acurados estudos, mentos penais, mesmo no de segurança,
maior magnitude, porque permanente: por seus trabalhos científicos e suas foi elaborado com a preocupação de aten- máxima , é o ambiente de humanidade .
Foi êle o criador da consciência ,peni- tarefas administrativas ,dois nomes re- der às diferentes situações conseqüentes que nêles se respira, sem. q~alqu:r .m-
tenciária da Argentina, fator virtual clamam especial menção: o de JUAN da incidência do crime. dício dos estigmas da prIsao claSSIca.
de tôdas as realizações da política pe- CARLOS GARCIA BASADO, subdiretor geral Com êsse objetivo, planejaram-se os A higiene é irrepreensível; a alimen-
nitenciária dêsse país. do Serviço Penitenciário F'ederal e' pro- "complexos penitenciários", que reunem tação sadia e farta; os dormitórios,
Não sei de outros países americanos fessor da Escola Penitenciária, peniten- estabelecimentos diversificados para a amplos e arejados; e, ainda, a ~apela,
que possam ufanar-se de possuir, como ciarista autêntico pela sua cultura cien- melhor individualização administrativa a biblioteca, o salão de atos, o cmema,
a Argentina, uma "consciência peniten- tífica,- seguro conhecimento dos proble- da pena. , o rádio a televisão, as oficinas. Todos
ciária", isto é, uma convicção radicada mas de sua especialidade e, sobretudo, N a zona urbana de Buenos Aires e os recu'rsos, enfim, para que a prisão
e definitiva do sentido e da importância pela sua identificação integral com a na sua periferia situam-se várias uni- antes de deformar a personalidade do
dos problemas atinentes à execução da causa a que se devota; e o de ELIAS dades carcerárias e anexos como a homem possa oferecer-lhe meios de res-
pena privativa da liberdade. NEUMAN, professor resignatário da Uni- Prisão da Capital Federal, o Instituto gate d~ falta cometida e de readmissão
Que êsse fato é real basta atender versidade de Buenos Aires, jovem inte- de Detenção, o Serviço Psiquiátrico Cen- no convívio social.
aos nomes não só de eminentes peniten- ligência e nobre caráter que bateu pre- tral, o Instituto de Classificação, o O Instituto Correcional Aberto de
ciaristas, mas também de penalistas e cocemente às portas da fama científica Acampamento de Trabalho Agrícola de General Pico é, por assim dizer, a
eriminologistas que ali se vêm suceden- com o livro Prisión Abierta, o qual é, Ezeiza, o Instit.uto de Menores Adultos ante-sala da liberdade e, pelos métodos
do, com projeção internacional, desde sem favor, o que de melhor se escreveu Dr. Luiz Agote e, ainda em construção, que adota, o mais avançado entre os
,sAN MARTIN e BALLVÉ até os de nossos na literatura latino-americana sôbre o o Instituo Correcional de Menores e o seus congêneres, em qualquer parte do
dias. São os herdeiros de um legado assunto. Presídio de Sentenciados Careel de En. mundo.
:secular, conscientes dos deveres que lhes São dessa estirpe os homens que, cauzados. Os internos que ali se encontram mais
cabem em face do passado, do presente desde velhos tempos, conquistaram para Em todos os institutos, já em fun- parecem hóspedes de uma confortável
e do futuro. a Argentina a posição de assinalada cionamento, o que se observa, além de pensão familiar do que homens em des-
Quem, medianamente versado nas proeminência em que ela se encontra condições materiais adequadas à finali- conto de pena. Com as prerrogativas
'Ciências que estudam o crime e o cri- no cenário do penitenciarismo ame- dade de cada um, é a aplicação do re- de qualquer operário livre~ êles tra-
minoso, desconhece os, méritos de CARWS ricano. gime competente por pessoal absoluta- balham nas indústrias da CIdade, onde
TEJEDOR, já citado, penalista insigne, São êles que explicam e justificam mente idôneo, desde os de superior elas- se fazem apreciados e até preferidos
que ditou linhas mestras do primeiro a evolução do sistema penitenciário ar- sificacão hierárquica aos agentes subal- pelo cabal desempenho de su.a~ tarefas.
Código Penal da Argentina em vigor de gentino, sob critério estritamente cien- terno~. E é precisamente da disponibili- Quem conhecer além da prIsao ~berta
1866 a 1922'? Quem não teria ouvido tífico, livre da influência malsã de in- dade de um quadro de funcionários de General Pico, as norte-ameI'lca~as
falar em JosÉ INGElNIEROS, universal- terêsses inescusáveis. científica e moralmente habilitados para de Chino, na Califórnia e de Seagovllle ,
mente reconhecido como um dos mais Foi essa mentalidade, que propiciou os misteres da aplicação da pena, que no Texas, comumente citadas como pa-
ilustres sistematizadores da Criminolo- a criação do Instituto de Criminologia resulta a superioridade do regime pe- radigmas, há de convir em que a do
gia? E EUZÉBIO GOMEZ, penalista dou- de Buenos Aires, em 1907, o primeiro nitenciário da Argentina. Pampa argentino é a que mel?~r s.e
blé de penitenciarista, continuador e de igual tipo do mundo, com a priori- caracteriza entre tôdas pela orlgmah-
atualizador da obra de BALLVÉ na Pe- dade de um ano sôbre o Serviço de An- o COMPLEXO PENITENCIÁRIO dade e eficiência de seus métodos.
nitenciária de Buenos Aires? E JUAN tropologia, instituído por VERVAECK, na DA ZONA CENTRO Desnecessário seria acentuar que os
JOSÉ 0'OONN10R, que soube manter, na Bélgica, em 1908. resultados positivos obtidos no Com-
mesma altitude o regime dêsse estabele- Em plena região do Pampa, a cêrca plexo penitenciário da Zona do Ce?tro
cimento penal, quando lhe coube dirigi- A ATUAL REFORMA DO APARE- ,de noventa quilômetros de Buenos Aires, bem como em outros conjuntos. pelllt~n­
lo? E ainda outros preclaros cientistas LHAMENTO PENITENCIÁRIO DA situa-se o "Complexo Penitenciário da ciários da Argentina, não terIam SIdo
que também se distinguiram no trato ARGENTINA Zona Centro," integrado pelas duas uni- possíveis se o pessoal dêsses órgãoS ca-
das disciplinas penais como OSWALDO dades penais de Santa Rosa, respectiva- recesse da imprescindível formação pro-
LOUDET, PAZ ANCHORENA, JOSÉ PEOO j Os últimos empreendimentos no setor fissional.
mente de segurança máxima e de se-
.T. EDUARDO OOLL, ALFREDO MOLINÁRIO, ' penitenciário, da Argentina, no âmbito A necessidade de se dispor de pessoal
gurança média, pelo Instituto Correcio-
FONTAN' BALESTRA e SEBASTIÁN SOLER? fede'I'al, resultam de um programa or- especializado para a correta aplicação
nal Aberto de General Pico, pelo Acam-

122 123
tegorias para o serviço dos estabeleCi- ch.arel em Ciências Penitenciárias", vá-
mentos penitenciários. lido vara o ingresso nos cursos univer-
O corpo Penitenciário é um órgão' de· sitários.
do regime penitenciário evidenciou-se achar-se muitos políticos falazes de- .características militares, baseado na .A importância da Escolfl Penitenciá-
desde o momento em que as leis penais cambulhada com pseudo-penitenciaris-· .disciplina e na hierarquia, com a finali- ria da Nação é reconhecida não só na
descóbriram o criminoso. tas, cujo élan se exaure em discursos dade precípua de servir nas instituições Argentina, mas em outros países ame-
Êsse fato, de suma importância na declama tórios. .do setor penitenciário. ricanos, que se beneficiam das bôlsas de
evolução do direito penal, teria ocor- N a Argentina, em boa hora, com- estudo oferecidas por aquela Escola,
rido com a promulgação do Código Pe- Os interessados em seguir as carrei-
preendeu-se que era chegado o momento ras abrangidas pelo programa dês se como a Bolívia, o Chile, a Colômbia,
nal italiano de 1930, segundo a enfática de realizar na prática o que se pro- Costa Rica, Equador, Estado Livre
.órgão, devem cumprir os cursos da Es-
afirmativa do néo-positivista MÁRIO clamava em teoria. Associado de Pôrto Rico, Honduras,
CARRARA: "Ecco dt~nqwB que in uno cola Penitenciária a elas corresponden-
E, com êsse objetivo, estruturou-se- tes. Tais cursos são de nível superior Guatemala, México, Nicaragua, Pana-
CocJice pena.le si lJaTla final'mente dei um organismo para o preparo técnico- má, Paraguai, Peru, República Domi-
TeOr' .para os que se destinam a funções do-
ciêntífico dos candidatos ao serviço pe- centes ou de chefia; e de nível secun- nicana, Salvador, Uruguai e Venezuela.
MÁRIO CARRARA poderia ter dito ainda nitenciário: é a Escola Penitenciária O Brasil não figura nesse rol, em
que o mesmo Código, no art. 89, atenua dário para os aproveitados em serviços
da Jl.l"ação, criada no govêrno do pre- subalternos. em virtude da omissão do govêrno de
~. responsabilidade do réu afetado de
sidente Peron, por decreto de 13 de Embora o Corpo Penitenciário seja São Paulo, quando do oferecimento de
doença mental. duas bôlsas para freqüência. do ins-
dezembro de 1947, e regulamentado pelo< constituído nos moldes de uma corpora-
É o reconhecimento de que uma de- decreto n. o 39.089 ,de 17 do mesmo mês- tituto de Ezeiza pela Diretoria do Ser-
terminada categoria de criminosos é de ção militar, o que o distingue é a sua
e ano. ,qualidade de órgão integrante do sis- viço Penitenciário Nacional da Ar-
doentes mentais, embora penalmente gentina.
responsáveis. Deve-se essa iniciativa de tão alto -tema penitenciário. Êste é um ponto
alcance à clarividência de ROBERTO PE- ·que importa esclarecer para evitar A situação de prestígio continental
Segue-se dai que um infrator dessa
TINATTO, então diretor geral dos Ins- .quaisquer dúvidas ou mesmo críticas: dessa Escola, se, de uma parte, realça
classe, se condenado pela Justiça, ne-
tituos Penais da. Naçãlól. Merecem re- o Corpo Penitenciário não é um or- os méritos dos que a mantêm e apri-
cessita de tratamento especializado que
gistro, por expressivas e oportunas, as ganismo tipicamente militar, embora moram, de outra, contrasta com a la-
somente pessoas cientificamente capa-
seguintes palavras com que êle se ma- tenha a-dotado certos estilos das fôrças mentável atitude das autoridades do
citadas poderão ministrar-lhe.
nifestou ao encaminhar ao ministro da :armadas ;0 que o personifica e sin- último govêrno do Estado de São Pau-
Note-se que, há mais de meio século
lo ,responsáveis pelª, extinção do Ins-
INGE:NIERlOS insistia na necessidade d~ Justiça o projeto de regulamento da re- 'gulariza é a sua especialização nas
ferida Escola: "O propósito reiterada- teorias e técnicas do âmbito da ciência tituto Latino-Americano de Criminolo-
transformar as prisões em "clínicas
mente expresso por esta Diretoria Geral penitenciária, advindo-lhe dai a sua gia das Nações Unidas, com grave pre-
criminológicas" (5).
de promover a capacitação profissional ·qualidade de "órgão cooperador do re- juízo, não só para o Brasil, mas para
Que se diria de um hospital em que
do pessoal penitenciário, mediante a gime penitenciário". os demais países da América Latina.
as funções de médico ou de enfermeiro
fôssem exercidas por leigos? aquisição de conhecimentos superiores,. Essa característica está implícita no Fatos como êsse explicam a deca-
Pois no campo penitenciário, acon- levou-a a projetar o funcionamento do currículo da Escola Penitenciária, como dência da organização penitenciária de
tece algo de semelhante em muitos mencionado instituto. Por outra parte, 'Se poderá ver na seguinte enumeração São Paulo, havida outrora entre as me-
países, onde os responsáveis pela ad- nêle se concretizam as disposições do> de materias do 1.0 e 2. 0 ano do Curso lhores da América Latina, e, hoje, afun-
ministração pública ainda não se con- Estatuto Penitenciário, no que se re-. de Cadetes:' Anatomia e Fisiologia, dada em crise, reconhecida pela pró-
venceram de que os presídios não são fere à especialização dos agentes inte- 'Castelhano (Língua e Literatura), Con- pria administração do Estado.
viveiros de emprêgos para políticos de- grantes do Corpo Penitenciário, para (J tabilidade Geral, Criminologia, Ética e O mal está em que no Brasil não se
caídos' ou indivíduos inidôneos. cumprimento de delicada missão re- Moral, Geografia Argentina, História integrou ainda uma "consciência peni-
A necessidade da formação científica educativa, assim como quanto aos cur- da América e da Argentina, Identifica- tenciária" capaz de reger com autono-
do pessoal penitenciário, tantas vêzes sos para as diferentes hierarquias" (6). ção, Introdução ao Direito, Penologia e mia a política penitenciária do país.
proclamada no livro, na cátedra, nos Como se vê, compete à Escola Pení- Ciência Penitenciária, Psicologia, Se- Isso, entretanto, não significa a ine-
congressos, ,iá se converteu em truismo tenciária a formação do pessoal que gurança Profissional, Técnica Peniten- xistência, entre nós, no passado e no
de meridiana evidência. deve integrar os quadros do Corpo Pe- ciária, Biopsicologia, Lógica, Processo e presente, de lúcidos espíritos dedicados
Se, como disse alguém, o inferno está nitenciário, corporação onde se recru- Prática SumariaI Administrativa. ao conhecimento dos problemas da cri-
forrado de boas intenções, lá devem tam os funcionários de diferentes ca- Ao fim dos dois anos dêsse Curso os minalidade. Mas o esfôrço dês ses es-
alunos-cadetes recebem - o que é tudiosos não conseguiu vencer a bar-
.muito significativo - o título de "Ba- reira da ignorância, rIa rotina e da in-
(5) JosÉ INGENIEROS, Criminolo.gia, pág. 257, Buenos Aires, 1913.
(6) Re'!!1sta Penal y Penitenciaria, números 43/46, janeiro-dezembro de 1947,
pág. '371, Buenos Aires, 1947. 125

124
diferença dos que se habituaram a en- mento e da recuperação do delinqüente.
xergar no crime simples casos de po- Imitemos êsse exemplo com o firme
lícia. propósito de recuperar o tempo per-
A Argentina é um exmplo admirável dido. Se o fizermos, não estaremos tra-
de quanto pode fazer uma elite de ho- balhando apenas em prol de uma no-
mens de inteligência e de vontade, a bre causa, mas servindo, acima de tudo,
serviço da meritória tarefa do trata- a nossa terra.

A OBRA CIENTíFICA E FILOSóFICA DE


ROBERTO LYRA FILHO

INOCENCIO M. COELHO

jj';ste ensaio visa a expor, sistemàti- mentos radicais, pondo o autor em


camente, as contribuições do Prof. Ro- campo filosófico, sobretudo no que con-
BER'Il() LYRA FILHO ao Direito Penal e cerne à metodologia das ciências, no-
Processual Penal, à Criminologia e à tadamente as humanas, e ao "esquema
Filosofia Jurídica, na ocasião em que de base", reclamado, aliás, pelo crimi-
êle completa o primeiro vintênio nólogo PINATEL, quanto à Antropologia
(1950-1970) de ensino superior e pes- Filosófica. E isto vem trazer à consi-
quisa avançada. Redigido por um dis- deração todos ,os problemas gnoseológi-
cípulo, que lhe deve grande parte de cos e epistemológicos, os problemas dos
sua formação, sobretudo pós-graduada, valôres e das normas e o caminho da
representa a homenagem do reconheci- Filosofia Geral à Filosofia do Direito.
mento o eco das vozes de tantos, que A revisão dêsses roteiros leva o Pro-
têm recebido encaminhamento, apoio e fessor ROBERW LYRA FILHO a marcar
orientação segura do Prof. LYRA. planos originais de comunicação entre
A primeira observação a fazer sôbre a problemática de formalização, eficá-
a personalidade científica em estudo é cia e legitimidade das normas e os tra-
a extraordinária amplitude do seu balhos jurídicos, em sentido estrito.
campo de formação e atividade, com rompendo os diques do tecnicismo, para
investigações que se expandem horizon- o livre trânsito da especulação, e enri-
tal e, mais, verticalmente, dentro de
quecendo-os com as perspectivas cientí-
uma polarização de notável constância
ficas da Criminologia, que, já em si,
de interêsses e habilitações.
forma uma prodigiosa encruzilhada.
Fundamentalmente, aqui se trata
do problema do crime, focado, ora no Nesta primeira abordagem, visamos
ângulo processual-penal, em primeira a manifestar a co-implicaçav de tôda a
fase; depois, aprofundado, na visão obra, naquele duplo sentido de aborda-
científica da Criminologia, que lhe des- gem interdisciplinar e peculiar "espe-
venda outras dimensões, e exploração, cialização", assinalados por GILBERTO'
em tôda a gama micro e macrocrimi- FREYRE, em comentário ao livro dt>
nológica, desde as investigações bio-psí- Prof. ROBERTO LYRA FILHO, Perspecti-
quicas às sociológicas. Enfim, a pre- vas A tuais da Criminologia.. É aqui,
ocupação de ordenar uma teoria crimi- nesse perfil de scholar, que reside a
nológica integrada leva a questiona- coerência capaz de movimentar a rêde.

126 127
,onde se entretecem os elementos de auto-crítica, com o registro de que o
uma erudição realmente incomum, sem- diletantismo é sui generis. A certa al-
pre manejada com agilidade. tura, vamos encontrar o Prof. ROBERTO sitivismo penal, sob cuja predominante à leg.@ lata, procurando escape àquela
Substancialmente, defrontamo-nos com LYRA FILHO, junto a SERGE KOUSSR- influência se apresentam, ainda, os es- situação nos estudos. criminológicos,
imenso painel, em que o tema é o cri- VITZKI, ELEAZAR DE CARVALHO, CAMARGO tudos como A Motivação da Sentença mais amplos. N esse ro~eiro, é que S9
me, o criminoso, a pena, considerados GUARNIERI e outras grandes figuras (ensaio de estréia) ou o N ôvo Direito traduz o encontro com a obra paterna;
,sob todos os ângulos e com incursões julgando partituras, num concurso d; Penal Alemão (síntese de maior fôlego mas, como escreveu o próprio ROBERTO
,"TIa Biologia, na Psicologia, na Psiquia- obras sinfônicas - donde resultou uma e espírito crítico e sistemático muito LYRA, ídolo de tantas gerações acadê-
tria, na Psicanálise, na Sociologia, na da:;; primeiras vitórias do, então, quase agudo), o Prof. RoBERTO LYRA FILHO micas, ROBERTO LYRA FILHO não pre-
litigiosa "Ciência do Direito" Penal e desconhecido ,compositor, CLÁUDIO SAN- teve um período de namôro com o "tec- cisa de sua "herança", pois tem capaci-
Processual Penal, na Criminologia, na TORO. Noutra passagem biográfica , nicismo jurídico", embora em feição dade de produção e orientação pró-
,
'Filosofia Geral e, especialmente, na esta o Prof. ROBERTO LYRA FILHO pro- sempre elástica, aberta e isenta daquele prias. O carinho filial proclama, por
Filosofia do Direito. duzindo um ensaio sôbre crítica de poe- "estilo rococó", dum germanismo que outro lado, que foi ao contato com a
A passagem por todos êsses terre- sia (o brilhante Rondó Caprichoso) ANTOLISEI (autor muito freqüentado notável obra do genitor que se adex-
"TIOS, todavia, além de regida, digamos, ou ministrando uma das aulas mais por êle) condenou com veemência. trou seu espírito, permitindo-o lançar-
por mola mestra de preocupações cri- Creio que as produções mais signifi- se à Criminologia, em roteiros originais.
aplaudidas dum curso de Literatura
"lninológicas, faz-se com tal aprumo, tão cativas do Prof. ROBERTO LYRA FILHO, Todavia, antes de passar aos campos
Brasileira, organizado, na UnB, com
rigorosa informação e formação cientí- no que diz respeito ao aparecimento de da Criminologia e da Filosofia do
análise fascinante da escola parnasiana.
fica e filosófica, que muitos setores, marcante originalidade, no fundo e na Direito, em que se abriu a fase de con-
O rigor técnico dessas produções, em-
"TIão especialmente visados, recebem ilu- forma, são, àquela altura: 1.0) o mo- sagração internacional do Prof. ROBERTO
bora esparsas, não se coaduna com o
minações incidentes que, em si, repre- mentoso e longo voto, proferido no Con- LYRA FILHO, cumpre assinalar que, en-
simples diletatismo. Todavia, pela es-
selho Penitenciário do (então) Distrito tre 1961 (Esquemas de Direito proces-
sentam marcos significativos e contri- cassa importância que lhe atribui o
Federal, em que deu rumos totalmente sual Penal) e 1969 (postilas de Direito
buições valiosas, sob o prisma de qual- autor, já é possível imaginar o nível
novos à vida do instituto do livramen- Penal), êle fêz despedidas áureas a ês-
-quer das disciplinas freqüentadas. incomum atingido pelos trabalhos inte-
'quando as consideramos em si mesmas: to condicional discriminando o meca- ses dois ramos do Direito, em sua apre-
grantes de sua atividade principal e, sentação legItimamente técnica. :!tsse
Para destacar essas 'características, por assim dizer, oficial, isto é, profis- nismo do que 'chamou habilitação gené-
rica e habilitação específica ao benefí- caráter de despedida está bem marcado
RECASENS SICHES - a cuja obra filo- sional e constante.
cio; distinguindo as órbitas de admis- no prefácio ao segundo dêsses livros,
'sófico-jurídica dedicamos exaustiva Para melhor examiná-la, vamos se-
sibilidade, conveniência e oportunidade; em que o autor demonstra como e por
:análise crítica que constituiu nossa guir os caminhos intelectuais em três
entrosando as perspectivas criminoló- que abandonou a "navegaç~o ?e. cabo-
tese de doutoramento - desenterrou e setores: a) o Direito e o Processo Pe-
repristinou um velho adjetivo - "exí- gica e jurídico-penal; 2. 0 ) a or8.ção de tagem", típica do trabalho. JundIco en;
nal; b) a Criminologia ;c) a Filosofia sentido tecnicista. Mas o Importante e
'mio" - aplicando-o ao mestre da Uni- do Direito. sapiência, a respeito de classificação
das infrações penais, recolhida no vo- assinalar que as duas obras represen-
versidade de Brasília. É aquêle per- Formado e já docente universitário,
lume de Estudos em Homenagem a tam muito mais do que indicam os títu-
feito rigor e acabamento ,ali expresso, a partir de 1950, o Prof. ROBERTO LYRA
Nelson Hungria, que despertou entu- los deliberadámente modernos. :!tles
que se torna admirável. l1::sse itinerá- FILHO, à medida em 'que desenvolvia o
siasmo científico dêste homenageado, podem iludir os não-especialistas; mas
rio, no seu delineamento geral será se- trabalho, nas disciplinas que lhe vale- não enganariam, decerto, o gôsto seguro
guido, aqui, com a minúcia ~ue esti- ram o Prêmio Sociedade Brasileira de -pela revisão fundamental do sistema,
'ver a nosso alcance. a partir do flagrante o~ inquérito, prà- dos realmente doutos. Assim é que, no
Criminologia (1949) ano de sua gradua- referente ao Direto Processual Penal,
Deixamos, propositadamente, de ção, realizava, paralelamente, especiali- ticamente liquidando tôda uma errônea
linha de aplicação dos Códigos Penal e além da contribuição original sôbre
lado a produção que o Prof. RoBERTO zação criminológica, no Instituto de
de Processo Penal . classificação das infrações penais, já
LYRA FILHO considera, êle próprio, Criminologia da, hoje, Universidade do
l1::sses dois trabalhos capitais, de eru- citada, o Prof. ROBERTO LYRA FILHO
," bissexta" - isto é, suas incursões na Estado da Guanabara. Pertencem a
dição perfeita, na retomada do status deixou-nos uma nova sistemática dos
crítica literária, dramática e musical, essa fase, arrematada com o período
quaoestionum, e grande originalidade, no ritos, totalmente reelaborada, que um
seus ensaios, poemas e obras teatrais - imediatamente anterior à transferência
-delineamento de novas soluções, têm processualista do porte de F. M. XAVIER
em que, apesar de encontarmos cinti- para Brasília, com a regência da cá-
'sido amplamente utilizados pelos juris- DE ALBUQUERQUE não hesitou em ado-
'lações peculiares e mais uma dimensão tedra de Direito Processual Penal, na
(propriamente artística) de sua cultu-, tas e até pela magistratura, inclusive tal' nos seus cursos, e lhe valeu a ho-
Faculdade Brasileira de Ciências Jurí-
de Brasília, onde, mais de uma vez, me~agem do convite, aceito e brilhan-
1'a, o autor prefere situar como sim- dicas, as primeiras publicações de maior
]lles curiosidade intelectual de diletta!Yt- repercussão. foram citados como razão de decidir. temente executado, para relator de
'te. Aliás, caberia desrespeitar-lhe a Paralelamente, contudo, um espírito uma parte do Anteprojeto Buzaid, em
Desligando-se, pouco a pouco, do po-
tão fecundo e aberto já se debatia na congresso jurídico da maior re?er-
>camisa de fôrça duma doutrina atada cussão. Aliás, a distribuição, atramdo
128
129
a veia de processualista (penal e civil, todologia e nas pesquisas empreendidas nar, não apenas como "fusão" de da- sultados, de sll:as investigações antropo-
no sentido unitário, que ganhou a dis- pelo Prof. LYRA, com o aproveitamento dos de ciências diversas, mas enquanto lógico-filosóficas e jusfilosóficas.
ciplina modernamente) , resultou em
crítica, aprováda pelo plenário, àquele
de amplos estudos, feitos por êle no abordagem multidimensional, armada
ab initio, menos a título de protocolo
Tendo analisado, J fundo, o tridi-
Brasil e no estrangeiro, notadamente mensionalismo jurídico, mediante o qual
notável documento do professor pau- em Viena. O mesmo alto aprêço surge metodológico do que da demolição das REALE pôde alcançar repercussão e
lista. no interêsse que demonstrou o Profes- barreiras ,em níveis de análise, com re- mesmo adesões internacionais de vulto
:Êsses títulos fizeram lembrado o sor DENIS SZA,BO pelos trabalhos do corte transversal; na assunção do pro- para uma contribuição brasileira, o
Prof. RoBERTO LYRA FILHO, muito re- Prof. LYRA, chegando a convidá-lo para blema da definição do crime enquanto Prof. LYRA procurou extrair nOvas con-
centemente, pelos organizadores do dado do próprio afazer criminológico, seqüências da dialética de implicação e
visitar o Departamento de Criminolo-
5.0 Congresso Internacional de Direito dialetizando os impasses lógicos dos polaridade, para evitar, como êle en-
gia da Universidade de Montréal, Ca-
Processual, a realizar-se no México nadá, e ao Centro,Internacional de Cri- formalismos jurídico e sociológico, para fatiza, que o tridimensionalismo dito
(1971), sendo êle incluído no rol dos minologia Comparada ,que ali funcio- superá-los, na preocupação de recondu- específico, apresente a feição de um
que receberam consulta especial, para zir ao esquema antropológico de base". caminho mais complexo, matizado e
na - estabelecimento que constitui
escolher os nomes dos relatores parciais modêlo internacional de ensino e pes- Vimos que PINATEL reclamou êsse es- indireto, para uma rendição final ao
brasileiros e do relator geral do 5.0 tema. quisa cirminológicas, no autorizado di- quema ,para evitar "as mil sinuosida- chamado "princípio da segurança",
Por outro lado, no que tange ao Di- zer de JEAN PINATEL. Ainda mais vi- des dos trabalhos de detalhe" e as que recobre, com verniz axiológico, alg()
reito Penal, as Postilas, publicadas em gorosamente se marca a importância "pesquisas de pouca envergadura" na redutível, afinal ,a um nôvo tipo de
1969, mas datadas de, pelo menos, cinco dos ensinamentos do Prof. LY'RA, em Criminologia. A êsse apêlo, o Profes- formalismo. É que as posições dÜ'
anos antes, também não são mera elu- Criminologia, pela acolhida de suas sor LYRA dá uma resposta firme, cre- Prof. LYRA não se poderiam acomodar-
cidação e sistematização de conceitos. obras, na América e na Europa e os mos que mais firme do que a do pró- num arremate, 9)m última instância.
A originalidade de certas colocações é convites para visiting professor, como prio PINATEL, comprometido na adesão conservador, tal como a dialética hege-
tão flagrante, nesse livro, que êle ul- o formulado para outro grande centro, à metafísica, tomada de empréstimo a liana, que termina com a dissolução dÜ'
trapassa o objetivo de servir à sim- a Universidade de Jerusalém, pelo Di- um psiquiatra devoto, embora digno e indivíduo e uma semi-divinização do.
ples iniciação - que o título sugere _ retor do Instituto de Criminologia, ilustre, como DE GREEF. N a obra do Estado prussiano. Aqui, mais uma vez,.
para abrir roteiros próprios, autônomos Prof. ISRAEL DRAPKIN. No âmbito na- Prof. LYRA o caminho evolutivo, neste a dialetização, tal como a compreende
e harmoniosos. conal, muitos autores citam os traba- momento, atinge o climax, na verda- o Prof. LYRA, procura coligar teoria e
Na Criminologia, atualmente, o Pro- lhos criminológicos do Prof. LYRA, fa- deira transfiguração em que, por assim praxis e questionar estruturas, sem
fessor R;OBERTO LYRA FILHO assumiu, zendo generalizado côro de louvores às dizer, os andaimes dessa obra são rom- eompromissos com qualquer delas, ao
como já notava, em 1965, a Revista suas diretrizes originais ,de GILBER'OO pidos, para revelar uma fachada har- invés de avalisá-Ias, eruditamente. O
Brasileira de Criminologia e Direito FREYRE aos Profs. GILBERTO DE MACEDO moniosa, com detalhes arquitetônicos momento atual da reflexão jusfilosófi-
Penal, em comentário editorial, "uma e HELENO C. FRAGOSO, ecoando os juí- insuspeitos. :Êle retoma as grandes cor- ca do Prof. LYRA é marcado por uma
posição de liderança". Seria quase dis- zos internacionais de JEAN GRAVEN r?ntes do pensamento contemporâneo, preocupação, muito enfatizada, de uma
pensável comprová-lo, pois o fato é, nos (Suíça), GERHARD MÜLLER (Alema- VIsando a tecer as abordagens origi- espécie de "adeus à disponibilidade",
meios científicos, notório e pacífico. nha) , DENIS SZABO ( Canadá), SEBAS- nais, não como simples justaposição fazendo o engajamento, não como o de
Demonstraram-no, inclusive além de TlÁN SOLER (Argentina), LUIS RECA- eclética, ao saber dos meros repetido- outro célebre adeus, no sentido do pas-
nossas fronteiras, o convite aceito para SÉNS SICHES (Espanha-México) e res da ciência alheia, porém como in- sado, mas na direção do futuro. Os
a tarefa de que se desincumbiu o EDUARDO NOV'OA MONREAL (Chile). tegração original. Os aspectos biopsí- três princípios nucleares combinam-se,
Prof. LYRA, com grande brilho: deli- :Êste ano, a Comissão Fullbright, de- quicos e sociais tornam-se mais agudos para a síntese: enquanto a mera for-
near o panorama da Criminologia para pois da aprovação do plano de pesqui- no seu estudo sôbre caminhos e obstru- malização tendia a recobrir as adesões
auditórios pós-graduados no Instituto sas do Prof. LYRA por WALTER C. RE- ções da teoria sociológica e uma ver- do "positivismo" ou formalismo legal,
le Ciencias Penales e na Universidade CKLESS, professor emérito da Universi- dadeira Aufhebung envolve o seu con- a· pura eficácia tendia a formar-se em
do Chile, em Santiago e Valparaiso dade de Ohio, concedeu-lhe um grant tato, agora marcante e explícito, com têrmos, quer de historicismo clássico,
(1968). Essas conferências, traduzidas para senior advanced reseWf'ch, ao qual a problemática do homem e dos valô- quer do relativismo e formalismo, que
para o castelhano pelo Prof. JA'i:ME êle renunciou por excepcional dedica- res, das estruturas, fissuras e contes- obi"cureceu a dialética estrutural, imo-
VIVANCO, sob o título En Torno a la ção às suas tarefas na UnB. tações. das bases econômico-sociais e b1lizando os parâmetros numa "socie-
Crimino.zogia, foram publicadas, com A importância das· posições em teoria dum nôvo engajamento de sua Cl'imi- nade global ", para cômoda referência.
grande êxito, na Revista cM Ciencias criminológica, do Prof. LYRA, demar- nologia viva ou. como diria NAGEL. Cri- É certamente ao terceiro princípiO, o
penales e encerram, junto com a elu- cam-se bem na combinação de procfs- minolog-ia Crítica. Neste ponto é que da legitimidade, que o Prof. LYRA vem
cidação de conceitos intrincados e con- sos ,das direções "naturalista" e "cul- o Prof. LYRA enriqUEce a ciência a que dEdicando maior atenção. A formaliza-
trovertidos; posições originais, na me- turalista"; na abordagem interdiscipli- dedicou seu nQJ;ável talento, com os re- ção detém-se na perfeição geométric8'

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os elementos da dialética do Direito sucesso do Prof. LYRA· Quando foi es>
mesmo e reativando o processo de for- colhido p,ara dirigir os Departamentos"
'ae KELSEN; a eficácia dissolve-Se pê- pela falta dum terreno onde se resolva mação jurídica. Com essa colocação, o de Filosofia e -História da UnE, fun-"
:rante o jôgo de pluralidades axiológi- o confronto permanente entre Creonte esquema do Prof. LYRA dissolve a ve- didos numa só unidade) assumiu a fun-'
'cas e até pluralidades de "ordenamen- e Antígona. lha teoria das fontes e, ao mesmo tem- ção, além do plano administrativo, eJ:X1l
"tos jurídicos", nas grandes formações A grande fecundidade das colocações po, destrói ao barreiras teóricas e, em um sentido de liderança intelectual, re_'
-dilaceradas pela estratificação em con- da obra do Prof. LYRA está em levar, certos formalismos, até mesmo práti- formulando programações, de forma ~
ilito. Para integrar a visão do Direi- para o interior da jusfilosofia, aquêle cas, entre fonte, norma, interpretação dar, inclusive, ao ensino da História
to, o apêlo à legitimidade é o único em confronto, enquanto tal, e fazer dêle, e Q:plicação do Dheito. A criação de um nôvo impulso e fazer sentir, ime-
que se evitam os formalismos socioló- mesmo, o ingrediente nuclear da linha novos modelos representará, assim, mais ditamente, a fôrç~ duma personalidade
gicos ou legais. Todavia, sua grande de absorção e superação. O problema do que simples renôvo de sistemas pe- cujo repertório de informação cientí-
reelaboração, que levou o Prof. LYRA a da norma jurídica, tal como o proble- remptos, como nalgumas tentativas, fica e filosófica - dizemo-lo, inclusive,
falar num tridimensionalismo, não só ma do crime, formalizado em norma, uma assunção das diretrizes históricas, por experiência própria - é preciso
específico, mas global, coloca-o na van- são, enfim, substancialmente idênticos, não a título de simples relativismo, e, ver para crer.
guarda da construção, na qual êle não pois a norma jurídico-penal, com sua sim, à guisa de conscientização, dentro Por outro lado, êsse cabedal, capaz
hesitou em reformular-se, interiormen- exacerbação san~ionatória, denuncia, do processo, de suas virtualidades de de impressionar, como tem impressio-
te, para atender ao clamor das tensões mais agudamente, as tensões de que superação e a abertura de campos, onde nado, os eruditos, vem sendo ultima-
SOCIaIS. Nesse contexto, que sofre o nasce. A unidade substancial da obra aquela "necessidade" histórica funda mente, desenvolvido pelo Prof. LYRA
acícate da praxis, o Prof. LYRA tem do Prof. LYRA está nesse empenho, que a liberdade de inserção e reorientação, numa abertura ao diálogo com as as-
procurado sublinhar o papel da cons- poderíamos classificar como de supera- ao invés de apassivar-se, fechando os pirações e inquietações dos jovens, que
ciência ética e das reformulações do rol cão das antinomias de RADBRUCH, con- olhos ao jôgo das fôrças contraditórias dêle se aproximam e logo se transfor-
capital dos direitos do homem, para ferindo-lhes um tonus dialético e não ou esperando, fatallsticamente, os re- mam em discípulos, conservando por
que "representem, mais do que simples meramente lógico. Neste sentido, a ano- sultados do choaue de interêsses. êle uma admiração tão intensa que,
declarações internacionais, a prática mia "integra" o sistema de normas - A exposição dês ses lineamentos pres- muitas vêzes, sobrevive ao têrmo nor-
efetiva, em todos os recantos do mun- mas não como o ilícito se integra no cinde, é claro, da riqueza de ilustra- mal dos períodos letivos, convertendo-se
do". Como intelectual livre, mostra-se ordenamento jurídico à KELSEN - e o cões e matizamentos com qUB o Pro- em fecunda emulação intelectual. Para
infenso às exasperações sectárias, ao perfil global do Direito funde as juri- fessor LYRA vem desenvolvendo suas explicar êsse clima, diz êlé que tem
mesmo tempo que, com progressivo au- dicidades substanciais e as formais: a pesquisas e seu ensino - de que soo procurado salvar-se da alienação (no
mento de fôrça e clareza, também de- afirmação normativa e a contestação mos, aliás, beneficiário direto e ime- sentido que relega o intelectual à clás-
nuncia o isolamento teórico, surdo às anômica indicam, nesta última, a por- diato, pelo convívio diuturno intenso, sica tôrre de marfim, acomodada e cô-
conjuntu'ras e perdido nas nuvens duma tadO"l"a de outros projetos normativos e ora em salas de aula, ora em debates moda), sem cair noutr~ alienação, a
teoria que não corresponde ao nível de auadros referenciais de valor, cujo su- d~ seminários, ora mesmo em seu pró- da praxis cega, que LEFEBVRE chamou
atuação num momento histórico. A ~'esso ou malôgro representará, em cada prio gabinete de trabalho, na Univer- de "dogmatismo bruto". Neste sentido,
"dIalética, atingindo simultâneamente os momento, a resultante do choque entre sidade de Brasília, há quase cinco anos tempera com os produtos da maturi-
terrenos do concreto histórico e dos estrutura e contrôle, dum lado, e desa- - mas basta para indicar a direção dade eauilibrada um entusiasmo, ainda
percalços dum princípio imanente de fio e mudança, de outro. É claro que geral, num convite ao contato mais de- cheio de vibração jovem, que tem pro-
liberdade e libertação, une o homem SCl distinguirá, nesse contexto, a mera mOTfldo e profundo com os ensinamen- curado identificar-se, compreensiva.
enquanto cognoscente, enquanto agente infração de normas e a anomia, pois a tos do mef'tre da Universidade e suas mente, <'om as esperanças. as inquieta-
puro e enquantó agente conscientizado primeira representa, de certa forma, obras f'scritas, E, principalmente, ser- ções e, também, as decepções dos mais
das direções possíveis, na "ação recí- uma "aceitação" da norma e uma ex- ve para mostrar a razão de mais um moços (*),
proca" entre reorientação teórica e pectativa "normal" de sanção, tudo em
atuação prática. Atuação intelectual, conformidade com as "regras do jôgo" (*) Quando foi redigido êste artigo, o Prof. ROBERTO LYRA FILHO aindl<
bem entendido - que não é o menos de detorminada estrutura e organiza- não havia publicado o longo ensaio, que apareceu nos dois primeiros números
importante. ção soda is, enquanto a: segunda repre- desta Revista. O referido escrito, refundido e ampliado, será brevemente edi-
No passado ,o terreno da legitimi- senta uma presença de grupos mais ou tado, sob o título Criminologia Dialética. Nesta, que exigia uma análise minu-
dade das normas formalizadas e efica- menos amplos, de questionamento de ciosa, à parte, entrosam-se em contribuição original, as linhas de invf:stigaepes
zes ficou relegado a um jusnaturalis- normas, em função de outros projetos que já assinalei: a filosófica (antropologia filosófica e filosofia do direito, bem
vitais. O amadurecimento dêstes, quan- como a epistemologia das ciências humanas), a jurídica (direito penal e a décalage
mo, em última análise conservador, pela de sua doutrina perante 06 avanços filosófico-jurídicos) e criminológica (para
sua vinculação a pa,drões axiológicos do situados na linha objetiva da atua-
uma revisão crítica e reconstrução de tôda a criminologia, inaugurando uma nova
fixistas. A queda do jusnaturalismo lização histórica, desencadeia mudança, sistematização, quase ousaria dizer uma nova escola).
clássico provocou a relativização histo- pondo o "direito" formalizado, não em
ricista ,em que o formalismo floresce, conflito com meros fatos, e, sim, com
133

.132
..:L.L ............... v...... ......v ......... _ ~___ _ ____ _

tade humana, tais como poderão fazê-lo venção e repressão, as modalíaãdes~~ae


epidemias, geadas, chuvas prolongadas, atuação do Estado que Se oporão às
cataclismos em geral - chamamo-los situações e comportamentos adversa-
j.atôres estáJticos; outros, criá-Ios-ão tivos. ,
como direto resultado da manifestação Compete ao Estado '\prever o surgi-
da vontade, fruto de comportamentos mento de óbices e envidar todos os es-
voluntários que visam subverter valô- forços e adotar tôdas as cautelas para
res de convivência social - denomi- preservar-se, manter incólumes suas
namo-los fatôresdinâmicos. instituições e salvaguardar seus habi-
Eliminar ou neutralizar êsses óbices tantes; para tanto, deve antecipar-se
DIREITO ADMINISTRATIVO BRASILEIRO DE é, portanto, a tarefa a que Se deve en- às possíveis violações, através de ins-
SEGURANÇA PÚBLICA tregar o Estado para alcançar ou man- trumentos de prevenção. Todavia, uma
ter um razoá'/JI.8,1 grau de satisfação da vez deflagrado um processo desagrega-
segurança pública (razoável grau, por- dor dêsses valôres, deve o Estado pro-
Uma apresentação quanto, sendo a segurança pública um ver, através de medidas de outra natu-
valor social, jamais será absoluta, ou reza, a neutralização ou extinção dos
seja ,estará atendida plenamente: de- óbices, através de instrumentos de re-
verá ser sempre aferida e referida re- pressão.
DIOGO DE FIGUEIREDO MOREIRA NETO
lativamente) . Ambas as atuações - de prevenção
Ora, se cabe ao Estado agir em pros- e de repressão - são disciplinadas pelo
.A estabilidade política social é pre- Conceitua-se, assim, segurança públi- seguimento da segurança pública, tor- Direito Público interno, nos seus ra-
m1ssa do desenvolvimento de uma co, ca, como um valor soei,a,l a ser promo- na-se, na prática, necessária uma re- mos Constitucional, Processual e Admi-
munidade organizada em Estado. Os vido pelo Estado, em que o interêsse visão de posições frente a valôres; as- nistrativo.
processos de criação de riquezas, nota- coletivo, na existência de uma ordem sim é que, antes da proteção do supe- Mas não apenas quanto às modalida"..
damente os que demandam grandes jurídica institucionalizada e estável e rior bem, em têrmos de estrita ética, des - preventiva e repressiva - e
concentrações de recursos, privados ou na incolumidade individual e do pró- qual seja a incolumidade individual, quanto às disciplinas jurídicas - Cons-
públicos, não são deflagrados ou não prio ente estatal, esteja atendido satis·· bem como antes da preservação do va- titucional, Processual e Administrativa
têm continuidade quando há incerteza fatàriamente, a despeito de comporta- lor socialmente mais imperioso, qual - pode-se classificar as atuações do
quanto à permanência das instituições mentos e de situações adversativos. seja a estabilidai!J@ e permanência das Estado em tema de Segurança. Cabe,
.e à manutenção da ordem pública. O interêsse coletivo é, como se pode instituições, deve o Estado agir em sua ainda, entre outras, mencionar as que
Ambos Os conceitos - permanência observar, triplo: refere-se ao Estado, auto defesa. podem ser feitas quanto à competência
institucional e ordem pública - fun- aos indivíduos e às instituições; nem Temos, assim, combinando os crité- - federal, estadual e municipal - e
dem-se em outro, de maior hierarquia, o Estado tem primado sôbre o indiví- rios, que ao Estado cumpre desenvol- quanto à origem dos com;portamentos e
:a que chamamos de segurança pública. duo, nem êste sôbre o Estado - o pri- ver, sob considerações inafastáveis de situações adversativas que comprometem
A expres~ão, ao que parece, nasceu de mado é o da lei, daí a referência, im- 'Ordem pragmática, três atividades no a segurança - externa e interna.
uma extrapolação da idéia de se- prescindível, às instituições e a prece- campo da Segurança Pública: 1.3 _ Como método de estudo, melhor pa-
gurança individual, alçando-se do indi- dência, que damos, até esta altura, aos auto-defesa; 2.,a - defesa das institui- rece valermo-nos de uma combinação
víduo para o corpo social e, dêste, para demais têrmos. Estado e indivíduo de- ções jurídicas, e 3. a - salvaguarda dos de critérios, distinguindo, em primeira
o Estado; mas, nesta evolução, foi-se vem coexistir, cada qual em seu campo indivíduos. plana, as atuações quanto à segurança
enriquecendo com características pró- de atuação, cada qual com sua prote- Essas atividades, todavia, apresentam externa e interna. Uma vez que o
prias, a tal ponto que seria um êrro ção apropriada, cabendo à ordem jurí- extensa gama de variações, desde as ta- tema de segurança externa tem trata-
dizer-se, agora, que segurança pública dica propiciar os institutos necessários refas de mera informação às ações de mento preponderante constitucional e
representa mero somatório da seguran- para êste fim; por Jsto é que o Direito beligerância. entrelaçado com o Direito Internacio-
ça dos indivíduos de uma determinada ora tutela preclpuamente os inteTêsses Bàsicamente, duas serão as modali- nal Público, concentrar-nos-emos sôbre
circunscrição política. Com isso, por individuais, ora os do Estado. dades de atuação de segurança: pre- a seguranaç interna, distinguindo, su-
segurança pública, já não deve ser en- Entretanto, à existência do Estado, ventiva e repressiva. Há os que acres- cessivamente, a atuação preventiva e
tendido apenas segul'aonça do público, dos seus habitantes e das suas insti- centam uma terceira - a operativa; reprflssiV'{b e, nesta, as formas policial,
porém com outras mais amplas co- tuições, duas ordens de fatôres adver- como se verá, não será esta mais que judiciárriro, política e militar. Poder-
notações, segurança das instituições sos poderão se opor. Certos fatôres uma fase agravada da modalidade de se-á reparar ,então, que, com exceção
públicas. são os que criarão óbices independente-
135
134
da forma de repressão judiciária, re- administrativa; já a forma subjetiva, é de Cénsura preVIa. Quanto à corres- plina do trânsito e do tráfego. O ma-
gida quase que integralmente em ramos matéria da chamada polícia de vigi- pondência e às comunicações telegráfi- rítimo, compreendido o fluvial, e o aé-·
autônomos do Direito - o Penal e o lância. cas, é-lhes garantido o sigilo, quebrá- reo,' são regidos por legislações pró-
Processual Penal - e que cabem .ao A polícia adtministrativa atua atra- vel apenas em estado de sítio. A reu- prias de competência fetleral, conforme
Poder Judiciário, se bem que não ex- vés de restrições de uso e gôzo de di- nião para intercâmbio de idéias, seja as reservas constituciondis estabelecidas.
clusivamente, tôdas as demais formas reitos individuais, especialmente da ~il em recintos fechados ou abertos ao pú- no artigo 8.°, a saber: para a na-
de repressão se desenvolvem na órbita propriedade, em vários campos da ati- blico, independe, em princípio, de qual- vegação aérea, inciso XV, c, e inci-
do Direito Administrativo (não obstan- vidade humana: especializando-se RS quer formalidade o que nada impede, XVII, b; para a navegação marítima,
te possam apresentar, às vêzes, algun" polícias de costumes,' das comunicações, I entretanto, poder ser exigida, em de- fluvial e lacustre, incisos :X:V e XVII,
de seus institutos, assento de nível de viação, do comércio e indústria, das terminados casos, a comunicação pré- bem. Pela sua especialidade, embora
constitucional), competindo, maciçamen- profissões, de estrang.e.iros, edilícia e via do local da reunião e, se em lo- constituam materialmente Direito Ad-
te, ao Poder Executivo. outras mais, tôdas objeto de estudo do gradouro, a autorização, bem como a ministrativo, são objeto, respectivamen-
Cumpre~nos, a partir dêste método, Direito Administrativo. designação, pela autoridade, do lugar te, do Direito Aeronáutico e do DireitO'
desenvolver uma apreciação itemizada. Assim é que cabe à polícia de cos- adequado. Da mesma forma, é assegu- Marítimo, bem como, se disciplinadas
tUl1~es, limitar as atividades que afe- rada a liberdade de associação, mas a em tratados e convenções internacionais
tem, tão só pelo exemplo, e destruam sociedade que promover atividade ilí- de navegação aérea, marítima, fluvial
1. Prevenção e repressão na segurança pela prática, o vigor moral do povo. cita ou imoral ficará sujeita à disso- e lacustre a que o Brasil haja aderido,
pública w,xterna lução compulsória, por ação direta, me- objeto do Direito Internacional Públi-
Os instrumentos policiais, poderão ser,
diante denúncia popular ou do órgão co. Remanescem o trânsito e o tráfego.
por sua vez, de prevenção e de repres-
A competência neste campo é priva- do Ministério Público, repressão, como nas vias terrestres. Do tráfego terres-
são: as limitações agirão preventiva-
tiva da União. A prevenção se faz pe- 80 vê, por exceção, hetero-executória. tre, desdobra-se o ferroviário, cuja re-
mente contra o alcoolismo, a pornogra-
las multiplas formas de atuação da di- Muito importante, na temática das gulamentação, para sua segurança, obe-
fia, a indecência, o uso de estupefa-
plomacia, de ação suasória, e pelas ma- comunicações sociais, a polícia das di- dece a um sistema federal específico,
cientes, a perversão sexual, o proxe-
nutenção de fôrças armadas regulares, versões e dos espetáculos públicos; tais e o rodoviário urbano e interurbano,
do presença dissuasória. Quanto à re- netismo, a vadiagem, a crueldade con-
vlJÍculos se destinam à comunicação de que obedece à legislação básica federal,
prDss,ão, processar-se-á, até certa fase, tra os animais ,os jogos de azar e ou-
massa e, assim, merecem um maior cui- o Código Nacional de Trânsito, baixado.
em nível polític;,o, com o protesto for- tras formas de dissolução social; fa-
dado por parte do Estado, de vez que pela Lei n. O 5.108, de 21 de outubro
mal, o rompimento de relações e a de- lhando as limitações, deflagram-se as
a possível periculosidade das mensa- de 1966, modificado pelo Decreto-Lei
claração de estado de beligerância, sanções de polícia, que são os instru-
gens fica potenciada em escala impre- n. o 237, de 29 de fevereiro de 1967,
mas, atingido êste ponto ou antes, se mentos de repressão, como a censura,
visíveL As peças teatrais ,as películas conforme o artigo 8.°, XVII, n, da
as circunstâncias assim o obrigarem, a interdição de locais, a cassação de
cinematográficas, os programas de rá- Constituição, sem prejuízo da compe-
a repressão será militar, qualificando- licença e outras mais.
dio e de televisão, as funções circen- tência supletiva estadual (CRFB, ar-
so, a repressão, como de natureza À polícia das comunicações cabe dis-
ses e outros espetáculos abertos ao pú- tigo 8. 0 , parágrafo único) e da muni-
operativa. ciplinar o uso dos meios de comunica-
blico, inclusive atividades recreativas cipal (CRFB, art. 15, II).
ção social, incluindo-se a reunião oca-
sional ou permanente de pessoas, ativi- de parques de diversões, sujeitam-se, A polícia do comércio e indústria
dades que, não obstante em princípio por isso, à censura prévia ;é a polícia atua limitativamente de várias manei-
2. Prevenção na segurança pública, ras: nas feiras, nos mercados, no co-
interna asseguradas nos §§ 5. 0 , 8. 0 , 9. 0 , 27 e das diversões e espetáculos públicos.
2'8, do art. 153, da Constituição da Re- Finalmente, os cultos, em princípio li- mércio ambulante, no sistema oficial de
É campo de atuação da polícia. Como pública Federativa do Brasil, também vres e assegurados como a mais elevada pesos e medidas, na classificação, qua-
é sabido, o poder de polícia tanto se sofrem limitações em atenção à segu- manifestação de liberdade de consciên- lificação e tipificação de substâncias e
exerce predominantemente sôbre os bens rança pública. A manifestação de pen- cia, sujeitar-se-ão ao Poder de Polícia mercadorias.
e os direitos que lhes são relativos, samento, de convicção política ou filo- sempre que excederem do religioso para A polícia do comércio a retalho é
quanto se impõe, prevalentemente, sô- sófica e a prestação de informações in- transformaram-se em veículo de práti- maciçamente municipal mas já o co-
b1'e as pessoas. Na forma objetiva, é dependem de censura, porém estão su- ca ou pregação subversiva ou imoral. mércio exterior, de importação e expor-
uma manifestação de dominium do Es- jeitas a contrôle a posteriori, de modo A competência para realizar a cen- tação, obedece a estrita disciplina fe-
tado sôbre tudo que se encontre sob que, cada um, responderá pelos abusos sura é federal (CRFB, art. 8. 0 , VIII, deral, constante, bàsicamente, da Lei
sua soberania; na forma subjetiva, é que cometer. Quanto a livros, jornais, d) mas a vigilância bem como o licen- n. o 2.143 ponderante sôbre a de polí-
manifestação do imperium do Estado. e periódicos, independerão de licença, ciamento das casas de espetáculo, é cia,. a atividade de ordenamento eco-·
A forma objetiva é tratada no capí- o que não significa que não possam municipal. nômico do Estado. A política e o sis-
tulo que se costuma dominar de polícia ser submetidos a qualquer outra sorte A polícia de viação envolve a disci- tema nacional de metrologia são fe-·

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«lerais, constantes, atualmente, do De- na e mais agradável) a vida nos es-
,creto-Lei n.o 240, de 28 de fevereiro paços habitáveis, regulando o uso da 'Guardas Civis, Guardas Municipais, ação preparatória da repressão de cons-
.de 1967, que define os órgãos, cria o terra, no que se refere à sua ocupação ,Guardas Judiciárias e Guardas de Ei3- trição, no sentido estrito, e aquela úl-
lnstituto Nacional de Pesos e Medidas com tôda sorte de construções. O as- tabelecimentos Públicos. tima, a ação preparatória, consiste na
<€ enuncia o sistema, padrões, infra- sunto é de predominante interêsse mu- N o plano federal, as mais importan- atuação de polícia judi~iária.
,ções e penalidades. nicipal (CRFB, art. 15, II), sendo ob- tes atribuições de vigilância estão co- As medidas policiais de constrição,
A polícia das profissões submete as jeto de Códigos de Obras, de Urbani- metidas ao Departamento de Polícia por suas características, exigem o em-
,atividades privadas ,de caráter técnico zação ou de Desenvolvimento Urbano, Federal, reguladas pela Lei n,o 4.438, prêgo da fôrça pública. Emergindo es-
e científico, em que tem o Estado in- no que se refere às construções, se in- ,de 16 de novembro de 1964, dentre as tado de necessidade pública, pode ocor-
terêsse, a regras de disciplina e fisca- dividualmente tomadas, e de Planos Di- ,quais destacam-se: a fiscalização da:,; rer que a repressão direta contra a
lização. Inúmeras leis especiais regem retores, se coletivamente considerados. ,fronteiras terrestres e da orla marí- pessoa do indivíduo seja a única solu-
,a matéria, por expressa reserva cons- A matéria, entretanto, é objeto, hodier- tima; a fiscalização dos passageiros ção para manter ou restabelecer a or-
titucional (CRFB, art. 8.°, XVII, r), namente, de um tratamento sistemático ,procedentes do exterior ou que se au- dem violada. De logo, tais medidas ca-
tôdas federais. Lembrável que, tam- em ramo já didàticamente definível, sentam do País; o registro geral dos bem aos órgãos policiais de vigilância
bém, emprêsas de prestação de servi- que é o Direito Urbanístico, de dimen- estrangeiros; a direção da polícia pre- mas, conforme a gravidade; deverão
'ços profissionais podem estar sujeitas são maior, envolvendo todos os proble- ventiva de guarda aérea, portuária e passar às milícias estaduais.
a estas limitações administrativas es- mas de uso humano da terra para ha- de aeroportos; a expedição de passa-
Estas milícias, dos Estados-membros,
'peciais de polícia como, po rexemplo, bitação, circulação, trabalho e recreio. portes; a segurança pessoal do Presi-
do Distrito Federal e dos Territórios
dente da República, de diplomatas, de
as que se destinam à busca de infor- Feitas as rápidas observações, que são as políôias militares organizaçõe~
mações reservadas, de vigilância par- seriam permissíveis dentro de um tra- visitantes oficiais e de outras autori-
de assento constitucional, fundadas na
ticular, de investigações, etc. balho de abertura do Direito Adminis- ,dades, e a coordenação de interligação,
disciplina, estruturadas hieràrquica-
A polícia de estrangeiros em estreita trativo de Segurança Pública, a res- no País, dos serviços de identificação mente e instituídas para a manuten-
relação com a segurança do Estado. A peito dos ângulos da segurança cober· dactiloscópica, civil e criminal
ção da ordem pública e segurança in-
Constituição assegura, em principio, em tos pela polícia adtministrativa, pode- No plano estadual, as atribuições de terna no âmbito dos respectivos terri-
'tempo de paz, a qualquer pessoa, en- mos nos voltar aos mecanismos preven- Jlolícia de vigilância se distribuem en- tórios. Compete à União legislar sô-
trar com seus bens em território na- tivos da polícia de vigilânciJa.. tre órgãos das Secretarias de Seguran-
bre sua organização, efetivos, instru-
cional, nêle permanecer ou dêle sair Considera-se o fim precípuo da vigi- 'ça Pública, No Estado da Guanabara, ção, justiça e garantias, bem como sô-
(CRFB, art. 153, § 27), mas, conforme lância a informação; nem sempre os ;apenas exemplificativamente, são êles:
bre as condições gerais de convocação
'o próprio preceito o ressalva, obedeci- órgãos policiais incumbidos de missões a Polícia Militar, o Corpo de Bombei-
e mobilização (CRFB, art. 8.°, XVII,
de vigilância estarão aprestados para TOS, a Superintendência da Polícia de
das as limitações de polícia estabeleci- v) vigendo, a respeito, o Decreto-Lei
'Segurança, o Departamento de Trânsi-
'das pela lei, de competência federal; eventual repressão, salvo se esta fôr n. o 317, de 13 de março de 1967.
,o assunto tem conotações de Direito emergente, mas deverão estar atentos, to, o Corpo Marítimo de Salvamento e
Ainda constitucionalmente (CRFB,
Internacional Privado que devem ser de modo a que possa ser ela providen- a Guarda Civil do Estado da Guana-
bara, art. 13, §' 4. 0 ), são consideradas fôr-
,evidenciadas. ciada na ocasião oportuna e na certa ças auxiliares, reserva do Exército,
Completam o sistema preventivo, a
O Decreto-Lei n. o 941, de 13 de abril medida. mantendo, por isto, correspondência dos
A vigilância pode ser realizada pelo 'Comunidade nacional de informações,
de 1969,que deu complementaridade à postos e graduação até seu grau hie-
Estado através de vários instrumentos: tendo à cúpula o Serviço Nacional de
'norma constitucional, disciplinando vis- rárquico mais elevado, que é o de Co-,
registros prévios (como cadastros, ins- Informações S . N ,L (Decreto-Lei
tos de entrada, impedimentos, natura- ronel.
crições, relatórios), inspeção e presen- n,o 200, de 25 de fevereiro de 1967,
lização, extradição, deportação e con- Compete às Polícias Militares: fa-
ça dissuasória de guardas ,rondas, ou art. 32, II).
dição de asilado, bem como os direitos zer o policiamento ostensivo, atuar
e deveres dos estrangeiros, fixa o que fôrçl\S de choque. como fôrça de dissuasão (formas pre-
'se denomina de estatuto dos estrangei- As organizações policiais de tôda na- ventivas), atuar de maneira repressiva
3. Repressão policial na seguramç,a p1t-
TOS, de permanente interêsse em tema tureza e de todos os graus federativos blica interna precedendo o emprêgo eventual de Fôr-
de segurança nacional, externa ou in- _ Polícia F'ederal, Polícia Rodoviária ças Armadas (forma repressiva) e
terna. Federal, Polícias Civis Estaduais, Po- Falhando a prevenção, entra em ação atender à convocação do Govêrno Fe-
Por último, citamos, sem esgotar as lícias Militares e Polícias Rodoviárias o mecanismo repressivo do Estado. A deral, em caso de guerra externa ou
"Variedades, a polícia e'drilícia, responsá- Estaduais - incluem, entre suas fun- repressão policial, de que ora tratare- para prevenir ou reprimir grave sub-
'vel pela disciplina física dos meios ur- ções atribuições de vigilância; além mos, poderá consistir ou na ação ime- versão da ordem ou ameaça de sua ir-
'banizados, que visa a tornar mais se~ dess~s, há outras organizações de vi- diata contra o indivíduo, dispersando rupção (forma repressiva-operativa).
'gura (a par de mais salutar, mais dig- gilância setoriais ou locais, como as multidões, dissolvendo aglomerações e A polícia judiciá,r~{]) se volta à apu-
prendendo €ll1 flagrante delito, ou na ração dos ilícitos penais e à assegura-
,138
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ção do cumprimento das decisões judi- 4. A decretação de expuls·ão de es-·
ciárias. poderá ser ou federal, exerci- trangeiro (Decreto-Lei n.o 941, de.-
da, neste caso, pela Polícia Federal - 13 de outubro de 1969). .serva de competência da União porque didàs de segura,.nça criminais, que im-
DPF, em relação às matérias de com- 5. A decretação do estado de sítÍG r têm conotação política. Tratam dos portem em encarcerame'\lto (prisão sim-
pEtência da justiça federal, ou esta- quando, em estado de necessidade- ·crimes de responsabilidade as Leis ples, detenção ou rech:tsão), será fei-
dual, exercida pelas polícias civis es- nacional, nos casos de guerra e.- ns. 1. 079, de 10 de abril de 1950 (que ta, em cada Estado, no Distrito Fe-
taduais. No Estado da Guanabara, a de grave perturbação da ordem ou os define e regula o respectivo pro- deral e nos Territórios por órgãos lo-
atribuição está entregue a um órgão ameaça de sua irrupção, para pre-- cesso de julgamento), 5.249, de 9 de cais, atendidas as normas estaduais e
da Secretaria de Segurança Pública, a servar o Estado e suas institui- fevereiro (que dispõe sôbre a ação pú- federais respectivas; todavia, as nor-
Superintendência de Polícia Judiciária. ções, houver por bem de limitar 'blica nos crimes de responsabilidade), mas gerais, por reserva constitucional
ou suspender direitos e garantias. -o Decreto-Lei n,o 201, de 27 de feve- (CRFB, art. 8.°, XVII, c), são baixa-
individuais ou tomar outras me- reiro de 1967 (que dispõe sôbre a res- das pela União. A Lei n. 03.274, d("
4. Repressão política na segurança pú- didas similares (CRFB, art. 155 :ponsabilidade dos Prefeitos e Vereado- 2 de outubro de 1957, contém estas
blica interna e seguintes). res, alterado parcialmente pela Lei normas gerais que constituem, junta-
n.O 5.659, de 8 de junho de 1971), e mente com a legislação local, as fontes
Certas violações da ordem, por suas De competência da autoridade polí- 'Ü Decreto-Lei n.o 411, de 8 de janeiro do Direito Penitenciário, ramo especia-
características, provocam uma repres- cial, excepcionalmente: de 1969 (que estende nos arts. 62 e lizado do Direito Administrativo.
são direta do Govêrno, importando em A dep·o·rtação de estrangeiro em caso. <68, aos Prefeitos e Vereadores dos Ter-
constrangimento pessoal independente- de entrada ou permanência irregular no.. :ritórios as disposições do diploma an-
mente de qualquer intervenção do Po- País (Decreto n. o 941, de 13 de outu- terior), além das Constituições Federal 6. Repressão militar na segurança pú-
der Judiciário. Tais medidas auto-exe- bro de 1969). Observe-se que a depor- ~ Estaduais. blica interna
cutórias são de delineamento constitu- tação, não obstante ser ato de autori- A repressão judiciária, em tema de Tanto no caso da segurança interna,
cional, reservadas ao Poder P'úblico dade policial, tem nítido caráter po- segurança pública, assume maior im- que tratamos de modo particular,
Federal, quase que exclusivamente ao lítico. portância quando se trata dos crimes quanto no caso da segurança externa,
Chefe do Executivo, e têm sentido emi- específicos contra a segurança nacional. a que apenas mencionamos atrás, quan-
nentemente político e não criminal. A matéria está legislada no Decreto- do atinja aquela atuação, qualificada
5. Repressão judiciária na segurança.
São repressões desta categoria, de Lei n. o 898, de 29 de setembro de 1969, como opositora ao Estado e às suas
pública interna
competência do Presidente da Repú- "que define aquêles crimes, as penas, instituições, forma de tal modo violen-
blica: Excetuando-se os casos estritos de regula o respectivo processo e, em dis- ta e organizada que os sistemas re-
previsão constitucional, incumbe ao Ju- posições preliminares, fixa corweitos li- pressivos examinados nada mais pos-
1. A decretação de perda de nacio- diciário a repressão direta contra a gados ao problema. Por disposição sam fazer para detê-la, neutralizá-la
nalidade de brasileiro que, sem psssoa do indivíduo pela aplicação da. constitucional (CRF'B, art. 129), a ou eliminá-la, a repressão passa a ter
sua licença, aceitar comissão, em- pen,'Jj criminal. .Justiça Militar é o fôro especial para caráter operativo-militar e é confiada
prêgo ou pensão de govêrno es- A tipificação dos ilícitos penais e a. -o julgamento dos crimes contra a se- às Fôrças Armadas, constituídas pela
trangeiro (CRFB, art. 146, II). aplicação das penas são matéria do Di- gurança nacional. Marinha, pelo Exército e pela Aero-
Z. A decretação de perda dos direi- reito Penal, Comum e Militar. Além N a repressão judiciária, capitula-se náutica.
tos políticos de cidadão que se re- das formas comuns de criminalidade, .ainda a suspens,ão mi} direitos, declara- As Fôrças Armadas são definidas
cusa, baseado em convicções reli- tratadas no Código Penai, na Lei d~ da pelo Supremo Tribunal Federal constitucionalmente como instituições
giosas, filosóficas ou políticas, à Contravenções Penais e no Código Pe- (Constituição, art. 154), em caso de nacionais, permanentes e regulares, or-
prestação de encargo ou serviço nal Militar, há delitos previstos em abuso de direito individual ou político, ganizadas com base na hierarquia e na
impostos aos brasileiros em geral abundante legislação administrativa es-· com o propósito de subversão do regi- disciplina, sob a autoridade do Presi-
(CRFB, art. 149, § 4. 0 , b) e pela pedal, como os delitos florestais, os de: me democrático ou de corrupção. Pro- dente da República, destinando-se à de-
aceitação de condecoração ou tí- caça, os de pesca, os de economia po- ceder-se-á 'por representação do Pro- fesa do País, à garantia dos podêres
tulo nobiliárquico estrangeiros que pular, os de saúde, os fiscais, os de' -curador-Gerd da República e, ao pa- constuídos, da lei e da ordem. Seu re-
importem restrição de direito de telecomunicações, os de menores, os' -ciente, será assegurada ampla defesa .. gime básico se encontra na Seção VI,
cidadania ou dever para com (I eleitorais, os de abuso de autoridade' A Constituição prevê, finalmente, do Capítulo VII - Do Poder Executi·
Estado brasileiro (CRFB, arti- e outros. duas outras formas de repressão atra- vo, da Constituição Federal, arts. 90
go 149, § 1. 0 , c). Constituindo um sistema criminal pa- vés do Poder Judiciário: a perda da a 93.
3. A decretação de banimento ralelo, existem os crimes de responsa- nacionalidade brasileira (art. 146, III) As ações de ordem operativa serão
(CRFB, art. 153, § 11). bilidade, cuja tipificação escapa à re- e a perd(/) ou suspensão dos direitos po- empreendidas em intensidade variável,
líticos (art .149, § 2.°). conforme a necessidade, podendo alcan-
A execução penal, inclusive das me- çar aquelas típicas da guerra conven-
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cional sem que seja necessária a provi- sideradas, no que respeita à segurança.
dência do art. 8. 0 , II, e 81, XI, da interna.
Constituição Federal, a declaração for-
mal de guerra. N a verdade, o desen- Esta singela sistematização, que se
ressente de amanho mais adequado, que:
cadeamento de operações militares re-
sulta de uma situação de fato e de um lhe mereceria melhormente à clareza ~
ao discurso técnico, vem com a preten-
Nóvo Direito Penal
imperativo inelutável, já de defesa na-
são de desbravar desvãos doutrinários.
cional, entendida esta como uma atua-
que, não obstante serem de inegável
ção extrema, no quadro da segurança importância, padecem do oblívio dos te-o
nacional. mas fronteiriços e multi disciplinares.
Observações importantes, principal- Matéria esparsa nas áreas de cons- Saíram o segundo e o terceiro volumes do livro
mente no que diz respeito às relações titucionalistas, processualistas, penali s-
federativas, ressaltando o caráter dli tas e administrativistas, não logrou, "NOVO DIREITO PENAL" do professor Roberto Lyra,
emergênc1J.x da atuação das Fôrças Ar- todavia, merecer, dos respectivos dou-o
madas, resultam do disposto no art. 10, trinadores, esfôrço integratório a par- Ex-Ministro da Educação e Cultura e Membro da Côrte
III, da Constituição Federal, autoriza- tir de nenhuma delas. Há como que Permanente de Arbitragem de Haia.
tivo da intervenção no Estado-membro certa cerimônia de uns em ocasional-
sempre que se a fizer para manter a mente adentrar seara dos outros. :or
integridade nacional, repelir invasão es- isto é que, se outro mérito não tIVer
êste trabalho, talvez o justifique o ter
O chefe da escola penal brasileira diz tôda a ver-
trangeira ou a de um Estado em outro
e para pôr têrmo a p'erturbação de reunido, sob um enfoque integrante, dade sôbre crime, criminoso, pena e temas afins.
ordem ou ameaça de sua irrupção, bem um tema que já está exigindo, pela sua.
como adiante, no art .91, que fixa a crescente e inegável importân~ia, tra-
atribuição, e correlata responsabilida- tamento sistemático em doutrma, se- I. O professor Roberto Lyra liga o Direito Penal a
de, das três Fôrças, conjuntamente con- não em legislação nacional.
tôdas as ciências humanas sociais, proj etando-o como
base, comunicação e estímulo da cultura g~ral e das
técnicas profissionais.

A matéria reunida e revelada em "NOVO DIREITO


PENAL" não consta de outro livro, iluminando cami-
nhos para a interpretação e a aplicação das leis penais
sob todos os aspectos.

Pedidos pelo Reembôlso Postal a Borsoi & Cia. -


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Rua Francisco Manuel, 55 - Benfica - ZC-15 - Rio
da Janeiro - GB.

Telefones: 248-8176 e 248-2834.

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