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ASSOCIAÇÃO TERESINENSE DE ENSINO – ATE

FACULDADE SANTO AGOSTINHO – FSA


DIRETORIA DE ENSINO NÚCLEO DE APOIO PEDAGÓGICO
CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
DISCIPLINA: ENFOQUE PSICOSSOMÁTICO DO PROC. TERAPÊUTICO
PROFESSOR: PÉRISSON DANTAS DO NASCIMENTO

TRABALHO SOBRE PLURALIDADE PARADGMÁTICA EM PSICOSSOMÁTICA


PSICANALÍTICA: PRINCIPAIS CONCEITOS EM FREUD

EQUIPE:
HERCILENE EVANGELISTA DE SOUSA
JOSE AIRTON DA SILVA

TERESINA - PI
FEV / 2010
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1 - INTRODUÇÃO

O presente trabalho caracteriza-se como atividade curricular obrigatória da


disciplina Enfoque Psicossomático do Processo Terapêutico, da Pós-Graduação em
Psicologia Clínica, da Faculdade Santo Agostinho, ministrado pelo professor Ms.
Périsson Dantas do Nascimento. Tem por finalidade oportunizar aos interessados e
alunos da disciplina supra citada, noções sobre psicossomática no processo
terapêutico, atividade curricular necessária para aproximar teoria e prática na Clínica
Psicológica.
Nesse contexto, abordaremos os principais aspectos sobre psicologia,
psicanálise, psicologia clínica e psicossomática, tudo isso no intuito de
proporcionar conhecimentos para que, cientes destes requisitos, possamos
possibilitar aprendizado e capacitação no exercício da prática clínica, e, maior
segurança ao escutar o sofrimento psíquico do ser humano, ajudando-o a lidar com
os seus conflitos emocionais, e oportunizando-o ajustamento e autoconhecimento,
refletindo assim em melhor qualidade de vida a esse sujeito em processo
psicoterápico.
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2 - BREVE ASPECTOS SOBRE A PSICOLOGIA

A Psicologia é a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento.


Entende-se por comportamento uma estrutura vivencial interna que se manifesta na
conduta. Façamos um breve relato da história da psicologia no ocidente:
A psicologia ocidental originou-se na Grécia por volta do ano 500 a.C. dentro
da Filosofia, onde alguns filósofos iniciaram cogitações sobre a psique humana.
Destacam-se Sócrates, Platão e Aristóleles como grandes filósofos que criaram a
base da filosofia ocidental.
No século XIX, no período de 1832 a 1860 na Universidade de Leipzig,
Alemanha, é que a psicologia surgiu como ciência separada da filosofia através do
estabelecimento de métodos e princípios teóricos aplicáveis ao estudo e de grande
utilidade no estudo e tratamento de diversos aspectos da vida e da sociedade
humana.
A teoria psicológica tem caráter interdisciplinar por sua íntima conexão com as
ciências biológicas e sociais e por recorrer, cada vez mais, a metodologias
estatísticas, matemáticas e informáticas. Não existe, contudo, uma só teoria
psicológica, mas sim uma multiplicidade de enfoques, correntes, escolas,
paradigmas e metodologias concorrentes, muitas das quais apresentam profundas
divergências entre si.
Modernamente a psicologia é dividida em quatro grandes correntes
denominadas forças:
1ª FORÇA: Behaviorismo ou Psicologia Comportamental - criada por John
B. Watson. Reformulou os conceitos de consciência e imaginação, negando o valor
da introspecção. Watson rejeitou tudo o que não pudesse ser mensurável, replicável
ou observável em laboratório. Segundo ele, somente o comportamento manifesto era
possível de ser validado cientificamente.
O Behaviorismo considera o homem uma tabula rasa, sem história, e cabe
inscrever-se nele a história que se quer. O organismo – seja do homem, seja
do animal – está à cata de recompensas, e age exclusivamente para obter
recompensas ou reforços positivos, geradores de satisfação. O homem não é
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pois nem bom e nem mal/ mau, mas dependerá do meio ambiente em que estiver,
dos modos como emitirá os comportamentos adequados e assim obter
recompensas. Caso ele emita respostas comportamentais inadequadas, receberá
punição ou lhe será retiradas as recompensas positivas que já tenha ganho,
ou saberá da existência delas, mas não ganhará. Os estudos posteriores
demonstraram que essa postura não era correta em alguns aspectos, mesmo
assim os estudos de Watson foram determinantes para a expansão da
psicologia. Os maiores nomes do Behaviorismo são: Ivan Pavlov, John B.
Watson, Burrhus F. Skinner, Lazarus, Mager, Bloom, etc.

2ª FORÇA: Psicanálise - criada por Sigmund Freud, o estudo psicanalítico


focaliza prioritariamente a patologia e o extremo sofrimento diante da
própria impotência e da limitação humana. Freud teve inúmeros seguidores e
muitos de seus postulados sobre a psique continuam válidos e dão suporte às
outras escolas que se desenvolveram a partir da psicanálise. Freud também
teve dissidentes que evidenciaram outros aspectos importantes da psique
humana que ele não admitia. O principal discípulo de Freud foi Carl Gustav
Jung, que é considerado um dos precursores da Psicologia Transpessoal, devido
aos seus inúmeros estudos sobre o ocultismo.
A Psicanálise valoriza o conceito e o sentido de inconsciente – variando o
sentido de acordo com os autores ortodoxos ou neo-psicanalistas. O homem não
“tem consciência” de tudo, pois sua existência – o alicerce que o segura – está presa
ao inconsciente – terra onde ninguém pisa. A consciência é a sede do engano. O
homem está entregue aos instintos – Eros/ vida; Thanatos/ morte – e tende ao
maléfico, ao perverso. Ele se torna socialmente útil por meio do mecanismo de
defesa sublimação, onde canaliza seus instintos perversos (Thanatos) para
atividades apoiadas e aprovadas pela sociedade e pela história. Didaticamente: Um
médico cirurgião poderia ser um assassino, mas sublima esse seu “instinto” para
uma atividade aprovada. Os maiores nomes da Psicanálise são: Sigmund Freud,
Anna Freud, Alfred Adler, Eric Fromm, Karen Horney, Carl Gustav Jung, Jacques
Lacan, Melaine Klein, Fraçoise Dolto, Wilfred Bion, etc.
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3ª FORÇA: Psicologia Humanista (Abordagem Centrada na Pessoa) –


surgiu nos Estados Unidos e na Europa, na década de 50, como reação explícita ao
behaviorismo e a analogia entre o Ser Humano e a máquina e, que colocava à
margem do seu objeto de estudo os fatores afetivos e emocionais. Os
humanistas reagiram a essa opção metodológica pela exclusão da emoção, que
consideravam inerente e fundamental no ser humano.
A visão do Ser Humano no humanismo é a de um ser criativo, com
capacidades de auto-reflexão, decisões, escolhas e valores. Abraham Maslow é
considerado fundador desse movimento. A respeito da psicanálise Maslow afirmou
que Freud se deteve na doença e na miséria humana e que era necessário
considerar os aspectos saudáveis, que dão sentido, riqueza e valor à vida. Uma das
funções da forma humanista de se analisar a psicologia é resgatar o sentido da vida
próprio da condição humana. Maslow afirmava que o homem seria um ser com
poderes e capacidades inibidas. Adoecemos, não só por termos aspectos
patológicos, mas, muitas vezes, por bloquearmos elementos saudáveis.
A Psicologia Humanista valoriza a experiência/ vivência/vivido segundo o
discurso verbal/ não-verbal da pessoa. O ser é no mundo, tendo pois de
compreendê-lo e apreendê-lo dentro do contexto social e histórico. O ser humano é
bom na sua essência. O homem está jogado no mundo e o destino dele é cuidar de
si, do outro e dos objetos do mundo: sua existência. Assim, há autores que
defendem que o homem tem uma essência, uma estrutura. Outros que o homem
possui, é existência, sempre incerta, incompleta, efêmera, finita. Os maiores nomes
da Psicologia Humanista são: Carl Ransom Rogers, Abraham Maslow, J. Wood
Virgínia Axiline, Rachel Lea Rosenberg, Jayme Roy Doxsey, etc.

4ª FORÇA: Psicologia Transpessoal - a partir das idéias delineadas na


psicologia humanista surgiu a 4ª força. Maslow acreditava que vivenciar o aspecto
transcendente era importante e crucial em nossas vidas. Pensar de forma holística,
transcendendo dualidades como certo, errado, bem ou mal, passado, presente e
futuro é fundamental. Maslow declarava que sem o transcendente ficaríamos
doentes, violentos e niilistas, vazios de esperança e apáticos. Na segunda edição do
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livro "Introdução a Psicologia do Ser", Maslow anuncia o aparecimento da quarta


força em psicologia - para além dos interesses personalizados, mais elevada e
centrada no cosmo. Em 1968, ele concluiu: "Considero a Psicologia Humanista, a
Psicologia da Terceira Força, transitória, uma preparação para uma Quarta
psicologia ainda ‘mais forte’, transpessoal, transumana, centrada no cosmos e não
em necessidades e nos interesses humanos, que vai além da condição humana, da
identidade, da auto-realização, etc". Algo maior do que somos e que seja respeitado
por nós, e ao qual nos entregamos num novo sentido não materialista.
Vitor Frankl, Stanislav Grof, James Fadiman e Antony Sutich uniram-se a
Maslow e oficializaram, em 1968, a Psicologia Transpessoal, enfocando o estudo da
consciência e o reconhecimento dos significados das dimensões espirituais da
psique. Esse evento foi anunciado por Antony Sutich, em seu artigo Transpersonal
Psychology. Os maiores nomes da Psicologia Transpessoal são: Abraham Maslow,
Roberto Assagioli, Vitor Frankl, Stanislav Grof, Ken Wilber, James Fadiman, Antony
Sutich, etc.

3 – BREVE ASPECTOS SOBRE A PSICANÁLISE

O termo psicanálise é usado para se referir a uma teoria, a um método de


investigação e a uma prática profissional. Enquanto teoria, caracteriza-se por um
conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica.
Freud publicou uma extensa obra, durante toda a sua vida, relatando suas
descobertas e formulando leis gerais sobre a estrutura e o funcionamento da psique
humana. A psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo
método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto através
de ações e palavras ou através das produções imaginárias, como os sonhos, os
delírios, as associações livres. A prática profissional refere-se à forma de
tratamento psicológico (a análise) que visa a cura ou o autoconhecimento.
Compreender a Psicanálise significa percorrer o trajeto pessoal de Freud,
desde a origem dessa ciência e durante grande parte de seu desenvolvimento. A
relação entre autor e obra torna-se mais significativa quando descobrimos que
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grande parte de sua produção foi baseada em experiências pessoais, transcritas com
rigor em várias de suas obras, como a Interpretação dos Sonhos e A psicopatologia
da vida cotidiana, dentre outras.
Compreender a Psicanálise significa, também, repetir, no nível pessoal, a
experiência inaugural de Freud e buscar “descobrir” as regiões obscuras da vida
psíquica, vencendo as resistências interiores, pois, se ela foi realizada por Freud,
“não é uma aquisição definitiva da humanidade, mas tem que ser realizada de novo
por cada paciente e por cada psicanalista”.
Quanto à ‘Gestação’ da Psicanálise; Freud formou-se em Medicina na
Universidade de Viena, em 1881, e especializou-se em Psiquiatria. Trabalhou algum
tempo em um laboratório de filosofia e deu aulas de Neuropatologia no instituto onde
trabalhava. Por dificuldades financeiras, não pôde dedicar-se integralmente à vida
acadêmica e de pesquisador. Começou atendendo pessoas acometidas de
“problemas nervosos”. Obteve ao final da residência médica, uma bolsa de estudos
para Paris, onde trabalhou com Jean Charcot, psiquiatra francês que tratava as
histerias com hipnose. Em 1886 retornou a Viena e voltou a clinicar, e seu principal
instrumento de trabalho na eliminação dos sintomas dos distúrbios nervosos passou
a ser a sugestão hipnótica.
Em Viena, o contato de Freud com Josef Breuer, médico e cientista, também
foi importante para a continuidade das investigações. Nesse sentido, o caso de uma
paciente de Breuer foi significativo. Anna O. apresentava um conjunto de sintomas
que a fazia sofrer, isto é, distúrbios sintomáticos que produziam paralisia com
contratura muscular, inibições e dificuldades de pensamento. Esses sintomas tiveram
origem no período em que ela cuidara do pai enfermo. No período em que cumpria
essa tarefa, ela havia tido pensamentos e afetos que se referiam a um desejo de que
o pai morresse. Estas idéias e sentimentos foram reprimidos e substituídos por
sintomas.
Em seu estado de vigília. Anna O. não era capaz de indicar a origem dos seus
sintomas, mas, sob o efeito da hipnose, relatava a origem de cada um deles, que
estavam ligados a vivências anteriores da paciente, relacionadas com o episódio da
doença do pai. Com a rememoração destas cenas e vivências, os sintomas
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desapareciam. Este desaparecimento dos sintomas não ocorria de forma “mágica”,


mas devido à liberação das reações emocionais associadas aos eventos
traumáticos.
Breuer denominou método catártico o tratamento que possibilita a liberação
de afetos e emoções ligadas a acontecimentos traumáticos que não puderam ser
expressos na ocasião da vivência desagradável ou dolorosa. Essa liberação de
afetos leva à eliminação dos sintomas.
Freud em sua autobiografia, afirma que desde o início de sua prática médica
usara a hipnose, não só com objetivos de sugestão, mas também para obter a
história da origem dos sintomas. Posteriormente, passou a utilizar o método
catártico e, “aos poucos, foi modificando a técnica de Breuer: abandonou a hipnose,
porque nem todos os pacientes se prestavam a ser hipnotizados; desenvolveu a
técnica da ‘concentração’, na qual a rememoração sistemática era feita por meio da
conversação normal; e por fim, acatando a sugestão (de uma jovem) anônima,
abandonou as perguntas – e com elas a direção da sessão – para se confiar por
completo à fala desordenada do paciente (associação livre).
Nesse contexto, falaremos de algumas descobertas fundamentais de Freud:

 A descoberta do Inconsciente:
“Qual poderia ser a causa de os pacientes esquecerem tantos fatos de sua
vida interior e exterior...?”, perguntava-se Freud.
O esquecido era sempre algo penoso para o indivíduo, e era exatamente por
isso que havia sido esquecido. Quando Freud abandona as perguntas no trabalho
terapêutico com os pacientes e os deixa dar livre curso às suas idéias, observa que,
muitas vezes, os pacientes ficavam embaraçados, envergonhados com algumas
idéias ou imagens que lhes ocorriam. A esta força psíquica que se opunha a tornar
consciente, a revelar um pensamento, Freud denominou resistência. E chamou de
repressão o processo psíquico que visa encobrir, fazer desaparecer da consciência,
uma idéia ou representação insuportável e dolorosa que está na origem do sintoma.
Estes conteúdos psíquicos “localizam-se” no inconsciente.
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 A primeira teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico:


Em 1900, no livro A interpretação dos sonhos, Freud apresenta a primeira
concepção sobre a estrutura e funcionamento da personalidade. Essa teoria refere-
se à existência de três sistemas ou instâncias psíquicas: inconsciente, pré-
consciente e consciente.
- O Inconsciente – exprime o “conjunto dos conteúdos não presentes no
campo atual da consciência”. É constituído por conteúdos reprimidos, que não têm
acesso aos sistemas pré-consciente/ consciente, pela ação de censuras internas.
Estes conteúdos podem ter sido conscientes, em algum momento, e ter sido
reprimido, Isto é, “foram” para o inconsciente, ou podem ser genuinamente
inconscientes. O inconsciente é um sistema do aparelho psíquico regido por leis
próprias de funcionamento. Por exemplo, não existem as noções de passado e
presente.
- O Pré-consciente – refere-se ao sistema onde permanecem aqueles
conteúdos acessíveis à consciência. É aquilo que não está na consciência, neste
momento, mas que no momento seguinte pode estar.
- O Consciente – é o sistema do aparelho psíquico que recebe ao mesmo
tempo as informações do mundo exterior e as do mundo interior. Na consciência,
destaca-se o fenômeno da percepção e, principalmente, a percepção do mundo
exterior.

 A descoberta da sexualidade infantil:


Freud em suas investigações na prática clínica sobre as causas e
funcionamentos das neuroses, descobriu que a grande maioria dos pensamentos e
desejos reprimidos referiam-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros
anos de vida dos indivíduos, isto é, que na vida infantil estavam as experiências de
caráter traumático, reprimidas, que se configuravam como origem dos sintomas
atuais, e confirmava-se, desta forma, que as ocorrências deste período da vida
deixam marcas profundas nas estruturação da personalidade. As descobertas
colocam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da
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sexualidade infantil. Estas afirmações tiveram profundas repercussões na sociedade


puritana da época, pela concepção vigente da infância como “inocente”. Os principais
aspectos destas descobertas são:
- A função sexual existe desde o princípio da vida, logo após o nascimento, e
não só a partir da puberdade como afirmavam as idéias dominantes.
- O período de desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até
chegar à sexualidade adulta, onde as funções de reprodução e de obtenção do
prazer podem estar associadas, tanto no homem como na mulher. Esta afirmação
contrariava as idéias predominantes de que o sexo estava associado,
exclusivamente, à reprodução.
- A libido, nas palavras de Freud, é “a energia dos instintos sexuais e só
deles”.
No processo de desenvolvimento psicossexual, o indivíduo tem, nos
primeiros tempos de vida, a função sexual ligada à sobrevivência, e portanto o prazer
é encontrado no próprio corpo. O corpo é erotizado, isto é, as excitações sexuais
estão localizadas em partes do corpo, e há um desenvolvimento progressivo que
levou Freud a postular as fases do desenvolvimento sexual em: fase oral (a zona de
erotização é a boca), fase anal (a zona de erotização é o ânus), fase fálica (a zona
de erotização é o órgão sexual), em seguida vem um período de latência, que se
prolonga até a puberdade e se caracteriza por uma diminuição das atividades
sexuais, isto é, há um “intervalo” na evolução da sexualidade. E, finalmente, na
adolescência é atingida a última fase, isto é, a fase genital, quando o objeto de
erotização ou de desejo não está mais no próprio corpo mas em um objeto externo
ao indivíduo – o outro.
No decorrer dessas fases, vários processos e ocorrências sucedem-se.
Desses eventos, destaca-se o Complexo de Édipo, pois é em torno dele que ocorre
a estruturação da personalidade do indivíduo. Acontece entre 2 e 5 anos. No
complexo de Édipo a mãe é objeto de desejo do menino, e o pai é o rival que impede
seu acesso ao objeto desejado. Ele procura então assemelhar-se ao pai para “ter” a
mãe, escolhendo-o como modelo de comportamento, passando a internalizar as
regras e as normas sociais representadas e impostas pela autoridade paterna.
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Posteriormente, por medo da perda do amor do pai, “desiste” da mãe, isto é, a mãe é
“trocada” pela riqueza do mundo social e cultural, e o garoto pode, então, participar
do mundo social, pois tem suas regras básicas internalizadas através da
identificação com o pai. Este processo também ocorre com as meninas, sendo
investidas as figuras de desejo e de identificação. Freud fala em Édipo feminino.

 Outros conceitos:
Faz-se necessário a explicação de alguns aspectos que permitem
compreender os dados e informações já expostos até aqui, pois, estes aspectos
também são postulações de Freud, e seu conhecimento é fundamental para se
compreender a continuidade do desenvolvimento de sua teoria.
1 – No processo terapêutico e de postulação teórica. Freud inicialmente,
entendia que todas as cenas relatadas pelos pacientes tinham de fato ocorridas.
Posteriormente, descobriu que poderiam ter sido imaginadas, mas com a mesma
força e conseqüências de uma situação real. Aquilo que, para o indivíduo, assume
valor de realidade é a realidade psíquica.
2 – O funcionamento psíquico é concebido a partir de três pontos de vista: o
econômico (existe uma quantidade de energia que “alimenta” os processos
psíquicos), o tópico (o aparelho psíquico é constituído de um número de sistemas
que são diferenciados quanto a sua natureza e modo de funcionamento, o que
permite considerá-la como “lugar” psíquico) e o dinâmico (no interior do psiquismo
existem forças que entram em conflito e estão, permanentemente, ativas. A origem
dessas forças é a pulsão). E compreender os processos e fenômenos psíquicos é
considerar os três pontos de vista simultaneamente.
3 – A pulsão se refere a um estado de tensão que busca, através de um
objeto, a supressão deste estado. Eros é a pulsão de vida e abrange as pulsões
sexuais e as de autoconservação, e, Tanatus é a pulsão de morte, pode ser
autodestrutiva ou estar dirigida para fora e se manifestar como pulsão agressiva ou
destrutiva.
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 A segunda teoria do aparelho psíquico:


Entre 1920 e 1923, Freud remodela a teoria do aparelho psíquico e introduz os
conceitos de id, ego e superego para referir-se aos três sistemas da personalidade.
O id constitui o reservatório da energia psíquica, é onde se “localizam” as
pulsões: a de vida e a de morte. As características atribuídas ao sistema
inconsciente, na primeira teoria, são nesta teoria, atribuídas ao id. É regido pelo
princípio do prazer.
O ego é o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as
exigências da realidade e as “ordens” do superego. Procura “dar conta” dos
interesses da pessoa. É regido pelo princípio da realidade, que, com o princípio do
prazer, rege o funcionamento psíquico. É um regulador, na medida em que altera o
princípio do prazer para buscar a satisfação considerando as condições objetivas da
realidade. Neste sentido, a busca do prazer pode ser substituída pelo evitamento do
desprazer. As funções básicas do ego são: percepção, memória, sentimentos,
pensamento.
O superego origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização
das proibições, dos limites e da autoridade. A moral, os ideais são funções do
superego. O conteúdo do superego refere-se a exigências sociais e culturais.
O ego e, posteriormente, o superego são diferenciações do id, o que
demonstra uma interdependência entre esses três sistemas, retirando a idéia de
sistemas separados. O ide refere-se ao inconsciente, mas o ego e o superego têm,
também, aspectos ou “partes” inconscientes.
É importante considerar que estes sistemas não existem enquanto uma
estrutura em si, mas são sempre habitados pelo conjunto de experiências pessoais e
particulares de cada um, que se constituem como sujeito em sua relação com o outro
e em determinadas circunstâncias sociais.

 A estrutura do sujeito:
A estrutura é o modo de arranjo energético do sujeito e de suas funções. Esse
arranjo é determinado pela ancoragem da inscrição tópica profunda da relação
mãe/filho.
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A estrutura é um todo, reconhecidas interrelações, partes, diferente da


organização. Dessa forma, organização é o aspecto finalístico que se atribui ao se
analisar aspectos de, ou uma estrutura, ela própria tendo sempre um caráter
heurístico. Assim, não podemos falar de estruturas doentes, mas sim de aspectos,
núcleos organizacionais doentes que gravitam, cindem, simbiotizam na estrutura.
Desta forma, distinguiremos as seguintes estruturas:
A psicose - marcada pela possibilidade de forclusão e injunção, disfunções
próprias do limite. O foco energético é difuso, campo energético disperso com fluxos
frouxos, pouco concentrados.
A neurose - basicamente disfunção da dimensão da lei. Ocorre contração do
campo energético, fluxos energéticos constantemente obstaculizados.
A perversão - marcada pela renegação com a cristalização do objeto
relacional, disfunções do limite e da lei. Há rigidez nos percursos energéticos,
monótonos, e pouca disponibilidade de energia para investimento.
A psicopatia - marcada pelo isolamento afetivo da lei, pelo empobrecimento
do investimento libidinal sobre os objetos exteriores associado à introversão
(desapego da libido sobre os objetos exteriores com retração para o mundo interior
do limite). Há um campo energético difuso, com focos distintos rígidos bipolarizados
(ou dentro ou fora).
A ancoragem da inscrição tópica profunda da relação mãe/filho, acima
mencionada, se daria na forma estabelecida predominante de vivência da demanda
imaginária do outro. Essencialmente, seria a forma de comportamento típica na
relação. Constituído com o superego, na sedimentação do fenômeno edípico,
expressa-se no Ego, tal como ponte de ligação entre as duas instancias. Origina-se,
por superdeterminação, ontogeneticamente, de acordo com as fases do
desenvolvimento libidinal.

 O narcisismo:
Por referência ao mito de Narciso, é o amor pela imagem de si mesmo. O
termo narcisismo aparece pela primeira vez em Freud em 1910, para explicar a
escolha de objeto nos homossexuais ; estes .... “tomam a si mesmos como objeto
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sexual; partem do narcisismo e procuram jovens que se pareçam com eles, e a


quem possam amar como a mãe deles os amou”.
A descoberta do narcisismo leva Freud a propor – no caso Schreber, 1911 – a
existência de uma fase da evolução sexual intermediária entre o auto-erotismo e o
amor de objeto. “o sujeito começa por tomar a si mesmo, ao seu próprio corpo, como
objeto de amor”, o que permite uma primeira unificação das pulsões sexuais. Em
totem e tabu, ano de 1913, ele expressa o mesmo ponto de vista.
Vemos que Freud já fazia uso do conceito de narcisismo antes de “introduzi-
lo” através de um estudo especial (Sobre o Narcisismo; uma introdução, ano de
1914). Mas, neste texto, é no conjunto da teoria psicanalítica que ele introduz o
conceito, considerando particularmente os investimentos libidinais, com afeito a
psicose (neurose narcísica) põe em evidência a possibilidade que a libido tem de
reinvestir o ego desinvestindo o objeto; isto implica que “...fundamentalmente, o
investimento do ego persista e se comporte para com os investimentos de objeto
como o corpo de um animálculo protoplásmico para com os pseudópodes que
emitiu”. Referindo-se a uma espécie de princípio de conservação da energia libidinal,
Freud estabelece um equilíbrio entre a “libido do ego” (investida no ego) e a “libido
objetal”: ‘quanto mais uma absorve, mais a outra se empobrece’. “O ego deve ser
considerado como um grande reservatório de libido, de onde a libido é enviada aos
objetos, e que está sempre pronto a absorver libido que reflua dos objetos”.
Freud faz referência a dois estados do narcisismo: primário – designa um
estado precoce em que a criança investe toda a sua libido em si mesma e,
secundário – designa um retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos
objetais.

 Os mecanismos de defesa ou a realidade como ela não é:


A percepção de um acontecimento, do mundo externo ou do mundo interno,
pode ser algo muito constrangedor, doloroso, desorganizador. Para evitar este
desprazer, a pessoa “deforma” ou suprime a realidade – deixa de registrar
percepções externas, afasta determinados conteúdos psíquicos, interfere no
pensamento.
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São vários os mecanismos que o indivíduo pode usar para realizar esta
deformação da realidade, chamados de mecanismos de defesa. São processos
realizados pelo ego e são inconscientes.
Para Freud, defesa é a operação pela qual o ego exclui da consciência os
conteúdos indesejados, protegendo, desta forma, o aparelho psíquico. O ego – uma
instância a serviço da realidade externa e sede dos processos defensivos – mobiliza
estes mecanismos, que suprimem ou dissimulam a percepção do perigo interno, em
função de perigos reais ou imaginários localizados no mundo exterior.
Estes mecanismos são:
- Recalque: o indivíduo “não vê”, “não ouve” o que ocorre. Existe a supressão
de uma parte da realidade. Este aspecto que não é percebido pelo indivíduo faz
parte de um todo e, ao ficar invisível, altera, deforma o sentido do todo. É como se,
ao ler esta página, uma palavra ou uma das linhas não estivesse impressa, e isto
impedisse a compreensão da frase, ou desse outro sentido ao que está escrito. O
recalque, ao suprimir a percepção do que está acontecendo, é o mais radical dos
mecanismos de defesa. Os demais referem-se a deformações da realidade.
- Formação reativa: o ego procura afastar o desejo que vai em determinada
direção, e, para isto, o indivíduo adota uma atitude oposta a este desejo. Um bom
exemplo são as atitudes exageradas – ternura excessiva, superproteção – que
escondem o seu oposto, no caso um desejo agressivo intenso. Aquilo que aparece (a
atitude) visa esconder do próprio individuo suas verdadeiras motivações (o desejo),
para preservá-lo de uma descoberta a cerca de si mesma que poderia ser bastante
dolorosa. É o caso da mãe que superprotege o filho, do qual tem muita raiva porque
atribui a ele muitas de suas dificuldades pessoais. Para muitas destas mães, pode
ser aterrador admitir essa agressividade em relação ao filho.
- Regressão: o indivíduo retorna a etapas anteriores de seu desenvolvimento;
é uma passagem para modos de expressão mais primitivos. Um exemplo é o da
pessoa que enfrenta situações difíceis com bastante ponderação e, ao ver uma
barata, sobe na mesa aos berros. Com certeza não é só a barata que ela vê na
barata.
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- Projeção: é uma confluência de distorções do mundo externo e interno. O


indivíduo localiza (projeta) algo de si no mundo externo e não percebe aquilo que foi
projetado como algo seu que considera indesejável. É um mecanismo de uso
freqüente e observável na vida cotidiana. Um exemplo é o jovem que critica os
colegas por serem extremamente competitivos e não se dá conta de que também o
é, às vezes até mais que os colegas.
- Racionalização: o indivíduo constrói uma argumentação intelectualmente
convincente e aceitável, que justifica os estados “deformados” da consciência. Isto é,
uma defesa que justifica as outras, portanto, na racionalização, o ego coloca a razão
a serviço do irracional e utiliza para isto um material fornecido pela cultura, ou
mesmo pelo saber científico. Dois exemplos: o pudor excessivo (formação reativa),
justificado com argumentos morais; e as justificativas ideológicas para os impulsos
destrutivos que eclodem na guerra, no preconceito e na defesa da pena de morte.
- Negação: está relacionado à repressão e envolve a negação da existência
de alguma ameaça externa ou evento traumático ocorrido, um exemplo é a pessoa
com doença terminal negar a eminência da morte, ou os pais de uma criança que
morreu podem continuar a negar a perda mantendo o seu quarto inalterado.
Além destes mecanismos de defesa do ego, existem outros: identificação,
isolamento, anulação retroativa, inversão e retorno sobre si mesmo. Todos nós
os utilizamos em nossa vida cotidiana. Isto é, deformamos a realidade para nos
defender de perigos internos ou externos, reais ou imaginários. O uso destes
mecanismos não é, em si, patológico, contudo distorce a realidade, e é só o seu
desvendamento que pode nos fazer superar essa falsa consciência, ou melhor, ver a
realidade como ela é.

4 – BREVE ASPECTOS SOBRE A PSICOLOGIA CLÍNICA PSICANALÍTICA

A Psicologia Clínica se baseia na observação e análise aprofundada de


casos individuais. Criada por volta do final do século XIX por alguns médicos
psiquiatras e neurologistas que tratavam pacientes com doenças mentais, foi
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desenvolvida por Freud, médico, discípulo de Breuer. Eles utilizavam a hipnose como
método de cura de tais pacientes. Segundo a teoria de Breuer, que logo foi
incorporada e melhor descrita por Freud, as doenças mentais provinham de conflitos
que estavam localizados na mente da pessoa, e não necessariamente de problemas
biológicos. Breuer acreditava que através da hipnose a pessoa poderia driblar
censuras que a impediriam de lembrar certos fatos (os traumas), e assim melhorar
sua idéia de tais, ou vivenciar experiências. Freud depois descreveu esse estado
como catarse. Freud discordava quanto à eficiência da hipnose, e em contrapartida
desenvolveu a técnica da livre associação. Foi aí que a Psicologia Clínica nasceu,
porque trouxe a “cura” pela palavra.
Dessa forma, destacaremos alguns aspectos importantes da Psicologia
Clínica na abordagem psicanalítica:
- Setting – é a soma de todos os procedimentos que organizam, normatizam e
possibilitam o processo psicanalítico (conhecido também como enquadre);
- Aliança terapêutica – designa o fato de que, independentemente se o
paciente está em transferência positiva ou negativa, existe uma parte sua, ainda que
oculta, que está bem ligada e cooperativa com a tarefa analítica;
- Resistência – é tudo que nos atos e palavras do analisando, durante o
tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente;
- Contra-resistência – é quando a resistência inconsciente ou consciente por
parte do analista é decorrente de um estado de contra identificação com o seu
analisando;
- Transferência – em psicanálise, o processo pelo qual os desejos
inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo
de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica;
- Contratransferência – é o conjunto das reações inconscientes do analista à
pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste;
- Insight do paciente – é uma clara tomada de conhecimento por parte do
paciente de atitudes e características suas que estavam egossintônicas;
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- Elaboração psíquica – é o trabalho realizado pelo aparelho psíquico com o


fim de dominar as excitações que chegam até ele e cuja acumulação corre o risco de
ser patogênica;
- Cura – em psicanálise, são os benefícios terapêuticos, tais como: resolução
de crises, esbatimento de sintomas, melhor reconhecimento e utilização de algumas
capacidades sadias do ego e, melhor adaptação interpessoal, e, como resultado
psicanalítico é uma modificação das relações objetais internas do paciente e,
portanto, de sua estrutura caracterológica.
Nesse contexto, a função primordial da clínica psicanalítica – a análise – é
buscar a origem do sintoma ou do comportamento manifesto ou do que é
verbalizado, isto é, integrar os conteúdos inconscientes na consciência com o
objetivo de cura ou de autoconhecimento. Para isso, é necessário vencer as
resistências do indivíduo, que impedem o acesso ao inconsciente.
O método para atingir esses objetivos é o da interpretação dos sonhos, dos
atos falhos (os esquecimentos, as substituições de palavras, etc) e as associações
livres. Em cada um desses caminhos de acesso ao inconsciente é a história pessoal
que conta. Cada palavra, cada símbolo tem um significado particular para cada
indivíduo. Por isso é que se diz que, a cada nova situação, repete-se a experiência
inaugurada por Freud.
É comum imaginarmos a psicanálise acontecendo num consultório com um
paciente deitado num divã, até porque esta tem sido, tradicionalmente, a situação
prática, porém, coexistindo com isto, é possível observar o esforço de estudiosos no
sentido de ampliar o raio de contribuição da psicanálise aos fenômenos de grupos,
às práticas institucionais e à compreensão de fenômenos sociais, como a violência e
a delinqüência, por exemplo.
Aliás, o próprio Freud, em várias de suas obras – O mal estar na civilização,
Psicologia de massa e análise do ego, Reflexões para os tempos de guerra e morte
– coloca questões sociais e ainda atuais como objeto de reflexão.
Portanto, além das contribuições para revisão de práticas profissionais; como
a análise ‘psicanalítica’, a psicoterapia na abordagem psicanalítica, e, como
buscando, por exemplo, um atendimento ao doente mental que supere o isolamento
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dos manicômios, a maior contribuição da psicanálise é indicar que o mais importante


na sociedade não é a representação que ela faz de si, ou suas manifestações mais
elevadas, mas aquilo que está além dessas aparências. Isto é, a angustia difusa, o
aumento do racismo, a vitimização das crianças, o terrorismo. Em suma, a
psicanálise nos faz ver aquilo que mais nos incomoda: a possibilidade constante de
dissociação dos vínculos sociais.

5 – BREVE ASPECTOS SOBRE A PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Iremos então percorrer brevemente o campo da Psicossomática. Apesar de


todos os seus desenvolvimentos, ela foi desde suas origens marcada pelas
descobertas freudianas. Não esqueçamos que Freud iniciou sua carreira como um
brilhante neurologista, tendo também se interessado pela oftalmologia, pesquisando
os efeitos anestésicos da cocaína. Porém, o desafio lançado pela histeria de
conversão o colocou diante dos limites de suas concepções neurológicas,
determinado seu interesse por aquela patologia cuja sintomatologia orgânica não
apresentava nenhuma correspondência com a estrutura anatômica dos órgãos
afetados. Questionando as vias que levam o conflito psíquico a se manifestar na
esfera somática, aceitando acolher aquilo que a ciência de sua época rejeitava – os
sonhos, os lapsos, a histeria e, inclusive, uma outra anatomia, imaginária -, Freud
descobre o inconsciente, e funda a psicanálise.
De ponta a ponta – nas suas descobertas sobre os sonhos e sobre a
sexualidade, nos modelos do aparelho psíquico e das pulsões, sua obra apresenta
uma reflexão sobre as relações entre o psíquico e o somático. O modelo
etiológico da histeria e da neurose atual se constituiu como as primeiras referências
da psicanálise para pensar a participação dos fatores psíquicos nas doenças
orgânicas.
Todos os pioneiros da psicossomática tiveram um contato pessoal ou através
do movimento psicanalítico com as formulações freudinas, reconhecendo inclusive
as contribuições destas para as suas teorias. Autores como Georg Groddeck, Félix
Deutch, e Franz Alexander, fundador da escola de Chicago, empenharam-se desde a
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década de 1920 em aplicar os conceitos psicanalíticos para desenvolver uma


abordagem psicossomática da patologia orgânica.
A escola de Chicago imprimiu à Psicossomática marcas que persistem até os
nossos dias influenciando a maneira de trabalhar e de pensar de algumas gerações
de terapeutas. Flanders Dunbar, O. English, Ruesch e Alexander, principalmente,
dirigiam seus trabalhos no sentido de buscar estabelecer relações entre conflitos
emocionais específicos e estruturas de personalidade com alguns tipos de
doenças somáticas, como a úlcera, alergias, enxaquecas, asma e distúrbios
digestivos. Além da especificidade de certos tipos de personalidade e as
manifestações somáticas, este grupo também se preocupou em compreender as
relações entre reações emocionais e respostas do Sistema Vegetativo e do Sistema
Nervoso Central.
Partindo da fisiologia, H. Selye descreve em 1936 a Síndrome Geral de
Adaptação como sendo um conjunto de reações fisiológicas não específicas que
visa preparar o organismo para defender-se das agressões. Esta síndrome
comporta três fases: alarme diante da ameaça, resistência à ameaça e
esgotamento. A patologia orgânica pode decorrer tanto da incapacidade do
organismo em desencadear essas reações de defesa, como da persistência destas
reações, além do necessário. Tendo também celebrizado a noção de estresse,
Selye caracteriza este fator como sendo o elemento, real ou imaginado, que
desencadearia de forma aguda ou crônica a Síndrome Geral de Adaptação.
Desde os anos 40, tem sido constatado do ponto de vista epidemiológico, o
aumento da incidência de patologias somáticas entre as pessoas que apresentam
estados depressivos. Estas observações conduziram a um incremento das pesquisas
buscando compreender as relações entre as emoções e o sistema imunológico e
detectar estruturas e mecanismos de natureza celular, fisiológica e anatômica
que poderiam mediatizar a percepção de eventos internos e externos, sua
elaboração e as reações do organismo. Principalmente a partir dos anos 70,
definiu-se um novo campo de pesquisa, denominado neuropsicoimunologia. V. Riley
descreve em 1981 o desenvolvimento de tumores malignos transplantados em
camundongos colocados em situações de estresse. R Ader e seu grupo em 1981, e
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Y. Shavit em 1984 relatam os efeitos do estresse inevitável sobre o sistema


imunológico. A descoberta de redes neurobiológicas complexas, ao mesmo tempo
que os resultados de alguns estudos epidemiológicos bem conduzidos, reforçou a
hipótese de que fatores psicológicos podem intervir na gênese de doenças
graves como câncer.
Algumas teorias psicossomáticas de orientação psicanalítica permaneceram
fortemente marcadas pelo modelo da histeria, considerando o sintoma somático
como resultante de um conflito inconsciente, possuindo uma significação simbólica.
Assim, Angel Garma, por exemplo, considera os distúrbios gástricos apresentados
por certos pacientes como resultante dos conflitos suscitados “pela impossibilidade
de elaboração da introjeção maciça da mãe má”.
A teoria freudiana apresenta essencialmente dois modelos para compreender
a sintomatologia somática: o da conversão histérica e o da neurose atual. A
conversão histérica se caracteriza como uma conversão somática da energia
psíquica. O sintoma corporal tem, do ponto de vista etiológico, uma relação com os
conflitos sexuais infantis, e se constitui como uma formação de compromisso
simbólica, resultante do conflito entre o infantil, a pulsão e recalque. É seu caráter
simbólico que o torna suscetível à terapêutica psicanalítica. Segundo Freud, na
neurose atual encontramos manifestações de uma angustia difusa e uma
sintomatologia funcional (vertigem, taquicardia, cefaléia, etc.). Tais sintomas,
entretanto, não possuem sentido simbólico, nem relação com o infantil. Eles seriam
apenas reações à estase libidinal, à impossibilidade de descarga de excitações do
presente que se acumulam em função do bloqueio das satisfações libidinais. O
sintoma somático possui uma função econômica de gestão das excitações e da
angústia, sem possuir uma significação simbólica, o que torna refratário à cura
analítica.
Estes modelos constituíram o ponto de partida para os trabalho de Pierre
Marty, Michel Fain, Christian David, Michel de M´Uzan e Léon Kreisler, entre outros.
Seu objetivo inicial foi melhor compreender as patologias somáticas cuja dinâmica
não correspondiam ao modelo da conversão histérica, utilizando o conceito
psicanalítico de neurose atual.
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Gradualmente, foi se desenvolvendo um corpo clínico e teórico que considera


a sintomatologia somática a partir de uma concepção essencialmente
metapsicológica, e sobretudo econômica. Tenta-se assim compreender os destinos
da excitação pulsional no organismo e sua possibilidades de descarga. A patologia
somática não conversiva é o resultado da impossibilidade de elaboração da
excitação través dos recursos psíquicos do indivíduo, em função de uma
estruturação deficiente, no plano representativo e emocional, do aparelho mental.
As teorias do Instituto de Psicossomática de Paris (IPSO) partem das
concepções psicanalíticas “clássicas” para desenvolver um corpo teórico que busca
definir a função do aparelho psíquico e sua funções como reguladores do
funcionamento psicossomático, e sobretudo dos destinos da excitação no organismo.
A perturbação deste funcionamento pode, segundo as características do
desnvolvimento e o momento de vida de cada indivíduo, resultar tanto em patologias
“psíquicas” como “somáticas”. Essas teorias resalta a dialética contínua existente
entre soma e psique, entre as diversas etapas do desenvolvimento individual, e
sobretudo nas relações interpessoais.
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6 - CONCLUSÃO

O que se conclui é que a psicologia no campo da clínica, na abordagem


psicanalítica configura a psicossomática como um saibro operador para refletir sobre
alguns avatares da existência do homem: suas origens, seu desenvolvimento, seus
males, suas produções individuais, sociais e culturais, frutos de seu desenvolvimento
através do embate permanente entre as instâncias pulsionais de vida e de morte.
Assim sendo, a visão da psicossomática psicanalítica pode alimentar a
reflexão de outros campos de conhecimento, ampliando sua compreensão de seus
objetos de estudo, e introduzindo uma perspectiva de interlocuções entre esses
campos. Ela pode alimentar a medicina ampliando sua compreensão da etiologia, do
papel do infantil, das primeiras relações entre mãe e o bebê, da sexualidade no
desenvolvimento e na patologia, e ainda conceber de outra forma a função
terapêutica da relação médico-paciente. Ela pode alimentar a psicanálise oferecendo
outras perspectivas para se pensar o sintoma somático, as indicações de análise, a
técnica analítica, bem como contribuir com a ampliação da teoria, da metapsicologia
e mesmo da nosografia psicanalíticas. Ela pode também alimentar as ciências
sociais oferecendo um modelo que permite compreender como as dinâmicas internas
do sujeito determinam suas produções sociais e culturais, e como estas mesmas
produções determinam as direções do desenvolvimento e do adoecer do sujeito.
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7 - BIBLIOGRAFIA

BOCK, Ana M. Bahia, FURTADO, Odair, TEIXEIRA, Maria de L. T. Psicologias –


uma introdução ao estudo de psicologia. 10ª edição. São Paulo: Saraiva, 1997.

KAPLAN, Harold I, SADOCK, Bemjamim J, GREBB Jack A; Trad. Dayse Batisa.


Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 7ª
edição. Porto Alegre: Artmed, 1997.

SCHULTZ, Duane P, SCHULTZ Sydney E. Teorias da personalidade. São Paulo:


Pioneira Thomson Learning, 2002.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos – teoria, técnica e clínica. Porto


Alegre: Artmed, 1999.

LAPLANCHE E PONTALIS. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins


Fontes, 2001.

VOLICH, Rubens M, FERRAZ, Flávio C, ARANTES, Maria de A. C. Pssicossoma II


– Psicossomática Psicanalítica. São Paulo: Casa do psicólogo, 2004.

<http:// www.orgonizando.psc.br/> Acesso em 17 de fevereiro de 2010.