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PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

COMISSÃO DE ÉTICA PÚBLICA

FORMULÁRIO DE DENÚNCIA CONTRA AUTORIDADE

I – IDENTIFICAÇÃO DO DENUNCIANTE (facultativo):

1. Nome completo: IVAN VALENTE

2. RG: 35034877 SSP-SP 3. CPF: 376.555.828-15

4. E-mail para recebimento de notificações/intimações: 5. Telefone(s) para contato:

dep.ivanvalente@camara.leg.br

II – DENUNCIADO:

6. Nome completo da autoridade:

JOAQUIM LEITE
7. Cargo (s) ou emprego (s) ocupado (s):

MINISTRO DO MEIO AMBIENTE

III – DESCREVER A DENÚNCIA: (anexar provas)

l. DOS FATOS

Conforme amplamente divulgado pela mídia1, o MINISTRO DO MEIO


AMBIENTE, JOAQUIM LEITE, em seu discurso na 26ª Conferência das Nações Unidas
sobre as Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, mentiu ao anunciar que as metas
para redução de gases poluentes.

Na ocasião, JOAQUIM LEITE anunciou a adoção de metas climáticas “ainda


mais ambiciosas”. Ocorre que, na verdade, o Governo piorou essas metas em 2020, se
comparadas àquelas estabelecidas em 2015.

1
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/ministro-mente-em-fala-na-cop26-e-conquista-2o-antipremio-do-
brasil.shtml
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Na mesma ocasião, o MINISTRO DO MEIO AMBIENTE, ao tentar defender os


planos do governo de “promover o desenvolvimento sustentável” na Amazônia, através da
criação de um mercado de serviços ambientais, afirmou que “onde existe muita floresta,
também existe muita pobreza”. Todavia, estudos demonstram que não há relação entre
floresta e pobreza, mas sim entre desmatamento e pobreza, notadamente em razão de
que as regiões que sofrem com o desmatamento amargam, de maneira duradoura, o
substancial esgotamento de seus recursos.

Ainda em seu discurso, o Ministro condicionou o alcance das “metas ainda mais
ambiciosas” anunciadas à realização de financiamentos mais robustos por parte dos
países mais ricos.

Essas e outras afirmações contestadas do discurso do Ministro, somadas a um


estudo mostrando que o Brasil elevou os subsídios para combustíveis fósseis em 25% de
2019 para 2020, chegando a US$ 22 bilhões, fizeram o país receber sua segunda menção
negativa na Cúpula do Clima, a do antiprêmio Fóssil do Dia, concedido pela Climate
Action Network, que reúne mais de cem entidades climáticas.2

Não bastasse as referidas declarações, o Ministro de Estado do Meio Ambiente


JOAQUIM LEITE omitiu na Cúpula do Clima dados sobre o avanço do desmatamento na
Amazônia que estavam sob a posse do Governo desde o dia 27 de outubro de 2021 3.

Embora tivesse conhecimento dos dados, o Ministro de Estado do Meio


Ambiente os omitiu nas dezenas de encontros e reuniões sobre o clima de que participou
representando o país na COP264.

2
https://esportes.yahoo.com/noticias/ministro-mente-em-fala-na-105600671.html;
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2021/11/ministro-mente-em-fala-na-cop26-e-conquista-2o-antipremio-do-
brasil.shtml; https://www.poder360.com.br/governo/brasil-ganha-2o-premio-fossil-do-dia-por-fala-de-ministro-na-
cop26/;

3
https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2021/11/18/desmatamento-na-amazonia-passa-de-13-mil-km-entre-
agosto-de-2020-e-julho-de-2021-apontam-dados-do-prodes.ghtml
4
https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2021/11/18/nota-tecnica-inpe-desmatamento-amazonia-cop-
governo-bolsonaro.htm
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A omissão gerou grande indignação entre os ambientalistas. De acordo Marcio


Astrini, representante do Observatório do Clima, entidade que reúne dezenas de
especialistas:
"O que a gente tem é um fato grave. Não é só um ministro do Meio Ambiente que
foi a COP e não revelou. O ministro declarou que fez reuniões com outros 24
ministros de outros países. Ele fez isso sabendo o dado e não revelou. Ele mentiu
em 24 reuniões"5.

Ao mentir em evento internacional oficial em que representou o Brasil, o


Ministro JOAQUIM LEITE comprometeu a credibilidade e a imagem do país e, sem
sombra de dúvidas, afrontou de forma grave o Código de Conduta da Alta Administração e
demais normas éticas, demonstrando imprudência e imperícia, o que demanda uma
atuação imediata por parte desta Comissão, conforme passaremos a expor.

ll) DO DIREITO

Todo gestor público que ocupa um cargo deve agir de acordo com as
competências que lhe foram atribuídas e observando os limites impostos pela Constituição
para perseguir os objetivos e finalidades inerentes às competências do cargo que ocupa,
além de observar as normas éticas que regem sua conduta.
De acordo com o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do
Poder Executivo Federal, Decreto nº 1.171, de 1994, é dever fundamental de qualquer
servidor público ser probo, reto, leal e justo, demonstrando toda a integridade do seu
caráter, escolhendo sempre, quando estiver diante de duas opções, a melhor e a mais
vantajosa para o bem comum.
Definitivamente, ao faltar com a verdade em seu discurso na COP26, o
MINISTRO DO MEIO AMBIENTE violou gravemente o diploma mencionado e, ainda, o
Código de Conduta da Alta Administração que, em seu art. 3º, dispõe:

5
https://www.terra.com.br/noticias/brasil/governo-mentiu-sobre-o-desmatamento-na-
cop26,dc16aecfc9c04be99881ddd8e2ac6078y5jibop8.html
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“Art. 3o No exercício de suas funções, as autoridades públicas deverão pautar-se


pelos padrões da ética, sobretudo no que diz respeito à integridade, à moralidade,
à clareza de posições e ao decoro, com vistas a motivar o respeito e a confiança
do público em geral.

Parágrafo único. Os padrões éticos de que trata este artigo são exigidos da
autoridade pública na relação entre suas atividades públicas e privadas, de modo a
prevenir eventuais conflitos de interesses.”

Ao omitir os dados que possuía sobre o desmatamento na Amazônia Legal, o


Ministro claramente tentou ludibriar seus interlocutores na COP26, conduta absolutamente
desrespeitosa perante outros líderes mundiais e a própria população brasileira, atingida
diretamente pelo dano à imagem do país perante a comunidade internacional.
O gestor público, especialmente aqueles que ocupam a alta administração,
deve ter compromisso com a verdade e com a transparência. Omitir dados para distorcer
a realidade fere os princípios éticos mais básicos da administração pública.
Não é à toa que as declarações emitidas pelos ocupantes de cargos públicos
no exercício de sua função têm fé pública. Ao mentir e omitir dados essenciais para
retratar a situação da proteção ao meio ambiente no país, o Ministro do Meio Ambiente
afrontou o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo
Federal que, em suas regras deontológicas assegura o direito do cidadão à verdade, nos
seguintes termos:
VIII - Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la,
ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da
Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o
poder corruptivo do hábito do erro, da opressão ou da mentira, que sempre
aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

O que ocorreu na COP26 compromete gravemente a imagem e a credibilidade


do país e o Ministro de Estado do Meio Ambiente tinha o dever zelar por esta imagem e
credibilidade. Ao agir desta forma, causou dano irreparável, não apenas à pasta que
chefia, mas à toda população brasileira.
Diante da gravidade da referida conduta, torna-se imprescindível que o
comportamento da autoridade mencionada seja investigado, de maneira a resguardar a
observância das normas éticas que regem o comportamento dos servidores públicos
federais, sob pena de comprometer a confiança e a credibilidade perante a população de
agência de tamanha relevância.
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lll) DOS PEDIDOS

Ante o exposto requer-se, a instauração de procedimento por parte deste


órgão para apurar as condutas do Ministro de Estado do Meio Ambiente JOAQUIM
LEITE, de maneira a resguardar os princípios constitucionais que vinculam a
administração pública e as normas éticas e de integridade inerentes ao exercício de
qualquer cargo público.

Termos em que pede deferimento.

Brasília- DF, 19 de novembro de 2021.

IVAN VALENTE

DEPUTADO FEDERAL PSOL/SP