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Kariny Oliveira Loures

PROCESSO CIVIL BRASILEIRO

José Carlos Barbosa Moreira

O exercício da ação e as condições que limitam esse exercício,


as chamadas condições da ação. Denominação talvez um pouco imprópria,
melhor seria condições do legítimo exercício do direito de ação. Ficaria
talvez longo demais, então consagrou-se o uso desta expressão abreviada:
CONDIÇÕES DA AÇÃO.

Atenção: não se trata de pressupostos da existência do direito de


ação. O direito de ação existe sem qualquer condicionamento.
Trata-se apenas de requisitos que devem ser levados em conta no
momento em que o direito de ação é concretamente exercido, dizem
respeito ao exercício e não à existência do direito.

Vimos que a primeira dessas condições é a chamada


legitimação para a causa, e deve ser apreciada no seu aspecto ativo e no
seu aspecto passivo. A ação deve ser proposta pela pessoa a quem a lei
reconhece qualidade para isso, o legitimado ativo, e deve ser proposta em
face da pessoa que a lei indica, isto é, o legitimado passivo. A lei nem
sempre indica isto de maneira expressa. Há porém uma idéia geral, como
vimos, que nos permite saber quem é o legitimado ativo e quem é o
legitimado passivo para um determinada ação. Qual é esse critério? Ele se
baseia na relação jurídica de direito material que vai ser discutida naquele
processo. O sujeito ativo dessa relação jurídica é normalmente o
legitimado ativo para a causa, e o sujeito passivo dessa relação
jurídica é normalmente o legitimado passivo para a causa.

Assim, por ex., numa ação de cobrança de dívida,


normalmente, ordinariamente, o legitimado ativo é o suposto credor, e o
legitimado passivo é o suposto devedor. São esses os casos de legitimação
ordinária. Vimos também que excepcionalmente a lei pode atribuir a uma
pessoa diversa daquela que figura como titular da relação jurídica de direito
material, a possibilidade de propor a ação em seu próprio nome para
defender um direito que, se existir, não será seu e sim de outrem. É a
chamada legitimação extraordinária, ou anômala. Vimos alguns exemplos:
o condômino de edifício de apartamentos, embora não sendo credor de
outro condômino que está em mora no pagamento das contribuições de
condomínio, pode contudo propor a ação para cobrança, caso o próprio
condomínio não o faça através do síndico. Outro exemplo: o acionista de
uma S.A. que pode no caso de omissão da própria sociedade num
determinado prazo, propor ação para responsabilizar civilmente os diretores
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que houverem porventura praticado ato lesivo ao patrimônio da sociedade,
sendo certo que credora é a sociedade e não o sócio, e portanto há uma
separação, uma não concordância entre o titular da relação jurídica material
e o legitimado para a causa.

Vimos que em certos casos como nestes a que nos referimos


agora, a legitimação extraordinária não exclue a legitimação ordinária, isto
é, pelo fato de o condômino poder cobrar em Juízo de outro condômino a
contribuição atrasada, não se deduza que o condomínio fique impedido de
fazê-lo. A legitimação extraordinária coexiste com a ordinária. Há uma
legitimação concorrente, há uma pluralidade de legitimados, qualquer deles
pode propor a ação. Em casos mais raros, quando a lei atribui a uma outra
pessoa esta possibilidade de propor a ação por direito alheio, retira do
próprio titular a mesma possibilidade. É o caso do bem dotal, do dote,
em relação ao qual apesar de ele pertencer, como vimos, à mulher e
não ao marido (não entra na comunhão de bens ainda que seja esse
o regime adotado), não obstante, a única pessoa que tem
legitimação para propor ações relativas ao bem dotal é o marido e
não a mulher. Nesse caso a legitimação extraordinária exclue a
legitimação que seria ordinária.

Isto até aqui foi uma ligeira recapitulação do que fôra dito da
outra vez. Vamos acrescentar umas breves observações ainda sobre o
problema da legitimação ad causam, ou legitimatio ad causam, ou
legitimidade para causa - tudo isso é a mesma coisa.

O problema da legitimação é realmente simples quando se


trata de relação jurídica entre duas pessoas.  A de um lado e B do outro,
porque normalmente os legitimados são os próprios sujeitos da relação
jurídica material, salvo exceção legal. Então nessas hipóteses o problema é
muito simples. Complica-se quando há uma pluralidade de titulares, direitos
que pertencem a várias pessoas, por exemplo no condominio pro indiviso,
isto é, no condomínio em que não há partes determinadas distribuidas entre
os condôminos. Duas, três, vinte ou cinqüenta pessoas podem ser donas de
uma casa. Não é que A seja dono da cozinha e B do quarto de dormir. A e
B são condôminos de toda a casa pro indiviso, isto é, sem partes divididas.
Outro exemplo: obrigações solidárias, aquelas nas quais há vários credores,
cada um dos quais com direito à dívida toda, ou então vários devedores
cada um dos quais é obrigado a pagar por inteiro a dívida.

As coisas aí já se tornam um pouquinho menos simples. No


caso de ofensa ao direito que não é de um só, é de vários, quem é
legitimado para reclamar em Juízo a reintegração do direito lesado? Mais
de uma solução é concebível em tese. Por exemplo: poderíamos imaginar
que pertencendo o direito a várias pessoas, o conjunto delas teria que
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aparecer propondo a ação, todas elas em conjunto. Se são elas em conjunto
que têm o direito, então elas em conjunto deveriam propor a ação. Em
outras palavras, a ação só estaria regularmente proposta se fosse proposta
pela totalidade dos co-titulares. É uma solução possível, mas não é uma
boa solução, por motivos óbvios: ninguém pode ser obrigado a litigar
em Juízo. Então se um deseja propor a ação e o outro não, de duas uma:
ou se obriga o segundo a propor, o que é um absurdo, ou se impede o
primeiro de propor porque o outro não quer aderir, o que também é um
absurdo. Se eu sou condômino de alguém numa casa, e vejo que terceiro a
está danificando, convoco meu outro condômino para propor ação contra
ele. Se o outro concorda, perfeitamente, nada impede que a ação seja
proposta por ambos, ambos são sem dúvida legitimados, ambos os
condôminos. Porém, suponhamos que meu outro condômino por
comodismo, preguiça, amizade ao terceiro, ou por outra razão qualquer, não
queira; eu, que estou sendo prejudicado, se tivesse que propor ação em
conjunto com ele, de duas uma: ou o obrigaria a ir comigo perante o juiz,
solução absurdamente inaceitável, ou ficaria eu impedido de tomar uma
providência que, no entanto, me interessa tanto quanto a ele.

Então, o que é que a lei faz nesses casos? Atribui uma


legitimação concorrente mas não necessariamente conjunta, isto é,
qualquer dos titulares, sozinho, pode propor a ação, tem
legitimação ad causam.

O problema se torna ainda mais complicado quando se trata


de um interesse cujos titulares não são determinados. São chamados
interesses difusos ou coletivos. Por exemplo, o interesse na
preservação da sanidade do ambiente, o interesse na proteção da natureza
e do equilíbrio ecológico. Assuntos obviamente na moda e que têm seus
reflexos no campo processual. O interesse na conservação das obras de
arte, dos monumentos históricos, o interesse na honestidade das
mensagens de propaganda, os interesses da difusão da cultura, do acesso
às fontes de informação. Quem é o titular? Vocês, eu, todos. Não são
relações personalizadas, são relações que transcendem a esfera individual e
nem sequer podem ser circunscritas a um número determinado de pessoas.
Ao contrário do que acontece no condomínio, nas obrigações solidárias, em
que sabem perfeitamente que o direito é coletivo mas pertence a uma
classe fechada, determinada, delimitada. Aqui não. Quais são os
interessados, por exemplo, em que não se destruam as reservas florestais
de uma país? A rigor, a humanidade inteira. Quando aquele doido quebrou
o nariz da Virgem, na Pietá de MICHELANGELO, que está na Basílica de São
Pedro, porventura foi só o Museu do Vaticano que sofreu dano? Ou foi toda
a humanidade que sofreu? Então são interesses chamados difusos
exatamente porque não se concentram numa ou noutra pessoa e nem
sequer num círculo determinado de pessoas.
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Esse problema tem sido alvo de grande interesse por parte dos
estudiosos nos últimos tempos, não tanto no Brasil onde as idéias
geralmente quando chegam depressa chegam com mais ou menos 50 anos
de atraso, mas em sociedades que pensam mais em certas coisas, e
diversas soluções foram estudadas.

Depois nós vamos ver que nós não estamos tão atrasados
assim nesse particular, porque temos um instrumento legal que até certo
ponto ajuda a resolver essas situações. Mas é curioso: nós temos a lei mas
ninguém se ocupa dela, e nem se usa a Lei, usa-se pouco, usa-se menos do
que seria de esperar. Outros países não têm a lei e vivem se preocupando
com o assunto.

Há várias soluções, uma absurda seria exigir que todos os


interessados participassem - essa é impossível, nós nem sequer sabemos
quais são eles e quantos são. Legitimar cada um individualmente, esta é a
solução mais óbvia. Nem sempre ela é muito satisfatória por motivos que
facilmente se compreendem: uma pessoa sozinha terá que litigar com
entidades muito poderosas. Suponhamos que alguém queira propor uma
ação para obstar, para impedir que se realize determinada atividade capaz
de causar a poluição da bacia hidrográfica que rega determinada região.
Provavelmente esta pessoa vai se defrontar no processo com adversários
muito mais poderosos do ponto de vista financeiro - uma empresa. Então,
na prática, essa solução não é inteiramente satisfatória porque ela põe face
a face litigantes de recursos muito diferentes. O litigante que tem mais
recursos geralmente leva vantagem. (Refiro-me às vantagens óbvias:
sustentar durante mais tempo o processo, fazer despesas maiores, contratar
melhores advogados, peritos, etc). Uma multi-nacional por exemplo.

Outra idéia que tem surgido seria a de, sem excluir a


possibilidade dessa legitimação individual (não se deve excluir porque na
prática o indivíduo em geral não se aventura, ele parte para uma espécie de
comodismo, e não está muito a fim de se amolar com causas coletivas - o
nosso espírito de coletividade é muito rarefeito confessemos, dificilmente
aceitamos a idéia desse trabalhão, dessas despesas, para tentar impedir a
poluição de um rio. A tendência é "não vai adiantar nada, deixa pra lá". E
além disso há de fato as dificuldades objetivas além das subjetivas). Mas
não se deve excluir, pode aparecer um herói que queira levar a cabo a
aventura. O que se poderia imaginar ao lado disso, dar legitimação a
quem? Aos órgãos públicos, ao Ministério Público, por exemplo, a idéia tem
surgido. Poderia funcionar talvez quando a outra parte fosse uma entidade
inteiramente privada, sem relação com a Administração Pública, sem,
digamos infiltração na Adm. Pública. Talvez, mas em muitos casos não é
assim. E a outra parte pode ser até um ente público. Um Prefeito maluco,
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por exemplo, que queira construir em Ouro Preto um monumento
inteiramente em desconformidade com o estilo arquitetônico da cidade,
estragando por completo a beleza do conjunto. Então, se se trata de uma
entidade pública, esta solução de órgão público não funciona.

Outra idéia que tem surgido seria de conferir legitimação


nesses casos a entidades particulares, associações que se proponham lutar
por essas finalidades, que sejam criadas com esse objetivo. Começam a
aparecer no Brasil: Sociedade dos Amigos do Bairro Tal, Associações de
Proteção à Natureza. Então há essas entidades. Na Itália existe uma certa
notoriedade chamada Itália Nostra, que tem como finalidade precípua lutar
pela preservação das belezas naturais, das obras de arte, dos monumentos
históricos. Toda vez que surge uma ameaça, um atentado a algum desses
bens, a Itália Nostra intervem, e já foi reconhecida em Juízo, houve já
decisões judiciais que reconheceram a esta associação legitimação para
reclamar em Juízo. Ela propõe a ação.

Eis aí um assunto que devem tomar como objeto de suas


reflexões.

Que solução propor para esse caso do ponto de vista


processual? Há três aspectos: 1º - (que é mais de direito material): Esses
interesses são reclamáveis em Juízo? isto é, alguém tem o direito de
reclamar isto em Juízo? ou simplesmente isso aí é uma literatura abstrata?
Quando a Constituição, por exemplo, diz que as obras de arte, ou sítios
dotados de beleza paisagística, ficam sob a proteção do poder público, que
quer dizer isto? Nada? ou quer dizer alguma coisa? Se quer dizer alguma
coisa, então todos nós podemos exigir que o poder público efetivamente
proteja, senão não quer dizer nada. Se está na Constituição é uma regra
jurídica, se é uma regra jurídica tem que ter consequências. É um problema
interessante e muito atual.

No Direito Brasileiro existe um caso muito interessante que é


o da Ação Popular, aliás prevista na Constituição da República e regulada
por uma lei de 1965. lei nº 4717, de 29 de junho de 1965, uma lei
singularmente bem feita sob vários ângulos, uma verdadeira exceção na
teratológica (teratologia=estudo das monstruosidades) produção legislativa
dos últimos tempos. A lei da Ação Popular, contudo, tem seus defeitos, mas
vamos começar pelos méritos. Ela prevê a possibilidade, confere a qualquer
cidadão brasileiro legitimação ativa para propor ações destinadas a anular
atos lesivos ao patrimônio público. Mas a lei foi suficientemente inteligente
para não limitar o conceito de patrimônio público aos aspectos puramente
econômicos. Ela considera patrimônio público o conjunto dos bens não
apenas de valor econômico, mas de valor estético, artístico, histórico,
paisagístico, turístico. Então quando, por exemplo, alguém se lembrar de
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por abaixo o Pão de Açúcar (coisas tão estranhas como essa tem
acontecido) ou o aterro final e definitivo da Baía de Guanabara, qualquer
um dos senhores, cidadão brasileiro, pode entrar em Juízo para impugnar
esse ato. Então por esse aspecto a lei é interessante, sobretudo pela
amplitude que ela deu ao conceito de patrimônio público. Não é só o
dinheiro, são esses outros bens que constituem o patrimônio público de
toda a coletividade nacional.

O defeito da lei, a despeito de inúmeras soluções


inteligentíssimas que ela deu a certos problemas, como os efeitos da
sentença, por exemplo, que é um dos problemas sérios nesse tipo de ação:
se um só propuser a ação, a sentença vale para os outros ou só vale para
ele? Estudaremos mais adiante, quando tratarmos da sentença e seus
efeitos e da coisa julgada. Por enquanto estamos atravessando os umbrais
da grande Catedral do Processo, a coisa julgada está lá no altar-mor. Ainda
temos grande caminho a percorrer para chegar lá.

Então, a lei, que deu solução inteligentíssima a certos


problemas, foi menos feliz, a meu ver, quando limitou às pessoas físicas, ao
indivíduo, esta legitimação. Poderia tê-la conferido a pessoas jurídicas, que
são geralmente mais poderosas, têm melhores condições de enfrentar uma
disputa judiciária desse teor. Mas de qualquer maneira trata-se de instituto
digno do maior apreço e que deveria ser usado com maior freqüência do
que é. Talvez porque muita gente não saiba que ela existe ou por culpa de
nosso comodismo. Mas tem havido algumas ações interessantes. Houve
uma no Espírito Santo contra um ato que determinou a derrubada de uma
reserva florestal de cuja preservação dependia o abastecimento normal de
água a várias localidades. A floresta protege as nascentes, como sabem.
Aqui mesmo no Rio houve algumas contra o aterro da Lagoa Rodrigo de
Freitas, outra contra a entrega de áreas de praças públicas a entidades
privadas retirando da população em geral a oportunidade de ali passar seus
momentos de lazer. Em São Paulo, contra a derrubada de um prédio
considerado de valor histórico, para construir em seu lugar uma estação do
Metro. Enfim, têm havido algumas, mas são poucas em relação ao que se
passa.

Os senhores vêem que o processo não é aquela coisa


burocrática que alguns supõem, porque tudo se resolve é nele - é através
do processo que as coisas têm que realizar-se, que os direitos têm que ser
garantidos. Do contrário, não adianta nada dizer: você tem direito disso,
ou daquilo. Se não houver um juiz a quem possa recorrer e que esteja em
condições de lhe dar uma tutela, cadê o direito que está escrito na lei, no
Código Civil, no Código Comercial, na própria Justiça? O desaguadouro, a
foz, o estuário, é o processo. O processo é que, em última análise, tem que
funcionar bem; do contrário não há proteção de direito algum.
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Então, eis aí algumas reflexões críticas sobre o problema da


legitimação para agir.

O 2º requisito é o chamado interesse processual, a segunda


das chamadas condições da ação. Quando é que a gente tem interesse em
alguma coisa? Quando é útil e é necessário recorrermos a ela. Por
exemplo, os senhores têm interesse em que os professores cumpram o
elementar dever de lhes dar aulas, porque isto é útil e é necessário. Ora, a
máquina judiciária, o aparelho judiciário do Estado, aquilo a que se chama a
Justiça, não no sentido de virtude, mas no sentido de organismo, é um
aparelho muito dispendioso, complexo, exige atividades de um número
enorme de pessoas, e para que funcione de um modo razoável não deve ser
sobrecarregada com matérias supérfluas. Compreendem perfeitamente que
para que um órgão funcione bem, é preciso que se incumba daquilo que
realmente vale a pena, e deixe de lado o que não vale a pena, o que não
interessa, o que não é útil e não é necessário. Os senhores têm, p.ex., um
computador - não vão pedir ao computador que se encarregue de todas as
somas ou de todas a multiplicações por dois; seria sobrecarregá-lo
inutilmente. A mesma coisa acontece com o aparelho judiciário. Ele não
deve ser sobrecarregado exatamente para que possa funcionar melhor
naquilo em que precisa funcionar. Daí deriva o princípio de que não se deve
admitir que uma pessoa use a máquina judiciária, senão quando isto lhe
seja útil em tese e lhe seja necessário. É uma conseqüência direta do que
acabo de dizer. Não se deve admitir que qualquer um apareça diante do
juiz e tome o seu tempo com assuntos para cuja solução não se precisa do
juiz. Então, exige-se de quem vá a Juízo que tenha interesse processual,
isto é, que realmente precise do auxílio do órgão judicial e não
queira utilizá-lo por mero capricho, por espírito demandista, por
mania de litigar.

Por exemplo, se um funcionário público pode obter da


Administração Pública aquilo a que se julga com direito, bastando que faça
um simples requerimento e apresente perante a repartição competente, não
se justifica que ele vá pedir isto em Juízo, que vá propor uma ação contra a
Adm. Pública para vê-la condenada a proporcionar-lhe um benefício que ela
estava inteiramente disposta a proporcionar sem necessidade disso. Logo,
essa pessoa não tinha interesse em utilizar-se da máquina judiciária, estava
em condições de obter o mesmo resultado sem necessidade de que o órgão
judicial fosse chamado a arrazoar à toa.

Ou então, a situação é tal que nunca a pessoa poderá obter o


que pleiteia, ou por outra, o resultado do processo nunca lhe poderá ser
proveitoso, não lhe trará nenhum benefício, ela estará litigando sem
qualquer perspectiva de proveito prático. Por exemplo, alguém vai a Juízo
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porque Fulano havia feito um testamento e depois fez outro revogando o
primeiro. Mas esse segundo que revogou o primeiro é nulo: Fulano não
estava em seu Juízo perfeito. O autor quer que o segundo testamento seja
anulado para que prevaleça o primeiro. Vai o juiz ao primeiro testamento e
verifica que essa pessoa que está pleiteando isso, não é contemplada no
primeiro testamento, ao contrário é até excluída. Então, mesmo que seja
verdade o que ela está dizendo, isto é, que o segundo testamento tenha
sido feito em condições tais que não seja válido, nenhum benefício ela terá
se o juiz atender o seu pedido. O resultado do processo para ela é inócuo.
Ela não tem interesse, o processo para ela não terá nenhuma utilidade.

No outro caso não apresentava necessidade, neste nem sequer


apresenta utilidade. Interesse de agir ou interesse processual é a segunda
das chamadas condições processuais.

A terceira a que o Código se refere é a possibilidade jurídica


do pedido. Quem vai a Juízo deve fazer ao juiz um pedido juridicamente
possível, dentro do nosso ordenamento, e não pedir uma coisa impossível,
excluída pela lei. Mesmo que tenha razão, mesmo que os fatos descritos
sejam verdadeiros, se a lei exclue aquela possibilidade o juiz não poderá
considerar o que a pessoa pretende. Então o processo resultaria em vão,
máquina girando no vazio. Até algum tempo atrás, por ex., o pedido de
divórcio era no Brasil um pedido juridicamente impossível. Nunca o juiz
poderia atender, porque não havia divórcio. Então, vale a pena realizar o
processo, chamar testemunhas, fazer perícia, examinar documentos, etc, e
no fim a que resultado chegar? A nenhum - nenhum proveito para ninguém,
porque a providência não existe. Hoje há o divórcio, mas não há, por ex., a
possibilidade da pessoa que já obteve uma vez o divórcio e se casou de
novo, pedir novo divórcio. A lei proíbe. Não se pode pedir mais do que um
divórcio.

Então, vejam bem, mesmo que esteja presente algum daqueles


fatos que em tese poderiam servir de fundamento à decretação do divórcio,
é inútil estudá-los, porque de antemão já se sabe que a providência
requerida é impossível.

Eis aí o que se chama a possibilidade jurídica do pedido - que


o pedido seja possível; se o pedido é impossível, se a lei o exclui, seria
absolutamente inútil realizar o processo , e sendo inútil seria nocivo
porque faria gastar o tempo, a energia e o dinheiro de uma porção de
gente, em vão.

NO PROCESSO, TUDO QUE NÃO É NECESSÁRIO É


PROIBIDO. guardem esta frase. No mundo do processo só se pode fazer
aquilo que é preciso fazer, exatamente para evitar que a máquina judiciária
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trabalhe no vazio, em vão. Então, o que não é necessário é proibido. Na
vida privada, no direito material, não. Só no processo. Porque daria lugar a
esta conseqüência: causar uma sobrecarga inútil na máquina judiciária.

O Código de Processo Civil faz referência expressa a essas três


condições no art. 267, VI.

Vejam a primeira observação que se deve fazer a isso: A


enumeração, a meu ver, não deve ser considerada exaustiva - a própria
linguagem do Código insinua que pode haver outras condições. E
efetivamente as há. Por ex., certas ações devem ser propostas em
determinado prazo, ultrapassado o qual elas não podem se mais
propostas. Ação Renovatória de contrato de locação de imóvel destinado a
fim comercial ou industrial, só pode ser proposta dentro dos últimos 6
meses de vigência do contrato que se deseja renovar.

Mas estas três são as condições chamadas genéricas,


porque elas se aplicam a todas as ações em geral. Daí o relevo que
se dá a elas.

Atenção: a leitura de alguns livros pode fazer supor que só


existem essas condições, legitimidade, interesse processual e possibilidade
jurídica. "As condições da ação são ...". Mas é apenas isso, essas são as
condições genéricas aplicadas a toda e qualquer ação. Então seria extinto o
processo sem fundamento genérico. Eis aí a conseqüência da falta de
alguma das condições do artigo. Quando o direito de ação é exercido sem
que estejam presentes todas as condições, qual é a conseqüência? O juiz
deve extinguir o processo, por fim ao processo sem julgamento do mérito,
isto é, sem apreciar o conteúdo, sem apreciar se existe ou não existe o
direito material postulado pelo autor. Essa competência é da maior
importância, e difere nitidamente daquela que ocorre quando o autor, o
proponente, não tem razão.

Vejam estes dois exemplos: A, casado com B, propõe ação de


desquite, propõe ação de separação judicial. Alega que a conduta da
cônjuge é tal que não admite a vida em comum. A é parte legítima para
propor a ação? Sem dúvida - só ele. Ele tem interesse processual? Sim. O
pedido é juridicamente possível? É, a lei permite. Porém ele não consegue
provar o fato que alegou, a conduta irregular de B. O juiz, embora
reconhecendo que A tem o direito de ação, que todas as condições da ação
estão cumpridas, verifica que ele não tem aquele direito material alegado.
Não conseguiu provar aquele direito.

C, entretanto, que é amigo do cônjuge A, propõe que A se


separe de B, narrando os fatos que incriminam a conduta da cônjuge B.
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Estes fatos podem até ser verdadeiros, mas C não é parte legítima na ação.
Neste caso o juiz não examinará o processo. Ele o extinguirá e julgará C
carecedor de ação (carência de ação). É importante saber que uma coisa
é improcedência, e outra carência. A improcedência é a falta do direito
material, ao passo que a carência é a falta de legitimação.

O juiz tem o dever de fiscalizar a presença dessas


condições: 1ª - legitimação; 2ª - interesse processual; 3ª -
possibilidade jurídica do pedido. O juiz aprecia essas condições ex
officio (espontaneamente, independente de provocação).

INDIVIDUALIZAÇÃO DAS AÇÕES

Consiste em saber como se identifica uma ação que tenha sido


concretamente exercitada. O Estado só tem o dever de prestar jurisdição
uma vez. Para cada conflito de interesses deve corrresponder um processo.
Encerrado o processo, a ação não pode ser proposta, nem outra ação pode
ser proposta, durante o decurso, assim como uma ação não pode ser
proposta duas vezes.

Existem critérios de confronte de duas ações para sabermos se


não idênticas ou não. Art. 301 § 2º CPC - Elementos de individualização ou
elementos das ações.

1) Elemento subjetivo - as partes. Quem está litigando, autor e réu.

autor: aquele em cujo nome se pede a providência.

réu: aquele defronte a quem a providência é pedida.

Ex.: ação de menor - representante legal. autor: o menor.

2) Elemento objetivo - o pedido (objeto da ação).

No pedido, distinguem-se dois aspectos: Ex.: o autor pede a


condenação do réu ao pagamento de uma dívida (a condenação refere-se a
um bem - dinheiro). Então temos: providência pleiteada pelo autor ->
objeto imediato do pedido (direto). O bem -> objeto mediato do
pedido (que por intermédio dessa providência o autor está
pleiteando - pedido indireto).
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3) Causa do pedido - causa de pedir - causa petendi. É o porquê, a
razão, o fundamento da pretensão do pedido (por que se está
litigando).

Efeitos jurídicos - resultam da incidência da regra jurídica


sobre um fato (podem resultar de fatos simples ou de fatos complexos).

Causa petendi - é o fato ou o conjunto de fatos, que ao ver do


autor resultam naquele fato jurídico por ele afirmado. Os dispositivos legais
em que se funda o autor, e são por ele invocados, não integram a causa
petendi. A qualificação jurídica dada ao fato pelo autor, também não
integra a causa petendi.

"Art. 264 - Ao autor unilateralmente é vedado modificar ..."


Ex.: se numa alegação alguém (o autor) deseja modificar um fato do
processo, como erro para dolo, não se altera a causa petendi. Ex.: no Cód.
Civil é permitido ao doador revogar a doação se o donatário atentar contra
a sua vida ou caluniá-lo. Se numa ação de revogação de doação, o doador
alegar que o donatário atentou contra a sua vida, mas depois diga que não,
que só o caluniou, não poderá fazê-lo sem o consentimento do réu, porque a
causa petendi foi alterada. Se no exemplo acima, o autor alega o mesmo
tipo de fato, a reprodução do mesmo fato em data posterior, trata-se de
outra causa petendi. Numa ação de separação judicial, o autor alega o
adultério e depois alega outro adultério historicamente diferente (seria
necessário o consentimento do réu ou uma nova ação). Dois funcionários
que se julgam na mesma situação pleiteiam um só benefício administrativo
para si. São dois pedidos semelhantes, e a causa petendi não é a mesma,
pos cada um faz o pedido para si próprio (duas ações). Duas pessoas que
fizeram um concurso, pensam que o mesmo teve um vício que pode
invalidá-lo (falta de publicação de um edital) e por isso pedem a sua
anulação. Os autores são diferentes, o pedido e a causa petendi são os
mesmos. A anulação do concurso aproveitará a ambos.

Para cada lide um processo. Não pode ser exercitada a


mesma ação, nem conjuntamente, nem sucessivamente.

CLASSIFICAÇÃO DAS AÇÕES

1ª) Quanto à natureza do direito de que o autor se afirma titular:

1) Ações reais - são aquelas fundadas num suposto direito


real. O autor afirma-se titular de um direito real. Ex.: ação reivindicatória
( domínio - dir. real)
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2) Ações pessoais - são as que se baseiam no direito pessoal.

2ª) Quanto à natureza do bem que constitui o objeto mediato do


pedido:

1) Ações mobiliárias - aquelas cujos pedidos têm por objeto


mediato um bem móvel.

2) Ações imobiliárias - aquelas cujos pedidos têm por objeto


mediato um bem imóvel.

3ª) Ações que se baseiam na natureza da providência jurisdicional


pleiteada pelo autor:

Existem 3 tipos de processo:

Processo de conhecimento - formular a regra jurídica.


Processo de execução - transformar a realidade, ajustando-a ao direito
(aquilo que deve ser). Processo cautelar - não é propriamente uma 3ª
espécie do gênero, mas se contrapõe em bloco às outras duas espécies
citadas. Antecipadamente assegura a eficácia prática dos processos de
conhecimento e de execução.

A esses três tipos de processo correspondem 3 tipos de tutela


jurisdicional (executiva, de conhecimento e cautelar)

Ação - é o direito à jurisdição.

Ações de conhecimento - visam a uma providência cognitiva


(emissão de uma sentença). Ações executivas - visam à tutela executiva.
Ações cautelares - visam à tutela cautelar.

São três tipos de ações que se justapõem. O critério é o do


objeto mediato do pedido.

I. AS AÇÕES DE CONHECIMENTO comportam sub-espécies. Art. 4º - a ação


visa apenas a que o Juiz declare a existência ou inexistência de uma relação
jurídica.

OBS: Normalmente não se pleiteia a declaração da existência de fatos, mas


sim de relacões jurídicas.

I.1) Ações declaratórias - positivas ou negativas


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Positivas - quando o autor pede a declaração da existência da
relação jurídica. Negativa - quando o autor pede a declaração da
inexistência da relação jurídica.

Visam à declaração de um fato. É uma ação declaratória


referindo-se a um fato.

I.2) Ação constitutiva ou de reparação - (porque constitui


situação jurídica nova) - Cria, modifica ou extingue situações jurídicas.

Ex.: alguém pede uma separação judicial alegando um fato


suficiente. O Juiz verifica as provas, e quais as normas jurídicas aplicáveis,
e se dessa aplicação resulta para o autor o direito de separar-se. Nessa
ação o Juiz deve decretar a separação, criando, inovando, constituindo uma
nova situação jurídica. O autor era casado, agora está separado.

I.3) Ação condenatória - o Juiz não só declara a existência


de uma situação creditícia, como obrigará o réu a pagar.

II- AS AÇÕES EXECUTIVAS pressupõem que o processo de conhecimento


esteja terminado em relação àquela matéria. Atuação prática, e
preponderantemente material. (Apreende bens). Em regra o processo de
execução pressupõe o processo de conhecimento, é um titulo judicial que
autoriza a apreensão. Mas a lei prevê determinados casos de execução de
títulos extrajudiciais. Ex.: Nota Promisória - instaura-se desde logo o
processo de execução.

III - AÇÕES CAUTELARES - destinam-se a resguardar o resultado de um


processo de conhecimento ou de execução. Asseguram antecipadamente o
resultado desses processos. Num caso ou noutro, constituem um
instrumento a serviço do resultado de outro processo. Têm a finalidade
instrumental em relação aos outros tipos de processo, e esses se
destinam a preservar a observância do direito material. Não são
espécies do mesmo gênero. Os processos de conhecimento e de execução
são instrumentos do processo cautelar.
A ação cautelar é o instrumento do direito material.
Instrumento do instrumento.

1) Processo de Conhecimento

1.1 - Ação declaratória

1.1.1 - positiva
1.1.2 - negativa
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1.2 - Ação constitutiva ou de reparação

1.3 - Ação condenatória

2) Processo Executivo

3) Processo Cautelar

O P R O C E S S O

A teoria geral do processo civil repousa sobre três


tópicos fundamentais: JURISDIÇÃO, AÇÃO E PROCESSO. Vamos passar
agora ao terceiro tópico fundamental desta parte introdutória da nossa
disciplina, que é o Processo.

Já sabemos que o dever do Estado de prestar jurisdição, isto é,


de fazer justiça, corresponde da parte daqueles que estão sujeitos ao seu
poder, o direito de exigir essa prestação jurisdicional, e a esse direito se
chama DIREITO DE AÇÃO.

Quando uma pessoa, exercendo o seu direito de ação,


comparece perante o órgão estatal incumbido de prestar jurisdição e lhe
submete o pedido de uma providência de natureza jurisdicional, o Estado
vai promover a realização de uma série de atos, de atividades destinadas a
alcançar o objetivo de prestar justiça. A prestação jurisdicional como bem
se compreende, não é algo que possa ser oferecido instantaneamente, é
necessária a prática de uma série de atos que se prolongam no tempo, por
vezes mais do que seria razoável, mas no entanto sempre se desenrolam ao
longo de algum tempo.

Todos esses atos, por vezes de natureza muito diversa, são


ligados, se unem uns aos outros, pela sua finalidade comum, pelo seu fim,
há uma unidade teleológica, finalística, todos eles se destinam a permitir
que o Estado se desincumba de seu dever de prestar jurisdição. Ao
conjunto desses atos que se praticam com essa finalidade, da
prestação da jurisdição, é que se dá o nome de PROCESSO.

Processo, portanto, é o conjunto de atos através dos


quais se realiza a função jurisdicional. De sorte que é íntima a
relação entre o conceito de processo e os dois anteriores, o de
jurisdição e o de ação. O processo é o instrumento da jurisdição. É
15
através dele que o Estado cumpre o seu dever de prestar jurisdição,
e é também através do processo que se satisfaz o direito do cidadão
a obter a prestação jurisdicional, isto é, que se satisfaz o direito de
ação.

Vejam que esses três conceitos são interligados. Ação e


jurisdição de certo modo de contrapõem, a ação é o direito à jurisdição, e o
processo é o conjunto de atos que se praticam com a finalidade de que seja
prestada a jurisdição, e portanto seja satisfeito o direito de ação.

O processo não deve ser confundido com o conjunto dos


documentos, dos papéis que registram a prática desses vários atos.
Quando se fala em processo, a idéia do leigo é a de um calhamaço de
papéis. "Passa ali e apanha o processo ..." é uma frase corriqueira mas não
é uma frase técnica. Aquilo a que se dá o nome de "processo",
tecnicamente se denomina AUTOS - os autos do processo, isto é, o conjunto
dos documentos nos quais fica registrada, documentada, a prática dos atos
cujo conjunto forma o processo. Esta maneira de dizer é própria dos leigos
e não dos senhores.

A prestação jurisdicional é a manifestação daquela tutela a


que me referi em nossa primeira conversa: O Estado, editando a norma
jurídica abstrata e genérica que deverá disciplinar a conduta dos membros
da coletividade, faz a promessa de zelar pela observância dessas normas
atuando-as efetivamente diante de situações concretas. Essa tutela pode
manifestar-se de diversas maneiras. Há uma primeira forma de tutela,
cognitiva, isto é, intelectual. Trata-se de ver se a pessoa que foi pedir a
tutela jurisdicional realmente a merece, isto é, se o autor tem razão naquilo
que pediu. E o desfecho dessa atividade é o ato denominado Sentença. A
sentença é o ato no qual o Juiz julga a causa, isto é, estabelece quem tem
razão e quem não tem, acolhe ou rejeita a providência que lhe é pleiteada.
Pelo menos é isso que ocorre normalmente num processo frutífero, num
processo realmente eficaz. O seu desfecho deve consistir normalmente no
pronunciamento do Juiz dando razão a quem a tem. Esse pronunciamento
denomina-se Sentença.

Há um tipo de tutela que visa essencialmente a prolação de


uma sentença e o processo a isso destinado, o processo no qual se realiza
essa atividade, tendente à emissão de uma sentença, recebe a
denominação de Processo de Conhecimento ou de Cognição .
Exatamente porque nele a atividade do Juiz é uma atividade essencialmente
cognitiva, isto é, o Juiz conhece a matéria que lhe foi submetida, verifica os
fatos, aplica aos fatos o direito pertinente e conclui. Tudo isso se passa
num plano intelectual, digamos assim, fisicamente nada acontece,
materialmente nada acontece.
16

Então aí nós temos a primeira classe, a primeira espécie de


processo - processo de conhecimento ou de cognição, disciplinado no
Livro I do CPC, e que visa essencialmente à emissão de uma sentença. O
processo de conhecimento é um processo de "fabricação" de uma sentença
(imagem talvez vulgar) e todas as vezes que um processo desembocar
numa sentença, estamos diante de um processo de conhecimento - é o sinal
infalível que o caracteriza.

Mas há uma segunda modalidade de tutela que já não consiste


nisso, senão em ter atividade concreta, atua praticamente aquilo que foi
decidido na sentença. Os senhores compreendem perfeitamente que por si
só a sentença não modifica materialmente o mundo exterior. Por ex. no
Processo Penal: no momento em que o órgão judicial profere uma sentença
de condenação à morte, isso não significa que nesse momento a pessoa
condenada morra. A não ser que ao ter ciência do fato seja vítima de
enfarte fulminante. Mas isso é um mero acaso, um fato acidental. Quer
dizer, a sentença não modifica o mundo visível. Então isso não basta.
Muitas vezes, é preciso fazer atuar aquilo que ficou decidido na sentença.
O Juiz condena o réu a pagar determinada importância ao autor, nem por
isso o dinheiro sai voando do patrimônio do devedor para entrar no bolso do
credor. Então há necessidade de um outro tipo de atividade destinada a
fazer com que aquilo realmente aconteça. Este outro tipo de tutela,
denomina-se Tutela Executiva, e sua atuação se faz através de um segundo
tipo de processo, denominado Processo de Execução, que, veremos mais
tarde, não se funda unicamente ou necessariamente numa sentença. Pode
fundar-se numa sentença e isto ocorre na maioria dos casos; ou então num
outro título que a lei para esse fim equipare a uma sentença, permitindo
desde logo que se pratiquem atos materiais, palpáveis, concretos,
sensíveis, destinados a colocar as coisas nos seus devidos lugares.

Então temos dois tipos de processo, processo de conhecimento


e processo de execução. Estas duas espécies podem ser reunidas num
gênero, porque ambas visam à satisfação do direito. Visam a reparar uma
lesão ou a prevenir uma ameaça, satisfazendo o titular do direito lesado ou
ameaçado. Mas ao lado desses dois tipos de processo, que podem formar
um gênero comum, abrangente de ambos (e talvez se possa denominar, a
essa modalidade, de tutela satisfativa, exatamente porque visa a
satisfação), há ainda outra possibilidade - a de uma tutela que não visa
diretamente a satisfazer, mas apenas a assegurar um estabelecimento de
condições para que outro processo tenha um resultado praticamente eficaz.
Uma tutela, digamos assim, mediata, de 2º grau, que não visa a satisfazer o
direito e sim a assegurar a eficácia prática do processo que tende a
satisfazer o direito. Então o segundo processo - linha auxiliar do primeiro,
satélite do primeiro - esse tipo de tutela que apenas serve para evitar o
17
risco de um processo inútil, dá-se o nome de Tutela Cautelar. É uma
cautela que se toma. Por ex.: receia-se que o devedor porventura vindo a
ser condenado, se coloque numa posição tal que torne inútil a condenação.
Como? Ocultando, desviando seus bens, por exemplo, de tal maneira que,
no momento em que a sentença fosse ser executada, nada se encontraria
para fazer recair a execução. É um perigo que se corre. Para conjurar esse
perigo pode-se tomar uma providência de natureza cautelar que consistiria
em apreender bens do devedor, provisoriamente, evitando que ele os
dissipe ou desvie, de tal modo que esses bens ficassem reservados para
uma eventual futura execução. Ao apreendermos os bens, nós não temos
em vista diretamente satisfazer o direito do credor - até porque é possível
que nesse momento ainda nem sequer se saiba ao certo se aquele crédito
existe ou não. É apenas uma precaução que se toma.

Então, ao lado dos processos que visam a satisfação, nós


temos esse terceiro tipo que visa apenas ao resguardo provisório da eficácia
de alguma outra providência. É uma providência auxiliar. A esse tipo de
tutela secundária denominamos tutela cautelar, e o processo em que ela se
realiza recebe a denominação de Processo Cautelar.

Então, temos três tipos, três espécies de processo


conforme o tipo de tutela jurisdicional neles exercida: o processo
de conhecimento, o processo de execução e o processo cautelar. Os
dois primeiros no seu conjunto podendo ser filiados a um gênero
comum que seria o da tutela satisfativa, e por oposição a eles o
processo puramente cautelar.

Outra noção que deve ser agora exposta é a de


PROCEDIMENTO. Todo processo desenrola-se de acordo com um modelo
indicado na Lei. Os atos processuais não se praticam arbitrariamente, de
qualquer maneira, em qualquer ordem, por qualquer forma. A lei os
disciplina, a lei regula a seqüência dos atos processuais, a forma, o modo
pelo qual devem eles ser praticados. Ela não deixa isso ao capricho do Juiz,
e muito menos ao capricho das partes. Nós encontramos na lei um figurino,
um padrão, um modelo, ou melhor dizendo, vários modelos, de acordo com
os quais o processo deve ser conduzido.

A esta forma, esta maneira externa que reflete o modo pelo


qual os atos do processo se encadeiam sucessivamente e se praticam uns
após outros é que se dá a denominação de PROCEDIMENTO. O processo é o
conjunto de atos, o procedimento é o modo pelo qual estes atos se vão
praticando sucessivamente. E nem todos os processos adotam o mesmo
procedimento. A lei varia o modelo de acordo com diversos fatores quer
serão examinados oportunamente. Encontramos na lei vários tipos de
procedimento. Saber qual deles deve ser utilizado num determinado
18
processo é questão da maior importância. Porque o processo deve ser
realizado segundo a lei e se a lei prescreve para ele um determinado
modelo, é esse e não qualquer outro modelo que deve ser seguido,
obviamente.

Mas o que importa no momento - porque mais tarde


chegaremos ao ponto em que se tornará oportuno expor e caracterizar os
diversos procedimentos, é que os senhores fixem que as duas palavras,
Processo e Procedimento, não significam exatamente a mesma
coisa. O processo é o conjunto de atos e o procedimento é a
fisionomia externa do processo. E se o processo tem uma fisionomia
externa, há de ter também alguma realidade interna. Que é que constitui a
realidade interna desta série de atos? Aparentemente, se nós observamos
na prática o desenvolvimento do processo, vamos perceber que uma porção
de atos se praticam - atos praticados pelo Juiz, pelas partes, e até mesmo
por outras pessoas que colaboram nas atividades. Mas alguma coisa une
esses atos por dentro - há um fio que passa por dentro de todas as pérolas
do colar. As pérolas são os vários atos, mas eles não estão soltos no
espaço, estão unidos, vinculados, encadeados, assim como olhando para um
colar não se vê o que é que mantém unidas as várias pérolas. No processo
alguma coisa de semelhante se descobre - aqueles vários atos
aparentemente autônomos, na realidade estão unidos, formam no seu
conjunto uma unidade. Ora, que são esses atos? Vejam bem: quando
alguém pratica um ato é porque pode, ou deve, ou precisa praticá-lo. Claro,
um ato é sempre a manifestação de alguma coisa que ou se pode fazer ou
se deve ou se precisa fazer. Então cada ato que surge no processo é a
manifestação de alguma coisa que existe que permite a esse ato surgir, ser
praticado. Que é que está por trás de tudo isso? Está um conjunto de
situações jurídicas das várias pessoas que tomam parte nesse drama
processual, nessa novela. As pessoas quais são? Principalmente o Juiz e as
Partes, eventualmente outras. Se alguma dessas pessoas pratica um ato no
processo é porque tinha de praticá-lo, ou pelo menos podia praticá-lo.
Então essa pessoa exerceu um poder, um direito, uma faculdade ou um
dever. Ora, isso significa que as pessoas que participam do processo
são titulares, nele, de deveres, de direito, de faculdades, etc., que
lhes permitem ou lhes impõem a prática desses vários atos. Ora,
quando diversas pessoas estão ligadas entre si, ou situadas umas diante
das outras, por deveres, direitos, faculdades, etc. que é que dizemos? Que
essas pessoas estão ligadas por uma relação jurídica. O Direito atribui a
essas pessoas essas diferentes posições jurídicas em face umas das outras.

Se o processo é um conjunto de atos com uma finalidade una,


praticados por diversas pessoas que ao praticá-los ou se desincumbem de
deveres ou exercem direitos, é sinal que por trás desse colar de atos, dessa
fileira de atos, existe alguma coisa ligando essas pessoas. Por trás dos atos
19
do processo existe uma relação jurídica que prende entre si todas essas
pessoas que participam dessa atividade processual. Daí falar-se de uma
RELAÇÃO JURÍDICA PROCESSUAL. Se não houvesse para ninguém o
direito de praticá-los, ou o dever ou a faculdade ou o ônus de praticá-los,
eles não seriam praticados. Então se eles se praticam é porque alguém
pode, deve, etc., e esse alguém está numa posição jurídica ativa ou passiva
diante de outro.

Modernamente, isto é, desde o século XIX, fala-se em Relação


Jurídica Processual para designar o vínculo que se forma entre as várias
pessoas que participam da atividade processual, o Juiz e as partes
essencialmente, eventualmente outras.

Esta relação jurídica processual tem certas características um


pouco diferentes das relações jurídicas que os srs. conhecem das outras
disciplinas. A relação no Direito Civil, em regra, é uma relação jurídica
estática, isto é, uma vez estabelecida ela se conserva tal qual era até que
se extinga. Ela não se transforma, é uma relação fixa. Alguém contrai uma
dívida, a dívida existe tal como contraída, até sua extinção.

A relação jurídica processual é uma relação dinâmica, é


como um caleidoscópio. A cada ato que se pratica surge uma nova situação
em que nascem novos direitos e novos deveres que vão sendo exercidos,
vão se consumindo, vão se extinguindo, e nem por isso a relação acaba. Ela
é sempre a mesma até o fim, embora a sua fisionomia vá se modificando a
cada instante. Ela tem, portanto, esse caráter dinâmico, é uma relação
complexa, uma relação progressiva, comporta em si não somente um direito
para um, uma obrigação para outro, e sim um feixe ou vários feixes de
direitos, deveres, obrigações, etc., que se vão exercendo e mudando,
nascendo e morrendo e se transformando continuamente desde o princípio
até o fim do processo. E ela não se confunde de maneira nenhuma
com a relação jurídica que o autor afirma existir entre ele e o réu no
plano material. Quando o autor diz "Eu sou credor do réu e quero cobrar a
dívida", ele está afirmando a existência de uma relação jurídica de direito
material, de direito civil no caso, se for um direito civil. Agora, o fato dele
ir a Juízo e propor uma ação em face deste réu, entre ele e o réu e o Juiz, se
forma uma relação jurídica nova, distante desta. Aquele relação de direito
material pode até não existir. Tanto pode que é perfeitamente concebível
que ao fim do processo o Juiz diga: "Não senhor, eu não condeno o réu a
lhe pagar porque ele nada lhe deve".

Então o Juiz afirma que aquela alegada, suposta, hipotética


relação de direito material inexiste. Agora, a relação jurídica processual,
essa é claro que existe. Existe e perdurou todo o tempo em que o processo
se desenrolou. Elas são inteiramente distintas e uma é autônoma em
20
relação à outra. As relações jurídicas de direito material podem ser de
direito privado ou de direito público, mas a relação jurídica processual é
sempre uma relação jurídica de direito público. O processo é regido
pelo direito público. É uma atividade, uma das funções básicas do
Estado.

Quando a relação jurídica material alegada pelo autor não


existe, o pedido é improcedente, isto não afeta a relação jurídica
processual, ela existia autonomamente, independentemente em face da
outra.

Quais são então as características essenciais dessa relação


jurídica processual? Ela é, como disse, uma relação complexa, dinâmica e
progressiva e é autônoma em relação a de direito material. Para que a
relação jurídica processual possa instaurar-se, possa nascer, é necessária a
presença de determinados requisitos. E para que ela possa, além de
nascer, ter vida válida, isto é, existir validamente, são necessários outros
tantos requisitos. A esses requisitos necessários para que o processo,
encarado como relação jurídica processual, isto é, olhado na sua substância
íntima e não no seu feitio exterior, exista, para que exista o processo,
algumas coisas são necessárias, e para que ele exista validamente, outras
coisas a mais são necessárias.

A esses requisitos a doutrina tem chamado pressupostos


processuais. Pressupostos processuais são os requisitos necessários para
que o processo exista e para que ele seja válido. E já aí podem-se
distinguir duas espécies de pressupostos processuais - os pressupostos de
existência e os pressupostos de validade. Então vejamos:

Que é preciso haver para que possa existir o processo? Se


aqui, por exemplo, a título de método didático, simulássemos, e viesse um
dos srs. com um esboço de uma petição inicial de uma ação, e eu dissesse:
"O Juiz pega a petição inicial, lê, e depois despacha: Cite-se o réu." Isto
seria o processo, juridicamente falando? Pode-se dizer que foi instaurado o
processo, se eu dissesse isso? Não. Então o que é que falta para que seja o
verdadeiro processo? Falta, em primeiro lugar, alguém que esteja investido
do poder de julgar, falta o órgão jurisdicional. (O professor, por acaso, é
Juiz, porém aqui não está na sua função de Juiz.) Não há portanto aqui na
sala o Juiz, há uma pessoa que exerce o cargo, o poder judicial, mas aqui
não está nessa qualidade, portanto não está podendo aqui despachar a
petição de ninguém.

Mas não é só o Juiz que falta. Você trazendo esta petição


inicial está realmente na posição de alguém que pleiteia uma prestação
jurisdicional do Estado? Ou está só treinando como aluno? Se você trouxer
21
a petição que eu mandei, você não está pleiteando, não está sendo autor,
não está sendo parte.

A pessoa física que você aponta na sua petição como sendo o


devedor, também não há. Então não há nesse processo nem Juiz, nem
partes, e o processo não pode existir sem Juiz e sem partes. Esses
elementos têm de preexistir ao processo. Têm de existir antes do processo.
Por isso mesmo eles são pressupostos. Para que o processo exista, é
preciso que antes disso exista um órgão investido de jurisdição, e
duas pessoas que possam assumir nesse processo a posição de
partes, uma que seja autor e outra que possa ser réu, sem o que não
há processo possível.

Mas não basta isso. Suponhamos que eu aqui estivesse no


exercício da minha função como Juiz, na qualidade de Juiz. Estou sentado
aqui e um dos srs. pretende cobrar de outro uma dívida hipotética.
Suponhamos que A deva a B uma importância, e B esteja querendo cobrar
dele essa importância em Juízo. Então aqui está o Juiz, ali está o autor e ali
está o réu. Então estão presentes os três. Já há processo? O que é que é
necessário: Que o credor B se digne a se mexer. Sem isso eu não me
mexo. A jurisdição é uma função cujo exercício depende de uma cutucada
por parte do particular. O Juiz não sai a cata de causas para julgar, ele não
se move. O Juiz é inerte, quer dizer, só atua provocado. Então é preciso
que alguém aperte o botão, como se alguém ligasse um tomada. Se
ninguém disser nada o processo não começa. A parte tem que se mover
para por em movimento o Juiz. Então, B tem que vir aqui dizer: "Peço a
V.Exa. que condene A etc.,etc." Então, além dos elementos que eu diria
estáticos, é preciso um movimento dinâmico, um movimento destinado a
acionar a faísca que desencadeia o movimento processual, e que não parte
do Juiz, parte da parte.

"Art. 262 - O processo civil começa por iniciativa da


parte, mas se desenvolve por impulso oficial."

Depois de iniciado, o Juiz deve tocá-lo para a frente, porém


não é o Juiz que o inicia, a iniciativa cabe à parte. Ninguém obtem justiça
sem pedí-la. Pode-se mesmo aplicar a frase "Quem não chora não mama".

Então, é preciso que haja órgão com jurisdição, partes, e esse


ato de apertar o botão. Esse ato chama-se Demanda - é o ato pelo qual
alguém pede a prestação jurisdicional . Esses são os pressupostos de
existência do processo.

Agora, para que o processo seja válido é preciso que cada um


desses elementos seja revestido de certas qualidades. Respectivamente:
22

A) O órgão de jurisdição pode ser um qualquer? Não. Não é qualquer Juiz


que pode julgar qualquer causa. Há um divisão de trabalho que delimita a
competência de cada um. Aí já é um requisito não para que o processo
exista, mas para que seja regular, seja correto e portanto válido. Então, em
correspondência com o órgão de jurisdição que é o pressuposto de
existência, o pressuposto de validade é a competência desse órgão.

B) Em relação às partes: menores podem litigar em Juízo por si mesmos?


Uma criança de 12 anos pode? Não pode. Um louco sob interdição pode?
Normalmente não pode. Então é preciso que as partes sejam capazes.
A capacidade corresponde à competência. Reparem que é um atributo
análogo. A competência do órgão judicial, a capacidade das partes. É uma
analogia.

C) E é preciso que a demanda seja oferecida em forma regular, de


acordo com a lei. Não é de qualquer maneira. Não pode ser feita
oralmente, tem que ser feita por escrito (Art. 156) e só em português.

Eis ai os pressupostos de validade do processo.

Quais são os sujeitos da relação jurídica processual? Quais


são os sujeitos de qualquer relação jurídica? São as pessoas que assumem
em face umas das outras, direitos, deveres obrigações, faculdades, etc.
Sujeitos de relações jurídicas são sempre essas pessoas. E quem é que
assume tais posições no processo? Já sabemos que essencialmente três
pessoas, pelo menos, a saber: o Juiz (não é a pessoa física do Juiz, e
sim o órgão judicial- não é o Dr. Fulano ou o Dr. Sicrano, é o Juiz
como órgão do Estado), e as partes. Esses são os sujeitos principais do
processo. Hoje esse conceito é mais ou menos tranqüilo mas nem sempre
foi. Vocês encontram nos livros a esse respeito uns gráficos. Quase todo
livro tem esses gráficos.

Quando se defrontarem com esses gráficos não pensem que os


diversos participantes do processo estão lançando flechas uns na direção
dos outros. Não se trata de uma representação gráfica de uma luta de
índios. Aquelas setinhas pretendem simbolizar as posições jurídicas dessas
pessoas umas diante das outras.

O primeiro gráfico quer dizer o seguinte: Aqui concebia-se a


relação jurídica processual apenas entre autor e réu, i.e., entre as partes.
Segundo essa concepção, que se chama concepção linear, ou segundo
outros, retilínea, só as partes é que têm direitos e deveres umas em relação
às outras, o Juiz não. Esta concepção está totalmente abandonada, ela
remonta a um autor chamado KOHLER, cuja teoria, contudo, hoje não é mais
23
adotada. É claro que o Juiz também tem em face das partes poderes,
deveres, ninguém pode negar isso.

Agora aqui, que o Juiz é sujeito da relação processual hoje não


se discute. O que ainda se discute é se além das relações entre o Juiz e
cada uma das partes, como ali, se também existe no processo uma relação
jurídica entre as partes, autor e réu. Afirmam alguns autores, negam
outros. É claro que no plano do direito material a relação é entre as partes,
o Juiz não tem nada com ela, o crédito, a dívida. Mas isso é outra coisa.
Pois bem, até hoje se discute, e há uma teima em torno disso. A meu ver
existe a relação jurídica não apenas de cada uma das partes para
com o órgão judicial, mas também entre elas. Há certos deveres,
certos direitos, que uma das partes no processo tem diretamente para com
a outra; pelo menos um: o direito do vencedor de haver do vencido o
reembolso das custas que ele, vencedor, dispendeu e dos honorários
do seu advogado. Em todo o processo, ao terminar, o vencido deve pagar
(art. 20). Uma das partes pelo simples fato de ser vencedora tem perante a
outra o direito de receber o que pagou em custas e os honorários de seu
advogado. Conseqüentemente, a outra tem obrigação de pagar isso, e daí
uma relação que sem dúvida alguma se estabelece entre as partes.

Então, a meu ver, seria preferível a concepção atribuída a


WACH. Mas eu não brigo por ela, estou apenas expondo.

Então os sujeitos principais da relação jurídica


processual são, sem dúvida alguma, o órgão judicial e as partes.
Eventualmente outras pessoas que também assumem no processo deveres
ou direitos ou faculdades, por exemplo, as testemunhas: a pessoa chamada
ao processo para depor sobre fatos que interessam à solução do litígio, pelo
fato de ser convocada assume o dever de comparecer. Então, a testemunha
não é Juiz, nem parte, mas assume o dever de comparecer e dizer a
verdade, senão pode sofrer uma pena (falso testemunho). Então, é sujeito
eventual, sujeito acidental, sujeito secundário. Os auxiliares dos Juízes, o
Oficial de Justiça que realiza a citação, têm uma porção de deveres mas
também têm faculdades - ele pode fazer isto, pode fazer aquilo, pode
arrombar a porta sob determinadas circunstâncias para fazer uma penhora,
por exemplo. Então outras pessoas podem também assumir a posição de
sujeito, mas são eventuais, não são necessárias. Necessárias são
aquelas três: o Juiz e as partes. A parte que propõe a ação chama-se
autor, e a parte em face da qual a ação é proposta chama-se réu. Estes são
os sujeitos necessários, essenciais, principais, da relação jurídica
processual.

Aquela série de atos praticados pelo órgão jurisdicional,


pelas partes, formam o que se chama de processo . A lei atribui a
24
essas diversas pessoas, faculdades para atingir o fim, que é a prestação de
justiça. Estando essas pessoas que participam do processo dotadas de
deveres, direitos, faculdades, diz-se por essa razão que todas elas estão
ligadas entre si por uma relação jurídica, que por motivos óbvios toma o
nome de relação jurídica processual. Se estão ligadas graças aos laços de
cada uma em face das outras, em que consistem essas diversas posições
que o sujeitos assumem, um diante do outro? Esse é o conteúdo da relação
jurídica. Em que consiste uma relação jurídica? O casamento faz nascer
uma relação jurídica. Eu tenho direitos e deveres para com o meu cônjuge.
Qual o conteúdo? Conjunto dos deveres e direitos que assumem um perante
o outro. O que compõe o conteúdo da relação jurídica processual? É
a soma, o conjunto dessas várias posições jurídicas que cada um
assume diante do outro. Quem exerce jurisdição? É o órgão estatal num
plano de prenúncia em relação aos outros. Ele exerce poderes de direção
do processo. Os poderes do Juiz são diversos e se manifestam em vários
campos. Em relação à prova (instrutória) tende a acentuar-se no processo
civil moderno. Vão até a fiscalização da regularidade (poder de polícia no
sentido do D. Administrativo). O Juiz tem também deveres, sendo o
primordial o de prestar jurisdição, pronunciar-se sobre o que se lhe requer.
Ao Juiz não é dado abster-se de um pronunciamento. O Juiz pode indeferir,
não pode rasgar nem queimar o processo. Outro dever é o que motiva as
suas decisões. O Juiz deve expor as razões que o levam a decidir dessa ou
daquela maneira. A razão deve ser exposta. O Juiz exerce poderes sobre as
partes, que possuem: 1) Direito; 2) Faculdades; 3) Deveres e 4) Ônus.

1) DIREITOS - É uma categoria ativa -> vantagem - titulares de direito


subjetivo, possibilidade de exigir de outrem que manifeste comportamento.
Faça ou deixe de fazer. Diz-se que a primeira pessoa tem direito subjetivo
em face da segunda e esta deve em face da primeira. Quando a primeira
pessoa começa a exercer o direito de ação, ela instaura o processo. Se
desdobra no processo a relação processual dinâmica e progressiva. O
Estado suporta todo o conteúdo múltiplo do direito de ação

2) FACULDADES - É uma categoria ativa -> vantagem (Direito é diferente


de faculdade. A diferença é tênue, mas é possível, e devemos fazê-la. O
direito é algo correspondente a um dever. A faculdade é a possibilidade de
eu fazer ou não alguma coisa, não havendo correspondência na atitude de
outra pessoa. A faculdade se esgota em mim mesmo. A parte renuncia, ela
tem a faculdade de renunciar, tem a faculdade de testar).

3) DEVERES - Aspecto passivo. Direitos e deveres são correlatos. A parte


tem o dever de lealdade - Arts. 16 e 19 do CPC, reembolso das custas e
honorários por ela pagos. O verbo de dever é eu devo.
25
4) ÔNUS - Está para o dever assim como a faculdade está para o direito. O
dever me impõe agir desta ou daquela maneira, o ônus me impõe agir dessa
ou daquela maneira em meu próprio benefício. O verbo no campo do ônus é
eu preciso fazer isto. Ex.: Se eu quiser observar a paisagem do Pão de
Açúcar eu preciso pegar o trem, pagar a passagem. No processo há ônus.
O mais conhecido é o ônus da prova. Se eu descumpro, eu privo a mim
mesmo de ter uma vantagem. O Juiz tem poderes, não tem ônus.

PRINCÍPIOS GERAIS QUE INSPIRAM O PROCESSO E O


PROCEDIMENTO

Não se encontram em regra na lei, e por isso mesmo são


princípios. Nós inferimos no exame sintomático do texto. Esses princípios
expressam valores políticos (idéias), o atendimento técnico (visam o melhor
funcionamento) e se espelham na lei.

Às vezes esses princípios se apresentam em dupla,


contrapostos, porque a sociedade não é unívoca. Ela presta reverência
simultânea a dois valores que puxam para um lado e para o outro. A ordem
jurídica é o contrapeso. De um lado a justiça e do outro a segurança. No
processo se atendermos só ao valor justiça, este se choca coma a
segurança. A situação jurídica não pode ficar incerta. A lei procura
conciliar esses dois valores (justiça e segurança). Há uma polaridade de
valores. Os princípios que regem os processos variam conforme o tempo. A
priori, não se pode afirmar que o princípio é tal. No processo civil, por
exemplo, um princípio que tem sido mencionado como merecedor de
acatamento é o da ORALIDADE. O princípio oposto que é o da
ESCRITURAÇÃO, que é importante para o processo não se evaporar. O
processo deve ser tanto quanto possível oral. Deve haver uma
oportunidade para que as partes possam fazer valer sua oportunidade
oralmente, na medida que é importante para o Juiz formar sua convicção
(olhando o réu, ele, o Juiz, pode verificar se a pessoa fica pálida ou
vermelha com as perguntas). Esse princípio se desdobra em diversos
aspectos. Para que uma causa seja bem julgada, quando se usa a prova
testemunhal, o Juiz deve entrar em contato direto.

Outro princípio é que entre o momento de ouvir e julgar não se


escoe muito tempo - CONCENTRAÇÃO PROCESSUAL. Deve haver
identidade física, e ainda o princípio DISPOSITIVO, que parte da idéia que
o órgão de jurisdição deve em certa medida atuar na proporção que as
partes o provoquem - Art. 262 CPC (se a parte pedir menos, mesmo que ela
tenha direito a mais, o Juiz não pode conceder - arts. 128 e 460, CPC).
26
O Juiz não pode julgar nem ultra petitum, nem extra petitum.
Outro princípio é o INQUISITIVO, expressa a idéia que o Juiz não é mero
espectador, passivo, do duelo das partes. Ele tem posição atuante no
processo. O Juiz não está adstrito à prova, pode determinar outras, em
matéria pericial por exemplo. Ele pode espontaneamente (ex officio) pedir
que se determine as causas da doença por um médico, por exemplo.

Outro princípio é o do CONTRADITÓRIO ou da IGUALDADE


DE TRATAMENTO DAS PARTES. É o reflexo no campo processual da
isonomia constitucional (art. 5º CF). As partes devem ter chances iguais, ou
equivalentes. Ex.: se uma das partes junta um documento, o Juiz não pode
decidir sobre aquele documento sem permitir que a outra parte também o
faça. Art. 397 CPC e art. 125, I, expressam esse princípio.

Princípio da ECONOMIA PROCESSUAL - Toda a máquina deve


ser posta para funcionar com o máximo de produção e com o mínimo de
trabalho ou esforço. Não se pode exigir do órgão judicial um modo de agir
mais complicado, se é possível mais facilmente (art. 130 CPC). O processo
deve ser conduzido da maneira mais simples possível. No mundo do
processual, tudo que não é necessário é proibido.

O princípio da PRECLUSÃO: nosso processo tem estrutura


escalonada, hierárquica. Esse princípio indica que uma vez ultrapassada a
fase própria para uma determinada atividade, esta não pode mais ser
realizada. Há um momento para requerer. A parte deve usar de todos os
argumentos que lhe são dados, de uma vez, de forma oportuna (contestação
- rebate). Se o autor se esqueceu de fazer determinada impugnação não
pode mais fazer. Isso leva a uma coisa curiosa: deve-se usar de todas as
munições, mesmo de uma linha de argumentação que se choque com a
outra, ou seja, contraditória. Por exemplo: o autor diz que o réu deve. O
réu diz que nada deve, mas se devia já pagou, e se devia e não pagou o
autor perdoou a dívida. O PRINCÍPIO DA EVENTUALIDADE (defesa) É
COROLÁRIO DO PRINCÍPIO DA PRECLUSÃO.

FORMAÇÃO, SUSPENSÃO E EXTINÇÃO DO PROCESSO

Sabemos que o processo constitui uma relação jurídica


dinâmica, no sentido de que não se esgota num só momento. É uma
relação jurídica que se prolonga no tempo e que está sujeita, portanto, além
da sua formação, a eventualmente suspender-se e sofrer uma paralisação
temporária, e necessariamente a extinguir-se.
27
Vamos tratar aqui hoje de saber como nasce, como termina e
em virtude de que eventualmente deve extinguir-se a relação processual. O
Código trata da formação, da suspensão e da extinção do processo de
conhecimento no livro destinado ao processo de conhecimento, no Título VI
do Livro I - Da Formação, da Suspensão e da Extinção do Processo. De
modo que antes, no Livro II destinado ao processo de execução também no
Título VI - os senhores vão encontrar lá - Da Suspensão e da Extinção do
Processo de Execução.

Não vamos estudar hoje aqui esses tópicos referentes ao


processo de execução, porque envolveria esse estudo o exame de noções
que os srs. só vão adquirir mais tarde quando estudarem o processo de
execução. Veremos então como essa matéria se projeta lá. Vamos nos
restringir aqui, portanto, ao estudo da formação, da suspensão e da
extinção do processo de conhecimento.

Em primeiro lugar, a FORMAÇÃO DO PROCESSO. Como é


que nasce o processo de conhecimento, como é que ele se forma. A
formação não se opera em uma etapa só. O processo se forma em duas
etapas, em duas fases que se sucedem. Sabemos que o processo envolve
necessariamente autor, Juiz e réu. O processo só completa a sua formação
quando esses três protagonistas já se acham atuando na relação processual,
quando já se acham presentes na relação processual. A primeira etapa
da formação do processo de conhecimento é a PROPOSITURA DA
AÇÃO. No primeiro momento o autor se dirige ao Juiz pleiteando a tutela
jurisdicional através de uma petição, através da petição inicial.

O art. 263 trata exatamente de fixar esse momento, a


propositura da ação, que é a 1ª etapa da formação do processo de
conhecimento. O problema aqui consiste em saber quando é, em que
momento, se considera proposta a ação. Vamos ver mais adiante a
relevância da determinação desse momento. A essa indagação responde a
primeira parte desse dispositivo (art. 263) com duas soluções, conforme a
hipótese. Os srs. podem conceber que haja no Foro onde se vai ajuizar a
ação, apenas um Juiz e apenas um Escrivão; ou podem conceber que haja
mais de um Juiz que seja em tese competente para apreciar aquela causa,
que tenha em tese atribuição para processar e julgar aquela causa. Ou que,
havendo um só Juiz, haja mais de um Escrivão. Quer haja mais de um Juiz,
quer haja mais de um Escrivão, será evidentemente necessário que se
proceda a uma distribuição prévia entre eles, a fim de que se saiba qual o
órgão que efetivamente, dentre aqueles que existem no lugar, é que irá
processar o julgamento da causa.

Conforme esses dois casos, o Código estabelece o momento


em que se considera proposta a ação. Se for necessária a distribuição, é a
28
distribuição que assinala a propositura da ação. Considera-se proposta a
ação quando a distribuição for necessária, no momento em que ela
ocorra, no momento em que se verifique a distribuição . Se a
distribuição não é necessária, a ação se considera proposta no
momento em que o Juiz despachar a petição inicial.

Esse conceito é muito importante; é importante saber


determinar em que momento a ação se considera proposta.

Ex.: o Código Civil estabelece que a Ação de Contestação de


Paternidade que tem o marido em relação a filhos nascidos de sua mulher,
só pode ser proposta pelo marido. Apenas ele tem a possibilidade de
contestar, na constância do casamento, a paternidade dos filhos nascidos
de sua mulher. Mas encontramos no C.Civil também uma regra que
estabelece que, uma vez proposta pelo marido a ação, se ele vier a falecer,
os herdeiros dele poderão continuar conduzindo o processo. Propor só ele
pode, mas uma vez que ele tenha proposto os herdeiros poderão continuar.
De tal maneira que, se o autor, no exemplo o marido, vier a falecer depois
da propositura da ação, é possível que os sucessores dele dêem
continuidade ao processo; mas se ele falece anteriormente à propositura da
ação, esse resultado não será alcançado. Dessa maneira, interessa aí saber
em que momento a ação se considera proposta.

Outro exemplo: o art. 87 do CPC (os srs. estudarão mais tarde


a competência e terão oportunidade de aprofundar as noções necessárias à
compreensão desse dispositivo - ele entra aqui apenas com exemplo), diz o
seguinte: "Determina-se a competência no momento em que a ação é
proposta..." Suponhamos então o seguinte: eu tenho que propor uma ação
contra um meu devedor e existe uma regra do CPC que diz que esse tipo de
ação que eu tenho que mover contra o meu devedor deve ser ajuizada no
local onde ele tem domicílio. Eu devo propor a ação no local onde ele tem
domicílio. Eu proponho a ação. No momento determinado de acordo com
aqueles critérios que nós vimos, no momento em que se verifica o
propositura da ação, suponhamos que ele tenha domicílio aqui no Rio de
Janeiro, de maneira que eu instauro o processo aqui no Foro da Cidade do
Rio de Janeiro. Mas posteriormente, ele vem a mudar. Evidentemente o
processo não poderia seguir as alterações de domicílio do devedor, de modo
que o Direito se vê compelido a fixar um momento no qual se deva aderir
àqueles critérios necessários para determinar a competência do Foro, o
lugar onde se deve propor a ação. O momento é esse estabelecido no art.
87 do CPC.

Então aí estão dois exemplos destinados a ilustrar a relevância


de determinar o momento em que se considera a ação proposta.
29
A propositura da ação constitui, como disse, a primeira etapa
da formação do processo. Ela já estabelece entre o autor que pleiteia a
tutela jurisdicional e o Juiz uma relação jurídica. Evidentemente, o Juiz a
quem se entrega uma petição inicial não pode engavetá-la, tem o dever de
pronunciar-se sobre ela. De tal maneira que já esse dever de um lado, da
parte do órgão jurisdicional, e o correspondente direito que tem o autor de
ver apreciada num sentido ou noutro a sua petição, já constituem uma
relação jurídica, já configuram o início da relação jurídica processual. Mas,
evidentemente, enquanto estão no processo apenas autor e órgão judicial,
está faltando uma figura importante do processo, que é o réu. Dessa
maneira, a formação do processo, embora seja iniciada com a
propositura da ação, só vai completar-se a partir do momento em
que se convocar o réu ao processo, através de um ato que se
denomina de CITAÇÃO.

Portanto, só a citação é que vai completar, é que vai consumar


a formação do processo. O processo se forma judicialmente, portanto,
através de duas fases, a primeira delas a propositura da ação que
estabelece um vínculo entre autor e Juiz, e a segunda através da qual se
completa, se integra o processo, que é a convocação do réu, o chamamento,
a citação do réu.

Formado o processo, qual o objetivo que se tem em vista


alcançar nele? Qual é o alvo a que tende o processo de conhecimento? A
emissão de uma SENTENÇA , que aprecie o pedido formulado pelo autor,
julgando-o procedente ou improcedente. Esse é o destino normal do
processo de conhecimento. Várias atividades possivelmente serão
praticadas entre esses dois marcos - a formação e a prolação da sentença.
Será praticada atividade probatória, as partes terão a oportunidade de
determinar através dos meios adequados a veracidade daquelas afirmações
que elas fazem no processo. O Juiz vai ter que verificar o valor daquelas
provas, convencendo-se que determinados fatos estão provados e outros
não estão. Vai ter que verificar qual o Direito aplicado, o Direito subjetivo,
quais as normas jurídicas abstratas, genéricas, aplicadas àquela situação
que ficou comprovada nos Autos. E vai finalmente prolatar uma sentença a
respeito do pedido formulado pelo autor. Vai acolher o pedido ou vai
rejeitá-lo, vai julgá-lo procedente ou improcedente, vai proferir, em suma,
uma sentença. Nós deveríamos dizer que normalmente é esse o modo pelo
qual se extingue o processo. Normalmente, se tudo funcionar bem, se tudo
correr bem, o último ato praticado no processo será uma decisão que acolha
ou rejeite o pedido formulado pelo autor.

As coisas porém não são sempre tão simples assim. No Direito


Brasileiro, assim como em quase todos os ordenamentos jurídicos, uma vez
proferida em 1º grau, em 1ª instância, uma decisão a respeito do pedido do
30
autor, uma sentença de mérito, será possível que aquele que ficou vencido
manifeste para um órgão normalmente hierarquicamente superior, o seu
inconformismo. Será possível que se impugne a sentença, que a sentença
seja impugnada através do meio que se denomina de Recursos. Diante da
possibilidade da interposição de Recursos, será possível que, proferida em
1º grau, em 1ª instância, um sentença de mérito, o processo aí não termine.
Porque o recurso vai provocar um prolongamento daquele processo. E
poderá ser admitido um, poderão ser admitidos dois ou mais recursos,
conforme o caso. Vai chegar o momento, porém, em que não se admitirá
mais nenhum recurso; ou porque não cabe mesmo mais nenhum, ou porque
normalmente aquele que tinha a possibilidade de recorrer deixará esgotar-
se em branco o prazo de que dispunha para recorrer. Nesse momento, a
decisão se torna irrecorrível. E nós, tecnicamente, dizemos que ela
transitou em julgado. Trânsito em julgado é isso - é a irrecorribilidade
da sentença. É o fenômeno que consiste em uma decisão não
comportar mais recursos.

Com precisão, quando é que nós podemos entender que se


extingue normalmente o processo de conhecimento? Quando transita em
julgado uma decisão de mérito. Quando se torna irrecorrível uma
decisão que tenha julgado procedente ou improcedente o pedido formulado
pelo autor. Esse é o modo normal de se extinguir o processo de
conhecimento: trânsito em julgado da decisão de mérito.

Decisões de mérito são decisões que versam sobre o


pedido.

Então, normalmente, o processo de conhecimento de extingue


dessa forma. O Código prevê, porém, determinados fatos que podem
impedir que se atinja o processo esse resultado. Determinados fatos que
vão acarretar a extinção do processo sem que surja para o órgão judicial a
oportunidade de pronunciar-se a respeito do pedido do autor (só o autor é
que formula tecnicamente o pedido). Determinados acontecimentos podem
provocar a extinção do processo sem julgamento do mérito, sem que surja a
oportunidade do órgão judicial apreciar o pedido e rejeitá-lo ou acolhê-lo.

Poderíamos chamar a esses fatos de modos anormais de


extinção do proc. de conhecimento. Normalmente, levando em conta a
finalidade do processo, este só vai extinguir-se quando transitar em
julgado uma decisão de mérito. Excepcionalmente vai o processo
extinguir-se sem que surja uma decisão desse tipo.

É justamente esse critério, a referência ao mérito, que é


utilizado pelo legislador para disciplinar essa matéria - a extinção do
processo. O art. 267 do CPC relaciona as causas que conduzem à extinção
31
do processo sem julgamento do mérito. O art. 269, as causas que provocam
a extinção do processo com julgamento do mérito.

Extinção do Processo SEM JULGAMENTO DO MÉRITO

Quando é que se extingue o processo sem julgamento do


mérito? O primeiro inciso do art. 267 refere-se à hipótese de o Juiz indeferir
a petição inicial. Já no primeiro contato que o Juiz tem com a inicial, a lei
confere a ele o poder de trancar praticamente no nascedouro o processo.
Por determinados motivos que vamos estudar mais tarde, permite-se isso.
Já no primeiro contato indeferir a petição inicial, praticamente evitando a
formação do processo.

Normalmente, as causas que autorizam o Juiz a indeferir a


petição inicial não dizem respeito ao pedido do autor. Normalmente, não
está o Juiz autorizado a indeferir a inicial porque desde logo reconheça que
o autor tem ou não tem razão. São questões de outro tipo que se colocam
neste primeiro momento. Questões que não dizem respeito ao mérito do
processo, que não dizem respeito ao pedido. Por exemplo: as condições da
ação - a falta de legitimidade ativa ou passiva, é uma das causas que
autorizam o Juiz a indeferir a inicial. Então, normalmente o indeferimento
da inicial se baseia em questões diversas do mérito (art. 267). Essa regra a
rigor tem uma exceção. Existe um caso, parece que apenas um caso,
em que o Juiz pode indeferir por razões de mérito - prescrição e
decadência. Mas veremos isso mais tarde. O Código se baseou em que
normalmente o indeferimento da inicial não envolve uma apreciação do
mérito, não envolve um exame do pedido, e por isso colocou aí no art. 267.

Inciso II, art. 267 - Extingue-se o processo sem julgamento do


mérito quando ficar parado por mais de um ano por negligência das partes.
As partes se desinteressam do andamento do processo, durante mais de um
ano não se praticam atos processuais. O Código não quer que essa situação
perdure indefinidamente, e permite aí, portanto, que se dê término ao
processo quando isso acontece. Quer por uma falta do réu, quer por uma
falta do autor, quer dependa do réu o ato a que está condicionado o
andamento do processo, quer dependa do autor esse ato, ficando o processo
parado por mais de uma ano sem que se verifique a prática de atos
processuais, vai ser possível extinguir o processo sem que o Juiz aprecie o
pedido.

O inciso III do art. 267 trata de fato semelhante referente


porém exclusivamente ao autor. Extingue-se o processo sem julgamento do
mérito quando, por não promover os atos e diligências que lhe competir, o
autor abandonar a causa por mais de 30 dias. Aqui também é a inércia do
32
autor e o prazo será mais curto por razões óbvias. Se foi o autor quem
pleiteou a tutela jurisdicional, deve se esperar que ele demonstre o maior
interesse em que o processo atinja tão rapidamente quanto possível o seu
desfecho. De maneira que o autor que deveria ser o maior interessado em
dar prosseguimento ao processo. Omitindo um ato do qual está
dependendo esse prosseguimento, e se essa omissão perdurar por 30 dias,
o Código autoriza a que se dê fim ao processo sem julgamento do mérito.

Sobre esses dois casos, a paralisação do processo durante


mais de um ano, e o abandono da causa pelo autor, estabelece o Código no
§ 1º do art. 267 o seguinte: "O Juiz ordenará no casos dos nºs II e III, o
arquivamento dos autos, declarando a extinção do processo, se a parte
intimada pessoalmente não suprir a falta em 48 horas." Se o Juiz verifica
que ou o processo está parado há mais de uma ano ou que o autor está
omitindo ato de que depende o prosseguimento, o Juiz vai determinar a
intimação pessoal, ou só do autor, ou de ambas as partes, para que em 48
horas promovam o ato que está faltando. Se promoverem, não vai encerrar-
se o processo; se em 48 horas, porém, perdurar a omissão, aí então vai
extinguir-se o processo sem julgamento do mérito. A intimação é
pessoal, não é o advogado do autor nem o advogado do réu, é o
autor e é o réu, diretamente, não por intermédio do advogado.

OBS.: Todo ato que o Juiz pode fazer de ofício, quer dizer, que ele pode
fazer independentemente de provocação das partes, as partes podem
solicitar a ele que faça. Não seria lógico que nós impedíssemos as partes
de pleitear uma providência que o Juiz, de ofício, pudesse conceder. O
problema é o oposto - é saber se sem provocação do réu, no caso de
abandono pelo autor, o Juiz poderia tomar essa providência, determinar a
intimação do autor para que em 48 horas praticasse o ato e se ele não
praticar nesse prazo, encerrar o processo. Não necessariamente em
benefício do réu, o réu pode ter interesse em que o mérito seja julgado, ele
pode estar confiante nas suas razões. O caso do inciso II refere-se à
negligência de ambas as partes, quer dizer ambos revelam desinteresse
pelo processo. Há quem entenda que esse nº II é inaplicável porque ou a
omissão é do autor e nesse caso em 30 dias estaria caracterizado o
abandono da causa, ou é do réu e em regra a inatividade do réu é
irrelevante para o prosseguimento do processo. Eu ainda tenho a
esperança, para salvar o nº II, de achar um caso em que a omissão do réu
seja relevante. Mas reconheço que não é fácil encontrar uma hipótese de
aplicação do nº II. Primeiramente, o processo só pode estar parado ou por
omissão do Juiz, do autor, ou do réu. Do Juiz, evidentemente, a solução não
estaria em extinguir o processo. Do autor, em 30 dias já teria ficado
caracterizado. E realmente a regra geral é que a inatividade do réu é
irrelevante para o desfecho do processo.
33
Então: 30 dias deixando de praticar o autor um ato que lhe
compete, caracteriza-se o abandono da causa e com aquela providência
estabelecida no § 1º, o Juiz vai poder extinguir o processo sem julgar o
mérito. O outro caso é o do processo ficar paralisado por mais de uma ano
por negligência das partes, autor e réu. É essa a diferença entre ambos.
No nº II a negligência seria de ambas as partes, é o que está lá, de uma ou
de outra ou de ambas. No nº III o prazo é menor porque supõe-se que o
autor tenha maior interesse em alcançar o desfecho do processo e a opção
é dele, autor.

Inciso IV - Extingue-se o processo sem julgamento do mérito


"quando se verificar a ausência de pressupostos de constituição e de
desenvolvimento válido e regular do processo." Trata-se dos pressupostos
processuais cuja noção os srs. já têm. Elementos e requisitos de validade
do processo. Pode acontecer que no decorrer do processo se manifeste uma
nulidade que seja insuprível, que não comporte remédios, ou que não seja
suprida oportunamente, isto é, no prazo que o Juiz determinar para o
suprimento dela. Num caso ou noutro, em função da ausência de uma
pressuposto processual, vai o processo extinguir-se.

Por exemplo: No art. 13 do CPC, trata-se da incapacidade, de


como suprir a incapacidade processual das partes. "Verificando a
incapacidade processual ou a irregularidade de representação das partes, o
Juiz suspendendo o processo, marcará prazo razoável para que seja sanado
o defeito." Não sendo cumprido o despacho dentro do prazo, se a
providência couber ao autor, o Juiz decretará a nulidade do processo. E
acrescento eu, vai extingui-lo.

Inciso V - Extingue-se o processo sem julgamento do mérito


"quando o Juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou coisa
julgada."

O conceito de PEREMPÇÃO está no Código. É fornecido pelo


parágrafo único do art. 268: "Se o autor der causa por três vezes à
extinção do processo pelo fundamento previsto no inciso III (que é o
referente ao abandono da causa pelo autor omitindo durante 30 dias ato
que lhe competia praticar) do artigo anterior, não poderá intentar nova ação
contra o réu pelo mesmo objeto, ficando-lhe ressalvada entretanto a
possibilidade de alegar em defesa os seus direitos."

Então é isto: o autor instaura o processo. No desenrolar dele,


deixa de praticar ato que lhe cabia por 30 dias e o processo é extinto sem
julgamento do mérito. Pela segunda vez instaura o processo pela mesma
ação, pela segunda vez faz a mesma coisa, deixa de praticar um ato que lhe
cabia e por causa disso em função do inciso III do art. 267, o juiz extingue o
34
processo sem julgamento do mérito. Instaura um terceiro, e se verifica
exatamente a mesma coisa. A partir desse ponto o Direito dá um basta.
Esse cidadão não poderá mais instaurar processo exercendo aquela mesma
ação. O Direito não permite que pela quarta vez ele instaure um processo
quando das três vezes anteriores ele abandonou o processo por mais de 30
dias. Isto é PEREMPÇÃO. Consiste nisso. Os pressupostos dela são,
portanto, durante três vezes haver ocorrido a extinção do processo sem
julgamento do mérito em função de o autor haver deixado de praticar por
mais de 30 dias ato que que lhe cabia. Agora vejam: a perempção é um
fenômeno puramente processual. Ela não extingue, se é que o autor tinha
aquele direito de que estava se afirmando titular, se é que aquele direito
realmente existia, a perempção não vai extinguir aquele direito. Do ponto
de vista do direito material ele permanecerá titular daquele direito. Se ele
estava cobrando um crédito, por exemplo, ocorrida a perempção, ele não
vai poder promover a ação de cobrança, ou se promover, o processo se
extinguirá sem julgamento do mérito, por causa da perempção. Mas isso
não significa que, em virtude da perempção, aquele crédito dele seja
extinto. Ele permanecerá de posse deste direito material na mesma
situação em que se encontrava, apesar da perempção. E a prova disso está
no final desse parágrafo único do art. 268: "Ficando ressalvada entretanto a
possibilidade de alegar em defesa o seu direito." Imaginem o seguinte:

Eu proponho uma ação condenatória a fim de que determinado


indivíduo seja compelido a me pagar uma importância. Verifica-se a
perempção. Eu permaneço titular do meu crédito. Só não poderei mais
pretender num quarto processo que aquele pedido seja apreciado. Agora
suponham que esse indivíduo de quem eu estava cobrando, seja por sua vez
credor meu e que eu em consequência seja também devedor dele. Eu
credor e devedor, ele credor e devedor. Já sabem que créditos que se
contrapõem, atendidos determinados requisitos, até o ponto em que
concorrerem, eles se compensam, eles se extinguem mutuamente. Pois
bem, suponhamos agora que, verificada a perempção, esse indivíduo
proponha contra mim uma ação a fim de que eu lhe pague uma certa
importância. Eu lhes pergunto: em virtude da perempção, estarei eu
impedido de alegar que tenho um crédito contra ele? Não, porque a
perempção se restringe apenas a isso, a impedir que haja um julgamento a
respeito desse pedido. Se restringe ao plano processual sem afetar o plano
do direito material, sem afetar o direito subjetivo de que eu eventualmente
seja titular.

Inciso V: Os dois fenômenos previstos no inciso, que dão


ensejo à extinção do processo sem julgamento do mérito são a
litispendência e a coisa julgada. Nós só devemos dar aqui desses dois
institutos uma noção extremamente ligeira. Os srs. vão estudá-los mais
tarde. Mas é muito simples: o Estado tem o dever de prestar
35
jurisdição, mas não tem o dever de prestar jurisdição mais de uma
vez. De tal maneira que, se pendente um processo no qual se exerceu uma
ação, esta mesma ação venha a ser novamente proposta e venha a dar
ensejo à formação de um outro processo, este segundo processo vai se
extinguir necessariamente sem que surja para o Juiz a possibilidade de
apreciar o pedido. Isso é a LITISPENDÊNCIA. A mesma ação não pode ser
exercida mais de uma vez quer concomitantemente quer sucessivamente. A
essa proibição correspondem essas duas figuras: se instaurado o processo,
se verifica que anteriormente a ele aquela ação já havia sido proposta, que
há um processo pendente a respeito daquela matéria, extingue-se esse
segundo processo sem julgamento do mérito. Ou, se instaurado um
processo, se verifica que aquele pedido que o autor está formulando já foi
julgado através de uma decisão transitada em julgado, vai extinguir-se o
processo em função da COISA JULGADA , que se formou em razão do
resultado daquele primeiro processo. Se a matéria, portanto, já foi julgada,
ou se encontra pendente de julgamento, o segundo processo vai se
extinguir.

O inciso VI estabelece que se extingue o processo sem


julgamento do mérito quando não concorrer qualquer das condições da
ação, como: a possibilidade jurídica, a legitimidade das partes e o interesse
processual.

O inciso VII diz que extingue-se o processo sem julgamento do


mérito, pelo COMPROMISSO ARBITRAL - é um ato que duas ou mais pessoas
celebram com a finalidade de submeter uma disputa, um litígio, um conflito
de interesses que haja entre elas, a um terceiro que se denomina de
árbitro. É um particular a quem se submete a solução de um litígio, por
acordo entre as partes. É um instituto regulado no Código Civil e no
Processo Civil também. Se, instaurado o processo, se verifica que
anteriormente a ele, ou até no curso dele, as partes haviam estipulado que
aquele litígio de que se está tratando ali, deveria ser resolvido por um
terceiro, o processo vai extinguir-se sem apreciação do pedido.

O inciso VIII trata de uma hipótese muito importante.


Extingue-se o processo sem julgamento do mérito quando o autor desistir
da ação. Desistência da ação ou desistência do processo é um ato do autor
através do qual ele renuncia a obter uma decisão sobre o pedido que
formulou. Ele abre mão, ele desiste da obtenção da providência que
pleiteou.

Essa é a DESISTÊNCIA DA AÇÃO, que em absoluto se


confunde com uma figura que também parte do autor mas que
consiste em ele abrir mão não de obter aquela providência que
36
pleiteou, mas do próprio direito de que se afirmou titular. Uma
coisa é o autor desistir de obter naquele processo uma decisão de
mérito, e outra coisa é o autor se despojar daquele direito de que
ele se supunha titular. Ele renuncia ao direito que afirmava ter.
São dois institutos diferentes: a desistência da ação e a renúncia
ao direito material afirmado pelo autor, ou a renúncia à pretensão
manifestada pelo autor.

No primeiro caso, na desistência da ação, nada impedirá que o


autor instaure mais tarde um outro processo pleiteando a providência de
que ele desistiu no primeiro processo. No caso da renúncia ao direito,
evidentemente isso não será possível. Se ele abriu mão do direito, se
renunciou àquele direito que supunha ter, ele não vai poder mais tarde
pretender que esse direito seja observado. Na desistência da ação não há
uma composição daquele conflito de interesses, a lide permanece em
aberto, ao passo que na renúncia não, a lide é solucionada através de um
ato do autor.

Poderia parecer à primeira vista que apenas o autor teria


condições de verificar se lhe seria útil ou não desistir da ação. Em outras
palavras, deveria parecer que ao réu só interessasse a desistência da ação,
que fosse sempre em todos os casos proveitoso para o réu a desistência da
ação. Isso não é verdade. Nós podemos perfeitamente imaginar que o réu
tenha todo o interesse em que o pedido seja julgado. Inclusive porque ele
pode estar confiante das provas que ele tem, do direito de que ele por sua
vez se tenha afirmado titular. Então, ele pode preferir que aquele processo
conduza logo ao julgamento do mérito que ele considera será favorável a
ele, ao invés de ver o autor desistir daquele processo e ele se sujeitar a ser
mais tarde novamente incomodado pelo autor com processo semelhante
àquele. É exatamente por isso que, a partir de um determinado momento
no processo, a desistência da ação só é eficaz, só produz essa conseqüência
de extinguir o processo sem julgamento do mérito, com o consentimento do
réu. § 4º, art. 267 - "Depois de decorrido o prazo para resposta, o autor não
poderá sem o consentimento do réu desistir da ação." Até o momento da
resposta, o autor pode unilateralmente desistir da ação, abrir mão de obter
naquele processo uma decisão de mérito. A partir daí, decorrido o prazo
para a resposta, depende da anuência do réu.

Inciso IX - Extingue-se o processo sem julgamento do mérito


quando a ação for considerada intransmissível por disposição legal. Há
determinados direito subjetivos que só existem enquanto existem os
respectivos titulares. Por ex.: o direito de separar-se. Falecendo um dos
cônjuges, não se transmite a ninguém o direito de separar-se. Até porque
não haveria separação mais vigorosa e duradoura do que aquela provocada
pelo falecimento. Então, num caso desses, sendo o exercício do processo
37
um direito com essas características e vindo a falecer no processo o titular
desse direito, não se transmitindo para ninguém aquele direito, o processo
vai necessariamente ter que extinguir-se sem que ocorra apreciação do
pedido. O exemplo seria a separação judicial. Se no curso do processo de
separação judicial um dos cônjuges falece, o processo se extingue. Em
primeiro lugar porque intransmissível não é a ação como diz o Código, mas
aquele direito de que se afirma titular o autor. Em segundo lugar, porque
faleceu o titular daquele suposto direito. O processo extingue-se, portanto,
sem julgamento do mérito quando for intransmissível o direito afirmado, e
quando falecer o titular dele.

Inciso X: O penúltimo caso previsto no art. 267, trata de um


outro instituto do Direito Civil. Extingue-se o processo sem julgamento do
mérito quando ocorrer CONFUSÃO entre autor e réu. Confusão consiste em
confrontarem-se numa pessoa as qualidades de credor e devedor, ou, de um
modo mais geral, de sujeito ativo e de sujeito passivo de uma relação
jurídica. Ex.: o filho está cobrando uma determinada quantia contra o pai, e
o pai vem a falecer. O filho é seu único herdeiro - transmitem-se ao filho os
direitos e os deveres jurídicos que tinha o pai. Ocorrendo esse caso passará
a ser o filho credor e devedor ao mesmo tempo de si mesmo. Nessas
condições, não adiantaria nada, nem seria possível o processo. Ele vai
extinguir-se sem que o Juiz aprecie o pedido.

Inciso XI: O último inciso, serve para alertar-nos de que há


outros casos além desses expressamente previstos no art. 267, de extinção
do processo sem julgamento do mérito. Há outros casos previstos ao longo
do Código.

Vamos ver agora dois problemas relacionados com a extinção


do processo sem julgamento do mérito.

O § 3º do art. 267 diz o seguinte: "O Juiz conhecerá de ofício


em qualquer tempo e grau, mesmo de exceção, enquanto não proferida a
sentença de mérito, a matéria constante dos nºs IV (trata dos pressupostos
processuais), V (trata de perempção, litispendência e coisa julgada), e VI
(que trata das condições da ação). Portanto, o Juiz conhecerá de ofício em
qualquer tempo e grau de jurisdição enquanto não proferida a sentença de
mérito, a matéria constante dos incisos IV, V e VI. Fica parecendo à
primeira vista que, se há uma regra que diz que o Juiz pode de ofício, quer
dizer, sem provocação de ninguém, espontaneamente, conhecer dessa
matéria, poderia supor-se que nas outras, necessariamente, o Juiz não pode
conhecer de ofício. Nós, a contrario senso, interpretando esse dispositivo,
chegaríamos à seguinte conclusão: se o Juiz pode, tem uma regra de prática
que diz que o Juiz pode conhecer dessas matérias, é sinal que nas outras ele
não pode conhecer, a não ser que uma das partes provoque o
38
pronunciamento dele a esse respeito. Essa conclusão extraível a contrario
sensu, da primeira parte do § 3º do art. 267 não é verdadeira. Uma
interpretação sistemática do Código, a consideração não apenas desse
dispositivo mas de outros dispositivos esparsos sobre a matéria, levará os
srs. à conclusão de que, das matérias enumeradas no art. 267,
seguramente, só uma o Juiz não pode conhecer de ofício. Só em relação a
uma das causas de extinção do processo sem julgamento do mérito
previstas no art. 267, está o Juiz adstrito a que uma das partes
provoque um pronunciamento dele. Esse caso é o Compromisso
Arbitral. Com segurança, só podemos dizer desses fatos previstos no art.
267 que só um, para ser apreciado pelo Juiz, necessita de que seja o Juiz
provocado. Só em relação a um o Juiz não poderá agir de ofício - é o
compromisso arbitral.

Há um outro que é discutível - trata-se do abandono da causa


pelo autor por mais de 30 dias. É discutível e o Código não tem um solução
expressa para ele. Há quem entenda isso. O compromisso arbitral é
indiscutível - existe uma regra expressa no próprio Código estabelecendo
que o Juiz não pode conhecer de ofício o compromisso arbitral. O caso do
abandono é discutível. Aos senhores caberá fazer a fundamentada opção
por qual das duas teses é a mais razoável. Há quem entenda que para que
o Juiz leve em contra esse abandono pelo autor por mais de 30 dias, é
necessário que o réu provoque um pronunciamento nesse sentido. O Juiz
não poderia, ele mesmo, constatando a omissão do autor, mandar que se o
intimasse e, se em 48 horas ele não se pronunciasse, extinguir o processo
sem julgamento do mérito. Ele só poderia fazer isso se o réu se
manifestasse nesse sentido. E há quem entenda no sentido oposto. Em
ambos os casos com bons argumentos.

Finalmente, os efeitos da extinção do processo sem


julgamento do mérito. Aliás, é mais propriamente a ausência de efeitos.
Diz o art. 268 - "Salvo o disposto no art. 267, V, a extinção do processo sem
julgamento do mérito não obsta a que o autor intente de novo a ação. Aí
está. É, aliás, a diferença fundamental entre a extinção do processo
com julgamento do mérito e sem julgamento do mérito. Se o mérito
não foi julgado, nada impedirá que um novo processo se inicie, para
que o mérito seja então julgado . Essa nova propositura da ação está
condicionada, entretanto, a um requisito previsto no art. 268 - "A petição
inicial, todavia, não será despachada sem a prova do pagamento ou do
depósito das custas e honorários de advogado." É uma condição específica
da nova propositura da ação. Das custas relativas ao processo anterior que
se extinguiu sem julgamento do mérito.

Extinção do processo COM JULGAMENTO DO MÉRITO


39

O julgamento do mérito é a meta do processo de


conhecimento. É a apreciação pelo Juiz do pedido. Ela figura por isso em
primeiro lugar no art. 269, I: "Extingue-se o processo com julgamento do
mérito quando o Juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor". Esse é o modo
normal de extinguir-se um processo com julgamento do mérito. O Juiz
verifica as provas, verifica o direito aplicável à situação de fato que ele
encontra demonstrada nos autos, e julga procedente ou improcedente o
pedido formulado pelo autor. Os srs. já estão habilitados para verificarem
que essa regra, a rigor, não é propriamente exata. É por si só o
acolhimento ou a rejeição do pedido que determina a extinção do processo?
Ou aí está faltando alguma coisa que se acrescenta a isso? A rigor, o
processo só vai extinguir-se com o trânsito em julgado da sentença,
da decisão que acolhe ou rejeita o pedido do autor. Só vai
extinguir-se a partir do momento em que se torna irrecorrível essa
decisão. Aliás, essa crítica nós poderíamos fazer a todos os casos do art.
267, e a todos os casos do art. 269. É uma crítica que não tem uma
relevância prática muito grande, não estaria propriamente errada a lei ao
estabelecer isso. Mas é conveniente que nós tenhamos consciência de que
também lá nos casos do art. 267 é necessário o trânsito em julgado para
que o processo termine.

Se o Juiz, por exemplo, verifica que por mais de 30 dias o


autor deixou de praticar atos que lhe cabiam, e em função desse fato ele,
com fundamento no inciso III do art. 267, extingue o processo, é óbvio que o
autor, sentindo-se prejudicado com essa decisão, poderá recorrer, e o
recurso provocará necessariamente um prolongamento do processo. A
rigor, lá no art. 267 também ficou faltando essa referência - o trânsito em
julgado da decisão é sempre a causa que a rigor extingue o
processo.

Com essa ressalva, nós podemos entender o art. 269, I - é o


modo pelo qual normalmente o processo vai extinguir-se. O Juiz forma a
sua convicção avaliando as provas, verificando qual o direito aplicável
àquela situação, e profere uma decisão na qual vai dizer se o autor tem ou
não razão, se o pedido que ele formulou é ou não procedente. Transitada
em julgado essa decisão, o processo vai então extinguir-se com julgamento
do mérito.

O inciso IV do art. 269 é um desdobramento dessa hipótese, é


uma explicitação dessa hipótese. "Extingue-se o processo com julgamento
do mérito quando o Juiz pronunciar a decadência ou a prescrição." A
decadência e a prescrição são institutos estudados no Direito Civil. Agora
vejam bem: quando o Juiz acolhe a decadência ou a prescrição, quando ele
40
as pronuncia, daí ele tira uma conseqüência - se o autor está exercendo um
direito que a Lei diz que ele só pode exercer num determinado prazo, de 2
anos suponhamos, e em relação ao tempo inicial desse processo já se
passaram 4 anos, consumou-se portanto a decadência. O Juiz se defronta
então com essa situação e pronuncia a decadência, e conseqüentemente
julga improcedente o pedido do autor. A rigor, o fato de o Juiz pronunciar a
decadência ou a prescrição será um motivo para ele rejeitar, na maior parte
dos casos, o pedido. De tal maneira que esse inciso fornece a rigor apenas
um dos motivos em que pode fundar-se o caso lá do inciso I (art. 269).
Explicando: o inciso I diz que o processo vai extinguir-se quando o Juiz
acolher ou rejeitar o pedido. Muito bem. Quando ele pronuncia a
decadência ou a prescrição, ele não faz só isso, ele vai tirar disso uma
conseqüência prática, ele vai, com base nisso, em se haver consumado a
decadência ou a prescrição, ele vai acolher ou rejeitar o pedido. De forma
que esse caso do inciso IV, a rigor, era desnecessário porque ele já está lá
no inciso I. O fato do Juiz pronunciar a decadência ou a prescrição
constitui um motivo para ele acolher ou rejeitar o pedido.

Mas existe uma razão para esse desdobramento do inciso IV.


O inc. IV não é um caso autônomo, incompatível com o inciso I, pelo
contrário, ele esclarece um dos fundamentos de que pode valer-se o Juiz
para acolher ou rejeitar o pedido. Quando o Juiz pronuncia a decadência ou
prescrição, ele necessariamente vai acolher ou rejeitar o pedido. A
recíproca, porém, não é verdadeira - ele pode acolher ou rejeitar por outras
razões, pode nem estar em discussão prescrição e decadência.

Podemos imaginar uma hipótese em que o Juiz acolhe o pedido


em caso de prescrição. Ex.: suponhamos que o devedor promova uma ação
declaratória negativa da exigibilidade do crédito contra o credor alegando
que está prescrito e ele, portanto, não precisa mais pagar. O Juiz vai
pronunciar a prescrição, se for verdade, e vai acolher o pedido.
Normalmente ele vai rejeitar, mas podemos imaginar essa hipótese em que
a prescrição dá causa ao acolhimento do pedido.

Os outros casos do art. 269 têm uma diferença em relação a


isso que acabamos de ver. Quando o Juiz acolhe ou rejeita o pedido, ele
profere uma decisão que resultou da sua convicção. Foi ele quem avaliou
as provas, quem verificou quais as normas jurídicas adequadas àquela
situação e foi ele quem formulou a solução para aquele conflito de
interesses. Os demais casos do art. 269 prevêem hipóteses em que a
solução do litígio é dada não pelo Juiz, mas pelas próprias partes.

Ex.: o autor renuncia ao direito de que se afirma titular. Ficou


solucionado aquele litígio, ele não vai mais poder daqui para frente
pretender cobrar o mesmo crédito. Há um ponto de contato aí: num caso ou
41
noutro a lide fica resolvida, recebe uma solução que vai vigorar daí para a
frente. Mas num caso essa solução é dada pelo Juiz em função do seu
próprio convencimento formado à luz das provas e das normas jurídicas
aplicáveis aos fatos provados. No outro caso não, são as partes que
solucionam aquele litígio.

O inciso V trata dessa hipótese - quando o autor renunciar ao


direito sobre que se funda a ação. Pode ser que a proposição parta de um
ato do réu, que o réu, proposta a ação, concorde desde logo com o pedido
do autor, aquiesça a ele, se renda prontamente, que reconheça que o autor
tem razão, que é procedente o pedido do autor, do mesmo modo
solucionando aquele conflito de interesses em que ambos se achavam
envolvidos. No caso da renúncia, a solução partiu do autor. Foi ele,
unilateralmente, quem solucionou aquele litígio. Nada impede que essa
solução seja dada pelo réu, que o réu reconheça a procedência do pedido.
O ato através do qual o réu se dá por vencido, concorda, aquiesce, tem o
nome de RECONHECIMENTO DO PEDIDO, e está previsto no inciso II do art.
269: "Extingue-se o processo com julgamento do mérito quando o réu
reconhecer a procedência do pedido." Num caso é o autor, no outro é o réu.

Agora, pode acontecer que a solução seja dada por ambas as


partes. Que façam reciprocamente concessões, que cada uma ceda numa
parte, chegando a um acordo a respeito da solução daquele litígio. O ato
através do qual se compõem litígios através da concessão recíproca, que os
srs. já estudaram no Direito das Obrigações, se denomina de TRANSAÇÃO, e
está previsto no inciso III do Código: "Extingue-se o processo com
julgamento do mérito quando as partes transigirem."

Vejam a diferença entre renúncia e desistência da ação. A


desistência da ação, a partir da exaustão do prazo de resposta, está
subordinada à concordância do réu. Porque o réu pode ter o interesse em
que o mérito seja logo julgado a fim de que não se veja mais tarde
incomodado por outro processo sobre aquele mesma matéria. O direito
tutela esse interesse dele dessa forma, subordinando a desistência da ação
à concordância dele. E a renúncia estaria subordinada também a essa
concordância? Poderia causar-lhe algum prejuízo? Não. O autor mais tarde
não poderia cobrar um crédito ao qual renunciou. De maneira que a
renúncia não traz qualquer prejuízo para o réu, e portanto não depende da
concordância dele.

Portanto, a extinção do processo, segundo o Código, com


julgamento do mérito, pode resultar de uma decisão que seja fruto da
convicção do órgão judicial, ou pode resultar da composição das partes, ou
o autor renuncia ao direito, ou o réu reconhece a procedência do pedido.
Há uma certa impropriedade em dizermos que nesse casos de renúncia, de
42
reconhecimento e de transação, há julgamento do mérito. A rigor, não há
julgamento. Julgamento é um ato do Juiz e a solução do litígio não é dada
aí pelo Juiz, é dada pelas partes, não há julgamento. Mas de qualquer
maneira, o que o Código quer é dizer que, praticamente, quer quando o Juiz
é quem julga, acolhendo ou rejeitando o pedido, quer quando as partes é
que dão solução ao litígio, os efeitos são os mesmos. Aquele conflito
fica solucionado e essa solução vai passar a vigorar com iguais
efeitos daí para a frente.

O Juiz pode, e em determinados casos está obrigado, a


proporcionar às partes a oportunidade de elas próprias comporem seus
conflitos de interesses. Mas de qualquer maneira o que ele propõe é que
elas pratiquem um ato delas, de maneira que se a transação é um ato das
partes, feita em virtude de proposta do Juiz, de qualquer modo a transação
é um ato das partes, e não do Juiz. O Juiz só propõe, só verifica se a
transação é possível, como verifica se a renúncia, se o reconhecimento, é
possível, e homologa quando verifica que é legal o ato. Mas de qualquer
maneira a homologação não soluciona. Quem soluciona o litígio é o ato das
partes.

A validade da transação é estudada no Direito Civil. Tanto a


transação como a renúncia e o reconhecimento, têm que ser válidos. Há
direitos irrenunciáveis, por exemplo, então a renúncia pelo autor de um
direito ao qual ele não podia renunciar não é válida e portanto não
produzirá essa conseqüência. Mas desde que seja válida, e quem diz que é
válida ou não é o direito material, desde que seja válida, o processo vai
extinguir-se. Também há casos em que o réu não pode reconhecer, e quem
vai dizer é o direito material. Um curador de um incapaz que figure como
réu num processo, por exemplo, não pode reconhecer a procedência. Em
princípio ele não pode. Ele não pode concordar desde logo.

Aí está, portanto, a extinção do processo com julgamento do


mérito, com essa pequena ressalva de que nos casos em que são as partes,
uma, outra ou ambas, que solucionem o litígio, a rigor não há julgamento.
Agora, da mesma forma aquele litígio fica solucionado, de tal maneira que
os efeitos práticos de o Juiz acolher ou rejeitar, ou de a solução ser dada
pelas partes, são as mesmas.

A diferença entre a extinção com julgamento do mérito e a


extinção sem julgamento do mérito, é intuitiva. Aqui, tendo ficado
solucionado o litígio, e essa solução passando a vigorar, não se vai mais
permitir que se instaure um novo processo a fim de solucionar novamente
aquilo que já ficou solucionado. Isso não ocorre nos casos de extinção do
processo sem julgamento do mérito.
43
SUSPENSÃO DO PROCESSO

A suspensão é uma paralisação temporária que o processo


sofre. É uma sustação temporária da marcha dos atos processuais, em
função de determinadas causas previstas no Código. Durante um
determinado espaço de tempo não vai ser possível praticar atos
processuais. O processo tem a sua marcha suspensa, sustada
temporariamente, e vai retomá-la mais tarde. Uma vez superada a causa
da suspensão, ele vai mais tarde retomar a sua marcha. Nisso consiste a
suspensão do processo. Vejamos os fatos que autorizam a suspensão do
processo de conhecimento. Estão previstos no art. 265.

Inciso I - A morte ou a perda da capacidade processual de


qualquer das partes, de seu representante legal, caso se trate de partes
incapazes processualmente, ou do advogado. Será necessário, em função
disso, que se suspenda o processo a fim de que se supra a falta que se
verificou. Se houver falecimento será necessário que venham ao processo
os sucessores da parte, ou outro representante legal. Se houver a perda da
capacidade processual da parte, a parte ficou louca, por exemplo, no
decorrer do processo, será necessário que passe a atuar em nome dela um
representante legal que supra a incapacidade superveniente. Se houve
perda da capacidade processual do representante legal, se o pai que estava
representando o menor se tornou incapaz, será necessário que se aguarde a
vinda aos autos de alguém que supra a ausência do pai. Para isso, então, é
que se vai suspender o processo. (§ 1º do art. 265, letras a e b.

No caso de morte ou perda da capacidade processual do


advogado (§ 2º do art. 265), a finalidade da suspensão é não permitir que
se pratiquem atos processuais ou que se abra a oportunidade dessa prática
sem que a parte se ache representada por advogado. O Juiz marcará um
prazo, findo o qual extinguirá o processo sem julgamento do mérito.

Inciso II - Se suspende o processo pela convenção das partes.


O Código permite às partes de comum acordo que requeiram a suspensão
do processo. Será, V.G., um prazo de que elas necessitem para estudar a
possibilidade de um acordo. O meio técnico adequado para satisfazer a
esse interesse será convencionarem a suspensão do processo e submeterem
ao órgão judicial. Existe um prazo máximo previsto, porém, no Código, para
essa suspensão, no § 3º do art. 265.

Inciso III - Trata da incompetência do Juízo, da Câmara, ou do


Tribunal, bem como da suspeição ou impedimento do Juiz. Não vamos
aprofundar aqui as noções relativas a esses institutos. Determinadas
questões, suscetíveis através de uma forma própria no processo, através de
exceção, mais tarde estudaremos.
44

Inciso IV - Oportunamente vai se estudar em que consiste isso.


Vamos deixar por enquanto de lado.

Inciso V - Por motivo de força maior. Determinados


acontecimentos que impossibilitem a prática de atos processuais:
catástrofes, terremotos, enchentes, etc., que impeçam a continuação do
processo, constituem causa para a sua extinção. Há quem entenda que o
processo poderá ser suspenso por motivo de força maior por mais de uma
vez, desde que não exceda o prazo de 6 meses.

Inciso VI - Demais casos que o Código regula, que são


inúmeros.

Suspenso o processo, o que é que acontece? art. 266 -


"Durante a suspensão, é defeso, é proibido praticar qualquer ato
processual." Eis aí a conseqüência relevantíssima da suspensão do
processo. Com duas exceções, uma delas prevista no mesmo art. 266, por
razões de conveniência. Atos que se não forem praticados logo, se
fôssemos esperar que cessasse a suspensão, possivelmente seriam já
inúteis. Coisas desse gênero.

Em função disso, permite o Código, em caráter excepcional,


que atos dessa natureza sejam praticados. E há uma segunda exceção a
essa regra: trata-se dos atos necessários para remover as causas da
suspensão. Por exemplo, faleceu a parte, suspende-se o processo. A
suspensão ocorreu para que os sucessores se habilitem, e eles se habilitam
através de atos processuais, de modo que os atos processuais necessários
para remover a causa da suspensão também constituem uma exceção a
essa regra. Outro exemplo: Foi oferecida exceção de incompetência. Uma
das partes está alegando que o órgão perante o qual está correndo o
processo não tem atribuição para processar e julgar aquela causa. Não tem
competência para aquela causa. O processo se suspende, mas para o efeito
de decidir-se a questão relativa à competência. De modo que os atos que
se façam necessários para solucionar essa questão, não somente poderão
como deverão ser praticados durante a suspensão processual.

Portanto, o efeito da suspensão como regra geral é esse - é


defesa a prática de atos processuais, não têm nenhum valor atos
processuais que se pratiquem durante a suspensão, em princípio, com
essas duas exceções: atos urgentes destinados a evitar danos que
se tornariam irreparáveis, e atos necessários para remover as
causas que determinaram a suspensão do processo.
45
A respeito da suspensão, há outra questão que vamos abordar
aqui rapidamente, e que é extremamente importante. É a que consiste em
saber quando é que começa a suspensão. Qual é o termo inicial da
suspensão. Em outras palavras, saber se a suspensão decorre
automaticamente em função dessas causas previstas no art. 266, ou de
outras previstas no Código, ou se ela apenas decorre em função de um
pronunciamento do Juiz que reconheça a existência de uma dessas causas.
A questão é importante porque a causa e o pronunciamento do Juiz podem
não ser concomitantes. A parte, por exemplo, pode falecer sem que o Juiz
tenha conhecimento disso. Nós temos de saber se é o falecimento da parte
por si só que provoca a suspensão, ou se é o ato do Juiz reconhecendo a
existência da causa, que suspende o processo.

O Código anterior tinha uma norma expressa a esse respeito.


Esclarecia que era o ato do Juiz que determinava a suspensão. O novo não
tem nenhuma regra expressa a esse respeito e até hoje a doutrina não se
entendeu na fixação de uma regra geral para esta matéria, aplicável
uniformemente a todas as causas da suspensão. As opiniões são as mais
diversas. Não existe uma orientação doutrinária segura a respeito dessa
matéria. Vou propor algumas idéias, não vou pretender solucionar a
matéria em hipótese alguma. Vou deixar que os srs. escolham a solução
adequada. Talvez a dificuldade esteja em que não devamos considerar
apenas uma solução aplicável a todos os casos. Talvez o que devamos fazer
é pegar caso por caso e verificar o que atende melhor aos interesses em
jogo nessa matéria.

Por ex. motivo de força maior. Vamos considerar se é o


motivo de força maior por si mesmo que provoque as suspensão, ou se é o
ato do Juiz que reconhece a existência do motivo. Se entendermos que é o
ato do Juiz, vou lembrar aos srs. que o motivo de força maior pode impedir
até o Juiz de se pronunciar. Portanto, parece que no caso de motivo de
força maior devemos entender que é o próprio fato que pode impossibilitar
até um pronunciamento judicial.

Outro caso é o de morte da parte. A parte é um dos


elementos necessários à relação processual. O falecimento de uma delas,
priva, até que se habilitem os sucessores, o processo de um elemento
essencial. Em princípio, portanto, parece que devemos entender que é a
morte da parte que acarreta a suspensão. Mas vejam o § 1º ... "salvo se já
tiver sido iniciada a audiência..." Então, se entendermos que é a morte que
por si só acarreta a suspensão, e esse parece um entendimento bastante
razoável, devemos atentar para o fato de que o § 1º abre uma exceção a
isso. No caso em que já está iniciada a audiência de instrução e
julgamento, o processo, por razões de conveniência, vai prolongar-se até o
momento em que se prolate a sentença.
46

De forma que não há conclusão. A solução deverá estar em


nós verificarmos cada um dos casos, avaliando os interesses envolvidos a
fim de estabelecer para cada caso uma solução.

O OBJETO E OS SUJEITOS DO PROCESSO

O ato jurídico, de modo geral, tem um objeto próprio, que


consiste naquilo sobre o que ele incide. O contrato de compra e venda, por
ex., tem necessariamente o objeto na coisa comprada ou vendida pelas
partes.

O processo compõe-se de uma série de atos e cada um desses


atos processuais terá o seu próprio objeto. Mas como essa série de
conseqüências forma no seu todo uma unidade, uma unidade finalística ou
teleológica, isto é, uma unidade assegurada pelo fim uno e único ao qual
visam todos os atos de compõe a série, podemos falar, ao lado do objeto de
cada um dos atos processuais, de um objeto do processo considerado no
seu todo, como um conjunto.

Já sabemos que ao objeto se dirige, se ordena, a prestação


jurisdicional por parte do Estado, mas o Estado presta justiça em face de
quê? Qual é o objeto sobre o qual incide a atividade do órgão estatal que
presta justiça? Incide sobre um litígio, sobre um conflito de interesses. No
processo há sempre o reflexo de um conflito de interesses que não pôde por
alguma razão ser resolvido pelos próprios titulares. A função jurisdicional é
em regra um função substitutiva. Só quando os interessados não
conseguem, ou por motivos especiais não podem eles mesmos compor,
resolver o seu conflito de interesses é que recorrem ao Juiz. Mas muitos
litígios são resolvidos fora da área judicial. Há muitos conflitos de
interesses que não chegam ao Juiz.

Então, quando a função jurisdicional é chamada a exercer-se,


ela o é em função ou em razão de um conflito de interesses que não pôde
ser dirimido, composto, senão mediante a utilização desse instrumento que
é o processo. Todo processo opera, atua, sobre um conflito de
interesses, ao qual a doutrina, generalizando uma expressão usada neste
sentido preciso pela primeira vez por um jurista italiano muito famoso
chamado CARNELUTTI, costuma denominar LIDE. A lide é o conflito de
interesses que se submete à decisão judicial em um processo. Carnelutti
conceituava a lide como um conflito que se dá entre os interesses de uma
47
pessoa que tem a pretensão e os de outra que resiste à essa pretensão, ou,
pelo menos, deixa de satisfazê-la. Nesse momento se cria aquilo a que
Carnelutti chamou a lide, e que hoje é uma expressão muito difundida na
doutrina processual. É isso precisamente o que o órgão judicial tem de
compor. É o termo que se usa para designar essa operação da solução da
lide, dar um desfecho, é a composição da lide.

Mas essa lide, esse litígio, de que maneira chega ao


conhecimento do Juiz? Já vimos que o órgão judicial é um órgão
originariamente inerte, ele não se põe em movimento espontaneamente, ex
officio, há de haver alguém que tome a iniciativa de provocar, sem o que
não se instaura o processo. Ora, quem é que provoca o Estado, pedindo a
proteção jurisdicional e exercendo assim o seu direito de ação? É o autor, é
a parte que se denomina autor. O autor, quando se dirige ao Juiz, não se
limita a narrar-lhe um conflito de interesses, a descrever seu litígio com
relação ao réu. Não, o autor pleiteia para aquele conflito de interesses uma
determinada solução, isto é, ele não faz a consulta ao Juiz como quem
perguntasse: diante dessa situação, qual é a solução? Não, o autor
aponta uma e pede ao Juiz que adote aquela. Em outras palavras, o
autor formula um pedido. É claro que esse pedido resulta do conflito de
interesses, mas é um pedido que já acrescenta uma solução que o autor por
assim dizer propõe ao Juiz, e pretende que ele a adote. É claro que o Juiz
poderá adotá-la ou não, porém o ponto que quero frisar é que a lide, o
conflito de interesses, chega ao conhecimento do Juiz filtrada através do
pedido. O pedido é o canal por meio do qual a lide chega ao conhecimento
do Juiz e é sobre o pedido que o Juiz deve tomar uma providência, seja para
atendê-lo, seja para indeferí-lo. Então, o Juiz não é livre de dar àquele
conflito de interesses a solução que melhor lhe pareça, irrestritamente.
Não, ele só pode, ou dar a solução que o autor pretende, ou rejeitá-
la, mas ele não pode inventar uma outra solução a não ser na
medida em que ele possa aproveitar alguma coisa da solução
proposta pelo autor e rejeitar o resto. Isso significa, se isso for viável,
que ele vai atender em parte o pedido e rejeitá-lo na outra parte. Porém
ele não pode sair desses limites. Fora desses limites ele não pode decidir
coisa alguma nem pró nem contra.

Mas também não pode deixar de decidir sobre o que esteja


dentro desses limites, ou acolhendo ou rejeitando o pedido ou acolhendo
uma parte e rejeitando outra. O Juiz tem o dever de julgar em toda a
extensão do pedido e somente nessa extensão. Isto é um reflexo, pelo
menos em parte, do chamado princípio dispositivo por força do qual a parte
não está adstrita a levar ao conhecimento judicial toda a lide. Ela pode
levar uma parte da lide apenas. Se eu estou discutindo com alguém sobre
duas dívidas que eu atribuo a essa pessoa diante de mim, não sou obrigado
a levar ao Juiz o conjunto dos meus conflitos de interesses com essa pessoa.
48
Posso separar uma, deixá-la para depois, ou para nunca. Cobrar uma só. E
o Juiz tem que pronunciar-se naquela e não em outra, ainda que apareça
nos autos algum elemento referente à outra.

Se o Juiz se pronuncia quantitativamente mais, diz-se que ele


julgou ultra petitum ou ultra petita, julgou além do pedido.

Se o seu julgamento se afasta daquilo que foi pedido, se julga


outra coisa, diz-se que julgou extra petitum, fora do pedido.

Se ele finalmente se abstém de julgar o pedido inteiro, isto é,


julga menos, então julgou citra petitum, isto é, aquém do pedido. Também
é errado. Isso está dito dos arts. 128, 459 e 460 do CPC.

SUJEITOS DO PROCESSO

Já vimos que o processo é uma série de atos, cuja prática


reflete o exercício de condições jurídicas subjetivas, deveres, direitos,
faculdades, poderes, etc. Os titulares dessas relações jurídicas são os
sujeitos da relação processual, ou seja, do processo.

Quais são esses sujeitos? Três são essenciais: o Juiz e as


partes. Sendo que, ainda com referência às partes, nem sempre se
reduzem a autor e réu. Primeiro, porque pode haver vários autores, ou
pode haver vários réus, ou pode haver simultaneamente vários autores e
vários réus. É o fenômeno do litisconsórcio. Havendo pluralidade de
autores há um litisconsórcio ativo, havendo pluralidade de réus, um
litisconsórcio passivo. E também porque, ao lado do autor e ao lado do réu,
podem surgir outras pessoas que a lei também considera, pelo menos para
certos efeitos, como partes, embora partes secundárias ou acessórias. É o
caso, por ex., do assistente, que também terá lugar no nosso estudo.
Então, para exemplificar, partes principais, vários autores, ou vários réus,
tanto faz, e partes secundárias ou acessórias, das quais o mais típico é o
Assistente.

Mas além desses sujeitos podem aparecer outros, no processo.


São sujeitos secundários do processo, ou eventuais, ou acidentais. Entre
eles se distinguem os Auxiliares do juízo, e os terceiros, que eventualmente
tomam parte na atividade processual. Auxiliares do Juízo são pessoas cuja
função é colaborar com o órgão judicial na realização do processo: o
escrivão, o oficial de justiça, o perito.

Terceiros são pessoas que além das partes normais do


processo, eventualmente são chamados a colaborar, como, V.G., a
testemunha. Pessoa que por acaso sabe de algum fato relevante para que o
49
Juiz possa formar o seu convencimento, então ela é chamada para prestar
depoimento. A testemunha é sujeito eventual, acidental. Ela tem deveres,
tem também direitos, no processo. Aquele que tiver interesse pessoal na
solução do caso não pode ser testemunha.

O Ministério Público também é um sujeito eventual, como


fiscal da lei.

Vamos estudar os sujeitos do processo um por um, começando


pelos principais, ou seja, o Juiz e as partes.

O órgão judicial que é, dos sujeitos principais, aquele que


apresenta uma posição de preeminência (importância, relevÂncia), é o Juiz.
Usamos a palavra, em regra, não em sentido pessoal, Dr. Fulano, Dr.
Sicrano, mas no sentido de pessoa que ocupa determinado cargo e exerce
determinadas funções, pelo Estado: nunca digam que o Juiz representa
o Estado. O representante é alguém distinto, separado. Por ex., se
eu contrato alguém para me defender, ele é meu representante, mas
ele não sou eu, ele é separado. O órgão não, o órgão faz parte do
organismo. O JUIZ É O ESTADO, ele não representa. O Juiz é o órgão
do Estado incumbido de prestar jurisdição . Normalmente a função
jurisdicional é exercida através do Juiz; excepcionalmente, como sabemos,
através de outro órgão. A divisão das funções entre os vários órgãos não é
uma divisão exata.

Ora, para que o Juiz, ou melhor, para que esse órgão possa
desempenhar sua função, é preciso que ele se revista de certos atributos,
certos requisitos, e a doutrina nos falará da capacidade, num sentido bem
diverso daquele em que fala de capacidade do Direito Civil. Costuma
distinguir entre a capacidade genérica, que é a aptidão que a pessoa tem
para ser investida na condição de Juiz, para o que ela deve preencher certos
requisitos que estão indicados em parte na própria Constituição, e a
capacidade específica, que é a possibilidade de atuar em relação a uma
determinada causa, para praticar um determinado ato.

A capacidade específica, por sua vez, pode ser do órgão ou da


pessoa. A do órgão é a competência. A competência é uma noção que
concerne ao órgão. Tanto assim que se o elemento órgão passa por
diversas pessoas, a competência não se altera. Não é pelo fato de mudar o
Juiz que o órgão passa a ser competente ou deixa de o ser.

A outra parte da capacidade específica diz respeito à pessoa


que ocupa aquele determinado cargo. A pessoa do Juiz deve estar
isenta de determinadas situações, que são os impedimentos e as
suspeições.
50

Então, a competência se refere ao órgão e os


impedimentos e suspeições se referem ao Juiz. Arts. 134 e 136 do CPC
- impedimentos (a abstenção do Juiz ou das partes, mesmo com a sentença
transitada em julgado, dá lugar ao recurso). Art. 135 - suspeições - a
imparcialidade do Juiz está comprometida. Na abstenção do Juiz ou das
partes a sentença será válida. Há uma diferença de tratamento - no
impedimento são defeitos mais graves, a sentença poderá ser anulada.

Obs. A palavra capacidade aqui não está no sentido de


capacidade civil. Na incapacidade civil do Juiz (caso de alienação mental), a
sentença pode ser anulada. Será válida se for justa, e se foi injusta caberá
normalmente recurso.

O Juiz assume no processo posições jurídicas, que lhe dão


poderes e deveres. PODERES DO JUIZ - vários critérios de classificação:

1) Poderes finais - o poder de julgar, de determinar providências


jurisdicionais.

2) Poderes instrumentais - poderes de instrução, necessários ao bom


desenvolvimento do processo. Ex.: investigação de provas (art. 130).

Os poderes podem ser exercitáveis de ofício, ou só


exercitáveis com provocação das partes. Poderes exercitáveis de ofício, ou
ex officio, espontaneamente (a maioria ocorre no silêncio da lei) -
realização de perícia, etc. Poderes exercitáveis por provocação da parte ->
art. 381. Pode ordenar se a parte requerer.

Obs. Os poderes do Juiz não são em benefício próprio, mas


para prestar jurisdição.

DEVERES DO JUIZ:

1) "O poder de julgar é também um dever de julgar". É um dever que o Juiz


exerce obrigatoriamente -> art. 128.

2) Motivação da sentença - dever de fundamentar o seu pronunciamento -


art. 458 - é uma garantia fundamental para os jurisdicionados.

3) Art. 125, inciso I - atender ao princípio do contraditório. Inciso II -


conduzir o processo da maneira mais rápida. O art. 130, in fine, é a
aplicação específica referente ao art. 125, II.

RESPONSABILIDADES DO JUIZ - É a infração, o descumprimento dos deveres.


51

1) Responsabilidade administrativa - o Juiz pode responder


administrativamente, funcionalmente, disciplinarmente. Punições
disciplinares reguladas nas leis de organização judiciária (censura,
advertência, etc.).

2) Responsabilidade penal - Comportamentos que configuram delitos


(corrupção passiva, etc.). Nada impede que o Juiz sofra uma pena e uma
responsabilidade disciplinar.

3) Responsabilidade civil - art. 133. se efetiva por ação intentada pelo


prejudicado para pagamento de perdas e danos.

A COMPETÊNCIA

O processo tem como pressuposto de existência um órgão


investido de jurisdição. Isso basta para que o processo exista, mas não
basta para que ele seja regular, e portanto inteiramente válido. Para isso é
necessário algo mais, entre outras coisas, que esse órgão investido de
jurisdição tenha competência para a causa, seja competente. Vejamos o
que isso significa. Não pode ser o mesmo que jurisdição, obviamente. É
algo mais específico, mais delimitado. Todos os órgãos do Poder Judiciário
têm jurisdição, estão investidos de jurisdição. Porém, seria absurdo do
ponto de vista prático, que se criassem numerosos órgãos distribuídos por
todo esse vasto e complexo sistema que é o aparelho judiciário, e em
seguida a lei permitisse a qualquer deles indiferentemente exercer qualquer
atribuição jurisdicional. Não tem sentido, não é assim.

Ora, na medida em que o princípio da divisão de trabalho


impõe uma diferenciação de atribuições, a Lei limita, demarca, traça uma
linha divisória em torno de cada um dos órgãos do Poder Judiciário e
confere a cada um deles um determinado número de atribuições que ele vai
desempenhar com exclusão de outras. A lei não precisa, é claro, dizer: "tal
órgão não pode praticar tais e tais atos." Ela diz, de forma positiva, tal
órgão é competente para isto e aquilo. Entende-se que ela exclui o resto.
Na medida em que ela faz isto, está atribuindo COMPETÊNCIA àquele
órgão para aquelas funções e proibindo-o de exercer outras.

Então notem que a noção de competência resulta de uma


distribuição de funções, e portanto de uma limitação. Na medida em que a
lei divide, distribui, ela necessariamente limita. Cada órgão recebe o seu
quinhão, a sua parcela de função, e só está habilitado in concreto a exercer
as funções contidas nessa parcela, não as outras. Não porque lhe falte
jurisdição, mas porque lhe falta competência.
52

A jurisdição, portanto, é genérica, a competência é


específica. Eu posso perguntar abstratamente: Tal órgão tem jurisdição?
E os srs. responderem sim ou não, em tese. Mas eu não posso perguntar se
tal órgão tem competência, sem acrescentar um complemento - tal órgão
tem competência para tal causa, para tal processo, ou para tal ato.
Competente é palavra que exige complemento, alguém é competente para
alguma coisa, ou não é competente para outra coisa. Está ligada portanto,
a algo específico, determinado. Jurisdição não - jurisdição é o poder de
julgar in genere. Competência é o poder de julgar num determinado
caso ou de praticar um determinado ato.

O problema da competência é um dos mais importantes no


processo, e precisa ser abordado em diversos planos. Quando queremos
situar a competência para determinada causa ou para determinado ato,
essa investigação comporta diversos níveis. Ela não se exaure numa única
indagação. Temos que proceder por etapas:

1ª) A primeira indagação que se faz é no plano


internacional. Eu quero propor determinada ação ou quero saber se a
ação que foi proposta contra meu cliente foi corretamente proposta desse
ponto de vista. Então a primeira coisa que me interessa saber, a primeira
pergunta que me ocorre é a seguinte: A Justiça Brasileira é que cabe
conhecer desta causa, ou não será? É competente a Justiça Brasileira ou
não será? Esta pergunta se responde à luz dos artigos 88 e 89 do CPC.
Ambos tratam de casos para os quais a Justiça Brasileira é competente.
Então, qual é a diferença entre esses dois grupos de casos? Por que a lei
dividiu isto em dois artigos distintos? Nos casos do art. 88 o direito
brasileiro não exclui a possibilidade de que, em razão de algum fato
qualquer, a Justiça de outro país possa também considerar-se competente.
O Brasil reconhece a possibilidade de que, nos casos do art. 88, o processo
instruído perante o Juízo estrangeiro esteja também corretamente
instaurado. Nos casos do art. 89 não. O direito brasileiro só reconhece a
competência do juiz brasileiro.

Então no primeiro caso (art. 88) se diz que a


competência é concorrente, e no segundo caso a competência é
exclusiva. Agora eu pergunto: E qual é a consequência prática disso?
Vamos supor que num dos casos do art. 89, a lei de outro país considere
competente o seu Juízo. Pode o Brasil proibir que lá se faça o processo?
Claro que não é possível, ainda que num acesso de loucura um Juiz
brasileiro mandasse uma carta ou um ofício para um Juiz chinês dizendo,
"faz favor de não processar essa causa porque ela é minha". O juiz chinês,
na hipótese de entender, poderia perfeitamente fingir que não ouviu.
53
Parece que a distinção é inútil, mas não é. Por vezes uma
pessoa obtém uma sentença em outro país, proferida por qualquer órgão
judicial estrangeiro, e precisa executá-la no território brasileiro. Por
exemplo, porque aqui é que estão os bens do vencido, e sem bens não se
consegue levar a efeito a execução. Ora, ela não pode simplesmente trazer
a sentença da França, ou da Argentina, e apresentá-la aqui, ao nosso Juiz,
para ser executada. Há um processo especial, que é o da homologação de
sentença estrangeira pelo Presidente do STF. Mas um dos requisitos para
que possa ser homologada a sentença estrangeira é a competência, à luz da
lei brasileira, do órgão que a proferiu. Eis aí a diferença. Se num dos casos
do art. 88 alguém apresenta ao Pres. do STF uma sentença proferida na
Itália, não exclui a possibilidade de que também o seja um outro Juízo, essa
sentença italiana poderá ser homologada, e depois vai valer no Brasil tanto
quanto uma sentença brasileira. Porém, se estivermos numa das hipóteses
do art. 89, por exemplo, uma sentença proferida na Itália a respeito de um
imóvel situado no Brasil, do momento em que a pessoa pretender dar
efeitos dessa sentença no território brasileiro e apresentá-la ao Pres. do
STF, a homologação será negada porque, à luz do direito brasileiro, o único
Juízo do mundo competente para proferir sentença a respeito da matéria
seria o próprio juiz brasileiro.

É claro que a homologação depende também de outros


requisitos, mas esse é um deles.

No caso de duas sentenças diferentes, uma brasileira e outra


estrangeira, se a estrangeira não foi homologada aqui ela não produz
efeitos, logo prevalece a brasileira. Se a sentença estrangeira já tiver sido
homologada antes, é ela que prevalece, e a brasileira sobre a mesma causa
foi mal proferida.

2ª) Se é a Justiça Brasileira, será a Justiça comum ou


será uma das Justiças especiais? As Justiças especiais são a do
Trabalho, a Eleitoral e a Militar. Como é que fica sabendo isso? Consultando
a Constituição, que indica as atribuições das Justiças especiais. Então se no
nosso caso couber alguma das normas constitucionais que discriminam as
atribuições das Justiças especiais, o problema fica resolvido nesse sentido,
se não, é a Justiça comum. As atribuições da Justiça comum não estão
enumeradas analiticamente na Constituição. Isso não é necessário, porque
elas se delimitam por exclusão. Tudo que não pertencer à competência de
alguma das Justiças especiais, conseqüentemente pertence à Justiça comum
e não é necessário, nem possível, que se faça uma enumeração exaustiva.

Acertado que a competência é da Justiça comum, que é o que


nos interessa nessa matéria, qual é a indagação seguinte? 3ª etapa da
pesquisa.
54

3ª) A Justiça comum se distribui em dois itens: a Justiça


Federal e as Justiças Estaduais. Como vamos saber a qual delas
pertence a competência? A Constituição é que mais uma vez nos guia,
discriminando a competência da Justiça Federal. Na Constituição da
República estão enumeradas as matérias da competência da Just. Federal,
quer de 1ª instância, quer de instâncias mais elevadas. Agora eu pergunto:
Porventura também consta da Constituição um rol completo das matérias
que pertencem às Justiças Estaduais? Não, pela mesma razão de há pouco,
porque estas também se delimitam por exclusão. Tudo que não pertencer à
esfera de atribuições da Justiça Federal - enumerado para a J.Fed. de 1º
grau no art. 109, para os Tribunais Regionais Federais no art. 108, para o
Superior Tribunal de Justiça no art. 105, e para o Supremo Tribunal Federal
no art. 102 - tudo que não estiver em nenhum desses quatro elencos,
necessariamente pertence à competência da Justiça Estadual. Não há no
Brasil, como sabem, Justiça Municipal. É claro que é preciso saber ainda de
qual Justiça Estadual, e depois de saber se é da Justiça Estadual do Rio de
Janeiro ou de outro estado, é preciso saber, dentro dessa J. Estadual, qual é
o órgão porventura competente.

Como vêem, a pesquisa se desdobra em diversas etapas.

Que critérios nos interessam nessas restantes etapas de nossa


pesquisa? Basicamente três ordens de critérios. Reparem na significação
disto: quando a lei distribui funções e portanto delimita competências, pode
fazê-lo tendo em vista critérios diferentes. Ela não é obrigada a adotar um
único critério, adota diversos critérios para repartir as atribuições.
Basicamente costumam ser enumerados na doutrina, e o CPC adota essa
sistematização. São três critérios fundamentais:

1º) O critério TERRITORIAL, que como o nome diz, se baseia


num elemento, digamos geográfico, a localização de alguma coisa. De que,
vamos ver depois. Então, pelo critério territorial a competência é
determinada em razão de um elemento geográfico, de uma localização, de
uma situação topográfica. É aqui que está tal coisa, então a competência
se determina em função disto.

2º) O critério OBJETIVO, que se liga já não mais a um


elemento geográfico, mas a um objeto da causa, sejam as pessoas, seja o
assunto, seja o valor. Daí nós termos dentro do critério chamado objetivo,
três modalidades:

2.1 - competência determinada em razão da pessoa (ratione


personae)
55
2.2 - competência determinada em razão da matéria (ratione
materiae)
2.3 - competência determinada em razão do valor (ratione
valoris)

3º) Finalmente temos o critério FUNCIONAL, que se baseia


na natureza da função que vai ser desempenhada pelo órgão naquele
processo.

O Código adota essa sistematização e efetivamente, se os srs.


olharem o Capítulo III art. 91 e seguintes, verão que o CPC não se referiu
explicitamente, ou pelo menos subjetivamente à competência ratione
personae, mas ela existe.

Agora notem bem: os critérios territorial e objetivo


normalmente, em regra, servem para nos indicar perante que órgão o
processo deve ser iniciado. É competência inicial. Mas um processo
comporta diversas fases, e nem sempre todas elas vão se desenvolver
perante o mesmo órgão. Aliás, a regra é o oposto - o processo, à medida
que se desenvolve, vai mudando de mãos. Pode ser que, até a sentença,
tramite perante o mesmo órgão, mas quando alguém interpuser um recurso,
embora continue sendo o mesmo processo, já não será o mesmo órgão que
vai julgar aquele recurso. O processo vai deslocar-se, e é aí que entra em
cena o critério funcional. Porque, a função diferente que se vai exercer dali
em diante naquela nova fase do processo, corresponderá uma nova
competência. O processo deixa de caber à competência do órgão X, e
passa, ou se transfere, para a do órgão Y, em atenção às diferentes funções
que, de agora em diante, vão ser exercidas.

Temos então que recorrer a esses critérios e muitas vezes a


mais de um deles, porque o problema não se resume só em saber perante
que órgão deve o processo começar e sim também dali em diante, se é
sempre perante o mesmo órgão ou se, pelo contrário, vão atuar diferentes
órgãos um após o outro, correspondendo às diferentes funções que vão ser
desempenhadas ao longo daquele processo.

APLICAÇÃO DOS CRITÉRIOS

O primeiro critério, em regra, a ser aplicado, é o


territorial. Temos de saber, em primeiro lugar, onde se inicia ou se deve
iniciar o processo. É a primeira pergunta nesta etapa, já transpostas as
etapas iniciais, se a Justiça brasileira era competente, se a Justiça especial
ou comum, se Justiça Federal ou Estadual. Agora o que queremos saber é
56
onde. Por que? Porque o território brasileiro é dividido em
Circunscrições Judiciárias; assim como é dividido em circunscrições
político administrativas, os Estados, e estes em Municípios, também do
ponto de vista judiciário, tanto na J.Federal como na J.Estadual, e não
coincidem as divisões. A divisão da J.Estadual pode ser uma e a da Federal
outra. Na J.Federal, além da divisão em Estados, há a subdivisão em
Seções. Nas J.Estaduais que, é claro, correspondem cada uma a um Estado,
há uma subdivisão em Comarcas. Atenção à terminologia, que é diferente:
Justiça Federal -> Seções; Justiça Estadual -> Comarcas, que nem sempre
coincidem com os Municípios.

Então é preciso saber onde, i.é, em que Seção da J.Federal ou,


se for o caso, em que Comarca da J.Estadual se deve iniciar o processo. E
para isso recorremos aos critérios territoriais, que em regra nos dizem qual
o Foro competente. A palavra Foro aí serve indistintamente para designar a
Seção ou a Comarca. A competência do Foro é determinada pelo critério
territorial.

Mas o problema ainda não acabou. Pode ter acabado, quando


naquele Foro só haja um órgão judicial. Aí, se foi determinado o foro
competente e se aquele foro só tem um Juízo, o problema de saber onde o
processo se inicia está resolvido. Só pode se naquele foro e naquele Juízo.
A Comarca de Sumidouro (RJ), por ex., só tem um Juízo. Então, uma vez
assente que o processo deve iniciar-se nessa Comarca, é claro que não
temos mais dúvida alguma sobre a que órgão nos dirigiremos, porque lá só
existe um. Mas esse não é o caso de todas as circunscrições judiciais.

Ao contrário, grande número delas possuem mais de um


órgão. Por ex., na Comarca do RJ, na Capital do Estado, temos um grande
número de órgãos. De sorte que não basta saber que a ação deve ser
proposta na Comarca do RJ, isto é necessário mas não é suficiente,
continuamos tendo diante de nós uma escolha a fazer. Escolha essa que não
pode ser arbitrária, não fica a meu talante dirigir-me a este ou aquele Juízo.
Então nestas hipóteses eu, além de de determinar o foro competente, tenho
que determinar o Juízo competente, já que há dois ou mais.

Pode acontecer que esses 2 ou mais órgãos tenham


competências iguais, i.e., tanto faz que um deles processe a causa, como
outro. Pode acontecer. Então haverá uma distribuição para equilibrar a
divisão do trabalho, e a competência se formará naquele órgão ao qual foi
distribuído aquele processo. Mas nem sempre isso acontece, às vezes as
competências são diferentes, e elas podem ser determinadas por aplicação
de alguns critérios objetivos. Por exemplo, na Com. do Rio de Janeiro nós
temos órgãos de 1ª instância diversos. Como saber a qual vai caber a
competência? Há a divisão dessa competência em razão das pessoas. Por
57
ex. há certos Juízos privativos dos processos em que seja parte o Estado,
digamos, processo instaurado pelo Estado contra alguém, ou por alguém
contra o Estado. São os Juízos da Vara da Fazenda Pública. Existem outros
que são determinados em razão da matérias, p. ex., os Juízos das Varas de
Órfãos e Sucessões - os processos de inventário entre outras coisas; os
Juízos das Varas de Família - processam ações de anulação de casamento,
separação judicial, divórcio, alimentos etc. E pode haver ( nós não temos
aqui na nossa comarca, mas pode haver) divisão em razão do valor - tal
Vara só pode julgar causas até o valor X, suponhamos.

Então, temos que para consultar as regras que dividem essas


atribuições e que fixem essas competências, para localizar o Juízo
competente.

Mas continua sendo verdade que pode haver mais de um Juízo


com competência concorrente. Por ex., no Rio de Janeiro temos 5 Varas de
Fazenda Pública, qualquer delas é competente para uma causa em que seja
parte o Estado. Porém há de haver um jeito de dividir as tarefas, e esse
jeito é a distribuição.

Recapitulando as várias etapas:

1º) No plano internacional - saber se é ou não é competente a


Justiça Brasileira. Se ela é competente em caráter concorrente ou em
caráter exclusivo.

2º) Justiças especiais ou Justiça comum? Resposta na


Constituição.

3º) Justiça Federal ou Justiça Estadual? Resposta na


Constituição.

4º) Competência de foro. Qual o foro competente. Critério


territorial. Aí nós vamos ter uma série de regras contidas no CPC para
determinar qual é o foro competente com a aplicação de critérios territoriais
que se valem de diversos elementos, que veremos daqui a pouco.

5º) Localizado o foro competente, de duas uma: ou neste foro


só há um Juízo, e o problema estará resolvido, ou há vários e aí temos que
determinar o Juízo competente, e então não vai ser à luz do CPC e sim à luz
do Código de Organização Judiciária do Estado, no caso de Justiça Estadual.

Vejam como é complicado o problema da competência. Isto


para saber onde é que o processo se inicia. Depois, ao longo dele, podem
surgir novas questões de competência quando tivermos que perguntar se
58
numa nova fase em que o processo vai entrar agora, continua sendo
competente o órgão anterior, ou a competência se desloca para outro. Vem
então o problema da competência funcional.

Antes de passarmos às normas específicas de determinar qual


é a competência segundo esses vários critérios, há aqui duas etapas a que
eu quero me referir:

Primeiro, a competência pode ser dividida em duas espécies,


ou melhor dizendo: quando um órgão não é competente, obviamente ele se
diz incompetente, mas a incompetência admite graus. É claro que
normalmente um órgão incompetente não pode nem deve conhecer da
causa para a qual não é competente, mas a Lei por vezes admite que um
órgão primitivamente incompetente, dentro de determinadas circunstâncias,
possa tornar-se competente, i.e, que o defeito seja sanável. Quando é que
isso acontece, é prematuro dizer, eu quero é que os Srs. fixem o fenômeno:
é possível que um órgão originariamente, em princípio, incompetente,
adquira competência. Então a sua competência pode em certos casos ser
modificada, ser alterada, dilatada. Ao passo que há outros tipos de
incompetência que nunca podem ser sanados. Então, a falta de competência
pode admitir dois graus: ou é uma falta suprível, ou é uma falta insuprível.

No primeiro caso dizemos que a incompetência é relativa -


aquela que consiste numa falta suprível, sanável. No segundo caso a
incompetência absoluta. Qual, ou quais as consequências práticas dessa
distinção? São as seguintes.

1) Quanto à iniciativa do controle. Na incompetência absoluta


o órgão pode e deve declarar-se incompetente de ofício. Ele próprio por
iniciativa sua deve declarar-se incompetente e remeter o processo ao órgão
que ele julga que seja competente. Mas isso ele só pode fazer nos casos de
incompetência absoluta.

2) Nos casos de incompetência relativa não. Ele não pode dar-


se por incompetente ex officio, só a parte é que pode provocar essa
declaração de incompetência. É um daqueles poderes que o Juiz só pode
exercer a requerimento da parte.

3) E se a parte não fizer isto pelo meio adequado, o que


acontece? O Juiz, que era incompetente mas cuja competência só podia ser
declarada por iniciativa da parte, e mediante determinado procedimento,
por uma determinada maneira e dentro de determinado prazo, se a parte se
mantém inerte e nada alega, essa incompetência relativa desaparece, a
falta fica sanada, fica suprida, e o Juiz dali em diante se torna competente.
Na incompetência relativa a parte que tem o ônus de alegar a
59
incompetência há de fazê-lo por um determinado modo que se chama
exceção de incompetência. Ao passo que na incompetência absoluta, se
o próprio Juiz não declarar como deve fazer, a parte pode alegar também,
mas não precisa ser por meio de exceção de incompetência, nem
está sujeita, ao contrário do que acontece na relativa, a um prazo.
Pode ser a qualquer tempo.

4) Uma vez sanada a incompetência relativa, o órgão torna-se


competente. A omissão da parte em alegar a incompetência por aquele
meio, oferecendo exceção de incompetência, produz o desaparecimento do
defeito. Todos os atos que o Juiz praticar dali por diante serão tão válidos
como seriam se ele desde o início tivesse competência. Tudo fica sanado,
inclusive tudo o que foi feito antes. Os atos anteriores como também os
atos posteriores. Mas isto só é possível na incompetência relativa. Na
absoluta o defeito, se existe, não desaparece nunca, e os atos decisórios
são anulados. Nem todos, porém. Mesmo na incompetência absoluta só
ficam invalidados os atos decisórios, o mais se aproveita. A Lei
processual moderna é um pouco avessa anulações de atos
processuais, porque não se que desfazer o trabalho que já foi feito.
Então ela só anula os atos decisórios. Mas isto na incompetência
absoluta. Na relativa isto não acontece porque quando se chega lá,
nos atos decisórios, já ficou sanada. Arts. 112 e 113 - Incompetência.

Eu lhes disse que a determinação do órgão perante o qual se


deve iniciar o processo resulta da aplicação de diversos critérios, critério
territorial, critério objetivo. Esses critérios lançam mão de diversos
elementos. Por. ex., um dos critérios mais importantes é o que toma como
elemento característico o domicílio do réu. Então a ação deverá ser
proposta em certos casos no foro onde o réu for domiciliado. Pergunta aos
Srs.: o réu fica proibido de mudar de domicílio? É claro que não. Pode
mudar-se. Então surge o seguinte problema: se o réu se muda várias vezes,
qual desses domicílios sucessivos é que se leva em conta? Então
precisamos saber qual é o momento em que eu tenho que olhar para o
elemento decisivo e dizer: é ali. A pergunta é a seguinte: eu quero propor
uma ação contra José, mas ele tem o hábito de mudar-se de 3 em 3 meses
para outra Comarca. Eu tenho que ir seguindo José por aí? Ou há um
determinado momento em que eu digo: é ali, e fica sendo ali pelo resto da
vida? Artigos 87 e 263, conjugados.

Estado de fato - o caso do réu que muda de domicílio a toda


hora.

Estado de direito - a lei mudou depois que a ação foi


proposta. Muda a competência? Não, nós não temos que atender à lei nova.
A competência, uma vez determinada, subsiste ainda que tudo se modifique
60
no dia seguinte. Mesmo que os elementos que foram levados em conta para
determinar a competência se modifiquem, o órgão não perde a
competência. Se ele a tinha nesse momento continua tendo pelo resto da
vida, salvo os casos excepcionais do art. 87.

COMPETÊNCIA DO FORO

Como se apura qual o órgão competente para uma


determinada causa? Isso não se faz através de uma única operação, mas
sim através de uma série de operações sucessivas. Em primeiro lugar
verificando se aquela causa de que se trata está incluída na competência da
Justiça Federal, que é taxativamente explicitada pela Constituição Federal,
ou da competência da Justiça Estadual, que tem atribuições, vamos dizer,
residuais. A Constituição não diz o que compete à Justiça Estadual, ela se
limita a estabelecer os casos da competência da Justiça Federal. O que não
entra na competência da Justiça Federal entra na da Justiça Estadual, que é
residual.

Feito isso, tendo em vista que os órgãos judiciais têm limites


territoriais de atuação, é necessário estabelecer o Foro competente. A
J.Federal em 1ª instância divide o território nacional em Seções Judiciárias,
e a J.Estadual de 1ª instância aqui no caso do Est. do Rio de Janeiro, divide
o Estado em Comarcas. Circunscrições territoriais em que se divide o
território nacional ou estadual para efeito de administração da Justiça.

É necessário, portanto, numa 2ª operação, estabelecer em que


lugar propor a ação. Em que Seção judiciária, se for o caso da competência
da J.Federal, ou em que Comarca se for o caso da competência da
J.Estadual. Eventualmente dentro da Seção judiciária ou da comarca, pode
haver mais de um Juízo e quando houver, a terceira etapa necessária de
determinação da competência vai envolver isso: indicar a que Juízo dentro
daquela circunscrição territorial vai caber processar e julgar aquela causa.

Vamos ver hoje a COMPETÊNCIA DE FORO, que é disciplinada


principalmente pelo CPC. Não temos condições de fazer aqui uma análise
exaustiva de todas as regras que se referem à determinação da
competência. Vamos nos ater aos princípios gerais, às regras mais
importantes, aos critérios fundamentais.

Seção III do Capítulo III (Título IV - art. 94 e ss). Trata da


competência interna e principalmente contém normas sobre a determinação
do foro competente e tem o título "Da Competência Territorial". Não é
exatamente preciso o título dessa Seção, embora seja tradicional. A rigor o
61
que o Código vai tratar é na realidade da competência de foro. Apenas o
Código deixou-se influenciar talvez pela circunstância de que o foro se
determina, em regra, com base em critérios territoriais. Daí a razão do
nome da Seção.

Em matéria de competência de foro, a Lei adota dois critérios


gerais, comuns, fundamentais: um deles está no art. 94. Ações fundadas
em direitos pessoais, p.ex., a cobrança de um crédito e ações
fundadas em direitos reais sobre móveis, são propostas em regra no
foro do domicílio do réu. Não é em princípio o CPC que disciplina como é
que se determina o domicílio. É no Código Civil que se encontra o conceito
de domicílio, os dados necessários para saber onde é o domicílio do réu.

OBS: o foro de inventário é um foro especial, nós estamos tratando primeiro


do foro comum, não incluído aí inventário.

O parágrafo 1º trata da hipótese do réu ter mais de um


domicílio, e nesse caso pode o autor livremente optar entre propor a ação
num ou noutro local.

O parágrafo 2º trata do caso de domicílio incerto ou


desconhecido do réu. Incerto no sentido de que o réu não tem residência
fixa, ou emprega a vida em viagens por exemplo; desconhecido no sentido
de que o autor não conhece o domicílio do réu. Num caso ou noutro diz o
Código que ele será demandado onde for encontrado (ou o Código não diz
mas nós devemos entender); se não for encontrado em lugar nenhum, no
foro do domicílio do autor. O autor, evidentemente, não fica, portanto,
impedido nesses casos de propor a ação. Se o réu for encontrável em
qualquer lugar, aí será proposta a ação. Se não for, o Código permite que o
autor instaure a ação no foro do seu próprio domicílio. Pergunta: no caso de
o réu ter domicílio desconhecido mas possuir bens em determinada
localidade, poderá ser instaurada a ação nessa localidade? Resposta do
Professor: A rigor, não. A rigor teria que ser no domicílio do autor. Por outro
lado, essa permissão para o autor instaurar o processo no seu próprio foro é
um privilégio, um benefício que a Lei assegura ao próprio autor. Você
poderia dizer que desse benefício ele pode abrir mão. Agora, de qualquer
maneira, acima de tudo isso haveria o seguinte: a incompetência fundada
em critérios territoriais, em regra, é relativa, de maneira que poder propor
no foro, pode, agora me parece que se aparecer o réu por um acaso e
alegar a incompetência ela terá que ser reconhecida.

O parágrafo 3º pressupõe obviamente que se trata de um dos


casos em que a Lei brasileira reconhece a competência dos nossos órgãos
jurisdicionais para aquele processo. Pressupõe que se tenha respondido
afirmativamente à questão relativa a competência internacional. Se o autor
62
também não residir no Brasil a ação será proposta em qualquer foro, em
território nacional, evidentemente.

O parágrafo 4º - o indivíduo vai propor uma ação contra duas


pessoas, uma das quais tem domicílio aqui e a outra tem domicílio em outro
foro. A ação é proposta em qualquer dos dois à escolha do autor.

O domicílio do réu para as ações fundadas em direito pessoal


e em direito real sobre móveis é o primeiro foro comum tratado pelo CPC.
O segundo está no art. 95, que diz respeito a ações fundadas em direito real
sobre imóveis. Em atenção à conveniência de o processo ser instaurado
num lugar onde se tenha acesso ao bem, o CPC estabelece aí, como regra
geral, que o foro competente é o da situação da coisa. Abre-se uma
alternativa ao autor, o CPC permite que o autor se valha do foro do
domicílio do réu, ou de um foro que os dois, num contrato, tenham
estabelecido para ajuizar as ações derivadas daquele contrato. Foro da
situação da coisa, portanto, ou, à escolha do autor, foro do domicílio do réu
ou foro de eleição.

Mas o CPC, em seguida, abre uma ressalva que tem o sentido


de restabelecer aquela primeira regra: isso ocorre quando o litígio recai
sobre o direito de propriedade, p.ex., uma ação reivindicatória ou uma ação
de usucapião, vizinhança, servidão, posse, divisão e demarcação de terras,
e nunciação de obra nova. Nesses casos não existe aquela escolha que
existe em geral para o autor no caso de ações fundadas em direito real
sobre imóveis. Nesses casos a ação só poderá ser proposta no foro da
situação da coisa.

Esses são os critérios comuns ou gerais de determinação da


competência de foro no Direito Brasileiro, que se aplicam quando não
houver alguma regra jurídica contida no próprio Código ou em lei que
estabeleça um outro critério para a determinação do foro. No próprio
Código, além desses critérios gerais, comuns, vamos encontrar critérios
especiais de determinação da competência de foro.

Por ex., no art. 100 encontramos vários casos. No caso


previsto no parágrafo único do artigo, a reparação que o autor vai pedir aí,
ele pedirá a título de direito pessoal. Pela aplicação do critério do art. 94,
portanto, o foro competente seria o do domicílio do réu; a lei leva em
consideração, porém, que seria injusto muitas vezes para o autor ter de ir
propor a ação lá no domicílio do réu. Suponhamos que alguém seja
atropelado no local onde mora por um indivíduo que tenha domicílio em
outro lugar distante. Seria exigir-se, dado inclusive à freqüência com que
isso acontece, e ao interesse que tem o legislador em que se assegure às
vítimas uma pronta e fácil indenização pelos danos sofridos, seria injusto
63
que ela fosse atrás do réu no local onde ele tem domicílio. Permite-se,
portanto, que a ação seja proposta no foro do domicílio do autor, ou do local
onde ocorreu o fato que deu causa àquele direito.

São foros especiais que se aplicam nas hipóteses


previstas. A hipótese para a qual não estiver na lei estabelecido
foro especial, vai resolver-se à luz dos arts. 94 e 95, que
estabelecem os foros comuns ou gerais.

Determinada a competência do foro, determinado o foro


competente, pode eventualmente, se dentro daquele foro houver mais de
um juízo, ser necessário estabelecer a qual deles vai caber processar aquela
causa. Essa determinação da competência de juízo não é o CPC que faz,
são leis de organização judiciária, federal ou estaduais, conforme o caso
que, até 1977, no caso estadual, eram editadas pelo Tribunal de Justiça que
exercia excepcionalmente função normativa. E a partir de 1977, serão
editadas pela Assembléia Legislativa. Faço essa referência porque em vigor
no Estado do Rio de Janeiro ainda é o Código estabelecido anteriormente a
1977, e que portanto foi editado pelo Tribunal de Justiça. É lá, no Código de
Organização Judiciária, que os srs. vão encontrar os critérios para
determinar, dentro do foro, o juízo competente. Essa determinação se faz
com base em critérios objetivos. Não é mais como a competência de foro
que se faz normalmente com base em critérios territoriais. A competência
de juízo se define, em regra, com base em critérios objetivos, em razão da
matéria, da pessoa ou do valor da causa. Por ex., a Vara de Família ou a
Vara de Órfãos e Sucessões, qual das duas será competente? Depende da
natureza da matéria. Em razão de pessoa, por ex., as Varas da Fazenda
Pública aqui da capital, têm competência para processar causas nas quais
participe o Estado do Rio de Janeiro. Excepcionalmente em razão do valor.
Em São Paulo funcionam, e aqui estão iniciando agora, as Varas Distritais
cuja competência no processo civil é estabelecida em razão do valor da
causa. São critérios de natureza objetiva, portanto, que decidem juízo
competente.

Vamos cuidar da seção seguinte do CPC que trata das


modificações da competência e especialmente dos institutos que são a
prorrogação da competência e a prevenção da competência.

Prorrogar na língua comum significa ampliar, dilatar. Quando


dizemos p.ex. que um prazo foi prorrogado o que estamos dizendo é que ele
foi aumentado, ampliado. Prorrogação de competência é isso: a
ampliação da competência. É o fenômeno que consiste em um órgão
incompetente tornar-se competente. O órgão que originariamente não
teria competência para determinada causa, passa a tê-la em função de
determinadas causas que vamos ver quais são. O que é importantíssimo
64
que os srs. fixem é que a prorrogação só ocorre quando a
incompetência que se manifestava originariamente era relativa. Só
se prorroga a competência que conduziria à incompetência relativa.
Somente um órgão relativamente incompetente pode ter a sua competência
prorrogada. Prorrogação de competência, portanto, é isso: é a
ampliação da competência de um órgão que originariamente não
tinha competência para processar uma determinada causa, e que
passa a ter em função de determinados fatores. A prorrogação
pressupõe, portanto, um órgão relativamente incapaz.

PRINCIPAIS CAUSAS DE PRORROGAÇÃO DA COMPETÊNCIA

A enumeração não será exaustiva. Podemos dividí-las, para


efeito didático, em causas voluntárias e causas legais. Voluntárias,
quando dependem da vontade das partes. Legais, quando decorrem de
fatos sobre os quais não influiu a vontade das partes. As causas voluntárias
são duas. Os srs. já viram a distinção entre incompetência relativa e
absoluta, e já sabem que a incompetência relativa se caracteriza pelo fato
de ter que ser alegada para poder ser reconhecida pelo órgão judicial. Ter
de ser alegada dentro de um determinada prazo e sob uma determinada
forma, através de exceção. Exceção declinatória de foro, ou exceção de
incompetência. Se isso não acontecer, se, instaurado um processo
perante órgão relativamente incompetente, não vier a ser alegada a
incompetência, ela por isso convalesce, de tal maneira que se torna
competente a partir de então, um órgão que era incompetente. Isso
só acontece com a incompetência relativa, não com a absoluta.

Pois bem, a primeira causa voluntária da prorrogação da


competência é essa, é a omissão daquele a quem cabia excepcionar,
alegando a incompetência no prazo legal. A falta do oferecimento da
exceção de competência no prazo legal tem essa conseqüência: prorroga a
competência daquele órgão até então relativamente incompetente.

Para manter o esquema que fizemos, deveríamos dizer que


essa omissão revela, da parte daquele que se omite, uma vontade tácita de
que o processo prossiga naquele foro. É o que diz o art. 114.

A segunda causa voluntária da prorrogação da competência


está no art. 111. Os srs. já sabem que é absoluta a incompetência derivada
desses critérios - em razão da matéria, da hierarquia seria um critério
funcional. Mas diz mais, que as partes podem modificar a
competência em razão do valor e do território , critérios que conduzem
no sistema do CPC à incompetência relativa, elegendo foro onde serão
propostas as ações oriundas de direitos e obrigações. É o que se denomina
de pacto de eleição de foro. As partes estabelecem numa cláusula o foro
65
onde serão ajuizadas causas derivadas daquele contrato, daquele negócio
jurídico. Eventualmente esse foro eleito pode não coincidir com o foro
estabelecido em caráter geral pelo CPC, de tal maneira que aquele foro
eleito, à luz do critério do CPC seja incompetente. Se isto acontecer o pacto
de eleição de foro terá essa conseqüência: vai ampliar a competência
daquele órgão relativamente incompetente. É causa, portanto, de
prorrogação de competência.

Mas o pacto de eleição de foro não implica necessariamente


em prorrogação de competência. Ele só vai implicar quando o foro eleito for
diferente do foro que resultaria da aplicação dos critérios legais.

Só se prorroga a competência de órgão cuja


incompetência seja relativa. E a incompetência relativa só se
manifesta, em princípio, em função da aplicação de critérios
territorial e do valor da causa.

Há requisitos para o pacto de eleição de foro. O primeiro diz


que esse acordo só produz efeitos quando constar de contrato escrito. Uma
exigência de forma, portanto, a aludir expressamente a determinado
negócio jurídico. E as pessoas não podem estabelecer um foro aonde se
devem propor todas as ações que devam ser propostas entre elas
indefinidamente, em qualquer matéria, isso não pode acontecer. O pacto de
eleição de foro tem a sua eficácia restrita a um negócio jurídico, às ações
fundadas naquela relação jurídica.

Causas legais de prorrogação da competência: São


principalmente duas, previstas no art. 102. A conexão e a continência
são hipóteses aí previstas que impõem a prorrogação da
competência, são vínculos entre ações, que foram até mesmo
definidas pelo CPC. Estreitou um pouco o conceito. Na doutrina se
sustenta um conceito mais largo - seria um tipo de relação entre ações que
tornaria conveniente a reunião delas num mesmo processo. O Código
restringiu um pouco. E o art. 104 define a continência, dizendo que dá-se a
continência entre duas ou mais ações sempre que há identidade quanto às
partes e à causa do pedido, mas o objeto de uma, por ser mais amplo,
abrange o da outra. Por ex., num processo o autor cobra principal e juros, e
mais adiante ele instaura um processo exercitando aquela mesma ação,
mas cobrando apenas o principal. O objeto de uma está contido (daí o
nome continência) no pedido da outra.

A conexão e a continência impõem a reunião num só processo


daquelas duas ações - art. 105. Agora vejam bem: a reunião não oferece
nenhum problema se o órgão perante o qual ela vai ocorrer é competente
para ambas. Mas pode acontecer que seja competente para uma e não para
66
outra. Nesse caso, desde que a incompetência seja relativa, aplica-se o art.
102 que determina a prorrogação, e o órgão passa a ser competente. Duas
ações conexas. Para uma delas o órgão judicial é relativamente
incompetente. Para outra ele é competente. Reunem-se as duas ações. A
incompetência sendo relativa, desse modo a conexão prorroga a
competência daquele órgão, de modo que ele que era competente para uma
e relativamente incompetente para outra, passa a ser, em função da
conexão, competente para ambas.

A conexão e a continência, portanto, constituem causas legais


da prorrogação da competência.

Ex.: Duas ações conexas. Uma devia ser proposta na comarca


do Rio de Janeiro, é aqui domiciliado o réu, suponhamos. E a outra, em
função da aplicação de algum critério especial de determinação de foro,
devia ser proposta não aqui, mas na comarca de B.Horizonte. Nós vamos
ter que reunir num dos órgãos, para que elas corram paralelamente no
mesmo processo. Como contornar-se o problema da competência? Desde
que se trate de incompetência relativa, o órgão, vamos supor, do Rio de
Janeiro, será competente para processar aquelas duas causas que vão ser
acumuladas num só processo. Ele, em função do fato de as ações serem
conexas, passa a ser competente para ambas.

Os exemplos seriam exemplos de pedido igual, partes iguais,


ou causas de pedir iguais. O marido promove ação de separação judicial
contra a mulher alegando uma suposta violação por ela de alguns dos
deveres inerentes ao casamento. E a mulher, por sua vez, propõe ação de
separação judicial contra o marido alegando uma suposta violação por ele
dos deveres inerentes ao casamento. Portanto, idênticas nas duas ações o
pedido é o mesmo, separação judicial. As causas, porém, são diferentes,
ele alega um fato que ao ser ver constitui uma violação dos deveres por ela
e vice-versa. As ações são conexas.

Outro exemplo: Identidade de causa do pedido. Dois


indivíduos propõem uma ação de anulação de concurso realizado, alegando
que foi violado um determinado requisito previsto no edital do concurso. As
partes são diferentes, portanto, as ações não são idênticas, num caso é A
no outro é B quem propõe. O réu é o mesmo porém os autores são
diferentes, portanto não é a mesma ação, são ações diferentes. O pedido é
o mesmo e a causa petendi é a mesma. Ações conexas, à luz do art. 103.
Nesse caso, possivelmente o foro competente seria o mesmo, mas pode
acontecer que para ações conexas a competência recaia em órgãos
diferentes. Se recair, desde que a incompetência seja relativa, prorroga-se
a competência de um deles, que passa a ser competente para ambas.
67
Evidentemente a conexão não conduz sempre à prorrogação.
Apenas quando um dos órgãos não é competente para uma das causas, se
essa incompetência for relativa, prorroga-se.

As ações mantém a sua individualidade, os seus protagonistas,


o seu objeto, a sua causa, matem-se tudo, apenas são reunidas num mesmo
processo, para o efeito desejado de haver uma só decisão.

Então aí estão as causas legais da prorrogação de


competência. Não as únicas. Vamos ver mais uma delas - art. 107.
Imaginem os srs. que, para um determinada causa, o critério de
determinação do foro competente seja a situação da coisa, seja a comarca
onde se acha situado o bem imóvel. Imaginem agora que esse imóvel
esteja situado uma parte numa comarca, outra parte noutra comarca, ou
seja, que a linha divisória das comarcas passe sobre esse imóvel. É para
essa hipótese que se dirige o art. 107. É uma outra causa de prorrogação.
Primeiro será necessário saber qual dos dois, o órgão de uma comarca ou
de outra. Uma vez definido que é nesse ou naquele órgão (a rigor a
competência seria restrita pela linha divisória) o CPC amplia a competência
de modo a abranger a totalidade do imóvel.

Há outra ainda, que se refere a institutos que teremos que


estudar.

Em certa medida a PREVENÇÃO é o oposto da prorrogação .


A prorrogação pressupõe um órgão relativamente incompetente, e consiste
em ampliar a sua competência. A prevenção não; ela pressupõe mais de
um órgão competente em tese para processar uma determinada
causa. Por ex. os srs. têm aqui na Comarca do Rio de Janeiro várias Varas
Cíveis. Em tese todas elas e cada uma delas competente para as causas
que entrem no âmbito das atribuições das Varas Cíveis. Varas de Família,
mais de uma. Como fixar numa delas a competência concreta para
determinada causa? Todas tem em tese competência para determinado tipo
de causas. A prevenção pressupõe, portanto, uma pluralidade de órgãos
competentes, todos eles em tese, e consiste em fixar num deles a
competência, em vincular a um deles concretamente, não mais em
tese, a competência, para aquela causa determinada. Prevenção vem
de prevenir, significa se antecipar.

Qual o critério da determinação da prevenção no CPC?


Quando é que se estabelece a prevenção? Qual é o ato do processo que
torna prevento o órgão, preventa a competência do órgão? Temos dois
dispositivos no CPC que conduzem a resultados diferentes. Temos em
primeiro lugar o art. 106. O critério aqui seria a anterioridade do despacho
que ordenou a citação. Seria o despacho que tornaria prevento aquele
68
Juízo, de tal maneira que os demais órgãos até então em tese competentes
se tornariam incompetentes.

Mas temos também o art. 219 que estabelece os efeitos da


citação, e que arrola entre esses efeitos, a prevenção. Ora, o despacho
inicial e a citação não se verificam no mesmo momento, e o problema da
prevenção é determinar o momento em que ela ocorre. De maneira que
temos que enfrentar essa discrepância do CPC. Os critérios são
conflitantes. No art. 106 - o despacho inicial, no art. 219 - em virtude da
citação. Podemos fazer uma distinção entre esses dois dispositivos:

No art. 219 - a citação válida torna prevento o Juízo.


No art. 106 - correndo em separado ações conexas perante juízes que têm a
mesma competência territorial, considera-se prevento aquele que
despachou em 1º lugar.

Vejam que o art. 106 tem elementos que o 219 não tem. Nós
podemos perfeitamente entender, e a doutrina se tem orientado nesse
sentido, que o art. 219 tem característica geral, em relação ao qual o art.
106 é uma regra especial que só se aplica às hipóteses do ações conexas
perante juízes que tem a mesma competência territorial. Se os juízes não
tiverem a mesma competência territorial não seria o despacho que
determinaria a prevenção, mas sim a citação, por força do art. 219. Quer
dizer, o art. 219 estabeleceria o momento em que ocorreria a prevenção
fora dessas hipóteses especificadas no art. 106. Seria uma regra geral, e o
art. 106 em relação a ela uma regra especial que tem um âmbito de
incidência mais restrito, e que conduz a um resultado diferente. Não é
unânime a opinião, mas é a predominante.

Apenas a título de informação: há quem sustente que, tendo


em vista que o Direito Brasileiro sempre adotou como critério de prevenção
a citação, nós devemos entender que continua sendo só a citação. O
critério do art. 106, despacho, seria um critério de caráter subsidiário que
se aplicaria quando as duas citações fossem realizadas no mesmo tempo.
De tal maneira que pela anterioridade da citação nós não pudéssemos
estabelecer a prevenção.

O efeito da prevenção é fixar in concreto a competência para


aquela determinada causa. Até então havia dois ou mais órgãos em tese
competentes para aquele processo, a partir da prevenção num deles se terá
fixado a competência.

A prevenção produz ainda outro efeito, que é o de atrair para


o Juízo em relação ao qual ocorreu a prevenção, ações que sejam conexas
àquela. Além de fixar num órgão específico a competência para
69
determinada causa, ela exerce para aquele Juízo um atração sobre ações
conexas que devam ser processadas e julgadas conjuntamente com aquela.
É uma consequência, ainda aí, da necessidade de reunir as ações conexas.

Vamos ver finalmente os meios de controle da competência, os


modelos através dos quais se coloca no processo a questão relativa à
competência. Há casos em que o Juiz, de ofício, espontaneamente,
independentemente de provocação das partes, pode apreciar a questão
relativa à competência, e declarar-se incompetente. Isso ocorre nos
casos de incompetência absoluta, o que não significa evidentemente
que a parte não possa alegar a incompetência absoluta. É claro que
pode, apenas se se tratar de incompetência relativa, ela tem o ônus
de alegar sob pena de tornar-se competente o órgão até então
incompetente. Se se trata de incompetência absoluta, ela não tem
esse ônus porque o órgão judicial, de ofício, vai declarar-se
incompetente. Mas ela pode provocar essa declaração embora não
esteja sujeita a prazos nem a formas determinadas, como no caso da
incompetência relativa.

Então o primeiro meio de controle é esse - o controle ex


officio pelo próprio órgão judicial, restrito à incompetência
absoluta.

O segundo é a provocação da parte (que no caso de


incompetência absoluta pode ocorrer - não estando sujeita a prazo nem a
omissão em alegar tornará competente aquele órgão, não prorrogará a
incompetência, mas pode ocorrer). A provocação da parte no tocante à
incompetência relativa é indispensável, sob pena de, não ocorrendo
através do oferecimento de exceção de incompetência, aquele órgão
relativamente incompetente tornar-se competente em função da
prorrogação.

Existe um terceiro meio de controle da competência que se


denomina de conflito de competência, pressupondo dois ou mais órgãos
judiciais que em relação a uma causa determinada controvertem entre si a
respeito da competência. Está disciplinado nos arts. 115 e seguintes do
CPC. Há duas espécies - art. 115, I - é o que se denomina de um conflito
positivo, ambos se consideram competentes para aquela causa. Inc. II - aí
temos que fazer um acréscimo: quando dois ou mais juízes se consideram
incompetentes e estiverem os dois plenamente de acordo em que a
competência pertence a um 3º órgão, não há conflito nenhum. O conflito
se verifica quando os dois se consideram incompetentes e cada um
acha que é o outro e vice-versa.
70
O inciso III se resolve num dos dois casos anteriores. A rigor,
ou o conflito negativo ou o conflito positivo. Evidentemente esse conflito
tem que ser decidido por um órgão hierarquicamente superior aos que estão
em conflito; qual seja esse órgão o CPC não diz, é matéria regulada pelas
normas da Organização da Justiça Federal, pela Constituição da República,
pelo Código de Organização Judiciária; de qualquer maneira órgãos
hierarquicamente superiores àqueles que se encontram envolvidos no
conflito.

Os arts. 118 e seguintes estabelecem o procedimento. O art.


118 regulamenta a iniciativa de conflito. Quem pode suscitar conflito de
competência e diz que é o próprio Juiz, a parte ou o M.P., sendo que quando
é o Juiz estabelece a forma de ofício e quando é a parte ou o M.P., a forma
de petição. Art. 120 - no caso de conflito positivo seria uma situação
obviamente inconveniente que os dois processos continuassem a correr a
despeito do conflito. O relator pode determinar que sejam sobrestados,
paralisados, os processos. Mas neste caso, no caso de ser sustado o
andamento dos processos, bem como no caso de conflito negativo, em que
cada um dos Juízes se considera incompetente, o relator designará um dos
Juízes para resolver em caráter provisório as medidas urgentes.

Art. 121 - Ao tribunal caberá fixar a aplicação das regras


relativas à invalidade dos atos.

DAS PARTES

São partes num processo as pessoas que, em seu próprio


nome, figuram no pólo ativo e no pólo passivo da relação jurídica
processual, ou seja, a pessoa em cujo nome se propõe a ação, e a pessoa
em face de quem a ação é proposta. A primeira recebe a denominação de
autor, e a outra de réu, podendo, é claro, existir simultaneamente vários
autores e vários réus, isto é, podendo a ação ser proposta por duas ou mais
pessoas, ou então em face de duas ou mais pessoas, hipóteses em que se
forma a figura do LITISCONSÓRCIO.

Essas pessoas são as assim chamadas partes principais.


Pode acontecer que outras pessoas assumam também a condição de
parte no processo, mas é uma posição secundária, subordinada,
como é o caso do ASSISTENTE.

As partes do processo não se identificam obrigatoriamente


com as partes da relação jurídica de direito material discutida nesse
processo. Nem sempre o direito de ação é exercido pela pessoa que se
supõe ser sujeito da relação jurídica de direito material. Há um tipo de
71
legitimação ordinária, na qual essas posições coincidem, e um tipo de
legitimação extraordinária, na qual essas posições não coincidem.
Aparecem no processo em nome próprio, não portanto na qualidade de
representantes, já que o representante age em nome do representado.
Aparece no processo uma pessoa, em nome próprio, para defender direito
que, se existir, será alheio. Como por exemplo, o marido que litiga pelo
bem dotal pertencente à mulher. Como no caso do acionista que promove
ação para condenar um diretor de S.A. a pagar à sociedade indenização pelo
ato danoso que praticou ao seu patrimônio. Nesses casos o sujeito da
relação jurídica de direito material e o sujeito da relação jurídica processual
são diferentes. Portanto, quando aqui no processo civil nós nos referimos
às partes, temos em vista a situação processual, não necessariamente a sua
situação material. Quer dizer que quando ocorre a LEGITIMAÇÃO
EXTRAORDINÁRIA, quando o marido, v.g., vai a Juízo para litigar acerca do
dote de sua mulher, parte será o marido, embora o dono do direito material,
sujeito da relação jurídica material seja a mulher, que é a proprietária.

Uma pessoa assume a posição de parte de várias maneiras:

1ª) Propondo uma ação. A pessoa que vai a Juízo e intenta


uma ação, formula uma demanda ao órgão judicial, simplesmente por ela
própria, assume no processo a posição de parte e definidamente a de autor.

2ª) Sendo citado para uma ação. A propõe uma ação em


face de B, requer a citação de B. Do momento em que B é citado, adquire,
assume a posição de parte, no caso réu.

3ª) Sucedendo a uma das partes. Pode acontecer que as


partes, no curso do processo, se desliguem dele, e sejam sucedidas por
outras pessoas que, ao suceder, assumem a condição daquelas a quem
sucedem, tornam-se partes.

4ª) Também se pode assumir a condição de parte intervindo


voluntariamente ou coactamente num processo que corre entre
outras pessoas. É o fenômeno da INTERVENÇÃO DE TERCEIROS. O
terceiro que intervem no processo, a partir desse momento passa a ter
também a condição de parte. Deixa de ser terceiro e passa a ser parte.

Então, por qualquer dessas quatro maneiras uma pessoa pode


tornar-se parte do processo.

O fato de ser parte não significa necessariamente que essa


pessoa seja parte legítima. Ela é parte, mas pode acontecer que ela, a
despeito de ser parte, não o devesse ser, i.e, não tenha legitimação para a
causa, seja parte erradamente, digamos assim, não era ela que devia ter
72
proposto a ação, ou não era em face dela que a ação deveria ter sido
proposta. Isso significa que nem toda parte é parte legítima. O fato de
alguém ser parte é uma coisa, o juízo que se fará sobre se essa
pessoa é parte legitimamente, é outra. Se essa não for parte legítima,
o processo se extinguirá sem julgamento do mérito, pela carência de ação.
Ela era parte sem ter legitimidade para sê-lo.

Assim como o órgão julgador deve satisfazer a determinados


requisitos, fenômeno semelhante se passa com a parte. Em primeiro lugar
pergunta-se: Quem é que pode ser parte num processo civil? Então é
problema de legitimação. Notem que não estou perguntando quem é parte
legítima, quem deve ser parte numa ação. Eu fiz uma pergunta genérica
relativa à capacidade para ser parte. Os animais podem ser partes no
processo civil? Não. E as coisas inanimadas também não. Então, em
primeiro lugar, quem pode ser parte são as pessoas. As pessoas
naturais e as pessoas jurídicas, todos os seres aos quais o Direito
reconhece a possibilidade de serem titulares de direitos e
obrigações.

Agora, em casos especiais reconhece-se a possibilidade de ser


parte no processo certas entidades. Há certos bens que no plano do direito
civil não têm personalidade, não são pessoas jurídicas. Três exemplos bem
precisos: o espólio de uma pessoa falecida, o condomínio de um
edifício de apartamentos e a massa falida. São três entidades que não
têm personalidade jurídica no plano do direito civil, mas podem ser parte no
processo. Qualquer delas pode propor uma ação, e pode ser réu de uma
ação. A lei processual excepcionalmente lhes confere essa possibilidade.

Para que o processo se construa regularmente, já vimos com


relação ao órgão que não basta ele estar investido de jurisdição, é preciso
que tenha competência. Analogamente, com relação às partes, não
basta que o processo se forme entre elas, é preciso que elas, além
de terem capacidade para ser partes, tenham a chamada capacidade
para estar em Juízo, ou capacidade processual . No direito civil há uma
distinção entre capacidade de direito e capacidade de fato. Qualquer
pessoa é capaz de ter direitos, mas nem todos são capazes de ser partes.
Assim, p.ex., os menores, os silvícolas, os loucos de todo o gênero. São
pessoas, têm capacidade de direito, podem ser titulares de direito civil mas
não podem exercê-los por si mesmas, diretamente, e sim através de um
curador. A mesma coisa acontece no processo.

Aquelas entidades que são capazes de ser parte, estão em


Juízo por intermédio de órgãos especiais: o espólio pelo inventariante, a
massa falida pelo síndico. As pessoas jurídicas também não apresentam
problema, não comportam distinção entre capazes e incapazes, se são
73
pessoas jurídicas são capazes e estarão em Juízo também dessa forma. O
problema surge é no tocante às pessoas naturais. Todos têm capacidade
para ser parte, mas nem todos a tem para estar em Juízo.

Art. 8º - A lei processual considera capazes para estarem em


Juízo, isto é, para diretamente participarem da atividade processual, as
pessoas que são capazes de fato no plano civil. A rigor, portanto, é o
seguinte: abstraindo das pessoas jurídicas e das chamadas pessoas
normais, terão capacidade para estar em Juízo as pessoas as quais
sejam capazes de fato. Então, um menor pode ser parte? Pode.
Capacidade para ser parte ele tem. Uma ação pode ser proposta por um
menor e contra um menor. Mas o menor não pode diretamente, por si só,
participar do processo porque ele tem capacidade para ser parte, mas não a
tem para estar em Juízo, não tem capacidade processual. Quem pratica por
ele os atos processuais? Se se tratar de uma pessoa absolutamente
incapaz, a resposta é uma; se se tratar de uma pessoa apenas
relativamente incapaz, a resposta é outra. Mas ambas são maneiras de
suprir a falta de capacidade civil.

Art. 8º - Os incapazes serão representados ou assistidos. São


duas maneiras de suprir a incapacidade: a representação, para o
absolutamente incapaz, e a assistência, para o relativamente incapaz.

Quando o representante ou o assistente comparecem a


Juízo suprindo a falta de capacidade da parte, eles nem por isso se
tornam partes. A parte continua sendo o representado ou o
assistido. Isto é de enorme importância. Vejam bem, a parte não é o
representante. Este não age em nome próprio, age em nome do
representado. O fenômeno é, portanto, diferente do da substituição
processual, que nós vimos na legitimação extraordinária. Nesta, o
substituto atua em nome próprio embora em situação jurídica alheia, e ele,
substituto, é que é parte. Caso do marido que litiga pelo bem dotal, ele é
parte. No entanto, se eu comparecer a Juízo como representante de um do
meus filhos menores, ou seja, incapazes, a parte é o meu filho, eu não sou
parte do processo, sou mero representante. Uma pessoa passa procuração
ao advogado para defendê-la mas nem por isso deixa de ser parte.

Não se confunde com nenhuma das duas figuras o fenômeno


que ocorre quando uma pessoa, apesar de ser plenamente capaz, não pode
comparecer a Juízo sem a anuência, a concordância, o consentimento de
outra pessoa. Caso do art. 10 do CPC - cônjuges (supondo-se que ambos os
cônjuges sejam capazes).

A regra geral é a recíproca: só tem capacidade para


estar em Juízo, ou seja, só tem capacidade processual, a pessoa que
74
tem capacidade civil. Só é processualmente capaz o civilmente capaz.
Mas há algumas exceções interessantes. Há casos, na Parte Especial, em
que uma pessoa, apesar de ser incapaz civilmente, pode por si mesma estar
em Juízo, pode ela própria constituir advogado, etc. Isso acontece quando
essa pessoa quer requerer em Juízo uma providência a respeito da sua
capacidade: as pessoas sob interdição (os alienados, loucos de todo
gênero). Suponhamos que uma pessoa foi posta sob interdição. Quem a
representa é o curador (caso da Curatela). Mas essa pessoa acha que já se
curou e quer, portanto, sair do estado de incapacidade, sair da interdição,
para poder, ela própria, cuidar de seus interesses. Ela tem que requere isso
judicialmente.

Ora, imaginem que o curador se recuse a fazê-lo (pode até ter


interesses escusos). Então não haveria saída porque ela só pode ir a Juízo
através do curador. Nessa emergência, a lei permite que ela, a pessoa sob
interdição, passe procuração a um advogado para requerer. O mesmo caso
se passa com o menor sob tutela, que quer se emancipar, tem que requerer
em Juízo a emancipação, mas se o tutor não quiser, ou até mesmo o tutor
pode estar inteiramente convencido de que não deve fazê-lo, o menor pode
requer diretamente. Por exceção, a lei atribui capacidade processual
a certas pessoas que são civilmente incapazes, para discutirem em
Juízo sobre a sua própria capacidade, até que se resolva.

Quais são as consequências processuais da incapacidade da


parte? Suponhamos que se constitua um processo, e nesse processo surja
uma dúvida acerca de capacidade da parte. Sabemos que o incapaz pode
ser parte, apenas deverá estar representado ou assistido - aí não tem
problema.

1ª conseqüência - Obrigatória intervenção do Ministério Público, fiscal da


fiel aplicação da lei. Arts. 82 e seguintes do CPC. Em todos os processos
em que há parte incapaz, i.e., uma parte incapaz ou mais que uma, é
obrigatória a participação do M.P.

2ª - Art. 9º,I CPC. Se a parte for incapaz e não tiver representante legal,
p.ex., um menor que não tenha pai vivo nem que esteja sob tutela, então o
Juiz deve nomear um curador especial. Em certas comarcas existem órgãos
especializados, órgãos públicos, destinados a cumprir essa função. E esse
então seria o curador. Mas quando não houver, o Juiz nomeia qualquer
pessoa idônea para zelar, para representar o menor naquele processo. Já
que ele não pode ficar com a sua incapacidade não suprida, o Juiz nomeia
um representante ad hoc. O curador ali é um representante ad hoc.

Agora, surge no processo uma questão sobre a capacidade.


Essa dúvida pode ser examinada pelo Juiz de ofício, ou só mediante
75
provocação das partes? De ofício. O Juiz deve zelar espontaneamente pela
regularidade do processo. Então ele tem a função de verificar se as partes
são capazes. Em geral, ele o faz ex officio, independentemente do
provocação.

Que providência deve tomar o Juiz quando verifica a existência


de uma parte incapaz, e que essa incapacidade não esteja suprida? Que é
que o Juiz deve fazer? A essa pergunta responde o art. 13. Então o Juiz
verifica que o autor é incapaz. Resultado: marca um prazo para que a
capacidade seja suprida, que venha ao processo o representante legal do
incapaz (a menos que ele não tenha, caso em que o próprio Juiz é que
tratará de suprir a incapacidade, nomeando um curador especial). Fora
disso, o Juiz marca um prazo para que compareça aos autos o representante
legal do autor. Agora se o prazo se esgota e não aparece o representante
legal, embora exista, se não vier ao processo, o Juiz não pode nomear
curador especial, salvo em caso de colisão de interesses (art. 9º, I). Isso a
qualquer tempo, não há momento específico, mas é claro que não pode
ultrapassar a fase chamada de saneamento do processo; porém, se
por acaso ultrapassar, o Juiz estende o processo e marca um prazo para que
o defeito seja sanado. Se não o for, o Juiz então anula o processo, se for o
autor a parte incapaz. E se for o réu a parte incapaz, será considerado
revel. Se o réu for incapaz e tiver representante legal e este não
comparecer no prazo marcado para suprir a falta de capacidade, ele será
considerado revel.

Estas são conseqüências graves. No caso de ser terceiro o


incapaz, será excluido do processo.

Já vimos que uma pessoa pode atingir a condição de parte de


várias maneiras, e uma delas é sucedendo a uma das partes do processo.
Suponhamos que num processo instaurado entre A e B, a certa altura seja
uma dessas pessoas que está na condição de parte sucedida por outra
pessoa. Pode acontecer. Não é a regra, a regra é que o processo corra
todo entre as mesmas partes (art. 264). Depois o art. 41 confirma,
reforçando o que o 264 diz: só é permitido no curso do processo a
substituição voluntária das partes nos casos expressos em lei. Então,
normalmente as partes permanecem as mesmas, só quando a lei estabelece
pode haver a mudança das partes.

Quando as partes são incapazes no processo, e venha a Juízo


um procurador do seu representante legal, houve mudança de partes? Não.
Por outro lado, se a pessoa estava representada e no curso do processo
adquire a capacidade, seu representante é excluído do processo, houve
mudança das partes? Não, porque o processo estava em nome do
representado.
76

Então, vamos imaginar alguns casos importantes de mudança


das partes.

Durante o processo, uma das partes aliena o direito que


litigou. O direito ou a coisa, mas a coisa é objeto do direito de propriedade,
portanto dá no mesmo. A e B estão disputando entre si um imóvel. A tem
aquele imóvel registrado em seu nome, mas B afirma que o registro está
errado e promove uma retificação, querendo o imóvel para si. Durante o
processo, não se pode alienar o imóvel? Pode sim, isto é, se se encontrar
quem queira comprá-lo. A tem o imóvel registrado em seu nome, e pode
vendê-lo a C. Se C estiver convencido de que A vai ganhar o processo, ele
compra o imóvel. Nada impede. Neste caso que é que acontece? Na
relação jurídica de direito material o titular muda, o imóvel que pertencia a
A passa para C, há uma cessão inter vivos no plano material. Qual é a
conseqüência no processo? Art. 42 CPC - "...não altera a legitimidade das
partes", i.e., o processo que corria entre A e B, que eram partes legítimas,
continuará a ter como partes legítimas A e B, embora o direito tenha sido
transferido a C. Então, até ali havia coincidência entre os sujeitos da
relação jurídica de direito material e os sujeitos da relação jurídica
processual. A partir desse momento deixa de haver coincidência, i.e., A
continua sendo parte legítima, mas a sua legitimação se transfere de
ordinária em extraordinária. Ele passa a litigar por direito alheio. A
continua a ter legitimação para a causa, mas sua legitimação não é mais
ordinária porque ele não é mais o titular da relação jurídica de direito
material, e passa a ter legitimação extraordinária.

Art. 42 § 1º - O adquirente não poderá ingressar em Juízo, substituindo o


alienante, sem que consinta a parte contrária. Dependerá de
consentimento a entrada de terceiro no processo.

Art. 42 § 2º - O adquirente poderá intervir no processo assistindo o


alienante. Assistente, neste parágrafo, tem sentido diverso do comum.

Art. 42 § 3º - A sentença proferida entre as partes originárias, estende os


seus efeitos ao adquirente. Se ele comprou o bem em litígio, e sabia disto,
o que fica resolvido o atingirá.

Art. 43 - Ocorrendo a morte da pessoa que era parte, suspende-se o


processo (art. 265). Suponhamos que A tenha alienado em vida o bem.
Isso não provoca mudança de parte, entretanto, se o alienante vier a
falecer, o adquirente prosseguirá na causa, juntando aos autos o respectivo
título e provando a sua identidade. Cessa a necessidade do consentimento
do outro (art. 1061 CPC; não incide o art. 43).
77

LITISCONSÓRCIO

É o fenômeno que ocorre quando, em vez de haver apenas


uma pessoa na posição de autor e uma pessoa na posição de réu, que é o
caso mais comum, figuram no processo duas ou mais pessoas numa ou em
ambas as posições. Chama-se LITISCONSÓRCIO a figura jurídica
consistente na existência, em cada processo, de mais de um autor
ou mais de um réu, ou simultaneamente mais de um autor e mais de
um réu.

A) Dessas três possibilidades já tiramos a primeira


classificação de litisconsórcio: ativo, quando há dois ou mais autores;
passivo, quando há dois ou mais réus; e misto ou recíproco, quando
atuam simultaneamente dois ou mais autores e dois ou mais réus.

Em qualquer caso, todos os autores e todos os réus são partes


principais, estão todos eles em pé de igualdade , e uns em relação aos
outros denominam-se LITISCONSORTES.

B) A segunda classificação concerne ao momento em que esse


fenômeno surge no processo. Pode acontecer que ele exista desde o início,
i.e., duas ou mais pessoas propuseram a ação, ou então a ação foi proposta
em conjunto em face de duas ou mais pessoas. Ou ainda várias pessoas
propuseram a ação em face de várias pessoas. Se isto acontece, portanto,
desde a instauração do processo, denomina-se litisconsórcio originário
ou inicial. Mas pode ser que ele se forme no curso do processo. Por ex.,
uma das partes falece e é sucedida no processo por vários herdeiros. Até
ali não havia litisconsórcio, era um autor único, ou então um réu único. Mas
desde o momento, porém, em que ocorre o falecimento do autor ou então
um réu primitivo, o processo passou a ser integrado por duas ou mais
pessoas que são sucessores da parte falecida; forna-se um litisconsórcio. E
neste caso não é originário, é superveniente ou ulterior. Eis aí então a
segunda classificação.

C) A terceira classificação se baseia em critério


completamente diferente. Há casos em que a presença de duas ou mais
pessoas como litisconsortes é puramente facultativa, i.e., não era
obrigatório que a ação fosse proposta por uma pluralidade de autores, nem
era obrigatório que fosse proposta contra uma pluralidade de réus. Se o foi,
isso resultou apenas da vontade das partes. Duas ou mais pessoas que
poderiam ter proposto ações separadamente, decidiram por sua própria
vontade, propor as suas ações em conjunto, embora não estivessem a isso
obrigadas. Ou uma pessoa que queria propor ação contra várias outras e
78
podia fazê-lo separadamente, resolveu, por motivos de conveniência, propor
essas ações em conjunto. A esse litisconsórcio chamamos facultativo ou
voluntário.

Esse é o caso mais freqüente. Outras vezes, porém, é


absolutamente indispensável que duas ou mais pessoas figurem como
litisconsortes. Isso não acontece do lado ativo, vejam bem. Só acontece do
lado passivo, e é fácil entender porque. Ninguém pode ser obrigado a
demandar em Juízo. Seria uma solução inaceitável esta de a lei dizer: tal
ação só poderá ser proposta por A, B e C. Seria inaceitável porque bastaria
que um deles se recusasse a litigar para que os outros ficassem impedidos.
Ora, ninguém pode ser obrigado a litigar, mas também ninguém pode
impedir que o outro litigue, recusando-se. Então, a lei não exige, não impõe
o litisconsórcio do lado ativo. Litisconsórcio do lado ativo será sempre
facultativo. Mas do lado passivo a lei pode impor . Pode dizer: Se A
quiser propor esta ação terá que fazê-lo não apenas em face de uma
pessoa, porém em face de duas, três ou mais. A este litisconsórcio
caracterizado pela obrigatoriedade, chamamos litisconsórcio necessário,
e essa figura tem uma relação direta com o problema da legitimação para a
causa. Quando a lei impõe que uma ação seja proposta forçosamente
contra duas ou mais pessoas, o que ela está dizendo, em outras palavras, é
o seguinte: a legitimação passiva pertence em conjunto a essas duas, três
ou 20 pessoas, e não a uma delas isoladamente: só o conjunto delas é que
tem legitimação passiva. A ação só estará, portanto, regularmente
proposta se o for em face de todas elas, se for em face de uma só, esta não
é legitimada passivamente. Assim, por ex., quando o M.P. ou quando um
parente de um dos cônjuges pode, de acordo com o Código Civil, em certos
casos, demandar a nulidade do casamento. Pois bem, se o fizer terá que
propor a ação contra marido e a mulher - não poderá propô-la somente
contra um ou outro. Se uma pessoa quiser pleitear em Juízo a anulação de
um contrato celebrado entre 5 pessoas, terá que propor contra todas, e
sendo ele mesmo uma delas, terá que propor contra as outras quatro. Quer
dizer, só o conjunto delas é que é passivamente legitimado, uma sozinha
não é. O problema do litisconsórcio necessário nada mais é do que um
problema de legitimação para a causa, legitimação conjunta, e legitimação
passiva.

D) Uma outra classificação, que não se confunde com esta,


embora tenhamos de ver daqui a pouco que o Código na sua
regulamentação da matéria não foi muito feliz e confundiu as duas coisas,
baseia-se num critério, é claro, diferente, mas que por vezes não é muito
fácil de distinguir. Daí a confusão feita pela lei.

Este outro critério a que me refiro agora diz respeito ao teor


da decisão de mérito, da sentença de mérito. Há casos em que a sentença
79
de mérito é obrigatoriamente de teor igual para todos os litisconsortes, i.e.,
o Juiz não pode, suponhamos, acolher o pedido em relação a uma e não
acolher em relação a outro, até mesmo as soluções têm que ser todas
iguais. Em outro casos isto não é obrigatório, i.e., embora as pessoas
estejam litigando juntas, é concebível que o Juiz dê soluções diferentes para
cada uma delas. Por ex., se várias pessoas se dizem vítimas de um mesmo
acidente de trânsito e resolvem propor as suas ações de indenização contra
o suposto responsável pelo acidente. Pode acontecer perfeitamente que
uma delas consiga convencer o Juiz de que o dano que ela sofreu resultou
daquele acidente, o culpado foi mesmo o réu, e portanto o réu deve ser
condenado a indenizá-la. E pode acontecer que outra pessoa não consiga
convencer o Juiz de que seu prejuízo resultou daquele acidente, não consiga
provar a relação de causalidade entre o dano que diz ter sofrido e aquele
fato. Então, em relação a esta pessoa o Juiz não vai obviamente condenar o
réu. Outro ex.: vários funcionários acionam em conjunto o Estado, todos
dizendo-se com direito a determinado benefício patrimonial. O Juiz verifica
que alguns preenchem os requisitos para a obtenção daquele benefício,
outros não, ou pelo menos não conseguem provar que esses requisitos
estão satisfeitos. Então o Juiz pode perfeitamente acolher o pedido de uns
e rejeitar o de outros. Não há necessidade de uma solução
obrigatoriamente igual.

Neste último caso, em que as soluções que se vão dar aos


pedidos, e portanto, as soluções que se vão dar às situações dos vários
litisconsortes, podem ser diferentes, nós dizemos que se trata de
litisconsórcio simples ou comum. No caso, porém, em que a decisão de
mérito tem que ser obrigatoriamente homogênea, igual para todos os
autores ou para todos os réus, dizemos que o litisconsórcio é unitário.

Agora, atenção: Esta classificação, repito, não se confunde


com a anterior - uma coisa é eu dizer "é obrigatória a presença de A ou B
no processo, sem o que a ação não estará bem proposta" - isto diz respeito
ao problema de saber se o litisconsórcio é facultativo ou se é necessário.
Outra coisa é dizer: "se A e B estiverem presentes no processo, a solução
que o Juiz vai dar tem que ser igual para ambos". Completamente
diferente. Então, no primeiro problema a indagação central é a seguinte: "É
preciso que A e B participem do processo?" Se eu disser NÃO, o
litisconsórcio é facultativo; se disser SIM, é necessário. No outro problema,
a pergunta é: "Caso A e B participem do processo, pode o Juiz decidir
diversamente quanto a A e quanto a B, ou é obrigado a dar a mesma
solução para ambos?" Se eu disser que ele pode resolver diversamente o
litisconsórcio é comum ou simples; se disser que NÃO, que ele é obrigado a
dar a mesma solução para ambos, então o litisconsórcio será unitário.
80
Aliás é fácil mostrar que o litisconsórcio unitário nem sempre
é necessário. Imaginem a seguinte situação:

Uma S.A. realizou uma assembléia para alterar seus estatutos


e o fez, segundo se alega, de modo ilegal. Por ex., não publicou editais que
permitissem a todos os acionistas tomar conhecimento do que se ia
deliberar sobre aquela matéria e portanto comparecer. Então surge na
mente de um ou de vários desses acionistas a idéia de propor uma ação
para anular aquela deliberação ilegal. Pergunta-se: se um deles quiser
fazer isto, terá que chamar os outros para litigar junto com ele? ou pode
sozinho tomar esta decisão? Pode tomar essa decisão sozinho, mas pode
também junto com outros. Então é possível que surja o litisconsórcio, mas
esse litisconsórcio será sempre facultativo. E seria até absurdo pretender
que fosse necessário, bastaria um dos acionistas não querer, para impedir a
ação. Mas estes que se coligam, se litisconsorciam, estão se
litisconsorciando facultativamente, não necessariamente. Agora eu
pergunto, admitindo-se que 2, 3, 5 ou 1.000 pessoas proponham juntas a
ação pretendendo anular a deliberação que alterou os estatutos, pode o Juiz
julgar procedente o pedido de um deles e julgar improcedente o de outro,
ou dos outros? Claro que não. É uma impossibilidade total, porque ele
estaria fazendo o seguinte: julga procedente o pedido de A e portanto anula
a deliberação; julga improcedente o pedido de B e portanto não anula a
deliberação. O mesmo ato não pode ser ao mesmo tempo válido e nulo, não
pode ser desfeito e ser conservado. Se ele anula para um, anula para todos
obviamente. Não há como tratar diversamente os vários litisconsortes que,
no entanto, repito, não estavam obrigados a agir juntos.

Então esse litisconsórcio nós teríamos que considerá-lo como


unitário, porque a solução que se der para um terá de ser a mesma que se
dará para todos, porém ele não é necessário no sentido de que a ação pode
perfeitamente ser proposta por um só dos acionistas isoladamente sem
necessidade de fazer-se acompanhar de outros. O Código tratou mal essa
matéria, e confundiu as duas figuras.

Vistas essas classificações, vamos agora examinar a disciplina


vigente no nosso Código para o litisconsórcio.

Arts. 46 e seguintes. É claro que a lei não admite que duas ou


mais pessoas litiguem juntas em qualquer caso. Não teria esse motivo.
Suponhamos, por ex. que o marido queira: a) obter a sua separação judicial
da mulher; b) obrigar o vizinho a fazer uma obra no prédio que ameaça
desabar sobre o de sua propriedade. Seria razoável que nós permitíssemos
e este marido propor as duas ações em conjunto? São duas coisas
completamente diferentes, então não há possibilidade nenhuma de
litisconsórcio entre a mulher e o vizinho. Então, a lei estabelece
81
determinados pressupostos, i.e., a lei prevê certas situações que devem
existir para que haja o litisconsórcio. Vejamos quais são:

Art. 46, inciso I - Comunhão de direitos e obrigações. Esse


caso é fácil de entender. As relações jurídicas de direito material discutidas
no processo, que tenham uma pluralidade de titulares. Esses titulares todos
podem agir ou ser demandados em conjunto. Por ex., o condomínio pro-
indiviso (sem separação): uma casa pertence a cinco pessoas, suponhamos.
Esta casa é invadida por um estranho. Qualquer dos condôminos pode,
sozinho, acionar o estranho para que desocupe a casa. Porém, nada impede
que dois ou três deles, ou mais, ajam em conjunto, e eis aí o caso da
comunhão de direitos. Agora vejamos o caso da comunhão de obrigações:
alguém é credor de duas pessoas numa obrigação solidária (aquele em que
cada um dos devedores responde pela dívida toda). Pode optar entre
acionar um ou outro deles sozinho, ou acionar os dois - eis aí o
litisconsórcio com dogma no inciso I - comunhão de obrigações (melhor
seria comunhão na obrigação, porque ela é uma só).

Os incisos II e III já não são tão simples, porque há uma


parcial superposição, e não se pode traçar uma linha nítida entre o território
do II e o do III. Vejam que a conexão pela causa de pedir implica em que o
fundamento seja o mesmo. E o inc. II também fala em fundamento. De
sorte que em parte esses dois incisos se superpõem. Em parte, não
totalmente, porque no inc. III também temos a conexão pelo objeto. Então
são duas hipóteses distintas: a) as várias pessoas estão ligadas por um
igual fundamento; b) estão ligadas por um igual objeto, i.e., pretendem
todas a mesma coisa. Pode acontecer até que haja simultaneamente
igualdade de fundamento e igualdade de objeto, mas não é necessário,
basta uma dessas igualdades. Naquele exemplo de vários acionistas que se
coligam para, alegando que o edital não foi publicado regularmente, pedir a
anulação da deliberação de Assembléia que modificou os estatutos, nós
temos ao mesmo tempo igualdade de fundamento (a falta de publicação do
edital) e também de pedido (anulação daquela deliberação). Mas isso nem
sempre ocorre, e bastaria que fosse igual o fundamento ou que fosse igual o
pedido. Um acionista poderia alegar que o edital não foi publicado: outro
poderia alegar que o estatuto não poderia ser alterado por um quorum de
votos inferior a X e no entanto o quorum existente naquela Assembléia foi
inferior. Assim nós temos duas causas de pedir diversas. Mas ambos
pedem a mesma coisa, a saber, a anulação. Bastaria isso para permitir que
eles propusessem a ação juntos.

Inciso IV - Este caso deve ser destacado do nº II. Não se


confundem, embora aparentemente os srs. talvez encontrem alguma
semelhança. Mas aqui a ligação é mais tênue, não é necessário que o
fundamento seja o mesmo, basta que entre os fundamentos haja um ponto
82
comum de fato ou de direito. Por ex., no caso das várias pessoas que se
dizem vítimas de um mesmo acidente de automóvel e desejam do suposto
causador indenização dos prejuízos que cada um sofreu. Vamos imaginar: A
e B dizem-se vítimas de um mesmo acidente e alegam que sofreram danos
em conseqüências disso e que C foi culpado do acidente, e então propõem
ações em conjunto no mesmo processo. Poderiam propô-las
separadamente, o litisconsórcio, portanto, é facultativo. Pode o Juiz
condenar C a ressarcir os danos de A e não o condenar a ressarcir os danos
de B? Pode, porquanto o litisconsórcio não é nem necessário, nem unitário.
Mas vamos analisar onde é que nós poderíamos enquadrá-lo:

Será que A e B têm, ou invocam, a mesma causa petendi? A


causa petendi é o conjunto dos fatos que podem dar razão à pessoa - que
podem tornar A titular de um crédito a título de perdas e danos contra C.
Que é preciso que tenha havido? Um acidente, e que este acidente tenha
causado dano a A e que haja relação de causalidade entre esse dano e o
comportamento de C. E quanto a B? Qual é a causa de pedir de B? O
acidente, dano contra B. Dano contra B é a mesma coisa de dano contra A?
Não é. Relação de causalidade: dizer "o comportamento de C causa dano a
A" é a mesma coisa que dizer "o comportamento de C causa dano a B? Não
é a mesma coisa. Pode ter causado um e não ter causado o outro. Então a
causa petendi não é uma só. Há duas, e haverá tantas quantas forem as
vítimas. Cada vítima invoca uma causa de pedir. O pedido também não
é o mesmo. Quando A pede que seu prejuízo seja ressarcido, não é
a mesma coisa que quando B pede que o seu também o seja. Ainda
que sejam de valores iguais. Do contrário, se o Juiz condenasse C a
pagar a A, não precisaria condená-lo a pagar a B, porque o pedido deste já
estava atendido. Então, não há nem a mesma causa de pedir nem o mesmo
pedido. São pedidos análogos mas não é o mesmo pedido. Comparem com
o caso dos acionistas, para ver a diferença. Todos os acionistas pedem
"anulem a deliberação". É o mesmo pedido. Logo, não há identidade nem
de fundamento nem de pedido. Então não pode se enquadrar nem no inciso
II nem no inciso III.

Quando o Juiz for apurar os fatos em relação às várias


supostas vítimas do acidente, ele vai ter que fazer uma porção de
indagações que são comuns aos casos de todas elas. Por. ex.: o sinal
estava aberto ou fechado? Eis aí um ponto comum de fato que interessa a
todos. O carro que colheu as vítimas é o mesmo? Estava ele numa
velocidade superior a 50km/h? Essas perguntas são comuns - não é a causa
petendi que é comum, são essas perguntas, essas questões, cujo deslinde
aproveita ou desaproveita, conforme as respostas, a todos os litisconsortes.
Daí que vai haver uma certa vantagem tática de serem julgados todos esses
litígios em conjunto, e essa vantagem tática é que a atividade de
instrução, ou seja, a colheita de provas, interessa a todos. As
83
mesmas testemunhas vão poder depor e isso interessa a todos; o mesmo
perito poderá apurar coisas que interessam a todos. Então o litisconsórcio é
mais prático. A lei não obriga, mas permite.

Art. 47 - Como vêem, o legislador equivocou-se. Afirmou que


o litisconsórcio é necessário quando o Juiz tiver de decidir a lide de modo
uniforme. E diz ainda "de modo uniforme para todos as partes", quando
deveria dizer de modo uniforme para todos os litisconsortes. Mas mesmo
corrigindo isso, não fica boa a frase, a disposição do artigo. Isto tem dado
margem a que os interprétes, os comentadores do Código, procurem dar um
jeito, do contrário ele se torna pressuposto de gravíssimas conseqüências.
Se for aplicado ao pé da letra, nós devemos considerar necessário, e
portanto indispensável, aquele litisconsórcio dos acionistas que deve anular
a deliberação. Porque não há dúvida nenhuma de que o Juiz só pode fazer
uma de duas coisas: ou anula para todos ou não anula para nenhum, a
solução tem que ser uniforme. Mas se nós formos considerar que um
acionista não pode propor sozinho a sua ação, que é que significa se for
necessário o litisconsórcio, nós vamos impedir que essa ação seja
instaurada. Então, o artigo 47 tem sido "chutado para córner", na prática
judiciária, i.e., nenhum Juiz se lembra de exigir uma tolice dessas.

O que interessa é que se saiba quando é que o litisconsórcio é


necessário e quando é unitário. Ele é necessário quando não é possível
deixar de haver mais de uma pessoa na mesma posição processual. É aí
que ele é necessário. Isso pode acontecer quando a lei disser. Por ex.:
quem propõe uma ação de usucapião (ação para declarar que a pessoa
adquiriu a propriedade ou o bem porque estava na sua posse desde certo
tempo com determinados requisitos). Quando a pessoa propõe a ação de
usucapião, a lei diz contra quem ela deve propor. Art. 942, II -
litisconsórcio passivo. A lei está dizendo que a ação deve ser proposta
contra todos eles. Então o litisconsórcio deve ser necessário, por expressa
disposição de lei e aí o problema é fácil. E fora desses casos, quando lei
não diz? Pode haver litisconsórcio que seja necessário sem que a lei
disponha? Pode. São os casos do pedido de nulidade ou anulação de um
mesmo ato praticado por várias pessoas. Todas as vezes que alguém
pleitear em juízo a nulidade ou anulação de um ato jurídico do qual
participaram duas ou mais pessoas, obrigatoriamente deve propor a
sua ação contra todas elas. Ex.: ação do M.P. para pleitear anulação de
casamento. Que pessoas participaram do ato judicial do casamento?
Marido e mulher. Então, a ação é proposta contra ambos. Alguém quer
anular um contrato do qual participaram sete pessoas. Aquela que quer
anular é uma delas. Contra quem deve propor a ação? Contra as seis
restantes. Somente o litisconsórcio passivo é necessário. O ativo é sempre
facultativo.
84
Por que é que importa saber se o litisconsórcio em
determinado caso é ou não é necessário? Qual a conseqüência prática que
se tira daí? Isso sim, isso está no parágrafo único do art. 47. Para isso
esse art. é útil. Se o caso é de litisconsórcio necessário, e o autor ao
propor a sua ação só a propôs contra N-1 pessoas, ou N-2, etc., sendo N o
número de litisconsortes necessários, está propondo mal. Só quem tem
legitimação passiva é o conjunto N. Qual é a providência cabível? O Juiz
marca um prazo para que o autor promova a citação daqueles que faltam,
isto é, complete, integre o contraditório, acerte as coisas. Se ele não
cumprir o despacho, o Juiz julga extinto o processo sem julgamento
do mérito. É um caso de carência de ação, falta de legitimação
passiva.

Art. 48 - Em princípio vigora uma autonomia para os vários


litisconsortes. Os atos que um pratica, não precisa dar satisfação aos
outros, produz efeitos para ele e não para os outros. Atuam portanto
autonomamente, separadamente, e cada qual recebe os benefícios ou as
desvantagens que resultam do seu próprio comportamento. Se um faz a
prova e outro não faz, esse convence o Juiz e o outro não. Este é o princípio
geral, mas, e quando a solução tem que ser igual para todos? Não pode ser
assim nesse caso. Vamos supor que uma pessoa proponha uma ação contra
dois supostos causadores de um dano, para se ressarcir de um dano que
teria sido causado pelas duas pessoas em conjunto. Esse litisconsórcio é
unitário ou não? Será absurdo que o Juiz condene um e não condene o
outro? Não. Porque pode ficar provada a participação de um e não a de
outro. Então as soluções são independentes, pode ser que ambos sejam
condenados, ou pode ser que um seja e o outro não. O litisconsórcio é
comum, não é unitário. Então respondam: A é o autor. B e C os réus. B
reconhece o pedido de A. B vai ser condenado. C não reconhece. Então no
tocante a C o Juiz é livre de condenar ou não, mas no tocante a B o Juiz está
obrigado a condenar. Quando o réu reconhece o pedido do autor está
perdido. Agora, suponhamos que alguém, que celebrou um contrato com B
e C propõe uma ação para anular esse contrato. Pode o Juiz anular o
contrato em relação a B e não anular em relação a C? Não pode, o contrato
não pode ao mesmo tempo ser anulado e ficar sem anular. Então aí a
solução tem que ser igual. O litisconsórcio além de ser necessário é
também unitário.

E se B reconhece o pedido e C não? Só há duas soluções


possíveis: na primeira hipótese: B reconhece o pedido mas C não, ele
contesta. Mas a solução tem que ser igual. Então, de duas uma: ou eu
estendo a C o efeito do reconhecimento do pedido por B (o que é
obviamente iníquo, porque estou privando C do direito de defesa) ou então
eu nego efeito ao ato de B. Qualquer das duas soluções assegura a
uniformidade da decisão. Então, nestes casos os atos que influem
85
diretamente sobre o pedido (como é o caso da renúncia, se forem autores),
só produzem efeitos se forem praticados por todos, e aqui há o problema do
recurso. Suponhamos que na primeira instância o Juiz julgou procedente o
pedido de anulação do contrato e portanto julgou procedente tanto quanto a
B como quando a C, porque não é possível deixar de tratar uniformemente o
co-réus, os litisconsortes. Mas acontece que eles podem recorrer. Na
primeira instância ambos perderam, suponhamos que só um recorra e o
Tribunal ache que ele tem razão. Como é que fica o outro? O recurso de
um deles produz efeitos para o outro, do contrário há o perigo outra vez das
soluções desiguais. Isto é tanto para o litisconsorte ativo como para o
passivo - mas só para o unitário. Se não for unitário, cada um que
recorra por si. Um não se aproveita do recurso do outro.

No ex. do acidente de trânsito, as vítimas, tendo perdido, uma


pode recorrer a ganhar a indenização só para ela. Só no litisconsórcio
unitário o recurso interposto por um aproveita aos outros que não
recorreram, e o litisconsórcio é unitário quando é praticamente
impossível a divergência.

Então, há dois regimes para os litisconsortes: um da


autonomia, porque o que cada um faz só a ele próprio beneficia ou
prejudica. É o caso do litisconsórcio comum que não é unitário. Porém,
quando a solução tem que ser obrigatoriamente igual, os atos de cada um
que influem diretamente no desfecho do litígio, ou são praticados por todos,
e é claro que produzem efeitos para todos, ou não são praticados por todos
e não produzem efeitos nem mesmo para aqueles que os praticam, e
quanto ao recurso, o interposto por um ou por alguns estende seus
efeitos aos outros.

INTERVENÇÃO DE TERCEIROS

Em relação a um determinado processo, abstraído o Juiz, uma


pessoa só pode ocupar uma de duas posições: ou é PARTE (autor ou réu), ou
NÃO É PARTE. Não se considera uma terceira possibilidade. Ou esse
indivíduo é parte ou não é parte daquele processo. A toda pessoa que
não figura como pare num determinado processo, nós denominamos
de TERCEIRO. O conceito de terceiro se define, portanto, por exclusão do
conceito de parte. Quem quer que, em relação a um determinado processo,
não seja parte, é terceiro.

Pode acontecer que, diante de determinadas situações, no


curso de um processo, alguém que não figurava nele até então como parte,
i.é, terceiro, no curso do processo venha a assumir a qualidade de parte. É
86
justamente a esse fenômeno que se dá o nome de INTERVENÇÃO DE
TERCEIRO. É o fenômeno em virtude do qual se transforma em parte
o terceiro. A intervenção de terceiro em todas as suas modalidades
pressupõe, portanto, que haja um terceiro, i.e., alguém que não figure
como parte num processo, e que haja a pendência de um processo
no qual vai intervir e no qual vai o terceiro tornar-se parte. Essa
intervenção pode dar-se, ou por iniciativa do terceiro ou sem iniciativa dele.
Pode dar-se quer em função de ele haver manifestado a vontade de intervir
no processo, quer em função da sua convocação ao processo, feita pelo
órgão judicial, a requerimento ou não das partes, que já figuravam no
processo.

A intervenção, portanto, conforme esteja ou não a sua


ocorrência vinculada à vontade do terceiro, pode ser voluntária ou
espontânea (quando se dá por iniciativa dele mesmo), como pode ser
forçada, provocada, coacta, quando ocorre não por ato dele, mas pela
sua convocação através do órgão judicial, a requerimento das partes ou
não.

A intervenção de terceiros, portanto, comporta modalidades


espontâneas ou voluntárias, ou modalidades forçadas, provocadas ou
coactas. Vejam bem: quando nós dizemos modalidades forçada de
intervenção de terceiros, nós não estamos querendo dizer que alguém vai
compelir fisicamente o terceiro a atuar. Não é isso. Ninguém vai obrigá-lo
à prática efetiva de atos naquele processo. Ela é forçada no sentido de
que se torna parte com a possibilidade de atuar naquele processo,
independentemente da sua iniciativa. O terceiro se torna parte,
assumindo conseqüentemente os direitos, as faculdades os ônus
processuais peculiares à posição de parte, independentemente de sua
própria iniciativa. O ato através do qual se vincula o terceiro ao processo,
se transforma o terceiro em parte, independentemente de sua vontade, é a
citação.

Existem três formas de assumir a qualidade de parte no


processo: ou instaurando o processo, ou sendo citado para réu, ou então
intervindo voluntariamente no processo.

O fenômeno da intervenção de terceiros engloba uma


série de institutos que podem ser agrupados em função dessa
classificação. Existem institutos que constituem modalidades
espontâneas de intervenção de terceiros no processo e existem
institutos que constituem modalidades forçadas de intervenção.
Essa intervenção pode ocorrer no processo de conhecimento, pode
ocorrer no processo de execução, como pode ocorrer no processo
cautelar.
87

Vamos enumerar aqui apenas aquelas modalidades que podem


ocorrer no processo de conhecimento, que é o que estamos estudando. E
dentre elas não veremos todas.

No processo de conhecimento, portanto, constituem


modalidades voluntárias ou espontâneas de intervenção de terceiros: a
ASSISTÊNCIA, a OPOSIÇÃO e o RECURSO, que recebe tradicionalmente o
nome de Recurso de Terceiro Prejudicado e que os srs. estudarão quando
estudarem os recursos.

As modalidades forçadas, provocadas ou coactas são: a


NOMEAÇÃO À AUTORIA, a DENUNCIAÇÃO DA LIDE, o CHAMAMENTO AO
PROCESSO, e uma quarta que se denomina IUSSU JUDICIS, termos latinos
que significam sob determinação do Juiz. Um exemplo dessa modalidade os
srs. já viram quando estudaram o litisconsórcio (litisconsórcio necessário
quando não figuram no processo todas as pessoas que deveriam figurar -
art. 47, parágrafo único do CPC)

Vejamos, ainda em caráter geral, quais são os efeitos da


intervenção de terceiros, em caráter comum. Estamos estudando, vamos
dizer, a parte geral da matéria para depois estudarmos os institutos
específicos em que ela se manifesta. Portanto, em caráter genérico, efeitos
da intervenção de terceiro:

1) O primeiro e o mais importante consiste em transformar-


se o terceiro em parte. Intervindo no processo por sua iniciativa ou não,
o terceiro assume a qualidade de parte, e assume conseqüentemente os
deveres, direitos, faculdades e ônus processuais a que se encontram
sujeitas as partes (a rigor, depois da intervenção, o terceiro não é mais
terceiro, é parte - apenas para não confundir, vou continuar chamando-o de
terceiro).

Três coisas podem acontecer, intervindo no processo o


terceiro: pode ficar reservada ao terceiro a qualidade de parte, mas numa
função secundária no processo. Parte acessória, não igualada inteiramente
à condição das partes que figuravam e continuarão a figurar no processo.
Essa é uma das possibilidades - o terceiro intervindo no processo, são
mantidas em suas posições as partes que originariamente nele
figuravam, mas o terceiro assume uma posição secundária,
acessória. Então aí ele não se iguala plenamente às partes
originarias.

Outra possibilidade está em que o terceiro, intervindo no


processo, assuma qualidade idêntica, equiparada à das partes que já
88
figuravam no processo. Assume a posição de parte principal,
mantendo-se as partes que figuravam originariamente.

E há ainda uma terceira hipótese, que é a de o terceiro


intervir, assumir a qualidade de parte principal, e provocar com isso a
exclusão do processo de uma das partes que originariamente
figuravam nele.

Em resumo: num caso, o terceiro torna-se parte, mantidas as


partes originárias, mas torna-se parte acessória, numa posição secundária;
no outro caso o terceiro assume a posição de parte principal e se mantém
as partes que originariamente figuravam no processo - o terceiro, por ex.,
figurará como co-litigante, ou ao lado do autor, como litisconsorte dele,
como co-autor, ou ao lado do réu como litisconsorte dele, como co-réu. E
uma terceira possibilidade está no terceiro intervir, assumir a qualidade de
parte principal e expulsar do processo uma das partes, assumir a posição
que até então era ocupada por uma das partes.

METÁFORA: Comparando o processo a um trem que sai da estação


originária com dois passageiros sentados num vagão da mesma categoria -
o autor e o réu. Numa estação intermediária pode acontecer que, ou queira
entrar um terceiro passageiro, ou seja içado para dentro do trem. E aí,
entrando no trem esse terceiro passageiro, três coisas podem acontecer: a
primeira é ele não expulsar os que já estavam ali no trem, mas tomar um
vagão de segunda classe, ficar numa posição secundária; a segunda coisa
seria ele sentar-se ao lado daquele que já ali estava; e a terceira seria ele
tomar o mesmo vagão e sem a mínima cerimônia expulsar um daqueles
passageiros do trem. Aí está então o que pode acontecer em termos de
relação do terceiro que intervem com as partes originárias.

2) Vejamos outro efeito, no tocante à competência. Vamos


figurar dois exemplos:

1º) imaginemos aqui na capital um processo correndo por uma das varas
cíveis. A competência era de uma das varas cíveis realmente. E a partir de
um determinado momento no processo o Estado do Rio de Janeiro (que
dispõe aqui de um juízo privativo para os processos dos quais ele participe,
que é a Vara de Fazenda Pública - uma delas) intervenha no processo. Ora,
a vara cível não tem competência para processar causas das quais participe
o Estado do RJ, e a incompetência dela será absoluta, de tal maneira que,
ocorrendo a intervenção do Estado num processo que esteja pendendo
perante uma das varas cíveis, a conseqüência da intervenção vai ser
deslocar aquele processo para um juízo privativo do Estado, porque
a vara cível é incompetente para processar causas de que participe
89
o Estado do RJ, e mais: como se trata de incompetência estabelecida em
função da pessoa, a incompetência é absoluta.

2º) vamos imaginar outra coisa: um processo correndo aqui na comarca do


Rio de Janeiro, e a partir de determinado momento intervem nele um
terceiro como parte principal excluindo o réu. Imaginemos que esse
terceiro tenha domicílio não aqui, mas em São Paulo, e que a competência
de foro deva estabelecer-se em função do domicílio do réu. Se o processo
fosse originariamente instaurado contra o terceiro, deveria ter sido
instaurado em São Paulo, mas foi instaurado aqui e a partir de determinado
momento o terceiro assume a posição de réu e tem domicílio em S.Paulo. É
óbvio que o foro do R. de Janeiro é incompetente para essa causa. Mas qual
a natureza dessa incompetência? Essa incompetência é territorial, e
portanto, em regra, relativa. De tal maneira que nessa hipótese o órgão é
incompetente, mas relativamente incompetente para aquela causa. O que
vai ocorrer em função da intervenção de terceiro não é deslocar-se o
processo para o órgão que seria competente, mas prorrogar-se a
competência daquele órgão perante o qual corria o processo. É o
que diz o art. 109 do CPC, que nós deixamos de ver minuciosamente quando
estudamos a prorrogação da competência, mas ficamos de voltar a ele, e
voltaremos outras vezes. O que o Código quer dizer é isso: quando possível
(quando a incompetência for relativa) vai prorrogar-se a competência do
órgão perante o qual já corria o processo.

ASSISTÊNCIA

A Assistência está disciplinada no CPC, nos artigos 50 de


seguintes. Aparentemente em discrepância com o que nós dissemos aqui,
está fora do capítulo da Intervenção de Terceiros. A rigor não há razão que
justifique isso. A assistência está tratada no Capítulo IV, no Título II do
CPC, no livro relativo ao processo de conhecimento, juntamente com o
litisconsórcio. Se os srs. forem ao índice verão que o Cap. IV, seguinte,
trata da intervenção de terceiros. A rigor, é uma colocação tradicional da
assistência, isso porém não se justifica. A assistência é, e disso ninguém
duvida, uma modalidade de intervenção de terceiros. Não se deixem
impressionar, portanto, pelo índice do Código. A ASSISTÊNCIA é uma
modalidade de intervenção de terceiros, e modalidade voluntária, de
tal maneira que a sua ocorrência dependerá sempre da manifestação
da vontade do terceiro.

O Código, na seção dedicada à assistência, disciplinou duas


espécies de assistência, que já se encontram devidamente batizadas pelo
doutrina. Não são denominações legais. Uma delas é a figura comum de
assistência, a figura tradicional de assistência a que se deu o nome de
90
assistência simples, e há uma segunda espécie que deixaremos para
tratar no fim da aula, e que se denomina de assistência litisconsorcial,
denominação também doutrinária e não legal, ou assistência qualificada.

Então temos ASSISTÊNCIA SIMPLES e ASSISTÊNCIA


LITISCONSORCIAL ou QUALIFICADA. Ambas as denominações são
doutrinárias, não é a lei que as emprega. Existe entre ambas uma diferença
bastante expressiva que veremos adiante qual é. Por ora, vamos nos
concentrar na assistência simples, cujos pressupostos vêm indicados no art.
50 e seu parágrafo único. Pressupostos da assistência são: em primeiro
lugar, como em todas as modalidades de intervenção de terceiros, a
fluência, a pendência de um processo; em segundo, diz o parágrafo único
que não há uma limitação de tempo para que ocorra a assistência, para que
o terceiro assuma a condição de assistente, e diz que tem lugar em
qualquer dos tipos de procedimento e em todos os graus de jurisdição, até o
momento em que transitar em julgado a decisão. Até o momento em que se
encerrar o processo de conhecimento é admissível a intervenção do
assistente. O requisito mais importante diz respeito ao interesse jurídico:
pendente uma causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro que tiver
interesse jurídico em que a sentença seja favorável a uma delas, pode
intervir no processo. Interesse jurídico em que a sentença seja
favorável a uma das partes originárias, que seja favorável ao
assistido, que é aquele em favor de quem intervem o assistente.

Vamos ver em que consiste isso: no processo se trata, em


regra, de discussões em torno de uma relação jurídica. Pode acontecer que
no plano do direito material, dessa relação jurídica que está sendo discutida
no processo, dependa uma outra; que outra relação jurídica esteja vinculada
a essa a respeito da qual se discute no processo, que a sorte, o destino de
uma outra relação jurídica se encontre subordinada à sorte ou ao destino da
relação jurídica discutida ali, de tal maneira que a decisão que venha a
ser proferida naquele processo vá, não diretamente, mas por vias
reflexas, repercutir nessa outra relação jurídica. Nessas condições, a
lei autoriza o terceiro, que é titular dessa outra relação jurídica suscetível
de sofrer reflexamente a influência daquele decisão, a intervir no processo
a fim de que, com a sua atuação, aumente a probabilidade ou a
possibilidade de êxito daquela parte cuja vitória lhe interessa.

Ex.: Locação e sublocação. Já sabem que se trata de duas


relações jurídicas distintas. A locação, estabelecida entre locador e
locatário e a sublocação, estabelecida entre o locatário, que assume a
posição de sublocador, e o sublocatário. Existe uma regra no C.Civil que
exige que, extinta a locação, cessa a sublocação. Imaginem então o
seguinte: o locador moveu uma ação contra o locatário, visando a desfazer
a locação e a reaver a posse do imóvel locado. Ora, o sublocatário não é
91
titular dessa relação jurídica, ele não é titular da locação. Mas é titular de
uma relação jurídica diversa mas vinculada a ela, a sublocação, cuja sorte
vai depender da decisão que vier a ser proferida nesse processo. Porque,
afinal, se o Juiz entender de acolher o pedido do autor de desfazer a
locação, os efeitos dessa decisão indiretamente vão terminar por atingir o
sublocatário. Não porque o Juiz se tenha manifestado a respeito da
sublocação, mas por força de ele haver desfeito a locação, e pelo fato de
que o C.Civil estabelece que, cessada a locação, extingue-se a sublocação.
Nessas circunstâncias, facilmente se compreende que o sublocatário tenha
interesse em intervir nesse processo com a finalidade de obter nele a
vitória do locatário, a subsistência da locação, da qual depende a
subsistência da relação jurídica de que ele é titular.

Então está aí uma relação jurídica diversa da relação jurídica


sobre a qual se discute no processo, mas vinculada a ela, de tal maneira
que a decisão que venha a ser proferida vai reflexamente, indiretamente,
repercutir na relação jurídica de que é titular o terceiro. Nessas condições,
tem o terceiro interesse jurídico reconhecido pela lei, em intervir no
processo a fim de obter, ou tentar obter a vitória do locatário.

Outro exemplo: a fiança não subsiste se for nulo o crédito ao


qual ela se presta como garantia. Imaginemos que o devedor proponha uma
ação declaratória negativa do crédito, uma ação na qual ele peça que o Juiz
declare a inexistência da relação de crédito. O crédito e a fiança
constituem relações jurídicas distintas, o crédito tendo como sujeito ativo o
credor e passivo o devedor, a fiança tendo por sujeitos, de um lado o fiador
que está garantindo o cumprimento da obrigação principal e de outro lado o
credor; a fiança estabelece relação jurídica entre fiador e devedor. Muito
bem, o devedor então propõe uma ação declaratória da inexistência do
crédito. Ora, não está se discutindo no processo sobre a fiança, mas se o
Juiz vier a acolher o pedido, indiretamente essa decisão é suscetível de
influir da relação jurídica de que é titular o fiador, na medida em que,
reconhecida a nulidade da relação de crédito, a fiança não subsistirá. De
maneira que, numa hipótese como essa, terá o fiador interesse em intervir
no processo entre o credor e o devedor a fim de tentar ajudar o devedor a
obter uma vitória nesse processo.

São essas as circunstâncias que geram para o terceiro o


interesse jurídico a que alude o CPC como pressuposto da assistência
simples. Agora vejam os srs.: é necessário que esse interesse seja
jurídico. Em outras palavras, não basta interesse de fato. Os srs.
poderiam reconhecer em qualquer credor interesse em ver rejeitada a
pretensão de outro credor no tocante à cobrança de uma dívida contra o
devedor comum. Todo credor tem interesse em que os demais credores não
recebam, na medida em que, se os outros não receberem, mais consistente
92
será o patrimônio do devedor comum, e maiores serão as possibilidades de
ele, credor, receber o seu crédito. Poderíamos assim reconhecer em
qualquer credor interesse para ajudar o devedor a derrotar todos os demais
credores. Mas vejam bem, nesse caso, a decisão que vier a ser proferida
entre um outro credor e o devedor comum não vai gerar nenhuma
conseqüência jurídica sobre o outro crédito. O outro crédito vai subsistir
incólume. Eventualmente o que vai diminuir é a possibilidade prática, não
jurídica, de o outro credor ter o seu crédito satisfeito. Não há portanto
nesse caso interesse jurídico porque não há uma influência do ponto de
vista jurídico daquela decisão sobre o outra relação jurídica de que
é titular o terceiro. Então nessa hipótese o interesse que se reconheça
ao credor não o autoriza a intervir como assistente. É necessário interesse
jurídico, não bastando interesse de fato.

Vejamos os efeitos da ASSISTÊNCIA SIMPLES:

1º) A assistência não acarreta uma dilatação da área de


discussão de um processo, não provoca um aumento do objeto do
processo. A área sobre a qual vai incidir o julgamento não é aumentada
em função da intervenção do assistente. Este não intervem para discutir a
sua relação jurídica, ele não intervem para colocar questões relativas à
relação jurídica de que ele é titular. A finalidade da intervenção é auxiliar
uma das partes a obter vitória naquele processo. O sublocatário não
poderia evidentemente, intervindo, querer discutir questões relativas à
sublocação, dizer que a locação não deveria ser rompida porque ele,
sublocatário, cumpre as obrigações da sublocação, ou porque respeita todas
as suas cláusulas, nada disto está em discussão. O sublocatário intervem
para auxiliar a vitória do locatário. As questões que ele tem de tratar são
as questões a respeito das quais já teria que tratar o locatário. Se o
locador está alegando falta de pagamento do aluguel, o que o sublocatário
tem de fazer, a finalidade da intervenção, está em ele demonstrar não que
ele, sublocatário, cumpre as suas obrigações, mas que o locatário cumpre,
de maneira que o processo deva ter uma desfecho favorável ao locatário.

Características, portanto, da assistência: a) não dilatar o


objeto do julgamento; b) não provocar aumento da área de
discussão, pois o assistente não trará tema novo nenhum ao processo. Os
temas de que ele tem de tratar são aqueles a respeito dos quais já teria de
tratar o assistido.

2º) O assistente torna-se parte, assumindo,


conseqüentemente, direitos, deveres, faculdades e ônus
processuais. Torna-se parte ACESSÓRIA, ocupa no processo uma
posição secundária, no sentido de que a sua função é auxiliar o
assistido a obter a vitória. O assistente, como já vimos, não é o titular
93
da relação jurídica a respeito da qual se está discutindo. Ele é titular de
uma outra, subordinada, vinculada àquela, mas uma outra relação jurídica.
E ele atua em nome próprio. É parte acessória mas é parte. Então vejam
os srs.: alguém que atua em nome próprio no processo sem ser titular da
suposta relação jurídica de direito material. Os srs. conhecem já a figura
que se assemelha a essa. Alguém que atua em nome próprio mas
defendendo interesse alheio: é o substituto processual, que se acha
legitimado a defender no processo (em nome próprio e por isso se distingue
do representante) interesse de outrem. Vejam os srs., o assistente, em
nome próprio, atua no processo em defesa do interesse do assistido, o
assistente está autorizado por lei a intervir no processo para defender o
interesse do assistido. Tem, como o substituto processual,
legitimação extraordinária. A diferença entre eles é que a legitimação
extraordinária do substituto processual é autônoma, no sentido de que ele
poderá instaurar o processo ou figurar nele como réu originariamente,
enquanto o assistente dispõe também de legitimação extraordinária, mas a
sua legitimação é subordinada, no sentido de que ele, sendo assistente
do autor, não poderia ter instaurado o processo como o substituto
processual poderia, ou sendo assistente do réu não poderia ter figurado no
processo como réu.

A legitimação extraordinária, além das outras classificações


que os srs. já conhecem, tem mais essa: autônoma e subordinada. A
autônoma corresponde na maioria dos casos à figura do substituto
processual, cuja legitimação é autônoma, no sentido de que ele pode
instaurar o processo ou figurar como réu. A legitimação extraordinária
subordinada é a do assistente, que não poderia ter instaurado o processo
nem poderia ter figurado como réu, mas que está autorizado a intervir no
processo pendente para auxiliar uma das partes a obter a vitória, atuando
em nome próprio.

Os efeitos da assistência quanto à competência não têm


nenhuma peculiaridade em relação àquilo que já vimos de principal.
Vejamos em que termos o assistente pode atuar. Ele é parte, parte
acessória, mas parte (o subst. processual será sempre parte principal, o
assistente é parte acessória). Como parte acessória ele terá em princípio,
naquele processo, todos os direitos e deveres, faculdades e ônus inerentes
à qualidade de parte. É claro que nós temos de dar ao assistente, em
princípio, a mais ampla liberdade para atuar no processo, ele intervém
justamente desconfiando que o assistido não defenderá suficientemente o
interesse dele, assistido, de maneira que temos de permitir que ele supra as
omissões do assistido. Se é proferida uma decisão desfavorável ao
assistido, por ex., ainda que o assistido não interponha recurso, nós
devemos admitir que o assistente possa interpor. É claro, se não o
deixarmos fazer nada, não adiantaria nada também ele intervir.
94

O assistente sofre duas ordens de limitações na sua atuação


processual. Em primeiro lugar, como é óbvio, ele não pode praticar
nenhum ato que pressuponha a titularidade da relação jurídica de
direito material tratada naquele processo. É óbvio que o assistente do
autor não pode renunciar aos direitos do autor, só quem pode renunciar é o
titular do direito. Assim, como é óbvio que o assistente do réu não poderá
reconhecer a procedência do pedido formulado pelo autor, porque só poderá
fazê-lo o titular da relação jurídica de direito material. Da mesma forma
como não podemos conceber que o assistente celebre uma transação com a
parte contrária ao assistido, fazendo concessões mútuas no plano do direito
material para por fim ao processo.

É uma restrição, portanto, à atuação do assistente: ele não


poderá praticar nenhum ato que pressuponha a titularidade da relação
jurídica material, pura e simplesmente porque ele não é titular dessa
relação jurídica.

Uma outra restrição ele sofre no tocante a atos que acarretem


a extinção do processo. Não é preciso explicar porque, o assistente do
autor não pode desistir da ação que ele não propôs. Não pode
ensejar, desse modo, através da sua manifestação da vontade, a extinção
do processo.

O assistente, portanto, tem a maior liberdade possível na sua


atuação processual, com essas duas restrições que acabamos de ver.

Agora, poderia parecer que, pelo fato de o assistente estar ali


empenhado na vitória do assistido, este, por sua vez não pudesse praticar
esses atos que o assistente não pode praticar. Isso não é verdade, e o
Código se incumbe de explicitar. O art. 52 trata da atuação do assistente.
Além de algumas impropriedades (a parte não tem poderes, quem tem
poderes é o órgão judicial), o dispositivo não é completo porque traça a
norma geral de que o assistente em princípio pode fazer tudo o que o
assistido pode fazer, mas não dá as restrições, que têm que ser
estabelecidas sistematicamente ao longo do Código.

O art. 53 explicita que, pelo fato de haver assistente, o


assistido não fica impedido de praticar esses atos. O Código omitiu aí a
renúncia por parte do autor, que é porém uma figura simétrica ao
reconhecimento do pedido. Da mesma forma como a assistência não obsta
a que o réu reconheça o pedido, não obsta também a que o autor renuncie
ao direito de que se afirma titular.
95
Finalmente, uma última conseqüência da assistência, que é
fundamental: o assistente, em princípio, fica vinculado à decisão
proferida no processo. De tal maneira que ele não poderá, se tiver
participado do processo como assistente, não poderá noutro processo
colocar em dúvida a correção, a justiça dessa decisão que foi proferida no
processo de que ele participou. Ex.: o caso do fiador.

O fiador participou do processo no qual se discutiu a


existência do crédito a que a fiança serve de garantia, e ao final desse
processo o Juiz concluiu pela existência do crédito. O fiador está vinculado
a essa decisão, de tal maneira que, se o credor, mais tarde, propuser contra
ele, fiador, ação visando a cobrança da dívida afiançada, ele não poderá
defender-se alegando que aquele crédito, a rigor, inexiste, e que, portanto,
não subsiste a fiança, coisa que ele em princípio poderia fazer se não
tivesse participado como assistente no processo. O assistente fica,
portanto, a princípio, vinculado à decisão proferida no processo de
que participou, de tal maneira que não pode mais tarde,
proveitosamente, num outro processo, discutir se aquela decisão foi
acertada ou não, foi correta ou não, foi justa ou não . Ele está sujeito
àquela decisão, da mesma forma que as partes, ou quase, porque a essa
regra o CPC, no art. 55, estabelece duas exceções, que estão contidas nos
incisos I (uma restrição muito perigosa no sentido de subtrair a utilidade da
assistência) e II (mais perigosa ainda, de qualquer maneira existe).

O assistente, portanto, fica, em princípio, vinculado à decisão


proferida em processo do qual participou e não poderá discutí-la em outro
processo no qual participe como parte, a não ser se alegar e provar uma
dessas duas circunstâncias previstas no art. 55 do CPC.

Aí estão os efeitos da assistência.

O procedimento da admissão do assistente é traçado em


termos singelos pelo CPC no art.. 51. Não havendo impugnação dentro de 5
dias, o pedido do assistente será deferido. O Código, aqui, começou pelo
fim, deveria ter começado pelo pedido do assistente, que é a rigor o ato
inicial - o requerimento do assistente no sentido de intervir no processo. A
assistência, volto a lembrar aos srs., constitui uma modalidade
espontânea de intervenção de terceiro no processo. Diz o Código:
"Não havendo impugnação...". A impugnação seria por parte das partes
originárias. E também o que está dito aí não será necessariamente
verdadeiro no sentido de que, se formulado o requerimento da intervenção
pelo terceiro que pretende ser assistente, as partes se omitirem, quando o
Juiz verificar que não há interesse jurídico por parte daquele
terceiro de participar do processo, o Juiz encontra-se perfeitamente
autorizado, a despeito de não haver impugnação dentro de 5 dias, a
96
indeferir esse pedido. Portanto, essa afirmação, no sentido de que o
pedido do assistente será deferido, deve ser vista em termos. Diz mais o
Código: "Se qualquer das partes alegar, no entanto....I....II....III...".
Portanto, requerimento do assistente, ao qual se segue intimação às partes
para que se manifestem sobre o requerimento, ao qual se segue intimação
às partes para que se manifestem sobre o requerimento no prazo de 5 dias.
As partes podem alegar falta de interesse jurídico ou não. Se elas não
alegarem e o Juiz não constatar a inexistência de interesse jurídico por
parte do terceiro, o pedido será desde logo deferido e o assistente admitido.
Se as partes, no prazo de 5 dias, alegarem que aquele terceiro que pretende
figurar como assistente no processo, não tem interesse jurídico,
determinará o desentranhamento da petição e da impugnação de uma das
partes, determinando que sejam autuados em apenso (colocados em autos
que vão ficar em apenso nos autos principais), autorizará a produção de
provas e decidirá dentro de 5 dias o incidente.

Aí está a assistência simples, nos seus pressupostos, nos seus


efeitos, no seu procedimento.

Ao lado disso, o CPC trata, nessa Seção dedicada à


assistência, de uma outra espécie de assistência, ou pelo menos que figura
como um espécie de assistência na Seção do CPC a ela dedicada.

Pressupostos dessa segunda modalidade de assistência,


denominada litisconsorcial, estão previsto no art. 54. Duas diferenças se
manifestam desde logo entre a assistência simples e a litisconsorcial. Na
assistência simples o assistente é titular de uma relação jurídica diferente
daquela sobre a qual se discute no processo, e o outro sujeito dessa relação
jurídica de que é titular o assistente pode ser o assistido. Ex: sublocação. O
sublocatário, intervindo numa ação proposta contra o locatário. A
sublocação é uma relação jurídica que vincula o sublocatário e o locatário,
portanto que vincula o assistente e o assistido. Agora, pode acontecer que
essa relação jurídica que autoriza a assistência simples, se estabeleça não
entre o assistido e o assistente, mas entre o assistente e o adversário do
assistido. Ex.: fiança - uma relação jurídica que vincula o fiador e o credor.
O fiador, quando intervem num processo instaurado pelo credor contra o
devedor, ele intervem para auxiliar o devedor. A relação jurídica da fiança
é entre o assistente (o fiador) e o adversário do assistido (o credor - o
assistido é o devedor). Na assistência simples, portanto, a relação jurídica
pode ser com o assistido ou com o adversário do assistido.

Na assistência litisconsorcial, necessariamente, a


relação jurídica que vai autorizar o assistente a intervir será entre o
assistente e o adversário do assistido.
97
Mas só isso não dá para distinguir as figuras porque sobrou
uma área comum. Já sabemos que quando a relação jurídica é entre o
assistente e o assistido não pode ser assistência litisconsorcial, só pode ser
assistência simples, mas em compensação quando é entre o assistente e o
adversário do assistido, pode ser uma ou outra, de maneira que há uma
área comum.

Não é essa a principal distinção que extrema a assistência


simples da litisconsorcial. Vamos imaginar, antes de ver qual é, um
exemplo: suponhamos um Espólio, que processualmente, como sabem, atua
por intermédio, normalmente, de seu inventariante, que é, vamos dizer, o
órgão através do qual atua processualmente o Espólio. O Espólio constitui,
no plano do direito material, um feixe de relações jurídicas de que são
titulares os herdeiros. De tal maneira que, até o momento em que ocorra a
divisão do patrimônio, todos os herdeiros são, em princípio, titulares de
todas as relações jurídicas do Espólio. Então imaginem agora que o
inventariante proponha uma ação declaratória de uma dívida de que o
Espólio seja credor. Todos os herdeiros são titulares desse crédito e o
inventariante está autorizado, e propõe efetivamente uma ação dessa
natureza. Uma herdeiro quer intervir nesse processo. Vejam: no caso da
assistência simples a influência que a sentença vai exercer sobre a relação
jurídica de que o assistente é titular não é direta, vai por tabela (por ex., o
Juiz extingue a locação e por isso aplica-se o dispositivo do C.Civil que diz
que cessando a locação extingue-se a sublocação). A influência, portanto,
no caso da assistência simples não ocorre diretamente, imediatamente
sobre a relação jurídica de que é titular o terceiro. No caso aqui, dessa
ação intentada pelo Espólio, o herdeiro, querendo intervir, os srs. diriam
que a influência que a decisão proferida no processo vai exercer sobre a
relação jurídica, de que o herdeiro é titular, é a mesma influência que vai
exercer a decisão sobre a locação em relação à sublocação? É a mesma
coisa ou não? No caso da locação, o Juiz decide sobre a locação, e porque
se extinguiu a locação então vai essa decisão repercutir indiretamente na
sublocação. No caso de herdeiro, o herdeiro é titular do crédito de cuja
existência o Espólio está pleiteando a declaração. Eu pergunto: a decisão
sobre o crédito vai influir na decisão sobre essa relação jurídica do herdeiro,
sobre o crédito, da mesma forma como influi a decisão sobre a locação em
relação à sublocação? A resposta e NÃO. A influência que autoriza a
assistência litisconsorcial não é, como na assistência simples, uma
influência reflexa, indireta, não. A influência da decisão sobre a relação
jurídica de que é titular o terceiro que autoriza a assistência litisconsorcial,
é uma influência direta. A decisão vai diretamente repercutir na
relação jurídica de que é titular o terceiro , e justamente por isso, por
causa dessa repercussão direta, é que se autoriza a intervenção do terceiro
e se dá a ele uma posição superior à posição que se dá ao assistente
simples. Considera-se litisconsorte e parte principal (art. 54).
98

Outro exemplo: já sabem que no curso de um processo em que


seja disputada uma coisa, nada impede que o suposto proprietário da coisa
aliene essa coisa a terceiro. Já viram também que essa alienação não
autoriza por si só que se alterem as partes, no sentido de que, a despeito
da alienação, embora o alienante já se tenha despojado da coisa, continua-
se o processo e não será substituído no processo pelo adquirente da coisa
(art. 42 CPC). O alienante, em princípio, continua no processo e o
adquirente, em princípio, não pode assumir a posição ocupada por ele. De
tal maneira que o alienante, que não é mais titular daquela coisa que ele
transmitiu, passa a figurar no processo (ele que até então tinha legitimação
ordinária), com caráter de legitimação extraordinária, no sentido de que ele
não é mais a partir desse momento titular da relação jurídica de direito
material, mas continua tendo que atuar no processo na posição em que até
então tinha atuado.

Muito bem, o § 1º do art. 42 diz que o adquirente ou o


cessionário não poderá ingressar em Juízo substituindo o alienante ou
cedente, sem que o consinta a parte contrária, e o § 2º, que é o que nos
interessa no momento, diz que o adquirente ou cessionário poderá, no
entanto, intervir no processo assistindo o alienante ou cedente. De que
natureza será essa assistência? Vejam bem: uma pessoa que se afirmava
dono de uma coisa, no curso do processo aliena essa coisa a um terceiro, e
esse terceiro pretende intervir no processo como assistente para ficar ao
lado do alienante, para contribuir para a sua vitória. Pergunto o seguinte:
Qual dos dois tipos de assistÊncia será adequado a essa hipótese? Qual o
grau de influência da decisão que vier a ser proferida sobre a relação
jurídica de que é titular o assistente? A relação jurídica sobre a qual se
está discutindo ali é a própria - até o alienante não é mais titular dela, o
único titular dela será o assistente. Portanto, assistência litisconsorcial,
uma vez que é direta sobre a relação jurídica de que ele é titular a
influência da decisão.

Essa é a característica fundamental da assistência


litisconsorcial. Na assistência simples, a influência da decisão sobre
a relação jurídica de que é titular o assistente é reflexa. Na
litisconsorcial, é direta sobre a relação jurídica de que é titular o
assistente, embora nem sempre seja esta relação jurídica que se está
disputando ali no processo. De qualquer maneira, ainda quando não é ela
própria, a influência será imediata, vai repercutir imediatamente sobre a
relação jurídica de que é titular o assistente, e por isso ele poderá intervir.
Mas vejam bem uma segunda diferença: o assistente, na assistência
simples, é parte acessória. Na assistência litisconsorcial equipara-
se ao litisconsorte, de maneira que não sofrerá, em princípio, as
restrições que nós apontamos no tocante à assistência simples.
99

QUESTÕES DE PROVA

A) A mudança de domicílio de Caio produziu o efeito de deslocar a


competência para o foro de Niterói? Como se respondia a essa pergunta?

R. Por uma combinação dos arts. 87 e 263 do CPC, o primeiro dizendo que
a competência se fixa no momento em que a ação é proposta, e o segundo
esclarecendo que a ação se considera proposta ou quando a petição inicial é
despachada ou então, onde houver mais de uma vara, simplesmente no
momento em que seja distribuída. Ora, no dia 20/01 Tício fez distribuir
ação na comarca desta cidade e todos nós sabemos que na comarca desta
cidade existe mais de uma vara, logo a data decisiva como ponto de
referência para apurar-se a competência era o dia 20/01, e irrelevante
portanto o fato de que a 25/01 Tício houvesse transferido seu domicílio do
Rio para Niterói, uma vez que a competência se fixara no dia 20/01 e nessa
data ele era domiciliado no Rio. Logo a resposta devia ser negativa. A
mudança não teve o efeito de deslocar a competência.

B) Na segunda pergunta pedia-se o seguinte: é necessário o consentimento


de Caio para que o Juiz possa julgar o pedido levando em conta a afirmação
de ter havido dolo?

R. Vejam: a petição trazida por Ticio depois de citado o réu, é uma petição
em que, sem alterar os fatos narrados na inicial, ele afirma que o vício do
contrato era o dolo, e não de coação. Já havia narrado o acontecimento,
dando-lhe o nome, qualificando-o na sua inicial como coação. Ora, na
petição trazida depois, ele, sem modificar essa narrativa, diz o seguinte:
"aquele defeito verificado na narrativa que eu fiz, aquele vício do
consentimento que se extrai dos acontecimentos que eu narrei, não é
coação e sim dolo." Como quem dissesse: "eu me enganei ao chamar aquilo
de coação, devia ter chamado de dolo, e agora chamo de dolo." Então
vejamos, é necessário consentimento do réu para que o Juiz possa apreciar
o pedido à luz desta nova qualificação dada pelo autor? Vejamos o art. 264,
que é o que nos serve de base para esse problema nas três perguntas
subseqüentes. Muito bem, então a citação já tinha sido feita, logo nós
precisamos tentar saber se o fato de o autor dar uma nova qualificação
jurídica ao fato narrado constitui ou não alteração da causa de pedir. A
causa de pedir consiste em um fato ou um conjunto de fatos, o autor sequer
é obrigado a qualificá-los juridicamente. Ele pode dizer apenas "o contrato
foi assinado nas seguintes circunstâncias: a outra parte, o réu, ameaçou-me
de conseguir que eu fosse demitido do meu único emprego, ele é muito
amigo do meu patrão, então me fez esta ameaça de que eu ficaria
desempregado se não assinasse aquele contrato, e havia todas as razões
100
para crer que a ameaça era verdadeira, meu próprio patrão me deu a
entender que atenderia a esse pedido do réu para me por no olho da rua.
De sorte que, diante dessa emergência, eu assinei o contrato. Diante disso
peço que o contrato seja anulado."

Vejam bem ele pode fazer esta narrativa toda sem usar o
termo jurídico COAÇÃO, não é necessário nem indispensável. O próprio Juiz
verifica que essa narrativa descreve um fato perpetrado sob tais condições,
que se configuraria o vício de coação. Não é preciso que o autor dê esse
nome. Então, se não é preciso, tanto faz que o autor dê esse nome ou
outro. Se o autor contar isso e disser "como se vê, houve dolo",
suponhamos, "o contrato foi viciado por dolo" a qualificação está errada,
pois o que ele contou caracterizaria uma coação e não um dolo, mas é
irrelevante porque tanto faz que ele chame de dolo ou de coação. O que é
importante é saber se como o nome certo ou errado aquilo basta para que o
contrato seja anulado. Isso é o que interessa, tanto a coação quanto o dolo
são causas de anulabilidade, então não é exigido que o autor use o nome
correto, se ele usar o nome errado isto não impede o Juiz de acolher o
pedido. Para o réu se defender, e é isso que importa - vejam bem, a razão
pela qual o autor deve narrar os fatos com clareza, minuciosamente, de
maneira correta, e depois não pode modificá-los sem o consentimento do
réu, é não atrapalhar, não prejudicar a defesa do réu, o réu tem que saber
do que lhe compete defender-se, do contrário ele prepara sua defesa para
uma narrativa, daqui a pouco a narrativa muda, aquela defesa não serve.
Então, a razão de ser é essa. Mas se o autor conta tudo isso, que estava
ameaçado de ficar desempregado, o réu tem todos os elementos para
preparar a sua defesa, pouco importando que ele tenha chamado de coação
ou de dolo. Então a mudança da qualificação jurídica não é relevante, a
qualificação jurídica não integra a causa de pedir, não mudou o motivo,
mudou só o rótulo. Então não era necessário o consentimento do réu.

C) Seria igual a resposta, caso Tício, na nova petição, passasse a invocar


dispositivo legal diverso do invocado na inicial? Seria igual a resposta, i.e.,
continuaria sendo desnecessário o consentimento do réu?

R. A resposta é sim. Porque o dispositivo legal também não integraria a


causa petendi. O autor nem sequer também aqui é obrigado a mencionar o
dispositivo legal. Ele não precisa dizer, depois de narrar os fatos, "de
acordo com o art. tal do C.Civil..." Não precisa, o Juiz, presume-se que
conheça o Direito. O que é preciso ministrar ao Juiz é o fato, o fato ele
não conhece, mas o dispositivo ele conhece. Se ele se engana na indicação
do dispositivo legal, isso impede que o Juiz acolha o pedido? Não, desde
que os elementos do fato que justificam aquele efeito estejam todos
contidos na inicial, e fiquem provados. Isso basta. Pouco importa que o
autor tenha omitido a indicação do dispositivo legal.
101

Isso é, aliás, comum na ação de despejo, por ex., denúncia


cheia. A lei prevê uma série de casos de despejo, como era na lei 4494, e
que vai voltar a ser quando entrar em vigor a nova lei do inquilinato.
Muitas vezes acontece que o autor se engana, cita o item nº 9 quando
deveria citar o nº 8. Isso não tem a menor importância, desde que os
elementos exigidos por um desses dois itens tenham sido narrados na inicial
e fiquem provados durante o processo. Às vezes até os dois casos são
parecidos. No antigo desquite, por ex., havia uma enumeração legal no
C.Civil (art. 319, antigo, antes da Lei do Divórcio), havia adultério, injúria
grave, sevícia, abandono do lar conjugal. Muitas vezes acontecia que o
autor narrava um episódio e dizia que estava pedindo o desquite por causa
do inciso I, adultério. No entanto, o Juiz entendia que aquele episódio não
chegava a constituir adultério no sentido rigoroso, mas podia ser
caracterizado como uma injúria grave, conduta leviana. E se mais tarde o
autor dissesse "adultério, propriamente não houve, eu me enganei, aquele
fato que narrei era uma injúria grave", não houve mudança da causa de
pedir, o fato era o mesmo.

A defesa do réu é preparada em função dos fatos e não do


dispositivo legal. Não há mudança da causa petendi na substituição de um
dispositivo legal por outro, então não há necessidade da aquiescência do
réu.

D) A última pergunta era: E se Tício, na nova petição, continuasse a alegar


coação, mas apresentasse narrativa de fatos diferentes da que fizera na
inicial? Vejam que agora a hipótese é inversa. Ele diz assim: "na inicial eu
afirmei que ele me havia ameaçado de ficar desempregado, mas não foi
bem assim. A ameaça que ele me fez foi outra, ele ameaçou seqüestrar o
meu filho." Bem, uma coisa é o réu se defender da imputação de ter
tentado conseguir a demissão do autor do se emprego, outra coisa diferente
é o réu preparar a sua defesa contra a imputação de ter planejado o
seqüestro de um filho do autor. Todo mundo compreende que o réu
precisará usar num caso e noutro argumentações completamente
diferentes. Eventualmente, provas diferentes, uma testemunha que possa
ser útil num caso não será no outro. Em resumo, a história mudou. Então,
aqui, sim. Embora ele mantenha debaixo da mesma denominação, a causa
petendi não é mais a mesma, o fato foi modificado na sua essência. Aqui
haveria necessidade do consentimento do réu.

Aqui caberia uma pequena observação para esclarecer melhor:


se ele modificasse apenas um detalhe circunstancial, dissesse, por ex., que
a ameaça de conseguir a demissão, em vez de ter sido feita às 8 horas da
noite foi no dia seguinte de manhã, isso aí não altera. Ou que em vez de
escrever uma carta ao patrão, o réu deu um telefonema. Todo mundo
102
percebe que a substância do fato é igual; ameaça de conseguir a demissão
se não atendesse ao desejo do réu. No caso de adultério, se o autor
dissesse que se consumou às 9 horas da noite e depois dissesse que não foi
bem às 9, foi às 10 horas, todo mundo percebe que isso não altera o fato.
Agora, se ele dissesse assim: "Na inicial eu disse que a ré (ou o réu)
praticou adultério com X (a ou o cúmplice) no Rio de Janeiro, em 1978, mas
de fato foi com Y, em São Paulo, no ano de 1977". São fatos diferentes é
outro adultério, houve mudança da causa petendi.

Deve-se raciocinar sempre nessa base: a substância é que


interessa porque a substância é que influi na preparação da defesa, e a
razão de ser da norma é essa - proteger o interesse do réu para não ficar
perdido, sem saber exatamente o que estão querendo dele.

Então eis aí como deviam ser respondidas as perguntas. Na


última era, portanto, necessário o consentimento do réu para que o Juiz
pudesse apreciar esta nova causa petendi introduzida na petição que o
autor trouxe aos autos depois de feita a citação.

PROBLEMA - Tícia, casada com Caio, propôs ação de despejo em face de


Nélio, locatário de um imóvel pertencente a Tícia e integrante do seu dote.
Nelio, contestando, alegou preliminarmente que, em relação aos bens
dotais, nos termos do art. 289 do C.Civil, na vigência da sociedade conjugal,
compete ao marido usar das ações judiciais a que derem lugar. De modo
que a ação deveria ter sido proposta por Caio, o marido, e não por Tícia.
Pergunta-se:

A) Como deve o Juiz decidir esta questão? A ação era referente a um bem
que integrava o dote, então nos termos do CC, o legitimado para as ações
referentes ao dote é o marido. O réu alega isso na sua contestação. A ação
devia ter sido proposta pelo marido e não pela mulher. Como deveria o Juiz
apreciar a questão? Devia acolher ou não essa preliminar levantada pelo
réu?

R. Devia acolher, porque apesar de, em regra, a legitimação para a causa


coincidir com a titularidade da relação jurídica de direito material, por
vezes a lei atribui a uma pessoa diferente daquela que é sujeito da relação
material esta legitimidade que então se chama extraordinária, ou anômala.
Ora, esse é uma caso típico, e eu até na própria questão transcrevi o artigo
do C.Civil para facilitar.

Então, apesar de o bem dotal pertencer à mulher, quem o


administra na vigência da sociedade conjugal é o marido, e só ele tem
legitimidade ativa para a causa. Sendo assim, qual seria a atitude do Juiz?
103
O Juiz deveria extinguir o processo sem julgamento do mérito por falta de
uma das condições da ação.

B) Que base lhe fornece para isso o CPC? Quer dizer, onde o Juiz deveria
fundamentar sua decisão? Achem aí. No art. 267, VI, segundo o qual se
extingue o processo sem julgamento do mérito quando etc. Faltava a
legitimidade da parte, portanto era esse o fundamento da sentença que
extinguiria o processo sem julgamento do mérito.

C) Poderia o Juiz apreciar a questão, mesmo que Nélio não a houvesse


citado? Suponhamos que o réu nada alegasse a esse respeito na preliminar,
na sua contestação. Então, a pergunta é a seguinte: Poderia o Juiz, de
ofício, julgar a autora carecedora de ação, extinguir o processo sem
julgamento do mérito, verificando a falta de legitimidade, mesmo que o réu
nada alegasse? Poderia sim. Aplica-se o art. 267, § 3º, conjugado com o
inciso VI, e a resposta é afirmativa.

É um caso em que o Juiz poderia até indeferir a petição inicial.


É um dos casos em que o Juiz deve conhecer de ofício.

D) Que figura jurídica ocorreria se a ação fosse proposta por Caio, i.e., pelo
marido? Há um nome específico para os casos em que o legitimado
extraordinário propõe a ação, figura como parte principal, em vez de figurar
o titular da relação jurídica material. O tipo de legitimação é
extraordinária, mas o nome desta figura jurídica qual é? Chama-se
substituição processual. Vejam que eu não perguntei como se qualifica a
legitimação, perguntei o nome deste fenômeno, deste acontecimento que
consiste no seguinte: uma pessoa, que não é titular da relação jurídica
substantiva, aparece no processo como parte legitimada, em vez de outra
que era a titular; quer dizer o legitimado extraordinário figura no processo
em vez de figurar aquele que seria legitimado ordinário, mas que não é
legitimado nenhum porque a lei não lhe concede qualidade para propor a
ação. Notem que às vezes quando a lei dá a alguém legitimação
extraordinária, nem por isso elimina a possibilidade de que o titular da
relação material proponha a ação. Às vezes co-existe a legitimação
ordinária com a extraordinária, eles podem até propor em litisconsórcio.
Quando, porém, a lei só considera legitimado o extraordinário, impedindo
que o titular da relação jurídica seja parte legítima, aí aparece um e não
pode aparecer o outro, então há substituição processual, que não se
confunde com a representação, porque na representação o representante
age em nome de outrem, em nome do representado, ao passo que o
substituto processual age em nome próprio embora defendendo direito
alheio.
104

OPOSIÇÃO
Acha-se regulada no art. 56 e seguintes do CPC.

Quando estudamos a assistência, verificamos que nela o


terceiro intervem a fim de auxiliar uma das partes, cuja vitória lhe
interessa. Na oposição não é isso que acontece. Na oposição o terceiro
(que se denominará de opoente - aquele que formula a oposição) não
intervem para auxiliar uma das partes a obter vitória. Ao contrário, ele
intervem para reclamar para si, para ele terceiro, o bem ou o direito
que está sendo disputado no processo. Ele não intervem para auxiliar
uma das partes, e sim para reclamar para ele aquele bem que as partes
estão discutindo no processo.

No art. 56 está o principal pressuposto da oposição. Imaginem


o seguinte exemplo: um indivíduo que está reivindicando um bem de outro,
afirmando que ele, autor, é o proprietário. Há um terceiro, porém, que
supõe que a propriedade daquele bem que o autor está alegando ser sua, na
realidade é dele. Nestas circunstâncias, a lei autoriza este terceiro a
ingressar no processo a fim de reclamar para si mesmo contra ambas as
partes, autor e réu, aquele ou aqueles bens que são controvertidos no
processo.

A oposição é uma modalidade voluntária de intervenção


de terceiro. A intervenção não é necessária. O terceiro intervem se
quiser. E, mais do que voluntária, ela tem caráter facultativo, no
sentido de que, para o terceiro, a intervenção não constitui um
dever e nem tampouco um ônus, porque se ele não ingressar
naquele processo, a falta de intervenção não lhe acarretará nenhum
prejuízo.

No ex. acima, ele pode perfeitamente aguardar o desfecho


daquele processo que se encontra em curso, sem ingressar nele, para afinal
então reivindicar, alegando ser proprietário, o bem daquele que ganhou a
causa que estava pendente. A falta da intervenção, o fato de o terceiro não
intervir no processo pendente, não afeta em nada a sua situação, não lhe
traz qualquer prejuízo, de tal maneira que a oposição constitui um
faculdade. Se ele quiser ingressar a lei lhe permite que o faça, se não
quiser intervir não é necessário por um lado, e por outro lado isso não lhe
105
trará qualquer prejuízo, uma vez que aquela decisão que vai ser proferida
no processo, se ele não ingressou como parte, não vai vinculá-lo.

A oposição costuma classificar-se em TOTAL ou PARCIAL (art.


56). É essa a base da oposição. Total quando o terceiro pretender todo o
bem, ou todo o direito que está sendo discutido em Juízo. Parcial na
hipótese contrária.

Pressupostos da OPOSIÇÃO: A) Em primeiro lugar, como é


óbvio, processo pendente. Sem processo pendente não há a possibilidade
de configurar-se intervenção de terceiro. B) Em segundo lugar, o terceiro
pretende para si o bem ou direito que está sendo discutido entre as partes
no processo que se acha pendente. C) Os srs. entenderam que a falta de
oposição não trará qualquer prejuízo para o terceiro. Por outro lado, de um
lado o terceiro não terá o seu direito afetado por aquela decisão que for
proferida num processo do qual ele não tenha participado, de tal maneira
que nada impedirá que ele, terminado aquele processo, proponha contra o
vencedor uma ação visando a reivindicar o bem. Não lhe trará portanto a
falta da intervenção qualquer prejuízo. Por outro lado, os srs facilmente
compreenderão que o ingresso de um terceiro num processo pendente,
formulando uma pretensão diversa daquela que tinha sido formulada pelo
primitivo autor, acarretando a necessidade de atividade processual, tudo
isso acabará necessariamente por embaraçar o andamento do processo,
tumultuá-lo, por pouco que seja. Aliando essas duas circunstâncias - de um
lado a oposição poderá embaraçar a marcha do processo, de outro a falta
do oferecimento da oposição não acarretará para o terceiro qualquer
prejuízo - considerando esses dois aspectos, a lei estabeleceu o momento
até o qual a oposição é possível, e além do qual ela não mais será possível.
O momento é fixado no art. 59 do CPC. É necessário, portanto, que
o terceiro que pretende oferecer oposição, para que ele ingresse
naquele processo, que ele o faça antes da Audiência de Instrução e
Julgamento. Iniciada a audiência, o ingresso do terceiro no
processo não será mais possível.

Agora vejam bem: o que é que o terceiro faz? Ele está


ingressando no processo e formulando, defronte às partes que já figuravam
no processo, uma demanda, diversa obviamente daquela que foi formulada
pelo autor. Ex.: o autor reivindica para si a coisa do réu, ingressa o
opoente dizendo que a coisa é dele e portanto deve ser entregue a ele e
não ao autor. Ele está formulando uma demanda, a rigor está propondo
uma ação. A oposição é uma ação proposta pelo terceiro, enseja,
portanto, uma acumulação de ações no mesmo processo: a do autor
e, uma vez oferecida a oposição, a do que era terceiro e passou a
ser opoente. Ora, da mesma maneira como nada impedirá que esse
terceiro aguarde o desfecho do processo para então propor uma ação contra
106
o vencedor, nada impedirá que, mesmo depois da audiência (e, portanto,
mesmo depois da fase que a lei estabelece como marco para que ele
ingresse como parte) ele proponha a ação, antes do desfecho daquele
processo. Se ele quiser ingressar naquele processo, fazer com que a sua
ação corra naquele processo, ele terá de oferecer oposição até a audiência.
Se não oferecer, ele pode fazer duas coisas: ou esperar o desfecho do
processo, e nesse caso dirigir a sua ação para a parte que venceu; ou não
aguardar o desfecho e, depois da audiência mas antes do desfecho do
processo, formular a sua demanda.

Vejam os srs: a oposição como modalidade de


intervenção de terceiro no processo, só é possível até o momento da
audiência. A partir daí ela dará ensejo, necessariamente, à
formação de outro processo, ainda que a ação, depois da audiência,
seja dirigida contra as duas partes que figuram ainda no processo
que já estava pendente. Se ele propuser ação depois do início da
audiência, necessariamente dará ensejo à formação de outro
processo.

Ora, a intervenção de terceiro significa que o terceiro ingressa


no processo que está pendente. A partir do momento em que ele propõe
essa ação, dando ensejo à formação de um outro processo, nós não
podemos dizer que se trata de intervenção de terceiro.

Acontece que essa segunda possibilidade, ou seja, a de um


terceiro formular de modo autônomo a sua demanda após a audiência, mas
antes de terminar o processo que corria, impunha uma disciplina especial.
Em primeiro lugar, vejam: se ele propõe a ação enquanto está pendente o
outro processo, ele deve fazê-lo, deve propor a sua ação, contra autor e
réu, sob pena de correr o risco de afinal verificar que aquele contra quem
ele propôs não era a pessoa adequada para responder àquele processo. Em
segundo lugar, é conveniente que aquela ação seja remetida para o órgão
perante o qual está correndo, ou já correu aquele processo entre autor e réu
- aspecto de conveniência. Em terceiro lugar, pode acontecer que seja
possível ao Juiz, dependendo do estágio em que estiver o outro processo,
sem entravar muito a marcha do mesmo, fazer com que ele aguarde durante
um espaço de tempo, a fim de que os dois pedidos, formulados no processo,
autônomos, um pelo autor contra o réu, o outro por esse terceiro que acha
que nem autor nem réu têm razão, que o bem ou o direito pertence a ele,
possam ser julgados concomitantemente. Por essas razões, na Seção
dedicada à Oposição, o CPC trata também dessa possibilidade que tem o
terceiro de propor a sua ação depois da audiência. E o Código dá a essa
possibilidade, inadequadamente, o nome também de Oposição.
107
Vejam o art. 60 que diz que, oferecida depois de iniciada a
audiência, seguirá a oposição o procedimento ordinário. Não é bem isso, a
preocupação aqui não é estabelecer o rito, a preocupação aqui é dizer que o
processo é outro. A rigor, se quiserem poderão acompanhar a terminologia
legal, chamando a isso de oposição, mas não podem esquecer o seguinte:
se o que os srs. chamam de oposição dá ensejo à formação de um
outro processo, intervenção de terceiro ele não é.

Resumindo: nessa Seção do Código os srs. encontram com o


nome de oposição, uma modalidade de intervenção de terceiro no processo
pendente, que como tal, só pode ocorrer até a audiência de instrução e
julgamento. E encontram, também com o nome de oposição, uma outra
figura que não é intervenção de terceiro, e que dá a possibilidade de um
terceiro, depois da audiência, mas antes do término daquele processo
originário, instaurar um outro processo contra as partes que figuram
naquele que já está pendente, com essa conseqüência estabelecida no art.
60, sendo possível que o Juiz suste o andamento daquele processo
originário a fim de que os dois pedidos sejam simultaneamente julgados, ele
pode sobrestar a marcha do processo originário por prazo, porém, nunca
superior a 90 dias. Se, decorridos os 90 dias, o que o Código chama de
oposição não está ainda em condições de ter o seu mérito apreciado, mas o
outro processo já está, o Juiz não pode continuar aquela paralisação que se
verifica, e os dois processos correm autonomamente, sem nenhuma
vinculação.

Portanto, como modalidade de intervenção de terceiro, a


oposição só pode ocorrer até a audiência de instrução e julgamento.

Efeitos da Oposição

1º) A oposição (oferecida antes da audiência) é uma ação


proposta por terceiro, que enseja, portanto, uma acumulação de ações no
mesmo processo, aumentando seu objeto. O objeto do processo era o
pedido do autor defronte ao réu, passa a ser também, além disso, o pedido
do opoente perante autor e réu. Ao contrário da assistência, em que o
objeto do processo, a despeito do ingresso do assistente, não se altera, a
oposição faz com que aumente o objeto do processo, ensejando uma
acumulação de ações.

2º) Quanto à competência, aplicam-se aquelas regras que


vimos em caráter comum, dadas à intervenção de terceiro. A competência
de foro, em regra, não se altera. É evidente, trata-se de intervenção de
terceiro, não é o processo que tem que ir atrás do terceiro, é este que tem
que ir atrás do processo. A competência de juízo pode prorrogar, no caso
108
em que o órgão judicial seja relativamente incompetente para apreciar a
oposição. Ou pode eventualmente deslocar-se, se a incompetência for
absoluta. Por ex. o Estado ingressando, aqui na capital, num processo que
tem como partes entes particulares, pendente numa vara cível, o Estado
dispõe de um Juízo privativo, então o seu ingresso no processo como
opoente provocará o deslocamento desse processo para uma das varas da
Fazenda Pública.

3º) O opoente assume, evidentemente, a condição de parte,


como acontece em todas as modalidades de intervenção de terceiro. Ele é,
a rigor, autor e portanto a sua atuação se pauta pelas mesmas regras por
que se pauta a atuação do autor em geral. Ele propõe uma ação e
portanto a ele se aplica tudo quanto se aplicar àquele que propõe
uma ação.

4º) Além disso, a oposição não provoca a exclusão de


nenhuma das partes que já figuravam no processo. Agora vejam os
srs.: é litisconsórcio - autor e réu que já figuravam no processo são, a rigor,
sujeitos passivos em relação à oposição - litisconsórcio passivo sui generis.
Autor e réu estão disputando entre si um bem. Eles só têm esse interesse
em comum a partir da oposição: ver preterida a pretensão do opoente.
Eles, autor e réu, que já figuravam no processo, se denominam de
OPOSTOS. Aquele que oferece a oposição se denomina de OPOENTE.

5º) Ingressando no processo, assumindo a qualidade de parte,


evidentemente fica o opoente vinculado à decisão que vier a ser proferida
naquele processo. Fica sujeito à coisa julgada. De tal maneira que,
terminado aquele processo, ele não poderá por em dúvida, daí para a
frente, aquilo que tiver ficado decidido. Se ele não quiser se vincular à
coisa julgada, basta que não intervenha. A intervenção é uma faculdade
dele, a falta de intervenção não lhe acarreta qualquer prejuízo. Mas,
participando ele do processo, fica obviamente sujeito à decisão e à coisa
julgada.

O procedimento da Oposição é diferente conforme se trate de


oposição como modalidade de intervenção de terceiro, ou dessa outra
espécie de oposição da qual trata o Código nessa Seção.

Antes da audiência, oposição propriamente dita - art.


57. A oposição é uma ação, de tal maneira que exige para o seu
oferecimento os requisitos necessários à propositura de qualquer ação.
Distribuída a oposição, dependendo da maneira que vai correr naquele Juízo
onde já corre o processo primitivo, serão os opostos citados na pessoa dos
seus respectivos advogados, para contestar o pedido no prazo comum de 15
dias. Portanto, oferecimento da oposição com os requisitos necessários à
109
propositura de qualquer ação. O Juiz vai apreciar a petição oferecida pelo
terceiro que pretende ingressar como opoente e poderá indeferí-la nos
mesmos casos em que a lei lhe permite indeferir qualquer petição inicial.
Deferida a petição do opoente, precede-se à citação dos opostos, daquelas
partes que já figuravam no processo, a fim de que se manifestem a respeito
do pedido formulado pelo opoente. Essa citação tem uma peculiaridade,
que é a de que se faz na pessoa dos advogados dos opostos e não
pessoalmente a eles.

Para que o advogado receba citação, é necessário que ele


tenha poderes especiais, conferidos pelo seu constituinte para essa
finalidade. Aqui há uma exceção a essa regra, no sentido de que, por
razões de economia, independentemente de terem os advogados
poderes para receber citação, a lei determina que seja feita neles a
citação.

Feita a citação, começa a correr para os opostos prazo de 15


dias para contestar (art. 57). Prazo comum, i.e., prazo que só começa a
correr para cada um quando começar a correr para todos. Ele começa
correr no mesmo momento para os dois, e termina no mesmo momento para
os dois.

Art. 59 - A oposição oferecida antes da audiência será


apensada aos autos principais e correrá simultaneamente com a ação,
sendo ambas julgadas pela mesma sentença. A primeira conclusão que se
extrai da norma é que a oposição corre em autos apartados, embora
apensados. "Correrá simultaneamente com a ação" - é uma pretensão do
Código que não se realizará necessariamente na prática. Porque,
permitindo o Código que a oposição, como intervenção de terceiro, seja
oferecida até a audiência, pode acontecer que aquela causa que já estava
pendente estivesse já madura para a audiência, de tal maneira que dentro
de poucos tempo pudesse ser realizada a audiência de instrução e
julgamento. Nesse caso, oferecida a oposição até a audiência, o que vai
acontecer é que o andamento daquela causa que já figurava no processo vai
ficar parado, não correrá simultaneamente, aguardando que a oposição
acerte o passo com ela. Correrá simultaneamente quando possível, sendo
ambas julgadas pela mesma sentença.

Art. 61 - Cabendo ao Juiz decidir simultaneamente a ação e a


oposição, desta conhecerá em primeiro lugar - quer dizer, apreciará em
primeiro lugar a oposição. Quando a oposição for oferecida depois do
início da audiência de instrução e julgamento e antes do término do
processo ou da prolação da sentença (de acordo com a teoria que foi
levantada aqui), diz o art. 60: seguirá a oposição o procedimento ordinário.
Não necessariamente o ordinário - o que o CPC quis dizer é que seguirá
110
procedimento autônomo, não vinculado àquele da causa primitiva. Com
essa possibilidade do art. 60 de, sendo conveniente e sendo possível, o Juiz
sobrestar o andamento do primeiro processo por prazo nunca superior a 90
dias, a fim de julgá-lo juntamente com a oposição. Nesse caso, se a
oposição for julgada juntamente, então se aplica o art. 61, no sentido de
que quando julga na mesma oportunidade a ação primitiva e a oposição, o
Juiz aprecia em primeiro lugar a oposição, o que em certa medida tem um
caráter prejudicial em relação à ação.

NOMEAÇÃO À AUTORIA
Art. 62 e seg. do CPC.

Ao contrário da oposição, como os srs. verão, constitui uma


modalidade forçada de intervenção de terceiro no processo - não no
sentido de que o terceiro seja à força compelido a atuar, mas no sentido de
que ele se transforma em parte não em virtude de manifestação de sua
vontade, mas em função de convocação que ele recebe para participar
daquele processo.

A nomeação à autoria é uma modalidade interessante de


intervenção de terceiro. Ela se destina a corrigir erros que o autor cometa
no tocante ao endereçamento da ação proposta, no tocante à legitimação
passiva para figurar como réu na causa. Normalmente, se o autor propõe
ação contra pessoa que não seja passivamente legitimada para figurar como
réu naquela causa, a conseqüência disso é que o processo deva extinguir-se
sem apreciação do mérito. Em certos casos, porém, o legislador dá uma
"colher de chá" para o autor, impondo àquele que foi indevidamente
convocado como réu o dever de dizer que ele não tem legitimação
passiva, e mais que isso, de indicar, de nomear o terceiro que tem
legitimação passiva para figurar como réu no processo.

A nomeação à autoria é isso: é a convocação ao processo de


um terceiro que tenha legitimação passiva para figurar ali como parte,
constituindo um dever daquele que foi indevidamente citado indicar
quem é o legitimado passivo, de nomear à autoria. Ocorre em duas
hipóteses:

1ª) O art. 62 se refere à primeira delas, que é a seguinte:


uma ação é proposta para discutir a posse de um bem, ou a propriedade de
um bem. E o autor atribui àquele que ele indica como réu a qualidade de
possuidor ou de proprietário, mas na verdade ele não sabe que aquele que
ele indicou não é nem uma coisa nem outra, é mero detentor da coisa. Por
ex. um empregado que esteja tomando conta de um imóvel. A primeira
hipótese é essa. O detentor é citado como réu para um processo no qual se
111
vai discutir a posse ou a propriedade, na suposição, por parte do autor, de
que ele é o proprietário ou o possuidor da coisa, quando na realidade não é
nem uma coisa nem outra - é o detentor. Ele então tem o dever de indicar
quem é o proprietário ou o possuidor, conforme o caso.

2ª) Art. 63 - o caso é o seguinte: eu sou dono ou titular de um


direito real ou pessoal sobre uma coisa e venho a sofrer, nessa qualidade,
um dano causado por um indivíduo que eu conheço. Então, proponho contra
ele ação para ressarcimento do dano que ele me causou. Ocorre, porém,
que ele sabe, mas eu não sabia, que ele praticou aquele ato que me causou
dano, em cumprimento de determinação de outra pessoa. De tal maneira
que o responsável pelo prejuízo, ou seja, aquele que deve responder pelo
prejuízo, não é ele, mas esse outro que ordenou a ele que praticasse aquele
ato que me causou prejuízo. Nesse caso, esse indivíduo que foi citado,
contra quem eu propus a ação, não sendo ele responsável pelo dano,
porque praticou o ato por determinação de terceiro, deve nomear à autoria
o terceiro, que deverá figurar na causa, uma vez que é ele o responsável
pelos prejuízos e, portanto, é ele que deve responder àquela ação.

É isso que, de modo um pouco confuso diz o Código: "...toda


vez que o responsável pelos prejuízos alegar que..." A rigor, esse
"responsável pelos prejuízos" aí está errado - se ele fosse o responsável
pelos prejuízos obviamente ele não teria que indicar nem nomear à autoria
ninguém. Justamente porque ele não é responsável pelos prejuízos, é que
ele deve nomear à autoria. A rigor, o que o Código deveria ter dito teria
sido "o demandado", ou "o responsabilizado". Responsável é que ele não é.

Então nesses dois casos a lei impõe àquele que foi citado no
processo o dever de indicar o terceiro que tem legitimação passiva. Trata-
se de um dever. E mais, o Código estabelece uma sanção para aquele que
deveria nomear à autoria e não o fez, ou para aquele que deveria nomear à
autoria e o fez inadequadamente, nomeando pessoa diversa daquele que é
passivamente legitimado. Art. 69 - "Responderá por perdas e danos..."

PROCEDIMENTO DA NOMEAÇÃO À AUTORIA

Art. 64 - O réu não "requer" a nomeação. Ao contrário do que


diz o Código, o réu faz a nomeação; ele não nomeia, ele não requer .
Tem que nomear, portanto, no prazo para a defesa. Normalmente, no
procedimento ordinário, prazo de 15 dias. O Juiz vai verificar se é ou não
caso de nomeação à autoria. Se a hipótese se enquadra no caso do art. 62
ou do art. 63. E pode indeferir a nomeação feita pelo réu. Se deferi-la,
porém, suspende o processo e manda ouvir o autor no prazo de 5 dias. O
autor não é obrigado a aceitar a nomeação, assim como ele não é obrigado
a propor a ação contra a pessoa legitimada passivamente. Ele deve
112
propor, tem o ônus de propor. Se não propuser, corre o risco de não ter
o seu pedido apreciado e o Juiz considerá-lo carecedor de ação. De tal
maneira que ele também não é obrigado a aceitar a nomeação feita apelo
réu. Pode aceitar ou pode recusar.

Se ele quiser recusar, tem que fazê-lo expressamente, no


prazo previsto no art. 64, 5 dias. Além de recusar, ele pode aceitar
expressamente ou omitir-se, não dizer se aceita nem se recusa. Se se
omitir (art. 68), presume-se aceita a nomeação. A aceitação pelo autor,
portanto, pode ser expressa ou tácita. A recusa é que tem que ser
expressa.

Se o autor aceita a nomeação feita pelo réu, diz o art. 65, a


ele incumbirá promover a citação, ou seja, promover a citação daquele
que foi indicado pelo réu como legitimado passivo para aquela
causa.

Se o autor recusa, diz ainda o art. 65, ficará sem efeito a


nomeação. O processo, nesse caso, retomará a sua marcha, terminará a
suspensão e ao réu será devolvido integralmente o prazo de defesa. Art. 67
- quando o autor recusar o nomeado, assinar-se-á ao nomeante novo prazo
para contestar.

Pode acontecer, porém, que o autor aceite, expressa ou


tacitamente, e neste caso o nomeado terá que ser citado. Modalidade
forçada, portanto, de intervenção de terceiro, que é o nomeado, no
processo.

O nomeado, por sua vez, citado, pode adotar duas atitudes: 1)


em primeiro lugar, pode reconhecer que realmente é ele quem tem
qualidade para figurar como réu naquela causa, que é ele o legitimado
passivo para aquele processo. Ou pode negar essa qualidade, dizendo que
não é ele o legitimado passivo, que ele não tem legitimação passiva para
figurar naquele processo. Da mesma forma como a recusa pelo autor, essa
negativa do nomeado a respeito da sua qualidade para figurar naquele
processo, tem que ser expressa; ou ele recusa expressamente, ou então
aceita expressamente, ou não diz nada, presumindo-se neste caso que ele
reconheceu a qualidade que lhe foi atribuída pelo réu (art. 68, inc. II). Ele
pode, portanto, o nomeado, uma vez citado, reconhecer expressa ou
tacitamente a qualidade que lhe foi atribuída pelo nomeante, ou negar essa
qualidade. Se reconhece, diz o art. 66, contra ele correrá o processo.
Sai de cena o nomeante, o nomeado passa então a ocupar o lugar
que até então era ocupado pelo nomeante, que é excluído do
processo.
113
A finalidade da nomeação é corrigir um erro verificado
na legitimação, de tal maneira que, a partir do momento em que
ingressa no processo a pessoa que tem legitimação passiva, não
haveria razão para manter-se no processo um indivíduo que não tem
aquela legitimação. O processo passa a correr exclusivamente contra o
nomeado; o processo, retendo a sua marcha, cessa a suspensão que o Juiz
determinara ao deferir a nomeação feita pelo réu, e se abre ao nomeado
que assumiu a qualidade de réu um prazo para contestar, para defender-se.

2) A outra hipótese é a de o nomeado, citado, expressamente recusar a


qualidade que lhe foi atribuída pelo réu. O réu fez a nomeação, o autor
aceitou, foi citado o nomeado, que pura e simplesmente vem ao processo e
nega que tenha legitimação passiva para figurar na causa como parte.
Nessa hipótese, diz o art. 66, o processo continuará contra o nomeante. De
tal maneira que, a rigor, pelo que está escrito aqui, nós podemos entender
que o nomeado deixa de participar do processo, ele aparece apenas para
dizer que não reconhece a qualidade que lhe foi atribuída e desaparece em
seguida. Não era essa a solução do direito anterior, pois, quando o
nomeado negava a qualidade que lhe era atribuída pelo réu e aceita pelo
autor, o processo corria contra ambos, contra nomeante e nomeado. Se o
nomeado quisesse participar, atuar, muito bem; se não quisesse, ele, de
qualquer maneira continuaria sendo parte e, portanto, estaria sujeito afinal
à coisa julgada que se formasse sobre a decisão proferida. O art. 66 diz
pura e simplesmente que se o nomeado nega que tenha legitimação
passiva, o processo continuará contra o nomeante. Parece mais ou menos
indiscutível que, com isso, a lei quer dizer que aquele que foi nomeado e
recusou cai fora. Essa conseqüência, porém não é vantajosa. Vejam os
srs., o problema concerne à legitimação passiva. Para o autor, se ele não
tem condições de verificar prontamente quem tem legitimação passiva, se
está em dúvida entre o nomeante ou o nomeado, seria muito mais
interessante que o processo, como no direito anterior, continuasse a correr
contra ambos, de tal maneira que ele não se veria surpreendido por uma
decisão que deixasse de apreciar o pedido e o julgasse carecedor de ação.
A solução do Código dá margem a que, continuando o processo a correr
exclusivamente contra o nomeante, mais tarde venha a verificar-se que este
tinha razão - não tinha legitimação passiva - que a legitimação era daquele
mesmo que ele havia nomeado; mas aí já será tarde, e esse processo vai ter
de extinguir-se sem julgamento do mérito. Não é prático, não foi uma
modificação vantajosa feita pelo Código. Há quem sustente que subsiste a
solução do direito anterior, no sentido de que, mesmo que o nomeado
recuse, ele será alcançado pela sentença que vier a ser proferida;
continuaria a ser parte, a despeito de haver recusado. Parece, porém, que
o Código não fornece base alguma para esse entendimento. Diz o art. 66
que o processo continuará contra o nomeante. Realmente, é muito difícil
sustentarmos que, a despeito de sua recusa, o nomeado continua a
114
ser parte e portanto pode ser proferida perante ele uma sentença
que aprecie o mérito.

DENUNCIAÇÃO DA LIDE
Art. 70 e seguintes do CPC

Para que os srs. bem compreendam do que se trata na


denunciação da lide, figura que tem sido vítima na prática forense de certos
equívocos funestos, atentem bem nesta explicação prévia antes de
examinarmos a disciplina legal.

Por vezes acontece que a pessoa derrotada num processo, e


em conseqüência disso compelida a fazer um pagamento ou a entregar
alguma coisa à parte vencedora, tem o direito, que se chama regressivo,
contra terceiro. Direito regressivo quer dizer o direito de haver desse
terceiro uma compensação do prejuízo que teve em face de sua
condenação no processo.

Ex.: aquele que adquire um bem e que depois se vê privado desse bem por
força de uma ação em que alguém reivindica a coisa, dizendo que não
pertencia na realidade a quem lhe vendeu. O caso é que ele comprou mal,
comprou de quem não era dono. Admita-se que esse comprador seja
derrotado e com isso se veja na contingência de ter que entregar aquela
coisa que ele havia comprado de quem não era dono ao verdadeiro dono.
Ele não fica totalmente no "ora veja", a lei lhe concede o direito regressivo
de exigir daquele vendedor, que não era dono, a indenização do prejuízo
sofrido.

Direito regressivo, ou direito de regresso, é o direito


que tem aquele quer perde, de se reembolsar do prejuízo sofrido, à
custa do terceiro.

Outro ex.: a pessoa que destrói coisa alheia em estado de necessidade, é


obrigado a indenizar. Mas se o perigo que o levou a destruir a coisa alheia
foi causado por um terceiro, terá em conseqüência do desembolso que faz
para indenizar o proprietário da coisa destruída, o direito de voltar-se
contra o terceiro causador do perigo e exigir dele que, por sua vez, o
reembolse daquela importância que ele foi obrigado a despender para
indenizar o proprietário.

Então há, como vêem, duas relações jurídicas, perfeitamente


distintas: uma entre as partes primitivas do processo (alguém reclama a
coisa que está em poder de outrem, dizendo que ele é o dono) e outra entre
quem está na iminência de ter de entregar a coisa ou pagar a importância e
115
o terceiro de quem ele pode exigir que o compense do prejuízo que vai
sofrer.

No sistema anterior ao Código, que acontecia? Suponhamos o


caso da pessoa que adquiriu um bem e contra o qual vem outra pessoa e
exige a entrega do bem alegando que é dele, que foi comprado de quem
não era dono. Essa pessoa perdendo, eventualmente, a causa, é obrigada a
entregar o bem, é claro. E só depois, instaurando um outro processo,
propondo uma ação à parte, é que iria poder exigir daquele falso dono, que
lhe havia vendido ilegitimamente o bem, a indenização a que tinha direito.
No caso da evicção (perda do bem - propriedade que era de outrem), por ex,
A comprou uma casa a B, mas B não era o verdadeiro dono, o verdadeiro
dono era C. C propõe uma ação contra A, quer que A seja condenado a
entregar a casa. A tem o direito de regresso contra B, que vendeu não
sendo dono. Mas, pelo direito anterior, essa segunda relação jurídica, o
direito regressivo, só se podia fazer valer através da uma nova ação quando
terminasse aquela. Então, A era condenado, entregava a casa a C e depois
é que lhe era possível voltar-se contra B, instaurando novo processo para
reclamar a indenização a que tinha direito.

O Código introduziu uma alteração muito importante nessa


sistemática. Ele permite que a pessoa que está sob a ameaça de perder a
causa e, na hipótese de perdê-la, tiver direito regressivo contra terceiro,
não espere o resultado final, desde logo e dentro do mesmo
processo convoque o terceiro, ou melhor, provoque a intervenção
desse terceiro; e que desde logo peça ao Juiz que, no caso de o resultado
do processo ser tal que o obrigue a entregar a coisa ao adversário, nessa
mesma sentença julgue também o direito regressivo e, portanto, diga o
seguinte: "condeno A a entregar a coisa a C, mas também condeno desde
logo B a ressarcir o prejuízo de A".

Então, no momento em que A for executado para entrega ou


pagamento daquela coisa, ele se vale da mesma sentença para instaurar
também, por sua vez, uma execução contra aquele terceiro em face do qual
ele tem o direito regressivo.

Ora, isso dá ao processo uma configuração muito curiosa,


porque na realidade, ao fazer isto, ao denunciar a lide ao terceiro (termo
técnico) o que a parte está fazendo é, nada mais nada menos, do que
propor por antecipação uma ação contra esse terceiro, uma ação regressiva
com caráter eventual. É uma ação curiosa, porque é uma ação que se
propõe para produzir efeitos somente na hipótese de aquele que a
propõe perder a causa primitiva. Se ganhar, nenhuma relevância terá,
mas se ele perder terá toda a vantagem de obter, desde logo, a sentença
contra o terceiro, habilitando-se, portanto, a instaurar a execução. Então,
116
no caso de o denunciante (aquele que faz a denunciação) perder a causa
primitiva, ele perde aqui, mas pode ganhar em relação ao denunciado.

A -> B -> C. Nós temos uma causa primitiva de C contra A e


nós damos a A a possibilidade de, dentro do mesmo processo, propor por
antecipação a sua ação regressiva contra B. Reparem que A fica numa
posição anfíbia, ou híbrida; ele é réu em face de C, mas em face de B ele é
autor. Se o pedido de C for julgado procedente, o Juiz também, desde logo,
julga procedente o pedido de A em face de B, de modo que na sentença,
embora formalmente una, há na realidade um conteúdo duplo, há duas
sentenças numa só (como aquelas bananas duplas que vêm envolvidas
numa só casca). Aqui, é um caso semelhante - dentro da mesma casca vêm
duas sentenças, uma que condena A em face de C, e outra que condena B
em face de A.

E pode acontecer também que B se julgue com direito


regressivo em face de outra pessoa, D, e também pode denunciar a lide a
D; e D pode denunciar a lide a E, e assim por diante. De sorte que temos
uma cascata, uma verdadeira cachoeira de ações e sentenças (o Salto das 7
Quedas processual).

Mas o essencial no que estou dizendo é que a denunciação da


lide é, portanto, a propositura de uma ação, logo só a parte pode fazê-la.
O Juiz não pode determinar de ofício a denunciação da lide, porque
o Juiz não pode propor ação pela parte. Toda ação é proposta pela
parte - ne procedat iudex ex officio - o Juiz não tem a iniciativa de
propositura. Esse é um ponto capital. Quem não entendeu isso ainda não
sabe nada a respeito de denunciação da lide.

Segundo pondto capital: Quando, p.ex., A denuncia a lide a B, ele não está
negando, nem pode estar negando, que ele, A, possa eventualmente ser
responsabilizado perante C. Ele não está dizendo assim: "quem deve
responder perante C não sou eu e sim ele B." Isto é outra coisa, não tem
nada que ver com a denunciação da lide. Se ele denuncia a lide a B, o que
ele quer é, eventualmente, no caso de sua derrota em face de C, se
reembolsar, à custa de B. Mas ele, portanto, admite, em tese, que possa
ser condenado em face de C.

E pode ser que C não tenha razão, mas ele não está negando
que se C tiver razão, é ele, B, quem deve ser condenado. Portanto, um
caso como este que vou agora descrever, digam-me se seria cabível a
denunciação da lide:

Uma pessoa, atropelada por um veículo oficial, propõe ação


contra o Est. do Rio de Janeiro, porque está na convicção de que o veículo
117
pertence ao Estado. Verifica-se, porém, que o veículo pertence ao
Município, que é uma pessoa jurídica distinta. É caso de o Estado requerer
a denunciação da ide ao Município? Não, porque aí o que o Estado está
querendo dizer perante a vítima do acidente é o seguinte: "não é contra
mim e sim contra o Município que você deve propor a sua ação." Mas não é
disso que se trata na denunciação da lide. Seria caso, se porventura o
Estado dissesse: "não, diante disso, na hipótese de vir a ser condenado a
lhe pagar, quero cobrar o meu prejuízo do Município." Mas isso,
obviamente, não se configura no caso. Porque, de duas uma: ou o carro é
do Estado e só o Estado é que paga e não tem direito regressivo nenhum
contra o Município, ou o carro é do Município e o Estado, por conseguinte, é
parte ilegítima perante a vítima. Tem que dizer só isso, que é parte
ilegítima, não tem de denunciar a lide.

Art. 70 - A redação dos dispositivos é, às vezes, um pouco


confusa, devemos prestar atenção. Então, nós temos alguém que transmitiu
o domínio de um bem à parte, ou melhor, alguém que aparentemente,
transmitiu o domínio. Por que aparentemente? Porque, na realidade, não
era dele. Vem o verdadeiro dono e propõe ação contra o adquirente para
conseguir que ele seja condenado a lhe entregar a coisa. O adquirente
denuncia a lide ao seu suposto alienante para obter a condenação dele a
indenizá-lo do prejuízo que vai sofrer se tiver de entregar a coisa. Então
temos: C -> A -> B. Quando acontecer que esse 1º pedido não seja
acolhido, que o pedido de C em face de A seja julgado improcedente,
obviamente tampouco haverá a condenação de B em face de A, já que uma
coisa é pressuposto da outra - há uma relação de dependência lógica.
Se não existe o direito de C contra A, tampouco existirá o direito regressivo
de A contra B.

Para que exista o direito regressivo do denunciante


contra o denunciado, é preciso que exista o direito da outra parte
contra o denunciante.

Mas pode ocorrer que exista o direito de C contra A e não


exista o direito regressivo de A contra B. A diz: "quero denunciar a lide a B
porque, eu perdendo, poderei cobrar de B o meu prejuízo." Parece
correto, mas pode acontecer que depois o Juiz verifique que não
havia esse direito regressivo, podia até ter acontecido que A
houvesse renunciado a ele. Ora, neste caso o Juiz pode julgar
procedente a ação primitiva e julgar improcedente a denunciação da
lide.

O Contrário é que não é possível. Julgar procedente a


denunciação da lide tendo julgado improcedente o pedido primitivo.
118
A relação de dependência é essa: C -> A -> B. A existência
de um direito é pressuposto da existência do outro. Se o primeiro não
existe, o segundo também não, mas o primeiro pode existir e o
segundo não.

O inciso III é tão genérico que abrange e inclui os outros. O


Código deveria ter usado uma fórmula mais sintética, quis desdobrar as
hipóteses e o fez sem necessidade, porque tudo isso nada mais é do que
uma variedade de direito regressivo.

Aparece um cliente no escritório dos srs. e diz: "Dr., eu estou


sendo processado por FULANO mas eu acho que se eu perder a causa, tenho
direito de me voltar contra BELTRANO e pedir que ele me compense do
prejuízo que vou ter. É verdade que eu destrui o bem que pertencia a F.,
ele está me cobrando a indenização e eu sou capaz de ser condenado a
pagar. Mas acontece que quem me forçou a destruir o bem, criando o
estado de perigo, pondo fogo no prédio e daí a minha necessidade de
destruir aquele bem de F., que estava na minha frente, foi B. E eu é que
vou ficar no prejuízo, quando o verdadeiro culpado foi aquele que ateou
fogo? Que é que eu posso fazer Dr.? - Bem, o Sr. tem o direito regressivo
contra ele, o Sr. tem direito de cobrar dele o que tiver de pagar ao dono da
coisa destruída. - Mas eu vou ter que esperar até o fim deste processo? -
Não, o Sr. pode desde logo propor a sua ação contra o causador do
incêndio. É a denunciação da lide."

O art. 70 do Código diz que é obrigatória a denunciação da


lide. Obrigatória em que sentido? Eu não posso deixar de denunciar a lide
àquele contra quem eu posso ter um direito regressivo se perder a causa?
O que quer dizer isso? Isto vai levar a certas controvérsias. Há duas
correntes principais. Uma sustenta que, se eu não denunciar a lide eu
perco o direito regressivo, não posso mais, noutra ação, exigir do
terceiro que me reembolse o prejuízo sofrido. Esta posição, no caso da
evicção, no caso, portanto, do bem que eu adquiri de quem não era dono e
que vejo ser tomado pelo verdadeiro dono, essa posição está no Código
Civil, art. 1.116. De acordo com o CPC, se o adquirente, ao ser demandado
pelo verdadeiro proprietário, não fizer a denunciação da lide ao seu
vendedor, perde o direito que lhe resulta da evicção. Mas então,
exatamente porque a solução, neste caso, está expressamente prevista na
regra legal do D. Civil, outra corrente sustenta que só neste caso é
que a conseqüência ocorre, porém, nos outros casos não há
nenhuma regra do Dir. Civil por força da qual o titular do direito
regressivo o perca só pelo fato de não ter denunciado a lide. Então,
essa segunda corrente entende, a meu ver com maior razão, que no caso de
evicção - porque o C. Civil expressamente dispõe que a omissão em
denunciar a lide produz para o adquirente a perda direito regressivo contra
119
o cliente - essa conseqüência sem dúvida ocorre. Então, aí a denunciação é
obrigatória neste sentido: de que se ele não o fizer ele perde o direito de
regresso. Nos outros casos, porém, nos quais não existe nenhuma regra do
direito substantivo que afirme a mesma coisa, a conseqüência não se
produz.

Ora, se não se produz essa conseqüência, qual é o prejuízo?


Em outras palavras, nesses outros caos, se a pessoa não faz a denunciação
da lide, qual é o prejuízo que ela tem? Não perde o direito regressivo,
porém perde a possibilidade de obter naquele mesmo processo a
condenação antecipada e o outro. É essa a desvantagem dela. Como
não denuncia a lide, é claro que o Juiz não vai condenar B. Vai condenar só
A a pagar a C. E aí, A, se quiser, terá que fazer como antigamente - pagar
a C e depois começar tudo de novo, propondo ação para recobrar de B a
indenização.

Então, nesses outros casos, a denunciação da lide é


obrigatória no sentido de que é preciso que ele a faça para obter esse
efeito, o de conseguir na mesma sentença em que seja condenado, a
condenação do outro a reembolsá-lo. Mas não perde o direito, poderá
exercê-lo em outra ação à parte.

A questão é controversa, até agora não há uma


preponderância nítida de uma em relação à outra corrente. Eu prefiro a
segunda, mas os srs. podem optar livremente.

Voltando ao Código, vejamos como se disciplina esta forma de


intervenção, que é uma forma de intervenção provocada, não voluntária.
O terceiro não aparece espontaneamente, é indicado.

Art. 71 - O denunciante ser o autor é muito raro. O mais


comum é o denunciante ser o réu. Então, o denunciante requer a citação do
denunciado. O Juiz defere, e manda citar o denunciado.

Art. 72 - Prazo da citação -> § 2º, para evitar paralisação por


tempo excessivo.

Art. 73 - Essa é a denunciação da lide em cascata. B comprou


imóvel de C. A propõe uma ação contra B, dizendo-se dono do imóvel. B
denuncia a lide a C para assegurar que seus direitos sejam indenizados.
Mas C, por sua vez comprou aquele imóvel de D, então C, chamado por B,
quando vê que B lhe denuncia a lide, procura um advogado e diz que havia
comprado aquele imóvel a D. Então denuncia a lide a D, porque assim, se B
for condenado a entregar a A e por isso C for condenado a indenizar B,
obterá a condenação de D a indenizá-lo. E assim por diante.
120

Art. 74 - A denunciação pelo autor é caso raríssimo. Vamos ao


caso mais importante que é o da denunciação feita pelo réu, é o que ocorre
na generalidade dos casos.

Art. 75, I - O denunciado comparece e aceita a denunciação.


Aceitar a denunciação não quer dizer necessariamente reconhecer que o
denunciante tem razão, mas reconhecer a legitimidade do fato, caso
tenha razão poderia exigir o reembolso. Então, ele comparece e diz:
"De fato, se V. perder, é de mim que tem que pleitear o reembolso." O
interesse do denunciado é evitar a derrota do réu, do denunciante, então
ele deseja que este vença. Embora estejam um contra o outro, diante do
autor estão com o mesmo interesse, que o pedido dele seja julgado
improcedente. Por isso é que o Código diz que eles continuam como
litisconsortes. Isto é talvez não muito exato, dá uma falsa idéia: a de que o
processo toma este feitio.

ATENÇÃO: porventura é possível que C, denunciado, venha a ser condenado


em face de A? C não tem nenhuma relação com A, nem A possui nada
contra C. Vejam o disparate a que leva a má compreensão do instituto.
Lembremos o caso do veículo. Se aquele caso fosse tratado como sendo de
denunciação da lide, poderia acontecer que o Estado denunciasse a lide ao
Município, o Município tivesse que ser condenado em face de quem? Da
vítima? Mas isso não é possível, porque não há nenhuma relação entre a
parte primitiva e o denunciado, eles não têm relação entre si. Há uma
sucessão de relações, de A com B, de B com C, de C com D, D com E, mas
nunca A com C, nem com D, ou com E. Do contrário, não seria direito
regressivo. Vejam bem: então esta figura é o próprio, e continua sendo
esta; só que, na prática, visto que a C interessa a vitória de B em face de
A, e interessa exatamente porque a procedência do pedido de A contra B é
pressuposto lógico do direito regressivo. Se se for negado, também
é negado o direito regressivo.

Então, uma vez que C, denunciado, tem um interesse em parte


coincidente com o de B, denunciante, no sentido de que ambos desejam que
A perca, é por isso que a lei fala em litisconsórcio.

Art. 75, II - Se o denunciado comparece e nega a qualidade


que lhe foi atribuída, nega o direito regressivo. Então, C não se dispõe a
ajudar B. Que é que acontece? Cumpre a B, sozinho, prosseguir a defesa
em face de A. É claro que se B ganhar, C fica livre. Se B perder, de duas
uma: ou é verdade que C tenha razão, então o Juiz condena B a pagar a A,
mas não condena C a pagar a B; ou então tinha razão B quando afirmava a
existência do seu direito regressivo em face de C, e neste caso, o Juiz
condena B a pagar a A e condena C a pagar a B. O fato de ser julgado
121
REVEL, não o isenta de modo nenhum da possibilidade de ser condenado a
reembolsar o denunciante. Essa possibilidade existe. Do contrário bastaria
C ficar caladinho para levar vantagem.

Art. 75, III - É a hipótese mais curiosa - vejamos o caso da


evicção. A aciona B, pedindo o imóvel. B denuncia a lide a C. C vem e,
vigarista consumado, em vez ajudar B, confessa que não era o dono - puxa
o tapete debaixo de
B. Então B fica sem apoio, porque a sua única defesa era dizer que tinha
comprado bem. Então, a lei aí não impõe a B o ônus de prosseguir na
defesa. Ele poderá prosseguir na defesa. O Juiz imediatamente condena B
a entregar a A o imóvel, e também condena C a pagar indenização a B.
Agora, se B quiser, pode prosseguir na defesa valendo-se de outros
argumentos, como prescrição, etc.

Art 76 - Isto é, a sentença deve julgar ambas as causas. Há


duas causas embutidas no mesmo processo. Então, os resultados são os
seguintes:

1º) O Juiz julga improcedente o pedido de A. Neste caso, ponto final - a


denunciação da lide fica sem relevância porque é claro que não poderá
existir direito regressivo nenhum;

2º) O juiz julga procedente o pedido de A contra B, e verifica que de fato B


tem direito regressivo contra C. Então, condena B a pagar a A, e C a pagar
a B. Dessa sentença podem sair duas execuções. Com fundamento na
mesma sentença, A pode executar B e B pode executar C. São duas
execuções diferentes, mas com fundamento numa única sentença.

3º) Pode acontecer que não haja o direito regressivo, que B seja obrigado a
pagar a A, mas não tenha direito regressivo. Então o Juiz julga procedente
o pedido de A, mas não julga procedente a denunciação da lide.

O que não é possível de jeito nenhum é julgar


procedente a denunciação da lide sem julgar procedente o pedido
primitivo.

CHAMAMENTO AO PROCESSO

Uma breve explicação prévia: por vezes o credor, ou alguém


que se julga credor, pode exigir o pagamento ou de um ou de outro ou
outros. Ele escolhe: propõe a sua ação apenas contra um dos possíveis
réus, e não contra todos. Neste caso, o réu escolhido tem a possibilidade
de chamar os outros.
122

Eu sou credor de A e B, que são meus devedores solidários,


suponhamos. Quer dizer que eu posso cobrar de qualquer deles a dívida por
inteiro, mas assim como eu posso cobrar, ele, por sua vez, pode "chamar" o
outro. A isso é que se denomina CHAMAMENTO AO PROCESSO, feito
sempre somente pelo réu, jamais pelo autor.

Art. 77 CPC - Aí é admissível, não é obrigatório. Inciso I - Se


o credor propõe a ação somente contra o fiador, não contra o devedor
afiançado, o fiador poderá chamar o devedor ao processo. Inciso II - caso
do co-fiadores, todos eles são fiadores do mesmo devedor. Inciso III - já
comentado supra. As três hipóteses são muito semelhantes, em todas elas
existe, de um lado o credor que é o autor, do outro lado uma das pessoas
que poderiam ser demandadas, que chama ao processo as outras.

Isto não é uma boa inovação, a meu ver, do CPC de 1973. A


denunciação da lide é, a meu ver, porque ela favorece a satisfação do
direito de regresso, o evicto merece essa proteção. Mas aqui não. A
solidariedade passiva é estabelecida pela lei civil, pelo lei substantiva, em
benefício do credor, mas veio o CPC e tirou com a mão esquerda o que
tinha dado com a direita. Em que se traduz prontamente esse tal benefício
dado ao credor por força da solidariedade passiva? O credor tem três
devedores solidários; na hora do vencimento da dívida ele verifica que dos
três, um se encontra no Vietnam, o outro ficou na miséria e hoje é mendigo,
mas o terceiro é um milionário. Se os srs. fossem o credor, de quem
escolheriam cobrar essa dívida? Deste último, é claro. Eis aí a vantagem
para o credor. Agora, o milionário, demandado pelo credor, segundo a lei,
segundo o Código, pode chamar ao processo os outros. Um está perdido
nas matas - vai ser custoso de achar. Assim, destrói-se a vantagem do
credor que vai ser obrigado a esperar pelo vitória e uma vitória de Pirro
(uma vitória que praticamente não representa nada, deixa tudo como estava
e até pior). Pois bem, então me parece que aí a inovação não foi feliz, veio
atrapalhar a vida do credor.

Mas deixando de lado isso, vamos ver o instituto, já que ele


existe.

Art. 78 - A lei dá aí um benefício ao réu, ao devedor: a


possibilidade de aproveitar-se daquela sentença para recolher dos outros as
suas respectivas parcelas.

Art. 79 - Dos prazos para citar os chamados (temos os


chamantes e os chamados)
123
Art. 80 - B chama ao processo C e D. Aqui forma-se um
verdadeiro litisconsórcio, todos têm um interesse comum contra A.

Se for o caso de devedores solidários, se A vencer, B não se


livra do pagamento, A pode exigir dele a dívida inteira; porém B poderá
valer-se dessa mesma sentença para exigir de C e D as parcelas a eles
correspondentes depois que pagar tudo a A. Então B é condenado, paga a
A (3/3) e depois executa C por 1/3 e D por outro 1/3. Depois, mas não por
outra ação e sim valendo-se da mesma sentença. Aí a vantagem que a lei
dá ao réu, ele já tem aí o título para executar C e D pelas suas respectivas
parcelas.

Se for o caso do fiador, ele, depois de pagar ao credor, poderá


usar a mesma sentença para cobrar do devedor a quantia toda.i

O MINISTÉRIO PÚBLICO - O ADVOGADO

Tudo o que estudamos nestas últimas aulas diz respeito aos


sujeitos do processo. Estivemos examinando o processo do ponto de vista
da sua estrutura subjetiva, primeiro do órgão judicial, depois das partes,
sujeitos principais. Vamos agora dizer algumas palavras sobre dois outro
sujeitos que aparecem no processo - o Ministério Público e o Advogado para,
a partir da próxima aula, começarmos a examinar o processo não mais na
sua estrutura, na sua anatomia, digamos, mas no seu funcionamento, na
sua dinâmica, através do estudo dos atos processuais.

O Ministério Público tem papel de maior relevo, como sabem,


no processo penal. Normalmente, na maioria dos casos, o processo penal é
iniciado pelo M.P., é instaurado por iniciativa do M.P. Uma ação penal, em
regra, é pública e começa com o oferecimento da denúncia pelo órgão do
M.P.

O papel do M.P. no processo civil é menos importante, mas


não pode deixar de ser aqui, ainda que sumariamente, estudado.

Todos sabem que o M.P. é um órgão do Estado, entendida esta


palavra no sentido amplo, não é o Estado-membro. A União tem o seu M.P.,
cada Estado tem por sua vez o seu M.P. e a esse órgão são confiadas
atribuições diversas, como resultado de uma longa evolução histórica. O
M.P. está previsto na própria Constituição da República (art.127 e ss). Ele
goza de certas prerrogativas que se revestem de certas peculiaridades e o
colocam numa posição um pouco diversa daquela que têm os funcionários
124
públicos no sentido estrito. Mas aqui não nos interessa tanto, já agora, o
estudo do M.P. do ponto de vista institucional, e sim mais especificamente o
exame do papel que ele mantem no processo civil. Esse é o aspecto de que
vamos cuidar.

Pode o M.P. atuar no processo civil em mais de uma posição,


basicamente em duas posições: ou ele funciona como parte, ou atua
como fiscal da lei, fiscal da boa aplicação da lei.

Obs. O M.P. como Advogado - no plano federal, o M.P. se compõe dos


Procuradores da República, seu chefe é o Procurador Geral da República (CR
art. 128 § 1º), nomeado pelo Presidente da República, de acordo com certos
requisitos que estão estabelecidos no própria Constituição. Os Procuradores
da República tinham atribuição de representar a União em Juízo. Mas pela
Constituição de 1988, tal atribuição foi transferida a um novo órgão, a
Advocacia Geral da União (CR art. 131). Portanto, no processo civil, o M.P.
não mais funciona como advogado da União, a exemplo do que ocorre nos
Estados, onde existe a Procuradoria Geral do Estado e a Procuradoria Geral
de Justiça, cujos membros pertencem ao M.P.

1) Como PARTE: a lei lhe confere legitimação para figurar no processo, em


determinados casos, na qualidade de parte.

CPC, art. 81 - Cabem-lhe os mesmos poderes e ônus. Eu diria os mesmos


direitos, os mesmos deveres, as mesmas faculdades, simplesmente
se ele é parte. A maneira pela qual a lei se expressa pode dar uma falsa
impressão de que ele apenas tem os mesmos poderes, etc. que as partes
embora não sendo parte. Não é isso. Ele os tem precisamente porque é
parte. Porque ele exerce o direito de ação, quem exerce o direito de
ação é parte, é autor. Então, nas hipóteses previstas por lei, o M.P. é parte,
propõe ação. Não como representante de alguém, mas sim em se próprio
nome.

A lei, em inúmeros dispositivos, atribui essa função ao M.P.


Nós encontramos a esse respeito normas no direito material e na lei
processual. Por ex., no C.Civil, o art. 208 parágrafo único nº II, confere ao
M.P. legitimação para propor a ação de nulidade de casamento por
incompetência da autoridade celebrante. Outro caso é o da promoção da
Ação Civil Pública (CR, art. 129, III). Então, em vários casos o M.P. pode ir a
Juízo como autor, como parte. O próprio CPC também contem vários
dispositivos que conferem ao M.P. legitimação para agir em determinadas
causas.

Art. 487, III - ação rescisória. Pode ser proposta pelo M.P., em
certos casos a saber, quando a sentença tenha sido proferida num processo
125
do qual ele deveria participar obrigatoriamente e não participou, ou quando
a sentença for efeito de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei.

Art. 988, VIII - os srs. encontram prevista a legitimação do


M.P. para requerer o inventário no caso de herdeiros incapazes.

Um caso muito importante em que o M.P. é autor: o da Ação


Direta de Declaração de Inconstitucionalidade (CR, art. 129, IV). Em regra,
os órgãos judiciários só podem declarar inconstitucional uma lei ou outro
ato normativo do poder público, quando estiverem apreciando algum
caso concreto e for invocada a norma como aplicável à espécie. Se o
órgão judicial entender que aquela norma é inconstitucional, pode declará-
la como tal e recusar-se a aplicá-la, decidindo o litígio sem aplicar essa
norma. Essa é a regra, mas o órgão judicial não pode, em princípio,
declarar inconstitucional uma lei em tese, fora do âmbito de um litígio
concreto. Ninguém pode pedir ao Juiz que simplesmente declare de maneira
abstrata, genérica, a inconstitucionalidade de uma lei. Excepcionalmente,
isso é possível, quer no plano federal, quer no estadual. Mas essa ação,
chamada de Ação de Inconstitucionalide, ou Representação, na
linguagem corrente, só o M.P., melhor dizendo, só o Procurador Geral da
República é que pode propô-la, no plano federal perante o STF, que é o
único órgão competente no caso; e no plano estadual, o Procurador Geral de
Justiça, chefe do M.P. estadual, pode, em certos casos, propor uma ação
parecida com essa, também visando a declaração de inconstitucionalidade,
em tese, perante o Tribunal de Justiça. São casos excepcionais, que fogem
à sistemática normal do controle da constitucionalidade e que constituem
dois exemplos de legitimação exclusiva do M.P., por seus chefes, para agir
em Juízo. Só ele pode ter a iniciativa nestes casos.

2) Agora vejamos a hipótese que resta, a de que o M.P. atua no processo


não como advogado nem como parte, mas numa posição sui generis, como
fiscal da lei, ou como se costuma dizer na expressão latina, custos legis -
aquele que toma conta da aplicação da lei. Custos quer dizer guarda,
guardião, aquele que custodia alguma coisa.

Qual é a razão de ser desse fenômeno? Em certos processos


discutem-se matérias que, apesar de poderem referir-se a situações de
particulares, têm uma forte conotação de interesse público. Há um
interesse público relevante em jogo, então o ordenamento jurídico
coloca junto do órgão judicial um outro órgão, ao qual não compete julgar,
mas compete velar no sentido de que a lei seja bem aplicada,
essencialmente emitindo sua opinião, seu parecer sobre as questões
discutidas no processo. Mas não apenas isso, exercendo também outras
atividades, como daqui a pouco veremos. Nesses casos, então, o M.P. não é
parte, ele é fiscal da lei.
126

Que casos, que processos são esses em que se torna


necessária a participação, ou a intervenção (como também se diz em
sentido diferente daquele que vimos na intervenção de terceiro) do M.P.? O
Código indica esses casos no art. 82 - intervir como fiscal da lei (não é
tornando-se parte). O Código primeiro insere dois dispositivos casuísticos,
nos seus incisos I e II. Depois adota uma fórmula genérica no inciso III,
que, a rigor, abrange os dois primeiros. Porque, se examinarmos os dois
primeiros, vamos verificar que a razão de ser da exigência da participação
do M.P. nos processo aí mencionados é exatamente a existência de um
interesse público que a lei quis resguardar, preservar. Matérias, por ex.,
que dizem respeito à família. Então, o inciso III tem uma fórmula genérica -
as causas em que há interesse público - uma cláusula bastante vaga que
tem dado lugar a certas controvérsias na aplicação do Código. E, não
contente com isso, o Código, na parte dos Procedimentos Especiais, ainda
menciona especificamente com relação a diversas causas, a diversos
processos, essa necessidade da participação do M.P. Quer dizer, o elenco
não se esgota nesses casos do art. 82, existem outros nos quais, apesar de,
a rigor, nós podermos considerar que eles já estariam abrangidos pelos
dizeres do art. 82, o Código achou melhor explicitar, estabelecer
expressamente que a participação do M.P. é obrigatória. Assim, por ex., se
os srs. forem ao art. 944, vão verificar que na ação de usucapião, que está
regulada no art. 941 e seguintes, também é obrigatória a participação do
M.P. Por força de dispositivo expresso que o Código achou de bom alvitre
inserir aí, não confiou naquela fórmula genérica do art. 82.

A mesma coisa acontece, v.g., nos procedimentos especiais da


chamada Jurisdição Voluntária. O Código, no art. 1.105, que está situado
entre as condições gerais concernentes ao procedimento da jurisdição
voluntária, declara o seguinte: "Serão citados, sob pena de nulidade, todos
os interessados, bem como o M.P." A palavra "citados" é que não parece
muito própria - como nós veremos depois, o M.P. não é citado, o que o
Código quis dizer é que se torna obrigatório dar ciência da instauração
do processo ao M.P. para que ele participe como fiscal da lei. Mas, de
qualquer maneira, importa é mostrar que a matéria não está totalmente
contida nas disposições do art. 82. Estou dando apenas alguns exemplos,
mas os srs. facilmente encontrarão outros.

Voltando ao Título III do Código, vamos ver o art. 83, que


disciplina a atuação do M.P. exatamente nessas hipóteses em que ele
participa do processo na qualidade de fiscal da lei. Nós vimos que o art. 81
se refere à atuação do M.P. como parte - compreendam bem a estrutura
desse Título - o art. 81 refere-se ao M.P. como parte, os arts. 82 e 83
referem-se ao M.P. como fiscal da lei.
127
Art. 83 - Um dos pressupostos da boa aplicação da lei
obviamente é a correta apuração da verdade dos fatos. Ninguém pode
aplicar bem a lei sem conhecer bem os fatos, porque a lei se aplica ao fato.
Então o M.P., como fiscal da aplicação da lei, pode e deve contribuir para
a correta e cabal apuração da verdade dos fatos. Isto se traduz, como
diz a lei, na juntada de documentos e certidões, na produção de provas, e
no requerimento de medidas ou diligências necessárias ao descobrimento
da verdade. Tudo isso faz parte das atribuições do M.P. como fiscal da lei.
Mas além disso, ele emite a sua opinião, ele dá o seu parecer no processo,
que pode ou não, é claro, ser seguido pelo Juiz. Não é vinculativo, não é o
M.P. que fornece a solução da causa, não é ele que julga, mas ele opina, ele
se pronuncia através de pareceres. E nessa qualidade ele pode, inclusive,
interpor recursos.

Quando a solução é contrária, é óbvio que ele, como parte,


pode recorrer, mas é interessante frisar que ele também pode recorrer
ainda quando seja apenas fiscal da lei. Se ele tiver opinado num
determinado sentido, e a decisão do Juiz for contrária, ele pode interpor
contra ela o recurso cabível. Art. 499 - A lei expressamente autoriza o M.P.
a recorrer, não apenas como parte, o que seria até desnecessário dizer, mas
a lei faz questão de esclarecer que ele se legitima à interposição de
recursos tanto nos casos em que é parte como naqueles em que é fiscal da
lei.

Atenção para uma peculiaridade: o M.P. dispõe de prazos


especiais. Art. 188 - prazo em quádruplo para contestar, e em dobro
para recorrer.

Art. 84 - Atenção ao art. 246. Quando a lei previr como


obrigatória a intervenção do M.P., a título de fiscal da lei, o advogado deve
ter a máxima cautela, não deixar que o processo se desenvolva sem
promover a intimação do M.P., para evitar uma eventual decretação de
nulidade. A nulidade neste caso é absoluta e insanável. O órgão do M.P.
não pode adivinhar que está correndo um processo em que se discutem
matérias que pedem obrigatoriamente a sua atuação - a parte deve
promover a intimação. E atenção: em certos casos a intimação para as
partes será feita pela sua publicação no órgão judicial, para o M.P. é
sempre necessária a intimação pessoal. Não basta a publicação. Art.
236, § 2º.

Isto é o que há de mais importante a respeito do M.P. no


processo civil

Vejamos agora alguma coisa sobre o ADVOGADO, como


figurante do processo civil. Que posição o advogado ocupa no processo
128
civil? Obviamente não é parte (a não ser é claro que proponha ação em seu
próprio nome, por ex., para cobrar honorários de um cliente que não
pagou). O advogado representa a parte, ele não é parte mas é sujeito do
processo. São sujeitos do processo todos aqueles que, no processo,
assumem posições juridicamente relevantes. Ora, o advogado, sem dúvida,
assume uma posição jurídica relevante, o advogado tem no processo
direitos seus - não são os direitos da parte que ele representa, são direitos
seus, do advogado. E tem também deveres seus, faculdades, etc. Vejamos
alguns exemplos dos direitos do advogado:

Art. 40 - o advogado é que tem esses direitos no processo, é direito próprio


dele.

Um outro exemplo muito interessante não está no Código, está


no art. 99 § 1º da lei 4.215 de 1963 (EAOB) - Alguém foi advogado do
vencedor numa ação. O vencido foi condenado ao pagamento dos
honorários de advogado (caput do art. 20 CPC). Disposta essa condenação
na sentença, o advogado do vencedor (que não era parte, vejam bem) tem
legitimação para promover a execução em seu próprio nome com
relação a esta parcela de honorários. É claro que ao promover a
execução, ele se torna parte no processo de execução, se ele valer desse
direito ele será parte. Isso não se refere aos honorários contratuais, são os
honorários de forem objeto da condenação, a parcela disposta na sentença.

O advogado também tem deveres no processo. Art. 14 -


"Compete à parte e seus procuradores..." "Compete" aí não está muito bem
empregado, deveria ser "cumpre às partes..." Art. 15 - É defeso, quer dizer
proibido - dever negativo, dever de não fazer. Dizem que quem recorre à
injúria é porque se lhe esgotaram os argumentos - isto é uma pérola da
sabedoria popular.

Portanto, o advogado tem no processo direitos e deveres.


Logo ele é sujeito do processo, assim como o é o Ministério Público.

O que acabamos de ver é simplesmente o papel do advogado


no processo, de uma forma genérica.

ATOS PROCESSUAIS

Ato processual é uma espécie do gênero Ato Jurídico. Os


atos que têm relevância para o Direito são atos jurídicos. Esses atos
jurídicos particularizam-se conforme pertençam ou sejam regidos por este
129
ou aquele ramo do Direito. Então temos o ato jurídico civil, o ato jurídico
administrativo, e o ato jurídico processual, ou, sinteticamente, ato
processual.

Qual o critério pelo qual se pode dizer que determinado ato


jurídico é um ato jurídico processual, pertence a esta espécie do gênero? A
matéria é doutrinariamente controvertida, existe uma diversidade de
critérios para a classificação do ato como processual.

1) Uma corrente aponta como critério decisivo o de que os pressupostos do


ato são regulados pelo direito processual. Toda vez que um ato tiver seus
pressupostos disciplinados pelo direito processual, ele será um ato
processual.

2) Outra corrente põe a tônica nos efeitos. Se os efeitos de um ato forem


processuais, se se produzirem num processo, ele será um ato processual.
Mas aqui cumpre fazer uma advertência: alude-se aos efeitos principais do
ato, os efeitos diretos do ato, isso porque um mesmo e único ato pode
produzir efeitos um diversos campos. A morte de uma pessoa, por ex.,
produz uma diversidade de efeitos no mundo jurídico. Então se for uma
"morte matada" e não uma "morte morrida", uma morte por homicídio,
quantas conseqüências jurídicas produz em diversos ramos do direito - no
direito civil produz a abertura da sucessão, a transmissão da herança; no
direito penal vai produzir a penalidade de quem matou; no processo vai
provocar a suspensão de processo que estiver correndo e em que aquela
pessoa fosse parte. Há, portanto, a possibilidade, e que até ocorre com
freqüência, de uma mesmo acontecimento suscitar efeitos em mais de uma
campo do direito.

Então, para que um ato seja considerado ato processual, seria


necessário que os efeitos principais se produzissem no campo do processo.
Assim, por ex., não seria ato processual a fixação de domicílio por alguém.
Apesar de poder ter conseqüências processuais se a pessoa for demandada
numa ação pessoal, o fato de ela ter fixado ali o seu domicílio vai influir na
determinação da competência. Seria um efeito processual, mas não é um
efeito principal.

3) E há ainda uma terceira opinião, que exige que o ato, para ser
processual, seja praticado dentro daquela série procedimental que se inicia
com a instauração do processo, com o ajuizamento da ação e vai terminar,
normalmente, com o trânsito em julgado da sentença. Seria um critério, por
assim dizer, filiado à localização do ato, o ato tem que estar embutido
naquela seqüência que forma o processo, de maneira que o ato praticado
fora dali, embora produza efeitos diretamente sobre o processo, não seria
um ato processual. Por exemplo: a convenção das partes sobre o foro (em
130
certas matérias é possível às partes convencionarem a escolha de um foro
competente). Esse ato tem efeitos principais diretos no processo. Ele só
realmente vai interessar, se tornar relevante, no dia em que um processo
for instaurado. Pelo critério dos efeitos ele seria um ato processual, mas
segundo alguns não, e, porque ele não está dentro da série de
procedimentos, ele foi praticado antes de existir qualquer processo. Então
seria ato processual aquele pelo qual a parte alegasse, quando fosse
demandada: "existe uma convenção sobre o foro". Isso é que seria o ato
processual, mas não a convenção sobre o foro, em si mesma.

De sorte que, como vêem, a classificação de um ato com


processual é doutrinariamente bastante controvertida, e até muitas vezes
esses critérios aparecem conjugados, há quem exija, para que um ato seja
processual, a aplicação simultânea de mais de um critério. O ato teria que
satisfazer a dois ou mais requisitos para poder ser considerado processual.

Tudo isso foi dito à guisa de introdução. Na prática, esses


vários critérios, por curioso que possa parecer, acabam, na maioria
dos casos, convergindo. A grande maioria dos atos processuais são atos
processuais, qualquer que seja o critério que se adote, de sorte que
realmente não é oportuno que nós nos detenhamos longamente sobre isso.

Os ATOS PROCESSUAIS, como todos os atos jurídicos, têm os


seus elementos e esses elementos devem satisfazer certos
requisitos. Não se deve confundir uma coisa com a outra, os elementos de
um ato com os requisitos desse mesmo ato, ou seja, mais exatamente, com
os requisitos que os elementos devem satisfazer para que o ato seja
perfeito.

Os elementos do ato jurídico são, digamos assim, os seus


componentes, tudo aquilo que não pode deixar de existir num ato
para completá-lo, para integrá-lo. Os elementos são sempre algo de
substantivo, eles integram no seu conjunto a substância do ato. Ao passo
que os requisitos são qualidades que esses elementos devem
apresentar para que o ato seja perfeito. Então os requisitos
correspondem, mais ou menos, a adjetivos, são qualidades. Assim acontece
se nós partirmos de um ato jurídico conhecido de vocês, um ato jurídico do
direito civil, p. ex., o contrato. O contrato de compra e venda, todos
sabem, tem 3 elementos essenciais: a coisa, que é objeto do contrato, o
preço e o consentimento das partes, vendedor e comprador, que são os
sujeitos. Esses elementos formam o conteúdo do contrato. Vejam que
estou tratando de elementos - faltando qualquer um deles o ato não existe.
O casamento, outro ato jurídico da vida civil, exige, para existir,
determinados elementos: duas pessoas de sexos diferentes, mútuo
131
consenso e celebração. São três elementos do ato, faltando um deles ou
mais de um, não há casamento.

Agora, para que o ato jurídico seja perfeito e portanto


perfeitamente válido, cada um desses elementos deve satisfazer
determinados requisitos. Assim é que o consentimento deve ser livre, se
houver coação, por ex., o ato já não será válido. O elemento existe, o que
não existe é o requisito. As partes são sujeitos do ato. Agora, para que o
ato seja perfeito, é preciso que as partes sejam capazes (requisito
capacidade das partes). É bom insistir nesse ponto porque isso se aplica
a todo e qualquer ato jurídico, seja qual for o ramo do direito a que
ele pertença. Nós podemos sempre analisar um ato dessa maneira,
decompondo-o em elementos e depois verificando se esses elementos
preenchem determinados atributos, predicados, ou qualidades, que são os
requisitos necessários para a validade do ato, não para a sua existência.

Então, resumindo, diria que o ato processual tem sempre


quatro elementos, pelo menos, indispensáveis, sempre presentes: SUJEITOS
(pode ter um ou mais); OBJETO (aquilo sobre que o ato incide); FORMA e
CONTEÚDO.

Ex. 1) "O réu confessa o crime." O réu é o sujeito, o crime é o objeto. O


conteúdo da confissão é o reconhecimento da veracidade de um ato
desfavorável, é isso em que consiste a confissão. O conteúdo é aquilo em
que o ato consiste.

Ex. 2) O contrato de compra e venda tem como conteúdo a troca de


declarações de vontade, uma das quais consiste em obrigar-se a transferir a
propriedade, e a outra em obrigar-se a adquirir a propriedade. Atenção:
não consiste em transferir a propriedade, e sim em obrigar-se a
transferir.

Todo ato necessariamente se exterioriza por uma


determinada forma, que, às vezes, pode ser fixada na lei e outras
vezes é livre. Há contratos formais e contratos não formais, há atos
jurídicos formais que só podem realizar-se através de uma determinada
forma, senão não existem. Mas forma todos têm, ela pode variar, pode ser
escrita, oral, etc., mas todo ato tem uma forma, por mais livre que ela
possa ser. Ao lado desse elemento, também vêm os requisitos. Quando se
diz "tal ato só será válido se for celebrado mediante escritura pública",
estamos nos referindo não mais ao elemento forma, mas ao requisito desse
elemento: a forma tem que ser assim.
132
O objeto tem que ser lícito - lícito é qualidade, não é
elemento, é requisito. Se o ato tiver objeto ilícito, ele existe, tem
objeto, mas não é válido.

NÃO CONFUNDIR, PORTANTO, ELEMENTO COM REQUISITO.

Classificação dos ATOS PROCESSUAIS

Vamos aqui mencionar apenas as mais importantes. Há uma


classificação dos atos processuais que nada mais é senão uma aplicação,
neste campo, da classificação básica dos atos jurídicos em geral. Vocês
nunca devem perder de vista que o Direito é um só, as diferentes divisões
do direito são apenas metodológicas, i.e., visam a facilitar o estudo, mas o
Direito é uma unidade, o ordenamento jurídico não é dividido em
compartimentos estanques, e há toda a vantagem em nós olharmos os
fenômenos que se passam nos diversos ramos do Direito, procurando
estabelecer entre eles analogias que ajudarão na compreensão desses
fenômenos. Então, o ato jurídico é sempre ato jurídico, quer se trate de um
ato jurídico civil, comercial, penal, administrativo, processual, etc.

Há, portanto, uma Teoria Geral do Ato Jurídico, que é comum


a esses vários atos enquadráveis nas diversas molduras. Na Teoria Geral do
Direito, que é estudado em regra na cadeira de Direito Civil, por motivos
tradicionais, se estuda o que é o ato jurídico, o que é condição, o que é
termo, forma, prova, procuração, decadência. Então não é Direito Civil,
data venia, isto é Teoria Geral do Direito. São noções que vamos encontrar
em todos os ramos do Direito.

Vamos recapitular ligeiramente essa classificação geral dos


atos jurídicos, que é a que fala ao Direito Processual, aos atos processuais.
Para isto, precisamos começar antes dos atos, precisamos enquadrar os
atos nos fatos, porque a noção mais geral, mais genérica, é a do fato
jurídico. Fato jurídico é um acontecimento que produz efeitos no
mundo do direito. Por exemplo, a morte de uma pessoa, o casamento, o
nascimento de uma pessoa, uma guerra, uma enchente, se produzir
determinadas conseqüências que repercutem no mundo jurídico.

Então, a grande categoria é a dos FATOS JURÍDICOS.

Acontecimentos naturais (fatos jurídicos stricto


sensu)
/
FATOS JURÍDICOS 1) atos jurídicos
133
PROCESSUAIS lícitos / processuais
/ \ ( stricto
sensu)
\ Ações humanas voluntárias 2) neg.
jurídicos
Atos jurídicos lato sensu
processuais
(unilateriais
ou
bilaterais)
\
ilícitos

Lato sensu quer dizer no sentido amplo, eu aí não estou


distinguindo entre fatos da natureza e ações humanas, estou englobando
tudo, mas desde logo posso fazer esta divisão em fatos jurídicos stricto
sensu e as ações humanas voluntárias, porque as ações humanas
involuntárias são tratadas pelo Direito como acontecimentos naturais.
Por ex., se alguém é agarrado por outro, que pela força física lhe leva o
braço a escrever alguma coisa, ou a bater numa criança, pode-se dizer que
houve ação da parte de quem teve o braço impelido a fazer essa coisa?
Algum movimento que se realize durante o sono, sob hipnotismo, não é uma
ação, é um acontecimento natural.

As ações humanas que tem importância para o Direito podem


ser conformes ou desconformes ao Direito. Se eu ajo de acordo com os
direitos é uma coisa, se ajo contrariamente, infringindo um preceito é outra.
E há uma grande diferença dos atos segundo esta hipótese, podem ser
lícitos ou ilícitos.

A subdivisão dos atos lícitos em atos jurídicos stricto sensu e


os negócios jurídicos, baseia-se no diferente papel da vontade. Vejam bem:
todos estes atos são voluntários, praticados voluntariamente, mas em
alguns o agente pratica o ato voluntariamente sem que, porém, a sua
vontade se dirija necessariamente à produção dos efeitos jurídicos. Ele
quer praticar o ato, mas não é necessário que ele queira atingir, através
daquele ato, aqueles efeitos, simplesmente a lei é que diz que,
praticando aquele ato os efeitos são esses, quer queira quer não .
Então, os efeitos não precisam estar visados pela vontade, o agente não
tem necessariamente em vista produzir ou fazer com que se produzam
aqueles determinados efeitos, eles se produzem por força da lei.

Ao passo que, nos chamados negócios jurídicos, a vontade do


agente é específica, não apenas ele quer praticar aquele ato, mas
134
sobretudo quer produzir aqueles efeitos. O contrato, v.g., é um
negócio jurídico, exige que as vontades das partes estejam concordes não
apenas em contratar, e sim em que se produzam aqueles determinados
efeitos; se alguém doa, tem que ter o animus donandi, v.g., tem que ter
intenção de fazer uma liberalidade.

Há exemplos disso no processo. Então, se vocês quiserem


adaptar esse esquema para os atos processuais, basta que acrescentem o
adjetivo "processuais". Eu acredito que isso seja possível para todos os
ramos do direito, podem fazer isso no Direito Civil, no Direito
Administrativo, etc. Fatos jurídicos processuais, atos jurídicos processuais,
negócios jurídicos processuais. Assim, ninguém me acusa de estar
invadindo seara alheia. A classificação que era genérica -+virou específica.

EXEMPLOS

1) O fato jurídico stricto sensu é um acontecimento natural que tem


repercussão no processo. A morte de uma das partes. O decurso de um
certo prazo, de um certo lapso de tempo que corresponde a um prazo. São
acontecimentos naturais, que influem no processo: a morte produz a
suspensão, o decurso do tempo produz o vencimentos dos prazos, perda de
direitos, etc.

2) Os lícitos

2.1) Atos jurídicos processuais stricto sensu. São voluntários, mas é


necessário que a pessoa queira sentir determinados efeitos da sua vontade.
Por exemplo, a confissão. Quando uma parte confessa, i.e., quando admite
a veracidade de um fato contrário ao seu interesse e favorável ao
adversário, ela não quer produzir necessariamente os efeitos que o Juiz vai
tirar daí, pois são contra ela. Ela admite que aconteceu, mas não está
querendo necessariamente que com isso os efeitos se produzam. Em geral,
a confissão é obtida por malícia, no processo civil geralmente não há formas
mais graves de obter confissões, em geral é a malícia do advogado, ou a
argúcia do Juiz, que percebe que a parte está titubeando e faz uma
pergunta mais hábil e consegue que ela confesse o fato. É claro que ela diz
aquilo voluntariamente, não diz coagida - se for coagida o ato é anulável.
Porém, a vontade dela não é de produzir aqueles efeitos. Mas produz.
Então, a confissão é um ato jurídico.

Mas há outros em que é necessário mesmo que a vontade se


dirija aos efeitos típicos. Por ex., a desistência. Essa é uma manifestação
de vontade típica. A desistência de um recurso, ou a desistência da ação,
ou a transação. Então temos os negócios jurídicos processuais.
135
2.2) Negócio Jurídico - os negócios jurídicos processuais podem ser
unilaterais ou bilaterais, conforme se façam por uma simples e única
manifestação de vontade, ou exijam duas manifestações de vontade.
Os bilaterais costumam se designar por diversas denominações: acordos
processuais, convenções processuais, e até há quem diga contratos
processuais (terminologia pouco usada).

Ex: UNILATERAIS - desistência de recurso, a renúncia do autor, o


reconhecimento do pedido por parte do réu, são unilaterais, basta uma
manifestação de vontade. BILATERAIS - a convenção das partes para
suspender o processo (art. 265, II; art. 453, I, ambos do CPC, são acordos,
convenções).

Importante sobre isso é que esses acordos que também são


atos jurídicos processuais bilaterais produzem efeitos processuais, em
regra, independentemente de qualquer participação do Juiz . Art. 158
- esses atos das partes consistem em declarações unilaterais ou bilaterais
de vontade, nada mais são do que os negócios jurídicos processuais. Mas
há uma exceção expressa na lei, a regra está no caput e a exceção está no
parágrafo único.

ATENÇÃO: Não devem confundir os negócios jurídicos processuais bilaterais,


duas manifestações de vontade concomitantes que se fundem para formar o
ato, com situações em que uma das partes manifesta uma determinada
vontade e o Juiz, para atender, tem que obter o consentimento da outra. Há
vários casos assim, uma parte manifesta determinada vontade, mas o Juiz
só pode acolher aquilo se a outra parte concordar . Isso não é negócio
jurídico bilateral, são dois atos independentes. Uma manifestação de
vontade aqui e outra acolá, e o efeito é do lado do Juiz. É diferente. Por
ex., diz o art. 267, § 4º - "Depois de decorrido o prazo..."; daí se segue
porventura que depois desse prazo a desistência da ação seja um ato
bilateral? Não, não parece próprio, alguns dizem e vocês talvez encontrem
em algum livro, mas não me parece próprio - ela continua unilateral, no
sentido de que quem quer desistir é um só, é o autor . Aliás, só o
autor é que pode desistir, vejam bem: não tem sentido uma desistência
bilateral porque o réu não pode desistir de nada, não foi ele quem
propôs a ação. Apenas o autor manifesta sua vontade, desistindo. O Juiz
consulta o réu, que concorda ou não. Se concordar, o Juiz homologa a
desistência e ela então produz efeitos. Mas se não concordar, a ação
prossegue. Mas a concordância do réu não significa que ele também esteja
participando do ato da desistência. É diferente. Acho que vocês percebem
a diferença entre isso e o acordo das partes para adiar a audiência. As
duas manifestações de vontade vêm juntas, casadas. E creio que tem
uma importância prática, não só teórica tal distinção. Por ex., vou figurar
uma questão interessante:
136

O autor manifesta a vontade de desistir. O Juiz despacha


assim: "Diga o réu, consulte o réu sobre se concorda ou não"; vem o réu e
diz "De acordo, nada a opor." Então, eu pergunto: pode o autor (depois da
homologação é claro que não, mas se o Juiz ainda não homologou, ainda
não proferiu a sentença, chancelando a desistência) voltar atrás, isto é,
desistir de desistir, ou por outra, revogar a desistência? Penso que sim,
exatamente porque o ato continua sendo unilateral. Se ele fosse
bilateral, aí não poderia, porque ninguém pode sozinho revogar um ato
bilateral, a não ser que a lei expressamente consinta . Por ex., o
comprador pode revogar a compra e venda depois de celebrado o contrato?
Não. Vejam bem, é uma questão de lógica: se um ato se forma pela
conjugação de duas vontades, não pode desfazer-se senão também pela
conjugação das duas vontades, e parece que aí há um aspecto prático
interessante dessa distinção - há um acordo já feito, um sozinho não pode
revogar o ato. Mas se o ato é unilateral, mesmo que o outro tenha
concordado, eu posso não querer mais. Penso que nada impede. É claro
que depois da homologação pelo Juiz, aí não, porque aí já há um ato novo
que produz os seus próprios efeitos.

Classificação específica dos ATOS PROCESSUAIS

Eu lhes disse que os atos processuais, todos, como qualquer


ato jurídico, têm sujeito. Pois bem, de acordo com o sujeito, os atos
processuais podem classificar-se. Os principais sujeitos do processo são o
órgão judicial e as partes, mas há outras pessoas. Então vejamos:

1ª Classificação de acordo com o SUJEITO - atos do Juiz e atos das


partes. Esses são os principais, e em terceiro lugar atos de outras pessoas.
Por ex., o M.P., quando fiscal da lei, os auxiliares do Juízo, as testemunhas.
Tudo isso é ato processual, a meu ver. Há quem não pense assim, quem
reduza somente aos atos do Juiz e das partes.

ATOS DO JUIZ - O Juiz pratica ao longo do processo uma infinidade de atos


das mais variadas espécies, mas dentre eles distinguimos uma classe mais
importante que é a classe dos PRONUNCIAMENTOS. É quando o Juiz se
pronuncia. A esses, e só a esses, é que se refere o CPC no art. 162. Está
se vendo que isso aí não é exaustivo. Os atos do Juiz não são só esses;
por ex., quando o Juiz faz a tentativa de conciliação, quando interroga a
testemunha, quando vistoria um imóvel, aí não está nem sentenciando nem
proferindo decisão interlocutória nem despachando. Então isso aí é uma
classificação não dos atos do Juiz em geral, mas daqueles que eu destaquei
como sendo o núcleo mais importante dentre os atos do Juiz. Por isso
nós podemos previamente subdividir assim:
137
- de mérito ou
definitivas Sentenças - meramente
terminativas
/
ATOS DO - Pronunciamentos - Decisões interlocutórias
JUIZ \
Despachos
- Outros, de naturezas as mais diversas

Os PRONUNCIAMENTOS é que estão no art. 162. Vamos


ver como é que eles se subdividem. Isto é muito importante, vai ter uma
série de conseqüências, notadamente em matéria de recurso, cada tipo de
pronunciamento tem um disciplina específica em matéria de recurso.

Art. 162, § 1º - "... decidindo ou não o mérito." O processo


pode extinguir-se com julgamento ou sem julgamento do mérito. Em
qualquer dessas hipóteses o ato pelo qual o Juiz extingue o processo chama-
se sentença. As sentenças, portanto, podem ainda subdividir-se. Se as
sentenças decidem o mérito, elas se chamam sentenças de mérito ou
definitivas. Se o processo se extingue sem julgamento do mérito, a
sentença se denomina meramente terminativa. ATENÇÃO: esses nomes
não estão na lei, são doutrinários, mas são muito usados, a todo
momento aparecem. A sentença terminativa acaba o processo mas não
decide o mérito. Por ex., o autor desistiu da ação, o Juiz homologa a
desistência; eis aí uma sentença meramente terminativa. O Juiz julgou o
autor carecedor de ação - é outro exemplo.

Art. 162, § 2º - A diferença entre sentença e decisão


interlocutória é o lugar - se estiver no fim do processo é sentença, se
estiver no meio é decisão interlocutória . Ex: a parte requer uma
perícia, o Juiz, decide se manda ou não manda fazer, se defere ou se
indefere, é uma decisão interlocutória. A parte alega a incompetência do
Juízo - vem a decisão: "sou competente", ou então "sou incompetente" -
esta é uma decisão interlocutória. Seja qual for, o processo vai
continuar.

Agora, o que há de comum entre a sentença e a decisão


interlocutória? Ambas decidem alguma coisa, têm conteúdo decisório. O
que não acontece com os despachos.

Art. 162, § 3º - A característica dos despachos é não terem


conteúdo de decisão, não decidem nada, simplesmente dão impulso ao
processo. Ex: o Juiz marca audiência no dia tal, ou então "ao contador
para fazer o cálculo", ou "diga o réu sobre o documento junto pelo autor" -
são atos de mero impulso processual, estão dando andamento ao processo.
138

ATOS DAS PARTES - costumam ser classificados de acordo com seu


conteúdo, em quatro classes, e a classificação mais comum:

1) Atos postulatórios - são aqueles em que a parte pede


alguma coisa ao Juiz. Ex.: a demanda, que é o ato postulatório por
excelência, i.e., o ajuizamento da ação. É o protótipo do ato postulatório.
O recurso - quando a parte requer, ela quer obter uma nova decisão sobre
aquela matéria, então pede a reforma da decisão proferida.
2) Atos instrutórios - atos de produção de provas.

3) Atos dispositivos - nada mais são do que os negócios


jurídicos processuais. São as manifestações de vontade produtoras de
efeitos típicos. Ex.: desistência da ação, desistência dos recursos,
renúncia, reconhecimento do pedido.

4) Atos Reais - (essa denominação é curiosa, parece que os


outros são irreais) São atos que traduzem um comportamento material e
não por palavras. A parte faz coisas, em vez de se manifestar com
palavras ou por escrito. Ex.: pagamento das custas - é um ato real, não
é manifestação de vontade, não está pedindo nada, está simplesmente
fazendo uma coisa material; é um exemplo típico.

Eis aí a classificação dos atos jurídicos processuais quanto aos


sujeitos. Vimos primeiro os atos do Juiz, depois os atos das partes. Para
terminar, vamos ver alguma coisa da classificação dos atos processuais
quanto à FORMA.

Temos mais de uma classificação. Vou lembrar apenas duas


mais importantes: 1ª) Atos orais e atos escritos - Há certos atos que são
praticados no processo pela forma oral, p.ex., o depoimento da parte ou da
testemunha. E outros que se praticam necessariamente por escrito, p.ex., a
demanda tem por instrumento a petição inicial, não pode ser oralmente,
esse ato tem que obedecer à forma escrita. A defesa do réu (salvo no
procedimento sumaríssimo, quando ela pode ser oral) é escrita. A
contestação no procedimento ordinário é escrita obrigatoriamente. No
procedimento sumaríssimo pode ser oral, na audiência é feita oralmente.
Agora dirão os srs: verba volant, scripta manent (as palavras voam, os
escritos ficam) - então, é claro que os atos praticados oralmente no
processo, em princípio, têm que ser repetidos na escrita, do contrário
não ficaria nos autos nenhum registro deles. A não ser que se usasse no
processo fita gravada, mas mesmo assim a fita é um registro.

Então, os atos orais são documentados e os documentos que


registram o que aconteceu nos atos orais chamam-se termos ou autos. Às
139
vezes a lei usa a palavra termos, às vezes usa a palavra autos, variando
sem muito critério. Essas duas palavras são usadas na lei sem muito
critério que permita distingui-las com clareza. Uma e outra indicam
documentos que registram atos orais. Ex.: o termo de audiência. A
arrematação é um ato oral, o Juiz apregoa um bem, vê quem dá mais e
declara vitorioso aquele mais. Mas depois tem que escrever isso. Aí
escreve-se o auto de arrematação. A lei às vezes uma termo, outras vezes
usa autos.

Finalmente, convém também, ainda quanto à forma, distinguir


os 2ª) atos públicos e os atos sigilosos. Art. 155 do CPC (v. CF arts. 5º,
LX e 93, IX) - o princípio geral é de que os atos processuais são públicos.
Qualquer pessoa pode assistir a uma audiência (e é bom que assista), a um
julgamento importante, salvo nesses casos em que por motivos óbvios o
processo corre em segredo.

Atos processuais quanto à FORMA, LUGAR E TEMPO.

Como todos os atos humanos, o atos processuais se


realizam num determinado lugar, sob uma determinada forma e,
evidentemente, num determinado momento. São esses aspectos que
vamos analisar hoje aqui, examinando as regras que o Código traça a
respeito do lugar, da forma e do tempo dos atos processuais.

No tocante ao lugar, não há muito que dizer. A matéria se


encontra tratada no Código. O Título V do Livro I trata dos atos
processuais. O primeiro capítulo trata da forma - art. 154 e seguintes e, a
rigor, contem normas que não são propriamente dedicadas à forma, i.e., ao
modo de exteriorização dos atos processuais. O segundo capítulo trata do
tempo e do lugar dos atos processuais, e o terceiro, que é o último e o que
nos interessa, trata de um peculiar e importantíssimo aspecto do tempo
relativamente aos atos processuais, que é a matéria concernente aos
prazos.

No tocante ao LUGAR, em regra, num processo de


conhecimento, os atos processuais, em sua grande maioria, são praticados
na sede do Juízo . No processo de conhecimento essa regra é quase
absoluta, praticamente todos os atos processuais são praticados na sede do
Juízo. Há determinados atos que por sua própria natureza se praticam fora
dele - por ex., a citação que o oficial de justiça (quando a citação é
feita por intermédio dele) vai procurar o réu no seu domicílio a fim
de levar-lhe a notícia de que foi oferecida a demanda e convocá-lo a
participar do processo e se defender. No processo de execução não é
bem assim. Já há mais atos do que no processo de conhecimento praticados
140
fora da sede do Juízo. Mesmo no processo de conhecimento, porém,
excepcionalmente, determinados atos que seriam normalmente praticados
na sede do Juízo podem ser realizados fora dela. Vejam o art. 176, que
trata do lugar: "... podem todavia efetuar-se em outro lugar, em razão de
deferência" (p. ex. a inquirição de determinadas autoridades, Presidente da
República, Ministros de Estado, etc.; como testemunhas de processo, não é
feita na sede do Juízo, é feita na residência dessas pessoas ou no local onde
elas exerçam a suas funções - art. 411); de interesse da justiça (pode
acontecer que o Juiz, a fim de inteirar-se melhor dos fatos relevantes para
decidir a causa, se veja compelido a examinar ,ele próprio, um determinado
local, exercer uma inspeção; evidentemente terá que deslocar-se para esse
local - arts. 440 a 443); e finalmente de obstáculo argüido pelo interessado
e acolhido pelo Juiz (pode acontecer, na inquirição da testemunha, que ela
se encontre doente, impossibilitada de locomover-se e que não seja possível
ou conveniente aguardar-se o seu restabelecimento e que ela venha depor.
O Juiz fica autorizado, portanto, por força lá de uma regra expressa - art.
410, III - a deslocar-se até o local onde essa pessoa se encontra para tomar
o seu depoimento).

Da FORMA os srs. já receberam algumas noções quando


estudaram os elementos dos atos processuais, uma vez que forma é um
elemento do ato processual, o modo através do qual ele se manifesta,
se exterioriza. Antes de mais nada, é necessário desfazer um equívoco
que ocorre principalmente entre leigos. Há muita gente que supõe que o
estabelecimento de requisitos de forma e o estabelecimento de exigências
de formalidades nos atos processuais constitui algo indesejável, que
devesse ser abolido, que contribui para dificultar a resolução, a defesa dos
direitos. Existe muita gente que se angustia com o problema das formas,
das formalidades estabelecidas pela lei para os atos processuais e que
supõe que o ideal seria abolir qualquer exigências no tocante à forma. Essa
abolição seria absolutamente impraticável, o que se deve abolir,
naturalmente, são as formalidades desnecessárias, excessivas, mas a
forma cumpre no processo uma função relevantíssima; nos direitos de modo
geral e no Direito Processual de modo específico. Ela constitui,
indiscutivelmente, uma garantia para as próprias partes e para o
Estado no tocante ao exercício da função jurisdicional . Imaginem os
srs. se a petição inicial não precisasse ter a forma escrita. Não precisasse
conter com clareza e precisão os elementos da ação, não precisasse indicar
com clareza e precisão o pedido ou a causa petendi. Como é que o réu teria
condições de defender-se se não se registrasse num escrito os fatos que o
autor alega, se não se obrigasse o autor a fazer isso? Imaginem a
insegurança que seria gerada se uma sentença pudesse ser proferida
oralmente e nenhum registro ficasse dela. O Juiz chegaria a uma conclusão,
proferiria a sentença e nem ele próprio a lançaria por escrito nem ninguém
reduziria essa sentença a termo. De maneira que as formalidades no
141
processo exercem de maneira muito especial uma função relevantíssima, de
segurança para as próprias partes e para o Estado, e seria absolutamente
impraticável abolí-las.

Agora, evidentemente, e esta é a tendência no direito


moderno, nós devemos simplificar, no sentido de o legislador não
estabelecer requisitos formais que sejam excessivos, que superem a
necessidade de segurança. A forma - e isso é que é fundamental - não é
nunca um fim em si mesma. A observância a requisitos formais não
constitui, não deve constituir nunca um fim em si mesma - é um meio de
serem alcançados valores relevantes para as partes e para o Estado
quando exerce jurisdição. A tendência no direito moderno é no sentido
de simplificar a forma dos atos processuais, afastar as exigências que não
se façam necessárias para aquela finalidade que se pretende alcançar e, por
outro lado, não tratar com rigor drástico a violação de normas que
estabeleçam requisitos formais. Agora, a forma, a exigência dos requisitos
formais no processo, é absolutamente indispensável, dentro desses limites.

No tocante à forma, os atos processuais podem ser


classificados de acordo com alguns critérios. Um deles é o que distingue
atos processuais que se praticam por escrito e atos processuais que se
praticam oralmente. Sendo que o normal é que os atos orais sejam
reduzidos a escrito a fim de que os autos contenham aquilo que foi dito,
sejam documentados.

Uma outra classificação, mais importante do que essa, é a que


distingue atos processuais em que a lei não estabelece requisitos de forma,
em que a forma, o modo pelo qual eles podem exteriorizar-se é livre - atos
processuais de forma livre, e de outro lado atos processuais em que a
forma vem prescrita pelo legislador, é vinculada, no sentido de que o
legislador estabelece requisitos formais vinculativos para aqueles que
praticam o ato - atos processuais de forma vinculada.

A regra geral é a liberdade da forma, o que não significa que


os atos possam ser praticados de qualquer modo, não é isso, os atos
processuais se praticam com uma determinada finalidade. Ainda quando a
lei não a estabeleça, a forma deve ser sempre adequada a que se
alcance essa finalidade. A forma deve ser encarada sempre como um
meio para que o ato alcance a finalidade que lhe é própria. Como regra
geral, prevalece o que se denomina de princípio da liberdade da
forma, que tem esse sentido - não que os atos processuais possam ser
praticados, em princípio, de qualquer maneira, mas que eles, em princípio,
podem ser praticados de qualquer modo que se revele adequado a
alcançar a finalidade deles.
142
Em outros casos, o legislador estabelece qual a forma que, a
seu ver, seja apta para alcançar a finalidade do ato . São os atos de
forma vinculada. É a lei que, de antemão, ao estabelecer a forma, reputa
que aquele modo é o mais adequado, é o único adequado para que se
alcance a finalidade daquele ato que se tem em vista. Ainda aí nós
devemos fazer uma distinção: há casos em que a lei estabelece requisitos
formais e, por reputar que aquela forma que ela estabelece é a única capaz
de fazer com que o ato atinja sua finalidade, a lei não tolera nenhuma
violação no tocante à forma, cominando invalidade para o ato, que diz
respeito à forma que foi pela lei estabelecida. O legislador reputa que
aquele modo que ele prescreve é o único adequado para que o ato seja
capaz de alcançar sua finalidade, de tal maneira que qualquer inobservância
no tocante às regras que estabelecem requisitos formais acarreta a
invalidade do ato. É o que acontece, por ex., com a citação, que é um ato
fundamental no processo. Ela pode ser feita por mais de um modo, um
deles, o mais comum, é através do oficial de justiça. Vejam os art. 226 do
CPC. É necessário que o oficial de justiça leia o mandado e mais, que
entregue ao citando uma contrafé a fim de que permaneça em poder do
citando uma cópia do mandado que permitirá que ele fique com o conteúdo
essencial da demanda a que está respondendo. Aí está o modo pelo qual
deve o oficial de justiça realizar a citação, minuciosamente descrito na lei.

Art. 247 - Então, na citação a lei estabelece a forma pela qual


ela deve realizar-se, e porque o legislador reputou que aquele modo é o
único adequado para que a citação cumpra a sua finalidade, que é a de
levar ao réu o conhecimento da demanda e lhe proporcionar meios para
defender-se, ela não tolera qualquer violação no tocante à forma que
se realize a citação. Da invalidade os srs. tratarão com mais vagar
proximamente.

Em outros casos, e eles são talvez até mesmo a maioria, a lei


estabelece requisitos formais também por considerar que aqueles requisitos
que ela estabelece constituem o modo mais adequado para que o ato
processuais atinja sua finalidade, mas não vai a esse extremo de não
admitir qualquer violação no tocante àquela forma. Ela estabelece
requisitos formais que ficam valendo, a rigor, mais como uma
recomendação feita àqueles que tenham que praticar o ato
processual. De tal maneira que se o ato processual se pratica de forma
diversa daquela estabelecida pela lei, mas a despeito disso se torna
indiscutível que, mesmo por outro modo, o ato alcançou a sua finalidade, a
lei não se incomoda, não invalida aquele ato, permite que ele continue
válido a despeito da inobservância da forma.

Isso é o que acontece no tocante à grande maioria dos atos


processuais. São até mesmo excepcionais os casos em que, no Código, as
143
violações da forma são tratadas com tal rigor que acarretem
necessariamente a invalidade dos atos. A regra é a de que, mesmo quando
ocorre a inobservância do requisito formal, se o ato por outra forma
alcançou a sua finalidade, ele é válido, não vai gerar nenhuma
conseqüência. Art. 154 - é o princípio da liberdade de forma - no tocante a
atos de forma vinculada, cuja forma é estabelecida em lei mas que
pertencem a essa última categoria que apontei, atos de forma vinculada em
que a violação da forma, por si só, não acarretará a invalidade. É o
princípio de aproveitar-se tanto quanto possível a atividade envolvida
no processo. A mesma regra está no art. 244, que os srs. estudarão
também mais adiante e que constitui mais ou menos uma reprodução da
última parte do art. 154.

As formas constituem meios, instrumentos para atingir o


objetivo do ato - em princípio, se o objetivo é atingido, ainda que
tenham sido violadas normas que estabeleçam exigências formais, o
ato se reputará válido. As formas constituem instrumentos - é o que se
denomina de princípio da instrumentalidade das formas.

Essa classificação dos atos é fundamental - atos de forma livre


e atos de forma vinculada, com esse desdobramento: aqueles que têm
forma prescrita em lei e que a lei não tolera qualquer inobservância, e
aqueles que têm forma prescrita em lei mas que essa forma constitui mais
uma recomendação do legislador, se não for observada. Mas se o ato
atingir sua finalidade, será válido. E esses princípios, que são também
fundamentais: o da LIBERDADE DA FORMA, que prevalece em caráter
geral, e o da INSTRUMENTALIDADE DA FORMA, que significa que a forma
não deve ser encarada como um fim em si mesma, mas como um meio de
proporcionar com maior facilidade, com maior segurança, o objetivo
do ato processual.

Atos processuais em relação ao TEMPO - A matéria está


disciplinada no Código em lugares diferentes. No segundo capítulo do Título
V - do tempo e do lugar dos atos processuais. O terceiro capítulo trata dos
prazos. A distinção que o Código faz não é muito justificável - a matéria
relativa a prazos é obviamente relativa a tempo dos atos processuais. No
Capítulo II o Código vai regulamentar dois aspectos temporais do ato
processual: os dias em que podem ser praticados atos processuais, os dias
adequados à sua prática e os horários dentro dos quais eles podem ser
praticados, para, no Capítulo seguinte, tratar dos prazos. Vamos ver
primeiro dias e horas, ou seja, a matéria regulamentada no Capítulo II.

No tocante a dias, em princípio, só se pode praticar atos


processuais em dias nos quais haja expediente forense; tanto os atos
que se realizam na sede de Juízo quanto os de que se realizam fora dela, em
144
princípio, só podem ser praticados em dias nos quais haja expediente
forense, não sendo admissível, portanto, a prática de atos processuais no
que a lei chama de feriados. Feriados, para a lei, não significa apenas o
que nós chamamos de feriados - é qualquer dias em que não haja
expediente forense (art. 175). Para simplificar, vamos adotar a
definição legal, à qual o Código não se manteve fiel, como veremos mais
adiante. De um lado feriados, incluindo os sábados, domingos,
feriados propriamente ditos, etc.; e de outro lado férias coletivas, que
nós na primeira instância não conhecemos aqui no Rio de Janeiro. A justiça
de primeira instância no Estado do Rio de Janeiro não tem férias coletivas,
os Tribunais têm. São períodos de paralisação da atividade
processual.

No tocante a horários, em princípio, atos externos (que são


praticados fora da sede de Juízo) só podem ser realizados de 6 da manhã às
18 horas. Atos internos se realizam durante o expediente forense e quem
fixa o expediente é a lei de organização judiciária. Art. 172 do CPC - o
parágrafo primeiro estabelece uma regra cuja razão de ser é intuitiva -
serão concluídos depois das 18 horas os atos iniciados antes, quando o
adiamento prejudicar a diligência ou causar graves danos. O parágrafo
segundo estabelece uma exceção no tocante à regra de que os atos
processuais só se praticam em dias no quais há expediente forense e se
externos só se podem praticar de 6 às 18 horas - a citação e a penhora,
em casos excepcionais e mediante autorização expressa do Juiz,
poderão realizar-se em domingos e feriados (expressão redundante
em vista do disposto no art. 175) ou nos dias úteis fora do horário
estabelecido neste artigo, observando-se do disposto no art. 5º, XI
da Constituição da República, que estabelece regra no tocante à
inviolabilidade do domicílio. Em caráter excepcional e urgente, se for
necessária a prática de tais atos, sendo de se temer que a não realização
deles possa acarretar um prejuízo talvez irreparável, nessas circunstâncias
permite o Código que sejam praticados: 1) em feriados e 2) nos dias úteis,
fora daqueles limites de horário estabelecidos no caput.

O art. 173, por sua vez, estabelece exceção também a essa


regra, segundo a qual os atos processuais só devem praticar-se em dias no
quais haja expediente forense e de 6 às 18 horas. Exceções no tocante às
férias, enumerando atos processuais que podem ser praticados durante
férias forenses, férias coletivas (que nós temos aqui na segunda instância,
não na primeira), atos que, se não forem praticados logo, talvez venham a
se tornar inúteis.

O art. 174 trata de assunto correlato, mas um pouco diferente.


O art. 173 enumera atos que podem ser praticados, o art. 174 estabelece
causas que não têm a sua movimentação sustada pelo advento de férias
145
forenses, que continuam a correr durante as férias coletivas. O art. 173
enumera atos - uma vez praticados aqueles atos, vindo as férias, em
princípio os processos terão sua marcha sustada, as férias coletivas
provocam, em princípio, a sustação da marcha dos processos. O art. 174
estabelece exceções a essa regra, enumerando causas que correm
durante as férias forenses.

Exemplos de causas que a lei federal determina que corram durante as


férias forenses: desapropriação, falência, concordata - são causas que, ao
ver do legislador, devem merecer uma atenção especial, devem ter um
desfecho rápido; e justamente por isso ele subtrai essas causas da
conseqüência que normalmente acarreta o advento de férias forenses, que é
a de sustar o andamento dos processos.

PRAZOS PROCESSUAIS - matéria importantíssima, uma vez que toda a


atividade processual está subordinada ao cumprimento de prazos
estabelecidos. Os prazos são lapsos de tempo compreendidos entre dois
momentos, entre dois acontecimentos. E o momento inicial do prazo se
denomina termo inicial e o momento final se denomina de termo final.
Termo inicial ou dies a quo; termo final ou dies ad quem.

Termo, aliás, é expressão que tem mais de um sentido em


Direito de modo geral. Em Direito Processual também se denomina de
termo a documentação de uma ato que foi praticado no Juízo -
reduzir a termo. Por contraposição a auto, que exprime a
documentação de um ato praticado fora da sede de Juízo. Ex: auto de
penhora. De qualquer maneira é normalmente utilizada a expressão termo
para designar o momento inicial e o momento final dos prazos. As
unidades de que se pode valer a lei para fixar prazos são as unidades de
tempo que nós conhecemos - há prazos fixados em minutos, em horas, em
dias, em meses e em anos. No CPC os srs. encontram prazos que tomam
como ponto de referência cada um dessas unidades.

Mais importante do que isso são as classificações dos prazos.


De um lado, nós temos prazos nos quais os atos processuais devem ser
praticados. Prazos que a lei estabelece para que, no curso deles, os atos
processuais sejam praticados. E de outro lado, prazos que são
estabelecidos para que durante o transcurso deles não sejam praticados
atos processuais. Prazos estabelecidos para que durante eles sejam
praticados atos processuais se denominam prazos peremptórios.
Prazos estabelecidos na lei para que durante eles não sejam praticados
atos processuais chamam-se prazos dilatórios. As expressões são
significativas - dilatório tem sentido de afastar, de maneira que quando se
estabelece um prazo dilatório não se querendo que enquanto corre o
processo o ato seja praticado, a lei - ou então as partes ou o Juiz - estará
146
afastando a prática daquele ato processual. Peremptório vem de perimir -
terminar, cessar, findar. São prazos que, uma vez terminados, o ato que
era para ser praticado durante eles não vai mais poder ser praticado. A
todo momento nós nos defrontamos na vida com prazos peremptórios e
dilatórios. Às vezes a gente tem que fazer alguma coisa até amanhã, e às
vezes a gente diz "a partir de amanhã eu pensarei em fazer isso."

Essa classificação tem uma relevância processual. O art. 181


diz que as partes podem, de comum acordo, reduzir ou prorrogar os prazos
dilatórios. E também o art. 182 diz que é defeso às partes, ainda que todas
estejam de acordo, reduzir ou prorrogar os prazos peremptórios. Prazos
peremptórios são quase todos - é o prazo para o oferecimento da
contestação, para interposição de recursos, quer dizer, atos que têm
que ser praticados durante o prazo . Exemplo de prazo dilatório - a
suspensão do processo, quando tenha sido estabelecida por convenção das
partes, de maneira que fica desde logo demarcado um período de tempo
fixo para a suspensão.

Outra classificação - Os prazos podem vir fixados na própria


lei. Não são poucos os que a lei fixa. São os prazos legais. Art. 177 -
prazos fixados pelo Juiz, prazos judiciais e há um terceira espécie, que são
os prazos estabelecidos de comum acordo pelas partes, o que ocorre, p.ex.,
na suspensão convencional do processo, permitida pela lei - prazos
convencionais.

Quando a lei não fixa o prazo, quando não há prazo legal, diz o
art. 177 que o Juiz determinará o prazo. Agora, pode acontecer, e acontece
praticamente, que nem a lei estabeleça nem o Juiz tenha fixado,
hipótese que é solucionada pelo art. 185, que tem caráter
subsidiário, mas que é importantíssimo - não há atividade processual
que não esteja subordinada a prazo - porque se a lei não fixa e se o Juiz não
determina, diz o art. 185: "Não havendo preceito legal, nem assinação pelo
Juiz será de 5 dias..."

Já vimos, portanto, em matéria de classificação, prazos


peremptórios e dilatórios de uma lado, e de outro lado prazos legais, prazos
judiciais e prazos convencionais. E agora, numa última classificação: prazos
próprios e prazos impróprios. Denominam-se próprios os prazos cuja
inobservância acarreta conseqüências processuais. Têm esse
caráter, em regra, os prazos que são estabelecidos para os atos
processuais praticados pelas partes; normalmente, estabelecido para a
parte o prazo peremptório, extinto o prazo, o ato não poderá mais ser
praticado. É uma conseqüência de caráter processual, gerada pela
inobservância daquele prazo - prazo próprio. Prazos impróprios são
prazos cuja inobservância não gera conseqüências processuais. Ex.:
147
os prazos que a lei estabelece para o Juiz. A inobservância deles pode gerar
conseqüências de ordem disciplinar para o Juiz e existe até um movimento
muito sério para isso, preconizado pela Lei Orgânica da Magistratura. Mas a
inobservância pelo Juiz dos atos que são estabelecidos para ele não gera
conseqüências processuais, e por isso esses prazos se chamam prazos
impróprios.

Contagem do prazos

Antes de mais nada é necessário que façamos uma distinção:


uma coisa é a definição pela lei do termo inicial do prazo. A lei precisa
definir o momento a partir do qual o prazo vai correr, a lei precisa
estabelecer o termo inicial do prazo. Normalmente, em um processo em
curso, para as partes, os termos iniciais dos prazos estabelecidos para elas
são as intimações, i.e., os atos que levam ao conhecimento das partes as
situações ocorridas no processo. Essa é a definição de termo inicial. Agora,
outra coisa é o critério da contagem - é o início da contagem dos
prazos.

Em matéria de contagem dos prazos, diz o art. 184: "Salvo


disposição em contrário, computar-se-ão os prazos excluindo o dia do
começo e incluindo o do vencimento." Excluindo o dies a quo e incluindo o
dies ad quem, quer dizer, excluindo o termo inicial, de tal maneira que
a fixação do termo inicial não significa que a partir dele, inclusive,
vai se começar a contagem do prazo, e incluindo o dia do
vencimento - essa é a regra fundamental. Pode acontecer que, de
acordo com esse critério, o último dia do prazo caia, por ex., num domingo,
ou em um outro dia em que não haja expediente forense, ou num dia em
que excepcionalmente se determinou o fechamento do foro, de tal maneira
que a parte, não sabendo disso, teve subtraída uma parcela dos dias de que
dispunha para praticar o ato processual. Para essas hipóteses, estabelece o
§ 1º do art. 184 - prorroga-se o prazo nesses casos até o primeiro dia
útil. Suponhamos a hipótese de interposição de apelação contra a sentença
- prazo de 15 dias, contados da intimação da sentença. Então, exclui-se o
primeira dia, o dia em que ocorreu a intimação, e se contam 15 dias. O 15º
dia, porém, cai num domingo - diz o § 1º que o prazo fica prorrogado até o
primeiro dia útil, de tal maneira que nesse exemplo o último dia do prazo
será na segunda-feira, se houver expediente forense.

O § 2º é um complemento do caput do art. 184. O caput diz


que os prazos se contam excluindo o termo inicial e incluindo o termo final;
diz o § 2º que, além disso, para que o prazo comece a correr, desde logo é
necessário que o dia seguinte ao termo inicial seja útil, isto é, que naquele
dia haja expediente forense. De tal maneira que se o dia seguinte não for
148
útil, o termo inicial ficou lá, mas a contagem só vai se iniciar no
primeiro dia útil subseqüente.

Ex.: uma intimação de uma sentença que se faça numa sexta-feira.


Aplicando apenas a regra de que, salvo disposto em contrário, contar-se-ão
os prazos excluindo o dia do começo e incluindo o do vencimento, nós
começaríamos no sábado. Para essa hipótese é que diverge o § 2º, dizendo
que se o dia seguinte ao termo inicial não for útil, o prazo não começa a
correr. Nesse exemplo, os 15 dias para o oferecimento do recurso
começariam não no sábado, mas na segunda-feira, se fosse dia útil.
Portanto, exclui-se sempre o termo inicial e é necessário, para que o prazo
comece a correr, que a data do início da contagem do prazo seja um
dia útil, um dia em que haja expediente forense.

Suspensão e interrupção dos prazos - Os srs. já devem conhecer a


distinção entre esses dois fenômenos. Ambos acarretam uma paralisação
temporária da contagem do prazo. Fica parada momentaneamente a
contagem de um prazo, tanto na suspensão quanto na interrupção. A
diferença entre esses dois institutos é a de que na interrupção, quando
ela cessa, o prazo vai ser recomeçado, a contagem vai ser recomeçada
da estaca zero, vai ser contado todo o prazo novamente, a partir da
cessação da interrupção, desprezando-se o período de tempo que houver
decorrido antes da interrupção. Na suspensão, ao contrário, cessada a
suspensão, a contagem recomeça aproveitando-se o período que
houver decorrido anteriormente a ela. De tal maneira que o prazo,
depois da cessação da suspensão, é aquele que ficou faltando quando
ocorreu a causa suspensiva do prazo. Retoma-se a contagem do ponto em
que havia parado; e na interrupção o prazo recomeça a correr todo ele
integralmente.

Algumas das causas da suspensão são previstas no art. 179 e


no art. 180. Atenção: não é a suspensão do processo, é a suspensão
do prazo. Art. 179, caso de férias; art. 180, caso nítido de suspensão do
prazo.

Exemplo de interrupção de prazos do Código os srs. têm no


art. 507, que é peculiar a um tipo de prazo - prazo para interposição de
recursos. É o caso de falecimento da parte ou do seu advogado durante o
prazo para interposição. Ocorrendo um dos casos estabelecidos nesse
artigo, o prazo se interrompe, e quando começa a correr recomeça por
inteiro e não apenas a parte que estava faltando.

Agora, não se suspende o prazo nos feriados, quer dizer,


dias nos quais em geral não haja expediente forense. Eles vão ser
suspensos pelo advento de férias coletivas, se for o caso, mas não vão
149
suspender-se nos feriados (art. 178), não pára a contagem na sexta-feira e
recomeça na segunda, ele segue. Evidentemente, se o termo final cair num
dia em que não haja expediente forense, o prazo fica prorrogado para o
primeiro dia útil seguinte. Agora, a existência de feriados não acarreta
suspensão do prazo, de tal maneira que, na contagem dos prazos entram
os sábados, domingos, feriados propriamente ditos, etc.

Além da suspensão e da interrupção, outros fenômenos que


podem ocorrer no tocante aos prazos é eles serem ampliados ou
reduzidos. Já vimos que, por convenção das partes (um exemplo de
ampliação e redução de prazos), os prazos dilatórios podem ser ampliados
ou reduzidos. Uma regra importante está no art. 182, segunda parte,
relativo a qualquer espécie de prazo. O art. 182 começa dizendo que é
defeso às partes, ainda que todas estejam de acordo, reduzir ou prorrogar
os prazos peremptórios. E diz mais, que o Juiz poderá, nas Comarcas onde
for difícil o transporte, prorrogar, ampliar portanto, qualquer prazo, mas
nunca por mais de 60 dias. Parágrafo único - em casos de calamidade
pública, poderá ser excedido esse limite. No caput, a ampliação ou a
redução são feitas pelas partes e se restringem aos prazos dilatórios; aqui,
a regra prevalece para qualquer espécie de prazo, dilatório ou peremptório
e a ampliação, a prorrogação do prazo, é feita pelo Juiz em função dessas
circunstâncias: dificuldade habitual ou excepcional de transporte ou caso de
calamidade pública, no primeiro caso havendo um limite máximo de 60 dias
e no segundo caso não havendo limite algum.

VÍCIOS OU DEFEITOS E SUAS CONSEQÜÊNCIAS

Todo ato processual, como aliás todo ato jurídico, para


completar-se e, portanto, para existir, reclama o concurso de determinados
elementos; faltando um ou mais de um, não se pode dizer que o ato
exista. Mas como às vezes há uma aparência , um simulacro, uma falsa
imagem de ato, nós nos referimos a esses atos (numa linguagem talvez
rigorosamente não muito adequada) como atos jurídicos inexistentes. A
rigor, um ato jurídico inexistente é o nada, mas é claro que para designar o
nada precisamos de uma expressão e usamos atos jurídicos inexistentes
para designar algo que tem uma vaga semelhança com um ato jurídico, mas
que, bem analisado, não apresenta todos os seus elementos
essenciais. Ex.: o "casamento", no qual não houvesse algum dos
elementos essenciais (duas pessoas de sexos diferentes, mútuo consenso,
celebração). Um episódio da vida no qual não estivessem presentes esses
três elementos, por mais que parecesse um casamento exteriormente, não
seria um verdadeiro casamento. Mas como às vezes importa estudar a
figura assim formada, diz-se que se trata de um casamento inexistente.
150
Vejam que aí estamos no plano da existência do ato. O ato
só existe quando se reúnem todos os elementos essenciais. Basta
faltar um para que já não se tenha mais um verdadeiro ato jurídico. Esta
categoria - atos inexistentes - existe também no Direito Processual. Por
vezes nós estamos diante de comportamentos ou episódios que apresentam
certa semelhança externa com um ato processual, mas que na realidade não
chegam a reunir todos os elementos essenciais desse ato. Por ex.: a
sentença à qual faltasse conclusão - o Juiz redigiu a sentença, escreveu em
cima "sentença", expôs os acontecimentos do processo, isto é, fez o
relatório, depois redigiu a segunda parte da sentença, a fundamentação ou
motivos, analisando as questões que influíram ou que influiriam no
resultado, mas esqueceu de concluir, não disse se condenava o réu ou se
julgava improcedente o pedido. Faltou a conclusão, que é sua parte mais
importante, pois ali é que está o coração da decisão. O Juiz omitiu essa
parte, datou e assinou. Então, esse ato tem uma certa semelhança com
uma sentença, mas na realidade não chegou a ter tudo o que precisaria ter
para que realmente se configurasse uma verdadeira sentença. Então, nós
chamamos sentença inexistente a um ato desse tipo; não é uma sentença,
mas em todo caso é algo diferente de uma folha em branco. Assim também
uma "sentença" redigida e subscrita por um dos srs., que não têm poder
jurisdicional, também não seria uma sentença, embora tivesse uma
aparência, porque faltaria um elemento essencial, que é o sujeito. Não
haveria um órgão investido de jurisdição, que é o único possível sujeito da
sentença.

Num segundo plano, que não se confunde com esse, surge o


problema de saber se um ato ao qual não falta nenhum elemento, que está
completo, contém todos os elementos essenciais e, portanto, existe no
mundo do Direito, foi realizado ou não com observância de todos os
requisitos. Já agora não se trata mais de uma investigação sobre a
presença dos elementos do ato e sim sobre a satisfação dos seus requisitos.
Lembremos esta diferença: elementos são substantivos e requisitos
são adjetivos. Então o ato pode existir de duas maneiras diferentes:
existir com satisfação plena dos requisitos, ou existir sem
satisfação plena dos requisitos. Neste segundo plano é que se põe o
problema da validade do ato. Não são a mesma coisa ato inexistente e ato
inválido. O ato pode existir e no entanto não ser válido perante o
Direito, exatamente porque falta não um elemento, mas um
requisito que deveria ter sido observado na prática daquele ato .
Assim, o casamento, por ex., desde que reúna duas pessoas de sexos
diferentes, mútuo consenso e celebração, existe. Agora, qualquer desses
elementos pode estar defeituoso, i.e., pode não satisfazer a algum dos seus
requisitos. A celebração pode ter sido feita por autoridade incompetente.
Falta uma qualidade. Então, esse casamento pode ser inválido por falta
151
desse requisito, competência da autoridade celebrante. É coisa
completamente diferente do casamento não celebrado.

Assim também o ato processual. A sentença pode reunir todos


os elementos, conter todas as partes necessárias e, portanto, existir e, no
entanto, apresentar um defeito consistente em falta de observância de
determinado requisito. Por ex., o Juiz que a proferiu não era competente.
Então, essa circunstância pode afetar a validade da sentença, não a sua
existência, que é indiscutível.

No plano da Teoria Geral do Direito nós distinguimos


doutrinariamente dois graus de invalidade, conforme a maior ou menor
gravidade da inobservância dos requisitos. Por vezes um ato é praticado
com desprezo, com desrespeito, com inobservância de um requisito muito
importante. Então o vício, o defeito que esse ato apresenta, é grave.
Outras vezes a lei considera que a transgressão da norma que impunha a
satisfação de determinado requisito o qual não foi observado é menos grave
e atribui então conseqüências menos sérias. Daí surge uma distinção
básica que se faz na Teoria Geral dos atos jurídicos, entre duas possíveis
conseqüências do vício ou defeito do ato. Notem que vício ou defeito só
se podem falar em relação a atos existentes. O ato inexistente nem
chega a ser defeituoso, visto que não existe. Quando falamos em atos
defeituosos, atos viciados, falamos em atos existentes, nos quais essa
imperfeição, esse vício ou defeito, podendo ser mais ou menos grave, é
capaz de conduzir a duas possíveis, conseqüências que são as sanções
estabelecidas na lei para a transgressão da norma que impunha a
observância do requisito.

A sanção mais grave é a nulidade e a menos grave é a


anulabilidade. Essas duas figuras devem ser cuidadosamente distinguidas.
A nulidade é uma conseqüência mais grave; quando o ato apresenta
defeito muito sério aos olhos da lei, esta o comina com a sanção da
nulidade. Quando apresenta um defeito menos sério ela prevê uma
conseqüência mais branda, que é a anulabilidade. A diferença conceitual
entre as duas é a seguinte: a nulidade, por ser uma conseqüência mais
séria, dispensa a iniciativa de alguém afastar o ato, combatê-lo,
impugná-lo e portanto anulá-lo. Ele já é nulo e, portanto, já não vale,
independentemente de qualquer agressão, digamos assim, de
qualquer impugnação. Quando o Juiz olha para aquele ato e vê que ele é
nulo, já não o leva em conta, independentemente de que alguém tenha ou
não tomado a iniciativa de impugná-lo. Agora, o ato anulável, por seu
defeito ser menos grave, obedece a uma disciplina distinta; a lei exige que
alguém tome a iniciativa de promover a sua destruição . Anulável é
aquilo que pode ser anulado, mas não é nulo; se fosse nulo ninguém
precisaria anulá-lo. Então, quando o ato é simplesmente anulável, é
152
necessário que alguém tome a iniciativa de impugná-lo. Se essa
impugnação for bem sucedida o ato se desfaz, é anulado e daí em diante
obviamente não pode mais ser levado em conta. Mas até que isso aconteça,
ele está de pé e o Juiz não pode desconhecê-lo, não pode negar-lhe
efeitos enquanto ele não seja anulado . Existe um prazo para que
alguém tome a iniciativa de anulá-lo e, esgotado esse prazo, não se pode
mais atacar o ato e ele, apesar de defeituoso, subsiste como que curado do
seu defeito, porque não é mais possível impugná-lo por essa razão. Daí em
diante, decorrido o prazo, ele subsistirá para sempre, tal como se fosse
perfeito.

Na nulidade é dispensável e até diria que não tem sentido nem


é necessário nem possível que alguém requeira a destruição do ato. Não
há interesse nisso porque, tal como ele é, já é nulo e se já é nulo
não pode (não é que não precise, é que nem sequer pode) ser
anulado. O que é nulo não pode ser anulado, só pode ser anulado o
que é anulável.

Na Teoria Geral do Direito distinguimos uma subdivisão na


nulidade: absoluta e relativa; mas vamos deixar isso, que não interessa por
enquanto.

ATENÇÃO: Nulidade e anulabilidade não são vícios e sim conseqüências


dos vícios. Não se pode dizer que um ato tem o vício da nulidade, ou que
tem o defeito de ser anulável - não tem sentido. Pode-se dizer o seguinte:
"este ato é nulo por causa do seu vício, a incompetência do agente",
suponhamos, ou "este ato é anulável porque tem o defeito de a vontade ter
sido expressa por coação". O defeito é a coação, a conseqüência do defeito
é a anulabilidade; o vício é a incompetência, a conseqüência é a nulidade.
Nunca digam, porque é totalmente impróprio, que a nulidade é um vício do
ato jurídico; a nulidade é a sanção, é a reação da ordem jurídica em face
do vício.

ATENÇÃO: O mesmo vício pode, às vezes, ser considerado pela lei como
muito grave e noutros casos como menos grave, ou até sem gravidade
nenhuma, depende do contexto. Então isso leva à seguinte conclusão:
dependendo de onde se situa o ato, nós podemos ter 2 ou 3 ou mais atos
jurídicos com vícios perfeitamente análogos, dos quais um é válido, o outro
pode ser anulável e o terceiro é nulo. Isso pode acontecer, porque a
valoração da gravidade dos vícios é feita livremente pelo
legislador, tendo em vista razão de conveniência . Então, ele pode
achar que no terreno do D.Civil, p.ex., um determinado vício é gravíssimo e
deve sempre acarretar a nulidade do ato; ao passo que o mesmo vício no
plano do D.Administrativo já não seria tão grave, e no campo do D.
Processual poderia não ter gravidade nenhuma aos olhos da lei. Quer dizer,
153
o mesmo tipo de defeito pode acarretar, portanto, conseqüências diversas
conforme o ramo do direito que regula o ato.

Nós não podemos transplantar para o Direito Processual as


mesmas causas de nulidade ou de anulabilidade que se estudam no D.Civil.
Agora, o conceito de nulidade e o conceito de anulabilidade são
iguais, do contrário a confusão se instala. Quando falamos em ato nulo,
nós temos que dizer com isso a mesma coisa, quer se trate de um ato
jurídico civil, comercial, internacional, processual, administrativo, etc.
Quando falamos em ato anulável, também o conceito é igual. Agora, as
causas em virtude das quais um ato é nulo ou é anulável, podem
variar. A mesma causa pode conduzir, no plano do D.Civil, à nulidade; no
plano do D. Processual à anulabilidade e não ter, por ex., no plano
administrativo conseqüência nenhuma, o ato pode ser válido. O conceito de
ato nulo e ato anulável é o mesmo em todos os ramos do Direito, as causas
de nulidade e anulabilidade podem e costumam variar . Ex.: o vício do
consentimento no D.Civil torna o ato anulável, como sabem. A coação é um
deles. Então um contrato assinado sob coação ou um testamento feito sob
coação são anuláveis; mas uma sentença proferida sob coação é anulável?
Não. Porque de duas uma: ou a sentença está errada, e pode ser consertada
por meio de recurso, sem precisar anular, ou ela está certa, e seria absurdo
anulá-la se está certa. Pelo menos a lei acha isso. Dirão os srs., mas pode
acontecer que o tribunal julgue também sob coação. Já é mais difícil, seria
preciso coagir no mínimo três juízes. E se nós pensarmos que há, em regra,
diversos recursos que o interessado pode ir esgotando sucessivamente até
chegar ao STJ ou STJ, os srs. compreendem que é desprezível a hipótese de
alguém coagir o STF ou o STJ a julgar de um determinado modo. Não é que
não possa acontecer - pode, mas é tão remota essa hipótese que a lei faz
abstração dela.

O mesmo não se pode dizer no caso das partes. Para


complicar as coisas, no D. Processual há uma diferença muito grande entre
o tratamento dado aos atos do órgão judicial e o tratamento dado aos atos
das partes. Nos atos das partes nós podemos levar em contra o vício da
vontade - se a parte, por ex., desistir da ação sob coação - aí o ato é
anulável.

Há uma certa dificuldade na aplicação ao D. Processual, aos


atos processuais, desse esquema que acabamos de ver. E um dos fatores
que contribuem para essa dificuldade de transportarmos as noções que
temos sobre as causas de nulidade e de anulabilidade aprendidas, por ex.,
no D. Civil, ao campo do processo, é exatamente a preocupação do
legislador processual, em regra, de salvar os atos processuais, salvar
no sentido de reconhecer-lhes validade, mesmo quando afetados de
certos defeitos que, em qualquer outro ramo jurídico, seriam considerados
154
merecedores da sanção de anulabilidade ou até de nulidade. No campo do
processo não, exatamente porque as conseqüências da invalidade do
ato podem ser calamitosas. Se o ato invalidado está, por ex., no início
do processo e dele dependem todos os outros, a invalidação daquele ato
pode acarretar nada mais nada menos do que a destruição total do
processo, com óbvio prejuízo, porque o tempo dispendido e as energias da
máquina judiciária foram desbaratadas, as despesas que se fizeram, tudo
aquilo foi posto fora e, o que é mais grave, procrastinou de modo
notável o julgamento, i.e., o momento em que se fará justiça, com óbvio
detrimento para o litigante que tem razão.

De sorte que a lei procura evitar que isso aconteça. Daí


podemos dizer que um defeito como este da coação, considerado grave para
um contrato, para um casamento, não é considerado grave para um
sentença, não afeta a sua validade - são conseqüências que, à primeira
vista, desconformam, parecem paradoxais, mas não são.

Então há uma certa dificuldade, como dizia, em


transportarmos a disciplina que aprendemos, em geral no D. Civil, a
respeito das causas da nulidade e da anulabilidade, para os atos
processuais, principalmente para os atos do órgão judicial. Os atos das
partes ainda comportam uma aplicação aproximada, mas os do
órgão judicial recebem tratamento diferente.

Se formos examinar a disciplina desta matéria no CPC, vamos


defrontar certas dificuldade, pelo menos à primeira vista. Não vamos
encontrar no CPC, como encontramos, por ex., no Código Civil, uma lista
dos requisitos que o ato jurídico deve ter, sob pena de ser nulo ou anulável,
e a discriminação dos casos de nulidade e de anulabilidade - não
encontramos. Exatamente porque o legislador processual não está
preocupado com isso, ele está preocupado é com dizer quando é que o ato,
apesar de defeituoso, não é nulo, não é inválido.

No capítulo das nulidades do CPC nós vamos perceber que o


espírito do legislador está preocupado não em dizer quando o ato é inválido,
mas sim, ao contrário, prestar os atos, salvá-los do afogamento, e portanto
está preocupado em dizer quando é que o ato, não obstante defeituoso,
deve ser considerado válido. Isso é o que devemos ter em mente
quando lemos o capítulo, senão não se entende. O que ele diz a toda hora
é: "não é nulo", não deve decretar a nulidade, não é isso, não é aquilo; nega
tanto quanto possível a invalidade do ato. O capítulo é bem inspirado.
Realmente, no D. Processual moderno, a tendência é essa: nulidade só em
último caso, onde não há outro jeito. Agora, ele não é muito bem redigido,
as idéias que orientaram o legislador são corretas, embora a técnica de
redação desses dispositivos seja desigual. Por isso deu lugar a uma série
155
de dúvidas na aplicação prática dos dispositivos. Antes de ler quero fazer
outra observação: esse capítulo quase que se ocupou exclusivamente com o
problema da invalidade ou da validade do ato em função da forma, mas nós
sabemos que a forma não é o único elemento do ato, e portanto não é só
em relação à forma que o ato precisa satisfazer determinados requisitos
para ser válido. Há os requisitos referentes aos outros elementos, por ex.,
ao sujeito - se o sujeito é o Juiz há o requisito da competência, se é a parte
há o requisito da capacidade. Então o Código não considerou isso nesse
capítulo. Exclusivamente trata das questões referentes à forma, das
possíveis infrações da forma. Então há, dispersos ao longo do Código,
outros dispositivos concernentes ao mesmo assunto. Por ex., o art. 113, §
2º cuida do problema da falta do requisito da competência. Eis aí uma
regra curiosa: trata-se da incompetência absoluta, não é a relativa. Ora,
um dos requisitos que em princípio o ato processual deve satisfazer é a
competência do sujeito. O sujeito é um elemento do ato e deve ser
competente. Nós poderíamos pensar então que toda vez que faltar esse
requisito o ato é inválido, mas estaríamos pensando mal. Por motivos de
conveniência, para salvar tanto quanto possível os atos praticados ao longo
do processo, a incompetência do sujeito nem sempre acarreta
invalidade. Quando o Juiz é incompetente, tecnicamente nós poderíamos
supor que todos os atos que ele praticou fossem anulados. Mas tal não
acontece. "Somente os atos decisórios" - notem que existe uma diferença
quanto aos atos do mesmo sujeito. Se o Juiz praticou no processo 50 atos
dos quais só um teve caráter decisório, o mesmo defeito que está presente
em todos aqueles atos produz conseqüências diferentes. Em relação aos
atos não decisórios esse defeito não afeta a validade: uma prova,
interrogação de testemunha, inspeção judicial de um imóvel, nada disso é
nulo, só é nulo o ato que ele praticou em caráter decisório; aproveita-se o
mais. Então notem: a mesma circunstância ora tem a conseqüência de
invalidar o ato, ora não. Dentro do próprio processo, ora anula ora não
anula. Então, aí está uma regra relevante para o assunto, e no entanto
situada fora do capítulo das nulidades.

No capítulo das nulidade os srs. notarão que se emprega


sempre a palavra nulidade e não há referência à anulabilidade. É uma falha
técnica. Não quer dizer que todos os atos inválidos no processo sejam
nulos - há certos efeitos que só produzirão conseqüências se a parte
interessada tomar a iniciativa de provocar a distruição do ato , e é
perfeitamente compreensível que assim seja, porque há certas regras que
protegem exclusivamente interesses privados e são dispositivas, i.e., o
interessado pode utilizar aquela garantia. Vejam, por ex., o art. 217 (vários
casos de interesse privado referindo-se à citação). Se a citação for feita
numa dessas circunstâncias, esta citação deve ser considerada válida?
Vejam: se o interessado é exclusivamente o citado e se ele pode abrir mão
dessa garantia que a lei lhe outorga, ele pode dizer, p.ex., que se casou na
156
véspera, mas abre mão da garantia, por que se há de considerar nulo esse
ato? Qual a razão para isso? A pessoa interessada não reclama, não
protesta, aceita; agora, ela pode dizer que se casou ontem e impugnar essa
citação. Aí sim, ela está fazendo valer o direito que a lei lhe dá. Então
esse ato é simplesmente anulável, não é um ato nulo.

Voltemos ao capítulo das nulidades. Art. 243 e seguintes.


Vejam que a preocupação é exclusivamente a respeito da forma. Tanto num
caso como noutro, a lei procura salvar e não cominar o ato, até mesmo
quando ela própria comina a sanção de nulidade para a inobservância da
forma (art. 243), mesmo aí ela põe uma restrição. É claro que isso aí só
vale para os casos de anulabilidade, porque para os casos de
verdadeira nulidade pouco importa que a pessoa tome ou não a
iniciativa, o Juiz pode, de ofício, reconhecer a nulidade. A norma está
mal redigida, porque ela na verdade se refere aos atos anuláveis e não aos
atos nulos.

Quanto ao art. 244, a lei tempera o rigor da sanção com uma


consideração finalística: desde que o ato tenha atingido a sua finalidade,
pouco importa que tenha sido praticado por uma forma diferente daquela
que a lei impunha ou recomendava; se atingiu a finalidade por outra forma
vale, não é nulo.

Art. 245 - Aí também está em causa a hipótese de atos cuja


invalidação dependa da iniciativa da parte, o que se vai ver pelo parágrafo
único. É óbvio que se o Juiz a declarar de ofício, pouco importa que a
parte tenha ou não alegado a tempo, ou até que nem tenha alegado ,
já que a declaração de nulidade não depende da iniciativa da parte. Por
isso chamei a atenção para o fato de que a lei não é muito técnica na sua
terminologia; o seu espírito é louvável, mas é mal redigida do ponto de
vista técnico. Porque isso só se refere a ato cujo defeito tenha que ser
impugnado pela parte. Por isso, precisamos ter cuidado para não
escorregarmos nessas casquinhas de banana que o texto espalha à nossa
frente.

Art. 246 - Aí já se trata de coisa diferente, não é mais nulidade


do ato processual, é nulidade do processo. Vamos deixar para o fim.

Art. 247 - Nulas, aí, deve ser entendido com inválidas,


podendo ser nulas ou apenas anuláveis, conforme o caso. Se a citação é
feita com infração da regra editada para proteger o interesse público, então
é nula. Assim como naquele caso que vimos dos noivos: é apenas o
interesse particular que está em jogo e o direito é disponível, a a parte
pode abrir mão daquele privilégio, então a citação seria apenas anulável e
não nula.
157

Art. 248 - também vamos deixar par o fim.

Art. 249 e §§ - Agora é que é uma regra importante. Também


constitui uma tentativa de salvação. Vejam quantas "bóias" a lei atira aos
atos processuais irregulares, defeituosos, para evitar que naufraguem. Isso
mostra que esse capítulo abre uma série de chances para que o ato
defeituoso não seja invalidado, não seja considerado nem nulo nem
anulável em certos casos. A regra do § 2º é a contrapartida, no CPC, da
chamada LEI DA VANTAGEM do direito do futebol. Porque o futebol tem
direito, suas regras constituem um ordenamento jurídico, como as de
qualquer jogo. Há uma regra de futebol que ordena ao juiz que, quando
aquele que sofreu a falta e portanto seria o interessado em impugnar a
validade do lance, contudo não é prejudicado e consegue levar vantagem, o
juiz não deve anular o episódio, isto é, não deve marcar a falta. E a mesma
coisa também vale para o ato processual. Desde que o Juiz vai poder
decidir a favor da parte a quem, se não fosse assim, aproveitaria a
invalidade do ato, qual é o melhor para a parte? É o ato ser invalidado ou é
ela ganhar a causa?

Art. 250 - Esta é uma regra que se refere ao processo e


não ao ato processual.

Qual é a conseqüência da invalidação de um ato processual,


seja declarando-se nulo, seja anulando-se? O processo é uma série
contínua e nele os atos posteriores dependem dos anteriores, há uma
relação de dependência entre eles. Daí a regra do art. 248 - uma regra
importante, que é o aproveitamento daquilo que no ato é válido. É uma
regra que existe também no direito privado. Quando num ato é possível
distinguir partes autônomas, o fato de uma delas ser defeituosa não
prejudica as outras. Salva-se aquilo que for possível do ato. É claro que
isso só se aplica aos atos concretos e que tenham uma pluralidade
de aspectos. Assim, por ex., a audiência de instrução e julgamento é um
ato concreto, tem várias etapas. Se no curso dela surge um motivo de
invalidade, anula-se o que ocorre dali em diante, mas não se anula a
audiência inteira. Então, na hora de refazer, só será necessário refazer a
parte que foi invalidada e não a parte anterior que já foi feita.

Eu lhes disse que era preciso distinguir entre o problema da


validade ou da invalidade dos atos processuais considerados cada um de
per si, e o problema da validade ou invalidade do processo considerado no
conjunto, no seu todo. Há certos atos, certas circunstâncias, que
afetam não um ato processual ou dois ou três, afetam o processo
todo. Ex: no art. 214, faltando a citação inicial, portanto, o processo é
158
todo ele inválido, não é um ato, não é a nulidade do ato, é a nulidade do
processo.

Art. 246 - Se o M.P. não for intimado para atuar como fiscal da
lei, o processo é nulo. Então o caso é de nulidade do processo e não de
atos isolados.

Uma pergunta, à primeira vista engraçada: num processo nulo


pode acontecer que haja pelo menos um ato válido? Sim. O ato pelo qual
ele é anulado, esse ato é válido . Se o Juiz, lá no fim do processo verifica
que houve uma causa de nulidade e diz "anulo todo o processo", essa
decisão não é válida? Se não o fosse, o processo não seria anulado. É um
caso interessante em que, serrado o galho junto do tronco, contudo, um
fruto permanece em seu lugar.

PROBLEMAS

Pendendo um processo entre A e B sobre a propriedade de certo imóvel, C,


que por sua vez se considera dono, quer intervir a fim de reclamá-lo para si.
Pergunta-se:

1) Qual a modalidade de intervenção adequada ao caso?


R.: O art. 56 do CPC é o dispositivo aplicável. "Quem pretender, no todo ou
em parte, a coisa ou o direito sobre que controvertem autor e réu, poderá,
até ser proferida a sentença, oferecer OPOSIÇÃO contra ambos.

2) Até que momento deve C utilizar-se dela se quiser ter a certeza de que o
seu pedido será julgado na mesma sentença que julgar a ação de A contra
B?
R.: É aquele problema que nós vimos. O Código trata, na seção dedicada à
oposição, da oposição como modalidade de intervenção de terceiro e de
uma outra oposição, que não constitui modalidade de intervenção de
terceiro, porque dá ensejo à formação de um outro processo,
descaracterizando, portanto, a intervenção de terceiro. Para que fique
seguro de que o seu pedido será apreciado conjuntamente com o pedido
formulado pelo autor primitivo, ele tem de intervir no processo pendente. E
isso ele só pode fazer até o início da audiência de instrução e julgamento.
O art. 59 do CPC diz que a oposição oferecida antes da audiência será
apensada aos autos principais e correrá simultaneamente com a ação,
sendo ambas julgadas pela mesma sentença. Eu perguntaria o seguinte:
caso C, ao invés de formular o seu pedido antes da audiência, formulasse
depois, existiria alguma possibilidade de que os pedidos venham a ser
apreciados conjuntamente, concomitantemente? Desde que ainda não
159
tenha havido julgamento do primeiro pedido, desde que o processo
originário ainda esteja correndo em primeira instância (porque pode
acontecer que quando C vai formular o seu pedido o processo já se encontre
em grau de recurso, hipótese em que seria inconcebível o julgamento
simultâneo em primeira instância), desde que ainda não haja sentença em
relação ao processo primitivo, existe a possibilidade, a despeito de C propor
a sua ação depois do início da audiência, de os dois pedidos serem
apreciados simultaneamente. É justamente para alcançá-la que o Código,
no art. 60, permite ao Juiz sobrestar o andamento do primeiro processo por
90 dias (prazo máximo), a fim de que se verifique se os dois podem acertar
o passo e conseqüentemente se os dois pedidos podem se julgados
concomitantemente.

OBS: Existe aí a prevenção? A prevenção pode ocorrer, mas isso não é


prevenção. Isso é uma autorização legal para que o Juiz detenha, durante
um prazo mínimo previsto na lei, a marcha do primeiro processo. A
prevenção é o fenômeno relativo à competência, que pressupõe dois ou
mais órgãos em tese competentes para processar e julgar aquela causa.
Por ex., aqui na capital existem várias varas cíveis, todas elas com a
mesma atribuição, todas com competência para processar e julgar o mesmo
tipo de causa. De tal maneira que se faz necessário, diante da pluralidade
de órgãos, todos eles em tese competentes, verificar qual deles será
competente em relação a um processo determinado. Prevenção é isso. Ela
provoca essa determinação da competência num desses órgãos e, por outro
lado, atrai para o órgão em relação ao qual ela se formou, ações que
guardem com ela uma certa familiaridade, por ex., ações conexas. Como a
oposição, mesmo que não seja formulada com intervenção de terceiro,
contem um parentesco com o pedido originário, a prevenção ocorre se for
possível, se o processo ainda estiver pendente do órgão de primeiro grau,
mas a prevenção é isso - não é possibilidade de sobrestar o andamento do
processo.

3) Que posição ocuparão A e B em face de C?


R.: Quem formula a oposição, como se chama? OPOENTE. Ele é o autor,
sem dúvida alguma, ele propõe ação, a oposição é uma ação, quer seja
formulada autonomamente, quer seja embutida naquele processo
pendente e, portanto, quem a propõe é autor. Agora, esse autor tem
nome técnico, que é opoente. E as partes do processo que já corria, após a
oposição e perante a oposição, de denominam OPOSTOS. C é o opoente; A
e B os opostos; ocuparão em face de C a posição de réus. Uma pluralidade
de réus - litisconsórcio, que não deixa de ser necessário. A rigor, foge um
pouco do esquema de litisconsórcio necessário, ele é inevitavelmente
necessário, não deixa de ser necessário. Aí já fica difícil encontrar o
dispositivo legal, seria mais uma construção teórica do que uma indicação
de dispositivos legais. O problema aí não tem característica propriamente
160
normativa, a resposta deveria revelar a compreensão de que, defronte ao
opoente, o autor e o réu, quer dizer, os opostos, ficam irmanados num
ponto que é esse, ver repelida a pretensão do opoente, embora entre si
continuem a digladiar-se.

O litisconsórcio é inevitavelmente necessário se a oposição é


formulada como uma intervenção de terceiro no processo. Não há como ele
deixar de ser necessário, mas não é por isso que ele deixa de ser. Para
mim alguma coisa não encaixa muito bem no litisconsórcio necessário.

Que é litisconsórcio passivo, é indiscutível no tocante à


oposição. O problema é com relação aos opostos e não ao opoente. O
opoente terá ingressado no processo porque quis, uma vez que a oposição é
uma modalidade voluntária de intervenção. Agora, ele tendo ingressado no
processo, necessariamente serão citadas as partes que figuravam no
processo, autor e réu. Então é necessário, no sentido de que, oferecida a
oposição, serão citados e figurarão como réus, como litisconsortes,
inevitavelmente, autor e réu, que já figuravam naquele processo. E se um
reconhecer, ele terá reconhecido como réu, e portanto ele terá sido réu, e
portanto terá havido litisconsórcio. Mas esse litisconsórcio não seria
unitário. Mas nada impede que o réu da ação primitiva, por ex., diga o
seguinte: "Em relação ao autor eu ia brigar até a morte, mas em relação ao
opoente eu reconheço, ele é realmente o dono." Nada impede que isso
aconteça. Tem até um dispositivo expresso no Código, art. 58, que diz que
se um dos opostos reconhecer a procedência do pedido, contra o outro
prosseguirá o opoente. Portanto, até isso acontecer, terá havido um
litisconsórcio.

4) Caso C não intervenha, ficará impedido de reclamar o imóvel


posteriormente da parte vitoriosa no primeiro processo?
R.: Caso C não intervenha, ele não ficará impedido de reclamar o imóvel
posteriormente da parte vitoriosa no primeiro processo. Ele ficaria
vinculado àquela decisão se ele não tivesse participado do processo? Não.
A relação jurídica de que ele se considera titular seria abrangida por aquele
decisão? Não. De tal maneira que a falta da intervenção não lhe traz
nenhum prejuízo por isso, porque qualquer que seja o resultado daquele
processo, nada lhe impedirá de posteriormente reclamar a coisa contra
parte que tiver saído vitoriosa.

Aí seria necessário demonstrar a compreensão de que um dos


efeitos da oposição, como intervenção no processo, é ficar o opoente
vinculado à decisão, de tal maneira que, se ele não ingressa no processo,
ele não fica vinculado à decisão, aquela decisão não o afeta, e nada lhe
impede de instaurar mais tarde um outro processo, para reclamar aquele
bem. A menção exata aos dispositivos legais os srs. não estariam
161
habilitados a fazer em termos exaustivos, que abrangeria, inclusive, coisa
julgada, etc., que só será estudado ano que vem. O quer seria exigido na
resposta seria a demonstração de que o aluno compreendeu porque o
opoente não fica impedido de mais tarde instaurar novo processo - porque
se ele tiver participado e tiver perdido, não poderá mais tarde instaurar
outro processo.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME