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LUIS DA ROCHA BRITO

UNIVERSIDADE LUTERANA DO BRASIL


Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação
Pró-Reitoria do Ensino a Distância
Fundação Universidade Luterana do Brasil

PROGRAMA NACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA COM CIDADANIA

O POLICIAL MILITAR ATUANDO COMO PROMOTOR DOS DIREITOS HUMANOS

Porto Velho/RO

2009
LUÍS DA ROCHA BRITO

O POLICIAL MILITAR ATUANDO COMO PROMOTOR DOS DIREITOS HUMANOS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no Curso


de Pós-Graduação em Gestão da Segurança Pública na
Sociedade Democrática na Universidade Luterana do
Brasil – ULBRA – e Programa Nacional de Segurança
Pública com Cidadania – PRONASCI - para obtenção do
grau de Especialista em Segurança Pública, sob a
orientação do Prof. Haroldo Lopes Lacerda.

Porto Velho/RO

2009
O POLICIAL MILITAR ATUANDO COMO PROMOTOR DOS DIREITOS HUMANOS

LUÍS DA ROCHA BRITO

___________________________________________
FÁBIO JOSÉ DE QUEIROZ MACEDO
PROFESSOR - ESPECIALISTA

____________________________________________
LAÍS TRIFIATES DA SILVA
PROFESSORA - ESPECIALISTA

Porto Velho/RO

2009
DEDICATÓRIA

Para meus cinco grandes amores:

Josué e Francisca,

meus pais, que com sua simplicidade e


sabedoria ensinaram-me a lutar pelos meus
sonhos e incentivo aos estudos.

Leonardo e Lucas Guilherme,

meus filhos, que me fizeram apostar na vida.

Andréia,

minha esposa e eterna namorada, que me


mostrou o que realmente é o amor.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 06
2 HISTÓRICO DOS DIREITOS HUMANOS ......................................................... 07
2.1 CONCEITO DE DIREITOS HUMANOS ....................................................... 11
2.2 TRATADOS A QUE O BRASIL É SIGNATÁRIO ......................................... 12
2.2.1 Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos Sociais e Culturais - Nova
York – 1966........................................................................................ 13
2.2.2 Convenção Interamericana Sobre os Direitos Humanos – São José
da Costa Rica – 1969......................................................................... 14
2.2.3 Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis,
desumanos ou degradantes - Nova York - 1984................................. 14
2.2.4 Estatuto de Roma – Roma – 1997...................................................... 14
2.2.5 Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela
aplicação da Lei e Princípios Básicos para Utilização da Força e de
Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação
da Lei – 2002...................................................................................... 14
2.3 PRINCIPAIS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS............................. 15
2.3.1 Miséria e Pobreza ............................................................................... 15
2.3.2 Violência Policial ................................................................................. 17
2.3.3 Condições Penitenciárias .................................................................... 18
2.3.4 Preconceito Racial .............................................................................. 19
2.3.5 Trabalho Infantil .................................................................................. 20
2.3.6 Trabalho Escravo ................................................................................ 21
3 SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL .............................................................. 22
3.1 CONCEITO DE POLÍCIA ............................................................................. 23
3.2 ÓRGÃOS DE SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL ................................. 23
3.2.1 Polícia Federal .................................................................................... 24
3.2.2 Polícia Rodoviária Federal .................................................................. 25
3.2.3 Polícia Ferroviária Federal .................................................................. 25
3.2.4 Polícia Civil .......................................................................................... 26
3.2.5 Polícia Militar ....................................................................................... 26
3.2.6 Corpo de Bombeiro Militar .................................................................. 27
4 O POLICIAL MILITAR COMO PROMOTOR DOS DIRIETOS HUMANOS ...... 28
4.1 A IMPORTÂNCIA DA MATRIZ CURRICULAR NA FORMAÇÃO DO
POLICIAL ................................................................................................... 30
4.2 A CONSCIENTIZAÇÃO POR PARTE DO POLICIAL DA NECESSIDADE
DE SE RESPEITAR E PROMOVER OS DIREITOS INALIENÁVEIS DA
SOCIEDADE ............................................................................................... 33
5 ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS ....................................................... 38
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 41
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 44
6

1 INTRODUÇÃO
Rotineiramente o tema Direitos Humanos afloram nos meios de comunicação,
onde nas mais diversas partes do planeta divulgam as violações a integridades
físicas e psicológicas da pessoa humana.
No desenvolvimento de suas atividades cotidianas de prestação de serviços
de segurança pública o Policial Militar, investido do Poder de Polícia e representante
legal do Estado deve dispensar aos cidadãos, infratores e/ou vítimas, o tratamento
condizente com a responsabilidade que tem de promover a manutenção da Ordem
Pública.
Para tanto, deve estar bem preparado para não ofender os direitos da pessoa
mesmo diante de situações complexas. Durante o atendimento das ocorrências
policiais, deve-se ter cautela para não se envolver na ocorrência, mantendo-se o
equilíbrio e a mais absoluta imparcialidade. As pessoas merecem o mesmo
tratamento, sem discriminação de qualquer natureza.
Decorre então a necessidade de externar os conhecimentos inerentes à
proteção dos direitos humanos adquiridos nas instruções, quer sejam durante o
curso de formação, quer seja nas instruções rotineiras que fazem parte da vida
militar.
O tema Direitos Humanos, de uma forma geral, é bastante polêmico, gerando
interpretações diversas. Permeiam também as forças policiais, sejam elas civis,
militares ou federais, sendo que alguns policiais
consideram, ainda hoje, os defensores dos direitos humanos como defensores de
bandidos. Não raras vezes, quando ocorrem ataques contra guarnições policiais
surgem manifestações sobre a não visita dos “Direitos Humanos” à família dos
Policiais que tombam em serviço.
Mediante o questionamento: “O Policial Militar já está suficientemente
instruído na doutrina dos Direitos Humanos de modo a praticá-la espontaneamente,
movendo-se do discurso para a prática?”, o presente trabalho tem como objetivo
geral analisar se na prática diária da prestação de serviço de segurança pública pela
Polícia Militar viceja a filosofia de direitos humanos. Para tanto, busca
concomitantemente identificar se há transposição do discurso para a prática dos
policiais militares de que devem ser defensores dos direitos humanos, verificarem
comportamentos que podem auxiliar na formação de profissionais e por derradeiro
analisar se os currículos escolares da academia de polícia propiciam aos Policiais
7

Militares os conhecimentos necessários para a prática profissional respeitando os


direitos humanos.
O procedimento utilizado foi a pesquisa de cunho bibliográfica, objetivando a
coleta de conhecimento contido em matéria já publicados (livros, periódicos, internet,
por exemplo). Foram utilizadas várias publicações na confecção deste estudo, desde
material de acesso público, como leis e decretos, até, material interno corporativo,
visando-se uma maior quantidade de informações a serem apresentadas ao leitor.
Para alcançar os resultados optou-se pela pesquisa quantitativa e
exploratória, bibliográfica e documental contemplando o método de abordagem
dedutivo, tendo como objetivo explicar o conteúdo por meio de uma cadeia de
raciocínio em ordem descendente, de análise do geral, para o particular, chegar uma
conclusão, respondendo ao problema de pesquisa principal enunciado. Aplicou-se a
técnica de questionário elaborado com perguntas fechadas tendo como amostragem
um grupo composto por trinta policiais militares que compõem o Pelotão de
Policiamento Ostensivo na cidade de Presidente Médici, Estado de Rondônia,
buscando maior aproximação possível da realidade atual.

2 HISTÓRICO DOS DIREITOS HUMANOS

Os Direitos Humanos tem seu nascedouro no pensamento grego clássico,


onde os filósofos defendiam a existência, universalmente, de um direito natural
perene e eternamente válido a todos as pessoas indistintamente. Porém, em virtude
à diversidade de leis e costumes entre os povos, a sua conquista se encaminha de
forma gradual, compassada e ainda distante para nós. Os direitos humanos
compreendem os direitos individuais fundamentais – que se referem à liberdade,
igualdade, propriedade, segurança e vida, integridade física e moral/psíquica; os
direitos sociais – referentes à educação, trabalho, lazer, seguridade social entre
outros; os direitos econômicos - relativos ao pleno emprego, meio ambiente e
consumidor; e os direitos políticos – que se referem às formas de realização da
soberania popular.
Foi a partir da Revolução Francesa, no ano de 1789, com base
iluminista dos pensamentos de Voltaire, Rousseau e Monstesquieu, que os valores
8

de respeito aos direitos humanos foram disseminados mediante o tripé Iiberdade,


igualdade e fraternidade.
Somando-se a Revolução Francesa, a Revolução dos Estados Unidos da
América, a Declaração dos Direitos do Homem e as primeiras Constituições dos
Estados tornaram-se acontecimentos históricos marcaram a Idade Moderna. Porém,
é na Inglaterra que emergiram importantes documentos em defesa dos direitos
humanos, talvez até por conta do poder dos reis locais, pois em conformidade com
Lafer (1988, p.126) “os direitos do homem surgem e se afirmam como direitos do
indivíduo face ao poder do soberano no Estado absolutista”
Em 1776, as treze colônias inglesas da América do Norte declaram
independência e proclamaram a Declaração de Independência dos Estados Unidos
da América, que foi redigida por Thomas Jefferson, destacando a limitação do poder
estatal e a proclamação do direito à liberdade. Posteriormente, em 1791, é adotada
a Constituição dos Estados Unidos da América. Tudo começou em 12 de junho de
1776, com a Declaração de Direitos do Bom Povo de Virgínia que deixava claro que
todos os homens eram, por natureza, igualmente livres e independentes e que toda
a autoridade pertencia ao povo.
Em sucessão à queda da Bastilha, tem-se a Revolução Francesa, em 14 de
julho de 1789 e, no dia 26 de agosto de 1789, a promulgação, pela Assembléia
Nacional francesa, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Referia-se
à igualdade, liberdade, propriedade, segurança, resistência à opressão,
possibilidade de associação política, princípio da legalidade, princípio da reserva
legal e da anterioridade em matéria penal, princípio da presunção de inocência,
liberdade religiosa, livre manifestação de pensamento e outros. Proclamava a
fraternidade, a igualdade e a liberdade como princípios que deveriam guiar todos os
homens, motivos pelos quais ficaram conhecidos no lema da Revolução Francesa.
Bobbio (1992, p.93) assim se refere em relação à Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão:
[...] o núcleo doutrinário da Declaração está contido nos três artigos iniciais:
o primeiro refere-se à condição natural dos indivíduos que procede a
formação da sociedade civil; o segundo, à finalidade da sociedade política,
que vem depois (se não cronologicamente, pelo menos axiologicamente) do
estado de natureza; o terceiro, ao princípio de legitimidade do poder que
cabe à Nação.
9

Com as Constituições dos Estados sendo promulgadas, os direitos naturais


passaram a serem inseridos nos seus textos, tornando-se instrumentos legais para a
proteção dos direitos humanos.
Após a Segunda Guerra Mundial, face às atrocidades cometidas pelos países
beligerantes, elaborou-se a Carta das Nações Unidas, assinada em 26 de julho de
1945, em São Francisco. Conhecida como a Carta de São Francisco, este
importante documento inaugurou uma nova fase no respeito à vida e aos direitos
essenciais da pessoa humana, contemporaneamente.
A adoção pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, da
Declaração Universal de Direitos Humanos, em 10 de dezembro de 1948, em Paris,
constituiu o principal marco no desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos
Humanos. Transformou-se numa fonte de inspiração para a elaboração de cartas
constitucionais e tratados internacionais voltados para a proteção dos Direitos
Humanos a partir do qual se pode medir e contestar ou afirmar a legitimidade de
regimes e governos. Os direitos ali inscritos constituem hoje um dos mais
importantes instrumentos para a civilização, visando a assegurar um convívio social
digno, justo e pacífico.
A “universalização” dos direitos humanos foi um considerável avanço em
diversas legislações, notadamente na brasileira, a partir da Constituição de 1988,
citando como exemplos: o Código de Defesa do Consumidor; o Estatuto da Criança
e do Adolescente; os Juizados Especiais Cíveis e Criminais; a Lei contra a
discriminação racial, de cor, de religião, étnica ou de origem; o Código do Idoso,
além de outras garantias legais contra os abusos do poder, contra a prisão ilegal, a
tortura, e tantos outros.
Analisando os direitos humanos no Brasil, necessário se faz citar os períodos
de exceção, especificado como Estado Novo e ditadura militar, onde o país foi
governado com mão de ferro por um ditador declarado e por militares, que
subjugaram os interesses coletivos e individuais em prol de um desenvolvimento
acelerado da nação, causando prejuízos aos anseios de toda uma sociedade,
culminando com a cessação dos direitos e garantias individuais por um lapso
temporal. A experiência sofrida pelo povo brasileiro serviu de base para que a nação
tomasse outro rumo, desta vez orientada para a construção de um país justo em que
todos se sentissem libertos e pudessem praticar suas aspirações dentro de uma
democracia.
10

A Constituição política do Império do Brasil de 1824, já previa um extenso rol


de direitos humanos fundamentais, consagrando direitos e garantias individuais,
entre os quais podemos citar: princípios da igualdade e legalidade, livre
manifestação de pensamento, liberdade religiosa, liberdade de locomoção,
possibilidade de prisão somente em flagrante delito ou por ordem da autoridade
competente, respeito à dignidade do preso, entre outros.
A primeira Constituição republicana de 1891 ratificou os direitos consagrados
na de 1824, acrescentando outros direitos como a gratuidade do casamento civil,
ensino leigo, direitos de reunião, instituição do júri, entre outros.
A seguir, a Constituição de 1934 também manteve no seu bojo os mesmos
direitos e garantias previstos nas anteriores e, novamente, acrescendo alguns
direitos como o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, escusa de consciência e
direitos do autor na reprodução de obras literárias.
A Constituição de 1937, dando seqüência no que já vinha sendo praticado
pelas cartas políticas anteriores, apresentou novidades, como a impossibilidade de
aplicação de penas perpétuas, criação de um tribunal especial com competência
para o processo e julgamento dos crimes que atentarem contra a existência a
segurança e a integridade do Estado.
A Carta Magna de 1946, além de ratificar os elementos de garantias dos
direitos humanos já destacados nas anteriores, estabeleceu diversos direitos
relativos aos trabalhadores e empregados. Já era uma necessidade da época, dado
os avanços que a nação brasileira experimentava em tal período.
A Constituição Federal de 1967, assim como as anteriores, manteve e
acrescentou em seu rol, direitos concernentes às garantias individuais.
Com a promulgação da Constituição brasileira em 1988, o Brasil integrou ao
seu ordenamento jurídico maior, várias previsões de direitos, previstos em diversos
instrumentos internacionais de proteção destinados aos indivíduos em sociedade. A
referência constitucional aos fundamentos da República Federativa do Brasil, já no
seu artigo 1º, destaca a dignidade da pessoa humana.
O Brasil é signatário dos mais importantes tratados internacionais de direitos
humanos, tanto no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), como da
Organização dos Estados Americanos (OEA). O País não tem reservas a qualquer
desses instrumentos jurídicos.
11

2.1 CONCEITO DE DIREITOS HUMANOS


Segundo Carvalho (1998, p.47):
Dizem-se humanos os direitos de que o indivíduo é titular só pela razão
básica de pertencer ao gênero humano. Esses direitos referem-se a
faculdades naturais, inatas, inalienáveis e imprescritíveis, considerando o
ser humano indiscriminável, sob qualquer consideração. Esses direitos são
imprescindíveis à sua segurança pessoal servindo ao seu sadio
desenvolvimento no meio social em que vive.

Direitos Humanos são os direitos fundamentais da pessoa humana. Pode-se


afirmar, portanto, que Direitos Humanos são aqueles direitos inerentes à pessoa
humana, visa resguardar a sua integridade física e psicológica perante seus
semelhantes e perante o Estado em geral, de forma a limitar os poderes das
autoridades, garantindo, assim, o bem estar social através da igualdade,
fraternidade e proibição de qualquer espécie de discriminação.

Assevera Dallari (1984, p.7):


Toda pessoa humana tem direitos. Isso acontece em qualquer parte do
mundo. Em grande número de países há pessoas que tem mais direitos do
que as outras. Existem diferenças também quanto ao respeito pelos direitos,
pois enquanto em certos países os direitos fundamentais da pessoa
humana são muito respeitados em outros quase não há respeito.

Os direitos humanos encontram resistências em muitas nações,


principalmente em função da diversidade cultural, costumes e religiões, ensejando
conflitos internos perenes e generalizados, reprimindo o exercício da democracia, da
dignidade e bem estar geral das pessoas.
Bicudo (1997, p. 35) acrescenta: “Hoje temos uma situação, por assim dizer,
paradoxal: os Estados são ao mesmo tempo os juízes e os acusados de violações
dos direitos humanos”. O Estado cujo papel é promover a ordem social, preservando
os direitos individuais, na maioria das vezes, é o agente causador das violações que
tem por missão proteger.
A este respeito Dallari (1984, p. 10) acrescenta:
[...] Existem certos direitos que nem as leis nem as autoridades públicas
podem contrariar. Estes direitos estão quase todos na Declaração Universal
dos Direitos do Homem, aprovada pela Organização das Nações Unidas
(ONU) em 1948.

Toda pessoa deve ter a sua dignidade respeitada e a sua integridade


protegida, independentemente da origem, raça, etnia, gênero, idade, condição
12

econômica e social, orientação ou identidade sexual, credo religioso ou convicção


política.

Conceito que é sintetizado pela SENASP (2007, p. 163), da seguinte forma:


Concluímos então que Direitos Humanos é uma expressão moderna, mas o
princípio que invoca é tão antigo quanto à própria humanidade. É que
determinados direitos e liberdades são fundamentais para a existência
humana. Não se trata de privilégios, nem tampouco de presentes oferecidos
conforme o capricho de governantes ou governados. Também não pode ser
retirados por nenhum poder arbitrário. Não podem ser negados, nem são
perdidos se o indivíduo cometer algum delito ou violar alguma lei.

2.2 TRATADOS A QUE O BRASIL É SIGNATÁRIO

Nas palavras de Rezek (1996, p.17): “tratado é todo acordo formal concluído
entre sujeitos de direito internacional público, e destinado a produzir efeitos
jurídicos”. Suas partes são necessariamente pessoas jurídicas de direito
internacional público: os Estados soberanos e as organizações internacionais. O
tratado é ato jurídico que produz norma, desencadeando efeitos de direito, gerando
obrigações e prerrogativas.
No Brasil, os tratados internacionais celebrados pelo presidente, para sua
validação jurídica, dependem obrigatoriamente de referendo do congresso nacional,
conforme preceitua o Art. 49, inciso I da Constituição Federal de 1988. Após a
devida aprovação por votação na câmara e no senado, onde o acordo é
transformado em decreto legislativo e promulgado por seu presidente, é que pode
ser ratificado pelo presidente, passando a ter força de lei a fim de que todos
residentes no Brasil os acate integralmente.
O Brasil historicamente não apresenta rejeição aos tratados internacionais
vigente, que por sua política pacifista destaca-se na América Latina como uma
liderança mundial em intermediar conflitos nos países sul americano, fato este
bastante evidente na pessoa do atual Presidente da República.
Dentre o grande número de acordos internacionais de proteção direitos
humanos reconhecidos e formalizados pelo Brasil, destacam-se alguns
considerados como instrumentos que se referem e regulam diretamente
relacionados à atividade dos funcionários do sistema de segurança pública
brasileira. .
13

Promulgação
Título Data
Decreto Data

Declaração Universal dos Direitos Humanos. 10/12/1948


Convenção Internacional sobre a Eliminação de 07/03/1966 65810 08/12/1969
Todas as Formas de Discriminação Racial.
Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos. 19/12/1966 592 06/07/1992
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, 19/12/1966 591 06/07/1992
Sociais e Culturais.
Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados. 31/01/1967 70946 07/08/1972
Convenção Americana sobre Direitos Humanos 22/11/1969 678 06/11/1992
(Pacto de São José).
Convenção sobre a Eliminação de Todas as 18/12/1979 4377 13/09/2002
Formas de Discriminação Contra as Mulheres.
Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos 10/12/1984 40 15/02/1991
ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes.
Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a 09/12/1985 98386 09/11/1989
Tortura.
Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre
Direitos Humanos em Matéria de Direitos 17/11/1988 3321 30/12/1999
Econômicos, Sociais e Culturais (Protocolo de San
Salvador).
Convenção sobre os Direitos da Criança. 20/11/1989 99710 21/11/1990
Protocolo à Convenção Americana sobre Direitos 08/06/1990 2754 27/08/1998
Humanos Relativo à Abolição da Pena de Morte.
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e 09/06/1994 1973 01/08/1996
Erradicar a Violência contra a Mulher.
Protocolo Facultativo à Convenção para a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação 06/10/1999 4316 30/07/2002
contra as Mulheres.
Declaração de Reconhecimento da Competência
Obrigatória da Corte Interamericana de Direitos -- 4463 08/11/2002
Humanos.
Declaração Facultativa à Convenção Internacional
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Tortura -- 4738 12/06/2003
Discriminação Racial.
Protocolo Facultativo à Convenção sobre os
Direitos da Criança referente à venda de crianças, à 25/05/2000 5007 08/03/2004
prostituição infantil e à pornografia infantil.
FONTE: Regina Vargas – UFRGS/2007.

2.2.1. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e Pacto Internacional


sobre Direitos Econômicos Sociais e Culturais - Nova York - 1966
Somaram-se à Declaração Universal dos Direitos Humanos como ponto de
referência em duas abrangentes áreas dos direitos humanos: os direitos civis e
políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais.
14

2.2.2. Convenção Interamericana Sobre os Direitos Humanos – São José da


Costa Rica – 1969
Previu entre outras medidas, a criação da Comissão Interamericana de
Direitos Humanos, que foi o embrião para o nascimento da importante Corte
Interamericana de Direitos Humanos. O Brasil foi um dos Estados que mais
tardiamente aderiram à Convenção, só o fazendo apenas em 25 de setembro de
1992.

2.2.3. Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis,


desumanos ou degradantes - Nova York - 1984.
A convenção citada foi subscrita e ratificada pelo Brasil e incorporada ao
nosso ordenamento jurídico, com força de lei. Nela é preconizado que o termo
tortura passa a ser aplicado às situações em que agentes do Estado (funcionários,
oficiais, militares, policiais, etc.), submetem pessoas a intenso sofrimento físico ou
psíquico como castigo, ou para obter confissão ou informação.

2.2.4. Estatuto de Roma – Roma - 1997


O Estatuto de Roma, e suas regras de procedimento, espelham um sistema
procedimental no qual vêm expressos os direitos internacionalmente reconhecidos
como direitos fundamentais das pessoas submetidas à persecução penal.
Destacando-se o princípio da legalidade dos delitos (Artigo 22) e das penas (Artigo
23), o da irretroatividade (Artigo 24) e a impossibilidade de julgamento à revelia
(Artigo 63).
O Brasil ratificou o Estatuto de Roma pelo Decreto 4.399, de 25 de setembro
de 2002.

2.2.5. Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela aplicação


da Lei e Princípios Básicos para Utilização da Força e de Armas de Fogo
pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei – 2002.
A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece que a elaboração de um
Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei é
apenas uma das várias medidas importantes que visa à garantia de todos os direitos
e interesses dos cidadãos, objetivando em última instância a prevenção ao crime e
luta contra a delinqüência; já que é ao funcionário policial que recaí o dever de tal
15

gerenciamento do sistema de segurança pública, já que a conduta de cada


funcionário do sistema tem uma incidência sobre o sistema no seu conjunto.
Dentre as recomendações expostas no Código de Conduta para os
Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, a ONU coloca como premissa
básica que o policial trabalhe servindo a comunidade, protegendo todas as pessoas
contra atos ilegais. Este serviço voltado à comunidade deve incluir a prestação de
serviços de assistência aos membros da comunidade que necessitem de ajuda
imediata, de qualquer ordem; respeitando e protegendo a dignidade humana,
mantendo e apoiando os direitos fundamentais de todas as pessoas.
Aos policiais é recomendada a empregar a força, se e somente se, esta seja
estritamente necessária e esteja de acordo com o cumprimento de seu dever e
ainda no âmbito da legalidade, da necessidade, da proporcionalidade e da ética. A
utilização da força só deve ocorrer em caráter excepcional, para a prevenção de um
crime ou para a detenção legal de delinqüentes ou de suspeitos de crime.

2.3 PRINCIPAIS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS

Mesmo possuindo uma Constituição considerada como um dos documentos


mais democráticos do mundo, o Brasil carece de cidadania, contrastando fortemente
em relação à Carta Magna, pois a situação atual dos direitos humanos, ainda
encontrar-se em fase de consolidação.

2.3.1 Miséria e pobreza:

O convívio cotidiano entre os extremos de abastados e a pobreza, maquia a


nossa realidade. Em face de herança escravocrata, que originou uma forma de
pensar indiferente com relação à desigualdade, à violência e à exclusão. Procede-se
como se fosse natural o convívio entre a opulência e a pobreza ou que as regalias
de minorias coexistam com a supressão dos direitos da maioria. Os escravos, após
a abolição, deixaram de ser o sustentáculo da economia nacional e passaram a ser
excluídos, marginalizados. Essa foi a primeira grande massa de excluídos que o
Brasil produziu.
A atual saúde financeira da economia brasileira com a ocorrência de um
período de baixas taxas inflacionárias após décadas de economia turbulenta, volátil
e instável, sobretudo para os segmentos de menor nível de renda, tem marcado os
16

últimos anos. O poder de compra do brasileiro foi valorizado visivelmente. Há muito


tempo não se comprava tanto com um salário tão baixo e indigno, um salário que
ainda vai contra os princípios universais de direitos humanos que pregam a
dignidade como um dos valores absolutos do homem. Necessário se faz ainda à
política social do Governo combater bravamente a fome e a pobreza. O processo de
exclusão social chegou a tal ponto que a maior eficiência das políticas universais,
apenas, não é suficiente para combater as grandes desigualdades existentes. É
preciso atacar, com medidas emergenciais e focalizadas, a fome e os bolsões de
miséria. As inúmeras desigualdades presentes na sociedade brasileira correm a
olhos vistos não obstante o importante desenvolvimento industrial que o Brasil viveu
ao longo de década, porém estas duas desigualdades continuam a fazer parte da
vida de inúmeros brasileiros. O êxodo rural e de pequenas cidades interioranas
conduzem para as metrópoles milhares de pessoas, atraídas pela esperança de
uma vida melhor em busca de empregos. O despreparo tanto intelectual dos
emigrantes quanto estrutural das áreas urbanas, resultam no desemprego e
subemprego. Decorrem, portanto, a concentração em regiões mais pobres com
surgimento de favelas, formando-se bolsões de pobreza absoluta dentro das cidades
e imediatamente ferindo os preceitos universais do direito a uma vida digna.
Certamente a falta de emprego, tanto no que se refere à oferta quantitativa de
postos de trabalho, quanto, sobretudo, no que se refere à qualidade dos postos de
trabalho, constitui grande desafio a ser enfrentado pelo governo e pela sociedade
brasileira. Não se erradica a fome e a miséria num passe de mágica, tampouco se
produzem empregos com tanta rapidez. Possíveis soluções para o emprego e a
manutenção do trabalhador nele, bem como a garantia de sua dignidade só se farão
concretas quando pequenas ações estimulantes e que visem a uma diminuição da
gravidade do quadro atual, como por exemplo, a geração de empregos através do
apoio às micro, pequenas, médias e grandes empresas, tornar o emprego não só
quantitativo, mas também qualitativo com mão-de-obra especializada por meio de
escolas profissionalizantes, a educação profissional, a proteção aos grupos mais
vulneráveis da força de trabalho (sujeitos a trabalho forçado, trabalho infantil etc.) e
assegurar que os direitos dos trabalhadores, constantes da legislação e dos acordos
e convenções coletivas, sejam respeitados. O Brasil possui um dos menores índices
de distribuição de renda do mundo, por razões que têm raízes em seu passado
histórico. A redução da pobreza e da desigualdade poderá ser alcançada através da
17

geração de empregos e de trabalho e a ampliação de oportunidades de renda,


processo este executável à médio e longo prazo..

2.3.2 Violência policial

A violência policial que persiste nas organizações em nosso país vigora há


muito tempo. Tornou-se realmente explícita durante o Regime do Estado Novo
(1937-1945) e no Regime Militar (1964-1985), que tinham como alvos desta
violência eram todos aqueles que se opunham a forma de poder ditatorial vigente
e/ou questionavam os atos de seus governantes. No regime ditatorial o Estado atua
com “mão-de-ferro” e o poder não emana do povo, pelo contrário, a ele é superior,
ferindo todos os preceitos de um ideal democrático e sujeitando a massa de
cidadãos à vontade de um governante dominado pela idéia de conduzir sozinho o
destino de uma nação conforme suas convicções particulares. Assim, nada mais
“natural” que a polícia à época se espelhasse na prática o real cumprimento deste
“poder”, estando a ele subordinado e por ele seja atuante, sendo mais
particularmente evidente no Regime militar. Nos dias atuais, com o regime
democrático, a aparente “justificativa” para a prática de atos de violência policial em
prol da própria integridade inexiste. À polícia não existe mais o sentimento
“intrínseco” de cumprir ordens que criem atos violentos pelo simples fato de se estar
subordinado a um poder superior, inexistindo também o receio de punição pela
violência “não cumprida”. Existe tão somente o “dever legal” de manter a ordem e a
disciplina no meio social, sendo a violência arguida apenas em casos extremos de
hostilidade, e não pelo fato do cidadão usufruir de seu direito de liberdade de ir e vir,
de expressão, etc.
A violência policial é um fato e, em se tratando de um fato concreto, deve ser
encarada como um grave problema a ser solucionado pela sociedade. Um grave
problema porque a violência ilegítima praticada por agentes do Estado, que detêm o
monopólio do uso da força, ameaça substancialmente as estruturas democráticas
necessárias ao Estado de Direito.
A polícia representa o aparelho repressivo do Estado que tem sua atuação
pautada no uso da violência legítima. É essa a característica principal que distingue
o policial do marginal. A polícia tem a função de manter a ordem, prevenindo e
reprimindo crimes, mas tem que atuar sob a lei, dentro dos padrões de respeito aos
18

direitos fundamentais do cidadão, zelando pelo seu direito à vida e à integridade


física. Os desvios de conduta caracterizado pela ausência de respeito ao modelo de
“ordem sob a lei” tem se perpetuado dentro da estrutura policial brasileira por razões
diversas – como a falência dos modelos policiais atuais, o descrédito nas instituições
do sistema de justiça e segurança, a impunidade – mas principalmente por certa
tolerância da própria sociedade com esse tipo de prática quando tem violado seus
direitos. Não é comum admitir, mas existe uma demanda dentro da sociedade para a
prática da violência policial. É esta violência que serve à sociedade dentro de
diversos aspectos e circunstâncias, mas especialmente no tocante à solução dos
crimes contra o patrimônio e na repressão às classes perigosas cada dia mais
abundante. Por isso mesmo, a dificuldade do Estado no âmbito da segurança
pública, no limiar do século XXI, continua sendo o controle da violência legítima, do
qual decorreria consequentemente a extinção do uso ilegítimo da força por parte dos
organismos policiais.

2.3.3 Condições penitenciárias

As prisões brasileiras encontram-se abarrotadas de seres humanos,


constituindo-se em meros depósitos de pessoas, sem as mínimas condições dignas
de vida, fomentando ainda mais para o desenvolvimento do caráter violento do
indivíduo e seu repúdio à sociedade que ali o atirou. A visão à cerca do criminoso é
que, a partir do delito ele se torna um indivíduo à parte na sociedade, e que seu
isolamento dentro de uma prisão significa a perda de toda a sua dignidade humana
devendo, desta forma, ser esquecido enquanto pessoa humana, e ignora-se que os
direitos humanos valem para todos, sejam criminosos ou não.
O Estado se demonstra incapaz de garantir a integridade física dos detentos,
sendo comuns estupros, assassinatos, comercialização e uso de drogas ilícitas; não
são devidamente separados criminosos perigosos de autores de pequenos delitos;
muitos estão presos irregularmente em celas de delegacias e aguardam julgamento
por muito mais tempo do que prevê a lei.
O encarceramento é previsto legalmente e necessário para afastar o
criminoso temporariamente do convívio social e impedir que ele cause danos a
outras pessoas. Entretanto, esse afastamento de nada adiantará se não for
acompanhado de um processo de reabilitação e reeducação. O encarceramento
19

deve ser visto como uma forma de hospitalização, um período durante o qual o
indivíduo deve ser curado dos seus males, para que ele possa posteriormente
“receber alta” e sair apto a reintegrar-se na sociedade. Espancamentos e torturas
certamente não curam ninguém.

2.3.4 Preconceito Racial

O Brasil dotado de dimensões continentais e contemplado por recursos


naturais e minerais inimagináveis ainda inexplorados em sua grande parte tem como
diferencial a cultura acolhedora a todos os povos e raças, principalmente dos povos
em sua maioria provenientes da Europa e que fugiram de focos de guerras e
revoluções que assolaram o continente, principalmente nos séculos XIX e XX.
Possui uma formação populacional altamente heterogênea o que faz dele a prova
viva de que é possível viver em harmonia étnica e cultural em meio a um oceano de
miscigenação. Evidentemente que esta “harmonia” é relativa e deve ser observada
com olhos atentos. Mas não se pode negar que o cenário nacional encontra-se livre
de antecedentes históricos envolvendo atentados à bomba contra templos religiosos
ou grupos racistas radicais declarados como se vê em países como Estados Unidos,
França e Alemanha. O povo brasileiro, em toda a sua diversificação, é um povo uno,
uma raça só oriunda de diversas outras raças, uma só entidade sociopolítica de
larga base territorial. Mas esta aparente unidade não pode esconder outra realidade
nacional: o racismo.
Um exemplo típico de racismo se comprova com os dados de pesquisa do
Datafolha, que publicou uma pesquisa onde revela que os negros são abordados
com mais freqüência em batidas policiais, recebendo mais insultos e agressões
físicas do que os indivíduos brancos. Por questão desta abordagem, são igualmente
mais revistados que pessoas de outra etnia. A escolaridade e a condição financeira
têm pouca influência sobre a freqüência e incidência destas batidas policiais e da
violência que ora se comete. Esta violência é praticada quase sempre contra
indivíduos negros ou mulatos, seja na forma de ofensa verbal ou agressão física.
Conclui-se que os métodos de abordagem da polícia junto ao indivíduo levam em
consideração sua aparência física (vestimentas), a etnia (fator principal) e um
estereótipo completamente fora de sentido: a expressão facial da pessoa. O
indivíduo que se encontra dentro da tipificação psicológica acaba fazendo parte de
20

um sistema seletivo e discriminatório, e este indivíduo, geralmente, é pobre, negro


ou mulato.
De acordo com o criminalista Eugênio Raul Zaffaroni, o que ocorre
geralmente nestes casos de violência às camadas mais baixas da população é a
aplicação da “teoria da vulnerabilidade”. Geralmente os indivíduos são pobres e
desconhecem o sentido da palavra cidadania. Vivem em lugares marginalizados,
onde o Estado é praticamente ausente. O papel que lhe cabe é preenchido por
bandidos. Segundo Zaffaroni, nestes países os direitos humanos são violados com
menos freqüência e as pessoas menos vulneráveis caem com mais freqüência nas
malhas do aparelho repressivo do que no Brasil. Nestes países, os cidadãos tem
mais instrução e tornam-se menos vulneráveis aos abusos dos agentes do Estado.
Este é o caminho apontado por Zaffaroni: educar para aumentar o índice de
vulnerabilidade ao aparelho repressivo estatal. Num simples entendimento: justiça
para todos, sem exceção.

2.3.5 Trabalho infantil

A legislação brasileira proíbe qualquer tipo de trabalho para menores de 14


anos. O trabalho a partir dos 14 anos é permitido apenas na condição de aprendiz,
em atividade relacionada à qualificação profissional. E acima dos 16 anos o trabalho
é autorizado desde que não seja no período da noite, em condição de perigo ou
insalubridade e desde que não atrapalhe a jornada escolar.
O Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA define como criança a pessoa
com até 12 anos incompletos e o adolescente entre 12 e 18 anos. Contudo, este
conceito de infância e adolescência é observável somente nas classes média e alta
da população, onde as necessidades econômicas não são tão relevantes a ponto de
forçar a mão-de-obra destes membros de menor idade para aumentar a renda
familiar. De maneira geral, face às necessidades primárias de subsistências, nas
periferias urbanas pobres e na zona rural a infância tem uma duração menor, ainda
que as crianças sejam consideradas "meninos" e "meninas" até 10 ou 11 anos,
sendo que já com esta idade são chamados a trabalhar.
As raízes de tantos problemas sociais no Brasil não se fundamamentam
apenas na pobreza. Inúmeras outras carências refletem a realidade social de nosso
21

país, como falta de escolas, precariedade da saúde pública, o problema do


desemprego e de tudo que se possa oferecer à população de baixo poder aquisitivo.
A existência de atividades ligadas à produção de carvão vegetal, de
desmatamento e reflorestamento, fabricação de álcool e atividades agrícolas ligadas
ao cultivo e processamento do café e tomates são os que mais exigem a mão-de-
obra infantil e escrava. As carvoarias representam o maior foco de trabalho escravo
do país. Nas carvoarias, as crianças expõem-se à fumaça dos fornos e as doenças
pulmonares e exposição a riscos químicos e biológicos, além de estarem suscetíveis
a ferimentos. Como agravante, geralmente estas crianças estão obrigadas a
trabalhar mais de 12 horas nestes ambientes, o que é ilegal e humanamente
proibidos. O resultado de tanto desrespeito são crianças com índice de crescimento
inferior aos meninos que não trabalham.

2.3.6 Trabalho escravo

A herança que recebemos de séculos de escravidão, gerou uma mentalidade


de indiferença em relação à desigualdade, à violência e à impunidade, num
sentimento quase que “natural” de coexistência entre riqueza e pobreza. A
sociedade brasileira acostumou-se ao convívio com a violência e esqueceu-se do
próprio passado de servidão. Tanto que a escravidão ainda é uma realidade em
nosso país, alcançando o trabalho escravo índices alarmantes: aproximadamente 60
mil brasileiros vivem ainda sob o regime de escravidão em pelo menos 300 fazendas
em diversos Estados do País, principalmente no interior, de acordo com dados da
Organização Internacional do Trabalho (OIT). As denúncias da existência de
trabalho escravo no Brasil só vieram a público depois que muitos destes
trabalhadores conseguiram fugir das fazendas e relatar suas experiências,
possibilitando a libertação de outros companheiros nas mesmas condições
desumanas.
Segundo estudo publicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT),
da Organização das Nações Unidas, em maio de 2005, indica que existem cerca de
12,3 milhões de escravos no mundo todo, dos quais entre 40% e 50% são crianças.
O trabalho escravo praticado no Brasil de hoje é baseado nos mesmos
moldes do Brasil Colônia: as pessoas são submetidas à sessões de espancamento,
confinadas em barracões, fortemente vigiadas por homens armados, amarradas em
22

troncos, assassinadas e sem qualquer direito à salários ou outros direitos


trabalhistas. Os fatos apontam ainda para práticas de retenção de documentos,
castigos corporais, torturas e ameaças de morte, como forma de pressão para evitar
a fuga dos trabalhadores.

3 SEGURANÇA PÚBLICA NO BRASIL

A Segurança Pública é uma atividade própria dos órgãos estatais e à


comunidade como um todo, realizada com a finalidade de proteger a sociedade,
prevenindo e controlando manifestações da criminalidade e da violência, efetivas ou
potenciais, garantindo o exercício pleno da cidadania nos limites da lei.
O Estado, segundo a Constituição Federal de 1988, tem o dever de promover
a segurança como caminho para o exercício da Cidadania, com a participação direta
da sociedade. No provimento da Segurança Pública, o Poder Público deve respeitar
as diferenças relativas ao conjunto dos direitos humanos e a diversidade de direitos
do cidadão. Desta Forma, a segurança não se contrapõe à liberdade, mas é
condição para o seu exercício, fazendo parte de uma das inúmeras e complexas
condições de qualidade de vida dos cidadãos. Sabe-se que a busca da segurança
pública e a busca da cidadania plena constituem um projeto solidário e de co-
participação entre o poder público e a sociedade como complemento mútuo para
alcançar o objetivo comum.
As forças de segurança buscam aprimorar-se constantemente, para atingir
níveis que alcancem a expectativa da sociedade como um todo, pelo respeito
alicerçado na defesa dos direitos fundamentais do cidadão e, sob esta perspectiva
compete ao Estado garantir a segurança de pessoas e bens na totalidade do
território brasileiro, a defesa dos interesses nacionais, o respeito pelas leis e a
manutenção da paz e ordem pública.
Paralelo às garantias que competem ao Estado, o conceito de segurança
pública não se limita à política do combate à criminalidade e não se restringe à
atividade policial. A segurança pública, enquanto atividade desenvolvida pelo Estado
é responsável por empreender ações de repressão e oferecer estímulos ativos para
que os cidadãos possam trabalhar, produzir e se divertir, protegendo-os dos riscos a
que estão expostos. As instituições responsáveis por essa atividade atuam no
23

sentido de inibir, neutralizar ou reprimir a prática de atos socialmente reprováveis,


assegurando a proteção coletiva dos bens e serviços.
Norteiam esse conceito os princípios da Dignidade Humana, da
Imparcialidade, da Participação Comunitária, da Legalidade, da Moralidade, do
Profissionalismo, do Pluralismo Organizacional, da Descentralização Estrutural e
Separação de Poderes, da Flexibilidade Estratégica, do Uso Limitado da Força, da
Transparência e da Responsabilidade, tudo conforme dispõe a CF/88.

3.1 Conceito de Polícia

De acordo com Wikipédia Polícia é um vocábulo grego ("politeia") que derivou


para o latim ("politia"), ambos com o mesmo significado: governo de uma cidade,
administração, forma de governo. A polícia é um órgão governamental, presente em
todos os países, cuja função é a de repressão ao crime e manutenção da ordem
pública, através do uso da força se necessário, fazendo cumprir a lei. À Polícia
incumbem funções exclusivas como a prevenção da criminalidade, bem como a de
investigar e apurar os delitos cometidos, quando o policiamento preventivo falha, ou
seja, não cumpre na integra sua tarefa, fornecendo assim subsídios ao Poder
Judiciário para que os criminosos sejam devidamente processados, na forma da lei.

3.2 Os Órgãos de Segurança Pública no Brasil

Estão elencados no artigo 144 da Carta Magna seis órgãos responsáveis pela
segurança pública: Policiais Federal, Policia Rodoviária Federal, Policia Ferroviária
Federal, Policiais Civis, Policiais Militares e Corpo de Bombeiros Militares.
Há que se acrescentar à possibilidade do Município criar suas próprias guardas, as
Guardas Municipais, para o auxílio às atividades que visem fortalecer a segurança
pública das regiões.
Os órgãos responsáveis pela segurança pública podem, para efeitos
didáticos, ser agrupados em Policiais da União (Polícia Federal, Polícia Rodoviária
Federal e Polícia Ferroviária Federal), Policiais do Estado (polícia Civil, Polícia Militar
e Corpo de Bombeiros Militar) e Policiais do Município (Guardas Municipais).
24

3.2.1 Policia Federal

O inciso I do artigo 144 da Constituição, seu parágrafo primeiro e inciso


apontam a Policia Federal com um dos órgãos responsáveis pela segurança pública
no Brasil.
Historicamente, pelo caráter de importância para a segurança nacional, a
União também passou a se preocupar com a manutenção da ordem pública interna,
ainda que esta fosse considerada prioridade do Estado.
Em 1934, a Constituição (art. 5º, XI) dava a esta a atribuição de “prover aos
servidores da policia marítima e portuária, sem prejuízo dos serviços policiais dos
Estados”. Todavia, a Constituição de 1946 (art. 5º, VI), ao contrário da de 1937, que
mantivera a disposição, dispunha competir à União “superintender, em todo território
nacional, os serviços de polícia marítima aérea e de fronteiras”. Assim, dava à União
apenas o poder de supervisionar tais serviços que cabiam, em conseqüência, aos
Estados.
O Departamento de Policia Federal tem sua sede no Distrito Federal e está
subordinada diretamente ao Ministério da Justiça, sendo dirigido por um Diretor
Geral. Desempenha funções investigatórias e administrativas, elencadas na
Constituição Federal e na legislação federal pelo Decreto n.70.665, de 2-6-1972.
Com relação às funções atribuídas a Policia Federal, o parágrafo 1º do artigo
144 da Constituição Federal elenca:
I – apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em
detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades
autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática
tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme,
segundo se dispuser em lei;
II – prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o
contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de órgãos
públicos nas respectivas áreas de competência;
III – exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras;
IV – exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União.

Quanto a ordem social e também política, haverá a possibilidade de se valer


das policias estaduais e municipais. Além de apurar as infrações penais, caberá à
Polícia Federal a atuação repressiva e preventiva. Evidencia-se, portanto, a
competência da Polícia Federal em apurar os delitos contra a ordem política e social
e ainda apurar os delitos que produzirem prejuízo para bens, serviços e interesses
da União.
25

Cabe a Policia Federal verificar a entrada e saída de pessoas no território


nacional, de cargas e descargas de mercadorias, sendo sua competência a
prevenção e repressão de infrações às leis brasileiras que importem violação às
fronteiras nacionais.

3.2.2 Polícia Rodoviária Federal

Em nível constitucional cabe à União Legislar sobre a competência da Policia


Rodoviária Federal, conforme o artigo 22, inciso XXVII, segundo parte. O artigo 144,
em seu inciso II e parágrafo 2º, estabelece-a como um órgão responsável pela
segurança pública, “órgão permanente, organizado e mantido pela União e
estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das
rodovias federais.”
A Polícia Rodoviária Federal destina-se ao patrulhamento ostensivo apenas
das rodovias federais. Evidentemente, caberá aos Estados e a policia realizar o
patrulhamento de rodovias estaduais.

3.2.3 Policia Ferroviária Federal

A Polícia Ferroviária Federal é outra espécie do gênero Policia Federal, assim


como a Policia Rodoviária Federal. Sob este aspecto, muito do que se diz sobre
uma, diz respeito à outra.
A Constituição Federal de 1988 aponta, em seu inciso III do artigo 144, a
Polícia Ferroviária Federal como um dos órgãos responsáveis pela segurança
pública. No parágrafo 3º do mesmo dispositivo a enuncia como órgão permanente,
organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da
lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais era exclusivamente da União
também legislar sobre a competência da policia ferroviária federal, conforme o artigo
22, inciso XXII, segunda parte da Constituição.
O vocábulo “ferrovia” diz respeito às estradas de ferro. Dele, deriva o
neologismo “ferroviário”, transporte pelas estradas de ferro. A ferrovia é outra opção
no plano de transportes para a ligação entre os vários pontos do território nacional.
Ainda que em pequeno número, as ferrovias federais contam com patrulhamento da
Policia Ferroviária Federal, que cuida principalmente da preservação da ordem nos
26

veículos que pelos trilhos transitam, não só de passageiros como tripulação, além de
garantir a não – utilização de tal meio para contrabando, tráfego de bens e pessoas.

3.2.4 Polícia Civil

O texto constitucional, artigo 144, inciso IV consagra a Policia Civil como


órgão responsável pela segurança pública. O parágrafo 4º preceitua: “Às policias
civis, dirigidas por delegados de policia de carreira, incumbem, ressalvada a
competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações
penais, exceto as militares”.
A Policia Civil – em oposição a Policia Militar - composta de um conjunto de
órgão governamentais e serviços especializados, compete o cumprimento
das prescrições estabelecidas por lei, para a manutenção da ordem pública,
quer preventivamente, quer maneira curativa, isto é, atuando os seus
agentes no sentido da repressão à criminalidade, na tarefa de persecução
penal, exercendo as funções de Policia Judiciária, em colaboração ao Poder
Judiciário.

A finalidade maior é a de investigar crimes, ressalvada a matéria de


competência da União e exceto os crimes militares que ficarão a cargo da própria
Policia Militar, mediante inquéritos policiais militares.
As polícias civis são dirigidas por delegados de carreira, que serão bacharéis
em ciências jurídicas. Estão subordinadas à Secretaria da Segurança Pública do
Estado, hierárquica, administrativa e funcionalmente.
Face as suas vestimentas comuns – sem uniforme – os policiais civis são os
agentes de segurança pública que mais se identificam com os cidadãos, porém
dotados de tecnologias e técnicas para desvendar os crimes, visto que são
preparados para investigações mais do que outros corpos especializados.
Cabe a Polícia Civil Estadual colaborar com a União sempre que for
solicitada, a fim de excluir todo tipo de criminalidade que põe em risco a estabilidade
do País, tais como a luta contra o narcotráfico. Em nível estadual, também conta
com a colaboração da Polícia Militar para ver seus intentos realizados.

3.2.5 Polícia Militar

O artigo 144, em seu inciso V da Constituição Federal de 1988 traz as polícias


militares e corpo de bombeiros militares como órgãos responsáveis pela segurança
27

pública. Enuncia o seu parágrafo 5º, primeira parte: “Às policias militares cabem a
polícia ostensiva e a preservação da ordem pública”.
A principal missão atribuída a Policia Militar é a de evitar a prática de delitos e
infrações penais. Assim, possui, eminentemente, o caráter ostensivo e preventivo.
Além do dever de preservar a ordem pública, tem também o dever de restaurá-la
quando perturbada. No tocante à preservação da ordem pública, com efeito, às
Polícias Militares não só cabe o exercício da policia ostensiva, cabendo-lhe também
a competência residual de exercício de toda atividade policial de segurança não
atribuída aos demais órgãos.
Existe uma relação direta de complementaridade entre Policia Militar e Policia
Civil, visto que a partir das providencias que representam a repressão imediata da
Policia Militar, a ocorrência criminal será transmitida a Policia Civil, cabendo a esta,
então, a tarefa cartorária de sua formalização legal e investigatória de policia
judiciária, na apuração, ainda administrativa, da infração penal. A polícia militar
executa a captura de infratores e agentes que tenham cometidos delitos e/ou crimes
e os conduzem à presença da autoridade policial – Delegado – para ser
responsabilizados civil e/ou criminalmente conforme o caso.

3.2.6 Corpo de Bombeiro Militar

A Carta Magna de 1988, atribui aos corpos de bombeiros militares o status de


órgão responsável pela segurança pública, delegando funções de busca e
salvamento e execução de atividades de defesa civil, entre outras definidas em Lei.
Os bombeiros militares formam um corpo de agentes do governo organizados sob a
forma militar que se encarrega do serviço público de segurança e combate a
incêndios, perigos e acidentes que tumultuam e ameaçam a segurança pública.
Os corpos de bombeiros, contudo, não são apenas dedicados o combate
contra incêndios e a resgates, mas a completar a atuação das policias militares
sempre que tal complemento se faça necessário, principalmente nos momentos de
crise e, certamente, nos casos de estados de sítio ou defesa.
Salienta-se que, as atribuições dos Corpos de Bombeiros Militares, quais
sejam, a de prevenção e combate a incêndios, busca e salvamento, defesa civil,
dizem respeito à tranqüilidade e à salubridade pública, todas integrantes, juntamente
com a segurança pública, do conceito de “ordem pública”.
28

4 O POLICIAL MILITAR COMO PROMOTOR DOS DIREITOS HUMANOS

Partindo do pressuposto que os direitos humanos são a essência ou mesmo a


própria substância da ação policial, nesse contexto, tem-se a equivocada idéia de
que o Estado deve orientar o policial a proceder “respeitando os Direitos Humanos”,
no entanto, a manutenção da ordem, pela preservação e proteção dos direitos do
cidadão é a essência da atuação policial.
No que tange à formação do policial, é preciso adequar o trabalho do policial
às necessidades da sociedade, tendo como focos a prevenção da violência,
mediação dos conflitos, à investigação e a inteligência no controle da criminalidade,
o exercício de valores morais e éticos.
Via de regra, o Estado e seus agentes são vistos, se não como únicos, ao
menos como principais responsáveis pelo desrespeito aos direitos humanos através
de órgãos de repressão, deixando de oferecer serviços de qualidade e
protecionismo que a sociedade necessita e almeja. A sedimentação dos Direitos
Humanos é a sua correlação com democracia. A defesa da democracia é unânime
com a defesa dos princípios dos Direitos Humanos. Não se pode pensar um Estado
verdadeiramente democrático sem uma efetiva implementação dos Direitos
Humanos. Portanto, os Direitos Humanos devem ser tratados e incorporados pelos
policiais que são o primeiro exemplo.
Para Balestreri (2003, p.27):
O Policial, assim, à luz desses paradigmas educacionais mais abrangentes,
é um pleno e legítimo educador. Essa dimensão é inabdicável e reveste de
profunda nobreza a missão policial quando conscientemente explicitada
através de comportamentos e atitudes. É por esses comportamentos e
atitudes, mais do que por suas palavras, que o policial educa.

Considerando que o fortalecimento dos direitos humanos é um dever do


Estado Democrático de Direito e que o Brasil é um país dominado pelo medo, pela
insegurança e pelo descaso, e que a polícia atua num contexto de insegurança que
amedronta a sociedade, torna-se necessário o desenvolvimento de ações
educativas sustentadas no diálogo e reflexão dos fenômenos sociais e na prática de
direitos humanos, em um mundo marcado pelo egoísmo e pela intolerância.
O problema acerca da constituição de mecanismos eficazes que possam
garantir o respeito dos direitos humanos permanece como o grande desafio. Parece
evidente que, se existe o direito, a ninguém é permitido violá-lo. No entanto, o desejo
29

e superação das resistências em tornar real a sua prática é o norte da educação


policia. Nas academias de polícia o ensino de direitos humanos é um processo
bastante complexo. As ações educacionais devem ser direcionadas ao ensino dos
valores humanos que segundo OLGUIM (1997, p. 16) “O ensino de Direitos
Humanos implica em mudanças. Mudanças no sistema de valores, no enfoque de
relação, forma e conteúdo da interação social”.
Educar para os direitos humanos requer uma escolarização autônoma,
preparada para a solidariedade, à tolerância e compromisso com a paz. O Brasil,
ainda apresenta uma cultura marcadamente autoritária e hierárquica, no que diz
respeito à formação do policial, com os valores pré-estabelecidos que se reproduza
na relação do policial com a sociedade.
O policial exerce uma difícil função na sociedade, pois cabe a ele a
preservação da ordem pública, a promoção da paz e da tranqüilidade, sem as quais
qualquer outra atividade humana restaria seriamente ameaçada. A criminalidade, no
estágio em que se encontra, tornou-se um desafio a ser enfrentado com
conscientização e ampla mobilização social.
A educação como mudança de mentalidades consiste na formação através de
princípios humanistas, agindo com competência humana, que deve ser entendida
como a capacidade de intervir na história à luz de padrões humanistas, valorizando
a solidariedade, a igualdade, o horror a privilégios, a aceitação da vontade da
maioria e respeito aos direitos das minorias.
A formação policial humanista e os limites estabelecidos pelo poder de
polícia, poderes estes dotados de equilíbrio, preparo emocional e técnico, são
pontos necessários ao início de uma sociedade mais justa, segura e humana. A
formação do policial deve estar comprometida com o bem estar social e conectada
com os avanços da ciência. Aquela imagem do policial sujo, maltratado, grosseiro,
visto numa viatura quebrada, precisa ser urgentemente dizimada.
O dinâmico movimento dos Direitos Humanos, que se desenvolve a partir da
Segunda Guerra Mundial, não é uma nova técnica, no campo das relações sociais.
É, sim, o reconhecimento ético da “dignidade inerente a todos os membros da
família humana”, como valor fundamental da vida social.
O policial também possui essa dignidade e, além disso, é um cidadão muito
especial, pois além de exigir que sua dignidade e seus direitos sejam respeitados,
tem a nobre missão de ser um agente de promoção dos direitos humanos na
30

comunidade. Sua atuação profissional faz com que a lei seja aplicada e os direitos
de todas as pessoas sejam respeitados, independente de cor, raça, sexo, classe
social, enfim, sem qualquer tipo de discriminação.
O bom profissional de Polícia tem todas as suas ações ancoradas na
legalidade, necessidade, proporcionalidade e na ética, seja nas ruas ou dentro das
instalações policiais, no trato com os companheiros de profissão ou com civis, quer
sejam vítimas, testemunhas ou infratores.
Respeitar e fazer respeitar direitos, servindo de exemplo para a comunidade.
Qualquer violação que não deseja para si, também não a comete para com os
outros.
Esses valores devem ser estimulados e desenvolvidos na formação dos
policiais. Sua significação essencial é a proteção dos direitos da pessoa humana e
não do Estado ou de grupos sociais. É preciso viver direitos humanos na família, nas
instalações policiais, nas ruas, no trabalho.
O policial é o primeiro beneficiário dessa cultura e do exercício dos direitos
humanos, que não é apenas para defender “bandidos”, como se apregoa.
Segundo o entendimento da Organizações das Nações Unidas, atentar contra
a vida de um policial é atentar contra a ordem social e isso é gravíssimo. Tal órgão
recomenda ainda que o Estado crie boas condições para a formação e treinamento
do policial, promova ambiente saudável de trabalho, dê suporte material e humano
para que o policial militar desenvolva sua missão atendendo aos princípios de
direitos humanos, começando pela sua valorização como ser humano.
As ações desenvolvidas no policiamento ostensivo, preventivo ou repressivo,
que observam os critérios de segurança para o policial, público e infrator, utilizando
todas as técnicas e táticas aprendidas nos órgãos de ensino da Instituição Policial,
também devem resultar na observância dos direitos humanos.
Portanto, não há incompatibilidade entre técnica policial e direitos humanos,
mas, sim, uma sinergia positiva que resulta em uma prestação de serviço com
qualidade, requisito institucional e exigência social para o policial contemporâneo.

4.1 A importância da Matriz Curricular na Formação Policial


Segundo BALESTRERI (2003, p.57), “face à cultura conservadora, os órgãos
mantenedores da Segurança Pública demonstram, ainda nos dias de hoje
resistências políticas quanto o ensino de Direitos Humanos”. Há o paradigma de que
31

Direitos Humanos e atividade policial ainda soam como pólos antagônicos no


imaginário público e as recentes transformações pelas quais vêm passando as
diversas sociedades no mundo, fruto da consolidação de uma consciência
democrática, geram mudanças de paradigmas e ideologias exigindo das instituições
policiais posturas que coadunem com a legalidade, ética e respeito aos Direitos
Humanos.
A realidade contemporânea nos problemas em Segurança Pública busca
novas propostas nos ensinamentos nas Instituições de Ensino, levando o policial
numa profunda reflexão a respeito dos conceitos morais, éticos com condutas e
ações promotoras dos Direitos Humanos.
Como medida impactante, foi instituída pelo Governo Federal a Matriz
Curricular Nacional como mecanismo de melhoria e padronização dos currículos das
academias de formação policial, com o seguinte conceito:
Um referencial nacional para as atividades de formação em Segurança
Pública que fomenta a reflexão e orientação garantindo a coerência das
políticas de melhoria da qualidade da Educação em Segurança Pública,
bem como de desempenho profissional e institucional (SENASP, 2004,
p.191).

A Matriz Curricular Nacional criada pelo Plano Nacional de Segurança


Pública, através da Coordenação de Ensino da SENASP/MJ, adota uma proposta
pedagógica para a Formação dos Profissionais da Segurança Pública, viabilizando
um conjunto de orientações e idéias visando estimular o desenvolvimento do
profissional de segurança pública face a maior exigência e demanda de novos
conhecimentos e a celeridade com que vem se alastrando a complexidade em
Segurança Pública.
Segundo a Matriz Curricular Nacional, os processos educativos de policiais
apontam para o desenvolvimento de programas com objetivo de provocar nas
equipes de ensino das Instituições Policiais um esforço especial, que possibilite a
realização de cursos em diversas modalidades de ensino, voltados para o princípio
de integração e da reconstrução do conhecimento.
Teve como início da efetivação da Matriz Curricular Nacional, o
estabelecimento da construção curricular, com as diretrizes nacionais e filosofia
institucional, que visou à transformação dos referenciais e das práticas educativas,
até então, marcadas pelo ensino de mera transmissão de conhecimento, para
estimular a curiosidade intelectual, a articulação com a realidade, respeitando o
32

conhecimento prévio e as demandas da sociedade, para motivar a evolução


progressiva das capacidades intelectuais e afetivas ao domínio de novas
habilidades, hábitos e atitudes favorecendo a contextualização com a realidade
atual.
Possibilitou, especialmente, a implementação de conteúdos que garantissem
a competência técnica e humanizadora policial, a ética face às expectativas da
comunidade, a obediência à Constituição, às Leis e Regulamentos que regem a
sociedade brasileira. Este conjunto de medidas pedagógicas enseja a construção de
uma nova Polícia que seja cada vez mais respeitada pelo cidadão e cada vez mais
prestigiada pelo poder político.
Na visão da Matriz Curricular Nacional a educação enseja monitoramento e
auto-avaliação perene, para criar condições, perspectivas e estratégias, que possam
contribuir propiciando inovações, adequação metodológica, consolidação da
interdisciplinaridade, consistência teórica-prática, entre outros, para que os
conteúdos possam ser acessados/construídos pelos policiais, de forma
contextualizada.
O termo “matriz” representa a possibilidade de um arranjo não linear de
elementos que podem representar a combinação de diferentes variáveis,
significando um conjunto de componentes a serem concatenados na elaboração dos
currículos específicos ao mesmo tempo em que oportuniza o respeito às
diversidades regionais, sociais, econômicas, culturais, políticas existentes no país,
possibilitando a utilização de referências nacionais que possam traduzir “pontos
comuns” que caracterizem a formação em Segurança Pública nas diversas regiões
do País.
O currículo na expressão da Matriz Curricular Nacional refere aos princípios e
metas flexíveis de modo a promover debates e questionamentos em sala de aula,
oportunizando uma permanente formação que privilegie a relação entre a teoria e
prática e a articulação entre os diferentes conhecimentos, ao mesmo tempo em que
proporciona de maneira responsável aos policiais instrumentos onde ele possa
refletir e agir criticamente em diversas situações complexas da Segurança Pública.
Os princípios da MCN pautam a compreensão e valorização das diferenças:
princípio de caráter ético, normativo-legal e prático que trata dos Direitos Humanos e
Cidadania, privilegiando o respeito à pessoa e a justiça social nas diversas ações
educativas, envolvendo conteúdos teóricos, técnicos e práticos destinados à
33

capacitação dos profissionais da Segurança Pública comprometidos com uma


identidade e uma imagem profissional compatíveis com as políticas nacionais e a
implementação das Políticas de Segurança Pública.
Os princípios direcionadores na Matriz Curricular Nacional tem como função
basilar orientar a formulação, a implementação e a avaliação das atividades da
formação e do ensino em Segurança Pública.
Devido a sua abrangência e importância o ensino policial requer que se criem
condições, nos diversos contextos educativos, além de oportunidades de debates e
construção de instrumentos, que possibilitem orientar as práticas formativas e a
reconstrução dos conhecimentos acumulados e reconhecidos como necessários ao
desempenho da função policial.
A proposta curricular propõe respeitar as especificidades de cada uma das
carreiras Policiais, visando refletir sobre a mediação/solução dos problemas
existentes no cotidiano, sejam eles simples ou complexos, mas principalmente, de
forma compartilhada e participativa. Há que se fazer um esforço de adaptação na
abordagem da disciplina de Direitos Humanos que possam revelar as questões
específicas de instituições públicas. Para tal, requisita-se um aprofundamento da
pesquisa e desenvolvimento científico em direção à demanda existente nas Polícias
do novo milênio. Segundo a Matriz Curricular Nacional uma formação desta
natureza traz o comprometimento com o desenvolvimento de uma competência
profissional que integre os saberes teóricos a serem ensinados (contidos nas áreas
do conhecimento) e saberes para ensinar (o policial ensina a comunidade).

4.2 A conscientização por parte do Policial da necessidade de se respeitar e


promover os direitos inalienáveis da sociedade.

Os Direitos Humanos não são apenas um conhecimento do art. 5º da


Constituição Federal de 1988, ela nasce antes de tudo de uma reflexão interna
sobre si mesma e também de um conhecimento externo. Abordar questões de
direitos humanos no contexto de formação de policiais nas academias policiais, é
ainda nos dias de hoje, visto por alguns conservadores como algo sem
transformação, que não leva a lugar algum, mantém a visão de uma polícia
repressiva e truculenta. Os questionamentos são difíceis se serem quebrados, a
cultura e compreensão de que direitos humanos são defender bandido e a
34

população carcerária, encontra-se fortemente presente na sociedade e com a


contribuição de policiais. A história, felizmente, vem mostrando que a sociedade
valoriza o respeito e a relevância do papel policial na edificação de uma cultura de
direitos humanos.
Direitos Humanos se apresenta como valioso instrumento de moralidade, na
medida em que vela pela transparência, comportamento e pela presteza de
qualidade na prestação de serviços. Os direitos humanos vem para estabelecer
parâmetros não violentos de ação, e expondo que é o canal para reivindicar as
condições humanas, defender idéias sempre em um processo dinâmico e não como
normas fixas e imutáveis. A luta em prol de direitos humanos tem se tornado cada
vez mais uma luta pela cidadania, ou seja, pelos direitos de cidadania. Os direitos
humanos são fundamentais para repensar a questão democrática e respeitadora das
diferenças culturais e espaços de liberdade íntima. A postura do profissional de
segurança cidadã dentro dos valores universais dos Direitos Humanos, tem início
nas instituições policiais de formação.
A violação dos Direitos Humanos dos policiais, a ansiedade, o ataque da
mídia, a cobrança da sociedade e a hierarquia autoritária da própria instituição
devem ser citados como os reais motivos pelo quais o ser humano policial vem
protagonizando reiteradas violações aos Direitos Humanos. A má formação do
policial, resultado de contextos sócio-culturais distorcidos das próprias corporações
policiais, tem conseqüências na população.
O ser humano é considerado como produto do meio em que vive. Desta
forma, se os policiais não receberem o tratamento adequado, respeitoso e ético de
sua própria instituição, sendo por vezes tratados de forma desumana, com ordens
absurdas, submissão, punição sem o devido direito a ampla defesa, fatalmente irá
descarregar sua ira na sociedade durante o atendimento das ocorrências diárias.
Uma polícia voltada aos direitos humanos quanto de sua atuação
discricionária, quando na prática da violência legítima do aparelho policial do estado,
há conseqüentemente uma humanização dos agentes policiais, logo, a atividade
policial deverá ser reformulada para uma ação participativa e interativa com a
sociedade, proporcionando uma mudança de mentalidade a partir da qual a
sociedade passe a enxergar a polícia não como um mero instrumento de aplicação
do direito ou como um órgão opressor e de controle social, mas sim, passe a vê-la
como um agente capaz de interferir nas relações sociais a serviço da sociedade e de
35

seus interesses. A sociedade passa a exigir do órgão policial uma participação mais
efetiva na vida comunitária como um todo, de forma a apresenta um trabalho mais
eficiente. Há muitas dificuldades para acompanhar e adaptar o desenvolvimento
tecnológico às atividades de Segurança Pública.
É imprescindível que a Polícia se aproxime da comunidade adotando posturas
éticas e profissionais no atendimento a qualquer cidadão, estabelecendo um vínculo
de confiança entre servidor policial e cidadão comum. A polícia tomando a dor
daquele cidadão ou comunidade que foi vítima atroz de violência acaba por fazer a
justiça que o sistema não faz.
Contudo, a própria comunidade que desejou um ato violento da polícia, punirá
o policial pela prática desse ato e, o desequilíbrio psicológico do policial também se
dá diante das pressões cotidianas de erros e acertos.
A construção de uma polícia melhor, que saiba respeitar a integridade física e
os direitos daqueles cidadãos que por ventura necessita restringir a liberdade, exige
uma efetiva participação comunitária. As academias de Polícia precisam entrar com
sua parte, dando condições ao policial de enxergar através da disciplina de direitos
humanos maneiras adequadas para lidar com a comunidade, reeducando e
conscientizando o seu papel.
Os policiais poderão agir como educadores, orientando a comunidade acerca
de seus direitos e deveres. Uma polícia com conhecimento em direitos humanos
precisa ser ética, eficiente e respeitar o cidadão incondicionalmente.
A agente aplicador da lei quando motivado pelo exercício de sua profissão
torna-se um educador em potencial, formando paradigmas positivos de
comportamento. A polícia além de exigir uma participação da sociedade e de
policiais que ajam buscando garantir direitos e comprometendo-se com o trabalho,
se faz imprescindível que valorize o empenho dos bons policiais na qualificação,
modernização, mudanças estruturais, principalmente culturais dentro da Instituição
Policial. Diante do conceito de que todo policial possui autorização legal de prender
e até de matar alguém, deve estar consciente dos conceitos de dever, direito, justiça
e responsabilidade. Para o exercício da função policial está entrelaçada com o uso
de poder.
O policial no exercício de sua profissão desempenha junto à sociedade um
forte papel de agente transformador. Para ser bom policial não basta conhecer as
36

leis, é necessário que saiba intermediar conflitos, ser um orientador de direitos e


obrigações, saber usar o emprego da sua força, quando necessário.
O policial não pode perder de vista os princípios morais e da necessidade de
sempre agir com civilidade, embora passem por uma crise ética em todos os
segmentos e profissões do país.
A prestação do serviço policial, nos moldes propostos nesta reflexão, de
alguma forma, necessita de um diferencial efetivamente, se inicia através da conduta
individual de cada um, seja como policial e cidadão. Um bom policial sendo bom
cidadão sempre faz a diferença onde quer que esteja.
Você muda quando precisa mudar, quando as condições exigem. Polícia e
sociedade precisam se engajar para qualificar esse processo de mudança. O
modelo ideal de polícia não pode simbolizar uso excessivo de força, brutal, medo ou
corrupção.
Ensina ainda Balestreri (2003, p.14):
[...] O caminho da paz com justiça passa pela conscientização das forças de
segurança pública”. Eficácia em direitos humanos significa hoje com certeza
entre outras ações, implementar programas em parceria com policiais civis e
militares para a educação de seus efetivos, em todos aqueles lugares onde
a democracia o permeie que todas as transformações tem que passar pela
educação. Não se muda um país sem educar as pessoas.

É preciso entender o novo paradigma educacional. Antigamente, quando se


falava em educador, se pensava apenas no professor. Hoje, educador é o
empresário, o médico, o policial. Todas as profissões que trabalhem diretamente em
circunstâncias influentes tornam-se educadores. Todo policial antes de ser policial
tem a obrigação de ser um pedagogo da cidadania. Instituições de Ensino Policial
que desenvolvem ações pedagógicas lineares, acríticas, descontextualizadas, e que
não consideram a necessidade contínua da avaliação apresentam desinteresse pelo
desenvolvimento de um ensino renovador, o que pode se refletir em equivocadas
práticas pedagógicas.
O ensino policial precisa estar planejado para formar competências que
respondam às exigências da realidade, mediante:
• Conhecimento e utilização de estratégias e técnicas que auxiliem nos
procedimentos, tomada de decisão e mediações/soluções de conflito;
• Consciência do seu papel de cidadão, responsável pela segurança,
orientação e proteção dos outros cidadãos, agindo com imparcialidade e retidão;
37

• Saber trabalhar em equipe, de forma sinérgica;


• Relacionamento com outros segmentos da segurança pública, para ações
articuladas e trabalho integrado, buscando maior eficiência e eficácia;
• Receptividade e capacidade de utilizar novas tecnologias;
• Busca e geração contínua de novas informações;
• Formação de hábitos de vida sadia;
• Contato mais direto com a comunidade;
• Tratamento de acordo com os preceitos morais e éticos.

O ensino passa a ser entendido como um processo político permeado por


competências e habilidades específicas e especializadas, que visa à promoção da
aprendizagem por meio da reconstrução do conhecimento, da apropriação crítica da
cultura elaborada, pautada em padrões de qualidade e nos princípios da ética.
Neste contexto, a formação é considerada também uma oportunidade para os
participantes alunos e docentes repensarem a própria postura ética e política. É um
espaço genuíno para analisar e aperfeiçoar a competência policial para assumir a
responsabilidade pelo cumprimento das determinações da área do Direito à
Segurança e compromisso com a melhoria do bem público e das Instituições
políticas.
Ensina MORIN (2000, p.27)
Na história, temos visto com freqüência, infelizmente, que o possível se
torna impossível e podemos pressentir que as mais ricas possibilidades
humanas permanecem ainda impossíveis de se realizar. Mas vimos também
que o inesperado torna-se possível e se realiza; vimos com freqüência que
o improvável se realiza mais do que o provável; saibamos, então, esperar o
inesperado e trabalhar pelo improvável.

Os cursos de formação policial para que atendam as exigências de uma


educação do futuro devem buscar o estímulo a atividades curriculares
interdisciplinares, para os profissionais aprendam a trabalhar integrando os
conteúdos e, por extensão, a reconhecer a importância da interprofissionalidade nas
relações de trabalho e da transferência de métodos de uma área para outra.

5 ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS


Observando e analisando as respostas emitidas pelos Policiais Militares
acerca dos questionamentos realizados pode-se chegar às seguintes assertivas:
38

No tocante ao quantitativo de anos de serviços prestados à Corporação que


compõem o efetivo pesquisado, pode-se constatar a prevalência na Polícia Militar
em Presidente Médici/RO de Policiais Militares com até 10 (dez) anos de anos de
serviços na Corporação.

Figura 1 – Tempo de Serviço na Polícia Militar.


Fonte: Elaborado pelo Autor.

Se considerarmos que as Organizações Policiais do Brasil em sua grande


maioria adequaram seus currículos de formação aos preceitos da Matriz Curricular
Nacional, visando contemplar entre outras a disciplina de Direitos Humanos, aos
Policiais Militares que ingressaram nos últimos dez anos foram disponibilizados
conhecimentos específicos sobre proteção da dignidade da pessoa humana,
culminando com melhor prestação de serviços à comunidade.
Quando inquiridos quanto ao recebimento de instruções versando sobre
Direitos Humanos durante o curso de formação, setenta por cento da amostra
pesquisada afirmaram terem sidos contemplados com a referida disciplina. Reflexo
da adoção de ações em políticas de segurança voltadas para a formação dos
policiais sendo preparados para interagir com a sociedade buscando atender aos
anseios de sensação de segurança e manutenção da ordem pública e não para
combater um “inimigo” como num passado recente.
39

Figura 2 – Policiais que receberam instruções de Direitos Humanos durante o Curso de


Formação.
Fonte: Elaborado pelo Autor.

Fica patente a adoção acertada, por parte dos órgãos de segurança pública,
de políticas de ensino policial voltadas ao tratamento digno, imparcial e ético ao
cidadão quer seja ele vítima ou infrator, que refletem positivamente na execução dos
serviços de segurança pública.

Figura 3 – Policiais que participaram de atividades relacionadas a direitos humanos pós


academia de formação.
Fonte: Elaborado pelo Autor.

Quando abordada a participação dos Policiais Militares em palestras,


seminários ou instruções especificamente sobre a proteção dos direitos humanos
40

extra-academia de polícia, sessenta por cento dos pesquisados informaram terem


participado enquanto uma considerável número de policiais ainda não buscarem
atualização sobre o tema nas oportunidades oferecidas pela corporação. Vislumbra-
se a conscientização por grande parte dos policiais militares em buscarem
atualização e compartilhamento de conhecimentos adquiridos, possibilitando maior
interação e apreensão de saberes.

Analisando os dados constatou-se a quase totalidade, ou seja, noventa e sete


por cento dos pesquisados afirmaram que as disciplinas oferecidas durante o curso
de formação, as instruções e palestras oferecidas pela Corporação são
consideradas úteis e tem contribuído para a conscientização dos policiais militares e
consequentemente a melhoria da prestação dos serviços à sociedade.

Figura 4 – Policiais Militares que julgam importantes as instruções em Direitos Humanos e


que contribuem para a conscientização e melhoria dos serviços prestados.
Fonte: Elaborado pelo Autor.

Aflora a idéia de que todas as ações que foram desencadeadas pela


corporação militar no sentido de proporcionar capacitação dos servidores encontram
eco no seio da tropa, possibilitando desta forma a sua ampliação e intensificação
visando alcançar a totalidade do contingente policial.
41

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Já muito antes da efetivação dos direitos inerentes à pessoa humana,


consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos a luta para permitir o
acesso a tais direitos é uma constante. Nos dias atuais, facilitado pelo acesso aos
mecanismos de informações cada dia mais eficientes, tecnológicos e quase
instantâneo, as mais diversas classes buscam o amparo junto aos órgãos estatais e
Organizações não governamentais no sentido de salvaguardarem seus direitos
fundamentais.
A construção de um sistema de proteção de direitos humanos passou a ser
uma constante, exigindo um processo contínuo de adaptação e adequação das leis
e costumes às novas realidades sociais que se apresentam. Para assegurar o
respeito às leis e a manutenção da ordem pública o Estado instituiu as organizações
de aplicação da lei, entre elas, a Polícia Militar.
Mesmo emblematizando o Estado, os policiais militares são parte da
sociedade em que presta seus serviços, devendo na prática, comprovar a
consciência e o respeito aos direitos das pessoas sem nenhuma distinção adversa.
Refere pontanto, que durante a formação e ao longo da vida profissional, os
profissionais de segurança pública necessitam adquirir conhecimentos adequado
sobre direitos inerentes a pessoa humana, além de assimilar e manter habilidades,
técnicas e táticas para assegurarem a aplicação da lei de forma adequada
respeitando e protegendo os direitos e liberdades individuais.
A formação e o treinamento dos profissionais de segurança pública mostrou-
se como a via necessária para se alcançar a melhoria da prestação dos serviços de
promoção e proteção aos direitos humanos. A implementação da Matriz Curricular
Nacional, com acatamento pelos órgãos estaduais de segurança pública, criou um
currículo mínimo a ser ministrado aos alunos de academias de formação de maneira
a proporcionar conhecimentos básicos necessários a serem empregados no
desenvolvimento de suas atividades.
O conhecimento em direitos humanos ganhou ênfase nos últimos anos,
passando a fazer parte das disciplinas nas academias de polícia. Porém, em recente
edital (nº 257/GDRH/SEAD, DE 24 DE NOVEMBRO DE 2008) divulgando concurso
público para provimento de vagas para a Policia Miliar de Rondônia, constam como
item da Tabela de Conteúdo Específico a disciplina de Direitos Humanos, contendo
42

dezesseis questões, das quais o candidato necessita ter cincoenta por cento de
acerto. Evidencia a preocupação por parte dos Órgãos de Segurança para que os
futuros profissionais de segurança já tenham conhecimento inicial e prévio sobre
direitos humanos.
No tocante à Polícia Militar de Rondônia, especificamente, observou-se que
todos os cursos desenvolvidos na Academia, seja de formação de novos policiais
militares ou de aperfeiçoamento de Sargentos e Oficiais, constam dos currículos
disciplina de direitos humanos.
Aos Policiais Militares da amostragem do presente estudo foram ministradas
conhecimentos no tocante a promoção e preservação dos direitos humanos, sendo
que àqueles que estão na Corporação a mais tempo (superior a 16 anos) foram
oportunizados cursos e instruções sob o tema; e ao que passaram pela academia
nos últimos anos já foram contemplados pela inclusão da disciplina na grade
curricular.
Os Policiais Militares podem ser considerados suficientemente informados
sobre a necessidade de se aplicar a lei e combater a criminalidade observando o
direito individual de cada pessoa, quer seja vítima ou agente. Embora não raras
vezes, há resistência aos ensinamentos sobre direitos humanos sob o velho chavão:
“direitos humanos é só para bandidos”, ficou patente que tais afirmações são
proferidas por policiais militares com mais tempo de serviço e que não absorveram
integralmente a nova filosofia de policiamento baseada no Policiamento Comunitário
e respeito integral aos direitos das pessoas, que o papel da polícia é promover a
captura de delinquentes e os conduzir à presença da autoridade judiciária ao invés
de “prender e julgar e punir” as pessoas.
Vários fatores podem ser considerados para que os Policiais Militares lotados
no Pelotão de Policiamento Ostensivo de Presidente Médici/RO possam empregar
no cotidiano os conhecimentos assimilados em direitos humanos: população
considerada pequena (possibilita conhecer a maior parte dos moradores),
localização geográfica (afastada de cidades com grande número de habitantes),
pequeno número de policiais (possibilita maior interação entre sí e melhor acesso ao
Comando – facilitanto a assimilação da política interna da Corporação), resultando
em poucos casos de acionamento via Ministério Público e/ou Sindicância
Administrativa por parte de pessoas denunciando abusos cometidos por Policiais
Militares.
43

Necessário se faz, portanto, afirmar que o referido estudo não ambiciona


esgotar o assunto, mas tão somente despertar interesses e suscitar discussões de
pessoas que se identificam com o tema, a fim de que possam gerar num futuro
próximo, opiniões e estudos que encontrem eco no âmbito policial militar de maneira
a produzirem ajustes, contribuindo para o engrandecimento e melhoria da prestação
de serviço à sociedade Rondoniense.
REFERÊNCIAS

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1988. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

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Trabalho. Brasília-DF, Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP 2007.

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Segurança Pública, Coordenação Geral de Ensino. SENASP/MJ, 2004.

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penal e da história. Brasília: Livraria e Editora Jurídica, 1998.

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LAFER, Celso. A Reconstrução dos Direitos Humanos. São Paulo: Companhia


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OLGUIM Leticia In Jornal da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos,


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REZEK, José F. Direito Internacional Público: Curso Elementar. São Paulo:
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ZAFFARONI, E. R. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do


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