EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO
EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE PERNAMBUCO.
LINDEMBERGUE GOMES DE FREITAS, brasileiro,
advogado, inscritos na OAB/PE sob o número, 34.128, e AILTON LUIZ DE BRITO,
CPF N° 042.543.114-27, com endereço PROFISSIONAL NA AV. Presidente Vargas,
nº 794, 1º andar sala 03, Centro, Cabo de Santo Agostinho-PE, CEP. 54.510-430, onde
recebem intimações e notificações de estilo, vêm à presença de Vossa Excelência para,
respeitosamente, impetrar.
ORDEM DE HABEAS CORPUS
Com Pedido Liminar
Em favor de SAMUEL ANTONIO DA SILVA,
Brasileiro, casado, motorista, inscrito no RG nº 6962023 SDS/PE, inscrito no CPF
sob o nº 063.750.124-14, filho de SEVERINA MARIA DA SILVA E ANTONIO
REFERINO DA SILVA Residente e domiciliado na Vila dos Irmãos s/n Engenho
Serraria, Cabo de Santo Agostinho-PE, CEP. 54.590-000, atualmente recolhido no
COTEL, contra o ato do MM Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Comarca do
IPOJUCA-PE, com base no artigo 5º, LXVIII da Constituição Federal de 1988 e artigos
647 e 649 do Vigente Código de Processo Penal, o que faz nos termos das razões
anexas.
Termos em que,
Pedem Deferimento.
Cabo de Santo Agostinho-PE, 17 de JULHO de 2020.
LINDEMBERGUE GOMES DE FREITAS
OAB/PE Nº 34.128
HABEAS CORPUS
IMPETRANTES: LINDEMBERGUE GOMES DE FREITAS E AILTON LUIZ DE
BRITO
IMPETRADO: MM JUIZ DE DIREITO DA VARA CRIMINAL DA
COMARCA IPOJUCA/PE
PACIENTE: SAMUEL ANTONIO DA SILVA
REF. PROC. Nº. 0000210-49.2020.8.17.0730
Douto Relator,
Ilustres Julgadores,
I - DOS FUNDAMENTOS DE FATO E DE DIREITO
O Paciente foi preso em flagrante no dia 05/06/2020 delito tipificado no artigo
157,§ 2º, II e § 2° A,I do CPB, e IV, d, e tendo a sua PRISÃO PREVENTIVA
decretada em audiência de custodia no dia 06/06/2020.
Em tal decreto, fundamentando-se a decisão na hipóteses previstas no artigo
311,312 e 313,I do Código de Processo penal , ou seja: A GARANTIA DA ORDEM
PÚBLICA e por esta supostamente respondendo a um processo n° 636-
11.2019.8.170370, suplicante não possui maus antecedentes inexistindo nos autos
comprovação de que teria ele tais maus antecedentes ou praticou tais crimes imputados
como alegado no seu suposto flagrante.
Há de se observar Doutos Julgadores que o requerente é primário e com
bons antecedentes, é casado com a senhora SILVANA DA SILVA há 15 anos,
tendo três filhos FILIPE ANTONIO DA SILVA de 15 anos, FRANCIELY
RAYSSA DA SILVA de 13 anos e JOÃO PEDRO DA SILVA de 08 anos, onde
vale salientar, que e o único provedor da família Estabelecidos os motivos que
levaram este MM. Juízo a decretar a custódia preventiva do paciente, resta-nos saber se
tal decreto é justo, se é legal ou se fere os direitos do suplicante, que merece responder
ao processo em liberdade, nos moldes que a própria lei lhe faculta, por ser primário e
possuir bons antecedentes.
Data máxima vênia, a justificativa utilizada pelo M.M. Juízo do Plantão e
posterior o juízo da 1º Vara Criminal de Ipojuca para a manutenção da custódia não
merece prevalecer. Vejamos:
Da ilegalidade da prisão
– O Paciente não ostenta quaisquer das hipóteses previstas no art. 312 do CPP
- Ilegalidade da convolação da prisão em flagrante para prisão preventiva
De mais a mais, vê-se que o Paciente é primário, de bons
antecedentes, com ocupação lícita, residência fixa, consoante demonstram as certidões,
aqui carreadas.
Não existiam, nos autos do inquérito policial, sobremodo
no auto de prisão em flagrante -- nem assim ficou demonstrado no despacho prolatado
pela Autoridade Coatora --, quaisquer motivos que implicassem na decretação
preventiva do Paciente. Desse modo, pertinente, e necessária, a concessão do benefício
da liberdade provisória, com ou sem fiança. (CPP, art. 310, inc. III)
A hipótese em estudo, desse modo, revela a pertinência da
concessão da liberdade provisória.
Convém ressaltar, sob o enfoque do tema em relevo, o
magistério de Norberto Avena:
A liberdade provisória é um direito subjetivo do imputado nas hipóteses em que
facultada por lei. Logo, simples juízo valorativo sobre a gravidade genérica do delito
imputado, assim como presunções abstratas sobre a ameaça à ordem pública ou a
potencialidade a outras práticas delitivas não constituem fundamentação idônea a
autorizar o indeferimento do benefício, se desvinculadas de qualquer fator revelador da
presença dos requisitos do art. 312 do CPP...
( ... )
É de todo oportuno também gizar as lições de Marco
Antônio Ferreira Lima e Raniere Ferraz Nogueira:
A regra é liberdade. Por essa razão, toda e qualquer forma de prisão tem caráter
excepcional. Prisão é sempre exceção. Isso deve ficar claro, vez que se trata de
decorrência natural do princípio da presunção de não culpabilidade...
( ... )
Observemos, de modo exemplificativo, o que já decidira o
STJ, concernente à liberdade provisória nos crimes de roubo:
PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO
PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA.
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
CARACTERIZADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM
CONCEDIDA, DE OFÍCIO.
1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram orientação no sentido de que
não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese,
impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de
flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. 2. A prisão preventiva, nos termos do
art. 312 do CPP, poderá ser decretada para garantia da ordem pública, da ordem
econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da Lei
Penal, desde que presentes prova da existência do crime e indícios suficientes de
autoria. 2. No caso, não foram apontados, na decisão que decretou a prisão preventiva
do paciente, quaisquer dados concretos a justificar a segregação provisória, sobretudo
quando considerada sua primariedade, seus bons antecedentes, residência fixa, bem
como o fato de ter permanecido em liberdade durante o curso das investigações, sem
qualquer demonstração de que tenha prejudicado a colheita de provas ou tentado frustrar
a aplicação da Lei Penal. 4. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício,
para revogar a prisão preventiva imposta ao paciente, mediante a aplicação de medidas
cautelares previstas no art. 319 do CPP, a critério do Juízo de primeiro grau [ ... }
Nessa entoada, assim vem se manifestando a
jurisprudência dos Tribunais:
PENAL E PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. ROUBO
MAJORADO. CORRUPÇÃO DE MENOR. EXCESSO PRAZO. NÃO
CONHECIMENTO. AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO DO JUÍZO DE PISO.
SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO NA
DECISÃO DE PRISÃO PREVENTIVA. PROCEDÊNCIA. CONDIÇÕES
PESSOAIS FAVORÁVEIS. PACIENTE PRIMÁRIA, BONS ANTECEDENTES E
ENDEREÇO CERTO. HABEAS CORPUS PARCIALMENTE CONHECIDO E
ORDEM CONCEDIDA. SOLTURA DA PACIENTE, MEDIANTE LIBERDADE
PROVISÓRIA COM IMPOSIÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS
DA PRISÃO, ELENCADAS NO ART. 319, I, II, IV E V, DO CPP.
1. A alegação de excesso de prazo na formação da culpa, ainda não foi apreciada pela
instância de origem, de forma que não pode esta Corte usurpar-lhe a competência e
substituí-la no exame da matéria, sob pena de incorrer em indevida supressão de
instância. 2. Consoante o art. 321 do CPP, se o juiz verificar a ausência dos requisitos
que autorizam a decretação da prisão preventiva, deve conceder ao preso liberdade
provisória, impondo, se for o caso, as medidas cautelares previstas no art. 319,
observados os critérios de necessidade e adequação do art. 282, I e II, do CPP. 3. No
presente caso, a decisão que decretou a prisão preventiva carece de fundamentação,
posto que se utilizou de fundamentação por demais genérica, não inserindo quaisquer
dados concretos que justificassem o periculum libertatis da indigitada, valendo-se
ressaltar que, diferentemente dos comparsas, a paciente não responde a qualquer outra
ação penal. 4. Como se não bastasse, o juízo impetrado, de forma teratológica,
reconheceu que as circunstâncias da paciente não indicavam grave risco à ordem
pública, tampouco à aplicação da Lei Penal, a ponto de tornar a prisão preventiva
imprescindível, somando-se à primariedade e menoridade relativa da ré, substituiu a
prisão por domiciliar, nos moldes previstos no art. 318 do CPP, em afronta as
disposições do art. 318-A, I, do CPP, por se tratar de delito cometido com grave ameaça
à pessoa. 5. Revelando o conjunto probatório que as condições de caráter pessoal são
favoráveis, por se tratar de ré primária e detentora de bons antecedentes e residência
fixa, concede-se a liberdade provisória da paciente com a imposição das medidas
cautelares previstas nos incs. I, II, IV e V, do art. 319 do CPP. 6. Habeas corpus
parcialmente conhecido e, nessa extensão, ordem concedida [ ... ]
HABEAS CORPUS.
Conversão da prisão em flagrante em preventiva. Roubo simples. Prisão cautelar que se
mostra como exceção no nosso sistema. Análise sob a ótica da Lei nº 12403/11.
Inexistência de elementos que, concretamente, justifiquem a prisão preventiva.
Suficiência das medidas cautelares do art. 319, I e IV, CPP. Liberdade provisória
concedida. Liminar deferida. Ordem concedida [ ... ]
– O decisório se limitou a apreciar a gravidade abstrata do delito
- Houve a decretação da prisão preventiva, sem a necessária fundamentação.
Para além disso, a decisão hostilizada se fundamentou
unicamente na gravidade abstrata do delito de roubo qualificado. Portanto, nada se
ostentou quanto ao enquadramento em uma das hipóteses que cabível se revelasse a
prisão cautelar. (CPP, art. 312)
Com efeito, a Autoridade Coatora, nobre Juiz de Direito
operante na Vara Criminal de IPOJUCA-PE, não cuidou de estabelecer qualquer liame
entre a realidade dos fatos e alguma das hipóteses previstas no art. 312 da Legislação
Adjetiva Penal.
É consabido que é dever de todo e qualquer magistrado
motivar suas decisões judiciais, sobremodo à luz do que reza o art. 93, inc. IX da
Constituição Federal.
É direito de todo e qualquer cidadão, à luz dos princípios
da inocência e da não-culpabilidade – perceba-se que o Paciente negara o que lhe fora
imputado – uma decisão devidamente fundamentada acerca dos motivos da
permanência no cárcere, máxime sob a forma de segregação cautelar.
Nesse passo, ao se indeferir a liberdade provisória deveria
o Magistrado ter motivado sua decisão. É dizer, faz-se necessário evidenciar de forma
clara, à luz dos componentes obtidos nos autos, por qual motivo o decisório se conforta
com as hipóteses previstas no art. 312 do Código de Processo Penal, ou seja: a garantia
da ordem pública ou da ordem econômica, a conveniência da instrução criminal e a
segurança da aplicação da Lei Penal, quando houver prova da existência do crime e
indício suficiente da autoria.
Ao invés disso, repise-se, a Autoridade Coatora não
cuidou de elencar quaisquer fatos, ou atos concretos, que representassem, minimamente,
a garantia da ordem pública ou um outro motivo. Assim, não há qualquer indicação de
que seja o Paciente uma ameaça ao meio social, ou, ainda, que o delito seja de grande
gravidade.
Igualmente, inexiste qualquer registro de que o Paciente
cause algum óbice à conveniência da instrução criminal; muito menos se fundamentou
acerca da necessidade de se assegurar a aplicação da lei penal. Não há, também,
quaisquer dados (concretos) de que o Paciente, solto, poderá se evadir do distrito da
culpa.
Destarte, o fato de se tratar de imputação de “crime grave
e repudiado pela sociedade”, não possibilita, por si só, o indeferimento da liberdade
provisória.
Dessa forma, a decisão em comento, a qual indeferiu o
pleito de liberdade provisória, é ilegal; por mais esse motivo, vulnerou a concepção
trazida no bojo do art. 93, inc. IX, da Carta Magna.
Convém ressaltar julgados do Superior Tribunal de
Justiça, os quais convergentes a viabilizarem a concessão da ordem, mais
especificamente pela deficiência de motivação:
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO
ORDINÁRIO. NÃO CABIMENTO. ROUBO. PRISÃO PREVENTIVA.
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA DO DECRETO
PRISIONAL. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA
DE OFÍCIO.
I - A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma
do col. Pretório Excelso, firmou orientação no sentido de não admitir a impetração de
habeas corpus em substituição ao recurso adequado, situação que implica o não
conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que, configurada
flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal, seja possível a concessão da
ordem de ofício. II - A segregação cautelar deve ser considerada exceção, já que tal
medida constritiva só se justifica caso demonstrada sua real indispensabilidade para
assegurar a ordem pública, a instrução criminal ou a aplicação da Lei Penal, ex vi do
artigo 312 do Código de Processo Penal. III - In casu, a decisão que decretou a prisão
preventiva do paciente, não apresenta devida fundamentação, uma vez que a simples
invocação da gravidade genérica do delito não se revela suficiente para autorizar a
segregação cautelar com fundamento na garantia da ordem pública (HC n.
114.661/MG/STF, Primeira Turma, Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 1º/8/2014).IV -
Parecer do Ministério Público Federal pela concessão da ordem, tendo em vista a
ausência de fundamentação concreta do Decreto de prisão preventiva. Habeas Corpus
não conhecido. Ordem concedida, de ofício para revogar a prisão preventiva do
paciente, salvo se por outro motivo estiver preso, e sem prejuízo da decretação de nova
prisão, desde que concretamente fundamentada, ou da imposição de outras medidas
cautelares diversas da prisão, previstas no art. 319 do Código de Processo Penal [ ... ]
Do Supremo Tribunal Federal também se espraiam
julgados dessa mesma natureza de entendimento:
HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. PRISÃO PREVENTIVA. ARTIGO
312 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. PRETENDIDA REVOGAÇÃO DA
PRISÃO OU DA SUBSTITUIÇÃO POR MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS.
ARTIGO 319 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. SUPERVENIÊNCIA DE
SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA EM QUE SE MANTÉM
SEGREGAÇÃO CAUTELAR COM REMISSÃO A FUNDAMENTOS DO
DECRETO ORIGINÁRIO. CONSTRIÇÃO FUNDADA EXCLUSIVAMENTE
NA GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. AVENTADO RISCO DE
REITERAÇÃO DELITIVA. INSUBSISTÊNCIA. AUSÊNCIA DE
CONTEMPORANEIDADE DO DECRETO PRISIONAL NESSE ASPECTO.
GRAVIDADE EM ABSTRATO DAS CONDUTAS INVOCADA.
INADMISSIBILIDADE. PRECEDENTE ESPECÍFICO DE CORREU NA
MESMA AÇÃO PENAL. HIPÓTESE EM QUE AS MEDIDAS CAUTELARES
DIVERSAS DA PRISÃO, SE MOSTRAM SUFICIENTES PARA OBVIAR O
PERICULUM LIBERTATIS RECONHECIDO NA ESPÉCIE. ORDEM
CONCEDIDA PARA SUBSTITUIR A PRISÃO PREVENTIVA DO PACIENTE
POR OUTRAS MEDIDAS CAUTELARES, A SEREM ESTABELECIDAS PELO
JUÍZO DE ORIGEM.
I - a partir da análise do caso concreto na via adequada e em razão do princípio da
igualdade, insculpido no art. 5º da constituição federal, deve ser concedida a ordem em
apreço. ii - a prisão preventiva já exauriu todos os seus efeitos no tocante ao requisito da
conveniência da instrução criminal (art. 312 do código de processo penal), não mais
subsistindo risco de interferência na produção probatória, razão pela qual não se
justifica, sob esse fundamento, a manutenção da custódia cautelar. iii - a prisão cautelar
está ancorada, exclusivamente, na garantia da ordem pública, que se consubstancia, in
casu, na possibilidade de reiteração delitiva. iv - no caso sub judice o fundamento da
manutenção da custódia cautelar exclusivamente na preservação da ordem pública
mostra-se frágil, porquanto, de acordo com o que se colhe nos autos, a alegada conduta
criminosa ocorreu entre 2008 a 2013, havendo, portanto, um lapso temporal de mais de
3 anos entre a data da última prática criminosa e o encarceramento do paciente, tudo a
indicar a ausência de contemporaneidade entre os fatos a ele imputados e a data em que
foi decretada a sua prisão preventiva. v - assim, em verdade, a prisão preventiva objeto
destes autos, mantida em sentença por simples remição ao decreto de prisão e sem
verticalização de fundamentos, está ancorada em presunções tiradas da gravidade
abstrata dos crimes em tese praticados e não em elementos concretos dos autos, o que,
por si só, não evidencia o risco de reiteração criminosa. vi - outro dado objetivo que
vem em abono ao que explicitado acima e que está em consonância com o que foi
decidido no hc 137.728/pr, é o bloqueio das bancárias e dos demais investimentos do
paciente e da empresa credencial, da qual é sócio, fato objetivo que subtrai da hipótese
qualquer fundamento válido no sentido de que possa, potencialmente, abalar a ordem
pública pela prática de novos crimes da mesma natureza. vii - nesse diapasão, tomando-
se como parâmetro o que já foi decidido por esta 2ª turma no hc 137.728/pr e levando-se
em consideração os demais elementos concretos extraídos dos autos, a utilização das
medidas alternativas descritas no art. 319 do cpp é adequada e suficiente para, a um só
tempo, garantir-se que o paciente não voltará a delinquir e preservar-se a presunção de
inocência descrita no artigo 5º, inciso lvii, da constituição federal, sem o cumprimento
antecipado da pena. viii - não sendo assim, a prisão acaba representando, na prática,
uma punição antecipada, sem a observância do devido processo e em desrespeito ao que
foi determinado pelo supremo tribunal federal no julgamento das ações declaratórias de
constitucionalidade 43 e 44. ix - habeas corpus concedido para substituir a prisão
preventiva do paciente por medidas cautelares dela diversas (CPP, art. 319), a serem
estabelecidas pelo juízo de origem [ ... ]
HABEAS CORPUS. Da ilegalidade da prisão
– O Paciente não ostenta quaisquer das hipóteses previstas no art. 312 do CPP
- Ilegalidade da convolação da prisão em flagrante para prisão preventiva
De mais a mais, vê-se que o Paciente é primário, de
bons antecedentes, com ocupação lícita, residência fixa, consoante demonstram as
certidões, aqui carreadas.
Não existiam, nos autos do inquérito policial,
sobremodo no auto de prisão em flagrante -- nem assim ficou demonstrado no
despacho prolatado pela Autoridade Coatora --, quaisquer motivos que
implicassem na decretação preventiva do Paciente. Desse modo, pertinente, e
necessária, a concessão do benefício da liberdade provisória, com ou sem fiança.
(CPP, art. 310, inc. III)
A hipótese em estudo, desse modo, revela a pertinência da concessão da liberdade
provisória.
Convém ressaltar, sob o enfoque do tema em relevo, o
magistério de Norberto Avena:
A liberdade provisória é um direito subjetivo do imputado nas hipóteses em que
facultada por lei. Logo, simples juízo valorativo sobre a gravidade genérica do
delito imputado, assim como presunções abstratas sobre a ameaça à ordem pública
ou a potencialidade a outras práticas delitivas não constituem fundamentação
idônea a autorizar o indeferimento do benefício, se desvinculadas de qualquer
fator revelador da presença dos requisitos do art. 312 do CPP...
( ... )
É de todo oportuno também gizar as lições de Marco Antônio Ferreira Lima e
Raniere Ferraz Nogueira:
A regra é liberdade. Por essa razão, toda e qualquer forma de prisão tem caráter
excepcional. Prisão é sempre exceção. Isso deve ficar claro, vez que se trata de
decorrência natural do princípio da presunção de não culpabilidade...
( ... )
Observemos, de modo exemplificativo, o que já decidira o STJ, concernente
à liberdade provisória nos crimes de roubo:
PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO
PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. ROUBO MAJORADO. PRISÃO PREVENTIVA.
AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
CARACTERIZADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM
CONCEDIDA, DE OFÍCIO.
1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram orientação no sentido de
que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a
hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada
a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. 2. A prisão
preventiva, nos termos do art. 312 do CPP, poderá ser decretada para garantia da
ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou
para assegurar a aplicação da Lei Penal, desde que presentes prova da existência
do crime e indícios suficientes de autoria. 2. No caso, não foram apontados, na
decisão que decretou a prisão preventiva do paciente, quaisquer dados concretos a
justificar a segregação provisória, sobretudo quando considerada sua
primariedade, seus bons antecedentes, residência fixa, bem como o fato de ter
permanecido em liberdade durante o curso das investigações, sem qualquer
demonstração de que tenha prejudicado a colheita de provas ou tentado frustrar a
aplicação da Lei Penal. 4. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de
ofício, para revogar a prisão preventiva imposta ao paciente, mediante a aplicação
de medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP, a critério do Juízo de primeiro
grau [ ... }
Nessa entoada, assim vem se manifestando a
jurisprudência dos Tribunais:
PENAL E PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO.
CORRUPÇÃO DE MENOR. EXCESSO PRAZO. NÃO CONHECIMENTO.
AUSÊNCIA DE MANIFESTAÇÃO DO JUÍZO DE PISO. SUPRESSÃO DE
INSTÂNCIA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO NA DECISÃO DE PRISÃO
PREVENTIVA. PROCEDÊNCIA. CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS.
PACIENTE PRIMÁRIA, BONS ANTECEDENTES E ENDEREÇO CERTO.
HABEAS CORPUS PARCIALMENTE CONHECIDO E ORDEM CONCEDIDA.
SOLTURA DA PACIENTE, MEDIANTE LIBERDADE PROVISÓRIA COM
IMPOSIÇÃO DE MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO,
ELENCADAS NO ART. 319, I, II, IV E V, DO CPP.
1. A alegação de excesso de prazo na formação da culpa, ainda não foi apreciada
pela instância de origem, de forma que não pode esta Corte usurpar-lhe a
competência e substituí-la no exame da matéria, sob pena de incorrer em indevida
supressão de instância. 2. Consoante o art. 321 do CPP, se o juiz verificar a
ausência dos requisitos que autorizam a decretação da prisão preventiva, deve
conceder ao preso liberdade provisória, impondo, se for o caso, as medidas
cautelares previstas no art. 319, observados os critérios de necessidade e
adequação do art. 282, I e II, do CPP. 3. No presente caso, a decisão que decretou a
prisão preventiva carece de fundamentação, posto que se utilizou de
fundamentação por demais genérica, não inserindo quaisquer dados concretos que
justificassem o periculum libertatis da indigitada, valendo-se ressaltar que,
diferentemente dos comparsas, a paciente não responde a qualquer outra ação
penal. 4. Como se não bastasse, o juízo impetrado, de forma teratológica,
reconheceu que as circunstâncias da paciente não indicavam grave risco à ordem
pública, tampouco à aplicação da Lei Penal, a ponto de tornar a prisão preventiva
imprescindível, somando-se à primariedade e menoridade relativa da ré, substituiu
a prisão por domiciliar, nos moldes previstos no art. 318 do CPP, em afronta as
disposições do art. 318-A, I, do CPP, por se tratar de delito cometido com grave
ameaça à pessoa. 5. Revelando o conjunto probatório que as condições de caráter
pessoal são favoráveis, por se tratar de ré primária e detentora de bons
antecedentes e residência fixa, concede-se a liberdade provisória da paciente com a
imposição das medidas cautelares previstas nos incs. I, II, IV e V, do art. 319 do
CPP. 6. Habeas corpus parcialmente conhecido e, nessa extensão, ordem concedida
[ ... ]
Processual penal e penal. Writ substituto de recurso ordinário: admissibilidade. A
gravidade do crime e a afirmação abstrata de que o réu oferece perigo à sociedade não
bastam para a imposição da prisão cautelar. O fundamento utilizado para a conversão da
prisão em flagrante em preventiva é genérico, possível de ser adotado em qualquer
situação em que seja apurada a conduta de tráfico de drogas. Ordem concedida. I.
Embora o presente habeas corpus tenha sido impetrado em substituição a recurso
ordinário, esta segunda turma não opõe óbice ao seu conhecimento. II. A jurisprudência
desta corte é no sentido de que não bastam a gravidade do crime e a afirmação abstrata
de que o réu oferece perigo à sociedade para justificar a imposição da prisão cautelar ou
a conjectura de que, em tese, a ordem pública poderia ser abalada com a soltura do
acusado. Precedentes. III. O fundamento utilizado para a conversão da prisão em
flagrante em preventiva é genérico, possível de ser adotado em qualquer situação em
que seja apurada a conduta de tráfico de drogas [ ... ]
a) Da ausência dos requisitos para a manutenção da custódia
Caso não seja este o entendimento deste E. Tribunal, deve ser concedida
ao paciente a liberdade provisória, ante à ausência dos requisitos necessários à
decretação da prisão preventiva.
Isto porque não se pode alegar ser a manutenção da custódia necessária à
garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução
criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal. E a não ser que tais critérios
estejam demonstrados pormenorizadamente quando da decretação da prisão preventiva,
não se sustentaria a assunção de sua existência pela simples alusão ao fato típico que
está sendo imputado ao paciente. Nem caberia a esta a comprovação da sua ausência.
Não se pode inverter a presunção de inocência prevista como princípio constitucional
basilar.
No que tange à garantia da ordem pública, ressalta-se que o crime
supostamente praticado pelo paciente não se caracteriza pela violência ou grave ameaça,
revelando-se inadmissíveis as assertivas lombrosianas acerca da periculosidade do
agente e sobre sua medida de responsabilidade no fomento de outras ocorrências.
Não há fundamento, de outra sorte, para que deva ser mantida a prisão do
paciente como exigência para assegurar a instrução criminal, uma vez que não há nos
autos prova de que, em qualquer momento, possíveis testemunhas tenham sido
ameaçadas de alguma maneira pelo paciente.
No tocante à hipótese de que deve ser assegurada a aplicação da lei
penal, cumpre ressaltar que o paciente possui residência fixa, conforme afirmou em
sede administrativa, não havendo motivos, portanto, para se afirmar que aquele se
furtará à eventual aplicação da lei penal.
Concluindo: ausentes estão os requisitos autorizadores da constrição
cautelar.
Outrossim, quanto à alegação de que o crime seria de extrema gravidade,
cabe ressaltar: a fundamentação da decretação ou manutenção da prisão é vinculada.
Eventuais riscos (art. 312 do CPP) quanto à soltura da indiciada à sociedade deve estar
lastreado em indícios veementes constantes dos autos, não em meras conjecturas,
presunções ou vaguezas – ou a alegação quanto à gravidade abstrata do delito. Desta
feita, está-se diante de obrigatoriedade de fundamentação da decisão judicial, não
importando se decrete ou denegue esta a prisão (consoante o disposto no artigo 315 do
Código de Processo Penal). Não basta alusão aos critérios previstos, e sim o seu
aferimento inconteste no caso concreto.
Assim:
EMENTA Habeas corpus. Processual penal. Homicídio qualificado.
Prisão preventiva mantida na sentença de pronúncia. Inexistência de
fundamentos idôneos que justifiquem a manutenção da custódia.
Concessão da ordem. Precedentes da Corte. 1. Embora o crime seja de
natureza hedionda, importa reconhecer que o decreto constritivo não
apresenta fundamentação concreta e individualizada a justificar a
segregação cautelar. 2. Para que o decreto de custódia cautelar seja
idôneo, é necessário que especifique, de modo fundamentado,
elementos fáticos concretos que justifiquem a medida, o que não ocorre
na espécie. 3. É da jurisprudência da Corte o entendimento de que "a
legalidade da decisão que decreta a prisão cautelar ou que denega
liberdade provisória deverá ser aferida em função dos fundamentos que
lhe dão suporte, e não em face de eventual reforço advindo dos
julgamentos emanados das instâncias judiciárias superiores (...). A
motivação há de ser própria, inerente e contemporânea à decisão que
decreta (ou que mantém) o ato excepcional de privação cautelar da
liberdade, pois a ausência ou a deficiência de fundamentação não
podem ser supridas 'a posteriori'." (HC nº 98.821/CE, Segunda Turma,
Relator o Ministro Celso de Mello, DJe de 16/4/10). 4. Ordem
concedida para revogar a preventiva do paciente e, de ofício, estendida
ao corréu, se por outro motivo não estiverem presos. (HC 101980/SP –
Min. Rel. Dias Toffoli – DJ em 11/05/2010 –)
Entendimento este seguido pelo E. Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, em decisão recente no Habeas Corpus Nº 990.10.204732-6:
“Pensa-se, que, para o caso haveria de ser dispensável a custódia
preventiva. É que, o douto Magistrado de origem, para recepcionar pleito
de prisão preventiva, reportou-se apenas à garantia de ordem pública, a
conveniência da instrução criminal e a eventual aplicação da lei penal, de
maneira absolutamente genérica. Afinal de contas, não se visualiza, no
decisório que deferiu a prisão preventiva, fundamentação adequada para
a grave restrição de liberdade. Fala-se em garantia da ordem pública,
conveniência de instrução criminal e aplicação da lei penal, sem se
gastar uma linha sequer para esclarecer a motivação, na exata
diretriz da norma do artigo 312 do código de Processo Penal.”
Com efeito, a lei 12.403/11, cujo propósito principal é tentar corrigir os
excessivos e abusivos decretos de prisão preventiva, encampou a ideia de que a prisão,
antes do trânsito em julgado da sentença condenatória, deve ser reservada às situações
em que, de fato e devidamente comprovado e fundamentando, não for possível a
substituição por outra medida cautelar, medidas estas previstas, agora, no artigo 319 do
Código de Processo Penal.
Em suma, a nova lei se resume na observação do princípio da presunção
da inocência: simplesmente coloca o diploma processual penal em sintonia com a
Constituição Federal, no sentido de que a prisão processual apenas e tão-somente
poderá ser decretada, caso realmente não haja outro meio para garantir a satisfação da
futura e eventual tutela jurisdicional. Conforme a Carta Magna, a liberdade é a regra, e a
prisão, a exceção.
Ainda, de acordo com o jurista Luiz Flávio Gomes, a prisão
preventiva não é apenas a ultima ratio. Ela é a extrema ratio da ultima ratio. A
regra é a liberdade; a exceção são as cautelares restritivas da liberdade (art. 319,
CPP). (Prisão e Medidas cautelares – Comentários à Lei 12.403/2011. São Paulo:
RT, 2011.)
Fernando Pereira Neto, por seu turno, traçando críticas positivas à
nova lei, afirma: “O que faz a nova lei, em apertada síntese, é simplesmente efetivar
o tão badalado princípio da presunção de inocência consagrado em nossa
Constituição. A reforma da Lei 12.403 elimina a péssima cultura judicial do país de
prender cautelarmente os que são presumidos inocentes pela Constituição Federal,
tendo como base, única e exclusivamente, a opinião subjetiva do julgador a respeito
da gravidade do fato.” (FERNANDO PEREIRA NETO,
http://rionf.com.br/archives/1187). (g.n.).
Ante todo o exposto, ausentes os requisitos necessários à manutenção da
custodia, de rigor a revogação da prisão preventiva, expedindo-se em favor do paciente
o competente alvará de soltura.
II. Da Ordem Liminar
Apontada a ofensa à liberdade de locomoção do paciente, encontra-se
presente, in casu, o fumus boni iuris.
No mesmo sentido, verifica-se a ocorrência do periculum in mora, pois a
liberdade do paciente, primário, somente ao final importará em inaceitável e temerária
manutenção de violação ao seu status libertatis.
Presentes, portanto, os requisitos autorizadores da medida liminar.
III. Do Pedido
Ante todo o exposto, não restando devidamente caracterizado o crime de
tráfico de drogas, requer a impetrante à concessão LIMINAR da ordem, para que seja
relaxada a prisão do paciente, com a imediata expedição de alvará de soltura em favor
deste. Requer, outrossim, seja o presente pedido de habeas corpus julgado procedente
ao final, confirmando-se a decisão liminar.
Caso não seja este o entendimento deste E. Tribunal requer-se a
concessão liminar da ordem, para que seja revogada a prisão preventiva, ante à ausência
dos requisitos necessários à manutenção da prisão cautelar. Requer, ainda, seja o
presente pedido de habeas corpus julgado procedente ao final, confirmando-se a decisão
liminar.
Subsidiariamente, requer seja aplicada qualquer das medidas cautelares
previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal, de forma preferencial, aquela
consistente no comparecimento periódico em Juízo, de forma a privilegiar a ulima ratio
da Lei 12.403/2011: a prisão processual como medida extrema, nos moldes como vem
sendo defendido pela doutrina penal e criminológica moderna.
Requer-se, por derradeiro, quando do julgamento do presente writ
pela Douta Turma Julgadora, caso já haja sentença condenatória proferida pela
autoridade coatora e sendo mantido encarcerado o paciente, seja a ele concedido o
direito de apelar em liberdade, pelos idênticos motivos expostos na presente
impetração.
Nesses termos,
pede deferimento.
Cabo de Santo Agostinho, 17 de Julho 2020.
LINDEMBERGUE GOMES DE FREITAS
OAB/PE Nº 34.128
AILTON LUIZ DE BRITO
CPF N° 042.543.114-27