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W W W. DI A RIOINS U L A R .

CO M

257 # 09.03.2008
Jornal Diário | Ano LX I | Nº19007 | 0,55 e
Fundado em 1946 | Terceira | Açores

efeméride

em nemésio
Açorianidade
museu aberto 062 NOTA DE ABERTURA
FOTOGRAFIA antónio araújo José Lourenço

Computador Portátil
04 Vitorino Nemésio - 30 anos depois
Nemésio:
[REPORTAGEM] em nome da açorianidade
1.Em 1975, Vitorino Nemésio redige

12 Francisco Coelho e Reis Leite


quatro textos – que “Diário Insular” pu-
[PERSPECTIVAS] blicou, na íntegra, nesse ano e que re-
edita nesta edição – onde recupera o

14 Maduro-Dias
conceito de “Açorianidade” para se in-
[VELA DE ESTAI] surgir, embora de forma pouco estri-
dente, contra a convulsão política que

16 Celebrar Nemésio
se vivia no País e nos Açores nessa altu-
[REPORTAGEM] ra. Os quatro textos de Vitorino Nemé-
sio são, ao mesmo tempo, um grito de

18 Luiz Fagundes Duarte


revolta contra a indefinição política que
[FOLHETIM] grassava em Portugal, particularmente
nesse ano, a defesa da calma “ilhoa”,

20 Principezinho de Saint-Exupéry
mas também um contributo para a rea-
[REPORTAGEM] firmação – e eventuais esclarecimentos
– da “Açorianidade”, conceito que defi-
niu em 1932. Entretanto, na Praia da Vi-
tória, decorreram, recentemente, cele-
brações, a propósito do trigésimo ani-
versário da sua morte. O que mais ficou
evidente foi a natureza açoriana enraiza-
da na pessoa do escritor praiense que,
crescendo por esse mundo fora, mante-
ve e fermentou o espírito da açorianida-
de que ele próprio inventou na palavra.
2.Filipe La Féria trouxe a Angra uma
adaptação para teatro de “O Principe-
zinho”, a obra de referência do nosso
imaginário infanto-juvenil. Recorrendo
às potencialidades que o texto ofere-
ce ao nível da dramaturgia e também
às novas tecnologias (vídeo, som e
luz), Filipe La Féria deu um toque mui-
to peculiar a uma história que encan-
ta gerações e que se baseia na poesia

24 Guilherme Marinho
e no imaginário de um pequeno prínci-
[OPINIÃO] pe que vive num asteróide e que visita
a terra. A obra-prima do francês Antoi-

25 Arnaldo Ourique
ne de Saint-Exupéry tem 80 milhões de
[OPINIÃO] livros vendidos, em cerca de 500 edi-
ções, distribuídas por quase 160 lín-

26 Fernando Lopes
guas, sendo a obra mais lida em todo
[DESPORTO] mundo depois da Bíblia.
3.Graças aos seus métodos inovado-

28 Sugestões
res, Fernando Lopes revolucionou o fu-
Computador Portátil, Hewlett Packard, nitor de LCD (cristal líquido) considerado grande, e, como [AGENDA] tebol terceirense nas décadas de 60 e
Portable Vectra CS. acessório, um adaptador para um monitor externo. Este 70, conquistando diversos êxitos ao ser-

29 Cartoon
Séc. XX. C 41,5 x L 35,5 x A 9 cm. MAH.R.2008.128. computador portátil foi introduzido no mercado em 1987. viço do União Praiense, SC Praiense e,
Disponível em duas configurações de armazenamento – Todavia, devido à sua dimensão e custo significativo, o [TIRO&QUEDA] sobretudo, SC Angrense. Crítico da Sé-
duas drives de disquetes ou uma drive de disquete e um Vectra CS não teve sucesso. rie Açores, defende as virtudes da for-
disco rígido de 20MB –, o Vectra CS apresentava um mo- Este computador pertence ao acervo do Museu de Angra do Heroísmo. mação.

DI DOMINGO  09.MARÇO.2008
reportagem rui messias fotografia António araújo Os quatro textos que Vitorino Ne-

mésio faz publicar na Imprensa são, ao mesmo tempo, um grito de

revolta contra a indefinição política que grassava em Portugal

em 1975, a defesa da calma “ilhoa”, mas também um contributo para

a reafirmação – e eventuais esclarecimentos – da “Açorianidade”,

conceito que definiu em 1932.

No convulso ano de 1975, Vitorino Nemésio redige fora sobre o rumo a seguir.
quatro escritos (dois deles publicados, primeiro, no E nesses textos Vitorino Nemésio não só recupera os
Jornal Novo) onde se insurge contra as sucessivas traços essenciais que havia definido no seu texto de
celeumas que se iam dando nos Açores, particular- 32 (“O Açoriano e os Açores”) como se coloca ao la-
mente as tentativas políticas de influenciar o curso do da vontade insular pela autonomia.
da vontade autonómica que sagrava no arquipélago. “Os Açores sentem-se como gente – este é um facto.
Recuperando os traços essenciais da “Açorianidade” São uma forte variedade de nação portuguesa criada
– que definira em 1932 – o escritor praiense – “ilhéu em meio milénio no isolamento norte-atlântico. Se
e cidadão do mundo” – usa o conhecimento intrín- geograficamente distribuem os ventos e índices tér-
seco que da alma insular tinha para explicar aos lo- micos que hão-de tocar à Europa, porque demónio,
cais e aos “continentais” que o povo das ilhas nada politicamente, não decidirão das correntes de ideias
queria das revoluções, dos activismos e do confronto e interesses que os agitam, das instituições que lhes
ideológico que se registava no resto do território na- convêm?”, escreve a 05 de Outubro, no texto intitu-
cional: «(…) ilhas de má morte para a politização de lado “Açores: de onde sopram os ventos”, o tercei-
encomenda, para onde é pena não se poder mandar ro da série.
meia dúzia de chaimites e uns milhares de pistolas- E é neste texto que Nemésio critica a postura de mui-
metralhadoras com hortênsias em de vez dos cravos tos nacionais para com o arquipélago: «Seja qual for
que já faltam nos canos. a configuração de direito público que o povo dos
Se bem que ilhéu, depois de morto, ainda dá coice», Açores venha a tomar, o que é notável, imediatamen-
escreveu num desses textos. te histórico, é o grau de consciência a que chegou da
vitorino nemésio «Ao sol ouro-verde do amanhecer da minha velha sua singularidade territorial e cívica. Já se falou de

Em defesa da
Angra, entregue ao acaso de ruas e travessas, nis- «Estado federado», que um alto responsável decla-
to eu pensava, e entendia então que ninguém de fo- rou «imaturo». Ora, o que é imaturo significa também
ra parte tem nada que ensinar a esta gente», escre- que pode vir a amadurecer. (…) Felizmente a «aço-
veu noutro. rianidade», a força do carácter açoriano, só é pes-
Os quatro textos – publicados entre Setembro e Ou- te para certos progressistas que fazem imperialismo,

Açorianidade
tubro no Diário Insular – traçam o perfil do açoriano, como Monsieur Jourdain fazia prosa, sem se aperce-
fazendo, em paralelo, denotar a simpatia de Nemé- berem de tal. Para nós outros, meus natos, contuma-
pormenor do quadro de antónio dacosta | museu de angra do heroísmo sio pela estabilidade construída nas ilhas durante vá- zes, açorianidade é o nosso modo de afirmação no
rios séculos. mundo e alma que sentimos, na forma de corpo que
“Perante as injunções do «processo revolucionário» levamos”, assume, para logo garantir que esta vonta-
o açoriano, em geral, reage mal. Apesar de ter mui- de de se governar não é sinónimo de qualquer senti-
to a reivindicar no plano da justiça social, põe acima mento separatista ou de procura de uma identidade
Em 1975, Vitorino Nemésio redige quatro textos – que Diário de tudo o nível da paz existencial e pública que atin- diferente da assumida durante séculos.
giu. Detesta que o catequizem em nome de qualquer “Lusos somos, português falamos, com o algarvio
Insular publicou na íntegra nesse ano e que reedita nesta forma de progresso”, alega Vitorino Nemésio no pri- e o baiano, o minhoto e o madeirense, o cabo-ver-
meiro texto, intitulado “Açores, gente arcaica”, que diano e o nativo do Rio Grande do Sul, que povoa-
edição – onde recupera o conceito de “Açorianidade” para leva, primeiro, à página no Jornal Novo – quase co- mos. Lá está Portugal, Alegre, antigamente chamado
mo um aviso à navegação – e depois deixa publicar «dos Casais («açoritas», como lá dizem), para o po-
se insurgir, embora de forma pouco estridente, contra a no Diário Insular (a 23 de Setembro de 1975), abrin- voar com alguns milhares de descendentes de nos-
do a série de quatro redacções que, em boa verdade, sos avós emigrantes, idos em arca de Noé com suas
convulsão política que se vivia no País e nos Açores nessa demonstram a vontade do escritor em intervir, em, mulheres, enxadas, vestimentas, nomes – os Barce-
usando a sua prosa, lançar mão dos valores que su- los, os Goulartes, os Terras, os Ornelas que dos lago-
altura.» portam a alma açoriana e alertar para dentro e para ais de São Pedro às raias do Paraguai e da Argentina

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ainda hoje proliferam”, sublinha. rino Nemésio (que no texto “De onde sopram os Açores, gente arcaica?
Dos quatro textos – embora o último, publicado a ventos”, publicado a 05 de Outubro de 1975, ex- É fácil surpreender a atitude das populações dos Açores na
15 de Outubro de 1975, Nemésio demonstre não ter plica essa influência) observou a terra, procuran- tremenda crise histórica que vivemos. Outro tanto não direi da
vontade de ser mais um escritor ao serviço da polí- do no empirismo do quotidiano a alma do ilhéu. focagem dos problemas que as preocupam, cujas soluções a
tica – ressaltam os traços que o escritor, anos antes, Por isso, considerou o micaelense o mais trabalhador, longo prazo se não deixam formular com transparência. Pe-
definira como característicos do povo açoriano. o mais introvertido e talvez o mais rude nos tipos ru- rante as injunções do «processo revolucionário» o açoriano,
Gente calma, ordeira, acostumada à solidão, com rais, o terceirense bem menos trabalhador, mais fes- em geral, reage mal. Apesar de ter muito a reivindicar no pla-
uma vida marcada pela dureza, mas assente nos va- teiro e convivente, com traços de certa manha rural, no da justiça social, põe acima de tudo o nível da paz existen-
lores da família, da honra e do trabalho. Gente que agrupando a ele os açorianos “das ilhas de baixo”. cial e pública que atingiu. Detesta que o catequizem em nome
prefere a paz e o sossego ao rebuliço da urbanidade, Nessa caracterização, o escritor destacou o pico- de qualquer forma de progresso. Isso, para ele, equivale a di-
mas indivíduos capazes de reagir perante situações ense, chegando ao ponto de o considerar a “na- zerem-lhe que é retrógrado – não o consente, como quem lho
contrárias ao seu credo. ta do insulano”: “homens do mar, homens de pa- diz é «continental», em regra, ou se apoia em critérios e na au-
“Os casos contados de «continentais» actualmente lavra, dando conta da vida com frontalidade e brio”. toridade da metrópole, o ilhéu ou finca-se, rejeita o ferrete.
marginalizados ou mesmo expulsos das ilhas pelos Nos textos que escreveu sobre os Açores – pensa- Para se entender isto é preciso ter convivido muito nestas pla-
naturais indignados devem-se ao papel sectário que dos, sobretudo, para mostrar ao mundo o seu mun- gas, nestes rincões de apartamento, de solidão saturada. A
se prestaram a desempenhar no recente improviso do, a sua terra natal – Nemésio fixou o torpor da ne- imagem do «continental», hoje transtornada, era benvinda nas
ilhéu revolucionário. Mas até com patrícios que to- gra lava, imagem constante no seu imaginário, feito ilhas. A gente de fora tinha para o ilhéu o prestígio dos meios
maram idêntica posição o ilhéu procedeu da mesma de homens rijos, de honra, extraídos da solidão im- grandes, o antigo contacto da corte, da capital, da moda. Só
maneira, como ainda há pouco tempo nesta ilha Ter- posta pelo mar pela necessidade da sobrevivência. era detestado o exactor, o magistrado prepotente, o burocrata
ceira, onde escrevo”, conta Nemésio do “Açores, gen- A sua “Pátria Açoriana” acabou resgatada pelas nar- que se dava ares de dono de roça.
te arcaica”, relatando a história de um jovem local rativas autonomistas, consagrando-se como a subs- Mas o tipo de intruso acintosamente assumido era relativa- romperam no aeroporto, sem quererem saber do controlo, até
que, portador de documentos de activistas no Con- tância teórica justificadora da diferenciação dos ha- mente raro. Ou o funcionário de fora se mostrava alérgico ao ao terminal. Aí, em acalorado diálogo com o comandante do
tinente, foi acompanhado por uma extensa comitiva bitantes das ilhas. clima, aos usos, à lentidão das gentes – e muitas vezes era primeiro avião a partir, obrigaram-no a receber o proscrito a
até ao aeroporto e recambiado para a metrópole no Nessa altura, e mesmo em intervenções posteriores, ele próprio que, não podendo mais, partia – ou se resignava bordo apesar de não incluído na lista de passageiros sem le-
primeiro avião que deixou a Terceira. Nemésio sempre garantiu a sua falta de vontade em ao diferente e até, em muitos casos, se adaptava entusiásti- var a pasta dos «dossiers» que previamente confiscaram. Tudo
“O exemplo citado pertence à tipologia de levantes assumir-se como interventor político, como agente co ao modo de viver insular, exaltando a paisagem, adoran- isto com resistência manifesta à intervenção da autoridade e
de uma sociedade de um querer colectivo arcaiza- de mudança, ou mesmo como autor de palavras com do os pitéus – a alcatra, as lapas – e em tudo revelando-se clara decisão de ali jogarem as últimas.
do, - a mesma que outrora esbulhada das suas rega- intuitos para além da escrita e da busca pela identi- conforme. Imediatamente a sociedade insulana naturalizava Semelhante estado de espírito de uma população proverbial-
lias costumeiras de pastorícia, ia «esborralhar» (der- dade da sua terra natal. Deixou claro que a sua “aço- o adventício. Ilhéu e continental passavam a viver como deus mente pacata mostra bem até que ponto o seu sentimento de
rubar) alta noite as paredes de lava solta que duran- rianidade” resultava da vontade em explicar aos ou- com seus anjos. autodeterminação chegou. O exemplo citado pertence à tipo-
te o dia alguns deles embuçados, tinham erguido, tros o mundo onde nascera. E como não havia assim ser se as ilhas se povoaram de gente logia de levantes de uma sociedade de um querer colectivo
pagos à jorna por grandes proprietários usurpadores No entanto, no primeiro dos quatro textos com que do Minho e da Beira, do Algarve e em geral do Tejo ao Sul com arcaizado, - a mesma que outrora esbulhada das suas rega-
de baldios ou mesmo apenas empenhados em re- reage às convulsões políticas e sociais em curso no fortíssimos contingentes de colonos, como o provam em parte lias costumeiras de pastorícia, ia «esborralhar» (derrubar) alta
cuperar pastagens de que, durante longos pousios, País em 1975, após a Revolução dos Cravos, assim dos documentos e sobretudo a etnografia das formas da habi- noite as paredes de lava solta que durante o dia alguns deles
os criadores de gado pobres se tinham costumado a como nos Açores, Vitorino Nemésio mostra-se mais tação e do rarulato em certas ilhas e zonas delas. embuçados, tinham erguido, pagos à jorna por grandes pro-
usufruir em compactuo. interventivo. Sem falar dos madeirenses e de alguns flamengos que na pri- prietários usurpadores de baldios ou mesmo apenas empe-
A estes bandos paroquiais de revindita chamavam “Escrevi à pouco, daqui um artigo nos Açores, sem meira hora rumaram aos Açores (e os madeirenses que eram, nhados em recuperar pastagens de que, durante longos pou-
Justiça da Noite. Os actuais, motorizados, à escala da problemas, para hoje me vir enredar nalguns desses senão continentais deslocados, com menos de um século de sios, os criadores de gado pobres se tinham costumado a usu-
ilha, serão talvez crismados de Justiça Noite e Dia”, mesmos problemas que então quisera evitar. Como- vida à Robinson?), todo o fôlego humano que respira à flor fruir em compactuo.
sublinha Nemésio. dismo reutróide fruto da fadiga de velho? Um pou- da cordilheira atlântica veio do Portugal ibérico. Só é preci- A estes bandos paroquiais de revindita chamavam «Justiça da
Segundo o cronista praiense, em 1975, permanecem co. Mas sobretudo desencanto, autêntico desânimo so abrir casilhos, de excepção para alguns hebreus, e para Noite». Os actuais, motorizados, à escala da ilha, serão talvez
nas ilhas os mesmos sentimentos que, em 1932, des- de um português ilhéu que viveu tempos convulsos algum tardio polvilho de ingleses e franceses comerciantes. crismados de «Justiça Noite e Dia». Em todo o caso, um claro
crevera como elementos cruciais do “ser-se ilhéu”. – regicídio, duas guerras mundiais, várias batalhas Pouco mais. contra-sinal de tempos de escalada bandeada do poder, em
O açoriano é “um português da segunda metade nas colónias, um câmbio de regime ou dois (28 de Os casos contados de «continentais» actualmente marginali- que minorias activistas, ajuramentadas no secreto e de qua-
de Quatrocentos, introduzindo nele os coeficien- Maio), a Monarquia do Norte, a Camioneta-Fantas- zados ou mesmo expulsos das ilhas pelos naturais indigna- dros bem pagos, projectam destruir o clássico Estado de Di-
tes de correcção que o viveiro insular elaborou”, co- ma… Nada porém comparável a esta convulsão apo- dos devem-se ao papel sectário que se prestaram a desempe- reito, para sobre a «terra queimada» levantarem outro Esta-
mo escreveu no artigo “O açoriano e os Açores”, re- calíptica que oxalá ainda traga no ventre a verdadei- nhar no recente improviso ilhéu revolucionário. Mas até com do com outro Direito, mas este totalitário e social-fascista (co-
publicado no seu livro “Sob os Signos de Agora”. ra Revolução”, reconhece. patrícios que tomaram idêntica posição o ilhéu procedeu da mo agora se diz).
“Meio milénio de existência sobre tufos vulcânicos, mesma maneira, como ainda há pouco tempo nesta ilha Ter- Escrevi à pouco, daqui um artigo nos Açores, sem problemas,
por baixo de nuvens que são asas e de bicharocos DI republica nesta edição os quatro textos da ceira, onde escrevo. Um jovem sindicante, daqui natural, sus- para hoje me vir enredar nalguns desses mesmos problemas
que são nuvens, é já uma carga respeitável de Tem- autoria de Vitorino Nemésio, redigidos em peito de portador de um rol de pessoas a sanear, de posições que então quisera evitar. Comodismo reutróide fruto da fadi-
po - e o tempo é espírito em fieri (...)”, escreveu. 1975. Os documentos foram editados em qua- chave a garantir, além de trazer instruções para reintegrar, in- ga de velho? Um pouco. Mas sobretudo desencanto, autêntico
“Como homens estamos soldados historicamente tro edições de Diário Insular: um em Setem- demnizando-os, militantes activistas que haviam sido segrega- desânimo de um português ilhéu que viveu tempos convulsos
ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat bro (“Açores, gente arcaica?”), e três duran- dos dos quadros do trabalho onde pressionavam os camara- – regicídio, duas guerras mundiais, várias batalhas nas coló-
a uns montes de lava que soltam da própria entra- te o mês de Outubro: “Uma cidade das ilhas das e seguidamente expulsos da ilha, foi por sua vez obrigado nias, um câmbio de regime ou dois (28 de Maio), a Monarquia
nha uma substancia que nos penetra. A geografia, contesta”, “Açores: de onde sopram os ven- a abandoná-la imediatamente. A multidão procurou-o em ca- do Norte, a Camioneta-Fantasma… Nada porém comparável
para nós, vale outro tanto como a história (...)”, fi- tos” e “O cavaleiro da figura triste”. São, actu- sa, fez-lhe o ultimato. Não contente com as promessas de êxo- a esta convulsão apocalíptica que oxalá ainda traga no ventre
xou, resumindo em palavras o sentimento do povo almente, tidos como um complemento ao tex- do em poucos dias, obrigou o jovem a vestir-se sumariamen- a verdadeira Revolução.
que habita as ilhas perdidas no meio do Atlântico. to de 1932, onde define “Açorianidade”. te e a acompanhá-la.
Influenciado pela “Hispanidad” de Unamuno, Vito- Duzentos ou mais automóveis seguiam o carro do detido e ir- Publicado no Diário Insular nº8805, de 23 de Setembro de 1975, pág. 1 e 4.

DI DOMINGO  09.MARÇO.2008 DI DOMINGO  09.MARÇO.2008


Uma cidade das ilhas contesta acentuar, com o aspecto «político», que um regime já pelo me-
A minha velha cidade de Angra acordou cedo. Venho da pon- nos teoricamente conquistado não basta, não satisfaz. E ain-
ta sudeste da ilha (Terceira), de onde a costa sul inflecte, pela da: emancipação, separação, com os correspondentes eman-
Ponta da Mina, nas lavas de Porto Martim. O vizinho que me cipalismo e separatismo.
deu boleia e vai para a sua loja é filho de continental. O pai, Mas o vocabulário político é analógico pela origem, mais do
de Vilar Formoso, veio abrir uma agência do Chiado, casou na que nenhum outro, e resolutamente ambíguo no seu empre-
Serreta (O lugar da pousada do encontro Nixon-Pompidou) e go. Com o câmbio de um a outro vocábulo, para a mesma re-
cá ficou. O meu amigo é pois um dos exemplos da camada alidade, o político, sempre jogador, refugia-se de um risco de
continental de população que se estratificou na Terceira a par- lance à mostra numa jogada enigmática, que embarace o ad-
tir dos fins do século XVIII pelo exercício do comércio. versário. Assim o partidário de tal tipo de causa compromete-
A passagem de mão do escol das riquezas da ilha fez-se dos se menos se puser «autonomia» onde pensa «independência».
morgados e de alguma cavalaria vilã para uma alta e média E não necessariamente por temor, senão por táctica. As pala-
burguesia de negociantes de fazendas, logo tornados agen- vras aliviam-se umas às outras, enriquesem-se (sic) pelo em-
tes de comércio externo: armadores de navios laranjeiros, ex- prego imprevisto ou semanticamente gradativo.
portadores de cereais e importadores de panos finos, de chá e Outro sintoma linguístico da impulsividade afirmativa dos Aço-
loiça inglesa, arrematantes de impostos e cambistas. Tudo isto res como etnia ou espaço geográfico originais está no empre-
numa comutação e acumulação de ramos de troca – ora uns, go da palavra «açorianidade». Quem escreve estas linhas pas-
ora outros, e sempre um pouco de todos predominando o tri- sa por inventor desse vocábulo, há bons quarenta anos, Lu-
go quando a laranja não dava, insistindo nas divisas quando ís Ribeiro, o insigne etnógrafo e jurisconsulto açoriano de Os
se intensificou o retorno da emigração – primeiro para o Bra- Açores de Portugal – opúsculo de grande valia, pela posição
sil, depois em caudal para a América. de contraste, para o emancipalismo de hoje – foi um dos que
Os morgados, arruinados, entregavam-se nas mãos dos ne- generosamente me «patentearam» por tão pobre criação vo-
gociantes forasteiros. Às vezes, o casamento destes nas estir- cabular. Porque lia então muitos ensaístas espanhóis, incluin-
pes nobres da ilha sanava os apuros delas. Daqui saíram pró- do o clássico Pi Y Margall de Las nacionalidades, decalquei
ceres do capitalismo liberal, como Henrique Teixeira de Sam- sobre «hispanidade e argentinidade» (Unamuno) o meu «aço-
paio (Conde da Póvoa). Aqui se formou uma alta burguesia le- rianidade».
trada a partir do granel de cereais e da arca da moeda forte. Não faço gala nisso. «Açorianidade» é palavra substantivante
Nomes que já não dizem nada à generalidade dos leitores – enxertada em etnónimo é uma espécie de escolasticismo en-
mesmo ilhéus – mas que pesaram muito no seu tempo. Outros tificador, como se ser açoriano fosse uma «quididade», uma
que apenas saíram do anonimato pelos descendentes, como qualitas, como as que os «médicos à força» atribuíam às «en-
os avós de Jacinto Cândido, o insigne ministro do Ultramar do tidades mórbidas». Ora, bem sabemos hoje que a peste, por
surto africanista de Mouzinho, ou os avós de Aurélio Quintni- exemplo, não é entidade nenhuma, mas uma infecção gan-
lha, o grande geneticista, que deram cartas na economia ter- fachadas adaptadas ás novas necessidades do utilitário, do zer «remedeia», «chega», «é razoável». Pois o ilhéu terceiren- grionar que tem como agente um bacito.
ceirense do princípio do século XIX. plástico, do pronto a vestir. Estas minervas da rua da Rosa e se pode naturalmente não fazer tudo o que promete, mas dá Felizmente a «açorianidade», a força do carácter açoriano, só é
Gerações indolescentes ou fiadas de mais nos rendimentos re- da rua da Palha são gora movidas a correia electrificada, mas sempre um jeito («há-de se amanhar»). Faz sempre um es- peste para certos progressistas que fazem imperialismo, como
cebiam assim o refresco de gente de fora desmunida e em- conservam o mesmo zumbido de mosca do tempo em que, à forço qualquer para que as coisas sigam ou se consigam, um Monsieur Jourdain fazia prosa, sem se aperceberem de tal. Pa-
preendedora. Fora talvez sempre assim. O próprio colono, pri- mão e à pedalada, imprimiam aos meus primeiros versos, com passo construtivo, de boa vontade ao menos como boa pala- ra nós outros, meus natos, contumazes, açorianidade é o nos-
meiro povoador, activo e asceta, que desce a choça de colmo provas de granel tiradas a soco em papel humedecido e, en- vra – o que já é muito e raro. so modo de afirmação no mundo e alma que sentimos, na for-
à alfaia de pau tudo fazia à mão, foi dando lugar ao dono de fim, a tiragem do impressor diante dos meus olhos esbogalha- Ao sol ouro-verde do amanhecer da minha velha Angra, entre- ma de corpo que levamos. E, dizendo isto, não pretendemos
«dadas» já seguro da terra fértil, depois ao filho «encostado», dos de estreante. gue ao acaso de ruas e travessas, nisto eu pensava, e enten- descobrir-nos nalgum novo padrão antropológico, nalgum ra-
que o casamento com fêmea de árvore genealógica desvaro- Quase tudo na mesma e tudo modernizado, numa feliz combi- dia então que ninguém de fora parte tem nada que ensinar a cismo estuito que nos diferencie dos mais. Lusos somos, por-
nilizada e suculenta livrava da mão calosa agarrada à agri- nação de conservadorismo e espírito de iniciativa. Um ou ou- esta gente. Na rua do Rego vi uma casa queimada de fresco, tuguês falamos, com o algarvio e o baiano, o minhoto e o ma-
cultura para sempre. tro dos meus companheiros do liceu entraram na trama dos de activistas. Activistas para quê? Fogo posto para quê? Esta- deirense, o cabo-verdiano e o nativo do Rio Grande do Sul,
Chego de manhã cedo a esta Angra compósita, que nasceu negócios, inventaram nomes expressivos para as firmas, cui- ria eu em Angra ou em Praga? Quem teve a triste ideia de dar que povoamos. Lá está Portugal, Alegre, antigamente chama-
de nautas e armadores como Álvaro Martins Homem e Pedro daram com amor seus nomes nas tabuletas. E aperta-se-me a estes moços a receita do cocktail Molotof? do «dos Casais («açoritas», como lá dizem), para o povoar com
Anes do Canto, provedor das Armadas da Índia. Este fez cais levemente o coração volúvel, a mim que sou filho e sobrinho alguns milhares de descendentes de nossos avós emigrantes,
seu, ao Porto de Pipas, de onde subia para o seu paço dos Re- de comerciantes. Quem sabe? Se lhes seguisse o exemplo? Publicado no Diário Insular nº8811, de 01 de Outubro de 1975, pág. 1 e 3. idos em arca de Noé com suas mulheres, enxadas, vestimen-
médios por rua privativa (ainda hoje «do Armador»), um pou- Provavelmente mais um pobre diabo sem jeito nem sorte, tal- tas, nomes – os Barcelos, os Goulartes, os Terras, os Ornelas
co como os Grimaldi (salva a comparação), do penedo do Mó- vez um falido. Mas o que me interessa, ao nível da velhice, é que dos lagoais de São Pedro às raias do Paraguai e da Ar-
naco dominaram o golfo de Nice. o que não fui e poderia ter sido como parte integrante des- gentina ainda hoje proliferam.
Como o dia está lindo, outoniço, sem chumbo de nuvem, dei- ta ordem urbana, desta súbita consciência do próprio poder Açores: De onde sopram os ventos Não é caso para mandar tocar A Portuguesa, e logo o hino
xo-me levar ao sabor do dédalo das ruas, neste traçado de An- na hora em que tudo se abala e contesta. As lojas, as ofici- Seja qual for a configuração de direito público que o povo dos brasileiro e o hino do Espírito Santo, assim dando uma ajuda
gra, que não tem segundo no país cidade «mediterrânea» no nas, os escritórios lutam na crise – sente-se. Mas há na gen- Açores venha a tomar, o que é notável, imediatamente histó- à simbólica do açor de asas abertas sobre estrelas.
risco, o hospital velho ao pé da alfândega, a rua Direita real- te às portas ou neste trânsito folgazão que é o do ilhéu de vi- rico, é o grau de consciência a que chegou da sua singulari- Ninguém tem pressa nos símbolos, até porque não há nada
mente rectilínea dando sobre a Praça Velha que abre radian- la e cidade, um ar de insistência, acto de fé no esforço (e no dade territorial e cívica. Já se falou de «Estado federado», que mais parecido com uma águia penosa, cria de outra, ou com
te aos «largos simétricos e expressivos»: o do Colégio (dos Je- Senhor Espírito Santo, que até empresta o hino à comunida- um alto responsável declarou «imaturo». Ora, o que é imaturo uma galinha ouriçada a quem querem roubar os nove ovos
suítas), o Alto das Covas (do trigo), o adro da Sé realçado no de veleitária…). significa também que pode vir a amadurecer. da postura para a gemadazinha – desjejum dos dinamizado-
centro da cidade em ruga. Parece-me ouvir de cada boca o «há-de se amanhar» da res- Para exprimir a vontade de unificação açoriana empregam- res, de que um heráldico menos feliz no desenho, que pode
Os prédios são sensivelmente os mesmos da minha adoles- posta a todo e qualquer pedido ou proposta de outrem. Ou, se palavras como independência, autodeterminação, autono- sair macho ou fêmea. Depende do que se lhe achar ou puser
cência de estudantinho angrense. Só que os do centro têm então o «tenteia» - também resposta coloquial, típica, para di- mia – às vezes qualificada de político-administrativo, para se no poleiro…

DI DOMINGO  09.MARÇO.2008 DI DOMINGO  09.MARÇO.2008


Mas – basta de imagens, de metaforismo! Os Açores sentem- O cavaleiro da triste figura
se como gente – este é um facto. São uma forte variedade de Que triste figura fará um escritor à moda antiga, de estilo on-
nação portuguesa criada em meio milénio no isolamento nor- dulante e volátil – ora descritivo, evocador de efemérides, ora
te-atlântico. Se geograficamente distribuem os ventos e índi- circunstancial e confidente, diante destes nossos ideológicos
ces térmicos que hão-de tocar à Europa, porque demónio, po- «post» 25 de Abril, guiados pelo decálogo das liberdades pú-
liticamente, não decidirão das correntes de ideias e interesses blicas e principalmente pelo vocabulário criado à leitura da
que os agitam, das instituições que lhes convêm? A meteorolo- vulgata de Marx e Engels, com medeação de Lenine, Estaline
gia, de que são um posto avançado e um foco de fenómenos, e seus vulgarizadores?
resolve-se fisicamente, registando causas e efeitos. Mas a po- A linguagem forjada nas «tensões», nas «opções», nos «parâ-
lítica dos Açores não é eólica e pluviométrica; resolvem-na dos metros», passa-lhes do metaforismo comum a um meta-meta-
açorianos, na esfera da liberdade. forismo tecido de subentendidos e de implícitos, formalismo
Quem isto escreve é um açoriano de raiz, com dezoito anos conceptual estilizado de violência. No reino das jogadas po-
contínuos de criação insular. Durante eles, só uma vez se au- líticas que impõem a frontalidade unidimensional da dialéc-
sentou da ilha onde nasceu e de que não podia sair, como do tica ao pluralismo acusado de camuflagem fascista (não sei
sotil o pássaro. E foi para ir morar uns meses noutra ilha. Des- se ecoo bem o estilo dos ideólogos) não há lugar para a to-
sa, era mais fácil ir à mais próxima, em sortida – mas sempre lerância nem para o humanismo que abstraia da política mi-
em clausura, em isolamento. Chamam-se Terceira, Faial e Pi- litante da acção directa, da obsessão revolucionária. Decerto
co essas ilhas da minha adolescência. Vemo-las de umas pa- as ideias políticas e sociais foram uma alta preocupação nos
ra as outras, a Graciosa incluída.Essa impressão fronteiriça de mestres da escrita portuguesa, de Garret e Herculano a Ante-
ilha ao alcance de outra, e todavia remota, foi o que mais co- ro e a Oliveira Martins, a Ramalho Ortigão e a Eça de Quei-
moveu o observador da estirpe do autor das Ilhas Desconheci- roz. Nenhum deles porém vendeu a alma ao diabo da obce-
das, Raul Brandão. E é o pouco de oásis que o deserto atlân- cação partidária. Nem sequer os românticos que tiveram de
tico nos consente. amargar o exílio e bater-se nas trincheiras da guerra civil, o
Mas, confinados nas ilhas, não nos consideramos em cárcere. que inevitavelmente lhes acarretou filiação ou aderência no
O sentimento de liberdade nos garante o poder de evasão. A xadrês (sic) dos partidos que tiveram de organizar a vitória
mesma liberdade nos confere domicilio inviolável e nos convi- do liberalismo.
da a emigrar. Como as aves de arribação, que tanto nos bus- Herculano com famas e gestos de cartista, velidades frustra-
cam as rochas, espalhamo-nos pelo mundo: Brasil, América, das de «regenerador» modelo 1850, pôs em causa isso tudo,
Canadá. Eu comecei por chorar sobre a mala de roupa da nos- abriu individualistamente cisão e tudo, sendo embora capaz
sa «empregada» Genuína, quase minha ama seca. Esperava- de ir até ao diálogo benévolo com os jovens corifeus de um
a, na Califórnia, o Manuel Garrancho seu esposo. Essa nunca nascente socialismo entre proudhoniano e «catedrático», prin-
mais cá tornou. O Garrancho dizem que sim, velho e viúvo, de cipalmente com Oliveira Martins. exemplo. Mas (repito), dados ao rol das milícias e partidos dos povos da terra, pão e paz para todos. Quanto ao perfil de
visita, preparando o bem-morrer. Mas eu já andava para lon- Garrett, mais mordido do vírus político, ansioso por ver es- conflituantes, condicionados por uma opinião de «consigne, - Teófilo, saiu-se um pouco perfidamente com esta: «O sr. Teófi-
ge, já era «continental». tampado na folha oficial o seu braçado de reformas, sobretu- ou, para tudo dizer, levados à vara quais perus, mesmo com a lo Braga, que cantou a epopeia da Humanidade em quaren-
Sobre os dezoito anos seguidos da minha meninice ilhoa corre- do das estruturas educacionais e estéticas, militou mais, tran- premissa democrática de escolherem eles próprios e irem des- ta mil versos…».
ram quase sessenta de adaptação à «metrópole», à parte alguns sigiu às vezes. Foi setembrista convicto; moderou-se depois. cansando, adelgaçando a vara – nunca! Pois antes cantar a epopeia da Humanidade em quarenta mil
anos lectivos fora de Portugal, inclusivamente no Brasil. Assim, Mas sempre cioso do seu crivo pessoal, bebendo sempre pelo Teófilo Braga, espírito predisposto para o pensamento e a ac- versos, mesmo duros, camoniana ou virgilianamente anacró-
também a meu modo emigrei, à busca de trabalho. E criei novos seu copo. Enquanto Herculano não passou de deputado recal- ção dogmáticos, foi ao ponto de presidir ao Governo Provisó- nicos, do que passar a vida a saturar os jornais de «impacte»
e fortes laços e amores não ilhéus. Lisboa, Rio, Bahia; Sobretudo, citrante e, no executivo, de presidente de uma câmara muni- rio da nossa primeira República. E tomara antes muitas atitu- e «processo em curso», de «onde disse que sim digo posterior-
Coimbra, que adoptei. Olho, pois, todo o lés do horizonte açoria- cipal de subúrbio (Belém), Garrett visou alto: imprimiu cartões des estritamente partidárias – até em filosofia: naquela única mente não, dadas as tensões que mo aconselham, advertin-
no um pouco já como um estranho. As ilhas ainda são «minhas» de visita com coroa de visconde e título diplomático de «encar- casta de filosofias (depois da hegeliana) capaz de esquema do porém que, na originalidade do nosso rumo ao socialismo,
- o futuro delas não. Tudo o que é português vibra em mim redo- regado de negócios», e foi ministro, conselheiro de Estado. simil-partidário e simil-religioso, o contismo. toda e qualquer afirmativa está dialecticamente sujeita a cau-
brado pela longa experiência na mãe-pátria. A geração de 70 só imolou no altar do executivo a um dos Mas com que desenvolta e acre independência não marcou Teó- ção, e que sou pela negativa alterna sempre que a unidade
Mas, esteja o açoriano onde estiver, e há muito tempo que se- seus ornamentos: Oliveira Martins. E apanharam-no por um filo os seus múltiplos gestos partidários! E com que teimosia he- revolucionária perigue e a contra-revolução ameace os mari-
ja, não repudia a origem. Devidido (sic), talvez desareigado, tris, a título de perito economista e financeiro. Na pasta da Fa- róica – apesar de teimosia – não defendeu ele a sua rica disponi- nheiros no mar, os soldados nos plenários e os moradores nas
nunca. Exemplo, os luso-americanos que de longe votam e so- zenda foi, por assim dizer, um tecnocrata «avant la lettre». bilidade, abertura ao imprevisto, fidelidade ao sonho! Nós é que casas ocupadas, salvo ordem em contrário, em legalidade re-
nham formas de vida colectiva, pouco realistas às vezes, para É certo que Antero de Quental deixou apresentar a sua candi- já não temos paciência para ler as suas «torrentes» de versos, as volucionária».
uns Açores distanciados, que já nem bem são os seus. datura a deputado, pelo Partido Socialista. Claro que perdeu a suas «Tempestades Sonoras”, as suas epopeias hugoescas. Triste figura – comecei eu por dizer. Não a de quem fala a lin-
Resumindo e reatando: seja qual for a configuração de direi- eleição. E, que a ganhasse, é duvidoso se teria levado o man- Numa festa portuguesa, em Paris, preparada em Honra de Te- guagem caricaturada supra, que essa é a que a farmacopeia
to público que o povo dos Açores venha a tomar nesta hora dato até ao fim. Escrupuloso, fazendo uma filigrana da míni- ófilo pelo nosso incansável agente cultural ali, que foi, anos e estilística «up to date» manipula. Mas a minha linguagem de
bem trágica da vida portuguesa, a verdade é que ela assume ma responsabilidade, qualquer toque ou deslize o sensibiliza- anos, o velho Xavier de carvalho, Anatole France não pôde fu- cronista itinerante, caprichoso e egolátrico, que fala de onde
impetuosamente o seu destino. Os nossos irmãos transmonta- va. Decidido e frontal no ataque, sobretudo quando se trata- gir ao convite para orador oficial. A celebridade tem seus gri- esteve e bem se sente. A das minhas crónicas dos Açores do
nos, com bem mais fraco anteparo que o que nos dá o Atlân- va do protesto moral, de uma de princípios )Castilho no «Bom lhões. Anatole acedeu. Mas, claro tinha mais que umas vagas anticiclone e dos «latifúndios» pastoris a meio cento de vacas
tico, costumavam dizer (pois não sei se ainda dizem): - «Para senso e bom gosto»; o Duque de Ávila no encerramento das luzes sobre a situação intelectual do seu elogiando, um próce- (lactifúndios?), ilhas de má morte para a politização de enco-
cá do Marão mandam os que cá estão». Conferências do Casino), desertava facilmente da luta ardilo- re das letras portuguesas com ele, France, o era de França. menda, para onde é pena não se poder mandar meia dúzia
Como não havia de mandar em suas nove casas quem ficou sa e continuada; não era combatente de fibra, para parar e Solução: consultou alguma enciclopédia ou, mais provavel- de chaimites e uns milhares de pistolas-metralhadoras com
«adjacente» à casa dos seus pais históricos apenas em precá- devolver golpes de mão na liça. mente, Xavier de carvalho forneceu-lhe alguns apontamentos hortências em de vez dos cravos que já faltam nos canos.
rias constituições e códigos administrativos? Nenhum desses grandes o foi verdadeiramente, por implante. biográficos sobre o nosso escritor, na pressa. E o malicioso Se bem que ilhéu, depois de morto, ainda dá coice.
Geniosos, bruscos à Herculano – alguns. Procurando na con- Anatole France resolveu o caso num breve discurso de belos
Publicado no Diário Insular nº8815, de 05 de Outubro de 1975, pp. 1 e 3. tenda um brilhante espectáculo: o Garret de «Porto Pireu», por lugares comuns humanísticos – fraternidade universal, união Publicado no Diário Insular nº8823, de 15 de Outubro de 1975, Pág. 1 e 3.

DI DOMINGO 10 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 11 09.MARÇO.2008


PERSPECTI V AS
Francisco coelho

O “FACTO”
reis leite

ESPECULAÇÃO
TAMBÉM SE CRIA… Não sei o que é mais
fantástico em tudo isto,
se a notícia em si, se os
no Regional poderia vir
a candidatar-se, caso
o Estatuto seja aprova-
Eu aceitei e aqui es-
tou tentando cumprir o
acordo.
te do Governo, líder do
PS e grande timoneiro
da Autonomia dito, ju-
comentários à notícia, do depois das próximas A notícia sobre o calen- rado e apregoado que
Os jornais não nos tra- dentro do ritualismo par- ta” é que tal preocupação A ironia só seria mesmo se as especulações so- eleições regionais. dário para a aprovação dois mandatos eram o
zem só notícias. Forne- lamentar, muito mais cer- “democrática” existe, pois completa se o PSD invia- bre a notícia. Os comentários, em que do Estatuto, não sen- ideal em democracia pa-
cem-nos opinião, comen- to do que o tempo medi- que: bilizasse a aprovação por Notícia, em doa verda- até aparecem opiniões do nova, é preocupante, ra ocupar o cargo políti-
tário, publicidade e…an- ático. Mas afinal há unani- a)Não foi o PSD que pro- dois terços desta norma, de, só pode ser consi- de juristas, esses valem porque já se percebeu co de Presidente do Go-
siedades que, por serem midade e manifestações pôs tal medida; que alguns defendem derada a parte referente sobretudo pelos dese- que mesmo com o em- verno Regional, acabado
reais, acabam por se trans- dos partidos no sentido b)Aliás, ainda se está pa- ser necessária para a sua ao calendário da apro- jos do subconsciente purrão, a birra e a ame- o 2º mandato, logo mu-
formar numa real notícia, de, até Junho, termos o ra saber se o PSD nacional aprovação. vação do novo Estatu- dos comentadores. aça do líder do PS nos dou de opinião e acei-
por os sentimentos que Estatuto aprovado. concorda com ela e a vo- Mas a transformação do to Político-Administrati- O meu colega de cróni- Açores, os deputados da tou um terceiro e acaba-
transmitam objectivam-se Mas, além dos títulos fica- tará. Deixará Jardim? quadro legal é bem mais vo da Região Autónoma cas, entusiasmado com maioria não morrem de do este se preparar para
e passam a ser realidade. ram…os sentimentos. O c)Até o PCP-Açores, por importante que as inco- dos Açores. tudo isto, sugeriu que amores pela proposta o quarto?
Vem isto a propósito de PSD/Açores parece muito mor duns dinossáurios erências dos outros, pe- A especulação ocupa nos juntemos às notí- que o parlamento aço- Não é pois de excluir que
uma preocupação que as- apostado no mandato de autárquicos, não morre lo que esperamos que tal quase todo o resto e re- cias, à especulação e ao riano lhes enviou, não se a lei, mesmo sendo a
saltou a nossa comunica- …2012-2016. Já terá de- de amores pelo princípio não aconteça. Como ali- fere-se essencialmente comentário e com esses sendo de excluir que lei que ele propõe (tal-
ção social na última sema- sistido do “quarto”…, que da limitação de mandatos ás os factos são mais im- a um hipotético quinto ingredientes façamos acabem por a deixar vez agora também retar-
na: César pode fazer um vai de 2008 a 2012? E de- para os líderes de órgãos portantes que as sensa- mandato a que o actu- uma crónica para esta morrer na comissão em de) vier a permitir, ain-
quinto mandato! Os fac- pois, só com alguma “la- executivos… ções… al Presidente do Gover- semana. vez de a discutir. da que por mero atraso
tos são…uma mera hipó- Da parte do PSD, tam- de calendário, ele pró-
tese, um grande descon- bém, apesar das “expli- prio aceite um quinto
forto e (pasme-se!) uma cações, reuniões e ou- mandato. E não faltará
conferência de imprensa tras complicações”, não a costumada corte dos
de Costa Neves! se percebe que haja apoiantes, devotos, in-
Porque a cronologia é ou- maior entusiasmo. teresseiros e conselhei-
tra: aquando da sua audi- Quanto aos comentá- ros que lhe dirão ao ou-
ção pela Comissão Parla- rios, o que posso é jun- vido aquilo que preten-
mentar que preparou a re- tar a minha voz à dos de ouvir para descanso
visão do Estatuto, o actu- comentadores, dos ju- de consciência ou seja,
al Presidente do Governo ristas, dos políticos e que é indispensável.
Regional defendeu, na li- dos jornalistas e dizer, Fará como aquela per-
nha das preocupações do tal como eles, que se sonagem da anedota e
seu partido, a limitação de houver vergonha, o que quando lhe pergunta-
mandatos para Presidente nem sempre há, não ha- rem se não sente ganas
do Governo Regional. Tal verá quinto mandato. de abandonar o cargo
proposta foi consagrada e Quanto à especulação... de Presidente, ele res-
seguiu para a Assembleia Bem, quanto à especu- ponderá:
da República, sendo mais lação isso é o mais fácil “Sinto, mas domino-
um aspecto do importan- e até também posso es- me”.
te ímpeto reformador da pecular. Aqui fica o meu contri-
mesma. Pois não é que ten- buto para a especulação,
Afora isso, tudo normal, do o actual Presiden- já que não há notícia.

DI DOMINGO 12 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 13 09.MARÇO.2008


E repito-a: O modo como o sistema está montado ne- património como recurso e estaciona nessa atitude
ga ao património o direito de existir como tal! peregrina que é deixar as pessoas ao Deus dará quan-

VELA DE ESTAI Faz mais: cria aversão e orienta para a sua destruição do precisam de orientação (dialogada, interveniente e
sistemática, por muitos anjos da guarda que hajam! aberta, mas orientação, mais que não seja na pesqui-
Francisco Maduro-Dias Património quer dizer recurso! sa de soluções).
maduro.dias@mail.telepac.pt Recurso é o arroz que posso usar numa canja; recurso Quando as cartas de condicionantes em planeamen-
é o lençol que ponho na cama; a toalha da mesa; o di- to são feitas há dois tipos de condicionantes, pelo me-
nheiro na carteira, por pouco que seja! nos, na cabeça das pessoas: as “que se metem pelos
A ideia de recurso só se termina e acaba quando faze- olhos dentro”, como por exemplo eu não poder, em

A NEGAÇÃO
mos alguma coisa com ele! princípio, fazer uma casa barata numa falésia a pique,
Ora, no que diz respeito ao nosso património cultu- e outras “mais estranhas” que não parecem valer a pe-
ral e natural, dizem-nos preferencialmente para não na ter em conta, como as obrigações de salvaguarda
tocar, não usar, não mexer, e por aí fora uma série de do património cultural e natural.
nãos! Mas há mais! Quando se determina que o incumpri-

DO PATRIMÓNIO
Recurso assim transforma-se em bolor e em peso. Co- mento da lei deve ser anotado pelos serviços, mas que
mo o arroz podre, que poderia ter servido de alimen- a solução a encontrar deve ser procurada pelo particu-
to, mas vai para o lixo (e como já não há porcos de lar requerente, uma, duas, as vezes que for necessário,
criação por aí, nem sequer pode ser reciclado em fu- à sua custa, até conseguir a aprovação do projecto, es-
turas linguiças e presuntos). tá-se mesmo a pedir que ele “se mande ao ar!”.
Puro desperdício! Outra nota ainda interessante é a fórmula oficial fre-
Fala-se em património cultural e natural! património – seja ele cultural imóvel ou seja natural – Por outro lado – e estou a lembrar-me das gravuras de quentemente usada: “nada a opor” ou “há a opor o
Classificam-se coisas e loisas e fazem-se inventários! devem ser resolvidas ao nível do planeamento do ter- Foz-Coa – mesmo quando se proclama futuros usos gran- facto de o requerente desrespeitar o determinado no
Publicam-se livros e organizam-se debates! ritório, como condicionantes e como recursos. diosos, no fim da festa pouco mais fica que o encargo. artigo tal do decreto tal”.
Comemoram-se aniversários e colocam-se legendas Acrescente-se ainda que, quando se trata de produ- É esse o cenário da maioria do património que temos no Não é preciso mais para evidenciar aos olhos de toda
em rótulos de produtos! ção humana, são energia gasta e concentrada com País – mesmo daquele que, bem conservado à custa do a gente que as entidades “protectoras” estão ali pa-
Com isto tudo por aí não devia ser possível continuar um objectivo. erário público ou privado, parece estar mais bonitinho. ra opor ou não opor, mas pouco estarão para ajudar.
a acontecer o conjunto de maus-tratos a que o patri- Vão nesse sentido as leis e regulamentos mais inte- É que boniteza não significa integração. E património E como continua a ser verdade que “se não faz par-
mónio natural e cultural é sujeito diariamente. ressantes, mas, de facto, desde o particular, interes- desintegrado não é património! te da solução faz parte do problema”, está o caldo en-
No entanto acontece! sado numa qualquer obra, ao funcionário, ao político O conjunto de bens que temos por aí, identificados tornado!
E a gente renova as leis de protecção e as leis de pu- que em dado momento ocupa uma cadeira, ao em- como património e bem tratados, são pouco mais que A solução dos “problemas com o património” só exis-
nição. preiteiro e empresário o jogo é feito no sentido de os “enjeitados engravatados”. tirá se nos decidirmos a trabalhar na envolvente eco-
Mas tudo ou quase tudo parece ficar pelos votos pios atirar para as malhas de um sistema que nega ao pa- Dar a volta a isto até seria simples, se as coisas não nómica, social, técnica.
e sem força. trimónio o direito de existir como tal! fossem como são. O Património estuda-se, percebe-se e usa-se fora de-
Cada vez mais estou convencido que as questões do Não é uma afirmação de leve! O problema começa na incapacidade de identificar o le! Antes de chegar a ele!

DI DOMINGO 14 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 15 09.MARÇO.2008


reportagem . fotografia henrique dédalo

HOMENAGEM À AÇORIANIDADE
TODOS SOMOS
NEMÉSIO
No decorrer das celebrações seu carácter, maneira de estar e de olhar, vendo os
outros e neles se revendo, escrevendo como açoria-
(homenagens), a propósito do no, como açoriano falando, mesmo quando em Paris
ou em Nova Iorque, em Lisboa ou no meio da ilha, to-
trigésimo aniversário da morte de cando (mal), violão ou viola e cantando (esmagado- vivências, e, quem diria, até de algumas lágrimas. E is- do, do que outra coisa, o Representante da República,
ramente mal), apesar de poucos terem sido os que de so apenas veio confirmar aos nossos olhos, que o es- quando chamado a usar da palavra, pareceu ficar, as-
Vitorino Nemésio, o que mais ficou coragem, houveram por lho dizer. critor permanece bem vivo e se vai perpetuando. sim como que sem jeito. Mas logo se compôs e levan-
Do merecimento de todas as homenagens não have- Nemésio, quando criança, viveu na Praia da Vitória do a mão ao bolso do casaco disse que sempre que
evidente e assente, foi a natureza rá quem sequer esboce um pensamento de dúvida, e e usufruiu dos seus belos areais, como escreve em saía para qualquer cerimónia, acostumado que esta-
sobre a forma como elas foram realizadas, claramente “Mau Tempo no Canal”, porém, nunca aprendeu a na- va às mais diversas solicitações, levava sempre consi-
açoriana enraizada na pessoa do com uma “mão” de António Machado Pires, sobretu- dar, ficando-se pelas areias ou pelas rochas, provavel- go uma ”merendazinha”,e puxou de um papel onde
do na escolha de muitos catedráticos, nenhum deles mente congeminando os primeiros poemas que a Li- guardava o poema de Vitorino Nemésio, para ler no
escritor praiense, que crescendo enfatuado; nenhum deles em bicos de pés, mas an- vraria Andrade, na Rua Direita, haveria de editar no seu jeito único, um dos poemas mais caros a Nemé-
tes, sim, curvando-se de forma humilde e estudiosa, “Canto Matinal”, título sugerido por um professor, mas sio, o “Poeta Falecido”.
por esse mundo fora, manteve e perante um dos maiores vultos da literatura portugue- que demonstravam já, a grande maturidade técnica e Recordamos o almoço, em 1979, de celebração do
sa do século XX, e de um dos poucos, como ficou dito, de pensamento, do ainda imberbe escritor. primeiro aniversário da morte do escritor, que decor-
fermentou o espírito da açoriani- que perdurará no contexto nacional e mundial. “POETA FALECIDO” reu na quinta de Luís Gaspar de Lima, na freguesia
DA CRIAÇÃO As celebrações a Nemésio tiveram em todos os inter- dos Biscoitos, com uma entrada de mão alçada ao la-
dade que ele próprio inventou, na Sabe-se que Vitorino Nemésio foi criado parcialmente venientes, momentos altos, podendo mesmo afirmar- ranjal, descascando com as mãos as doces e suma-
na Casa das Tias, e por isso, o início da obra de restau- se, que foram elevados e plenos de beleza, nas pala- rentas laranjas, seguida de uma lagosta suada que só
palavra. ração, ampliação e melhoramentos do edifício, onde vras medidas ou improvisadas e nem um só dos in- mesmo o Gaspar de Lima, então director escolar da
até se gritaram “aleluias” (num grito que teve tanto de tervenientes deixou de ter o condão de tocar a alma ilha Terceira, sabia temperar para o prazer dos seus
fim de revolta pelo marasmo de até então, como de de todos os açorianos, nos quais Nemésio fez ques- comensais, entre os quais também Nemésio havia es-
júbilo pela formalização de um velho desejo praien- tão de se rever em todos os momentos da sua ilustre tado.
Não há melhor conclusão para as recentes cele- se), sentiu-se, mais uma vez, a presença forte do escri- vida, desde as suas paixões até às mágoas que tam- Tudo simples, tudo em beleza e carinho, com a pre-
brações na passagem do trigésimo aniversário sobre tor a que a Praia da Vitória bem pode orgulhar-se de bém em muitos momentos da vida lhe assolaram a sença dos filhos do escritor e de muitas outras figu-
a morte terrena do escritor praiense universal, Vitori- ter tido a sorte de servir de berço, como, decert o, Ne- alma. Também essa se fez fraca como é norma do ras terceirenses que sentiam afectos por Vitorino Ne-
no Nemésio, do que entender a forma profunda como mésio também lhe estará grato pela sorte que teve de açorino ferido. mésio.
ele se retratou em todos os açorianos, na sua postu- aqui nascer, ao contrário de Garrett que um dia escre- E da mesma forma plena de galhardia com que assis- E agora, no trigésimo aniversário sobre a sua morte,
ra de ilhéu sem fronteiras, emigrante dentro e fora do veu, referindo-se a Angra do Heroísmo, sobre a “pena tia a uma tourada à corda, ou descia a Rua do Paço do com excepção da lagosta suada, a singeleza catedráti-
seu País; homem feliz e sofredor; açoriano dos quatro de ali não ter sido nado”. “Não tive a sorte de nascer Milhafre, a caminho do Largo da Batalha, também se ca das emoções, esteve ao mesmo nível: uma home-
costados, mas ao mesmo tempo um homem do mun- neste torrão”, escreveu Almeida Garrett. Nemésio terá negou a ser o presidente dos Açores, quando foi con- nagem ao senhor doutor cá da terra, entre sorrisos,
do, como ele próprio se definia. sido mais feliz, pela sua Praia da Vitória. vidado para isso pela Frente de Libertação dos Açores, respeito, saudade e profundidade singela.
As homenagens que foram prestadas a Vitorino Ne- As denominadas palestras que ocorreram no dia 20 de em época conturbada, aí por volta de 1976, alegando Tudo perfeito. Vitorino Nemésio bem que merece que
mésio, desde as palavras quer de saudade, quer de Fevereiro, homenageando Vitorino Nemésio, decorre- que o seu açorianismo era de português. sejamos sempre muito açorianos quando dele falar-
análise à sua obra, e a forma como foi esmiuçado o ram sob o signo da exaltação do homem, da obra, das Na sessão solene, que o foi mais simples e de estu- mos. Foi-lhe feita, mais uma vez, a vontade.

DI DOMINGO 16 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 17 09.MARÇO.2008


folhetim
luiz fagundes duarte
363

Tão de vistas
pequenas
Mandam as boas regras que os cronistas variem os do que estava gloriosamente a bater no mais fraco, se
seus temas de escrita, de modo a que o leitor não alargou, entusiasmado, em inúmeros ataques, soezes
pense que eles só sabem falar de uma dada coisa – e pessoais, à cidadã que, tendo abdicado do sossego
ou que os tomem por um daqueles chatos que, di- da sua condição de professora, aceitou ser Ministra da
gam o que disserem, nunca conseguem mudar de as- Educação. Não vale a pena repetir tais despropósitos;
sunto. Eu sei disso, e na medida do possível faço por mas valerá a pena deixar aqui, na íntegra, a carta que,
dar de mim a ideia de um homem de horizontes lar- dias depois, o mesmo professor escreveu ao Delega-
gos, que apesar de ter nascido na Serreta conseguiu do Regional do Norte da Inspecção Geral de Educa-
dar um salto para o Mundo, e que tanto pode repetir ção, e que deixo aqui à reflexão de quem quiser olhar
as sabenças da Tia Guilhermina da Fajã como comen- para além do seu umbigo:
tar, com igual proveito, uma obra da grande literatu-
ra universal. “Relativamente às declarações proferidas por mim, […
Passe a imodéstia, é claro. vou omitir o nome do rapaz…], docente do grupo 500,
Não obstante isso, tenho a impressão, quando me re- a leccionar na Escola EB2,3 de Ribeirão, no programa
leio criticamente, de que passo a vida a escrever a Prós e Contras do dia 25 de Fevereiro de 2008, refiro
mesma crónica: e nessa crónica sem fim (e recordo que não foi minha intenção ofender o rigor, a compe-
que a palavra “crónica” tem a ver com “tempo”, que tência e o profissionalismo do Sr. Inspector, pelo que
em grego se dizia “crónos”), eu não consigo passar do lhe apresento o meu arrependimento, assim como, a
rapaz da Serreta que, passados tantos anos de vida todos aqueles que se tenham sentido lesados.
e percorridos tantos quilómetros de caminho, ainda Aproveito a oportunidade para expressar as minhas
não consegue fechar a boca de espanto ao olhar para desculpas pela forma como me dirigi à Ex.ma Sr.ª Mi-
o vasto Mundo onde habitamos. nistra da Educação, pois considero-me uma pessoa de
Já nesta página eu falei de tudo: de política, de lite- bem, educada, íntegra e acima de tudo profissional.
ratura, de enganos, de gente gira, de bocas, de médi- As declarações ocorreram num momento de profun-
cos, de professores, de restaurantes, de jovens prome- da emoção, vivida de forma intensa pelo ambiente
tedores, enfim… De tudo um pouco já me ocupei, fa- propício do debate televisivo.” – e, depois de deixar os
zendo destes meus trezentos e sessenta e tal folhetins seus melhores cumprimentos, este jovem professor
uma coisa parecida com a simpática montra do Pedri- data e assina esta sua carta de desculpas.
nho Amiguinho – onde encontramos de tudo, incluin- Tiro-lhe o chapéu. Mas não o tiro àqueles todos que
do a nossa própria alma. na altura histericamente o aplaudiram – e que ago-
Mas, contra o tal princípio do bom cronista que se não ra, mesmo depois de conhecida e divulgada esta car-
deve repetir, eu entendo que hoje devo fazê-lo e, os- ta, vêm para a rua gritar, nos seus magros entenderes,
tensivamente, vou voltar a falar de professores e, ain- em nome de uma Educação que julgam sua, nas coi-
da mais descaradamente, do programa “Prós e Con- sas boas, e do governo, nas coisas más.
tras”, da RTP, que há quinze dias foi um mero “Con-
tras” à Ministra da Educação. Nesse programa, todos (Escrevo este folhetim a voar de Lisboa para New
se lembrarão, apareceu, para além de uma professora York. Acho que estou a sobrevoar os Açores. E tenho
loira e malcriada, um jovem professor que, levado pe- saudades do meu país, ali em baixo, tão triste e tão
la actual histeria anti-Ministra da Educação, e pensan- de vistas pequenas…).

DI DOMINGO 18 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 19 09.MARÇO.2008


reportagem hélio vieira

fotografia antónio araújo

o principezinho

Reino do sonho
Filipe La Féria trouxe a Angra do Heroísmo uma adap- 160 línguas ou dialectos, sendo a obra mais lida em
tação para teatro de “O Principezinho”, a obra de re- todo mundo depois da Bíblia.
ferência do nosso imaginário infanto-juvenil do autor Não deixa se ser surpreendente que uma história
francês Antoine de Saint-Exupéry. construída em torno de um pequeno príncipe conti-
Recorrendo às potencialidades que o texto oferece ao nue a ter uma mensagem actual, apesar do texto de
nível da dramaturgia e também às novas tecnologias Antoine de Saint-Exupéry ter sido escrito em 1943 du-
(vídeo, som e luz), Filipe La Féria deu um toque mui- rante o seu exílio nos Estados Unidos e numa altura
to peculiar a uma história que encanta gerações e que em que o mundo estava mergulhado num rasto de
se baseia na poesia e no imaginário de um pequeno destruição e morte provocado pela II Guerra Mundial.
príncipe que vive num asteróide e que visita a terra. Piloto das forças aliadas, Saint-Exupéry desapareceu a
O alcance da mensagem da obra-prima francês Antoi- 31 de Julho 1944 no mediterrâneo. A sua história aca-
ne de Saint-Exupéry pela sua aceitação ao longo das bou por ter um final menos feliz do que a do aviador
últimas seis décadas com 80 milhões de livros vendi- acidentado no deserto e que se transforma em confi-
dos em cerca de 500 edições distribuídas por quase dente de “O Principezinho”.

DI DOMINGO 20 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 21 09.MARÇO.2008


“À noite, deitei-me na areia e adormeci, a mil milhas
de terra habitada, mais isolado do que um náufrago
agarrado a uma jangada no meio do mar. Imagine-se
então a minha surpresa ao ser acordado de madruga-
da por uma voz muito fininha, a pedir:
- Se faz favor… desenha-me uma ovelha,”

“Vivo neste planeta há cinquenta e quatro anos e só


fui incomodado três vezes. A primeira vez foi há vinte
e dois anos: era um besouro caído sabe Deus de on-
de. Fazia um barulho tão horroroso que me enganei
quatro vezes numa soma.”

“A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho


durante muito tempo.
- Se fazes favor…cativa-me! Acabou finalmente por
pedir.
- Eu bem gostava – respondeu o principezinho, - mas
não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir
e uma data de coisas para conhecer…”
- Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa.”

“O Principezinho estava cansado. Sentou-se. Eu sen-


tei-me ao lado. Primeiro, ficou uma data de tempo ca-
lado, mas depois disse-me:
- As estrelas são bonitas por causa de uma flor que
não se vê…”

DI DOMINGO 22 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 23 09.MARÇO.2008


opinião sala da autonomia
guilherme marinho arnaldo ourique
http://chaverde.blogspot.com/ arnaldo.ourique@dacores.com

CLARO COMO ÁGUA


Há debates na sociedade açoriana que não são de ago- Foi com estes olhos que li a entrevista do Professor An-

Sim ou não
ra. Há debates recorrentes, nunca resolvidos, nunca clari- tónio José Telo, director do Instituto de Defesa Nacional,
ficados, com muitas, demasiadas, reticências. Há interes- no Diário Insular de 3 de Fevereiro (disponível só para
ses, mais individuais que colectivos, mais privados que assinantes), cuja passagem seguinte sublinho:
públicos, que os fazem emergir ou submergir conforme “Diário Insular - há quem defenda que os Açores podem
a conjuntura. Há uma tensão permanente na busca de beneficiar deste aumento de funções através, por exem-

ao RR?
uma falha, uma contradição ou uma cedência. Ninguém plo, da presença de empresas locais na base para o apoio
questiona a quem interessa que, no dia anterior ao eco-
nomista açoriano Mário Fortuna apresentar, na comis-
técnico necessário a estas aeronaves. Acha possível?
António Telo - Duvido que isso seja possível em relação ao (2/3)
são parlamentar eventual Impacto na Região Autónoma núcleo duro – chamemos-lhe assim – das necessidades.
dos Açores do Acordo entre a República Portuguesa e os O núcleo duro que aqui refiro representa as tecnologias
Estados Unidos da América, um estudo, sobre o impac- centrais destes sistemas de armas, que são de tal forma
to económico da Base das Lajes na economia açoria- avançadas que mais nenhum Estado ou máquina militar Sim ou não ao Representante da República. No diminui o poder político do Estatuto e da Autonomia,
na, se torne público (1) que o impacto directo e indirec- detém. Portanto, nem vale a pena pensar nisso. Tenho a primeiro texto vimos aquilo que repetidamente temos porque um órgão tão significativo do procedimento
to da base norte-americana das Lajes na economia da certeza que os EUA não vão querer olhares exteriores so- vindo a sublinhar: o cargo de Representante da Repú- autonómico sai precisamente daquela lei que caracte-
Terceira foi, no em 2007, de 113.9 milhões de dólares? bre os sistemas centrais que permitem o funcionamen- blica, apesar de tudo, é importante para uma autono- riza a Autonomia Constitucional. Diminui o seu esta-
Para quem quer dar o peito às balas nestas refregas, pa- to destes novos sistemas de armas. “ Claro como água! mia sã. Por natureza o homem é torto, como aliás o tuto de figura central, é certo, mas isso também dimi-
ra quem quer, de facto, tomar posição, só ideias podem Foi com o mesmo interesse que li a entrevista do Profes- mundo em geral; isso leva à conclusão que vem des- nui a dimensão política da autonomia. Do ponto de
interessar. As ideias, e a clareza na exposição das mes- sor Carlos Amaral, da Universidade dos Açores, no Cor- de Aristóteles de que é na conjugação de vários pode- vista material, é uma declaração sem precedentes: a
mas, capitalizam quem, um dia, quiser, ou tiver de, deci- reio dos Açores, de 23 de Fevereiro, (3) cujo excerto se- res distribuídos que melhor se garante governos com Região Autónoma perde qualquer poder de influên-
dir sobre os Açores e o futuro da Base das Lajes. Repro- guinte reproduzo: tendência para o abuso (consciente e inconsciente). cia na caracterização do cargo, a Região Autónoma di-
duzo um excerto de um artigo, já com 2 anos, da autoria “Correio Açores - Um dos argumentos norte-americanos No texto anterior sublinhámos aquele aspecto, agora vorcia-se da possibilidade de com o cargo aproveitar
deste vosso criado, publicado no Diário Insular a 29 de é que a base nos Açores tem servido o interesse NATO. interessa-nos finalizar com outra parte: as alterações arrecadar outras valências que o cargo sempre pôde
Janeiro de 2006 (2): Carlos Amaral - Este é o argumento nuclear dos norte- que neste momento decorrem, primeiro com a expur- ter ao longo da história, e assim declara, por exemplo,
“O senso comum diz-me que não se pode, em consciên- americanos. E é preciso fazer uma separação das águas: gação do cargo no Estatuto Político dos Açores, de- que não se importa com os açorianos que pertencem
cia, defender às segundas, quartas e sextas um reforço da O que é interesse NATO, e por isso mesmo, aquilo em pois com a proposta de lei avulsa sobre o cargo que à organização do Estado nas ilhas.
actividade militar na Base das Lajes e às terças, quintas e que a base pode ser um instrumento de serviço deste foi aprovada na generalidade na Assembleia da Re- O Estatuto perdeu algumas coisas com a Revisão
sábados os benefícios das escalas técnicas da aviação ci- interesse; e o que é interesse norte-americano. O cer- pública. Constitucional de 2004: de entre tantos esta: já não é
vil. A ideia que pode transmitir esta rocambolesca ambi- to é que na base não há uma presença militar NATO, Por imperativo da lei de revisão da Constituição em aquela lei suprema como dantes, pois que se juntou
valência é que algumas pessoas com responsabilidades mas sim uma presença militar americana. A defesa do 2004, as regiões autónomas, quanto aos seus pode- ao processo próprio da feitura do Estatuto a feitura lei
estão desesperadas quando ao futuro da Ilha sendo capa- Atlântico e a segurança da Europa carecem destas ilhas. res legislativos, ficaram com a incumbência de apre- eleitoral. As leis eleitorais não têm a dignidade própria
zes de, por um punhado de dólares, sacrificar o bem-estar Não é possível assegurar a defesa da Europa se estas sentar propostas de Estatuto Político. A Madeira apre- de um Estatuto. Esse ajuntamento pernicioso é uma
e a qualidade de vida colectivas. Se é do domínio público ilhas tombarem em mãos hostis. E a relação de coopera- sentou a sua proposta em 2005 (entretanto retirou- declaração política algo contundente: o Estatuto ainda
que a Base das Lajes sofreu um reforço da sua importân- ção com os Estados Unidos tem-se vindo a transformar, a nesse mesmo ano; sobre isso, ver o nosso texto mantém por via de outras normas constitucionais (por
cia após o fim da Guerra-Fria tal deveria ser suficiente pa- na minha perspectiva, num mau negócio para Portugal. nº31 em Açores, Direito e Política) e mantinha no ar- exemplo, da fiscalização) uma natureza de lei de va-
ra uma reivindicação sólida em sede de eventual revisão Mas, acima de tudo, um mau negócio para os Açores na ticulado do estatuto o cargo. Os Açores entregaram a lor reforçado, mas se hoje a lei eleitoral também está
do acordo luso-americano. As entidades americanas sa- medida em que serve mais os interesses de outros, no sua proposta em 2007 e expurgaram as normas so- neste Olimpo, amanhã terá que descer e com ela pos-
bendo disso, e da intenção pública de se rever o acordo, caso concreto, dos Estados Unidos, do que serve os nos- bre aquele cargo. As notícias mais recentes dizem-nos sivelmente também o Estatuto. Como se isso não bas-
fazem surgir no espaço público a hipótese de uma base sos.” Claro como água! que a proposta de Estatuto será aprovada antes do tasse, retirar do Estatuto o cargo de Representante da
de treinos. É a sua indicação de que para haver mudan- É que, meus amigos leitores, aqueles que todos os dias verão e que a proposta de lei avulsa sobre o cargo do República é despir o estatuto de elementos que o ca-
ça os EUA teriam que ter novos benefícios militares. Ora, gostam de dramatizar os interesses dos Estados Unidos Representante da República foi pedida pelo Presiden- racterizam como uma lei constitucional material tor-
o que a Terceira tem que definir é, mais do que fugir pa- nestas ilhotas teimam, ou não têm interesse, em reco- te da República. nando-o numa mera lei avulsa como tantas outras.
ra a criação de uma nova pista, o quer dessa sua estrutu- nhecer que “Se os americanos não tivessem interesse As notícias, portanto, não são as melhores. Retirar do A tendência hodierna é simples: descaracterizar a
ra fundamental. Se a quer condicionada por um punhado em estar nos Açores, já teriam andado exactamente co- Estatuto a figura do Representante da República man- autonomia da lei constitucional, remeter as normas
de dólares a uma base militar ou se a quer potenciar para mo os franceses fizeram.” Claro como água!!! tendo o cargo é prejudicial à autonomia: do ponto de constitucionais autonómicas para o Estatuto, masca-
as actividades civis. Ou seja, questão fundamental é, mais (1)http://www.correiodosacores.net/view.php?id=5779 vista formal, é uma perca substancial porque o Estatu- rar o Estatuto parecendo rico pelos riscos grossos de
que a sua geostratégia militar, a avaliação da sua geostra- (2)http://buledocha.blogspot.com/2006_01_01_archive.html to é uma lei exclusivamente proposta pelo parlamen- tinta paupérrima, e colocar o Estatuto num lugar me-
tégia civil”. Claro como água! (3)http://www.correiodosacores.net/view.php?id=5269 to regional enquanto a lei avulsa não; e acresce que nor da hierarquia das normas do Estado.

DI DOMINGO 24 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 25 09.MARÇO.2008


reportagem mateus rocha atleta fantástico. Tive pena de não o apanhar um pou- “Apenas com uma formação de qualidade, os Açores
fotografia antónio araújo co mais novo”. podem aspirar em continuar a ‘fabricar’ talentos como
O então capitão da Força Aérea trabalhou na Tercei- o Mário Lino, Armando Fontes e Pedro Pauleta, o que
ra, com reconhecido sucesso, durante 12 épocas, em passa, também, pela aposta em treinadores altamen-
dois períodos distintos: 1966/72 e 1974/81. te qualificados”, subscreve de forma convicta.

FERNANDO LOPES “Sinto que marquei o futebol local, sobretudo os clu-


bes em que exerci funções: União Praiense, SC Praien-
Fernando Lopes entende que, com as condições vi-
gentes, muitos dos atletas com quem trabalhou pode-

Capitão saudade
se e SC Angrense. Sendo sportinguista confesso, sem- riam ter alcançado patamares mais elevados.
pre tive uma imensa paixão pelo Angrense. Felizmen- “Lusitânia, Angrense, Praiense, União e Marítimo, por
te, passados todos estes anos, continuo a ter grandes exemplo, tinham jogadores bastante dotados. Quan-
amizades na Terceira”. do cheguei à Terceira, treinávamos somente duas ve-
Quando regressou ao continente, Fernando Lopes zes por semana. O trabalho modifica os sistemas de

Graças aos seus métodos inovado- “Guardo belas memórias da minha passagem pe- abraçou o futsal. “Fui seleccionador nacional duran- jogo. Ainda assim, a entrega, carácter e qualidade dos
la Terceira. Na altura, tínhamos imensas dificuldades te quase uma década e treinador do Sporting CP. Pre- atletas proporcionavam espectáculos extraordinários”.
res, Fernando Lopes revolucionou o aos mais diversos níveis. Hoje, as coisas estão sobre- sentemente, ocupo o cargo de secretário técnico da Embora considere que se trata de um problema na-
maneira diferentes, a começar pelos campos”. É des- Associação dos Moradores da Portela, clube que com- cional, o nosso interlocutor sustenta que a entrada
futebol terceirense nas décadas de ta forma nostálgica e, ao mesmo tempo, emociona- pete na Segunda Divisão Nacional de futsal”, sublinha nos nacionais retirou paixão ao futebol das ilhas de
da que Fernando Lopes se ‘apresenta’ à reportagem com justificado orgulho. bruma.
60 e 70, conquistando diversos êxi- do DI/Revista. Para o conceituado treinador, a formação é a única via “Lembro-me que os Campeonatos Açorianos eram
Com os olhos colocados no sintético do municipal da que pode salvaguardar os interesses do desporto-rei aguardados com enorme expectativa. As pessoas gos-
tos ao serviço do União Praiense, SC cidade açoriana Património Mundial, o antigo treina- por estas paragens e não só. tavam de ver bons jogos e os campos estavam sempre
dor, agora com 65 anos de idade, inicia uma curta via- “O futebol açoriano perdeu alguma expressão com a vin- cheios, num ambiente de saudável rivalidade. Os na-
Praiense e, sobretudo, SC Angrense. gem ao passado. da de muitos atletas de qualidade duvidosa. O melhor cionais acarretam despesas elevadas e não creio que
“Recordo com saudade os jogadores com quem tra- caminho é colocar a juventude a praticar a modalidade. a Série Açores, pelo menos nos moldes vigentes, se-
Crítico da Série Açores, defende as balhei: Álvaro Pereira, Abel Lima, Humberto, Félix, Car- Aí, acredito que não haverá necessidade de ir buscar jo- ja benéfica para os interesses do futebol regional”, ter-
los Alberto, Faustino, José Agostinho, Aníbal Borges, gadores continentais ou estrangeiros em fim de carreira mina, não sem antes classificar a liguilha como “uma
virtudes da formação. Jorge Laureano e tantos outros. O Laureano era um que, na verdade, pouco ou nada acrescentam”. verdadeira aberração”.

DI DOMINGO 26 09.MARÇO.2008 DI DOMINGO 27 09.MARÇO.2008


rui messias

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ção das Flores-de-Lis título de uma mostra de
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Uma exposição de pin-
1348. Uma doença terrí- tura da autoria de Dimas
vel vinda da Ásia devas- Simas Lopes está patente
ta a França- O seu nome na Carmina Galeria, até 4
anda na boca de todos: de Abril.
a Peste Negra. Anun- “Tesouros Marinhos” é
ciada por enormes ra- o título de uma exposi-
tazanas negras, o flage- ção de conhas de Augus-
lo não poupa ninguém, to Veiga patente no Mu-
matando num sofrimen- seu da Graciosa, até 20
to atroz, mesmo os mais de Março.
robustos.
Na mesma altura, numa Cinema
aldeia da Gasconha, uma
jovem, Eugénia d’Eauze, “Call Girl” é o filme em
descobre a verdade do exibição no Centro Cul-
seu nascimento ilustre: tural de Angra, até quin-
educada com campone- ta-feira, dia 13, pelas
ses, nasceu, no entan- 21h00. Hoje, domingo,
to, dos amores da anti- o filme é apresentado às
ga Rainha de França com lar-se um grande roman- livros “La Nuit des bu- 18h00 e às 21h00.
um trovador! cista de História, depois lottes” (Prémio RTL em O Centro Cultural de An-
Então, o seu destino os- de iniciar-se no romance 1991) e “Le Porteur de gra estreia sexta-feira,
cila: sacrificando marido contemporâneo. destins” (Prémio Casa da dia 14, pelas 21h00, “O
e família, Eugénia parte Bordes foi servente, pro- Imprensa em 1992). Vá- Comboio das 3 e 10”.
para reconquistar o seu fessor primário e jorna- rios dos seus romances O Centro Cultural de An-
estatuto usurpado e to- lista antes de se consa- foram adaptados à tele- gra apresenta sábado,
ma o comando de uma grar à escrita. É autor dos visão. dia 15, às 15h00, “Uma
conjuração que jurou re- História de Encantar”.
por no trono os verdadei- O Auditório do Ramo
ros herdeiros da coroa. Grande apresenta hoje,
Porém, a peste, a morte domingo, pelas 15h00,
maldita, parece seguir- “E Não Viveram Felizes
lhe os passos, matan- para Sempre!”.
do-lhe não só os inimi- O Auditório do Ramo
gos mas também aque- Grande apresenta sába- DIÁRIO INSULAR - Ficha Técnica: Propriedade: Sociedade Terceirense de Publicidade, Lda., nº. Pessoa Colectiva: 512002746 nº. registo título 101105 Jornal diário de manhã Composição
les que ama. do, dia 15, pelas 21h00, e Impressão: Oficinas gráficas da Sociedade Terceirense de Publicidade, Lda. Sede: Administração e Redacção - Avenida Infante D. Henrique, n.º 1, 9701-098 Angra do Heroísmo Terceira
É como se uma força so- “Call Girl”. - Açores - Portugal Telefone: 295401050 Telefax: 295214246 diarioins@mail.telepac.pt | www.diarioinsular.com Director: José Lourenço Chefe de Redacção: Armando Mendes Redacção:
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carrega consigo a beleza Nota: Os eventos agendados Carmo, Luiz Fagundes Duarte, Gustavo Moura, Francisco Coelho, José Guilherme Reis Leite, Ferreira Moreno, António Vallacorba, Diniz Borges, Bento Barcelos, Jorge Moreira, Duarte Frei-
do diabo... estão sujeitos a alteração, da tas, Guilherme Marinho, Daniel de Sá, Soares de Barcelos, Cristóvão de Aguiar, Vitor Toste, Luis Filipe Miranda, Paulo Melo e Fábio Vieira Fotografia: António Araújo, Rodrigo Bento, João
Gilbert Bordes, autor responsabilidade dos promo- Costa e Fausto Costa Design gráfico: António Araújo. Agência e Serviços: Lusa Edição Electrónica: Isabel Silva Sócios-Gerentes, com mais de 10% de capital: Paula Cristina Lourenço,
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deste livro, veio a reve- tores. José Lourenço, Carlos Raulino, Manuel Raulino e Paulo Raulino. Tiragem desta edição: 3.500 exemplares,; Tiragem média do mês anterior: 3.500 exemplares; Assinatura mensal: 11 euros

DI DOMINGO 28 09.MARÇO.2008
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DI DOMINGO 32 09.MARÇO.2008