Vivemos na era da globalização, aonde os limites vão desaparecendo.

Quem nunca ouviu dizer, expressões como “Globalização e neoliberalismo são marcas do nosso tempo”. A globalização pode ser definida e discutida desde uma perspectiva geral ou a partir de um enfoque. Neste caso podemos exemplificar sobre a discussão na área da economia, no âmbito político, no aspecto sociocultural entre outros. Há sempre um risco parcial ou taxativo nas conclusões, através de suas características, apontando de modo limitado para as implicações sociopolíticas e econômicas neste aspecto. A mercantilização da sociedade, o elevado desenvolvimento tecnológico, o aguçamento das contradições e aprofundamento das desigualdades sociais são acompanhados, simultaneamente, do aperfeiçoamento dos mecanismos teóricos e ideológicos de justificativa e sustentação da realidade capitalista atual. Na sociedade globalizada sob a orientação do modelo neoliberal, a administração científica ganha força e passa a se constituir no arcabouço teórico fundamental das políticas públicas. Nele é forte o poder da ideologia, cujo uso abundante garante em grande parte o sucesso das teorias da administração moderna impregnando os principais conceitos que as norteiam. Estes apontam para a mobilização das forças produtivas engajando os agentes individuais e coletivos nos processos de funcionamento e administração de empresas, organizações sociais governamentais ou não, com o objetivo de aumento da produtividade a partir de racionamento de recursos com redução de gastos.

Segundo o sociólogo alemão Urich Beck(1997), como o termo globalização são identificados através de processos que tem por consequência “a subjugação e a ligação transversal dos estados nacionais e sua soberania, através de atos transnacionais, suas oportunidades de mercado, orientações, identidades e redes” (Beck 1997p.28-29). Ouvimos falar de defensores da globalização e de críticos à globalização, num conflito pelo qual, diferentes organizações se tornam cada vez mais conhecidas. Neste sentido, não se trata de um conflito em sentido estrito sobre a globalização, mas sobre a prepotência e a mundialização do capital. Esse processo, da forma como ele atualmente

daqueles que dominam a economia. os países são obrigados a aderir ao neoliberalismo. . ou seja. mas também muitas perdas. Algumas das questões que aparecem em decorrência disso são a exclusão social. Isto nos trouxe enormes benefícios. aumentou também a dependência daqueles em relação a estes. Nunca se produziu tanto e. 606) afirmam que: As transformações gerais da sociedade atual apontam a inevitabilidade de compreender o país no contexto da globalização. a competição limitada e a minimização do Estado na área econômica e social. com o predomínio dos interesses dos países ricos. política. nunca houve tanta gente com fome. Libâneo e Oliveira (1998. A concentração do capital e o crescente abismo entre ricos e pobres e o crescimento do desemprego e da pobreza são os principais problemas sociais da globalização neoliberal e que vêm ganhando cada vez mais significado. podemos constatar que a maioria da população mundial na Ásia. não deveria sequer ser chamado de globalização. p. A globalização é uma tendência internacional do capitalismo que. As políticas educacionais são projetadas e implantadas segundo as exigências da produção e do mercado. Para que essa globalização pudesse ter condições de se desenvolver foram à interconexão mundial dos meios de comunicação e a equiparação da oferta de mercadorias. ainda permanece excluída. o que se deu de forma progressiva nas últimas décadas. Essa forma de globalização significa uma situação em que o máximo possível é mercantilizado e privatizado. oportunidade de romper fronteiras. Se observamos a circulação mundial de capital. o avanço científico e tecnológico proporcionou ao ser humano. Com o aumento da distância entre os países pobres e os países ricos. ao aprofundamento da divisão internacional do trabalho e da concorrência e à crise de endividamento dos estados nacionais.vem acontecendo. sem lugar para morar. desempregada. o desemprego e o aumento da miséria. das moedas nacionais. mas também. à redução do espaço de ação para os governos. Isso leva ao domínio mundial do sistema financeiro. impõe aos países periféricos a economia de mercado global sem restrições. da revolução tecnológica e da ideologia do livre mercado (neoliberalismo). Assim. Esta dependência significa não só uma debilidade econômica. já que atinge o globo de forma diferenciada e exclui a sua maior parte. juntamente com o projeto neoliberal. ao mesmo tempo. com o agravante do desmonte social. isto é. na África e na América Latina.

“É preciso fazer os ajustes necessários para que o país se desenvolva em sintonia com as outras nações!”. ágeis. como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. eficácia e competência. Neste sentido. Quem não estiver capacitado de acordo com as exigências do mercado é excluído do processo produtivo e isso significa desemprego. atualmente. A educação é oferecida. nitidamente. No Brasil. o mercado exige pessoas polivalentes. • Avaliação constante dos resultados/desempenho obtidos pelos alunos que comprovam a atuação eficaz e de qualidade do trabalho desenvolvida na escola. produtividade. fome. que falem. ao desempenho e às necessidades básicas de aprendizagem. onde os investimentos e benefícios são projetados e calculados da mesma forma como se procedem a uma empresa. p. diversificação. que possuam habilidades múltiplas. miséria. este é o tom dos discursos do governo. na verdade. gerenciais de qualidade total. 604) destacam e que transcrevemos na íntegra. Os aspectos por eles apontados demonstram a transformação da escola em mais um negócio que se rege pela lógica do mercado: • Adoção de mecanismos de flexibilização e diversificação dos sistemas de ensino nas escolas. mais uma empresa à qual se paga pela obtenção de um serviço. doença. leiam e escrevam em vários idiomas. • Atenção à eficiência. a qualidade total na educação. • • • O estabelecimento de rankings dos sistemas de ensino e das escolas públicas ou Criação de condições para que se possa aumentar a competição entre as escolas e Ênfase na gestão e na organização escolar mediante a adoção de programas privadas que são classificadas ou desclassificadas. conhecimentos técnicos e um relativo domínio na área de informática. Podemos perceber isto. e assim por diante.Podemos exemplificar. à qualidade. econômicas e educacionais continuam se delineando de acordo com as propostas do mercado mundial. Modernização na educação. todo esse processo econômico que predomina a política capitalista e neoliberal que está focalizada na educação são as políticas dos órgãos internacionais. se observarmos alguns aspectos interessantes que Libâneo e Oliveira (1998. são as palavras de ordem. encorajar os pais a participarem da vida escolar e fazer escolha entre escolas. . como uma mercadoria e a escola tornou-se. com visão do todo. as políticas sociais. flexíveis.

. • Descentralização administrativa e do financiamento. podem contribuir para exclusão social. competitividade tecnológica mundial que tende a privilegiar tais disciplinas. ao chamamento à participação. devido à Estabelecimento de formas “inovadoras” de treinamento de professores como.. Se. bem como do repasse de recursos em conformidade com a avaliação do desempenho. As características da diretriz da descentralização administrativa acontecem em várias instâncias. O Estado responde às reivindicações por mais decisão e participação política que produz o duplo efeito de ocupar o tempo dos sujeitos mediante execução de atribuições e de substituir a agenda política dos trabalhadores. de um lado. por exemplo. há uma ambigüidade nos aspectos apontados. orientando-os para preocupações de ordens administrativas e produtivas. Esta descentralização das ações anteriormente sob responsabilidade do Estado incorpora através da repartição do poder. trazem o desafio de manter uma educação atualizada e de qualidade. O Banco já sabe qual é o objetivo que deve guiar essas decisões descentralizadas: desenvolver as capacidades básicas de aprendizagem no ensino primário e (quando se justifique para o país) no nível secundário inferior. Assim. empresariado. respondendo. porque o Banco também sabe que isso contribuirá para satisfazer a demanda por “trabalhadores flexíveis que possam facilmente adquirir novas habilidades” (Coraggio. Nas instituições escolares mobilizam a sociedade para o desenvolvimento de “gestões democráticas” orientadas pelas políticas públicas. educação à distância. O que era de jurisdição federal modifica-se para um nível regional e também municipal . • • Valorização da iniciativa privada e do estabelecimento de parcerias com o O repasse de funções do Estado para a comunidade (pais) e para as empresas. 2000:100). pois mais do que ninguém é consciente das “recomendações” aos países periféricos as quais mais interessam a quem de fato ele representa. de outro. reclamado muito por movimentos sociais democráticos.• • Valorização de algumas disciplinas: matemática e ciências naturais. Como se percebe. Os fundos públicos sob o efeito da lógica de redução de gastos do .a municipalização do ensino no Brasil é exemplo típico de política de ajuste educacional. assim. A descentralização promovida nas estatais de todo o mundo tem como protagonista o Banco Mundial que coloca como “coordenador da cooperação internacional e educação”.

Exame Nacional do Ensino Médio. é o caso tanto do ENEM . por razões econômicas e obviamente ideológicas não se ressalta o lado da centralização que completa a lógica da referida política: o controle pedagógico do sistema educacional (Sacristán.Estado são repassados a níveis cada vez mais micro na cadeia de responsabilidades na produção de resultados. ressaltando o entendimento da distribuição do poder limitado ao âmbito da execução de mecanismos de financiamento e gestão do sistema (Gentili. A centralização é encoberta por uma ideologia da descentralização cujo objetivo é o desviar dos sujeitos a atenção sobre o sofisticado controle do processo de produção escolar. fazendo-os aceitarem as “diretrizes” como algo dado. . A perspectiva da constituição de trabalhadores flexíveis compõe a orientação neoliberal para a sociedade no seu todo. Apresenta-se também nas diretrizes para os cursos de formação de professores e na intensa relação do Estado com o oligopólio da produção editorial brasileira. bastante dependente do conteúdo e estrutura do livro didático. 1998 p. caracterizando assim um trabalho extremamente precarizado. 1998). o que cria dúbia realidade de mãode-obra terceirizada no interior do sistema público de ensino. Está presente na visível “recomendação” dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Embora a ênfase da política educacional seja a descentralização administrativa. tornando-se a escola peça ativa desta lógica. e do “Provão”. Avaliação Nacional de Cursos Superiores. Ou ainda nos mecanismos de avaliação dos diversos níveis de ensino. Ele se manifesta em várias iniciativas do Estado. meios. levando ao campo da educação um incremento da flexibilização dos contratos de trabalho docente. cuja exigência mínima se aproxima da totalidade do currículo. e nem sequer lhes compete questionar sua essência. e ainda há o controle do trabalho docente mediante lógica que subordina a dinâmica da gestão presente às políticas públicas neoliberais. responsável pela padronização de uma dinâmica docente em sala de aula. da uniformização de conteúdos a ser avaliados nacionalmente. ficando às escolas reduzidas sobras de autonomia para se trabalhar conteúdos de ordem regional.25). códigos e significados. constituindo-se num exemplo bastante representativo desta realidade o surgimento em larga escala dos professores “conveniados” no sistema público. repletas de conteúdos.

decide e intervém nos processos sociais e institucionais. Entretanto. que significa “participação” em prol de uma escola de qualidade para todos. Por não serem confrontados com o real. a expressão “formar para a cidadania” é abusivamente difundida. obrigando-se a contentar-se com arremedos de solução desses problemas. e. O fenômeno da parceria cresce em importância por revelar uma face negativa da escola. revestindo-se de conteúdo ideológico para se alcançar na prática o efeito necessário à execução das atividades concebidas por sujeitos mentores das políticas públicas.Outro conceito sobre a fundamentação teórica. Um dos fortes caminhos apontados para a realização da participação é o da parceria de diversos movimentos sociais. ser envolvido e motivado. aos “amigos da escola” é prescrito um tanto de atribuições. O envolvimento sugerido é apresentado sem o ingrediente fundamental da dimensão política. os conceitos produzem práticas que os negam. tocado e conduzido pela ideologia da participação. A expectativa de quem elabora políticas públicas em educação e convida professores e pais à participação é o consenso. . À escola. O enfrentamento dos problemas assume sempre caráter emergencial e imediato. portanto. à comunidade. desveste-se do ingrediente político. aos pais. característica de sujeitos históricos que se questionam. No campo educacional. e assume o caráter pragmático de fazer as coisas funcionarem a partir da mobilização da sociedade. A participação. na razão direta da falta de responsabilidade perante o Estado. Cabe ao professor deixar-se envolver por este clima de integração. lutam. tanto no nível das políticas quanto no cotidiano dos sujeitos da comunidade escolar. sua inclusão neste processo faz parte do movimento de não responsabilizar o Estado no provimento de todos os recursos humanos e materiais necessários à educação pública gratuita e de qualidade. A comunidade vai aos poucos assumindo para si responsabilidade pela existência dos problemas. numa proporção absurdamente inversa a sua discussão. não contribuindo para a construção de uma escola materialmente de qualidade. nem para a formação de uma identidade profissional autônoma. o distanciamento da comunidade. o consentimento em torno do que está sendo proposto (Bruno. 2001). A concepção de cidadania na perspectiva neoliberal não pressupõe debate aprofundando conceitos.

1986). . como: retirar da qualidade o pressuposto humanístico. na verdade há por trás algumas intenções não explicitamente reveladas. 1994). Desse modo. a execução dos desafios que estão postos. pois somente colaborando na resolução de problema eleitos. e associá-la à realização de atribuições arquitetadas cientificamente e nunca ao produto real.sim. difundido em objetivos educacionais de diferentes perspectivas teóricas na história das idéias pedagógicas. A definição da função social da escola na atualidade não pode ocorrer sem se contextualizar o golpe desfechado pela perspectiva neoliberal nos valores humanos e democráticos que. mesmo formalmente. Contudo. impulsionar a ação dos sujeitos dentro desta lógica. a distribuição da qualidade. discursiva e concreta. A ideologia neoliberal desenvolve importante papel na função da escola numa sociedade globalizada e de classe. que as comunidades escolares constroem cidadania. ocorre em consonância com os interesses dos grupos sociais hegemônicos. até então. nortearam a experiência da humanidade. incutir na cabeça dos sujeitos um conceito de qualidade útil à lógica do mercado. pondo em questão o princípio da promoção humana (Saviani. onde o poder encontra-se estruturado (Enguita. quando nos deparamos com a afirmação oficial de que “o objetivo da escola é uma educação de qualidade”. A campanha da qualidade na educação é mascarada e diretamente sintonizada às necessidades do mercado nos espaços de decisões.

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