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Mecânica Analítica

2021-2022

Série 2

Responsáveis: Hugo Terças, Pedro Cosme

Nesta série, concluímos o estudo dos multiplicadores de Lagrange e iniciamos os potenciais


centrais

? Problema 1. Partícula livre. Determine as equações do movimento de uma partícula livre,


a duas dimensões, em coordenadas polares, a partir das equações de Euler-Lagrange.

? Problema 2. Força central. Considere uma partícula a mover-se no plano (x, y), sujeita a
uma força que está dirigida
p para a origem do referencial O = (0, 0) e cuja magnitude é proporcional
à distância, F = −k x + y 2 (com k > 0). Escreva o Lagrangiano e determine as equações do
2

movimento:

(a) Em coordenadas cartesianas;

(b) Em coordenadas hiperbólicas definidas como:

2xy = µ, x2 − y 2 = λ.

? Problema 3. Coordenadas solidárias. Em cosmologia, é comum introduzir-se as coordenadas


comóveis, por forma a que as coordenadas de partículas que se afastam devido à expansão do
Universo não dependam explicitamente do tempo, ou seja,

r(t) = a(t)r0 ,

onde r(t) são as coordenadas inerciais e r0 as coordenadas comóveis. Determine a equação do


movimento para uma partícula a propagar-se neste sistema de coordenadas quando sujeita a um
potencial V (r0 ) = mΦ(r0 ).

?? Problema 4. Caixa numa rampa móvel. Considere uma caixa de massa m, deslizando,
sem atrito, sobre a hipotenusa de uma rampa de massa M que faz um ângulo θ com a vertical.
Assuma que a rampa também desliza sem atrito sobre a superfície da mesa.

(a) Defina as coordenadas generalizadas necessárias ao problema.

(b) Obtenha o Lagrangeano do sistema e escreva as equações do movimento.

(c) Identifique a(s) quantidade(s) conservada(s).

1
(d) Determine a aceleração de cada uma das caixas.

?? Problema 5. Partindo do princípio de Hamilton, mostre que para L = L(qi , q̇i , q̈i , t), as
equações de Euler-Lagrange se escrevem1
∂L d ∂L d2 ∂L
− + 2 = 0.
∂qi dt ∂ q̇i dt ∂ q̈i
? Problema 6. Forças de constrangimento na calote esférica.
Considere uma calote esférica de raio R. Do seu topo, uma partícula
pontual de massa m parte, do repouso, podendo deslizar, sem atrito,
até a abandonar.

a) Identifique os graus de liberdade do sistema e obtenha o respectivo


Lagrangeano.
b) Escreva as equações do movimento.

c) Assuma que a partícula e a calote interagem entre si através de um


potencial V (r). Identifique a forma desse potencial e obtenha a força de constrangimento. Para
isso, promova a coordenada radial (constrangida) a grau de liberdade e imponha a restrição a
posteriori. Interprete fisicamente.

d) Determine a altura crítica hc a que a partícula abandona a calote.

? ? ? Problema 7. O poço de Evel Knivel. 2 . Evel Knivel foi um motociclista americano que
ficou famoso pelas suas proezas acrobáticas. Foi considerado um dos mais aclamados duplos do
cinema americano entre as décadas de 70 e 80, tendo feito mais de 75 saltos sobre motociclos e
somado mais de 433 fracturas ósseas. Numa das suas proezas, Evel punha-se à prova no conhecido
poço da morte.
Considere que Evel e a sua motoreta (massa total m) circulam na superfície de um parabolóide,
obtido por revolução em torno do eixo zz, e de abertura a.
a) Mostre que o Lagrangeano do sistema se pode escrever como
1
L = m ρ̇2 + ρ2 ϕ̇2 + ż 2 − mgz,

2
onde ρ é a distância de um ponto do parabolóide ao eixo zz e ϕ o ângulo polar.
b) Como sabe, as equações de Euler-Lagrange só são válidas para coordenadas generalizadas
independentes. Para as obter, temos de eliminar algumas coordenadas escrevendo as equações
de ligação. Obtenha essa(s) equação(ões).
c) Use o método dos multiplicadores de Lagrange para este problema. Mostre que, para veloci-
dades angulares constantes, ϕ̇ = ω0 , se tem
1
λ = − mω02 .
2
Qual o seu significado físico?
1
Esta forma das equações de Euler-Lagrange não são uma mera formalidade. Na verdade, elas são bastante
recorrentes em teoria de campo.
2
Podia ser o poço da morte, mas, felizmente para Evel, não foi o caso.

2
d) Vamos estudar quão estável é o movimento de Evel. Para tal, consideremos perturbações nas
coordenadas do tipo ρ = ρ0 + δρ, z = z0 + δz e ϕ̇ = ω0 + δ ϕ̇. Escreva as equações de Euler-
Lagrange em primeira ordem nas perturbações e mostre que Evel está limitado (sorte dele!) a
pequenas oscilações de frequência angular

2ω0
Ω= q .
2ω02 ρ20
1 + ag

?? Problema 8. O pêndulo móvel. Considere um pêndulo simples, composto por uma massa
m suspensa numa haste indeformável de comprimento ` e de massa desprezável, cujo ponto de
suporte é uma massa M que se pode deslocar horizontalmente.

a) Escolha θ (o ângulo que o pêndulo faz com a vertical) e X (a posição horizontal da massa
M em relação à origem) como coordenadas generalizadas. Escreva um Lagrangeano simpático
para o sistema.
b) Obtenha as equações do movimento do sistema.
c) Considere o caso em que a massa M se desloca com velocidade constante. Mostre que o
Lagrangeano resultante é equivalente (ou seja, resulta nas mesmas equações do movimento) ao
caso do pêndulo simples standard (com ponto de suspensão fixo). Discuta o resultado.
d) Considere agora o caso em que a massa M se desloca com aceleração constante. Quantos graus
de liberdade tem o sistema? Mostre que neste caso o Lagrangeano não é equivalente ao de
um pêndulo simples standard. Qual a origem do novo ingrediente? Escreva as equações do
movimento.
e) Ainda no mesmo caso da alínea d), determine a força na direcção r utilizando o método dos
multiplicadores indeterminados de Lagrange. A que corresponde o termo não presente no caso
standard?

?? Problema 9. O plano oscilante. Considere uma massa M fixa no vértice que faz um ângulo
recto entre uma barra (sem massa) de comprimento ` e uma barra muito longa, também sem massa.
Nesta última, um berlinde de massa m pode deslizar, sem atrito. O sistema
pode rodar no plano definido pelas duas barras, sendo θ o ângulo com a
vertical. Assuma que o berlinde de massa m pode penetrar a massa M .

a) Identifique os graus de liberdade do sistema e obtenha o respectivo


Lagrangeano.

b) Determine as equações do movimento.

c) Determine os modos próprios de vibração do sistema no limite das pe-


quenas oscilações.

d) Perceba o que aconteceria se as massas m e M fossem impenetráveis. Que alterações ocorreriam


nas alíneas a), b) e c)?

? Problema 10. Uma simples barreira centrífuga. Considere uma mola de constante elástica
k e comprimento natural `0 , ligada a uma massa m que se pode mover no plano.

3
a) Quantos graus de liberdade tem este sistema? Justifique.

b) Escreva o Lagrangeano deste sistema em coordenadas generalizadas e determine as quantidades


conservadas. Justifique.

?? Problema 11. A mesa furada. Considere uma massa m unida a outra massa M por um
fio inextensível de comprimento `0 . A massa M é colocada sob a acção da gravidade (movimento
vertical), ao passo que a massa m pode movimentar-se no plano horizontal.

a) Quantos graus de liberdade tem este sistema? Justifique.

b) Escreva o Lagrangeano deste sistema em coordenadas generalizadas e determine as quantidades


conservadas.

c) Obtenha os pontos de equilíbrio do sistema e caracterize-os. Em condições estes existem?

d) Considere uma pequena perturbação à órbita de equilíbrio, r = r0 + ξ. Obtenha a equação


para ξ e verifique o teorema de Bertrand.

?? Problema 12. Um Teorema de Nöther. Como vimos, o Teorema de Nöther estabelece uma
relação geral entre simetrias e leis de conservação. Vejamo-lo formulado na sua versão mais fraca.
Para tal, consideremos a seguinte família de transformações contínuas de parâmetro infinitesimal


qi0 = qi + ξi (qi , t),


onde ξi designam os geradores das translações.

a) Mostre que, caso o Lagrangeano seja invariante para a transformação acima, i.e. se δL =
dL
= 0, então existe conservação da seguinte quantidade (carga de Nöther)
d =0
∂L
I(qi , q̇i ) = ξi .
∂ q̇i

b) Use o resultado anterior para demonstrar que a conservação do momento linear é uma conse-
quência da simetria para translações. Para tal, recorra à transformação

X = x + .

c) Repita o ponto anterior considerando a invariância para rotações no plano (x, y),
     
X x cos  −y sin  x −y
= lim '
Y →0 x sin  y cos  x y
para demonstrar a conservação do momento angular segundo a direcção z.

? Problema 13. Potencial efectivo. Considere uma partícula de massa m que se pode mover
no espaço sob a acção de um potencial central V (r) = V (r).

a) Determine as quantidades conservadas neste sistema.

4
b) Mostre que a equação do movimento se pode escrever na forma

1 `2θ
 
d
mr̈ = − V + .
dr 2 mr2

Isto quer dizer que a dinâmica de uma partícula num potencial central é equivalente ao problema
unidimensional de uma partícula no potencial efectivo Vef. (r) = V (r) + `2θ /(2mr2 ).

c) Introduza a variável u = 1/r e obtenha a equação polar das órbitas

d2 1 r2
 
1
+ = −m F (r),
dθ2 r r `2θ

onde F (r) = −dV /dr.

d) Verifique a condição de órbita circular para forças centrais do tipo F (r) = −k/r2 . Este é o
caso da força gravítica.

e) Para que tipo de força obtemos órbitas não confinadas do tipo r(θ) = keαθ (com kα > 0)? Dê
um exemplo físico onde isso se possa verificar.

f) É possível inferir algumas propriedades das órbitas comparando a energia mecânica E com o
potencial efectivo Vef. (r). Para tal, consideramos o caso particular da lei da gravitação universal
de Newton,
k `2
Vef. (r) = − + θ 2 .
r 2mr
Considere os quatro casos possíveis e descreva as órbitas correspondentes.

?? Problema 14. Órbitas abertas ou fechadas? Considere uma massa m no pano ligada a
uma mola de constante elástica k e comprimento natural `.

a) Represente graficamente o potencial efectivo e obtenha o(s) ponto(s) de equilíbrio do sistema.

b) Estude a forma do potencial efectivo e observe que, no caso geral, obtemos sempre órbitas
limitadas, isto é, que existem r− e r+ tais que r− ≤ r ≤ r+ . Mostre que para ` = 0 essas
órbitas são sempre elípticas.

c) Considere o caso particular da órbita circular. Para que valores da frequência angular θ̇ = ω0
obtemos órbitas fechadas para os pequenos desvios?

?? Fraco, forte e o polaritão. Considere um sistema mecânico composto por dois osciladores
idênticos de massa m e constante elástica k, e suponha, ainda, que estes se encontram ainda ligados
entre si por uma mola de constante elástica k 0 . O acoplamento entre os dois osciladores pode ser
de dois tipos, dependendo do valor de k 0 : fraco ou forte, sendo que o último caso é de particular
relevância. Em física de matéria condensada, por exemplo, um mecanismo deste tipo permite o
acoplamento de partículas elementares de um determinado sistema (ex. fotão acoplando com um
excitão, em semi-condutores), dando origem a quasi-partículas (neste caso o polaritão). A teoria
das quasi-partículas é extremamente bem-sucedida na descrição de efeitos colectivos em matéria
condensada (esperem para ver!).

5
a) Mostre que o Lagrangiano do sistema pode ser escrito na seguinte forma
1 1 1
L = m(ẋ21 + ẋ22 ) − k(x21 + x22 ) − k 0 (x1 − x2 )2
2 2 2

b) Defina novas coordenadas ξ1 e ξ2 (quais?) que transformem o problema num outro onde as
molas aparecem desacopladas. Escreva as equações do movimento para estas novas coordenadas
e interprete fisicamente o resultado.

c) Regressemos às coordenadas originais x1 (t) e x2 (t). Escreva as respectivas equações do movi-


mento, resolva-as e obtenha os batimentos
   
ω1 ω1
x1 (t) = A1 sin(ω1 t) + sin(ω2 t) , x2 (t) = A2 sin(ω1 t) − sin(ω2 t) .
ω2 ω2
Determine ω1 e ω2 e interprete fisicamente. Onde é que já vimos isto?

d) Considere a situação em que k 0  k. Expanda ω2 em primeira ordem no rácio k 0 /k e represente


graficamente x1 (t) e x2 (t). Observe o aparecimento de um envelope envolvendo uma oscilação
no seu interior.

e) Inverta a situação, tomando agora k 0  k. Que tipo de movimento obtemos? A este fenómeno
dá-se o nome de acoplamento forte.

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