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Ética Cristã - Revisão 2008

O documento explora a Ética Cristã, destacando sua relevância em um mundo de ética relativista e a necessidade de princípios éticos sólidos. Ele aborda a relação entre a ética e a vontade divina, a moralidade na Antiga e Nova Aliança, e a intersecção da Ética Cristã com outras disciplinas. Além disso, discute a importância da liberdade e responsabilidade nas escolhas morais, enfatizando que a ética cristã é inseparável da fé cristã.

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Ética Cristã - Revisão 2008

O documento explora a Ética Cristã, destacando sua relevância em um mundo de ética relativista e a necessidade de princípios éticos sólidos. Ele aborda a relação entre a ética e a vontade divina, a moralidade na Antiga e Nova Aliança, e a intersecção da Ética Cristã com outras disciplinas. Além disso, discute a importância da liberdade e responsabilidade nas escolhas morais, enfatizando que a ética cristã é inseparável da fé cristã.

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1

Tácito da Gama Leite Filho

ÉTICA CRISTÃ

Goiânia, 2003
3

COPYRIGHT

Revisão Final
Úrsula Regina da Gama Leite

Pedidos para:
4
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO, 04
CAPÍTULO 1 – ÉTICA E ÉTICA CRISTÃ, 06
Estudo Crítico da Moralidade
Enfoques Éticos
A Questão dos Valores
Ética Cristã e Vontade Divina
CAPÍTULO 2 – ÉTICA CRISTÃ E OUTRAS DISCIPLINAS, 12
Ética Cristã e Ciências Sociais
Ética Cristã e Psicologia
Ética Cristã e Filosofia
Ética Filosófica e Ética Teológica
CAPÍTULO 3 – MORALIDADE NA ANTIGA ALIANÇA, 19
O Código da Aliança
A Ética dos Profetas
O Desenvolvimento da Lei
O Conceito do Individualismo
A Evolução do Conceito de Justiça Divina
A Execução do Propósito de Deus na História
CAPÍTULO 4 – ÉTICA SOB A NOVA ALIANÇA, 30
O Antigo Testamento em Relação ao Novo
Características da Moralidade Hebraica
A Ética de Jesus Cristo
A Ética de Paulo
A Ética nas Cartas Gerais
CAPÍTULO 5 – ÉTICA HETERÔNOMA, AUTÔNOMA E TEÔNOMA, 42
Ética Heterônoma
Ética Autônoma
Ética Teônoma
CAPÍTULO 6 – ÉTICA CRISTÃ E CONSCIÊNCIA, 48
A Teologia Moral
O Problema da Consciência
Liberdade como Auto-Determinação
Amor a Deus e ao Próximo
CAPÍTULO 7 – ÉTICA DE KOINONIA, 55
Ética de Koinonia e Vontade de Deus
Ética de Koinonia e Consciência
Ética de Koinonia e Comunicação Interpessoal
CAPÍTULO 8 – ÉTICA APLICADA, 60
Direito à Vida
Autenticidade e Fidelidade
Amor e Sexualidade
Sociedade e Política
Natureza e Ecologia
CONCLUSÃO, 69
BIBLIOGRAFIA, 71
5
INTRODUÇÃO

Um curso de Ética Cristã é relevante nos dias atuais, principalmente pelo fato de vivermos
no contexto de uma ética relativista, isto é, o mundo pós-moderno defende a idéia de que não
precisamos de princípios éticos rígidos para nortear nossa conduta; cada situação pede um
determinado comportamento ético. Por isso, os cristãos necessitam de luz para resolver seus
problemas diários. Constantemente precisamos fazer decisões morais em situações complexas e
ambíguas e precisamos de todo o auxílio possível na luta moral. Neste contexto, os ministros de
Deus também necessitam compreender os pressupostos éticos para dar uma orientação moral sã a
seus membros, bem como às pessoas de fora da igreja que venham buscar sua ajuda.
A Ética Cristã (EC) estimula o crescimento moral do cristão e provê um padrão pelo qual
alguém pode medir seu próprio desenvolvimento moral. À luz desse padrão, o indivíduo poderá ver
o que ele deve ser, em contraste com o que ele é. Isso cria uma tensão e um descontentamento,
levando-o à meta da perfeição que Deus exige de seus filhos. Além do mais, o ensino de Jesus é
tanto ético como teológico; portanto, ninguém pode interpretar o Cristianismo a menos que entenda
e dê ênfase ao conteúdo ético do Evangelho. A EC se baseia na Teologia Cristã e deriva seu
conteúdo distintivo desta fonte. Afinal de contas, o ensino moral do Cristianismo permanece ou cai
com a fé cristã. Isso é verdade a despeito do pressuposto de que o ensino ético pode ser aceito por
aqueles que rejeitam a fé cristã.
Existem diferentes tipos de Teologia Cristã e por isso há variantes na orientação ética, o que
torna nossa tarefa um pouco complicada. Jesus não formulou nenhum sistema de Teologia, assim
como não formulou nenhum sistema de ética, mas a Teologia é obra inevitável da Igreja que
procura compreender o significado de Jesus e sua relação com Deus e com o homem. Obviamente,
a interpretação da EC, elaborada por alguém, dependerá da Teologia específica que defende. O
presente estudo tenta interpretar a EC do ponto de vista das doutrinas básicas do Cristianismo
clássico ou tradicional. Ele repousa sobre a crença de que, a despeito das muitas teologias
representadas pelas diferentes denominações e escolas históricas, há certas convicções básicas
acerca de Deus como Criador, como Juiz e como Redentor, e acerca do homem como criado à
imagem de Deus e efetivamente rebelado e decaído, mas confrontado com a promessa de perdão e
renovação, sobre as quais há acordo geral e que oferecem direção cristã na vida moral. Que há em
nossos dias crescente reconhecimento desta unidade, que supera as diferenças menos significativas,
torna-se patente pela força progressiva do movimento ecumênico representado pelo Conselho
Nacional das Igrejas de Cristo nos Estados Unidos da América e pelo Conselho Mundial de Igrejas.
O estudante de Teologia precisa estudar Ética, pois quando dissociada de sua base teológica,
a EC se torna nada mais do que um ideal humanístico. EC e a Teologia estão orgânica e
inseparavelmente relacionadas, pois Deus é a base de toda a moralidade cristã. Em relação à
teologia bíblica, a EC coopera com estudos bíblicos, estabelecendo o conteúdo ético da Bíblia.
Coopera com a História Eclesiástica, examinando a ênfase ética da igreja através dos séculos.
Coopera com a Homilética, proclamando mensagens de caráter ético. Coopera com o
Aconselhamento Pastoral, reduzindo ansiedades e frustrações (ao tratar do senso de culpa moral).
Coopera com Missões, preparando homens para enfrentar questões morais nos campos
missionários. Coopera com a Educação Religiosa, incluindo e levando à realização verdades éticas.
É imprescindível, portanto, examinar a vida moral segundo o ponto de vista da fé cristã.
Nosso trabalho seria bem mais fácil se os ensinos éticos do Cristianismo pudessem ser divorciados
desta fé e compendiados independentemente dela, como Thomas Jefferson tentou fazer ao compilar
uma coleção de ensinos morais de Jesus e como alguns dos nossos contemporâneos, que
consideram Jesus apenas como o supremo mestre de moral. Entretanto, como observa E. F. Scott,
em última análise, é impossível separar a ética de Jesus de sua fé religiosa, visto que Jesus não era
primariamente um moralista. “Jesus foi algo diverso do que legislador ou reformador. Ele trouxe
6
mensagens de Deus e sua ética não tem sentido à parte de sua religião”. Assim, não se pode
compreender o ensino moral do Cristianismo mediante a simples reunião dos conselhos éticos de
Jesus, encontrados no Sermão da Montanha e em outras partes dos Evangelhos, quer sejam esses
ensinos interpretados como leis para serem literalmente cumpridas ou como princípios para
orientação geral. Queiramos ou não, estejamos ou não interessados em Teologia, se desejamos
compreender o ensino ético de Jesus, devemos procurar entendê-lo no contexto de sua mensagem
religiosa.
A presente interpretação da EC é oferecida, portanto, não como discussão definitiva do
assunto, mas antes como uma das maneiras de encarar o grande tema. A tarefa de formular uma EC
é contínua, em constante processo, e pela própria natureza do caso nunca pode ser terminada. Por
um lado, isso envolve a constante reformulação de qualquer afirmação especial desta ética, à
medida que se conseguem progressos no campo teológico, que é a base para ela; por outro lado, isso
envolve esforço continuo para conseguir compreensão mais adequada da necessidade humana e da
sociedade, especialmente em vista das rápidas mudanças que se processam em todos os setores da
ordem social, e a constante necessidade de cada crente descobrir o conteúdo específico desta ética,
em termos da exclusividade bem como da universalidade de cada situação moral. Em vista disso,
bem como das limitações óbvias do autor, estabelecemos a modesta tarefa de examinar a relação da
fé bíblica com a conduta moral.
Nossa intenção não é debate com sistemas filosóficos, mas exame da maneira pela qual se
manifesta a vida moral segundo a perspectiva da fé cristã. Somente quando o ensino moral cristão
for assim entendido, segundo seus próprios termos, poderá alguém escolher razoavelmente entre ela
e conceitos opostos, com base na sua adequação relativa aos fatos da vida moral. O estudante
interessado precisa, pois, lutar com as questões e os problemas básicos da moralidade, conforme
aparecem sob a luz da fé cristã. Não encontrará aqui nenhum código ou conjunto de regras, que lhe
digam o que o cristão deve fazer para viver a vida ideal. Ao contrário, ser-lhe-á indicada uma fé que
o qualifica a agir espontânea e livremente onde as regras falham ou não existam.
Deste modo, estudaremos sobre o relacionamento entre Ética e Ética Cristã, sobre o
relacionamento da Ética Cristã com outras disciplinas, sobre a moralidade na antiga Aliança e sob a
nova Aliança; haverá esclarecimentos sobre ética heterônoma, autônoma e teônoma e sobre
consciência. Para finalizar, trataremos da ética de koinonia e de uma aplicação prática a diversos
problemas éticos da atualidade.
7

CAPÍTULO 1
ÉTICA E ÉTICA CRISTÃ

Podemos definir ética como o esforço inteligente para descobrir critérios ou padrões para
tomar decisões. Para decidir, estamos sempre fazendo julgamentos morais. Quando a pessoa
pergunta, de maneira séria e pessoal: Por que considero esta ação certa e esta outra errada? Que
valores pessoais me fazem decidir dessa maneira?, significa que a ação é o resultado de uma
reflexão baseada em critérios conscientes de valor; ultrapassou o nível de costume, tradição. Não é
porque determinada atitude é uma tradição ela é correta. Determinadas leis nem sempre significam
o modo mais certo de agir. Por isso, necessitamos de uma compreensão ética para evitar erros
comuns de raciocínio ético, tais como: o erro de reduzir a moralidade cristã a um mero conjunto de
regras; o erro de permitir o interesse próprio num julgamento moral; o erro de enfatizar pequenas
questões éticas em detrimento de questões de maior importância; o erro de divorciar religião, de
ética; o erro de substituir conduta por contemplação ética.
Para desenvolver a presente argumentação, definimos a ética como o estudo crítico da
moralidade, damos alguns enfoques éticos, tratamos a questão dos valores e confrontamos a ética
com a vontade divina.

ESTUDO CRÍTICO DA MORALIDADE


A ética pode ser definida como o estudo crítico da moralidade. Consiste na análise
sistemática da natureza da vida moral humana, incluindo os padrões do certo e errado pelos quais
sua conduta possa ser guiada e os bens últimos para os quais essa conduta possa ser dirigida. Por
um lado, a ética ocupa-se das escolhas morais práticas que os homens fazem; por outro, preocupa-se
com os alvos e princípios ideais que reconhecemos estarem impondo exigências sobre nós.
O estudo da Ética repousa sobre o pressuposto de que o homem é livre e responsável. A não
ser que ele seja livre em sentido bem real, não pode ser considerado responsável pelos seus atos; e
se não é responsável por esses atos, eles não possuem significado ético. Se suas ações são
determinadas pela mesma espécie de fatores que condicionam o comportamento de objetos físicos,
seria ocioso tratar de obrigação moral, dever, louvor, culpa e mesmo de verdade. A Ética pressupõe
que as escolhas morais não são simples questões de acaso; não são fortuitas e completamente
imprevisíveis. Neste caso, a pessoa não seria uma boa pessoa, não teria estabilidade de caráter e não
haveria base para confiança em suas ações futuras.
Escolhas morais não são simplesmente indeterminadas; são o resultado de uma espécie de
determinação ou causalidade bem distinta daquela que governa e estabelece o comportamento dos
fenômenos puramente físicos. Não são tanto o resultados de compulsão biológica ou externa, como
da apreensão daquilo que é certo e bom. Nas palavras de William Temple, a liberdade moral “não é
ausência de determinação; é determinação espiritual em contraste com determinação mecânica e
mesmo orgânica. É determinação pelo que parece bom em oposição a determinismo em termos de
compulsão irresistível”. Liberdade moral significa a capacidade de autodeterminação no sentido de
que o ser humano é livre para escolher os fins, os alvos e os valores que ele quer buscar, e livre para
aceitar ou rejeitar as exigências do dever.
A ética pressupõe liberdade e responsabilidade; está preocupada, direta ou indiretamente,
com todos os atos livres do homem. Interessa-se por todas as suas decisões, escolhas e avaliações.
Ocupa-se, por exemplo, com os julgamentos éticos que o homem faz, na medida em que estes
envolvem decisões a respeito do uso do tempo e energia, e com a escolha se alguém deve ou não
8
procurar desenvolver suas capacidades éticas para seu próprio enriquecimento e prazer ou para o
enriquecimento da vida humana como um todo. A atividade moral é inevitável enquanto o homem
permanece homem, distinto de um autômato ou de mero organismo biológico. Ele está envolvido
em conduta moral, não só em suas atividades como indivíduo nas relações diretas “um a um” com
outros indivíduos, mas também em suas atividades como membro de inúmeros grupos, através dos
quais ele se relaciona com grande número de outras pessoas, membros dos mesmos grupos ou
atingidos por eles.
A ética diz respeito a todas as atividades do homem razoavelmente louvadas ou censuradas.
Ela se interessa por todas as formas de comportamento, às quais são relevantes os conceitos de
“dever”, “obrigação” e “bem”. Ela está ligada à escolha dos meios, bem como dos fins últimos.
Interessa-se pelas formas de comportamento oriundas do hábito (levantar-se às quatro ou às sete da
manhã, o modo de se vestir, como dirigir o carro, a regularidade com que se assiste às reuniões de
clube cívico do qual se é sócio), assim como por decisões e escolhas extremamente complexas (os
termos específicos do próximo contrato entre empregados e empregadores). Aquilo que às vezes é
considerado o campo total da ética, como o alcoolismo e o jogo, na verdade representa simples
fração da moralidade. Não há como fugir das decisões morais seja pelo caminho da inércia ou da
autodestruição. A inércia apóia, de fato, o status quo, e a decisão de “não ser” é, obviamente, a mais
funesta escolha ética que alguém pode fazer.
A discussão ética tradicional gira em torno da análise de dois conceitos distintos: o direito (o
certo) e o bem. O conceito de direito envolve as noções de dever, de lei moral e de imperativos; o
conceito de bem envolve a idéia dos bens ou fins almejados. No primeiro caso, a vida ideal é
apreciada em termos de obediência à lei; no segundo, como satisfação de desejos e realização de
fins. Conforme a primeira possibilidade, a ética formula a pergunta: Qual é meu dever? Na segunda,
ela pergunta: Qual é o bem supremo? Alguns pensadores éticos, Immanuel Kant por exemplo, têm
sustentado que a questão concernente ao direito, ao certo, é primária; outros, Aristóteles por
exemplo, consideraram o bem como a mais importante. Entretanto, como nos adverte Ross, “as
duas noções, o direito e o bem, estão implícitas no estudo de questões morais e quem lidar com
uma, cedo ou tarde descobrirá que é preciso introduzir a outra”. Assim, enquanto Kant tentava
descrever a totalidade da obrigação humana em termos da análise das implicações do conceito de
dever, sem introduzir a noção dos bens a serem buscados, foi forçado a argumentar que certos atos
são errados pelo fato de produzirem maus resultados. Aristóteles, por sua vez, fundamentava sua
ética primariamente na noção de um bem ou alvo a ser realizado, mas ao discutir virtudes especiais,
tais como a coragem, considerou-as certas em relação ao bem final da vida humana (felicidade e
bem-estar).

ENFOQUES ÉTICOS
Ética Hedonista – Seu critério ético supremo é o prazer. Entretanto, o que dá prazer a
alguns significa desprazer e dor, para outros. Este enfoque ético se subdivide em individualista e
universalista. Como os termos já esclarecem, o individualista apenas pensa em seu próprio prazer,
sem preocupar-se com o dos outros. Quando beneficia alguém, fá-lo pensando em sua própria
alegria ou em chamar a atenção sobre si. Os universalistas também são conhecidos como
utilitaristas; todas as pessoas estão incluídas na busca do prazer; o prazer pessoal é sacrificado pelo
prazer do grupo. Entretanto, o maior bem para o maior número de pessoas é um princípio ético
bastante vago e depende de outros critérios para ser alcançado. Uma observação final a respeito da
ética hedonista é que todos nós somos um pouco hedonistas, pois utilizamos como um dos critérios
éticos para nossas escolhas o prazer que determinada escolha pode nos causar. Existe, pois, um
hedonismo religioso que aponta para os prazeres do céu e para os sofrimentos do inferno; esta
atitude destrona Deus e coloca a felicidade da pessoa como o verdadeiro bem de sua vida.
Ética Naturalista – Seu critério ético supremo é a natureza. Tudo que contribui para a
sobrevivência do mais apto é bom e tudo que dificulta sua sobrevivência e ajuda o inapto a
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sobreviver é mau. A ética naturalista apela para a sobrevivência. A dúvida está em relação ao que se
considera apto ou inapto. Este conceito possui diferentes interpretações. Os naturalistas defendem a
teoria da evolução e o processo da seleção natural, como forma de preservar os mais aptos. Na
prática, esse tipo de pensamento ético não vai interferir na natureza para conservar os considerados
inaptos. Aqueles que não podem contribuir melhor para o progresso da sociedade são considerados
inaptos: os idosos, os doentes mentais, os deficientes físicos e outros. Este enfoque ético incentiva
também o pensamento da superioridade de algumas raças sobre outras. Influencia a vida econômica,
pois afirma que o importante é a sobrevivência econômica do mais forte. As virtudes enaltecidas
são: a aspereza, o egoísmo e a agressividade, em detrimento do amor, da piedade e da humildade,
verdadeiras virtudes cristãs.
Ética Relativista – Não apresenta um critério ou um padrão para o comportamento ético.
Não há critério para afirmar que alguma coisa é certa ou errada. Assim, surgem tantas éticas quantas
pessoas existem. Todos os valores são considerados como irrelevantes e sem sentido. As pessoas
hoje estão sendo incentivadas a aceitarem tal postura ética como dogma infalível. Daí a expressão:
Todas as religiões são boas, se professadas com sinceridade. Estamos indo para o mesmo lugar,
mesmo que este lugar seja o céu, o inferno, o nirvana, o purgatório ou uma época de ouro, como
comenta Forell. De acordo com o relativismo positivista, nunca podemos condenar nenhum tipo de
conduta. A força normativa é dada aos costumes vigentes e a ética é fundada sobre dados
estatísticos; os valores humanos são esquecidos.
Ética Estética – Enquanto as éticas anteriores preocupam-se com o futuro, com o resultado
de suas escolhas, a estética se preocupa apenas com o sentido que a vida tem no momento. Os
sentidos e emoções são utilizados para dar sentido à vida e transformar a ausência de sentido em
beleza. A vida é transformada poeticamente. No teatro, na pintura, na escultura e na poesia, o
sofrimento, a maldade, a guerra, a escravidão e outras coisas tristes e más são apresentadas como
belas, pois o artista assim as transformou. A ética estética pode ser subdividida em ética de auto-
realização e existencialismo ateísta. Para a auto-realização, sua meta é o desenvolvimento da
personalidade, em harmonia com todas as outras. O existencialismo ateísta isola a pessoa de seu
relacionamento com o divino, tornando-a como centro do universo. Vivendo ao máximo vivemos
melhor, é o seu lema. A atividade se torna substituta da decisão responsável.
Ética de Intuição – Acredita que as pessoas possuem um conhecimento intuitivo sobre o
certo e o errado, fazendo parte de sua própria constituição. Esse senso moral normalmente está
localizado na consciência. O filósofo inglês Henry Sidgwick apresentou três máximas que
defendem esse tipo de ética. São elas: Máxima da Benevolência – “Não devo preferir meu bem
menor ao bem maior do próximo”; Máxima da Prudência – “Um bem presente menor não deve ser
preferido a um bem futuro, maior”; Máxima da Justiça – “O que eu julgo certo deve, a menos que
eu esteja errado, ser julgado certo por todos os seres racionais que julguem verdadeiramente o
assunto”. Tais máximas podem receber diversas interpretações e, portanto, não serviriam de critério
ético para as diversas escolhas que fazemos durante nossa vida.
Ética Racionalista – Junto com a ética da intuição, é outra ética idealista. Seu maior
representante foi Immanuel Kant, para quem a lei moral não é uma afirmação de como as pessoas se
comportam, mas de como elas deveriam se comportar. Muitas vezes fazemos o que deveríamos
fazer ao invés de fazer o que gostaríamos de fazer. Uma lei moral é sempre um imperativo. Para a
ética racionalista, não há necessidade da intuição ou da fé.
Esses enfoques éticos apresentados são ou formalistas ou teleológicos, isto é, ou estão
centrados no motivo ou na meta da ação humana. Uma abordagem formalista enfatiza a importância
da intenção; se a intenção for boa, as conseqüências não serão consideradas más. Já na teleológica,
o que vale é o resultado da ação e não sua intenção.
10
A QUESTÃO DOS VALORES
Em geral, valor é aquilo que é bom, útil, justo, honesto, belo, agradável para o ser humano.
Na escala dos valores, os mais baixos são os biológicos, que incluem os que são estabelecidos pelos
instintos e pelos órgãos dos sentidos. Acima das necessidades biológicas estão nossas necessidades
psicológicas, intelectuais, culturais, estéticas etc. Os valores relacionados a essas necessidades,
como a amizade, a arte, o trabalho, o estudo, estão num nível intermediário; são tão importantes
como os biológicos para que possamos ter uma vida plena. Numa escala superior estão os valores
que consideramos mais humanos, porque levam à auto-realização da pessoa e dependem de suas
próprias decisões; são os valores éticos. Através de sua busca, o ser humano deseja estruturar sua
vida para torná-la digna de ser humano. Os valores éticos humanizam e dignificam o ser humano.
Dentre esses, encontram-se os valores religiosos, pois o ser humano busca em Deus o que não
encontra nas realidades criadas.
Para reconhecermos valores não podemos seguir o mesmo processo para conhecer um
teorema matemático, por exemplo. Freqüentemente estamos proferindo juízos de valor acerca das
coisas que nos cercam, isto é, fazemos afirmativas ou negativas acerca da água, do pão, do tempo,
da saúde, da música, de um político etc. Isto quer dizer que nosso juízo refere-se a um valor ou a
um desvalor, dependendo de nossa subjetividade. Nas ciências exatas não se emitem juízos de
valor; numa exposição de pintura, ao contrário, emitem-se opiniões de valor estético. Então, o
reconhecimento de valores é subjetivo e não se aplica a todas as áreas da vida. O valor, enfim, só
terá sentido se houver uma relação sujeito-objeto: valor é sempre valor para alguém, no dizer de
Rocha.
A Ética possui seus valores absolutos, como vida, liberdade, deveres, que são válidos para
qualquer povo, em qualquer tempo e em qualquer sociedade. Os valores éticos ou morais possuem
uma característica básica: não aperfeiçoam a pessoa numa única dimensão, ou seja, apenas em suas
necessidades biológicas, ou psicológicas, ou afetivas; eles buscam o aperfeiçoamento em todas as
dimensões da criatura humana. Os valores morais vão influenciar o projeto último da vida, pois
estimulam uma liberdade responsável que conduz a própria história da pessoa. Azpitarte assim
exemplifica a sua afirmativa: alguém pode ser um “expert” em economia, isto é, possuir altos
valores técnicos e científicos; entretanto, também pode ser um ladrão, isto é, seus valores morais
são nulos. Não basta conhecer os males morais; é preciso decidir evitá-los. Somente os valores
éticos qualificam uma conduta de boa ou má; os outros não lhe conferem essa dignidade. Por isso,
os valores morais são aqueles que tornam a pessoa autenticamente humana. “Se os valores estéticos
despertam sentimentos sedutores e de admiração, e os valores amorosos uma atitude de
encantamento, a resposta específica que o valor ético provoca é a experiência da obrigação”
(Azpitarte).
Vamos mais longe, afirmando que o problema ético mal resolvido é o foco de todos os
problemas políticos e sociais que afligem a humanidade. A solução está na busca da ordenação da
escala de valores, colocando-se no ápice os valores éticos. O que se observa hoje é que há uma crise
ética e ela reside na ausência de referências que apontem para o sentido ético da humanidade.
Existem mudanças culturais em nossa sociedade. Há uma dimensão evolutiva que as ciências, a
cultura e a história introduzem na moral. O comportamento moral das pessoas também está
mudando; por baixo de um comportamento que começa a ser considerado válido e aceitável, é
possível existirem autênticos valores normativos, talvez melhores e mais justos do que as normas
antigas. Uma conduta considerada rebelde pode chegar a impor-se como normal e ser confirmada
pela autoridade; tal acontece na sociedade civil e na eclesiástica.
A ética normativa, como conjunto de valores, está em permanente processo de gestação, no
sentido de busca permanente, para responder a cada situação, de modo mais humano e evangélico.
Entretanto, como observa Azpitarte, é necessário respeitar certos dados fundamentais, tanto
biológicas, sociais como psíquicos, para o bom andamento da existência humana. Quanto mais
avançam as ciências e a tecnologia, maiores são os perigos da desumanização, isto é, as pessoas
11
podem passar a ser escravas de suas descobertas. A evolução histórica e social mexe com a
estabilidade ética; há desajustes e crise entre as mudanças e as normas aceitas até então. É preciso
que haja reflexão, para não permanecer imóvel, agarrado à tradição, nem aceitar toda novidade sem
pensar.
A sociedade pós-moderna, incluindo nela os cristãos, é uma sociedade amante da liberdade.
Qualquer lei é vista como força coativa e externa, que destrói nossa autonomia e nos tira a decisão
responsável. Por isso, em vez de leis, preferimos falar em valores éticos. Acontece que esses valores
precisam de uma formulação, que são as normas morais. As normas expressam e objetivam a
exigência interna dos valores morais. As normas são mediações; servem de pontes entre os valores
morais objetivos e o comportamento concreto; formulam o conteúdo do valor e propõem a forma de
comportamento ideal. Os valores podem ter validade universal e ser aceitos por diversos grupos
humanos; o que pode mudar é a sua aplicação através das normas. Em determinado contexto, como
observa Azpitarte, certas soluções éticas são perfeitamente lógicas e explicáveis em determinado
contexto. É importante descobrir qual o valor moral que a norma está mediando, pois assim como
no passado ainda hoje o objetivo é agir de forma reta e justa, nas diversas situações.
Os cristãos se guiam pelas normas morais comuns e pelas normas peculiares à fé cristã. Uma
atitude amadurecida diante das normas não é a de obediência submissa, mas a de obediência crítica,
reflexiva, analítica. O cristão amadurecido analisa as normas, distingue as formulações, torna-as
adequadas à situação histórica e cultural, observa sua coerência, busca a correta interpretação em
diálogo comunitário e interpessoal.
Os valores morais cristãos são definidos pelas referências religioso-cristãs e seu conteúdo
específico é Jesus Cristo. Paulo falou claramente acerca disso: “Porque eu, mediante a própria lei,
morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem
vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de
Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.19,20). Cristo, através de sua morte e
ressurreição, derrubou a Lei. Os cristãos não vivem mais subjugados à Lei, como acontecia no
Antigo Testamento. Cristo libertou-nos do jugo da lei. A vida cristã é vivida em inteira liberdade,
valor inalienável do Cristianismo. A propósito, a máxima de Agostinho: “Nosso coração anda
inquieto enquanto não descansar em Ti”, pois são os valores morais cristãos que deverão nortear
todo conteúdo ético.

ÉTICA CRISTÃ E VONTADE DIVINA


Segundo o teólogo americano L. S. Keyser, a Ética Cristã é a "ciência que trata das origens,
princípios e práticas do que é certo e do que é errado à luz das Santas Escrituras, em adição à luz da
razão e da natureza". O teólogo Emil Brunner assim a define: "Ciência da conduta humana,
determinada pela conduta divina". Já o professor de Ética Cristã do Seminário Batista de Louisville,
EUA, H. H. Narnette, assim se expressa: “A ética cristã é uma explanação sistemática do exemplo e
ensino morais de Jesus aplicados à vida total do indivíduo na sociedade e realizados com o auxílio
do Espírito Santo".
Para compreender o significado da Ética Cristã (EC), precisamos saber que ela tem uma
dupla função, ou seja: definir o supremo bem e declarar os princípios da ação humana necessários
para se alcançar esse supremo bem. Se na ética filosófica a busca pelo supremo bem da vida tem
levado a numerosas teorias, tais como a do prazer e da felicidade, a do poder, a do cumprimento do
dever sem segundas intenções, e a da realização própria pessoa, a revelação bíblica estabelece a
vontade de Deus como a meta ética do ser humano. Por meio de exegese bíblica e interpretação, o
eticista cristão procura determinar a natureza e o propósito da vontade de Deus para a ação humana.
Para fazer essas normas aplicáveis a decisões morais contemporâneas, as conclusões da filosofia, da
história e das ciências sociais podem ser utilizadas. Dessa forma, EC é bifocal, olhando para a Bíblia
em busca de normas e princípios de conduta, e para outras disciplinas em busca de dados baseados
em fatos para uma ação inteligente.
12
Quanto ao objetivo da EC, há diversas opiniões. Alguns tendem a limitar a esfera da EC ao
indivíduo, excluindo a sociedade em que ele vive. Outros se preocupam tanto com os problemas de
origem social que tendem a negligenciar as necessidades espirituais do indivíduo. Daí o
Cristianismo ser reduzido a um programa social. Esse foi o erro da teologia liberal norte-americana
do final do século XIX e princípios do século XX, segundo a qual o reino de Deus tendia a
identificar-se com a individualidade do homem e com o progresso social. É artificial a divisão do
evangelho em evangelho social e individual. O evangelho de acordo com as Escrituras possui os
dois aspectos que não devem ser dissociados.
A vivência de acordo com os valores morais cristãos depende de uma opção fundamental,
que representa a orientação e direção de toda a vida rumo ao fim. Para o cristão, a decisão
fundamental só pode ser orientação radical para Deus, isto é, viver um relacionamento de amor com
Deus. A decisão fundamental do cristão também tem a ver com a categoria fé, fé em Jesus Cristo
como o único que pode trazer realização à existência pessoal. Jesus Cristo é a forma do
comportamento moral do cristão, isto é, o seguimento de Jesus expressa a nova forma de vida de
quem se decide a aceitar o chamamento e transformar-se em discípulo.
A opção fundamental cristã, que procura atualizar o seguimento de Jesus, implica a
transformação interior da pessoa e o compromisso de transformação intramundana. Exige-se u’a
mudança radical no modo de entender e realizar o próprio existir: perder a própria vida para
entregá-la a serviço dos outros como verificação real da abertura a Deus e da aceitação de Jesus
Cristo (Vidal).
PARA RESPONDER
1. Coloque C (certo) e E (errado) à frente das afirmativas:
( ) Se o homem não é livre não pode ser responsabilizado por seus atos.
( ) Escolhas morais são indeterminadas.
( ) O ser humano é livre para escolher os fins, os alvos e os valores.
( ) A ética se interessa apenas por algumas formas de comportamento.
( ) A discussão ética tradicional gira em torno da análise do direito e do bem.
2. Faça a correspondência entre a coluna de baixo e a de cima:
(1) Ética Hedonista
(2) Ética Naturalista
(3) Ética Relativista
(4) Ética de Intuição
(5) Ética Racionalista
( ) Preocupa-se com o sentido que a vida tem no momento.
( ) Aposta num conhecimento intuitivo do certo e do errado.
( ) Defende a teoria da evolução.
( ) Seu critério ético supremo é o prazer.
( ) Uma lei moral é sempre um imperativo.
( ) Não há critérios para o certo e o errado.
3. Complete as frases:
1) Numa escala de valores, temos os mais baixos que são os ..................; os intermediários que são
os ......................., ................ e os superiores, que são os ............................
2) O reconhecimento de valores é ........................ e não se aplica a todas as ................................
3) Os valores .............. tornam a pessoa autenticamente .....................
4) As ............... expressam e objetivam a exigência interna dos ..................... ....................
5) A vida cristã é vivida em inteira ........................., valor inalienável do .........................
13
6) A revelação bíblica estabelece a ...................... como meta ............... do ser humano.

CAPÍTULO 2
ÉTICA CRISTÃ E OUTRAS DISCIPLINAS

Ao estudar a Ética Cristã, não podemos isolá-la das outras disciplinas, porque em todas as
áreas de estudo há de se pedir e de se ter um comportamento ético, em que os valores morais da
sociedade como um todo ou do grupo em questão serão considerados no momento das decisões e
das ações. Já ouvimos falar em ética médica, ética do psicólogo, do assistente social e de outros
profissionais, tanto da área de humanas como de outras áreas. Quando estes profissionais são
cristãos, não se pode exigir menos do que uma conduta permeada pela Ética Cristã, cujo modelo por
excelência é Jesus Cristo e cuja orientação básica é a Bíblia.
Em vista disso, associamos a EC às diversas ciências, como as Sociais, a Psicologia, a
Filosofia e a Teologia. Os pressupostos da EC deverão conduzir as atitudes dos cientistas sociais,
psicólogos, filósofos e teólogos, a fim de que a vontade de Deus seja feita e o seu Reino venha a
este mundo.

ÉTICA CRISTÃ E CIÊNCIAS SOCIAIS


A Ética Cristã tem uma relação vital com as várias ciências sociais, particularmente a
Sociologia. A EC busca nessas disciplinas elementos concernentes a fenômenos sociais e
conhecimento fidedigno de condições sociais em que as pessoas vivem. Em outras palavras, a ÉC
volta-se para as ciências sociais à procura de dados que revelem a "situação reinante"; volta-se,
também, para as normas da revelação bíblica, à procura de elementos que digam "como a situação
deve ser", trazendo-os a um princípio coerente e exeqüível.
Embora utilize os conhecimentos das ciências sócias, a EC delas difere, bem como das
ciências físicas, tanto no que respeita ao seu campo específico de investigação como à sua
metodologia, mas está muito mais relacionada com as disciplinas do primeiro grupo do que com as
do segundo. As ciências sociais e a EC interessam-se pela análise do comportamento humano e sua
ação imprevisível, de um modo em que átomos, moléculas e planetas não o são. O cientista no
âmbito da física restringe suas investigações aos fenômenos cujo comportamento, segundo
pressupõe, pode ser explicado em termos de leis causais com possibilidade de verificação empírica.
Tais leis descrevem as condições sob as quais certos resultados são sempre os mesmos.
14
O cientista na esfera social e ética, por sua vez, dedica-se à investigação e análise dos vários
aspectos do comportamento humano; todos pressupõem que o homem possui certa medida de
liberdade. Assim, o cientista social tende a descrever a causalidade social pelas leis estatísticas e
correlações, que indicam o grau de probabilidade com que um fenômeno (por ex., a delinqüência
juvenil) será provocado por outro (por ex., lares desintegrados pelo divórcio) e não em termos de
leis positivas que descrevem relações invariáveis entre certos fenômenos. O cientista social precisa
fazer concessões a muitas variáveis, ou a fatores não controláveis, nas situações sociais; por essa
razão ele não pode predizer como um certo individuo ou grupo se comportará sob determinadas
condições especificas, mas apenas como um determinado número de indivíduos ou grupos se
comportará. O especialista em ética, como vimos, pressupõe que o homem é livre dentro de limites
e responsável por suas ações.
A Sociologia é ciência empírica, pois analisa os padrões de comportamento e os sistemas de
valores de diferentes culturas. O seu interesse é descrever os dados brutos da experiência humana,
analisar e interpretar o sentido teórico desses dados. Não só descreve os valores que são o
patrimônio de uma determinada sociedade, mas examina, também, até que ponto o comportamento
real de uma sociedade se mostra consistente com os valores e objetivos por ela reconhecidos. No
entanto, a Sociologia como tal não se interessa pela questão ética: Como devem ser mudados os
padrões de conduta reconhecidos como normativos numa certa cultura? A Ética deve muito à
Sociologia, pela compreensão mais profunda da complexidade e do caráter inter-relacionado dos
problemas sociais, pela compreensão profunda quanto à extensão e maneira como o indivíduo é
influenciado pela sua cultura, tanto para o bem como pra o mal, e pela compreensão mais precisa
das técnicas de mudança e controle social; mas a Sociologia não oferece substituto para a Ética. A
tarefa da avaliação moral, ou da escolha entre normas culturais, é de ordem diferente da empírica;
aqui nós nos defrontamos com a pergunta: Como deve a moralidade costumeira e convencional ser
mudada? Esta pergunta, semelhante à outra referente ao uso que deve ser feito dos dados
psicológicos, pode ser ignorada ou prejulgada, mas não pode, em última análise, ser evitada.
Que as ciências sociais não podem estar completamente divorciadas da Ética, como se
pensava anteriormente, está sendo agora reconhecido mais e mais, pelos próprios psicólogos e
sociólogos. Ilustração clara da presteza dos cientistas sociais em reconhecer os seus pressupostos de
valor, a priori, encontra-se na literatura a respeito de relações raciais. Muitas das publicações neste
campo estão bastante interessadas em reunir dados quantitativos e procuram fornecer análises
objetivas e científicas do problema. Todavia, por outro lado, muitos estudantes das relações raciais
reconhecem claramente que o problema é, em essência, mais moral do que relacionado a fatos
empíricos, apesar de poderem declarar que a prerrogativa de fazer julgamentos a priori sobre quais
os valores certos e quais os errados permanece fora do reino das ciências sociais; podem, portanto,
furtar-se a fazer qualquer de tais avaliações.
Crescente número de autores, primariamente cientistas sociais, reconhece o caráter a priori
dos pressupostos que lhes sustentam o interesse pelos problemas no campo das relações raciais e a
crença de que os valores democráticos de equidade e justiça representam normas desejáveis nas
relações entre grupos. Assim, em seu livro sobre relações raciais, The more perfect union, Robert
Maciver sugere que seu interesse é descobrir uma política social que dê plena expressão ao ideal de
uma comunidade democrática; ele deplora a tendência por parte dos cientistas sociais de admitir
“que conhecimentos mais precisos dos fatos possibilitarão por si mesmos a resposta à nossa
pergunta... A conseqüência infeliz é que geralmente os estudos mais científicos não fornecem u’a
mensagem aos estruturadores da política social, enquanto que grande volume de literatura
exortativa e aconselhadora não se apresenta bem fundamentada em conhecimento cientifico”.
George Eaton Simpson e J. Milton Yinger, na obra Racial and cultural minorities, igualmente
expressam confiança no alvo da “completa integração”, pela qual querem definir “aquela situação
em que cada indivíduo será julgado e tratado como individuo e de modo nenhum como membro de
um grupo suposto ou sem função”.
15
Em vista do envolvimento inevitável das ciências sociais nos pressupostos de natureza ética,
para compreensão das limitações e da influência cultural que inevitavelmente afetam todos os
julgamentos e escolhas éticas, a sua relação com as ciências sociais pode ser melhor descrita como
complementar, ou talvez mais acuradamente, como dialética. Este é, claramente, o caso quando está
em pauta a ética social em contraposição à ética pessoal concebida em termos individualistas. A
ética social pode ser definida como “o estudo do que é, à luz do que deve ser”. Apreciada nestes
termos, a contribuição específica do cientista social à determinação da política social está na
colaboração que dá para compreensão mais adequada daquilo que é, enquanto a tarefa do
especialista em ética é fornecer uma estrutura normativa, em termos da qual os dados empíricos e
teóricos reunidos pelas ciências sociais possam ser avaliados. Por um lado, o cientista social não
pode fugir das decisões éticas, a despeito de seus esforços para ser objetivo; e, por outro lado, o
especialista em ética acabará sendo irrelevante, no aspecto moral e social, na medida em que se nega
a levar em conta todos os dados empíricos trazidos pelas sociais, nas recomendações que fizer
quanto aos problemas sociais específicos.

ÉTICA CRISTÃ E PSICOLOGIA


A Psicologia é ciência empírica que lida com fatos observáveis de atividades psicofísicas e
tenta descobrir as relações de causa e efeito, segundo as quais certos tipos comportamento podem
ser compreendidos e, com base neles, podem ser preditos os resultados desses modos de agir. A EC,
por sua vez, é disciplina normativa e preocupa-se primariamente com a questão relacionada com
alvos a serem buscados pelas pessoas e com suas motivações.
A EC está fundamentalmente relacionada com Psicologia, pois as faculdades morais do
homem são uma parte básica de sua constituição mental. As questões essenciais à ação moral, tais
como caráter, consciência e vontade, envolvem estados da mente do indivíduo. Nenhum julgamento
adequado pode ser feito de um ato, certo ou errado, bom ou mal, até que o motivo que jaz ao fundo
de toda a conduta seja conhecido. Psiquiatras e psicólogos estão se compenetrando da conexão vital
entre Psicologia e Ética. Erich From, eminente psiquiatra, descobriu que neurose em si mesma, em
última análise, é sintoma de um fracasso moral.
O psicólogo Gordon Allport, da Universidade de Harvard, afirmou: "A maioria dos conflitos
que causam prejuízo à saúde mental tem a ver com os cursos de conduta que o indivíduo considera
moralmente obrigatórios. Quer a chamemos de consciência ou superego, o senso moral está quase
sempre envolvido em qualquer conflito sério". A EC está relacionada não somente com a correção
da conduta, os motivos que a põem em ação e a determinam, mas também com o fracasso moral da
pessoa que está agindo. Portanto, EC e Psicologia se necessitam reciprocamente para entenderem o
homem mais completamente.
A Psicologia lança muita luz sobre o problema ético, no que concerne às questões de
motivação e dos efeitos de escolha de fins ou alvos especiais; por outro lado, as decisões dos
psicólogos quanto aos aspectos da conduta humana, selecionados para investigação e que
influenciam a personalidade das pessoas, envolvem considerações éticas da maior importância.
Fatos psicológicos acerca do comportamento humano são importantes, mas nunca são
completamente coercitivos perante as escolhas humanas. Ao contrário, a descoberta desses fatos
abre novas possibilidades de futuras escolhas, e a decisão sobre qual dessas possibilidades deve ser
escolhida é essencialmente moral. A Psicologia, como disciplina empiricamente orientada, ajuda a
esclarecer a natureza das necessidades psíquicas do homem e a complexidade dos motivos em seu
comportamento, mas não fornece resposta à questão moral crucial: Qual é o autêntico bem do
homem e suas decisões e ações devem ser guiadas na direção de que alvos?
16

ÉTICA CRISTÃ E FILOSOFIA


A EC também está relacionada com a Filosofia. Ambas têm interesse na base fundamental da
conduta, na natureza do que é certo ou errado, nos valores, na epistemologia, no dever, na felicidade,
no homem e na sociedade. A EC, contudo, deve resguardar-se de se desviar para "o terreno da lei
moral racional". Dessa maneira, poderá lançar mão das conclusões filosóficas, que contribuem para
a compreensão desses problemas. Revisadas e transformadas para que sejam consistentes com a fé e
o amor, certas idéias filosóficas podem ser vantajosas. Um clássico exemplo de como o amor pode
usar as conclusões da moralidade religiosa é visto em Agostinho, um dos pais da Igreja. Ele define
as "quatro virtudes cardeais" dos gregos: sabedoria, temperança, coragem e justiça – em termos de
amor. Em seu pensamento, o amor é a essência de toda virtude. Portanto, ele interpreta os ideais
gregos como expressões do princípio do amor cristão.
Escreve Agostinho, ao expor as virtudes gregas clássicas reorientadas para Deus e não para
o eu, dizendo que “temperança é amor que se conserva inteiro e incorrupto para Deus; fortaleza é
amor que mantém todas as coisas prontas por causa de Deus; justiça é amor que quer servir só a
Deus e, portanto, controla todas as demais coisas em termos de sua subordinação ao interesse do
homem; prudência que distingue bem entre aquilo que o favorece para Deus e aquilo que pode
entravá-lo”. Obviamente, uma completa síntese da moralidade cristã e filosófica é impossível,
devido à transcendente natureza da EC. Ela começa com a revelação, enquanto a ética filosófica
começa com a razão; a primeira possui a verdade, ao passo que a última a procura.
Os eticistas cristãos podem apropriar-se, transformar e usar as válidas conclusões dos
moralistas filosóficos, ressalvando que a singularidade da EC não seja empanada ou perdida. Ela
nunca deve perder sua natureza "transmoral" através de excessiva acomodação aos ideais filosóficos.
Precisa mostrar-se superior a meramente outro ensino ético, ainda que esplêndido, ao lado de Platão,
Sêneca, Aristóteles e Kant.

ÉTICA FILOSÓFICA E ÉTICA TEOLÓGICA


Nossa definição de Ética, como o estudo crítico da moralidade, indica a possibilidade de ser
encarada como ramo da Filosofia, cujo propósito neste setor, é o exame sistemático da vida moral.
Como tal, ela analisa e avalia os vários conceitos do bem e da vida ideal, reconhecidos pelos
homens, e levanta importantes questões metafísicas e teológicas acerca do significado da
experiência moral, para que o homem compreenda a sua própria natureza e a do universo em que
vive. Quais são as implicações da crença em que o supremo bem intrínseco se encontra no gozo do
maior prazer possível por um agente individual? Dá o universo apoio a essa posição? É o universo
indiferente à justiça? Ou, qual é o significado da experiência humana de obrigação, ou do seu senso
de dever? Qual é a fonte desta obrigação? Por que acha o homem difícil cumprir o dever? Que
preço ele paga ao falhar na submissão às suas exigências? Prova ou apóia porventura a análise da
vida moral, a fé em Deus e a imortalidade? Se a resposta é afirmativa, a que tipo de Deus ela
conduz e qual é a natureza da imortalidade por ela sugerida?
Por um lado, a análise da vida moral (liberdade, bem, mal, dever) lança luz sobre questões
metafísicas e teológicas; mas, por outro lado, as pressuposições metafísicas e teológicas, feitas pelos
moralistas ao examinarem o campo da ética, também influenciam sua compreensão e análise da
vida moral. O moralista, cuja teoria segue a linha da auto-realização, tem possibilidades de concluir
que o maior bem para o homem se encontra no maior desenvolvimento possível dos poderes e
potencialidades do eu, por causa de certas pressuposições que faz acerca da natureza do homem e
de sua relação com o universo. O moralista cristão, semelhantemente, entrega-se ao estudo da Ética
levantando os pressupostos acerca da natureza do homem, do universo e de Deus. Procura entender
a vida moral, a liberdade, a obrigação, o bem, o sentido último da moralidade, em termos desta fé, e
17
as conclusões que tira a respeito dos deveres do homem e do verdadeiro bem são determinadas, em
grande parte, pelo conteúdo desta fé. Assim, o teólogo e o filósofo moralista são semelhantes neste
ponto: ambos baseiam seus sistemas de ética em pressupostos que não são derivados da razão e que
em última análise são indemonstráveis em termos da razão. Mas o fato de usarem diferentes
conjuntos de pressupostos é da maior importância e explica boa parte das diferenças entre os
conteúdos das moralidades que recomendam.
Isso não significa, contudo, que aquele que se dedica ao estudo da Ética do ponto de vista da
fé cristã não se interesse pela análise da verdade moral feita sob outras perspectivas, ou que nada
tenha a aprender delas. É verdade que tem havido estranha tendência, por parte de alguns recentes
teólogos protestantes, de abrir mão de todos os sistemas de Ética Filosófica como sendo
praticamente inúteis para o moralista cristão. Um dos mais destacados representantes desta
tendência de rejeitar os sistemas seculares de ética é Emil Brunner. Na sua obra, The Divine
Imperative, Brunner analisa diversos sistemas de Ética Filosófica e conclui que, não obstante todos
conterem alguns elementos de verdade, todos apresentam também seus defeitos próprios e
especiais, e estão cheios de contradições que têm origem na pecaminosidade do homem. Mesmo os
aspectos de verdade que cada sistema contém estão deformados e torcidos, porque são afirmados
isoladamente da verdade total, cujo centro de unidade está em Deus. Os elementos de verdade que
se encontram em cada sistema só podem ser apreendidos de maneira própria, segundo Brunner,
quando revelados ao homem mediante a ação divina e compreendidos pela fé. Assim, não só cada
sistema racional de Ética está cheio de contradições, mas o esforço para elaborar uma síntese ética é
impossível. Numa palavra, o quadro apresentado pelos sistemas de filosofia moral é, de acordo com
Brunner, um verdadeiro “montão de ruínas”. Ele também acredita que isso não significa, de fato,
séria perda para o cristão, visto que a fé cristã dá “a resposta, a única resposta e a total resposta ao
problema ético”.
O repúdio da Ética Filosófica, por parte de Brunner, explica-se pela sua tendência, por um
lado, de estabelecer aguda dicotomia entre razão e revelação como método de conhecer a verdade
moral e, por outro lado, de interpretar a EC como vazia de conteúdo, visto que o conteúdo do
mandamento de amor ao próximo deve ser descoberto de novo em cada situação concreta pela
direção do Espírito. Segundo Brunner, o cristão não pode ser guiado por nenhum princípio moral no
seu esforço de descobrir o que o amor ao próximo exige numa ocasião especial; antes, deve
aprender o que fazer em cada nova situação abrindo-as às necessidades do próximo e ouvindo, em
fé, o mandamento divino que lhe é comunicado em termos da ação específica exigida num
momento especial de decisão. Ao rejeitar os princípios de dever e valor, Brunner ignora que
homens pecadores e finitos, sem exclusão dos cristãos, carecem de direção ao tomarem decisões
éticas. É verdade que ele define e qualifica essa rejeição completa de princípios e regras morais, ao
discutir o lugar da lei moral do Antigo e no Novo Testamento. Desde que esta lei se baseia na
revelação e não na razão secular, é considerada de valor como guia para a conduta cristã. Além
desta concessão, porém deixa de levar a sério a necessidade de direção oferecida pelas melhores
maneiras racionais de ver, naquelas áreas da vida a respeito das quais não temos orientação
específica das Escrituras (ou para as questões em que a lei literal das Escrituras é obviamente
inconsistente como as exigências da fé e amor cristãos) e onde a possibilidade de tomar a decisão
depende, em grande parte, de conhecimento técnico competente.
Jesus e os escritores do Novo Testamento nunca tiveram a intenção de tratar, sistemática e
compreensivelmente, de todos os problemas da vida moderna; e, desde o princípio, os cristãos
dependeram da melhor sabedoria moral dos seus dias como auxílio para relacionarem as exigências
de Cristo com as necessidades da vida em sociedade. Além disso, em sua análise das exigências de
Cristo e da sociedade, têm utilizado os métodos e instrumentos da Ética Filosófica. Tal análise fez-
se necessária para tornar o conteúdo da sua conduta consistente com a fé e o amor, fontes do seu
desejo de servir ao próximo. Até que ponto é possível atingir tal consistência entre fé e prática
depende muito da capacidade dos cristãos em discernir a complexidade das próprias escolhas
18
morais, em analisar os deveres e bens em conflito, que aparecem nas escolhas específicas, e de seu
poder de relacionar esses deveres e bens com a vontade de Deus.
Ao passo que o moralista cristão pode aprender muito da Ética Filosófica sobre os princípios
de dever e a natureza e inter-relacionamento dos valores, não pode apropriar-se, simplesmente, das
conclusões que esses sistemas lhe oferecem, na forma em que se encontram na moralidade secular.
Essas conclusões não podem ser acrescentadas, como são compreendidas nesses sistemas, à lista de
deveres ou bens cristãos, que assim se apresentaria incompleta e, portanto, ofereceria orientação
inadequada à conduta. A tentativa de assim fazer constitui a fraqueza fundamental da ética tomista.
Tomás de Aquino pressupôs que as virtudes morais de Aristóteles, a prudência, a temperança, a
fortaleza e a justiça, podiam ser incorporadas à EC exatamente como foram compreendidas por
Aristóteles e que a EC adicionaria a essa moralidade natural as virtudes teológicas, a saber: fé,
esperança e amor, só conhecidas por meio de revelação. O que Tomás de Aquino não pôde ver foi o
fato de que, à parte da fé cristã, as virtudes morais da ética de Aristóteles têm sentido inteiramente
egoístico e que, para se tornarem cristãos, precisam ser convertidas ou transformadas pela relação
prioritária com Deus e não primariamente com o bem-para-o-Eu.
Quando o moralista cristão se apropria de certas conclusões de sistemas seculares de
moralidade, sem revê-las ou transformá-las, o resultado é a tentativa de sintetizar elementos
essencialmente incompatíveis. Brunner acertadamente rejeita toda síntese eclética como distorção
da EC, mas erra ao supor que este é o único uso que o moralista cristão pode fazer da Filosofia
Moral. A EC não pode adicionar tais graças como fé, esperança e amor a certos grupos de virtudes
seculares como coroamento ou post-scriptum; ela pode, no entanto, usar a moralidade natural, seja
da praça pública ou dos filósofos, reinterpretando-a à luz da fé cristã e usando-a no serviço do amor
cristão.
Agostinho é, talvez, o representante mais influente deste método de relacionar a moralidade
cristã com a Filosofia Moral na história da Igreja. Foi ele um dos primeiros teólogos cristãos a levar
em conta, de modo sério, as implicações da fé e do amor cristãos na sua relação com as exigências
que a vida na sociedade humana impõe; procurou determinar o que o amor cristão exige do homem,
em termos da responsabilidade social, procurando extrair o pensamento ético, político e científico
de sua cultura e transformá-lo pelo amor para o serviço de Deus. O próprio Agostinho se sentira
atraído pelos filósofos gregos e romanos antes de sua conversão ao Cristianismo, mas ao examinar
as virtudes morais por eles recomendadas, do ponto de vista de sua nova fé, viu que foram
pervertidas pelo orgulho e pela idolatria; por isso referia-se a elas como vícios esplêndidos.
Agostinho não concluiu, daí, que novas virtudes cristãs deveriam substituir as virtudes dos
filósofos; antes, estas deviam ser transformadas pelo amor e reorientadas para Deus.
Como já indicamos, igualmente a sabedoria política e toda a cultura do homem natural
devem ser convertidas e dirigidas para Deus. Devem ser transformadas e não substituídas por uma
ciência natural específica, ou uma ciência especial ou por uma lógica sui generis que tenha sido
revelada aos cristãos. Ao contrário, o conjunto desta sabedoria, como produto da razão humana,
deve ser reconduzido e dirigido na direção do seu verdadeiro centro, que é Deus. Este verdadeiro
centro só pode ser conhecido pela fé, e à parte dele todo o pensamento humano é “ex-cêntrico”. Só
quando se restaura este verdadeiro centro mediante a fé, é que o homem se capacita a pensar de
maneira própria. Agostinho define o assunto assim: “creio, para que possa compreender”.
Agostinho, entretanto, nada poderia entender caso não usasse a razão, tanto para compreender a fé,
como para determinar o que significa amar o próximo na sociedade romana. Além do mais, ele só
poderia compreender o amor ao próximo, se tivesse feito o devido uso da sabedoria moral e política
dos pensadores cristãos, que lutaram com a natureza da vida política do homem com base em
conhecimentos mais amplos e experiências mais profundas nestas áreas do que ele havia
conseguido. De igual modo, o cristão contemporâneo não pode conhecer o que se requer dele em
nome do amor a Deus e ao próximo, nestas áreas, a não ser que faça uso da orientação fornecida
pelos especialistas nestes campos.
19
Admitimos que a tarefa da EC seria bem mais fácil se, por um lado, o cristão pudesse aceitar
as conclusões da razão natural, pura e simplesmente, portanto sem crítica, acrescentando-as ao que
é do seu conhecimento pela fé, ou, por outro lado, se as pudesse repudiar sumariamente. Estes dois
processos de relacionar a EC com o pensamento ético secular são, no entanto, insatisfatórios pelas
razões já indicadas. Visto que o moralista cristão precisa ser guiado pela razão para dar “conteúdo”
à EC, deve fazer uso da Filosofia Moral; como o homem só pode raciocinar de modo certo, acerca
de seus deveres para com o próximo e acerca dos valores que enriquecem a vida humana, quando
todo o seu raciocínio encontra em Deus um princípio unificador, então o cristão deve transformar as
conclusões da Ética Filosófica. Verifica-se, pois, que a relação própria entre EC e Ética Filosófica é
de transformação desta por aquela. Esta é a única maneira satisfatória de conservar a integridade da
EC, sem deixar de reconhecer a necessidade de fazer uso dos princípios derivados da razão como
guia para o cristão, na descoberta daquilo que o amor requer nas escolhas morais concretas.
Para que o cristão possa fazer suas escolhas certas, à luz do que as ciências oferecem e à luz
da Ética Cristã, é importante conhecer o seu código de ética, a Bíblia, assunto dos dois próximos
capítulos.

PARA RESPONDER
1. Escreva pelo menos um aspecto estudado em comum pela Ética Cristã e as ciências abaixo:
1) Ética Cristã e Ciências Sociais: .....................................
2) Ética Cristã e Psicologia: ..........................
3) Ética Cristã e Filosofia: ...............................
2. Responda às questões:
1) Cite uma colaboração da Ética para a Sociologia.
2) Como pode ser definida Ética Social?
3) O que a Psicologia ajuda a esclarecer?
4) O que é o amor, para Agostinho?
5) Quais as quatro virtudes na Filosofia grega?
3. Assinale a opção correta em cada questão.
1) A análise da vida moral lança luz sobre questões metafísicas e teológicas.
( ) A vida moral inclui liberdade, bem, mal, dever.
( ) A fé não influencia as conclusões do moralista cristão.
2) A Ética Filosófica é útil à Ética Teológica.
( ) Todos os teólogos concordam com essa afirmativa.
( ) Emil Brunner aponta os defeitos dos sistemas de Ética Filosófica.
3) Jesus e os escritores do NT não trataram de todos os problemas da vida moderna.
( ) Os cristãos precisam utilizar a sabedoria moral para aplicar os ensinamentos de
Cristo.
( ) Os cristãos precisam rejeitar os métodos e instrumentos da Ética Filosófica.
4) O moralista cristão não pode apropriar-se simplesmente das conclusões da Ética
Filosófica. Precisa reinterpretá-las à luz da fé cristã.
( ) A Ética Cristã só precisa adicionar à moralidade natural as virtudes teológicas.
20
( ) A fraqueza fundamental da ética de Tomás de Aquino foi achar que as virtudes
morais podiam ser incorporadas à EC.
5) Agostinho procurou extrair o pensamento ético, político e científico de sua cultura e
transformá-lo pelo amor para o serviço a Deus.
( ) Agostinho é o representante mais influente deste método.
( ) Para Agostinho, as novas virtudes cristãs deveriam substituir as virtudes dos
filósofos.

CAPÍTULO 3
A MORALIDADE NA ANTIGA ALIANÇA

A Bíblia é a Palavra de Deus; assim como Jesus Cristo, as Escrituras possuem um lado
divino e um lado humano. Os seus autores foram condicionados por seu tempo e sua cultura;
expressaram-se em determinados estilos literários; possuíam suas personalidades próprias. A Bíblia
foi escrita por autores humanos, mas foi Deus quem garantiu todo seu processo de formação,
através de dois mil anos. Deus faz da Bíblia a sua Palavra e nos apresenta os elementos essenciais
de sua mensagem de salvação. Em suas linhas fundamentais, a moral cristã possui na Bíblia a sua
garantia. Através do Antigo Testamento, verificamos que a moralidade bíblica é bastante realista
quando menciona as guerras, fala da sexualidade ou da justiça social. Observa-se, entretanto, um
crescimento progressivo e constante dos princípios morais que vão culminar em Jesus Cristo. Da
aliança firmada entre Deus e seu povo, a moralidade vetero-testamentária vai em direção aos
ensinamentos dos profetas, passa pelo desenvolvimento da Lei e culmina com a noção da
individualidade moral. Desta evolução surge o conceito de justiça divina e a certeza da execução do
propósito de Deus na história da humanidade.

O CÓDIGO DA ALIANÇA
Talvez o mais antigo trecho de legislação hebraica no Antigo Testamento seja o documento
que se encontra em Êxodo 20.1 a 23.33, geralmente conhecido como o Código da Aliança. Ele
reflete as condições sociais e econômicas de uma sociedade relativamente simples, inteiramente
diferente daquela em que os últimos profetas viveram. A sociedade para a qual este conjunto de leis
foi elaborado era relativamente menos avançada do que aquela para a qual o Código Babilônico de
Hamurabi, que apresenta relações íntimas com o Código da Aliança, foi designado.
Há dois tipos de exigências expressas no Código da Aliança: as “Palavras” incondicionais e
os “Estatutos” condicionais. As “Palavras” se apresentam como exigências irrestritas e diretas feitas
21
na segunda pessoa; os “Estatutos” são introduzidos por cláusulas condicionais e consistem de
normas para juízes encarregados da aplicação da justiça. Característico do primeiro tipo de
mandamento (Palavras) são os seguintes exemplos: “Não fareis deuses de prata ao lado de mim”
(Ex 20.23); “Ser-me-eis homens consagrados” (Ex 22.31); “Não perverterás o julgamento do teu
pobre na sua causa” (Ex 23.6); “Não oprimirás o forasteiro” (Ex 23.9); “Servireis ao Senhor
vosso Deus” (Ex 23.25).
Típicos do segundo grupo de mandamentos (Estatutos) são as seguintes instruções: “Se
comprares um escravo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá forro, de graça” (Ex 21.2);
“Se alguém ferir com bordão o seu escravo ou a sua escrava, e o ferido morrer debaixo da sua
mão, será punido” (Ex 21.20); “Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo,
não te haverás com ele como credor que impõe juros” (Ex 22.25). As “Palavras” e os “Estatutos”
aparecem tão entrelaçados que, algumas vezes, é difícil distinguir entre os dois, mas o princípio e o
fim do Código da Aliança consistem de “Palavras”, ao passo que a parte central se compõe de
“Estatutos”. Como observa o professor H. Richard Niebuhr, é significativo que semelhanças, tanto
em conteúdo como na forma, entre o primitivo código hebraico e os pronunciamentos posteriores
dos profetas (bem como os de Jesus registrados no Sermão do Monte) se limitam às “Palavras”
incondicionais. “É nas ‘Palavras’ que aquilo que é distintivo da antiga e posterior moralidade
israelita se patenteia de modo mais claro”.
O Código da Aliança, à semelhança dos Dez Mandamentos que vêm logo antes dele, tem
sua autoria atribuída a Deus, e Moisés desempenha o papel de mediador da lei para os israelitas.
Desde que Deus e não Moisés é o autor da lei, suas regulamentações são exigências da divindade e
não do homem. São consideradas parte de uma aliança ou acordo entre Deus e os hebreus. Yahweh
escolheu os hebreus para serem “seu povo”; Ele prometera continuar a proteger e abençoá-los
exatamente como fez ao libertá-los do cativeiro do Egito. Da parte deles, comprometeram-se
solenemente em ser fiéis a Deus e esse compromisso significava que haveriam de fazer a sua
vontade. Yahweh revelara-se como Deus zeloso cuja primeira exigência era que não adorassem
outro deus. Não deviam voltar-se para Yahweh somente quando os outros deuses falhassem ou em
períodos de pestilência e crise; não O deviam adorar para usá-lo de algum modo mágico em
benefício de seus propósitos temporais; e nem adorá-lo apenas com os lábios, altares e sacrifícios:
deviam obedecer-Lhe e servi-lo em suas atividades econômicas, tais como empréstimo de dinheiro,
plantio, ceifa; em suas atividades políticas mediante a prática da justiça e mesmo no tratamento dos
animais mudos, bem como nos seus atos de culto, tais como edificação de altares e oferta de
sacrifícios.
Este é o reconhecimento fundamental, o ponto de partida da moralidade bíblica. A ética
hebraica começa, não com a exigência de lealdade do eu a si mesmo ou à sociedade, mas
“pressupondo que aqueles a quem ela se dirige estão obrigados para com Deus e que Deus se
obrigou a si mesmo para com eles”. Compreende-se Deus primariamente em termos de vontade
pessoal. Deus é absolutamente digno de confiança e fiel; sua vontade é constante. O Deus de Israel
é Aquele cuja vontade é normativa para toda a vida de Israel. Nem no Código da Aliança, nem em
qualquer outra literatura anterior, estavam os hebreus preocupados com o monoteísmo especulativo,
com a questão da existência real dos diferentes deuses a quem outros povos adoravam; estavam eles
preocupados apenas com o monoteísmo prático, com a importância da exigência de adorarem e
servirem somente a Yahweh.
O caráter imperativo da moralidade do Código da Aliança já foi indicado pelo que se disse
acerca dos dois tipos de leis que integram o documento. Atenção foi dada, também, ao fato de que
há relação extremamente íntima entre o culto a Deus e o serviço ao próximo, de modo a tornar
inseparável a religião e a moralidade, mas uma palavra a mais é necessária para mostrar até que
ponto o Código da Aliança se preocupou com as necessidades do próximo e não com normas
idealistas ou abstratas de verdade e justiça. Assim, não são os juros em si que recebem proibição
categórica, mas juros sobre o empréstimo feito ao pobre (Ex 22.25). Não é a exigência de penhor
que é condenada, mas a apropriação das vestes de alguém em penhor e a retenção delas durante a
22
noite, quando a pessoa nada mais tem com que dormir (Ex 22.26,27). A espécie de justiça exigida
não é tanto a justiça da razão abstrata ou especulativa, pela qual cada pessoa é recompensada
segundo seus méritos, ou segundo o que lhe é “devido”, mas aquela que é parcial para os que estão
em necessidade especial. Deus está atento, de modo particular, ao seu clamor, exatamente como Ele
atentou para o clamor dos israelitas quando se encontravam no cativeiro do Egito.
Assim, no Código da Aliança, e particularmente nas “Palavras”, o fraco, o pobre, os
estrangeiros, as viúvas, os órfãos e mesmo os animais que estão em aflição, são separados como
objetos de interesse especial. É nesta solicitude especial pelos aflitos e pelos fracos que o conteúdo
do Código da Aliança difere de maneira impressionante do Código de Hamurabi. Tal consideração
para com o próximo é exigida em nome da justiça e não simplesmente recomendada como
expressão de caridade. “A nenhuma viúva nem órfão afligireis” (Ex 22.22). “Se vires prostrado
debaixo de sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a
erguê-lo” (Ex 23.5). Justiça não é ideal abstrato e deriva seu conteúdo das necessidades do próximo
sob Deus. Semelhantemente, certas ordens ritualistas assumem caráter humanitário. Assim, o ano
sabático devia ser observado “para que os pobres do teu povo achem que comer, e do sobejo
comam os animais do campo” (Ex 23.11). De igual modo, uma razão dada para a guarda do sétimo
dia não é que seja ele dedicado a Deus, mas ao contrário “para que descanse o teu boi e o teu
jumento; e para que tome alento o filho da tua serva e o forasteiro” (Ex 23.12). Dessa forma,
enquanto se pode reconhecer que muitas outras “Palavras” se referem exclusivamente a rituais
religiosos, edificação de altares e oferecimento de sacrifícios, por exemplo, é claro que o Deus, que
requer ritos religiosos e sacrifícios, também exige justiça social nas cortes e nas atividades
econômicas da comunidade.
O caráter igualitário do Código da Aliança foi sugerido no que se disse acerca do conceito
de justiça, que manifesta interesse especial pelo necessitado e pelo aflito. Estes têm direitos que são
tão invioláveis quanto os dos ricos e cheios de conforto. Este fato é expresso de modo admirável no
interesse pelos direitos dos escravos, mesmo sendo a escravatura uma instituição (Ex 21.2-11, 20-
21, 26-27, 32).
Finalmente, o interesse característico da moralidade hebraica pela salvação do mal é
sugerida pela ratificação mesma da aliança. Yahweh livrara os israelitas do cativeiro e a sua
aceitação da aliança era, ao mesmo tempo, um ato de gratidão a Ele pelo livramento e também um
ato de entrega a Ele, dali por diante. Sua confiança, daquele dia em diante, seria não neles mesmos e
nem em suas aspirações, mas no Deus que os havia escolhido e livrado do cativeiro e que prometera
continuar a abençoá-los, se guardassem seus mandamentos (Ex 23.20-22). Mas, por outro lado, se
não guardassem seus mandamentos, Deus os puniria e mesmo os visitaria com destruição (Ex
22.20, 23-24; 23.21).

A ÉTICA DOS PROFETAS


Em contraste com as condições simples da sociedade agrícola primitiva, pressuposta no
Código da Aliança, as condições econômicas e envolvimentos internacionais dos hebreus, no
período dos grandes profetas do oitavo ao quinto séculos eram por demais complexos. Os resultados
do ministério dos profetas são extraordinários. Promovem o ano sabático e o ano jubilar,
sensibilizam o povo acerca da justiça social, criam uma tradição de denúncia-anúncio que chegará
até nós através de outros profetas, tanto do Cristianismo inicial como dos tempos modernos.
Amós, cujas profecias datam de meados do oitavo século a.C., dirige-se àqueles que estão
absorvidos nos negócios, na especulação e nas permutas de uma economia comercial (Am 8.4-6) e
àqueles que eram donos de castelos, casas de verão e casas de inverno (Am 3.10-11, 15).
Desenvolveram-se as cidades e surgiu uma classe ociosa em gritante contraste com os pobres da
terra, que eram oprimidos por ela (Am 6.4-6; 8.4-6). Ao invés de rudes altares de terra, esses
indivíduos edificaram santuários, com sacerdotes locais e sacrifícios diários (Am 3.14; 4.4-5; 5.21-
23
23; 7.10; 8.10). Eles se encontravam envolvidos em guerras com potências estrangeiras, de modo
que estas nações, e não propriamente os forasteiros residentes em Israel, deverim estar relacionadas
com a vontade e soberania de Deus (Am 1 e 2).
Que o ensino moral dos profetas é teocêntrico, torna-se perfeitamente claro pela maneira
característica de falar de si mesmos como chamados e comissionados por Deus para serem seus
porta-vozes e se dirigirem a Israel em seu nome. Assim, quando Amazias, o sacerdote de Betel,
adverte Amós a retornar a Judá e lá profetizar, o profeta declara-lhe positivamente porque deve
clamar em Betel: “O Senhor me tirou de após o gado, e me disse: Vai, e profetiza ao meu povo
Israel. Ora, pois, ouve a palavra do Senhor” (Am 7.15,16). A Palavra do Senhor é para Jeremias
como “fogo ardente encerrado nos meus ossos” (Jr 20.9). “E disse o Senhor a Isaías: Agora sai...
ao encontro de Acaz, que está na outra extremidade do aqueduto do açude superior, junto ao
caminho do campo do lavadeiro, e dize-lhe...” (Is 7.3).
Não obstante Amós, Oséias, Miquéias e Isaías serem algumas vezes designados como “os
profetas éticos do oitavo século”, por causa de sua ênfase especial à exigência divina de conduta
reta por parte de seus adoradores, estes profetas estavam longe de se interessarem mais pela ética do
que pela religião. O seu ensino ético, apesar de muito importante, era praticamente acidental, visto
que eram antes de tudo profetas religiosos. Como declara o professor Snaith, “a insistência deles na
conduta reta era religiosa em sua origem, e em sua raiz não era outra coisa senão religiosa”.
O seu ensino moral se derivava de sua maneira de compreender Deus, que se revelara como
Deus reto, e não de qualquer teoria racionalista de virtude e de sumo bem para o homem, ou de
simples entusiasmo pelo ideal de igualdade humana, ou de algum conceito de solidariedade humana
baseada em noções essencialmente humanistas, como a natureza orgânica da sociedade e o conceito
de prudência em termos de “um mundo só ou nenhum”. O Deus dos profetas não é “o deus da
virtude” das teorias éticas filosóficas, visto que Ele não está observando para ver se os conceitos
humanos de virtude finalmente triunfam; ao contrário, Ele é o Deus cuja natureza revela a norma
última pela qual todos os ideais e conduta humanos estão sendo julgados. Deus vem em primeiro
lugar; por causa da retidão de Deus, os profetas não podiam ser seus porta-vozes sem tornar claro o
que Sua vontade reta exigia em termos de conduta humana.
Que a moralidade profética é teocêntrica fica indicado ainda pela compreensão que esses
arautos de Deus tinham do mal humano em termos de pecado. Pecado é essencialmente um termo
religioso em oposição a categorias tais como ofensa, delito, imoralidade, vício e crime. No Antigo
Testamento o conceito tem dois sentidos principais:
1) conceito impessoal relacionado com tabu;
2) conceito pessoal de desobediência a Deus ou de rebelião contra Ele.
O primeiro uso reúne as noções de “impuro”, “maldito” e “santo”. O conceito pessoal de
pecado como desobediência a Deus é muito mais característico do Antigo Testamento, sendo que
no Novo Testamento o conceito impessoal é posto completamente de lado. O conceito da relação de
Israel com Deus em termos pessoais encontra-se subjacente tanto na Aliança como na Lei, ainda
que a última tenha dado crescente proeminência ao ritual e às necessidades cerimoniais. Como
resultado desta ênfase cada vez maior à importância do ritual, os profetas foram levados a protestar
contra a tendência de confundir os elementos formais e freqüentemente irracionais da lei cerimonial
com as exigências morais e sociais de Deus. Amós, por exemplo, descreve Deus contrariado e
aborrecido com as festas cerimoniais e os sacrifícios, que foram usados para ocultar a desobediência
de Israel para com a sua exigência de justiça: “Aborreço, desprezo as vossas festas, e com as vossas
assembléias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas
ofertas de manjares, não me agradarei deles, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos
animais cevados. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das
tuas liras. Antes corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene” (Am 5.21-24).
24
No contexto do significado de pecado como desobediência a Deus, o termo é usado em dois
sentidos mais específicos:
1) aquele basicamente ético, de transgressão da lei moral e
2) o basicamente religioso, de rebelião contra Deus.
No primeiro caso, a consideração essencial é o interesse ético de que um código, se bem que
um código dado por Deus, foi quebrado. No segundo caso, o interesse essencial é que a relação
pessoal do homem com Deus foi rompida. Uma pessoa não religiosa pode falar do roubo como
transgressão, mas tal ato tem sentido como rebelião contra Deus, como abandono da soberana
vontade de Deus, somente para quem pensa em termos essencialmente religiosos. Que esta é a
maneira pela qual os “profetas éticos” pensavam a respeito do pecado, se percebe pelo uso
característico que faziam da palavra hebraica pesha, que significa “rebelião” bem como
“transgressão”, sendo esta a palavra que é freqüentemente usada nas traduções inglesas do Antigo
Testamento. Amós anuncia o julgamento de Deus sobre as nações pelas suas “rebeliões” (Am 1.3,
6, 9, 11, 13; 2.1, 4, 6) contra Ele. Que este é o sentido primário de pecado para Amós aparece mais
adiante em sua queixa contra o povo, que não se “converteu” ou “retornou” ao Senhor (Am 4.6, 8,
9, 10, 11).
Semelhantemente, Oséias refere-se a Israel como aqueles que “ao Senhor deixaram” (Os
4.10), aos filhos de Efraim como os que “se portaram aleivosamente” contra Deus (Os 6.7), e aos
seus príncipes como “rebeldes” (Os 9.15). “Ai deles! (O povo de Efraim), porque fugiram de mim;
destruição sobre eles, porque se rebelaram contra mim” (Os 7.13). Novamente aqui Israel é
convidado a “tornar para o Senhor” (Os 6.1), porque “pelos teus pecados estás caído” (Os 14.1).
Isaías começa sua profecia com esta carga contra Israel: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra,
porque o Senhor é quem fala: Criei filhos, e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim” .
(Is 1.2). Jeremias, igualmente, acusa Judá, no sétimo século, de se haver rebelado contra Deus (Jr
4.17) e de ter um “coração rebelde e contumaz” (Jr 5.23). Hananias é acusado de ter pregado
“rebeldia contra o Senhor” (Jr 28.16) e Babilônia de se ter havido “arrogantemente contra o Senhor”
(Jr 50.29). O escritor pós-exílico do capítulo 65 de Isaías descreve Deus, de igual modo, como
estendendo as suas mãos “a um povo rebelde” (Is 65.2).
Se os profetas estão em harmonia com o Código da Aliança, ao derivarem sua moralidade
das convicções acerca da natureza de Deus, foram além do Código em dois pontos importantes, que
influíram em seus ensinos morais. Em primeiro lugar, refletiram um monoteísmo mais plenamente
desenvolvido, e em segundo lugar estavam convencidos de que a suprema exigência que Deus faz
ao homem é de justiça. Apesar da aceitação de Yahweh como o único Deus de Israel datar dos
tempos de Moisés, muitos especialistas modernos concordam que a forma de religião então
estabelecida foi antes a monolatria que o monoteísmo. O monoteísmo especulativo ou teórico foi,
pela primeira vez claramente enunciado, pelo Segundo Isaías (Is 45.21; 46.9-11); entretanto, a fé
alimentada pelos profetas do oitavo século incluía a convicção de que Yahweh controlava todas as
nações e as usava para seus propósitos (Is 10.5-19; Amós 6.14).
Enquanto outros fatores contribuíram para o desenvolvimento de grande certeza no caráter
monoteístico da fé hebraica, o apogeu deste desenvolvimento foi atingido como resultado da
interpretação profética da história e a confirmação posterior desta interpretação pela seqüência
histórica dos eventos. Amós e seus sucessores declararam que não só havia Yahweh punido as
nações gentias, mas não pouparia nem mesmo seu povo escolhido. Mesmo Jerusalém seria
destruída, não obstante a presença do templo (Jr 9.11; Mq 3.12). Portanto, quando o reino do Sul
caiu em 586 a.C., tudo estava preparado para se aceitar esta destruição de Judá antes como o castigo
de Yahweh pela sua rebelião contra Ele, do que como a obra de Marduque, o deus da Babilônia, que
de outra forma parecia ter suplantado a Yahweh (Lm 1.18; 2.17; 3.37-39; Jr 44.1-30). A experiência
do desastre nacional confirmara a interpretação moral da história, feita pelos profetas, e a sua
compreensão admirável da soberania de Deus, juntamente com a visão profunda da natureza de sua
justiça, tornando possível o aparecimento de um monoteísmo de caráter distintamente ético. Assim,
25
durante o exílio na Babilônia, o Segundo Isaías apresenta Deus declarando: “não há outro Deus
senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim”. (Is 45.21). Deus anuncia “desde o princípio
o que há de acontecer” e prediz coisas que ainda estão para ser feitas; o seu “conselho permanecerá
de pé” e fará toda a sua vontade; Ele chama “a ave de rapina desde o oriente e de uma terra
longínqua o homem do seu conselho” (Is 46.9-11).
O Deus cuja vontade é soberana entre as nações, bem como nos limites de Israel, exige de
todos a justiça e a retidão; Ele não pode ser subornado por meio de sacrifícios, ofertas pacíficas e
rituais (Am 5.21-24; Mq 3.9-12). Exploração, desonestidade comercial, opressão do pobre e
necessitado são fortemente condenadas (Am 8.4-6; Mq 6.10). Na verdade, exige-se interesse
especial para com a viúva, o órfão, o pobre e o necessitado. Isso não significa, no entanto, que haja
um padrão duplo de moralidade em que o necessitado deve receber melhores coisas e que as ações
condenadas no rico podem ser toleradas no pobre. Pelo contrário, há um padrão único para todos;
como na prática o necessitado e o pobre não recebiam tratamento igual ao dispensado ao poderoso e
ao rico, são eles destacados com referência especial, visto que sua necessidade é realmente grande.
Eles não encontram reparação nas cortes de justiça, porque os juízes são injustos. Ou os opressores
mesmos são os juízes, ou aqueles controlam estes pela sua influência ou subornos. Portanto, toda a
comunidade hebraica é obrigada a defender a causa do oprimido, do órfão e da viúva (Mq 3.1; Jr
21.12; Is 26.9).
As acusações que os profetas fazem contra indivíduos e contra nações são concretas e
específicas, antes que abstratas e gerais. Os de Gaza “levaram em cativeiro todo o povo para o
entregarem a Edom” (Am 1.6). Efraim “multiplica mentiras e destruição, e faz aliança com a
Assíria, e o azeite se leva ao Egito” (Os 12.1). Israel será punido, porque seus habitantes “vendem o
justo por dinheiro, e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias. Suspiram pelo pó
da terra sobre a cabeça dos pobres, e pervertem o caminho dos mansos” (Am 2.6,7). Ou, ainda, em
Israel “só prevalece o perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios
sobre homicídios” (Os 4.2). Os falsos profetas fazem errar o povo e clamam: “Paz”, quando deviam
apregoar julgamento (Mq 3.5,8). Os comerciantes da cidade usam balanças desonestas e medidas
reduzidas (Mq 6.10,11).
Os profetas freqüentemente se referem à justiça que Deus exige de Israel em termos de sua
obrigação de fidelidade à Aliança. A Aliança não significa que Israel possa descansar neste ato do
favor divino para garantir seu privilégio especial, proteção contra seus inimigos e segurança contra
decadência interna. Em conseqüência, Deus repreende severamente e adverte Israel: “De todas as
famílias da terra somente a vós outros vos escolhi, portanto eu vos punirei por todas as vossas
iniqüidades” (Am 3.2). Israel agiu como a adúltera (Os 3.1). Israel adorou outros deuses. Não
observou as exigências da aliança. A “contenda” que Deus tem com Israel resulta de não haver nem
“verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus” na terra (Os 4.1). Por isso o dia do Senhor será
de “trevas e não de luz” (Amós 5.18).
Apesar dos profetas verem as exigências fundamentais de Deus como justiça, e o julgamento
como retribuição da injustiça, vêem também misericórdia de Deus, transcendendo a ira divina. O
julgamento de Deus não é cancelado, mas não é a palavra final. Israel comportou-se como noiva
infiel e só merece castigo, mas Yahweh promete conservá-la como noiva por causa do grande amor
que lhe tem: “Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e
em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade...” (Os 2.19,20). Mesmo
Amós, que talvez seja o mais severo e implacável de todos os profetas em sua insistência quanto à
justiça divina, sustenta a esperança de que Deus ainda poderá ser gracioso a um remanescente de
José, se esse remanescente desistir do mal e buscar o bem (Am 5.14,15). Miquéias vê a vontade de
Deus finalmente triunfar em Israel. Ele lhe perdoará a iniqüidade, visto que “não retém a sua ira
para sempre, porque tem prazer na misericórdia” (Mq 7.18).
A nova aliança que Jeremias prediz é aliança de misericórdia num grau superior à antiga,
porque será escrita nos corações dos homens e eles O conhecerão “desde o menor até ao maior...
26
pois perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.31-34). No
entanto, é o desconhecido profeta do exílio babilônico que mais claramente vê Deus agindo
redentoramente com o propósito de salvar seu povo por sua própria causa: “Por amor do meu nome
retardarei a minha ira, e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não
venha a exterminar” (Is 48.9). O servo do Senhor sofrerá vicariamente pelo ímpio, e por causa do
seu castigo muitos serão reconhecidos justos e curados (Is 53.5,11). Israel foi escolhido, não para
ter privilégios especiais, mas para ser “como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à
extremidade da terra” (Is 49.6). Nova e eterna aliança, baseada na misericórdia, será estabelecida, e
a salvação será livremente oferecida a todos os povos: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os
termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro... diante de mim se dobrará todo joelho, e
jurará toda língua” (Is 45.22,23; 55.3; 56.6-8).

O DESENVOLVIMENTO DA LEI
Durante a primeira parte do ministério de Jeremias foi realizada grande reforma do Judaísmo
sob a liderança do rei Josias, em 621 a.C. O templo havia sido abandonado e por isso Josias dera
ordens para que fosse consertado. Durante os trabalhos de reparação, foi descoberto nele um Código
de Lei, que o rei transformou em base de suas medidas para purificar o culto de Yahweh. Este
Código foi preservado em Deuteronômio 12-26 e é conhecido como o Código Deuteronômico.
Evidentemente, não era uma coleção de leis inteiramente novas; antes revisão e expansão do
Código da Aliança, que já tivemos oportunidade de examinar. Como tal, reflete as condições
sociais, econômicas, políticas e religiosas de Israel no sétimo século.
Naquilo em que o Código Deuteronômico trata de assuntos considerados no anterior Código
da Aliança, o sistema revisto de legislação assume atitude menos simpática para o estrangeiro,
mostra interesse maior pelos pormenores na elaboração da lei, mais solicitude para com o pobre, o
fraco e o delinqüente, e mais preocupação com o ritual do que no sistema original. Por um lado, o
Código Deuteronômico autoriza, especificamente a cobrar juros dos estrangeiros (Dt 23.20). Por
outro, reflete interesse humanitário bem mais desenvolvido e consistente que o Código da Aliança.
Enquanto os dois conjuntos de leis proíbem conservar a roupa do homem durante a noite em
garantia de um empréstimo, o segundo código proíbe ainda tomar em penhor as mós, e nem mesmo
a de cima visto ficar a família sem meios de preparar alimento (Dt 24.6). Ainda mais, segundo a lei
deuteronômica, o hebreu pobre seria beneficiado pela remissão de seus débitos (Dt 15.1-3). Os
campos, vinhas e olivais não deviam ser respigados em demasia, pois parte do fruto devia ser
deixado para o viandante, a viúva e o órfão. As mulheres em algumas coisas são mais bem tratadas
do que no Código da Aliança. Escravas e escravos devem ser libertados cada sétimo ano e
despedidos com provisão para suas necessidades (Dt 15.12-15). O homem podia divorciar-se da
esposa, mas somente se lhe lavrasse termo de divórcio, para que pudesse casar-se de novo (Dt 24.1-
2). Vê-se o esforço para conter a lei de talião no caso de homicídio, com as cidades de refúgio, para
as quais os culpados de morte acidental podiam fugir (Dt 19.1-10).
Entre as leis do Código Deuteronômico, que tratam de questões novas, a mais importante é a
exigência de que todo culto e sacrifício público estejam centralizados no templo em Jerusalém. Esta
reforma visava, segundo tudo indica, a impedir a adoração dos Baalim ou deidades agrícolas de
Canaã, adoração essa que continuava em altares locais por todo o país. O resultado da centralização
do culto no templo foi o aumento do poder e prestígio dos sacerdotes como classe privilegiada.
Outras providências da lei referem-se a assuntos como animais puros e imundos, pagamento de
dízimos, conduta do rei, operação bélica e casamento com estrangeiros.
No todo, o Código Deuteronômico representou esforço de adaptação do Código da Aliança
às necessidades de nova era, e como tal reflete o impacto dos profetas, que haviam aparecido no
ínterim entre os dois grupos de legislação. Amós e Oséias, por exemplo, denunciaram a prática de
prostituição religiosa (Am 2.7, 8; Os 4.14), e o Código Deuteronômico proíbe-a terminantemente
(Dt 23.17). De igual modo, proíbe qualquer logro nos pesos e medidas (Dt 25.13-16), e a remoção
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dos marcos do próximo (Dt 19.14; 27.17). Tanto os profetas como a lei deuteronômica
representaram esforço para purificar o culto de Yahweh, pois ambos reconheciam que a
sobrevivência nacional dependia da fiel adoração do Deus de Israel, mas a Lei diferia dos Profetas
na importância atribuída à correção do ritual. Na verdade quanto a isto ela está em completa
oposição ao protesto dos profetas, que tinham percebido a extensão a que o ritualismo se tornara
biombo para a injustiça e, conseqüentemente, uma abominação a Deus. Os profetas haviam dado
ênfase ao caráter ético do culto que Deus pedia. O Código Deuteronômico, por sua vez, discute
extensamente questões como alimentos puros e impuros, dízimos, sacrifícios e festas religiosas
anuais. Além disso, as exigências relacionadas com essas coisas estavam no mesmo pé de
igualdade, no que diz respeito à importância, com as exigências de justiça na vida da comunidade.
Assim, o Código Deuteronômico, mesmo tentando realizar a mesma tarefa básica dos profetas,
contribuiu, pela ênfase ao ritualismo, para prejuízo da obra dos profetas.
O terceiro importante código da lei, encontrado em Levítico 17-26, é conhecido como o
Código da Santidade, por causa do seu destaque especial à santidade de Yahweh. Esta coleção de
leis é convencionalmente datada do sexto século. Nela a ênfase ao ritual é levada muito mais longe
que nos códigos anteriores. Os interesses que mais preocupam os profetas ficam quase que afogados
na atenção dada à forma e à cerimônia. Comparado com o Código Deuteronômico, o Código da
Santidade concede muito menor importância aos interesses humanitários e filantrópicos. Contudo, o
empenho pela santidade de Yahweh freqüentemente resultava em exigências éticas e sociais mais
elevadas do que as que se encontravam em qualquer dos sistemas de leis anteriores. A santidade de
Yahweh inclui justiça, e por esta razão o povo deve ser justo, bem como cerimonialmente puro.
Assim, o notável capítulo 19 de Levítico, algumas vezes considerado como o mais elevado
desenvolvimento ético no Antigo Testamento, começa: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso
Deus, sou santo” (Lv 19.2). Como no Código Deuteronômico, tomam-se providências a favor do
pobre e do estrangeiro: estes podem respigar após a ceifa (Lv 19.9-10), e o ganho dos servos
assalariados não pode ficar retido durante a noite (Lv 19.13; Dt 24.15). Ódio do irmão e vingança
contra o próximo israelita são proibidos (Lv 19.17-18). Aqui se encontra o mandamento que Jesus
destacou como a segunda exigência de toda a lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv
19.18). Mesmo o estrangeiro, que está jornadeando no país, deve ser tratado como filho da terra;
além do mais, ele deve ser amado como a si mesmo (Lv 19.34). Mas também aqui e ainda mais que
em outros conjuntos de legislação, muitas exigências inferiores são alinhadas ao lado das grandes
formulações sobre justiça social. Vemos, assim, que carne alguma com sangue deveria ser comida
(Lv 19.26), e os homens não deveriam danificar as extremidades da barba (Lv 19.27).
Semelhantemente, tatuagens eram proibidas e logo em seguida foi condenada a prática de permitir
que a filha se prostituísse (Lv 19.28,29).

O CONCEITO DO INDIVIDUALISMO
O pensamento primitivo dos hebreus, quer seja na Lei ou na Profecia, havia reconhecido a
solidariedade dos israelitas. A lealdade nacional a Yahweh, como um todo, era o importante. O
povo na sua totalidade era reto ou pecador, respeitava a aliança ou se prostituía. A nação como um
todo prosperava ou era punida, haveria de sobreviver ou seria destruída. Não só estava a sorte de
cada indivíduo ligada à de toda a comunidade, mas também o destino das gerações subseqüentes era
determinado pela retidão ou pecaminosidade dos pais, pois Yahweh era Deus zeloso, “que visito a
iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira geração daqueles que me aborrecem, e faço
misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” (Ex 20.5-
6; 34.7; Dt 5.9-10). Com o aparecimento de Jeremias e Ezequiel, a importância da conduta e do
destino individual da pessoa começou a receber grande atenção. Jeremias viu o futuro, quando os
homens já não dirão: “Os pais comeram uvas verdes os dentes dos filhos é que se embotaram. Cada
um, porém será morto pela sua iniqüidade; de todo homem que comer uvas verdes os dentes se
embotarão” (Jr 31.29-30). Deus fará nova aliança com seu povo: “Na mente lhes imprimirei as
28
minhas leis, também no coração as inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Jr
31.33). O coração aparece no Antigo Testamento como o testemunho do valor moral dos atos
humanos. O coração é o lugar onde se interioriza a lei divina.
Com o exílio, afundaram-se as estruturas do povo judeu principalmente a monarquia e o
sacerdócio. O Judaísmo, assim como o Cristianismo mais tarde, sobreviveu graças às pequenas
comunidades, apoiadas nas famílias e nos clãs. Isso exigiu pessoas fortes e responsáveis e
desenvolveu a responsabilidade individual, uma ética familiar rigorosa e grande senso comunitário
e de apoio mutuo, como observa Hortelano.
Isaías falou de um remanescente que se voltaria para Deus e seria salvo, mas Ezequiel
expressou o princípio de responsabilidade individual de modo mais completo, ao declarar: “A alma
que pecar, essa morrerá: o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai a iniqüidade do filho; a
justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este” (Ez 18.20). Muitos
dos Salmos deram expressão poética ao valor e responsabilidade do indivíduo (p. ex., Sl 1, 15, 19,
23). Finalmente, o interesse pela sorte da pessoa encontra expressão na doutrina da ressurreição dos
mortos, aceita sem discussão pelos fariseus do Novo Testamento, mas que se desenvolveu bem
tarde no Antigo. Assim, crescente interesse pelo valor e destino do indivíduo caracterizou o
pensamento hebraico dos últimos tempos, não se tornando, no entanto, essa ênfase tão exclusiva
que resultasse em desinteresse pelo valor e bem-estar da comunidade.

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE JUSTIÇA DIVINA


A convicção subjacente a todo pensamento e conduta bíblicos é a fé e confiança em que
Deus é soberano e justo. A Lei e Profecia hebraicas primitivas já haviam aceitado que a justiça
divina consistia de retribuições a ações boas e castigos, a ações más, proporcionais ao bem e ao mal
praticado pelos homens, mas esta segunda maneira de encarar a questão foi, com o tempo,
reconhecida como contrária à experiência de Israel. Via-se que o ímpio prosperava às expensas do
justo (Jr 12.1-4; Sl 73.14; 94.1-7; Hc 1.2-4). Via-se o inocente sofrer (Jó 1-3, 29-31; Jr 15.15-18), e
Jerusalém recebera “em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” (Is 40.2). Os últimos
profetas, Jó e alguns dos salmistas foram levados, assim, a rejeitar a noção primitiva de que a
piedade é recompensada nesta vida em termos de prosperidade material. Alimentavam eles, porém,
a convicção de que Deus é soberano neste mundo, e de que é justo e reto ainda que seus caminhos
sejam tão majestosos e sublimes que se apresentem insondáveis ao homem mortal (Jó 38.1-42, 6; Is
55.8, 9). A justiça de Deus finalmente triunfará e tornará clara a sua natureza (Sl 73.16-22; Is 40 e
41).
O sofrimento não pode ser bem compreendido como castigo divino para a transgressão do
homem; pelo contrário, deve ser encarado como parte de um processo pelo qual as almas das
pessoas são disciplinadas e testadas (Dt 8.2-5; Sl 118.18; Pv 3.11-12), e como o sofrimento vicário
do inocente pelo culpado (Is 52.13; 53.12). A despeito do fato de a fé na ressurreição dos mortos
ainda não haver aparecido claramente, estes últimos escritores deram expressão mais completa à fé
hebraica fundamental na unidade e justiça do governo de Deus, e vieram a compreender cada vez
melhor a justiça de Deus em termos de misericórdia e perdão, antes que em termos de justiça
concebida como recompensa ou castigo.

A EXECUÇÃO DO PROPÓSITO DE DEUS NA HISTÓRIA


O quinhão de Israel entre as nações e o fracasso da mensagem dos legisladores, dos profetas,
e dos sábios em estabelecer a paz e a justiça contribuíram para aprofundar a noção da força e da
persistência do mal no mundo e na natureza humana. À medida que seu monoteísmo se tornava
mais explícito, viam os profetas todas as nações sujeitas ao único Deus e, apesar disso, em estado de
rebelião contra ele. O mal havia contaminado tudo tão profundamente, que nada merecia ser
29
poupado no dia do julgamento de Deus. Oséias expressou a esperança de que Israel pudesse retornar
ao Senhor; mas Amós apenas previu a possibilidade de que um remanescente arrependido de Israel
pudesse ser poupado (Am 5.15). Isaias (Is 1.9; 10.20-22), Jeremias (Jr 44.28; Jr 31.31-34),
Miquéias (Mq 4.6-8) e Zacarias (Zc 8.6, 11) igualmente criam que apenas um remanescente seria
salvo. Malaquias ficou tão frustrado pelo predomínio do mal no meio do seu povo, que bradava
cheio de angústia: “Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus? Por que
seremos desleais uns para com os outros, profanando a aliança de nossos pais?” (Ml 2.10).
Se o profeta do exílio babilônico proclamou a salvação de Yahweh em termos mais
universais, seja afirmando que a intenção de Yahweh era salvar todos os homens, seja falando de
muitos gentios, servos de Yahweh, convocados das extremidades da terra, foi porque sua esperança
maior não se apoiava num conceito menor do mal, mas em sua fé mais profunda de que o próprio
Deus transformaria e redimiria aqueles que respondessem ao seu amor e aceitassem sua
misericórdia. Finalmente, deve-se atentar para o fato de que a ênfase pós-exílica ao ritual refletia
pessimismo concernente à derrota do mal na vida nacional, enquanto que a centralização da
misericórdia, colocada como o objeto mais sagrado dentro do santo dos santos, simbolizava ao
mesmo tempo, de modo vívido, a dependência final do homem da bondade divina para a redenção
do pecado.
Entretanto, a fé básica em que Deus é soberano e justo permaneceu firme, mesmo enquanto
era aprofundado o conceito da natureza radical da maldade no homem e na sociedade, e assim no
período que precedeu o advento de Jesus, desenvolveu-se um novo tipo de literatura, que
designamos apocalíptica, representada no Antigo Testamento pelo livro de Daniel e pelos Apócrifos
como Enoque e II Esdras. Os profetas consideraram mais a possibilidade de estabelecer uma nova
era neste mundo, que um reino no mundo porvir; com a continuidade, porém da opressão dos
hebreus, e como o dia de sua restauração nacional não raiava, desenvolveu-se a convicção de que o
mundo estava sob domínio de poderes demoníacos sobre-humanos, também rebelados contra Deus.
Criam os autores desta literatura apocalíptica que a libertação destes poderes sinistros só
poderia ocorrer mediante a intervenção do próprio Deus. Ele destruiria o velho mundo num grande
ato catastrófico e instituiria a nova era. Esse acontecimento seria acompanhado pela ressurreição
dos mortos, que apareceriam ao lado dos vivos no julgamento final, depois do que os justos
recebessem sua recompensa eterna e os ímpios fossem punidos ou destruídos. Algumas vezes
descrevia-se Deus em ação direta a inaugurar esta nova era. Em outras ocasiões, como no livro de
Enoque, Ele é descrito agindo indiretamente mediante um ser celestial chamado “Filho do Homem”
(Dn 7.13). As figuras usadas por esses escritores eram altamente simbólicas e freqüentemente
bizarras, mas na essência tudo representava intensificação e universalização do ponto de vista
profético da história de Israel como drama de rebelião, castigo e redenção.
Se os escritores apocalípticos encararam o mal como mais poderoso e mais universal que
muitos dos seus predecessores, compreenderam também que o poder de Deus era maior e que o
cumprimento de seu propósito para com os redimidos era ainda mais sublime e igualmente seguro e
certo. A vitória completa de Deus sobre as forças das trevas causaria a transformação da própria
terra e a destruição desses poderes maléficos, que a conservavam em servidão. Daí a ênfase na
descrição da vitória divina em termos de nova terra e não de um reino nacional restaurado.
Pessimismo e respeito do mundo, por causa do poder do mal, é seguido de profundo otimismo com
base no triunfo final de Deus sobre o mal e a execução do seu propósito na história. Os escritores
apocalípticos acrescentaram pouco aos conceitos éticos dos seus predecessores, mas deram
testemunho eloqüente à imperecível esperança, proveniente de profunda fé no Deus que é o justo
Senhor da história.
PARA RESPONDER
1. Coloque V (verdadeiro) e F (falso) à frente das frases:
( ) No Código da Aliança há dois tipos de exigências: Palavras e Estatutos.
30
( ) As Palavras são condicionais e os Estatutos são incondicionais.
( ) Às vezes é difícil distinguir entre Palavras e Estatutos.
( ) A vontade do Deus de Israel é normativa para toda a vida do povo.
( ) Não havia relação entre o culto a Deus e o serviço ao próximo, na moralidade do Código
da Aliança.
2. Coloque o nome do(s) profeta(s) à frente de suas características:
1) Dirige-se aos donos de castelos, casas de verão e de inverno: .................
2) Profetas éticos do oitavo século: ..........., .............., ............. e ...............
3) Refere-se a Israel como aqueles que ao Senhor deixaram: ...................
4) Prediz uma aliança de misericórdia num grau superior à antiga: ..................
5) Fala do Servo do Senhor sofrendo pelo ímpio: .................
6) Criam que apenas um remanescente seria
salvo: ...................., .................., ................., ...................... e ......................
3. Sublinhe as alternativas corretas.
1) O conceito pessoal de pecado como desobediência a Deus é mais característico do AT.
2) Os profetas éticos utilizavam a palavra pesha - rebelião - para significar pecado.
3) Os profetas do 8o. século não tinham certeza de que Deus controlava todas as nações.
4) Toda comunidade hebraica é obrigada a defender a causa do oprimido, do órfão e da
viúva.
5) As acusações dos profetas são abstratas e gerais.
4. Responda as perguntas:
1) Em que dois pontos os profetas foram além do Código da Aliança?
2) Quanto ao culto a Deus, em que aspecto o Código Deuteronômico diferia da mensagem
dos profetas?
3) De que século era o Código da Santidade (Lv 17-26)?
5. Complete as frases:
1) Com o aparecimento de ............... e ................., a importância da conduta e do destino
individual da pessoa começou a receber grande atenção.
2) O Judaísmo sobreviveu ao exílio graças às ................. ........................
3) O sofrimento passou a ser compreendido como parte de um ............... pelo qual as almas
das pessoas são .................. e .....................
4) No período que precedeu a Jesus, desenvolveu-se um novo tipo de literatura, chamada de
............................... e representada pelos livros de ..............., .................... e ..................
(apócrifos).
5) Os escritores apocalípticos acreditavam que a vitória completa de ............... sobre as
forças das ................. causaria a transformação da própria ............... e a destruição
dos ................. ...........................
31

CAPÍTULO 4
A ÉTICA SOB A NOVA ALIANÇA

Observamos que a moralidade sob a antiga aliança atravessou um processo, desde uma
exigência legal até uma responsabilidade individual. Culminou esboçando a certeza de que Deus é o
soberano sobre toda a história da humanidade e de que é galardoador dos que O buscam, castigando
os que não andam conforme os seus preceitos. Sob a nova aliança, Jesus Cristo e os apóstolos
aperfeiçoaram ainda mais o conceito de que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras;
entretanto, amplia também a misericórdia e o perdão divinos, mediante a fé em seu Filho, salvador
de todos. O Antigo e o Novo Testamento estão entrelaçados e fazem parte de toda orientação moral
para o povo de Deus. O Novo aperfeiçoa o Antigo.
Jesus Cristo ensina que o importante na conduta é a motivação interior e não os atos em si;
apelou para o exercício do amor e da misericórdia. A ética de Paulo está vinculada à sua teologia e,
portanto, precisamos conhecê-la. Sua ética é cristocêntrica, do Espírito. Ele não impõe regras, mas
estabelece princípios. Além disso, apela para os motivos íntimos que levam os cristãos a agirem
corretamente em todas as circunstâncias.

O ANTIGO TESTAMENTO EM RELAÇÃO AO NOVO


“A Bíblia”, escreve H. Richard Niebuhr, “sempre foi e indubitavelmente continuará sendo o
livro básico para o estudo da ética cristã”. É igualmente certo que o Antigo Testamento sempre foi e
32
continuará sendo o guia indispensável para o estudo do Novo Testamento. Exatamente como o
conhecimento da Bíblia é necessário para a compreensão do pensamento dos teólogos subseqüentes,
assim também o conhecimento do ensino religioso e ético do Antigo Testamento é obrigatório para
compreensão do Novo. Essa relação íntima foi reconhecida pelos cristãos desde o princípio, sendo
isso evidente pelas inúmeras referências, no próprio Novo Testamento, do cumprimento das
esperanças e promessas do Antigo na pessoa de Jesus, que é proclamado como o Cristo, e pelo fato
da Igreja cedo haver aceitado, como canônicos, os livros incluídos no Antigo e no Novo
Testamento.
Tanto o Antigo como o Novo Testamento são partes de um registro contínuo da auto-
manifestação de Deus acerca de sua natureza e de sua vontade, a Israel e ao mundo, e nessas
condições ambos formam um todo único. Os cristãos crêem que a revelação de Deus foi mais
completa nos eventos relacionados com a vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Por essa
razão a Igreja incluiu no cânon do Novo Testamento apenas aqueles escritos considerados mais
dignos de confiança, em relação a esses eventos, e de maior autoridade como interpretação da fé
geralmente aceita, de acordo com a compreensão da Igreja em geral. Assim, foi atribuída
importância especial aos escritos dos apóstolos e seus companheiros. Isso não significa que Deus
cessou de revelar-se aos homens, mas antes que o clímax de sua revelação histórica foi alcançado
com os eventos relacionados com Jesus, e que sua revelação subseqüente só se torna reconhecível e
inteligível em relação ao relato bíblico de sua ação reveladora em Cristo.
A ligação íntima que existe entre o Antigo e o Novo Testamento, como duas partes de um
drama de revelação em processo, sugere que há unidade fundamental entre os dois. Aqueles que se
impressionam com a vasta diversidade do pensamento religioso e moral que se encontra na Bíblia,
são os que freqüentemente perdem de vista esta unidade. Há, de fato, ampla variedade de conceitos
de Deus e de padrões morais perceptíveis nos 66 livros da Bíblia. Por exemplo, há dois registros
diferentes da criação nos dois primeiros capítulos do Gênesis e essas narrativas refletem conceitos
de Deus até certo ponto diferentes. Há diferenças fundamentais nas escalas de valores sustentados
por diferentes homens em diferentes ocasiões. O escritor do Salmo 58 ora pedindo o castigo do
ímpio como recompensa para o justo, ao passo que o escritor do capitulo 53 de Isaías exalta o servo
sofredor que, vicariamente, toma sobre si o pecado do iníquo. O contraste entre os ensinos morais
do Antigo e Novo Testamento aparece de modo vivo no Sermão da Montanha, onde Jesus coloca
suas exigências em oposição às que foram ensinadas aos antigos. Assim, declara: “Ouvistes o que
foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo
que todo aquele que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um
insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito
ao inferno de fogo” (Mt 5.21,22). Em lugar da antiga lei sobre a vingança: “olho por olho e dente
por dente”, Jesus colocou a nova exigência: “Não resistais ao perverso” (Mt 5.38,39).
É fácil exagerar a diversidade dentro da Bíblia. Quando se faz isso, uma de duas coisas
geralmente acontece. Por um lado, aqueles que usam a Bíblia sem espírito crítico, em busca de
textos, provas que apóiem suas posições, envolvem-se em controvérsia aflitiva quanto ao ensino
particular a ser reconhecido como autoridade absoluta. Assim, alguns grupos de cristãos apelam
para a declaração de Jesus acerca da não-resistência para apoio de sua atitude pacifista, enquanto
outros se escudam na ordem de Paulo, para obedecer ao Estado, em defesa de sua participação no
serviço militar (Mt 5.39; Rm 13.1-7). Por outro lado, ênfases exageradas às diferenças entre padrões
de moral, encontrados nas Escrituras, são usadas freqüentemente por aqueles que procuram atacar a
Bíblia, com a intenção de mostrar que ela é inconsistente e, portanto, indigna de confiança como
guia ético. A confusão nas mentes daqueles que não estão familiarizados com métodos críticos de
estudos bíblicos e com o sentido mais profundo da revelação bíblica é fácil de compreender, mas
difícil de justiçar. Como resultado de exame mais cuidadoso, torna-se cada vez mais claro que a
unidade das Escrituras, tanto em seus ensinos morais como religiosos, é muito mais significativa e
impressiva do que sua diversidade.
33
A percepção desta unidade subjacente depende, todavia, de participação na história bíblica e
de esforço para compreendê-la antes de tudo, de acordo com sua própria natureza como relato
contínuo “da ação histórica de Deus procurando a reconciliação do homem com Deus mesmo, do
humano com o divino, da criatura com o Criador”. Vista desta maneira, a Bíblia se apresenta como
“unidade coerente”, descobrindo sua unidade na interligação de seus temas centrais e
pressuposições subjacentes. Que o Novo Testamento pressupõe esta unidade torna-se evidente pela
advertência de Jesus no Sermão da Montanha: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas:
não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17), e pelo resumo da lei em dois mandamentos.
“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração de toda tua alma, e de
todo teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo semelhante a este, é:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os
profetas” (Mt 22.37-40). Ela é sugerida, também, pelo relato da vida de Jesus feita por Mateus,
relacionando-a com a profecia, e ainda pelos versos introdutórios da carta aos Hebreus: “Havendo
Deus, outrora falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, nos profetas, nestes últimos dias
nos falou, em um que é seu filho, a quem constituiu herdeiros de todas as coisas, pelo qual também
fez o universo” (Hb 1.1,2).

CARACTERÍSTICAS DA MORALIDADE HEBRAICA


Se quisermos compreender a unidade subjacente da ética bíblica, precisamos descobrir as
principais idéias e temas que se encontram no Antigo e no Novo Testamento, sendo que a apreensão
dessa unidade, bem como da diversidade dentro dela, será aprofundada caso acompanhemos o
desenvolvimento destas idéias em alguns dos documentos mais importantes, representativos de
diferentes períodos da história bíblica. Assim, nossa primeira tarefa deve ser identificar os
principais temas característicos da moralidade bíblica.
A primeira grande característica do pensamento ético hebraico, que causa impressão àquele
que investiga a moralidade dos profetas, dos legisladores, dos sábios e do Novo Testamento, é ser
ele teocêntrico ou centralizado em Deus. De fato, a moralidade hebraica está tão intimamente
relacionada ao culto que “raramente se distingue entre ética e religião”, e desde épocas primitivas a
religião dos judeus era “bombardeada com qualidade ética”. Deus é a fonte de toda exigência moral
e é o supremo bem. A ética bíblica difere, neste sentido, daqueles tipos de filosofia moral que
consideram a natureza humana, ou a felicidade humana, ou a perfeição (realização) do “eu” como a
base das exigências morais do homem. Estes interesses últimos aparecem também na Bíblia, sem
contudo serem primários. O prefácio dos dez mandamentos declara: “Então falou Deus todas estas
palavras: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Ex
20.1,2). Os mandamentos que se seguem não são considerados éticos em si mesmos, mas adquirem
sentido ético como os termos de uma aliança que Deus faz com Israel. A observância destes
mandamentos indicaria que os hebreus eram leais a Deus; o desprezo deles indicaria sua
deslealdade. Na verdade, tantos eram os elementos religiosos e morais em todo o Decálogo, que os
profetas não hesitaram em falar do culto a outros deuses, proibido pelo primeiro artigo da aliança,
como adultério (Os 1.2; Jr 3.1; Ez 23.1). Miquéias, igualmente, equaciona o dever humano com as
exigências de Deus: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti,
senão que pratiques a justiça e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq
6.8). A fonte divina das normas e valores éticos está pelo menos implícita na literatura da sabedoria
(Provérbios), onde se reconhece que a origem da percepção ética é a fé religiosa: “O temor do
Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Pv 9.10; Jó 28.28).
Jesus enuncia os dois grandes mandamentos estabelecendo relação íntima entre eles. Tomados
juntos, sintetizam “a lei e os profetas”, sendo que ambos vinculam os deveres do homem à vontade
de Deus, e o segundo, conforme sua declaração, é semelhante ao primeiro.
A relação íntima entre o ensino ético e religioso da Bíblia sugere que o elemento unificador
fundamental, no seu pensamento ético, é Deus. A ética bíblica é de culto ao único Deus. Nos
34
estágios primitivos da história hebraica a existência de outros deuses era admitida; mas pelo menos
no que diz respeito a Israel, depois dos dias de Moisés (cerca de 1.200 a.C.) havia somente um Deus
a quem Israel devia ser leal e cuja vontade lhe era obrigatória. Quando o monoteísmo, implícito na
monolatria de Moisés, atingiu o seu pleno desenvolvimento, depois do exílio babilônico, Jesus e o
escritor da última parte de Isaías consideraram-se dentro da tradição dos primitivos servos hebraicos
de Yahweh. O Deus vivo de Israel é a fonte unificadora das exigências morais impostas ao homem
e o supremo bem, ou valor, para o homem.
A segunda grande característica da moralidade hebraica é seu tom imperativo.Tanto quanto
é válida a distinção entre aqueles tipos de pensamento ético, que têm início com a consideração do
dever do homem, e aqueles que começam com a consideração do fim último ou alvo a ser atingido
mediante a conduta humana, a ética bíblica claramente se coloca no primeiro grupo. Ela se
preocupa antes com a questão: “O que é certo?”, do que com a outra: “Qual é o principal bem do
homem?” Ela começa relembrando aos homens os seus deveres, cuja origem está no pacto feito
com Deus, mais do que na formulação de bens ideais que os homens podem comparar livre e
desinteressadamente e entre os quais podem escolher como quiserem. A disposição característica de
todas as grandes súmulas da moralidade hebraica é o imperativo. “Não furtarás” (Ex 20.15).
“Santos sereis...” (Lv 19.2). “Amarás o Senhor teu Deus...” “Amarás o teu próximo...” (Mt
22.37,39). Mesmo a súmula que Miquéias faz do ensino ético do Antigo Testamento, súmula essa
que tem sido amplamente usada para representar a essência da moralidade bíblica, não obstante
empregar o modo indicativo e a palavra “bom”, fala das exigências de Deus; e assim sua intenção é
também imperativa: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti,
senão que pratiques a justiça e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq
6.8).
Em terceiro lugar, a moralidade bíblica preocupa-se antes com pessoas e comunidades de
pessoas, do que com ideais e padrões de cunho abstrato. Sua ênfase está naqueles atos que atingem
o próximo e a Israel e não na justiça e no amor, como virtudes em si mesmas. O pensamento ético
ocidental desenvolveu-se mais em linhas abstratas do que o pensamento de Israel. Como salienta o
professor Muilenburg, tais termos como personalidade, experiência, consciência, história, virtude e
o summum bonum são estranhos ao vocábulo de Israel, apesar das realidades a que se referem serem
abordadas a cada passo. Os Dez Mandamentos preocupam-se com a conduta que envolve pessoas
incluindo Deus, a quem o homem está relacionado em suas decisões e atividades. Não é a
veracidade como tal que é exigida, mas somente a veracidade para com próximo. Os profetas estão
intensamente interessados na justiça e misericórdia, mas a preocupação deles não é com a justiça e
misericórdia ideais de algum sonho utópico, mas antes com a justiça e misericórdia incorporada nas
decisões e ações de homens numa sociedade pecadora. Verdade, justiça e misericórdia são coisas
que devem ser praticadas (Jo 3.21). A lei inteira é freqüentemente resumida em termos de amor ao
próximo (Rm 13.8,10; Gl 5.14; Jo 13.34,35; 15.12,17; 1 Jo 3.11; 4.7; 2 Jo 1.5; Tg 2.8), mas mesmo
o amor não é exigido por si mesmo, mas somente em sua relação a Deus e ao próximo. Nenhuma
ação é considerada reta simplesmente por causa da maneira como atinge o eu.
Um quarto aspecto importante da ética bíblica é o seu igualitarismo na apreciação do valor
humano. Os hebreus se impressionavam mais com a igualdade fundamental entre os homens do que
com suas diferenças. Deus fez tudo, Ele cuida de tudo e procura redimir tudo. Por conseguinte, o
escravo, a viúva e o órfão devem merecer cuidado, devem ser tratados com justiça e misericórdia,
pois é assim que Deus lida com todos os homens e esta é a espécie de conduta que Ele requer dos
homens em seus relacionamentos mútuos. O Código da Santidade exigia que todos os escravos
hebreus fossem libertados a cada qüinquagésimo ano e que também a terra devia ser redistribuída
no ano do jubileu (Lv 25.10, 23.28). Na época da ceifa, o proprietário da terra devia abandonar
parte do fruto dos campos para o pobre respingar. “Não rebuscarás a tua vinha, nem colherás os
bagos caídos de tua vinha; deixá-los-ás ao pobre e ao estrangeiro” (Lv 19.10; Rt 2).
Semelhantemente, na literatura da sabedoria, as pretensões dos necessitados são
reconhecidas: “Informa-se o justo da causa dos pobres” (Pv 29.7). “Se desprezei o direito do meu
35
servo ou da minha serva quando eles contendiam comigo então que faria eu quando Deus se
levantasse? e inquirindo ele a causa que lhe responderia eu? Aquele que me formou no ventre
materno, não os fez também a eles?” Ou não é o mesmo que nos formou na madre?” (Jó 31.13-15).
Igualmente nas passagens do servo sofredor em Isaias e no exemplo e ensino de Jesus, os direitos
dos transgressores, daqueles que são desprezados e estão perdidos, são destacados em termos
veementes como os que devem merecer dos filhos de Deus serviço especial pela simples razão de
que sua necessidade é grande e não por causa de merecerem mais ou serem capazes de retribuir
alguma coisa. Deus não mostra parcialidade alguma (At 10.34) e exige que os homens não
demonstrem especial deferência para com o rico (Tg 2.9). “Não pode haver... nem homem nem
mulher; porque todos vos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28).
Finalmente, ética hebraica se distingue de outros tipos de ética em sua ênfase à salvação do
mal e não à aspiração do bem. A esperança de Israel é em Deus e não no homem. Deus se manifesta
a Moisés como aquele que sara “a Israel (Ex 15.26), a quem ele adotou como seu primogênito” (Ex
4.22). O salmista irrompe em louvor: “Vinde, cantemos ao Senhor, com júbilo celebremos o
rochedo da nossa salvação” (Sl 95.1). Ezequias oferece ação de graças a Deus pelo livramento:
“Tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de
ti todos os meus pecados” (Is 38.17). Isaías espera pela vinda de um “salvador” (Is 19.20), e o
desconhecido profeta do exílio babilônico desenvolve o tema de que Deus é o Redentor de Israel e
seu Salvador, nos termos mais claros jamais encontrados em qualquer parte do Antigo Testamento.
Continuamente ele fala de Deus como Redentor de Israel (Is 41.14; 43.14; 44.6,24; 47.4; 48.17;
49.7, 26; 54.5,8), e O descreve como seu Salvador (Is 43.3, 11; 45.15, 21; 46.4, 13; 49.8,26; 51.5, 6,
8; 52.7, 10). Yahweh diz a Israel: “Não temas, porque eu te remi... Porque eu sou o Senhor teu
Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador” (Is 43.1,3). Deus salvará a Israel “com salvação eterna” (Is
45.17).
O testemunho do Novo Testamento é que em Jesus esta promessa de salvação foi cumprida.
Ele “salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Na sinagoga de Nazaré, Jesus declarou que
a promessa de livramento feita em Isaias 61.12 nele mesmo se cumpriu. Em outra parte Jesus é
considerado como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). O Evangelho é o
“poder de Deus para a salvação” (Rm 1.16). Os que estão em Cristo Jesus foram libertados pelo
seu Espírito “da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1,2). Na verdade, todo o Novo Testamento é
unânime em proclamar como mensagem de boas novas que o Messias tão ansiosamente esperado
veio e que a salvação prometida tornou-se possível mediante a fé.

A ÉTICA DE JESUS CRISTO


Jesus foi o mestre supremo da moralidade. Ele não somente estava interessado na salvação
dos pecadores, mas também em seu comportamento. Sua ética era para ser aplicada às pessoas
salvas por Ele e apelava para o comportamento interno, e não apenas externo. O fato de que Ele
ensinou grandes princípios éticos, e não regras, deu ao seu ensino grande validade e permanência.
Assim, seus altos ideais ainda são válidos nos dias de hoje. A singularidade da ética de Jesus está no
fato de ter ultrapassado a bondade negativa; o amor ao próximo recebeu uma nova orientação.
Acima de todos os seus ensinamentos estava sua vida, em perfeita harmonia com seus ideais.
O Sermão do Monte (Mt 5 a 7) não é uma declaração completa da ética de Jesus, mas
apresenta a essência de seu ensino moral. O tema central desse sermão é a retidão do reino de Deus,
no qual são discutidos os assuntos de caráter e conduta de seus súditos. O sermão foi dirigido
primeiramente aos discípulos e depois à multidão que estava ao redor do monte, ouvindo a
mensagem de Jesus.
O sermão descreve o súdito do reino de Deus e sua maneira de viver. Seu tema é um novo
conceito de retidão em contraste com o antigo conceito exarado pela Lei. Traz primeiramente um
retrato do caráter cristão (Mt 5.3-12). É importante observar que a palavra grega makarius,
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traduzida por abençoado ou "bem aventurado", nada tem que ver com o conceito popular de
felicidade, caracterizado pelo prazer e pela prosperidade. Indica antes uma alegria íntima,
independente de circunstâncias externas. Esse estado de felicidade presente será aperfeiçoado nos
céus. Os pobres de espírito estão cônscios de sua falência espiritual diante de Deus e sentem que
dele dependem. O choro refere-se ao sofrimento físico, bem como à participação do sofrimento do
próximo. O homem é verdadeiramente abençoado e feliz quando conhece o conforto de Deus no
meio da tristeza e aflição.
A palavra manso no original implica em duas idéias básicas: prontidão em obedecer a Deus
e prontidão para aceitar sua disciplina. Assim, uma pessoa mansa e humilde é uma pessoa
totalmente dirigida por Cristo. A expressão “herdarão a terra” refere-se provavelmente à “nova
terra” nos quais os justos viverão (2 Pe.3.13). Fome e sede são termos fortes que denotam intenso
desejo. O homem reto tem uma verdadeira paixão pela implantação e governo da justiça sobre a
terra. Justiça neste texto é mais do que um padrão convencional de respeitabilidade. O homem é
verdadeiramente justo quando está empenhado na luta do que é certo contra o que é errado. Ele
intensamente deseja o triunfo da justiça em todas as esferas da vida.
Assim como a justiça, a misericórdia também é ativa e social. É possível uma religião
(pseudo, é verdade) sem ativa misericórdia, sem um credo, sem compaixão, como se vê na parábola
do bom samaritano. Desde que o próprio Deus é misericordioso, espera-se que os seus filhos o
sejam. Por pureza quis Jesus significar qualidade íntima, não externa. Os judeus estavam
acostumados a pensar em pureza como algo externo, tal como abstenção de certas comidas, evitar
contato com cadáveres e gentios. Os puros de coração reconhecem a presença de Deus em todos os
momentos da vida, inclusive na tristeza e no sofrimento (Hb 12.14, 1 Jo 3.2, Lv 22.4). Os súditos do
reino de Deus não apenas possuem paz em seus corações, mas promovem a paz entre os homens.
Como pacificadores eles têm a dupla tarefa de promover a paz entre os homens de Deus, e entre os
próprios homens. Serão chamados filhos de Deus, isto é, "reconhecidos como filhos de Deus".
A promessa por causa da perseguição não inclui perseguição causada pela insensatez. Ao
mesmo tempo, dá a entender que os cristãos que desafiarem o mal estado de coisas reinante
possivelmente sofrerão perseguição; contarão, contudo, com a bênção de Deus. Observa-se que
Jesus apela para a recompensa como um motivo. Ele não aceita, todavia, o antigo conceito hebreu
de que a prática do bem é um bom investimento. As recompensas a que Jesus se refere são
espirituais e atraem unicamente aqueles que nutrem um ideal altruísta. Não há menção de mérito no
ensino de Jesus acerca de recompensas. Aqueles que praticam a piedade com a esperança de receber
recompensas seculares e louvor dos homens já receberam o seu “galardão” (Mt 6 l). Jesus, dessa
forma, aconselha os homens a praticarem o bem não pensando em prêmios (Lc 6.35), e lembra-nos
de que a pessoa realmente virtuosa o é inconscientemente (Mt 25.31).
O tema “reino de Deus” foi a obsessão magnificente de Jesus. Foi sua mensagem central e
o objetivo de sua missão. Enquanto falou em igreja apenas duas vezes (Mt 16.18; 18.17), utilizou o
termo reino de Deus mais de 70 vezes. Seu evangelho foi definido como evangelho do reino (Mc
4.23). Quase todas as parábolas trataram do reino. Jesus nunca definiu o reino, mas descreveu sua
natureza e exigências. Parece ser o império de Deus em Cristo na vida de cada pessoa. De acordo
com Jesus, o reino de Deus é espiritual, universal e invisível. É tanto uma realidade como uma
esperança futura. É um dom de Deus, não uma realização humana. Não deve ser identificado com o
progresso social ou instituições terrenas. A principal preocupação do súdito do reino de Deus deve
ser a de fazer a vontade desceu soberano.
A influência dos súditos no reino de Deus é simbolizada pelo sal e pela luz. Os cristãos
devem ser forças preservadoras e iluminadoras do mundo. O sal possui uma tríplice função:
penetração, purificação e preservação. Semelhantemente, a influência do cristão é um instrumento
pelo qual Deus salva o mundo e o preserva da corrupção e da decomposição. O sal pode tornar-se
insípido. Em termos do discipulado, isto significa perda de devoção, gosto e influência. Quando o
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sal se torna insípido, perde seu valor. Semelhantemente, quando a igreja perde seu zelo por Cristo e
pelo evangelho, não resta mais esperança para o mundo.
A influência do crente também é descrita como a luz. Israel deveria ser “luz para os gentios”
(Is 49.6), mas falhou em sua missão. Agora os discípulos de Cristo recebem a missão de, como luz,
guiarem os homens à verdade, a Cristo. A luz que possuem é reflexo de Cristo, o supremo luminar
(Jo 8.12). Quanto mais limpas estiverem as vidas dos crentes tanto mais deixarão a luz de Cristo
passar. O símbolo da luz indica uma influência visível, ao passo que o símbolo do sal descreve a
influência silenciosa do crente. O evangelho pode ser escondido, isto é, a influência do crente pode
ser negativa. O “alqueire” debaixo do qual a luz é escondida pode ser o temor dos homens, a
conformidade com o mundo, o humanitarismo erradamente motivado. A ordem de Cristo de que os
crentes devem permitir que a sua luz resplandeça diante dos homens é um ataque à reclusão
religiosa, como a de certos grupos religiosos.
O elemento central: o amor. Jesus simplificou ou sintetizou a Lei, reduzindo as 613 leis
dos judeus à lei do amor de Deus e o amor ao próximo (Mt 22.36-40). O amor ao próximo não
colide com o amor de Deus (Mt 12.12, Mc 2.23-28, Lc 6.1-5). Jesus incluiu no conceito do amor ao
próximo as próprias pessoas dos inimigos (Lc 10.25-37, Mt 5.43-48). Jesus deu uma nova ênfase ao
comportamento interno. A lei dizia "não matarás", Jesus ensinou que a ira também é transgressão da
lei de Deus. O estado de ira é um obstáculo no culto ao Senhor (Mt 5.23-26); um mero ato religioso
não expia uma culpa contra o próximo. Os deveres para com Deus não justificam a inobservância
de deveres para com o teu próximo. A reconciliação é indispensável para que Deus aceite nossa
adoração.
A lei dizia “não adulterarás”, tendo em mira o ato em si. Jesus vai além da antiga lei e
declara que os pensamentos lascivos continuamente alimentados são transgressões também. A
autodisciplina ajudará a pessoa a evitar a impureza sexual. O remédio é a “cirurgia espiritual” dos
olhos que provocam o pecado. Nos dias atuais, por exemplo, tal cirurgia pode ser feita não se
prestando atenção a quadros e literatura obscena, e evitando a companhia de pessoas de
comportamento censurável. A nova lei de Jesus também exige mais santidade na vida matrimonial
(Mt 5.31,32). A lei prescrevia divórcio sob certas condições; Jesus ensinou que não deve haver
divórcio a não ser por causa de infidelidade conjugal.
A nova lei de Jesus exige mais veracidade (Mt 5.33-37). O crente deve falar a verdade em
simplicidade e refrear-se de jurar pelo céu, ou pela terra, ou fazer qualquer outro juramento; a
palavra deve ser sim, sim, e não, não, para que não caiam em condenação (Tg 5.12). A nova ética
de Cristo condena a retaliação (Mt 5.38-42). Jesus condena a represália na esfera das relações
pessoais. A nova ética de Cristo, enfim, exige mais amor (Mt 5.43-48). A antiga lei dizia: “Amarás
o teu próximo” (Lv 19.16-18). Jesus preceituou: “Amai a vossos inimigos”. Não podemos sempre
revelar um sentimento de ternura aos que nos são hostis, mas podemos sempre tratá-los justa e
misericordiosamente. Poderá haver certas características em nosso próximo que não apreciamos,
mas devemos amá-lo como uma criatura de Deus. Desde que o nosso Pai Celestial ama tanto os
justos como os ímpios, o crente deve também fazê-lo (Mt 5.48).
O verdadeiro motivo da adoração. Os homens não devem praticar sua religião com o fim
de serem vistos pelo público, mas sim com o objetivo de glorificar a Deus. Deus é o motivo, Deus é
o alvo, Deus é o objetivo, Deus é nada menos do que Deus. Nenhuma pessoa é um verdadeiro
cidadão se não se conduzir com os olhos fixos em Deus. Toda espécie de conduta recebe
recompensa na base de seu motivo.
A oração dominical (Mt 6.9-14). A oração é dividida em duas partes: a que se relaciona
com Deus e a que se relaciona com o homem (9-13). “Pai nosso...” é primariamente uma oração
social para se fazer em particular. “... santificado seja o teu nome...” – O nome de Deus, isto é, sua
natureza e caráter devem ser santificados em pensamentos, palavras e feitos, bem como no culto.
“Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” – O reino de Deus é sua
vontade. Onde quer que sua vontade seja feita perfeitamente como o é no céu, ali está o seu reino,
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pois onde a vontade Deus é feita, ali sua soberania se realiza. A nova vida em Cristo é a realização
da vontade divina. É a condição para que alguém se torne discípulo de Cristo (Mc 3.35). Essa
oração não é tanto "uma súplica para que Deus nos leve para o céu, mas que o céu seja trazido por
meio de nós à terra" (W. O. Carver).
“...Como no céu” – Indica o padrão que deve ser seguido na terra. “O pão nosso de cada dia
nos dá hoje” – O pedido é pelo pão, não por um banquete. A maior evidência é de que a expressão
"de cada dia" se refira à idéia de que devemos pedir o pão necessário à existência durante o dia
seguinte. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”.
Quando os crentes pedem o perdão de Deus, devem estar prontos a perdoar os outros. “Dívidas” é
uma figura judaica usada como sinônimo de “pecado”, o que é bem ilustrado em Mateus 18.23-25 e
em Efésios 4.32. “E não nos induzas à tentação, mas livra-nos do mal...” Essa oração não é uma
súplica para que os discípulos nunca sejam tentados, mas que eles não sejam levados a efetuar o
mal. Agostinho ilustra esse ponto com o exemplo de José que foi tentado a cometer o adultério com
a esposa de Potifar, mas não foi levado ao pecado resultante de tentação. “Porque teu é o reino, e o
poder, e a glória, para sempre”. Essa doxologia termina a oração como ela foi iniciada, isto é, com o
pensamento da soberania e glória de Deus.
O problema da ansiedade – A ansiedade de que Cristo fala é ansiedade que se origina nas
coisas materiais. Tal ansiedade é inútil, porque nada constrói; é desnecessária, pois Deus cuida de
nós; é imprópria, pois é conduta do mundo. Deve ser observado que Jesus não exclui a nossa
providência e o cuidado que se deve ter para com as coisas materiais. O que ele ensina é que tais
coisas devem receber um lugar subordinado no reino de Deus. Quando o crente busca o reino de
Deus em primeiro lugar, Deus provê as necessidades da vida.
A lei áurea. Wiliam Barcley chama a lei áurea de “Everest” da Ética de Cristo. O conceito
de retidão de acordo com Jesus não era o de passividade, mas de ação positiva. Dessa forma, a
vontade de Deus não é simples refreamento de uma ação má, mas a realização de boas ações.
Lembre-se que a lei áurea foi promulgada para os crentes.
Como se disse o princípio, o Sermão do Monte não é uma declaração completa da ética de
Jesus. O princípio do serviço, por exemplo, é apresentado noutra parte das Escrituras. Não há
referência também à sua morte, cujo significado é de suma importância para a ética cristã. Não se
refere de igual modo, ao Espírito Santo, à igreja e a outras doutrinas. O Sermão, no entanto, contém
a essência dos ensinos morais de Jesus. Proclama a pura vontade de Deus e dá exemplos
inequívocos de sua expressão nas atitudes e ações de verdadeiro cristão.

A ÉTICA DE PAULO
Paulo, o apóstolo, foi o primeiro e o mais importante intérprete da “mensagem de Cristo”,
com referência aos problemas éticos do Cristianismo primitivo. O aparecimento de certos
problemas morais na igreja de Corinto deu-lhe oportunidade de aplicar a questões concretas os
ideais éticos de Jesus. Dessa forma o que é eticamente implícito nos Evangelhos torna-se explícito
nas epístolas paulinas. Em todos os seus escritos Paulo revela-se em harmonia com o ensino moral
de Jesus. Como declara Paulo, pode suplementar, mas nunca contradizer seu Mestre. Os ensinos
éticos de Paulo estão firmemente baseados em doutrinas teológicas. Não se pode entender sua ética
sem algum conhecimento de sua teologia, porquanto ambos são partes integrantes da mesma
realidade.
Ética Cristocêntrica – A base para a nova vida em Cristo é a união com Ele. Paulo descreve
essa experiência como sendo “em Cristo”, uma íntima relação do crente com o seu Senhor (Rm
16.3.9; 1 Co 1.30; 2 Co 5.17; Gl 3.28; Cl 4.7; Fl 4.1; 1 Ts 3.8). Essa é uma relação mística, mas não
de qualidade que absorve a pessoa em um nada. É, antes, um misticismo prático que denota uma
pessoa pertencente a Cristo e que se comporta interna e externamente como Ele. Estar “em Cristo” é
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tomar sua atitude para com o pecado, é possuir um novo motivo ético (3.1). É ter acesso a uma nova
provisão de poder moral (Fl 4.13).
Ética do Espírito – O Espírito Santo cria um novo ser em Cristo (Tt 3.5; Rm 7.36); torna
possível o conhecimento da vontade de Deus (1 Co 2.13-16) e produz o fruto do caráter (Gl 5.22).
O Espírito também se torna o poder da nova vida em Cristo, possibilitando o indivíduo a viver uma
vida de vitória moral (Ef 3.16) e a “andar no Espírito”, não realizando os desejos da carne (Gl 5.16).
Ética Renovadora – Embora Paulo use raramente o termo “arrependimento”, a idéia é
dominante em suas cartas. “Renovação do entendimento” é o equivalente ao arrependimento no
pensamento de Paulo (Rm. 12.2). Karl Barth diz que essa renovação do entendimento ou
arrependimento “é a ação ética primária da qual depende toda a conduta secundária”. “O
arrependimento é o ato da reconsideração ou transformação do pensamento”, conclui Barth, “é a
chave do problema da ética, pois é o lugar em que se dá a meia volta através da qual os homens são
dirigidos a um novo comportamento”.
Ética Confiante – A fé está intimamente relacionada com a ética cristã nos ensinos
paulinos. Fé não é mero consentimento a um credo, mas dedicação pessoal a Jesus Cristo como
Senhor da vida. Assim, a fé é um ato ético no qual toda a personalidade se rende em confiança e
obediência à vontade de Deus em Cristo. Ao passo que a salvação é pela graça, através da fé, e não
pelas obras, a verdadeira fé sempre produz boas obras (Ef 2.8-10). “A fé que opera por amor” (Gl.
5.6) é básica na ética de Paulo.
Ética da Igreja – A esfera da nova vida em Cristo é a igreja, a comunhão dos remidos.
Estar “em Cristo” é estar na igreja, o Corpo de Cristo. Relacionamo-nos com Cristo
individualmente, mas não podemos viver em Cristo solitariamente (John A. Mackay). A comunhão
com Cristo leva necessariamente à comunhão com os outros crentes. Todos possuem o mesmo
espírito (2 Co 4.13). Quando a igreja está em culto, tudo deve ser feito para a edificação de todos (1
Co 14.16). Os dons do Espírito devem ser usados tanto para beneficio recíproco dos crentes como
para o bem geral da Igreja (Rm. 12.5; 2 Co 12.21,27a). Outrossim, os crentes devem confortar-se
uns aos outros com o mesmo conforto que recebem de Cristo (2 Co 1.5-7).
Ética de Princípios – Como Jesus, Paulo não apresenta qualquer código de lei para a vida
cristã. Propõe, antes, princípios básicos de comportamento que, tanto os crentes individualmente
como a Igreja em geral, podem descobrir e aplicar em decisões e ações morais. O amor é o mais
importante princípio moral da ética de Paulo. Em seu pensamento, o amor e não a lei é a força ética
de maior expressão na vida cristã (Gl 5.14). A prova prática do Cristianismo é “a fé operada através
do amor” (Gl 5.6). Isso significa amor pelo próximo, especialmente pelos domésticos da fé (Gl
6.10). Observe-se que o esforço de Paulo para substituir a lei pelo amor não significa que ele nega o
valor da lei. Ao contrário, ele sustenta que “a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Rm
7.12). A fé não invalida a Lei, mas a estabelece (Rm 3.31). Cristo, porém, torna-se o “fim da Lei”
como um meio de salvação e justiça.
A nova “Lei de Cristo”, a lei do amor, torna-se a força ética norteadora (Gl 6.2). Paulo está
ciente de que a nova liberdade da Lei pode descambar para a licenciosidade. Portanto, ele
estabelece os limites da liberdade cristã em temos de princípios básicos. Essa nova liberdade não
deverá ser usada como uma “ocasião à carne”, mas para servir ao próximo através do amor (Gl
5.13-17, 25). Outro limite é o da propriedade (1 Co 10.23a). Ainda outro limite é o da edificação (1
Co 10.23b). O último limite é o auto-domínio: “Todas as coisas me são lícitas mas eu não me
deixarei dominar por nenhuma” (1 Co 6.12). Diante de um problema de ação moral, um crente
deve perguntar: É esse um ato de serviço em amor? É apropriado? É construtivo? Escravizar-me-á?.
Esses são os limites que Paulo estabelece para a liberdade cristã.
O princípio da justiça é proeminente na ética paulina. Ele constantemente usa a idéia de
retidão para descrever a Deus como a fonte de tudo quanto é bom e justo. Se por um lado, ele não
pensa na retidão como um atributo inerente ao cristão, por outro lado, ele vê nessa retidão uma
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norma objetiva que exerce autoridade sobre eles. Cristo mesmo é a personificação da retidão (2 Co
6.15), e o reino é “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). O crente é libertado do
pecado, tornando-se “servo da justiça” (Rm 6.18). Usando “a couraça da justiça”, estará em
condições para enfrentar e neutralizar os ataques do maligno (Ef 6.14).
O exemplo de Cristo também é um princípio da vida cristã, no pensamento de Paulo. O
motivo da imitação de Cristo aparece em diversos escritos de Paulo. O crente deve ter a mente de
Cristo e seguir seu exemplo de humildade (Fl 2.5). Cristo deve ser imitado em sua generosidade e
amor (2 Co 8.9). Paulo sintetiza o princípio da imitação concitando os crentes a viver “segundo
Cristo” (Cl 2.8). Obviamente, ele não quer dizer que os homens devem literalmente copiar a Jesus,
mas imitá-lo em termos de espírito, convicções éticas e solicitude pela propagação do evangelho.
Motivos Éticos – Além dos princípios, Paulo apela para vários motivos que suscitam a
responsabilidade ética dos cristãos. O primeiro motivo é a vivência de acordo com os padrões
comuns da decência. Como um mínimo de moralidade, os crentes deveriam viver de acordo com os
melhores ideais éticos do período. Dessa forma, os convertidos são exortados a manter uma vida
doméstica decente, em seus próprios negócios, a viverem de tal maneira que ganhassem o respeito
dos que estavam de fora da Igreja (1 Ts 4.1-12). Além disso, deveriam pagar os impostos e respeitar
as autoridades civis (Rm 13.1). Do lado negativo, Paulo apresenta sete listas de pecados que os
crentes deveriam evitar (Rm 1.29-31; 1 Co 5.11.6.9; 2 Co 12.20; Gl 5.19-21; Ef 4.31; 5.3-4; Cl 3.5-
9). Esses pecados ou vícios comuns formam cincos grupos: 1) Pecados sexuais ou fornicação; 2)
Pecados de ambição - cobiça e extorsão; 3) Pecados de linguagem - maledicência, mexericos,
cachorrices, mentiras e palavras torpes; 4) Pecados de más relações pessoais, inimizades, porfias,
facções, inveja, ira, divisões e ciúmes; 5) Pecados de embriaguez e conseqüentes resultados.
O outro motivo ético para o qual o apóstolo apela é a razão. Paulo concita os crentes de
Éfeso a não serem insensatos, mas a entenderem “qual seja a vontade do Senhor” (5.17). Aos
Coríntios apela para que não sejam imaturos no entendimento (1 Co 14.20). Arrazoa Paulo que,
desde que Filemon é cristão, deve tratar seu escravo fugitivo como irmão, considerando que seu
servo aceitara a Cristo como Salvador. Aos Colossenses observa: “Se já ressuscitasses com Cristo”
é lógico que “buscais as coisas que são de cima” (3.1).
NOTA: Em todas essas súplicas, Paulo concita os crentes a usarem a inteligência ao fazerem
decisões de caráter moral.
Desejo de agradar a Deus é outro forte motivo na ética paulina. Os crentes devem ter a
ambição de agradar a Deus (2 Co 5.9); devem semelhantemente portar-se como filhos da luz
“aprovando o que é agradável ao Senhor” (Ef 5.10); a pregação do evangelho não visa a agradar
aos homens, mas “a Deus que prova os nossos corações” (1 Ts 2.4); os que andam segundo os
ditames da carne “não podem agradar a Deus” (Rm 8.8). Sensibilidade para com as necessidades
do irmão mais fraco é outro apelo de Paulo. Às vezes os mais fortes na fé devem renunciar a seus
direitos individuais, a fim de que a consciência do irmão mais fraco não seja enfraquecida ou
ofendida (1 Co 8.1-13); desde que os cristãos hebreus tinham repartido suas bênçãos espirituais para
com os gentios conversos, era dever desses ajudar a Igreja-Mãe contribuindo materialmente (Rm
15.26,27). Assim, para Paulo a coleta de dinheiro é mais do que mero assunto financeiro. É, antes,
uma profunda expressão de amizade entre igrejas judaicas e gentias (1 Co 16.1-4).
Um outro motivo ético é a escatologia entrelaçada à ética paulina. Paulo não hesita em
apelar para o temor da ira de Deus. Ele declara que os ímpios entesouram para si a ira no dia
quando o justo julgamento de Deus será revelado (Rm 2.5); Deus é santo, não se deixa escarnecer;
“tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7); além disso, “o salário do pecado é a
morte” (Rm 6.23); todos os crentes deverão comparecer ante o tribunal. Esse é um termo grego que
significa “trono de julgamento”, usado nos jogos olímpicos, “para que cada um receba segundo o
que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal” (2 Co 5.10). Dessa forma, o comparecimento de
crentes diante do tribunal divino tem mais o fim de recompensa do que julgamento (cf. a parábola
dos talentos em Mt 25.15ss), pois eles já foram salvos da condenação eterna (Rm 8.1). Os cristãos
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devem ter o desejo de se manterem irrepreensíveis para o dia do Senhor (1 Co 1.8). Para tanto,
devem lançar mão da sobriedade e da autodisciplina (1 Ts 5.4-11).
Finalmente, Paulo apela para a idéia da perfeita personalidade, da maturidade, como um
incentivo ao viver cristão. Quando os elementos do caráter cristão, como o apóstolo os descreve,
são postos juntos, temos um mosaico de uma pessoa madura. Esses traços de maturidade são vistos
nas listas de virtudes encontradas em Filipenses 4.8; Efésios 5.9 e Gálatas 5.22s. Essa espécie de
caráter, em contrate com o ponto de vista grego, é formando não puramente pela razão, moderação
e outros atos virtuosos, mas pelo Espírito Santo que habita nos crentes.
Ética Realista – Um genuíno realismo permeia a concepção paulina do homem e de suas
possibilidades morais. A antropologia paulina, em contraste com o dualismo grego, concebe a
pessoa humana em sua inteireza: corpo, alma e intelecto. Para o apóstolo o homem é uma unidade
básica que não deve ser arbitrariamente dividida em alma e corpo. Paulo fala a respeito da pessoa
não regenerada como “o homem natural”. Como tal é incapaz de compreender as coisas espirituais,
porquanto a verdade divina só é discernida espiritualmente (1 Co 3.14). O homem natural precisa,
portanto, tornar-se uma “nova criatura” em Cristo, pelo poder transformador do Espírito.
“Estar em Cristo” é tornar-se uma nova criação completa, em oposição à prévia e antiga
condição espiritual e moral (2 Co 5.17,18). Quanto à sede do pecado, Paulo tende a localizá-la na
“carne” (Rm 7.17-20). Pela palavra carne ele não quer dizer corpo (no grego, soma), mas o homem
natural como um todo, a pessoa total sem Deus e sem espírito. A carne e o espírito estão em
constante conflito no homem (Gl 5.17b). Somente vivendo habitualmente no Espírito pode o
homem evitar os desejos da carne (Gl 5.18). Essa constante luta ajuda a explicar o motivo porque
nem sempre o homem alcança o supremo bem da vida cristã, que é a realização da vontade de Deus.
Não obstante toda a sua devoção a Cristo, Paulo nunca presume que ele tenha alcançado a
perfeição absoluta. Ele francamente admite que não a tinha alcançado (Fl 3.12ss). Apesar disso,
prossegue para o alvo “pelo prêmio de soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3.14). Os
altos ideais do evangelho nunca podem ser atingidos perfeitamente aqui na terra, nem mesmo se
pode aproximar-se dos mesmos sem a ajuda de Deus. Essa sublimidade dos ideais cristãos produz
uma saudável e abençoada vida cristã.
De vários modos, Paulo articula as diretrizes básicas da ética cristã, procurando motivar os
homens a incorporá-los em suas próprias vidas. Seus princípios éticos, seus apelos pela ação e sua
doutrina do homem são realistas e, portanto, válidos e permanentes. Não obstante terem sido
expressas no primeiro século da história da Igreja, essas doutrinas transcendem os tempos e
pertencem a todos os séculos.

A ÉTICA NAS CARTAS GERAIS


Na Literatura Joanina – Nesta literatura o mandamento do amor é supremo. O novo
mandamento de Cristo é para que o crente ame o próximo como Cristo amou os seus: “Novo
mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos
ameis uns aos outros” (Jô 13.34). O mandamento judaico relativo ao amor ao próximo é
qualificado pelo amor pessoal (Lv 19.18). O novo mandamento de Cristo tem como critério o amor
do próprio Cristo. Amar como Cristo é amar a todos indistintamente, incondicionalmente,
redentivamente e altruisticamente. A prática desse novo mandamento é prova de genuíno
discipulado: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros”
(Jo 13.55). A primeira Epístola de João é um breve comentário sobre a inseparabilidade do amor a
Deus e do amor ao próximo. A base da vida cristã consiste em ser gerado por Deus e viver em
comunhão com Ele (3.9; 5.18). As condições para ter comunhão com Deus são o caminhar na luz,
confissão dos pecados e obediência a seus mandamentos. Os testes da vida cristã são: justiça (2.29);
amor fraternal (3.11-24) e fé em Jesus Cristo como Filho de Deus (5.1-12). O amor não é
meramente teórico, mas se expressa no atendimento das necessidades humanas (3.17-18).
42
Semelhantemente, a segunda Epístola de João apela para uma demonstração de amor na
conduta. O crente deve passar sua vida continuamente expressando o amor de Deus (v. 6). Os que
andam na verdade amam-se reciprocamente (v. 4,5). Em sua terceira Epístola, João dá ênfase ao
amor em termos da verdade (v. 3,4) e da prática da hospitalidade (v. 5-8). Atacando Diótrefes, ataca
a descabida ambição (v. 9). Insta para que não imitem o que é mau, senão o que é bom (v.11a),
concluindo que aquele que pratica o bem procede de Deus, e aquele que pratica o mal, jamais viu a
Deus (v. 11b). A mensagem fundamental do Apocalipse, do ponto de vista ética cristã, é a do
triunfo final de Cristo, o Cordeiro, sobre a besta, o estado totalitário. De um campo de concentração
na Ilha de Patmos, João descreve esse conflito entre Cristo e César. Daquela solitária ilha, ele prevê
o triunfo de Cristo sobre os seus inimigos terrenos. Desse modo, o princípio básico da soberania de
Cristo, que se encontra atrás dos símbolos apocalípticos, contém uma mensagem de encorajamento
para os nossos tempos. Seguros na convicção de que “o Senhor Deus Todo Poderoso Reina” (Ap
19.16) sobre todos os poderes, os cristãos perseguidos triunfarão sobre os poderes tirânicos da
atualidade.
Na Epístola aos Hebreus – Lealdade e fidelidade são os principais apelos éticos da epístola
aos Hebreus. Aqueles que estão para voltar aos caminhos do Judaísmo são lembrados de que o
Cristianismo é a fé perfeita e final, pois na cruz, o sacrifício de Cristo foi completo; o Judaísmo fora
apenas uma sombra e um símbolo desta perfeição. Entre outras virtudes realçadas estão a fé, a
paciência e a perseverança (6.12, 12.1,2). O amor deve ser a base das boas obras (6.10; 10.24). O
amor fraternal deve ser continuamente praticado (13.1). A fornicação e o adultério são condenados,
e a instituição do matrimônio, enaltecida (13.4). A avareza e a ambição são atacadas (13.5). Cristo é
apontado como supremo líder e exemplo (12.1-3).
Na Epístola de Tiago – Essa epístola ecoa de um modo maravilhoso a ética do Sermão do
Monte. O propósito dessa carta é explicar a conexão básica entre a fé e as obras. A religião pura se
expressa em atos tais como “visitar órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da
corrupção do mundo” (1.27). O significado prático da fé é visto em diversas injunções: condena o
fazer acepção de pessoas (2.1-13); a “Lei Áurea” envolve ajuda aos necessitados (2.8, 14-16); a fé
verdadeira é frutuosa (2.14-26); o crente deve refrear a sua língua (3.1-12); a sabedoria falsa produz
amarga inveja, sentimento faccioso e vão orgulho; a falsa sabedoria é terrena, animal e diabólica. A
verdadeira sabedoria é celestial, é pura, pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de
bons frutos, sem parcialidade e sem hipocrisia (3.13-18); as causas da guerra são os deleites e a
cobiça (4.1); irmãos em Cristo não falam mal uns dos outros (4.11-12).
Nas Epístolas de Pedro – O propósito dessa epístola é duplo: fortalecer os crentes e
esclarecer-lhes quanto aos verdadeiros princípios da vida cristã. O pensamento ético de Pedro é uma
aplicação dos ensinos éticos do seu Senhor. O apóstolo começa com palavras de ação de graças pela
esperança da salvação (1.3-12), seguindo-se logicamente uma exortação à santidade (2.13, 2.10). Os
crentes devem ser caracterizados pela pureza de vida porque Deus é santo (1.13-16), porque eles
foram redimidos por Cristo por um preço inestimável (1.18-21) e porque nasceram de novo (1.22-
25). Os crentes são geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa e o povo adquirido (2.9).
Prossegue Pedro com uma exortação à boa conduta no meio dos pagãos e à submissão às
autoridades (2.11-17). O apóstolo não se refere a uma obediência cega às autoridades, pois ele
mesmo declara que “mais importa obedecer a Deus do que aos homens”, quando a obediência às
autoridades entra em conflito com o dever a Deus (At 5.29). Os servos devem ser submissos a seus
senhores. Note-se que “servos” são empregados domésticos e não membros de uma classe social
particular. Não eram escravos, como os que trabalhavam em grupos sob as vistas de cruéis feitores.
Na primeira parte do capítulo três, Pedro trata dos deveres das mulheres e maridos cristãos (3.1-7).
No capítulo cinco, verso cinco, os jovens são admoestados a se sujeitarem aos anciãos.
NOTA: O princípio de sujeição pode parecer estranho à moderna mentalidade democrática.
Nota-se, entretanto, que a sujeição a que se refere o apóstolo Pedro baseia-se num ato voluntário e
não numa lei política ou social. É um princípio religioso pelo qual servimos a Deus (2.15). Além
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disso, sujeição, segundo as Escrituras, é um dever recíproco, que abrange todos os crentes:
autoridades, servos, senhores, maridos, mulheres, jovens e anciãos (5.5 conf. Gl 5.13, Ef 5.21ss,
1.9, Tt 3.1, Fm 15-17).
Na Segunda Epístola de Pedro, a preocupação primária do escritor é a preservação da
verdadeira fé e dos altos padrões da moralidade cristã que estavam sendo ameaçados por falsos
mestres. O apóstolo apresenta uma lista de virtudes que devem ser acrescentadas à fé (1.5-11): 1)
Virtude (energia e excelência moral); 2) Ciência (sabedoria prática); 3) Temperança (refreamento
dos impulsos sexuais); 4) Paciência (calma ao enfrentar a adversidade); 5) Piedade (piedade
genuína).
Os cristãos devem estar prevenidos contra os falsos mestres que dissociam a fé cristã da
ética (capítulo 2). Introduzindo heresias, esses falsos instrutores levavam incautos a práticas
lascivas (v. 1,2). Movidos pela avareza, exploravam o povo com palavras fingidas (v. 3). NOTA:
Evidentemente a espécie de heresia descrita nesses versos se refere ao antinomianismo, segundo o
qual debaixo da graça a lei moral não tem valor, uma vez que a fé sozinha é suficiente para a
salvação. Tais mestres pereceriam em sua corrupção (v. 12). O capítulo terceiro trata do Senhor.
Considerando que Cristo há de voltar, os crentes devem ser caracterizados por uma vida santa.
Na Epístola de Judas – Essa pequena carta parece ter sido dirigida a cristãos judeus que
estavam usando sua liberdade da Lei para viverem desordenadamente. Judas enfrenta também o
problema de falsos mestres, cujas características são idênticas às encontradas na 2 Epístola de
Pedro. Aparentemente são de igual modo antinomianistas (v. 16). O viver santo é o melhor
testemunho da verdadeira fé. Por isso, os crentes são instados a edificar-se na fé, a orar no Espírito e
a conservar-se no amor de Deus, bem como a trabalhar pela recuperação espiritual e moral do
próximo (v. 20ss).
Graças à Palavra de Deus, à transmissão da experiência cristã através dos tempos e à
institucionalidade da igreja, a moralidade cristã chegou até nós, possuindo ainda hoje consistência e
confiabilidade, qualidades que outras éticas civis ou religiosas não possuem. Observa-se na
moralidade bíblica uma progressão do conceito de coação moral para responsabilidade individual;
este conceito vai culminar com a ética de Jesus Cristo, vivida e ensinada pelos apóstolos, pelos pais
da igreja e seguida depois por todos os cristãos. Nesta caminhada ética, verifica-se claramente como
a heteronomia dirige-se para a autonomia e culmina na teonomia, como será abordado no próximo
capítulo.

PARA RESPONDER
1. Assinale as afirmativas que demonstram a relação entre o Antigo e o Novo Testamento.
( ) O AT é o guia indispensável para o estudo do NT.
( ) O NT narra o cumprimento das esperanças e promessas do AT.
( ) Em Cristo, Deus cessou de revelar-se aos homens.
( ) Há unidade fundamental entre o AT e o NT.
( ) O contraste entre os ensinos morais do AT e do NT aparece no Sermão da Montanha.
( ) Por causa das diferenças de padrão entre o AT e o NT. A Bíblia não serve como guia
ético.
2. Relacione a coluna de baixo com a de cima, quanto às características da moralidade hebraica.
(1) Teocêntrica
(2) Imperativa
(3) Preocupação com pessoas
(4) Igualitarismo
(5) Salvação do mal
( ) Deus é apresentado como o Redentor de Israel, como o Salvador, como o Remidor.
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( ) Deus é a fonte de toda exigência moral e é o supremo bem.
( ) Deus não mostra parcialidade e exige que os homens não demonstrem especial deferência para
com o rico, em desprezo ao pobre.
( ) Começa relembrando aos homens os seus deveres, cuja origem está no pacto feito com Deus.
( ) Sua ênfase está nos atos que atingem o próximo e não na justiça e no amor, como virtudes em si
mesmas.
3. Identifique corretamente os ensinamentos éticos de Jesus:
1) Apresenta a essência do ensino moral de Jesus: .............
2) Foi a mensagem central de Jesus e o objetivo de sua missão: .....................
3) Jesus simplificou a Lei em dois mandamentos com um elemento central: ...............
4) Súplica para que o céu seja trazido por meio de nós à terra: ......................
5) Tais coisas devem receber um lugar subordinado no reino de Deus: .................
4. Cite as qualidades da ética paulina:
1)
2)
3)
4)
5)
6)
7)
8)
5. Coloque à frente das Epístolas seu tema dominante:
1) Epístolas Joaninas: ........................
2) Hebreus: ..................
3) Tiago: ......................
4) Epístolas de Pedro: .................
5) Judas: ............................

CAPÍTULO 5
ÉTICA HETERÔNOMA, AUTÔNOMA E TEÔNOMA

Enquanto os animais possuem os instintos para dirigir seu comportamento, o ser humano é
dirigido por sua racionalidade, liberdade e responsabilidade. Ele tem senso de dever, consciência
ética, como característica específica. Essa consciência ética pode ser percebida em sua linguagem,
pela utilização de termos como bom e mau, justo e injusto, honesto e imoral; pode ser percebida na
cultura, isto é, nas formas da educação, incluindo a formação da consciência moral; e pode ser
percebida nas instituições jurídicas.
A criança não depende apenas de seu instinto para regular seu comportamento. Os pais vão
lhe mostrando que há necessidade da renúncia, necessária para uma humanização progressiva. A
educação não é possível sem sacrifício, pois a criança precisa aprender que os outros também
possuem seus direitos. O carinho, o afago, o amor será a recompensa da criança que age conforme
determinados padrões e normas de conduta. A formação ética precisa ser permeada pelo amor. Da
mesma forma que a criança, o adulto precisa se sentir parte do grupo; então, a submissão a normas
de conduta, a costumes sociais, será o preço para não sermos marginalizados. As normas e costumes
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se interiorizam na consciência. Isso pode levar a um comportamento irracional, isto é, sem reflexão,
perdendo-se a própria identidade; muitos até preferem uma ética heterônoma, simplesmente porque
não querem raciocinar ou pagar o preço da conscientização.
Como cristãos, poderíamos afirmar que a nossa ética é a melhor de todas e precisamos
propagá-la ao mundo. Entretanto, uma ética imposta nunca será totalmente aceita. Vivemos num
mundo pluralista, de diversas tendências religiosas e morais; neste contexto, uma ética humanista,
fundamental, será válida para toda a sociedade e não apenas para uma sociedade cristã. Não
podemos propor ao mundo uma moralidade especificamente cristã, mas uma proposta aberta ao
pluralismo cultural. Isso quer dizer que precisamos responder à pergunta: Devemos defender uma
ética autônoma, heterônoma ou teônoma?

ÉTICA HETERÔNOMA
Heteronomia vem dos radicais gregos héteros, que significa outro, e nomos, que significa
lei, norma. A ética heterônoma considera uma autoridade exterior ao ser humano como critério de
moralidade e fonte de normas morais. Essa autoridade pode ser Deus com sua lei natural e seus
mandamentos positivos, encontrados na revelação, ou pode ser qualquer autoridade pública
legislativa que emite leis e normas de comportamento. Uma ética heterônoma é legalista, com base
no princípio de que a ordem jurídica coincide com a ordem moral.
A heteronomia descreve a realidade de modo contrário à autonomia moral. Os fundamentos
de uma ética heterônoma justificam os valores morais numa realidade estranha à pessoa. Seus
interesses não coincidem com os interesses de todos os seres humanos. A heteronomia expressa a
forma de moral imposta ao sujeito de fora para dentro. As fontes heterônomas para a criança são
três: a família (inclua-se aqui a orientação religiosa), a escola e a sociedade (inclua-se aqui a igreja).
Para alguns autores, a fase da heteronomia é positiva, na criança, quando dela se passa para a
autonomia. Quando o nível da heteronomia predomina na consciência moral do adulto, surgem
erros típicos, como o legalismo, o farisaísmo etc.
Dentro do Cristianismo podemos encontrar formas de heteronomia. A moral católica
tradicional (moral dos manuais da casuística), que vigorou até o Concílio Vaticano II, era
heterônoma, sendo mais teológico-cristã do que racional; a obrigação moral baseia-se na lei ou
vontade de Deus, extrínseca à consciência da pessoa. Dava muita importância ao estatuto jurídico,
tanto eclesiástico quanto civil. Defendia o princípio de que as leis podiam ser analisadas
criticamente pela razão, mas o fundamento de suas normas sempre vinha de fora dos seres
humanos, isto é, estava na lei eterna de Deus.
Vidal apresenta três mediações heterônomas: a proibição ou tabu, a obrigação extrínseca e o
estabelecido. Uma realidade é tabu quando a pessoa não pode penetrar nela, sem que se
desencadeiem diversos malefícios que se encontram em tal realidade. O esquema ético da moral
cristã baseada na proibição ou no tabu será um esquema mágico-tabuístico, segundo Vidal. Este
esquema é fechado em si mesmo, não aberto à opinião das pessoas; sua violação implica castigos
imediatos de ordem mágica e religiosa; a violação não é inserida na categoria da responsabilidade
humana; pessoas relacionadas ao violador, mediante laços de sangue ou laços sociais, também
sofrerão o castigo. Na atualidade, desejamos afastar da moral cristã toda proibição; já se fala em
moral para além do proibido.
A mediação heterônoma com base na obrigação extrínseca é uma ética voluntarista; a
realidade do valor moral é projetada na vontade distinta do sujeito. Segundo Vidal, destacam-se
duas repercussões ou variações deste tipo de ética, ou sejam: voluntarismo divino, que diz respeito
ao querer livre de Deus, ao mandamento divino, à sanção de Deus; e legalismo eclesial, que
valoriza as leis, o direito, a autoridade constituída e a obrigação das pessoas em cumprir as leis
eclesiásticas.
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O estabelecido refere-se a um positivismo moral, que pode ser observado no chamado
argumento de autoridade (uma citação bíblica, um documento do magistério eclesiástico, opiniões
de moralistas etc.), na predominância da doutrina oficial, na dificuldade de revisar formulações
vigentes. Em estruturas heterônomas, a principal virtude é a obediência, sem direito a contestação
ou dúvida. A autoridade é o regulador ético. A subordinação é sustentada pelos sentimentos de
medo, admiração, carinho, segurança. A submissão é mantida com meios violentos e coativos. A
pessoa se transforma num autômato que se deixa levar pelo conformismo, como afirma Azpitarte.
Nestes esquemas ou mediações heterônomas, percebe-se u’a moralidade voltada para leis,
proibições e autoridades que se impõem, de fora do ser humano, sobre a sua conduta. A escolha não
será pessoal, autônoma, responsável, mas a pessoa desenvolverá uma ética imposta, coagida. Esse
tipo de ética é necessário em determinada fase da vida (a infantil), mas não pode ser prolongada por
toda a vida. É preciso que a autonomia responsável conduza a ética da pessoa amadurecida. A
educação ética deve ser orientada para uma conduta autônoma, amadurecida, não infantilizada, para
que elementos reprimidos não procurem compensações. Azpitarte observa: impor condutas, sem
oferecer sua base racional; insistir unicamente em argumentos de autoridade, sem explicações
convincentes; fomentar o medo e o sentimento de culpa, como estímulos para a obediência poderão
tornar as pessoas dóceis, submissas, mas com o perigo de agirem como crianças, sem saberem dar
explicação adequada de sua conduta.

ÉTICA AUTÔNOMA
A palavra autonomia é formada dos radicais autos, que quer dizer próprio, de si mesmo, e
nomos. Este sistema atribui à consciência moral da pessoa a função de discernir e definir para si as
normas de comportamento. Essa autonomia nunca será absoluta e ilimitada, segundo Konzen. O
discernimento das normas segue critérios objetivos, mas há o reconhecimento da validade intrínseca
dessas normas. A moral humanista é u’a moral autônoma. Após os 13 anos de idade, a pessoa passa
da heteronomia para a autonomia; caracteriza o desenvolvimento da auto-regulação, isto é, as
normas morais procedem do interior da pessoa. Com a autonomia, a pessoa constitui-se o sujeito
moral propriamente dito. É o nível decisivo da consciência moral adulta.
A moral autônoma visa a uma ética do homem para o homem. A busca da autonomia moral,
sem dúvida, é a meta do ser humano. Segundo Vidal, viver com autonomia moral é uma das
exigências do cristão no momento atual. O Manifesto da liberdade cristã (Madrid, 1976), defende
este posicionamento moral cristão, fundamentado na razão livre, na liberdade responsável. Esta será
a norma objetiva e verdadeira do cristão. Considera como violência ilegítima uma autoridade que
não seja a própria liberdade; esta é que legitima um imperativo. A única ética aceita é aquela que
respeita a liberdade moral dos cristãos.
A ética autônoma pretende ser uma resposta adequada às exigências do homem pós-
moderno, que não aceita u’a moral imposta, heterônoma, mas deseja agir pela convicção interior. O
desejo de libertação vê nas normas éticas uma violação da dignidade humana. A lei como norma
absoluta acaba reduzindo a consciência num computador e não abre espaço para a criatividade. O
existencialismo e o secularismo insistem numa ética autônoma; embora o existencialismo pertença a
uma época passada, a sua influência ainda é sentida nos dias de hoje. O ser humano não quer ser
escravo de normas e princípios e procura defender uma ética de situação, relativista. Por outro lado,
há aqueles que preferem se garantir numa norma externa, por medo de enfrentar a responsabilidade
de uma decisão própria, consciente. Na verdade, não podemos radicalizar uma orientação ética, isto
é, não podemos obedecer cegamente às leis impostas, mas também não podemos ficar
completamente sem leis ou normas, pois isto gera um subjetivismo anárquico, no dizer de Azpitarte.
Para exemplificar tal situação, vejamos um caso jurídico. O diretor de um hospital proibiu
que o escritório de advocacia, que o representava no tribunal, revelasse a existência de um nódulo
no cérebro de um paciente, por causa de prejuízo para o hospital. Embora as leis dessem respaldo a
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tal exigência do cliente, um advogado da equipe, incomodado por sua consciência, revelou à família
o problema que, imediatamente, encaminhou o doente para a cirurgia de emergência. Por haver
quebrado o sigilo, o advogado foi julgado. Em sua defesa, ele afirmou que o sistema daquelas leis
precisava de uma revisão profunda; o advogado não estava errado em evitar que uma pessoa
morresse por falta de informação sobre o seu estado de saúde.
Quanto aos valores e normas éticas apresentadas pelo Cristianismo, a nosso ver, não podem
simplesmente ser impostos e seguidos cegamente. Cada item da moral cristã precisa ser avaliado
pela reflexão racional; os valores e normas éticas cristãs precisam ser aceitos e vivenciados por
causa da conscientização. A autonomia para dirigir sua vida vem para o cristão como dádiva do
Criador; o cristão encontra na autonomia uma ajuda e um complemento para a justificação dos
valores éticos cristãos.
Uma ética autônoma começou a ser mais valorizada após a Renascença, destacando a
liberdade do ser humano, sua consciência de dignidade e valor e sua centralidade na criação. Foi
surgindo uma nova cultura, secular e pluralista, com base na autonomia racional e com acentuada
busca dos valores humanos, como: liberdade, inteligência, realização subjetiva. O primeiro conceito
que caiu por terra foi o pecado, instrumento poderoso de opressão cultural. Houve a liberalização
dos comportamentos sexuais, a perda do medo do pecado e a negação do conceito sobrenatural de
pecado, conforme lembra Konzen.
A nova consciência de pecado baseia-se numa visão mais antropológica e mais ética, em
contraposição à visão sobrenatural e dogmática. O pecado começou a ser visto como um
comportamento que prejudica a pessoa e a comunidade. Com isso, desenvolveu-se a sensibilidade
aos problemas sociais da desigualdade, da exclusão e da pobreza, e aos problemas políticos e
ecológicos. A sociedade atravessa um período de crise moral, quando o novo conceito de
moralidade ainda não alcançou pessoas, autoridades e instituições. Há impunidade generalizada; a
criminalidade é alarmante; a corrupção político-administrativa está incontrolável; as autoridades
estão sem credibilidade moral; a honestidade por consciência é considerada ingenuidade ou
incompetência administrativa; os códigos e comissões de ética buscam interesses corporativistas; os
valores éticos da sexualidade estão perdidos; as instituições públicas estão se deteriorando.
Diante da situação atual, há necessidade da formulação de um sistema ético, tendo um valor
central ou supremo. Numa ética autônoma, podemos colocar como valor supremo a realização
humana em todas as dimensões de sua personalidade e para todos os seres humanos, como observa
Konzen.. As dimensões incluem a econômica, a psico-afetiva, a sociocultural e a ético-religosa. A
realização é para todos os seres humanos, sem exclusão. Estes valores éticos são humanistas e não
simplesmente religiosos. Como cristãos, nossa visão ética é alargada pelo conceito de revelação
divina, pois não podemos alcançar a autonomia e a autenticidade em sua plenitude. Se assim
acontecesse, não estaríamos abertos à graça e ao amor de Deus. Por isso, defendemos uma ética
teônoma. Outrossim, enquanto não for alcançado certo nível de autonomia e autenticidade, a ética
não pode ser qualificada de humana nem de cristã.

ÉTICA TEÔNOMA
Como ponto de partida pode-se aceitar a moral cristã autônoma. Entretanto, é imprescindível
pensar em Deus como aquele que fundamenta a autonomia do ser humano e lhe dá sentido. De
modo diferente de outros povos, os judeus e cristãos crêem num Deus pessoal, que se incomoda
com o ser humano e faz com ele uma aliança. Deus conhece o ser humano porque se fez humano;
Ele quer que os humanos defendam as causas uns dos outros, principalmente dos marginalizados.
Os cristãos não podem se submeter simplesmente a uma ética civil, sustentada por pessoas que não
colocam Deus como seu bem supremo.
A ética cristã teônoma expressa a relação normativa de Deus para com o ser humano; esta
relação valoriza a normatividade autônoma e lhe dá fundamento válido. É preciso que haja uma
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abertura ética para Deus e para Jesus Cristo, a fim de que os fundamentos recebam consistência
transcendental. Enquanto caminha nesta vida e procura seguir uma ética fundamentada em Deus, o
cristão reconhece que sua caminhada não termina neste mundo; está além das possibilidades
humanas. Seu destino é sobrenatural.
Uma ética teônoma, relacionada e dependente de Deus, é vivenciada com autonomia, pois a
linguagem comum entre todos que buscam o bem das pessoas e a melhoria da sociedade é a razão,
como afirma Azpitarte. A estrutura teônoma, segundo Vidal, é de caráter racional, baseada na
autonomia, partindo do uso da razão, assim como aparece na moral bíblica. Os valores cristãos
precisam ser avaliados racionalmente; o conhecimento ético não depende da fé. A fé reconhece
Deus como valor supremo e procura descobrir a sua vontade revelada em Sua Palavra. Entretanto, é
a razão que vai aplicar a vontade de Deus a cada situação ética, pois o próprio Deus nos concedeu a
capacidade de pensar, raciocinar, refletir, decidir.
Paulo reconhece que a consciência humana é capaz de conhecer a vontade de Deus, pois
Deus Criador a colocou na mente humana (Rm 1.18-22; 2.14,15). Por isso, não pode haver
contradição entre ciência e revelação, entre razão e fé. Isto se aplica à moralidade cristã, pois o ideal
ético cristão coincide com a perfeição do ideal ético humano. Ao elaborarmos uma ética moral
humanista cristã, estamos satisfazendo os anseios de todos os seres humanos, na pluralidade de suas
culturas, e não somente para os cristãos. Por exemplo, a ética civil propõe a justiça social com base
na dignidade humana e nos direitos humanos; a moral cristã vai além, apontando para o amor como
motivação para a igualdade de todos diante de Deus.
O conteúdo ético, isto é, os valores e normas morais serão buscados na revelação divina na
Bíblia. Esta revelação será apresentada pelo teólogo utilizando sua capacidade racional, o que dará
credibilidade e validade universal a suas conclusões. Se Deus proíbe uma conduta, o cristão deve
aceitar que ela é má, mas tem o direito de perguntar sobre as razões da proibição, para agir de
maneira adulta e responsável. Numa lógica moral humanista, a revelação divina é considerada
autoridade heterônoma que impõe a validade das normas morais. O argumento da vontade de Deus
é significativo para as pessoas de fé, mas não é um argumento válido para os não cristãos. A
validade dos princípios e normas morais, numa ética humanista, não se fundamenta na autoridade
da revelação divina, mas na racionalidade intrínseca desses princípios e normas. Entretanto, os
dados da revelação vão enriquecer e ampliar as descobertas da reflexão racional.
Segundo essa maneira de ver a ética, as normas de comportamento serão as mesmas para os
cristãos e os não cristãos; entretanto, a fé na revelação divina dará uma nova dimensão à
consciência ética e ao valor do comportamento: a dimensão religiosa. O cristão tem a consciência
de cumprir com amor a vontade de Deus. “Essa consciência e motivação constitui uma nova mística
e espiritualidade, uma dinâmica de vida que só o crente possui à luz de sua fé”, segundo Konzen.
Uma ética humanista olha para o ser humano apenas neste mundo; a dimensão religiosa considera o
ser humano neste mundo e o prepara para o mundo por vir, isto é, para a eternidade. O ser humano
não é puramente espiritual ou exclusivamente corporal. Todo ato ético deve considerar a pessoa em
sua totalidade, em sua integridade. A pessoa é responsável por seus atos e seu comportamento,
perante Deus, sua própria consciência e perante os outros.

PARA RESPONDER
Assinale as opções corretas, em vista das afirmativas.
1. A ética heterônoma considera uma autoridade exterior ao ser humano como critério de
moralidade e fonte de normas morais.
( ) A autoridade pode ser Deus ou pode ser pública.
( ) Os interesses da ética heterônoma coincidem com os interesses de todos.
( ) Para a criança, as fontes heterônomas são: a família, a escola e a sociedade.
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( ) Não há formas de heteronomia no Cristianismo.
( ) Em estruturas heterônomas, a principal virtude é a obediência, sem direito a contestação
ou dúvida.
2. A ética autônoma atribui à consciência moral da pessoa a função de discernir e definir para si as
normas de comportamento.
( ) A moral humanista é u’a moral autônoma.
( ) A moral autônoma visa a uma ética do homem para o homem.
( ) Podemos viver uma ética completamente sem leis e sem normas.
( ) Os valores e normas éticas do Cristianismo precisam ser seguidos cegamente.
( ) A ética autônoma começou a ser mais valorizada após a Renascença.
3. A ética cristã teônoma expressa a relação normativa de Deus para com o ser humano.
( ) Os valores cristãos não podem ser avaliados racionalmente; dependem apenas da fé.
( ) É preciso que haja uma abertura ética para Deus e para Jesus Cristo.
( ) Uma ética teônoma é vivenciada com autonomia.
( ) Todo ato ético deve considerar a pessoa em sua totalidade, em sua integridade.
( ) Os dados da revelação não são capazes de enriquecer e ampliar as descobertas da
reflexão racional.

CAPÍTULO 6
ÉTICA CRISTÃ E CONSCIÊNCIA

Quando tratamos de ética esbarramos no problema da liberdade do ser humano. O método e


a tarefa da EC centralizam-se no problema da liberdade e da obediência na conduta ética. O ser
humano não pode ser totalmente coagido a obedecer, sem refletir nas leis ou normas que regem sua
conduta ética. A sua liberdade precisa ser respeitada. Foi Deus quem lhe deu a capacidade de
pensar, refletir, raciocinar; por isso, a EC precisa considerar a consciência da pessoa para suas
decisões e para a avaliação de seu comportamento. Outrossim, reconhece-se que o cristão possui
como norma de vida a Bíblia e como fonte de sabedoria, o temor do Senhor; o cristão é chamado a
viver uma ética teônoma, seguindo a vontade de Deus por sua própria vontade e convicção de que é
o melhor para sua vida.
Não podemos refazer toda a ética fundamental, mas podemos recordar três princípios
fundamentais para a busca ética, pertinente aos nossos dias tanto quanto aos dias passados. Segundo
Catão, com estes fundamentos, a ética pode ser defendida do ponto de vista secular, científico,
50
psicossociológico, filosófico e cristão. Estes princípios são a liberdade, a consciência e a
convivência, que precisam ser compreendidos e respeitados, mesmo porque o âmago do problema
da liberdade e da obediência está na consciência; isto é apresentado pela Teologia Moral.

A TEOLOGIA MORAL
P. Henry Davis assim define Teologia Moral: “Ramo da teologia que formula e explica as
leis da conduta humana com referência ao destino sobrenatural do homem; investiga o bem moral e
o mal moral com relação ao fim último do homem”. A teologia moral é distinta e mais
compreensiva do que a ética. É distinta, pois a ética considera o bem e o mal de qualquer ação,
tendo como base a razão humana sem ajuda da revelação; a teologia moral supõe a revelação divina
como base de sua análise da conduta. A Teologia Moral leva em consideração, quando interpreta
uma conduta ética, a revelação divina, a tradição eclesiástica e uma ordem sobrenatural.
A Teologia Moral, segundo Hortelano, preocupa-se com a formação da consciência, com a
formação de hábitos positivos. O ideal moral seria comportar-se bem em consciência e livremente.
Entretanto, isso não acontece. Por isso, há a necessidade das leis que nos obrigam a praticar o bem.
Da transgressão da lei, vem a noção de pecado, conceito cada vez mais degenerado em nossos dias.
Se há pecado, precisa haver conversão, mudança de comportamento.
Segundo Tomás de Aquino, três elementos envolvem todo ato moral. Todo ato moral é um
ato de liberdade, pois deve haver genuína escolha da pessoa, se a conduta for julgada do ponto de
vista da moralidade. Todo ato moral envolve a vontade. Todo ato moral é acompanhado da
advertência do intelecto; isto quer dizer que devemos ter um conhecimento claro do objeto ou
finalidade do nosso desejo. Estes três elementos, liberdade, vontade e intelecto, nem sempre estão
presentes com a mesma intensidade nos atos morais. Pode até mesmo faltar um ou outro.
Uma ação má é a escolha de um fim mau. A escolha intencional de um fim mau é produzida
quando estão presentes três condições: os resultados da ação podem ser previstos; a ação pode ser
evitada; a ação deve ser evitada. Sob estas condições, a ação é considerada, sem dúvida, má. No
entanto, é possível prever o resultado de uma ação e saber que deve ser evitada, mas não haver
condições de evitá-la. Se a intenção da ação não é provocar efeitos nocivos, ela pode não ser
considerada má. Torpedear um navio cheio de armas, em tempo de guerra, pode parecer um ato
mau, pois matará a tripulação; entretanto, a intenção desse ato é evitar o uso das armas pelo
inimigo; então, a ação pode não ser considerada má, pois quer por fim às hostilidades.
Guilleman critica esta interpretação de Tomás de Aquino. Ele acha confusa e superficial a
pretensão de que, a fim de fazer de nossas virtudes expressões do amor, é necessário e suficiente
corrigir uma determinada ação pela intenção. É confusa e superficial porque deixa o cristão
paralisado pela preocupação do ajuste de suas intenções, de modo que se vê reduzido a um
fenômeno da psicologia da consciência. Assim, para Guilleman, o papel regulador da intenção para
avaliar a conduta deve ser abandonado. Isto, no entanto, não priva a intenção de seu significado
ético. O propósito seria juntar a intenção com a advertência e a liberdade, dentro da influência
penetrante do amor.
Para Guilleman, os manuais de Teologia Moral nunca resolveram adequadamente o
problema de como relacionar o amor tanto aos vícios como às virtudes. Entretanto, quando as
virtudes são consideradas como formas de amor, é possível compreender o mal como privação do
bem. O vício é a ausência do amor. Deste modo, os dois princípios de uma ética de amor, segundo
Tomás de Aquino, são aplicados adequadamente à conduta. São os princípios do amor e do mérito.
O amor é a forma de todas as virtudes; para o homem em estado de graça, todo ato possui mérito ou
é condenável. A doutrina da privação faz possível reconhecer a culpabilidade da ação, não tanto em
termos de graus de culpa, mas em termos de perda do amor. Assim, o amor é verdadeiramente
exaltado como a motivação original e o fim último da conduta.
51
Já para Haerring, a responsabilidade é o eixo da moralidade religiosa e também da teologia
moral. A responsabilidade é definida em termos de uma relação interpessoal entre Deus e o homem.
Deus chama e o homem responde. Por meio da Palavra de Deus, os homens são convidados a
imitarem a Jesus Cristo, para que compreendam como entrar em comunhão com o amor de Deus.
Cada virtude é tratada como um meio para entrar em comunhão com Deus e com seu Filho Jesus
Cristo. As virtudes são o fruto da fé e a demonstração da imitação de Cristo. O pecado e a tentação
são considerados como um abandono da imitação de Cristo. Haerring concorda com a doutrina de
que as virtudes são formas do amor; para ele, as virtudes introduzem a ordem divina em diversos
domínios da vida e se impõem sobre a consciência como meios de realizar o amor.
Em nossos dias, o que acontece é que a tradição ética cristã não tem conseguido convencer
as consciências dos homens. O problema é se existe uma ética autêntica pela qual os homens podem
viver e morrer. Se há, e se o evangelho tem algo a ver com ela, os moralistas cristãos devem ser
capazes de relacionar o ser humano com o que Deus está fazendo no mundo. Este é o propósito de
uma ética de koinonia e sua maneira contextual de entender a conduta divina e a humana.
Uma apreciação crítica da Teologia Moral deve considerar pelo menos três fatores
significativos para a ética cristã. Em primeiro lugar, a Teologia Moral é reflexão ética no contexto
da igreja; os cristãos estão peregrinando em busca da santidade e da maturidade espiritual; a medida
é a estatura de Cristo. Em segundo lugar, a Teologia Moral enfrenta realmente os problemas morais;
a certeza de que determinada conduta é correta ou boa se origina da natureza da razão humana e da
natureza sacramental da igreja. Em terceiro lugar, a Teologia Moral recorre à ciência da casuística
(doutrina que atribui ao acaso a sucessão dos fenômenos); a casuística é uma forma de desculpar a
incapacidade de alcançar um ideal moral; é um meio que faz compreender a separação entre a
demanda ética e o ato ético, em que está envolvida toda conduta ética. Isto quer dizer que a
Teologia Moral se recusa a abandonar o homem num barco que está afundando; mantém o barco
amarrado até passar a tormenta ou até que tenha chegado a um ponto onde possa flutuar com
segurança.

O PROBLEMA DA CONSCIÊNCIA
A condição atual da consciência das pessoas é que já não tem poder para moldar a conduta
mediante o juízo e a ação; perdeu seu poder persuasivo e sua força. A consciência, cada vez mais, é
rejeitada como fator formativo da conduta ética ou importante para ela. A palavra latina “con-
scientia” é uma tradução de “syneidesis”, que possuía dois significados: um técnico-filosófico e um
ético. O técnico se referia a um estado de consciência: “Estou intimamente consciente de que isto é
assim ou desta outra forma”, ou seja, “Eu sei junto com, ou em comum comigo mesmo”. O uso
moral de “synéidesis” denota a qualidade moral dos atos ou da conduta da pessoa, como por
exemplo, “ser testemunha por ou contra si mesmo”, “entesourar um segredo”.
Tomás de Aquino fez uma distinção entre syneidesis e conscientia. Para ele, “há na alma um
hábito natural de primeiros princípios de ação, que são os princípios universais da lei natural. Este
hábito pertence à syneidesis. O nome consciência significa a aplicação do conhecimento a algo... é a
aplicação de qualquer hábito ou qualquer conhecimento a algum ato em particular”. A consciência é
o vínculo entre a lei e a responsabilidade. Para ele, há diferença entre aquilo de que alguém é
consciente e aquilo de que alguém tem consciência. No primeiro caso, agimos de acordo com
princípios e chegamos a conclusões; no segundo caso, examinamos as coisas que foram feitas e as
consideramos boas ou não; reduzimos as conclusões a princípios. Do ponto de vista de Tomás de
Aquino, a consciência não é mais apenas negativa, mas também positiva. Desta forma, ela não é
mais insuportável, mas podemos conviver com ela. O conceito tomista deu origem ao conceito
popular de consciência como um dispositivo que a pessoa utiliza para diferenciar o bem do mal.
Esse conceito popular transcende a tradição ética cristã.
52
Para Kant, a consciência também é uma faculdade do juízo. Tem a ver com a avaliação da
ação, de acordo com princípios morais universais, sendo interna e intrínseca à natureza humana. “A
consciência é a razão prática que, em todo caso de lei, apresenta ao homem o seu dever para
absolvê-lo ou condená-lo”. A consciência une a lei moral à vontade moral. É o vínculo entre o
dever e a obrigação. Para Kant, a consciência funciona como um tribunal.
Freud, por sua vez, não aceita o conceito de Kant para consciência. Para Freud, a
consciência não expressa e facilita a moralização do ser humano, como pretendia Kant. A
exploração freudiana da íntima conexão entre desordens mentais e morais evidenciou o papel fatal
da consciência, na tradição ética ocidental. Há no mais profundo do eu realidades que nunca foram
conscientes; há também outras realidades que foram conscientes, mas que caíram na inconsciência.
Freud procurou enfrentar o fato de que a natureza humana parece incapaz de evitar ou de suportar a
consciência. Ainda que Freud tenha reconhecido que a consciência é o resultado de fatores inatos,
constitucionais, e de fatores ambientais concretos, foi incapaz de chegar a uma explicação de
psicologia profunda quanto à origem e significado da consciência, sem estar carregada de culpa e
inexorabilidade.
Para nós, a consciência faz ver ao sujeito o que é justo e reto, nas circunstâncias concretas
em que se encontra. Como diz Catão, “a consciência não julga, indica”. Sua função não é aprovar
ou condenar, mas apontar para o que é justo e reto, para que a pessoa decida seguir o bem. A
qualidade ética da ação depende da pessoa se deixar guiar pela consciência; isso também se
relaciona à própria formação da consciência. Sem a autoridade última da consciência, a pessoa
agiria levada por um modelo ou uma norma, sem autonomia pessoal e o resultado não seria um
comportamento ético. A consciência autentica uma ética autônoma.
Quando falamos em formação da consciência, levamos em consideração a social-
consciência; ao longo dos séculos foi-se criando uma série de princípios morais, transmitidos de
geração a geração. Entretanto, uma consciência gerada pela massa da população é alienada e
alienante, segundo Hortelano. A consciência comunitária precisa ser formada por pessoas
autênticas, que vivem num clima de liberdade e responsabilidade; daí resulta a verdadeira
consciência moral social. No âmbito da formação da consciência social entra o papel da pedagogia,
que precisa formar a pessoa integral, aberta a todos os valores significativos para sua formação.
Vidal afirma que a consciência moral é o lugar em que se manifestam os valores morais à pessoa
humana e onde se faz a aplicação a situações concretas. A consciência moral não gera a moralidade,
mas exerce a função mediadora entre a realidade e a situação pessoal. Ela define a bondade ou a
maldade da pessoa que age com responsabilidade.
A consciência religiosa é vista como a maneira, mais ou menos implícita, de se manifestar a
voz de Deus. Jacques Maritain assim se referiu à consciência do ser humano: “O conhecimento de
nossa própria consciência moral é ainda, sem dúvida, imperfeito e, provavelmente, continuará a
desenvolver-se e a tornar-se mais requintado à medida que a humanidade existe. Só quando o
Evangelho tiver penetrado as próprias profundezas da substância humana é que a lei natural
aparecerá em sua flor e em sua perfeição”. A reflexão teológico-moral assinalou três grandes
condições para que a consciência moral funcione como norma de moralidade: retidão, verdade e
certeza.
No Antigo Testamento e nos Evangelhos, não aparece o termo consciência, mas há outras
expressões com o mesmo significado. Quando os profetas e os sábios se referem ao coração, na
verdade estão se referindo à capacidade do ser humano de discernir entre o bom e o mau caminho.
A sabedoria e a prudência também são utilizadas como um conhecimento prático aplicado à
realidade, à arte de conduzir bem a vida. É nos escritos paulinos que a palavra aparece com mais
freqüência. Paulo orienta os cristãos a formarem sua consciência da seguinte maneira: examinando-
se a si mesmos (1 Co 11.28; 2 Co 13.5; Gl 6.4), buscando a vontade de Deus (Rm 12.2; Ef 5.10) e
ponderando em cada ocasião o que é que convém (Fl 1.10). Paulo insiste no dinamismo interior da
consciência, pelo qual a pessoa é capaz de orientar sua existência.
53
Paulo utilizou a expressão consciência, na carta aos coríntios, quando disse: “Porque de
nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o
Senhor” (1 Co 4.4). Em defesa de seu apostolado, Paulo se refere a uma diversidade de problemas
de conduta sobre as quais seus críticos diziam que suas consciências estavam tranqüilas. Esta é a
primeira vez, e não a última, em que se registram tendências de ruptura fazendo da consciência o
seu grito de batalha. A concepção de Paulo acerca da consciência pode ser considerado normativa
no pensamento neo-testamentário. Paulo afirma que não é a consciência, mas é o Senhor quem
julga. Esta idéia está mais desenvolvida em Romanos (Rm 13.5). Por isso, uma ética contextual é
importante para a interpretação adequada da verdadeira natureza e função da consciência.
Em Romanos 9.1 e 2.15, há a expressão de testemunha da consciência. No primeiro caso,
aparece o contexto cristão em que houve a transformação da consciência com Cristo e o Espírito
Santo. No segundo caso, refere-se à consciência não em oposição ao castigo, mas como
subordinada a ele. Nestes textos, a consciência é colocada na órbita da interpretação vetero-
testamentária, que a relaciona ao coração, e também é colocada como instrumento da dinâmica e da
ação humanizadora de Deus no mundo, em Jesus Cristo.
Para Paulo, a consciência não é indispensável para uma ética cristã, mas se deve ser utilizada
com propósitos de análise ética, deve ser compreendida teologicamente. A consciência teônoma é
aquela imediatamente sensível à liberdade de Deus para fazer o que requerem seus propósitos e
finalidades humanitárias. A consciência teônoma é dirigida somente pela liberdade de Deus. Em
outra passagem, Paulo fala da obediente liberdade como fundamento do papel e do significado
éticos da consciência (1 Co 10.23-30). O contexto, e não a regra, da consciência proporciona-lhe
direção no exercício de sua liberdade de escolha, quanto ao conhecimento do bem e do mal. Tal
direção é acessível quando a consciência, como árbitro interior da ação humana, transporta-se do eu
para o próximo.
O caráter contextual da ética cristã abre uma nova possibilidade para a realidade ética da
consciência. A palavra conscientia tem a ver com o conhecimento. É uma relação de conhecimento.
Isto quer dizer que a consciência possibilita um vínculo criativo entre o conhecimento do bem e do
mal com a liberdade de decisão mediante esse conhecimento. Neste contexto, o dilema ético do
homem, a brecha entre a demanda ética e o ato ético, o dilema entre a irrelevância ética e o
relativismo ético – todos são variantes do problema da liberdade e da obediência.

LIBERDADE COMO AUTODETERMINAÇÃO


A capacidade de tomar decisões, escolher, optar é chamada de vontade, que busca sempre o
bem. Isto não quer dizer que o bem seja sempre formado de boas ações. Quando um homicida
resolve matar o outro, faz uma opção que lhe parece um bem: sentir-se vingado, receber a
recompensa ou outro motivo. Nas escolhas há sempre um motivo, um valor, um fim, que é um bem
procurado pelo ser humano. A vontade determina a ação. O motivo último da decisão da pessoa será
sempre a própria vontade. Essa indeterminação ativa da capacidade de escolher é chamada de livre
arbítrio, um dos significados de liberdade.
A palavra liberdade possui pelo menos três significados: autodeterminação do sujeito em
face do bem, liberdade de escolha ou livre arbítrio, inclusive para escolher mal, e liberdade de fazer
o que se quer (não-coação), no âmbito físico ou histórico. É preciso fazer uma análise crítica destas
três situações para se reconhecer de que liberdade se está tratando. No âmbito jurídico, é a liberdade
de escolha entre cumprir ou desobedecer à lei que entra em jogo. Neste sentido, a liberdade pessoal
é regulada pelo dever moral de respeitar os direitos dos outros e promover a harmonia na
convivência. Envolve uma responsabilidade jurídica e uma responsabilidade ética. Esta é regulada
pela consciência; aquela, pelas leis. Quando as leis são legitimadas pela consciência ética, há uma
responsabilidade moral, quer dizer, ambas coincidem.
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No âmbito político, a liberdade de se fazer o que se quer, sem coação alguma, é defendida
pelos liberais. Neste sentido, “o pobre é oprimido, não por não ter a liberdade de escolha violada
pela lei, mas por não poder realmente fazer aquilo que sonha, deseja ou de que necessita”, afirma
Catão. Não apenas os regimes políticos autoritários e antidemocráticos tolhem a liberdade da
pessoa. Existem outras forças de opressão que agem dentro dos regimes democráticos, como
observa Konsen: legislações muito minuciosas que não deixam opções à responsabilidade pessoal;
meios de comunicação social com informações enganosas; campanhas eleitorais com promessas
enganosas; ethos cultural permeado pela permissividade e impunidade; corporativismo voltado
para interesses e privilégios particulares. Hoje ainda há aqueles que preferem um sistema ético
legalista a exercer com responsabilidade suas próprias decisões éticas.
No âmbito ético, a liberdade não é uma liberdade sem coação alguma ou de livre escolha; a
liberdade verdadeiramente ética é oriunda da autodeterminação; ela brota do íntimo da pessoa, é
desejada por ela, ainda que “fuja à sua possibilidade tanto de escolha como de realização efetiva”,
segundo Catão. Konzen observa que a pessoa precisa ter liberdades, que são direitos fundamentais
do ser humano, para gozar da verdadeira liberdade interior; sem aquelas, esta é apenas uma
abstração teórica e vazia.
Tudo isso está relacionado à conscientização. A pessoa se realiza como sujeito quando vive
sua existência de forma conscientizada. A conscientização eleva o nível político das pessoas, pois
conduz à auto-reflexão e à auto-decisão. Para que haja liberdade na dimensão sociopolítica, é
imprescindível a conscientização do povo, a fim de que lute por seus direitos e alcance plena
liberdade. Como foi mencionado por Konsen, forças de opressão impedem o exercício da liberdade
pessoal, com responsabilidade. Há manipulação, que é o contrário de conscientização. A
manipulação reduz o ser humano a objeto e não sujeito e possui mais um caráter social; seu
dinamismo pressupõe: a) a desigualdade social institucionalizada; b) as relações sociais
fundamentadas no domínio de minoria sobre a maioria; c) manejo da consciência individual, por
causa dos serviços das instituições educativas e dos meios de comunicação de massa.
Existem determinados corretivos éticos para fazer frente à manipulação. Vidal apresenta os
seguintes: a autonomia moral serve para imunizar a consciência contra os ataques manipuladores; o
contraste de pareceres desenvolve a consciência moral enquanto que o dirigismo moral propicia a
manipulação; a participação de todos é a forma de luta contra a manipulação da minoria; os
sistemas de ortodoxia, tanto humana quanto religiosa, manipulam as massas; uma ética legalista e
opressora permite a manipulação, enquanto que uma ética da inspiração e da libertação favorece a
conscientização. Na religião, não pode haver manipulação, mas sim a conscientização cada vez
maior dos valores éticos e morais.
A liberdade como auto-determinação envolve a responsabilidade. Só o comportamento
responsável pode ser considerado ético, moral. Os atos morais são praticados com vontade
deliberada, com consciência e liberdade. Konzen nos dá um exemplo prático para compreendermos
esta verdade. Ocorrendo um assalto num Banco, o guarda, ao ser inquirido, responde porque deixou
os assaltantes entrarem: Eu não sabia que eram assaltantes. Assim, exime-se da responsabilidade. O
caixa responde porque abriu o cofre: Eles me obrigaram. Também fica isento da responsabilidade,
embora estivesse consciente do que estava fazendo. A um faltou o conhecimento e a outro, a
liberdade.
A responsabilidade envolve a inteligência e a vontade. A capacidade de conhecimento e a
vontade livre para se decidir estão relacionadas, pois a inteligência (conhecimento) sem liberdade
não tem sentido nem valor; assim também a liberdade sem inteligência (conhecimento), segundo
Konzen. A consciência e a vontade livre constituem uma unidade espiritual e estrutural da pessoa.
Ser livre ou ter respeitadas suas liberdades é um direito fundamental da pessoa, pois corresponde à
sua natureza. Entretanto, a liberdade pessoal termina onde começa a liberdade do outro. Assim, a
liberdade é uma prerrogativa da comunidade e deve ser exercitada na convivência, em todos os
níveis de relações interpessoais. Daí a importância do amor ao próximo. Esta vinculação da
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liberdade com o amor é uma prerrogativa cristã, pois a liberdade cristã é a liberdade de sentir-se
amado e de amar.

O AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO


Tanto a consciência como a liberdade perderia seu sentido se permanecesse apenas na
subjetividade. É necessário que haja um relacionamento com o outro para que a consciência seja
formada e para que a liberdade se auto-determine. A convivência com o próximo, permeada pelo
respeito, atenção, serviço e amor, é o critério de avaliação do comportamento ético. Primeiramente
por uma razão antropológica, pois o ser humano não existe sozinho; é sociável; aprende a ser pessoa
no inter-relacionamento pessoal. A outra razão, segundo Catão, é cristológica, pois não podemos
afirmar que amamos a Deus se não amarmos o nosso irmão. A ética não depende de normas,
regulamentos, sanções, mas do mandamento divino por excelência: amar a Deus e ao próximo. Na
verdade, é apenas um mandamento e não dois, pois o amor a Deus é demonstrado no amor ao
próximo. É a consciência que dá conhecimento desta lei.
“Se observais os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardei os
mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor” (Jô 15.10). Os mandamentos que Jesus
deixou não são mandamentos impostos; expressam a vontade de Deus que deve ser compreendida
pela consciência cristã, animada pelo espírito de amor e confiança filial, e iluminada pelo Espírito
Santo, como lembra Konzen. Somos amados pelo Pai e O amamos; esta verdade é vivenciada no
contato com o meu próximo e com meus irmãos da comunidade de fé. A norma moral do amor não
é externa, imposta, mas interna; é uma opção do cristão, que deseja viver como uma nova criatura
em Jesus Cristo.
Infelizmente, no decorrer dos séculos, a igreja não confiou inteiramente na força do amor.
Por isso, impôs u’a moral legalista. Na verdade, conforme Konzen, existe o risco da moral da
líberdade cristã, pois para vivê-la é importante haver grande maturidade, que a maioria dos cristãos
não possui. Neste contexto, a norma ética possui uma função pedagógica: conduz à liberdade cristã,
à perfeita liberdade. Para aqueles que já alcançaram a maturidade pela consciência autônoma, a
norma ética possui a função de termômetro da vida interior. Enfim, a verdadeira liberdade precisa
abrir-se ao amor interpessoal, o amor que se relaciona com o outro, em harmonia, respeito, serviço.
Finalmente, a pessoa não vive apenas em comunidade. Há uma necessidade de relação com
o transcendente, com Deus. Sua dimensão religiosa é natural. Ninguém consegue viver apenas num
relacionamento material, físico, relativo a este mundo. A pessoa também é uma realidade teológica,
criada à imagem e semelhança de Deus, recriada em Jesus Cristo, chamada para conviver na
comunidade de fé, que se realiza espiritualmente quando adora o seu Criador, juntamente com seus
irmãos de fé, consciente de sua dimensão escatológica: destinada à eternidade.

PARA RESPONDER
1. Responda:
1) O que a Teologia Moral leva em consideração quando interpreta uma conduta ética?
2) Quais os três elementos que envolvem todo ato moral, segundo Tomás de Aquino?
3) Para Haerring, qual é o eixo da moralidade religiosa?
2. Coloque C (certo) e E (errado) à frente das frases:
( ) A consciência é, cada vez mais, aceita como fator normativo da conduta ética.
( ) A consciência é o vínculo entre a lei e a responsabilidade.
( ) A consciência é o vínculo entre o dever e a obrigação.
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( ) A função da consciência é aprovar ou condenar.
( ) A consciência gerada pela massa é alienada e aliante, segundo Hortelano.
( ) A retidão, a verdade e a certeza permitem à consciência moral funcionar como norma de
moralidade.
( ) Em toda a Bíblia não aparece a palavra consciência.
3. Encontre sete erros no texto e os substitua pelas palavras certas.
Tudo isso está relacionado à conscientização. A pessoa se realiza como sujeito quando vive
sua existência de forma estereotipada. A conscientização eleva o nível político das pessoas, pois
conduz à auto-reflexão e à auto-decisão. Para que haja opressão na dimensão sociopolítica, é
imprescindível a conscientização do povo, a fim de que lute por seus direitos e alcance plena
liberdade. Como foi mencionado por Konsen, forças de opressão impedem o exercício da liberdade
pessoal, com indiferença. Há manipulação, que é o contrário de conscientização. A manipulação
reduz o ser humano a objeto e não sujeito e possui mais um caráter pessoal; seu dinamismo
pressupõe: a) a igualdade social institucionalizada; b) as relações sociais fundamentadas na
submissão de minoria sobre a maioria; c) manejo da consciência coletiva, por causa dos serviços
das instituições educativas e dos meios de comunicação de massa.
4. Complete as frases:
1) Tanto a consciência como a liberdade perderia seu sentido se permanecesse apenas
na ..........................................
2) Os mandamentos de Jesus expressam a ................ de Deus que deve ser ................. pela
consciência cristã, .................. pelo espírito de amor e ................ pelo Espírito Santo.
3) A pessoa é uma realidade ................., chamada para conviver na .............................., que
se realiza espiritualmente quando .................. o seu Criador, consciente de sua
dimensão ...........................

CAPÍTULO 7
ÉTICA DE KOINONIA

Qualquer relacionamento ético será vivenciado num grupo ou na sociedade, porque o


comportamento depende de nosso contato com o outro, com o próximo. Não podemos dizer que
nossas decisões são nossas apenas, pois sempre estarão afetando, no mínimo, mais uma pessoa. Por
outro lado, a consciência ética do grupo ou da sociedade influencia a nossa consciência. Então,
quando falamos em ética de koinonia falamos de comportamento desenvolvido em comunidade.
Koinonia, em grego, significa comunhão, participação. É a comunidade da igreja, do grupo cristão,
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que procura viver em união, em amor, em fraternidade. Essa comunidade contribui para o
afinamento progressivo da consciência e purifica o agir de tudo que esteja em contradição com
aquilo que Deus deseja para o ser humano.
O ambiente em que a pessoa convive vai determinando o que é certo e o que é errado. Se o
nosso comportamento ético precisa ser guiado pela consciência, em plena liberdade de ação, que
depende de uma escolha pessoal, íntima, não podemos fugir da formação desta mesma consciência.
Ela vai sendo formada no seio do grupo mais íntimo, a família; depois, recebe a influência da
escola, da igreja. Em seguida, há a influência da sociedade, da mídia, dos meios de comunicação.
Por isso é importante despertar na consciência a afetividade pelo que é belo, bom, verdadeiro, justo
e fraterno. Quando a pessoa se envolve numa relação interpessoal de amor, no seio de uma
comunidade, onde existe beleza, bondade, verdade, justiça e fraternidade, certamente estará
formando uma consciência sadia, norteada pela vontade de Deus.

ÉTICA DE KOINONIA E VONTADE DE DEUS


A declaração “Deus perdoa” é um pronunciamento teológico que implica necessariamente
um pronunciamento ético, a saber, que “os homens devem tratar-se uns aos outros como Deus os
trata, isto é, perdoarem-se uns aos outros”. A declaração: “o amor à sabedoria é melhor do que o
amor ao poder” é um pronunciamento ético que não implica necessariamente um pronunciamento
teológico, a saber, que “Deus é onisciente e onipotente”. A declaração: “A conduta que leva ao grau
máximo o bem-estar dos seres sensíveis é uma conduta ética” é um pronunciamento ético que
implica necessariamente outro teológico, a saber: ou o juízo teológico negativo de que “o homem é
a medida de todas as coisas” ou o juízo teológico positivo de que “o homem é filho de Deus”.
Uma ética de koinonia não ignora as enormes dificuldades que existem no esforço de
relacionar construtivamente a fé religiosa com a política. Nem tampouco subestima os excessos e
erros políticos que abundam na história da Igreja cristã. Dificuldades e erros, sem dúvida, não
justificam um muro de separação entre política e piedade. Uma ética de koinonia enfrenta este fato
ético. Em conseqüência, caminha por aquilo que está claro e revisa o seu significado ético mediante
a devida consideração da exceção ética. Evidentemente, sem cruzar o limite entre a ética e a
religião, não se pode evitar a atribuição de razões erradas para decisões certas, ou cair numa
prematura auto-justificação, ou atribuir irresponsavelmente os direitos do futuro às conveniências
do presente. Havendo cruzado o limite, pode-se ver claramente que é possível e necessária uma
revisão total do problema.
Com respeito à teologia e à ética da Reforma, Brandt identificou corretamente a norma
teológica para a avaliação dos juízos éticos: a vontade de Deus é aquilo que Deus aprova. Com esta
norma nos familiarizamos com o caráter de koinonia da ética cristã. Na koinonia nos encontramos
com uma significativa compreensão da vontade de Deus como uma norma ética que combina
efetivamente o que sabemos com o que devemos fazer. Tal compreensão é possível por causa do
caráter político da atividade divina.
Segundo Brandt, uma norma teológica deveria afirmar que “os juízos éticos são justificados
se coincidem com a vontade de Deus”. Tal norma pressupõe uma fonte identificável de informação
acerca da vontade divina. A vontade de Deus da qual se ocupa a reflexão ética cristã é o que Deus
está fazendo no mundo para que o homem alcance sua maturidade. Os pronunciamentos
concernentes à conduta que, implícita ou explicitamente, expressaram esta relação entre a conduta
divina e a humana seriam pronunciamentos éticos válidos.
A ética de koinonia afirma que a verdade e a vida estão em Jesus Cristo; a explicação do que
está envolto nesta afirmativa constitui a substância construtiva da ética cristã como ética de
koinonia. A elaboração do que envolve a substância construtiva de uma ética de koinonia pressupõe
uma análise metodológica. Somente a partir desta análise pode haver uma exposição sistemática do
conteúdo de uma ética cristã, exibindo a orientação distinta que o evangelho proporciona à conduta.
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Somente à luz desta orientação pode ser explicado o significado do perdão e do amor, do amor e da
justiça, do papel da lei na vida cristã, a diferença que faz ser cristão na conduta pessoal e nos
padrões e estruturas sociais.

ÉTICA DE KOINONIA E CONSCIÊNCIA


A dignidade e a importância da consciência moral são medidas com base na dignidade e no
valor da pessoa. Sua função humanizadora reconhece o ser humano como pessoa; a fidelidade à
consciência moral une os cristãos com outras pessoas, para buscar a verdade e resolver numerosos
problemas morais. A consciência moral também favorece o diálogo e a confrontação.
No contexto da ética de koinonia se produz uma transformação da natureza e da função da
consciência, dando-lhe realidade ética e poder para moldar a conduta. “Que farei como crente em
Jesus Cristo e membro de sua igreja?” Neste contexto, a vontade de Deus é a concreta e dinâmica
ação de Deus no mundo para fazer e manter humana a vida humana. Para o cristão, não são as
regras da decisão e sim o ambiente em que a decisão é tomada que dá à conduta seu significado
ético. Em outras palavras, o ambiente da decisão é o contexto da realidade ética da consciência.
Notando-se o significado de uma ética de koinonia para a transformação do ambiente da decisão no
contexto da consciência, pode-se dizer que no contexto da koinonia a consciência adquire
significado e poder éticos.
Sabemos que Deus está fazendo no mundo o que se sabe na koinonia. Neste caso, o homem
está sendo forjado numa humanidade à imagem de Cristo e deve, com o coração livre, decidir por si
mesmo o que é bom e o que é mau, tendo somente Sua imagem como seu guia. A consciência é,
pois, o ato que expressa e expõe a conexão entre o conhecimento do bem e do mal como meio
ambiente da humanização e a obediente resposta a este ambiente. É a consciência que forja o
vínculo entre o que Deus está fazendo no mundo e a livre obediência do ser humano a esta
atividade. No contexto da ética da koinonia, a consciência é unificada e sensibilizada na liberdade
com que Cristo nos libertou.
Na comunidade de Corinto havia surgido uma controvérsia acerca dos alimentos preparados
para serem ofertados aos deuses. Paulo apresenta a realidade ética da consciência numa forma sem
paralelo na literatura ética e que contém a reconstrução distintiva da consciência efetuada pelo
Cristianismo (1 Co 8.1-13). Esta contextualização da consciência, longe de iniciar uma anarquia e
irresponsabilidade ética, resulta em passo decisivo para a integridade ética da consciência. Significa
que os cristãos discerniram o que implica realmente a vida na koinonia e, levando em conta o que
Deus está fazendo no mundo para fazer e manter humana a vida humana, estavam prontos a
estender a destra de companhia para manifestar a conduta ética em sua integridade.
A consciência do próximo nunca pode funcionar como norma de conduta que se aplica da
mesma forma a todas as pessoas, em todas as situações. A consciência do próximo serve sempre, e
unicamente, como norma de conduta aplicável de diferentes formas a diferentes pessoas, em
diferentes situações. Isto não significa que a consciência do próximo seja em si o critério de uma
ação boa ou má. O significado e a função ética da consciência de meu próximo são vistos
concretamente na relação de consciência entre meu próximo e eu. Esta relação de consciência é uma
relação de demanda ética e resposta humana, mediante a qual ação alguma é ética em si mesma,
mas toda ação humana é instrumental para o que Deus em Cristo está fazendo no mundo para fazer
e manter humana a vida humana: “fazei tudo para a glória de Deus”.
Se concordarmos com a ética paulina, não podemos prescindir da consciência como único
fator relevante na ética cristã, mas precisamos compreender seu sentido, significado e relação
natural com a koinonia cristã. Se a consciência é o preço que se deve pagar pelo progresso da
civilização, a koinonia é o preço que se deve pagar pelo progresso da consciência. É na koinonia
que a consciência pode recuperar a estatura ética e o poder formativo que teve em outros tempos.
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Foi Calvino quem proporcionou o resumo mais sucinto e incisivo do que significa a
transformação paulina da consciência. Para ele, a interpretação correta da liberdade cristã depende
da interpretação correta da consciência. A liberdade cristã consta de três partes, cada uma sendo
uma questão de consciência. A primeira parte é que “as consciências dos crentes, quando buscam a
segurança de sua justificação diante de Deus, devem elevar-se acima da lei e esquecer todas as
justiças da lei”. A segunda parte da liberdade cristã é que as consciências dos cristãos “não
observam a lei como se estivessem sob alguma obrigação legal e sim que, estando liberadas do jugo
da lei, rendem obediência voluntária à vontade de Deus”. A terceira parte “nos ensina que não
estamos ligados por obrigação alguma diante de Deus, com respeito a coisas estranhas, que em si
mesmas são indiferentes; podemos, indiferentemente, às vezes utilizá-las e outras vezes omiti-las”.
Em resumo: “Assim como as obras expressam respeito pelos homens, a consciência se refere a
Deus; de modo que uma boa consciência não é outra coisa do que a íntima integridade do coração”.
Todas as coisas são instrumentos para se fazer a vontade de Deus, na medida em que Ele
mesmo guia e molda a consciência mediante a dinâmica e a direção do que está fazendo no mundo
para fazer humana a vida humana. A consciência se refere a Deus; isto significa que, liberada de seu
contexto desumanizante, a consciência se une ao conhecimento do bem e do mal como ambiente de
humanização. Neste contexto, a consciência é boa consciência. Dotadas da sensibilidade
imaginativa de uma boa consciência, as pessoas podem comportar-se umas com as outras, na
confiança de que a brecha entre a demanda ética e o ato ético pode ser superada por aquele “de
quem e por quem são todas as coisas” e “para quem e por meio de quem” existem. É na koinonia
cristã que a consciência adquire realidade ética e poder para moldar a conduta mediante a liberdade
obediente.

ÉTICA DE KOINONIA E COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL


Para que exista comunidade, koinonia, é imprescindível a existência do “nós”, e não apenas
do “eu” ou do “tu”. A realidade do “nós” somente se realiza quando as pessoas se relacionam; é
realidade dinâmica. Ela também se forma com a reciprocidade das pessoas, fazendo surgir a relação
coletiva, ou seja, a comunidade. A comunidade é a categoria fundamental para a apreensão e a
realização dos seres humanos.
As relações interpessoais devem ter como objetivo e como conteúdo o outro em sua
realização humana. A pessoa se descobre e se constitui em sujeito, à medida que se relaciona com
os outros de forma a respeitar e promover o outro como sujeito, como pessoa. A pessoa não é
simplesmente um ser, mas um ser-com, alguém que convive. A vivência em comunidade é essencial
para a realização da pessoa. Tanto a pessoa como a comunidade são sujeitos de valores morais. Há
uma interação recíproca da pessoa com a comunidade. O padrão moral da comunidade é
determinado pela influência das pessoas que a formam, ao mesmo tempo em que as pessoas
recebem influência do grupo como um todo. As conseqüências dessa influência não são iguais para
todos, pois dependem da maturidade e da capacidade de liderança.

Se a influência depende da maturidade e da liderança, o papel da educação é importante


neste contexto. Afirma Catão que: “Educar eticamente é trabalhar para melhorar a qualidade do
inter-relacionamento entre as pessoas, e contribuir para uma convivência entre os humanos
caracterizada pela justiça e pela solidariedade, pela atenção, respeito e serviço uns aos outros [...] é
uma educação da convivência na liberdade, por intermédio da consciência, única norma que o
sujeito deve sempre obedecer e que não lhe tolhe, mas, pelo contrário, garante e fortifica a
liberdade”.
Para desenvolver a comunidade são necessárias atitudes éticas da comunicação interpessoal,
sem as quais é impossível haver koinonia. Estas atitudes são: a veracidade, a fidelidade e outras
atitudes. Em torno da veracidade, segundo Vidal, constitui-se a consciência moral do ser humano
60
ocidental. A tradição judaico-cristã enfatizou o valor da veracidade: “Não darás falso testemunho
contra o teu próximo” (Ex 20.16). A moral tradicional enfatizou as exigências da verdade: buscar a
verdade, praticar a verdade, dizer a verdade etc. Hoje, sem a veracidade não teriam sentido a vida
pessoal nem a relação interpessoal. A veracidade é um dos pilares básicos sobre os quais se assenta
a consciência moral da humanidade.
A fidelidade está intimamente ligada à veracidade. A convivência sadia entre as pessoas se
apóia nesta atitude ética fundamental. O exemplo maior de fidelidade para os cristãos está em Deus,
pois permanece fiel ainda que o ser humano seja infiel; Ele cumpre todas as suas promessas. A
fidelidade se concretiza em diversos âmbitos do comportamento pessoal e interpessoal, pois são
muitas as situações em que a pessoa precisa demonstrar sua fidelidade. Ela é a garantia de nossa
retidão nas relações com o próximo.
Além dessas atitudes, estão muitas outras que integram o diálogo interpessoal, como:
respeito, diálogo, serviço, igualdade, acolhimento sobretudo do marginalizado. Ressaltamos a
grande importância do diálogo; a geração atual conhece muito bem o diálogo de gerações, de
grupos, de culturas, de religiões. Entretanto, o diálogo interpessoal, face a face, está cada vez mais
difícil. As pessoas sentem-se sozinhas em meio à multidão. Cada uma tem suas opiniões e não quer
ouvir as do próximo. As amizades virtuais privam as pessoas das amizades pessoais, de
fundamental importância para a demonstração e a vivência do amor. O acolhimento dos
marginalizados, o exercício da igualdade entre as pessoas, o serviço ao próximo somente serão
realidade no contato diário com os outros. É na comunidade de fé, na koinonia, onde aprendemos a
respeito dessas virtudes e é junto com os irmãos em Cristo que podemos colocar em prática tudo
aquilo que aprendemos acerca da vontade de Deus e de Jesus Cristo.

PARA RESPONDER
Assinale a única opção incorreta em cada questão.
1) Na koinonia compreendemos a vontade de Deus como uma norma ética.
( ) Esta norma combina o que sabemos com o que devemos fazer.
( ) Os juízos éticos coincidem com a vontade de Deus.
( ) A verdade e a vida estão em Jesus Cristo.
( ) Uma ética de koinonia não precisa de uma análise metodológica.
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2) No contexto da ética de koinonia se produz uma transformação da natureza e da função da
consciência.
( ) A função humanizadora da consciência reconhece o ser humano como pessoa.
( ) O ambiente em que a decisão é tomada dá à conduta seu significado ético.
( ) A consciência do próximo pode funcionar como norma de conduta que se aplica da
mesma forma a todas as pessoas.
( ) Se a consciência é o preço que se deve pagar pelo progresso da civilização, a koinonia é
o preço que se deve pagar pelo progresso da consciência.
3) A comunidade é a categoria fundamental para a apreensão e a realização dos seres humanos.
( ) As relações interpessoais não devem ter como objetivo o outro em sua realização
humana.
( ) Tanto a pessoa como a comunidade são sujeitos de valores morais.
( ) As conseqüências da influência das pessoas não são iguais para todos; dependem da
maturidade e da capacidade de liderança.
( ) Dentre as atitudes para desenvolver a comunidade, estão a veracidade e a fidelidade.

CAPÍTULO 8
ÉTICA APLICADA

O ser humano, principalmente na pós-modernidade, enfrenta uma série de problemas éticos,


alguns relacionados à vida e sua sobrevivência, outros relacionados à sexualidade, à economia, à
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ecologia e outras áreas. Cada situação vivenciada pelas pessoas as envolve com questionamentos e
decisões a tomar, que as confronta com suas convicções morais e religiosas. Existe sua consciência
moral, formada através dos anos, que admite ou não certos comportamentos. As pessoas também
desenvolvem hábitos, pela repetição de determinados atos, hábitos que as levam a tomar atitudes
espontâneas e naturais em algumas situações. Por outro lado, há as leis que governam o país e a
sociedade que, se ultrapassadas, levam as pessoas às sanções; as leis existem para obrigar as
pessoas a fazerem o que é correto e evitarem o que é mau, prejudicial a elas e aos outros. As normas
religiosas também foram instituídas para ajudar as pessoas a se conduzirem de modo coerente às
suas crenças. Para os cristãos existe a Bíblia, regra de fé e prática. Dizemos que, quando um cristão
desobedece aos mandamentos contidos na Palavra de Deus, está cometendo pecado.
Reiteramos assim a verdade de que existem princípios norteadores da ética cristã.
Precisamos viver em conformidade com esses princípios. As normas de conduta ética podem variar,
adequando-se à época, à cultura, ao grupo; entretanto, não podem contradizer os princípios. Alguns
desses princípios podem ser recordados: o valor da vida humana, a soberania de Deus, a
importância do amor a Deus e ao próximo, o respeito à liberdade. Em cada situação ética, a pessoa
precisa levar em consideração esses princípios, precisa refletir sobre as normas estabelecidas e,
consciente e responsavelmente, tomar sua decisão.
Este capítulo trata de algumas das muitas situações éticas da atualidade que nos levam a
refletir sobre a conduta mais correta, como cristãos desejosos de fazer a vontade de Deus. São
questionamentos envolvendo o direito à vida, a autenticidade e a fidelidade, o amor e a sexualidade,
a sociedade e a política, a natureza e a ecologia.

DIREITO À VIDA
O direito à vida é inalienável. Tirando-se a vida de um ser humano o estamos privando dos
outros direitos, como liberdade, educação, trabalho, saúde. Em nome da ciência ou por outros
motivos, matam-se milhares de seres em formação intra-uterina; em nome dos direitos universais,
matam-se milhares de pessoas, nas guerras; por causa do descaso das nações ricas, milhares de
pessoas morrem nos países pobres e miseráveis. As guerras, as matanças, os assassinatos acontecem
por causa do desrespeito ao valor da vida humana; pela falta de amor a Deus e ao próximo, cada
qual decide levar vantagem nas diversas situações; tolhendo-se a liberdade do outro, há opressão,
escravidão e exploração. Neste sentido, “uma moral incoerente consigo mesma é imoral, porque a
moral não busca interesses alheios, mas a promoção da dignidade intrínseca da pessoa para todos
sem exceção e em qualquer circunstância. Uma moral interesseira e acomodatícia não é digna do
nome que leva”, afirma Hortelano.
A eutanásia é uma das questões éticas relacionadas à vida. Em seu procedimento, há
agravantes e atenuantes éticos e jurídicos. Praticar a eutanásia para amenizar o sofrimento da pessoa
envolve atenuantes; praticá-la para ficar, o quanto antes, com a fortuna da pessoa, envolve
agravantes. Outra questão ética é o suicídio; o respeito à vida é devido pelos outros e pela própria
pessoa a si mesma. Para a sociologia, o suicídio significa um afrouxamento da estrutura social, um
enfraquecimento dos laços grupais. Sob a ótica do Cristianismo, o suicídio é considerado pecado.
Na maioria das vezes, o suicida não está no controle de suas emoções. Enquanto o Antigo
Testamento deixou o enfático mandamento: “Não matarás”, Jesus ensinou que matar não é apenas
tirar a vida, mas toda agressão, escravidão e marginalização foram condenadas (Mt 5.21,22). Do
ponto de vista da Teologia, o suicídio é um atentado à vida, que é dom de Deus. Entretanto, o
suicida é alvo do amor e da graça de Deus. A preocupação dos cristãos deve ser a de identificar as
pessoas com tendências suicidas e agir com cuidado pastoral e terapêutico em relação a elas. A
igreja deve compreender e apoiar a família que perdeu um ente querido pelo suicídio. Há casos de
suicídio lento, em que a pessoa não dá valor à sua vida, drogando-se ou se alcoolizando. Da mesma
forma, a igreja deve apoiar e tentar restaurar tais pessoas.
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Outra questão é o homicídio; em hipótese alguma deveria ser justificado, embora as leis
atenuem a penalidade quando o homicídio é em auto-defesa. Em alguns países existe a pena de
morte, bastante questionável diante do direito à vida. A pena de morte estava inserida no Antigo
Testamento, mas foi totalmente abolida por Jesus Cristo. Em todas as situações relacionadas à
usurpação do direito à vida, Hortelano propõe uma penalização pedagógica; isto quer dizer que, as
mães que praticam o aborto deveriam trabalhar numa creche; os que promovem a eutanásia, servir
em unidades de cuidados paliativos; os assassinos ocasionais, colaborar em obras de interesse
público, como estradas e reflorestamento. O jurista Orlando Soares afirmou: “A pena de morte é
uma vingança e como tal não deve manter-se nos países cristãos. A pena de morte é uma usurpação
do direito divino. A sociedade não pode tirar aquilo que não concede”. E acrescentou: “A causa
mais comum do crime acha-se na miséria e na ignorância em que vive o povo. Portanto não se há de
buscar remédio da delinqüência na pena de morte, senão na melhoria de vida, na educação e na
instrução da massa”.
Nas últimas décadas, problemas relacionados à identidade humana, à individualidade, à
estrutura biológica de animais, vegetais e do ser humano, têm sido veiculados pela EC, que ainda
não encontrou respostas para os mesmos. A Bioética é uma disciplina com estatuto especial, que
trata de diversos aspectos da vida humana, como: fecundações artificiais, doação de órgãos,
clonagem humana. O transplante de órgãos é um problema ético que envolve a questão do direito à
vida, sempre que houver dúvidas quanto à morte do doador e quanto à vontade do mesmo. Um
grave problema moral é o sacrifício de crianças pobres para delas obter órgãos, como o coração e o
fígado, para crianças ricas. A moral também não admite a clonagem humana para produção de
órgãos de transplante, com ou sem o sacrifício do clone.
O problema ético que mais nos interessa no momento é a clonagem humana. A palavra clone
etimologicamente originou-se do grego Klon, que significa broto de um vegetal e identifica
indivíduos geneticamente idênticos. Em alguns vegetais, a brotação (forma de reprodução
assexuada) normalmente se caracteriza pela formação de brotos periféricos que se desenvolvem,
originando estruturas da mesma constituição que a planta que lhes deu origem. As pesquisas de
laboratório para clonagem são realizadas de duas formas: 1) substituindo o núcleo de um óvulo por
outro núcleo proveniente de uma célula somática de um indivíduo preexistente; a célula se
multiplica, forma-se um pré-embrião que será colocado num útero materno para se desenvolver; 2)
pela separação provocada das células de um embrião em seu estágio inicial de multiplicação,
resultando em indivíduos com o mesmo patrimônio hereditário, como é o caso dos gêmeos
idênticos.
Com Dolly, a técnica da clonagem, já utilizada há decênios no mundo vegetal e animal, foi
aperfeiçoada. A Bioética não se opõe, a priori, às clonagens de plantas e animais que venham a
servir ao homem sem perturbar o equilíbrio da natureza. Segundo Hubert Lepargneur, a clonagem
humana vem após uma série de fatos que podem desestruturar os alicerces da identidade e filiação
humanas, como: a dissociação entre prazer sexual e reprodução (pílula), entre procriação e
casamento (união livre), entre sexo e fecundação (certas fecundações artificiais), entre concepção e
parto (aborto) e entre reprodução e fecundação (clonagem).
Uma das razões alegadas pelos cientistas para a clonagem humana é que, sendo constatadas
anomalias genéticas, os defeituosos seriam eliminados (eugenia). Outra razão: o clone aumenta a
chance de transplantes. Ainda: se a clonagem humana abre perspectivas promissoras para o futuro
da espécie (como, por exemplo, eliminar doenças hereditárias, que outros meios não permitiriam),
isso ainda não está provado. O desejo de imortalidade do ser humano defende a clonagem:
morrendo o original, a cópia sobreviveria.
Dentre os a argumentos contrários à clonagem humana, podemos assinalar:
A dignidade do ser humano – Diante de tantas crianças abandonadas, não há razão para se
clonar pessoas, sem pai nem mãe, acolhidas num lar que, de fato, não lhes pertence. Por que não
acolher os que já estão sem lar? Diante dos Direitos Humanos, não é ético criar um ser humano
64
carente de pais. Outro prejuízo é a eliminação da diversificação genética, que ajuda a distinguir
cada pessoa e favorece uma evolução positiva da pessoa. A clonagem pode aumentar a
vulnerabilidade às malformações cromossômicas. Clonar com o objetivo de repor órgãos
danificados de outra pessoa afeta a integridade da personalidade do clone. Além disso, para
favorecer um ser humano, muitos embriões são sacrificados. Isto vai de encontro à lei contra o
aborto. O problema da clonagem passa por questões morais que devem ser medidas em suas
conseqüências na vida de cada ser vivente envolvido neste processo.
Narcisismo – Deseja-se uma ilusória sobrevivência do eu; exalta-se a autonomia individual.
Sentimento de posse sobre a pessoa do outro – Pais que perderam um filho prematuramente
se acham no direito de substituí-lo por seu clone.
Eugenia – Na clonagem escolhem-se os mais aptos, com melhores condições e
características; há a tendência de se modificar o DNA para melhorar o capital genético dos eleitos.
“A exigência da dignidade humana implica preservar o lado aleatório na procriação e a
imprevisibilidade do ser futuro, que não pode ser querido senão por aquele que será e não por
aquele que desejaríamos que fosse” (Baudoin e Labrusse-Riou).
Autonomia do sexo feminino – Na clonagem, a mulher é usada para conceber um filho
fabricado; abandona parte de sua autonomia sobre a procriação.
Espiritualidade – Um dos problemas éticos que ressaltam, no caso da clonagem humana, é a
parte espiritual do ser clonado. O corpo pode ser o mesmo, mas a alma, as experiências vividas, o
temperamento, o caráter – nunca poderão ser os mesmos. Nem mesmo gêmeos univitelinos, isto é,
idênticos, oriundos da mesma placenta, são iguais física e espiritualmente.
Deus, o Criador, não impôs limites à inteligência humana e ordenou que os seres humanos
se multiplicassem sobre a face da Terra e a dominassem. A ciência tem progredido como nunca
nestes últimos 50 anos. A clonagem é uma técnica muito perigosa; as pesquisas e experimentos vão
continuar nesta área. Entretanto, ética, moral e religiosamente, nem tudo deve ser feito. O ser
humano deve, antes de tudo, olhar para o benefício da humanidade; o clone será um humano (ou
não?) – até onde sua personalidade foi respeitada?
M. D. Philippe assim se expressou: “A aliança fundamental do homem com Deus é a
procriação. É a aliança mais radical e mais profunda; é contra ela que o ataque demoníaco é, hoje,
mais forte e pernicioso... A começar pela fecundação biológica, o ataque visa destruir a família,
garantia da fecundidade”. Para Lepargneur, a manipulação genética tende a fechar o espaço da
futura liberdade. Os erros nesta área são capazes de prejudicar profundamente nossa descendência.
A liberdade é a outra face da responsabilidade. Se hoje os cientistas são livres para suas pesquisas,
poderão tolher a liberdade de ser dos seres humanos futuros.
Muito bem salientou a bióloga A. Balbino de Amorim, quando colocou a necessidade de
salvarmos o ser humano da corrupção, do desamor, da fome, do desemprego, do analfabetismo, da
doença e da miséria, antes de cloná-lo. Após essa despoluição do ser humano, quando ele poderá
readquirir a perfeição da criação, será válido cloná-lo.

AUTENTICIDADE E FIDELIDADE
O amor à verdade faz com que a pessoa tire todas as máscaras, custe-lhe isto a própria vida.
Ser autêntico tem um preço a pagar. Toda ausência de autenticidade é mentira. A questão da
mentira acaba sendo cultural, pois permeia quase todas as transações em diversos setores da
sociedade: toda corrupção é mentira; toda lavagem de dinheiro é mentira; toda propaganda
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comercial ou política desleal é mentira; toda falsificação de documentos é mentira; a falsificação de
objetos e produtos é mentira e infidelidade à qualidade prometida; todo segredo profissional
revelado é deslealdade, infidelidade; violar a intimidade pessoal é infidelidade e desrespeito à
pessoa; chantagear pessoas é atitude infiel e desleal.
Em nossa sociedade, são muitas as atitudes que têm faltado com a autenticidade e com a
fidelidade. Se houvesse menos corrupção, haveria mais empreendimentos em favor dos pobres e
necessitados. Se houvesse mais fidelidade ao princípio do valor do ser humano, haveria menos fome
e desemprego; conseqüentemente, haveria menos violência e mais justiça social. Várias classes
profissionais estão desacreditadas por causa de sua conduta corrompida; a sociedade brasileira já
não acredita mais nos políticos, nos policiais, nem mesmo nos religiosos. A ganância pelo dinheiro
tem desviado as pessoas de seus ideais; a ética e a moralidade não têm conduzido ou permeado as
decisões e as ações de pessoas em posição de autoridade e influência.
Como cristãos, temos o dever de nos mantermos fiéis a Deus, primeiramente; fiéis ao nosso
grupo, à nossa comunidade, à nossa família. Para testemunharmos positivamente do poder do
evangelho em nossas vidas, não podemos nos envolver em corrupção de espécie alguma, em
fraudes, em mentiras. A veracidade e a fidelidade são atitudes fundamentais em nossa vivência.
Qualquer prática que as coloca em dúvida é repelida. No início do Cristianismo, Ananias e Safira
foram castigados com a morte por sua mentira, para deixar o exemplo à comunidade que se
formava. Barnabé foi enaltecido como exemplo positivo de abnegação, amor ao próximo,
fidelidade. É melhor deixar um emprego ou levar prejuízo numa transação, do que ser acusado de
corrupto e desleal.

AMOR E SEXUALIDADE
Relacionadas a esse tema estão as questões dos desvios da sexualidade, do uso dos
anticoncepcionais, dos relacionamentos extraconjugais, da liberdade sexual absoluta. Segundo
Hortelano, o radicalismo dos ultraconservadores assim como o dos ultraprogressistas precisa ser
evitado; há de se oferecer uma orientação moral sexual equilibrada às novas gerações.
É fato que o amadurecimento sexual do indivíduo e a possibilidade de sua realização
responsável através do casamento causam um desajuste biológico na pessoa, no sentido de que
haverá pelo menos dez anos de espaço entre um e outra. Quando a pessoa não deixa de se relacionar
sexualmente neste período, os relacionamentos lhe causarão, no mínimo, preocupação com a
gravidez, com as doenças sexualmente transmissíveis, com a dificuldade de escolher o(a)
companheiro(a). O problema da incontinência não preocupa apenas os jovens; também alcança os
viúvos, os separados e os impedidos por motivos de saúde ou de distância geográfica.
A liberdade sexual extrema e o conceito de que nada deve controlar a sexualidade humana
abriram espaço à infidelidade conjugal. Nossas leis admitem apenas a monogamia, assim como noss
cultura cristã. Na verdade, segundo Hortelano, através da história várias forças influenciaram a
monogamia e a estabilidade de uma única família, como: a propriedade privada que passa de pai
para filho e é preciso ter certeza de quem é o filho; a necessidade de uma educação dos filhos, com
a presença do pai e da mãe; o amor entre duas pessoas pede fidelidade e estabilidade; o
funcionamento da sociedade é melhor quando há famílias estáveis; a religião judaica e cristã pedem
fidelidade a todo custo. As rupturas são dolorosas; no mínimo, indicam uma falha na escolha do(a)
parceiro(a) ou no cultivo do amor.
A sociedade tem propagado o prazer pelo prazer (hedonismo); os puritanos, por outro lado,
têm defendido um amor sem prazer e uma sexualidade apenas para gerar filhos. Uma atitude
equilibrada sugere o amor com prazer e a responsabilidade em relação à geração de filhos. De fato,
a humanidade não pode ficar sem a sexualidade, para que haja reprodução da espécie. Entretanto, o
jovem, o adulto e o idoso podem ficar sem a prática do sexo; isso não vai afetar sua estrutura
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biológica. O que pode acontecer é que a abstenção poderá trazer-lhe conseqüências psicológicas, se
houver frustração quanto à sexualidade não realizada, como observa Hortelano.
Práticas como a masturbação, a homossexualidade, a prostituição, o amor livre, as relações
pré-matrimoniais são problemas éticos relacionados à sexualidade que precisam ser avaliados à luz
de suas conseqüências e marcas que deixam nas pessoas envolvidas. Há casos patológicos que
precisam ser tratados pelos psicólogos ou psiquiatras. Por outro lado, não podemos tratar os casos
éticos com desdém, isto é, considerar que cada um é livre para fazer o que quer com seu corpo, uma
vez que cada ato envolve outras pessoas. No início do Cristianismo, durante o primeiro concílio (At
15.20), ficou decidido que as igrejas seriam exortadas a se absterem de relações sexuais ilícitas,
dentre outras coisas. Foi eleita uma comissão de quatro homens (Paulo, Barnabé, Barsabás e Silas),
que transmitiram o documento às igrejas de Antioquia, Síria e Cilícia (At 15.22-29).
Ainda em nossos dias, ao se tornar crente em Jesus Cristo, a pessoa seguirá os preceitos da
Palavra de Deus, no que concerne ao seu comportamento. Elben M. Lenz César comenta que o
compromisso cristão obriga tanto o heterossexual como o homossexual a negar-se a si mesmo
quando os desejos em direção contrária se manifestam. Um comportamento digno de um cristão só
poderá ser conseguido pela graça de Deus e pelo poder do Espírito Santo em nossas vidas.
Escrevendo aos coríntios, Paulo esclarece que idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas,
ladrões, avarentos, bêbados, impuros não herdarão o reino de Deus (1 Co 6.9,10). A Timóteo, ele
escreve que a lei foi feita para todo aquele que se opõe à sã doutrina, ou seja: parricidas, matricidas,
homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros (1 Tm 1.9,10). A lei foi
feita para dar consciência do pecado; onde o pecado foi grande, a graça foi bem maior (Rm 5.20);
em Romanos 1.24-27, são enumerados as relações sexuais contrárias à natureza do ser humano. As
práticas sexuais anormais são condutas desviantes, moralmente falando; são patologias,
clinicamente falando; e são pecados, espiritualmente falando. Apesar do pecado, Deus ama o
pecador e nós também devemos amá-lo. A graça de Deus se estende a todos e a nossa graça também
deve se estender. Acima da ética, está o amor; permeando a ética, está o amor.
Para a construção de uma nova ética sexual, precisamos pensar em alguns princípios que
podem transformar-se em critérios de avaliação das atitudes aconselháveis ou desaconselháveis. Um
dos princípios, sem dúvida, é o amor. O amor ao próximo como a si mesmo evitará uma série de
atitudes que fazem do outro apenas um objeto e não um ser. A valorização de si mesmo como ser
criado à imagem de Deus impedirá a utilização de seu próprio corpo como instrumento apenas
físico. O amor é contrário ao egoísmo e a prática sexual deve ser essencialmente voltada ao outro.
Um outro princípio para a construção de uma nova ética sexual é a paternidade responsável.
Ninguém pode coagir o casal a evitar filhos, pois a escolha será tão somente dele. Os métodos
contraceptivos podem ser químicos, físicos e cirúrgicos; não há distinção entre eles, a nível moral.
Por outro lado, a ciência e a técnica, sem dúvida, poderão estar a serviço do casal para alcançar o
fim desejado, isto é, gerar filhos, quando a natureza não ajudar. A geração de filhos, outrossim,
deve levar em conta a situação do país, a estabilidade econômica do casal, sua saúde, seu equilíbrio
emocional e sua maturidade psicológica. Por isso, deixar de gerar filhos ou buscar uma gestação
com o auxílio da ciência são decisões que envolvem a responsabilidade e a possibilidade do casal.
Ainda no contexto do amor e da sexualidade, encontramos o problema do divórcio e novo
casamento. No seio da Igreja Católica ainda há objeções aos divorciados. Em algumas igrejas
evangélicas também não se admitem divorciados ocupando determinados cargos eclesiásticos. Para
Hortelano, duas medidas preventivas seriam fundamentais para diminuir a incidência dos divórcios:
preparação integral dos noivos antes do casamento e legislação mais adequada, exigindo uma
separação jurídica por dois anos, se os dois concordarem, ou por quatro, se um deles não quiser,
para que à distância e com calma reflitam e avaliem o seu desejo de separação definitiva. Se os
divorciados constituírem nova família e forem crentes, a igreja não pode impedi-los de plena
comunhão e integração.
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SOCIEDADE E POLÍTICA
A modernidade substituiu a ética essencialista da Idade Média por u’a moral individualista,
privada, autônoma. Assim, cada esfera da vida pública (economia, política, direito, arte etc.) passou
a criar regras autônomas de funcionamento. Com o avanço tecnológico da pós-modernidade, muitos
problemas de educação, saúde e alimentação que assolam muitos países já teriam sido resolvidos, se
não houvesse essa segmentação das esferas da vida social. Isso acontece porque a ética ficou
reduzida à esfera privada e dissociada das esferas públicas, como observam Sung e Silva.
Considerar aquilo que é certo dentre de uma esfera sem se importar com os outros setores da
sociedade, prejudica o desenvolvimento e acarreta desigualdades gritantes. Precisamos de uma ética
de responsabilidade solidária e não apenas individual.
Vivemos numa aldeia global, mas ainda não há uma conscientização a respeito da força da
união entre os países, formando-se blocos de nações afins independentes, como está acontecendo na
União Européia. A união destes países facilitaria a resolução de diversos problemas sociais que
afligem a maior parte da humanidade. Dentre estes problemas destacamos a fome, a sede, a saúde, o
analfabetismo, a marginalização social, os contrastes sociais, a migração ilegal, o desemprego, a
desvalorização moral, o vazio existencial.
Observamos um desequilíbrio em relação à distribuição de alimentos e água: enquanto
alguns desperdiçam, outros passam necessidade; isto acontece dentro do próprio país e em relação a
outros países. A fome traz conseqüências para as pessoas: menor rendimento no trabalho e na
escola, menor crescimento físico, perda da auto-estima e da esperança. Conforme dados fornecidos
por Hortelano, 54% da água mundial é utilizada na agricultura; 41%, na indústria e mineralogia, e
os 6% restantes nas necessidades domésticas. Quem mais sofre com doenças provenientes da falta
de água tratada é a população do terceiro mundo, contraindo tifo, hepatite, disenteria. A falta de
saneamento básico, de higiene e de serviços médicos contribui, em diversas nações, para a ausência
de saúde e morte precoce da população empobrecida.
As crianças, os idosos, os doentes, os incultos, os negros, os deficientes físicos – todos –
ainda têm sido relegados ao segundo plano na sociedade; têm sido marginalizados. Agrava-se o
problema com o analfabetismo ainda existente em grande parte da população; sem saber ler e
escrever ou sem saber ler e escrever direito, as pessoas são manipuladas em diversos aspectos; não
podem ser conscientizados acerca de seu valor e de sua participação como cidadãos responsáveis. A
marginalização gera imensos contrastes sociais. No Brasil, 60% da população dispõe de 15,9% do
ingresso, isto é, aproveita dos benefícios concedidos à população, como: moradia, educação,
atendimento médico. Enquanto isso, 10% da população usufrui 51% do ingresso. Por causa dos
contrastes sociais, acontece a migração e a imigração ilegal, isto é, pessoas de outras regiões
migram para os estados com maior desenvolvimento econômico e pessoas de países mais pobres
imigram para países mais ricos. O desemprego é outro grave problema social. Por causa da
explosão demográfica, da automatização e do ingresso de grande número de mulheres no marcado
de trabalho, o vínculo empregatício está ficando cada vez mais difícil.
Destacamos ainda como problema social o racismo. Desde a abolição da escravatura, no
Brasil, vem se acreditando numa democracia racial, em que todos possuem os mesmos direitos.
Entretanto, apesar do Brasil ter uma das maiores populações negras do mundo (70 milhões de
negros), as oportunidades aos negros são restritas: o mercado de trabalho e as universidades
comprovam a minoria negra em seu ingresso. Numa sociedade capitalista, com desigualdades
sociais marcantes, o negro fica restringido em sua mobilidade social e em sua ascensão profissional.
Em relação a este problema, a igreja precisa ter e ser voz profética; precisa manifestar seu repúdio à
situação. Algumas igrejas têm discutido o problema e têm organizado movimentos para a busca da
justiça social. Além disso, lentamente, os ritmos afro-brasileiros estão penetrando na liturgia das
igrejas. Falta ainda a educação positiva do povo evangélico em relação ao valor e à contribuição dos
negros para o progresso do Brasil e o avivamento da igreja.
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O relativismo ético tende a tirar a responsabilidade do grupo todo na resolução de problemas
graves que afligem a sociedade. A tônica de que “cada caso é um caso” não estabelece uma rigidez
moral, da qual participem todos em comum acordo. Luta-se pelos direitos humanos, mas sua
aplicação nem sempre é realizada. Todas as nações tiveram que assinar a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, para pertencer à ONU; surgiram muitas ONGs para ajudar os países
empobrecidos. Entretanto, as nações ainda não se uniram, de fato, para resolver os problemas acima
mencionados, porque, num regime capitalista, o que vale é a produção e não o fator humano. O ser
humano acabou sendo transformado num objeto manipulado pelos poderosos, para aumentar cada
vez mais seu patrimônio. O consumismo, a ênfase no ter e não no ser, acabou desvalorizando as
pessoas.
Lado a lado dessa situação social, estão as instituições religiosas. Precisamos de
comunidades mais fraternas e humanas, com maior flexibilidade e criatividade, para incentivar o
compromisso, a organização e o serviço em favor da humanidade, como lembra Hortelano. Uma
conscientização cristã das nações denominadas cristãs as levaria a ações efetivas contra a fome, a
sede, o analfabetismo, a educação precária, o desemprego, a violência. Em vez de serviço militar
obrigatório, deveria haver serviço social obrigatório em favor dos marginalizados e da natureza,
com o reflorestamento, por exemplo. Para Hortelano, uma nova economia política e social deveria
incluir os seguintes elementos: liberdade, justiça social, criatividade e qualidade.
Praticando uma ética responsável solidária, haveria a organização de movimento em defesa
das vítimas do sistema capitalista, haveria pequenos espaços de convivência solidária, que podem
implodir a lógica do sistema como um todo. Mais uma vez é o amor ao próximo que fará a
diferença em nossas famílias, vizinhança, igreja, bairro, cidade e país.

NATUREZA E ECOLOGIA
Deus colocou o ser humano nesta Terra e o incumbiu de dominá-la e dela cuidar. O texto
bíblico afirma que Deus colocou o homem e a mulher na Terra para a lavrar e guardar. Estas são as
duas responsabilidades ecológicas do ser humano; lavrar refere-se a tirar da terra o sustento, ao
desenvolvimento econômico; guardar refere-se à preservação do meio ambiente. Mais do que em
qualquer época, nos últimos 100 anos, os humanos têm abraçado esta responsabilidade com afinco.
A ecologia como ciência remonta à segunda metade do século XX e define-se como: “a ciência que
estuda a estrutura e o desenvolvimento das sociedades humanas em seu processo de adaptação e
ocupação do meio ambiente, preocupando-se, principalmente, com as conseqüências desse
processo”.
Com a atuação dos biólogos e outros cientistas que se preocupam com a natureza, muitas
catástrofes têm sido previstas e por isso evitam males maiores; muitas espécies têm sido
preservadas; muitas plantas medicinais têm sido descobertas; grandes campanhas têm sido
realizadas para a conservação do solo, do ar e da água de nosso planeta. Com os avanços científicos,
em breve teremos a energia solar e o uso do átomo limpo, que não prejudica a natureza. Ainda há
muito para fazer e muito a conscientizar a respeito de cuidados com objetos que levam anos para
serem absorvidos pela terra, com os gases que poluem a atmosfera, destruindo a camada de ozônio,
com a caça e a pesca ilegais, com o reflorestamento, etc.
Hortelano defende uma ecologia não politizada, pois é uma ciência a serviço de todos, como
todas as outras ciências. No momento em que os políticos tomam decisões relacionadas à ecologia,
esta servirá apenas a interesses de alguns. O patrimônio da natureza pertence à humanidade e certas
questões ecológicas precisam de um tratamento ético; o interesse é de todos e não apenas de alguns.
A preocupação refere-se à contaminação dos rios e oceanos, à destruição das selvas tropicais, a
biodiversidade. O meio ambiente precisa ser cuidado, a agricultura não pode prejudicar os
alimentos, nem as zonas industriais prejudicarem a agricultura (chuva ácida). As pessoas precisam
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se cuidar melhor, evitando alimentos enlatados, fazendo exercícios físicos, evitando a poluição do
ar e do som (para não prejudicar sua audição), usufruindo momentos de descanso e de lazer.
A EC possui o princípio básico de que Deus é o criador da natureza; Ele é o dono; é
soberano. Nós somos mordomos de tudo que Deus entregou em nossas mãos. Como cristãos, não
podemos nos omitir, mas precisamos participar de campanhas em prol da natureza, deixando claro
que é a Deus que devemos prestar contas. Não cuidamos da natureza porque adoramos a terra como
a uma deusa. Nossa responsabilidade é diante de Deus, nosso Pai e Sustentador de todas as coisas.
Chris Calwell afirmou: “Não existem problemas de agressão ao meio ambiente que não possam ser
bem encaminhados e solucionados, desde que todos individualmente comecem a participar”. A
participação ecológica precisa ser individual e, a partir disso, surgirão campanhas que envolverão
mais pessoas. A seleção do lixo é uma atividade individual e que pode surtir efeito. Colocar o lixo
no lugar certo é um hábito que faz a diferença. Plantar árvores ou jardins, não utilizar material
poluente, são pequenas ações individuais ou familiares que ajudam no cuidado do meio ambiente.

A Ética Cristã pede que todos os setores de nossas vidas sejam permeados pela
espiritualidade: o trabalho, as lutas sociais, o lazer, o cuidado da natureza, a administração dos bens,
a vida matrimonial, o sofrimento. Konzen observa que o trabalho segundo o projeto de Deus possui
um duplo sentido: transformar a natureza bruta e prestar serviço ao próximo; estes devem ser os
objetivos de nossa luta pela sobrevivência, dia a dia. As lutas sociais precisam ser inspiradas na
justiça social, em menos desigualdade e em mais fraternidade. Quanto ao lazer, Deus também é um
Deus de alegria e deseja que seus filhos gozem do descanso, da alegria e da festa nos momentos
oportunos. Em relação à natureza somos mordomos de Deus. Os bens materiais e o dinheiro
possuem uma finalidade: prover às necessidades da vida humana, proporcionar vida digna, bem
estar e segurança. Os bens devem ser utilizados sem discriminação, com honestidade e justiça; não
deve existir luxo, ostentação, vaidade ou esbanjamento.
Quanto à vida matrimonial, o amor deve permitir ao casal ser a imagem e o modelo do amor
oblativo e fiel de Cristo para com sua igreja. Em relação ao sofrimento, o do próximo deve nos
sensibilizar e mover a uma prática que amenize o seu sofrimento. O sofrimento imerecido não deve
abalar nossa fé, mas deve nos incentivar a perseverar e crescer espiritualmente. O sofrimento nos
coloca em íntima comunhão com Jesus Cristo, no momento de sua paixão e morte por nós.
Finalizando, Konzen nos incentiva a perguntarmos, em cada tarefa cotidiana: Em que sentido essa
atividade expressa amor a Deus e/ou ao próximo? De que maneira essa atividade corresponde ao
projeto de Deus, contribui para a realização do Reino de Deus?
A verdadeira EC aplicada a diversas situações vivenciadas no dia-a-dia está vinculada ao
amor. O amor pede renúncia em favor do próximo. O amor não faz mal ao próximo. O amor revela
Deus ao próximo. Urge que nós cristãos façamos do amor nossa prática de vida. Apesar das
dificuldades existentes neste mundo, apesar da derrubada de inúmeros valores éticos na sociedade
em que vivemos, os cristãos precisam viver de um modo diferente para mostrar que é possível viver
num estilo de vida inspirado nos valores humanos e evangélicos. Somente assim haverá esperança
de dias melhores neste mundo. Somente assim haverá a certeza de vida abundante na eternidade.

PARA RESPONDER
1. Cite três situações que desrespeitam o direito à vida.
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2. Dê três razões em favor ou contra a clonagem humana (resposta livre).
3. Escreva por extenso um versículo bíblico que fala contra a mentira (resposta livre).
4. Escolha uma das razões históricas abaixo, que favorecem a monogamia, e a justifique (resposta
livre):
a) A propriedade privada que passa de pai para filho.
b) A educação dos filhos.
c) O amor entre duas pessoas.
d) O funcionamento da sociedade.
e) A formação judaico-cristã.
5. Cite dois princípios que ajudam na construção de uma nova ética sexual, segundo o a texto.
6. Cite cinco problemas sociais e políticos que o Brasil continua enfrentando. Comente um deles
(resposta livre).
7. Para nós, Deus é o criador da natureza; nós somos os mordomos. O que podemos fazer, como
indivíduos e famílias, para preservar a natureza? (resposta livre).

CONCLUSÃO
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Vivemos numa sociedade que deseja a liberdade a qualquer custo. Mesmo assim, as pessoas
se deixam escravizar pela cultura, pelos costumes, pelo trabalho, pela escola, pela ciência, pelas
amizades, pelos vícios, pelas drogas, pelo dinheiro. Azevedo, num de seus sermões, com base em 1
Coríntios 7.17-23, afirma que não podemos permitir que a cultura nos escravize e nos afaste de
Deus. Além disso, nosso compromisso ético é com Deus, é viver segundo os seus mandamentos,
mesmo que a sociedade não os reconheça. “Os mandamentos são a nossa régua para medir as
produções de cultura, no campo moral, artístico, científico e tecnológico”. Por outro lado, há
valores em nossa cultura que podemos aproveitar e seguir, como por exemplo os ritmos musicais.
No mundo também existem certas regras que não podemos mudar; precisamos nos adaptar a elas,
mesmo que a contragosto. O que não podemos fazer é sacralizar nossas experiências culturais,
mesmo que sejam agradáveis e boas.
Vivemos hoje numa sociedade que cada vez mais carece de valores éticos; além de ser uma
sociedade imoral é também amoral. É imoral por transgredir os princípios morais que ela mesma
estabeleceu; é amoral porque constrói sua vida sem princípios morais. Ambos são perigosos e
contrariam a Ética, como afirma Luiz Longuini Neto. Os cristãos podem contribuir muito com o
debate atual em torno da Ética, desde que se fundamentem em seus princípios éticos e morais,
vivenciados por Jesus Cristo e retratados nas Escrituras.
Numa escala de valores temos os valores biológicos, os intelectuais e culturais e os mais
elevados, que são os éticos. O reconhecimento desses valores é subjetivo e não se aplica a todas as
áreas da vida; entretanto, são os valores éticos que tornam a pessoa autenticamente humana. Os
valores morais vão sendo formados no interior das pessoas; para que sejam expressos, são
necessárias as normas. Dentro do Cristianismo, temos normas de conduta ética; entretanto, elas não
podem simplesmente serem aceitas e seguidas; precisam ser analisadas. Outras ciências auxiliam
nesta análise, ou seja: a Psicologia, a Sociologia, a Filosofia. Por outro lado, a Ética também presta
sua colaboração para estas ciências; por isso temos a Ética Social, a Ética Filosófica, a Ética
Teológica e outras.
Neste aspecto, o moralista cristão não pode apropriar-se simplesmente das conclusões
fornecidas pela Ética, mas precisa reinterpretá-las à luz da fé cristã. Este é um dos objetivos da
Ética Cristã, cujos pressupostos estão na Palavra de Deus e cuja meta é a vontade de Deus. A Ética
do Antigo Testamento passou por um processo que se iniciou com o Código da Aliança, atravessou
a moralidade dos profetas e culminou na consciência da responsabilidade individual diante de Deus.
O estudo do Antigo Testamento é indispensável para a compreensão do Novo; o contraste entre os
ensinos morais de ambos aparece claramente no Sermão do Monte. Foi o apóstolo Paulo quem
desenvolveu mais amplamente os conceitos da Ética Cristã, cristocêntrica, do Espírito, renovadora,
confiante, da Igreja, que segue princípios, possui seus motivos, é realista.
Para compreender melhor a Ética Cristã, precisamos compreender a diferença entre ética
heterônoma, autônoma e teônoma. A heterônoma considera uma autoridade exterior ao ser humano
como critério de moralidade e fonte de normas morais. A autônoma atribui à consciência moral a
função de discernir e definir para si as normas de comportamento. A teônoma expressa a relação
normativa de Deus para com o ser humano. Quanto a Teologia Moral interpreta uma conduta ética,
leva em consideração a revelação divina, a tradição eclesiástica e a ordem sobrenatural; é uma ética
teônoma.
Do ponto de vista humano, o eixo da moralidade religiosa é a responsabilidade. A
consciência será o vínculo entre a lei e a responsabilidade. Para que a consciência funcione como
norma de moralidade, é preciso que esteja envolvida em retidão, verdade e certeza. É a consciência
cristã que vai compreender a vontade de Deus, alvo supremo de toda Ética Cristã. É o Espírito
Santo quem ilumina a consciência para esta compreensão e estimula a pessoa a cumpri-la. A
vontade de Deus pode ser melhor compreendida como norma ética quando a pessoa participa da
koinonia, da comunhão cristã, da comunidade de fé, porque é na koinonia que há uma
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transformação da natureza e da função da consciência e é na koinonia que os seres humanos podem
realizar-se plenamente.
De posse de umaÉtica Cristã bem fundamentada e estruturada, os cristãos estão aptos a
tomar decisões em diversos setores da vida; estão aptos a imitir opiniões quanto a controvérsias
éticas relacionadas a diversos problemas que enfrentam no dia-a-dia; estão aptos a compreender e a
viver conforme a vontade de Deus para suas vidas. Somente assim, conscientizados, podemos
transformar a realidade que nos circunda, podemos fazer a diferença no meio em que vivemos,
podemos proclamar a verdade e a vida que é Jesus Cristo.
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