OS TEMAS CULTURAIS NA INVESTIGAÇÃO GEOGRÁFICA: BREVE RETROSPECTIVA E PONTO DA SITUAÇÃO Eduardo Brito Henriques

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1. A tradição dos estudos culturais em Geografia Existem para o termo cultura várias acepções. Cultura pode ser empregue, primeiro, como sinónimo de cultivo, designando o acto de fazer crescer e multiplicar seres vivos. A palavra cultura pode reportar-se, numa acepção mais erudita, às obras do génio humano – a música, a pintura, a literatura, a filosofia,... E cultura pode ainda, finalmente, aparecer com um sentido assimilável ao de modo de vida, acepção esta muito mais lata que qualquer das anteriores e que remete para o conjunto dos valores, crenças, conhecimentos e costumes que caracterizam e diferenciam os vários grupos humanos ou povos, bem como para as formas materiais em que aqueles valores, crenças e conhecimentos se exprimem. A temática cultural, entendida sob este último ponto de vista, marca desde há longa data presença nos estudos geográficos. Compreender como a cultura interage com a natureza, ou como as populações, por intermédio da civilização, modificam o meio, dando colorido e variedade à superfície terrestre, constituiu desde o início da ciência geográfica moderna o grande objectivo da geografia humana, ramo ao qual aliás se continua a chamar na língua alemã, não por acaso, Kulturgeographie. A noção de paisagem cultural (Kulturlandschaft), que os geógrafos alemães desenvolvem no século XIX para descrever o resultado dessa combinação de elementos da natureza e da civilização, permaneceria como tema central da investigação geográfica por muitos decénios, quer na Europa, onde pesou sobretudo a influência da geografia regional francesa, que veio a incorporar o conceito e o traduziu para paisagem humanizada, quer nos EUA (cf. Sauer, 1925; Ribeiro, 1934). A centralidade que o conceito de civilização assume nos trabalhos da geografia alemã do século XIX, e, depois, nos que se desenvolvem sob a perspectiva possibilista e o paradigma da geografia regional, mostra bem o quanto a temática cultural é antiga e está enraizada na investigação geográfi*

Geógrafo. Faculdade de Letras e Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

Inforgeo, 16/17, Lisboa, Edições Colibri, 2001/02, pp. 153-165

influenciados pela antropologia anglo-saxã. 1987). e o de cultura propriamente dito. objecto da atenção dos geógrafos. Mostra-o bem a teoria que desenvolveu sobre as origens da agricultura no Mundo. conceitos próximos. Outros autores. os de Jorge Dias (1948). e. com efeito. A difusão de instrumentos como o arado e a charrua foi objecto de famosos trabalhos de natureza geográfica. dedicou não menos atenção à problemática da difusão de inovações e aos mecanismos de formação de áreas culturais. 1987: 40). Também aspectos mais imateriais da cultura foram. A essa preocupação se consagraram ao longo do tempo numerosas obras por parte de geógrafos. ou produzidos na fronteira da etnografia com a geografia. usá-los-ão como sinónimos. 1952). embora aplicados a realidades diferentes: o termo civilização para as sociedades complexas e avançadas. na mesma tradição. assim como procurar definir os limites de certo dialecto. material ou imaterial. Braudel. instrumentos e rotinas que se lhe associam. de André Haudricourt e Mariel Brunhes-Delamarre (1955) em França. Num manual de iniciação à geografia regional escrito em princípio dos anos 60. de que são exemplo os de Eduard Hahn (1914) na Alemanha. ou mesmo apenas de determinado termo lexical. Orlando Ribeiro afirmava que “Todo o estudo geográfico deve conduzir a delimitar áreas e exprimi-las por meio de mapas” (Ribeiro. A área de certa espécie cultivada. entre estudiosos portugueses. a porção de espaço abrangida pelo seu cultivo e por todo o conjunto de técnicas. é. Hegel tê-los-á empregue indiscriminadamente numa primeira fase. à escala mundial. com traba- . assim. onde identifica onze focos regionais de domesticação de plantas em pontos diversos do Globo (cultural hearths). está também desde há muito presente nos estudos geográficos através do tema da difusão de inovações e da formação de áreas culturais. Os dois termos passaram depois a designar aspectos complementares da vida dos povos: o de civilização. essencialmente a componente técnica e material das culturas. Carl Sauer. a cada um destes focos teria correspondido uma especialização no cultivo de diferentes espécies vegetais. e o de cultura para as sociedades mais “primitivas” (cf. mas que só duas décadas mais tarde seria publicado. Ao seu contorno aplica-se o termo limite.158 Inforgeo 16/17 ca. quer ele seja natural ou humano. Inscreve-se nessa visão da geografia e do seu projecto científico o interesse pela identificação dos limites das culturas humanas. Pode-se tentar delimitar de igual modo a área de dada religião. como o milho ou a oliveira. desenvolvendo-se com isso. os aspectos mais imateriais. ou como conjunto dos elementos materiais e imateriais que dão diversidade às sociedades humanas. que introduziu na geografia norte-americana o estudo da paisagem cultural. vista ainda nesta última acepção de modo de vida. aparentemente autónomos e surgidos em épocas diferentes. distintas áreas civilizacionais e paisagens culturais (Sauer. Não é aliás menos longa na geografia a tradição deste tipo de pesquisa que a dos estudos morfogenéticos da paisagem. Área designa em geografia o espaço abrangido pela distribuição de um dado fenómeno. A cultura. Civilização e cultura são.

que ganhara nesse decénio considerável peso no pensamento geográfico. 1965. porquanto assenta na atribuição ao espaço de valores que o tornam portador de sentido. não se inscrevem já nessa antiga tradição. 1976. de identificar nele lugares. É a própria consciência do sujeito como indivíduo que daqui decorre: “Reconhecer-se supõe uma apropriação do espaço pelos sentidos”. 1983).. e empenhada em determinar modelos gerais e abstractos capazes de sintetizarem e predizerem a realidade. das preocupações nomotéticas e dos métodos quantitativos na investigação dos geógrafos. e. Tuan. A Geografia Humanista e os estudos do espaço vivido A partir da década de 1960. Os trabalhos que depois de 1970 se produzem no seio da entretanto chamada Geografia Humanista. Essa influência do neopositivismo levara a uma crescente focalização nas temáticas económicas e a uma evidente hegemonia das abordagens locativas.: Ribeiro. se bem que adoptando uma abordagem cultural. Fremont. O projecto da Geografia Humanista dificilmente se percebe desenquadrado do que foi a evolução do pensamento geográfico nos anos 1960. o historicismo ao subjectivismo. É em reacção e como crítica ao neopositivismo. a sua capacidade de orientação espácio-temporal. na óptica do espaço vivido (cf. recorda-nos Paul Claval (1995: 158). ou ajuda.. Depende da possibilidade dos indivíduos reconhecerem no espaço geográfico diferenças e particularidades. 1973). ex. Bhardwaj. A conversão do espaço (abstracto) em lugar (concreto e vivido). logo. ex. 1974. Toda a sua atenção se centra nas relações emocionais e simbólicas que se estabelecem entre o sujeito – o sujeito pensante e ‘sentinte’ – e o espaço geográfico no qual se move. ao enraizamento das . 1988).Os Temas Culturais na Investigação Geográfica 159 lhos produzidos sobre temas tão variados como as áreas dialectais e os limites linguísticos (cf. que Yi-Fu Tuan (1983) elege como questão central da Geografia Humanista. p. que a Geografia Humanista aparece. A tónica cultural é bem patente nos trabalhos que se produzem sob a perspectiva humanista. ou culturalista. Há entre aqueles primeiros e estes últimos uma clara ruptura: o enfoque ecológico dá lugar ao enfoque simbólico. constitui em si mesmo um processo de natureza eminentemente cultural. 2. 1968. Ley. Os lugares evocam memórias e isso permite. os estudos a que antes fizemos menção começaram a suscitar nos geógrafos um cada vez menor interesse. ou a geografia das religiões (cf. Krantz. ou seja. viria a Geografia Humanista contrapor um projecto que consistia em compreender o Mundo olhado a partir do sujeito que o sente e vive. A existência humana é indissociável desta codificação do espaço e do processo da sua transmutação em lugar. Nesse mesmo espaço carregado de símbolos encontram ainda os indivíduos balizas ou referenciais de carácter mais profundo para a sua existência. p. A esta nova geografia preocupada com a descoberta de regularidades nas distribuições espaciais.: Planhol.

1994. lembra-nos Yi-Fu Tuan (1980: 196). os claustros e os jardins dos mosteiros: “O termo técnico para os jardins fechados ou claustros era ‘paraíso’. O estudo do espaço vivido. Lévy. Debarbieux. ensaiada pela Geografia Humanista.160 Inforgeo 16/17 pessoas no território. denuncia. Num artigo polémico que viria a ter grande ressonância nos meios científicos. com seus jactos de água. partilhados pelo conjunto da comunidade. razão pela qual revestem uma ainda mais óbvia dimensão cultural (cf. Brousseau. que aparece como crítica à geografia cultural mais tradicional. teve ainda como novidade que outras dimensões da cultura. 1975). Crang. – estão imbuídos de valores intersubjectivos. Collignon. para além de ter trazido para a geografia esta nova reflexão em torno da simbólica e do significado dos lugares. 3.. Jackson. tanto individuais como colectivas (Lowenthal. ou de produto do génio humano.. Caldo.: 159). reflectiu esse desafio (cf. a integração na investigação geográfica da pintura e da literatura. James Duncan (1980) inaugurou esse movimento. obrigou a que se experimentassem novas fontes de informação e metodologias de pesquisa. enquanto projecto de apreensão do território a partir da perspectiva existencialista. Os lugares – especialmente estes últimos – acabam assim por ter também uma função ética e moral. A aproximação à Geografia Social e a renovação dos estudos da paisagem No espaço anglo-saxão. os teólogos consideraram a igreja como a imagem do universo: a abóboda era o céu e o chão a terra paradisíaca”. fossem integradas na investigação geográfica. como princípio teórico subjacente a toda a produção científica da escola de Berke- . enquanto outros – os lugares sagrados. os lugares-monumento. de natureza mais qualitativa. mais ligadas à ideia de cultivo do espírito. foi a ruptura introduzida nos anos 1980 pela chamada Nova Geografia Cultural. do enraizamento afectivo dos indivíduos no espaço geográfico e da formação das identidades territoriais. Price e Lewis. . 1989. 1997). 1997. 1999). contribuindo para a construção de uma certa mundividência e para dar sentido à vida: “Durante todo o período bizantino até fins do século quinze. função algo semelhante teriam tido. em função da sua biografia ou experiência de vida concreta. se o território se encontra em toda a sua extensão potencialmente investido de significados. 1992. Claval. 1995). De resto. gerando sentimentos de pertença que se sabe serem essenciais para a formação das identidades. polarizada pela escola de Berkeley (cf. funcionando no seu todo como um sistema de significação. simbolizava a geografia do Éden” (ibid. A abordagem humanista. no cristianismo ocidental. 1996. 1998). que viria a ser especialmente frutuosa na geografia francesa (cf. A fonte no meio do jardim. alguns lugares representam algo apenas para alguns indivíduos. 1993. muito mais importante para a renovação dos estudos culturais do que a perspectiva humanista. partindo da psique humana e da emotividade. Kong.

mas como uma força superior. ao qual está ligado esta perspectiva. muito evidente. encarando-os como meros peões conduzidos por leis externas e superiores à sua vontade. inaceitável que se não admitisse naquela tese espaço de manobra para a acção dos indivíduos na sociedade. que. de certa forma. e mesmo numa certa fusão. a prevalência de uma concepção supra-organicista da cultura. a tradição da geografia cultural norte-americana reificava a cultura. Mais do que nos EUA. transposta para a geografia por Carl Sauer. seria inadequada e carecia de revisão. depois. em sua opinião. Esta tese. que estudara com Kroeber. e finalmente. Em alternativa.Os Temas Culturais na Investigação Geográfica 161 ley. Defendia este autor a ideia de que as sociedades se organizavam em três níveis ontológicos. A aproximação à geografia social é bem perceptível quando se olha ao destaque que passaram a merecer na geografia cultural temas como o género . aderentes para o projecto da Nova Geografia Cultural. Fulcral para isso foi a influência da teoria cultural neo-marxista. donde não tivesse sido difícil ganhar. que correspondia aos indivíduos propriamente ditos e às suas acções. Ao adoptar o princípio do supra-organicismo – argumentava –. um terceiro nível – o nível inorgânico – constituído pelas condicionantes materiais. assumindo-a erradamente como ‘coisa’ acima das relações sociais. e que nos anos 60 e 70 fora pioneiro nos estudos do género. depois um nível intermédio – o nível orgânico –. nível esse onde se situava a cultura. porém. e não como processo ou produto dessas mesmas relações sociais. já se advogava a necessidade de perspectivar a cultura em articulação com as relações sociais e no quadro dos seus processos específicos de produção. distintos mas inter-relacionados: um primeiro – o nível supra-orgânico –. reflectiram-se na maior proximidade. do pós-colonialismo e dos media. A tese do supra-organicismo cultural foi enunciada por Alfred Kroeber nos primeiros decénios do século XX. A crítica de James Duncan centrou-se neste ponto. e até. entre os geógrafos britânicos. independente. composto por forças e leis superiores aos indivíduos e orientadoras das suas opções. No trabalho do Centre for Contemporary Cultural Studies de Birmingham. entendia assim a cultura não como algo socialmente produzido. numa renovação. dos estudos da paisagem. pugnava por uma nova perspectiva em que a cultura fosse vista simultaneamente como produto e contexto da interacção social. muito desenvolvida no Reino Unido entre meados do século e os anos 70. que passou a existir entre a geografia cultural e a geografia social. seria entre os geógrafos britânicos que se dariam os passos mais significativos nesse sentido. A Nova Geografia Cultural enriqueceu-se e foi ganhando consistência ao longo do decénio de 1980. nascido das relações entre os indivíduos. Era. e que deixou lastro entre os académicos das ciências sociais. Os efeitos de tudo isto na renovação dos temas e das formas de abordar a cultura nos estudos geográficos sentiram-se sobretudo a dois níveis: primeiro. em seu entender. prevalecente à vontade dos sujeitos e às relações sociais.

também como instrumento de poder (cf. Jackson. 1996. no Sri Lanka. Stock. Mitchell.162 Inforgeo 16/17 e a sexualidade. 1993) sobre o reino histórico de Kandy. o pós-colonialismo e o multiculturalismo. p. Os trabalhos sobre a iconografia da paisagem multiplicar-se-iam sobretudo a partir de finais dos anos 1980. A renovação dos estudos da paisagem fez-se por duas vias. 1993. através da desconstrução das suas representações e da denúncia das lógicas que a elas presidiam. por outro (Cf. como são os casos da territorialidade gay e lésbica. 1996-b). a economia e o território: novas intersecções Se a grande novidade dos anos 1980. Nas obras de síntese e manuais de geografia cultural que se produzem sob esta nova perspectiva consagram-se capítulos a temas inéditos nas abordagens mais tradicionais. logo. da importância do território na construção cultural da masculinidade e feminilidade. e. Por um lado. sociedade e política passaram a merecer. residiu na súbita atenção que as relações entre cultura. 1992) aos guias turísticos (Brito Henriques. passando pela pintura (Daniels. 1995. na linha do que havia feito Edward Said (1978) no seu influente estudo sobre o orientalismo e a representação do exótico no Ocidente. onde se produziram interessantes trabalhos com um enfoque cultural. Cosgrove. de modo mais geral. antecipando em quase uma década trabalhos similares. numa perspectiva desconstrucionista. o estudo das estratégias territoriais associadas às lutas de dominação e hegemonia cultural. por outro lado. 1995. impõe-se uma referência ao influente estudo de James Duncan (1990. Cosgrove e Jackson. mas sim política e ideologicamente modelada. 1993) e pelo próprio discurso da geografia e dos mapas (Gregory. Outra área de estudo fértil. o tema da representação da paisagem. pela abordagem da paisagem em si mesma como texto. 1989. 1992. Brito Henriques. e à resistência por parte dos grupos dominados. o último decénio do século ficaria essencial- . da propaganda política (Hepple.. cobrindo diversas formas de representação. 2000). ex. Num artigo que foi precursor. 1992. Duncan e Ley. foi o da relação entre geografia e consumo (cf. Quanto à abordagem da paisagem como texto e da organização do espaço como instrumento de reprodução ideológica. e. Pred. que é dos que melhor representa esta perspectiva. ou ainda aspectos relacionados com a geografia de sub-culturas como a punk e rap (cf. mostrou que a representação dos lugares não é isenta. 1993. 1996-a). do ponto de vista da geografia cultural. 1989. 1996). Jackson e Thrift. Pickles. Duncan e Duncan. 1987). como instrumento de reprodução ideológica. 1982). do controlo da cultura popular pelo poder e das estratégias territoriais empregues nesse processo. por um lado. Mort. Crang. A cultura.. 4. 1993). ou Roland Barthes nos seus trabalhos sobre as mitologias da sociedade de consumo (cf. Daniels e Cosgrove. Nigel Thrift (1983) foi dos primeiros geógrafos a trabalhar.

como corolário do que vários autores têm admitido ser a pós-modernidade e a emergência de um novo estádio do capitalismo muito mais centrado na produção e no consumo de signos do que de mercadorias (Baudrillard. Uma. As instituições – da escola aos sindicatos. para a criação de ambientes diversamente propícios à ocorrência de inovações (cf. Esta temática tem conhecido no essencial duas formas de abordagem.]”. seja a família. surge do reconhecimento de que as actividades ligadas à provisão de bens e serviços culturais tendem a desempenhar um papel cada vez mais relevante nas economias desenvolvidas. sob esta perspectiva. insistem na pertinência de variáveis exteriores à economia. a que Andrew Sayer (1997: 17) sintetiza nos seguintes termos: “A economia é um sítio tão cultural quanto qualquer outra parte da sociedade. Featherstone. 1989. desenvolvida na fronteira entre a economia regional e a geografia económica. São conceitos como os de distrito industrial. defende esta perspectiva que as tradições e o tipo de arranjo institucional existente em cada local influenciam as decisões dos empresários e dos trabalhadores. 1995. procura compreender o papel das culturas locais na criação de condições diferenciadas para o desenvolvimento das regiões. desenvolvida a partir do ponto de vista da economia da cultura. fortes e competitivos. de meio inovador e. a comunidade ou a escola [. A outra abordagem das relações entre cultura. Não se limitando a assinalar as externalidades positivas que resultam da mera aglomeração ou proximidade dos agentes económicos. em certa medida complementares. Storper. 1997). mais pragmática.. combinando-se na criação de formas de governação específicas e distintas. De que criam riqueza. que enformam os trabalhos desenvolvidos sob aquele primeiro tipo de abordagem (cf. da Igreja aos movimentos associativos – tornam-se assim elementos fulcrais para compreender a capacidade de reacção diferenciada dos territórios aos mesmos imperativos económicos. Harvey. A grande conclusão a reter dos vários estudos que. por sua vez. em suma. mais recentemente. Em todos eles se salienta a importância das variáveis socioculturais na configuração de sistemas produtivos locais coesos. parte da perspectiva da economia da cultura e olha para as actividades culturais como recurso e instrumento da valorização dos territórios. e não como modo de vida – aparece. Este crescimento das oportunidades de negócio no sector da cultura – a cultura na sua acepção de produto do espírito e da criatividade humana.. de embeddedness. 1991). Sayer. têm sido desenvolvidos desde os anos 1990 é. de natureza sociológica e cultural. e de que criam emprego. A outra.Os Temas Culturais na Investigação Geográfica 163 mente marcado pela novidade do estudo das conexões entre cultura e economia. . 1972. emergindo a espessura institucional dos locais e das regiões como um novo conceito central nas teorias do desenvolvimento. Brito Henriques e Thiel. 1997). economia e território a que antes nos referimos. Considerando que as empresas não são alheias ao meio onde estão mergulhadas.

a um peso do emprego cultural de 2. 1986. são apreciáveis os números. e que o sector contribuía para quase 4% do PIB. 2000). em primeiro lugar. 1987). utilizando o mesmo conceito de sector cultural e um elenco de actividades próximo do usado nos estudos alemães citados. A investigação mostrou que.164 Inforgeo 16/17 O interesse por esta temática traduziu-se. merece menção o estudo sobre o sector cultural no estado alemão da Renânia do Norte-Vestefália.7% do emprego oficial no estado. estudando detalhadamente. Baseando-se nos exemplos de Los Angeles e Paris. ainda nos anos 80. 1999). 1999). 1997). valor equiparável ao da indústria química ou alimentar. tendo para além disso mostrado que a presença de actividades culturais funciona como um atractivo para a localização de outras actividades económicas. Diferente foi já o sentido das investigações sobre a economia cultural das cidades levadas a cabo por Allan Scott (1996. é – logo – um aspecto crucial da competitividade dos lugares (Dziembowska-Kowalska e Funck.. mas também o papel que no desenvolvimento dessa especialização joga o efeito de meio. procurando avaliar o peso deste sector no conjunto do emprego da região e compreender as preferências locativas das diversas actividades que nele se incluem (Brito Henriques. Estes não foram porém. A aposta nas actividades culturais como estratégia para a valorização dos territórios e para o seu desenvolvimento económico sustenta-se em ob- . A. Finalmente. especialmente de elevada qualificação. interessados em compreender o funcionamento da indústria cinematográfica e o seu peso na economia local. de estudar as razões geográficas do seu desenvolvimento em certos locais particulares. ou seja. O verdadeiro objectivo consistia em usar o sector cinematográfico para ilustrar os efeitos da passagem do fordismo para a produção flexível. com um passado ligado à indústria pesada e sem tradição que justifique uma especialização neste sector. Scott pode demonstrar não só a importância que as actividades intensivas em criatividade e design têm nas economias urbanas mais avançadas. fizemos para a Área Metropolitana de Lisboa exercício similar. mesmo numa região como esta. 2. coord. Storper e Christopherson. como seriam mais tarde.7% no VAB. O estudo de um outro caso alemão – o de Karlsruhe. para o ano de referência de 1987. a reestruturação da indústria cinematográfica dos EUA (Christopherson e Storper.8% no conjunto da cidade e a um contributo de 2. estudos desenvolvidos na óptica da economia da cultura. no estado de Baden-Vurtemberga – permitiu chegar. avaliando consequências na forma de organização do trabalho e na localização das actividades. e ainda os efeitos que estas têm na formação de novas vocações territoriais. na multiplicação de estudos de geógrafos (ou de geógrafos e economistas) com o intuito de avaliar o peso das actividades culturais na economia. Michel Storper e Susan Christopherson foram dos autores que mais cedo se dedicaram à análise destas problemáticas. tendo-se concluído que os activos no sector cultural ascendiam em meados dos anos 90 a cerca de 160 000 indivíduos. Dentro da mesma linha de pesquisa. que é dos mais completos e abrangentes que se produziram dentro do seu género (Kunzman.

e pela aposta nas chamadas ‘indústrias culturais’ (media. Aquilo a que se assistiu foi sim a uma maior sensibilização dos geógrafos para as questões da cultura e à formação de um novo olhar. Não que tal se tenha traduzido num retomar dos temas clássicos da geografia cultural. no aparecimento de novos focos de conflito rácico. sobre o território e os fenómenos que nele se processam. . 5. etc. Temas hoje fundamentais na geografia social. têm implicações culturais que se não podem descurar. da geografia política aos estudos ambientais. Hudson. Noutros casos. podendo integrar-se quer em operações de renovação e reconversão de frentes portuárias ou de áreas industriais. construídos de raiz ou reutilizando edifícios com usos inadequados. que é por tudo isto um dos grandes desafios com que se defrontam no presente as sociedades desenvolvidas. Significa isto que a cultura passou a ser vista como variável pertinente para a compreensão dos mais variados aspectos da realidade e a marcar presença em diferentes domínios da investigação geográfica. 2000.). O enfoque cultural na geografia: perspectivas de futuro É impossível não considerar a súbita atenção dos geógrafos pelas temáticas culturais como uma das grandes novidades da investigação geográfica do último decénio. na esperança de que por essa via se promova e melhore a imagem dos lugares e a sua competitividade. pela valorização do património cultural com vista ao fomento do turismo. Vimos que é no estudo dos temas sociais e na intersecção da geografia com a economia e com os estudos do desenvolvimento que este novo enfoque cultural tem estado mais visível. de novas formas de segregação espacial. O multiculturalismo. da geografia social à geografia económica. quer em intervenções sobre bairros históricos. documentadas também em estudos de geógrafos (cf. Newman e Smith. apresentando ritmos de crescimento do emprego e do volume de negócios superiores à média da economia. aparece assim como um novo campo de reflexão a explorar pelos geógrafos. Essa incorporação de medidas de natureza cultural nas políticas territoriais pode assumir várias formas. com efeitos que se percebem quer nos locais de destino – na ‘crioulização’ de comunidades imigrantes e hospedeiras. Tudo aponta para que essa tendência prossiga e se aprofunde no futuro próximo. A integração da cultura nas políticas de desenvolvimento pode passar ainda. audiovisual. Uma das mais comuns consiste no investimento em grandes equipamentos culturais. 1995. O’Connor e Cohen. publicidade. começam a ser vistas como uma possibilidade para o relançamento de territórios em crise. finalmente. ou de estudos desenvolvidos nos seus moldes tradicionais. Brown. etc. actividades que. – quer nos de origem. design. a decisão de investir na cultura terá sido determinada mais por uma vontade de reanimar a economia local e/ou revitalizar certas áreas específicas do tecido urbano. 2000).Os Temas Culturais na Investigação Geográfica 165 servações como as que anteriormente citámos. culturalmente enformado. como o das migrações e o das minorias.

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