Você está na página 1de 14

PEPETELA E O NACIONALISMO ANGOLANO: DO SONHO À

DESCONSTRUÇÃO DA UTOPIA

ISAURA DE OLIVEIRA

1.- NACIONALISMO E NAÇÃO – ALGUMAS BREVES CONSIDERAÇÕES


Benedict Andersen refere que “ nation-ness is the most universally legitimate
value in the political life of our times.”(1). No século XIX , mas fundamentalmente no
século XX, após a 2ª. Guerra Mundial, o mundo colonial em geral, e o mundo colonial
africano em particular, foi assolado por Movimentos Nacionalistas que reivindicavam
através da libertação do jugo colonial, emancipação política e a criação de novas nações
política, económica e culturalmente independentes: “ It is generally acknowledged,
salienta Leela Gandhi, - even by the most ”cosmopolitan” postcolonial critics – that
nationalism has been an important feature of decolonisation struggles in the Third
World.”(2) Diga-se, aliás, que a descolonização e a vaga nacionalista são uma
consequência natural do triunfo dos Aliados. O facto de muitos africanos terem sido
recrutados para lutar a favor da sua potência colonizadora, muniu-os de uma
consciencialização política que foi determinante na formação dos movimentos
nacionalistas africanos. Aliás, em 1941, na Carta Atlântica, Roosevelt já propunha aos
Aliados como objectivo a alcançar a curto prazo, a libertação dos povos subjugados.
Assim, a vaga de Nacionalismo Africano nasceu e desenvolveu-se sob o “chapéu” do
mundo ocidental e tem as suas raízes no próprio nacionalismo europeu, na sua
conceptualização de nação, bem como nos princípios liberais e humanistas que
caracterizaram a Revolução Americana e a Revolução Francesa. A isto junta-se o facto
das então élites africanas terem sido criadas segundo modelos ocidentais e formadas na
Europa: “ There is a generel consensus among liberal historians that the formative
lessons of nationalism were literally acquired in the colonial classroom through the
teaching and transmission of European national histories.” (3) Esta estreita ligação
ideológica que faz do nacionalismo africano “ a poor copy or a derivation of
European post-Enlightenment discourse”(4), tem sido apontada por muitos
estudiosos ( Leela Ghandi, Homi Bhabha, V. Y. Mumdimbe, etc) como um dos factores

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 1


fundamentais para explicar muitos dos fracassos nacionalistas pós-independência destas
nações emergentes, nascidas destes movimentos. Com uma origem colonial e capitalista
(5), esses movimentos transportam em si uma espécie de estigma de fracasso e de erro.
Este aspecto parece-nos fundamental para perceber a evolução do tratamento do
fenómeno nacionalista na ficção de Pepetela, como veremos, dado que o Nacionalismo
Angolano também reflectiu, copiou e propunha-se aplicar o mesmo modelo de nação
que presidiu à formação das modernas nações europeias. Ou seja, um modelo assente no
princípio base da Unidade étnica, linguística, cultural e territorial que em 1882, Ernest
Renan, na sua comunicação Qu’est-ce qu’une Nation?” glorifica “ comme une “ âme,
um principe spirituel”, en sus de ses différents éléments essentiels de cohésion: la
raca, la langue, la religion, la géographie. On voit bien que, realça Armand Touati,
dés le début du processus d’affirmation nationale, une conception de la Nation
domine, appuyée sur des présupposés unificateurs et incluant la référence à une
race. L’idéologie coloniale sera congruente avec une telle définition de la Nation.”
(6) Esta Unidade define um povo entendido como sinónimo de Nação a que se veio
modernamente associar uma entidade política administrativa e legislativa designada por
Estado. Daqui deriva o moderno conceito de Estado-Nação que “has been rendered as
the most canonical form of political organisation and identity in the contemporary
world.” (7).
O conceito de Nação tem as suas raízes na palavra latina “natio”, “nationis” que
designava povos ou diferentes grupos humanos etnicamente ligados: “ These nations
were perceived as more or less cohesive collections of primitive natives. The idea of
oneself as belonging to a “nation” derives from the University of Paris and other
early medieval European universties, where students from the same birhtplace,
speaking the same dialect and having the same tastes in food, lived together in
common houses. (...) The idea of a “nation-state” came later. While such an entity
had existed in Vietnam since the tenth century, the first European nation-states
only emerged some 500 years later [and] based their legitimacy on the idea of a
territorial nation and appealed to the local language and traditions.” (8). Homi
Bhabha refere ainda que Nação “ it is both historically determined and general. As a
term, it refers both to the modern nation-state and to something more ancient and
nebulous – the ‘natio’ – a local community, domicile, family, condition of

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 2


belonging.” (9) Logo, a questão Nacionalista está intimamente associada à questão da
Nação e interligam-se: “Nationalism, refere Kohn citado por Homi Bhabha, is a state
of mind which the supreme loyalty of the individual is felt to be due to the nation-
state.” (10) A obtenção desse estado mental é o objectivo principal do Nacionalismo,
entenda-se a criação de novas nações: “Nationalism is not the awakening of nations
to selfconsciousness: it invents nations where they do not exist.” (11). Assim o
Estado-Nação surge como uma criação artificial moderna que não se identifica com o
tradicional conceito de nação que vigorou até ao despertar do Nacionalismo Europeu e
que foi posteriormente adoptado pelo Nacionalismo Africano: “´Nation’ as a term is
radically connected with ‘native’. We are born into relantionships which are
typically settled in a place. This form of primary and ‘placeable’ bonding is of
quite fundamental human and natural importance. Yet the jump from that to
anything like the modern nation-state is entirely artificial.”(12), aquilo que Benedict
Andersen designa por “imagined communities”: Esta artificialidade do Estado-Nação
inventado e imaginado é particularmente significativa no processo da criação das
Nações Africanas nascidas num contexto caracterizado por fronteiras artificiais,
arbitrariamente impostas pelo poder colonial, e marcado por uma enorme diversidade e
divisão étnica: ” It is imagined because the members of even the smallest nation will
never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in
the minds of each lives the image of their communion. (...) Finally, it is imagined as
a community, because, regardless of the actual inequality and exploration that may
prevail in each, the nation is always conceived as a deep, horizontal comradeship.
Ultimately it is this fraternity that makes it possible, over the past two centuries,
for so many millions people, not so much to kill, as willingly to die for such limited
imaginings.” (13) No caso Nacionalismo Africano, a Nação é imaginada porque é
inventada através de uma conceptualização político-nacional que se materializa em
diferentes símbolos nacionais também artificialmente criados nos quais a Comunidade
se reconhece e com os quais se identifica. A Nação é artificial porque inventa e impõe
uma falsa unidade e uma falsa coesão nacional étnica, cultural, linguística e territorial,
sem tempo de maturação e completa interiorização e assimilação. O carácter artificial e
inventado da Nação remete-nos inevitavelmente para a questão do Sonho, podendo pois,
dizer-se, que o Nacionalismo Africano inventou nações que sonhou. De facto, as

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 3


modernas Nações Africanas são construções artificiais e inventadas a que também não é
estranha uma profunda componente filosófica que nos remete para a questão da Utopia.
Referimo-nos à Utopia entendida como “a representação imagética de um estado
humano nunca até agora ocorrido. (...) E é sobretudo como a representação de um
estado futuro da humanidade que a utopia adquire relevância no discurso político.
Como qualquer acção, também a acção política é teleologicamente orientada. Se o
homem se move em função de um bem supremo, de um bem “que se escolhe por si
mesmo”, bem esse a que a filosofia aristotélica atribuiu o significado da felicidade,
a representação de um estado político de felicidade potencial não pode deixar de
ser o imprescindível motor da acção política, compreendida como a actualização
dessa mesma felicidade. Na utopia política, é então representado um estado de
felicidade até agora inalcançado.”(14) O sonho da independência Política desenvolve-
se a partir da ideia da construção não apenas de novas Nações, mas também de Nações
caracterizadas por sociedades ideais, perfeitas, prósperas, justas e felizes. Este modelo
que recuperou as utopias políticas de que a Utopia de Thomas More nos surge como
referência por excelência, bem como as utopias míticas de Homero e de Hesidoto,
pretendia combater e substituir-se às vivências das populações sob o jugo colonial,
marcadas pela pobreza, miséria, exploração, discriminação, desigualdade e infelicidade:
“ In this context, nationalism responds to the urgent task of rehumanisation of
regaining na Edenic wholeness.” (15) Daí que a força do Nacionalismo Africano
assentasse também num profundo carácter messiânico que pretendia preencher o vazio
deixado pela perda do Paraíso após o pecado original, segundo concepção judaico-
cristã: a independência passa a identificar-se com um paraíso terreal e os seus
construtores nacionalistas com modernas reinvenções de Messias, bem patentes no culto
pessoal da grande maioria dos líderes africanos antes e pós-independência:” According
to Kohn, modern nationalism took three concepts from Old Testament mythology:
‘the idea of a chosen people, the emphasis on a common stock of memory of the
past and of hopes for the future, and finally national messianism’.” (16) O seu
carácter messiânico revestia a criação da nação de uma dimensão mítica, sendo a Nação
em si mesma também um mito: “ One of the most durable myths has certanly been
the ‘nation’.”(17). Se o Nacionalismo Africano, à imagem e semelhança do
Nacionalismo Europeu continha essa dimensão utópica baseada “no entusiasmo

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 4


suscitado pelo esboço de um “princípio esperança”, ou seja, pelo esboço de um
estado histórico, não real mas possível, que supere a infelicidade daquela que foi
até agora a história humana, e pela simultânea remissão desta história ao estado
precário de uma fase provisória e superável.” (18) e se esse estado histórico se
caracteriza por Nações criadas, temos traçada a ponte para o tratamento do
Nacionalismo Angolano na sua dimensão onírica e utópica tal como nos surge
representada na ficção de Pepetela. Embora, como vimos, a Utopia esteja subjacente ao
projecto da criação da Nação, é sobretudo o sonho dessa criação a partir de uma
Unidade étnica, cultural, linguística e geográfica que domina a intriga dos romances
Maiombe e Yaka. A Utopia, como veremos, apenas começa a ser enunciada numa fase
posterior de desencanto que coincide com a descrição do domínio decepcionante do
Estado (entidade política) sobre a Nação (entidade humana).

2.- NACIONALISMO E LITERATURA


Para fazer chegar às populações a sua mensagem nacionalista, o Nacionalismo fez da
Literatura um instrumento por excelência da difusão dos seus ideais. Ou seja, a
Literatura foi posta ao seu serviço. Deste modo, através do processo da leitura,
pretendia-se alcançar uma transferência e um reconhecimento dos ideais nacionalistas
do leitor para o cidadão da nação em construção: “ Corresponding to Hobsbawm’s
and Ranger’s examples, literary myth too has been complicit in the creation of
nations” (19). A Literatura surge-nos como um caminho para alcançar o triunfo do
nacionalismo e a criação da Nação, aquilo que Foucault chamou “discursive formation”:
“ not simply an allegory or imaginative vision, but a gestative political structure
which the Third World artist is consciously building or suffering the lack of.” (20)
Ou seja, através do acto da efabulação, recria-se e cimenta-se o Sonho e a Utopia.
Não é novidade para a História Literária o fenómeno de uma Literatura empenhada,
posta ao serviço de ideais nacionalistas. O Nacionalismo Europeu apoiou-se no
Romantismo, e sobretudo o Realismo e o Naturalismo chamaram a si a causa da
melhoria e aperfeiçoamento da sociedade e do género humano através de uma crítica
dirigida, elaborada a partir das “fatias de vida” trabalhadas pela imaginação dos
escritores. Contudo, diferenças significativas destinguem a Literatura Europeia de cariz
sociológico, da Literatura Africana de cariz etno-cultural. Isto implica também a

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 5


necessidade de diferentes abordagens para a apreensão dos significados dos textos.
Enquanto a Literatura Europeia tem preocupações sociológicas e parte de um mundo já
organizado e construído que questiona e procura aperfeiçoar, a Literatura Africana parte
do nada e interioriza a tarefa de ajudar e participar na construção de um projecto
nacional de raiz, isto é, de um mundo ainda por construir. Daí o seu apego a contextos
etno-culturais: reproduzindo o mundo étnico em que estão inseridas e traçando o retrato
das suas vivências culturais, a Literatura Africana assume a sua responsabilidade
nacionalista de construir o mundo no qual se insira a Nação bem como a sua identidade
que procuram transmitir aos seus leitores. Portanto, mais do que questionar, constrói e
essa construção realiza-se a partir de raízes etno-culturais. Isto é, se é emergente criar a
Nação, isto significa que a Nação ainda não existe, logo há todo um mundo nacional
também ainda por criar. O Nacionalismo Europeu encontrou mundos já formados que
apenas organizou em novas Nações, enquanto o Nacionalismo Africano encontrou
etnias e culturas que era preciso unificar. As etnias e a sua cultura reflectiam
idiossincracias dispersas que era preciso congregar num projecto nacional derivado. A
Literatura, e segundo esse projecto nacionalista, vai antecipar e criar na sua ficção, o
universo político e humano ambicionado da futura Nação, partindo de uma dimensão
histórica. A esta produção ficcional Edward Said chamou “heroic narratives” ( 21)

3.- PEPETELA E O NACIONALISMO ANGOLANO – DO SONHO À UTOPIA


Reflectir e descrever o processo que deverá conduzir ou que conduziu à criação da
Nação Angolana, bem como o que caracteriza essa Nação, constitui a preocupação e a
temática central da obra de Pepetela. À volta desta temática, o escritor concebeu e
organizou alguns dos seus principais romances dos quais destacamos Maiombe, Yaka e
a Geração da Utopia. O tratamento desta temática obedece a uma linha de continuidade
segundo um projecto literário pessoal marcado por uma ligação à História. Pepetela
surge-nos como um espécie de cronista contemporâneo do nacionalismo Angolano e do
seu Sonho da criação da Nação. Através da sua ficção, antecipa, capta e acompanha a
evolução do projecto nacional Angolano desde as suas origens ainda durante a luta
armada, passando pelo triunfo da independência até ao fracasso desse projecto num
período pós-colonial caracterizado pelo desgaste e pela desagregação nacionais.

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 6


Numa entrevista a Michel Laban, datada de 1992, Pepetela confirma essa posição,
dizendo: “ Parece-me, que as preocupações de fundo, em Muana Puó são as
mesmas de todo o resto que foi escrito depois. Há um tema comum, que é o da
formação da nação angolana. Isso faz o denominador comum.”(22) E mais adiante:
“ Eu gosto é, exactamente, de fazer ficção e, sobre essa ficção reflectir sobre certos
problemas que se põem – fundamentalmente esse da nação. (...) Aliás, eu penso,
nessa fase em que vivemos, na fase da formação da nação, em todos os países isso
aconteceu, sempre houve escritores –e não só escritores, outro tipo de intelectuais,
artistas, etc. – que reflectiram sobre esse problema da formação da Nação e as suas
obras desenvolvem-se com esse fundo, essa base.” (23) Numa entrevista mais recente
concedida a Inocência Mata, datada de 1999, reafirma: “ Tenho uma grande
preocupação com alguns assuntos, que são temas obsessivamente tratados na
minha obra. Um desses assuntos é o da construção da Nação, a ideia de Nação. Há
toda uma problemática à volta do Estado-Nação.” (24) No fundo, a sua ficção
procura reflectir e recriar os princípios conceptuais do Nacionalismo Angolano. Trata-se
de um Nacionalismo assente no Sonho da construção de uma Nação constituída por um
único povo e um único país formado a partir da Unidade étnica, cultural e territorial de
todos os grupos humanos contidos no território angolano. É um Nacionalismo que
defende também o Sonho de um projecto nacional único e exemplar. Trata-se de um
Sonho ousado dado que se desenvolve numa fase marcada por projectos de
nacionalismos africanos fracassados, alguns já mesmo caídos em desgraça, como eram
o caso de Nkrumah, considerado o pai do Nacionalismo Africano e líder do primeiro
país africano a alcançar a independência ou de Lumumba. Por isso se insiste num Sonho
que não se limita apenas ao projecto da construção de mais uma Nação Africana, mas
antes do país africano por excelência, modelo e referência. Este Sonho nacionalista
surge bem descrito nas palavras de Joel e de Aníbal em Yaka e A Geração da Utopia
respectivamente. Diz-nos Joel: “ Aqui vamos todos entender-nos, avô. Já estamos a
lutar juntos, homens de raças diferentes. Será o primeiro caso em África, dizem os
camaradas.” (25). Quanto a Aníbal: “ Um amigo lhe tinha confidenciado, em jeito de
auto-crítica: quisemos fazer desta terra um País em África, afinal apenas fizemos
mais um país africano.” (26). Portanto, a intriga de Maiombe e de Yaka é construída
de acordo com esse Sonho Nacionalista. O Sonho enquanto actividade mental dirigida,

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 7


domina o tempo, o espaço e a acção dos personagens, ao mesmo tempo que confirma a
ideia da Nação nascida da Unidade reclamada para Angola.
Em Maiombe o Sonho da construção da Nação Angolana é descrito a partir do
sacrifício colectivo de um grupo de guerrilheiros embrenhados, durante a luta armada,
na selva do Maiombe, e liderados pelo seu carismático Comandante Sem Medo.
Sem Medo surge como o grande obreiro da construção do Sonho Nacionalista. Luta
pela criação de uma Nação nascida da Unidade étnica, cultural e territorial de todos os
grupos étnicos que habitam o território angolano e de que o grupo dos guerrilheiros
nacionalistas é simbolicamente uma pequena amostra representativa. A luta colectiva
dos guerrilheiros em prole da independência, portanto, da Nação, deverá também
contribuir, a partir do seu exemplo de unidade, para a construção da identidade nacional.
De facto, a consciência nacional, base da criação da Nação, só será possível quando for
interiorizada, uma vez derrotadas, a par com a derrota colonialista, as suas múltiplas
divisões étnicas e tribalistas. Se a vivência de Sem Medo se caracteriza por uma dupla
luta constante (combater o colonialismo externo e a divisão étnica interna) nem sempre
pacífica, nem sempre bem sucedida, é sobretudo na sua morte que assistimos à
promessa do triunfo simbólico do seu Sonho Nacionalista de formação da Nação.
Reunidos à volta da sua morte, os guerrilheiros tomam finalmente consciência das
fraquezas que os desune e da força que os une. As circunstancias da morte de Sem
Medo desperta neles a flor de uma identidade nacional representada pela chuva das
flores brancas da mafumeira que tomba sobre a sepultura do Comandante: “ O Chefe de
Operações disse: - Lutamos que era cabinda, morreu para salvar um kimbumdo.
Sem Medo, que era kikongo, morreu para salvar um kimbundo. É uma grande
lição para nós, camaradas.”(27).
Já em Yaka, o sonho da construção da Nação é descrito através de uma alegoria que
nos remete para uma construção simbólica dos significados. Os símbolos são as cinco
partes do corpo que correspondem a cada um dos cinco capítulos que compõem o
romance e às quais é atribuída uma data histórica, respectivamente Boca (1890/1904),
Olhos (1917), Coração ( 1940/1941), Sexo (1961) e Pernas (1975). As datas pretendem
representar o percurso histórico que corresponde à criação da Nação. Às partes
anatómicas e datas são também associados diferentes grupos étnicos – negros, brancos e
mestiços – os quais através do seu sacrifício pessoal e/ou colectivo concorreram para a

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 8


realização desse Sonho: “ Por um lado, a história contínua das cinco gerações de
Semedos corresponde àquilo que poderemos classificar de etapas fundamentais da
hegemonia colonial portuguesa em Angola. Ao mesmo tempo, estes momentos
históricos, também representam as datas de revoltas africanas na região de
Benguela. Nesse sentido, a saga, tal como a história da família Semedo é
contraposta à paralela história de resistência e revolta culminando com o fim da
guerra da libertação e a subsequente luta pelo poder entre os três movimentos
nacionalistas.” (28) A estátua Yaka simboliza também esse Sonho porque corresponde
a uma Angola em construção cuja diversidade étnica e geográfica é representada pelas
diferentes partes do corpo da estátua e que correspondem afinal às partes-capítulos do
corpo do romance. Assim, o avanço do processo narrativo vai concorrendo para a
reunião das diferentes partes desse corpo humano e a sua reunião final num único corpo,
simboliza a reunião de todos os grupos étnicos, afinal o triunfo do Sonho-União do
corpo da nação Angolana sobre a desunião do pesadelo colonial e depois colonialista.
A vitória desse Sonho é evidente quando as Pernas-Nacionalistas Angolanas põem em
fuga as pernas-colonialistas. O corpo-Nação vence o corpo-colonial, dando lugar a um
final eufórico e onírico, que nem o espectro da guerra civil ou as dúvidas finais da
estátua Yaka conseguem abalar.

4.- DO SONHO À UTOPIA


A constatação do fracasso nacionalista dá lugar ao início do desencanto e ao
predomínio da Utopia sobre o Sonho em A Geração da Utopia. Neste romance,
Pepetela debruça-se sobre o processo político-histórico que presidiu à construção da
Nação através da descrição da acção de um grupo de estudantes angolanos em Lisboa e
o seu posterior percurso pessoal durante a luta armada e após a conquista da
independência. Ou seja, a Utopia corresponde não apenas ao desencanto, mas também à
traição do Sonho Nacionalista de que o personagem Aníbal é o símbolo por excelência
neste romance e de que o Comandante Sem Medo em Maiombe, aquele que não se via
a viver numa Angola independente, era já uma tímida antecipação. De facto, a Nação ou
a ficção dela, está criada, mas é uma realidade que não corresponde à Nação sonhada e
na qual não é possível reconhecer os princípios nacionalistas que alimentaram e
edificaram esse Sonho. O Sonho foi desvirtuado e traído pelo exercício real do poder,

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 9


pela guerra, pela fome, pela divisão étnica e territorial e pela dor. Por isso, nunca se
construiu o Estado de felicidade e como a sua realização parece uma hipótese remota, a
Utopia domina o Sonho inicial que se torna assim apenas Utópico e não exequível
porque remete para uma sociedade de homens ideais: “ Depois de tu saíres de
Portugal, a Marta disse-me que tu só tinhas dois caminhos, ou morrer na guerra, o
que seria o melhor para ti, diz Sara a Aníbal, ou desencantares-te. Adivinhou.
Porque perseguias um sonho utópico de revolução. Afinal desiludiste-te mesmo.”
(29). Na verdade, o Sonho está para os anos de luta e os primeiros anos da
independência, como a Utopia está para os posteriores anos de guerra e exercício
político. Note-se que ao longo do romance, a ideia de Estado predomina sobre a ideia de
Nação, denunciando assim o exercício dominador do poder político sobre os desejos e
as necessidades do povo-nação. O Sonho nacionalista foi traído por muitos dos seus
próprios mentores e por isso a geração de Aníbal que lutou por ele, se transforma numa
geração da Utopia, ultrapassada pelas circunstâncias históricas e as limitações humanas,
apesar do final do romance apontar para uma esperança de paz e democratização, que
afinal também não triunfou: “ Isso da Utopia é verdade. Costumo pensar, diz Aníbal,
que a nossa geração se devia chamar da Utopia. (...) Pensávamos que íamos
conseguir construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem previlégios, sem
perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos,
em suma. (...) E depois... tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se
chegar ao poder. Quando as pessoas perceberam que mais cedo ou mais tarde era
inevitável chegarem ao poder. (...) A Utopia morreu.” (30) A morte dessa Utopia
pela sua desconstrução e interrogação de alguns dos princípios nacionalistas nos quais
se baseou a construção da nação vão dominar a intriga das duas novelas seguintes de
Pepetela, O desejo de Kianda e A Parábola do Cágado Velho.

5.- DA UTOPIA À DESCONSTRUÇÃO DA UTOPIA


Dominado por um enorme desencanto, em O Desejo de Kianda, uma vez morta a
Utopia inicial, todo o discurso narrativo, construído a partir de múltiplos sentidos
simbólicos, concorre para a alegoria final da desconstrução da Utopia.
Fundamentalmente, o que caracteriza essa desconstrução não é apenas a constatação de
uma degradação material e moral generalizada, marcada por um tempo de guerra

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 10


permanente, mas também e sobretudo pela reivindicação de novos modelos políticos: “
A guerra estava mais forte do que nunca.” (31) Isto é, o Sonho de Kianda representa
um sentimento colectivo de desejo de reinventar e reconstruir a Nação à medida da
realidade humana e histórica africana de Angola. Trata-se da reivindicação do abandono
dos modelos políticos e ideológicos importados e da adopção de modelos próprios
africanos e sobretudo Angolanos. Para essa leitura simbólica nos remete, em primeiro
lugar, a queda progressiva dos edifícios de Kinaxixi, permitindo o regresso das águas da
lagoa original da sereia Kianda, espírito dos antepassados e sobre a qual se tinham sido
construídos o edifícios-coloniais que a Nação conservara após a independência.A água
reenvia-nos para a força criadora do seu significado simbólico, insinua uma espécie de
desejo de um baptismo colectivo, força que o Estado moribundo insiste em travar: “
Tinha sido contratada uma empresa estrangeira para drenar urgentemente a água
que saía da lagoa” (32) Finalmente é também para essa leitura reivindicativa que
aponta a nudez dos habitantes de Kinaxixi a que se juntam outros habitantes de Luanda.
A Nudez implica a destruição de toda a roupagem conceptual dos modelos nacionalistas
importados e que presidiram à construção da Nação: “ O mujimbo dizia que cada vez
mais refugiados habitantes do largo se vestiam apenas da sua nudez para
perambular pelas ruas de Kuanda. Sempre houve uns tipos, geralmente homens,
nus pelas ruas. Gente completamente cacimbada pelas dificuldades, que acabava
por entrar no mundo dos sonhos. Mas agora parecia haver uma taxa anormal de
gente entre os antigos moradores dos prédios do Kinaxixi (...) perante a reprovação
geral das pessoas bem pensantes.” (33) Correndo o risco de embarcar agora numa
Utopia pessoal, o escritor projecta para o Passado Tradicional a sua esperança da
construção de uma Nação reconstruída e renovada no futuro sonhado. Aliás, a ideia de
construção (representada pelo pedreiro português) e de desconstrução (queda dos
edifícios) domina toda a narrativa. É sobretudo importante notar que só a criança
Cassandra e depois o cego ouvem o canto de Kianda: a infância é o espaço do Sonho
por excelência, ao passo que a cegueira implica a capacidade de um olhar interior de
que a nação necessita.
A Parábola do Cágado Velho remete-nos novamente para uma narração alegórica
que encerra o preceito moral de reinventar a Nação a partir da esperança. Da Paz e do
Amor. Esta novela descreve a identidade caótica ingovernável em que a Nação Angola

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 11


se tornou, dominada por um estado de guerra fratícida permanente, simbolizado pelos
irmãos Luzolo e Kanda. Irmãos inseparáveis no início, tornam-se incondicionais
inimigos, degladiando-se em lados opostos de uma guerra que já perdeu todo o sentido
e regra. A desconstrução da Utopia é total porque na verdade a Nação já não existe.
Apenas existe a guerra e grupos humanos de comunidades rurais dispersas que fazem
prevalecer a sua força de vontade de sobreviver e de reinventar a cada instante o seu
Sonho Comunitário de Paz. Mais uma vez, a desconstrução da Utopia e a traição do
Sonho Nacionalista, aponta para a reinvenção da Nação traída pelo Estado-Calpe que
atraí e devora os jovens e os seus Sonhos, e criada a partir de modelos próprios de
vivência representados pela comunidade rural de Ulume. O Sonho da Nação sonhada
por Sem Medo, por Joel e por Aníbal foi traído pelos Homens e pelo seu apego ao
poder. Daí o desejo de Kianda e o Sonho de Ulume de reinventar a Nação à sua
dimensão africana. Desconstruindo a Utopia política, ambas as novelas terminam afinal
com o Sonho da reconstrução da Nação a partir da Utopia da Esperança de Kianda e da
Utopia do Amor reencontrado or Ulume pela sua Segunda esposa,Munazai, após a sua
traição e fuga para Calpe: “ Olhou para o céu e viu as estrelas aparecer. Tinha
também Muiza, a Vénus dos brancos, a mais linda de todas as estrelas. E Ulume, o
homem, sorriu para ela.” (34). Afinal o Mundo dos possíveis tem de partir do mundo
dos impossíveis e é feito de uma permanente construção e desconstrução. A verdade é
que enquanto há Sonho há Esperança, embora o contrário também seja verdade, isto é,
enquanto há Esperança há Sonho, quer ele tome o nome de Sem Medo, de Yaka, de
Aníbal, de Ulume ou simplesmente de Kianda porque o novo Sonho tem
potencialidades para vencer o pesadelo do primeiro Sonho nacionalista traído ou
desapropriado: “ Por isso também não viu fitas de todas as cores do arco-íris saírem
do lugar da lagoa do Kinaxixi, percorrerem a vala cavada pelas águas, iluminando a
noite de Luanda, descerem a rua da Missão e a calçada que levava à Marginal e
continuarem por esta, ultrapassarem o Baleizão, com as águas que formavam
gigantesca onda inundando toda a Avenida e indo chocar em baixo da Fortaleza
contra a antiga ponte que os portugueses encheram de entulho e pedras e cimento,
fazendo a Ilha deixar de ser ilha para ficar península, ligada ao continente por esse
istmo de pedras e cimento contra o qual vinham fitas de todas as cores, e derrubaram
o istmo, se misturando as águas que vinham da lagoa com as águas do mar e as cores

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 12


vivas se espalhando a caminho da Corimba, agora que a Ilha de Luanda voltava a ser
ilha e Kianda ganhava o alto mar, finalmente livre.” (35).

(1)Citado por Leela GHANDI,Postcolonial Theory - a critical introduction (Sydney:


Allen & Unwin, 1998), pág. 103.
(2) Id., Ibid., pág. 102.
(3) Id., Ibid., pág. 114.
(4) Id., Ibid., 114.
(5) Martin BERNAL, “ Aryan Model of Greek Origins” In Nations, Identities, Cultures,
Edited by V.Y. Mudimbe (Durhan: The South Atlantic Quarterly, 1995), pág. 1000.
(6) Armand TOUATI, La Nation la fin d’une illusion? (Paris: Delée de Brouwer, 2000),
pp.19-20.
(7) Leela GHANDI, Obra Citada, pág. 105.
(8) Martin BERNAL, Obra Citada., pág. 1001.
(9) Homi K. BHABHA, Nation and Narration (London: Routledge, 1990), pág. 45.
(10) Citado por Homi K. BHAHBHA, Obra Citada, pág. 57.
(11) Benedict ANDERSEN, Imagined Communities – Reflections on the origin and
spread of nationalism (Norfolk: Verso Editions and NLB, 1986), pág. 15.
(12) Raymond WILLIAMS citado por Homi K. BHABHA, Obra Citada, pág. 45.
(13) Benedict ANDERSEN, Oba Citada., pp. 15 e 16.
(14)Alexandre FRANCO DE SÁ, “ Ainda haverá lugar?” In REVISTA LER, Inverno
2000, número 48 (Lisboa: Círculo de Leitores, 2000), pág. 54.
(15) Leela GHANDI., Obra Citada, pp.111-112.
(16) KOHN citado por Homi K. Bhabha, Obra Citada, pág. 59.
(17) Homi K. BHABHA., Obra Citada., pág. 48.
(18)Alexandre FRANCO DE SÁ, Artigo citado, pág. 54.
(19)Homi K. BHAHBHA, Obra Citada., pág. 49.
(20) Homi K. BHABHA, Obra Citada., pp. 46-47.
(21)Edward SAID citado por Homi K. BHABHA, pág. 44.
(22) Michel LABAN, Angola, encontro com os escritores (Porto: Fundação Engenheiro
António Almeida, 1992, II Volume) pág. 771.
(23) Id., Ibid., pág. 775.
(24) Inocência MATA, “ Pepetela por Inocência Mata” In CAMÕES, Revista de Letras
e Culturas Lusófonas, nº. 6 (Lisboa: Instituto Camões, Junho/Julho, 1999), pág. 114.
(25) PEPEPTELA, Yaka (Lisboa: D. Quixote, 1998, 4ª. Edição), pág. 338.
(26) PEPETELA, A Geração da Utopia (Lisboa: D. Quixote, 1992), pág. 296.
(27) PEPETELA, Maiombe (Lisboa: Edições 70, 1998, 2ª. Edição), pág. 281.
(28) Phylis Anne REISMAN, National Literary Identity in Contemporary Angolan
Prose Fiction (Minnesota: University of Minnesota, 1986), pp. 179-180. Tradução
nossa.
(29) PEPETELA, A Geração da Utopia (Lisboa: D. Quixote, 1992), pág. 202.
(30) Sic., Id., Ibid., pág. 202.
(31) PEPETELA, O Desejo de Kianda (Lisboa: D. Quixote, 1995), pág. 99.
(32) Id., Ibid., pág. 107.

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 13


(33) Id., Ibid., pp.108-109.
(34) Id., A Parábola do Cágado Velho (Lisboa: D. Quixote, 1996), pág. 180.
(35) Id., O Desejo de Kianda (Lisboa: D. Quixote, 1995), pág. 119.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------
-----------------------------------
BIBLIOGRAFIA
I.- Textos Teóricos
1.- ANDERSEN, Benedict, Imagined Communities – Reflections on the origin and
spread of nationalism, Norfolk, Verso Editions and NLB, 1986.
2.- ASHCROFT, Bill, GRIFFITHS, Gareth, TIFFIN, Helen, Keu Concepts in Post-
Colonial Studies, London and New York, Routledge, 1998.
3.- BERNAL, Martin, “ Aryan Model of Greek Origins”, Nations, Identities, Cultures,
Edited by V.Y. Mudimbe, Durhan, The South Atlantic Quarterly, 1995.
4.- BHABHA, Homi K., Nation and Narration, London, Routledge, 1990.
5.- FRANCO DE SÁ, Alexandre, “ Ainda haaverá lugar?”, Revista LER, Inverno 2000,
Número 48, Lisboa, Círculo de Leitores, 2000.
6.-GANDHI, Leela, Postcolonial Theory – a critical Introduction, Sydney, Allen &
Unwin, 1998.
7.- LABAN, Michel, Angola, encontro com os escritores, Porto, Fundação Engenheiro
António Almeida, 1992, II Volume.
8.- MATA, Inocência, “ Pepetela por Inocência Mata”, CAMÕES, Revista de Letras e
Culturas Lusófonas, Nº. 6, Lisboa, Instituto Camões, junho/Julho, 1999.
9.- REISMAN, Phylis Anne,National Literary Identity in Contemporary Angolan Prose
Fiction, Minnesota, University of Minnesota, 1986.
10.- TOUATI, Armand, La Nation la fin d’une illusion?, Paris, Delée de Brouwer,
2000.
II.- Textos Literários
1.- PEPETELA, A Geração da Utopia, Lisboa, D. Quixote, 1992.
2.- PEPETELA, A Parábola do Cágado Velho, Lisboa, D. Quixote, 1996.
3.- PEPETELA, YAKA, Lisboa, D. Quixote, 1998, 4ª. Edição.
4.- PEPETELA, Maiombe, Lisboa, Edições 70, 1988, 2ª. Edição.
5.- PEPETELA, O Desejo de Kianda, Lisboa, D. Quixote, 1995.

IV CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LITERATURA COMPARADA 14

Você também pode gostar