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CENTRO UNIVERSITÁRIO CURITIBA FACULDADE DE DIREITO DE CURITIBA

DENIS BUHRER PEDROSO

O USUCAPIÃO

CURITIBA

2013

DENIS BUHRER PEDROSO

O USUCAPIÃO

Trabalho de Graduação apresentado como requisito parcial à aprovação em Processo Civil IV, do Centro Universitário Curitiba.

Orientador: Prof. Dr. Ruy Alves Henriques Filho.

CURITIBA

2013

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

4

2

HISTÓRICO E CONSIDERAÇÕES

5

2.1

HISTÓRICO

5

2.2

CONSIDERAÇÕES

5

3

MODALIDADES

12

  • 3.1 EXTRAORDINÁRIO

USUCAPIÃO

13

  • 3.2 ..................................................................................

USUCAPIÃO

ORDINÁRIO

17

USUCAPIÃO

  • 3.3 ESPECIAL OU CONSTITUCIONAL

20

  • 3.4 ....................................................................................

USUCAPIÃO

COLETIVO

24

4

A AÇÃO DE USUCAPIÃO

28

4.1

LEGITIMIDADE

29

4.2

COMPETÊNCIA

32

4.3

PROCEDIMENTO

33

4.4

SENTENÇA

35

5

CONCLUSÃO

38

4

1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho faremos a análise do instituto do usucapião, que segundo Marinoni é a forma originária de aquisição da propriedade, que se dá em razão da posse, mansa e pacífica, sobre o bem, por determinado lapso temporal. A forma de pesquisa realizada é a bibliográfica, sendo objetivo do trabalho fazer uma análise de instituto do usucapião. Iniciamos o trabalho com um breve histórico do instituto do usucapião, desde os tempo de Justiniano onde se demonstrará ter surgido o instituto como o conhecemos. Sequencialmente faremos uma rápida conceituação do usucapião, discorrendo sobre a posse, o tempo, destinação e os seus requisitos. Posteriormente analisaremos as modalidades do usucapião, demonstrando sua previsão legal, fundamentos, objetivos e peculiaridades de cada modalidade de usucapião analisada. Sendo apresentado quatro modalidades de usucapião as quais serão devidamente explicitadas. Abordaremos ainda a ação de usucapião, denotando-se sua eficácia, os ritos que se aplicam as modalidades, legitimidade para ingressar com o usucapião, competência para julgar, procedimento específico e finalmente discorreremos sobre a sentença da usucapião.

5

2 HISTÓRICO E CONSIDERAÇÕES

  • 2.1 HISTÓRICO

Podemos observar no direito de Justiniano, o usucapião resultou da fusão de dois institutos de mesma categoria, mas com campos diferentes de atuação, a usucapio e a longi temporis praescriptio. Usucapio deriva de capere (tomar) e de usus (uso). Tomar pelo uso. O significado original era de posse. A Lei das XII Tábuas estabeleceu que aquele possuísse por dois anos um imóvel ou por um ano um móvel tornar-se-ia dono. Era maneira de adquirir no ius civile, assim destinada aos cidadãos romanos. A chamada praescriptio, desta forma denominada porque vinha no cabeçalho de uma fórmula, era categoria de exceção, tipo de defesa, surgido posteriormente à usucapio, no Direito clássico. Aquele que possuísse um terreno por certo tempo poderia impedir qualquer ameaça ao seu domínio pela longi temporis praescriptio. Essa alegação podia ser usada tanto por romanos como pelos estrangeiros. A prescrição era de 10 anos contra presentes (residentes na mesma cidade) e 20 anos entre ausentes (residentes em cidades diferentes). Nesse tempo clássico do Direito Romano, coexistiram ambos os institutos. No Direito pós-clássico, introduziu-se formato particular de usucapião, a longissimi temporis praescriptio, que seria similiar ao usucapião extraordinário atual. Nesse formato, quem possuísse por 40 anos, de boa-fé, mas sem justa causa, poderia resguardar-se com essa exceção. Esvanecendo a diferença entre terrenos itálicos e provinciais, os dois institutos surgem unificados no código de Justiniano, com nome de usucapião. Estabeleceram-se então os seguintes requisitos para o usucapião, mantidos na lei e na doutrina modernas: res habilis (coisa hábil), iusta causa (justa causa), bonafides (boa-fé), possessio (posse) e tempus (tempo). No código atual optou-se por tratar da prescrição extintiva na parte geral, disciplinando o usucapião no livro dos direitos reais, como forma de obtenção do domínio, destinada a móveis e imóveis. 1

  • 2.2 CONSIDERAÇÕES

1 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direitos reais. 8.ed. São Paulo: Atlas, 2008. p. 191.

6

A posse prolongada da coisa pode conduzir à aquisição da propriedade, se presentes determinados requisitos estabelecidos em lei. Assim, chama-se usucapião a maneira de adquirir o domínio mediante a posse prolongada e sob determinadas condições. 2 A noção de usucapião a quem socorremo-nos é de Caio Mário:

Daí podermos, reportando-nos aos civilistas como Lafayette, Beviláqua, Espínola, Mazeaud e Mazeaud, De Page, enunciar uma noção: Usucapião é a aquisição da propriedade ou outro direito real pelo decurso do tempo estabelecido e com a observância dos requisitos instituídos em lei. Mais simplificadamente, tendo em vista ser a posse que, no decurso do tempo e associada às outras exigências, se converte em domínio, podemos repetir, embora com a cautela de atentar para a circunstância de que não é qualquer posse senão a qualificada: Usucapião é a aquisição do domínio pela posse prolongada. 3

Decorre do acima descrito que usucapião é a aquisição da propriedade pelo transcorrer do tempo com a observância dos requisitos estabelecidos em lei. Sobre a tendência moderna do Usucapião Caio Mário:

A tendência moderna, contudo, de cunho nitidamente objetivo, considerando a função social da propriedade, há de inclinar-se no sentido de que por ele se prestigia quem trabalha o bem usucapido, reintegrando-o pela vontade e pela ação, no quadro dos valores efetivos de utilidade social, a que a prolongada inércia do precedente proprietário o condenará. Encarado o fenômeno aquisitivo do usucapião nos seus componentes básicos e constantes, destacam-se a posse e o tempo. 4

Nota-se no texto que modernamente o objetivo é privilegiar a função social da propriedade, tornando-se o usucapião uma pena para o dono inerte. Sendo componentes fundamentais a posse e o tempo. No mesmo sentido Venosa:

A possibilidade de a posse continuada gerar a propriedade justifica-se pelo sentido social e axiológico das coisas. Premia-se aquele que se utiliza utilmente do bem, em detrimento daquele que deixa escoar o tempo, sem dele utilizar-se ou não se insurgindo que outro o faça, como se dono fosse. Destarte, não haveria justiça em suprimir-se o uso e gozo de imóvel (ou

  • 2 VENOSA, 2008, p. 190.

  • 3 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Forense, 2009.p. 117.
    4

Ibid., p. 119.

direito civil. 20.ed. Rio

de Janeiro: Editora

7

móvel) de quem dele cuidou, produziu ou residiu por longo espaço de tempo, sem oposição. 5

Conforme o autor, a aquisição da propriedade pelo usucapião justifica-se pelo seu sentido social. Premiando-se quem utiliza bem a coisa em detrimento daquele que permanece inerte. A posse e o tempo concretizam uma situação fática que se estabelece independentemente do querer ou não querer do real proprietário. 6 Sobre a posse Caio Mário:

No primeiro plano está, pois, a posse. Não é qualquer posse, repetimos; não basta o comportamento exterior do agente em face da coisa, em atitude análoga à do proprietário; não é suficiente a gerar aquisição, que se patenteie a visibilidade do domínio. A Posse ad usucapionem, assim nas fontes como no direito moderno, há de ser rodeada de elementos, que nem por serem acidentais, deixam de ter a mais profunda significação, pois a lei a requer contínua, pacífica ou incontestada, por todo o tempo estipulado, e com intenção de dono. O possuidor não pode possuir a coisa a intervalos, intermitentemente, nem tê-la maculada de vícios ou defeitos (vi, clam aut precario), ainda que depois de iniciada venha a perder a falha de origem, pois é certo que o vício não se apaga pelo decurso do tempo: quod ab initio vitiosum est non potest tractu temporis convalescere. Requer-se, ainda, a ausência de contestação à posse, não para significar que ninguém possa ter dúvida sobre a conditio do possuidor, ou ninguém possa pô-la em dúvida, mas para assentar que a contestação a que se alude é a de quem tenha legítimo interesse, ou seja, da parte do proprietário contra quem se visa a usucapir. A posse ad usucapionem é aquela que se exerce com intenção de dono - cum animo domini. Este requisito psíquico de tal maneira se integrará na posse, que adquire tônus de essencialidade. De início, afasta-se a mera detenção, pois, conforme visto acima não se confunde ela com a posse, uma vez que lhe falta a vontade de tê-la. E exclui, igualmente, toda posse que não se faça acompanhar da intenção de ter a coisa para si - animus rem sibi habendi, como por exemplo a posse direta do locatário, do usufrutuário, do credor pignoratício, que, tendo embora o ius possidendi, que os habilita a invocar os interditos para defesa de sua situação de possuidores contra terceiros e até contra o possuidor indireto (proprietário), não têm nem podem ter a faculdade de usucapir. E é óbvio, pois aquele que possui com base num título que o obriga a restituir desfruta de uma situação incompatível com a aquisição da coisa para si mesmo. Completando lhe a qualificação é que se impõe o requisito anímico, que reside na intenção de dono: possuir cum animo domini.

7

Denota-se do citado que não é qualquer posse que protege o usucapião, mas a posse ad usucapionem, ou seja, a posse com animo de dono. Excluindo-se a detenção e as outras formas de posse.

  • 5 VENOSA, op. cit., p. 192.
    6 RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de Usucapião. São Paulo: Saraiva, 1992. p. 161.

  • 7 PEREIRA, loc. cit.

8

Prossegue discorrendo sobre a posse Caio Mário:

Acessão da posse. Não se exige que, pelo tempo necessário, a coisa seja possuída pela mesma pessoa. Permite a lei que o prescribente faça juntar à sua a posse do seu antecessor - accessio possessionis, observando-se que: a) na sucessão a título universal, dá-se sempre a acessão; b) na que se realiza a título singular, o usucapiente pode fazer a junção, contanto que sejam ambas aptas a gerar o usucapião. Destarte, a posse do antecessor não acede à do usucapiente se era de má-fé; nem ocorre a accessio temporis se o atual possuidor não é sucessor do antigo. 8

Segundo o autor a coisa não precisa necessariamente ser possuída pela mesma pessoa, pode ocorrer a acessão da posse, quando um sucessor alega o usucapião, com base em posse que lhe foi sucedida. Com relação ao tempo Caio Mário:

O tempo. A posse há de durar, para que se converta em propriedade, isto é, para que se realize a aquisição por usucapião, toma-se necessário que à posse venha associado o fator tempo - continuatio possessionis. A resposta à eventual pergunta - qual o tempo necessário para usucapir? não pode, contudo, ser dada peremptória e singularmente. É um problema de política legislativa, que se resolve diferentemente nos diversos sistemas jurídicos, e até num mesmo sistema jurídico varia com o tempo. Assim é que o Direito Romano a princípio admitira a aquisição por usucapião até de dois anos (Lei das XII Tábuas) e mais tarde exigia 10 e 20 anos (Codificação Justinianéia do século VI). Alguns sistemas jurídicos disciplinam o usucapião de dois anos para os móveis e o elevam a trinta para os imóveis. O direito brasileiro adota variegados prazos. A fim de não tumultuar a exposição, trataremos da duração da posse como elemento essencial do usucapião, tendo em vista cada uma das três espécies: usucapião extraordinário, ordinário e especial. E em parágrafo final aludimos às disposições da Constituição de 1988.

9

Conforme extrai-se do citado, a posse há de vir acompanhada do fator tempo, e o tempo necessário para aquisição da propriedade, depende da modalidade que se aplica do usucapião. A destinação do Usucapião pode ser para móveis ou imóveis porém é evidente a maior importância para os imóveis, assim Venosa:

Embora destinado a móveis e imóveis, é evidente a maior importância econômica e social dos imóveis. Tendo sob orientação esses princípios, nossa legislação mais recente permite prazos menores do que os estabelecidos originalmente no Código Civil para certas modalidades de usucapião, como examinaremos. Nesse diapasão, o usucapião tem o condão de transformar a situação do fato da posse, sempre suscetível a

  • 8 PEREIRA, 2009, p.120.
    9 PEREIRA, loc. cit.

9

vicissitudes, em propriedade, situação jurídica definida. Nesse sentido, também se coloca a prescrição extintiva que procura dar estabilidade à relação jurídica pendente. Desse modo, justifica-se a perda da coisa pelo proprietário em favor do possuidor. O usucapião deve ser considerado modalidade originária de aquisição, porque o usucapiente constitui direito à parte, independentemente de qualquer relação jurídica com anterior proprietário. Irrelevante ademais houvesse ou não existido anteriormente um proprietário. 10

Decorre do texto que a modalidade mais importante de usucapião é a de aquisição de bens imóveis. Sobre o usucapião Marinoni:

Trata-se de forma originária de aquisição, o que vale dizer que eventuais vícios existentes sobre a cadeia dominial do bem, anteriores à aquisição, não se transmitem para o novo proprietário. Não só os bens imóveis são sujeitos a essa forma de aquisição de propriedade. Também bens móveis e até mesmo bens incorpóreos podem ser adquiridos por usucapião (a exemplo de linhas telefônicas). Aliás, o art. 941 do CPC é expresso em estender o rito de usucapião descrito no Código também às servidões prediais. 11

Conclui-se do texto que o usucapião é forma originária de aquisição de propriedade. Sendo sujeitos desta forma de aquisição bens móveis e imóveis. Segundo Marinoni, seriam três pressupostos essenciais para o usucapião:

idoneidade do bem; a posse mansa, pacífica e contínua; e a duração da posse por determinado lapso temporal. Sobre a idoneidade do bem, Marinoni:

  • a) a idoneidade do bem a sujeitar-se à usucapião. O bem desejado precisa

estar sujeito a esta forma de aquisição de propriedade. Como visto, os bens

públicos e os pertencentes às comunidades indígenas não são passíveis de usucapião; 12

Decorre do citado que o bem deve ser passível de usucapião. A respeito da posse mansa, pacífica e contínua, Marinoni:

  • b) a posse mansa, pacífica e contínua. Posse mansa e pacífica é aquela

exercida sem que haja contestação ou oposição por outra pessoa, seja do

proprietário, seja de terceiro. Essa ausência de impugnação é que oferece a

  • 10 VENOSA, 2008, p. 192.

  • 11 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Curso de Processo Civil: Procedimentos Especiais. 2.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. p. 118.
    12 Ibid., p. 119.

10

condição essencial para que o sujeito se tenha por proprietário da coisa e aja em relação a ela como se proprietário fosse. Aí reside a essência da usucapião: a situação de que alguém se mantém na posse de um bem, agindo em relação a este como se fora proprietário, por longo período de tempo, sem ser contestado por outrem, faz presumir seja ele o titular da coisa, legitimando-o a buscar o título de domínio.

13

Extrai-se do texto citado que a posse deve ser exercida sem que haja oposição por outra pessoa. A falta de impugnação ensejará condição para que possuidor aja como se dono fosse e com esta intenção. Sobre da duração da posse, Marinoni descreve:

  • c) a duração da posse por determinado lapso temporal. O terceiro, mas não

menos importante, requisito para a usucapião, é a permanência da posse por certo período de tempo. Esse período varia conforme a espécie de usucapião em questão. Será de quinze anos, na usucapião extraordinária, podendo o prazo ser reduzido para dez, se o interessado tiver estabelecido no imóvel sua morada habitual ou se tiver realizado nele obras ou serviços de caráter produtivo (art. 1.238, e seu parágrafo único, do CC/2002). Para a usucapião ordinária, o prazo será de dez anos, podendo reduzir-se para cinco anos, se o imóvel "houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelada posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico" (art. 1.242 e seu parágrafo único, do CC/2002). Na usucapião constitucional urbana (art. 183 da CF) e na rural (art. 191 da CF), o prazo é de cinco anos. Para esta forma de usucapião, porém, não se admite - ao contrário do que sucede com as

demais - a somatória de posses para completar o prazo de cinco anos. É que, em se tratando de exceção constitucional, tendente a beneficiar pessoas que não possuem imóveis e que pretendam fixar definitivamente seu domicílio naquele lugar, é preciso que a própria pessoa haja residido ali pelo tempo necessário, e se mantenha nessa condição no início do processo de usucapião, somente se permitindo a transmissão da posse por direito hereditário (art. 1.207 do CC/2002 e art. 9.°, § 3.°, da Lei 10.257/2001). 14

Depreende-se do citado que o tempo é requisito para o usucapião e poderá variar conforme a modalidade de usucapião que se argui. E os requisitos acidentais, aqueles que podem acelerar o período necessário para a aquisição da propriedade do bem, gerando a chamada usucapião ordinária, são conforme Marinoni:

  • a) justo título. Esse requisito equivale à aparência de regularidade do título

portado pelo possuidor. Impõe-se ao requerente, que demonstre que possui título de direito, que autorize a "ocupação putativa" do bem. Vale dizer que, na usucapião ordinária, deve o interessado demonstrar que ostenta título

  • 13 MARINONI, loc.cit.

  • 14 MARINONI, loc.cit.

11

que assemelha legalidade, ainda que, substancialmente, contenha defeitos

capazes de inviabilizar seu registro ou que tenha provindo de quem não era o efetivo proprietário (embora pudesse ser tomado como tal);

  • b) boa-fé. A boa-fé implica a suposição de regularidade na aquisição e na

manutenção da posse como se fora proprietário. Também, então, se exige que o requerente demonstre que mantém a posse em boa-fé, acreditando ser o titular do imóvel. 15

Extrai-se do citado que o justo título é título que ostenta o usucapiente que requer a usucapião ordinária. E a boa-fé é aquele possuir que acredita ser o real titular do imóvel, e também é necessária. E quanto aos requisitos específicos para certas modalidades de usucapião, tem-se necessário os seguintes requisitos, assim Marinoni:

  • a) para a usucapião constitucional urbana, a demonstração de que a área a

ser usucapida não tem mais do que duzentos e cinquenta metros quadrados

e de que é utilizada para a moradia do requerente ou de sua família. Ainda se exige que o interessado não tenha usufruído desse benefício anteriormente, jamais tendo adquirido outro imóvel por essa mesma via (art. 183 da CF).

  • b) para a usucapião constitucional rural, a prova de que o interessado não é

titular de outro imóvel rural ou urbano, de que a área rural não supera

cinquenta hectares, de que ela é produtiva por seu trabalho ou de sua família, e de que constitui sua morada (art. 191 da CF). 16

Segundo o ator a usucapião urbana constitucional é para área não maior que

250 m 2 que sirva para moradia do requerente ou de sua família. Já a usucapião

constitucional rural serve para área rural que não supere cinquenta hectares e que

seja para produção sua ou de sua família.

No título seguinte abordaremos mais especificamente as modalidades de

usucapião existentes em nosso direito pátrio.

  • 15 MARINONI, 2009, p. 120.
    16 MARINONI, loc.cit.

12

3 MODALIDADES

O Código atual denota sentido social à propriedade. A usucapião é o instrumento mais eficaz para atribuir moradia ou a utilização da terra. Aliando-se a isso a orientação da Constituição de 1988, que realça o instituto e descreve algumas modalidades do instituto. Assim, a ideia básica no presente código é de que as modalidades de usucapião encontram-se no tempo do período de aquisição, mais ou menos longo. A respeito das várias formas de usucapião observamos a doutrina de Marinoni:

O direito nacional conhece várias formas de usucapião, classificadas em razão dos requisitos existentes para a sua caracterização. Na legislação civil comum, encontram-se basicamente duas formas de usucapião, a ordinária e a extraordinária. A primeira é tratada pelo art. 1.242 do CC/2002 e se caracteriza pelo menor lapso temporal exigido para a aquisição da propriedade, que decorre da necessidade de comprovação de justo título e de boa-fé, por parte do interessado. Já a segunda, regulada pelo art. 1.238 do mesmo Código exige maior tempo de posse, mas, em compensação, dispensa os requisitos do justo título e de boa-fé.

17

Entende-se do texto que temos na legislação civil duas modalidades o usucapião ordinário e o extraordinário. A primeira é tratada pelo art. 1.242 do CC/2002 e a segunda, regulada pelo art. 1.238 do mesmo Código. Ainda conforme Marinoni:

Além dessas duas formas de usucapião, encontram-se outras modalidades do instituto em legislação extravagante - a exemplo da usucapião indígena (art. 33 da Lei 6.001/1973) e da usucapião coletiva (art. 10 da Lei 10.257/2001) - e mesmo no texto constitucional- como ocorre com a usucapião urbana, prevista no art. 183 da CF e regulada pelo art. 1.240 do CC/2002, e com a usucapião rural, tratada pelo art. 191 da CF e disciplinada pelo art. 1.239 do CC/2002. Cada uma dessas formas de usucapião regula-se por requisitos próprios, embora utilize o mesmo procedimento judicial para seu reconhecimento.

18

Entendemos do texto citado que temos outras modalidades do instituto em legislação extravagante como a usucapião indígena (art. 33 da Lei 6.001/1973) e da usucapião coletiva (art. 10 da Lei 10.257/2001) - e também no texto

  • 17 MARINONI, 2009, p. 118.
    18 MARINONI, loc.cit.

13

constitucional- como a usucapião urbana, do art. 183 da CF e regulada pelo art. 1.240 do CC/2002, e a usucapião rural, do art. 191 da CF e disciplinada pelo art. 1.239 do CC/2002.

3.1 USUCAPIÃO EXTRAORDINÁRIO

A primeira modalidade a ser analisada encontra-se no art. 1.238 do nosso Código Civil:

Art. 1.238. Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença, a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis. Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo. 19

Tratando a respeito do usucapião extraordinário Venosa:

O usucapião extraordinário, de quinze anos, tal como está descrito no caput, independe de título e boa-fé. Com isso se identifica com o usucapião extraordinário do antigo Código. No entanto, há modalidade de usucapião para aquisição do imóvel em dez anos disciplinado no parágrafo do dispositivo e que também independe de título e boa-fé. Desse modo, temos no mais recente diploma duas modalidades de usucapião extraordinário, com dois prazos diversos. Tal como se apresenta na dicção legal, o prazo do usucapião, que independe de título e boa-fé, fica reduzido a dez anos, possibilitando a aquisição da propriedade quando o possuidor houver estabelecido no imóvel sua moradia habitual ou quando nele houver realizado obras ou serviços de caráter produtivo. Esta última hipótese, por sua natureza, dirige-se para o imóvel rural, mas não exclui a aplicação também para o imóvel urbano. 20

Extrai-se do texto que a usucapião extraordinária tem prazo de quinze anos, independente de título e boa-fé. Porém, há modalidade de usucapião para aquisição do imóvel em dez anos disciplinado no parágrafo do art.1.238 e que também independe de título e boa-fé. Assim, no mais recente diploma, duas modalidades de usucapião extraordinário, e com dois prazos diferentes. O prazo do usucapião, que independe de título e boa-fé, fica reduzido a dez anos, possibilitando a aquisição da

  • 19 VENOSA, 2008. p 201.
    20 VENOSA, loc. cit.

14

propriedade quando o possuidor houver estabelecido no imóvel sua moradia habitual ou quando nele houver realizado obras ou serviços de caráter produtivo. Prossegue Venosa:

Sob esse atual diapasão, nessas situações é desnecessária a investigação subjetiva da boa-fé do possuidor no caso concreto, em qualquer caso. Em ambas as situações preponderará o aspecto objetivo do fato da posse, o corpus, ficando o aspecto subjetivo transladado da boa-fé para exclusivamente a análise da posse ad usucapionem. Portanto, ex radice, no exame de um lapso prescricional aquisitivo nos termos do descrito no parágrafo do artigo, o juiz deve examinar a utilização do imóvel e a intenção do usucapiente de lá se fazer presente para residir ou realizar obras de caráter produtivo. A modificação possui evidente caráter social ao ampliar a possibilidade de usucapião e dispensa o requisito da boa-fé. A perda da propriedade imóvel pelo antigo proprietário pelo usucapião, se houver, reside então, como é evidente, na sua inércia em recuperar a coisa, nesse período de dez anos. 21

Depreende-se do citado que nessas circunstâncias é desnecessária a investigação subjetiva da boa-fé do possuidor em qualquer hipótese. Em ambas as situações preponderará o aspecto objetivo da posse, o corpus, ficando o aspecto subjetivo excluído da boa-fé para exclusivamente a análise da posse ad usucapionem. Desta maneira, no exame do tempo decorrido para a usucapião extraordinária, o juiz deve examinar a utilização do imóvel e a intenção do usucapiente de lá se fazer presente para residir ou realizar obras de caráter produtivo. Sendo a perda da propriedade imóvel pelo antigo proprietário pelo usucapião, por sua inércia em recuperar a coisa, nesse período de dez anos. Tratando a respeito do usucapião extraordinário Caio Mário demonstra os requisitos para esta modalidade:

Em face do princípio vigente, cumpre determinar os requisitos do usucapião extraordinário, levando em consideração o disposto no art. 1.238:

A) Posse. A posse ad usucapionem há de ser pacífica, ininterrupta, e com intenção de dono.

22

Conforme o autor a posse deve ser pacífica, sem interrupções e com a intenção de dono. Prosseguindo Caio Mário:

21 VENOSA, loc. cit. 22 PEREIRA, 2009, p. 123.

15

B) Tempo. Tendo em vista a redação do art. 1.238, deverá estender-se por quinze anos contínuos, salvo se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo, quando o lapso de tempo exigido se reduz a dez anos. Não é imprescindível que o usucapiente exerça por si mesmo e por todo o tempo de sua duração os atos possessórios, tais como cultivo do terreno, presença do imóvel, conservação da coisa, pagamento de tributos, manutenção de tapumes, defesa contra vias de fato de terceiros, e outros. Consideram-se úteis e igualmente legítimos os atos praticados por intermédio de prepostos, agregados ou empregados. Também não se requer a continuidade da posse na mesma pessoa, o que a extensão do tempo naturalmente dificulta. Estabelece a lei que o sucessor una à sua a posse do antecessor - accessio possessionis. Mas, como ninguém pode, por si mesmo, ou por ato seu, mudar a causa ou título da posse, a acessão desta somente terá lugar, sendo ambas contínuas e pacíficas (art. 1.243 do Código Civil), com observância do princípio segundo o qual o sucessor universal continua de direito a posse do antecessor, ao passo que ao sucessor a título singular é facultado unir uma à outra (art. 1.207); facultado quer dizer, fica ao seu arbítrio postular ou não a acessão.
23

Extrai-se do texto que o tempo no usucapião extraordinário é de 15 anos, diminuindo-se esse prazo para 10 anos quando o possuidor estabelece no imóvel sua moradia ou nele realizando serviços de caráter produtivo. Ainda não se é requerido que a continuidade da posse seja de uma só pessoa, podendo o sucessor unir sua posse ao do antecessor. Ainda sobre os requisitos do usucapião extraordinário Caio Mário:

C) Justo título e boa-fé. No usucapião extraordinário não se exige que o possuidor seja munido de título justo e esteja de boa-fé. A linguagem legal (art. 550 do Código Civil de 1916) era já imperfeita, pois que a um e outra se referia para dizer "que se presumem". Como ao tempo observava Sá Pereira, não se trata de uma presunção, mas na verdade de uma dispensa. Ao contrário do usucapião ordinário em que o justo título e a boa-fé são requisitos, não se exigem. Se de presunção se tratasse, inquire o eminente civilista, seria ela "absoluta ou condicional"? Sendo absoluta, não se cogitaria mesmo dela, porque provada a posse e o tempo, vigoraria a "presunção", sem possibilidade de se ilidir. E se fosse relativa (por ele qualificada de condicional) a orientação legislativa estaria errada, porque o usucapião trintenário veio substituir o "imemorial" das Ordenações, em cuja incidência não se cogitava daqueles elementos acidentais. O que o legislador de 1916 em verdade pretendeu foi que tais condições se dispensassem. O seu princípio básico está, portanto, na valorização do trabalho humano. Aquele que por quinze anos tem como seu um imóvel, rural ou urbano, cultivando-o ou tratando-o, tomando-o útil à comunidade, não pode ser compelido a deixá-lo à instância de quem o abandonou sem consideração pela sua utilização econômica. Isso ficou ainda mais claro pela redução do lapso temporal exigido ao reconhecimento do usucapião, para dez anos, caso o possuidor faça do

23 PEREIRA, loc.cit.

16

imóvel sua moradia habitual ou nele realize obras ou serviços de caráter produtivo. 24

Observa-se do citado que no usucapião extraordinário não se exige que o possuidor seja munido de título justo e esteja de boa-fé. O princípio básico está, na valorização do trabalho, pois quem por quinze anos tem como seu um imóvel, rural ou urbano, realizando obras ou serviços, tornando-o útil, não pode ser obrigado a deixá-lo para uma pessoa abandonou sem dar a devida utilização econômica. Ficando claro pela diminuição do prazo necessário para reconhecimento do usucapião, para dez anos, no caso do possuidor fazer do imóvel sua moradia habitual ou nele realize obras ou serviços de caráter produtivo. Continuando sobre os requisitos do usucapião extraordinário Caio Mário:

D) Sentença. O art. 1.238 alude à circunstância de poder o possuidor requerer ao juiz que declare a aquisição da propriedade. Daí, desde o Direito anterior, pretendeu-se erigir a sentença em elemento essencial. Mas, sem razão. Segundo a classificação consagrada, as ações, e, portanto, as sentenças, poderão ser constitutivas, declaratórias ou condenatórias. E, como do art. 1.238 se vê, a que se profere na ação do usucapião é declaratória. Como tal, o julgador limita-se, por ela, a declarar uma situação jurídica preexistente. Se, ao revés, a aquisição da propriedade dependesse da sentença, seria esta constitutiva. A distinção não é meramente bizantina, e já sofreu a jurisprudência sua repercussão prática na resposta à indagação se pode usucapião extraordinário ser oposto em ação reivindicatória, como defesa. Se a sentença fosse requisito essencial, o réu, não a tendo, ver-se-ia inibido de invocá-la. Não o sendo, como nitidamente não é, à pretensão do reivindicante o possuidor alega em defesa a aquisição por usucapião e, provando no correr da ação que lhe assistem os elementos básicos - posse e tempo - requer ao juiz que o declare. A postulação é lícita, de vez que a sentença na ação reivindicatória é dúplice, no sentido de valer como reconhecimento do direito de propriedade do réu, quando o autor dela decai sob este fundamento. 25

Nota-se do citado que no art. 1.238 se vê, que a sentença se profere na ação do usucapião é declaratória. Limitando-se o julgador, por ela, a declarar uma situação jurídica preexistente. Finalmente sobre os requisitos do usucapião extraordinário Caio Mário

E) Registro. A sentença declarando a aquisição da propriedade por usucapião constitui título que será levado ao registro imobiliário. Uma vez registrada esta, opera não apenas em relação a quem foi parte na lide ou integrou a equação processual (efeito da coisa julgada), como também

  • 24 PEREIRA, 2009, p. 124.
    25 PEREIRA, 2009, p. 125.

17

relativamente a terceiros (efeito erga omnes do direito real), e prova a propriedade em favor do adquirente (efeito específico do registro). 26

Extrai-se que a sentença declara a aquisição da propriedade e como título que é o usucapião deve ser levado a registro imobiliário, gerando efeitos com relação as partes que foram da lide, bem como para terceiros.

3.2 USUCAPIÃO ORDINÁRIO

O usucapião ordinário é disciplinado pelo art. 1.242 do Código Civil:

Art. 1.242. Adquire também a propriedade do imóvel aquele que, contínua e incontestadamente, com justo título e boa-fé, o possuir por dez anos.

Discorrendo sobre o usucapião ordinário Venosa:

Como se nota, trata-se aqui do mesmo prazo de dez anos do usucapião extraordinário do parágrafo único do art. 1.238. No entanto, como apontamos liminarmente, lá se cuida de usucapião extraordinário que dispensa o justo título e a boa-fé, mas que exige o requisito da moradia ou realização de serviços de caráter produtivo no local. No caso concreto, pode ocorrer que o usucapiente, ao requerer a aquisição da propriedade, o faça com fundamento no art. 1.242, mas, subsidiariamente, por preencher os requisitos do art. 1.238, peça que o juiz reconheça o usucapião extraordinário, se forem discutíveis a boa-fé ou o justo título.

27

Entende-se que diferentemente do usucapião extraordinário o ordinário exige o justo título e a boa-fé, porém o prazo é de dez anos. Ainda, contudo, há mais uma possibilidade de usucapião versada no parágrafo único do art. 1.242:

Parágrafo único. Será de cinco anos o prazo previsto neste artigo se o imóvel houver sido adquirido, onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório, cancelada posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido a sua moradia, ou realizado investimentos de interesse social e econômico.

Tradando sobre a hipótese do paragrafo único do art. 1.242 do código civil Venosa:

  • 26 Ibid., p. 126.

  • 27 VENOSA, 2008. p. 201.

18

Nessa situação, pode ocorrer que o interessado tivesse título anteriormente, o qual, por qualquer razão, fora cancelado: por irregularidade formal, por vício de vontade etc. A novel lei protege quem, nessa situação, mantém no imóvel a moradia ou realizou ali investimentos de interesse social e econômico. Protege-se o possuidor que atribui utilidade para coisa, em detrimento de terceiros. De qualquer forma, porém, a hipótese é de usucapião ordinário e mesmo sob as condições expostas não se dispensará o justo título e a boa-fé. Destarte, esse usucapião não pode beneficiar aquele que obteve o título com vício e o registrou, para poder ocupar o imóvel. Nessa premissa, ao ocupante restará aguardar o prazo do usucapião extraordinário.

28

Entende-se do citado que se o possuidor tivesse título anterior e por qualquer situação, este foi cancelado, a lei protege quem mantém a moradia neste imóvel ou realizou investimentos, protegendo o possuidor que atribuiu utilidade a coisa. Porém não é amparado por esta hipótese quem obteve o título com vício e o registrou para poder ocupar o imóvel. Tratando sobre os requisitos para o usucapião extraordinário Caio Mário:

  • A) Posse. É o principal, e a seu respeito nada temos a acrescentar ao que

foi antes examinado: o dispositivo alude à sua pacificidade e continuidade.

  • B) Tempo. O Código Civil de 1916 exigia o lapso de 10 anos entre

presentes ou 20 entre ausentes. A Lei n° 2.437, de 1955, reduziu para 15 anos (e foi esta a modificação única que trouxe) o prazo entre ausentes, mantendo o de 10 entre presentes. O Projeto de Código Civil (Orlando Gomes, Orosimbo Nonato e Caio Mário) reduziu para cinco e oito, respectivamente (art. 447). O Anteprojeto de 1972/73 abandona o critério da presença, que substitui pelo da morada seguida de investimentos de caráter social e econômico (art. 1.422), no que foi seguido pelo Projeto de 1975 (art. 1.242), afinal convertido em lei (Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002).

29

Extrai-se do texto que sobre a posse nada mais acrescentou o autor e o tempo é de dez anos. Continuando sobre os requisitos Caio Mário:

  • C) Justo título e boa-fé. Para que se opere a aquisição da propriedade por

usucapião ordinário, o interessado deverá apresentar justo título e demonstrar boa-fé. Para tal efeito, diz-se justo o título hábil em tese para a transferência do domínio, mas que não a tenha realizado na hipótese por padecer de algum defeito ou lhe faltar qualidade específica. A regra prática para aferi-lo seria considerar que o título há de ser tal que transferiria o domínio independentemente de outra qualquer providência, se viesse escorreito. Tem-se referido que o título justo deve revestir as formalidades exigidas e estar transcrito no registro imobiliário.14 Mas não nos parece que se possa levar ao extremo a exigência, pois que se destina o instituto do usucapião precisamente a consolidar tractu temporis a aquisição fundada

  • 28 Ibid., p. 202.

  • 29 PEREIRA, 2009, p. 126.

19

em título que apenas em tese era hábil a gerar a aquisição. A conceituação do justo título leva, pois, em consideração a faculdade abstrata de transferir a propriedade, e é neste sentido que se diz justo qualquer fato jurídico que tenha o poder em tese de efetuar a transmissão, embora na hipótese lhe faltem os requisitos para realizá-la. Assim, se a compra e venda, a doação, a arrematação, etc., transmitem a propriedade (em tese), constituem título justo para a aquisição per usucapionem no caso de ocorrer uma falha, um defeito, um vício formal ou intrínseco, que lhe retirem aquele efeito na hipótese. Inquinado, porém, de falha, não mais poderá ser atacado, porque o lapso de tempo decorrido expurgou-o da imperfeição, e consolidou a propriedade no adquirente. Boa-fé é a integração ética do justo título (Orosimbo Nonato, Virgílio de Sá Pereira) e reside na convicção de que o fenômeno jurídico gerou transferência da propriedade intimamente, a boa-fé assenta na convicção de não ofender o possuidor um direito alheio (Ruggiero e Maroi), ou no erro de entendimento do possuidor que, razoavelmente, se supõe proprietário. Como fator psíquico, não é elemento de demonstração direta. Daí recorrer- se, na sua comprovação, a uma inversão de conceitos, para determiná-lo como elemento negativo - ausência de má-fé - o que no terreno público significa que o possuidor com justo título considera-se de boa-fé, até que se prove o contrário - donec probetur contrarium. 30

Segundo o autor justo é o título hábil que transfere o domínio, mas que não a tenha realizado por padecer de algum defeito ou lhe faltar qualidade específica. Já a Boa-fé é a integração ética do justo título e esta na convicção de que o fenômeno jurídico gero transferência da propriedade intimamente, a boa-fé esta na certeza de que se esta a ofender o dono de direito alheio. Prosseguindo sobre os requisitos Caio Mário:

D) Sentença. Uma vez que o usucapiente assenta o seu direito no título preexistente, não necessita de tomar a iniciativa de obter, por sentença, a declaração relativa à aquisição da propriedade. Nada o impede de fazê-lo, tanto mais que o direito processual reconhece a existência da ação meramente declaratória (Código do Processo Civil, art. 4°), e, se o proprietário quiser apagar dúvidas e tomar límpido o seu direito, poderá ajuizá-la. Não será necessário, pois que já tem a sua situação jurídica definida no título, e desta sorte poderá guardar-se para arguir a aquisição por usucapião no caso de vir a ser molestado por uma pretensão de terceiro. Mas neste caso o título há de estar inscrito no registro imobiliário. 31

Conforme o autor como o usucapiente já tem seu direito sob um título preexistente, não seria necessário obter sentença para declarar sua aquisição sobre a propriedade. Sobre o registro Caio Mário:

  • 30 PEREIRA, loc. cit.

  • 31 PEREIRA, 2009, p. 128.

20

E) Registro. Estando o título aquisitivo registrado, constitui a prova da propriedade. Nada impede ao adquirente levar a registro a sentença que lhe consolida o domínio, para que fique constando em definitivo.

32

Segundo o autor estando o título devidamente registrado este já constitui prova da propriedade. Finamente Caio Mário:

F) Res habilis. Podem ser objeto de aquisição por usucapião ordinário todas as coisas in commercio. Quanto às coisas fora de, se é certo que os bens públicos, qualquer que seja a sua natureza, não podem ser adquiridos, certo é também que os bens tomados inalienáveis por ato humano (cláusula testamentária, condição aposta à doação) podem sê-lo, desde que militem em favor do usucapiente os requisitos básicos.

33

Entende-se do texto citado que podem ser objeto do usucapião ordinário todas as coisas que se pode comercializar.

3.3 USUCAPIÃO ESPECIAL OU CONSTITUCIONAL

A Constituição atual disciplina

o usucapião urbano

e

o

rural em

duas

disposições. O art. 183 refere-se expressamente a imóvel urbano no chamado usucapião especial pro misero:

Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. § 1 º O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil. § 2º Esse direito não será reconhecido ao mesmo possuidor por mais de uma vez. § 3º Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião.

O sentido social fica ressaltado no dispositivo, mantidos os princípios tradicionais do instituto, que também não se refere à boa-fé. O corrente Código Civil assume essa mesma redação no art. 1.240. Discorrendo sobre o usucapião constitucional urbano Mendes:

  • 32 PEREIRA, loc. cit.

  • 33 PEREIRA, loc. cit.

21

A Constituição estabeleceu que aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural (art. 183). Esse direito será reconhecido apenas uma vez e não incide sobre imóvel público (art. 183, §§ 22 e 32). O Supremo Tribunal teve oportunidade de afirmar que esse prazo haveria de contar-se, inicialmente, a partir da data da promulgação da Constituição, não tendo, por isso, efeito retrooperante. Em julgamento iniciado em 25 de maio de 2006, o Supremo Tribunal viu-se confrontado com a indagação sobre a aplicação desse usucapião especial a imóveis edificados. O relator, Ministro Marco Aurélio, sustentou a possibilidade do usucapião de imóvel urbano edificado (RE 305.416-RS). A matéria pende de definição em razão do pedido de vista do Ministro Carlos Britto. Afigura-se difícil, porém, excluir o imóvel edificado do âmbito de aplicação da norma de referência, diante do silêncio e da finalidade do texto constitucional. Se a norma constitucional tem em vista assegurar o usucapião de imóveis urbanos utilizados para moradia do ocupante ou de sua família, esses poderão consistir em imóveis não edificados ou em imóveis edificados. Não parece possível uma distinção hermenêutica que excepcione os imóveis edificados da incidência do usucapião. 34

Extrai-se do texto que aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, desde que a utilize com sua moradia, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja dono de outro imóvel urbano ou rural. Esse direito somente será reconhecido apenas uma vez e nunca incidindo sobre imóvel público. Ainda sobre o imóvel urbano edificado caberia também essa modalidade de usucapião. Para Venosa:

O usucapiente não poderá ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural, em qualquer local do território nacional. Essa prova negativa é de difícil realização na prática e dependerá, no mais das vezes, de simples declaração dos interessados. Essa dicção legal é restritiva e não se aplica a outros direitos reais: nada impede que o usucapiente seja, por exemplo, usufrutuário de outro bem imóvel. Outro requisito legal também é que o interessado não tenha sido beneficiado por usucapião dessa natureza anteriormente. Para evidenciar esse requisito, será necessária prova documental. 35

Entende-se do citado que o usucapiente não pode ser dono de outro imóvel urbano ou rural. Também outro requisito legal é de que o interessado não tenha sido beneficiado por usucapião dessa natureza anteriormente.

34 MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de direito constitucional. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p.

454.

35 VENOSA, 2008. p. 205.

22

Ainda sobre usucapião especial prossegue Venosa:

O Estatuto da Cidade também inova com acréscimo no dispositivo, pois se refere, no art. 9º, à área ou "edificação urbana" de até duzentos e cinquenta metros quadrados. A disposição constitucional não fala em edificação. Obedecendo ao limite da Constituição, a área do imóvel usucapiendo terá sempre como limite máximo os duzentos e cinquenta metros quadrados, ainda que a edificação seja menor. A Carta Federal refere-se à terra nua, sem edificação. Trata-se, como se vê, de imóvel urbano, não tendo nem mesmo o Estatuto da Cidade definido o que se entende como urbano. Há que se levar em conta o critério da localização, segundo a respectiva lei municipal. Para que seja possível a usucapião especial, portanto, mister se faz que o imóvel se encontre no perímetro urbano, ou, então, em área de expansão urbana ou de urbanização específica. 36

Conforme discorre o autor no caso de imóvel urbano, como nem mesmo o Estatuto da Cidade definiu o que seria como urbano. Tem que se levar em conta o critério da localização, segundo a respectiva lei municipal. Para que seja possível a usucapião especial, é necessário que o imóvel encontre-se no perímetro urbano, ou, em área de urbanização específica. Ainda sobre o usucapião especial Venosa:

A lei, declinando sua finalidade social, enfatiza, também, que esse usucapião é concedido em benefício da família, ao homem ou à mulher ou a ambos, independentemente do estado civil. 37

Conforme o autor essa modalidade de usucapião é concedido em proveito da família, sendo homem ou à mulher ou a ambos, independentemente do estado civil. Tratando das características do usucapião especial Caio Mário:

As características fundamentais desta categoria especial de usucapião baseiam-se no seu caráter social. Não basta que o usucapiente tenha a posse associada ao tempo. Requer-se, mais, que faça da gleba ocupada a sua morada e tome produtiva pelo seu trabalho ou seu cultivo direto, garantindo desta sorte a subsistência da família, e concorrendo para o progresso social e econômico. Se o fundamento ético do usucapião tradicional é o trabalho, como nos parágrafos anteriores deixamos assentado, maior ênfase encontra o esforço humano como elemento aquisitivo nesta modalidade especial. 38

  • 36 VENOSA, loc. cit ..

  • 37 VENOSA, 2008, p. 203.
    38 PEREIRA, 2009, p. 130.

23

Entende-se do citado que esta modalidade de usucapião esta baseada no caráter social, não somente ao caráter do tempo, é necessário que a terra seja ocupada para moradia e seu produtiva para o seu desenvolvimento. Da o autor ênfase ao esforço humano como elemento aquisitivo nesta modalidade especial. Tratando ainda do usucapião especial Caio Mário:

Quanto ao usucapião especial de imóvel rural, dispõe o art. 1.239 do Código que este se dará se o usucapiente não for proprietário de qualquer outro imóvel, urbano ou rural, possuindo como sua área de terra em zona rural não superior a 50 (cinquenta) hectares, tomando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia. 39

Já o usucapião especial rural é tratado no art. 191 da Constituição Federal:

Art. 191. Aquele que, não sendo proprietário de imóvel rural ou urbano, possua como seu, por cinco anos ininterruptos, sem oposição, área de terra, em zona rural, não superior a cinquenta hectares, tornando-a produtiva por seu trabalho ou de sua família, tendo nela sua moradia, adquirir-lhe-á a propriedade. Parágrafo único. Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião.

Sobre o usucapião constitucional rural Venosa:

A contagem do tempo deve iniciar-se com a vigência da Constituição. Se fosse admitida a contagem anterior à nova Carta, estaria prejudicado o proprietário que não houvesse interrompido a prescrição sob as normas do usucapião até então vigentes. Esse argumento parece-nos definitivo. No entanto, a jurisprudência mostra-se vacilante. Há julgados entendendo a norma constitucional de aplicação imediata (TJSP, Ap. 165.010-1/4, lª Câm., ReI. Desembargador Gomes de Amorim, com voto vencido, RT 690/73). O imóvel urbano é definido pela lei municipal no caso concreto. A lei refere-se à moradia no local. Essencial que exista, portanto, edificação no imóvel que sirva para moradia do usucapiente ou de sua família. Não existe exigência de justo título e boa-fé nessa modalidade, o que se aplica tanto ao usucapião especial urbano, assim como ao usucapião especial rural. O que leva alguém a apossar-se de imóvel para obter um teto é a ânsia da moradia, fenômeno social marcante nos centros urbanos. Por outro lado, há interesse do Estado de que terras produtivas permaneçam em mãos trabalhadoras e não com proprietário improdutivo. Há também o intuito de fixar a pessoa no campo. Daí a razão de denominar-se esse usucapião rural de pro labore. 40

Conforme o autor é necessário que exista, edificação no imóvel que sirva para moradia do usucapiente. Não existe, porém, exigência de justo título e boa-fé nessa

  • 39 Ibid., p. 131.

  • 40 VENOSA, 2008, p. 206.

24

modalidade, o que se aplica tanto ao usucapião especial urbano, assim como ao usucapião especial rural. Há ainda o interesse do Estado de que terras produtivas estejam em mãos de trabalhadores e não com proprietários improdutivos. Há também o intuito de fixar a pessoa no campo. De onde surge a razão de denominar- se, também, esse usucapião rural de pro labore.

3.4 USUCAPIÃO COLETIVO

O usucapião coletivo vem previsto nos Estatuto das Cidades do art. 9º:

Art. 9º Aquele que possuir como sua área ou edificação urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir- lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. § 1º O título de domínio será conferido ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil. § 2º O direito de que trata este artigo não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. § 3º Para os efeitos deste artigo, o herdeiro legítimo continua, de pleno direito, a posse de seu antecessor, desde que já resida no imóvel por ocasião da abertura da sucessão.

Ainda a respeito do usucapião coletivo Caio Mário:

O Estatuto da Cidade (Lei n° 10.257, de 10 de julho de 2001) dedicou à matéria os artigos 9° a 14, sendo de especial relevo a previsão do usucapião especial coletivo (art. 10), pelo qual "as áreas urbanas com mais de duzentos e cinquenta metros quadrados, ocupadas por população de baixa renda para sua moradia, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, onde não for possível identificar os terrenos ocupados por cada possuidor, são suscetíveis de serem usucapidos coletivamente, desde que os possuidores não sejam proprietários de outro imóvel urbano ou rural".

41

Depreende-se do texto que o estatuto das cidades tratou do usucapião coletivo. Versando sobre o usucapião coletivo Venosa:

Aquisição de propriedade de imóvel reivindicando (art. 1.228, § 4º, do atual Código) O Estatuto da Cidade introduz na legislação mais uma modalidade de usucapião no art. 10. O intuito da lei, como se nota, é atingir populações de baixa renda, embora

41 PEREIRA, 2009, p. 131.

25

a lei não diga o que se entende por baixa renda. A lei cria, portanto, modalidade de usucapião coletivo, atendendo à pressão social das ocupações urbanas. Possibilita que a coletividade regularize a ocupação, sem os entraves e o preço de uma ação individual de usucapião. Como já apontamos, a ocupação de terrenos sempre foi a modalidade mais utilizada pela população urbana. A lei exige que a área tenha mais de duzentos e cinquenta metros quadrados, com ocupação coletiva, sem identificação dos terrenos ocupados. Na prática, até que os terrenos podem ser identificados; ocorre que essa identificação mostra-se geralmente confusa ou inconveniente nesse emaranhado habitacional. Note também que a área deve ser particular, pois a Constituição da República é expressa em proibir o usucapião de terras públicas.

42

Extrai-se do citado texto que a intenção da lei, é alcançar as populações de baixa renda. A lei cria a modalidade usucapião coletivo, atendendo à demandas sociais de ocupações urbanas. Para o usucapião coletivo a lei exige que a área tenha mais de duzentos e cinquenta metros quadrados, com ocupação coletiva, sem identificação dos terrenos ocupados. Ainda tratando do usucapião coletivo Venosa prossegue:

Cumpre notar que esse dispositivo apresenta-se sob a mesma filosofia e em paralelo ao art. 1.228, § 4º, do atual Código Civil, referido no Capítulo 8, o qual admite que o proprietário pode ser privado do imóvel que reivindica, quando este consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico. Aqui não se menciona que o dispositivo dirige-se a pessoas de baixa renda. Geralmente o será. 43

Segundo o autor o dispositivo do estatuto das cidades vem em paralelo ao art. 1.228, § 4º, do atual Código Civil, que o proprietário pode ser privado do imóvel que reivindica, quando este consistir em extensa área, na posse ininterrupta e de boa-fé, por mais de cinco anos, de considerável número de pessoas, e estas nela houverem realizado, em conjunto ou separadamente, obras e serviços considerados pelo juiz de interesse social e econômico. Discorrendo sobre o usucapião coletivo Venosa continua:

Em ambas as situações encontramos a busca pelo sentido social da propriedade, sua utilização coletiva. Em ambas, há necessidade de posse ininterrupta por cinco anos. No primeiro caso de usucapião coletivo, os habitantes da área adiantam-se e pedem a declaração de propriedade. No

42

VENOSA, 2008, p. 207. 43 VENOSA, loc. cit.

26

segundo caso, eles são demandados em ação reivindicatória pelo proprietário e apresentam a posse e demais requisitos como matéria de defesa ou em reconvenção, nesta pedindo o domínio da área. Na situação enfocada do Código Civil, porém, a aquisição aproxima-se da desapropriação, pois, de acordo com o art. 1.228, § 5º, o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário; pago o preço, a sentença valerá como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores. Veja o que falamos anteriormente. Nessa situação, o Código Civil menciona que a ocupação deve ser de boa-fé, por mais de cinco anos. Haverá, sem dúvida, um procedimento custoso na execução, pois cada possuidor deverá pagar o preço referente a sua fração ideal do terreno, ou noutro critério de divisão que se estabelecer na sentença. Destarte, se o proprietário não desejar ter contra si uma ação de usucapião, deverá reivindicar área para lograr obter indenização. Observe que enquanto a disposição analisada do Código Civil aplica-se tanto a áreas rurais quanto urbanas, o usucapião coletivo da Lei n2 10.257/2001 aplica-se somente aos imóveis urbanos. No tocante ao direito intertemporal, quando, na hipótese do art. 1.228, § 42, a posse teve início antes da vigência do presente Código Civil, até dois anos após sua entrada em vigor, o prazo de cinco anos será acrescido de dois anos (art. 2.030 do atual Código Civil). 44

Nota-se do texto que o previsto no estatuto das cidades o usucapião coletivo, os habitantes da área adiantam-se e pedem a declaração de propriedade. Já no dispositivo art. 1.228, § 4º, do atual Código Civil, os possuidores são demandados em ação reivindicatória pelo proprietário e apresentam a posse e demais requisitos como matéria de defesa ou em reconvenção, nesta pedindo o domínio da área. E no último caso, a aquisição aproxima-se da desapropriação, pois, conforme o art. 1.228, § 5º, o juiz fixará a justa indenização devida ao proprietário; pago o preço, a sentença valerá como título para o registro do imóvel em nome dos possuidores. Prosseguindo Venosa:

No usucapião coletivo instituído pelo Estatuto da Cidade, a lei determina que o juiz atribuirá igual fração ideal do terreno a cada possuidor, independentemente da dimensão do terreno que cada um ocupe, salvo hipótese de acordo escrito entre os condôminos, estabelecendo frações ideais diferenciadas (art. 10, § 32). Essa modalidade de aquisição da propriedade é dirigida à população de baixa renda, como menciona a lei, embora esta não defina o que se entende por baixa renda. A definição ficará por conta do juiz no caso concreto. O Estatuto menciona também que pode haver soma de posses, para o prazo ser atingido, desde que ambas as posses sejam contínuas (art. 10, § 12).

45

Conforme o autor nessa modalidade de aquisição da propriedade, através do estatuto da cidade, é dirigida à população de baixa renda, e que o juiz atribuirá igual

44

Ibid, p. 208. 45 VENOSA, loc. cit.

27

fração ideal do terreno a cada possuidor, independentemente da dimensão do terreno que cada um ocupe. Finalmente Venosa:

Mesmo que a ação de usucapião coletivo tenha sido proposta por uma associação de moradores, como menciona a lei, há necessidade de identificá-los, pois de outro modo não há como se constituir o condomínio. Interessante apontar, como anotado, que a sentença que declarar o usucapião coletivo não identificará a área de cada possuidor, porque institui um condomínio indivisível. Quando se tratar de região urbanizada, porém, é conveniente que sejam descritas as vias públicas e logradouros. 46

Tem-se do texto citado que a ação de usucapião coletivo, por mais que tenha sido proposta por uma associação de moradores, haverá a necessidade de identificá-los, pois de outro modo não há como se constituir o condomínio.

46 VENOSA, loc. cit.

28

4 A AÇÃO DE USUCAPIÃO

A ação de usucapião é de eficácia declaratória, conforme o art. art. 1.241 do Código Civil. Reconhece-se a existência da aquisição da propriedade. Não se constitui a propriedade pela sentença. Vista essa declaratividade, permite-se que o usucapião possa ser alegado como matéria de defesa, para obstar ação reivindicatória. A sentença no usucapião tem efeito ex tunc. Somente a sentença pode declarar o usucapião; não havendo procedimento administrativo em nosso Direito. 47 Ao tratar da ação de usucapião Marinoni:

O rito especial, disciplinado pelo Código de Processo Civil, em seus arts. 941 e ss., é aplicável apenas à usucapião comum (ordinária e extraordinária), não sendo utilizável para as formas de usucapião constitucional. Para a usucapião constitucional de áreas urbanas, o regime aplicável será do procedimento sumário, previsto na parte geral do CPC (art. 14 da Lei 10.257/2001), e, para a usucapião constitucional de áreas rurais, permanece a disciplina da Lei 6.969/1981. Na realidade, pouca diferença existe entre os regimes, de modo que poderiam todas as formas de usucapião ser tratadas pelo mesmo procedimento, sem qualquer prejuízo. A evolução histórica de cada modalidade explica a previsão de regimes diferentes para cada uma delas. 48

Segundo o autor podemos concluir que o rito especial aplica-se apenas as modalidades de usucapião ordinário e extraordinário. Já para o usucapião constitucional urbano o regime é o sumário, e para o constitucional rural o regime é o da lei 6.969/81. Ainda tratando a ação de usucapião Marinoni prossegue:

De toda sorte, é bom salientar a natureza meramente declaratória da usucapião. Por outras palavras, não é pelo procedimento de usucapião que o interessado adquire a propriedade do bem em questão. A ação judicial se limita a certificar a anterior aquisição da propriedade - que se deu a partir do momento em que foram reunidos os requisitos para tanto. Daí porque é possível que, por outra via, possa o interessado obter semelhante providência. Assim, por exemplo, admite-se a alegação de usucapião como matéria de defesa. 49

  • 47 VENOSA, 2008, p. 210.
    48

MARINONI, 2009, p. 121.
49

MARINONI, loc. cit.

29

Entende-se do texto citado que é de natureza meramente declaratória a ação de usucapião. Noutras palavras, não é pelo procedimento de usucapião que o interessado adquire a propriedade da coisa. A ação judicial limita-se a certificar a anterior aquisição da propriedade. Sobreo regime da ação de usucapião especial, Venosa:

Para essas modalidades de usucapião, não havendo ainda regramento processual específico, a par da Lei nº 6.969/81, o processo era sempre o mesmo do CPC, arts. 941 a 945, que examinaremos a seguir. O Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001) determinou que o rito processual para o usucapião especial de imóvel urbano é o sumário. O mesmo se aplica ao usucapião coletivo.

50

Conforme o autor o

rito processual para o usucapião especial de imóvel

urbano é o sumário, o mesmo aplica-se ao usucapião coletivo.

4.1 LEGITIMIDADE

O autor deve ser titular do interesse que se contém na sua pretensão com relação ao réu. Logo são legitimados para agir, ativa e passivamente, os titulares dos interesses em conflito, ou, os titulares do direito material. 51 Tratando da legitimidade para postular a usucapião Marinoni:

Pode postular a usucapião o interessado - pessoa natural, jurídica ou formal - que esteja na posse do bem a ser adquirido.? Obviamente, não tem legitimidade para promover a usucapião aquele que detém a posse em nome alheio ou o mero detentor do bem. A ação de usucapião constitucional de imóveis urbanos, pode ainda o autor ser representado pela associação de moradores da comunidade, desde que regularmente constituída e com personalidade jurídica, e conquanto explicitamente autorizada para esse fim pelo interessado (art. 12, III, da Lei 10.257/2001). Embora a lei fale aí em substituição processual, vê-se, a toda evidência, que se trata de hipótese de representação processual, tanto que é necessária a autorização expressa do interessado para legitimar a associação à demanda.

52

Extrai-se do citado que nem todo possuidor da coisa pode ingressar com usucapião, não tem legitimidade aqueles que detém a posse em nome alheio ou o

  • 50 VENOSA, 2008, p. 207.
    51

SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. 27.ed. São Paulo:

Saraiva, 2010. p. 181.
52

MARINONI, 2009, p. 121.

30

mero detentor do bem. Pode ser legitimada a associação de moradores na usucapião coletiva, conforme a lei 10.257/2001, desde que expressamente autorizada para esse fim de substituição processual. Versando sobre o polo passivo prossegue Marinoni:

Quanto ao polo passivo, esse será formado, necessariamente, pela pessoa em cujo nome esteja registrado o bem, pelos confinantes e por seus respectivos cônjuges, se eles forem casados (art.10, § 1.0,I,do CPC). Se houver outra pessoa na posse atual do bem, ou se existirem outros compossuidores, também estes devem ser citados para a demanda. 53

Conforme o autor o polo passivo é necessariamente constituído pela pessoa cujo nome esteja registrado o bem, por seus cônjuges se forem casados e se houver outra pessoa na posse atual do bem. Sobre os eventuais interessados a serem citados Marinoni:

Segundo afirma o art. 942 do CPC, deverão ainda ser "citados" os eventuais interessados. Obviamente, há excesso na dicção legal. Na realidade, esses interessados não são citados, mas meramente comunicados para poderem deduzir suas eventuais objeções. Sequer se poderia cogitar aí de citação, já que esses interessados não são propriamente atingidos pela coisa julgada, o que demonstra não serem partes para o processo. Se não intervierem no feito, manterão sua condição de terceiros e seus eventuais direitos frente ao autor da demanda, não sendo atingidos pela imutabilidade da sentença aqui prolatada (art. 472 do CPC). Somente se esses terceiros vierem a participar do processo, apresentando alguma modalidade de manifestação (como a contestação), é que serão tomados como partes para a usucapião, passando a se sujeitar à força da coisa julgada. 54

Segundo o autor há excesso na lei. Na prática, esses interessados não são citados, mas somente comunicados para poderem deduzir suas eventuais objeções. Não se poderia cogitar aí de citação, já que esses interessados não são atingidos pela coisa julgada, o que os faz não serem partes do processo de usucapião. Tratando do usucapião coletivo Venosa:

Segundo o art. 11 do Estatuto, tanto para o usucapião individual, como para o coletivo, ficarão sobrestadas quaisquer outras ações petitórias ou possessórias, que venham a ser propostas relativamente ao imóvel usucapiendo. A lei reporta-se a ações futuras ("que venham a ser propostas"); estas ficarão sobrestadas. Não se sobrestarão, portanto, as ações já propostas, as quais podem ou devem, é evidente, receber

  • 53 Ibid., p. 122.

  • 54 MARINONI, loc. cit.

31

julgamento conjunto. Assim, se já proposta reivindicatória sobre a área, tratando-se de ocupação coletiva, pode ser conferida a solução do art. 1.228, § 4º. 55

Decorre do texto citado que ao ingressar-se com o usucapião, ficarão sobrestadas quaisquer outras ações petitórias ou possessórias, que venham a ser propostas relativamente ao imóvel usucapiendo. Reportando-se o texto legal a que venham a ser propostas, estas ficarão sobrestadas. Não serão sobrestadas, as ações já propostas. Discorrendo sobre a ação de usucapião especial urbano Venosa:

O art. 12 do Estatuto da Cidade dispõe sobre a legitimidade para a propositura da ação de usucapião especial urbana, referindo-se tanto ao usucapião individual (art. 9º) como ao usucapião coletivo (art. 10). Nessas premissas, atribui-se legitimidade:

I - ao possuidor, isoladamente ou em litisconsórcio originário ou superveniente; II - aos possuidores, em estado de composse; e III - à associação de moradores da comunidade regularmente constituída, como substituto processual, desde que devidamente autorizada pelos associados. O mesmo artigo dispõe sobre a participação obrigatória do Ministério Público nesses processos e concede assistência judiciária gratuita, inclusive perante o cartório de registro de imóveis. 56

Entende-se do texto que tem legitimidade para propor ação de usucapião especial urbano o possuidor, isolada ou coletivamente; os possuidores em composse e as associações de moradores de comunidade regularmente constituída agindo como substituto legal. Ainda trata o texto do participação obrigatória do Ministério Público nestes processos. Ainda discorrendo sobre a ação de usucapião especial urbano Venosa:

O dispositivo do art. 13 desse Estatuto é de grande importância: menciona que o usucapião especial de imóvel urbano pode ser alegado como matéria de defesa. Quanto a isso não há novidade, pois qualquer modalidade de prescrição aquisitiva pode ser invocada como matéria de defesa a fim de paralisar ação reivindicatória. O art. 13 acrescenta, porém, que a sentença que reconhecer essa aquisição por usucapião valerá como título para Registro no cartório imobiliário. Desse modo, sob tal premissa, não haverá necessidade de ação própria. Essa solução poderia ser estendida a todas as formas de usucapião, com pequenas alterações em seu procedimento. O art. 14 estabelece que o rito para o usucapião urbano é o sumário. Nesse aspecto, não creio que tenha havido aqui a melhor solução. Sempre que o

  • 55 VENOSA, 2008, p. 209.
    56 VENOSA, loc. cit.

32

processo sumário necessita de perícia, como é o caso do usucapião, sua principal vantagem, que é a celeridade, cai por terra. 57

Decorre do citado que

o usucapião especial

de imóvel

urbano pode ser

alegado como matéria de defesa. A sentença que reconhecer a aquisição por usucapião vale como título para Registro no cartório imobiliário.

4.2 COMPETÊNCIA

Competência é o poder de exercer a atividade jurisdicional nos limites

estabelecidos na lei, ou

ainda

é

o

âmbito dentro do qual

o

juiz pode

exercer a

jurisdição. 58 Sobre a competência da ação de usucapião Marinoni:

A ação de usucapião deverá ser ajuizada no local em que se situar o imóvel, exatamente por se tratar de ação que trata de direito real sobre bem imóvel (art. 95 do CPC). A competência, nesse caso, por envolver direito de propriedade, será absoluta e, portanto, improrrogável. Não se admite, portanto, para esses casos, que prevaleça possível foro de eleição ou juízo universal.

59

Segundo o autor a ação de usucapião deverá ser ajuizada no local em que se situar o imóvel, por se tratar de ação de direito real sobre bem imóvel conforme o art. 95 do CPC. Não sendo admitido a eleição do foro ou o juízo universal. Ainda sobre a competência da ação de usucapião Marinoni:

Evidentemente, sempre que o Poder Público federal fizer parte da relação processual (por exemplo, na condição de confinante), a competência será deslocada para a Justiça Federal, mas sempre do local em que se encontre o imóvel. Entende-se, porém, que se o foro da situação do imóvel não for sede de vara federal, em se tratando de usucapião especial, a ação deve ser proposta no juízo estadual da situação do imóvel, com competência recursal para o Tribunal Regional Federal correspondente, em aplicação do preceito contido no art. 109, §§ 3.° e 4.°, da CF. Esse entendimento decorre da aplicação do contido no art. 4.° da Lei 6.969/1981, que prescreve que "a ação de usucapião especial será processada e julgada na comarca da situação do imóvel". Em vista dessa regra, entende-se que há aí delegação (legal) de competência, nos moldes do previsto no art. 109, § 4.°, da CF,

  • 57 VENOSA, loc. cit.

  • 58 SANTOS, 2010, p. 211.
    59 MARINONI, 2009, p. 122.

33

que autoriza a Justiça Estadual a atuar (em primeiro grau de jurisdição) como Federal. 60

Depreende-se do texto citado que sempre que a União fizer parte da relação processual a competência será deslocada para a justiça federal, porém, onde o foro da situação do imóvel não for sede da justiça federal, nos casos de usucapião especial, a ação deve ser proposta na justiça estadual com recurso ao Tribunal Regional Federal correspondente.

4.3 PROCEDIMENTO

O procedimento é a maneira e a forma por que se movem os atos do processo, noutras palavras, exprime os atos no modo de fazê-los e na forma em que são feitos. 61 Tratando do procedimento do usucapião Marinoni:

Como alerta a doutrina especializada, o grande diferencial do procedimento da usucapião era a previsão de justificação prévia da posse, realizada em audiência especial, no início do procedimento. Com a retirada desse elemento do procedimento, operada pela Lei 8.951/1994, praticamente resta sem razão de ser o rito especial em questão já que sua particularidade cinge-se, em essência, à imposição do litisconsórcio passivo e à necessidade de comunicação dos interessados, da Fazenda Pública e do Ministério Público, para eventual intervenção. 62

Conforme o autor a grande diferença no procedimento do usucapião estava no fato de haver justificação prévia da posse, porém o instituto foi retirado com o advento da lei 8.951, restando pouca razão em ser do rito especial. Prosseguindo sobre o procedimento Marinoni:

De todo modo, o feito se inicia por petição inicial, em que o interessado fundamentará seu pedido de usucapião, indicando o preenchimento dos requisitos para tanto e descrevendo, pormenorizadamente, o imóvel a ser usucapido. A descrição precisa do bem é fundamental já que ela identifica com exatidão a área pretendida e permite determinar os confrontantes do imóvel. Cumpre ainda ao requerente pedir a citação "daquele em cujo nome estiver registrado o imóvel usucapiendo, bem como dos confinantes e, por edital, dos réus em lugar incerto e dos eventuais interessados" (art. 942, do CPC). Como salientado anteriormente, não se trata propriamente de citação

  • 60 MARINONI, loc. cit.

  • 61 SANTOS, 2010, p. 113.
    62 MARINONI,2009, p. 123.

34

de todos estes, embora todos devam ser convocados para participar do feito, se lhes interessar. 63

Entende-se que o procedimento inicia-se por petição inicial, na qual o interessado fundamentará seu pedido, indicando o preenchimento dos requisitos e descrevendo, pormenorizadamente, o imóvel a ser usucapido. Deve ainda o requerente pedir a citação de quem estiver registrado o imóvel usucapiendo, e por edital, dos réus em lugar incerto e dos eventuais interessados. Devendo todos serem convocados para participar do feito. Prosseguindo Marinoni:

Deverão acompanhar a inicial a planta do imóvel usucapiendo (art. 942 do CPC) e a certidão do Registro de Imóveis referentes a esse bem. Embora a lei não exija esse último documento, é ele essencial para poder-se identificar os réus conhecidos e, em especial, aquele em cujo nome consta o bem pretendido. Cumpre ainda ao autor instruir a inicial com certidão negativa da existência de ação possessória em curso, a respeito do bem em questão, em razão do que prevê o art. 923 do CPC. 64

Extrai-se do texto que deve a inicial ser acompanhada da planta do imóvel e a certidão do registro de imóveis referentes a esses bens. Cumpre ainda ao autor apresentar na inicial a certidão negativa da existência possessória em curso a respeito da coisa em jogo, conforme o art. 923 do CPC. Ainda sobre o procedimento Marinoni:

Recebida a inicial, e estando ela regular, determinará o magistrado a citação dos réus e a comunicação dos terceiros eventualmente interessados. A citação dos réus, embora deva ser, em princípio, pessoal, pode também se socorrer da forma ficta, sempre que não se souber quem é o efetivo réu da demanda ou onde ele possa ser localizado (art. 231 do CPC).14 Em relação à comunicação aos terceiros interessados, evidentemente, sua ausência no processo não implicará sua revelia, nem ensejará a participação de curador especial, já que não são propriamente réus da ação.

65

Denota-se do citado que estando a inicial em condições, o magistrado

determinará

a

citação

dos

interessados. Continuando Marinoni:

  • 63 MARINONI, loc. cit.

  • 64 MARINONI, loc. cit.

  • 65 MARINONI, loc. cit.

réus

e

comunicação

de terceiros eventualmente

35

A par dessas comunicações, determina ainda a lei que se proceda à intimação, por via postal, das Fazendas Públicas (Federal, Estadual e Municipal) para que manifestem eventual interesse na causa. A regra tem o claro propósito de proteger o patrimônio público que, como já ressaltado, é insuscetível de usucapião. Para tanto, é mister informar-se às Fazendas Públicas de toda pretensão à usucapião, para que estas possam examinar se o imóvel pretendido é ou não pertencente ao Poder Público. Também deve ser intimado a participar do feito o Ministério Público (art. 944). Sua participação é obrigatória nos processos de usucapião, sendo caso de nulidade absoluta a falta de sua comunicação para atuação. Os réus serão citados - e os terceiros (inclusive as Fazendas Públicas) comunicados - para oferecer resposta, no prazo regular. Como o feito tramitará pelo rito comum, em regra o prazo para a resposta será de quinze dias (aplicando-se aqui as regras de prorrogação de prazo, constantes dos arts. 188 e 191 do CPC). Admite-se a apresentação de qualquer espécie de resposta, seguindo-se, daí em diante, o que prescreve o Código a respeito do procedimento comum. 66

Segundo o autor deve o magistrado ainda intimar as Fazendas federal, estadual e municipal para que manifestem se o bem em questão lhes pertence. Sendo também intimado o Ministério Publico sendo sua participação obrigatória. Sendo então os réus citados terão prazo de resposta de 15 dias, admitindo-se qualquer tipo de resposta.

4.4 SENTENÇA

Sentença é o ato do juiz que implica alguma das situações previstas nos arts. 267 e 269 do Código Civil. Sobre a sentença no usucapião Marinoni:

A sentença na usucapião tem carga preponderante declaratória. Sua função não é a de constituir o novo vínculo de direito real, senão apenas reconhecer que ele se formou, assim que cumpridos os requisitos legais. Assim o diz, expressamente, o art. 1.241 do CC/2002, reconhecendo que o pleito formulado judicialmente é declaratório, e não constitutivo. Assim, a eficácia do provimento judicial é ex tune, razão pela qual mesmo aquele que já não possui a posse do bem pode pedir a usucapião (ao menos a comum). 67

Segundo o autor a sentença do usucapião tem carga iminentemente declaratória. Sua função não é constituir novo direito e sim somente reconhecer que ele já se formou, assim que foram cumpridos os requisitos legais. Prossegue sobre a sentença Marinoni:

  • 66 MARINONI, 2009, p. 124.
    67 MARINONI, loc. cit.

36

Essa eficácia declaratória, todavia, somente opera efeitos perante aqueles sujeitos que participaram ou poderiam ter participado do feito. Não prejudica, assim, eventuais direitos de terceiros que não foram diretamente comunicados a atuar no processo (art. 472 do CPC). Por isso, eventual terceiro que se entenda titular de direito sobre a coisa e que não tenha sido convocado a participar do processo - demonstrando ser insuficiente a convocação por edital, porque seu interesse era certo e também ele era determinado e poderia ser localizado - pode opor-se à sentença de usucapião, por meio de outra demanda, buscando a satisfação de seus direitos.

68

Conforme discorre o autor a eficácia declaratória opera efeitos somente perante aqueles sujeitos que participaram ou poderiam ter participado do processo. Não alcançando eventuais direitos de terceiros que não foram diretamente comunicados. Por fim Marinoni:

De toda sorte, a sentença em questão se presta de título hábil à transcrição imobiliária. Assim, satisfeitas as obrigações fiscais, poderá o interessado requerer ao juiz que ordene a transcrição do bem em seu nome, empregando a sentença como título aquisitivo da propriedade (art. 945 do CPC).

69

Extrai-se do citado que a sentença do usucapião serve de título hábil para o registro imobiliário, satisfazendo o as obrigações com o fisco, pode o interessado requerer que o magistrado ordene transcrição da coisa em seu nome , utilizando a sentença como título aquisitivo do bem.

  • 68 MARINONI, loc. cit.

  • 69 MARINONI, loc. cit.

37

Fluxograma do Procedimento:

Petição Inicial
Petição Inicial
Intimação do Ministério Público Intimação das Fazendas Públicas da União, Estado e Município

Intimação do Ministério Público

Intimação do Ministério Público Intimação das Fazendas Públicas da União, Estado e Município

Intimação das Fazendas Públicas da União, Estado e Município

Intimação do Ministério Público Intimação das Fazendas Públicas da União, Estado e Município

Citação dos réus e comunicação de terceiros eventualmente interessados.

 
Resposta do réu Réplica Audiência de instrução e julgamento, se necessário

Resposta do réu

 
Resposta do réu Réplica Audiência de instrução e julgamento, se necessário

Réplica

 
Resposta do réu Réplica Audiência de instrução e julgamento, se necessário

Audiência de instrução e julgamento, se necessário

 
Resposta do réu Réplica Audiência de instrução e julgamento, se necessário
Sentença
Sentença
Revelia Certidão Sentença

Revelia

Revelia Certidão Sentença

Certidão

Revelia Certidão Sentença

Sentença

37 Fluxograma do Procedimento: Petição Inicial Intimação do Ministério Público Intimação das Fazendas Públicas da União,

38

5 CONCLUSÃO

Concluímos que o usucapião surgiu nos tempos de Justiniano, através da junção de dois institutos a usucapio e a longi temporis praescriptio. Que com o decorrer do tempo se modificou e estabeleceram-se alguns requisitos para o usucapião, que são mantidos na lei e na doutrina modernas: res habilis (coisa hábil), iusta causa (justa causa), bonafides (boa-fé), possessio (posse) e tempus (tempo). Observamos que o usucapião é a posse prolongada da coisa pode conduzir à aquisição da propriedade, se presentes determinados requisitos estabelecidos em lei. Assim, chama-se usucapião a maneira de adquirir o domínio mediante a posse prolongada e sob determinadas condições. Analisamos quatro modalidades: o usucapião extraordinário previsto no art. 1.238 do Código Civil; o usucapião ordinário previsto no art. 1.242 do Código Civil, o usucapião especial ou constitucional urbano e rural previstos nos artigos 183 e 191 da Constituição Federal respectivamente e finalmente o usucapião coletivo previsto no Estatuto da Cidade. Discorremos sobre a ação de usucapião que foi demonstrada ser de eficácia declaratória, conforme o art. art. 1.241 do Código Civil, que reconhece a existência da aquisição da propriedade e não constituindo a propriedade pela sentença. Onde na verdade a sentença do usucapião é iminentemente declaratória. Sendo que sua função não é constituir novo direito e sim somente reconhecer que ele já se formou, assim que foram cumpridos os requisitos legais. Desta forma analisamos o instituto do usucapião e discorremos no presente trabalho.

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REFERÊNCIAS

MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz. Curso de Processo Civil:

Procedimentos Especiais. 2.ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009.

MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de direito constitucional. 2.ed. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 454.

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 20.ed. Rio de Janeiro:

Editora Forense, 2009.

RIBEIRO, Benedito Silvério. Tratado de Usucapião. São Paulo: Saraiva, 1992.

SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil. 27.ed. São Paulo: Saraiva, 2010.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direitos reais. 8.ed. São Paulo: Atlas, 2008.