O S D I R E I TO S D O H O M E M D E T H O M A S P AI AI N E

LIVROS QUE MUDARAM O MUNDO
A Bíblia Karen Armstrong O Capital de Marx Francis Wheen O Corão Bruce Lawrence Os Direitos do Homem de Thomas Paine Christopher Hitchens Ilíada e Odisséia de Homero Alberto Manguel A Origem das Espécies de Darwin Janet Browne O Príncipe de Maquiavel Philip Bobbitt A República de Platão Simon Blackburn A Riqueza das Nações de Adam Smith P.J. O’Rourke Sobre a Guerra de Clausewitz Hew Strachan

Christopher Hitchens O S D I R E I TO S D O H O M E M DE THOMAS PAI N E uma biografia Tradução: Sérgio Lopes Rio de Janeiro .

07-1778 CDD: 323.Estados Unidos ..Biografia. Paine. 2007. Direito civis. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro. Thomas.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800 e-mail: jze@zahar. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Título.Biografia.com. inimigo declarado do fascismo e da teocracia. 3.br site: www.610/98) Capa: Sérgio Campante CIP-Brasil.5 CDU: 342. 1737-1809. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.zahar. (Lei 9. líder de uma revolução nacional e de um exército popular. Os direitos do homem. tradução de Sérgio Lopes. Christopher Hitchens Copyright da edição brasileira © 2007: Jorge Zahar Editor Ltda. Christopher “Os Direitos do Homem” de Thomas Paine: uma biografia / Christopher Hitchens. 2. Título original: Thomas Paine’s Rights of Man (A Biography) Tradução autorizada da primeira edição inglesa. um selo de Grove Atlantic Ltd. RJ tel. publicada em 2006 por Atlantic Books.de Londres. (Livros que mudram o mundo) Tradução de: Thomas Paine’s Rights of Man : (a biography) ISBN 978-85-7110-999-5 1. Na esperança de que sua longa luta prospere e frutifique.. RJ.7 . o primeiro presidente eleito da República do Iraque. Série.Dedicado – com sua anuência – a Jalal Talabani. 4. no todo ou em parte. constitui violação de direitos autorais. A reprodução não-autorizada desta publicação.com. Cientistas políticas . Revolucionários .Estados Unidos . Inglaterra Copyright © 2006. B898o Hitchens. II. I.br Todos os direitos reservados.

Sumário In tr o du çã o 1 2 9 27 54 76 115 Pa ine na Am é ric a Pa ine na Eu ropa 3 4 5 Os Dire itos do Homem . Part e I I A Era da Razão 128 Co nclusã o: O Le g ad o d e Pain 139 Notas 147 Para Saber Mais 151 Índice Remissivo 152 . Part e I Os Dire itos do Homem .

/ Que ressoe a liberdade! 9 ./ Nas encostas de todas as montanhas. ’tis of thee”./ Doce terra de liberdade.Introdução N os Estados Unidos./ Terra do orgulho peregrino. desde cedo as crianças aprendem a cantar o hino “My country. cujos versos iniciais dizem: My Country./ A ti eu canto. * O meu país eu canto. essa pequena canção foi alçada à imortalidade pelo grande Martin Luther King. ’tis of thee Sweet land of liberty Of thee I sing Land where my fathers died Land of the Pilgrim’s pride From every mountainside – Let freedom ring!∗ Embora de um sentimentalismo banal./ Terra em que meus pais morreram.

“isso se tornará realidade. e ao longo de todo o Mississippi. Esse cântico tão pouco imaginativo – ao que se saiba. nosso Deus virá/ Dispersar os inimigos/ E derrotá-los: / Confundir a política. para concluir. “Se a América estiver destinada a ser uma grande nação”. Tomando de empréstimo. uma vez que é cantada com a mesma melodia do hino nacional britânico. clamou. Scatter his enemies And make them fall: Confound their politics. ainda que pareça ter surgido como chanson jacobita. no momento crucial da Marcha sobre o Pentágono. o primeiro hino nacional do mundo –. de New Hampshire à Califórnia. Uma platéia de teatro em Londres ergueu-se para entoar. as palavras tão familiares às salas de aula./ Nele depositamos nossas esperanças. quando os rebeldes invasores jacobitas vindos da Escócia ameaçavam o trono. além da primeira./ Frustrai suas artimanhas. salvai-nos. a segunda e menos conhecida estrofe: O Lord our God arise. de norte a sul./ Ó. . até que a promessa original dos Estados Unidos valesse para todos os seus cidadãos. foi reescrito por causa da Igreja (protestante) e do rei em setembro de 1745. Frustrate their knavish tricks On him our hopes are fix’d O save us all. pelos direitos civis. rogou que a liberdade ressoasse em cada colina. ’tis of thee”.” Também as crianças das escolas inglesas dominariam com facilidade “My Country.∗ ∗ Ó Senhor. na primavera de 1963.10 OS DI RE ITOS D O HOM E M em inesquecível discurso que proferiu nas escadarias do Lincoln Memorial.

Thousands cry “Church and King” That well deserve to swing. Jorge III. o filho dele. Já nos primeiros anos do século XIX. Save us good Lord. Why should despotic pride Usurp on every side? Let us be free: . era saudado com essa canção em cerimônias oficiais. que representava a usurpação hanoveriana até hoje mantida no trono. He makes the blind to see What dupes and slaves they be. Naquela época também circulava uma outra versão. Down aristocracy. Manchester do the same Infamous is your name. All must allow: Birmingham blush for shame. nesse caso. His “Rights of Man” explain To every soul. Knock off each tyrant’s crown. Patriots vow. era Jorge II. Pull proud oppressors down.I NTRODUÇÃO 11 O “him”. And points out liberty From pole to pole. And from hypocrisy. Set up democracy. escrita pelo notável e radical poetaartesão Joseph Mather: God save great Thomas Paine. And break his sword.

/ E abençoem todos os seus esforços. Despots may howl and yell./ Abaixo a aristocracia./ Que os déspotas urrem ./ Todos devem permitir.// Milhares clamam “Igreja e rei”. Facts are seditious things When they touch courts and kings. Plant through the universe Liberty’s Tree.// Derrubem os orgulhosos opressores./ Viva a democracia./ Infame é seu nome./ Ele faz os cegos verem/ Quão crédulos e servis são./ “Os direitos do homem” explicam/ A todas as almas./ Que seque essa fonte.∗ * Deus salve Thomas Paine./ Erguem-se casernas e bastilhas./ Birmingham enrubesce de vergonha. And do the worst he can./ Juram os patriotas. Innocence charged with guilt.12 OS DI RE ITOS D O HOM E M Grant freedom’s arms success. Blood most unjustly spilt./ Para o espanto de Deus. Barracks and Bastilles built.// Por que o despótico orgulho/ Reinaria em toda parte?/ Sejamos livres:/ Triunfem as armas da liberdade. Paine and his “Rights of Man” Shall be my song. Armies are raised. Satan may lead the van./ Cobre-se de culpa a inocência.// Os fatos são sediciosos/ Quando tocam cortes e reis. And all her efforts bless./ Plantem pelo universo/ A Árvore da Liberdade./ E da hipocrisia/ Livre-nos o bom Deus. Though they’re in league with hell They’ll not reign long./ E aponta a liberdade/ De um a outro pólo./ Derramase sangue injustamente./ Arranquem as coroas dos tiranos/ E quebrem suas espadas. God stands amazed./ Levantam-se exércitos./ E também Manchester.

ainda no mesmo ano. tomada pelo clamor de “Igreja e rei”. o sentimento que a publicação do clássico de Thomas Paine despertou naquele ano. irrompeu na casa do cientista autodidata Joseph Priestley e destruiu a biblioteca e o laboratório do descobridor do oxigênio. Them overthrow ./ Paine e seus “Os direitos do homem”/ Serão minha canção. que./ Satanás pode ser o seu líder/ e fazer todo o mal.* É provável que Mather tenha escrito seu poema um pouco depois dessa ocasião. ao se reunir em Londres em março de 1791. um entre tantos e clamem.” . com sua desafiadora e sarcástica belicosidade. dada a interpretação que facilmente se depreende de um de seus versos – “Birmingham blush for shame”.I NTRODUÇÃO 13 Ainda que não seja ensinada nas escolas ou recitada em assembléias./ Embora sejam aliados do inferno/ Seu reino não se estenderá. se puderem. aprovou uma declaração de agradecimento a Paine e depois ouviu os integrantes da vitoriosa maioria entoarem: God save The Rights of Man! Let despots. ** “Birmingham enrubesce de vergonha. essa requintada paródia composta em 1791 capta. pode-se perguntar se ele inspirou a canção – ou se foi por ela inspirado – que ecoou certa noite em uma sessão principal da Society for Constitutional Information.. * Deus salve “Os direitos do homem”!/ Os déspotas..** Foi em Birmingham./ Que os destruam . no outono de 1791.. if they can. Sendo Joseph Mather um radical fabricante de limas da cidade de Sheffield. O incidente.. que uma multidão de conservadores.

Lá foi muito bem recebido e participou do grande renascimento da Filadélfia.14 OS DI RE ITOS D O HOM E M episódios históricos que não são narrados na escola.) Em 1791. Não se deve esquecer que os ingleses que simpatizavam com as revoluções nos Estados Unidos e na França não eram saudados apenas com as “agressões verbais” de Edmund Burke (que aprovou os clamores de “Igreja e rei” das multidões enquanto estas estiveram a seu lado). decidisse se transferir para a América. que já havia abraçado a causa revolucionária e republicana em um panfleto. fez com que Priestley. O marquês de La Fayette. mas também com perseguições e repressões intensas e sistemáticas. É possível encontrar outros indícios daquele período nos versos de Mather. no Parlamento e fora dele. herói tanto da . que reuniu homens como Benjamin Franklin. desde aquela época. (A propósito. em uma declaração que. por seus seguidores: os famosos partidários que bradavam “Wilkes e liberdade” contra a coroa germânica e um sistema dominado pelo conservadorismo dos burgos corrompidos. Ele usou o termo “patriota” para descrever os adeptos da causa democrática e radical. foi somente essa versão de “patriotismo” que o conservador Samuel Johnson descreveu como “o último refúgio do canalha”. foi repetidamente mal-interpretada e citada. Benjamin Rush e Thomas Jefferson. o nome “Bastilha” também estava fresco na memória como símbolo da monarquia absolutista francesa e sinônimo das inúmeras masmorras sombrias em que os liberais da Europa ficaram por tanto tempo confinados e onde foram torturados. Foi esse também o termo empregado pela facção de John Wilkes.

é tão firme quanto a corrente do golfo. “Naturais companheiros de revoluções. A tarefa. cerca de cem anos depois. que envolveu a chave em uma carta e a descreveu como “um prematuro troféu do espólio do despotismo e o primeiro dos frutos maduros dos princípios norteamericanos transplantados para a Europa”. o dia seria escolhido pelos trabalhadores dos Estados Unidos para marcar o início da luta pela jornada de trabalho de oito horas diárias.I NTRODUÇÃO 15 Revolução Norte-Americana quanto da Francesa. festa e celebração dos oprimidos. e. assim como daqueles que testemunham o derretimento das geleiras políticas e o descongelamento dos campos do despotismo.” A mesma analogia de uma calorosa corrente atravessando os mares pode ser encontrada na dedicatória de Paine em Direitos do homem: . mais tarde. mas seu curso principal. os pequenos fluxos e refluxos a favor e contra às vezes se apresentam. deu a chave da Bastilha a Thomas Paine e solicitou que a enviasse ao presidente George Washington como prova da gratidão francesa ao povo dos Estados Unidos. “Não tenho a menor dúvida do completo e derradeiro sucesso da Revolução Francesa”. pelos movimentos trabalhistas de todo o mundo como Primeiro de Maio: feriado. A carta de Paine é datada de 1o de maio. solicitada no ano anterior à publicação dos Direitos do homem. continuava Paine em sua carta a George Washington. foi cumprida com satisfação por Paine. A chave está até hoje pendurada na parede da casa de George Washington em Mount Vernon. em minha opinião. A primavera e o mundo natural eram metáforas corriqueiras de Paine.

o Novo Mundo dos “Estados Unidos da América” (nome que ele talvez tenha cunhado) era uma conquista real e concreta. mas um lar de liberdade. seu mais obsequioso. – Que os Direitos do Homem possam se tornar tão universais quanto vossa Benevolência deseja. e os piratas fizeram a mesma viagem em busca de tesouros e escravos.16 OS DI RE ITOS D O HOM E M A George Washington. Winston Churchill. a terra é luminosa”. conservador partidário de Pitt. Eu vos apresento um pequeno tratado em defesa daqueles Princípios de Liberdade para cujo estabelecimento vossa exemplar Virtude tanto contribuiu. obediente e humilde servo. afirmou diante do Parlamento – desta vez citando Arthur Hugh Clough – que. minha terra recém-descoberta”. “ao se voltar para o Oeste. Os peregrinos navegaram até “as Américas” para estabelecer a pureza doutrinal. Contudo. o primeiro estágio consciente de uma revolução mundial. em 1826. Thomas Paine1 Foi George Canning. quem argumentou. Presidente dos Estados Unidos da América Senhor. eis o Desejo do Senhor. . evocando a aliança atlântica em um momento de crise. e que possais apreciar a Felicidade de ver o Novo Mundo regenerar o Velho Mundo. que Paine “trouxera o Novo Mundo à existência para restabelecer o equilíbrio do Velho Mundo”. não uma Utopia imaginária. Os poetas metafísicos com freqüência comparavam a América romântica a uma amante – “minha América. na época de Paine.

Robert Burns escreveu um poema intitulado “The tree of liberty” que inicia da seguinte maneira: Heard ye o’ the tree o’ France. — Em verdade. — Quão direito? — Qual uma vara. em confiança. — O que tens nas mãos? — Um ramo verde. A imagem dela é recorrente em incontáveis poemas. brindes e canções do período. . como símbolo do Iluminismo e da revolução democrática. — Onde brotou? — Na América. I wanna what’s the name o’t. votos.I NTRODUÇÃO 17 A árvore da liberdade seria bem compreendida pelos companheiros de Mather. artesãos e trabalhadores autodidatas. — Onde irás plantá-lo? — Na coroa da Grã-Bretanha. então. na unidade e na liberdade. — Onde floresceu? — Na França. — Passa. ao longo de todo o caminho desde os Irlandeses Unidos até as cartas de Thomas Jefferson (que não foi o único a dizer que a árvore da liberdade deveria se nutrir do sangue de tiranos e patriotas). A saudação dos Irlandeses Unidos – sociedade secreta radical fundada no épico ano de 1791 para unir “protestantes das classes médias” à causa da reforma nacional e parlamentar – era assim: — És direito? — Sou.

decrepitude. em andador ou muletas./ A boa Europa conhece sua fama!/ Encontra-se onde outrora esteve a Bastilha. algo sob cuidados. A prison built by kings.18 OS DI RE ITOS D O HOM E M Around it a’ the patriots dance.” Ter participado de duas revoluções. meu amigo./ E sabes qual seu nome?/ Dançam ao seu redor/ todos os patriotas. os Irlandeses Unidos fizeram de Paine sócio honorário. meu amigo. o que. amplamente satirizados por Paine. man.”2 E o poema mais famoso de Burns. era dar Ouviste falar na árvore da França. além de aumentar a tendência em direção à senilidade: “Ela surge coberta por todos os aspectos de infância. sempre funcionou para manter a Irlanda em estado de hostilidade com relação à Inglaterra. erigida por reis. Weel Europe kens the fame o’t. Ele era dos raros ingleses que na época podiam escrever: “A suspeita de que a Inglaterra governa a Irlanda com o único propósito de subjugá-la./ Uma prisão. após suas primeiras aventuras na França encheria Paine de orgulho./ Quando a infernal linhagem da Superstição/ Manteve a França. que em uma passagem descreve a monarquia como uma forma que infantiliza e retarda a sociedade. * . de impedir que rivalize no comércio e na manufatura. presa a rédeas. velhice. It stands where once the Bastille stood. When Superstition’s hellish brood Kept France in leading-strings. Por sua vez. “For a’ that”. expressa um forte desdém pelos conceitos de hereditariedade e princípio hereditário. man.∗ Podemos assim ter certeza de que Burns – grande entusiasta da Revolução de 1789 na França – lera Os direitos do homem de Thomas Paine.

revoluções. No entanto. uma excepcional contribuição à vigorosa “guerra de panfletos” que tornou o final do século XVIII. pode ter mantido vivo o espírito da Revolução Inglesa em incontáveis lares pobres e oprimidos. escrita do ponto de vista daqueles que menos se beneficiaram com a conquista normanda e os sucessivos golpes e usurpações da monarquia. Escócia e País de Gales. incluindo sua terra natal. O Pilgrim’s Progress. Embora não se tenha furtado a apresentar sugestões programáticas de ordem prática e imediata. contudo. um período tão efervescente na Inglaterra. Foi também uma revisão histórica da Inglaterra. um dos primeiros textos modernos. e a cuidadosa pesquisa de John . Irlanda.I NTRODUÇÃO 19 “um sentido à vida”. concebidas para aliviar o sofrimento e a injustiça no aqui e agora. em certo sentido. se necessário. voltava seu objetivo para um ponto localizado além do horizonte político e social. pubs. cafés e gráficas. de John Bunyan. É. Foi também uma breve controvérsia dirigida em especial às Reflections of the Revolution in France. O otimismo dele era decerto exagerado: as revoluções de 1776 e de 1789 desiludiram-no de várias maneiras. com seus clubes. é possível dizer que sua influência sobre processos revolucionários é notável para além desses dois países. O nome de Paine estará sempre ligado de maneira indissolúvel a essas ressoantes palavras: “os direitos do homem”. de Edmund Burke. na França e nos Estados Unidos. Ainda constituiu um manifesto que estabeleceu os princípios básicos para reformas e. O livro que ostenta esse nobre título foi. muito mais que um hino à liberdade do homem.

Paine era uma liderança da tradição radical inglesa que via as guerras e os exércitos como fardos adicionais ao povo e sustentáculos das autoridades existentes. com alguns franceses de pensamento liberal. ou “ele esteve na guerra”. tanto no cenário doméstico quanto no internacional. Mas Os direitos do homem de Thomas Paine é igualmente um toque de inspiração e um projeto para uma ordem social mais racional e decente. dois anos antes da queda da Bastilha. ou melhor emprego que lhes oferecer o soldo do rei ao colocá-los em farda sob as ordens de comandantes aristocráticos? (A velha expressão popular “ele foi à guerra”. confessa a Winston Smith que “tudo é guerra”. de Orwell. se espera que um joão-ninguém marche para a guerra e talvez. comentou: . para uma classe dirigente. com olhos embaçados. devotado à idéia de relações mais calorosas entre a Inglaterra e a França.) After Blenheim. de vez em quando. que. a obra é apresentada como uma espécie de missão de paz de um homem só. expressa o vago fatalismo a esse respeito e o sentimento de que. de reivindicar o poder e a ele se apegar que posar como defensora da nação? E que melhor maneira para manter na linha os servos sem instrução. Haveria melhor forma.20 OS DI RE ITOS D O HOM E M Stuart Mill e outros talvez tenha estabelecido a base para a futura reforma social vitoriana. secretário particular de um importante ministro. Sobre um deles. assim como Barry Lyndon. Grande parte das nobres e marciais batalhas da Grã-Bretanha se deram contra a França ou na França. e o velho embriagado na taberna em 1984. De fato. se Deus for misericordioso. de Southey. e Paine abriu o prefácio de Direitos do homem com um relato do encontro que tivera em 1787. volte para casa. de Thackeray. capta esse sentimento com perfeição.

não apenas em seu próprio nome. sem outro desenlace senão o mútuo aumento de taxas e encargos. Podem-se ouvir os conservadores de William Pitt rosnando e grunhindo – quem é esse cidadão presunçoso que julga conduzir sua própria diplomacia com os franceses? Eu mesmo não posso imaginar um precedente para isso. mas Paine estava então bastante acostumado a executar missões não-oficiais de caráter diplomático em nome de seu recém-adotado país. confiável patriota e parlamentarista cuja defesa da Revolução Norte-Americana conquistou amplo respeito. os Estados Unidos da América. qualquer disposição de cultivar maior compreensão entre as duas nações do que até agora prevaleceu – a dizer que o mesmo espírito prevalecia por parte da França. indaguei-lhe. quando a rebelião . que Paine agia mais discretamente que muitos reacionários supunham. anexo. e a ele enviei. porém. em meio à população da Inglaterra. com cujo conhecimento determinou-se que a carta fosse escrita. mas no do ministro. Enviara sua relevante correspondência anglo-francesa a Edmund Burke. Esse mesmo pensamento teria enfurecido ainda mais muitos conservadores: o raivoso Paine atuando em nome de colonos amotinados! Revelou-se. nem ele a mim. em que medida estaria eu autorizado – caso pudesse perceber. Porém. Respondeu-me por escrito de forma bastante reservada. expus a substância de nossas opiniões por escrito. continuamente temerem uma à outra.I NTRODUÇÃO 21 O sentimento dele e o meu concordavam em tudo a respeito da loucura da guerra e da infame inutilidade de duas nações. como a Inglaterra e a França. Certo de que não o interpretei mal.3 Apreciemos por um instante a extraordinária imprudência que isso representou naquela época.

ninguém foi mais atuante que o enérgico marquês de La Fayette. ele bem sabia. Paine insistia que era Burke o emocionalmente perturbado. seria possível dizer que até o pobre Luís XVI era vítima do princípio hereditário. soa quase como o lamento de um amante desprezado. Não se tratava de mero golpe de retórica da parte de Paine. Puniam não apenas os crimes desses beneficiários. Contudo. cujas tropas levaram. não contra as pessoas daqueles monarcas (“um moderado e legítimo monarca”. Assim. toda a primeira parte do livro é. seriam irrelevantes. Nova York e Filadélfia. Em sua corajosa defesa da revolução na França. como Burke muito surpreendentemente descreveu o ocupante de Versalhes). que Os direitos do homem têm uma dimensão privada e emotiva: o tom de queixoso desapontamento por parte de um antigo admirador. a prosa de Burke representaria um ingênuo desperdício de sentimentos. por fim.22 OS DI RE ITOS D O HOM E M francesa explodiu no mundo. As pessoas e as personalidades do rei Luís XVI e de Maria Antonieta. que. uma tentativa de não personalizar a questão. em cujo benefício Burke despendeu grande quantidade de insultos e galanteios sem sentido. Burke apressou-se em publicar um dos mais veementes discursos contra-revolucionários de todos os tempos. O povo francês rebelou-se. É importante compreender. à ren- . mas contra todo o princípio da monarquia. na medida do possível. Em Boston. Nessa batalha. portanto. por vezes. mas os séculos de crimes cometidos pela dinastia em nome da qual reinavam. retratos do rei Luís eram exibidos em lares revolucionários como homenagem ao auxílio devotado pela França à rebelião norte-americana. em certo sentido.

para ele. Paine foi grosseiramente comparado por alguns escritores a Che Guevara. e foi na época talismã e emblema de audácia e heroísmo. por razões republicanas. de La Fayette foi à América logo nas primeiras horas da guerra. contemplando. La Fayette está hoje meio esquecido. expressou-se com as seguintes palavras: “Que este grande monumento erguido à Liberdade sirva como lição ao opressor e como exemplo ao oprimido!” . da parte de um jovem com pouco mais de 20 anos de idade. quão poucos se encontrariam por aí afora capazes de trocar tal cenário pelas florestas e pela amplidão da América. Mas. apresentou-se ao Congresso e. entretanto. Mas de fato desempenhou importante papel em três revoluções – 1776. sem jamais obter o consentimento. e passar os anos florescentes da juventude em desvantajosos perigos e privações! Mas esse é o caso. Sua conduta ao longo de todos os acontecimentos é uma das mais extraordinárias que se pode encontrar. a revolução que vira. Obviamente. com freqüência relutava em usar em suas publicações. Quando esse discurso chegou às mãos de Franklin. o carisma pertencia a ninguém menos que La Fayette. M. que então se encontrava na França. em sua afetuosa despedida. e com os meios para desfrutá-lo.I NTRODUÇÃO 23 dição da Inglaterra do rei Jorge e dos invasores alemães. Nascido em um país que era como o regaço do prazer sensual. era-lhe útil ter como aliado um membro da aristocracia francesa para utilizar no combate contra o nostálgico Burke. cujo título de “marquês”. Quando a guerra chegou ao fim.. ele recorreu ao conde Vergennes para inseri-lo na Gazeta Francesa. 1789 e 1848 –. O fato é que o conde . e continuou como voluntário a serviço dela até o final. a despeito do charmoso parque em frente à Casa Branca que ostenta seu nome.. na história. Graças a seu internacionalismo.

Para Paine. que estabelecera para sempre a questão.4 Todo o “projeto” dos Direitos do homem era. Paine escrevia em um momento de efervescente otimismo. e todos passaram a conhecer seu lugar. em segundo plano. a Revolução Gloriosa havia estabelecido um relacionamento estável entre a monarquia e o povo. uma tentativa de casar as idéias das Revoluções Norte-Americana e Francesa. em primeira instância. esses objetivos eram facetas de um mesmo símbolo. e. A tarefa de Paine era satirizar essa visão de “fim da história” e assegurar que o direito do povo de alterar seu governo fosse inerente e inalienável. para expurgá-los. que os méritos ou vícios particulares de Luís XVI tornavam-se insignificantes diante do imperativo histórico: “que os estábulos de Augias de um governo de parasitas e saqueadores [eram] tão abomináveis e imundos que. e. eram radicalmente incompatíveis.24 OS DI RE ITOS D O HOM E M Vergennes era um déspota aristocrático em seu país e temia o exemplo da Revolução Norte-Americana na França. Para Burke. Qualquer nova interferência nesse arranjo representaria uma profanação. Burke acreditava que já houvera uma revolução na Inglaterra em 1688. assim. em que era possível dizer que os problemas imediatos eram em essência relativos. Uma razão para reler os dois livros é ver a mesma seqüência de eventos debatida por dois geniais contemporâneos. Na sua perspectiva. e o amedrontado tributo de Burke (pois sob essa luz seu livro deve ser considerado) corre paralelamente à recusa do conde Vergennes. então. uma tentativa de disseminar os ideais delas na Inglaterra. seria necessário nada menos . assim como outras pessoas temem o exemplo da Revolução Francesa na Inglaterra.

fosse melhor que nenhuma. Paine tomou particular cuidado em salientar que. O livro é iniciado com alguns golpes complementares lançados contra Burke. Paine apresentava sua própria versão de cada momento dos fatos que tornaram inescapável a ruína da monarquia. qualquer resposta à primeira parte. provoca grande emoção por ter sido composto em um período de otimismo. pela segunda vez em uma década. a idéia de um . Mas as palavras “parecia que” são as que devem chamar nossa atenção.I NTRODUÇÃO 25 que uma completa e universal revolução”. Isso deixou o campo aberto para que se lançasse um espirituoso ataque ao princípio hereditário. A leitura desse relato fascinante. Para ele. Paine dedicou a segunda parte – a metade menos explicitamente revolucionária – ao herói mais radical da revolução: La Fayette. e em geral direto. Parecia que. um país iria se libertar da monarquia e também inscrever os direitos do cidadão. que em certo momento se prontificou a fazer uma comparação entre o que chamou de constituições inglesa e francesa. Paine observava que Burke não cumprira sua promessa e também não se dignara a dar. três dias antes da tomada da Bastilha. Tendo dedicado a primeira parte a George Washington. um dos mais conservadores revolucionários de todos os tempos (e futuro alvo de sua mais amarga crítica). Mas esse anúncio não foi feito como se qualquer revolta. que Paine ridicularizava por suas evidentes contradições. La Fayette solicitou à Assembléia Nacional que adotasse a declaração de direitos. embora sangrenta. mais tarde. No restante da primeira parte dos Direitos do homem.

A resposta do governo Pitt foi tentar prendê-lo por sedição. Paine comparou a combinação de um pequeno fundo de amortização com grandes empréstimos a um homem com uma perna de madeira no encalço de uma lebre: quanto mais correm. tornouse impossível de ser esquecido.26 OS DI RE ITOS D O HOM E M soberano hereditário era tão absurda quanto a de um matemático hereditário. Algumas foram elaboradas a partir de uma comparação entre os sistemas francês e britânico. Escarnecendo das finanças do ministério Pitt. um dia relatou. a prova do grande impacto gerado quando um fabricante de espartilhos e construtor de pontes autodidata tratou de instruir seus superiores na arte de governar. mas logo acrescentava: ‘O que devo fazer? Vejam como são as coisas. disse ela. Seu tio. o que colocava o país no contínuo risco de ser governado por um imbecil. . e baseou sua audaciosa argumentação na fundação de “direitos”. Finalmente. termo que. outras se ocupavam da situação do tesouro. Paine jamais tomaria conhecimento do que a sobrinha de Pitt. (A loucura do rei Jorge III forneceu-lhe mais munição para tecer tais observações. assumiu o desafio implícito que se estende a todos os radicais: “O que você faria?” Apresentou então uma série de propostas detalhadas para um futuro sistema de governo republicano. por si só.) Mudando de tática. se eu encorajasse as opiniões de Tom Paine teríamos uma sangrenta revolução’”. lady Hester Stanhope. mais distantes ficam. “costumava dizer que Tom Paine estava inteiramente certo. Essa homenagem oblíqua de uma autoridade é. uma vez nos ouvidos do público. delineou um plano bastante avançado para o que agora chamamos de “Estado de bem-estar social”.

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