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MESA REDONDA Congresso Gestalt

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SUMÁRIO
A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO Autor: Josélia Quintas .............................................................................................. 5 A CRÍTICA À SOCIEDADE COMO CONFLUÊNCIA Autor: Raphael Henrique Moreira........................................................................... 18 A ESCUTA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL VIVENCIADA NA MATERNIDADE Autor: Sara Bruno e Marcela Arrivabeni................................................................. 34 A ÉTICA COMO SUPORTE: SOLUÇÃO OU UTOPIA PARA UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO? Autores: Claudia Baptista Távora, Laura Cristina de Toledo Quadros e Luciana Loyola Madeira Soares .......................................................................................... 45 A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO Autores: Rosângelo Henrique dos Santos ............................................................. 63 A INFIDELIDADE CONJUGAL E SEUS MITOS: UMA LEITURA GESTÁLTICA Autor: Mariana Moura Magalhães .......................................................................... 76 A TRANSFORMAÇÃO PELO ENCONTRO: UMA EXPERIÊNCIA EM GESTALTTERAPIA Autor: Theny Mary Viana Fireman de Araujo ......................................................... 92 AS ALEGRIAS E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM GESTALT–TERAPIA NA CONTEMPORANEIDADE Autor: Myriam Bove Fernandes............................................................................ 109 ASPECTOS SAUDÁVEIS E NÃO SAUDÁVEIS DO AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA: PERSPECTIVAS ATUAIS Autor: Cinthia Dutra Struchiner ............................................................................ 111 BRINCANDO DE OPERAR: GRUPO DE ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS EM PROCESSO CIRÚRGICO Autores: Bianca Lopes de Souza, Livia Cooper, Rosa Mitre, Celita Almeida, Renata de Marca, Rafael Maia............................................................................. 126

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ECOS NA PSICOLOGIA: CONEXÕES DO PENSAMENTO GESTÁLTICO E ECOLÓGICO COM AS QUESTÕES DO CONTEMPORÂNEO Autores: Patrícia Albuquerque Lima e Marco Aurélio Bilibio ................................ 142 GESTAÇÃO DE RISCO E GESTALT-TERAPIA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL? Autor: Guilherme de Carvalho .............................................................................. 152 GESTALT-TERAPIA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: DOIS CAMINHOS PARALELOS QUE SE CRUZAM Autor: Izabela Guedes Linhares ........................................................................... 165 GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: ENCONTROS E DESENCONTROS EPISTEMOLÓGICOS Autores: Rafael Rubens de Queiroz Balbi Neto, Diemerson Saquetto e Elizeu Batista Borloti............................... ........................................................................ 179 GESTALT-TERAPIA, PONTOS E TEATRO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NO CAMPO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL Autores: Ana Carolina Pacheco de Paula............................... ............................. 197 GESTALT-TERAPIA: APONTAMENTOS PARA A PRÁTICA NO CONTEXTO HOSPITALAR Autores: Maria do Rosário Camacho e Marcela Arrivabeni ................................. 207 GESTALT-TERAPIA: UMA POSTURA PSICOSSOMÁTICA Autores: Ana Rafaela Moreira da Rocha, Rafael Balbi Neto, Sandra Bonfim Leonel e Rafaela Teixeira Zorzanelli................................................................................ 219 GRUPO DE PAIS: CONSTRUINDO NOVOS CAMINHOS NO ATENDIMENTO CLÍNICO Autor: Daniela Magalhães da Silva ...................................................................... 230 IDEAL MATERNO, GESTAÇÃO E SEXUALIDADE: UM RECORTE DO FEMININO Autor: Julia Gama Tourinho ................................................................................. 241 OUSANDO REPENSAR OS CONCEITOS DE CONTATO E AWARENESS – UM DESAFIO POLÊMICO Autores: Angela Schillings, Jane Rodrigues, Lílian M. Frazão e Selma Ciornai .. 257 PAUL GOODMAN E OS OUTROS CAMINHOS DA GESTALT Autor: Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior .......................................................... 258

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PESQUISA FENOMENOLÓGICA: COMPREENDENDO O TEMPO VIVIDO POR ADOLESCENTES DO GÊNERO FEMININO COM EXPERIÊNCIAS DE VIVER NAS RUAS E EM ABRIGOS Autor: Virginia Suassuna ...................................................................................... 275 PROPONDO UMA VISÃO GESTÁLTICA SOBRE O AUTISMO Autor: Sandro Quintana Gonçalves...................................................................... 290 REFLEXÕES ACERCA DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA Autor: Ludmila Vieira ............................................................................................ 299 AÇÃO E GESTALT-TERAPIA Autor: Enéas Lara ................................................................................................ 316 UM OLHAR GESTÁLTICO SOBRE A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE Autor: Mabel Cortinhas Pereira ............................................................................ 330 UMA LEITURA GESTÁLTICA QUANTO À EXPERIENCIA EMOCIONAL DE MÃES DE CRIANÇAS COM MFLP NO MOMENTO DO INGRESSO ESCOLAR: ARTIGO DE REVISÃO Autor: Juliane Cristine Koerber Reis .................................................................... 345

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A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO, DO TRAUMA À REABILITAÇÃO.

RESUMO Os aspectos relativos ao sofrimento do sujeito-em-situação de adoecimento agudo, nas emergências dos hospitais, envolvem o paciente em sua totalidade num universo de questões bio-psico-político-sociais próprias daqueles que procuram a instituição de saúde para tratamento. O nosso objetivo foi discutir a saúde como campo do conhecimento e das práticas dos diversos profissionais cuidadores, em consonância com as demandas do Sistema Único de Saúde – SUS. O gestalt-terapeuta, atuando nesse contexto, é convocado a realizar ações psicológicas que favoreçam ajustamentos criativos e solucionadores, pelas rupturas que a situação vivencial pode provocar não só nos pacientes como em seus familiares. Por se tratar de um acontecimento potencialmente gerador de perdas significativas e capaz de desestabilizar a unidade do ser em questão, procuramos desenvolver uma prática clínica que atenda a demanda da experiência de “malestar” e sofrimento, favorecendo o processo de auto-regulação organísmica e possibilitando novos significados para o sujeito/paciente/hospitalizado. Enfatizamos o momento existencial e emocional do paciente utilizando um manejo técnico que viabilize ao paciente entrar em contato (estar awere) o mais completamente possível com a situação vivida e suas necessidades, enquanto sujeito enfermo/sofrente. Ancoradas numa relação dialógica buscamos a experiência imediata e de modo especial a exploração das possibilidades criativas e solucionadoras para o enfrentamento da situação, do modo mais adaptativo e fluente que ele puder. Nessa perspectiva, a Gestalt no hospital contempla seu objetivo, trabalhando com as possíveis interrupções e com a energia imobilizada em seu campo vivencial, pelas circunstâncias do momento podendo favorecer no paciente, o livre fluir das

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necessidades mais emergentes, do trauma à reabilitação.
Palavras-chave: emergência, gestalt-terapeuta, ser-doente-em-situação, contato, auto-regulação organísmica, interrupções, reabilitação.

“(...) é nesse momento que a gente descobre a reserva de força e acho que tudo que recebemos ajuda muito, mas só cada um pode dar uma direção à recuperação (...) o grupo auxilia porque você sente que não está só. A ajuda aqui está no sofrimento de cada um , procurando saída.” (fragmento de uma narrativa no grupo de apoio psicológico)

INTRODUÇÃO O presente trabalho é resultado da nossa experiência clínica, em duas décadas, em hospitais e pretende discutir os modos de atuação num contexto de alta complexidade - Centro de Tratamento de Queimados – CTQ - do Hospital da Restauração, o maior hospital da Rede do Sistema de Saúde - SUS, vocacionado para o atendimento de Emergência e de Grandes Traumas do Estado de Pernambuco, onde as ações integradas e de relação, consideram o ser em situação de sofrimento em suas dimensões bio-psico-social-política-espiritual. O CTQ é um Centro de referência para Tratamento de Queimaduras, classificado pelo Ministério da Saúde de alta complexidade e semi-intensivo, com 45 leitos, sendo 25 leitos de adultos e 15 leitos de pediatria, na maioria das vezes todos ocupados. Devido as características da patologia e conforme a gravidade do trauma, temos um tempo de permanência médio de 15 dias, podendo prolongar-se até 90 a 100 dias ou mais. As atividades de atenção à saúde, realizadas pela Psicologia se centralizam na atenção integral ao paciente e seus familiares. Atendemos em média,

considerando a rotatividade, 40 pacientes/ mês e respectivos familiares. O número

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de atendimentos seqüenciais chegam em média a 200 /mês, dependendo da ocupação dos leitos e da complexidade dos casos. As Avaliações iniciais (preventivas) nos auxiliam como indicadores para novos atendimentos atentando para a disponibilidade do paciente e as implicações emocionais decorrentes do momento vivido. No tocante à atenção psicológica, esta se inicia desde a admissão do paciente no CTQ, estendendo-se ao pós alta hospitalar ambulatorial, junto aos demais profissionais fisioterapeutas e médicos. Muitas vezes são necessárias cirurgias reparadoras das seqüelas cicatriciais, comuns nos pacientes queimados bem como o tratamento fisioterápico que pode durar anos. Nessa etapa do tratamento, pós alta hospitalar, os pacientes oriundos da cidade e da região metropolitana, são convidados a participar do Grupo de Apoio Psicológico à Reabilitação, realizados semanalmente, dando continuidade a atenção oferecida durante a hospitalização. O grupo representa um espaço de convivência, de escuta e de trocas de experiências de dor e sofrimento pelas dificuldades e estigma que a patologia impõe. É um Grupo temático, aberto e cada encontro se encerra em si mesmo. Os temas são figuras que emergem da própria dinâmica e como indica Cardella; “ os temas se entrelaçam e se relacionam criando uma rica tela de experiências, em uma dada situação existencial”.(p. 73-74) Nesses encontros, pela cumplicidade, alguns pacientes ultrapassam os limites da doença para as múltiplas implicações no âmbito pessoal e interpessoal, tornandose assim um espaço socioinstitucional propiciador de um enraizamento coletivo da nossa clientela, conforme nos diz Schimidt ( in Morato 1999). Nesse espaço de referência e de convivência, muitos comparecem para contar aos outros suas experiências e seus vínculos com a instituição e seguimos todos caminhantes, procurando sentidos, tecendo a trama do trauma à reabilitação. Diante das considerações iniciais e contextualizada a nossa clínica,

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inserindo-se nas equipes de saúde e afastando-se da tarefa clínica tradicional . hoje coincidente com os ideais de integralidade do SUS. Esta atenção favorece a comunicação e a elaboração da experiência de sofrimento que está para além do corpo e da patologia. comprometida com as questões sociais e com o Sistema Único de Saúde – SUS – que amplia seu olhar. onde a população vive a experiência de ameaça e desamparo provocada pelo fluir da fragilidade humana em situações de crise aguda. podemos dizer que sofrer.) A vivencia do impacto do inesperado e o defrontar-se com a possibilidade de morte. Somos chamados para o público. Não nos deteremos aqui em tais princípios. entre eles o hospital. e do privado para o coletivo. provocadores de sofrimento e desamparo.. É de nosso conhecimento que a Gestalt-Terapia. culminando finalmente na demanda hospitalar.passamos então a discorrer sobre a psicologia contemporânea. 8 . Lembramos Perez (2005) “(. o desamparo. a integralidade da atenção e a equidade. que caracterizam a situação emergencial. cujos princípios básicos são a universalização do acesso. A GESTALT NO HOSPITAL: A CLÍNICA DO CONTATO O enfoque que queremos dar para o sentido do sofrimento no âmbito da saúde requer uma nova compreensão do verbo sofrer como sinônimo de padecer. aponta para o suportar. atualizando o conceito de atenção integral já encontrado no pensamento holístico e modelo atual sugerido pelo SUS. com o seu olhar holístico para o sujeito. tem desenvolvido trabalhos em outros espaços.” (p. visto ser outro o tema a ser discutido. Do ponto de vista existencial. lançam o sujeito no estado inicial da condição humana. a psicoterapia.53) Há de se considerar que tal situação provoca uma alteração da continuidade existencial que constitui e sustenta o sujeito e que pede uma atenção e uma ajuda especializada. constituindo-se numa nova compreensão sobre a saúde que considera os inúmeros fatores de dificuldade no cotidiano da população que são de natureza bio-psico-social-política-espiritual..

os médicos gregos. destacando-se Hipócrates. Em “Assim falou Zaratustra”. se descortina o sofrimento humano total e inevitável. sobrepõe-se radicalmente a questão das necessidades pessoais do paciente e assim. já apontavam para o bem-estar do indivíduo e para os fatores ambientais interferentes no aparecimento das doenças. 1995 ). no hospital. inerente à própria patologia. a pensar sobre a condição do paciente como serdoente-em-situação. No entanto. Para ele. ou seja o sujeito bio-psico-social-político-espiritual solicita da equipe uma atenção ao sofrimento em todas as suas dimensões. No hospital. É necessário salientar que compomos uma equipe interdisciplinar numa rede de cuidados cuja prioridade é a sobrevivência e recuperação do paciente. Buscando também inspiração em Nietzsche (2006). a ameaça a sua integridade e as repercussões decorrentes das rupturas sofridas em seu espaço vital. a vida apesar do sofrimento inevitável. o que . sendo. adotando um modelo que vise primordialmente a sua integralidade contextualizada. humores e paixões que deveriam estar em equilíbrio. sustentando e sendo. e fugindo do sentido de padecimento. consideramos o usuário e suas necessidades. (CAPRA. As ações médicas são marcadas pela objetividade científica e pela resolutividade da situação crítica vivenciada pelo paciente. temos nele. modos de vida e outros componentes da natureza humana – Pathós – ou seja. com os princípios da Medicina hipocrática. falando também do poder curativo da natureza. Nem precisamos dizer que nesse contexto.levando adiante. a visão holística. e sobre a necessidade de suportar e enfrentar seu tratamento. vítima de um trauma agudo. que a fraqueza e a submissão é combatida.. dada a objetividade das ações e a dinâmica do 9 . o conceito de eterno retorno nos põe em contato com a vitalidade que afirma o homem. a saúde dependia de um estado de equilíbrio entre influências ambientais. dando lugar a uma vitalidade que afirma o homem: vontade de potência. ou seja. A dor e o sofrimento próprios da existência humana nos leva. Na Grécia antiga.

mas de estruturas que têm um significado distinto da soma de suas partes.) e com os perigos e supostas ameaças que tal situação poderá despertar nele. o diferente. o campo. p.37) Isso por si. a totalidade nas análises de um fenômeno. doença aguda.. a energia mobilizada será integrada e a awareness eficaz naturalmente dependerá de como o paciente compreende sua situação atual e de como o self encontra-se nessa situação. na maioria das vezes não é possível. chamou atenção também para a importância de se incluir o contexto. 10 . Sugeriu que há uma atitude que faz com que os Pimentel indivíduos percebam que o mundo é composto não só de átomos. O organismo subsiste em relação com o meio. mantendo sua diferença. em seu campo vivencial. Entrando em contato com a situação. 93) enquanto que o gestalt-terapeuta no hospital trabalha efetivamente com paciente em sua totalidade. seguindo os princípios da Gestalt já citados. Perls enfatizou a importância de compreender como um fenômeno psicológico acontece considerando o ser em sua totalidade. o lidar com o outro. quanto em relação ao usuário com suas múltiplas demandas. Nesse sentido lembramos Lofredo (1994): “ contato é o reconhecimento do outro. já aponta para a necessidade de um olhar interdisciplinar. exercendo assim a clínica do contato e do diálogo. também comenta esse pensamento dizendo: “ Marcando o corte epistemológico com a Psicanálise. o tratamento. o ambiente hospitalar. Perls desdobrou a tese do holismo estrutural. o paciente confronta-se com o estranho (com o novo. Nesse cenário e fazendo parte da equipe interdisciplinar. assujeitados à possibilidade da novidade e do imprevisto.tratamento. a equipe.o novo. sua alteridade e.. o que não-é-eu. voltado para o diálogo. evitando uma visão isolacionista. em seus aspectos estruturais e dinâmicos do psiquismo. (2003). Numa situação de contato estamos inevitávelmente. e o estranho. o psicólogo precisou re-inventar suas concepções e técnicas exercendo uma clínica ampliada cujo “foco do trabalho é o sujeito integral” conforme aponta Spink (2007. principalmente. tanto entre os membros da equipe que cuida.” ( p. assimilando o meio a seu ser diferente. (p.83) Considerando as necessidades do organismo e sua auto-regulação.

conceito fundamental em Gestalt. na prática. como disponibilidade para uma escuta clínica situacional que favoreça o contato e a reflexão sobre o modo como ele como se relaciona com os acontecimentos e o que fazer com aquilo que se apresenta como inevitável e como algo a ser solucionado.O contato é sempre dinâmico e por sua natureza relacional. caos. Tomando como fio condutor o conceito de auto-regulação organísmica. Não podemos deixar de enfatizar que é na fronteira-de-contato que acontecem as comunicações entre o paciente e a equipe e particularmente com o psicólogo que favorece através dos encontros. Nessa perspectiva. acontece pela formação de uma figura contra um fundo. trocas importantes com possibilidades de mudanças. possibilitando um espaço para a criatividade e a autonomia. portanto. que 11 . Nossa atuação parte de uma avaliação compreensiva. Em Gestalt significa favorecer o afrouxamento de controles. pensar. importa. compreender como ele reage a sua condição de ser/sofrente e quais seus recursos disponíveis. fica claro que não conseguiremos dar conta do sofrimento humano e o gestalt-terapeuta se oferece ao paciente/sofrente como presença. dizer e agir e que como já visto na situação concreta de adoecimento esse modo será afetado em sua organização de maneira que organização- desorganização. ou estratégias de enfrentamento diante da situação a ser solucionada.ordem surgem como uma realidade a ser vivenciada. entre terapeuta e paciente para uma ação interventiva que objetiva o livre fluir da energia necessária ao enfrentamento e à recuperação da saúde. De qualquer modo nos perguntamos: Quem é o paciente? Em que circunstâncias ele adoeceu? Há alguma relação entre sua historicidade e seu adoecimento? Qual a dimensão dada ao seu sofrimento? E o grau de vulnerabilidade diante de tal acontecimento? Como poderemos favorecer o fluir da energia vital capaz de dar sustentação na travessia da hospitalização até a reabilitação? Diante de tais questionamentos. Sabemos que o modo sadio do sujeito deverá se revelar pela sua capacidade coerente entre sentir.

que poderão dar sentido a experiência vivida. com sua própria vulnerabilidade. mobilizando por demais a angústia já própria da existência humana. A teoria organísmica. Nesse sentido. então você aprende a lidar com a vida.”(p.30) . a situação que se apresenta sugere que o gestal-terapeuta se utilize de ações facilitadoras de awareness. decorrente das incertezas e das possíveis perdas. citado por Yontef (1998) diz que: “Existe apenas uma coisa que deveria controlar: a situação.diz como o sujeito se relaciona com as situações. deixando fluir a energia necessária ao processo homeostático. tornar-se mais permeável a compreensão da realidade a ser enfrentada. ou seja. seus medos. Cardella(2002) nos mostra que : “Para a Gestalt-Terapia. pensa o corpo como unidade funcional e que todo fenômeno acontece no organismo total. Querendo dizer com isso que existe a possibilidade da pessoa poder escolher e regular suas próprias vontades se estiver awere. além da agressão. 12 . fantasias e dificuldades. da awareness do indivíduo.Se você entende a situação em que está e se você permitir que a situação em que está controle as suas ações. assimilar o que é nutritivo e rejeitar o que é tóxico .65) Fica claro então. o paciente/sofrente poderá apropiar-se do momento vivido conseguindo uma maior fluidez e assim. portanto. mesmo sofrida. nesse momento de crise. o sofrimento.” (p. o que resulta em crescimento segundo processos de ajustamento criativo. Perls. de sua capacidade de discriminar e . mas uma atitude de escolha e aprendizado que envolve o ser total numa compreensão daquilo que é (realidade atual) e que necessita da utilização de forças presentes para o enfrentamento da situação. o processo de auto-regulação organísmica depende. Enfatizamos que auto-regulação não indica acomodação ou resignação. que é a awareness e a hierarquia das necessidades do paciente. No confronto com a dor. enfatizamos que o contato com a situação de trauma e hospitalização que leva o sujeito a desestabilização própria das situações de risco iminente . consequentemente. direcionadas ao foco de atenção do paciente (figura).

uma dimensão constituviva do ser e. corporeidade tem um sentido especial. O corpo. se o paciente estiver awere. o enfrentamento da situação ameaçadora de vulnerabilidade. incertezas e dor. será um facilitador do processo gradual de passagem do apoio em suportes de outros para o reconhecimento e a criação de recursos próprios do indivíduo. como abordagem aplicada. utilizar recursos próprios. no caso.” (p. É justamente a inter-relação das suas dimensões humanas – suporte – que o paciente deverá fazer o movimento para o contato. a Gestalt no hospital. e mais uma vez citando Cardella (2002) temos que: “O terapeuta. contempla seus objetivos. Na dinâmica da sua totalidade. portanto. a atenção psicológica oferecida ao paciente é norteada pelos acontecimentos experienciados no momento. Para Heidegger (2001). e do suporte o paciente poderá modificar percepções distorcidas ampliando suas possibilidades e assim. e colocando em destaque a situação de adoecimento e trauma agudo. é condição ontológica do sujeito e já aponta para a totalidade do ser. se estiver ciente daquilo que é. estabelecer contatos plenos. expressa por movimentos desordenados em sua corporeidade. o corpo para 13 . para que possa. segundo ele é um existencial.49) Nessa perspectiva. então. O gestalt- terapeuta atuará junto ao paciente em sua unidade. na maioria das vezes doloroso e ameaçador. visto que. Desse modo. de facilitar a solução de problemas. Através do encontro.Por essa compreensão. trabalhados através da explicitação da experiência existencial. o que afirma nossa prática como uma prática essencialmente fenomenológica-existencial. estimulando a auto-regulação e o auto-suporte através de técnicas adequadas e de confronto com a situação e ao que se apresenta. desorganiizada pela crise. O objetivo da Gestalt-terapia é portanto. portanto inseparável da suas experiências e de seus significados Esse filósofo. buscando a autoregulação e o auto-suporte. poderá encontrar meios de enfrentar e suportar as necessidades do tratamento. favorecendo o fluxo de energia e tornar-se agente de seu tratamento e da sua própria recuperação. considera. o paciente busca sua auto-regulação. então.

toque. das trocas. em conexão com o livre fluir. Segundo Polster e Polster (1979) o contato acontece através das funções de contato. MANEJO DA FRONTEIRA . é também o lugar onde acontece o contato facilitador significado/sentido. fala. Trabalhamos com a noção de contato com o sujeito e suas possibilidades trazendo assim a compreensão do que se passa com o paciente como Perls acreditou: na ênfase dada a situação da pessoa no presente. para enfatizar o que pretendemos expor no momento. Por essa compreensão.DE . Acrescentando ainda em sua fala que os limites do corporar encontra-se num âmbito diferente do tocar e do ver. também. articulamos novamente um dos conceitos fundamentais da Gestalt-terapia.. já a primária compreensão do ser” ( p. É o lugar do encontro. a noção de contato.além do organismo físico e sim como um modo de ser nas diferentes formas de afetação. considerado aqui como corporeidade é a casa do contato. mas ai está sempre.CONTATO NA SITUAÇÃO HOSPITALAR A fronteira-de-contato é onde tudo acontece.212). as fantasias. os perigos. destacando como essa pessoa. “O corporar está em toda parte onde participa a sensorialidade. onde o paciente experiência o estranho. olfato. mas no âmbito do imaginar e da possibilidade de presentificar. entra em contato com sua situação atual ou presentificada. gestos.. o novo. e assim. alguns pacientes. muito afetados em sua unidade relacional e transformador de 14 . As intervenções clínicas psicológicas possíveis no hospital seguem a mesma metodologia da clínica tradicional e considerando o manejo da fronteira-de-contato acreditamos que as pessoas são capazes de fazer a travessia da situação e tomando consciência (estar awere) poderá mover-se em direção a sua autoregulação. expressões etc. compreendemos que o corpo. visão. No entanto.

O gestalt-terapeuta compreendendo o movimento inadequado presente na fronteira-de-contato e considerando o modo próprio como cada sujeito se revela. além de ampliar a awareness deste em relação à sua forma de contatar e evitar. ou seja. No hospital. Por essa compreensão. Os fenômenos decorrentes das situações de crise aguda muitas vezes provocam os bloqueios que apontamos acima. interrompendo o fluir natural do processo de ajustamento criativo. Cardella (2002) referindo-se aos distúrbios na fronteira-de-contato. Assim. aumentando sobremaneira o sofrimento daquele que necessita atravessar tal situação. podem ser um dos fatores que interfere no tratamento do paciente e na comunicação entre todos da equipe. as relações paciente/equipe. com a situação. que apontam para uma confusão entre o si-mesmo e o outro. adaptáveis às experiências em curso na vida do indivíduo.poderão apresentar dificuldades. que recebem diferentes denominações em gestalt-terapia conforme diversos autores. poderá ajudá-lo a desfazer suas interrupções que bloqueiam o contato e a interação saudável consigo mesmo e com os outros e consequentemente. dificulta as trocas. Diz a autora: “No processo terapêutico o que se procura é transformar esses mecanismos em estilos de contato. o estado emocional comprometido e tais interrupções. interrupções no ciclo do contato etc. o tratamento necessário. As construções metodológicas que contemplam a clínica no contexto hospitalar estão na perspectiva dos significados/sentidos e nossas ações se 15 . redirecionando a energia para outros modos mais adequados flexíveis e naturais. temos os distúrbios de limite.” (p. distúrbios de fronteira. indica a utilização de mecanismos neuróticos. 58) Finalmente. a rigidez na fronteira-de-contato encontrada nos pacientes em situação de crise aguda. a autora acima citada considera que é necessário não combater tal movimento e sim procurar tornar o paciente awere do mecanismo que utiliza. os define como a incapacidade se encontrar e manter o equilíbrio.

como Benjamin (2002) também acreditamos que pode ser possível para o paciente o enfrentar da realidade sem defender-se. Diz ele: “Enfrentar.” (p. Para finalizar. pelo contrário. então. nossa entrevista poderá ajudar mais do que se pode prever.28). visto ser o adoecimento agudo um acontecimento que envolve o cotidiano do sujeito nas mais diversas atividades e dimensões existenciais. Assim. a Gestalt-terapia mostra-se presente das diversas possibilidades de atuação clínica. é encarar os fatos e decidir. No encontro. onde o desamparo e o sofrimento humano mostra-se em toda sua intensidade. Se pudermos criar uma atmosfera em que o confronto seja alcançado. afirmando-se cada vez mais como uma abordagem atual e engajada com os ideais de cidadania e de autonomia do sujeito-em-situação. o que fazer com eles. negá-la ou distorcê-la. terapeuta e paciente poderão encontrar modos de enfrentamento solucionadores e capazes de mudanças significativas na vida do paciente. As reflexões aqui apresentadas acerca da atuação do gestalt-terapeuta na âmbito hospitalar se revela hoje como abertura para nossa inserção profissional num contexto público e social.direcionam para a possibilidade de ampliar o campo de visão sobre a situação a ser suportada e da saúde como unidade do ser bio-psico-social-político-espiritual. 16 .

NIETZSCHE. pessoa: SPINK. HEIDEGGER. In ISMAEL. G.M. São Paulo: EDUC. F.J.M. POLSTER. São Paulo: Casa do Psicólogo.M. YONTEF.. São Paulo: Escuta. CARDELA B.P. Aconselhamento psicológico centrado na novos desafios. São Paulo: Sumus. São Paulo: Sumus Editorial.) A prática psicológica e suas interfaces com as doenças. São Paulo: Casa do Psicólogo.H. F.P. diálogo e awareness: ensaios em Gestaltterapia. BACKES. & PM PIMENTEL. S. Dicionário da Língua Portuguesa. (2007) A psicologia em diálogo com o SUS: prática profissional e produção acadêmica. (2001) Seminários de Zollikon.M. (2002) A construção do psicoterapeuta: uma abordagem Gestáltica.(2003) Psicodiagnóstico em Gestalt-Terapia. (2005) O psicólogo na unidade de emergência. L. (1994) A cara e o rosto : ensáios sobre Gestalt-terapia. E. BENJAMIN. Cultrix Ltda.BOSS. M. A. Belo Horizonte: Interlivros. Petrópolis:Vozes. Ed. A.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AURÉLIO.H.C. (1995) O ponto de mutação.São Paulo: Ed.M. São Paulo: Sumus. 17 . (1979) Gestalt-Terapia integrada. M. F. (org.e POSTER. (1998) Processo . SCHI MIDT. (2002) A entrevista de ajuda.(1999) Aconselhamento psicológico e instituição: algumas considerações sobre o Serviço de aconselhamento Psicológica do IPUSP. M. (2006) ECCE HOMO : de como a gente se torna o que a gente é.São Paulo: Martins Fontes. Porto Alegre: L.P. H. A. São Paulo: Casa do Psicólogo. M. PEREZ.Trad. LOFREDOA. B. H. S. G. In MORATO. CAPRA.T.

keeping an articulation with society. aceitação. contrastantes portanto com o julgamento. mantendo uma articulação com a sociedade. ABSTRACT The purpose of this work is to investigate the act of judging the contemporary phenomenons of society throw the eyes of confluence. Inicialmente busca-se uma fundamentação da visão de ser humano desta abordagem. community. apresentada pela Gestalt-terapia. sociedade. acception. Posteriormente faz-se uma observação do campo da Gestalt-Terapia Comunitária com o objetivo de observar outras formas de relacionamento com a sociedade que possibilitem contato. paradoxal change. crítica. 18 . in constrast with judgement. judgement.A CRÍTICA À SOCIEDADE COMO CONFLUÊNCIA Raphael Henrique Moreira RESUMO O propósito deste trabalho é investigar o ato de julgar os fenômenos contemporâneos da sociedade a partir da ótica da confluência. Keywords: confluence. At first it is searched groundings for the human being’s view of this approach throw a development of the notion of observation. julgamento. através de um desdobramento sobre a noção de observação. Later on there is an observation of the field of Community Gestalt Therapy with the objective of observing others forms of relationship with society that allows contact. society. presented by Gestalt Therapy. Palavras-chave: confluência. comunidade. mudança paradoxal. criticism.

evitação do encontro com a diferença que contribui para uma estagnação desse coletivo. da vivência atual. distingue-se o certo do errado. Isso não significa que está satisfatório. podendo então virar uma meta que guia nossos atos. entende-se a ótica “não deveria ser” do fenômeno. somente quer 19 . Desse modo parte-se da crença de que o que seria crescimento pode ser estabelecido a priori da experiência. uns aos outros. temos que esse coletivo chamado sociedade está se ajustando da melhor forma possível. A partir da noção de confluência da Gestalt-Terapia.INTRODUÇÃO As reflexões sobre a contemporaneidade são influenciadas pela importância de um olhar crítico. Restringe-se. O presente trabalho enfoca a contribuição que a visão de ser humano da Gestalt-Terapia pode ter para a forma como são vistos os fenômenos da contemporaneidade. Por crítica à contemporaneidade. exclusivamente ao ato judicativo de adjetivar as qualidades da sociedade contemporânea. que implicitamente ou explicitamente deixa claro um “deveria ser…”. será abordado esse julgamento da sociedade como uma tentativa de restauração da igualdade entre os membros. O objetivo de se manter tal olhar é o progresso da humanidade. a partir do conceito de ajustamento criativo que embasa a sua prática. e a fundamentação teórica de que esse pode ser um de jeito algo novo e uma possibilidade de uma melhor organização acontecer. portanto. afirma que o organismo se ajusta ao ambiente da melhor forma possível. ACEITAÇÃO E SOCIEDADE A Gestalt-Terapia. Em congruência com essa noção. Em contraste à posição crítica será apresentada uma proposta na base da observação em massa. Nós somos o nosso melhor no momento. Acredita-se que dessa forma encontra-se uma verdade.

O tempo passa. e eu não posso voltar para mudar nada. Não é algo que eu faço: é algo que permito. Uma mudança acontece no momento em que me deparo com a alteridade. fenômeno contemporâneo muito criticado atualmente na sociedade. dos seus desejos. precisamos partir da massa que somos agora. o consumismo. inclusive o ‘ser’ do meu desprazer com algumas das coisas que são. perdemos atenção do que somos agora e não temos ponto de partida e não temos como sair do lugar. e também não poderia ser diferente. Tomemos. surge da sua vida. pois novas experiências podem reorganizar de modo a levar a um ajustamento mais satisfatório. Quando vejo a situação do seu ponto. considerando o presente. na sua imaginação: Há alguma coisa que naquele momento você poderia ter feito diferente? Nesse momento. 353). Aceitação entra quando a não-aceitação se rende à natureza das coisas e fatos. eram a única coisa que eu podia fazer. Volte cinco minutos no tempo. preciso estar no presente. do seu fundo. posso perceber que no momento essa era a única coisa que você podia fazer – e que o meu ressentimento e a sua não expressão. 1977. etc. Ainda que consideremos o consumismo como 20 . (STEVENS. Se ficarmos enquanto coletivo com um ideal ou com o julgamento do que é atual. e para tal. há alguma coisa que você possa fazer que não está fazendo? Talvez você tenha um sentido de escolha. Assim como a crítica é a única possibilidade crítico naquela hora. movemo-nos no sentido da compreensão e aceitação mútuas. Juntos.dizer que não poderia ser diferente do que é. para que com o foco presente possamos participar dessa nova experiência com toda a nossa potencialidade: No diálogo posso mover-me no sentido de aceitar-me como sou e tornar-me disposto a enviar as mensagens de maneira clara. p. Aceitação é dizer ‘sim’ àquilo que é. à medida que descubro e torno-me nós dois no diálogo. aceitando as suas mensagens sem distorção. mas esta escolha também é parte do seu ser neste momento e. Mas para que novas experiências sejam assimiladas por cada organismo que compõe a sociedade. pois só me deparo no aqui agora. com aquilo que é. Também não significa que não poderá ser mais satisfatório futuramente. Posso mover-me no sentido de aceitar você como você é. Da mesma forma a sociedade é agora o que ela pode ser nesse momento. por exemplo.

etc. se o pólo sistema de orientação1 focalizar o que acontece no presente. se tornar clara. portanto o que é. 61). quando estamos mal. desconfirmando a melhor possibilidade que aquele organismo ou aqueles organismos têm para sobreviver naquele momento. então sentimos ressentimento e culpa. que nada tem a ver com o embotamento da agressão. A aceitação é nesse sentido uma concentração do sistema de orientação.um sintoma. e no caso o próprio consumir. 352). ou seja.” (STEVENS. 1977. E poder ficar com o que o fenômeno é. o juízo de valor do consumismo de nada contribuiria para uma mudança desejada por esse cliente. uma postura ativa. Sobre agressão e sua relação com ressentimento e culpa temos: Em relação aos nossos companheiros. o meu apegar-se. é validar a sua existência: “Aceitação é uma questão de descobrir os meus laços e então soltar a minha interferência. sentimo-nos gratos. o meu evitar. que excesso é relativo. 1 21 . ele é o melhor ajustamento possível para dar conta de uma necessidade que não encontra ou evita encontrar vazão no ambiente de forma satisfatória. comum a vários indivíduos. Os valores da O termo “sistema de orientação e manipulação” refere-se à integração entre o sistema sensório e o sistema motor. e que o único que pode realmente dar-se conta de se aquela forma é satisfatória ou não é o próprio indivíduo em questão. Essa necessidade não tem como surgir na observação do que esse sintoma “deveria ser”. aceitá-lo. A sociedade é o que dela fazemos. p. É uma construção das diferentes forças no campo de todos os indivíduos que dela participam. Na crítica do sintoma focaliza-se o que o ajustamento não deveria ser. comumente chamado de conformismo. temos uma sensação de contato harmonioso. pois não tem nenhuma relação com este. Esta denominação foi apresentada por Perls no texto “Teoria e técnica da integração da personalidade”. Se nós nos impedimos de agredir. p. atacamos e tentamos modificar o ambiente. quando estamos bem. a minha luta. 1977. O sintoma está na superficialidade. no trabalho psicoterápico. (PERLS. que transforma em passividade através da racionalização. Ainda assim é necessário levar em consideração que consumir em excesso não é necessariamente um sintoma. E essa necessidade subjacente só pode emergir.

A vivência é vista como absoluta. Mas essa discriminação é organísmica. nós tiramos o bom e o ruim da nossa própria experiência. de diferentes formas e intensidades. Perls discursa sobre uma moral organísmica e sobre a projeção da experiência: O próximo passo é que em vez de nos apropriarmos de nossas experiências projetamo-las e jogamos sobre o estímulo a responsabilidade pelas nossas respostas. 22 . o quadro. A experiência com essa construção coletiva é singular. (Isto poderia acontecer porque ficamos assutados. para assim poder discriminar. A sociedade vai surgir da inter-relação de cada discriminação.contemporaneidade são criticados como se fossem externos. Uma vez que tenhamos isolado o pensamento do sentimento. única e portanto o direcionamento que dela encontra-se serve para todos. e a tentativa de expandir essa experiência única para os demais participantes através da crítica ignora exatamente essa alteridade. o verbal do não-verbal. 1977. Eles tornam-se abstrações e os estímulos-objeto são então correspondentemente arquivados. E observando o que é abre-se espaço para a possibilidade de ver necessidades genuinamente em comum. perdemos o ‘eu’. o livro. Isto não deixa de ter consequências. Aceitar não é deixar de discriminar. o boxeador. o filho. o amante. não é possível saber o que é bom a priori para o coletivo. ‘é’ bom ou ruim. (PERLS. o julgamento da intuição. somente. Para considerar qualquer mudança numa sociedade é necessário enxergar que essa experiência é diferente. Considerando a singularidade com que a satisfação ocorre não é factível considerar “o” certo. frígidos ou neuróticos confusos. etc. isso não é acessível através da experiência com esse coletivo. Essa singularidade óbvia da experiência é alienada. com medo de nosso excitamento e fugimos da responsabilidade. 52-53). a essência da existência e tornamo-nos robôs humanos. a moralidade da autoconsciência.). é uma suposição. e o que fica em seu lugar é a expectativa de ter uma moral absoluta como guia ou poder guiar os outros com ela (culpa ou ressentimento). pessoal. e sim ver o que é e não o que deveria ser. e como se a construção desses mesmos não tivesse a participação. p. No momento em que rotulamos o estímulo de bom ou ruim.. a deliberação da espontaneidade. e isso é o que é. Nós dizemos que o aluno. de cada indivíduo. etc.

esse fragmento é aceito como uma consequência legítima de uma necessidade funcional que é então explícita e deliberadamente mobilizada e recebe energia para poder operar como uma força explícita . com a sua existência.A TEORIA PARADOXAL DE MUDANÇA Beisser. somente é possível mudar se o investimento estiver pleno no que se é naquele momento. aí faz-se possível paradoxalmente uma mudança (BEISSER. 1980). O ‘fragmento alienado’ mencionado é a própria diferença entre os diversos subgrupos que compõem a sociedade. dentro e fora da organização. creio ainda que o agente de mudança social tem como sua função principal trabalhar com (e em) uma organização. 114). para que esta possa mudar sistematicamente com as variações no equilíbrio dinâmico. de que existe um fragmento alienado. (BEISSER. ou seja mantendo seu 2 Grifos meus 23 . Da mesma forma. p. Isso requer que o sistema se torne cônscio dos fragmentos alienados internos e externos. existe uma conscientização. Somente percebendo que essa diferença existe e ficando com isso. 1980. a partir da teoria da Gestalt-Terapia cunha o termo ‘Teoria Paradoxal de Mudança’. aponta para a necessidade de awareness sensorial. pois a tentativa de mudança não gera modificação alguma. Primeiramente mencionando o pólo orientação do sistema orientação/manipulação. em seguida. dentro do sistema. para falar da concentração da atenção no fenômeno como ele é. Isso por sua vez. Primeiro. ele amplia a visão individual para o que chama de ‘Teoria Paradoxal de Mudança Social’: Acredito que a mesma teoria de mudança aqui esboçada também é aplicável aos sistemas sociais. 2 O autor demonstra na parte grifada como o método utilizado na GestaltTerapia pode ser utilizado de uma forma social. que a mudança ordenada dentro dos sistemas sociais se realiza na direção da integração e do holismo. leva à comunicação com outros subsistemas e facilita um desenvolvimento integrado e harmônico de todo o sistema. para poder integrá-los nas principais atividades funcionais por processos semelhantes à identificação no indivíduo. pois.

and deadness. é concebida agora. boredom. projeção. subjecting it to stereotyping and projection. Quando esse estado se torna rígido. the outcome is stagnation. out of fear and loss of faith in either themselves or their environment. projection. retroflexão. Considerando o pólo manipulação. e o que está dessensibilizado não pode mais ser reconfigurado frente ao ambiente então temos a confluência como evitação de contato: A sensing and the object sensed. confluence – represent anxiety at work substituting the known for the unknown (MILLER. o tédio. uma forma que só se torna possível frente a este excitamento. one person and another. confluência – representam a ansiedade em funcionamento substituindo o conhecido pelo desconhecido. por medo e perda da fé nelas mesmas ou no seu ambiente. Beisser fala em mobilização e operação de energia. o excitamento tem então possibilidade de surgir para construir uma nova forma mais satisfatória de regulação deste coletivo. The disturbances of contact as Gestalt Therapy views them – introjection. Ela é fisiológica quando ainda assim existe uma disponibilidade para o fundo se diferenciar. retroflection. 3 24 . 1990. a vida como um olhar fixo para uma parte do seu mundo.foco. abre-se então a possibilidade para emergir a necessidade dos diferentes indivíduos participantes. PERSUASÃO E SOCIEDADE A confluência é uma condição de indiferenciação. are confluent when there is no appreciation of a boundary Tradução: Quando as pessoas se resignam. submetendo-o à esteriotipia e à projeção. realmente novo que poderia surgir desse encontro. o excitamento. 3 CONFLUÊNCIA. life as a fixed stare at a portion of one’s world. É a vida sem nenhuma vitalidade ou excitação. Considerando um ideal perdemos a oportunidade de descobrir algo novo. e o amortecimento. Os distúrbios de contato tais como a Gestalt-Terapia os vê – introjeção. p. e seguimos em busca de um ideal futuro: When people resign themselves. e tomamos o caminho a ser traçado como algo velho e já conhecido. an intention and its realization. to living amid what they already know too well. It is life without any vitality or excitemenent. o resultado é a estagnação. a viver em meio ao que elas já conhecem bem demais. 27).

ainda sim. 1951. por conseguinte não há awareness. p. hence no awareness. they cannot work it out to a point of reaching genuine agreement or else agreeing to disagree. awareness e contato ficam impossibilitados. No encontro comunitário. enjoyed – there can be no emergence and development of the figure/ground. quando não há discriminação dos pontos de diferença ou outredade que os distinga.between them. 365). por conseguinte não há contato! 4 25 . Não ocorre mudança nenhuma. o desenvolvimento figura/fundo. e sim somente no pólo organismo ou somente no pólo ambiente. they Tradução: O que sente e o objeto sentido. when there is no discrimination of the points of difference or otherness that distinguish them. na confluência. Indiferenciado que fica com somente um ponto de vista como norteador. poderá haver a experiência de ser aceito em sua diferença e aceitar a diferença do outro. é ponto primário para a experiência de contato. pois é possível compreender o que faz outros a terem tal ponto de vista. Sem o senso de fronteira – essa noção de algo outro a ser notado. ou seja. abordado. manipulated. aproveitado – não tem como ter emergência e desenvolvimento de figura/fundo. 4 (PERLS. Quando o foco está no que a sociedade deveria ser. são confluentes quando não há apreciação de uma fronteira entre eles. mesmo que pontos de vista não sejam modificados. não há apreciação da diferença. frente as diferenças na forma de encarar um certo conteúdo se houver possibilidade de escuta. manipulado. notar a diferença. No. que surge do que o que pensador quer para satisfazer sua ansiedade frente a novidade que pode transformar o que está assimilado nele. diferente de somente ter uma visão. O foco em algo fantasioso (o que deveria ser ou o que não deveria ser) visa somente o referencial de julgamento. Isso já é algo novo. e se o desequilíbrio entre os pólos não é tolerável. ou será necessário o isolamento: If a discrepancy in their views becomes manifest. ou vai ser tentado a restauração do equilíbrio. por conseguinte não há excitamento. e essa compreensão muda a forma como posso estar com essas pessoas. approched. observar. perde-se o foco da diferença que existe. É nesse encontro com a diferença que algo poderia ser modificado em ambos os pólos organismo/ambiente. hence no excitement. hence no contact!. Without this sense of boundary – this sense of something other to be noticed. O termo apreciação. a intenção e sua realização. HEFFERLINE & GOODMAN. uma pessoa e outra. Mas se a atenção não está no que emerge no campo organismo/ambiente. II. ou do que ela não pode ser. no sentido de olhar.

Considerando uma relação de forças já naturalmente desigual como o organismo e a sociedade (ambiente). despairing of restoring the confluence. perdoa. one persuades. como televisão. In the other case. ou desesperando-se para restaurar a confluência. II. p. Ainda assim a primeira aparece nas diferentes formas de comunicação em massa. being offended. 368). ajustar o outro a si. No primeiro caso torna-se um homem-do-sim. frets about small differences. pode tomar a forma de hostilidade. propitiates. (PERLS. eles não conseguem resolver até um ponto de concordância genuína ou então concordar em discordar. The latter may emphasize sulking. 1951. livros e artigos científicos. para essa apreciação de algo outro a mim mesmo. retirada. ou intimida. ficar ofendido. HEFFERLINE & GOODMAN. p. bribes. ou outros modos de dispor-se do outro como um objeto de interesse. HEFFERLINE & GOODMAN. and becomes slavish. flagrant disregard. where one cannot stand contradiction. 5 Duas são as opções para restaurar a igualdade na confluência. Hefferline e Goodman (1951) demonstram como no contato a diferença pode ser respeitada. Ele apaga sua própria individualidade. 1951. 368). it may take the form of hostility. esse tenta ajustar-se ao outro. compels or bullies. ele usa de persuasão. 6 Perls. A censura à contemporaneidade pode variar desde a persuasão até a intimidação. tenta fazer as pazes. jornal. withdrawing. tries to make up. or other ways of disposing of the other as an object of concern. (PERLS. compele. Tradução: Para restaurar a confluência interrompida. ou se ajustar ao outro. or. A variedade na contemporaneidade. inclusive os ajustamentos não saudáveis de terceiros.must either restore the disturbed confluence by whatever means they can or else flee into isolation. ou o outro a si. eles precisam restaurar a confluência perturbada de qualquer maneira que puderem ou então fugir para o isolamento. esquecimento. Essas formas de tentativa de confluência ficam assim expressa: To restore interrupted confluence one attempts to adjust oneself to the other or the other to oneself. Não. flagrante indiferença. O segundo caso pode enfatizar mal humor. or in other ways putting the brunt upon the other to make up. 6 5 26 . precisa de provas de aceitação total. e se torna escravo. one effaces his own individuality. preocupa-se com diferenças pequenas. O respeito ao assimétrico é condição primordial para um diálogo. II. needs proofs of total acceptance. suborna. a segunda opção é a mais comum e mais comentada. no qual ele não consegue aguentar contradição. In the first case one becomes a yes-man. é o Tradução: Se uma discrepância de ponto de vista se manifesta. onde a crítica dá uma possibilidade mais ampla de ajustar os outros à visão do crítico. forgetting. No outro caso. ou outras formas de botar um peso para o outro fazer as pazes.

p. O objetivo dessas atitudes inconclusivas de importunar a si mesmo ou importunar o outro. 1951. O que é evitado nesses casos é o contato real com a pessoa como uma pessoa. ser sincero. o contato para o excitamento e o crescimento. elas não só respeitam as opiniões. mas ativamente recebem a animação e excimento que vem com o ventilar da discordância. What is avoided in such cases is actual contact with the person as a person.material que proporciona qualquer mudança. curtir a satisfação do outro. um generoso ato de compreensão e perdão. HEFFERLINE & GOODMAN. and responsabilities. culpa e ressentimento. p. gostos e responsabilidades suas e dos outros. HEFFERLINE & GOODMAN. II. e não em confluência. guilt and resentment. 8 Quando as pessoas estão em contato. pois deixa de frente com isso que é diferente. é restaurar o equilíbrio perturbado e consertar a situação intolerável da confluência quebrada. (PERLS. being frank about oneself. contact for excitement and growth. os sentimentos representativos são a culpa e o ressentimento (que é a demanda de que a outra pessoa sinta culpa). or any one of a number of other actions that would be possible and appropriate if first consideration were not given to slavish restoration of the status quo. a generous act of understanding and forgiveness. ou qualquer outra ação que seria possível e apropriada se a importância maior não tivesse sido dada à escrava restauração do status quo 8 7 27 . No ressentimento. somente nesse encontro que pode-se ser minimamente modificado: When persons are in contact. tastes. 368). 1951. Confluência contribui para a rotina e estagnação. Na culpa o organismo se depara com a idéia com que se identificou. whether this contact were to take form of an explosion of anger. is to restore the upset balance and mend the intolerable situation of broken confluence. seja esse contato fosse tomar a forma de uma explosão de raiva. they not only respect their own and the other’s opinions. not in confluence. o organismo somente leva em consideração sua necessidade ou a moral a que está ligado e ignora ou não admite a possibilidade do outro fazer algo diferente disso: The aim of these inconclusive attitudes of nagging oneself or nagging the other party. ou a ideologia alheia e deixa de lado a experiência que viveu. enjoying the other’s pleasure. 7 Na Confluência no pós-contato. but actively welcome the animation and excitement that come with the airing of disagreements. (PERLS. II. 370). Confluence makes for routine and stagnation.

Eles pensam que a única forma de resolver um conflito é que uma das pessoas admita ser culpada. Uma vez que admitir estes juízos é algo humilhante e degradante. muitas pessoas persistem em seus ressentimentos. é um fluxo natural. a crítica à sociedade aparece como uma tentativa de reatar a confluência entre a sociedade e o crítico. 1977. GESTALT-TERAPIA E COMUNIDADE Uma forma prática encontrada de utilizando-se da proposta da GestaltTerapia. como um ressentimento pela falha em comportar-se do jeito “certo”. demonstrando através de racionalizações persuasivas o quanto essa sociedade está errada: Julgar-se dono da verdade. esperando que o outro veja a luz e se humilhe admitindo estar errado. focar as questões ‘indivíduo e sociedade’ de uma forma diferente da encontrada nos consultórios clínicos são os encontros em grupos de larga dimensão ou comunidades. como se uma moral absoluta pudesse fornecer a verdade que ficará de parâmetro para a restauração da paz. Da mesma forma. 28 . bom-ruim. Ainda que houvesse uma mudança em prol do que é “certo” o status quo permaneceria insatisfatório pois a alteração não teria surgido de necessidades simultâneas. p. A satisfação está diretamente relacionada à espontaneidade. (TOBIN. além de muitas reuniões focarem necessidades individuais.O discurso confluente se torna um jogo de certo e errado. é um benefício colateral predominante na persistência. sob essa perspectiva. seria um ato coletivo de confluência. Dentre as dificuldades encontradas nessa experiência. O julgamento aos fenômenos contemporâneos apresenta-se. ruim ou estúpida. comum nos pacientes que avaliam qualquer conflito entre si e os outros. ele destaca a de ter uma continuidade. Polster (1999) descreve encontros feitos em uma cafeteria na década de 60 que reuniam até 250 pessoas. quando buscava-se uma participação das pessoas de uma forma abrangente. como muitos encontros religiosos conseguem ter. 164). em termos de certo-errado. os chamados “encounter groups”.

invetem e comunicam-se. verticalmente e horizontalmente.A intenção em grupos de grande proporção não é ter uma atenção individualizada. 2006. Essa percepção é importante para possibilitar a continuação do processo de contato: With this progression in mind. e dá a rica experiência da troca comunitária. feel. move. como na terapia. p. Such sharp therapeutic focus in private therapy results in mind-altering perspective and behaviours. movem-se. Polster acredita no poder das atividades que possibilitem awareness sensorial. uma atmosfera sem demanda nesse grupos de grande proporção. pois isso seria inviável. (POLSTER. Verticalmente. ele diz: A key influence in the Life Focus Communities will be a familiar psychotherapeutic precedent: direct focus on the way people think. sentem. Horizontalmente. Tal foco terapêutico tão direto na terapia particular resulta em reconfiguração da perspectiva mental e comportamento. a procrastinação por exemplo. Se referindo a esses grupos no que posteriormente chama de Life Focus Communitites. dando importância a uma experiência mais básica e primordial que aconteça em um grande grupo. strategize. as it is represented in personal observations such as I was disapointed in… or i am confused by… or i love to read…I have always Tradução: Uma influência fundamental no Life Focus Communities (Comunidade de foco na vida) será um precedente psicoterápico familiar: foco imediato na forma com que as pessoas. descobrindo a serviço de que situação inacabada um determinado sintoma. de ouvir experiências possivelmente opostas ou similares. propício nos Life Focus group. ser exposto a propostas para tentar diferente e a oportunidade de dividir como foi essa tentativa. Isso não garante que a procrastinação será resolvida. Polster fala de duas formas de encarar um fenômeno. invent. mas manter atenção nos fenômenos presentes. tem-se a experiência de não ser rotulado dessa forma. mas dá a ele uma oportunidade para tal. acontece. 75) 9 Polster (2006) destaca a importância de se ter um ambiente benigno. and communicate. fazem estratégias. ser aceito. 9 29 . É uma forma de se manter um ambiente seguro. we will encourage simple awareness of simple experience. pensam.

cada um evitando o dilema reduzindo atenção para o que o outro lado do paradoxo exige. is imbedded with a directionalism that guides people through a complex dynamic of inner processes toward the person’s very own goals. 11 10 30 . p. as it is called in Gestalt Therapy. build the force of their drama through the swelling of interest as the stories unravel and the person moves to clarity and completion. vamos encorajar awareness simples de experiência simples. assim representadas por observações pessoais como eu me desaponto com… ou eu fico confuso com… ou eu amo ler… eu sempre odiei ser filho único. enfatizando o que há de comum gerou ênfase demais na universalidade e na conformidade enquanto a psicoterapia focou demais na individualidade.hated being an only child. 97). Essas expressões podem não parecer muito. colocando a importância de formas saudáveis de não-saudáveis de se relacionar em sociedade e a necessidade de se observar ambas: Tradução: Com a progressão em mente. p. Esse continuum de consciência (awareness). These expressions may not seem to count for much. 10 (POLSTER. O que eles fizeram é o que as pessoas normalmente fazem quando encontram um paradoxo. Litchenberg desenvolve sua tese de em congruência com a visão de Polster. These simple communications. A religião. E com esse ponto objetiva a polaridade da observação da diferença. 11 (POLSTER. They have specialized. 2006. but such simple statements are the anchors for a greater complexity. nascidas em começos simples. Tradução: Nem os psicoterapeutas nem os religiosos ocidentais conseguiram balancear de forma bem sucedida as necessidades paradoxais. each avoiding the dilemma by reducing attention to what the other side of the paradox requires. fazem crescer a força de seu drama através do aumento de interesse quando as histórias se desenrolam e a pessoa move-se em direção à claridade e finalização. in emphasizing communal measures has created too much enphasis on universality and conformity while psychotherapy has focused too much on individuality. pequenas como são. 79). This awareness continuum. Religion. está relacionado com o direcionamento que guia as pessoas pela dinâmica complexa dos processos internos em direção aos objetivos próprios das pessoas. 2006. Eles se especializaram. What they have done is what people often do when facing paradox. Essas comunicações simples. mas tais afirmações simples são a âncora para uma complexidade maior. born in simple begginings. assim como é chamado na Gestalt-Terapia. Polster especificamente enfatiza a importância de poder perceber o que há de comum entre as pessoas na experiência em grandes grupos. small by themselves. Sobre esse paradoxo ele diz: Neither the psychotherapy profession nor Western religions have sucessfully balanced the paradoxical needs.

recognized in our ambiguity. de que outra forma poderíamos fazer. Reformadores sociais mal-sucedidos e revolucionários são tipicamente puristas […] Para nos tornarmos sujeitos contemporâneos do nosso domínio. A integração dessas polaridades é o que a Gestalt-Terapia propõe como possibilidade para tal paradoxo. apoiados em nossa complexidade. Unsucessful social reformers and revolutionaries are tipically purists […] For us to became contemporary subjects of the realm. Uma observação na vivência com foco no presente. Tradução: Nós seres humanos precisamos ser vistos como somos. Na consideração sobre o ambiente estas vivências podem estar polarizadas e vistas como contraditórias. 1990. e apesar disso ter outras semelhanças. tanto a necessidade de se diferenciar quanto a de pertencer e ter uma vivência congruente. 6). e permitir a escolhe de nunca ter e ainda sim pertencer ali. Esse encontro em comunidade tem o diferencial de buscar possibilitar a construção de suporte para lidar com o deparar-se com algo novo e visto como ameaçador no lugar de exigir do mesmo capacidade que esse indivíduo não tem ainda. nós precisamos de ambos suporte nas nossas limitações e desafio nas nossas resistências. as diferenças. a identificação e a alienação.We human beings need to be seen as we are. qual a tendência na atenção ao observar um pouco mais. As duas formas de estar com outrem podem ser consideradas. semelhanças. 12 (LITCHENBERG. aceitos nos nossos melhores comportamentos mas também nos piores. we need both support in our limitations and challenge of our strengths. supported in our complexity. encouraged in our efforts to become complete. o encontro permite uma experiência diferente do isolamento. accepted in our best behaviour but also in our worst. percebendo como são esses fenômenos e como cada um se relaciona com ele. reconhecidos em nossa ambiguidade. 12 31 . Talvez a moralidade não seja reconsiderada e sim a forma de se estar com ela. encorajados em nossos esforços de sermos completos. p. CONSIDERAÇÕES FINAIS Se existe a necessidade de se reconsiderar a forma como a sociedade acontece contemporaneamente é necessário então estar em coletivo visando uma observação dos fenômenos de massa. O ser humano é relacional.

Se o fenômeno que emerge é o julgamento da diferença tem-se a proposta de observar essa diferença e/ou o sentimento que emerge e/ou seu oposto reparar a semelhança. 32 . por exemplo. ele ainda tem oportunidade de ver outras pessoas terem essa experiência. e olhar para uma repercussão em larga escala pode ser possível para ele e isso em si pode ser novo e transformador. seja demais e este não consiga manter o foco. Ainda que para um indivíduo específico olhar sua participação.Se o que se apresenta é uma tendência à responsabilização de uma entidade “sociedade” pode-se convidar a olhar para a participação individual no fato.

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Escuta Fenomenológico-Existencial. no intuito de proporcionar a esse contexto hospitalar. grifo do autor). que possibilita o atendimento em Plantão Psicológico (MAHFOUD. sobretudo permitir o contato. buscamos potencializar. mais precisamente nos leitos da maternidade. em sua maioria. Palavras-chave: Plantão Psicológico. apud EISENLOHR. 1999.ES. e nós. foi possível experienciar. 139. Dessa forma. entre as mães/gestantes. um atendimento mais humanizado. um atendimento humanizado e que fosse acolhedor. onde os atendimentos psicológicos prestados ocorreram na modalidade do plantão psicológico e tiveram como objetivo geral. 34 .A ESCUTA FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL VIVENCIADA NA MATERNIDADE RESUMO Este artigo descreve a experiência prática de estágio realizada dentro do contexto hospitalar. p. o atendimento as mães/gestantes alocadas nos leitos da maternidade. localizado no município de Vila Velha . da psicologia. experienciada no Hospital Infantil e Maternidade Drº Alzir Bernardino Alves – HIMABA. além de prestar informações relacionadas à maternagem. Aceitar manter-se no momento presente. acompanhando a variação da percepção de si e das circunstâncias pela direção que a clarificação a levar – eis a disponibilidade do psicólogo-conselheiro. inserida nos moldes da psicologia Fenomenológico-Existencial. Através de uma escuta fenomenológico-existencial. e. objetivamos proporcionar aos leitos da Maternidade. a amenização da angústia. ou seja. centrado na vivência da problemática que emerge com sua ansiedade e força particulares no próprio momento de pedido de ajuda. nos moldes do plantão psicológico. Dessa aprendizagem. dos quadros de ansiedade. Atendimento Humanizado. facilitando as relações estabelecidas no vínculo com o bebê. oferecer uma escuta e acolhimento diferenciados. vivenciar de forma mais plena. na expressão do afeto. um atendimento diferencial. 1987. do cuidado. o encontro.

apud MERLEAU-PONTY. vivenciamos e compartilhamos diferentes sentimentos junto às mães/gestantes. através do encontro estabelecido entre o profissional e o paciente. o próprio fenômeno. por isso a importância de um atendimento psicológico com vistas à minimização do quadro. Segundo Maichin (1999.. Então. ou seja. de nascimento pré-maturo. de expectativa. enfim. 35 . Tais sentimentos ora eram cheios de alegria. p. privilegiamos o fenômeno tal qual ele se apresenta. Nas rondas realizadas nas enfermarias da maternidade. que eram por si só.. fazendo com que se sentissem mais fragilizadas. A partir desse enfoque. da abertura a novas possibilidades para além daquela que nos é apresentada inicialmente. no plantão psicológico. de apatismo. entre outros. de ansiedade. que é a pessoa com sua historicidade”. “[. cada um tinha seu contexto. em face do atendimento psicológico prestado. se é uma conseqüência. de rebeldia. modificações dos sentimentos. 2004.19). vimos o quanto uma escuta diferenciada dispensada às pacientes permitia a potencialização de formas mais humanas de servir a um ambiente hospitalar. como os de aborto. por nós da psicologia. Vale ressaltar também os outros diversos casos existentes na enfermaria. podem acontecer e gerar transformações (BARTZ. de sofrimento. de tratamento clínico.O atendimento psicológico. no seu aqui e agora. Nas enfermarias. Desse encontro.] ‘a teoria é apenas uma conseqüência’. angustiantes a essas mães. sua historicidade. que é tida como única. até mesmo no que ela representava para cada uma. respeitando a experiência de cada um. vamos nos importar com o que vem antes dela. 1997). E dessa relação estabelecida foi possível presenciar diferentes formas de lidar com a maternidade. Os quadros de ansiedade eram freqüentes no ambiente hospitalar. é um procedimento que por si só já é terapêutico.

junto à equipe de enfermagem. são momentos oportunos e ricos de se proporcionar uma escuta fenomenológica de qualidade. No decorrer das rondas havia mães que nos acolhiam muito bem. o aqui e agora de cada paciente ali presente. o ajudar. além da correria dos atendimentos prestados que o próprio contexto oferece. Num simples gesto como segurar sua mão. 18). respeitávamos esse momento 36 . a superficialidade se encontra mais presente. de sentido. É de suma importância se remeter ao paciente pelo seu nome. 1994. Um ambiente em que muitas vezes. os serviços psicológicos prestados eram por conta dos estagiários somente. pela sua história de vida. Um dos motivos pode está no grande fluxo de pacientes que entram e saem rotineiramente num hospital. são atitudes diferenciais que podemos realizar para a conquista de um ambiente mais humanizado e acolhedor. pois seguramente é um dos maiores aniquiladores da dignidade da pessoa hospitalizada [.. Quando as pacientes nos pediam ajuda com algo ou para chamar alguém da enfermagem.O estar disponível. uma forma de minimizar o processo de despersonalização que muitas vezes acomete os pacientes. e os profissionais acabam sendo acometidos por ela.] (CAMON. Como nesse hospital não havia psicólogos no seu quadro de funcionários. foram formas de atuar plenamente no encontro com o outro. p. o psicólogo estará ajudando na humanização do hospital.. tocar. outras nem tanto. [. a se interessar pelo que o outro tem a te dizer. Quando isso acontecia.. nem sempre era fácil conseguir esse apoio. que ajude no restabelecimento da dignidade humana. a promoção de vida. estar disposto a ouvir. Sendo assim. Notamos em alguns momentos. todas elas..] Ao trabalhar no sentido de estancar os processos de despersonalização no âmbito hospitalar. se mostravam receptivas. perceptível até na forma de nos acolher. uma resistência em relação ao nosso trabalho. a oferecer atenção.

25).. seja para aplicação de injeções. no atendimento prestado ao serviço de saúde. ao sentido que faz para si a fala do outro.. Como diz o autor. prescrição medicamentosa numa determinada faixa horária. o atendimento do psicólogo. vivenciadas no encontro. Escutar é abrir-se ao outro. falhas. p. Em cada enfermaria que entrávamos nos apresentávamos e falávamos qual era nossa proposta de atendimento psicológico oferecido a elas. ao seu bebê. que funciona como um facilitador para a compreensão da escuta prestada ao paciente. No vivenciar da escuta fenomenológica. com limites. seja ainda para processo de limpeza e assepsia hospitalar [. Muitas nem sabiam a funcionalidade ou havia antes conversado com alguém da psicologia. como o fato de não possuir leitos individuais reservados às gestantes. muitas vezes. 37 . já o diferencia de um particular. A Psicologia Hospitalar. Escutamos porque compreendemos [. é interrompido pelo pessoal de base do hospital. dependendo da recuperação e do quadro apresentado. as suas visitas/familiares. Nos casos de atendimentos realizados em enfermarias. usamos a fala e o ouvir como recursos significativos para o alcance da experiência descrita pelo outro. contrariamente ao processo psicoterápico não possui setting terapêutico tão definido e tão precioso.] (VALLE. p.. caso alguma quisesse conversar num outro momento. ocultamentos.não insistindo muito na conversa e nos colocávamos a disposição. Escutar é o estar aberto existencial do ser enquanto ser-com-o-outro. dar uma volta pelos arredores da maternidade.. nos casos em que era possível. contradições.] (CAMON. O próprio atendimento feito em hospital público. ou até mesmo. A própria fala já permite o encontro. Falar pressupõe o ouvir. buscando a compreensão da expressão de seus sentimentos. 1994. Utilizamo-nos durante o plantão psicológico de duas ferramentas psicológicas importantes. 2004.87-88). por outra parte. valorização de certas situações – o que pode ser revelador do seu modo de existir. O plantão psicológico possui algumas particularidades que o diferencia da clínica. a fala e a escuta.

[. ficavam com as janelas abertas para amenizar o calor. ver seu bebê em meio a tantos aparelhos ligados sem saber a funcionalidade deles. com esse paciente sequer tendo claro qual o papel do psicólogo naquele momento de sua hospitalização e até mesmo de vida (CAMON. e ver o quanto elas se sentiam mais seguras e calmas com nossa presença junto. O ar condicionado foi posto recentemente. das próprias mães que estão ali dividindo aquela enfermaria. Era gratificante poder acompanhar essas mães. antes dele. que para muitas delas era angustiante. dolorido. que estavam com bebês internados na UTIN. em muitos casos. visto que nos quartos não havia televisão. os banheiros. O número de adolescentes grávidas era significativo na maternidade. p. Nos casos em que notávamos que a mãe se encontrava mais fragilizada. na mesma situação ou não de internação. levando-as a pensar no pior. diminuindo a ansiedade de entrar sozinha nesse leito. o descanso. além de servirem de companhia para conversar. Algumas mães também estavam com seus filhos na UTIN (Unidade de Tratamento Intensivo Infantil) e nos colocávamos a disposição para acompanhá-las até esse setor. eram divididos com outras pacientes. buscávamos 38 . como não havia ventilador. ao contrário do paciente que procura pela Psicoterapia após romper eventuais barreiras emocionais. mas reclamavam dos mosquitos à noite. constava apenas no projeto ainda. ou mesmo querendo conversar de forma mais reservada com nós da psicologia. em muitos casos já se tratando da segunda gestação em diante. no segundo semestre do ano de 2008. E. a pessoa hospitalizada será abordada pelo psicólogo em seu próprio leito. ou pode até mesmo incomodar o sono.] No hospital. O espaço se tornava coletivo entre elas. Quando o bebê de uma mãe chora.. as enfermarias.. 25). o da outra que está dormindo pode acordar com seu choro. e acabavam compartilhando suas experiências de vida um com as outras. No HIMABA. 1994.

revela-se em seu modo mais profundo e originário. 2004. a transformar-se. de desconforto ao lado delas. abre o caminho do reconhecimento de si próprio. de suas preocupações. já eram por si só.dar essa devida atenção em um local mais reservado. enfim. existia uma equipe de estagiários de enfermagem. as terças-feiras. E essa foi nossa proposta. de serviço social. permitindo que elas tomassem consciência de si. o que pode levá-lo. A ansiedade. dando-se conta de suas fragilidades. ressurgir fortalecido. eram confortantes naquele contexto hospitalar. experienciamos o quanto se tornavam mais confiantes consigo. de aceitação incondicional por parte do terapeuta. quando nos tinham por perto. em meio a tantas outras pacientes. para uma posterior resignificação dos seus sentimentos. Ela propicia a abertura do ser para uma existência autêntica. de outras instituições de ensino. e agradecidas conosco pela atenção prestada. Os quadros de angústia que em alguns momentos acometia as mães/gestantes podiam servir como facilitadores na expressão de seus sentimentos. mas também de sua força. e em algumas semanas. Além da psicologia.91). era possível de ser minimizada. a ouvir. também feito por nós. o ser põe-se frente a si mesmo. havia o grupo de mães. dispostas a ajudar. fazendo se sentirem mais cuidadas. apenas nossa companhia num momento de dor. durante nossa permanência no hospital. uma vez por semana. p. Às vezes. O fato de saberem que estávamos ali ao seu lado. medos. que também passavam nas 39 . daquele momento que lhe causava incomodo. a todo o momento. Ao oferecer esse acolhimento. onde realizávamos nossas rondas as enfermarias. em um clima de acolhimento. essa escuta. de seu poder (VALLE. gerada em função do próprio ambiente. Na angústia. principalmente por serem mais uma. potencializadores naquele momento. O atendimento psicológico prestado ocorreu durante todo o ano de 2008. na maternidade. promover esse cuidado. de nutrição.

O grupo de mães era agendado pela Assistente Social. a importância do aleitamento materno. O objetivo geral do grupo de mães foi promover um espaço de encontro. informações sobre cuidados especiais com os bebês. Realizamos aproximadamente 70 atendimentos com o plantão psicológico nas enfermarias da maternidade. mas todas eram convidadas a participarem. o processo de aprendizado da maternidade. O grupo não tinha a intenção de ser demorado. e realizado em sua sala. dentre outros assuntos considerados importantes. nos colocávamos a disposição caso alguma quisesse conversar conosco em particular. as mães. outras ainda esperando pelo parto. que na maioria das vezes também participava conosco do encontro. o oferecimento de carinho para com o recém-nascido. Tivemos como objetivos específicos para o grupo a troca de informações e experiências grupais. Dessa forma. O encontro era destinado e aberto a todas. a potencialização da relação mãe e filho. Não era obrigatória a presença das mães no grupo. o estabelecimento do vínculo. do afeto. de socialização do processo de maternagem em contato direto com seus filhos recémnascidos. separado de acordo com o tema e a área profissional informante. de tratamento clínico. as gestantes. podíamos direcionar o encontro dentro dos enfoques da psicologia. visto que elas ficavam com seus bebês no colo. as que estavam em tratamento clínico e as que estavam com bebês na UTIN. 40 . ou para aquelas que estavam passando por um processo de perda. e em algumas semanas também realizavam o grupo com as mães.enfermarias da maternidade realizando atendimento. Ao final do grupo. O tempo de duração era de aproximadamente 30 minutos. valorização do contato. Algumas apresentavam uma resistência maior para o encontro e não iam.

visto que. Era uma forma delas se sentirem cuidadas por nós também. preconizado principalmente pela escuta. encontra-se o modelo de planejamento de um dos encontros. Segundo Winnicott (1978. como sabonetes e toalhinhas infantis. Consideramos de grande importância a contribuição científica e social que o presente artigo nos apresenta.. sempre entregávamos uma lembrancinha às participantes. propiciando atuar de forma multidisciplinar. destacamos “[. p. através de uma escuta fenomenológico-existencial. entendida como uma relação de acolhimento e cuidado estabelecida com o bebê desde o seu nascimento [. somente ronda. alcançamos alguns resultados parciais. potencializando os vínculos afetivos nesse âmbito. esse cuidado. Cuidado esse que buscamos resgatar para o mundo vivido das pacientes..] a importância conferida à maternagem. Nos dias em que não havia grupo. 32). Além de contribuir para a promoção de uma ambiente hospitalar mais humanizado. uma escuta fenomenológico-existencial. além de favorecer a humanização do atendimento.]”.No anexo. insere o profissional psicólogo em contato com outros profissionais da área da saúde. como contribuir para a minimização da provável angústia e ansiedades desenvolvidas em virtude do quadro gestacional. apud AGUIAR. Sendo assim. enfocando o quanto é importante essa troca de carinho. visto que. muitas vezes. mola 41 .. Ao final destes. 2005. enfocamos o quanto uma escuta devidamente compreendida. em alguns momentos também distribuíamos nas enfermarias algumas lembranças de utilidades para o uso com o bebê. prestada de forma acolhedora. Ao final de nossa permanência na maternidade do HIMABA. ou de seus sintomas. deixam de serem experienciados na relação mãe-filho.. e de poder mostrar a elas que estávamos ali dispostas a ajudá-las no que fosse preciso e estivesse ao nosso alcance.

pode favorecer há uma maior humanização do atendimento em saúde. 42 . apoio e experiência de um encontro psicoterapêutico para os envolvidos nessa relação.mestra do plantão psicológico. além de cuidado.

V. p. A. EISENLOHR. 135-143. Universidade São Judas. 83104 43 . p. 1997. p. V. 2004.). A. E. São Paulo. et al. V Encontro Estadual de Clínicas-Escola. R.). O psicólogo no hospital.). CAMON. Maria G. São Paulo: Pioneira.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa: novos desafios.). São Paulo: Pioneira Thomson Learning. 1999. (Org. et al. V. O atendimento infantil na ótica fenomenológico-existencial. p. Luciana. Sebaldo. In: ANGERAMI-CAMON. Caderno de Resumos. In: MORATO. V. 2004. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. Henriette Tognetti P. (Org. MAICHIN. 69. In: ANGERAMICAMON. (Org. In: _____ (Org. Serviço de aconselhamento psicológico do IPUSP: breve histórico de sua criação e mudanças ocorridas na década de 90. et al. 1994. 2005. Augusto Angerami. 1-48. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. Plantão Psicológico: atendimento criativo à demanda de emergência. Campinas: Livro Pleno. Os diversos caminhos em psicoterapia infantil. M do. Vanessa. VALLE. Psicologia hospitalar: teoria e prática. São Paulo: Casa do Psicólogo. Acompanhamento psicológico em oncologia pediátrica. BARTZ. O atendimento infantil na ótica fenomenológicoexistencial.

ANEXO Preparação da sala. vivenciar a partir do toque. façam carinho. 3º passo: Falar sobre a importância de alguns cuidados com os bebês. Quais mudanças de vida isso promove? Transformações do corpo. apresentando seus bebês se for o caso. se é a primeira gestação ou não. a relação mãe-filho. solicitar que as mães entrem em contato com seus bebês.Como uma boa mãe deveria ser? -Pensar nelas enquanto mãe.Investimento afetivo (sentimento e afeto) .. .). interajam com eles.Carinho (para que o bebê se sinta amado e valorizado) . . 44 . do olfato. Apresentação dos facilitadores ao grupo de mães. estimular a falaram um pouco mais sobre elas.O que representa a maternidade para vocês? . da visão. a idade. etc.. os observem.Aleitamento materno 4º passo: Para finalizar. .Auto-estima das mães . do contato. 2º passo: algumas reflexões pertinentes ao encontro.O que é ser mãe para você? .. o que fazem.Dedicação (cuidados físicos e emocionais para com os bebês) . 1º passo: solicitar às participantes que se apresentem de forma breve (dizendo seus nomes.. quantos filhos possuem. com música instrumental de fundo de bebê.Descrever a si próprias como mães.

45 . Para chegar a compreender algo entendemos que é preciso fazer várias aproximações para o mais amplo exame do tema em foco. cujo tema foi ‘A Gestalt em ação num mundo em transformação’. intensificando a complexidade da vida e dos modos de pensamento e intervenção sobre a mesma. questões como as do bem. Em meio à desconstrução de valores universais e do fim dos grandes esquemas ou ideais metafísicos. Perguntamos sobre qual seria o limite entre o humano e o desumano e sobre o que poderia fazer uma real diferença em termos de atuação e intervenção psicoterapêutica. escutas. da justiça e da verdade são de delicada abordagem no domínio dos mal-estares vividos e/ou temidos. ecos e impactos. A comissão organizadora do referido congresso convidou as autoras para que falassem sobre o tema da ética em Gestalt-terapia a partir do título que ora reeditamos. questionamos a possibilidade de utilizá-la como suporte para esse mundo complexo. INTRODUÇÃO Desta vez pretendemos junto à comunidade gestáltica do Brasil ampliar a discussão em torno de um tema que se faz imprescindível à prática psicoterápica em nossa abordagem. Considerando que ética não é moralismo. contrastando a diversidade dos olhares e enseja o exercício do diálogo ao trazer diferentes vozes. A coexistência entre o bem e o mal no mundo natural e no mundo das construções humanas se torna uma questão importante na contemporaneidade.A ÉTICA COMO SUPORTE: SOLUÇÃO OU UTOPIA PARA UM MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO? RESUMO Esta mesa é fruto de uma bem sucedida experiência no II Congresso Estadual de Gestalt no Rio de Janeiro realizado em outubro de 2008.

realizações e sofrimentos do sujeito contemporâneo. Explicitaremos ainda que normas regulam o exercício das liberdades. A Gestalt-terapia apoiada na noção e na experiência de mutualidade. Indicaremos que ser ético é sempre em relação a alguém. sonhos. o próprio código disciplinar das profissões. alguns temas da abordagem gestáltica serão confrontados com essas questões. destacando a face do outro como fonte primeira de conflito e de responsabilidade em nossa prática – e enfatizando o presente como o tempo e o lugar de exercício das tentativas legítimas de potencialização e desenvolvimento da vida e do humano. Zygmunt Bauman. chamado de ‘Código de Ética Profissional’. não pode (nem pretende) esgotar o horizonte da ética. Na discussão proposta pelos integrantes da mesa. Olinto Pegoraro. portanto. Fonseca. traremos também à discussão a condição do homem contemporâneo diante da perspectiva da finitude e da temporalidade. Ribeiro. portanto. valoriza a dimensão dialógica da produção de subjetividade. Walter F. porém buscando o que há em comum em termos de perspectivas. A discussão será ampliada para a própria atitude ética do gestalt-terapeuta em meio às relações no mundo contemporâneo. 46 . dentre outros. Para fundamentar nossa reflexão recorreremos a autores como Martin Buber. Afonso H. não sendo necessário seguir regras para isso. Destacaremos então a dimensão social de nossa abordagem terapêutica na gênese da ética do sujeito em seu contexto relacional. mesmo sendo indispensável. numa noção essencialmente dotada de cunho intersubjetivo. Entendemos ética como intrinsecamente relacional. mas não consistem no nascedouro da ética e que. Paulo Freire. Emmanuel Lévinas. Walter Benjamin. Apresentamos ética como busca permanente do sentido para a vida a partir das relações. como reciprocidade interpessoal.Dentro do tema do ‘limite’. abarcando amplas possibilidades humanas.

na tradição do mundo ocidental o nascimento provoca. a melhor maneira de descobrir-se e de criar-se. É a possibilidade de estar com o outro no exercício da dialogicidade. do amor ao diferente. da ação transformadora. Não da espera passiva. numa relação entre diferentes onde privilegia-se a diferença... Entendemos que na Gestalt-terapia praticamos uma dialogicidade da esperança. sendo assim. da inclusão. de ser amado na diferença. Do respeito à singularidade do sujeito que ama buscando o mínimo em comum com o outro humano. de encontrar-se consigo mesmo na finitude de nossas existências. mas da ação.” (Renato Russo) Se considerarmos Ética. No entanto. que desenhou a ética da amorosidade enquanto Encontro nas diferenças. vislumbramos a possibilidade de desdobrar afetos em plena incerteza do amanhã. pânico. No contexto contemporâneo. da incompletude. ou ‘tem que provocar’ alegrias e comemorações.I . a morte/finitude provoca ou ‘tem que provocar’ horror. O pensamento de Buber nos ajuda a pensar a ética da Gestalt-terapia: ética da diversidade. a ação amorosa é a dialogicidade. Éticas das diferenças. a supervalorização destes marcos joga para segundo plano muitos outros 47 . da permanente busca do encontro com o outro. por vezes já estão “assimilados”no cotidiano sem julgamentos e sem “abandonar” a dimensão humana ? Recorremos a Buber. como nos diz Afonso Fonseca. Para ele. o que nos resta esperar? Amar seres que são para a morte? Se. angústia. por vezes nos chocam. amorosidade e finitude. como podemos integrar o sentido e o impacto dos acontecimentos que. Não seria isso o que temos em comum com todos os humanos: a noção da finitude? Se for assim. com os humanos.A ÉTICA UTÓPICA DA AMOROSIDADE DO SER FINITO “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

Aqui privilegio o mesmo que em meu ofício de terapeuta: o que toca tanto a fé quanto a perda de crença no poder de transformação. O próprio Afonso Fonseca escreveu que “Fatal mesmo é crer na fatalidade. Mesmo os que já morreram legaram-nos sua vitalidade. O pessimismo da razão e o otimismo da vontade fundem-se na formulação da utopia e esta. Os utopistas caminham vislumbrando sempre melhores possibilidades. 48 .sentidos do nascimento e da morte. aponta para a reformulação. mas faz-nos caminhar. criando um caminho. pretensamente auto-suficiente. É lugar nenhum. Utopia é lugar nenhum. Não há como ficar impassível diante disso. Ex: ‘ninguém mais presta’. consumista. Utopia entendida enquanto renúncia ao fatalismo. fragmentado. exceto para quem aposta em criar-se. é plausível apostar no humano desconectado de sua própria condição humana. a própria perda do sentido da vida. imediatista? É mais fácil deixar-se levar pelos deveriaismos? Funcionar por hábito que por auto-regulação? O que então nos dá suporte ético nesse cenário? O sentido utópico da ética.” Mesmo a morte/finitude não é de fato o fim de todas as coisas. ‘não dá para confiar em ninguém’. Sua ausência faz surgir novas configurações. Como terapeutas. novas histórias. etc. Ética e utopia são inseparáveis. Observamos que somos instados a desistir de crer na potência criativa do encontro entre humanos.

nos ilumina ao crer no diálogo como encontro de homens que se pretendem mais lucidamente humanos. criativo. apoiado em convicções ideológicas. mas sempre acreditamos que podemos fazer algo. Utopia só existe e faz sentido no contexto do coletivo. e. enquanto que a utopia vem da tentativa de empurrar o sonho para a realidade. Talvez nós. se apostamos em sonhar. Dialogar é falar ao outro. Ela emerge da dialogicidade. pois não é falta de realidade. que se afirmava utopista. principalmente daquilo que acreditamos que possa acontecer a partir de uma ação conjunta. Se acreditamos num ser humano ativo. se acreditamos na capacidade de formular projetos e de reformulá-los. para que cada um pudesse chegar a dizer. e é o que permite possibilidades até então não experimentadas. respirar. cultura. Ela não é sonho. O sonho não é sujeito à ideologia. desejar. Este afirmava que palavreado não é sinônimo de diálogo autêntico. criar. desejos. se apostamos em conviver com as diferenças e. É algo que se tece junto. transformar. de nossos sonhos. gestalt-terapeutas sejamos utopistas. medos. teóricas. Ele trabalhava pela libertação da palavra autêntica. a 49 . capaz de dar forma a sua existência a cada momento. Paulo Freire. Sua aposta na dialogicidade está inteiramente articulada nas formulações de Martin Buber. Como terapeutas sabemos que não podemos tudo. se acreditamos em promover escolhas cada vez mais responsáveis. filosóficas. pois acreditamos que possa haver renovação quando tudo parece perecer. no âmbito do diálogo. como ouvir. estar com o outro. numa perspectiva de mutualidade. sua própria palavra. direcionando-nos para um propósito que se encarna numa ação que se propõe transformadora.A utopia fala de nós mesmos.

mas que nunca poderemos sê-lo de fato. Se acreditamos que a relação é sempre nova. Portanto. Não podemos oferecer certezas para nenhum de nós. pois há uma diferenciação de papéis que é essencial para a definição do contexto. crescer. afirma que a relação terapêutica não pode ser traduzida como diálogo pleno. Mauro Amatuzzi. Podemos legitimar o outro sem.. quando diz dos perigos a que estamos expostos em nossa onipotente profissão se nos acreditarmos os salvadores da humanidade. criador do sistema Psicodramático. Um dos maiores riscos a que estamos expostos como terapeutas é defendermo-nos de nossa própria angústia existencial tentando impor ao outro um modo se ser. após uma queda durante uma brincadeira ousada na qual quebrou um braço. Aí não há nada de ético ou utópico. somos utopistas. ele insiste que mesmo assim.partir delas. que muito cedo em sua vida. 50 . Moreno. baseando-se em Buber. descobriu que podemos até brincar de ser Deus. Convém então lembrar de Walter Ribeiro. a desigualdade é incompatível com a mutualidade. Então.. Por outro lado. Também Jacob L. mesmo que o vínculo seja antigo. a mutualidade. a utopia é tanto fascinante quanto ambígua. um projeto de vida.. Nada pode ser mais autoritário e menos dialógico que isso. Para sermos eticamente utópicos e utopicamente éticos precisamos contar com o suporte de nossos propósitos como terapeutas: a noção de que ali estamos desdobrando-nos em disponibilidade para acompanhar o outro no desvelar recursos para realizar suas melhores possibilidades existenciais. em plena diferença.. contudo concordar com ele. nem prever o que vai acontecer a partir de nosso encontro. pois é atualização. a fecundidade do diálogo é o que deve ser buscado pelo terapeuta. No entanto.

Afinal. recentemente. muitas vezes bem distanciados de seu sentido original. uma caça às bruxas – às vezes às fadas . do mundo das construções humanas? Não haveria de ser também assim? Bem e mal de nem tão simples distinção? Considerando a possibilidade do suporte na contemporaneidade. os Direitos Humanos. passando a incorporar os discursos dos poderes executivo. mas porque nisso acreditamos e desta maneira escolhemos viver. parte dessa grande desconstrução. o Socialismo – as coisas se complexificaram. daí se dizer haver sido criado um deserto de valores e projetos. o Proletariado. legislativo e judiciário! Assim se revelando mais como um ethos punitivo generalizado. a Ciência. a Política. com todos os conflitos que isso comportar.Agimos assim não só no âmbito profissional. II . E nós não só sofremos mas também participamos ativamente de.sob uma espécie de ditadura da falta de alternativas à grande confusão e desencanto global. a Democracia. por meio da cultura geral e psi de nossa geração. que contestou de forma radical diversas tradições e contribuiu para a aceleração da velocidade das 51 . Vale ressaltar que. assim como alguns acontecimentos recentes. mesmo no âmbito do mundo natural o bem e o mal coexistem. os termos ou as palavras podem assumir sentidos diferenciados. bandeira oficial. o que esperar então do mundo cultural. a Moral. pelo menos.nos deparamos com o fim das grandes meta-narrativas ou dos grandes esquemas metafísicos – o Racionalismo.não chegando porém a nos retirar da condição de impotência pública que tanto nos incomoda. a Civilização. o Iluminismo.A ÉTICA COMO SUPORTE: O QUE FAZ A DIFERENÇA QUANDO TUDO PARECE IGUAL? Quando vivemos – ou parece que vivemos . Amorosamente éticos e utopistas em nossa finitude e na crença nas ilimitadas possibilidades da existência. até a ética já tornou-se.Ali somos seres para o encontro. Se é assim no mundo natural.

Mas de que ética se fala? Lembrando as revoluções de pensamento de que participamos. sejam mesmo os valores universais. vamos lembrar que ética não é dogmatismo. não é metafísica. Então. ou ainda defender a própria posição “óbvia” contra “o mal em si”.mutações. olhou para ele e disse: “Oxalá se sustente!”. o que é isso. Mundo que é múltiplo em diversos sentidos: por um lado. face à complexidade da vida humana no mundo contemporâneo. dificilmente sustenta esse suporte. próximo ou distante. não é moralismo. nos confrontando com a alteridade. É. que diz que assim que Deus o criou. não é messianismo. por outro lado. muito menos achar que a própria preferência é uma ordem. por fim nos assombrando com o repertório muito estreito de alternativas para o tamanho e a profundidade das mazelas e dificuldades do presente. necessário. tema muito delicado. com a face do outro. nos confrontando com a desapropriação de boa parte daquilo que criamos como espécie. consideremos uma das mais importantes contribuições de Nietzsche à filosofia . lembramos uma das versões da criação do mundo. o bem? Há especialista em direito de família que acreditam que as leis e o direito viriam para 52 . Então aqui nos perguntamos se a ética pode ser suporte para esse mundo e as transformações pelas quais ele passa. em prol do “bem em si”. como fonte primeira de conflito e de responsabilidade.a destituição da idéia de busca e chegada à verdade. a tecnologia. para o qual não vale simplesmente proclamar a si ou a quem quer que seja juiz da humanidade. sem dúvida. seja ela qual for e sustentada por que teoria for. assim como se diz face a um recém-nascido que não sabemos se vai vingar) Essa transformação e desconstrução geral realiza algo de positivo? Porque o universal. ao contrário. por exemplo. Mas algum suporte é. O que pode dar suporte a esse mundo tão complexo? O que pode sustentá-lo? Na falta de respostas simples. Pois afinal.

Não corremos o risco de acabar como os cegos de Saramago e Meirelles que têm de se arranjar sozinhos em seu cárcere e para fora dele? Ou 53 . ou seja. todas elas? Elas garantiriam o exercício do bem comum e da justiça? “É preferível cultivar o respeito do bem que o respeito pela lei”. seria o espaço da liberdade . principalmente. a ética. do bem ou da justiça? Isso parece bom!?! Mas será que sabemos usar essa liberdade? Imaginemos as vantagens de estarmos todos entregues à nossa própria sorte!?! Sem ter quem nos cerceie e nos limite. face aos exercícios de poder que permeiam a vida social. uma prática refletida de liberdade. do aumento das capacidades de existir e de criar do corpo e da mente. busca-se justamente a ênfase na ruptura com o paradigma que prega uma verdade absoluta. (Em Civil Disobedience. Assim. Mas até que ponto o direito o conseguiria? É possível e/ou desejável seguir a lei. caso ela transgredisse a outra superior. escolhas e caminhos. pensando o convívio comum com respeito a uma singularidade e não apenas na submissão a códigos e critérios externos. A Ética se contrapõe a esse sentido transcendente e fala de um sentido imanente. escolha e decisão pessoal. mas também quem olhe por nós e nos conduza!?!. natural e. aquilo que a psicologia. também.. Segundo Foucault. em termos de potencialização da vida. Será possível contextualizarmos tal princípio à atualidade? Acompanhando as discussões mais atuais dos Conselhos de Psicologia sobre Ética. aos quais não se reduz. Então. pregava que todo homem teria o direito de desobedecer a uma lei.regular. não consegue.. Segundo Spinoza. da margem mínima e relativa de liberdade que possuímos a cada situação. ética seria um tipo de relação que estabelecemos conosco mesmos e com os outros e também . fundamental do homem. 1849. moral. no campo das relações entre os homens. seja a do homem comum ou a dos especialistas. diferentemente da moral como assujeitamento e obediência. dizia Henry David Thoreau. nada de senhores da verdade. passa a envolver o exercício permanente do pensamento avaliando situações e acontecimentos.

(Adauto Movaes citando Paul Valery.Sua ética decorre de seu modo de vida e da relação mútua de diversas soluções com as quais ele segue vivendo. esse que não pode viver sem várias idéias. Mutações. uma única língua. III . 9). de agora em diante. 11-12). pois ignoramos a data.. o homem contemporâneo só pode ser mesmo entendido como esse que não é mais uma idéia determinada. todo destino humano implica uma incerteza irredutível. acelerada” Edgar Morin – 2001 54 . Pois por mais complexo que seja. uma única confissão. que não pode ter um ponto de vista apenas.ÉTICA: SOLUÇÃO OU UTOPIA? “Cada um deve estar plenamente consciente de que sua própria vida é uma aventura. sem essa multiplicidade contraditória de visões. p. uma única física – sequer a uma única psicologia. Cada um deve estar plenamente consciente de participar da aventura da humanidade que se lançou no desconhecido em velocidade. que é a da morte. sombria e devastada pela ambigüidade e pela força destrutiva do Coringa que quer encontrar e acionar o mal presente em cada um de seus cidadãos? Isso não nos levaria justamente ao animalesco e ao desumano. ao absurdo e ao desespero? Não é isso que temos visto acontecer na vizinhança e nos mais longínquos lugares?: É possível ainda mover pensamento e sentimento para descobrir ou inventar novas formas na unidade bruta desse mundo? Novas formas de ser só e com os outros? Para não permanecer presos a essa “herança sem testamento” que recebemos do mundo moderno (Adauto Novaes.como os cidadãos da Gotham City de Batman. talvez seja preciso então andar na contramão da estereotipia. p.. até na absoluta certeza. não pode pertencer a uma única nação. mesmo quando se imagina encerrado em uma segurança burocrática.

Ética como utopia combina mais. como a um vizinho. ele realizava “uma espécie de descentramento do ser humano. de antemão (para aplicar-lhe métodos de domesticação. que o ser (mas.] (p. treinamento e formação). preferimos compreender a Ética mais como utopia do que como solução visto que tal termo pode nos remeter à idéia de soluções radicais .autoritárias e ditatoriais. inexistente”. mas requer uma atualização no sentido mais contemporâneo dessa palavra: Esse sentido vai além das concepções originais. que oscilavam entre utopia como “o bom lugar. ao contrário da posição humanista clássica que assume o ser humano como dado essencial.. Pensar o processo de procura do encontro do ser com o humano. Dessa forma. lugar ideal” ou “lugar nenhum. Quando Heidegger dizia que “o ser. se é que de fato é algo. como por exemplo as diversas “soluções de extermínio”. Deus ele próprio) é sempre outro. refleti-lo. A ética. nesse sentido. elevação da vida cotidiana dos homens e mulheres comuns a um nível mais alto de intensidade. só pode existir a partir de uma exercício intenso e contínuo de humildade. criava um terreno gigantesco onde essa definição do ser iria se dar. Ética. é o terreno onde se pode trabalhar pelo engrandecimento e capacitação das pessoas comuns. [. se se quiser. ou o outro. 58) para o que é preciso ouvi-lo. daí se desenvolvendo para 55 .. seja ao menos e simplesmente pela capacidade de sonhar mundos melhores e lutar por eles aqui e agora..Quando Heidegger (1946) refletia sobre o que é ser humano numa perspectiva existencial ontológica e estabelecia a diferença de modo de existência. é o futuro”. Por isso preferimos pensar “ser humano” como uma expressão composta de um verbo e um adjetivo a pensá-lo como um substantivo. pela qual o homem tem um mundo e está no mundo e dizia que a linguagem é a casa do ser. cuja tarefa passa a ser guardar o ser. e cuja essência passa a ser corresponder ao ser.

em busca de uma plenitude por vezes idealizada. também a cada encontro e desencontro com outras pessoas. Assim. Utopia não como outro mundo. pode gerar formas de nortear nossas ações produzindo uma realidade social que representa nosso modo de conduzir as relações. cultura e sociedade. para conosco. mas o reencontro com o real. Se ética é o senso de reconhecer e desenvolver ações justas e respeitosas para com os outros e. como propus em outras ocasiões. a reconciliação com o que existe. Torna-se uma “visão de mundo inserida no tempo. que tematiza o presente de forma dramática e diferente” (Távora). O Homem. além do respeito. Algo parecido com aquilo que procuramos em nosso trabalho cotidiano. mas como uma espécie de duplo desse mesmo mundo em que vivemos. Ela está aqui. façamos de contexto. encontrando somente aqui a promessa ou esperança de um futuro. podemos aprofundar nosso olhar neste cenário tão acelerado de acontecimentos. A experiência existencial de indignação diante de situações violentas ou injustas nos 56 .“plano de governo imaginário ideal” ou “projeto quimérico” (ver Thomas More. A convivência exige uma aproximação que. na construção. se estranham de si mesmas. Nós somos este tempo e somos este mundo também. tanto quanto possível. O Homem é um ser-no-mundo que realiza sua existência no Encontro. porém pode-se constituir num processo reflexivo. Esta não deve ser uma realidade naturalizada. este Ser capaz der tantas nuances. sem abandono da espera da “inocência do devir” (l’amor fati de Nietzsche). Não a negação do real em nome do ideal. integração. porque não. mas sim nos incluir como atores sociais de uma realidade que não está distante. se projetam e se supõem outras a cada passo do caminho. em nossas viagens acompanhando pessoas que se encontram consigo mesmas. em constante movimento. O que vivemos hoje não deve nos deixar na platéia. 1516). um projeto sempre inacabado.

Também não pretendemos reverenciar o caos. Segundo Perls: “O homem que pode viver um contato intimo com sua 57 . 2002. modificável. mas consideramos fundamental a idéia de um mundo onde as diferenças possam coexistir gerando conflitos. sem otimização definitivamente determinável” (p 199). A Gestalt-Terapia é uma abordagem que trabalha com uma visão de homem contextualizada numa integração corpo.199). mas sim a tolerância e a convivência com a diversidade pois “Se queremos liberdades. A excelência complexa só pode ser incerta. Mas. Tudo que se baseia na liberdade e na criatividade está no limite da desordem e do risco de desintegração” (Morin. Estamos diante da complexidade não alcançável pela via da causalidade o que representa. p. de fato. mutante. é preciso margens de desordem. tolerância a anomias e aceitação da possibilidade do crime. pois Ética não deve ser reduzida ao campo normativo ou às regras de conduta. negociações e aproximações possíveis. É uma abordagem de vanguarda que inclui os aspectos sociais sem uma perspectiva determinista e é essa a principal característica desta proposta. a sua fragilidade não nos permite fixar uma excelência durável. Uma sociedade mais justa e mais livre não é a utopia da igualdade. mente e ambiente. como ainda nos diz Morin (2002) “Como a complexidade comporta necessariamente antagonismos e incerteza. um desafio para as Ciências Humanas neste momento de transição onde o caos e a desordem se interpõem às certezas e às estruturas constituídas até então.traz a possibilidade de validação do Humano sem maniqueísmos ou valores corretivos. confrontos.

. ela não é uma disciplina escolar.. Apesar de podermos transmiti-la a partir da reflexão. Não podemos mais ignorá-las ou segregá-las. o que ele nomeia de “outra globalização”. Ela se propaga na ação quotidiana através da sensibilidade e se estabelece nas relações. tristezas. no engajamento e no envolvimento. O predomínio da lógica econômica pode esmagar a lógica da solidariedade. a Ética se constitui na implicação. podemos sentir. Para ele. é um homem bem integrado. sem ser tragado por ela nem dela completamente afastado. Não há solução visto que esta não é uma solução matemática. pois ela está relacionada à opção de realizar a vida. Dessa forma. sem violências. entendendo-o não como um mundo asséptico. p-40). As versões menos glamurosas da realidade estão gritando à nossa porta. Se pensarmos num mundo e na humanidade como um processo. Se não podemos fazer. a globalização como perversidade que traduz o mundo como ele é e. é fundamental pensar um mundo novo a partir de nós próprios. medos ou agressividade. O geógrafo Nilton Santos debate a globalização distinguindo-a em três aspectos: a globalização como fábula. mas é uma experiência viva que pode reverberar em qualquer contexto ou situação. enfrentemos o que emerge neste momento. Se o único tempo “real” é o agora.sociedade. O lugar ideal é o lugar possível. Enquanto estivermos vivos. 58 . que representa o mundo como no9s fazem ver. Participemos da vida deste momento histórico deixando de lado o confortável lugar de expectadores. podemos acreditar num mundo melhor. injustiças. talvez tenhamos que nos desapegar da idéia de solução. o mundo como ele pode ser.O objetivo da psicoterapia é justamente criar tal homem” (1981.

Essa ética rima com experiência vivida. Assim.Tais sentimentos também necessitam de espaço. mundo. Mas do mesmo modo como a saúde exige a doença para se conquistar. para a vida como ela é... Por falar em rima. do suporte para autonomia relativa e efetiva. IV . auto-produtora de si e das transformações da experiência real. no que sublinhamos. certo ou errado. ou no “mundo da vida” como dizia Husserl. não descida do céu.. no vivido e na experiência. mas ainda acreditando. O mundo parece feio e sujo. degenerado e degradado. multiplicação. Mas rima também com outras palavras de quem há muito quis rimar com o mundo. onde marcamos a importância. para que não fiquemos polarizados entre o bem e o mal. preferimos propor que a ética seja uma rima para o mundo contemporâneo. Fluidez e criatividade serão sempre possibilidades infinitas.. enraizada no humano.CONSIDERAÇÕES FINAIS Sonhadores? Utopistas? Estamos vivos. E de fato deve estar. experimentando cada momento em seus sabores doces ou amargos. Porém podemos acreditar no diálogo. pode ser que esse mundo que se coloca como tão problemático e merecedor de questionamento seja justamente o que demanda do ser humano a sua superação e exercício maior de dignidade. A maior diferença que podemos fazer está no que escutamos. no que vemos. mas nascida diretamente na terra. na interação. por exemplo menos no sintoma e mais na capacidade de invenção. nosso Drummond: 59 . bem mais que solução ou ainda um pouco mais que utopia. A consciência de que nosso conhecimento e nossos valores são construções sociais não significa que devemos abandoná-los ou pensar que não devem existir valores.

“Não serei o poeta de um mundo caduco/ também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos. mas nutrem grandes esperanças.” (Carlos Drummond de Andrade) 60 .

FREIRE. 7ª edição. Paulo Pedagogia do Oprimido. 2005. 1975. 2008. Rio de Janeiro: Rocco. Amor. BENJAMIN. 34ª edição. São Paulo: Ática. BENJAMIN. BORGES.Observações acerca da obra de Nicolau Lescov. CHAUÍ. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. FONSECA. Walter Reflexões Sobre a Criança. São Paulo: Centauro. o Brinquedo e a Educação. Coleção Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro: Paz e Terra. São Paulo: Martins Fontes. Paulo Pedagogia da Autonomia. A Felicidade. desesperadamente. A. 2000. COMTE-SPONVILLE. M. volume XLVIII. Ensaios em Gestalt Terapia. Zygmunt Amor Líquido. BUBER. Rio de Janeiro: Difel. Pedang. L. São Paulo: Editora 34. Afonso H. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro. A Ética e o Espelho da Cultura. 1979. São Paulo: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1970. Rio de Janeiro. Coleção Espírito Crítico. Zygmunt O Mal-estar da Pós-modernidade. COSTA. amo vocês: política e vida privada na era da globalização. Objetiva. BRUCKNER.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAUMAN. Marilena Convite à Filosofia. Walter O Narrador. 7ª 61 . Jurandir F. São Paulo: Abril Cultural. Martin M. Lisboa. 2005. L. Pascal A Euforia Perpétua. 2006. 2005 FREIRE. In: Coleção Os Pensadores.Ensaio sobre o dever de felicidade. 2004. 2002. Famílias. Maceió. 2006. 2007. FERRY. Eu e Tu. 1996. BAUMAN. 1998. 10ª edição. 1996.

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nas emergências dos hospitais.A GESTALT-TERAPIA NAS SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA E EM DIÁLOGO COM O SUS: A CLÍNICA DO CONTATO. DO TRAUMA À REABILITAÇÃO RESUMO Os aspectos relativos ao sofrimento do sujeito-em-situação de adoecimento agudo. Enfatizamos o momento existencial e emocional do paciente utilizando um manejo técnico que viabilize ao paciente entrar em contato (estar awere) o mais completamente possível com a situação vivida e suas necessidades. O gestalt-terapeuta. O nosso objetivo foi discutir a saúde como campo do conhecimento e das práticas dos diversos profissionais cuidadores. a Gestalt no hospital contempla seu objetivo. do modo mais adaptativo e fluente que ele puder. pelas 63 . trabalhando com as possíveis interrupções e com a energia imobilizada em seu campo vivencial. pelas rupturas que a situação vivencial pode provocar não só nos pacientes como em seus familiares. enquanto sujeito enfermo/sofrente. procuramos desenvolver uma prática clínica que atenda a demanda da experiência de “malestar” e sofrimento. em consonância com as demandas do Sistema Único de Saúde – SUS. envolvem o paciente em sua totalidade num universo de questões bio-psico-político-sociais próprias daqueles que procuram a instituição de saúde para tratamento. Nessa perspectiva. atuando nesse contexto. Ancoradas numa relação dialógica buscamos a experiência imediata e de modo especial a exploração das possibilidades criativas e solucionadoras para o enfrentamento da situação. favorecendo o processo de auto-regulação organísmica e possibilitando novos significados para o sujeito/paciente/hospitalizado. é convocado a realizar ações psicológicas que favoreçam ajustamentos criativos e solucionadores. Por se tratar de um acontecimento potencialmente gerador de perdas significativas e capaz de desestabilizar a unidade do ser em questão.

auto-regulação organísmica. “ (. interrupções.circunstâncias do momento podendo favorecer no paciente.” (fragmento de uma narrativa no grupo de apoio psicológico) INTRODUÇÃO O presente trabalho é resultado da nossa experiência clínica.. O número 64 . classificado pelo Ministério da Saúde de alta complexidade e semi-intensivo.. reabilitação. Palavras-chave: emergência. o livre fluir das necessidades mais emergentes. ser-doente-em-situação. vocacionado para o atendimento de Emergência e de Grandes Traumas do Estado de Pernambuco. considerando a rotatividade. realizadas pela Psicologia se centralizam na atenção integral ao paciente e seus familiares.) o grupo auxilia porque você sente que não está só. gestalt-terapeuta.do Hospital da Restauração. temos um tempo de permanência médio de 15 dias. mas só cada um pode dar uma direção à recuperação(. podendo prolongar-se até 90 a 100 dias ou mais. na maioria das vezes todos ocupados. com 45 leitos. o maior hospital da Rede do Sistema de Saúde .SUS. Atendemos em média.. Devido as características da patologia e conforme a gravidade do trauma. consideram o ser em situação de sofrimento em suas dimensões bio-psico-social-política-espiritual. do trauma à reabilitação. As atividades de atenção à saúde. em hospitais e pretende discutir os modos de atuação num contexto de alta complexidade . 40 pacientes/ mês e respectivos familiares.Centro de Tratamento de Queimados – CTQ . sendo 25 leitos de adultos e 15 leitos de pediatria. A ajuda aqui está no sofrimento de cada um . em duas décadas. procurando saída. onde as ações integradas e de relação.) é nesse momento que a gente descobre a reserva de força e acho que tudo que recebemos ajuda muito. contato.. O CTQ é um Centro de referência para Tratamento de Queimaduras.

Nesse espaço de referência e de convivência. Muitas vezes são necessárias cirurgias reparadoras das seqüelas cicatriciais. O grupo representa um espaço de convivência. conforme nos diz Schimidt ( in Morato 1999). Nessa etapa do tratamento. pela cumplicidade.de atendimentos seqüenciais chegam em média a 200 /mês .(p. No tocante à atenção psicológica. muitos comparecem para contar aos outros suas experiências e seus vínculos com a instituição e seguimos todos caminhantes. 65 . Diante das considerações iniciais e contextualizada a nossa clínica. procurando sentidos. realizados semanalmente. 73-74) Nesses encontros. junto aos demais profissionais fisioterapeutas e médicos. estendendo-se ao pós alta hospitalar ambulatorial. “ os temas se entrelaçam e se relacionam criando uma rica tela de experiências. pós alta hospitalar. dependendo da ocupação dos leitos e da complexidade dos casos. Os temas são figuras que emergem da própria dinâmica e como indica Cardella. comuns nos pacientes queimados bem como o tratamento fisioterápico que pode durar anos. alguns pacientes ultrapassam os limites da doença para as múltiplas implicações no âmbito pessoal e interpessoal. dando continuidade a atenção oferecida durante a hospitalização. As Avaliações iniciais ( preventivas) nos auxiliam como indicadores para novos atendimentos atentando para a disponibilidade do paciente e as implicações emocionais decorrentes do momento vivido. são convidados a participar do Grupo de Apoio Psicológico à Reabilitação. os pacientes oriundos da cidade e da região metropolitana. É um Grupo temático. tornandose assim um espaço socioinstitucional propiciador de um enraizamento coletivo da nossa clientela. esta se inicia desde a admissão do paciente no CTQ. aberto e cada encontro se encerra em si mesmo. em uma dada situação existencial”. de escuta e de trocas de experiências de dor e sofrimento pelas dificuldades e estigma que a patologia impõe. tecendo a trama do trauma à reabilitação.

Lembramos Perez (2005) “(. constituindo-se numa nova compreensão sobre a saúde que considera os inúmeros fatores de dificuldade no cotidiano da população que são de natureza bio-psico-social-política-espiritual . Do ponto de vista existencial. inserindo-se nas equipes de saúde e afastando-se da tarefa clínica tradicional. visto ser outro o tema a ser discutido. aponta para o suportar. e do privado para o coletivo.. a psicoterapia. provocadores de sofrimento e desamparo. com o seu olhar holístico para o sujeito.” (p. 66 . Somos chamados para o público. cujos princípios básicos são a universalização do acesso. A GESTALT NO HOSPITAL: A CLÍNICA DO CONTATO O enfoque que queremos dar para o sentido do sofrimento no âmbito da saúde requer uma nova compreensão do verbo sofrer como sinônimo de padecer. que caracterizam a situação emergencial. hoje coincidente com os ideais de integralidade do SUS. podemos dizer que sofrer.) A vivencia do impacto do inesperado e o defrontar-se com a possibilidade de morte.53) Há de se considerar que tal situação provoca uma alteração da continuidade existencial que constitui e sustenta o sujeito e que pede uma atenção e uma ajuda especializada. tem desenvolvido trabalhos em outros espaços. onde a população vive a experiência de ameaça e desamparo provocada pelo fluir da fragilidade humana em situações de crise aguda. Esta atenção favorece a comunicação e a elaboração da experiência de sofrimento que está para além do corpo e da patologia. Não nos deteremos aqui em tais princípios. lançam o sujeito no estado inicial da condição humana. culminando finalmente na demanda hospitalar. a integralidade da atenção e a equidade . comprometida com as questões sociais e com o Sistema Único de Saúde – SUS – que amplia seu olhar. o desamparo. atualizando o conceito de atenção integral já encontrado no pensamento holístico e modelo atual sugerido pelo SUS. É de nosso conhecimento que a Gestalt-Terapia.. entre eles o hospital.passamos então a discorrer sobre a psicologia contemporânea.

o que . ou seja. já apontavam para o bem-estar do indivíduo e para os fatores ambientais interferentes no aparecimento das doenças. que a fraqueza e a submissão é combatida. vítima de um trauma agudo. a pensar sobre a condição do paciente como ser-doente-em-situação. Em “ Assim falou Zaratustra”. destacando-se Hipócrates. e fugindo do sentido de padecimento. Para ele. sustentando e sendo. (CAPRA. sobrepõe-se radicalmente a questão das necessidades pessoais do paciente e assim. a visão holística. No hospital. No entanto. Nem precisamos dizer que nesse contexto. se descortina o sofrimento humano total e inevitável. 1995 ). no hospital. Buscando também inspiração em Nietzsche ( 2006). inerente à própria patologia. A dor e o sofrimento próprios da existência humana nos leva.levando adiante. dando lugar a uma vitalidade que afirma o homem: vontade de potência. ou seja o sujeito bio-psico-social-político-espiritual solicita da equipe uma atenção ao sofrimento em todas as suas dimensões. com os princípios da Medicina hipocrática. a saúde dependia de um estado de equilíbrio entre influências ambientais. adotando um modelo que vise primordialmente a sua integralidade contextualizada. os médicos gregos. As ações médicas são marcadas pela objetividade científica e pela resolutividade da situação crítica vivenciada pelo paciente . sendo. a ameaça a sua integridade e as repercussões decorrentes das rupturas sofridas em seu espaço vital. temos nele. Na Grécia antiga. É necessário salientar que compomos uma equipe interdisciplinar numa rede de cuidados cuja prioridade é a sobrevivência e recuperação do paciente. modos de vida e outros componentes da natureza humana – Pathós – ou seja. falando também do poder curativo da natureza. humores e paixões que deveriam estar em equilíbrio.. consideramos o usuário e suas necessidades. e sobre a necessidade de suportar e enfrentar seu tratamento. a vida apesar do sofrimento inevitável. o conceito de eterno retorno nos põe em contato com a vitalidade que afirma o homem. dada a objetividade das ações e a dinâmica do 67 .

o novo. seguindo os princípios da Gestalt já citados. Nesse sentido lembramos Lofredo (1994): “ contato é o reconhecimento do outro. já aponta para a necessidade de um olhar interdisciplinar. O organismo subsiste em relação com o meio. a totalidade nas análises de um fenômeno. principalmente. voltado para o diálogo. o ambiente hospitalar. doença aguda. em seus aspectos estruturais e dinâmicos do psiquismo. assujeitados à possibilidade da novidade e do imprevisto.tratamento.. o psicólogo precisou re-inventar suas concepções e técnicas exercendo uma clínica ampliada cujo “foco do trabalho é o sujeito integral” conforme aponta Spink (2007.83) Considerando as necessidades do organismo e sua auto-regulação. e o estranho.) e com os perigos e supostas ameaças que tal situação poderá despertar nele. chamou atenção também para a importância de se incluir o contexto. Numa situação de contato estamos inevitávelmente. mas de estruturas que têm um significado distinto da soma de suas partes. o campo. Entrando em contato com a situação. tanto entre os membros da equipe que cuida. a equipe. Perls enfatizou a importância de compreender como um fenômeno psicológico acontece considerando o ser em sua totalidade. o tratamento. mantendo sua diferença. 93) enquanto que o gestalt-terapeuta no hospital trabalha efetivamente com paciente em sua totalidade. 2003). a energia mobilizada será integrada e a awareness eficaz naturalmente dependerá de como o paciente compreende sua situação atual e de como o self encontra-se nessa situação. na maioria das vezes não é possível. o que não-é-eu. Nesse cenário e fazendo parte da equipe interdisciplinar. p. o diferente. Perls desdobrou a tese do holismo estrutural.. sua alteridade e. exercendo assim a clínica do contato e do diálogo.37) Isso por si. o paciente confronta-se com o estranho (com o novo.” ( p. também comenta esse pensamento dizendo: “ Marcando o corte epistemológico com a Psicanálise. Sugeriu que há uma atitude que faz com que os Pimentel ( indivíduos percebam que o mundo é composto não só de átomos. o lidar com o outro. 68 . em seu campo vivencial. quanto em relação ao usuário com suas múltiplas demandas. evitando uma visão isolacionista. (p. assimilando o meio a seu ser diferente.

pensar. Tomando como fio condutor o conceito de auto-regulação organísmica. na prática. Não podemos deixar de enfatizar que é na fronteira-de-contato que acontecem as comunicações entre o paciente e a equipe e particularmente com o psicólogo que favorece através dos encontros.O contato é sempre dinâmico e por sua natureza relacional. Nossa atuação parte de uma avaliação compreensiva. entre terapeuta e paciente para uma ação interventiva que objetiva o livre fluir da energia necessária ao enfrentamento e à recuperação da saúde.. De qualquer modo nos perguntamos: Quem é o paciente? Em que circunstâncias ele adoeceu? Há alguma relação entre sua historicidade e seu adoecimento? Qual a dimensão dada ao seu sofrimento? E o grau de vulnerabilidade diante de tal acontecimento? Como poderemos favorecer o fluir da energia vital capaz de dar sustentação na travessia da hospitalização até a reabilitação? Diante de tais questionamentos. Sabemos que o modo sadio do sujeito deverá se revelar pela sua capacidade coerente entre sentir. Em Gestalt significa favorecer o afrouxamento de controles. trocas importantes com possibilidades de mudanças. compreender como ele reage a sua condição de ser/sofrente e quais seus recursos disponíveis. fica claro que não conseguiremos dar conta do sofrimento humano e o gestalt-terapeuta se oferece ao paciente/sofrente como presença. portanto. caos. Nessa perspectiva. acontece pela formação de uma figura contra um fundo.ordem surgem como uma realidade a ser vivenciada. dizer e agir e que como já visto na situação concreta de adoecimento esse modo será afetado em sua organização de maneira que organizaçãodesorganização. importa. possibilitando um espaço para a criatividade e a autonomia. conceito fundamental em Gestalt. como disponibilidade para uma escuta clínica situacional que favoreça o contato e a reflexão sobre o modo como ele como se relaciona com os acontecimentos e o que fazer com aquilo que se apresenta como inevitável e como algo a ser solucionado. ou estratégias de enfrentamento diante da situação a ser solucionada. que 69 .

mesmo sofrida. de sua capacidade de discriminar e . que poderão dar sentido a experiência vivida. nesse momento de crise. da awareness do indivíduo.30) . deixando fluir a energia necessária ao processo homeostático. Nesse sentido. Se você entende a situação em que está e se você permitir que a situação em que está controle as suas ações. diz que: “Existe apenas uma coisa que deveria controlar: a situação. A teoria organísmica. Perls. fantasias e dificuldades. decorrente das incertezas e das possíveis perdas. mobilizando por demais a angústia já própria da existência humana. o que resulta em crescimento segundo processos de ajustamento criativo. com sua própria vulnerabilidade. o processo de auto-regulação organísmica depende. o paciente/sofrente poderá apropiar-se do momento vivido conseguindo uma maior fluidez e assim. assimilar o que é nutritivo e rejeitar o que é tóxico . que é a awareness e a hierarquia das necessidades do paciente. Enfatizamos que auto-regulação não indica acomodação ou resignação. Cardella (2002) nos mostra que : “Para a Gestalt-Terapia. No confronto com a dor. tornar-se mais permeável a compreensão da realidade a ser enfrentada.65) Fica claro então. além da agressão. o sofrimento. citado por Yontef (1998). a situação que se apresenta sugere que o gestal-terapeuta se utilize de ações facilitadoras de awareness. ou seja. consequentemente. seus medos. portanto.”(p. mas uma atitude de escolha e aprendizado que envolve o ser total numa compreensão daquilo que é (realidade atual) e que necessita da utilização de forças presentes para o enfrentamento da situação.diz como o sujeito se relaciona com as situações. Querendo dizer com isso que existe a possibilidade da pessoa poder escolher e regular suas próprias vontades se estiver awere. direcionadas ao foco de atenção do paciente (figura). pensa o corpo como unidade funcional e que todo fenômeno acontece no organismo total. então você aprende a lidar com a vida.” (p. enfatizamos que o contato com a situação de trauma e hospitalização que leva o sujeito a desestabilização própria das situações de risco iminente . 70 .

buscando a autoregulação e o existencial. Desse modo. É justamente a inter-relação das suas dimensões humanas – suporte – que o paciente deverá fazer o movimento para o contato. a atenção psicológica oferecida ao paciente é norteada pelos acontecimentos experienciados no momento. para que possa. de facilitar a solução de problemas . visto que. incertezas e dor. poderá encontrar meios de enfrentar e suportar as necessidades do tratamento.” (p. o corpo para auto-suporte. o que afirma nossa prática como uma prática essencialmente fenomenológica-existencial. segundo ele é um existencial. Para Heidegger (2001). desorganiizada pela crise. O gestalt- terapeuta atuará junto ao paciente em sua unidade. então. uma dimensão constituviva do ser e. será um facilitador do processo gradual de passagem do apoio em suportes de outros para o reconhecimento e a criação de recursos próprios do indivíduo. e colocando em destaque a situação de adoecimento e trauma agudo. considera. no caso. estimulando a auto-regulação e o auto-suporte através de técnicas adequadas e de confronto com a situação e ao que se apresenta. como abordagem aplicada.49) Nessa perspectiva. e mais uma vez citando Cardella (2002) temos que: “O terapeuta. estabelecer contatos plenos. e do suporte o paciente poderá modificar percepções distorcidas ampliando suas possibilidades e assim. o enfrentamento da situação ameaçadora de vulnerabilidade . utilizar recursos próprios. trabalhados através da explicitação da experiência 71 . corporeidade tem um sentido especial. Na dinâmica da sua totalidade. O corpo. se o paciente estiver awere. expressa por movimentos desordenados em sua corporeidade. contempla seus objetivos. a Gestalt no hospital.Por essa compreensão. é condição ontológica do sujeito e já aponta para a totalidade do ser. portanto inseparável da suas experiências e de seus significados Esse filósofo. portanto. o paciente busca sua auto-regulação. na maioria das vezes doloroso e ameaçador. O objetivo da Gestalt-terapia é portanto. se estiver ciente daquilo que é. então. Através do encontro. favorecendo o fluxo de energia e tornar-se agente de seu tratamento e da sua própria recuperação.

as fantasias. em conexão com o livre fluir. Por essa compreensão. Segundo Polster e Polster (1979) o contato acontece através das funções de contato. “O corporar está em toda parte onde participa a sensorialidade. muito afetados em sua unidade relacional e transformador de 72 .. a noção de contato. As intervenções clínicas psicológicas possíveis no hospital seguem a mesma metodologia da clínica tradicional e considerando o manejo da fronteira-de-contato acreditamos que as pessoas são capazes de fazer a travessia da situação e tomando consciência (estar awere) poderá mover-se em direção a sua autoregulação. é também o lugar onde acontece o contato facilitador significado/sentido. Acrescentando ainda em sua fala que os limites do corporar encontra-se num âmbito diferente do tocar e do ver. gestos. expressões etc. mas ai está sempre. visão . Trabalhamos com a noção de contato com o sujeito e suas possibilidades trazendo assim a compreensão do que se passa com o paciente como Perls acreditou: na ênfase dada a situação da pessoa no presente. o novo.além do organismo físico e sim como um modo de ser nas diferentes formas de afetação. já a primária compreensão do ser” ( p. entra em contato com sua situação atual ou presentificada. considerado aqui como corporeidade é a casa do contato. alguns pacientes. MANEJO DA FRONTEIRA . para enfatizar o que pretendemos expor no momento. onde o paciente experiência o estranho. e assim. fala.DE . toque.212). destacando como essa pessoa. compreendemos que o corpo..olfato. também. É o lugar do encontro.CONTATO NA SITUAÇÃO HOSPITALAR A fronteira-de-contato é onde tudo acontece. das trocas. os perigos. No entanto. mas no âmbito do imaginar e da possibilidade de presentificar. articulamos novamente um dos conceitos fundamentais da Gestalt-terapia.

poderá ajudá-lo a desfazer suas interrupções que bloqueiam o contato e a interação saudável consigo mesmo e com os outros e consequentemente. O gestalt-terapeuta compreendendo o movimento inadequado presente na fronteira-de-contato e considerando o modo próprio como cada sujeito se revela. podem ser um dos fatores que interfere no tratamento do paciente e na comunicação entre todos da equipe. ou seja. No hospital.” (p. redirecionando a energia para outros modos mais adequados flexíveis e naturais. que recebem diferentes denominações em gestalt-terapia conforme diversos autores. Os fenômenos decorrentes das situações de crise aguda muitas vezes provocam os bloqueios que apontamos acima. Diz a autora: “ No processo terapêutico o que se procura é transformar esses mecanismos em estilos de contato. interrupções no ciclo do contato etc. o tratamento necessário. o estado emocional comprometido e tais interrupções. distúrbios de fronteira. além de ampliar a awareness deste em relação à sua forma de contatar e evitar. os define como a incapacidade se encontrar e manter o equilíbrio. interrompendo o fluir natural do processo de ajustamento criativo. adaptáveis às experiências em curso na vida do indivíduo. temos os distúrbios de limite. com a situação. Cardella (2002) referindo-se aos distúrbios na fronteira-de-contato . que apontam para uma confusão entre o si-mesmo e o outro. a rigidez na fronteira-de-contato encontrada nos pacientes em situação de crise aguda. Assim. dificulta as trocas .poderão apresentar dificuldades. as relações paciente/equipe. a autora acima citada considera que é necessário não combater tal movimento e sim procurar tornar o paciente awere do mecanismo que utiliza . 58) Finalmente. indica a utilização de mecanismos neuróticos. As construções metodológicas que contemplam a clínica no contexto hospitalar estão na perspectiva dos significados/sentidos e nossas ações se 73 . Por essa compreensão. aumentando sobremaneira o sofrimento daquele que necessita atravessar tal situação.

visto ser o adoecimento agudo um acontecimento que envolve o cotidiano do sujeito nas mais diversas atividades e dimensões existenciais. Assim. então. Diz ele : “Enfrentar. negá-la ou distorcê-la.Se pudermos criar uma atmosfera em que o confronto seja alcançado.”(p.é encarar os fatos e decidir.direcionam para a possibilidade de ampliar o campo de visão sobre a situação a ser suportada e da saúde como unidade do ser bio-psico-social-político-espiritual. As reflexões aqui apresentadas acerca da atuação do gestalt-terapeuta na âmbito hospitalar se revela hoje como abertura para nossa inserção profissional num contexto público e social. onde o desamparo e o sofrimento humano mostra-se em toda sua intensidade. afirmando-se cada vez mais como uma abordagem atual e engajada com os ideais de cidadania e de autonomia do sujeito-em-situação. No encontro. pelo contrário. 74 . terapeuta e paciente poderão encontrar modos de enfrentamento solucionadores e capazes de mudanças significativas na vida do paciente. Para finalizar.28) . a Gestalt-terapia mostra-se presente das diversas possibilidades de atuação clínica. como Benjamin (2002) também acreditamos que pode ser possível para o paciente o enfrentar da realidade sem defender-se. nossa entrevista poderá ajudar mais do que se pode prever. o que fazer com eles.

75 .São Paulo: Ed. São Paulo: Sumus Editorial. B. F.(1999) Aconselhamento psicológico e instituição: algumas considerações sobre o Serviço de aconselhamento Psicológica do IPUSP. São Paulo: EDUC. M.. Dicionário da Língua Portuguesa.P. M. A. POLSTER. São Paulo: Sumus. LOFREDOA. F. São Paulo: Sumus. A. SPINK. G. (1998) Processo . H.São Paulo: Martins Fontes. Aconselhamento psicológico centrado na pessoa: novos desafios. F.) A prática psicológica e suas interfaces com as doenças. In MORATO. Ed. (1994) A cara e o rosto : ensáios sobre Gestalt-terapia. (1979) Gestalt-Terapia integrada.M.J. (org. NIETZSCHE.P. (2002) A entrevista de ajuda. SCHI MIDT. BENJAMIN. (2001) Seminários de Zollikon. S. Cultrix Ltda. YONTEF.Trad. S. BACKES. G.BOSS.M.T. HEIDEGGER. Porto Alegre: L. H. Petrópolis:Vozes.P. São Paulo: Casa do Psicólogo.C.H. In ISMAEL. (2002) A construção do psicoterapeuta: uma abordagem Gestáltica. (2006) ECCE HOMO : de como a gente se torna o que a gente é. Belo Horizonte: Interlivros. A. M. CAPRA.M. diálogo e awareness: ensaios em Gestaltterapia. (2007) A psicologia em diálogo com o SUS: prática profissional e produção acadêmica. M. São Paulo: Casa do Psicólogo. CARDELA B. São Paulo: Casa do Psicólogo.H. L. & PM PIMENTEL. (1995) O ponto de mutação. PEREZ .M.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AURÉLIO. E.e POSTER.M. (2005) O psicólogo na unidade de emergência.(2003) Psicodiagnóstico em Gestalt-Terapia. São Paulo: Escuta.

disfunção do contato e contato. O enfoque estará nos casos em que mulher vivencia a dor da traição observando comportamentos que a pesquisadora percebeu como recorrentes. Mulher. O trabalho será exposto da seguinte maneira: em primeiro lugar farei um breve levantamento histórico da relação conjugal desde nossos antepassados até os dias atuais. mecanismos de defesa. em seguida. a atenção estará fortemente voltada para os conceitos de teoria de campo.A INFIDELIDADE CONJUGAL E SEUS MITOS: UMA LEITURA GESTÁLTICA Mariana Moura Magalhães RESUMO O trabalho apresentado será baseado na monografia apresentada como requisito parcial para a conclusão do curso de Especialização em Psicologia Clínica. fazendo uma relação com os mecanismos neuróticos e possibilitando uma discussão com os participantes. Palavras-chave: Gestalt-terapia. Durante a apresentação. Monogamia. falarei sobre o processo de infidelidade baseados num perfil romântico de monogamia verificando as reações das mulheres quando descobrem que foram traídas por seus cônjuges. a maneira pela qual elas eram tratadas e o processo de monogamia. observando o papel da mulher em suas relações conjugais. Infidelidade conjugal. O comportamento apresentado por essas mulheres serão apresentados sob uma ótica gestáltica. Mitos. O objetivo desse trabalho é gerar uma reflexão sobre a infidelidade conjugal e analisar mitos que dentro deste contexto podem ser utilizados como forma de resistência para encarar a realidade dos fatos. 76 .

77 . associada a uma dificuldade do sujeito em lidar com a situação. construindo uma realidade distorcida para assimilarem o fato.INTRODUÇÃO O trabalho aqui descrito foi baseado num trabalho monográfico apresentada como requisito parcial para a conclusão do curso de Especialização em Psicologia Clínica no Rio de Janeiro. mas. A apresentação desses 13 O sentido da palavra mito será usada para designar crenças fictícias. OBJETIVO O tema da “infidelidade conjugal e seus mitos” aguçou minha curiosidade na medida em que apresentava grande incidência no consultório. O material que será exposto será baseado na mulher que sofre a traição e que apresenta um comportamento deflexivo. criados como justificativas que viabilizem processar o sofrimento causado pela infidelidade. elas foram objeto de investigação. que aqui chamarei de mitos13. não contatando a experiência em si. Quanto a estas realidades distorcidas. ainda assim mais assimiláveis. O objetivo deste trabalho é apresentar alguns exemplos da relação entre mecanismos neuróticos e a construção de mitos. mostrando o quanto a infidelidade muitas vezes se presentifica nas relações. Ao falarmos em infidelidade podemos pensar numa série de significados e conceitos diferentes. é importante esclarecer que o termo aqui utilizado será descrito para o estabelecimento de uma nova relação amorosa quando já existe um compromisso estabelecido com outra pessoa. uma vez que eram utilizadas como um mecanismo de defesa para aqueles que apresentavam dificuldades em contatar a infidelidade e aceitar seus verdadeiros desfechos. e construindo respostas distorcidas.

1997) Polster. E. METODOLOGIA Os procedimentos metodológicos utilizados para esta elaboração foram de três tipos. O primeiro e mais consistente.exemplos tem por finalidade gerar uma reflexão do gestalt-terapeuta quanta à importância de estar atento aos processos de fuga para saber diferenciá-los como uma boa forma de evitar o perigo ou uma maneira cristalizada de atuar. impossibilitando crescimento e autoconhecimento. que são fundamentais para sobrevivência e construção de uma vida saudável. sendo esta refletida e empregada no desenvolvimento desse estudo. Outra forma de investigação foi o de conversas informais com mulheres que já havia experienciado a infidelidade. Dessa forma. as idéias que seriam exploradas na monografia foram levadas a um grupo reduzido de indivíduos pertencentes ao universo pesquisado e assim. através da análise de dados secundários. Perls (1988. Yontef (1998) e Zampieri (2004). que foram estudadas com o intuito de recolher informações e conhecimentos prévios a respeito do assunto aqui tratado e da hipótese que visava investigar. motivações. isto é. como o surgimento da monogamia. fundamentais para o desenvolvimento deste material. vale ressaltar que o material exposto na apresentação trata da cultura ocidental. & Polster. Para dar início ao caminho que será percorrido nesta exposição é interessante conhecer alguns pontos históricos. foram exploradas. as informações obtidas como. Jablonski (1998). Em terceiro lugar. trabalhei com a observação direta da experiência com clientes no consultório. sentimentos. como livros. Feldman (2005). entre outros. Ribeiro (1997). foi um levantamento de natureza exploratória. resultando em dados explicativos sobre o assunto pesquisado. assim como a fundamentação teórica utilizada: Engels (1974). M (1979). procedimentos estes realizados para o desenvolvimento da monografia já referida. Rodrigues (2000). o uso de informações já existentes. Hefferline (1997). Com base em tais procedimentos. artigos e pesquisas. o papel exercido pela mulher na 78 . conceitos e idéias.

como o surgimento da monogamia. até então. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Para dar início ao caminho que será percorrido nesta exposição é interessante conhecer alguns pontos históricos.). O adultério era tratado como crime capital. a monogamia era um artifício que parecia se aplicado somente às mulheres. o papel exercido pela mulher na sociedade... a função paterna passou a determinar a organização familiar e a continuidade da propriedade privada na mesma linhagem. s. o resultado de tal infração era bem mais ameno a eles que a elas. Assim. 1974). No entanto. que aboliu essa prática e determinou que a condenação do adultério passaria a recair sobre o homem e a mulher.d. Essa estrutura foi instaurada pelo homem e instituiu a política de monogamia através da qual ficaria assegurado o conhecimento de seus herdeiros. Além 79 . apenas a mulher reconhecia sua prole. Dessa forma. já que a sexualidade feminina passa a ser controlada (ENGELS. [. o modo como ela era tratada. mesmo com a entrada em cena da Igreja Católica. não exigia uma exclusividade conjugal. momento pelo qual o homem toma consciência de sua participação na reprodução da prole. mais exatamente após a origem da propriedade privada.] a família monogâmica foi necessária ao processo de acumulação privada de bens.sociedade. de que maneira era estabelecida a relação conjugal e as mudanças ocorridas nas últimas décadas. mas só era visto dessa maneira quando cometido pela esposa (ZAMPIERI. o sexo praticado tanto pelos homens como pelas mulheres. mas sim de uma construção social que surgiu a partir da necessidade de estabelecer a certeza da paternidade com a finalidade de concentrar a propriedade e a riqueza nas mãos do homem. de que maneira era estabelecida a relação conjugal e as mudanças ocorridas nas últimas décadas. Esta concentração só seria bem sucedida se houvesse o controle da sexualidade feminina (ENGELS apud MENDÉZ. Isso porque. Na Antiguidade. o modo como ela era tratada. Através da união monogâmica. Ao homem era permitido viver a poligamia e. fundamentais para o desenvolvimento deste material. de acordo com a explicação materialista o surgimento do casamento monogâmico não foi fruto do amor ou de um sentimento natural. surge o patriarcado. embora não houvesse conhecimento do pai biológico. 2004).

como reprimia a mulher em todas as estâncias. Apenas nas últimas décadas do século XIX. passa a ser uma escolha e não uma imposição política 80 . embora a desaprovação social das universitárias fosse muito grande. estas transformações como o direito ao voto (1932) e a legislação trabalhista de proteção ao trabalho feminino. algumas pequenas conquistas ficaram marcadas. consolidado com as leis do trabalho (1932 e 1943). Hoje falamos de mulheres independentes socioeconomicamente e que gozam de sua liberdade sexual. Apenas com o surgimento da pílula anticoncepcional. Com a Revolução Industrial e as duas grandes guerras. muitas foram as transformações ocorridas. eram carregadas de desigualdades. Desde então. As idéias feministas começaram a ganhar espaço. mas ainda assim. A força do patriarcalismo perdurou por muitos anos e não se limitava apenas a restrição da sexualidade feminina. A luta era por igualdade social entre homens e mulheres no que diz respeito à participação na vida pública e nas decisões políticas. ficou estabelecido que o sexo visaria apenas a procriação. os padrões sexuais vigentes passaram por uma reformulação. caso contrário. defendendo o controle de suas vidas e de sua sexualidade. como a abertura do ensino superior. seus praticantes seriam castigados e condenados. Foi a partir desse momento que as mulheres passam a lutar por uma igualdade social. com a qual a mulher poderia controlar sua contracepção. Neste contexto. percebemos mudanças na constituição dos casais estando o casamento situado numa conjuntura afetivo/sentimental.disso. sendo os casamentos determinados pelos pais que vendiam suas filhas e obtinham um dote. negada e condenada e a função da mulher era apenas a procriação. isto é. as maiores consequências recaiam sobre as mulheres. No entanto. como a mão de obra feminina que se fez necessária para suplementar o salário dos maridos. A exclusividade sexual. A sexualidade feminina era controlada. não sendo esta detentora de direito algum. O grande marco nas transformações dos papeis femininos só acontece no final de 60 e início dos anos 70 do século XX. os valores morais. éticos. a manutenção da monogamia. políticos e individuais sofreram mudanças.

Mas. As meninas devem ser frágeis. tão repressora com relação à mulher. a infidelidade conjugal continua em voga. Zampieri (2004) traz que as diferenças entre os gêneros. a não manutenção da fidelidade conjugal fala de uma quebra de lealdade e de confiança. nossa construção social histórica. Quando se relacionam com muitas meninas são considerados “garanhões” e normalmente invejados. brincam com armas e espadas. deixa resquício em nossa cultura nos dias atuais. mesmo com a quebra de alguns paradigmas e inserida num outro contexto. Atualmente. fortes. promíscuas. delicadas. A criança do sexo feminino tem o quarto rosa. sendo cada um a metade de um casal. Essa idéia de busca e consequentemente de completude vão ao encontro das idéias do amor romântico. fazem esportes que envolvem luta. No entanto.ou religiosa. competitivos. A amostra de sua virilidade é bem vinda e reconhecida. paradigma este que nos traz liberdade para escolher um companheiro que supra nossas necessidades afetivas. provedores. Os homens são educados para serem durões. vulgares. muito desses estereótipos estão se transformando. inclusive no que no que diz respeito a uma liberdade sexual. Os meninos jogam bola. na interação com o 81 . se nos baseamos hoje no amor romântico através do qual temos a possibilidade de escolher nossos pares. Se falarem de seus desejos podem ser vistas como oferecidas. o que pode gerar mudanças de paradigmas até mesmo na educação. trata as bonecas como suas filhas. As meninas são tratadas com mais submissão e não possuem a mesma liberdade. “fáceis”. facilitam com que um busque no outro aquilo que lhe falta. ou seja. brinca de casinha. são consideradas “galinhas”. Os meninos recebem mais liberdade e possuem direitos diferentes das meninas como chegar mais tarde ou levar uma namorada pra dormir em casa. Isso pode ser facilmente percebido em nosso processo educacional que é tão diferenciado entre os gêneros. Ao se relacionarem com muitos. doces. Por outro lado. É certo que na luta das mulheres pela igualdade com os homens. o que pode gerar esta quebra? Sem dúvida.

deixando de lado sua relação marital. buscar uma maneira para solucionar aquela questão. O material apresentado fala de uma possibilidade. por exemplo. é importante considerar que não estarei falando de regras de comportamento. mulheres que dão mais atenção ao trabalho ou aos filhos.meio. O que ocorre é que a mulher deixa de relacionar-se com a experiência ficando impossibilitada de fazer contato com esta. dificuldade de relacionamento entre o marido e a família da esposa quando estes estão mais próximos ou vivem na mesma casa. sendo a infidelidade conjugal devastadora para uma relação. estando ou não envolvidas pela dor. No entanto. 14 82 . Porém. A falta de comunicação. ainda hoje. o sujeito realiza um processo de auto-regulação através da satisfação de suas necessidades. muito menos que todas as mulheres reagem da mesma forma num sentido linear de causa e efeito. juntos. o que implica o casal e não apenas aquele que trai. considerando sempre os diferentes contextos. que para a apresentadora ficou muito presente. No entanto. grande parte dos casos de infidelidade é consequência de uma relação desgastada e mal zelada. em qualquer tipo de relação pode criar problemas. O que muitas vezes acontece. Podemos citar como exemplos problemas com o sexo. já que os problemas só podem ser resolvidos se falados e ouvidos. Quando falamos de uma relação conjugal é fundamental que o casal cuide dessa área. Embora não possamos determinar as causas geradoras da infidelidade. é essencial ao gestalt-terapeuta observar o comportamento do casal buscando compreender seu funcionamento e a atenção que é dada à relação. Vale ressaltar novamente que o trabalho apresentado fará uma referencia às mulheres que vivenciam a traição de seus cônjuges. e as peculiaridades do campo. é fundamental para seu estabelecimento. Se um dos pares apresenta uma queixa que precisa ser compartilhada com o outro é importante que eles conversem e tentem. o amor romântico possui critérios e regras indispensáveis para o sucesso do casal e a monogamia. é que o homem que trai é visto pela mulher como responsável único pelo sofrimento gerado pela infidelidade14.

abrindo portas para a procura de uma pessoa que satisfaça as necessidades afetivas. admiração. mas. certamente é a causa mais comentada entre os homens. melhoria da vida social. Não menos importante que o sexo. senão a mais marcante. é bastante comum que a união seja mantida e o que é faltante seja buscado numa relação extraconjugal. Não há como estabelecer uma quantidade ideal de sexo entre um casal para que a relação seja satisfatória. mesmo que o casal apresente uma relação insatisfatória em algum setor. a atenção. É pouco provável que homens e mulheres que vivem uma relação se satisfaçam em todos os sentidos. algumas dessas necessidades insatisfeitas podem ser resolvidas com o diálogo. o sexo é indiscutivelmente muito importante numa relação conjugal. o que poderia facilmente resultar em uma separação. O abandono ou a distância sexual por parte da mulher. Outras podem favorecer a infidelidade conjugal. Sentimentos pessoais. etc. No entanto. são fatores facilmente observáveis. Sua falta pode facilitar com que o homem procure outras mulheres que satisfaçam esse desejo. medo de não ser mais desejada. medo de ficar sozinha. entender que o outro pode nos adicionar. sendo está permanente ou ocasional. É certo que em alguns casos não são as dificuldades da relação que determinam um processo de traição. manutenção de bens. por exemplo. como a necessidade de auto-afirmação. fadada ao fracasso e com problemas 83 . Sem dúvida é essencial para o sucesso de um casal. mas não nos completar. aceitação e afeto são características básicas para manter um casamento saudável e satisfatório entre os cônjuges. em muitos casos o casal permanece unido por diferentes razões como filhos. No entanto. A necessidade de afirmar algo para si mesmo pode acabar trazendo danos para a relação. No entanto. Além disso. O fato é que a infidelidade conjugal é uma ameaça aos casais. por trazer vantagens profissionais. a traição não é sinônimo de uma relação ruim.Outra razão que chama a atenção é o caso das necessidades insatisfeitas.

etc. podendo ele. revitalização de um casamento monótono ou a constatação de um amor que já tinha virado dúvida. perceber seu papel e sua participação na mesma. da mesma forma que seu comportamento também interfere no meio. é extremamente comum que a dor se presentifique em quase todos os 84 . compensar visualmente os vazios de um contorno. ou mitos. nosso pensamento não pode ser linear no qual uma causa resulta num efeito. todo indivíduo é singular e detentor de peculiaridades. se agarrarem em explicações inadequadas. ao desvelarem a infidelidade de seus cônjuges. entendemos que cada indivíduo vive um contexto e seus comportamentos são atravessados por uma série de variáveis como a cultura. a descoberta de uma traição ou o rompimento amoroso não é fácil e pode trazer sentimentos quase que insuportáveis.insolúveis. seja pela interrupção do processo de formação da figura ou de sua destruição. quando falamos de infidelidade conjugal.. a escolha por essas explicações infundadas. No entanto. Um movimento natural do indivíduo é o fechamento de figuras. eventos inter e intrapsíquicos. M. torna-se uma situação inacabada. a não formação de uma gestalt é incômoda para o sujeito. quando não há esse fechamento. do self. Ainda assim. educação. Assim. personalidade. E. numa relação de reciprocidade. herança genética. isto é. criadas por elas mesmas. De acordo com os conceitos da gestalt-terapia. quando tratamos do comportamento humano. p. Segundo os Polsters. 1979. a gestalt que não foi completa.. A busca por uma explicação pode ser entendida como uma forma de fechar essa gestalt já que a “percepção visual vai além daquilo que pode ser visto” (POLSTER. visto que ela pode acarretar a restauração de algumas relações. inclusive. que justifiquem a traição. & POLSTER. eventos sociais. geralmente mostram a dificuldade da mulher em contatar a relação. 45). De acordo com os conceitos da gestalt-terapia. Reconhecer a própria responsabilidade quando o outro a trai significa perceber sua participação nos motivos que levaram com que o outro a traísse. Nosso olhar se baseia na teoria de campo. Porém. O que chamou a atenção para o desenvolvimento desse trabalho foi o fato de muitas mulheres.

casos. p. Como resultado. em muitos casos. 2005. p. pode trazer mais angústia e tristeza que a descoberta da traição já causou. Observo no consultório que muitas mulheres se apropriam de justificativas inadequadas como forma de evitar esse sofrimento. todo indivíduo passa por um processo chamado auto-regulação organísmica. a gestalt-terapia. o processo de mudança. 51). gerar grande sofrimento. a awareness é concebida como “estar em contato”. Segundo Perls (1988). processo pelo qual mantemos nosso equilíbrio. como “estar fora de contato”” (YONTEF. Considerando-se sua estrutura emocional e a dor que pode resultar do confronto com a realidade.33). 2001. Esse sentimento gerado pela traição pode ser tão dilacerante que muitas pessoas escolhem protelar ou até mesmo não fazer contato com ela. sabe-se que algumas pessoas jamais estarão prontas para conhecer as verdades de sua vida (FELDMAN. p. é fundamental satisfazer nossas necessidades. E. e a ausência de awareness.102) De acordo com Silveira (2007. desenvolve a prontidão para encarála e existe o momento exato para que cada uma atinja essa prontidão. Cada uma. “Algumas awareness15 são dolorosas demais para serem suportadas. 1998. A mudança é um produto inescapável de contato porque a apropriação da novidade assimilável ou a rejeição da inassimilável levará inevitavelmente à mudança (POLSTER. 85 . 15 “Na Gestalt-terapia. POLSTER. isto é. no seu próprio ritmo. algumas ações são difíceis demais para serem realizadas” (ZINKER. que é implícito no contato.. p. Através dele. Cada pessoa tem a escolha entre viver ou não a verdade presente em sua vida. Para isso. O contato é uma necessidade psicológica de todo indivíduo. 59) “o ato de contatar envolve sempre a percepção clara da situação”. nós assimilamos o que é nutritivo e rejeitamos o que é nocivo para nós. o que pode.. A mulher traída pode apresentar dificuldades em ter essa clareza. teremos sempre a mudança (SILVEIRA. 1979. p. o meio de modificação da pessoa e das experiências que ela tem do mundo. Além disso. Precisamos olhar com maior cuidado para esta questão. O contato é o sangue vital do crescimento. 2007). M. 138).

é bem provável que esta interrupção traga novas interrupções e. a negação da mulher diante da infidelidade de seu parceiro. Até porque. gere resultados desagradáveis. impossibilitando o contato. Estamos falando de um caso de deflexão. Os mecanismos neuróticos também podem ser chamados de mecanismo de defesa ou mecanismo de resistência. no entanto. 1988. 16 86 . se a fuga é muito demorada. Para ele. o indivíduo buscar novas formas de enfrentar a problemática não contatada. O processo de fuga (ou resistência) é uma maneira criativa de lidar com determinadas situações. Observe como exemplo desses mecanismos. 37). se reconhecer e não saber o que fazer com aquilo (RIBEIRO. evitar o contato através da fuga da realidade pode ser uma forma saudável de evitar certos tormentos. com naturalidade. a pessoa traída nega essa verdade. “se o contato é superprolongado. Não deixam os verdadeiros sentimentos aflorarem. Ao processo pelo o qual o indivíduo se torna incapaz de alterar suas técnicas de interação com o meio. torna-se sem efeito e doloroso. 85). p. a fuga não precisa ser encarada como algo negativo. Não podendo suportar a dor de uma possível traição. com isso. se mais tarde. interrompendo seu crescimento. escolhe uma boa forma de ajustar seu equilíbrio psicológico. todo contato é ajustamento criativo o que significa que cada indivíduo. Contato e fuga são nossos meios de satisfazer nossas necessidades. p.Segundo Perls (1988). quando a pessoa fica cristalizada. Perls deu o nome de “mecanismos neuróticos” 16. No entanto. comportamentos autodestrutivos. tendo mais suporte. pessoas que apresentam sintomas de deflexão agem da seguinte forma: As pessoas se comportam como se nada estivesse acontecendo. Mantêm. no seu processo de contato. Pelo contrário. Vamos supor que uma mulher fique sabendo que seu marido foi visto jantando com “outra”. A organização fica com medo de olhar para dentro de si mesma. ela pode ser vista como uma boa forma de enfrentar o perigo. 1997. Segundo Jorge Ponciano Ribeiro. interfere no processo de vida” (PERLS. apesar talvez de muitas evidências.

(POLSTER. um objeto. o foco está em citá-los como formas cristalizadas de interagir com o meio. a mulher traída poderia buscar explicações que justificassem aquele encontro. 1979). pois diferem pela maneira pela qual cada um contata com o meio. 1979. até porque. Porém. observo que esse sentimento pode não estar apenas relacionado com o processo de infidelidade do companheiro. eles podem deixar de exercer essa função saudável. o contato é obtido através de funções ou evitado pela sua corrupção. outra pessoa. M. às vezes é mais fácil responsabilizar o outro pela traição e fechar os olhos para nossa participação. etc. Aqui. Olhando então às justificativas inadequadas que muitas mulheres se apropriam para não fazer contato. falaremos sobre as disfunções de contato17. Se esse contato é bloqueado. 93). nos referimos à disfunção do contato. dificultam o contato. Segundo Erving e Miriam Polster. POLSTER. Nesse trabalho. A seleção de justificativas distorcidas como formas para entender a traição do cônjuge. entre eu e o que está fora de mim. E. mas também com a incapacidade da mulher traída assumir sua responsabilidade nesse mesmo processo. E. nessa fronteira. Vejamos alguns mitos recorrentes associados a mecanismos neuróticos e possíveis razões para seu surgimento.. o calor é retirado do contato. como uma forma de evitar o contato. funciona como um mecanismo de defesa. p. quando cristalizados. Estas fronteiras são particulares para cada pessoa. evitando dessa forma o sofrimento. seja o meio. Os mecanismos de defesa são processos criativos que podem ajudar o indivíduo a se orientar na busca de auto-regulação. Isso porque. Em se tratando de uma negação. Dessa forma. isto é. M. É dada pouca ou nenhuma atenção ao que a outra pessoa diz. 87 . 17 Todo contato ocorre na fronteira entre o “eu” e o “não-eu”. POLSTER.A deflexão “é uma manobra para se desviar de um contato direto com uma outra pessoa” (POLSTER.

estando ela favorável ou não a satisfação de suas necessidades traz para o terapeuta um conhecimento da capacidade da pessoa para o auto-suporte e para realizar seus contatos (YONTEF. muito menos criar rótulos interpretativos daquilo que os clientes nos trazem. visando com que o cliente possa vir a se auto-governar. É importante frisar que o objetivo da terapia não 88 .Mitos Todo homem trai Quem ama não trai Mecanismo Neurótico Introjeção Introjeção e Projeção Possível Razão Acontecimentos Históricos Idéias assimiladas no processo de educação Contexto atual no qual a beleza é muito valorizada e incitada. E. assumindo a posição de que. Cada passo no desenvolvimento da resistência se torna parte de uma nova formação da natureza do indivíduo. na pior. Mesmo porque. 159). no processo psicoterapêutico. ela “estuda o ‘campo’ conforme ele é experienciado por uma pessoa num dado momento” (YONTEF. POLSTER. M. 1998). O terapeuta pode tentar facilitar com que a cliente olhe para as suas resistências. p. a resistência é uma parte de sua identidade. acrescida de uma resistência que pode ser removida. tão logo ele se torne forte o bastante para removê-la. Ao associarmos os mitos apresentados aos mecanismos de defesa da Gestaltterapia não pretendemos fazer uma atribuição de causa e efeito. Rotular de meramente resistente o comportamento original é uma coisa enganosa. p. ela mesma. Ele é uma pessoa totalmente nova (POLSTER. 1998. manter ou desconstruir suas resistências. isto é. muito menos dirigir a terapia para que a mulher traída possa dar-se conta de que ela pode estar se apropriando de razões inadequadas para justificar o processo de traição. é melhor colocá-la em foco. entenda suas funções e então possa dentro do seu processo de awareness escolher. Baixo-estima O amante é mais sexy que eu Eu sou culpada pela traição Introjeção e Projeção Retroflexão Embora estes exemplos mostrem uma maneira de escapar de uma realidade que pode estar carregada de sofrimento. Assim. Em vez de procurar remover a resistência. a Gestalt tem um olhar fenomenológico do cliente. 63). na melhor das hipóteses. uma pessoa cresce através da resistência e. conhecer como funciona a awareness do cliente. Ele não se torna a pessoa anterior. porque a pessoa que tem resistido é uma nova pessoa e não existe um caminho de retomo. 1979. São ferramentas que poderão ser utilizadas no processo.. Remover a resistência para retornar à pureza préexistente é um sonho inútil. o terapeuta não deve ter por objetivo desconstruir as resistências apresentadas pela sua cliente.

Para que a pessoa seja capaz de manter uma auto-regulação organísmica ela precisa estar aware. que conhecendo os comportamentos de nosso cliente e os mecanismos utilizados pelos mesmos para estar fora de contato. teremos maior facilidade na condução do processo terapêutico. 89 . Percebemos então. mas instrumentalizá-los para que eles sejam capazes de conduzirem suas vidas na direção da boa forma quando estiverem diante de novos obstáculos.é apenas trabalhar as demandas dos clientes.

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tomada de consciência. riscos cardiovasculares. 92 . O desenvolvimento do trabalho baseia-se na prevenção de doença ampliando o nível de consciência da pessoa ao seu modo de viver. orientações e troca de experiências. O trabalho se embasa nas concepções da Gestaltterapia através de conceitos essenciais como contato interpessoal restaurando o diálogo. que no exercício da amorosidade pessoal buscam sua autonomia individual fazendo um caminho para a alteridade. propiciando suporte social. psicossomática. onde as pessoas buscam compreender o como algo aconteceu a elas.A TRANSFORMAÇÃO PELO ENCONTRO: UMA EXPERIÊNCIA EM GESTALTTERAPIA Theny Mary Viana Fireman de Araujo RESUMO Trabalho desenvolvido com grupo de pessoas portadoras de riscos cardiovasculares na perspectiva de promoção de saúde. buscando diminuir os efeitos deletérios do estresse da vida contemporânea e estimulando o autoconhecimento. adoção de estilo de vida saudável e adoção de prática de falar dos sentimentos vivenciando-os no aqui e agora. estimulando o auto-cuidado. através das falas significativas dos participantes. contato. promoção de saúde. O Programa Viva Melhor da Unimed-Maceió é um espaço de convivência para esclarecimentos. além da Psicossomática que respalda o resgate minucioso do adoecer humano. Apresentamos também os resultados obtidos. Palavras-chave: gestalt-terapia. processo de cura.

a qual delineou a qualidade de vida. com a criação do Sistema Único de Saúde . Essa perspectiva de se trabalhar com os riscos pode ser encontrada no artigo 5° da lei 8. propondo equidade e promoção de saúde. nos leva necessariamente a lembrar da I Conferência Internacional de Promoção da Saúde.080/90 (conhecida como Lei Orgânica da Saúde) quando se refere aos objetivos do SUS. outras práticas e outros saberes. tanto é que hoje ao falar-se em promoção de saúde. na Austrália. convocada pela Organização Mundial da Saúde – OMS. no Canadá em 1986. através de ações e serviços ofertados pelo setor público. E é a partir dessa experiência com os Grupos no Espaço Vera Arruda que trata este trabalho. Depois esse programa foi incorporando outros profissionais. próximo ao Hospital da Unimed e na Jatiúca no Espaço Vera Arruda. no Programa Viva Melhor Saúde na Praia. na realidade era mais uma ação de atividades físicas. que contava com sua fundadora a médica Maria Roseane Tenório Mendonça e alguns profissionais de Educação Física. reduzem e/ou 93 .SUS. Atualmente a política de saúde no Brasil se configura prioritariamente na perspectiva da promoção de saúde e prevenção de doenças. político-social e econômica das sociedades. A II Conferência veio a ser realizada em 1988.INTRODUÇÃO Esse trabalho visa relatar uma experiência em saúde coletiva na perspectiva de grupos com pacientes de risco cardiovascular. Naquela época o Brasil estava reescrevendo sua história com a elaboração da Constituição Federal – CF/88. a participação e a parceria nas políticas de saúde como campo de ação. que é de promover a adoção e medidas que evitam. antes era Saúde na Praia. A Unimed-Maceió criou um programa de promoção da saúde na praia de Jatiúca há mais de nove anos. E nela. conforme delineia os princípios do SUS. As políticas de saúde no mundo estão relacionadas de acordo com a evolução histórica. sendo desenvolvido em dois locais: No bairro do Farol. conhecida como Constituição Cidadã. se constituindo assim. pela primeira vez a questão de direitos e os princípios de promoção da saúde foram incluídos.

conforme diz o ditado popular citado por Barreto. ser portador de riscos e/ou doenças cardiovasculares. p. Porque quando a boca cala. segundo o Plano Estadual de Saúde para o período de 2008-2011. orientação.minimizam agravos à saúde. conforme diz Ribeiro (1997. cujo objetivo é minimizar as conseqüências oriundas dos agravos cardiovasculares. no diálogo coletivo que se ampliam as explicações de cunho psicossociais dos fenômenos da saúde e da doença. Essa política vem sendo implementada pelos municípios alagoanos. através do convívio em grupo. bem como. os órgãos falam e quando a boca fala os órgãos saram”. fortalece mudanças de hábitos. redução de riscos de acidentes e violências. adoção de falar de sentimentos para não adoecer e assim. estimulando o auto cuidado.13) uma “palavra mágica. a adoção de estilo de vida saudável. compreendida como sendo. ter idade cronológica acima de 50 anos. Daí a importância de restabelecer o diálogo entre as pessoas. entre eles o da Promoção da Saúde contendo as estratégias de ambientes livres de agravos controláveis. e em paralelo a própria Unimed-Maceió. adoção de estilo de vida saudável e meio ambiente sustentável (ALAGOAS. ou seja. (2005 p. visto que é. além da importância de falar de sentimentos. tendo em vista a concepção de que o trabalho em grupo reduz custos. 2009). nosso objetivo é propiciar a vivência do contato. Em última instância. 94 . assegurando condições para a manutenção e sustentação da vida humana. Em outras palavras o Programa Viva Melhor é um espaço de esclarecimento. institucionaliza o Programa Viva Melhor. a Secretaria Estadual de Saúde apresenta os eixos prioritários de ação governamental. que podem estar comprometendo sua saúde e favorecendo a evolução da doença. 3): “É muito importante falar com a boca. reflexão e conscientização dos aspectos psicológicos presentes no processo de adaptação à nova rotina de vida. comunicação e troca de experiências entre os participantes. podendo ser ou não cliente da Unimed e querer participar de um Grupo com duração de seis meses. Especificamente em Alagoas. O PROCESSO DE PARTICIPAÇÃO Os participantes do Programa Viva Melhor são selecionados de acordo com alguns critérios. promover uma melhoria na qualidade de vida de seus participantes.

além de outros profissionais que também se encontram com os grupos e onde são realizados palestras e vivências. fazer as pessoas entrarem em contato consigo e com o outro. ou seja. dislipidemias (gorduras alteradas no sangue). com assiduidade às atividades. “o contato é saúde.36). da responsabilidade individual na melhoria da sua saúde e conseqüentemente. fundamentalmente. Trabalhamos com quatro Grupos chamados de Risco de Doenças Cárdio Vascular – RDCV e cuja proposta é a tomada de consciência do existir de cada um. Para participar dos Grupos as pessoas precisam ser portador de um ou mais riscos de doenças tais como: hipertensão arterial sistêmica. Qualquer interrupção do contato implica uma perda na saúde. O trabalho acontece com encontros semanais com as psicólogas e quinzenais com os outros profissionais. faz o que chamamos “Momento da 95 . suficientes ao bem-estar emocional. a médica coordenadora. pois segundo salienta Ribeiro (1997. sedentarismo (quando associado a qualquer fator de risco) e doenças pregressas relacionadas ao tema do Programa (angina. excesso de peso (sobrepeso e obesidade). obesidade abdominal. sem precisar adoecer. ou ainda através de demanda espontânea. com disciplina no tratamento medicamentoso e alimentar e retomada da vida ativa no trabalho que representa um novo suporte social. após serem identificados no sistema de informação dos atendimentos ambulatorial e/ou hospitalar. Percebemos que a atuação de vários profissionais conjuntamente propicia aos clientes uma sensação de proteção e cuidado. Os participantes dos Grupos são contatados pelos funcionários da Unimed. com duração de duas horas por semana. onde as pessoas buscam informações de como participar do Grupo. O trabalho do Grupo foi realizado sistematicamente por duas psicólogas (uma com formação em Gestalt-terapia e outra com formação em Biossíntese). infarto. p. permitindo-se a viver e conviver com as emoções sem precisar escondê-las e. derrames). ao entregar-se”. diabetes Melittus ou pré-diabetes. Após serem identificados os participantes é formada a turma. É convite ao encontro.é sinônimo de encontro pleno. Contato é processo de autoregulação organísmica” e quando a doença aparece o contato é interrompido. melhoria na qualidade de vida. de mudança de vida. Saúde é contato em ação. porque algum amigo ou parente já participou ou participa. manifestados em comportamentos mais autoconfiantes.

O TRABALHO PROPRIAMENTE DITO As duas psicólogas são as primeiras que recebem as pessoas de cada turma e uma das atividades mais importante é o momento da acolhida. p. é escutar sem pressa a pessoa e tentar acalmá-la para que a mesma possa resolver sua dificuldade. reforçando o dizer de Hycner (1995. é oferecer uma atenção mais adequada possível. E assim. Para nós. hospedar. atender a.16) “muito do sofrimento humano poderia ser diminuído se houvesse uma maior preocupação em estabelecer um diálogo genuíno entre as pessoas”. Um fato que mais chama a atenção nos primeiros momentos e que é muito comentado pelos participantes é sobre o abraço afetuoso que é dado pelas duas psicólogas e que posteriormente. Para controlar os riscos de doenças cardiovasculares faz-se necessário o desenvolvimento de técnicas que propicie a mudança de hábitos e de comportamento. agasalhar.Sensibilização” que nada mais é do que mostrar os objetivos do trabalho a partir da perspectiva de promoção de saúde e qualidade de vida e não apenas prolongamento de vida. possam viver de uma maneira mais harmoniosa e prazerosa. uma vez que o apoio social oferece estabilidade de proteção ao indivíduo em momentos estressantes. ter em consideração”. 1992. é inclusão. Segundo algumas pesquisas que buscam entender a origem da hipertensão arterial. consigo mesmo. as turmas chegam ao belo Espaço Vera Arruda. a melhoria na auto-estima e o aumento da rede de apoio social. solidariedade e também o primeiro toque de contato. Esse momento é fundamental para o estabelecimento da relação clientes e profissionais. 248) apresenta seu estudo mostrando que as doenças cardiovasculares aparecem devido a alguns fatores como: “rápidas mudanças sociais ocorridas e quebra dos valores tradicionais. O trabalho busca atender o objetivo de que as pessoas. dar acolhida. e principalmente. a ruptura de laços grupais. Conforme Ferreira (1964. acolher é aproximar. admitir. escutar. se espalha entre os participantes. p.21) acolher é “receber. é encontro. aumento da competição e do 96 . criando uma rede de confiança. com o outro e com o mundo. p. Groen (1975 apud CAMPOS. dentro das perspectivas de valorização da vida.

mostrando que as pessoas com riscos cardiovasculares apresentam algumas características específicas como: “comportamentos orientados para a excelência do desempenho de modo muito determinado. De acordo com as pesquisas de Friedman e Rosenman (1974 apud RAMOS 2006. pois o grupo 97 . p. competitividade. tanto que a atualidade exige maior repressão às emoções conforme mostra Mower (1991 apud SILVA. p. priorizando uma coisa de cada vez. envolvimento excessivo com o trabalho. poderão ter maior ou menor influência na pessoa”. podemos verificar que o ritmo alucinante da vida na atualidade. Resumidamente podemos dizer que fatores psicológicos que perpassam as doenças cardiovasculares demonstram pessoas com comportamento de “engolir seco”. além de rever certos hábitos de vida que deteriora sua saúde. membro de uma rede de interações e comunicações que funcione de maneira franca e precisa. sentimento exagerado de urgência de tempo. agressividade. Assim. as mudanças do cotidiano. a instabilidade social. possuem um ritmo agitado de vida.. p. isolamento social e rompimento de laços afetivos. impaciência e vigorosa atividade lingüística e motora”. 83) no estudo de pacientes cardíacos elaboraram um construto descrevendo alguns fatores psicológicos.individualismo e a elevação das taxas de doenças psicossomáticas”. a premência de tempo. para prevenir a possibilidade de doenças cardiovasculares é necessário: • Ampliar o nível de conscientização do indivíduo sobre seu modo de viver. a valorização da melhor tecnologia e do individualismo crescente vem promovendo um aumento nas doenças psicossomáticas. 1994. das pessoas e dos valores. a responsabilidade. Para Ballone (2007. 257) os aspectos psicossociais como “ambiente competitivo. cuidado e protegido.80). • Propiciar ao indivíduo suportes sociais que o faça sentir-se amado. agressividade reprimida. estão sempre acima da tensão que o corpo agüenta. Assim. estabelecendo metas reais que possam ser alcançáveis. a transitoriedade das coisas. possuem um acentuado impulso para a competição e desejo de serem reconhecidos. etc. valorizado.

funciona como suporte social. orientando e estimulando no sentido de combater esses fatores.42). é preciso ter uma comunicação empática. Por isso. no ‘entre’ que é vivido por ambos”. a somatização. a alegria e a tristeza. mas é o coração que simboliza o amor e o ódio. na perspectiva do que Hycner chama de ‘inter-humano’. • Conscientizar o indivíduo acerca dos efeitos deletérios do estresse e propor métodos para reduzi-lo. a coragem e o medo. p. como resposta ao estresse. 98 . pois. no inter-humano a realidade é muito maior do que a soma dos dois juntos. Ser continente implica ouvir. devemos ver que o coração é o foco das queixas emocionais.23) “o significado do inter-humano não será encontrado em qualquer um dos parceiros. 1995. p. relaxamentos e meditação. Oliveira Junior (2005. No trabalho desenvolvido com os grupos visando à promoção de saúde. nem nos dois juntos. a vida significado do coração. • Informar sobre os fatores de risco da doença. o comando da vida física e a modulação do comportamento humano estão centralizados no cérebro. responsabilidade e resultado. ‘dialógico’ e ‘entre’ como sinônimos. em conformidade com a concepção de Buber (1965b apud HYCNER. E para alcançar esses objetivos é necessário dialogar sobre temas como sentimentos. Assim sendo. p. Fisiologicamente. o coração é o templo das emoções. nos mostra que “cada órgão adoecido traz consigo uma bagagem simbólica construída ao longo da própria existência da humanidade. formar o vínculo terapêutico e ser continente. entendida como fenômeno que ocorre entre pessoas no aqui e agora. • Estimular a ampliação do autoconhecimento através de técnicas psicoterápicas. ouvir até mesmo o silêncio”. através de exercícios respiratórios. sendo o “entre” a ponte que dá significado da interação com o reconhecimento da alteridade. Esses temas são discutidos nos encontros e conforme nos mostra Buber (1958 apud HYCNER. num processo contínuo de respeito. é utilizado também princípios da filosofia do diálogo. ou seja. mas somente no diálogo entre eles. a repercussão das emoções no corpo. 21) “todo viver verdadeiro é encontro”.

em contato. p. Assim.19) “é no momento em que me aceito como sou. propiciando que as pessoas se percebem como pessoas. foi importante perceber que a sua participação no Grupo. é levantar-se diariamente e agradecer por estar vivo. que necessariamente faz a pessoa olhar para dentro de si. sofriam muito mais. dizendo em Beisser (1961 apud Ginger. Além do mais. dar-se conta e de tomada de consciência são realizados com a respiração e a meditação. buscando compreender o que está por trás daquela doença.29) “estar cônscio de tudo o que afeta os nossos atos. De imediato detectamos 40 pessoas com baixa auto-estima e constatamos que as mesmas não confiavam no seu potencial. Além de que nos grupos nossa atuação sempre foi de ressaltar a pessoa doente e não a doença em si.Do total de cerca de 100 pessoas trabalhadas nos quatro grupos. depois que elas compreenderam que a auto-estima é construída nas relações familiares e que vai se consolidando nas relações sociais saudáveis. p. do respeito. p. reclamavam bastante e. que me torno capaz de mudar”. ter auto-estima é ter amor próprio. tendo em vista que a força do grupo mostrava a necessidade do amor. propósitos. já que a pessoa precisa se escutar e mudar sua maneira de agir.31) a “consciência é o insight. 99 . é ser proativo. Outra questão também trabalhada se referiu à auto-estima. Os exercícios de “awareness”. era preciso estimular as pessoas a viverem conscientemente. é conforme Branden (1993. Para isso. não se cuidavam. além de serem portadores de risco ou doenças cardiovascular. as emoções são fortemente sentidas quando da realização de exercício mais profundo. ou melhor. p. é gostar de si mesmo. atento”. de estar presente. o dar-se conta – awareness – uma forma de experimentar. era imprescindível. é ter autoconfiança e é tentar ser feliz mesmo sendo portador de uma patologia crônica. percebemos características muito semelhantes entre os participantes. E conforme ressalta Trindade (2006.163) “o corpo e as palavras entram em ressonância”. as pessoas carecem viver conscientemente entendendo o que as levou a ter uma atitude que gerou sofrimento e dor. da valorização e da bondade. portanto. visto que ela é ao mesmo tempo consciência e corpo. deixando fluir seus sentimentos que agora são primeiramente sentidos e depois pensados e falados. da ternura. 1995. visto que está relacionada com crenças e atitudes que a pessoa tem de si mesma. como diz Ginger (1995.

Os princípios da Psicossomática estão contidos na afirmação de que “toda manifestação mórbida tem um sentido”. p.38) “só quando se fecha uma gestalt. propiciando seguir em busca da saúde e saúde com qualidade. Esta escolha está embutida na sua história de vida.) fenômeno é aquilo que aparece” (Ribeiro.. porque nada ficou em aberto”. como mobilizador de mudança focalizando a procura de saber como aconteceu o que aconteceu buscando verificar qual foi o sentimento ou a emoção que eclodiu. onde o comportamento de um membro. o sentir.. O importante é compreender o fenômeno do adoecer. Esse foi nosso caminho. a Gestalt se concentra muito firmemente no contato. conforme ressalta Briganti (1999. o processo seguiu seu curso. visto que a mesma é um processo complexo e sua compreensão está na arte de escutar a pessoa.valores e metas”. quando possível. formado através de uma interação. AS BASES TEÓRICAS Nosso trabalho teve como referencial teórico a Psicossomática e a Gestalt-terapia que se baseia na busca de compreender o sentimento. Diante disso percebemos que é necessário entender o significado da doença. então a doença é aquilo que aparece. 1985. ou seja. já que o “fenômeno significa manifestar-se (. 100 . ou seja. propiciar o ensinamento de como as pessoas podiam utilizar experenciando as técnicas no aqui e agora. que por sua vez. p. p. afeta e é afetado por outros. 1997. como bem diz Ribeiro. os problemas são visto na sua totalidade. utilizá-la. com a necessidade de auto-proteção. fizemos o máximo para fazer fechamento de gestalts. é vivenciado através de fechamento de gestalts pois. através do aqui e agora.141). Para nós. escolhe sua manifestação mórbida. E. e o contato pode ser sentido como excelente. 43). E sabendo que na Gestalt-terapia o homem é concebido como tendo todo equipamento necessário para enfrentar os problemas da vida. desde os primórdios inconscientes. Outra questão foi utilizar o conceito da Gestalt de que um “problema” está sempre em relação ao contexto que ele se originou. que por sua vez. é preciso fazê-lo se conscientizar da sua força e assim.

O conceito de ressignificar. A forma que se pode modificar a relação eu-mundo é resignificando conforme Ballone (2002). cultivar a solidariedade que nada mais é do que a arte do contato que Ribeiro (1997. disciplina. mensurar e controlar” os fatos observáveis. A idéia básica é a (re)valorização do objeto visando melhorar a adaptação do indivíduo. clareza. Quando o significado se modifica. A Psicossomática vem buscando juntar o que a pensamento cartesiano separou: mente e corpo e a Gestalt-terapia inclui nessa relação o espírito. suavidade. uma vez que é difícil medir o grau de tristeza ou de sofrimento de alguém. sempre se adoece por alguém e para alguém (podemos verificar o contato). a qual “funciona como uma propriedade facilitadora de busca de equilíbrio” de acordo com Ribeiro (1985. podemos entender a relação que o indivíduo faz com ele mesmo e com os outros no desenvolvimento da sua “doença”. Pela Psicossomática. 35 participantes que “esqueciam” de tomar a medicação. é observar um determinado objeto e verificar o valor que o mesmo tem para o indivíduo.9) é “modificar o molde pelo qual uma pessoa percebe os acontecimentos. tanto no nível de afeto quanto de sentimento. 14) nomeia como “ternura. a fim de alterar o significado. muitas vezes são os verdadeiros alimentos do contato”. e assim. a qual é imprescindível para sua vida. visto que 101 . a prepotência e conseqüentemente. onde as insatisfações pessoais vão demandar uma tentativa de auto regulação organísmica. descobrir. Vale salientar que havia antes no Grupo. carinho. melhor se relacionar com o objeto para viver muito mais e ser feliz. Em outras palavras. compreender como ele faz a correlação entre sua doença e os aspectos emocionais. as emoções estão subjacentes a qualquer corpo. ressignificar quer dizer reavaliar o objeto com que o homem se relaciona. p.100). bem como. já que a pessoa pode corrigir a forma de se relacionar com o mundo. p. Além do mais. a qual reduz a irritação. o mau-humor. precisando apenas compreender o discurso. uma vez que as relações humanas sempre começam com o “dar e o tomar” e isto é. segundo Bandler (1980. as respostas e comportamentos da pessoa também se modificam”.interdependência e vivência no processo de dar e receber. É preciso exercitar a tolerância e a boa vontade. a Gestalt-terapia propicia a pessoa quando foca em si mesma. como conseqüência da sua subjetividade. suas sensações e sentimentos. uma vez que não se adoece sozinho. além do fato de nos mostrar como ele fez ou faz a adesão ao tratamento. Usamos também a Psicossomática através do resgate minucioso do adoecer humano. E mesmo sem poder “quantificar. em última instância. explorar e experenciar suas emoções. p. o princípio da permeabilidade da teoria de campo de Kurt Lewin.

o próprio grupo criou estratégias para a lembrança. que a medicação se tornou “algo” que lhe dava vida. mostraram-se como uma elaboração coletiva e uma relação de cura. ou seja. precisávamos compreender que o corpo fala e traduz uma simbologia através da representação dos sentimentos das suas emoções. A awareness se desenvolve quando a pessoa investe na experiência atual. Resumidamente podemos dizer que nossa atuação estava focada em desenvolver um olhar diferenciado e uma escuta melhorada para desvendar o que se escondia por trás da porta do sintoma. ou a extensão da vida. depois verificamos através das falas. quando a pessoa permite que saia de si o que ela não aceitava. contudo. ou seja.sem ela. para nos modificarmos no encontro. E para tal. através de doenças. não terá chance de controle. p. Para isso foi necessário discutir coletivamente. isto é. os contatos nos grupos. como um “todo”. assim. p. quais as razões interiores que levaram as pessoas ao adoecer. Isso nos mostra que somos o resultado das nossas relações ao longo do tempo. O corpo possui uma 102 . Nossa atuação foi trabalhar as pessoas do Grupo. E mais ainda. como nos lembra Perls (1970 apud HYCNER 1997. pois está em constante movimento. p.23) a Gestalt-terapia tem que ir além do individual e voltando-se mais para o coletivo. sem exigências para mudá-la e sem julgamentos de que não deveria ser o que é. onde as ações e os objetivos estariam voltados para uma tarefa específica: melhorar enquanto pessoa. para o nós. Para Hycner (1997. elas precisavam tomar consciência e se responder. pois quando a experiência ou sofrimento não pode ser falado verbalmente. como se dava o processo do adoecimento e sua forma de modificação. ela começa o processo de cura. aprender a superar as dificuldades. é expressa no corpo.29) o que une “os seres humanos é a dimensão invisível ‘entre’ nós”. portanto. ele ressalta que a cura ocorre na relação. A aceitação da relação Eu-Tu permite um aprofundamento do processo de awareness e é. na singularidade e individualidade de cada pessoa.77) “a mudança ocorre com a awareness suportiva do que é. a concretização do pré-requisito para a mudança”. fazendo delas oportunidades de crescimento. ou ainda conforme nos mostra Hycner (1997. por si só. compreendendo que toda pessoa precisa ser confirmada pelo outro e que a pessoa é um eterno vir a ser.

mas sim. escolhe do que vai adoecer e quando e as condições necessárias para sua evolução ou fracasso. por excesso de rigidez de um lado. no exercício da amorosidade pessoal. fazendo um caminho para a alteridade. As pessoas chegaram ao Grupo com muitos bloqueios de contatos visualizados através da fixação. Assim. A força do grupo está no respeito da diversidade. “o homem cria e é a sua doença. na busca da autonomia individual. em aproximação e distanciamento. encontrarmos as nossas próprias soluções”. O RESULTADO DO GRUPO O trabalho com Gestalt-terapia em Grupos nos permitiu construir vínculos sociais e fortalecimento de redes de pessoas que reaprenderam a importância do diálogo e do outro na promoção de uma vida mais feliz. faz questão de verbalizar. ação e retirada.49) “contato implica em atração e rejeição. de mudança e de bem-estar. oportunizar o modus operante até então desenvolvido. tanto que essa situação é visualizada pelos membros das famílias que. a doença vem para confirmar. introjeção. Sendo a doença uma desarmonia na consciência do homem é preciso reconstruir essa harmonia. somos o que queremos ser e temos o que queremos ter. caracterizados. amar. avaliar. já que para alguns autores. para que possamos entrar em contato conosco. E conforme Tellegen (1984. Perturbações de discriminação e de ritmo nos movimentos de aproximação e retraimento.linguagem própria. em grandes linhas. discernir. Assim. em sentir. Por trás de toda doença há sempre uma gama de significados e intenções. e para Cardoso (2006 p. detestar.111). consciência. abertura e fechamento são distúrbios de contato. comunicar. As nossas emoções não nos fazem adoecer por acaso. lutar. mobilização. projeção e confluência e após algum tempo vivenciando o experenciar e o contato as pessoas passaram a trabalhar na perspectiva de cura fluidez. p. podemos pensar que. determina a ela todos os seus significados pessoais. verificando mudanças e crescimento pessoal de seu ente querido. transformar. inicia-se o processo de cura onde o fator de cura se relaciona com a experiência em si. na verdade. deflexão. com a sensação de algo novo. com nossos problemas e assim. ou de permeabilidade 103 . fala continuamente e era preciso entender essa linguagem.

sou gente. o Grupo busca promover a saúde através da cultura. isso é hereditário. pela vitória do meu amigo. servir e atender. (auto-regulação) “Depois que estou aqui. recebo a força do grupo e me sinto forte”. “Meu marido falou que eu estou diferente. sou pecador. p. me cobro muito. me seguro com dificuldade. amigo. sou amante. eu me identificava com ela. eu sinto o sentimento das pessoas. ser caloroso. tio. amo a vida. quando a colega falava. sou muito emocional. alegre. não admito falsidade. esposo. enquanto parte do campo. sou irmão.por outro. além disso. da experiência de vida de cada um. “Eu sou tímido. depois que venho para cá”. cada pessoa tem a chance de se encontrar com o mundo exterior de uma forma promovedora”: • • • • • • • • • “Quando venho para cá me sinto como uma criança”. embora não seja necessário viver do passado”. nunca mais me esqueci de tomar os meus remédios”. sou solidária. porque também sou sensível. choro por tudo. é do meu pai. cobro muito. esquentada. genro. (trabalhando a racionalização) • “Vou me colocar pelo avesso porque pelo avesso a gente se coloca como é realmente. Ah! Meu Deus é a primeira vez que eu consegui me colocar pelo avesso e falar tudo isso”. “Quando estou em casa me lembro de cada um de vocês e ao escutar nossa música. pois aprenderam a fazer contato conforme nos diz Polster (1979. ao isolamento ou à perda de diferenciação e identidade”. sou corajosa. filho de Deus. articulado e reconhecido por todos. “Esse encontro aqui me traz boas lembranças”. sou muito responsável. tanto que o sucesso do Programa Viva Melhor pode ser verificado através de “falas significativas” de alguns membros onde apresentam os seus sentimentos no melhoramento de suas vidas e de sua saúde. “Meu médico falou para eu continuar no grupo. gosto tanto que não quero mais sair”. emotivo. pai. sou humano. choro pela música. lembro o tempo todo de vocês. visando atingir os objetivos propostos que em última instância é garantir o empoderamento das pessoas. investigativa. as coisas me atingem e me fere. E esse grupo surgiu na minha vida na hora certa”. “Trabalhar as recordações no grupo é muito bom e me faz muito bem. respectivamente. Puxa vida! Falei tudo isso!” (surpreendendo-se) • “Sou sensível. pois sou muito sensível. do conhecimento que é valorizado. deixando cair às máscaras) 104 . quero saber sempre o “por que” das coisas. O Grupo tem a função de terapia grupal e a palavra terapia significa acolher. levando o indivíduo. verdadeira. sou amigo. pela novela. (Desconstruindo. pois estou ótima”. chorão.100) “através do contato. (ampliando a fronteira do contato) “Estou nesse Grupo. Sou transparente.

às palavras de Mª Henriqueta Camarotti. não só um melhor-ser. pois percebi que tem alguém cuidando de mim”. é a energia vital dos relacionamentos. E finalizando. que vão cronificando as emoções e deixando as pessoas cada vez mais distantes uma das outras. pois antes eu não sabia dizer NÃO e agora digo NÃO sem me sentir culpada”. mas depois desse Grupo. a dor da alma é aquela dor que decorre das perdas. até que aqui. Neuropsiquiatra e Gestalt Terapeuta de Brasília (DF). sou chata. eu relaxei mais. estou diminuindo o sentimento de culpa”. p. fazemos nossas. recorro ainda a Ginger (1995. “Tenho que reconhecer o meu desenvolvimento aqui no Grupo.• “Apesar de não parecer sou muito tímida para falar. em Gestalt. Diante disso se faz necessário que a pessoa. Vale salientar ainda que saúde é um encontro harmonioso das partes. o corpo mexe. das disfunções relacionais e dos desajustes pessoais. acho que melhorei. a dor metafísica expressa à dor física. fruto desses trabalhos no Grupo”. “Quero ressaltar as mudanças na minha vida. tornando-se flexível) • • • • • • “Quero ressaltar as mudanças na minha vida. Reforçando que a doença como linguagem e a fala do sintoma como uma forma de comunicação. mas um mais-ser. mas para mim que sou muito organizada isso é um avanço imenso”. fala-se do corpo. dos lutos. mas não se fala dele. (sendo flexível. que aparentemente é besteira. uma qualidade de vida melhor”. pois esse trabalho aqui está fazendo a diferença nas vidas das pessoas. inclusive venho para cá sem forrar a minha cama. “A UNIMED me chamou e achei bom. pois prevenir é estimular o grupo a usar sua criatividade e construir seu presente e seu futuro a partir de seus próprios recursos no aqui e agora. o corpo mexe e fala-se dele explicitamente”. pois acordo alegre e feliz. perfeccionista. E mais. conforme nos aponta Ginger (1995. é movimento corpo e mente e para provocar. gosto da coisa certa. é o canal expressivo da dor da alma se manifestando na dor corporal. (ocupando seu espaço no mundo) Podemos dizer que esses comportamentos se baseiam na prevenção. “Tenho que reconhecer o meu desenvolvimento aqui no Grupo. em psicodrama. sou amada pelo marido e filha. 172) quando afirma “em psicanálise. “Temos que agradecer a esse trabalho da Unimed e a vocês.15) “esteja procurando desabrochar melhor seu potencial latente. p. mas ele não se mexe. fruto desses trabalhos aqui”. quando diz no seu belíssimo texto: A doença como Fonte de Transformação: um estímulo a Resiliência 105 . estou diminuindo o meu sentimento de culpa”. sou desconfiada.

Essa experiência é saúde. 106 . Falta-nos ainda compreendermos os interstícios da angústia humana que perpassam a etiogênese das doenças”. psicopatologia. Somos levados a fazer conexões entre o corpo biológico e os fatores etiológicos externos causadores das doenças. Falta-nos ampliarmos essa compreensão incluindo os aspectos socioculturais que moldam as relações dos grupos sociais. anatomia. Isto é Saúde Coletiva.Comunitária: “Como profissionais da área da saúde somos preparados nos conhecimentos da biologia. Isto é Gestalt. etc. fisiologia.

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tais como apresentação dos diferentes cursos. os componentes do fórum poderão se debruçar sobre os aspectos formais dos cursos de Formação em Gestalt–terapia. enfim.AS ALEGRIAS E OS DESAFIOS DA FORMAÇÃO EM GESTALT–TERAPIA NA CONTEMPORANEIDADE TIPO DE APRESENTAÇÃO A sugestão é que se componha um fórum de debates ou uma mesa redonda convidando coordenadores e ou professores dos diferentes Institutos ou Cursos de Formação em Gestalt-terapia nos diferentes pontos do território nacional. Partindo de uma análise do campo levantamos algumas das necessidades que percebemos na comunidade que demandam a atuação do psicólogo ressaltando a abordagem gestáltica como uma excelente referência para a participação do psicólogo na sociedade. violência. grade curricular. Tendo estas questões como pano de fundo. Assim. a convivência na diversidade. horas aula. questões de poder. discutiremos sobre as temáticas da contemporaneidade que interferem na formação do psicoterapeuta tais como ética profissional. para que troquem experiências e idéias sobre o tema. liberdade e responsabilidade. Consideramos também a evolução da Gestalt-terapia não só no que concerne ao aspecto teórico como as mais recentes contribuições na prática profissional. RESUMO DA APRESENTAÇÃO A discussão visa trocas entre os Institutos ou profissionais formadores de Gestalt terapeutas para debater algumas das questões pertinentes à Formação do gestaltterapeuta na contemporaneidade. organização de workshops. trocar idéias sobre como oferecer as ferramentas 109 . ecologia. etc.

Como as pessoas se relacionam entre si e na Instituição. como fazer daquele local um lócus para a troca de conhecimentos. atender as necessidades do psicólogo que se encontra no início de carreira ou e/ou aquele que busca se aprimorar profissionalmente. enfim. 110 . O que é comum e o que é particular à cada Instituição de ensino. construção de redes. Esperamos assim proporcionar um rico espaço para trocas e sedimentar os liames que nos unem enquanto profissionais de mesma orientação que compartilham ideais semelhantes. Procuramos assim fortalecer a cooperação entre os vários professores e / ou Institutos Formadores de Gestalt Terapeutas. É interessante fazer uma reflexão sobre a cultura que cada curso constrói.necessárias para que o profissional possa se desenvolver ainda mais. grau de pertencimento.

Essa pessoa na verdade. quando parece estar ouvindo. descobrimos um pouco mais tarde que estava apenas preparando a sua próxima fala. pensa ou sente. Nosso objetivo neste trabalho é trazer uma reflexão sobre este mecanismo de evitação de contato. refere-se não apenas ao organismo biológico. não está interessada em receber coisa alguma. No entanto. sociais. o mais negligenciado pela literatura gestáltica: o ajustamento egotista. mas sempre como mergulhado em um contexto: ele é sempre parte de um campo organismo/ambiente. Para compreendermos o conceito gestáltico de “ajustamento”. sem estar interessada realmente nas respostas. biológicos etc. muito provavelmente. onde o que ocorre em qualquer uma das partes afeta inexoravelmente o todo. que tende naturalmente para o equilíbrio. O termo “organismo”. já vivemos a experiência de um encontro com alguém que parece falar apenas para se ouvir. que diminui significativamente as possibilidades de troca com o meio. É como se a presença do interlocutor fosse detalhe quase dispensável à sua performance. uma pessoa que faz várias perguntas. O organismo é uma totalidade. uma só unidade. esse organismo não pode ser concebido isoladamente. mas à pessoa como um todo. em seus aspectos psicológicos. não está interessada na troca.ASPECTOS SAUDÁVEIS E NÃO SAUDÁVEIS DO AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA: PERSPECTIVAS ATUAIS INTRODUÇÃO A experiência de um encontro genuíno pressupõe um tipo de contato pleno que se caracteriza pelo interesse e pela disponibilidade entre as pessoas envolvidas. da qual a Gestalt-Terapia se apropriou a partir da Teoria Organísmica e da Teoria de Campo. Existe aqui uma perturbação no contato: uma rigidez na fronteira. precisamos primeiro entender a noção de campo organismo/meio. Não faz sentido falar de um corpo que respira 111 . Além disso. todos nós. Essa pessoa está realizando o que em Gestalt-Terapia se chama de “ajustamento egotista”. e. apenas em mostrar aquilo que ela sabe. em Gestalt-Terapia.

No funcionamento saudável. é que podemos falar deles 112 . tóxico ou perigoso (e. Portanto. Nesse processo de auto-regulação e interação com o mundo. cristalizando-se como estruturas rígidas. portanto. por um lado. É comum precisarmos. a pessoa suprime a expressão de suas necessidades – então estamos diante ajustamentos criativos não saudáveis. uma transformação do ambiente e. ou falar do caminhar sem falar do chão e da lei da gravidade etc. para satisfazer uma determinada necessidade. na fronteira de contato. os ajustamentos criativos se constituem em favor da expressão e satisfação das necessidades do organismo. através da discriminação entre o que é saudável e nutritivo (e. o indivíduo precisa sacrificar sua relação com o meio – ou o oposto: para manter a relação com o outro. e pode ser necessário. simultaneamente. nos importa saber de que forma isso se dá: como organizamos a nossa experiência. utilizar-se de artifícios para evitar o contato). e estes podem se apresentar de maneiras mais ou menos saudáveis. Pois bem. lançar mão de mecanismos para diminuir a intensidade ou mesmo evitar a realização de um contato pleno e genuíno. por outro lado. uma transformação do organismo). se o organismo sempre tende à organização. portanto. Quando. e aquilo que é prejudicial. assimilável). em determinados momentos. reciprocamente. necessariamente. nesse caso. Essa pode ser uma saída saudável numa situação em que não é permitida a livre expressão de necessidades. os mecanismos de evitação de contato não são sempre sinal de um ajustamento criativo não saudável ou disfuncional.sem falar do ar. vamos construindo diferentes formas de nos relacionarmos com o meio em busca da satisfação de nossas necessidades. ao contrário. Pelo contrário: podemos dizer que todos os mecanismos de evitação de contato são estados temporários adequados do processo de formação e destruição de figuras. mantendo. São estas formas de estar no mundo que denominamos de “ajustamentos criativos” (criativos porque envolvem sempre. Apenas quando perdem seu caráter temporário e sua função espontânea. como por exemplo locais de trabalho ou o ambiente escolar (à criança não é permitido expressar livremente a sua raiva gritando com a professora. uma relação de respeito com o ambiente (tanto social quanto físico). rejeitado). O organismo sobrevive e se desenvolve a partir da interação com o ambiente na fronteira de contato.

208-209). a fronteira é tão tênue que a pessoa se “mistura” ao ambiente. onde a troca entre o organismo e o meio fica bastante limitada. Hefferline e Goodman. a orientação e manipulação deliberadas (identificações e alienações do Ego). p. o que ficou conhecido como as etapas do ciclo do contato: pré-contato. de modo que permita trocas. ao contrário. a agressão ao aproximar-se de obstáculos e a superação destes. a fronteira de contato se enrijece. Hefferline e Goodman (1951/1997) propõem uma divisão didática da seqüência de “fundos/figuras”. Em um processo saudável de crescimento e desenvolvimento do organismo no meio. 1997. Hefferline e Goodman (1951) identificaram 5 mecanismos de evitação de contato: confluência. ao mesmo tempo em que contata o ambiente (ver Perls. No caso da confluência. o de limitar o organismo. Vejamos o que isso significa. contato (ou contatando). assemelhando-se mais a uma barreira. contê-lo e protegê-lo. No contato (ou contatando): o excitamento do apetite torna-se o fundo e algum “objeto” ou conjunto de possibilidades é a figura. porém firme o bastante para exercer o seu papel. Perls. a projeção e a retroflexão são processos que se desenrolam no palco da fronteira de contato. Há a escolha e a rejeição de possibilidades. Se o contato sempre ocorre na fronteira organismo/ambiente. Perls. 113 . projeção. Apesar de o contato organismo/meio ser um processo único na busca da satisfação de uma necessidade emergente. como se a fronteira ficasse tão porosa quanto uma peneira. o egotismo e a confluência se distinguem das outras formas de evitação de contato por se referirem ao “estado” da fronteira. é naturalmente na fronteira também que se observam os mecanismos de evitação.como mecanismos disfuncionais. cabe uma distinção: enquanto a introjeção. como os de deflexão e proflexão). qual seja. é preciso que a fronteira de contato se mantenha suficientemente permeável. enquanto no caso do egotismo. Entretanto.43). e podem ser resumidamente descritas assim: No pré-contato: surge o apetite – uma necessidade é identificada. retroflexão e egotismo (outros autores desenvolveram mais tarde novos conceitos. contato final e pós-contato (ver p. introjeção.

Para o nosso objetivo aqui nesse estudo. que põem em relação [1] a percepção do organismo de si próprio como um ‘eu’ e [2] a novidade ambiental percebida como um ‘Isso’.209). devido a algum perigo ou a alguma frustração inevitável. e qualquer ‘Isso’ possível torna-se simplesmente um interesse do ‘Tu’. o sentido de ‘Eu’.No contato final: a decisão já foi tomada.). desaparece espontaneamente no envolvimento. É o momento de se comprometer e usufruir da escolha. 1951/1997. quando ocorre a assimilação do novo. mas o contatado. um objeto a elaborar. p. No pós-contato: “há uma interação fluida entre organismo/ambiente. Este processo pode ser interrompido a qualquer momento. a qual favorece o crescimento. Está claro que no processo de ajustamento criativo deve haver tais impulsos ou motivações. A “entrega” característica da etapa do contato final é magistralmente descrita pelos autores: “Tentemos analisar a absorção do contato final como sentimento (embora tenhamos que nos desculpar por nossa pobreza de linguagem). mencionamos a seqüência de motivações (. fazendo com que o excitamento espontâneo fique sufocado. 1997. o tocado.. entretanto. o realizado” (ob. O sentimento de absorção é ‘esquecido-do-self’ (esquece-se dele). Empreguemos a 114 . aprendemos um hábito neurótico específico . não há necessidade de tal motivação. O ‘Eu’ afunda-se inteiramente em seu sentimento de atenção: falamos de ser ‘todo ouvidos’. cit. p.. é aquilo a que nos dirigimos. “(. ‘todo olhos’. o objeto torna-se um ‘Tu’. Segundo Perls. Ao analisarmos a seqüência do processo de contato. e já que esse objeto preenche o campo inteiro – qualquer outra coisa é experienciada com relação ao interesse do objeto –. Durante a absorção espontânea do contato final. Hefferline e Goodman. “a deliberação. não podemos escolher de outra forma. Há uma espécie de indiferenciação. porque contatamos não uma fronteira.. e então as fronteiras não têm importância... que não é uma figura/fundo” (Perls.249). o desfrutado. Hefferline e Goodman.) durante o contato final e íntimo. pois não há outras possibilidades. O resultado disso é a ansiedade.um mecanismo de evitação de contato. dedicase completamente a seu objeto. Dependendo da etapa específica em que se dá essa interrupção. importa especificamente o tipo de interrupção que ocorre na etapa do contato final. em qualquer etapa. o conhecido.

por se tratar de uma preocupação última com as próprias fronteiras. são interesses. p. Hefferline e Goodman. a alegria. É natural que neste momento. Mas pode ocorrer aqui uma interrupção. o egotismo é um momento necessário de preocupação com as próprias fronteiras antes de se comprometer com a assimilação e o crescimento. a cor. Hefferline e Goodman. arredio. “uma redução da espontaneidade” em favor de uma “introspecção e circunspecção deliberadas adicionais para se assegurar de que as possibilidades do fundo estão realmente exauridas – não há ameaça de perigo ou surpresa – antes de se comprometer” (Perls. os interesses têm determinada qualidade estática ou final. o luto etc. p. a espontaneidade deve poder suceder à deliberação: é preciso se permitir relaxar o 115 . O AJUSTAMENTO EGOTISTA Na etapa do contato final. eu dê uma parada e me volte para mim mesma (awareness reflexiva) e me pergunte mais uma (última) vez se realmente esta é a melhor escolha.) De maneira mais soturna. Hefferline e Goodman (1951/1997. o insight. 1997. para que o contato final ocorra. Tomemos um exemplo. a serenidade. e podemos agora compreender como estes são terríveis. Dedico grande parte do meu tempo e energia a pesquisar preços. em vez de com aquilo que é contatado. “o egotismo normal é hesitante. Comparados com os apetites e as emoções. pois se não há nem Ego nem Tu. relaxar e usufruir a minha escolha. No lado mais brilhante. Perls. Ou seja. há um relaxamento. antes de me comprometer. a ponderar se é melhor comprar um carro zero quilômetro ou usado. um impedimento de se abandonar totalmente à experiência. de renúncia ao controle e à vigilância. Trata-se de uma parada natural. a apreciação estética.257). Segundo Perls. 1951/1997. de que forma eu quero ou posso pagá-lo etc. o desespero. o amor.. Imagine que eu quero muito comprar um carro. 257). Hefferline e Goodman denominam esse tipo de interrupção de “egotismo”. escolher o modelo.. obtuso. cético. o sentimento é como o de um abismo (Perls.222). (. pois não são motivações. são tais estados.. um momento de retirada. p. Nesse caso. etc. a compaixão. E imagine que finalmente eu chego a uma escolha. antes do contato final. em lugar de serem operações de sentimento.palavra ‘interesse’ para esse tipo de sentimento sem self. mas se compromete” (grifo nosso).

passando a existir uma espécie de “confluência com a awareness deliberada” (Perls. A minha opinião pessoal é a de que isto pode se dever a uma opção por não enfrentar o aparente paradoxo que envolve o termo "egotismo". ao explicar que o que acontece no egotismo é que “o controle não é controlado”. O egotismo é. Diz ele: “Excesso de ego envolvido nessa fase do self. Hefferline e Goodman. Retomando o exemplo da compra do carro. afinal. e de comprar este carro e não outro. p. 81). levantando a questão sobre se. introduzido por Goodman. define-o como um ‘excesso’ de ego” (D’Acry. dos mecanismos de evitação de contato o menos explorado na literatura gestáltica. pode-se falar de egotismo como um mecanismo neurótico. Quando há uma fixação nesse processo. se soltar e ter a coragem de se comprometer.). 2006. sem dúvida. p. em maior ou menor grau. a autora afirma que Robine (2006) “aponta para um paradoxo quando Goodman refere-se ao egotismo como perdas das funções do ego e. é a de que Robine apenas alerta para o fato de que o conceito de egotismo “pode parecer um pouco paradoxal” [grifo nosso] (Robine. mostrando que o paradoxo é apenas aparente. pois se os mecanismos neuróticos de evitação de contato se referem sempre a perda das funções de ego. O autor continua logo adiante. como explicar o "excesso" da função ego no caso deste ajustamento específico? Além disso. sem. sensações especialmente desconfortáveis. o que talvez contribua. 1951/1997. não tenha sido bem aceito pelos gestalt-terapeutas. 2007. é a mais satisfatória para mim). Perde-se a fluidez necessária ao contato saudável. No verbete “Egotismo” do “Dicionário de Gestalt-Terapia (Gestaltês)”. entretanto. trata-se de “excesso ou perda das funções de ego” (id. se alongar sobre os possíveis motivos para tal rejeição. Nossa compreensão.131). nesse comportamento controlado e deliberado. p. no entanto.257). o encontro com o cliente predominantemente egotista pode suscitar no terapeuta. Perco a capacidade de abrir mão do controle sobre a experiência e de me comprometer com a decisão de comprar – ou de não comprar – o carro. certamente. p. Robine (2006. imagine então que eu. no momento da “parada” (quando me questiono se a escolha que fiz de comprar um carro. conforme veremos adiante. no entanto. mas sem que o ego possa optar por 116 . para o pouco interesse teórico sobre o tema.131) sugere que este conceito. me enredo nas minhas próprias racionalizações e não avanço.controle.

é importante também para o adolescente discriminar suas próprias necessidades e deliberar em favor de satisfazê-las. é que a perda das funções do ego (especificamente: o controle) se dá não em relação à sua atuação no ambiente. na satisfação de uma necessidade. do livro Fenomenologia e Gestalt-Terapia (Granzotto e Granzotto. “você não sabe” etc. a diferença no caso do egotismo. inclusive em sua relação com a família e com seus pares. essa função de controle não está sendo exercida pela função ego do self. Esta é uma etapa fundamental para o reconhecimento do EU separado do OUTRO. Excesso e perda da função ego” (Robine. basta pensarmos no próprio desenvolvimento infantil. o egotismo é saudável e mesmo “indispensável em todo processo de complexidade elaborada e de maturação prolongada” (p. com um exagero das características de onipotência e autoreferência. “eu que faço“.).terminar seu controle. 131-2). A mesma criança que. mas sim em relação a si mesmo (e isso acontece porque. Ver o Capítulo 7 – Ajustamentos Neuróticos. da autoconfiança e do sentimento de auto-estima. 2007).257). num outro momento está totalmente fechada à troca com o meio (“é meu!”. a criança passa por um período de individuação em seu desenvolvimento. 18 117 . É neste período que se criam as bases para a aquisição do autosuporte. E isso é saudável. Por volta dos 2-3 anos de idade. O controle está fora de controle. Portanto. em comparação com os outros ajustamentos neuróticos. Para compreender tal afirmação. p. De forma semelhante. 2006. mas pela inibição reprimida)18. em um momento está totalmente absorvida no contato. na verdade. Há fluidez e não fixação. não obstante a possibilidade de se fixar como um mecanismo neurótico. podendo estar mais centrado em si mesmo e escolher de forma consciente o que quer e o que não quer absorver em suas trocas com o meio. Hefferline e Goodman (1951/1997) nos informam que. O AJUSTAMENTO EGOTISTA NA INFÂNCIA E NA ADOLESCÊNCIA ASPECTOS SAUDÁVEIS Perls. que pode ser visto como um egotismo primário. em especial os subítens “Teoria da inibição reprimida: figura e fundo da neurose” e “A neurose como perda das funções de ego (para a fisiologia secundária)”.

O AJUSTAMENTO EGOTISTA . descrito por Martin Buber. Neste cenário. mas em si mesmo. e certamente essa “dieta” vai acarretar algum problema nutricional. do incontrolável. é como se alguém se alimentasse de um único tipo de comida: por mais saudável que possa parecer. Segundo Robine (2006). fundamental que o adolescente não perca a capacidade de discriminar entre o que lhe é nutritivo e o que lhe é prejudicial. o contato não finaliza e não se obtém a satisfação no meio.131). o problema desse controle é quando ele não é controlado (ver p. e suas relações se estabelecem na base do “Eu-Isso”. 118 . as características avaliadas como necessárias para ser aceito pelo grupo. portanto. É consenso geral que nesse período o indivíduo vive novamente um excesso de onipotência e auto-referência. e vive constantemente isolada: não existe mais um Tu com o qual se encontrar.Durante a adolescência. mas conhecer para controlar. à medida que os vínculos sociais vão se estabelecendo. para que o adolescente consiga “bancar” as escolhas que julgar serem as melhores para si. um conjunto de características vai sendo valorizado – muito especialmente. torna-se algo não-saudável e disfuncional. Como o processo do self é obstruído. Paralelamente. o egotismo pode ser uma etapa necessária e até desejável ao longo do desenvolvimento humano. A satisfação parcial possível do estilo egotista. portanto.ASPECTOS NÃO-SAUDÁVEIS Mas se o ajustamento egotista se cristaliza e vira um padrão de funcionamento rígido. sendo. Portanto. É nesses casos que o ajustamento criativo. ocorre um gradual afastamento do núcleo familiar e a inserção no mundo adulto. ainda que sejam diferentes das do grupo. A pessoa se coloca numa posição do tipo: “nada que venha do ambiente me serve”. em uma palavra: dos riscos. o desempenho de papéis sociais começa a ganhar muita importância e. O ambiente deixa de ser uma fonte de nutrição e trocas possíveis e passa a ser algo a ser dominado: o foco do egotista não é mais contatar para crescer. inicialmente proveitoso para o organismo. não é possível que seja a mais adequada a todas as situações. A pessoa se isola do ambiente para tentar se proteger das surpresas. mais uma vez o egotismo se configura como um mecanismo muito importante para o fortalecimento do auto-suporte.

num controle “perfeito” de tudo (Granzotto e Granzotto. O CLIENTE PREDOMINANTEMENTE EGOTISTA É saudável também. E esse apelo pode ser identificado a partir daquilo que é suscitado em nós como reação ao ajustamento evitativo presente na situação (ver: Granzotto e Granzotto.como têm preferido os autores . construindo um mundo inteiro fictício (racionalizado) que substitui o contato verdadeiro (vivo). que o cliente desacostumado a discriminar suas próprias necessidades e deliberar em favor de satisfazê-las. quando um cliente que se ajusta de forma predominantemente egotista chega à clínica. O que nos permite escapar dessa implicação é a nossa forma gestáltica de olhar o campo. 2007. Uma vez que não vemos o indivíduo como um problema a ser resolvido. encontramos alguém que se perde em abstrações infindáveis. terapeutas. O cliente está fixado no “falar sobre”. o egotismo pode ser uma etapa necessária e até desejável no processo terapêutico. Portanto. os nossos clientes neuróticos (ou . de modo a continuarem adiando a realização do contato final. p 317). na autonomia e na auto-suficiência. O cliente que se ajusta de forma predominantemente egotista nos tenta transformar em “fãs” ou “ admiradores” em quem encontrem confirmação das múltiplas formas de controle das suas vidas.aqueles que fazem ajustamentos evitativos) dirigem ao terapeuta uma espécie de apelo (de forma mais ou menos explícita). Esta postura poderia nos levar a questionar para que. quando chegam à clínica. Assim. explicações e argumentos muito bem construídos que abarcam todos os assuntos. possa estar mais centrado em si mesmo e escolher de forma mais consciente o que quer e o que não quer absorver em suas trocas com o meio.está na vaidade. ele precisa de nós. uma etapa de fortalecimento do auto-suporte. 2004). não assumimos uma postura assimétrica de quem detém o conhecimento 119 . inclusive em sua relação com o terapeuta. traz “problemas” – já equacionados – uma vez que não “vive” sua vida: “pensa” sobre ela. em determinada fase do processo terapêutico. E para que ele busca a psicoterapia? Granzotto e Granzotto (2007) nos ensinam que. afinal. o cliente de estilo egotista não traz para o consultório experiências. Entretanto. em direção a um hetero-suporte saudável.

O olhar do outro. costuma trazer suas questões para terapia da seguinte maneira: “O meu problema com relação ao fulano não tem jeito. blá... Se eu fizer aquilo (. blá. nossa função terapêutica é frustrar essa tentativa de interrupção. ele vai se sentir assim (. “O que estou tentando evitar”. e sei que não daria certo porque (. nos faria assumir.. a voz do 120 . que faz com que o contato se processe.. mas sim buscar a possibilidade de ajudá-lo a experienciar “como” ele vive a sua vida – e não “por que” o faz desta ou daquela maneira – e quais são as conseqüências disso para ele. E sabemos também que. A onipotência do terapeuta na relação com esse cliente poderia estabelecer um modelo de competição que acabaria por reforçar o isolamento dele. O papel da psicoterapia é ajudar o cliente a reestabelecer o fluxo do processo de contato. Para isso...de métodos ou técnicas que solucionariam suas questões. Olha só: eu tenho duas opções: se eu fizer isso (. Conclusão: não tem jeito!”..) ele vai dizer isso (.. Qualquer “sugestão” que as pessoas ao seu redor costumam lhe oferecer é sempre recebida com argumentos do tipo: “não. uma adolescente de 15 anos.. o fundamental é ajudar o cliente a endereçar a si próprio questões como: “Onde eu começo a me impedir?”.) e não vai mais querer falar comigo.. É fácil perceber o que acontece nas suas relações. Algo característico da fronteira de contato desaparece: justamente o intercâmbio organismo/meio. blá. você está dizendo isso porque não conhece ele como eu conheço” e outras tantas formas possíveis de mostrar que nada que venha do outro pode ser de qualquer utilidade para ela... eu já pensei nisso. o papel que ele reserva para todas as pessoas em sua vida: o de mero coadjuvante (ou “fã”). no final do “embate”. por outro lado. a elasticidade da formação figura/fundo.) e aí eu vou ficar chateada. que na verdade não tem nada de “útil” para lhe oferecer.)”.). ou. ou: “não. Mas o nosso olhar gestáltico sobre o cliente nos permite estabelecer a relação sobre outros pilares: sabemos que o nosso objetivo não é resolver problemas. ainda que o cliente nos requisite a assumir determinados papéis no desempenho de seus ajustamentos evitativos. “Como tento evitar?”. CASO CLÍNICO Letícia.

Ainda criança. ela freqüentemente “descartava” a pessoa: “Quem não me aceita como eu sou não serve para ser meu amigo”. incapaz de dar “bom dia”.outro. Ao longo de quase dois anos de terapia. A família. Letícia abandonou a terapia. era discriminada por isso. enfatizava as qualidades dela. deixa pra lá. sua grande satisfação vinha através da sua competência intelectual. com uma 121 . meio “emburrada”. ela sempre respondia que não tinha que sorrir para agradar ninguém e que os outros que a aceitassem como ela era. Aos 14 anos ela retorna. ela chega ao consultório com a queixa (dos pais) de que ela não consegue se relacionar com as outras crianças na escola porque tem muito ciúme das suas coisas.. conforme eu verifiquei com os pais. conseguimos construir uma relação de muitas trocas significativas. não aceita as opiniões dos outros e é muito “fechada”. a opinião do outro são bloqueados. ou mesmo um leve sorriso ao cruzar com alguém (conhecido ou desconhecido) pela rua. e a uma timidez excessiva. embora dissesse que não se importava muito com o isolamento. finge que não ouve. em vez de ajudá-la a desenvolver recursos para enfrentar a situação. Embora os pais tenham alegado dificuldades financeiras. ao fato de ela não ter amigos (o que pode ser entendido como isolamento). Aos 11 anos. como é comum acontecer nessa idade. coisas desse tipo). Esse termo se referia. Ela era uma menina bem gordinha e. Nessa época. pensamentos e sentimentos. de forma que ela se fixa na posição de sustentar suas “razões” acima que qualquer coisa. Ela era uma menina bem gordinha.. Quando havia alguma discordância com algum amigo. o foco permanece apenas sobre as suas próprias ações. que fazia com que muitas pessoas jamais a tivessem visto sorrindo. você tem outras qualidades”. e ela chegou a flexibilizar alguns de seus padrões de relacionamento com os colegas. Ela foi abrindo mão de encontrar a satisfação e realizar o contato final com o ambiente e se voltando cada vez mais para si mesma. sempre destacada na turma. minimizando a importância da aceitação do grupo (“não liga. estava claro que ela tinha atingido um grau de equilíbrio que lhe era satisfatório naquele momento. Quando a mãe dizia que ela podia parecer mal-educada. não empresta nada para minguém. Essa cliente tem uma história de isolamento e desconfiança em relação aos outros desde a infância.

na realidade. estabelecendo uma espécie de comportamento recursivo: se interessa por um menino. né? 122 . se divide entre conquistar esse novo alvo e manter a legião de fãs que. sem se permitir. e enquanto ela tentava imaginar o que ela deveria fazer e/ou dizer para garantir que tal garoto iria propor namoro. Foi nesse momento que travamos este diálogo: L: . que de fato não lhe importa muito quem é esse outro no encontro. agora ela se importava – e muito – com a rejeição dos meninos. então. O contato final não se realiza. em grande parte. continuam suplicando sua atenção. amar e ser amada de fato por outra pessoa. apenas com ela mesma e sua infindável necessidade de ser admirada.configuração diferente: a chegada da adolescência havia trazido novas necessidades e a competência intelectual já não lhe dava mais satisfação suficiente. O tom utilizado aqui nessa descrição pode parecer um tanto jocoso. ela “fica” com ele.. no entanto. em pouco tempo o menino já faz declarações de amor. Sua energia. a menina mais bonita da turma. ela já começa a articular seus contatos para atrair o próximo “alvo”. Se antes ela não se importava com a precariedade das suas relações de amizade. Ela começou exercitar seu poder de sedução. Ainda não era suficiente. e poucos dias depois. se encontrar com ninguém. fiéis. ela perdeu mais de 10 quilos e passou a ser também. mas ela mesma usa expressões do tipo: “colocar o fulano na prateleira”. “mantê-lo por perto” etc. Falávamos sobre as suas possibilidades de iniciar um namoro com determinado colega de escola. eu buscava intervir questionando a capacidade que ela julgava ter de prever e controlar os desejos e movimentos das outras pessoas. além de ter toda uma explicação já preparada sobre o quanto isso tudo é. Ela não se compromete. Letícia tem uma auto-imagem tão grandiosa (reforçada por essas experiências de conquista sempre bem-sucedidas).Seria tão bom se a vida fosse assim como um jogo de xadrez. Determinada. Letícia me brindou com uma metáfora bastante elucidativa do funcionamento egotista. Ela não se permite. se aproxima dele sempre através de uma conversa interessante e envolvente. além de a mais inteligente. uma “compensação” pelo fato de ela ter sido gorda e por esse motivo ter ficado “encalhada por tanto tempo”. Em um de nossos encontros. já totalmente desinteressada (e o menino totalmente apaixonado).

mas aí o jogo acaba. as peças só podem fazer determinados movimentos. “considerar nossa maravilhosa fragilidade – portal para nossa humanidade – como uma deficiência ou uma falta.. Segundo Spangenberg (2006). ansiosos diante da perda do controle. Ansiosos diante do soltar-se. Mas perde toda a riqueza e a vivacidade da experiência do contato final. ansiosos diante de uma possível aniquilação no Nós do encontro. mas a rainha pode andar quantas quiser. retrofletem suas mais íntimas necessidades para não se sentirem expostos em sua 123 . A respeito do egotismo. Ele seria o rei e eu a rainha. T: . seria eu contra mim mesma. ela ganha. ou ansiosos diante de um possível abandono posterior. Robine (2006) acrescenta que : “Ele será manifesto e de grande amplitude nos indivíduos que apresentam perturbações narcisistas de sua experiência. Não. Eu ganhei. L: .. (pausa).. E se a rainha cerca o rei. pois sempre culminam suas ações dirigindo sua energia para o meio – ou para dizer de forma mais apropriada – ao objetivo que traçaram. Obtém uma satisfação apenas parcial na vaidade e no poder.Hummm.Você quer se relacionar ou competir com ele? L: .Não faz mal.No xadrez. E ele segue fazendo uma descrição da atuação dos outros mecanismos de evitação de contato no estilo egotista: “Apesar de parecerem não utilizar a retroflexão.132). está perdendo. Ao tentar evitar o contato. Você lembra o que eu disse? Não seria eu contra ele no xadrez. não é? Então. se eu perder. impede o desenvolvimento espontâneo das suas relações..Não sei. é um dos introjetos fundamentais nesses pacientes”. Mas assim não: na pior das hipóteses. quem ganhou fui eu! É possível que o caminho seja ajudá-la a se dar conta do que está tentando evitar e do que. de fato. O rei só pode andar uma casinha de cada vez... T: . Se fosse uma competição. Na verdade..Sim. eu correria o risco de perder. Como seria? L: .T: . tais indivíduos se isolam do ambiente e o reduzem a conhecimentos que possam ampliar seu controle e seu poder” (p. ansiosos ao se abrirem para o outro.. a entrega do encontro e o risco de um possível abandono. Ele seria só uma das peças. se ele fosse o outro jogador. não seria uma competição entre mim e ele..

(. o terapeuta pode se sentir intimidado e acabar projetando sobre o cliente suas próprias necessidades de aprovação. pode ser mais ou menos saudável. 80). produzem tanto rechaço social que fica difícil perceber a fragilidade e o medo da exposição que escondem. Robine considera que o egotismo seja um tipo específico de retroflexão. centrando seu mundo de relações na competência e na luta pelo poder. teremos chance de ajudá-lo. e nas conseqüências que isso traz para ele. Se ele permitir. 2006. 80). Se estivermos atentos a isso. Hefferline e Goodman para a mesma: “Qualquer ato de autocontrole deliberado durante um envolvimento difícil é uma retroflexão” (1951. No caso de Letícia. apud Robine. conforme já vimos. 19 124 . se despedem da vida sem jamais terem-se deixado tocar pela ternura e pelo amor” (p. Projetam suas fragilidades nos outros com a mesma atitude impiedosa com a qual se relacionam – nessa área – consigo mesmos. p. caindo na armadilha dos círculos de racionalização do cliente. 20 Cabe aqui uma breve distinção entre “egoísmo” e “egotismo”. experimentamos uma dificuldade de perceber claramente qual o nosso lugar e corremos o risco de julgálos egoístas20 e “‘atuar’ na sessão o que certamente fora dela as pessoas que convivem com ele devem fazer: expulsá-lo de suas vidas” (Spangenberg. 2006.132). Egotismo é uma forma de ajustamento criativo que. Não são confluentes mais do que como uma concessão momentânea na busca de suas metas. p. Compartilho da opinião desse autor de que as barreiras construídas pela pessoa predominantemente egotista.. p. 2006. que terminam sempre no mesmo lugar: ele tem razão.vulnerabilidade.) Alguns (. Conforme Spangenberg. a soberba e arrogância com que lidam com os outros.. Egoísmo é um atributo. um juízo (negativo) a respeito da conduta de alguém. e se mantivermos o foco no “como” o cliente constrói seus vínculos.. a retroflexão básica parece ser a da necessidade de receber amor: é mais seguro voltar essa necessidade para si mesma. Ou. do que arriscar dirigi-la ao outro19. De fato. aferrados até o final às suas ‘razões’. Na relação terapêutica com o cliente de estilo egotista. desenvolvendo uma postura narcisista. “em ambos os casos a terapia fica inutilizada” (Spangenberg..65). pelo contrário.). O egotista sente como uma ameaça terrível mostrar seu ‘lado incompetente’ e cada vez se apóia mais em suas habilidades. pois corresponde a uma das definições oferecidas por Perls.

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operação e recuperação. Rosa Mitre. no ambulatório de cirurgia pediátrica do Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ). Assim. as estratégias de intervenções utilizadas na estruturação do trabalho objetivavam. sua família e a equipe de saúde ao longo deste processo. que o projeto precisava ser escrito pensando como o brincar poderia auxiliar estas famílias a vivenciar a situação de hospitalização. através da promoção de atividades lúdicas nas enfermarias e ambulatórios do IFF. Sendo assim. além do acolhimento. A partir de minha vivência na Gestalt-terapia. este artigo objetiva compartilhar esta experiência com outros profissionais da área de saúde. no sentido de possibilitar a ampliação da awareness e o fortalecimento do self destas ao longo do processo operatório. e o despreparo da equipe da enfermaria para lidar com o estresse e a angústia da família. Percebendo o elevado grau de ansiedade das crianças e seus responsáveis no dia da operação. criado em 1994. tem a preocupação em auxiliar a criança e seus acompanhantes a elaborar e vivenciar o processo de adoecimento e hospitalização. desenvolvido desde fevereiro de 2007. O Programa Saúde e Brincar. Este projeto foi pensado a partir da demanda da chefia médica da enfermaria de cirurgia pediátrica deste instituto ao Programa Saúde e Brincar.BRINCANDO DE OPERAR: GRUPO DE ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS EM PROCESSO CIRÚRGICO INTRODUÇÃO O presente trabalho refere-se à implantação de um projeto de acolhimento de crianças em processo cirúrgico e suas famílias. a chefia da cirurgia reconheceu a necessidade de um trabalho que pudesse auxiliar a criança. A partir desta demanda. fui convidada pelo Programa Saúde e Brincar a escrever um projeto de acolhimento e preparação para estas crianças com orientação da Prof. favorecer o contato da criança com seu processo cirúrgico. especialmente gestalt-terapeutas. a solução encontrada foi estruturar uma proposta de atendimento que tivesse como base o experimento gestáltico. Isso significa dizer. No sentido de 126 . com financiamento da FAPERJ. Dra.

redução das defesas contra infecção e aumento no consumo de anestésicos no período intra-operatório. A EXPERIÊNCIA CIRÚRGICA INFANTIL: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Sabe-se que a experiência cirúrgica é potencialmente traumática. No entanto. sentimentos de impotência. o desconforto emocional. Segundo Felder-Puig e col. apresentamos nossa atual metodologia de trabalho. Guaratini (2006) afirma que as principais conseqüências médicas para a criança com elevado grau de estresse durante o processo operatório são: indução anestésica tempestuosa. O presente artigo foi desenhado da seguinte forma: primeiro apresentamos uma breve revisão sobre a temática da preparação de crianças para cirurgia. Em seguida. (2003) a criança pode perceber a necessidade da cirurgia como uma punição. na medida em que essas condições se elevam e se somam à tensão. Felder-Puig e col (2003) complementam afirmando que 127 . o paciente apresenta respostas organísmicas que podem prejudicar o seu processo cirúrgico. os resultados que temos conseguido e por fim algumas últimas considerações. pode sentir-se intimidada pela separação da casa e pelo estranhamento do espaço hospitalar. Sentimentos de medo e ansiedade são reações consideradas normais no período pré-operatório. estresse ou outras condições adversas do estado emocional. apresentamos o nosso caminho e os conceitos que nos guiaram na estruturação desta proposta. etc. Este trabalho se justifica pela escassez de produção cientifica nacional sobre o tema. Aos sentimentos de perda. da dor. Posteriormente. somam-se a insegurança. esta vivência pode ser emocionalmente ainda mais devastadora. além de poder apresentar desconfortos e dúvidas a cerca dos procedimentos a que será submetida. Quando os pacientes cirúrgicos são crianças. medo da morte. de ficar incapacitado. da mutilação. de mudanças na imagem corporal. isolamento. Crianças mais ansiosas durante o período pré-operatório exibem também comportamentos mais agitados durante o pós-operatório. especialmente no âmbito da gestalt-terapia.possibilitar o enriquecimento de nossa atuação no ambiente hospitalar.

visitas conturbadas aos consultórios pediátricos e níveis elevados de ansiedade dos familiares. são mais capazes de compreender explicações. podem persistir por até um ano após a operação. a maioria dos pais relata apresentar dificuldades em ajudar seus filhos a passarem pela situação estressora que é a operação. Moro e Módolo (2004) afirmam que as diferenças etárias influenciam na forma como cada criança experimenta o processo cirúrgico. a criança tem mais facilidade para ser aberta com seus próprios sentimentos e confusões”. É importante ressaltar que o grau de ansiedade dos pais influencia a ansiedade dos filhos. Neste sentido. desobediência. já que este registro é prioritariamente corporal. Segundo Li. Aja visto que a resposta emocional das crianças é afetada pela percepção da família. Dentre estes comportamentos. comportamento adaptativo. Rice e col. p. já que o bebê ainda não possui recursos para entender.algumas alterações de comportamento devido a perturbações ao longo do processo cirúrgico podem surgir em até duas semanas após a cirurgia. impulsividade. Hug e col. Segundo Moro e Módolo (2004). Segundo eles. distúrbios alimentares e enureses noturna. Entre os 6 meses a 4 anos a maior ansiedade concentra-se na própria ansiedade de separação. emocionalidade. níveis baixos de sociabilidade. choros noturnos. Para Guaratini(2006) alguns fatores podem prever graus elevados de ansiedade no período pré-operatório: temperamento prévio da criança. (2005) apontam a relevância de se estudar a percepção da família sobre a cirurgia. “se os pais são capazes de confrontar abertamente os seus próprios sentimentos. Pois. ansiedade de separação. no período de 0 a 6 meses a maior ansiedade é dos pais. A partir dos 6 anos. como nos afirma Oaklander (1980. Estes autores afirmam ainda que o envolvimento dos pais é fundamental para a redução da ansiedade das crianças na preparação no préoperatório. experiência cirúrgica prévia. podem comunicar com mais facilidade seu medo de acordar durante a 128 . hospitalização. (2008) citam como principais a presença de irritabilidade. 275). nem mesmo lembrar cognitivamente de eventos desagradáveis. Lopez e Lee (2007). pesadelos. Entre 4 a 6 anos a criança já consegue compreender algumas explicações e a maior ansiedade concentra-se na preocupação com a integridade do corpo e mutilação cirúrgica. toleram bem a separação.

cirurgia ou não acordar. em linguagem acessível e lúdica. ou inventários de estresse e ansiedade. descrevem um programa de preparação que utiliza um livro infantil na preparação das crianças e das famílias. o impacto na qualidade de vida da criança. Neste sentido. A compreensão da resposta emocional da criança a cirurgia é essencial no planejamento e implementação das intervenções apropriadas a cada clientela. (2003). Dessa forma. promoção de programas de preparação antes da cirurgia. Segundo Kain e col. Felder-Puig e col. autorização dos pais para estarem presentes na indução da anestesia. Da mesma forma. Já 129 . Na adolescência a ansiedade maior está no medo de perder o controle. o significado simbólico da operação para criança e sua família. Kain e col. inclusive seus medos e fantasias. etc. Estes autores defendem que os efeitos destes programas são similares aos dos sedativos. de confiança. Isto é. atualmente vem sendo desenvolvido em diversos países diferentes estratégias de preparação de crianças para cirurgias. é preciso criar um clima acolhedor. um instrumento capaz de abarcar a complexidade presente nesta vivência: intensidade da ansiedade presente. por exemplo. a diferença etária das crianças também é determinante no planejamento do período em que a preparação para cirurgia deve acontecer. segundo Li e Lopez (2006) a resposta emocional das crianças a cirurgia precisa ser acessada por um instrumento multidimensional. Mais do que informativos teóricos sobre a operação. expectativas em torno dos procedimentos. Estes autores defendem o uso do livro ilustrado como meio de antecipar para a família as possíveis situações a que serão submetidas. Com o benefício dos programas terem custo reduzido para a instituição e nenhum risco para a saúde da criança. (1998) recomendam que para crianças com 2 a 4 anos a preparação deve acontecer 1 a 2 dias antes da cirurgia e crianças com idades entre 5 e 12 anos. onde a criança possa se sentir segura para dividir sua experiência. fantasias acerca do processo. Tornando possível auxiliá-la na compreensão da situação vivenciada. (2007) dentre as três estratégias de intervenção mais comuns são: administração de sedativos antes da cirurgia. 5 a 10 dias antes da cirurgia. Estes programas contam com os mais diversos instrumentos de intervenção.

articulado com visitas as instalações hospitalares por onde a criança circulará e ainda o contato com alguns instrumentos médicos. diminuir a potencial carga estressora da experiência. Kain e col. (2004) citam a musicoterapia. Lopez e Lee (2007) apresentam como instrumento o brinquedo terapêutico. como distrair seu filho e treinamento em casa de certos procedimentos do centro cirúrgico. Por exemplo. (2007) descrevem uma proposta que entrega um kit de preparação para a família com: vídeo de 23 minutos com entrevistas com pais e crianças sobre o momento da anestesia. Segundo Li. Alguns autores descrevem mais de um instrumento no preparo das crianças e suas famílias. de um longo período de observação da 130 . aliviar a tensão reproduzindo o que acontecerá no procedimento e sentir-se mais no controle da situação. CONCEITOS QUE NOS GUIARAM NA ESTRUTURAÇÃO DESTA PROPOSTA A partir do que dizia a literatura. Li. Kain e col. Patel e col. Rice e col. três folhetos sobre o que esperar no dia da cirurgia.Hug. máscara de anestesia. Isto porque. (2006) apontam o uso do vídeo-game. O uso das bonecas para explicar os procedimentos pode fazer com que complicados conceitos sejam facilmente entendidos. (2007) afirmam que os programas de preparação que apresentam resultado mais satisfatório são aqueles que articulam diferentes instrumentos e estratégias de intervenção e priorizam o brincar como mediador do atendimento. fica evidente a grande variedade de alternativas encontradas nos mais diferentes locais para oferecer a criança e sua família algum preparo para a operação. Lopez e Lii (2007). visita ao hospital e o brincar com os instrumentos médicos. Já Kain e col. Já Ellerton e Merriam (1994) apresentam a articulação entre a apresentação de um vídeo sobre o dia da operação. as estratégias que utilizam o brinquedo terapêutico são importantes na medida em que possibilitam a criança se divertir. Tonz e Kaiser (2005) apresentam a utilização de um CD-ROM com informações sobre a cirurgia. máscara comum e touca. (2008) descrevem o uso da apresentação de slides sobre o dia da operação. Dito isto. No entanto. traz a possibilidade da criança interagir com o material e o ambiente hospitalar de uma maneira não ameaçadora.

Percebíamos desconfiança. Sem conhecer a equipe de referência. pela passagem de macas. consequentemente.41).41).enfermaria de cirurgia pediátrica e de entrevistas com enfermeiras. nem mesmo o espaço onde ficariam durante a internação da criança. na sala de espera. Pudemos confirmar a existência de uma enorme demanda da equipe e das famílias por um trabalho que pudesse aliviar a angústia das crianças especialmente no pré-operatório. e criar um espaço de troca de experiência e suporte emocional ao longo do processo cirúrgico das crianças. Esse tempo – cronológico e afetivo – 131 . Nossa motivação foi o desejo em conhecer melhor nossa clientela. expectativas e angústias. médicos. entendemos a necessidade de que o trabalho acontecesse exatamente onde estas pessoas estavam. em que o ato de esperar produz um hiato que se situa entre o que está por vir e o que já foi vivido. ou seja. a entrega. É a partir do acolhimento que nasce a confiança e. portanto fundamental para que a criança e sua família pudessem vivenciar a experiência cirúrgica com mais confiança. quanto nas crianças. “A sala de espera é um local de informalidade e. também. angustiava a equipe de saúde e mais ainda a família. De maneira geral. os responsáveis chegavam para a cirurgia com muitas dúvidas sobre os procedimentos e as rotinas do hospital. nosso trabalho teve início com a preocupação de acolher essas famílias na sua chegada ao serviço de cirurgia. é respeitar. Descobrimos que a angústia da criança. Embora a enfermaria fosse um lugar muito barulhento pelo intenso fluxo de pessoas. p. tornandose palco das projeções de quem espera e é esperado. É. ao mesmo tempo. a comunicação entre a equipe. pelos choros das crianças e apitos dos aparelhos médicos. crianças e responsáveis. que fosse capaz de acompanhá-las ao longo do processo operatório das crianças.”(Carné. Reforçamos a necessidade da estruturação de uma proposta de intervenção junto a estas famílias. desconforto e muita insegurança tanto na família. Sendo assim. Nesse sentido. é amparar. p. Como nos propõe Carnè (2002. é acompanhar. Entendemos que “acolher é cuidar. um terreno de incertezas. lugar de acontecimentos relevantes. as crianças e as famílias era muito silenciosa. Isto é. Para que elas se sentissem mais seguras naquele território. acreditamos que o acolhimento era parte do processo terapêutico e. 2002. Pouco se falava sobre a experiência cirúrgica naquele espaço e a sensação de acolhimento era praticamente inexistente.

isto é. recebe crianças oriundas de diferentes localidades. algumas esperavam saber como estava sua recuperação e outras esperavam a alta do serviço.que antecede a sessão representa momentos significativos. o tema central seria a experiência cirúrgica. “O grupo é um lugar para a criança tomar consciência de como interage com outras crianças. na medida em que viabiliza a troca de conhecimento sobre esta vivência entre as crianças.. Neste caso. outras o tipo e o dia da operação. Neste sentido. A sala de espera era o lugar onde esta diversidade de casos. muitas delas com indicações cirúrgicas de pequena. mas sempre em referência ao tema central. pois podem desencadear estados emocionais. 171). Sua clientela caracteriza-se em geral pela alta complexidade das doenças. Além disso. A periferia poderá ser igualmente estudada. do adolescente e da mulher.)Todas as colocações devem girar sempre em torno do mesmo e único tema.315) “O trabalho de grupo é a situação ideal para crianças que precisem praticar suas habilidades contactuais”. que permanece sempre figura”(Ribeiro. optamos por estruturá-lo também como um grupo aberto. “ um tipo de grupo destinado a pessoas que desejam aprofundar-se em determinado tema (. Sendo um local muito fértil para a troca de experiências e para construção de redes de apoio. Por essas características. optamos por estruturar nossa proposta a partir do conceito de grupo temático. pessoas e histórias se tornava mais evidente e localizável. carregados de subjetividade. O Instituto Fernandes Figueira/FIOCRUZ é referência na atenção à saúde da criança. média e/ou alta complexidade. p. e consequentemente a descoberta de instrumentos de enfrentamento da angústia e ansiedade presentes. “aquele em que os membros do grupo entram e saem com facilidade. Para ela. Muitas esperavam confirmar a necessidade da operação. Por se tratar de um grupo de sala de espera. e para experimentar comportamentos novos. toda criança precisa de contato com outras crianças.. para saber que as outras têm sentimentos e problemas semelhantes”.” A sala de espera do ambulatório de cirurgia foi o lugar onde encontramos o maior o número de crianças esperando. Segundo Oaklander (1980. 1999 p. Isto é. No caso de crianças em processo operatório este contato é ainda mais importante. Assim. decidimos estruturar nossa proposta num trabalho de grupo de sala de espera. Não existe um 132 . para aprender a assumir responsabilidade pelo que faz.

compromisso rígido de freqüência e de permanência. As pessoas desses grupos já sabem e aceitam o seu funcionamento dessa maneira. (...)Funcionam frequentemente como grupos de espera, de reflexão, onde um efeito terapêutico secundário pode acontecer e a prática mostra que acontece, pois basta que as pessoas se reúnam com sinceridade para que o encontro se torne viável”. ( Ribeiro, 1994, p.94)

Por tratar-se de um grupo de crianças, encontramos a necessidade de estruturar uma proposta que pudesse ser vivenciada ao longo do encontro. Algo que fosse mais do que a simples explicação dos procedimentos e das rotinas. Neste sentido nos fundamentamos no conceito de experimento. Na Gestalt terapia, segundo Polster e Polster (2001), o experimento é um meio de aprofundar o contato e uma tentativa de recuperação da conexão entre o falar sobre e a ação. Isto porque, o experimento é atuação. É mais que o discurso, é atenção focada naquilo que se faz quando se faz. É a integração entre o falar, o agir e o pensar. Para Zinker (2007, p. 145), “o experimento gestáltico é uma forma de pensar em voz alta, uma concretização da imaginação da pessoa, uma aventura criativa”. Segundo ele, os propósitos do experimento são: aumentar o alcance da awareness, ampliar o entendimento de si mesmo, expandir a liberdade de agir no ambiente com eficiência e aumentar o repertório de comportamentos numa variedade de situações. Zinker afirma que em grupo o experimento é poderosamente eficaz porque conta com o apoio da ampla criatividade de todos, e ainda, é apenas um caminho para iniciar e ampliar o processo de contato. Segundo ele, “O experimento se dirige ao cerne da resistência, transformando a rigidez em um suporte elástico para a pessoa. Não precisa ser pesado, sério, nem ter uma comprovação rigorosa; (...) não precisam brotar de conceitos; podem começar simplesmente como brincadeiras e

desencadear profundas revelações cognitivas”.

Neste sentido, o experimento

gestáltico se mostrou integralmente coerente com a nossa proposta de intervenção. Revelou-se um meio interessante de possibilitar o contato de cada criança com suas vivências anteriores, expectativas, ansiedades e angustias presentes no aqui-eagora, e ainda possibilitar a troca de experiências entre elas, no sentido de ampliar os instrumentos de apoio de cada uma e do grupo ao mesmo tempo. Mais do que isso, revelou o brincar como um meio de experimentação gestáltica. Sendo assim, optamos por introduzir o brincar como base para toda a estruturação de nossa proposta de intervenção. Entendemos o brincar como:
“uma relação de total aceitação e confiança no encontro corporal de uma pessoa com outra;

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com a atenção posta no encontro e não no futuro; não no que virá, mas sim no simples fluxo da relação - fundamental para o desenvolvimento da consciência corporal e o lidar com o espaço. (...) É portanto inocente e transcorre sem tensão e angustia, como um ato que se vive no prazer e é o fundamento da saúde psíquica, porque se vive sem esforço mesmo quando no fim há cansaço corporal.” (Maturana e Verden-Zoller, 2004, pag. 230)

As crianças são capazes de lidar com complexas dificuldades psicológicas através do brincar. Elas procuram integrar experiências de dor, medo e perda. Brincando a criança coloca-se num papel de poder, em que ela pode dominar os vilões ou as situações que provocariam medo ou que a fariam sentir-se vulnerável e insegura, como é, por exemplo, a situação cirúrgica. Para Kishimoto (2000), a brincadeira de faz-de-conta, também conhecida como simbólica, de representação de papéis ou sóciodramática, é a que deixa mais evidente a presença da situação imaginária. O faz-de-conta permite não só a entrada no imaginário, mas a expressão de regras implícitas que se materializam nos temas das brincadeiras. Para Oaklander (1980, p.161),
“Nos jogos dramáticos criativos as crianças podem aumentar a autoconsciência que possuem. Podem desenvolver uma consciência total de si próprias – do corpo, da imaginação, dos sentidos. O drama torna-se um instrumento natural para ajudá-las a encontrar e dar expressão a partes ocultas e perdidas de si mesmas, e com isso desenvolver força e identidade. Nos jogos dramáticos criativos, as crianças são chamadas a experienciar o mundo a sua volta, bem como suas próprias formas de ser. No sentido de interpretar o mundo a sua volta e transmitir idéias, ações, sentimentos e expressões, elas mobilizam todos os recursos que podem reunir dentro de si: visão, audição, paladar, tato, olfato, expressão facial, movimento corporal, fantasia, imaginação, intelecto.”

Sendo assim, o brincar é uma linguagem de possibilidades, na qual a criança se sente autorizada e segura para vivenciar suas mais íntimas fantasias. É, portanto um potencializador do contato. Entendendo contato como “a consciência “de” e o comportamento “para” com as novidades assimiláveis, e a rejeição das novidades não assimiláveis” como definem Perls, Hefferline e Goodman (1997). Ou ainda, “o sangue vital do crescimento, o meio para mudar a si mesmo e a experiência que se tem do mundo” (Polster e Polster, 2001). Por tudo isto, o brincar se revelou um rico instrumento de intervenção com crianças que experimentam situações de angústia e estresse. Nesse sentido, optamos por introduzi-lo em nossa proposta de intervenção. No nosso trabalho, desde o momento em que nos apresentamos até o momento em que nos

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despedimos utilizamos a linguagem lúdica como mediadora da nossa relação com as crianças, com as famílias e com a equipe de maneira geral. Nossos instrumentos, também são carregados desta forma de comunicação: utilizamos brincadeiras de apresentação, desenhos sobre o espaço hospitalar, contação de histórias infantis sobre a operação, brincamos de operar bonecos, nos fantasiamos de médicos, visitamos as enfermarias onde as crianças operam, cantamos músicas que nos ensinam a respirar quando estamos ansiosos, enfim, lançamos mão de uma rica gama de instrumentos lúdicos que potencializam o encontro durante os atendimentos.

O GRUPO DE ACOLHIMENTO E ACOMPANHAMENTO DE CRIANÇAS PARA CIRURGIA DO PROGRAMA SAÚDE E BRINCAR

O projeto conta com uma equipe interdisciplinar formada por uma psicóloga, duas terapeutas ocupacionais, dois estagiários de psicologia e outro de pedagogia. Nossa metodologia de trabalho consiste na realização de grupos de acolhimento para crianças em processo cirúrgico e seus familiares. A base do trabalho é o brincar. Estes grupos acontecem uma vez por semana por um período médio de três horas. O ingresso no grupo pode se dar por encaminhamento médico ou por demanda espontânea da família do paciente. Trata-se de um grupo temático aberto, isto é, o foco da discussão é a operação. E as crianças podem entrar e sair do grupo quando desejarem. Não existe cobrança de freqüência, nem de permanência no grupo. O que mantém as crianças conosco é o desejo delas de permanecerem neste encontro. A dinâmica do grupo segue um roteiro de proposta de atendimento que abarca dinâmicas de apresentação, desenho, contação de histórias sobre operação, brincar temático, visitas a enfermaria de cirurgia pediátrica e oferta de uma cartilha interativa com informações sobre a operação em liguagem acessível e lúdica. Para isto, utilizamos como instrumentos de trabalho: mobiliário infantil, material de reprodução gráfica (lápis de cor, giz de cera e papel ofício), avental contador de história, bonecas temáticas, instrumentos médicos de brinquedo, vestuário médico, e

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cartilha temática, criado pelas pesquisadoras. Concomitante ao atendimento às crianças, acontece o atendimento aos responsáveis, através de breves entrevistas individuais sobre a experiência cirúrgica daquela família. A criança é acompanhada no grupo antes e depois da operação. E sempre que desejar. Os encontros acontecem na sala de espera do ambulatório de cirurgia pediátrica do Instituto Fernandes Figueira/ Fiocruz. Enquanto as crianças aguardam atendimento médico, podem participar das atividades conosco. Participam do trabalho crianças entre 3 e 11 anos em: investigação cirúrgica, pré-operatório, internação cirúrgica e pós-operatório e suas famílias, irmãos inclusive. O trabalho aborda crianças com mal-formações congênitas que necessitam passar por várias operações; bem como crianças com indicações cirúrgicas pontuais. Crianças internadas na enfermaria de cirurgia pediátrica em préoperatório também são convidadas, quando liberadas pela equipe médica. Semanalmente são atendidas em média 20 crianças e suas respectivas famílias. Representando um total de cerca de 960 atendimentos anuais. Após cada encontro é feito registro em um diário de campo dos atendimentos. Neste diário são registradas o número de crianças atendidas, as patologias e cirurgias de cada uma, a forma como cada uma esteve presente e contribuiu para o grupo, além de falas e observações trazidas por responsáveis ou membros da equipe médica do ambulatório. Para avaliação dos resultados, é feita uma leitura transversal do material registrado, seguindo a metodologia de análise de conteúdo proposto por Bardim (1979).

RESULTADOS

Os resultados aqui apresentados são produto de nossas observações no campo e de nossos registros dos atendimentos. Temos observado que, de maneira geral, as crianças que participam do grupo apresentam enorme prazer em brincar de operar e conversar sobre a operação conosco. Mostram-se receptivas ao encontro e abertas a dividir suas experiências. Quando internadas para a operação se remetem as histórias que são contadas no grupo e as brincadeiras que lá são realizadas. Em geral, apresentam-se mais colaborativas durante as consultas ambulatoriais e mais

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seguras durante o período de internação. Isso nos faz pensar que a nossa estratégia de intervenção vêm contribuindo para a criação de um vínculo de maior confiança entre esta clientela e a equipe da cirurgia pediátrica, como nos declarou uma cirurgiã “Vocês não sabem, mas ver as crianças entrando no consultório sorrindo, vestidas de médico, têm aliviado a tensão da rotina do ambulatório para quem atende e deixado as crianças mais colaborativas. Todos ficamos menos angustiados”. Durante os atendimentos é comum que as crianças expressem medos e fantasias sobre a doença, sobre o espaço, sobre a rotina e os procedimentos hospitalares. Isto aparece claramente no discurso com frases como, “operar é abrir a barriga e sangrar muito. Depois costura. E não pode brincar” dita por um menino de 6 anos em pré-operatório de uma hérnia. Ou ainda, “eles vão cortar o meu piru?” como nos perguntou um menino de 4 anos em pré-operatório de fimose. Mas também aparece na brincadeira e nos desenhos. Comumente durante o desenhar as crianças reproduzem seringas enormes, camas hospitalares, monstros no hospital, e mais raramente até pessoas mortas. Durante a brincadeira de operar elas também reproduzem nos bonecos o que acreditam que possa acontecer com elas. Todas as dúvidas e colocações são recebidas com muita espontaneidade e autenticidade. Acreditamos que é possível tratar da angústia da criança diante da operação de forma acolhedora, receptiva e verdadeira. Em hipótese nenhuma negamos os riscos que elas correm quando elas nos perguntam. Talvez seja essa veracidade que as deixa tão disponíveis para o encontro conosco. Ao permitir que as crianças expressem seus medos e fantasias, temos observado que elas se tornam mais autorizadas a questionarem sua própria doença, os procedimentos, as rotinas e até as relações com outros membros da equipe. Durante os encontros é comum que as crianças em determinado momento contem suas experiências no espaço hospitalar e perguntem como será a operação, como será o corte, se elas sentirão dor, se elas irão dormir e depois acordar, se elas vão poder brincar e ir para a escola, etc. Acreditamos que por utilizarmos o brincar como linguagem mediadora desta relação, conseguimos trazer estas informações de forma acessível e vivencial. Assim, o brincar se mostra um facilitador do contato da criança com outras, consigo mesma e com a própria situação. Dessa forma, podemos afirmar que o trabalho vem favorecendo a sociabilidade e a troca de

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experiências entre estas crianças, seus familiares e outros usuários que vivenciam experiências similares. A medida que as crianças contam suas histórias e as representam durante o brincar, outras crianças e famílias recebem estas histórias e refletem sobres as suas próprias. Durante o grupo é comum uma criança tentar consolar a outra contando-lhe suas próprias experiências, o que sabe sobre a operação, o que ouviu de outras crianças no grupo, o que viu nos passeios na enfermaria, etc. De certa forma, o grupo funciona como uma rede de apoio entre as crianças, mas também entre os responsáveis. Certa vez nos disse uma mãe cujo filho participa do grupo “É bom saber que toda vez que tenho dúvidas ou preciso apenas desabafar posso contar com o grupo. Conhecer todo o processo e trocar experiências com outras mães fazem toda a diferença”. Para os responsáveis o grupo funciona também como uma espécie de modelo. Ao verem como nós conversamos com as crianças sobre temas tão delicados, e ao perceberem como elas precisam falar do que elas estão pensando, como elas se tranqüilizam tirando suas dúvidas, os responsáveis se sentem mais encorajados a iniciarem estas conversas em casa. Reforçamos sempre a necessidade de serem autênticos e descobrirem sua forma de dialogarem com suas crianças a partir de seus instrumentos pessoais. A forma como o grupo conversa sobre a operação não é a única forma existente de lidar com esta problemática, é apenas a nossa forma. Assim, podemos afirmar que o trabalho vem possibilitando maior encorajamento dos pais para conversarem com a criança sobre a cirurgia. De forma geral, o trabalho vem transformado a relação da criança e sua família com o espaço hospitalar, fortalecendo a autonomia e a segurança da família nesta instituição. Comumente ouvimos declarações dos responsáveis como esta, “Estou mais confiante na operação. Agora sei que este hospital está preocupado conosco.” Isso nos faz pensar que nossas estratégias também estão contribuindo de maneira significativa para a humanização destes atendimentos.

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CONCLUSÕES

Assim como Zinker (2007) acreditamos que a gestalt-terapia é uma permissão para ser exuberante, sentir contentamento, para ser criativo. E este é sem dúvida um trabalho de criatividade. Utilizamos o brincar como suporte da nossa relação com as famílias, equipe e principalmente com as crianças. Estas estratégias vivenciais nos colocam em ação, em movimento. Assim, privilegiamos o encontro autêntico e espontâneo entre as pessoas. Porque acreditamos no potencial de saúde do ser humano. E principalmente porque entendemos que não é possível trabalhar com pessoas, qualquer que seja a temática central, se não de forma integral. Nesse sentido, o brincar e a gestalt-terapia conversam e compõe um rico cenário teórico e prático para a intervenção com crianças em processo cirúrgico. Com este trabalho, pudemos observar que através do brincar livre, articulado com outros experimentos lúdicos, as crianças ampliavam seu potencial de fazer contato com a situação cirúrgica, com seus medos, fantasias, suas dúvidas. Assim tornavam-se mais aware de si, e a mudança de um estado de desconfiança e angústia para um outro de maior tranqüilidade e autonomia fluía de forma espontânea. Bem como nos garante Polster e Polster (2001, pag.113) “A mudança é um produto inevitável do contato porque apropriar-se do que é assimilável ou rejetiar o que é inassimilável na novidade irá inevitavelmente levar a mudança. (...) A pessoa não precisa tentar mudar por meio do contato; a mudança simplesmente acontece”. É isso que experimentamos no grupo de acolhimento de crianças para cirurgia. Nosso trabalho de fato não se preocupou em mudar o estado de ansiedade das crianças, mas o fez na medida em que viabilizou o contato. Paradoxalmente, não acreditamos na possibilidade de preparar alguém para o que ainda não aconteceu. Nem vemos muito sentido nessa demanda. Nossa intenção é auxiliar a busca de autonomia e empoderar essas crianças e seus familiares durante o processo operatório. Acreditamos que ao se sentirem participantes nas escolhas e caminhos do seu tratamento a criança e sua família podem se sentir mais seguras para enfrentar os desafios e angustias inevitáveis da experiência operatória.

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” RESUMO Nossa proposta nesta mesa-redonda é promover uma reflexão nos participantes sobre a visão ecológica da Gestalt-terapia e da Ecopsicologia e das conexões destas escolas com a realidade sócio-ambiental que vivemos no momento. Buscaremos falar um pouco da experiência do homem na atualidade através do olhar de alguns autores que tem tratado sobre os temas específicos da relação do homem com os fenômenos da contemporaneidade. Com o desenvolvimento atual da tecnologia. É necessário explorar sua influência nas mudanças das relações afetivas e suas conseqüências psicológicas e sociais. E assim promover uma interrogação das questões existenciais e relacionais das possibilidades humana na era da Globalização. Ecologia Humana e Globalização. ECOLOGIA HUMANA E GLOBALIZAÇÃO O presente trabalho tem como objetivo promover uma reflexão sobre Ecologia Humana no contexto contemporâneo. pretendemos discutir o “como” a Gestalt-terapia se coloca frente a estes fenômenos e de possíveis propostas de atuação do gestalt-terapeuta neste contexto. aos poucos. esse quadro está alterando os padrões sociais de comportamento. novos espaços virtuais sugiram e.“ECOS NA PSICOLOGIA: CONEXÕES DO PENSAMENTO GESTÁLTICO E ECOLÓGICO COM AS QUESTÕES DO CONTEMPORÂNEO. como os humanos estão praticando esse diálogo? A relevância deste tema surge a partir dos questionamentos acerca do modo 142 . A partir destas questões. Quais são as possibilidades relacionais da existência humana na era das relações virtuais? Quais os impactos que as novas redes relacionais que estão sendo desenvolvidas trazem para o indivíduo e para os grupos sociais? O tema central visa explorar o cenário contemporâneo a partir das inovações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas em nossa sociedade.

p. É importante ressaltar que as transformações tecnológicas que impactaram o cotidiano das relações geram conflitos significativos no funcionamento do indivíduo e. é apresentada a idéia de uma mudança significativa da condição humana com o surgimento de uma “modernidade líquida”. Fazendo um paralelo com as idéias de alguns sociólogos e filósofos e o advento das novas tecnologias. Que tipos de relações estamos vivendo? Quais os efeitos psicológicos no panorama da globalização? Que tipos de controle estão inseridos neste novo contexto contemporâneo? Segundo Deleuze: “Estamos entrando nas sociedades de controle. O presente trabalho provém de inquietações e reflexões pessoais oriundas da atividade de psicoterapeuta individual e de grupos. uma sociedade que não se fixa no espaço e que contrasta com a solidez de um ambiente previsível. uma época. sobre a experiência relacional de diversos clientes de terapia ao longo últimos anos e das conseqüentes mudanças ocorridas no comportamento humano. Em outro livro. mas por controle contínuo e comunicação instantânea. o ponto de partida será a compreensão do homem contemporâneo diante do processo da revolução tecnológica. por conseguinte.peculiar com o qual a sociedade caracteriza suas redes de relações sociais. A partir de uma descrição do sociólogo Zymunt Bauman. e particularmente para que se possa confrontá-la de maneira efetiva – o que ocorreu com todas as 143 . na sociedade.” (2006.216) Ao longo das duas últimas décadas. Bauman retrata essa nova condição: “Vai levar muito tempo para que se assimile a nova situação global. O espaço e o tempo nas relações humanas foram alterados definitivamente com a nova realidade tecnológica. Amor Líquido. que funciona não mais por confinamento. mas como uma atitude. Como nossas fronteiras estão sendo configuradas? Como o avanço tecnológico e científico se manifesta na qualidade das relações humanas e regem a organização social contemporânea? Segundo Bruno Latour define a modernidade não como um tempo. os clientes de terapia vêem apresentando novos tipos de relacionamentos que emergiram a partir das novas ferramentas tecnológicas disponíveis.

Desse modo. psicologia ou psicoterapia. É importante se refletir sobre as relações e interações que são estabelecidas dentro de um novo enfoque. a compreensão do indivíduo em seu momento presente.transformações realmente profundas da condição humana. de Campo – quais as verdades inerentes a essa nova realidade relacional do indivíduo.141) A idéia de uma sociedade líquida. Holística. por conseguinte. estabelece a experiência de fronteira entre o organismo e o meio. mas social. A concepção de Fronteira de Contato. o ser integrado ao meio. assim como investigar qual a resposta emocional gerada nessa sociedade 144 . dentro de uma visão biológica. talvez seja possível refletir a importância do processo criativo de ajustamento dentro das situações de um sistema de contatos para o homem contemporâneo. cultura e subjetividade. Segundo seus autores. a abordagem gestáltica sustenta uma concepção do ser integrado ao meio num processo de ajustamento criativo e alinhado com os novos paradigmas de ciência. tais como fisiologia humana. p. definindo-se como um estudo dos ajustamentos criativos. conseqüentemente. psicológica e sociológica. Hefferline e Goodman: “O organismo/ambiente humano naturalmente não é apenas físico. p. 42-43) Nas afirmações desses autores. Uma vez que sua meta principal é a conscientização do indivíduo consigo mesmo. a Gestalt-terapia é uma abordagem de psicoterapia que acredita no ser holístico. Partindo desse princípio. na estrutura de crescimento proposta pela Gestalt-terapia.” ( 1997. temos de falar de um campo no qual interagem pelo menos fatores socioculturais. o homem precisa estar incluído na sociedade e. O ser humano é dinâmico e. gerando um ajustamento mais criativo para uma vida mais saudável.” (2003. O propósito da Gestalt-terapia é a conscientização e. Com um olhar dialógico para a Ecologia Humana. Durante o desenvolvimento do trabalho. Um dos pressupostos mais importantes desse trabalho é identificar e investigar os padrões e processos da Ecologia Humana na era da globalização. em qualquer estudo de ciências do homem. pode-se buscar entender através das teorias de base da Gestalt-terapia – Organísmica. considerar a importância da experiência de integração. talvez possa nos colocar na presença de uma complexidade das interações humanas e ambientais. com o outro e com o mundo. animais e físicos. Perls.

propôs a adoção da Teoria de Campo como a mais adequada. p. havia feito uma séria crítica ao modelo científico que dominou o século XIX e. ele declara a intenção de utilizar-se do Holismo como “uma nova ferramenta intelectual” (p. exercendo funções bastante significativas no governo daquele país. já conhecia e admirava a obra deste autor. para contrapor-se a este modelo. o contato de Perls com a obra de Smuts era anterior a sua ida para lá pois. Segundo Lima (2005). Acreditava que só através do conceito de 145 . desde que fora assistente direto de Kurt Goldstein. No entanto. Diante destes pressupostos podemos afirmar que a Gestaltterapia possui afinidade com o olhar holístico e ecológico sobre o homem enquanto um ser bio-psico-social e cultural. 7) condizente com a concepção de campo. residia também na África do Sul.. em sua obra. Jan Smuts. em 1926. o Holismo é uma atitude pela qual nos damos conta de que “o mundo consiste “per se” não apenas de átomos. Ele recomendava a leitura do livro de Smuts não só para os profissionais das áreas biológicas mas também para aqueles das diversas áreas das ciências. Fome e Agressão” de Fritz Perls. A TEORIA DA GESTALT-TERAPIA E A “FALTA DE TATO” DO HOMEM CONTEMPORÂNEO A Gestalt-terapia é uma das abordagens em Psicologia reconhecida com pertencendo ao eixo das escolas fenomenológicas e existenciais. no período em que o casal residia na África do Sul. Tem como alguns dos seus pressupostos básicos a Teoria de Campo. Na introdução desta primeira obra de Perls (1969). o pensamento holístico e a Teoria organísmica.globalizada. Smuts. mas de estruturas que possuem um sentido diferente do que o da mera soma de suas partes. 28)*. É importante comentar que o termo Holismo foi tirado do livro “Holism and Evolution” (1926) cujo autor. A principal influência do pensamento holístico se faz através da importância da obra de Smuts na formação intelectual de Fritz Perls.cit. Segundo Perls. escrito com a colaboração direta de Laura Perls e publicado no ano de 1942. O conceito de Holismo é apresentado no livro “Ego. o criador desta abordagem.” (op.

a limitação dos conceitos mecanicistas teve a função de simplificar os problemas das ciências e do pensamento da época mas. se não houvesse uma reconsideração desta visão.campo a visão da natureza poderia ser restituída de seu caráter fluido e maleável. cit. que por si só já apontava suas afinidades também com o pensamento holístico e com uma visão de campo. Esta visão fenomenal trazida pela teoria 146 . Quanto à visão de ser humano. que Goldstein nomeou de holístico.” (op. Para ele: “Matéria e vida consistem. desde seus primórdios. p. contida na teoria holística de Kurt Goldstein. 97) Fica evidente nas idéias de Smuts. Este método. nenhum tipo de experiência deve ser excluída. pensar o universo nesta perspectiva é pensá-lo como um sistema de forças que interagem e se inter-conectam produzindo mudanças constantes. Outra influência bastante marcante na construção das bases epistemológicas da Gestalt-terapia é a Teoria Organísmica de Kurt Goldstein. atômica e celularmente. A realidade é ordenada e agregadora. propunha-se a entender o organismo como um todo e não como a soma de partes isoladas. que uma visão da teoria de campo já se fazia presente na obra deste autor. O Holismo seria uma tendência sintética do universo em evoluir através da formação de todos (wholes). Grande parte das considerações feitas por Kurt Goldstein em seu livro “The Organism”. publicado na década de 50 e recentemente reeditado nos Estados Unidos graças ao esforço do neurofisiologista Oliver Sacks. a ciência continuaria tratando dos processos da natureza dentro de uma ótica reducionista e superficial. Pois. Para ele.. são transpostas pela Gestalt-terapia para explicar o processo de auto-regulação organísmica do homem de modo abrangente. ao se estudar os seres vivos . e adotadas por Perls. Até mesmo as células são sistemas ajustáveis que funcionam em um modelo de auto-organização semelhante aos sistemas sociais. de unidades estruturais ordenadamente agrupadas em conjuntos naturais que denominamos corpos ou organismos. Pelo método holístico. este defendia que o sentido de “ser” só é possível através da experiência conjunta de existência com os outros e no mundo. No livro “The Organism” Goldstein revela a intenção de propor um novo método para o estudo dos seres vivos.toda e qualquer forma de experiência é válida para o entendimento global do funcionamento deste ser. principalmente o homem.

sem deixar de levar em consideração as implicações holísticas e ecológicas de suas próprias ações. em maior ou em menor grau. As pretensões tecnológicas de emancipação que vieram com a modernidade são vistas agora sob olhar crítico. empresas e cidadãos foram chamados a assumir essa responsabilidade e encontrar formas de mitigar o impacto ecológico de nossa civilização. de poder identificar quais as ações no meio adequadas à satisfação das mesmas. ao mesmo tempo. A RELAÇÃO NATUREZA/NATUREZA HUMANA NO CONSULTÓRIO: UM DIÁLOGO ENTRE A GESTALT-TERAPIA E A ECOPSICOLOGIA Muito foi debatido na última década sobre a responsabilidade das ações humanas sobre as alterações do clima do planeta. na 147 . o homem pode perder. ao mesmo tempo. de modo a lhe oferecer informações precisas sobre as condições do meio e sobre si mesmo (contato consigo mesmo e contato com o meio). O “adoecimento” na Gestalt-terapia pode ser compreendido como um processo de desconexão do homem com suas próprias necessidades e. cujas conseqüências tem sido alvo de alertas há décadas. sendo uma das premissas da abordagem gestáltica. critérios de julgamento adequado daquilo que condiz com seu processo de auto-regulação organísmica. Para que este fluxo interacional se dê de forma satisfatória é imprescindível que os sistemas de contato do sujeito estejam funcionando de modo eficaz. agir neste meio. com seu sentido de ser-no-mundo. A base deste pensamento é a Teoria do Contato que acredita que a auto-regulação organísmica se dê em um fluxo interacional permanente entre o homem e o meio que o circunda. Quando existem bloqueios neste ciclo do contato. do mesmo modo. ele perde um tanto do “tato” necessário no seu lidar com o mundo que o cerca. Quando o homem experiencia um empobrecimento no seu ciclo de contato. Após o relatório do IPCC/ONU governos. o homem na Gestalt-terapia é entendido como um ser em constante relação e que se constitui no mundo. Perde a possibilidade de discriminar suas próprias necessidades e. Estar em contato siginifica apreender as informações que o meio nos dá e.organísmica de Kurt Goldstein é bastante próxima ao descrito também por Kurt Lewin na sua Teoria de Campo. ao mesmo tempo em que modifica a realidade constantemente. Deste modo.

permite profundas reflexões sobre a qualidade das interações entre o ser humano e seu meio. no que Greenway (1995) chamou de wilderness effect. como seres dissociados de um sistema maior. uma qualidade especial de awarness relatada após longos períodos em ambientes naturais? Muitas perguntas surgem destas reflexões. e que está de acordo com a visão sistêmica e holística da Gestalt-Terapia com respeito a uma psicologia da saúde? Que respostas poderia nos oferecer a GestaltTerapia para um entendimento de nossas relações com os ambientes naturais intocados como. Torna-se urgente explorar o alcance dos pressupostos teóricos da Gestalt-Terapia em situar e compreender o homem em crise com seu habitat planetário pois. A Política e Economia. Como resposta a essas provocações. Até onde essas relações são funcionais? Até onde não esconderiam elementos de psicopatalogia? Onde se perdeu o sentimento de pertencimento ao ambiente. para além das dimensões políticas e econômico-tecnológicas? E quais as origens dessa visão dissociada? Até onde a Psicologia. não está por trás da atual situação de risco ambiental. por exemplo. a edição de primavera de 1995 do GestaltJournal foi totalmente dedicada às conexões entre Ecologia e Gestalt-Terapia. talvez não sejam as únicas responsáveis por esse quadro. A visão de ser humano sustentada pelos fundamentos teóricos da abordagem gestáltica.medida em que vamos nos dando conta do impacto ambiental da sociedade tecnoindustrial. trata-se de um quadro de relações disfuncionais com o mundo natural. sobre nosso afastamento de 148 . foram feitos por Theodore Roszak (1995) em sua palestra como convidado especial da Décima Sexta Conferência Anual do The Gestalt Journal. Até onde nossa visão de nós mesmos. e nos remetem a uma Ecopsicologia – termo cunhado pelo próprio Roszak (1992) para definir o diálogo necessário entre os dois campos. tem parcela de responsabilidade nisso? Esses questionamentos. um ser em relação. que outros povos souberam preservar. Na medida em que podemos admitir a presença dessa disfuncionalidade podemos fazer algo a respeito. de fato. como ciência. que bem podem soar como provocações a nós gestalt-terapeutas. no entanto. como à afirmação de Paul Goodman na Introdução do Gestalt-Terapia (1997). e isso nos remete tanto à proposição de Freud (1994) da necessidade de um psicanálise da cultura.

dissociado da ordem e dos ciclos observados apenas pelo contato direto com a natureza. à luz da visão gestáltica de saúde. ajustamento criativo.uma percepção sistêmico/gestáltica da realidade. na prática. e podem ser incoerentes com nossos papéis de gestalt-terapeutas. do antropocentrismo. coerente com a Teoria do Campo. são também nossas referências como pessoas. Permeando essa reflexão. esclarecidas em Buber (1977). Compartilhamos nós da mesma insensibilidade cultural aos sistemas que dão suporte à vida? Não é improvável que um gestalt-terapeuta carregue tais introjeções. Profundas implicações éticas. estão presentes na transição para a consciência da interconexão e interdependência entre organismo e meio. Ao contrário. bem como as respostas de gestalt-terapeutas a seus pontos de vista. na esfera afetivo-existencial. teórica e filosoficamente. o setting gestáltico está. Porém. como o antropocentrismo dominador em relação aos outros sistemas de vida. Serão focalizadas as implicações para o conceito de crescimento. neurose. quando este se dá na direção de um ego urbano. Em outras palavras. maturidade. até onde isto ocorre? Quantos terapeutas foram testemunhas de tamanha mudança numa esfera que está além dos interesses e necessidades organísmicos? Ou será que são nossos condicionamentos culturais é 149 . Porém. E como refazer o caminho? Quais os limites do setting terapêutico gestáltico para integrar a vivência do aceitar-se natureza. a serviço de um roteiro social centrado na polaridade industrialismo/consumo. serão apresentados sucintamente os principais pontos do pensamento de Theodore Roszak (1995) expostos na citada Conferência. Algumas crenças que condicionam valores e sentimentos estão tanto na raiz da cultura Judaico-Cristã como também na raiz da disfuncionalidade ambiental. responsabilidade e auto-regulação. rompendo a dissociação com nossa raiz biológica? Teoricamente nenhum. entre os mais preparados para acolhida da ruptura. que é a forma natural e não fragmentada com que ocorre a percepcão. até onde nós como cuidadores e parceiros do resgate da saúde não guardamos em nosso íntimo os valores disfuncionais da cultura? É sabido que os conteúdos psicológicos reprimidos na vida pessoal de um psicoterapeuta não são acolhidos quando trazidos por um cliente. já que nossa abordagem foi a primeira das grandes escolas terapêuticas a assumir a então revolucionária perspectiva sistêmica.

se revolucionária na época de seu surgimento. Integrar a dimensão humana que Roszak chamou de Inconsciente Ecológico a um quadro de referência gestáltico pode ser uma necessidade na formação de gestalt-terapeutas. torna-se rapidamente a visão mais inspiradora da atualidade. natureza/natureza humana – de sentir-se parte do mundo natural. porém desqualificadas culturalmente? Embora imersa nesse contexto. a Gestalt-Terapia traz uma perspectiva que.que não nos permitem considerar que a esfera transindividual – organismo/meio. e que por ser sistêmica torna-a uma interlocutora privilegiada da Ecopsicologia. 150 . Essas reflexões exigem um aprofundamento de nossa compreensão sobre suas aplicações à nossa prática clínica. são necessidades igualmente organísmicas.

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A partir da observação da pouca produção na área.GESTAÇÃO DE RISCO E GESTALT-TERAPIA: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL? Guilherme de Carvalho21 RESUMO Este trabalho tem por objetivo propor uma aproximação entre o atendimento clínico em gestalt-terapia e o cenário de pré-natal a gestantes de alto-risco. associados a uma proposta de acolhimento de um novo paradigma denominado de Psicologia da Saúde. com contribuições significativas para o setor da atenção materno-infantil. e eficácia. no intuito de ampliarmos a área de influência da Gestalt-Terapia para diferentes ambientes. observa-se traçar uma articulação entre os temas em uma prática consciente e ética. Palavras-chave: gestalt-terapia. Doutorando em Psicologia Clínica (Puc-RJ). de seu atendimento em um pré-natal de alto-risco e articulado à prática clínica da gestalt-terapia como suporte teórico e prático.RJ e Faculdades Maria Thereza Niterói). 21 152 . O papel do psicólogo hospitalar é discutido em termos da importância. trazendo destaque ainda para o papel do psicólogo em unidades hospitalares. Docente e supervisor (Universidade Estácio de Sá . visando a promoção da saúde das usuárias do pré-natal e destaca-se a importância da formação do profissional de psicologia na abordagem gestáltica. objetiva-se criar um espaço de discussão onde são tratados alguns elementos específicos do atendimento em gestalt-terapia. gestante. inclusive o hospitalar. Como resultado. pré-natal Gestalt-Terapeuta.

A questão da 153 . observou a necessidade de uma reflexão mais cuidadosa acerca da prática do profissional de psicologia em uma unidade de saúde pública – hospital geral – e. 1992) e sobre a legislação (Ministério da Saúde. na literatura da área. 1992) etc. recém-nascidos. a inserção do profissional na equipe. Ações de promoção da saúde. 2000b. foram traçadas algumas aproximações entre o serviço de pré-natal de risco e a atuação/inserção do profissional de psicologia na equipe clínica de suporte à gestante (Carvalho. existe um fraco interesse sobre a produção científica de um saber legitimado a respeito da eficácia terapêutica da abordagem gestáltica no trabalho do psicólogo em unidades de saúde. a operacionalização e articulação da prática clínica. 2000a. Trucharte. 2003). 1995. especificamente. visão acerca da temática da promoção da saúde (Barbosa & Mendes. Buss. Silva. Neste sentido. Contudo. 2000. 2000. e o atendimento a gestantes. 2008). inúmeros trabalhos sobre a atuação do psicólogo no hospital e o trabalho do mesmo em relação às idiossincrasias de cada ambiente ou setor da unidade (Campos. com ênfase na atenção materno-infantil. a partir do referencial teórico da Gestalt-terapia. prevenção e manutenção têm obtido máxima preocupação por parte de equipes de saúde e de setores específicos do poder público envolvidos com a legislação e atenção à saúde da mulher e da criança (Ministério da Saúde. Em trabalho recente. 2003. englobam ações direcionadas ao cuidado com crianças. Nota-se a ausência de trabalhos na área que proponham interfaces entre Gestalt-Terapia e o atendimento de pré-natal. A área da atenção materno-infantil tem progredido enquanto área de destaque e interesse científicos. 1996. 2002). Abarcando um leque enorme de possibilidades de atuação. Campos. sobre a psicologia da saúde (Sebastiani. 2005).INTRODUÇÃO A atuação do psicólogo hospitalar. díade mãe-bebê e avaliação gestacional. torna-se necessário um aprofundamento natural em relação ao como o processo de intervenção profissional pode ser realizado na área de pré-natal e atenção materno-infantil. o que pode significar a abertura para um caminho frutífero de investigações sobre o tema. 2005. Sebastiani & Maia. Nota-se.

assume hoje lugar central no debate entre profissionais “psi” no cenário acadêmico. Behaviorismo e Humanismo -. e de outro. que se traduz em um formato de relação terapeuta-paciente. A proposta deste trabalho se configura como uma tentativa de discussão acerca da especificidade da Gestalt-Terapia. em sua extraordinária singularidade. a partir de um trabalho contínuo de promoção da conscientização dos elementos alienados da personalidade do cliente. Segundo 154 . e já demonstra impactos no que concerne à relação terapêutica nos consultórios particulares de profissionais de psicologia em diferentes correntes clínicas. mas sim chamar a atenção para alguns elementos da prática clínica da abordagem gestáltica. Spangenberg. enfim. tem-se a plena manifestação do contato. acima de tudo. Diante do fenômeno. de forma a discutir seus alcances e limites. Enquanto uma abordagem fenomenológica. 1985. promove ajustamentos criativos. na vida cotidiana das pessoas. enquanto referência clínica e teórica. de entrega e disponibilidade ao encontro. Observando as três grandes abordagens no interior da ciência psicológica – Psicanálise. do cuidado com os filhos. a parentalidade. 1973). finalmente. a atitude do gestalt-terapeuta é. localizamos diferenças significativas em relação ao setting terapêutico. por um lado. de respeito à sua manifestação no momento presente. de fenômeno e de conscientização. E. Ribeiro. Este estudo não tem intenção de superar os trabalhos já realizados a respeito do histórico da abordagem. desde 1951.maternidade. paradigmas e metodologias de trabalho. sua atuação pressupõe o entendimento de alguns elementos como a noção de contato. todo modelo teórico possui uma metodologia de trabalho e se converte em um enquadre específico. Hefferline e Goodman. vem oferecendo uma nova visão para a ciência psicológica (Rodrigues. o gestalt-terapeuta. através de uma atitude de potência e controle (Fagan & Shepherd. com a publicação da obra de Perls. em suas rotinas. empático. para o atendimento a gestantes. 2000. A partir da promoção de um ambiente facilitador. Como afirma Spangenberg (2007). frutos do que se convencionar como awareness. A GESTALT-TERAPIA COMO CENÁRIO Inúmeras obras publicadas na abordagem gestáltica dedicaram-se com brilhantismo ao esquadrinhamento teórico e filosófico deste movimento que. 2007. 2007).

. discussão e aprimoramento por parte do gestalt-terapia. com aquilo que é” (p. sem dúvida. A tarefa terapêutica. a awareness. tanto para o sento comum quanto para o discurso acadêmico. é a de identificação e auxílio ao trabalho de conscientização da necessidade mais urgente. rumo à sua concretização. significações e vivências mais emocionadas. promove um espaço de autonomia e de nutrição psicológica. energizada pela necessidade dominante atual do organismo requer auto-conhecimento. 2006). a tarefa do gestalt-terapeuta. saúde.. 30) Com o intuito de organização e fechamento de gestalts inacabadas. NOVOS MODELOS DE FAMÍLIA E DE PARENTALIDADE A proposta de entendimento da noção de família hoje possui uma diversidade grande de sentidos. etc. dialogicamente. configura-se em um projeto organizado e claro de auxílio clínico ao cliente. como família. a awareness. Alguns temas são. alcançar novos patamares. ao longo do processo terapêutico. De outra forma. Enfim. cit). Gough (1971) aponta para a delimitação da família a partir do momento em que um par casado ou grupo de parentes cooperam em termos de vida 155 . “awareness é uma forma de experiência que pode ser definida aproximadamente como estar em contato com a própria existência. a satisfação de uma necessidade vital. Assim. uma atitude dialógica e a empatia como três instrumentos terapêuticos fundamentais para a Gestalt-Terapia.. a partir de trocas otimizadas com o “outro”. Sua diversidade pode ser discutida em termos de modificações ao longo do tempo (em sociedades distintas) e em uma mesma sociedade. e requerem. de forma associada. neste estudo. no sentido de “estar com”. conhecimento direto da situação atual e como o self está nesta situação (op. através de fronteiras de contato. para que o mesmo consiga. A possibilidade de coexistência de modelos em determinados contextos históricos é uma realidade (Rocha-Coutinho. Entende-se.awareness. maternidade. relacionados ao espaço clínico. que movimenta o organismo. cuidado com os filhos. assumindo diferentes modelos de organização familiar. a noção de família é geralmente articulada com casamento. Em termos históricos.Yontev (1998). junto a seu cliente. assim.

“O pai representava o princípio da unidade de propriedade. estável e legalizada. esposa. o chamado modelo de família extensa do tipo patriarcal. Em conjunto com transformações na organização social brasileira.econômica e criação de filhos/crianças. da moral. agregados) era determinante. De acordo com Wagner (2002). fundada no casamento por amor e na reformulação dos papéis de homens e mulheres. Com o declínio da antiga família patriarcal (hegemônica. Neste cenário. especialmente durante o período colonial. Surge a família burguesa. (. p. com a mulher como responsável pelo cuidado com os filhos. 1989).” (Costa. esta relação oscilava da mais simples determinação da profissão de um filho até alianças matrimoniais. educação e o lar... Como aponta Samara (2004). A estabilidade da família antiga dependia dessa indiferenciação de interesses individuais. escravos. quando a influência da figura central do pater famílias em relação às demais figuras do conjunto familiar (filhos. política e moral. da hierarquia. a concepção de mulher como voltada para a família e para o 156 . De acordo com Costa (1989). a noção de família também demonstrou mudanças internas significativas. atribuindo diferentes papéis na dinâmica familiar (Costa. Existe uma intima articulação entre os interesses econômicos e os tipos de relação na família patriarcal. atenção e realização de desejos e aspirações particulares. embora tenha sido adotado pela historiografia tradicional com único representante de toda a sociedade brasileira.) O convívio familiar não devia nem podia ordenar-se de forma a privilegiar a escuta. mas não única). deve ser relativizado e compreendido enquanto um sistema de relações que assumiu diferentes configurações regionais (urbanas e rurais) e transformou-se com o tempo. enfim. esta estrutura é garantida legalmente e dispõe de determinadas dimensões como a econômica. 95). desenvolve-se com maior destaque no Brasil a família conjugal moderna. de todos os valores que mantinham a tradição e o status da família. O discurso médico-higienista reforçou estas transformações. 1989. da autoridade.

” (Rocha-Coutinho. assim. baseada em papéis bem definidos quanto ao gênero e à geração. Tem-se. podemos compreendê-la como uma instância que envolve tanto relações sociais.sacrifício como “dona do lar” (Mizhari. p. 178). 1978) trouxe um modelo romântico de mulher. quando a glorificação da maternidade e suas responsabilidades não eram temais centrais. O processo de modernização pelo qual vem passando a família brasileira traz novos elementos a este cenário. 159). Como aponta Rocha-Coutinho (2007).. como tal. anti-autoritários. uma clara distinção entre um modelo de família igualitária. em contraposição à família hierárquica. portadora de virtudes e defensora do lar. em contraste com o valor atribuído ao trabalho exercido pela mulher no passado. “(. Apontam para um direcionamento rumo à igualdade das relações. com papéis baseados em valores individualistas. 2006. produtos de sua maternagem. “Assim. Demos. ofertando aos indivíduos (seus membros) uma variedade de escolhas e/ou pluralidade de estilos de vida. redistribuindo papéis e reestruturando crenças e expectativas em relação aos membros da família.) a criação dos filhos estava integrada a outros afazeres das mulheres e não era nem mesmo considerada uma de suas principais tarefas” (p. A partir deste binômio mulher/mãe. famílias de classes médias brasileiras apresentam hoje uma série de mudanças na sua estruturação. Partindo de uma compreensão mais ampla das possibilidades de definição de família. 2007. ela se tornou emocionalmente dependente do marido — um homem escolhido por amor — e psicologicamente dependente de seus filhos. devemos considerá-la como 157 .. isto é. a devoção da mulher ao ‘trabalho de casa’ a tornou dependente das pessoas de quem ela cuida. de fora de casa e confere ao homem a possibilidade de realização de um trabalho rentável. Este fato já traduz certa diferenciação em relação a períodos históricos anteriores. este eixo atribui um novo significado à família. afetivas e. lugar de abrigo. 2007). ideológicas. 2004. produtivo. desligando a mulher do trabalho dito “produtivo”. De maneira geral. econômicas. baseadas no diálogo e não em relações igualitárias (RochaCoutinho.

no âmbito da família. Novos avanços da ciência obstétrica e da ginecologia em articulação com o crescimento exponencial da presença do profissional de psicologia em unidades de saúde. filhos. mapas e formas contraditórios. No interior da organização da vida familiar. ou organização. públicas e particulares. a incerteza e a insegurança são sentimentos que permeiam as relações e são efeitos de perdas de referências trazidas pelas condições de vida dos centros urbanos. em termos de projeto de saúde. Tais elementos trazem certa instabilidade ou menos certezas para a construção natural de um modelo seguro de família. De acordo com Henriques. etc. Especificamente no que tange à atenção à gestante. avós. temos a presença de ordens. Féres-Carneiro & Magalhães (2006). etc. caracterização da clientela. De acordo com Figueira (1987) e Almeida (1987). O surgimento de novas configurações (ou arranjos) familiares notifica mudanças qualitativas na organização familiar contemporânea. As mudanças da vida. a instabilidade. em um trabalho multiprofissional em uma equipe de pré-natal. familiar são. tais considerações ganham destaque e devem ser analisadas com cuidado e atenção. desta forma. avaliação dos agravos e balanceamento do binômio oferta-demanda. de parentalidade e conjugalidade na atualidade e justamente a existência de diferentes mapas sobrecarrega o exercício das funções paterna e materna e afeta. por vezes contraditórios.marcada por descontinuidades e contradições. do gestalt-terapia. associadas à presença de diferentes mapas. de novas relações de trabalho. e no caso. mais cedo ou mais tarde. a atuação do psicólogo clínico. envolvendo papéis de pais. Mudanças internas no modelo familiar brasileiro talvez estejam relacionadas a esse movimento de mapeamento-descontinuidade-re-mapeamento. o conceito de desmapeamento sugere uma metáfora útil para o entendimento das descontinuidades inerentes à família. Tais mudanças são associadas a transformações no mundo do trabalho e da parentalidade. tensão e conflito. a partir de mudanças e avanços tecnológicos. Parece que existem modelos co-existentes de família. que geram descontinuidades. 158 . solicitam um re-dimensionamento paradigmático.

organizada enquanto campo de saber tem como 159 . Certamente. A Psicologia da Saúde. não como instâncias estanques. 2000). De acordo com Sebastiani (2007). Torna-se importante atentar para uma prática clínica e concepção teórica que relativizem esta questão e que proponham uma visão mais global do binômio saúde-doença. que abarca todos estes questionamentos e os articula de forma a considerar também aspectos sociais. isto é. a preocupação com uma visão global do indivíduo associada com a necessidade de mudança da relação da equipe de saúde com o doente lança luz ao tema da humanização. o que dificulta a compreensão multifatorial. e não somente individuais. influentes rumo ao processo de adoecimento. infelizmente os modelos de estudo do fenômeno humano ainda valorizam uma visão atomista-reducionista. balizada pelo entendimento e valorização de sua forma específica de ser-no-mundo e ela necessária contextualização de seu adoecimento. estilo de vida e inadequação dos serviços de saúde refletem esta posição multicausal (Lalonde. Neste sentido. poluição e agravos ambientais. na sua relação com os processos naturais da existência. surge uma nova proposta denominada Psicologia da Saúde. herança do modelo biomédico. Na área da saúde pública. a compreensão global do paciente. mas sim como pólos de um processo mais ou menos funcional (criativo e auto-regulado) da existência de uma pessoa – hoje doente. preconizado pelo Comitê Técnico do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (Ministério da Saúde. na qualidade de ciência da saúde. A transposição de um modelo biomédico (causal) de influência para um modelo biopsicossocial tem como resultado maior a intenção de avaliar o indivíduo de acordo com uma visão integral do binômio saúde-doença. Aspectos como características biofísicas da pessoa. a Psicologia durante a construção de um modelo clínico precisava estar atenta aos reflexos naturais deste histórico mecanicista. 1996).UM NOVO PARADIGMA EM SAÚDE Historicamente a ciência psicológica foi marcada pelo paradigma cartesianopositivista à medida que se estruturava enquanto disciplina formal.

Considera-se o momento da gravidez como uma possibilidade de crescimento e mudança. na direção do redimensionamento do entendimento sobre o binômio saúde-doença. no que envolve a paciente gestante de risco. vista enquanto potencial e não como conflito. responsabilizando população e gestores de saúde neste processo (Barros & Ferreira. a menstruação. Trata-se de uma mudança significativa de paradigma nos níveis de atenção. o parto. alterações metabólicas e transformações clínicas são esperadas com maior destaque em gestações de risco. 1999). Enquanto gestalt-terapeuta. o climatério. 2002) como uma possibilidade de crescimento e mudança. isto é. Elementos físicos. promoção e manutenção da saúde. de forma complementar. ou ambos (Rosenberg. A MATERNIDADE E A ABORDAGEM GESTÁLTICA: MITO OU REALIDADE? A partir da experiência pessoal do autor em uma unidade de saúde do Estado do Rio de Janeiro como componente de uma equipe multidisciplinar de pré-natal. mas. além de uma etapa natural para o ciclo de vida da mulher (Maldonado. A gravidez configura-se enquanto um momento de inquietações e ansiedade. O entendimento desta etapa como o resultado de um processo contínuo de ajustamento criativo (Ribeiro. sua mãe. surgiu uma série de inquietações quanto ao formato da entrevista clínica oferecida às gestantes matriculadas regularmente no Programa de Pré-natal de Alto da Unidade. etc.principal função a promoção da saúde através do estímulo ao diálogo entre saberes. incentiva a autonomia das pessoas na tomada de decisões para suas vidas e cria conscientização acerca das condições e determinantes de saúde. 2007). é preciso atentar para possíveis alterações psicológicas no interior 160 . instrumentalizar a busca de alternativas para a transformação da vida cotidiana. mas é tida aqui com uma oportunidade de atualização do self. A definição de risco para uma gravidez pode ser entendida como toda situação que gere uma evolução desfavorável para o concepto. assim como o puerpério. 2006) parece aproximar a abordagem gestáltica do cenário hospitalar. a avaliação desta situação clínica em específico é marcada por um entendimento próprio do que se convém chamar de crise.

e a qualidade. Considera-se neste estudo a viabilidade da atuação do gestalt-terapeuta como uma possibilidade privilegiada de observação deste momento tão rico e transformador como a gravidez. se aposta em um trabalho de follow up. De forma operacional. avalia-se positivamente a abordagem gestáltica como referencial clínico e teórico para o atendimento de pré-natal à gestante de risco. A avaliação da existência ou não de rede de suporte social de forma a auxiliar a gestante no enfrentamento da situação de risco também se 161 . pautado pela noção de awareness (Yontef.do período gestacional. por serem estados em que freqüentemente encontramos importantes alterações psicofisiológicas e psicopatológicas” (p. ou não. daí a importância de um profissional de psicologia no interior da equipe de saúde para a identificação precoce de sinais disfuncionais. que possam eventualmente colocar em risco tanto a gestante quanto o concepto durante o período gestacional e em todas as situações peri-natais. especialmente em parceria com a enfermagem obstétrica das instituições de saúde para a realização de um atendimento em regime de colaboração e de forma a legitimar este espaço de promoção de saúde. Pita e Martins (2007). é possível identificar dois momentos passíveis de intervenção psicológica: a gestação propriamente dita (tendo como cenário o espaço do pré-natal) e o puerpério (tendo como focos a situação de amamentação e os primeiros cuidados com o bebê). Em relação ao puerpério. À luz do paradigma maior do Humanismo. “A gravidez e o puerpério são situações do ciclo de vida das mulheres que demandam uma atenção especial. da visão fenomenológica e de uma atitude empática. A Gestalt-Terapia insere-se neste cenário de maneira bastante otimista e traz consigo um olhar específico sobre a experiência do humano e sobre seu potencial criativo. Alguns elementos compõem a cena clínica em um atendimento de pré-natal. do vínculo gravídico-fetal e. De acordo com Yamaguchi. (b) a existência. 1998) e baseado em uma proposta de mudança. 118) Salienta-se que cabe ao psicólogo neste ambiente avaliar: (a) situações de risco psíquico. (c) estados psicopatológicos de destaque.

e ressalta-se a necessidade da formação de novos gestalt-terapeutas conscientes a respeito deste setor tão rico de experimentações clínicas e aperfeiçoamento. a placenta e a constituição do feto . especialmente em relação à atenção materno-infantil. De outro lado.é fisiologicamente sensível.mostra útil (Carvalho. 2008).por envolver sistemas integrados entre o corpo da mãe. e a administração de medicações psicotrópicas constitui um risco em potencial para o feto devido à alta permeabilidade placentária das medicações psicotrópicas por terem um peso molecular baixo ao cruzar a barreira placentária (Rosenberg. em termos de bloqueios do ciclo do contato (Ribeiro. a Psiquiatria. Tal abertura ao diálogo é extremamente bem vinda nestas avaliações. 162 . com características consensuais em relação a outras disciplinas. pois o período gestacional (além do aleitamento) . 2007). Assim. 2007) e uma avaliação psicopatológica mais ampla. clínicas e teóricas da Ciência psicológica. Em suma. acredita-se no potencial da abordagem gestáltica aplicada a instituições hospitalares. como por exemplo. é possível associar a avaliação psicológica do movimento da Gestalt-Terapia. a vantagem da Gestalt-Terapia em relação a outras abordagens clínicas advém de sua sensibilidade e abertura às transformações sociais.

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psycho. perpassada por alguns conceitos da Gestalt-terapia. such as functions and contact boundaries. social isolation. em se tratando de indivíduos que vivem em situações de intenso isolamento social. borderline.GESTALT-TERAPIA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO: DOIS CAMINHOS PARALELOS QUE SE CRUZAM GESTALT-THERAPY AND THERAPEUTIC ACCOMPANIMENT: TWO PARALLELS PATHS THAT CROSS EACH OTHER RESUMO Este artigo tem como propósito maior fazer uma breve apresentação da prática clínica do Acompanhamento Terapêutico. borderline. gestalt-terapia. Palavras-chaves: acompanhamento terapêutico. 165 . Keywords: therapeutic accompaniment. e que podem se beneficiar de uma prática que se propõe a colocar os acompanhados em contato direto com a vida prática e com o social. schizoid personality. personalidade esquizóide. tais como funções e fronteiras de contato. gestalt-therapy. experiments and phenomenology. isolamento social. ABSTRACT The main purpose of this paper is to present a brief consideration of clinic practice of Therapeutic Accompaniment crossing it with some concepts from Gestalt-therapy. as these are individuals who live under conditions of extreme social isolation and who can benefit from a practice that proposes to make them establish direct contact with practical and social life. psicose. O diálogo entre esses dois saberes tem se mostrado relevante no atendimento a clientes com diagnóstico de psicose e transtorno de personalidade borderline. experimentos e fenomenologia. The dialogue between these two areas of study has been considered relevant in the treatment of patients with diagnosis of psychotic disorder and borderline personality disorder (BPD).

no Brasil. eu já não sinto nada” 22 INTRODUÇÃO Ao iniciar a elaboração deste artigo.“Socorro. As dificuldades de nossa época não podem ser entendidas isoladamente. acostamento. e ciente da responsabilidade que temos perante os obstáculos dos tempos atuais. 22 Socorro.para lidarmos com os problemas que a sociedade contemporânea enfrenta cada vez mais. entendendo esta palavra conforme o grego synhistanai. literalmente. na década de 80. de imediato me deparei com a seguinte pergunta: foi-se o tempo em que podíamos conceber o mundo como uma coleção de partes dissociadas? E sem precisar escavar muito.39) Tendo como base esta recente ótica ecológica. Trazendo a reflexão para um âmbito mais específico e avaliando o que tenho vivido no dia a dia do trabalho clínico. alguma rua que me dê sentido Em qualquer cruzamento.” (CAPRA. para que alcancem melhores condições de autonomia e auto-suporte? Apesar de reconhecidos avanços sociais no campo da saúde mental. eis que a resposta brota: acredito que esta visão reducionista deixou de ser suficiente . torna-se mais que pertinente colocarmos em pauta nosso trabalho como gestalt-terapeutas e as implicações que nossa prática incide numa sociedade tão dicotomizada. em suas trajetórias.diga-se de passagem. colocá-las dentro de um contexto. estabelecer a natureza de suas relações. formulo algumas indagações: que lugar eu tenho ocupado na sociedade ao escolher atuar como terapeuta? Tal prática tem contribuído para um mundo mais humanizado? Que tipo de ajuda tem sido possível oferecer a clientes que relatam sofrimentos tão profundos? O que tem sido importante. ou seja. p. encruzilhada Socorro. cuja raiz significa “colocar junto. 1997. “entender as coisas sistemicamente significa.” Logo. música de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz. em especial a partir do movimento da Reforma Psiquiátrica iniciado. 166 . pois vivemos num mundo superpovoado e globalmente interligado e interdependente. tudo e todos pertencem a um grande sistema. onde somos um fio particular na teia da vida. ainda no século passado .

Só então poderei traçar as considerações finais acerca das minhas impressões. p. em seguida apresentarei uma breve conceituação destas personalidades que designo como “esquizóides”. todos possam se beneficiar com tal passeio. Quais medidas nós podemos adotar. da inclusão e da integração de tais indivíduos. de alguma maneira. da impossibilidade e da clausura. Tomando como ponto de partida a contextualização histórica do surgimento da atividade e do termo denominado a partir de agora como AT. cuja posição é particularmente tão delicada frente a uma sociedade que pouco consegue lidar com as diferenças. Passo a apresentar um estudo sobre o trabalho de Acompanhamento Terapêutico que venho realizando com alguns clientes com diagnóstico de psicose e transtorno de personalidade borderline (TPB). só para citar algumas ideias que permanecem no imaginário e na conduta popular.. questão absolutamente fundamental no presente trabalho. da exclusão. quais sejam: funções e fronteiras de contato. sempre visando um regime de variação constante em seu estatuto social assim como da forma que a sociedade entende e lida com a loucura. venho apresentar algumas reflexões acerca do entrelaçamento do Acompanhamento Terapêutico com a Gestalt-terapia. experimentos e fenomenologia. 167) Destarte. por fim. a abordar alguns conceitos pilares da Gestalt-terapia. passando.infelizmente a loucura ainda é pensada pelo viés do abandono. Peripatetizando com e entre esses saberes. sejam eles acompanhantes ou acompanhados. tenho escolhido trilhar um caminho que rume nesta direção: do acolhimento.” (ARAUJO. espero contribuir no sentido de ampliar os significados e as reflexões dos personagens envolvidos neste cenário e que. E para tal. 167 .) – é a função do acompanhamento terapêutico que poderá levá-lo ao contato direto com a sociedade..2007. visando o acolhimento daquele que sofre com algum transtorno mental? “Se a loucura não se encontra mais entre muros de concreto – apesar deles ainda haverem (.

o qual não tinha como base um único saber específico sobre a loucura ou alguma autoridade que soubesse. devo esclarecer que seccionar não é minha intenção. até auxiliando-os em pequenas tarefas cotidianas e/ou em atividades mais complexas. convencionou-se o mito de que se trata de uma terapêutica endereçada a pessoas que.PERCORRENDO O AT Ao falar em Acompanhamento Terapêutico. eis a justificativa para a escolha do público com quem venho trabalhando: indivíduos que. Mas como podemos pensar na expressão “amigo que acompanha”. não conseguem ou não podem se beneficiar do consultório. É possível não só ajudar as pessoas a resgatarem atividades que aparecem comprometidas. em sua maioria. no qual os técnicos pudessem ser. Em se tratando de uma atuação que se propõe em colocar os acompanhados em contato direto com a vida prática e com o social. mas também a criarem outras até então incomuns? Como transformar antigos hábitos em novas formas de relacionar-se com o mundo? E o que acontece a partir dessa prática em que o socialis23 é envolvido de forma tão imediata? Em Trieste. colocando-se cada vez mais em situações de isolamento. todos. 168 . a melhor e a mais adequada intervenção terapêutica. termo que na Argentina e no Brasil. concernente à sociedade. inicialmente. a priori. quando os primeiros raios da Antipsiquiatria começaram a surgir. ganhou o nome de amigo qualificado.. Com este pensamento à frente do seu tempo. sociável. se a proposta é desenvolver uma prática que mereça o status de clínica? Faz-se necessário 23 ETIM lat. Porém. um pouco acompanhantes. Franco Basaglia lançou a proposta de um novo modelo de atendimento em saúde mental. de alguma forma. visão esta que parece colaborar com a separação de “neuróticos” para um lado e “psicóticos” para o outro. denominou-se voluntário. Foi desta maneira que surgiu o que. Basaglia germinou a ideia de que o rol de intervenções fosse aberto ao campo social. uma figura que desempenhava importante papel no tratamento em se tratando de ser aquele que acompanhava os usuários com dificuldades de reinserção social. desde buscando em casa os que não conseguiam sair sozinhos. social. estão cindidos em demasia na relação consigo próprio e com o outro.

este modo encontrado pelo indivíduo para estar no mundo.ressaltar que não se está falando de uma prática pura e simplesmente assistencial. Contudo. é justamente por o AT acontecer em um setting aberto que podemos afirmar tratar-se de uma clínica que pode se dar em qualquer lugar em que das paisagens surja um sentido. Nossa personalidade vai se delineando a partir da relação que estabelecemos com o mundo.cit. o sentido de colocar-se ao lado. o que acaba transferindo boa parcela das teorias desenvolvidas em práticas de setting fechado para o campo do AT. devir”. que não apresente peculiaridades terapêuticas. PSICÓTICOS E BORDERLINES: PERSONALIDADES ESQUIZÓIDES Seguido a esta sucinta introdução do campo do AT. (op. transformando qualquer lugar em um potencial clínico. nada que o difira daquela realizada entre quatro paredes. cujo escopo foi mapear a rua como espaço clínico para a Gestalt-terapia. O AT fala de uma clínica que se propõe a gerar qualidades. então. concebida nesta relação acompanhado-acompanhante? “Acompanhar na clínica teria. p. como se desenvolve seu senso de unidade? 169 . Neste sentido. sirva como ponto de partida para as posteriores apresentações conceituais.. parece-me oportuno fazer um esboço do que estou chamando de personalidade esquizóide. desconhecido. dessa forma. novo. irromper potencialidades. acreditando-se que as inovações produzidas na passagem para um setting aberto quase sempre dizem respeito a um “afrouxamento” das técnicas de consultório. Partir em caminhada ao lado do que surge enquanto outro. Parece colaborar para este equívoco o fato de que ainda há uma literatura parca e dispersa sobre o tema. que toda clínica é acompanhamento. Mas o que acontece quando esse contato inicial não pode estar atento a todas as necessidades do bebê? Se a criança não encontra estabilidade e segurança no meio ambiente. o que muitas vezes acaba passando a idéia de que o AT é uma prática clínica inferior ou auxiliar. Podemos dizer. 138) Outra comparação que acontece de forma equivocada diz respeito ao espaço onde a clínica do AT acontece. de forma que. este que num primeiro momento é representado em primazia pela mãe.

guardando fechado a sete chaves seus conteúdos emocionais e demonstrando-se distante e com dificuldades em estabelecer empatia. Como as experiências vivenciadas podem ir se integrando às construções a priori destes clientes? Como eles percebem e interagem com o mundo a partir das construções subjetivas acerca de si próprios e como o AT. ou a sua permanência e não superação.“O processo de desenvolvimento consiste na diminuição da dependência e na progressiva diferenciação com respeito ao objeto.. Entre os dois extremos incluo os portadores de transtorno de personalidade borderline e os portadores de transtornos psicóticos de um modo geral. 55-56) Fairbairn (1980) afirma que “o fenômeno esquizóide fundamental é a presença de dissociações no ego”.” (CELES. que podem acontecer em perturbações relativamente menores do sentido de realidade. “as principais características da dependência infantil são as atitudes incorporativas e a identificação indiferenciada com o objeto. uma experiência profunda de desunião consigo próprio. p. que as condições esquizóides manifestas vão desde um estado transitório. Quero dizer. a experiência de déjà vu.” Perante um mundo ameaçador à sua precária existência. Essas características fazem com que a perda ou o afastamento do objeto sejam acompanhadas pelo sentimento de aniquilação do ego. uma fragmentação do eu. com isso. pode auxiliar esses indivíduos herméticos a experimentar uma maneira mais nutritiva de estar no mundo? 170 . p. grifo meu) Ainda segundo Celes et al (op. 306.cit.” (YONTEF. até a despersonalização completa e a sensação de irrealidade. maior seria a dependência infantil. tais pessoas assumem uma postura de isolamento. 1998.) Quanto maior o número de estratégias dissociativas para lidar com o objeto. um colapso do potencial do indivíduo em sustentar uma totalidade. utilizando-se do arcabouço proposto pela Gestalt-terapia. 2008.. p. 56). podendo faltar-lhes um sentido essencial de si mesmos. até a esquizofrenia propriamente dita. (. como por exemplo. assim como um sólido senso sobre o outro.. referindo-me a esses clientes como os que “não conseguem manter um sentido coeso do self por meio de uma sucessão de momentos aqui-e-agora.

A despeito de toda a emoção que tomou conta do momento. Foi quando um grupo de crianças que brincava nos arredores veio correndo em nossa direção. Ao lado do meu rosto. pediu que eu lhe emprestasse uma fotografia minha. sendo assim. fui tomada por uma forte emoção diante de toda a generosidade de Ana. de forma que os fatos se ajustem aos seus sentimentos. aguardaria o momento e o local que ela escolhesse para o fazermos conjuntamente. imediatamente após o longo silêncio que se fez enquanto apenas nos olhávamos. Por exemplo. para mim. Emocionada. ela insista em apagá-las também). Essa cliente possui um incrível pendor artístico e no último Natal. pois ela considerava que tinha cometido muitos erros e. posteriormente. Tempos depois. Ana começou a desfiar seu rosário de justificativas para os erros cometidos em sua pintura. tem como hábito “apagar” partes das experiências que vivencia. não fazia sentido vê-lo sem que estivéssemos juntas. Porém. sucedendo a seguinte cena: 171 . Algumas semanas se passaram até que ela propôs que nos encontrássemos num parque da cidade. em um de nossos encontros. retroalimentando sua certeza quanto a ser abjeta. uma cliente que acompanho há aproximadamente dois anos. Argumentei que. Ao olhar para o tamanho do meu colo na foto. por isso. ao abrir o presente. que me olhava profundamente. a vergonha que ela demonstra sentir em virtude de se considerar uma pessoa vil e desprezível precisa ser constantemente justificada. senti que ela o havia feito numa proporção maior em relação a todo o restante do quadro. ela não só havia feito várias “homenagens” a locais que tínhamos visitado. tais explicações intelecto-racionais não se sustentam frente às experiências concretas (ainda que. contrastando com sua aparência e modos soturnos. fui compartilhando todas essas minhas impressões com Ana. a fim de que pudesse pintar um quadro do meu perfil. havia ficado feio. Chegando lá.ALGO ACONTECE NA RUA QUANDO A TOMAMOS COMO CLÍNICA Ana. pedindo que eu levasse o quadro. como também usado muitas cores alegres. Ana entregou-me o quadro sob fortes protestos para que eu não o desembrulhasse na sua presença.

de quem eu tinha ganhado o quadro de presente. Se o bebê não pode contar com um ambiente acolhedor e continente.. cheirar. tanto mais restará apenas um esforço do organismo em buscar seus próprios meios numa tentativa de manter a si mesmo com vida. p.” (POLSTER.Os meninos.Eu: Respondi para a criança que tinha sido uma artista. 111). mantendo-se fechados em seu mundo. o que requer separar-se para. “Eu estou sozinho. . soluçando discretamente) ..Um menino: Nossa! É você! (apontando para mim) .Menino: Respondeu que sim.Eu: Sorri. os indivíduos com personalidade severamente esquizóide evitam estabelecer contato. só então. “É apenas pela função de contato que a percepção de nossas identidades pode se desenvolver plenamente. isso nos possibilita sentir que estamos vivos..Outro menino: Quem pintou? . Expansão e recolhimento fazem parte do contato. 112). APROXIMAÇÕES COM A GESTALT-TERAPIA Mediante contato. p. . Perguntei se ele gostaria que eu a parabenizasse quando estivesse com ela. com dúvidas sobre sua autonomia. dando um sorriso reservado. o problema é a rigidez num pólo ou noutro. mas ainda assim preciso encontrar você para viver. falar. que timidamente retribuiu o olhar. (Ana abaixou a cabeça e começou a chorar. tocar.cit. 2001. É através do contato que nos expressamos ao mundo e dele nos alimentamos. Estar em contato com alguém exige reconhecer que há um outro que não sou eu. Diante dessa impossibilidade de se construir enquanto unidade.. Perguntei se eles tinham gostado. .” (op. 172 . receber. poder reunir-se novamente. ver. cada pessoa tem a chance de encontrar o mundo de um modo nutridor (ou não) e a diminuição da capacidade de contatar aprisiona o homem na solidão. à medida que essa interação organismo/ambiente acontecer de forma débil.Ana: Imediatamente balançou a cabeça negativamente e sussurrou “não”. Sorrir. é muito bonito.Eu: Olhei para Ana. falando ao mesmo tempo: Sim. .

sempre o mesmo ou indiferente não é um objeto de contato. como se cada experiência se ligasse por tênues fios. se ele se aliena e. HEFFERLINE & GOODMAN. locomover-se. localiza-se na fronteira do organismo. pertencendo a ambos. amar e fazer amor. as fronteiras parecem ser sentidas de maneira ambígua. entrar em conflito. Pensando em termos da própria forma que os seres vivos 173 . se ele aliena o que não é organicamente seu e. portanto. inversamente. porque está exercendo sua capacidade superior. neste caso ele é psicologicamente sadio.” (op. e. Dessa forma. torna sua vida insípida. 49) Estou chamando de self o sistema completo de contatos. não resultando em assimilação e crescimento. e fará o melhor que puder nas circunstâncias difíceis do mundo.. “A descrição de saúde e doença psicológica é simples. ao organismo e ao ambiente. 179) Nessas personalidades esquizóides. que varia de acordo com as necessidades orgânicas imperantes e os estímulos ambientais imediatos. confusa e dolorosa. É uma questão das identificações e alienações do self: se um homem se identifica com o seu self em formação. Contudo. dando a sensação de ser uma pessoa fragmentada. não inibe seu próprio excitamento criativo e sua busca da solução vindoura. de acordo com suas necessidades? O objeto que é difuso. Diante da impossibilidade de discriminar qual o evento de maior importância no campo organismo/meio – o que chamamos de awareness – quais meios o organismo encontra para ajustar-se criativamente. 1997. dividindo a totalidade da experiência em diversas partes. o crescimento do organismo.“Contatar é. tenta subjugar sua própria espontaneidade. p.” (PERLS. aprender. perceber. em geral. não pode ser vitalmente interessante. ela entra em contato com este. Pelo contato queremos dizer a obtenção da comida e a sua ingestão. comunicar. devido a identificações falsas. incompleta. mas a própria fronteira não está isolada do ambiente. ao contrário. pois dilacera a figura/fundo. num campo organismo/ambiente.cit. toda função que tenha de ser considerada primordialmente como acontecendo na fronteira. agredir. p. em geral. se expressando através de vivências intercorporais primárias.

essa fronteira membranosa não é um produto do metabolismo celular tal como o tecido é um produto do tear. O ego dissociado fica impossibilitado de funcionar dentro do sistema de identificações e alienações e “por meio do experimento o indivíduo é mobilizado para confrontar as emergências de sua vida. um medo ao encontrar uma pessoa conhecida – falo de um corpo em pleno estado de afetação24 num momento de tempo presente. numa tentativa de oposição ao tentador hábito de “falar sobre”. Um bar cheio de pessoas se confraternizando. percebendo. Não é um ensaio para um acontecimento futuro nem tampouco um ato póstumo de algo que já aconteceu.têm pra se organizar. assustadores. desconhecidos.” (POLSTER. p. como também participa dela. gera uma multiplicidade incalculável de experimentações. (. fazendo e/ou escolhendo tal coisa. visando promover o poder criativo de reintegração dessas partes que aparecem tão desconectadas? Os experimentos práticos em Gestalt-terapia têm como um dos propósitos principais intensificar a awareness do contato do ser no mundo. um temporal que desaba repentinamente. 238) O contato direto com o socialis. 52-53) Como o modo terapêutico da Gestalt-terapia pode ser conclamado à presença nesses espaços rotineiros. podendo resgatar sensações como “sou eu quem estou sentindo.” (MATURANA. um pedido de informação de terceiros.. “o metabolismo celular produz componentes e todos eles integram a rede de transformações que os produzem. tanto física quanto psíquica. operando seus sentimentos e ações abortados. que o AT proporciona. Alguns formam uma fronteira. mas uma potencialidade que no contato se atualiza. propiciando que as interlocuções se tornem múltiplas e imprevistas. 174 . porque essa membrana não apenas limita a extensão da rede de transformações que produz seus componentes. condição que não é objetiva e imutável. Evocamos o sistema de ação do indivíduo. 2001. tecendo uma teia de continuidade e constância. numa situação de segurança relativa..” 24 Ato ou efeito de afetar-se. 2007. um convite para participar da festa de uma criança num jardim público. p.) No entanto. um limite para essa rede de transformações. inexistentes.

é um importante pilar da Gestalt-terapia. Ao entendê-la como a análise da dinâmica da alma. atentos ao nosso cliente como um todo. mas também demonstrando como se dá o seu acesso ao mundo. o papel que desempenhamos é o de acompanhar o fluxo da energia que transborda de um mundo desconhecido. p. julgado ou tratado como a priori pelo acompanhante. “ciência descritiva das essências da consciência e de seus atos” – conforme a definia Husserl. 2004. suspendendo qualquer opinião de valor frente à compreensão daquilo que se apresenta como percepção-percebida do cliente. estamos falando de uma consciência absolutamente intencional. pois o que se passa na nossa mente não ocorre no vazio. 154) 25 Termo comum. pois. entre os acompanhantes. tratamos a consciência sempre como consciência de algo. crenças e necessidades “entre parênteses”. para que ele alcance. cabe descrevê-lo fenomenologicamente. percebemos que ele se auto-revela permanentemente – a nós. seu reequilíbrio organísmico”. (RODRIGUES. a partir de uma correlação. O indivíduo ao relatar o seu estado de alma não está apenas sendo reflexivo. O que se mostra não deve ser interpretado. está sempre visando alguma coisa. 175 . usado para designar as sessões de AT. durante as “saídas”25. Portanto. sem a qual nada existe. esta que dá aos objetos do mundo um sentido (ao invés de contemplar um universo estático). Do acompanhante é requerido manter seus valores. o significado que o cliente dá ao mundo fala a partir do seu horizonte existencial. oferecendo nossa presença para fazer este passeio ao lado. sua satisfação. “Consciência-de-alguma-coisa” e “objeto-para-um-sujeito” se definem. demonstrando compreensão. “desde que tal participação contemple a prioridade da relação que se estabelece: que esta possa servir ao indivíduo que procura a terapia. pois. Se. autonomamente.A fenomenologia. neste lugar. nos situamos no aqui-e-agora.

expandir-nos. Acreditar na possibilidade verdadeira de mudança e aceitar as diferenças a partir do que cada um escolhe para sua vida. dificultando que ela pudesse usar qualquer justificativa desatualizada para lidar com a situação? O que ela decidiu fazer com essa experiência? Transformar – formar novas feições – eis um grande desafio! Modificar-nos. as angústias servem como molas propulsoras para o crescimento. mas apenas ele pode decidir de qual lado realmente deseja viver. frutificado numa sociedade mais generosa. O convite é lançado.CONSIDERAÇÕES FINAIS No exemplo relatado. tolerante e humanizada. vidas. O que aconteceu que os meninos não se afastaram. oferecendo o suporte necessário para que o cliente se perceba como aquele que escolhe qual papel ele quer assumir: o de “doente” ou o de potencialmente capaz de adquirir saúde e melhor qualidade de vida. pôde ser vivenciado no aqui-e-agora a partir de um evento inesperado. E assumir a responsabilidade de estar junto ao outro nesse processo de resgate de humanidade é uma tarefa complexa. É ter a oportunidade de me reunir com minha própria humanidade As inquietudes frente às demandas da contemporaneidade servem para nos fazer querer deixar o status quo. Estamos no mundo. e com suas próprias emoções. O tempo nos pertence. recriar-nos a cada instante. os empecilhos. Como estamos falando em AT. acredito que uma das minhas responsabilidades é vislumbrar potencialidades que podem transformar pessoas. porém fascinante. ainda que indiretamente? Ela fez algo para não aceitá-los? De que maneira o contato com o outro. uma prática atenta à ocupação dos mais diversos territórios. Lembrando (e homenageando) o 176 . Seja no lugar de terapeuta. ao contrário. assim como a liberdade de re-escolher – sempre – o que e quem somos. me enche de esperança quanto à verdadeira possibilidade de crescimento individual. se aproximaram? Que emoção isso desencadeou em Ana? Como ela escolheu se perceber ao receber os elogios. onde tudo e todos se transformam a todo instante. os desafios. e refletindo sobre o lugar que eu ocupo ao atuar como gestalt-terapeuta. Ana pôde vivenciar a confrontação entre sua ideia nefasta a respeito de si própria e o impacto que sua obra de arte provocou nas crianças. seja no do cliente.

" 26 Após caminhar até aqui. Hoje está a mais desditada criatura do mundo. é aquele que a transforma. p. o fiel escudeiro de Dom Quixote de la Mancha. Augusto Boal: “temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. o imperador. 97) 26 Mensagem em homenagem ao Dia Internacional do Teatro. os dois maiores caminhantes da literatura mundial: “cavaleiros de aventuras vem a ser um sujeito que em duas palhetadas se vê desancado. Assim como afirmava Sancho Pança. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena.” (CERVANTES. é um eterno vir a ser. no palco e na vida. e a mais necessitada. e cidadão não é aquele que vive em sociedade. 177 . Atores somos todos nós. e amanhã terá duas ou três coroas reais. O que encontrarei pela frente? A estrada.saudoso homem-do-bem e dramaturgo. finalizo este percurso mirando o horizonte. assim como os que se põe a caminhá-la. 2008. 2002.

– A Teia da Vida. F. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA – A Rua como Espaço Clínico . – A Árvore do Conhecimento: as Bases Biológicas da Compreensão Humana. CELLES. 178 . Diálogo e Awareness. R. 1. Escuta. Tradução Eva Nick. A. RODRIGUES. Ed. 1982. C.. Petrópolis. 53-61. in Psicologia em Estudo. 1996. 1973. CERVANTES. 13. Nova Cultural. Niterói. LAING. 1997. K. Edição original The web of life. 2000. Gary M. Cultrix. São Paulo: Ed. 6ª ed. VAN DER BERG. CAPRA. São Paulo: Summus. São Paulo: Ed. – O Eu Dividido. – Uma Concepção Psicanalítica de Personalidade: Teoria das Relações Objetais de Fairbairn. São Paulo: Palas Athena. – Estudos Psicanalíticos da Personalidade. E. São Paulo: Summus. FAIRBAIRN. e M. Ensaios em Gestalt Terapia. J. São Paulo: Ed. YONTEF. E. R. Livro Pleno.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO. M. PERLS F.H. São Paulo: Summus./mar. São Paulo. 2008. M. W. MATURANA H. & SANTOS.. ALVES. 2007.Acompanhamento Terapêutico. 2001. n. Petrópolis: Vozes. – O Que é Fenomenologia? Rio de Janeiro: Eldorado. 2002. A. jan. HEFFERLINE R.R. 1998. – Dom Quixote de La Mancha. C. p. G. – Um Passeio Esquizo pelo Acompanhamento Terapêutico: dos Especialismos à Política da Amizade. & VARELA F. A. Rio de Janeiro: Interamericana. GOODMAN P. – O Paciente Psiquiátrico. F.J. POLSTER. L. – Processo. M. Maringá.D. – Gestalt-terapia. H. DARTIGUES. RJ: 2007. – Gestalt Terapia Integrada. RJ: Vozes. – Introdução à Gestalt Terapia. 2000. 1980. 1997. v. 1991.

Para isto foi realizada revisão das principais correntes filosóficas que sustentam ambas as teorias: Fenomenologia. Behaviorismo Radical. Conclui-se que existem muito mais pontos de encontro do que previsto inicialmente. 1. Logo em seguida. Pragmatismo. INTRODUÇÃO As várias formas de intervenção em Psicologia estão estruturadas em abordagens teóricas compostas de uma teoria ou de um conjunto de teorias interligadas. este trabalho tem por objetivo estabelecer os pontos de encontro e de desencontro (ou contato. Existencialismo Ateu. O trabalho se inicia realizando um conciso histórico e teórico da Gestaltterapia e do Behaviorismo Radical. Palavras-chave: Gestalt-terapia. do ponto de vista gestáltista) das bases filosóficas da Gestalt-Terapia e do Behaviorismo Radical (que deriva as abordagens clínicas denominadas Terapia Analítico-Comportamental e Psicoterapia Funcional Analítica). Dessa forma. a despeito das afirmações de que estas teorias são antagônicas e que uma não tem nada a ver com a outra. Realismo e Determinismo. Convergências ocorrem quando se compara a Análise do Comportamento e a Gestalt-terapia.GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: ENCONTROS E DESENCONTROS EPISTEMOLÓGICOS RESUMO Este trabalho tem por objetivo estabelecer os pontos de encontro e de desencontro das bases filosóficas da Gestalt-Terapia e do Behaviorismo Radical. O arcabouço teórico dessas abordagens é sustentado em bases filosóficas que podem se aproximar ou se afastar. Epistemologia. tornando-as convergentes ou divergentes em relação à meta da intervenção. são explicados os fundamentos epistemológicos da abordagem da Gestalt-Terapia e da filosofia behaviorista radical para se finalizar com a discussão acerca dos seus possíveis 179 .

também como uma reação a esta mesma Psicologia. Como teoria.pontos de encontro e desencontro. Estes fundamentavam a teoria da gestalt no método fenomenológico. na Alemanha. 27 180 . como era exigido na introspecção. o Behaviorismo surge. pode-se afirmar que a Psicologia da Gestalt e o Behaviorismo surgiram como uma reação à introspecção. a Teórica de Campos e a Teoria Organísmica. HILLIX. já que este texto é direcionado a leitores que já dominam a história e a teoria da Gestalt-terapia. 158-177.1 GESTALT-TERAPIA E BEHAVIORISMO RADICAL: UM PANORAMA HISTÓRICO E TEÓRICO27 O termo “Gestalt-terapia” designa. ou seja. ao mesmo tempo. (BAUM. 1963). A Gestalt-terapia tem como fundamentação teórica a Psicologia da Gestalt. uma abordagem teórica e uma intervenção psicoterápica. não são a mesma coisa. Porém devemos lembrar que Gestalt-terapia. Enquanto que a reação da primeira era Neste item do trabalho dedicou-se mais na descrição da histórica e da teórica do Behaviorismo Radical e foi mais breve com estes conceitos na Gestalt-terapia. HILLIX. 20. Da mesma forma que. Köhler (1887-1949) e Kofka (1886). na Psychological Review. 1999). nos Estados Unidos. a Fenomenologia é base filosófica da Psicologia da Gestalt ao mesmo tempo em que também é base filosófica da Gestalt-terapia. Com isso a psicologia da gestalt passa a ser uma reação à introspecção ou psicologia introspectiva wundtiana (MARX. Psicologia da Gestalt e Fenomenologia. quando John Broadus Watson (1878-1958) publicou o artigo “A psicologia como o Behaviorista a vê”. mas apenas o uso do simples do perceber. 1963). com isso não havia a necessidade de treinamento do experimentador. 1. possui alguns pontos de encontro com as bases filosóficas da teoria gestáltica (ou Psicologia da Gestalt). há conceitos presentes na Gestaltterapia que estão ausentes na Psicologia da Gestalt e na Fenomenologia (MARX. a teoria da Gestalt surge como uma reação a Psicologia da introspecção (psicologia wundtiana). Portanto. por exemplo. A Psicologia da Gestalt foi desenvolvida no início do século XX e tem como seus principais autores Werthimer (1880-1943).

obedecendo. 1999). Comportamentos como o pensar.contra o treinamento do experimentador e enfatizava a valorização da experiência. No princípio da década de 1930 entrou em uma nova fase historicamente engajada no ensejo de novas perspectivas teóricas e metodológicas. objetivava-se a predição e o controle do comportamento. O artigo “A Psicologia Como o Behaviorista a Vê” anuncia o rompimento com a Psicologia vigente na época (wundtiana). em veto. o comportamento é compreendido em termos de formação e integrações de hábitos e é analisado a partir de observações e experimentações. simplista e desumanizadora. Para ele. Era a fase dos behavioristas mediacionais. 1999). Acreditando que todos os comportamentos eram reflexos. 2002). pois era observada apenas por uma pessoa (COSTA. pois tratava mente e corpo como sendo de naturezas diferentes (COSTA. limitada. Deparamo-nos aqui com o que poderíamos chamar de uma aproximação semântica kantiana. o Behaviorismo inicial começou a se modificar e a se ramificar. por isto. 181 . que se sustentava nas escolas filosóficas do positivismo e do realismo (BAUM. a reação do Behaviorismo apontava para o comportamento observável (por mais de uma pessoa) e a rejeição da experiência subjetiva imediata. não eram explicados satisfatoriamente e. As críticas na época (e que são anacronicamente reproduzidas atualmente) acusaram tal vertente behaviorista (Behaviorismo Metodológico) de ser bastante fisiológica. Tanto que o Behaviorismo Metodológico de Watson era tido como dualista. Essa revolução propunha que o objeto de estudo adotado pela Psicologia fosse o comportamento observável e que o método a ser utilizado para o seu estudo fosse o experimental. mas negou-lhe status científico ao afirmar que não podemos estudá-la pela sua inacessibilidade. impossível de ser apreendida. 2002). mecanicista. Watson adotou o paradigma pavloviano S-R (estímulo-resposta). uma vez que a inacessibilidade da mente a coloca como realidade metafísica e. ao modelo mecanicista (causa-efeito) de determinação do comportamento. assim. portanto. É importante atentar-se para o fato de que Watson não negou a existência da mente. Assim. eliminando o modelo introspectivo (BAUM. o ver e o sentir. diante do paradigma kantiano.

com os outros e com o mundo em que vive). o Behaviorismo Radical não é apenas Behaviorismo metodológico ou mediacional. que quer dizer levar ou trazer junto. a palavra adveio da junção de be e de have. A visão de homem a partir deste noção de comportamento é monista (ou. possui semelhanças e diferenças. em inglês. é selecionista (e. então. Insatisfeito com o dualismo e o mecanicismo destes neobehaviorismos. Skinner apresenta uma nova epistemologia ao behaviorismo: o Behaviorismo Radical. Essas interações são naturais e Skinner as chamou de comportamentos (MATOS. em português. 2002). que significa estar-ter algo que se carrega em si mesmo de um modo particular. à raiz do termo behaviour (comportamento). O Behaviorismo Skinneriano é denominado radical. logo comportamento é relação. adveio de comportare ou trazer junto. que tinham como representantes Tolman (1886–1959) e Hull (1884-1952) (COSTA. 1995. o comportamento produz aquilo que o determina (de um modo selecionista). BAUM. causariam o comportamento. pois não separa os eventos psicológicos em 182 . Este modo particular e único é a própria existência humana (interações do homem com ele mesmo. assim concebido. ou apenas Teoria de Campo. uma vez que há uma tendência a ignorá-la quando se fala em Behaviorismo: em espanhol. pois rejeita a existência de eventos mentais fictícios e aceita estudar todos os eventos comportamentais dos quais se inferem a existência desses eventos mentais fictícios. É interessante apontar esta raiz. portanto. adveio de conductus. 2002). não mecanicista): o ambiente. o seleciona. Comparativamente falando. holística). produzido como a conseqüência do próprio comportamento. 1999). indo. Os behavioristas mediacionais retomam uma visão idealista-subjetiva e dualistamecaniscista na qual os estímulos ambientais afetariam primeiramente o organismo a partir de processos mediacionais (cognitivos ou fisiológicos) que. da mesma forma que Gestalt-terapia não é apenas Psicologia da gestalt. em 1945. A determinação do comportamento. sendo portar equivalente a carregar. numa concepção Gestáltica.ou neobehavioristas. Em outras palavras. O paradigma adotado era o S-O-R (estímulo-organismo-resposta) (COSTA. portanto.

incluindo os eventos do mundo que são privados (pensar e sentir) e a experiência daquele que assim o evidencia e a tarefa do Behaviorismo Radical é analisar (descrever ou explicar) essa experiência como evento privado (e não como uma mente ou um self fictícios que teriam. isto aproxima Skinner da Fenomenologia: a evidência do mundo. Para Skinner. o que existem são processos comportamentais privados que têm a mesma natureza dos públicos). 31). sendo o comportamento uma função da vida. 1995. falar. E é sempre um organismo que. O comportamento é tudo o que o homem é ou tem e que “carrega consigo” de modo funcional: sentir. não existe separação entre interno e externo. Assim. o que eles chamaram de mediação são eventos comportamentais privados a serem explicados. seja “junta” ou “separada” do corpo. a evidência de que você existe também é meu comportamento. pensar. na totalidade. que tem a mesma natureza do comportamento público e do próprio corpo (ou seja. não existe uma “mente”. p.“mentais” e comportamentais. perceber. a conexão privado-mental ou privado-mediacional é rompida pelo Behaviorismo Radical. Discordando de Watson. “Ambiente é tudo aquilo que externo ao comportamento” e a relação entre ambiente e comportamento pode envolver interações com objetos ausentes e fatos passados. uma outra natureza). etc. 183 . 2002). na verdade nem é preciso que você exista. intuir. resolver problemas. “mente”. p. Para o behaviorista radical a evidência de que vejo você é meu comportamento diante da circunstância “você”. e que o modelo S-R é reducionista como explicação de todo e qualquer comportamento. Do mesmo modo. é evento privado do tipo pensar ou sentir. quando esses se utilizam de variáveis mediacionais como explicação (COSTA. E nem é preciso que você estejam presentes para que eu reaja ou “veja” você. não existe. Aquilo que se chama erroneamente de “mental”. Skinner afirma que grande parte do comportamento humano é operante e não reflexo. 1995. supostamente. 32). (MATOS. “comporta” tudo isto. Segundo Matos (1995). autoconhecer. discorda totalmente dos behavioristas mediacionais. como concebida pelo senso comum e pelas Psicologias dualistas. portanto. agir. já que independe de uma contigüidade espacial ou temporal entre os eventos que definem a relação (MATOS. Ao mesmo tempo. e estar consciente (ou não) disso tudo.

é feita verdade pelos eventos”. em Praga. emitido na própria experiência. todas as ações (ou respostas) de uma pessoa estão relacionadas às conseqüências que produzem dentro de um contexto específico que envolve o comportamento e as conseqüências do comportamento. A Análise do Comportamento vê a experiência como comportamento. Tem como principal autor Frederick S. Com isto. em Durban. Ela torna-se verdade. uma tentativa de complementar as “Resistências anais” de Freud. O conteúdo e o foco da Análise do Comportamento é o comportamentoem-contexto. Perls foi psicanalista durante alguns anos. Fome e Agressão”. entretanto. Em 1942. a evidência do comportamento-em-contexto é a experiência com ele nesse contexto. Segundo Pepper (1942). Perls (1893-1970) (MARTINS. o contextualismo é o modo sine qua non de compreensão do comportamento a partir de um critério de verdade que avalia a validade desta compreensão ao considerar uma rede de condições sob as quais o comportamento ocorre de modo contínuo e inseparável de seu contexto atual e histórico. com um critério de verdade. a ação e a condição conseqüente. A Gestalt-Terapia também foi desenvolvida no início do século XX. uma vez que o contexto tem grande importância também na nesta abordagem. foi um movimento da prática clínica surgido como uma reação à Psicanálise. pois. A verdade acontece a uma idéia. e depois de viver cerca de dois anos na África do Sul. emerge como figura em um fundo. No caso do Behaviorismo Radical. como escreveu James (1907. onde apresentou o trabalho “Resistências Orais”. 1985 e RODRIGUES. Isto aproxima o Behaviorismo Radical da Gestalt-Terapia. A unidade mínima da compreensão do comportamento operante é uma contingência de três termos: a condição antecedente. pois o fenômeno. participou do Congresso Internacional de Psicanálise. a verdade da análise está na sua função. 1998). que é contexto (RIBEIRO. Isto tem relação direta com o pragmatismo. publicou “Ego. Como dito. p.Assim. Todavia esse trabalho foi muito mal recebido pelos colegas psicanalistas da época. 2000). 61): “A verdade de uma idéia não é uma propriedade estanque inerente a ela. obra na qual destacou a necessidade da ingestão de “alimento” e sua 184 . que é um campo de ação humana. o contextualismo é uma metáfora-raiz que especifica. em 1936. Isto permite afirmar que a abordagem behaviorista radical é contextualista. uma visão de mundo.

Perls e seus colaboradores integram com inteligência e êxito estas teorias que até então estavam aparentemente isoladas (RIBEIRO. apenas “Gestalt-terapia” em 1997 (GINGER. assim como a agressividade como uma forma de satisfazer as próprias necessidades. 1985). e abordou a descrição. desta maneira. pois já trata de uma teoria do desenvolvimento humano. Franz Brentano (18381917) analisou a intencionalidade da consciência humana. Como visto anteriormente. um dos mais importantes títulos da Gestalt-terapia: “Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality” ou. com Ralph F. a Gestalt-terapia possui bases filosóficas que sustentam os princípios e métodos da Gestalt-Terapia. 1997). assim como Skinner. nos EUA. como foi publicado no Brasil. o Behaviorismo Radical se aproxima da Fenomenologia. Ele se coloca contra a separação de "sujeito" e "objeto". à vivência do que nos aparece enquanto fenômeno. a Teoria de Campo de Lewin e a Teoria organísmica de Kurt Goldstein. ao pensamento positivista da época (MATOS. enfatizando a importância no presente. tal distinção entre sujeito e objeto dão-se. O conhecimento nos lança. portanto. 2. A fenomenologia e o existencialismo ateu são as principais correntes filosóficas em que se baseou Perls para construir a Gestalt-terapia.1. Daí temos a intencionalidade da 185 . porque a consciência age sobre os objetos. Em 1951. GINGER. a polaridade. compreensão e interpretação dos fenômenos que se apresentam à percepção humana. A FENOMENOLOGIA A Fenomenologia nasceu na segunda metade do século XX. Esta obra pode ser considerada o preanuncio da fundação da Gestalt-terapia. A consciência manifesta-se diante alguma coisa. FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA GESTALT-TERAPIA Como o Behaviorismo Radical. Hefferline e Paul Goodman. nunca em separado do mundo fenomênico. 2. o corpo e a valorização da experiência pessoal.assimilação. 1995). logo se opondo. As Gestalt-terapia adota como teorias de base a Psicologia da gestalt. Perls publicou.

O objetivo é intuir a essência. uma vez que nosso psiquismo referencia-se no mundo dos objetos que se mostram a percepção consciente. pelo fazer parte de um mundo vivido. ao qual temos acesso apenas através da descrição. temos clareza que o “Eu humano” não se reduz a sua cognição mesmo dando a devida importância à ordem da consciência diante do mundo. seguidor de Brentano. entende que se deve “‘pôr entre parênteses’ o mundo empírico dos fenômenos. que a ótima fenomenológica. como um saber mais confiável e 186 . que aparece como objeto intencional da consciência. É pelo comportamento.consciência. percebe o todo do sujeito. para além do cartesianismo das “marionetes do pensamento”. Husserl (1859-1938). A atitude de investigação fenomenológica. por um ‘pôr fora do circuito’. 1988). segundo a qual eles são ‘fenômenos que têm em si intencionalmente um objeto’. de modo que consideramos a definição de Bretano. 1998). repreende a psicologia da época por adotar uma metodologia objetiva que abandou a subjetividade e a intuição. que o sujeito condiciona e alarga a sua intencionalidade. O que percebo não é a aparência de algo. ou redução fenomenológica. o que se manifesta-se o faz enquanto fenômeno. Ele afirma que a vida psíquica é um dado imediato. ou Epoché. uma vez que é justamente. uma busca pela essência do fenômeno. ou seja. cuja ‘realidade’ é naturalmente assegurada pelos exemplos” (HUSSERL. entendida em sede puramente descritiva como peculiaridade interna de certas vivências. representa para nós a determinação essencial dos ‘fenômenos psíquicos’ ou dos ‘atos’. permitindo a compreensão do fenômeno ou do processo. mas o próprio algo na sua manifestação. aquilo que surge à consciência. como uma definição essencial. Husserl entende suspender todo julgamento sobre o que o rodeia a fim de não reter disso senão o resíduo. No entanto. Sobre a intencionalidade da consciência anos escreve Husserl: “A referência intencional. pela pertença. O método fenomenológico se caracteriza como uma “volta às coisas mesmas”. Husserl propõe uma Fenomenologia que reúna os dados da experiência em sua totalidade (fenômeno) e o pensamento racional (logos) (MARTINS. o conteúdo imediato do fenômeno.

Opera-se com a fenomenologia um sujeito não reduzido a “etiqueta científica” do psicologismo. em verdade e melhor chega a ser. as idéias. O Eu humano acaba. Na perspectiva do existencialismo. são os próprios objetos considerados de determinado ponto de vista. não mais conceitual. o que essencialmente se quer significar é que o homem não tem uma ‘natureza ou essência’. Deve-se compreender o fenômeno. pois não se acham previamente existentes em lugar algum. é ‘feitura’ e ‘invenção’ da sua absoluta liberdade” 187 . 320-321). outros e etc. tornando-se um Eu concreto e mundano. 2. e não distante. 1950). Com a epoché fenomenológica. homem. tanto ontológica quanto epistemologicamente. mesmo que sejamos tentados a colocá-lo entre parênteses” (HUSSERL. Algo caro ao gestaltismo. A fenomenologia é. e que continuará a permanecer como ‘realidade’ para a consciência. 2001). e não tentar entendê-lo isoladamente (coisa em si). quanto em relação ao conhecimento. isso quer dizer tanto em relação ao ser. As idéias. portanto. todo o mundo natural. mas um “eu puro” e de vivências. O EXISTENCIALISMO ATEU Em oposição às filosofias que se poderiam chamar ‘essencialistas’. neste empreendimento. mas vivencial. são contemporâneas dos objetos. em sua universalidade e não em sua particularidade. ou à realidade. ou as “essências”. dentro do contexto em que ele emerge e suas relações com os outros fenômenos (o si da coisa).2.sem preconceito” (HUISMAN. também do behaviorismo radical. que está constantemente ‘aqui para nós’. 2007.). portanto. “Quando algum filósofo existencialista afirma que ‘a existência precede a essência’. mas que o que o homem é. uma descrição das estruturas gerais da consciência do “sujeito transcendental. portanto: “Colocamos fora de ação a tese geral inerente à essência do comportamento natural. p. ‘a nossa mão’. ou essências. colocamos logo entre parênteses tudo o que ela abraça sob o aspecto ôntico: portanto. o existencialismo parte do pressuposto de que a existência é anterior à essência. fundado a partir de sua existência. que é condição ONTOLÓGICA de possibilidade das experiências humanas concretas nos diversos níveis e regiões da realização da existência” (SÁ. não são anteriores aos objetos (coisas.

p. ANTISIERI. colocava de lado qualquer sistematização da realidade. 2008. desenvolveu suas idéias a partir de sua experiência pessoal. Para Kierkegaard. forma-se uma rede de escolhas. O Existencialismo permitiu que a metodologia fenomenológica se concretizasse por meio da aplicação dessa metodologia nas questões da existência humana. mas ser um projeto que se está vivendo. Além disso. No existencialismo sartreano atingimos o “nós” por meio do outro. Com isso. sendo este projeto uma escolha.(CORDÓN. 188 . Nós nada somos sem o reconhecimento do outro. Sartre afirma: “o homem antes de tudo é um projeto que se vive subjetivamente”. e enfatizava a subjetividade e a existência humana. considerado como o pai do existencialismo. 229). Somos (enquanto pessoas) responsáveis pelas escolhas de toda humanidade. mas um indivíduo que na sua existência exerce-se em subjetividade. O conceito de um homem acaba por ceder aos modos possíveis de ser (BORIS. está também apontando para como todas as outras pessoas também devem escolher. faz dele responsável por aquilo que é. Kierkegaard (1813-1855).130). a pessoa que escolhe também está condenada às escolhas de outras pessoas. 1990). a pessoa ao escolher. Sartre (1905-1980). a própria humanidade. É nesta intersubjetividade que se dá o julgamento de nós para com nós mesmos e para com o outro. nos traz a noção de “projeto” (o homem como responsável pela construção de sua essência) e de “responsabilidade” (o homem responsável por suas ações e decisões). p. não existe o absoluto hegeliano. Dessa forma. um dos grandes nomes do existencialismo ateu. de responsabilidade do próprio homem. Tal concepção de alteridade lança-nos a compreender o outro como aquele que antes nos vê. em um olhar-alheio que em minha consciência me instaura a necessidade a priori de modificar minha experiência. O outro é o caminho para nossa existência como humanidade. Meu projeto esvaísse de meu pertencimento. mas também para toda a humanidade. Da mesma forma. o homem ao fazer suas escolhas não escolhe apenas para si mesmo. o que nas palavras do próprio Sartre: “Minha queda original é a existência de outro”. Entender o homem como um projeto. 1995. (REALI. Não significa ser aquilo que se quer ser. MARTÍNEZ. no entendimento existencialista. da mesma forma que se dá a empatia o reconhecimento mútuo.

o homem está também escolhendo por uma moral. 1973). Como já foi dito. O homem tem total liberdade para escolher em que vai se tornar. Logo não há como fugir da escolha nem da moral.“O homem é. “Situação que me parece poder caracterizar dizendo que o homem é condenado a ser livre. está condenado em cada momento a inventar o homem” (SARTRE. nada existe antes deste projeto: nada existe no céu inteligível. isto possibilita alguns desdobramentos: 1) O homem não pode passar a responsabilidade de sua condição existencial a uma entidade (essência)..) [O existencialismo] pensa. no existencialismo sartreano.) E quando dizemos que o homem é responsável por si próprio. é responsável por tudo aquilo que faz.. (.. e por conseqüência a humanidade. e mesmo assim nem menos livre porque. logo o Behaviorismo Radical se opõe ao realismo 189 . em vez de ser musgo. 2) Não há nada que determine suas ações. que o homem. O homem. a existência precede a essência. pois escolher é se comprometer. Não aquilo que quiser ser. FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DO BEHAVIORISMO RADICAL O Behaviorismo Radical se estabelece dentro do contexto da tradição filosófica do pragmatismo e da fenomenologia. 3) O homem faz de si o que é. a escolha sugere um compromisso com a humanidade. Por um lado. depende do desejar que os outros também sejam livres. um projeto que vive por si mesmo subjetivamente. sem apoio ou auxílio. se o homem quer ser livre. o homem será em primeiro lugar aquilo que tiver projetado ser. em primeiro lugar. 1973).. portanto. Condenado porque não se criou pó si mesmo. Com isso. podridão ou couve-flor. Ao escolher um projeto de vida. a liberdade do homem não depende de outro homem. 3. não entendemos que o homem é responsável por sua individualidade estrita. a não ser suas próprias escolhas dentro de um contexto histórico-cultural. as minhas escolhas passam a ocorrer também a partir das coisas que quero para o outro e não apenas do que quero para mim. no exercício de liberdade. uma vez jogado no mundo. ou seja. (. está condenado (a) as suas próprias escolhas. e por outro existe um compromisso entre os homens dentro de suas escolhas. mas que ele é responsável por todos os homens” (SARTRE. Com isso. Dessa forma.

Para William James (1842-1910) e Ernst Mach (1938-1916). Perguntas que não fazem diferença para a nossa compreensão. desde que possamos falar sobre um evento em termos familiares.1. concentra-se na tarefa de compreender nossas experiências. O mundo externo é considerado objetivo. concepção adotada por muitos cientistas anteriores ao século XX e pelo behaviorismo metodológico do começo deste século. Bertrand Russell argumentou que a ciência deve proceder raciocinando a partir de dados sensoriais sobre o que deve ser o universo objetivo. indiretamente conhecido. não haverá descrições da fenomenologia. Ao invés. esse processo de unificar várias partes de nossa experiência é o que constitui a explicação. Nesta parte. como as perguntas sobre a existência de um universo real fora de nós ou se Deus existe. 1999). Novamente. Porém. a comunicação . enquanto o mundo da experiência interna é considerado subjetivo. mas apenas de nossa experiência interna.é exatamente o mesmo que explicar. não merecem ser respondidas. a ciência consiste na descoberta da verdade sobre o universo objetivo. O PRAGMATISMO E O REALISMO O pragmatismo contrasta com o realismo. Nossas experiências do mundo real são explicadas quando nosso raciocínio nos leva á verdade última sobre ele (BAUM. O realismo sustenta que há um mundo real fora de nós e que esse mundo real externo dá origem a experiências internas em cada um de nós. que nos é dada pelos sentidos. ao contrário. não faz nenhuma suposição sobre um mundo real externo. vale lembrar o veto kantiano sobre a impossibilidade de acesso as realidades de ordem metafísica (BAUM. Ele sustentava que. em vez disso. No realismo.e ao positivismo. como não temos conhecimento direto do mundo externo. Não há verdade última absoluta.1. 1999 e COSTA. não merecem atenção. Perguntas e respostas que nos ajudam a entender que o que acontece à nossa volta é útil. uma vez que já se foi tratado sobre isso no item 2. O pragmatismo. organizá-las ou compreendê-las. falar de maneira eficaz sobre nossas experiências isto é. 2002). ele estará 190 . Na visão de Mach. 3. a verdade de um conceito reside em sua capacidade de articular parcelas da nossa experiência.

1963). Para o realista. A NOÇÃO DE LIBERDADE NO BEHAVIORISMO RADICAL A idéia de que o comportamento pode ser tratado cientificamente continua controversa. 3. o behaviorismo metodológico (de Watson) se baseava no realismo. nessa mesma medida explicação e descrição são a mesma coisa: A ciência descobre apenas conceitos que tornam nossa experiência mais compreensível (BAUM. Na medida em que falar sobre eventos em termos familiares é chamado de descrição. sua utilidade. conseqüências. Descrições pragmáticas do comportamento incluem seus fins e o contexto no qual ocorre. porque desafia a noção de que ele provém apenas da livre escolha do indivíduo. o behaviorista metodológico tenta descrever os eventos comportamentais em termos tão mecânicos quanto possível. Para os resultados. O pragmatismo é definido por James como um método que consiste na “disposição de tirar o olhar das coisas primeiras. o mais próximo possível da fisiologia. termos descritivos tanto explicam quanto definem o que é comportamento (BAUM. e esse comportamento real é acessível apenas indiretamente. através dos sentidos. em vez disso. ou seja. James por sua vez compreendia a verdade como uma capacidade de “operar”. Para o behaviorista radical. Algo que revelará importância tanto para o comportamentalismo quanto para a gestalt (REALI. Enquanto o behaviorismo radical se baseia no pragmatismo. dos princípios. Consequentemente. das pretensas necessidades. 2008:86). desta forma torna-se um instrumento adaptativo. A mente. 1999). O determinismo afirma que toda ação humana se explica pela relação do homem (dentro de sua herança genética e história de vida) com o mundo em que vive. O behaviorista radical. 1999). que tem por escopo a melhoria da condição vital dos indivíduos. das ‘categorias’. busca termos descritivos que sejam úteis para a compreensão do comportamento e econômicos para sua discussão. ANTISIERI. e olhar ao contrário para as coisas últimas.explicado. O termo “livre-arbítrio libertário” designa a suposta capacidade que tem o 191 . o comportamento real ocorre no mundo real. fatos” (JAMES.2.

diga-se em seu caráter eidético. não foi capaz de identificar todos os fatores que guiam os comportamentos humanos. 1999). não se permite acreditar que eventos naturais. O determinismo afirma que o “livre-arbítrio libertário” é uma ilusão fundada na ignorância dos fatores que determinam o comportamento humano (relações do homem com ele mesmo. 1999). se pratica a redução fenomenológica. DISCUSSÃO Após as breves explicações acerca das bases filosóficas da Gestalt-terapia e do Behaviorismo Radical é possível iniciar uma discussão abordando os pontos de encontro e afastamento de ambas as correntes. como as ações humanas. Ambas as abordagens são sustentadas pela fenomenologia. 1999). prefere acreditar que esses fatores naturais ainda não foram todos descobertos. com os outros e com o mundo). imaginação e etc. como o “livre-arbítrio libertário” ou o inconsciente freudiano. sem levar em conta sua herança genética e sua história de relação com o mundo (BAUM. não são úteis (pragmáticos) para a compreensão das ações humanas. já que o próprio comportamento de “tomar decisão” é um fator de condução do comportamento (BAUM. não-naturais ou aleatórios. A fenomenologia é adotada pela Gestalt-terapia como pressuposto epistemológico e como método. Porém. Já no Behaviorismo Radical além dos 192 . que ainda está nascendo. além de considerarem as possibilidades de estudo dos fenômenos privados (ou subjetivos) de cada pessoa. assim como todas as formas de intervenção nesses fatores. pois acreditam na inseparabilidade de sujeito e objeto. ou seja. tenham fatores fictícios. emoção. 4. nem econômicos para sua discussão (BAUM. lembrança. sentimento. ainda muito pequena. para a compreensão do fenômeno. baseada no Behaviorismo Radical. A Ciência do Comportamento. Não pode-se perder de vista também que esses fatores não-naturais. como sonho.homem de escolher como agir. Por outro lado o determinismo acredita na capacidade humana de auto-identificar fatores que estão determinando comportamentos e alterar esses fatores. essa ciência. muito menos todas as formas de alterar esses fatores.

para depois se definir como homem).pressupostos epistemológicos. No Behaviorismo há muitas idéias também presentes no existencialismo ateu. podemos dizer que a Gestalt-terapia não se preocupa em se alinhar diretamente com nenhuma das duas. 2) o homem se responsabiliza pelo que escolhe. a possibilidade de teorização absoluta da realidade não é aceita. Porém a Gestaltterapia tem uma tendência velada de ser prática. há também a busca da função do fenômeno. 4) o Behaviorismo Radical leva em consideração a história de vida particular do indivíduo assim como o contexto histórico-cultural. tenda-se compreender o contexto em que ele ocorre (redução fenomenológica) e também em função de que tal fenômeno ocorre. mas a função e o contexto do fenômeno. como: 1) o homem tem poder de decidir sobre suas ações dentro das conseqüências que elas trarão para si e para outros. como o próprio nome diz. e também é responsável por si mesmo e pelos outros. já o existencialismo ateu. há explicações para o comportamento humano. nem pela Gestalt-terapia. há apenas uma divergência relevante do Behaviorismo Radical com o existencialismo ateu: no Behaviorismo Radical não há negação. surge no mundo. nem pelo Behaviorismo Radical. O conceito de liberdade em ambas as abordagens possui alguns pontos em comum: 1) o homem é livre para decidir sobre suas ações dentro das conseqüências que elas trarão para si e para outros. já que são correntes filosóficas norte-americanas. Por outro lado. ou seja. Neste caso não se busca causas para o fenômeno. 2) existem fatores que guiam a tomada de decisão do homem. segundo a fundamentação de Kierkegaard. presentes na análise funcional. Quanto às discussões das correntes filosóficas do pragmatismo e do realismo. ou seja. nega a existência de Deus como pressuposto. não está preocupada em explica e sistematizar a realidade. Logo. ou seja. da existência de Deus. há pontos de afastamento: 1) a Gestalt-terapia não aceita a possibilidade de se 193 . e a Gestalt-terapia tem suas bases fincadas nas filosofias européias. e da redução fenomenológica. ele não se torna homem (ou pessoa) antes de se relacionar com o mundo (O homem existe no mundo. aplicada e vivencial. mas em apresentar sustentações teóricas que sejam úteis para a compreensão dos fenômenos que emergem. ou seja. Todavia. nem confirmação. 3) O homem se constrói na relação com o mundo.

a Gestalt-terapia defende que tal idéia é impossível de se alcançar. logo. no sentido de investigar as aproximações das práticas psicoterápicas de ambas as abordagens. já que estas são baseadas no Behaviorismo Radical e são amplamente utilizadas na prática clínica atual. já que é impossível conhecer todos os fatores de controle do comportamento. apesar de terem origens históricas separadas. 194 .FAP) de Kohlenberg e Tsai (2001) e da Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy ACT) de Hayes (1999). CONCLUSÃO Após essas discussões. Outros estudos podem ser elaborados. 5.conhecer todos os fatores que controlam o comportamento. 2) já o Behaviorismo Radical considera que além de poder conhecer todos esses fatores é possível controlá-los. acabaram se encontrando em alguns pontos dos pressupostos epistemológicos. principalmente no que tange a prática da Psicoterapia Analítico Funcional (Functional Analytical Psychotherapy . concluímos que a Gestalt-terapia e o Behaviorismo Radical. como o Behaviorismo Radical afirma.

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no lugar das atitudes de exclusão daqueles que fugiam as regras de “normalidade” em hospitais psiquiátricos. falhado ou desarticulado. imediatamente apareciam como principais locais de atuação um consultório particular. que recebiam o rótulo de “doentes mentais”. resultando em uma outra forma de ajustamento. Perls (1942) afirma estar trabalhando em uma pesquisa sobre o que ele chamou de mal funcionamento do fenômeno figurafundo. Ele acreditava que todo ajustamento neurótico é um fenômeno figura-fundo e que a psicopatologia é um mal funcionamento deste fenômeno. PONTOS E TEATRO: POSSIBILIDADES E DESAFIOS NO CAMPO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL INTRODUÇÃO Há alguns anos atrás quando pensava-se sobre os locais de possível atuação de um psicólogo.estudos recentes dos autores Marcos e Rosane Muller-Granzotto em seu artigo “Clínica dos ajustamentos psicóticos.GESTALT-TERAPIA. Em todo o mundo iniciaram reflexões. portadores de transtornos mentais e seus familiares. os chamados “loucos” saíram do cárcere desses hospitais. o chamado ajustamento psicótico28. debates. nas psicoses em geral e particularmente na esquizofrenia. cuja abordagem teórica norteadora é a gestalt terapia. delírios ou de identificação de um fundo que está ausente. uma intervenção ludoterâpica ou a aplicação de avaliações psicológicas. Na obra “Ego. 197 . lutando por uma reinserção familiar e principalmente social. fóruns e movimentos de profissionais de saúde. Porém neste mesmo trabalho ele afirma que era cedo para afirmar os resultados de sua pesquisa. A abordagem gestáltica aparentemente era limitada ao atendimento aos chamados neuróticos e todos os portadores de alguma psicopatologia. que acabou não tendo resultados conclusivos. uma proposta a partir da Gestalt-terapia” (2008) relatam a possibilidade de substituição da nomenclatura ajustamento psicótico pelo termo ajustamento de busca. Essa busca significaria nesta expressão o trabalho criador de alucinações. estavam fora da lista de possíveis clientes. 28 Tentativas socialmente integradas de organização do fundo de excitamentos espontâneos. Fome e Agressão”. Nas últimas décadas a sociedade tem sofrido uma metamorfose.

Essa gestalt fixa existente no leque de atuações dos gestáltistas. preconceitos. foram reconhecidos socialmente como sujeitos de direito e que necessitavam de novos direitos. daqueles que por algum motivo psíquico ou neurológico não se ajustavam às regras da sociedade. e as pessoas antes excluídas. Houve o reconhecimento dessa nova situação. 198 . um processo éticoestético. mas mostrou-se necessário uma reestruturação sobre o olhar dos profissionais sobre suas próprias limitações.” (Amarante. Essa reestruturação.Essa luta pelo fim da exclusão em manicômios. visando a promoção da saúde de portadores de transtornos mentais. de novas e modernas terapias: torna-se um processo complexo de recolocar o problema. “Nesse sentido.p. tem investido em um olhar de desinstitucionalização sendo esta a mola propulsora de nossa reforma psiquiátrica. O Brasil seguindo o exemplo da experiência bem sucedida de Franco Basaglia. novos sujeitos de direito e novos direitos para os sujeitos. 2009. de reconhecimento de novas situações que produzem novos sujeitos. se espalhou por vários países. que teve um amplo reflexo em toda a sociedade. de reconstruir saberes e práticas. teve que ser quebrada para dar lugar a um novo fechamento em conformidade com as novas relações estabelecidas na sociedade. Por isso é.1) Dentro deste contexto de desinstitucionalização os gestáltistas precisaram ajustar-se criativamente. descrita por Paulo Amarante na citação acima. tem conquistado na última década um número considerável de profissionais que apóiam este movimento e lutam por uma inclusão psicossocial. que embora já tenha 30 anos no Brasil. acima de tudo. de serviços. não se limitou à visão e atuação com os clientes portadores de transtornos mentais. foi necessário reestruturar-se para participar dessa reconstrução de saberes e práticas. de estabelecer novas relações. desinstitucionalização não se restringe à reestruturação técnica. tabus e em especial sobre a “fábula” construída de que eram limitados à atender os chamados neuróticos.

” (Polster. você percebe que tal afirmação não é incoerente como pode parecer ao primeiro olhar. este paciente deixa de ser apenas passivo de nossas intervenções e passa a ser ativo. deve-se ficar claro que o que acontece psiquicamente com um desses pacientes não é tão diferente de nossos pacientes de psicologia clínica em consultórios particulares. Quando você vivencia a experiência de trabalhar em um CAPS. pois essa deve ser nossa principal meta. confiando que quando ele obtiver um senso claro do que está acontecendo dentro de si. os chamados neuróticos a vivência dos usuários de CAPS tem 199 . pelas oficinas que quer participar de acordo com sua subjetividade. seu próprio senso de direção o impelirá para a experiência que deve vir a seguir. “Essa ênfase na própria experiência.34) Para muitos pode parecer algo incoerente.2001. que presumivelmente sabe menos. neste trabalho. as oficinas terapêuticas que são coordenadas por técnicos que compõem a equipe multiprofissional do CAPS e visam criar espaços onde o paciente pode expressar-se e optar dentro de seu projeto terapêutico. e está ação por si só torna-se algo terapêutico. Esta proposta de atendimento tem como instrumentos adicionais ao acompanhamento médico. para colocar algo sobre outra. porém compreender como ele vivencia sua própria patologia é o primeiro passo para auxiliá-lo na promoção de sua saúde e sua qualidade de vida. dizer que um usuário de CAPS portador de alguma psicopatologia pode penetrar em sua própria experiência e obter um senso claro do que está acontecendo dentro de si e através disso encontrar a direção que deve seguir. que presumivelmente sabe mais. Em vez de brincar com jogos de adivinhação intelectual.METODOLOGIA Tendo em vista a necessidade de uma proposta de inserção social dos pacientes advindos dos hospitais psiquiátricos e portadores de transtornos psiquiátricos graves que necessitam de um atendimento intensivo ou semi-intensivo. criou-se o CAPS – Centro de atenção psicossocial. Miriam. Polster. e não na sua interpretação reflete o espírito de protesto contra o autoritarismo que dá poder a uma pessoa. Assim como.p. Quando damos à possibilidade de escolha. Erving. preferimos que um paciente penetre em sua experiência.

mas sim entendido a partir de como o paciente relata sentir-se com aquilo. que só temos acesso quando nos colocamos a disposição de auxiliarmos a cada paciente a encontrar o seu senso de direção. o conteúdo expresso no desenho. “A função do terapeuta é assegurar direito de cidadania aos ajustamentos psicóticos produzidos pelos consulentes . de acordo com o seu modo de vida. Para tanto. uma coerência subjetiva e riquíssima. optamos por um trabalho que utilizasse esses instrumentos como metodologia de nossa oficina terapêutica.000 habitantes.estejam estes ou não em surto. que não deve está direcionada aos “achismos” do que parece ser o melhor para o paciente. porém utilizando no lugar dos mitos contos infantis. também da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro.um significado único. que culminou em uma oficina terapêutica em um CAPS II29 de um município da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro e em um trabalho apresentado no I Congresso Brasileiro de Saúde Mental em 2008.Atende pacientes que necessitam de um acompanhamento intensivo e semi-intensivo nos municípios que possuem menos de 70. contos contados pelos pacientes que fazem de sua história de vida e histórias criadas pelos mesmos. Por isso. o que de forma alguma se confunde com a 29 CAPSII. E devem ser valorizados. Considerando que os delírios e alucinações são constantes nos usuários do CAPS.000 habitantes. não interpretados pela singularidade do terapeuta. 30 200 . Ao concluir o curso de graduação e iniciar meu trabalho como psicóloga trabalhando em um CAPS I30 de um outro município. Dentro das possibilidades de entrar em contato com o mundo desses pacientes. Inspirada pela experiência enquanto estudante de psicologia. na pintura e na expressão corporal são enriquecedores em nossas intervenções terapêuticas. decidi iniciar uma oficina semelhante à de minha experiência anterior. devido nosso interesse pessoal na expressão corporal e nas artes cênicas.apropriado para municípios com um número superior a 70. os terapeutas devem poder promover o deslocamento seguro dos ajustamentos com menor poder de contratualidade para ajustamentos com maior aceitação social. CAPS I.de nossos pacientes. compreendemos que a arte é um instrumento que nos aproxima do conteúdo presente no modo de “ser no mundo” . mas sim por ações que colaboram para sua qualidade de vida. em um grupo de estudo sobre mito e teatro.

corpo. 201 .” (Muller-Granzotto. seus ajustamentos psicóticos nos contextos nos quais se insere. tecidos. os leva a um novo olhar sobre a mesma. de apoiar o consulente para que este possa fazer valer seu modo de vida. Muller-Granzotto. porém que eles nunca haviam tido a experiência de visualizar-se enquanto um dos personagens.eliminação dos ajustamentos psicóticos em proveito de um padrão de comportamento adaptado. TNT e materiais reciclados.24) Tendo em vista nossa função enquanto gestalt-terapeutas no trabalho com pacientes portadores de transtornos mentais. Durante este debate os pacientes verbalizam o que compreenderam sobre a história. Trata-se. em última instância. p. Mergulhamos no conteúdo expresso. vendo o mesmo tomar forma. cores e transformando-se em algo comum ao grupo através da expressão corporal e das artes cênicas. utilizando sua imaginação como senso norteador para suas escolhas. máscaras feitas pelos próprios pacientes. Marcos. descrita na citação acima. contextualizando-a com sua história de vida. 2008. DEMONSTRAÇÃO DO MATERIAL Podemos observar que quando os pacientes participam da oficina de contos e teatro e compartilhamos com o grupo contos infantis ou histórias que já são conhecidas pelos mesmos. Cada encontro do grupo é singular. Rosane. com estes materiais os próprios pacientes criam o figurino de cada personagem. a interpretação em forma de peça teatral. Na oficina utilizamos fantasias. com a sociedade e contemporaneidade. Em todos os encontros antes de dividimos as tarefas para apresentação da peça. Nesta oficina os pacientes também tem a oportunidade de criar ou contar uma história e participam da encenação da mesma ou a vêem sendo interpretada na oficina. O que. ao contrário. freqüentemente neurótico. ilustra o caráter também “político” do trabalho de acompanhamento terapêutico de pessoas que se ajustam psicoticamente. promovemos um pequeno debate sobre a mensagem que a história relatada traz. também chamados de psicóticos. mostra-se como um modo de fazer valer o modo de vida e dos chamados ajustamentos psicóticos dos pacientes através da arte. Entendemos que a utilização dos contos e das artes cênicas.

p. (Ciornai. assim como na citação acima de Hernáez afirma.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA “A afinidade da Gestalt terapia com as artes existe desde o seu começo Frederick Perls trabalhou em teatro. 2009. sino como un intento de rescatar el mundo social de estos actores”.1) A utilização de contos e do teatro não é algo novo para os gestalt-terapeutas. (Hernáez. investimos nesta proposta terapêutica.2) Assim como os pacientes interagem de forma criativa interpretando os contos que ouvem na oficina.2) Enquanto profissionais da área psi. Angel M. “Ajustamento criativo e contato são conceitos chaves na Gestalt terapia pois implicam não apenas em “ajustamento” mas em “ajustamento criativo” e não só em “contato “ mas em “contato criativo”. os pacientes tem um contato criativo com a sociedade. Pautada nestes pressupostos teóricos e crendo na possibilidade e importância da reinserção social e familiar dos portadores de transtornos mentais..Selma 1995. mas sim evidenciar as qualidades advindas da singularidade de cada 202 . ele acreditava que a da interpretação de vivências de nossos pacientes em si era uma técnica terapêutica. teve aulas de pintura .” (Ciornai. Resultante deste ajustamento criativo. Laura Perls estudou dança e Paul Goodman era poeta e escritor”. “Poner en evidencia la lógica social de la exclusión no debe entenderse como un argumento contradictorio con el enfoque característico de las ciencias “psi” de interpretar el aislamiento y retraimiento sociales de los afectados como resultado de su enfermedad de base. não podemos colocar em evidência a lógica social da exclusão tão contraditória. que por tanto tempo foram lançados a margem da sociedade. já que o próprio Perls sofreu uma importante influência do psicodrama de Moreno.p.p.Selma 1995. e muitas vezes utilizava recursos de expressão artística em seus trabalhos. esse mesmo ajustamento criativo se maximiza para seu cotidiano.

“Através da visão gestáltica.junto os dados da fronteira de contato – a história que ele não pode reter ou espontaneamente arranjar. ou não se apresentaram. relacionando-os com o self e o dito mal funcionamento do processo figura-fundo. p. Acreditamos que aquela é a melhor configuração possível do sujeito naquele momento.sujeito que não se resume a um rótulo. diante do dado. E é somente desta forma que poderemos “penetrar em sua paisagem”com sua. enquanto psicólogos. a uma patologia. 2008. Rosane. dentro de seus ajustamentos psicóticos. se apresentaram de modo desarticulado. 203 . ainda. 2008. MullerGranzotto. Marcos. O ajustamento psicótico não é uma doença.nos ajustamentos psicóticos. p.. “.” (Muller-Granzotto.. a medida que sua forma de ajustamento “a sua paisagem”. o self inventa.182) A busca por os pontos positivos e transformadores que cada um dos nossos pacientes. há ali um potencial criativo que constrói como pode sua forma particular de estar no mundo. que mesmo diante de tantas limitações. essa invenção vem substituir os excitamentos que. há um intenso trabalho de criação na fronteira do contato. por fim. é a teoria dos ajustamentos psicóticos. E é somente desta forma particular de estar no mundo. pode ser entendida como uma ação de promoção da saúde dos mesmos. é entendida como uma forma particular de estar no mundo. mesmo diante dos limites e dificuldades mais severos. Embora haja uma lacuna a ser preenchida no que diz respeito ao olhar gestáltico sobre o trabalho com portadores de transtornos mentais.11) Esta teoria apresenta um direcionamento para o nosso pensar.”(Pereira. como reflexo daquilo que o constitui e. em um caminho rumo a formas de encontro mais saudáveis e genuínas. acompanha-lo deste ponto em diante. Ele também é um ajustamento criador. uma das teorias que mais se aproxima das “pistas” deixadas por Perls sobre o trabalho com a psicose. O nosso objetivo deve ser resgatar o mundo social de nossos pacientes e não reforçar a cultura de exclusão.. podemos perceber o positivo.. É uma forma de viver face às condições de campo que a ele se impõem e que tem relação com um funcionamento atípico da função do id. o potencialmente transformador. Quando bem-sucedida. Nos ajustamentos psicóticos. ou se apresentaram de modo falhado ou. sobre como o trabalho com pacientes portadores de transtornos mentais pode ser compreendido teoricamente pautado nas diretrizes e conhecimentos gestálticos.

Sabemos que os pacientes portadores de transtornos mentais. A. trata-se de artigos que assim como este. A prática tem nos impulsionado à busca do preenchimento da lacuna teórica. dos quais mesmo sendo diferentes dos ajustamentos neuróticos. Podemos não obter como resultado final uma reintegração da personalidade. tem a sua personalidade fragmentada e que não apresentam um prognóstico de cura apenas de remissão ou estabilidade de alguns sintomas. uma nova organização. No momento. a maior parte do suporte teórico e de produções científicas nesta área. Mudamos a organização de uma gestalt fixa. porém conquistamos uma reestruturação.AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS Diedrich. tem como ponto de intercessão seu fator criativo. assim como dos futuros psicólogos que se interessam pelo campo de atenção psicossocial e pela abordagem gestáltica. descrevem uma experiência prática bem-sucedida da união desses pressupostos teóricos. é algo que está sendo inserido recentemente na saúde pública e que tem dados bons frutos. por isso muitas vezes ocorrem restrições de atuação terapêutica e inserção deles na sociedade. Acreditamos que posteriormente teremos mais pesquisas sobre o tema que favoreceram a capacitação dos psicólogos para atuarem nesta área. A utilização de contos e teatro sob o olhar gestáltico em oficinas terapêuticos com usuários do CAPS. para ter como fruto um novo direcionamento respeitando. 204 . (p. Com este trabalho cremos que contribuímos para quebra de alguns tabus e para reaproximação e reinserção social e familiar destes usuários. porém os ajustamentos psicóticos.385) comenta que Perls em seus seminários relatava que na dramatização há uma reintegração de fragmentos da personalidade e a reestruturação da mesma.

A arte pode derrubar barreiras. porém que necessita de adubo e cuidados. A oficina descrita neste artigo é apenas uma de muitas possibilidades de atuação dos psicólogos gestaltistas no campo da Atenção Psicossocial. fantasias e lembranças reprimidas de sua infância e presentes muitas vezes em suas alucinações ou delírios. com o objetivo de preencher está lacuna que existe entre nossa produção teórica e nossa prática gestáltica na área de saúde mental. É algo que deve ser estudado e debatido pelos gestaltistas. que também pode ser chamado de ajustamento psicótico. Expressando e libertando algo que antes estava enclausurado em suas mentes. pois mostra-se como um campo fértil de trabalho. o que é um desafio constante dos profissionais de saúde engajados na reforma psiquiátrica brasileira. definir pontos de intercessão e dissolver desigualdades e preconceitos. como era chamado por Perls. 205 .COMENTÁRIOS Podemos observar que os participantes da oficina entram em contato com sonhos. Devemos investir em produções científicas que explorem este tema. Esse chamado mal funcionamento do fenômeno figura-fundo.

Acesso em: 04 de maio de 2009. nº1. Gestalt-terapia e saúde mental: contribuições do olhar gestáltico ao campo da atenção psicossocial brasileira. Pereira. Acesso em: 04 de maio de 2009. Perls. 206 .3-25. “Ego. Revista IGT na Rede.1.igt. no I Encontro Goiano de Gestalt Terapia.psc. Disponível em: http://www. Muller-Granzotto. Selma. 2002. Angel M. Talent Is the Ability to Be in the Present’: Gestalt Therapy and George Tabori’s Early Theatre Practice. Brasileiros de Saúde Mental. Cad.psc. Vol. p. Más Allá De La Rehabilitació Psicosocial Metáforas de exclusión y tareas de inclusión. nº1. 1942. p. Edição especial anais do I Congresso Brasileiro de Saúde Mental “Perspectivas em Saúde Mental: Diversidade e aproximações”. v. Clínica dos ajustamentos psicóticos: uma proposta a partir da Gestalt-terapia. n. 1995 Diedrich. Mabel.br.1. Vol. Disponível em: http://www. v. Florianópolis: Abrasme: jan-abril.5. Frederick. Antej. George Boris. Marcos José. Rosane Lorena.2009 (CD-ROM) Müller-Granzotto.º8. 2008. Relação entre criatividade e saúde na Gestalt Terapia. Revista IGT na Rede. Brasileiros de Saúde Mental.igt. 2008. publicada em 1995 na Revista do ITGT (Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt Terapia) nº 1 . Goiânia.5. nº9. Edição especial anais do I Congresso Brasileiro de Saúde Mental “Perspectivas em Saúde Mental: Diversidade e aproximações”. Fome e agressão”. Trad. Palestra apresentada em 1995. Florianópolis: Abrasme: jan-abril. Hernáes.REFERÊNCIAS Amarante. Reforma psiquiátrica e Epistemologia. Paulo.Cad.2009 (CD-ROM) Ciornai. São Paulo: Summus.168-184.br.

plantão psicológico. Relata experiências das autoras no âmbito do estágio supervisionado em psicologia da Faesa/ES. em atividade. M.GESTALT-TERAPIA: APONTAMENTOS PARA A PRÁTICA NO CONTEXTO HOSPITALAR CAMACHO. gestalt-terapia. hospital. M. pré-parto. Palavras-chaves: psicólogo. Apontamos a importância da prática para a formação do psicólogo e a pertinência do plantão psicológico como lócus da escuta psicoterápica. Incluímos aqui as Abordagens da Gestalt-Terapia e Centrada na Pessoa as quais tem as autoras desse artigo como docentes responsáveis. um projeto31 que se encontra na matriz fenomenológica apresentando-se como nova forma de prática O projeto se refere ao ORELHINHA: escutando a criança no HIMABA (Hospital Infantil de Vila Velha) elaborado em 2006 como espaço de realização de estágio supervisionado em psicoterapia oferecido pela Gestal-terapia e Abordagem Centrada na Pessoa e.R. pré-cirurgico e grupo com profissionais e com mães. desde então. ou seja. Enfermarias da Maternidade. 31 207 . A postura fenomenológica permeia a atuação nesses espaços sendo disponibilizada à população hospitalar. É nessa interface que emerge o projeto de estágio para o Hospital Infantil de Vila Velha/ES.. A metodologia segue uma organização dos estagiários nos setores do hospital – UTI Neonatal. O campo de estágio é o Hospital Infantil de Vila Velha/ES. Este artigo tem por objetivo apontar fundamentos conceituais da Gestalt-terapia que tem sustentado a prática psicológica no espaço do hospital. ARRIVABENI. formação do UMA PROPOSTA DE ESTAGIO CURRICULAR É no contexto do curso de formação do psicólogo oferecido pela Faesa/ES que se insere a oferta de estágio com fundamento fenomenológico-existencial.

Neste espaços o plantão é destinado a pessoas que buscam um atendimento emergencial. escolas. Referimos-nos às trocas informais em congressos (ULAPSI/JORNADA FAESA) em especial com Henriette T. unidades de saúde. dúvidas. O foco na postura fenomenológica aponta para alguns cuidados na realização do plantão psicológico. sejam elas quais forem. De forma geral. Optamos por trabalhar no solo do plantão psicológico. No cotidiano significa abrir-se à relação. A idéia central desta modalidade de atendimento é o acolhimento às demandas emergentes da pessoa que “procura ajuda”. o plantão psicológico tem sido concebido como um espaço no qual “qualquer pessoa que procure ajuda será atendida” pelo profissional plantonista do momento. Temos observado diferentes práticas sob a denominação “plantão psicológico”. desespero. P. Trata-se de projeto de Extensão e Pesquisa desenvolvido entre 2004-2006 nos hospitais Rio Doce e HGL (Linhares/ES). Morato. abrir-se ao contato com a dor da condição humana no encontro com a finitude. Ainda. A escolha justificou-se pelo trabalho32 de uma das autoras no contexto citado e por contato com profissionais33 que tem trilhado esse caminho. caracterizada pelo sofrimento. angústia. O plantão psicológico tem sido realizado em instituições gerais. empresas. sem perder tal movimento. 33 32 208 . centros universitários. clínicas. Entendemos o fazer do plantão alicerçado numa disponibilidade que lança os envolvidos – cliente/psicoterapeuta – no solo do humano. envolver-se emocionalmente. sob o titulo “Plantão psicológico: espaço de escuta das emergências emocionais”. intervir no que se faz emergente. perdas. em situações de crise. O desafio de levar o estágio em psicoterapia para o hospital demanda novos enquadramentos teóricos e metodológicos.para alunos interessados na realização do estágio em psicoterapia num contexto fora da Clinica-Escola. nº 1 – jul/dez 2006. como hospital. O trabalho a que se remete a autora foi realizado junto a comunidade de Linhares/ES e pode ser encontrado como artigo na revista “Luminis”: Faculdade de Ciências Aplicadas Sagrado Coração – UNILINHARES – v 1. distanciar-se e. desabafo ou qualquer contexto que retire da pessoa sua capacidade de “tomar atitudes” que sejam promotoras de seu equilíbrio momentâneo.

Caracterizamos nossa ação como plantão psicológico nos referindo à criação de um lugar de acolhimento do emergencial, lugar que perpassa o ambiente e repousa na pessoa do plantonista. Entendemos que o plantão funda-se na relação cujo norte é a postura fenomenológica.

A fenomenologia contribui com uma visão holística de homem e mundo. Tal visão se expressa no paradigma existencial-humanista que representa um corpo teóricometodológico importante na fundamentação de práticas que enfatizam uma visão de homem como totalidade. As Abordagens psicoterápicas como a Centrada na Pessoa (Rogers, 1961), a Gestalt-terapia (Perls, 1970) aglutinam propostas nesse caminho. Ainda, pesquisas qualitativas fenomenológicas emergem no campo da saúde, bem como, ações de práticas meditativas e relaxamentos. Justifica-se aqui o plantão no olhar fenomenológico-existencial-humanista.

UM CLIENTE HOSPITALIZADO

Nosso dia inicia-se com a chegada ao hospital. Aqui nos concentramos em grupo; trocamos brevemente algumas recomendações e nos dirigimos aos diferentes espaços para a realização do plantão. Estar como supervisora nesse campo é colocar-se como facilitadora de processos relacionais. Uma vez que o estagiário segue com a “ronda”, o supervisor caminha pelos corredores. É esta presença que sustenta tal fazer ao atuar como ponto de encontro e expressão de angústias vividas pelo estagiário, como bem o expressa Martin Buber (1958) “todo viver verdadeiro é encontro”. Terminada a jornada do dia nos encontramos novamente no grupo para aprofundamentos teóricos, reflexões e troca de experiências vividas.

Chegando – ir a um lugar chamado hospital não é tarefa das mais simples. O estigma34 de se tratar de “lugar para morrer” permeia o imaginário social. Ir a um

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Para aprofundamentos desse olhar sobre a instituição hospital, remetemos o leitor à leitura da obra

de FOUCAULT. M. Microfísica do Poder. 22ª ed. Rio de janeiro: Graal, 1979.

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hospital, para a população, significa ultrapassar medos na realização de um ato que se coloca fora do cotidiano. Vamos ao hospital, geralmente, para uma visita a alguém adoecido; outras, para celebrar um nascimento, mas como hospitalizado ou como alguém que oferece um serviço de psicologia, é uma “outra” experiência. Observamos, junto aos estagiários, a mobilização de uma energia afetiva para ir. Aqui ocorrem atrasos, esquecimentos do horário combinado, perda do crachá de identificação e, tantas vezes, “crises de pressão baixa”. Assim, a chegada se configura num acontecimento em que o grupo oferece suporte e se suporta; onde o supervisor é convocado à escuta desse fenômeno. O acontecimento “chegada” demarca o inicio do plantão, no entanto, muito antes, o campo vivencial desse plantonista já se encontra mobilizado. O supervisor é o lugar da realização desse plantão e se oferece como tal.

A “ronda” – organizados por setores, os quais foram escolhidos pelo estagiário, tem inicio a ronda. Trata-se de uma caminhada pelos corredores do hospital; da entrada em enfermarias; Utin; sala de parto. O fenômeno se apresenta à escuta: o entrelaçamento plantonista e espaço hospitalar torna-se mundo vivido.

O “cliente hospitalizado” é convidado ao encontro humano. A postura do estagiário é de uma ética “sem precedentes” – como testemunhará o próprio grupo de supervisão. A escuta, ou o plantão, não pode ser imposto. A presença do plantonista visa à relação Eu-Tu, porém, nas palavras de Richard Hycner (1995) “podemos apenas nos preparar para a possibilidade do encontro EU-TU. Não podemos ‘forçar’ sua ocorrência”.

A formação do psicólogo o preparou para um cliente “que vem até determinado espaço e se coloca para o processo psicoterápico”. Para um processo situado num tempo que permite retornos e feedback. O “cliente hospitalizado” não solicitou a psicologia, sequer pensa em psicoterapia ou “tem tempo para a mesma”. Configurase como essencial para prática do plantão no hospital o entendimento dessa relação que se propõe.

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A postura fenomenológica será o instrumento de abordagem a ser entendido, refletido e exercitado pelo aluno em formação. O que é um “atendimento” nesse contexto será a questão “arduamente” discutida e desconstruída na pratica denominada plantão psicológico.

A abordagem – a caminhada pelos corredores convoca o plantonista ao aqui-agora. Apontando para um conceito vivencial estamos atentos à caminhada. Assim testemunha o plantonista:

Faz algum tempo que chegamos ao Hospital. Será que estou pronta? Que surpresa me aguarda hoje. Já andei por “todos” os corredores e não consegui fazer atendimento. Lá está minha supervisora. Sentamos juntas. Falo dessa angústia. Que bom não ter pressa pra atender. Levanto. Caminho novamente, agora, pela Maternidade. Sinto meus passos; minha respiração; a mão fria. Meus olhos se encontram com os olhos daquela mulher ... (sic) (relato em diário de campo do estagiário).

Aqui-agora é processo vivido entrelaçado ao campo.Torna-se limitado localizar partes desse campo vivido; dizer, quem sabe, que a estrutura física, com seus desdobramentos, bem como a estrutura dinâmica do hospital, representada nas relações ali travadas, são as partes determinantes desse campo. O campo se concretiza no aqui-agora, constrói-se das infinitas possibilidades que se apresentam na relação. Acreditamos que campo, no contexto hospitalar, se define como possibilidades – o que é possível no aqui-agora vivido.Tal configuração emerge no relato abaixo:

Entro na sala de parto. Meus olhos se encontram com os de Teresa. Respondo a este convite: Teresa é uma menina de 17 anos, está em trabalho de parto. Perceboa calma e, bem “baixinho”, ouço seus gemidos. Penso: quais serão seus anseios para aquele momento tão especial na vida de uma mulher? Teresa me conta que é o seu primeiro filho e que está curiosa para ver seu rostinho. Entre gemidos a dilatação aumenta. Sinto-me presente para o momento do parto. Minha presença

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busca potencializar calma, conforto e segurança de que tudo sairá como esperado. Estou próxima, bem junto a esta jovem mãe. O bebê nasce. Vejo as feições de Teresa transformar: a alegria toma conta; seus olhos estão marejados e emerge um “chorar de emoção”. Eu respiro. Sinto-me grata!!(relato em diário de campo do estagiário).

A abordagem a este “cliente hospitalizado” é a abertura ao encontro genuíno. Novamente as palavras de Richard Hycner (1995) nos parecem pertinentes:
Essa abertura para encontros genuínos significa sempre uma disponibilidade de encontrar o inesperado, o mistério existencial entre pessoas, deixando de lado a segurança dos próprios métodos e da teoria (p. 40).

O assim colocado, “atendimento” acontece nesse lócus denominado campo. O fazer do plantonista sugere um movimento – chegar; perceber-se; abrir-se à caminhada; encontrar-se com o outro; abordar; oferecer-se como lugar de plantão; permitir-se ficar junto ao outro como pessoa; cuidar de si e do outro no fechamento desse encontro – estar como uma “árvore frondosa a oferecer sua sombra”, concluirá Henriete Moratto.Temos aqui caracterizado “o atendimento” na situação que ora refletimos.

No início, ainda tímida com relação à abordagem às pessoas, me senti um tanto incapaz, porém enquanto conversava com aquela menina, dentro da Utin, me senti tranqüilizada, pois percebi que somos sim capazes de trazer um acalento para as pessoas que estão ali naquele ambiente triste do hospital (relato de diário de campo do estagiário).

Partindo – o que demarca a finalização do plantão é a hora acordada entre plantonistas e supervisor; assim, vindo dos vários setores do Hospital, reúnem-se os integrantes do grupo. Grupo reunido iniciamos a troca de experiências. Contamos como foi o dia; relatamos as abordagens realizadas; falamos das dúvidas “vistas” na hora da prática; trocamos nossa experiência e a articulamos teoricamente. A formação do psicólogo encontra nessa experiência de plantão o exercício das

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habilidades desse fazer. A supervisão acolhe o vivido; oferece marcos conceituais como recurso para a caminhada desse profissional em construção. Juntos, em grupo, cuidamos de dores e limites para a partida. Haverá uma chegada, pois há outro lugar a nos esperar.

APONTAMENTOS E REFLEXÕES QUE EMERGEM DESSA PRÁTICA

O profissional plantonista, neste caso, o estagiário de psicologia, precisa desenvolver uma disponibilidade para se deparar com o inesperado, com o não planejado, com a possibilidade do encontro com a pessoa. Como também precisa acolher a pessoa no momento da sua necessidade e, assim, se desvencilhar da tendência de dar continuidade ao processo.

O plantão é uma oportunidade para o plantonista se colocar disponível à escuta e acolher a experiência da pessoa em vez de enfocar o problema, até porque, este não é o objetivo. É um exercício de desenvolvimento no plantonista /aluno de uma maior autonomia e consciência crítica de seu fazer psicológico, já que está desprovido de ferramentas, instrumentos técnicos que possam funcionar como amparo no encontro com o outro. No serviço de plantão psicológico, o plantão está no próprio plantonista.

A situação de hospitalização é geradora de uma vivência angustiante e desagregadora de uma crise cujos aspectos são uma interface entre fatores econômicos, sociais, espirituais, orgânicos, psicológicos, culturais e políticos, dentre outros. Neste sentido, a doença tal como é vivida pela pessoa engloba dois aspectos que devem ser considerados: o primeiro é o fato de que a doença, em qualquer lugar, será sempre entendida da mesma forma, ou seja, é estrutural, o segundo expressa a condição existencial concreta da pessoa doente, que se apresenta com suas emoções, pensamentos, cultura, corporeidade, linguagem, enfim, com sua singularidade.

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O binômio saúde-doença não pode ser mais analisado separado da pessoa que vivencia tal fenômeno. É preciso uma abordagem que acolha a pessoa na sua existência total. A perspectiva existencial-humanista-fenomenológica, ao

compreender a pessoa na sua totalidade, se caracteriza como um modo de estar-nomundo com o outro se aproximando do fazer psicológico na modalidade de plantão com todas as peculiaridades já refletidas.

O ser plantonista se des-vela nas vivências do cuidar, que acreditamos se expressar no cuidar-de e cuidar-com cuidando, que implica em proporcionar a pessoa a

oportunidade de se cuidar minimamente que seja em qualquer sentido.
Contato é uma palavra mágica, é sinônimo de encontro pleno, de mudança,de vida. É convite ao encontro, ao entregar-se. É um processo, cujo sinônimo é cuidado, a alma do contato (RIBEIRO, 1997, p.13).

O profissional do plantão psicológico tem uma oportunidade única de preencher este “papel de cuidador”. Entretanto, não é fácil estar neste lugar. Mas, quando se está aberto para tal experiência, para este encontro sem garantias e formas, muito se aprende sobre a arte de cuidar cuidando-se, já que acreditamos na resultante de um cuidado mútuo, profissional e doente se cuidam e se oportunizam um aprimoramento das dimensões do existir de uma forma mais plena.

Analisando nossa experiência no Hospital Infantil e Maternidade de Vila Velha/ES nestes anos (2006-2009) de oferta de estágio na modalidade de plantão, descobrimos o quanto tal vivência contribuiu para a formação profissional e pessoal dos alunos que verdadeiramente estiveram abertos para tais encontros, pois sabemos que o fato do estagiário estar em determinado campo de estágio não significa o estabelecimento de uma aprendizagem significativa. Muitas vezes, este aluno simplesmente ocupa um lugar por obrigação, por cumprimento dos créditos necessários para sua formatura. O que não aconteceu, felizmente, com muitos de nossos alunos que lá estiveram por períodos de um ano letivo.

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Cada uma de nós, supervisoras de estágio curricular, esteve responsável pelo acompanhamento, orientação e supervisão em dias diferentes por duas turmas, que eventualmente trocavam suas experiências nos espaços de consolidação de trocas, como jornadas científicas, seminários integrados, e outros eventos que fomentavam este objetivo.

A Gestalt-terapia apresenta fundamentos conceituais, filosóficos e metodológicos pertinentes à prática do psicólogo no contexto hospitalar. Apontamos o conceito de campo como contribuição central do entendimento da temática apresentada por esta população. O conceito se refere ao processo de organização como relações e forma, portanto, engloba sistema e estrutura.
O processo de organização é único, embora exista mais de uma área organizada dentro de um mesmo campo. Isto nos conduz aos conceitos de sistema e estrutura (RIBEIRO, 1985, p. 74).

O campo é lócus de processos psicológicos em desdobramentos na situação da hospitalização. As possibilidades de configuração do campo são mutáveis a cada abordagem ao “cliente hospitalizado”. A riqueza desse campo está nas nuances do vivido – a forma particular de colocar-se nesse espaço-tempo.

O plantonista move-se no campo vivencial e, a abordagem, acontece no campo. Torna-se difícil separar ou demarcar etapas desse vivido. Assim é; a existência se apresenta com tudo o que nela há, como reflete forghieri (1993). O vivido é a nossa percepção imediata, pré-reflexiva, do movimento existencial.
[...] nossa reação interior imediata àquilo que nos acontece, antes mesmo que tenhamos refletido ou elaborado conceitos. [...] está num plano da consciência onde o sentir e o pensar não se distinguiram ainda. [...] o vivido “se diz” dentro de nós, ele se expressa, e assim assume um significado. (AMATUZZI, 2001, pp. 53-55).

O plantonista caminha pelos corredores e, ao caminhar, vive o percurso. O viver ocorre no presente, no aqui-agora. Compreender o sentido vivencial do conceito aqui-agora é fundamento para este fazer. O campo se auto-constrói no aqui-agora, no movimento da vida. Soltar-se, confiar na sabedoria do campo, arriscar-se, enfim, abrir-se ao mistério são requisitos para o estar no tempo-espaço do hospital.

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são conceitos vivos que vão dando forma à prática do plantão psicológico no olhar fenomenológico-existencialhumanista. Estar awareness desse movimento e assim intervir comunicando que compartilha a condição humana desse outro. ser de projetos. Experienciar compreensão quando. Pensamos que o experimento tem suas raízes na proposta fenomenológica de “ir às coisas mesmas”.Outro conceito debatido em nossas supervisões é awareness. Dentro desse campo a criatividade do plantonista é seu guia. O plantonista estará “de fronte” à própria finitude ao permitir o contato. olhar a narrativa do outro como se fosse sua. Nesse sentido o experimento é a escuta fenomenológica que se concretiza no campo vivencial que se apresenta. fronteira de contato. aplicando-a num espaço que remete à morte. 86). Experienciar compreensão ao. além de permitir a escolha até “para onde se vai”. é fluir perceptual. considera que é necessário começarmos qualquer caminhada exatamente de onde estamos. 216 . é continuum de consciência. Partir de onde estamos. vista sob uma ótica holística. estamos falando de elementos vivos. aqui-agora e awareness são processos. awareness. Estamos falando de uma teoria viva. no aqui-agora. O experimento que funciona como uma concretização. Cremos que a criação da gestalt para o hospital aqui se diferencia. das forças atuantes no campo vivencial da pessoa. para além da escolha. Como pensar gestalt-terapia sem remeter-se à vida? O solo filosófico sustenta tal vôo. 2002. ou seja. Awareness é deixar-se estar. ser lançado no drama do outro e ver-se dolorido na situação. A experiência da fronteira vida-morte é o que aguarda nos encontros do dia. Campo. p. Tomar propriedade desse lugar e intervir como se fosse sua voz. permite também a escolha sobre “se quer ir ou ficar” (RODRIGUES. isto é. Campo. auto-compreender-se como ser finito. O percurso anuncia o experimento – metodologia tão cara à Gestaltteapia. por escolha. aqui-agora. Estar awareness é incluir o fluir existencial no tempo-espaço. Lembramos Stevens (1988) awareness é “tornar-se presente”.

217 . Finalizamos aqui nossas reflexões vividas no espaço tempo de estar junto a formandos de psicologia no contexto hospitalar tendo. por instrumento. Estar como plantonista é responder sim ao convite e desdobrar-se em polaridades sequer imaginadas. O olhar compreensivo – aquele que se solta dos pré-conceitos. que fenômeno é ato de criação – é a “menina dos olhos” que reflete este fazer-saber. quem convida e quem aceita o convite. a Gestaltterapia e a ACP.O experimento é um convite ao contato que se realiza em ambos. que sabe que sujeito e objeto não são separados.

1977. Gestalt-terapia: refazendo um caminho. Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa: novos desafios. métodos e pesquisa. São Paulo: Summus. HYCNER. RODRIGUES. . São Paulo: Casa do Psicólogo. E. J. R. Petrópolis: Vozes.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMATUZZI. Por uma psicologia humana. M. 1993. Temas básicos na Abordagem gestaltica. BUBER. 218 . Introdução à Gestalt-terapia: conversando sobre os fundamentos da abordagem gestáltica. São Paulo: Summus. ROGERS. H. R. O. J.. Tornar-se presente. 1985. M. T. HEFFERLINE. Y. P. Psicologia fenomenológica: fundamentos. GOODMAN. De pessoa a pessoa: psicoterapia dialógica. 1995. R. 2001. (ORG). Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes. 1988. Campinas: Alinea. São Paulo: Summus. Eu e tu. Gestalt-terapia. São Paulo: Cortez e Moraes.. PERLS. C. São Paulo Summus. STEVENS. J. MORATO. P. C. São Paulo: Summus. O ciclo do Contato. ______. 1982. RIBEIRO. São Paulo: Pioneira. F. M. H. 2002. 1979.1997. 1999. FORGHIERI. S.

G. mente e doença entre a abordagem gestáltica. 219 . a psicanálise freudiana. em seguida descrever as concepções de corpo. vamos apresentar brevemente as escolas filosóficas acerca da visão de homem. entidades sobrenaturais ou hipotéticas eram responsáveis pelas doenças. Este trabalho tem por objetivo descrever e analisar a conceituação de corpo. Ele é um dos primeiros a questionar a origem sobrenatural das doenças. O homem desde muito cedo pensa sobre a etiologia do adoecer e as possíveis formas de intervenção sobre o doente. ou seja. M. mas dá o ponta pé inicial no pensamento psicossomático. ANDRADE. o monismo e o dualismo. 2006). M. 2006).. e a visão atual de psicossomática (psicossomática moderna). C. mente e doença na psicanálise freudiana.GESTALT-TERAPIA: UMA POSTURA PSICOSSOMÁTICA INTRODUÇÃO O pensamento humano em torno da origem das doenças existe desde a pré-história (cerca de 14000 AC). Dentro desse contexto. Esta concepção sobrenatural das doenças se mantém na civilização grega e só começou a ser questionada com o aparecimento das idéias de Hipocrates (CASTRO. M. MULLER. na psicossomática moderna e da abordagem gestáltica. T. “demônios” eram responsáveis pelas doenças humanas. e passa a buscar explicações naturais para esses fenômenos naturais (CASTRO et al.. Nas primeiras civilizações humanas. a cura é por conta de uma figura religiosa. como um sacerdote ou xamã. R.. Hipocrates não cunha o termo “psicossomática”. como a assírio-babilônica. A fim de entender a discussão em torno do tema.

no materialismo e no neopositivismo. 220 . enquanto na escola monista materialista o único princípio de vida é o corpo. visão hilomórfica. 2000). podendo ser ou o corpo ou a mente (também chamado de alma por alguns filósofos). XIVII e XVIII). no positivismo. quando trata da psicogênese da histeria. 49). (Volich. (Volich. em suas diferentes formas desde o século XIX. Segundo Volich. já que a alma era vista como parte orgânica do corpo. e 4) corpo e alma são manifestações distintas no organismo humano. ou mente. O princípio monista também se evidenciou no empirismo (séc. Deste modo. Ao questionar as vias que levam o conflito psíquico ás manifestações somáticas ele busca a compreensão das diferentes passagens e relações entre as manifestações psíquicas e corporais. no associacionismo (Séc. 2000). em que conflitos inconscientes seriam a causa de paralisias e outros sintoma.A VISÃO DE HOMEM: MONISMO E DUALISMO Dentro da visão de homem. formando uma única substância completa. a Psicossomática passou por séculos de elaboração até ser definida pela primeira vez por Heinroth. Na escola monista idealista o único princípio de vida no homem é a alma. embora sejam substâncias diferentes e separadas. surge a diferenciação entre corpo vivo (corpus) e corpo morto (soma) (Volich. sendo retomada por Freud no século XX. no século XIX. que se relacionam de formas diferenciadas: 1) corpo e alma são de naturezas diferentes.24). que tinha uma visão dualista. valorizando seu substrato material em detrimento do subjetivo. p. 2000. corpo e mente (alma). A visão de homem monista entende que o homem se constitui apenas de uma maneira: ou corpo. 3) Corpo e alma são independentes mantendo uma harmonia preestabelecida. Por outro lado. no paralelismo. o conhecimento da anatomia foi importante para compreensão do adoecer e da terapêutica. no paralelismo psicofísico. p. A origem da psicossomática em Hipocrates é monista. existem duas correntes filosóficas que marcam a discussão entre mente e corpo ao longo do tempo: o monismo e o dualismo. No Renascimento. enfatizou a distinção do corpo e suas funções. Descartes. XIX). no dualismo existem ambos. 2) corpo e alma como tendo uma influência recíproca. visão interacionista. na escola monista “existe no homem um único principio vital” (2000.

investimentos energéticos que se deslocam de certa forma. p. Pré-consciente (Pcs) e Consciente (Cs). Freud realizou a sua própria estruturação teórica e concebeu um espaço em que atuariam dinamicamente as diferentes forças psíquicas. em que a psique está dividida aparentemente em três planos de força psíquica. 1993). estrutura hipotética. a dimensão econômica do funcionamento psicossomático foram referenciais para o desenvolvimento das teorias psicossomáticas atuais. 2006) O SISTEMA PSICOLÓGICO EM FREUD Em sua primeira tópica. Segundo Volich (2000. que lhe serviu de base para construção de outros elementos estruturais da teoria psicanalítica (GARCIA-ROZA. este foi o caminho encontrado por Freud para conciliar um sistema teórico com os resultados de sua experiência clínica (GARCIA-ROZA. a distinção entre as psiconeuroses e as neuroses atuais. Freud percebe a necessidade de criar um esboço para tornar compreensível e viável o desenvolvimento de sua teoria. Como já foi dito este sistema é hipotético. como a relação do sintoma orgânico com a dinâmica psíquica e o infantil. Como não podia encontrar ou explicar a origem dos sintomas histéricos por teorias da época. como representações afetivas e ideativas inconscientes. como as paralisas histéricas. ele faz uma abordagem dualista na visão de homem e do adoecer. 221 . desenvolvendo uma clínica e um aparelho teórico que buscam permitir a compreensão das diferentes passagens e relações entre as manifestações psíquicas e somáticas”. Apesar de tudo. estavam relacionados com entidades não naturais (hipotéticas). cada um. e ao mesmo tempo em que mantinha a pesquisa clínica. Criou para isso a metapsicologia. 1993). visto que fenômenos naturais.64) “Freud fundou a Psicanálise. Os conceitos derivados da teoria psicanalítica. O sistema metapsicológico de Freud é uma topografia hipotética do aparelho psíquico. Freud denominou e dividiu topograficamente em Inconsciente (Ic).Ele estabeleceu um marco na relação entre psique e soma. Assim. (CAPITÃO et al.

em sua forma especial de viver em e com o mundo [.]”. 2002. Herda da Escola de Chicago. A psicossomática moderna compreende a inseparabilidade dos aspectos psicológicos e biológicos e suas interdependências. com Franz Alexander. dentro de uma visão holística de homem (CASTRO et al. Em reação a estas visões.21). p. ou somatogênese. que primava pela consideração das relações entre as partes e na determinação da percepção do todo em confronto com a idéia do associacionismo. Além disso. “A tendência mais atual é abandonar os conceitos de psicogênese. toda doença é influenciada por aspectos psicológicos e biológicos do corpo. surge na Alemanha. um campo de pesquisa chamado de "Psicologia da Gestalt". inseparável. efetuarmos um breve panorama do contexto histórico. antes.. Segundo Mello Filho (2002.A VISÃO ATUAL DE PSICOSSOMÁTICA Atualmente a psicossomática se coloca como um campo de estudo e pesquisa ou uma visão de homem acerca do corpo e do adoecer (MELLO FILHO. Dessa forma. e encarar o fenômeno doença de forma sempre global.. No cenário mundial do início do século XX. Dentro desta conceituação. entendemos que a psicossomática moderna considera que a mente ou psique é uma expressão ou aspecto do corpo humano. “já que incide num ser sempre provido de soma e psique. 2002). anatômica e funcionalmente” (MELLO FILHO. é importante. A ABORDAGEM GESTÁLTICA E SUA CONCEPÇÃO DE HOMEM Para uma melhor compreensão do que é a "Gestalt-terapia”. algumas abordagens apresentavam tentativas de compreensão da psique humana. p. 19). a concepção que toda doença é psicossomática. esta se coloca dentro da visão de homem monista. no qual esta vertente da Psicologia Clínica encontrou terra fértil para crescer e qual sua visão de homem e suas concepções acerca das dicotomias corpo-mente e saúde–doença. retornando assim à visão primordial de Hipocrates. trazendo luz para questões fundamentais das relações intra e interpsíquicas. 2006). gestáltica e em função da pessoa que a apresenta. 222 .

o existencialismo. a teoria acadêmica da Gestalt. que visa o átomo: a menor parte ou elemento constitutivo das coisas. oriundos da Psicologia da Gestalt. para construir um campo de conhecimento voltado especificamente para a área clínica. e a impossibilidade de compreender o homem sem uma visão holística do mesmo. o Taoísmo e o Zen-budismo. primeiro autor da Gestalt-terapia. (PEARLS. 1980) Mais tarde. Os conceitos. a Teoria de Campo de Lewin. (MARTINS. que se ocupou em trazer questionamentos que foram contrários à visão mecanicista (causa-efeito) e à visão atomística. a fenomenologia. p. (KÖHLER. perceberam a importância do conhecimento que a Psicologia da Gestalt trazia e apropriaram-se desse e de outros pressupostos filosóficos como tais como o humanismo. dessas correntes filosóficas ou psicoterapicas. em constante transformação. Além disso. que agrupe numa Gestalt (numa configuração) as partes deste homem bem como sua relação com os outros homens e com a natureza. Esse campo de pesquisas trouxe uma série de novas perspectivas para entender a maneira com a qual o homem se relaciona com o mundo. 1995. Frederick Perls.Esta vertente da psicologia foi um campo estritamente experimental. 55) De acordo com Martins (1995) a Gestalt-terapia ao assimilar partes dos conceitos de 223 . Outro conceito básico importante é o que trata do aqui e agora em termos de percepção. a psicanálise de Freud. e outros psicólogos seguidores dos princípios gestálticos. principalmente o que se refere à figura e fundo. 1979) É dessa base de influências que se pode depreender a visão de ser humano da abordagem gestáltica. a Análise Reichiana do Caráter. são importantes bases para as noções de saúde e de doença da Gestaltterapia. Assim nasceu a Gestalt-terapia uma abordagem existencialfenomenológica. Subjacente a estes e a outros conceitos oriundos da Psicologia da Gestalt está a diferença entre a realidade psíquica (o que eu percebo) e a realidade objetiva (o mundo das coisas). a Teoria Organísmica de Goldstein. Ela pretende ser uma síntese criativa e coerente.

ou seja. mental. em que o ser humano é um ser de relação. onde não há separação entre as partes que o compõem. seu corpo e suas manifestações são partes de um todo. Sua mente. mente e corpo são indissociáveis a tal ponto que é mais interessante falarmos em “organismo”. quando estes ajustamentos se cristalizam assumindo 224 . no entanto. Essa visão holística da Gestalt-terapia aponta para uma compreensão do homem enquanto parte de uma totalidade mais ampla e mais complexa que representa o contexto no qual. Pensar uma organização eficiente. Podemos dizer que saúde é a expressão de um contato transformador. Assim. em um processo de auto-regulação entre pessoa e meio. físico ou espiritual. então. (SILVA. o ser humano é um todo unificado que se auto-regula. Para Silva (2000). ele se encontra inserido. se algo muda em qualquer uma das suas partes. uma unidade indivisível corpo/mente. ou seja. organização e interdependência. A saúde é uma resultante de sermos capazes de realizar ajustamentos criativos em relação ao meio. diz respeito à satisfação adequada de necessidades. um sistema integrado e organizado. SAÚDE E DOENÇA NA GESTALT-TERAPIA Dentro da abordagem gestáltica. seja um aspecto emocional. funcionando com todo seu potencial é pensá-la como um movimento de partes harmonicamente entrelaçadas. o homem enquanto uma totalidade. surge uma nova organização. mas sim integração. são formas diferentes de expressão daquele ser humano e estão. formando uma unidade compreensível e saudável. o aqui-e-agora é o tempo e o lugar onde as modificações podem ocorrer. não há no homem separação entre o seu sentir. o todo é reconfigurado. correlação. ele é totalidade e integração (a pessoa como uma unidade psique-corpo-espírito). 2000) A Gestalt-terapia compreende. portanto. o ser humano está constantemente interagindo com limites sociais e ambientais. uma nova gestalt. o seu pensar e o seu agir. integrados e contribuindo para a configuração desse todo.cada uma das correntes a que está vinculada constrói uma concepção nova e própria de homem. A VISÃO CORPO E MENTE.

A resistência é uma função. 1997) O grande mérito da Gestalt-terapia não é ser uma terapia de ajustamento. mas de auto-realização. uma função básica do organismo. é um processo. é preciso que ela se encarne. é uma possibilidade de obter e manter a saúde. (RIBEIRO. sentimentos naturais e desculpas para evitar os riscos do crescimento. Crescer neste sentido é buscar desenvolver seus próprios recursos. A “doença” implica uma necessidade não satisfeita e não deve ser considerado em si. então. passa por um reajustamento das suas necessidades mais profundas. 225 . que não precisa ser debelada nem destruída. Nada pode trazer a pessoa a tona.formas crônicas de reação. A doença é fenômeno como processo. 1997) Sendo saúde o contato em ação. A palavra não é suficiente. mas sim facilitada. interesse e criatividade. "Estar doente" lembra do cuidado para não deixar com que toda a vida gire em torno de um diagnóstico imutável. através do qual a pessoa experiencia algo novo. reorientar-se para o viver criativo. Um outro instrumento que permite o ajustamento criativo do cliente sob sua própria responsabilidade. é algo que precisa ser visto com respeito. os sintomas são sinais de sofrimento que vêm junto com avisos que dão sentido ao que a pessoa apresenta e com tentativas organísmicas contínuas de reajustamento e de retorno ao crescimento e ao equilíbrio. Não deveríamos tratar a doença e sim a pessoa adoecida. Neste momento. se distorce. bem como aspectos saudáveis da personalidade. deixando de ter um funcionamento saudável. mas em relação à pessoa e ao campo no qual existe. pois ela é um dos melhores instrumentos de ajustamento da pessoa. Ribeiro (1997) alega que qualquer interrupção deste implica em uma perda da saúde. parece ser uma boa estratégia para não perder de vista o ser integral e a noção de processo que fundamenta as teorias humanistas. é a polissemia da leitura corporal. O termo "estar doente" ao invés de "ser doente". escondendo atrás deste. (RIBEIRO. melhor do que suas próprias iniciativas de vir à tona. a auto-regulação. A cura. Para Silva (1998). para que ela seja eficaz.

que é o objetivo da Gestalt-terapia. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO A abordagem gestáltica mantém a visão monista e holística para o entendimento de corpo e mente. passando por uma auto-regulação. que se forja. a Gestalt-terapia surge com a proposta de ajudar esse ser em estado 226 . humanizando-se. as diferentes formas de manifestação do organismo. já que esta. alcançando sua realização. corporais ou psicológicas. a configuração total deste também será alterada. não consegue ter uma visão mais ampliada do ser humano para uma percepção mais completa do processo saúde/doença. Sua posição é sempre afirmativa. não podendo ser analisados separadamente. a Gestalt-terapia compreende o ser humano como um organismo completo no qual soma e psique são indissociáveis. num processo criativo de adaptação e reajustamento. pois estão plenamente integrados. Desta forma. presa nos dualismos inconsciente/consciente e mente/corpo. logo assume uma postura psicossomática moderna para o entendimento da saúde e da doença. indo às coisas mesmas. precisam ser compreendidas dentro da configuração global do organismo do qual fazem parte. Vemos então uma grande diferença entre a visão de psicossomática em Gestalt-terapia e a visão de psicossomática na Psicanálise Freudiana. no qual o restabelecimento do pleno funcionamento e integração (contato) de seus elementos constitutivos garantem a satisfação de suas necessidades. saúde e doença. Portanto. É a capacidade de realizar esse processo que caracteriza o estado saúde de um organismo.dons e talentos especiais. se houver a alteração de qualquer elemento de tal organismo. Como a doença se caracteriza pela incapacidade do organismo satisfazer suas necessidades por meio do reajustamento adaptativo às novas condições apresentadas. escolhendo-se”. Assim como visão psicossomática atual. de valorização do que o cliente traz de saúde e de positividade em sua vida. Tem o cuidado de “não aprisionar a humanidade do homem” e a compreensão de que “o homem é responsável e capaz por si mesmo.

trabalhando não somente com a fala e o pensamento. A Gestalt-terapia dispõe de uma série de instrumentos terapêuticos para ajudar a pessoa em estado de adoecimento a trazer à tona sua capacidade de ajustamento criativo e auto-realização de suas necessidades. despertando sua capacidade criativa de superação no aqui-e-agora. Portanto a análise os padrões de comportamento e relacionamento são de suma importância para uma compreensão mais completa desse complexo organismo. e a compreensão e eventual transformação dos padrões de relacionamento do indivíduo consigo próprio. pois apenas isso seria ainda uma visão parcial desse ser. Concluímos assim que a Gestalt-terapia está congruente com a visão atual de 227 . caracterização pela compreensão da funcionalidade do corpo-mente e numa ação integrada por meio da "awareness”. através do suporte da relação terapêutica. mas também com o corpo. Entender o corpo de maneira gestáltica. motivando uma ação transformadora no processo de interação com limites sociais e ambientais. novas experiências. confirmando mais uma vez sua visão holística.de adoecimento a descobrir o seu potencial de cura e auto-realização a partir da valorização do que há de positivo e saudável em si mesmo. Não é possível ter uma visão global de um organismo humano analisando o funcionamento dessa pessoa de forma isolada de seu contexto. inclusive o ambiente onde está inserida. trazendo tudo que for relevante para ser analisado no aqui-e-agora. facilitando assim. busca compreender a pessoa em processo terapêutico considerando todos os aspectos de sua existência. O homem é um ser social e por isso todas as suas formas de interação precisam ser consideradas. suas interações com esse ambiente e as relações sociais estabelecidas. a elaboração interna daquilo que antes não pode ser bem elaborado. liberar a energia retida em situações antigas e inacabadas. com os outros e com o mundo. tanto as internas quanto as externas. trazendo-a para o ‘aquie-agora’. ainda que haja uma compreensão do ser como um organismo no qual mente e corpo não podem ser separados. A Gestalt-terapia. Complementando esta idéia Ciornai (1995) nos fala: A terapia vem então para ajudar a expandir o fluxo de energia. dentro dessa visão holística.

Podemos perceber que. tratando cada paciente não só com individualidade. 228 . enquanto ser único. mas também o considerando em sua totalidade. ela tem muito a contribuir também na elaboração de projetos de ação multiprofissionais em saúde. além da importância da Gestalt-terapia no atendimento psicoterápico. enquanto organismo e enquanto ser social.psicossomática. buscando compreender o homem de uma forma total e não fragmentada no processo saúde/doença. com planejamentos interdisciplinares de intervenção.

Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. PERLS. Revista do VI Encontro Goiano de Gestalt-terapia.39-43. p. 1998. Corpo e Organismo. Frederick . n. E. RIBEIRO. R. S. M. B. Concepção psicossomática: visão atual.1979. CIORNAI.gestaltsp. 1980. p.. 2009. São Paulo: Summus. jul/2006. A Concepção de homem na gestalt-terapia e suas implicações no processo psicoterápico. C. Psicossomática: duas abordagens de um mesmo problema. Psicologia em Estudo. Antonio Elmo de Oliveira. v. 1. R. GARCIA-ROZA. 229 . MULLER. Belo Horizonte: Itatiaia. Introdução à Metapsicologia Freudiana. Sérgio Buarque.7. G. maio de 2000.C.21-29. Sérgio Buarque. Revista do I Encontro Goiano de Gestalt-terapia. VOLICH.11. A Intuição e a Fenomenologia: A Dor e a Cura no Encontro. v.com. M. M. São Paulo: Casa do Psicólogo.br/textos/criatividade. Psicossomática: de Hipocrates à psicanálise. 1993.Psicologia da Gestalt. Revista de Psicologia da Vetor Editora. jan. MARTINS. 1979. O Ciclo do Contato: Temas Básicos na Abordagem Gestáltica.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTRO. 1995. São Paulo: Summus. Relação entre Criatividade e Saúde na Gestalt-terapia.. G. KÖHLER. 2002. n. 2006. A. SILVA. CARVALHO..2. M. Goiânia. março/abril de 1995. W. . MELLO FILHO. Revista do ITGT.2. SILVA. L.1. n.abr. J. 2000. ANDRADE. Jorge Ponciano. Conceito mente e corpo através da História. v. CAPITÃO. Casa do Psicólogo: São Paulo. T. Revista do IV Encontro Goiano de Gestalt-terapia. Disponível em: <http://www.Escarafunchando Fritz -Dentro e Fora da Lata de Lixo.html> Acesso em 31 mar.

do quanto nos amaram e nos amamos. não tive isso com meu pai. Atualmente eles falam de tudo com a garotada. O que produzir . esse sinete. (p. Mas se abrirão também janelas para a paisagem e varandas para o sol. um nós. sempre achei um saco brincar! Se eu pensar bem não sou uma boa mãe.GRUPO DE PAIS: CONSTRUINDO NOVOS CAMINHOS NO ATENDIMENTO CLÍNICO Eixo temático: Prática da Gestalt-terapia na atualidade e os seus caminhos.22) Lya Luft Diante da prazerosa tarefa de escrever a experiência com a formação do Grupo de Pais. rachaduras. Sei que não tenho muita paciência como mãe. esse selo. inicio este texto trazendo falas de pais e filhos decisivos para criação deste grupo. aprendi tudo com a vida. do que nos fizeram pensar que valemos e do que fizemos para confirmar ou mudar isso. mãe de Beatriz de 9 anos Não sou de conversar com meus filhos. eles vão aprender na escola. essa marca. Adriana. que foram Fui mãe muito nova. Hoje sinto necessidade de fazer coisas que não fiz quando era mais jovem. Não tenho jeito para isso. Carlos Alberto( pai de um menino de 10 anos e outro de 14) 230 . Constituir um ser humano. é trabalho que não dá férias nem concede descanso: haverá paredes frágeis.casa habitável ou ruína estéril .será a soma do que pensaram e pensamos de nós. não estava preparada. Quem sabe um pedaço que vai desabar. cálculos malfeitos. A Marta pede para eu conversar com os garotos sobre sexualidade.

Pais e filhos estão se distanciando. para troca de idéias ou valores e para experenciar sentimentos estão perdendo espaço na rotina das famílias. Márcia. o forte vínculo entre elas e a família são particularmente significativos e necessários para seu desenvolvimento saudável. No fundo acho que estou errada. uma boa educação. Sinto-me privilegiada pela possibilidade de ajudar as crianças a passar por situações de vida tão adversas.. oferecendo acolhimento para que situações delicadas sejam explicitadas e suporte para que novos caminhos sejam percorridos em busca de fortalecimento. queria que a mamãe fosse igual a você. Na corrida desenfreada para ganhar cada 231 . Minha experiência com estes pequenos clientes revelaram ao longo dos anos que apesar das crianças terem um potencial para crescer e transformar o seu meio. Danilo.. Não quero parecer uma pessoa má. Você é muito legal! A gente brinca. acho que nós dois estamos precisando de ajuda. Carolina. conversa. Há treze anos venho atuando como psicoterapeuta infantil.. além de cursos e brinquedos.Tem dias que fico com tanta saudade que peço para vovó me levar no trabalho dela. 8 anos. mãe de Yan de 5 anos Estou com muita raiva da faculdade da mamãe.Adoro vir aqui.. Por isso a escola pediu que eu viesse. quase não vejo mais ela. cheio de vontades e birrento. Noto a preocupação dos pais em suprir as necessidades de crianças e adolescentes. O trabalho com crianças e pais na prática clínica e escolar tem revelado de forma contínua e crescente que o tempo para o sentir e o espaço para estar junto estão cada vez mais raros. ele está ficando insuportável.. 7anos. já passo tanto tempo fora.. Trabalham exaustivamente para proporcionar conforto. O tempo para convivência. Não consigo dar limites para o Yan.

com dificuldades de aceitar regras e respeitar seus semelhantes. muitos pais deixam de fazer uso da autoridade na rotina das famílias. desviam a atenção do que os filhos geralmente mais precisam: carinho. Outro elemento decisivo na criação dos filhos e tema de muitas discussões entre os educadores é o uso de limites. mas convivendo. de compartilhar suas conquistas. segundo suas motivações e desejos pessoais. e a criança precisa e quer uma mão guia para entrar neste emaranhado de valores que é a cultura. sendo generoso. O valor do limite é exatamente dar-lhe uma determinada concepção de mundo. Estou de acordo com o pensamento de Aguiar (2005) quando afirma: A criança precisa de regras: o convívio social exige isso e as regras costumam dar a sensação de conforto e segurança. Pode ser muito ameaçador para uma criança. sua vida. Preparar alguém para futuros relacionamentos. diálogo.” Enquanto nos deixarmos aprisionar por nossos compromissos perderemos a oportunidade de testemunhar o crescimento de nossos filhos. sendo firme. sua família. para um dia ter sua profissão. se faz sendo humano. A sociedade é muito complexa. sendo terno. Somente abrindo espaços no cotidiano apressado e difícil é que teremos chance de passar nossa maneira de ser. Os conflitos e dificuldades na relação pais e filhos são temas de 232 . Sem essa referência os filhos crescem sem a noção dos seus direitos e deveres. 1996: Zagury. sendo ético. a responsabilidade de sempre escolher o que é bom para ela. Concordo plenamente com Luft (2003) quando afirma “ Preparar alguém para viver não se faz com frases. de viver e de pensar. caracterizado como um recurso que permite que a criança perceba uma fronteira entre o espaço dela e do outro. ela possa questioná-lo e transformar.1992) que a atual geração de pais está completamente perdida na imposição de limites. de acalentar suas angústias. já que as despesas não cessam nunca. Shinyashiki. proximidade. No entanto é consenso entre muitos autores (Tiba. Receosos de frustrar os filhos e com desejo de agradá-los como forma de compensar sua ausência.vez mais dinheiro. e é essa bagagem que os ajudarão a conduzir suas próprias vidas no futuro.1999. para que depois. o limite sinaliza até onde o filho pode ir.

) Não receber regras claras de como o mundo funciona ou receber regras inconscientes deixa as pessoas muito inseguras. entrevistas e palestras. Para autora a ausência de regras e a falta de demonstrações de amor por parte dos pais tem como conseqüências insegurança e baixa auto-estima. Para Tiba (1996) os pais estão pagando um preço caro por não terem usado a autoridade com seus filhos. a maioria dos pais com crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos são negligentes. a atual geração parece “ príncipes e princesas” . o que implica em jovens com mais possibilidades de envolvimento com drogas e tendências depressivas. A ausência de limites e autoridade na formação dos filhos. do aumento do consumo de drogas e ao desprezo por normas de cidadania e valores éticos. representantes máximos do afeto de alguém. tive a oportunidade de ficar perto das inseguranças e inquietações de muitos pais. Muitos estudos corroboram com esse pensamento. A baixa de auto-estima é muito freqüente em filhos de pais negligentes. tem ocasionado muitas dificuldades e conseqüências negativas na vida de jovens e crianças. associados a falta de diálogo. agressivos e sem responsabilidades. A oportunidade de conversar sobre o tema revelou que muitos não percebem que a 233 . Segundo uma pesquisa feita pelo Núcleo de análise do comportamento da Universidade Federal do Paraná.. Weber(2005) Durante os nove anos que atuei em uma instituição de ensino. Ao mesmo tempo que pais são testemunhas da crescente marginalização de jovens. O fato de não terem sentido que são amadas nem mesmo pelos pais. (. sob a ótica de Zagury (1999) o comportamento permissivo dos pais prolonga bastante a permanência na adolescência gerando jovens dependentes. jovens com mais liberdade do que responsabilidades. programas de tv em horário nobre. Mesmo assim a sociedade contemporânea assiste perplexa a cenas de abandono. coordenado pela psicóloga Lídia Weber com mais de 3000 jovens.. maus tratos e violência contra crianças. mas direitos do que deveres. deixa um vazio e uma insegurança sem tamanho. Elas podem tanto arriscar onde não deveriam quanto ter receio de coisas que não precisariam.publicações.

algumas necessidades iam tomando forma e 234 . Os pais não sabem o que fazer diante do sofrimento de seus filhos que aparece sob a forma de um comportamento reprovável. É no espaço terapêutico que a criança tem a possibilidade de expressar suas fantasias. seus medos e desejos. Acompanho crianças e jovens cujos pais aparentemente parecem não se importar com a agressividade ou apatia de seus filhos. da proximidade e do carinho só eram lembradas quando seus filhos tornavam-se estranhos em seus lares. pais e mães buscam ajuda de especialistas conferindo a eles o cuidado de seus filhos. Paralelamente ao acolhimento da demanda de atendimento a criança e ao processo de psicoterapia. Assim. e isso se reflete nos sistemas familiares. Nossa sociedade contemporânea tem dado cada vez menos espaço para o que não é tão bonito. manifestando alguma disfunção no seu equilíbrio. Para alguns os laços de sangue deveriam ser suficientes para garantir uma educação com respeito e amor. sem ter suas necessidades atendidas e sem saber o que fazer para reverter esse quadro. A intimidade conquistada através do diálogo. Expressões como “esse não é o meu filho”.relação com os filhos necessita de investimentos e cuidados diários. Somatizações. Mergulhados em dúvidas e desejos de reverter esse quadro. A psicoterapia torna-se o lugar de regate do contato com seus sentimentos. “como eu não vi isso antes” eram comumente ouvidas por mim e pela equipe pedagógica. Lembro de rostos surpresos e assustados diante das atitudes dos filhos em sala de aula e nas dependências da escola. problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem são os motivos mais freqüentes para busca de uma psicoterapia. transferindo está tarefa para os especialistas. como corrobora Quadros (1999). acreditando que fazem o melhor que podem no projeto de vida que escolheram. a criança sofre sem conseguir nomear seus sentimentos. tão perfeito e tão prático.

a perda de um ente querido. precisamos encontrar o equilíbrio entre a proteção e o desenvolvimento da autonomia. Não apenas por comida. influenciando. Devemos satisfazê-los em 235 . . cabe a nós muitos deveres. a cada situação com que a família se depara: a chegada de um bebê. a saída dos filhos de casa. . reagindo e respondendo às expectativas do outro em busca da satisfação de suas necessidades. No entanto. algumas famílias não conseguem alcançar esse equilíbrio. a cada necessidade que emerge.facilitar o contato com seu papel de cuidador. A família dentro de uma perspectiva gestáltica é concebida como uma totalidade inserida em outras totalidades e formada por diferentes elementos. O processo de auto-regulação familiar é dinâmico. os ajustamentos criativos realizados não são satisfatórios para proporcionar equilíbrio aos seus integrantes.orientavam-me nas sessões de acompanhamento com os pais: . No entanto. o comportamento de um. as pessoas que as compõem.a importância da confirmação no desenvolvimento de crianças e adolescentes e no fortalecimento da auto-estima. A necessidade de equilíbrio faz com que os integrantes da família façam ajustamentos criativos em busca de um funcionamento saudável. está vinculado ao do outro. escola. É assim que a criança chega à psicoterapia. Constantes reconfigurações são feitas na dinâmica familiar. mas pela personalidade desses filhos: mas complicado do que garantir uma sobrevivência física saudável. afetando uns aos outros na busca de equilíbrio. Visto que os integrantes de uma família estão em constante interação. separações.ajudá-lo a compreender as necessidades e desejos de seus filhos. . saúde.sensibilizá-lo para a dor e o vazio de seu filho. ela é porta-voz da dificuldade da família de se auto-regular. Concordo com Luft (2003) quando afirma: “Ter filhos é ser gravemente responsável. é importante enfatizar o papel da família no desenvolvimento infantil.30) Como pais.”(p. gerando um movimento constante de influências e dependências. a criança. seus pais e demais membros se relacionam. mudanças de trabalho ou cidade.

suas necessidades básicas. Um ritmo gracioso predomina.. mas também em suas necessidades de segurança e afeto. precisamos caminhar de um pólo a outro. Na visão de Zinker (2001) “ as famílias funcionais são caracterizadas por fronteiras de subsistemas fluidos e flexíveis entre os indivíduos e os grupos de adultos e crianças. Ou as famílias individualistas. comumente estou diante de dois tipos de família: as extremamente confluentes. além de respeito pela separação e unicidade de cada pessoa. Ao mesmo tempo em que precisamos estimulá-los a crescer. da união e intimidade para a autonomia individual” (p. expressam dificuldades de perceber e aceitar suas diferenças e desejo em agradar.) Existe um propósito comum. onde as pessoas estão muito misturadas umas com as outras. (. gerando crianças tristes. Tenho observado ao longo de minha experiência clínica e escolar mais casos de pais negligentes e omissos. que são aquelas onde há muita distância entre seus membros e há pouco espaço para troca e para o cuidado. pais que fragilizados em sua 236 .. pais que ao acreditarem precisam educar os filhos para a vida dão a eles mais responsabilidades e funções que ainda não podem abarcar. respeitando as diferenças de cada filho e acolhendo suas dificuldades. coesão e responsividade. solidariedade. a ter seus próprios pensamentos e a frustrá-los nos momentos certos. Aguiar (2005) traz contribuições nessa perspectiva quando afirma: “Atualmente.77) Quando recebo a solicitação de psicoterapia para crianças. Nessas famílias as crianças são deixadas aos cuidados de parentes próximos ou babás. O tempo de convivência entre elas e os pais é restrito. inseguras e carentes. cada vez mais nos deparamos com famílias que se apresentam nessa modalidade de cristalização de sua dinâmica: pais preocupados com o próprio crescimento profissional ou com questões da própria vida que relegam os filhos a um segundo plano. Nossas atitudes precisam ser fluidas e dinâmicas.

Os objetivos do trabalho eram distintos. checando se a proposta era pertinente com suas questões e expectativas. Após a estruturação do trabalho. sensibilizando-o para o papel de cuidador.97) Diante desse contexto senti a necessidade de realizar um trabalho de caráter preventivo para os problemas citados. fóbicas. Distribuímos os assuntos sugeridos por nós e pelos pais em 8 encontros. mas complementares. a forma de trabalhar e principalmente de ouvir e acolher as dúvidas e angústias dos pais. desligadas ou com sintomas físicos”(p. Os temas foram: O brincar e o diálogo Limites Culpa Auto-estima e autonomia Agressividade e ciúme entre irmãos Sexualidade Divisão de tarefas entre o casal minhas mesmas 237 .que compartilhava das preocupações. Tal iniciativa contou com a participação de uma profissional amiga educadora e psicomotricista . agressivas. O segundo.condição de adulto apóiam-se na criança fazendo-a de confidente e cuidadora. O primeiro de ordem mais prática era propiciar a informação e a reflexão de temas geradores de conflitos na relação pais e filhos. de uma natureza mais subjetiva era de facilitar a percepção do pai sobre a forma de se relacionar e conduzir a educação dos seus filhos. foi realizada uma entrevista individual com as pessoas interessadas em participar dos grupos. desafiadoras. O trabalho foi organizado em encontros semanais com duração de 90 minutos. foi assim que surgiu o desejo de criar o Grupo de Pais. As crianças comumente se apresentam como mini-adultos. O intuito era esclarecer os objetivos. ou com sintomas obsessivos. um espaço para dar voz as dificuldades e inseguranças das famílias.

número e idades de filhos diferentes. questionários. ainda cabe as mulheres a responsabilidade e iniciativa pelos interesses e compromissos de seus filhos. Sabemos que o ser humano é um ser em constante construção. debates e desenhos. como se elas procurassem e existisse uma forma certa de educar. sendo interpretada como um ganho para todas. Sua própria faixa etária era bem variada. tinham estados civis diferentes. Algumas situações de conflitos vividos em um encontro eram citadas em encontros posteriores com muito mais alívio e alegria. Percebemos com tal comportamento. Procuramos auxiliá-las a responder seus questionamentos mostrando a importância de contextualizar cada assunto e perceber todos os elementos que se encontram em permanente interação. o desejo de acertar e querer o melhor para seus filhos. Zagury (1997). Tais variações foram muito enriquecedoras. principalmente em moradores de cidades do interior como foi o caso do nosso trabalho. sabemos 238 . até as que se intitulavam mães. dramatização. influenciando uma tomada de decisão. As mães que participaram dos encontros tinham as mais diversas características: Eram profissionais de áreas variadas. Durante todos os encontros foi dada especial atenção e ênfase ao papel do pai como cuidador e a importância da confirmação para o equilíbrio emocional de crianças e adolescentes e para o fortalecimento da auto-estima.avós). A leitura que fizemos deste assunto é que apesar das pesquisas demonstrarem que os homens estão mais participativos na educação familiar. música. Percebemos com as reflexões trazidas que algumas mães foram realmente tocadas com o trabalho e passaram por um processo de transformação no decorrer do grupo. relaxamento. É importante mencionar que todos os grupos foram formados somente por mulheres. o que é apontado como natural na visão de outros autores. A partir das colocações das participantes registramos muito desejo por soluções e respostas prontas.Separação de pais O trabalho contou com os seguintes dispositivos de mobilização: leituras de texto. (desde mães jovens em torno de vinte anos. pois permitiram que a troca entra elas fosse constante.

a sermos mais determinados e seguros com nós mesmos.também que os pais têm uma importância ímpar na formação de crianças e adolescentes. Os filhos nos convidam todos os dias a visitar lugares esquecidos da nossa alma. Nos surpreendem com seu choro espontâneo.... Como mãe da pequena Dominique.. 239 . Os filhos nos relembram a arte de sorrir e gargalhar por motivos simples..... Nos ensinam a sermos mais tolerantes e generosos com o próximo... educar dá muito trabalho”. que às vezes percebemos pais paralisados diante do cansaço de tal função. precisamos despertá-los para a oportunidade que eles nos oferecem de sermos pessoas ainda melhores. Mas não só isso. acredito que. Nos emocionam com suas pequenas e grandes descobertas. desprovidos de vergonha ou da preocupação dos que os outros vão achar. Eles são nossa missão e também nosso maior presente.. Sem querer diminuir o trabalho que envolve a criação dos filhos. É tão comum escutarmos expressões “ser mãe é padecer no paraíso. procuramos resgatar a beleza do desafio de educar para a vida. A ensaiar comportamentos mais criativos e atitudes genuínas diante do mundo.. assim procuramos passar para estas mães nossa visão do quanto somos responsáveis pela formação desses pequenos seres.

WEBER. “Seja feliz meu filho” . Summus editorial. São Paulo. 1980. “Disciplina Limite na medida certa”. Record. Revista O Globo. Editora Gente. 2003. 1995. ZAGURY. TIBA. Editora Record. 2001. 240 . Editora Gente. “ A busca da elegância em psicoterapia. São Paulo Summus. 1992. Roberto. “ Descobrindo crianças”. “ Gestalt-terapia com crianças teoria e prática” São Paulo. São Paulo. QUADROS. 1999.Rio de Janeiro. “ Educar sem culpa – A Gênese da ética”. LUFT. Joseph. 1997. Editora Livro pleno. Içami. TIBA. 1996. Lídia. “ Encurtando a adolescência” Rio De Janeiro. Luciana. Editora Gente. ZINKER. Tânia. Tânia.Uma abordagem gestática com casais. 2005. Rio de Janeiro. “ Perdas e Ganhos. “ Pais e filhos companheiros de viagem”.BIBLIOGRAFIA AGUIAR. Laura. São Paulo. São Paulo. OAKLANDER. Içami. “ Sem pai nem mãe. “ A evitação da dor na relação entre pais e filhos. 2005. Editora Record. famílias e sistemas íntimos” . SHINYASHIKI. Lya. ZAGURY. Violet.

Buscando através da Gestalt-terapia aprofundar e entender as modificações e os mecanismos envolvidos nesse processo de tornar-se mãe. Melanie Klein. Sexualidade. sobretudo na abordagem psicanalítica.IDEAL MATERNO. Palavras-chave: Gestalt-terapia. nós Gestaltterapeutas pouco temos de teoria sobre a maternidade e sobre o poder 241 . fazendo um recorte sobre as questões do ideal materno e da gestação com uma ponte para a sexualidade. Feminino. História e corpo. Maternidade. Entretanto. assim como estudado por Winnicott. OBJETIVO A proposta desse trabalho é refletir sobre universo feminino. A concepção. GESTAÇÃO E SEXUALIDADE: UM RECORTE DO FEMININO Julia Gama Tourinho RESUMO Este trabalho tem por objetivo refletir sobre universo feminino. Gestação. Em linhas gerais essa proposta visa interrogar a inserção da mulher na cena social. O tema: “Mãe”. por exemplo. entre outros. foi papel central da teoria de Freud. Maternidade e sexualidade. As transformações femininas ocorridas ao longo da história foram acompanhadas por produções teóricas dentro da psicologia. os valores sociais e a sexualidade feminina na atual sociedade em transformação. fazendo um recorte sobre as questões de âmbito dominantemente feminino: Ideal materno e Gestação e sua ligação com a sexualidade. Buscando através da Gestalt-terapia aprofundar e entender as modificações e os mecanismos envolvidos nesse processo de tornar-se mãe.

Sem preparo. muitas mulheres se deparam com uma maternidade conturbada e uma série de conflitos pessoais. 242 . como um recorte sobre o universo feminino. a nossa história. Uma forma de refletir sobre o contexto social vivido e repensar nossos valores adquiridos. tem sobrado pouco tempo para reflexão e para vivenciar a gestação como elemento transformador. o conceito de ideal materno. Esse trabalho que apresento hoje é fruto de minha vivência pessoal e acadêmica e tem o intuito de investigar e questionar a maternidade. Nesse sentido a Gestalt-terapia é de fundamental importância na descoberta de novos caminhos e na possibilidade de uma maior conscientização nesse processo de transformação. maternidade. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA O papel social da mulher-mãe se modificou muito nas últimas décadas e vem sofrendo constantes reconfigurações. cuidar de uma criança era um estorvo e as famílias mais abastadas tinham o hábito de entregar seus filhos às amas. surgiu a partir do século XVII junto ao movimento higienista e ao iluminismo. para mim tão apaixonante e de grande relevância. gestação e sexualidade tornou-se um incentivo a mais para a produção desse trabalho. Considero que pensar a condição feminina na atualidade através de um olhar para historia é estarmos conscientes de que somos. para sexualidade e para a vida da mulher de uma forma geral. tão amplo e rico de significações. Dentro da correria do dia a dia. Até então. a) A Construção do Ideal Materno Apesar da maternidade sempre ter existido. também.transformador da gestação. muito difundido em nossa sociedade. a gestação e a sexualidade sobre o prisma da Gestalt-terapia. O fato de haver pouca produção teórica em Gestalt-terapia sobre o tema.

e sim aprendido. Este movimento muito antigo se acelerou no século XVIII. Por fim seu corpo tornou-se objeto médico por excelência. Assim como na natureza. era o que convinha às mulheres. para transformar-se em um saber emergente de um discurso profissional da medicina – na verdade. um discurso masculino sobre as mulheres. maternar. transmitida entre mulheres. Nesse momento a maternidade deixou de ser uma experiência exclusivamente feminina. 243 . despudorado. não oferecia nenhuma gloria ou reconhecimento. serem boas reprodutoras. Apesar de sempre ter sido considerada uma função feminina. afinal de contas isso era considerado um ato menor. inclusive culturalmente. pois sua função essencial é gerar e amamentar. indigno de uma dama.Poucas mulheres tinham condições e desejo de ter uma ama junto a si para cuidar de seu filho. Apenas quando se glorificou a função materna é que se começou o processo de construção do ideal de mãe que conhecemos. levando à patologização da mulher. terreno onde mandava e desmandava – na educação dos filhos e nas tarefas domésticas – e nenhum homem deveria ousar se interferir. A comparação com as fêmeas do reino animal não as convenceu que deveriam amamentar. A maioria as entregava as amas que muitas vezes mal tinham condições de cuidar de si. Deus criou as fêmeas para que gerasse e alimentasse seu o filho com o próprio leite. Como forma de reduzir a grande número de mortes de crianças enviadas as amas. tornando-se alvo do poder/saber normativo da higiene. Para eles. Elas não deveriam sentir prazer ou se envaidecer de seus órgãos. Ela virou a rainha do lar. Entregar seu filho a uma ama era muita das vezes um infanticídio disfarçado e nos trás indícios de que o amor materno não é algo inato. os especialistas começaram a fazer campanhas para que as mulheres amamentassem seus filhos. A comparação da mulher a uma santa (um exemplo de devotamento e abnegação) que faria coisas que apenas ela tinha a capacidade de fazer deu a mulher um lugar de importância até então desconhecido.

Identidade Feminina e Construção do Self O amor romântico completou essa jornada de transformação da maternidade. Em verdade. mas também as relações conjugais e de gênero. servindo de referência para a construção de valores sociais que se encarregaram de manter os comportamentos sexuais em níveis compatíveis com o convívio familiar e social. 244 . b) Sexualidade. mesmo que fossem sustentadas na duplicidade das experiências masculinas e no confinamento da sexualidade feminina. Essa mãe de amor incondicional encarregava-se insistentemente de tudo. Quando tentavam ser mais que isso eram quase sempre consideradas indutoras de doenças. amamentar e cuidar dos filhos. para ser completamente mulher ela precisava cumprir a vocação materna. O amor. este contexto reafirmava a separação entre o público e o privado. assumindo sozinha a educação completa dos filhos. As relações deviam ser duradouras. ou seja. serviu como um mecanismo de união do casal e como uma estratégia para definição dos papeis que seriam representados por homens e mulheres. sendo sua única função ser mãe. de uma forma geral.As mulheres da época foram reduzidas ao seu sexo. sempre frágil e doente que precisavam de cuidados e supervisão. a exigência de resignação com devotamento e o incondicional desejo de ser mãe. Houve uma verdadeira profissionalização da maternidade e uma conseqüente abertura a novas possibilidades que o exercício da função materna trazia. O caráter de novidade era a nova percepção do "ser mãe". entre a tranqüilidade do ambiente doméstico e a sexualidade da prostituta. não alterou só a função materna. o que colaboraria para uma maior rigidez e diferenciação entre eles. As mudanças fluidas e sutis envolvem até aqui três enfoques: a natureza instintiva. Ser mãe não deixava tempo livre para a mulher. que em realidade. que estava agora naturalmente vinculada à feminilidade.

sendo a castidade um aspecto muito importante para a preservação da virgindade antes do casamento. porquanto não se esperava que as mulheres tivessem necessidades sexuais.] Uma vez casada. se explicava cientificamente as características ‘supostamente’ típicas de cada sexo. o corpo da mulher transformou-se em corruptor e o prazer proibido. Em resumo a famosa frase: ‘inveja do pênis’” Reich. contemporâneo de Freud. além de um pecado. A ausência de realização sexual para as mulheres não era especialmente critica. Tais estudos contribuíram e muito para estigmatização da condição feminina. A mulher. estava na Terra para procriar e servir. não se esperava que a mulher fosse erótica.Numa sociedade feita e pensada por homens. relata seu estranhamento com relação ao tratamento das histerias.. 245 . Sendo os de maior dimensão e renome os estudos feitos por Charcot e Freud. (LEIBLUM. para a mulher a submissão e a fidelidade. p. “Parecia que a inibição sexual de uma garota bem educada da classe média era exatamente o que deveria ser [.. podiam desfrutar do sexo. Desejar ser qualquer outra coisa que não ser mãe era uma inaceitação da condição feminina e rivalidade com a figura masculina. em todos os aspectos. 88). e as mulheres.. Os homens. A sexualidade ficou também circunscrita as normas higiênicas. 24) Sexo virou pecado. não. Os genitais transformaram-se em fonte de todos os males do mundo. um ser inferior. usualmente. O ato sexual por prazer era considerado sujo. mas era intimada a oferecer-se obedientemente ao marido sem participar ativamente no próprio sexo. 1982. com seus apetites sexuais impulsivos e lascivos. De fato. quer dizer: Homens e mulheres adultos casavam e praticavam o acasalamento monogâmico e heterossexual com a finalidade exclusiva de procriação.” (REICH. 1975. apresentando-as como imperativos da natureza: para o homem a força física e o prazer sexual. [. as mulheres eram vistas como seres inferiores e subordinados aos homens. p.. Foi ao longo do século XIX que surgiram os primeiros estudos sobre a sexualidade feminina.] não ocorria a ninguém indagar a respeito da inibição que a impedia de experimentar a satisfação sexual.

] mas um processo: o que acontece na fronteira de contato entre o organismo e seu meio” (GINGER.. tende a ser uma profilaxia contra os mecanismos neuróticos que tem. de falar... “Todos os distúrbios neuróticos surgem da incapacidade do indivíduo encontrar e manter o equilíbrio adequado entre ele e o resto do mundo [. 1995.. como um proprium.Conhecer um pouco mais de onde viemos e a historia das mulheres. é nosso self visível. (BUARQUE.. origem na culpa e no medo. p.. de fazer. na medida em que nos deparamos com o que é estranho a nos. que nosso Self ganha propriedade no espaço tempo.179) [.. como uma entidade.]” (Perls in BUARQUE. 2007) Afinal. uma estrutura processual que se atualiza cotidianamente. nasceu conosco. podemos especular que a gestação e o parto fazem parte desse processo de construção do self. nossa síntese contativo-existencial. o conceito de self é processual. 2007) “O self [. 246 . 262) Sobre esse prisma.] integra sempre funções perceptivoproprioceptivas. que vai registrando dia a dia nossa caminhada do hoje de cada dia. O Self se constrói na fronteira de contato. 158) Uma abordagem que valoriza uma visão global do ser humano como a Gestaltterapia não poderia deixar de dar relevância a influência do social para a construção da subjetividade.] nosso self é temporal. não é uma entidade psicológica separada do organismo. (RIBEIRO. (RIBEIRO. p. em sua maioria. 2007...44) Em Gestalt-terapia. 2007.. o corpo é o lugar onde tudo acontece. funções motor-musculares e necessidades orgânicas [. Nosso jeito de pensar. A neurose é sempre de origem social.] e sente emocionalmente a adequação entre ambiente e organismo. “Self [. 1997. em especial da maternidade.] não designa uma entidade determinada [. sexualidade. pelo contrario. p. gravidez) fazem parte da construção do Self.. Questões aprendidas quanto ao universo feminino aqui abordado (ideal materno. como um retrato eternamente retocado. de sentir. estando sempre em constante construção e transformação. p..” (PERLS.

p. 13) Entretanto.. Considerando que o corpo guarda os registros das 247 . independendo de ser a primeira. e se modifica o eixo da bacia. Grupamentos musculares que originalmente não tem função nítida ou constante passam a atuar. a segunda ou a terceira gestação. “pois ser mãe de um filho é diferente de ser mãe de dois e assim por diante porque com a vinda de cada filho toda a composição da rede de intercomunicação familiar se altera” (MALDONADO. casamento. como define Maldonado (1980) “uma pessoa em crise não tem escolha: simplesmente tem que mudar. A alteração do eixo de gravidade é a mudança corporal mais significativa durante a gestação. a gestante altera seu comportamento tendo como parâmetro o seu próprio Self. A gestação altera enormemente a estrutura do organismo e desorganiza toda ‘economia’ da mulher. menopausa.” (p. É interessante refletir sobre esse aspecto: ‘todo eixo da mulher se altera e se reestrutura durante a gestação’. Sendo assim. No entanto essas mudanças não ocorrem aleatoriamente.A gestação é um período de transformação e uma crise. 1980. estirando-se e contraindo-se. 13) A gravidez trará elementos novos em todos os seus aspectos – incluindo a sexualidade – e promoverá alterações momentâneas ou permanentes. a pessoa que é e que se construiu até então. p. mas em muitos momentos durante a vida como: puberdade. também "encurvam-se o segmento dorsal e o lombar. Quando o tronco da grávida se projeta para trás. 110). A gestação produz uma reconfiguração do Self. esses momentos não acontecem somente durante a gestação. toda a estrutura corporal da mulher se altera e ela passa a utilizar recursos antes desconhecidos. e ocorre de forma involuntária." (REZENDE. entre outros. em alguma direção e de uma maneira nova. esse mais discretamente.

seja a percepção de alguma coisa ou alguma pessoa com a qual podemos zangar. 1997. esquema corporal etc (BARCELLOS. p. seja a fantasia. na medida em que a inibição das nossas expressões afetivas é traço característico da nossa cultura. p. e estas estimulam um tipo de excitamento desassossegado [.. p...] Mas se acrescentarmos a essa propriocepção a awareness ambiental. provocando.” (LIMA. textos específicos sobre as alterações corporais. uma desorganização. na estrutura emocional e corporal dessa mesma mulher. a emoção se desencadeará imediatamente com plena força e clareza. que é muitas vezes vivida como uma sensação de perda de ‘controle’ de suas emoções. sentimentos. (BARCELLOS. esses afetos guardados.” (p. 212) Quando. Quando essa solução não for viável.] por meio da contração e de exercícios musculares é possível mobilizar combinações especificas de comportamento corporal. 137) Embora não tenhamos encontrado na bibliografia levantada. (PERLS. podemos supor que movimentos diferentes ocorrerão na musculatura. entre outros. falamos que surgiu uma ‘Gestalt inacabada’. 2007. na gravidez. “Quando há uma solução para essa necessidade. toda a estrutura do organismo-mãe é alterada em função das mudanças de seu corpo grávido. muitas vezes referentes a situações pré-verbais. a reestruturação corporal durante a gravidez. 248 35 . 138) A alteração de todo eixo da mulher e sua reestruturação durante a gestação pode evocar sentimentos injustificáveis como tristeza.nossas emoções. São emoções de difícil decodificação. angustia. em Ginger (1995).. 167-8) Uma emoção é [. assim. 1991. ao qual é difícil ter acesso pelo meio de mediação puramente verbal.. podemos inferir que essas transformações têm uma inter-relação direta com o estado psicológico da mulher. dizemos que houve um ‘fechamento de Gestalt’.. [. geralmente não compreendidas pela mulher que as vive. podemos inferir que.] uma relação entre o organismo e o ambiente [. assim como influenciar a vida sexual. que surgiu com base no contato entre o homem e o meio externo. 1991. mobilizando. traz a tona registros de gestalten inacabadas35 e emoções até então desconhecidas.. 127) Essa Gestalt inacabada tende a emergir novamente até ser solucionada. p.] pensando o organismo a partir de uma concepção unitária e o corpo sede das emoções. encontramos: “o corpo-a-corpo desencadeia gradativamente uma emoção profunda e costuma permitir a emergência de um material arcaico do período infantil pré-verbal. em Gestalt-terapia. nesse caso a alteração corporal pode evocar essa emersão..

. tudo isso misturado com a emoção de virar mãe e uma comunicação muito intima entre seu corpo e seu bebê.. Essa mulher reúne todas aquelas contidas na sua história. em seu lugar. que mesclam prazer e dor. é a futura mãe que está lá. p. Pode ser um momento de confrontação entre o que foi aprendido socialmente. 244-5) Na fase de expulsão. mas. 138) A gestação. é claro. O impasse faz parte do processo de amadurecimento e da mesma forma que 249 . todas as filhas e todas as mães que ela foi. no seu nascimento e na sua primeira infância.. p. como se tudo que você tivesse sido na sua vida estivesse presente naquele momento. o parto e a maternidade são eventos de potencial transformação na vida de uma mulher. as expectativas e experiências individuais. Na hora do parto. a despeito das estratégias utilizadas para mantê-la sob controle. vai sempre além da imaginação. Acontecem intensas descargas de energia. ou poucas. podem alterar a consciência corporal da mulher. 1997. Essa abertura total do útero acontece somente uma vez. de acordo com sua história. c) Sexualidade na gestação A gestação pode trazer para algumas mulheres situações de impasse.. É uma experiência emocional muito profunda que envolve uma regressão aos sentimentos mais básicos e primitivos. Podemos pensar no caso do parto vaginal como uma possibilidade de novas vivencias frente à sexualidade. As sensações evocadas durante o parto são muito fortes e intensas.. em especial com relação à sexualidade. produz-se um fenômeno [. (BALASKAS. ali estão presentes [.. surge a mulher arcaica que ela mesma desconhece e que a transcende. a mulher social (que o médico conhece até então) desaparece e. mas o mecanismo psíquico é comum e explica o fato de que cada mulher que está em trabalho de parto está dando à luz a si mesma [.] Confrontada com essa experiência arcaica.] Vem daí o caráter revolucionário dessa experiência [. já que a passagem do feto e a dilatação de músculos. durante sua vida... Provavelmente acontece um relembrar inconsciente do que você viveu no útero da sua mãe. 1993. que consiste em dar a vida e que.] (SZEJER. um dos momentos mais intensos do trabalho de parto é quando o bebê começa a coroar (a cabeça do bebê começa a aparecer no canal vaginal). Em primeiro lugar.] Não se pode generalizar porque cada história é individual.O parto é ponto final da gestação e o ápice dessa jornada. ao longo se sua existência.

um dilema entre a lealdade familiar e a unidade do casal. 1981. [. (PERLS.apresenta o problema. entre outras coisas. No nosso caso a gestação pode oferecer a mulher uma grande oportunidade de crescimento. pela aparência física que desagrada [. É muito simples. p. Ou odiá-lo.. então só fazendo essa afirmação produzirá imediatamente algum tipo de reação e alguma comunicação. tomar formas diferentes. fornece também a solução. 144-5) As dificuldades que surgem com relação à sexualidade. a história continua... de um diálogo honesto entre eles. A solução vem principalmente. As alterações corporais são muito significativas e podem ser vividas como desestabilizantes e angustiantes. nesses casos a mulher tende a se sentir ameaçada. a ser escrita todos os dias. algumas gestantes.” (SZEJER. a relação do casal tem grande influência e o olhar do homem tanto poderá acentuar a insatisfação da mulher. não sei o que dizer agora. a mulher reagirá de uma maneira ou de outra a essas mudanças.. pois “se a história precede cada um de nós e nos influencia. (PERLS.] tem uma quantidade de outras pessoas envolvidas.. segundo Perls (1981) é não utilizar máscaras para se esconder. Poderá exaltar seu corpo que ela vê. Ter um diálogo honesto.] Nesse sentido. Que está muitas das vezes ligado as suas famílias de origem. como. com grande satisfação. você me deixa embaraçado. 1997. 153) De uma forma ou de outra a gestação marcará a sexualidade da mulher e de que forma isso acontecerá não tem como ser previsto antecipadamente. mais femininas. p. p. na maioria das vezes trazem a tona um impasse do casal. é conscientizar-se e informar ao outro sobre o que sente. Como por exemplo: estou paralisado. ao contrário. 74) Apesar do enorme valor social atribuído à maternidade. se você se dá conta de você mesmo.. Necessitamos de outras pessoas para necessidades alimentares e sexuais. durante a gestação. e acima de tudo. De modo geral. 250 . visto que necessitamos de outras pessoas para um certo montante de sustentação de nossa auto-estima. sentemse feias e deformadas durante esse período. 1981. também.] o enredo de vida de uma pessoa [. superação e resignificação de seu comportamento e suas expectativas.

p. pode ocorrer desconforto à penetração do pênis. também fazem parte do processo. vivenciado como coisas inconciliáveis. 2006. (MALDONADO. ocasionando maior lubrificação vaginal na fase de excitação.. p. para alguns homens..] Muitas crises poderiam ser facilmente resolvidas com a constatação de que a fase é natural e vai passar. 2001. [. (SZEJER.] Há maior vascularização dos órgãos pélvicos. (CONCEIÇÃO. poderá contrabalançá-la. tem raiz na separação e diferenciação entre maternidade e sexo. p. infelizes. além do aumento do volume do útero. em específico.. [. A prática de sexo nesse momento fica caracterizada pela busca do prazer e pode ser vivida por algumas mulheres com um conflito. 1983) É importante ressaltar que não são apenas as questões emocionais que interferem na atração sexual. Quase todos os casais passam por mudanças no seu relacionamento sexual durante os nove meses de gravidez. 335-6) Entretanto nem só as mulheres sentem dificuldades durante esse período. que podem alterar a resposta sexual. a falta de desejo da mulher aparece graças a um mecanismo da natureza criado para a preservação da espécie. Pelo edema e congestão da parede vaginal. não. quando grávida. [. por terem idealizado a maternidade. inseguras sobre seus atrativos sexuais (HEIMAN. modificações anatômicas e funcionais no organismo da mulher. A dificuldade de adaptação da vida sexual nesse caso. 38). 1992. Em algumas etapas da vida de um casal. podem apresentar dificuldades 251 . conseguiremos atenuar os medos e as preocupações e tornar a vida sexual (ou sua abstinência) mais aceitável e mais prazerosa. p. (BERENSTEIN.ao contrário. 1997. o aspecto do corpo da esposa durante a gestação é belo. as alterações hormonais. para outros. pois já está. associadas ao aumento do volume abdominal e o aumento do peso podem reduzir a atração e o desejo e influir negativamente no desempenho sexual masculino.] Ao entendermos porque o sexo durante a gestação é diferente do sexo em outros períodos da vida. Esposas cujos maridos se afastam durante a gestação podem ter dificuldades para não se sentirem rejeitadas. 121) A gravidez é o único momento da vida da mulher em que ela realmente não tem preocupações em engravidar.. p. 35) Além disso. inegavelmente. 1986.. (MURKOFF. Alterações da região pélvica da mulher. Existem. 145) Muitos homens..

faz bem à gestante tanto física quanto emocionalmente: pode manter a mulher e o marido mais próximos. (HEIMAN. penetração. considerando que para o bebê ‘crescer’ ele deve ser regado com o esperma do pai. preparando a musculatura pélvica para o parto. a seu modo. 1992). Para que as experiências sexuais durante a gravidez sejam positivas é fundamental 252 . Embora a relação sexual durante a gestação possa ser diferente do que se vivenciava antes. Se o casal encontra-se disposto a vivenciar novas formas de fazer sexo – descobrir novas sensações sem que haja.. De fato. A penetração pode ocorrer normalmente se não houver nem dor nem incômodo. p. a recomendam.] Mas. (SZEJER. seja qual for a orientação adotada – abstinência ou prática intensa –. pois toda mudança traz o risco de se encarar o novo e o medo do desconhecido. 2006. a penetração não é a única forma de obtenção de prazer do casal durante a gravidez.em se sentir atraídos por suas companheiras durante a gestação. pode ajudar a manter a forma. modifica a sexualidade. outras. necessariamente. 340) Apesar de todos os possíveis empecilhos à prática sexual as estatísticas demonstram que a grande maioria dos casais praticam atividades sexuais até o oitavo mês de gestação. É apenas necessário que a barriga fique livre ou apoiada em almofadas. (MULLER.. que a sexualidade do casal tem a ver com essa gravidez e será modificada por ela. [. 1997. e é relaxante – o que é benéfico para todos. 151) É importante ressaltar a gravidez é um evento único e significativo que. todas essas superstições populares dizem bem. Em contra partida. de uma forma ou de outra. ao contrário. Esse período é vivido de maneiras diferentes em cada cultura. é na maioria dos casos perfeitamente segura. p. assim como novas posições – e se a intimidade lhes possibilita utilizar sua criatividade sexual tudo é permitido e a chegada de um bebê poderá uni-los ao invés de afastá-los. a gravidez pode ser um período de grandes descobertas amorosas. superada as dificuldades. inclusive para o bebê. 2001) Embora permitida. Muitas vezes as mudanças são difíceis. A posição mais recomendada pelos especialistas em sexualidade é a posição em que casal deita de lado e a mulher apóia a barriga. (MURKOFF. Algumas tradições interditam a prática da sexualidade durante a gravidez.

pois esse é um dos períodos mais ricos em subjetividade e também um dos mais delicados. gestalten inacabadas muito vívidas e sentimentos difíceis de compreender. gestação e sexualidade podendo re-descobrir e colocar luz sobre possíveis formas de ser e descobrindo novos caminhos. Nesse sentido é tão importante estudarmos esse tema. Ao longo do processo poderão emergir conteúdos intensos. Acompanhar terapeuticamente uma gestante é um privilégio que requer alguns cuidados. oferecer suporte ajudando a grávida na manutenção de equilíbrio emocional. diálogo e contato entre os parceiros. É fundamental para a Gestalt-terapia buscar o aprofundamento dos mecanismos envolvidos nesse período tão importante na vida de todo ser humano: O nascimento de outro ser. Esses eventos estão claramente relacionados ao nosso Self processual e é importante ao gestalt-terapeuta refletir sobre esse tema. COMENTÁRIOS A relevância desse trabalho está em revisitar questões aparentemente tão óbvias quanto maternidade. O terapeuta que decide trabalhar com mulheres (ou casais) gestantes deve estar alerta que esse é um momento de profundas transformações – como uma condição psicológica especial – que exigem suporte afetivo. auxiliando-a. A gestação é o momento da vida da mulher que representa a possibilidade de maior conexão com o feminino – o que para algumas mulheres inclui o resgate da autoestima – mas que depende essencialmente de como vai será vivenciado. A falta de contato com as sensações e emoções nesse período pode levar às cristalizações e sofrimentos. basicamente. entre 253 . Ele deve estar atento às necessidades da mulher ao longo de sua gestação. A função do terapeuta é.que exista intimidade. para que as mudanças normalmente existentes não gerem descompensações.

254 . a concepção de mãe. os valores sociais e a sexualidade feminina na atual sociedade em transformação. 2007. auxiliá-la sem desestabilizá-la. p.outros. E. in ORGLER. principalmente. mas acontece se dedicarmos tempo e esforço a ser o que somos” (Beisser in Fagan. “A mudança não ocorre através de uma tentativa coercitiva por parte do indivíduo ou de outra pessoa para mudá-lo. 214) Essa proposta visa interrogar os temas: maternidade e sexualidade. a contribuição da Gestalt-terapia na busca dessas respostas. Nesse momento o terapeuta deve estar afinado com seus sentimentos e expectativas e ao mesmo tempo atento às necessidades da cliente para que possa perceber os limites do processo. história e corpo.

Sergio. Patrícia Lima. Rio de Janeiro: Zahar. 1980. São Paulo: Summus. CONCEIÇÃO. – Psicologia da gravidez: parto e puerpério / Maria Tereza Pereira Maldonado.BIBLIOGRAFIA BALASKAS. – A inteligência hormonal da mulher / Eliezer Berenstein. São Paulo: Summus. BUARQUE. R. LIMA. São Paulo: Summus. tradução Paulo Fróes. Anne Ginger. Petrópolis. – Princípios e Prática de Terapia Sexual / Sandra R. – Parto ativo: guia prático para o parto natural/ Janet Balaskas: Tradução Adailton Salvatore Meira – São Paulo: Graund. 1995. Sheila Orgler. J. 1993. São Paulo: ROCA. Daflon. 2001. S. 1991. MALDONADO. Nelson Vitiello. Júlio Dickstein. GINGER. In Instituto de Orgonomia Ola Raknes. – Descobrindo o prazer: Uma proposta de crescimento sexual para mulher / Julia Heiman. 1997. LEIBLUM. __________________Nós estamos grávidos /Maria Tereza Maldonado. Rio de Janeiro: Bloch. 1983. – 500 Perguntas sobre sexo: Respostas para as principais dúvidas de homens e mulheres / Laura Muller. Vozes. 2007. 1986. Energia. L. T. Rio de Janeiro: Objetiva. Sandee Hathaway. – O que esperar quando você está esperando/ Heidi Murkoff. Arlene Eisenberg. HEIMAN. J. BARCELLOS. Pervin. P. E. HYCNER. H. C. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. Rio de Janeiro: Conexão projetos gráficos. Gestalt Inacabada / Patrícia Lima. Caráter e Sociedade n 2 – Ago/91. Leiblum. – Gravidez e Sexualidade In: Nelson Vitelo. 1982. Sexologia – II Comissão Nacional de Sexologia da FEBRASGO. MURKOFF. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. Neurose In: Gladys D’Acri. 1992.uma terapia do contato / Serge Ginger. Jean Claude Nahoum. M. Relação e cura em Gestalt-terapia. C. Patrícia Lima. Gestalt Aberta. Laurence A. S. 2007. Gestalt Fechada. Maria Lygia G. S – Gestalt. – Rio de Janeiro: Objetiva. co-tradução e cotej 255 . E. MULLER. Sheila Orgler. – Da gestação à aquisição do olhar / Claudia de Oliveira Barcellos. São Paulo: Summus. In: Gladys D’Acri. 2001. BERENSTEIN. Joseph Lopiccolo. São Paulo: Summus. – Gestalt. I. Richard Hycner e Lynne Jacobs.

Brasiliense. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. YONTEF. 1997. Sheila Orgler. G M. W. Sheila Orgler. São Paulo: Casa do Psicólogo. PERLS. 2007. Dicionário de Gestalt-Terapia: “Gestaltês”. 2007. São Paulo: Ed. 1981 REICH. Richard Stewart. ___________A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. – A Função do orgasmo.Rosa Eugênia Lima Peralta e Emile Jair Guerra Labelle – Ed. SZEJER. 1991. J. São Paulo:Summus. São Paulo: Summus. 1998. – 5ª Ed – Rio de Janeiro: Record. Teoria Paradoxal da mudança In: Gladys D’Acri. F. 1975. Ciclo do contato In: Gladys D’Acri. Revisada e atualizada. Rio de Janeiro: Zahar. – Processo. 1997. ORGLER. 6ª ed. Patrícia Lima. – Gestalt-Terapia / Frederick Perls. Ralph Hefferline. 256 . Patrícia Lima. Paul Goodman. RIBEIRO. Jorge Ponciano. São Paulo: Summus. São Paulo: Summus. REZENDE. de – Obstetrícia. M. – Nove meses na vida da mulher: uma aproximação psicanalítica da gravidez e do nascimento / Myriam Szejer. Diálogo e Awareness. 2006. Sheila. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

p viii) Contato e Awareness são dois conceitos chaves e fundamentais para a Gestalt Terapia.“OUSANDO REPENSAR OS CONCEITOS DE CONTATO E AWARENESS – UM DESAFIO POLÊMICO” Angela Schillings. Com base em muitos anos de experiência na prática e no ensino da Gestaltterapia e intrigadas com esta questão e seus desdobramentos para o ensino e treinamento apresentação: • • • rever os conceitos de awareness e contato citados anteriormente. mas para a awareness o contato é indispensável” (Perls. Hefferline. Lílian Meyer Frazão. e Goodman. Selma Ciornai. F. percebemos que mesmo no livro mais básico dos fundadores da Gestalt Terapia. as vezes. Jane Rodrigues. “Contato enquanto tal é possível sem awareness. à reflexão clínica e ao ensino da Gestalt Terapia. à prática. como contribuição à Gestalt viva que é nossa abordagem.. 1951. revisitando inicialmente suas definições mais conhecidas. enquanto construtos teóricos importantes à teoria. encontramos contradições nas definições destes dois conceitos e o uso. sob um olhar mais criterioso. P.. considerando a utilidade que nos oferecem. estes conceitos. tecermos nossas próprias reflexões concernentes às implicações destas definições. R. propomos debater. de psicoterapeutas em nossa abordagem. indiscriminado dos mesmos. Gestalt Therapy. No entanto. em conjunto com os participantes do Fórum de Discussão. propomos nesta 257 .

258 . até a crítica social. Palavras-chave: Paul Goodman. política e pedagógica.PAUL GOODMAN E OS OUTROS CAMINHOS DA GESTALT Luiz Fernando Calaça de Sá Júnior Neste trabalho trato da importância dada à obra de Paul Goodman dentro do contexto da Gestalt Terapia. A partir de um olhar para a importância “histórica” do todo da obra de Paul Goodman. apontando para possíveis caminhos de ampliação. Paul Goodman tem suas obras antecedentes e posteriores pouco conhecidas e discutidas dentro da literatura gestaltica brasileira. ao longo de mais cerca de 40 anos de produção artística e intelectual transitou por vários campos do conhecimento. sinalizo para os diversos caminhos possíveis de interlocução desta com a Gestalt Terapia. Tais campos de conhecimento percorridos por Goodman. passado pelo planejamento urbano. podem ser compreendidos como situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt Terapia. Paul Goodman. Ocupando uma posição geralmente associada apenas como um marco histórico – sua contribuição como co-autor do Gestalt Therapy (1951) -. para além das formulações sobre a Teoria do Self. finalizando sua obra retomando reflexões sobre a linguagem e a literatura. que vai desde a crítica literária. Gestalt Terapia. pela psicologia e psicanálise. crítica biográfica. história. tema de sua obra mais trabalhado até o momento. de forma transdisciplinar. amplificação e atualização da abordagem gestáltica.

em 1932. traçarei um panorâmica da vida e obra do autor. a dados da vida intima do autor – embora considere que tenham sua importância para a compreensão do percursos da sua obra como um todo e sobre seus desdobramentos. apontando para caminhos ainda pouco trabalhados. tema de sua obra que é mais trabalhado até o momento. Posteriormente. Pretendo sinalizar para outros “caminhos” empreendidos por Goodman ao longo de sua trajetória como intelectual da contemporaneidade. e completou seu PhD pela Universidade de Chicago entre 1939 e 1940. até então pouco conhecida e explorada. tende em vista a forte relação entre os momentos de sua vida e o desenvolvimento de seu pensamento. principalmente no contexto de desenvolvimento da abordagem gestáltica no Brasil. Inicialmente. influenciaria seu olhar sobre o sistema educacional americano e sobre a juventude. admitindo que sua contribuição para a Gestalt Terapia extrapola ou amplia os limites das formulações sobre a Teoria do Self. pretendo dar visibilidade ao lugar ocupado pela obra de Paul Goodman. no entanto.INTRODUCÃO Nesse trabalho. que posteriormente seria publicada sob o título The Structure of Literature (1954). posteriormente. pontuando marcos importantes de sua obra. sendo expulso mais de uma vez dessas instituições. dentro da literatura gestáltica. I. filho de família de comerciantes judeus. Paul Goodman graduou-se em Letras pelo The City College of New York. dedicou-se na década de 30 à docência. Após finalizar seus estudos. em escolas tidas como liberais. apontarei para os caminhos já percorridos pelos críticos da obra de Paul Goodman e por teóricos de outras áreas. Sua experiência como professor. com a dissertação “The Formal analysis of Poems”. acusado de seduzir seus alunos – e por defender o seu direito de fazê-lo. não me atendo. A OBRA DE PAUL GOODMAN Natural da cidade de Nova York. 259 . temas ao qual se dedica principalmente na década de 60.

Goodman também havia publicado. com a publicação do livro Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960). Paul Goodman passou a se dedicar principalmente à produção de obras de crítica social e política e sobre educação. já tendo publicado quase uma dezena de livros36. Goodman foi convidado pelo Fritz Perls.: 5 X 8 Press. Paul Goodman já havia trilhado um longo caminho no campo da literatura. impossibilitado de continuar suas atividades como psicoterapeuta. The State of Nature. contrária ao movimento armamentista dos EUA. em 1947.: Libertarian Press. e seu 36 N. The Copernican Revolution. adotando uma postura pacifista. The Almanac of Alienation. no período da Guerra Fria. (New York: Vanguard Press. após essa participação em co-autoria com o Fritz Perls. (Norfolk. proferindo seminários e atuando como terapeuta por um período de cerca de 10 anos. engajou-se no grupo criador do Instituto de Gestalt Terapia de New York. Conn. Na década de 60. Goodman acabou sendo o principal responsável pela fundamentação teórica da nova abordagem. pragmatismo e taoísmo -.: New Directions. N. or. ministrando palestras e cursos em universidades. 1946) [volume dois do The Empire City (1959)]. 1950) [volume três do The Empire City (1959)] 260 . como poeta. The Break-Up of Our Camp and Other Stories. e da capacidade de articular e desenvolver idéias em co-autoria.J. existencialismo. porém sem grande notoriedade ou aceitação da crítica. excitement and growth”. psicologia e psicanálise – tendo escrito textos críticos sobre Freud e Reich nos anos 40 -. a realizar um trabalho pago. pelo seu estilo vanguardista e por sua vinculação política ao anarquismo. no final da década de 40. redigindo quase que integralmente a segunda parte do Gestalt Therapy. (Saugatuck. do que seria o livro marco de formação de um nova abordagem psicoterapêutica. intitulada “Novelty.Antes de inserir-se no movimento de criação da Gestalt Terapia. obra em que aborda principalmente o tema da educação e da juventude – retomando sua experiência como professor na década de 30. por indicação de um amigo. de editoração dos seus manuscritos.: Dentre as obras dessa fase podemos citar: The Grand Piano. 1949) e The Dead of Spring. 1946). (Glen Gardner. Sua fama e notoriedade acadêmica e como intelectual se dá somente nesse período. Paul Goodman. Por sua profunda erudição e conhecimento em filosofia – fenomenologia. Em função da sua habilidade na escrita. o livro sobre planejamento urbano intitulado Communitas. em co-autoria com seu irmão Percival Goodman. A. Conn. (San Francisco: Colt Press. novelista e crítico literário. 1942) [volume um do The Empire City (1959)].

glbtq. f. refletindo sobre a condição do jovem formado compulsoriamente em um modelo educacional focado em conteúdos curriculares e sistemas disciplinares. além de refletir sobre conflitos sociais envolvendo grupos minortários. como crítico social. Em muitos de seus escritos literários. embora ele mesmo tivesse críticas sobre a postura adotada pelos militantes gays37. Olhando para as fases que compõem a trajetória da Goodman. In: GLBTQ (Na Encyclopedia of gay. atuando junto ao movimento jovem. A partir dessa obra. sendo precursor do Movimento de Liberação Sexual. que se deu manifestou tanto no caráter 37 C. (s/d) American Literature: Gay Male. no Movimento Libertário da Nova Esquerda. lesbian. como negros e homossexuais. que se desenvolveu na década de 70.html 261 . Escreve ensaios de caráter pacifista contra a Guerra Fria. por fim. transgendet & queer culture. J. se deu como um divisor de águas em sua construção como um intelectual da contemporaneidade. também feita sob encomenda. primeiro como escritor e crítico literário. 1900-1969.com/literature/am_lit2_gay_1900_1969.contato com jovens de rua da cidade de NY. bisexual. é possível intuir que sua participação no movimento da Gestalt Terapia. abordou direta ou indiretamente a questão da homossexualidade. CODY. Disponivel na web em: http://www. político e educacional. adotando uma postura de crítica ao movimento armamentista e à Guerra do Vietnã. tema emergente de sua própria vivência bissexual – o que o coloca dentro do quadro de referência dos escritores e intelectuais que “saíram do armário” e colocaram a questão da identidade gay – ou queer – em foco. devendo discorrer sobre delinqüência juvenil. Goodman passa a configurar-se como um dos principais “gurus” do movimento de contracultura. Nesta obra. a inserção de Goodman na Gestalt Terapia se deu como desdobramento de um longo período de “auto-análise”. ele acaba por desenvolver uma análise crítica ao sistema político-educacional norte-americano. com poucas possibilidades de ocupação e sem uma formação como cidadãos para viver em comunidade. depois como terapeuta e. Ocorrendo num período de imenso descontentamento e descrença com a própria carreira como artista e “homem das letras” – modo como costumava se qualificar -.

de forma mais engajada. não alienado. desenvolvendo pontos importantes enunciados no capítulo 7 do Gestalt Therapy. Essa nova fase não se trata de um momento absolutamente novo. e os reunidos na obra póstuma Little Prayers and Finite experience (1972). o “Verbalizing and Poetry” e nos workshops ministrados no Instituto de 262 . de 1969. numa combinação entre práticas corporais e associações livres. sobre a constituição dinâmica da personalidade como se dando nas interações organismomeio. sociais e pedagógicos. como crítico político e social. Speaking and language (1971). Incorporando pressupostos da abordagem gestáltica. de uma “socioterapia”. Goodman olha para os fenômenos sociais e políticos a partir de um referencial terapêutico. justificando seus posicionamentos – às vezes por demais polêmicos . O momento em que se volta para a crítica social e pedagogia é decorrente da profunda reflexão e elaboração de sua carreira e de sua trajetória de vida. de ficção e ensaística. reeditada sob o título Crazy hope and finite experience (1994). e continuando com os diários pessoas escritos entre 1955 e 1960.projetivo de sua obra literária. quanto pela autoaplicação das técnicas de vegetoterapia aprendidas nos seis meses de terapia iniciado com Lowen. como bissexual. Goodman retoma pontos de reflexão de sua carreira.ao longo sua trajetória como “homem das letras”. nas teorizações sobre o self como contato. já ensaiados no Gestalt Therapy. podendo essa fase de sua obra ser compreendida como um desdobramento e uma amplificação dos pressupostos da Gestalt Terapia. passando pelo período de elaboração na terapia individual com a Laura Perls. após a morte do filho num acidente de alpinismo e de vários parceiros como o Paul Weizs e o próprio Fritz Perls. No final de sua vida. porém de um posicionar-se diante dos fenômenos psicológicos. a partir de um tom de confissão autobiográfica. Sua ultima obra publicada em vida. produzida na década de 40 – fortemente influenciada por suas incursões na psicanálise -. trazendo reflexões sobre a linguagem e a literatura. retoma seu momento como crítico literário. nos fins de década de 60 e início de 70. prevendo a aproximação de sua própria morte. Esses escritos são os ensaios “Memoirs of an Ancient Activist” (posteriormente publicado como “The politics of being queer”).

e na maioria das obras traduzidas sobre a Gestalt-Terapia. Creio que o conhecimento mais a fundo da obra do Paul Goodman serviria como uma fonte teórica importante para se compreender fenômenos políticos. articulando saberes diversos. Diante dessa restrição atual sobre o olhar para o todo de sua obra. adotando uma postura transdisciplinar – tão propaganda atualmente nos meios acadêmicos. porém pouco se tem discutindo ou aprofundando as reais implicações de sua obra. em especial.Gestalt Terapia de New York. Goodman deixou um legado extenso e diversificado. é muitas vezes reduzida à mera condição de marco histórico. II. da psicanálise. e. educacional e política e da literatura. porém tão pouco na prática – que expande a Gestalt-Terapia para além das fronteiras da Psicologia. PAUL GOODMAN E OS “OUTROS CAMINHOS” DA GESTALT Utilizo esse breve – e incompleto – panorama. percorrendo um caminho intelectual singular. Nessa obra ele tece críticas a linguistas contemporâneos e ao modo positivista de fazer ciência e compreender a linguagem. ainda a ser melhor exploradas e desenvolvidas. pela sua contribuição na autoria do Gestalt Therapy. propondo um olhar sobre a experiência poética e o dinamismo da linguagem enquanto criação. discorrendo sobre diversos temas. faz-se necessário abrir o campo para novas perspectivas que se encontram latentes. dentro do desenvolvimento da abordagem gestaltica no Brasil. contemporâneos a ele e ainda hoje atuais. na década de 50. 263 . com uma média de publicação de uma obra/ano. sobre o título “The Pathology of Speech and Writing”. para o desenvolvimento da abordagem gestáltica para além do enquadre clínico. A passagem de Goodman pela Gestalt-Terapia. É citando como um seu principal formulador e sistematizador teórico. filosofia existencialista e pragmatista. Ao longo de uma carreira de cerca de 40 anos. apenas como argumento que sinaliza uma justificativa do porquê se estudar mais a fundo a sua obra. crítica social. não se vislumbrando os possíveis desdobramentos dela derivados. da obra de Paul Goodman. do contexto clínico. mantendo porém uma constante interlocução com ela. compreendendo-a em sua totalidade.

br/scielo. um dos raros feitos na América. Gestalt-terapia no Brasil: recontando a nossa história. (2007). após minha formação e um tempo de prática em Gestalt-Terapia – em um primeiro momento de modo “perlsiano” (do RIBEIRO. 2. portanto.com letra maiúscula -. Paul Goodman. e antropologia. 13. senão na própria obra desse autor. Recentemente. e modos diferentes de pensamento. F. ao recordar-se ele mesmo de sua própria formação como gestaltterapeuta: No início dos anos 80. Paul possuía tudo isso em funcionamento integrado. 38 264 . Sobre Paul Goodman. e arte.sociais. ao afirmar que “a influência de Paul Goodman era muito importante e penso que sem ele não haveria absolutamente uma teoria coerente de Gestalt Terapia” e ao descrevê-lo como um homem do Renascimento. Paul Weizs e Isadore From. diante de uma escassa formulação teórica dentro das produções da literatura gestaltica. em muito desenvolvido a partir das contribuições do Paul Goodman. quanto mais elucidada. vol. Nesse artigo ele traz a importância do resgate da contribuição dos pioneiros da abordagem gestáltica. pedagógicos e estéticos que. Walter Ribeiro (2007) trouxe em seu artigo sobre a história da Gestalt Terapia. Goiânia. n.bvspsi. e filosofia. se faria pela busca de fontes externas nem sempre compatíveis com o referencial gestáltico. e música. concebendo-a como o “fundo do qual emergem as noções que temos sobre a nossa identidade e que. que o aponta como um dos principais sistematizadores das primeiras teorizações da Gestalt Terapia. discorre sobre a ignorância quase generalizada que se tem sobre a importância desse autor. 38 (s/p na versão eletrônica) Robine (2005). da R. a importância de rever essa História . W. dando um destaque especial a alguns membros do Grupo dos Sete – Fritz e Laura Perls. Disponivel na World Wide Web: <http://pepsic. ISSN 1809-6867. Revista da Abordagem gestaltica. em seu artigo que discute o paradigma pós-moderno da Gestalt-Terapia. Ribeiro retoma considerações da própria Laura Perls.org.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672007000200010&lng=es&nrm=iso>. mais clareza teremos do que somos e do que pretendemos”. Aqui as pessoas usualmente não têm a educação e base para conhecimento de línguas.

apenas me ROBINE. Sobre esse ponto teórico. 103) Dos “novos caminhos” referidos por Robine.) Ao mesmo tempo. . em especial. Vários autores (Ribeiro. tenho a impressão agora. numa perspectiva interacionista do desenvolvimento humano. que eu já então percebia como sendo mais exigente (e eu ainda estava longe de medir todas as conseqüências). Robine. pois ao longo de minhas duas formações anteriores em gestalt. de ainda não ter feito o tour completo pelo modelo proposto por Goodman. herdeira das idéias Freudianas e Reicheanas. 39 (p. específico e atual nas discussões e teorizações da Gestalt Terapia. 1997. 2006. um membro do grupo fundador da Gestalt-Terapia. pela ênfase dada por Goodman na compreensão de “suporte ambiental”40. eu estou longe de considerar que o modelo trazido por Goodman seja perfeito! Eu quero apenas dizer que novos caminhos foram abertos e que nos cabe identifica-los e explorá-los. Cit. no presente trabalho. 40 39 Op. depois de 15-17 anos.. apontando as contradições entre as “bases modernistas” da Gestalt terapia com sua compreensão estrutural de self. 2007) têm se preocupado em desenvolver e refinar melhor esses conceitos. Este repensar doloroso e radical levou-me a dar as costas firmemente a certas práticas. aprofundando as leituras do Gestalt-Therapy e articulando com outras concepções contemporâneas.. 108. nunca havia ouvido falar em nenhum dos dois. (. (2005) A Gestalt-Terapia terá a ousadia de desenvolver seu paradigma pós-moderno? In: Estudos e Pesquisas em Psicologia. a partir da noção de “auto-suporte” de Perls. p. 1. 1º semestre. certas noções teóricas e certos preceitos éticos.período de Esalen) e depois modificada pela contribuição do Instituto de Cleveland (em particular dos Polsters). tem sido enfatizado principalmente as contribuições dele no que tange às construções sobre a Teoria do Self. era difícil para mim distinguir a contribuição de From daquela de Goodman. MullerGranzotto. J-M.eu tive a oportunidade de trabalhar por vários anos com Isadore From. n. abertos pela contribuição de Paul Goodman. na articulação organismo-meio. Robine.. Tratava-se do enfoque de Goodman e Isadore From. p. e o “paradigma pós-moderno” que advém da noção de self enquanto contato. Ano 5. 103. não pretendo me aprofundar. baseada na compreensão de campo e de contato. Aliás. em prol de outro enfoque.. 265 . tem trabalhado na crítica e resgate desses conceitos. (. 2005.) Do mesmo modo. RJ: UERJ.

referindo a ele como sendo o que considero o caminho mais “canônico” de compreensão da obra do Paul Goodman e desenvolvido dentro do campo da abordagem gestáltica. como planos de trabalho. às vezes. Cada um desses “eixos” ou “trilhas” se interconectam ao longo de toda a obra de Goodman. em interlocuções ou abordando temas diversos. e no período póstumo. Ao visar o todo da obra de Paul Goodman. para fins de articulação. até o engajamento na crítica social e educacional. sendo possível imaginá-la talvez sob a forma de uma mandala. ou de uma esfera constituída por interconectados. Diagrama provisório de “caminhos” ou “trilhas” da produção de Paul Goodman. desde a fase literária. Obras levantadas a partir do site da Wikipédia e organizadas por temas a partir das referências de Stoehr (1994). 266 . de resgate da obra. é possível perceber os vários campos abertos por ele e desenvolvidos de forma paralela e. as obras situadas temporalmente. e a transversalidade temática. ao longo das 4 décadas de produção intelectual. sendo possível entrever no mínimo nove eixos temáticos – ou nove possíveis “trilhas” abertas pela obra de Goodman. transversalmente. Abaixo ilustro num diagrama. pontos cuja conexão pode se organizar como planos temáticos.

as passagens sobre o artista contidos no Gestalt Therapy (1951). o The Structure of Literature (1954). referente a sua visão estética e literária. Desse período se situam as obras: Art and Social Nature (1946).Diagrama representando os eixos temáticos contidos no todo da obra de Paul Goodman Esses vários “eixos temáticos” ou “trilhas” . tento agrupar alguns possíveis planos de trabalho. poderiam – e deveriam – ser melhor explorados. quando dos últimos escritos referentes a sua reflexão existencial e às discussões sobre linguagem e literatura. Kafka's Prayer (1947. durante a década de 50 – quando do contato com o Living Theatre -. Abaixo. correspondente ao período em que se dedicou à crítica literária e teoria da literatura. passando por ensaios psicanalíticos da década de 40. por escritos sobre a arte de vanguarda e o teatro. articulando algumas dessas áreas e apontando para suas principais obras de referência: 1) o caminho literário-estético-filosófico.ainda pouco visados da obra de Paul Goodman. Vai desde as primeiras reflexões formalistas sobre a poesia. 1976). Utopian 267 . do período do doutoramento na Universidade de Chicago. e retomada nos fins das décadas de 60 e 70.

2) o caminho psicológico-psicanalítica-gestáltico. em fragmentos sobre a psicologia presentes no Five Years (1966) e nos ensaios reunidos na obra Nature Heals: Psychological Essays (1977). que serviram como pano de fundo para o desenvolvimento do movimento de Contracultura. Five Years (1966) e Speaking and language: defence of poetry (1971). 1967)]. além de alguns artigos compilados nas obras pósumas Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977. presente em obras como: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1960). Drawing the Line: Political Essays (1977) Decentralizing Power: Paul Goodman’s Social Criticism (1994) e Format and Anxiety: Paul Goodman Critiques the Media (1995). e principalmente às obras produzida nas décadas de 60 e início de 70. que vai do período antecede à incursão pela GestaltTerapia. e retomado nas obras póstumas Crazy hope and finite experience: final essays of Paul Goodman (1979). no que tange às reflexões sobre as relações de campo organismo-meio. e toda a década de 50.Essays and Practical Proposals (1962). o movimento pacifista contra a Guerra do Vietnã. The Society I Live In Is Mine (1962). The Moral Ambiguity of America [(1966). 1979). Seeds of Liberation (1964). através dos ensaios sobre a psicanálise freudiana e sobre a obra de Reich. presentes na leitura psicanalítica na obra de crítica literária como o Kafka’s Prayer (1944). referente a escritos pacifistas da década de 40. O período compreendido de crítica social a partir da publicação do Growing up Absurd (1960) também pode ser incluído. à critica ao “sistema”. no Gestalt Therapy (1951). 3) o caminho da crítica social e política. da década de 60. que caracteriza-se pela sua visão anarquista. organização social e a política do Pós-Guerra e às propostas utópicas e comunitárias. New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative (1970) e as obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972). 4) o caminho pedagógico. o The May Pamphet (1945) e aos artigos de Goodman em revistas como . referente às obras em que 268 . Utopian Essays and Practical Proposals (1962). The Writings of Paul Goodman (1976). People or Personnel (1965). e sobre psicologia social ou socioterapia. que envolve o período das décadas de 40 e 50. publicado como Like a Conquered Province: The Moral Ambiguity of America. Drawing the Line (1962).

Esses diversos pontos temáticos da obra de Goodman. pode ser percebido também em obras literárias de Goodman. Our Visit to Niagara (1960). diretamente relacionado ao eixo de crítica social e política. trazendo exemplos de sua própria vida e de seu movimento de autoconhecimento. Presente no livro de memórias Five Year (1966). que envolve as décadas de 40 a 70. que trata da morte de seu filho Mathew. Making do (1963) e em poemas. 5) o caminho da análise autobiográfica. contidos nas obras: Growing up absurd: problems of youth in the organized system (1961). por exemplo. sobre a homossexualidade Parents' Day(1951). que em muito podem favorecer a um processo de ampliação da abordagem gestaltica para outros campos além do enfoque clínico. principalmente nos textos que problematizam o tema da alienação – The Empire City (1959). como o North Percy (1968). As elaborações. sobre o processo criativo e o ajustamento criativo e sobre a sexualidade em muito sobre interferência das vivencias de Goodman. em que Goodman sintetiza essas diversas dimensões de sua obra articulando à sua própria vida.critica o modelo de educação compulsória. inspiração de Dewey. constituem caminhos situados nas “fronteiras de contato” da Gestalt-Terapia. e propõe uma educação vivencial e comunitária. (1964) e People or personnel and Like a conquered 269 . . ao menos no que tange às possibilidades de articulação a partir da contribuição de Goodman para a Gestalt terapia. Compulsory Miseducation province (1968). num movimento de autoanálise. O olhar para a dimensão autobiográfica da obra de Paul Goodman nos favorece a compreensão dos desdobramentos de seu pensamento intelectual e as formulações sobre alguns temas ligados às sua própria existência. e atravessa os 4 eixos anteriores. sobre a Psicologia do autor. 1979). e em ensaios e poemas contidos nas obras póstumas Little Prayers and Finite Experience (1972) Nature Heals: Psychological Essays (1977) e Creator Spirit Come! The literary essays of Paul Goodman (1977. voltada para o desenvolvimento integral do humano.

refletindo sobre as implicações dos distúrbios de fronteira no campo clínico. o de Ayward (1999). que abordam a importância de Paul Goodman como intelectual anarquista e crítico político e social do pós-guerra. s/ data). são artigos datados. Esses últimos. principalmente das décadas de 60 e 70 (Thompson . de Winter (1962. ALGUNS CAMINHOS JÁ PERCORRIDOS Fazendo uma revisão da fortuna crítica sobre Paul Goodman. Sobre o pensamento político de Goodman. a partir de fontes acessíveis em artigos da internet e obras impressas que fazem referência ao pensamento do Paul Goodman. que sistematiza os principais pontos teóricos trazidos por Goodman para a da Gestalt Terapia. numa perspectiva que busca amplificar e expandir as discussões clínicas da GT. a obra de Bernard Vincent (1976) e a coletânea organizada por Parisi (1986). 2006) . 2007). Swartz. um mais antigo. principalmente em discussões referentes ao movimento anarquista. talvez sejam as referências mais consistentes de fortuna crítica. mais recentemente. embora hajam artigos de diversos outros autores. que trata da questão do campo e dos ajustamentos neuróticos.III. 270 . havendo referencias mais atuais. respectivamente. em revisões que incluem o autor na história do desenvolvimento da pedagogia contemporânea (Friedenberg. social e político. da política e da pedagogia. esta última em articulações principalmente com o pensamento de Ivan Illitch. Há referência à importância de Paul Goodman também no que ficou denominado como ecopsicologia (Knapp. Entre as publicações sobre a contribuição de Goodman para a Psicologia.1972). e ao movimento de desescolarização. 1967. em parceria com seu irmão Percival Goodman e nas articulações do Gestalt Therapy e de obras posteriores sobre a relação do organismo-meio ambiente. 1974. em especial para a Gestalt-Terapia. Spring. 1994. 1979).1999. Vaughan . foi possível evidenciar uma grande incidência de referencias sobre ele no campo de sociologia. a partir dos seus escritos sobre planejamento urbano. à sua contribuição na Contracultura da década de 60-70 (Roszak. e. encontrei apenas dois artigos. Tal articulação indica um caminho de possível de articulação da Gestalt Terapia com o campo emergente da Psicologia ambiental.

são as fontes mais detalhadas sobre a biografia de Goodman e sua produção literária. apenas Alvim (2007). tanto no campo literário. Taylor descreve em seu livro Here. sua inclusão no movimento da Gestalt Terapia e o posterior engajamento como crítico social e teórico da educação. ocupando o lugar de porta-voz da Contracultura. mascarado na forma de uma psicoterapia. quando da crítica social e política. sua formação acadêmica e carreira literária. no entanto. considerando que o “ponto social e político da Gestalt Terapia. ela não adentra diretamente os textos do Paul Goodman. Adentrar e aprofundar essas discussões no campo de uma sociologia ou de uma psicologia social. Em seu artigo. desde aspectos de sua vida pessoal. mais recentemente. a dimensão literária de sua obra. sobre a obra The Empire City apontando para sua dimensão pós-moderna e pósnarrativa desta obra. no entanto. e os principais caminhos para adentrar o pensamento de Goodman. editor e principal comentador da obra de Paul Goodman. nas introduções das coletâneas reunidas após a morte de Goodman. trouxe em foco. uma lacuna que teria a compreensão da obra de crítica social e política de Paul Goodman como caminho que inevitável. na Gestalt Terapia. descrevendo as principais fases do autor e suas transições. Esta obra e outros escritos de Taylor. com exceção do artigo de Morton (1993). serviria de base teórica para o combate da desumanização”.Ayward (1999) aponta para uma compreensão que possibilite “uma expansão da consciência para a dinâmica das fronteiras. Sobre a contribuição de Paul Goodman no que tange ao campo da literatura. Next. incluindo os impactos sociopolíticos e ambientais que influenciam e sustentam nossa condição humana”. apontando como uma contribuição de Goodman para o “fundo estético” da Gestalt Terapia. 271 . Na literatura gestaltica brasileira. as características das obras de cada uma dessas fases. no. me parece algo ainda a ser trilhado. Temos também como principal referencia de fortuna crítica os textos de Taylor Stoehr. recorrendo a aspectos da biografia do autor a partir de referências de comentadores. Now (1994) detalhes minunciosos da história do autor. quase nada se tem publicado. passando pelos momentos de imersão na psicanálise.

no teatro e na vida. Quem somos. em nossas investigações científicas e em nossas reflexões existenciais. durante e após a sua participação do movimento da Gestalt Terapia. trazidos antes. integrando numa gestalt plena e coerente. Suas obras posteriores dialogam intimamente com o pensamento gestaltico e o amplifica. na literatura. 272 . principalmente. Goodman dialogou com vários campos do conhecimento. ao voltar-se para aspectos da sociedade. APONTANDO OS CAMINHOS QUE AINDA PODEM – E PRECISAM – SER PERCORRIDOS Debruçando-me sobre a obra de Paul Goodman. à dificuldade de acesso a essa extensa obra e à necessidade de sua tradução pela comunidade gestáltica. abrindo novas possibilidade de articulação. como Laura Perls mesmo dizia. vida e obra. fazendo um convite dirigido a todos a esse diálogo. nos aponta para nossa própria identidade enquanto gestalt-terapeutas. da política. torna-se claro para mim o imenso campo de possibilidades de articulação e expansão que a obra desse autor nos traz para ampliarmos as fronteiras de contato da abordagem gestáltica. da educação.IV. “um dos raros feitos na América”. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesse artigo pretendi apontar para os caminhos da obra de Paul Goodman que podem ser percorridos e para as articulações com temas que. Seu conhecimento literário. tal como concebido originalmente. Aponto também. para que possamos usufruir melhor dessas referências. e. da sexualidade e do processo de criação na arte. neste primeiro contato. neste último instante. em nossas atuações práticas. sendo de interesse dos gestalt-terapeutas. podem recorrê-la como referência. psicológico-psicanalítico e político. da juventude. Esse caminho eu me mesmo me proponho a percorrer. de onde viemos e para onde podemos ir. Na condição de um intelectual erudito. filosófico. servem para compreendermos melhor os fundamentando e as bases do pensamento gestáltico. Elas nos servem como norte para os novos caminhos possíveis que podemos percorrer.

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entre outras áreas. o presente trabalho se propõe a compreender o tempo vivido por essas pessoas. no mínimo. quatro meses anteriormente ao início da coleta de dado. onde educadores e educandos estão sendo-uns-com- 275 . finalmente. buscamos por um material que nos permitisse compreender as experiências relacionadas ao tempo vivido pelas participantes. situado espaço-temporalmente no horizonte da historicidade do seu real vivido. emergiram duas grandes categorias abertas: ‘modos de habitar’ e ‘modos de se perceber sendo’. Estas revelaram que.modalidade do fenômeno situado fundamentam a investigação. as meninas habitam a rua como uma alternativa ao habitar a casa e. sinalizam para o abrigo não como um espaço físico. na tentativa de possibilitar novos modos de atuação dos profissionais de saúde e áreas afins. mas como um espaço vivido. tem sido focalizada sob diversas óticas nos campos da saúde. Como a experiência é sempre vivida por um sujeito. educação. com experiências de viver na rua e em abrigos. Dos resultados submetidos à análise ideográfica. Nesse sentido. meninas que estavam experienciando o habitar o abrigo por. Os pressupostos filosóficos da investigação fenomenológica . seguida da elaboração de uma matriz nomotética. sociologia. o abrigo com a esperança de realizarem seus projetos existenciais. Nesse sentido. Por meio de entrevistas semi-estruturadas e atividades de colagem. diante da exigência originária do ser-ai e da presença em buscar sua realização nos diversos modos de ser-com. Recorrendo a estudos e pesquisas que investigam essa temática focamos a interrogação que revela a intencionalidade em compreender o modo como as adolescentes que se encontram em abrigos vivenciam o tempo. vivendo nas ruas e em abrigos. participaram da investigação.PESQUISA FENOMENOLÓGICA: COMPREENDENDO O TEMPO VIVIDO POR ADOLESCENTES DO GÊNERO FEMININO COM EXPERIÊNCIAS DE VIVER NAS RUAS E EM ABRIGOS RESUMO A diversidade de modos possíveis das adolescentes construírem suas espacialidades e temporalidades.

entre outros. A proposta de investigar. por meio de ações vislumbrando satisfazer desejos. Existencialismo. que o tempo vivido no abrigo se constitui em uma oportunidade para a atuação de equipe multi e transdisciplinar envolvendo educadores. Nesse sentido. 276 . Percepção. destacando os seus modos de ser. enfermeiros. Palavras Chave: Tempo. vivenciam o tempo. As grandes categorias desvelam a vivência no presente tanto do passado. Possibilitou ainda evidenciar a necessidade de uma reconstrução das políticas públicas de atenção às adolescentes que venham a contemplá-las em suas dimensões existenciais. Adolescente. visando contemplar os paradigmas da academia: O tema foi focado no âmbito da região de inquérito da Psicologia. tempo. assim como do tempo futuro. Ao mesmo tempo estava interessada em verificar no doutorado como o gestaltterapeuta poderia ser instigado a participar em atividades sociais saindo as quatro paredes de seu consultório.os-outros. psicólogos. formulo a proposta sob minhas perspectivas. a situação destas adolescentes apresentou-se a mim como fenômeno. lamentos e pesares. assistentes sociais. que fundamentaram a gênese de minha inquietação. A meta foi apresentar trabalhos que envolvessem adolescentes vivendo em situações de rua e de abrigo. ações éticas baseadas na redimensão da própria existência e no arrependimento. psicopedagogos. Menores de rua Frente às questões pertinentes à temporalidade retrospectiva e prospectiva. Sociologia e Filosofia. as quais já foram mencionadas. terapeutas ocupacionais. de que forma o pelas adolescentes é compreendido e abordado pela literatura estudada. Gestalt – terapia. na esperança da reconstrução da decadência. as adolescentes relaciona-se ao fato de possuírem singularidades. possibilitando¸ assim. especificamente. como têm sido explicitados os modos de viver na rua e no abrigo. por intermédio das recordações. pedindo por um des-velamento. também. Esta investigação possibilitou perceber. Abrigo. médicos. focando a interrogação que revela minha intencionalidade em compreender o modo como as adolescentes que se encontram em abrigos. temporalidade e história.

Como exemplo. traz consigo a questão da temporalidade vivida. o tempo?’ mas. do papel e da identidade. para compreender tal fenômeno. Sociologia e Filosofia. à luz da interrogação. Porém.Assim. Não se trata de questionar ‘o que é isto. os pensamentos do adolescente adquirem características particulares. Trata-se do tempo vivencial. sente-se incompreendido por não ter suas necessidades ‘imediatas’ atendidas pela mãe diante do desejo de ter o vestido para o próximo baile. 277 . Isso significa que não tenho. que sustentassem entendimentos sobre a temporalidade vivida pelos sujeitos pesquisados. focar o modo de viver existencialmente na temporalidade e na historicidade do real vivido. estudar. dos pais da infância desenvolvendo o que ele denomina de tempo conceitual ou tempo cronológico (KNOBEL. Knobel (1981). A discriminação temporal de – passado/presente/futuro – surge dos lutos típicos da adolescência – do corpo infantil. ou seja. geralmente é adiado e o que pode ser postergado. experimental ou ainda do tempo rítmico. brincar. O adolescente vive o tempo em um processo denominado por esse autor de ‘deslocalização temporal’. tanto frente ao temporal como ao espacial. embora o exame seja no dia seguinte. O passado e o futuro são unidos. sob minhas perspectivas. o adolescente acredita ter tempo para estudar. qual seja. defecar. na perspectiva de adolescentes. é antecipado. ‘como flui o tempo vivido pelas adolescentes com experiência de viver na rua e em abrigos’. às adolescentes que habitam a rua e abrigos para compreender como vivem sua historicidade. dentre outros. Surge também dos aspectos vivenciais. optei pela metodologia de investigação fenomenológica. busquei fundamentos na Psicologia. que na sua ótica. conduzida segundo os pressupostos filosóficos que fundamentam essa modalidade de pesquisa qualitativa. baseado nos atos de comer. então. dormir. Para tanto. relacionados às necessidades corporais ou rítmicas. fui à coisa-mesma. em um presente voraz e é apenas durante a adolescência que essas dimensões temporais vão sendo discriminadas. 1981). Foram analisadas as convergências. as falas dos sujeitos em direção à explicitação do compreendido sobre a questão formulada. Investigar sobre o modo pelo qual se dá esse habitar. ou seja. enfatiza que. construindo articulações entre autores estudados. Na psicologia focalizei entre outros. o que é urgente.

Se fossem pretéritas. ainda lá não estão. o tempo objetivo. Considerado o pai do movimento fenomenológico contemporâneo (HUSSERL. se fazem existir no presente pela premeditação. se futuras. são conservadas por Husserl. o presente e o futuro que. futuro. a interrogação motivadora desta investigação permanece buscando modos de espacialização e de temporalização vividos pelas meninas adolescentes que habitam a rua e abrigos. mesmo com esses esclarecimentos. Husserl (1994) afirma que a consciência de uma temporalidade que aparece como a que surge ao se ouvir uma melodia. presente das presentes. em qualquer parte que estiverem. não seria possível apenas com a consciência de um presente. assim como a idéia de tal modificação como algo contínuo. só podem existir no presente. presente das futuras [. 1994). Santo Agostinho (1987). Enquanto pretéritas se fazem existir no presente pela memória que narra não os próprios acontecimentos. passível de ser entendido em uma seqüência linear... Entretanto. torna-se mais apropriado afirmar a existência do: presente das coisas passadas. Nessa perspectiva. busco compreender o tempo concebido e tratado objetivamente. em sua própria descrição da temporalidade. afirma que não há como negar a existência de três tempos: o pretérito. expostas por Brentano. para Santo Agostinho (1987).como tema de investigação. envolvendo presente. visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras (p. deslocandome para uma concepção de tempo vivido. mas as palavras concebidas pelas imagens que passaram pelos sentidos. em uma totalidade dinâmica. 222). passado. já lá não estão e. A idéia de vincular ao presente a modificação do passado. construindo espacialidades e temporalidades. Portanto.] lembrança presente das coisas passadas. Enquanto futuras. pelos prognósticos preconcebidos por meio das coisas presentes que já existem e são observadas. nem o tempo em si. mas modos de viver-se temporalmente. também se preocupou com os modos de se viver o tempo. Esse mesmo filósofo tentou distinguir entre um tempo percebido e outro 278 .

aparece. temos a consciência de um processo sonoro que. apreensões do tempo que se fundem. para Husserl (1994) o tempo sentido não é aquele percebido objetivamente. mas investidos de caracteres de apreensões a estes relacionados. para a duração e sucessão de sensações que sofrem modificações. a partir de sua afirmação: se denominarmos sentido um dado fenomenológico que. mas um dado fenomenológico que a ele se refere. tal como afirmava. p. ouço de cada vez apenas a fase atual do som e a objetividade do som total duradouro constitui-se num ato 279 . sem dúvida. através da apreensão. Ao se ouvir uma melodia. corpos e propriedades físicas. mas é também fruto da expectativa antividente (vorblickenden Erwartung). Esse filósofo alerta. Portanto. O fragmento decorrido de uma melodia. 1994. Husserl prossegue: “o som agora se muda em somque-foi e a consciência impressional converte-se. a que chamamos então objetivamente percebido. fruto da retenção. O último é o tempo objetivo.sentido. Husserl (1994) salienta: Por conseguinte. captar um conteúdo tal como ele é vivido não significa captá-lo em um sentido objetivo. o primeiro. não é ele próprio tempo objetivo (ou posição no tempo objetivo). os dados temporais sentidos não são apenas sentidos. então. p. têm suas posições determinadas pelo cronômetro. assim temos nós que distinguir também entre um tempo “sentido” e um “tempo percebido”. 1994. a consciência primária do tempo constitui-se na apreensão do momento com suas fases de retenção e protensão. 62). É pelas vivências temporais (Zeitauffassungen) que o temporal. na qual coisas e acontecimentos. em corrente permanente. Durante todo o fluxo de consciência. Contudo. o mesmo som está consciente como duradouro. numa consciência retencional sempre nova”. como agora duradouro. O ‘depois’ diz respeito a um tempo ainda na retenção. mas antes o dado fenomenológico através de cuja apercepção empírica se constitui a referência ao tempo objetivo (HUSSERL. no sentido objetivo. psiques e seus estados psíquicos. é fruto da recordação (retenção). nos torna conscientes de algo objetivo como dado de carne e osso (Leibhaft). nos mostra uma sucessão. O tempo objetivo pertence à conexão da objetividade da experiência. por exemplo. (HUSSERL. Para Husserl. 40). Assim.

são diferentes fenômenos temporais.contínuo que é. se expande. A partir dessas observações. 56-57). 1993). deformando o tempo-qualidade. de forma original. reflexões a respeito da aplicação imprópria de noções como quantidade. sem duração. O ‘devenir’. que se diferenciam face às situações e sentimentos que delas decorrem. o presente é um ato de muita complexidade. em tempo-quantidade. noutra parte pequeníssima. com suas leis naturais de duração. O agora é pontual. 280 . representado pelo espaço. ou este. enquanto o presente. horas podem ser vivenciadas como minutos e. pontual. Para Minkowski (1965). produz o presente que mantém em si mesmo o agora. retoma a psicologia descritiva de seu mestre. pode-se vivenciar o tempo com ‘velocidades’. é um estado da mente. os caracterizados pelo tédio decorrem devagar. Um tempo do mundo da experiência. numa outra parte ainda. esse autor visualiza um horizonte para direcionar suas reflexões que se estendem. sendo mais flexível. dirigida a uma análise fenomenológica da consciência primária do tempo. expectativa (p. Portanto. Instantes vivenciados em sintonia passam rapidamente. inversamente. tal como é percebida nas suas fases de retensão e protensão. o ‘agora’ e o ‘presente’ pareçam semelhantes. englobando um grupo de fenômenos. Brentano. intensidades e ‘extensibilidades’. percepção e. incluindo o agora. sucessão e continuidade em relação ao eu. No existir cotidiano. principalmente em sua obra. para um campo de pesquisa envolvendo manifestações psicopatológicas relacionadas às vivências do tempo na experiência dos doentes mentais. e avança no sentido de uma psicologia fenomenológica mais originária. independentemente do tempo do relógio. um tempo imanente do curso da consciência. numa parte recordação. Bicudo (2003) também enfatiza que. até o presente (FORGHIERI. em Bergson. ou seja. embora a ele não se restrinja. encontra. extensão e espaço à concepção do tempo psíquico. embora de imediato. vivido pelo eu. Minkowski (1965) por seu turno. minutos como horas. o passado pode estender-se até o futuro. Il tempo vissuto (1965).

significa cuidar do outro. Em relação ao modo de viver o passado. pode-se ficar no presente. O futuro é vivido de maneira mais direta e imediata. contemporâneo de Minkowski. que é dele. pois a atenção do eu é primariamente direcionada para ele. 281 . mas não no agora. de forma primitiva. se ressignificados. denominada Einspringende Fürsorge. o pensar a respeito da manifestação do tempo no discurso de alguns filósofos encontra-se também em Martin Heidegger. prossegue a autora. mesmo que sutilmente. a noção de direção do tempo. que contém. manipulando-o. essa é uma questão de reviver ou de viver em. colocando-o no colo. possibilidades de resgate de sua função de protagonista da própria vida. que. mimando-o. o remorso e o pesar – elementos capazes de abrir novamente o caminho para o futuro.Nesse sentido. a ‘prece’ e a ‘ação ética’. observa-se a tentativa de elaborar uma reflexão teórica sobre cada constitutivo das categorias do tempo vivido. o cuidado ou a solicitude são orientados para duas categorias temporais. esse autor apresenta três categorias – a recordação. Em estudos de Petrelli (1999) e em Costa e Medeiros (2008). Neste percurso. em uma dimensão mais operacional. o ‘desejo’ e a ‘esperança’. o modo de viver o futuro encontra-se relacionado aos seis fenômenos ou categorias do ‘élan vital’ do eu. sob forma de memórias. Uma. fazendo e assumindo o encargo. visando perspectiva ampla e majestosa diante do eu. ‘desejo’ e ‘esperança’. Outra. por meio de intervenções nos elementos constitutivos do futuro – ‘atividade’ e ‘espera’. Para este filósofo. que permitem viver intencionalmente o tempo: a ‘atividade’ e a ‘espera’. ao indivíduo. Para este teórico. em alemão. ‘ação ética’ e a ‘prece’ – proporcionando. Mesmo que se reviva o passado. Ainda de acordo com esse teórico. ou se viva no passado. de cuidar de si mesmo. dominando-o. o modo de viver o tempo é fundamentalmente orientado para o futuro em razão do fenômeno do ‘élan vital’. na perspectiva de Minkowski (1965).

a qual já possui seu modelo na matemática. como pela primeira vez. facilitando-lhe assumir seus próprios caminhos e o encontro consigo mesmo. “existimos sempre nesse horizonte histórico. A presença ‘é’ o seu passado no modo de seu ser. contém também a dimensão da temporalidade. o que significa. cuja tradução é pular em frente ao outro. sem contexto histórico. meu interesse direcionou-se para o acontecer da presença para adolescentes com experiência de habitar o espaço rua e abrigos que. Sempre com os outros e com todas as realizações que já foram presentes. A presença é. Nunca. sem espaço e tempo. sempre lançada ao mundo. de uma ciência não exata. sucessão e continuidade.denominada Vorspringende-efreieden. Conforme afirma Bicudo (2003). 48) Assim. libertando-o diante de suas possibilidades-para-ser. possui. Presente que engloba um grupo de fenômenos. como afirma Bicudo (2003). em sua essência. e o que é historicamente primário é o nosso presente”. mas convidado a voltar para si mesmo. então. A opção metodológica foi a fenomenológica. como propriedades simplesmente dadas. as experiências passadas que ás vezes agem e influem sobre a presença. Não. na busca por compreender a historicidade desses sujeitos. desse modo. Um modo de cuidar no qual o outro não é protegido. para Heidegger (2002): é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta ‘atrás’ de si e. que elas sempre ‘acontece a partir de seu futuro ( p. considerado o pai da fenomenologia 282 . antecipar-se a ele (ihm vorausspringt). incluindo o agora e as leis naturais. Presença que. a grosso modo. (p. de duração. autenticamente. Em m defesa de uma ciência descritiva das experiências vividas. Edmund Husserl. 80).

observáveis e mensuráveis. aquilo que se manifesta a si mesmo. 2000). relações entre objetos e dados empíricos. consciência e fenômeno se entrelaçam em uma correlação de co-originalidade. pela essência nos diferentes modos do fenômeno mostrar-se. conforme afirma Dartigues (1994). correlacionado à consciência que o vivencia. separação entre sujeito e objeto. realidades objetivas. A perspectiva fenomenológica não se dirige aos fatos. mas volta-se aos fenômenos (GARNICA. A análise dos dados baseou-se no proposto por Martins e Bicudo (1989) sobre o ‘Método da Análise Qualitativa do Fenômeno Situado’. Neste sentido. “a fenomenologia procura abordar o fenômeno. Nessa perspectiva. de modo que não o parcializa ou o explica a partir de conceitos prévios. os grandes invariantes. já disponíveis e apreensíveis pela experiência.A análise dos dados obtidos das descrições me levou à análise ideográfica referente às descrições de cada sujeito. e indicando. 113). não há. posicionando-se de maneira distinta do psicologismo e naturalismo. segundo o pensar fenomenológico. Dessa maneira.Neste percurso. Ao focar intencionalmente uma pergunta. entendidos aqui como “ocorrências. 10). de crenças ou de afirmações sobre o mesmo.contemporânea. A intencionalidade é uma característica fundamental da consciência. Há aqui um jogo ‘percepção e percebido’ (BICUDO. todos os atos humanos são intencionais. no que se distinguem de fenômeno”. indagação ou interrogação. conforme afirmam Martins e Bicudo (1983). p. (sentido de intentio). Afirmar que toda consciência é ‘consciência de alguma coisa’. Consciência e objeto não são compreendidos como dois polos absolutos e separados. seguida da elaboração de uma matriz nomotética. enfim. 283 . 1999. o fenômeno se mostra àquele que o interroga. visando uma compreensão geral das estruturas psicológicas individuais. de um referencial teórico” (p. expondo a perspectiva sob a qual o fenômeno é percebido. finalmente. por volta dos anos de 1990. procurei permanecer atenta no que se refere à busca de pluralidades e singularidades das vivências que iam sendo reveladas nos discursos dos sujeitos. busca. também denominados ‘categorias abertas’. significa que a consciência só é consciência se estiver dirigida a algo. Esse modo de ver justifica a preocupação central do método fenomenológico em relação à descrição da experiência vivida.

como exemplos particulares. A estrutura psicológica geral é aquela resultante da compreensão das convergências e das divergências que se mostram nos casos individuais.conforme sugerem Bicudo (2000) e Martins e Bicudo (1989). A análise ideográfica “refere-se ao emprego de ideogramas. a sexualidade. é nesse recomeçar. encontram um terreno fecundo para iniciar novos projetos de atuação. é necessário desvelar. Efetivamente. Enquanto gestalt terapeuta e respaldada nos trabalhos de Alvim (2007) e Costa (2008). por meio de símbolos. a experiência e a experimentação de novos papéis. p. de representações de idéias. articuladas com a área da saúde. para Fierro (1995). baseado na esperança depositada nessa instituição pelas adolescentes no que se refere à construção de seu futuro. formulem projetos futuros. polis. Vislumbrei possibilidade de desenvolver atividades profissionalizantes deve assegurar um caráter realmente educativo. os valores. Além disso. o grupo de amigos. nessa investigação. no sentido de prevenir o uso de drogas. poderão refletir sobre a própria identidade. os quais são. Nesse sentido. que alguns deles. 100). p. aspectos fundamentais das vivências nessa fase da vida. o valor que 284 . os quais apresentam a preocupação dessa abordagem com os âmbitos sociais e políticos. Esse empreendimento envolve uma compreensão de diversos casos individuais. para os educadores. evidenciou-se. Tais iniciativas podem colaborar para que eles ressignifiquem o passado. em algo mais geral. Assim. 1989. entendido aqui como tudo relativo ao social e ao comunitário. desenvolver orientações vocacionais e acreditar na profissionalização dos adolescentes. como os psicólogos. corroboro com a proposta de engajamento para ações mais abrangentes. um outro modo de contribuir para melhor atuação de profissionais da área de saúde. a finalidade de se chegar à análise nomotética é a estrutura geral psicológica. aprendam a lidar com o tempo da espera e elaborem ações inerentes às grandes tarefas do processo de adolescer. garantir acesso à informações sobre sexualidade. (MARTINS E BICUDO. trata-se da análise da ideologia que permeia as descrições ingênuas do sujeito” (MARTINS E BICUDO. Diante de tais relatos. 1989. deve contribuir para o planejamento de ações inter e multidisciplinares. não restritas ao espaço de um consultório psicológico. pois. ou seja. 106). Por sua vez.

relacionandoas aos aspectos psicológicos que envolvem o sentir e as ações. Além disso. sempre considerando as especificidades da idade. destacam que esses aspectos as atraiam e as mantinham vinculadas à instituição. com os adolescentes. destacando a relevância de sua obra no horizonte existencial dos moradores de abrigos. à Filosofia Existencial e à Fenomenologia. daqueles. a partir de uma proposta pedagógica fundamentada na Gestalt-pedagogia. apontam alternativas para o convívio diário. Como afirma Costa (2002). o desejo de vivenciarem o papel maternal. Nessa perspectiva. optam por permanecerem caladas no sentido de evitar brigas e. Para elas. cujas raízes históricas e espirituais remetem ao Humanismo. fantasias e imaginações. seus desejos. como por exemplo. da importância das escolhas relacionadas às amizades masculinas e femininas e a relação com a maternidade são aspectos fundamentais para a vivência da 285 . a presença de filhos desperta. em algumas delas. favorece o relacionamento. estabelecer conexões com as propostas específicas das instituições. embora não acreditem nas possibilidades de mudanças nas relações com a coordenação. enfatizo a necessidade de trabalhar. Na categoria denominada nesse estudo de temporalidade. Entretanto. Resgatar a compreensão da sexualidade. a intersubjetividade. ainda. As adolescentes. segundo Burow e Scherrp (1985). com experiências semelhantes. Sobre isso. abrem-se novos horizontes de compreensão ao olhar para meu trabalho como gestalt-terapeuta e professora. precisa ser desenvolvida na relação educador-educando. decorrentes dessas relações. Fundamenta-se. orientados segundo as idéias teóricas e práticas da Gestaltpsicologia e da Gestalt-terapia. Essa prática engloba conceitos pedagógicos. com uma visão humanista existencial. entendida como a capacidade de compreender e tratar o ser humano na sua totalidade existencial. É nesse momento que a presença intermediadora de profissionais da saúde. a maternidade. singularidades da cultura e contexto social de cada um. explorando sonhos. muitos conflitos. nos conceitos da Psicologia Humanista. assim. poderiam ser evitados. desistem do diálogo. essa autora sinaliza para a possibilidade de. em particular.sintetiza sua tarefa. conforme lembra Petrelli (1999). Os dados confirmam a necessidade dessa intervenção na medida em que as adolescentes expressam que a convivência com seus pares. Assim.

temporalidade. Ainda segundo essa autora. impedido de consumar em seu élan vital. O ser humano é capaz de vivenciar – agora – seu passado e projetar – agora – seu futuro. percebo-me capaz de contribuir para além da categoria do futuro imediato. a habilidade do profissional em reconhecer a atuação do passado no presente depende de uma investigação a respeito de como 286 . manifestadas na experiência do sujeito. a do tempo vivido (kairós). Em todas as etapas vividas. o profissional de saúde necessita direcionar seu olhar para as retensões e protenções. Deste modo. à temporalidade mecanicista. cronológica. faz-se necessário configurar a atuação de profissionais em uma perspectiva na qual a temporalidade interna. convertendo-se em direção a uma resignificação pelas habilidades das pessoas envolvidas. Somos uma totalidade temporal e. parece sinalizar para a forma como as adolescentes dessa investigação vivem o tempo. nas relações que se estabelecem entre educador-educando e profissionais de saúde-adolescentes. contrapondo-se. Agregar o vivido. presente e futuro encontram-se integrados no aqui-e-agora. perdendo a noção de duração. resultados da máxima restrospecção no tempo passado e da máxima prospecção no tempo futuro. incluindo as dimensões das ações éticas e da prece. o percebido e o desejado. conforme salienta Petrelli (1999). o presente e o futuro se fazem presentes no aqui-e-agora. (kronos). Como afirma Costa (2004). concepção que existe desde os primórdios dos tempos. seja contemplada O passado. portanto. sucessão e continuidade. Muitas dificuldades relacionais surgem face à imobilização do tempo. elaborar projetos alicerça-se na percepção da própria existência e de que forma o passado. rende-se ao irreversível kronos. que as experiências passadas e futuras se fazem presentes. o qual. Conectá-los é uma das formas de superar grande parte da problemática do processo de desenvolvimento da adolescência. então. Entretanto. No entanto. possibilitando a análise compreensiva das falas. como um convite vindo do futuro para ganharmos os domínios do tempo passado. no aqui-e-agora de sua experiência imediata. Todas as situações que não foram resolvidas no passado atuam aqui-e-agora. nesse sentido. principalmente no que se refere à possibilidade de vir a ter uma vida profissional. é. Esses objetivos nortearam essa pesquisa. o tempo presente pode ser considerado.

no papel que se dispõe a assumir. descrever o que se mostra por si mesmo. elementos fundamentais da postura fenomenológica do profissional de saúde. É preciso. A vida somente pode ser compreendida olhando-se para trás. aprendam a conciliar a generalidade dos conceitos teóricos à singularidade de cada pessoa. segundo Costa (2003). 287 . não é o passado que determina o presente. Para Costa (2004). permitindo que as vivências apareçam à luz do sentido próprio de cada vida. Evitar préconceitos diagnósticos e definições prematuras que comprometam o desvelamento do fenômeno. em cada encontro mantido. Assim. O dar-se conta de como o seu próprio passado atua nas relações estabelecidas com as adolescentes sinaliza para um imenso campo de atuação do gestalt-terapeuta. pensamentos e atitudes. é necessário que desenvolva consciência de suas sensações. Em uma perspectiva fenomenológica. como salienta Petrelli (1999). Mas.está se relacionando com o outro. só pode ser vivida olhando para frente. de um modo geral. na sua relação com o paciente. mas é o sentido da trajetória do ser que modifica a significação do passado e do presente. Aprender a testemunhar e a identificar os rasgos existenciais da trajetória humana. que os profissionais. nem esse o futuro. sentimentos. abrindo possibilidades de costurá-los com sentido. ainda.

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searching to understand the resources necessary to the therapist to take care of their singular necessities. 290 . We will analyze the existence of the creative adjustment in the autistic person. autistic person. a concepção desta pessoa dentro da teoria do ciclo do contato. ABSTRACT This article aims at to present a new vision of the autism. Analisaremos a existência do ajustamento criativo na pessoa autista. gestalt-terapia.PROPONDO UMA VISÃO GESTÁLTICA SOBRE O AUTISMO PROPOSING A GESTALT-THERAPY VIEW OVER THE AUTISM Eixo Temático: Práticas da Gestalt-terapia na atualidade e os seus caminhos RESUMO Este artigo visa apresentar uma nova visão do autismo. Keywords: Autism. gestalt-therapy. Palavras Chave: Autismo. pessoa autista. articulating theoretical aspects of the gestalt-therapy with reports and testimonies of autists and people connected to the autism. the conception of this person inside of the theory of the cycle of the contact. buscando compreender os recursos necessários ao terapeuta para atender suas necessidades singulares. articulando aspectos teóricos da gestalt-terapia com relatos e depoimentos de autistas e pessoas ligadas ao autismo.

nos meados dos anos quarenta. o que mais esta pessoa é. Os primeiros estudos apontaram que a causa do transtorno estava na incapacidade dos pais. temos que nos desprender da figura. o autismo tem se apresentado como um mistério para a psicologia. Pesquisas mais atuais. a causa do autismo. apontam para uma disfunção dos recém descobertos neurônios-espelho (Oberman e outros. de transmitir amor à criança e criar um ambiente seguro para a expressão de seus sentimentos. FIGURA E FUNDO Para começarmos a falar da pessoa autista a partir da gestalt-terapia. a psiquiatria e a educação. que muitas vezes é identificado como o próprio autismo. através da gestalt-terapia. No presente artigo. segundo a qual. mas a veracidade desta afirmativa reside no fato de que cada autista é uma pessoa. a forma como o ser da pessoa autista se configura para lidar com suas limitações e dificuldades. 1967. Para tratarmos uma pessoa autista. através de seus próprios ajustamentos criativos. in Coll. dentro do campo do possível. surge assim o termo “mães-geladeira” (Bettelheim. 2006). ou seja. É comum ao conversar com profissionais que atendem pessoas autistas ouvir a frase “cada autista é único”. e cada pessoa é única. nos importa muito menos o “por que”. além de autista? 291 . 1995).INTRODUÇÃO Desde sua descoberta por Kanner e Asperger. PARTE E TODO. e ir ao fundo. particularmente da mãe. o comportamento autístico. gerando um bloqueio na mesma em sua capacidade afetiva. neurônios pré-motores que se ativam quando observamos uma ação ou quando percebemos a intenção de uma ação observada. tenho o objetivo de trazer uma visão diferente do autismo. temos que primeiramente eliminar a separação entre pessoa e autista. e muito mais o “como”.

faz parte de quem ele é. mas pela possibilidade – guardada as devidas 292 . é que essas duas coisas necessariamente não se excluem. portador da síndrome de Asperger. UMA VISÃO GESTÁLTICA DO DESENVOLVIMENTO A gestalt-terapia não possui uma teoria do desenvolvimento formalizada ou divida em fases como ocorre com as teorias de Freud. o autismo é uma condição pervasiva da pessoa que o possui. curaremos o autismo. coloca que “. Para a gestaltterapia.. “Eu entendo que o desejo de eliminar todos os comportamentos autísticos derivam provavelmente de uma falta de compreensão destes comportamentos. concebemos o desenvolvimento como um processo de inter-ação homem/mundo. até porque falar em uma cura do autismo é no mínimo controverso. ou seja. fevereiro/2001. combinada com o desejo de que as pessoas tenham uma vida feliz. e patologizado como uma síndrome. O que buscamos “curar”? O comportamento autístico? As dificuldades sociais e de aprendizagem que estas pessoas sofrem? Ou a nossa própria incapacidade de lidar com o diferente? Além disso. e também daquilo que temos insituído como “saúde” e “doença”. Piaget ou Erikson. o ser humano está em constante desenvolvimento ao longo de toda a sua vida. A relação estabelecida com o mundo não se caracteriza pela passividade.” – Kris Brink. Luciana Aguiar (2005). porque ainda existe o pensamento de que ao se curar os comportamentos autísticos.. uma forma de identidade profundamente diferente. O que não ocorre a algumas pessoas. embora possa ser visto como uma condição médica. também deve ser encarado como um modo de ser completo.“Autismo. Chamo a atenção para este ponto. que deram grande importância ao desenvolvimento do ser humano na infância. Este conceito possivelmente deriva de nossa projeção do que seja uma vida feliz.” – Oliver Sacks (1995) Tratar uma pessoa autista não é o mesmo que curá-la do autismo.

Sob este paradigma. a partir da emergência de nossas necessidades. Estas necessidades não se resumem apenas as necessidades fisiológicas. ficando com aquilo que o nutre e recusando e/ou transformando aquilo que não lhe serve.. pois implica na ação do indivíduo no mundo a fim de torná-lo o mais assimilável possível. o desejo de ser abraçado. Os gritos eram a única maneira que eu tinha para me comunicar. que entende os organismos em constante busca de equilíbrio homeostático. uma mulher autista de 59 anos. Esta inter-ação ocorre através do conceito chamado auto-regulação organísmica. a sede ou a fome.proporções determinadas pelos recursos do indivíduo por um lado. que por sua vez emergem no contato com o mundo. e pelas possibilidades do meio.. a minha fala não era completamente normal (.. ao qual denominamos de “ajustamento criativo”.) Cantar.” Temple Grandin (1992). ou a necessidade de realizar um determinado movimento auto-estimulador. Grandin diz que “Durante meus anos escolares primários. organizadas por uma hierarquia que depende do contexto interacional do indivíduo. “eu vou gritar agora porque eu quero falar para alguém que não quero fazer determinada coisa”. que é o uso de músicas para tentar se comunicar. Ela tenta recuperar o equilíbrio perturbado pela necessidade de expressar seu desagrado em fazer determinada coisa através dos recursos que dispõe para tanto. mas também abarcam necessidades psicológicas e sociais. por outro lado – de ação e transformação do meio com a finalidade de ajustar-se da melhor forma possível às circunstâncias”. expressar um pensamento ou sentimento. ele é “criativo”. era bem fácil. O comportamento descrito por Temple é uma mostra de um ajustamento criativo de uma criança autista. fala de sua infância: “Minha mãe e meus professores ficavam imaginando porque eu gritava tanto. A música “Água Mineral” do grupo Timbalada é relatada por estas mães como uma unanimidade entre seus filhos para 293 . Aguiar continua: “O processo de auto-regulação organísmica objetiva então alcançar o melhor acordo possível entre organismo e meio a cada momento. Às vezes eu pensava logicamente comigo mesma. porém.” O que refere à outro ajustamento criativo relatado pelas mães de alguns autistas com quem tive contato. são necessidades tão importantes quanto ler um livro...

Mas agir. O Ciclo do Contato. O AUTISMO COMO UM PADRÃO DE CONTATO “Nem todo contato é saudável. Quando este ciclo é interrompido. buscamos a Sensação para nos situarmos. descrito por Ponciano. Quando nossa interação é plena alcançamos um Contato Final que nos traz Satisfação. e a partir daí tomamos Consciência. 1977 Jorge Ponciano Ribeiro. os recursos criativos utilizados no passado em um determinado contexto continuam sendo utilizados hoje. propõem uma forma de diagnóstico em gestalt-terapia. é preciso desenvolver a awareness. e por isso nossa ação se torna Interação. suas necessidades. entramos em contato com nós mesmos. ou seja.” – Fritz Perls. Quando sentimos. mas aqui opto por me utilizar da de “tornar-se presente”. o ambiente ao seu redor. Awareness é um conceito em gestalt-terapia de difícil tradução. os Polsters e Crocker. ou seja. A partir do momento que nos colocamos em um movimento interno.indicar que estão com sede. que são exatamente os bloqueios no ciclo do 294 . surgem os chamados “mecanismos de defesa ou de sobrevivência”. é agir no mundo. onde a patologia se formaria quando há um padrão de contato. podemos realizar uma Retirada até um novo contato. respeitar e estimular os ajustamentos criativos da pessoa autista é um ponto fundamental do atendimento dos mesmos. Para isso. pode ser resumido da seguinte forma: Alguma coisa nos tira de nosso estado de inércia. e organizados por Ponciano. agir em relação. e precisamos de Fluidez para nos movermos. fazemos toda uma Mobilização para entrarmos em Ação. quando o contexto mudou e esta elaboração criativa não mais é necessária ou benéfica. seu contexto no aqui e agora. Ser capaz de reconhecer. entrar em contato com seu próprio organismo. descritos por autores como Perls. Satisfeitos. Zinker. Com a tomada de consciência. em seu livro “O Ciclo do Contato” (1997). nem toda defesa é patológica. acolher.

deixo posições antigas. que ele descreve como “Processo pelo qual me movimento. baseado no conceito anteriormente exposto do ajustamento criativo para gerar uma fluidez dentro da própria fixação. quero destacar um em particular que considero pertinente de ser aplicado no caso do autismo: “Fixação (“Parei de existir”): Processo pelo qual me apego excessivamente às pessoas. Pode ajudar se movermos o corpo muitas vezes. por isso. ou seu próprio corpo e seus sentidos. temendo surpresas diante do novo e da realidade. Às vezes. acompanhar as transformações deste mundo às vezes é até doloroso para eles. Brink nos pede que imaginemos o medo de se estar desprotegido diante do caos do mundo. sem verificar as vantagens de tal situação. dentre outras. idéias ou coisas e.contato descritos anteriormente. eles se utilizam de fixações como um ponto seguro aonde se firmar em meio ao turbilhão do mundo. O mundo é um lugar caótico e imprevisível para o autista. o desconhecido. Pode parecer. Alguns possuem fixações por números. Entretanto. e de lidar com as surpresas da vida. Dentre os padrões descritos nesta obra. sinto-me mais solto e espontâneo e com vontade de criar e recriar a minha própria vida”. sinto-me incapaz de explorar situações que flutuam rapidamente. renovo-me. localizo-me no tempo e no espaço. alguns dos meus comportamentos auto-agressivos têm essa causa. mas tente imaginar o medo que se origina da sensação de que nada separa você do caos do mundo. 45) A descrição de Ponciano sobre a Fixação encaixa perfeitamente nas colocações de Kris Brink (2001): “Nós precisamos continuamente nos assegurarmos que certas partes de nós de fato existem. a primeira vista que para obtermos a fluidez temos que necessariamente eliminar toda e qualquer fixação. Grandin fala de suas próprias fixações. fantasias. embora eu esteja sempre procurando subtituí-los. Pode ser difícil. dinossauros. outros possuem fixações por insetos.” Onde Ponciano fala de um temor diante do novo. Ponciano coloca que o fator de cura para a fixação é a fluidez. podemos tentar um caminho diferente. e de como elas poderiam ter sido 295 .”(pp. como o personagem de Dustin Hoffman no filme Rain Man. permanecendo fixado em coisas e emoções.

” Pode parecer que se seguíssemos as indicações de Grandin descritas acima. não estará em contato. A minha leitura poderia ser motivada através da leitura das propagandas e das pessoas que estavam concorrendo aos cargos políticos. não se trata de buscar uma cura para o autismo. o que lhe 296 . citei a importância do acolhimento e estímulo aos ajustamentos criativos da pessoa autista. Meus professores deviam ter tirado proveito disso para me estimular e me fazer interessada em Estudos Sociais. numa verdadeira relação Eu-Tu. mas onde ela poderia controlar a força do mesmo para que este contato não se tornasse nocivo para ela. Com esta máquina. mas como já foi colocado. ela conseguia ter a sensação de um abraço. eu acabei me interessando por eleições. no atendimento de pessoas portadoras de síndrome do espectro autista. estaríamos estimulando uma parte do problema ao invés de “curá-lo”. Se uma criança se interessa muito por aspiradores de pó. Calcular os pontos das eleições poderia me ajudar em Matemática. que poderia ser utilizado em qualquer atendimento realizado por um gestalt-terapeuta.utilizadas para estimulá-la na infância: “Mesmo que a minha atração por propagandas eleitorais tenha se iniciado por razões sensoriais. buscando perceber suas dificuldades e principalmente. é preciso que o ajustamento criativo do próprio terapeuta também seja trabalhado. precisa ser reforçado ao lidarmos com autistas. Pessoas autistas. Temple Grandin construiu aos 19 anos uma máquina de compressão que ela imaginava desde os cinco anos de idade. no entanto. Ela descobriu que esta máquina tinha nela um efeito relaxante e reduzia a sua sensibilidade exacerbada ao tato. E um terapeuta que não se encontre aware e fluído. então use o livreto de instruções do aspirador como livro texto para essa criança. entremos constantemente em contato com a pessoa diante de nós. É preciso que enquanto terapeutas. O AJUSTAMENTO CRIATIVO DO TERAPEUTA Anteriormente. por conta de suas próprias alterações sensoriais e de linguagem são incrivelmente imprevisíveis. neste mesmo artigo. Este pensamento. suas forças. mas de buscar novas gestalts para a pessoa autista através de um ajustamento criativo.

mas nossa própria awareness precisa ser ampliada para que não nos prendamos ao comportamento autistíco e nem tentemos “curar” aquela pessoa. Devemos também estar atentos as nossas próprias necessidades e dificuldades na relação terapêutica. mas como uma forma diferenciada de ser. Temple descreve que “Enquanto o psicólogo queria eliminar a minha máquina de compressão.” E continua “Se o psicólogo tivesse tido sucesso em tirar de mim a minha máquina compressora. o objetivo deste artigo foi o de trazer um novo enfoque sobre o autismo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir de uma visão holística e organísmica. Isso se deve ao fato de meu contexto enquanto estudante. O autismo ainda é um território desconhecido. Lembrando que em gestalt-terapia. pois ela sabe quais são as suas próprias necessidades e dificuldades. “a pessoa é a maior conhecedora de si mesma”.. talvez agora eu estivesse sentada em algum canto apodrecendo em frente a uma TV em vez de estar escrevendo. Espero que este artigo tenha dado novos ventos para aqueles que desejam singrar por estes mares ainda não mapeados. Apesar do nome do artigo ser “O Atendimento ao Portador de Síndrome do Espectro Autista: Uma Visão Gestáltica”. 297 . já munido de experiência clínica e de maior contato com o universo autista. Com todos estes benefícios causados pela máquina. o meu professor encorajou-me a ler jornais científicos para que eu pudesse entender porque a máquina tem um efeito relaxante.permitia entrar em contato mais facilmente com pessoas e animais.. cheio de mistérios. Não só devemos estimular a awareness da pessoa diante de nós. inclusive lhe desenvolvendo a empatia. estou aware de que o mesmo se concentrou muito mais em uma correlação teórica e muito pouco em uma prática. não mais como uma doença ou transtorno. Gostaria de revisar este artigo daqui a alguns anos.” Este exemplo ilustra bem o que tenho desenvolvido desde o princípio deste artigo.

SACKS.painet. & RAMACHANDRAN. GRANDIN. (1995) Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais. Campinas: Editora Livro Pleno. COLL. (2001) Eliminar o comportamento autístico não cura o autismo.trix. São Paulo: Companhia das Letras. BRINK. (2005) Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática.br/rocha/temple. (1977) Gestalt-terapia explicada. S. C.htm: Consulta efetuada em 2008.htm: consulta efetuada em 2008. Porto Alegre: Artes Médicas. V.(org.) (1995) Desenvolvimento psicológico e educação 3v. J. M. O. S. Disponível na internet em http://www. Scientific American Brasil 5(55): 52-59. L. T. São Paulo: Summus. OBERMAN.BIBLIOGRAFIA AGUIAR. New York: Plenum Press.net/eliminarcomport. PONCIANO RIBEIRO. São Paulo: Summus. (1997) O ciclo do contato: temas básicos na abordagem gestáltica. K. PERLS. (1992) AnInside View of Autism. F. 298 . Disponível na internet em http://www. (2006) Neurônios-espelho: Espelhos quebrados. L.com.maoamigaong.

Sendo assim. Esquizofrenia. Assim. A 299 . apresentando pontos importantes da teoria e discutindo sobre uma possível conduta terapêutica nesses casos. seja pela prevalência mundial (cerca de 1% da população. Toda a prática em saúde mental envolve a atuação de uma equipe multidisciplinar bem como a implicação da família. da sociedade e.REFLEXÕES ACERCA DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA RESUMO Este artigo é parte do trabalho “Psicopatologia na abordagem gestáltica: reflexões acerca da esquizofrenia”. Nesse sentido. segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS). elaborado para a conclusão do curso de especialização em Gestalt-terapia. a atual política de saúde mental no Brasil preconiza o resgate da cidadania e autonomia da pessoa com sofrimento psíquico. dentre outros conceitos. INTRODUÇÃO A preocupação com o cuidado em saúde mental vem crescendo em decorrência da ampliação das políticas públicas em relação às ações e serviços de saúde. Saúde mental. O trabalho tem como objetivo compreender os sintomas da esquizofrenia dentro da perspectiva gestáltica. No artigo será dada ênfase à compreensão diagnóstica e ações terapêuticas na esquizofrenia. seja por sua sintomatologia. Intervenção. respeitando a singularidade da vivência esquizofrênica. principalmente. define-se a esquizofrenia como um dos transtornos mentais mais graves que existe. Terapêutica. Palavras-chave: Gestalt. da pessoa que sofre. bem como das mudanças ideológicas frente ao atendimento oferecido às pessoas com transtorno mental. será abordado o ciclo do contato proposto por Jorge Ponciano Ribeiro. permitindo uma compreensão fenomenológica e pertinente à abordagem gestáltica.

300 . além do indivíduo. É um quadro complexo apresentando sinais e sintomas na área do pensamento. a família e o meio social. ocupacionais e nas relações interpessoais e familiares. Este trabalho tem como objetivo compreender os sintomas da esquizofrenia dentro da perspectiva gestáltica.esquizofrenia se manifesta no final da adolescência ou no início da vida adulta. enfatizando a potencialidade do ser humano mesmo nos casos em que há um grave acometimento psíquico e existencial. apresentando pontos importantes da teoria e discutindo sobre uma possível conduta terapêutica nesses casos. respeitando a singularidade da vivência esquizofrênica. podendo igualmente ocorrer na infância ou meiaidade. No artigo será dada ênfase à compreensão diagnóstica e ações terapêuticas na esquizofrenia. De acordo com o DSM-IV (2003) – manual diagnóstico em psiquiatria publicado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) – a esquizofrenia é definida nas suas características essenciais com presença de sintomas psicóticos. e não somente no diagnóstico. permitindo uma compreensão fenomenológica e pertinente à abordagem gestáltica. dissociação do pensamento. o cuidado em saúde mental traz uma nova concepção em torno da compreensão da pessoa com transtorno mental e das suas possibilidades de mudança. tais como delírios. tanto nos homens quanto nas mulheres. A proposta de se discutir as intervenções da abordagem gestáltica em saúde mental surge do possível diálogo entre o que preconiza a atual política de saúde e a teoria da Gestalt. Será abordado o ciclo do contato proposto por Jorge Ponciano Ribeiro. Atualmente. dentre outros conceitos. alucinações. Este cuidado considera o indivíduo e o seu sofrimento. causando prejuízo nos cuidados pessoais. percepção e emoções. comportamento desorganizado ou catatônico e afetividade embotada. possibilitando um olhar integral da situação que compreende. por seus princípios e concepções de homem e de mundo.

p. observação dos sintomas e compreensão da sua vivência. considerando seu funcionamento.. A partir da figura abaixo se pode ter uma visão da forma como o autor41 propõe o ciclo do contato. vivendo.. a “um modelo (. por sua vez. 41 Ribeiro (2007. assim como afirma Ribeiro (1995. 2003). Refere-se ao campo no qual a pessoa expressa suas possibilidades dentro da realidade vivida. O ciclo do contato corresponde segundo Ribeiro (2006. p.INTRODUZINDO O DIAGNÓSTICO NA PERSPECTIVA GESTÁLTICA: CICLO DO CONTATO O processo do diagnóstico em saúde mental envolve a identificação do padrão funcional de uma pessoa através da escuta. se expressando e bloqueando sua relação com o outro”. um paradigma ou um modelo para pensar a psicopatologia do sintoma.75).22). O diagnóstico deve ser construído no contato..87). é considerado um indicador diagnóstico e de psicoterapia. o psicodiagnóstico e um programa de cura”. p. 2001) acredita que ao diagnosticar: (…) é importante considerar de que maneira o cliente mantém o seu processo de awareness. “uma Gestalt. produzindo. 301 . Souza (et al. p. 2003. o diagnóstico tem como objetivo identificar e explicitar o modo pelo qual o indivíduo se relaciona com o ambiente e de que forma significa a sua própria experiência (TENÓRIO. de que forma percorre o ciclo do contato. Na Gestalt-terapia.) que se propõem a explicar didaticamente o jeito como as pessoas fazem contato. Essa compreensão irá nortear uma intervenção terapêutica mais apropriada para o paciente.24 apud PIMENTEL. O ciclo do contato. dentro do ambiente terapêutico. O ciclo permite um olhar sobre o funcionamento do indivíduo ao mesmo tempo em que propõe intervenções terapêuticas. quais são os mecanismos de interrupção do contato que utiliza e qual o seu suporte disponível.

sensação. ação. A observação do self permite um olhar sobre a identidade de uma pessoa em contato. consciência. Os três sistemas destacados são elementos básicos da personalidade – motor. p. 2007. No centro do ciclo aparece o self como “um centro operacional de controle de energia em forma de contato. O fator de cura é definido por Ribeiro (2007.Este ciclo do contato corresponde a um ciclo integrado dos sistemas. Uma desarmonia ou interrupção nessa relação resultaria em um processo psicopatológico. como forma de contato pleno. retirada. interação. níveis e funções que envolvem os fatores de cura e bloqueios do contato.57) como: 302 . Tal disposição do ciclo permite uma visão diagnóstica rápida ao se identificar os mecanismos do contato nos sistemas correspondentes e nas funções do self. mobilização. contato final. O ciclo do contato é composto por nove processos denominados fatores de cura: fluidez. satisfação.19-20). em dado campo” (RIBEIRO. p. cognitivo e sensórioafetivo – e as funções do self. de tal modo que o self é o retrato de como a pessoa funciona. Cada um desses fatores é visto como um passo à saúde.

a deflexão permite 303 . através de uma consciência emocionada. de trocas com o meio e satisfação de necessidades. sendo elas a deflexão. no presente. motoras e sensório-afetivas que funcionam de modo integrado na mudança. está relacionado ao processo de cura e mudança através de uma seqüência contínua de figura-fundo. Observando a esquizofrenia no ciclo do contato. dependo da forma como o indivíduo se utiliza deles. fortalecida para mudar. Como adaptação. durante esse processo pode haver interrupções ou bloqueios que impossibilitem uma resolução satisfatória das necessidades do organismo. As necessidades identificadas mobilizam o organismo em busca de uma resolução. atendendo às condições da situação e às necessidades do indivíduo”.) um processo por meio do qual a pessoa experiencia. É necessário observar a freqüência com que os mecanismos ocorrem e se estão sendo utilizados indiscriminadamente ou de forma cristalizada. O ciclo do contato. assim como apontam Antony & Ribeiro (2004. segundo Delisle (1999). “esses processos do contato possuem uma função saudável quando empregados flexivelmente. portador de mudança e de bem-estar. p. é uma estratégia para reduzir a intensidade do contato como..130). penetrou no seu universo cognitivo. o desvio do olhar. Entretanto. motivada. uma sensação de que algo novo.. as disfunções mais comuns são as que correspondem à função id do self. portanto. A deflexão. e. É importante observar que os mecanismos de defesa podem ser saudáveis ou patológicos. De acordo com a teoria da Gestalt-terapia. Ainda segundo os autores citados anteriormente. em dado momento. provocada pela percepção de uma totalidade dinamicamente transformadora.(. sente-se inclinada. O organismo diante da satisfação faz o fechamento do seu processo assimilando toda a experiência. por exemplo. a utilização de termos vagos e a expressão de forma exagerada. situações inacabadas. Através de tais mecanismos o indivíduo fica impedido de realizar contatos saudáveis a partir do momento que mantém. “os bloqueios do contato são mecanismos psicológicos que exercem funções defensivas e constituem padrões de comportamento e percepção”. Durante todo o processo estão presentes funções perceptivas. a fixação e a dessensibilização.

sendo um aspecto do self indispensável à saúde. como ocorre na esquizofrenia. Para Ribeiro (2007. p. A COMPREENSÃO DA ESQUIZOFRENIA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA A maior parte das psicopatologias. conseqüentemente. 1989 apud HOLANDA. o interesse por sensações novas. temendo correr riscos. conseqüentemente. Em conseqüência disso a criança “não pode sentir-se confirmada e. pois nem sempre uma pessoa quer que o contato seja intenso. 1995 apud TENÓRIO. desde que não interrompam a fluidez do ciclo. São consideradas funções de segurança. p. alienando uma parte de si mesma. que vai tornar-se inconsciente” (HYCNER. 304 . a desestruturação psicótica deve-se a uma não-valorização da experiência pessoal pelo outro. coisas e. 2003. De acordo com a filosofia dialógica. Entretanto. tem de rejeitá-la. 1998. a regressão. a pessoa se sente anestesiada diante do contato. portanto. estaria relacionada a um estreitamento da relação do indivíduo consigo mesmo e com seu meio. essa pessoa não é ‘ouvida’ e sua voz torna-se monológica e tragicamente um ‘movimento interno’ (HYCNER. apresenta diminuição sensorial no corpo e dificuldade para se estimular perdendo. prejudicando o contato e. no mais profundo modo de encontrar os outros. Isto significa que. não é capaz de apreciar e valorizar sua própria experiência. (…) a psicopatologia é resultado de um ‘precoce diálogo abortado’. incluindo a esquizofrenia. os sonhos etc. tende a se manter fixada nas mesmas situações sendo incapaz de explorar novas possibilidades. As disfunções de contato apresentadas acima podem ser consideradas saudáveis em determinadas situações do cotidiano. no caso da dessensibilização. entrar em estado de choque. o sono. idéias.41).reduzir a intensidade da experiência que seria insuportável. Ainda segundo o autor. o seu desenvolvimento saudável.63). São exemplos de disfunções “saudáveis”: a fuga. quando utilizadas repetidamente tornam-se patológicas. a fixação refere-se ao processo através do qual uma pessoa se apega excessivamente a pessoas.

O outro passa a ser visto como agente promotor de angústia e sofrimento uma vez que é fonte de desconfirmação. 2004 apud SANTOS. “Na situação específica de um esquizofrênico. por exemplo. 1998. Esse eu tornou-se desconhecido em virtude de tantas defesas e negações de si mesmo. p. na tentativa de minimizar a ameaça externa. o indivíduo tende a se afastar e se isolar da situação que gera sofrimento. suas percepções e sentimentos não foram confirmados como sendo reais. Não sendo livre para sentir ou agir. Friedman (1985 apud SANTOS.40) coloca que: Na psicose há um processo de profunda alienação de si mesmo e do outro. A desconfirmação do self interrompe o contato do “eu” consigo 305 . 2005. a loucura. considerar e valorizar a experiência da criança. há um vazio da presença. neste caso por uma fuga do contato. no entanto. por conta de uma total impossibilidade de se estabelecer um diálogo com o outro (EU-TU). Geralmente suas concepções foram coagidas a serem substituídas pela doutrinação dos pais.p. Esta.182) também aponta para a ausência de confirmação da experiência pelo outro no histórico de pacientes esquizofrênicos.39). (…) para o esquizofrênico. autênticos e nem mesmo possíveis. Tenório (2003. na história familiar de pessoas com esquizofrenia nota-se que não houve espaço para que a criança tomasse como real o que ela percebia e sentia.182). Ele recorre à ‘segurança’ do seu isolamento na tentativa de não se sentir ameaçado por qualquer presença que possa mais uma vez desintegrar seu self diante nova desconfirmação (PETRELLI. pais que não foram capazes de entender. então. Ainda em relação ao prejuízo no contato. vontades e sensações. seus desejos. p. O reconhecimento do próprio self é premissa básica para o fluxo contínuo do ciclo do contato. p. ou seja. ao ter que atender às expectativas de outras pessoas.41). 2005. De acordo com a passagem acima. pode-se dizer que na psicose há um comprometimento com a questão relacional. p. perde seu referencial deixando de entrar em contato consigo mesma. O outro teve que ser alienado por se revelar excessivamente poderoso e nocivo à preservação do eu. Não há uma concordância quanto à causa da esquizofrenia. resultando em contatos distorcidos e limitados. Isto explica então o papel da presença neste tipo de personalidade. Diante da desconfirmação e da ameaça. Por exemplo. a única opção (além de se tornar um só à medida que aceite por completo a imposição dos pais) é o isolamento total. existe um obstáculo visível: a não-disposição do outro em sair de seu mundo próprio” (HOLANDA.

a confluência é “um apego a uma situação antiga que se tornou obsoleta”. o esquizofrênico continua fixado nessa situação.. O indivíduo perde a sua espontaneidade e a capacidade de focar na sua própria experiência ficando paralisado e interrompendo o contato. não estando separada do “eu”. 2000. principalmente psicopatologias que implicam em uma divisão interna muito profunda. sendo submetido a sucessivas interrupções no fluxo natural entre figura-fundo gerando o sofrimento. como na esquizofrenia ou outras patologias esquizóides (ZINKER. Segundo Delisle (1999).mesmo e com o mundo. quando a pessoa se vê fragmentada. A experiência alucinatória é vivenciada como real e natural. Um exemplo disso são as alucinações presentes nos quadros de esquizofrenia. mas sim do outro. o indivíduo vivencia situações interrompidas ou não-satisfeitas.125).106). o paciente “(. sem intenção. 42 306 . Dessa forma. A fronteira não é experienciada refletindo na dificuldade para fazer contato. a confluência (fator de cura: retirada) surge após o processo de fixação (fator de cura: fluidez) o que nos faz pensar sobre o quanto a “dependência” em relação às escolhas do outro leva a uma indiferenciação e negação de si mesmo..) perde contato com o mundo em que vivem os Ao se observar o ciclo do contato. A indiferenciação entre o “eu” e o “não-eu” torna o indivíduo alienado do meio. p. A confluência ocorre quando o indivíduo é incapaz de focar na sua própria experiência e. Não há clareza na representação do “eu” em oposição ao “não-eu”. se funde com outra pessoa. p. ou tal contato é ocasional ou instável. É comum encontrarmos psicopatologias graves em pessoas com tais históricos. Diante da “segurança” de buscar no outro a satisfação das suas necessidades. Segundo Robine (2006. p. além da impossibilidade de diferenciação entre a própria experiência e a do outro que é imposta como única e verdadeira (fixação)42. a confluência acontece quando a fronteira de contato é tão ofuscada que não permite a distinção entre indivíduo e ambiente. e cujas partes não entram em contato. 1979. Por não se tratar da sua necessidade. Na esquizofrenia a confluência surge de uma relação de não-contato com necessidades autênticas já que o indivíduo durante a sua vida criou uma “dependência” diante da desconfirmação e das escolhas do outro.85 apud RODRIGUES. Neste caso surge a confluência.

142).) O psicótico tem uma camada de morte muito grande. A psicose – incluindo a esquizofrenia – assim como afirma Goodman (apud GINGER & GINGER. sua tradução corporal.. (.173-5 apud MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO.. não está potencializado a compartilhá-la” (SANTOS.142) confirma tal compreensão ao afirmar que “nas psicoses. 1973. especialmente. p. A incapacidade para retornar ao funcionamento espontâneo.346). “aparece em situações extremas onde há uma falta de equilíbrio das funções do self”. “a uma perturbação da função id: a sensibilidade e a disponibilidade do sujeito às excitações externas ou internas estão perturbadas: ele não responde claramente ao mundo exterior nem as suas próprias necessidades”. Ocorre uma fragilidade do modo ego (perda de controle) diante de tanta energia (excitamento) que não é definida de acordo com a sua relevância do momento.128) corresponde.indivíduos não-patológicos. apresenta algo semelhante sobre a psicose: (. 1995. sobretudo. 2008.141). ele simplesmente nega as frustrações e se comporta como se elas não existissem. it comes out in spurts” (PERLS. 44 43 Trecho original: “In psychosis.135 apud LATNER. ao invés de ser distribuída de forma discriminada. segundo Latner (1973. Além da compreensão da relação baseada no dialógico. p. A função id se refere às pulsões internas. torna-se incontrolável no caso da psicose.. p. 1973. p. a energia presente não pode ser controlada e. 1995. e esta zona morta não consegue ser alimentada pela força vital.. A psicose. Pela falta da capacidade de afastar-se de sua própria experiência. p.) o psicótico nem mesmo tenta lidar com as frustrações. Uma coisa que sabemos ao certo é que a energia vital. Perls (1969a. p. 1969a. energia biológica (.. como nos atos automáticos de respiração. outros autores ainda chamam à atenção para o self – alvo da desconfirmação – e suas funções. O contato com o campo é severamente reduzido e leva a uma ruptura na coordenação dos modos id e ego gerando o conflito.135 apud LATNER.4). entre outros (GINGER & GINGER. the energy is unmanageable. p. 2006. p. faz com que o self se torne predominantemente id43.).127-128).. locomoção. ela vem em excesso”44. p. Toda energia disponível não consegue ser distribuída de forma equilibrada e funcional. às necessidades vitais e. Instead of being differentiated and distributed. Perls (1969. p. estando desconectado da realidade. 307 .

) a função id (que justamente se caracteriza pela formação e mobilização do fundo de excitamentos) não cumpriria seu papel. p. p. ausente. por alguma razão. confluência. fato contrário ao que ocorre com a função id. acometido de uma espécie de ‘rigidez (fixação)’” (PERLS. projeção.143). a megalomania e a paranóia. Em algumas desordens. 1973. a função id estaria. Latner coloca que essa é uma descrição geral dos aspectos presentes em desordens severas que se caracterizam pela perda de controle do self. 2008. Geralmente. falhada ou desarticulada. como mostra Müller-Granzotto & MüllerGranzotto (2008. tal como observado nos comportamentos por vezes descritos pela psiquiatria. p. A esquizofrenia apresenta-se como o principal transtorno psicótico segundo os manuais de classificação diagnóstica em psiquiatria. como o narcisismo. o modo ego tende a assumir a dominância não-saudável em busca da ação.34 apud MÜLLER-GRANZOTTO & MÜLLER-GRANZOTTO. como na psicose45. “O sistema self seria. p.9-10): (. a ação do ego nesse funcionamento “emergencial” não é suficiente para assegurar a satisfação das necessidades. Entretanto. Várias situações podem desencadear uma psicose. razão pela qual a função ego (caracterizada pela ação motora e linguageira) estaria desprovida dos motivos para lidar com o dado na fronteira de contato. HEFFERLINE & GOODMAN. procurando pelos excitamentos que a função id não foi capaz de fornecer ou forneceu de forma desarticulada. tais como introjeção. “(…) o funcionamento com preponderância no modo id em geral são mais extremos e perturbados do que os que persistem no modo ego” (LATNER. a frouxidão das fronteiras do id torna-se exacerbada e podem surgir disfunções do contato.. Um exemplo disso poderia ser o descuido com a higiene pessoal que pacientes com o quadro de esquizofrenia 45 A “psicose” é um termo utilizado na psiquiatria e se refere a um estado mental no qual existe uma perda de contato com a realidade. então. Em geral. 1951.. Ainda de acordo com este autor. 308 .9-10) (grifo do autor). como o uso de substâncias psicoativas ou doenças físicas. quando a função ego é bem desenvolvida e permite a manipulação do contato com o campo o indivíduo passa a ter mais habilidade para moderar as disfunções. decorrentes da perturbação de si mesmo e do campo.Com um contato escasso.

costumam apresentar. catatônicos” (LATNER. Nesse movimento confluente o resultado é a perda da realidade onde o indivíduo não consegue se distinguir do meio e nem perceber o que está realmente acontecendo consigo mesmo. o seu próprio corpo ou “dado”. p. Nessa passagem Latner resume o funcionamento do organismo no modo id quando o self está prejudicado. ou não ocorre. Dessa forma. Com base nos mecanismos de interrupção do contato correspondentes ao self na função id – deflexão. Como visto acima. A dessensibilização está presente nos casos em que o paciente ignora as sensações dolorosas. A fixação pode ter relação com o pensamento concreto. como colocam as autoras Müller-Granzotto. O indivíduo se torna inseparável das coisas que participa e toda sua vivência está integrada ao meio. ou vem em excesso. levando ao “pé da letra” tudo que lhe é dito. o self permanece fechado para o fluxo de diferenciação com o campo estando unificado às experiências provindas do ambiente.145). De modo integrado às interrupções do contato. neste caso não seria percebido. as funções sensoriais e afetivas encontram-se comprometidas resultando na dificuldade apontada por Goodman: necessidades não identificadas e contatos interrompidos. Já que as necessidades não são identificadas. dessensibilização e fixação – pode-se fazer uma rápida referência aos comportamentos observados na esquizofrenia para uma compreensão didática. A deflexão pode ser observada nos casos em que há falta de contato com o outro no momento em que o paciente vivencia o contato com as suas vozes (alucinações auditivas). não se identificando as figuras que precisam ser fechadas. o excitamento. passando a ser descuidado e até negado. Essas funções presentes no ciclo do contato correspondem às descrições obtidas nos manuais de classificação diagnóstica em psiquiatria quanto à referência do comprometimento 309 . A persistência modo id pode “aumentar nossa energia e atividades bizarras – ou talvez simplesmente parar-nos. 1973. Ao se observar o ciclo do contato proposto por Ribeiro (2007) é possível perceber de que forma o self funciona dentro da função id e como a esquizofrenia é vivenciada no campo. permanecendo diluído no fundo do self.

Outro sintoma fundamental no diagnóstico é o comprometimento afetivo que é manifestado através da diminuição na habilidade de expressar-se emocionalmente. se transformando e se abrindo a novas possibilidades em busca do crescimento e desenvolvimento saudável. Esse é o resultado esperado no tratamento de pacientes esquizofrênicos. Relacionar-se com alguém é o mesmo que ser destruído ou destruir o outro. fechando processos. quer seja por mecanismos de defesa ou até mesmo por déficit intelectual”. As alucinações observadas nos quadros psicóticos se referem a um erro no registro sensorial. uma percepção sensorial que ocorre na ausência do estímulo do órgão sensorial correspondente.sensorial e afetivo na esquizofrenia. essa dificuldade pode ser minimizada através de intervenções que auxiliem na configuração de um novo funcionamento. Isso justifica o seu isolamento. ou seja. Dessa maneira. mesmo que dentro dos seus limites. se diferenciar do ambiente. Ele consegue responder satisfatoriamente as suas necessidades. Assim como colocado acima sobre a compreensão da abordagem gestáltica acerca da esquizofrenia. Segundo Vicentini (2007). ao mesmo tempo. CONDUTA E INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS NA ESQUIZOFRENIA No funcionamento saudável e equilibrado. (…) o esquizofrênico vive a angústia da iminente desintegração do self. a confirmação e a presença tornam-se essenciais no 310 . perda de interesse pela interação social. pode-se dizer que os mesmos não conseguem manter espontaneamente o contato consigo mesmo e com o mundo a sua volta de forma auto-reguladora. a forma pela qual o indivíduo esquizofrênico é abordado é fundamental na possibilidade de interação com o outro (LAING. inabilidade de experimentar prazer. Entretanto. o paciente psiquiátrico “não consegue perceber sua morbidez e/ou suas necessidades pela incapacidade de entrar em contato consigo mesmo. p. 2005. o indivíduo passa a identificar suas necessidades e.181). 1982 apud SANTOS. Diante do que foi abordado acerca da perturbação presente nas relações de contato de pacientes esquizofrênicos. dentre outros.

como afirma Vicentini (2007). Alguns pacientes esquizofrênicos se esquivam do contato enquanto outros tendem a invadir o espaço do outro com atitudes inadequadas. p. p. mas compreender e autenticar a experiência do outro como sendo possível. seja com a sociedade. Não o ato de aceitar ou concordar. seja consigo mesmo. a sua saúde. o que pensa. Em outras palavras. “(…) confirmação se refere à validação da experiência do outro. as possibilidades de “cura” e a construção do vínculo refletem o sucesso da terapia.) tendo como fundo que a cura não é uma ausência de sintomas e sim uma melhor forma de administrar a sintomatologia. A relação terapêutica terá por objetivo a tentativa de resgate das relações de confiança com estes pacientes. 2005.184). o que experimenta.. como nos casos das alucinações e delírios. válida e real” (SANTOS. Vicentini (2007) mostra que pacientes psicóticos apresentam “uma fronteira de contato muito rígida porque suas vivências internas são tão intensas que estes pacientes podem interpretar o contato como uma ameaça a sua integridade física”.182) (grifo da autora). Isso significa que o terapeuta deve levar em consideração a dificuldade que o paciente tem em perceber seu senso de integridade e os limites da sua fronteira que o separam do mundo. enfim.. Santos (2005) expõe sua prática com pacientes esquizofrênicos apontando para a possibilidade de se estabelecer vínculo nesses casos. “Vínculos talvez mais frágeis que. 2005. Por esse motivo. se levada em consideração a condição do ser esquizofrênico. 2005. sobre si mesmo (SANTOS. na relação terapêutica. sua postura corporal e sua respiração. um maior controle. No estabelecimento do diálogo é importante observar também as fronteiras de contato desse paciente. Ainda segundo a autora.181). por menores que elas possam ser. p. o enfoque do trabalho visará sempre o que o indivíduo traz no momento presente: o que sente. uma maior responsabilidade sobre a sua vida. Será um encontro diferenciado (.processo terapêutico. O terapeuta também precisa estar presente nos momentos em que a awareness estiver prejudicada. Para isto. é uma grande conquista na história do tratamento” (SANTOS. é importante perceber a fronteira de contato estabelecida entre paciente e terapeuta. Ainda segundo a autora. a conduta deve ser diferenciada em relação à fronteira do contato identificada: ampliação da fronteira para os que apresentam um contato limitado – respeitando os 311 .

312 . entretanto o estímulo pode ser dado pelo terapeuta. “é necessário que o alucinante presentifique visualmente o alucinado. Com isto o trabalho da Gestalt-terapia será voltado para uma ampliação da consciência do indivíduo sobre seu próprio funcionamento. Segundo Santos (2006. ainda que seja algo irreal aos olhos dos outros. 1997. trabalhando com dados da realidade e limites. Na esquizofrenia é relevante um trabalho quanto à tomada de consciência de si mesmo focalizada na excitação presente no contato. é preciso atentar para a questão dos limites do outro e das dificuldades de se estabelecer contato no momento. Mas no momento em que ele se fecha nesse mundo.175 apud HYCNER. minimizando o sofrimento diante do encontro com o outro.. uma focalização na própria atenção” (ROBINE.107).. não indo muito além da fronteira –. para que ele possa experienciar a si próprio como ser existente”. Utilizar técnicas para a tomada de consciência pode “criar a possibilidade de que o indivíduo sinta a atenção que o terapeuta dedica a ele e incitar. o contato poderá ser trabalho no processo terapêutico. A relação que este tipo de paciente estabelece com o mundo está perturbada.limites de cada um. Inicialmente podem existir dificuldades quanto à identificação. o terapeuta não enxergará sua tentativa de contato como algo frustrado a partir do momento em que estiver disposto a aceitar a existência do outro na sua singularidade.49) quando o mesmo diz: “Posso conversar com um esquizofrênico na medida em que está disposto a incluir-me no mundo que lhe é próprio. Apesar de todas as possibilidades de conduta terapêutica para pacientes esquizofrênicos. para este paciente. progressivamente.344). p. não posso entrar”. observando os sintomas existentes. p. não permitindo uma total abertura para o diálogo. 2006. p. O trabalho com as alucinações presentes na esquizofrenia seria um exemplo de focalização em si mesmo. p. do que se passa no seu interior. Isso pode ser visto numa passagem de Buber (1965b. Entretanto. e estreitamento para os invasivos. Mesmo que essa existência seja restritiva.

No que se refere à conduta terapêutica. Ressalto aqui que o enfoque principal da Gestaltterapia é a própria relação do indivíduo consigo mesmo e com o seu meio.CONSIDERAÇÕES FINAIS Em relação à proposta deste trabalho. Não se pretendeu esgotar aqui o assunto. tornandose responsável por si mesmo. seus limites. 313 . mas. Devido a estas particularidades. a abordagem gestáltica pode ser utilizada em busca de um desenvolvimento saudável e pessoal de qualquer indivíduo e. foi possível elaborar uma compreensão da sintomatologia da esquizofrenia de acordo com a abordagem gestáltica. a possibilidade desse indivíduo se organizar dentro da sua sintomatologia. antes de tudo. dos que são acometidos por transtornos mentais graves. o terapeuta não vislumbrará somente a possibilidade de cura. é importante destacar que o resultado esperado no tratamento de pacientes esquizofrênicos deverá levar em consideração as especificidades desse paciente. cada vez mais. seu contexto e sua realidade. Assim. mas creio ter tocado em alguns pontos principais da abordagem.

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dentro da perspectiva da Gestalt-terapia. bem como a carência de estudos em pesquisa de campo. Uma análise detalhada dos aspectos físicos e da estrutura lógica das leis relacionadas à ação transcende ao escopo deste estudo. em Gestalt-terapia. Este estudo é fruto de pesquisa bibliográfica e indica alguns aspectos relacionados à ação.51) RESUMO O artigo destaca o tema da ação na Gestalt-terapia. O tema é abordado através da percepção de diversos autores desta perspectiva psicoterápica. em relação a outras perspectivas psicoterápicas. O movimento é a essência do universo. na perspectiva organísmica e sua importância no humanismo e existencialismo. cujo propósito é de utilizá-la como ponto de partida para uma reflexão teórica da relação estabelecida entre a Gestalt-terapia e a vertente da ação. como diferencial teórico psicoterápico.AÇÃO E GESTALT-TERAPIA “nada no universo é ontologicamente estático. absolutamente nada. Pesquisas de campo relacionadas ao tema. 316 . ele não existiria. por isso nada. Apresenta a ação na teoria de campo de Kurt Lewin. Salienta os dados encontrados na pesquisa. no ciclo de contato. Conclui ressaltando a necessidades de investigação sobre o tema e apresenta a relevância do mesmo para a realidade social e o seu diferencial em relação a outras linhas de psicoterapia. INTRODUÇÃO Estudos sobre a “ação” na Gestalt-terapia são um diferencial metodológico de vanguarda. p.” (RIBEIRO. tanto físicos quanto psíquicos. O conteúdo apresentado é fruto de pesquisa bibliográfica e o objetivo é levantar as diversas relações estabelecidas entre o tema e construtos desta vertente psicoterápica.2005. é estático. caso contrário.

aqui aplicada à realidade da Gestalt-terapia. embora ao contemplá-lo. é sistêmico.aguardam maiores investimentos e investigações. O ser humano. não o fazem. Há aqueles que se queixam de realizar ações sem perceber o sentido das mesmas. onde. As investigações sobre o tema surgem em função da queixa de clientes. vivendo uma continuidade. Para este estudo. Estrutura e processo caminham juntos. As ações e movimentos relacionados ao não atendimento das necessidades dos indivíduos geram incômodos. É possível resistir à aplicabilidade das leis físicas à complexidade da existência humana em pesquisas. O Universo e todos os elementos que compõem a existência do ser humano. No entanto. tudo está em movimento. Na realidade. dentro da perspectiva de movimento e ação. Esta é uma indicação da lacuna entre o querer e o fazer. segundo Barros (2007) é um levantamento do tema em seus tipos de abordagem. alunos e trabalhadores que necessitam realizar ações para o alcance dos seus objetivos e que. pertencente a um planeta em constante rotação. fazendo parte de um sistema universal regido pelas mais diversas leis. Esta visão é ressaltada por Ribeiro (2005) ao referir-se sobre o universo que. tanto em seus aspectos físicos quanto psíquicos. a pesquisa bibliográfica. trazem uma visão atualizada e científica para o desenvolvimento de estudos em Gestalt-terapia. assimilando os conceitos e explorando aspectos já publicados. tenha-se a impressão de uma estaticidade. Este cenário indica a necessidade de investigação teórica para posterior desenvolvimento de estudos de campo. ou às suas partes. 317 . Odília (2006) cita que fontes primárias possibilitam o embasamento teórico do assunto pesquisado. por diversas razões. além de estrutural. atomicamente. admite-se que elas estão ligadas à realidade do existir humano. é colocado em processo interativo com as leis físicas e transcende estas dimensões para uma perspectiva mais ampla. por outros estudiosos.

leis. Há de se considerar ainda uma civilização cheia de exigências. 2002. em detrimento do seu sentido. onde um comportamento explicita a necessidade do homem. como um reflexo. Os conteúdos aqui abordados são parcialmente explorados em ordem aleatória e contemplam aspectos tais como os filosóficos. poderosa e objetiva em seu efeito.] A reação. é uma sequência. dentre outras. (PERLS. implícita em teorias como a de Köhler. gestalt-terapeutas. O tema suscita. organísmicos e cíclicos.. é um conjunto de 318 . A Teoria de Campo Lewiniana. a réplica. Estabelece uma relação com outros construtos. uma reflexão sobre ações e re-ações humanas. denomina-os de “realidade coletiva”. A teoria da Gestalt-terapia ainda aborda a questão de ações/reações. A partir desta afirmação este estudo utiliza. A ação é elemento de interesse. aqui denominados de pessoação e pessoareação. aplicando-os aos propósitos da ação nesta vertente psicoterápica. suscita a reflexão sobre o campo. algo secundário a algo que aconteceu em primeiro lugar. A realidade coletiva. compromissos. Não são. onde os indivíduos são ações e reações.AÇÃO E A TEORIA DA GESTALT-TERAPIA A Gestalt-terapia é considerada uma teoria de ação. Perls (2002) ao tratar destes aspectos. de forma esteriotipada. através do senso de necessidade. a partir da visão de diversos autores. de forma alguma. por sua vez. convenções. [. a Teoria do Ciclo de Contato e a Teoria de Campo de Kurt Lewin. ainda. onde as decisões não influenciam a sequência dos atos.. no sentido de que: O organismo é o fator primário e o mundo é criado por suas necessidades? Ou há primariamente um mundo ao qual o organismo responde? Ambas as visões estão corretas in toto. aplicada à Gestalt-terapia. não necessariamente causais. contradições: ações e reações estão entrelaçadas. dificuldades sociais e econômicas que promovem um determinado número de obrigações a serem acatadas. relacionados ao tema. de campo.82). p. uma vez que as reações podem seguir as ações.

princípios epistemologicamente coerentes, congruente com a realidade moderna, usado em aprofundamentos teóricos dedutivos/qualitativos. Nela se encontra suporte para a compreensão do comportamento humano no ‘campo’, onde o contato se estabelece no existir humano. A teoria de campo, para Yontef (1998) é parte vital, sobre a qual se constrói a metodologia da Gestalt-terapia. Essa teoria engloba a teoria mecanicista newtoniana e encerra fenômenos que expandem a anterior e a torna mais abrangente. Neste estudo, vale considerar que as necessidades humanas e as demandas sociais ocorrem dentro do campo e podem ser focadas na perspectiva da ação.

A perspectiva da ação pode ser expandida quando nela é considerada a “pessoação”, sendo esta uma unidade de atitudes. Nela estão implícitas necessidade e intenção. Na ação, onde a pessoa se revela, existe energia e valoração mobilizando-a, indicando uma direção e/ou um objetivo, um alvo que

através dela se pretende alcançar. A ação, ainda que em termos epistemológicos, aqui fragmentada nos seus diferentes aspectos, é, em si, o existir humano.

Explicitando os conceitos contidos na Teoria de Campo de Lewin, Ribeiro (2005) aborda vários termos, como posição, locomoção, força ou tendência a locomoção e objetivo. Para fins deste estudo, dentro dos propósitos da Gestalt-terapia, estes termos estão implícitos na idéia de ação, uma vez que o indivíduo, ao interagir em um determinado campo, revela-se em ações a partir de um valor, de um alvo a ser alcançado. Ação é também uma realidade vívida do homem e esta transcende o seu desejo, mesmo porque, ainda que o indivíduo se encontre parado, o próprio corpo continua a se movimentar e o campo, ao seu redor, também continua em movimento. A partir da visão organísmica, o movimento da terra no universo pode estar atrelado a toda existência humana inserida no planeta. Viver é uma oportunidade de relação de contato, ação e experimento com todas as possibilidades de troca advindas do estar neste universo em movimento. O próprio indivíduo, assim como a terra, é uma unidade em movimento, que comporta outras unidades que também se movem, fazendo parte de um todo. O sentido de impermanência, tanto na terra quanto no

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homem, promove um sistema de mudanças, completa ciclos como as estações, não havendo uma só estação igual a outra, como também não existe um único período igual ao outro na existência da pessoa, onde cada etapa tem o seu momento histórico.

Tudo muda e está em movimento-ação. Ao abordar a questão da homeostase, Perls (2002) salienta que há fluxo em tudo e que a própria densidade de uma mesma substância muda, por diversas razões, de pressão, gravitação e temperatura. As idéias de ação, transitoriedade e “impermanência” somam para esta vertente teórica uma perspectiva dinâmica e exigente. Traz o sentido de fluidez, de captar o momento exato onde todo o sentido se revela no indivíduo/ação, que se mantém em transformação. Ao abordar tais aspectos, segundo Parlett (apud YONTEF, 1998, p.201), “O Princípio do Processo em Transformação refere-se ao fato de a experiência ser provisória, em vez de permanente. Nada é fixo e estático de maneira absoluta”. Para Ribeiro (2005, p.59), “Pela impermanência tudo está em contínua mudança. Nada é dinamicamente fixo, fixado, absolutamente permanente e igual. [...] O todo na parte, a parte no todo, de modo diferente, criador, relacional, transformador”.

DESEQUILÍBRIO NA AÇÃO

O confronto entre a necessidade percebida, a ação proveniente da “realidade coletiva” e o reflexo coopera para uma cisão no campo, interferindo na troca saudável do organismo/meio. Ribeiro (2006) afirma que o campo reflete a relação da pessoa com seu meio, num determinado lugar e momento. Ele é um campo energético e a energia que nele está precisa circular livremente e que:
[...] é possível afirmar que muitas patologias são disfunções energéticas, tendo em vista que as pessoas não conseguem lidar com a tensão, a valência e a força dos vetores presentes no campo, como condutores de necessidades. (RIBEIRO, 2006, p.86).

Ao abordar a interrupção entre mobilização de energia e ação, para Zinker (2007,

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p.123), “[...] a pessoa trabalha inutilmente, incapaz de agir com base em seus impulsos. Ela pode ser mobilizada, mas não consegue usar a energia a serviço da atividade que lhe proporcionaria aquilo que quer”. Para este autor, esse processo acontece normalmente com o que a clínica denomina de comportamento “histérico”.

A interrupção no fluxo de uma ação, por sua vez, pode indicar a presença de algum obstáculo. Perls (1997) considera obstáculo como parte da forma existente que precisa ser destruída e é atacado com ardor. Para ele, na medida em que a natureza frustrante do obstáculo se revela, o self se envolve numa tensão progressiva, havendo uma junção entre o apetite destrutivo com a necessidade de aniquilamento. Polster (2001, p. 237), amplia a visão, alertando para o fato de que “a ação que se baseia exclusivamente na deliberação passada, sem a influência facilitadora da invenção presente, tem grande possibilidade de se tornar mecânica e sem vida”. Interromper uma ação, ou escolher a “ação de não agir”, também encontra na Gestalt-terapia suas formas de expressão. A teoria aponta para aspectos onde a “ação de não agir” denota um tipo de movimento. A Gestalt-terapia também

promove outra reflexão sobre a ação de congelar um possível movimento. Isso pode refletir a melhor escolha para o momento ou, ainda, o consentimento dado pelo indivíduo em permitir uma interferência na finalização de algo, na completude ou “fechamento de uma gestalt”, o que já indica outro tipo de necessidade. Perceber o tipo de ação tomada promove a melhor compreensão dos eventos da vida, a configuração de um campo e os tipos de movimentos em um ciclo de contato.

Na ação interrompida a pessoa-ação perde sua fluidez. Higy-Lang (2008), alerta para o fato de que a liberdade se torna inútil, se as escolhas do indivíduo não se transformarem em ação, uma vez que a pessoa é capaz de se transformar, bem como a situação no seu entorno, pois o ser humano possui a ferramenta necessária para tal. Destaca também o fato de que os mecanismos de ação devem incluir a capacidade de reajustar nossas ações e nossas escolhas, à luz dos resultados que obtemos.

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AÇÃO E FLUIDEZ

De maneira implícita ou explícita, a proposta da reflexão sobre ação na abordagem da Gestalt-terapia, traz um diferencial, um avanço, uma singularidade para a perspectiva teórica. A abordagem Reichiana, por exemplo, destaca os bloqueios corporais, enquanto a Gestalt-terapia sugere uma expansão e revisão teórica através dos componentes agressivos, como os da destruição, aniquilação e a iniciativa. Perls (1997, p.150), propõe “[...] A passagem do impulso para a tomada de providências e a iniciativa: aceitar o impulso como nosso próprio impulso e aceitar a execução motora como nossa própria execução motora”, ainda que se reconheçam os movimentos provenientes de outros fatores que não os das necessidades pessoais ou orgânicas. Tomando o homem como um ser em relação, o seu organismo está em autoregulação com o meio. Ele é um ser em constante mudança e sua adaptação ao meio requer um movimento, no sentido de se ajustar às suas necessidades momentâneas, traduzindo-se numa existência essencialmente dinâmica, cíclica e fluida.

Tanto Zinker, como Clarkson e Ribeiro utilizam o termo ação em seus diferentes ciclos da teoria da Gestalt-terapia, variando na ordem e na nomenclatura deles. O primeiro denomina de Ciclo de Consciência-excitação-contato, onde a ação é o quinto item na ordem, a seguir: sensação, consciência, mobilização de energia, excitação, ação, contato e retraimento. Ribeiro o denomina Ciclo de Contato, considerando a proposta Gestáltica de fluidez e movimento, que promove crescimento e cura. Tanto ele quanto Clarkson mencionam a ação como elemento do ciclo. A concepção de Ribeiro segue a ordem conforme a figura abaixo:

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CICLO DO CONTATO E FATORES DE CURA Ação Projeção Mobilização Introjeção Consciênci a Deflexão Sensação Dessensibilizaçã o Interação Proflexão Contato final Retroflexão Satisfaçã o Egotismo Retirada Confluência Fluidez Fixação

Self

Fonte: Ribeiro, 2007 (p.45).

Observando as diversas concepções dos ciclos na Gestalt-terapia, a ação está contida no indivíduo e vice-versa, enquanto organismo no ambiente. O self está diretamente ligado à ação, a qualquer forma de expressão pela ação, a não ação, ao congelamento ou a forma como o indivíduo busca seu equilíbrio.

Em termos didáticos, a ação, no ciclo, é uma etapa que após o indivíduo sentir, tomar consciência e mobilizar energia, prepara o mesmo para interagir, possibilitando-o a experimentar, com contato, a busca da realização da sua necessidade, satisfazer-se e prosseguir com fluidez. Vale ainda destacar que a ação na perspectiva cíclica, também está contida na própria sensação, pela sensação de agir, no agir sentindo, como se uma e outra fizessem parte de um mesmo tópico. Neste sentido, a ação faz parte de todas as etapas do ciclo. Conscientização, por exemplo, é expressão profunda da ação de se perceber. Experimento é ação em expressão. Experimentar e agir unem-se como expressão de uma necessidade. Esta é a fonte da ação. Agir sem experimentar, não estabelecer contato com a ação, nem

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estar conscientizado dela, é estar distante de si mesmo e de perceber-se. É automatizar-se e perder a conexão com o movimento no entorno da vida. Por esta razão, a ação tem sido colocada como etapa permanente no ciclo de contato. Por ela há alívio e fluidez.

Para a Gestalt-terapia, na ação, encontra-se uma chance, entre outras, de compreender os elementos que possibilitam uma melhor relação entre experimento, contato e conscientização, já que ela contém e revela a expressão do self. Ribeiro (2006) ressalta que os mecanismos de bloqueio de contato permitem um funcionamento precário do ciclo, uma vez que o contato frágil interfere no fluir do processo da pessoa e na forma como a caminhada se realiza, influenciando a possibilidade de um contato pleno. Por outro lado, quando o ciclo está colocado de maneira saudável, a fluidez perpassa os outros pontos, fechando cada ciclo, possibilitando uma continuidade para o próximo ponto até a retirada e a preparação para uma nova experiência, onde novo ciclo se abre para novas ações. Fluidez, movimento e ação, neste sentido, caminham juntos para a possibilidade de novas experiências, a partir das interações estabelecidas. Este processo revela um viver, um estar-no-mundo.

Conforme Ginger (1995, p.106), o interesse, dentro dessa perspectiva, deixa de ser em fatos e estrutura das coisas, direcionando-se para suas interações, para a energia que circula no espaço-tempo, que faz a materialidade viver, separando ou unindo, revelando um estar-no-mundo.
[...] para a física quântica pós-einsteiniana “as partículas subatômicas não são ‘coisas’, mas interconexões entre as coisas” (Capra, 1983) existentes num universo quadridimensional de espaço-tempo ou que certas partículas (as “antipartículas”) não hesitam em se deslocar do futuro para o passado, sem nenhuma cadeia linear de causa e efeito. Sabemos agora que a massa nada mais é do que uma forma de energia e que não é mais associada a uma substância material [...]. Enfim, os átomos não são senão uma dança perpétua de energia.

Homem e terra, estações do ano e fases da vida possuem um elo ou eixo comum, encontrado na ação, na “impermanência” e nos fatores deles decorrentes, chamados de troca, mudança e equilíbrio. Para Perls (1997, p.32), “[...] o organismo cresce ao

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assimilar do ambiente o que precisa para o seu próprio crescimento. [...] Somente por meio da assimilação completa é que substâncias heterogêneas podem ser unificadas num novo todo.” As estações do ano também dependem da estrutura da terra, sua atmosfera e as transformações que ocorrem no planeta, de forma bem dinâmica, dentro da perspectiva do espaço-tempo. O ser humano depende da sua energia em um determinado momento, da sua escolha, do se perceber enquanto organismo em interação com o meio, bem como da percepção da maneira pela qual se relaciona com os diferentes obstáculos nos seus diversos momentos de vida. Na Gestalt-terapia, a relação que o indivíduo estabelece com o seu entorno, seu conhecimento das reações e relações “intra”, “inter” e “extra” corpóreas, indicam sua relação e a maneira que ele percebe, vivencia e reage aos eventos. A Gestalt-terapia ao apropriar-se de conceitos relacionados à ação através dos conceitos de energia, direção, vetor e ponto de aplicação, se coloca, então, como uma perspectiva dinâmica, moderna e fluida. Ribeiro (2007) ressalta que o grau de fluidez de uma pessoa indica o seu nível de mudança. Quanto mais fluidez houver, menor será a necessidade de força para a mudança, sendo função da psicoterapia, facilitar o processo de fluidez dos indivíduos.

A PROPOSTA TERAPÊUTICA COM FOCO NA AÇÃO

Para fins deste estudo, relacionado à Gestalt-terapia, cabe aplicar o apelo humanístico de Heidegger ao fato que:
[...] a essência do agir é o consumar. Consumar significa: desdobrar alguma coisa até a plenitude de sua essência: levá-la à plenitude: producere. Por isto, apenas pode ser consumado, em sentido próprio, aquilo que já é. O que todavia, já é, antes de tudo, é o ser. (RIBEIRO, 1985, p.30).

É, portanto, no agir que “aquilo que já é” se revela em necessidades, integração e contato. Segundo Perls (1997), o self, o sistema de contatos, integra sempre funções perceptivo-proprioceptivas, funções motor-musculares e necessidades orgânicas. É consciente e orienta, agride e manipula e sente emocionalmente a adequação entre ambiente e organismo. Não há boa percepção que não envolva a muscularidade e a necessidade orgânica; uma figura percebida não é vívida e nítida

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a não ser que o indivíduo esteja interessado e concentrado nela e a examine. Nesse sentido o ser humano é visto como os contatos que fez e continua fazendo. A proposta de Ribeiro (1985. no sentido de consumar sua essência. é o músculo que se movimenta. E a excitação orgânica se expressa. privilegiando o agir. não há graça ou destreza de movimentos sem o interesse e a propriocepção dos músculos e uma percepção do ambiente. manipula e sente. o foco do indivíduo seja um sistema de ação dentro do consultório. A figura (gestalt) na awareness é uma percepção. evitando falar sobre um evento. num espaço que lhe proporciona segurança relativa. 1997. imagem ou insight claros e vívidos. o pensar e o expressar pela linguagem completam a relação entre o expressar-se e consumar-se da essência. p. precisamente ao emprestar ritmo e movimento aos objetos da percepção. como é óbvio. Esta consumação. opera sentimentos e ações. 2007) é o cliente agir com radicalidade. onde se requer atenção aos modos pelos quais se procura satisfazer as necessidades num determinado campo. em música. a necessidade e energia do organismo e as possibilidades plausíveis do ambiente são incorporadas e unificadas na figura. o desdobrar-se até a plenitude da essência é a finalidade psicoterapêutica. É um produzir existencial permanente. que se completa etc. na perspectiva existencialista. De modo análogo. Expandindo as propostas da Gestalt-terapia. Para o autor.45). vigoroso. mas o organismo-como-umtodo em contato com o ambiente que é consciente. (PERLS. é o movimento elegante. na qual estão presentes vontade e liberdade. Em ambos os casos. onde na intencionalidade do ato está a figura-desejo. torna-se significativa. Polster (2001) sugere que. Expressando isso de outra maneira: é o órgão sensorial que percebe. Por meio do experimento o indivíduo se mobiliza a confrontar o que emerge na sua vida. 326 . no comportamento motor. através do experimento. o agir se auto-informa. buscando a totalidade significativa onde o agir. é o órgão vegetativo que sofre de um excedente ou de um déficit. Ribeiro (2007) sugere que a Gestalt-terapia é uma Terapia do Contato em ação. que tem ritmo. onde são aplicadas as suas potencialidades desconhecidas ou não usadas.

P.. oferece aos seus pesquisadores uma vasta possibilidade de investigações. produz frutos e passa por um recolhimento. Cada dia tem um início. seu auge e fim.. a fim de que este se ajuste às suas necessidades e desejos. deixando como saldo o crescimento humano. bem como no movimentar-se. permitindo um fechamento. meso e macro das Gestalten expressas. a gestalt-terapia. Ele transforma o falar em fazer” [. na maneira como elas se apresentam. a partir da perspectiva da ação..” CONCLUSÃO Investir numa psicoterapia que trata da ação humana é uma proposta atualizada e necessária ao cenário atual. Propõe que as ações sejam uma denúncia do existir humano. para que as coisas nasçam. Toma atitudes e muda cada vez mais o meio-ambiente. sua própria juventude. uma retirada para o equilíbrio micro. Zinker (2007. necessidades. A Gestalt-terapia propõe um cuidar do processo da existência humana. Cada vida tem suas estações. O enriquecimento da ação está no contato. uma oportunidade. produzam seu fruto e se recolham para um novo momento. ao habitar a terra..141. Pesquisar a ação 327 . adquire a plena possibilidade de se relacionar com o universo que a circunda e com tudo que nele habita. uma exigência.Confirmando e acrescentando as idéias anteriormente expostas. ações. 174). A espécie humana. plenitude. vivam seu auge. referindo-se ao núcleo do problema em vez de a algum fenômeno tangencial associado a ele.] O experimento é a pedra angular do aprendizado experiencial. É um diferencial. completude e retirada. é enfático ao afirmar que “[. Cada momento do dia e cada fenômeno têm o seu nascer e brilho. A pessoa muda seu entorno. sugerindo a compreensão das suas ações nas relações que estabelece com o ambiente e na maneira como se regula neste existir. a si mesma e promove crescimento. conscientização e experimento de cada evento. No campo científico. de modo que a ação escolhida corresponda à experiência do cliente.] “o experimento criativo brota de uma diversidade de imagens.

de consultoria ou pesquisa científica. O cenário atual indica. como. empresas. O momento histórico revela um senso de urgência e tomada de atitudes coerentes com as necessidades e consequente sentido de realização dos indivíduos. escolas e diversos grupos sociais focam a necessidade de tomarem atitudes. no momento histórico que vivenciam. com pesquisas de campo. atender às demandas pessoais e sociais e buscar atividades. entre outras possibilidades. quer terapêuticas.pode contribuir para o crescimento desta vertente teórica. individuais ou de grupo. objetivamente. Pessoas. ocuparem seus lugares no espaço onde se encontram. por exemplo. uma vez que este tema se estabelece como um diferencial a ser enriquecido. 328 . a necessidade de investigações e investimentos em estudos acadêmicos e em atividades práticas voltadas ao tema da ação. Este tema sugere uma.

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Psicologia escolar. undergoing changes along with the identity of the school psychologist. Education 330 . with several practices and a theory just outlined. School Psychology. The present article aims to contribute to this discussion. seeking to analyze.UM OLHAR GESTÁLTICO SOBRE A ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE A GESTALTIC VIEW THROUGH THE SCHOOL PSYCHOLOGIST’S PRACTICE AT CONTEMPORANEITY RESUMO Desde o início do século passado. but also for the recognition of this field of work by professionals from other areas of Psychology and Education. mas também para o reconhecimento deste campo de atuação pelos profissionais das demais áreas da Psicologia e da Educação. Psychology deals with what is happening in the schools: psychologists focuses on schools and their students. Currently still realize a heterogeneous field. O presente artigo tem como objetivo contribuir para esta discussão. compreender e estudar os fenômenos presentes na educação formal. Palavras-chave: Gestalt-terapia. bringing the theoretical assumptions of Gestalt-therapy for a contemporary practice in school psychology. we see that it is not constant over time. após uma breve observação de seu objeto de estudo e intervenção. not only to enrich the theoretical school psychologists themselves. buscando analisar. understand and study the phenomena in the formal education. com práticas diversas e uma teoria pouco delineada. Believe to be of great importance to systematic and a record of this practice. after a brief observation of its object of study and intervention. trazendo os pressupostos teóricos da Gestalt-terapia para embasar uma prática contemporânea em Psicologia Escolar. a Psicologia ocupa-se do que se passa no campo escolar: psicólogos debruçam-se sobre as escolas e seus alunos. sofrendo transformações juntamente com a identidade do psicólogo escolar. Acreditamos ser de grande importância a sistematização e um registro desta prática. However. Key words: Gestalt-therapy. Educação ABSTRACT Since the beginning of the last century. Atualmente ainda percebemos um campo heterogêneo. não apenas para o enriquecimento teórico dos próprios psicólogos escolares. Porém. vemos que ele não é constante ao longo do tempo.

todo o fracasso é colocado nos ombros do aluno. PATTO. a Psicologia Escolar aproxima-se do pensamento moderno.A Psicologia Escolar/Educacional. É a ordem da moderna ciência na psicologia: excluir para adaptar às categorias universais (ANDRADA. mas nem sempre claro. retirando o aluno da sala para readaptá-lo. uma visão conservadora e adaptativa da Psicologia Escolar: O que nos parece estar subjacente. para corrigi-lo. LIMA. Fica designada ao psicólogo escolar a função de reconhecer e tratar estes alunos desajustados. 2005). Caracteriza-se. 1984. sendo seu destino para sempre selado. op. excludente e linear: Utilizando-se de testes ou laudos. a escola e suas práticas não são questionadas. os problemas escolares são compreendidos como dificuldades de ajustamento e adaptação dos alunos ao sistema de ensino. nasce imersa no projeto científico da modernidade. que focaliza o aluno e suas características pessoais como principal objeto de estudo e intervenção (ANDRADA. p.cit.. que fracassam na tarefa de aprender. 1984). nessa 331 . assim como muitas outras áreas da Psicologia. com objetivo de medir as capacidades e habilidades individuais de cada aluno e identificar aqueles que não apresentam o rendimento esperado. adequado e esperado. e devolvêlas à sala de aula bem ajustadas (ANDALÓ. Uma vez encontradas. como tal. Andrada (2005) aponta que. ao separar os aptos dos não aptos para a aprendizagem. A partir da crença na existência de um padrão de aprendizagem e desenvolvimento considerado normal. 1984). as deficiências são trabalhadas fora do contexto da sala de aula – em uma sala de atendimento alheia ao restante da instituição escolar – com objetivo de promover a integração destas crianças aos padrões de comportamento desejados pela escola. aproximando a Psicologia Escolar do pensamento da vertente clínica da Psicologia da época (ANDALÓ. que isolado na sua deficiência deve alcançar sucesso por vontade própria.197) Nesta perspectiva. Os testes e avaliações psicométricas tornam-se suas principais ferramentas de trabalho. onde a responsabilidade pelos insucessos do processo educativo recai exclusivamente sobre os educandos. por uma visão marcadamente individualista. 2005. caracterizando segundo Andaló (1984).

bem como a adequação da relação professor-aluno estabelecida. Nesta perspectiva. diversas críticas a esse modelo de atuação e a essa concepção de Psicologia surgem e ganham força. Meira (2003) também aponta. políticos e sociais” (LIMA. Inspirados em concepções histórico-dialéticas. op. funcionando como “um elemento catalisador de reflexões. ampliando-se para toda a instituição escolar. o anacronismo dos currículos. cuja análise deve abarcar os aspectos históricos. (ANDALÓ. quanto seus condicionantes sociais. observamos esforços 332 . desta forma.46) Desde a década de noventa. 2005. das técnicas de ensino-aprendizagem empregadas. o destaque da necessidade de rompimento com este modelo clínico de atuação do psicólogo escolar – centrado nos alunos considerados problemáticos – e o conseqüente redirecionamento do olhar e das análises da Psicologia Escolar para os processos educacionais como um todo. Permanecem inquestionados. “Os ‘problemas de aprendizagem’ passaram a ser vistos como um fenômeno complexo. até os dias atuais. O aluno passa a ser visto como sujeito histórico e sua conduta no espaço escolar é compreendida a partir das relações que se estabelecem neste espaço. diversos autores começam a desenvolver uma perspectiva que considera a escola inserida em um contexto social e político. como importante conseqüência destas reflexões. Andaló (1984) propõe uma atuação deste profissional como agente de mudanças dentro da escola.21). 2004). p. Os estudos realizados nesta época trazem à tona o papel domesticador e excludente da escola e alertam para uma contribuição da Psicologia à manutenção desta ordem social (PATTO.perspectiva. op. segundo Patto (2004). p. econômicos. constituindo um período que. dos programas.43) No fim da década de setenta e início dos anos oitenta.cit. em que estão implicados tanto os sujeitos da aprendizagem. o foco do trabalho dos psicólogos escolares deixa de estar apenas no aluno e em suas características individuais. é a idéia de que a escola como instituição é tomada como adequada. um conscientizador dos papéis representados pelos vários grupos que compõem a instituição” (ANDALÓ. p.. e o ensino-aprendizagem como um processo relacional. recíproco.. tornou-se decisivo para a redefinição dos objetivos da Psicologia Escolar. como cumprindo os objetivos ideais a que se propõe. cit. constituído socialmente.

ainda em construção. que compreende o homem como um ser constituído nas relações sociais por ele estabelecidas. um ensino e uma prática voltados para uma atuação clínica/terapêutica. afirma que “a Psicologia Escolar no Brasil está entrando em uma nova fase. Além disso. do que pela existência de um discurso único. podendo ser reconhecida. Maluf (2003) também reconhece que. Maluf (2003). entendemos que o trabalho de construção da 333 . a presença de concepções críticas sobre a queixa escolar ainda perde espaço para leituras psicologizantes do processo de escolarização. ainda é grande a demanda das escolas para que o psicólogo trabalhe com o aluno “desviante”. Da mesma maneira. excludente e individualista. predomina em grande parte dos profissionais de educação uma visão pautada no paradigma clínico de normalidade X anormalidade. Assim como Maluf (2003). “não adaptado”. cit. p. 2003) pondera que. apud. Entretanto. op. na qual se multiplicam ações afirmativas. Andrada (2005) cita alguns fatores para este fenômeno. embora a Psicologia Escolar tenha ampliado seu olhar e incorporado a análise dos determinantes sócio-históricos. Acreditamos que a abordagem gestáltica fornece elementos importantes para a fundamentação de uma prática em Psicologia Escolar coerente com as críticas elaboradas por uma visão histórico-dialética. Em primeiro lugar. Meira. Souza (2000. construída a partir de teorias que reflitam sobre a realidade da escola no Brasil. surgem tentativas de delinear a identidade do psicólogo escolar. mais pelas expressões comuns presentes nas ações dos profissionais. sobretudo na década de 1980” (MALUF.voltados para a construção de propostas que traduzam em ações as tendências apontadas pela década anterior.137). a nova Psicologia Escolar não se apresenta sob um paradigma unificado. na formação e atuação do psicólogo escolar no Brasil. que dão respostas a vigorosas e pertinentes críticas formuladas. Compartilhamos da perspectiva crítica histórico-dialética. para a autora. onde se espera do aluno um padrão de comportamento que conduz ao sucesso escolar. carecemos de uma prática elaborada para o trabalho do psicólogo no contexto escolar. em um momento histórico específico. ainda predominam. que denomina como “crise” da Psicologia Escolar. Neste contexto. apesar destas iniciativas. Por fim.

com base nesta vertente teórica. o encontro entre os sujeitos e a educação. op. 2005). LIMA. Esta autora também pontua a necessidade de “situar mais adequadamente os processos psicológicos no interior do processo pedagógico. por exemplo.identidade do psicólogo escolar não significa necessariamente a busca de uma teoria única. A finalidade da Psicologia Escolar. visando à melhoria das práticas pedagógicas e compreendendo a humanização como o objetivo primeiro da educação. Para Meira (2003). o olhar deste profissional não pode ser limitado. op. Ragonesi (1997. não é um mero divulgador de teorias e conhecimentos psicológicos. Um campo complexo como a realidade educacional brasileira requer olhares igualmente plurais. nem um profissional onipotente capaz de fazer tudo o que a escola precisa. apud. de responsabilidade do psicólogo. contribuindo para que a escola cumpra seu papel de socialização do saber e de formação crítica: O psicólogo escolar não é um ‘resolvedor’ de problemas. cit. segundo estes autores. uma verdade universal fechada a qualquer possibilidade de questionamento. p. ou em outras palavras.. por parte dos psicólogos escolares. situa-se no compromisso com a tarefa de construção de um processo educacional qualitativamente superior. dos conhecimentos psicológicos na elaboração das propostas de trabalho das escolas. Alguns autores da vertente histórico-dialética vêm buscando delimitar o papel do psicólogo escolar na realidade brasileira contemporânea. p.139). nem ao contexto educacional. para a compreensão do encontro entre a subjetividade humana e o processo educacional” (MEIRA. Ele é um profissional que. em seus limites e especificidade. mas deve estar voltado para “a compreensão das relações entre os processos psicológicos e os pedagógicos.. pode 334 . reforça a necessidade de superação da dicotomia entre as atividades de ensino – que seriam de responsabilidade do professor – e o comportamento dos alunos – que por sua vez seriam. aponta para a necessidade da utilização.22). Para isso. cit. nem ao sujeito psicológico. op. “capazes de iluminar a reflexão e a ação numa concepção processual de conhecimento científico que permite enfrentar com maior probabilidade de êxito os problemas educacionais que se nos apresentam” (MALUF.cit. supostamente. p. Tanamachi & Meira (2003) compreendem como objeto de trabalho do psicólogo escolar. garantindo com isso a especificidade de nossa atuação” (RAGONESI.55).

p. 2003. cabe ao psicólogo escolar criar um espaço para escutar as demandas da instituição e formas de reflexão com todos os sujeitos que dela fazem parte. Esta necessidade de se perceber e explicar os fenômenos de forma mais ampla e contextualizada não está presente apenas na Psicologia Escolar.198). percebemos a presença de uma concepção de ser humano construída histórica e socialmente. Nesta ótica. Além disso. Andrada (2005) aponta a necessidade de se perceber a escola e os problemas ali presentes sob outro paradigma: não mais o da causalidade linear que permeou o pensamento moderno. apontando-se para a idéia de que os problemas escolares são produzidos em uma história coletiva. o modelo de ciência moderna como um todo – com seu ideal de racionalidade. Em todos estes exemplos de atuação do psicólogo escolar. grifos da autora). pois se deve considerar as múltiplas versões de um mesmo fenômeno. Propondo uma prática que envolva todos os segmentos do sistema educacional como participantes do processo de ensino-aprendizagem. 2000). 1998). Machado (2004) refere-se à realização de uma prática psicológica voltada para a intervenção nas relações. Da mesma maneira. a teoria sistêmica. op. Na psicologia. diversos autores trazem uma nova perspectiva de ser humano e sociedade como unidades complexas e multidimensionais (MORIN. Na contemporaneidade. Neste novo paradigma. apresenta-se como diretriz para a construção de uma nova prática em Psicologia Escolar. tampouco se faz neutro na escola e nas relações que ali estabelece. este profissional “não mais possui hipóteses verdadeiras sobre os problemas do aluno. favorecendo o processo de humanização e desenvolvimento do pensamento crítico (MEIRA. mas o da causalidade circular presente no pensamento sistêmico. Nesta abordagem atenta-se para o campo de forças atuantes na problemática escolar.58.ajudar a escola e remover os obstáculos que se interpõem entre os sujeitos e o conhecimento. as diretrizes pós- 335 . objetividade e neutralidade do conhecimento.cit. juntamente com uma visão histórico-cultural. seu método de decomposição dos fenômenos em relações simples de causalidade e a elaboração de leis gerais – vem sendo questionado (SOAR FILHO. p. Para a autora. pois suas simples presença já modifica o sistema observado” (ANDRADA. Atualmente. já não é possível eleger um único modelo de explicação para os problemas encontrados na escola..

modernas reformulam seus temas e práticas. que deve ser o ponto de partida para qualquer estudo sobre o tema: 336 . 2005. uma abordagem congruente as novas diretrizes do paradigma científico contemporâneo (LIMA. Nesta perspectiva. 2008a). 2005. o posto de investigação da experiência psicológica. Da mesma forma. p. o mundo e qualquer outro fenômeno a ser estudado. Algumas características marcam a Gestalt-terapia como uma abordagem fundamentalmente diferente daquelas existentes até então. as trocas entre o organismo e o ambiente no qual está inserido) é a realidade simples e primeira. p. 2005. tal como derivado da ciência moderna vigente na época de sua concepção. transcendendoas” (NUNES. apresenta uma visão ousada e revolucionária que se afasta do modelo reducionista e linear de investigação científica. nós somos o produto do contexto de nossas conversações e dos significados que fazemos derivar socialmente disto.cit. Nunes (2008a) aponta que nesta interação “cada parte é superada ao ser afetada e transformada pelas outras ‘partes’ com que se relaciona.. ROBINE. Contrariando a noção reducionista da ciência moderna – que isola os organismos para estudá-los da forma mais neutra possível – os fundadores da abordagem gestáltica compreendem que o contato (ou seja.187). enquanto totalidades formadas por partes em complexa interação. Desloca. desta forma. a perspectiva organísmica de Kurt Goldstein traz para a abordagem gestáltica a compreensão do organismo como um “sistema aberto. p. o próprio ‘todo’ supera a soma das partes que o compõem. Além disso. (ROBINE. 2005. o idiossincrático e o contextualmente situado: Na perspectiva pós-moderna.10) A abordagem gestáltica. NUNES. Vários autores consideram-na. Dentre elas. a visão holística. op. enfatizando o singular. o como as mudanças podem ocorrer vai predominar sobre o porquê das significações descobertas. em permanente contato e troca com meio exterior” (LIMA. sob diversos ângulos. do interior de um indivíduo encapsulado para a fronteira entre o organismo e o ambiente. o foco é na evolução dos contextos e uma preocupação em pôr em perspectiva vai substituir a fascinação com a história pessoal. apesar de ter seus arcabouços teóricos definidos na metade do século passado.198). que permite compreendermos o homem.

mas sim é contato.Em toda e qualquer investigação biológica. HEFFERLINE & GOODMAN. Não tem sentido falar. grifos do autor) Perceber o papel fundamental que o campo interacional organismo/meio exerce na constituição do ser humano é compreendê-lo como ser-no-mundo. estamos nos referindo sempre a este campo interacional e não a um animal isolado. Na abordagem moderna. colocou adiante a idéia de que self é contato. HEFFERLINE & GOODMAN. Perls e Goodman introduziram uma mudança de rumo fundamental. não possui uma essência interior imutável. solipsista. etc. Aquilo que ele é e faz deixa de ser resultado da realidade interna da pessoa e passa a ser estudado a partir de uma complexa teia de forças 337 . o si individual era reconhecido como a única realidade. compreendemos o homem como uma configuração total. 1951/1997. p. se manifestaria. Para além de suas características isoladas. por exemplo. temos de partir da interação entre o organismo e seu ambiente. resultado da interação entre as diversas partes que o constituem.7. instintos. ou falar de comer sem mencionar a comida (. como “fronteira de contato em funcionamento” (PERLS. Isto é. se expressaria no contato. é reformulado pelos autores da Gestalt-terapia. o descentralizaram e o temporalizaram.. 2005. Na abordagem gestáltica. que os coloca no coração daquilo que mais tarde será chamado pósmodernidade: eles deslocaram o self.42).) Denominemos este interagir entre organismo e ambiente em qualquer função o ‘campo organismo/ambiente’. cada organismo é uma totalidade indivisível e única. psicológica ou sociológica.. 1951/1997. (PERLS. e lembremo-nos de que qualquer que seja a maneira pela qual teorizamos sobre impulsos. p. e da articulação destas com os demais componentes do meio no qual está inserido. ele não existe a priori. p.. (ROBINE. cuja influência levou a teoria nessa direção. Goodman.85). comumente associado a um “si” individual e intrasubjetivo. o self gestáltico passa a ser entendido processualmente. O próprio conceito psicológico de self. Não mais o self existiria anteriormente e se revelaria. de um animal que respira sem considerar o ar e o oxigênio como parte da definição deste. Em contraste. Afastando-se de uma compreensão topológica e estrutural. com elementos que se articulam e influenciam mutuamente e que adquirem sentido a partir desta interação. O que chamamos de self só existe quando e onde há contato.

singular e dotado de regularidades no coletivo. quando nos deparamos com uma criança com dificuldade de 338 .190). ANDRADA.) só adquire sentido na relação com a realidade escolar que o cerca. o campo ambiental/organísmico. o aluno necessita ser percebido como parte deste campo e aquilo que ele apresenta (seus déficits de atenção. devolve ao homem e aos problemas do mundo a complexidade que lhes é inerente. Percebendo a escola como um campo.) representam-no em sua relação total com o mundo. percebemos ser impossível compreender o que acontece na escola limitando nosso olhar para o aluno OU para o professor OU para a família. tudo o que nela acontece passa a ser multideterminado e articulado com as demais partes que a compõe. Como definido por Yontef (1993/1998). de um simples relacionamento entre um indivíduo independente e o ambiente externo. etc. que reagem umas às outras e são influenciadas pelo que acontece em qualquer outro lugar do campo. com esta perspectiva. biológico e cultural.inter-relacionadas. nos aproximamos da visão das teorias críticas da Psicologia Escolar. que percebem a realidade educacional como uma determinação de múltiplos fatores (LIMA. Não se trata. (NUNES. composta de partes em relacionamento imediato. p. Por exemplo.cit. etc. como possíveis causas do problema. op. Como visto anteriormente. 2005). e o campo só pode ser definido pela experiência ou do ponto de vista de alguém” (YONTEF. apenas pelo campo do qual faz parte. O campo é uma totalidade.cit. Assim. portanto. p. substituindo o vício reducionista de dicotomização do real pela valorização do global. Nunes (2008a) aponta que. a Gestaltterapia transcende um olhar dicotômico e fragmentado e constrói uma visão de homem relacional e integradora: Gestalticamente. o homem é a um só tempo individual e social. o ser humano gestáltico é compreendido como uma totalidade e todas as suas manifestações (sejam elas comportamentais. 2005. livre e determinado. suas dificuldades de aprendizagem. 2005. num dado momento. suas indisciplinas.187 grifos da autora) A abordagem gestáltica utiliza-se de uma perspectiva de campo para compreender o que se passa com o homem e com o mundo. op. MEIRA. Com isso. mentais. “O indivíduo é definido. uma pessoa e seu meio são de-um-campo. emocionais. Trazendo esta perspectiva para o trabalho em Psicologia Escolar. orgânicas. Desta maneira.

e o sintoma que ela apresenta é uma forma criativa de assinalar suas dificuldades de interação com o meio. compreendendo-os no conjunto de relações institucionais. por exemplo. e os diferentes tipos de relações sociais que se estabelecem cotidianamente na escola. Como uma unidade auto-regulada. Segundo Nunes (2008b) uma criança que não atinge os objetivos de aprendizagem da turma. Apesar de um aluno apresentar características e comportamentos semelhantes a outro. formando uma configuração única e indivisível.3) A ênfase no aspecto relacional da atividade educacional também está presente na vertente crítica da Psicologia Escolar. Desta forma. 2005). propondo uma intervenção do psicólogo escolar com base nesta afirmativa: O discurso crítico sobre a escola precisa vir acompanhado do questionamento dos ‘problemas de aprendizagem’. p.cit. Para a Gestalt-terapia. o déficit de atenção ou a hiperatividade não têm significados em si mesmos. é alguém que não está aprendendo nesse momento. nessas relações: A Gestalt-terapia não coincide com esta lógica. recebendo dele sua origem e sentido. op. o fracasso escolar. Ao contrário. históricas. (NUNES. não reduzimos nossa compreensão de seu problema a uma categoria diagnóstica universal. Meira (2005) aponta para a existência de uma clara correspondência entre a qualidade das práticas pedagógicas. sabemos que esta criança busca o melhor equilíbrio possível a cada momento. psicológicas e pedagógicas que constituem o dia-a-dia escolar.aprendizagem – demanda tão comum para os psicólogos clínicos e escolares – entendemos que esta não é uma questão restrita às funções cognitivas do aluno. o que torna a fronteira entre o ‘dentro’ e o ‘fora’ bastante tênue. Eles são sintomas que se destacam como figuras diante de um fundo que lhe serve de base. em um processo fluido e dinâmico. a 339 . a Gestalt-terapia nos ensina que uma pessoa é sempre em relação e num-campo. mas a compreendemos como uma manifestação do seu ser global no campo (AGUIAR. que concebe o indivíduo como interioridade isolada e com o paradigma reducionista e causal que determina que problemas de aprendizagem são ‘problemas internos’ como se houvesse uma fronteira rígida entre um interior e um exterior absolutos. nesse campo. As regularidades que ele possui em comum com outros alunos se encontram em uma intrínseca relação com seus demais aspectos e com o campo. nessa escola.

entendendo que “o pensamento e a ação humana não se reduzem a determinantes do psiquismo individual assim como o indivíduo não se reduz à descrição das características de indivíduos em geral”. A manifestação sintomática dos alunos – que motiva a queixa escolar demandada ao psicólogo – é compreendida. (MEIRA. é um destes campos. esta proposta se afasta da tentativa de encontrar explicações para a queixa escolar. bem como as práticas que estigmatizam e excluem. p. p. 340 .24) Assim como Perls. 2005. Indagamos ‘para que’ um aluno precisa se comportar ou se relacionar de determinada forma dentro do contexto escolar a fim de manter seu equilíbrio. professores. as concepções que a produziram. ou seja. um movimento de saúde. necessitando ser compreendida por meio de uma investigação com todos os envolvidos: escola.23). recurso. familiares. segundo esta lógica.intervenção do psicólogo deve possibilitar o ‘pensar junto’ com as crianças e professores. Da mesma forma. tirando o foco de investigação da busca por possíveis causas destas manifestações. entendida como “aparência”. autores da vertente histórico-dialética da Psicologia Escolar partem das relações sociais para chegar à ‘biografia’ do indivíduo. Nos diversos campos do qual faz parte. buscamos uma compreensão fenomenológica acerca das formas disfuncionais de existência. Assim como a Gestalt-terapia. 2005. podendo ser denunciadora de um ambiente escolar que necessita ser problematizado. “A pergunta é: que tipo de exigência. Ao contrário. e que elementos deste campo contribuem para isso. (TANAMACHI & MEIRA. A queixa escolar encaminhada ao psicólogo é. como uma tentativa de equilíbrio. p. ela [a criança] encontra nesse contexto para que precise agir desta forma ou usar deste artifício para se auto-regular?” (AGUIAR. 2005. amigos e a criança.55). os acontecimentos. expectativa. buscamos descrever e compreender como as disfunções se apresentam. aquilo que aparece no nível mais imediato. existem elementos que impedem ou dificultam sua possibilidade de construir novas formas de satisfazer suas necessidades e a escola. e de que forma estas contribuem para um funcionamento não saudável e insatisfatório do indivíduo como uma totalidade integrada. restrição. buscando nos diversos campos as ações. Hefferline & Goodman (1951/1997). sem dúvida. segundo esta lógica.

porque estas podem ser transformadas (. O fazer psicológico escolar crítico tem como objetivo realizar. um campo se reconfigura a partir de mudanças em alguns de seus elementos: podemos alterar uma parte e esta modificação terá efeito nas demais. os conteúdos. do que concluímos que a base de nossa avaliação é o resgate histórico das situações concretas que permitiram a existência da ‘queixa’. para culpabilizar a família e/ou a escola. em vez de nos dirigirmos a pessoas ou situações isoladas – o que tem efeito paralisador – buscamos as circunstâncias. familiares e demais funcionários.) A avaliação aqui adquire caráter investigativo e não classificatório. op.. participantes fundamentais desse processo de transformação. (LIMA.cit..Não se trata de desfocar a criança. mudanças que gerem a possibilidade de que a escola cumpra seu papel social de possibilitar a todos que por ela passarem a apreensão dos saberes construídos pela humanidade ao longo do tempo. (TANAMACHI & MEIRA. 2005) Transformam-se. nos permite uma visão mais 341 . métodos de ensino e escolhas didáticas que são feitas pela escola. alunos. familiares e com o próprio estudo. trabalhar com os alunos. (TANAMACHI & MEIRA. e não mais objetos passivos de ações sobre as quais não tem qualquer controle. Mudamos a pergunta. os “pacientes” com os quais a Psicologia Escolar trabalhava em sujeitos ativos. Na escola.. p. juntamente com os atores que compõem o cenário pedagógico e da escola.17) Como um sistema dinâmico. Por outro lado. pode ter resultado direto nas relações que estes estabelecem com os professores. avaliando juntamente com os educadores. p. em um processo ininterrupto de busca de auto-regulação e crescimento. Entender o aluno como um ser cuja vivência singular é construída e reconstruída a partir das relações que estabelece com o campo. o psicólogo que atua na instituição deixa então o papel de técnico e passa a trabalhar como elemento mediador de um processo pedagógico qualitativamente superior.32) Partindo desta compreensão da queixa escolar. um trabalho com os professores. assim. coordenadores ou familiares pode trazer resultados visíveis nos alunos e nas queixas elaboradas sobre eles. da mesma maneira. fornecendo um espaço de reflexão e responsabilização diante daquilo que eles apontam como críticas à escola e à família. 2005.

342 . buscando se colocar de forma mais verdadeira e presente. Acreditamos nas potencialidades e na capacidade de transformação do ser humano e sabemos que relações mais facilitadoras possibilitam a emergência de formas de estar no mundo mais saudáveis e satisfatórias.ampla de suas possibilidades de existência. Podemos propor que as pessoas presentes na vida do aluno revejam as relações que com ele estabelecem.

M. Psicologia: Ciência e Profissão. F. M. MALUF. M. ANDRADA. S. Brasília. R. Psicologia Argumento. São Paulo: Casa do Psicólogo. O.196-199. Sete saberes necessários à educação do futuro. F. MEIRA. A. E. 2005. Psicologia: Reflexão e Crítica. C. O papel do Psicólogo Escolar.1. Curitiba.) Gestalt-terapia e contemporaneidade: contribuições para uma construção epistemológica da teoria e da prática gestáltica. jul/set 2005. 2003. L. In: HOLANDA A. 2005. (orgs) Psicologia Escolar: Teorias Críticas. & FARIA N. Psicologia Escolar: novos olhares e o desafio das práticas. (org. G.) Psicologia Escolar: em busca de novos rumos.4. (orgs.P. São Paulo: Casa do Psicólogo. E. A Gestalt-terapia no contexto científico intelectual contemporâneo. MORIN.43-46.R. E. 1984. In: MEIRA. v. V. M. E. LIMA. A. 2003. In: MACHADO.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR. Breve histórico da psicologia escolar no Brasil.18. C. M. n. 2004. Relato de uma intervenção na Escola Pública. 343 .23. A. v.17-23. 2005. A. LIMA. N. C. Campinas: Editora Livro Pleno. p. Campinas: Editora Alínea. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática.) Psicologia Escolar: ética e competências na formação e atuação profissional. M.M & SOUZA M. p. M. M. MACHADO. Construindo uma concepção crítica de Psicologia Escolar: contribuições da pedagogia histórico-crítica e da psicologia sócio-histórica. J. & ANTUNES. Campinas: Editora Livro Pleno. ANDALÓ. v. A. São Paulo: Cortez. M. n. In: ALMEIDA S. A. P. Porto Alegre.42 p. Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar. (orgs.

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suas funções e disfunções (resistência). pretende-se discutir como a Gestalt-terapia pode realizar sua função social. permitindo o convívio. As percepções e conclusões do autor são discutidas em conformidade com a compreensão gestáltica. Assim. de amplificação da awareness sobre a questão e delineamento de estratégias. má formação lábio-palatal. Desde então muito já foi realizado e atualmente esta parcela significativa da população (estima-se 10% do total) tem oportunidades mais justas e igualitárias quando se pensa na sua condição de alunado. realizada no Núcleo de Pesquisa e Reabilitação de Lesões Lábio Palatal (NPRLLP) vinculado à Secretaria de Saúde da cidade de Joinville (SC). o relato de uma pesquisa qualitativa. INTRODUÇÃO A inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais tem sido tema objeto de discussões e articulações sociais e políticas no Brasil. o ciclo. Palavras chave: inclusão. contato. ganha importância 345 . em relação ao conceito de contato. principalmente a partir de considerações sobre a teoria de campo de Kurt Lewin (conforme a leitura de Ribeiro. por meio do contato com a diversidade e a valorização das diferenças. Gestalt-terapia. em 1994.UMA LEITURA GESTÁLTICA QUANTO À EXPERIENCIA EMOCIONAL DE MÃES DE CRIANÇAS COM MFLP NO MOMENTO DO INGRESSO ESCOLAR: ARTIGO DE REVISÃO RESUMO Este artigo revisa sob a ótica de conceitos da Gestalt-terapia. Ao final. especialmente desde a assinatura de acordos internacionais como a Declaração de Salamanca. a aprendizagem mútua e o crescimento dos grupos sociais como um todo. enfocando como mães vivenciaram o processo de início da atividade escolar de seus filhos e sua influência no tratamento multidisciplinar. 1999).

problemas e complicações médico-odontológicas associadas à má-formação (incluindo a alimentação. “estrutura reunindo dialeticamente. 1984) envolvidos no processo de inclusão escolar. em dado momento. “totalidade dos fatos co-existentes. p. desde o nascimento. o que é profundamente relevante quando se trata da deficiência na infância. mais completas. audição e desordens de fala). A deficiência torna-se. respeitadoras. passaram a conviver no ambiente das escolas regulares sempre que possível e recomendável. ao longo dos anos. p. 1999. criando condições para que se tornem pessoas mais sensíveis. regulamentado em nosso país pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. 41 in Forghieri et al. criativas.a realização de estudos que procuram identificar os fenômenos. incrementando as vivências pessoais de todos. um elemento constitutivo dos aspectos estruturais da pessoa como um todo e se reflete na sua organização egóica. DESENVOLVIMENTO Segundo a bibliografia pesquisada pelo autor. em suas formas de estabelecer relações intrapsíquicas e interpessoais e nos recursos adaptativos (ajustamentos criativos) e/ou mal-adaptativos (resistências ou disfunções de contato) adotados. está sofrendo importantes transformações. 2007. além de apresentar. alunos com diferenciadas características pessoais e de aprendizagem. “a criança portadora de má formação lábio palatal (MFLP) possui um defeito físico congênito que repercute na estigmatização devido à idolatria da perfeição e da beleza física impostos pela sociedade” (Miguel. p. 57). referidas à educação inclusiva. e interferindo na relação grupo-indivíduo. cuja significação depende da percepção dessa correlação entre sujeito e objeto” (Ribeiro. afetivo e 346 . Há significativas mudanças acontecendo na educação brasileira. enfim. No processo deste movimento. afetando o comportamento das pessoas envolvidas. na intencionalidade. 9). pois a percepção da condição é concomitante ao desenvolvimento psicológico. Desta forma o campo fenomenológico. a significação e a existência” (Rezende. e concebido em termos de mútua interdependência. o homem e o mundo.

nível de expectativa. que é diferente das demais. condição constitucional. expectativas quanto aos filhos que serão gerados na união do casal. Como parte deste campo está a criança com uma deficiência física. Sua influência na formação do indivíduo depende de inúmeros fatores e o espaço vital: totalidade dos fatos ou eventos os possíveis. anterior ao casamento. p. cuja elaboração dependerá de diversos fatores. podem surgir sentimentos de culpa).(Regen et al. e com quem interage. mesmo que a má-formação seja desconhecida. 2006. representações estas anteriores à própria existência da dupla homem-mulher. 64-8) saudáveis até soluções muito disfuncionais. grau de preconceito em relação às pessoas com deficiência. desde ajustamentos criativos (Ribeiro. A anomalia. apresenta-se muito variável entre os indivíduos com esta condição. 1999. sente-se diferente e assim o será numa organização social feita para seres inteiros. podendo ser expressos matematicamente” (Ribeiro. na 347 . é um estado incompleto quando comparado à normalidade. A nova dinâmica gerada entre os fenômenos (ou zonas) do campo formado pela dupla mãe-pai origina tensões e a necessidade de mudanças em relação às expectativas prévias. sendo eles partes constituintes da realidade e não apenas partes ou um conjunto aditivo. tipo de relacionamento com a família estendida (podem surgir comentários. 60). p. pois o desejo de constituí-las traz. A condição acarreta o desenvolvimento de variadas repercussões psicológicas. é afetado e influencia sua dinâmica) deflagra novos desafios. tipo de personalidade e reações de cada um. 2003. com todas as conseqüências sociais. 2001). (Reis.cognitivo. como: aceitação ou não da gestação (em caso de rejeição da gravidez. Da mesma forma as famílias são afetadas. 46) O nascimento de um bebê com MFLP (fenômeno inesperado que se inscreve no campo existencial da dupla. acusações e até rompimentos). implicitamente. posição do filho na prole. transitando da inclusão social desejada à polaridade de exclusão e isolamento da sociedade. qualidade do relacionamento do casal. “normais” e configurada para a realização total do ser. quais coexistentes determinam e o mutuamente interdependentes. comportamento de um indivíduo num dado momento.

ou pela necessidade de trabalho dos pais. trabalho. “O processo de inclusão da criança portadora de má formação lábio palatal deve se estabelecer no momento do diagnóstico. da diversidade e da criatividade” (Miguel. economia. 18). que normalmente se dá ao nascimento.saúde. a criança estava ao abrigo da família e do centro de reabilitação. A família. Entretanto. a escola e os profissionais que fazem parte deste eixo de desenvolvimento devem ser orientados no sentido de tomarem decisões que garantam o êxito do tratamento em todos os seus aspectos. de um modo geral. 14). aparentemente homeostático. com a atenção também voltada ao meio em que ela está inserida. a importância da reabilitação e do trabalho multidisciplinar. Segundo o autor. Destaca deste modo. estético. 2007. A parte “criança com MFLP” adquire novos significados no todo representado pela escolarização: “uma parte num todo é algo bem diferente desta mesma parte isolada ou incluída num outro todo” (Ginger e Ginger. que interfere neste todo. p. Era um campo freqüentemente vivenciado com segurança e proteção.criança com MFLP .resiliente (Lima e cols. como um fundo que pode favorecer a estruturação de uma figura . o autor da pesquisa em estudo. ao sentir-se apoiada e orientada nas suas dúvidas e angústias. entre outras. tanto na escola. p. um todo continente e afetivo. primeira etapa de amplificação do seu processo de socialização. 2007. Com a chegada da idade escolar. no momento em que o ambiente social se amplia. 2007) e capaz de se incluir. 1995. e que muito interfere no processo da escolarização em geral: a vivência emocional das mães de crianças com uma necessidade especial (MFLP) no momento em que seus filhos entram em contato com o ambiente escolar. Dentro do panorama da educação inclusiva. surge uma nova demanda. entendido como “a máxima exploração das potencialidades de cada ciência. às vezes. p. Esta inclusão deve ter um sentido amplo. educação. Até então. é o 348 . Também a família poderá ser beneficiada no processo. fisiológico e psicológico” (Miguel. 18). como nos desafios sociais subseqüentes (fundo). oferece-nos um recorte bastante perspicaz e sensível de uma questão pouco referida.

preconceito diante do impacto visual causado pela desfiguração da face, da fala anasalada, e outras diferenças, que pode se revelar figura dominante no campo atualizado. Percebe-se a supervalorização do olhar e do ver como função de contato (Amaral, 1996 apud Miguel, 2007, p. 26), em detrimento das demais (audição, olfato, gustação e movimento), limitando sobremaneira as possibilidades de interação e focando a interação principalmente na falta (ou deficiência). Desta forma, a MFLP repercute na estigmatização da pessoa, reforçada pela idolatria da perfeição e beleza física vivida atualmente. O autor, ao realizar um levantamento bibliográfico sobre o tema, refere que crianças com MFLP têm ao menos duas vezes mais riscos de problemas comportamentais comparados com crianças sem este tipo de problema. Pais parecem ter uma menor expectativa em relação ao desenvolvimento intelectual e de habilidades sociais de seus filhos; podem optar pelo ocultamento destes, revelando com isto o caráter de fuga destas famílias em relação ao meio que os cerca, constrangidos em mostrar seu filho (a), com medo das possíveis reações do público à aparência de sua criança. As crianças criam, então, um isolamento voluntário e iniciam uma luta íntima tentando vencer o constrangimento de ter que se apresentar entre outras pessoas, comprometendo também o desenvolvimento de outras habilidades, como a fala (Figueira, 1997; Dülger-Hâfner,1997 apud Miguel, 2007, p. 27). Fuga (ou evitação) são mecanismos de defesa do espectro da deflexão, utilizados para evitar o contato com o elemento causador da dor ou sofrimento psíquico, e segundo Perls (1977, p. 79), “a fobia da dor é a inimiga do desenvolvimento – a relutância em sofrer um mínimo que seja”. A energia é desviada e a retração não pode acontecer, havendo necessidade constante de criar nova estratégia de evitação (Ginger e Ginger, 1995, p. 138). Em geral, relaciona-se a introjetos dos quais a pessoa não está aware (Ribeiro, 2006, p. 74-7), neste caso representados pelo próprio preconceito familiar em relação à deficiência, que pode ser expresso em excessiva superproteção. De um modo geral, são crianças que, desde o nascimento são constantemente manipuladas e submetidas a intervenções mais ou menos invasivas, em que seu espaço vital é freqüentemente invadido. Dois aspectos da imagem corporal estão usualmente incluídos: o que uma pessoa considera ser uma

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imagem ideal ou desejada e o que ela vê como seu corpo real. Foi notada nas crianças deficientes uma tendência para achar que as não-deficientes são perfeitas e existe o perigo de que a sua imagem corporal ideal seja totalmente diferente do modo como se vêem a si mesmas. A sociedade tem seus padrões estéticos bem definidos, os introjeta (Ginger e Ginger, 1987, p. 134) e os reproduz nas relações. Afirma o autor que “o momento em que este paciente inicia sua vida escolar se configura como a quebra da barreira de proteção do lar contra qualquer tipo de discriminação”, e que “estes pais devem ser apoiados pela equipe multidisciplinar e orientados no sentido de que, a forma como os pais enfrentam esta dificuldade, modela o comportamento do filho(a) que estará mais ou menos apto a enfrentar a curiosidade dos outros”. (Miguel, 2007, p. 77-8) Realizou, então, entrevistas com sete mães de crianças atendidas no NPRLLP no máximo, matriculadas há dois anos em escola regular de ensino do município ou que estavam na expectativa de matrícula no próximo período letivo escolar. A participação do marido na reabilitação muitas vezes se deu apenas na forma de apoio em casa; às vezes todo o encargo está na responsabilidade das mães, noutras o marido opina, mas não participa ativamente nas consultas e reuniões, e outro, conforme o autor, “se envolve nas decisões, acompanha de perto o tratamento e a evolução da criança. Ele conhece a professora e a escola, procurando saber o que acontece com seu filho”. (Miguel, 2007, p. 103) O contexto existencial das mães abordadas pela pesquisa é caracterizado por idade jovem (faixa dos 20 anos, à exceção de uma com 32 anos); escolaridade variável (de ensino fundamental incompleto a ensino superior completo, com predomínio de ensino médio completo); renda familiar também variável (de zero a quinze salários mínimos); casadas (à exceção de uma, solteira, cujo companheiro não aceitou a deficiência da criança); com freqüência regular aos tratamentos embora com pouca participação do cônjuge; os filhos encontram-se entre três e seis anos; a maioria tem outros filhos além desta criança; e, à exceção de uma, não havia casos anteriores na família. São descritas, pelo autor, como “solícita, mas muito nervosa e dependente do centro”, “muito segura”, “muito segura e superprotetora”, “negando o defeito e superprotegendo”, “demonstrando calma e esclarecimento”, “extremamente dominadora”, “extremamente depressiva” (Miguel,

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2007, p. 63-7). Identifica variadas reações psicológicas ao problema em questão, e evidencia a importância da equipe estar apta a perceber qual a necessidade de suporte psicológico às mães e ter estratégias de intervenção adequadas. O roteiro das entrevistas foi elaborado com perguntas abertas que tiveram a função de organizar a fala das mães, mas não de limitá-las. Daí surgiram vários temas relacionados à escolarização e trabalho da instituição. (Miguel, 2007, p. 6971) Quanto às reações e expectativas com a saída de casa e o início escolar da criança com má formação lábio palatal, o autor encontrou nos relatos das mães a preocupação (pré-ocupação ou ansiedade, “tensão entre o agora e o depois”, Perls, 1977, p. 73) com a exclusão dos seus (suas) filho (as), em como seria encarada a má formação e o problema da fala na criança, com temor de que suas necessidades não viessem a ser supridas, sugerindo uma expectativa diminuída das mães em relação ao desempenho escolar. Este comportamento pode gerar isolamento social da criança (e da família) no período pré-escolar e sentimentos de insegurança e de hostilidade diante do meio. O contato com o mundo além do ambiente familiar mostra ser vivenciado com muita ansiedade e expectativa de rejeição e insucesso. Provavelmente há distorções perceptuais nesta relação, influenciadas pelos próprios sentimentos de rejeição (e medo desta), dificuldade de aceitação, autoestima comprometida pela incapacidade em gerar um filho perfeito, quebrando a imagem projetada do filho ideal. Enrijecem-se as fronteiras de contato (Ginger e Ginger, 1987, p.127) com a fantasia de que, agindo assim estarão protegidos, pais e prole. O ciclo de contato não se completa, não há retração nem a possibilidade de outros investimentos de energia. Introjeção, projeção e deflexão (Ginger e Ginger, 1987, p. 134-8) entrelaçam-se, afastando a díade mãe-filho do convívio saudável com a escola e reforçando o estigma, além de criar um mundo externo frio e cruel, diante do que a confluência pode vir a ser o recurso (resistência) utilizado. A awareness está comprometida e pode haver uma paralisação do processo. Há necessidade de considerar a existência (ou não) de auto-suporte, assim como a qualidade deste, para lidar com as questões que se colocam, assim como o perfil de personalidade anterior destas mães, se era mais ou menos dependente do apoio ambiental.

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O autor afirma que “a permanência do filho em casa, sem a iniciação escolar, isolando o filho da convivência social criou a falsa expectativa de proteção contra qualquer tipo de discriminação”, o que reforça a necessidade do apoio da equipe multidisciplinar para o enfrentamento desta nova realidade. (Miguel, 2007, p. 78). Relata sua percepção de um auto-suporte fragilizado, dependente do meio, ao que sugere a possibilidade de resolução de conflitos pessoais e familiares com a atuação do NPRLLP: “importância do acompanhamento e desenvolvimento escolar por centros especializados, no sentido de detectar problemas e fornecer o apoio necessário não somente à família e à criança, mas também à escola”. O trabalho integrado traz efeitos percebidos pelas mães e a evolução das crianças após o ingresso nas atividades escolares cria expectativa e satisfação da família em relação a esta nova fase, principalmente na comunicação e desenvolvimento de habilidades, o que também é percebido pelos profissionais do NPRLLP. Houve dificuldades em relação à escolha da escola e o início escolar. O adiamento da escola (que poderia ser um mecanismo de ajustamento se estivesse em função de fazer uma escolha mais adequada) foi percebido nas falas como uma forma de contornar (evitar?) o problema do medo do relacionamento com os pares. E o mecanismo de confluência como forma de lidar com a fragilidade percebida (e projetada) na criança, diante do novo meio, na fantasia de fortalecê-la diante dos desafios que, então, se colocam. A projeção idealizada do ambiente desejado parece também ter sido um dos mecanismos utilizados, tanto nos critérios de escolha quanto na justificação da evitação de uma escolha. O acompanhamento diário na escola foi associado ao medo do preconceito com a MFLP e não uma preocupação com a situação pedagógica e cognitiva escolar do filho (a), de acordo com a percepção do autor. A resistência em permitir uma vinculação espontânea e saudável da criança em seu novo ambiente também poderia encontrar-se relacionada à introjetos sociais destas mães tanto quanto ao seu papel de maternagem (Outeiral et al, 1991), já abalado pela geração de uma prole imperfeita, como aos valores e expectativas da sociedade com que convivem. As dificuldades de relacionamento de seus filhos (as) portadores de MFLP e o preconceito vivenciado em várias situações do cotidiano também foram identificados pelo autor nas suas entrevistas. Referenda o autor que os pais das

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crianças portadoras de MFLP se mostraram mais tolerantes a comportamentos socialmente inapropriados (Tobiasen, Hilbert, 1984 apud Miguel, 2007, p. 87); também a dificuldade na fala faz com que a criança se isole, não participando das atividades normais para sua idade. As mães procuram se adaptar a nova realidade e o NPRLLP lhes dá suporte psicológico a esta difícil fase, o que identifica como este trabalho e o papel desempenhado por elas, genitoras, no tratamento são de grande importância. O campo experiencial sofrerá grandes variações qualitativas

dependendo dos elementos que o compõem, aqui-e-agora, assim como das dinâmicas (forças vetoriais) que se estabelecem no seu interior. A família que estiver fora do apoio dos serviços de reabilitação de um centro poderá perceber o problema da má-formação de forma muito diversa do que aquelas participantes dos programas e, provavelmente, com recursos psicológicos menos aprimorados para um enfrentamento saudável da questão. O fenômeno reveste-se das características que nele são percebidas, na relação que com ele se estabelece; a clarificação das partes e a awareness sobre as dinâmicas criadas com o fundo permitem uma ação mais eficaz e com menos desperdício de energia. “O terapeuta precisa, também, conhecer as implicações que uma deficiência congênita, física ou mental, trará para o desenvolvimento e ajustamento de uma criança que, já ao nascer, apresenta uma condição orgânica diferente e que, portanto, vai constituir-se como pessoa a partir de uma estrutura orgânica peculiar”, o que lhe exige “a compreensão das limitações funcionais impostas pelas deficiências e a compreensão das condições afetivo-emocionais que as acompanham” (Amiralian, 2000, p. 35). Frente às dificuldades de relacionamento e o preconceito em relação a outras crianças, as mães procuram ajuda pela comunicabilidade, ficando ao seu lado, procurando socorrê-lo e explicando suas deficiências a outras crianças com que seu filho procura interagir. O autor afirma que “ela se tornou a porta voz da criança, traduzindo a sua linguagem alterada pela deficiência anatômica provocada pela fissura lábio palatal” (Miguel, 2007, p. 90). Pode ser uma reação diante da awareness de uma necessidade identificada pela mãe no filho (ajustamento criativo); porém, sua persistência além do necessário, ou a ausência de estímulo ao

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desenvolvimento de novos recursos comunicativos,

retoma, defensivamente, o

mecanismo confluente (Ginger e Ginger, 1987, p. 133) como forma de enfrentar a dificuldade no contato, podendo mais uma vez restringir as possibilidades de crescimento da criança, também complicadas por freqüentes períodos de afastamento para intervenções cirúrgicas. Segundo o autor “a criança inicia uma luta íntima sentindo a necessidade de aprender e ao mesmo tempo vencer o constrangimento de se apresentar entre as outras crianças”. Ciclos de contato da mãe e do filho são sobrepostos, confundidos e misturados como se todos fossem um só, mesclando e distorcendo as necessidades de cada um. Resulta a frustração da satisfação. As dificuldades de relacionamento e o preconceito em relação aos adultos e o meio em que vivem refletiram-se no círculo de amizades dos pais. A fala, muitas vezes anasalada, é motivo de risos e deboches da criança por parte dos adultos. A idade da criança e sua fala denunciam que ela não se desenvolveu, possui limitações, o que é motivo de brincadeiras não aceitas pelas mães. (Miguel, 2007) Papéis e clichês são priorizados em detrimento da experiência do encontro genuíno entre as pessoas, desprovido de preconceitos e capaz de vivenciar a plena aceitação do outro. O espaço pessoal encontra-se comprimido, invadido e a família cede lugar às exigências externas. A fala revelou-se a principal preocupação independente da classificação da fissura. “O não ser entendido, não se fazer entender despertou, por parte das mães, grandes preocupações com a interação social no convívio com os adultos”, e “procurar escolas muitas vezes longe de casa, onde está uma professora conhecida ou a facilidade de participar do dia a dia do seu filho”, (Miguel, 2007, p. 95) configuraram-se como um fator de segurança a mais refere o autor. O meio psicológico inscreve-se no meio social mais amplo e com ele realiza trocas nas suas fronteiras. Apenas um indivíduo (e uma família) resiliente poderá colocar-se de forma ajustada e saudável, mantendo sua capacidade para ajustamentos criativos, e se relacionando com o ambiente externo sem, no entanto sucumbir a ele e às suas pressões. Diante disto, o autor observa que as reações das mães em relação ao meio onde vive a criança portadora de MFLP procuraram principalmente proteger a criança. As mães relataram a preocupação com a socialização da criança e nesta

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preocupação permaneceram mais ao lado de seus filhos, procurando protegê-los. Aqui se inscreve também o impacto da situação do filho fora do lar que algumas mães resolvem acompanhando-o neste momento, mas, ao mesmo tempo demonstrando problemas em relação a uma desvinculação psicologicamente saudável. No seu extremo, revelam-se esforços no sentido de tentar controlar uma situação até então desconhecida e que desperta intensos temores, podendo levar a condutas inadaptativas, como o isolamento social. Outras conseguem retornar ao trabalho procurando adequar o horário do trabalho com o horário da escola da criança Manifestam sentimento de agradecimento aos profissionais em relação à comunicação de melhora de seus filhos e todo o auxílio no processo de início escolar. Diz o autor que “é importante ressaltar o aspecto multidisciplinar que deve envolver todo o processo de reabilitação desse paciente. A interação entre as várias especialidades deve procurar, dentro de um planejamento muitas vezes em longo prazo, buscar a reabilitação do paciente portador de má formação lábio palatal e também dar suporte para as pessoas próximas envolvidas com o tratamento. (Miguel, 2007, p. 109)

CONCLUSÕES O início escolar pode ser considerado como um momento de grande relevância para a inclusão social de qualquer criança, suscitando sentimentos, emoções e comportamentos diversos, do ajustamento criativo a disfunções de contato e, em especial, na criança com necessidades educacionais especiais e sua família. Oscilam entre superproteção, frustração, desconfiança, negação, aceitação condicional, revolta, culpa, isolamento social, medo, evitação, contato graduado, ajustamento saudável, o que depende do campo psicológico, pessoal e social em que o conjunto faz contato, suas características e dinâmica. A informação dos pais de uma criança com MFLP sobre a patologia e o plano de tratamento estabelecido em conjunto com a equipe multidisciplinar, elemento importante na promoção do bem-estar pessoal, grupal e coletivo, é desenvolvida por meio do apoio, intervenções e orientações, incluindo a escola da criança.

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preconceito. Apesar da vivência do início escolar no relato das mães ser muito individual. tanto em nível individual como coletivo. implica em uma profunda revisão de condutas onde não somente o paciente-aluno deve deixar de ser visto como centro das atenções. A inclusão escolar. isolamento social. revela-se como grande fator de intermediação entre a família e a instituição de ensino. interagem segundo leis configuradas em cada totalidade relacional. Segundo o autor. suporte prestado pelo NPRLLP. é papel dos profissionais da área da saúde produzir conhecimento e não simplesmente incorporá-lo e consumi-lo. das relações entre todo-parte de cada sistema. com efeitos profundos na função familiar.e incrementando o auto-suporte. com o ambiente e com sua qualidade de vida. a projeção e a confluência mostram-se predominantes no grupo estudado. ambivalência materna. A Psicologia. A falta deste apoio pode favorecer o desenvolvimento de disfunções de contato.Fenômenos como o impacto do nascimento. não atratividade facial e capacidade de comunicação da criança. em que a integração da pluralidade do grupo profissional reflete a dinâmica da diversidade em que a própria criança está sendo incluída. das figuras-fundo que se estabelecem. A escolha da escola torna-se um processo desvinculado do aspecto didático pedagógico da instituição e o apoio da equipe à escola. aparece como disciplina possível 356 . dinâmica familiar. escola acessível. sendo que a deflexão. A homeostase préescolar é abalada pela iminência da escolarização. Cabe aos profissionais da equipe multidisciplinar. onde também o psicólogo está inserido. criando tantas configurações quantos fenômenos educacionais ocorrerem. está inserida no todo do tratamento do paciente portador de MFLP. como se flexibiliza o movimento figura-fundo da educação. aqui identificada pela Gestalt-terapia. vista desta forma. perceber a totalidade desta demanda. que deve privilegiar sua relação com a saúde geral. dependendo do conjunto aqui-e-agora. uma visão holística. suporte ambiental. A intersecção entre conhecimento e educação poderá proporcionar a transformação necessária contribuindo para a formação global do ser humano. despertando competências e proporcionando conscientização para uma melhor qualidade de vida para todos. criando condições para desenvolver habilidades e conhecimento. insegurança com o meio.

produzindo um novo conhecimento acerca da MFLP e suas repercussões e delineando estratégias holísticas de intervenção.” (Reis. 2003) 357 . é antes uma arte que se aprende e desenvolve. neste estudo com a Odontologia.de interagir multidisciplinarmente. Estudos como este indicam a necessidade de aprofundamento das questões psicológicas que envolvem a pessoa com necessidades educacionais especiais para promover o sucesso da inclusão escolar. “Ouvir e aceitar o outro não é um dom. tanto curativas quanto preventivas.

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