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O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

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Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social.

Aprovada em 10 de Julho de 2009.
Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social.

Aprovada em 10 de Julho de 2009.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

VITÓRIA 2009

RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social. Orientadora: Profª Msª Andréa Monteiro Dalton.

VITÓRIA 2009

Loureiro, Rayani Rampinelli. O Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente: um estudo a partir do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do município de Vitória-ES / Rayani Rampinelli Loureiro – 2009. 159 f. Orientadora: Profª Msª Andréa Monteiro Dalton. Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. 1. Contexto sócio-histórico das Políticas Sociais voltadas à Criança e ao Adolescente no Brasil. 2. Contexto sócio-histórico do Serviço Social inserido nas Políticas voltadas a Criança e ao Adolescente no Brasil. 3. Contexto sócio-histórico do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil inserido no Município de Vitória-ES. 4. O Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória-ES. I. Loureiro, Rayani Rampinelli. II. Dalton, Andréa Monteiro (or.). III. Título.

RAYANI RAMPINELLI LOUREIRO

O SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS DE ATENDIMENTO VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: UM ESTUDO A PARTIR DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES.

Trabalho de Conclusão de Curso Apresentado ao Departamento de Serviço Social do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Serviço Social. Aprovada em 10 de Julho de 2009.

COMISSÃO EXAMINADORA __________________________________________________
Profª Msª Andréa Monteiro Dalton Universidade Federal do Espírito Santo Orientadora

___________________________________________________
Profª Msª Juliana Iglesias Melin Universidade Federal do Espírito Santo

__________________________________________________
Vanessa Ferreira Lopes Assistente Social do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) de Vitória/ES

AGRADECIMENTOS

À Deus, que me deu toda a sabedoria, trilhou os meus caminhos e me fez encarar as dificuldades e os desafios frente a mais uma conquista da minha vida. À meus pais, Regina Aparecida Rampinelli Loureiro e Joceilton Rocha Loureiro, que são os grandes amores da minha vida, que sempre estiveram ao meu lado em todas as situações, momentos de alegria, de tristeza, conquistas e incertezas, que confiaram em meu potencial e nunca desistiram de lutar pela minha felicidade. À meu irmão, Renan Rampinelli Loureiro. Grande amigo e companheiro que acreditou em mim e me ajudou nos momentos de desespero com palavras de apoio e confiança que me deram coragem para enfrentar as dificuldades que surgiram. À Joyce Caroline, pessoa muito importante na minha vida que se fez presente e não mediu esforços para me ajudar nessa fase de conclusão de curso. Sou grata a essa grande mulher por acreditar na minha capacidade, por sua compreensão e toda atenção dispensada a mim. À minha amiga, Thatiane Trajano da Silva, que sempre esteve ao meu lado, desde o primeiro período do curso, me incentivando e me levantando nos momentos mais difíceis. Que nossa amizade se perpetue. À Profª Msª Andréa Monteiro Dalton, que me orientou neste trabalho de conclusão de curso com toda atenção necessária e confiança. Considero-a uma excelente profissional que realiza seu trabalho na Universidade com muita competência e dedicação. Aos profissionais e estagiários do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), que fizeram parte e foram pessoas de fundamental importância para minha formação profissional.

À todos os professores do Departamento de Serviço Social e outros, que durante a graduação lecionaram e deixaram sua contribuição para minha formação. Agradeço imensamente a aceitação da Assistente Social do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, Vanessa Ferreira Lopes, e a aceitação da Profª Msª Juliana Iglesias Melin em compor a banca de avaliação do meu trabalho de conclusão de curso juntamente com minha orientadora Profª Msª Andréa Monteiro Dalton. Por fim, a todos aqueles que fizeram parte e contribuíram para minha formação profissional e pessoal durante a graduação.

Rayani Rampinelli Loureiro

RESUMO
Este trabalho analisa o processo de trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do município de Vitória-ES, tendo em vista que este se desenvolve pautado no Estatuto da criança e do Adolescente (ECRIAD) e, portanto, na política de atendimento preconizada nesta Lei. Para compreender o trabalho do Serviço Social dentro deste Programa, foi necessário contextualizar sócio-historicamente as políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil; contextualizar sócio-historicamente o Serviço Social inserido nestas políticas; contextualizar a implementação do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no município de Vitória; e, analisar o Serviço Social neste Programa. Para o desenvolvimento do trabalho, que teve como referencial teórico o método crítico dialético, realizou-se uma pesquisa qualitativa, exploratória, bibliográfica, documental e de campo. Através do estudo realizado no Programa da Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória, constatou-se que, assim como a política de atendimento voltada à criança e ao adolescente no Brasil, o processo de trabalho do Serviço Social sofre diversos rebatimentos do sistema vigente. Palavras-chave: Serviço Social. Processo de trabalho. Políticas de Atendimento à Criança e ao Adolescente. Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI).

LISTA DE SIGLAS
ABESS - Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social AI-5 - Ato Institucional nº. 5 CadÚnico - Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal Cajun - Projeto Caminhando Juntos CBIA - Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência CFAS - Conselho Federal de Assistentes Sociais (hoje CFESS) CMET - Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil CMETI - Comissões Municipais e Estaduais de Erradicação do Trabalho Infantil CNAS - Conselho Nacional de Assistência Social COMASV - Conselho Municipal de Assistência Social Competi - Comissão Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil CONANDA - Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente CONCAVI - Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Vitória CRAS - Centro de Referencia da Assistência Social CREAS - Centro de Referencia Especializado da Assistência Social ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente ECRIAD - Estatuto da Criança e do Adolescente FEPETI - Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil FINSOCIAL - Fundo de Investimento Social FUNABEM - Fundação Nacional do Bem Estar do Menor

GCA - Gerência de Proteção da Criança e do Adolescente IPEC - Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil LBA - Legião Brasileira de Assistência LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação LOAS - Lei Orgânica de Assistência Social MDA - Ministério do Desenvolvimento Agrário MDS - Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome ME - Ministério do Esporte MEC - Ministério da Educação MNMMR - Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua MPT - Ministério Público do Trabalho MS - Ministério da Saúde OIT - Organização Internacional do Trabalho ONG - Organização não Governamental ONU - Organização das Nações Unidas PBF - Programa Bolsa Família PETI - Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PMV - Prefeitura Municipal de Vitória PNAS - Política Nacional de Assistência Social SAM - Serviço de Assistência ao Menor SEMAS - Secretaria Municipal de Assistência Social

SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SESI - Serviço Social da Indústria SETADES - Secretaria de Estado do Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social SOSF - Serviço de Orientação Sócio-Familiar SUAS - Sistema Único de Assistência Social TEM - Ministério do Trabalho e Emprego UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância (em inglês United Nations Children's Fund) UNIS - Unidade de Internação Sócio-Educativa

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...........................................................................................................13 1 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DAS POLÍTICAS SOCIAIS VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL........................................................19 1.1 AS PRIMEIRAS FORMAS DE ASSISTÊNCIA E POLÍTICAS DE

ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: A LEI DO VENTRE LIVRE, A RODA DOS EXPOSTOS E A PERSPECTIVA CARITATIVA E FILANTRÓPICA ........................................................................................................19 1.2 - AS DOUTRINAS LEGAIS NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO BRASIL.......................................................................................................................30 1.2.1 - O Código de Menores de 1927.....................................................................30 1.2.2 - O Código de Menores de 1979.....................................................................41 1.2.3 - O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD)...................................49 2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS VOLTADAS À CRIANÇA E AOS ADOLESCENTES NO BRASIL......58 2.1 - A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL E A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO BRASIL...................................58 2.2 O PROCESSO DE RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO

BRASIL.......................................................................................................................72 2.3 - O SERVIÇO SOCIAL NA ATUALIDADE: DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL A PARTIR DOS ANOS 90 COM O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E O FORTALECIMENTO DO PROJETO ÉTICOPOLÍTICO PROFISSIONAL.......................................................................................81 3 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) INSERIDO NO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES..........92 3.1 O PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL

(PETI).........................................................................................................................92

4 O SERVIÇO SOCIAL NO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES...........................................................108 4.1 TEMPO DE TRABALHO, VÍNCULO EMPREGATÍCIO E CARGA

HORÁRIA.................................................................................................................115 4.2 PRINCIPAIS POLÍTICAS, PROJETOS E ATIVIDADES

DESENVOLVIDAS...................................................................................................116 4.3 - ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE PROJETOS..............................................119 4.4 - GERENCIAMENTO, PARTICIPAÇÃO E ELABORAÇÃO DE POLÍTICAS SOCIAIS...................................................................................................................121 4.5 - PRINCIPAIS OBJETIVOS DO PETI-VITÓRIA.................................................122 4.6 LOCALIZAÇÃO/ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DO SERVIÇO

SOCIAL....................................................................................................................124 4.7 - PRINCIPAIS DEMANDAS................................................................................126 4.8 - ENCAMINHAMENTOS MAIS FREQÜENTES.................................................127 4.9 ORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL QUANTO A ROTINA DE

TRABALHO..............................................................................................................129 4.10 - NÚMERO E SUFICIÊNCIA OU NÃO DE PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL....................................................................................................................130 4.11 - POPULAÇÃO ATENDIDA..............................................................................131 4.12 - SERVIÇOS PRESTADOS..............................................................................133 4.13 APRIMORAMENTO INTELECTUAL E CAPACITAÇÃO

PROFISSIONAL.......................................................................................................134 4.14 - DIMENSÃO INVESTIGATIVA........................................................................136 4.15 - PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E CONTROLE SOCIAL.....................................139

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................142 6 REFERÊNCIAS....................................................................................................146 APÊNDICES.............................................................................................................150 APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA.........................................................151 APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO........152 ANEXO.....................................................................................................................153

INTRODUÇÃO

O sistema capitalista, no qual estamos inseridos, é pautado no modelo neoliberal de Estado. Tal sistema, objetivando a manutenção do capital, adota expressamente a chamada reestruturação produtiva que trás em seu bojo mudanças na organização do mundo do trabalho. Visando à economia em detrimento do social, o sistema vigente adota medidas que rebatem negativamente nas condições de vida da classe trabalhadoras, na efetivação das políticas sociais e, conseqüentemente no desenvolvimento do trabalho do profissional de Serviço Social. Tendo em vista tais questões, o presente trabalho trata-se de uma análise sobre o processo de trabalho do Serviço Social a partir de um estudo do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do Município de Vitória-ES. Tal proposta de análise partiu da minha experiência prática de estágio no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória-ES. Saliento que estou inserida, enquanto estagiária, no Programa desde setembro de 2007. Durante este período tenho vivenciado diversas situações que me remeteram a questionar, refletir e problematizar acerca do processo de trabalho do Serviço Social no PETI do Município de Vitória. O estudo proposto neste trabalho, além de contribuir para analisar como vem se desenvolvendo a atuação profissional dos assistentes sociais frente aos limites que são postos ao profissional em seu processo de trabalho, contribuirá bastante para um debate acadêmico mais acentuado no que se refere à prática profissional do Assistente Social no âmbito da Política de Atendimento da Criança e do Adolescente. Tal pesquisa contribuirá, também, para os profissionais de Serviço Social que atuam na área da criança e adolescente e, principalmente, para os que atuam no Programa de Erradicação do Trabalho infantil do Município de Vitória. Com isso a pesquisa será válida a estes profissionais para se pensar estratégias de atuação em meio aos limites postos ao processo de trabalho e, elevação das possibilidades no intuito de

se aperfeiçoar o trabalho tendo em vista a efetivação da Política de Atendimento da Criança e do Adolescente preconizada pelo ECRIAD. Os objetivos do estudo consistem em: Contextualizar sócio-historicamente as políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil; contextualizar sóciohistoricamente o Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e aos adolescentes no Brasil; contextualizar a implementação do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória; e, analisar o Serviço Social no Programa Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória. No desenvolvimento da pesquisa de campo a técnica utilizada foi a de entrevista por meio de roteiro semi-estruturado (APÊNDICE A) com perguntas abertas direcionadas a quatro profissionais de Serviço Social que atuam e que tem relação com o Programa na Gerência de Proteção a Criança e ao Adolescente, sendo estes sujeitos da pesquisa. Ressalta-se, que encontrei dificuldades para a realização da pesquisa de campo devido à falta de disponibilidade de tempo de duas entrevistadas. Apesar das dificuldades, considera-se que todas as entrevistas foram realizadas como previsto no projeto deste trabalho. Considera-se, também, que a proximidade com os sujeitos da pesquisa, devido ao fato de ser estagiária atuante no Programa, facilitou a realização e conclusão da pesquisa de campo. Para o desenvolvimento do estudo proposto, o trabalho foi dividido em quatro capítulos. Os três primeiros foram construídos sobre uma perspectiva teórica a respeito dos assuntos e o último se caracteriza por ser a análise da pesquisa de campo realizada. No primeiro capítulo foi realizado um estudo sobre o contexto sócio-histórico das políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil. Considerou-se, para tanto, que a história social da criança e do adolescente no Brasil perpassou por inúmeras configurações e representações em cada período. Neste sentido, para compreender a trajetória do contexto sócio-histórico das políticas sociais voltadas à área da criança e do adolescente, foi necessário

discorrer sobre as primeiras formas de assistência voltadas à infância no Brasil e, foi necessário, também, retomar um pouco da história do País e a visibilidade que as crianças e adolescentes tiveram em cada período histórico até a conjuntura atual com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD) de 1990. Diante disso, se constatou que a atenção à criança e ao adolescente, inicialmente desenvolveu-se pela perspectiva caritativa e filantrópica. Acompanhadas destas perspectivas, com a intervenção do Estado e advento de algumas leis, a atenção á criança e ao adolescente foi pautada no autoritarismo, no preconceito, no clientelismo e na repressão desconsiderando-os enquanto sujeitos de direitos e merecedores de atenção especial e diferenciada. Portanto, a criança e o adolescente foram, por um longo período da história do Brasil, objeto e alvo de medidas de um Estado autoritário e repressor. Isso posto, poderá ser observado, no primeiro capítulo deste trabalho, que somente com o advento do ECRIAD no Brasil, sendo este resultado de diversas lutas e movimentos em prol da defesa e conquista de direitos da criança e do adolescente em âmbito nacional e internacional, notou-se um novo direcionamento para a proteção deste segmento da sociedade que passou a ser visto enquanto sujeitos de direito. Além disso, com o avanço jurídico, da proteção integral, a criança e o adolescente passaram a ser vistos, também, como sujeito em situação especial. Neste sentido, notar-se-á que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi considerado um marco histórico no que se refere à atenção a população infantojuvenil em termo de legislação no Brasil, pois trouxe detalhadamente os direitos da criança e do adolescente expressos em forma de diretrizes gerais para uma política nessa área. No entanto, foi na conjuntura marcada pela implementação do projeto neoliberal no Brasil que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado. Isso posto, neste capítulo poderá ser observado que tal projeto, bem como sua manutenção, repercutiu negativamente para a efetivação do ECRIAD nos termos propostos por esta lei, bem como nas políticas sociais voltadas para a criança e ao adolescente a partir dos anos 1990. No segundo capítulo foi realizada uma análise do contexto sócio-histórico do Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente no Brasil.

Considerou-se, para tanto, que a história do Serviço Social no Brasil foi permeada por vários interesses, rebatimentos e alterações desde sua emergência, do seu reconhecimento enquanto profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho e sua renovação. Neste capítulo, portanto, problematizou-se a intervenção profissional do Serviço Social, no Brasil, na área da infância e da adolescência, explicitando as ações e leis de atenção à criança e ao adolescente que surgiram e foram sendo modificadas ao longo do contexto histórico no qual o profissional foi requisitado a intervir. Isso posto, para compreender a atuação do Serviço Social na área da criança e do adolescente fez-se necessário analisar historicamente sua inserção nas políticas voltadas a este seguimento no Brasil. Para tanto, foi necessário expor, com clareza cronológica, como se deu o desenvolvimento, implantação e processo de renovação da profissão de Serviço Social no país; a partir de quais necessidades e questões; quais foram os sujeitos envolvidos nesse processo; e, quais são as legislações próprias da profissão. Neste capítulo poderá ser observado, que inicialmente o Serviço Social possuía um cunho conservador de trabalho e com o decorrer da sua formulação, acompanhando as transformações societárias a nível econômico, político e social, o Serviço Social foi se reformulando e, assim como as políticas voltadas a área da criança e do adolescente, foi sendo direcionado a realização de um trabalho coerente considerando os sujeitos enquanto possuidores de direitos. Para a realização de um trabalho nesta lógica, visando o indivíduo enquanto sujeito de direitos, a categoria se renova e estabelece novas diretrizes e competência do trabalho do assistente social, através da Lei 8662, e, estabelece princípios éticos por meio do Código de Ética Profissional de 1993. O trabalho do profissional de Serviço Social, portanto, passou a ser direcionado considerando tais dimensões legislativas e foi se reformulando e se aperfeiçoando, principalmente nos anos 90, assim como a política voltada à área da criança e da adolescência com o advento do ECRIAD. Isso posto, entre outros elementos, poderá ser observado neste segundo capítulo que a partir dos anos 1990, através de um novo direcionamento do projeto ético-

político profissional, o profissional de Serviço Social passa a desenvolver sua atuação tendo em vista o compromisso e respeito a essas balizas legais que o norteiam. No entanto, o sistema vigente, assim como rebate na efetivação da Política de Atendimento à Criança e do Adolescente preconizada no ECRIAD, rebate, também, na atuação do profissional de Serviço Social, impondo-lhe vários desafios. No terceiro capítulo foi realizada uma análise do contexto sócio-histórico do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) inserido no Município de Vitória-ES. Portanto, neste capítulo, explicitou-se sobre o surgimento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Brasil e posterior inserção no Município de Vitória-ES. Para tanto, foram expostos quais elementos e mobilizações condicionaram a criação deste Programa no país e implantação no Município de vitória, e como este foi se alterando no decorrer de seu desenvolvimento e se encontra atualmente no Município em questão. No quarto e último capítulo, foi realizada a análise da pesquisa para a compreensão do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Neste sentido, este capítulo abordou a análise das entrevistas da pesquisa realizada em dezembro de 2008 e abril de 2009 com os sujeitos da pesquisa. Estes se constituem enquanto Assistentes Sociais em nível de secretaria, coordenação, gerência e profissional técnico de atuação direta com os usuários do Programa. Para a utilização das falas das entrevistas, sendo estas, objeto de análise do quarto capítulo, foi feito menção às profissionais enquanto Entrevistada A, B, C, e D no sentido de preservar a identidade das entrevistadas. O roteiro das entrevistas semi-estruturadas foi formulado a partir dos objetivos iniciais do estudo. Neste sentido foram elaboradas 14 perguntas referentes ao Programa e ao trabalho do Serviço Social.

Isso posto, para a análise de conteúdo, foram considerados os seguintes eixos do questionário: Tempo de trabalho, vínculo empregatício e Carga horária; gerenciamento, participação e elaboração de políticas sociais; Principais políticas, projetos e atividades desenvolvidas; elaboração e execução de projetos; principais objetivos do PETI-Vitória; Localização/organização do trabalho do Serviço Social; principais demandas; encaminhamentos mais freqüentes; organização do Serviço Social quanto a rotina de trabalho; número e suficiência ou não de profissionais de Serviço Social; população atendida; serviços prestados; aprimoramento intelectual e capacitação profissional; dimensão investigativa; participação política e controle social. Para a realização da analise proposta no quarto capítulo, considerou-se, entre outros elementos trabalhados nos capítulos anteriores: o avanço das políticas na área da criança e do adolescente, principalmente com o advento do ECRIAD; o avanço da profissão de Serviço Social após sua renovação; o Serviço Social enquanto uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho; e, as políticas sociais configuradas enquanto espaço sócio ocupacional do Serviço Social.

1

CONTEXTO

SÓCIO-HISTÓRICO

DAS

POLÍTICAS

SOCIAIS

VOLTADAS À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL

A história social da criança e do adolescente no Brasil perpassou por inúmeras configurações e representações em cada período da história do país. No intuito de analisar o contexto sócio-histórico das políticas sociais voltadas à criança e ao adolescente no Brasil, propõe-se, neste capítulo, explicitar sobre as primeiras formas de assistência direcionadas a este segmento da população; expor sobre as Doutrinas Legais na área da criança e da adolescência no Brasil a partir do Código de Menores de 1927, posteriormente com o Código de Menores de 1979, até a contemporaneidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD) e sua Política de Atendimento segundo a Doutrina da Proteção Integral.

1.1 AS PRIMEIRAS FORMAS DE ASSISTÊNCIA E POLÍTICAS DE ATENDIMENTO À CRIANÇA E AO ADOLESCENTE NO BRASIL: A LEI DO VENTRE LIVRE, A RODA DOS EXPOSTOS E A PERSPECTIVA CARITATIVA E FILANTRÓPICA
A população brasileira, nos primeiros anos após a descoberta do Brasil por Portugal, era constituída principalmente por indígenas. Com a colonização portuguesa, os povos indígenas passaram a ser doutrinado pelos portugueses, através dos padres jesuítas, que pertenciam a Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Inácio de Loyola (DALTON et al., 2005, p.16). Compreendendo, pois, que houve esse processo de doutrinação religiosa sobre os povos indígenas, salienta-se que:
A atuação da Igreja nessa tarefa era fundamentada no alto poder de dominação ideológica que a Igreja Católica Ortodoxa Romana exercia sobre a população européia. Os jesuítas tinham a incumbência de subjugar àquele povo, transmitindo os costumes europeus e a cultura de Portugal (DALTON et al., 2005, p.16).

Portanto, coube aos Jesuítas difundir os costumes europeus para os povos indígenas que residiam nas terras brasileiras.

Neste sentido, os portugueses, pela força ideológica, física e bélica dominaram e impuseram a sua cultura, modos de vida e costumes atravessando a cultura dos indígenas, o que acarretou num enorme choque cultural (DALTON et al., 2005, p.16). No intuito de provocar mudanças culturais e nos modos de vida da população indígena, os portugueses usaram as crianças e os adolescentes como “alvo” de suas ações. Portanto,
As crianças e adolescentes indígenas foram submetidos ao processo de doutrinação pelos jesuítas, que adotaram a ideologia dos colonizadores, repassando toda a carga cultural do mundo europeu a um povo que possuía outra cultura, diferente daquela que norteava a ideologia colonizadora (DALTON et al., 2005, p.16).

Nota-se, então, que as crianças nesse contexto histórico eram dominadas pelos colonizadores na imposição cultural européia. Isso posto, fez-se das crianças, consideradas fáceis de manipular, objeto de exploração para o trabalho. Neste sentido, o governo Português juntamente com a Igreja Católica impôs seu poder para que as crianças indígenas passassem a fazer parte do processo de exploração e colonização do Brasil. No entanto, os portugueses não obtiveram os resultados esperados, pois o choque cultural não permitiu o completo domínio dos indígenas pelos portugueses, ou seja, os povos indígenas possuíam seu modo de vida e uma cultura bem enraizada, e mesmo submetidos a adotar parte da cultura portuguesa, eles resistiram a dominação dos portugueses. Por esse motivo os povos indígenas foram considerados, pelos portugueses, enquanto preguiçosos, frágeis para o trabalho e de difícil controle (DALTON et al., 2005, p.17). Não tendo, portanto, sucesso no processo de dominação e aculturamento dos povos indígenas, para fazerem parte do processo de exploração e colonização do Brasil, o governo Português passa a escravizar os povos negros. Neste sentido,
Diante dessas negativas no processo de escravidão dos índios no Brasil, Portugal lança mão da escravidão e da dominação do povo negro, trazidos da África para trabalharem na exploração das riquezas e desbravamento das terras do Brasil. Essa prática já era utilizada pelos povos europeus em suas conquistas de novos territórios pelo mundo (DALTON et al., 2005, p.17).

Sempre em condições subumanas, os negros foram trazidos da África em navios negreiros, que não lhes oferecia condições mínimas de higiene, alimentação e saúde. Amontoados uns sobre os outros, esse povo fora durante séculos retirados de sua terra natal, afastados de suas famílias, rotulados como mercadoria, sendo utilizados em trabalhos penosos, desumanos com total exploração de suas forças físicas e mentais (DALTON et al., 2005, p.18).

Observa-se, então, a presença do povo negro como alvo de dominação portuguesa. Este povo passou a ser escravizado e submetido a trabalhos árduos e condições subumanas de vida. Ressalta-se, desbravamento do país. As mulheres negras tinham um valor comercial maior, pois geravam filhos, aumentando o número de escravos para os senhores, e eram alugadas como amas de leites para obtenção de lucro. Nesse período da escravidão no Brasil, “[...] crianças negras sofriam com a separação que lhes era imposta pelos senhores ao alugarem suas mães como amas de leite [...]”, pois no retorno às senzalas, as mães já não possuíam leite para amamentar seus filhos. Ressalta-se, que parcelas de escravas negras, em protesto contra a escravidão, abortavam seus filhos, para evitar que eles viessem a se tornar escravos (DALTON et al., 2005, p.18, apud Cárceres, 1995 ). Pode-se, observar neste período o descaso e a falta de atenção às crianças, uma vez que estas seriam submetidas à condição de escravas como seus pais. Neste sentido, ressaltando a figura da criança e do adolescente, destaca-se que
Os filhos dos escravos já nasciam escravos, sem qualquer tipo de prioridade ou atenção especial. Começavam a labutar desde muito cedo, a inserção deles no trabalho se dava a partir dos primeiros anos de vida. A sobrevida dos escravos era pequena, em média de 10 anos (DALTON et al., 2005, p.18, apud Arruda; Piletti, 1996).

que foram

eles os responsáveis pelo

Portanto, não havia qualquer tipo de atenção voltada aos filhos dos escravos. Estes seriam submetidos à exploração e a condições indignas de vida desde o nascimento.

A comercialização das crianças escravas se dava a partir dos 12 anos, pois a partir desta idade eles eram considerados aptos para a realização do trabalho escravo, como escravos em idade adulta (DALTON et al., 2005, p.18). Quanto ao processo de escravidão no Brasil, de acordo com Dalton e outros (2005, p. 18 e 19),
Há que se destacar que a escravidão negra não excluiu a escravidão indígena, essa ainda existia, porém, em menor proporção e atuando em diferentes trabalhos, também de exploração, dominação, que gerava extermínio das raças, tanto negra quanto indígena, como também deformidades por conta dos severos castigos.

Portanto, a escravidão negra conviveu com a indígena e, os povos escravizados, compostos por crianças, sofreram por tempos as duras e severas imposições dos senhores dominantes. Neste sentido, desde o Brasil colônia, as crianças e os adolescentes foram utilizados pela classe dominante como objeto de exploração e dominação para renderem lucros aos dominantes e ao governo brasileiro (DALTON et al., 2005, p.19). Observadas as condições postas à infância desde o período colonial, salienta-se que historicamente a atenção à criança e ao adolescente no Brasil se desenvolveu inicialmente voltada para a criança negra, filhos de escravas. Ocorreu a política de libertação dos escravos, porém esta possuía uma abertura para liberdade um tanto quanto contraditória, pois as “[...] Crianças eram colocadas “livres” após a Lei do Ventre Livre1, porém não tinham para onde ir. Inicia-se então a institucionalização no Brasil [...]” (DALTON et al., 2005, p.20). Tendo em vista a institucionalização no Brasil,
Observando-se que o processo de formação das instituições que prestavam serviços de assistência a menores, verifica-se que, no período colonial e no Império a mesma se dava em três níveis: uma caritativa, prestada pela Igreja através de ordens religiosas e associações civis; outra filantrópica, oriunda da aristocracia rural e mercantilista e, a terceira, em menor número,
1

A Lei do Ventre Livre foi instituída no ano de 1871, e foi debatida e consolidada pelo Imperador, pela Câmara, pelo Senado e pela elite cafeeira da época, onde previa a liberdade as crianças, nascidas à partir deste ano. Porém, as crianças ficavam junto à mãe até a adolescência tendo que posteriormente arcar com seus “gastos” até mais ou menos até os 21 anos.

fruto de algumas realizações da Coroa Portuguesa (DALTON et al., 2005, p.21, apud VERONESE, 1997:10).

Portanto, no período colonial e no Império a assistência aos “menores” oferecidas pelas instituições se desenvolvia segundo ações de benevolência. Considerando a Lei do Ventre Livre, cabe ressaltar, que com o advento dessa Lei não houve muitas alterações para a vida das crianças e dos adolescentes neste período. Portanto,
Essa Lei de fato, não modificou a situação já vivenciada pelas crianças e adolescentes, pois as mesmas apesar de serem consideradas libertas, ficavam sob o domínio dos senhores e eram indiretamente transformados em escravos, uma vez que essa era a condição para que eles permanecem junto aos seus pais e irmãos, bem como a toda comunidade negra da qual eles faziam parte. Quando as crianças e adolescentes não ficavam nas senzalas, por opção da mãe ou dos próprios senhores, estas eram entregues aos cuidados do Estado que as encaminhava para abrigos de caridade e filantropia (DALTON et al., 2005, p.19).

Isso posto, considera-se que a Lei do Ventre Livre contribuiu pouco para a situação das crianças e adolescentes no Brasil durante o período em questão. Além disso, houve forte presença de ações meramente caritativas e filantrópicas voltadas a este segmento da sociedade. Portanto com a promulgação desta Lei, passou-se a observar um aumento do número de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, pelas ruas das cidades e abandonados. mendicância (DALTON et al., 2005, p.20). Disseminaram-se os problemas sociais envolvendo as crianças e os adolescentes nesta condição de pobreza, de miséria e

Tendo em vista tal realidade da época,
[...] as crianças e os adolescentes permaneciam sob custódia dos senhores, quando não, eram abandonados pelas mães em organizações de caridade (Roda dos Expostos) 2 ou até mesmo em locais públicos. Perdurou durante
2

A Roda dos Expostos, criado no século XVII pelas Santas Casas de Misericórdias de caráter filantrópico, tinha como pressuposto o recolhimento de crianças filhos havidos fora do casamento, filhos de escravos, ou seja, os enjeitados de forma geral. No Brasil a primeira Roda dos Expostos foi

o período colonial e imperial o total descaso do Governo para com as diversas expressões da questão social (DALTON et al., 2005, p.20).

Portanto, observou-se nesse período a disseminação do abandono uma vez que o governo não oferecia condições para suprirem as necessidades das crianças e dos adolescentes vitimizados pela pobreza. Ressalta-se, que, enquanto organização de caridade,
A Roda dos Expostos marcou a assistência à infância nos séculos XVIII e XIX no Brasil. No entanto caracterizou-se como uma política perversa pelas condições precárias de higiene e de qualidade na assistência, levando a altas taxas de mortalidade. O financiamento das Santas Casas de Misericórdia dependia, sobretudo, de doações de particulares (DALTON et al., 2005, p.22).

Isso posto, considera-se, que assim como a Lei do Ventre Livre, a Roda dos Expostos não sucumbiu as necessidades e a atenção devida as crianças e adolescentes desse período uma vez que a política de assistência se dava pelo viés da caridade e da filantropia. No principio, portanto, as pessoas da sociedade civil solicitavam ajuda e voluntariado para as obras de beneficência, ou seja, a sociedade civil cobria as omissões do Estado utilizando-se da antiga tradição das ações filantrópicas e de caridade. Além disso, privilegiava-se o internato como a principal ferramenta de proteção oferecida à criança necessitada (PILOTTI, 1995, p. 37). Pode-se observar que inicialmente a assistência à infância se deu devido à notoriedade da pobreza a qual estas estavam submetidas desde o Brasil Colônia. As formas iniciais de assistência surgiram ao nível caritativo e filantrópico de concepções tradicionais religiosas. Sendo assim, as primeiras Políticas de assistência, voltadas à criança e ao adolescente no Brasil, possuíam um caráter de benesse. Neste viés, o Estado se omitia uma vez que se fazia uso de ações de filantropia e caridade para com a infância e a adolescência no Brasil. Ressalta-se que, como classe dominante no século XIX, a aristocracia rural também
criada na Bahia em 1726. A Roda dos Expostos foi implantada pelas Santas de Casa de Misericórdia, segundo modelo vigente nos países católicos da Europa.

custeou a política de assistência à criança e ao adolescente que era realizada através de doações aos asilos que recolhiam crianças enjeitadas, pobres, abandonadas e bastardas (DALTON et al., 2005, p.22). Com o agravamento da situação de miséria, abandono e omissão quanto a atenção à criança e ao adolescente no Brasil, o Estado passa a intervir no “Poder Familiar”, “[...] surgindo assim a necessidade de que a família, sobretudo a mãe, passasse a ter obrigações junto aos seus filhos [...]” (DALTON et al., 2005, p.23). Considera-se que várias foram as transformações políticas, sociais e econômicas que levaram ao aumento dos problemas referentes às crianças e aos adolescentes pobres. Frente a estas questões, as crianças e os adolescentes passaram a se constituir em elementos de institucionalização no Brasil (DALTON et al., 2005, p.22). De acordo com Pilotti (1995, p. 40), as instituições governamentais do sistema de assistência infantil,
[...] apareceram tardiamente em relação a outros componentes do sistema, particularmente o marco jurídico e a rede montada pelo setor privado, especialmente de origem religiosa. Isto determina que, por um lado, sejam concebidas como um adjunto ao serviço de administração de justiça para menores, desempenhando um papel subalterno no aprovisionamento de serviços de proteção e reabilitação. Por outro lado, a assistência oferecida às crianças está fortemente influenciada por concepções tradicionais que privilegiam o internamento. Neste contexto, a assistência oferecida ao menor [...] apresenta sérias limitações (PILOTTI, 1995, p. 40).

Portanto, inicialmente a atenção à infância baseava-se na irregularidade desta frente à ordem social. Tal atenção, por via de instituições governamentais do sistema de assistência infantil, apareceu tardiamente e era influenciada principalmente por concepções tradicionais religiosas não suprindo ás necessidades das crianças e dos adolescentes. Neste sentido,
[...] a institucionalização de crianças e de adolescentes no Brasil significou acima de tudo uma forma de controle social na medida em que estes foram retirados das vias públicas e institucionalizados em organizações que não lhes garantia benefícios e direitos. Essas organizações destinavam-se às crianças e aos adolescentes empobrecidos e vulneráveis socialmente (DALTON et al., 2005, p.23).

Isso posto, observa-se que a proposta de institucionalização das crianças e dos adolescentes no Brasil significou, de fato, uma estratégia do governo no sentido de “limpar” as ruas, pois compreendia-se que a permanência das crianças e adolescentes nos espaços públicos constituía uma ameaça a ordem social. Na década de 1920, o aumento e visibilidade da pobreza, a fome, abandono, entre outras expressões da questão social, em decorrência do processo de urbanização/industrialização, determinaram que as classes, tanto a burguesia modernizante como a operária organizada, questionassem quanto a intervenção do Estado sobre as expressões da questão social (PILOTTI,1995, p. 38). As situações de “irregularidade” da infância se constituíram enquanto produto regular de sociedades sobre a qual grande parte da população vivia em extrema pobreza afetando, fundamentalmente, jovens e crianças. Observou-se no Brasil a incapacidade e insuficiência de organismos administrativos no que se refere às respostas aos crescentes problemas da infância que vivia em condição de pobreza (PILOTTI, 1995, p. 42). Nesta década, portanto, em decorrência da pobreza existente, mulheres e crianças com idade imprópria para o trabalho estavam condicionadas ao trabalho insalubre e com baixos salários. Aos trabalhadores operários impunham-se longas jornadas de trabalho com condições indignas para o desenvolvimento deste. Sustentando tal informação, de acordo com Iamamoto (2005, p. 129):
É comum a observação sobre a existência de crianças operarias de até 5 anos e dos castigos corporais infligidos a aprendizes. [...] Mulheres e crianças estarão sujeitas à mesma jornada e ritmo de trabalho, inclusive no turno, com salários bastante inferiores. O operário contará para sobreviver apenas com a venda diária da força de trabalho, sua e de sua mulher e filhos. Não terá direito a férias, descanso semanal remunerado, licença para tratamento de saúde ou qualquer espécie de seguro regulado por lei.

Observa-se, portanto, que no período da industrialização foi grande e notória a incidência de crianças em situação de trabalho infantil. A mão-de-obra infantil foi muito usada na indústria, pois o salário das crianças e adolescentes significava uma ajuda para os baixos salários de suas famílias (PILOTTI, 1995, p. 61).

Constatada a necessidade de intervenção do Estado, frente ao aumento das expressões da questão social neste período, o Estado sente-se pressionado pela população e cria políticas para a área da infância. No entanto, de acordo com Pilotti (1995, p. 49):
As propostas e encaminhamentos de política para a infância fazem parte da forma como o Estado brasileiro foi se constituindo ao longo da história, combinando autoritarismo, descaso ou omissão para com a população pobre com clientelismo, populismo e um privilegiamento do privado pelo público, em diferentes contextos de institucionalidade política e de regulação das relações entre Estado e sociedade.

Apesar de se adotar políticas para a infância, estas, portanto, eram direcionadas segundo os interesses do Estado. Neste sentido, a luz de Pilotti (1995, p. 49 e 50):
A relação entre o econômico e o político se manifesta na política de encaminhamento da criança pobre ao trabalho precoce, a relação entre público e privado implica o confronto de interesses de diferentes agentes sociais e as relações de poder e ideológicas se traduzem tanto no conflito entre a esfera estatal e a esfera doméstica, por um lado, quanto no conflito entre o espaço público e os interesses privados relativos à criança [...].

Portanto, a questão da criança inserida na situação de trabalho gerou conflitos entre diferentes segmentos da sociedade, ou seja, entre aqueles do interesses públicos e aqueles do interesse privados. Neste sentido, Pilotti (1995, p. 50), afirma que a articulação do político com o econômico se referiu ao processo de valorização e desvalorização da criança enquanto mão-de-obra e se colocou enquanto uma estratégia de encaminhamento de crianças e adolescentes pobres para o trabalho naturalizando a desigualdade social, ou seja, aos pobres a função era de trabalhar. Neste sentido, os discursos e as práticas referentes às políticas para a infância eram voltados aos “desvalidos” considerados enquanto força de trabalho na qual sua sobrevivência e preparação profissional ou escolar estariam apenas ao nível da subsistência. Isso posto, ressalta-se que, naquele contexto,

As condições mínimas de trabalho para as crianças e adolescentes pobres parecem máximas aos olhos dos senhores e dos dirigentes das fábricas. Se, por um lado, fala-se em proteção à criança, em trabalho perigoso, e promulgam-se certas leis de impedimento de determinados trabalhos, por outro, a prática é de ignorar a lei, de manter e encaminhar as crianças desvalidas ao trabalho precoce e futuro subalterno, numa clara política de separação de classes ou de exclusão de vastos grupos sociais do exercício da cidadania (PILOTTI, 1995, p. 50).

Portanto, mesmo com advento de Leis de proteção ao trabalho para crianças, na época da crescente urbanização e industrialização, a legislação era desconsiderada pelos que dominavam o capital. As crianças consideradas “desvalidas” permaneciam em situação de trabalho precoce e destituídas de seus direitos de cidadania. No contexto internacional, a população infanto-juvenil passou a ser vista de forma diferenciada. Observou-se a preocupação de organizações internacionais em assegurar os direitos de crianças e adolescentes como a OIT (Organização Internacional do Trabalho) que promoveu uma das primeiras discussões a respeito dos direitos da criança (SANTOS et al., 2008, p.24). Ainda quanto ao contexto internacional ressalta-se, após a criação da OIT, a Declaração de Genebra, de 1924, que foi um dos instrumentos internacionais que consolidou a doutrina que reconhece a necessidade de proporcionar à criança uma proteção especial.3 Em destaque a OIT, constituiu-se enquanto uma fonte de importantes conquistas sociais que caracterizam a sociedade industrial. Tal Organização surgiu e se constituiu numa estrutura internacional que tornou possível buscar soluções que permitissem a melhoria das condições de trabalho no mundo regulamentando a proteção ao acidente de trabalho, férias e outros. 4 No que se refere à proteção à criança e ao adolescente, a Organização Internacional do Trabalho estabeleceu como sexto princípio a eliminação do trabalho infantil, e
3

Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conven%C3%A7%C3%A3o_Internacional_sobre_os_Direitos_da_Crian%C 3%A7a. Acesso em: 19 de junho 2009
4

Disponível em: www.oitbrasil.org.br/inst/index.php. Acesso em: 26 out. 2008.

permitiu que “os menores adultos” pudessem realizar serviço remunerado, caso não ocorresse prejuízo no processo de educação e desenvolvimento físico destes (COELHO, 1998, p. 106). Após a criação da OIT, segundo Pilotti (1995, p. 62), em 1920, realizou-se o 1° Congresso Brasileiro de Proteção à Infância tornando mais sistemática a agenda da proteção social. Em 1921, a lei orçamentária federal, Lei 4242, que combinava as estratégias da assistência a repressão, autorizou o governo a organizar um serviço de proteção e assistência ao menor abandonado e delinqüente, encarregando-se José Cândido de Albuquerque Mello Matos de consolidar as leis de proteção e assistência a menores. Neste sentido, segundo Pilotti (1995, p. 62), em 1923 (Decreto 16. 272) o Presidente da República aprovou a regulamentação da proteção e da assistência aos menores delinqüentes e abandonados, porém o Código de Menores só foi promulgado, em forma de Decreto (17. 943-A), em 12 de outubro de1927, assinado por Washington Luis. Tendo em vista, portanto, o que foi exposto até então, conclui-se que as primeiras formas de assistência e atenção à criança e ao adolescente foram voltadas àqueles considerados carentes, abandonados, infratores, ou seja, a atenção e intervenção voltava-se apenas para determinados seguimentos da população infantil. Essa lógica se perpetuou por muitos anos, como será observado através dos Códigos de Menores de 1927 e 1979. A discussão referente aos Códigos de Menores, que se constituíram enquanto Doutrina Legal de assistência e proteção à infância e à adolescência será explicitada nos itens que se seguem.

1.2 AS DOUTRINAS LEGAIS NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO BRASIL

Quanto as Doutrinas Legais voltadas à área da criança e do adolescente no Brasil, serão explicitados aqui: o Código de Menores de 1927, o Código de Menores de 1979 – reformulação do anterior – e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD) criado em 1990, marco da Doutrina da Proteção Integral da criança e do Adolescente no Brasil.

1.2.1 O Código de Menores de 1927
Anteriormente ao Código de Menores promulgado em outubro de 1927, é importante destacar que no ano de 1923, houve a criação da Fundação do Juízo de Menores, “[...] como primeira instância jurídica legal com intenção clara de atuação na área do abandono e da delinqüência de crianças e adolescentes [...]”, com destaque para o jurista Mello Matos, sendo este o primeiro da América Latina a ocupar tal posto (DALTON et al., 2005, p.25). De fundamental importância, ressalta-se, que no ano seguinte, em 1924, aconteceu a afirmação da proteção especial à criança, na Declaração de Genebra sobre os Direitos da Criança, constituindo um marco internacional significativo de reconhecimento na intervenção voltada à infância no Brasil. 5 Considerando-se, portanto, a proteção especial à criança e ao adolescente, afirmada desde 1924, e seguindo a tendência do Estado interventor na área do “menor”, destaca-se que, em 1927, é oficialmente legitimado o Código de Menores. No entanto,
Esse Código desponta como alternativa pouco eficaz no que diz respeito à assistência das crianças e dos adolescentes uma vez que os classificava por situação econômica e portando dicotomizava a infância mais uma vez, entre os pobres e os abastados. Fica claro o poder dos juizes de intervir nas situações envolvendo famílias pobres e que pudessem oferecer risco a ordem pública, segundo os preceitos da época (DALTON et al., 2005, p.25).

5

Disponível em: http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/cc/3/crianca/marco.htm. Acesso em: 20 abr. 2009.

Apesar de um avanço para a época, quanto a área da infância, o Código de menores de 1927 é lançado com meios ineficazes para a assistência das crianças e dos adolescentes, pois a assistência a partir dessa lei permanece direcionada aos segmentos dos “menores” em situação de miséria. O Código de Menores de 1927, que ficou popularmente conhecido como Código Mello Mattos, “[...] estabelecia diretrizes claras para o trato da infância excluída, regulamentando questões como trabalho infantil, tutela e pátrio poder, delinqüência e liberdade vigiada [...]” (SANTOS et al., 2008, p. 25, apud LORENZI, 2008, acesso em: 19 de agosto de 2008). Com a promulgação do Código de Menores de 1927 houve o fim da roda dos expostos, porém manteve o registro secreto para a garantia da paternidade. Tal Código estabeleceu a “proteção legal” até os 18 anos de idade, o que significou a inserção da criança no âmbito da tutela do Estado (PILOTTI, 1995, p. 63). De acordo com Pilotti, (1995, p. 63):
O Código de Menores de 1927 incorpora tanto a visão higienista de proteção do meio e do indivíduo como a visão jurídica repressiva e moralista. Prevê a vigilância da saúde da criança, dos lactantes, das nutrizes, e estabelece a inspeção medica da higiene. No sentido de intervir no abandono físico e moral das crianças, o pátrio poder pode ser suspenso ou perdido por falta dos pais. Os abandonados têm a possibilidade (não o direito formal) de guarda, de serem entregues sob a forma de “soldada”, de vigilância e educação, determinadas por parte das autoridades, que velarão também por sua moral. O encaminhamento pode ser feito à família, a instituições públicas ou particulares que poderão receber a delegação do pátrio poder. A família é, ainda que parcialmente, valorizada.

Nota-se, portanto, que a intervenção pautada no Código de Menores de 1927 se dava de forma moralista e repressiva, segundo os ditames do Código. A atenção à criança e ao adolescente era realizada sem política própria ou sistematização, ou seja, a criança pobre, abandonada e vadia, era “alvo” de medidas. “[...] Cabendo inclusive a polícia patrulhar as ruas em busca dos ditos transgressores da ordem social [...]. Portanto, nessa época, as questões relacionadas às crianças e aos adolescentes “pobres” foram consideradas casos de polícia (DALTON et al., 2005, p.25 apud RIZZINI, 1997).

Portanto, observa-se que a intenção e a direção que o Código se propunha era, de enquadramento, direcionamentos e aniquilação de tudo que não correspondesse ao que estava posto na lei. Neste sentido, o Código de Menores de 1927 foi uma forma de controle social do Estado (DALTON et al., 2005, p.25 e 26). Salienta-se que neste período fazia-se, “[...] uma fusão entre as crianças e adolescentes vítimas do empobrecimento de suas famílias, com as crianças e adolescentes que por ventura fossem autores de atos infracionais [...]”. As famílias, na maioria das vezes, eram punidas pela situação de “desviança” e de rua na qual se encontravam as crianças (DALTON et al., 2005, p. 26). Ressalta-se que, com o Código de Menores de 1927,
As crianças e adolescentes vítimas do empobrecimento, do abandono, em situação de trabalho infantil, eram retiradas das ruas numa falsa idéia de que só a limpeza, a retirada desses e a colocação em lugares criados para recebê-los trariam à sociedade a tranqüilidade almejada (DALTON et al., 2005, p. 26).

O Código de Menores caracterizou-se, portanto, por manter uma visão jurídica repressiva e moralista do indivíduo e, também, uma visão higienista de proteção do meio e do indivíduo neste. O Código de Menores de 1927, atuando segundo a lógica do menor em situação irregular, entre outras determinações, expôs que:
O vadio pode ser repreendido internado, caso a vadiagem seja habitual. O autor de infração terá prisão especial. O menor de 14 anos não será submetido a processo penal de espécie alguma (o que acaba com a questão do discernimento) e o que tiver idade superior a 14 e inferior a 18 anos terá processo especial, instituindo-se também a liberdade vigiada. O trabalho fica proibido aos menores de 12 anos e aos menores de 14 que não tenham cumprido instrução primária, tentando-se combinar a inserção no trabalho com a educação. O trabalho noturno e aquele considerado perigoso à vida, à saúde e a moral é vedado aos menores de 18 anos, com multas aos infratores e direito à fiscalização (PILOTTI, 1995, p. 63).

Portanto, pode-se observar que o Código expôs sobre a questão da situação de trabalho do denominado “menor”, explicitando a proibição do trabalho aos menores

de 12 anos. Além disso, fez algumas objeções quanto a inserção do “menor” aos trabalhos que acarretariam riscos a eles. Segundo Pilotti (1995, p. 63) o Código de Menores de 1927, formalizou a criação do Juízo Privativo de Menores e do Conselho de Assistência e Proteção a Menores, presidido pelo Ministério da Justiça. Segundo ele, as decisões referentes à criança e ao adolescente eram baseadas na índole, seja esta boa ou má, e estabelecia que ficasse a critério do Juiz, detentor do poder, junto aos diretores das instituições, de definir quais seriam os encaminhamentos institucionais das crianças e dos adolescentes em situação irregular. Neste sentido, a prática dos Juízes de Menores, (voltada para aqueles considerados excluídos da produção e das normas dominantes, considerados suspeitos e perigosos) voltava-se para o controle da ordem social. Os Juízes viam a internação em instituições como a única solução para o problema da infância abandonada e da miséria (PILOTTI, 1995, p. 73). Portanto, no Código de Menores de 1927 a prática de internação, para os ditos “menores”, alvo de medidas pelo estado de delinqüência e abandono, constituiu a principal alternativa de intervenção para com as crianças e os adolescentes neste período. De acordo com Pilotti (1995, p. 63):
Se é bem verdade que, na orientação então prevalescente, a questão da política para a criança se coloque como problema do menor, com dois encaminhamentos o abrigo e a disciplina, a assistência e a repressão, há emergências de novas obrigações do Estado em cuidar da infância pobre com educação, formação profissional, encaminhamentos e pessoal competente. Ao lado das estratégias de encaminhamento para o trabalho, clientelismo patrimonialismo, começa a emergir estratégias dos direitos da criança (no caso o menor) já que o Estado passa a ter obrigações de proteção.

Portanto, diante da Doutrina Legal estabelecida à criança e ao adolescente, através do Código de Menores de 1927, notou-se a necessidade de o Estado intervir no que tange a atenção aos “menores”, alvo de medidas do Código.

Cabe ressaltar, que:
O foco principal deste Código era baseado em medidas corretivas, isto é, fazia-se necessário educar, disciplinar, física moral e civicamente as crianças oriundas de famílias desestruturadas ou órfãs. Este Código possuía uma perspectiva individualizante do problema da população infantojuvenil, pois diante desta situação de dependência, a família era culpabilizada de forma quase que exclusiva, e não se levava em consideração os fatores estruturais que envolviam o contexto em que a aquela família estava inserida (SANTOS et al., 2008, p. 25, apud GOLLO, 2006, acesso em 19 de novembro de 2008).

Portanto, as medidas corretivas aplicadas pelo Código de Menores de 1927 visavam o enquadramento dos “menores” abandonados e/ou de famílias pobres no respeito a ordem societária. Para tanto, as famílias que descumprissem com as determinações do Código eram culpabilizadas sem que houvesse a consideração de sua estrutura social. Quanto à questão do trabalho, na década de 1930, ocorreram algumas objeções no que se refere à proibição do trabalho infantil, por parte de donos de indústrias. Neste sentido,
Reforçando a idéia do trabalho precoce de menores, em 1932 os industriais conseguem que modifiquem o Código de Menores, eliminando-se a barreira da proibição para se trabalhar antes dos 14 anos para os que estivessem em estabelecimentos onde eram empregadas pessoas de uma só família. Os insdustriais aceitariam uma redução na idade para 13 anos, mas a Constituição de 1934 fixara a idade de 14 anos. Obtêm, no entanto, do governo que se transfira para o decreto regulador do horário de trabalho a fixação da duração do trabalho de menores, que, assim, fica definido em 08 horas (PILOTTI, 1995, p. 66, apud Gomes, 1979, p. 232/233).

Portanto, na década de 1930 houve a promulgação da Constituição de 1934 que, referindo-se a questão da criança e do adolescente, estabeleceu a proibição do trabalho aos menores de 14 anos gerando tensão dos setores industriais. Na Constituição Federal de 1934, em seu preâmbulo teve-se a preocupação com o “sentimento social do direito”, ao expor como princípios básicos da Nação a liberdade, a unidade, a justiça e o bem-estar econômico e social. Nesta Constituição também houve a consolidação do ideário moralizador e liberal da Revolução de 1930 que foi uma época marcada por um crescente antiliberalismo onde as

reivindicações foram mais sociais e econômicas do que políticas (COELHO, 1998, p. 99). Segundo Coelho (1998, p. 100) a Constituição de 1934 foi a primeira Constituição brasileira na qual foram incluídas normas de proteção à criança. Segundo o autor, a necessidade de proteção à criança foi descoberta em detrimento ao forte sentimento nacionalista ocorrido neste período e que fez com que surgisse o populismo de Getúlio Vargas. De acordo com Coelho (1998, p. 100), o país, nos anos trinta, estava passando por um processo de industrialização tardia em comparação com a Inglaterra no século anterior. Assim, não querendo ver a reincidência de cenas de crianças trabalhando nas fábricas, sujeitos a todas as formas de abusos, foi delimitado que as crianças deveriam, antes de tudo, atingir maturidade intelectual e física. A proteção à criança na Constituição de 1934 se deu deste seu desenvolvimento ultra-uterino quando se incluiu a proteção à mãe. Neste sentido, foi estatuído, portanto, que “[...] é dever da União, dos Estados e dos Municípios o amparo à criança, para o qual estes deveriam destinar 1% de suas rendas [...]” (COELHO, 1998, p. 100). Portanto, na Constituição de 1934, houve a preocupação em efetivar a aplicação da norma de proteção à criança, porém não foi possível analisar a repercussão dessa proteção, pois tal Constituição revigorou por pouco tempo. A Constituição de 1934 foi demolida pelo golpe de 1937, que instituiu uma nova ordem político-jurídica no Brasil e entrou em vigor no país a Constituição Federal de 1937 (COELHO, 1998, p. 100). A Constituição de 1937 seguiu em uma época política conturbada na qual houve um grande embate entre as classes, ou seja, uma radicalização das lutas de esquerda e de direita. Tal Constituição propôs um Estado mais protetor e intervencionista. Neste sentido, no que tange a proteção à criança, esta apareceu em vários artigos desta Constituição. A primeira inserção se deu na competência privativa da União em ditar normas fundamentais de proteção e defesa da saúde da criança (COELHO, 1998, p. 100 e 101).

Portanto, de acordo com Coelho (1998, p. 102) dentro da política protetora e intervencionista do Estado, este “[...] colocou a infância e a juventude sob sua direta proteção, encarregando-se de assegurar-lhe as condições físicas e morais de vida sã, possibilitando-lhes pleno desenvolvimento. [...]”. É importante destacar que, na vigência desta Constituição, por meio do decreto-lei nº 2.024, de 17 de fevereiro de 1940, foi criado, no âmbito do Ministério da Educação e Saúde, o Departamento Nacional da Criança, subordinado diretamente ao Ministro de Estado. Este Departamento era o órgão soberano de coordenação de todas as atividades nacionais que diziam respeito à proteção à maternidade, à infância e à adolescência (COELHO, 1998, p. 103). Nesta conjuntura, na qual à atenção a infância se deu tendo em vista o Código de Menores e as Constituições dos anos posteriores, ressalta-se que, juntamente a estas Doutrinas Legais, ocorreram mudanças econômicas, sociais e políticas no País. Neste sentido, acompanhou-se, com tais mudanças, o aumento das expressões da questão social. Assim, pode-se observar um crescente aumento da incidência de atos infracionais por seguimento de crianças e adolescentes excluídos e desfavorecidos socialmente. Neste sentido, diante da disseminação dos atos infracionais, o governo de Getúlio Vargas, presidente na década de 30 e 40 adotou duras medidas de repressão. A partir de então, foram criadas organizações próprias para abrigar “os menores delinqüentes” e retirá-los do meio social 6 (DALTON et al., 2005, p. 28).

6

Que são: Legião Brasileira de Assistência (LBA): uma agencia nacional de assistência social voltada inicialmente para o apoio aos combatentes na II Guerra Mundial e suas famílias e, posteriormente, á população carente de modo geral; Fundação Darcy Vargas :organismos de cooperação financeira que apoiava a implantação de hospitais e serviços de assistência materno-infantil em diversos pontos do país; Casa do Pequeno Jornaleiro: programa de atenção a meninos de famílias de baixa renda baseado no trabalho informal (venda de jornais) e no apoio assistencial e socioeducativo; Casa do Pequeno Lavrador: programa de assistência e aprendizagem rural para crianças e adolescentes filhos de camponeses; Casa do Pequeno Trabalhador: programa de capacitação e encaminhamento ao trabalho de crianças e adolescentes urbanos de baixa renda; Casa das Meninas: programa de apoio assistencial e socioeducativo a adolescentes do sexo feminino com problemas de conduta.

Portanto, quanto ao trabalho e à educação, Pilotti (1995, p. 67) sinaliza que o Governo estabeleceu, para os denominados menores, um sistema nacional, com integração do Estado e de instituições privadas. Neste sentido, a ação do setor público foi conduzida pelo “[...] Conselho Nacional de Serviço Social (1938), Departamento Nacional da Criança (1940), o Serviço Nacional de Assistência a Menores (SAM, 1941) e Legião Brasileira de Assistência (LBA, 1942) [...]”. O Serviço Nacional de Assistência a Menores (SAM) foi criado no período considerado especialmente autoritário do Estado Novo. Tal Serviço:
Tratava-se de um órgão do Ministério da Justiça e que funcionava como um equivalente do sistema Penitenciário para a população menor de idade. Sua orientação era correcional-repressiva. O sistema previa atendimento diferenciado para o adolescente autor de ato infracional e para o menor carente e abandonado (MILANEZI, 2004, p. 13).

Observa-se, portanto, que o SAM possuiu uma orientação pautada na correção e repressão. Além disso, diferenciou o atendimento às crianças e aos adolescentes segundo suas características e ato cometido. A implantação do SAM, segundo Pilotti (1995, p. 68), teve mais a ver com a questão da ordem social que da assistência. O SAM, que tinha o dever de orientar a política pública para a criança, foi redefinido em 1944 (Decreto Lei n. 6865). Tal instituição, vinculada ao Ministério da Justiça e aos juizados de menores, tinha como competência:
[...] orientar e fiscalizar educandários particulares, investigar os menores para fins de internação e ajustamento social, proceder ao exame médicopsico-pedagógico, abrigar e distribuir os menores pelos estabelecimentos, promover a colocação de menores, incentivar a iniciativa particular de assistência a menores e estudar as causas do abandono [...] (PILOTTI, 1995, p. 68).

Estas foram, portanto, competências próprias do Serviço Nacional de Assistência a Menores. Com o advento do SAM, este passou a supervisionar e controlar as instituições particulares que só podiam receber subsídios após audiência junto ao Serviço Nacional de Assistência a Menores. Ao Juizado de Menores coube apenas fiscalizar

o regime educativo e disciplinar os internatos, o que levou a uma redução do poder dos Juízes (PILOTTI, 1995, p. 68). No que diz respeito à Legião Brasileira de Assistência (LBA) – agência nacional de assistência social criada pela primeira dama que se caracterizava enquanto uma instituição voltada primeiramente ao atendimento de crianças órfãs – tinha, entre outros, o propósito de prover as necessidades dos familiares, executando seu programa através da colaboração entre a iniciativa privada e o poder público. Neste sentido, a LBA visava, também, “[...] promover serviços de assistência social, prestar decidido concurso ao governo e trabalhar em favor do processo de serviço social no Brasil [...]”. A LBA ampliou seu leque de ação a entidades assistenciais do Brasil todo e deu auxílio a idosos, estímulo às creches, auxílio aos doentes e, também a grupos de lazer, ou seja, inseriu estes segmentos na estratégia assistencialista do Estado (PILOTTI, 1995, p. 68). Em meio a este contexto, no ano seguinte à criação da LBA, em 1943, a consolidação das Leis do Trabalho regulamentou a proteção ao trabalho do menor, proibindo-o até 14 anos, com exceção do trabalho nas instituições beneficentes ou de ensino, e restringiu algumas modalidades de trabalho entre 14 e 18 anos. Ressalta-se, que Marcondes Filho, Ministro do Trabalho, criou, neste contexto, uma Comissão Revisora do Código de Menores adaptando-o às novas leis e concretizando no Decreto-Lei n°6026 de 24 de novembro de 1943 (PILOTTI, 1995, p. 67, apud BRITTO, 1959, p. 570). Ressalta-se que o Governo de Getúlio Vargas foi deposto no ano de 1945 e uma nova constituição foi promulgada em 1946. Esta constituição, que possuía um caráter liberal, levou ao retorno das instituições de caráter democrático. Além disso, “[...] restabeleceu a independência entre os 3 Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), trouxe de volta o pluripartidarismo, a eleição direta para presidente (com mandato de cinco anos), a liberdade sindical e o direito de greve [...]”. Extinguiu, também, a pena de morte e a censura (MILANEZI, 2004, p. 14). Tal Constituição, em seu inciso IX, colocou a norma de proibição do trabalho aos menores de 14 anos e do trabalho de menores de 18 anos em indústrias insalubres e em trabalho noturno. Como última norma de proteção à criança, na Constituição

de 1946, determinou-se, no art. 164, a obrigação de dar assistência à infância e à adolescência, e, também, amparo às famílias constituídas por um grande número de pessoas (COELHO, 1998, p. 106). No ano de 1950, foi instalado o primeiro escritório do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Brasil, em João Pessoa, na Paraíba. Ressalta-se, que seu primeiro projeto foi destinado às iniciativas de proteção à saúde da gestante e da criança, em alguns estados do nordeste no Brasil (MILANEZI, 2004, p. 14). Em 1959 houve a aprovação, pela Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), da Carta dos Direitos Universais da Criança, que estava em pauta desde o ano de 1924. Tal Carta trouxe “[...] novas diretrizes no tratamento dispensado às crianças e aos adolescentes, reconhecendo-se a partir deste momento que a eles devem ser dispensados cuidados especiais [...]” – proteção especial – própria a idade. Com isso, a Carta de 1924 é aperfeiçoada e aplicada, na qual a criança passou a ser vista enquanto detentora de direitos (DALTON et al., 2005, p. 29, apud Marcílio, 1998). Neste sentido, salienta-se que,
Sob a influência da Carta dos Direitos Universais das Crianças, o Estado é chamado a assumir a responsabilidade pela assistência e proteção á infância vulnerável. Começa então, a ser construída a fase de assistência e proteção á infância que, no Brasil tem início com tímidas iniciativas voltadas para as famílias pobres (DALTON et al., 2005, p. 29, apud Marcílio, 1998).

Observa-se, portanto, que no fim da década de 1950, com a aprovação da Carta dos Direitos Universais das Crianças pela ONU, o Brasil passou a desenvolver, mesmo que timidamente, a assistência e proteção à criança e ao adolescente, no país, considerando-os em seus direitos. Portanto, no início da década de 60, em virtude das lutas de movimentos sociais em prol da defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes no Brasil, as crianças e os adolescentes passam a ganhar maior visibilidade, mesmo que as atenções a eles tenham se dado de forma residual (DALTON et al., 2005, p. 29).

Ressalta-se que a década de 1960 marcou o início da Ditadura Militar, com o Golpe de 1964, onde os militares tomaram o poder no Brasil e passaram a direcionar e controlar a vida da população brasileira. Neste contexto, “[...] as políticas públicas também passaram para o controle dos militares, as crianças e os adolescentes como não poderiam deixar de ser, passaram a ser orientados e controlados sob esta ótica [...]”. Nesse sentido, destaca-se a importância da educação, como instrumento ideológico com o objetivo de doutrinar segundo a orientação da Ditadura Militar, controlar as crianças e os adolescentes de classes pobres e fortalecer a força produtiva do país, em principal (DALTON et al., 2005, p. 29 e 30). Neste panorama, em 1964 ocorreu à extinção do SAM e aprovação de um novo órgão, a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (FUNABEM), sem subordinação ao Ministério da Justiça e ao presidente da República (PILOTTI, 1995, p. 75). Para tanto,
A Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor tinha como objetivo formular e implantar a Política Nacional do Bem Estar do Menor, herdando do SAM prédio e pessoal e, com isso, toda a sua cultura organizacional. A FUNABEM propunha-se a ser a grande instituição de assistência à infância, cuja linha de ação tinha na internação, tanto dos abandonados e carentes como dos infratores, seu principal foco (MILANEZI, 2004, p. 15).

A FUNABEM se constituiu, portanto, enquanto uma instituição, de internação, de respaldo no que tange a assistência à criança e ao adolescente em situação de abandono, de ato infracional e de carência. Com o golpe, a presença autoritária do estado tornou-se uma realidade. Houve restrição à liberdade de expressão e opinião, além de “[...] recuos no campo dos direitos sociais e instituição dos Atos Institucionais que permitiam punições, exclusões e marginalizações políticas [...]”. Estas eram algumas das medidas da nova ordem que golpe havia trazido. Portanto, para condicionar um novo direcionamento dos direitos sociais foi promulgada em 1967, uma nova constituição (MILANEZI, 2004, p. 15).

Segundo Pilotti (1995, p. 82), neste período destaca-se que a situação de miséria se evidenciava cada vez mais no Brasil fazendo com que crianças fossem levadas ao trabalho. Neste sentido,
A Constituição de 1967 (art. 158, X) reduz a idade da proibição para o trabalho até 12 anos, visando a incorporar mais cedo a mão-de-obra ao mercado de trabalho, reforçando a estratégia de utilização precoce de mãode-obra infantil. Obriga-se também as empresas a ministrarem, em cooperação, aprendizagem a seus trabalhadores menores, incluindo-se esta obrigação também para os trabalhadores adultos e seus filhos (art. 170) (PILOTTI, 1995, p. 82).

Portanto, na década de 1960, período de grande crise econômica, houve a redução, da idade de proibição para o trabalho, para 12 anos. Observa-se, portanto, que a criança torna-se e, é solicitada, enquanto mão-de-obra para levantar a economia do país e lucros para o capital. Ressalta-se, portanto, que no período militar houve a elaboração de duas leis significativas e que indicavam a visão vigente para a área da infância: a Lei 4.513 de 01/12/1964 que criou a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor – citada acima –, e a Lei 6697 de 10/10/1979 que promulgou o Código de Menores de 1979, que será explicitada no item que se segue (MILANEZI, 2004, p. 15).

1.2.2 O Código de Menores de 1979
Em 1974 foi apresentando um projeto de lei do senador Nelson Carreiro para a reformulação do Código de Menores de 1927. A Associação Brasileira de Juízes de Menores acompanhou e modificou o projeto. Este foi analisado pelo Executivo no Ministério da Justiça em contato com os juízes de menores. Todas as áreas que tinham responsabilidade no que tange ao atendimento de crianças e adolescentes no Brasil consentiram com o texto apresentado. Assim, em 1979 promulgou-se o Novo Código de Menores, sendo este, portanto, uma revisão do Código anterior (PILOTTI, 1995, p. 80). O Código de 1979, no entanto,

[...] não [rompeu] [...] com sua linha principal de arbitrariedade, assistencialismo e repressão junto a população infanto-juvenil. Esta lei introduziu o conceito de “menor em situação irregular”, que reunia o conjunto de meninos e meninas que estavam dentro do que alguns autores denominam infância em “perigo” e infância “perigosa”. Esta população era colocada como objeto potencial da administração da Justiça de Menores (MILANEZI, 2004, p. 15).

Neste sentido, o Código de Menores de 1979 não deixou de direcionar a intervenção de forma arbitrária e repressiva para os “menores” designados em situação irregular frente a ordem societária, uma vez que estes eram considerados, pela população da época, um perigo à sociedade. Pilotti (1995, p. 80), afirma que, o “novo” Código de Menores adotou notoriamente a doutrina da situação irregular, na qual os menores seriam assistidos quando se encontrassem em estado de patologia social, definida por lei. Assim, o Código de 1979 definiu como situação irregular:
[...] a privação de condições essenciais à subsistência, saúde e instrução, por omissão, ação ou irresponsabilidade dos pais ou responsáveis; por ser vítima de maus tratos; por perigo moral, em razão de exploração ou encontrar-se em atividades contrárias aos bons costumes, por privação de representação legal, por desvio de conduta ou autoria de infração penal. Assim as condições sociais ficam reduzidas à ação dos pais ou do próprio menor, fazendo-se da vítima um réu e tornando a questão ainda mais jurídica e assistencial, dando-se ao juiz o poder de decidir sobre o que seja melhor para o menor: assistência, proteção ou vigilância. Na prática consagra o que vinha fazendo a FUNABEM [...]. O novo Código, no entanto, facilita a adoção, e embora não obrigatório no processo, é previsto o contrário (PILOTTI, 1995, p. 81).

Portanto, com o Código de Menores de 1979, houve a introdução do conceito “menor em situação irregular”, considerando situação irregular a falta dos elementos necessários para a sobrevivência, manutenção e desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, assim como a conduta social imprópria infringindo a ordem societária. Tendo em vista as direções postas por essa Lei, segundo Milanezi (2004, p. 16), “[...] a concepção política social implícita no Código de Menores, era a de um Instrumento de controle social dirigido às vítimas de omissão e transgressões da família, da sociedade e do Estado [...]”.

Quanto ao contexto, marcado pelo militarismo, é importante ressaltar que:
A sociedade civil durante o período da Ditadura Militar [...], permaneceu excluída das decisões políticas, econômicas e sociais do país. Essa exclusão era normatizada, regulamentada e fiscalizada pelos militares. Porém, é errôneo pensar que essa sociedade civil realmente ficou a parte das articulações, mobilizações e reivindicações críticas desse momento. Sua atuação politizada cresceu consideravelmente nesse período, mesmo que de forma clandestina, e a partir de 1979 passa a ganhar força e notoriedade (DALTON et al., 2005, p. 31).

Neste sentido, salienta-se que os movimentos sociais durante o período Militar se difundiram, uma vez que a direção societária imposta pelo Governo desagradava e atingia a população negativamente. Com o crescimento desses movimentos pode-se observar, também, a acentuada preocupação de segmentos da sociedade com a questão da criança e o adolescente. Portanto, a luta e mobilização em prol das crianças e dos adolescentes condicionaram, de forma gradativa, os cidadãos aos debates em favor de assistência mais comprometida com a questão da criança e do adolescente no país. Neste sentido, houve a conquista de categorias da sociedade que começaram a reivindicar um ideal mais justo de proteção e de direito que assegurasse a criança e ao adolescente sua integridade social e física (DALTON et al., 2005, p. 31). Neste sentido, na década de 1980, em conseqüência da abertura política do país, no âmbito da infância e da adolescência houve uma forte mobilização nacional, com repercussão internacional, visando à defesa dos direitos de crianças e de adolescentes e reivindicações por mudanças no Código de Menores, na busca de promover uma mudança das concepções da sociedade e nas políticas judiciais e sociais do Estado quanto à atenção à criança e ao adolescente (SILVA, 2005, p. 31 e 32). Portanto, na década de 1980 “[...] os ideais de reformulação da política de assistência à criança e ao adolescente se confluem com os ideais de libertação do sistema ditatorial vigente [...]” através da queda do governo militar e conquista de um modelo de estado mais democrático (DALTON et al., 2005, p. 32).

Isso posto, a década de1980, caracterizou-se pela redemocratização do país, na qual puderam se observar a expansão de movimentos sociais e a presença de atores sociais visando lutar por conquistas de direitos. Portanto, nesse momento a sociedade civil se destaca e representa alguns segmentos da sociedade para impulsionar a intervenção do governo na efetivação e constituição de direitos para a população. Portanto, com o fim da Ditadura Militar e a conquista da abertura política, o Brasil passou a ser conduzido por paradigmas democráticos, que passaram a valorizar a atuação da sociedade civil junto às decisões do governo (DALTON et al., 2005, p. 32). Pilotti (1995, p. 86) destaca algumas ações do governo surgidas no início dos anos 1980. Segundo o autor,
Com a introdução de uma nova contribuição social sobre o faturamento das empresas, o FINSOCIAL (1982), torna-se possível a ampliação de recursos para o Estado. O Governo Sarney com o discurso de “tudo pelo social” cria uma Secretaria de Ação Comunitária, vinculada diretamente à Presidência da República que se volta basicamente para um programa de distribuição de tickets de leite às populações pobres das periferias das cidades através das próprias associações comunitárias. O programa assume um caráter desmobilizador das ações reivindicativas, ao mesmo tempo em que relança intervenções populistas, pontuais, clientelistas, desvinculadas da cidadania (PILOTTI, 1995, p. 86).

Mesmo com aparatos legais em torno da criança e ao adolescente nos anos 1980, Pilotti (1995, p. 86), chama atenção para a crise econômica, que agravou a situação da criança neste período. Segundo ele, a visibilidade da miséria da infância apareceu nas ruas em destaque para “a figura do Menino e da Menina de Rua”, principalmente nos grandes pólos. Neste período, de redemocratização do país e de notoriedade da figura do Menino e da Menina de Rua, houve a criação do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) que influenciou juntamente com outros atores sociais na elaboração da Constituição Federal de 1988 no que tange a atenção à área da criança e da adolescência. É importante ainda salientar, quanto ao MNMMR, que

este constituiu numa grande referência no processo de desconstrução do paradigma da “situação irregular” do Código de menores de 1979 (SILVA, 2005, p. 32). Em outubro de 1988, em decorrência dos movimentos sociais da década anterior, foi promulgada a Constituição Brasileira, que introduziu modelo diferenciado de gestão das políticas sociais, através do incentivo à participação ativa das comunidades por via dos conselhos consultivos e deliberativos. Portanto, a Constituição Federal de 1988 configurou um grande avanço na área social no que tange o controle social (MILANEZI, 2004, p. 17). Houve a organização de um grupo de trabalho, na Assembléia Constituinte, comprometido com o tema da criança e do adolescente, que conduziu a elaboração do artigo 227. Tal Artigo “[...] introduziu conteúdo e enfoque próprios da Doutrina de Proteção Integral da Organização das Nações Unidas, trazendo os avanços da normativa Internacional para a população infanto-juvenil brasileira [...]”. Neste sentido,
Este artigo garantia às crianças e adolescentes os direitos fundamentais de sobrevivência, desenvolvimento pessoal, social, integridade física, psicológica e moral, além de protegê-los de forma especial, ou seja, através de dispositivos legais diferenciados, contra negligências, maus tratos, violência, exploração, crueldade e opressão. [...] Estavam lançadas, portanto, as bases do Estatuto da Criança e do Adolescente (MILANEZI, 2004, p. 17).

Portanto, em meio ao processo de construção e elaboração da Constituição Federal de 1988, a atenção à criança e ao adolescente foi impulsionada por movimentos e profissionais comprometidos em prol da criança e do adolescente. Com isso,
Os direitos da criança perpassam as diferentes áreas, mas ficam bem estabelecidos no Artigo 227, 228, 229 da Constituição de 1988. Garante-se à criança e ao adolescente, “como dever do Estado e da sociedade os direitos à vida, à saúde, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. A inimputabilidade penal fica definida até os 18 anos, e o trabalho proibido até a idade de 14 anos, salvo na condição de aprendiz (art. 7, item XXXIII) (PILOTTI, 1995, p. 85).

Observa-se, portanto, que a Constituição Federal de 1988 faz menção aos direitos da criança e do adolescente em três Artigos, que foram fruto de ação de movimentos e profissionais em torno do direito deste segmento da sociedade. Tendo por foco as ações de articulação clientelista do governo nos anos 1980, observa-se a criação de um programa de encaminhamento de crianças para o trabalho. Tal política denominou-se por “Programa Bom Menino” (foi instituído pelo Decreto-lei 2.318/86 e regulamentado pelo Decreto 94.338/87) que foi destinada à iniciação ao trabalho do menor assistido com idade de 12 a 18 anos. Para tanto, criou-se uma bolsa de trabalho e a obrigação da freqüência na escola. As empresas com mais de 5 empregados, deviam possuir 5% do quadro técnico com esta condição de contrato, “[...] com jornada máxima de 4 horas e remuneração de meio salário mínimo, sem que gere vínculo empregatício ou encargos previdenciários ou do FGTS para as empresas [...]” (PILOTTI, 1995, p. 87). Sendo assim, Pilotti (1995, p. 88) dá destaque ao que se pode denominar de programas alternativos. Segundo o autor,
As políticas e práticas de internação, na década de 1980, vão sendo confrontadas com políticas e práticas de atendimento direto nas ruas e de redes de trabalho. As mudanças políticas globais e o trabalho de militantes junto aos movimentos sociais vão se refletindo na ação junto a criança e adolescentes, então chamada de “projetos alternativos” em confronto com a estratégia de internação e repressão (PILOTTI, 1995, p. 88).

Portanto, pode-se observar que as ações através de programas alternativos, surgidos nos anos 80, confrontaram as políticas e as práticas de internação que eram adotadas e contidas no Código de Menores. Neste sentido, os projetos se desenvolveram através de organizações não governamentais em áreas de cerâmica, venda de produtos, formação profissional, alfabetização, ensino religioso. É importante ressaltar que foi a partir da articulação desses projetos que surgiu o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), – citado anteriormente – que realizou três encontros nacionais nos anos de 1986, 1989, 1993, em Brasília e “[...] que contribuíram significativamente para trazer a questão da política para a infância como debate nacional [...]” na qual as

crianças e adolescentes passaram a ser considerados sujeitos de direitos (PILOTTI, 1995, p. 88 e 89). Neste sentido,
Além de ter um papel ativo na Constituição junto com o UNICEF, o MNMMR contribui para a mobilização da sociedade no sentido de aprovar e exigir a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, juntamente com intelectuais, juízes progressistas, promotores, Pastoral do Menor, parlamentares. Vários encontros são realizados, negociações e pressões para que a lei fosse aprovada em tempo recorde, ou seja, menos de dois anos após a promulgação da Constituição em 5 de outubro de 1988. A direção do CBIA [Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência] também deu apoio significativo para a aprovação da lei (PILOTTI, 1995, p. 89).

Portanto, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua em conjunto com intelectuais, juízes progressistas, promotores, profissionais, Pastoral do Menor, parlamentares e sociedade mobilizada, contribuíram significativamente para a aprovação e legitimação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil consolidado em julho de 1990. Importa salientar, que no âmbito internacional:
[...] a conjuntura que antecedeu a aprovação do ECA – nas décadas de 1970 e 80 – passava por mudanças substanciais na conformação de uma fase mais evoluída do capitalismo conhecida como globalização. As metamorfoses na relação capital/trabalho alteraram o padrão fordista de produção e o gerenciamento da força de trabalho, passando a vigorar o toyotismo que introduziu a gestão da acumulação flexível e seus desdobramentos. Na economia política, o neoliberalismo proponha um Estado mínimo para enfrentar a crise do capitalismo. Essas transformações, juntamente com a revolução informacional, provocaram um processo de “reestruturação produtiva”, de desemprego estrutural, de precarização das relações de trabalho e outras mudanças que tiveram como conseqüência, dentre tantas, o xenofobisbo, a tolerância zero, sobretudo com o aparecimento de novas expressões da questão social (SILVA, 2005, p. 33).

Portanto, internacionalmente, no contexto que antecedeu a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil, ocorriam mudanças no modo de produção, que provocaram o processo de reestruturação produtiva, no qual se notou, consideravelmente, um aumento do desemprego, formas de contratação diferenciada, entre outros. Neste sentido, com o novo modelo de produção e com a atuação mínima do Estado no âmbito social, proposta de neoliberalismo que já imperava, notou-se o agravamento e novas expressões da questão social.

Tendo em vista o agravamento e novas expressões da questão social, passa-se a haver uma forte repercussão internacional quanto a defesa dos direitos da infância e da adolescência. Neste sentido, enquanto contribuição para impulsionar o surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, salienta-se que em 1989 as Nações Unidas aprovaram a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, regulamentando a chamada “proteção integral”, que institui a cidadania das crianças e dos adolescentes, assim como o sistema de garantias de direitos. Isso posto, destaca-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi institucionalizado através do “[...] movimento dialético entre a conjuntura nacional e a internacional que caminhava na direção ao neoliberalismo [...]” (SILVA, 2005, p. 37). O Estado brasileiro, portanto, a partir da aprovação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança foi um dos primeiros a tornar-se parte deste instrumento, em 1990, comprometendo-se, assim, a proteger integralmente os direitos humanos da criança, assim como preconizado na Constituição Federal (1988) e no Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), diplomas legais que refletiram o debate internacional dos direitos humanos das crianças feito no processo de elaboração da Convenção sobre os Direitos da Criança (MARSOLIN, 2009). Isso posto, quanto ao surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, salientase que este:
[...] nasceu em resposta ao esgotamento histórico-jurídico e social do Código de Menores de 1979. Nesse sentido, o Estatuto é processo e resultado porque é uma construção histórica de lutas sociais dos movimentos pela infância, dos setores progressistas da sociedade política civil brasileira, da “falência mundial” do direito e da justiça menorista, mas também é expressão das relações globais internacionais que se reconfiguravam frente ao novo padão de gestão de acumulação flexível do capital. É nos marcos do neoliberalismo que o direito infanto-juvenil deixa de ser considerado um direito “menor”, “pequeno”, de criança para se tornar um direito “maior” equiparado ao do adulto” [...] É no movimento endógeno [nacional] e exógeno [internacional] que consideramos o ECA uma conquista tardia das lutas sociais [...] (SILVA, 2005, p. 36).

Portanto, o estatuto da criança e do Adolescente no Brasil é resultado do movimento nacional e internacional em prol da criança e do adolescente, num período marcado por mudanças nos padrões de produção e agravamento das expressões da questão

social com o advento da reestruturação produtiva e implantação do neoliberalismo no Brasil pelo governo Collor de Mello.

1.2.3 O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECRIAD)
O surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, em julho de 1990, se deu após dois anos da promulgação da Constituição Federal de 1988. O Estatuto revogou o Código de Menores de 1979 e expôs a Doutrina da Proteção Integral excluindo a Doutrina da Situação Irregular adotada pelo Código de Menores de 1979. Neste sentido, a Doutrina da Proteção Integral, contida no Artigo 1º do Estatuto da Criança e do Adolescente:
[...] reconhece a criança e o adolescente como cidadãos; garante a efetivação dos direitos da criança e do adolescente; estabelece uma articulação do Estado com a sociedade na operacionalização da política para a infância com a criação dos Conselhos de Direitos, Conselhos Tutelares e dos Fundos geridos por esses conselhos; descentraliza a política através da criação desses conselhos em nível estadual e municipal estabelecendo que em cada Município haverá no mínimo, um conselho tutelar, composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local, de acordo com a lei municipal; garante à criança a mais absoluta prioridade no acesso às políticas sociais; estabelece medidas de prevenção, uma política especial de atendimento, um acesso digno à Justiça com a obrigatoriedade do contraditório. O ECA é consoante à Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, adotada pela Assembléia Geral da UNO em 20/11/1989 (PILOTTI, 1995, p. 89 e 90).

Portanto, o Estatuto trouxe detalhadamente os direitos da criança e do adolescente já em forma de diretrizes gerais para uma política nessa área. Como exposto anteriormente, ressalta-se que foi na conjuntura marcada pela implementação do projeto neoliberal no Brasil que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado. Salienta-se, portanto, que tal projeto, bem como sua manutenção, repercutiu negativamente nas políticas sociais voltadas para a criança e ao adolescente a partir dos anos 1990. Neste sentido, considera-se que:

O aprofundamento do projeto neoliberal na década de 90 restringe a participação do Estado no que tange os direitos sociais, e enaltece sua atuação junto ao mercado financeiro. O dever do Estado de conferir políticas públicas tais como educação, saúde, moradia, alimentação dentre outras têm ficado comprometido quando suas prerrogativas de governo estão aliadas a um projeto que prioriza o capital em detrimento do social. As políticas focalizadas, segmentadas e compensatórias são resultado do corte de verbas para a área social, do sucateamento dos equipamentos e da insuficiência de recursos humanos (DALTON et al., 2005, p. 42).

Pode-se observar, então, que com a adesão ao projeto neoliberal nos anos de 1990, o Governo brasileiro voltou-se necessariamente aos interesses econômicos e restringiu sua atuação no âmbito social, mesmo com o conhecimento dos direitos conquistados pela sociedade até então. Caberia ao Estado garantir o bem comum, os direitos e a manutenção dos mínimos sociais capazes de proporcionar às crianças e aos adolescentes o acesso aos bens e serviços. No entanto, a sociedade civil organizada continuou a desenvolver grande parte das políticas de atendimento na área social, uma vez que o Estado se configurou mínimo (DALTON et al., 2005, p. 42). A questão principal, no entanto, é que nesta conjuntura segmentos da sociedade se mostram ainda mais fragilizados uma vez que o contexto neoliberal agrava ainda mais a situação das famílias desfavorecidas socialmente, ao se ampliar a distância entre as classes através da maior concentração de renda em favor das classes dominantes da sociedade. Neste sentido as famílias das classes pobres têm cada vez menos acesso a bens e serviços necessários à sua manutenção (MILANEZI, 2004, p. 27). Com o Estatuto da Criança e do Adolescente, criado nesse contexto, notou-se um novo direcionamento para a proteção deste segmento da sociedade. Neste sentido:
No Estatuto os direitos são expressos com enfoque radicalmente inovador, rompendo com as formas assistencialistas, inquisitórias e estigmatizantes tradicionais, expressas no anterior Código de Menores que vigorou de 1927 até 1990, tendo formulações comprometedoras com o período da ditadura militar (MILANEZI, 2004, p. 22).

Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente rompe com o tradicionalismo expresso no Código de Menores.

A Doutrina da Proteção Integral adotada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, de acordo com Liberati “[...] é baseada nos direitos próprios e especiais das crianças e adolescentes que, na condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, necessitam de proteção diferenciada, especializada e integral [...]” (MILANEZI, 2004, p.22, apud LIBERATI, 1991). Isso posto, o Estatuto coloca a proteção diferenciada por impor uma diferença entre o tratamento que se deve dar à minoridade e à maioridade, considerando a minoridade sendo um processo de desenvolvimento pessoal da criança e do adolescente. Delibera sobre a proteção especializada, pois tal proteção destina-se a todas as crianças e aos adolescentes sem exceção. E, por fim dispõe sobre a proteção integral, uma vez que a atenção às crianças e aos adolescentes deve se realizar sem qualquer discriminação (MILANEZI, 2004, p. 22 e 23). Passou-se, portanto, com o Estatuto, a considerar as crianças e os adolescentes enquanto sujeitos em formação devendo ser respeitado e garantido seus direitos como posto nesta lei. Ressalta-se, que entre outras determinações,
O Estatuto impõe a condição sobre o interesse superior, que deve ser as crianças e os adolescentes. Em todas as circunstancias, crianças e adolescentes devem ser atendidos como prioridade absoluta, cumprindo assim o acesso aos direitos. Crianças e adolescentes passam a ser considerados cidadãos, com direitos pessoais e sociais garantidos, desafiando os governos municipais a implementarem políticas públicas especialmente dirigidas a esse segmento (MILANEZI, 2004, p. 23).

Portanto, o Estatuto da Criança e do Adolescente inova, também, ao tratar sobre a questão da prioridade absoluta. Neste sentido, expõe que o governo deve direcionar prioritariamente a atenção e as políticas para este segmento da sociedade. Tendo em vista, portanto os novos direcionamentos da atenção à criança e ao adolescente, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, segundo Milanezi (2004, p. 23), “[...] A concepção política social implícita é a de um Instrumento de desenvolvimento social, garantindo proteção especial àqueles segmentos considerados pessoal e socialmente mais sensíveis” (MILANEZI, 2004, p. 23).

Portanto, nota-se que o Estatuto trouxe uma grande inovação no que tange a atenção à criança e ao adolescente no Brasil. A partir da Doutrina da Proteção Integral todas as crianças e adolescentes passaram a ser considerados enquanto sujeitos de direitos, independente de sua situação social, ou seja, reconheceu-se que todas as crianças e adolescentes são cidadãos de direitos. Além disso, enquanto pessoas em desenvolvimento possuem prioridade absoluta no atendimento devendo-lhes ser garantido o acesso aos seus direitos expressos detalhadamente no ECRIAD.
Os direitos à vida, à saúde, à liberdade, ao respeito, à dignidade, à convivência familiar e comunitária, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, à profissionalização e à proteção no trabalho estão expressos nos Direitos Fundamentais, do Estatuto da Criança e do Adolescente (MILANEZI, 2004, p. 23).

Portanto, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente, as crianças e os adolescentes passam a ser considerados sujeitos em desenvolvimento. Além disso, com o avanço jurídico, da proteção integral, a criança e o adolescente passam a ser vistos, também, como sujeito em situação especial (MILANEZI, 2004, p. 24). Neste sentido, a partir do ECRIAD as crianças e os adolescentes passam a ser considerados sujeitos de direitos e não mais meros objetos de intervenção estatal ou da sociedade civil. Em 12 de outubro de 1991 foi promulgada a lei N. 8. 242 que criou o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). A instalação do CONANDA representou o estabelecimento de uma mudança institucional, pois o Conselho possibilitou um impulsionamento da implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente, que trouxe uma mudança fundamental nas políticas anteriores que dizem respeito à infância. Houve, também, um forte movimento para se implantar os conselhos de direitos e os conselhos tutelares dentro da perspectiva de participação e municipalização do ECRIAD (PILOTTI, 1995, p. 91). Pilotti (1995, p. 92), sinaliza que em janeiro de 1995, o Presidente Fernando Henrique Cardoso extinguiu o CBIA (Centro Brasileiro para a Infância e a Adolescência), – criado em 1990 para substituir a antiga FUNABEM –, juntamente

com os Ministérios da Integração Regional e do Bem-Estar Social, e transferiu para o Ministério da Justiça o acompanhamento relativos a questão dos direitos da criança e do adolescente. Segundo Pilotti (1995, p. 92) o mito do trabalho infantil, como modo de encaminhamento da criança para vida, se manteve nas relações de produção e na cultura no final de século XX. Houve, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente, “[...] o direito à profissionalização, à aprendizagem profissional, à proteção ao trabalho com todos os direitos trabalhistas [...]”. Com o Estatuto da Criança e do Adolescente o Ministério Público Federal, o Ministério do Trabalho, e a Secretaria da Polícia Federal firmaram um Termo de Compromisso visando a erradicação de trabalho ilegal de crianças e adolescentes, a sua prevenção e repressão. Para tanto, o autor afirma que:
[...] a presença da miséria, da barbárie, do trabalho precoce, da repetência convivem na sociedade brasileira com um esforço de parte da sociedade, de parte do Estado para reverter esta situação, configurando-se um país dual onde se conflitam estratégias de clientelismo com as de cidadania, de encaminhamento ao trabalho precoce com as de proteção ao trabalho da criança, de violência e de defesa dos direitos [...] (PILOTTI, 1995, p. 93).

Portanto, nota-se, com tal citação, que apesar da promulgação do Estatuto da Criança e do adolescente, ainda há a perpetuação, por parte da sociedade e do Estado, de certa contradição, à medida que crianças e adolescentes permanecem em condição de trabalhadores e passam a ter proteção de todos os direitos trabalhistas, ou seja, utilizam-se estratégias para que a criança permaneça de certa forma, impulsionando o desenvolvimento da economia e conseqüentemente favorecendo o capital. Como visto anteriormente, até meados de 1980 o trabalho infantil foi tolerado pelo governo e pela sociedade. O problema era praticamente ignorado ou aparecia diluído em meio às questões sobre crianças que estavam à mercê da sociedade. A partir dos anos 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu em seu artigo 60 capítulo V a proibição de qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz (BRASIL, 1990).

As novas linhas de ação da Política de Proteção Integral, contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente, solicitam uma modificação dos serviços da “política de atendimento” à criança e ao adolescente expressos em políticas sociais, “[...] cuja inclusão seja decorrente de um processo de reconhecimento e de garantia dos direitos que venham a suprir as necessidades de desenvolvimento dos mesmos [...]” (MILANEZI, 2004, p. 24). No entanto, o atendimento à criança e ao adolescente, a partir dessa concepção, não se efetiva de fato e vem sofrendo com os rebatimentos do sistema neoliberal. Neste sentido, a situação atual da criança e do adolescente, assim como as políticas sociais voltadas a esta área, exige que haja uma alteração da dinâmica societária para que possa haver a efetivação os direitos deste seguimento. Faz-se necessário, também, analisar se os serviços e os programas sociais estão garantindo a consolidação, de fato, das políticas de atendimento (MILANEZI, 2004, p. 24). Isso posto, quanto as políticas sociais considera-se que estas:
[...] ficaram, na maioria das vezes, à mercê de processos e práticas compensatórias, que obstaculizam a implantação de uma política de acesso aos bens sociais, materiais e culturais que visem assegurar e garantir o provimento do bem estar e dos direitos sociais dessa faixa etária dos cidadãos (MILANEZI, 2004, p. 24 e 25).

Isso significa, portanto, que as políticas sociais acabam se configurando numa prática compensatória do governo. Tal prática impossibilita, às crianças e os adolescentes, a apropriação dos seus direitos, de fato, como garantido no Estatuto, uma vez que as políticas do governo, neste norte, são focalistas e segmentas. Neste sentido, considera-se que, assim como o Brasil possui uma legislação própria sobre os direitos da criança e do adolescente (e está é comparada como uma das mais avançadas e complexas do mundo) possui, em contrapartida, uma realidade totalmente excludente, a qual impede a criança, o adolescente e a maioria da população brasileira o acesso e a garantia de seus direitos (MILANEZI, 2004, p. 25).

Portanto, nota-se um forte agravamento das expressões da questão social na realidade social brasileira condicionada pela lógica neoliberal, que rebate diretamente na condição de vida de crianças e adolescentes de classe pobre principalmente. Neste viés, considera-se que:
A estrutura social brasileira é marcada por acentuadas desigualdades que, ao longo do tempo, vem se agravando. No atual contexto da realidade brasileira essas desigualdades são marcadas pela exclusão da população do trabalho, levando a marginalização e dificultando o acesso a bens e serviços necessários para suprir as necessidades básicas. São inúmeras as questões a serem debatidas e investigadas para diminuir [...] [as expressões da questão social], para que seja possibilitada uma melhor distribuição de rendas, permitindo que o trabalhador tenha melhores condições de trabalho e remuneração (MILANEZI, 2004, p. 25).

De acordo com Milanezi (2004, p. 27):
A pobreza, a fome, a miséria estão espalhadas e ampliadas por todo território nacional, inclusive a fome é tratada recentemente como ponto principal de intervenção do Governo Federal. A sociedade muitas vezes é levada a uma luta pela sobrevivência, travada no dia-a-dia, visando garantir o mínimo necessário à vida. É neste cenário que as crianças, Filhas dessa sociedade se inserem nessa luta desde muito cedo, pois elas são educadas a trabalhar, a adquirirem autonomia, realizar tarefas domésticas, na rua, na lavoura, em pequenos estabelecimentos, muitas vezes, em troca de roupas e comida.

Portanto, a ampliação das expressões da questão social condiciona o governo brasileiro a se posicionar no enfrentamento destas. No entanto, as ações do governo atingem uma pequena parcela da população necessita. Não havendo o suprimento das necessidades da população, perpetua-se, entre uma parcela da população, a condição de miséria. Tal condição leva crianças e adolescentes a viver em situação de trabalho infantil no país. Neste viés de pensamento, Milanezi (2004, p. 28) sustenta que:
As crianças e os adolescentes pobres não se configuram como um mercado consumidor fundamental para a economia. Os setores dinâmicos e nossa economia não estão voltados para o consumo interno e popular. As políticas atuais do estado vêm dando uma atenção marginal às políticas sociais e se ocupando principalmente das atividades de suporte ao capital.

Portanto, a ampliação e consolidação das políticas sociais em favor das classes subalternas mostram-se na contramão da política vigente, e se tornam cada vez

mais restritas em sua abrangência sendo focalizadas, segmentadas e centralizadas nos grupos mais miseráveis. Em síntese, ressalta-se que questão social, agravada pelo modelo neoliberal, propicia que cada vez mais crianças e adolescentes se encontrem em situação de trabalho infantil, no narcotráfico, na violência, na exploração sexual, “[...] como também a ineficiência e ineficácia das políticas públicas de educação, saúde, habitação, assistência social, entre outras [...]” (MILANEZI, 2004, p. 28). Segundo Pilotti (1995, p. 51), em decorrência da luta dos movimentos sociais no bojo da elaboração da Constituição de 1988, a cidadania da criança e do adolescente passou a ser incorporada nos discursos oficiais e na agenda dos atores políticos muito recentemente. No entanto, de acordo com o autor citado,
na cultura e estratégias de poder predominantes, a questão da infância não se tem colocado na perspectiva de uma sociedade e de um Estado de direitos, mas na perspectiva do autoritarismo/clientelismo, combinando benefícios com repressão, concessões limitadas, pessoais e arbitrarias, com disciplinamento, manutenção da ordem, ao sabor das correlações de forças sociais ao nível da sociedade do governo. As polemicas relativas às políticas para a infância demonstram esse conflito de visões e de estratégias, por exemplo a que se refere à divergência entre os que privilegiam a punição e os que privilegiam o dialogo, a negociação, as medidas educativas (PILOTTI, 1995, p. 51).

Portanto, pode-se dizer que a questão da infância culturalmente está enraizada nas correlações de forças sociais e governamentais tratada na perspectiva do autoritarismo e clientelismo e não numa perspectiva de uma sociedade e de um Estado de direitos, pois mesmo com advento da Constituição de 1988 e posteriormente do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, notam-se enormes lacunas da sociedade e do Governo no que diz respeito ao atendimento e às ações voltadas à cidadania da criança e adolescente no Brasil na busca da efetivação de seus direitos e acesso aos mesmos. Mesmo com um significativo avanço das modalidades de atendimento às necessidades das crianças e adolescentes, nas suas mais diversas formas e dimensões: educação, lazer, cultura, esporte, saúde, apoio jurídico, entre outros, nota-se como a conjuntura social provocou uma deteriorização das políticas

públicas, uma vez que estas estão condicionadas pelo modelo neoliberal de crescimento econômico o qual tende a levar a exclusão social entre as classes mais desfavorecidas da sociedade. Portanto, tanto a efetivação da Proteção Integral quanto das políticas públicas na área da infância, ou seja, a efetivação de fato do Estatuto da Criança e do Adolescente, constituem um desafio para a sociedade brasileira e também para os profissionais que trabalham com políticas públicas formuladas para cumprir o que está posto nesta Lei. Isso posto, em se tratando da atuação do profissional de Serviço Social, para que se possa compreender os desafios e tal atuação na área da criança e do adolescente, propõe-se, no capítulo a seguir, analisar o contexto sócio-histórico do Serviço Social inserido nas políticas voltadas à criança e ao adolescente no Brasil, analisando a prática de intervenção do Serviço Social desde suas primeiras intervenção até a atualidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente.

2 CONTEXTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL INSERIDO NAS POLÍTICAS VOLTADAS À CRIANÇA E AOS ADOLESCENTES NO BRASIL
Como visto, no item anterior, o desenvolvimento das políticas, voltadas à área da criança e do adolescente, se deu a partir dos movimentos sociais na luta por direitos à qual articulou vários atores sociais dentre eles profissionais de Serviço Social. Isso posto, para compreender a atuação do Serviço Social na área da criança e do adolescente faz-se necessário analisar historicamente sua inserção nas políticas voltadas a este seguimento no Brasil. Para tanto, é necessário expor, com clareza

cronológica, como se deu o desenvolvimento, implantação e processo de inovação da profissão de Serviço Social no país; a partir de quais necessidades e questões; e, quais foram os sujeitos envolvidos nesse processo. Propõe-se problematizar a intervenção profissional do Serviço Social, no Brasil, na área da infância e da adolescência, explicitando as ações e leis de atenção à criança e ao adolescente que surgiram e foram sendo modificadas ao longo do contexto histórico no qual o profissional foi requisitado a intervir.

2.1 A EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL E A INTERVENÇÃO PROFISSIONAL NA ÁREA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE NO BRASIL
Foi no contexto de desenvolvimento capitalista industrial e expansão urbana que o Serviço Social passou a se desenvolver como profissão reconhecida na divisão social e técnica do trabalho, pois foi nesse contexto, em que se afirmou, hegemonicamente, o capital industrial e financeiro, que emergiu a “questão social” propriamente dita, norteando a necessidade de um profissional especializado que atuaria diretamente nas expressões da questão social derivadas do sistema (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 77). Compreende-se que a questão social:
[...] não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção, mais além da caridade e repressão [...] (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 77).

Neste sentido, a questão social é entendida aqui como a contradição entre capital e trabalho, isto é, a contradição entre a riqueza socialmente produzida e a sua divisão desigual. Portanto, a questão social e suas múltiplas expressões passam a ser o objeto do trabalho profissional e sua gênese encontra-se enraizada na contradição que

demarca a sociedade capitalista, na qual a produção é cada vez mais social e a apropriação do trabalho, suas condições e seus resultados, são cada vez mais privadas, assumindo distintas aparências em cada época (MIRANDA; CAVALCANTI, p. 04, acesso em: 12 abr. 2009). A emergência do Serviço Social se deu, portanto, no decorrer do processo histórico no qual emerge a questão social derivada do aprofundamento do capitalismo nas décadas de 1920 e 1930, no Brasil, onde houve a abusiva exploração do trabalho e conseqüentemente o surgimento de Leis sociais, sendo estas, fruto das lutas empreendidas pela classe trabalhadora. A implantação do Serviço Social se deu pela “[...] iniciativa particular de grupos e frações de classe, que se manifestaram, principalmente, por intermédio da Igreja católica [...]” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 127). Isso posto, explicita-se que Serviço Social no Brasil se desenvolveu pela influencia da Igreja católica, que manteve por um longo período o domínio da formação dos agentes sociais, de sua doutrina e ideologia. Além disso, tal profissão se desenvolveu no momento em que a Igreja se articulava para a recuperação e defesa de seus próprios interesses, bem como para sua reafirmação na sociedade (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 213). Após seu surgimento, atrelado a Igreja católica, o Serviço Social passou a ser requisitado pelo Estado para intervir junto às classes trabalhadoras, no enfrentamento se, pois, que:
[...] o surgimento do Serviço Social no Brasil se dá vinculado à Igreja [...] Como estratégia dos setores dominantes para sua legitimação, o Estado irá incorporá-lo posteriormente para a implementação de políticas assistenciais buscando atenuar os conflitos de classe e é através desse enfrentamento da questão social que ocorre sua institucionalização e se altera sua “clientela” para o atendimento da classe operária [...] (MIRANDA; CAVALCANTI, p. 04, acesso em: 12 abr. de 2009).

das

expressões

da

questão

social,

através

das

políticas

assistencialistas, implementadas pelo Estado. Sustentando tal afirmação considera-

Portanto, o exercício profissional do Serviço Social se deu no interior das relações sociais existentes na sociedade, em conjunturas históricas determinadas. A atuação

do Assistente Social foi permeada por interesses de classes, sendo cooptada por aqueles que possuíam uma posição dominante. No entanto, vale ressaltar que, desde seus primórdios, o Serviço Social participa tanto dos mecanismos de exploração e dominação como da resposta às necessidades e interesses do operariado (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.75). Influenciado pela Igreja católica, em seu período inicial, portanto, o Serviço Social possuía um componente técnico-operativo formado a partir da incorporação de instrumentos específicos das formas de assistência tradicionais, aliados às orientações técnicas e doutrinárias de origem religiosa católica. No entanto, com a incorporação do Serviço Social na divisão sócio-técnica do trabalho a instrumentalidade do Serviço Social sofreu alterações para se enquadrar nas determinações da dinâmica social de acordo com as ideologias capitalistas de Estado (TRINDADE, 2001, p. 27). Ressalta-se que na prática pioneira dos assistentes sociais, os procedimentos comuns utilizados constituíram-se basicamente em:
[...] estudo das necessidades individuais, familiares e de localidades carentes; avaliação das solicitações de ajuda; triagem dos problemas constatados; concessão de ajuda material; aconselhamentos; utilização dos recursos institucionais para encaminhamentos e incentivo á inserção no mercado de trabalho. Os agentes também realizam visitas domiciliares, elaboram inquéritos sociais, encaminhamentos e triagem / seleção dos casos. Essa intervenção tem um cunho eminentemente individualizado, pautado especialmente na manutenção de um relacionamento entre assistente social e cliente, mediado pela realização de entrevistas e visitas domiciliares [...] (TRINDADE, 2001, p. 27, apud CAMPAGNOLI, 1993, p.86 e 87).

Estas foram, portanto, as primeiras técnicas de intervenção desenvolvidas pelos assistentes sociais. Nota-se que tais técnicas eram pautadas na relação indivíduo e assistente social. Vale ressaltar, também, que no início da institucionalização do Serviço social no Brasil, em conseqüência do modo com que se agia sobre a manifestação das expressões da questão social, o serviço social de casos aparece como principal forma de abordagem. O estudo do caso referia-se à fase de investigação sobre fatores internos e externos que envolviam os indivíduos. Essa fase investigativa era

realizada pela aplicação de entrevistas com o “cliente” e com pessoas que faziam parte do seu espaço de vivência. Salienta-se que nas duas primeiras décadas do século XX, Mary Richmond, nos Estados Unidos, desenvolveu o chamado “Serviço Social de Casos Individuais” (TRINDADE, 2001, p. 30). Para a realização de seu trabalho, portanto, os assistentes sociais passaram a acionar um instrumental técnico-operativo, que facilitou a inserção da profissão em diversas formas de enfrentamento e intervenção nas expressões da questão social. Dessa forma, os instrumentos e técnicas, ao mediarem à intervenção, passaram a participar da realização dos efeitos gerados pelo trabalho profissional do assistente social nas relações sociais das quais eram parte (TRINDADE, 2001, p. 26). Portanto, destaca-se que inicialmente o Serviço Social caracterizou-se por possuir uma atuação imediatista e acrítica influenciada pelas ideologias capitalistas do Estado e ordem dominante na qual estava se inserindo. Sua forma de intervir estava atrelada ao capital e a Igreja católica. Nesta fase, por sua postura acrítica, o profissional de Serviço Social não questionava e nem compreendia a influência do sistema sobre o indivíduo. Tendo em vista como se deu o processo da emergência do Serviço Social, portanto, para que se possa compreender a intervenção profissional do Serviço Social na área da criança e do adolescente, no Brasil, faz-se necessário explicitar o desenvolvimento e a criação de leis e instituições que contribuíram e que nortearam a intervenção profissional, no âmbito geral e na área da infância e adolescência, partindo-se da década de 1920. Ressalta-se que na década de 1920 foi criado o Conselho Nacional do Trabalho (1925). Em 1926 há o rompimento parcial da ortodoxia liberal da primeira Constituição republicana. Neste sentido, “[...] por meio da Emenda Constitucional a legislação do trabalho passa à competência do Congresso Nacional, abrindo-se o caminho à do Estado na regulamentação no mercado de trabalho [...]”. Assim, nesse ano e no seguinte, portanto, foram aprovadas leis, cuja quais deram respaldo a uma parcela, significativa, da chamada “proteção ao trabalho”, como a lei de férias, o

trabalho feminino, o acidente de trabalho, o seguro-doença, o código de menores entre outras (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.132). A partir desta década, através da aprovação de leis de proteção ao trabalho e Código de Menores de 1927, houve o desenvolvimento das instituições assistenciais de cunho estatal voltadas aos “menores”. Com o desenvolvimento de tais instituições, portanto, notou-se a inserção do profissional de Serviço Social nestas para atuar segundo o que determinava a lei de proteção ao “menor”. Neste sentido, com o Código de Menores de 1927, segundo Fávero (2004, p. 20 e 21), o profissional de Serviço Social passou a ser integrado em maior número no interior do Judiciário, pois para a aplicação da lei, caberia ao profissional de Serviço Social analisar “[...] o contexto sócio-econômico e cultural em que se encontrem o menor e seus pais ou responsável, bem como ‘o estudo de cada caso’ deveria ser realizado ‘por equipe de que participe pessoal técnico, sempre que possível’ [...]”. De acordo com Iamamoto (2005, p. 249), a primeira referência explícita na legislação Federal sobre os Serviços Sociais esteve expressa na Carta Constitucional de 1934, na qual o Estado passou a ter a obrigação de assegurar o amparo dos desvalidos, fixando, também, destinação de rendas tributáveis à maternidade e infância. No ano de 1935, segundo Iamamoto (2005, p. 174), foi criado o Departamento de Assistência Social do Estado segundo a Lei nº 2.497, de 24.12.1935, primeira iniciativa desse modelo no Brasil. Que, para tanto, teria como competência:
a) superintender todo o serviço de assistência; b) celebrar para realizar seu programa, acordos com as instituições particulares de caridade, assistência de ensino profissional; c) harmonizar a ação social do Estado articulando-a com a dos particulares; d) distribuir subvenções e matricular a instituições particulares realizando seu cadastramento. A esse Departamento subordinado à Secretaria de Justiça e Negócios Interiores – caberia, além dos itens relacionados a cima, a estruturação dos Serviços Sociais de Menores, Desvalidos, Trabalhadores e Egressos de reformatórios, penitenciarias e hospitais e da Consultoria Jurídica do Serviço Social a maior parte dos artigo da lei é, no entanto, dedicada à assistência ao menor – sua organização cientifica em relação aos aspectos social, médico e pedagógico - e à fiscalização das instituições pública e particulares que a ela se dedicam (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.174,175).

Portanto, ressalta-se que ao Departamento de Assistência Social coube, entre outras atribuições, portanto, estruturar os Serviços Sociais de Menores e Desvalidos, ou seja, observa-se que a maior parte dos artigos da lei era dedicada à assistência ao menor. Neste sentido, na década de 1930, estabelecido o Departamento de Assistência Social e suas competências, nota-se que houve uma necessidade mais sistemática de intervenção, do profissional de Serviço Social, voltada à criança e ao adolescente no Brasil. É importante destacar a existência do Juízo de Menores, que se constituiu em um setor específico da Assistência Pública. O juízo de Menores foi uma das vertentes que apontou a iniciativa para a formação de pessoas especializadas na assistência sendo esta ligada à assistência ao menor (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 185). No que tange, portanto, a formação e preparação de assistentes sociais para atuação na área da infância, ressalta-se a criação, em 1936, do “Laboratório de Patologia Infantil”, que levou ao planejamento de uma estruturação de uma Fundação com um centro de formação técnica e um centro de estudos de assistentes sociais, objetivando oferecer auxílio aos serviços sociais do Juízo de Menores (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 185). Com isso, os Serviços de Assistência ao Menor da Prefeitura do estado do Rio de Janeiro e o Juízo de Menores foram os primeiros do setor público a colocarem Assistentes Sociais na sua dinâmica de trabalho. Havia um número limitado de Assistentes Sociais diplomados neste período (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p.189). Além do Juízo de Menores no Rio de Janeiro, em São Paulo uma ampla instituição de Serviço Social, naquele momento, – Departamento de Serviço Social do Estado do São Paulo –, introduziu assistentes sociais que atuaram como comissários de menores no “Serviço Social de menores” (menores abandonados, menores delinqüentes, menores sob tutela da Vara de Menores, exercendo atividades no Instituto Disciplinar e no Serviço de Abrigo e Triagem) com a procuradoria de Serviço Social, do Departamento de Serviço Social, no espaço da Assistência Judiciária com

o objetivo de reajustar indivíduos ou famílias cuja causa de desadaptação social se colocava como uma questão de justiça civil (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 191). Portanto, inicialmente, o profissional de Serviço Social, inserido no campo as assistência voltada à área da infância e da adolescência, trabalhava respaldado pelo Código de Menores. Neste sentido, sua intervenção se dava de forma higienista buscando adaptar, educar e ajustar os indivíduos ao meio compreendendo-os enquanto transgressores da ordem social. Segundo Fávero (2004, p. 20), o profissional de Serviço Social, quando iniciou o trabalho no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude, em São Paulo, por volta dos anos 1940, ocupou o espaço do perito da área social, onde, a princípio, atuava como estagiário ou como membro do Comissariado de Vigilância. Sendo assim,
Num período em que se evidenciava o agravamento e tentativas de controle das seqüelas da questão social e se ampliava a ocupação de espaços institucionais pelo Serviço Social, o assistente social, com formação generalista na área social, passou a ter, na Justiça da Infância e da Juventude, espaço privilegiado de ação, o eu fez com que, progressivamente, deixasse de atuar junto ao Comissário e ocupasse, no final desses anos 1940, espaço formal de trabalho no então denominado Juizado de Menores de São Paulo (FÁVERO, 2004, p. 20).

Portanto, nesse período o assistente social, visto enquanto um profissional formado apto para trabalhar com o social, é solicitado a trabalhar na Justiça da Infância e da Juventude, levando-o a atuar no Juizado de Menores do Estado de São Paulo no final dos anos 1940. Neste sentido, no final dos anos 1940 e nos anos 1950, com implantação do Serviço Social nos Juizados de Menores de São Paulo, ressalta-se que a intervenção do Serviço Social era a de casos individuais. A direção teórico-metodológica do “Serviço Social de casos individuais” pautava-se, ainda, no referencial ideológico conservador da doutrina social da igreja católica. Neste período a “[...] metodologia operativa nessa época era influenciada pelo Serviço Social norte-americano, cuja intervenção junto a “casos individuais” referenciava-se em estudos de natureza psicosocial [...]”,

isto é, abordava sobre fatores internos e sociais dos indivíduos (FÁVERO, 2004, p. 22, apud KFOURI, 1969, p. 07). De acordo com Trindade (2001, p. 30), mesmo predominando o Serviço Social de Casos durante essa fase do Serviço Social brasileiro, também houve espaço para a abordagem grupal, principalmente depois que ela passou a ser reconhecida como método profissional pelos assistentes sociais norte-americanos, na segunda metade da década de 1940. Influenciado pela Psicologia e pela Psicanálise, o Serviço Social de grupos passou a ser utilizado, de modo geral, para solucionar, tanto os problemas pessoais e de relacionamento quanto os de socialização (TRINDADE, 2001, p. 30). Com estas abordagens de trabalho, nota-se – como citado anteriormente – que não havia, por parte dos profissionais, o questionamento do sistema enquanto um agente influenciador e provocador da manifestação das expressões da questão social. Ressalta-se que a atuação prática desenvolvida pelos primeiros Assistentes Sociais, segundo Iamamoto (2005, p. 196), ficou “[...] voltada essencialmente para a organização da assistência, para a educação popular, e para a pesquisa social [...]” objetivando trabalhar formas de ajustamento do indivíduo ao meio. Neste início o público do trabalho assistencial se constituiu de famílias operárias, em especial das mulheres e das crianças. A lógica do trabalho assistencial era voltada, portanto, para a educação popular e familiar uma vez que as expressões da questão social eram vistas pelo Estado e classes dominantes enquanto frutos de um desajuste social da classe operária. A exemplo disso, afirma-se nas palavras de Iamamoto (2005, p. 207) que:
A mercantilização da Força de Trabalho feminina e infantil é considerada uma questão complexa. Sua origem está na situação de “anormalidade social”, na desorganização e abandono da família. A mortalidade infantil e abandono ao menor, a desagregação moral da família, têm como uma de suas causas principais o “abandono do lar” pela mulher. Mas, se o “chefe da família”, em função de suas deficiências individuais, é capaz de suprir as necessidades mínimas do lar, não restará à mulher e aos filhos mais velhos outra alternativa. Mas, desse problema objetivo, deriva ouro que traduz uma deformação moral: é da mulher não necessitada, que trabalha, aspirando gozar da decantada independência moderna (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 207).

Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2005, p. 208), as expressões da questão social eram vistas e tratadas enquanto situação de anormalidade e desajuste familiar e social que tinham como causas a falta de enquadramento e ajuste da sociedade frente às transformações societárias. Dessa forma, o trabalho do assistente social tinha um cunho educativo e de aconselhamento consubstanciadas por leis voltadas às famílias desajustadas ao sistema. No contexto do Estado Novo, período de desenvolvimento de grandes instituições sociais, como a LBA, citada no capítulo anterior, foi criado, também, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), em 1942, com a missão de organizar e administrar nacionalmente escolas de aprendizagem para industriários. Tal serviço se configurou num “grande empreendimento de qualificação da Força de Trabalho”, a juvenil principalmente. Para tanto, o SENAI, incorporou com rapidez “o Serviço Social em seu esquema de atuação” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 253). No que se referiu ao trabalho profissional neste Serviço,
O assistente Social, integrante desse quadro de técnicos manipuladores de técnicas sociais englobadas no processo educacional, aparecerá, teoricamente, na estrutura do SENAI como coordenador e reforçados dessa prática social e como explicitamente encarregado dos casos de desviança mais aparentes verificados no âmbito da instituição (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 266).

Em 1946 surgiu o Serviço Social da Indústria (SESI) com a atribuição de “[...] estudar, planejar e executar medidas que contribuam para o bem-estar do trabalhador na indústria [...]”. No SESI a assistência relacionou os problemas domésticos, que acorriam no cotidiano dos indivíduos, às pesquisas e atividades culturais e educacionais, visando o valor do homem e incentivar à atividade produtora (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 268). Segundo Iamamoto (2005, p. 268) o surgimento do Serviço Social na Indústria, baseando-se na experiência inicial do SENAI, fez parte da evolução do posicionamento do empresariado frente à “questão social”, que se aprofundou no pós-guerra.

No entanto, Iamamoto (2005, p. 279) ressalta que o que caracterizou as práticas sociais desenvolvidas no SESI foi “[...] a radicalização na sua utilização como instrumento de contraposição à organização autônoma da classe operária e de luta política anticomunista [...]”, ou seja, sua prática visava impossibilitar o envolvimento das classes operárias em movimentos de caráter comunistas. No mesmo ano de surgimento do SESI, 1946, surgiu a Fundação Leão XIII, implementada nas favelas do Estado do Rio de Janeiro. Como já explicitado, o Serviço Social institucional trabalhava com base no enquadramento da população. Na Fundação Leão XIII o Serviço Social também trabalhou no “tratamento” de questões de “desviança” da ordem vigente e “Educação Popular” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 283). Neste sentido, a intervenção profissional do Serviço Social, pautada no controle popular, partiu, segundo Iamamoto (2005, p. 288), de um “empreendimento” que tinha como intenção “o disciplinamento do tempo livre do proletariado”. Portanto, pode-se notar que neste período o empresariado entra em cena se posicionando diante do enfrentamento da questão social. No entanto, seu objetivo central foi de conduzir a classe operária no sentido de inibir seus movimentos de lutas e sua possível aderência às idéias comunistas da época. É neste sentido, portanto, que o Serviço Social, inseridos nessas instituições, trabalhou com o ajustamento do indivíduo à ordem e disciplinamento de seu tempo livre visando favorecer o empresariado, ou seja, o capital, que almejava o aumento de seus lucros e em contrapartida oferecia um falso bem-estar ao trabalhador. É importante ressaltar que a incorporação do empresariado na intervenção das expressões da questão social, – como se pôde notar a partir do surgimento do SESI, SENAI e outras instituições de caráter empresarial –, foi o processo de institucionalização e legitimação da profissão de Serviço Social, pois a profissão de Assistente Social só pôde se consolidar a partir do momento em que seu mercado de trabalho se abriu com o surgimento de grandes entidades (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 309). Isso posto, nas palavras da autora,

A partir desse momento só é possível pensar a profissão e seus agentes concretos – sua ação na reprodução das relações sociais de produção – englobados no âmbito das estruturas institucionais. O Assistente Social aparecerá como uma categoria de assalariados – quadros médios cuja principal instância mandatária será, direta ou indiretamente, o Estado. O significado social do Serviço Social pode ser apreendido globalmente apenas em sua relação com as políticas sociais do Estado, implementadas pelas entidades sociais e assistenciais (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 309).

Portanto, através da relação com as políticas sociais do Estado, o Serviço Social, neste período, em que se inseriu em estruturas institucionais, adquiriu maior visibilidade social fazendo das políticas sociais seu espaço ocupacional. Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2005, p. 310), o Serviço Social se colocou em meio ao aparelho de Estado e às grandes instituições assistenciais, porém assegurou as suas características fundamentais. O Serviço Social manteve sua ação doutrinária e educativa de “enquadramento” e de controle da população cliente. A partir de então, os profissionais passaram a desenvolver vários procedimentos técnicos. Para melhor esclarecimento, ressalta-se que para a realização de uma das linhas do trabalho do profissional, que consistia na realização de investigações sobre as condições de vida das famílias de classe operária, utilizava-se da aplicação de inquérito sociais e da visita domiciliar, por meio de entrevistas com as pessoas que faziam parte de seu convívio social. Outra linha de trabalho profissional referiu-se ao trabalho de educação moral, higiênica e racionamento da renda. Este tipo de orientação moral e social recaiu, sobretudo, na doutrinação religiosa, que se fundamentava no objetivo da reforma social, através de um procedimento técnico que visava o ajustamento do homem e de sua família. Por fim, nas empresas, como procedimento técnico, os profissionais realizavam instrumentos de abordagem individual, realizavam palestras e outros instrumentos de cunho educativo (TRINDADE, 2001, p. 28). Assim, pode-se notar, então,
[...] que os procedimentos desenvolvidos pelos assistentes sociais, nesse início de profissionalização, não se diferenciam muito daqueles próprios às tradicionais formas de assistência, de caridade. Entretanto, isso não significa uma mera transposição do “como fazer”, na medida em que a modernização do apostolado social, fornecedora das bases formadoras do Serviço Social, põe as iniciativas filantrópicas num patamar diferenciado

daqueles desenvolvidos desde o século XIX. A forma de operacionalizar as tarefas específicas até podem ser as mesmas, no entanto o contexto histórico das relações sociais em que elas estão inseridas é diferenciado. Trata-se, agora, de uma forma de intervenção ideológica que se insere em novas correlações de forças entre as classes, especialmente devido ao crescimento numérico e organizativo do proletariado. Para conter exacerbação das contribuições, gerada nesse novo contexto sócio-político, a intervenção nas manifestações da questão social exige práticas mais eficientes do que as dispersivas iniciativas benevolentes. É necessário que a assistência seja o suporte de uma atuação voltada ao enquadramento das populações pobres e dos trabalhadores, aos ditames econômico-ideológicos da burguesia, que ora consolida sua condição de classe dominante, no Brasil (TRINDADE, 2001, p. 28).

Portanto, a crescente demanda por uma intervenção técnica, sendo esta organizada e planejada, desencadeada nas instituições de prestação de serviços sociais, se articulou às exigências colocadas pelas mudanças na configuração da questão social brasileira e, também, às conseqüentes medidas governamentais formuladas para enfrentar as expressões da questão social. Neste sentido, as ações filantrópicas e espontâneas não seriam mais suficientes para atender à racionalidade exigida pelo Estado, nas décadas de 1930 e 1940 (TRINDADE, 2001, p. 28). Explicita-se aqui que durante a década de 1940 e até a metade da década seguinte, 1950, a economia nacional apresentou uma elevação das taxas de crescimento. Esse período, de elevação positiva da economia, foi designado de ideologia desenvolvimentista no Brasil (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 340). Neste sentido, tal ideologia,
[...] se define, assim, por meio da busca da expansão econômica, no sentido de prosperidade, riqueza, grandeza material, soberania, em ambiente de paz política e social, e de segurança – quando todo o esforço de elaboração de política (política econômica) e trabalho são requeridos para eliminar o pauperismo, a miséria, elevando-se o nível de vida do povo como conseqüência do crescimento econômico atingido (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, p. 341).

Portanto, com a expansão econômica, conduzida pela ideologia desenvolvimentista, o Estado buscou intervir na pobreza social e melhorar as condições de vida da população. Ressalta-se, porém, que tal intervenção, com o propósito de eliminação da pobreza, era envolvida por interesses do capital. A ideologia desenvolvimentista,
[...] constituir-se-ia em meta e mobilização de toda a coletividade, sendo, portanto o desenvolvimento um ponto de convergência entre Estado e o povo. O desenvolvimento significa, pois, no plano desse discurso, a

valorização do homem brasileiro, e trás como conseqüência o fim do pauperismo, a elevação do nível de vida (IAMAMOTO; CARVALHO, 2005, P. 342).

Dessa forma considera-se que esse período de desenvolvimento do Brasil visou uma mobilização coletiva frente a eliminação da pobreza no país. Com isso, o profissional de Serviço Social foi solicitado a intervir segundo a ideologia desenvolvimentista, ou seja, através do trabalho de cunho coletivo no desenvolvimento de comunidades. Neste sentido, tendo em vista este período de desenvolvimento do país e maior intensificação da intervenção Estatal na área social, considera-se que:
Nos anos 50 e, com maior vigor, na década seguinte, amplia-se o campo de atuação do Serviço Social brasileiro, quando os profissionais passam a se envolver em trabalhos sociais de caráter “comunitário”. Nestes, desenvolvem-se processos de mobilização e organização de grupos de população – rural e urbana – através dos quais busca-se promover o desenvolvimento econômico-social de pequenas localidades. No início dos anos 40 esses trabalhos são próprios às prática de Organização de Comunidade, mas a partir dos anos 50 passam a se desenvolver no âmbito das práticas de Desenvolvimento de Comunidade (TRINDADE, 2001, p. 31).

Isso posto, foi a partir do período desenvolvimentista que o Serviço Social aumentou seu espaço de atuação, pois neste período evidenciou-se o cunho de desenvolvimento comunitário no país e o profissional de Serviço Social foi chamado a intervir nessa lógica. Portanto, quando o Serviço Social passou a atuar nos processos de desenvolvimento de comunidade, foi possível identificar mudanças em seu eixo de intervenção profissional, ou seja,
[...] de uma prática restrita a atendimentos individuais e grupais centrados na promoção da tríade “ordem, moral e higiene”, a profissão volta-se também para o desenvolvimento de práticas cujo objetivo se expande para a promoção da harmonia social na relação Estado/Sociedade, através de uma abordagem mais coletiva. A intervenção em organização de comunidade busca melhorar o meio, as condições imediatas, deixando de centrar-se apenas nas mudanças comportamentais do indivíduo e da família. Além disso, pode-se afirmar que o engajamento do Serviço Social no desenvolvimento de comunidades também significa uma busca de modalidades interventivas mais abrangentes o que o Serviço Social de Caso e de Grupo, ainda que estes continuem sendo aprimorados e utilizados nas grandes instituições assistenciais. Os processos educativos até então assumidos pelos assistentes sociais atingem indivíduos e pequenos grupos; com o desenvolvimento de comunidade os profissionais se engajam num

trabalho voltado a parcelas mais abrangentes da população. Isso traz algumas inovações aos procedimentos interventivos do Serviço Social (TRINDADE, 2001, p. 31).

Considera-se, portanto, que a partir desse momento, em que a intervenção técnica do profissional de Serviço Social volta-se ao trabalho comunitário, ocorreu uma inovação da prática. O Serviço Social assumiu procedimentos interventivos de cunho coletivo e não apenas individualizantes. Neste sentido, de acordo com Trindade (2001, p. 32):
Isso significa uma ampliação nas abordagens profissionais dos assistentes sociais, Isto é, as demandas colocadas pelo trabalho “comunitário” levam os assistentes sociais a não limitar sua prática apenas às abordagens individuais. É justamente nesse momento que o trabalho com grupos adquire maior importância, o que impulsiona o desenvolvimento do Serviço Social de Grupos no país, embora ele já fosse conhecido desde os anos 40.

A partir de então, o Serviço Social passou a se configurar e a pensar novas formas de atuação, uma vez que a conjuntura da época, marcada pelo Desenvolvimentismo, o impulsionou a alterar sua intervenção frente ao social. Portanto, a categoria dos assistentes sociais, reconhecendo a necessidade de alteração da prática profissional, acompanhando as mudanças econômicas, sociais e políticas, passou a problematizar a necessidade de se pensar em uma renovação/modificação do Serviço Social, que será tratada nos próximos itens.

2.2 O PROCESSO DE RENOVAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL
Netto (2006, p. 128), afirma que o Serviço Social no Brasil, até a primeira metade da década de sessenta, “mostrava uma relativa homogeneidade” no seu fazer interventivo, “carecia de uma elaboração teórica significativa”, colocava-se enquanto uma categoria profissional que possuía uma intervenção sem questionamentos e problematização. Segundo o autor, a ruptura com este cenário tem suas bases na laicização do Serviço Social. Tal laicização, – desvinculamento da profissão aos preceitos religiosos –, constituída pela “[...] diferenciação da categoria profissional em todos os seus níveis e a conseqüente disputa pela hegemonia do processo profissional em todas as suas instâncias [...]”, isto é, projeto de formação,

paradigmas de intervenção, órgãos de representação entre outras, constituiu em um dos elementos caracterizadores da renovação do Serviço Social. De acordo com Netto (2006, p. 129), a classe burguesa instaurou condições para essa renovação do Serviço Social. No entanto, seu objetivo era de renovar o Serviço Social criando um campo onde houvesse meios de desenvolver e aplicar alternativas aos procedimentos profissionais que ela demandava de acordo com suas necessidades e interesses. Neste sentido, ao profissional de Serviço Social, para atuar nos espaços institucionais, foi requisitado uma postura “moderna” no sentido de tornar compatíveis seus procedimentos com as normas, rotinas, fluxos e finalidades demandantes daquela racionalidade burocrático-administrativa burguesa. Essas exigências provocaram um direcionamento para a “erosão do Serviço Social tradicional”, pois levou a uma direção técnico-racional que acabava com os comportamentos profissionais fundados em supostos humanistas. Em síntese, com esse processo, houve uma alteração no perfil do profissional demandado pelo mercado de trabalho (NETTO, 2006, p. 123). A Renovação do Serviço Social no Brasil foi composta por três direções que serão tratadas ao longo desde texto de acordo com os períodos de manifestação de cada uma. A primeira direção foi a perspectiva modernizadora, 1965 a meados da década de 1970, que para as concepções profissionais constituiu-se em:
[...] um esforço no sentido de adequar o Serviço Social, enquanto instrumento de intervenção inserido no arsenal de técnicas sociais a ser operacionalizado no marco de estratégias de desenvolvimento capitalista, às exigências postas pelos processos sócio-políticos emergentes no pós-64 [...] uma linha de desenvolvimento profissional que, se encontra o auge da sua formulação exatamente na segunda metade dos anos sessenta – seus grandes monumentos sem dúvida são os textos dos seminários de Araxá [1967] e Teresópolis [1970] –, revelar-se-á um eixo de extrema densidade no evolver da reflexão profissional: não só continuará mobilizando energias nos anos seguintes como, especialmente, mostrar-se-á aquele vetor de renovação que mais fundamente vincou a massa da categoria profissional [...] o núcleo central desta perspectiva é a tematização do Serviço Social interveniente, dinamizador e integrador, no processo de desenvolvimento (NETTO, 2006, p. 154).

Neste sentido, Netto (2006, p. 155), afirma que o que caracterizou esta perspectiva, foi a nova fundamentação utilizada para regularizar o função e as metodologias profissionais. A perspectiva modernizadora aceitou sem questionamentos a ordem sociopolítica derivada do golpe de abril, ou seja, ela adequou a profissão a Ditadura. Portanto, o trabalho do assistente social, na lógica da perspectiva modernizadora, pautava-se na adequação aos ditames da ordem sociopolítica, ou seja, não havia por parte do profissional de Serviço Social um questionamento do sistema, ele trabalhava a favor do capital, respondendo às suas demandas, adequando-se a ele. A segunda direção da renovação do Serviço Social foi denominada de reatualização do Conservadorismo que se desenvolveu durante a segunda metade da década de 70. Tal perspectiva constituiu-se numa vertente que recuperou os elementos mais estratificados do legado conservador do Serviço Social. Para tanto, ela repôs tais componentes sobre uma base teórico-metodológica posta como nova, negando os padrões que possuíam vínculos com a tradição positivista. Portanto, observou-se uma reatualização e sofisticação do caráter conservador da profissão (NETTO, 2006, p. 157). Nas palavras de Netto (2006, p. 158),
[...] esta perspectiva [...] se beneficia de todo um acúmulo ainda vigente de expectativas, historicamente respaldadas no desempenho tradicional dos assistentes sociais, referentes ao exercício do Serviço Social fundado no circuito da ajuda psicossocial. O extremo conservadorismo desta perspectiva não reside apenas no seu referencial ideocultural [...] antes, ela é perceptível no embasamento “científico” com que constrói a relação do Serviço Social com seus “objetos” [...].

Neste sentido, nota-se que essa perspectiva, de reatualização do conservadorismo, possuía expressamente uma inspiração fenomenológica. Dessa forma, pautada na fenomenologia, ela propôs uma abordagem individual no intuito de transformar a situação vivenciada pelo “cliente” exonerando-se da necessidade de intervenção externa do assistente social, ou seja, a vertente fenomenológica propunha uma abordagem na qual o processo de transformação fosse desencadeado pelo próprio “cliente” com a ajuda profissional (TRINDADE, 2001, p. 34 e 35).

Portanto, nesta perspectiva, a prática profissional do assistente social voltou-se para a ajuda psicossocial – inspirado pela fenomenologia – que se fundamentava por uma compreensão de indivíduo desarticulada das determinações históricas. Assim, nessa vertente, a transformação proposta manteve-se no nível da individualidade, o que não alterava a situação do indivíduo que, como se sabe, era marcada pelas relações sociais contraditórias. No que se refere ao fazer profissional, no mercado de trabalho da década de 70, os assistentes sociais, além das atividades de execução final, assumiram atividades de coordenação, planejamento, acompanhamento e avaliação de programas sociais. Dessa forma, houve a necessidade de novos instrumentos de intervenção que exigiu dos profissionais um domínio técnico mais sofisticado condizente com as novas formas de intervenção demandada neste período (TRINDADE, 2001, p. 32). Essa nova exigência posta ao Serviço Social esteve, portanto, sintonizada com o padrão técnico-burocrático de gestão do desenvolvimento capitalista do período, advindo da racionalização do processo produtivo e da gerência da força de trabalho, assim como das políticas estatais. Neste sentido, o assistente social passou a fazer parte do conjunto de profissionais cuja formação foi colocada a serviço do projeto de modernização do capitalismo monopolista brasileiro (TRINDADE, 2001, p. 32 e 33). É importante ressaltar que, de acordo com Trindade (2001, p. 33), inicialmente, os profissionais “modernizadores” na década de 70 propuseram superar as limitações da prática profissional consolidada durante as décadas de 30 a 60 objetivando sua modernização e adequação ao sistema. No entanto, o que se pode alcançar foi dar aos tradicionais métodos utilizados (Caso, Grupo e Comunidade) um molde pouco mais moderno e sofisticado. No contexto correspondente ao final da década 70 e início da década de 80, no Serviço Social, tem destaque a terceira direção do processo de renovação do Serviço social no Brasil denominada intenção de ruptura, uma intenção de romper com o Serviço Social “tradicional”.

Segundo Netto (2006, p. 159 e 160) ao contrário das anteriores, a intenção de ruptura possuiu uma crítica profunda ao tradicionalismo e aos seus suportes teóricos, metodológicos e ideológicos. Neste sentido, a intenção de ruptura manifestou a intenção de romper com a herança teórico-metodológica conservadora e com os seus paradigmas de intervenção no social. Portanto, de acordo com o autor citado, tal perspectiva,
[...] toma forma pela elaboração de quadros docentes e profissionais cuja formação se dera entre as vésperas do golpe e a fascitização assinalada pelo AI-5. Na sua evolução e explicitação, ela recorre progressivamente à tradição marxista [...] e revela as dificuldades da sua afirmação no marco sociopolítico da autocracia burguesa: sua emersão inicial [...], na primeira metade da década de setenta, permaneceu por longos anos um signo isolado. [...] Na primeira metade dos anos oitenta, é esta perspectiva que dá o tom da polêmica profissional e fixa as características da retórica politizada [...] de vanguardas profissionais de maior incidência na categoria, permeando o que há de mais ressonante na relação entre esta e a sociedade – e de forma tal que fornece a impressão de possuir uma inconteste hegemonia no universo profissional (NETTO, 2006, p. 159 e 160).

Neste sentido, destaca-se que a perspectiva de intenção de ruptura recorreu aos poucos à tradição marxista, e, foi na metade dos anos 1980, que tal perspectiva se caracterizou pela prática politizada do discurso na categoria. Ressalta-se, ainda, que a vertente de intenção de ruptura, tendo recebido ponderável influência do pensamento latino-americano reconceptualizado, teve muito da sua audiência contabilizada ao descrédito político da perspectiva modernizadora e à generalizada crítica às ciências sociais acadêmicas (NETTO, 2006, p. 160). Netto (2006, p. 161), ressalta que, numa primeira caracterização desta perspectiva, ela conservou suas características dominantes de oposição ao Serviço Social tradicional. Segundo Netto (2006, p. 163), não seria possível pensar a intenção de ruptura sem a hegemonia cultural das correntes de esquerda e as correntes progressistas até 1968/1969, e, também, sem o desenvolvimento do “marxismo acadêmico”.

Considera-se, portanto, que:
O esforço da ruptura com o Serviço social tradicional e modernizador adquire maior consistência na passagem para a segunda metade da década de 80 e alguns fatores contribuem para este fortalecimento. No plano teórico, os profissionais buscam uma análise das fontes originais marxianas, surgindo inúmeros estudos que procuram tanto a aprofundar as formulações originais, quanto explorar as possibilidades de sua utilização para a compreensão de questões próprias do Serviço Social e de seu objeto de intervenção. Os textos produzidos por assistentes sociais demonstram mais consistência e melhor fundamentação teórica, consolidando a hegemonia das produções de inspiração marxista. A convivência com várias áreas do saber, na Universidade, possibilita um intercâmbio mais qualificado com as Ciências Sociais e com a tradição marxista, enriquecendo esse processo (TRINDADE, 2001, p. 36).

Neste sentido, no esforço por essa “validação teórica da profissão”, houve uma abertura para a conquista de um espaço no envolvimento com os problemas e com as disciplinas das ciências sociais que, na questão intelectual, contribuiu bastante para oferecer um contrapeso à subalternidade da profissão de Serviço Social (NETTO, 2006, p. 132). É importante ressaltar, que na passagem dos anos 70 para os anos 80, em meio ao projeto de ruptura, o clima político de discussão e de luta pela redemocratização do país possibilitou e favoreceu a cultura crítica assumida pelos profissionais de Serviço Social. A conjuntura marcada pela ditadura, nos anos 70, tinha posto inúmeras dificuldades políticas à perspectiva de ruptura, assim somente com a abertura política é que foi possível a emersão dos novos propósitos profissionais advindo deste projeto (TRINDADE, 2001, p. 35). Ressalta-se, também, neste período, final da década de 70 e início da década de 80, no qual se apresentou a terceira vertente da renovação do Serviço Social, tem-se destaque, na área da criança e adolescência à criação do novo Código de Menores, de 1979, que passou a direcionar a intervenção profissional na área da infância e da adolescência, explicitado no capítulo anterior. Quanto à prática, portanto, a intenção de ruptura potencializou-se trabalhos de cunho coletivo. Neste sentido a atuação profissional, voltada para abordagens coletivas, direcionou-se e se desenvolveu no intuito de mobilizar a população, para

que ela reivindica-se o atendimento às suas necessidades. Dessa forma, a intervenção profissional passou a priorizar o incentivo à participação da população na demarcação das necessidades a serem atendidas e na execução de ações de organização e mobilização social. Por isso, portanto, que houve a preocupação por parte dos profissionais com a conscientização política da população (TRINDADE, 2001, p. 35). Tal postura foi assumida pela categoria, também, como conseqüência do III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, de 1979, que ficou denominado de “Congresso da Virada” no qual foi questionado o conservadorismo da profissão pela categoria. Neste sentido, no Congresso da Virada houve o rompimento emblemático com o conservadorismo e a afirmação de novas reflexões sobre a formação e o exercício profissional com a introdução do marxismo – pois este foi reconhecido como compatível com a ruptura do conservadorismo político –, o estabelecimento de uma maturidade teórica e o enriquecimento do debate filosófico cujas características ao caráter conservador da prática profissional marcaram a década de 1980 quando a categoria se vinculou aos movimentos sociais desta década (MIRANDA; CAVALCANTI, p. 08, acesso em: 12 abr. de 2009). Portanto, a luz de Trindade (2001, p. 37), nota-se que para a realização dos objetivos profissionais de ruptura exigiu-se dos profissionais de Serviço Social a superação dos modelos interventivos formais e abstratos. Colocava-se cada vez mais a necessidade dos profissionais serem críticos e realista capazes de notarem as contradições e possibilidades contidas na dinâmica das políticas sociais, uma vez que estas se constituíam no espaço ocupacional privilegiado de intervenção. Portanto, considera-se, que:
[...] a incidência do projeto de ruptura, a partir do segundo terço da década de oitenta, se penetra e informa os debates da categoria profissional, dá o tom da sua produção intelectual, rebate na formação de quadros operada nas agências acadêmicas de ponta e atinge as organizações representativas dos assistentes sociais. Numa palavra: a partir de meados dos anos oitenta, patenteia-se que a perspectiva da intenção de ruptura não é apenas um vetor legítimo do processo de renovação do Serviço Social no Brasil – evidencia-se o seu potencial criativo, instigante e, sobretudo, produtivo (NETTO, 2006, p. 267).

Com a perspectiva de intenção de ruptura a categoria profissional dos assistentes sociais passou a se posicionar de forma mais crítica frente ao sistema. Essa nova postura profissional exigiu modelos de intervenção condizentes com a intencionalidade da perspectiva, que consistia em romper com o Serviço Social “tradicional” pautado no pensamento conservador. Com essa nova postura profissional dá-se destaque a criação do código de ética de 1986. Neste sentido, em meio ao contexto dos anos 80, período caracterizado pela intensa mobilização e avanços dos direitos no Brasil, houve, por parte da categoria, a criação deste Código de Ética que constituiu um importante marco para a profissão. No entanto, apesar do Código de Ética de 1986 constituir-se como um avanço, recusar a neutralidade da prática profissional, reconhecer a dimensão histórica e política da profissão - esta em favor da classe trabalhadora - e das relações de força, superando a análise do objeto sob a perspectiva da anormalidade, e de reconhecer também o historicismo da moral, a ética foi tomada apenas em sua dimensão política (MIRANDA; CAVALCANTI, acesso em: 12 abr. de 2009). Portanto, em síntese, no que se refere ao avanço do projeto profissional nos anos 80, este,
[...] deveu-se à construção de elementos que o matizaram entre nós, dentre eles, o código de ética de 1986. Nele tivemos o coroamento da virada histórica promovida pelas vanguardas profissionais. Tratou-se da primeira tentativa de tradução não só legítima como legal (através do órgão de fiscalização do exercício profissional, o CFAS – Conselho Federal de Assistentes Sociais, hoje CFESS) da inversão ético-política do Serviço Social brasileiro, amarrando seus compromissos aos das classes trabalhadoras. É bem verdade que soava mais como uma carta de compromissos ídeo-políticos do que um código de ética que, por si só, exige certo teor prático-normativo. Mas, por outro lado, ao demarcar seus compromissos, mais que explicitamente, não deixava dúvidas de “qual lado” estávamos. Nesta mesma década, aferem-se também, avanços em torno do projeto no que tange à produção teórica que dá saltos significativos tanto quantitativamente quanto qualitativamente, trazendo temas fundamentais ao processo de renovação tais como a questão da metodologia, as políticas sociais e os movimentos sociais (REIS p. 409 e 410).

Isso posto, considera-se, segundo Iamamoto (2007, p. 113), que:
É no cenário dos anos 1990 [...] que tem sentido pensar ações que possam reverter no fortalecimento de um projeto político profissional que, desde a década de 1980, vem sendo coletivamente construído pela categoria dos

assistentes sociais [...] [no Brasil]. [Um] Projeto profissional comprometido com a defesa dos direitos sociais, da cidadania, da esfera pública no horizonte da ampliação progressiva da democratização da política e da economia na sociedade.

Portanto, na década de 1990, após grandes conquistas sociais por direitos, como visto no capítulo anterior com a Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente, a categoria profissional de Serviço Social passou a pensar no fortalecimento de seu projeto ético-político profissional. Neste sentido, tal projeto profissional,
[...] se materializou no Código de Ética Profissional do Assistente Social, na Lei de Regulamentação da Profissão de Serviço Social (Lei 8662/93), ambos de 1993, assim como a nova proposta de Diretrizes para o Curso de Serviço Social da Associação Brasileira de Ensino em Serviço Social – ABESS – de 1996, que redimensiona a formação profissional para fazer frente a esse novo cenário histórico (IAMAMOTO, p. 113).

Esse novo cenário histórico, portanto, é o cenário na qual se deve repensar a questão social, uma vez que as bases de sua produção sofrem na atualidade, uma profunda transformação advinda do padrão de acumulação do neoliberalismo. Portanto, o projeto ético-político consolidou-se nos 1990 e permanece em construção, tencionado pelos ditames neoliberais da sociedade brasileira. Neste período, o trabalho interventivo do profissional de Serviço Social se recolocou com algumas novas configurações. Estas novas configurações referem-se aos canais institucionais voltados à garantia da participação dos usuários das políticas sociais nos processos de “controle social”. Em exemplo, as experiências com Conselhos da Saúde, da Assistência Social e das políticas de atendimento à criança e ao adolescente estão conectadas á exigência profissional de mobilizar e organizar as condições necessárias para o exercício dessa prática de “controle social” (TRINDADE, 2001, p. 38). Neste sentido,
[...] o que é novo, portanto, não é a atuação dos assistentes sociais junto às formas coletivas de organização da população, mas o contexto e a configuração dessas formas organizativas. Trata-se de uma nova experiência que nem é a participação outorgada dos anos da ditadura, nem é a mobilização e organização de movimentos populares independentes das estruturas institucionais. O fato dos Conselhos, fazerem parte das instituições de políticas sociais, coloca o trabalho de mobilização e

organização num patamar diferenciado. E não só os Conselhos, pois também podemos citar a atuação dos assistentes sociais nos processos de elaboração dos “orçamentos participativos”, também uma experiência própria dos anos 90 (TRINDADE, 2001, p. 38).

A partir dos anos 1990, evidenciou-se, portanto, a importância da atuação profissional do Serviço Social nos mecanismos de controle social nos quais foi garantida a participação da população. Ressalta-se, segundo Iamamoto (2007, p. 51), que no cenário dos anos 1980, no contexto de ascensão dos movimentos sociais, das mobilizações em torno da elaboração e aprovação da Carta Constitucional de 1988, entre outras manifestações, que a categoria dos assistentes sociais foi sendo questionada pela prática política de diferentes segmentos da sociedade. Neste cenário, o trabalho de Serviço Social e a formação profissional se solidificaram tornando possível, portanto, um avanço qualitativo na análise sobre a profissão na contemporaneidade. Isso posto a autora sustenta que,
A relação do debate atual com esse longo trajeto é uma relação de continuidade e de ruptura. É uma relação de continuidade, no sentido de manter as conquistas já obtidas, preservando-as; mas é, também, uma ruptura, em função das alterações históricas da monta que se verificam no presente, da necessidade de superação de impasses profissionais vividos e condensados em reclamos da categoria profissional (IAMAMOTO, p. 51).

Sendo assim, segue-se a discussão referente às novas configurações que perpassa a profissão de Serviço Social no Brasil após alteração e renovação de sua prática interventiva frente às mudanças societárias e legislativas, especialmente na área da infância com o Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil.

2.3

O

SERVIÇO

SOCIAL

NA

ATUALIDADE:

DESAFIOS

E

POSSIBILIDADES DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL A PARTIR DOS ANOS 90 COM O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE E O FORTALECIMENTO DO PROJETO ÉTICO-POLÍTICO PROFISSIONAL

Situar o Serviço Social na atualidade requer pensar e analisar o contexto presente bem como as transformações advindas desde momento histórico, marcado pelo neoliberalismo, que rebate diretamente no convívio social, na efetivação das políticas, das leis e, conseqüentemente na atuação profissional do Serviço Social. A partir dos anos 1990, através de um novo direcionamento do projeto ético-político profissional – com a criação do Código de Ética em 1993 e com a Lei de Regulamentação da profissão de Serviço Social, também de 1993 –, o profissional de Serviço Social passa a desenvolver sua atuação tendo em vista o compromisso e respeito a essas balizar legais que o norteiam. No entanto, tal atuação, no Brasil, se desenvolve dentro da lógica neoliberal do Estado e sofre diversos rebatimentos. Neste sentido, os novos padrões de produção do trabalho, resultantes do modelo neoliberal, trouxeram conseqüências nítidas à população como, por exemplo, a redução da demanda de trabalho, ampliação da “população sobrante” fazendo aumentar a exclusão econômica, política, social, cultural de toda população das classes subalternas (IAMAMOTO, 2007, p.18). Portanto, neste cenário, a partir da notória acumulação de capital, pode-se observar um conseqüente aumento das expressões da questão social. Assim, nos locais de trabalho do Serviço Social, cresce a demanda por serviços sociais, aumenta a seletividade no âmbito das políticas sociais, diminuem os recursos, os salários e colocam-se critérios com menores possibilidades da população acessar aos seus direitos sociais, através dos serviços sociais públicos (IAMAMOTO, 2007, p. 18 e 19). Neste sentido, o atual quadro sócio-histórico rebate na atuação cotidiana do profissional de Serviço Social e afeta as suas condições de trabalho assim como afeta as condições de vida dos usuários dos serviços sociais (IAMAMOTO, 2007, p. 19). Tendo em vista estas questões, Iamamoto (2007, p. 20), sustenta que “[...] para garantir uma sintonia do Serviço Social com os tempos atuais, é necessário romper

com uma visão endógena, [...] focalista [...] do Serviço Social [...]”. Neste sentido, a autora afirma que:
Um dos maiores desafios que o Assistente Social vive no presente é desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emergentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo (IAMAMOTO, 2007, p. 20).

Portanto, mesmo inserido dentro de um sistema que impõe, ao seu fazer profissional, vários limites, o profissional de Serviço Social tem o desafio de “encarar” a realidade, na qual vive e faz parte, para poder buscar, propor e lutar por um novo modelo de sociedade assim como posto em seu Código de Ética profissional. Neste sentido, o Código de Ética profissional do assistente social de 1993, – criado frente a este contexto de instauração do projeto neoliberal no país –, indicou um rumo ético-político, um horizonte para o exercício profissional. Assim, como Princípios Fundamentais do Código de Ética, tem-se:
• Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais; • Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; • Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda a sociedade, com vistas á garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras; • Defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida; • Posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática; • Empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças; • Garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual; • Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero; • Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores; • Compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional;

• Exercício do Serviço Social sem ser discriminado, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual, idade e condição física (BRASIL, 1993).

O Código afirma como “valor ético central”, o compromisso com a liberdade, expõe sobre a autonomia profissional, a plena expansão e emancipação dos indivíduos sociais, o que gera, portanto, repercussão no modo de se realizar o trabalho profissional. No entanto, a grande questão vista enquanto desafio ao profissional de Serviço Social, é fazer efetivar seus princípios éticos em seu trabalho cotidiano (IAMAMOTO, p. 77). Assim como o Código de Ética, criou-se, neste mesmo contexto a Lei de Regulamentação da Profissão, Lei nº 8.662 (1993), que, entre outras delimitações, expôs como competência do profissional de Serviço Social, em seu Artigo 4º:
I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; IV - (Vetado); V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI - realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades.

Portanto, a partir dessa Lei, o profissional de Serviço Social, no ano de 1993, tem sua profissão regulamentada e suas devidas competências sinalizadas.

Tal Lei, nº 8.662 (1993), assim como delimitou as competências do profissional de Serviço Social, delimitou o que constituiria atribuições privativas deste profissional em seu artigo 5°. Tais atribuições constituem em:
I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional.

Estas são, portanto, atribuições próprias do profissional de Serviço Social, ou seja, nenhum outro profissional pode realizar. Na contemporaneidade do Serviço Social, além da criação do Código de Ética e da Lei 8662, é importante ressaltar, também, a criação da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), promulgada em sete de dezembro de 1993 (Lei nº 8.742), que surgiu para regulamentar os artigos 203 e 204 da Constituição, nos quais estabelece que a Assistência Social é política pública da Seguridade Social. Neste sentido, a LOAS estabelece o sistema de proteção social para os grupos mais vulneráveis da população, por meio de benefícios, serviços, programas e projetos. 7

7

Disponível em: http://www.planalto.gov.br/publi_04/COLECAO/TRABIN3.HTM. Acesso em: 27 abr. 2009.

Em seu art. 2º a LOAS, estabelece que a assistência social tem por objetivos dentre outros: I) a proteção à família, à infância e à adolescência; II) o amparo às crianças e adolescentes carentes. Isso posto, salienta-se que as ações de assistência social não se dirigem ao universo da população infanto-juvenil, mas a um segmento específico que delas necessita por se encontrar em estado de carência, exclusão ou risco pessoal e social. 8 Explicitado tais balizas legais que norteiam a atuação profissional, o profissional de Serviço Social, possui, portanto, um grande desafio na atualidade que é: materializar todos estes direcionamentos a favor de seus usuários. E, essa é a grande dificuldade do fazer profissional diante na conjuntura capitalista na qual estabeleceu o projeto neoliberal e a reestruturação produtiva como modelos de sustentação do capital. Neste sentido, segundo Iamamoto (2007, p. 32):
[...] as tendências do mercado de trabalho [...] indicam uma classe trabalhadora polarizada, com uma pequena parcela com emprego estável, dotada de força de trabalho altamente qualificada e com acesso a direitos trabalhistas e sociais e, de outro uma larga parcela da população com trabalhos precários, temporários, subcontratados [...] [entre outros].

Estas configuram, portanto, algumas conseqüências do sistema capitalista, de projeto neoliberal, para a classe trabalhadora a partir dos anos 1990. Observam-se, diversas formas de contratação e posição no mercado de trabalho. Diante disso, afirma-se que o profissional de Serviço Social uma vez inserido na divisão sóciotécnica do trabalho não foge a esta realidade. Isso posto, nota-se, portanto, que o neoliberalismo, ao apostar no mercado como a grande esfera reguladora das relações econômicas, levou a uma ampliação das desigualdades sociais e do desemprego (IAMAMOTO, 2007, p. 35). Salienta-se, de acordo com Iamamoto (2007, p. 37), que:
O discurso neoliberal tem a espantosa façanha de atribuir título de modernidade ao que há de mais conservador e atrasado na sociedade brasileira: fazer do interesse privado a medida de todas as coisas,
8

Ibid.

obstruindo a esfera pública, a dimensão ética da vida social pela recusa as responsabilidades e obrigações sociais do Estado. É isso que se verifica no trabalho cotidiano do Serviço Social.

Portanto, o sistema neoliberal levou a recusa do Estado de suas obrigações e responsabilidades sociais atribuindo tais papeis ao mercado. A partir de então, observou-se significativamente o aprofundamento de piores condições de vida da população através de um notável aumento das expressões da questão social, dos modos de contratação e desemprego que refletem, também, no trabalho cotidiano do Serviço Social. Portanto, todas estas questões são decorrentes das transformações no mundo do trabalho. Neste sentido, em conseqüência da crise fiscal do Estado num contexto recessivo, ocorre a redução das possibilidades de financiamento dos serviços públicos e a diminuição dos gastos governamentais no que tange ao social (IAMAMOTO, 2007, p. 34). Neste sentido, Iamamoto (2007, p. 39), afirma que o “[...] desemprego, flexibilização do trabalho e terceirização estão na base da sustentação da exploração do trabalho infantil, aliadas às políticas de ajuste, de corte dos gastos sociais [...]”, pois a contratação da mão-de-obra infantil reduz o custo da força de trabalho levando, portanto, ao desemprego dos adultos e aumento do trabalho infantil. Isso posto, segundo Iamamoto (2007, p. 40),
Várias esferas da sociedade estão se mobilizando em torno da defesa da criança e do adolescente na sociedade brasileira e os assistentes sociais somam-se a outras forças sociais, contribuindo para dar visibilidade pública a essa face da questão social. Como categoria, os assistentes sociais lidam com essas múltiplas expressões das relações sociais da vida quotidiana, o que permite dispor de um acervo privilegiado de dados e informações sobre as várias formas de manifestação das desigualdades e da exclusão sociais e sua vivência pelos indivíduos sociais.

Portanto, com o agravamento das expressões da questão social na sociedade e conseqüente rebatimento nas crianças e nos adolescentes desfavorecidos, nota-se um forte posicionamento da sociedade e de parcelas de profissionais de Serviço Social no que tange a defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, segundo o ECRIAD.

Como exposto no capítulo anterior, o Estatuto da Criança e do Adolescente, se configurou enquanto uma grande conquista da qual a categoria esteve presente nos anos 90. O Estatuto universalizou o discurso legal, dispôs sobre a proteção integral a todas as crianças e adolescentes, vedando, com isso, a discriminação pelas condições de pobreza, como sugeriam os Códigos de Menores de 1927 e de 1979, que eram direcionados à segmentos de crianças e adolescentes pobres (abandonados, delinqüentes, entre outros). No entanto, mesmo transcorrido tanto tempo de promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, a maior parte da população demandante dos serviços jurídicos voltados à área da criança e do adolescente possuem baixa renda (FÁVERO, 2004, p. 16). Vale salientar, também, que, segundo Fávero (2004, p. 11),
Ainda que o meio sócio-jurídico, em especial o judiciário, tenha sido um dos primeiros espaços de trabalho do assistente social, só muito recentemente é que particularidades do fazer profissional nesse campo passaram a vir a público como objeto de preocupação investigativa. Tal fato se dá por um conjunto de razões, das quais se destacam: a ampliação significativa de demanda de atendimento e de profissionais para a área, sobretudo após a promulgação do ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente; a valorização da pesquisa dos componentes dessa realidade de trabalho,inclusive pelos próprios profissionais que estão na intervenção direta; e, em conseqüência, um maior conhecimento crítico e valorização, no meio da profissão, de um campo de intervenção historicamente visto como espaço tão-somente para ações disciplinadoras e de controle social, no âmbito da regulação caso a caso. Alia-se a isso o compromisso de parcela significativa da categoria com ações na direção da ampliação e garantia de direitos, e na provocação de alterações nas práticas sociais.

Neste sentido, pode-se notar, portanto, que após várias conquistas profissionais e, também, de direitos – na área da criança e do adolescente com o ECRIAD, por exemplo, – parcelas de profissionais de Serviço Social se colocam na contemporaneidade com um novo perfil. Perfil este, investigativo, comprometido, crítico e disposto a melhoria de sua prática interventiva. O Estatuto da Criança e do Adolescente aponta, para a necessidade de assessoria de equipe interprofissional na esfera da justiça. A esta equipe compete, dentre outras atribuições que lhes forem reservadas pela legislação local, fornecerem subsídios por escrito, mediante laudos, ou verbalmente, na audiência, bem como desenvolver trabalhos de orientação, encaminhamento, prevenção e outros. Essas atribuições

contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente “[...] fazem parte de um conjunto de normas relacionadas à doutrina da proteção integral, que norteia as ações junto à criança e ao adolescente [...]”. A partir dessas ações, o Poder Judiciário têm solicitado, com mais freqüência, a presença de profissionais com formação na área social para atuarem em medidas de prevenção e de suporte à aplicação da lei (FÁVERO, 2004, p. 21). Portanto, com o advento do ECRIAD nos anos 1990, o profissional de Serviço Social passou a ser solicitado para trabalhar no sentido de dar aplicabilidade ao Estatuto. Neste sentido, salienta-se que:
O momento presente desafia os assistentes sociais a se qualificarem para acompanhar, atualizar e explicar as particularidades da questão social nos níveis nacional, regional e municipal, diante das estratégias de descentralização das políticas públicas. Os assistentes sociais encontramse em contato direto e cotidiano com as questões da saúde pública, da criança e do adolescente, da terceira idade, da violência, da habitação, da educação [...] [entre outras], acompanhando as diferentes maneiras como essas questões são experimentadas pelos sujeitos (IAMAMOTO, 2007, p. 41).

Em sua atuação profissional, portanto, é importante que, em todas as áreas, o profissional comprometa a se qualificar, se atualizar, uma vez que a realidade é dinâmica e passa a exigir dos profissionais conhecimentos de leis e políticas contemporâneas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente. Neste sentido, de acordo com Iamamoto (2007, p. 51), os assistentes sociais se colocam nos anos 1990, como uma categoria pesquisadora. Além disso, “[...] amadureceram suas formas de representação político-corporativas, contando com órgãos de representação acadêmica e profissional reconhecidos e legitimados [...]”. Há, também, a presença de um amplo debate em volta das políticas, especialmente da assistência social, posta no campo dos direitos sociais, nas relações entre o Estado e a sociedade civil, possibilitando seu fortalecimento e auto-reconhecimento. Quanto à área da infância, é importante ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente comemorou no ano de 2008 dezoito anos. No entanto, apesar da legislação, atualmente pode-se notar que os direitos e as necessidades das crianças

e dos adolescentes no Brasil não estão sendo respeitados. Além de não terem seus direitos e necessidades supridas, as crianças e os adolescentes estão sendo penalizados injustamente no país (COMISSÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2003, p. 74). Isso posto, aos profissionais de Serviço Social, cabe assumir a luta para o fortalecimento e concretização do Estatuto da Criança e do Adolescente para que as crianças e adolescentes possam ter garantidos seus direitos fundamentais (COMISSÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE, 2003, p. 74). Ressalta-se que o Serviço Social na contemporaneidade, portanto, deve participar do movimento da realidade, compreender a realidade vivida e se compreender nela para poder lutar e fazer efetivar os direitos da população (IAMAMOTO, 2007, p. 55). Neste sentido, a luz de Iamamoto (2007, p. 80), exige-se que o profissional de Serviço Social seja preocupado com a qualidade de seus serviços, com o respeito a seus usuários. Para tanto é necessário que ele invista na melhoria dos programas sociais, na rede de abrangência dos serviços públicos e reaja contra a imposição de seletividade no acesso aos atendimentos prestados. Isso posto, depois de assumido nova postura profissional na contemporaneidade, com o advento de um novo projeto ético-político profissional, o assistente social possui enormes desafio no seu cotidiano de trabalho. Portanto, o Serviço Social na atualidade deve trabalhar de forma diferenciada na qual não venha a recusar as tarefas socialmente atribuídas, mas direcionar sua intervenção segundo o que está posto em seu Código de Ética Profissional (IAMAMOTO, p. 80). Em conclusão, dar dimensão ao novo no trabalho profissional significa estar atento e “[...] captar as inéditas mediações históricas que moldam e norteiam os processos sociais e suas expressões nos vários campos em que opera o Serviço Social [...]” (IAMAMOTO, 2007, p. 80). Um novo direcionamento do trabalho na atualidade exige-se do profissional de Serviço Social:

[...] uma bagagem teórico-metodológica que lhe permita elaborar uma interpretação crítica do seu contexto de trabalho, um atento acompanhamento conjuntural no qual se insere, que potencie o seu espaço ocupacional, o estabelecimento de estratégias de ação viáveis, negociando propostas de trabalho com a população e entidades empregadoras (IAMAMOTO, 2007, p. 80).

Para finalização deste capítulo, ressalta-se, como exposto, que a década de 1990 foi marcada, para a área da criança e da adolescência, por grandes avanços. O principal deles foi a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Destacase, pois, que a partir da implantação desta Lei, para lhe dar aplicabilidade, houve a criação de inúmeros programas sociais de atendimento à criança e ao adolescente no Brasil. Estes Programas voltam-se ao atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual, em situação de trabalho infantil, em conflito com a lei, em situação de rua, crianças e adolescentes que tiveram seus laços familiares rompidos ou enfraquecidos, entre outros. Portanto, em decorrência do agravamento das expressões da questão social e visibilidade do trabalho infantil no país, – devido à adoção ao projeto neoliberal, diminuindo seus investimentos na área social e privilegiando a economia, – o governo cria programas e políticas sociais para “compensar” o que deveria ter garantido a população em seu direito. No entanto, estes programas e políticas não respondem e nem respaldam, de fato, os direitos da população, pois permanecem inseridos na lógica neoliberal. Dentre os Programas Sociais criados a partir da implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil, será explicitado, no capítulo que segue, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) que surgiu para enfrentamento da situação de trabalho infantil, de crianças e adolescentes. Além da exposição deste Programa, será analisado, no último capítulo, o trabalho do Serviço Social no PETI do Município de Vitória-ES.

3

CONTEXTO

SÓCIO-HISTÓRICO

DO

PROGRAMA

DE

ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI) INSERIDO NO MUNICÍPIO DE VITÓRIA-ES
Este capítulo abordará sobre o surgimento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Brasil e posterior inserção no Município de Vitória-ES. Será explicitado, portanto, quais elementos e mobilizações condicionaram a criação deste Programa no Brasil e implantação no Município de vitória, e como este foi se alterando no decorrer de seu desenvolvimento e se encontra atualmente no Município em questão.

3.1 O PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI)
Como exposto em capítulos anteriores, a questão social emerge e ganha notoriedade no contexto da revolução industrial na qual o sistema capitalista passa a explorar a força de trabalho de homens, mulheres e crianças sem o respaldo de proteção alguma ao trabalho destes. Frente a esta realidade vivenciada por estes sujeitos, houve inúmeras conseqüências para o social diante da intensificação das expressões da questão social tais como: aumento da pobreza, favelização, trabalho infantil, entre outros. Todos estes fatores desencadearam uma forte queda do padrão de vida das classes trabalhadoras e conseqüentemente acarretou num grande descontentamento da população frente ao sistema, desencadeando, ao longo dos anos, em movimentos de lutas por condições dignas de trabalho, por combate a precarização das formas de trabalho e por melhor intervenção do Estado na área social, na área da criança e do adolescente, entre outras. Assim, as reivindicações da população por melhorias e atenção as diversas áreas do social passaram a ter respaldo em Constituições Federais e legislações específicas com a intensificação da intervenção do Estado através de políticas públicas ao longo de cada fase da história. Quanto ao uso de crianças e adolescente como mão-de-obra produtiva no Brasil, este data de um longo período, com suas raízes fincadas ainda na época escravista, que vigorou por mais de três séculos. Mais tarde com o fim da escravidão e a expansão das indústrias, portanto, temos, o uso da criança como força de trabalho nas fábricas (OIT, 2001). Apesar de a Organização Internacional do Trabalho (OIT) desde 1919, legislar sobre a regulamentação da jornada laboral de crianças, a temática “trabalho infantil” só ganhou destaque social na década de 1980, quando a questão começou a ser encarada como expressão da questão social ao invés de solução para a vida de crianças pobres. Neste sentido, o combate ao trabalho infantil começa a ganhar força no Brasil durante a década de 1980, auge dos movimentos sociais durante o período de repressão do regime militar, onde muitos movimentos sociais se

articularam a fim de garantir melhoria das condições de vida da população, dentre eles estavam os movimentos em prol da infância e juventude (OIT, 2001). Portanto, a década de 1980 foi marcada pelo crescimento desses movimentos sociais de lutas que reivindicavam direitos, solicitando políticas públicas, melhorias legislativas e melhor intervenção Estatal na área social. Nesta década ressalta-se a criação da Constituição Federal de 1988 que, quanto ao trabalho infantil, admitiu trabalho a partir dos 14 anos, mas somente na condição de aprendiz. Como já explicitado em capítulos anteriores, dois anos após a criação desta constituição, houve a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente que também foi fruto dos movimentos sociais de luta visando à melhoria da proteção e atendimento às crianças e adolescentes no Brasil. Quanto ao trabalho infantil, o Estatuto preconizou em seu artigo 60 a proibição do trabalho infantil e, assim como na Constituição Federal de 1988, a permissão na condição de aprendiz a partir dos 14 anos. Mesmo com a criação destas legislações proibindo o trabalho infantil no Brasil, a situação de trabalho infantil perpetuou e permanece até os dias de hoje.

Isso posto, nota-se que crianças e adolescentes são obrigados a trabalhar por várias razões, sendo a pobreza o principal fator que desencadeia essa expressão da questão social. Muitos governos ao enfrentarem crises econômicas não priorizam o social: saúde, educação, moradia, saneamento básico, programas de geração de renda, treinamento profissional, entre outros. Sendo assim a vida para as famílias de baixa renda se torna uma luta diária pela sobrevivência. Dessa forma, as crianças são forçadas a assumir responsabilidades, ajudando em casa para que os pais possam trabalhar, ou indo elas mesmas trabalhar para ganhar dinheiro e complementar à renda familiar (OIT, 2001). Neste sentido, o sistema neoliberal, no qual estamos inseridos, privilegiando a economia em detrimento do social, provoca o aumento do trabalho infantil e sua manutenção, uma vez que o Estado não garante, de fato, os direitos fundamentais

da população. Frente a estas questões, o tema trabalho infantil continuou tendo visibilidade no cenário brasileiro e no cenário internacional. Assim, ao longo dos anos a discussão a cerca do trabalho infantil foi ganhando destaque através de estudos acadêmicos, reportagens, denúncias, seminários e debates. Toda essa mobilização em torno desse tema veio, portanto, acontecendo de maneira gradativa, através da reivindicação pública, da mobilização da sociedade, conseguindo várias vitórias, como principalmente a mudança na forma de encarar a questão como “solução” para o “problema” da infância “pobre”, passando hoje a ser reconhecido universalmente como um grave problema revelador da situação de miséria e exclusão social vivida por diversas famílias. Tendo em vista as mobilizações em vários âmbitos, tratados e convenções foram sendo formuladas nos anos de 1990, principalmente pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para se trabalhar a questão do trabalho infantil em diversos países. Nos anos 1990, ressalta-se, pois, que o Brasil ratificou a Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Com relação ao trabalho infantil, o país participa, desde 1992, do Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC) da Organização Internacional do Trabalho, que se propõe a apoiar os países participantes a combater progressivamente o trabalho Infantil, objetivando a erradicação deste (CAMPOS, 1999, p. 11). Portanto, vale destacar que o trabalho infantil foi condenado pela Organização Internacional do Trabalho e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), sendo considerado um trabalho escravo. Diante disso, a OIT e a UNICEF, após aprovação da maioria dos países, assinaram tratados e convenções a favor da erradicação do trabalho infantil no mundo. Os governos brasileiros assinaram todos os tratados e convenções, mas só quando foi formado o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil é que o tema ganhou maior visibilidade (BONFIM, 2000. p. 07).

Tendo em vista todas as legislações e convenções visando o combate ao trabalho infantil e, principalmente, as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente que visa sobre a Proteção Integral e sobre Políticas de Atendimento de crianças e adolescentes no Brasil lance-se mão, em 1995, da criação de um Programa específico de combate ao trabalho infantil fruto, também, da luta de movimentos sociais que nos anos 1990 colocaram em pauta a erradicação do Trabalho Infantil no Brasil. Portanto, no ano citado, o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil elaborou o Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), visando solucionar o problema em São Paulo, no setor de fabricação de calçados; Mato Grosso do Sul (extração de carvão); Pernambuco, na cana-de-açucar; Sergipe, plantação de laranjas; e na Bahia (sisal, pedreiras e olarias). Feitas as parcerias com o UNICEF, governos federal, estadual e municipal e com diversas entidades, formouse a Comissão Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Competi) (BONFIM, 2000. P. 07). Ressalta-se, entre outras legislações, que o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi criado visando efetivar, portanto, os direitos da criança e do adolescente, contido no Estatuto da Criança e do Adolescente, especificamente no artigo 60 quanto à proibição do trabalho infantil. Tal Programa esta inserido na política de atendimento preconizada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, nas disposições referidas nos artigos 86 a 97. O artigo 86 do Estatuto da Criança e do Adolescente explicita que:
A política de atendimento da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e nãogovernamentais, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (BRASIL, 1990).

Inicialmente, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi lançado, como uma das primeiras ações concretas resultantes de denúncias e reivindicações relacionadas ao trabalho de crianças no Brasil. Surgiu com a perspectiva de eliminar as piores formas de trabalho laborioso de crianças e adolescentes no País.

A primeira experiência foi implantada, portanto, em 1996 nas carvoarias do Mato Grosso do Sul e, nos anos seguintes, nos canaviais de Pernambuco e na região sisaleira9 da Bahia. Em 1998, o Programa alcançava as regiões citrícolas do Sergipe, um garimpo de Rondônia e canaviais do Rio de Janeiro (CAMPOS, 1999, p. 13). Em 1999, o programa passou a contemplar os Estados de Alagoas, Espírito Santo, Pará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Santa Catarina. No Município de Vitória, o PETI foi implantado em 2001 tendo como meta atender 500 crianças/adolescentes. Em âmbito geral, o Programa reconhece como bases para o desenvolvimento de suas ações:
1. A necessidade de envolvimento da sociedade e do governo, de forma coordenada, no processo de erradicação do trabalho infantil. Ambos são chamados a um processo de intervenção que exige atuação pactuada conjuntamente, dentro das capacidades e competências de cada organização, tendo como uma de suas diretrizes básicas a descentralização político-administrativa. A articulação entre organizações privadas e os diversos setores e instâncias governamentais antecedeu sempre a implementação do Programa, sendo desenvolvida nos moldes do relacionamento estabelecido com as diferentes regiões brasileiras, pelo Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, desde sua criação. 2. A criação, como componente estratégico, de condições para o acesso, ingresso, permanência e sucesso de crianças e adolescentes na escola, já que, com relação ao trabalho infanto-juvenil, as pesquisas têm demonstrado que este influi negativamente no desempenho escolar. 3. A importância da compreensão do trabalho infantil no contexto de cada uma das atividades econômicas focalizadas, de forma a fazer depender sua erradicação não apenas da intervenção junto ás famílias, mas da alteração do conjunto das condições tecnológicas e das relações de produção em geral inerente à posição dessas atividades econômicas nas chamadas “cadeias produtivas”, que implicam etapas nacionais e internacionais. 4. A exigência de se procurar o envolvimento dos setores empresariais, tanto aqueles ligados a essa “cadeia”, como outros, vinculados à economia local, caracterizada pelos problemas da monocultura e do baixo desenvolvimento tecnológico, já que a utilização pelo Programa do conceito inovador de “cadeias produtivas” permitiu alcançar maior compreensão das causas econômicas do trabalho infantil. 5. O caráter estratégico da aliança com a família dos trabalhadores infantis, incluindo sua participação consciente desde a época de implantação do Programa, não apenas mediante apoio psicossocial e subsídio financeiro imediato, mas com a busca conjunta de outras opções de geração de
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O sisal é uma planta utilizada para fins comerciais. O A. sisalana é cultivado em regiões semiáridas. No Brasil, os principais produtores são os estados da Paraíba e da Bahia. Do sisal, utiliza-se principalmente a fibra das folhas que, após o beneficiamento, é destinada majoritariamente à indústria de cordoaria (cordas, cordéis, tapetes etc) (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sisal. Acesso em: 01 de junho de 2009).

emprego e renda. Reconhece-se a relevância da mediação da família no uso do trabalho infantil e, conseqüentemente, no processo de sua erradicação Assim, as famílias atingidas apresentam elevado grau de incorporação ao Programa, efetuando-se de maneira constante a substituição do trabalho infantil pela escola na vida das crianças e dos adolescentes. 6. A definição da erradicação do trabalho infantil como uma das estratégias de intervenção do Governo Federal no desenvolvimento social, através da área de justiça, compondo um conjunto de programas e ações estabelecidos como prioritários, com recursos que foram previstos, para o ano de 1996, de forma a eliminar o trabalho escravo ou perigoso de 60 mil crianças nas carvoarias, no sisal e setor sucro-alcooleiro (CAMPOS, 1999, p. 17, 19, 20 e 21).

Portanto, estes seis itens são as bases para o desenvolvimento das ações para o combate ao trabalho infantil através do PETI. Em síntese, tais bases ressaltam: o envolvimento da sociedade e do governo no combate ao trabalho infantil; a criação estratégica de condições para a vivência escolar das crianças e adolescentes; a importância da compreensão do trabalho infantil no contexto das atividades econômicas; envolvimento dos setores empresariais no combate ao trabalho infantil; a aliança estratégica com a família das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil; e, erradicação do trabalho infantil como uma das estratégias de intervenção do Governo Federal no desenvolvimento social. Para que os Municípios participem do PETI, respaldado por tais bases, é necessário, portanto, que existam casos de trabalho infantil. Esse levantamento é feito pelos estados e Municípios, por meio de seus órgãos gestores de assistência social. Neste sentido, é importante destacar que para que o PETI seja implantado em qualquer Estado, exige-se a existência das Comissões Municipais e Estaduais de Erradicação do Trabalho Infantil (CMETI). As atribuições delegadas ao CMETI são:
• • • contribuir para a sensibilização e mobilização de setores do governo e da sociedade em torno da problemática do trabalho infantil; sugerir procedimentos complementares às diretrizes e normas do PETI; participar, juntamente com o órgão gestor municipal da Assistência Social, na definição das atividades laborais priorizadas e no número de crianças e adolescentes a serem atendidos no Município, inclusive os casos específicos adolescentes de 15 anos de idade participar da elaboração do Plano Municipal de Ações Integradas; interagir com os diversos programas setoriais de órgãos ou entidades executoras de políticas públicas que tratem das questões das famílias, das crianças e dos adolescentes, visando otimizar os resultados do PETI; articular-se com organizações governamentais e não-governamentais, agências de fomento e entidades de defesa dos direitos da criança e do

• • • • • • • • •

adolescente, para apoio logístico, atendimento às demandas de justiça e assistência advocatícia e jurídica; sugerir a realização de estudos, diagnósticos e pesquisas para análise da situação de vida e trabalho das famílias, crianças e adolescentes; recomendar a adoção de meios e instrumentais que assegurem o acompanhamento e a sustentabilidade das ações desenvolvidas no âmbito do Programa; acompanhar o cadastramento das famílias, sugerindo critérios complementares para a sua seleção em conjunto com o órgão gestor municipal da Assistência Social; aprovar, em conjunto com o órgão gestor municipal da Assistência Social, os cadastros das famílias a serem beneficiadas pelo PETI, inclusive os casos específicos adolescentes de 15 anos de idade; acompanhar e supervisionar, de forma complementar, as atividades desenvolvidas pelo Programa; denunciar aos órgãos competentes a ocorrência do trabalho infantil; receber e encaminhar aos setores competentes as denúncias e reclamações sobre a implementação e execução do PETI; estimular, incentivar a capacitação e atualização para profissionais e representantes de instituições prestadoras de serviços junto ao públicoalvo; contribuir no levantamento e consolidação das informações, subsidiando o órgão gestor municipal da Assistência Social na operacionalização e na avaliação das ações implantadas (BRASIL, 2001).

No ano de 2001, a Secretaria de Estado de Assistência Social publicou, no Diário Oficial da União, as Diretrizes e Normas do PETI sob a portaria nº 458, de 4 de outubro de 2001. De acordo com tal Portaria, as Diretrizes e Normas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil foram formuladas considerando o disposto:
[...] na Constituição Federal de 1988 que em seu Artigo 227 elegeu a criança e o adolescente como prioridade absoluta e em seu Art. 7º, inciso XXXIII, modificado pela Emenda Constitucional nº 20, de 16/11/1998, proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos; na Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que em seu Art. 60, ratifica a proibição do trabalho infantil e que em seu Art. 62 considera que a condição de aprendiz diz respeito à formação técnico-profissional, ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação em vigor; no estabelecido no Parágrafo II do Art. 2º da Lei nº 8.742/93 - Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que tem como objetivo o amparo às crianças e aos adolescentes; na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), nº 9.394/96, que em seu Art. 89, § 5º, estabelece que serão conjugados todos os esforços objetivando a progressão das redes escolares públicas urbanas de ensino fundamental para o regime de escolas em tempo integral; nas Convenções nº 138 e 182 da Organização Internacional do Trabalhos (OIT), ratificadas pelo Governo Brasileiro, que estabelecem, respectivamente, a priorização de erradicação do trabalho infantil nas suas piores formas, bem como a idade mínima de 16 anos para ingresso no mercado de trabalho; no previsto na Política Nacional de Assistência Social, aprovada pela Resolução CNAS nº 207, de 16/12/1998, que tem como uma de suas diretrizes: a efetivação de amplos pactos entre Estado e sociedade, que garantam o atendimento de crianças,

adolescentes e famílias em condições de vulnerabilidade e exclusão social; na Resolução nº 7, de 17/12/1999, da Comissão Intergestora Tripartite – SEAS/MPAS; na Resolução nº 5, de 15/02/2000, do Conselho Nacional de Assistência Social-CNAS (BRASIL, 2001).

Portanto, tendo em vista tais mecanismos legais foram formuladas as diretrizes e normas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil nas quais especifica seu objetivo geral, objetivos específicos, público alvo, propõe a centralidade na família, entre outras. Através da Portaria nº 458, foi definido que o objetivo geral do PETI seria erradicar, em parceria com os diversos setores governamentais e da sociedade civil, o trabalho infantil nas atividades perigosas, insalubres, penosas ou degradantes nas zonas urbana e rural. Os objetivos específicos seriam: possibilitar o acesso, a permanência e o bom desempenho de crianças e adolescentes na escola; implantar atividades complementares à escola - Jornada Ampliada; conceder uma complementação mensal de renda - Bolsa Criança Cidadã, às famílias; proporcionar apoio e orientação às famílias beneficiadas; promover programas e projetos de qualificação profissional e de geração de trabalho e renda junto às famílias (BRASIL, 2001). O público alvo, a partir da Portaria nº 458, caracterizou-se por ser famílias com renda per capita de até ½ salário mínimo, com crianças e adolescentes em idade inferior a dezesseis anos, atendendo as diversas situações de trabalho (BRASIL, 2001). Quanto à centralidade na família, a Portaria nº 458 expôs que as ações desenvolvidas no âmbito do PETI devem ter como lócus de atenção a família, a qual se trabalharia por meio de ações sócioeducativas e de geração de trabalho e renda, que visem garantir a sua proteção e inclusão social, promovendo melhoria na sua qualidade de vida (BRASIL, 2001). Destaca-se, que, enquanto uma política pública, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, faz parte de um conjunto das políticas do governo federal. Seguindo o que está posto no Estatuto da Criança e do Adolescente, o PETI surgiu do trabalho parceiro entre as esferas dos governos federal, estadual – responsável pela supervisão do Programa –, e municipal, cabendo as prefeituras o

desenvolvimento do trabalho na ponta, ou seja, com os usuários e seus familiares (LEITE, p. 01 e 02, acesso em: 27 abr. 2009). Vinculado ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o PETI caracteriza-se atualmente, por ser um programa de transferência de renda do Governo Federal integrado e unificado ao PBF. A integração do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) ao Programa Bolsa Família (PBF)
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vinha

sendo viabilizada desde 2004, efetivando-se em 2006, regido pela portaria 666.
Trata-se de "uma decisão do governo brasileiro", disse o secretário de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Oswaldo Russo, em entrevista à Agência Brasil. "É importante racionalizar a aplicação de recursos para que a população seja melhor atendida", afirmou Russo [...] No caso do PETI, o foco é tirar as crianças em situação de trabalho infantil e colocá-las na escola, na convivência familiar e comunitária. No Bolsa Família, as ações têm o objetivo de dar uma renda mínima às famílias para que as crianças freqüentem as escolas e progridam nos estudos, explicou Russo. "São focos parecidos", disse o secretário. Por essa razão, o Ministério decidiu promover a integração dos programas (RUSSO, 2006).

Portanto, a integração entre o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e o Programa Bolsa Família (PBF), regulada pela Portaria GM/MDS nº 666, objetivou o enfrentamento da duplicidade de benefícios, unificação do valor do Serviço Socioeducativo, a ampliação do atendimento segundo as demandas registradas de trabalho infantil, melhoria na gestão e a universalização do acesso. 11 Esse processo possibilita o acesso dos usuários inseridos no Programa Bolsa Família, às ações de enfrentamento ao trabalho infantil, uma vez que estende o Serviço Socioeducativo, ofertado contrário ao escolar, e o trabalho sócioassistencial às famílias com crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, que fazem parte do Programa Bolsa Família. 12

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O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, de acordo com a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004. (Disponível em: www.mds.gov.br/bolsafamilia/o_programa_bolsa_familia/o-que-e - 45k - acesso dia 01 de junho de 2009) 11 Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-deerradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009. 12 Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-deerradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.

É importante destacar que este processo de integração objetiva a garantia da especificidade e do foco de cada programa. Neste sentido, tal processo possibilita que ambos os Programas continuem atingindo seus principais propósitos, com a diferença, no entanto, de promover a potencialização das ações, a unificação das condicionalidades entre os dois Programas e a universalização do acesso. 13 O PETI é, portanto, um programa do Governo Federal executado no âmbito Municipal pelas Prefeituras através de parcerias e convênios. Ao Governo Federal é atribuído o pagamento das bolsas, R$ 40 reais por criança beneficiada. Com a integração do PETI ao Programa Bolsa Família (PBF), houve a unificação dos benefícios, de forma que a família receberia o maior beneficio, nesse processo, a maioria das famílias acompanhadas pelo PETI migraram para o PBF, mas ainda permanecem sendo acompanhadas pelo PETI. 14 De acordo com o site do MDS, as condicionalidades para permanência no PETI são:
[...] retirada de todas as crianças/adolescentes de atividades laborais e de exploração;- freqüência mínima da criança e do adolescente nas atividades de ensino regular e no Serviço Socioeducativo, no turno complementar ao da escola, de acordo com o percentual mínimo de 85% (oitenta e cinco) da carga horária mensal exigida;-acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil, da vacinação, bem como da vigilância alimentar e nutricional de crianças menores de sete anos (BRASIL, acesso em: 22 jan. 2009).

Destaca-se que a realização das atividades no horário extra aula, sendo esta uma condicionalidade, se dá por meio de entidades parceiras ou conveniadas. Entendese por parcerias, aquelas entidades que prestam serviços as crianças do PETI, mas não recebem recursos da PMV para isso. As conveniadas recebem recursos financeiros, destes recursos, 50% são enviados pelo Governo Federal ao Município, e 50% são pagos pela PMV. 15 Ressalta-se, que atualmente o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) compõe o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) articulando o Serviço Socioeducativo e a Transferência de Renda para as famílias que fazem parte do
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Ibid. Ibid. 15 Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-deerradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.

Programa. Na perspectiva do SUAS, o programa visa trabalhar com ações socioassistenciais com foco na família, potencializando sua função de proteção, os vínculos familiares e comunitários. 16 O Sistema Único de Assistência Social, criado em 2004, possui um modelo de gestão descentralizado e participativo. Tal sistema constitui-se na regulação e organização das ações socioassistenciais em todo o território nacional. Neste sentido, o SUAS preconiza que,
[...] os serviços, programas, projetos e benefícios têm como foco prioritário a atenção às famílias, seus membros e indivíduos e o território como base de organização, que passam a ser definidos pelas funções que desempenham, pelo número de pessoas que deles necessitam e pela sua complexidade. Pressupõe, ainda, gestão compartilhada, co-financiamento da política pelas três esferas de governo e definição clara das competências técnico-políticas da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com a participação e mobilização da sociedade civil e estes têm o papel efetivo na sua implantação e implementação (BRASIL, 2004, p. 32 e 33).

Portanto, o Sistema Único da Assistência Social visa a materialização do conteúdo da LOAS, objetivando a conquista de direitos de cidadania e inclusão social posta nessa Política (BRASIL, 2004, p. 33). O SUAS define e organiza os elementos essenciais e imprescindíveis à execução da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) possibilitando a normatização dos padrões nos serviços, qualidade no atendimento, indicadores de avaliação e resultado, nomenclatura dos serviços e da rede socioassistencial (BRASIL, 2004, p. 33). Portanto, o trabalho do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil se desenvolve de acordo com o que esta posto no SUAS e nas políticas que o MDS (Ministério de Desenvolvimento Social) coloca em todo território nacional, a centralidade na família, sendo esta o foco do trabalho em rede constituindo enquanto objetivo do Programa e do Serviço Social no Programa. Na Política Nacional de Assistência Social (PNAS), o PETI se enquadra nos serviços de Proteção Social Especial. Segundo a PNAS (2004), a proteção social especial,
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Ibid

[...] é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social, por ocorrência de abandono, maus tratos físicos e, ou, psíquicos, abuso sexual, uso de substâncias psicoativas, cumprimento de medidas sócio-educativas, situação de rua, situação de trabalho infantil, entre outras (BRASIL, 2004, p. 22).

De acordo com a PNAS, os serviços da proteção social especial visam à realização de acompanhamento individual, e maior flexibilidade nas soluções protetivas. Além disso, os serviços de proteção especial possuem estreita interface com o sistema de garantia de direito exigindo uma gestão mais complexa e compartilhada com o Poder Judiciário, Ministério Público e outros órgãos e ações do Executivo (BRASIL, 2004, p. 31). Os serviços de Proteção Social Especial são divididos em: média complexidade e alta complexidade. Os de média complexidade são aqueles que oferecem atendimentos às famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos vínculos, familiar e comunitário, não foram rompidos. Neste sentido, requerem maior estruturação técnico-operacional e atenção especializada e mais individualizada, e também, um acompanhamento sistemático e monitorado. Os serviços de alta complexidade são aqueles que garantem proteção integral (Casas de Passagens, Repúblicas, Casa Lar, entre outros) que envolve: moradia, alimentação, higienização e trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência, em situação de ameaça, necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e comunitário (BRASIL, 2004, p. 32). Portanto, o PETI, de acordo com a PNAS, compreende os serviços de Proteção Social Especial de média complexidade, pois ouve a violação do direito da criança e do adolescente, encontrado em situação de trabalho infantil, porém os vínculos, familiar e comunitário, destes não foram rompidos. Inserido, portanto, na Política Nacional de Assistência Social, a identificação de situações de violação de direitos gerada pelo trabalho infantil poderá ser feita por intermédio da equipe técnica da Secretaria Municipal de Assistência Social, pela Sociedade Civil, pelo Ministério Público, Conselho Tutelar, pela equipe da

Superintendência Regional do Trabalho, e outros parceiros. Assim, com base na identificação de violação de direitos, essas crianças e/ou adolescentes, bem como suas famílias, são cadastrados no Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). 17 Portanto, o luta em enfrentar o trabalho infantil conta com vários atores estratégicos, além do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que são: Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério da Educação (MEC), Ministério do Trabalho e Emprego (TEM), Ministério do Esporte (ME), Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Ministério da Cultura, Ministério da Saúde (MS), Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil, Organização Internacional do Trabalho (OIT), e todos que participam de atividades intersetoriais de enfrentamento ao trabalho infantil. 18 A participação da sociedade no controle das ações desenvolvidas pelo Programa é garantida por meio da Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil – CMET. Esta é constituída no Município por membros do governo e da sociedade, tem caráter consultivo e propositivo, e tem por finalidade acompanhar a efetividade das ações do PETI. Em Vitória a Comissão está em processo de rearticulação, e estabelecendo uma nova representação – a dos beneficiários do Programa. 19 Atualmente, o PETI tem como objetivo contribuir para a erradicação de todas as formas de trabalho infantil no País, atendendo famílias cujas crianças e adolescentes com idade inferior a 16 anos se encontrem em situação de trabalho. O Programa está inserido em um processo de resgate da cidadania e promoção de direitos de seus usuários, bem como de inclusão social de suas famílias. Portanto, hoje, como público-alvo, o PETI atende famílias com crianças e adolescentes retirados das diversas situações de trabalho, com idade inferior a 16 anos em qualquer situação de trabalho infantil e não mais de 7 a 15 anos em situação de

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Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-deerradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009. 18 Ibid. 19 Disponível em: http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programa-deerradicacao-do-trabalho-infantil-peti. Acesso em: 22 de janeiro de 2009.

trabalho infantil considerado perigoso, penoso, insalubre e degradante como era no início de sua implantação. 20 No que se refere especificamente ao Município de Vitória, o programa de Erradicação do Trabalho Infantil foi implantado, no ano de 2001 e, ao longo dos anos, foi se ajustando as novas formulações das normativas e legislações que envolvem o Programa em nível Federal (VITÓRIA, 2006). Quando implantado no Município de Vitória o PETI atuava, inicialmente, dentro da ótica do Programa Rede Criança
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que se constitui em um sistema integrado de

atenção à criança e ao adolescente em situação de risco pessoal e social, com objetivo de articular o poder público e a sociedade civil, através da integração de seus programas, projetos e ações. Atualmente o PETI não atua na chamada Rede Criança, pois essa denominação deixou de ser utilizada com o fim da gestão anterior da Prefeitura de Vitória (VITÓRIA, 2006). No Município o Programa é norteado por três eixos básicos: Escola, atividades sócioeducativas e de Convivência e o trabalho com as Famílias, sendo que este é realizado numa perspectiva de inclusão social e estímulo a mudanças de atitudes, buscando a melhoria da qualidade de vida familiar e social. Neste sentido, a Equipe Técnica do PETI busca envolver as famílias nas atividades desenvolvidas, visando despertar mudanças e repensar seus entendimentos e suas ações em relação às crianças que trabalham, de modo que estas venham a compreender que o trabalho infantil compromete o futuro de suas crianças (VITÓRIA, 2006). Portanto, as crianças e adolescentes atendidos pelo Programa são estimuladas a estudar e participar de atividades recreativas, lúdicas, artísticas e esportivas no período complementar à escola (Jornada Ampliada), que são desenvolvidas nas
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Ibid. A Rede Criança, criada em 1999, é um sistema que articula instituições governamentais (poder público) e não-governamentais (sociedade civil) da cidade de Vitória, Espírito Santo. Todas as entidades e instituições de atendimento à criança e ao adolescente formam a chamada Rede de Atendimento. A Rede integra programas, projetos e ações desenvolvidos por diversos atores. Sua filosofia baseia-se na participação e superação de ações isoladas, iniciativas pontuais e medidas aleatórias, que determinavam a rotina de muitas ações. Tudo isso na verdade é a consolidação do que está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (Disponível em: http://www.redecria.es.gov.br/oquee/. Acesso dia 27 de abril de 2009)

ONG’s, nos Cajuns (Projeto Caminhando Juntos), em Escolinhas de Esportes e Clubes, de forma a despertar o potencial destas crianças e adolescentes para um caminhar mais crítico e participativo na sociedade (VITÓRIA, 2006). É importante salientar que na PNAS, a proteção especial de média complexidade, na qual se encontra o PETI, envolve também o CREAS (Centro de Referencia Especializado da Assistência Social), visando à orientação e o convívio sócio-familiar e comunitário. O CREAS difere-se da proteção básica oferecida pelos CRAS (Centro de Referencia da Assistência Social) por se tratar de um atendimento dirigido às situações de violação de direitos (BRASIL, 2004, p. 32). Isso posto, de acordo com uma das entrevistadas da pesquisa realizada, o PETI vitória, ainda este ano, além de localizado na Gerência de Proteção da Criança e do Adolescente (GCA) da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS) contará com equipes, também nos CREAS’s (Centros de Referência Especializados da Assistência Social) que serão instalados no Município. A implantação dos Centros Referencia Especializados da Assistência Social visa a melhoria dos serviços de média complexidade prestados a população. Isso implica um melhor desenvolvimento do trabalho quanto ao enfrentamento do trabalho infantil no Município de vitória.

Ressalta-se, portanto, a fala da entrevistada D:
[...] é importante colocar que o PETI é um serviço da média complexidade, mas nós temos outros serviços da média complexidade. E esses serviço irão se articular entre si, irão interagir entre si e nós iremos integrar esses serviços em espaços físicos descentralizados na cidade de Vitória. Nós vamos criar o que se chama na Política Nacional de Assistência Social, os CREAS, que são os Centros de Referência Especializados da Assistência Social. Quando eu falo da implicação da família ai nós já estamos começando a trabalhar metodologias no sentido de aprofundar realmente métodos para atingir mais de perto essas famílias. Porque todas as vulnerabilidades da média complexidade, ou seja, todas as famílias que têm os seus direitos violados, ai incluindo todos os membros das famílias, irão para este espaço físico, que se chama pela Política Nacional de Assistência Social, os Centros de Referência Especializados da Assistência Social, então o PETI é um dos serviços desses Centros Especializados. Nós implantaremos três serviços na cidade até o segundo semestre [...] o PETI, em todos os três centros na cidade, terá diferentes lugares para atender a

questão de crianças no trabalho infantil. Então, isso amplia o serviço, facilita a visibilidade (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, a dinâmica do trabalho no PETI e o próprio Programa, no Município de Vitória, sofrerão alteração uma vez que estarão inseridos nos CREAS’s como citado acima. Isso posto, para a compreensão do trabalho do Serviço Social, em si, no PETIVitória, foi realizada uma pesquisa que será analisada no capítulo que se segue.

4 O SERVIÇO SOCIAL NO PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL DO MUNICÍPIO DE VITÓRIA
Este capítulo abordará a análise das entrevistas a partir da pesquisa: Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória-ES. Para o desenvolvimento de tal análise serão considerados os seguintes pontos do questionário: Tempo de trabalho, vínculo empregatício e carga horária; gerenciamento, participação e elaboração de políticas sociais; principais políticas,

projetos e atividades desenvolvidas; elaboração e execução de projetos; principais objetivos do PETI-Vitória; localização/organização do trabalho do Serviço Social; principais demandas; encaminhamentos mais freqüentes; organização do Serviço Social quanto a rotina de trabalho; número e suficiência ou não de profissionais de Serviço Social; população atendida; serviços prestados; aprimoramento intelectual e capacitação profissional; dimensão investigativa; participação política e controle social. Ressalta-se que para a realização da analise aqui proposta, considerar-se-á, entre outros elementos trabalhados nos capítulos anteriores: o avanço das políticas na área da criança e do abdolescente, principalmente com o advento do ECRIAD; o avanço da profissão de Serviço Social após sua renovação; o Serviço Social enquanto uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho; e, as políticas sociais configuradas enquanto espaço sócio ocupacional do Serviço Social. Considerado tais argumentos, considera-se, como explicitado no segundo capítulo, para a compreensão do trabalho do assistente social no PETI-Vitória, que o trabalho do Serviço Social está inserido nas relações sociais em meio a um sistema de produção que gera inúmeras expressões da questão social, sobre as quais o profissional é requisitado a intervir. Neste sentido,
[...] é possível dizer que o argumento para a requisição do trabalho do assistente social está circunscrito às políticas sociais e às relações mantidas com as mesmas pelos sujeitos sociais carentes de recursos privados de reprodução espiritual e material no contexto das sociedades urbanoindustriais. Pois, apesar do amplo e difuso campo e a habilitação tecnológica parecem se dirigir àquele mesmo universo institucional (BARBOSA et al., 1998, p. 111).

Portanto, as políticas sociais se configuram enquanto espaço ocupacional do Serviço Social. Através delas, o profissional viabiliza direitos necessários à população usuária de seus serviços. Portanto a requisição do trabalho do Serviço Social, entre outras atribuições, visa à intervenção no social por meio das políticas sociais.

Tendo em vista, portanto, a requisição do trabalho do assistente social, outra contribuição que enfatiza tal necessidade encontra-se na fala de Iamamoto (2008, p. 417 e 418):
A revisão da literatura recente sobre os fundamentos do trabalho profissional permitiu concluir que ela se concentra em apreender, sob distintas ênfases, uma dimensão de fundamental importância para caracterizar o Serviço Social: a natureza qualitativa dessa atividade profissional, enquanto ação orientada a um fim como resposta às necessidades sociais, materiais ou espirituais, (condensadas nas múltiplas expressões da questão social) de segmentos sociais das classes subalternas na singularidade de suas vidas: indivíduos e suas famílias, grupos com recortes específicos. Parece haver um consenso de que se trata de uma atividade inscrita predominantemente no terreno político e ideológico, com refrações nas condições materiais da existência dos sujeitos via serviços, programas e projetos implementados pelas políticas públicas –, com destaque para o campo da seguridade social e, nela, da assistência –, que interferem no padrão de consumo e na qualidade de vida das famílias trabalhadoras.

Considerando tais fundamentos da necessidade de intervenção do profissional de Serviço Social, é fundamental que se compreenda e analise o trabalho do Assistente Social de forma geral e dentro do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória. Isso posto, a categoria trabalho do Serviço Social será aqui compreendida como processo social de transformação que objetiva atender as necessidade sociais de reprodução dos indivíduos, ou seja:
Trabalho então apresentado sob a forma de processo, conduzido pelo gasto de energia e fundamentalmente orientadas pelas necessidades sociais inerentes à reprodução humana. Desse modo, há uma condição humana e social no trabalho – e no seu processo – que se reveja pela possibilidade de o produto do trabalho responder a uma carência motivadora do processo de transformação e por esse impulso de mudança – motivado pelo carecimento – ser alimentado pela busca de uma finalidade – algo que se quer satisfazer e que já se apresenta idealmente no pensamento do trabalhador antes mesmo de sua realização prática. Essa atividade orientada a um fim ou o trabalho mesmo é um dos elementos simples centrais do conceito de processo de trabalho seguido do próprio objeto e seus meios (BARBOSA et al., 1998, p. 112 apud Marx, 1988: 142-7).

Portanto, compreende-se o trabalho enquanto um processo pensado e orientado a um fim dentro de uma dada realidade cuja qual se pretende transformar.

Para tanto, o trabalho do assistente social deve ser compreendido enquanto um processo laborativo na lógica do trabalho capitalista, ou seja, é inserido na divisão sócio-técnica do trabalho no contexto do capital (BARBOSA et al., 1998, p. 113). Portanto, estruturado na lógica do trabalho capitalista, o trabalho do Serviço Social se configura enquanto assalariado, uma vez que o profissional vende sua força de trabalho em troca de um salário. Nas palavras de Iamamoto (2008, p. 416):
[...] o exercício da profissão realiza-se pela mediação do trabalho assalariado, que tem no Estado e nos organismos privados -, empresariais ou não -, os pilares de maior sustentação dos espaços ocupacionais desse profissional, perfilando o seu mercado de trabalho, componente essencial da profissionalização do Serviço Social. A mercantilização da força de trabalho do assistente social, pressuposto do estatuto assalariado subordina esse trabalho de qualidade particular aos ditames do trabalho abstrato e o impregna dos dilemas da alienação, impondo condicionantes socialmente objetivos à autonomia do assistente social na condução do trabalho e à integral implementação do projeto profissional [...].

Neste sentido, enquanto um trabalho assalariado imerso na lógica capitalista, o trabalho do Serviço Social não está alheio ao processo de alienação que afetam a autonomia e efetivação de seu projeto profissional. Assim, cabe ressaltar que:
Conceber o trabalho e executá-lo aparecem então como dois processos distintos e desiguais. E, como tais, se constituem no móvel principal da organização e controle do processo de trabalho nos tempos modernos, porque asseguram a real subordinação do trabalho e a sua desqualificação, além de engendrarem modos de se obter um comportamento desejado no trabalho. Por isso, a desqualificação, a fragmentação do trabalho e a criação de um aparato de concepção aparecem na tradição da sociologia do trabalho como tendências caracteristicamente centrais do processo de trabalho e se convertem, em nossas investigações nesta área, em categorias analíticas – chaves para a compreensão do processo de trabalho do assistente social e a problematização da relação entre determinação estrutural e autonomia técnica, de modo que seja possível pensar as dimensões mais genéricas e particulares do trabalho manifestadas e reinventadas no processo laborativo do assistente social. Isto porque se essa lógica estrutural modela as “instituições da sociedade capitalista que executam processos de trabalho”, determina então a possível impotência do assistente social para dominar a globalidade do trabalho que executa e o seu significado social no processo de dominação burguesa. E, dessa possível alienação adviria aquela realização social dos interesses

burgueses que motivam a própria contratação do assistente social (BARBOSA et al., 1998, p. 116).

Compreende-se, portanto, que diante do processo de alienação e dominação burguesa, o processo de trabalho do assistente social é condicionado e subordinado ao capital, conseqüentemente, desqualifica-se, uma vez que se encontra imerso na lógica capitalista de produção que dita as regras a serem seguidas, e estas, de fato, não correspondem ao projeto ético-político do profissional de Serviço Social. Salienta-se, assim como explicitado no segundo capítulo, que o assistente social possui legislação própria. Tais legislações asseguram as condições para o seu exercício profissional que deve ser levada em conta para análise de seu processo de trabalho. Deve-se verificar, também, o papel que essa regulação cumpre na relação entre estrutura e os profissionais que possuem uma relativa autonomia técnica, uma vez que se manifesta no contexto da organização do trabalho capitalista que supõe controle e alienação (BARBOSA et al., 1998, p. 117 e 118). Ressalta-se que:
Na realidade, essa autonomia legal é confrontada com a própria condição de assalariamento com que o assistente social sempre exerceu o seu trabalho. Pois, ao vender sua força de trabalho para sobreviver, fica privado ou tem reduzido o controle sobre os meios de produção do seu trabalho, submetendo-se às normas regulatórias e hierárquicas administrativas que organizam os serviços (BARBOSA et al., 1998, p. 118).

Neste sentido, considera-se, segundo Iamamoto (2008, p. 420), que “[...] o trabalho humano é expressão da atividade humana num contexto de alienação e a divisão do trabalho é a expressão econômica do caráter social do trabalho dentro da alienação [...]”. Portanto, o trabalho profissional do Assistente Social é alienado ao sistema, e mesmo sendo possuidor de uma relativa autonomia no seu fazer profissional, o Assistente Social muitas vezes fica “engessado” de utilizá-la, uma vez que o modo de se trabalhar no social já foi conduzido e delimitado pelo sistema capitalista, que influencia todas as formas de trabalho e relações sociais. Portanto, sendo o assistente social um trabalhador assalariado ele vende sua força de trabalho especializada aos empregadores que a conduzirão. Neste sentido,

O assistente social é proprietário de sua força de trabalho especializada. Ela é produto da formação universitária que o capacita a realizar um “trabalho complexo”, nos termos de Marx (1985). Essa mercadoria força de trabalho é uma potência, que só se transforma em atividade –, em trabalho –, quando aliada aos meios necessários à sua realização, grande parte dos quais se encontra monopolizado pelos empregadores: recursos financeiros, materiais e humanos necessários à realização desse trabalho concreto, que supõe programas, projetos e atendimentos diretos previstos pelas políticas institucionais (IAMAMOTO, 2008, p. 421).

Portanto, a força de trabalho que o Assistente Social vende ao empregador é produto da sua formação universitária que o capacitou para atuar sobre as expressões da questão social tendo como espaço ocupacional as políticas sociais. É importante ressaltar que o conhecimento das legislações específicas advindas da bagagem acadêmico-profissional do assistente – projeto ético-político, Lei Orgânica da Assistência Social, Código de Ética Profissional, Lei que regulamenta a profissão, entre outras –, este respaldo político profissional, mostra-se, no cotidiano, como uma importante estratégia de alargamento da relativa autonomia do assistente social, contra a alienação do trabalho assalariado (IAMAMOTO, 2008, p. 422). De acordo com Iamamoto (2008, p. 422), o sujeito que trabalha não tem o poder de livremente estabelecer suas prioridades, seu modo de operar, acessar todos os recursos necessários, direcionar o trabalho exclusivamente segundo as suas intenções, pois existe o poder institucional. No entanto, deve-se considerar que o assistente social tem como base social de sustentação de sua relativa autonomia, ou seja, a possibilidade de redirecionar o seu trabalho para rumos sociais distintos daqueles esperados pelos seus empregadores. Para tanto, na defesa de sua relativa autonomia, no âmbito dos espaços ocupacionais, o assistente social leva em consideração a sua qualificação acadêmico-profissional especializada, com a regulamentação de funções privativas e competências. Uma vez que o Serviço Social se insere na divisão sócio-técnica do trabalho, compreende-se, que há rebatimentos do sistema neoliberal no trabalho cotidiano do Assistente Social, pois está inserido na lógica da reestruturação produtiva do sistema que fragmenta o trabalho, estabelece formas diferenciadas de contratação e

dificulta a realização do trabalho do assistente social segundo o que determina as leis que o norteiam, condizentes com seu projeto ético-político. Portanto, ao se discutir sobre o processo trabalho do Serviço Social, é necessário que tal discussão seja inserida no contexto da reestruturação produtiva que afeta diretamente o exercício profissional, uma vez que se observam alterações no mundo do trabalho e, portanto, no mercado de trabalho e nas condições de trabalho do profissional. É importante destacar, porém, que inicialmente o Serviço Social possuía um cunho conservador de trabalho – como observado em capítulos anteriores – e com o decorrer da sua formulação, acompanhando as transformações societárias a nível econômico, político e social, o Serviço Social foi se reformulando e, assim como as políticas voltadas a área da criança e do adolescente, foi sendo direcionado à realização de um trabalho coerente considerando os sujeitos enquanto possuidores de direitos. Para a realização de um trabalho nesta lógica, visando o indivíduo enquanto sujeito de direitos, a categoria se renova e estabelece novas diretrizes e competência do trabalho do assistente social, – como se pôde observar no segundo capítulo –, através da Lei 8662 e estabelece princípios éticos por meio do Código de Ética Profissional de 1993. O trabalho do profissional de Serviço Social, portanto, passa a ser direcionado considerando tais dimensões legislativas e foi se reformulando e se aperfeiçoando, principalmente nos anos 90, assim como a política voltada à área da criança e da adolescência com o advento do ECRIAD. Pode-se notar na fala de uma das entrevistadas um pouco desse percurso que o Serviço Social incorpora no Brasil em relação à profissão propriamente dita e em relação à área da infância e adolescência no que tange ao trabalho infantil e surgimento do PETI:
Mas, assim, eu acho que talvez a gente tenha que entender que o PETI, nasceu numa conjuntura dos anos 90. Nos anos 90 a política de atenção à criança foi muito forte porque o Estatuto da Criança e da Adolescência entrou em vigor em 1990 e ai, então foi uma década de grande mobilização pelos direitos da criança. Naqueles anos de 1990, o Brasil e o mundo quase

todo levantou a bandeira do trabalho infantil, acho que é preciso resgatar um pouco essa história. Teve a marcha global contra o trabalho infantil e nós fizemos em Vitória um seminário para fortalecer a idéia da marcha que era para denunciar o trabalho infantil [...] o trabalho infantil ganhou muita visibilidade [...] e ai então, o mundo inteiro se mobilizou e o Brasil também, e em resposta a esta mobilização mundial o Governo Brasileiro criou o Programa de Erradicação do Trabalho infantil com a proposta do repasse da bolsa às famílias e da jornada ampliada [...] e, ai, então, também, assim como o Brasil colocou em pauta a questão da exploração sexual, o turismo sexual. [...] ai então, a Lei Orgânica para a Assistência Social foi aprovada em 1993 e a partir daí ela começa e ser discutida, debatida, implementada e já nos anos 2000 quando o Presidente Lula chega ao Governo que lança o Bolsa Família, que se delibera pela implantação do SUAS com uma lógica da baixa, da média e da alta complexidade dentro dessa lógica, então isso agora nos impõe a um novo desafio que é compatibilizar esses Programas dentro dessa nova lógica do SUAS. Então, isso que é importante para a gente estar entendendo, que o PETI está, certamente num processo de reformulação, de se repensar, de se ajustar ao SUAS e a política de transferência de renda que o Governo vem fazendo, no caso a Bolsa Família. Então, está ai um ajuste e uma adaptação. [...] Também, naqueles anos 90 o Brasil assinou a convenção que proíbe o trabalho até 15 anos, e ai o Estatuto fala que é possível de 14 a 16 na condição de aprendiz e o Brasil então, preferiu ficar com a opção do Estatuto até 16 e na condição de aprendiz de 14 à 16. Ai o Brasil também definiu com outros países as piores formas do trabalho infantil, existe essa resolução da OIT. Então, tudo isso foi feito nos anos 90. Foram anos de muita ênfase e de muita força, o trabalho infantil reduziu muito, mas ele sempre corre o risco de voltar. Sobre trabalho infantil, nunca vamos poder dizer que acabou, porque a cada conjuntura de crise o primeiro membro da família, que sente o desemprego do pai e a falta de opção de trabalho, é a criança. Então, o que faz a família: bota o filho para vender coisa na rua. Por sua vez, a gente fala que por trás de uma criança que está trabalhando na rua sempre tem um adulto que agencia essa criança, que organiza o trabalho dessa criança. [...] é muito perigoso este tipo de trabalho, a exposição da criança, principalmente vendendo balas a noite na sociedade” (ENTREVISTADA D).

Portanto, nota-se que os anos 90 foram anos de significativas mudanças e alterações tanto para a profissão de Serviço Social quanto na política voltada à criança e ao adolescente. Considerando, portanto, o Serviço Social enquanto uma categoria de trabalho assalariado, inserido na divisão socio-técnica, respaldado por legislações próprias sobre as quais desenvolve sua atuação profissional, que tem nas políticas sociais seu espaço ocupacional; e, considerando, também, o avanço das políticas sociais voltadas à área da criança e do adolescente com o advento do ECRIAD em 1990, é que se analisa aqui o Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória.

4.1 TEMPO DE TRABALHO, VÍNCULO EMPREGATÍCIO E CARGA HORÁRIA
Os rebatimentos da reestruturação produtiva podem ser observados nas formas de contratação e vínculo empregatício de alguns profissionais do PETI. A exemplo disso tem-se nas falas das entrevistadas, quanto ao tempo de exercício no Programa, vínculo empregatício e carga horária:
Estou no Programa desde 2005, têm três anos que eu estou no Programa, minha carga horária de vínculo empregatício é de seis horas na Prefeitura, sou efetiva, porém, eu fico mais, eu faço mais do que isso. Por quê? Porque a coordenação do PETI não é só coordenação do PETI, é coordenação de média complexidade incluindo as ações de enfrentamento à violência, abuso sexual e o enfrentamento ao conflito com a lei, então, são três ações de média que faz parte dessa coordenação conforme está no organograma da GCA, [Gerencia de Proteção a Criança e ao adolescente], e da SEMAS, [Secretaria Municipal de Assistência Social] (ENTREVISTADA A). Estou há três anos no Programa e o vínculo que eu tenho com relação a aqui, meu vínculo empregatício, sou contratada. [...] carteira assinada, convênio com uma entidade [...] antes disso eu era contratada de forma temporária. E a carga horária é de oito horas por dia, quarenta horas semanais (ENTREVISTADA B). Sou Secretária desde 2005, Gestora do PETI desde 2005, como Secretária. Minha carga horária é a de Secretária. Eu sou Secretária, e, portanto eu sou gestora de todos os Programas da Secretaria [SEMAS] (ENTREVISTADA C). O vínculo que eu tenho com o PETI é de 4 anos, enquanto Gerente. Eu sou efetiva da prefeitura e minha carga horária é de oito horas de trabalho, 40 horas semanais (ENTREVISTADA D).

Através das falas, pôde-se notar que os profissionais de Serviço Social possuem vínculos empregatícios diferentes com cargas horárias distintas. A entrevistada A relatou que sua carga horária é de seis horas, pois é efetiva, no entanto como é sobrecarregada com coordenações de outras duas ações além do PETI, ela trabalha mais que isso. Isso mostra o quanto o profissional inserido na lógica capitalista é explorado e precarizado no seu fazer profissional. Outro exemplo dessa precarização encontra-se na fala da entrevistada B, que está no Programa a três anos e já passou por dois tipo de vinculação empregatícia para continuar atuando no PETI. Um vínculo por contratação temporária e, atualmente, por carteira assinada através de uma instituição conveniada com a Prefeitura de Vitória.

Portanto, assim como citado no último tópico do segundo capítulo deste trabalho, tendo como referência Iamamoto (2007), a reestruturação produtiva do sistema capitalista de produção condiciona uma grande parcela da população, inserida no mercado de trabalho, à trabalhos precarizados, temporários e subcontratados. Tais características, deste modelo de produção, refletem significativamente no trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil de Vitória. Compreende-se o Serviço Social, portanto, enquanto um trabalho assalariado inserido na divisão sócio-técnica do trabalho que sofre todos os rebatimentos da conjuntura neoliberal e da reestruturação produtiva do trabalho.

4.2

PRINCIPAIS

POLÍTICAS,

PROJETOS

E

ATIVIDADES

DESENVOLVIDAS
O Serviço Social no PETI direciona sua rotina de trabalho no objetivo de promover as famílias inseridas, através de visitas domiciliares, atendimentos individuais e reuniões de grupo/encontros de famílias, entre outros, facilitando-as o acesso aos seus direitos. Além disso, busca desenvolver ações de prevenção ao Trabalho Infantil na sociedade, nas escolas, nas ruas, praças e eventos dando publicidade ao tema através de campanhas, oficinas e teatros nas escolas, com o intuído de incentivar a sociedade civil a “abrir os olhos” para a questão do Trabalho Infantil no Município de Vitória e incentivando-os a denunciar casos de exploração de trabalho infantil. Sustentando essa afirmação:
As atividades desenvolvidas para atingir os objetivos [...] é o acompanhamento às famílias dessas crianças. Esse acompanhamento se dá por meio de atendimentos individuais, visitas domiciliares, reuniões sócio-educativas, articulação com as entidades, com os serviços que compõem a rede sócio-assistencial [...] busca-se não simplesmente verificar se a criança está na escola e na jornada, mas sim como ela está nestes espaços, como ela está se adaptando, se relacionando com os colegas, os educadores [...] um acompanhamento de uma forma mais global [...] por meio de reuniões com os responsáveis, atendimentos tanto com os responsáveis quanto com as crianças e acompanhamento às entidades. Busca de certa forma atingir esse objetivo [...] de forma geral são essas as atividades desenvolvidas pelo PETI e pelo Serviço Social, porque não tem muito que se diferenciar, se o Serviço Social faz algo a parte, ele está

dentro de um Programa [...] e apenas o que diferencia é o forma de intervenção, de intervir própria [...] houveram a realização de algumas ações diferenciadas [que ocorreram no ano de 2008] a realização de oficinas de cidadania nas escolas visando a aproximação com crianças e adolescentes não apenas encontrados em situação de trabalho infantil, mas sim com a população de forma mais abrangente, buscando trabalhar o conceito não apenas de trabalho infantil [...] mas, trabalhar principalmente a noção de cidadania para eles terem o mínimo de compreensão daquilo que são direitos e deveres [...] então, nesse ano, [2008] foi uma das ações implantadas: as oficinas sócio-educativas de cidadania que foram realizadas no espaço das escolas públicas atingindo principalmente crianças [...] aí, o Programa entra com uma ação preventiva, quer dizer, não só está próximo de quem está em situação de trabalho infantil, mas também daquele que ainda não foi. Dentro dessas ações nós realizamos campanhas para mobilizar a sociedade [...] sensibilizar a sociedade e a população local da importância de valorizar e respeitar os direitos das crianças e dos adolescentes (ENTREVISTADA B).

Nesta fala da entrevistada B pode-se observar vários elementos significativos para a análise. A entrevistada destaca, inicialmente, que para se atingir os objetivos do Programa são realizados, entre outras atividades, acompanhamentos às famílias por meio de atendimentos individuais, visitas domiciliares e reuniões sócio-educativas. Observase que estas ações fazem parte da instrumentalidade do Serviço Social. Estes procedimentos, como exposto no segundo capítulo – tendo como referência Trindade (2001) – acompanham o fazer profissional do Assistente Social desde o início da profissão, ou seja, desde o Serviço Social tradicional. Portanto, salienta-se que mudaram as características das expressões da questão social – juntamente com as mudanças social, políticas e econômicas – houve a renovação da profissão, porém instrumentos de intervenção do Serviço Social, como os citados acima, permanecem no fazer interventivo do Serviço Social na atualidade, com escopo teórico diferente. Outro elemento significativo, a se destacar nesta fala, refere-se ao momento em que a entrevistada expõe que: [...] de forma geral são essas as atividades desenvolvidas pelo PETI e pelo Serviço Social, porque não tem muito que se diferenciar, se o Serviço Social faz algo a parte, ele está dentro de um Programa [...] (ENTREVISTADA B). Observa-se nesta fala que o Serviço Social, por estar contido em um Programa Social, desenvolve as atividades propostas pelas diretrizes do

Programa não diferenciando, portanto, o que é próprio do Programa do que é próprio do Serviço Social. Ao questionar a entrevistada A quanto às principais políticas, projetos e atividades desenvolvidas pelo PETI-Vitória e pelo Serviço Social a entrevistada relatou que:
O Serviço Social se inclui, não tem nada específico do Serviço Social. O Serviço Social é a equipe multiprofissional que faz parte do Programa, que é psicossocial [...] especificamente o que a equipe faz é o acompanhamento psicossocial, os encaminhamentos, as inclusões, as exclusões, manutenção do sistema [...] agora, o Projeto específico é o Projeto do PETI, no qual a equipe multiprofissional se inclui [...] [as atividades realizadas pelo Serviço Social no Programa são] encaminhamentos para as jornadas ampliadas, para inclusão no mercado de trabalho, realização de oficinas, fortalecimento da cidadania, encaminhamentos para unidade de saúde, e tudo o que for demandado [...] a equipe PETI ela trabalha intermediando, fortalecendo, reconhecendo o que tem na rede [...] uma coisa que nós avançamos no ano de 2008 foi a realização das oficinas educativas nas ruas no sentido de sensibilizar a população sobre o que é o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, realizada no dia 12 de junho, as oito oficinas nas escolas, no projeto de educação de tempo integral, em algumas turmas mesmo que nós fomos interagir com a população, criança e adolescente para dizer o que é o PETI, o que é trabalho infantil [...] [no que tange a principal política norteadora do Programa é a] Política de Atendimento a Criança e ao Adolescente preconizada no Estatuto da Criança e do Adolescente e a Resolução de 12 de Junho que estabelece as formas de trabalho infantil [...].

Os principais projetos e políticas do Serviço Social, portanto, seriam o desenvolvimento e realização do trabalho no Programa por via do que se é atribuído ao profissional de Serviço Social diante da formação profissional no qual ele atue no Programa tendo por conhecimento a política de atendimento a criança e ao adolescente preconizado no Estatuto e fazendo uso de todos os recursos existentes na rede de proteção. Observa-se, também, nessa fala, que o trabalho desenvolvido dentro do Programa é realizado por uma equipe multiprofissional composta por psicólogo, assistentes sociais e seus respectivos estagiários. No entanto, quando a entrevistada ressalta mais uma vez que não há nada específico do Serviço Social no Programa, ou seja, um projeto relatando o que compete ao profissional de Serviço Social no PETIVitória, ela deixa claro que as atividades dos diferentes profissionais seguem a mesma direção, ou seja, não se diferenciam uma vez que as áreas seguem uma diretriz única que é a do Programa a nível nacional. O que merece ser destacado é o fato de que o que diferencia o trabalho das diferentes áreas são as leis próprias da

profissão de Serviço Social que adere à política trabalhada, a formação acadêmica de ambos, e, portanto, o “olhar” diferenciado de cada área. Portanto, não há um projeto sistematizado sobre o que o Serviço Social faz no Programa, ele segue a diretriz do Programa, realiza suas funções segundo sua formação acadêmica assim como o profissional de Psicologia. Sabe-se que é atribuição do profissional delimitar qual é o seu trabalho dentro da instituição esclarecendo seu fazer profissional e sistematizando-o respaldado nas leis e princípios éticos que norteiam a profissão. Depois de apontado tais questões, destaca-se, que frente ao sistema capitalista – que emprega o modelo neoliberal e a reestruturação produtiva como meios de alavancar a economia em detrimento do social – a postura profissional requisitada é de um profissional generalista e polivalente. Tais características são observadas, portanto, nos profissionais do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, uma vez que as atividades dos profissionais de diferentes áreas acabam sendo as mesmas e não se diferenciam.

4.3 ELABORAÇÃO E EXECUÇÃO DE PROJETOS
Tal fragilidade pode ser observada, também, na resposta obtida quanto a questão da organização do trabalho do Serviço Social no PETI-Vitória, no que se refere a elaboração e execução de projetos. Nesta questão a entrevistada B enfatizou que:
O que aconteceu este ano de novo foram as oficinas, [de cidadania nas escolas] não deixa de ser um projeto que foi elaborado a partir de algumas demandas percebidas, ou seja, em relação a necessidade de a gente aproximar das escolas, de levar esta reflexão, de trabalhar numa perspectiva de prevenção [...] [No entanto não houve sistematização desse trabalho, ou seja, a realização das oficinas foi por via da execução sem elaboração de um projeto de fato] [...] se pensa e se elabora de uma forma meio que superficial, ainda é uma fragilidade do Serviço Social dentro do Programa, em algumas ações que poderiam ser sistematizadas em um projeto, mas não é [...] planeja-se, se executa, mas não de uma forma detalhada [...] muitas vezes devido o decorrer do dia a dia e a urgência de desenvolver essas ações [...] leva-se a realização do planejamento das ações, porém não de forma detalhada, em forma de projeto [...] exatamente pela carência de profissionais dificulta um pouco [a elaboração de fato dos projetos das ações desenvolvidas e conclusão de projetos elaborados como, por exemplo, a pesquisa referente ao trabalho infantil nas feiras livres de vitória que teve um projeto elaborado e foi aplicada, porém não

concluída][...] as ações acabam sendo eventuais. Falta muito, falta muito planejamento [...].

Portanto, nota-se que há abertura para propor novas ações. No entanto, a maioria das ações acaba sendo eventuais com planejamentos superficiais sem que haja, de fato, sistematização em forma de projetos. Em resposta a esta questão, a entrevistada A afirmou:
Projeto específico dentro do nosso trabalho nós não temos. Nós temos um Programa maior que é o que determina as diretrizes nacionais e nós trabalhamos ali dentro. Para cada ação existe um projeto escrito? Não. Para cada ação existe uma referência e o seu objetivo. Então, nós trabalhamos em cima do Programa, tanto que o Programa chama-se Programa, então nós não temos projetos específicos ali dentro.

Observa-se na fala da entrevistada que não há, por parte dos profissionais de Serviço Social no Programa, um projeto específico por escrito sobre o Serviço Social no PETI, o que ele desenvolve, quais as demandas postas a este profissional, os objetivos de seu trabalho no Programa e outros. O que existe são as diretrizes do Programa com as quais o profissional direciona seu trabalho. Ressalta-se que o processo de elaboração, desenvolvimento, avaliação,

planejamento e sistematização das ações, são procedimentos de grande importância no fazer profissional atribuído enquanto competência profissional por meio da Lei 8.662 que regulamenta a profissão.

4.4

GERENCIAMENTO,

PARTICIPAÇÃO

E

ELABORAÇÃO

DE

POLÍTICAS SOCIAIS
Apesar de seguir diretrizes já estabelecidas pelo Programa em nível Federal, segundo a entrevistada A, há uma grande abertura para a realização do trabalho dentro do Programa, pois ao questioná-la como se organiza o trabalho do Serviço Social no PETI-Vitória no que se refere ao gerenciamento, participação e elaboração de políticas públicas a entrevistada relatou que:

[...] nós contribuímos para a avaliação das que já existem. Elaborar nós não elaboramos, nós executamos. Executamos a da política pública de erradicação do trabalho infantil. E acompanhamento é quando nós temos essa liberdade aqui na Secretaria de avaliar e poder opinar. Nós não estamos engessados nas nossas ações, nós seguimos diretrizes, mas nós temos o poder e a capacidade de avaliar, sugerir adequações sem ferir o que determina as diretrizes nacionais, dar o nosso molde, o nosso recorte. Porque, como eu já falei, as oficinas que nós fizemos com as escolas, o ir à rua, participar do dia de comemoração do aniversário do Estatuto, dia 13 de julho, tudo isso nós vamos construindo com a capacidade de avaliar nossas ações. Então, nós temos o poder de alterar, nós temos o poder de louvar, nós temos o poder de avaliar sem ferir o que determina.

Portanto, o profissional de Serviço Social no PETI-Vitória cumpre com as normativas e determinações hierárquica e administrativa estabelecidas pelas diretrizes do Programa, no entanto, fazendo uso de sua autonomia de trabalho, nota-se que o profissional que trabalha no PETI-Vitória possui abertura para a realização e elaboração de ações no Programa. Essa mesma autonomia pode ser usada para a sistematização de um projeto sobre a especificidade do trabalho do Serviço Social no PETI. Ressalto aqui, enquanto estagiária do PETI, que em reuniões de supervisão de estágio foi pensado a construção de um documento para especificar o Serviço Social no Programa. No entanto, por questões diversas e rotina de trabalho este documento ficou no esquecimento não sendo finalizado, apenas iniciado. O trabalho desenvolvido pelo profissional de Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil considera sua formação universitária na qual reconhece suas dimensões ético-políticas, suas competências e atribuições para o desenvolvimento do seu trabalho junto à população usuária.

De acordo com a fala da entrevistada D:
Eu penso que esse profissional ao se relacionar com as famílias, ao se relacionar com a comunidade [...] ele é um profissional que tem habilidade particular ao serviço na comunidade, para fazer fundamentalmente a reflexão com esses familiares e também junto com a psicologia os atendimentos individuais [...]. Eu vejo o profissional de Serviço Social com uma habilidade mais reflexiva, mais mobilizadora, mais provocadora dessa família, da comunidade. Ele é um articulador na comunidade, ele é, acima de tudo, reflexivo todo o tempo. [...] Eles encaminham, conhecem a rede de proteção à criança e do adolescente [...] então, essa rede de proteção ele conhece, ele sabe onde buscar essa rede ao encaminhar as crianças [...] o profissional trabalha com o fortalecimento dessas famílias, que é responsabilidade do profissional que trabalha com a média complexidade.

Portanto nota-se que o profissional de Serviço Social do PETI-Vitória possui capacidade para o desenvolvimento de seu trabalho tendo em vista sua formação acadêmica e seu projeto ético-político. Neste sentido, em seu fazer profissional objetiva respeitar os princípios fundamentais do Código de Ética de 1993 no qual estabelece, entre outros, – como citado no segundo capítulo deste trabalho – a defesa intransigente dos direitos humanos, a ampliação e consolidação da cidadania, o posicionamento em favor da equidade e justiça social e o compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população.

4.5 PRINCIPAIS OBJETIVOS DO PETI-VITÓRIA
Como explicitado no capítulo anterior, através da portaria nº 458, de 4 de outubro de 2001 definiu-se os objetivos geral e específicos do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Assim, constitui-se o objetivo geral erradicar, em parceria com os diversos setores governamentais e da sociedade civil, o trabalho infantil. E, os objetivos específicos: possibilitar o acesso, a permanência e o bom desempenho de crianças e adolescentes na escola; implantar atividades complementares à escola Jornada Ampliada; conceder uma complementação mensal de renda às famílias; proporcionar apoio e orientação às famílias beneficiadas; promover programas e projetos de qualificação profissional e de geração de trabalho e renda junto às famílias. Na entrevista às profissionais, foram questionados quais seriam, portanto, os principais objetivos do PETI-Vitória. A esta questões obteve-se as seguintes respostas:
Objetivos que estão nas diretrizes do trabalho: erradicação do infantil de crianças e adolescentes [...] é este o objetivo. Com que trabalho? Com a linha de trabalho proposta no Plano Nacional por inclusão das políticas públicas de base e também por meio da Ampliada (ENTREVISTADA A). trabalho linha de meio da Jornada

De forma geral, as diretrizes do PETI, em nível nacional, [tem por objetivo] garantir a freqüência dos bolsistas na escola, garantir a permanência e a freqüência nas atividades sócio-educativas, a jornada ampliada, e principalmente trabalhar de forma com que a criança não volte a situação de trabalho infantil. O Programa não trabalha tanto com a prevenção, ele

trabalha com a situação do direito já violado, então, o Programa trabalha no sentido de fazer com que a criança não retorne ao trabalho infantil pra que seja garantido a ela o direito a educação e desenvolvimento dela participando de atividades culturais, esportivas e principalmente não voltar a situação que ela estava anteriormente (ENTREVISTADA B). [...] certamente, os objetivos do PETI- Vitória não se separam dos objetivos do PETI em geral, que são: retirar a criança do trabalho infantil, oportunizar a criança a experiência da atividade sócio-educativa que possam melhorar a sua condição de vida, melhorar a sua condição de aprendizagem na escola, melhorar a sua integração na escola, pensar um futuro melhor para ela, fazer com que ela consiga concluir os níveis de ensino, melhorar o futuro [...] os objetivos do PETI-Vitória não se distinguem dos objetivos do PETI de modo geral (ENTREVISTADA C). A gente atende uma normativa que vem do governo Federal, mas com certeza absoluta aqui a gente trabalha para a erradicação do trabalho infantil. Mas, temos um desafio muito grande de trabalhar e enfrentar a questão cultural que se tem na cidade, não só na cidade de Vitória, mas no Brasil inteiro, essa questão da cultura do trabalho infantil que é legitimada. Então é um desafio neste sentido. Na medida em que os profissionais da psicologia, do serviço social e os estagiários trabalham com as famílias e em outros espaços de discussão, também os Conselhos Municipais, tanto da Assistência quanto do Conselho Municipal da criança, esse debate vem a tona no sentido de dizer: escuta, o trabalho infantil não deve acontecer, o lugar de criança é na escola (ENTREVISTADA D). [...] um dos principais objetivos, também, que a gente pode colocar, – assim como coloca a Política de Assistência social, no qual o PETI está inserido, na média complexidade –, é a centralidade na família que também é um objetivo do PETI (ENTREVISTADA D).

Nota-se, portanto que a maioria das profissionais expôs com clareza os objetivos do Programa seguindo suas diretrizes em nível nacional. Dá-se destaque a fala da entrevistada D que relatou, também, a centralidade na família sendo um dos objetivos do PETI-Vitória. Como citado, no terceiro capítulo, atualmente o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) compõe o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Na perspectiva do SUAS, o programa visa trabalhar com ações socioassistenciais com foco na família, potencializando sua função de proteção, os vínculos familiares e comunitários. O Serviço Social no PETI, portanto, trabalha tendo em vista os objetivos preconizados nas diretrizes do Programa, que visa à erradicação do trabalho infantil no Município de Vitória, e desenvolve o trabalho com as famílias no intuito de fazer cumprir o que está posto no Sistema Único de Assistência Social.

4.6 LOCALIZAÇÃO/ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DO SERVIÇO SOCIAL
Como explicitado no capítulo anterior, o PETI, está inserido na Proteção Social Especial da PNAS de 2004. Portanto, o PETI, de acordo com a PNAS, compreende os serviços de Proteção Social Especial de média complexidade. Os serviços de média complexidade são aqueles que compreendem que houve a violação do direito da criança e do adolescente, porém os vínculos familiares e comunitários destes não foram rompidos. Isso posto, ao questionar a entrevistada D quanto a organização do trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de vitória, ela esclarece a localização do PETI segundo a PNAS. Segundo a entrevistada, o Serviço Social, no Programa,
Organiza-se pela Política Nacional de Assistência Social. A gente se organiza através das complexidades que existem. A básica, a média complexidade e a alta complexidade [...] o que fazemos na média complexidade? Fortalecemos essa família no sentido dela voltar para a básica. Para ela fazer cursos motivacionais, para ela se relacionar no grupo, para ela se fortalecer ainda mais e aí, ela cuidar da vida dela independente do Estado. Também, há situações nessa organização dos serviços que ao tentar fortalecer essas famílias, as famílias não se fortalecem e elas vão para a alta complexidade. Então, a gente perpassa nestes três níveis de complexidade [...] por isso que a gente está organizando melhor a média complexidade, saindo do isolamento dos programas da média complexidade, organizando, quebrando paradigmas dos trabalhos isolados, colocando-os nesse espaço físico, no sentido de adotar uma metodologia que leve em conta todos esses sujeitos, para implicar mais as famílias, fortalecer ainda mais essas famílias. A organização se passa um pouco por aí, essa gestão que estamos buscando fazer e que, até no meio do ano pretendemos implantar esse serviço [os CREAS’S (Centro de Referencia Especializado da Assistência Social)] (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, os serviços prestados diretamente pelo PETI e pelo Serviço Social no programa sofrerão alteração e serão diferenciados a partir da implementação dos CREAS’S, possivelmente até julho deste ano.

Portanto, quanto a implantação dos CREAS’S, sendo estes de orientação nacional, a entrevistada D, ressaltou que o Município possui dados que possibilitou propor tal implantação. Segundo ela:
[...] esses serviços nos dá elementos para que a gente possa fazer políticas públicas e elaborar políticas públicas neste sentido. E, ainda nesta elaboração de políticas públicas, não é a Prefeitura que trabalha nesta questão, mas é uma questão que a gente, e aí eu sou membro do Conselho, representando o Governo, bem como a Secretária representa o Governo, no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente que tem como responsabilidade a formulação de políticas públicas. É um Conselho paritário, onde tem governo e sociedade civil que se articula e que faz um plano de trabalho, um plano de ação onde se elabore Programas, Projetos e indicações, enfim, que se elabore, formule políticas públicas para que o município realmente execute políticas em direção a crianças e adolescentes de modo geral, em direção a média complexidade (ENTREVISTADA D). [...] o que tem nos ajudado muito é a Política Nacional de Assistência, que já tem o eixo que nos orienta (ENTREVISTADA D).

Neste sentido, segundo a Entrevistada D:
[...] o processo de trabalho [do Serviço Social] vai ser mais rico, mais interessante, mais ousado quando da implantação dos CREAS’S, porque aí vão ter mais pessoas, vai ter uma possibilidade maior porque é a integração dos serviços em diferentes lugares, então acho que vai facilitar. Não vai um pouco ao isolamento do PETI na erradicação do trabalho infantil, claro que ele não é isolado, mas ele cai no micro.

Ressalta-se, também, que o Serviço Social da Prefeitura Municipal de Vitória, bem com no PETI desenvolve suas ações de acordo com a Lei n°8.742, LOAS de 07 de dezembro de 1993, que expõe, em seu Art. 1º, que a assistência social, enquanto direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais, realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. De acordo com Art. 24 da LOAS (1993): “[...] Os programas de assistência social compreendem ações integradas e complementares com objetivos, tempo e área de abrangência definidos para qualificar, incentivar e melhorar os benefícios e os serviços assistenciais [...]”. Isso posto, considerando que o PETI é um Programa

designado, portanto, a seguir tal direção proposta pela LOAS, observa-se na fala de uma das entrevistadas:
[...] se a gente conseguir articular [...] em rede com a maior brevidade possível e tentar acompanhar sistematicamente essas famílias com o objetivo [...] de que fiquem menos tempo na média complexidade, que é no atendimento de PETI e outros, aí a gente vai conseguir atingir uma eficácia, porque o nosso objetivo é que estas pessoas não se eternizem na dependência de programas sociais [...] (ENTREVISTADA A).

Portanto, nota-se, na fala da entrevistada, um conhecimento do que preconiza a LOAS em seu Artigo 24, quanto aos programas de assistência social, uma vez que reconhece a necessidade do trabalho em rede buscando uma eficácia no seu desenvolvimento e reconhecendo a existência de tempo de abrangência dos programas sociais quando ressalta como objetivo a não eternização dos usuários na dependência dos programas. O Serviço Social no PETI, portanto, organiza-se e se direciona tendo em vista todas as balizas legais que norteiam a profissão.

4.7 PRINCIPAIS DEMANDAS
Tendo nas expressões da questão social a base das demandas ao Serviço Social, no que se refere ao Programa de Erradicação do Trabalho Infantil constataram-se como principais: a exigência de acompanhamentos mais constante, visitas domiciliares, encaminhamentos para atividades sócio-educativas de acordo com o interesse da criança e adolescente. Além destas, também se tem demandas voltadas para a área de habitação, e da saúde.
Os principais encaminhamentos [ás demandas] estão sempre na violação dos direitos [...] violência sexual, a negligencia, o abandono e a questão do tráfico que está aí no meio, é a questão das drogas que está aí no meio [...] a falta de habitação e também o desemprego dessas famílias (ENTREVISTADA D). As demandas mais freqüentes chegam por todas as portas de entrada. Chegam pela Abordagem Social de Rua, quando detectado situação de trabalho infantil na rua e [essa demanda] vem para nós. As outras demandas podem vir pela escola e as demandas espontâneas também

podem vir. Pode vir pela Unidade de Saúde, pode vir também pela Vara da Infância e da Juventude [...] então nós vamos trabalhar essas demandas. Como? Nós vamos lá fazer a visita de inclusão [...] então, as demandas mais freqüentes são estas: demanda de inclusão, de acompanhamento, e a sistematização do acompanhamento das condicionalidades [...] (ENTREVISTADA A). [...] outra demanda também, que nós sentimos necessidade, foi a realização de uma pesquisa nas feiras livres de Vitória [a fim de constatar entre outras questões], quantas crianças e adolescentes estão trabalhando nas feiras (ENTREVISTADA A).

Pode-se observar que são várias as demandas postas ao Serviço Social no Programa. A partir delas, os profissionais se posicionam e desenvolvem o trabalho no intuito de responder o que lhe foi demandado. Neste sentido, as ações e o trabalho desenvolvido com as famílias têm o objetivo de promovê-las, facilitando-as o acesso aos seus direitos, a partir do que elas demandarem, ou através do que é observado pela equipe técnica no que diz respeito á efetivação dos direitos das mesmas. Para tanto, tem-se a finalidade de interá-las socialmente subsidiando-as com atendimentos e suprindo suas demandas através de encaminhamentos e soluções as quais estarão ao alcance do PETI ou da rede sócio-assistencial.

4.8 ENCAMINHAMENTOS MAIS FREQÜENTES
Quanto aos encaminhamentos mais freqüentes oferecidos pelo Serviço Social no Programa, a partir das demandas dos usuários, as entrevistadas relataram que:
[...] é o escolar, pois uma vez que se constata a situação de trabalho infantil a primeira atitude a se tomar é colocar a família na rede da educação, da educação profissional ou da formação profissional, encaminhamentos à rede das oficinas de lazer através dos cajun’s, e de outras entidades conveniadas da Prefeitura, para realização de esporte, cultura, arte. [...] nunca esquecendo que o nosso trabalho sozinho, a nossa equipe sozinha, a nossa Secretaria sozinha, não vai conseguir acabar com a situação do trabalho infantil no Município. É essa compreensão que agente tem que ter [...] (ENTREVISTADA A). Em relação à escola, pois as crianças muitas vezes estão fora, evadidas da escola, aí a gente articula com o Conselho Tutelar [...] às vezes as crianças estudam em escola muito distantes do seu domicílio e as famílias buscam contato com o Programa para facilitar, quer dizer, garantir que as crianças estejam na escola, e uma escola mais próxima de sua residência, tanto em

relação à locomoção e para evitar riscos aos mesmos. Além do encaminhamento em relação a educação tem-se o encaminhamento para realização de jornada ampliada, as crianças mudam freqüentemente de espaços e atividades sócio-educativas. É uma demanda trazida por elas, às vezes elas não se adaptam muito bem em determinada instituição e solicitam mudança. Outro encaminhamento mais freqüente é em relação à estágio, porque a cada ano os adolescentes vão completando sua idade limite e antes mesmo de completarem a idade de sair do Programa, demonstram esse interesse [...] então os encaminhamentos mais freqüentes é em relação a escola, estágio, jornada ampliada, cursos de qualificação profissional para as famílias [...] (ENTREVISTADA B).

A partir das falas das entrevistadas, nota-se que o Serviço social no PETI busca efetivar suas ações em parceria com outros programas e instituições que se preocupam com a defesa e garantia dos direitos da criança e do adolescente, ou seja, o Serviço Social no PETI visa se articular com a rede de proteção para suprir as demandas dos usuários quanto à escola, jornada ampliada, profissionalização e outros. A pesar de reconhecida, pelas entrevistadas, a questão do trabalho em rede sócioassistencial, é importante destacar, porém, que existem lacunas neste trabalho de tamanha importância. Tais lacunas podem ser observadas no fazer cotidiano dos profissionais que vêem a dificuldade em desenvolver suas ações em rede uma vez que se observam a falta de retorno dos encaminhamentos, o distanciamento das ações, a falta de troca entre as equipes, entre outros.

4.9 ORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL QUANTO A ROTINA DE TRABALHO
Quanto à organização do Serviço Social no que se refere à rotina de trabalho no PETI, de acordo com as entrevistadas:
A rotina de trabalho se coloca da seguinte forma: as reuniões que são bimestrais com grupos de famílias, nós já fizemos também, num período, reuniões com grupos de adolescentes e crianças. E a rotina de trabalho sistemática é: primeiro a equipe chega-se a Prefeitura [à SEMAS], e já se tem aquela programação, que são: visitas de inclusão, visitas de acompanhamento, visitas à escolas, visitas de acompanhamento às jornadas ampliadas, as reuniões bimestrais e o atendimento as demandas

espontâneas, ou seja o que se demandar, [por exemplo], demanda-se ir a justiça, demanda-se ir ao SOSF [Serviço de Orientação Sócio-Familiar], demanda-se ir a um outro Programa, demanda-se articular com Gerencia do Idoso, [...] demanda-se fazer um contato com alguma unidade de internação porque um pai daquela família está no sistema prisional ou porque um filho daquela família está na UNIS [Unidade de Internação Sócio-Educativa], vamos fazer contato [...] demanda de planejamento para verificar se as nossas ações estão sendo respondidas com a aderência das famílias acompanhadas. Será que o que desenvolvemos está fazendo com que essas famílias se promovam socialmente e está fazendo com que essas famílias entendam qual é a proposta do trabalho? Qual é a proposta do trabalho? Que as famílias saiam da situação de exploração do trabalho infantil [...] (ENTREVISTADA A). [...] na visita de inclusão [que faz parte da rotina de trabalho] nós vamos divulgar o Programa, falar da situação, do enquadramento da família, detectar se a família tem o perfil de elegibilidade, uma vez a família sendo incluída, a família assina o termo de adesão e essa família passa a ser acompanhada. Se a família se enquadrar em todos os pré-requisitos ela vai receber o benefício [de transferência de renda do PETI, caso não receba nenhum outro, e o acompanhamento psicossocial recebendo ou não benefício específico do PETI] [...]. A maior parte das famílias é incluída, recebendo o benefício e tendo ciência do acompanhamento das condicionalidades, uma vez não cumprindo as condicionalidades elas são excluídas ou suspensas do Programa [...] (ENTREVISTADA A). Em relação à rotina de trabalho, não só específico do Serviço Social, a equipe realiza planejamento mensal e semanal das atividades [...] a partir das demandas que surgem vai se modificando esse planejamento [...] reuniões com as famílias, reuniões de equipe, supervisão de Serviço Social, busca-se fazer mensal, mas nem sempre é possível por ter apenas um profissional da área para realizar reunião de supervisão de Serviço Social. A supervisão existe no decorrer da atividade, mas, aqui no Serviço Social sempre se buscou realizar reunião de supervisão para refletir sobre a prática, repensar e trazer novas idéias, discutir um pouco sobre a prática. Então, a rotina é a partir desse planejamento, planejando e executando [...] as atividades de visitas domiciliares, que é a atividade mais constante que tem no Programa, pois, é a partir da visita que se tem contato com a realidade dessas famílias, dos usuários [...] é a partir das visitas domiciliares que se vai planejar e desenvolver as demais ações [...] reuniões de equipe para refletir, repensar sobre tudo que se tem feito a partir daquilo que foi planejado e avaliar [...] (ENTREVISTADA B).

Pode-se observar nas falas das entrevistas que o “leque” de atividades que compreende a rotina de trabalho no Programa é bastante intenso o que exige, portanto, muito trabalho à equipe. Como já exposto, a intensificação do trabalho, a intensificação das atividades imposta aos profissionais é característica do modelo capitalista pautado na reestruturação produtiva que exige e atribui cada vez mais atividades ao trabalhador em sua rotina de trabalho.

4.10 NÚMERO E SUFICIÊNCIA OU NÃO DE PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL
O Serviço Social, como já exposto, se configura enquanto uma profissão assalariada dentro da lógica neoliberal de produção que gera a reestruturação produtiva afetando diretamente o trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória. Entre outras questões, a Reestruturação produtiva propõe a redução do número de profissionais e sobrecarga de trabalho. É ai que nota-se o quanto o trabalho do profissional de Serviço Social no PETI é afetado. Isso posto, constatou-se na pesquisa realizada que o número de profissionais de Serviço Social no PETI não é suficiente para atender as demandas e a população usuária do Programa. Portanto, na questão referente ao número e suficiência ou não de profissionais de Serviço Social no PETI-Vitória, observou-se nas falas das entrevistadas que:
Atualmente dois, uma na coordenação e uma técnica [...] Este número é suficiente? Não. Exatamente porque, como eu falei, uma está no cargo mais de coordenação e outra atua diretamente no atendimento as famílias. [...] para poder atingir o objetivo de um acompanhamento mais efetivo, de uma forma bem sistemática a essas famílias e não só no momento em que elas apresentam uma demanda e para se ter uma maior proximidade com as crianças que ultimamente temos percebido essa fragilidade do Programa, [deveria haver um quadro maior de profissionais de Serviço Social] [...] então eu percebo que não é suficiente [...] o trabalho fica distanciado [...] conseguimos fazer os encaminhamentos devidos, houve as demandas, mas a gente não consegue ter a aproximação que gostaria [...] (ENTREVISTADA B). Nada é suficiente, eu quero dizer isso possivelmente acredito que a equipe não seja suficiente, até porque nós fomos perdendo gente ao longo desses anos, mas eu vejo isso, eu vejo que o PETI tem um enorme desafio que é, agora, se ajustar, se reformular e se inserir na política de assistência social (ENTREVISTADA C). Um, e o número não é suficiente, mas nós temos um problema aí com concurso público que não deu conta de atingir. Na verdade, são dezesseis anos na prefeitura sem concurso público e esse atual governo fez um concurso, mas só chamou uma quantidade que não é suficiente. Então, carece de profissional de Serviço Social. Na verdade, a gente sabe que tem outro, [na função de] coordenador, que é assistente social, que também

facilita e contribui na discussão, nesse diálogo e na busca de erradicação do trabalho infantil (ENTREVISTADA D).

Portanto, no PETI-Vitória o número de profissionais de Serviço Social para atender as demandas de trabalho não é suficiente. E as entrevistadas reconheceram tal insuficiência. Tal insuficiência de profissionais caracteriza uma precarização do trabalho do Serviço Social. Essa precarização, como já citado, advém da reestruturação produtiva que visa, acima de tudo, à obtenção e aumento dos lucros intensificando as atividades a um número reduzido de profissionais.

4.11 POPULAÇÃO ATENDIDA
Quanto ao público atendido pelo Serviço Social na contemporaneidade, é importante destacar que este não se diferenciou. Assim como no início da assistência voltada às crianças e aos adolescentes no Brasil, como explicitado nos primeiros capítulos deste trabalho, o público atendido pelo Serviço Social continua caracterizado pela população mais carente da sociedade. Destaca-se, portanto, que apesar da assistência social ser um direito de quem dela necessitar, esta, frente ao modelo neoliberal de estado, é oferecida aos mais necessitados dentre os que necessitam.

Ao questionar as profissionais sobre a população atendida pelo PETI-Vitória e pelo Serviço Social no Programa a entrevistada A afirmou que:
A população atendida pelo PETI-Vitória é a mesma população atendida pelo Serviço Social e pela psicologia que está dentro do Programa. Que população é essa? Famílias em situação de exploração do trabalho infantil, crianças e adolescentes atendidos pelo programa. No último levantamento, constatou que são atendidas cerca de 450 pessoas [...] crianças adolescentes e responsáveis (ENTREVISTADA A). A gente atende uma população principalmente de crianças e adolescentes de 7 a 14 anos e suas famílias numa média de quase 40 bairros [...] um número de trezentas famílias divididas nesses 40 bairros [...] (ENTREVISTADA B).

Pode-se, observar, portanto, que há um grande número de usuários para serem acompanhados pelo baixo número de profissionais do Programa. Neste sentido, é possível notar a insuficiência de profissionais no PETI-Vitória frente essa população, como constatado anteriormente. A insuficiência de profissionais para atuar na área social tem sua explicação, também, pelo posicionamento do Estado. Este, como já explicitado, se constitui enquanto mínimo no enfrentamento das expressões da questão social o que acarreta numa diminuição de investimentos para a área social. Neste viés de pensamento, portanto, considera-se que:
Atualmente, o “Estado Mínimo” neoliberal vem reduzindo a sua responsabilidade na garantia dos direitos sociais, delegando-a à sociedade civil sob o reforço da solidariedade, intervindo apenas em situações restritas. Tal postura implica no corte de verbas para a área social, no sucateamento dos equipamentos, em insuficientes recursos humanos e efetivo desrespeito às leis (SOLCI, acesso em: 03 de Junho de 2009).

Portanto, tendo em vista que o Estado constitui-se enquanto mínimo no enfrentamento das expressões da questão social, há que se questionar se os serviços assistenciais expressos em Programas, como o PETI, por exemplo, garantem de fato os direitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente na política de atendimento preconizado por ele e, se garantem de fato, os direitos dos usuários da assistência preconizados na PNAS. Para se alcançar uma conclusão quanto a questionamentos como estes, é necessário que continue a realização da análise proposta neste capítulo compreendendo, para isso, quais são os serviços prestados diretamente pelo PETI e pelo Serviço Social no Programa.

4.12 SERVIÇOS PRESTADOS
Neste sentido, ao questionar as entrevistadas quanto aos serviços prestados diretamente pelo PETI-Vitória e pelo Serviço Social no Programa, obteve-se as seguintes falas:

Os serviços prestados diretamente pelo PETI e pelo Serviço Social são os acompanhamentos psicossociais, o fortalecimento dos sujeitos com todos os recursos da rede, atendimento individual, atendimento em grupo através das reuniões bimestrais que o Programa tem como planejamento contínuo e as outras demandas que surgirem através das vulnerabilidades sociais, econômicas e ambientais que muitas vezes não são as que estão previstas e estabelecidas nas linhas gerais de nossas ações, ou seja, surgem demandas que muitas vezes nem imaginávamos que seriam demandados nossa intervenção [...] (ENTREVISTADA A).

Nesta fala, pode-se observar que há grande demanda de trabalho aos profissionais do Programa ao ponto de muitas vezes surgirem demandas que não se previam. Sabe-se que é necessário que o profissional de Serviço Social tenha a compreensão e clareza das demandas que a ele são postas ou que podem lhe ser demandadas. No entanto, a rotina de trabalho, a insuficiência de profissionais são alguns fatores que o impede de perceber tais questões no seu fazer profissional cotidiano. A grande demanda posta ao Serviço Social pode ser explicada, como exposto em capítulos anteriores, pelo agravamento das expressões da questão social diante dos rebatimentos do sistema capitalista, que estabelece o projeto neoliberal e a reestruturação produtiva como modelos de sustentação do capital. Neste sentido, os rebatimentos do neoliberalismo e da reestruturação produtiva afetam o social, aumentando a procura pelos serviços sociais, e afetam o trabalho do profissional de Serviço Social, que trabalha de forma precarizada e diante de limites postos pelo sistema.

4.13

APRIMORAMENTO

INTELECTUAL

E

CAPACITAÇÃO

PROFISSIONAL
Apesar de algumas dificuldades do fazer profissional do Assistente Social no PETIVitória, devido à grande demanda de trabalho e insuficiência de profissionais, ao questionar a participação em seminários, eventos, cursos e congressos, as entrevistadas relataram que existe tal participação sem problemas maiores de ser efetivada. Portanto, nas falas das entrevistadas, quanto à freqüência e participação nestes espaços tem-se:
Na política da Secretaria, política da Gerencia e da coordenação nós nunca tivemos problema algum de participar de eventos de troca, de crescimento.

Inclusive uma coisa que nós temos que avançar é escrever para se começar a divulgar. Porque nesse espaço a gente não está avançando [...] esta participação existe muito, a única coisa aqui que nós temos é o rodízio que nós fazemos por que as ações não podem parar, mas isso é respeitado, porque, a coordenação é feita pelo Serviço Social, Serviço Social tem um compromisso ético de incentivo, nós incentivamos a participação, e, a única coisa que a gente pede para preservar é que o serviço não para e que o usuário não seja prejudicado em detrimento de avanço, em detrimento de troca, em detrimento de ampliação de conhecimento, nunca (ENTREVISTADA A).

Portanto, de acordo com a entrevistada A, existe a participação contínua nestes espaços sem que ocorra prejuízo no desenvolvimento do trabalho e atenção ao usuário, uma vez que a equipe se organiza em rodízio para a participação em eventos, seminário e outros no Município de Vitória, que possui uma agenda muito intensa. No entanto, além dessas questões, apesar de haver tal participação, a entrevistada B levanta algumas que seriam importantes destacar. Segundo ela,
No PETI-Vitória chega-se informações de vários eventos neste sentido, que contribui para a formação e há participação. A freqüência é bem constante, mas o que ocorre é que, devido a carga horária de trabalho e devido ao trabalho que a gente é exigido a fazer e não muitas vezes tem como está garantindo mesmo um trabalho efetivo, um acompanhamento efetivo, nem sempre é possível que se esteja presente nesses eventos. Chega-se a informação, toma-se conhecimento, mas nem sempre é possível. [...] vai lá participa, assiste, mas nem sempre é feita a reflexão e partilha com a equipe, fica-se de uma forma solta. Um profissional ou outro colega participa do evento e nem sempre trás essa informação, esse conhecimento e partilha [...] fica ai um crescimento individual, contribui para quem vai [...] de repente poderia ter um momento específico dentro do Programa para poder estar socializando essas informações e consolidando, por exemplo, a partir daquilo que foi assimilado, da informação que se obteve lá e o que pode ser feito a partir daí, então, muitas vezes há um crescimento de quem participa, mas na sua prática diária [...] nem sempre consegue socializar com toda a equipe [...] é uma fragilidade, pela questão do tempo, da correria, das demandas, então, muitas vezes fica um crescimento individual, mas deixa de ser compartilhado com a equipe e de contribuir para o crescimento da equipe de forma geral e melhorar conseqüentemente a atuação de toda a equipe.

Ou seja, na fala da entrevistada B pode-se observar que apesar de haver a participação nos eventos que chegam à equipe PETI, somente alguns participam, nem sempre toda a equipe, devido à rotina de trabalho. E, as informações e o crescimento advindo desses espaços não são, muitas vezes, compartilhados com a equipe no geral. Tal fato, a entrevistada coloca como uma fragilidade do Programa e

reconhece que tal fragilidade se dá devido às demandas do trabalho e a falta de tempo em socializar. Dessa forma, nota-se que fica um crescimento individual, de quem teve a oportunidade de participar do evento, e não de toda a equipe que faz parte do Programa. Segundo a entrevistada D:
Todos os profissionais já foram capacitados, já fizeram a formação sobre o SUAS em módulos diferentes e tantas outras formação, e tantos outros momentos que tivemos além da participação em seminários [...] Evidentemente é sempre importante a formação. E, agora na implantação dos CREAS’s, nós já temos a formação sendo elaborada, vamos trazer assessoria de fora e também vamos trabalhar com profissionais daqui com experiência, mas, assim, já tem coisas pensadas que são bastante interessantes na linha da média complexidade [...] no sentido de estar habilitando esses profissionais a esses desafios que são novos na violação dos direitos, na questão da violência e exploração sexual que não é tão evidente assim esse trabalho.

Pode-se notar na resposta da entrevistada D que há preocupação quanto à capacitação dos profissionais de Serviço Social no sentido de aprimoramento da formação profissional.

4.14 DIMENSÃO INVESTIGATIVA
Entre outras questões, foi perguntado as entrevistada se há, no Programa, uma preocupação no que se refere à realização de Pesquisas e quais pesquisas. Quanto a esta questão obteve-se as seguintes respostas:
Se eu disser por mim, na condição e posição de Assistente Social e Coordenadora, [há sim a preocupação no que se refere à realização de Pesquisas] [...] o Programa em si não [o Programa não tem realizado pesquisa] a pesquisa da feira [iniciada em 2007] ainda não foi concluída [está em fase de análise de dados. Não houve no ano de 2008 a conclusão de pesquisas e finalização da pesquisa sobre “o trabalho infantil nas feiras livres de Vitória” no Programa] então, concluímos alguma pesquisa este ano? Não. Não concluímos nenhuma pesquisa no ano de 2008 [...] está dentro da rotina do trabalho realizar pesquisa? Não. E, não por quê?

Porque depende do movimento de todos, e depende, também, de organizar um horário destinado para isso. Como não tem linha de investimento para pesquisa da Prefeitura ou de qualquer convênio ou qualquer parceria com faculdade nenhuma, esse espaço não tem essa realização garantida (ENTREVISTADA A).

É importante ressaltar que a pesquisa, a dimensão investigativa no fazer profissional é um instrumento próprio da profissão que deve ser utilizado no cotidiano profissional. Não é necessário um tempo diferenciado para a realização de pesquisa, pois essa prática constitui e faz parte do processo de trabalho do Serviço Social. Nota-se na fala da entrevistada que a dimensão investigativa, a realização de pesquisa no PETI-Vitória, está enfraquecida. Houve apenas a realização de uma pesquisa em 2007, no entanto, até o momento presente, esta ainda não foi finalizada em sua análise. Ainda no que se refere a esta questões obteve-se na fala da entrevistada B elementos importantes de serem destacados e mencionados aqui. Em sua fala, portanto, tem-se:
Sim, tudo que se refere à questão do trabalho infantil, da criança e do adolescente, na nossa equipe aqui do PETI-Vitória, existe sim uma preocupação, a intenção. Mas, como eu falei até o momento a única pesquisa que foi feita e ainda não concluímos exatamente por questões de tempo e as demandas que a equipe tem que atender, ainda não foi possível concluir, que foi a pesquisa para observar e fazer um levantamento em relação às crianças e adolescentes que trabalham nas feiras livres. Essa pesquisa foi feita não apenas para traçar o perfil desse público, mas a partir disso, sugerir e elaborar uma proposta [...] ainda não foi possível realizar a análise dos dados exatamente por causa dessa rotina das demandas que surgem [...] tudo aquilo que é percebido a partir dos acompanhamentos feitos às famílias, a equipe do Programa tem intenção de realizar pesquisa, mas como falei anteriormente, essa questão de planejar, de parar para planejar, de traçar objetivos, aplicar e executar não é possível. Surgem muitas outras demandas que a gente identifica que seria necessário fazer uma pesquisa exatamente para se pensar uma atividade, uma ação que possa ir ao encontro dessa questão, que possa intervir melhor sobre essa questão. Muitas vezes, tem demandas que a gente observa que são muito freqüentes e o Programa, mesmo articulando com outros serviços, não consegue atingir e até por isso mesmo, falta uma pesquisa [...] [por exemplo,] em relação mesmo a questão desse grande interesse que surge nos adolescentes de 14 em relação a questão do trabalho, quer dizer, a gente sabe a partir das demandas que chegam desse interesse, mas, de repente a gente poderia fazer uma pesquisa voltada em relação a isso para traçar uma ação que pudesse oferecer uma oportunidade melhor para eles [...] (ENTREVISTADA B).

A entrevista também menciona que existe a preocupação em realizar pesquisa no Programa, como a que foi realizada em 2007 e ainda não finalizada. Como se pode notar, o que impossibilita, na fala da entrevistada, finalizar esta pesquisa e realizar demais pesquisas de interesse da equipe, são as demandas postas no cotidiano de trabalho e o número insuficiente de profissionais que atuam no Programa. Empecilhos que comprometem, portanto, a dimensão investigativa no fazer profissional cotidiano do assistente social que atua no PETI-Vitória. Como se pode notar na fala da entrevistada B é de reconhecimento da equipe a necessidade de realizar pesquisa no campo a fim de se pensar novas propostas e ações que visem a melhoria no atendimento das demandas postas. Já na fala da entrevistada C, captaram-se outros elementos significativos para análise quanto à preocupação e realização de pesquisa no PETI-Vitória. Segundo ela,
Claro que há, nós temos preocupação sim, mas a gente, também, tem muito que aprender ainda a fazer pesquisa. E eu acho que a gente tem que, na verdade, fazer as vezes o que Marilda fala, incorporar a conduta investigativa no seu dia-a-dia profissional. Eu acho que é bem possível você incorporar, você caminhar, tanto exercendo o seu trabalho profissional e ao mesmo tempo sistematizando o conhecimento que você tem ao trabalhar. E eu acho que o nosso profissional não faz isso com muita freqüência não, por exemplo, você pode trabalhar a partir dos cadastros que você faz, sistematizar dados a partir dos cadastros que você faz, você pode colher as representações das crianças e das famílias para entender porque as famílias as vezes, preferem tirar seus filhos da escola e botar no trabalho. Então, você entender a importância de você estar atenta ao que a família diz, como a família significa o trabalho, como ela significa a escola [...] você pode muito bem conciliar o seu trabalho com procedimentos investigativos que te permitam sistematizar conhecimento. Só que nosso profissional, ele se debate no dia-a-dia com as exigências da prática, como se a prática fosse desvinculada da teoria, ele ainda não compreendeu a riqueza que é a sua inserção na prática, o quanto essa prática, essa experiência, esse contato com o usuário te dá de possibilidades de você sistematizar o conhecimento a partir dessa prática. Nós fizemos uma pesquisa com meninos que trabalham nas feiras fazendo frete [...] mas os resultados dessa pesquisa não foram divulgados, então ninguém sabe, então não gerou conhecimento para a gente tomar decisão política, isso é muito ruim. Então, consideramos extremamente importante, extremamente necessário. Não há como fazer gestão sem a avaliação, a pesquisa, a sistematização de dados, de resultados. Você tem que se orientar com isso, mas nós ainda não fazemos isso de uma forma satisfatória. Por sua vez, as monografias ficam nas prateleiras e a gente também não sabe, não conhece. Então, eu acho que é preciso fazer um esforço maior.

Assim como nas falas das demais, nota-se na fala da entrevistada C que existe a preocupação em incorporar a dimensão investigativa na prática. No entanto, ela expõe com clareza que há no profissional do PETI uma deficiência em incorporar a prática investigativa em seu cotidiano. De acordo com a entrevistada, é importante destacar que falta no profissional a compreensão da riqueza que é o desenvolvimento do seu trabalho no cotidiano, pois é a partir da prática cotidiana que se abrem as possibilidades do profissional sistematizar o conhecimento. Ainda quanto a esta questão, obtiveram-se, também, elementos significativos na fala da entrevistada D. De acordo com ela,
Há essa preocupação sim, com certeza absoluta. A pesquisa de modo geral sim, mas, assim também a idéia da participação, da escuta do usuário para também dar um retorno para nós, que estamos fazendo a gestão, de que tamanho que está as nossas ações, se realmente tem ressocialização ou não, se as crianças estão sendo socializadas, se as famílias estão sendo fortalecidas ou não. Isso é através de pesquisa, é através de relatórios de gestão que a gente faz e que a gente escuta o usuário [...] a pesquisa é importante, nos favorece na elaboração de Programas, Projetos, enfim de elaboração de políticas públicas.

A entrevistada D, enfatiza a escuta do usuário do Programa, que se dá por meio da pesquisa, como sendo de fundamental importância para compreender e avaliar os serviços prestados. Reconhece, também, a importância da pesquisa no que tange a elaboração de Programas, Projetos e políticas públicas. Quanto a esta colocação, considera-se, nas palavras de Iamamoto (2007, p. 142), que:
Uma aproximação, por meio da pesquisa criteriosa, às condições de vida e de trabalho das classes sociais, com ênfase nas classes subalternas – público-alvo preferencial do trabalho do assistente social – é um requisito indispensável para a efetivação daqueles valores e princípios mencionados. Aproximação que permita captar interesses e necessidades em suas diversas maneiras de explicitações, englobando formas diferenciadas de organização e luta para fazer frente à pobreza e à exclusão econômica, social e cultural [...] O desafio é captar os núcleos de contestação e resistência, as formas de imaginação e invenção do cotidiano, de defesa da vida e da dignidade do trabalhador.

Portanto, a prática investigativa é de fundamental importância no fazer cotidiano do profissional de Serviço Social, pois é a partir dela que o profissional terá dimensão das questões que a ele são postas, é a partir dela que ele efetiva o que está posto nas suas diretrizes profissionais e éticas. Além disso, é na prática investigativa que o

profissional se coloca enquanto propositivo e crítico para se posicionar frente às demandas e sugestões de intervenções inovadoras a fim de romper com alguns entraves que o impossibilitam agir tendo em vista a defesa das classes subalternas em seu cotidiano profissional.

4.15 PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E CONTROLE SOCIAL
Além da importância da dimensão investigativa no fazer profissional do Serviço Social, também há de se considerar a relevância da participação política. Neste sentido, foi questionado as entrevistada se há, por parte dos profissionais de Serviço Social, relações entre a sociedade civil organizada por via de conselhos de direito, fóruns ou outros. Diante desta questão obtiveram-se as seguintes respostas:
Há. Nós temos acento no Fórum [FEPETI - Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil] Fórum que foi desmotivado um pouco [...] hoje está desarticulado [...] não sei como é que está agora porque quem “puxava” era a SETADES [Secretaria de Estado do Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social] [...] sempre somos convidados para tomar acento nesses espaços de controle social. A nossa própria Gerente é membro do CONCAVI [Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Vitória], a nossa Secretaria é presidente do COMASV, Conselho Municipal de Assistência Social de Vitória, e tudo passa nesse campo de discussão [...] Não tem um conselho hoje específico para trabalhar a questão do Trabalho Infantil. Existe o Conselho de Assistência Social e o Conselho da Criança e do Adolescente que é o espaço de participação. Então, a sociedade civil está ali [...] (ENTREVISTADA A). Em relação à equipe do Programa sim, ela não tem acontecido com freqüência e deveria haver uma participação melhor [nesses espaços] isso está até dentro da Lei, nas diretrizes do Programa, a participação da equipe na Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil [CMETI] ela, aqui no Município de Vitória, há bastante tempo que não se reúne essa Comissão e, até pouco tempo tinha retomado suas ações, mas se interrompeu devido às demandas que surgem a cada dia dos usuários dos diferentes órgãos envolvidos, por isso, não se conseguiu dar continuidade a Comissão Municipal, mas existe uma diretriz [...] só que o trabalho está interrompido. Nessa Comissão, reuni representante da sociedade civil organizada por entidades que oferecem atividades sócio-educativas às crianças, além do PETI, representantes da Secretaria de Saúde, Secretário do Trabalho. Nessa Comissão, a equipe PETI pensou em convidar para participar dessa Comissão representante dos beneficiários [...] mas, não foi possível a participação, o representante não conseguiu participar das reuniões da Comissão e também a Comissão depois não deu continuidade [...] ela existe, mas as reuniões foram interrompidas, essas reuniões são para discutir as ações do Programa, para avaliar, para pensar juntos, representantes do Governo, das entidades civis, para sair novas propostas para esse público atendido pelo Programa. Além da CMETI existe o FEPETI

que é o Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil que o PETI-Vitória também está inscrito embora recentemente também não tem participado das reuniões [pois ele também interrompeu suas atividades] [...] (ENTREVISTADA B). Há. Nós temos, no caso da SEMAS, cinco conselhos ligados a nós. Então, com certeza há sim. Nós temos muitos conselhos, Vitória tem 21 conselhos em todas as áreas, conselhos de políticas sociais e conselhos de direitos. Só que, por exemplo, a questão do trabalho da criança e do adolescente ela muitas vezes fica sub-representada dentro do Conselho de Direitos da Criança não sendo tão focada [...] há muitas fragilidades, há muitas necessidades, às vezes você não dá conta de tudo. O PETI tinha um Conselho Municipal, um Fórum, FEPETI (Fórum Estadual do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) mais não se manteve estruturado, portanto ficou perdido e precisaria estar sendo resgatado (ENTREVISTADA C). Acho que tem aquele Fórum que discute a questão do trabalho infantil, o FEPETI, porém, ele deu uma baixa muito grande inclusive do Município, tanto do Estado quanto do Município. São canais que realmente estão murchos e acho que devem ser revitalizados, que precisam ser repensados, mas, assim, não especialmente só na questão do trabalho infantil, mas entendendo todo o seu serviço da média complexidade. Acho que são canais de mobilização, podem ser também só do trabalho infantil, pode e deve ter canais só para isso, mas fazendo articulação com outros serviços da média complexidade e que deve ser provocado novamente a voltar a provocar as entidades para participar. O Conselho Municipal é o vigilante nessa questão, mas também precisa realmente de maior fortalecimento, os Conselhos e os Fóruns (ENTREVISTADA D).

Portanto, pode-se notar nas falas das entrevistadas que existe um comprometimento com a participação, ou seja, nota-se que existe a visão por parte dos profissionais que é importante que se participe desses espaços – tanto eles quanto a sociedade civil no geral. No entanto, a própria conjuntura fragiliza, enfraquece os espaços de participação. Neste sentido, percebe-se que o CMETI e o FEPETI, que constituem espaços de participação no que se refere à discussão da temática acerca do trabalho infantil, estão enfraquecidos e esquecidos necessitando de retomar a articulação nestes espaços. Entre tantos outros desafios, este seria mais um para o profissional de Serviço Social no PETI-Vitória. Isso posto, considera-se, na fala de Iamamoto (2007, p. 143):
Reafirma-se, portanto, o desafio de tornar os espaços de trabalho do assistente social, espaços de fato públicos, alargando os canais de interferência da população na coisa pública, permitindo maior controle, por parte da sociedade, nas decisões que lhes dizem respeito. Isso é viabilizado pela socialização de informações; ampliação do conhecimento de direitos e interesses em jogo; acesso às regras que conduzem a negociação dos interesses atribuindo-lhes transparência; abertura e/ou alargamento de

canais que permitam o acompanhamento da implementação das decisões por parte da coletividade; ampliação de fóruns de debate e de representação etc.

Portanto, para haver de fato interferência da população e, também, do profissional com novas propostas para intervenção nas questões trabalhadas é necessário que os canais de interferência, que são os fóruns, Conselhos e demais espaços de debates, sejam alargados e impulsionados em seu funcionamento, ou seja, é necessário que se utilize e que se tenha visibilidade desses espaços uma vez que é por via deles que se é possível sugerir, avaliar e propor novos direcionamentos em busca da efetivação dos direitos da população. É importante ressaltar, também, enquanto mecanismo de participação, a articulação dos profissionais de Serviço Social com os movimentos sociais. Neste sentido, ressalta-se que o Código de Ética do Assistente Social, de 1993, atribui em um dos seus princípios fundamentais a “[...] Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos trabalhadores [...]” (BRASIL, 1993). No entanto, tal articulação com os movimentos sociais constitui um grande desafio ao Serviço Social, pois os movimentos sociais de luta no geral, diante dos rebatimentos do modelo neoliberal, encontram-se fragmentados, enfraquecidos e cada vez mais desmobilizados. Portanto, o engajamento, a mobilização e o fortalecimento dos espaços de participação social é um dos maiores desafios do profissional de Serviço Social na atual conjuntura.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo objetivou a realização de uma análise do processo de trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do Município de Vitória-ES tendo em vista que este se desenvolve pautado no Estatuto da criança e do Adolescente (ECRIAD) e, portanto, na política de atendimento preconizada nesta Lei. Desta forma, após a finalização da pesquisa, vale salientar algumas questões relevantes para a conclusão deste estudo.

As políticas voltadas a crianças e ao adolescente no Brasil tiveram, ao longo da história, várias reformulações até considerar, de fato, a criança e o adolescente enquanto sujeitos de direito com proteção integral, como posto no Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, diante na realidade que se vive na conjuntura atual, e segundo a análise problematizada neste trabalho, nota-se que as políticas que conduzem a efetivação dos direitos deste seguimento da sociedade não correspondem e nem respaldam o que está posto em lei, ou seja, os direitos das crianças e dos adolescentes não são respeitados segundo o ECRIAD. Salienta-se, que o Serviço Social após sua renovação, como observado no desenvolvimento deste trabalho, possui uma atuação para a intervenção que é própria da profissão, possui um olhar diferenciado para a intervenção no social. Sendo este, um olhar que deve ser a favor da classe trabalhadora, que deve ser competente, respaldado pelo seu Código de ética que pressupõe os princípios que o norteará em seu fazer profissional cotidiano. No entanto, o grande desafio de efetivar o trabalho da forma com que é colocado no seu Código de Ética, nas suas diretrizes e atribuições da profissão deve-se ao fato dessa conjuntura, na qual se insere o trabalho do profissional de Serviço Social, ser extremamente desafiadora, que impõe a precarização do trabalho, como se pode observar no PETI-Vitória o qual possui uma equipe de trabalho extremamente reduzida, profissional com vínculo empregatício frágil, entre outras questões, que rebatem diretamente no fazer profissional do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória. Portanto, tendo em vista os rebatimentos e desafios postos pelo sistema vigente, salienta-se que a Política de Atendimentos à criança e ao adolescente e as ações profissionais do Serviço Social, de certa forma, não atingem a população necessitada e permanecem clientelistas, fragmentadas, discriminadora e imediatista, insuficiente e emergencial como se constatou em períodos históricos anteriores no Brasil. A partir da pesquisa realizada concluiu-se que os profissionais têm clareza dos principais objetivos do PETI-Vitória e da localização e organização do trabalho do Serviço Social. Pode-se observar, também, – como citado anteriormente – que os

profissionais do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória são em número reduzido e há profissional que trabalha com vínculo empregatício frágil. Constatou-se, com a pesquisa, que a elaboração e execução de projetos, assim como o desenvolvimento das principais políticas e atividades – devido ao número reduzido de profissionais e a grande demanda – ocorrem mediante alguns entraves, muitas vezes sem planejamento sistematizado, configurando-se, portanto, numa fragilidade da equipe do Programa. Com a pesquisa, concluiu-se que há, por parte dos profissionais de Serviço Social do PETI, a preocupação quanto ao aprimoramento intelectual, capacitação profissional e dimensão investigativa. No entanto, a efetivação dessas diretrizes de trabalho, assim como a participação política e controle social, ocorre com algumas limitações e não se realiza como é esperado pelos profissionais de Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória. São vários os desafios postos aos profissionais de Serviço Social no PETI-Vitória, pois como se pôde observar, estes estão atuando num Programa do Governo Federal que tem por objetivo maior erradicar o trabalho infantil, porém com tantas dificuldades em seu fazer profissional o assistente social entra em conflito uma vez que está cotidianamente na conciliação de trabalhar com as demandas e participação política, demandas e estudos, demandas imediatas e qualificação profissão, ou seja, são muitas as atribuições ao reduzido número de profissional e é grande o leque de atividades a eles impostas para dar conta de concretizar seu fazer profissional segundo as diretrizes de seu trabalho e segundo as diretrizes do Programa propriamente dito condizente com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Considera-se que, para trabalhar diante de tantos entraves, o profissional deve ter em mente a realidade na qual se insere e se colocar no desafio de atuar diante de todos os empecilhos, já citados, impostos pela conjuntura. Para tanto, o profissional deve atuar segundo seu projeto ético-político na direção de uma mudança societária a favor das classes subalternas e da defesa dos direitos dessas.

Diante da realidade inserida, o profissional tem o desafio de se posicionar contra os ditames que dificultam seu fazer profissional. Cabe a ele ser comprometido com seu projeto ético-político e cabe a ele acompanhar as mudanças societárias, a realidade na qual se insere para, a partir de então, propor novos direcionamentos para sua prática cotidiana junto a seus usuários que são sujeitos de direitos. Direitos estes, conquistados frente muitas lutas e dificuldades em vários períodos históricos e que não devem deixar de se efetivar. Portanto, mediante as constatações a partir da pesquisa realizada, reconhece-se que o trabalho do Serviço Social, diante da lógica do sistema vigente, realiza-se com inúmeros limites e impõe a estes profissionais grandes desafios em seu trabalho cotidiano. No entanto, salienta-se que, mesmo diante dos entraves postos, o profissional de Serviço Social não está engessado em suas ações, pois carrega consigo uma relativa autonomia de trabalho. Esta autonomia deve ser trabalhada através de uma postura propositiva, crítica e criativa de trabalho. O profissional deve estar atendo às possibilidades cotidianas de trabalho, deve investir na sua capacitação intelectual e, principalmente, fortalecer os mecanismos e instrumentos de participação social. Esta pesquisa evidenciou a dificuldade dos profissionais de Serviço Social, que atuam no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Município de Vitória-ES, em indicarem suas particularidades no campo de trabalho. Neste sentido, tendo em vista a realidade na qual estes profissionais estão inseridos, fica a sugestão de realizarem a sistematização das particularidades profissionais. É importante salientar que no estudo desenvolvido neste trabalho não tive a pretensão de esgotar o debate quanto ao trabalho do Serviço Social inserido na política de atendimento à criança e ao adolescente no Brasil. Ficam aqui algumas lacunas que ainda serão problematizadas em meu processo de formação. Este estudo foi relevante para acentuar o debate acadêmico acerca da prática profissional do Assistente Social, pois nota-se que tal discussão tem sido pouco problematizada nos trabalhos de conclusão de curso.

Com a realização do estudo proposto neste trabalho, observou-se como vem se desenvolvendo a atuação profissional dos assistentes sociais, de um determinado Programa do Governo Federal, frente aos limites e desafios que são postos ao profissional em seu processo de trabalho.

6 REFERÊNCIAS
1 A CONVENÇÃO internacional dos direitos da criança e do adolescente. Curso de Direitos Humanos - Módulo III Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente. Unidade I - O Marco legal Internacional e Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/dados/cursos/dh/cc/3/crianca/marco.htm>. Acesso em: 20 abr. 2009. BARBOSA, Rosangela Nair de carvalho et al. A Categoria “processo de trabalho” e o trabalho do assistente social. Revista Serviço Social e Sociedade, nº 58, Cortez, São Paulo, 1998. BONFIM, José. Texto: Trabalho Infantil: o drama de quem tem que deixar a escola (publicado originalmente no Jornal A TARDE, 18 jan. 2000). Revista: Visão

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Mundial Transformação; Ano XII, nº 03, Dez. 2000; Tiragem: 12.000. 4 BRASIL. Código de Ética Profissional do Assistente Social. Brasília: CFESS, 1993. ____. Lei nº 8.069,13 de Jul. 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília, 1990. ____. Lei Orgânica da Assistência Social. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/publi_04/COLECAO/TRABIN3.HTM>. Acesso em: 27 abr. 2009. ____. Ministério da Previdência e Assistência Social. Secretaria de Estado de Assistência Social. Portaria Nº 458, de 4 de outubro de 2001; Estabelece Diretrizes e Normas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI. Disponível em:<www.mds.gov.br/suas/menu.../portarias/.../2001/PORTARIA%20N%20458,% 20DE%204%20DE%20OUTUBRO%20DE%202001... ->. Acesso em: 27 abr. 2009. ____. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Legislação. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-socialespecial/programa-de-erradicacao-do-trabalho-infantil-peti/legislacao> Acesso em: 22 jan. 2009. ____. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Disponível em: <http://www.mds.gov.br/programas/rede-suas/protecao-social-especial/programade-erradicacao-do-trabalho-infantil-peti>. Acesso em: 22 jan. 2009.

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10 ____. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Assistência Social. Política Nacional de Assistência Social. Brasília, set. 2004. Disponível em: http://portal.cnm.org.br/sites/5700/5770/PNAS_v_final.pdf. Acesso em: 27 abr. 2009. 11 ____. Regulamentação da profissão de Assistente Social. Lei nº. 8662 Jun. 1993. 12 CAMPOS, Marta Silva et al. Trabalho Infantil, Desafio à Sociedade: Avaliação do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no Período 1996-97. São Paulo: IEE/PUC-SP; Brasília : Secretaria de Estado de Assistência Social/MPAS, 1999. p. 160. 13 COELHO, Bernardo Leônico Moura. A Proteção à criança nas constituições brasileiras: 1824 a 1969. Revista de Informação Legislativa. Brasília a. 35 n. 139 jul./set. 1998.

14 COMISSÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Estatuto da Criança e do Adolescente. CRESS, 7ª Região – RJ. Assistente Social: Ética e Direitos. Coletânea de Leis e Resoluções. 4 ed. 1ª reimpressão (revista e atualizada); Rio de janeiro maio, 2003. p.74. 15 DALTON, Andréa Monteiro et al. A Política de Atendimento à Criança e ao Adolescente nas Organizações Não Governamentais no Município de Vitória. 2005. Monografia - Departamento de Serviço Social, Faculdade Salesiana de Vitória, Vitória, 2005. 16 DIREITOS da criança. As crianças têm direitos. Disponível em: <http://www.unicef.pt/artigo.php?mid=18101111&m=2>. Acesso em: 20 abr. 2009. 17 ENTREVISTADA A. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória – ES. 2008. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli Loureiro, Vitória 12 dez. 2008. 18 ENTREVISTADA B. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória – ES. 2008. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli Loureiro, Vitória 17 dez. 2008. 19 ENTREVISTADA C. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória – ES. 2009. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli Loureiro, Vitória 01 abr. 2009. 20 ENTREVISTADA D. Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória – ES. 2009. Entrevista concedida a Rayani Rampinelli Loureiro, Vitória 02 abr. 2009. 21 FÁVERO, Eunice Teresinha. O Estudo social em perícias, laudos e pareceres técnicos: Contribuição ao debate no judiciário, no penitenciário e na previdência social / Conselho Federal de Serviço Social, (org.). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2004. 22 IAMAMOTO, Marilda Villela; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 18. ed. São Paulo, Cortez; [Lima, Peru] : CELATS, 2005. 23 ____. Marilda Villela. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 11. ed. São Paulo, Cortez, 2007. 24 ____. Marilda Villela. Serviço Social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

25 LEITE, Mirian Alves. Sobre o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil uma experiência de ação afirmativa na Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: <sitemason.vanderbilt.edu/files/gMtpLy/Leite%20Mirian%20Alves.doc ->. Acesso em: 27 abr. 2009. 26 MILANEZI, Fabrícia. A História da Política de Atendimento Destinado à Infancia e à Adolescencia no Brasil. Ciudadanía y Democracia. 2004. Tese – Programa de Doctorado. Pasado y Presente de los Derechos Humanos. Trabajo de Investigacion, Universidad de Salamanca, Salamanca, 2004 (Em mimeo). 27 MIRANDA, Ana Paula Rocha; CAVALCANTI, Patrícia Barreto Cavalcanti. O Serviço Social e sua Ética Profissional. Disponível em: <http://74.125.47.132/search?q=cache:zxb0DauYF3oJ:www.assistentesocial.com .br/agora2/mirandaecavalcanti.doc+o+surgimento+do+Servi%C3%A7o+Social+n o+Brasil&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br> Acesso em: 12 abr. 2009. 28 MORSOLIN, Cristiano. Trabalho Infantil e Convenção Internacional sobre Direitos da Criança. Brasil, 2009. Disponível em: <http://www.adital.com.br/SITE/noticia.asp?lang=PT&cod=37947>. Acesso em: 20 abr. 2009. 29 NETTO, José Paulo. Ditadura e serviço social: uma análise do serviço social no Brasil pós-64. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2006. 30 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Disponível <www.oitbrasil.org.br/inst/index.php>. Acesso em: 26 out. 2008. em:

31 PILOTTI, Francisco (Org.). Arte de Governar Crianças: A História das Políticas Sociais, da Legislação e da Assistência à Infância no Brasil. Rio de janeiro: Instituto Interamericano Del Niño, Editora Universitária Santa Úrsula, Amais Livraria e Editora, 1995. 32 REDE criança. O que é a Rede Criança. Disponível <http://www.redecria.es.gov.br/oquee/>. Acesso em: 27 abr. 2009. em:

33 REIS, Marcelo Bráz Moraes dos. Notas sobre o Projeto ético-político do Serviço Social. CRESS, 7ª Região – RJ. Assistente Social: Ética e Direitos. Coletânea de Leis e Resoluções. 4 ed. 1ª reimpressão (revista e atualizada); Rio de janeiro maio, 2003. p. 409, 410 e 411. 34 RUSSO, Oswaldo. Agência Brasil. 08 out. 2006. <http//:www.radiobras.gov.br>. Acesso em: 10 dez. 2007. Disponível em

35 SANTOS, Heidi Passamani et al. Violência Sexual praticada contra meninos no município de Serra/ES: Um Estudo a partir do Programa Sentinela. 2008. Monografia - Departamento de Serviço Social, Universidade Federal do Espírito

Santo, Vitória, 2008. 36 SILVA, Maria Liduina de oliveira e. O Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código de Menores: descontinuidades e continuidade. Revista Serviço Social e Sociedade; Ano XXVI, nº 83, set. 2005. 37 SOLCI, Silvia Maria. A efetivação dos direitos da criança e do adolescente. Disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v4n2_Solci.htm>. Acesso em: 03 jun. 2009. 38 TRINDADE, Rosa Lúcia Prédes. Desvelando as Determinações SócioHistóricas do Instrumental-Técnico Operativo Do Serviço Social Na Articulação Entre Demandas Sociais e Projetos Profissionais. Revista Temporális, nº 4, ABEPSS, 2001. 39 VITÓRIA. Prefeitura Municipal de Vitória. Secretaria Municipal de Assistência Social. Gerência de Proteção Social à Criança e ao Adolescente. Relatório Anual: Programa de Erradicação do Trabalho Infantil. Vitória - ES: 2006. 40 WIKIPEDIA. Sisal. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sisal>. Acesso em: 01 jun. 2009.

APÊNDICES

APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA
1. Identificação do Programa: Nome, endereço, telefone, e-mail. 2. Nome e cargo do responsável por responder a entrevista. 3. Quais são os principais objetivos do PETI-Vitória? 4. Quais são as principais políticas, projetos e atividades desenvolvidas pelo PETIVitória? E pelo Serviço Social? 5. Qual a população atendida pelo PETI-Vitória? E pelo Serviço Social no Programa? 6. Quais são os critérios para inserção dos usuários no PETI-Vitória? 7. Quais os serviços prestados diretamente pelo PETI-Vitória? E pelo Serviço Social no Programa? 8. Quais são os encaminhamentos mais freqüentes?

9. Quantos profissionais de Serviço Social atuam no Programa? Este número é suficiente? 10. Qual é o seu tempo de exercício no Programa? E qual o vínculo empregatício e carga horária? 11. Como se organiza o trabalho do Serviço Social no PETI-Vitória no que se refere à:     Demandas mais freqüente. Rotina de trabalho. Elaboração e execução de projetos. Gerenciamento, participação e elaboração de políticas públicas.

12. Há participação em seminários, eventos, cursos, congressos? Com que freqüência? 13. Há uma preocupação no Programa no que se refere à realização de Pesquisas? Quais? 14. Há relações entre a sociedade civil organizada por via de conselhos de direito, fóruns ou outros?

APÊNDICE

B

TERMO

DE

CONSENTIMENTO

LIVRE

E

ESCLARECIDO
Por este documento você está sendo convidado (a) a participar da pesquisa: Limites e Possibilidades do Processo de Trabalho do Serviço social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória - ES . O propósito desse trabalho é analisar quais são os limites e as possibilidades do processo de trabalho do serviço Social no Programa de Erradicação do Trabalho Infantil do Município de Vitória no período correspondente ao ano de 2006 a 2008. Pretende-se com esta pesquisa levantar aspectos referentes à prática profissional do Serviço Social no PETI. No que tange as técnicas de coleta de dados, serão aplicados questionários com perguntas abertas e fechadas, que serão respondidas individualmente e posteriormente analisadas pelo pesquisador. O presente termo assegura os seguintes direitos: a) Garantia de esclarecimentos antes e durante o curso da pesquisa, sobre todos os procedimentos empregados em sua realização; b) Liberdade de se recusar a participar ou retirar seu consentimento em qualquer fase da pesquisa;

c) Garantia de sigilo quanto aos dados confidenciais envolvidos na pesquisa, assegurando absoluta privacidade; d) Opção de solicitar que determinadas falas e/ou declarações não sejam incluídas em nenhum documento oficial, o que será prontamente atendido. Você receberá uma cópia desse termo em que constará o telefone dos pesquisadores, podendo tirar suas dúvidas a qualquer momento sobre o projeto e sua participação. “Eu, ___________________________ portador do RG________________, declaro que, após conveniente esclarecimento prestado pelos pesquisadores e ter entendido os objetivos da pesquisa, consinto voluntariamente em colaborar para realização desta. Fico ciente também que uma cópia deste termo permanecerá arquivada com os pesquisadores do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo, responsáveis por esta pesquisa”.

Vitória, _____de ________________de 2008. ____________________________________ Assinatura do Declarante

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