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EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA

CRIMINAL DA COMARCA DE SANTA MARIA – RS

PROCESSO N°: 027/2.07. 0021967-6

MARCOS ANTÔNIO PASA, já


qualificado nos autos do presente
processo crime que lhe move o
Órgão de Execução do Ministério
Público, vem, através de seu
advogado, in fine assinados, com
fulcro no artigo 406 do Diploma
Processual Penal Brasileiro,
apresentar, em forma de
memoriais, as pertinentes
ALEGAÇÕES FINAIS, o que faz
mediante os termos infra aduzidos:

1- BREVE RELATO DOS FATOS:

Consta na exordial acusatória do processo em epígrafe que o


Réu, no dia 10 de setembro de 2005, matou Michele da Silva
Jardim, em decorrência de acidente de trânsito, colisão entre o
automóvel do Réu e a motocicleta de Bruno Montanaro, noivo da
vítima, acidente esse que teria ocorrido na esquina das ruas Rio
Branco e São Paulo, no Parque Pinheiro Machado, nesta cidade, por
volta das 00h40min.
Com base em depoimentos de supostas testemunhas
presenciais do fato e das igualmente supostas latas de cerveja
“encontradas” no veículo do Réu o Ministério Público, na sua deveras
importante função de fazer justiça, denunciou o mesmo por incurso
nas sanções do art. 121, ‘caput’, C./C. art. 18, inciso I, ‘in fine’, do CP,
a saber, homicídio doloso na modalidade dolo eventual, que como
todo crime doloso contra a vida, devido à importância do bem jurídico
tutelado, é de competência do Tribunal do Júri.
2- DA AUTORIA:

O Réu não cometeu o crime a ele imputado, porque estava


trabalhando até o momento do acidente. Não restando indícios de
que o Réu tenha sido autor do crime em voga, não há guaridas para a
pronúncia.

3- DO DOLO:

A acusação classificou a conduta como dolo eventual, com


base na suposta imprudência e improvável embriaguez do Réu que,
segundo tal tese, assumiu o risco de produzir o resultado danoso, ou
seja, a morte. A seguir se contradita tais teses:
3.1 - Culpa Concorrente:
Sobre a alegação de que o Réu tenha sido imprudente ao não
obedecer a sinalização “PARE” no local do acidente; havia, na Rua
São Pedro, um muro avançado sobre a calçada e um pé de
pitangueira que impossibilitavam a visão de tal placa no sentido em
que vinha o Réu, segundo depoimento do morador dessa esquina
João V. C. Silva, fl. 143. Este argumento, portanto, resta infundado.
Foi a motocicleta que bateu no carro, pois como demonstrado
nos autos e em depoimentos de testemunhas, o veículo do Réu ficou
parado no meio da faixa como se fosse voltar ao centro (fl. 144), e
não atravessara Rua Rio Branco como alega a acusação.
Outro fato relevante para a ocorrência do acidente é a
evidente falta de experiência do condutor da motocicleta, que tinha
habilitação a pouco mais de um ano, na data do fato, e ao que tudo
indica trafegava com o farol apagado, fator preponderante no sinistro,
pois a visão do Réu ,que já estava prejudicada pelo muro e árvore
supracitados, ficaria, assim, totalmente impossibilitada. Em vários
depoimentos ficou verificado que o condutor da motocicleta disse,
enquanto estava no PA, a seguinte frase: “pensei que ia dar tempo de
passar por trás do Gol”, fl. 59. Tal frase demonstra novamente
inexperiência, imperícia, do mesmo, pois um erro banal de cálculo
acabou custando a vida da vítima. Ao ver o Gol, o condutor da
motocicleta, que estava em alta velocidade (negligência), apenas
buzinou, não diminuindo a velocidade, o que impediu o Réu de
desviar. Resta demonstrada no mínimo a imperícia e negligência do
condutor da motocicleta.
Na pior das hipóteses, o acidente é resultado de duas
condutas culposas, não só o réu agiu com imprudência como também
o condutor da motocicleta. Logo neste caso houve no mínimo culpa
concorrente no sinistro. (frise-se no mínimo, pois se pretende provar
que a conduta do Réu não é nem culposa)
Quanto a culpa do Réu, ao contrário do que diz a acusação,
ele olhou para a esquerda para ver se vinha algum veículo, diz em
seu depoimento diversas vezes não ter avistado a motocicleta
provavelmente pelos obstáculos já citados, estava na velocidade
normal da via, ou seja, tomou as devidas cautelas, atinentes ao Homo
Medius, a fim de evitar acidentes. As alegações referentes a
embriaguez do Réu serão analisadas a seguir.

3.2 – Sobre a embriagez:


Quanto a embriaguez, trata-se de outra alegação infundada,
pois é cediço nos autos que o Réu é uma boa pessoa, fl. 152, e que
não era seu costume beber em excesso. Há depoimentos nos autos
que confirmam que o Réu não estava alcoolizado, como o de Valter
Gusmão, fl. 60, o de Jandir Brand , fl.225, que no dia do fato “tomou
chimarrão e jantou com o réu, sem consumir nenhuma bebida
alcoólica”, e principalmente o de Bruno Ribeiro, fl. 152, que afirma
que esteve com o Réu cerca de uma hora antes do ocorrido e que
este não estava embriagado e estava indo resolver assuntos com
Fabiano Negrini referentes a seu emprego com seguros. Como a casa
de Fabiano Negrini, que também atestou que Marcos estava sóbrio
quando falou com ele cerca de meia hora antes do acontecido, era
distante fica impossível que ele estivesse embriagado no momento do
acidente.
O fato de algumas pessoas acharem que ele estava bêbado
trata-se de um equívoco como será demonstrado a seguir.
O fato de o Réu falar de maneira enrolada, arrastada e lenta,
foi utilizado, erroneamente, pela acusação, como forma de
demonstrara suposta embriaguez do mesmo. Na verdade tal jeito de
falar, segundo depoimento pessoas próximas ao Réu, se trata de um
cacoete do mesmo e que se asseverava quando ele ficava nervoso (fl.
76 e 151, p.ex.), como após o acidente e durante seus depoimentos e
interrogatório. É normal ele demorar alguns minutos para responder
uma pergunta. Já a tontura relatada pelos policiais várias vezes nos
autos foi causada pela própria batida que deixou o Réu um tanto
quanto “grogue”, como é comum neste tipo de acidente.
Outro argumento da acusação para provar a suposta
embriaguez do Réu foi sua recusa em fazer o teste do bafômetro,
argumento este que, igualmente aos outros, cai por terra, pois ele
não fez tal exame, como ele mesmo diz, “por birra”, por causa da
maneira grosseira e de má-fé que foi tratado pelos policiais, como
demonstrado a seguir.
Mas principal “prova” da embriaguez do Réu, segundo a
acusação, seria as duas latas de cerveja encontradas no veículo do
mesmo por um policial. Resta evidenciado através de vários
depoimentos nos autos que tais latas de cerveja foram encontradas
no lixo e “plantadas” no carro do Réu por um dos policiais que
estavam na ocorrência. Extrai-se do depoimento de Jandir Brand :
“um PM recolheu duas latas de cerveja vazias que estavam juntos de
um poste de iluminação e disse ‘aqui está a prova do crime’ e colocou
estas latas dentro do veículo de Marcos”. Para corroborar esta tese de
que os policiais estavam agindo de má-fé, vários depoentes
afirmaram que os policiais agiram de maneira grosseira, fl. 149. p.ex.,
e destrataram o Réu por diversas vezes, tratando-o como marginal.
Foram estúpidos inclusive com Eloi Iregaray que foi ajudar seu amigo
Marcos no PA, e por motivos desconhecidos foi chamado de bêbado e
acusado de se passar por advogado do Réu, pois Eloi se identificou
como estudante de Direito, e de atrapalhar a investigação policial, o
que por óbvio não ocorreu, fl. 149/150.
Quanto ao odor de cerveja do Réu, este só foi relatado pelos
policiais, depoimentos estes um tanto quanto duvidosos, como já foi
demonstrado, estes não procederam da forma mais correta, pois a
todo tempo destrataram o Réu. Logo tal afirmação deve ser
desconsiderada por não encontrar guaridas no mundo fático, por ter
sido visto apenas a quem interessa a condenação do Réu, seja pelo
excesso de trabalho ou por qualquer outro motivo injustificado.
Como se vê não encontra amparo a tese da acusação de que
o Réu estava ébrio, pois tal tese está embasada no jeito de falar do
Réu, na recusa deste em fazer o teste do bafômetro, no odor de
cerveja do mesmo e nas latas de cerveja encontradas em seu carro,
argumentos estes já esclarecidos quanto a sua realidade.

Concluímos, então, que houve culpa concorrente no sinistro e


que o Réu não estava embriagado quando do acontecimento do
mesmo. Caindo por terra a tese da acusação de que o Réu tenha
agido com dolo eventual.
4- DO PEDIDO:

Isto posto, requer:


Que seja decretada, com fulcro no artigo 409 do Diploma
Processual Penal Brasileiro, a IMPRONÚNCIA do acusado MARCOS
ANTÔNIO PASA, dando-se por IMPROCEDENTE a Denúncia, em
razão da inexistência de suporte probatório mínimo a indicar a autoria
do crime imputado.
Caso V. Exa. não entenda desta maneira, que seja
DESCLASSIFICADO o crime pela ausência de conduta dolosa,
conforme o artigo 419 do CPP.

Termos em que,
Pede deferimento