Auro de Jesus Rodrigues

GEOGRAFIA
Introdução a Ciência Geográfica
AVERGAMP
EDI TORA
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Rodrigues, Auro de Jesus, 1966 -
Geografia: introdução à ciência geográfica / Auro de Jesus Rodrigues. - São Paulo:
Avercamp, 2008.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-89311-53-3
1. Geografia - História. I. Título.
07-3270 CDD-910.01
CDU-910.1
As minhas irmãs: Tânia e Eliane
Sumári o
1 GEOGRAFIA: CIÊNCIA, MÉTODO E OBJETO 09
1.1 A Ci ênci a Geogr áf i ca 09
1.2 Método Ci entí fi co e Geogr af i a 16
1.3 O Obj et o da Geogr af i a 29
2 GEOGRAFIA NA ANTIGÜIDADE 35
3 GEOGRAFIA NA IDADE MÉDIA 49
4 GEOGRAFIA MODERNA 57
4.1 A Si st emat i zação da Geogr af i a: Humbol dt e Ritter 66
4 . 2 O Determinismo na Geogr af i a: Friedrich Ratzel 73
4. 3 O Possibil ismo na Geogr af i a: Vi dal de La Bl ache 79
4 . 4 El isée Reclus e Piotr Kropotkin e a Geogr af i a 88
4 . 5 Al fred Hettner e Ri chard Hartshorne e a Geogr af i a 93
5 GEOGRAFIA CONTEMPORÂNEA 97
5.1 Geogr af i a Teórico-Quantitativa 1 0 6
5. 2 Geogr af i a da Per cepção e do Comport ament o 1 1 2
5. 3 Geogr af i a Ecol ógi ca 116
5. 4 Geogr af i a Cr í t i ca ou Radi cal 121
6 GEOGRAFIA: SOCIEDADE-NATUREZA 129
REFERÊNCIAS 139
Geogr af i a:
Ci ênci a, Método e Objeto
C A PÍ T U L O u m
1. 1 A Ciência Geográfica
Há milhares de anos, o homem vem se utilizando
da natureza no intuito de atender a suas necessidades.
E, na relação com a natureza, ele elaborou um conjun-
to de instrumentais e de conhecimentos que vem pas-
sando de geração em geração, por meio da oralidade,
da imagem ou símbolo, da escrita etc.
É importante destacar que cada produto do tra-
balho foi elaborado por meio de determinada técnica
e do conhecimento transmitido e integrado ao patri-
mônio humano, possibilitando ao homem preservar a
vida e desfrutá-la. É da relação que o homem tem com
o mundo — o constante questionar e indagar — que
surgem a consciência e o conhecimento da realidade.
Se o homem não tivesse a capacidade de conhecer e de
compreender, viveria submetido às leis da natureza,
como os demais animais.
Pode-se dizer que o conhecimento é uma relação entre o sujeito
e o objeto. É a necessidade que o homem tem de desvelar o objeto.
Este objeto pode ser um elemento físico, biológico, humano etc.
Por meio do conhecimento, o homem busca a explicação e a
compreensão da realidade; porém, para que possa compreendê-
la, ele utiliza recursos variados, como métodos e técnicas, que lhe
possibilitam analisar os fenômenos e elucidar a lógica, tornando a
realidade inteligível.
Ao longo dos séculos, o homem procura conhecer o mundo que
o rodeia e os objetos. A história humana tem sido a história de
conhecer e compreender a natureza. E a história de apropriação e
transformação da natureza.
Pela observação, o ser humano adquire grande quantidade de
conhecimento. Utilizando-se dos sentidos, recebe informações do
mundo exterior. Olha para o céu e observa a formação de nuvens
cinzentas. Percebe que vai chover. A observação é uma importante
fonte de conhecimento. Ao nascer, o ser humano depara-se com
um conjunto de conhecimentos relativos a crenças que lhe falam
acerca da existência de Deus. Para muitos, as crenças religiosas são
fonte de conhecimento. Há muitos séculos, os filósofos proporcio-
nam importantes explicações para a compreensão do mundo por
meio de procedimentos racional-especulativos. Todavia, a partir da
necessidade de obtenção de conhecimentos mais seguros do que os
fornecidos por outros meios, desenvolveu-se a ciência, um dos mais
importantes componentes intelectuais do mundo contemporâneo
(GIL, 1999, p. 19-20) .
Nesse sentido, na relação com a natureza, o homem pode se
utilizar de diversos tipos de conhecimento, por exemplo: vulgar,
filosófico, teológico e científico, e cada um conforme suas neces-
sidades.
O conhecimento vulgar ou popular (senso comum) é obtido ao
acaso, de modo espontâneo, a partir da vida cotidiana. E resultado
de experiências repetidas e casuais que foram transmitidas, de ge-
ração em geração, ao indivíduo e ao grupo social.
Já o teológico é um conhecimento que apresenta um conjunto
de verdades aceitas pelos homens a partir da revelação divina, e o
que se revela é a vontade do deus em que o crente confia e cujos
desígnios ele deve cumprir. O homem busca respostas na entidade
divina para questões que nem sempre o conhecimento filosófico,
vulgar ou científico consegue responder.
O conhecimento filosófico trabalha com idéias, relações concep-
tuais coerentes não redutíveis a realidades materiais. Procura com-
preender a realidade em um contexto universal que possa ser per-
cebido pelo homem. Propõe fornecer conteúdos reflexivos e lógicos
de mudança e transformação da realidade. Indaga sobre o homem
e as coisas da vida.
O conhecimento científico é aquele que é produzido pela in-
vestigação científica, por meio de métodos e de técnicas. A ciência
contemporânea tem sido principalmente operativa, buscando co-
nhecer a realidade para poder intervir na natureza.
De acordo com Cervo e Bervian ( 1 996, p. 9) , a ciência, como
se apresenta hoje, é um conhecimento recente. Contudo, desde o
início da humanidade já se encontravam os primeiros elementos
rudimentares de conhecimentos e técnicas que constituiriam a
futura ciência. As descobertas ocasionais e empíricas de técnicas
e conhecimentos referentes à natureza e ao homem - existentes
desde os antigos babilônios e egípcios — passam pela contribuição
dos gregos sintetizadas e ampliadas por Aristóteles, até as inven-
ções feitas na época das conquistas. Elas prepararam o surgimento
do método científico e o espírito de objetividade que vai caracteri-
zar a ciência a partir do século XVI. Assim, a revolução científica
ocorrida no século XVI e XVII, com Copérnico, Galileu, Bacon e
seu método experimental, contribuíram significativamente para a
ciência que temos hoje.
Ainda segundo os autores, aos poucos o método experimental foi
sendo aperfeiçoado e aplicado em novos setores. No século XVIII,
desenvolveu-se o estudo da Química e da Biologia, e surgiu um
conhecimento mais objetivo e sistemático da estrutura e das funções
dos organismos vivos. No século seguinte, houve uma modificação
geral nas atividades científicas e industriais. Surgiram novos dados
e explicações relativas à evolução, ao átomo, à luz, à eletricidade, ao
magnetismo, à energia etc. Enfim no século XX, a ciência, com seus
métodos, desenvolveu a pesquisa em todas as frentes do mundo físico
e humano, proporcionando um grau de precisão surpreendente em
diversas áreas, a exemplo da navegação espacial e dos transplantes.
Em decorrência da complexidade do mundo e da diversidade
de fenômenos, aliada à necessidade humana de estudá-los e enten-
dê-los, a ciência foi dividida em várias outras ciências, ou, melhor
dizendo, em vários campos de conhecimento especializado. Tal fato
decorre da dificuldade de um único indivíduo conseguir estudar a
ciência na totalidade, pois o mundo fica cada vez mais complexo.
Também, devido à influência do Positivismo, no século XIX, aten-
dendo à expansão do capitalismo, aparece a necessidade de indiví-
duos especializados, com entendimento mais profundo em deter-
minado campo de conhecimento.
Nesse contexto, considerando os diversos campos de conheci-
mento, as ciências podem ser assim classificadas:
a) Ciências formais — trabalham com elementos abstratos, que
não existem na realidade. Exemplos: a Lógica e a Matemática.
b) Ciências factuais — trabalham com os fenômenos que existem
na realidade (fenômenos naturais e sociais). Exemplos: a Biolo-
gia, a História, a Sociologia, o Direito, a Química, a Economia,
a Antropologia, a Medicina.
No caso da Geografia, objeto de nosso enfoque, ela é considerada uma
ciência factual. Todavia, as ciências factuais têm sido classificadas em:
a) Ciências naturais — exemplos: Física, Química, Biologia.
b) Ciências sociais - exemplos: Antropologia, Direito, Economia,
Sociologia.
A Geografia é considerada uma ciência social, mas trabalha
com fenômenos naturais (clima, rios, vegetação, solo etc. ) e so-
ciais (cidade, transporte, indústria, população et c) . O estudo do
conjunto desses fenômenos causou muita discussão na história do
pensamento geográfico, gerando uma divisão em: Geografia Físi-
ca e Geografia Humana. Muitos geógrafos se especializavam ora
no campo da Geografia Física (estudo de fenômenos naturais),
ora no campo da Geografia Humana (estudo dos fenômenos so-
ciais), levando à fragmentação da Geografia. Mas essa separação
tem sido contestada e considerada ultrapassada; a Geografia é
hoje definida como uma ciência única, que trabalha no contexto
da relação sociedade-natureza.
A Geografia é um dos conhecimentos mais antigos que existem;
desde os povos primitivos já se fazia Geografia. Ela se estabeleceu,
inicialmente, como um conhecimento prático para resolver proble-
mas imediatos. Somente com o desenvolvimento dos povos, das so-
ciedades em estágios mais adiantados, é que esse conhecimento passa
a ser designado "científico", no sentido da ciência moderna. Isso só
ocorreu a partir do século XIX, com a contribuição de dois estudio-
sos germânicos, Alexander von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter
(1779-1859), que fizeram importantes estudos no campo da Geo-
grafia. Assim, na Pré-História, na Antigüidade e na Idade Média, o
homem já aplicava a Geografia como um conhecimento elaborado e
praticado pelo juízo vulgar (senso comum), filosófico e teológico. É na
Idade Moderna que a Geografia será considerada ciência.
A ciência geográfica apresenta quatro campos gerais de estudo:
• Geografia Regional;
• Geografia Geral;
0
Geografia Humana;
° Geografia Física.
Andrade ( 1 998, p. 22) esclarece que a divisão da Geografia
em Sistemática ou Geral e Geografia Regional é mais para efei-
to didático, e muitos autores consideram que tal divisão seja o
resultado apenas de escala adotada. Assim, o geral se refere a
grandes áreas: continentes ou países; e o regional a pequenas
áreas: as regiões. Mas, para o autor, na verdade faz-se Geografia
Sistemática quando se toma um elemento do âmbito geográfico,
como a vegetação, o clima, o solo, a agricultura, a população
et c, estudando-o isoladamente para toda a superfície terrestre.
Já a Geografia Regional é feita quando se seguem os modelos
de Vidal de La Blache, utilizando uma área determinada, e se
procura obter uma visão de conjunto, observando tanto os ele-
mentos naturais — relevo, clima, vegetação — como os humanos
— população, agricultura, pecuária, indústria, comércio por meio
de ação integrada.
Ampliando ainda mais a explicação, Ferreira e Simões ( 1 986,
p. 22-23) esclarecem que, na Geografia Regional, busca-se "estu-
dar a região como um fenômeno único, cujas combinações não se
repetem, não se podendo encontrar leis a aplicar em áreas ainda
não estudadas". Nesse caso, a Geografia é considerada essencial-
mente ideográfica. As ciências ideográficas "são as que fazem a
descrição dos factos particulares ou singulares. Estão na base das
ciências do espírito que se dedicam ao estudo de fenômenos úni-
cos e não pretendem formular leis de aplicação universal" (idem).
Já a Geografia Sistemática "procura o método científico como o
único possível em investigação, na tentativa de descobrir as leis
que regem os fenômenos geográficos" (idem). Assim, a Geogra-
fia é essencialmente nomotética. Ciências nomotéticas "são as que
procuram leis gerais de aplicação universal. As ciências naturais"
(idem). A Geografia Sistemática fica mais complexa quando se
consideram os dois ramos: a Geografia Física e a Geografia Hu-
mana, pois a Geografia Física utiliza muitos conceitos e métodos
das ciências naturais (Biologia, Geologia etc. ) enquanto a Geo-
grafia Humana utiliza conceitos e métodos de ciências humanas
(Sociologia, Economia et c) .
Pode-se dizer que a questão da divisão da Geografia em Siste-
mática ou Geral e Regional não se estende apenas às definições e
explicações dos autores. Na verdade é um problema que existe na
Geografia, desde o processo de formação como ciência, e envolve
embates ideológicos, teóricos e metodológicos. E uma questão que,
ainda hoje, se encontra em discussão se for considerada em uma
análise mais profunda da ciência geográfica.
Também é bom lembrar que, tendo em vista o fato de a Geo-
grafia trabalhar com a relação homem-natureza, ela tem sido
considerada uma ciência charneira; ciência ponte; uma ciência
de síntese entre o homem e a natureza. Contudo, ainda muitos
trabalhos em Geografia são elaborados ora no contexto da Geo-
grafia Física, ora no contexto da Geografia Humana, expressan-
do dicotomia.
Todavia, considerando-se a integração entre a Geografia Física
e a Geografia Humana, e o fato de que a Geografia trabalha no
contexto da relação sociedade-natureza, os geógrafos mant êm
contato e se utilizam de conhecimentos das mais variadas ciên-
cias que contribuem para o estudo de fenômenos de interesse
geográfico.
Daí a necessidade, pelos que fazem Geografia, de recorrer a ou-
tras áreas, como as ciências sociais: História, Economia, Sociologia,
Psicologia, Antropologia, Política; as ciências da natureza: Biolo-
gia, Geologia, Pedologia, Mineralogia, Hidrologia, Meteorologia,
Astronomia, Oceanografia; e, também, as ciências exatas e tecno-
lógicas: Cartografia, Estatística, Computação.
Em contato com essas ciências, surgiram campos intermediá-
rios de conhecimento, e muitos deles se tornaram parte da ciência
geográfica, por exemplo: Hidrografia, que estuda as águas nos con-
tinentes e oceanos (Geografia, Hidrologia, Oceanografia); Geomor-
fologia, que estuda o relevo terrestre (Geografia e Geologia); Biogeo-
grafia, que estuda a vida animal e vegetal (Geografia e Biologia);
Climatologia, que estuda o clima (Geografia e Meteorologia).
Assim, a interdisciplinaridade é um fato comum a todas as
ciências, sejam elas naturais ou sociais. Também não pode ser
aceita a idéia de que a Geografia é uma ciência que estuda o
homem e a natureza separadamente, pois ela é essencialmente
enriquecida pela aproximação com as outras ciências. Tal apro-
ximação resulta não só no seu desenvolvimento, como no das
demais ciências (ANDRADE, 1989, p. 21 -24) .
A Geografia, portanto, é considerada uma ciência que estuda o
espaço. Dentro do espaço geográfico, são trabalhadas categorias
como: paisagem, lugar, região, território, fundamentais para a
análise geográfica. Todavia, o espaço é a categoria mais abrangen-
te da Geografia. Ele é estudado no contexto da relação sociedade-
natureza.
1.2 Método Científico e Geografia
Pode-se dizer que o método científico consiste em um conjunto de
atividades racionais e sistemáticas que possibilita alcançar determi-
nado objetivo. É um caminho planejado que se segue na investiga-
ção científica.
O método científico é de grande importância, pois, organizando
o esforço mental, ele proporciona a segurança do fazer, do agir e do
pensar. Sobretudo, na pesquisa científica, possibilita economia de
tempo e ordenamento das etapas de investigação.
Métodos e técnicas não são a mesma coisa, pois:
a) o método estabelece o que fazer — é o orientador geral da ativi-
dade;
b) a técnica é o como fazer — é a tática da ação.
O método consiste na orientação geral para chegar a determina-
do fim. A forma de aplicação do método é a técnica.
Lakatos e Marconi ( 1 991 , p- 83) afirmam que o método cien-
tífico corresponde ao conjunto das atividades racionais e sistemá-
ticas que, com maior segurança e economia, possibilita chegar ao
objetivo, viabilizando o caminho a ser seguido, localizando erros e
orientando as decisões do cientista.
No caso da Geografia, segundo Andrade ( 1998, p. 25-26) , des-
de o século XIX até os primeiros anos do século XX, consolidou-se
a idéia de que o método geográfico se baseava nos cinco princípios
enunciados por ilustres mestres, como Alexander von Humboldt,
Karl Ritter, Friedrich Ratzel e Jean Brunhes. Assim, em um traba-
lho geográfico, devia o estudioso aplicar os seguintes princípios:
a) da extensão, enunciado por Friedrich Ratzel, segundo o qual
o geógrafo, ao estudar um dos fatores geográficos ou uma
área, deveria, inicialmente, procurar localizar e estabelecer os
limites, usando os mapas disponíveis e o conhecimento direto
da área;
b) da geografia geral ou da analogia, enunciado por Karl Ritter, se-
gundo o qual, delimitada e observada uma área em estudo, ela
deveria ser comparada com o que se observa em outras áreas,
estabelecendo semelhanças e diferenças existentes;
c) da causalidade, enunciado por Alexander von Humboldt,
segundo o qual, observados os fatos, devem-se procurar as
causas que os determinaram, estabelecendo relação de causa
e efeito;
d) da conexidade, enunciado por Jean Brunhes, que chamava a
atenção para o fato de que fatores físicos e humanos, ao elabo-
rarem as paisagens, não agiram separada e independentemen-
te, havendo interpenetração na ação dos vários fatores físicos
entre si, e ainda dos dois grandes grupos de fatores. Na elabo-
ração das paisagens, nenhum dos fatores físicos e humanos age
isoladamente; a ação é sempre feita de forma integrada com
outros fatores;
e) da atividade, também enunciado por Jean Brunhes, no qual o
mestre francês assinala o caráter dinâmico do fato geográfico,
já que o espaço está em perpétua reorganização, em constante
transformação, graças à ação ininterrupta dos vários fatores
(ANDRADE, 1998, p. 25-26).
Esses princípios foram elaborados no processo de formação da
ciência geográfica e tidos como verdadeiros e inquestionáveis.
Eles seriam conhecimentos definitivos sobre o universo de aná-
lise, e o geógrafo deveria utilizá-los nos estudos. Atuavam como
regras de procedimentos, possibilitando a unidade para a Geo-
grafia (MORAES, 1987, p. 25) .
Foram desenvolvidos no contexto da Geografia Tradicional, que
estava assentada sobre as bases do Positivismo. E nessa concepção filo-
sófica e metodológica que, segundo Moraes (1987, p. 21), os geógra-
fos vão buscar orientações gerais. Os fundamentos do Positivismo vão
formar as bases ou os princípios norteadores sobre os quais se ergue o
pensamento geográfico tradicional, proporcionando-lhe unidade.
Lõwy (1994, p. 17) afirma que o "Positivismo — em sua figuração
' ideal-típica' — está fundamentado num certo número de premissas
que estruturam um ' sistema' coerente e operacional":
1. A sociedade é regida por leis naturais, isto é, leis invariáveis,
independentes da vontade e da ação humana; na vida social,
reina uma harmonia natural.
2. A sociedade pode, portanto, ser epistemologicamente assimi-
lada pela natureza (o que classificaremos como "naturalismo
positivista") e ser estudada pelos mesmos métodos, {...] e pro-
cessos empregados pelas ciências da natureza.
3. Ás ciências da sociedade, assim como as da natureza, devem
limitar-se à observação e à explicação causai cios fenômenos,
de forma objetiva, neutra, livre de julgamento de valor ou
ideologias, descartando previamente todas as prenoções e pre-
conceitos (LÒWY 1994, p. 17).
Ainda, o autor esclarece que o Positivismo surge, em fins do
século XVIII e início do século XIX, como um conjunto de idéias
revolucionárias da "burguesia antiabsolutista, para tornar-se, no
decorrer do século XIX, até os nossos dias, uma ideologia conserva-
dora identificada com a ordem (industrial/burguesa) estabelecida".
A questão da neutralidade nas ciências sociais conduz o Positivis-
mo a negar o condicionamento histórico-social do conhecimento
( LÒWX 1994, p. 18).
E quanto ao naturalismo nas ciências sociais, especificamente na
Geografia, escreveu Santos ( 2002, p. 43) :
Os fundadores da Geografia, cheios de zelo no objetivo de dar-
lhe um status científico definitivo, estiveram, então, equivoca-
dos no momento em que acreditaram que o melhor caminho
para atingir a sua meta era construir a teoria de uma ciência
do homem sobre uma base analógica estabelecida nas ciências
naturais. [...} é igualmente absurdo querer "edificar as ciên-
cias do espírito sobre os fundamentos das ciências da natureza,
com a pretensão de fazê-las ciências exatas".
Os postulados positivistas vão influenciar os diversos campos
científicos do século XIX, especialmente nas ciências sociais e, den-
tre estas, a Geografia. A concepção filosófica e metodológica do
Positivismo vai ser assimilada e adotada pelos teóricos da Geografia
Tradicional. E, a partir dos fundamentos filosóficos e metodológi-
cos positivistas, a Geografia pode manter a unidade e se separar da
Filosofia e dos demais campos científicos aos quais estava associada.
No século XVIII, a maioria das ciências ainda se encontrava ligada
à Filosofia e, também, existia uma miscelânea entre elas, não fican-
do nítido o campo de atuação de cada uma. Por exemplo, no caso
da Geografia, existia geógrafo que atuava, também, como filósofo,
botânico, geólogo, astrônomo etc.
A partir do século XIX, com o desenvolvimento do capitalismo
e a propagação e aceitação dos fundamentos filosóficos e metodo-
lógicos do Positivismo nos diversos campos científicos, ocorreu a
especialização das ciências, adquirindo, cada uma delas, autonomia
ou campo de estudo específico. E nesse contexto que a Geografia
se tornou uma ciência específica, tendo se separado da Filosofia,
da Geologia, da Astronomia e de outros campos de conhecimento,
utilizando-se de fundamentos positivistas.
Moraes ( 1987, p. 21-25) apresenta, na obra renomada e de grande
divulgação Geografia: pequena história crítica, a influência positivista
na Geografia Tradicional, a partir das seguintes máximas:
• "A Geografia é uma ciência empírica, pautada na observação"
— ocorre a redução da realidade ao mundo dos sentidos; os
trabalhos científicos são realizados circunscritos ao domínio
da aparência dos fenômenos; os procedimentos de análise dos
fenômenos devem ser realizados por meio da indução e redu-
zidos ao empirismo, fundamentado na descrição, enumeração
e classificação dos fatos referentes ao espaço geográfico.
• "A Geografia é uma ciência de contato entre o domínio da na-
tureza e da humanidade" — aceitando-se a existência de um
único método de interpretação para todas as ciências, não con-
siderando a diferença de qualidade entre o domínio das ciências
humanas e das ciências naturais, a Geografia trabalha com os
fenômenos físicos e humanos.
° "A Geografia é uma ciência de síntese" — seria uma disciplina
que relacionaria e ordenaria os conhecimentos das outras ciên-
cias, considerando a Geografia uma ciência de síntese que uni-
ficaria os estudos sistemáticos realizados pelas demais ciências.
O autor afirma ainda que as máximas e os princípios atuaram
como um receituário de pesquisa, definindo regras e procedimentos
gerais no trato com o objeto; eles definiam os traços que faziam
um estudo ser considerado como de Geografia. Pode-se dizer que
eles são os responsáveis pela unidade e continuidade da Geogra-
fia. A generalidade dos princípios possibilitou que posicionamen-
tos metodológicos contrários convivessem em aparente unidade.
As máximas e os princípios foram aceitos na Geografia de forma
não-crítica. E foram considerados afirmações verdadeiras sem ser
questionados. Aceitos para evitar que se rompessem a autoridade e
a unidade da Geografia, acabaram por constituir um temário geral,
facilitando a tarefa de definir esta disciplina, pois fornecem uma
indicação genérica do campo científico tratado por ela (MORAES,
1987, p. 26-29) .
E importante ressaltar que a concepção empirista que se desta-
ca no século XIX considera a ciência um conhecimento que busca
a explicação dos fatos a partir de observações e experimentos que
permitam estabelecer induções, oferecendo a definição do obje-
to, propriedades e leis de funcionamento. Assim, a construção da
teoria científica resulta de observações e experimentos, de manei-
ra que a experiência não tem simplesmente o papel de verificar
e confirmar conceitos, e sim a função de produzi-los ( CHAUÍ,
1995, p. 252-253) .
A influência empirista e indutiva do Positivismo nas ciências so-
ciais direcionou para a idéia de leis naturais na vida social, conduzin-
do a utilização dos mesmos procedimentos metodológicos das ciên-
cias naturais também nas ciências sociais. A aceitação de um modelo
científico natural de objetividade e neutralidade nas ciências sociais
não levou em consideração, segundo Lõwy (1994, p. 202) :
1) o caráter histórico dos fenômenos sociais e culturais produzi-
dos, reproduzidos e transformados pela ação dos homens (con-
trariamente, é claro, às leis da natureza). {...} Marx citaria em
0 capital: a principal diferença entre a natureza e a história é
que fizemos a segunda e não a primeira;
2) a identidade parcial {...} entre o sujeito e o objeto do conhe-
cimento, enquanto "seres sociais". O observador é, de uma
maneira ou de outra, parte da, ou implicado pela, realidade
social que ele estuda, e não tem, portanto, esta distância, esta
separação que caracteriza a relação de objetividade do cientis-
ta natural com o mundo "exterior";
3) os problemas sociais são o palco de objetivos antagônicos das
diferentes classes e grupos sociais. Cada classe considera e in-
terpreta o passado e o presente, as relações de produção e as
instituições políticas, os conflitos socioeconômicos e as crises
culturais em função de sua experiência, de sua vivência, de sua
situação social, de seus interesses, aspirações, temores e desejos;
4) o conhecimento da verdade pode ter conseqüências profundas
(diretas ou indiretas) sobre o comportamento das classes so-
ciais, sobre a sua relação de força, e, portanto, sobre o resulta-
do de seus confrontos. Revelar ou ocultar a realidade objetiva
é uma arma poderosa no campo da luta de classes;
5) os cientistas — como os intelectuais em geral — tendem inevi-
tavelmente, qualquer que seja sua autonomia relativa {...] ou
sua "flutuação", a se vincular a uma das visões de mundo em
que se reparte o universo cultural de uma época determinada
[...}.
Nesse sentido, Lõwy considera que o método das ciências so-
ciais se distingue do método das ciências naturais não somente
no aspecto dos modelos teóricos, das técnicas de pesquisa (expe-
rimentação, observação etc. ) ou procedimentos de análise, como,
também, do domínio da relação com as classes sociais. As visões
de mundo e as ideologias das classes sociais at uam de manei-
ra decisiva (direta ou indiretamente, consciente ou inconscien-
temente, explicita ou implicitamente) no processo de conheci-
mento da sociedade em termos distintos dos termos das ciências
naturais ( 1 994, p. 203) .
Vê-se, assim, que a neutralidade científica, herdada do Posi-
tivismo, define a ciência como autônoma e ela deve estar isolada
dos conflitos sociais. Seu princípio básico é de que a sociedade
humana funciona a partir de leis naturais invariáveis. Funda-
mentados nesse princípio, os estudos sobre os fenômenos devem,
pois, ocorrer de forma neutra, isto é, os conflitos de classes, as
posições políticas, os valores morais e as visões de mundo são
empecilhos à objetividade científica, e o pesquisador deve ser in-
diferente a tais influências na realização de sua pesquisa, ou seja,
deve ser neutro.
Assim, afirma Soffiati ( 2002, p. 24) :
Para alcançar a transparência do objeto, o sujeito do conhe-
cimento devia despir-se de todo preconceito, de todo aprio-
rismo, de toda convicção religiosa, de toda ideologia política
para esvaziar-se e tornar-se neutro. Nessa condição, estaria
apto a apreender o objeto em sua totalidade, puro, cristalino,
falando que realmente ele é. O sujeito era isto: fiel tradutor
da realidade, sem opinar acerca dela, sem acrescentar-lhe ne-
nhum adereço.
A ciência não está isolada do mundo, o cientista faz ciência, mas
a faz dentro do mundo; por isso, ele não é autônomo, isento de po-
sições morais e políticas. Esses valores estarão presentes no pesqui-
sador o tempo todo, durante o desenvolvimento de sua pesquisa.
Nesse sentido, deve-se admitir que o conhecimento científico,
situado em determinado contexto histórico, social e espacial, sofre
influência de interesses individuais e de grupos que o produzem e
da sociedade que o aplica e utiliza.
Para Moraes e Costa ( 1999, p. 29-33) , uma opção clara quanto
ao método é importante para aquele que deseja avançar no proces-
so de construção de uma Geografia nova. A explicitação da posição
assumida revela o controle lógico e a consciência que o pesquisador
tem dos instrumentos de trabalho. O método não deve ser visto
como algo estático, pois possui dinamismo interno de aprimora-
mento e renovação. É com os instrumentos fornecidos pelo método
que a questão do objeto geográfico deve ser trabalhada. Sendo os
métodos variados, não é possível chegar-se a uma definição consen-
sual do objeto, pois esta variará em função dos métodos. A crença
na possibilidade de uma definição de consenso, não considerando a
diversidade metodológica, foi um equívoco da Geografia Tradicio-
nal. Portanto, os autores afirmam que existirão tantas definições do
objeto geográfico quantas forem as abordagens metodológicas que
possibilitem explicar o temário dessa disciplina.
Podem-se reunir os métodos em dois grandes grupos, de acor-
do com níveis claramente distintos no que se refere à inspiração
filosófica, grau de abstração, finalidade mais ou menos explicativa,
ação nas etapas mais ou menos concretas da investigação. Os dois
grandes grupos são: métodos de abordagem e métodos de procedimentos
(LAKATOS; MARCONI, 1 991 , p. 106).
Os métodos de abordagem tratam da linha de raciocínio lógico
adotada no desenvolvimento da pesquisa, constituindo-se em proce-
dimentos gerais. São fundamentados em princípios lógicos, permi-
tindo sua utilização em várias ciências. Geralmente, são exclusivos
entre si, ou seja, é utilizado um único método em cada pesquisa.
Os principais métodos de abordagem são: indutivo, dedutivo,
hipotético-dedutivo, dialético e fenomenológico. Cada um deles
vincula-se a uma das correntes filosóficas que se propõem a explicar
como se processa o conhecimento da realidade. O método dedutivo
relaciona-se ao racionalismo; o indutivo, ao empirismo; o hipotéti-
co-dedutivo, ao neopositivismo; o dialético, ao materialismo dialé-
tico; e o fenomenológico, à fenomenologia (GIL, 1999, p. 27) .
Al guns desses métodos foram e ainda são utilizados nas pes-
quisas geográficas. São eles, em al gumas de suas características
(RODRIGUES, 2006, p. 1 36-1 48) :
a) Indutivo - É aquele pelo qual urna lei geral é estabelecida a
partir da observação e da repetição de regularidades em casos
particulares. Por meio de observações particulares, chega-se à
afirmação de um princípio geral. É o raciocínio lógico que vai
do particular para o geral.
b) Dedutivo - E um processo de raciocínio lógico que, a partir
de princípios e proposições gerais ou universais, chega a con-
clusões menos universais ou particulares. A razão é capaz de
levar ao conhecimento verdadeiro. O conhecimento se realiza
pela dedução. E o raciocínio lógico que sai do geral para o
particular.
c) Hipotético-dedutívo - Consiste na formulação da noção de
falseabilidade como critério fundamental para a explicação das
teorias científicas, garantindo a idéia de progresso científico.
O conhecimento é, portanto, conjectural, sendo impossível a
certeza definitiva. Os procedimentos para a investigação cien-
tífica são: 1. problema; 2. conjecturas; 3- dedução de conse-
qüências observadas; 4. tentativa de falseamento; 5. corrobo-
ração (verdade provisória).
d) Dialético — Procura contestar uma realidade posta, enfatizando
as contradições. Para toda tese existe uma antítese que, quando
contraposta, tende a formar uma síntese. E o método de inves-
tigação das contradições da realidade que se apresenta.
e) Fetiomenoiógico - É o estudo dos fenômenos em si mes-
mos, apreendendo sua essência, a estrutura de sua significação.
Pode-se dizer que é uma "volta às coisas mesmas", isto é, aos
fenômenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como
objeto intencional. Trata de descrever, compreender e interpre-
tar os fenômenos que se apresentam à percepção.
Os métodos de procedimentos conduzem às etapas mais concre-
tas da investigação científica, com objetivo mais restrito em termos
de explicação geral dos fenômenos e abordagem menos abstrata
(LAKATOS; MARCONI, 1 991 , p. 106). Não são exclusivos entre
si, mas é necessário que se adaptem a cada área de pesquisa. No
estudo de um fenômeno, o pesquisador pode utilizar um, dois ou
mais métodos de procedimento.
Exemplos de alguns métodos de procedimentos que foram e
ainda são utilizados na pesquisa geográfica são: o estatístico, o
comparativo, o tipológico, o histórico, o funcionalista e o estru-
turalista. Al gumas de suas características são (RODRIGUES,
2006, p. 1 36-1 48) :
a) Estatístico - Fundamenta-se na utilização da estatística para
a investigação do objeto de estudo. Este método contribui
para a coleta, a organização, a descrição, a análise e a inter-
pretação de dados, e para a utilização desses dados na tomada
de decisões.
b) Comparativo - Conduz à investigação por meio da análise
de dois ou mais fatos ou fenômenos, procurando ressaltar as
diferenças e similaridades entre eles. O método comparativo
pode ser utilizado em todas as fases e níveis de investigação:
estudos descritivos, tipológicos, explicativos.
c) Tipológico - Consiste na elaboração de modelos ideais que
servem para analisar ou avaliar uma realidade concreta. E uma
construção teórica, idealizada, hipotética.
d) Histórico — Conduz à investigação a partir do estudo dos
acontecimentos, dos processos e das instituições do passado,
considerando que as atuais formas de vida social, as institui-
ções e os costumes têm origem no passado. E necessário pes-
quisar suas raízes para compreender sua natureza.
e) Funcionalista - Estabelece uma analogia entre a sociedade e
o organismo. Estuda os fenômenos sociais a partir de suas fun-
ções, analisando as partes inter-relacionadas e interdependentes
para compreender o funcionamento do todo, isto é, o sistema
social total (PARRA FILHO; SANTOS, 1998, p. 93).
f) Estruturalista - E utilizado para o estudo de culturas, lingua-
gens etc, como um sistema em que os elementos constituintes
mantêm, entre si, relações estruturais. Pode-se dizer que há, no
fenômeno, uma estrutura comum, invariável, que pode ser re-
velada, e que pode ser construído um modelo que a represente.
A questão sobre o método científico e a Geografia é complexa e
necessita, do leitor, uma pesquisa mais profunda sobre a temática
em outras obras, pois os tipos e explicações dos métodos apresen-
tados, anteriormente, foram bastante resumidos. E importante es-
clarecer que o método pode ser considerado instrumento mediador
entre o homem, que quer conhecer, e o objeto a ser desvelado, obje-
to que faz parte do real a ser investigado. O método não é estático,
tendo em vista a dinâmica da sociedade e da natureza. Lembrando
que, pelo que se tem verificado na história, o homem é um ser
que busca apropriar-se da natureza, preservar a vida e desfrutá-la,
também faz questionamentos existenciais e tem de interpretar a si
e ao mundo em que vive. Nessa relação com o mundo, o homem
se utiliza de métodos, técnicas e instrumentos necessários para agir
sobre a natureza.
Neste ponto, podemos concluir que o método, seja ele hipo-
tético-dedutivo, fenomenológico ou dialético, contém suas
leis, suas base ideológica, suas categorias para a elaboração
dos vários conceitos e teorias que nos permitirão realizar nossa
leitura científica do mundo (SPOSITO, 2004, p. 65).
Portanto, em relação ao método, os caminhos estão abertos e há
vários a serem trilhados; e cabe ao pesquisador geógrafo escolher
qual seguir, que método utilizará, sabendo que, nesses caminhos,
ocorrerão dificuldades, erros e acertos e que, se o método pode con-
tribuir para explicar o mundo, t ambém pode ajudar a transformá-
lo num mundo mais solidário.
Os geógrafos têm realizado diversos tipos de pesquisa utili-
zando-se dos métodos, técnicas e instrumentais disponíveis. As
pesquisas se estendem desde orientações para que pessoas com
necessidades especiais possam guiar-se em complexas áreas ur-
banas; estudos de distribuição espacial de doenças, para que os
cuidados médicos sejam realizados de maneira mais adequada;
passando pelo planejamento de novas regiões ou áreas agrícolas,
ou pela avaliação de colheitas por meio de imagens de satélite; até
chegar às pesquisas que procuram contribuir para a solução dos
problemas de redes urbanas. E, ainda, no planejamento regional,
urbano, de transporte, turismo etc. Atualmente, grandes obras,
como estradas, pontes, aterros sanitários e instalações de fábricas,
requerem um Relatório de Impacto Ambiental (RIA), em que os
geógrafos podem atuar ( MARTI NI , 2007) .
A elaboração de laudos técnicos, diagnósticos ambientais, recu-
peração de áreas degradadas, principalmente nas unidades de ba-
cias hidrográficas, tem se constituído numa frente de trabalho para
os geógrafos ( MENDONÇA, 2005, p. 66).
As pesquisas são diversas e se estendem, também, ao setor edu-
cacional, tratando de problemas sociais e do meio ambiente. O pro-
fessor de Geografia não é somente um educador, é, também, um
pesquisador.
A partir do que foi exposto, pode-se perceber a importância do
método científico para a ciência geográfica. Em capítulos posterio-
res, serão apresentados conteúdos sobre a trajetória do pensamento
geográfico e a utilização do método científico pelas "escolas nacio-
nais" e "correntes" geográficas.
1.3 O Objeto da Geografia
A produção acadêmica em torno da discussão sobre o objeto da
Geografia é bastante ampla. Muito já se escreveu sobre "o que é
Geografia?" Desde a Antigüidade, a temática era abordada e ainda
hoje permanecem as discussões. Em diferentes momentos da histó-
ria do pensamento geográfico podem ser encontradas reflexões ou
definições sobre o objeto de estudo da Geografia.
Nos sucessivos momentos históricos, os estudos, os debates e
as reflexões produziram um conjunto de definições sobre o objeto
da Geografia; muitos deles foram aceitos ou rejeitados pelos que
fazem Geografia. Todavia, mesmo aquelas definições que foram
aceitas, ainda continuam a ser debatidas.
Para Moraes (1987, p. 13-20), há uma intensa controvérsia so-
bre a matéria tratada pela Geografia. Isso se deve à indefinição do
objeto desta ciência, ou melhor, às diversas definições que lhe são
atribuídas. Resumidamente, pode-se citar:
a) Est udo da superfí ci e t errest re: definição que se apoia no
significado etimológico do termo geo (terra) e grafos (escrever):
Geografia — descrição da terra —, por descrever todos os fenô-
menos manifestados na superfície do planeta. E considerada
uma espécie de síntese de todas as ciências. Assim, coloca a
Geografia como uma ciência sintética e descritiva.
b) Es t udo da pai s agem: mant ém-se a concepção de ciência
de síntese. A Geografia estuda os aspectos visíveis do real,
vistos pelo observador. A pai sagem é objeto específico da
Geografia. Possui duas variantes: a morfológica, que é des-
critiva, enumerando os elementos presentes e discussão das
formas visíveis pelo observador na pai sagem; e a fisiológica,
que estuda a relação entre os elementos e a dinâmica destes
no funcionamento da pai sagem. Nessa perspectiva, seria a
idéia de organi smo com funções vitais e elementos que inte-
ragem na pai sagem.
c) Es t udo da i ndi vi dual i dade dos l ugar es: busca compreender
o caráter singular de cada porção do planeta, pela descrição
exaustiva dos elementos ou pela visão ecológica, buscando, a
partir do inter-relacionamento, um elemento de singulariza-
ção. Propõe-se o estudo de uma unidade espacial passível de
ser individualizada. A Geografia estuda a região.
d) Es t udo da di ferenci ação de áreas: busca individualizar as
áreas e compará-las com outras, considerando as regularida-
des da distribuição e das inter-relações dos fenômenos na su-
perfície da terra.
e) Est udo das rel ações ent re o homem e a nat ureza: pode ser:
o estudo das influências da natureza sobre o homem; o estudo
das influências do homem sobre a natureza; e o estudo das re-
lações homem-natureza. Neste último caso, os dois têm o mes-
mo peso, trabalhando-se com fenômenos naturais e humanos.
Este conjunto de definições, apresentadas pelo autor, sobre o
objeto da Geografia restringe-se às formulações gerais, não especi-
ficando autores e propostas.
É possível apresentar algumas definições mais específicas sobre o
que é Geografia. Por exemplo:
A Geografia é uma ciência como qualquer outra e interessa
sobremaneira ao filósofo. Ela se ocupa do estudo ou descrição
da Terra (ESTRABÃO, século I a. C).
O propósito da Geografia é oferecer uma "visão de conjun-
to" da Terra, localizando e mapeando os lugares ou regiões
(PTOLOMEU, século 150 d.C),
A Geografia é uma ciência sintetizadora que conecta o geral
com o especial através do levantamento, do mapeamento e da
ênfase no regional. Ela se ocupa da influência que o meio físico
exerce sobre o homem e procura interligar o estudo da natureza
física com o estudo da natureza morai, para chegar a uma visão
harmonizante (HUMBOLDT, Alexander von, século XIX).
A Geografia deve ser, em primeiro lugar, um estudo das leis
que modificam a superfície terrestre: as leis que determinam
o crescimento e a desaparição dos continentes, suas configura-
ções passadas e presentes (KROPOTKIN, Piotr, 1885).
A Geografia tem como missão investigar como as leis físicas ou
biológicas que regem o Globo se combinam e se modificam ao
aplicarem-se às diversas partes da superfície terrestre. A Terra
é o domínio do Homem (LA BLACHE, Vidal de, 1913).
{...} a ciência que estuda a distribuição dos fenômenos físicos,
biológicos e humanos pela superfície da Terra (MARTONNE,
1950, p. 15).
A Geografia é uma ciência humana. O espaço terrestre é obje-
to de estudo geográfico na medida em que é, sob uma forma
qualquer, um meio de vida ou uma fonte de vida, ou uma
indispensável passagem para ascender a um meio de vida ou a
uma fonte de vida (GEORGE, Pierre, 1964).
{...} ciência que estuda as relações entre a sociedade e a natu-
reza {...} (ANDRADE, 1987, p. 14).
A Geografia estuda o espaço onde vive a humanidade. E, por-
tanto, uma ciência humana, isto é, que estuda o ser humano
e que se ocupa, principalmente, daquela porção do espaço
que interessa à sociedade humana. O espaço com as dimen-
sões que ele consegue alcançar: a casa, a rua, o bairro, a ci-
dade, até mesmo toda a superfície terrestre, que se encontra
hoje dividida em países e nação. {...]. A Geografia estuda
tanto os elementos da natureza quanto os elementos huma-
nos (VESENTINI; VLACH, 2002, p. 11).
O que é Geografia? A questão é bastante complexa e atravessa
séculos de discussão e reflexão. É claro que seria importante uma
definição. Mas será que ela seria consensual para todos os que fazem
Geografia? Será que, ao estabelecer uma definição, não se correria
o risco de tornar estático o objeto da Geografia? Não seria fechar a
reflexão e o avanço do conhecimento geográfico, já que as ciências
são dinâmicas e constantemente se estão renovando com pesquisa
e novos conhecimentos?
Assi m, já afirmava o renomado geógrafo Milton Santos
( 1988, p. 133), "a busca de um enfeudamento em conceitos
cediços, somente por questão de fidelidade ao já escrito, ameaça
de estiolamento seja qual for a disciplina do saber".
Isso significa que os conceitos — tornados postulados e até
mesmo dogmas! — pelo transcurso do tempo, têm que ser
constantemente renovados. E assim, também, que as ciên-
cias se renovam. Essa renovação somente pode ser obti-
da quando se encontra ou descobre a significação do real
do presente, através das coisas que estão diante dos nossos
olhos e são um desafio à nossa capacidade de entendimento
e de crítica (SANTOS, 1988, p. 136-137).
Nos diversos moment os históricos foram possíveis as defini-
ções do objeto da Geografia, mesmo com controvérsia e declínio
de definições, já que estas e os objetos das ciências não são está-
ticos, sofrem transformações com as mudanças que ocorrem na
sociedade-natureza.
Lembre-se do que já foi afirmado, anteriormente, por Moraes e
Costa (1999, p. 33), que consideram que o objeto está, também,
em um contexto metodológico. E que é difícil uma definição con-
sensual do objeto geográfico, pois esta variará em função dos méto-
dos assumidos. Para os autores, existirão tantas definições do objeto
geográfico quantas forem as perspectivas metodológicas capazes de
abordar o temário dessa ciência.
Santos (2004) escreve:
São possíveis muitas definições; quer dizer, a Geografia muda
de definição ao longo do tempo e creio que pode haver várias
definições num dado momento da vida da disciplina. A minha
própria resulta de um confronto crítico com relação às outras
definições, aquelas que eu aprendi e que ensinei, e está em con-
formidade com a praticabilidade da disciplina, no sentido de sua
relação com a produção do saber, isto é, na sua relação com a
chamada realidade e com a possibilidade, que é o desejo de toda
ciência social, de produzir um discurso intelectual que possa ser
base de um discurso político. Ao longo de minha vida, quando
abandonei, a simples repetição do que me ensinavam os mestres
e assumi um pouco de liberdade para propor, propus várias de-
finições até chegar a essa que tenho agora (p. 20).
Em nosso caso particular isto impõe o reconhecimento de um
objeto próprio ao estudo geográfico, mas isso não basta. A
identificação do objeto será de pouca significação se não for-
mos capazes de definir-lhe as categorias fundamentais. Sem
nenhuma dúvida, as categorias sob um ângulo puramen-
te nominal mudam de significação com a história, mas elas
também constituem uma base permanente e, por isso mesmo,
um guia permanente para a teorização. Se quisermos alcançar
bons resultados nesse exercício indispensável, devemos cen-
tralizar nossas preocupações em torno da categoria — espaço
- tal qual ele se apresenta, como um produto histórico. São os
fatos referentes às gêneses, ao funcionamento e à evolução do
espaço que nos interessam em primeiro lugar (p. 147).
Na verdade, pode-se dizer que a realidade contemporânea
aguarda, ainda, mui t a discussão sobre a questão do objeto da
Geografia.
Nos capítulos posteriores, serão apresentados conteúdos sobre o
tema do objeto da Geografia na história do pensamento geográfico,
o que possibilitará, ao leitor, reflexão mais profunda e posiciona-
mento sobre o assunto.
Geografia na Antigüidade
CAP Í T UL O doi s
O conhecimento geográfico surge nos primórdios da
humanidade, desde o momento em que, vivendo em
pequenos grupos, o homem se deslocava em busca de
meios de subsistência, em atividades de caça, pesca e co-
leta e, também, para reconhecimento, defesa e conquis-
ta de território. Era importante conservar informações
sobre os caminhos percorridos, os locais de suprimentos
de alimentos e os territórios de domínio, necessários à so-
brevivência. Assim, era um conhecimento, inicialmente,
produto de experiências vividas e repassadas de geração a
geração entre indivíduos e povos. Muitos conhecimentos
geográficos eram transmitidos oralmente.
Andrade (1987, p. 21) afirma que os povos primi-
tivos "conheciam o mecanismo das estações, fazen-
do migrações, às vezes de longos percursos, a fim de
acompanharem os animais silvestres que utilizavam
como alimentos, ou para colherem frutos de determi-
nadas áreas, na ocasião da ' safra' ".
Foi a partir dessas experiências que o homem passou a esboçar,
em diversos materiais, os primeiros mapas sobre os inúmeros ele-
mentos que se encontravam em seu meio ambiente.
Por meio das pesquisas de fósseis e artefatos, os cientistas têm
afirmado que as primeiras espécies humanas surgiram na Terra,
aproximadamente, há 3 milhões de anos. Consideram que a Pré-
História pode ser dividida em três períodos: Idade da Pedra Las-
cada, ou período Pakolítico, nome de origem grega que quer dizer
"pedra antiga" ipako = antigo e lithos = pedra) - este período
durou até, aproximadamente, 10. 000 anos atrás; Idade da Pedra
Polida, ou Neolítico (do grego neo — nova e lithos = pedra) — apro-
ximadamente, entre 10. 000 e 6. 000 anos atrás; Idade dos Metais
- 6. 000 anos atrás.
No Pakolítico, o ser humano era nômade. A divisão do trabalho
era por sexo. Praticavam-se a coleta, a caça e a pesca. No Neolítico,
ocorreu a sedentarização da espécie humana. Praticavam-se a agri-
cultura e a criação de animais. Surgiram os primeiros aldeamentos,
e a divisão do trabalho t ambém era por sexo. Já na Idade dos Metais
ocorreu o domínio das técnicas de fundição de metais, a produção
de artefatos de bronze e ferro. Os instrumentos de trabalho e as ar-
mas ficaram mais resistentes. As armas passaram a ser empregadas
em guerras pela conquista de territórios. Os instrumentos de traba-
lho possibilitaram o aumento da produção agrícola, proporcionan-
do uma produção extra, ou seja, um excedente agrícola que podia ser
vendido a outros povos, desenvolvendo-se o comércio. Surgiram as
cidades, as classes sociais, a divisão do trabalho por profissões, os
exércitos, os primeiros Estados e os grandes impérios.
Assi m, comumente, os cientistas consideram as sociedades
em que não havia a escrita pertencentes à Pré-História (inicia-
da aproximadamente há 3 milhões de anos). E, para facilitar o
estudo da história humana, a partir do aparecimento da escrita
(aproximadamente 3. 000 a . C) . A história humana t ambém foi
dividida em Idade Ant i ga ou Ant i güi dade; Idade Média; Idade
Moderna; e Idade Contemporânea.
A queda do Império Romano, no ano de 476 d. C, marcou a
divisão entre Antigüidade e Idade Média; a tomada da cidade de
Constantinopla, pelos turcos, em 1453 d. C, marcou a divisão entre
Idade Média e Idade Moderna; já a Revolução Francesa, em 1789
d. C, separou a Idade Moderna da Contemporânea.
Na Antigüidade, a Geografia era um conhecimento utilizado,
principalmente, para desenhar roteiros a ser percorridos e para
informar os recursos a ser explorados em determinado lugar, es-
tando bastante relacionada à Cartografia e à Astronomia. O co-
nhecimento geográfico e sua aplicação se foram desenvolvendo à
medida que a sociedade aumentava o domínio e transformava a
natureza para usufruir dos recursos nela disponíveis ( ANDRADE,
1987, p. 11-12).
Assi m sendo, o homem "[. . . } com sua própria ação, impul-
siona, regula e controla seu intercâmbio material com a nature-
za. [. . . }. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços
e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da
natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana" ( MARX,
1982, p. 202).
No decorrer de milhares de anos, florestas foram substituídas por
campos de cultivo ou cidades, estradas foram construídas, rios fo-
ram desviados do curso, o homem foi transformando a natureza e,
também, sofrendo sua ação. Ao modificar a natureza por meio do
trabalho, o homem começou a produzir alimentos, ferramentas, ha-
bitações, estradas et c, ou melhor, o homem começou a produzir o
espaço geográfico. Esse espaço se apresenta como uma segunda natu-
reza, uma natureza social, humanizada. Assim, há a primeira natureza,
aquela que foi e é criada sem a ação humana (rios, florestas, monta-
nhas et c), e a segunda natureza, aquela produzida pela ação do homem
(cidades, agricultura, estradas, instrumentos de trabalho et c).
É provável que, inicialmente, o homem primitivo tivesse um
conhecimento de mundo geográfico limitado e conseguia sobrevi-
ver sem a elaboração de mapas, já que era tão pouco o que precisava
saber, ou seja, onde morar, onde pescar, onde caçar etc. Na memó-
ria, guardava mapas mentais. Mas, a partir do desenvolvimento dos
grupos humanos, os mapas mentais foram sendo substituídos por
anotações gráficas esculpidas em diversos materiais, como pedra,
madeira, pedaços de ossos etc.
Mapas primitivos foram encontrados em pedras, papiros, me-
tais, varas de bambu, madeira, tecido de algodão, fibras de palmei-
ra, conchas e peles de animais, representando o meio ambiente, os
lugares percorridos e conhecidos à época; eram mapas elaborados
de forma rudimentar.
O mapa mais antigo que se tem conhecimento está no Museu
Semítico da Universidade de Harvard, em Cambridge, Estados
Unidos. Foi encontrado por meio das escavações feitas na cidade de
Ga-Sur, ao norte da Babilônia, e data de 2. 500 a.C. Corresponde a
uma pequena placa de argila, representando o vale de um rio, pro-
vavelmente o Eufrates, cercado por montanhas e desaguando por
um delta de três braços. O Norte, o Leste e o Oeste estão indicados
com círculos com inscrições (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 31).
Todavia, não se pode afirmar que outros mapas não tenham sido
feitos em al guma data anterior.
Os mapas elaborados pelos povos da Antigüidade tinham fun-
ção principalmente prática, como delimitação de fronteiras; loca-
lização de água e terras férteis; localização de lugares e rotas de
comércio etc. Inicialmente, a concepção que existia era que a Terra
se apresentava sob a forma de um disco e com massa continental
que flutuava na água.
As primeiras civilizações da Antigüidade desenvolveram ativi-
dades muito relacionadas com o espaço natural que ocupavam,
ou seja, as atividades econômicas dependiam em grande parte das
condições naturais. Por exemplo, no vale dos grandes rios, como o
Nilo, o Tigre e o Eufrates, a economia se baseava principalmente
na agricultura. Já as civilizações situadas junto ao mar se dedicaram
principalmente à pesca, à navegação e ao comércio marítimo.
Nesse sentido, os povos da Antigüidade Oriental - egípcios,
mesopotâmicos, fenícios, hebreus e persas — desenvolveram-se, em
geral, às margens dos grandes rios. Essas civilizações ocuparam o
espaço do Oriente Médio, marcado por planaltos e montanhas, cli-
ma seco e desértico, permeado por planícies férteis, como no Egito
e na Mesopotâmia, onde desenvolveram a agricultura, e nas faixas
costeiras do Mediterrâneo, em que desenvolveram as atividades
marítimo-comerciais.
A expansão política, comercial e marítima dos povos do Medi-
terrâneo levou à elaboração de mapas marítimos, com a descrição
de lugares e de povos. As descrições foram denominadas de périplos
(navegar em redor) (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 32).
A partir da contribuição dos gregos, o conhecimento geográ-
fico recebeu grande impulso na Antigüidade. Tais contribuições
decorrem do posicionamento geográfico da Grécia, que possibi-
litou, aos gregos, a navegação, o comércio e o domínio sobre os
povos do Mediterrâneo, pois era necessário obter informações e
registros dos territórios sob seu domínio e dos lugares conhecidos;
e t ambém devido ao grande desenvolvimento social, econômico,
político e cultural.
De acordo com Andrade (1987, p. 23):
A contribuição dos gregos à civilização ocidental é da maior
importância, quer do ponto de vista quantitativo, quer do
ponto de vista qualitativo. Essa importância decorre tanto
do grande desenvolvimento que teve a cultura grega, como
do fato de serem numerosas as obras que não foram destruí-
das e que chegaram até nós.
Os gregos realizaram estudos sobre sistemas agrícolas, siste-
mas de montanhas, técnicas de uso do solo, os rios com varia-
dos regimes, a distribuição das chuvas, a sucessão das estações
do ano, o relacionamento entre a cidade e o campo, as relações
entre classes sociais e entre o poder e o povo etc. (idem, p. 24).
E ainda elaboraram mapas dos territórios sob seu domínio e dos
conhecidos à época.
Os estudos foram realizados por navegadores, militares, comer-
ciantes e, também, por matemáticos, astrônomos, cartógrafos, his-
toriadores, filósofos, entre outros. O conhecimento geográfico era
produzido pelo conhecimento vulgar (senso comum) e filosófico;
este último abarcava os diversos conhecimentos científicos, pois era
possível, a um filósofo que era t ambém astrônomo e matemático,
realizar estudos de cunho geográfico.
Em face do exposto, seguem-se alguns dos filósofos que, nos
estudos, contribuíram para o desenvolvimento do conhecimento
geográfico. Eram estudos, principalmente, descritivos e de localiza-
ção, atrelados à Cartografia e à Astronomia.
Tales de Mileto (640-558 a.C.) era um deles; além de ser filóso-
fo, era considerado matemático, astrônomo, físico e realizou estu-
dos de interesse geográfico. Tales concebia a Terra como um disco
boiando sobre a água, no oceano. Realizou estudos sobre os eclipses
do Sol e da Lua, o movimento dos astros para orientar a navegação
e sobre os solstícios, a fim de elaborar um calendário astronômico
que tivesse informações meteorológicas.
Ele foi considerado o primeiro astrônomo a explicar o eclipse do
Sol, ao verificar que a Lua é iluminada por esse astro. Sabe-se que
previu um eclipse ocorrido em 585 a.C. e também fez estudos para
explicar as inundações do Nilo.
Tales é considerado o "pai da filosofia grega". Do seu pensa-
mento, só restam interpretações formuladas por outros filóso-
fos, pois nada deixou escrito. Tornou-se conhecido por intermé-
dio de Diógenes Laércio, Heródoto e Aristóteles (JAPIASSÚ;
MARCONDES, 1996, p. 257).
O filósofo grego Anaximandro de Mileto (610-547 a. C) , conside-
rado, também, geógrafo, matemático, astrônomo, engenheiro e polí-
tico, discípulo de Tales de Mileto, percorreu o mundo e escreveu rela-
tos das viagens. Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa
do mundo habitado, gravado em pedra, e a introdução do uso do gnõ-
mon (relógio de sol) na Grécia, construído, basicamente, de uma haste
fincada na vertical, de pedra ou madeira. Conforme o comprimento
da sombra da haste, a pessoa tinha uma idéia do tempo.
Anaximandro elaborou mapas astronômicos e geográficos e
realizou estudos geométricos e matemáticos com o objetivo de
mapear o céu. Desenvolveu tratados sobre Geografia, Astrono-
mia e Cosmologia.
Outro grego importante para a Geografia foi Anaxímenes de
Mileto ( 588- 524 a. C) , filósofo e meteorologista. Nasceu em Mi -
leto, colônia grega na Ásia Menor. Era discípulo de Anaxi man-
dro, conterrâneo deste e de Tales de Mileto, com os quais formou
o trio de pensadores tradicionalmente considerados os primeiros
filósofos do mundo ocidental. Anaxímenes contribuiu na distinção
de planetas e estrelas e nas primeiras formulações sobre os prin-
cípios do geocentrismo. Dedicou-se especialmente à meteorolo-
gia. Só se tem conhecimento de seus tratados devido às citações
em obras de outros filósofos.
Hecateu de Mileto ( 560- 480 a. C) , filósofo considerado, t am-
bém, historiador e geógrafo, escreveu a obra Descrição da Terra,
ilustrada por um mapa em que a Terra estava representada por
um disco. Sua concepção da Terra era de um plano circular rodea-
do por um oceano contínuo. A Grécia ficava no centro do mapa.
Já Hipócrates ( 460- 350 a . C) , na obra Dos ares, das águas e dos
lugares, apresentava explicações sobre a influência do meio am-
biente no homem. Para ele, era necessário localizar e conhecer
cada lugar para fazer uma correta avaliação dos hábitos, costu-
mes e aspectos físicos dos povos. Ele t ambém apresentava expli-
cações sobre a influência dos fatores ambientais no surgi ment o
das doenças, analisando a influência dos ventos, água, solo e
localização das cidades em relação ao sol, na ocorrência da en-
fermidade.
Hipócrates estabeleceu a diferença entre os habitantes das
montanhas e os das planícies. Os povos das montanhas, por in-
fluência das terras altas, úmi das, batidas pelos ventos, seriam de
estatura alta e de t emperament o suave. Já os povos das planícies,
influenciados pelas formas leves, descobertas, com grandes varia-
ções de temperaturas, seriam secos, nervosos, arrogantes e mais
louros do que morenos ( SODRE, 1989, p. 15). Há uma carga
ambientalista e, de certo modo, determinista em sua obra.
A esfericidade da Terra foi concebida somente depois do século
V a.C. e surgiu, inicialmente, da reflexão filosófica sobre a forma
ideal dos corpos, e não da observação: a esfera é a mais perfeita de
todas as formas. Idéia de Parmênides (544-450 a. C) , foi apoiada
por Platão (427-348 a.C.) (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 34).
Parmênides concebe a esfericidade da Terra e o interior ígneo.
O Universo teria a Terra como centro. Todavia, as provas da esfe-
ricidade da Terra só surgiram depois, com Aristóteles, que baseou
os argumentos em duas observações:
1) A sombra da Terra na Lua, na ocorrência dos eclipses, era re-
donda.
2) A altura dos astros em relação ao horizonte apresentava va-
riação quando um viajante se deslocava de norte para sul
(FERREIRA; SI MÕES, 1986, p. 35).
Aristóteles ( 384- 322 a . C) , discípulo de Platão, nasceu em
Est agi ra, Macedônia. Considerado escritor, mat emát i co, biólo-
go e filósofo grego, explicou os eclipses e era a favor da idéia de
esfericidade da Terra, já que a sombra da Terra na Lua, durante
um eclipse lunar, era sempre arredondada. Escreveu vast a obra,
dedicando-se, principalmente, aos estudos da natureza. Abor-
dou todos os ramos do saber: Lógica, Física, Filosofia, Bot âni ca,
Zool ogi a, Metafísica etc.
Apesar de ser considerado historiador, Heródoto (485-425 a.C.)
contribuiu bastante para o desenvolvimento do conhecimento geo-
gráfico, tanto que é considerado, também, geógrafo. Ele percorreu
a maior parte do mundo habitado e produziu uma obra sobre as
regiões que conheceu, denominada História.
Foi o primeiro a fazer um elo entre Geografia e História. A par-
tir de seus relatos, acredita-se que tenha conhecido a Líbia, Assíria,
Egito, Rússia, Turquia, Babilônia, Macedônia, Pérsia, Mesopotâmia
e vários outros lugares da Europa e da África. Ao longo das viagens,
Heródoto coletou informações sobre cultura, mitos e histórias dos
diversos povos. Estudou as populações e suas características, o con-
texto espacial e a organização política desses lugares. Ele procurava
conhecer os locais e então escrevia sobre eles.
Para Ferreira e Simões (1986, p. 35), tais informações eram im-
portantes aos gregos, que pretendiam dominar politicamente os
bárbaros dos territórios vizinhos.
Heródoto é considerado o "Pai da História". A palavra que utili-
zou para conseguir o epíteto, história, inicialmente significava "pes-
quisa" e tomou a conotação atual de História.
No século iy Dicearco construiu um mapa utilizando dois eixos
perpendiculares: um alongado no sentido leste-oeste, o diafragma,
passando pelas Colunas de Hércules e por Rodes, e o outro,perpendi-
cular, passando por Rodes (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 36). Seus
estudos estão na área da Política, História Literária e Geografia.
O heliocentrismo, teoria que sustenta ser o Sol o centro do uni-
verso, foi provavelmente apresentado pela primeira vez pelo grego
Aristarco de Samos ( 310- 230 a. C) . A hipótese do heliocentrismo
foi retomada, posteriormente, por Nicolau Copérnico (JAPIASSÚ;
MARCONDES, 1996, p. 16).
Filósofo e astrônomo, Aristarco, a partir de estimativas geo-
métricas do tamanho e distâncias relativas entre a Terra, a Lua e
o Sol, levantou a hipótese de que o sistema solar fosse heliocên-
trico. Todavia, aderiu ao geocentrismo. Infelizmente, quase todos
os trabalhos de Aristarco foram destruídos no grande incêndio da
Biblioteca de Alexandria.
E importante ressaltar que a idéia de que a Terra se inclui num
sistema que tem o Sol como corpo central não era novidade e já
era discutida entre os gregos, tendo sido proposta por astrônomos
como Heráclides de Ponto (século IV a. C) , Seleuco de Seleucia
(século II a. C) e Aristarco de Samos, muito antes de Copérnico
(século XVI ) .
Eratóstenes (276-196 a. C) foi diretor da Biblioteca de Alexan-
dria, matemático, astrônomo e geógrafo, aperfeiçoou o mapa de
Dicearco. Primeiro, traçou uma linha imaginária entre a Ilha de
Rodes e as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar); depois,
uma linha perpendicular à primeira, t ambém atravessando Rodes.
Definiu então outras linhas paralelas a cada uma das duas primei-
ras, formando uma grade de retângulos de diferentes tamanhos que
corresponde a um sistema primitivo de coordenadas. Apesar dos
avanços obtidos, o mapa de Eratóstenes apresentava ainda muitos
erros. O tamanho da maioria das regiões estava fora de escala e a
concepção de um oceano circular que envolvia toda a massa de ter-
ra não fora abandonada.
A mais conhecida contribuição de Eratóstenes à Geografia e à
Ciência foi a medida da circunferência da Terra. Nos estudos, teve
conhecimento da existência, em Siena (Assuão), de um poço em que
o Sol incidia verticalmente, num único dia do ano: no solstício de
verão. Verificou, t ambém, que no mesmo dia do ano, em Alexan-
dria, os objetos tinham sombras. Utilizando-se de um instrumento
muito simples, o gnômon, que permitia medir a altura do Sol, ele
calculou a medida do arco de circunferência que separava Alexan-
dria de Siena, no Egito (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 36).
A medida por ele calculada foi de 1/50 da circunferência (cujo
valor de 360° ainda não era utilizado pelos gregos). O comprimento
do arco era de 5. 000 estádios, distância que separava Alexandria de
Siena. A partir dessa medida, foi calculado o perímetro da Terra: 50
x 5. 000 = 250. 000 estádios. Este resultado é, aproximadamente,
igual a 46. 250 km (1 estádio mede 168 m) e o comprimento real
do meridiano terrestre é de 40. 000 quilômetros, portanto, muito
aproximado (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 36-37).
Posteriormente, o astrônomo Hiparco (190-125 a.C.) aperfei-
çoou o quadriculado criado por Eratóstenes. Ele utilizou a divisão
da circunferência em 360° e construiu t ambém uma rede de parale-
los e meridianos, projetados e igualmente distanciados. Também foi
ele quem elaborou a concepção das zonas climáticas, tendo previsto
a existência de zonas demasiadamente quentes e demasiadamente
frias (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 38-39).
Hiparco compilou um catálogo de estrelas, classificando-as por
grandezas (magnitudes), em função da intensidade do brilho. Tam-
bém, acredita-se que calculou a distância entre a Terra e a Lua a
partir das observações de um eclipse solar que ocorreu em Cirene e
em Alexandria.
Estrabão (64 a. C. -21 d. C) , filósofo, geógrafo e historiador, era
um grego que viveu em Roma. Após ter viajado pela Europa,
Ásia e África, voltou a Roma e escreveu um importante trabalho
de dezessete volumes intitulado Geographia (Geografia), com a
história e a descrição dos lugares e dos povos de todo o mundo
que lhe era conhecido, resultado dos fatos observados durante as
viagens e de informações recolhidas nas obras gregas. Segundo
Andrade (1987, p. 24), cabe a Estrabão o mérito de ter utilizado,
pela primeira vez, o termo Geografia.
Conhece-se pouco da biografia de Estrabão, que viveu durante o
período romano. As poucas informações são retiradas da própria obra.
Não se sabe ao certo quando escreveu Geographia, que apresenta con-
teúdos de história, religião, costumes locais e as instituições dos dife-
rentes povos, os quais estão misturados às descrições geográficas.
Cláudio Ptolomeu (90-168 d. C) , astrônomo e matemático gre-
go, viveu em Alexandria, Egito, e era cidadão romano. Pouco se
sabe sobre sua vida pessoal. Foi considerado o último dos grandes
sábios gregos e procurou sintetizar os trabalhos dos predecessores.
Sua obra mais importante foi Sintaxis, traduzida e divulgada pelos
árabes com o nome de Almagesto. Na obra, ele propunha o sistema
geocêntrico, que descrevia a Terra no centro do universo, com o Sol,
os planetas e as estrelas circulando ao redor.
O trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento astronômico
durante mais de 1.500 anos, até ser substituído pela teoria helio-
cêntrica de Copérnico. Para a Geografia, sua mais importante obra
é Geografia, na qual faz mapeamentos do mundo conhecido na épo-
ca, listando latitudes e longitudes de locais importantes, acompa-
nhadas de mapas e uma descrição de técnicas de mapeamento.
O sistema geocêntrico de Ptolomeu t ambém foi adotado pelos
teólogos medievais, que rejeitavam qualquer teoria que não colo-
casse a Terra em lugar privilegiado.
Pôde-se verificar que os gregos deixaram grandes contribuições
para a Ciência e para o desenvolvimento da Geografia:
a) estabelecem o fato de que a Terra é redonda e avaliam sua cir-
cunferência;
b) desenvolvem a cartografia, com a elaboração de cartas e ma-
pas, produto dos conhecimentos da Geometria, da Astronomia
e das observações empíricas realizadas em campo;
c) elaboram conteúdos "enciclopédicos", no sentido de tentar
abranger todos os domínios de conhecimento mais ou menos
organizado: comércio, povoamento, agricultura, características
das cidades, atividades econômicas, clima, cultura, política etc.
Os romanos dominaram a Grécia no século II e I a.C. e absor-
veram a cultura grega. Muito pragmáticos, procuraram desenvol-
ver a organização do império. Assim, deram maior importância à
Geografia Descritiva e menos à Geografia Matemática, deixada aos
sábios gregos ( ANDRADE, 1987, p. 26-27).
O fato de os romanos não terem as mesmas preocupações filosófi-
cas que os gregos fez com que eles não dessem a importância devida
aos trabalhos desenvolvidos por estes. Os romanos necessitavam de
mapas simples, práticos e, assim, voltaram a utilizar os antigos ma-
pas em forma de disco (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 42).
E importante ressaltar que, a partir das contribuições dos gre-
gos, foram desenvolvidas duas tendências de estudos geográficos:
1) Geografi a Mat emát i ca — ligada à Astronomia e à Geome-
tria.
2) Geografi a Descri t i va — resultante da descrição do mundo
conhecido (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 38).
Enquanto havia "geógrafos" preocupados com conhecimentos
de Geometria e Astronomia para localizar e medir as distâncias
entre os "lugares" e analisar os fenômenos, além de demarcar os
limites dos "territórios" com a elaboração de mapas, havia outros
cujas preocupações eram os estudos de descrição de "lugares" por
onde viajavam aos quais observavam.
Os povos orientais não só desenvolveram o conhecimento em-
pírico da Geografia, como também realizaram observações
e estabeleceram estudos matemáticos que deram origem ao
conhecimento sistemático do mundo. Podemos dizer que as
idéias geográficas, em coexistência com as de outras ciências,
se desenvolveram a partir dos conhecimentos práticos de ex-
ploração da Terra e das observações dos viajantes, ao lado da
sistematização de pensadores, filósofos e matemáticos. {...}
Os conhecimentos acumulados pelos povos orientais seriam
depois utilizados pelos gregos, quando se tornaram um povo
dominante, de conquistadores, para elaborarem os conheci-
mentos básicos que deram à ciência moderna (ANDRADE,
1987, 22-23).
Na Antigüidade não existia uma ciência geográfica no sentido
moderno de ciência. Existiam filósofos, historiadores, astrônomos,
matemáticos, cartógrafos, entre outros que se denominavam geó-
grafos ou eram considerados geógrafos; eles tratavam de conteúdos
geográficos e não da construção de uma ciência geográfica.
A Geografia aparecia, antes de definir o campo, os métodos, as
técnicas, como conhecimento subordinado a outras áreas de conhe-
cimento científico ou não. Estava, ainda, carregada de lendas, mi-
tos e deformações ( SODRÉ, 1989, p. 19).
Geografia na Idade Média
C A P Í T U L O t r ês
É comum considerar que a Idade Média, na Euro-
pa Ocidental, começou quando o Império Romano do
Ocidente deixou de existir no ano 476 d.C. (século V).
Data em que o último imperador romano do Ocidente
foi deposto. Várias tribos bárbaras, tais como ostrogo-
dos, visigodos, suevos, alamanos, saxões e vândalos, já
haviam realizado uma série de invasões por toda a Euro-
pa, rompendo a estabilidade política da região.
Na Europa Ocidental, os bárbaros levaram para lá
hábitos, costumes e leis. No longo período entre o sé-
culo V e o XV, o comércio, já decadente desde a crise
do Império Romano do Ocidente, declina ainda mais.
As cidades desaparecem ou reduzem as atividades, e
as práticas agrárias ganham destaque.
Com a queda do Império Romano do Ocidente e a
difusão do cristianismo, iniciou-se um período conside-
rado de regressão no conhecimento científico e, tam-
bém, no conhecimento geográfico.
O esfacelamento do Império Romano do Ocidente e as invasões
bárbaras, em diversas regiões da Europa, favoreceram sensivelmen-
te as mudanças econômicas e sociais que vão sendo introduzidas,
principalmente, na Europa Ocidental, e que alteram o sistema de
propriedade e de produção, característicos da Antigüidade. As mu-
danças acabaram por revelar um novo sistema econômico, político
e social que veio a se chamar Feudalismo, ou melhor, o Modo de
Produção Feudal.
Descrevendo tais mudanças, Ferreira e Simões (1986, p. 44-45)
esclarecem que:
A Europa que surge após este período de invasões é, pois, uma
Europa dividida numa série imensa de pequenas áreas politica-
mente diferenciadas, deixando de existir uma política uniforme
sobre todo o território. {...]. Para além disto, a desarticulação
dos sistemas de comunicação e o fato de a Europa se encontrar
relativamente despovoada dificultam a troca de pessoas, bens
e idéias entre diferentes áreas européias. {...]. O sistema feudal
que se vai instaurar é essencialmente um sistema isolacionista,
que tenta resolver os problemas a partir da auto-subsistência
do próprio feudo. Assim, deixa de existir a mobilidade que se
verificava na Antigüidade e o desconhecimento de outras áreas,
que não o feudo, torna-se cada vez maior.
Este novo modo de produção que surge na Idade Média tinha,
por base, a economia agrária de escassa circulação monetária. A
propriedade feudal pertencia a uma camada privilegiada, com-
posta por senhores feudais e representantes da Igreja (o clero).
A principal unidade econômica de produção era o feudo, di-
vidido em três partes distintas: a propriedade privada do senhor
feudal, chamada manso senhorial ou domínio, no interior da qual
se erguia um castelo fortificado; o manso servil, que correspondia
à porção de terras arrendadas (cedidas) aos camponeses, dividida
em lotes (parcelas); e ainda o manso comunal, constituído por terras
coletivas, como pastos e bosques, usadas tanto pelo senhor feudal
quanto pelos servos.
Foi no ambiente feudal, com forte poder da Igreja, que as res-
postas às questões colocadas passam a ser dadas a partir de inter-
pretações bíblicas: referências cosmológicas e geográficas.
Mas, segundo Ferreira e Simões (1986, p. 45):
O fato de ser a Igreja a dar as respostas que antes eram encon-
tradas através da ciência deve-se não só ao poder que a religião
detinha, mas também ao fato de o imobilismo populacional
ter provocado o desaparecimento das viagens e, com isso, o
desconhecimento do mundo real.
As autoras esclarecem, ainda, que a utilização dos conheci-
mentos geográficos bíblicos se tornou explícito na cartografia. Fo-
ram elaborados mapas circulares romanos, nos quais se introdu-
ziram elementos teológicos e não geográficos. Assi m, Jerusal ém,
considerada Cidade Santa, ocupava o centro do mapa. Também
foi esquecido que a Terra era esférica e reapareceu o conceito de
Terra plana: um disco circundado de água (FERREIRA; SI MÕES,
1986, p. 45- 46) .
Nesse sentido, "a idéia de que a Terra era um disco se generali-
zou e tornou-se, para a Igreja de então, uma verdade que não po-
dia ser contraditada, conforme os ensinamentos de sábios e santos"
( ANDRADE, 1987, p. 34).
Enquanto há um declínio da ciência no mundo ocidental, "no
mundo árabe, com o estabelecimento do Império Muçulmano, de-
pois do ano 800 d. C, passou a se verificar um desenvolvimento
científico", decorrente de estudos e viagens que eram feitas pelos
árabes (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 47).
No caso da Geografia, ocorreu, também, um novo avanço. Entre
os árabes, destacam-se Al-Biruni (973-1048), Al-Idrisi (1100-1166)
e Ibn Battuta (1304-1368), que elaboraram estudos sobre os lugares
por onde viajaram.
Al-Biruni foi astrônomo, matemático, físico, médico, geógrafo,
geólogo e historiador. Suas grandes contribuições, nos mais varia-
dos campos, deram-lhe o título de "al-Ustadh": Mestre ou Professor
por excelência. Nos estudos, ele descobriu técnicas matemáticas
para determinar com exatidão o início das estações do ano. Escre-
veu sobre o Sol, seus movimentos e eclipses.
No campo da Geologia e da Geografia, Al-Biruni contribuiu
para o conhecimento das erupções geológicas e da metalurgia, para
a medição das longitudes e das latitudes. Explicou o funcionamen-
to das nascentes naturais e dos poços artesianos.
Já Al-Idrissi se ocupou de muitas ciências, entre as quais a Bo-
tânica e a Farmacologia; porém, seu reconhecimento se deve espe-
cialmente aos trabalhos de Geografia e de Cartografia. Al-Idrissi
escreveu a grande obra geográfica Nuzhat Al Muchtak Fi Ikhtirak
Al Afak ("passatempo de quem está possuído do desejo de abrir
horizontes"), a qual contém valiosas informações sobre os países
cristãos da época. Ele se tornou famoso na Europa, e vários de seus
livros foram traduzidos para o latim.
As viagens marítimas de Ibn Battuta e suas referências à na-
vegação revelavam que os mulçumanos dominavam as atividades
marítimas no Mar Vermelho, no Mar Arábico, no Oceano Indico e
em águas chinesas. E grande a contribuição de Ibn Battuta para a
Geografia, apesar de seus relatos não serem muito acessíveis, exceto
para especialistas.
Os muçul manos desenvolveram as ciências e as artes. Tradu-
ziram para o árabe a obra de Ptolomeu. Desenvolveram a Geo-
grafia, a Geometria, a Astronomia, a Astrologia e a Mat emát i ca.
Mas, apesar disso, o conhecimento e as descrições geográficas
produzidas foram muito imprecisas e as localizações pouco ri-
gorosas. Os árabes não se serviam da latitude e da longitude
para localizar os lugares na elaboração de mapas (FERREIRA;
SI MÕES, 1986, p. 48- 49) .
Os conhecimentos geográficos t ambém se desenvolveram na
China, a partir da Cartografia. "Depois da invenção do papel (100
d. C) , do processo de impressão e da bússola, fizeram-se numerosos
mapas locais por todo o Império Chinês" (FERREIRA; SIMÕES,
1986, p. 50-51).
A partir do século XI , na Europa, há o renascimento do comércio
e das cidades e o aumento da circulação monetária. E, com as Cruza-
das realizadas pelo Ocidente, esboça-se uma abertura para o mundo,
quebrando-se o isolamento do feudo. Com o restabelecimento do co-
mércio com o Oriente, começam a ser minadas as bases da organiza-
ção feudal, à medida que aumentava a demanda de produtos agríco-
las para o abastecimento da população urbana. Ao mesmo tempo, a
expansão do comércio e da futura indústria cria novas oportunidades
de trabalho, atraindo os camponeses para as cidades.
Segundo Andrade (1987, p. 37):
Nos fins da Idade Média, século XIII e XIV' o comércio al-
cançaria maior desenvolvimento; os burgueses que viviam nas
cidades e faziam oposição à prepotência dos senhores feudais
passaram a ter influência política junto aos reis absolutos, que
enfrentavam estes senhores, e a receber cargos e títulos, for-
mando uma nobreza de funções, que se contrapunha e dispu-
tava influência e poder à nobreza de sangue. O aumento de
influência da burguesia permitiria o crescimento das cidades
com funções comerciais, daria maior importância ao dinhei-
ro, em relação à propriedade da terra, e desagregaria a vida
feudal, fazendo com que servos libertos passassem à condi-
ção de assalariados, na indústria manufatureira nascente. {. . . }.
A sede de riqueza e a intensificação do intercâmbio entre o
Ocidente e o Oriente provocaram o desenvolvimento cultural
e a difusão de instrumentos que teriam grande importância
nas transformações econômicas e sociais que seriam feitas nos
séculos XV, XVI e XVII, nos chamados Tempos Modernos,
e que abalariam as estruturas políticas e sociais nos séculos
XVIII e XIX.
No final da Idade Média, as Cruzadas, as peregrinações aos luga-
res santos, o renascimento do comércio entre a Europa e o Oriente,
o renascimento das cidades e a ascensão da burguesia iriam contri-
buir para uma nova etapa para a Geografia.
No fim da Idade Média, reapareceram os itinerários de viagens,
as obras que descreviam as terras visitadas. Também pode-se desta-
car o papel de Marco Pólo: vindo de uma família de comerciantes
venezianos, ele realizou uma longa viagem pelo interior da Ásia até
a China e escreveu 0 livro das maravilhas. Todavia, a obra não pode
ser considerada de caráter geográfico, pois o conjunto de informações
colhidas sobre as regiões visitadas abrange vários aspectos (lendas,
por exemplo). No entanto, no livro existem informações de interesse
geográfico (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 51). .
Marco Pólo "viajou em companhia do pai até a China e aí se co-
locou a serviço do soberano, administrando províncias e executando
missões de alta confiança do mesmo, regressando à Itália após mais
de 20 anos. Sua viagem se realizou de 1271 a 1295" ( ANDRADE,
1987, p. 33).
E importante ressaltar que "os árabes trouxeram para o Ocidente
a bússola, que era utilizada pelos chineses na navegação. No século
XIV, a sua utilização veio revolucionar o processo de construção dos
mapas para a navegação" (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 52).
A cartografia antiga foi reformulada e, com as grandes nave-
gações, passaram a ser produzidos os postulanos, ou mapas que
descreviam as rotas marítimas, detalhando as saliências existen-
tes na costa. Os relatos de grandes viagens terrestres, que iam
desde o Mediterrâneo até o Extremo Oriente, traziam, t ambém,
informações sobre montanhas, rios, lagos, planícies, desertos e a
descrição de como os povos viviam nessas regiões ( ANDRADE,
1987, p. 34).
De acordo com Ferreira e Simões (1986, p. 51-52), "com o de-
senvolvimento da navegação houve necessidade de voltar a uma
cartografia realista, utilitária, útil: os postulanos, onde eram assina-
lados com notável exatidão os acidentes costeiros, e a cartografia
religiosa foi abandonada".
O século XV é o século das grandes viagens marítimas e da
descoberta de novos mundos. Ao mesmo tempo que se vão
trazendo as descrições das novas regiões descobertas, que ma-
ravilharam os europeus pelos seus climas, vegetação, animais,
gentes e hábitos, vão-se aperfeiçoando os mapas utilizados
nas grandes viagens, em que se navega em pleno alto mar,
através da construção de mapas cada vez mais exatos. A con-
cepção geográfica do mundo mudou mais rapidamente no
primeiro quartel do século XVI do que em qualquer outra
época (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 53).
Pode-se dizer que o conhecimento geográfico na Idade Média
sofreu descontinuidade em relação à Idade Antiga devido ao perío-
do de guerras, invasões, à queda do Império Romano do Ocidente,
ao imobilismo da população, à desarticulação do comércio e das
viagens, ao surgimento do Modo de Produção Feudal e ao conhe-
cimento científico sob influência e domínio da Igreja. Mas, no final
da Idade Média, inicia-se uma nova fase para o conhecimento cien-
tífico, especificamente o conhecimento geográfico, com as mudan-
ças vindas dos Tempos Modernos.
Geografia Moderna
CAP Í T UL O qua t r o
O conjunto de novos acontecimentos surgidos
entre os séculos XV e XVI I I irá contribuir para o
processo de sistematização do conhecimento geo-
gráfico, que somente tornar-se-á ciência no século
XI X.
Comument e, é aceito o início da Idade Moderna
com a t omada de Constantinopla pelos turcos oto-
manos em 1453 d. C. e o término com a Revolução
Francesa, em 1789 d. C.
Para Moraes ( 1987, p. 34), a Geografia, como
conhecimento autônomo, particular, demandava
um conjunto de condições históricas. Tais condições,
ou melhor, pressupostos históricos da sistematização
geográfica, ocorreram no processo de avanço e do-
mínio das relações capitalistas de produção.
Nesse sentido, o autor apresenta quatro conjun-
tos importantes de pressupostos que contribuíram
para o processo de sistematização da Geografia:
1) o conhecimento efetivo da extensão real do planeta;
2) a existência de um repositório de informações;
3) o aprimoramento das técnicas cartográficas;
4) as mudanças filosóficas e científicas.
Era necessário o conhecimento efetivo da extensão real do planeta
para o processo de sistematização da Geografia. Com as "grandes
navegações" e as descobertas efetuadas pelos europeus, especial-
mente a América, foi possível pensar e estudar a Terra no conjun-
to, de forma unitária. Essa condição de formação de um espaço
mundial estará constituída em fins do século XI X (MORAES,
1987, p. 34-35).
Nas grandes navegações, o destaque foi a utilização da carave-
la, embarcação marítima desenvolvida pelos portugueses. Era um
navio de estrutura leve, movido pelo vento, com a vela em forma-
to triangular. Foram importantes as grandes navegações realizadas
por Pedro Alvares Cabral (descobriu o Brasil, em 1500); Cristóvão
Colombo-(descobriu a América, em 1492); Vasco da Gama (des-
cobriu um novo caminho para o Oriente, atingindo a cidade de
Calicute, na índia, em 1498); Fernão de Magalhães (iniciou a pri-
meira viagem de circunavegação da Terra, em 1519); e James Cook
(descobriu a Austrália, em 1770).
Outra condição que contribuiu para o processo de sistematiza-
ção da Geografia foi a existência de um repositório de informações, com
dados referentes aos diversos lugares da superfície, armazenados
em alguns grandes arquivos, possibilitando uma base empírica
para a comparação. Os Estados europeus vão incentivar o inventá-
rio dos recursos naturais presentes nas colônias, gerando informa-
ções mais sistemáticas e observações mais científicas. O interesse
dos Estados levou ainda à fundação das Sociedades Geográficas e
dos escritórios coloniais, que passaram a agrupar o material reco-
lhido (MORAES, 1987, p. 35-36).
Pode-se destacar a fundação das seguintes escolas de navega-
ções: Escola de Sagres, em 1415 (Portugal), e a Escola de Sevilha,
em 1503 (Espanha). As escolas reuniam astrônomos, geógrafos,
cartógrafos, matemáticos, pilotos e construtores de instrumentos
de navegação. E importante ainda a fundação das Sociedades de
Geografia: Paris (1821), Berlim (1828) e Londres (1830), que de-
senvolveriam estudos geográficos.
O aprimoramento das técnicas cartográficas possibilitou a represen-
tação dos fenômenos observados, da localização dos lugares e a
delimitação dos territórios. A representação gráfica, padronizada e
precisa era necessária para os estudos geográficos. Era importante,
para a navegação, poder calcular as rotas, saber a orientação das
correntes e dos ventos e a localização correta dos portos. As técni-
cas de impressão difundiram as cartas e os atlas (MORAES, 1987,
p. 36-37).
Em 1450, o alemão Johann Gutenberg desenvolveu o processo
de impressão com tipos móveis de metal, barateando os custos das
edições e popularizando a leitura. Ocorreu a confecção e impressão
de cartas e mapas geográficos. O surgimento do cronômetro e do
relógio, e a utilização da bússola - inventada pelos chineses e intro-
duzida na Europa pelos árabes —, foram essenciais para a realização
das grandes navegações dos tempos modernos.
As mudanças filosóficas e científicas propuseram explicações
abrangentes do mundo. A finalidade geral de todas as esco-
las, nesse período, era a afirmação da possibilidade de a razão
humana explicar a realidade; a aceitação da existência de uma
ordem na manifestação de todos os fenômenos, passível de ser
apreendida pelo conhecimento humano. Tal postura se insere no
movimento de refutação dos resquícios da ordem feudal, que se
apoiava numa explicação teológica do mundo. Propor a explica-
ção racional do mundo implicava romper com a visão religiosa
( MORAES, 1987, p. 37- 38) .
A partir do Renascimento, séculos XV e XVI, os pensadores
começaram a estudar o próprio homem como um ser racional e
superior às demais criaturas. A nova concepção do ser humano foi
chamada Humanismo. A crítica às rígidas concepções de mundo,
baseada na ordem religiosa e sobrenatural, foi responsável pela re-
novação científica do Renascimento.
A moderna ciência da natureza, fundamentada na experiên-
cia, revolucionou o conhecimento científico humano. Na física, os
maiores avanços deram-se no campo da Ótica, com o estudo das
lentes. Os primeiros óculos, telescópios e microscópios surgiram
durante o Renascimento. Nicolau Copérnico (1473-1543) formu-
lou a teoria sobre a esfericidade da Terra e várias leis sobre o sistema
solar. Galileu Galilei (1564-1642) definiu o cientista como o ho-
mem que devia sempre comprovar, na prática, as idéias, afirmando
que "o livro da Natureza é escrito em linguagem matemática". Ele
formulou a teoria da rotatividade da Terra e de sua órbita em volta
do Sol. Com o uso do telescópio em observações astronômicas, deu
nova base para a comprovação das hipóteses de Copérnico. Nesse
período, era utilizado o Sistema Heliocêntrico de Nicolau Copérnico
(o Sol como centro do Universo), em oposição ao Sistema Geocêntrico
de Ptolomeu (a Terra como centro do Universo).
As mudanças científicas e filosóficas são explicitadas em Moreira
(2006, p. 55-56):
A base da passagem da teoria geocêntrica para a teoria helio-
cêntrica, e da passagem desta para o âmbito do nascimento
da ciência moderna, é a criação do método experimental por
Francis Bacon (1561-1626), e Galileu Galilei (1564-1642).
Por meio do método experimental, os fenômenos se tornam
objeto do conhecimento mediante a investigação metódica,
ganhando o conhecimento dos fenômenos um extraordinário
poder de rigor e objetividade. {...}. Mas é com. Isaac Newton
(1642-1727), no século XVII, que o processo se completa,
uma vez que a unidade físico-matemática de mundo agora
se explicita, por intermédio do conteúdo de uma lei única re-
gendo todos os corpos em todo o universo: a lei da gravida-
de. [ . . . ] . A visão gravitacional significa a dessacralização da
natureza. [ . . . ] . A natureza deixa de ser a morada de Deus e
passa a ser concebida como tudo que se expresse por conteú-
do físico-matemático. {...]. Uma grande reviravolta então se
deu. O mundo-corpo-divino do espaço sagrado é substituído
pelo mundo-corpo-físico-matemático do espaço geométrico.
O mundo-dos-acidentes-naturais com os quais Deus interferia
no destino dos homens dá vez ao mundo-das-leis-físicas-regi-
das-pela-matemática.
Também ocorreram as mudanças filosóficas e científicas do sécu-
lo XVIII, com o surgimento do Iluminismo, conhecido ainda como
Esclarecimento, Ilustração ou Século das Luzes (da razão), movi-
mento intelectual em defesa das liberdades sociais, econômicas e
políticas, da ciência e da racionalidade, e crítica aos conhecimentos
aceitos pela fé e pelos dogmas da Igreja.
Nesse período, havia discussões filosóficas e científicas específi-
cas que tratavam de temas geográficos. E vários são os filósofos e
cientistas que contribuíram, direta ou indiretamente, para o pro-
cesso de sistematização da Geografia.
Immanuel Kant (1724-1804) nasceu na Prússia, foi professor
de Filosofia e ensinou, também, Geografia, na Universidade de
Kõnigsberg. É importante sua contribuição visando separar a Geo-
grafia da História, já que ambas, há vários séculos, andavam juntas.
Em seus estudos, Kant explica que a Geografia descreve a natureza
no espaço, já a História descreve a evolução do homem ao longo do
tempo. Enquanto a Geografia tem dimensão espacial, a História
tem dimensão temporal.
{...] para Kant, à Geografia cabe descrever e à História narrar
os fenômenos que formam o mundo: a Geografia, na ordem da
distribuição das coisas na extensão que nos cerca, e a História,
na ordem da sucessão em que se movem estas coisas no passa-
do, no presente e no futuro. {...] Kant relaciona a Geografia,
portanto, à percepção espacial dos fenômenos. E por isto a clas-
sifica como ciência da natureza. Entende-se por natureza, nos,
tempos de Kant, algo diferente do entendimento atual. Natu-
reza é todo o mundo da percepção sensível, o mundo objetivo
— diz-se, à época, físico — das coisas que nos rodeiam (distin-
guindo-se do mundo metafísico, o mundo que não alcançamos
por meio da ciência [ . . . ] . (MOREIRA, 2006, p. 19).
Segundo Moraes (1987, p. 14), Kant coloca a Geografia como
uma ciência sintética (que trabalha com dados de outras ciências),
descritiva (que enumera os fenômenos observados) cujo objetivo
é obter uma visão de conjunto do planeta. A Geografia tem uma
visão corológica (visão espacial, em oposição à cronológica).
Thomas Robert Malthus (1766-1834) tratou de assuntos econô-
micos e populacionais. Na obra Ensaio sobre o princípio da população,
conclui que a produção de alimentos cresce em progressão aritmé-
tica, enquanto a população aumenta em progressão geométrica, o
que acarretaria pobreza e fome generalizada. Afirmou, então, que
o crescimento da população é maior em proporção ao crescimento
da produção.
Para Malthus, quando a desproporção chega a extremos,
as pestes, epidemias e mesmo as guerras encarregam-se
de reequilibrar (temporariamente) a situação. A única
forma de evitar essas catástrofes seria negar toda e qual-
quer assistência às populações pobres e aconselhar-lhes a
abstinência sexual, com o fim de diminuir a natalidade.
Os assalariados deveriam ter consciência de que, "com o
número de trabalhadores crescendo acima da proporção
do aumento da oferta de trabalho no mercado, o preço do
trabalho tende a cair, ao mesmo tempo que o preço dos ali-
mentos tenderá a elevar-se" (SANDRONI, 1985, p. 253).
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) discutiu a relação entre
gestão do Estado, formas de representação e extensão do território
de uma sociedade. Já Charles-Louis de Secondat, Barão de Mon-
tesquieu (1689-1755), na obra 0 espírito das leis, dedica um capí-
tulo à discussão sobre a influência do meio no caráter dos povos
(MORAES, 1987, p. 39).
Charles Robert Darwin (1809-1882), naturalista inglês, na obra
A origem das espécies - uma teoria da evolução dos seres vivos - , ex-
plica que as espécies evoluíram conforme a capacidade de adapta-
ção ao meio natural e de vencer na luta pela vida. As teorias evolu-
cionistas influenciaram no início da formação da ciência geográfica,
mas é importante esclarecer que:
' {...} Darwin demonstrou o que até então não tinha expli-
cação, ou seja, que a evolução das espécies é um fenômeno
natural. Isso trouxe um grande alento para o imaginário ra-
cionalista-iluminista do século XIX, que via, na natureza li-
vre das paixões, das subjetividades e ideologias, a fonte onde
devíamos buscar os fundamentos para uma ordem huma-
na evidentemente justa porque natural. [...} ao partir para
a sua viagem de pesquisa pela América no navio "Beagle",
Darwin leva consigo o livro Ensaio sobre os princípios da popu-
lação, do pastor Thomas R. Malthus. Como é amplamente
sabido, Malthus afirmou que havia uma tendência para o
crescimento da população maior que a do crescimento da
disponibilidade de alimentos. E concluía que a escassez de
alimentos, por sua vez, acabava por provocar epidemias que
dizimavam o excedente populacional, repondo o equilíbrio.
{...}. Esta idéia se constituirá num dos pilares da teoria dar-
winiana da seleção das espécies. Diga-se de passagem que,
quando Malthus formulou o seu princípio da população, ele
tinha em mente combater a "Lei dos Pobres" (Poor Law), que
destinava boa parte dos impostos ingleses ao atendimento
dos necessitados. Dizia Malthus que tais leis eram contrárias
à ordem natural (ou divina) das coisas; constituíam uma in-
terferência indevida do Estado e, assim, deviam ser abolidas
(GONÇALVES, 1996, p. 80).
Auguste Comte (1798-1857) nasceu em Montpelier, na França,
e foi o formulador do Positivismo — o termo refere-se aos fun-
damentos filosóficos e metodológicos, segundo os quais somente
o conhecimento científico é válido, opondo-se ao conhecimento
metafísico, mítico e teológico. O Positivismo não aceita outra rea-
lidade que não seja decorrente dos fatos (empirismo), e tem dois
pressupostos fundamentais:
1) a realidade existe;
2) por meio de um método adequado, será possível explicar a
realidade (APPOLINÁRIO, 2004, p. 158).
O ideal positivista não aceita a separação entre as ciências da na-
tureza e as ciências do homem, devendo-se, em ambas, utilizarem-
se os mesmos métodos, ou seja, o método das ciências naturais.
Com Comte, o conhecimento humano deve ser direcionado para as
leis físico-matemáticas.
Assim, pode-se afirmar que os pressupostos ou as condições esta-
belecidas entre os séculos XV-XVIII possibilitaram a sistematização
da Geografia. Mas só serão efetivadas no decorrer do surgimento e do
desenvolvimento do Modo de Produção Capitalista.
A expansão comercial do final da Idade Média exigia metais
preciosos, sobretudo ouro e prata. A descoberta de minas de ouro
c de prata, na Europa Central e na América, foi decisiva para o
desenvolvimento comercial. O capitalismo comercial aproveitou
i expansão ultramarina e trouxe para a Europa novos produtos e
icortunidades de investimento na produção de mercadorias.
A presença de mais moeda circulante e a acumulação dos lu-
cros do grande comércio geraram o capitalismo comercial. Surgi-
ram grandes bancos que financiavam, junto com os burgueses, as
7. irquias nacionalistas da Europa. Dá-se, assim, a formação dos
Estados Nacionais e seu fortalecimento, ainda mais com a formação
zt Impérios Coloniais Ultramarinos.
E o surgimento do modo de produção capitalista, com o pro-
cesso da passagem do artesanato para a manufatura e, desta últi-
ma, para a indústria. Assim, na metade do século XVIII, acontece
Í Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra e, no século XIX e
rrcio do século XX, ampliada para outros países: Bélgica, França,
Alemanha, Itália, Rússia, Estados Unidos e Japão.
No início do século XIX, o conjunto de pressupostos históricos
- ;istematização da Geografia já havia ocorrido: a Terra estava
: : ca conhecida; a Europa articulava um espaço de relações eco-
— ;:as mundial; havia informações dos lugares mais variados da
superfície terrestre, bem como representações do Globo, devido ao
-j : :ada vez maior de mapas; a fé na razão humana, colocada pela
Filosofia e pela Ciência, possibilitava a explicação racional para os
- • ' nenos da realidade; e as ciências naturais já tinham elaborado
:: njunto de conceitos e teorias, do qual a Geografia se utilizaria
para formular seu método (MORAES, 1987, p. 40-41).
Esclarece Mendonça (2005, p. 22):
As descrições feitas {...} deste período pautaram-se pelo deta-
lhamento das características físicas dos lugares, mensurando e
catalogando-as, ao mesmo tempo em que procurando expli-
cações para suas dinâmicas e o estabelecimento de leis numa
tentativa de sistematização dos conhecimentos apreendidos.
O empirismo bastante forte, desenvolvido através dos traba-
lhos de campo, foi caracterizado, nos primórdios da Geogra-
fia, pelas expedições científicas de europeus na própria Europa
e em outros continentes.
Neste contexto, pode-se dizer que a Geografia surge, como
ciência, no século XIX na Alemanha. Os autores considerados os
"pais" da Geografia são os alemães Alexander von Humboldt e
Karl Ritter. E, também, nesse país que aparecem as primeiras cá-
tedras dedicadas à disciplina, as primeiras propostas metodológicas
e a formação das primeiras correntes de pensamento na Geografia
(MORAES, 1987, p. 42).
4.1 A Sistematização da Geografia:
Humboldt e Ritter
A Geografia, ao fim do século XVIII, já apresentava as condi-
ções necessárias para se emancipar, tornar-se ciência no sentido
moderno. Podia compor seus elementos, que estavam espalhados
nos mais diversos campos do conhecimento, e sistematizá-los. Os
conhecimentos, muitos deles pertencentes a outras ciências, se-
riam tratados pela Geografia de forma particular, depois de asso-
ciados de maneira diferente. Criaram-se, dessa forma, as condições
para uma descrição com base mais científica da superfície terrestre
(SODRÉ, 1989, p. 29).
Segundo Ferreira e Simões (1986, p. 59), no século XIX, a Terra
já estava toda conhecida. A questão que começa a preocupar os
geógrafos a partir de então é: "O que existe em tal lugar?" Assim,
eles passaram a se dedicar a dois problemas: o estudo da diferenciação
de espaços e o estudo das relações homem-meio.
A Geografia do século XIX desenvolve-se, inicialmente, como
já citado, com as grandes contribuições de dois cientistas alemães:
Alexander von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859).
Ambos serão considerando os fundadoresda Geografia, devido ao
caráter sistemático e metodológico que lhe dão, permitindo que
seja considerada uma ciência moderna.
Alexander von Humholdt nasceu em 14 de setembro de 1769,
na cidade de Berlim, na Prúcia e morreu em 1859. Foi um gran-
de estudioso das ciências naturais. Estudou Botânica, Engenha-
ria de Minas, Geologia, Meteorologia, Física e Filosofia. Realizou
inúmeras viagens: percorreu a Europa. Equador, Peru, Venezue-
la, Colômbia, América Central, México, Estados Unidos e Rússia,
observando e estudando os grandes fenômenos físicos e biológicos.
Descreveu as características naturais da fauna, flora, atmosfera,
formações aquáticas e terrestres e. também, as populações que
habitavam esses lugares. Nas viagens, acumulou grande quan-
tidade de conhecimento que lhe possibilitou elaborar e publicar
diversos trabalhos, mas suas duas grandes obras são: Quadros da
natureza (1808) e Cosmos (1845-1859). Após percorrer o mundo,
ele voltou à Europa e estimulou a organização de sociedades e de
reuniões científica. Na velhice, retornou a Berlim, dedicou-se ao
magistério e se tornou conselheiro do rei da Prússia. Os trabalhos
desenvolvidos e publicados por Humboldt são todos de natureza
científica. Elerealizava seus estudos considerando a unidade da
natureza, e as pesquisas eram soltadas à descoberta da conexão
causai dos fenômenos
Humboldt, tanto em cosmos como em Quadros da natureza, fez a
descrição dos fenômenos naturais e humanos, ou melhor, do con-
junto dos fenômenos do universo, desde as nebulosas planetárias, a
Geografia Físicaf estados dr Geologia. Geomorfologia, Mineralogia
etc.) até a Geografia das Plantas e dos Animais (sua distribuição,
fisionomia et c) , terminados pelas etnias dos homens. Analisou os
fenômenos geológicas, climáticos e botânicos na distribuição e in-
ter-relação na superfície terrestre.
Seu principal objetivo era a busca de uma ciência integradora,
por meio da qual se pudesse demonstrar a harmonia e a inter-re-
lação dos diversos fenômenos da natureza. A paisagem, para ele,
era resultado da interação de vários fenômenos. Das investigações
dos fenômenos feitas em escala regional, continental ou mundial,
resultou uma sistematização de conhecimentos geográficos, consi-
derando que o mesmo fenômeno pode ser analisado tanto no âm-
bito regional como mundial. Assim, ele estudava diversos assuntos;
por exemplo, o clima, o relevo, a vegetação, levando em conta as
várias escalas, região, continente e o mundo. Com Humboldt, a
Geografia passou a ser considerada uma ciência sistemática. Ou
seja, Humboldt comparava sistematicamente as paisagens (os fenô-
menos) da área que estudava com outras áreas da superfície terres-
tre. Utilizava, para o estudo dos fenômenos, o método empírico e
indutivo, partindo de casos particulares para os gerais, objetivando
obter uma lei geral, válida também para os casos não-observados
(FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 61-64).
Com Humboldt, a Geografia seria uma disciplina sintética,
preocupada com a conexão entre os elementos e buscando, atra-
vés destas conexões, a relação de causalidade existente na natureza.
Humboldt concebia a Geografia como o estudo da parte terrestre
da ciência do cosmos, uma espécie de síntese de todos os conheci-
mentos relativos à Terra (MORAES, 1987, p. 47-48).
Humboldt não analisava apenas um fato isolado, e sim procura-
va estabelecer relações de causa e efeito entre eles, surgindo daí o
Princípio de Causalidade.
Al ém desse, ele t ambém buscou aplicar o chamado Princí-
pio de Geografia Geral, ou seja, nenhum l ugar da Terra pode ser
estudado sem o conhecimento do conjunto; sendo que um fe-
nômeno, verificado em determinada região, pode ser genera-
lizado para todas as outras áreas do globo com características
semelhantes, isto é, busca-se, a partir da comparação, verificar
semelhanças e diferenças entre os fenômenos e os lugares na
superfície terrestre. Segundo Humboldt:
{...] quando fixa sua atenção num problema geológico, bio-
lógico ou humano, esse grande espírito não se absorve na
contemplação do fato local: volta o seu olhar para as outras
regiões onde se absorvam fatos análogos {...}. Nenhum pon-
to lhe parece independente do conhecimento do conjunto do
globo (apud MARTONE, 1953, p. 13).
Já Karl Ritter nasceu a 7 de agosto de 1779, na Saxônia, e mor-
reu em 1859- Foi amigo pessoal de Humboldt, estudou Filosofia,
História, Matemática e Ciências Naturais. Foi professor de uma
família de banqueiros e professores de História e Geografia no Gi-
násio de Frankfurt. Em 1820, tornou-se o primeiro docente da re-
cém-criada cátedra de Geografia da Universidade de Berlim, na
qual passou grande parte da vida. É importante destacar que, se
Immanuel Kant foi o primeiro a ensinar a disciplina de Geografia
sob a forma de curso mão regalar, na universidade de Kõnigsberg,
Ritter foi o primeiro a lecionar Geografia num curso regular uni-
versitário, em Berlim. É bom esclarecer que:
Por mais amadurecida ciência geográfica estivesse, ape-
nas começou a dar fracos no momento em que lançou raízes
no solo universitários em íntimo contato com aquelas ciências
a cujo desenvolvimento deve andar associada. E tal é demons-
trado à sociedade pelo avanço considerável da Alemanha, onde
o ensino geográfico universitário foi organizado mais cedo do
que em qualquer outro país (MARTONNE, 1953, p. 17).
Ao contrário de Humboldt, Karl Ritter foi considerado um
"geógrafo de gabi net e' , pois não foi um grande viajante; baseava
grande parte dos estilos em leituras de trabalhos já existentes.
Suas publicações apresentam metodológico e normativo.
Concentrou as pesquisas nos vários sistemas de organização espa-
cial, comparando povos, culturas, instituições e os fenômenos natu-
rais. Foi o precursor do método comparativo em Geografia.
Ritter reitera o princípio corológico e aperfeiçoa o método
comparativo, estabelecendo o perfil e o rigor científico que
ainda faltavam à Geografia. O método comparativo consiste,
segundo Ritter, em "ir da observação à observação" {...}. O
objetivo da Geografia comparativa é a constituição da "indivi-
dualidade regional" (MOREIRA, 2006, p. 21).
Moraes (1987, p. 48-49) esclarece que, na principal obra de Ritter,
Geografia comparada, há o objetivo de propor a constituição de uma
ciência geográfica, sendo um livro normativo. Ritter propõe o con-
ceito de "sistema natural" à Geografia, ou seja, uma área delimitada
que apresenta uma individualidade própria. A Geografia deveria se
preocupar em estudar esses arranjos individuais e compará-los. Cada
arranjo era composto de um conjunto de elementos inter-relaciona-
dos, representando uma totalidade em que o homem seria o principal
elemento. Assim, a Geografia de Ritter é direcionada, principalmen-
te, para o estudo dos lugares. A proposta é considerada antropocên-
trica (o homem é o sujeito da natureza) e regional (direcionada para
o estudo de individualidade), valorizando a relação homem-natureza.
Em termos de método, ele considera a análise empírica, da observa-
ção à observação, para a explicação dos fenômenos.
Na obra, Ritter descreve diversas áreas do mundo, buscando as-
sociar os fenômenos naturais com os humanos. As descrições são de
áreas individualizadas a partir da inter-relação dos fenômenos nela
existentes, considerando a Geografia como uma ciência de síntese
e empírica. A metodologia deve basear-se na observação direta dos
fenômenos, em vez de partir de hipóteses teóricas.
Ritter procurou aplicar o princípio da Geografia Geral ou Analo-
gia, em que, delimitada uma área em estudo, ela deveria ser com-
parada com o que se observa em outras áreas, encontrando, assim,
diferenças e semelhanças entre elas. Também era possível, a partir
de estudos particulares, estabelecer-se a formulação de leis, utili-
zando-se do método indutivo.
Todavia, ao tentar propor leis gerais que pudessem explicar
os fatos humanos, ele percebeu uma grande dificuldade, uma
vez que os fatos humanos não são uniformes como as leis físico-
naturais (ANDRADE, 1987, p. 53). Desenvolveu seus trabalhos
sobre estudos regionais.
A partir de Humboldt e Ritter, ficou estabelecida a Geografia
como ciência descritiva, empírica, indutiva e de síntese, pautada na
observação. As contribuições de ambos foram de grande relevância
para conferir caráter científico à Geografia e a inserção acadêmica.
Nos trabalhos, eles utilizaram a observação da paisagem com o
objetivo de fazer um estudo de síntese a partir da inter-relação dos
elementos observados.
As obras dos autores são de grande importância e compõem a
base da Geografia Moderna Tradicional. Todos os trabalhos pos-
teriores vão se reportar às formulações de Humboldt e Ritter, seja
para aceitá-las, seja para contestá-las. A Geografia de Ritter pode
ser considerada regional e antropocêntrica; já a de Humboldt visa
abarcar todo o Globo, toda a superfície terrestre, sem privilegiar o
homem (MORAES, 1987, p. 48-49).
Esclarece Moreira (2006, p. 22):
Tanto Ritter quanto Humboldt são holistas em suas con-
cepções de Geografia. Enquanto Ritter vai do todo — a superfí-
cie terrestre — à parte - o recorte da individualidade regional
-, de modo a daí voltar ao todo para vê-lo como um todo
diferenciado em áreas, Humboldt vai do recorte — a formação
vegetal — ao todo — o planeta Terra {...} ambos se valendo do
método comparativo {...}.
Estes autores criaram uma linha de continuidade no pensamento
geográfico que não existia. Entretanto, apesar da relevância de ambos
para a Geografia, eles não deixaram discípulos diretos. Isto é, não
chegaram a formar uma "escola geográfica". Proporcionaram um
conjunto de estudos de grande influência para todas as "escolas" da
Geografia Tradicional (MORAES, 1987, p. 50).
Karl Ritter {...]. Dedicou-se por muitos anos ao ensino na Uni-
versidade de Berlim, tendo sido um grande professor. Apesar
de ter ensinado aos maiores geógrafos dos fins do século XIX,
como Friedrich Ratzel, Élisée Reclus e Vidal de la Brache, não
fez escola. Estes, porém, tinham grande entusiasmo por ele
{...]. (ANDRADE, 1987, p. 52).
E importante ressaltar que Humboldt foi um grande incentivador
das chamadas Sociedades de Geografia, que organizavam expedições
e pesquisas científicas em diversas partes do mundo; e esses estudos
foram de muito interesse para o domínio dos grandes impérios co-
loniais europeus. Outro fato é que não há, da parte de Humboldt,
um estudo específico voltado somente à Geografia. Mas também de
Botânica, Geologia, Hidrologia, Astronomia, Física, Mineralogia,
Meteorologia, entre outras.
Humboldt, inicialmente, não obteve prestígio entre os geógra-
fos. Sua obra foi muito mais difundida entre os estudiosos das ciên-
cias naturais. Ritter, por sua vez, exerceu influência nos geógrafos
da Alemanha e também nos da França. Há, da parte de Ritter, um
desejo em fazer da Geografia uma disciplina do currículo universi-
tário, uma ciência acadêmica. Na obra, existe grande preocupação
pedagógica e normativa.
Os estudos de Humboldt e Ritter foram decisivos para conferir à
Geografia o verdadeiro caráter científico. Com a institucionalização
da Geografia, surgem as escolas nacionais, ou seja, as "escolas geo-
gráficas", que serão descritas nos próximos capítulos.
4.2 O Determinismo na Geografia: Friedrich Ratzel
Podem-se destacar três condições vivenciadas pela Alemanha no
início do século XIX: primeira, um território fragmentado em de-
zenas de pequenos feudos (reinos, principados, ducados e cidades
livres); segunda, o desejo de unificação; terceira, os ideais expansio-
nistas imperialistas, articulados ao capitalismo industrial.
A Alemanha vivia então uma situação singular:
a) inexistência de um Estado Nacional;
b) inexistência de uma monarquia absoluta, forma de governo
própria do período de transição na Europa;
c) poder nas mãos dos proprietários de terras (os junkers), numa
estrutura feudal;
d) falta de um centro econômico forte e organizador do território;
e) disputas de fronteiras, entre os feudos e com países vizinhos
não-germânicos;
f) atraso econômico de inúmeros "Estados" alemães.
Tais condições dificultavam a organização e a integração territo-
rial e, conseqüentemente, um fortalecimento da nação alemã. Para
resolver a situação, surge, nas classes dominantes, a idéia de unifi-
cação nacional.
A unificação da Alemanha foi liderada pela Prússia, incentivada,
sobretudo, pela necessidade de construir um Estado alemão rico e
desenvolvido, para poder competir com as grandes nações euro-
péias, especialmente França e Inglaterra. Nesse contexto, a Geo-
grafia irá contribuir para o processo de unificação e atender aos in-
teresses políticos e econômicos da aristocracia prussiana (os grandes
proprietários de terra).
A formação do Estado nacional alemão precisou de estímulos,
o que fez com que o discurso geográfico assumisse um sentimento
de pátria, por meio da identidade territorial. O desejo alemão de
nacionalismo apresentou-se como decisivo para a consolidação da
ciência geográfica e para transformá-la num instrumento de difu-
são dos ideais de nacionalismo e integração territorial.
É mister saber que, na partilha do mundo, a Alemanha che-
gou "atrasada", pois as grandes potências da época, principalmente
França e Inglaterra, dividiram, entre si, boa parte dos países da
África e da Asia.
Até a primeira metade do século XIX, a Alemanha não existia
como país. O que havia era um conjunto de "Estados" independen-
tes. Em 1815, com o fim das guerras napoleônicas e pelas deter-
minações do Congresso de Viena, os "Estados" foram reunidos na
condição de Confederação Germânica, sob a hegemonia da Áustria
e da Prússia. A partir de 1834, por influência da Prússia, foi estabe-
lecida uma união aduaneira na Confederação. As revoluções popu-
lares de 1848, marcadas pelo nacionalismo e por aspirações liberais
que se propagavam na Europa, levaram à formação, na Confedera-
ção, do primeiro Parlamento Germânico.
Em 1862, o rei prussiano Guilherme I nomeou como primeiro-mi-
nistro Otto von Bismarck, chanceler da Prússia. Bismarck introduziu
um programa de desenvolvimento industrial e modernização do Exér-
cito prussiano e, pela força ou por acordos diplomáticos, coordenou
o processo de unificação da Alemanha, que envolveu, ainda, guerras
contra a Dinamarca (1864), Áustria (1866) e França (1870). No caso
da França, ocorre a tomada, pela Prússia, dos territórios franceses da
Alsácia e da Lorena, ricas em minério de ferro e carvão.
É o reino da Prússia que inicia o processo de unificação alemã. Para
Bismarck, "a unificação será feita a ferro e sangue". No seu entender,
a unificação só poderia ser feita pela eliminação da influência política
da Áustria e de países que viessem a interferir no processo.
Em 1871, finalmente se legitima a unificação, e Guilherme I foi
proclamado imperador da Alemanha. Porém, os problemas relativos
ao espaço ainda não haviam sido solucionados. Havia a necessidade de
manter a unidade da nação por meio de uma ideologia que conferisse
identidade germânica, e o crescimento da produção industrial exigia
a ampliação de mercados consumidores. Isso levou a Alemanha a dis-
putar regiões dominadas por Inglaterra e França.
Para justificar a unificação, o nacionalismo e o expansionismo,
foram as idéias de Ratzel um instrumento poderoso de legitima-
ção e expansionismo do Estado alemão recém-constituído, como
afirma Andrade (1987, p. 54): "Friedrich Ratzel [ . . . ] . Vivendo na
Alemanha e tendo assistido a sua unificação sob a égide da Prússia,
formulou uma concepção geográfica que correspondia aos anseios
expansionistas do novo Império".
Friedrich Ratzel (1844-1904) foi professor de Geografia na Uni-
versidade de Leipzig, na Saxônia (Alemanha). Seu principal livro,
publicado em 1882, denomina-se Antropogeografia: fundamentos da
aplicação da Geografia à História. Em decorrência da obra, é consi-
derado o fundador da Geografia Humana, tendo em vista o grande
enfoque que dá ao homem. Mas é mister saber que esse enfoque
está relacionado à influência que o homem sofre em conseqüência
do meio em que vive. Ratzel estuda o desenvolvimento dos povos
sob a influência do meio natural.
Ratzel realizou viagens pela Europa e América, observando a
migração dos animais e dos seres humanos, a concentração das
populações em determinadas áreas da Terra, o que lhe possibilitou
concluir sobre a influência do meio natural no homem. A influên-
cia pode, por exemplo, direcionar, impedir, favorecer, acelerar,
desordenar as ações dos homens sobre o meio natural. Tal fato de-
corre das condições naturais diferenciadas da superfície terrestre.
E importante ressaltar que as concepções geográficas de Ratzel
foram influenciadas pelo Positivismo, seguindo um procedimento
que buscava as "leis" que explicariam o comportamento dos ho-
mens na Terra; e pelas idéias evolucionistas de Charles Darwin,
com A evolução das espécies; e de Ernst Haeckel, aceitando que, na
luta pela vida, venceriam sempre os mais fortes, e que a vitória dos
mais fortes, dos mais aptos sobre os mais fracos, era o resultado
lógico da luta pela vida.
Assim, são selecionados para a sobrevivência os povos mais ca-
pazes a se adaptar ao meio natural. Daí a idéia da superioridade dos
europeus, como uma civilização mais dinâmica em relação aos po-
vos colonizados, considerados, portanto, selvagens e pertencentes a
civilizações estagnadas (ANDRADE, 1987, p. 54).
Ratzel definiu o objeto geográfico como o estudo da influência das
condições naturais sobre a humanidade. Compara a sociedade a um
organismo que mantém fortes relações com o solo, para atender a sua
necessidade de sobrevivência. Quando a sociedade se organiza para a
defesa do solo, ou melhor, de seu território, ela transforma-se em Es-
tado. O território é condição de trabalho e existência de uma sociedade.
Sua perda conduz à decadência de uma sociedade. Já o progresso im-
plicaria o aumento de território, a conquista de novas áreas. A partir
dessas idéias, Ratzel elabora o conceito de "espaço vital", que consiste
no equilíbrio entre a população e os recursos disponíveis para a sobre-
vivência. Há, assim, uma vinculação entre as formulações das idéias
de Ratzel e o projeto imperial alemão, que se expressa na justificativa
do expansionismo como fator natural (MORAES, 1987, p. 56).
O homem está sempre relacionado ao meio natural. A histó-
ria humana seria a história natural da luta dos povos pelo "espaço
vital", uma luta pela adaptação, pela sobrevivência e pela defesa
ou conquista de territórios. O conceito de Estado passou a estar
relacionado a uma sociedade organizada sobre as bases de um ter-
ritório. O território pode expandir-se ou retrair-se, conforme a luta
pela sobrevivência de uma determinada sociedade. Assim, justifi-
cam-se as guerras entre os povos. A concepção de defesa, expansão
e domínio de território fora incorporada pelos militares e dirigentes
do Estado alemão, de forma preponderante, desde as formulações
de Ratzel: "Exatamente porque não é possível conceber um Estado
sem território e sem fronteiras é que vem se desenvolvendo rapi-
damente a Geografia Política [...] uma teoria do Estado que fizesse
abstração do território não poderia, jamais, contudo, ter qualquer
fundamento seguro" (RATZEL, 1990, p. 73).
[...} os homens agrupam-se em Sociedade, a Sociedade é o
Estado, o Estado é um organismo. A Sociedade e o Estado são
o fruto orgânico do determinismo do meio. O Estado é um
organismo em parte humano e em parte terrestre. É a íorma
concreta que adquire em cada canto a relação homem-meio,
poder-se-ia dizer. A própria síntese. O Estado é assim porque
possui uma relação necessária com a natureza: do espaço é
que retira sua existência e desenvolvimento. Os Estados ne-
cessitam de espaço, como as espécies. A subsistência, energia,
vitalidade e o crescimento dos Estados têm por motor a busca
e conquista de novos espaços. Troquemos "Estado" por "impe-
rialismo" e entenderemos Ratzel (MOREIRA, 1992, p. 33).
Em Ratzel, a Geografia é uma ciência de síntese, descritiva,
empírica e que trabalha com a observação e a coleta de informa-
ções em campo, buscando a relação entre os fenômenos, relações
de causalidade numa perspectiva indutiva, aceitando a concepção
positivista. Isto é, a utilização na Geografia dos mesmos métodos
aplicados pelas ciências naturais.
Ratzel deixa discípulos que seguem suas propostas. Todavia, es-
tes vão buscar evidências empíricas para comprovar a influência do
meio natural sobre a humanidade. Dessa forma, Ratzel e seus discí-
pulos foram rotulados de deterministas, ou melhor, formadores de
uma "Escola Determinista na Geografia", considerando "o homem
como produto do meio natural".
A concepção determinista vai ser desenvolvida principalmente pe-
los discípulos Ellem Semple, uma geógrafa americana que estudou na
Alemanha com Ratzel, e pelo geógrafo inglês Elsworth Huntington.
Ellen Semple (1863-1932), no livro As influências do meio geográfico,
apresenta um estudo mostrando a dependência dos povos em rela-
ção ao meio natural. Por exemplo: regiões planas, predomínio de
religiões monoteístas; regiões acidentadas, predomínio de religiões
politeístas. Os Estados com territórios pequenos apresentam socie-
dades mais conflituosas e com tendências expansionistas. Semple
foi aluna de Ratzel e uma grande divulgadora das teses do mestre
nos Estados Unidos.
Já o inglês Ellsworth Huntington (1889-1975), na obra Clima
e sociedade, utiliza-se de um determinismo invertido, isto é, as con-
dições naturais mais hostis seriam as que possibilitariam o maior
desenvolvimento das sociedades. Assim, por exemplo, os rigores do
inverno explicariam, pelas necessidades impostas (abrigo, estoca-
gem de comida), o que provocou o desenvolvimento das sociedades
européias (MORAES, 1987, p. 58).
Pode-se, ainda, destacar Wi l l i am Morris Davis (1850-1934),
com estudos voltados para a Geografia Física. Sua contribuição re-
levante se encontra na Geomorfologia: a teoria do "ciclo de erosão",
em que as formas do relevo evoluem e passam, sucessivamente,
pelo estado de juventude, maturidade e velhice. Em Davis, a Geo-
grafia deve estudar as características naturais da superfície da Terra
e o efeito sobre os povos (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 71).
Além da corrente determinista, as propostas de Ratzel permi-
tiram mais dois desdobramentos, destacados por Moraes (1987,
p. 59-60):
1) a geopolítica - corrente dedicada ao estudo da dominação de
territórios, levando-se em consideração as colocações rat-
zelianas referentes à ação do Estado sobre o espaço. Seus
estudiosos e defensores desenvolveram teorias e técnicas
que possibilitavam legitimar o imperialismo (defesa, ma-
nutenção e conquistas de territórios). São considerados os
principais representantes dessa corrente: Rudolf Kjéllen
(1864-1922), Halford J. Mackinder (1861-1947) e Karl
Haushofer (1869-1946);
2) o ambientalismo - foi chamada de escola ambientalista, ape-
sar de não ser considerada uma filiação direta da Antropogeo-
grafia. Todavia, foi Ratzel o formulador de suas bases. Esta
corrente propõe o estudo do homem em relação ao seu meio
natural. O ambientalismo propõe um determinismo atenua-
do, sem uma visão fatalista. A natureza é colocada como su-
porte da vida humana.
A obra de Ratzel, apresentada nos seus dois livros mais famo-
sos, Antropogeografia e Geografia Política, teve grande influência no
desenvolvimento da ciência geográfica, destacando o estudo do ho-
mem sob a influência do meio natural, a importância do território e
a sua relação com a sociedade, o Estado e o poder. Fica, portanto,
clara a importância da Geografia como ciência e como instrumental
estratégico, político e de dominação dos povos pelos Estados impe-
rialistas e pelo capitalismo.
4.3 O Possibilismo na Geografia: Vidal de La Blache
Antes de apresentar as propostas de Vidal de La Blache, e para
melhor compreensão do pensamento geográfico na França, é neces-
sário esboçar alguns traços gerais deste país no século XIX.
Em 1804, Napoleão Bonaparte é coroado imperador da Fran-
ça, sob o nome de Napoleão I. O Império Napoleônico promove
uma política expansionista: domina a Itália, a Holanda e parte da
Alemanha; estabelece aliança com a Rússia e declara bloqueio con-
tinental à Inglaterra, em 1806. Em 1814, um poderoso exército,
formado por ingleses, austríacos, russos e prussianos, invade Paris
e destitui Napoleão do poder. Ele é exilado na Ilha de Elba e, em
menos de um ano, consegue fugir e retornar à França, reconquis-
tando o poder. Inicia-se o Governo dos Cem Dias. Mas a coligação
militar internacional rapidamente se reorganiza e marcha contra a
França. Napoleão e suas tropas foram definitivamente derrotados
na Batalha de Waterloo, em 18 de junho de 1815.
Com a derrota, em 1815, os representantes das potências eu-
ropéias se reuniram no Congresso de Viena para redefinir o mapa
político da Europa e do mundo. Sob a liderança da Inglaterra,
Áustria, Prússia e Rússia, os territórios do Império Napoleônico
são redistribuídos entre os países vencedores, restaurando as dinas-
tias e as fronteiras alteradas pelas guerras napoleônicas.
Entre 1830 e 1832, ocorreram movimentos de caráter liberal e
burguês, que se iniciaram na França e se espalharam pela Europa,
ficando conhecidos como Revoluções Liberais. Na França, surgiram
revoltas populares depois que o rei Carlos X (dinastia dos Bourbon)
suspendeu a liberdade de imprensa e dissolveu a Câmara. Mas as
forças liberais burguesas deflagraram uma revolução e depuseram
Carlos X, levando ao trono da França o rei Luís Felipe I. A derrubada
dos Bourbon estimulou o surgimento de várias outras insurreições na
Europa. Entre 1830 e 1831, manifestações nacionalistas eclodiram
na Polônia, porém foram abafadas pelos russos. Em 1832, começa-
ram as agitações em várias partes da Alemanha e da Itália.
Em 1848, as crises econômicas e a falta de liberdade civil acen-
tuaram a oposição à monarquia na França, iniciando a onda revo-
lucionária de 1848. Os revoltosos proclamaram a II República e
instalaram um governo provisório de maioria burguesa. Apesar da
conquista da liberdade democrática, as condições de vida dos traba-
lhadores pouco mudaram. A onda revolucionária atingiu também
outras nações européias.
Em 1870, aconteceu a Guerra Franco-Prussiana, que marcou
o fim da hegemonia francesa na Europa. Reagindo à ambição de
Napoleão III de conquistar a Prússia, o chanceler prussiano Otto
von Bismarck derrotou o exército francês, em 1870, e anexou
à Alemanha os territórios da Alsácia e de Lorena, pertencentes
à França. Em 1871, Bismarck efetivou a unificação alemã, in-
tegrando os Estados germânicos, e Guilherme I foi proclamado
imperador da Alemanha.
Em 1871, os termos de paz impostos à França, derrotada na
Guerra Franco-Prussiana, e as diversas crises internas (econômicas,
políticas e sociais) provocaram uma revolta popular liderada pelo
socialista Louis Blanc e pelo anarquista Joseph Proudhon. E im-
plantado, então, um governo revolucionário - a Comuna de Paris
— que instituiu o fim dos privilégios e distinções de classe, o ensino
gratuito e obrigatório, o controle de preço dos alimentos e a distri-
buição da renda em sistema cooperativo. Após 72 dias de poder, em
Paris, a Comuna é derrotada por tropas conservadoras francesas e
estrangeiras. Mais de 20. 000 revolucionários são executados.
Segundo Andrade (1987, p. 69), a derrota da França para a Ale-
manha, em 1870, foi considerada, por muitos como devida ao ensi-
no ministrado no país, que era considerado de qualidade inferior ao
que era ministrado na Alemanha. Diziam que a guerra havia sido
ganha pelo mestre-escola alemão. E fundamental ressaltar que a
França foi derrotada, humilhada, ficou com uma grande dívida de
guerra e teve, ainda, os territórios da Alsácia e de Lorena perdidos
para a Alemanha. Assim, o governo republicano procurou recupe-
rar-se, e um dos setores que muito o preocupou foi a educação. Daí
a necessidade de reorganização do ensino, dando maior ênfase às
disciplinas de Geografia e História no nível secundário.
As rivalidades existentes há muito tempo entre França e Ale-
manha aumentaram com a perda da Alsácia e de Lorena durante
a guerra franco-prussiana. Esse fato impulsionou o desenvolvi-
mento da Geografia na França, já que a perda da guerra pela
França foi atribuída não ao exército alemão, e sim à Geografia,
como ela era ensinada e aplicada.
Vidal de La Blache (1845-1918) é considerado o fundador da escola
regional francesa. Sua formação era de historiador, mas se interessava
por assuntos de Geografia. Assim, fez um doutoramento em Geogra-
fia e conseguiu, para ela, a independência acadêmica (universitária)
em relação a História (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 73).
Quando criada a cadeira de Geografia na Universidade de Nancy,
ela foi confiada a Vidal de La Blache. Posteriormente, de Nancy, Vi-
dal foi transferido para a Universidade de Sorbonne.
Entre as principais obras, destaca-se Tableau de la géographie de la
France. Foi o fundador da revista Annales de Géographie e também
fundou a Escola Francesa de Geografia, denominada "Escola Possi-
bilista", termo utilizado e divulgado por Lucien Febvre. Formou dis-
cípulos que passaram a ocupar as cátedras dessa disciplina nas várias
universidades francesas e a atuar em diversos países do mundo.
Com Vidal de La Blache, o centro das principais discussões so-
bre a ciência geográfica foi transferido para a França. Ele criticou
o discurso político, dentro da ciência geográfica, ressaltando a ne-
cessidade da neutralidade científica. Mas suas teorias não deixaram
de ser politizadas e respondiam aos interesses da elite dominante
francesa da época; o discurso político e ideológico era disfarçado.
Vidal criticou a Geografia alemã nas formulações naturalistas
de Ratzel (submissão do homem ao meio natural, ou um homem,
"produto do meio") e defendeu a variabilidade de decisões humanas
diante das possibilidades oferecidas pela natureza.
Nesse sentido, defendeu a capacidade criativa contida na ação
humana em sua história. No entanto, apesar de destacar a i m-
portância do estudo do elemento humano na Geografia, Vidal
não rompeu totalmente com a visão naturalista, já que afirmava
explicitamente: "a Geografia é uma ciência dos lugares, não dos
homens". Assim, o importante na análise seria o resultado da
ação humana na paisagem, e não esta em si mesma (MORAES,
1987, p. 66-67).
Segundo Moraes (1987, p. 68), em seus estudos, La Blache vai
conceber o objeto da Geografia como a relação homem-natureza na
perspectiva da paisagem; sendo o homem um ser ativo, ele sofre a
influência do meio natural, mas, também, atua sobre este, trans-
formando-o. No processo, o homem cria formas sobre a superfície
terrestre. Assim, com Vidal, a natureza passou a ser vista como
possibilidade para a ação humana.
Assim sendo, o homem, agora, é um agente geográfico que
atua sobre o meio natural conforme a necessidade. O meio na-
tural passou a ser um elemento relativo sobre o homem. Mas é
importante ressaltar que, com Vidal, não se descartou a influência
do meio natural sobre o homem, só que agora o homem pode
criar possibilidades para sobreviver, agir sobre este meio natural,
transformando-o conforme a necessidade. O homem, pelo enfo-
que histórico, passa a ser um agente com liberdade de escolha e
que acumulou um conjunto de hábitos, costumes e técnicas na
relação com o meio natural.
Vidal considerou o homem como hóspede antigo das várias partes
da superfície terrestre. No relacionamento histórico com o meio na-
tural, o homem criou um acervo de técnicas, hábitos e costumes. A
esse conjunto, construído e transmitido socialmente, Vidal denomi-
nou "gênero de vida", o qual corresponde a uma relação de equilíbrio
entre a população e os recursos (MORAES, 1987, p. 68-69).
Assim, pode-se perceber em suas palavras em Tableau de la g é o -
graphie de la France:
As relações entre o solo e o homem são marcadas, na Fran-
ça, por um caráter original de antigüidade, de continuidade.
Desde o começo, os estabelecimentos humanos parecem ha-
ver adquirido aí a permanência; o homem se deteve aí porque
encontrou, com os meios de subsistência, os materiais de suas
construções (LA BLACHE, 1994, p. 15).
À área, englobando várias comunidades com um "gênero de
vida" comum, Vidal denominou "domínio de civilização". Qual-
quer tentativa de não respeitar tal "domínio de civilização" signifi-
caria uma agressão (MORAES, 1987, p. 70).
Pode-se dizer que a Alemanha ou qualquer outro Estado deve-
ria respeitar os "domínios de civilização", ou melhor, respeitar o
domínio da França sobre as colônias, domínio que foi construído
historicamente, consistindo num "domínio de civilização" francês.
Nesse sentido, busca-se impedir o expansionismo alemão sobre as
colônias francesas.
Outra importante proposta de Vidal de La Blache refere-se ao
estudo da região, que é concebida como um espaço síntese da rela-
ção homem e meio natural; esse espaço exibe uma homogeneidade
que difere de outros espaços.
A região seria, portanto, uma unidade espacial que apresenta
uma individualidade específica, diferente em relação às áreas li-
mítrofes. Pela observação, seria possível delimitá-la e localizá-la
(MORAES, 1987, p. 75).
Em seus estudos, Vidal enfatiza a importância da Geografia
no estudo da superfície terrestre a partir das diversas divisões, a
"região", considerando a inter-relação dos fenômenos naturais e
humanos. A partir da inter-relação desses fenômenos, era possí-
vel delimitar as várias regiões do globo terrestre. Era necessário
procurar saber, por exemplo, a combinação entre o relevo, o solo, a
vegetação, o clima, a agricultura, a população e a indústria, para a
delimitação da região.
Vidal vê a região como resultante do estudo da paisagem. A re-
gião é uma realidade objetiva que pode ser observada e delimitada
pelo observador.
A região é então a forma matricial da organização do espaço
terrestre e cuja característica básica é a demarcação territorial
de limites rigorosamente precisos. O que os geógrafos viam
na paisagem era a forma geral e de longa duração, e passaram
a concebê-la como uma porção de espaço cuja unidade é dada
por uma forma singular de síntese dos fenômenos físicos e hu-
manos que a diferencia e demarca dos demais espaços regio-
nais na superfície terrestre justamente por sua singularidade.
Pouco importava se o dito e o visto não coincidissem exata-
mente (MOREIRA, 2006, p. 158).
Com Vidal, há um grande enfoque no estudo da Geografia Re-
gional, que irá propagar-se com seus discípulos. Até os dias atuais,
realizam-se estudos de Geografia Regional. Essa forma de estudo,
pelos geógrafos, busca um conhecimento cada vez mais profundo
de determinada área.
La Blache planejou uma obra coletiva, a Geografia universal, que
cobria um estudo das áreas em todo o mundo, na qual cada dis-
cípulo ficou responsável por uma porção determinada do planeta.
No trabalho, ficou marcado um conceito utilizado por esse geó-
grafo — o de região — que posteriormente se tornou o balizador da
Geografia francesa (MORAES, 1987, p. 75).
Outro elemento importante em Vidal de La Blache é a orien-
tação empírica à Geografia, pois ele enfoca a importância dos tra-
balhos geográficos ser realizados, principalmente, pela observação
direta da realidade, a necessidade das excursões geográficas como
trabalhos pedagógicos, ou seja: a escola ao ar livre deve guiar o
espírito geográfico. A realidade existia, independente do observa-
dor, e era preciso achá-la no campo, dando ênfase à observação da
paisagem para delimitação e estudo da região.
Nesse sentido, ele trabalha com uma abordagem descritiva, mé-
todo empírico-indutivo, necessidade dos trabalhos de campo, obser-
vação da paisagem na inter-relação do homem com o meio natural e o
estudo da região, considerando a integração do físico com o humano.
Vidal deixou vários discípulos que divulgaram ou desenvolve-
ram idéias com enfoque possibilista. Eles elaboraram monografias
regionais nos vários países europeus. "O método de estudo de uma
região passou a ter uma estrutura própria: primeiro, a análise do
meio físico, depois, as formas de ocupação e atividades humanas e,
por fim, o processo de integração do homem com o meio ambiente"
(FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 75).
Na Geografia Regional, ele divide o estudo geográfico em qua-
dros físicos, humanos e econômicos. Assim, tem-se, por exemplo,
nos trabalhos monográficos e regionais: a localização da área, por
meio de projeções cartográficas; o quadro físico; como relevo, solo,
hidrografia, clima, vegetação et c; a formação histórica de ocupação
humana do território; a estrutura agrária; a estrutura urbana; a estru-
tura industrial etc. Finalmente, apresenta-se uma conclusão, com
um conjunto de cartas, objetivando demonstrar uma relação entre
os elementos humanos e naturais da região.
Segundo Sodré (1989, p. 86-87), nos Annales de Géographie,
que La Blache fundou e dirigiu, no volume de 1913, no artigo
"Dês caracteres distinctifs de la Géographie", buscou estabele-
cer os princípios básicos em que a Geografia deveria assentar-se,
considerando: a unidade dos fenômenos terrestres; a combinação
variável desses fenômenos; o reconhecimento da relação do meio
com o homem; a necessidade de um método científico para o
estudo dos fenômenos; a importância do homem na modelagem
do meio geográfico. Esses princípios, a seu ver, levam a uma de-
finição melhor da função da Geografia no conjunto das ciências.
Vidal procurou mostrar como o homem, considerando o fator his-
tórico, soube tirar proveito do meio natural.
Vidal de La Blache vinculou os estudos à Geografia Humana. Po-
rém, esta foi concebida como um estudo da paisagem. A Geografia
de Vidal fala de população, nunca de sociedade; de estabelecimentos
humanos, não de relações sociais; estuda a relação homem-natureza,
mas não aborda as relações entre os homens. Uma Geografia Hu-
mana não uma ciência social (MORAES, 1987, p. 72-82).
Seguindo a Geografia francesa, surgiram autores como: Ema-
nuel de Martonne, Jean Brunhes, Camille Valloux, André Chollay
e Max Sorre.
Emanuel de Martonne (1873-1955) foi diretor do Instituto de Geo-
grafia da Universidade de Paris, em 1927, e presidente de honra da
União Geográfica Internacional, em 1949. Publicou vários livros sobre
Morfologia, referentes à erosão das geleiras e à evolução das formas dos
relevos. Também deixou produção científica nos Annales de Géographie.
Para Martonne, a Geografia deveria estudar a distribuição dos
fenômenos físicos, biológicos e humanos na superfície terrestre
(ANDRADE, 1998, p. 13).
Já Jean Brunhes ( 1869- 1930) foi professor da Universidade
de Friburgo e publicou La géographie humaine, em que classificou
os fatos de ocupação do espaço em três grupos: de ocupação im-
produtiva do solo, como casas e caminhos; de conquista vegetal
e animal, como lavouras e criação; de economia destrutiva, como
devastações vegetais e animais (SODRE, 1989, p. 94) .
Camille Vallaux (1870-1945) publicou diversas obras, entre
elas, detacam-se: Les sciences géographiques, La géographie de 1'histoire
e Géographie générale des mers. Preocupou-se em estudar assuntos re-
lacionados à Geografia e à História, aos oceanos, à política e às
fronteiras geográficas.
A Combinação de Complexo, elaborada por André Cholley, deve-
ria ser objeto de estudo geográfico, pois ela expressaria a realida-
de geográfica na convergência dos fenômenos físicos, biológicos e
humanos. Assim, a Geografia seria uma "ciência de complexos"
(MORAES, 1987, p. 75).
Conforme Andrade (1998, p. 74), Cholley retoma os estudos de
caracterização das regiões geográficas, destacando a importância do
homem como organizador e produtor das regiões.
Max Sorre (1880-1962) desenvolveu o conceito de habitat, sen-
do este considerado uma porção do planeta organizado pela co-
munidade que o habita. Considera o habitat como uma constru-
ção humana que expressa as múltiplas relações entre o homem e o
ambiente que o envolve. Cabe à Geografia estudar as formas pelas
quais os homens organizam o meio (MORAES, 1987, p. 79-80).
Destacam-se, ainda, as contribuições de Albert Demangeon,
pelas publicações e estudos geográficos; Roger Dion, que desen-
volveu estudos de Geografia Humana; Lucien Gallois, que foi
professor na Sorbonne e trabalhou na organização da Géogra-
phie universelle, que viria substituir a Nouvelle géographie universelle
— La terre et lês hommes, de Elisée Reclus; e Murice le Lannou, com
estudos de Geografia Regional.
A Escola Francesa de Geografia não formava uma única ver-
tente. Pode-se admitir que havia divergência entre os principais
mestres, mas, de forma geral, eles estavam voltados ao estudo da
região e da paisagem e a dar continuidade às propostas de Vidal
de La Blache.
Para Andrade (1987, p. 74), os principais mestres da Geogra-
fia francesa caracterizavam-se, especialmente, por uma orientação
ideográfica, apresentando uma posição política conservadora, en-
coberta por neutralidade científica. Foi dada grande importância
à descrição, todavia, sem menosprezar a explicação. Eles estavam
muito ligados à universidade e à formação cultural.
4.4 Élisée Reclus e Piotr Kropotkin e a Geografia
Elisée Reclus foi um geógrafo intelectual e anarquista. Nasceu na
França em 1830. Filho de pastor protestante e de família humilde,
aos 13 anos vai para a Alemanha estudar numa escola religiosa, onde
recebe a formação básica que marca sua ampla cultura e trava o pri-
meiro rompimento com a religião, que o levará progressivamente ao
ateísmo. Era simpatizante dos movimentos republicanos e apoiou os
levantes populares de 1848 e da Comuna de Paris em 1871.
A participação nos levantes populares o obrigou ao exílio, para
evitar a prisão, indo para a Irlanda, os Estados Unidos e a Colôm-
bia, e viveu muitos anos na Suíça.
Realizou diversas viagens pelo mundo, durante as quais pode de-
senvolver pesquisas e preparar várias obras. Entre elas, destacam-se: A
terra, em dois volumes, publicada em 1869; a Nova geografia universal,
em dezenove volumes, publicada no período de 1875 a 1892; e O ho-
mem e a terra, em seis volumes, editada no período de 1905 a 1908.
Aborda assuntos como a luta de classes, a educação e as ciências,
as formas de propriedade, o colonialismo e a dominação dos países
desenvolvidos (VESENTINI, 1988, p. 14).
Nos estudos, buscava não fazer separação entre a Geografia Fí-
sica e Humana, ou seja, estudava a inter-relação dos fatores físicos
e humanos.
O estudo da natureza, para ele, deveria facilitar a compreensão
da evolução da humanidade. Os geógrafos deveriam fazer análises,
considerando que a sociedade está dividida em classes sociais, decor-
rentes das formas de apropriação dos meios de produção. As dife-
renças de classes provocam as lutas entre elas: as classes dominadas,
que aspiram a melhores condições de vida, com as dominantes, que
não desejam perder o controle do poder e das riquezas (ANDRADE,
1987, p. 57).
Elisée Reclus elaborou um conjunto de obras de grande relevân-
cia para a Geografia, o que lhe rendeu reconhecimento internacio-
nal. Anistiado em 1879, tornou-se professor de Geografia na Uni-
versidade de Bruxelas, recebeu uma medalha de ouro da Sociedade
Geográfica e faleceu em 1905. É considerado um dos expoentes
intelectuais do anarquismo do século XIX.
Atualmente, com o florescimento de uma perspectiva crítica
nas universidades, constata-se um ressurgimento do interesse pelas
obras de Reclus, o que tem levado à publicação de seus escritos
considerados mais atuais (ANDRADE, 1997, p. 58).
Já Piotr Alexeevich Kropotkin (1842-1921), grande amigo de
Elisée Reclus, nasceu em Moscou e pertencia a uma família rica,
aristocrata e tradicional da Rússia. Entre 1857 e 1861, recebeu in-
fluências da nova literatura liberal revolucionária em seu país. Tam-
bém demonstrou grande interesse pelas obras dos enciclopedistas e
pelas condições do campesinato russo.
Estudou em São Petersburgo, onde se interessou pela Geogra-
fia, cujas pesquisas e explorações lhe abriram caminho para uma
destacada carreira científica. Em 1862, foi para o exército, servin-
do como oficial na Sibéria, onde fez levantamentos topográficos e
geográficos. Sua reputação como geógrafo se deu em grande parte
pelas viagens e pelos estudos que realizou na Sibéria.
Posteriormente, para a decepção da família, desligou-se do
exército, tornando-se geógrafo e anarquista, inimigo declarado
de qualquer forma de autoridade e hierarquia. Esta opção de
vida acabou por levá-lo, em 1874, à prisão-fortaleza de Pedro e
Paulo, por promover e participar de revoltas camponesas. Con-
seguiu fugir e foi para países da Europa Ocidental (Suíça, França
e Inglaterra), nos quais viveu durante mais de quarenta anos,
onde publicou as obras. Sua concepção anarquista e libertária fez
com que ele acabasse sendo marginalizado pela Geografia aca-
dêmica, institucionalizada pelo Estado. Pois se pode deduzir que
Geografia e Liberdade são inseparáveis na acepção de Kropotkin.
Sua percepção de ciência é a do sujeito do conhecimento atuando
na libertação dos homens diante das determinações da natureza
e da dominação de alguns sobre os outros (VESENTINI, 1988,
p. 4- 11) .
Kropotkin não aceitava o Estado-Nação, as fronteiras políticas
e a glorificação da "pátria". A tarefa da Geografia era mostrar que
a humanidade é uma só, as fronteiras políticas são relíquias de um
passado; e o nacionalismo, as guerras e os preconceitos entre as na-
ções só servem para manter ou reforçar os interesses de grupos ou
classes dominantes (VESENTINI, 1988, p. 3).
Percebe-se que suas idéias e ações vão de encontro ao próprio
processo de institucionalização da Geografia, isto é, instituída para
servir ao Estado-Nação e ao Capitalismo.
Suas obras mais importantes são: A conquista do pão; Ajuda mú-
tua: um fator de evolução; Memórias de um revolucionário; 0 anarquis-
mo e a ciência moderna; e Campos, fábricas e oficinas.
Na Inglaterra, conviveu com os principais intelectuais da épo-
ca e foi colaborador da Geographical Society. Em alguns livros,
Kropotkin tentou buscar uma base científica para o pensamento
anarquista.
Após a Revolução Socialista, voltou à Rússia, vindo a falecer em
1921.
Chegou a receber uma medalha de ouro da Sociedade Geográfica
Russa pelas investigações sobre os aspectos da Geografia Física da
Sibéria. Até o fim da vida, Kropotkin escreveu sobre o ensino de
Geografia, a relação homem e natureza, entre outros.
Kropotkin era um cientificista que aceitava que as ciências da
natureza e as sociais tivessem o objetivo de descobrir as leis gerais
que regulam os fenômenos e, para ele, a Geografia era uma ciência
da natureza (ANDRADE, 1987, p. 59).
Para Andrade (1987, p. 61-62), Elisée Reclus e Piotr Kropotkin
foram dois geógrafos libertários (cuja obra foi denominada por este
autor como a Geografia Libertária). Apesar de positivistas, rece-
beram grande influência dialética, citando constantemente Karl
Marx e a categoria "classe social" no estudo da Geografia; escreve-
ram livros e artigos de doutrinação política e livros especificamente
geográficos. Foram excluídos da vida universitária, exilados, presos
e perseguidos, e seus livros não agradavam à maioria dos leitores
ligados às classes mais abastadas econômica e socialmente.
Andrade afirma ainda que:
Elisée Reclus e Pietr Kropotkin foram dois grandes geógrafos
que viveram nos fins do século XIX e início do XX e deram
uma contribuição bem diversa daquela dada pelos geógrafos
anteriormente estudados. Enquanto os primeiros se coloca-
ram de acordo com a classe dominante, ocuparam cátedras
universitárias e assessoraram príncipes e presidentes, os dois
se colocaram contra a estrutura de poder, negaram validade
ao Estado, adotaram idéias de reformas sociais radicais e de-
fenderam as classes menos favorecidas. Embora positivistas
e com posições que se opunham a Marx na militância polí-
tica, eles adotaram algumas categorias marxistas e abriram
perspectivas de uma visão libertária, tanto da sociedade como
da Geografia como ciência. Tiveram origens sociais distintas,
mas lutaram juntos pelos mesmos ideais e colaboraram tanto
em obras de cunho político como científico (1987, p. 56).
E importante esclarecer que o anarquismo é considerado, ge-
ralmente, uma "desordem" ou um "caos", por ser uma doutrina
política que defende a abolição de qualquer tipo de governo formal.
A palavra é formada pelo sufixo arcbon, que, em grego, significa
governante; e an, que significa sem. Ou seja, anarquismo significa,
ao pé da letra, "sem governante". A principal idéia que rege o anar-
quismo é de que o governo é desnecessário, pois a população pode
voluntariamente se organizar e sobreviver em harmonia.
Apesar das diferentes tendências no anarquismo, ele tem uma
mensagem comum: a liberdade e a igualdade só serão conquistadas
com o fim do capitalismo e do Estado que o defende.
Para os defensores do anarquismo, à época, o sistema educacional e
outros recebem o apoio e o controle do Estado para perpetuar os obje-
tivos deste último. Nessas condições, pode-se dizer que a Geografia,
que foi institucionalizada, era um instrumento para a ação do Estado
e do capitalismo. Assim, era necessário abolir o Estado e criar uma
educação libertária; no caso da Geografia, uma Geografia Libertária.
4.5 Alfred Hettner e Richard Hartshorne
e a Geografia
Outra escola geográfica surge no início do século XX e foi, por al-
guns autores, denominada de Geografia Racionalista. Ela tem, como
principais representantes: Alfred Hettner (1859-1941) e Richard
Hartshorne (1899-1992). O objetivo era desenvolver uma Geografia
de menor carga empirista e privilegiar o raciocínio dedutivo.
Alfred Hettner foi um geógrafo alemão, professor da Universidade
de Heidelberg, na cidade de mesmo nome, na Alemanha. Publicou
obras entre 1890 e 1910. Segundo Moraes (1987, p. 85), Hettner pro-
põe a Geografia como a ciência que estuda "a diferenciação de áreas",
ou melhor, a ciência que objetiva explicar "por que" e "em que" diferem
as diversas partes da superfície terrestre. Ele considera que o caráter
singular das várias parcelas do espaço decorre da forma particular de
inter-relação dos fenômenos. A Geografia seria, assim, o estudo dessas
formas de inter-relação dos fenômenos na superfície terrestre.
A preocupação fundamental de Hettner era banir o dualismo
da Geografia, o perigo da sua divisão em física e humana, e
consegue-o ao considerar que, na medida em que, ao estudar
simultaneamente, num mesmo espaço, fenômenos físicos e
humanos, a Geografia é ao mesmo tempo uma ciência física e
humana (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 78).
Para Hettner, a partir dos elementos inter-relacionados, podem-se
reconhecer as diferentes "áreas" da superfície terrestre. A Geografia
deve descrever unidades espaciais e compará-las. As unidades espa-
ciais são caracterizadas pelas associações específicas de fenômenos
que existem nesses lugares (FERREIRA; SIMÕES, 1986, p. 78).
Em Hettner, a Geografia se torna a ciência que estuda a diferen-
ciação de áreas da superfície terrestre. Em La Blache, a Geogra-
fia se transforma numa Geografia Regional (estruturada num
método regional, a região vira o conteúdo temático e o método
da Geografia). [...] Na perspectiva labrachiana, a conexão re-
gional é um dado para dentro. A seqüência das descrições e ins-
crições dos elos vai não só formando a síntese da totalidade dos
fenômenos e seus componentes, como decidindo a referência do
marco dos limites que vão recortar a região no todo da superfície
terrestre e garantindo-lhe seu caso único de identidade. Lacoste
condenou-a como um "poderoso conceito obstáculo" (Lacoste,
1974 e 1988). Na perspectiva hettneriana, a conexão vem do
movimento de diferenciação de um dado todo em recortes (o
clima terrestre em seu movimento de variação na superfície ter-
restre), a seqüência das descrições e elos servindo para flagrar o
movimento em sua diferenciação na superfície, em busca da sua
diversificação paisagística [...} (MOREIRA, 2006, p. 128).
As idéias de Hettner encontraram pouca divulgação em sua épo-
ca. Provavelmente, em função da disputa vigente entre o determi-
nismo e o possibilismo. Somente a partir dos anos 1940, especial-
mente nos Estados Unidos, as idéias de Hettner foram retomadas
e valorizadas, tendo, no centro dessa valorização, um renomado
geógrafo norte-americano: Richard Hartshorne.
Hartshorne lecionou na universidade de Wisconsin, nos Estados
Unidos. Procurou desenvolver reflexões sobre a natureza da Geogra-
fia, como ciência, em dois livros: A natureza da geografia, publicado
em 1939, que trata da evolução do pensamento geográfico; e Questões
sobre a natureza da geografia, publicado em 1959, que revisa posições de
vinte anos antes e apresenta o conteúdo final de sua proposta.
Para Hartshorne, as ciências se definiriam por métodos próprios.
Assim, a Geografia se individualiza como ciência devido à forma
específica de analisar a realidade. O método geográfico decorre do
fato de essa ciência trabalhar com a variação dos fenômenos na
superfície terrestre. A Geografia deveria buscar o estudo das in-
ter-relações entre fenômenos heterogêneos, apresentando-as numa
abordagem sintética. Assim, a partir das inter-relações entre os fe-
nômenos, ela deve explicar a variação das diferentes áreas da su-
perfície da Terra (MORAES, 1987, p. 87).
A área seria uma unidade da superfície terrestre delimitada pelo
observador. A delimitação é feita segundo a escolha do observador.
Dependendo dos elementos selecionados, a delimitação será dife-
rente. A área é construída subjetivamente pelo pesquisador, com
base nos dados escolhidos; diferente da região vista como realidade
exterior ao observador (La Blache). Assim, a singularidade de cada
área seria dada pela integração de fenômenos inter-relacionados,
conforme a escolha do observador (MORAES, 1987, p. 88).
A partir das inter-relações entre os fenômenos, Hartshorne apre-
senta duas formas de estudo em Geografia: a particular (a região),
quando se faz a Geografia a qual denominou de Ideográfica; e a ge-
ral, quando se faz a Geografia a que chamou de Nomotética.
Hartshorne articulou a Geografia Geral e a Regional, diferen-
ciando-as pelo nível de profundidade das inter-relações dos elemen-
tos estudados, ou seja, quanto menor o número de elementos inter-
relacionados, maior a possibilidade de generalização; quanto maior
o número de elementos inter-relacionados, mais profunda a análise
efetuada, maior conhecimento da singularidade da "área", maior
possibilidade de estudo regional.
Em Hartshorne, os estudos de Geografia devem analisar as
variações espaciais e as conexões de fenômenos em integração.
Na Geografia Geral, realizam-se "estudos tópicos", como: Geo-
grafia do Petróleo, Geografia da Cana-de-Açúcar, Geografia do
Café, Geografia da Monocultura, Geografia da Policultura, Geo-
grafia da Pesca etc.
Para ele, a região "área" é uma construção intelectual de acordo
com objetivos traçados pelo pesquisador e, como tal, ela pode va-
riar em delimitação conforme esses objetivos.
Moraes (1987, p. 91-92) afirma que as propostas de Richard
Hartshorne, por um lado, e de André Chollay e M. le Lannou, por
outro, encerraram as proposições da Geografia Tradicional. Finaliza-
ram um conjunto de propostas cuja unidade foi dada pela aceitação
de certas máximas (os princípios gerais que deveriam ser utilizados
nos estudos geográficos) consideradas verdadeiras na ciência geográ-
fica: "a Geografia é uma ciência empírica, pautada na observação";
"a Geografia é uma ciência de contato entre o domínio da natureza
e o da humanidade"; "a Geografia é uma ciência de síntese".
O autor afirma ainda que a Geografia Tradicional deixou uma
ciência elaborada, um conjunto de conhecimento sistematizado;
possibilitou a formação de uma ciência autônoma; elaborou um rico
acervo empírico; e, finalmente, a Geografia Tradicional elaborou al-
guns conceitos como: território, região, habitat, paisagem, área et c,
que ainda merecem ser rediscutidos (MORAES, 1987, p. 91-92).
Convém não esquecer que a Geografia Moderna teve seus pri-
meiros grandes mestres na Alemanha e, logo após, na França. Há
grande influência do Positivismo na Geografia Tradicional. A Escola
Alemã de Geografia é marcada pelo caráter determinista, e o prin-
cipal representante foi Friedrich Ratzel. Em oposição ao Determi-
nismo alemão, surgiu, na França, o Possibilismo, corrente que teve
em Vidal de La Blache o maior representante, consolidando a Escola
Francesa de Geografia. Foram estas duas escolas que exerceram a
maior influência no decorrer da Geografia Tradicional.
É muito provável que as doutrinas dessas escolas estivessem a
serviço de interesses políticos e militares dos Estados em que elas se
inseriam e da classe hegemônica dominante desses Estados, a fim
de que a exploração nas colônias fosse justificada.
Geografia Contemporânea
C A PÍ T U L O c i n c o
Na metade do século XX, ocorreram várias trans-
formações políticas, econômicas sociais, filosóficas,
científicas e tecnológicas no mundo que atingiram a
ciência geográfica, provocando um processo de reno-
vação e mudanças. A partir da década de 1950, a Geo-
grafia Tradicional entra em declínio e, na década de
1970, encontra-se praticamente extinta. A partir de
então, a Geografia partirá para novos caminhos.
No início do século XX, havia grande rivalidade en-
tre os governos das potências européias, especialmente
França, Inglaterra e Alemanha. Tal animosidade era
decorrente das disputas por mercados consumidores e
de matérias-primas, e das disputas territoriais na Eu-
ropa e nas colônias.
De 1914 a 1918, ocorreu a Primeira Guerra Mun-
dial, envolvendo diversos países, mas o palco princi-
pal de batalha foi o continente europeu. Os combates
provocaram a morte de milhões de pessoas, civis e
militares, quando foram utilizadas novas armas, como a metra-
lhadora, o avião e o submarino.
Encerrado o conflito, grande parte dos países europeus sofreu
com escassez de alimentos, fome, doenças e teve a infra-estrutura
(cidades, portos, estradas) destruída.
O apoio material e financeiro dado pelo governo dos Estados
Unidos foi decisivo para a vitória dos países da Tríplice Entente.
A Primeira Guerra estimulou ainda mais o crescimento industrial
e agrícola dos Estados Unidos, que buscou suprir a escassez de
produtos do mercado europeu e atender aos mercados da Ásia,
América e África. Cada vez mais essa participação, no contexto
mundial, colocava a economia americana em ascensão diante das
antigas potências, principalmente em relação a Inglaterra, França
e Alemanha.
A Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) foi outro período
sangrento na história da humanidade. Envolveu diversos países e
provocou milhões de mortes, doenças, fome e destruição de inúme-
ras cidades européias.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, ocorreu a ascensão dos
Estados Unidos e da União Soviética. Surgiu uma nova ordem in-
ternacional, caracterizada pelo equilíbrio tenso de forças (Guerra
Fria) entre países capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, e paí-
ses socialistas, liderados pela União Soviética. A Guerra Fria, inicia-
da por volta de 1946, caracterizou-se pela rivalidade política, ideo-
lógica, econômica e militar entre Estados Unidos e União Soviética.
Tal rivalidade provocou a corrida armamentista, o desenvolvimento
das armas nucleares, incentivos a pesquisas, especialmente as rela-
cionadas ao conhecimento dos recursos naturais, infra-estrutura e
poder bélico dos países.
As quatro décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mun-
dial foram caracterizadas pela formação de dois blocos inter-
nacionais de poder antagônico: a URSS (socialista) e os EUA
(capitalista), sendo que ambos desenvolveram uma política
econômica de caráter imperialista sobre suas áreas de domi-
nação; a "guerra fria", que tão fortemente marcou este pe-
ríodo, desenvolveu o medo, a insegurança e a crença em um
fim muito próximo da humanidade em função do caráter de
armamentismo bélico e destruições que a mesma encerrou
• (MENDONÇA, 2005, p. 35).
Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU),
sediada em Nova Iorque (Estados Unidos), tendo como princípios
básicos, estabelecidos na Carta das Nações Unidas: a manutenção
da paz e da segurança internacional e o estímulo à cooperação en-
tre os países na busca de soluções para problemas internacionais de
caráter econômico, social, cultural e humanitário, promovendo o
respeito aos direitos humanos.
Entre 1940 e 1980, ocorreu o processo de descolonização de vários
países da África, Ásia e da Oceania. Essas nações alcançaram a inde-
pendência via acordos pacíficos ou por meio de rupturas violentas, em
que as guerras causaram a morte de milhares de civis e militares. Ape-
sar de conquistarem a independência, muitas, ainda hoje, mantêm
relações de dependência econômica com os colonizadores. Também,
em muitos casos, no processo de independência, seja de forma pacífi-
ca, seja violenta, houve a participação direta ou indireta dos Estados
Unidos e da União Soviética, pois ambos procuravam firmar influên-
cia política, econômica é militar.
Em 1955, foi realizada, na Indonésia, a Conferência de Ban-
dung, organizada por países do Terceiro Mundo. Os participantes
rejeitaram a divisão do mundo nos blocos socialista e capitalista,
defendendo uma política de não-alinhamento às superpotências,
e condenaram o colonialismo e o neocolonialismo (dominação das
metrópoles sobre as colônias).
No contexto econômico, diversas mudanças aconteceram: a
passagem do capitalismo concorrencial para o monopolista, com a
formação de grandes empresas monopolistas e a integração do ca-
pital industrial e financeiro; os ideais de livre concorrência deram
lugar ao capitalismo monopolista, com a participação do Estado
como patrocinador das economias nacionais; houve o processo de
concentração vertical e horizontal das empresas. A organização
da produção, sob os princípios do taylorismo-fordismo, propor-
cionou grandes vantagens competitivas no mercado mundial aos
países e às organizações que os adotaram. Diversas nações, lide-
radas pelos Estados Unidos, consolidaram posição como líderes
econômicas no planeta graças ao aumento de produtividade obti-
do com o método taylorismo-fordista de produção — Inglaterra,
Alemanha e França em especial.
Os Estados Unidos criaram o chamado american way oflife (modo
de vida americano), caracterizado pelo consumismo (automóveis,
eletrodomésticos et c) .
Em 1929, aconteceu a crise da Bolsa de Valores de Nova Ior-
que, decorrente da superprodução mundial. As ações das gran-
des empresas sofreram queda vertiginosa e inúmeras empresas
faliram ou foram forçadas a reduzir o ritmo de produção.
Nos primeiros anos do governo do presidente Franklin Roose-
velt, os Estados Unidos adotaram o New Deal (Novo Acordo), um
conjunto de medidas destinado à superação da crise. Tais medidas
foram inspiradas nas idéias do economista inglês John M. Keynes
(1883-1946).
A crise na Bolsa de Valores de Nova Iorque fez com que o li-
beralismo econômico fosse contestado. Foi necessária a interven-
ção do Estado na economia, visando à ordenação e regulação da
vida econômica. O planejamento econômico foi usado como uma
arma de intervenção do Estado. O planejamento estatal também
seria um planejamento territorial, ou seja, uma melhor forma de
aproveitamento do espaço geográfico: recursos naturais e humanos
(MORAES, 1987, p. 94-95).
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, havia muita crise e
instabilidade das moedas no mundo. Diante dessa situação, deze-
nas de países reuniram-se para planejar a estabilidade da economia
mundial. Foi nessa ocasião que surgiu o Fundo Monetário Interna-
cional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desen-
volvimento (BIRD), conhecido como Banco Mundial. A partir dos
acordos de Bretton Woods, o FMI e o BIRD auxiliariam na estabili-
zação da economia capitalista mundial. Ficou estabelecido também
que o dólar passaria a ser a principal moeda de reserva mundial e
substituiria o ouro como padrão monetário internacional.
Além disso, após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos
elaboraram e executaram o Plano Marshall, que destinou recursos
para a reconstrução dos países capitalistas da Europa Ocidental. O
Plano Marshall havia surgido a partir da Doutrina Truman, lançada
em 1947 pelo presidente norte-americano Harry Truman. Segundo
a doutrina, os Estados Unidos não mediriam esforços para conter o
expansionismo da União Soviética. Por meio do Plano Marshall, os
Estados Unidos tinham, ao menos, dois objetivos: manter o sistema
capitalista nos países da Europa Ocidental, assegurando, à área de
influência, a não-penetração do socialismo; e garantir o mercado
consumidor para produtos e investimentos.
A partir da década de 1950, grandes empresas monopolistas
de países desenvolvidos instalaram filiais em países subdesenvol-
vidos, onde passaram a produzir um elenco cada vez maior de
produtos. Nesse contexto, opera-se uma profunda alteração na di-
visão internacional do trabalho, porquanto muitos países deixam
de ser apenas fornecedores de alimentos e matérias-primas para
o mercado internacional para se tornar produtores e até exporta-
dores de produtos industrializados. Essas empresas, conhecidas
como multinacionais, tinham como principais objetivos a busca
de matérias-primas, mão-de-obra barata e mercado consumidor
nos países do Terceiro Mundo.
Os governos dos países subdesenvolvidos procuravam apresen-
tar um conjunto de condições favoráveis para a instalação das em-
presas, além dos incentivos fiscais. Muitos serão os economistas,
geógrafos, cartógrafos e demais profissionais que irão trabalhar
para órgãos de governos no planejamento da região, do território
nacional, apresentando as condições favoráveis para a alocação das
filiais das empresas multinacionais.
A generalização das políticas de planejamento abria novos ca-
minhos de trabalho para os cientistas sociais, que eram utilizados
no levantamento do diagnóstico e na elaboração do prognósti-
co, indicadores dos caminhos a ser seguidos para que se atingis-
sem os fins almejados. A realização de trabalhos na área era um
desafio aos geógrafos, que vinham realizando trabalhos sobre a
distribuição espacial da população e das atividades econômicas
(ANDRADE, 1987, p. 94- 95) .
Era necessário maior conhecimento das transformações no cam-
po, na cidade, na indústria, nos meios de comunicação et c, que
estavam ocorrendo no contexto mundial.
As paisagens agrárias eram transformadas pelo processo de me-
canização e utilização de insumos. A expulsão do homem do campo
e a migração para a cidade; aliadas à subordinação da agricultura
à indústria e a formação de paisagens homogêneas, como os "cin-
turões" do café, cana-de-açúcar, trigo, milho, algodão; eram uma
realidade que se espalhava pelo mundo e que vinha para ficar. Era
preciso fazer levantamentos de áreas agrícolas e de novas áreas pos-
síveis para a agricultura e organizar ou reordenar os espaços agríco-
las para atender à crescente demanda populacional.
As atividades industriais já não se restringiam aos países euro-
peus, Estados Unidos e Japão, mas se dispersavam pelo mundo,
atuando, também, nos países subdesenvolvidos. Não havia somen-
te pequenas empresas, como também grandes conglomerados in-
dustriais em busca de áreas para atuação, por exemplo, de fontes de
energia: petróleo, ouro, minério de ferro, prata etc. Para a atuação
dessas empresas, era necessário ter um diagnóstico e um prognós-
tico dos territórios.
As cidades, com o avanço do capitalismo, tornaram-se mais
complexas. Há um grande processo de aglomeração humana e de
atividades públicas, comerciais e industriais. Muitas dessas cidades
tomam a forma de metrópoles, outras ultrapassam os limites ter-
ritoriais, conformando-se em megalópoles, processos de cornuba-
ções. Após a Segunda Guerra Mundial, muitas cidades dos países
desenvolvidos foram destruídas e tiveram de ser reconstruídas sob o
viés do planejamento. Elas tinham de atender, também, ao aumen-
to das populações, decorrente do êxodo rural. Já nos países subde-
senvolvidos, o planejamento das cidades foi mais crítico, algumas
criaram espaços planejados, porém, em decorrência do acelerado
êxodo rural, muitas cidades tiveram um crescimento desordenado,
com problemas ou falta de planejamento. Muitos foram os técnicos
e cientistas, dentre eles, os geógrafos, que passaram a trabalhar em
órgãos dos governos no planejamento das cidades.
As transformações ocorridas no campo e nas cidades exigiam um
sistema de transporte e comunicação que viesse a facilitar a locomo-
ção de pessoas, mercadorias e informações entre os lugares. Assim,
foram feitos investimentos para a construção de ferrovias, rodovias,
portos, aeroportos e para a produção de navio, automóvel, avião
etc. Houve a difusão da energia elétrica, do rádio, da televisão.
Com o desenvolvimento dos meios de transporte e de comunica-
ções, as distâncias são "encurtadas" e os lugares se "aproximam".
Todas as transformações políticas, econômicas, sociais, cientí-
ficas e tecnológicas, como vistas anteriormente, provocaram uma
crise na Geografia Tradicional, forçando-a a mudanças, como afir-
ma Moraes (1987, p. 95-96):
Isto defasou o instrumental de pesquisa da Geografia, im-
plicando uma crise das técnicas tradicionais de análise {...}.
Criadas para explicar situações simples, quadros locais fecha-
dos, não conseguia apreender a complexidade da organização
atual do espaço. O instrumental elaborado para explicar co-
munidades locais não conseguia apreender o espaço da eco-
nomia mundializada. Estabeleceu-se uma crise de linguagem,
de metodologia de pesquisa. O movimento de renovação vai
buscar novas técnicas para a análise geográfica. De um ins-
trumental elaborado na época do levantamento de campo,
vai se tentar passar para o sensoramento remoto, as imagens
de satélite, o computador.
Ainda segundo o autor, os fundamentos filosóficos, sobre os
quais estava assentada a Geografia Tradicional, ou seja, os funda-
mentos da filosofia positivista, estavam desgastados. O desenvol-
vimento das ciências e do pensamento filosófico ultrapassara os
fundamentos positivistas. Com o declínio dos fundamentos po-
sitivistas, surge uma crise interna na Geografia. Os fundamentos
de sustentação da Geografia Tradicional são criticados. Os pontos
mais visados são: a indefinição do objeto de estudo geográfico; as
dificuldades de explicações genéricas dos fenômenos geográficos; a
falta de formulações de leis na ciência geográfica; e, finalmente as
dualidades: Geografia Física e Geografia Humana; Geografia Ge-
ral e Geografia Regional; Geografia Sintética e Geografia Tópica
(MORAES, 1987, p. 96-97).
Andrade (1987, p. 96) enfatiza que os geógrafos, diante do es-
gotamento da Geografia Tradicional, passaram a procurar novos
caminhos, ora pela atualização dos princípios gerais da Geografia
Tradicional, ora pelo rompimento definitivo com ela, criando uma
"Nova Geografia". Eles foram chamados a dar uma contribuição
à reconstrução do pós-guerra e compreenderam que isso não po-
deria ser feito a partir dos métodos e das técnicas utilizados pela
Geografia Tradicional, que se limitava a observar, a descrever e a
explicar a paisagem, utilizando o "olho clínico", não fazendo uso
de técnicas que levassem a ultrapassar a aparência da paisagem, os
elementos "invisíveis" na elaboração da paisagem.
Assim, no pós-guerra, a realidade mundial tornou-se mais com-
plexa. O desenvolvimento do capitalismo afastou-se cada vez mais
da fase concorrencial e penetrou na fase monopolista do grande
capital. A urbanização acentuou-se, e metrópoles e megalópoles
começaram a se constituir. O espaço agrário sofreu modificações
em função da industrialização e da mecanização; as realidades lo-
cais passaram a se articular em redes de escala mundial. Cada lugar
deixou de se explicar por si mesmo, os lugares começaram a se
interligar por meio de sistemas de transportes e comunicações e
passaram a sofrer influência de outros lugares.
A visão, na Geografia Tradicional, de um mundo onde os fatos
aconteciam naturalmente, desprovidos de ideologias e de interes-
ses políticos, da neutralidade científica marcada pelo positivismo,
passou a ser questionada. A Geografia Tradicional, com métodos e
técnicas, não dava mais conta da descrição, representação e expli-
cação dos fenômenos da superfície terrestre.
A partir da metade do século XX, surgem movimentos de re-
novação da Geografia. São movimentos ou correntes que não pos-
suem uma unidade; eles apresentam propostas de renovação da
Geografia, muitas vezes, opostas. Tal fato decorre da diversidade de
métodos de interpretação, que são utilizados para a explicação da
realidade, e de posicionamentos (políticos, ideológicos, filosóficos
etc.) dos autores que compõem as correntes.
A renovação vai provocar a reflexão dos geógrafos sobre a na-
tureza da Geografia, a reformulação de fundamentos científicos e
filosóficos e a busca de novos caminhos.
Podem-se agrupar as correntes geográficas, em termos esque-
máticos, em: Geografia Teórico-Quantitativa, fundamentada no neo-
positivismo; Geografia da Percepção e do Comportamento, com grande
viés para a fenomenologia; Geografia Ecológica, sem viés filosófico
explícito; e Geografia Crítica ou Radical, sob as bases da dialética
materialista.
5.1 Geografia Teórico-Quantitativa
Esta corrente se desenvolve, principalmente, entre a década de
1960 e 70 e se caracteriza pela utilização de modelos matemático-
estatísticos. Ela rompeu com a Geografia Tradicional Moderna e
se apresentou como "Nova Geografia", sem ligações com o pensa-
mento tradicional. Foi contrária ao uso de excursão e das aulas prá-
ticas de campo por achar desnecessária a observação e a descrição
da realidade empírica. Buscou-se, assim, substituir o campo pelo
laboratório, onde seriam feitas as medições matemáticas, os gráfi-
cos e as tabelas sofisticadas, procurando representar os fenômenos
geográficos por meio de desenhos e diagramas. Uma vertente des-
sa corrente se intitulou de Teorética, objetivando romper qualquer
vínculo com os trabalhos empíricos, comprometendo-se com a re-
flexão teórica (ANDRADE, 1987, p. 107).
[...} se ouvia falar freqüentemente em ama "Nova Geogra-
fia" (New Geography) "que se queria caracterizar por ser não
apenas diferente, mas também em oposição e até mesmo
em contradição com a Geografia Tradicional". A escolha da
denominação não foi inocente. Gs defensores dessa nova li-
nha buscavam deixar clara sua distância em relação a uma
Geografia que, para muitos deles, não seria somente uma
Geografia ultrapassada, mas sobretudo uma "não Geografia"
(SANTOS, 2002, p. 60).
Os defensores dessa corrente adotaram os fundamentos do neo-
positivismo e se voltaram para a Matemática — especialmente a
estatística — como um modo de provar hipóteses e explicar os
fenômenos geográficos.
Apesar de haver se iniciado nos círculos filosóficos alemães e se
aprofundado no Círculo de Viena, fundado em 1920, o neopositi-
vismo desenvolve-se e ganha adeptos a partir de 1940 nos Estados
Unidos, Grã-Bretanha e Suécia.
Segundo Ferreira e Simões (1986, p. 81-82), as principais ca-
racterísticas do neopositivismo são:
• o conhecimento assenta-se na experiência;
• o neopositivismo é anti-idealista e exclui problemas metafísi-
cos; linguagem comum a todas as ciências;
• a investigação científica e os resultados devem apresentar cla-
reza e o uso da linguagem matemática e da lógica;
• não deve existir dualismo científico entre as ciências naturais e
as ciências sociais.
O neopositivista considera a unidade entre as ciências sociais e as
naturais e, ainda, apresenta conteúdos positivistas, principalmente
no que se refere à formulação de leis. Em ambas as ciências, devem
ser utilizadas na investigação científica e nos resultados os princípios
e a linguagem matemática. Essa linguagem, por sua vez, possibilita,
em ambas as ciências, a formulação de teorias com clareza, exatidão
e generalidade. Por isso, muitos autores consideram o neopositivis-
mo como uma renovação ou atualização do positivismo.
O contexto histórico em que surgiu a corrente Teórico-Quanti-
tativa, após a Segunda Guerra Mundial, segundo Ferreira e Simões
(1986, p. 83) é decorrente da:
• necessidade de superar a crise econômica capitalista, o que pro-
voca o aparecimento da econometria e da economia positiva;
• procura de instrumentos de controle social mais eficazes, o
que teve conseqüências na Sociologia e na Psicologia Social;
• exigência de plamficação regional e urbana, originadas quer
pela crise econômica, quer pela necessidade de reconstruir as
áreas devastadas pela guerra, com conseqüências imediatas na
Geografia.
Após a guerra, iniciou-se um processo de intensa urbanização,
industrialização e expansão de capital, gerando modificações pro-
fundas na organização do espaço mundial. As modificações inviabi-
lizaram as explicações a partir dos fundamentos teóricos e técnicos
utilizados pela Geografia Tradicional, propiciando, assim, o surgi-
mento da Nova Geografia, a qual se vai utilizar, freqüentemente,
de técnicas estatísticas e matemáticas, do emprego da geometria
e de modelos normativos. Por essa razão, passou a ser conhecida
como Geografia Quantitativa ou Teorética, ou melhor, Geografia
Teórico-Quantitativa.
Duas obras importantes se destacam no movimento renova-
dor: Exceptionalism in geography, de Fred K. Shaefer, de 1953, e
Theoreticalgeography, de Wi l l i am Bunge, publicada em 1962. Tam-
bém podem ser citados os autores: Brien Barry, Peter Haggett,
Michael Chisholm e Richard Chorley, que realizaram diversos
trabalhos contribuindo para a difusão da Geografia Teôrico-
Quantitativa.
Schaefer nasceu em Berlim, em 1904, e fez estudos de pós-gra-
duação em Ciência Política e Geografia Política. Sofrendo represá-
lias com a ascensão do nacional-socialismo, refugiou-se nos Esta-
dos Unidos em 1938. Quando o Departamento de Geografia da
Universidade de Iowa foi criado em 1946, tornou-se professor. Em
1947, apresentou à Associação dos Geógrafos Americanos o traba-
lho "Geographical aspects of planning in the USSR". Schaefer fa-
leceu em junho de 1953 e o artigo "Exceptionalism in geography"
foi publicado após sua morte.
Para Moraes (1987, p. 100-101), os autores defensores da Geo-
grafia Teórico-Quantitativa vão propor um estudo voltado para o
planejamento, para uma Geografia Aplicada instrumentalizada.
O objetivo geral é buscar novas técnicas e uma nova linguagem
que possibilitem dar conta das tarefas postas pelo planejamento
do Estado e do capital. Se, anteriormente, a Geografia Tradicional
contribuiu para um conhecimento que levantava informações para
a expansão das relações capitalistas, agora, com a Geografia Teó-
rico-Quantitativa, busca-se um saber que direciona essa expansão,
fornecendo opções e orientando estratégias de alocação do capital
no espaço geográfico.
O autor considera, ainda, que o pensamento geográfico Teórico-
Quantitativo e o Tradicional possuem, na realidade, uma continui-
dade dada por seu conteúdo de classe, ou seja, pela elaboração de
instrumentos práticos e ideológicos da burguesia. Assim, poderia
chamar-se de renovação conservadora da Geografia, já que, tam-
bém nessa Geografia, ocorre a passagem do positivismo clássico
para o neopositivismo. Portanto, na Geografia Teórico-Quantita-
tiva, troca-se o empirismo da observação direta pelo empirismo
mais abstrato dos dados filtrados pela estatística. Da contagem e
enumeração direta dos elementos da paisagem, para as médias, os
índices e os padrões. Da descrição dos fenômenos em campo para as
correlações matemáticas expressas em índices. A corrente Teórico-
Quantitativa seria uma forma de contemporaneizar a Geografia,
uma atualização técnica e lingüística em relação à Geografia Tradi-
cional (MORAES, 1987, p. 101-102).
, De fato, a expressão "Geografia Quantitativa", utilizada para
exprimir a existência de uma Geografia nova, introduziu um
certo mal-estar e confusão. A expressão "Geografia Matemáti-
ca" ou "Quantitativa" pode, na realidade, aplicar-se a qualquer
dos paradigmas da Geografia, novos ou antigos, mesmo aos
que hoje não são mais válidos para nenhuma escola. A quan-
tificação representa apenas um instrumento ou, no máximo,
o instrumento. O que continua fundamental é a construção
teórica (SANTOS, 2002, p. 73).
Defensores da corrente Teórico-Quantitativa consideram o se-
guinte princípio: se a Matemática é a linguagem das ciências em ge-
ral, então, ela também deve ser a da Geografia, pois, por intermédio
da Matemática, é possível a formulação de teorias na Geografia e,
também, a utilização de teorias de outras ciências. Portanto, é dada
grande importância à Matemática, especialmente à Estatística, pois
esta pode garantir a exatidão e a confiabilidade dos resultados.
A Geografia Teórico-Quantitativa busca maior rigor na utili-
zação da metodologia científica na pesquisa geográfica. Procura
uma renovação metodológica, com a utilização de novas técnicas
e de nova l i nguagem para ser trabalhada no planejamento. Os
estudos geográficos não devem só explicar o existente e o aconte-
cido, como t ambém devem ser capazes de propor predições, um
estudo prospectivo no planejamento do espaço geográfico. E, por
essa razão, o resultado do trabalho geográfico deve ser capaz de
prever o estado futuro dos sistemas de organizações espaciais e
contribuir, de modo efetivo, para alcançar o estado mais condi-
zente para as necessidades humanas.
Vale ressaltar que a falta de teorias, na Geografia Tradicional,
foi criticada por inúmeros geógrafos. Por isso, a Nova Geografia
procurou estimular o desenvolvimento de teorias relacionadas às ca-
racterísticas de distribuição e arranjos dos fenômenos no espaço geo-
gráfico. Ela também buscou a abordagem sistêmica na Geografia. A
aplicação da teoria dos sistemas aos estudos geográficos serviu para
um maior desenvolvimento das pesquisas e para delinear com mais
exatidão o setor de estudo dessa ciência.
Com a utilização da quantificação, de teorias e da abordagem
sistêmica, desenvolveram-se o uso e a construção de modelos na
Nova Geografia. A construção de modelos permitiu estruturar
o funcionamento do sistema, a fim de torná-lo compreensível e
expressar as relações entre os diversos componentes, ou seja, visa-
ram-se representar os fenômenos geográficos por meio de mode-
los e explicar como os fenômenos funcionam.
A Nova Geografia retoma estudos antigos que tinham tenta-
do estabelecer modelos espaciais para as atividades humanas. São
exemplos: o estudo de J. H. von Thünen (1783-1850), que ela-
borou um modelo de ordenamento teórico do uso do solo, o im-
pacto da distância sobre uma dada produção agrícola: teoria dos
anéis agrários; o estudo de Alfred Weber (1868-1958) sobre a ques-
tão da escolha para a localização industrial: teoria da localização
da indústria; o estudo de Walter Christaller (1893-1969) sobre os
"lugares centrais": teoria dos lugares centrais. A Nova Geografia foi
buscar teorias desenvolvidas em outras ciências, especialmente na
Economia e Sociologia.
O foco é deslocado agora para a relação espaço com a econo-
mia e a sociedade humana, por intermédio das necessidades
da racionalidade locacional das indústrias e das atividades eco-
nômicas a ela relacionadas. Por isto, suas teorizações surgem,
em sua maioria, no âmbito da ciência econômica (MOREIRA,
2006, p. 121).
Moraes (1987, p. 108-109), numa análise sobre a Geografia Teó-
rico-Quantitativa, esclarece que esta corrente propôs uma tecnolo-
gia de intervenção na realidade. Foi uma arma de dominação para
os detentores do Estado. Era constituída de um conjunto de técni-
cas que se transformou em ideologia. Nas sociedades capitalistas,
ela auxiliou na alocação de capital no espaço, gerando informações
para a expansão das relações capitalistas de produção.
Muitas foram, e ainda são, as críticas feitas aos geógrafos que
trabalham no contexto da corrente Teórico-Quantitativa, em de-
corrência da utilização de modelos, da matematização da sociedade
e por considerarem a unicidade metodológica e da linguagem entre
as ciências sociais e naturais. A Geografia Teórico-Quantitativa so-
brevive, todavia, sem o apogeu da década de 1960 e 70. Atualmen-
te, os geógrafos que trabalham sob essa orientação têm realizado
uma renovação nas abordagens e voltado os estudos, também, para
problemas ambientais e sociais, afastando-se do tecnicismo a servi-
ço do Estado, como foi rotulada.
5.2 Geografia da Percepção e do Comportamento
Corrente de pensamento que também surgiu no fim da década
de 1960 e início da de 1970. Caracteriza-se por realizar estudos
para explicar como o indivíduo tem a percepção do lugar. Objeti-
va compreender a percepção e o comportamento das pessoas em
relação ao lugar. Para cada indivíduo ou grupo humano, o lugar é
aquele em que ele se encontra ambientado. O lugar faz parte de seu
mundo, sentimentos e ações.
A Geografia da Percepção e do Comportamento busca estudar
como os homens percebem o espaço por eles vivenciado, como re-
agem às condições da natureza ambiente e como esse processo se
reflete na ação sobre o espaço. Os seguidores dessa corrente tentam
explicar a valorização subjetiva do território, a consciência do espa-
ço, o comportamento em relação ao meio. As pesquisas abordam
temas como: o comportamento do homem urbano em relação ao
espaço de lazer e as atitudes diante das novas técnicas de plantio,
numa determinada comunidade rural (MORAES, 1987, p. 106).
As idéias defendidas por geógrafos do mundo anglo-saxão, como
David Lowentahal, Yi-Fu Tuan e Anne Buttimer, tiveram repercus-
são em diversos países.
Amorim Filho (1999) esclarece que a atividade geográfica, des-
de as origens mais pretéritas, foi realizada pela percepção ambiental
dos praticantes. A partir do final dos anos 1960, buscou-se um res-
gate e uma nova valorização dessa maneira de explorar os lugares
e paisagens da Terra. Os estudos de percepção foram incluídos em
um grande movimento que recebeu, na década de 1970, o nome de
"Geografia Humanística".
Na Geografia da Percepção e do Comportamento, trabalha-se,
principalmente, com a fenômenologia, a cultura e a psicologia para o
entendimento do lugar, da relação entre o homem e o ambiente.
Ela visa à compreensão do homem no ambiente, experiências de
vida e ações e realizações individuais ou coletivas.
Assim, para um melhor esclarecimento sobre essa corrente, é
necessário entender que:
A fenomenologia husserliana chega à Geografia também nos
anos 1970. Porém não como uma fenomenologia das essên-
cias, mas como uma fenomenologia existencial (Buttimer,
1985; Holzer, 1996; Nogueira, 2004), uma visão da fenome-
nologia mais aperfeiçoada à filosofia de Maurice Merleau-Pon-
ty (1908-1962). Perfilam no seu terreno a Geografia da Per-
cepção (Corrêa, 2001), a Geografia Humanista (Mello, 1990;
Holzer, 1993) e a Geografia Cultural (Corrêa, 1999), além da
Geografia Histórica (McDowell, 1995), quatro versões deriva-
das das matrizes norte-americanas criadas por Sauer, aprofun-
dadas por David Lowenthal nos anos 1960 e dimensionadas
por Yi-Fu Tuan nos anos 1970, com estes últimos chegando
à matriz fenomenológica. Há uma dificuldade na empreitada
de localizar-se em cada uma e no conjunto dos seus entrelaça-
mentos o enfoque husserliano {...}. É a percepção ambiental
- a matéria-prima do espaço vivido - a porta de entrada inicial
dessas correntes de Geografia no universo da fenomenologia
husserliana, numa seqüência que da Geografia da Percepção
vai para a Geografia Humanista e desta para a Geografia Cul-
tural — embora não numa relação linear -, o fundamento fe-
nomenológko vindo a aparecer mais como um projeto que
como um fato efetivado (MOREIRA, 2006, p. 42).
Pode-se dizer que, atualmente, as principais vertentes nesta cor-
rente são: a Geografia da Percepção, a Geografia Humanística e a
Geografia Cultural, estando, principalmente, sob influência ou fun-
damentação da fenomenologia, no estudo do lugar, a partir das expe-
riências vividas. Essas Geografias estão em pleno desenvolvimento,
produzindo diversos trabalhos e buscando cada uma a própria iden-
tidade teórico-metodológica.
Os geógrafos dessas correntes valorizam a percepção, o pensa-
mento, os símbolos, a cultura, os sentimentos e a ação do homem
em seu "mundo vivido". Buscam compreender o homem no am-
biente, a experiência de vida e as realizações individuais ou coleti-
vas. E necessário entender a importância do vivido, do sentido dos
lugares, das representações simbólicas. Assim, o "lugar" representa
as experiências e aspirações dos seres humanos, o que é fundamen-
tal para sua identidade:
A resposta ao meio ambiente pode ser basicamente estética:
em seguida, pode variar do efêmero prazer que se tem de uma
vista, até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas muito
mais intensa, que é subitamente revelada. A resposta pode ser
tátil: o deleite ao sentir o ar, água, terra. Mais permanentes e
mais difíceis de expressar, são os sentimentos que temos para
com um lugar, por ser o lar, o locus de reminiscências e o meio
de se ganhar a vida (TUAN, 1980, p. 107).
Segundo Andrade (1987, p. 114-115), a Geografia da Percepção
e do Comportamento, apesar de apresentar divergências entre os vá-
rios grupos que a compõem, encontra-se em ascensão. Essa corrente
tem grande campo de ação, participando da luta em defesa do meio
ambiente, defendendo a criação de parques e reservas florestais, a pre-
servação de bairros históricos; desenvolvendo-se campanhas de orien-
tação que mostram a importância dessas medidas.
Ainda segundo o autor, essa corrente dedica-se especificamente
ao papel do indivíduo no ambiente "como ser independente, não
com a sociedade na forma como ela se apercebe do espaço. E, assim,
profundamente subjetivista" (ANDRADE, 1987, p. 112).
Nesse sentido, há uma questão sobre a qual se deve refletir:
As bases essenciais de trabalho da chamada Geografia do Com-
portamento são essencialmente duas: a) os comportamentos
individuais são resultados de volições e decisão pessoais, indivi-
duais; b) são os comportamentos pessoais que contribuem para
modelar o espaço. {...] Existe aí uma tentativa de considerar a
liberdade humana como absoluta e não como condicionada.
O que constitui um ideal ou mesmo um objetivo a atingir, o
do homem inteiramente livre em uma sociedade de homens
livres, é tomado como se fosse uma realidade. A Geografia do
Comportamento estabeleceu-se sobre uma confusão entre a
margem, diferente segundo os casos, deixada a cada indivíduo
para escolher entre as formas possíveis de atuar e a possibili-
dade de atuar arbitrariamente, sem levar em conta condições
reais de renda, de posição social, de oportunidades permanen-
tes ou ocasionais, e mesmo de lugar. Em uma palavra, o tato
de que a situação do indivíduo na produção é determinante
não é reconhecido. [...}. Existem práxis sociais. Mas o próprio
nome de "sociedade organizada" supõe a precedência das práxis
coletivas, impostas pelas estruturas da sociedade e às quais se
subordinam as práxis individuais (SANTOS, 2002, p. 95).
Portanto, há um grande enfoque sobre o sujeito, e, muitas vezes,
esquece-se de que as liberdades individuais são influenciadas pela
estrutura social. Todavia, não seria correto afirmar que o indivíduo
seria determinado pela sociedade, num determinismo social.
As novas tendências da Geografia Contemporânea (Geografia
da Percepção, Geografia Humanística, Geografia Cultural), embo-
ra sejam ricas de promessas e já tenham sido elaborados diversos
trabalhos de pesquisas nessas áreas, há a necessidade de uma dis-
cussão profunda sobre suas bases teórico-metodológicas.
Atualmente, muitos são os temas trabalhados por essas novas
orientações geográficas, nas linhas de: qualidade ambiental; pai-
sagens valorizadas; riscos ambientais; representações do mundo;
imagens de lugares distantes; história das paisagens; relações entre
artes, paisagens e lugares; espaços pessoais; construção de mapas
mentais; percepção ambiental e planejamento (AMORIM FILHO,
1999)- E outras, como cultura e paisagem além de religião.
5.3 Geografia Ecológica
O crescimento desordenado e os problemas sociais, decorren-
tes do capitalismo, começaram a preocupar os geógrafos no início
da década de 1970, quando ficou evidenciado que, no contexto
mundial, o avanço do capitalismo não havia beneficiado os países
subdesenvolvidos, não havia resolvido o problema das desigual-
dades sociais e da pobreza. Os programas desenvolvimentistas
e os avanços do capitalismo aumentaram a desigualdade entre
países ricos e pobres, fazendo crescer a pobreza e a miséria, prin-
cipalmente no Terceiro Mundo. A utilização, cada vez maior, de
tecnologias avançadas fazia crescer a renda das grandes empresas
capitalistas e o processo de exploração e destruição do meio am-
biente (ANDRADE, 1987, p. 111).
A realização da primeira Conferência Mundial do Desenvol-
vimento e Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo, consti-
tuiu-se em importantíssimo evento sociopolítico voltado ao
tratamento das questões ambientais; se aquele evento signifi-
cou, por um lado, a primeira tentativa mundial de equaciona-
me rito dos problemas ambientais, por outro, significou tam-
bém a comprovação da elevada degradação em que a biosfera
já se encontrava (MENDONÇA, 2005, p. 46).
Diante desse contexto, os geógrafos passaram, também, a se
preocupar com os problemas do meio ambiente, realizando inú-
meras pesquisas sobre o tema, levando em consideração o im-
pacto provocado pela sociedade no meio ambiente (ANDRADE,
1987, p. 119).
E importante destacar que foi o biólogo alemão Ernst Haeckel
(1834-1919) que criou formalmente a disciplina Ecologia, a qual
estuda a relação dos seres vivos com o meio ambiente.
A Geografia, como campo de conhecimento, sempre teve a
preocupação de compreender a natureza na relação com o ho-
mem. Pode-se dizer que, desde o surgimento como ciência, no
século XIX, até aproximadamente a década de 1970, a Geografia
buscava o estudo da relação homem-natureza; neste caso, a na-
tureza era determinante ou possibilidade às ações do homem. No
contexto do capitalismo, a natureza era vista como um recurso
a ser explorado, não havendo preocupações quanto à escassez.
Já a partir da década de 1970 até os dias atuais, o enfoque do
estudo geográfico tem sido a relação sociedade-natureza (homem-
homem e homem-natureza), considerando-se um processo de in-
teração entre ambas, em que há o discurso da necessidade do de-
senvolvimento sustentável do meio ambiente. E preocupação dos
geógrafos e da sociedade a problemática da degradação do meio
ambiente no contexto do capitalismo.
Na Geografia Ecológica não há uma identidade ideológica entre
os vários geógrafos sobre soluções a ser adotadas em relação aos
impactos destrutivos sobre o meio ambiente, mas, em comum, eles
defendem a preservação da natureza e buscam combater as poli-
ticas desenvolvimentistas, de interesse principalmente capitalista,
que vêm financiando a exploração e a destruição do meio ambiente
de forma indiscriminada (ANDRADE, 1987, p. 121).
A formação ampla dos geógrafos possibilita que apresentem crí-
ticas à política antiecológica dos governos e das empresas capitalis-
tas, colaborando com profissionais de diversas áreas para encontrar
soluções mais racionais para o meio ambiente. E importante res-
saltar que os geógrafos da corrente Ecológica, em muitos pontos,
aproximam-se dos geógrafos da corrente crítica ou radical, enquan-
to, em outros, filiam-se à corrente da Geografia da Percepção e do
Comportamento (ANDRADE, 1987, p. 121).
Assim, a Geografia Ecológica é um movimento em defesa do
meio ambiente. Os geógrafos que seguem essa orientação geral-
mente pertencem a outras correntes da Geografia, por exemplo,
Geografia Crítica, Geografia Humanística, Geografia da Percepção,
Geografia Cultural.
Os geógrafos que militam na corrente Ecológica constituem
um movimento de renovação cuja preocupação é a destruição do
planeta em decorrência do uso indiscriminado de tecnologias que
degradam o meio ambiente e destroem os recursos naturais indis-
pensáveis à sobrevivência dos seres humanos e das espécies.
E possível admitir que a Geografia, com a potencialidade de en-
focar, em conjunto, o estudo dos fenômenos naturais e sociais, pode
oferecer orientações científicas necessárias para os estudos sobre o
meio ambiente. Todavia,
O tratamento da temática ambiental é, por assim dizer, ativi-
dade bastante complexa do ponto de vista teórico e mais ainda
do ponto de vista dapráxis. Somente as ações desenvolvidas do
ponto de vista da holisticidade da temática é que conseguem
apresentar resultados satisfatórios no tocante às tentativas de
recuperação e preservação de ambientes degradados locais, re-
gionais ou planetário — a biosfera. Tal complexidade abarca até
a maneira de como se deve conceber o meio ambiente. Neste
sentido a recente contribuição de Carlos Walter Porto Gonçal-
ves é bastante pertinente na medida em que propõe o abando-
no do termo meio ambiente, principalmente pela necessidade
de se tratar o ambiente integralmente e não somente parte
dele. A proposição do referido geógrafo ganha ainda mais força
quando atentamos para a semântica dos dois termos: meio =
ambiente; ambiente = meio (MENDONÇA, 2005, p. 70).
Na corrente da Geografia Ecológica, é importante destacar al-
guns autores que contribuíram, com estudos e publicações, para
a formação desse movimento renovador na Geografia, como Jean
Tricart, geógrafo francês e um dos reformuladores da Geomorfo-
logia. Ele utilizou a dialética, trabalhou muito no Terceiro Mun-
do e publicou um livro que dá a visão global de uma Geografia
Ecológica - UEcogeographie. Outro autor importante é Paskoff,
com observações em áreas desérticas ou em processo de deser-
tificação; ele publicou um livro de caráter geográfico sobre o
assunto — Géographie de Venvironnement. E o grande geomorfólogo
Aziz Nacib Ab'Sber, após anos de trabalho e pesquisa em todo o
Brasil, passou a militar como cientista e cidadão, publicando no-
tas e artigos em jornais e escrevendo ensaios sobre os problemas
ecológicos (ANDRADE, 1987, p. 119-121).
E importante destacar que grande parte da população do mun-
do ainda vive em condições de pobreza e fome, sem acesso a água
tratada e habitação, especialmente nos países subdesenvolvidos. A
maioria dos governantes e empresários acredita que o crescimento
econômico é a solução para eliminar ou reduzir as desigualdades
entre indivíduos e países. Mas o problema que se tem verificado é
que o crescimento econômico mundial tem sido acompanhado pela
degradação do meio ambiente, fome e pobreza.
Outro fato a destacar é que, atualmente, vivemos a Terceira Re-
volução Industrial, em que ocorre a redução do tempo de giro da
produção com a diminuição do tempo de vida do produto, o que
leva o produto a ficar mais "descartável". Tal fato poderá acarretar
no aumento da exploração dos recursos naturais.
{...} em seu sentido e tendências mais gerais, o modo de pro-
dução capitalista converteu-se em inimigo da durabilidade dos
produtos; ele deve inclusive desencorajar e mesmo inviabilizar
as práticas produtivas orientadas para a durabilidade, o que leva
a subverter deliberadamente sua qualidade (idem, 548-9). A "qua-
lidade total" torna-se, ela também, a negação da durabilidade
das mercadorias. Quanto mais "qualidade" as mercadorias apa-
rentam (e aqui a aparência faz a diferença), menor tempo de
duração elas devem efetivamente ter. Desperdício e destrutivi-
dade acabam sendo os traços determinantes. {...]. Não falamos
aqui somente dos fast foods (do qual o McDonalds é exemplar),
que despejam toneladas de descartáveis no lixo, após um lanche
produzido sob o ritmo seriado e fordizado, de qualidade mais
que sofrível. Poderíamos lembrar o tempo médio de vida útil
estimado para os automóveis modernos e mundiais, cuja dura-
bilidade é cada vez mais reduzida (ANTUNES, 2002, p. 51).
Junto com a redução do tempo de vida do produto, ocorre o mar-
keting da mercadoria, incentivando o indivíduo, em sua habitação,
ao consumo, isto é, levando o indivíduo ao fetiche da mercadoria.
A cidade tem sido o principal palco das aglomerações e atividades
humanas e, também, o principal palco de consumo de mercadorias
e produção de lixo. Há, portanto, uma grande questão atualmente
nas cidades: como resolver o problema do lixo urbano?
A questão ambiental tem chamado a atenção em todo o mundo.
Reverter a situação da degradação do meio ambiente é o grande
desafio da atualidade que, ainda, está longe de ser resolvido.
5. 4 Geografia Crítica ou Radical
Outra corrente geográfica iniciada na década de 1970 está re-
lacionada à Geografia Crítica ou Radical. Ela surge em decorrên-
cia de diversos fatores. Dentre eles, podemos destacar: as mani-
festações nos Estados Unidos contra a Guerra do Vietnã (nos anos
1960); a luta pelos direitos civis (em diversos países); a destruição
do meio ambiente; os problemas da urbanização; a pobreza nos
países subdesenvolvidos; o racismo; os movimentos feministas; os
movimentos estudantis; a desigualdade entre as classes sociais; e a
desigualdade entre países ricos e pobres.
Vários adjetivos são utilizados para caracterizar essa corrente,
tais como: Geografia Crítica, Geografia Radical, Geografia Social,
Geografia Marxista, Geografia Nova.
Os métodos, as técnicas e os fundamentos da Geografia Tradi-
cional e da Geografia Teórico-Quantitativa tornaram-se insuficien-
tes para apreender a complexidade do espaço. A simples descrição
(Geografia Tradicional) e a construção e explicação, por meio de
modelos, utilizando-se de elementos da matemática e da estatística
(Geografia Teórico-Quantitativa), tornaram-se insuficientes para a
explicação de muitos problemas do espaço geográfico. Era preciso
realizar estudos voltados para a análise das ideologias e de novas
questões políticas, econômicas e sociais. Assim, a partir dos anos
1970, sob influência das teorias marxistas, surge uma tendência crí-
tica à Geografia Tradicional e à Geografia Teórico-Quantitativa, cujo
centro dê preocupação passa a ser as relações sociais e de produção
e as relações sociedade-natureza na produção do espaço geográfico,
considerando o objeto de estudo da Geografia o espaço social.
A nova corrente criticou a Geografia Tradicional e a Geografia
Teórico-Quantitativa afirmando que elas estavam a serviço da ação
do Estado e das empresas capitalistas. Assim, propõe uma Geogra-
fia das denúncias e lutas sociais, a Geografia Crítica ou Radical: não
basta explicar o mundo, é preciso transformá-lo. Nesse sentido, a
Geografia ganhou conteúdos políticos que passaram a ser utilizados
para a transformação da sociedade.
Os conteúdos teóricos e metodológicos da Geografia Nova tive-
ram grande influência na produção científica das últimas décadas.
Para o ensino, trouxe uma nova forma de interpretar as categorias
geográficas espaço, território, região, paisagem, lugar e influenciou, a
partir dos anos 1980, uma série de propostas curriculares voltadas
para uma nova abordagem no ensino, nas escolas e universidades.
As propostas foram centradas, principalmente, nas contradições da
produção e reprodução do espaço geográfico sob o capitalismo, evi-
denciando a desigual forma de apropriação e utilização dos recursos
naturais pela sociedade. Elas fundamentam-se, principalmente, no
materialismo histórico e na dialética materialista.
Moraes (1987, p. 117) esclarece que a Geografia Crítica tem
origens na vertente progressista da Geografia Regional francesa.
Foi Jean Dresch um exemplo de afirmação dessa vertente e de um
discurso político crítico (Dresch escreveu as obras na década de
1930 e 1940).
Ainda segundo o autor, a primeira manifestação clara da renova-
ção crítica pode ser constatada na proposta da obra Geografia ativa
(escrita por E George, Y Lacoste, B. Kayser e R. Guglielmo), que
objetivava uma Geografia de denúncia de realidades espaciais con-
traditórias. Buscavam-se explicar as regiões, abordando formas e
funcionalidades e, também, contradições sociais: a miséria, a sub-
nutrição, as favelas etc. (MORAES, 1987, p. 117).
Por meio de pequenos grupos de professores e alunos em di-
versas universidades americanas, a leitura e a análise das obras
de Marx e Engels foram aspectos destacados no movimento da
Geografia Radical, a fim de procurar focalizações para a análise
marxista do espaço. Em 1974, foi fundada a União dos Geógra-
fos Socialistas, com a finalidade de produzir trabalhos voltados
à mudança social. Ela mantém uma revista, participa de movi-
mentos políticos e reivindicatórios, realiza congressos e procura
difundir idéias, visando à renovação do conhecimento geográfi-
co; há centros organizados em Boston e Baltimore, nos Estados
Unidos; e em Montreal, Toronto e Vancouver, no Canadá. Outro
ponto importante na evolução da corrente da Geografia Radical
americana foi a publicação do livro de David Harvey A justiça
social e a cidade, em 1973, objetivando uma análise marxista do
espaço urbano. Nos Estados Unidos, desde 1969, está em circu-
lação a revista Antipode, que é um veículo de divulgação desse
movimento geográfico.
Na França, a corrente da Geografia Crítica foi liderada por Yves
Lacoste, cujo grupo se tornou responsável pela revista Hérodote, que
vem sendo editada desde 1976. Na Inglaterra, diversos trabalhos
significativos foram produzidos no contexto da Geografia Radical.
Andrade (1987, p. 122) afirma que, na Geografia Crítica, en-
contram-se grandes subdivisões, como a corrente de geógrafos não-
marxistas, mas comprometidos com os problemas sociais; geógrafos
com formação anarquista que utilizam os discursos de Elisée Reclus
e Pietr Kropotkin nas críticas à sociedade burguesa; e geógrafos de
formação marxista, dando grande ênfase às formações econômicas
e aos modos de produção.
Já Garcia (1978 apud MAYER, 1988, p. 95), em estudos sobre a
Geografia Radical anglo-saxônica, apresenta quatro tendências.
1) Orientação anarquista, centralizada na Universidade de Si-
mon Fraser e na de Clark, nesta última salientando o trabalho
de Richard Peet. Esta linha remonta as origens aos trabalhos
de Peter Kropotkin e Elisée Reclus.
2) Orientação popular radical, que se caracteriza pelo contato di-
reto dos geógrafos com as populações das áreas e dos bairros
a ser investigados. O geógrafo participa e orienta a população
para solucionar problemas e traçar reivindicações. A obra de
Willian Bringe (1971) é exemplo desse tipo de procedimento.
3) Orientação para o Terceiro Mundo, exemplificada pelos traba-
lhos de J. M. Blaut (1973; 1975; 1976), destinada a propor
análises sobre o desenvolvimento e o imperialismo, entre vá-
rios outros temas.
4) Orientação marxista, que se baseia no estudo das obras de
Marx e Engels, na procura de fundamentos teóricos e na apli-
cação aos problemas socioeconômicos de expressão espacial.
Os trabalhos de David Harvey (1973; 1974; 1975; 1976) são
expressivos como exemplos dessa orientação.
Apesar de comumente se utilizar a expressão "Geografia Crí-
tica ou Radical", Vesentini (2007) esclarece que o termo, na sua
origem, foi criado ou ao menos identificado com a obra A geogra-
fia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra (de 1976),
de Yves Lacoste, e com a proposta da revista Hérodote. Alguns
anos antes, surgiu, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, a cha-
mada "Geografia Radical". Ela diferiu um pouco da Geografia
Crítica, pois esta se desenvolveu de forma um pouco mais aberta
e pluralista, demonstrando restrições ao marxismo ortodoxo. Já o
grande adversário da Geografia Radical era a Geografia Teórico-
Quantitativa. Nesse sentido, ela atuou de forma mais radical do
que a Geografia Crítica.
Yves Lacoste foi considerado o autor que formulou a crítica mais
severa à Geografia Tradicional no livro A geografia: isso serve, em
primeiro lugar, para fazer a guerra. Lacoste argumenta que há uma
"Geografia dos Estados-Maiores", que sempre existiu ligada à práti-
ca do poder, cuja função estratégica é conhecer o espaço para orga-
nizá-lo, a partir e a serviço dos interesses do Estado ou das grandes
empresas capitalistas. E que existe também uma "Geografia dos
Professores", a qual foi denominada de tradicional. Esta repassa para
os alunos, por meio dos conteúdos escolares, um saber inútil que
descreve lugares, enumera informações, sem lhes dar o significado
que realmente têm. O estudo da Geografia na escola, nessa pers-
pectiva, atua mais para obscurecer o valor estratégico de saber pen-
sar o espaço geográfico e para encobrir os interesses da "Geografia
dos Estados-Maiores". A "Geografia dos Professores" contribui para
levantar, de forma camuflada, dados para a "Geografia dos Estados-
Maiores" (MORAES, 1987, p. 114).
Outro autor que recebeu reconhecimento internacional foi Mil-
ton Santos. Preocupado em dar à Geografia Contemporânea um
instrumental teórico-metodológico capaz de realizar uma leitura
crítica do mundo, ele perseguiu, de forma obstinada, a construção
e reconstrução de conceitos e categorias analíticas para a Geografia.
Foi um geógrafo comprometido com uma visão totalizadora e di-
nâmica das transformações da sociedade. Nos trabalhos, apresenta
uma visão crítica da sociedade capitalista.
Na obra Por uma geografia nova, ele expressa uma proposta
geral para o estudo geográfico, sendo, assim, um livro de conteú-
do normativo. Ele tenta responder à questão primordial: o que é
Geografia? e argumenta que é necessário discutir o espaço social e
ver a produção do espaço social como o objeto. O espaço social, objeto
da Geografia, é histórico, obra do trabalho e morada do homem.
Ele é um fato social, um produto da ação humana, que pode
ser explicado pela produção. O espaço social é uma natureza
socializada, resultado de uma acumulação de trabalho, uma in-
corporação de capital na superfície terrestre. Santos afirma que a
organização do espaço geográfico é determinada pela tecnologia,
pela cultura e pela organização social da sociedade. No capita-
lismo, a organização espacial é imposta pelo ritmo da acumula-
ção capitalista, criando espaços geográficos diferenciados, mas
interligados. O Estado e o capital escolhem áreas, estabelecem
uma divisão territorial do trabalho, impõem uma hierarquização
dos lugares, pela dotação diferenciada dos equipamentos. O Es-
tado é o agente de transformação, de difusão e de dotação e, no
contexto atual, obedece à lógica dos interesses do capitalismo
(MORAES, 1987, p. 122-125).
Sposito (2004, p. 88) explica que Milton Santos (1985):
{...} afirma que o espaço deve ser estudado por meio de quatro
categorias: forma é o "aspecto visível de uma coisa", "o arranjo
ordenado de objetos", um padrão; função "sugere uma tarefa
ou atividade esperada de uma forma, pessoa, instituição ou
coisa"; estrutura "implica a inter-relação de todas as partes de
um todo, o modo de organização da construção" eprocesso, que
"pode ser definido como uma ação contínua, desenvolvendo-
se em direção a um resultado qualquer, implicando conceitos
de tempo (continuidade) e mudança".
Nesse sentido, esclarece Santos (1985, p. 52):
Forma, função, estrutura e processo são quatro termos disjun-
tivos, mas associados, a empregar segundo um contexto do
mundo de todo dia. Tomados individualmente representam
apenas realidades parciais, limitadas, do mundo. Considerados
em conjunto, porém, e relacionados entre si, eles constróem
uma base teórica e metodológica a partir da qual podemos
discutir os fenômenos espaciais em. totalidade.
Segundo Gomes (1991, p. 71):
Ao lado de Milton Santos em sua busca epistemológica de cons-
trução de uma "Geografia renovada", que se paute pela "dialética
{...}", estão outros geógrafos de vanguarda, tais como Ruy Mo-
reira, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Antônio Carlos Robert
Morais, Armando Correia da Silva etc, que são unânimes em
colocar como preocupação central a questão da reconstrução da
ciência geográfica, a partir de seu objeto — o espaço social {...}.
São diversas as obras produzidas, relacionadas com a Geografia
Crítica ou Radical. Entre elas, pode-se destacar: Geografia da fome,
de Josué de Castro; Geografia do subdesenvolvimento, de Y Lacoste;
Sociologia e geografia, de P. George; Geografia e dialética, de R. Gu-
glielmo; Geografia e ideologia, de J. Anderson; Marxismo e Geografia,
de Massimo Quaine.
A Geografia Crítica é uma frente que reúne diversos grupos e
orientações, mas todos assumem uma perspectiva de transforma-
ção da ordem social, uma sociedade mais justa e solidária, uma
Geografia Solidária que trabalhe por justiça social, considerando a
sociedade-natureza, tendo como principal fundamentação teórico-
metodológica a Dialética Materialista.
Geogr af i a: Soci edade-Natureza
C A P Í T U L O s e i s
Considerando a Geografia uma ciência que estuda
o espaço, no contexto da relação sociedade-natureza,
sendo este espaço formado por elementos artificiais e
naturais, os que estudam tal campo de conhecimento
sabem da dificuldade de "fazer Geografia" e "ensinar
Geografia", já que é uma ciência que trabalha com
fenômenos naturais e humanos.
Foi dito, em capítulos anteriores, que, no decorrer de
milhares de anos, florestas foram substituídas por cam-
pos de cultivos ou cidades, estradas foram construídas,
rios foram desviados do curso etc, ou seja, o homem
transformando a natureza e também sofrendo a ação
dela. Ao transformar a natureza, por meio do trabalho,
o homem começou a produzir alimentos, ferramentas,
habitações, estradas etc, ou melhor, começou a pro-
duzir o espaço geográfico. Esse espaço produzido pelo
homem apresenta-se como uma segunda natureza, uma
natureza social, humanizada. Assim, há a primeira natu-
reza, aquela que foi e é produzida sem a ação humana (rios, florestas,
montanhas etc); e a segunda natureza, aquela produzida pela ação do ho-
mem (cidades, agricultura, estradas, instrumentos de trabalho etc).
A história da natureza é anterior à história do homem, mas o
homem faz parte da história da natureza, pois ele não deixou de ser
natureza, todavia, buscou transformar a natureza natural em na-
tureza social. Isto é, ao se apropriar da primeira natureza, o homem
tem buscado transformá-la para atender a suas necessidades, numa
segunda natureza. Portanto, pode-se afirmar que "a história da huma-
nidade é a continuação da história da natureza. Essa interação dialé-
tica justifica o aspecto existencial e leva a pensar o homem como um
ser natural, devendo-se, contudo, entendê-lo, primeiramente, como
um ser social" (CASSETI, 1995, p. 13). Os animais conhecem as
coisas; já o homem, além de conhecê-las, investiga suas causas. Os
animais só conhecem por via sensorial; enquanto o homem conhece
e pensa, elabora o material do conhecimento (RUIZ, 1996, p. 90).
É pela apropriação e transformação da natureza que o homem
produz os recursos necessários para a sobrevivência, pois, desde
o surgimento da humanidade, a natureza sempre foi um recurso
para a existência do homem. E o grau de exploração tem acom-
panhado o grau de desenvolvimento da humanidade. Visto que
"quanto mais a sociedade se desenvolve, mais ela transforma o
meio geográfico pelo trabalho produtivo social, acumulando nele
novas propriedades. [...} Assim, o trabalho é visto como media-
dor universal na relação do homem com a natureza" (CASSETI,
1995, p. 13).
Se o espaço geográfico contextualiza-se na relação sociedade-
natureza, é por meio do trabalho que o homem se apropria e trans-
forma a natureza. Também é por intermédio do trabalho que os
homens se relacionam no processo de produção, pois:
As relações de produção são na essência relações estabelecidas
entre os homens no processo de produção social. São, portanto,
relações sociais de produção. Essas relações são a essência do
processo produtivo. Elas são estabelecidas independentemen-
te da vontade individual de cada um no processo de produção.
Os níveis de desenvolvimento dessas relações dependem do
grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais da
sociedade (OLIVEIRA, 1987, p. 59).
A produção do espaço geográfico, sob as relações capitalistas de
produção, tem originado espaços desiguais e inter-relacionados, de-
correntes, principalmente, da ação do Estado e do capital, que cria
espaços com níveis diferenciados de desenvolvimento. É possível
encontrar, no espaço geográfico, países, regiões, lugares com níveis
distintos de desenvolvimento.
É importante ressaltar que o espaço geográfico não é só resulta-
do da produção social, como também da ação da natureza, trans-
formando esse espaço. Assim, tem-se um espaço historicamente
resultante da dialética sociedade-natureza. O espaço geográfico é
construído e reconstruído na relação sociedade-natureza.
Todavia, como a sociedade sob a égide do capitalismo está divi-
dida em classes sociais, a apropriação e a transformação da natu-
reza ocorrem de forma desigual, criando a desigualdade entre os
indivíduos, visto que:
As relações capitalistas de produção são relações baseadas
no processo de separação dos trabalhadores dos meios de
produção, ou seja, os trabalhadores devem aparecer no
mercado como trabalhadores livres de toda a propriedade,
exceto de sua própria força de trabalho. Devem estar livres
de todos os meios de produção. Esse processo, chamado
pela ideologia capitalista de liberdade, assenta no proces-
so de apropriação dos meios de produção dos trabalhado-
res, ocorrido em período histórico imediatamente anterior
(OLIVEIRA, 1987, p. 59-60).
Mas convém destacar que não foi o capitalismo que criou as de-
sigualdades econômicas entre os indivíduos, pois essa condição tem
origem em tempos pretéritos, de modos de produção anteriores ao
capitalismo.
Outro fato a ressaltar, de grande relevância, é que o espaço geo-
gráfico é desigual não só por fatores econômicos, como também
naturais, sociais, culturais e tecnológicos.
Portanto, conforme afirma Andrade (1987, p. 14-15):
[...] no processo de produção e de reprodução do espaço, cada
formação econômico-social procura organizar o espaço à sua
maneira, ao seu modo, de acordo com interesses do grupo do-
minante e de acordo também com as suas disponibilidades
de técnica e capital. Daí uma área territorial com as mesmas
características apresentar formas de utilização do espaço di-
ferentes, se dividida entre países que optaram por sistemas
econômicos diferentes, ou se for dividida por fronteiras que
separam países com elevados desníveis de desenvolvimento.
Na contemporaneidade, o espaço geográfico apresenta-se cada
vez mais complexo, o que pode ser observado no seguinte texto de
Aranha (1996, p. 234-235):
[...] está marcado pela ênfase na ciência e na tecnologia, que
vêm transformando rapidamente os usos e costumes dos habi-
tantes de todo o globo terrestre. Dentre as conquistas tecnoló-
gicas, destacam-se os transportes ultra-rápidos, a automação,
a comunicação eletrônica. Aviões, rádio, televisão, fax, satéli-
tes e a rede cada vez mais expandida da Internet subvertem o
espaço e o tempo do homem contemporâneo, aproximando os
povos e alterando a maneira de pensar e trabalhar.
No âmbito dos negócios, essas facilidades desencadeiam a glo-
balização da economia. O fortalecimento das multinacionais,
por sua vez, paulatinamente enfraquece a capacidade de os
Estados nacionais interferirem na gestão dos negócios.
A explosão dos negócios mundiais, acompanhada pelo avan-
ço tecnológico da crescente robotização e automação das em-
presas, nos faz antever profundas modificações no trabalho e,
conseqüentemente, na educação. Só para antecipar algumas: a
automação e informatização tem provocado o aumento do se-
tor de serviços (terciário), entrando no mundo pós-indústria;
na indústria (setor secundário), a flexibilização do trabalho dis-
tancia a rigidez da linha de montagem do fordismo, porque as
atividades mecânicas e repetitivas vão se tornando função das
máquinas robotizadas. Essas alterações levam à superação da
dicotomia entre as fases de planejamento e execução, ao exigir
um trabalhador polivalente, de maior atividade intelectual,
capacidade de iniciativa e adaptação rápida às mudanças.
Pelo mesmo motivo da automação, há o aumento do desemprego,
a redução do tempo de trabalho e o conseqüente tempo livre.
Outra conseqüência da comunicação eletrônica é a cultura da
informação, com todas as suas vantagens e prejuízos. O volume
de informações veiculado pelos meios de comunicação de massa
amplia os horizontes e até ajuda a superar estereótipos. Por ou-
tro lado pode, negativamente, homogeneizar e descaracterizar
culturas tradicionais, bem como alienar e massificar, quando
predomina o consumo passivo da informação sem crítica.
Além disso, vivemos em uma época que privilegia a imagem,
e os meios audiovisuais nos bombardeiam o tempo todo com
figuras atraentes e fragmentárias. O signo verbal escrito
cede lugar ao simulacro, ou seja, pode-se mesmo dizer que as
imagens espetacularizam a vida, à medida que simulam o real
com formas hiper-reais, convertendo as pessoas em especta-
dores de um shoiv permanente. A universalização da imagem
não se restringe ao mundo do lazer e do entretenimento,
mas dá origem a uma outra forma de pensar, distante do
saber tradicional, em que as informações derivam mais da
transmissão oral ou escrita.
A explosão demográfica e a crescente urbanização são outros
fatores que desencadeiam transformações nos estilos de vida
do homem contemporâneo e alteram suas expectativas de
educação. A grande massa urbana se amontoa para assistir aos
sbows de música, aos jogos esportivos ou ainda às grandes ceri-
mônias religiosas. No extremo oposto dessas aglomerações, os
indivíduos atomizados em suas casas recebem de forma solitá-
ria as informações divulgadas pela mídia.
Os acontecimentos descritos têm deixado o homem contempo-
râneo perplexo a respeito de seus valores e das categorias que
utiliza para compreender o mundo e a si mesmo, alterando-lhe
de forma contundente as maneiras de pensar, sentir e agir.
Texto: A educação no terceiro milênio
Vivemos em um espaço geográfico sempre em mudança, já que
ele é produzido pela dinâmica da sociedade-natureza.
Nas últimas décadas, a internacionalização do capitalismo conti-
nua a se intensificar, contribuindo para o processo da globalização.
E tem provocado a concentração de riqueza, aumentando as dife-
renças entre países ricos e pobres e, no interior de cada um deles,
entre as regiões, os lugares e as classes.
No processo de globalização, a formação de grandes corpora-
ções capitalistas domina a economia mundial sob a ideologia neo-
liberal; na prática, as grandes empresas têm entrado num processo
de fusão, formando grandes corporações e dominando os mercados
mundiais.
A ideologia neoliberal atinge o Estado, forçando-o a reduzir
a intervenção na economia, enxugar os gastos públicos e acabar
com a burocratização. Pode-se perceber, portanto, a redução dos
investimentos em saúde, educação e segurança e a diminuição
de contratação de funcionários públicos na maioria dos países do
mundo. Ocorre, também, a saída do Estado do setor energético,
mineral, telecomunicações etc.
A automatização e robotização industrial têm acelerado o pro-
cesso de fabricação, com o aumento e a diversificação da produção.
Busca-se a produção em pequenos lotes, de acordo com a demanda
do mercado, a redução do tempo de giro na produção e a do tem-
po de vida do produto. Ao mesmo tempo, isso tem provocado o
desemprego, o crescimento do mercado informal, a terceirização e
o surgimento de novas profissões com educação continuada. Neste
caso, a empresa, o Estado ou o próprio trabalhador ficam responsá-
veis pelos custos com a educação.
A contemporaneidade vivência a formação de Grandes Blocos
Econômicos Regionais e a fragmentação de países, com o surgi-
mento de novos Estados. Há o ressurgimento ou a queda de ideo-
logias; o nacionalismo; as guerras locais e o terrorismo.
Há a corrupção econômica e política; a adoração ao corpo e a
ídolos; os sonhos das novelas, filmes e propagandas, dominados
pelos meios de comunicação, que alienam os indivíduos nas habi-
tações. As relações pessoais, as informações, as mercadorias viven-
ciam o efêmero, o fugaz.
Na contemporaneidade ocorre, também, o problema da fome,
do favelamento, dos "bolsões de misérias", do ressurgimento de
antigas doenças e do aparecimento de novas, de epidemias, dos
sem-teto e dos sem-terra, da miséria.
Há o tráfico de seres humanos, de drogas e de armas. A violência
armada é um fato cotidiano em diversos países do mundo, atingin-
do a população civil, principalmente, crianças, mulheres e idosos.
Temos, ainda, problemas ambientais, como: escassez e poluição
das águas; efeito estufa, com o aquecimento global; desertificação;
desmatamento; salinização do solo etc. Os problemas ambientais
ganham abrangência mundial, e governantes, cientistas e socieda-
de buscam soluções para a problemática.
Outro fato é que o ser humano tem deixado de procurar o "ser" e
tem buscado o "ter": as mercadorias valem mais que o ser humano.
Também, novos temas são trabalhados na Geografia, como: re-
des; meio-técnico-científico-internacional; ciberespaço; objetos-in-
tencionalidades etc.
Vemos, então, que, há diversas mudanças no mundo - assuntos
e fenômenos de interesse da ciência geográfica que ocorrem e trans-
formam o espaço geográfico.
Pode-se dizer que aqueles que "fazem Geografia" têm uma mis-
são a realizar: não somente tentar compreender o mundo, como,
também buscar soluções para os diversos problemas, sejam eles so-
ciais, sejam ambientais. É necessário o compromisso do profissional
de Geografia que abraça esse campo do conhecimento.
É preciso lembrar que não há a neutralidade política nem chega-
mos ao fim das ideologias; cabe ao geógrafo, como educador e pes-
quisador, ficar atento e se manter numa postura crítica em relação
ao "saber geográfico", como ele é produzido e para quem vai servir,
o vínculo com as relações de poder e de classes.
Hoje, pode-se dizer que o desenvolvimento da ciência geográfica
passou por diferentes momentos, gerando reflexões distintas acerca
dos objetos e métodos do fazer geográfico. De certa forma, as refle-
xões influenciaram e ainda influenciam o pensamento geográfico
da atualidade.
Verificando-se a história do pensamento geográfico, poderá ser
constatado um conjunto de categorias fundamentais que contri-
buíram para a formação da ciência geográfica e do entendimento
do espaço geográfico, como: lugar, território, região, paisagem e
espaço, sendo esta última a mais abrangente.
Na contemporaneidade, faz-se necessário, então, refletir sobre
como os geógrafos conceberam e, atualmente, concebem as cate-
gorias fundamentais e as utilizam para a compreensão e transfor-
mação do mundo. Cada uma delas recebe maior ou menor impor-
tância ou enfoque, conforme os vários "fazeres geográficos", como:
Geografia Crítica (Dialética Materialista); Geografia da Percepção e
Comportamento, ou melhor, Geografia da Percepção; Geografia Huma-
nística; Geografia Cultural; Geografia Histórica (fundamentando-se,
principalmente, na Fenomenologia); Geografia Teórico-Quantitativa
(Neopositivismo); Geografia Ecológica. E, também, das Geografias
que poderão surgir na nova dinâmica sociedade-natureza da con-
temporaneidade.
Enfim, tentou-se aqui, neste livro, contar uma pequena histó-
ria do pensamento geográfico, enfocando a importância da ciência
geográfica na compreensão da sociedade-natureza, categorias, "es-
colas", "correntes", métodos e objetos.
A Geografia, como os outros campos de conhecimento, é uma
ciência dinâmica; e suas categorias fundamentais são também dinâ-
micas: paisagem, lugar, região, território e espaço.
Muitos trabalhos têm sido elaborados sob novos enfoques no
campo da Geografia, produzindo novos saberes, possibilitando o
avanço da Ciência Geográfica.
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