Você está na página 1de 2

Já não se fazem mais bancos

como antigamente
Lucas Camargo, Alteza, isso é uma baixeza!

- Moço eu precisava de um dinheirinho emprestado. Será que o seu banco me arranja?


- Depende, cavalheiro. Há certas formalidades prévias. Por exemplo, o senhor já tem
cadastro aqui no banco?
- Se eu tenho o quê? Padrasto? Um padrinho,uma espécie de pistolão?
- Que está o senhor querendo insinuar? Perguntei apenas se foi feita a sua ficha aqui.
- Ah. Ficha. Sei. Não, aqui no banco não. Mas, no mês passado,quando fui operado de
Hérnia, lá no hospital me fizeram uma ficha bonita, toda cheia de gráficos, nome de
remédios e números. No último dia, aproveitando uma distração da enfermeira, passei a
mão nela (“na ficha”) e levei-a para casa, de lembrança. Será que o senhor não podia
aproveitar aqui essa ficha do hospital, para a gente ganhar tempo em vez de fazer outra
nova? Além disso, eu não estou doente agora, não teria assunto para outra ficha...
- Não precisamos saber de suas doenças. O que nos interessa é sua situação financeira.
Por exemplo, qual é seu patrimônio liquido?
- Olha, moço, pra falar a verdade, vou dizer uma coisa pro senhor: quase todo meu
patrimônio é solido: terras, casas, máquinas e uns boizinhos. Mas se o senhor faz
questão de patrimônio líquido, acho que podemos incluir nessa categoria a represa da
fazenda e alguns garrafões de pinga que eu tenho guardado, do tempo em que meu
engenho ainda funcionava. É das boas, das amarelinhas, ta?
- O senhor já operou em algum banco da praça?
- Mas isto aqui é um banco ou um hospital? O senhor só me fala em ficha, em
operação...Claro que eu nunca operei. Não sou medico, sou fazendeiro. Só se a gente for
considerar operação às vezes em que capei meus leitões ou cortei os cascos de umas
vacas que estavam com manqueira. Porém, mesmos nestes casos, eu operei lá no curral
mesmo. Tinha graça eu levar meus bichos para operar num banco da praça bem em
frente à Matriz!
- Não se trata disso. Eu preciso saber se você já foi mutuário de nossas carteiras?
- Que negocio é esse? Então o senhor está me achando com cara de camelô para ser
mostruário de carteira?
- Mostruário não. Eu disse “mutuário”. Em qual das nossas carteiras você já tem
experiência?
- Essa agora! Em vez de camelô, o senhor pensa que sou batedor de carteiras e que até
tenho experiência em carteiras do pessoal do banco?
- Está difícil fazer-me compreender pelo senhor. Mas pelo que deduzi de nossa conversa,
o senhor está necessitando de capital de giro.
- Eu lá quero saber de giro pela capital, moço! Estou muito bem aqui no interior. Não
quero girar coisa nenhuma. O que eu disse logo no começo e repito agora é isto: eu
preciso de um dinheirinho emprestado. Só.
- Justamente o que eu falei: o senhor quer levantar um numerário.
- Eu não quero levantar nada. Não posso: depois de minha operação de hérnia, o médico
me proibiu de fazer qualquer esforço, quanto mais eu levantar esse tal de numerário, que
eu nem sei quanto pesa! Eu preciso é de dinheiro.
- Em qual modalidade de financiamento o senhor quer se enquadrar? Finame, Fundipra,
PASEP, PIS, Funrural, Resolução 71,Lei 4.113, Fibep, Firun, Firex...
- Moço, pelo amor de Deus: como é que se diz “um dinheirinho emprestado” aí nessa
língua que o senhor está falando? É só isso que eu quero. Por favor, não complique as
coisas, que eu fico maluco.
- Há um pormenor. Para que o banco lhe empreste dinheiro, é preciso que o senhor
retribua com reciprocidade.
- Reproqui... o quê?
- Reciprocidade. É preciso que o senhor mantenha depositado aqui no banco um saldo
compatível com o volume de financiamento pretendido.
- Mas... peraí: se eu estou precisando de dinheiro, como é que eu vou arranjar algum pra
depositar no seu banco? Afinal, é o banco que vai me emprestar dinheiro ou sou eu que
vou emprestar dinheiro pra ele? Moço, vou fazer uma coisa: volto para a fazenda e mando
meu filho mais velho conversar com o senhor. A gente não consegue se entender. O
senhor usa esse palavreado complicado, moderno, que deve ser igual ao jeito de falar dos
ripes, dos playboys, e eu ainda falo a língua que se usava no tempo de Uóchito Luis. O
mundo ta ficando muito complicado para mim. Deve ser por causa dos foguetes, dos
cometas, da bomba atômica. Ta na hora de deixar o comando dos negócios para a nova
geração. Amanhã meu filho passa aqui.
- Se o senhor prefere assim...
- É. É melhor assim. Adeus, moço. Desculpe-me por não ter compreendido o senhor.
Quando tiver tempo dê uma chegadinha ate a minha fazenda, para experimentar uns
goles do meu “patrimônio líquido” garanto que na terceira dose a gente vai estar se
entendendo perfeitamente.