As Danças e o Folclore Alemão

Denise Quitzau Kleine

As danças fazem parte da vida do homem desde os tempos mais remotos. Os registros iconográficos, documentos históricos, crônicas e cartas nos mostram a presença da dança desde a Antiguidade até os dias atuais. No entanto, na medida em que a história caminha as relações sociais e também as religiosas se alteram, e o papel da danças dentro das sociedades, por conseguinte, também se altera.

Dentre os povos germânicos reconhecemos, através de relatos de época, a existência de danças, mas não é possível chamá-las de “danças alemãs”, como designativas de manifestações típicas de um povo alemão. Trata-se de danças e ritos praticados entre os povos germânicos, de fora das fronteiras do Império Romano.

No que concerne a essas danças na Antiguidade, Tácito observou a prática entre os povos germânicos de um jogo muito difundido e divertido, no qual jovens desnudos moviam-se com suas espadas e lanças e através do qual poderiam desenvolver suas habilidades1. A “Dança das Espadas” relatada por Tácito dá conta apenas do aspecto bélico dos movimentos, sem levar em consideração, por exemplo, a sua relação com as divindades pagãs ou mesmo com a chegada da primavera. Este tipo de dança foi a base das danças medievais e práticas populares e foi tão difundida que adentrou a Idade Média até o século XIX tendo sido praticada no período medieval pelos membros das corporações de ofício de artesãos que lidavam com a fundição de

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BÖHME, Franz M. Geschichte des Tanzes in Deutschland. Hildesheim: Georg Olms AG, 1996, p. 6 – 8.

Mainz: Schott. Com o passar do tempo. em círculos ornamentados com coroas de flores. 1985. restringindo esse típico de prática às camadas populares da população. 16 – 17.. Cit. ato considerado por eles como uma “vergonhosa depravação”3. os antigos mártires e santos passaram a ser festejados em festas com danças dentro das corporações de ofícios das quais eram padroeiros. Gesellschafts-. Anfängen bis Gegenwart mit Bibliogr. separando homens e mulheres em rodas diferentes: ao invés de celebrarem os seus antigos deuses os novos cristãos celebravam pela dança os mártires do cristianismo.u. Os romanos celebravam seu deus Baco com música e danças. as danças ainda fizeram parte do universo cristão. também. Inicialmente. a dança foi progressivamente separada do espaço da celebração litúrgica. Op. Notenbeispielen. . Kunsttanz von d. Além das Danças das Espadas (Schwerttanz) na Antiguidade havia. Volks. danças para celebração dos cultos e das divindades pagãs. no entanto. No entanto. além de danças de casamentos e de sepultamentos – não havia nenhuma adoração aos deuses sem que houvesse dança e sem que houvesse uma cerimônia festiva. Com o surgimento e a consolidação do cristianismo. os papas Gregório III (731) e Zacarias (741) assinaram decretos determinando a proibição das danças nas Igrejas. Otto. encontramos ainda resquícios da dança em algumas partes da Alemanha e da Áustria2. separando as festas do gênero dos espaços das camadas nobres da sociedade. p. ou faziam danças circulares de caráter meditativo. como os ferreiros. u.metal e a confecção de armas e ferramentas. 2 SCHNEIDER. danças de sacrifícios. 3 BÖHME. Embora seu significado e seu sentido originais tenham se perdido. Wien: Hollinek. tendo seu caráter pagão sido adaptado para o caráter cristão: os dançarinos se movimentavam em forma de procissão em direção ao túmulo dos mártires. Tanzlexicon d.

as figuras e a música. variando. mas tem papel importante na intermediação entre o mundo mortal. e os batuques e a música são a chave de acesso que abre a porta para o mundo espiritual. A dança é a ferramenta. visível e o mundo dos espíritos. Cit. na Espanha. A construção nas cidades do Maibaum e a “Dança das Fitas” (Bändertanz) têm suas origens nas práticas milenares pagãs. concreto. A “Dança das Fitas”. A dança e seus movimentos funcionavam – e até hoje funcionam em algumas celebrações religiosas – como chave de acesso. habitado pelos deuses e entidades espirituais.o ponto alto da dança é o trançado de fitas. XVI. com a elevação dos mastros em forma fálica como relação com a espera pela fecundidade da terra4. no caso alemão. por exemplo. bem como a cristianização de algumas práticas pagãs não significam que na prática cotidiana das pessoas elas tenham sido abandonadas por completo. . na Itália. onde é conhecida pelo nome de “Tipiti” ou “Dança do Sol” . Esta dança deixou seus resquícios em vários países europeus. uma diferenciação da dança entre as regiões da Pomerânia e da Baviera. 4 SCHNEIDER Op. porém. ornamentado com flores e fitas em celebração pela chegada da primavera. e o mundo concreto. Percebemos que inicialmente a dança não tem apenas uma função lúdica. ocorrendo inclusive. onde encontramos registros no século XV. de ligação entre o mundo mágico. como no Rio Grande do Sul e no Amazonas. França e regiões alpinas da Áustria e da Alemanha. A imigração européia para o Brasil também trouxe para o nosso país a influência do pau-de-fitas e por isso encontramos no folclore de vários estados a dança das fitas.A proibição das danças por parte da Igreja. XVIII e XIX na Inglaterra. místico. já é conhecida desde o século XIII e é apresentada em torno de um mastro com vários metros de altura.

São Paulo: Companhia das Letras. In: KLOTSCHE. a existência de uma diferenciação entre danças dos camponeses – que segundo o senso comum seriam a origem da dança folclórica -. Volker (Hsg.. Hannover: Deutscher Bundesverband Tanz e. Gomme descreve o folclore da seguinte forma: “Muitas vezes em antagonismo claro com relação aos costumes aceitos. associadas inicialmente a danças camponesas. Segundo Thompson6. Percebe-se através da literatura de época. somente por volta do século XIX é que se começa a cunhar e utilizar o termo “dança folclórica alemã” para caracterizar o conjunto de danças típicas. pelo menos até o século XVIII. Costumes em Comum. 16.. Esses costumes.] Devem sua preservação em parte ao fato de que grandes massas SCHAUER. 6 THOMPSON. (Informationen zum Tanz Heft 22). E. denominadas “danças de sociedade” ou Gesellschaftstanz. e as danças dos citadinos.V.P. 1994. portanto este conceito é construído no século XIX.) Der Tanz in der 1. p. ou no caso alemão. os ritos e as crenças do Estado ou da nação a que pertenciam o povo ou certos grupos populares. Hälfte des 20. Jahrhunderts: Volkstanz-Jugendtanz..Embora as danças estejam presentes na vida humana desde a Antiguidade em maior ou menor grau. Antes disso. não há registros na literatura de época que use o termo dança folclórica. os registros de época que as descrevem não utilizam ainda o termo “dança folclórica”. p. 5 . “Anfänge des Laientanzes von der Jahrhundertwende bis 1918”. Eberhard. dança folclórica alemã. 9-19. no entanto. Segundo Schauer5. Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional.L. ritos e crenças são mantidos pela tradição [. a partir dos séculos XVIII e XIX teria havido uma dissociação entre cultura da plebe e cultura patrícia. 2005 (2ª reimpressão). O folclorista G.

“Soziales Umfeld. (Informationen zum Tanz Heft 22).populares não participam da civilização que se ergue acima deles e que nunca é criação sua. Sobre o movimento jovem consultar KLOTZSCHE. que o termo “Volkstanz” passa a ser empregado para descrever danças que pertenceriam a um povo. (Brochura).V. Remscheid: Deutscher Bundesvarband Tanz e. portanto. P. danças características do sul da Alemanha. Não sei se podemos fazer tal relação. tinha uma visão romântica e aspiração por uma vida mais simples ganhou maior fôlego após a I Guerra Mundial. mas talvez a preocupação em se determinar o que é característica do povo. “Volkstanz – Jugendtanz?”. como parte constituinte de sua identidade. onde foi responsável pela recuperação e pelos registros de danças folclóricas e das antigas tradições populares8.). Jahrhunderts. o Rheinländer e o Ländler. especialmente nas cidades de Hamburgo e Berlim. IN: KLOTZSCHE. Volkhard. a uma nação. a primeira dança que é considerada como “dança alemã” é a valsa. Hälfte des 20. Deutsche Volks. já na região norte. sua cultura e suas práticas possa ser relacionada com o contexto de construção e ensaio para a unidade política que se alcançou ao final do século. idem. Walter (org. bem como para a construção de uma identidade nacional. É a partir do século XIX.”7 Dessa forma. Berlin: 1984.. . Segundo vários textos do século XIX.und Jugendtänze. as quadrilhas – danças 7 8 Apud THOMPSON. essas danças e práticas populares eram transmitidas pela tradição e pela oralidade. constituindo parte daquilo que o povo reconhece como sua própria característica. Walter. de geração a geração e no interior da própria comunidade. Volkstanz – Jugendtanz. Grundtendenzen der Jugendbewegung“. ou Movimento Jovem: o movimento jovem. tanto em sua forma original como em suas variáveis como a mazurca. embora tenha sua origem no final do século XIX. 16. 1994 e JÄHNERT. Der Tanz in der 1. Acredito que essa perspectiva possa ser reforçada se analisarmos o surgimento de um movimento chamado de Jugendbewegung.

na Alemanha. Segundo Oetke9. Recebe o nome de contradança toda dança na qual os participantes estão em uma posição de quadrado ou em duas filas opostas.para quatro pares – são consideradas as danças típicas da região. no entanto. Mas qual a relação entre a discussão sobre a origem das danças folclóricas e o Brasil? A partir de 1824 o Brasil vivenciou um processo organizado de fomentação de imigração alemã para o nosso país que experimentou variações tanto na sua forma como na instalação dos imigrantes aqui: conhecemos desde as colônias imperiais até as colônias particulares e o sistema de parceria 9 OETKE. A partir do século XVIII. Berlin: Henschenverlag Kunst und Geschichte. se analisarmos atualmente as características regionais das danças folclóricas alemãs. os termos “contradança” e a “quadrilha” passaram a designar danças para quatro pares. . por volta do ano de 1750 a chamada contradança adentrou a Alemanha primeiramente pela região sul. Herbert. 1982. As contradanças remontam em suas raízes à esfera das rodas de espadas entre os povos celta-germânicos e são encontradas sob diferentes formas desde o século XVII (como danças populares ou como danças de sociedade) adentrando o século XX. De fato. Der deutsche Volkstänze. como os da valsa. percebemos que as danças do sul são marcadamente para vários pares em círculo e os compassos são ternários. que apesar dessa espécie de característica regional isso não significa que as danças não tenham sofrido influência de outras culturas e outros países vizinhos. enquanto que o termo Anglaise passou a designar contradanças em duas filas. É interessante notarmos. chegando mais tarde também à região norte – no norte do país havia registros da presença da antiga contradança inglesa desde o século XVIII. enquanto que na porção centro-norte da Alemanha predominam as quadrilhas para quatro pares. Band I.

constitui o patrimônio comum da humanidade e deve 10 CARVALHO. os imigrantes alemães chegam como um elemento contribuinte para a formação da nossa nação. . de inovação e de criatividade. São Paulo: Companhia das Letras. tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. Fonte de intercâmbios. “A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. O Imaginário da República no Brasil. refletindo-se na literatura e acompanhando a ascensão da República. perpassou o Império (com períodos de maior e de menor atenção). Segundo o historiador José Murilo de Carvalho10. conhecemos. Essa preocupação tem sua origem já após a independência. Neste contexto de construção da identidade nacional brasileira. sua nacionalidade.posto em prática pelos cafeicultores – em especial pelo Senador Nicolau de Campos Vergueiro – no estado de São Paulo. brasileiros. Essa chegada ocorre num contexto peculiar no qual o próprio país receptor está discutindo e querendo construir sua identidade nacional. questões mais urgentes de manutenção da unidade da nação sempre ocuparam a pauta do Império. Essa diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Nesse sentido. a diversidade cultural é. como mais um elemento agregado ao mosaico que representa a cultura brasileira e responsável pela pluralidade de manifestações culturais que nós. 1990. de forma que a discussão acerca da formação da nação e da definição da cidadania e de identidade brasileira é resgatada ao final desse período. para o gênero humano. A Formação das Almas. José Murilo de.

Faziam parte dos eventos das comunidades festas como os encontros de corais. puderam ser postas em prática. mas também evoluiu. de canto. por exemplo.”11 Dentro de sua parca bagagem em direção ao Brasil. as danças que hoje reconhecemos e nomeamos como folclóricas eram dançadas pelos participantes da festa.pdf (acesso em 12/04/2009). A literatura acerca das colônias alemãs destaca o caráter associativo desses imigrantes que se reuniam em torno de sociedades escolares. junto com suas esperanças de uma vida melhor para sua família e seus filhos.ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras.org/images/0012/001271/127160por. 11 Cultural [2002]. Estas manifestações culturais eram reproduzidas inicialmente no Brasil como aconteciam em suas localidades de origem. torneios de tiro e o Kerb. Registros dessas festas nos mostram. isto é. nas quais eram realizados bailes. porém sem a consciência de que o que praticavam era o que chamamos de folclore. Nesses momentos. que a dança Herr Schmidt fazia parte deste repertório e era amplamente conhecida. agregando outras UNESCO. Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade http://unesdoc. praticadas pelos seus grupos sociais. O que gostaria de destacar é que os imigrantes que aqui chegaram dançavam danças que eram originalmente de sua terra. mas não as enxergavam sob a denominação de dança folclórica.unesco. O encontro da cultura imigrante com a nova terra promoveu a gestação de uma cultura chamada de teuto-brasileira que não se congelou no tempo. de tiro e de ginástica. o conjunto de manifestações sócio-culturais que identificam e caracterizam um grupo. os imigrantes trouxeram consigo suas manifestações culturais que. . após a instalação e consolidação das colônias.

Colônia Alemã: histórias e memórias. 2ª ed. Hoje. tradicional dança de abertura do baile. Se anteriormente assinalei a influência de outros ritmos e danças dentro da própria Alemanha. das mazurcas e das valsas. além das polcas. participamos da Polonaise. O professor Telmo Lauro Müller12 em sua obra sobre a memória das colônias alemãs no sul do Brasil percebe.influências às práticas das comunidades. percebe-se nas últimas duas décadas o MÜLLER. passaram a fazer parte dos repertórios dos bailes o tango argentino. a influência progressiva de outros ritmos dentro dos bailes organizados pelas comunidades. novas influências vão se inserindo e se mesclando também. ritmos típicos alemães. Gradualmente. Porto Alegre. podemos perceber o mesmo processo no interior das comunidades teuto-brasileiras. o twist. Na medida em que os descendentes de alemães vão se inserindo na sociedade brasileira. Telmo Lauro. o fox trott. além da dispersão dos jovens para fora de suas comunidades em busca de trabalho e de oportunidades de estudo. 12 . 1981. Embora as danças trazidas pelos imigrantes tenham lentamente desaparecido com o crescimento das comunidades e das cidades. além dos sucessos mais recentes nas rádios. Escola Superior de Teologia São Lourenço dos Brindes. o one-stepp e o rag-time. porém os membros mais antigos das comunidades têm uma pequena lembrança das antigas danças. Ele observa que aos poucos. ao participarmos de bailes promovidos em comunidades teuto-brasileiros. ao analisar os programas das festas das comunidades entre as décadas de 1910 e 1920 na região do Vale dos Sinos. anteriormente praticadas. mas também acompanhamos as bandas tocando os ritmos do Rio Grande do Sul. as antigas danças trazidas pelos imigrantes são deixadas de lado pelos novos ritmos e pelo encontro das culturas no Brasil.

É claro que há grupos fundados antes mesmo de 1980. promovidos . no Brasil o perfil etário dos grupos é majoritariamente inferior a 35 anos de idade. as danças folclóricas eram uma das disciplinas oferecidas pelos cursos de formação de lideranças para centros culturais. Antes disso. cursos de formação e qualificação para coordenadores de grupos de danças folclóricas alemãs no Brasil. e sim de grupos de projeção ou de danças folclóricas. quando a Federação das Colônias Alemãs no Brasil (FECAB) passou a organizar no espaço da Casa da Juventude. em Gramado / RS. no Brasil são realizados cursos e o repertório de danças apresentadas pelos grupos não se restringe a uma localidade alemã.surgimento e o desenvolvimento de um número muito significativo de grupos de danças folclóricas alemãs. Percebemos nesse período a gênese do processo de organização e multiplicação da dança folclórica alemã. Mas o que atrai os jovens nestes grupos? Temos percebido no nosso país um crescimento progressivo do número de grupos de danças folclóricas alemãs a partir da década de 1980. mas o maior crescimento dessa atividade se deu a partir dos anos 80. Se na Alemanha as danças e os cantos são aprendidos em vida comunitária. mas são escolhidas de acordo com o perfil do grupo e de acordo com o perfil do público que assistirá as apresentações. uma vez que reproduzem no Brasil danças e trajes da Alemanha num contexto diferente do alemão e com objetivos bastante distintos. Ao realizarmos uma comparação entre os perfis de grupos de danças folclóricas no Brasil e na Alemanha percebemos um elemento diferenciador bastante significativo: enquanto que na Europa o perfil etário dos grupos de danças folclóricas é formado por participantes entre 40 e 60 anos. Cabe observar que não se trata de grupos folclóricos.

Embora os primeiros cursos tenham sido realizados já na década de 1980. Progressivamente o número de pessoas interessadas em participar dos cursos aumentou e a partir da década de 1990 o movimento da dança folclórica alemã ganhou um impulso mais forte. . ainda.pela Associação Cultural Gramados na década de 1960. fomentando a formação de multiplicadores culturais nas suas comunidades de origem. na Casa da Juventude. que se caracterizou pela iniciativa destes grupos de fundarem um departamento de danças folclóricas alemãs. é apenas em 1992. no entanto. sede da Associação Cultural Gramado. a FECAB convidava um professor da Alemanha para ministrar um curso de folclóricas alemãs no Brasil. cuja função era centralizar o atendimento aos grupos de danças no nosso país. No início de suas atividades o departamento organizava apenas um curso anual. A cada ano. além destes dois cursos é realizado. figurando ao lado de outras disciplinas como a língua alemã. que o departamento de danças é criado e alocado em Gramado. organizar cursos para seus grupos filiados e funcionar como centro de referência na divulgação das danças alemãs no país e pelo rápido aumento do número de grupos de danças no Brasil. porém. no qual eram desenvolvidos simultaneamente repertório para grupos de adultos e também de crianças. a culinária e música. mais um curso destinado a participantes de grupos de danças formados por idosos. Atualmente. tornou-se necessária a realização de dois cursos anuais para coordenadores de grupos de danças alemãs formados por adultos e um curso para grupos formados por crianças. com o aumento da demanda.

além de Paraguai e Argentina. figurando ao lado de Rússia e Estados Unidos como as únicas seções da instituição fora da Alemanha. o departamento de danças conta com 243 instituições filiadas. além da promoção de círculos de pesquisa. Dentro do seu quadro de associados. A idéia dos seminários é a de fornecer ferramentas para que os participantes possam desenvolver atividades inclusivas e culturais em suas comunidades de origem. Para esses grupos são produzidas apostilas. que por sua vez se desdobram em vários outros grupos por conta das diferentes categorias etárias que têm como grupos de crianças.Durante os cursos de danças os participantes realizam diversas atividades que estão relacionadas direta e indiretamente com as danças e os grupos: além das aulas com os professores convidados. interpretam as descrições de danças (Tanzbeschreibung). Desde janeiro de 2008. jovens. casais e idosos. num montante que já ultrapassa 730 danças. realizam oficinas de música além de terem palestras sobre a história da imigração alemã para o Brasil e sobre o papel dos líderes dentro de seus grupos. Ela é responsável pela transcrição das descrições de danças para um alemão mais moderno. 13 . Rio de Janeiro. o departamento de danças folclóricas da Associação Cultural Gramado é a terceira seção do DGV (Deutsche Gesellschaft für Volkstanz13). Cds e DVDs com danças folclóricas ministradas em todos os seminários. São Paulo. os participantes realizam pesquisas sobre trajes. Minas Gerais. manutenção e multiplicação do folclore alemão. Oferecer repertórios de danças aos grupos filiados ao departamento de danças é a função mais óbvia desempenhada pela instituição. por exemplo. Espírito Santo. adolescentes. como reconhecimento pela seriedade do trabalho e com O Deutsche Gesellschaft für Volkstanz ou Associação Alemã para Dança Folclórica é a instituição responsável pelas pesquisas. mas conta com associados dos estados do Paraná. produção de periódico trimestral e de encontros de grupos de danças folclóricas na Alemanha. registros. têm noções básicas de língua alemã. Estes grupos são em sua maioria dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

de respeitarmos a fidedignidade das danças sem “inventarmos” movimentos e danças que não existam no folclore alemão. no Brasil. sua . não tão óbvia assim.a nossa preocupação. A segunda função. mas de extrema importância. trazendo-os novamente para as comunidades para participarem dos ensaios e se organizarem para as apresentações. Volto a salientar que nas comunidades alemãs a dança fazia parte das festividades. é a de que o departamento tem auxiliado no processo de recuperação da memória e da vida jovem de algumas comunidades teuto-brasileiras através da dança folclórica alemã. portanto são posteriores ao período de imigração das primeiras levas de alemães para o Brasil ou então são de regiões diferentes daquelas de onde emigraram as famílias. além de representar a oferta de um atrativo – de caráter cultural – para os jovens. as danças têm despertado em muitos de seus participantes o desejo de conhecerem suas raízes. Os grupos de danças têm servido como chamariz para jovens voltarem a frequentar suas antigas comunidades e. dos bailes. e não havia grupos de danças. Ao mesmo tempo. exclusivamente. trazer a elas vida e impedir que desapareçam. As pessoas não participam dos grupos de danças esperando resgatar uma experiência que sequer vivenciaram ou que talvez nem tenha existido originalmente nas comunidades. Gostaria de destacar que a dinâmica de funcionamento dos grupos folclóricos não está relacionada com um sentimento saudosista. visto que uma parte considerável do repertório apresentado pelos grupos é formada por danças que foram recolhidas ao final do século XIX ou foram “filhas” do Movimento Jovem Alemão. Temos observado que em vários casos a dança folclórica alemã tem servido como ferramenta de auxílio na tentativa de recuperação da memória de algumas comunidades. com isso.

A alternativa encontrada por eles para trazer os jovens de volta e despertar seu interesse foi a criação de um grupo de danças folclóricas alemãs. eles acreditam estarem recriando com a sua história antigos vínculos. considerados praticamente perdidos. Tomados pela surpresa da descoberta. . No início da década de 1990 a direção da sociedade escolar do bairro Friburgo encontrou um armário velho e carcomido cheio de antigos livros de atas manuscritos em alemão gótico. visto que a participação dos jovens nos seus eventos e na vida comunitária era quase nula – a partir da década de 1970 as famílias haviam vendido suas propriedades rurais e se mudado para as cidades vizinhas de Campinas e de Indaiatuba. através do seu Centro de Memória. Para muitos dançarinos desses grupos de dança a participação em um grupo dá a sensação de recriação de seus vínculos pessoais e de resgate de suas origens. participando de um grupo.identidade e seu passado e. Concomitantemente. Em algumas oportunidades. e o salão era frequentado nos finais de semana apenas pelos membros mais velhos que se deslocavam até a sede da comunidade. e sua relação com a comunidade alemã do bairro Friburgo. a diretoria da associação alemã mostrou-se muito preocupada com o futuro da comunidade. a comunidade entrou em contato com a Universidade Estadual de Campinas que. Posso citar a minha experiência pessoal com o grupo de danças no qual participei em Campinas. estado de São Paulo. interessou-se profundamente pelos documentos e auxiliou a comunidade na recuperação de sua história através da restauração de documentos e de fotografias da metodologia da história oral. as gerações mais novas e mais antigas da comunidade foram reunidas no salão da sociedade escolar e com o uso de fotografias e dos depoimentos espontâneos a trajetória foi reconstruída.

Nós. . mas são também uma rica oportunidade de atrair os jovens para se interessarem pela sua história.Em 1993 o Tanzgruppe Friedburg foi fundado. de conversarem com os membros mais velhos para conhecerem suas trajetórias e de tomarem consciência de que não somos um grupo à parte da cultura brasileira. O traje típico escolhido para o grupo foi o da mesma época e da mesma região de onde emigrou a maior parte das famílias fundadoras da comunidade – Probstei. do departamento de danças folclóricas alemãs. temos procurado oferecer subsídios para que os grupos desenvolvam entre seus participantes o desejo e o interesse pela história da comunidade à qual pertencem e. para onde passaram a deslocar semanalmente para realizarem seus ensaios semanais. os jovens descendentes das famílias que formaram a comunidade começaram a frequentar novamente o salão da comunidade rural. como forma de resgatar as origens de suas identidades. Temos incentivado os grupos a procurarem escolher seus trajes de acordo com a história de suas comunidades. de entretenimento. Com a criação do grupo. mas que. por conseguinte. fronteira com a Dinamarca. somos também membros constituintes desse grande e riquíssimo mosaico cultural que constitui o Brasil. pela sua própria história. pelo contrário. As danças folclóricas têm seu aspecto lúdico. inteirando-se da sua própria história e conscientizando-se de sua própria identidade. começaram a participar da organização de eventos e participaram ativamente nas etapas de desenvolvimento do trabalho de pesquisa dirigido pela Unicamp. O grupo continua em pleno e regular funcionamento e tem participado ativamente da vida comunitária. no estado de Schleswig-Holstein.

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