As Danças e o Folclore Alemão

Denise Quitzau Kleine

As danças fazem parte da vida do homem desde os tempos mais remotos. Os registros iconográficos, documentos históricos, crônicas e cartas nos mostram a presença da dança desde a Antiguidade até os dias atuais. No entanto, na medida em que a história caminha as relações sociais e também as religiosas se alteram, e o papel da danças dentro das sociedades, por conseguinte, também se altera.

Dentre os povos germânicos reconhecemos, através de relatos de época, a existência de danças, mas não é possível chamá-las de “danças alemãs”, como designativas de manifestações típicas de um povo alemão. Trata-se de danças e ritos praticados entre os povos germânicos, de fora das fronteiras do Império Romano.

No que concerne a essas danças na Antiguidade, Tácito observou a prática entre os povos germânicos de um jogo muito difundido e divertido, no qual jovens desnudos moviam-se com suas espadas e lanças e através do qual poderiam desenvolver suas habilidades1. A “Dança das Espadas” relatada por Tácito dá conta apenas do aspecto bélico dos movimentos, sem levar em consideração, por exemplo, a sua relação com as divindades pagãs ou mesmo com a chegada da primavera. Este tipo de dança foi a base das danças medievais e práticas populares e foi tão difundida que adentrou a Idade Média até o século XIX tendo sido praticada no período medieval pelos membros das corporações de ofício de artesãos que lidavam com a fundição de

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BÖHME, Franz M. Geschichte des Tanzes in Deutschland. Hildesheim: Georg Olms AG, 1996, p. 6 – 8.

encontramos ainda resquícios da dança em algumas partes da Alemanha e da Áustria2. 1985. as danças ainda fizeram parte do universo cristão. os antigos mártires e santos passaram a ser festejados em festas com danças dentro das corporações de ofícios das quais eram padroeiros.metal e a confecção de armas e ferramentas. Cit. Kunsttanz von d. Notenbeispielen. Embora seu significado e seu sentido originais tenham se perdido. 3 BÖHME. p. danças para celebração dos cultos e das divindades pagãs. Com o passar do tempo. Mainz: Schott. No entanto. os papas Gregório III (731) e Zacarias (741) assinaram decretos determinando a proibição das danças nas Igrejas. separando as festas do gênero dos espaços das camadas nobres da sociedade. a dança foi progressivamente separada do espaço da celebração litúrgica. Tanzlexicon d. restringindo esse típico de prática às camadas populares da população. além de danças de casamentos e de sepultamentos – não havia nenhuma adoração aos deuses sem que houvesse dança e sem que houvesse uma cerimônia festiva. ato considerado por eles como uma “vergonhosa depravação”3. Gesellschafts-. Com o surgimento e a consolidação do cristianismo. Os romanos celebravam seu deus Baco com música e danças.. no entanto. u.u. em círculos ornamentados com coroas de flores. Além das Danças das Espadas (Schwerttanz) na Antiguidade havia. . Wien: Hollinek. danças de sacrifícios. Volks. Op. Otto. Anfängen bis Gegenwart mit Bibliogr. tendo seu caráter pagão sido adaptado para o caráter cristão: os dançarinos se movimentavam em forma de procissão em direção ao túmulo dos mártires. 2 SCHNEIDER. separando homens e mulheres em rodas diferentes: ao invés de celebrarem os seus antigos deuses os novos cristãos celebravam pela dança os mártires do cristianismo. também. ou faziam danças circulares de caráter meditativo. como os ferreiros. 16 – 17. Inicialmente.

e o mundo concreto. onde é conhecida pelo nome de “Tipiti” ou “Dança do Sol” . XVIII e XIX na Inglaterra. ocorrendo inclusive. A dança e seus movimentos funcionavam – e até hoje funcionam em algumas celebrações religiosas – como chave de acesso. visível e o mundo dos espíritos. variando. com a elevação dos mastros em forma fálica como relação com a espera pela fecundidade da terra4. concreto. onde encontramos registros no século XV. A construção nas cidades do Maibaum e a “Dança das Fitas” (Bändertanz) têm suas origens nas práticas milenares pagãs. A imigração européia para o Brasil também trouxe para o nosso país a influência do pau-de-fitas e por isso encontramos no folclore de vários estados a dança das fitas. no caso alemão. A “Dança das Fitas”. na Espanha. como no Rio Grande do Sul e no Amazonas. na Itália. ornamentado com flores e fitas em celebração pela chegada da primavera. por exemplo. Esta dança deixou seus resquícios em vários países europeus. XVI.o ponto alto da dança é o trançado de fitas. já é conhecida desde o século XIII e é apresentada em torno de um mastro com vários metros de altura. e os batuques e a música são a chave de acesso que abre a porta para o mundo espiritual. Cit. França e regiões alpinas da Áustria e da Alemanha. A dança é a ferramenta. uma diferenciação da dança entre as regiões da Pomerânia e da Baviera. habitado pelos deuses e entidades espirituais. bem como a cristianização de algumas práticas pagãs não significam que na prática cotidiana das pessoas elas tenham sido abandonadas por completo. porém. de ligação entre o mundo mágico. Percebemos que inicialmente a dança não tem apenas uma função lúdica. 4 SCHNEIDER Op. místico. .A proibição das danças por parte da Igreja. as figuras e a música. mas tem papel importante na intermediação entre o mundo mortal.

Eberhard. não há registros na literatura de época que use o termo dança folclórica. somente por volta do século XIX é que se começa a cunhar e utilizar o termo “dança folclórica alemã” para caracterizar o conjunto de danças típicas.. denominadas “danças de sociedade” ou Gesellschaftstanz. portanto este conceito é construído no século XIX. no entanto.V. p. Hälfte des 20. E. Segundo Schauer5. Volker (Hsg. associadas inicialmente a danças camponesas. Hannover: Deutscher Bundesverband Tanz e. Jahrhunderts: Volkstanz-Jugendtanz. a partir dos séculos XVIII e XIX teria havido uma dissociação entre cultura da plebe e cultura patrícia. “Anfänge des Laientanzes von der Jahrhundertwende bis 1918”. 9-19. 1994. Estudos sobre a Cultura Popular Tradicional. Esses costumes.. 2005 (2ª reimpressão). os registros de época que as descrevem não utilizam ainda o termo “dança folclórica”. p. os ritos e as crenças do Estado ou da nação a que pertenciam o povo ou certos grupos populares. 6 THOMPSON. Gomme descreve o folclore da seguinte forma: “Muitas vezes em antagonismo claro com relação aos costumes aceitos. Percebe-se através da literatura de época. a existência de uma diferenciação entre danças dos camponeses – que segundo o senso comum seriam a origem da dança folclórica -. Antes disso. dança folclórica alemã. 16. In: KLOTSCHE. 5 . e as danças dos citadinos.] Devem sua preservação em parte ao fato de que grandes massas SCHAUER.. pelo menos até o século XVIII. Costumes em Comum.L. Segundo Thompson6. ritos e crenças são mantidos pela tradição [. (Informationen zum Tanz Heft 22). São Paulo: Companhia das Letras.Embora as danças estejam presentes na vida humana desde a Antiguidade em maior ou menor grau.P. ou no caso alemão. O folclorista G.) Der Tanz in der 1.

. Remscheid: Deutscher Bundesvarband Tanz e. Sobre o movimento jovem consultar KLOTZSCHE. “Soziales Umfeld. tinha uma visão romântica e aspiração por uma vida mais simples ganhou maior fôlego após a I Guerra Mundial.und Jugendtänze. “Volkstanz – Jugendtanz?”. essas danças e práticas populares eram transmitidas pela tradição e pela oralidade. Grundtendenzen der Jugendbewegung“. Volkhard. Acredito que essa perspectiva possa ser reforçada se analisarmos o surgimento de um movimento chamado de Jugendbewegung. embora tenha sua origem no final do século XIX. já na região norte. a primeira dança que é considerada como “dança alemã” é a valsa. 1994 e JÄHNERT. (Brochura). o Rheinländer e o Ländler. as quadrilhas – danças 7 8 Apud THOMPSON. IN: KLOTZSCHE. É a partir do século XIX. de geração a geração e no interior da própria comunidade.. (Informationen zum Tanz Heft 22). Volkstanz – Jugendtanz. 16. Der Tanz in der 1. mas talvez a preocupação em se determinar o que é característica do povo. Não sei se podemos fazer tal relação.V. ou Movimento Jovem: o movimento jovem. Walter (org. P. Deutsche Volks. a uma nação. constituindo parte daquilo que o povo reconhece como sua própria característica. onde foi responsável pela recuperação e pelos registros de danças folclóricas e das antigas tradições populares8. idem. danças características do sul da Alemanha. Hälfte des 20. especialmente nas cidades de Hamburgo e Berlim.populares não participam da civilização que se ergue acima deles e que nunca é criação sua. portanto.). Jahrhunderts. tanto em sua forma original como em suas variáveis como a mazurca. Berlin: 1984. que o termo “Volkstanz” passa a ser empregado para descrever danças que pertenceriam a um povo. sua cultura e suas práticas possa ser relacionada com o contexto de construção e ensaio para a unidade política que se alcançou ao final do século. bem como para a construção de uma identidade nacional.”7 Dessa forma. Segundo vários textos do século XIX. Walter. como parte constituinte de sua identidade.

percebemos que as danças do sul são marcadamente para vários pares em círculo e os compassos são ternários. . enquanto que na porção centro-norte da Alemanha predominam as quadrilhas para quatro pares. Mas qual a relação entre a discussão sobre a origem das danças folclóricas e o Brasil? A partir de 1824 o Brasil vivenciou um processo organizado de fomentação de imigração alemã para o nosso país que experimentou variações tanto na sua forma como na instalação dos imigrantes aqui: conhecemos desde as colônias imperiais até as colônias particulares e o sistema de parceria 9 OETKE. enquanto que o termo Anglaise passou a designar contradanças em duas filas. Band I. As contradanças remontam em suas raízes à esfera das rodas de espadas entre os povos celta-germânicos e são encontradas sob diferentes formas desde o século XVII (como danças populares ou como danças de sociedade) adentrando o século XX. por volta do ano de 1750 a chamada contradança adentrou a Alemanha primeiramente pela região sul. De fato. chegando mais tarde também à região norte – no norte do país havia registros da presença da antiga contradança inglesa desde o século XVIII. 1982. no entanto. que apesar dessa espécie de característica regional isso não significa que as danças não tenham sofrido influência de outras culturas e outros países vizinhos. os termos “contradança” e a “quadrilha” passaram a designar danças para quatro pares. se analisarmos atualmente as características regionais das danças folclóricas alemãs. como os da valsa. Recebe o nome de contradança toda dança na qual os participantes estão em uma posição de quadrado ou em duas filas opostas. na Alemanha. A partir do século XVIII. É interessante notarmos. Herbert. Der deutsche Volkstänze. Berlin: Henschenverlag Kunst und Geschichte. Segundo Oetke9.para quatro pares – são consideradas as danças típicas da região.

posto em prática pelos cafeicultores – em especial pelo Senador Nicolau de Campos Vergueiro – no estado de São Paulo. Neste contexto de construção da identidade nacional brasileira. São Paulo: Companhia das Letras. O Imaginário da República no Brasil. tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. a diversidade cultural é. “A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. refletindo-se na literatura e acompanhando a ascensão da República. Essa chegada ocorre num contexto peculiar no qual o próprio país receptor está discutindo e querendo construir sua identidade nacional. os imigrantes alemães chegam como um elemento contribuinte para a formação da nossa nação. Essa preocupação tem sua origem já após a independência. 1990. . questões mais urgentes de manutenção da unidade da nação sempre ocuparam a pauta do Império. Fonte de intercâmbios. A Formação das Almas. conhecemos. brasileiros. como mais um elemento agregado ao mosaico que representa a cultura brasileira e responsável pela pluralidade de manifestações culturais que nós. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho10. sua nacionalidade. para o gênero humano. perpassou o Império (com períodos de maior e de menor atenção). constitui o patrimônio comum da humanidade e deve 10 CARVALHO. Nesse sentido. Essa diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. de forma que a discussão acerca da formação da nação e da definição da cidadania e de identidade brasileira é resgatada ao final desse período. de inovação e de criatividade. José Murilo de.

após a instalação e consolidação das colônias. O que gostaria de destacar é que os imigrantes que aqui chegaram dançavam danças que eram originalmente de sua terra. agregando outras UNESCO. A literatura acerca das colônias alemãs destaca o caráter associativo desses imigrantes que se reuniam em torno de sociedades escolares.pdf (acesso em 12/04/2009).”11 Dentro de sua parca bagagem em direção ao Brasil. por exemplo. O encontro da cultura imigrante com a nova terra promoveu a gestação de uma cultura chamada de teuto-brasileira que não se congelou no tempo. puderam ser postas em prática. o conjunto de manifestações sócio-culturais que identificam e caracterizam um grupo. . que a dança Herr Schmidt fazia parte deste repertório e era amplamente conhecida. de tiro e de ginástica.ser reconhecida e consolidada em benefício das gerações presentes e futuras. Nesses momentos. porém sem a consciência de que o que praticavam era o que chamamos de folclore. as danças que hoje reconhecemos e nomeamos como folclóricas eram dançadas pelos participantes da festa. de canto. Estas manifestações culturais eram reproduzidas inicialmente no Brasil como aconteciam em suas localidades de origem. mas não as enxergavam sob a denominação de dança folclórica. praticadas pelos seus grupos sociais. junto com suas esperanças de uma vida melhor para sua família e seus filhos. Registros dessas festas nos mostram. Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade http://unesdoc. os imigrantes trouxeram consigo suas manifestações culturais que. Faziam parte dos eventos das comunidades festas como os encontros de corais. mas também evoluiu. torneios de tiro e o Kerb. isto é. 11 Cultural [2002]. nas quais eram realizados bailes.unesco.org/images/0012/001271/127160por.

mas também acompanhamos as bandas tocando os ritmos do Rio Grande do Sul. Colônia Alemã: histórias e memórias. 1981. Se anteriormente assinalei a influência de outros ritmos e danças dentro da própria Alemanha. anteriormente praticadas. Escola Superior de Teologia São Lourenço dos Brindes. Embora as danças trazidas pelos imigrantes tenham lentamente desaparecido com o crescimento das comunidades e das cidades. O professor Telmo Lauro Müller12 em sua obra sobre a memória das colônias alemãs no sul do Brasil percebe. a influência progressiva de outros ritmos dentro dos bailes organizados pelas comunidades. 2ª ed. percebe-se nas últimas duas décadas o MÜLLER. novas influências vão se inserindo e se mesclando também. passaram a fazer parte dos repertórios dos bailes o tango argentino. participamos da Polonaise. Porto Alegre. Na medida em que os descendentes de alemães vão se inserindo na sociedade brasileira. o one-stepp e o rag-time. tradicional dança de abertura do baile. o fox trott. o twist. ao analisar os programas das festas das comunidades entre as décadas de 1910 e 1920 na região do Vale dos Sinos.influências às práticas das comunidades. ritmos típicos alemães. Ele observa que aos poucos. além dos sucessos mais recentes nas rádios. Hoje. ao participarmos de bailes promovidos em comunidades teuto-brasileiros. porém os membros mais antigos das comunidades têm uma pequena lembrança das antigas danças. Gradualmente. 12 . das mazurcas e das valsas. além das polcas. além da dispersão dos jovens para fora de suas comunidades em busca de trabalho e de oportunidades de estudo. podemos perceber o mesmo processo no interior das comunidades teuto-brasileiras. as antigas danças trazidas pelos imigrantes são deixadas de lado pelos novos ritmos e pelo encontro das culturas no Brasil. Telmo Lauro.

em Gramado / RS. É claro que há grupos fundados antes mesmo de 1980. Ao realizarmos uma comparação entre os perfis de grupos de danças folclóricas no Brasil e na Alemanha percebemos um elemento diferenciador bastante significativo: enquanto que na Europa o perfil etário dos grupos de danças folclóricas é formado por participantes entre 40 e 60 anos. promovidos . cursos de formação e qualificação para coordenadores de grupos de danças folclóricas alemãs no Brasil. uma vez que reproduzem no Brasil danças e trajes da Alemanha num contexto diferente do alemão e com objetivos bastante distintos. mas o maior crescimento dessa atividade se deu a partir dos anos 80. mas são escolhidas de acordo com o perfil do grupo e de acordo com o perfil do público que assistirá as apresentações. Mas o que atrai os jovens nestes grupos? Temos percebido no nosso país um crescimento progressivo do número de grupos de danças folclóricas alemãs a partir da década de 1980. quando a Federação das Colônias Alemãs no Brasil (FECAB) passou a organizar no espaço da Casa da Juventude. Se na Alemanha as danças e os cantos são aprendidos em vida comunitária. e sim de grupos de projeção ou de danças folclóricas. no Brasil são realizados cursos e o repertório de danças apresentadas pelos grupos não se restringe a uma localidade alemã. Percebemos nesse período a gênese do processo de organização e multiplicação da dança folclórica alemã.surgimento e o desenvolvimento de um número muito significativo de grupos de danças folclóricas alemãs. as danças folclóricas eram uma das disciplinas oferecidas pelos cursos de formação de lideranças para centros culturais. Cabe observar que não se trata de grupos folclóricos. Antes disso. no Brasil o perfil etário dos grupos é majoritariamente inferior a 35 anos de idade.

figurando ao lado de outras disciplinas como a língua alemã. a FECAB convidava um professor da Alemanha para ministrar um curso de folclóricas alemãs no Brasil. tornou-se necessária a realização de dois cursos anuais para coordenadores de grupos de danças alemãs formados por adultos e um curso para grupos formados por crianças. mais um curso destinado a participantes de grupos de danças formados por idosos. Embora os primeiros cursos tenham sido realizados já na década de 1980. é apenas em 1992. Atualmente. organizar cursos para seus grupos filiados e funcionar como centro de referência na divulgação das danças alemãs no país e pelo rápido aumento do número de grupos de danças no Brasil. a culinária e música. . Progressivamente o número de pessoas interessadas em participar dos cursos aumentou e a partir da década de 1990 o movimento da dança folclórica alemã ganhou um impulso mais forte. no entanto. que se caracterizou pela iniciativa destes grupos de fundarem um departamento de danças folclóricas alemãs. na Casa da Juventude. porém. ainda. além destes dois cursos é realizado.pela Associação Cultural Gramados na década de 1960. fomentando a formação de multiplicadores culturais nas suas comunidades de origem. A cada ano. no qual eram desenvolvidos simultaneamente repertório para grupos de adultos e também de crianças. que o departamento de danças é criado e alocado em Gramado. cuja função era centralizar o atendimento aos grupos de danças no nosso país. No início de suas atividades o departamento organizava apenas um curso anual. sede da Associação Cultural Gramado. com o aumento da demanda.

Ela é responsável pela transcrição das descrições de danças para um alemão mais moderno. Rio de Janeiro. jovens. interpretam as descrições de danças (Tanzbeschreibung). o departamento de danças conta com 243 instituições filiadas. São Paulo. mas conta com associados dos estados do Paraná. registros. produção de periódico trimestral e de encontros de grupos de danças folclóricas na Alemanha.Durante os cursos de danças os participantes realizam diversas atividades que estão relacionadas direta e indiretamente com as danças e os grupos: além das aulas com os professores convidados. Oferecer repertórios de danças aos grupos filiados ao departamento de danças é a função mais óbvia desempenhada pela instituição. além de Paraguai e Argentina. manutenção e multiplicação do folclore alemão. Desde janeiro de 2008. figurando ao lado de Rússia e Estados Unidos como as únicas seções da instituição fora da Alemanha. 13 . Para esses grupos são produzidas apostilas. Dentro do seu quadro de associados. A idéia dos seminários é a de fornecer ferramentas para que os participantes possam desenvolver atividades inclusivas e culturais em suas comunidades de origem. que por sua vez se desdobram em vários outros grupos por conta das diferentes categorias etárias que têm como grupos de crianças. têm noções básicas de língua alemã. adolescentes. Minas Gerais. o departamento de danças folclóricas da Associação Cultural Gramado é a terceira seção do DGV (Deutsche Gesellschaft für Volkstanz13). Estes grupos são em sua maioria dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Cds e DVDs com danças folclóricas ministradas em todos os seminários. realizam oficinas de música além de terem palestras sobre a história da imigração alemã para o Brasil e sobre o papel dos líderes dentro de seus grupos. por exemplo. além da promoção de círculos de pesquisa. num montante que já ultrapassa 730 danças. Espírito Santo. casais e idosos. os participantes realizam pesquisas sobre trajes. como reconhecimento pela seriedade do trabalho e com O Deutsche Gesellschaft für Volkstanz ou Associação Alemã para Dança Folclórica é a instituição responsável pelas pesquisas.

a nossa preocupação. A segunda função. trazer a elas vida e impedir que desapareçam. e não havia grupos de danças. Ao mesmo tempo. com isso. visto que uma parte considerável do repertório apresentado pelos grupos é formada por danças que foram recolhidas ao final do século XIX ou foram “filhas” do Movimento Jovem Alemão. sua . mas de extrema importância. de respeitarmos a fidedignidade das danças sem “inventarmos” movimentos e danças que não existam no folclore alemão. Temos observado que em vários casos a dança folclórica alemã tem servido como ferramenta de auxílio na tentativa de recuperação da memória de algumas comunidades. trazendo-os novamente para as comunidades para participarem dos ensaios e se organizarem para as apresentações. exclusivamente. Gostaria de destacar que a dinâmica de funcionamento dos grupos folclóricos não está relacionada com um sentimento saudosista. dos bailes. as danças têm despertado em muitos de seus participantes o desejo de conhecerem suas raízes. é a de que o departamento tem auxiliado no processo de recuperação da memória e da vida jovem de algumas comunidades teuto-brasileiras através da dança folclórica alemã. além de representar a oferta de um atrativo – de caráter cultural – para os jovens. Os grupos de danças têm servido como chamariz para jovens voltarem a frequentar suas antigas comunidades e. As pessoas não participam dos grupos de danças esperando resgatar uma experiência que sequer vivenciaram ou que talvez nem tenha existido originalmente nas comunidades. Volto a salientar que nas comunidades alemãs a dança fazia parte das festividades. no Brasil. não tão óbvia assim. portanto são posteriores ao período de imigração das primeiras levas de alemães para o Brasil ou então são de regiões diferentes daquelas de onde emigraram as famílias.

identidade e seu passado e. participando de um grupo. Concomitantemente. a diretoria da associação alemã mostrou-se muito preocupada com o futuro da comunidade. interessou-se profundamente pelos documentos e auxiliou a comunidade na recuperação de sua história através da restauração de documentos e de fotografias da metodologia da história oral. . Tomados pela surpresa da descoberta. através do seu Centro de Memória. considerados praticamente perdidos. a comunidade entrou em contato com a Universidade Estadual de Campinas que. eles acreditam estarem recriando com a sua história antigos vínculos. estado de São Paulo. Em algumas oportunidades. as gerações mais novas e mais antigas da comunidade foram reunidas no salão da sociedade escolar e com o uso de fotografias e dos depoimentos espontâneos a trajetória foi reconstruída. visto que a participação dos jovens nos seus eventos e na vida comunitária era quase nula – a partir da década de 1970 as famílias haviam vendido suas propriedades rurais e se mudado para as cidades vizinhas de Campinas e de Indaiatuba. e o salão era frequentado nos finais de semana apenas pelos membros mais velhos que se deslocavam até a sede da comunidade. Posso citar a minha experiência pessoal com o grupo de danças no qual participei em Campinas. No início da década de 1990 a direção da sociedade escolar do bairro Friburgo encontrou um armário velho e carcomido cheio de antigos livros de atas manuscritos em alemão gótico. A alternativa encontrada por eles para trazer os jovens de volta e despertar seu interesse foi a criação de um grupo de danças folclóricas alemãs. Para muitos dançarinos desses grupos de dança a participação em um grupo dá a sensação de recriação de seus vínculos pessoais e de resgate de suas origens. e sua relação com a comunidade alemã do bairro Friburgo.

Nós. temos procurado oferecer subsídios para que os grupos desenvolvam entre seus participantes o desejo e o interesse pela história da comunidade à qual pertencem e. os jovens descendentes das famílias que formaram a comunidade começaram a frequentar novamente o salão da comunidade rural. de conversarem com os membros mais velhos para conhecerem suas trajetórias e de tomarem consciência de que não somos um grupo à parte da cultura brasileira. para onde passaram a deslocar semanalmente para realizarem seus ensaios semanais. inteirando-se da sua própria história e conscientizando-se de sua própria identidade. no estado de Schleswig-Holstein. pelo contrário. por conseguinte. pela sua própria história. O grupo continua em pleno e regular funcionamento e tem participado ativamente da vida comunitária. O traje típico escolhido para o grupo foi o da mesma época e da mesma região de onde emigrou a maior parte das famílias fundadoras da comunidade – Probstei. somos também membros constituintes desse grande e riquíssimo mosaico cultural que constitui o Brasil. Com a criação do grupo. de entretenimento. fronteira com a Dinamarca. . As danças folclóricas têm seu aspecto lúdico. como forma de resgatar as origens de suas identidades. Temos incentivado os grupos a procurarem escolher seus trajes de acordo com a história de suas comunidades. do departamento de danças folclóricas alemãs. começaram a participar da organização de eventos e participaram ativamente nas etapas de desenvolvimento do trabalho de pesquisa dirigido pela Unicamp. mas são também uma rica oportunidade de atrair os jovens para se interessarem pela sua história. mas que.Em 1993 o Tanzgruppe Friedburg foi fundado.

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